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Óculos e Binóculo
(romance)
Moacir Capelini
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“Na vida agarram-se ao medo da morte.
Na morte confessam o medo da vida.”
Emmanuel, sobre os tíbios
Cap. 1°
O ser humano só enxerga incertezas. Na opinião do homem
comum que pulula em todas latitudes e longitudes no planeta, os óculos servem
para ver; diria melhor tentar aumentar a interpretar o presente. Já o binóculo vendo
longe servirá decerto para se pensar que enxerga o futuro. E deve andar certo
nesse errado, porque o presente a gente temente quiçá descrente mente a verdade
descaradamente, supondo poder manusear pegar transformar ou inventar as coisas
que se vê e vê portanto no estado perceptível atual. Certamente um engano. Já o
futuro... todo o futuro é incerto,
comprovável se puder ser comprovado. Postos futuro e presente frente à frente, todo
presente é comprovável mas quando no ato de comprovar já se não mais comprova,
comprovando apenas ser do passado. Só podemos afiançar o passado, porém nunca
teremos a comprovação absoluta dele, por nossa incipiência e insuficiência.
Isso quer dizer que nada podemos comprovar em nosso estado de agora. Ah...
quanta minhoca numa única cabeça.
Por isso o João resolveu fazer algo
mais consentâneo. Assim tomou certa laranja e iniciou uma tarefa que já fazia
dezenas de anos que fazia.
Batista, decerto João Batista e nisto
exigiria fosse Baptista como grafavam
seu nome, um homem comum e por comum faz o que faz sem ver sem perceber o que
faz, segura com a esquerda toma a faca afiada, claro pelo cabo seguro na direita,
e vai rodando na mão a fruta, assopra o sumo naqueles dedos já amarelecidos do
cigarro a deixar anos refletir cores e cheiros (fedor grita na mente a Velha, a
velha mãe dele menino agora homem descascando a laranja:) a casca em ‘descasco’
sai e se derrama como fita e como fita deixa o cerne branco onde antes o
laranja da laranja inteira; a fita entre dura e mole úmida se quebra em partes,
a parte do toco quase rente à faca que ferira a fruta enquanto a outra parte
parte ao chão puxada pela força da gravidade – isto coisa muita ao pouco do
conhecimento do rapaz, então adiantado nas necessidades da idade contra sua
timidez doentia inimiga dos anseios e conquistas das fêmeas lindas da espécie –
e assim, quase a dormir ou desligado quase também da fruta e do ato de descascar
a mesma, Batista se desvencilha da tarefa e tem à frente a peça redonda meio
ovalada a exalar um cheiro característico e a se oferecer à deglutição. Corta a
seguir pela metade as duas metades feito uma, uma delas, atrevida talvez, despenca
ao solo se suja; olha, o homem olha nem dá tempo xingar, ele sabe de cátedra o
calão e igualmente as ofensas sãs educadas aceitas que lhe aparecem nos lábios
grossos grosseiros, para fixar o deslize da tampinha da laranja e felizmente a
outra metade intacta ainda na mão esquerda semiaberta apertada contraída quando
do despencar da rebelde parte indo ao chão, daí segura bem e ao prazer do homem.
O homem olha pra baixo estando de pé no momento de tirar a casca, olha vê a
danada de borco na areia... e comenta pra si, fala alto baixo pra si mesmo embora
falando tonitroante no seu normal e não ficaria bem pensar altão, pensa
silabando manso a ofensa à ofensa: diz a bandida é de pobre! A exclamação
merece explicação, banal mas explicação. É que o estrato baixo, o que diz alto
baixo calão, essa parcela tem como talvez em mau agouro que se a tampa, ou a
tampa do invólucro da manteiga, fosse manteiga aqui metade da fruta de traseira
pra cima e a cara na terra; que se ela ou ambas cair pra baixo, é de pobre; o
pobre perde até no podre – não se pode chupar (é uma laranja) pode-se, lava-se
e tem gente com nojo atira longe a metade supostamente contaminada e/ou perdida.
Doutro lado, sendo que a metade rebelde se atirando ao chão mas pra cima ou
seja ficando limpa a tona dela com as garrafinhas e o líquido intactos a escorrer
no caso de uma laranja – assim o povo diz que é sorte de rico, dado o aproveitamento
total e inclusive sem necessidade de se limpar a fruta no bico da torneira. Indo
isso bem a calhar; anda faltando água na torneira, lava-se no mais ou menos;
para João nem esse expediente, ele tiraria os ciscos a terrinha grudada na
superfície voltada para cima (caso rico) ou suja mesmo voltada para baixo a
traseira arredondada pro alto, moscas a voejar em torno e o homem não liga,
limpa a metade nas calças ao nível do bolso direito, é destro (bem entendido:
usa a mão direita pela ordem da natureza, não destro na sabedoria; e o que pode
ser sabedoria!?) Limpa como pode, espreme a seguir a tampa ‘suja’ já limpada e
a outra metade retida no vão da mão esquerda; sugando o líquido. Num exagero,
ah qual exagero coisa alguma é até bom ao bom funcionamento dos intestinos, nesse
exagero mastiga as fibras trec-trec-trec engole a gosma um pouco sólida um
pouco mascada trincada pelos dentões e dessa forma ainda escorre sobras nos
dedos no braço inclusive, suga sim o líquido da fruta. O bagaço, bagaço sobrado
algum nessa guerra entre dentes e fruta, atira como se atira pau pedra pedaço
ao cão buscar correr caçar prender trazer ao dono feliz, feliz o animalinho não
o ser pensante e este não pensa, naquela hora não pensa apenas atira os restos
longe e aguça o cachorro. Dóqui avança toma o resto de laranja da laranja antes
quase destruída e vai em direção do amo entregar o butim da guerra mambembe por
comum e que dura milênios. Chega, cansado, e se decepciona, o amo já
desinteressado a lavar os grudes da degustação da fruta e os riozinhos saídos
da laranja escorridos aos seus braços, os do homem. O homem ainda a pensar “que
besteira fiz, jogando laranja mastigada ao Dóqui, cachorro não come laranja,
come carne, osso”.
Dóqui desanima aguardar o amo para ser
público ao humano, humano tem essa besteira de exigir público a contar suas
bravatas, cachorro é mais puro e não quer induzir ninguém, desconhece a verdade
e não usa a mentira. O homem também desconhece a verdade, ao menos a absoluta e
por inteira, sendo entretanto mestre no rol das mentiras. Seja lá como for,
fica o cão decepcionado. Ele se sabe ‘dóqui’ ou qualquer som assim ouvido. O que
não sabe e nem precisando saber é da etimologia do seu apelido. As famílias
humanas abusam no seu esnobismo, do estrangeirismo copiam imitam praticam
desvios e corruptelas a acostumar a rotina fazendo a rotina repetir o som com
um apelido. Parece dog vindo do inglês
deturpado por orelhas matutas, mal escutado pela ignorância e escrito por
língua falada do popular que nunca saberia grafar certo seu errado. Assim
apurou-se o som, o cãozinho em criança quase bebê de caixa de papelão de sapato
onde dormindo a ouvir desse jeito sempre dos de casa (um cachorro pode-se
imaginar irmão das crianças, ou filho assustado duma vassoura...) Acostumou-se;
se ajeitou inclusive aos maus-tratos, aprendeu a obedecer seu torturador de
preferência. Agora o velho Dóqui olha desesperançado Batista, o qual
espalhafata soprar fossas nasais no tanque de lavar roupa, a torneira abusando
no desperdício de água, a água com que se lava o porco... ah o porco, por que
será que tomaram um animal tão simpático para mostrar as sujidades humanas?
Além do mais ao homem sendo do bicho um atrativo a carne fumegante e o apuro em
torresmo...
Aportes à
Parte Primeira: Os Óculos

Cap. 2°
O porco
existe, o cão existe, o homem existe, o Batista existe. Não existe mais, afirma
o homem comum. Encontra-se no meio da sala entre a fala que fala que é a visita,
todo mundo compungido. Não. Ninguém tapa a boca do povo.
João Batista, de Azevedo? Almeida?
mais outro outro mais entre apelidos de família e um sobrenome estrangeiro,
estranho numa terra em que todos sendo estrangeiros na origem, mas um nome desses
de engasgar pronunciar errar sem querer não podendo acertar e isso não importa,
importa pouco. O muito saber é saber que ali jaz quieto morto silencioso reto,
probo! já não importando – entre flores entre cheiros entre gente viva vivos a
se falar tratar dos assuntos mundanos; e tem piada nada velada e tem contrição
mostrada e o desrespeito do silêncio a burlar o burburinho mundanamente tolerado.
Chega lá dos fundos o cheiro do café já coado destampado da garrafa térmica que
serve na saleta a todos na fumaça que sobe e também exala e sopra fora dela ao
salão mortuário; em choque quiçá briga, briga o hálito do café com outros
cheiros como o tabaco, não mais o cheiro do cigarro do João, Batista dorme a
sono solto profundo esticado no centro do local, quase inaugurando o velório do
Velório Municipal, ou é o terceiro ou ainda o décimo dos primeiros ocupantes
mortos a ser velados e depois depositados por fim e definitivamente mortos
entre outros mortos no cemitério, apenas umas quadras longe dali. Ali
encontra-se agora o tio... ficara pra titio, brincavam os poucos próximos dele pois
João meio arredio quando vivo, gozavam ter ficado como uma solteirona desempregada
e tida por tia a encolher no tempo a passar. Porém assim já não vê. Ver para
quê?
Via. Olhos verdes, ah os olhos verdes
tentadores das belas jovens no abuso poético do poeta sem ter o que fazer. Os
seus verdes sem esmeralda pura, um dos verdes mais verde que o outro verde e menos
verde; ora mais nas ondas da ira talvez, ora mais baços, e ainda com
desencontro pelo estrabismo; você olha o olho que lhe olha, ele não olha olha
noutra direção. Dona Chiquinha é quem diria melhor numa descoberta fenomenal
nesse seu conhecido ou amigo ou vizinho ou compadre ou... enfim aqui entra uma
confusão própria do homem comum: existe o conhecido, aquele que vemos e não
conhecemos; e o desconhecido menos conhecido ainda, por não vermos talvez
sabendo o nome; temos além disso o desconhecido totalmente integralmente
literalmente desconhecido, que é um sujeito que nunca vimos e nem lhe sabendo o
nome. Todos acobertados pelo manto da santa ignorância, que nos protege contra
a humilhação e o apequenamento por nada saber.
Dona Chiquinha, ela quando a juntar roupa suja fedida velha espalhada na
casa solteirona do solteirão; não conseguindo se soltar na conversa a conversar
com ele de igual para igual, conseguindo todavia juntar as peças em trouxa
coberta por coberta ou coberta por lençol, tais peças a lavar e daí colocando
na cabeça indo circensemente a equilibrar na rua rumo sua própria casa; não
conseguindo de fato se comunicar no tête-à-tête
com o homem, não encontrando não centrando com qual olho falar, se com o forte
esmeraldino à espera dum poeta ou com o baço quase não esmeralda, por desconhecer
e em qual dos olhos se fixar, fixava-se então no som, Batista falando altão
(até no pensar e aqui preciso olhar ao redor ver se viram, quer dizer se alguém
escutou) e por falar alto o ‘patrão’ ou patrão eventual dela, ela ouvindo bem
com seu ouvido estragado pela idade. Brecava no dar a conta das peças de roupa
que já ajuntara na trouxa, mas, em síntese, a ficar constrangida. Aí diria
depois a uma de suas comadres num ti-ti-ti banal haver ficado com vergonha, pronunciando
“vregonha” porque nossos roceiros
embora civilizados pelos anos de educação urbana, ainda continuam a trocar
letras ao proferir, como na palavra lagarto em que dizem “largato”. Para tomar a
roupa e levar ao trabalho era assim constrangedor; mais ainda no trazer de
volta a roupa limpa passada ajeitada cheirosa – precisando ter que discutir o
preço o dinheiro do labor, visto o Batista ser um pouquinho difícil no entendimento
da explicação meio enrolada da velha senhora; e mais muito mais no ato de pagar
a conta...
Contudo agora não paga a conta, não
precisa quitar sequer o pendura, “pindura” dizia quando dizia da dívida para
com a sua lavadeira e com outros credores a quem pudesse desfazer dívidas bem contraídas
e mal pagas. Porque não tem mais agora seus olhos verdes à mostra: as pálpebras
foram-lhe fechadas por alguém, caridoso decerto, decerto uma das vizinhas que o
encontrou frio, uma entre as temerosas criaturas (o homem comum tem terror ao
globo arreganhado dos mortos ou estando eles no estertor ou apenas com olhar aberto
e sumido) então fê-lo ajudando a deixar o escuro naquela vida sem vida!
O olho o verde o baço lembra o
esquecido óculo.
Num descuido quem sabe dos arrumadores,
das
arranjadoras não mais que empregadas faxineiras da empresa terceirizada (ah a
prefeitura não quer saber de vínculos e pôr as mãos no fogo com o fisco!? deve
ser assim e assim contrata gente pela qual não se responsabiliza... aí, aqui um
desastrinho:) então elas se esqueceram dos óculos! Fundamental, fundamental
seria somente colocarem toalha flores limparem o salão e a salinha no fundo ao
pessoal tomar café em boca de pito, pitar seu cigarro pondo os negócios em dia?
em dia piadinhas de salão dessas de não avermelhar orelhas femininas diante
daqueles desbocados!? Não. A faxineira normal, comum se se exigir pingos nos
ii, ela sim trata dos cuidados gerais no entanto também responsável olhar pela
saúde e aparência do defunto, no caso um tal de João Batista... e cuidar da vela,
não do choro dos mais próximos sempre distantes dele, dos seus parentes. Choro
e vela, rosa não amarela, rosa cor de rosa mesmo e outras invencões da
funerária a adornar João e a deixá-lo bonitinho, em vida fora terrivelmente
feio, tanto ficar para tio não encontrando mulher para casar. Não. Sim, esqueceram
dos óculos, os óculos nos últimos tempos para o usuário quase não ver; vendo
sim mais embaçado na verde baça e um pouco melhor com a forte esmeralda. Se esqueceram
deles as serviçais – onde mesmo terão posto! uma das servidoras que na trouxa
que os trouxas trouxeram lá da funerária com os pertences do morto (pertences
para quê? se nem o corpo sendo dele e sim dos vermes...) ou... oh, imaginaram
mil lugares. Até que surgiu um familiar a trazer os vidros de casa, em meio ao
povo atônito e boquiaberto, vindo o parente com uns óculos gastos lentes
riscadas dessas que nem um paninho de flanela limpa (outra vez pra quê! não via
direito não veria mais e jamais o Batista). Enfim, oi ele abastecido adornado
com seus óculos transparentes encavalados no narigão, a devolver o homem que o
bairro vendo diário varrendo a calçadinha agora não mais pela mudança ao cemitério,
ele em exposição na dependência pobre do Velório Municipal.
Os óculos. E a dentadura postiça, do
tipo que a gente reclama pelos detritos mais sólidos a se meter nos seus vãos
causando dor e irritação; assim como seria vã a reclamação dele no caso porque
a ninguém é dado se meter nas dores e nos incômodos de outrem; o homem assim mesmo
lamentava, não mais lamentando agora. Agora? boca murcha, um velhote solteirão
à beça, a esbanjar timidez e solidão não mais sofrendo a perda no ganho, pois
ganho na opinião popular de que o defunto em cadáver à mostra no velório parou
de sofrer. Contudo aqui não o local certo a discutir nem filosofia nem religião
– somente registrar que a boca chupada murcha cera de brancura sem sangue a
circular, que isso em razão esquecerem a dentadura de resina gasta suja velha
do velho nem se descobrindo onde fora parar: sumira. Todavia por quê? sim, por
que o drama se João não mais mastigará nem falará? Bem, mesmo assim não era
apresentável, quer dizer se com os apetrechos para ‘desenfeá-lo’ ainda feio,
sim não se casara apenas em virtude da desvirtude ser feio, antes que isso ocorrera
tal pela timidez: tem gente que não tem coragem bastante à conquista amorosa,
com ou sem óculos com ou sem dentadura, mormente daquelas com incrustração de
um filete de ouro. Oh, temer pelo ouro de o ladrão se apossar no túmulo! Enfim
sem dentadura porém ficando melhor reconhecido pelos óculos, estes a ser quase
apenso dele e inclusive a caracterizar esse homem.
Aqui, em meio a óculos pra não mais
ajudar ver; e dentes postiços pra não precisar ajudar mastigar – aqui entra a
porta. A porta? a porta, não a do salão de exposição da expressão sem expressão
por morta; a porta, decerto que o velório tem suas portas à saída e entrada
para saírem introduzidos os do povo a tornarem às suas respectivas residências,
menos o morto o João, esse em mudança não voltando pra casa. Claro. Tem suas
portas, bem umas dez e sendo muito pois cidade pequena interiorana não precisa
tantos alojamentos; tudo com porta, porta a fechar trancar esconder o quê?
ladrão iria levar a serviço os badulaques de serviço num salão de velório...
não, é certo; tem sim portas. Nem se referindo também às portas da residência
de Batista, o qual não mais as abrirá, antes que isso até foram fechadas por
outrem. Não, nem interessando propriamente a porta, a maçaneta da porta.
Maçaneta neste texto a explicar por
vezes complicaçõezinhas do texto, aquelas irrespondíveis. Sem precisar óculos
para ver errados nem dentadura a mastigá-las, se amiúde aparecerem dados apenas
a ser esclarecidos em momentos difíceis; difíceis a uma porta posta por caneta
esferográfica, azul o azul do respeito; não o vermelho de criticar e expor
erro. O azul.
A maçaneta, pergunto. ¿Por que não
deixar um pouquinho Batista com seus amigos visitantes na festa fúnebre, que é
um velório velando um pobre; sim, por que não dirigirmos a preleção aos tempos
mais faustosos ou venturosos pela ingenuidade e pelo desconhecimento do futuro
(o João virando agora passado); em suma ao tempo da meninice?
Porém meninice que se preze vem ao
presente na mente da gente distorcidamente deformadamente pelo descuido da boa
vontade nada temente, certamente ingênua. Decerto que o João se lembrando desse
passado remoto que se tem por dito frequente como tempo antigo. Claro, o
solteirão expõe seus feitos a outrem (não iria contar a si mesmo e nesta
hipótese a necessitar ser honesto: o homem do povo aprecia mais bravatear a se
construir na desconstrução da memória, para salvar, pensa ele, essa memória). A
outrem. Como não tem um público, vivendo sozinho no casarão; sim um casarão pra
si visto qualquer residência pequena ser enorme a uma só pessoa morando entre
badulaques e muito ar sobrando. Como não tem público embora haja muito espaço,
não tendo enfim um público suculento desses do tipo televisivo ou eleitoreiro
cheios de cabeças não-pensantes fosse pensante sequer haveria o espetáculo –
então fala ao Dóqui. Abana compreensão ou apenas amor pelo amo e fica em
guarda, que seja à disposição. Daí (que coisa mais cretina: a gente começa
qualquer assunto por ‘daí’ nem percebe nada haver dito antes e é o caso desse
matuto) daí, diz a boca que fala, eu era um moleque demais travesso, ih mil
artes... nem o capeta podia comigo. Neste ponto é preciso lembrar a temência
popular ao diabo e a graça com que são admitidos os asseclas do diabo, os
capetas; os quais se leva mais em brincadeira a acertar frase do que insistir
no cerne do que se diz, diz aqui um menino, visto o homem comum por mais velho
seja na contagem cronológica é sempre por dentro criança. Ninguém podia comigo,
bafora agora o velho fumante, enquanto olha pra baixo prestando atenção no
cachorro se entendendo ou ao menos o outrinho sem au-au embora atento. Ninguém,
a mãe... dona Francisca, nada que ver com dona Chiquinha esta viva a outra
morta não se conheceram em não ser de nome citado; o João volta e meia se
refere à genitora inclusive à funcionária ou comadre a enrolar a trouxa de
roupa suja no chão da sala do ‘patrão’ e vai ver foi ela quem sumiu com a
camisa azul que tanto ele apreciava, azul cansada no uso porém dessas que
nenhuma novinha em folha supera; despareceu como por encanto a peça, vasculhou
desistiu nunca indagou sobre tal à Chiquinha. A mãe... Conta ao seu público
cativo, conta reconta ao cansaço – todo velho não se cansa repetir. No entanto
um dia, com ou sem orelha canina, um dia veio-lhe um auditório cheiinho e
suculento, o Trovão.
Nunca soube certo esse errado sobre o apelido.
Umas orelhas nada pacientes – ao contrário falava e mais falava falando alto,
mais alto ainda que o próprio João, este a si Seu Batista na falta de intimidade,
berrado nada por imaginar o dono da casa surdo mudo e tímido só acertando na
última acepção por Batista até ao cão gritando parecendo surdo, os surdos não
equilibram a voz esbravejam imaginando surdo o ouvinte ou nem pensando no ouvinte.
Assim ambos oradores se engalfinharam a narrar seus feitos ao outro, se entrecruzando
não propriamente ofensas todavia num ‘colóquio’ de jogar fora palavras, tão
grato ao homem comum. Não deixou Trovão o morador citar a mãe, imediato ele
mesmo contou seus casos ao ouvinte, a gente nunca presta atenção e portanto não
ouvinte enfim ‘ouvinte’... contou os percalços de sua mãe juntou com os do pai,
sem se saber ouvido; doutro lado certamente ‘escutando’ mil coisas do João,
este devolvendo na mesma moeda à visita, precária mas visita: não memorizou também
o que não ouvindo. Aliás muita vez o som não tem som nas conversas, fiadas ou
não.
Dóqui – declara o dono de Dóqui ao
Dóqui – Dóqui, eu não suporto mais o vizinho, segunda vez que entra aqui no
quintal esse berrador, esse tal de Trovão. Pois na casa dele ali nem se ouve a
dona nem o menino deles, só ele! e vem aqui agora na casa da gente contar
vantagem e... e foi por aí a arenga, o Dóqui apenas assuntando de orelha como
estando os ânimos do amo. Por sinal o cão tem umas orelhas enormes de
vira-lata, lambido ele de pele e pelos curtos mordidos nos tufos nas frequentes
brigas com os seus iguais desemelhantes no tamanho e no ladrar; ladrar visitas
por exemplo. Orelhas, olhos limpos súplices, focinho sempre a alumiar; o que
mais relevando no relevo de pele e pelos sendo os caminhinhos por entre o todo
com toda espécie de sanguessugas. E a magreza exposta! Não que Batista lhe
negue o básico e até alguns mais cuidados em tratamento decente digno dum
cidadão de família matuta emigrada afugentada anos distantes pelo latifundiário
do latifúndio onde morava, não; fornece sim o que acha que necessita, como
arroz feijão carne, restos seus e osso, osso também facilmente encontrável na
rua pobre de periferia pobre de urbe pobre pequena não acanhada demais, no
entanto sem gerência política e com ingerência indevida dos interesses dessa
mesma política. Assim o Dóqui se mantém e é espécie de grude colado sempre ao
amo; onde vai um, claro o homem, o outro atrás, claro o bicho. Agora estica pra
cima os orelhões a ouvir direito aquela sumidade amiga lá em cima a bravatear;
ou a confessar. Lamenta, não chora e será que cachorro entenderia a lágrima!
lamenta suas coisas suas faltas suas razões, se julgando toda vez com razão.
Entretanto ameniza o dizer a dizer do tempo antigo.
A mãe... a mãe pitava e pitava muito
sempre eu via ela com cigarro na boca o qual acendia na brasa do fogão, não é
do fogão que nós temos aqui em casa e... ah, não é bem isso que desejava falar,
não pitar mas gritar, gritava dia todo “Joãozinho” e no final todos me
conheciam por Zinho, Ziiiiinho! ela, e daí cadê o Zinho? pescando arruaçando
com a arraia-miúda por aí nas capoeiras, a mãe lastimava; esse moleque,
comadre, um capeta; menino parece ter bicho-carpinteiro, não aguento e olha (a
matuta pronuncia “óia”) não adiantam as surras; então a mulher conta as
chibatadas o pai violento, coisa assim de salmoura depois da festa: a gente olha
pra lá olha pra cá cadê o fia-da-p. (se xinga Francisca) anda no riacho decerto
pois não sai de lá, sai se afunda nas capoeiras fazer coisas feias com a
molecada. Ainda bem que tenho as meninas... Conta a menina a outra outra mais e
os machos já tudo de roça e as filhas também no cabo de enxada, tudinho trabalhador,
se envaidece a mãe a narrar. O roceiro tem certa reserva com o erre suprime
erres, pronuncia igualmente “trabaiadô”, além não perdoar nenhum na zona rural
as exigências de concordância; coisa que nem o homem urbano respeita em
respeito aos resguardos da língua da roça donde vindo; donde viria Batista e os
seus. Não. Não todos, Francisca morreria antes do êxodo rural, afugentada a
gente pela gente do latifundiário, já dito. Continua a narrar ao paciente Dóqui
o amo; entretanto se alembrando afirmar somente as lembranças boas, ou aceitas
publicamente: não aquelas que constrangem ou impróprias a menores de dezoito (a
propósito quantos anos teria o vira-lata!) essas umas são afugentadas pelo
afugentar, Batista não expressa; e para que remoer feridas! Conta repete insiste
reverbera até e até ri, pondo à mostra aqueles dentões estragados, ou gastos
sujos no uso do abuso da dentadura gasta suja. Oh, o velho presente a falar do
passado. Quando nisso e nos momentos por distração, expõe algo que adquiriu faz
tempo ou seja um costume no mínimo nojento, que é o de remexer sem parar e
imperceptivelmente a dentadura meio solta com a língua, esta que não aprecia
frouxidão e vão, chocalhando o conjunto ao arrepio do ouvinte; não, Dóqui sequer
vendo para criticar criticaria a nojeira? Olha ainda para os lábios falantes lá
em cima desde seu eu em baixo e aceita, amigo. Joãozinho, gritava a mãe dia
todo, não: noite toda, de tardinha na boca da noite com o calor é que os
lambaris desejam morder o anzol chupar a minhoca e... vai escutando, Dóqui
(Dóqui a esse som conhecido se estremece e mais atenta ao assunto que vem lá do
amo, olha encantado ou só atento mesmo:) vai escutando repete o amo. Então,
também nessa hora a gente vendo torcendo espreitando mexer a varinha e a linha
desde a tona do rio – eis que eles chegam! Não senhor, não falo dos peixes sim
dos pernilongos. Os brutos vêm sugar o sangue da gente, chupam a gente, a gente
sequer podendo se mover ou tremeria o braço feito campo de aviação deles, o
direito, sempre fui direiteiro (quis falar destro, não sabendo não disse) e aí
eles mamam. Insisto com você, você a pensar peixe e falo pernilongo. Mil. Um
uma vez esborrachei num tapa numa sangueira, visto andar me fazendo sangria o
fia-da-p. (xinga a mãe do inseto) e deveria de fato ser o sugador a sugadora
porque é a fêmea que engole o sangue para depois encher de sangue os ovinhos
dela botados nas lagoas para haver mais pra diante mais pernilonguinhos ainda,
aqueles p. (xingou agora o próprio pernilongo) o pernilongo a se fartar forte
no braço fraco do Joãozinho. Pois bem, menino (tal som o Dóqui não identifica
entretanto diante a expressão do amo lê por coisa boa a si, talvez osso com
fragmentos de carne e sangue; por isso até se ri); pois bem, vou lhe dar sua comida
agora. Tilintou talheres remexeu trens de cozinha raspou prato, espantou antes
moscas atrevidas, atrevidas quem sabe nem sendo opinião do focinho do cachorro
magro, chamou sem precisar mais pelo costume de chamar só a avisar, chamou o
cão despejou alimento no seu prato, o prato do cachorro não mais que uma lata
de goiabada com bordas mal amassadas tendo ainda rebarbinhas de lata, despejou
aí a comida já fria em vista estar hora falando sobre a meninice ao amigo e
haver tempo que almoçara; enfim serviu a ‘mesa’ no chão. Sorriu o cão. Sorriram
ambos.
Eu trabalhava em garoto, garoto (este
som pronunciado também desconhecido de Dóqui) garoto ainda trabalhava “trabaiava”
como roceiro, porque a gente nunca deixa ser da roça embora vivendo anos na
urbe. Trabalhava sim, trabalhei desde novinho no eito na enxada durante o dia
até noite (aqui mentiu um pouco, a mentira apraz bem ao homem comum...)
Naquele tempo... enfim na minha
meninice, menino, continuando o velho a narrar agora de boca cheia; não cheia a
do Dóqui e sim com orelhas limpas livres leves lépidas prontas a ouvir a
sabedoria do amo. Naquele não me lembro houvesse missa. Aqui sim tem missa, na
cidade tantas igrejas e muitas missas, outro dia não peguei você em flagrante
crime, a entrar na igreja e aí como eu ficaria com o padre Bento! como explicar
eu estando ajoelhado a rezar e você, você Dóqui! (o pobre cão se espanta olha
rumo do Batista e terá se indagado onde foi que errei agora!?) Então, olha os
fiéis me vendo com um cachorro da rua na igreja a me farejar pelas costas! Não.
Isso foi imperdoável e assim toquei primeiro você de leve manso, assoprei um
“passa” bem baixinho, mas não entendeu e dei um berro a tremer as estátuas dos
santos, saí de fininho, envergonhado, a missa estragada, eu depois amoitado
aqui em casa, somente noutra vez tornei aos ofícios religiosos. Na roça não tinha
missa.
Nesta altura dos acontecimentos ou dos
sofrimentos, certa abelhuda maçaneta indaga e imediato costura uma explicação
crítica em crítica. Mais
ou menos nestes termos: a linguagem exposta aqui tenta ser a da língua culta,
porém inegável que um sujeito comum a perorar brabo com seu amigo pelo deslize
cometido, que esse sujeito não use certinho vocábulos nem construa frases de
arte a satisfazer, satisfazer digamos um leitor acadêmico. João pura e
simplesmente discorre, brabo insiste-se, sobre a entrada indevida do cão entre
contritos santos puros católicos no domingo munidos de ramos a serem abençoados
pelo padre Bento; com o imprevisto aparecimento do seu cachorro, não se
forçaria neste ponto que reagisse em alta educação, estando de joelhos; isso
porque os de João doendo muito, seu forte durante vida toda fora sempre o fraco
de sofrer pelo dobramento lancinantes dores e até chegar enfim a amolecer pelas
juntas da perna; um negócio assim de ossos, ossinhos a bem dizer, uns pontudos
pra fora e nisso olhava o caboclo as mulheres em volta, não a perceber avaliar
desejar desejadas fêmeas da espécie, ainda por cima nesse por baixo encontrando-se
velho, véio como era seu dizer, e daí
só ‘via’ a beleza e sentia a atração – sem se pôr à conquista... ora, se nem quando
jovem tendo tido coragem à conquista por causa da maldita timidez! então não
sendo agora examiná-las para satisfazer sua carne. Não. Volta-se às suas irmãs para
compará-las consigo: elas amaciadas nos joelhos horas a rezar sem parar, ele
suportando apenas minutos ajoelhado na laje fria da igreja. Sim. Não é propriamente
isto que desejando mostrar a abelhuda maçaneta aqui interposta; porém querendo esclarecer
a questão da pronúncia (escrita não, não sabe ler o roceiro por mais urbanizado
seja: não escreveria e menos um discurso a tremer folhas nas laudas em
laudatório num assunto de religião:) sim a pronúncia no dialeto caipira. Este diz
por exemplo não ‘não’, diz “num”, por exemplo num saia daqui, imperando a gritar
com o cachorro. Não você, “ocê”. Enfim nada diverso do cidadão que é agora no
presente na cidade e que era quando roceiro na roça no passado na meninice;
nada diverso também dos seus pares urbanizados. Em suma essa a pronúncia do
popular vivendo ou no meio rural ou no meio urbano. Nada que o sol não tenha ainda
visto no homem do povo.
Não me lembro houvesse missa. Claro,
pra que a dúvida: quem morando na roça ia à cidade para a missa. Lá no campo só
as novenas. Aqui as recordações de Batista o levaram a caminhar menino às
noites de encontros religiosos com as mulheres rezadeiras por intermédio das
mãos maternas, a se lembrar saudoso da genitora e assim lágrimas se soltando
diante do cãozinho; este não entendendo porém a ler rápido a feição a mudança
de ânimo do amo, se encolheu se coçou um bocado se aboletou num canto. O homem se
viu a falar sozinho, a se falar; o que comum nos idosos. Aliás isso um ponto a
ser lembrado, visto os vizinhos pensarem que o velhote conversasse só, alto;
nada como o comum de se falar num diálogo que ocorre às pessoas malucas sozinhas,
mesmo não sendo velhas ou crianças, que é de um de seus eus perguntar responder
o outro de seus eus, a abarcar o único eu pensante, eternamente existente; isto
um afirmar dos religiosos testemunhas de Jeová vindos à pregação no portãozinho
da residência de João: o João balança a cabeça pra lá pra cá se não negando
descrendo – de a carne apodrecer morrer viver depois sempre o espírito chamado
alma por eles, onde se encontra o eu, dele e de todos seres humanos.
Em verdade, seja no relatar ao Dóqui
seja a si mesmo; e até, eventualmente, a um trovão visitante; em verdade é o presente
do velho Batista a narrar seu passado, o de ontem de trasanteontem ocorrido ou no
seu passado remoto e quase esquecido que é da meninice. Resumindo, ouve-se a
voz dum solitário, solitário piormente tímido, pois poderia semelhante aos
outros andar nas imediações a jogar fora palavras na troca da conversa-fiada.
Sim, não se nega o velhote sempre em meio às recordações a também manter com
outrem assunto corriqueiro; a por exemplo se impressionar com o tempo “será que
vai chover?” “viu o crime na tevê ontem!” – não passa de um homem comum.
Cap. 3°
Curioso, o Batista
e pode que o seu cachorro enxergue também assim, assim parecido ao amo, assim
de tentar ver as coisas do passado – do passado recente esquece o velho quase
na hora do acontecer nem tenta mais relembrar não lembra o dia a folhinha a
conta na conta e a conta do calendário; mas coisas dum passado longe remoto no
meio a existir e sumir ao mesmo tempo no tempo – coisas que se passaram longe demais
na coleção dos novembros, seu natalício sendo em novembro; e dessa forma não
lembra e se se lembra lembra não por inteiro. Curioso é que se usar as lentes
por mais grossas sejam dos óculos encavalados qual os óculos que lhe disporiam
no seu velório, essas lentes de enxergar mal o presente ali palpável, não
seriam elas insuficientes para ver o ontem o anteontem o trasanteontem, em síntese
o seu passado? Contudo não servem não satisfazem e é possível que nem elas
mesmas se satisfaçam com seus embaços de vidro; talvez não de vidro e sim de
plástico! tudo hoje sendo feito de plástico. Porém o curioso é Batista chegar
sem dizer sobre o plano ao Dóqui, Dóqui não entenderia disso – o plano de chegar
imaginar usar não os óculos todavia o binóculo. Este mais afeito e feito para
visualizar de fato o futuro, o futuro que possui pernonas longas pra longe
alcançar e no caso distinguir, visto ter mais que os óculos suas decentes potentes
lentes da gente a perceber seu futuro. Não. Sim quer ver um dia, diz seu
otimismo, quer ver o futuro. Antes do futuro pretendendo usar o binóculo pra
farejar e constatar as fugidias coisas do seu passado...
Não comunicou às orelhas e à visão de
Dóqui tal maluqueira, maluquice se ficar melhor ao dicionário; o dele ensebado
porém não do uso e menos do abuso, por causa do desuso no tempo; a umidade a
poeira a sombra o escondido... daí as folhas ressecadas ficam quebradiças e
viram fragmentos de dicionário. Ora para que dicionário se maluqueira e maluquice
ele não escreve nunca, e sim os outros é que possam pensar e falar dele; dele! deles
pois do cachorro igualmente. Não comete nenhum desatino nenhum ato de loucura
como o de propor ao cão usarem binóculo de se ver o futuro usando o instrumento
para conseguir ver melhor o passado, enublado distante.
Seja como for comunica isso mas por
alto, já então narrando sem parar (isto abuso ao abuso, visto quem pode não
respirar, não fazer xixi, não atender as palmas na cerca de casa!) narra feito
matraca sobre sua adolescência e o marcante acontecimento do falecimento da
mãe. O cão se coça se ajeita incomodado, acomodado agora a ouvi-lo. Dona
Francisca morre! Não, Dóqui, não dona Chiquinha, a que trouxe a trouxa de roupa
acho que achou certo estava errada na conta porque faltando um pé da marrom,
não sei se a esquerda se a direita, contei recontei constatei a falta da meia, do
pé de meia. Não essa, não lhe falei que a mãe era também Francisca? mais
francisca que Chiquinha por haver antes nascido; morreu, Dóqui. Eu? eu era um
adolescente (João não sabe o termo, engloba tudo na juventude:) todos nós éramos
jovens, só o Murilo, meu mano mais velho entre os nascidos porque os demais
anterior a esse nascimento morreram, nem nasceram ou saíram após dias vivos
mortos como anjinhos ao cemitério na cidade. Esta mesma Vila Verde, não lhe
afiancei!? Murilo e os outros mais velhos sumiram no mundo; somente os novos e
pequenos ficaram na fazenda com ela e o pai, o pai? o pai ocê pergunta, danou a
beber e por isso fomos expulsos enxotados de lá pelo fazendeiro um pouco depois,
antes a mãe sofreu se foi ao céu; a gente admitia o inferno conforme a pregação
na missa na cidade, a mãe boa demais pra não subir ao céu. Morreu a pobre.
Interessante nessa narração o fato de
o cachorro andar parado e atencioso no entanto sem coragem, como tivera coragem
vida toda a ladrar sem parar e com fôlego enorme e absurdo, até acordando todo
um mundo e a incitar instar os pares latirem em cadeia – sem êxito os berros de
Batista nessas ocasiões exigindo calar seu cachorro o gogó: Dóqui latia mais
ainda! Agora? parado enrolado no canto, atento à língua solta do amo. Sem
coragem o cão, velho, estragado, como estragado e velho o velho senhor. Embora,
João tendo ainda força e ânimo na boca e conta (em idoso nunca sendo contar,
recontar...) conta sem parar o episódio da morte da genitora e a expulsão da
família, então desregrada e sem norte com a embriaguez constante do chefe
familial, expulsa pelos jagunços abusados do fazendeiro. Daí a seguir o seguir
para Vila Verde.
A casa estava de pé, até o pé na cova
da mãe, meu Dóqui. Tudo funcionava bem, os meninos se amavam, apesar de nós
brigarmos sim mas havendo apego e o trabalho na enxada unindo os nossos; ah, tinha
naquele tempo o Peri, cachorro pulguento igual ocê, morreu, não ocê, ele. Peri
era como irmão da gente. Outra hora falo mais sobre esse seu irmão que era também
nosso irmão como fosse de sangue. Eu lhe falava funcionar a família bem porque havia
amor puro! puro sei lá. Naquele tempo antigo não era igual hoje: os casais brigam
se desunem se separam rápido. Os que eu conheci então também brigavam e
inclusive se separavam, a mulher voltava pra casa da mãe dela onde o pai
mandava. O casamento geralmente advindo pelo costume, os jovens por vezes sem
se amarem porém as famílias assim mesmo casavam os filhos, por vez combinado o
matrimônio quando os filhos crianças ainda; uma trama dos adultos ligando seus
herdeiros; enfim casavam e aprendiam se não a se amar, se respeitar; e durava.
O caso do pai e da mãe, esta quem falei morreu e não se mudou com o pai e as
crianças pra Vila Verde, indo para o cemitério de Vila entretanto. Pois é,
Dóqui, será que o matrimônio de antigamente dava certo (alguns não davam...) e o
de hoje não se mantendo em virtude do ‘amor’ fugaz da juventude apressada? Sei
não, menino; ocê vê que nem casei pra poder... poderia agora dar palpite mais
seguro, vivo até hoje solteiro, alguém me gozou dizendo que fiquei pra tio
igual as solteironas tidas tias. Porém foi por outras razões continuar celibatário,
não por escolha minha ou por não querer mulher... você não entende disso, nem
de mulher e eu não quero falar sobre isso. Pronto.
Olha o cachorro, vê um amigo que não
sabe como ficar bem para ficar bem com o amo. É constrangedora a situação.
Realmente constrangedor, talvez nem
sinta assim no entanto vê algo semelhante no amo: o amo sempre está quando
perto longe no vidro de seus óculos – um João quase risquinhos lá nos fundos e
como sendo um bocado torto desenhos soltos e embrulhados. A gente, a gente quem
vê a gente nesse estado de cegueira que enxerga, mal assim mesmo enxerga,
quando enxerga nesse lá longe das lentes, inclusive sente espécie de enjoo,
embrulha o embrulho do estômago da compreensão. Não o cão não. ‘Vê’ mais o
cheiro (ainda bem ou não veria, velho, o velho através dos óculos). Agora, encolhido
e razoavelmente distante dele, achará quem sabe engraçado sua boca, a boca não
os olhos de verem sem ver bem; a boca a mexer e mexer também os bigodes, no
conjunto sobem descem remexem fornecem sons costumeiros e berros habituais,
isto porque Batista critica comumente os trovões vizinhos entretanto troveja
bem sua voz – já nem se assusta demais por isso com o amo (“estará bravo comigo!
o que será que fiz outra vez errado?” pensará o bicho em pele e ossos:) não se assusta
tanto e se dispõe ficar atento, mais atento ao mestre e amo e pai e sabe-se lá
o quê; não se assusta, assunta. Então o cão irmão do homem tira as teias da própria
orelha e atenta melhor o dizer. Diz o outro, você não sabe que eu sempre mas
sempre mesmo fui um ganhador, herói não afirmo porém ganhador nas corridas lá
na roça – aqui na Vila quando viemos era verde nas amizades, contido com os rapazes
da cidade e daí não participando das brincadeiras; na roça no entanto desde
moleque e até na juventude ganhava de todos numa raia... A gente punha um
marco, uma pedra um pau ou qualquer coisa para meta; gritávamos (todos juntos
pois ambiente ao momento festivo e alegre; isso para começar a corrida:) e nos
púnhamos da largada ao fim a movimento rápido, eu mais ligeiro que os outros
concorrentes, sempre sempre insisto sempre, oh menino; então eu ganhava todas
de todos; quando não a deixar para trás o segundo o terceiro corredores muitos metros
longe. Bem, verdade que exagero no sempre e no absoluto das coisas nas disputas
nossas, porque não me deixava o maldito joelho... não lhe contei sobre os
joelhos os ossinhos saltados pra fora a missa as mulheres ajoelhadas sem se
cansar rezar nessa posição dobrada e o cachorro, falo daquele cachorro me
lambendo entrado pela entrada da igreja! ora, “besta eu” (João vida inteira
usou esta expressão a se condenar duma bobagem praticada) besta eu, eu a falar aqui
ao próprio criminoso em crime de lesa-majestade penetrando num recinto puro
limpo e de oração, atraído pelo cheirinho do seu amo. O criminoso era você!!
Falei que doía, doía demais, eu chegava a amolecer o corpo e... ora bolas, não
dando para continuar na minha reza e nem quando a já estar para ganhar a
corrida. Disso concluímos, bravateia o orador, concluímos que não foram todas
corridas ganhas por mim. Dava como um choque-dor-choque e eu tibum no chão. Meu
fraco, Dóqui. Verdade, menino. Oh que diabo, parece não crer... Quando falo uma
verdade das verdadeiras não acredita; acredita ser verdade entretanto quando
apresento mentira! quer dizer, falo inverdade apenas a verificar sua atenção.
Não minto, insiste se defendendo o amo a aferir certa indignação no seu cachorro.
Nesta altura, certa obtusa maçaneta da
porta levanta alguma dúvida: será que não os óculos porém o binóculo, de maior
alcance, não dirimiria se verdadeiro se mentiroso o que o velho pensa do cão!
Faz-se um hiato.
Ninguém poderia medir um hiato. Aqui
se põe o hiato entre a fala de Batista ao cão – ou ele a imaginar o grande público
irriquieto ou apenas de fato um par de orelhas, no caso pra cima empinadas
submissas com certeza e profundas quem sabe, as do cachorro amigo, que seja
amigo cachorro o que dá no mesmo – ou seja ao Dóqui. Doutro lado a situação
nada esdrúxula do silêncio... O hiato que não tem altura largura densidade
profundidade nem cor nem som sobretudo não tendo som; o estado igual quando no
sono manso, quando na distração envolvente e que envolve o pensador ou
não-pensador. O hiato aqui diz presente a dar de presente descanso aos ouvidos
do cachorrinho, o cachorrinho dorme na sua própria opção de hiato, antes
atentíssimo e após o hiato talvez acordando ou pelo menos ligado ainda
sonolento. O dono então pensa.
Na verdade Batista encontra-se parado
estátua estático no meio da sala, no canto da sala o amigo dorme não coça
pulgas relaxado talvez no sono profundo enquanto a estátua não fala, não falam
estátuas, pensa tão somente nem abre a boca; a mão direita segura seus óculos
presos por uma das hastes a balançar imperceptivelmente levemente as lentes em
reflexo do pouco movimento, sequer permitindo notar pontinhos de sujeira nelas ao
longo do tempo grudadas a auxiliar ‘desenxergar’ ou a diminuir a transparência
e a visão da visão. Segura a haste da armação desses óculos pra ver a realidade
próxima, a de lado a de alto a baixo a de profundidade na pouca atividade por
cegueira; e para que ver se se encontra pensando ou só distraído o velho, o
velho dos óculos de lentes tipo garrafa na gozação que devem vizinhos arriscar
fazer e fazer com certeza por trás de Batista; agora não: está naquela vertigem
de se desapegar do real afundar no sono desperto quiçá no sonho sem pesadelo...
Então pensa e lembra e conta-não-conta a contar a si mesmo no desvínculo da
matéria que o envolve e o rodeia, desconhecendo momentaneamente tudo isso. Ah,
se diz, ah que interessante aqui dentro do ônibus o povo palrador ensurdecedor
nas suas conversas (a mim fiadas) a sempre barulhar o coletivo no coletivo,
esse circular que desvia dos buracos a nos sacolejar entretanto... ah sim, vejo
de novo o Dóqui a tentar entrar no veículo e não lhe deixam ou iria me farejar
como o fizera na igreja e aqui não estou rezando nem olhando de viés as
mulheres de joelhos carnudos e macios sequer incomodadas pela dor que decerto
não sentem e assim me volto pra minha própria dor na laje fria da igreja e lá
no fundo o padre prega e... não me livrei do cão a envergonhar a gente nos
recintos sérios e impróprios a cachorro! Agora ele não consegue subir a
escadinha do ônibus, o ônibus a sacolejar sacolejando a gente, entretanto... entretanto,
curioso isso, ninguém fala neste momento dentro da condução! todo ônibus mudo
não o mundo a fonfonar buzinas e gritos e estrilos dos grilos de talão de multa
no trânsito doido, doido eu mesmo não ouvindo (terei ficado de repente surdo?)
isto porque ninguém conversa num tempo enorme de minutos ou século; parece-me os
passageiros dormindo não obstante acordados, qualquer coisa assim como o
silêncio da paz, a paz do túmulo... terão todos esgotado os assuntos e o que
seria então do mundo de então sem o jogo pra fora das bobagens que essas bestas
humanas usam a me irritar sempre!? oh pobre humanidade pois sem articular sons ela
não existe, o homem é um animal que fala; já os outros nossos irmãos na criação
sem essa faculdade não falam, ladram berram uivam guincham e até pensam mais
que o homem. O homem fala, esse homem velho agora não fala. E acorda. Sem ter
de fato dormido, mera estátua parada no meio do cômodo de receber visitas e de
não recebê-las em ‘desacostume’. Olha pro canto, no canto aquele enrolo de
animal amigo a dormir, dorme e de vez em quando tendo um frêmito, estará o
pobre animal com pesadelo ou num mero sonho rotineiro nos que dormem?
Nesse momento Batista não anda, está
igual estátua na sala desordenada e suja – ai, as mulheres, pensa o homem, elas
caso visitassem o velho, dariam cria pela bagunça vista na sala na casa como um
todo toda desarrumada – não se encontra aí, lá, lá no banheiro. Não toma banho,
se lava na pia, olha vê em cima à sua frente o espelho que o vê, abismado ou surpreendido
que seja, se é que a rotina pudesse espantar alguém. Vê ele Batista, enquanto Batista
examina outra e mais outra de suas novas rugas e de seus novos vincos vistos
imprevistos ou mal vistos: há sempre algo que as dezenas de anos quiçá um pobre
século não percebem num rosto velho gasto de velho. Resmunga o velho, daria um
pito no atrevido vidro que os reflete! – só resmunga e o faz em hum-hum-hum, o que
não diz coisa alguma; vê o bigode, preciso aparar esses fios espetados, pintar
nunca! e pintam muito os brancos a se salientar entre os que foram decerto pretos
ou castanhos para lembrar a lembrança paterna e aí some, some ele na vertigem
da recordação, condena veementemente recordações, torna das recordações e então
estica pele aqui, junta pelancas pra lá, lá de baixo do queixo no pescoço as
peles moles frouxas sobram em sobra dos anos que já sobram (ele não sabe o
quanto) há uma ordem da estatística que exige descanso no campo-santo após os
setenta, Batista já ilude a estatística em mais de dezena de novembros, seus
novembros de aniversário de velinhas. Faz muxoxo aos anos, retoma o que não
fazia ou seja ocupando utilmente o tempo, enxerga inutilidade em apenas se mostrar
a um vidro transparente (e mentiroso! se vinga). Contudo prossegue, enruga
encolhe espreme a boca ao nível dos lábios grossos, contrai assim o bigode,
arrepia junta a pele amontoada que vai daí ao queixo de ponta quadrada... uh
ora o pai aqui a me dar palpite outra vez... Examina, agora detidamente, o
couro ressecado do rosto, pelos, coto de pelos surgem ou somente se mostram
como pingos nos is, pelos brancos um só que outro meio escuro a revelar uma
barba por fazer (nunca aceitara a expressão e insistia: por que ‘fazer’ se
feita pela natureza e então capada castrada pela tesoura por grande e alta ou
raspada baixinha quase rente de navalha ou de gilete) enfim está por fazer,
coisa horrorosa pra si e se, se pergunta, eu resolvesse fazer a barba imediato
e aqui não dando de gilete, essa minha lâmina cega e provocadora de dores, se
resolvesse fazer não a minha mas a barba do Dóqui! usaria primeiro tesoura como
fosse foice de roçar o roçado alto e depois... ora bolas, vou querer que meu
pobre amigo fique pelado de peludo que é e piormente a sentir frio, o frio que
se aproxima hoje, ontem mesmo não pus coberta fina a me cobrir! Após o
pensamento o homem se liga, não se vê mais no espelhinho, o vidro então
decepcionado e desgastado pelo abandono. Quando vê, quer dizer quando acorda,
Batista se acordando João, e está na sala de novo, o cão dorme, ele novamente
de pé e sua mão a segurar algo, um pente... e para quê? João é totalmente
calvo, careca dizem e se afirma ele mesmo assim. Não, tem entre as orelhas,
perto das orelhas, alguns teimosos retardatários fios numa briga entre si no
branco no preto no preto-virando-branco. Claro, inteligente, torna ao sanitário
guarda o pente torna à sua sala. Faz imediato mais: senta-se na poltrona... mas
eis a desgraça de plantão; e isso foi horroroso: sentou-se inadvertidamente em
cima dos óculos, os óculos pra ver a realidade próxima palpável ‘plena’; por
descuido deixara o instrumento no assento...
Ofof...oftal... João balbucia, o
atendente na loja que mostra nos garrafais Óptica
Brasil, aquela na avenidona, toda urbe interiorana tem além do comércio a
igreja no centro numa avenida principal, a que o caboclo chama “Avenidona” e
todos assim entendem; o atendente engolindo maroto o riso corrige para
oftalmologista, pronuncia devagarinho à compreensão matuta, o matuto concorda
discordando porém não repete o vocábulo para não errar dar novo vexame mas
pensa “oculista”, pronto. Quer dizer, diz, ir ao médico fazer (aviar, corrige o
entendido,) isso, ver se o doutor me faz ver... não, já sei: ver o grau do
vidro e eu só quero que ocê faça outros óculos e também não concordo pagar tão
caro, isto é não tenho dinheiro nem pra loja e agora ter de pagar o médico! Não
concordam, aceita Batista ir meio tateante procurar o oftalm... vixe! Bem, mais
uma semana cego, mais cego que antes, até receber a aposentadoria e poder pagar
consulta de olho, no estilo num preço o olho da cara; aí torna à loja, acerta
prestação suave; aguenta mais uns dias esbarrando em casa, sem se acostumar com
a situação, naturalmente; por fim volta firme corajoso feliz até para
residência a retomar a rotina.
Dóqui sorri a tanta felicidade, aquele
cheirinho de amo que é uma delícia. E agora o amo dá continuidade à paisagem
que lhe havia temporariamente sumido. De óculos novos o velho; o velho
instrumental, fragmentos dele, ficou jogado no cesto de lixo da loja; os novos
são novos, se fala, feliz. Oh como basta o pouco à muita felicidade!
A rotina manda que os costumes
prossigam, Batista vê agora o cachorro que não vê: dorme enroladinho. Ah o
pobre, nestes dias anda desanimado sem andar, mais dorme e se encolhe. O bicho
deve ter bicho; levo o Dóqui na farmácia? na roça a gente dizia a botica lá na
cidade, aqui Vila Verde. Aí se encaminha à janela.
A janela de madeira cansada rachada
empenada velha desgastada, na casa de madeira velha etc. e tal; tal a situação,
a situação é estar a janela arreganhada a ganhar sol e ar, chove e umedece lá
fora, aqui dentro meio desenxavido o velho dono e dono de um par de óculos
limpos lindos novos, enxerga e por associação de ideias e sentimentos é atirado
de volta ao passado (não esse que exige esses e o binóculo a analisar saber
maior e melhor; sim os óculos, novos que sejam mas o de olhar perto o meio
distante passado:) e chove, e chovia, chovia naquela fresta servindo a olhar
fora por dentro da tulha, um celeiro que os do campo pronunciavam “túia”. Vê a
torrente, embora também calma e não arrasadora como não avassaladora a que
espreita da janela hoje, e o pobrinho não olha dorme sua enfermidade decerto. E
vê, sim ‘vê’ as coisas, foge do sofrimento da mãe, aquele que a levaria ao
túmulo pra morar mais cedo que a família na Vila Verde, na necrópole dela ela,
eles na família só mais tarde em mudança. Foge.
Recebe perto da tulha a visita da bela... Andava assinzinho
por Aparecida, nome que o nome de família lhe forneceu por graça de Nossa
Senhora. A Cida chega radiante. Contudo não visita bem o moço João (ora, como não
se uma jovem e por jovem e por mulher roceira, casadoira...) visita a pedido da
mãe, mãe dela, a mãe dele. Todavia sorri ao macho da espécie juventude e
certamente não vê ah vê sim o vesgo que brota do vesgo e ainda o vê belo,
belo!? sabe-se lá, lá se vai entender o gosto das fêmeas da espécie
juventude... Ele aprecia aquela vestimenta decerto cheirosa. Não. Homem não vê
pano vê corpo, este mais cheiroso... Não importa: Zinho ficou num lance de
mágica grandalhão conquistador herói e o mais, menos menos: se afundou na
vergonha, a vergonha que poderia dispor dum contato fêmeo tão ao alcance – no
momento Francisca olha a reprovar a cupidez; ou não, não teve o conquistador
coragem sequer enfrentar as rédeas puxadas pela genitora, encolheu-se fugiu –
fugiu dali, embalado, pela timidez. Puxa, sempre isso! ou seja o drama da
timidez perante um ser tão atraente tão belo; para um jovem faminto e ‘valente’
toda mulher é bela.
Olhe meu caro, afirma ao Dóqui se
espreguiçando gozado, se estica se espreme se mexe um pouco... e torna a se
deitar olhar observar atentar, atentar para o quê? aguardar a voz tonitroante
não do trovão, de Batista. Meu caro tive (verbo ter conjugado no absurdo nunca
satisfeito) tive foi muitíssimas mulheres na minha juventude, eu um guapo macho;
não tive apenas a Cida.
Você não se lembra da Mariquinha? ocê
vivia grudado a mim e até sorrindo de rabo também pra Mariquinha, não é assim...
ora, besta eu, o Peri quem sorria pra ela, você só viria existir aqui nesta
casa onde moramos e não na fazenda, a fazenda virou capim virou gado e todas
pessoas foram expulsas de lá. Então, andei nesse tempo com mil mulheres (aqui
João exagera o exagero) a Mariquinha pobrezinha vivia morrendo de amor por mim,
pra si eu era o João da comadre Francisca da mãe dela. Implorava, Dóqui: eu só
via as outras jovens. Uma vez deu algo na cabeça dela, acho que um câncer, a gente
nunca soube direito; enfim doença ruim. Morreu. Aí fiquei com pena pela morte
da menina e ao mesmo tempo por não haver nunca aceitado seus ímpetos
amorosos... Dias assim com sentimento e até me condenando não ter com ela algum
agrado. Depois me voltei às outras, quase tentando esquecer minha falta com a
morta quando viva; então sim me voltei às outras conquistas...
Dóqui examina lá em cima o rosto do
conquistador, não diz nada não comenta. Pisca gozado, caça alcança mastiga o
mosquitinho, daqueles mosquitinhos que voejam lambem irritam não só cachorro
mas a gente quando a gente a espairecer. O amo entende ou não entende o seu
cão. Retoma seu discurso cheio de extravagâncias e conquistas. Relaciona o lote
das mil jovens com as quais priva, priva! mais que isso isto: enlaça beija
namora, faz mais ainda que aquilo proibitivo aos tímidos e sendo condenável pela
moral da época atual e mais pela época de sua juventude roceira. Sim enlaça
beija namora conquista, e perde! perde, tanto assim andar até chegar a ser velhote
que é agora solteirão, quase solitário não fosse a companhia amiga do cachorro
a quem se dirige. Conta, conta com certa capacidade inventiva, narra como
convivera com as mulheres nos bailes da roça, inclui até brigas e bebedeiras
(claro, ele suplantando fácil adversários e rivais...) Porém abusa mais na
tentativa de pintar como numa tela os traços de tantas belezas; para algumas
das mulheres ele impondo enquanto outras chegando a lhe implorar carinho, qual
a Mariquinha – todas a desejar o amor quase inatingível do jovem João Baptista!
Bem, abusa ainda no traçar caracteres feminis como a indumentária delas, no que
não deve ter ultrapassado a descrição de vestidos de chita e um que outro
adereço; sequer nesse particular João se mostrando a contento; ora, se Dóqui
não entende de roupa feminina nem masculina, o amo também não sabendo de
cátedra para lecionar ao amigo. Não descreve pano e o cachorro não usando
tecido para comparar e assim compreender. Nisto uma curiosa experiência doutro
dia prova esse desacerto: no inverno passado enrolara o amo seu amigo num
capote velho estragado julgando passasse frio; e o animal ficara no abrigo,
preso sequer sem poder se mexer.
Ah pobre Dóqui. Agora melhorou um
pouco, isso na avaliação de Batista. Entretanto andara mal, quase morreu,
avivando mais ainda a solidão do velho. O episódio fê-lo relembrar o cão jovial
e em festa a pular para lamber alegre quando criança o dono já gasto; agora
aquele esqueleto num canto e sem coragem até a se levantar! Não comia, emagrecendo
a olhos vistos. Além doutros pormenores desagradáveis a entristecer João, como
a tosse seca própria de cachorro; e também um engasgo por algo mal engolido que
decerto comera antes a vasculhar na rua e nos terrenos baldios; e daí entalado
na garganta a sufocar e trazendo tristeza ao homem amigo do amigo do homem.
Emagrecia, tentava abocanhar algum alimento, imediato vomitava. O amo com pena
e inclusive se desprendeu de escrúpulos como enfermeiro: a limpar a sujeira,
sem demonstrar asco; daí examina a expressão do enfermo, vê ou pensa ver
lágrima; acaricia o bicho, como espécie de pagamento pela dedicação anterior do
animalzinho. Enfim foram dias e noites de sofrimento do velho pelo sofrimento
do cão. Quase se pode afirmar haver ficado Batista mais velho ainda com esses
dolorosos cuidados. Uns vizinhos, penalizados ou mais experientes, sugerindo
veterinário a salvar o animal, o animal estando realmente em pele e ossos. Porém
o vizinho dos vizinhos responde (por dentro, fora é a educação no trato
comezinho:) oh, dar médico de cavalo ao cachorro!
Agora Batista sai vai ao fundo do
quintal a fugir do sofrer do pobre amigo, o qual parece se acabar irremediavelmente.
Então aproxima-se da mangueira, dali chega a examinar uma área ao lado da
bananeira, esta também a morrer secando e secaria e morreria de fato; olha
tristonho um possível local a enterrar o pranteado amigo. Não obstante Dóqui se
anima um pouco se levanta revive e se afirma, comparando com o estado anterior,
agora é outro cão, um ser sem vigor sem quaisquer laivos de viço; embora
continue amigo, um amigo de ótimas orelhas... Verdade que o homem se desdobrara
em cuidados ao seu cachorro; entretanto foram cuidados nada feminis – cuidado
sempre lembra a delicadeza da mulher, o pobre enfermeiro não passando do tosco
e grosseiro trato masculino.
No episódio visto, torna o velho João
para dentro de casa, sentindo um gosto estranho, o de como fosse culpado na
culpa de haver ‘enterrado’ seu amigo; assim examina aliviado o amigo, o
paciente amigo dorme ou descansa no seu canto favorito da sala. Acorda. Você
despertou, menino, ah que bom.
As orelhas...
Prossegue, então sem grande vivacidade,
a tratar retratar o que chama tempos antigos, quer dizer a roça a família a conquista
o amor a adolescência o mundo imaginário dos que não podem fugir da timidez,
esta que ultrapassa a possibilidade da feiura. Será mesmo que o jovem vê de
fato sua feiura e a feiura nos outros? Prossegue mas a gente nunca mais tem
grande entusiasmo andando tristonho e encabulado.
Tentando animar o animal, inventa,
qual um desacreditado literato, inventa mescla arranja com as verdades que possivelmente
viu a perambular nas ruas de Vila Verde, arranja sim com as mentiras que se
garante existir – uma curiosa passagem. Dóqui, diz ao Dóqui, e a quem diria tendo
apenas um único ouvinte confiável; diz-lhe sobre algo achado como um autêntico
achado, bom pra alevantar enfermos; o ter visto numa via pública doutro bairro,
cita a rua o nome a memória dele não sabe e sabe menos precisar as orelhas do
cão; enfim vira um buraco (buraco em ruas esburacadas pela má gerência dos
políticos é demais prosaico) vi um buraco enorme no asfalto e um vazamento de
água, a água que falta nas torneiras da urbe à qual as autoridades recomendam
contenção, bem entendido: aos contribuintes, o vazamento de água que sobra pelo
desinteresse dos mesmos políticos – sim, menino, um buraco uma água a escorrer,
um lago formando uma piscina no meio do leito, Dóqui. Sabe o que vi lá? quatro
cachorros e um deles parecia você, talvez um irmão seu; eles todos a tomar
banho! literalmente, ao menos válido para um deles o qual bebia a todo vapor
com a linguinha estalando a água do banho de todos. Não é engraçado, menino?
O cachorro não se animou, talvez sequer
entendendo a estória; tentou se erguer, o que tomado como entendimento ou até como
o absurdo do gargalhar, na visão do velho amo. Assim animaram-se ambos e puseram
no lugar da tristeza a rotina. Puxa, como é bom retornar à rotina.
Agora estamos em Vila Verde.
Cap. 4°
Na Vila e no presente.
O
presente... quer mais presente que o presente de um personagem! interfere a
personagem maçaneta enxerida a se referir a Batista. A gente vê – agora é o
velho Batista que (não) vê – vejo meio embaralhado, meu querido Dóqui. Não Dóqui
mas o amo intentou se submetendo às imposições desta época amalucada que tudo
abrevia e desmanda no desmando do costume de a tudo expressar por siglas,
intentou ele abreviar Dóqui por Dó: ganharia tempo, tempo é dinheiro diz o
tempo de hoje, ganharia de fato e caso escrevesse desembaraçadamente ganhando
ainda mais a economizar tinta, ao olho da cara o preço das coisas hoje em dia
(pensando nestes termos pra ser original, no detestável hábito repetir e
repetir o que outrem já repete século, original ou apenas singular:) Dó por Dóqui
porém desistiu, Dó iria confundir-se com o dó, quer dizer pena. Sobretudo
porque seu cãozinho em convalescença e recuperando lerdo a saúde abalada, não
identificando e portanto não respondendo ao som ‘Dó’ somente a conhecer Dóqui
mesmo. Tem coisa que a gente, animal por demais inteligente, desiste volta
atrás; à frente continuou chamá-lo Dóqui e pronto. Abana o rabo, um rabo agora
mais ativo expressivo vivo e assim o amo vivo, vive mais também; a enfermidade
do quase filho fizera um estrago no coração dessa língua, língua meio feroz, implica
a maçaneta; enfim a língua de Batista.
Mas
a gente vê um pouco enublado o ambiente presente do presente aqui de Vila Verde,
não é assim meu Dóqui! Não enxerga bem os objetos, tropeça nas coisas, você
notou a pancada na canela, minha canela não a da porta em que esbarrei. Garanto,
via como que tudo em nuvens baças até ontem e hoje com estes óculos de
interpretar melhor o que nos rodeia vejo melhor, ou melhor, vejo, pois não via.
Assim digo que os óculos me ajudam perceber tudo o que me rodeia e inclusive distinguir
do restante você, você está em ossos e pele, pelos sumidos; até os pelos perdeu
– todavia ainda é meu querido Dóqui! A este som grato o cão se avivou avivando
por tabela o amo, avivando inclusive a memória.
Não. Não vejo plenamente o que ocorreu
nos anos desaparecidos, os quais também sumiram com os fatos. Precisaria para
lhe transmitir correto usar um binóculo a vasculhar, se não apenas descobrir
sem remexer demais na coisa (aquele negócio de quanto mais remexermos mais
federá...) Em resumo quis dizer o binóculo poderoso diante da insignificância
dos óculos de enxergar perto e não trombar com a porta na porta e, lógico,
ferir doer enraivecer-se; porque o binóculo poderia bem ajudar-me, por exemplo
descobrir mais sobre as meninas, menino. Lembro pouco do muito conquistador que
fui. Fui lá na roça e depois prossegui também aqui na Vila.
Vila aos vilaverdenses é claro ser a
Verde; sendo vila, mesmo fosse amarela azul ou cor de burro quando foge, não
tem esta expressão!
A Vila é meu presente estendido, visto
quando percebemos, já décadas decorreram desde nossa mudança pra cá – e ocê não
viu não participou disso não era nascido sequer – de lá até hoje portanto sendo
um presente sim porém conectado aos primeiros (e longos) dias, quase sem poder
examinar com meus óculos, ih sentei-me sem jeito por cima dos velhos como se
faz muito sobre o velho; e os quebrei, moí os vidros a armação e olhe que nem
sou pesado nem grande nem gordo, gordo tão só perante sua magreza, menino. Daí
tornei da loja da avenidona com estas preciosidades de lentes contente e
contente você por meu contentamento. Assustei-me no momento com sua ‘esqueletice’;
Batista tendo uma queda ao invento de palavras, forçado pelo som que deseja
emitir e pela ignorância; próprio do ignorante aliás... ora, iria para saber o
correto pesquisar no dicionário a existência dos vocábulos já consagrados e
existentes no léxico! se, não poderia: pois as novas lentes feitas pra ver
longe o perto, não para descobrir perto o perto; e nisto as letrinhas balançam dançam
escorregam fogem manhosas não se pega, os globos não fixam e... bem, que diabo,
o velho nem em novo sabia as letras e assim um cego por desconhecer a língua e
a grafia da língua; tudinho ajudado pelas lentes obtusas também, além de
inadequadas à leitura. Pior (ou não!) pior o caso do cachorro que não lê nem
com óculos. A propósito – ah como a gente velha faz bobagens como fosse
criança... – um dia não é que o amo experimentara seus novos óculos no bicho!
no focinho dele; então Dóqui não gargalha mas sorri educado e constrangido de
cauda, a fim de submeter-se aos caprichos humanos.
Anda com os óculos para ver se vê o
presente, agora de Vila Verde não da roça, ou seja a parte do hoje que lhes
toca, amo e cão, aquilo que observam e guardam. Sem reter tudinho, porque a
porção esmagadora do que se vive se esquece ou o cérebro teima não quer retornar
lembrar devolver mostrar para quem pretenda recordar. Daí o fato repetirmos indagações
bobas como “foi quarta-feira, ou quinta? seria na terça!” e tantas mais
besteiras de nossos respectivos textos; textos, visto a existência de um homem
ser longo, breve nalguns casos, um longo texto que a gente mesma lê, quase
nenhum outro podendo não só não ler porém lendo não interpretar a contento.
Batista discorre portanto seu texto,
um singelo de caboclo expulso com os seus do latifúndio pelo latifundiário, por
seus jagunços, fugindo à urbe pequena onde mora agora nada fora de hora com seu
amigo cachorro de estimação, o cachorro também parte do texto.
E se prendem nas minúcias da
existência, nos pormenores do dia a dia, nos detalhes insignificantes que os cercam;
embora pareçam tão gigantescos a ambos, mesmo que o mundo desconheça e não
valorize.
Movimentam-se, homem e bicho, de
dentro para fora no quintal. O quintal de João é enorme... bem, pode que seja pequeno
e até acanhado estreito desses que a gente olha já vendo o resto do mundo, o
externo da paisagem; grande sim para quem examine; assim. Ele, e o cão
enrabichado atrás desse mestre nas sabedorias comezinhas. Aspira o ar puro –
não, no planeta não tem mais mas tem sim a ilusão; quando não se tem muito o pouco
é o bastante, enfim nestes termos puro e muito. A área é enorme; tendo alguns
palmos de terra na Terra em extinção e se o caboclo soubesse disto, não valeria
à pena ele viver! não sabe. Areia lavada levada da enxurrada por cima, terra
quase compacta por baixo; na tona disso tudo, tudo que se planta e se cuida
quando cuida: a mangueira sem espadas, não sendo mesmo tempo nem da floração; a
bananeira bichada, a pobre a secar a morrer sua morte e doar a folha verde
atraindo o nitrogênio do ar e virando ótimo esterco – o Dóqui não sabe disso,
sabe um pouco João – e outra árvore média, uma laranjeira seca da seca ou da
seca da morte, morte natural felizmente embora o fiscal visitador garantir
doença letal; enfim não tem laranja neste ano, tem na feira tem no supermercado.
Nada mais de mais grande só plantas corriqueiras como os dois ou três pés de
mandioca rachando o solo, uns exemplares nada exemplares de milho (o João
pronuncia “mío” o Dóqui não pronuncia) plantas que são não mais que arbustos de
meio metro, o que dá uma saudade do milharal na gleba a subir ao céu em tamanho
acima da cabeça de João, João um homem quando adulto apenas meão e os outros
roceiros também de baixa estatura e portanto não serve bem a comparação;
contudo, as flores em pendão do milho se vendo lá em cima nas nuvens, os pés
dele agora, por híbridos ou transgênicos sabe-se lá, baixinhos; ajudados nisso
pela terra pobre cansada exaurida acabada tratada mal pela ignorância cabocla –
o João teima ser matuto fala matuto, seria matutês? vive matuto apesar viver na
urbe de Vila e assim cuida não cuidando no alimentar mal o solo. Por isso as
árvores são arbustos e o mato... uh o mato! Aqui xô preguiça, não tem preguiça
tem velhice; falta-lhe coragem, coragem tem menos o cão dada a idade e a
convalescença, o bicho a sair faz pouco do buraco na cova da morte! Assim a
tiririca o pé-de-galinha o carrapicho a grama braba, as ervas daninhas visitam
e mandam no pedaço. Fica por entremeio plantação e mato enxerido uns poucos
metros estreitos em caminho, trilho “tríio” no som desse caipira, mudo o seu
cão por apenas ladrar, e o Dóqui não tendo força bastante a acuar o mundo inteiro
e sem porteira; enquanto que ambos ouvem a ladração da canzoada ainda capaz forte
optante a espantar quem não é do mundo no seu mundo. Ouvem, o cão mais alerta
que o homem velho, velho o cachorro igualmente e de boas orelhas.
Olha, Dóqui, afirma às orelhas, olha
aqui uma pegada de ladrão! os... aqui desfilam termos do mais alto baixo calão
contra os que abusam do sono dos outros, João agora em a noite dorme pouco;
dorme acorda dorme ou seria redorme? tudo sincopado e a deixar no dia no sol o
escuro mal-estar escorregadio da insônia ou sono mal dormido. Porém não é assim
em temor ao ladrão; o... (novo desfilar de palavrões, o Batista mestre nisso desde
a roça de antanho:) o sujeito me deixou marcas da sola dos pesões... O Dóqui
olha, não dá palpite.
Se fosse do tipo social tido por dado,
convenção a dizer que se relaciona fácil não importando se com bobagem e ditos
chãos e vazios; se, contaria o crime pois crime roubar! contaria relatando
tim-tim por tim-tim aos vizinhos e mesmo ao vizinho trovejando a garganta;
diria na venda da esquina, a espalhar ao resto do orbe cada lance, inclusive
podendo criar mil fatos novos não vistos nem expostos por pegadas do afanador bruto
nessa noite. Não. Batista não tem relações nem floreios nas relações
imprevistas (um solitário só tem abordagens imprevistas...)
Além disso o ser humano comum tem por
hábito trocar as vestes diário... Não Não Não Não, insiste o João filho da
senhora Francisca, sua pranteada mãezinha; insiste ele dessa forma; insistia
antigamente com a volúpia da força da coragem da juventude negando algo; no fim
dos tempos Batista repete o não uma só vez: Não Não, diminuindo o ímpeto a
contrariar quem o contrarie, em jovem sequer esperava o opositor completar a
ideia (leia-se ofensa, ofensa viesse fazer) para incluir seu contra; além disso
um outro senão. Seguinte. Por achar bela a maneira de um italiano acaboclado na
roça onde residiam, o tal peninsular não costumava negar em não mas com o
pedaço do não, assim “nã nã nã...” igualmente impetuoso. Em virtude dessa desvirtude
Batista ainda agora não dizendo não inteiro
ao Dóqui (e para quem diria não fosse apenas ao cachorro!) pronuncia mesmo nã nã nã – a negar qualquer. Neste
momento ainda encontra-se no fundo do quintal a examinar as pegadas criminosas
e, se houve o caso de o cão contrariá-lo, antes de concluir pelo positivo nesse
negativo já contradita em não, ou melhor nã
nã. Isto seu, verdadeiro, costumeiro, vezeiro. Vezeiro também no vestuário.
Em matéria de roupa, diário afronta o cidadão que troca de camisa todos dias se
não todas horas no calorão ou na hora da vaidade; a afrontá-lo, põe sempre a
mesma camiseta – as mesmas calças que se vê, as mesmas roupas brancas as tais
de baixo que se não vê e decerto com odor... A afrontá-lo é observado no bairro
no supermercado na feira da quarta-feira com a mesmíssima indumentária. Sim,
deve andar parada grudada impregnada encardida, visto nesse escuro clara a
camiseta de algodão, o branco que mostra melhor a sujeira da sujeira; ainda a
realçar nela havendo uns gastos dísticos ingleses (ele não ‘gringa’, ou seja
não fala na língua franca enrolada, não enrola o dizer enfim:) enfim igual a
maioria popular na população do país, esta que vive tal qual garoto-propaganda
a divulgar anúncios sobre a superioridade do supermundo, dito ora Primeiro ora
Paraíso. Assim. Assim como outrem, propaga difunde a condizer e ajudar nas
benesses consumistas. Não interessa. Interessa que usa sempre a mesma roupa
todos os dias. Dona Chiquinha faz a trouxa leva a trouxa traz a trouxa limpa,
conta (ou não? afirma haver somado) recebe (ou não, Batista demora um pouco
soltar as notas...) faz a trouxa, iria incluir nela a levar lavar perfumar
passar entregar de volta a peça, se a peça estando ali na sua frente o ‘patrão’
com tal peça de roupa no corpo! não, claro, não. Ele usa... a lavadeira terá
dito para outra lavadeira “a camisa do véio,
a lavadeira também velhinha, a camisa se ele tirá-la ficará armada qual betume,
pedra!” Ela não fala betume diz “camisa batumada” como se expressa “o meu bolo
ficou batumado”; aliás Chiquinha pretensamente lava bem porém cozinha
horrivelmente; que o digam as fatias do confeito que traz em oferta de boas
relações empregado-patrão a amolecer o (não) pagador dos trapos que leva lava
devolve. João dá aquilo, aquele é visto seja Dóqui, dá a ele ou para as
galinhas da mulher de Trovão, neste caso atira a iguaria por cima do muro, as
penosas do lado de lá se disputam e se regozijam certamente... Contudo na veste
as mesmas vestes o velho João, é inclusive característica dele perante o
bairro; o bairro não comenta, inventa somente outras inverdades ou verdades em
que o homem da rua incorre; aquele negócio de só se ver as faltas nos outros e
não na gente mesma, enfim o que se critica em crítica. Não falam nisso
os da periferia, decerto não veem mais o traje surrado, caso notassem antes –
porque de modo geral o homem pobre usa semelhante a repetição, que seja
intercaladamente e aqui seriam duas mudas, mudos pobres panos vestidos.
Todavia agora estando nos fundos do
quintal, não se trata disso, disto: encontra umas penas de pombas caseiras
espalhadas ao deus-dará, indício da presença de gato e da fome felina, sobre isto
reclama indignado o velho ao seu velho companheiro.
Então em meio a isso tudo, ela
aparece. Ela? a dor de cabeça. A dor de cabeça tem sido a dor de cabeça para a
humanidade, milenarmente ela se queixa, se queixam as pessoas e dói no velho,
justamente agora que o amo de Dóqui andava tão animado... no mau sentido pois
condenando veemente, num acordo tácito do cachorro, condenando os vestígios vestidos
de penas das pobres aves; as quais na seca braba Batista chega na falta do mato
viçoso com que se alimentam a comprar milho somente em não deixá-las morrer de
fome; viram as pombas satisfação à fome que sente o bichano arisco. Dizem que
onde há cão gato não chia, aliás não chia mesmo: mia, se manifesta em cima do
muro... O amo mostra sua indignação pelas penas esvoaçantes ao vento; o
cachorro cheira o trilho os fragmentos deixados pelo gato preto e concorda
decerto com a autoridade ali presente. Logo agora tão entusiasmada chateada
também e condenando também – exato quando lhe volta a dorzinha chata que sente
anos. E daí acabou a festa. Não diz coisa alguma, torna para dentro de casa;
pôr quem sabe uns paninhos úmidos a aplacar a dor; às vezes bota uma rodela de
batata na testa na fronte onde dói mais; é dor inicial entretanto a experiência
decenal garantindo a intercalação dessa dor ou a sensação contínua, a chegar
até amolecer o homem e prostrá-lo. O amigo segue o amigo no retorno ao lar,
doce lar? Cheira um pouco, mais por obrigação ou por costume da raça e anda a
andar lerdo qual Batista e sem muita coragem, igualzinho seu amo. Este senta-se
no sofá, o sofá não bem sofá mas poltrona gasta exalando tempo e sujeira,
claro. Chiquinha quando vem pegar a roupa aproveita num descuido do velho a
passar pano úmido na poeira do chão e limpa como pode também a napa quente
dessa poltrona meio estofada; não obstante perduram sujidades e cheiros no
móvel imóvel (sequer permite o teimoso que se mude um pouquinho de lugar o
trambolhão no espaço da sala...) É aí que se aboleta o dono da casa. Quando
nesse desagradável estado o cão já sabe: ficará mudo, fica mudo. Sim também o Dóqui
não fala porém ladra, agora não ladra em respeito às dores do homem e por seu
silêncio de horas a curtir aquela chateação. Será possível! parece que o ser
humano nunca se habitua com a dor. Dizem por aí que ela atinge mais a mulher
que ao macho da mulher; ora isso não conforta e nem interessa a João,
interessando sua própria dor: a gente vive a imaginar que a nossa seja a maior
do mundo, João assim pensa. Noutro dia é outro dia.
Daí, não renovado e seria absurdo
andar entusiasmado, daí retoma rever o fundo do quintal. Examina plantas, sorri
(verdade que mais ri por dentro) olha um broto, chega terra num tronquinho, usa
direto a mão se sujando e tem em casa uma colher de pedreiro, dessas comuns,
para tratos com o solo. Remexe rega limpa, arrancando algumas das muitas ervas
daninhas a infestar suas plantas. O Dóqui nisso não o ajuda, ajuda apenas com a
presença; no entanto olha interessado. ‘Pescam’ os ares da área, espreitam,
ouvem o burburinho que chega do bairro: mães a esgoelar, meninos a gritar, animais
outros a piar a grasnar e a ladrar é claro, sempre tem muito latir nas
imediações. Contudo Dóqui não responde à provocação dos seus irmãos caninos, só
olha aspira espreita espreitando mais que o resto do mundo o seu dono nas
tarefas. Num dado momento entretanto larga o homem afazeres, pois a fome avisa,
sem contradita sem contra-argumento; avisa a hora absoluta na hora provável...
quer dizer a gente procura não ouvir assopros da fome e retarda quanto pode, no
exemplo de talvez acabar com o acabar ervas bravas teimosas. A fome de João a
fome de Dóqui.
Se põe o velho ao preparo da refeição
na cozinha, uma cozinha que decerto não agradaria a mulher, houvesse uma a
chamar atenção pelo grude e utensílios espalhados e até por um dos utensílios se
desvairar no chão; isto parece que de propósito ocorre, toda vez que João
remexe no compartimento. Enfim, prepara. Chiquinha, sempre a Chiquinha, ela
critica para outrem a avareza do seu Batista, não contratando uma cozinheira ou
serviçal; ou leva a crítica para outra ou diz isso na presença dele com alguma
diplomacia para não machucar o velho. O ser humano tem dessas coisas de dizer o
que deseja dizer embora camuflando a dourar palavras pra esconder o que dizer,
assim a lavadeira. O velho entende o alcance e replica imediato, quiçá meio
grosseiramente: “não quero governanta dando ordem!” frase com que Batista lhe
cala a impetuosidade; isso há muito tempo, agora evitam tais lembranças nas
conversas, em que ele é econômico nos vocábulos e ela pródiga mas contida... No
momento remexe o instrumental de cozinha e cozinha; queimo lata, admite o dono
daquela pouco mais que tapera incrustada em bairro da periferia vilaverdense.
Esquenta a comida no mínimo, alimento desses pra não morrerem de fome ambos
moradores, nenhum com grandes exigências. Aproveita-se o arroz feito ontem,
tempera o feijão, isto é aquele fervido manhãzinha tendo ficado de molho noite
toda; a mistura quase sempre carne de vaca e uma que outra folha verde do
quintal. Dóqui se contenta não contesta, mesmo sendo apenas ossos com retalhos
de carne e nem exige cozimento nem grande variedade no tempero; o chefe sim é
mais exigente, de uma exigência sem exageros; por sinal não é conhecedor de
temperos, não seja aquele temperinho de todos dias. Enfim contidos homem e seu
cão; ajudados nisso ambos pela idade: a idade não tem coragem e talvez nem
gosto pra fazer experimentações culinárias. Demora na feitura o velho. Ou por
outra: tem dia que a chateação impera e impera fazer de qualquer jeito e
rápido. Mastigam. O representante do Homo
sapiens, ainda grosseiro roceiro na civilização da urbe, esse mastiga de
boca aberta, qual porco, alto qual garoto-propaganda a anunciar o novo-antigo
espetáculo circense; o cachorro barulha também no comer qual cachorro, educado
submisso porém um cão. Os demais sons também barulhentos; os sons do tilintar e
esbarrar prato e lascá-lo pretejando nas bordas, além de ressaltar o vão da
lasca um pouco na louça. Resumindo, sons característicos do almoço do homem
comum; ou janta. Depois a chateação de lavar os trens, arrumar cozinha dizem,
ou amontoar peças sujas usadas e ainda um pouco a grudar. Nisto não se conta
com Dóqui. Seria absurdo empurrar a ele o serviço doméstico.
A seguir a sesta; é uma sexta.
t
Cap.5°
Noutra sexta-feira a dupla – o cão
conta mas não canta na casa nem dá palpite só observa – a dupla recebe o carteiro.
Não. O correio somente passa na rua; sabe-se o como a gente pequena não recebe
ordinariamente missiva e a correspondência em geral não é carta sim conta: o
banco a prestação a cobrança, tudo sem pressa dos bolsos... Tem um dizer popular
saboroso expresso como “uma vez na vida outra vez na morte” e estes picos
vida-morte sempre presentes nas coisas do povo; assim a correspondência trazida
ao passar ali em frente o carteiro. João recebe uma vez que outra comunicação
dos íntimos, essa de hoje curta, longa no decifrar garranchos, os comuns
garranchos, visto que a escola da roça não se aplica na caligrafia na
ortografia na academia; contudo os seres se entendem e entendem que o cabo da
enxada vem primeiro e o possível tempo de sobra é que sobra à escola; enfim os
parentes se desentendem frequente, por fim entendem-se mais ou menos as letras.
Por isso comunica ao Dóqui: meninão, o menino Zé me mandou carta! vou ver melhor
se estão bem. Bem, Zé já um velhote, sendo dos mais velhos quase que o mais
velho deles, comparado com o primeiro que morrera antes, ou apenas sumira;
todos manos mortos ou perdidos, os dez filhos vivos mortos quase todos, os que
saíram de anjinhos não contados; perdidos sim neste mundo de Deus no dito do
povão, ao menos vivos os vivos, estes de cabelos brancos (decerto as meninas
tingidas parecendo mocinhas e tem homem que na opinião joânica não é muito
homem por pintar os fios; tudo não interessando então:) então é o Zé, segundo
ou terceiro entre vivos lá no tempo antigo no campo onde viviam os seus, é ele
quem se lembrou da gente. Por esse carinho da atenção do amo, Dóqui ficou
decerto cheio de vaidade e estufado de orgulho em sendo posto ao lado do amigo,
a receber notícias. Embora o patife estafeta haja atirado o envelope sujado no
corredor sujo de terra perto da porta de entrada, em vez de colocar educadinho
bonitinho na caixinha de correspondência, se bem mal posta e não merecendo fé
por enferrujada. Condena a falta de cuidado do profissional e comenta com seu
companheiro. O Zé, diz – agora anda sentado numa cadeira de pau a ler trêmulo,
ou o papel quem treme, as letras dificultosas do mano a narrar seus feitos e os
fatos; em que as doenças dos parentes se sobressaem aos outros acontecimentos; sofrimentos
dos de sangue e os dos conhecidos, quase sempre desconhecidos por não privarem
com a gente, a gente destinatária, ele – o Zé, diz o amo, o Zé fala de todos
manos e sobrinhos e esposas e sobre os de terceiro e demais graus a se perderem
numa provável embora impossível árvore genealógica; um aparentado morreu, aqui
não esclarece bem quem e o cachorro não fica sabendo e não indaga a saber; sofreu,
narra o missivista, sofreu e conta nos mínimos o sofrer como quisesse repartir
com Batista tantas dores; e isto é bem do feitio do homem comum, nos mínimos
como requer o gosto do roceiro que sempre somos apesar morando na cidade;
inclusive por isso chora. Não. Homem não chora, os antigos machos não choravam,
os velhos sempre desde que o mundo é mundo verteram suas lágrimas. Chora e o
cão só observa, tentando uma leitura do tipo: devo ficar atento? Narra o mais,
mais tendo que adivinhar nas sublinhas, ou suprimidas ou esquecidas ou evitadas
pelas complicações. Aliás escrevendo ou falando direto o homem mais diz quando
não verbaliza o que deseja transmitir ou esconder. Dóqui não se importa com o
somenos do pormenor, só atento. Hora, mais de meia, nessa tarefa o Batista.
Infere interfere prefere sua própria interpretação do que diz o missivista
parente e se conforta; afinal podemos fazer o quê! tão distantes tão perto dos
próprios problemas. Assim se alevanta da cadeira, custa e endireita se
espreguiça, torna ao quintal; o outro se levanta a imitar o outro, se espreguiça
igualmente e segue atrás, à frente os fundos do ‘latifúndio’. Parece a João uma
verdadeira fazenda seu pedaço em pedaço da residência, tapera melhorada porém ‘comida’
pelo tempo se se quiser. Vê plantas sombras ao sol ardido, pássaros irriquietos
barulhentos – essa sua paz.
A paz aguarda um pouco.
Enquanto a leitura, sofrida leitura da
língua escrita do mano – aqui um senãozinho: o matuto e por extensão o matuto
virado cidadão, quando a escrever (não seria melhor garranchar?) quando, lambe
o lápis, ou caneta, agora esferográfica, além de assinalar o papel a quase furá-lo;
o ‘escriba’ então usa da língua e portanto a expressão leitura da língua escrita diz ao ‘leitor’ e no caso Batista, que
esse leitor também molha, não a caneta o lápis somente os dedos de consultar
hieróglifos parentes; ora, o destinatário deveria lamber eram os olhos, os
estrábicos dele. Ah, parece que se fixa no ato de ler no direito, mais verde
que o outro, o esquerdo pior que o direito, entretanto o direito desfocalizado
por causa do estrabismo. Enquanto a leitura labial, João a três por dois toca
seus óculos no nariz... Eles estão encavalados no narigão magro velho, machucam
no encaixe para encaixe; feito pernas estão as lentes pesadas, enquanto pesa
tanto ou mais a parte metálica da armação, ou plástico da armação ou ainda
metal duro no interior e por fora cobertura em plástico mole... enfim ferem na
cava o nariz, sua cartilagem a pele frágil ressecada velha do velho – e dá
aquele quase prurido, um incômodo. Todo mundo já viu alguém de óculos a mexê-los
a mudá-los de posição a movê-los do lugar pondo noutro lugar noutra posição; talvez
sendo ainda mais irritante o atritar lixar enodar a orelha por trás do abano...
agora ao João o atrito mais chato aquele na cava do nariz e aqui o aí ad aeternum. Assim Batista embora fixo
firme na leitura do outro a saber pelo outro irmão o que o restante da família
vive se viva. Fora assim... Não. Não mesmo: seria futuramente assim com os
óculos de não mais poder ver a realidade próxima; quando as servidoras terceirizadas
no velório encavalariam machucando a pele o osso do nariz do defunto, a se ler
aqui e a bastar ser João Batista; ah as flores o caixão o desmanche, este ainda
não consumado e mais para o futuro daquele futuro ainda não passado. Então não
haveriam de mexer também com a gravata de Batista! claro. Uma que em vida nunca
usara, usará agora ao próximo lance que é o sepultamento; estando na antecâmara,
no velório, para depois ir à sua câmara mortuária final.
Bem, a gravata fica bem – poderia ser então
mais bem? – fica melhor em
Trovão. O vizinho, o cachorro do vizinho chamado também Dóqui,
a casa das trovoadas sabe sim Dóqui porque cachorro e moleque todo o bairro
conhece de cor e salteado seus respectivos apelidos; o vizinho seu João (ela, a
patroa de Trovão, diz-lhe baixo ser o Véio)
esse vizinho vê sempre o seu vizinho sair aos ofícios religiosos, às vezes leva
ao culto o filho às vezes a mulherinha, geralmente indo só e não a trovejar,
pois mudo ou silencioso e aí, ai ai: gravata e Bíblia preta, esta debaixo das
axilas desligadas no banho; a cor da gravata João não lembra e que adiantaria
perguntar ao Dóqui! Ajeitam as terceirizadas a gravata, dando acabamento
exemplar a João ficar bonitinho ou a evitar que o chefe ranzinza delas lhes
pegue no pé. Ih que bobagem isto, pois a chefia não usa o pé a ralhar, olha com
olhos e fere as servidoras com a língua...
Contudo o Batista não, sim o mano Zé
um dia aparecera de gravata no tempo da roça e eles jovens; Francisca ainda
viva e mais viva despertada na vaidade e no orgulho por ver o filho mais velho
que o mais novo uma beleza de macho, então serena ela as perguntinhas dos
pequenos ali em roda e impede Batista ainda garoto exigindo não perturbar o
ambiente paradisíaco naquele retorno de José lá da Vila Verde. “Não foi assim,
Dóqui?” Dóqui não responde nem ofende o amo a dizer que quem assistira a tudo
fora Peri; responde sim porém abanando incomodado.
Batista não traja sua cidadania com
gravata, uma espécie a si de forca sem força ser forca no entanto dando-lhe um
sufoco. Lógico não no velório sim ali lembrando-se naquele fundo de quintal, a
examinar flores frutos e pássaros. Ora, a seca braba não permitindo quase
flores e frutos, apenas penas a cair dos enlevos de amor nos galhos. O que veem
ambos é sobretudo folha seca. Toda vegetação anda parada no tempo de morrer; e ao
velho, ao cão também, a ele apesar da idade que atrai em peso mais idade – não
morrera a esperança de viver, bem, seus dias em a noite que se aproximava...
A paz não mais aguarda. Ela que poderia
melhor ser um mutismo ou silêncio um pouco pesado na área seca.
O homem é o homem; ou assim interpreta
o cão.
E um homem com traje comum e que veste
camiseta; lógico sem gravata e de óculos permanentes visto lá longe no reflexo
do vidro da lente – a mesma camiseta diário, que importam os resmungos da
lavadeira quando vem! uma camiseta com dístico na língua gringa dominante,
letras que ele não decifra. Usa certas calças soltas de cor indefinível, gastas
velhas e são sempre as mesmas. Põe uns sapatões, botinas, ou eventualmente
calçando chinelos de borracha; não o Dóqui o João a usar expressão “chinelos de
dedo”, a fim de se arrastar por dentro da casa, do banheiro de tomar banho
mesmo até à salinha de quase nem caber o sofá, ele dizendo sofá, realmente
poltrona enorme, qual paquiderme grandalhão ou dinossauro; ou se deslocando da
sala à cozinha de queimar lata, queimar lata fala sempre. Sintetizando, a
morada deles é uma certa casa, além do casebre aquém do palácio, e isto é fácil
provar pois os olhos não se enganam nunca... Dentro o dono traja assim. Fora,
no exterior da casa, traja assim sem chinelos e a calçar botinonas de elástico,
boas a entranhar os pés inchados ou disformes, ai! ai aqueles calos doloridos;
os calos já de nascimento por haver puxado a genitora, que Deus tenha a mãe...
Dessa forma estão os companheiros de
viagem, a existência é viagem e a do homem quer logo se interromper... Com essa
aparência João se mostra naquela reclusão enfeitada com a presença do cão
amigo, isto pleonasmo visto o cão já ser amigo por definição.
Todavia o velho não permanece qual
defunto no sepulcro, parado dentro do seu imóvel. Seu, porém tendo o corriqueiro
da briga de família em disputa aos bens... Não fica como fosse peça numa
moldura de péssimo pintor. Não. O homem e aqui sem Dóqui, não permanecendo sempre
no seu lar, nem doce nem amargo crê-se: sai por aí. Seria, dadas suas
características, seria absurdo fosse ao bar à praça às ruas e piormente às
residências dos amigos (e amigo é o quê!?) Não. Também não a travar melhores
relações sociais somente para fazer seu exercício diário. Não se aplica à
ginástica corretiva nem à de manutenção corporal – é um andar quase a esmo
porém forçado pela rotina. Cumprimenta, pede licença, comenta imprevisto, fala
da chuva como não fosse e não sendo mesmo o dono da chuva; dá palpite sobre
aquilo que chamamos tempo – enfim enche o tempo. Daí reaparece ela, a maçaneta
enxerida a se intrometer; não trabalha! Sejamos curtos grossos com os grossos:
é aposentado, vai por exemplo ao banco da Vila perceber seu benefício.
Desloca-se também à feira ao supermercado ou à vendinha careira do bairro
quando monta a preguiça, João é dotado da preguiça nata ou por tê-la adquirido
com o peso dos seus novembros nas costas. Então adquire mais caro e paga em
dinheiro vivo! compra enfim na venda. Ora bolas, isto e isso tudo vedado aos
que só vivem (não bem viver...) presos no domicílio. Assim, ou seja a andar
muito e diário, ele economiza remédio; e um dado interessante nesse caboclo é
quase nunca se referir a medicamentos nem mesmo a ingeri-los; o que choca os
mortais comuns que coexistem consigo na periferia. Contudo observa a gente;
preza mais a gentinha, adora crianças, entretanto não consegue delas aproximar-se
e estreitá-las no peito! Quem sabe por falta de netos; o velho nunca teria
mesmo neto. Isto é pungente.
Além disso tem sempre algum negócio
para azucrinar a existência da gente, a gente em procura da paz. Por exemplo o
caso da casa, a casa quase comida pela voracidade da própria gente do sangue da
gente, que são os entes ditos e tidos por queridos. Azucrinam muitas e certas
incertas coisas, que se repetem secularmente milenarmente, como a questão da manha
de manhã na criança ou o lamento do velho na tarde de sua noite; pior o desejar
abocanhar o que de outrem e é o que mais se repete, aqui válido não ao menino
nem ao velho mas apropriado ao adulto de todos gêneros; o adulto já passada a
manha e a manhã e não chegado ainda ao lamento do velho já no acender a vela de
parcamente iluminar sua noite a se apagar (não a se apegar ao que não é seu).
Tanto que o milênio não ensinou direito o adulto que aceite a própria situação
ou condição, e daí a desejar o que dos outros... Assim vai refletindo ao andar
lento o lento Batista, num pensar pelas vias públicas. Cada vez que se lembra
relembra o sofrimento por que passou anos atrás; pois caso o desentender for
lícito, não é de bom alvitre se desentender com parentes. O diabo, diz Batista
quase a falar alto sozinho e dando ótima má impressão em quem ouça; o diabo – e
aqui olha em torno ver se vê Doqui para comentar, não vê, sozinho mesmo e a
fazer caminhada pela Vila – o diabo é que o Zé e... (nisso declina uma relação
enorme de irmãos irmãs cunhadas um cunhado arreliento e uma comadre desse tipinho
que adora pôr fogo na fogueira já crepitando: todo mundo contra um só João
Batista, que fosse bem acompanhado pelo cachorro, ainda não nascido). Bem, essa
gente encapetada quisera tomar-lhe o único bem: a residência.
Continua nos seus passinhos a arrastar
botinas no calçamento pedrado e no asfalto negro, neste quando o piche já a
cheirar as vias públicas para que estas cheirem modernidade; modernidade
iluminada com lâmpadas de mercúrio a refletir no solo. Ora, os botinões não se
importando com isso e talvez tão somente culpados pelos tropeções; nem se
importando com tropeços a cabeça de João lá em cima no ver e pensar. Enquanto
caminha, seja na berlinda ou como um desconhecido fantasma invisível; enquanto,
surgem as surpresas: ou é um cão bravio, desses que a gente instiga o Dóqui
para nos defender; ou um falatório do tipo o melhor no bate-boca de rua; ou o
que mais se vê no sábado, é um fim de semana, o que não muda o ritmo do rito a
que o velho se propõe visto a um idoso não existir os porquês de feriados e domingos;
enfim alguém e depois outros mais, alguém lava seu carro. Parece de início
prosaico demais, mas o automóvel é nestes dias um deus; tudo gira em torno
dessa divina criatura. Quase atinge ela a altura de outro deus, um talvez mais querido
e mais poderoso em nossa época, que é o celular. Ajeita-se bem o deus, limpa-se o deus, esfrega-se o deus, lava-se o
deus, e se explode na vaidade e no orgulho possuir o deus para que o deus o
possua e se torne ciumentamente exclusivo! É um assim que vê, vê durante as
horas da quase monótona marcha, se bem não cadenciada nem com sabor a alto coturno,
seria de baixo coturno entre mil outros. É um assim. Observa as mãos, as mãos
lavam esfregam alisam secam alimpam, quase assopram detritinhos inconvenientes
e criminosos, do tipo lesa-majestade. No entanto se envergonha por andar
estático ali e se põe a andar, reandar! Teve no instante vontade narrar a Dóqui
o abuso absurdo de se embelezar um deus tão corriqueiro nesta era perdida; pessimista,
prossegue. Entremeio a cães faladores e bravios ou bravios só na língua; e a
deuses em cada esquina a imitar lava-rápido lava-jato, entremeio vêm ideias
quem sabe tacanhas se não doentias a visitar sua mente, na área da memória. De
fato lá vem de novo qual bate-estaca imagem a reavivar o entrevero entre
parentes... Claro na caminhada haver topado alegremente manifestações da meninada,
os pequeninos umas gracinhas, e até sorrido; curioso não termos, gente, temência
a sorrir em público; enquanto o choro apreciando melhor os compartimentos mais
velados mais escuros mais solitários. Batista anda ao deus-dará, encontra
deuses pelados e lavados, encontra cães e meninos na brincadeira – porém também
refém quase dela, a ideia fixa, ela lhe reaparece (não não, nada de maçaneta,
nem porta possuindo a rua; não:) a recordação infernal e inacabável por sem fim,
enfim o se lembrar da discussão na guerra pela residência, a sua residência!
Ora, falaram tanto, os mortos morreram e deixaram o bate-boca aos vivos
restantes; formaram-se grupos, uns mais atrevidos exigindo punição ao
açambarcador de propriedade, ele, ainda novo; outros um pouco mais flexíveis e menos
legalistas. Uns dois ou três entre briguentos – e aqui auxiliados por gente de
fora como interesseiros rábulas – pleiteando exigir ação judicial e despejo...
A troco de quê! e se respondendo, sem
abrir sequer a boca (será?) a troco dum casebre num pedaço esburacado da periferia
de Vila Verde; já antes despojado por outros espertalhões que lhe tomaram parte
do lote avançando no terreno, inclusive a construir muros para isolar o
morador, herdeiro da família. Na discussão entrara a fortalecer argumentos
inventos bem imaginosos, segundo os quais o Batista houvera largado o pai (ah,
mentira que bebesse...) deixara o infeliz morrer à mingua e sem tratamento;
mais que isso: teria João apressado o passamento paterno, ministrando pílulas
certas em horas incertas. Para quê! indaga responde: a fim de ficar eles com a
propriedade! A justiça propalada cansou desistiu; o fisco cansou após receber
parte das taxas devidas pagas por um aposentado, um a então receber menos que o
salário mínimo. A morte e a doença engoliram línguas ferinas e Batista deixara
que o tempo lhe desse se não razão a paz, embora apenas no que tange à sua
casinha. Uns poucos cômodos estreitos num estreito lote, embora com
eletricidade e por último ter água encanada e promessa de esgoto; isto levando
a memória do velho se lembrar do fedor na latrina de buraco, mui apreciado por
baratas.
A troco de quê! insiste. E nisto quase
pego por uma condução um pouco mais desatenta no trânsito.
Batista a andar sozinho, revolvendo a
vesparia parente em guerra contra um exército de um só homem. Só e a conversar
consigo mesmo; outrem, passantes passando também ou indivíduos agrupados em
bate-papo e armados com a faca da curiosidade ‘normal’ no comum do povo; em
suma, toda gente sequer tomando conhecimento dos dramas de sua consciência,
notando unicamente um corpo velho de velho, cansado no cansaço que provocam os
anos; um corpo de homem com óculos grossos e com andar engraçado.
Cap. 6°
Aqui entro eu, eu autor destas linhas;
entro não para fazer companhia ao velho Batista; nem a alertá-lo para um
possível desviar-se do veículo quase a atropelar o passante. Entro se não a
questionar, analisar o imbróglio até aqui neste ponto; a explicar um pouco os
cinco capítulos anteriores e suas propostas... aliás não houve proposta nenhuma
digna desse nome.
Ao lado dessa abordagem, me aparece
sem que veja, certo probleminha: ali porém meio longe, ouço o picotar barulhento
da talhadeira dum oficial-pedreiro a quebrar desfazer desmontar parede, sei lá
se parede, ouço na vizinhança. Vejo esse pobre já suado e talvez não a bendizer
o seu ganha-pão; num descuido derruba a ferramenta – terá acertado no erro o
dedo! – a dor o talho o sangue o inchaço a raiva ou só indignação e o trapo
feito esparadrapo, terá quem sabe urinado no dedo moloide, não mijado na
marreta ofensora vingadora e isso costume do caboclo fazer lá na roça e aqui na
urbe (não digo na acanhada Vila Verde:) na urbe onde firo estes traços. Terá o
mestre ou auxiliar da colher de pedreiro preferido proferir uns nomes feios,
belos nomes ao tamanho de sua dor no dedo por raiva e é nisso haver parado em
pausa ao acidente ao cansaço ou ao cafezinho que a dona sempre traz para o
ajudante submisso à marreta, a fim de aliviá-lo do excesso; ela acha assim,
assim não acha decerto o marido, o qual se vinga da desdita ou só a contraditar
a mulher, não pagando os dias de bateção sem parar: ora, diz, querem me destruir
a casa ou o mundo! se vinga não pagando ou retardando o pagamento e pronto. O
operário bebe, não beberica o café no estilo civilizado, bebe mesmo chupando
alto, assopra antes barulha depois e imediato engole a infusão, ansiando também
uma cota de pão noutro dia e aqui a parede já no chão ou no chão os cacos e ela
com buraco parecendo gente sem dente e de boca aberta arreganhada.
Contudo, isso interferiu na fala do
autor; o autor fala sobre Batista e antes quer analisar e certamente espinafrar
os cinco apressados primeiros capítulos, anteriores a este sexto capitulinho.
Deixara a pena correr, ao sabor dos
motes sugerindo motes outros, soltos e ao mesmo tempo sujeitos à imaginação; a
qual os olhos leitores poderão afirmar doentia...
Bem, um cadáver a se decompor.
Temos uma introdução meio sem
proposta; mas proposta como! se não tinha sequer ideia onde possível ir com a
caneta... quem manda na mão é a caneta – seria mandona uma enxerida haste de abrir
a burra porta? não. Enfim sem projeto e ao deus-dará; posto que introito a esmo
e nem ele se salva estando tudo sujeito ao sujeito da primeira palavra ou primeira
ideia que surgir sugerindo a sequência.
Todavia
o personagem principal e as personagens que lhe alicerçam existem. Tanto existe
que no segundo capítulo esse importante ser jaz temporariamente num velório.
Aqui aguarda liberação à sepultura – lógico: haveria de ficar exalando perfume
deletério ao planeta? – no sepulcro sim jazerá definitivo. No seu velório, mil
vezes vistos os dos outros antes e portanto não criado por nenhuma doentia
imaginação; no velório é que se ressalta a formalização oficial e o trabalho
simples entretanto sem acato ao valor dos funcionários terceirizados.
O distinto defunto João Batista, sei
lá de que já esqueço os sobrenomes; ele perde acham-lhe os óculos, põem-nos encavalados
a machucar o nariz na junção do nascer das sobrancelhas ou final delas; nunca
descobri também na minhoca onde início onde fim só o meio; e assim a cava ora referida
é ferida no desajeito das servidoras. Aqui introduzido o primeiro dado básico
deste romance e seu questionamento: servem as lentes a procurar e a constatar a
realidade próxima. No entanto servirão à distante! respondo não, ao futuro
apenas um binóculo, este com alcance maior, bem maior que a cegueira nossa de
nossos embaciados olhos. Porém os parágrafos a seguir descobrirão que a verdade
mais ao longe, para frente, tal verdade sequer se satisfaz com o visor
binocular... Chegaremos lá. Ainda nos primeiros capítulos o próprio Batista
chega à conclusão nesse particular e até lamenta não poder com seus óculos
possantes e caros (no sentido de gasto também...) interpretar nem se fale, ver
igualmente o passado. Ora, nisto entraria, pensa o velhote, o binóculo.
Felizmente o matuto não arranja na ocasião um binóculo para tanto, ou enlouqueceria
ou enlouqueceria a nós todos.
Os óculos – agora nos fixando às
páginas do primeiro ao quinto capítulos – eles permeiam toda a vida, esta que é
ao homem comum apenas a existência atual; no caso joânico um ser católico e
fosse evangélico dando no mesmo pela mesma crença. Toda vida gira em torno dum
par de óculos. Sem as lentes um cego. Aliás quando se senta inadvertidamente
por sobre os pobres vidros... e por sobre a já cansada e ordinária armação, é a
cegueira, a qual atinge inclusive o Dóqui.
Ah o Dóqui. Não se confunde ao Peri,
com este o amo não manteve diálogo... Dona Francisca falava com porcos com
galinhas, de igual para igual. João Batista, já idoso enquanto a mãe a alimentar
a necrópole de Vila Verde; não conversando jovem com o outro cachorro da casa,
no entanto muitíssimo com o Dóqui. Este se torna comensal no dia a dia do velho;
e se identifica com o dono, se identificam tanto os dois aliás, a ponto de um
enfermar adoecer o outro. E a se recomporem (não! não pode que a enxerida
maçaneta feche não a porta mas os olhos de ambos?) enfim o homem e o cachorro
se refazem numa conversa saudável no fundo do quintal da tapera.
A casa é modesta (feita de pau a
pique! ora, quanto abuso:) feita de madeira e ultimamente as leis de Vila
exigiram cômodos de alvenaria na cozinha das casas e nos seus sanitários; aqui
tendo que derrubar a fedorenta privada de tábuas com seu buraco... claro não se
derruba buracos só a chamada “casinha”, assim se referem os matutos ao cômodo
de tábuas por cima da cisterna; a cisterna e suas baratas, mil baratas,
acrescendo portanto ao corpo da residência a cozinha e o mictório de tijolos,
exigência legal por melhora da área com assentamento de esgoto. Lógico,
brasileiro, o munícipe pichou horrores as autoridades impositoras. Entretanto
ganhou na valorização da propriedade. Nisso a aumentar também no seu ganho,
equivalendo num aumento também da perda dos parentes interesseiros a desejar tirar
do parente a herança.
Continuando esta continuação, agora
Batista de óculos a renovar ampliar a visão estrábica, um olho verde outro mais
verde em estado de nervosismo ou ansiedade, enfim observa foca vê interpreta
como ótimo arranjo o novo-velho imóvel, ao apreciar a casa. Talvez aqui
enquanto examina, remexa a dentadura solta nos emagrecimentos pontuais, porque
magro sempre; e aqui a afrouxar a dentadura, perdera eventualmente alguns
quilos; remexe e o cachorro não critica, apenas observa foca vê interpreta o
amo nisso.
O cão entrara no texto a circular nos
capítulos, assim como Francisca e mais que esta aquela Chiquinha, dona Chiquinha
porque João nunca estenderá a intimidade à personagem; quiçá na política
patronal: nunca um chefe pode arcar-se ao submisso ou perde a autoridade. Em
todo caso, Chiquinha qual agulha, fura puxa alinhava o tecido que envolve o homem,
e também o cão. Possível que o homem vendo de longe a saber melhor o perto, até
com auxílio da garrafa das lentes grossas; possível sim andar então a fumar
tragar insultar depois a pureza do ar, soprando fumaça; parece que não se vê
estando com o cigarro nos beiços, tal qual não percebe o amarelo dos dedos pelo
tabaco... Fica embevecido o proprietário, e sossegado (quer dizer os parentes
deixaram de vez importuná-lo na questão da residência).
Enquanto aprecia a nova construção ou
conserto na velha construção, agora de alvenaria nos pontos básicos ou seja a
cozinha de se alimentar, o mictório de defecar, o resto é a casa pobre seca
rachada desgastada na madeira a fugir ao menos ser tachada tapera – então
repensa, repensa visto nunca na percepção um homem pense como exigência ser o
primeiro objetar sobre uma ideia, ao contrário se toma por já haver pensado mil
vezes o mesmo... Não, nã nã diria João; não é afirmativa absurda o exposto,
embora uma tese e todas teses podem ser destruídas por um vento inteligente no mundo
dos absurdos. O fato é que Batista por quaisquer cargas d’água, talvez por
associação de ideias, relata outra vez suas conquistas; ora atira fora sua
timidez doentia, e refaz o recontar, a Cida a Mariquinha, felizmente (pensará o
Dóqui ouvido ouvindo) felizmente esqueceu-se das outras mulheres, mulheres por
ele apaixonadas ou juvenilmente apaixonado por elas e aqui nomes para quê!
Todavia o velho acorda e completa: besta eu, já lhe havia transmitido esses
romances de amor, não é, Dóqui. Dóqui não responde.
No quarto, não me refiro ao dormitório
onde ele, eles o cão dorme comportadinho ou com temor ao ladrão no quarto no
canto no chão próximo à cama do amo; não onde dorme o amo sua insônia. Não. No
quarto capítulo, temos o escorrego da atenção, quando se senta espatifa óculos
na poltrona; troca o instrumental e passa a melhor ver as coisas, coisas entre
as quais muitas deveríamos não vê-las. Chegam-se ao fundo do quintal ambos, a
fim de descrever o tamanhinho da propriedade (nossa diz a família, minha diz
Batista) e aí descobre vestígios do ladrão e da fome felina a engolir decerto
até alguma pena. Atira restos inteiros de fatias de bolo embatumado da ‘chef’ dona Chiquinha às criações de
Trovão, o assíduo evangélico e vizinho dele, deles o Dóqui conta, não demais
por demais velho e doente.
Que mais!? ah sim, o morador – aqui o
cachorro não se vestindo realmente não deve contar – esse intrépido andador nas
ruas sonolentas de Vila Verde; tal morador além de solitário (e o Dóqui!
interfere a maçaneta:) está bem, moradores;
o morador além de solitário é useiro e vezeiro numa questão: tem sempre a mesma
roupa a virolar pela cidade; na peça de cima, encardida grita a lavadeira,
nessa peça tem uns dísticos em inglês a rogar... não rogar, rogar é dose: impor
imperar improperar digo, propagar as bênçãos do consumismo e de sua matriz
paradisíaca de Primeiro Mundo. A mesma a mesmíssima camiseta diário reza “I Love etc. e tal”.
Mas eis que advém a chegar
fortuitamente inesperadamente a dor de cabeça – a que matá-lo-ia a ofertar o
João a quase inaugurar o velório municipal? não sabemos. Saber causa para quê!
se basta deixar de existir, segundo o homem da rua. A dor de cabeça a merecer
panos quentes no sofredor e silêncio no companheiro Dóqui.
Partamos agora, ainda no trato deste
imbróglio, aos quintos... tinha na época em que vivera a dupla um dizer,
ofensivo, “vá para os quintos!” era certa indignação própria da canalha e da
boca suja da plebe; porém não uso o vocábulo nesse sentido, só a enfeixar no
sexto dados do quinto capítulo. Chega o carteiro, melhor: passa ele naquela rua
paupérrima do bairro, aquela? dita apesar de sem placa Rua das Perdizes,
decerto tendo havido muito perdiz no tempo antigo e antes de Vila ser Vila; não
tem mais aves ariscas, tem é sujeira espalhada ladração e moleque brigando ou a
soltar papagaio, o papagaio que a tevê exige que os meninos pronunciem “pipa”.
O moço estafeta passa deixa uma carta do mano Zé ao mano João, atira a esmo
qual aviãozinho dos moleques a missiva; e se indaga o morador, se fosse conta! o
que mais a vizinhança recebe é conta, uma para pagar, uma dos meios financeiros
que gozam e rolam a gozar no país tido como paraíso dos banqueiros. Não. A
carta é aberta e assim comunica o destinatário as encrencas de família de sua
família dispersa. Enquanto narra o desfecho dessas encrencas familiais, certamente
toca mil vezes nos óculos, no conjunto e na parte que mais incomoda e fere, na
sela do cavalo que é seu nariz; terá ao mesmo tempo deslocado a armação a se
dependurar das orelhas de abano; algo chato, que me desdiga, possa, alguém a
usar como uso neste momento óculos pesados; se bem que de melhor qualidade que
os bambos joaninos.
Uma
coisa... uma!? uma sim, marcou o autor na posição de revisor do texto – o
prazer o apego do Batista às crianças. Por elas inclusive tolera a lavação de
carros nos bairros remediados de Vila por onde o solitário, mais solitário por
andar sem o cachorro, por onde passeia.
Passeia ou rotina sua rotina vendo o
que vê. Vê demais.
Ah, como pode apenas um solitário
observar tanta loucura...
Cap. 7°
Numa
filosofia chã e bichada de beira de estrada, cria e repete repetira repetirá toda
hora ora a Dóqui ora a si mesmo “ou ocê mata o tempo ou o tempo ti mata”; o caboclo
na roça assim como o homem da rua na urbe acanhada, não tem compromisso nem com
a concordância nem com as letras e quem sabe nem com a verdade. Nisso e em
tudo, comparado a outrem igualmente homem comum, Batista é um ser singular. Não
por andar velho e por velho já quase não andar mais ele cisma, ainda que se
movimentando por aí. Ademais o morador da rua das Perdizes é acanhado, “sou
vergonhoso” explica a justificar sua timidez na relação estreita com os outros
moradores no bairro e com estranhos na rua; e assim vive, se isso viver, vive acabrunhado
na sua área residencial e mesmo a vaguear por aí; e aqui não estica conversa no
bairro e fora dele com ninguém, não vai bem também nem além do bom-dia da
boa-tarde; nunca a assoprar boa-noite, não pondo a cara fora no escuro; mesmo
porque um roceiro urbanizado e roceiro autêntico e do tempo em que havia roça,
um assim dorme com as galinhas acorda antes dos galos se insultarem... Evita ao
passar parar na sua rua indo à venda ou vindo da venda (a venda à compra? a
venda para compras miúdas nas coisas que faltam lá em casa, poderia comentar) e
por isso, parando, parasse, fatalmente a precisar ter que manter conversação
com alguém; alguém? quase sempre sendo elas, as vizinhas comadres das comadres.
Expostas tais ideias, vemo-lo de vez
em quando a se arrastar. Batista tem lá um jeito curioso no andar, não ginga
sim arrasta um pouco e meio imperceptível pra quem não demais atento, num jeito
de puxar como se puxa a orelha um dos pés pelo outro – e isso traz fora do
bairro já habituado um interesse e um gozo nos que veem. A vizinhança pouco observa
o modo de andar, ou por outra: nota inclusive muito... Agora o fato é estar
indo à vendinha... Esta venda serve para o que falta lá em casa, diz Batista ao
Luís Vendeiro; ou não diz coisa alguma: paga mais caro que o caro no supermercado
mui longe às suas pernas curtas; paga, sorri uma interrogação ou uma exclamação
banais e torna ao Dóqui. Não, Dóqui não tem mais como teve antes coragem para
acompanhar o dono ao bar nessa altura do final de sua vida, encolhe-se dormita
sonha e, ai que bom, não mais tem pesadelo.
Assim circulando o velho ainda nas
Perdizes, assim não pode evitar ver as rodinhas onde se decompõem as coisas erradas
e mal postas do mundo ou seja: as comadres suas vizinhas consertam os
desconcertos da sociedade, mormente aqueles próximos delas. Num dia numa vez
duma incerta hora, não sendo hora nem nada do dia de juntar roupa suja (não se
trata aqui do remexer os podres dos outros, mormente das outras
porque mulher adora pichar mulher...) de juntar enrolar pôr na cabeça levar
lavar; sim, referência à dona Chiquinha, Chiquinha estando com as outras nas proximidades...
Batista não sabendo evitar ficar na berlinda por causa da servidora... e afinal
como ir à venda em compra sem passar rente às comadres! iria absurdamente em
sentido contrário e dar a volta pela rua de baixo ou pela rua de cima para
chegar na boca, na orelha melhor dizer, na do Luís Vendeiro e pedir e pagar e
levar e admitir uma falta na venda no seu estoque da necessidade lá em casa!?
absurdo. Então, corajosamente passa pertinho delas, enfrentando o grupelho,
“bundía” machuca a língua padrão o velho; olham respondem, passa olha, educado
sim mas deseducado ou hipocritamente faz como que não vendo no meio delas dona
Chiquinha (e se... se pergunta não respondendo silencioso temeroso que ouçam o
pensamento); nota a serviçal senhora e, ora, prossegue rumo à venda. Ih se
parasse um pouco que fosse: pagaria o tributo de franquear suas intimidades, as
quais com certeza a lavadeira já tendo acesso. Aí, ai! aí se indigna: e se a
tagarela passar mentiras a seu respeito, a respeito dele patrão, às demais
comadres! Não importa. Sim, importa um pouquinho; e quando vê, vê-se já na
venda.
A venda é o de sempre. Ele percebe um
punhadinho de gente, gente que o percebe também e gente que não mais vê vendo
somente através do olho da bebida. Beberica-se, fala-se, não se ouve ou
houve-se por bem mal falar falando baixo; uns sim gritam pra chamar a atenção
do Vendeiro novo, novo aqui posto perante o velho Batista. Batista diria aos
que oferecendo cachaça ao recém-chegado, que ele só toma leite, pra mentir de
verdade; o Dóqui diria ao mesmo bebum a ofertar a oferta que seu amo não se
alimenta de leite: só de café e fumo, fuma sem parar e nisso mentiria se
mentisse, visto ser já meio dia e hora de almoçar e jantar no jantar, quando
come arroz feijão e mistura (o homem do povo fala mistura aquilo que lhe serve
a ajudar engolir um arroz-feijão). Tornemos ao ambiente sórdido dum bar de
periferia. Bebem, falam, até discursam se bem bem alimentados com mais líquidos
alcoólicos que os de costume; e compram. Vem lá o menininho buscar o que
necessário a mando da genitora e o Luís já sabe: registra no pendura do marido
dela, ele e eles todos a pronunciar “pindura”. Não. Batista não compra na
venda, compra mas não a prazo de égua, assim se expressa a gente que adquire
sem dinheiro vivo as coisas. Vêm outrinhos meninos e outros adultos compradores.
Ou estes somente para a conversa-fiada. O popular estouraria com tanto saber
tanta informação que tenha, não pudesse exportar o que sabe a outrem; pouquíssimos
são iguais ao velho João, contido se não vergonhoso e a temer narrar suas
coisas em público. Vêm
vizinhos e vizinhas da vizinhança pegar no boteco da esquina o que lhes
faltando em casa.
Faltando a Batista não o leite e curiosamente nem bebida de
zonzear a cabeça da gente: pede agora tão só pedaços de linguiça, daquela que
vem engatada qual composição de trem quando havia trem no país; pede retalhos
de carne-seca, jabá na linguagem deles todos. Mais caro? mais caro que o caro
no supermercado e no açougue do bairro, tudo longe da rua das Perdizes. Pesa
entrega paga leva, leva o João recebe o Luís, paga com aquelas notinhas miúdas
fedidas desvalorizadas, enquanto as graúdas ficam guardadas nas mentes dos que
veem, dos que recebem, dos que não desembolsam e também dos que não revelam
segredos qual banco – tudo absurdo decerto ao ladrão em potencial. Por esta
razão o velho olha examinando aqueles olhares ‘puros’ da plateia ali na venda.
Segura com unhas e dentes o embrulho, antes fora embrulhado pelo Vendeiro no
preço exorbitante escorchante. E se vai nos passinhos de volta a Dóqui. Ah que
bom, que sorte grande: elas se desfizeram, as rodinhas como o vizinho picha;
desfizeram-se os ajuntamentos para as mulheres ir preparar almoço, antes disso a
se rir e rir por quê? indaga no miolo o velho. Entra no abrigo. Abana, quem
abana é o Dóqui. Antigamente ele farejava de longe o embrulho salpicado do
vermelho da carne do açougue que o amo trazia nas mãos enrolado por cima do papel
menos sujo, o mais sujo sendo o jornal. Às vezes até ocorrera de ficar
cheirando gostoso as letras manchadas atiradas ao chão ao vento pelo dono, após
este reforçar seu próprio conhecimento com a leitura no trapo de jornal, a
embrulhar a carne vinda do açougueiro, tendo notícias velhas sempre novas ao
matuto comprador. Agora não: Dóqui ou não cheira direito gasto o faro, ou
cheira sim com aquele focinho negro brilhante ainda, porém nunca soube nem hoje
sabe ler; preferindo mais o gosto da carne manchando o papel; e até nisto
falha, falha já o sabor também. Aqui neste ponto se encontra com seu amo, pois ao
amo já falta semelhante o gosto autêntico; assim ele reclama com o
cachorro-confidente o prato não ser tão saboroso como o que preparava antanho.
Coisas de velho; de velhos.
Dona Tonica – seria Antônia? e pouco
importa porque logo esqueceria como esquecera outros tantos apelidos de tantos
– dona Tonica é uma comadre retardatária entre seus pares, as outras então
barulhando no tilintar trens de cozinha na cozinha onde se cozinha, preparando
a comida; ela não, o seu homem não viria do trabalho se queixar do almoço dela
e, além, não tendo filhos o casal; portanto livre para reforçar as rodas de
papo, no entanto sozinha agora na rua, a vassoura chep-chep e olhos pra ver, examina,
vê passar o velho, o velho orgulhoso diz ela quando pode dizer ou então só
pensa; observa o vizinho entrar pelo portão e batê-lo fechando, se fechando aos
fechados lá dentro, ele e o cão ambos estragados pelo tempo e a idade. Aí some
naquela caixa de surpresas, pois imaginam comadres (e comentam entre si) o que
será que tem lá dentro! tudo proibido à curiosidade vizinha, à da vizinha Tonica
por exemplo. Por fim junta junto outras sujeiras a sujeira e acondiciona num
saco plástico – hoje em dia apenas gente não é feita de plástico ou só não
partes da gente – amarra em nó forte, põe o embrulho na lixeira; as outras
mulheres não têm lixeira na frente de casa, menos o velho munheca tendo, ninguém
mais com lugar decente ao lixo nas Perdizes. Ainda olhadela ver se ele não
tornou fora, que seja em pôr seu lixo; decerto o homenzinho atira as porcarias
no quintal mesmo. Nada. Tudo certo, se resguarda a mulher no seu doce lar; com a
televisão?
Batista queima lata, aprecia a própria
criação nesse dizer; agora prestando
mais atenção no que faz, faz a comida e o Dóqui xereta ali nas pernas dele; já
não igual fazia antigamente se enroscando nos pés do cozinheiro em chefe, hoje
sem coragem num canto, aspira o vapor a fumaça que sobe da panelinha onde nacos
da vianda seca recebe tempero a cozer com a carne. O velho cheira tudo e enruga
um pouco as bochechas num desagrado pelo odor da comida; puxa, não seria que o
Vendeiro vendera estragado!
Comem. O amo resmunga não só pela
falta de fome que contunde e confunde a saber o sabor; mas diante da sabedoria
de sua ignorância, resmunga por faltar algo na refeição e na vida, mais nesta.
O Dóqui não tem minhocas na mente, nem mente o saber: mastiga; porém idoso e já
estragado, sabe agora mastigar mais cuidadosamente e sem a gula que o fizera em
jovem engolir inteiro (ah e também vomitar depois, diz a crítica do amo). E
assim, após ‘lauto’ almoço vão ambos dormitar seu quilo, o humano sentado na
poltrona, de óculos pra decerto melhor ver o sonho no sono... Enquanto que
Dóqui de fato dorme no chão nos pés dos olhos dos óculos, estes já um pouco
despencados despregados antes encavalados no narigão do amo.
Ora, não seria uma forma também a
matar o tempo que mata?
Cap. 8°
Os passos do tempo, indefinidos pela
nossa santa ignorância no atual estágio terreno, andam a anos-luz dos passos
largos talvez quilométricos do binóculo – feito segundo concepção joânica para
enxergar longe rápido distante claro (aqui não demais claro...) e num pior
comparado com os dos óculos, estes mais lerdos em passos lentos pra se distinguir
próximo o escuro do claro, claro aqui – pensa Batista. É o Batista antes de
romper a cortina interposta e embaralhada do sono, ali ao sentar-se na velha poltrona;
a poltrona que é pra si um trambolhão móvel no imóvel, o imóvel é o lar doce
lar onde um velho teimoso em se não acabar vive com um cachorro; agora ‘embiscoitado’
a dormir no chão e portanto não vê o amo vê o sonho, decerto no sono solto a
dar água na boca humana; sabemos pela fala humana que o humano não dorme a
contento nunca ou dorme sim burlado pelos dramas também humanos que ultrapassam
a manhã a tarde a noite – é noitinha agora; e, assim, perturba a paz, impõe o
pesadelo; inclusive outro dia, noite profunda em sono leve, gritou! sob alarme
certamente do despertador ou pelo barulho do Dóqui e ou pelo do Trovão nesse
‘pesadelar’. Contudo, sentado, mantém os óculos encavalados não obstante a
poltrona que não é para dormir, e acaba engrenando o sono – estando esse móvel
gasto esdrúxulo grande na sala apenas a descanso sim e sobretudo para ver
televisão. Daí dormita por fim dorme. Sequer ouve o despertador barulhento, não
no tique-taque educado sim no tique-toque grosso chocho irritante inimigo por espantar
o sono o sonho o pesadelo até; nisto a acordar piscar olhar e notar lendo os
ponteiros e então exclamar “mas já onze horas!” para quem durma com as galinhas
num costume de roça antiga e se levante com o cucurucu dos galos é tarde demais!!
O Dóqui não segue tais normas: dorme, não desperta com a voz violenta do
pesadelo. Aí constata a tevê ligada, já deveriam estar ambos desligados, ela a
economizar energia, ele pranchado na cama. Não. Encontra-se sentado semicaído
de lado na poltrona, os óculos uma parte despregada da orelha; assim acorda de
vez e de vez se conscientiza.
O programa nas baboseiras costumeiras que
a traiçoeira mídia despeja no freguês já é outro, outras... Sentara-se após a janta
– machão daqueles de dantes antes de abrantes não o faria para ver novela, só apreciando
propagandas notícias e outras mentiras, mesmo porque o mundo estaria perdido com
as mentiras, ele sempre afirma. Sentara-se no matar tempo a tempo de não dormir
antes das galinhas entretanto desligou-se bem antes de desligar o aparelho, por
sinal muito bom analogicamente falando; só a antena lá fora irritando irritada
a bater contra a ventania, o que consequentemente remexendo nas imagens lá
dentro, importando pouco ao costume por costume da assistência, ele; somente o
Dóqui não tendo atração pelo vídeo. Tudo disposto por uma colossal descoberta
desse velho pensador dos tempos: o botãozinho mute, uma inovação sensacional para se ver televisão sem se irar
pelo vozeirão do aparelho; um que anula o som! Aí, premido, desliga o som liga
a imagem; e vai que lhe apareça uma linda mulher... submissa ao horrendo âncora
porém bela assim mesmo, num mostrar a mentira do tempo da chuva do desastre,
este que fatalmente ocorre noutras regiões longe... Assim Batista tendo por
hábito ver de fato televisão, não de fato escutar tevê. Agora fora ora traído
pelo cansaço ou para imitar o ronco do Dóqui, o amo também embarca nos braços
de orfeu (não tem um negócio assim, se pergunta um dia; orfeu ou morfeu? e
dúvida para quê! já sabendo referente a sono). Enfim apertou botão para
amordaçar a boca ou apenas adormecer a língua televisiva. Entretanto aparece outra
questão relacionada – não o se livrar da audição mas no caso específico da
visão – sequer isso precisaria nos últimos tempos ocorrer (houvesse para uso um
‘mutinho’ equivalente à vista) pois bastando ao João pra não ter que ver algo,
tirar os próprios óculos de enxergar para melhor não enxergar, e em presença da
tela: bastando deslocar as lentes do narigão, pronto, Batista a ficar cego; não
entrevendo nem a propaganda, isto que é o que mais oferta as televisões aberta
ou fechada.
Todavia e o gasto desse aparelho
esquecido ligado consumindo muito ao pouco de sua aposentadoria! Doeu-lhe lá
dentro visto o homem vivendo a fazer economia, toureando abusos; aqui somente
podendo inculpar-se: o cachorro nada a consumir. É e não tem aquilo de não adiantar
lamentar o leite derramado? desligou, tirou o plugue, exatamente na horinha em
que mesmo muda mudos dois debatedores da corrupção política nacional se
estraçalhavam e se mordiam; aí sim emudeceram de vez. Desligou também a lâmpada
da saleta e se foi aos lençóis. No caso, removeu guardou os óculos pois o sono
não precisa lentes de aumento. Não dormiu só esperneou, a fim de que noutro dia
pudesse ficar irritadiço e mais pessimista; talvez a descontar nas coisas, no
Dóqui.
Acordou um pouco irritado no dia
imediato, a curtir sua rotina. A rotina ao homem comum é o comum naturalmente,
ou seja ele não vendo o que vê e por vezes vendo sim até o que não existe; enfim
desse jeito por sua interpretação, a se repetir por toda existência. Felizmente
pra si sendo o mais suportável a situação por haver um amigo e tanto; com quem
conversa dia inteiro. Quando não disposto a esse diálogo (o Dóqui sempre se
dispõe ouvir) então se ocupa noutras coisinhas, além de remexer e ver o quintal
com suas plantas; ou se pega a espraiar-se andando por aí nas compras nos
pagamentos de contas ou no recebimento da aposentadoria. Rotina. Quase incomum
é sentar-se na poltrona para ler. Ler! Batista de poucas letras, em menino errava
na lição e inclusive na tabuada; agora o caso é o ocaso e sem coragem a
traquinar qual outros meninos, o velho se põe a consultar a velha cartilha, um documento
religioso herança de Francisca, ensebada amarelada rasgada até numas folhas,
claro ser a cartilha não a mãe; ele na velhice com um hábito não trazido da
infância. Trata-se de Batista tomar um texto mas com auxílio dos óculos, ótimos
pra ver o perto, no livro magro fino pequeno gasto. Enquanto, não vê a hora
passar e a rotina não deixa apreciar uns maus hábitos, como por exemplo o de
não notar um seu ridículo: fica em todo momento a remexer sua dentadura postiça
com a língua, frouxa a dentadura óbvio, sem naturalmente ofender com isso o
cachorro, o qual aprecia olhar lá em cima; o hábito ocasionaria quem sabe nojo
noutro ser humano que visse a cena. Um pior que isso, o não se ver andar sempre
rindo... Explica-se. Os dentes vieram do dentista grandes, enormes à cava
bucal, porém o defeito odontológico o paciente não questiona, não se vê; apenas
que o força mostrar a brancura desfeita pelo tempo num branco fosco (sujo?) e
por ser maior que a boca sobra... Assim, às vezes andando contrariado triste
zangado, assim mesmo sempre a rir... Para seu agrado nem de óculos se vê,
‘sorri’ e sorri até no ato de consultar a cartilha, isto a demorar horas; o que
um ótimo encher o tempo... ah a tal filosofia de matar aquilo que mata a gente.
Não tem mais.
Sim, quase mais nada a acrescer em um
homem velho não dado a conversa com a gente nem a relacionamentos que exigem o
uso da linguagem nada formal oral coloquial, fatal isto para quem não disponha
de mais finura de inteligência. A supor isso, diz uma torta maçaneta, quem não
pensa fica obrigado a viver o mais simples possível, ou seja a permanecer na
fala miúda quando fala; e quem sabe a usar um pouquinho convenções e os cerimoniais
de pouca exigência. Assim antes de morrer velar, não: ser velado e aqui acaso sendo
engrandecido.
Todo longe que se identifica é perto
como o próximo na interpretação joânica das coisas, porém graças aos seus
óculos; os quais não permitem notar o amarelo na pele dos próprios dedos e
sobretudo no indicador da mão direita com outro dedo abertos ambos em vê, onde
encavala encaixa se ajeita o cigarro. Este, exemplo de coisas próximas e presentes
no seu presente. Por essa razão Batista imaginou algo mais consentâneo a fim de
eventualmente poder descobrir também o inimaginável – quer dizer tudo o que não
sabe o homem do povo; ou que o popular guiado pela televisão possa saber além
das guerras e demais tragédias, as naturais como ciclones tremores e outras
ações da natureza. Ora, o João Batista desejando algo diferente em desfastio ou
renegando a rotina, como as seguidas estórias da Chiquinha num tró-ló-ló ou
irritado com o disco quebrado da ladração do cachorro de Trovão, sem parar sem
parar, e olhe dona Chiquinha: os vizinhos nem gritam o bruto parar! O fato é
que o velho Batista num momento de loucura ou só desfastio como afirmado –
nesse momento e desprestigiando os óculos que enxergam perto, andou à procura
dum binóculo; objeto que viu e apreciou mostrado na propaganda televisiva; sem
saber direito para que servindo.
Dessa forma é que adquiriu após
pernadas por Vila Verde um binoculinho. Desses de assistir corridas hípicas, de
alcance modesto.
Aportes
à Parte Segunda: Binóculo

Cap. 9°
A gente usa binóculo uma que outra vez
na vida – enquanto que demais espaço de tempo ocupamos é com os óculos, isso
quem tenha que ter a sombra da neblina por olhos incapazes – o binóculo uma vez,
além de a metade mais um na humanidade desconhecê-lo.
Agora era o cão trovão de Trovão a
insultar a paz do outro lado do muro, onde o velho Batista ranzinzava o seu
cachorro que embora isso calado atento ao ladrado de trovão de Trovão e doutros
cães no pedaço; decerto latindo trovão sem óculos, vendo mais curto ali perto
próximo e irritado com não se sabe o quê; nem ele sabendo nem sabendo a canzarra
que dispara então por esse nada um latir coletivo. Batista se exalta: cala a
boca, Dóqui!
É assim comumente que reage o homem
quando não pode atingir outrem, aqui a barulheira dos cães. O que salvará o homem
comum de se perceber pior, melhor não seria não poder usar bem o aumento pelos
óculos da visão de si mesmo?
Enquanto o barulho dos cães no pedaço
a si infernal, o velho morador na rua das Perdizes não pensava, pensava só a
irritação por que passando, não pensando em não ser isso; o Dóqui atento na
ladração mas de boca fechada calada cansada por velho também; enquanto isso não
cessando a ladração; porém como que milagre da felicidade, de repente tudo aquietou,
veio o silêncio da paz – a paz não seria o velório o túmulo o nada! – enquanto...
então buscou o quefazer nada achou, achou-se a pensar então. Aqui entra a
imaginação. A dele não demais penetrante todavia existente suficiente a ocupar a
mente ocupando aquele que mata se não o matamos; e desandou a remexer seu
cérebro – onde ele!? sim, onde meu binóculo... será que ela sumiu com ele? isto
seria, se falou, seria mais tragicamente possível numa impossível falha do caráter
dela (dessa maneira comunicou a ele, ele aqui o Dóqui, que então nunca
entenderia) porque não creio que dona Chiquinha roube. Nisto cabe um reparo:
Batista desconhece a filigrana da diferença entre roubo criminoso e furto
popularmente aceito ou afanação delicada que consiste em esconder algo, um
objeto precioso ou não, esconder e após esconder apropriar-se do bem e
repassá-lo depois ganhando alguns trocados. Acontece que na hipótese de a gente
perder alguma coisa de valor (para a gente) os outros poderão não valorizar ou
valorizar sim para ganhar em cima do objeto sem valor; em outras palavras quem
perde perde mesmo e muito por vezes, assim um alfinete um grampo nem sentimos
porém até essa insignificância pode ter algum preço e afinal perder é perder.
Agora, interposta a preocupação posterior
com a anterior irritável barulheira canina e nada poder fazer, agora se pondo a
pensar; o povo diz “minhocar” quer dizer pôr minhocas na cabeça então vazia e
portanto ocupá-la com o desnecessário – agora de fato se põe a procurar
encontrar seu binóculo, esquecido por uns meses enquanto tratava da rotina.
Vasculha por toda a casa, o que não mui difícil nem dispendioso num imóvel
pequeno e pobre, ocupando-se por horas e dias para achá-lo. Não acha. Remexe
todas gavetas, se põe a agachar ver por baixo e isto dificultoso a um velho de
ossos e juntas duros. No fim dá por encerrada essa pesquisa meticulosa demorada
e até doentia a encontrar o objeto de plástico negro com lentes de grande
alcance e por isso a envergonhar seus pobres humildes óculos. Não acha. E
esquece. Não se esquece, antes fica a ruminar. E se não foi ela! temendo pensar
mal duma senhora sua antiga servidora e comprovadamente honesta... contudo a
dúvida estava lançada na área do descuido da tranquilidade que aborrece tanto a
paz numa casa. Perguntaria a ela sobre o binóculo? e se se ofendesse; Batista
não dispondo de diplomacia bastante e inclusive a falar numa conversa a mais
amena possível, enroscava se não ofendendo, piormente o saber dessa desvirtude por
não saber. Temia de si mesmo um abuso nos vocábulos. Ou era, parece que era,
ser Chiquinha melindrosa. Sim, porém desonesta? os anos a convivência diziam
que não, a dúvida enchia-lhe a cachola com um perigoso sim. Noutro dia veio a
servidora juntar levar lavar a roupa dele, lembrando ela as coisas como
possível, porque João não dando abertura a contar a mulherinha suas dores e as
dores dos parentes dela das comadres dela das vizinhas dela, dela Chiquinha – e,
ajuntando e falando baixo e embrulhado qual resmungo, fez a trouxa das peças a
levar lavar. Entremeio afirmou, inocente, desconhecer o objeto tão importante.
“O que é binócru, seu Batista?” A dúvida perdurou um mês, um dia achou seus
olhos longos através dos olhos curtos que eram os óculos: o binóculo por baixo
dum por cima, certa camisa dessas que se não usa mais e se deixa no fundo do
guarda-roupa, enrolado escondido, escondido do próprio dono; assim seria como
escondermos decerto dos ladrões... por esta razão trancados documentos básicos
e o básico dinheiro em notas não fedidas feitas novas resguardadas pela sobra
na falta. Assim. E assim recuperou o roubo ou furto em leve afano e chegou a
exibir o objeto recuperado à mulher lavadeira noutra semana. Então, mestre,
explicou-lhe o uso ou abuso no uso, fê-la mesmo experimentar o alcance da superlente,
então a se rir a mulherinha do enorme Dóqui que focara.
João perdia de vista nessa altura a
vista, esta mais e mais embaraçada e curta, os óculos não satisfazendo também.
Inclusive não distinguindo mais quando nas vias públicas os outros vizinhos e
conhecidos, um rol limitado porque não mantinha amiúde conversa e passava por
mil confusões nos encontros, sendo pichado por isso como orgulhoso. Era apenas
cego; numa gradação de cegueira estaria no ponto de ainda achar o portão de
entrada da casa quando já não dispondo quase saída...
Agora tem o binóculo de novo. Porém ninguém
aquém ou além a imaginar fosse substituir as lentes lentas diário por eventual
lente de grande porte e ainda mais feita pra ver cavalos no hipódromo, que por
sinal não existia na Vila Verde. Ora, não imaginemos o homem a descascar sua
laranja com uso do binóculo. Poderá haver maior absurdo?
No caso do binóculo joanino, fora
adquirido não só pela sua curiosidade mas pensando em poder ver profundamente
sua realidade próxima, quiçá olhando o futuro sem poder analisar o passado;
isto negado aos esquecidos ou aqueles sem memória. O binóculo aqui não para ver
mas para pensar, examinar as profundidades... Isto choca num ser simplório a
viver tão somente o dia a dia.
Com tais pensamentos ou no repensar
das coisas, percebe esse curioso personagem haver perdido todo um cigarro!
grave a um fumante inveterado desde menino a velho; pois que enquanto o remexer
a mente o canudo do tabaco já virado cinza no chão e o homem com a bituca apagada
nos dedos em vê.
Encontrava-se quase na hora corajosa
do almoço. Quer dizer, ninguém teme ao sol a assombração, nem ele... Acontece
que doutro lado do seu terreno a casa abandonada (abandonada quem poderia levar
consigo a residência para o céu ou para o inferno; Batista assim admitindo:) isto
porque o vizinho da vizinha não abandonara sua fé apenas os ofícios religiosos,
sem deixar ser católico, desde o episódio da ‘xeretice’ de Dóqui na igreja – e
sendo católico crendo na alma após a morte caminhando ao céu ao inferno ou ao
purgatório; e seria o caso da velhinha que anos falecera a casa ficando nas
mãos da assombração na opinião do povão. À noite diz o popular, o perigo!
sequer os meninos iriam entrar ali às frutas (aqui se lembrou de sua mangueira)
nenhum mexedor num quintal desses... E durante o sol quente ninguém teme, não
teme agora Batista a olhar pra morada vizinha. De maneira que após a considerar
vaga e vago o terreno, sobrando-lhe somente a desfrutar os sons do vizinho
Trovão. Este sim religioso, evangélica a família, apenas ele a falar alto parecendo
em briga constante; ela não, não cabe a pecha de mulher faladeira à senhora a
quase se não ouvir. Bem, garante o pensamento de João, bem: contudo ela assobia
hinos dia inteiro; o moleque deles não moleque, antes menino educado. Essa casa
desse lado, lado esquerdo (ué, como sabermos não sabendo onde se encontra o
personagem, critica a personagem maçaneta sem porta) o lado de Trovão. À
direita a casa da defunta... ah, era tão boazinha a vizinha velhinha e a gente
nada sabia de suas dores; um dia uma noite a ambulância, depois os comentários
das comadres nas Perdizes a lamentar o falecimento, a temer igualmente o
falecimento e as almas penadas na casa vazia. Oh como a gente nunca sabe da
gente que convive com a gente! Então se inventa ou se desconhece e assim entra
na gente a indiferença. Não, discorda o velho a rememorar o convívio, nunca tive
queixa dela; decerto nem ela de mim. O Dóqui encerra essa conversa sem som com
um ladrado meio rouco, o pobre anda a definhar também, não tem força; no
entanto ladra por algo e avisa.
Chega o terrível aviso dos impostos na
rua, o correio também assusta o resto do pedaço com as contas, a alimentar após
a matraca dos vizinhos. Ele, o João, sequer conhece os nomes de todos, os de
mudança recente nem se fale, fala sua lembrança só dos antigos, pode contar nos
dedos quais pode chamar pelo apelido. Aparece o entregador e toda a rua se
locupleta dos latidos. “Cala a boca, Dóqui!” mas aqui verdadeiro a colaboração
fraca do seu cachorro.
Cap.10°
O vizinho das vizinhas, o vizinho seu
Batista sai do portão – deixa o Dóqui no portão a olhá-lo, desenxavido o pobre cachorro,
a olhar o amo capengar ganhar a rua, a rua nessa hora da manhã cheia de vassouras
pazinhas de lixo e lixo e o lixo das línguas. Sai do seu portão rumo à venda na
compra de leite, garante, elas não creem, garante só comprar e só ingerir leite
de saquinho plástico... já o ti-ti-ti de olhos a analisar aqueles passos curtos
arrastados... ah casamento perfeito dizem moradoras “lá vai, diz uma, lá o ômi
da muié”; aquele na referência o vizinho delas aquela na referência é Chiquinha
não estando de volta a Chiquinha com a trouxa de roupa na cabeça equilibrando:
entra na casa do velho e depois sai de mãos vazias (sobretudo quando cobra o
velho o velho não paga) vazias sim porém cheia a boca para alimentar as orelhas
das comadres. Por trás da lavadeira e ela já tendo trocado ideias com as outras,
então vai a mulherinha sumindo a virar na esquina. Entretanto interpõem as
comadres no gozativo casamento entre a dama viúva ou largada ou solteirona ser
a ‘muié’ daquele resto de ‘ômi’ indo à venda na compra, sob olhar contemplativo
lamentoso do cachorro. O cachorro fica sentado gozado sobre as patas traseiras
e sobre o rabo de falar; o olhar remelento dele vendo sumir o amo. E assim retoma
Batista seu período matrimonial, que não dera em nada enquanto jovem
inexperiente e menos agora como idoso conformado no epíteto tio – somente
teoricamente poder-se-ia arranjar com a lavadeira. Não tem importância, elas
falam e casam assim mesmo embora de longe, bem longe da noiva a virar já a
esquina desaparecendo das Perdizes e meio longe do noivo, sobremaneira por ser
o noivo meio cego, o ‘noivo’ que passa pela gente aqui, ‘aquilo’ nem vê a gente
por ser orgulhoso. Aquilo!? afirma coisificando João sua vizinha Tonica, mais
corajosa que as outras e de língua macha pra valer por forte alta ardida e
gozadora. Aquilo? aquilo é ora aquele indo à venda ora a casa dele, reduto de
segredos intransponíveis e desses de se levar ao túmulo, dando azo à criação
das vizinhas ali dignamente no limpar a rua, pôr comportadinha a sacola de
supermercado na lixeira, hoje segunda de preguiça e de trabalho aos lixeiros,
uns que dizem as linguarudas adorar no fim de ano receber as gorjetas as festas
as boas-festas porém esquecendo noutras feiras (segunda quarta sexta) algumas sacolas
estouradas no leito da rua em vez de depositar na caçamba do caminhão de
limpeza; tais sacolas estripadas pelos cachorros soltos famintos que as alcançam
lá em cima da lixeira da gente e aí sujam o chão. Sujam assim com a língua os
grupelhos além de garantir, uma dizendo as outras concordando, que o ômi quase
esbarra na gente não vê a gente não diz bom-dia à gente; o que mentira
deslavada: é quase também a única fala do vizinho esse cumprimento que externa
o vizinho. Uma delas exagera no grupo a afirmar textualmente ser aquele seu
Batista “lindo de morrer”, dizer vulgar, no entanto acertaria melhor a mosca
com outras palavras tão ou mais ferinas “lindo para morrer...” Aliás duas entre
essas matracas estando depois (é claro) no velório, a constatar o vizinho
cercado de curiosos na mesa enfeitada de flores, ele com seu narigão tendo encaixado
os óculos demais conhecidos delas; os mesmos óculos com que ora indo ao leite,
põe e tira tira e repõe os tais encavalados, num sestro pela irritação (dá uma
coisa na gente aquela coceira aquele prurido atrás no encaixe das pernas dos
óculos nas orelhas). Elas registram também mais esse argumento a fantasiar
figurar traçar o velhote. Não. Dóqui não vê isso não sabe disso, os amigos ou
nunca veem ou nunca citariam o proceder. Elas.
Contudo é verdade sim que Batista
esteja em seus últimos dias como morador de Vila em vida. Findam os
tempos na rua das Perdizes onde as perdigueiras numa quase patrulha, famintas e
ao mesmo tempo prenhes de fatos relacionados a ele e a todos residentes, possam
distrair-se ao vê-lo passar. Entretanto o desmancha-prezeres daquele caminhão
de lixo chega ao lixo, mata a conversa, alguém sempre esquecido de algo
esquecido a robustecer mais a sacola e assim rouba a cena num correr atrás dos
coletores com nova sacolinha. Verdade sim ser muito o pouco que sabem essas
línguas viperinas, sobretudo de João. Aqui bom saber que a fração masculina
dessa versão feminina comentadora das mentiras do bairro tem sua maneira de
observar o ramerrão joânico, até sobrando nisso notar o segundo morador da casa
setenta, que é o cachorro. Todavia o comentário masculino, o macho sendo fálico
de pensamento e boca, tendo muito que ver com o gênero ou o sem-gênero do
vizinho. Enfim nem anjos nem demônios homens e mulheres, quando o objeto é um
vizinho velho esquisito pelo que faz ou exatamente por não fazer as coisas
dentro dos padrões e mesmo por se esconder.
Como será lá dentro! dentro da casa,
dentro do quintal. Não sabem, apesar terem como aliada uma Chiquinha que fala
fácil e ali trabalha, “vive” dizem elas; ela também convive na residência. A
lavadeira longe ser um túmulo, antes que isso isto: tagarela de igual para
igual com as mulheres na rua; não entrando nos segredos. Não dá o serviço naquilo
que decerto vê sem importância: o velho tem por anos uma dor de cabeça... e quando
assim nem conversa avermelha amolece amortece.
Realmente Batista não anda bem das
pernas quando anda; e não está a passar bem quando se encafua com seu cachorro
de portas a dentro, fechadas, e janelas também fechadas. Nos últimos tempos seu
comum não é mais estar de ferramenta em mãos no quintalinho; agora raro desse
jeito, sem coragem; sem coragem o amigo do amigo também, inclusive para ladrar.
Ora ‘preso’ encarcerado entre quatro paredes; quem sabe vendo as bocas mudas
das propagandas sempre sorrindo ou estardalhaçando felicidades; em vendo o se
ver. Ora certamente a dormir seu silêncio... Batista de um tempo a esta parte
se volta pra si; e tem bem pouco igualmente a relembrar com a memória ou
matreira ou sonegadora: em resumo, pouquíssimo a recordar. E assim vai vivendo
a morte na sua secura. Isto porque, segundo o popular, não vive quem se não
lamenta, quer dizer não expõe o que sente, caso sentir; não narra causos, não
ouve quase causos dos que contam causos; e se embrenha no se embrenhar.
É um homem magro e pequeno, comum
enfim; é agora pequeno frouxo murcho encolhido acabado e ainda o espelho a lhe
ditar: feio! sim “feio” dizem elas ao vê-lo passar na rua; e no fim de tudo estando
a findar sua história meio estória sem enfeites, estes desnecessários à verdade;
a levemente matar o tempo que mata a gente, ele em particular, eles ajuntando a
boa vontade de Dóqui sempre presente. Se olham se leem se sentem se compreendem
se entendem em tudo. Mas
sobra – diz afoita a exigência – sobra uma falta que é saber como vive e gasta
um gasto ser humano as horas nas coisas que se não sabe. Não sabe a vizinhança
e isto aguça mais a curiosidade. A curiosidade nunca perdoa as vidas pobres
secas, as quais produzem a indiferença pelo cansaço de se não ver-saber, ou por
essa razão produzem invento, com e sem maledicência; produzem ou exacerbam o
imaginário popular, ou seja os interesses que o túmulo pode enterrar; seriam fatos
ou ‘fatos’ dos dias passados desse passado.
Pelo exposto, causou alvoroço quando
os poderes públicos anos após o morador do setenta porém morador efetivo da
necrópole haver deixado a propriedade; quando, por fim, esses oficiais tomaram
providências no sentido legal sobre o terreno de João e também sobre os lotes
vazios dos outros na periferia de Vila Verde. Já eram outras as vozes vizinhas
outras as curiosidades então. No tempo imediato entretanto ocorreu um avanço das
faladeiras do bairro a satisfazer e encontrar quem sabe se não a se apossar do
butim dessa guerra perdida. Com duas versões contrárias na constatação do que
seria o espólio, fosse espólio.
Uma explicável no seu inexplicado que
é o temor ao morto com sombra na sua antiga morada; aos mortos, pois Dóqui se
negara a deixar Batista a desaparecer sozinho, fora encontrado o cão sem vida
na casa. Qual a velhinha, o velhinho a se temer alma penada, disseram os que
disseram, temendo-se. Claro, outra confusa versão em mostrar coragem e
descrença nessa crença; ou apenas a contrariar, mas ainda se temendo...
Caíra a noite – ah dizer apressado do
dizer pois que a noite chega, antes ensombrece cala os gritos, fecha os olhos
ao dia, o dia que também morreu... ora, também
por quê? o velho João acabara de falecer – enfim chegara a noite aos grilos na
rua das Perdizes, isto válido para todas residências então na rotina de ver
novela na televisão; e à residência de Batista e seu cão. O que se notava se se
notasse era o silêncio em o número setenta, como todas noites assim, não se
esperava mais, menos Trovão tendo ido ao culto, ninguém a esperar houvesse
barulho aí. As mulheres das outras casas próximas acostumadas assim, assim
embora curiosas sempre em saber como aquele antro. Elas não tinham conhecimento
que seu João houvesse partido desta para uma vida melhor; dessa forma pensa o
homem do povo; e sequer ouviram as pessoas o uivo de Dóqui; diz o popular
semelhantemente que os cachorros avisam chorando em uivos de disparar na gente o
medo, morrendo o dono; porém isso não ocorrera. Passaram os que passaram,
notívagos à solta, nem eles perceberam anormalidade alguma. Só nos dias seguintes
deram primeiro pela falta do vizinho e depois as rodas comentaram. Pelo fato de
o velho morador ser mui fechado, até diziam os que tivessem língua, que ele vivia
morto abandonado pela família; desse jeito criticavam sem saber dos familiares
nunca presentes em casa do homem. Como assim, ninguém se espantou com o
silêncio reinante. Vieram novo dia nova noite novos dias novas noites, novos raios
de sol nos dias e daí subindo um cheiro estranho no ar... Foi nisso Tonica
entrar, arrombou o portão sem precisar força sem força ela, a satisfazer uma
curiosidade de anos acumulada, agora com razão.
Encontrou Batista de olhos
arregalados!
Dóqui mantinha os seus fechados.
Mortos.
Gritou primeiro a vizinha após demais
vizinhas. Antes que chegassem àquela decomposição com cheiro nauseabundo, antes
disso correu aproximando-se do morto a lacrar-lhe os olhos – Tonica vinha da tradição
segundo a qual se o defunto morresse olhando o mundo que deixava não haveria
nunca descanso à sua alma. Ela, não a alma, cria tanto quanto o resto da
vizinhança nessa particularidade triste; cerrou, tentou cerrar as pálpebras,
temerosa, mas isso não pôde levar a cabo; fá-lo-ia depois a funerária a adornar
o cadáver. Já entravam (e saíam imediato diante do quadro e mais pelo insuportável
cheiro deletério do ambiente...) já ali outras vizinhas e vizinhos, estes ainda
não tendo ido ao trabalho e foram eles que telefonaram às autoridades sobre o
macabro encontro.
Excetuando esses minutos, horas até
por tardar chegarem autoridades médicas e policiais; esse tempo a tentar acudir
um morto talvez vivo, a gente nunca sabe bem das coisas; excetuando tais primeiros
momentos, um grupo de senhoras fora fora da casa examinar como possível a vida
daquela vida monótona qual num monastério proibido às vistas de visitas laicas.
O quintal era rebuliço, muita
desordem, mato crescido, frutas podres a cheirar mal no chão; demais o
flagrante para ordeiras criaturas. Porém ainda pior o que presenciaram no interior
da moradia, após a tarefa oficial de levarem o corpo e seu decompor malcheiroso.
Horrorizaram-se com objetos fora do lugar, a poeira de dedo, a sujidade, a
imundície generalizada enfim. Peças de roupa masculina sujas em mistura com
limpas lavadas passadas por Chiquinha espalhadas por João, uma delas era lastro
na cama improvisada no chão ao Dóqui, onde Dóqui dormia seu sono tido eterno
(logo enterrariam o pobre no quintal, sem velório sem flores, não pensariam
óculos é lógico). Examinaram mais ainda naquele aparente presídio. O cheiro,
após transportado o cheiro do defunto em apodrecimento, o cheiro era o de
aposento fechado anos, anos em detritos acumulados – dose a eliminar a dona de
casa limpa, a limpeza sem a qual impossível viver (e morrer...) – e aqui sobrou
à lavadeira: matracaram em torno do péssimo serviço da ‘porca’; até que
apareceu a chorar gritado gritando a porca em carne e osso e daí suas amigas de
bate-papo informal cessaram a crítica... Como é que a porcalhona se mantinha no
emprego e com patrão, sem fazer a faxina cabível e em regra! Decerto, disseram
elas, enganava o infeliz ceguinho que não via a sujeira... Claro desconhecerem
a teimosia do homem e a pouca relação entre ambos. Algo que avolumou na crítica
foram os mil tocos de cigarro espalhados. Curiosamente quem mais levantou a
questão exato uma delas fumante inveterada também. Não escaparam o urinol do velho
a arder amônia e os utensílios de cozinha usados reusados amassados largados em
qualquer lugar.
Não obstante a trágica noite fora
branda, se não amiga do morto vivo a morrer daí a pouco. Encontrou-o como
sempre encontrava por mais de dezena de anos: a parlamentar num colóquio ameno
com Dóqui, agora o velho a lamentar a sem força do animal embora de boas
orelhas ainda. Contava ao amigo o como fora o passeio no dia que se acabava,
imaginando ser o mesmo dia da noite que chegara; pensando o velho João fosse
esse (já se passara semana então, o idoso confunde muito e mistura fatos locais
e tempo ocorrido no seu contar). Em resumo, explicava a alegria que sentira nas
suas andanças, o amigo então ficara em casa a vigiá-la; ah pobre Dóqui sem
coragem até de fugir dum ladrão ou de outra visita inesperada e perigosa...
contudo fazia a guarda e o amo a vaguear pelos bairros vilaverdenses. Foi nisso
se deparar com uma cena lindíssima: Batista se defrontou com uma área de
quarteirão arborizado, encontrara um jardim de infância com quarenta “eu num
contei, Dóqui” eram umas quarenta crianças dormindo no chão do pátio sob olhar
duma professorinha ou funcionária! Assim insistiu recontou repetiu a fala, não
respondeu o cão porém olhou com boa vontade para a boca do amo. Depois,
loguinho depois, desandou o velhote a contar fatos ou estórias apenas do seu
passado recente, ou seja daquele que não se precisa binóculo para ‘ver’, como seria
num acontecimento antigo; do recente bastando as lentes dos óculos de examinar
pertinho. Aliás isto fora visto com os óculos velhos, “lembra aquele que sentei
em cima!” desandou então a pichar o infeliz balconista que lhe empurrou lentes
novas – e caras, enfatizou – e como fora difícil acertar com o doutor oculista,
um tal de oftal... não sei, não sabia Batista não interessava saber ao Dóqui.
Contou mais, mais a propósito duma pobre borboleta que acaso entrara pela
janela aberta, isto não costumeiro na casa a temer ainda mais pernilongos que
borboletas, enfim entrara voara borboleteante ziguezagueando na sala e isso um
indício certo sério lógico claro dar borboleta... Isso mesmo, Dóqui, vai dar borboleta!
Apreciava jogar no burro, ganhara uma vez uns trocados, trocados perdera outras
muitas vezes no mesmo burro. O jogo do bicho, contravençãozinha que o povo
adora, ele inclusive quase viciado, sendo o jogo um crime que se não pensa. Não
deixava nunca nos seus passeios visitar a lotérica, a esbanjar talvez uma parte
de sua aposentadoria. Ia, tornava, narrando os feitos às únicas orelhas
pacientes, as do cachorro.
Caíra a noite entre as muitas noites.
O dono da residência setenta na rua das Perdizes, ou que se pensava dono, não
concordando assim os parentes litigantes nem as autoridades; o dono sentia...
não sentia, sentia apenas mal-estar semelhante mil vezes experimentara; nada
extraordinário houvera, exceto um desequilíbrio momentâneo ao entrar sem tropeçar
na escada de dois lances à porta de casa; o que superou. Contudo logo foi anunciada
sua dor de cabeça, que por anos tivera na velhice; uma quase rotina, uma quase
amolaçãozinha habitual. O Dóqui já sabia como seu amigo enfrentava a situação:
sentava-se na velha poltrona, a tevê desligada; tentava relaxar e se convencer
do hábito do hábito; então não sendo agora assim: ela veio para ficar, deixando
pouco depois um corpo de olhos esbugalhados, no exato instante em que parecia
ao João estar sofrendo um como estouro por dentro, explosão ou implosão. Pouco
se importou, breve se viu em
cadáver. Logo também o cachorro parou o lento respirar; seu
amo não respirava fazia tempo.
Assim que as vizinhas o encontraram; e
narraram aos homens ali chegados na função de autoridades. Nada mais. Não mais.
Marília maio
2016
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo,
2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços: