quinta-feira, 2 de abril de 2020

Óculos e Binóculo


0153(posto no Blog Livros Inéditos)








                      Óculos e Binóculo
                                              (romance)
                                               Moacir Capelini



















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                                                                                                  “Na vida agarram-se ao medo da morte.
                                                                           Na morte confessam o medo da vida.”
                                                                                    Emmanuel, sobre os tíbios






Cap. 1°    
          O ser humano só enxerga incertezas. Na opinião do homem comum que pulula em todas latitudes e longitudes no planeta, os óculos servem para ver; diria melhor tentar aumentar a interpretar o presente. Já o binóculo vendo longe servirá decerto para se pensar que enxerga o futuro. E deve andar certo nesse errado, porque o presente a gente temente quiçá descrente mente a verdade descaradamente, supondo poder manusear pegar transformar ou inventar as coisas que se vê e vê portanto no estado perceptível atual. Certamente um engano. Já o futuro...  todo o futuro é incerto, comprovável se puder ser comprovado. Postos futuro e presente frente à frente, todo presente é comprovável mas quando no ato de comprovar já se não mais comprova, comprovando apenas ser do passado. Só podemos afiançar o passado, porém nunca teremos a comprovação absoluta dele, por nossa incipiência e insuficiência. Isso quer dizer que nada podemos comprovar em nosso estado de agora. Ah... quanta minhoca numa única cabeça.
          Por isso o João resolveu fazer algo mais consentâneo. Assim tomou certa laranja e iniciou uma tarefa que já fazia dezenas de anos que fazia.
          Batista, decerto João Batista e nisto exigiria fosse Baptista como grafavam seu nome, um homem comum e por comum faz o que faz sem ver sem perceber o que faz, segura com a esquerda toma a faca afiada, claro pelo cabo seguro na direita, e vai rodando na mão a fruta, assopra o sumo naqueles dedos já amarelecidos do cigarro a deixar anos refletir cores e cheiros (fedor grita na mente a Velha, a velha mãe dele menino agora homem descascando a laranja:) a casca em ‘descasco’ sai e se derrama como fita e como fita deixa o cerne branco onde antes o laranja da laranja inteira; a fita entre dura e mole úmida se quebra em partes, a parte do toco quase rente à faca que ferira a fruta enquanto a outra parte parte ao chão puxada pela força da gravidade – isto coisa muita ao pouco do conhecimento do rapaz, então adiantado nas necessidades da idade contra sua timidez doentia inimiga dos anseios e conquistas das fêmeas lindas da espécie – e assim, quase a dormir ou desligado quase também da fruta e do ato de descascar a mesma, Batista se desvencilha da tarefa e tem à frente a peça redonda meio ovalada a exalar um cheiro característico e a se oferecer à deglutição. Corta a seguir pela metade as duas metades feito uma, uma delas, atrevida talvez, despenca ao solo se suja; olha, o homem olha nem dá tempo xingar, ele sabe de cátedra o calão e igualmente as ofensas sãs educadas aceitas que lhe aparecem nos lábios grossos grosseiros, para fixar o deslize da tampinha da laranja e felizmente a outra metade intacta ainda na mão esquerda semiaberta apertada contraída quando do despencar da rebelde parte indo ao chão, daí segura bem e ao prazer do homem. O homem olha pra baixo estando de pé no momento de tirar a casca, olha vê a danada de borco na areia... e comenta pra si, fala alto baixo pra si mesmo embora falando tonitroante no seu normal e não ficaria bem pensar altão, pensa silabando manso a ofensa à ofensa: diz a bandida é de pobre! A exclamação merece explicação, banal mas explicação. É que o estrato baixo, o que diz alto baixo calão, essa parcela tem como talvez em mau agouro que se a tampa, ou a tampa do invólucro da manteiga, fosse manteiga aqui metade da fruta de traseira pra cima e a cara na terra; que se ela ou ambas cair pra baixo, é de pobre; o pobre perde até no podre – não se pode chupar (é uma laranja) pode-se, lava-se e tem gente com nojo atira longe a metade supostamente contaminada e/ou perdida. Doutro lado, sendo que a metade rebelde se atirando ao chão mas pra cima ou seja ficando limpa a tona dela com as garrafinhas e o líquido intactos a escorrer no caso de uma laranja – assim o povo diz que é sorte de rico, dado o aproveitamento total e inclusive sem necessidade de se limpar a fruta no bico da torneira. Indo isso bem a calhar; anda faltando água na torneira, lava-se no mais ou menos; para João nem esse expediente, ele tiraria os ciscos a terrinha grudada na superfície voltada para cima (caso rico) ou suja mesmo voltada para baixo a traseira arredondada pro alto, moscas a voejar em torno e o homem não liga, limpa a metade nas calças ao nível do bolso direito, é destro (bem entendido: usa a mão direita pela ordem da natureza, não destro na sabedoria; e o que pode ser sabedoria!?) Limpa como pode, espreme a seguir a tampa ‘suja’ já limpada e a outra metade retida no vão da mão esquerda; sugando o líquido. Num exagero, ah qual exagero coisa alguma é até bom ao bom funcionamento dos intestinos, nesse exagero mastiga as fibras trec-trec-trec engole a gosma um pouco sólida um pouco mascada trincada pelos dentões e dessa forma ainda escorre sobras nos dedos no braço inclusive, suga sim o líquido da fruta. O bagaço, bagaço sobrado algum nessa guerra entre dentes e fruta, atira como se atira pau pedra pedaço ao cão buscar correr caçar prender trazer ao dono feliz, feliz o animalinho não o ser pensante e este não pensa, naquela hora não pensa apenas atira os restos longe e aguça o cachorro. Dóqui avança toma o resto de laranja da laranja antes quase destruída e vai em direção do amo entregar o butim da guerra mambembe por comum e que dura milênios. Chega, cansado, e se decepciona, o amo já desinteressado a lavar os grudes da degustação da fruta e os riozinhos saídos da laranja escorridos aos seus braços, os do homem. O homem ainda a pensar “que besteira fiz, jogando laranja mastigada ao Dóqui, cachorro não come laranja, come carne, osso”.
          Dóqui desanima aguardar o amo para ser público ao humano, humano tem essa besteira de exigir público a contar suas bravatas, cachorro é mais puro e não quer induzir ninguém, desconhece a verdade e não usa a mentira. O homem também desconhece a verdade, ao menos a absoluta e por inteira, sendo entretanto mestre no rol das mentiras. Seja lá como for, fica o cão decepcionado. Ele se sabe ‘dóqui’ ou qualquer som assim ouvido. O que não sabe e nem precisando saber é da etimologia do seu apelido. As famílias humanas abusam no seu esnobismo, do estrangeirismo copiam imitam praticam desvios e corruptelas a acostumar a rotina fazendo a rotina repetir o som com um apelido. Parece dog vindo do inglês deturpado por orelhas matutas, mal escutado pela ignorância e escrito por língua falada do popular que nunca saberia grafar certo seu errado. Assim apurou-se o som, o cãozinho em criança quase bebê de caixa de papelão de sapato onde dormindo a ouvir desse jeito sempre dos de casa (um cachorro pode-se imaginar irmão das crianças, ou filho assustado duma vassoura...) Acostumou-se; se ajeitou inclusive aos maus-tratos, aprendeu a obedecer seu torturador de preferência. Agora o velho Dóqui olha desesperançado Batista, o qual espalhafata soprar fossas nasais no tanque de lavar roupa, a torneira abusando no desperdício de água, a água com que se lava o porco... ah o porco, por que será que tomaram um animal tão simpático para mostrar as sujidades humanas? Além do mais ao homem sendo do bicho um atrativo a carne fumegante e o apuro em torresmo...











 







         










































Aportes à Parte Primeira:   Os Óculos



                








Cap. 2°    
          O porco existe, o cão existe, o homem existe, o Batista existe. Não existe mais, afirma o homem comum. Encontra-se no meio da sala entre a fala que fala que é a visita, todo mundo compungido. Não. Ninguém tapa a boca do povo.
          João Batista, de Azevedo? Almeida? mais outro outro mais entre apelidos de família e um sobrenome estrangeiro, estranho numa terra em que todos sendo estrangeiros na origem, mas um nome desses de engasgar pronunciar errar sem querer não podendo acertar e isso não importa, importa pouco. O muito saber é saber que ali jaz quieto morto silencioso reto, probo! já não importando – entre flores entre cheiros entre gente viva vivos a se falar tratar dos assuntos mundanos; e tem piada nada velada e tem contrição mostrada e o desrespeito do silêncio a burlar o burburinho mundanamente tolerado. Chega lá dos fundos o cheiro do café já coado destampado da garrafa térmica que serve na saleta a todos na fumaça que sobe e também exala e sopra fora dela ao salão mortuário; em choque quiçá briga, briga o hálito do café com outros cheiros como o tabaco, não mais o cheiro do cigarro do João, Batista dorme a sono solto profundo esticado no centro do local, quase inaugurando o velório do Velório Municipal, ou é o terceiro ou ainda o décimo dos primeiros ocupantes mortos a ser velados e depois depositados por fim e definitivamente mortos entre outros mortos no cemitério, apenas umas quadras longe dali. Ali encontra-se agora o tio... ficara pra titio, brincavam os poucos próximos dele pois João meio arredio quando vivo, gozavam ter ficado como uma solteirona desempregada e tida por tia a encolher no tempo a passar. Porém assim já não vê. Ver para quê?
          Via. Olhos verdes, ah os olhos verdes tentadores das belas jovens no abuso poético do poeta sem ter o que fazer. Os seus verdes sem esmeralda pura, um dos verdes mais verde que o outro verde e menos verde; ora mais nas ondas da ira talvez, ora mais baços, e ainda com desencontro pelo estrabismo; você olha o olho que lhe olha, ele não olha olha noutra direção. Dona Chiquinha é quem diria melhor numa descoberta fenomenal nesse seu conhecido ou amigo ou vizinho ou compadre ou... enfim aqui entra uma confusão própria do homem comum: existe o conhecido, aquele que vemos e não conhecemos; e o desconhecido menos conhecido ainda, por não vermos talvez sabendo o nome; temos além disso o desconhecido totalmente integralmente literalmente desconhecido, que é um sujeito que nunca vimos e nem lhe sabendo o nome. Todos acobertados pelo manto da santa ignorância, que nos protege contra a humilhação e o apequenamento por nada saber.  Dona Chiquinha, ela quando a juntar roupa suja fedida velha espalhada na casa solteirona do solteirão; não conseguindo se soltar na conversa a conversar com ele de igual para igual, conseguindo todavia juntar as peças em trouxa coberta por coberta ou coberta por lençol, tais peças a lavar e daí colocando na cabeça indo circensemente a equilibrar na rua rumo sua própria casa; não conseguindo de fato se comunicar no tête-à-tête com o homem, não encontrando não centrando com qual olho falar, se com o forte esmeraldino à espera dum poeta ou com o baço quase não esmeralda, por desconhecer e em qual dos olhos se fixar, fixava-se então no som, Batista falando altão (até no pensar e aqui preciso olhar ao redor ver se viram, quer dizer se alguém escutou) e por falar alto o ‘patrão’ ou patrão eventual dela, ela ouvindo bem com seu ouvido estragado pela idade. Brecava no dar a conta das peças de roupa que já ajuntara na trouxa, mas, em síntese, a ficar constrangida. Aí diria depois a uma de suas comadres num ti-ti-ti banal haver ficado com vergonha, pronunciando “vregonha” porque nossos roceiros embora civilizados pelos anos de educação urbana, ainda continuam a trocar letras ao proferir, como na palavra lagarto em que dizem “largato”. Para tomar a roupa e levar ao trabalho era assim constrangedor; mais ainda no trazer de volta a roupa limpa passada ajeitada cheirosa – precisando ter que discutir o preço o dinheiro do labor, visto o Batista ser um pouquinho difícil no entendimento da explicação meio enrolada da velha senhora; e mais muito mais no ato de pagar a conta...
          Contudo agora não paga a conta, não precisa quitar sequer o pendura, “pindura” dizia quando dizia da dívida para com a sua lavadeira e com outros credores a quem pudesse desfazer dívidas bem contraídas e mal pagas. Porque não tem mais agora seus olhos verdes à mostra: as pálpebras foram-lhe fechadas por alguém, caridoso decerto, decerto uma das vizinhas que o encontrou frio, uma entre as temerosas criaturas (o homem comum tem terror ao globo arreganhado dos mortos ou estando eles no estertor ou apenas com olhar aberto e sumido) então fê-lo ajudando a deixar o escuro naquela vida sem vida!
          O olho o verde o baço lembra o esquecido óculo.
          Num descuido quem sabe dos arrumadores, das arranjadoras não mais que empregadas faxineiras da empresa terceirizada (ah a prefeitura não quer saber de vínculos e pôr as mãos no fogo com o fisco!? deve ser assim e assim contrata gente pela qual não se responsabiliza... aí, aqui um desastrinho:) então elas se esqueceram dos óculos! Fundamental, fundamental seria somente colocarem toalha flores limparem o salão e a salinha no fundo ao pessoal tomar café em boca de pito, pitar seu cigarro pondo os negócios em dia? em dia piadinhas de salão dessas de não avermelhar orelhas femininas diante daqueles desbocados!? Não. A faxineira normal, comum se se exigir pingos nos ii, ela sim trata dos cuidados gerais no entanto também responsável olhar pela saúde e aparência do defunto, no caso um tal de João Batista... e cuidar da vela, não do choro dos mais próximos sempre distantes dele, dos seus parentes. Choro e vela, rosa não amarela, rosa cor de rosa mesmo e outras invencões da funerária a adornar João e a deixá-lo bonitinho, em vida fora terrivelmente feio, tanto ficar para tio não encontrando mulher para casar. Não. Sim, esqueceram dos óculos, os óculos nos últimos tempos para o usuário quase não ver; vendo sim mais embaçado na verde baça e um pouco melhor com a forte esmeralda. Se esqueceram deles as serviçais – onde mesmo terão posto! uma das servidoras que na trouxa que os trouxas trouxeram lá da funerária com os pertences do morto (pertences para quê? se nem o corpo sendo dele e sim dos vermes...) ou... oh, imaginaram mil lugares. Até que surgiu um familiar a trazer os vidros de casa, em meio ao povo atônito e boquiaberto, vindo o parente com uns óculos gastos lentes riscadas dessas que nem um paninho de flanela limpa (outra vez pra quê! não via direito não veria mais e jamais o Batista). Enfim, oi ele abastecido adornado com seus óculos transparentes encavalados no narigão, a devolver o homem que o bairro vendo diário varrendo a calçadinha agora não mais pela mudança ao cemitério, ele em exposição na dependência pobre do Velório Municipal.
          Os óculos. E a dentadura postiça, do tipo que a gente reclama pelos detritos mais sólidos a se meter nos seus vãos causando dor e irritação; assim como seria vã a reclamação dele no caso porque a ninguém é dado se meter nas dores e nos incômodos de outrem; o homem assim mesmo lamentava, não mais lamentando agora. Agora? boca murcha, um velhote solteirão à beça, a esbanjar timidez e solidão não mais sofrendo a perda no ganho, pois ganho na opinião popular de que o defunto em cadáver à mostra no velório parou de sofrer. Contudo aqui não o local certo a discutir nem filosofia nem religião – somente registrar que a boca chupada murcha cera de brancura sem sangue a circular, que isso em razão esquecerem a dentadura de resina gasta suja velha do velho nem se descobrindo onde fora parar: sumira. Todavia por quê? sim, por que o drama se João não mais mastigará nem falará? Bem, mesmo assim não era apresentável, quer dizer se com os apetrechos para ‘desenfeá-lo’ ainda feio, sim não se casara apenas em virtude da desvirtude ser feio, antes que isso ocorrera tal pela timidez: tem gente que não tem coragem bastante à conquista amorosa, com ou sem óculos com ou sem dentadura, mormente daquelas com incrustração de um filete de ouro. Oh, temer pelo ouro de o ladrão se apossar no túmulo! Enfim sem dentadura porém ficando melhor reconhecido pelos óculos, estes a ser quase apenso dele e inclusive a caracterizar esse homem.
          Aqui, em meio a óculos pra não mais ajudar ver; e dentes postiços pra não precisar ajudar mastigar – aqui entra a porta. A porta? a porta, não a do salão de exposição da expressão sem expressão por morta; a porta, decerto que o velório tem suas portas à saída e entrada para saírem introduzidos os do povo a tornarem às suas respectivas residências, menos o morto o João, esse em mudança não voltando pra casa. Claro. Tem suas portas, bem umas dez e sendo muito pois cidade pequena interiorana não precisa tantos alojamentos; tudo com porta, porta a fechar trancar esconder o quê? ladrão iria levar a serviço os badulaques de serviço num salão de velório... não, é certo; tem sim portas. Nem se referindo também às portas da residência de Batista, o qual não mais as abrirá, antes que isso até foram fechadas por outrem. Não, nem interessando propriamente a porta, a maçaneta da porta.
          Maçaneta neste texto a explicar por vezes complicaçõezinhas do texto, aquelas irrespondíveis. Sem precisar óculos para ver errados nem dentadura a mastigá-las, se amiúde aparecerem dados apenas a ser esclarecidos em momentos difíceis; difíceis a uma porta posta por caneta esferográfica, azul o azul do respeito; não o vermelho de criticar e expor erro. O azul.
          A maçaneta, pergunto. ¿Por que não deixar um pouquinho Batista com seus amigos visitantes na festa fúnebre, que é um velório velando um pobre; sim, por que não dirigirmos a preleção aos tempos mais faustosos ou venturosos pela ingenuidade e pelo desconhecimento do futuro (o João virando agora passado); em suma ao tempo da meninice?
          Porém meninice que se preze vem ao presente na mente da gente distorcidamente deformadamente pelo descuido da boa vontade nada temente, certamente ingênua. Decerto que o João se lembrando desse passado remoto que se tem por dito frequente como tempo antigo. Claro, o solteirão expõe seus feitos a outrem (não iria contar a si mesmo e nesta hipótese a necessitar ser honesto: o homem do povo aprecia mais bravatear a se construir na desconstrução da memória, para salvar, pensa ele, essa memória). A outrem. Como não tem um público, vivendo sozinho no casarão; sim um casarão pra si visto qualquer residência pequena ser enorme a uma só pessoa morando entre badulaques e muito ar sobrando. Como não tem público embora haja muito espaço, não tendo enfim um público suculento desses do tipo televisivo ou eleitoreiro cheios de cabeças não-pensantes fosse pensante sequer haveria o espetáculo – então fala ao Dóqui. Abana compreensão ou apenas amor pelo amo e fica em guarda, que seja à disposição. Daí (que coisa mais cretina: a gente começa qualquer assunto por ‘daí’ nem percebe nada haver dito antes e é o caso desse matuto) daí, diz a boca que fala, eu era um moleque demais travesso, ih mil artes... nem o capeta podia comigo. Neste ponto é preciso lembrar a temência popular ao diabo e a graça com que são admitidos os asseclas do diabo, os capetas; os quais se leva mais em brincadeira a acertar frase do que insistir no cerne do que se diz, diz aqui um menino, visto o homem comum por mais velho seja na contagem cronológica é sempre por dentro criança. Ninguém podia comigo, bafora agora o velho fumante, enquanto olha pra baixo prestando atenção no cachorro se entendendo ou ao menos o outrinho sem au-au embora atento. Ninguém, a mãe... dona Francisca, nada que ver com dona Chiquinha esta viva a outra morta não se conheceram em não ser de nome citado; o João volta e meia se refere à genitora inclusive à funcionária ou comadre a enrolar a trouxa de roupa suja no chão da sala do ‘patrão’ e vai ver foi ela quem sumiu com a camisa azul que tanto ele apreciava, azul cansada no uso porém dessas que nenhuma novinha em folha supera; despareceu como por encanto a peça, vasculhou desistiu nunca indagou sobre tal à Chiquinha. A mãe... Conta ao seu público cativo, conta reconta ao cansaço – todo velho não se cansa repetir. No entanto um dia, com ou sem orelha canina, um dia veio-lhe um auditório cheiinho e suculento, o Trovão.
          Nunca soube certo esse errado sobre o apelido. Umas orelhas nada pacientes – ao contrário falava e mais falava falando alto, mais alto ainda que o próprio João, este a si Seu Batista na falta de intimidade, berrado nada por imaginar o dono da casa surdo mudo e tímido só acertando na última acepção por Batista até ao cão gritando parecendo surdo, os surdos não equilibram a voz esbravejam imaginando surdo o ouvinte ou nem pensando no ouvinte. Assim ambos oradores se engalfinharam a narrar seus feitos ao outro, se entrecruzando não propriamente ofensas todavia num ‘colóquio’ de jogar fora palavras, tão grato ao homem comum. Não deixou Trovão o morador citar a mãe, imediato ele mesmo contou seus casos ao ouvinte, a gente nunca presta atenção e portanto não ouvinte enfim ‘ouvinte’... contou os percalços de sua mãe juntou com os do pai, sem se saber ouvido; doutro lado certamente ‘escutando’ mil coisas do João, este devolvendo na mesma moeda à visita, precária mas visita: não memorizou também o que não ouvindo. Aliás muita vez o som não tem som nas conversas, fiadas ou não.
          Dóqui – declara o dono de Dóqui ao Dóqui – Dóqui, eu não suporto mais o vizinho, segunda vez que entra aqui no quintal esse berrador, esse tal de Trovão. Pois na casa dele ali nem se ouve a dona nem o menino deles, só ele! e vem aqui agora na casa da gente contar vantagem e... e foi por aí a arenga, o Dóqui apenas assuntando de orelha como estando os ânimos do amo. Por sinal o cão tem umas orelhas enormes de vira-lata, lambido ele de pele e pelos curtos mordidos nos tufos nas frequentes brigas com os seus iguais desemelhantes no tamanho e no ladrar; ladrar visitas por exemplo. Orelhas, olhos limpos súplices, focinho sempre a alumiar; o que mais relevando no relevo de pele e pelos sendo os caminhinhos por entre o todo com toda espécie de sanguessugas. E a magreza exposta! Não que Batista lhe negue o básico e até alguns mais cuidados em tratamento decente digno dum cidadão de família matuta emigrada afugentada anos distantes pelo latifundiário do latifúndio onde morava, não; fornece sim o que acha que necessita, como arroz feijão carne, restos seus e osso, osso também facilmente encontrável na rua pobre de periferia pobre de urbe pobre pequena não acanhada demais, no entanto sem gerência política e com ingerência indevida dos interesses dessa mesma política. Assim o Dóqui se mantém e é espécie de grude colado sempre ao amo; onde vai um, claro o homem, o outro atrás, claro o bicho. Agora estica pra cima os orelhões a ouvir direito aquela sumidade amiga lá em cima a bravatear; ou a confessar. Lamenta, não chora e será que cachorro entenderia a lágrima! lamenta suas coisas suas faltas suas razões, se julgando toda vez com razão. Entretanto ameniza o dizer a dizer do tempo antigo.
          A mãe... a mãe pitava e pitava muito sempre eu via ela com cigarro na boca o qual acendia na brasa do fogão, não é do fogão que nós temos aqui em casa e... ah, não é bem isso que desejava falar, não pitar mas gritar, gritava dia todo “Joãozinho” e no final todos me conheciam por Zinho, Ziiiiinho! ela, e daí cadê o Zinho? pescando arruaçando com a arraia-miúda por aí nas capoeiras, a mãe lastimava; esse moleque, comadre, um capeta; menino parece ter bicho-carpinteiro, não aguento e olha (a matuta pronuncia “óia”) não adiantam as surras; então a mulher conta as chibatadas o pai violento, coisa assim de salmoura depois da festa: a gente olha pra lá olha pra cá cadê o fia-da-p. (se xinga Francisca) anda no riacho decerto pois não sai de lá, sai se afunda nas capoeiras fazer coisas feias com a molecada. Ainda bem que tenho as meninas... Conta a menina a outra outra mais e os machos já tudo de roça e as filhas também no cabo de enxada, tudinho trabalhador, se envaidece a mãe a narrar. O roceiro tem certa reserva com o erre suprime erres, pronuncia igualmente “trabaiadô”, além não perdoar nenhum na zona rural as exigências de concordância; coisa que nem o homem urbano respeita em respeito aos resguardos da língua da roça donde vindo; donde viria Batista e os seus. Não. Não todos, Francisca morreria antes do êxodo rural, afugentada a gente pela gente do latifundiário, já dito. Continua a narrar ao paciente Dóqui o amo; entretanto se alembrando afirmar somente as lembranças boas, ou aceitas publicamente: não aquelas que constrangem ou impróprias a menores de dezoito (a propósito quantos anos teria o vira-lata!) essas umas são afugentadas pelo afugentar, Batista não expressa; e para que remoer feridas! Conta repete insiste reverbera até e até ri, pondo à mostra aqueles dentões estragados, ou gastos sujos no uso do abuso da dentadura gasta suja. Oh, o velho presente a falar do passado. Quando nisso e nos momentos por distração, expõe algo que adquiriu faz tempo ou seja um costume no mínimo nojento, que é o de remexer sem parar e imperceptivelmente a dentadura meio solta com a língua, esta que não aprecia frouxidão e vão, chocalhando o conjunto ao arrepio do ouvinte; não, Dóqui sequer vendo para criticar criticaria a nojeira? Olha ainda para os lábios falantes lá em cima desde seu eu em baixo e aceita, amigo. Joãozinho, gritava a mãe dia todo, não: noite toda, de tardinha na boca da noite com o calor é que os lambaris desejam morder o anzol chupar a minhoca e... vai escutando, Dóqui (Dóqui a esse som conhecido se estremece e mais atenta ao assunto que vem lá do amo, olha encantado ou só atento mesmo:) vai escutando repete o amo. Então, também nessa hora a gente vendo torcendo espreitando mexer a varinha e a linha desde a tona do rio – eis que eles chegam! Não senhor, não falo dos peixes sim dos pernilongos. Os brutos vêm sugar o sangue da gente, chupam a gente, a gente sequer podendo se mover ou tremeria o braço feito campo de aviação deles, o direito, sempre fui direiteiro (quis falar destro, não sabendo não disse) e aí eles mamam. Insisto com você, você a pensar peixe e falo pernilongo. Mil. Um uma vez esborrachei num tapa numa sangueira, visto andar me fazendo sangria o fia-da-p. (xinga a mãe do inseto) e deveria de fato ser o sugador a sugadora porque é a fêmea que engole o sangue para depois encher de sangue os ovinhos dela botados nas lagoas para haver mais pra diante mais pernilonguinhos ainda, aqueles p. (xingou agora o próprio pernilongo) o pernilongo a se fartar forte no braço fraco do Joãozinho. Pois bem, menino (tal som o Dóqui não identifica entretanto diante a expressão do amo lê por coisa boa a si, talvez osso com fragmentos de carne e sangue; por isso até se ri); pois bem, vou lhe dar sua comida agora. Tilintou talheres remexeu trens de cozinha raspou prato, espantou antes moscas atrevidas, atrevidas quem sabe nem sendo opinião do focinho do cachorro magro, chamou sem precisar mais pelo costume de chamar só a avisar, chamou o cão despejou alimento no seu prato, o prato do cachorro não mais que uma lata de goiabada com bordas mal amassadas tendo ainda rebarbinhas de lata, despejou aí a comida já fria em vista estar hora falando sobre a meninice ao amigo e haver tempo que almoçara; enfim serviu a ‘mesa’ no chão. Sorriu o cão. Sorriram ambos.
          Eu trabalhava em garoto, garoto (este som pronunciado também desconhecido de Dóqui) garoto ainda trabalhava “trabaiava” como roceiro, porque a gente nunca deixa ser da roça embora vivendo anos na urbe. Trabalhava sim, trabalhei desde novinho no eito na enxada durante o dia até noite (aqui mentiu um pouco, a mentira apraz bem ao homem comum...)
          Naquele tempo... enfim na minha meninice, menino, continuando o velho a narrar agora de boca cheia; não cheia a do Dóqui e sim com orelhas limpas livres leves lépidas prontas a ouvir a sabedoria do amo. Naquele não me lembro houvesse missa. Aqui sim tem missa, na cidade tantas igrejas e muitas missas, outro dia não peguei você em flagrante crime, a entrar na igreja e aí como eu ficaria com o padre Bento! como explicar eu estando ajoelhado a rezar e você, você Dóqui! (o pobre cão se espanta olha rumo do Batista e terá se indagado onde foi que errei agora!?) Então, olha os fiéis me vendo com um cachorro da rua na igreja a me farejar pelas costas! Não. Isso foi imperdoável e assim toquei primeiro você de leve manso, assoprei um “passa” bem baixinho, mas não entendeu e dei um berro a tremer as estátuas dos santos, saí de fininho, envergonhado, a missa estragada, eu depois amoitado aqui em casa, somente noutra vez tornei aos ofícios religiosos. Na roça não tinha missa.
          Nesta altura dos acontecimentos ou dos sofrimentos, certa abelhuda maçaneta indaga e imediato costura uma explicação crítica em crítica. Mais ou menos nestes termos: a linguagem exposta aqui tenta ser a da língua culta, porém inegável que um sujeito comum a perorar brabo com seu amigo pelo deslize cometido, que esse sujeito não use certinho vocábulos nem construa frases de arte a satisfazer, satisfazer digamos um leitor acadêmico. João pura e simplesmente discorre, brabo insiste-se, sobre a entrada indevida do cão entre contritos santos puros católicos no domingo munidos de ramos a serem abençoados pelo padre Bento; com o imprevisto aparecimento do seu cachorro, não se forçaria neste ponto que reagisse em alta educação, estando de joelhos; isso porque os de João doendo muito, seu forte durante vida toda fora sempre o fraco de sofrer pelo dobramento lancinantes dores e até chegar enfim a amolecer pelas juntas da perna; um negócio assim de ossos, ossinhos a bem dizer, uns pontudos pra fora e nisso olhava o caboclo as mulheres em volta, não a perceber avaliar desejar desejadas fêmeas da espécie, ainda por cima nesse por baixo encontrando-se velho, véio como era seu dizer, e daí só ‘via’ a beleza e sentia a atração – sem se pôr à conquista... ora, se nem quando jovem tendo tido coragem à conquista por causa da maldita timidez! então não sendo agora examiná-las para satisfazer sua carne. Não. Volta-se às suas irmãs para compará-las consigo: elas amaciadas nos joelhos horas a rezar sem parar, ele suportando apenas minutos ajoelhado na laje fria da igreja. Sim. Não é propriamente isto que desejando mostrar a abelhuda maçaneta aqui interposta; porém querendo esclarecer a questão da pronúncia (escrita não, não sabe ler o roceiro por mais urbanizado seja: não escreveria e menos um discurso a tremer folhas nas laudas em laudatório num assunto de religião:) sim a pronúncia no dialeto caipira. Este diz por exemplo não ‘não’, diz “num”, por exemplo num saia daqui, imperando a gritar com o cachorro. Não você, “ocê”. Enfim nada diverso do cidadão que é agora no presente na cidade e que era quando roceiro na roça no passado na meninice; nada diverso também dos seus pares urbanizados. Em suma essa a pronúncia do popular vivendo ou no meio rural ou no meio urbano. Nada que o sol não tenha ainda visto no homem do povo.
          Não me lembro houvesse missa. Claro, pra que a dúvida: quem morando na roça ia à cidade para a missa. Lá no campo só as novenas. Aqui as recordações de Batista o levaram a caminhar menino às noites de encontros religiosos com as mulheres rezadeiras por intermédio das mãos maternas, a se lembrar saudoso da genitora e assim lágrimas se soltando diante do cãozinho; este não entendendo porém a ler rápido a feição a mudança de ânimo do amo, se encolheu se coçou um bocado se aboletou num canto. O homem se viu a falar sozinho, a se falar; o que comum nos idosos. Aliás isso um ponto a ser lembrado, visto os vizinhos pensarem que o velhote conversasse só, alto; nada como o comum de se falar num diálogo que ocorre às pessoas malucas sozinhas, mesmo não sendo velhas ou crianças, que é de um de seus eus perguntar responder o outro de seus eus, a abarcar o único eu pensante, eternamente existente; isto um afirmar dos religiosos testemunhas de Jeová vindos à pregação no portãozinho da residência de João: o João balança a cabeça pra lá pra cá se não negando descrendo – de a carne apodrecer morrer viver depois sempre o espírito chamado alma por eles, onde se encontra o eu, dele e de todos seres humanos.
          Em verdade, seja no relatar ao Dóqui seja a si mesmo; e até, eventualmente, a um trovão visitante; em verdade é o presente do velho Batista a narrar seu passado, o de ontem de trasanteontem ocorrido ou no seu passado remoto e quase esquecido que é da meninice. Resumindo, ouve-se a voz dum solitário, solitário piormente tímido, pois poderia semelhante aos outros andar nas imediações a jogar fora palavras na troca da conversa-fiada. Sim, não se nega o velhote sempre em meio às recordações a também manter com outrem assunto corriqueiro; a por exemplo se impressionar com o tempo “será que vai chover?” “viu o crime na tevê ontem!” – não passa de um homem comum.
Cap. 3°     
          Curioso, o Batista e pode que o seu cachorro enxergue também assim, assim parecido ao amo, assim de tentar ver as coisas do passado – do passado recente esquece o velho quase na hora do acontecer nem tenta mais relembrar não lembra o dia a folhinha a conta na conta e a conta do calendário; mas coisas dum passado longe remoto no meio a existir e sumir ao mesmo tempo no tempo – coisas que se passaram longe demais na coleção dos novembros, seu natalício sendo em novembro; e dessa forma não lembra e se se lembra lembra não por inteiro. Curioso é que se usar as lentes por mais grossas sejam dos óculos encavalados qual os óculos que lhe disporiam no seu velório, essas lentes de enxergar mal o presente ali palpável, não seriam elas insuficientes para ver o ontem o anteontem o trasanteontem, em síntese o seu passado? Contudo não servem não satisfazem e é possível que nem elas mesmas se satisfaçam com seus embaços de vidro; talvez não de vidro e sim de plástico! tudo hoje sendo feito de plástico. Porém o curioso é Batista chegar sem dizer sobre o plano ao Dóqui, Dóqui não entenderia disso – o plano de chegar imaginar usar não os óculos todavia o binóculo. Este mais afeito e feito para visualizar de fato o futuro, o futuro que possui pernonas longas pra longe alcançar e no caso distinguir, visto ter mais que os óculos suas decentes potentes lentes da gente a perceber seu futuro. Não. Sim quer ver um dia, diz seu otimismo, quer ver o futuro. Antes do futuro pretendendo usar o binóculo pra farejar e constatar as fugidias coisas do seu passado...
          Não comunicou às orelhas e à visão de Dóqui tal maluqueira, maluquice se ficar melhor ao dicionário; o dele ensebado porém não do uso e menos do abuso, por causa do desuso no tempo; a umidade a poeira a sombra o escondido... daí as folhas ressecadas ficam quebradiças e viram fragmentos de dicionário. Ora para que dicionário se maluqueira e maluquice ele não escreve nunca, e sim os outros é que possam pensar e falar dele; dele! deles pois do cachorro igualmente. Não comete nenhum desatino nenhum ato de loucura como o de propor ao cão usarem binóculo de se ver o futuro usando o instrumento para conseguir ver melhor o passado, enublado distante.
          Seja como for comunica isso mas por alto, já então narrando sem parar (isto abuso ao abuso, visto quem pode não respirar, não fazer xixi, não atender as palmas na cerca de casa!) narra feito matraca sobre sua adolescência e o marcante acontecimento do falecimento da mãe. O cão se coça se ajeita incomodado, acomodado agora a ouvi-lo. Dona Francisca morre! Não, Dóqui, não dona Chiquinha, a que trouxe a trouxa de roupa acho que achou certo estava errada na conta porque faltando um pé da marrom, não sei se a esquerda se a direita, contei recontei constatei a falta da meia, do pé de meia. Não essa, não lhe falei que a mãe era também Francisca? mais francisca que Chiquinha por haver antes nascido; morreu, Dóqui. Eu? eu era um adolescente (João não sabe o termo, engloba tudo na juventude:) todos nós éramos jovens, só o Murilo, meu mano mais velho entre os nascidos porque os demais anterior a esse nascimento morreram, nem nasceram ou saíram após dias vivos mortos como anjinhos ao cemitério na cidade. Esta mesma Vila Verde, não lhe afiancei!? Murilo e os outros mais velhos sumiram no mundo; somente os novos e pequenos ficaram na fazenda com ela e o pai, o pai? o pai ocê pergunta, danou a beber e por isso fomos expulsos enxotados de lá pelo fazendeiro um pouco depois, antes a mãe sofreu se foi ao céu; a gente admitia o inferno conforme a pregação na missa na cidade, a mãe boa demais pra não subir ao céu. Morreu a pobre.
          Interessante nessa narração o fato de o cachorro andar parado e atencioso no entanto sem coragem, como tivera coragem vida toda a ladrar sem parar e com fôlego enorme e absurdo, até acordando todo um mundo e a incitar instar os pares latirem em cadeia – sem êxito os berros de Batista nessas ocasiões exigindo calar seu cachorro o gogó: Dóqui latia mais ainda! Agora? parado enrolado no canto, atento à língua solta do amo. Sem coragem o cão, velho, estragado, como estragado e velho o velho senhor. Embora, João tendo ainda força e ânimo na boca e conta (em idoso nunca sendo contar, recontar...) conta sem parar o episódio da morte da genitora e a expulsão da família, então desregrada e sem norte com a embriaguez constante do chefe familial, expulsa pelos jagunços abusados do fazendeiro. Daí a seguir o seguir para Vila Verde.
          A casa estava de pé, até o pé na cova da mãe, meu Dóqui. Tudo funcionava bem, os meninos se amavam, apesar de nós brigarmos sim mas havendo apego e o trabalho na enxada unindo os nossos; ah, tinha naquele tempo o Peri, cachorro pulguento igual ocê, morreu, não ocê, ele. Peri era como irmão da gente. Outra hora falo mais sobre esse seu irmão que era também nosso irmão como fosse de sangue. Eu lhe falava funcionar a família bem porque havia amor puro! puro sei lá. Naquele tempo antigo não era igual hoje: os casais brigam se desunem se separam rápido. Os que eu conheci então também brigavam e inclusive se separavam, a mulher voltava pra casa da mãe dela onde o pai mandava. O casamento geralmente advindo pelo costume, os jovens por vezes sem se amarem porém as famílias assim mesmo casavam os filhos, por vez combinado o matrimônio quando os filhos crianças ainda; uma trama dos adultos ligando seus herdeiros; enfim casavam e aprendiam se não a se amar, se respeitar; e durava. O caso do pai e da mãe, esta quem falei morreu e não se mudou com o pai e as crianças pra Vila Verde, indo para o cemitério de Vila entretanto. Pois é, Dóqui, será que o matrimônio de antigamente dava certo (alguns não davam...) e o de hoje não se mantendo em virtude do ‘amor’ fugaz da juventude apressada? Sei não, menino; ocê vê que nem casei pra poder... poderia agora dar palpite mais seguro, vivo até hoje solteiro, alguém me gozou dizendo que fiquei pra tio igual as solteironas tidas tias. Porém foi por outras razões continuar celibatário, não por escolha minha ou por não querer mulher... você não entende disso, nem de mulher e eu não quero falar sobre isso. Pronto.
          Olha o cachorro, vê um amigo que não sabe como ficar bem para ficar bem com o amo. É constrangedora a situação.
          Realmente constrangedor, talvez nem sinta assim no entanto vê algo semelhante no amo: o amo sempre está quando perto longe no vidro de seus óculos – um João quase risquinhos lá nos fundos e como sendo um bocado torto desenhos soltos e embrulhados. A gente, a gente quem vê a gente nesse estado de cegueira que enxerga, mal assim mesmo enxerga, quando enxerga nesse lá longe das lentes, inclusive sente espécie de enjoo, embrulha o embrulho do estômago da compreensão. Não o cão não. ‘Vê’ mais o cheiro (ainda bem ou não veria, velho, o velho através dos óculos). Agora, encolhido e razoavelmente distante dele, achará quem sabe engraçado sua boca, a boca não os olhos de verem sem ver bem; a boca a mexer e mexer também os bigodes, no conjunto sobem descem remexem fornecem sons costumeiros e berros habituais, isto porque Batista critica comumente os trovões vizinhos entretanto troveja bem sua voz – já nem se assusta demais por isso com o amo (“estará bravo comigo! o que será que fiz outra vez errado?” pensará o bicho em pele e ossos:) não se assusta tanto e se dispõe ficar atento, mais atento ao mestre e amo e pai e sabe-se lá o quê; não se assusta, assunta. Então o cão irmão do homem tira as teias da própria orelha e atenta melhor o dizer. Diz o outro, você não sabe que eu sempre mas sempre mesmo fui um ganhador, herói não afirmo porém ganhador nas corridas lá na roça – aqui na Vila quando viemos era verde nas amizades, contido com os rapazes da cidade e daí não participando das brincadeiras; na roça no entanto desde moleque e até na juventude ganhava de todos numa raia... A gente punha um marco, uma pedra um pau ou qualquer coisa para meta; gritávamos (todos juntos pois ambiente ao momento festivo e alegre; isso para começar a corrida:) e nos púnhamos da largada ao fim a movimento rápido, eu mais ligeiro que os outros concorrentes, sempre sempre insisto sempre, oh menino; então eu ganhava todas de todos; quando não a deixar para trás o segundo o terceiro corredores muitos metros longe. Bem, verdade que exagero no sempre e no absoluto das coisas nas disputas nossas, porque não me deixava o maldito joelho... não lhe contei sobre os joelhos os ossinhos saltados pra fora a missa as mulheres ajoelhadas sem se cansar rezar nessa posição dobrada e o cachorro, falo daquele cachorro me lambendo entrado pela entrada da igreja! ora, “besta eu” (João vida inteira usou esta expressão a se condenar duma bobagem praticada) besta eu, eu a falar aqui ao próprio criminoso em crime de lesa-majestade penetrando num recinto puro limpo e de oração, atraído pelo cheirinho do seu amo. O criminoso era você!! Falei que doía, doía demais, eu chegava a amolecer o corpo e... ora bolas, não dando para continuar na minha reza e nem quando a já estar para ganhar a corrida. Disso concluímos, bravateia o orador, concluímos que não foram todas corridas ganhas por mim. Dava como um choque-dor-choque e eu tibum no chão. Meu fraco, Dóqui. Verdade, menino. Oh que diabo, parece não crer... Quando falo uma verdade das verdadeiras não acredita; acredita ser verdade entretanto quando apresento mentira! quer dizer, falo inverdade apenas a verificar sua atenção. Não minto, insiste se defendendo o amo a aferir certa indignação no seu cachorro.
          Nesta altura, certa obtusa maçaneta da porta levanta alguma dúvida: será que não os óculos porém o binóculo, de maior alcance, não dirimiria se verdadeiro se mentiroso o que o velho pensa do cão!
          Faz-se um hiato.
          Ninguém poderia medir um hiato. Aqui se põe o hiato entre a fala de Batista ao cão – ou ele a imaginar o grande público irriquieto ou apenas de fato um par de orelhas, no caso pra cima empinadas submissas com certeza e profundas quem sabe, as do cachorro amigo, que seja amigo cachorro o que dá no mesmo – ou seja ao Dóqui. Doutro lado a situação nada esdrúxula do silêncio... O hiato que não tem altura largura densidade profundidade nem cor nem som sobretudo não tendo som; o estado igual quando no sono manso, quando na distração envolvente e que envolve o pensador ou não-pensador. O hiato aqui diz presente a dar de presente descanso aos ouvidos do cachorrinho, o cachorrinho dorme na sua própria opção de hiato, antes atentíssimo e após o hiato talvez acordando ou pelo menos ligado ainda sonolento. O dono então pensa.
          Na verdade Batista encontra-se parado estátua estático no meio da sala, no canto da sala o amigo dorme não coça pulgas relaxado talvez no sono profundo enquanto a estátua não fala, não falam estátuas, pensa tão somente nem abre a boca; a mão direita segura seus óculos presos por uma das hastes a balançar imperceptivelmente levemente as lentes em reflexo do pouco movimento, sequer permitindo notar pontinhos de sujeira nelas ao longo do tempo grudadas a auxiliar ‘desenxergar’ ou a diminuir a transparência e a visão da visão. Segura a haste da armação desses óculos pra ver a realidade próxima, a de lado a de alto a baixo a de profundidade na pouca atividade por cegueira; e para que ver se se encontra pensando ou só distraído o velho, o velho dos óculos de lentes tipo garrafa na gozação que devem vizinhos arriscar fazer e fazer com certeza por trás de Batista; agora não: está naquela vertigem de se desapegar do real afundar no sono desperto quiçá no sonho sem pesadelo... Então pensa e lembra e conta-não-conta a contar a si mesmo no desvínculo da matéria que o envolve e o rodeia, desconhecendo momentaneamente tudo isso. Ah, se diz, ah que interessante aqui dentro do ônibus o povo palrador ensurdecedor nas suas conversas (a mim fiadas) a sempre barulhar o coletivo no coletivo, esse circular que desvia dos buracos a nos sacolejar entretanto... ah sim, vejo de novo o Dóqui a tentar entrar no veículo e não lhe deixam ou iria me farejar como o fizera na igreja e aqui não estou rezando nem olhando de viés as mulheres de joelhos carnudos e macios sequer incomodadas pela dor que decerto não sentem e assim me volto pra minha própria dor na laje fria da igreja e lá no fundo o padre prega e... não me livrei do cão a envergonhar a gente nos recintos sérios e impróprios a cachorro! Agora ele não consegue subir a escadinha do ônibus, o ônibus a sacolejar sacolejando a gente, entretanto... entretanto, curioso isso, ninguém fala neste momento dentro da condução! todo ônibus mudo não o mundo a fonfonar buzinas e gritos e estrilos dos grilos de talão de multa no trânsito doido, doido eu mesmo não ouvindo (terei ficado de repente surdo?) isto porque ninguém conversa num tempo enorme de minutos ou século; parece-me os passageiros dormindo não obstante acordados, qualquer coisa assim como o silêncio da paz, a paz do túmulo... terão todos esgotado os assuntos e o que seria então do mundo de então sem o jogo pra fora das bobagens que essas bestas humanas usam a me irritar sempre!? oh pobre humanidade pois sem articular sons ela não existe, o homem é um animal que fala; já os outros nossos irmãos na criação sem essa faculdade não falam, ladram berram uivam guincham e até pensam mais que o homem. O homem fala, esse homem velho agora não fala. E acorda. Sem ter de fato dormido, mera estátua parada no meio do cômodo de receber visitas e de não recebê-las em ‘desacostume’. Olha pro canto, no canto aquele enrolo de animal amigo a dormir, dorme e de vez em quando tendo um frêmito, estará o pobre animal com pesadelo ou num mero sonho rotineiro nos que dormem?
          Nesse momento Batista não anda, está igual estátua na sala desordenada e suja – ai, as mulheres, pensa o homem, elas caso visitassem o velho, dariam cria pela bagunça vista na sala na casa como um todo toda desarrumada – não se encontra aí, lá, lá no banheiro. Não toma banho, se lava na pia, olha vê em cima à sua frente o espelho que o vê, abismado ou surpreendido que seja, se é que a rotina pudesse espantar alguém. Vê ele Batista, enquanto Batista examina outra e mais outra de suas novas rugas e de seus novos vincos vistos imprevistos ou mal vistos: há sempre algo que as dezenas de anos quiçá um pobre século não percebem num rosto velho gasto de velho. Resmunga o velho, daria um pito no atrevido vidro que os reflete! – só resmunga e o faz em hum-hum-hum, o que não diz coisa alguma; vê o bigode, preciso aparar esses fios espetados, pintar nunca! e pintam muito os brancos a se salientar entre os que foram decerto pretos ou castanhos para lembrar a lembrança paterna e aí some, some ele na vertigem da recordação, condena veementemente recordações, torna das recordações e então estica pele aqui, junta pelancas pra lá, lá de baixo do queixo no pescoço as peles moles frouxas sobram em sobra dos anos que já sobram (ele não sabe o quanto) há uma ordem da estatística que exige descanso no campo-santo após os setenta, Batista já ilude a estatística em mais de dezena de novembros, seus novembros de aniversário de velinhas. Faz muxoxo aos anos, retoma o que não fazia ou seja ocupando utilmente o tempo, enxerga inutilidade em apenas se mostrar a um vidro transparente (e mentiroso! se vinga). Contudo prossegue, enruga encolhe espreme a boca ao nível dos lábios grossos, contrai assim o bigode, arrepia junta a pele amontoada que vai daí ao queixo de ponta quadrada... uh ora o pai aqui a me dar palpite outra vez... Examina, agora detidamente, o couro ressecado do rosto, pelos, coto de pelos surgem ou somente se mostram como pingos nos is, pelos brancos um só que outro meio escuro a revelar uma barba por fazer (nunca aceitara a expressão e insistia: por que ‘fazer’ se feita pela natureza e então capada castrada pela tesoura por grande e alta ou raspada baixinha quase rente de navalha ou de gilete) enfim está por fazer, coisa horrorosa pra si e se, se pergunta, eu resolvesse fazer a barba imediato e aqui não dando de gilete, essa minha lâmina cega e provocadora de dores, se resolvesse fazer não a minha mas a barba do Dóqui! usaria primeiro tesoura como fosse foice de roçar o roçado alto e depois... ora bolas, vou querer que meu pobre amigo fique pelado de peludo que é e piormente a sentir frio, o frio que se aproxima hoje, ontem mesmo não pus coberta fina a me cobrir! Após o pensamento o homem se liga, não se vê mais no espelhinho, o vidro então decepcionado e desgastado pelo abandono. Quando vê, quer dizer quando acorda, Batista se acordando João, e está na sala de novo, o cão dorme, ele novamente de pé e sua mão a segurar algo, um pente... e para quê? João é totalmente calvo, careca dizem e se afirma ele mesmo assim. Não, tem entre as orelhas, perto das orelhas, alguns teimosos retardatários fios numa briga entre si no branco no preto no preto-virando-branco. Claro, inteligente, torna ao sanitário guarda o pente torna à sua sala. Faz imediato mais: senta-se na poltrona... mas eis a desgraça de plantão; e isso foi horroroso: sentou-se inadvertidamente em cima dos óculos, os óculos pra ver a realidade próxima palpável ‘plena’; por descuido deixara o instrumento no assento...
          Ofof...oftal... João balbucia, o atendente na loja que mostra nos garrafais Óptica Brasil, aquela na avenidona, toda urbe interiorana tem além do comércio a igreja no centro numa avenida principal, a que o caboclo chama “Avenidona” e todos assim entendem; o atendente engolindo maroto o riso corrige para oftalmologista, pronuncia devagarinho à compreensão matuta, o matuto concorda discordando porém não repete o vocábulo para não errar dar novo vexame mas pensa “oculista”, pronto. Quer dizer, diz, ir ao médico fazer (aviar, corrige o entendido,) isso, ver se o doutor me faz ver... não, já sei: ver o grau do vidro e eu só quero que ocê faça outros óculos e também não concordo pagar tão caro, isto é não tenho dinheiro nem pra loja e agora ter de pagar o médico! Não concordam, aceita Batista ir meio tateante procurar o oftalm... vixe! Bem, mais uma semana cego, mais cego que antes, até receber a aposentadoria e poder pagar consulta de olho, no estilo num preço o olho da cara; aí torna à loja, acerta prestação suave; aguenta mais uns dias esbarrando em casa, sem se acostumar com a situação, naturalmente; por fim volta firme corajoso feliz até para residência a retomar a rotina.
          Dóqui sorri a tanta felicidade, aquele cheirinho de amo que é uma delícia. E agora o amo dá continuidade à paisagem que lhe havia temporariamente sumido. De óculos novos o velho; o velho instrumental, fragmentos dele, ficou jogado no cesto de lixo da loja; os novos são novos, se fala, feliz. Oh como basta o pouco à muita felicidade!
          A rotina manda que os costumes prossigam, Batista vê agora o cachorro que não vê: dorme enroladinho. Ah o pobre, nestes dias anda desanimado sem andar, mais dorme e se encolhe. O bicho deve ter bicho; levo o Dóqui na farmácia? na roça a gente dizia a botica lá na cidade, aqui Vila Verde. Aí se encaminha à janela.
          A janela de madeira cansada rachada empenada velha desgastada, na casa de madeira velha etc. e tal; tal a situação, a situação é estar a janela arreganhada a ganhar sol e ar, chove e umedece lá fora, aqui dentro meio desenxavido o velho dono e dono de um par de óculos limpos lindos novos, enxerga e por associação de ideias e sentimentos é atirado de volta ao passado (não esse que exige esses e o binóculo a analisar saber maior e melhor; sim os óculos, novos que sejam mas o de olhar perto o meio distante passado:) e chove, e chovia, chovia naquela fresta servindo a olhar fora por dentro da tulha, um celeiro que os do campo pronunciavam “túia”. Vê a torrente, embora também calma e não arrasadora como não avassaladora a que espreita da janela hoje, e o pobrinho não olha dorme sua enfermidade decerto. E vê, sim ‘vê’ as coisas, foge do sofrimento da mãe, aquele que a levaria ao túmulo pra morar mais cedo que a família na Vila Verde, na necrópole dela ela, eles na família só mais tarde em mudança. Foge. Recebe perto da tulha a visita da bela... Andava assinzinho por Aparecida, nome que o nome de família lhe forneceu por graça de Nossa Senhora. A Cida chega radiante. Contudo não visita bem o moço João (ora, como não se uma jovem e por jovem e por mulher roceira, casadoira...) visita a pedido da mãe, mãe dela, a mãe dele. Todavia sorri ao macho da espécie juventude e certamente não vê ah vê sim o vesgo que brota do vesgo e ainda o vê belo, belo!? sabe-se lá, lá se vai entender o gosto das fêmeas da espécie juventude... Ele aprecia aquela vestimenta decerto cheirosa. Não. Homem não vê pano vê corpo, este mais cheiroso... Não importa: Zinho ficou num lance de mágica grandalhão conquistador herói e o mais, menos menos: se afundou na vergonha, a vergonha que poderia dispor dum contato fêmeo tão ao alcance – no momento Francisca olha a reprovar a cupidez; ou não, não teve o conquistador coragem sequer enfrentar as rédeas puxadas pela genitora, encolheu-se fugiu – fugiu dali, embalado, pela timidez. Puxa, sempre isso! ou seja o drama da timidez perante um ser tão atraente tão belo; para um jovem faminto e ‘valente’ toda mulher é bela.
          Olhe meu caro, afirma ao Dóqui se espreguiçando gozado, se estica se espreme se mexe um pouco... e torna a se deitar olhar observar atentar, atentar para o quê? aguardar a voz tonitroante não do trovão, de Batista. Meu caro tive (verbo ter conjugado no absurdo nunca satisfeito) tive foi muitíssimas mulheres na minha juventude, eu um guapo macho; não tive apenas a Cida.
          Você não se lembra da Mariquinha? ocê vivia grudado a mim e até sorrindo de rabo também pra Mariquinha, não é assim... ora, besta eu, o Peri quem sorria pra ela, você só viria existir aqui nesta casa onde moramos e não na fazenda, a fazenda virou capim virou gado e todas pessoas foram expulsas de lá. Então, andei nesse tempo com mil mulheres (aqui João exagera o exagero) a Mariquinha pobrezinha vivia morrendo de amor por mim, pra si eu era o João da comadre Francisca da mãe dela. Implorava, Dóqui: eu só via as outras jovens. Uma vez deu algo na cabeça dela, acho que um câncer, a gente nunca soube direito; enfim doença ruim. Morreu. Aí fiquei com pena pela morte da menina e ao mesmo tempo por não haver nunca aceitado seus ímpetos amorosos... Dias assim com sentimento e até me condenando não ter com ela algum agrado. Depois me voltei às outras, quase tentando esquecer minha falta com a morta quando viva; então sim me voltei às outras conquistas...
          Dóqui examina lá em cima o rosto do conquistador, não diz nada não comenta. Pisca gozado, caça alcança mastiga o mosquitinho, daqueles mosquitinhos que voejam lambem irritam não só cachorro mas a gente quando a gente a espairecer. O amo entende ou não entende o seu cão. Retoma seu discurso cheio de extravagâncias e conquistas. Relaciona o lote das mil jovens com as quais priva, priva! mais que isso isto: enlaça beija namora, faz mais ainda que aquilo proibitivo aos tímidos e sendo condenável pela moral da época atual e mais pela época de sua juventude roceira. Sim enlaça beija namora conquista, e perde! perde, tanto assim andar até chegar a ser velhote que é agora solteirão, quase solitário não fosse a companhia amiga do cachorro a quem se dirige. Conta, conta com certa capacidade inventiva, narra como convivera com as mulheres nos bailes da roça, inclui até brigas e bebedeiras (claro, ele suplantando fácil adversários e rivais...) Porém abusa mais na tentativa de pintar como numa tela os traços de tantas belezas; para algumas das mulheres ele impondo enquanto outras chegando a lhe implorar carinho, qual a Mariquinha – todas a desejar o amor quase inatingível do jovem João Baptista! Bem, abusa ainda no traçar caracteres feminis como a indumentária delas, no que não deve ter ultrapassado a descrição de vestidos de chita e um que outro adereço; sequer nesse particular João se mostrando a contento; ora, se Dóqui não entende de roupa feminina nem masculina, o amo também não sabendo de cátedra para lecionar ao amigo. Não descreve pano e o cachorro não usando tecido para comparar e assim compreender. Nisto uma curiosa experiência doutro dia prova esse desacerto: no inverno passado enrolara o amo seu amigo num capote velho estragado julgando passasse frio; e o animal ficara no abrigo, preso sequer sem poder se mexer.
          Ah pobre Dóqui. Agora melhorou um pouco, isso na avaliação de Batista. Entretanto andara mal, quase morreu, avivando mais ainda a solidão do velho. O episódio fê-lo relembrar o cão jovial e em festa a pular para lamber alegre quando criança o dono já gasto; agora aquele esqueleto num canto e sem coragem até a se levantar! Não comia, emagrecendo a olhos vistos. Além doutros pormenores desagradáveis a entristecer João, como a tosse seca própria de cachorro; e também um engasgo por algo mal engolido que decerto comera antes a vasculhar na rua e nos terrenos baldios; e daí entalado na garganta a sufocar e trazendo tristeza ao homem amigo do amigo do homem. Emagrecia, tentava abocanhar algum alimento, imediato vomitava. O amo com pena e inclusive se desprendeu de escrúpulos como enfermeiro: a limpar a sujeira, sem demonstrar asco; daí examina a expressão do enfermo, vê ou pensa ver lágrima; acaricia o bicho, como espécie de pagamento pela dedicação anterior do animalzinho. Enfim foram dias e noites de sofrimento do velho pelo sofrimento do cão. Quase se pode afirmar haver ficado Batista mais velho ainda com esses dolorosos cuidados. Uns vizinhos, penalizados ou mais experientes, sugerindo veterinário a salvar o animal, o animal estando realmente em pele e ossos. Porém o vizinho dos vizinhos responde (por dentro, fora é a educação no trato comezinho:) oh, dar médico de cavalo ao cachorro!
          Agora Batista sai vai ao fundo do quintal a fugir do sofrer do pobre amigo, o qual parece se acabar irremediavelmente. Então aproxima-se da mangueira, dali chega a examinar uma área ao lado da bananeira, esta também a morrer secando e secaria e morreria de fato; olha tristonho um possível local a enterrar o pranteado amigo. Não obstante Dóqui se anima um pouco se levanta revive e se afirma, comparando com o estado anterior, agora é outro cão, um ser sem vigor sem quaisquer laivos de viço; embora continue amigo, um amigo de ótimas orelhas... Verdade que o homem se desdobrara em cuidados ao seu cachorro; entretanto foram cuidados nada feminis – cuidado sempre lembra a delicadeza da mulher, o pobre enfermeiro não passando do tosco e grosseiro trato masculino.
          No episódio visto, torna o velho João para dentro de casa, sentindo um gosto estranho, o de como fosse culpado na culpa de haver ‘enterrado’ seu amigo; assim examina aliviado o amigo, o paciente amigo dorme ou descansa no seu canto favorito da sala. Acorda. Você despertou, menino, ah que bom.
          As orelhas...
          Prossegue, então sem grande vivacidade, a tratar retratar o que chama tempos antigos, quer dizer a roça a família a conquista o amor a adolescência o mundo imaginário dos que não podem fugir da timidez, esta que ultrapassa a possibilidade da feiura. Será mesmo que o jovem vê de fato sua feiura e a feiura nos outros? Prossegue mas a gente nunca mais tem grande entusiasmo andando tristonho e encabulado.
          Tentando animar o animal, inventa, qual um desacreditado literato, inventa mescla arranja com as verdades que possivelmente viu a perambular nas ruas de Vila Verde, arranja sim com as mentiras que se garante existir – uma curiosa passagem. Dóqui, diz ao Dóqui, e a quem diria tendo apenas um único ouvinte confiável; diz-lhe sobre algo achado como um autêntico achado, bom pra alevantar enfermos; o ter visto numa via pública doutro bairro, cita a rua o nome a memória dele não sabe e sabe menos precisar as orelhas do cão; enfim vira um buraco (buraco em ruas esburacadas pela má gerência dos políticos é demais prosaico) vi um buraco enorme no asfalto e um vazamento de água, a água que falta nas torneiras da urbe à qual as autoridades recomendam contenção, bem entendido: aos contribuintes, o vazamento de água que sobra pelo desinteresse dos mesmos políticos – sim, menino, um buraco uma água a escorrer, um lago formando uma piscina no meio do leito, Dóqui. Sabe o que vi lá? quatro cachorros e um deles parecia você, talvez um irmão seu; eles todos a tomar banho! literalmente, ao menos válido para um deles o qual bebia a todo vapor com a linguinha estalando a água do banho de todos. Não é engraçado, menino?
          O cachorro não se animou, talvez sequer entendendo a estória; tentou se erguer, o que tomado como entendimento ou até como o absurdo do gargalhar, na visão do velho amo. Assim animaram-se ambos e puseram no lugar da tristeza a rotina. Puxa, como é bom retornar à rotina.
          Agora estamos em Vila Verde.






Cap. 4°       
          Na Vila e no presente.
          O presente... quer mais presente que o presente de um personagem! interfere a personagem maçaneta enxerida a se referir a Batista. A gente vê – agora é o velho Batista que (não) vê – vejo meio embaralhado, meu querido Dóqui. Não Dóqui mas o amo intentou se submetendo às imposições desta época amalucada que tudo abrevia e desmanda no desmando do costume de a tudo expressar por siglas, intentou ele abreviar Dóqui por Dó: ganharia tempo, tempo é dinheiro diz o tempo de hoje, ganharia de fato e caso escrevesse desembaraçadamente ganhando ainda mais a economizar tinta, ao olho da cara o preço das coisas hoje em dia (pensando nestes termos pra ser original, no detestável hábito repetir e repetir o que outrem já repete século, original ou apenas singular:) Dó por Dóqui porém desistiu, Dó iria confundir-se com o dó, quer dizer pena. Sobretudo porque seu cãozinho em convalescença e recuperando lerdo a saúde abalada, não identificando e portanto não respondendo ao som ‘Dó’ somente a conhecer Dóqui mesmo. Tem coisa que a gente, animal por demais inteligente, desiste volta atrás; à frente continuou chamá-lo Dóqui e pronto. Abana o rabo, um rabo agora mais ativo expressivo vivo e assim o amo vivo, vive mais também; a enfermidade do quase filho fizera um estrago no coração dessa língua, língua meio feroz, implica a maçaneta; enfim a língua de Batista.
          Mas a gente vê um pouco enublado o ambiente presente do presente aqui de Vila Verde, não é assim meu Dóqui! Não enxerga bem os objetos, tropeça nas coisas, você notou a pancada na canela, minha canela não a da porta em que esbarrei. Garanto, via como que tudo em nuvens baças até ontem e hoje com estes óculos de interpretar melhor o que nos rodeia vejo melhor, ou melhor, vejo, pois não via. Assim digo que os óculos me ajudam perceber tudo o que me rodeia e inclusive distinguir do restante você, você está em ossos e pele, pelos sumidos; até os pelos perdeu – todavia ainda é meu querido Dóqui! A este som grato o cão se avivou avivando por tabela o amo, avivando inclusive a memória.
          Não. Não vejo plenamente o que ocorreu nos anos desaparecidos, os quais também sumiram com os fatos. Precisaria para lhe transmitir correto usar um binóculo a vasculhar, se não apenas descobrir sem remexer demais na coisa (aquele negócio de quanto mais remexermos mais federá...) Em resumo quis dizer o binóculo poderoso diante da insignificância dos óculos de enxergar perto e não trombar com a porta na porta e, lógico, ferir doer enraivecer-se; porque o binóculo poderia bem ajudar-me, por exemplo descobrir mais sobre as meninas, menino. Lembro pouco do muito conquistador que fui. Fui lá na roça e depois prossegui também aqui na Vila.
          Vila aos vilaverdenses é claro ser a Verde; sendo vila, mesmo fosse amarela azul ou cor de burro quando foge, não tem esta expressão!
          A Vila é meu presente estendido, visto quando percebemos, já décadas decorreram desde nossa mudança pra cá – e ocê não viu não participou disso não era nascido sequer – de lá até hoje portanto sendo um presente sim porém conectado aos primeiros (e longos) dias, quase sem poder examinar com meus óculos, ih sentei-me sem jeito por cima dos velhos como se faz muito sobre o velho; e os quebrei, moí os vidros a armação e olhe que nem sou pesado nem grande nem gordo, gordo tão só perante sua magreza, menino. Daí tornei da loja da avenidona com estas preciosidades de lentes contente e contente você por meu contentamento. Assustei-me no momento com sua ‘esqueletice’; Batista tendo uma queda ao invento de palavras, forçado pelo som que deseja emitir e pela ignorância; próprio do ignorante aliás... ora, iria para saber o correto pesquisar no dicionário a existência dos vocábulos já consagrados e existentes no léxico! se, não poderia: pois as novas lentes feitas pra ver longe o perto, não para descobrir perto o perto; e nisto as letrinhas balançam dançam escorregam fogem manhosas não se pega, os globos não fixam e... bem, que diabo, o velho nem em novo sabia as letras e assim um cego por desconhecer a língua e a grafia da língua; tudinho ajudado pelas lentes obtusas também, além de inadequadas à leitura. Pior (ou não!) pior o caso do cachorro que não lê nem com óculos. A propósito – ah como a gente velha faz bobagens como fosse criança... – um dia não é que o amo experimentara seus novos óculos no bicho! no focinho dele; então Dóqui não gargalha mas sorri educado e constrangido de cauda, a fim de submeter-se aos caprichos humanos.
          Anda com os óculos para ver se vê o presente, agora de Vila Verde não da roça, ou seja a parte do hoje que lhes toca, amo e cão, aquilo que observam e guardam. Sem reter tudinho, porque a porção esmagadora do que se vive se esquece ou o cérebro teima não quer retornar lembrar devolver mostrar para quem pretenda recordar. Daí o fato repetirmos indagações bobas como “foi quarta-feira, ou quinta? seria na terça!” e tantas mais besteiras de nossos respectivos textos; textos, visto a existência de um homem ser longo, breve nalguns casos, um longo texto que a gente mesma lê, quase nenhum outro podendo não só não ler porém lendo não interpretar a contento.
          Batista discorre portanto seu texto, um singelo de caboclo expulso com os seus do latifúndio pelo latifundiário, por seus jagunços, fugindo à urbe pequena onde mora agora nada fora de hora com seu amigo cachorro de estimação, o cachorro também parte do texto.
          E se prendem nas minúcias da existência, nos pormenores do dia a dia, nos detalhes insignificantes que os cercam; embora pareçam tão gigantescos a ambos, mesmo que o mundo desconheça e não valorize.
          Movimentam-se, homem e bicho, de dentro para fora no quintal. O quintal de João é enorme... bem, pode que seja pequeno e até acanhado estreito desses que a gente olha já vendo o resto do mundo, o externo da paisagem; grande sim para quem examine; assim. Ele, e o cão enrabichado atrás desse mestre nas sabedorias comezinhas. Aspira o ar puro – não, no planeta não tem mais mas tem sim a ilusão; quando não se tem muito o pouco é o bastante, enfim nestes termos puro e muito. A área é enorme; tendo alguns palmos de terra na Terra em extinção e se o caboclo soubesse disto, não valeria à pena ele viver! não sabe. Areia lavada levada da enxurrada por cima, terra quase compacta por baixo; na tona disso tudo, tudo que se planta e se cuida quando cuida: a mangueira sem espadas, não sendo mesmo tempo nem da floração; a bananeira bichada, a pobre a secar a morrer sua morte e doar a folha verde atraindo o nitrogênio do ar e virando ótimo esterco – o Dóqui não sabe disso, sabe um pouco João – e outra árvore média, uma laranjeira seca da seca ou da seca da morte, morte natural felizmente embora o fiscal visitador garantir doença letal; enfim não tem laranja neste ano, tem na feira tem no supermercado. Nada mais de mais grande só plantas corriqueiras como os dois ou três pés de mandioca rachando o solo, uns exemplares nada exemplares de milho (o João pronuncia “mío” o Dóqui não pronuncia) plantas que são não mais que arbustos de meio metro, o que dá uma saudade do milharal na gleba a subir ao céu em tamanho acima da cabeça de João, João um homem quando adulto apenas meão e os outros roceiros também de baixa estatura e portanto não serve bem a comparação; contudo, as flores em pendão do milho se vendo lá em cima nas nuvens, os pés dele agora, por híbridos ou transgênicos sabe-se lá, baixinhos; ajudados nisso pela terra pobre cansada exaurida acabada tratada mal pela ignorância cabocla – o João teima ser matuto fala matuto, seria matutês? vive matuto apesar viver na urbe de Vila e assim cuida não cuidando no alimentar mal o solo. Por isso as árvores são arbustos e o mato... uh o mato! Aqui xô preguiça, não tem preguiça tem velhice; falta-lhe coragem, coragem tem menos o cão dada a idade e a convalescença, o bicho a sair faz pouco do buraco na cova da morte! Assim a tiririca o pé-de-galinha o carrapicho a grama braba, as ervas daninhas visitam e mandam no pedaço. Fica por entremeio plantação e mato enxerido uns poucos metros estreitos em caminho, trilho “tríio” no som desse caipira, mudo o seu cão por apenas ladrar, e o Dóqui não tendo força bastante a acuar o mundo inteiro e sem porteira; enquanto que ambos ouvem a ladração da canzoada ainda capaz forte optante a espantar quem não é do mundo no seu mundo. Ouvem, o cão mais alerta que o homem velho, velho o cachorro igualmente e de boas orelhas.
          Olha, Dóqui, afirma às orelhas, olha aqui uma pegada de ladrão! os... aqui desfilam termos do mais alto baixo calão contra os que abusam do sono dos outros, João agora em a noite dorme pouco; dorme acorda dorme ou seria redorme? tudo sincopado e a deixar no dia no sol o escuro mal-estar escorregadio da insônia ou sono mal dormido. Porém não é assim em temor ao ladrão; o... (novo desfilar de palavrões, o Batista mestre nisso desde a roça de antanho:) o sujeito me deixou marcas da sola dos pesões... O Dóqui olha, não dá palpite.
          Se fosse do tipo social tido por dado, convenção a dizer que se relaciona fácil não importando se com bobagem e ditos chãos e vazios; se, contaria o crime pois crime roubar! contaria relatando tim-tim por tim-tim aos vizinhos e mesmo ao vizinho trovejando a garganta; diria na venda da esquina, a espalhar ao resto do orbe cada lance, inclusive podendo criar mil fatos novos não vistos nem expostos por pegadas do afanador bruto nessa noite. Não. Batista não tem relações nem floreios nas relações imprevistas (um solitário só tem abordagens imprevistas...) 
          Além disso o ser humano comum tem por hábito trocar as vestes diário... Não Não Não Não, insiste o João filho da senhora Francisca, sua pranteada mãezinha; insiste ele dessa forma; insistia antigamente com a volúpia da força da coragem da juventude negando algo; no fim dos tempos Batista repete o não uma só vez: Não Não, diminuindo o ímpeto a contrariar quem o contrarie, em jovem sequer esperava o opositor completar a ideia (leia-se ofensa, ofensa viesse fazer) para incluir seu contra; além disso um outro senão. Seguinte. Por achar bela a maneira de um italiano acaboclado na roça onde residiam, o tal peninsular não costumava negar em não mas com o pedaço do não, assim “nã nã nã...” igualmente impetuoso. Em virtude dessa desvirtude Batista ainda agora não dizendo não inteiro ao Dóqui (e para quem diria não fosse apenas ao cachorro!) pronuncia mesmo nã nã nã – a negar qualquer. Neste momento ainda encontra-se no fundo do quintal a examinar as pegadas criminosas e, se houve o caso de o cão contrariá-lo, antes de concluir pelo positivo nesse negativo já contradita em não, ou melhor nã nã. Isto seu, verdadeiro, costumeiro, vezeiro. Vezeiro também no vestuário. Em matéria de roupa, diário afronta o cidadão que troca de camisa todos dias se não todas horas no calorão ou na hora da vaidade; a afrontá-lo, põe sempre a mesma camiseta – as mesmas calças que se vê, as mesmas roupas brancas as tais de baixo que se não vê e decerto com odor... A afrontá-lo é observado no bairro no supermercado na feira da quarta-feira com a mesmíssima indumentária. Sim, deve andar parada grudada impregnada encardida, visto nesse escuro clara a camiseta de algodão, o branco que mostra melhor a sujeira da sujeira; ainda a realçar nela havendo uns gastos dísticos ingleses (ele não ‘gringa’, ou seja não fala na língua franca enrolada, não enrola o dizer enfim:) enfim igual a maioria popular na população do país, esta que vive tal qual garoto-propaganda a divulgar anúncios sobre a superioridade do supermundo, dito ora Primeiro ora Paraíso. Assim. Assim como outrem, propaga difunde a condizer e ajudar nas benesses consumistas. Não interessa. Interessa que usa sempre a mesma roupa todos os dias. Dona Chiquinha faz a trouxa leva a trouxa traz a trouxa limpa, conta (ou não? afirma haver somado) recebe (ou não, Batista demora um pouco soltar as notas...) faz a trouxa, iria incluir nela a levar lavar perfumar passar entregar de volta a peça, se a peça estando ali na sua frente o ‘patrão’ com tal peça de roupa no corpo! não, claro, não. Ele usa... a lavadeira terá dito para outra lavadeira “a camisa do véio, a lavadeira também velhinha, a camisa se ele tirá-la ficará armada qual betume, pedra!” Ela não fala betume diz “camisa batumada” como se expressa “o meu bolo ficou batumado”; aliás Chiquinha pretensamente lava bem porém cozinha horrivelmente; que o digam as fatias do confeito que traz em oferta de boas relações empregado-patrão a amolecer o (não) pagador dos trapos que leva lava devolve. João dá aquilo, aquele é visto seja Dóqui, dá a ele ou para as galinhas da mulher de Trovão, neste caso atira a iguaria por cima do muro, as penosas do lado de lá se disputam e se regozijam certamente... Contudo na veste as mesmas vestes o velho João, é inclusive característica dele perante o bairro; o bairro não comenta, inventa somente outras inverdades ou verdades em que o homem da rua incorre; aquele negócio de só se ver as faltas nos outros e não na gente mesma, enfim o que se critica em crítica. Não falam nisso os da periferia, decerto não veem mais o traje surrado, caso notassem antes – porque de modo geral o homem pobre usa semelhante a repetição, que seja intercaladamente e aqui seriam duas mudas, mudos pobres panos vestidos.
          Todavia agora estando nos fundos do quintal, não se trata disso, disto: encontra umas penas de pombas caseiras espalhadas ao deus-dará, indício da presença de gato e da fome felina, sobre isto reclama indignado o velho ao seu velho companheiro.
          Então em meio a isso tudo, ela aparece. Ela? a dor de cabeça. A dor de cabeça tem sido a dor de cabeça para a humanidade, milenarmente ela se queixa, se queixam as pessoas e dói no velho, justamente agora que o amo de Dóqui andava tão animado... no mau sentido pois condenando veemente, num acordo tácito do cachorro, condenando os vestígios vestidos de penas das pobres aves; as quais na seca braba Batista chega na falta do mato viçoso com que se alimentam a comprar milho somente em não deixá-las morrer de fome; viram as pombas satisfação à fome que sente o bichano arisco. Dizem que onde há cão gato não chia, aliás não chia mesmo: mia, se manifesta em cima do muro... O amo mostra sua indignação pelas penas esvoaçantes ao vento; o cachorro cheira o trilho os fragmentos deixados pelo gato preto e concorda decerto com a autoridade ali presente. Logo agora tão entusiasmada chateada também e condenando também – exato quando lhe volta a dorzinha chata que sente anos. E daí acabou a festa. Não diz coisa alguma, torna para dentro de casa; pôr quem sabe uns paninhos úmidos a aplacar a dor; às vezes bota uma rodela de batata na testa na fronte onde dói mais; é dor inicial entretanto a experiência decenal garantindo a intercalação dessa dor ou a sensação contínua, a chegar até amolecer o homem e prostrá-lo. O amigo segue o amigo no retorno ao lar, doce lar? Cheira um pouco, mais por obrigação ou por costume da raça e anda a andar lerdo qual Batista e sem muita coragem, igualzinho seu amo. Este senta-se no sofá, o sofá não bem sofá mas poltrona gasta exalando tempo e sujeira, claro. Chiquinha quando vem pegar a roupa aproveita num descuido do velho a passar pano úmido na poeira do chão e limpa como pode também a napa quente dessa poltrona meio estofada; não obstante perduram sujidades e cheiros no móvel imóvel (sequer permite o teimoso que se mude um pouquinho de lugar o trambolhão no espaço da sala...) É aí que se aboleta o dono da casa. Quando nesse desagradável estado o cão já sabe: ficará mudo, fica mudo. Sim também o Dóqui não fala porém ladra, agora não ladra em respeito às dores do homem e por seu silêncio de horas a curtir aquela chateação. Será possível! parece que o ser humano nunca se habitua com a dor. Dizem por aí que ela atinge mais a mulher que ao macho da mulher; ora isso não conforta e nem interessa a João, interessando sua própria dor: a gente vive a imaginar que a nossa seja a maior do mundo, João assim pensa. Noutro dia é outro dia.
          Daí, não renovado e seria absurdo andar entusiasmado, daí retoma rever o fundo do quintal. Examina plantas, sorri (verdade que mais ri por dentro) olha um broto, chega terra num tronquinho, usa direto a mão se sujando e tem em casa uma colher de pedreiro, dessas comuns, para tratos com o solo. Remexe rega limpa, arrancando algumas das muitas ervas daninhas a infestar suas plantas. O Dóqui nisso não o ajuda, ajuda apenas com a presença; no entanto olha interessado. ‘Pescam’ os ares da área, espreitam, ouvem o burburinho que chega do bairro: mães a esgoelar, meninos a gritar, animais outros a piar a grasnar e a ladrar é claro, sempre tem muito latir nas imediações. Contudo Dóqui não responde à provocação dos seus irmãos caninos, só olha aspira espreita espreitando mais que o resto do mundo o seu dono nas tarefas. Num dado momento entretanto larga o homem afazeres, pois a fome avisa, sem contradita sem contra-argumento; avisa a hora absoluta na hora provável... quer dizer a gente procura não ouvir assopros da fome e retarda quanto pode, no exemplo de talvez acabar com o acabar ervas bravas teimosas. A fome de João a fome de Dóqui.
          Se põe o velho ao preparo da refeição na cozinha, uma cozinha que decerto não agradaria a mulher, houvesse uma a chamar atenção pelo grude e utensílios espalhados e até por um dos utensílios se desvairar no chão; isto parece que de propósito ocorre, toda vez que João remexe no compartimento. Enfim, prepara. Chiquinha, sempre a Chiquinha, ela critica para outrem a avareza do seu Batista, não contratando uma cozinheira ou serviçal; ou leva a crítica para outra ou diz isso na presença dele com alguma diplomacia para não machucar o velho. O ser humano tem dessas coisas de dizer o que deseja dizer embora camuflando a dourar palavras pra esconder o que dizer, assim a lavadeira. O velho entende o alcance e replica imediato, quiçá meio grosseiramente: “não quero governanta dando ordem!” frase com que Batista lhe cala a impetuosidade; isso há muito tempo, agora evitam tais lembranças nas conversas, em que ele é econômico nos vocábulos e ela pródiga mas contida... No momento remexe o instrumental de cozinha e cozinha; queimo lata, admite o dono daquela pouco mais que tapera incrustada em bairro da periferia vilaverdense. Esquenta a comida no mínimo, alimento desses pra não morrerem de fome ambos moradores, nenhum com grandes exigências. Aproveita-se o arroz feito ontem, tempera o feijão, isto é aquele fervido manhãzinha tendo ficado de molho noite toda; a mistura quase sempre carne de vaca e uma que outra folha verde do quintal. Dóqui se contenta não contesta, mesmo sendo apenas ossos com retalhos de carne e nem exige cozimento nem grande variedade no tempero; o chefe sim é mais exigente, de uma exigência sem exageros; por sinal não é conhecedor de temperos, não seja aquele temperinho de todos dias. Enfim contidos homem e seu cão; ajudados nisso ambos pela idade: a idade não tem coragem e talvez nem gosto pra fazer experimentações culinárias. Demora na feitura o velho. Ou por outra: tem dia que a chateação impera e impera fazer de qualquer jeito e rápido. Mastigam. O representante do Homo sapiens, ainda grosseiro roceiro na civilização da urbe, esse mastiga de boca aberta, qual porco, alto qual garoto-propaganda a anunciar o novo-antigo espetáculo circense; o cachorro barulha também no comer qual cachorro, educado submisso porém um cão. Os demais sons também barulhentos; os sons do tilintar e esbarrar prato e lascá-lo pretejando nas bordas, além de ressaltar o vão da lasca um pouco na louça. Resumindo, sons característicos do almoço do homem comum; ou janta. Depois a chateação de lavar os trens, arrumar cozinha dizem, ou amontoar peças sujas usadas e ainda um pouco a grudar. Nisto não se conta com Dóqui. Seria absurdo empurrar a ele o serviço doméstico.
          A seguir a sesta; é uma sexta.





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Cap.5°
          Noutra sexta-feira a dupla – o cão conta mas não canta na casa nem dá palpite só observa – a dupla recebe o carteiro. Não. O correio somente passa na rua; sabe-se o como a gente pequena não recebe ordinariamente missiva e a correspondência em geral não é carta sim conta: o banco a prestação a cobrança, tudo sem pressa dos bolsos... Tem um dizer popular saboroso expresso como “uma vez na vida outra vez na morte” e estes picos vida-morte sempre presentes nas coisas do povo; assim a correspondência trazida ao passar ali em frente o carteiro. João recebe uma vez que outra comunicação dos íntimos, essa de hoje curta, longa no decifrar garranchos, os comuns garranchos, visto que a escola da roça não se aplica na caligrafia na ortografia na academia; contudo os seres se entendem e entendem que o cabo da enxada vem primeiro e o possível tempo de sobra é que sobra à escola; enfim os parentes se desentendem frequente, por fim entendem-se mais ou menos as letras. Por isso comunica ao Dóqui: meninão, o menino Zé me mandou carta! vou ver melhor se estão bem. Bem, Zé já um velhote, sendo dos mais velhos quase que o mais velho deles, comparado com o primeiro que morrera antes, ou apenas sumira; todos manos mortos ou perdidos, os dez filhos vivos mortos quase todos, os que saíram de anjinhos não contados; perdidos sim neste mundo de Deus no dito do povão, ao menos vivos os vivos, estes de cabelos brancos (decerto as meninas tingidas parecendo mocinhas e tem homem que na opinião joânica não é muito homem por pintar os fios; tudo não interessando então:) então é o Zé, segundo ou terceiro entre vivos lá no tempo antigo no campo onde viviam os seus, é ele quem se lembrou da gente. Por esse carinho da atenção do amo, Dóqui ficou decerto cheio de vaidade e estufado de orgulho em sendo posto ao lado do amigo, a receber notícias. Embora o patife estafeta haja atirado o envelope sujado no corredor sujo de terra perto da porta de entrada, em vez de colocar educadinho bonitinho na caixinha de correspondência, se bem mal posta e não merecendo fé por enferrujada. Condena a falta de cuidado do profissional e comenta com seu companheiro. O Zé, diz – agora anda sentado numa cadeira de pau a ler trêmulo, ou o papel quem treme, as letras dificultosas do mano a narrar seus feitos e os fatos; em que as doenças dos parentes se sobressaem aos outros acontecimentos; sofrimentos dos de sangue e os dos conhecidos, quase sempre desconhecidos por não privarem com a gente, a gente destinatária, ele – o Zé, diz o amo, o Zé fala de todos manos e sobrinhos e esposas e sobre os de terceiro e demais graus a se perderem numa provável embora impossível árvore genealógica; um aparentado morreu, aqui não esclarece bem quem e o cachorro não fica sabendo e não indaga a saber; sofreu, narra o missivista, sofreu e conta nos mínimos o sofrer como quisesse repartir com Batista tantas dores; e isto é bem do feitio do homem comum, nos mínimos como requer o gosto do roceiro que sempre somos apesar morando na cidade; inclusive por isso chora. Não. Homem não chora, os antigos machos não choravam, os velhos sempre desde que o mundo é mundo verteram suas lágrimas. Chora e o cão só observa, tentando uma leitura do tipo: devo ficar atento? Narra o mais, mais tendo que adivinhar nas sublinhas, ou suprimidas ou esquecidas ou evitadas pelas complicações. Aliás escrevendo ou falando direto o homem mais diz quando não verbaliza o que deseja transmitir ou esconder. Dóqui não se importa com o somenos do pormenor, só atento. Hora, mais de meia, nessa tarefa o Batista. Infere interfere prefere sua própria interpretação do que diz o missivista parente e se conforta; afinal podemos fazer o quê! tão distantes tão perto dos próprios problemas. Assim se alevanta da cadeira, custa e endireita se espreguiça, torna ao quintal; o outro se levanta a imitar o outro, se espreguiça igualmente e segue atrás, à frente os fundos do ‘latifúndio’. Parece a João uma verdadeira fazenda seu pedaço em pedaço da residência, tapera melhorada porém ‘comida’ pelo tempo se se quiser. Vê plantas sombras ao sol ardido, pássaros irriquietos barulhentos – essa sua paz.
          A paz aguarda um pouco.
          Enquanto a leitura, sofrida leitura da língua escrita do mano – aqui um senãozinho: o matuto e por extensão o matuto virado cidadão, quando a escrever (não seria melhor garranchar?) quando, lambe o lápis, ou caneta, agora esferográfica, além de assinalar o papel a quase furá-lo; o ‘escriba’ então usa da língua e portanto a expressão leitura da língua escrita diz ao ‘leitor’ e no caso Batista, que esse leitor também molha, não a caneta o lápis somente os dedos de consultar hieróglifos parentes; ora, o destinatário deveria lamber eram os olhos, os estrábicos dele. Ah, parece que se fixa no ato de ler no direito, mais verde que o outro, o esquerdo pior que o direito, entretanto o direito desfocalizado por causa do estrabismo. Enquanto a leitura labial, João a três por dois toca seus óculos no nariz... Eles estão encavalados no narigão magro velho, machucam no encaixe para encaixe; feito pernas estão as lentes pesadas, enquanto pesa tanto ou mais a parte metálica da armação, ou plástico da armação ou ainda metal duro no interior e por fora cobertura em plástico mole... enfim ferem na cava o nariz, sua cartilagem a pele frágil ressecada velha do velho – e dá aquele quase prurido, um incômodo. Todo mundo já viu alguém de óculos a mexê-los a mudá-los de posição a movê-los do lugar pondo noutro lugar noutra posição; talvez sendo ainda mais irritante o atritar lixar enodar a orelha por trás do abano... agora ao João o atrito mais chato aquele na cava do nariz e aqui o aí ad aeternum. Assim Batista embora fixo firme na leitura do outro a saber pelo outro irmão o que o restante da família vive se viva. Fora assim... Não. Não mesmo: seria futuramente assim com os óculos de não mais poder ver a realidade próxima; quando as servidoras terceirizadas no velório encavalariam machucando a pele o osso do nariz do defunto, a se ler aqui e a bastar ser João Batista; ah as flores o caixão o desmanche, este ainda não consumado e mais para o futuro daquele futuro ainda não passado. Então não haveriam de mexer também com a gravata de Batista! claro. Uma que em vida nunca usara, usará agora ao próximo lance que é o sepultamento; estando na antecâmara, no velório, para depois ir à sua câmara mortuária final.
          Bem, a gravata fica bem – poderia ser então mais bem? – fica melhor em Trovão. O vizinho, o cachorro do vizinho chamado também Dóqui, a casa das trovoadas sabe sim Dóqui porque cachorro e moleque todo o bairro conhece de cor e salteado seus respectivos apelidos; o vizinho seu João (ela, a patroa de Trovão, diz-lhe baixo ser o Véio) esse vizinho vê sempre o seu vizinho sair aos ofícios religiosos, às vezes leva ao culto o filho às vezes a mulherinha, geralmente indo só e não a trovejar, pois mudo ou silencioso e aí, ai ai: gravata e Bíblia preta, esta debaixo das axilas desligadas no banho; a cor da gravata João não lembra e que adiantaria perguntar ao Dóqui! Ajeitam as terceirizadas a gravata, dando acabamento exemplar a João ficar bonitinho ou a evitar que o chefe ranzinza delas lhes pegue no pé. Ih que bobagem isto, pois a chefia não usa o pé a ralhar, olha com olhos e fere as servidoras com a língua...
          Contudo o Batista não, sim o mano Zé um dia aparecera de gravata no tempo da roça e eles jovens; Francisca ainda viva e mais viva despertada na vaidade e no orgulho por ver o filho mais velho que o mais novo uma beleza de macho, então serena ela as perguntinhas dos pequenos ali em roda e impede Batista ainda garoto exigindo não perturbar o ambiente paradisíaco naquele retorno de José lá da Vila Verde. “Não foi assim, Dóqui?” Dóqui não responde nem ofende o amo a dizer que quem assistira a tudo fora Peri; responde sim porém abanando incomodado.
          Batista não traja sua cidadania com gravata, uma espécie a si de forca sem força ser forca no entanto dando-lhe um sufoco. Lógico não no velório sim ali lembrando-se naquele fundo de quintal, a examinar flores frutos e pássaros. Ora, a seca braba não permitindo quase flores e frutos, apenas penas a cair dos enlevos de amor nos galhos. O que veem ambos é sobretudo folha seca. Toda vegetação anda parada no tempo de morrer; e ao velho, ao cão também, a ele apesar da idade que atrai em peso mais idade – não morrera a esperança de viver, bem, seus dias em a noite que se aproximava...
          A paz não mais aguarda. Ela que poderia melhor ser um mutismo ou silêncio um pouco pesado na área seca.
          O homem é o homem; ou assim interpreta o cão.
          E um homem com traje comum e que veste camiseta; lógico sem gravata e de óculos permanentes visto lá longe no reflexo do vidro da lente – a mesma camiseta diário, que importam os resmungos da lavadeira quando vem! uma camiseta com dístico na língua gringa dominante, letras que ele não decifra. Usa certas calças soltas de cor indefinível, gastas velhas e são sempre as mesmas. Põe uns sapatões, botinas, ou eventualmente calçando chinelos de borracha; não o Dóqui o João a usar expressão “chinelos de dedo”, a fim de se arrastar por dentro da casa, do banheiro de tomar banho mesmo até à salinha de quase nem caber o sofá, ele dizendo sofá, realmente poltrona enorme, qual paquiderme grandalhão ou dinossauro; ou se deslocando da sala à cozinha de queimar lata, queimar lata fala sempre. Sintetizando, a morada deles é uma certa casa, além do casebre aquém do palácio, e isto é fácil provar pois os olhos não se enganam nunca... Dentro o dono traja assim. Fora, no exterior da casa, traja assim sem chinelos e a calçar botinonas de elástico, boas a entranhar os pés inchados ou disformes, ai! ai aqueles calos doloridos; os calos já de nascimento por haver puxado a genitora, que Deus tenha a mãe...
          Dessa forma estão os companheiros de viagem, a existência é viagem e a do homem quer logo se interromper... Com essa aparência João se mostra naquela reclusão enfeitada com a presença do cão amigo, isto pleonasmo visto o cão já ser amigo por definição.
          Todavia o velho não permanece qual defunto no sepulcro, parado dentro do seu imóvel. Seu, porém tendo o corriqueiro da briga de família em disputa aos bens... Não fica como fosse peça numa moldura de péssimo pintor. Não. O homem e aqui sem Dóqui, não permanecendo sempre no seu lar, nem doce nem amargo crê-se: sai por aí. Seria, dadas suas características, seria absurdo fosse ao bar à praça às ruas e piormente às residências dos amigos (e amigo é o quê!?) Não. Também não a travar melhores relações sociais somente para fazer seu exercício diário. Não se aplica à ginástica corretiva nem à de manutenção corporal – é um andar quase a esmo porém forçado pela rotina. Cumprimenta, pede licença, comenta imprevisto, fala da chuva como não fosse e não sendo mesmo o dono da chuva; dá palpite sobre aquilo que chamamos tempo – enfim enche o tempo. Daí reaparece ela, a maçaneta enxerida a se intrometer; não trabalha! Sejamos curtos grossos com os grossos: é aposentado, vai por exemplo ao banco da Vila perceber seu benefício. Desloca-se também à feira ao supermercado ou à vendinha careira do bairro quando monta a preguiça, João é dotado da preguiça nata ou por tê-la adquirido com o peso dos seus novembros nas costas. Então adquire mais caro e paga em dinheiro vivo! compra enfim na venda. Ora bolas, isto e isso tudo vedado aos que só vivem (não bem viver...) presos no domicílio. Assim, ou seja a andar muito e diário, ele economiza remédio; e um dado interessante nesse caboclo é quase nunca se referir a medicamentos nem mesmo a ingeri-los; o que choca os mortais comuns que coexistem consigo na periferia. Contudo observa a gente; preza mais a gentinha, adora crianças, entretanto não consegue delas aproximar-se e estreitá-las no peito! Quem sabe por falta de netos; o velho nunca teria mesmo neto. Isto é pungente.   
          Além disso tem sempre algum negócio para azucrinar a existência da gente, a gente em procura da paz. Por exemplo o caso da casa, a casa quase comida pela voracidade da própria gente do sangue da gente, que são os entes ditos e tidos por queridos. Azucrinam muitas e certas incertas coisas, que se repetem secularmente milenarmente, como a questão da manha de manhã na criança ou o lamento do velho na tarde de sua noite; pior o desejar abocanhar o que de outrem e é o que mais se repete, aqui válido não ao menino nem ao velho mas apropriado ao adulto de todos gêneros; o adulto já passada a manha e a manhã e não chegado ainda ao lamento do velho já no acender a vela de parcamente iluminar sua noite a se apagar (não a se apegar ao que não é seu). Tanto que o milênio não ensinou direito o adulto que aceite a própria situação ou condição, e daí a desejar o que dos outros... Assim vai refletindo ao andar lento o lento Batista, num pensar pelas vias públicas. Cada vez que se lembra relembra o sofrimento por que passou anos atrás; pois caso o desentender for lícito, não é de bom alvitre se desentender com parentes. O diabo, diz Batista quase a falar alto sozinho e dando ótima má impressão em quem ouça; o diabo – e aqui olha em torno ver se vê Doqui para comentar, não vê, sozinho mesmo e a fazer caminhada pela Vila – o diabo é que o Zé e... (nisso declina uma relação enorme de irmãos irmãs cunhadas um cunhado arreliento e uma comadre desse tipinho que adora pôr fogo na fogueira já crepitando: todo mundo contra um só João Batista, que fosse bem acompanhado pelo cachorro, ainda não nascido). Bem, essa gente encapetada quisera tomar-lhe o único bem: a residência.
          Continua nos seus passinhos a arrastar botinas no calçamento pedrado e no asfalto negro, neste quando o piche já a cheirar as vias públicas para que estas cheirem modernidade; modernidade iluminada com lâmpadas de mercúrio a refletir no solo. Ora, os botinões não se importando com isso e talvez tão somente culpados pelos tropeções; nem se importando com tropeços a cabeça de João lá em cima no ver e pensar. Enquanto caminha, seja na berlinda ou como um desconhecido fantasma invisível; enquanto, surgem as surpresas: ou é um cão bravio, desses que a gente instiga o Dóqui para nos defender; ou um falatório do tipo o melhor no bate-boca de rua; ou o que mais se vê no sábado, é um fim de semana, o que não muda o ritmo do rito a que o velho se propõe visto a um idoso não existir os porquês de feriados e domingos; enfim alguém e depois outros mais, alguém lava seu carro. Parece de início prosaico demais, mas o automóvel é nestes dias um deus; tudo gira em torno dessa divina criatura. Quase atinge ela a altura de outro deus, um talvez mais querido e mais poderoso em nossa época, que é o celular. Ajeita-se bem o deus,  limpa-se o deus, esfrega-se o deus, lava-se o deus, e se explode na vaidade e no orgulho possuir o deus para que o deus o possua e se torne ciumentamente exclusivo! É um assim que vê, vê durante as horas da quase monótona marcha, se bem não cadenciada nem com sabor a alto coturno, seria de baixo coturno entre mil outros. É um assim. Observa as mãos, as mãos lavam esfregam alisam secam alimpam, quase assopram detritinhos inconvenientes e criminosos, do tipo lesa-majestade. No entanto se envergonha por andar estático ali e se põe a andar, reandar! Teve no instante vontade narrar a Dóqui o abuso absurdo de se embelezar um deus tão corriqueiro nesta era perdida; pessimista, prossegue. Entremeio a cães faladores e bravios ou bravios só na língua; e a deuses em cada esquina a imitar lava-rápido lava-jato, entremeio vêm ideias quem sabe tacanhas se não doentias a visitar sua mente, na área da memória. De fato lá vem de novo qual bate-estaca imagem a reavivar o entrevero entre parentes... Claro na caminhada haver topado alegremente manifestações da meninada, os pequeninos umas gracinhas, e até sorrido; curioso não termos, gente, temência a sorrir em público; enquanto o choro apreciando melhor os compartimentos mais velados mais escuros mais solitários. Batista anda ao deus-dará, encontra deuses pelados e lavados, encontra cães e meninos na brincadeira – porém também refém quase dela, a ideia fixa, ela lhe reaparece (não não, nada de maçaneta, nem porta possuindo a rua; não:) a recordação infernal e inacabável por sem fim, enfim o se lembrar da discussão na guerra pela residência, a sua residência! Ora, falaram tanto, os mortos morreram e deixaram o bate-boca aos vivos restantes; formaram-se grupos, uns mais atrevidos exigindo punição ao açambarcador de propriedade, ele, ainda novo; outros um pouco mais flexíveis e menos legalistas. Uns dois ou três entre briguentos – e aqui auxiliados por gente de fora como interesseiros rábulas – pleiteando exigir ação judicial e despejo...
          A troco de quê! e se respondendo, sem abrir sequer a boca (será?) a troco dum casebre num pedaço esburacado da periferia de Vila Verde; já antes despojado por outros espertalhões que lhe tomaram parte do lote avançando no terreno, inclusive a construir muros para isolar o morador, herdeiro da família. Na discussão entrara a fortalecer argumentos inventos bem imaginosos, segundo os quais o Batista houvera largado o pai (ah, mentira que bebesse...) deixara o infeliz morrer à mingua e sem tratamento; mais que isso: teria João apressado o passamento paterno, ministrando pílulas certas em horas incertas. Para quê! indaga responde: a fim de ficar eles com a propriedade! A justiça propalada cansou desistiu; o fisco cansou após receber parte das taxas devidas pagas por um aposentado, um a então receber menos que o salário mínimo. A morte e a doença engoliram línguas ferinas e Batista deixara que o tempo lhe desse se não razão a paz, embora apenas no que tange à sua casinha. Uns poucos cômodos estreitos num estreito lote, embora com eletricidade e por último ter água encanada e promessa de esgoto; isto levando a memória do velho se lembrar do fedor na latrina de buraco, mui apreciado por baratas.
          A troco de quê! insiste. E nisto quase pego por uma condução um pouco mais desatenta no trânsito.
          Batista a andar sozinho, revolvendo a vesparia parente em guerra contra um exército de um só homem. Só e a conversar consigo mesmo; outrem, passantes passando também ou indivíduos agrupados em bate-papo e armados com a faca da curiosidade ‘normal’ no comum do povo; em suma, toda gente sequer tomando conhecimento dos dramas de sua consciência, notando unicamente um corpo velho de velho, cansado no cansaço que provocam os anos; um corpo de homem com óculos grossos e com andar engraçado.






Cap. 6°     
          Aqui entro eu, eu autor destas linhas; entro não para fazer companhia ao velho Batista; nem a alertá-lo para um possível desviar-se do veículo quase a atropelar o passante. Entro se não a questionar, analisar o imbróglio até aqui neste ponto; a explicar um pouco os cinco capítulos anteriores e suas propostas... aliás não houve proposta nenhuma digna desse nome.
          Ao lado dessa abordagem, me aparece sem que veja, certo probleminha: ali porém meio longe, ouço o picotar barulhento da talhadeira dum oficial-pedreiro a quebrar desfazer desmontar parede, sei lá se parede, ouço na vizinhança. Vejo esse pobre já suado e talvez não a bendizer o seu ganha-pão; num descuido derruba a ferramenta – terá acertado no erro o dedo! – a dor o talho o sangue o inchaço a raiva ou só indignação e o trapo feito esparadrapo, terá quem sabe urinado no dedo moloide, não mijado na marreta ofensora vingadora e isso costume do caboclo fazer lá na roça e aqui na urbe (não digo na acanhada Vila Verde:) na urbe onde firo estes traços. Terá o mestre ou auxiliar da colher de pedreiro preferido proferir uns nomes feios, belos nomes ao tamanho de sua dor no dedo por raiva e é nisso haver parado em pausa ao acidente ao cansaço ou ao cafezinho que a dona sempre traz para o ajudante submisso à marreta, a fim de aliviá-lo do excesso; ela acha assim, assim não acha decerto o marido, o qual se vinga da desdita ou só a contraditar a mulher, não pagando os dias de bateção sem parar: ora, diz, querem me destruir a casa ou o mundo! se vinga não pagando ou retardando o pagamento e pronto. O operário bebe, não beberica o café no estilo civilizado, bebe mesmo chupando alto, assopra antes barulha depois e imediato engole a infusão, ansiando também uma cota de pão noutro dia e aqui a parede já no chão ou no chão os cacos e ela com buraco parecendo gente sem dente e de boca aberta arreganhada.
          Contudo, isso interferiu na fala do autor; o autor fala sobre Batista e antes quer analisar e certamente espinafrar os cinco apressados primeiros capítulos, anteriores a este sexto capitulinho.
          Deixara a pena correr, ao sabor dos motes sugerindo motes outros, soltos e ao mesmo tempo sujeitos à imaginação; a qual os olhos leitores poderão afirmar doentia...
          Bem, um cadáver a se decompor.
          Temos uma introdução meio sem proposta; mas proposta como! se não tinha sequer ideia onde possível ir com a caneta... quem manda na mão é a caneta – seria mandona uma enxerida haste de abrir a burra porta? não. Enfim sem projeto e ao deus-dará; posto que introito a esmo e nem ele se salva estando tudo sujeito ao sujeito da primeira palavra ou primeira ideia que surgir sugerindo a sequência.
          Todavia o personagem principal e as personagens que lhe alicerçam existem. Tanto existe que no segundo capítulo esse importante ser jaz temporariamente num velório. Aqui aguarda liberação à sepultura – lógico: haveria de ficar exalando perfume deletério ao planeta? – no sepulcro sim jazerá definitivo. No seu velório, mil vezes vistos os dos outros antes e portanto não criado por nenhuma doentia imaginação; no velório é que se ressalta a formalização oficial e o trabalho simples entretanto sem acato ao valor dos funcionários terceirizados.
          O distinto defunto João Batista, sei lá de que já esqueço os sobrenomes; ele perde acham-lhe os óculos, põem-nos encavalados a machucar o nariz na junção do nascer das sobrancelhas ou final delas; nunca descobri também na minhoca onde início onde fim só o meio; e assim a cava ora referida é ferida no desajeito das servidoras. Aqui introduzido o primeiro dado básico deste romance e seu questionamento: servem as lentes a procurar e a constatar a realidade próxima. No entanto servirão à distante! respondo não, ao futuro apenas um binóculo, este com alcance maior, bem maior que a cegueira nossa de nossos embaciados olhos. Porém os parágrafos a seguir descobrirão que a verdade mais ao longe, para frente, tal verdade sequer se satisfaz com o visor binocular... Chegaremos lá. Ainda nos primeiros capítulos o próprio Batista chega à conclusão nesse particular e até lamenta não poder com seus óculos possantes e caros (no sentido de gasto também...) interpretar nem se fale, ver igualmente o passado. Ora, nisto entraria, pensa o velhote, o binóculo. Felizmente o matuto não arranja na ocasião um binóculo para tanto, ou enlouqueceria ou enlouqueceria a nós todos.
          Os óculos – agora nos fixando às páginas do primeiro ao quinto capítulos – eles permeiam toda a vida, esta que é ao homem comum apenas a existência atual; no caso joânico um ser católico e fosse evangélico dando no mesmo pela mesma crença. Toda vida gira em torno dum par de óculos. Sem as lentes um cego. Aliás quando se senta inadvertidamente por sobre os pobres vidros... e por sobre a já cansada e ordinária armação, é a cegueira, a qual atinge inclusive o Dóqui.
          Ah o Dóqui. Não se confunde ao Peri, com este o amo não manteve diálogo... Dona Francisca falava com porcos com galinhas, de igual para igual. João Batista, já idoso enquanto a mãe a alimentar a necrópole de Vila Verde; não conversando jovem com o outro cachorro da casa, no entanto muitíssimo com o Dóqui. Este se torna comensal no dia a dia do velho; e se identifica com o dono, se identificam tanto os dois aliás, a ponto de um enfermar adoecer o outro. E a se recomporem (não! não pode que a enxerida maçaneta feche não a porta mas os olhos de ambos?) enfim o homem e o cachorro se refazem numa conversa saudável no fundo do quintal da tapera.
          A casa é modesta (feita de pau a pique! ora, quanto abuso:) feita de madeira e ultimamente as leis de Vila exigiram cômodos de alvenaria na cozinha das casas e nos seus sanitários; aqui tendo que derrubar a fedorenta privada de tábuas com seu buraco... claro não se derruba buracos só a chamada “casinha”, assim se referem os matutos ao cômodo de tábuas por cima da cisterna; a cisterna e suas baratas, mil baratas, acrescendo portanto ao corpo da residência a cozinha e o mictório de tijolos, exigência legal por melhora da área com assentamento de esgoto. Lógico, brasileiro, o munícipe pichou horrores as autoridades impositoras. Entretanto ganhou na valorização da propriedade. Nisso a aumentar também no seu ganho, equivalendo num aumento também da perda dos parentes interesseiros a desejar tirar do parente a herança.
          Continuando esta continuação, agora Batista de óculos a renovar ampliar a visão estrábica, um olho verde outro mais verde em estado de nervosismo ou ansiedade, enfim observa foca vê interpreta como ótimo arranjo o novo-velho imóvel, ao apreciar a casa. Talvez aqui enquanto examina, remexa a dentadura solta nos emagrecimentos pontuais, porque magro sempre; e aqui a afrouxar a dentadura, perdera eventualmente alguns quilos; remexe e o cachorro não critica, apenas observa foca vê interpreta o amo nisso.
          O cão entrara no texto a circular nos capítulos, assim como Francisca e mais que esta aquela Chiquinha, dona Chiquinha porque João nunca estenderá a intimidade à personagem; quiçá na política patronal: nunca um chefe pode arcar-se ao submisso ou perde a autoridade. Em todo caso, Chiquinha qual agulha, fura puxa alinhava o tecido que envolve o homem, e também o cão. Possível que o homem vendo de longe a saber melhor o perto, até com auxílio da garrafa das lentes grossas; possível sim andar então a fumar tragar insultar depois a pureza do ar, soprando fumaça; parece que não se vê estando com o cigarro nos beiços, tal qual não percebe o amarelo dos dedos pelo tabaco... Fica embevecido o proprietário, e sossegado (quer dizer os parentes deixaram de vez importuná-lo na questão da residência).
          Enquanto aprecia a nova construção ou conserto na velha construção, agora de alvenaria nos pontos básicos ou seja a cozinha de se alimentar, o mictório de defecar, o resto é a casa pobre seca rachada desgastada na madeira a fugir ao menos ser tachada tapera – então repensa, repensa visto nunca na percepção um homem pense como exigência ser o primeiro objetar sobre uma ideia, ao contrário se toma por já haver pensado mil vezes o mesmo... Não, nã nã diria João; não é afirmativa absurda o exposto, embora uma tese e todas teses podem ser destruídas por um vento inteligente no mundo dos absurdos. O fato é que Batista por quaisquer cargas d’água, talvez por associação de ideias, relata outra vez suas conquistas; ora atira fora sua timidez doentia, e refaz o recontar, a Cida a Mariquinha, felizmente (pensará o Dóqui ouvido ouvindo) felizmente esqueceu-se das outras mulheres, mulheres por ele apaixonadas ou juvenilmente apaixonado por elas e aqui nomes para quê! Todavia o velho acorda e completa: besta eu, já lhe havia transmitido esses romances de amor, não é, Dóqui. Dóqui não responde.
          No quarto, não me refiro ao dormitório onde ele, eles o cão dorme comportadinho ou com temor ao ladrão no quarto no canto no chão próximo à cama do amo; não onde dorme o amo sua insônia. Não. No quarto capítulo, temos o escorrego da atenção, quando se senta espatifa óculos na poltrona; troca o instrumental e passa a melhor ver as coisas, coisas entre as quais muitas deveríamos não vê-las. Chegam-se ao fundo do quintal ambos, a fim de descrever o tamanhinho da propriedade (nossa diz a família, minha diz Batista) e aí descobre vestígios do ladrão e da fome felina a engolir decerto até alguma pena. Atira restos inteiros de fatias de bolo embatumado da ‘chef’ dona Chiquinha às criações de Trovão, o assíduo evangélico e vizinho dele, deles o Dóqui conta, não demais por demais velho e doente.
          Que mais!? ah sim, o morador – aqui o cachorro não se vestindo realmente não deve contar – esse intrépido andador nas ruas sonolentas de Vila Verde; tal morador além de solitário (e o Dóqui! interfere a maçaneta:) está bem, moradores; o morador além de solitário é useiro e vezeiro numa questão: tem sempre a mesma roupa a virolar pela cidade; na peça de cima, encardida grita a lavadeira, nessa peça tem uns dísticos em inglês a rogar... não rogar, rogar é dose: impor imperar improperar digo, propagar as bênçãos do consumismo e de sua matriz paradisíaca de Primeiro Mundo. A mesma a mesmíssima camiseta diário reza “I Love etc. e tal”.
          Mas eis que advém a chegar fortuitamente inesperadamente a dor de cabeça – a que matá-lo-ia a ofertar o João a quase inaugurar o velório municipal? não sabemos. Saber causa para quê! se basta deixar de existir, segundo o homem da rua. A dor de cabeça a merecer panos quentes no sofredor e silêncio no companheiro Dóqui.
          Partamos agora, ainda no trato deste imbróglio, aos quintos... tinha na época em que vivera a dupla um dizer, ofensivo, “vá para os quintos!” era certa indignação própria da canalha e da boca suja da plebe; porém não uso o vocábulo nesse sentido, só a enfeixar no sexto dados do quinto capítulo. Chega o carteiro, melhor: passa ele naquela rua paupérrima do bairro, aquela? dita apesar de sem placa Rua das Perdizes, decerto tendo havido muito perdiz no tempo antigo e antes de Vila ser Vila; não tem mais aves ariscas, tem é sujeira espalhada ladração e moleque brigando ou a soltar papagaio, o papagaio que a tevê exige que os meninos pronunciem “pipa”. O moço estafeta passa deixa uma carta do mano Zé ao mano João, atira a esmo qual aviãozinho dos moleques a missiva; e se indaga o morador, se fosse conta! o que mais a vizinhança recebe é conta, uma para pagar, uma dos meios financeiros que gozam e rolam a gozar no país tido como paraíso dos banqueiros. Não. A carta é aberta e assim comunica o destinatário as encrencas de família de sua família dispersa. Enquanto narra o desfecho dessas encrencas familiais, certamente toca mil vezes nos óculos, no conjunto e na parte que mais incomoda e fere, na sela do cavalo que é seu nariz; terá ao mesmo tempo deslocado a armação a se dependurar das orelhas de abano; algo chato, que me desdiga, possa, alguém a usar como uso neste momento óculos pesados; se bem que de melhor qualidade que os bambos joaninos.
          Uma coisa... uma!? uma sim, marcou o autor na posição de revisor do texto – o prazer o apego do Batista às crianças. Por elas inclusive tolera a lavação de carros nos bairros remediados de Vila por onde o solitário, mais solitário por andar sem o cachorro, por onde passeia.
          Passeia ou rotina sua rotina vendo o que vê. Vê demais.
          Ah, como pode apenas um solitário observar tanta loucura...






Cap. 7°
          Numa filosofia chã e bichada de beira de estrada, cria e repete repetira repetirá toda hora ora a Dóqui ora a si mesmo “ou ocê mata o tempo ou o tempo ti mata”; o caboclo na roça assim como o homem da rua na urbe acanhada, não tem compromisso nem com a concordância nem com as letras e quem sabe nem com a verdade. Nisso e em tudo, comparado a outrem igualmente homem comum, Batista é um ser singular. Não por andar velho e por velho já quase não andar mais ele cisma, ainda que se movimentando por aí. Ademais o morador da rua das Perdizes é acanhado, “sou vergonhoso” explica a justificar sua timidez na relação estreita com os outros moradores no bairro e com estranhos na rua; e assim vive, se isso viver, vive acabrunhado na sua área residencial e mesmo a vaguear por aí; e aqui não estica conversa no bairro e fora dele com ninguém, não vai bem também nem além do bom-dia da boa-tarde; nunca a assoprar boa-noite, não pondo a cara fora no escuro; mesmo porque um roceiro urbanizado e roceiro autêntico e do tempo em que havia roça, um assim dorme com as galinhas acorda antes dos galos se insultarem... Evita ao passar parar na sua rua indo à venda ou vindo da venda (a venda à compra? a venda para compras miúdas nas coisas que faltam lá em casa, poderia comentar) e por isso, parando, parasse, fatalmente a precisar ter que manter conversação com alguém; alguém? quase sempre sendo elas, as vizinhas comadres das comadres.
          Expostas tais ideias, vemo-lo de vez em quando a se arrastar. Batista tem lá um jeito curioso no andar, não ginga sim arrasta um pouco e meio imperceptível pra quem não demais atento, num jeito de puxar como se puxa a orelha um dos pés pelo outro – e isso traz fora do bairro já habituado um interesse e um gozo nos que veem. A vizinhança pouco observa o modo de andar, ou por outra: nota inclusive muito... Agora o fato é estar indo à vendinha... Esta venda serve para o que falta lá em casa, diz Batista ao Luís Vendeiro; ou não diz coisa alguma: paga mais caro que o caro no supermercado mui longe às suas pernas curtas; paga, sorri uma interrogação ou uma exclamação banais e torna ao Dóqui. Não, Dóqui não tem mais como teve antes coragem para acompanhar o dono ao bar nessa altura do final de sua vida, encolhe-se dormita sonha e, ai que bom, não mais tem pesadelo.
          Assim circulando o velho ainda nas Perdizes, assim não pode evitar ver as rodinhas onde se decompõem as coisas erradas e mal postas do mundo ou seja: as comadres suas vizinhas consertam os desconcertos da sociedade, mormente aqueles próximos delas. Num dia numa vez duma incerta hora, não sendo hora nem nada do dia de juntar roupa suja (não se trata aqui do remexer os podres dos outros, mormente das outras porque mulher adora pichar mulher...) de juntar enrolar pôr na cabeça levar lavar; sim, referência à dona Chiquinha, Chiquinha estando com as outras nas proximidades... Batista não sabendo evitar ficar na berlinda por causa da servidora... e afinal como ir à venda em compra sem passar rente às comadres! iria absurdamente em sentido contrário e dar a volta pela rua de baixo ou pela rua de cima para chegar na boca, na orelha melhor dizer, na do Luís Vendeiro e pedir e pagar e levar e admitir uma falta na venda no seu estoque da necessidade lá em casa!? absurdo. Então, corajosamente passa pertinho delas, enfrentando o grupelho, “bundía” machuca a língua padrão o velho; olham respondem, passa olha, educado sim mas deseducado ou hipocritamente faz como que não vendo no meio delas dona Chiquinha (e se... se pergunta não respondendo silencioso temeroso que ouçam o pensamento); nota a serviçal senhora e, ora, prossegue rumo à venda. Ih se parasse um pouco que fosse: pagaria o tributo de franquear suas intimidades, as quais com certeza a lavadeira já tendo acesso. Aí, ai! aí se indigna: e se a tagarela passar mentiras a seu respeito, a respeito dele patrão, às demais comadres! Não importa. Sim, importa um pouquinho; e quando vê, vê-se já na venda.
          A venda é o de sempre. Ele percebe um punhadinho de gente, gente que o percebe também e gente que não mais vê vendo somente através do olho da bebida. Beberica-se, fala-se, não se ouve ou houve-se por bem mal falar falando baixo; uns sim gritam pra chamar a atenção do Vendeiro novo, novo aqui posto perante o velho Batista. Batista diria aos que oferecendo cachaça ao recém-chegado, que ele só toma leite, pra mentir de verdade; o Dóqui diria ao mesmo bebum a ofertar a oferta que seu amo não se alimenta de leite: só de café e fumo, fuma sem parar e nisso mentiria se mentisse, visto ser já meio dia e hora de almoçar e jantar no jantar, quando come arroz feijão e mistura (o homem do povo fala mistura aquilo que lhe serve a ajudar engolir um arroz-feijão). Tornemos ao ambiente sórdido dum bar de periferia. Bebem, falam, até discursam se bem bem alimentados com mais líquidos alcoólicos que os de costume; e compram. Vem lá o menininho buscar o que necessário a mando da genitora e o Luís já sabe: registra no pendura do marido dela, ele e eles todos a pronunciar “pindura”. Não. Batista não compra na venda, compra mas não a prazo de égua, assim se expressa a gente que adquire sem dinheiro vivo as coisas. Vêm outrinhos meninos e outros adultos compradores. Ou estes somente para a conversa-fiada. O popular estouraria com tanto saber tanta informação que tenha, não pudesse exportar o que sabe a outrem; pouquíssimos são iguais ao velho João, contido se não vergonhoso e a temer narrar suas coisas em público. Vêm vizinhos e vizinhas da vizinhança pegar no boteco da esquina o que lhes faltando em casa. Faltando a Batista não o leite e curiosamente nem bebida de zonzear a cabeça da gente: pede agora tão só pedaços de linguiça, daquela que vem engatada qual composição de trem quando havia trem no país; pede retalhos de carne-seca, jabá na linguagem deles todos. Mais caro? mais caro que o caro no supermercado e no açougue do bairro, tudo longe da rua das Perdizes. Pesa entrega paga leva, leva o João recebe o Luís, paga com aquelas notinhas miúdas fedidas desvalorizadas, enquanto as graúdas ficam guardadas nas mentes dos que veem, dos que recebem, dos que não desembolsam e também dos que não revelam segredos qual banco – tudo absurdo decerto ao ladrão em potencial. Por esta razão o velho olha examinando aqueles olhares ‘puros’ da plateia ali na venda. Segura com unhas e dentes o embrulho, antes fora embrulhado pelo Vendeiro no preço exorbitante escorchante. E se vai nos passinhos de volta a Dóqui. Ah que bom, que sorte grande: elas se desfizeram, as rodinhas como o vizinho picha; desfizeram-se os ajuntamentos para as mulheres ir preparar almoço, antes disso a se rir e rir por quê? indaga no miolo o velho. Entra no abrigo. Abana, quem abana é o Dóqui. Antigamente ele farejava de longe o embrulho salpicado do vermelho da carne do açougue que o amo trazia nas mãos enrolado por cima do papel menos sujo, o mais sujo sendo o jornal. Às vezes até ocorrera de ficar cheirando gostoso as letras manchadas atiradas ao chão ao vento pelo dono, após este reforçar seu próprio conhecimento com a leitura no trapo de jornal, a embrulhar a carne vinda do açougueiro, tendo notícias velhas sempre novas ao matuto comprador. Agora não: Dóqui ou não cheira direito gasto o faro, ou cheira sim com aquele focinho negro brilhante ainda, porém nunca soube nem hoje sabe ler; preferindo mais o gosto da carne manchando o papel; e até nisto falha, falha já o sabor também. Aqui neste ponto se encontra com seu amo, pois ao amo já falta semelhante o gosto autêntico; assim ele reclama com o cachorro-confidente o prato não ser tão saboroso como o que preparava antanho. Coisas de velho; de velhos.
          Dona Tonica – seria Antônia? e pouco importa porque logo esqueceria como esquecera outros tantos apelidos de tantos – dona Tonica é uma comadre retardatária entre seus pares, as outras então barulhando no tilintar trens de cozinha na cozinha onde se cozinha, preparando a comida; ela não, o seu homem não viria do trabalho se queixar do almoço dela e, além, não tendo filhos o casal; portanto livre para reforçar as rodas de papo, no entanto sozinha agora na rua, a vassoura chep-chep e olhos pra ver, examina, vê passar o velho, o velho orgulhoso diz ela quando pode dizer ou então só pensa; observa o vizinho entrar pelo portão e batê-lo fechando, se fechando aos fechados lá dentro, ele e o cão ambos estragados pelo tempo e a idade. Aí some naquela caixa de surpresas, pois imaginam comadres (e comentam entre si) o que será que tem lá dentro! tudo proibido à curiosidade vizinha, à da vizinha Tonica por exemplo. Por fim junta junto outras sujeiras a sujeira e acondiciona num saco plástico – hoje em dia apenas gente não é feita de plástico ou só não partes da gente – amarra em nó forte, põe o embrulho na lixeira; as outras mulheres não têm lixeira na frente de casa, menos o velho munheca tendo, ninguém mais com lugar decente ao lixo nas Perdizes. Ainda olhadela ver se ele não tornou fora, que seja em pôr seu lixo; decerto o homenzinho atira as porcarias no quintal mesmo. Nada. Tudo certo, se resguarda a mulher no seu doce lar; com a televisão?
          Batista queima lata, aprecia a própria criação nesse dizer;  agora prestando mais atenção no que faz, faz a comida e o Dóqui xereta ali nas pernas dele; já não igual fazia antigamente se enroscando nos pés do cozinheiro em chefe, hoje sem coragem num canto, aspira o vapor a fumaça que sobe da panelinha onde nacos da vianda seca recebe tempero a cozer com a carne. O velho cheira tudo e enruga um pouco as bochechas num desagrado pelo odor da comida; puxa, não seria que o Vendeiro vendera estragado!
          Comem. O amo resmunga não só pela falta de fome que contunde e confunde a saber o sabor; mas diante da sabedoria de sua ignorância, resmunga por faltar algo na refeição e na vida, mais nesta. O Dóqui não tem minhocas na mente, nem mente o saber: mastiga; porém idoso e já estragado, sabe agora mastigar mais cuidadosamente e sem a gula que o fizera em jovem engolir inteiro (ah e também vomitar depois, diz a crítica do amo). E assim, após ‘lauto’ almoço vão ambos dormitar seu quilo, o humano sentado na poltrona, de óculos pra decerto melhor ver o sonho no sono... Enquanto que Dóqui de fato dorme no chão nos pés dos olhos dos óculos, estes já um pouco despencados despregados antes encavalados no narigão do amo.
          Ora, não seria uma forma também a matar o tempo que mata?






Cap. 8°    
          Os passos do tempo, indefinidos pela nossa santa ignorância no atual estágio terreno, andam a anos-luz dos passos largos talvez quilométricos do binóculo – feito segundo concepção joânica para enxergar longe rápido distante claro (aqui não demais claro...) e num pior comparado com os dos óculos, estes mais lerdos em passos lentos pra se distinguir próximo o escuro do claro, claro aqui – pensa Batista. É o Batista antes de romper a cortina interposta e embaralhada do sono, ali ao sentar-se na velha poltrona; a poltrona que é pra si um trambolhão móvel no imóvel, o imóvel é o lar doce lar onde um velho teimoso em se não acabar vive com um cachorro; agora ‘embiscoitado’ a dormir no chão e portanto não vê o amo vê o sonho, decerto no sono solto a dar água na boca humana; sabemos pela fala humana que o humano não dorme a contento nunca ou dorme sim burlado pelos dramas também humanos que ultrapassam a manhã a tarde a noite – é noitinha agora; e, assim, perturba a paz, impõe o pesadelo; inclusive outro dia, noite profunda em sono leve, gritou! sob alarme certamente do despertador ou pelo barulho do Dóqui e ou pelo do Trovão nesse ‘pesadelar’. Contudo, sentado, mantém os óculos encavalados não obstante a poltrona que não é para dormir, e acaba engrenando o sono – estando esse móvel gasto esdrúxulo grande na sala apenas a descanso sim e sobretudo para ver televisão. Daí dormita por fim dorme. Sequer ouve o despertador barulhento, não no tique-taque educado sim no tique-toque grosso chocho irritante inimigo por espantar o sono o sonho o pesadelo até; nisto a acordar piscar olhar e notar lendo os ponteiros e então exclamar “mas já onze horas!” para quem durma com as galinhas num costume de roça antiga e se levante com o cucurucu dos galos é tarde demais!! O Dóqui não segue tais normas: dorme, não desperta com a voz violenta do pesadelo. Aí constata a tevê ligada, já deveriam estar ambos desligados, ela a economizar energia, ele pranchado na cama. Não. Encontra-se sentado semicaído de lado na poltrona, os óculos uma parte despregada da orelha; assim acorda de vez e de vez se conscientiza.
          O programa nas baboseiras costumeiras que a traiçoeira mídia despeja no freguês já é outro, outras... Sentara-se após a janta – machão daqueles de dantes antes de abrantes não o faria para ver novela, só apreciando propagandas notícias e outras mentiras, mesmo porque o mundo estaria perdido com as mentiras, ele sempre afirma. Sentara-se no matar tempo a tempo de não dormir antes das galinhas entretanto desligou-se bem antes de desligar o aparelho, por sinal muito bom analogicamente falando; só a antena lá fora irritando irritada a bater contra a ventania, o que consequentemente remexendo nas imagens lá dentro, importando pouco ao costume por costume da assistência, ele; somente o Dóqui não tendo atração pelo vídeo. Tudo disposto por uma colossal descoberta desse velho pensador dos tempos: o botãozinho mute, uma inovação sensacional para se ver televisão sem se irar pelo vozeirão do aparelho; um que anula o som! Aí, premido, desliga o som liga a imagem; e vai que lhe apareça uma linda mulher... submissa ao horrendo âncora porém bela assim mesmo, num mostrar a mentira do tempo da chuva do desastre, este que fatalmente ocorre noutras regiões longe... Assim Batista tendo por hábito ver de fato televisão, não de fato escutar tevê. Agora fora ora traído pelo cansaço ou para imitar o ronco do Dóqui, o amo também embarca nos braços de orfeu (não tem um negócio assim, se pergunta um dia; orfeu ou morfeu? e dúvida para quê! já sabendo referente a sono). Enfim apertou botão para amordaçar a boca ou apenas adormecer a língua televisiva. Entretanto aparece outra questão relacionada – não o se livrar da audição mas no caso específico da visão – sequer isso precisaria nos últimos tempos ocorrer (houvesse para uso um ‘mutinho’ equivalente à vista) pois bastando ao João pra não ter que ver algo, tirar os próprios óculos de enxergar para melhor não enxergar, e em presença da tela: bastando deslocar as lentes do narigão, pronto, Batista a ficar cego; não entrevendo nem a propaganda, isto que é o que mais oferta as televisões aberta ou fechada.
          Todavia e o gasto desse aparelho esquecido ligado consumindo muito ao pouco de sua aposentadoria! Doeu-lhe lá dentro visto o homem vivendo a fazer economia, toureando abusos; aqui somente podendo inculpar-se: o cachorro nada a consumir. É e não tem aquilo de não adiantar lamentar o leite derramado? desligou, tirou o plugue, exatamente na horinha em que mesmo muda mudos dois debatedores da corrupção política nacional se estraçalhavam e se mordiam; aí sim emudeceram de vez. Desligou também a lâmpada da saleta e se foi aos lençóis. No caso, removeu guardou os óculos pois o sono não precisa lentes de aumento. Não dormiu só esperneou, a fim de que noutro dia pudesse ficar irritadiço e mais pessimista; talvez a descontar nas coisas, no Dóqui.
          Acordou um pouco irritado no dia imediato, a curtir sua rotina. A rotina ao homem comum é o comum naturalmente, ou seja ele não vendo o que vê e por vezes vendo sim até o que não existe; enfim desse jeito por sua interpretação, a se repetir por toda existência. Felizmente pra si sendo o mais suportável a situação por haver um amigo e tanto; com quem conversa dia inteiro. Quando não disposto a esse diálogo (o Dóqui sempre se dispõe ouvir) então se ocupa noutras coisinhas, além de remexer e ver o quintal com suas plantas; ou se pega a espraiar-se andando por aí nas compras nos pagamentos de contas ou no recebimento da aposentadoria. Rotina. Quase incomum é sentar-se na poltrona para ler. Ler! Batista de poucas letras, em menino errava na lição e inclusive na tabuada; agora o caso é o ocaso e sem coragem a traquinar qual outros meninos, o velho se põe a consultar a velha cartilha, um documento religioso herança de Francisca, ensebada amarelada rasgada até numas folhas, claro ser a cartilha não a mãe; ele na velhice com um hábito não trazido da infância. Trata-se de Batista tomar um texto mas com auxílio dos óculos, ótimos pra ver o perto, no livro magro fino pequeno gasto. Enquanto, não vê a hora passar e a rotina não deixa apreciar uns maus hábitos, como por exemplo o de não notar um seu ridículo: fica em todo momento a remexer sua dentadura postiça com a língua, frouxa a dentadura óbvio, sem naturalmente ofender com isso o cachorro, o qual aprecia olhar lá em cima; o hábito ocasionaria quem sabe nojo noutro ser humano que visse a cena. Um pior que isso, o não se ver andar sempre rindo... Explica-se. Os dentes vieram do dentista grandes, enormes à cava bucal, porém o defeito odontológico o paciente não questiona, não se vê; apenas que o força mostrar a brancura desfeita pelo tempo num branco fosco (sujo?) e por ser maior que a boca sobra... Assim, às vezes andando contrariado triste zangado, assim mesmo sempre a rir... Para seu agrado nem de óculos se vê, ‘sorri’ e sorri até no ato de consultar a cartilha, isto a demorar horas; o que um ótimo encher o tempo... ah a tal filosofia de matar aquilo que mata a gente. Não tem mais.
          Sim, quase mais nada a acrescer em um homem velho não dado a conversa com a gente nem a relacionamentos que exigem o uso da linguagem nada formal oral coloquial, fatal isto para quem não disponha de mais finura de inteligência. A supor isso, diz uma torta maçaneta, quem não pensa fica obrigado a viver o mais simples possível, ou seja a permanecer na fala miúda quando fala; e quem sabe a usar um pouquinho convenções e os cerimoniais de pouca exigência. Assim antes de morrer velar, não: ser velado e aqui acaso sendo engrandecido.
          Todo longe que se identifica é perto como o próximo na interpretação joânica das coisas, porém graças aos seus óculos; os quais não permitem notar o amarelo na pele dos próprios dedos e sobretudo no indicador da mão direita com outro dedo abertos ambos em vê, onde encavala encaixa se ajeita o cigarro. Este, exemplo de coisas próximas e presentes no seu presente. Por essa razão Batista imaginou algo mais consentâneo a fim de eventualmente poder descobrir também o inimaginável – quer dizer tudo o que não sabe o homem do povo; ou que o popular guiado pela televisão possa saber além das guerras e demais tragédias, as naturais como ciclones tremores e outras ações da natureza. Ora, o João Batista desejando algo diferente em desfastio ou renegando a rotina, como as seguidas estórias da Chiquinha num tró-ló-ló ou irritado com o disco quebrado da ladração do cachorro de Trovão, sem parar sem parar, e olhe dona Chiquinha: os vizinhos nem gritam o bruto parar! O fato é que o velho Batista num momento de loucura ou só desfastio como afirmado – nesse momento e desprestigiando os óculos que enxergam perto, andou à procura dum binóculo; objeto que viu e apreciou mostrado na propaganda televisiva; sem saber direito para que servindo.
          Dessa forma é que adquiriu após pernadas por Vila Verde um binoculinho. Desses de assistir corridas hípicas, de alcance modesto.









   





 Aportes à Parte Segunda:  Binóculo










Cap. 9°
          A gente usa binóculo uma que outra vez na vida – enquanto que demais espaço de tempo ocupamos é com os óculos, isso quem tenha que ter a sombra da neblina por olhos incapazes – o binóculo uma vez, além de a metade mais um na humanidade desconhecê-lo.
          Agora era o cão trovão de Trovão a insultar a paz do outro lado do muro, onde o velho Batista ranzinzava o seu cachorro que embora isso calado atento ao ladrado de trovão de Trovão e doutros cães no pedaço; decerto latindo trovão sem óculos, vendo mais curto ali perto próximo e irritado com não se sabe o quê; nem ele sabendo nem sabendo a canzarra que dispara então por esse nada um latir coletivo. Batista se exalta: cala a boca, Dóqui!
          É assim comumente que reage o homem quando não pode atingir outrem, aqui a barulheira dos cães. O que salvará o homem comum de se perceber pior, melhor não seria não poder usar bem o aumento pelos óculos da visão de si mesmo?
          Enquanto o barulho dos cães no pedaço a si infernal, o velho morador na rua das Perdizes não pensava, pensava só a irritação por que passando, não pensando em não ser isso; o Dóqui atento na ladração mas de boca fechada calada cansada por velho também; enquanto isso não cessando a ladração; porém como que milagre da felicidade, de repente tudo aquietou, veio o silêncio da paz – a paz não seria o velório o túmulo o nada! – enquanto... então buscou o quefazer nada achou, achou-se a pensar então. Aqui entra a imaginação. A dele não demais penetrante todavia existente suficiente a ocupar a mente ocupando aquele que mata se não o matamos; e desandou a remexer seu cérebro – onde ele!? sim, onde meu binóculo... será que ela sumiu com ele? isto seria, se falou, seria mais tragicamente possível numa impossível falha do caráter dela (dessa maneira comunicou a ele, ele aqui o Dóqui, que então nunca entenderia) porque não creio que dona Chiquinha roube. Nisto cabe um reparo: Batista desconhece a filigrana da diferença entre roubo criminoso e furto popularmente aceito ou afanação delicada que consiste em esconder algo, um objeto precioso ou não, esconder e após esconder apropriar-se do bem e repassá-lo depois ganhando alguns trocados. Acontece que na hipótese de a gente perder alguma coisa de valor (para a gente) os outros poderão não valorizar ou valorizar sim para ganhar em cima do objeto sem valor; em outras palavras quem perde perde mesmo e muito por vezes, assim um alfinete um grampo nem sentimos porém até essa insignificância pode ter algum preço e afinal perder é perder.
          Agora, interposta a preocupação posterior com a anterior irritável barulheira canina e nada poder fazer, agora se pondo a pensar; o povo diz “minhocar” quer dizer pôr minhocas na cabeça então vazia e portanto ocupá-la com o desnecessário – agora de fato se põe a procurar encontrar seu binóculo, esquecido por uns meses enquanto tratava da rotina. Vasculha por toda a casa, o que não mui difícil nem dispendioso num imóvel pequeno e pobre, ocupando-se por horas e dias para achá-lo. Não acha. Remexe todas gavetas, se põe a agachar ver por baixo e isto dificultoso a um velho de ossos e juntas duros. No fim dá por encerrada essa pesquisa meticulosa demorada e até doentia a encontrar o objeto de plástico negro com lentes de grande alcance e por isso a envergonhar seus pobres humildes óculos. Não acha. E esquece. Não se esquece, antes fica a ruminar. E se não foi ela! temendo pensar mal duma senhora sua antiga servidora e comprovadamente honesta... contudo a dúvida estava lançada na área do descuido da tranquilidade que aborrece tanto a paz numa casa. Perguntaria a ela sobre o binóculo? e se se ofendesse; Batista não dispondo de diplomacia bastante e inclusive a falar numa conversa a mais amena possível, enroscava se não ofendendo, piormente o saber dessa desvirtude por não saber. Temia de si mesmo um abuso nos vocábulos. Ou era, parece que era, ser Chiquinha melindrosa. Sim, porém desonesta? os anos a convivência diziam que não, a dúvida enchia-lhe a cachola com um perigoso sim. Noutro dia veio a servidora juntar levar lavar a roupa dele, lembrando ela as coisas como possível, porque João não dando abertura a contar a mulherinha suas dores e as dores dos parentes dela das comadres dela das vizinhas dela, dela Chiquinha – e, ajuntando e falando baixo e embrulhado qual resmungo, fez a trouxa das peças a levar lavar. Entremeio afirmou, inocente, desconhecer o objeto tão importante. “O que é binócru, seu Batista?” A dúvida perdurou um mês, um dia achou seus olhos longos através dos olhos curtos que eram os óculos: o binóculo por baixo dum por cima, certa camisa dessas que se não usa mais e se deixa no fundo do guarda-roupa, enrolado escondido, escondido do próprio dono; assim seria como escondermos decerto dos ladrões... por esta razão trancados documentos básicos e o básico dinheiro em notas não fedidas feitas novas resguardadas pela sobra na falta. Assim. E assim recuperou o roubo ou furto em leve afano e chegou a exibir o objeto recuperado à mulher lavadeira noutra semana. Então, mestre, explicou-lhe o uso ou abuso no uso, fê-la mesmo experimentar o alcance da superlente, então a se rir a mulherinha do enorme Dóqui que focara.
          João perdia de vista nessa altura a vista, esta mais e mais embaraçada e curta, os óculos não satisfazendo também. Inclusive não distinguindo mais quando nas vias públicas os outros vizinhos e conhecidos, um rol limitado porque não mantinha amiúde conversa e passava por mil confusões nos encontros, sendo pichado por isso como orgulhoso. Era apenas cego; numa gradação de cegueira estaria no ponto de ainda achar o portão de entrada da casa quando já não dispondo quase saída...
          Agora tem o binóculo de novo. Porém ninguém aquém ou além a imaginar fosse substituir as lentes lentas diário por eventual lente de grande porte e ainda mais feita pra ver cavalos no hipódromo, que por sinal não existia na Vila Verde. Ora, não imaginemos o homem a descascar sua laranja com uso do binóculo. Poderá haver maior absurdo?
          No caso do binóculo joanino, fora adquirido não só pela sua curiosidade mas pensando em poder ver profundamente sua realidade próxima, quiçá olhando o futuro sem poder analisar o passado; isto negado aos esquecidos ou aqueles sem memória. O binóculo aqui não para ver mas para pensar, examinar as profundidades... Isto choca num ser simplório a viver tão somente o dia a dia.
          Com tais pensamentos ou no repensar das coisas, percebe esse curioso personagem haver perdido todo um cigarro! grave a um fumante inveterado desde menino a velho; pois que enquanto o remexer a mente o canudo do tabaco já virado cinza no chão e o homem com a bituca apagada nos dedos em vê.
          Encontrava-se quase na hora corajosa do almoço. Quer dizer, ninguém teme ao sol a assombração, nem ele... Acontece que doutro lado do seu terreno a casa abandonada (abandonada quem poderia levar consigo a residência para o céu ou para o inferno; Batista assim admitindo:) isto porque o vizinho da vizinha não abandonara sua fé apenas os ofícios religiosos, sem deixar ser católico, desde o episódio da ‘xeretice’ de Dóqui na igreja – e sendo católico crendo na alma após a morte caminhando ao céu ao inferno ou ao purgatório; e seria o caso da velhinha que anos falecera a casa ficando nas mãos da assombração na opinião do povão. À noite diz o popular, o perigo! sequer os meninos iriam entrar ali às frutas (aqui se lembrou de sua mangueira) nenhum mexedor num quintal desses... E durante o sol quente ninguém teme, não teme agora Batista a olhar pra morada vizinha. De maneira que após a considerar vaga e vago o terreno, sobrando-lhe somente a desfrutar os sons do vizinho Trovão. Este sim religioso, evangélica a família, apenas ele a falar alto parecendo em briga constante; ela não, não cabe a pecha de mulher faladeira à senhora a quase se não ouvir. Bem, garante o pensamento de João, bem: contudo ela assobia hinos dia inteiro; o moleque deles não moleque, antes menino educado. Essa casa desse lado, lado esquerdo (ué, como sabermos não sabendo onde se encontra o personagem, critica a personagem maçaneta sem porta) o lado de Trovão. À direita a casa da defunta... ah, era tão boazinha a vizinha velhinha e a gente nada sabia de suas dores; um dia uma noite a ambulância, depois os comentários das comadres nas Perdizes a lamentar o falecimento, a temer igualmente o falecimento e as almas penadas na casa vazia. Oh como a gente nunca sabe da gente que convive com a gente! Então se inventa ou se desconhece e assim entra na gente a indiferença. Não, discorda o velho a rememorar o convívio, nunca tive queixa dela; decerto nem ela de mim. O Dóqui encerra essa conversa sem som com um ladrado meio rouco, o pobre anda a definhar também, não tem força; no entanto ladra por algo e avisa.
          Chega o terrível aviso dos impostos na rua, o correio também assusta o resto do pedaço com as contas, a alimentar após a matraca dos vizinhos. Ele, o João, sequer conhece os nomes de todos, os de mudança recente nem se fale, fala sua lembrança só dos antigos, pode contar nos dedos quais pode chamar pelo apelido. Aparece o entregador e toda a rua se locupleta dos latidos. “Cala a boca, Dóqui!” mas aqui verdadeiro a colaboração fraca do seu cachorro.





Cap.10°
          O vizinho das vizinhas, o vizinho seu Batista sai do portão – deixa o Dóqui no portão a olhá-lo, desenxavido o pobre cachorro, a olhar o amo capengar ganhar a rua, a rua nessa hora da manhã cheia de vassouras pazinhas de lixo e lixo e o lixo das línguas. Sai do seu portão rumo à venda na compra de leite, garante, elas não creem, garante só comprar e só ingerir leite de saquinho plástico... já o ti-ti-ti de olhos a analisar aqueles passos curtos arrastados... ah casamento perfeito dizem moradoras “lá vai, diz uma, lá o ômi da muié”; aquele na referência o vizinho delas aquela na referência é Chiquinha não estando de volta a Chiquinha com a trouxa de roupa na cabeça equilibrando: entra na casa do velho e depois sai de mãos vazias (sobretudo quando cobra o velho o velho não paga) vazias sim porém cheia a boca para alimentar as orelhas das comadres. Por trás da lavadeira e ela já tendo trocado ideias com as outras, então vai a mulherinha sumindo a virar na esquina. Entretanto interpõem as comadres no gozativo casamento entre a dama viúva ou largada ou solteirona ser a ‘muié’ daquele resto de ‘ômi’ indo à venda na compra, sob olhar contemplativo lamentoso do cachorro. O cachorro fica sentado gozado sobre as patas traseiras e sobre o rabo de falar; o olhar remelento dele vendo sumir o amo. E assim retoma Batista seu período matrimonial, que não dera em nada enquanto jovem inexperiente e menos agora como idoso conformado no epíteto tio – somente teoricamente poder-se-ia arranjar com a lavadeira. Não tem importância, elas falam e casam assim mesmo embora de longe, bem longe da noiva a virar já a esquina desaparecendo das Perdizes e meio longe do noivo, sobremaneira por ser o noivo meio cego, o ‘noivo’ que passa pela gente aqui, ‘aquilo’ nem vê a gente por ser orgulhoso. Aquilo!? afirma coisificando João sua vizinha Tonica, mais corajosa que as outras e de língua macha pra valer por forte alta ardida e gozadora. Aquilo? aquilo é ora aquele indo à venda ora a casa dele, reduto de segredos intransponíveis e desses de se levar ao túmulo, dando azo à criação das vizinhas ali dignamente no limpar a rua, pôr comportadinha a sacola de supermercado na lixeira, hoje segunda de preguiça e de trabalho aos lixeiros, uns que dizem as linguarudas adorar no fim de ano receber as gorjetas as festas as boas-festas porém esquecendo noutras feiras (segunda quarta sexta) algumas sacolas estouradas no leito da rua em vez de depositar na caçamba do caminhão de limpeza; tais sacolas estripadas pelos cachorros soltos famintos que as alcançam lá em cima da lixeira da gente e aí sujam o chão. Sujam assim com a língua os grupelhos além de garantir, uma dizendo as outras concordando, que o ômi quase esbarra na gente não vê a gente não diz bom-dia à gente; o que mentira deslavada: é quase também a única fala do vizinho esse cumprimento que externa o vizinho. Uma delas exagera no grupo a afirmar textualmente ser aquele seu Batista “lindo de morrer”, dizer vulgar, no entanto acertaria melhor a mosca com outras palavras tão ou mais ferinas “lindo para morrer...” Aliás duas entre essas matracas estando depois (é claro) no velório, a constatar o vizinho cercado de curiosos na mesa enfeitada de flores, ele com seu narigão tendo encaixado os óculos demais conhecidos delas; os mesmos óculos com que ora indo ao leite, põe e tira tira e repõe os tais encavalados, num sestro pela irritação (dá uma coisa na gente aquela coceira aquele prurido atrás no encaixe das pernas dos óculos nas orelhas). Elas registram também mais esse argumento a fantasiar figurar traçar o velhote. Não. Dóqui não vê isso não sabe disso, os amigos ou nunca veem ou nunca citariam o proceder. Elas.
          Contudo é verdade sim que Batista esteja em seus últimos dias como morador de Vila em vida. Findam os tempos na rua das Perdizes onde as perdigueiras numa quase patrulha, famintas e ao mesmo tempo prenhes de fatos relacionados a ele e a todos residentes, possam distrair-se ao vê-lo passar. Entretanto o desmancha-prezeres daquele caminhão de lixo chega ao lixo, mata a conversa, alguém sempre esquecido de algo esquecido a robustecer mais a sacola e assim rouba a cena num correr atrás dos coletores com nova sacolinha. Verdade sim ser muito o pouco que sabem essas línguas viperinas, sobretudo de João. Aqui bom saber que a fração masculina dessa versão feminina comentadora das mentiras do bairro tem sua maneira de observar o ramerrão joânico, até sobrando nisso notar o segundo morador da casa setenta, que é o cachorro. Todavia o comentário masculino, o macho sendo fálico de pensamento e boca, tendo muito que ver com o gênero ou o sem-gênero do vizinho. Enfim nem anjos nem demônios homens e mulheres, quando o objeto é um vizinho velho esquisito pelo que faz ou exatamente por não fazer as coisas dentro dos padrões e mesmo por se esconder.
          Como será lá dentro! dentro da casa, dentro do quintal. Não sabem, apesar terem como aliada uma Chiquinha que fala fácil e ali trabalha, “vive” dizem elas; ela também convive na residência. A lavadeira longe ser um túmulo, antes que isso isto: tagarela de igual para igual com as mulheres na rua; não entrando nos segredos. Não dá o serviço naquilo que decerto vê sem importância: o velho tem por anos uma dor de cabeça... e quando assim nem conversa avermelha amolece amortece.
          Realmente Batista não anda bem das pernas quando anda; e não está a passar bem quando se encafua com seu cachorro de portas a dentro, fechadas, e janelas também fechadas. Nos últimos tempos seu comum não é mais estar de ferramenta em mãos no quintalinho; agora raro desse jeito, sem coragem; sem coragem o amigo do amigo também, inclusive para ladrar. Ora ‘preso’ encarcerado entre quatro paredes; quem sabe vendo as bocas mudas das propagandas sempre sorrindo ou estardalhaçando felicidades; em vendo o se ver. Ora certamente a dormir seu silêncio... Batista de um tempo a esta parte se volta pra si; e tem bem pouco igualmente a relembrar com a memória ou matreira ou sonegadora: em resumo, pouquíssimo a recordar. E assim vai vivendo a morte na sua secura. Isto porque, segundo o popular, não vive quem se não lamenta, quer dizer não expõe o que sente, caso sentir; não narra causos, não ouve quase causos dos que contam causos; e se embrenha no se embrenhar.
          É um homem magro e pequeno, comum enfim; é agora pequeno frouxo murcho encolhido acabado e ainda o espelho a lhe ditar: feio! sim “feio” dizem elas ao vê-lo passar na rua; e no fim de tudo estando a findar sua história meio estória sem enfeites, estes desnecessários à verdade; a levemente matar o tempo que mata a gente, ele em particular, eles ajuntando a boa vontade de Dóqui sempre presente. Se olham se leem se sentem se compreendem se entendem em tudo. Mas sobra – diz afoita a exigência – sobra uma falta que é saber como vive e gasta um gasto ser humano as horas nas coisas que se não sabe. Não sabe a vizinhança e isto aguça mais a curiosidade. A curiosidade nunca perdoa as vidas pobres secas, as quais produzem a indiferença pelo cansaço de se não ver-saber, ou por essa razão produzem invento, com e sem maledicência; produzem ou exacerbam o imaginário popular, ou seja os interesses que o túmulo pode enterrar; seriam fatos ou ‘fatos’ dos dias passados desse passado.
          Pelo exposto, causou alvoroço quando os poderes públicos anos após o morador do setenta porém morador efetivo da necrópole haver deixado a propriedade; quando, por fim, esses oficiais tomaram providências no sentido legal sobre o terreno de João e também sobre os lotes vazios dos outros na periferia de Vila Verde. Já eram outras as vozes vizinhas outras as curiosidades então. No tempo imediato entretanto ocorreu um avanço das faladeiras do bairro a satisfazer e encontrar quem sabe se não a se apossar do butim dessa guerra perdida. Com duas versões contrárias na constatação do que seria o espólio, fosse espólio.
          Uma explicável no seu inexplicado que é o temor ao morto com sombra na sua antiga morada; aos mortos, pois Dóqui se negara a deixar Batista a desaparecer sozinho, fora encontrado o cão sem vida na casa. Qual a velhinha, o velhinho a se temer alma penada, disseram os que disseram, temendo-se. Claro, outra confusa versão em mostrar coragem e descrença nessa crença; ou apenas a contrariar, mas ainda se temendo...
          Caíra a noite – ah dizer apressado do dizer pois que a noite chega, antes ensombrece cala os gritos, fecha os olhos ao dia, o dia que também morreu... ora, também por quê? o velho João acabara de falecer – enfim chegara a noite aos grilos na rua das Perdizes, isto válido para todas residências então na rotina de ver novela na televisão; e à residência de Batista e seu cão. O que se notava se se notasse era o silêncio em o número setenta, como todas noites assim, não se esperava mais, menos Trovão tendo ido ao culto, ninguém a esperar houvesse barulho aí. As mulheres das outras casas próximas acostumadas assim, assim embora curiosas sempre em saber como aquele antro. Elas não tinham conhecimento que seu João houvesse partido desta para uma vida melhor; dessa forma pensa o homem do povo; e sequer ouviram as pessoas o uivo de Dóqui; diz o popular semelhantemente que os cachorros avisam chorando em uivos de disparar na gente o medo, morrendo o dono; porém isso não ocorrera. Passaram os que passaram, notívagos à solta, nem eles perceberam anormalidade alguma. Só nos dias seguintes deram primeiro pela falta do vizinho e depois as rodas comentaram. Pelo fato de o velho morador ser mui fechado, até diziam os que tivessem língua, que ele vivia morto abandonado pela família; desse jeito criticavam sem saber dos familiares nunca presentes em casa do homem. Como assim, ninguém se espantou com o silêncio reinante. Vieram novo dia nova noite novos dias novas noites, novos raios de sol nos dias e daí subindo um cheiro estranho no ar... Foi nisso Tonica entrar, arrombou o portão sem precisar força sem força ela, a satisfazer uma curiosidade de anos acumulada, agora com razão.
          Encontrou Batista de olhos arregalados!
          Dóqui mantinha os seus fechados.
          Mortos.
          Gritou primeiro a vizinha após demais vizinhas. Antes que chegassem àquela decomposição com cheiro nauseabundo, antes disso correu aproximando-se do morto a lacrar-lhe os olhos – Tonica vinha da tradição segundo a qual se o defunto morresse olhando o mundo que deixava não haveria nunca descanso à sua alma. Ela, não a alma, cria tanto quanto o resto da vizinhança nessa particularidade triste; cerrou, tentou cerrar as pálpebras, temerosa, mas isso não pôde levar a cabo; fá-lo-ia depois a funerária a adornar o cadáver. Já entravam (e saíam imediato diante do quadro e mais pelo insuportável cheiro deletério do ambiente...) já ali outras vizinhas e vizinhos, estes ainda não tendo ido ao trabalho e foram eles que telefonaram às autoridades sobre o macabro encontro.
          Excetuando esses minutos, horas até por tardar chegarem autoridades médicas e policiais; esse tempo a tentar acudir um morto talvez vivo, a gente nunca sabe bem das coisas; excetuando tais primeiros momentos, um grupo de senhoras fora fora da casa examinar como possível a vida daquela vida monótona qual num monastério proibido às vistas de visitas laicas.
          O quintal era rebuliço, muita desordem, mato crescido, frutas podres a cheirar mal no chão; demais o flagrante para ordeiras criaturas. Porém ainda pior o que presenciaram no interior da moradia, após a tarefa oficial de levarem o corpo e seu decompor malcheiroso. Horrorizaram-se com objetos fora do lugar, a poeira de dedo, a sujidade, a imundície generalizada enfim. Peças de roupa masculina sujas em mistura com limpas lavadas passadas por Chiquinha espalhadas por João, uma delas era lastro na cama improvisada no chão ao Dóqui, onde Dóqui dormia seu sono tido eterno (logo enterrariam o pobre no quintal, sem velório sem flores, não pensariam óculos é lógico). Examinaram mais ainda naquele aparente presídio. O cheiro, após transportado o cheiro do defunto em apodrecimento, o cheiro era o de aposento fechado anos, anos em detritos acumulados – dose a eliminar a dona de casa limpa, a limpeza sem a qual impossível viver (e morrer...) – e aqui sobrou à lavadeira: matracaram em torno do péssimo serviço da ‘porca’; até que apareceu a chorar gritado gritando a porca em carne e osso e daí suas amigas de bate-papo informal cessaram a crítica... Como é que a porcalhona se mantinha no emprego e com patrão, sem fazer a faxina cabível e em regra! Decerto, disseram elas, enganava o infeliz ceguinho que não via a sujeira... Claro desconhecerem a teimosia do homem e a pouca relação entre ambos. Algo que avolumou na crítica foram os mil tocos de cigarro espalhados. Curiosamente quem mais levantou a questão exato uma delas fumante inveterada também. Não escaparam o urinol do velho a arder amônia e os utensílios de cozinha usados reusados amassados largados em qualquer lugar.
          Não obstante a trágica noite fora branda, se não amiga do morto vivo a morrer daí a pouco. Encontrou-o como sempre encontrava por mais de dezena de anos: a parlamentar num colóquio ameno com Dóqui, agora o velho a lamentar a sem força do animal embora de boas orelhas ainda. Contava ao amigo o como fora o passeio no dia que se acabava, imaginando ser o mesmo dia da noite que chegara; pensando o velho João fosse esse (já se passara semana então, o idoso confunde muito e mistura fatos locais e tempo ocorrido no seu contar). Em resumo, explicava a alegria que sentira nas suas andanças, o amigo então ficara em casa a vigiá-la; ah pobre Dóqui sem coragem até de fugir dum ladrão ou de outra visita inesperada e perigosa... contudo fazia a guarda e o amo a vaguear pelos bairros vilaverdenses. Foi nisso se deparar com uma cena lindíssima: Batista se defrontou com uma área de quarteirão arborizado, encontrara um jardim de infância com quarenta “eu num contei, Dóqui” eram umas quarenta crianças dormindo no chão do pátio sob olhar duma professorinha ou funcionária! Assim insistiu recontou repetiu a fala, não respondeu o cão porém olhou com boa vontade para a boca do amo. Depois, loguinho depois, desandou o velhote a contar fatos ou estórias apenas do seu passado recente, ou seja daquele que não se precisa binóculo para ‘ver’, como seria num acontecimento antigo; do recente bastando as lentes dos óculos de examinar pertinho. Aliás isto fora visto com os óculos velhos, “lembra aquele que sentei em cima!” desandou então a pichar o infeliz balconista que lhe empurrou lentes novas – e caras, enfatizou – e como fora difícil acertar com o doutor oculista, um tal de oftal... não sei, não sabia Batista não interessava saber ao Dóqui. Contou mais, mais a propósito duma pobre borboleta que acaso entrara pela janela aberta, isto não costumeiro na casa a temer ainda mais pernilongos que borboletas, enfim entrara voara borboleteante ziguezagueando na sala e isso um indício certo sério lógico claro dar borboleta... Isso mesmo, Dóqui, vai dar borboleta! Apreciava jogar no burro, ganhara uma vez uns trocados, trocados perdera outras muitas vezes no mesmo burro. O jogo do bicho, contravençãozinha que o povo adora, ele inclusive quase viciado, sendo o jogo um crime que se não pensa. Não deixava nunca nos seus passeios visitar a lotérica, a esbanjar talvez uma parte de sua aposentadoria. Ia, tornava, narrando os feitos às únicas orelhas pacientes, as do cachorro.
          Caíra a noite entre as muitas noites. O dono da residência setenta na rua das Perdizes, ou que se pensava dono, não concordando assim os parentes litigantes nem as autoridades; o dono sentia... não sentia, sentia apenas mal-estar semelhante mil vezes experimentara; nada extraordinário houvera, exceto um desequilíbrio momentâneo ao entrar sem tropeçar na escada de dois lances à porta de casa; o que superou. Contudo logo foi anunciada sua dor de cabeça, que por anos tivera na velhice; uma quase rotina, uma quase amolaçãozinha habitual. O Dóqui já sabia como seu amigo enfrentava a situação: sentava-se na velha poltrona, a tevê desligada; tentava relaxar e se convencer do hábito do hábito; então não sendo agora assim: ela veio para ficar, deixando pouco depois um corpo de olhos esbugalhados, no exato instante em que parecia ao João estar sofrendo um como estouro por dentro, explosão ou implosão. Pouco se importou, breve se viu em cadáver. Logo também o cachorro parou o lento respirar; seu amo não respirava fazia tempo.
          Assim que as vizinhas o encontraram; e narraram aos homens ali chegados na função de autoridades. Nada mais. Não mais.
Marília    maio  2016






Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços: