049(postado
no Blog Livros Inéditos)
V O V Ó
C O N T A
E S T Ó R I A S
(romance)
Moacir Capelini
moacircapelini@gmail.com
capa:
data de publicação:
tiragem:
Gráfica:
“Dizer a verdade, está bem, mas toda,
não podemos, não devemos.”
Gabrielle
S. Colette
- -
-
“(...)
avançavam passo a passo e a cada
passo o horizonte recuava um passo (...)”
Simone
de Beauvoir
Esclarecimento
Desnecessário
Ponho isto para o Futuro divertir-se. Chorei.
Já manuscritei; e antes disso havia concebido e planejado esta obra,
literalmente obra... Manuscritei critiquei datilografei critiquei digitei
critiquei imprimi provisório; critiquei melhor a rever para reconstruir a obra
– e critico agora para novamente digitar e criticar mais uma vez; então
imprimir definitivo (existirá o definitivo?) à publicação. O livro vai em linguagem coloquial, muito mais
próximo do povo, o autor é gente do povo. Desejo ao Leitor boa leitura.
1o.Prolixólogo do
Introito
Os séculos que se foram os séculos que
estão passando os séculos que virão, caso o mundo não acabe, o tempo enfim cheiinho
de anos e milênios, ora com luz a se contar anos-luz ora não se pondendo
contar, portanto a escuridão e aí não tendo cegueira que possa ver; o tempo
passou passa passará e a perenidade das estórias da Carochinha é um fato
consagrado desse mentir, vestindo-se belissimamente às vezes o esqueleto que
perdura na Humanidade, tal como o Gato de Botas a Bela Adormecida o Chapeuzinho
o Pinóquio e mil outrinhas, mil que não abrange talvez umas cem delas. Contudo
encantaram encantam e possivelmente encantarão as gerações jovens, não como no
dizer a faixa dos oito aos oitenta: a etapa abarcando os dois aninhos, já
interessados nas coisas não muito inteligíveis, até os cem anos e um pouco
mais, caso o velho se torne criança outra vez, tendo aqui um porém – o de o
grupo com mais de cem não interessar ao mercado livreiro porque idoso quase não
compra.
Mas pera lá, tudo isso para dizer o
quê?
Ora, que vamos iniciar um contar.
Justo. Todavia é necessário falar
tanto e nadinha dizer!
Está bem. Eu diria no meu
coloquialismo “tá bom” a encerrar papos indesejáveis. Tá bom.
Então comece a narrativa, pô.
Bem. Aceito o alvitre. Antes é preciso
contar o que se contar. Não, não me interrompa ou não conto o que contar:
Temos um velho de menos de cem anos,
ainda reconhecendo o vulto sentado rodeado por todos lados mas não é ilha, é
sua digníssima esposa, vovó, a água em volta não é água são os meninos, netos
bisnetos tatatatata (só mais um ta) taranetos e agregados bastante, crianças
que estão rodeando aquela boca maravilhosa de figurar estórias; tanto assim a
tevê desligada ou falando sozinha, os brinquedos espalhados igualmente sós
tadinhos, e não chove lá fora espantando para dentro em fuga as crianças, elas
a macaquear; tem sim ao redor da residência gradil e cadeado e chave. Vovó, ah
a Vovó.
2o.Vovó
Vovó devia ser a lua, é o sol nessa
mixórdia que é reunião de mais de uma criança, criança grita bole implica exige
atormenta pega toma teima esperneia grita de novo. Mais de uma é uma questão
matemática com desejos pra não se errar no vai-um e se multiplica isso pelo
número de menino, dois no caso em exemplo mil e um no extremo, porque se sabe
não haja número maior que mil e um. Juntas as crianças apenas brincam e brigam
ou brigam e brincam deixando a briga posterior aos adultos. Isso tudo com uma
Vovó no meio, aqui vindo uma dispersãozinha a tratar o seu centralizar.
Vovó é enrugada e mede uns vinte por
cento menos de quando jovem e bela e o Vovô era um garanhão sentindo ciúmes do
vizinho e das visitas por causa da gostosura que ele tinha na casa; vinte por
cento; enquanto não passava ele de um e sessenta; pondo a culpa nos saltos dela
ela a ficar cinco centímetros a mais vendo altão o marido ali embaixo mas ele
se considerava macho demais para tanta temência.
Agora ela tem base consciente do seu
poder e da sua posição, oposição da oposição macha, sem exageros vernáculos.
Enruga na pele amolece no caminhar porém enrijece por dentro e cresce por baixo
da pele cansada. E ainda é muito mulher, mais que a oposição supõe. A oposição:
Grrr, diz para não dizer que dizer e
ajeita lá suas coisas, mexe a palha, gosta de corda, chupa chupa traga apaga
acende outra vez fumaça o derredor e nada fala, grunhe.
Fala a Vovó, fala Vovó a um personagem
inexistente como os que inventa ou toma aos livros, ou na pior das hipóteses
ilustra a dar brilho nas estórias, fala olhando de esguelha a oposição, vendo
os meninos ali rodeando mas para ferir o esposo – esse velho porco! Um menino:
quem Vó? Ela: essa porcaria; cada menino olha outro para ver melhor a porcaria
e ela corrige esclarecendo: seu Avô, esse aí. E mostra de beiço. Um beiço fino
pálido nem o batom ‘despalidando’ o ressecado que a linguinha corrige todo
minuto com saliva escassa e bafo afogueado. Tosse.
Ela tosse, tosse ele a se dizer
presente na chamada que a vida faz todos dias e dá conta na falta de alguém que
vai para os destroços do arquivo morto no quarto de despejo das autoridades
competentes.
Tosse. Ela olha para seu lado e isso é
um mundo do mundo que passou. Os meninos:
Conta, Vó!
Conta do cavalo. Não, da moça; não, do
anãozinho; não, daquela princesa; não, do galo; não, da... Nada disso, fala a Velha,
pensam que sou trapo a me submeter a todos. Nem posso contar tudo a todos, a
todos duma vez. Ordem, disciplina. Prometo narrar a mais bela! Palmas,
asserenam, fecham a boca, abrem olhos, arregalam ouvidos, uns querem tanto que
pretendem xeretar o cheiro dos meandros da estória. Ela sorri vitórias, mais
uma vez olha o marido pitando aquele fedor raspando goela como fora ele o
contador, tossindo desesperado o veneno de fabricar câncer. Volta-se a mulher
aos netos, sorri pela ansiedade, a Aninha já lhe gruda em costume à saia, quer
mais: quer colo bolinar pegar nos cabelos brancos ver se da princesa de cabelos
negros e fita vermelha. Sobe mais, mexe no broche da Vó, trepa ainda, puxa o
vestido no que sobrou do seio, olha o reguinho e a escuridão lá dentro e indaga
o que é isso?
Vovó também ela a raspar constrangida
a garganta diz bem alto.
Isso é... o Velho grita de lá:
Pasteurização desativada.
Os netos olham para si sem entender. A
Velha responde malcriadamente:
Homem pornográfico!
Ele sorri, vai reacender a bituca da
palha, quase a lhe queimar os beiços, quer aproveitar o restinho a melhor se suicidar
e não fala, grunhe seu grrr...
O público volta-se à Vó. Ela pede não
sei que, trazem-lhe o xale. Se ajeita. Dá uma ordem, apagar a luz dos quartos,
é preciso economizar não esbanjando energia. Espera, voltam na expectativa; vai
começar a rotina, que é o ato de continuar as coisas.
3o.Os Oito Anões
Hoje, diz Vovó, é segunda-feira não é?
Bem, no dia santo da preguiça veremos os Oito Anões e a... Então lhe cortam a
palavra criança não espera, por que é santo por que preguiça, ela dá o exemplo
e fala baixinho nessa hora para mostrar o esposo, exímio na arte do trabalho e
o trabalho que deu a ela, eleva a voz: então os Oito e a Princesa que se chamava...
Interrompem outra vez, agora a Joana: por que oito se sabemos que na estória é
a Princesa e Sete Anões!
Calma meninos. Sim tem razão a Joana, sete
mesmo. Mas sete é conta de mentiroso, que não vai passar de sete chegar a
setenta e sete e nunca ultrapassará mil e um. Em segundo lugar, minha gente, são
de fato Oito e não Sete. Indicou alto o Velho ali baforando o radinho de pilha,
alto pra burro por ser meio surdo, caso não desejasse ouvir certas coisas;
olhem o Oitavo, ela olhando de biquinho os meninos vendo, os novos dos mais
novos interpretando mesmo o Avô e não entendendo e os mais velhos dos mais
novos vendo além do ver, rindo. Prossigamos.
Como eu disse a Princesa Branca de
Neve... Cortaram. Realmente crianças, falei sim, falei baixinho. A Branca de Neve
foi encontrada no gelo e... Vovó, gritou fino Ivone, como foi posta na
geladeira se não cabe!
Quem falou na geladeira! Aqui é sempre
quente e em julho aquele friozão sem neve, na Europa não é assim, cai gelinho,
farinha de gelo por cima da gente muitas vezes e a Branca por isso estava no
gelo.
Pera lá Vó, bica Américo, ela branca
por causa do branco do gelo? que não é branco, já vi, a gente vê do outro lado...
Tem razão garoto, tem razão, é
transparente. Aí teve de explicar transparência, o porquê da brancura, caiu na
besteira de comparar com o azul do planeta, a gente não vendo perto azul, e
perdeu até a hora do almoço que nunca tem hora na hora de contar, prosseguir, até
se cansou e ‘ufou’.
Vamos continuar. Onde estávamos...
Na Princesa, Vó, nos Sete que viraram
Oito com o Vô... Agora ela quem corta “fala baixo”, a fugir dum possível
entrevero. Está bem, já sei. A Princesa Branca de Neve andava desacordada e...
Cortaram:
De que jeito andava se dormindo! fala
o Pedro, só sendo “sonambra” como a Tia Lita, era “sonambra”.
Não meu filho. So-nâm-bu-la, é assim,
sim? não não era sonâmbula é que... Aí não deixaram, teve de explicar a tia
sonâmbula e ficam encantados com o fenômeno de milagres tão interessantes dando
um medinho na gente de acordar andando e esbarrando na casa de noite e se se
encontrasse o capeta ou uma assombração! e daí a Aninha esboçou choro olhos
meio arregalados sendo verdes os olhinhos, isto senão. Acaricia elinha e ia
retomar, vieram avisar a boia, era assim que falava sempre o Velho toda hora
cobrando: “hoje não sai a boia nesta casa?” Uns querendo continuar a estória da
Neve outros com uma fome sem tamanho, que no frio daquele calor dá uma bruta
vontade de comer, expressão também do Velho, o qual apagou a economizar a
bituca pra depois, antes a refeição. E segue a correria a tomar melhores
lugares à mesa, os de fora, agregadinhos da vizinhança amiga não sabendo se
correm à festa se voltam pra casa a tornar outra vez aos Sete Anões que eram
Oito.
Vovô bpuf! Vovó ‘sonolenta’ o almoço
toma como prevenção os comprimidos; ele não, bpuf dorme na cadeira fazendo
bolha que vem do estômago e é certeza dirá “dormindo não, mentirosa,
descansando” ela olha desde a poltrona também cansada na sala que serve de
refeitório e nunca chegam a acordo, ela aguarda esperando a netalhada a ouvir
seu contar Anões, Sete na conta de mentiroso, sete não, Oito.
Se achegam matracando, ela adverte: vocês
precisam se entender no desentendimento! Se olham, Aninha coça a Vó a se coçar
e quando vê vê a Vó ela dormindinho. Todavia isso não impede a cobrança dos
outros e Vovó continua.
Então a Branca de Neve escorregou na lisura
do solo e ‘trebóf’ caiu, desmaiou. Tadinha dizem vozes. Daí vieram do trabalho
os sete anões, pararam, pera lá Vó, você falou Oito agora são Sete, morreu um?
Não, engraçadinho, fala Vovó, mostra de beiço alguém fazendo bpuf na cadeira
“descansando” e retoma: os sete pararam mas aí um deles, sempre encrenqueiro
igual o Pedro (o Pedro sorri amarelo) não queria ele parar na estrada e se
chamava Zangado. Bateram palmas, os desafetos domésticos já gritam atrapalhando
a atrapalhação da Vovozinha à referência Pedro Zangado, o que deu início de
tumulto, a Velha dando um basta bastando dizer “aí a Princesa...” todos
querendo saber.
Aí a Princesa não acordou. Os
pequenininhos, tinha um gorduchão deste tamanhinho (e mostrou Ana dormindo)
esse sendo muito engraçado e amigo. Propôs o gordo que se levasse a moça para
casa deles, para não sofrer frio. Zangado deu contra. Dunga, outro deles,
insistiu que levassem aquele fardo bonito a morrer tranquila na casinha deles.
Era pequena, Vó? reclama Antônio.
Pequena assim... digamos coubesse
apenas: Aninha, Joana, Ivone, Tereza, Maria Helena, Américo e Chiquinho. Os outros
ficariam de fora, de tão pequeno o lar dos Anões! Escolhi para entrarem os
menores de vocês, os grandes só uns quatro... Imaginam aquela ‘pequenura’ de
residência, a narradora aguardando a caminhada da imaginação infantil, ficando
a sorrir enquanto não voltavam do faz de conta. Voltaram, quiseram saber como
os anões carregaram aquela gostosura, onde pegaram, os mais menos pequenos
desejando esclarecimento se não abusaram pegando nas partes moralmente
incorretas, a Vó respondendo como soube. Ia pôr já a Branca de Neve lá dentro e
tudo o mais, iniciam a baderna, briguinhas costumeiras dentro da plateia a
treinar para virar adulta. “Ele fica me empurrando!” outro grita a outrinha: “piolhenta!”
e assim vai. Não vai. Vovó faz cara de poucos amigos, Vovô acorda do descanso
olha todos lados e se preocupa por estar só naquela área quieta demais, todos a
se olhar tentando interrupção que já existia, da estória, olhando o Vô a fixar
os outros sorrir e tomar o binga acender a palha do cigarro. Então Vovó sorri,
indaga onde parara e todos sorriem.
Quando a Branca de Neve acorda... Daí
gritam felizes: não tinha morrido! Não, suas burras, elogia Pedro às manas e
primas – como acordaria se estivesse morta!
Continua Vovó. Olha em volta, achando
uma gracinha o ambiente. A Moça começa ver as coisas pertencentes aos Sete
Anões, não me falem mais em Oito já expliquei o besta do Oitavo onde está... os
Sete tinham ido ao trabalho e cantavam “eu vou eu vou, para o trabalho eu vou”
ando um pouco rouca, antigamente eu era um rouxinol a cantar e (aí o Velho gargalha
e ela fica com raiva mas prossegue:) Ah diz a Branca, que cadeirinhas, contou
sete, que mesinhas, ah os pratinhos os garfinhos os peniquinhos uma gracinha!
Então... então voltaram os Anões.
A meninada grita, o Pedro deseja
interromper a Vó nesse apaixonante momento; e assim interrompe de vez a Vó.
Esperem lá, crianças, não briguem.
Viram? os gritos acordaram Aninha. Aninha mostra aqueles olhos verdes que daí
uns dez ou doze anos iriam escabelar os moços casadoiros aptos à conquista
amorosa, agora só os arregala a perguntar à plateia voltada para si e então vê
a Vovó salvadora, procura e é carinhada pela senhora, indagando com os verdes
onde foi parar os Anões e a Princesa. Vovó acode prontamente:
Então filhotes, a Branca de Neve
examina os trenzinhos de cozinha e é pega desprevenida pela chegada dos proprietários
da casa. Ooooh! disseram sete vozes e a Jovem desmaiou de novo de susto!
Naquele tempo hein Vó, mulher desmaiava
à toa...
Sim, mais ou menos, Chiquinho. Mais ou
menos assim. Já sei que irá me perguntar por que hoje não é tanto. Digamos que
o sexo frágil ficou mais forte, endurecido no trabalho e já não pode contar com
o homem, sempre ocupado (olhou a oposição fumando parecença chaminé) a
descansar... do descanso porque descanso cansa (olhou de novo e a chaminé fez
um muxoxo de domínio apenas particular).
Zangado... (tremeram medos os
assistentinhos) Zangado queria tirar satisfação com Branca de Neve por mexer
nas coisas alheias...
Que é ‘alheias’ Vó. Explica alheia
explica outros inexplicáveis, Aninha se achega melhor ao colo, ela continua:
Agora então os Sete Anões encontram-se
espantados e indagam e nem esperam resposta e já perguntam mais, parecendo
vocês aqui... A Moça não sabe para quem responder primeiro e os Anões se reúnem
numa assembleia (explica tim-tim por tim-tim assembleia à assembleia ouvinte) e
debatem a situação da novata, intrusa na opinião de Zangado, o qual deseja a
expulsão da Bela.
Era muito bonita, Vó? quer saber João.
Vovó descreve a beleza dela segundo o
padrão de beleza como vê a beleza uma mulher, mulher embora passada. Pedro faz
perguntas e quer o prisma macho, ela se constrange e o Velho parecendo alheado
não estava desligado e aí cita a miss da época, mentindo melhor que a
esposa: conheci a Bela! Vovó desmente o desmentido, o fuá se estabelece e o
telefone trina o paradeiro daquele início do fim dos tempos.
Alô.
Vem Américo dizer que é mamãe. Vovó se
levanta gemebunda, corre a lerdeza para atender o fio e volta às crianças, aí senta-se
com tanta envergadura quanto a que teve ao se levantar e correr para o fone,
suspira um ai e é obrigada a contar: mamãe tem serviço até mais tarde, não vem
hoje, quer dizer – vocês já estarão dormindo quando... Então o Pedro:
O tal serviço é aquele namorado dela?
Cala a boca, pois não tem nada que ver
com sua tia, diabinho.Voltemos à estória da Branca de Neve, não querem?
Grito uníssono. Está bem, continuo.
Sim, Aninha, os Sete Anões também, está bem Tereza são Oito o Oitavo... Deixa
pra lá. Aí decidiram que a Princesa ficaria; combinaram que ela seria a
empregada doméstica deles. Está bem, igual a Sebastiana mas vocês precisam
definitivamente parar de responder mal para ela...
Silêncio! constrangedor, continua.
A Branca de Neve fazia comida aos sete
e... Fazia abobrinha? fazia arroz? Quiseram saber se gostava de batatinha frita
e bife, Vovó tenta explicar a boia, insere o chato Zangado que não gosta disto
não quer aquilo reclama do sal exige mais pimenta e aí a molecada quer bater no
Zangado e assim ninguém escuta a Vó pedindo silêncio e paz; Vovô pita bufa
alevanta mais o volume do rádio e está em vias de gritar os gritos, a Aninha
escorrega do colo e vai fazer e volta correndo para não perder nada, o Pedro
cobra dela não ter dado descarga, logo agora que se asserenavam e a estória
andava ameaçando prosseguir.
Então, diz a Velha, a Jovem fica
varrendo a casa, bolando um arrozinho com feijão torresmo e batata porém eis
que... tchã tchã tchã...
Olham o faz de contas contando as
contas do imaginário, abrem a boca com sabor a imprevistos, até alguém abaixa o
rádio enganando desejar ouvir mais a bola que a Neve. Ela conclui o recomeçar:
chega a Rainha Má!
E foi um disparar, um descer a lenha
na maldade que iria perpetrar o ser diabólico, não sabendo bem quem fosse ele.
Nisso deixaram-no em trapos, implorando misericórdia, misericórdia essa que
desferiu-lhe Vovó:
Calma garotos, não é assim.
Ela chegou em paz. Vinha
então com um cesto de não sei que a
vender para a Gata Borralheira e...
Ei Vó, não é Branca de Neve!
Sim, Branca de Neve que ia exatamente
olhar a cesta com ‘nunseiquê’.
Pera lá Vó, tem um homem todo dia aí
na frente querendo empurrar manga podre para a Sebastiana pra dar dor de barriga
em nós.
Não senhor, Pedrinho, não se tratava
de manga, maçã, na Europa só dá maçã pera e neve. Quiseram saber patins, apenas
dois netos apreciando pera e Vovó não foi na conversa deles: maçã, pronto.
Vocês me enlouquecem. Então Vovô gargalhou, ela bufou o gargalhar do marido e
ele dizendo rir-se do jogador no rádio, ela acredita para poder continuar a estória:
Quer dizer que comprou uma maçã...
exatamente, meu filho, escolheu bem uma, pois poderia andar bichada. Imediato
berraram: “maçã anda!” “ah que burra, o
bicho que andava, não é Vó?” Não, sim, ai! Eu disse ‘andar bichada’ como forma
de expressão, andar aqui é estar, estar bichada, entenderam; sim o bicho anda
de verdade e fura a fruta. Aí pegou a fruta... ora, é claro ser a maçã, não
estamos falando que a vendedora trazia maçãs! Não era a “Véia”? Menino, que expressão horrível, mesmo em se tratando
da mulher má. Vocês não me deixam contar.
Quietude e conscienciazinha culpada.
Vovó retoma:
A Menina pega a maçã e põe na boca...
meu Deus do Céu, assim não dá Tereza, é claro põe na boca pra comer e Menina
que trato aqui é a Branca de Neve, aquela que arruma a cozinha e a casinha dos
Sete Anões, sim Oito. Mas...
Mas... a fruta encontrava-se
envenenada!
Não, Aninha, não chore, só provou não
morreu. Caiu desacordada e a Bruxa Maldosa que era a Rainha num disfarce como
vendedora e olhava no buraco da fechadura para ver a queda... sim filhinha, é
coisa feia olhar na fechadura, então ela viu a Princesa cair trebóf! no chão e
gargalhou numa alegria imensa!
Pera um pouquinho, diz Maria Clara.
Por que alegria. Vovó explica a Megera desejar o pai da Branca só para ela e
ficar com o palácio encantado; e as joias; e o reino... O Pedro: e o mordomo
não é?
Não sei Pedro, não li essa parte.
Daí
querem saber se
não tinha visto
o resto ou apenas
lera. Respondeu como pôde. Não, minha gente, a Branca de Neve não disputava
com a Rainha Má o Rei, o rei era seu Pai.
Pai de quem Vó, indaga Ana.
Pai da Branca de Neve.
Outro menino: então para que brigar,
se era filha não ia casar com o Pai.
Verdade, diz Vovó. Não ia casar, assim
como o seu pai não se casou com a filha dele, desposou sua mãe, não é?
O Pedro: com a mãe dela e com a
secretária também...
Cala essa boca porca, menino.
Tinha porca cachorro galinha na Casa
dos Anões? Vovó responde: é claro. Porém alguns ‘empecilham’ – e a neve não
mata as galinhas?
Vovó está desesperada com o saber do
não saber sabendo os endiabrados netos na plateia. Um narra uma cena de tevê
com geleira e gente morrendo nela, outrinho levanta a questão da mãe demorando,
a Aninha quer sobremesa de novo e a Senhora é obrigada a explicar que isso
apenas poderá ocorrer após o jantar; e essa Sebastiana não dando as caras! Vovô
concorda plenamente com a oposição e ameaça gritar a janta à empregada do
filho, engasga tosse olha a esposa prometendo com os olhos a ela que irá parar
o cigarro. Os meninos querem o retorno à estória, Vovó promete para a noite.
Mastigam, Vovó chama atenção dos que
comem de boca aberta, Vovô fuma após o cafezinho. As meninas querem umas a
novela, outras a continuação da estória, Vovó toma demais os comprimidos de não
dormir e dorme antes da novela das nove somente acordando com o Velho a
reclamar, a meninada já dormindo; num dos quartos a luz permanece acesa e os de
fora matracam com os de casa, Vovô dá uns croques de mão fechada na porta
exigindo silêncio, silêncio lá fora grilos noite o mundo de boca fechada,
dentro a casa ressona; e todos só veem quando já é outro dia.
4o.Não os Dez Negrinhos,
Ficaram Sete Anões
A oposição está reunida com a
situação; esta lhe puxa a orelhona de abano, cobra o remédio na hora certa,
cobra o cumprimento da promessa em parar com o cigarro. A oposição apela,
lembra as fraquezas feminis dos começos na vida conjugal. A situação acusa o
inimigo de estimação até na escolha literária – você somente lia policial,
agora nem isso lê, parou na Agatha Christie nos seus Nove Negrinhos, Dez
ele corrige, culto, e sai à carga, acusa a acusação por ler apenas Coleções do tipo Água e Açúcar; e agora ainda quer
mentir aos nossos netos! Eles chegam com bandeiras desfraldadas, em meia hora
todos assentos são tomados no teatro da neve, o relógio ainda assinala oito e
quarenta, só falta a pequetita a qual vem arrastando sua fralda que lhe serve a
coçar dia inteiro e fala embrulhado como o Vô, ela com chupeta ele com cigarro
entortando a boca menos se fosse cachimbo, elinha, elinha se acerca da Vó, já
beijou Vovô que fica radiante lá longe sorrindo para ela. Os outros ainda contam
suas coisas, alguns moleques bravateando, as meninas maiores narram sonhos e
trechos da novela das vinte horas de ontem, os machinhos mais irriquietos que
elas. Vovó mexe por atacado:
Ué, o que vocês desejam! (faz uma cara
ingênua e inocente, aguarda o resultado da provocação).
Hoje não tem estória? berra o
Pedrinho.
Não tem, filhos (ah! falam
intercedendo a lamentar) eu nem me lembro se contava algo ontem. Não aguenta e
ri do espanto geral. Cada um quer ter o mérito de lembrar mais. Os Anões, a
Branca, a Bruxa; mas o Pedro, sempre ele: tinha o Rei enganado...
Que é isso, Pedro, onde arranjou tal
conversa!
E não é, Vó, Você que disse: a ‘Véia’
queria o Palácio e o Reino só dela e por isso matou a bonita com maçã.
Aninha arregala a verdura dos olhos, já
querendo verter lágrimas pelo assassinato da Mocinha da estória pelo Bandidão
que era a Rainha. Vovó contém ânimos exaltados:
Pera lá meninada – não pus a coisa
nesses termos. A Branca de Neve, oh meu filho, não mate mais a Jovem; Aninha
ela não morreu, eu não falei que morreu: engasgou apenas. Você não engasgou
aquele dia da bala? (faz com a cabecinha sim). Então, depois ela sarou igual a
Aninha sarou. Aninha: eu chorei e papai me bateu nas costas! Exato, meu bem,
precisava bater para desenroscar a bala entalada lá dentro. E a Branca de Neve
se salvou!
Batem palmas.
Ela se salvou mas chegou a assustar
bem seus irmãozinhos porque... o que foi?
Você não tinha contado que ela levou
os irmãos junto; e eles não brigavam com os Anões!?
Ai meu Deus, vocês são dose para leão.
Não, Francisco, falei “irmãozinhos” porque a Branca de Neve considerava os
Anões como irmãos e eles tinham a Jovem por irmã. Entenderam?
Você entendeu, Chico? E aproveito
esta parada para chamar a atenção do Antônio: não me puxe mais a fita da Maria
Clara; está me dando um nó aquí notando isso. Bem, vamos para frente.
Eu estava dizendo, quando essa
porcaria me interrompeu, que a Princesa assustou os Anões imaginando ela haver
morrido. Pois fizeram até o enterro dela e choraram muito... Não chora menina,
não falei que não morreu? Que foi agora, oh Clarinha!
Tadinha Vó, enterraram então ela viva!
Minha Mãe Santíssima, quem falou uma
besteira dessa. Eu disse que “pensaram” que a Moça houvesse falecido; e iam
levando ela para o cemitério, lá nas montanhas cobertas de neve e... o que foi
agora? sim, o cemitério devia ser da prefeitura e isso não importa no caso. Aí,
vejam bem, aí a Branca de Neve caiu da rede na qual era transportada... sim, também
tenho pena por haver caído na terra cheia de neve. Mas saibam, foi bom: no
tombo o pedaço de maçã envenenada se deslocou da goela da Princesa e ela reviveu!
Batem palmas gritam viva, virou um
circo o teatro, bem ao gosto infantil; Vovô grita lá do canto dele: “que diabo
de farra é essa, não consigo nem ouvir meu rádio!” Aquietam, olham pra Vovó.
Bem, agora a Branca de Neve narra
tudinho que a Megera fez a ela para os Anões. Zangado quer estraçalhar a Rainha
Má, ele virou o maior defensor da Branca de Neve, ela inclusive canta
belíssimas canções para ele. Ele...
Casou com a Branca de Neve, Vovó?
Ora essa, Joãozinho, Zangado era mais
velho que o Velho aí (olham o Vô e ele ouvindo a observação derruba o cigarro
da boca, abismado). A Branca de Neve encontrou foi um Príncipe Encantado! Aí naturalmente
casou.
Querem mil explicaçõezinhas, as
meninas a saber se ele era belo, os meninos se conhecia lutas marciais se era
espadachim e se cortou a garganta da bruxa. Aninha pergunta se tiveram filhos e
se o Castelo ficava no Céu, todos outros rindo dela.
Vocês estão rindo da menina, disse
Vovó, estão rindo de bobos que são. Aninha tem razão, o Castelo era no Céu,
pertinho do Céu pois no cume da montanha mais alta do mundo. (Precisou explicar
cume). Filhos não sei se tiveram os filhinhos, mas se nasceu criança só poderia
ser a mais bonita do universo porque com a beleza da Branca de Neve e a do belo
Príncipe Encantado...
E o Rei deixou de ser enganado pela mulher?
Você outra vez com as suas, é ideia
fixa Pedro! Nem vou responder. (Pediram, imploraram resposta) Está bem. Eu li
que o Rei morreu de velhice, pois mais pra lá que certa gente (olhou e indicou
o esposo com o beiço) e não fumava, aí viveu mais tempo, contudo morreu, deixando
seus bens para a Branca de Neve, o reino as joias e tudo o mais.
Pera um pouco Vovó, e o bobo do
Príncipe... deve ter casado com a Moça para ficar mais rico ainda que antes...
Ah quanta besteira fala meu neto
Pedro. Ele se casou com ela por amor. Ora, o amor exclui os bens; toda riqueza
não vale o amor!
Formaram dois grupos a discutir o
assunto proposto por Vovó. Os a favor do interesse, outro grupo pró amor puro.
Todavia não chegam a conclusão alguma, nisto aparentando o viver adulto;
discutem mais, vão se encaminhando ao conflito, Vovó encerra o papo lembrando
precisar sair, Vovô goza lá no seu lugar de costume: “vai fofocar com as outras
linguarudas” Vovó mostra a língua, dá mau exemplo aos netos ao mesmo tempo,
sorrindo importância. Além do mais meninos, sua mãe (disse como falasse a
Américo) sua mãe vem mais cedo hoje, deixou recado com Sebastiana no telefone,
posso portanto me ausentar.
Olham-se incrédulos. Alguns pedem
promessa da Vó para nova estória. Ela? Vou pensar, diz.
5o.Roupa Nova
Naquele dia imediato foi Vovó quem se
levantou com maus humores. Os meninos espalhados nos seus interesses por aí,
ela havia se enfeitado com um vestido novo produto da tarde de ontem – ninguém
viu, ninguém percebeu, nem o Velho, o Velho nunca via se via não via para
elogiar, a rigor não saberia elogiar por descostume, os homens são assim mesmo
dizia sempre Vovó, mas nem por isso perdoava a incapacidade masculina. Virou
pra lá rodou pra cá a mostrar-se como uma jovem, como a que fora aí por uns
sessenta anos atrás; e nada. Ninguém viu, ninguém vê: explodiu qualquer coisa,
qualquer coisa serve de pretexto quando a causa é chata de revelar. Ele fumava.
Já cedo ‘chaminezando’!
Não ouve voz sequer, ouvindo seu eu lá
dentro entre baforada e outra. Aí completa o velho, caso houvessem perguntado:
o homem é uma loucura que ‘loucura’. Loucura no ser, loucura no ver, loucura no
julgar. No fim ainda se põe de coitadinho e injustiçado.
Eu odeio quando você fala complicado
para gozar nos outros!
Que foi Zaldira, não tinha hoje nem
visto você. Os meninos...
Virou-lhe as costas, foi ver qualquer
na cozinha e matracar com a Sebastiana.
O ambiente parece deserto, somente
Aninha choraminga não sei que e os outros debandam, parece, só parece. Volta à
sala, não para assistir resmungos e fumaças: a se sentar. Loguinho a Ana está
enrabichada, aparece mais unzinho e outro e outro mais, longe da lotação
completa. Conversa com um indaga doutro as coisinhas enormes às crianças.
Alguém lembra o esquecimento da estória prometida, mais um comenta a sorte da
Branca de Neve, ainda embranquecida pelo gelo de ontem; e quando vê, vê-se rodeada.
Tá bom, eu conto, mas não ia contar,
nem me lembrava dessas coisas, só pensava no meu vestido novo. Aí os que não
haviam visto percebem agora a novidade; as meninas fazem perguntas pertinentes,
os homens, filhotes de macho, apenas sorriem constrangidos. Alguém se lembra da
novela ou do filme da noite, ela recriminando a ultrapassagem moral e é incidente:
“quem deixou vocês na televisão até essa hora!” Ninguém com muito argumento,
desconversa-se, e daí recobram a estória.
A Roupa Nova do Rei!
Se ajeitam ouvir, ouvem abrir o
portão, o ringir característico do ferro gasto seco desarranjado; e bater com a
paciência a ciência a educação de menino, aparecem dois um assinzinho risonho e
outro maior, meio envergonhado.
É o Zezinho, Vó; do setenta e cinco. E
a irmãzinha. Eu falei das suas estórias, contei inclusive a Branca de Neve, não
foi Zé? (Sim, de cabeça).
Meu Deus do Céu, isto parece andar
virando um teatro! Mas que gracinha ela é!
“Sô Luana”. Vovó, agora é ela que faz
de cabeça. “Sabe que sô muiéi?”
Sim, é mulherzinha bonita. A bonita se
ri toda, os meninos da casa comentam também, todos a postos, só o João voltou
para sua residência, o pai veio cedinho buscá-lo; o restante são ouvidos
atentos.
Conto da Roupa Nova do Rei, havia num
país distante... sim Aninha... distante é longe, mais longe que a padaria.
Então nesse país havia um Rei muito poderoso e também muito vaidoso (explica
vaidoso, a novinha arregala olhos). Um dia vieram dois espertalhões,
espertalhão é uma pessoa que se aproveita dos outros (e isso acendeu ímpetos:
xingam as forças do mal e Vovó tem de pedir moderação na língua e expressamente
silêncio:) então convenceram o Monarca... a mesma coisa que Rei, pronto. Convenceram
o Rei serem grandes alfaiates se propuseram a fazer-lhe uma Roupa Nova.
Olharam-se, Joana está com novo
vestido, vermelho, se sentindo o centro da estória. Começam as intervenções e Vovó
toma enfim as rédeas:
Então... (se calam) então eles
falaram: Alteza, precisamos ouro para fazer a roupa. O Rei sorriu, o que não
lhe faltava eram tesouros joias pedras preciosas ouro em todas formas e...
Vovó, grita Clarinha, e o nome dos
patifes (patife havia aprendido ontem na novela das oito horas, que havia
atrasado por causa do horário político). Vovó fica abismada com a erudição e
cambaleia um pouco, depois se acerta:
Um era José outro Antônio.
A plateia olha José e Antônio ali
assistindo o desenrolar da estória, sorri; Antônio mais saidinho estufou-se herói,
é bom ser herói mesmo herói negativo, gente não tem solução desde petitico,
Antônio sendo grande para a idade pouca. Inicia a matracação os prós os
contras, Vovó intervém de novo.
Vamos lá. Temos o Rei, os Malandros
(agora os homônimos se chateiam) e ouro, muito ouro! O Rei começa a enviar seus
tesouros aos alfaiates e estes a costurar a Roupa.
De verdade Vó, grita Ivone.
Verdade que é mentira, menina, pois
não é uma estória! Aí eles ficaram num salão costurando, passa agulha de lá, puxa
pra cá, enrola, corta no dente as sobras...
Ah igual a Sebastiana consertando meu short!
Igual, Pedro. Daí acaba o material de
costura... Alteza, diz José, Antônio pediu a Vossa Alteza mais ouro, para acabarmos
a Vestimenta... e está ficando ótima!
Não, meu filho, vestimenta pode ser
tanto vestido de mulher, como meu lindo vestido aqui, tanto isso como as calças
masculinas. Naquele tempo, Américo, homem e mulher usavam uma espécie de bata,
uma toga... isso mesmo, parecendo a camisola da Bastiana; apenas que essa do
Rei era rica, de luxo, e bem acabada, não sendo para dormir. Tão rica a Roupa,
que andava sendo cosida com ouro!
Tinha de cozinhar o pano de ouro?!
Meu Deus, me salve! não Joaninha, não,
aqui é de coser, isto é costurar; não é cozinhar no fogão da Sebastiana. Não,
não, não me falem mais que o fogão entupiu! Também já sei bem que sai aquela
fumacinha azulada e anda sujando o fundo da panela grande. Só não quero mais
ouvir isso. Continuemos?
Vovô se ri, ameaça entremeio à fumaça
gargalhar, olha a aflição da esposa na berlinda dos pirralhos. Ela:
Tá bom. Vamos lá. Continuavam agora
com novo suprimento de ouro no fazer a Roupa real.
Não era de mentira?
Não, Cida, era de mentira mas era de
verdade porque eles tomavam o ouro de verdade que os lacaios do Rei traziam.
‘Real’ é referente a Rei. Roupa real, roupa do rei, certo Cidinha? (faz que
sim).
Mais uma semana costurando agulha pra
lá pra cá, José, o mais descuidado, toma um furo no dedo,
sangra, impressiona os serviçais, estes correm a dizer ao Rei o que acontecia.
Sim, o sangue era de verdade,
igualzinho o da Maria Helena quando eu a ensinava costurar os paninhos da sua boneca
e ela nisso se espetou...
E chorei, né Vó?
Abriu a boca no mundo. Sangue de
verdade dos alfaiates embrulhões. O que me perguntou... ah sim, a agulha também
era de verdade, a linha não.
Chega de me interromper, já explico: a
linha era...
A linha telefônica interrompe Vovó.
Volta manquitolando seu ai-ui, os
meninos aguardam.
Sua mãe vai ficar mais um dia fora,
necessidade de serviço; vocês falarão depois a papai que ela está ocupada...
Cala a boca Pedro. Você nada tem que ver com os negócios de sua tia lá fora.
(Pedro avermelha; a meninada conversa se cutuca se desentende; Vovô
intermedeia, grita com os netos, Vovó acalma por sua vez a turma, contando a
continuação:)
Daí, crianças... o Rei estava feliz,
não via a hora em pôr a Roupa Nova que faziam para ele e então...
Então vem Sebastiana, alegra Vovô
anunciando o almoço. Até Vovó apreciou e todos correm à mesa, os Velhos chegam
depoizinho.
Onde foi que paramos... Vovó fala
sonolenta, após a comida, mesmo não havendo lauta refeição, dá aquela preguicinha
enjoada, Vovô se espicha no sofá e faz de conta não dormir, Aninha conta as
bobaginhas a ele ele finge estar ouvindo, Vovó é quem tenta reunir aquela
balbúrdia de moleque, tem a Luana que parece só saber uma frase aprendida “sô
muiéi” os outros meninos matracam as brincadeiras, ela pisca pra ver melhor o
parque infantil e espera que perguntem; indagam de fato:
Você não vai continuar o Rei?
Onde foi que paramos mesmo... ah os
velhacos costuram com agulha de verdade uma Roupa de mentira.
Isso mesmo Vó, disseram interessados.
E vai por aí, toda semana trazem mais
ouro, eles costuram, às vezes até se furam para mostrar serviço, comem do bom e
do melhor e...
Vó – grita interrompendo Ivone – comem
abobrinha? Eu não gosto de verdura nem
um pouco.
Abobrinha não é verdura. Os alfaiates
safados porém no comer ingeriam de tudo: carne arroz feijão abobrinha viu?
verdura como a couve essas coisas, bem tratados, pois fazendo a mais bela Roupa
para tornar o Rei ainda mais bonito...
Era bonito mesmo?
Não sei menino. Todo mundo se imagina
uma beleza no entanto isso é discutível. Ele pensava ser belo e queria ficar belíssimo,
que é ser mais belo no belo.
As crianças se admiram, conversam
entre si, não chegam a acordo sobre uma ou outra beleza no seu mundinho, a boneca
da Aninha é um horror, dizem, e chora, não, a boneca não chora, estripada, a
mãe, a Ana chora, Vovó consola, Luana diz “sô muiéi” já sei, benzinho, rosna
Vovó, prossegue:
Um dia o Rei mandou o ministro ver
como andava a Roupa e... não criatura, a Roupa não andava é modo de falar. Bem,
e... não senhora, falei ‘ministro’, sinistro é outra coisa, vamos continuar
agora. Aí o Ministro conversa com os meliantes, os alfaiates estou dizendo,
estes o convencem ser preciso inteligência bastante a perceber uma Roupa de
Ouro e os fios que se cruzam em puro ouro, portanto invisíveis. Invisíveis? É o
que não se pode ver... não, não é isso garota – não se via porque não existia,
os malandros guardavam o ouro e enganavam o ministro os lacaios e é claro o
Rei.
Boboca, não é Vó!
É sim Toninho. Aí um dia acabaram a
Roupa, já não tinha mais ouro o Reino para fornecer a eles e disseram ao
ministro do rei “agora está pronta! pode chamar Vossa Alteza a fim de experimentá-la”.
Ele experimentou? ficou bonito? saiu
por aí com a Roupa de Ouro? Querem gritando saber tudo, Vovó não sabe para quem
responder primeiro, pede calma, ordem.
É aí que está a questão. Vou dizer. Antes
disso temos de comer, vocês só pensam em brincar brincar brincar e ouvir
estórias e não se alimentam; vejam a pobre Maria Helena magrinha. Logo se ouve
o coro dos primos por cima dela “magrela magrela”. Se desentendem. Vovó fica
muitíssimo braba, manda todos ao refeitório fumegante, o sol se põe; comem,
matracam, mais matracam do que comem.
6o.Em Faz de Conta Menino
Vê o Real
Vovó está com azia, nada que ingere
fica em paz no organismo cansado. Toma sempre leite de magnésia, anda bem
mal-humorada, não quer conversa, desconversa. Vêm os adeptos da Roupa,
pesquisam possibilidades e acabam fugindo à tevê, os de fora voltam pra fora,
os de dentro que são irmãos e primos de férias ora na televisão ora nos
brinquedos espalhados no quarto; não se briga altão em respeito às dores de
Vovó, Vovô inventa a emenda à sonolência do quilo com a sonolência do sono e
acorda amanhã. Assim a noite de ontem já é hoje.
E a farra recomeça. Agora tem sino...
Alguém, só podendo ser o João que volta ao convívio deles, alguém traz um irritante,
não fossem todos a irritar. A ser acionado sempre nas horas indevidas.
Joãozinho senta-se frente à Vovó, a
bagunça lá diante, ele conta de casa aos da casa, Vovó lhe dá atenção, olha o marido
no seu posto de observação, hoje está mudo ou meio emburrado, deixa até o
radinho mais baixo, se surdo não ouviria. Ela ouve a balbúrdia dos meninos
somente, quase não se briga lá longe porém todos querem contar antes dos concorrentes
suas coisas, todos querem falar ao mesmo tempo sem conseguir, esbravejam-se,
ouvem o sino, correm à novidade e Vovó sorri ao ganhar a lotação completa no
seu teatro com os participantes do circo. Ouve um dá razão a outro corrige
sugere brinca com os netos; e tem os da vizinhança, Luana fala uma novidade:
“sô muiéi”, Aninha trouxe um farrapo que se chama Zizita, carinha a filha e se
esfrega na Vovó. Esta olha sorri outra vez.
Já sei o que desejam.
O Rei da Roupa, falam. Ela:
Ah imaginava que me pedissem outra...
Conta Vó, acaba Vó, o Rei.
Já que insistem... O que falei ontem?
A Roupa, Vó, estava pronta e o Rei já
ia vestir e ficar bonitão todo de ouro.
Isso mesmo, Pedro, você tem boa
memória. Chamaram o Rei e o Rei falou aos alfaiates:
Onde está minha Roupa Nova!
Aqui Alteza, olhe
como o traje é belo, a
barra de ouro trabalhado, veja
aqui este repuxo à esquerda – uma Vestimenta digna de um Rei Inteligente, pois
só os inteligentes conseguem apreciá-la.
O Rei, meninos, olhou aquilo invisível
e pensou: não vejo nada; mas se apenas os inteligentes a veem, o ministro viu,
os servidores viram e disseram que viram, se falo não ter visto me tomam por
burro. Aí respondeu:
Ah que beleza, senhores! Fizeram jus
ao tesouro que meu Reino pagou. Ficou o homem todinho estufado examinando a
Roupa...
Ele viu de verdade, Vó!
Ele olhou de verdade. É preciso muita
capacidade para ver a mentira. O vaidoso somente se cobre de mentira, só vê a
mentira, até espezinha a realidade para ter razão...
Vó, quem é esse tal de ‘jus’ que você
falou?
Jus vem de justiça, quer dizer, Tê, os
malandros, segundo o Rei, receberam o pagamento justo pelo grande e demorado
trabalho que executaram; é isso Terezinha.
E acabou?
Não disse que acabou. Tem o desfile.
Uns falam apreciar desfile, outros
imitam corneta e tambor, virou um rebuliço a sala da Vó; havendo os não apreciadores,
não podendo ver a baliza, uma quer ser baliza quando crescer, outros dizendo
não existir baliza grande. Já é quase hora da Sebastiana avisar a refeição e
ainda se discute. Vovó nada fala, em não ser:
Vou parar a estória. Lata d’água fria
na fervura. Aquietam; depois imploram o recomeço da continuação do fim.
Bem. O Rei convoca o povo todo do
Reino para vê-lo mais bonito no seu aniversário. Os servidores vão ler o aviso
oficial nas esquinas do país, todos ficam sabendo. Arranjam um desfile, uma
parada e tanto. O Rei se veste, com auxílio dos Alfaiates, se perfuma, se
estufa na vaidade, recebe no Palácio elogios de todos em volta, todos
inteligentes, porque apenas os inteligentes viam aquela Roupa milagrosa feita
com linhas de ouro – todos se consideram inteligentes.
Viam de fato, Vó.
Viam sim, Américo, viam, diziam ver a
Roupa, até elogiavam. Aí atrelam os cavalos reais à diligência oficial, o Rei
vai em cima enobrecido e envaidecido por encontrar-se tão belo e ricamente
vestido.
Não era mesmo a camisola da Bastiana
que você disse se chamar toga!
Claro, Clara. Falei ricamente vestido,
não com vestido de vestido desse aí que você usa, não; toga de ouro! Uma beleza,
deslumbrante (explica antes das perguntas fatais ‘deslumbrante’). Enfim sentia-se
o Rei um verdadeiro deus. Entretanto quando...
(Aí tocam o sininho e se dá uma bronca
geral no sineiro; após acalmam).
Eu falava, disse Vovó, quando a
carruagem do governo foi atravessar a praça...
Vó, pera lá um pouquinho, não era
diligência? dessas dos bandidos querendo tirar o ouro e aí os tiros, vi no seriado.
Era sim, João, falei diligência para
vocês entenderem. Uma carruagem luxuosíssima, pois sendo a do Rei. Acontece que
ao passar na praça mais importante, o povão ali reunido a fim de avistar e...
Viu?
Viu sim Tê, viu, viu a carruagem viu
os cavalos garbosos, o ministro e os homens do governo, o povão viu é claro o
próprio Rei! o principal a se ver.
Veem os netos nesse ponto a
Sebastiana; ninguém quer almoçar, somente saber o final, devia ser o fim pelo
jeito de Vovó, não deixam nem a empregada falar, apenas Luana sem ouvi-la a dizer
“sô muiéi’. Conta, Vovó, os netos pronunciam costumeiramente ‘Vó’ mas agora a
desejar suborná-la e para atendê-los carinham no falar.
Está bem, crianças. (Enquanto isso
Vovô já se levanta, fechara a boca do rádio e se preparara a ir à mesa, fica um
pouco frustrado). Está bem, o Rei se estufa na sua felicidade, faz trejeitos a
dizer “olhem a mais bela criatura do planeta!” entretanto nisso...
(Silêncio sepulcral, expectativa,
Aninha quase se desenroscou do colo da Velha, mesmo o Pedro está de boca fechada
aberta no aguardo dos lances, Ela prossegue a narração:)
...um menininho do tamanho da Luana
(esta grita “sô muiéi!”) sim Luana, o meninozinho fala bem alto como só uma
criança sabe arder os ouvidos dos outros. Ele berra no meio de todo povo:
O Rei está pelado! E falou mais coisas
que não se deve dizer em
público. O público ficou pasmado com tanta sabedoria num
garotinho daquele tamanho. E foi um gargalhar e uma correria medonha
envergonhada para todos lados! Dizem que o Rei está correndo até hoje...
Olham as crianças para todos lados
(para ver o Rei?) e topam com Sebastiana, mãos à cintura feito bule, balançando
pra lá pra cá a cabeça pela bagunça instaurada.
Aí foram todos aos garfos.
7o.Chapeuzinho Vermelho
O ambiente amanheceu meio pesado nesse
princípio de dia; no restante dia anterior não houve estória, os adultos se
atrapalharam atrapalhando os pequenos. Agora se levantam estes, se coçam, um
que outro reclama, outrinho mexe indevidos; Sebastiana? olhe a cabeça
‘destamanhona’. Aos poucos se enfileiram rumo ao circo do teatro da Vó, ela
ainda resmungando no quarto, na sala Vovô irritado, o cigarro não acende, o
radinho está rouco fanhoso e aí chega Aninha chorosa. O Pedro me quebrou o
porquinho que você deu! Foi não foi, sempre não foi. Vovô alisa os cabelos
ondulados e olha a água brilhante nos olhinhos verdes, ela puxou à nora?
aquela... deixa pra lá, carinha mais promete mais ainda, que isso é bastante
fácil, promete arranjar outro porco às moedas vindas às mãos tão graciosas;
está aflito, não é fácil solucionar problemas mil de menino, enquanto Vovó vem
vindo virando vale de salvação entrando no corredor para chegar à sala,
manquitola a infeliz, até que foi boa mãe agora é boa avó, ranzinza um pouco
mas... vem vindo.
Entra triunfal, por dentro dói pra
valer por fora triunfa qual artista célebre no palco, na plateia a meninada acorre,
uns beijam a velha outros se esquecem não esquecem a estória:
Hoje, a do Chapeuzinho.
Era Vermelho?
Era. Claro Clara, não tem verde em estória. Quem a conhece!
Eu, eu, eu...
Todo mundo! não preciso contar, vou
fazer crochê, ganho mais.
Ah Vó! Menino, contou mil vezes? na
milésima primeira ainda acha um encanto. Já estão reunidos, o dito pelo não
dito, dita Vovó a regra: olhem aqui, não quero briguinhas Antônio, não quero
sininho Sr.João, não quero... sete não quero, dos melhores; e a plateia mirim
anda na expectativa e comportada. Não. Tem um bebê de cachorro.
Quem me trouxe este vira-lata aqui!
Um agregado mostra uma peleira com uma
miudeza entremeada, sorrindo com o rabo. Carinho, estórias em torno do bicho,
até Vovó sorri engraçadinho ao animal engraçadinho. Espera acalmar aquela calma de berros:
Era uma vez... (aí foi tiro e queda
envergonhando moscas pelo zumbido, Luana não veio ou diria ser mulher, Aninha
não chora mais o porco, inclusive Vovô deixa o rádio falar baixo, ou por fanha
ou por haver melhorado seu ‘pau de orelha’, como a oposição costuma gozar).
Era uma vez uma senhora que morava num
recanto lá no fim do mundo... Era velhinha velhinha... (não conseguiu prosseguir
teve de se comparar numa desvantagem com a Velhinha candidata à Vovozinha da
Chapéu).
Mas um dia... ah havia uma garotinha
linda linda, parecendo a Ana (esta interessada) morava com a mãe do outro lado
do mundo e...
E o pai dela? não tinha ou ele estava
namorando também a secretária dele...
Pedro, mais uma dessas mando você de
volta para sua casa! Tinha sim pai, havia morrido na guerra; agora só contava a
menina com a Mãe.
Tadinha dela né, Vó!
Sim, Maria Helena. Aí Mamãe deu de
presente a ela no aniversário um chapéu.
Agora os ouvintes querem saber por que
não deu brinquedo eletrônico, chapéu é coisa sem graça; quantos anos; ela gostou
do presente; a cor do chapéu.
Ora essa é boa, falei Chapeuzinho
Vermelho me perguntam a cor! é o mesmo que indagar a cor do cavalo branco de Napoleão
(perde dez minutos contando o Napoleão, aí a responder outras dúvidas:)
Não havia brinquedo de pilhas naquele
tempo e Mamãe era pobretona, viúva, oh Pedro, viúva e passava fome! Olhem aqui,
não concordo com vocês, um chapéu é coisa muito bonita, qualquer mulher sabe
disso, se Luana, ela não veio nem o irmão? ela diria neste ponto “sou mulher”,
não é uma gracinha! Concordam com o discordar de Vovó, a Vó prossegue.
O chapéu era vermelho, por isso
Chapeuzinho Vermelho como disse. Ficou uma beleza na... na... na Maria, Mariazinha.
(Se olharam).
Aí Mamãe falou: Chapeuzinho, você pega
esta cesta com maçã e bolinhos e vai levar...
Vó, então foi na Europa, pois maçã; e
neve tinha?
Tinha, Ivone, tinha sim, um friozão de
bater queixo! maçã também mas o que interessa mesmo é o bolinho.
Debatem – sem solução como entre
adultos – debatem bolinhos, gosto e tamanho, reclamam, a Sebastiana aparece
soprar qualquer coisa na orelha de Vovó e aproveitam: “ontem, Bastiana, o
bolinho estava encharcado e doce demais”. Ela fez uma careta gozada e se foi à
cozinha porém isto não põe fim ao debate. Vó:
Não conto mais, fiquem brigando seus
bolos; ela ameaça levantar-se, o que só em pensamento dói faz ai; param, silenciam,
comportados.
Está bem. Mamãe pôs no cesto uns
bolinhos: “menina, leve isto à Vovó que está sem comer, e cuidado na estrada!”
A caixa de abelhas: – Vó há quantos
dias a Velha passava fome; alguém achando que a garota já a encontraria morta;
o Pedro lembra urubus a comer carniça de velha o que dá muito falar; por que
ela disse “cuidado no caminho?” (alguém corrige “estrada e não caminho, sua
burra”; outro: claro, não vê a violência dos bandidos na televisão!) Vovó:
Parem parem! parem já. Me deixam
nervosa (Vovô aumenta o volume pelo barulho no picadeiro). Fico nervosa com uma
coisa dessas. Não é nada disso – é pura e simplesmente o Lobo!
Olham horrorizados pra Vovó, daí
Sebastiana anuncia o clássico “tá pronto”, Vovô antes de falar a doméstica já
ia indo à cozinha que também serve de copa, Vovó suspende, responde o depois eu
conto e tenta com certo sucesso se levantar.
Vovô não volta logo, Vovó se preocupa,
os meninos ainda mastigando a sobremesa e exigem.
Sim, como disse foi o Lobo Mau, ele
iria mesmo loguinho aparecer e...
Queriam saber se grande, se muito
comilão e feio porque realmente o consenso põe todos lobos maus feiosos e
gulosos, poderia ainda ser mais. Responde Vovó. Comparam o bandido com os
sofisticados malfeitores de hoje, lembram o ZeroZeroSete, alguém viu o desenho
do Chapeuzinho Vermelho na tevê, quer de cátedra impor a imagem aos outros;
Vovó:
Pera lá garotada, isso vai longe, o Lobo
que vi era feio horrendo e maldoso, contudo nem um pouquinho parecido com o
lobo que vocês matracam o...
Viu!!! Você viu o Lobo?
Vovó não responde, Vovô é quem dá um gritinho entrando capenga
na sala e diz: mentirosa e medrosa. Aí fala bem alto pra atingir a oposição –
não saía nem fora de casa à noite... e se ri. Vovó olha com raiva aquela
testemunha e ao mesmo tempo aliviada com a disposição do seu Velho. Os netos
riem. Ela agora abre a boca:
Palhaço! Era uma vez... era uma vez...
Não Chico, ‘palhaço’ o seu avô, não
senhor não vou recomeçar, quero só calma para continuar, ou não conto mais!
Silêncio.
Então, diz Vovó, a Chapeuzinho chegou na
encruzilhada (explica à Aninha encruzilhada e por tabela aos outros pequenos) e
daí parou, não sabia qual o caminho a tomar. Sim sim, João, cansada, aquele
peso de bolinho, sim minha filha e de maçã também, ela, pobrezinha, ela fraca e
pequena... Exatamente, garota, ela estava só!
E o Lobo; então não estava só.
Aí, menino, estaria mais só porque mal
acompanhada. Um Lobão deste tamanho (olham pra cima a amostra de Vovó) e uma
Chapeuzinho assinzita...
Vocês têm razão, coitadinha dela! E o
Lobo Mau pergunta à menina:
O que você tem dentro dessa cesta?
Eu, eu levo uns bolinhos para a
Vovozinha que está há três dias sem comer e não sei a estrada certa, aí chorou!
Vó, mas que burra né, contar justamente
ao Lobo, se fosse eu corria!
Ela não era um cavalão como você, meu
Pedro, era pequetita assim.
Ficaram pensativos...
Vó pera lá, antes de continuar você me
esclarece uma coisa: dá para aguentar três dias sem comer, uma velhinha caindo
aos pedaços...
Ai Pedro desabrido, pedra no meu sapato!
onde já se viu tanta sem-vergonhice; eu não falei que ficou três dias (“falou sim,
Vó”) falei sim três dias, não quer dizer que não tivesse nadinha em casa...
Tinha arroz tinha feijão tinha abobrinha
Vó?
Tinha umas batatas e água e café, café
não, não conheciam ainda café naquele tempo, era chá. Porém isso enfraquece,
ela já fraca, gente idosa é mais frágil que a jovem.
Assim Vovó reacendeu o tão temível
debate dos netos e não consegue fazer a Chapeuzinho comer o Lobo ou vice-versa.
Vão comer para dormir e ver tevê enquanto a Aninha dorme no sofá, é levada pela
empregada ao quarto, pois que os Velhos não puderam com aquele pesão de garotinha.
8o.Pau no Lobo Mau
Vovó põe os pingos nos ii. Os netos
estão de rabo pra baixo, um que outro arrota o almoço, a Velha olha e balança
como a dizer criança não tem jeito.
Meninos, aproveito a oportunidade, me
parece que estamos entre nós apenas, seus amiguinhos não vieram, falemos com
franqueza. Não sei quem não sei por ordem de não sei quem lá me traz cachorro
aqui – o qual ladrou toda hora – e Mamãe não quer, Vocês sabem disso. Outra
coisa, aproveitemos estão entre irmãos e primos: não é assim que se trata gente
de fora – é preciso convidar para o almoço, mostrar suas coisas, é de boa
vontade: não bagunçar, virar a casa de pernas para o alto, pôr fora do lugar e,
principalmente, brigar... nem entre vocês. Ora, quando a Heloísa voltar...
Logo lembram que Mamãe está a serviço,
o Pedro dá risada debochado descaradamente; Vovó adverte os mais velhos: é
necessário dar exemplo, não criticar adultos, sobretudo parentes. Enfim a
ambientação não é propícia à estória.
Amanhã, se merecerem, eu conto.
Reclamam imploram, querem ver
destroçado o Lobo! Vencem.
Está bem, filhos. Porém parem ou falem
baixo, Vovô está por conta, não pode ouvir o jogo. Fizeram sim.
Bem, o Lobo agora já sabe o que tem na
cesta e para onde vai Chapeuzinho Vermelho.
Ela deu o serviço, né Vó?
É, Joana. Deu o serviço por ingênua e
pura. Aí ele sumiu, nosso Lobo Mau.
O Lobo! Então agora acabou a estória;
eu não gostei desse final...
Calma crianças, ‘sumiu’ quer dizer
saiu de perto da menina. Na verdade correu à casa da Vovozinha para chegar antes
da pequena.
E aí? Aí? ora, bateu à porta.
Vovozinha pergunta: quem está aí. O Lobo: “Chapeuzinho Vermelho, sua neta!”
Era mentira, não era Vó?
Era sim, Aninha, ele queria
comer... oh não chore mais menina...
Ele ‘papou’ a Vovozinha...
Mas que linguagem chula, Pedro! melhor
ficar quieto. Daí a Vovozinha abriu a porta e tchoque! (nisto inclusive os
grandinhos se assustam, Aninha se gruda no colo e Vovó reclama as unhas
delinha, precisamos cortar as suas garras, estão maiores que as do Lobo!) Então
pega a Vovozinha e come toda a Velha e...
Comeu mesmo! mastigou Vó! Começa a
discussão na assistência, põem casos até de antropofagia mui encontradiços na
televisão, Vovó intervém, Vovô grita não estar ouvindo só ouvindo grito de
menino. Vovó fala brava:
Viram onde leva a bagunça!
Aquietam. Continua.
Agora é a Chapeuzinho quem se assusta
– a voz da Vovozinha é rouca ela bate na porta. “Como sua voz está diferente,
Vovozinha!” “Estou rouca, minha Neta,
rouca de tanta fome...”
Vovó, grita Tê, como podia gritar se o
Lobo mastigou e engoliu inteira ela?!
Não, bobinha; primeiro que não falei
ter gritado, falou rouco fraquinho; segundo não mastigou: a fome do bicho era
tanta que a engoliu todinha. Por isso não aguentou sequer se levantar da cama
com aquele barrigão cheiinho de Velha.
Os Netos querem agora novos
esclarecimentos: morreu ou ficou inteira, o Pedro ainda goza: o Lobo tava
grávido de Vovozinha! “Besta, diz ao primo a Tereza”. Querem saber como
Chapeuzinho arrombou a porta para dar bolos à Vovozinha que agora era o Lobo
Mau. Será que pretendesse comer além da Vó a Chapeuzinho e, de quebra, tudo do
cesto... e o Pedro: “que fominha esse bicho!”
Esperem um pouco, eu informo. Não, diz
Vovó, não não pôde arrombar a casa a menina, mas eis aparece um caçador e...
Ela não teve medo do Caçador?
Evidente que sim, minha filha, deve
ter ficado com um medaço, porém maior medo devia ter do Lobo, não acham?
Além do mais ela não sabia que o Lobo
Mau engolira sua Avó. Então o Caçador... me larga, Aninha, está me doendo o
braço de tanto me unhar! Como eu dizia o Caçador derrubou a porta, entraram e
tchã tchã tchã!
O Homem matou o Lobo, Vó?
Não garota, não precisou.
Por quê?
O Bicho Lobo morrera de tanto engolir
a Vovozinha?
Economizou bala?
Não meu Pedro, era espingarda dessa
como a do seu tio: de espalhar chumbo. Não precisou atirar, o Lobo Mau estava
passando mal!
Tadinho Vó!
Todos olham, abismados, a Heleninha
ter pena do Lobo. Acordam e indagam: Você não falou já estar morto!
Disse, o Caçador pensava e viu que não
morrera, ainda respirava um pouco.
E aí! ...
Pera lá, vocês prometem não deixar
resto nos pratos mais? a Bastiana está por conta com vocês todos. Vou falar
quando seus pais vierem que estão comendo pouco deixando muito resto e também
não ajudam a Tiana na tarefa de arrumar a cozinha...
Concordam com a chantagem avoenga;
imediato imploram a sorte do Lobo Mau.
Bem. Vamos ao Lobo. O Caçador manda a
Chapeuzinho olhar para o outro lado, faz um corte com o facão deste tamanho
(olham surpresos!) tirou a Vovozinha de dentro do bucho do animal, ela correu a
abraçar a Neta e...
Ei Vó, então essa velha era mais forte
que Você e Vovô, pois que ela saindo a correr...
Que gracinha você me saiu, Pedro! nem
respondo. Aí meninos, o Caçador pôs trinta pedras e... “não é muito”, moleque
enxerido, foram trinta que eu vi (Vovô, que não escuta, gargalha pra valer,
Vovó mostra-lhe feiamente a língua) vi sim trinta, encheu o barrigão, arrastou
o Bicho para...
Que negócio é esse, não estava pesado
não?
Claro que sim João. Vovozinha e
Chapeuzinho Vermelho ficaram vermelhas de tanto ajudar o Caçador a empurrá-lo
até ao rio e aí...
Aí, Vó!
Aí tchibum! Acabou.
Acabou? morreu? ficam discutindo
seriamente aquelas tragicidades. Vovó e Vovô também se foram, ainda discutem as
crianças.
9o.Botas & Gatos
O Jovem não tinha onde cair morto! diz
Vovó. Isso dispara línguas, o público mastigando o pão com manteiga e a Aninha
havia derramado a caneca do leite e se lamentava por não querer parar com a mamadeira;
os outros gozam entre si, ainda não estão prontos para a estória mas um deles
não se contém:
Vó, não tem estória hoje?
Ora, não está ouvindo contar!?
Ué, Você fala do homem caindo morto;
já matando antes de começar...
Está bem. Aceito o desafio. Me ajudem,
vou me levantar ir ao meu quarto, pois não querem...
Assim iniciou Vovó o Gato de Botas.
Está bem, está bem. Era um homem ainda
moço e pobre; por isso usei a expressão ‘não ter onde cair morto’, entenderam?
Aí... vai alguém abrir o portão, estão batendo, parece a pirralhinha. Era.
Ora viva, a Luana. Elinha: “sô muiéi!”
Todos riem. Tem o vira-lata lambido mas também peludo que se ri também ladrando
abanos. Os chegantes se achegam, Vovó refaz o introito e conta:
Vivia lá nos confins...
É longe, Vovó?
Longe, filha, além das montanhas...
além é depois, Ana.
Depois da padaria de comprar sorvete?
Depois do sorvete depois do pão. O que
disse?
É mais longe ainda que a Branca de Neve?
Mais que a Casa dos Anões, não é? pois
é mais ainda. Então o Jovem ficou triste com sua alegria... Explico já: ele
vira a Princesa Cabelos de Prata e ficou feliz desejando casar-se com tal bela.
A Bela Adormecida, Vó?
É outra, não é que toda Bela seja
adormecida, tem bela acordada, quando eu era jovem me achavam bela (Vovô faz
grrr lá no rádio e fumaça). Essa era bela e rica.
Despencam a perguntar os meninos.
Toda princesa é ricaça?
Todas. Todas que conheci.
Vovô se ri até segurar a cinta no
barrigão. Vovó, um pouco desconcertada, olha com vontade de xingar a oposição.
Mas continua:
Então ele ficou triste porque era
pobrinho e a Princesa ricona, milionária; se apaixonou por ela e ia ter de
ficar solitário (explicou solitário aos menores). Foi nesse ponto que entrou o nosso
Gato.
Não o nosso, garoto, já viu o Gato de
Botas? já na tevê eu sei; quem não viu? passou outro dia o desenho. Daí não
preciso contar a estória...
Vou parar.
Foi uma grita geral exigindo a
narrativa.
Está bem, crianças. Esse não tem
Botas. (Ficam espantados, todos teriam que ter botas, como!) Vocês não me deixam
falar. Não tinha. Aí falou ao Jovem:
Ele falava, Vovó?
Claro, Ivone, no tempo em que os
bichos falavam. Sim faz tempo. O Gato perguntou:
Meu caro, por que anda triste. Ele
contou ao Gato sua desdita (ela explica desdita, Ana comenta “humm!” Luana: sô
muiéi) Certo, filhinha, eu também sou mulher, aí Luana se espanta. Não se
preocupe, falou o Gato, vou resolver seu problema; apenas exijo uma coisa: me
traga amanhã cedinho um par de botas.
Vó, gato não tem quatro pés?
São patas não pés. Tem. Um par, par
são dois, Ana, um par para as patas debaixo, ele ia ficar de pé igual o homem.
Certo?
Dizem sim com as cabecinhas, Luana
imita os outros, gosta do exercício e fica fazendo pra cima e pra baixo a cabeleira
escura. Vovó continua. Ou por outra vai continuar, vem Sebastiana, comem voltam
barulham infernizam, até Vovó tapa orelhas e para cansada na poltrona. Aí estão
por volta dela, Aninha proseia com Vovô e tem um menino também contando; correm
para a Vó.
Trouxe as Botas, Vó?
Eu?! ah, sim, emprestadas, o rapaz não
tendo dinheiro nem para comer...
Comer dinheiro!
Não, menina, já viu alguém comer
dinheiro? (Aí contam uma de bode comendo dinheiro na televisão).
Que bobagem, isso é mentira, bode come
capim e milho igual burro. Dinheiro aqui é uma figura (explicou figura para
explicar dinheiro). Com dinheiro que ele não possuía se compra comida.
Ué, não tinha para comprar.
Ai ai ai, Vocês são dose! Bem, não podia o jovem sequer comer, não
teria numerário, numerário é dinheiro viu? não teria para adquirir botas, tomou
emprestado.
De quem?
De quem? Clara, meu Deus! hoje eu
morro – do tio dele. Quer saber o nome do tio? (fez que sim) Tio Sabino, pode
perguntar ao Vô, ele vivia pescando com o Sabino e bebendo cachaça com ele no
barranco...
Olham curiosos Vovô.
Vovô: grrr.
Retoma a velha o seu contar.
Então o Gato pôs as Botas.
Por isso Gato de Botas?
Por isso, João, por isso. E falou:
Você agora é meu Amo, amo não é de
amor, é o dono, entenderam? Faça de agora em diante tudo que eu indicar, aí
casa com a Princesa! a Princesa dos Cabelos de Prata.
Ah tem um treco errado.
Treco, que linguagem, Pedro! o quê?
Você disse que o Jovem virou Dono;
agora é o Gato de Botas quem manda no Amo!
Bem bem, sabe que acho você o neto
mais inteligente! não estufa não meu filho, a vaidade é a perdição deste
planeta. E o egoísmo, este é maior perdição ainda. Sim, inverteu-se a posição.
Mas ocorre de o Jovem ser puro o Gato esperto e pretendia ajudar seu Dono, Amo.
Certo? (Fez que sim).
Meu plano é o seguinte caro Amo, disse
o Gato, todo vaidoso ele também por estar com Botas, meu plano: vou à frente
por este mundo falando sobre sua grandeza e poder. Você, meu Amo, vá até ao
Castelo e peça audiência com o Rei, apresente-se como o Marquês de Carabás.
O Marquês ficou de boca aberta sem
entender, sem saber o que falar, era inusitado!
(Vovó para a estória, explica os
vocábulos; depois iria sozinha no quarto consultar o dicionário ver se ensinara
corretamente. Continua:)
Agora o Gato de Botas anda por aí a
mentir as grandezas do Amo, Marquês de Carabás. O quê? ah sim, claro que é
errado mentir, porém não falei o Gato ser um santo, tão só esperto. E os
fazendeiros procurados eram eles sim mui ingênuos, acreditavam em tudo.
Todo mundo pensou mesmo que era Marquês?
Todos acreditaram, até chegou o boato
aos ouvidos do próprio Rei.
E aí?
E aí, meu Pedrinho, que está na hora
sagrada de nossa refeição; não é Bastiana? Era.
Todos foram em marcha.
10o.Bodas & Botas
Ué, você veio sozinho? a Luana e o
cachorro... Ele responde que a pequena dormiu, apenas ele escapulindo de casa,
interessado em saber do Gato. Estão todos ansiosos, Vovó não deixa de estar
feliz com tanto interesse, não diz, ri satisfeita. Têm mais senõezinhos de
mesa, os netos discutem, “balofa” elogia um, “zoiúdo” responde balofa, Vovó não
interfere, deixa a poeira abaixar; enquanto, olha o esposo ali perto longe
roncando, falará depois ter apenas descansado; ela não tem é descanso naquelas
pontadas de lado mas nem vale a pena falar dessas coisas para a molecada.
Acalmam-se. Perguntam à Vó com os olhos:
É, eu estava dizendo que o Gato
trepado nas suas Botas douradas andou por todas terras anunciando: “aí vem o Marquês
de Carabás, o nobre mais poderoso do planeta!” e matracava a todo povo onde estivesse
que as propriedades por volta: “tudo é do Marquês de Carabás!” De maneira que
toda gente aguardava o pobre Amo apaixonado pela Princesa das Pratas.
Que safado esse Gato!
Exato, Cidinha, safado e inteligente.
Com tais atitudes provocou uma curiosidade imensa no Reino. O próprio Rei já
falava aos ministros: “encontrem-me o Marquês de Carabás, ofereço meu trono a
ele por herança, pois é certo que Glorinha vai amá-lo e desposá-lo!”
O Marquês ficou sabendo disso?
Ficou, Joana, ficou sim por intermédio
do Gato de Botas que espalhara a novidade; assim por onde passava o Amo ouvia
repetir as palavras visando atingir o Rei, este acabando por fazer a declaração
ao próprio Gato. Aí pensou o Gato: meu plano está dando certo. Então ele
procurou o Jovem pobretão virado Marquês poderoso e narrou sobre o interesse do
Castelo.
O Marquês ficou feliz e, apressadinho,
tomou emprestado o melhor ginete no mercado para ir ao Castelo Real, desejava
ir imediatamente pedir a mão da Princesa ao Rei.
Só a mão, Vó?! Explica a senhora o
costume assim dizer, a mão e o resto, inclusive os bens da moça;Américo, maiorzinho,
tem outra dúvida:
Pera lá Vó, ginete é algum carro de
corrida na fórmula um ou se compra no supermercado?
Não é isso! ginete é um cavalo;
mercado quer dizer nesta estória estar disponível; nem havia supermercado lá.
Certo?
Foram.
Não é ‘foi’?
Não, meu filho, foram o Marquês e o
Gato de Botas; e o cavalo também, claro. Foram. O Gato foi junto, não iria
confiar no Amo, tão simplório, embora ótima pessoa. Foram juntos. Viajaram seis
dias e seis noites sem parar e...
Vó, xi, tem um troço errado.
‘Troço’ que linguagem banal é essa
Pedro! O que viu errado.
Não comiam ou comiam e bebiam no lombo
dos cavalos, o Gato ia decerto num cavalo também.
Certamente, devia ser assim.
Não é bem isso, Vozinha... não faziam
xixi e cocô, igual nós (aí Aninha se assustou, havia urinado no colchão nessa
noite). Porque suportar durante seis dias e seis noites!
Olhem aqui meninos, o Pedro está com a
razão, eles eram gente e gente...
O Gato virou gente?
Não, Aparecida, não, é modo de falar.
Naturalmente paravam para isso e descansar os cavalos. Entenderam?
Vovô fingia ouvir seu rádio e não
aguenta: Viu só onde leva a mentira?
O que mesmo Vossa Alteza falou? perguntou
Vovó.
Responde Vossa Alteza: “estou
comentando uma besteira que o centro avante disse ao árbitro do jogo”.
Parou a discussão adulta, os meninos,
na expectativa da estória. Cobram de Vovó.
Certo, filhos. Então chegaram ao
Castelo. A festa andava preparada, pois praticamente selada a sorte, o casamento
daquele pé-rapado que virou Marquês com a Princesa, a qual certamente iria
querê-lo, pois belo e rico; ainda mais Sua Majestade desejando o enlace. O quê?
Enlace é casamento.
Foram dias e dias numa festança.
Entretanto no segundo dia houve um problema. O Ministro Gato de Botas pediu
audiência, já expliquei isso outra vez, ontem? Pediu audiência com o Rei. Nela
apresentou seu Amo Marquês de Carabás e o Primeiro Ministro Real apresentou ao
futuro genro do rei o Rei do País. Era o cerimonial apropriado; e havia muito
pompa e luxo!
Aí casaram, Vó?
Esperem, vou contar. Prestem atenção
no diálogo deles, diálogo? é conversa, um fala outro responde, e assim se esclarecem.
O Senhor Marquês de Carabás, meu
digníssimo Amo, Nobre proprietário das Terras (aí o Gato de Botas fez uma
relação enorme das fazendas do Marquês dito de Carabás) e...
Era mentira, né Vó?
Verdade que era mentira, filhinha, mas
o Rei não sabia. Continuemos nós.
O Marquês de Carabás tem a honra em
pedir a mão da Princesa da Prata à Vossa Alteza Real, Rei e Progenitor... Progenitor
é o mesmo que pai, Aninha.
Então, meninos, o Gato de Botas, todo
imponente, fez o pedido formal ao Rei. Este responde:
O pedido honra este Reinado: aceito.
Só tem uma coisa – é que a Princesa da Prata fugiu com o Príncipe Encantado na
última sexta-feira... entretanto a Belíssima Princesa Maria encontra-se à disposição...
Vó, tagarela um neto: parecendo
mercado de peixe! os grandinhos riem os pequenos olham ora pra Vó ora o interferente.
Outro pergunta:
Era bonita, Vovó?
Não está você muito longe da verdade,
parecia sim mercado, aí vendendo uma Princesa Maria. Se bonita! ora, nem se
fale.
?!!
Se era bonita? um canhão! Um canhão
como falaria o nosso Pedro desbocado... Até ontem o Marquês de Carabás andava
correndo atrás do Gato de Botas com um pau deste tamanho! o Gato em cima do
muro assustado, encontrando-se apenas com uma Bota, a outra perdera na fuga
apressada!
A seguir Vovó faz uma força imensa a
fim de se levantar, Bastiana ajuda sim, foram para a refeição, a garotada ainda
comentando a estória, quase atropelando Vovô a entrar na cozinha.
11o.Porcaria
Hoje, ontem também noite inteira, o
que é abuso de expressão a dizer até dormir, hoje levanta a criançada em discussão. Vovó falou
para não sei quem o assunto de hoje, os Três Porcos. Uns achando porcada, mas
este vocábulo dando confusão como a falar por cada um, essas coisas; outros preferindo
a porcaria mesmo, os grandinhos dizendo ser isso uma coisa feia; mas Vovó não
iria falar coisas feias, que é feio; alguém contra-argumenta a oposição: Vovó
fala coisas do Velho e o Velho... todos sabem homem é mais boca suja realmente.
Aí a Vovó já escovou os dentes para dar bom exemplo; Vovô tirando ainda a
dentadura do copo e fica uma gosma na água. Os meninos não, já de pé. Cedinho,
parece que o calor ajuda a pular da cama se espreguiçar, abrindo a boca deste
tamanho; o pão a manteiga o café o leite, Bastiana arruma a cozinha, os trens
na pia, Aninha derruba os já ensaboados na cuba faz barulhão – está trepada na
cadeira e se equilibra a aprender ou a ensinar Sebastiana e assim se molha um
pouco bastante na barriga, os outros não, os irmãos e primos conversando
brincando brigando esperando Vovó. Chega, cumprimenta Bastiana, sorri elogia a
netinha cacheada olhando, os olhos verdes vendo os trecos garfos colheres
facas, “cuidado para não se cortar, filha!” Vão à sala.
Vovô saboreia a fumaça, pita gostoso,
lê o jornal balança a cabeça branca negativamente, responde atrasado bom-dia,
essas coisas. Vovó está rodeada. Ou conta cedo ou não conta como ontem não deu.
Depois que o filho se foi e a nora não veio saiu às visitas e aí os garotos
ficaram atormentando a Bastiana. Agora não é assim.
Chegam-se, narram suas coisinhas, ouve
procura contornar, é espécie de panos quentes na fervura familial. Ninguém das
vizinhanças até agora; prometeu os Porcos, conta os Três Porquinhos.
Era uma vez... Aninha! Chama, vem
correndo. Repete. Era uma vez Três Porquinhos, isso no tempo em que os bichos
falavam.
Falavam de verdade, Vó?
Que me consta falavam sim. Bem entendido:
cada qual falava por certo na sua linguagem; o mérito estando em todos
entenderem e... Como? ah sim, não não precisavam dublar como na televisão:
todos entendiam e pronto. O burro zurrava a vaca mugia o gato miava o carneiro
balia o cão ladrava etc. e tal, tal qual hoje em dia; contudo os bichos e por
extensão o bicho homem: todos entendiam e se entendiam. O que foi mesmo que
você disse?
A Torre de Babel, falavam e não entendiam.
Bem lembrado, Pedro. Não falei que é inteligente!
mas neste caso não tem os outros bichos falando: são os homens que não se
entendem. Até hoje é uma Babel, não veem guerras, inclusive as guerrinhas na
casa, marido e mulher... (olhou Vovô,
que agorinha não ouve não costuma ouvir o que não lhe interessa) e os meninos
já levantam os desentendimentos de pais e tios; ela grita: basta!
Basta! se formos tratar de Babel, que
era a Babilônia, se tratarmos do bate-boca entre casais... vira uma
porcaria! Todos riem, os pequenininhos
rindo por imitação do riso da Vó. E assim, meus anjos (aqui disse baixinho)
assim não teremos a Estória dos Três Porquinhos. Posso continuar?
Poooode! Porém um deles dá uma bicadinha:
Nessa não tem Lobo?
Por que pergunta, filhote?
Acontece que ontem (corrigem o
‘corrigidor’: trasanteontem) ficaram com medo, a Ana teve sonho...
Teve, Aninha? (Fez sim com a cabeça os
cachos balançam). Então eu não conto, ou tiro o Lobo e não é mais a estória; se
a gente tirar a cabeça ou a perna de alguém esse alguém não é mais inteiro, a
estória também não é completa. O que preferem: pedaço ou não contar por causa
do Lobo...
Discutem discutem sem parar. Joana
fala pelo grupo.
Vó, esse Lobo é mau como o outro?
Não, filha, não é igual...
Batem palmas dão viva, preocupando o
Vô lá no radinho pelo barulho.
Não é igual... é pior.
Pior!
Pior, meus filhos, o outro comeu a Vovozinha...
Desejava era comer Chapeuzinho e os
bolinhos e quem sabe não viesse a comer o Caçador!
Bom raciocínio, Pedrinho. Acho que um dia
você será doutor. (Incha-se o ‘doutor’).
Pois bem, estou no limiar... limiar é
início do início, está certo? Estou no limiar de largar tudo e ir bater um papinho
gostoso com a fumaça e o rádio de pilha...
Olham pros lado de Vovô e gritam Não!
Querem e não querem, durma-se com um
barulho deste! Pois saibam que o Lobo Mau agora deseja comer Três Porcos!
Mas comeu mesmo ou só um igual ao da Vovozinha?
Joana, minha querida Joana, para se
saber o fim de uma coisa é preciso conhecer o início a coisa propriamente dita
e, aí sim, saber o fim... Ah me ocorre uma outra saída aos que temerem o
Lobo...
Qual! pedem.
É contar apenas aos corajosos, como ao
Pedro. Enquanto os outros ficam no sofá assistindo Castelo Ra-tim-bum ou
desenho, novela não tem agora cedo.
Optam a ouvir, todos, inclusive os
chorosos.
Vamos lá. Então, havia Três
Porquinhos. O Roque, o Roque-Roque, que eram os maiores e o Nhe-Nhem, novinho.
Que gracinha, né Vó!
Gracinha é Você, Clarinha.
E eu, Vó?
Você também, Ana. Bem. Aí no mangueirão
eles...
Que é mangueirão, onde tem manga?
Às vezes até existe mangueira no
mangueirão e manga podre no chão, os porcos, porquinho porcão porco enfim é bicho
que mais ingere porcariada, este nome vem de porco. Mangueirão é onde estão os
porcos soltos; quando gordos ou engordando de tanto comer (os meninos gozam o
Toninho) aí vão ficar na ceva num espaço menor cercado.
Vó, por quê?
Ora, se ficarem correndo soltos, por
mais que eles comam queimam as gorduras; e porco magro tem pouco valor. (Agora
é Antônio quem goza os primos; e Vovó:)
Isso é válido a porco e para gente:
comer sem parar para no cemitério; a gordura vai até o coração (Toninho fica
pálido e ninguém quis gozar; e se olham um ao outro atarantados).
Voltemos à nossa estória?
Muito bem. No mangueirão havia um
problema: ia dar uma tempestade, dessa de apagar a luz do sol!
Vó, eu tenho medo de chuva e de
trovão, diz Ivone. Quase todos concordam. E aí?
Aí, meus filhos, os Porcos passaram a
discutir como resolver a questão. Acharam melhor fazer casas sólidas para
enfrentar o temporal. Roque não pensou duas vezes, arranjou um mundo de penas e
fez uma linda casa. Roque-Roque tomou os melhores ramos e fez a sua muito
bonita.
E Nhe-Nhem?
Nhe-Nhem, Joana, pensou pensou e
pensou muito, era demais prudente; construiu a sua de pedras, o que lhe valeu
dias e dias de trabalho e suor. Enquanto isso os outros, o Roque e o Roque-Roque,
dormiam ou comiam e assim engordavam mais e ainda se riam do pequeno e sabido
porco. Aí...
Que aconteceu, não foi o Lobo!
Não Joana não foi, foi um tufão negro
e poderoso! o vento soprou tanto, arrasou tudo que havia... assoprou de tal
maneira que quando viu Roque, não tinha mais casa, levadas as penas embora;
Roque-Roque olhou lá longe e também sua casinha já sumia no meio do tufão!
Não para não, Vó, que aconteceu?
(Sebastiana chega a ouvir um pouco dos
porcos, não se trata do almoço).
A Bastiana disse-me que vai demorar a
comida, queimou não sei o quê. Continuamos?
Vovô olha desenxavido não aprecia; ainda
mais que seu time perdeu ontem o jogo. Acompanha com os olhos a Bastiana. Pita
um pouco mais. Vovó:
Continuamos então? Nesse ponto, meninos,
só resta a casa forte do mais novo dos porcos.
Nhe-Nhem Vó?
Nhe-Nhem sim. E os manos dele gritam
abrigo, querem entrar a todo custo na casa de pedra. Sabem por quê?
!!!
Porque além do desastre e perda pelas
casas levadas, vinha vindo o Lobo!
(Ana cobre com as mãos olhinhos verdes
para não ver tão negra criatura).
E gritavam, acuda-nos Nhe-Nhem! acuda ou
o Lobo nos come e aí é pior que o vento, o vento ainda batia as partes da
janela e o porquinho Nhe-Nhem estava tentando fechar tudo melhor.
Ele deixou os outros entrarem!?
Deixou Heleninha, você não deixaria seus
irmãos entrarem ou largaria os pobres na boca do Lobo Mau, hein!
Eu só tenho um irmãozinho e ele ainda
está mamando na mamãe.
Certo, filha, e se ele estivesse aí fora
ventando e um Lobo deste tamanho querendo... Não, não, isto é estória, não
chore, ah que menina boba! Vamos deixar para outro dia?
Não! – gritaram.
Aí entraram e o Lobo Mau batia
desesperado, a dizer: “oh porquinhos bonzinhos bonitinhos gordinhos, abram a um
pobre lobinho morrendo de medo do tufão!”
Ele queria comer os porquinhos, não queria
Vó?
Queria.
Comeu?
O que vocês acham?
Nessa estória cada neto dá um fim no
Lobo Mau e elevam os Porquinhos. O Pedro tem mais os pés na terra: acho que
mataram o Lobo de tanto correr ele com medo das pauladas; aí o dono dos porcos
deve ter fritado os Três Porquinhos e fez torresmo pra comer com feijão. Vovó
concorda, os meninos comentam a conclusão sugerida:
Não como mais torresmo!
Nem eu!
Não come sequer com arroz e feijão bem
temperados Clarinha?!
Voltam à sala de refeição, a
cozinha-copa, tagarelando, Vovó sorrindo (por fora, por dentro num ai-ui) Vovô
não se conforma com a perda dos pontos da equipe, culpa o árbitro, come
emburrado, nem percebendo a folia das crianças.
12o.A Estória do Jacaré
Hoje é um dia, e não é dia ainda os
raios vêm vindo lá longe os galos também lá longe; é um dia, um daqueles dias
terríveis para Vovó. Ela não contará certamente estórias, está de molho, Vovô
costuma falar nestes termos. Ela de molho, dói aqui ali acolá, nem se levanta
ou doerá ainda mais. Aquelas pontadas as bolas lá de dentro, e pior, isso sendo
mais concreto que o absoluto: as hemorroidas! Saltaram sangraram doeram doem –
ela é uma batalha perdida, sente-se também e piormente como a guerra perdida.
Vovô se abobalha não sabe o que fazer, nunca se saiu bem como enfermeiro, anda
pra lá volta pra cá, não resolve, resolve carinhar a esposa com grosseiras
delicadezas amorosas mas ela se irrita mais, a dor convence qualquer ser. Ele
põe o travesseiro mais desse jeito, ela não gosta, muda mais pra cima; cobre a
mulher, oferece fazer chá de não sei quê feito pela Bastiana todavia quem vai
trazer a infusão será ele realmente, isso é verdade; lembra as gotas os
comprimidos; não quer médico a patroa, nada a convence e se convence ela mesma
a ficar parada calada esticada meio arcada sem forçar nádegas numa posição
melhor da pior na cama; então ele fica olhando a chocar sua fêmea, porque
afinal de contas a ama, a seu jeito, que não tem jeito, mas ama. Ela olha,
agora passando a crise, olha seu homem e se enternece com o enternecimento e
desajeito dele. E isso é um mundo e vale o universo!
Senta-se Vovô na beirada da cama a
adivinhar o que possa desejar precisar Vovó. O quarto está na penumbra, quietude,
as portas fechadas e lá fora ainda não há sinal do fim do mundo, porque os meninos
dormem e depois virá o café o pãozinho a manteiga; e a conversa animada e
depois ainda a estória, hoje não tem estória, é visto: não tem. Então conversa
com ela mansinho, aquilo das intimidades a portas fechadas.
Não acha Zaldira (nunca chegou ao
estágio do “meu bem” e “querida”, ou somente experimentou tais poesias na lua
de mel que se perde nos milênios de uma vida) não acha você que nossa nora
tarda muito nesse serviço dela!... Não tá nem aí essa desmiolada, responde
Vovó. (Mais um hiato de século, retoma a conversa:) O João, aquele vizinho,
você sabe, é maldade pura eu sei, sabe o que disse? Ela: imagino mas toda vila
sabe, falou o quê? Que a nossa Aninha é filha daquele sujeito do trinta e seis
que se mudou... Ora, Alfredo (ela também não sabe mais dizer “querido” ou
desaprendeu) ora, ainda hoje trai nosso filho! esse tal serviço é para ficar
longe daqui e deixa pra nós os meninos, eu até gosto e aí vêm os outros netos
para esta casa, virou parque infantil... (sorri olhando o esposo). É... diz
Vovô. Porém deve ser verdade porque toda família tem olhos castanhos só ela os
tem verdes como o ex-vizinho... não acha, Zaldira? Acho. Mas não quero pensar
nisso porque adoro a menina! Eu também, concorda o homem. Você melhorou, não é!
Ela: isso passa; avise a Sebastiana para cuidar deles, hoje não posso me
levantar. Claro, Zaldira. E digo a eles que não tem estória.
Todavia a estória é outra.
Aninha não bate na porta, empurra a
porta, vem arrastando a fralda pelo chão, encardida e gasta, a boneca estripada
no braço, olhos verdes a sondar Vovó Vovô sorrindo, sobe com dificuldade na
cama, Vovô vai falar para não mexer balançando o colchão, pois Vovó está
doente, mas já chegou-se a ela, beija a Vó depois recebe beijo do Vô e se senta
na forma arcada do corpo da Velha e começa a dizer suas costumeiras bobaginhas.
Vó, diz, vi umas coisas, aquele Jacaré
da estória.
Qual, Ana!
Aquele. (Os velhos se olham, Vovô até
se esquece da vontade de fumar, abre também ouvidos). Aquele um, mas não é
ruim, é bonzinho. Então o Pedro ajudou limpar ele, ele estava com fome e nós
levamos ele na festinha...
Que festa, minha filha...
A festa, Vó. Aí ele estava voltando
para vir escutar a estória de Você, eu contei pra ele só a da Branca de Neve e
ele não teve medo do Lobo Mau e ele queria a do Chapeuzinho Vermelho e eu falei
que Você vai contar do Chapeuzinho e da Vovó da Chapeuzinho...
Então ele veio?
Foi sim Vovô, ele veio. Aí passamos
perto da lanchonete e tinha chovido e uma lagoa de água vermelha de suja e ele
pulou na água e...
(Aninha segura a boneca estripada sem
cabelo, toma o pente da Vovó cheio de caspas e cabelos quebrados e aí passa e
mais passa na calva da boneca, ajeita os fios do faz de conta, olha em volta e
torna a olhar o efeito do seu trabalho; a seguir ela continua:)
Então nós gritamos ele, ele estava
limpinho e agora todo sujo de lama, mamãe não vai gostar de entrar aqui pingando
o barro mas mamãe não voltou eu fui ver no quarto e o papai já foi trabalhar e
eu tô com saudade da mamãe mas ela vai brigar com o Jacaré, não vai Vovó?!
Acho que vai... e o Jacaré foi embora?
Não, Vó, ele é grandão mas é pequeno e
o Pedro pegou o esguicho com a borracha e espirrou água nele para limpar e eu
fiquei segurando ele pra não fugir de medo de tomar banho como o cachorro da
dona Chiquinha fugiu... e também aproveitei escovar os dentes dele, ele tem uns
dentões assim, e pus pasta e usei a escova do Vovô escovar a dentadura mas não
derrubei o copo de pôr a dentadura, viu Vô?! (Vovô fez sim, assentindo de cabeça).
Ficou limpinho?
Ficou bonito, Vovó. Aí nós pusemos a
roupa do Américo nele, aquela que ficou pequena para o Américo; e eu pus até
uma fita vermelha no pescoço dele mas ele estava com fome...
?!
...estava sim Vó, a lagoa era de água
da chuva e não tinha peixe e ele estava com o papo vazio. Aí nós trouxemos o
Jacaré escutar a estória porque podia até que ele comesse o Lobo Mau, não podia?
Podia sim, filhinha. E daí, Ana?
Aí eu dei bolo que a Bastiana fez
naquele dia, dei para ele comer e ele matou a fome. Só que ele comia assim
(imita a bocarra aberta, fechou olhinhos verdes) comia assim, mas comia de boca
aberta, eu falei: Jacaré, é feio mastigar de boca aberta, pergunta se não é
para a Vovó!
Ele perguntou?
Não sei Vovó, não perguntou a você!?
Olharam-se os Avós. Vovô:
Zaldira, você não disse que hoje nada
de estória?
Vovó olha aquela preciosidade
penteando a filha estripada, seus olhos ressecados dos milênios sem conta se molham.
“Vai tomar leitinho, Ana”.
Só se for na mamadeira, Vó.
Vovó: primeiro fazer xixi, não pode
ficar segurando. Depois você mama.
A garota escorregou ao chão, se
esqueceu da boneca, saiu apressadinha, nem fechando a porta do quarto.
13o.Massenet e a Bruxa no
Câmbio Paralelo
O descanso de Vovó não ultrapassou os
dois dias, um se distraindo com a hemorroida outro tratando esquecê-la na cama
para se distrair. Foi então que recebeu visitas, as dos netos, que mais olharam
a doentinha sem entender e falavam baixo ou conversando também baixo com Vovô
investido em enfermeiro-chefe, o qual foi expulso no segundo dia pela paciente
impaciente com o desajeito. Dando o lógico: não houve estória e sobrou muita
responsabilidade à Sebastiana. Contudo terminou a fase de descanso e Vovó
resolveu viver, com certo cuidado, é visto, então se levantou; retomou suas
altas funções.
Agora é cedo, a bagunça rotina a rotina
da bagunça das crianças outra vez. E tem pãozinho, uns querendo comer a casca
“vê se tem graça” e deixando o miolo, outrinhos fazem igual rato “onde já se
viu!” engolindo o miolo deixando a casca por falta de educação “ninguém pode
com os meninos hoje em dia” ou só a enganar pregando peça noutro primo ou, tem
sim esta bela hipótese: por não pensar nos outros porque criança é um adulto no
começo e o egoísmo, mais o egocentrismo, precisa iniciar é no berço. Tem rosca
e pão e tem leite, sim alguém derrama na toalha; e tem café, café é pior:
mancha a toalha; quando farelinho das migalhas do pão, se chocalha assim e
assim volta o pano a estar limpo, mas com café... mancha, sobra para um adulto,
digamos a empregada ou Vovó se Vovó de pé, Vovô não, não vê, só ri das artes e
da atrapalhação, sobra assoprar que está é quente não está vendo o fumaça! “não
é fumaça menino é vapor” assopra; e agora ficou muito frio demais, esquenta um
bocado. Ah sim tem a nata do leite, tira-se a nata, eu quero com nata diz outro,
a nata vira manteiga. E tem manteiga, tem manteiga demais, falta manteiga,
alguém me roubou (ah que feiura acusar outrem de roubo!) alguém me tirou, então,
o pão que eu tinha (não foi você foi a Tiana) que a Bastiana já havia posto manteiga.
Tem moleque melando as mãos, “tira a mão melosa da cadeira!” não, na roupa
também não, vá lavar na pia e não venha chocalhando as mãos caindo caldinho no
chão, vê a toalha no banheiro! E se desentendem na concorrência pelo lugar na
pia ou pelo lugar na mesa. Ora, criança não tem jeito porque tem muito jeito ao
ser criança.
Pronto. Pronto ao ponto, Vovó bate
ponto, senta-se, com jeito, é preciso saber, e isso já é saber, senta-se, é
ilha, as águas meninas por todos lados acorrem sorriem, temem no desajeito
pedir ou lembrar o contar. Ela faz que não sabe por que a estão rodeando, como
se não soubesse desejarem algo, deixa que prolonguem a conversa, olha a dengosa
querendo subir ao colo e os outros advertem Aninha a Vovó estar doente,
convalescente, a garotinha fica encostada olhando pra cima e pra baixo Vovó vê
a plateia, vai falar qualquer – eis que lhe vem o marido:
Você está em ordem, Zaldira, afirma perguntando.
Ela: “assim assim” e emenda: sabe Alfredo, pensava num livro, só dei uma
olhadela ontem, sobre Massenet. O Velho é todo ouvidos; Vovó prossegue –
não lembra daquela fita de música na qual eu chorava ao ouvir! (Fez que sim) a
Taís, Meditação. Não conheço a ópera, você nunca me levou a uma. A fita. O
livro fala sobre a vida dele, era um, o último dos vinte e um filhos, e fugiu
de casa indo a Paris, no Século XIX, e aí começou a brilhar; e quando morreu
tinha um mundo de músicas, uma obra notável... Depois eu mostro a você; foi uma
das meninas (referindo-se a uma das amigas dela, fofoqueiras na opinião do
marido) ela me emprestou; se quiser ler... Vovô interrompe e sabe que não pode
ofender uma convalescente querida: Zaldira, depois, agora nós temos compromissos
– você, olhe os meninos! Eu... Vovó: você precisa fumar não é! quando será, me
prometeu que... Não completa, a plateia tomada por seu público, já se metendo a
cobrar o palco.
Vovó, que estória é essa, só conta do
Massê ao Vô!
Massenet, Américo, Massenet; um grande
músico, pianista e... é meio complicado.
Ele tinha medo do Lobo Mau ou era ele
um lobo.
Que gracinha, Pedro. Não vê que seu
primo quer saber as coisas e você já começa a gozação!
Desculpe, Vó, eu...
Não me ofendi meu filho, a Vó ainda
está meio dolorida. Quando estamos adoentados não avaliamos bem a intenção dos
outros. (Beija Pedro, sorriem os demais, perguntam:)
Vó, você depois vai contar essa
estória pra nós ou é só para o Vô?
Não é isso, Clara, talvez conte a ele
sobre o livro do Massenet, mas não é isso: queria cobrar do seu Avô, ele
promete sempre parar de fumar, isso faz mal, não para, vocês viram, olhem lá,
saiu daqui e já está fumando tossindo fumando... Sei, querem a estória de hoje.
Outro dia não prometi pra vocês a da Cinderela.
Conta Vó!
A Cinderela... esperem um pouco, vou
atender Vovô, ele vem vindo outra vez; depois conto.
Vovô chega fala baixinho, se bem que
não haja baixinho a ouvido infantil, Zaldira, ouvi agora no rádio: o Bush
invadiu o Iraque!
Conversam alguns milênios de minutos,
ficam sérios demais, Vovô torna à sua poltrona que é o trono dos solitários,
Vovó fecha um pouco a cara, parece isolada dos vários olhos dos muitos ouvidos
e da expectativa geral. Só unzinho não contém a curiosidade.
Vó, essa outra estória que o Vovô lhe
contou tem alguma Bruxa!
Oh filhos... não falou ‘Bruxa’, disse
‘Bush’...
Conta dessa estória, depois a da
Cinderela.
Não, Chiquinho, aquela do Bush
é muito feia, talvez medonha para meninos tão lindos como vocês...
Feia?
...uma estória (nem ouve o neto, fala
como a um público virtual e distante, fala quase a si, ao gosto idoso) uma estória
sim mas diferente, tem Bruxas Bruxos, por demais Lobos Maus, tem Lobo Mau
sujando a água para pôr a culpa no Cordeiro, Cordeiro nada inocente também;
suja para tomar o tesouro do Cordeiro, que é o petróleo. E mata a juventude na guerra. Aliás a guerra,
já disseram um dia: é a maneira dos poderosos liquidarem empecilhos e
diminuírem o excesso populacional, matando jovens; é um horror, sim é um
horror.
Fica macambúzia Vovó, introspectiva,
morta-viva, não fosse esse o ser do ser no velho. De repente ela acorda do
pesadelo ao ter-se tornado ela mesma, acorda, olha, vê mil e uma carinhas
olhando esperando merecendo carinho; puxa então sua própria orelha: o mundo que
seja mau, estou diante da gota do bem, nada vale o sorriso de um menino.
Sorriu. A plateia esperando sorri no sorriso da velha, destramela:
E a moça, a Cinderela?!
Exato, filho, eu falei a da Cinderela?
Fazem sim contentes. Ela:
Vamos à Cinderela. Ei-la que vem
entrando na sala!
Bastiana olhou atoleimada seu público
olhador – a ‘bóia’, como diz Seu Alfredo, a boia está na mesa.
Todos riem, Sebastiana não entende bem
a graça dos outros porém ri, ri do riso da plateiazinha, do riso de Vovó, ri do
contágio do riso, porque não há razão para se rir quando o planeta está a
chorar, mesmo quando a gente não sabe das misérias estas contagiam minam
corroem e por fim surpreendem; e matam! Não entende. Faz com os ombros que as
coisas desnecessitam ser compreendidas e volta qual generala à copa fumegante,
o batalhão infantil entende, segue, segue atrás, bem mais atrás e com marcha
nadinha acelerada distante da marcial os dois velhos, indo num cadenciado ai
ui.
14o.Cinderela Sem Bush
Almoçam como sempre, sempre tem um,
tem muito, sempre os que comem pelos olhos e pelos ouvidos – Vovó puxa orelhas
e a Bastiana também falando contra os apressadinhos. Mastigar devagarinho, sem
pressa no mastigar, trinta-e-três vezes pior fosse quarenta-e-quatro,
devagarinho, sentar-se direitinho, guardanapinho benzinho. Não adianta, diz a
empregada, um dia fazem certo noutro se esquecem. Ora a função do educador não
é corrigir sempre, toda uma vida! Ah a vida. Destrambelham conversam contam se
contradizem, falam baixinho comportado no começo berram no fim e saem a correr,
de estômago cheio! Correm, Aninha não corre, está xeretando Vovó, olha lá em cimão
a buscar o mundo que o mundo guarda por debaixo da cabeça branca e ela já se lembrando
da filha-estripada que perdeu cabelos e nunca, nunca, tadinha, ficarão os fios
brancos como os de Vovó. Esta percebe, olha lá em baixo, já sabe, quer colo
porém Dona Hemorroida veta o pedido feito com olhinhos verdes, então olha
sorrindo, alisa carinhando os cachos da neta; Vovô se foi mais adiante, quer
saber mais de Bush para se esquecer desse horror, aquelas estórias de
muitos Lobos Maus; e as duas, Vó e Neta andam na direção do teatro, a arena
roubada pelo Bruxo, o teatro só contendo a Cinderela.
Vovó senta-se com cuidado. Sempre se
põe cuidadosamente, agora é mais atenciosa com os resquícios na recuperação.
Além do mais não tem grande ânimo para contar suas estórias, se bem os garotos
desconheçam o drama e apenas percebam por um sexto sentido que todos trazemos
no dentrão. Ela afugenta mesmo a lembrança do dia cinzento no qual os homens se
trucidam, e se trucidam diariamente! sim, mas não tão ostensivo igual hoje.
Hoje, filhos...
Olham em expectativa, alguém arrota
outro corrige ameaça dedar à autoridade presente, menino é ótimo na arte do dedurismo,
olham...
Hoje... que dia mesmo é hoje?
Alguém viu a folhinha para falar à
Sebastiana o dia-santo do santo do dia. É quatorze de fevereiro, Vó.
Obrigado fala Vovó (não tinha costume
flexionar o cumprimento ao sexo o sexo que ela já perdera; isso válido a tantas
mulheres não obrigadas a dizer obrigada) obrigado Toninho.
Vejam bem, meados de fevereiro, suas férias estão acabando...
Não apreciam demais o lembrete que é
lembrete de aulas compromissos e cobranças, tem os que precisam voltar para
casa, tem os que vão ficar sozinhos no seu lar e aí ficando tão chato depois
que se forem os primos! Nem Vovó irá querer narrar suas estórias para esses
exíguos lugares na plateia. E mamãe!
Mamãe não volta mais Vó! diz chorando
Aninha.
Seu pai falou hoje cedinho que logo
ela vem... Assim Vovó enxuga lágrimas verdes. Outros cobram Cinderela.
Ah sim. Existia uma linda Princesa num
Reino distante.
Ninguém pergunta, ninguém interroga a
fim de não interromper tantos dias sem estória, Vovó prossegue; sua voz é
tíbia, não é a mesma voz, é a mesma Vó com certeza, o mesmo sorriso de amor, de
muita compreensão.
O Rei havia se casado em segundas
núpcias, núpcias é casamento, com outra mulher, após o falecimento da Rainha, a
qual lhe havia dado a linda Princesa como filha, a Cinderela.
Ela era boazinha!
Era, filha, era boazinha. Pera lá,
quem? a Cinderela sim era boa.
Não, a Bruxa.
Já sei, Tê, está querendo saber a
Madrasta, quer dizer, aquela que ficou no lugar da Rainha, não é?
É, Vó.
Vejam como somos nós os seres humanos.
Pensamos na Madrasta como a dona Tereza e já vêmo-la a Bruxa Malvada!
Entretanto minha gente, existem madrastas boníssimas, verdadeiras mães em
carinho e amor para seus enteados. A Cinderela era enteada da Madrasta. Sim,
crianças, esta era má, uma Bruxa, se quiserem.
(Os netos se entreolham).
Um belo dia, depois de meses fazendo
toda maldade miúda, isto é, coisinhas para prejudicar a pequena Princesa;
depois disso a Bruxa passou a acusar e a enredar a pobre contra o Rei.
Não era rica? Vó, você disse pra gente
que todas Princesas que viu eram ricas.
Sim, meu anjo, sim. Talvez não tenha
dito ‘todas’; no geral são ricas. Aqui usei ‘pobre’ no sentido figurado, querendo
dizer que ela era uma sofredora. Tanto o pobre quanto o rico pode ser um
sofredor. Ela sofria bastante com a Rainha Madrasta. Aí ficou moça e mais bela.
Então a Madrasta apanhou certa inveja da jovem.
Por ser feia, né!
Não, Maria Helena, era também bonita a
Bruxa.
A plateia se espanta: como pode ser
uma Bruxa não horrorosa!
Escutem, era bela, a Cinderela ainda
ficou mais bonita que antes e é claro, muito mais que a bonita Madrasta.
!!!
Mas aí a Bruxa tentou afastar a pobre
Princesa do Castelo: fê-la uma serviçal, vestiu a Princesa com trapos de gente
da roça e a enviou para um lugar muito longe...
E o Pai concordou!
Não Joana, nem ficou sabendo,
acreditou na esposa: a moça teria fugido de casa!
(Os netos se indignam nesse ponto da
estória. Querem dar uma surra na Bruxa, alguém sugere um Príncipe Encantado a
encontrar Cinderela, Vovó aguarda serenar o bate-boca, sorri, até se esquecendo
um pouco do Lobo Mau fazendo a Guerra).
Nessa altura dos acontecimentos o Rei
promoveu uma festa em grande estilo, por instrução da Rainha. Todas famílias
poderosas do mundo vieram às festividades; os jovens ficaram ainda mais belos e
atraentes com suas vestimentas. Todos vieram, brilho e alegria! Todos, todos menos
a mais bela criatura...
Cinderela, Vovó?
Isso meu filho, Cinderela. Não tinha
roupa decente para se apresentar, embora desejando imensamente como qualquer
moça participar.
Tadinha!
Sim, Tê, pobrezinha dela. Então
apareceu-lhe uma verdadeira Fada...
Conta conta, Vó!
Conto sim. A fada perguntou à
Cinderela por que andava triste. Ela contou-lhe sua desdita. A Fada Boa teve
pena da Princesa. Enquanto isso no primeiro dia de Festa apareceram muitos e belos
jovens, moços e moças; um era o Príncipe Encantado!
Esse era lindo!
Era, Tê, o mais belo. E então
encontravam-se na Festa do Palácio também as duas filhas da Rainha Bruxa, feiotas
assim. Logo pretenderam o Príncipe e dançaram com ele e tudo o mais.
Que mais é esse ‘mais’...
Pedro, se for outra gracinha, mando
você ajudar a Bastiana limpar o banheiro. É um modo de falar. Continuemos?
Então lá na prisão da Princesa...
Estava presa!
Não falei presa na cadeia; ela
encontrava-se num recanto longínquo e pobre, vivendo como roceira, vocês se lembram
a razão, enfim por causa da Madrasta, não é?
Fizeram que sim.
A Fada mandou Cinderela fechar olhos e
quando abriu estava todinha vestida e mais linda; além do mais havia à sua disposição
uma carruagem digna de uma rainha! Contudo a Fada fez-lhe uma recomendação:
menina, não pode ultrapassar a meia-noite, ou o encanto se desfaz! Assim a
Jovem se foi à Festa, desceu à porta do Castelo...
Do Castelo dela mesma, não é?
É sim. Ninguém sabia. Então entrou no
salão e todos homens queriam dançar com Cinderela. O Príncipe ficou abismado ao
ver tanta beleza.
Dançou com ela?
Dançou. Porém à meia-noite fugiu
Cinderela, deixando o Príncipe atarantado. Ele perguntava a todo mundo, queria
saber quem era aquela esplendorosa Princesa. As filhas da Bruxa ficaram
enciumadas sentiram muita inveja da Cinderela. No terceiro dia de Festa,
aconteceu tudo como na noite anterior, Cinderela à meia-noite ia fugindo mas o
Príncipe foi correndo atrás dela. Ela? entrou rápido na sua carruagem, aí tchã
tchã tchã...
Que foi Vó!
O Rapaz segurou um dos sapatinhos da
Bela e a moça se foi.
Foi mancando, Vó?
Suponho que sim, Pedrinho. Porém isso
não importa. Aí acabou a Festa, o Príncipe andava louco para reencontrar a tal
Princesa. O que fez? mandou todo mundo procurar uma certa Jovem a qual
conseguisse calçar o sapatinho. E não achava.
E aí?
E aí, meninos, pôs um anúncio.
Na tevê ou no jornal?
Nem televisão nem jornal, naquele
tempo os governantes mandavam serviçais lerem alto nas praças das cidadezinhas
as suas ordens. A ordem do palácio: todas as mulheres deveriam experimentar o
calçado. Aquela que tivesse o pé bem ajustado no sapato casar-se-ia com ele,
Príncipe Encantado!
Elas foram, Vó?
Se foram! encheram as dependências do
Castelo...
Imagino a matracação das mulheres!
Sabe duma coisa, Pedro, você está
crescidinho demais e virando machão... igual seu Avô! (Vovô olha de longe Vovó
e faz uma careta inteligível somente aos íntimos...)
Pois bem, se ficarem mais um minuto
quietinhos, acabo a estória da belíssima Cinderela.
Daí foi um tal de experimentar sapato;
dizem que as filhas da Rainha Má chegaram a cortar as pontas dos dedos para o
pé entrar no sapato!
Verdade, Vó!
Verdade dessa mentira, não é estória?
E tem uma coisinha me esqueci dizer, dizer que não sei: me perguntam se o direito
se o esquerdo, geralmente nesses casos os príncipes se encantam pelo sapato
direito para entortar a curiosidade de vocês... Continuando, olhem, o Príncipe
cansou ver mulher querendo e não conseguindo calçar o sapatinho tomado da Cinderela.
Que fez? foi de casa em casa...
Cheirando o chulé delas?
Meu Deus do Céu, posso com o Pedro!
Continuemos. Foi a todas casas,
ordenou o exame onde houvesse mulher moça.
Mesmo a que fosse um canhão?
Será possível, hoje você está impossível,
meu neto.
Bem. Até que chegou num casebre onde
vivia a Princesa disfarçada em matuta.
Disfarçada à força, né?
Agora tem razão o Pedro. Não queriam
que o Príncipe Encantado entrasse naquela palhoça, pois seria absurdo que
estivesse ali a Princesa. Assim mesmo ele teimou. Então serviu direitinho o pé
de Cinderela no sapato!
E casaram?
Casaram-se. Aí foi uma Festa ainda
maior e por sete dias e sete noites seguidos. Cinderela ficou sendo a mulher
mais feliz do mundo!
Bateram palmas de alegria, gritaram
também, o Vô olhando feio. A empregada já anunciava a janta. Ia iniciar-se a
debandada, surge uma pergunta no furor daquele final:
E o que aconteceu com o Brush?
Não é Brush, Bush, Pedrinho; é
um Lobo Mau mas de outra estória que nunca narrei a vocês. Contei sim foi da Bruxa
Malvada, a Rainha. O Rei descobriu a intriga delas, das três, quer dizer, a Mãe
e as Filhas, as três estão a correr dos soldados do Rei até agora, perdidas
decerto nessas capoeiras por aí...
Quando chegam à saleta para refeição Aninha
se encontra examinando os chinelos da Sebastiana, mede com os palminhos, não se
sabe o que pensando; muito menos entende a Bastiana. Vovó olha sorrindo e pisca
cumplicidade ao Pedro.
15o.Rato e Rei
Andava difícil Vovó recuperar-se. A
rigor não esperava voltar a ser cem por cento; ansiava apenas cinquenta por cento
do que fora; contudo fazendo as contas
na matemática da saúde aceitava chegar ao menos a uns oitenta por cento dos
cinquenta e aí já atingindo cem na sua modéstia. Mas Vovô não deixava. Um
calorão daqueles, o verão costuma ser brabo, então se liga o ventilador a conta
sobe, o filho não diz mas a nora reclama a energia cara, ainda bem que não anda
parando em casa com casos que a moralidade apelida serviço e congresso, coisas
assim; ou reclamaria, porém que fazer na insuportável temperatura, mais de
quarenta. E tem uma coisa: o barulho do ventilador, enjoadinho no trec-trec e
zunir noite inteira, neutraliza o calor e barulha impedindo o sono! durma-se
com um barulho desses se fala. Desliga. Então o esposo liga o ronco... já
estava ligado, apenas o ventilador contrabalançando o serrote do velho. Agora é
o roncar o responsável pela insônia! Ora, dá para recuperar os cem por cento!
Aí se levanta, não o levantar-se com cuidado, noite toda, não: se levanta a enfrentar
o dia, pois a noite fora mais ingrata. Anda com sonolência, uma zumbi! é,
parece morta-viva, é tão só viva-morta.
Bom-dia, Sebastiana. Conversam suas coisas
que são as coisas do lar. A moça, não é mais moça, quer dizer, é passadona, um
passado a esquecer. A velha também conta, quase as intimidades. Enfim os seres
humanos de boa vontade se entendem. Tomam café fresco, que é quente; tomam a
fresca da manhã que é quente também, o dia já promete os seus graus, talvez
agradando pernilongos; baratas não, a moça velha é limpa, algumas... as que
sobram estão sempre alvoroçadas desejando voar e aí assusta ambas. As mulheres,
uma deixando ser mulher a outra quase nem se importando mais sê-lo, elas têm
mais em comum além do calor de insônia e da barata ginasticando aeroplano; bem
mais. As crianças por exemplo, preocupação de ambas. O galo se foi, os raios
penetram e trespassam o vitrô, unzinho vem vindo.
A sua bênção Vovó (fala mesmo “bença
Vó”) bom-dia Tiana.
Caiu da cama o Toninho...
É, Vó.
Filhote, aproveito o momento em que
seus priminhos dormem, gozam muito sua gordura – você precisa moderar-se, comer
menos doces e bolinhos. Eu sei que gosta. Come toda hora! só vejo você
mastigando. Quer ser como o sujeito na televisão!? Você viu ontem Bastiana?
Precisa três pessoas para carregar o infeliz...
Antônio olha desconsolado para sua
avó. Promete ingerir menos.
Qual você vai contar para nós?
Filho, estou pensando numa estória
curta, pois necessito sair de tarde, vou à farmácia; sabe Tiana, não gosto assim
mesmo vou.
Qual Vó.
A farmácia? Ah é claro, que lhe
interessa farmácia e remédios. A do Leão e o Camondongo.
Vai ser legal.
É possível, Toninho. Já vêm os outros.
Entram. Entra primeiro Vovô, rumina
não dormir direito, Vovó olha Bastiana e balança negativo a cabeça. Aí os
outros. Vêm prosa, vêm de todos lados, parece até que combinaram. Vovô:
Ei, é a rota da Calábria!
Tem moleque já entra brigando tem os
que falando os que absortos; uns se sentam à mesa. Vovó:
Tem gentinha que dormiu comigo, não
precisa nem cumprimentar; tem gente com muita fome e entra direto. Aposto ter
os que não escovaram os dentinhos...
Aí se dá a justificativa. Gente é
assim desde pequeninha – tudo que faz necessita justificar por que fez, temendo
a crítica decerto; ou por ser orgulhosa, não aceitando a correção.
Vovó, não Vovô, os adultos enfim ficam
de cabeça cheia e agora chega Aninha esfregando o verde dos olhos chupeta na
boca fala fala ninguém entende, para olha pra cima aquele show de gente
grande, corre pra Vovó, abraça e é carinhada. Vovó não pode pegar peso, Vovô
põe o tesouro na cadeira, ela não alcança a mesa e precisa ficar de pé e já vai
tomando um pedaço de bolo, os grandes riem. Assim não se pode observar os
errados dos errados.
Agora Vovó senta-se no seu lugar
preferido, com mais dificuldade é claro. Limpa educada a garganta, olha os seus
netos, seu mundo seu universo.
Cobram, indagam o título. Toninho já
sabe, por isso dá uma de sabido:
O Leão e o Camondongo!
(Todos olham surpresos o primo).
É esse o nome da estória, fala Vovó.
Aninha puxa a mão dela e indaga qualquer na orelha. Vovó gargalha.
Não, Aninha, ele falou ca-mon-don-go. É rato, rato miúdo. Você entendeu agora?
Dizem por aí – começou Vovó – dizem
que um dia na Floresta um Leão... Vocês sabem não é? o Leão é o Rei da Floresta:
o mais forte o mais corajoso e não ri à toa com o rabo como um cachorro
lambeta.
(Acham graça).
Pois bem, um dia o Rei andava por esse
mundo afora quando foi surpreendido, caiu numa armadilha que um Caçador deixara
e...
O Caçador que ajudou Chapeuzinho Vermelho,
Vó?
Olha aqui Joana, não tenho muita
certeza mas decerto o tal Caçador era sim o mesmo, pois demais corajoso e havia
já prendido muito Lobo Mau...
(Ficam sonhando imaginações).
O pobre Rei Leão estava agora
prisioneiro! Já ouvia os tiros dos homens lá longe, logo estariam examinando a
armadilha e então...
Tadinho do Rei! que fariam com ele,
comeriam?
Não sei de ninguém que aprecie carne
de Leão, porco e boi sim, Leão não sei; e a pele de Leão não tem beleza do tipo
de beleza duma onça pintada. Enfim vinham vindo. Aí chegou um Ratinho, petitico
assim, cabia na minha mão.
Na minha também, Vó?
Na sua também Cidinha. Ele percebeu o
desespero do Rei, urrando enrolado na rede, quanto mais mexia mais se enrolava
nela, gritava de raiva e não saía! Viu e perguntou: “Majestade, Rei desta Floresta,
deseja soltar-se, quer minha ajuda?” O Leão olhou aquela coisinha de quatro
patas e focinho miúdo e nem respondeu: balançou a cabeçorra, cabeçorra é cabeça
grande, digo aos pequenos. Balançou num pensar, pobrezinho de meu súdito, tamanhinho
assim, eu tão grande e poderoso não posso me desvencilhar, o que poderá fazer
um Ratinho! O Camondongo, ca-mon-don-go Aninha, o Camondongo começou
roc-roc-roc a roer as cordas na rede e quando já os homens estavam perto o Leão
se soltou com um urro de vitória, graças à ajuda daquele animalzinho.
Que fez o Leão, Vó?
Que fez? não fez, Américo, apenas
correu e o Ratinho também, pois não era tolo a esperar caçadores!
A se eu fosse o Rei daria minha filha
em casamento ao Rato que me salvou a vida.
Muito boa essa, Pedro. Já imaginou que
par! Uma Leoa, a Princesa, e um maridinho titico de pequeno para a Leoa comer
quando não tivesse outra caça!
É Vó, dessa vez você me pegou hein!
mas então eu daria no lugar do Rei Leão um queijo para o Ratinho, como prêmio.
Vovó concorda com Pedro. E com os
outros netos. Para que também concordem consigo não pedindo outra estória,
porque iria passear na farmácia.
16o.Preá de Capoeira e
Tartaruga
Era uma vez... isso li faz tempo, mas
aqui devo fazer uns reparos, meus caríssimos netos.
Assim começa Vovó. Antes, ainda nas intimidades
do quarto, Vovô está que é uma beleza de macho: cueca samba-canção, pelos
brancos no peito e falta deles na cabeça; procura debalde os chinelos,
provavelmente chutados ainda que sem querer pela oposição; põe os pés grandes
com unhas arreganhadas que apara a canivete depois de tanto a oposição
azucrinar, o canivetão de esfiapar o fumo para o cigarro, põe pesões no solo
mesmo, sente o friozinho bom a pulmões e à gota, arca pra baixo, encontra-os em
namoro com o urinol, ela de pé. Zaldira, diz Alfredo piscando o sono que não dormiu
o ronco impedindo, Zaldira, tenho de lhe falar uma coisa. Outra? indaga serena
ginasticando seu ai-ui. Outra, responde. Olha, fiquei pensando em nossa situação
(óbvio a dizer da situação e da oposição no conjunto). Até não dormi. Ela na
maldade inocente sorri da primeira piada a ouvir nessa manhã.
Seguinte, minha filha (e ela detesta o
tratamento) a coisa aqui no lar anda brava! Nosso Menino (ele tem dessas fixações,
o velho filho-mais-velho ainda é seu ‘Menino’) está à beira da falência. A
firma... Agora está deixando menos todos dias, tem dia que eu compro as coisas
com a magra aposentadoria; essa meninada come e esbanja. Eu sei, diz Vovó, eu
sei. Que mais? Eu penso na Bastiana, acho que ele não anda pagando e ela faz
tudo, inclusive compras lá fora...
E vai por aí a conversa avoenga.
Voltam-se aos pequenos, ela conta as coisinhas, ele a responder “vejo toda
hora...” ela: como, escutando rádio adoidadamente, lendo o jornaleco só lê
crimes; e ronca, como “vejo”? Se defende, não ofende: ela convalesce e é sua
companheira. Param, ou não param mais, ela abre a porta, já encontra a pequena
olhando pra cima, faz sinal ao marido e sorriem, vão as duas mulheres em gozo
extremo à cozinha. Aí encontram a bagunça.
Alimentam-se, alimentam as conversas e
daí se dirigem ao circo.
Era uma vez, mas isso li faz tanto
tempo, vamos ver o que me lembro, a estória da Lebre e a Tartaruga. Para nós capiaus
deveria ser o Preá do mato que tem um cheirinho ardido (conta como faziam a
caçá-lo na armadilha quando criança, os seus manos faziam) o Preá e a
Tartaruga, esta existindo em quantidade no Brasil. (Os meninos lembram o que
viram na tevê sobre a defesa das Tartarugas e é Vovó quem aprende e sorri:)
Bem. No tempo em que os bichos falavam
(olha Aninha, tão perto de si, sente seu hálito, sorri à pequena e elinha
devolve o sorriso à Vó). Então, havia um concurso para se saber quem o melhor.
O melhor no tamanho já sabem venceu o Elefante (gritam, “venceu até o
Dinossauro!”) Os Dinossauros não existiam mais e ainda existiu o Mamute maior
que o Elefante e aí não concorreram. O mais esperto ganhou a Águia; o mais
exímio artista no malabarismos ganhou o Macaco; o Papagaio na conversa e assim
por diante. Para a disputa na velocidade, quem mais rápido, apresentou-se a
Tartaruga, que havia antes eliminado o Bicho Preguiça, menos rápido que ela. Os
Juízes ficaram abismados pela coragem dela.
‘Dela’ quem Vó? Tartaruga ou Bicho
Preguiça e bicho preguiça não é homem...
Não Tonico, não é homem. Homem é
homem, você é homem. Não senhor, a gente fala macho e fêmea. Tem Bicho Preguiça
fêmeo, até quando falamos “preguiça” pensamos fêmea, não é?
Por isso eu falo que mulher é
preguiçosa!
Calma, Pedro. Não abramos a sessão dos
clubes da Luluzinha e do Bolinha. Os dois têm méritos e defeitos. (Vovô acendia
o cigarro, parou, olha para os lados do teatro, balança a cabeça desaprovando
decerto o desacerto).
Continuemos? No concurso temos ao
menos dois concorrentes engraçados e interessantes: uma a Tartaruga moloide e
lenta; outro, a Lebre, todos sabendo arisca e rápida no andar. Outros se
candidataram sem qualquer chance, quem iria se pôr com a Lebre!
Que burra!
Quem, Pedrinho?
Ora, Vó, burra a Tartaruga.
É. Era e todos achavam. Hum, sinto
cheiro de almoço no ar...
Eu, eu, eu – todos aspiram gozam
brincam. Vovô apaga o pito a melhor sentir a Sebastiana.
Voltemos à Corrida, diz Vovó.
Os concorrentes estavam ansiosos, se
bem que a Tartaruga iria demorar umas duas horas a saber que sentia ansiedade.
O povo por volta gritava, torcia, apostava. Ninguém desejando apostar seu
dinheiro e perder na Tartaruga. Os Juízes deram a largada.
Pera Vó, como fizeram para dar a ordem
de partir.
Olhem aqui, numa corrida de gente, a
São Silvestre que viram outro dia na televisão...
Não fui ver! lamenta Aninha...
Não, querida, eles também não foram, viram
somente pela tevê de ver desenho mas você não podia ver, estava dormindo com
sua boneca. Olhem, na corrida os juízes dão um tiro para o alto e...
Vó, e se a bala acertar errando o alvo
e acertar alguém naqueles edifícios altos e...
Ora, não seja fatalista, Américo. Por
que acertariam alguém! Demais é tiro de festim. (Explica festim).
Bom, agora entendem. Deu o tiro e
quando olharam não mais viram a Lebre – zás! saiu sumiu como um relâmpago na
estrada, olharam outra vez só havia poeira lá longe.
E a Tartaruga, Vovó?
Olharam outra vez para ver, estava lá
no risco do chão feito para começar a disputa! ela encontrava-se ainda pensando
para dar o primeiro passo...
Coitadinha dela!
É mesmo meninos, coitadinha. O povo
comentava “já perdeu feio!” alguns diziam: essa chegará certamente ao final da
corrida do ano que vem...
Foi assim?
Não foi bem assim não. Porque a Lebre
ia já ganhando a corrida, se aproximava da linha de chegada, onde o responsável
abanando uma bandeirinha xadrez, a Lebre tendo a língua de fora de tão cansada
e aí resolveu descansar um pouco. Ela disse a si mesma: meu adversário é a
palerma da Tartaruga, posso dormir três dias e três noites e ainda chego em primeiro
lugar e ganho o prêmio.
Qual Vó?
Ivone, não me lembro o suficiente.
Parece que era um quilo de capim, o que servia tanto para a Lebre que facilmente
ganharia, como para a Tartaruga a qual perderia com certeza por lerda. E aí...
Aí chega a Bastiana, bate palmas,
sorridente, e aguarda o efeito.
Vó, fala o Pedro: a Tiana espera, né
Bastiana, quero é saber quem ganhou.
Corrija-se. Não fale na infelicidade
dum egoísta! “quero”, diga “desejamos” pois sei que todos querem saber, não é?
(Era; gritam “sim”).
Então vimos um rápido animal e outro
animal lerdão numa aposta. Agora, pasmem crianças! A lerdona quem ganhou o
capim!
A Tartaruga!
A Tartaruga. No dia que ela passou se
arrastando sem pressa alguma a carregar sua casa nas costas, passando pela Lebre,
esta dormia, dormia? roncava igualzinho um Velho nosso velho conhecido... No
outro dia ela chegou ao marco final da corrida, a Tartaruga digo. E só mesmo no
outro dia ainda a Lebre acordou!
Pode ser que o Bem não vença o Mal
sempre, contudo a plateia se ri alegre e satisfeita, isso é fato. A plateia se
desfez para o almoço bastiano, os avós como hábito por último na comilança.
17o.Raposa de Sebastiana
Um ‘trebófe’! essa a expressão de Vovô
olhando... não, espantado não; a rotina não espanta, espanta sim às vezes, não:
olhando apenas. Joãozinho levantou-se hoje mais cedo, costuma adentrar após
muita tagarelice dos outros barulhando; olha a Sebastiana volta-se para Vovó:
não tem, Vó? não tem o que João? Ela não tem cara de Raposa? Mas é um deus nos
acuda! fim de mundo, essas coisas, como! menino não sabe ofender, por isso diz
o que pensa: fala. Vovó afugenta a indignação e já sorri pros lados da empregada,
“e não é que tem razão!” fala baixinho, brinca com Bastiana. Vira-se para João
e aí, alto a impressionar o público a chegar, e você, olhando o engraçado do
engraçado, e você Joãozinho, você me parece que saiu bem à Cegonha...
Envergonha, sim envergonha a vítima no primeiro impacto mas depois corrige bondosa:
com essas pernas compridas parece a Cegonha porém uma Cegonha inteligente e
bela. João afirma preferir ser “cegonho”. Depois, esclarece Vovó, iremos ver a
estória da Sebastiana e do “Cegonho” direitinho, agora!? café leite pão
manteiga, ah sim você não gosta de leite então vai comer queijo, está em
crescimento... sua prima não deve ter razão, não há razão a dizer que o queijo
faz esquecer, isso são estórias do povo inculto.
Depois, agora, estão a postos – Vovó
no contar sorrir brincar sugerir corrigir, perdoar amar; eles, a plateia, com
elinha ali perto grudada sempre hoje se esqueceu da filha estripada, não da
chupeta, será que vê a chupeta em verde! Vovó:
Aos que não saibam digo, não falo ao
João nem a uns poucos naquela hora brigando por um naco de pão com manteiga,
vocês não têm vergonha na cara! Não falo porque já sabem, não é Sr.João?
trataremos hoje da estória da Raposa e a Cegonha. Olhe aqui, que eu saiba não
existe ‘cegonho’, meu caro Joãozinho.
Se ajeitam nas cadeiras, tem moleque
no chão, se olham, um ri a outro, ou doutro? ajeitam-se. Vovó faz que não vê,
vê. Sorri.
Era uma vez uma Raposa muito falante.
No tempo em que os bichos falavam, Vó?
É e não é. Não sei se um pouco antes
ou foi depois. Ora, não é comum uma Raposa falante, falasse antes eu do Papagaio,
não, falo da Raposa mesmo. A Raposa continua isso sim a ser precavida e bicho
precavido não fala, a melhor forma de falar é calar-se... Isso vale para menino
também... (se olham, sem graça). Ela andava conversando na floresta, a contar
vantagem. Sabemos que Raposa é animal matreiro e astucioso (explica aos pequenos
a atingir também os grandes nos vocábulos) e sendo assim havia qualquer coisa
errada no comportamento dela, a Raposa. Na verdade tentava armar um ardil a
pegar trouxas.
E a Cegonha?
Neste ponto, Joana, introduzo na
estória a Cegonha. A Cegonha é um tanto ingênua ou pelo menos quieta, todos sabem.
Chegou-lhe aos ouvidos lá encimão, a Cegonha tem as pernas compridas assim e a
Cegonha propriamente dita fica lá em cima das varetas das pernas. Ouviu aquela
conversa da Raposa sem entender bem. Haveria, contava a Raposa, “uma festa lá
em casa”. A Cegonha abriu os olhinhos encobertos com penugem, abriu as
orelhinhas que não passam de dois buracos pequenos a ouvir melhor o convite.
Pensou iguarias (Vovó explica iguarias) pensou banquete.
Ela foi, Vó?
Foi, Joana. Você me parece mais atenta
que os outros. Minha neta viu passarinho verde!
(Ai, por que Vovó fez tal pergunta...
foram dez minutos explicando, quase teve de narrar outra estória a voltar para
a estória da Cegonha com a astuciosa Raposa).
Foi sim mas teve duas surpresas, até
arregalou olhinhos, parecendo a Ana agora me olhando (carinhou Ana). A primeira
é que não havia ninguém na festa, é claro meninos, a Raposa presente, era a
dona da casa e da festa. Ficou sem graça, constrangida a visitante. Em segundo lugar surpresa com o prato principal
da festa.
Por
que não foram à festinha?
Por que o prato, Vó?
Esperem respondo a todos. Por que
sozinha a visita? os outros bichos já conheciam as manhas e artimanhas da Raposa;
quando esta falava na Festa sorriam céticos (teve que explicar ceticismo) –
ninguém foi na conversa da ‘embrulhona’ Raposa, somente a Cegonha como falei
era ingênua. O prato? bem, era um prato.
Os garotos se olham surpresos, Vovó
aguarda o impacto e daí retoma.
O prato estava quase vazio, tinha uns
caldinhos e aí... Pobre Cegonha, aquele bicão comprido, a ponta inclusive batia
no fundo do prato, até machucava o bico, chupava e não subia comida alguma!
Tadinha!
Coitadinha sim menina. A Cegonha
voltou com fome para casa. A Raposa? xi, ficou rindo, riu-se na cara da visita.
A visita se foi embora chateada. Assim mesmo disse: “obrigada pela festa,
Comadre”.
Acabou, Vó? curta a estória hoje!
Não e sim. Sim é curta. Não, tem um
pouquinho mais.
Aí a plateia se anima. Cada um inventa
uma solução, uns querem uma desforra à altura, outros propõem a Cegonha nunca
mais olhar na cara da outra. Vovó então:
Gostei de Vocês. Estão pensando num
problema que é também drama humano: o das relações sociais. Tem gente que age
como vocês propuseram. Entretanto as mais das vezes a vida nos oferece saídas
interessantes. Achei curiosa a atitude da Cegonha, parecia ela tão bobinha, não
parecia?
Conta logo, Vó.
Conto sim. A Cegonha mandou um bilhete
à Raposa nestes termos: “Comadre, também promoverei uma Festa na minha Casa.
Conto com sua presença. Verá como sei cozinhar!”
Foi?
Foi, claro que foi. A Raposa é
astuciosa mas também curiosa à beça, além de gulosa. Imaginou sonsa a ave, a
Cegonha é uma ave pernalta vocês sabem. Já viram também isso na tevê! melhor,
não preciso descrevê-la; e...
Vó, falaram ser o bicho que traz os
bebês para as mães...
Pedro, você está me provocando? hoje
em dia até crianças da idade de nossa Aninha não engolem isso. (O Pedro ri, bem
malicioso).
Continuemos? loguinho é o almoço,
depois saio, depois ainda ter-me-ei esquecido e aí não contarei mais...
Oh não Vó! lamenta a plateia.
Está bem. Apareceu na casa da Cegonha
a Raposa. “Comadre, você só convidou a mim!” Não, respondeu a Cegonha. É que
fiz uma comida especial para você; a festa é em sua homenagem e para os outros
será depois...
Era verdade?
Não era, Cida. Trouxe nesse momento a
iguaria, a Raposa sentiu o cheiro, a saliva chegava a sair-lhe da boca, os
olhos se arregalaram e...
E... Vó, o quê?
Tudo andava certo, só uma coisa errada
para a esperta Raposa: o prato! Qual prato? ora, a Cegonha serviu o alimento
nuns vidros fundos, garrafas, a comida lá dentro e a Raposa chupava o cheirinho
dela e não conseguia... Enquanto a Cegonha botou o bicão lá no fundo da
vasilha, tirava pra fora a engolir direito e perguntava: “que tal, Comadre” e a
Raposa: “oh Comadre, está uma delícia!” e pensava, deve mesmo estar uma
gostosura, dizia-se vendo levantar-se o vaporzinho da quentura lá do vidro.
Aí, Vó, ela voltou chupando o dedo?
Uma boa saída Ivone. Voltou pra casa numa
raiva sem ter comido. Aconteceu outra coisa inesperada.
Olhe Vó, eu no lugar dela virava o
vidro e daí bebia todo caldinho.
Magnífico, meu Pedro, não disse que é
meu neto mais sabido, mais safado também, não precisa estufar-se portanto, tem
lá seus defeitos, sim de fato inteligente. É, isso realmente aconteceu.
Olham os primos ao Pedro e à Vovó,
impressionados. Vovó:
De fato foi o que ocorreu. Todavia tem
uma coisinha nem o Pedro sabe...
!!!
Ela entornou a garrafa sim, a sopa
fervendo veio pra cara da Raposa e... Bem, garotos, teve de antes da volta para
sua casa passar no pronto-socorro dos bichos, e o Doutor...
Quem era, Vó, o Doutor.
Era o Papagaio. Ele mais falava que
curava e o Enfermeiro sendo para azar da Raposa o Rinoceronte! Fazia o curativo
abrutalhadamente na maior grosseria, a doentinha gritando e ele cruzando
esparadrapos mascando chicletes como vocês e não estava nem aí com as dores da
Raposa!
Agora fiquei com pena da Raposa!
Ficou né Pedro, tem bons sentimentos.
Bem. Chegou em casa parecia o Frankestein remendada nos curativos, ah pobre
Raposa...
Vovó e os meninos, Vovô não nem
Aninha, esta dormindo antes do final da estória no colo da velha, ele escutando
o rádio da guerra não ouviu nada. Eles se levantam animados, comentam a Cegonha
comentam a Raposa, imitam com muito recurso de imaginação o Rinoceronte
mascando, todos vão para a Sebastiana, mas unzinho deles pergunta à Vó enquanto
ela manquitola suas dores, velhas companheiras de velhas – “essa Raposa era
aquela que gostava de uvas verdes?” Não, filho. É outra estória e outra Raposa,
prima ou irmã dessa uma, essa não contarei a vocês, os pequenos não entenderiam.
O garotinho se acha agora enorme e importante não sendo dos pequenos
desentendidos em Raposa; então sorri.
18o.A Cigarra e a Formiga
Olhe a Vovó descansando por cansar de novo!
E isso não estava no programa. Saiu, ainda os meninos disputavam a sobremesa,
apenas dando tempo a chamar atenção do Toninho “me prometeu não abusar no doce,
sim está gostoso eu provei, me prometeu...” e saiu correndo, que em velho é um
pouco mais de úi no ái, Vovô ficou na cozinha e ela se foi. Voltou.
Ah como voltou! Agora nessa manhã do hoje paga o abuso do ontem, de novo na
cama “de molho” fala a oposição e a situação é obrigada a concordar. Os meninos.
Eles discordam, logo agora que Vovó ia
contar uma boa. Se espalham por aí, brigam disputam a tevê, uns querem o canal
quatro outros têm preferência no desenho do seis, tem barulho, e tem baralho
aquelas cartas ensebadas no uso, loguinho o Pedro é acusado por marcar de unha
uma e sai sempre aquela do homem de barba nunca a donzela; as meninas preferem
de casinha, levam os menorzinhos de ambos sexos que não se importam com sexo
para filhos mas as bonecas também viram filhotes e se entendem; vez que outra
se desentendem, correm levar ao Juiz Supremo e a Corte diz: encerrada a
questão, Vovó não quer mais opinar e fala ambos opinantes-reclamantes terem razão,
uma garota tendo de ir chamar Vovô. Aí o Vovô:
Que é Zaldira, precisa mais daquele
comprimido!
Não, meu velho. Me fecha a porta e não
deixa essas garotas entrarem hoje mais aqui! porque não me aguento e nem
aguento...
Vovô fica penalizado preocupado
abismado com o rumo que as coisas vão tomando. A nora telefonou, a Bastiana lhe
passou o fone, vai mais para longe no serviço, todavia isso não importa, não é
Seu Alfredo? as crianças estão em boas mãos; nem quis saber delas, pretendia
falar-lhe que a pequena chora a ausência materna, desligou. Vovô fica pensando,
sequer indaga sobre o esposo! Não poderá pôr a questão nestes termos à mulher,
apenas diz:
Zaldira, está tudo sob controle, fecho
a porta. Você não quer a compressa!
Sai, deixa o escurão que ‘cinzenta’
uma velha.
Não, Aninha, Vovó está dormindo, vamos
com Vovô para a sala.
Agora o ontem é ontem mesmo e agora é
hoje. Todos se afobam na cozinha, Américo derruba quebra espatifa espalha os
cacos da xícara para Bastiana de quatro ajuntar e não pode que tenha ficado
fragmento cortante, limpa passa pano, a vista já não é mais aquelas coisas; os
meninos comem se ‘lamecam’ se preparam ao segundo tempo, a tempo chega Vovó,
triste sim mas é uma alegria presente. Murcha e enrugada, porém solta como pode
o melhor sorrir. A casa volta nos eixos. Se alimenta a Senhora, segura Aninha
no colo sentada na cadeira, a menina chupa o bico da mamadeira e olha de soslaio
Vovó, ambas felizes, uma por não ser mais ainda infeliz. Depois a garota
arrota, desliza pra baixo e fica de pé, pergunta qualquer coisinha e vai buscar
a filha com as suas entranhas desentranhadas, Vovó tenta e consegue sair da cadeira,
conversa um pouco com Sebastiana e vai se encontrar com o esposo na sala,
depois se põe na poltrona rica de estórias e ‘tramelam’ então em família, hoje
tem um estranho garoto e a volta de Zezinho, a Luana não veio contar ser mulher.
Qual?
A Cigarra e a Formiga.
É bonita, Vó?
Eu acho. Tem gente que não aprecia.
(Olha pros lados do Vovô).
Vovô não gosta?
Não, não falei isso, olhei seu Avô
para ver o que faz mas já sabia de sobra: fumando e ouvindo futebol. Deve gostar
da Formiga. É o caso da Formiga, uma vez a Cigarra...
Vó, o Vô deve gostar mais da Cigarra e
não da Formiga como você falou.
Ora, Pedro, por quê.
A Cigarra não é mulher do Cigarro?
Você quer esculhambar! na verdade ele
deve gostar da esposa que olha de longe; e muito mais do esposo que tem perto
fumaçando os pulmões e os brônquios. Meninos, dá medo ver Vovô tossindo e o
peito cheio. Enfim eu já fiz o que podia, é teimoso, olhem lá parece incêndio,
é só fumaceira. (Os meninos riem). Chega, vamos em frente.
A Cigarra ia andando por aí e viu um
formigueiro em pleno trabalho. Ficou observando aquelas ‘pequenuras’ carregando
folhas para dentro do buraco, algumas iam se arrastando e até suando!
Por quê?
Ora por que, por causa do peso.
Uma folhinha!
Para uma cavalona como você Heleninha.
Para a Formiga um peso descomunal, formidável. Uma Formiga carrega um peso
equivalente a três vezes o seu próprio. Helena pesa quarenta quilos (ela
corrige: quarenta e um Vovó) quarenta e um, pronto, se for levar três vezes seu
peso serão portanto uns cento e vinte quilos!
Cento e vinte e três, Vó.
Tá bom, Pedro, você é minucioso, cento
e vinte e três. Já pensaram quanto esforço?!
Agora sim entendo o suor dela.
Ótimo. Aí a Cigarra balançou a cabeça
e pensou: que burras; melhor minha vida. E se foi para casa fazer o que faz uma
Cigarra.
Fuma, Vó?
Ora bolas que besteira, nem comento. A
Cigarra canta. Cantou cantou e cantou uma linda ária. Bem. Um dia amanheceu
nevando, uma beleza branca.
Então era Cigarra europeia.
Exato, meu filho. Aí veio o pior: a
comida se acabou e não tem o que comer, enfraquece e morre de frio e fome.
E a Formiga?
Nem queiram saber a quenturinha lá
embaixão; e comida a valer, as folhas que a Cigarra desdenhara e criticara a
Formiga por trabalhar tanto depositando lá nas suas casinhas por baixo da
terra; a comida a Formiga tem para quantos meses de neve houver. A formiga
ficou viva e aí sim podendo cantar, primeiro trabalhar, depois cantar. Mesmo
assim acreditamos não cantar, deve ficar alegre, não acham vocês?
Uns achando que devessem as formigas.
Outros supondo cantarem. As Lavapés mordem, cantam?
As Formigas, indagou a Vó.
Como é que canta uma Formiga, Vovó?
É fácil saber, nunca ouviram? Fácil:
formiga não canta.
19o.João e Maria
É Vovô quem olha aquela assembleia infantil.
Vovó não, tarda. O ajuntamento dos netos está um pouco apreensivo, chateado
mesmo, a expectativa é a presença da Velha, ela sempre anima mas volta e meia
fica de cama e então é um desastre para eles. Já bagunçaram ao gosto
sebastiânico e acharam por bem esperar no salão contudo ela não chega nunca e
mais se perguntam. Enquanto isso agora se comportam, porém criança não para,
apenas um tem suspeita de abrigar piolho, embora somente a escola tenha melhor
as sementes do bicho e estarmos nas férias, fim de férias; ele coça; volta a
coçar, Sebastiana vê a vítima em potencial de longe e imagina advertir Vovó
quando Vovó chegar e ela também se preocupa pela demora, o menino torna
coçar-se, quando vê todos estão contaminados e se coçam, alguém grita “piolhento”
o ofendido ofende se defende esbraveja, se afasta um pouco, Vovô sorri, acho
que direi esse negócio à Zaldira; ela chega capenga, olha distribui sorrisos,
as abelhas correm para a Rainha, Ana se esfrega nela, Bastiana fala um não sei
que no ouvido de Vovó, Vovô pede audiência, a plateia se encontra agora indócil
e cobradora.
Ora, não falei ontem que iria hoje
contar uma do tempo em que os bichos falavam!
Negaram.
Ai como são teimosos. É uma de bicho
bravo, selvagem, ingrato, amargo, egoísta, às vezes hipócrita...
Já sei – diz João – é estória de
elefante talvez rinoceronte ou mesmo uma de dinossauro!
Acho ser tigre ou onça.
Pois Maria Helena, errou também. É um
bicho terrível, o pior da floresta.
Vó, assim você mata a gente de
curiosidade.
Ora bolas, lembrou adequadamente: esse
bicho mata, mata inclusive os bichos de sua espécie... Agora, quem se aproximou
da coisa foram João e Maria.
Os dois ficaram orgulhosos e
envaidecidos todavia nada falam. Então Vovó:
Agora conto, isso no tempo em que os
bichos falavam, a estória de João e Maria.
A plateia é toda interesse em
Joãozinho e Maria Helena, olha agora de novo para Vovó.
Já sei. Vão indagar João é bicho Maria
é bicho! Respondo, sim, são bichos, do grupo ‘bicho homem’, e ainda falam, pois
nem o Leão, Rei da Floresta, nem a Onça nem a Cigarra falam mais!
Perderam a fala?
Não, não perderam, pois a Cigarra não
canta, o Boi não muge, não zurra o Burro? No entanto não se entendem como nós
bichos-homens, que de vez em quando nos entendemos.
Ah, a estória do Bush outra
vez!?
Tem razão, Pedro. Agora nossa estória
é mesmo de João e Maria.
Joãozinho era um garoto, mais tarde
iria casar-se com Maria, bem mais tarde, ela a tornar-se uma bela moça. Então...
Pera aí Vó, primo com prima!
Ué, filhos, muitos primos se casam,
não é recomendável, pois os filhos deles, pela proximidade genética, o sangue
deles, os nenês podem nascer defeituosos...
(Foi um ai-ai ui-ui tremendo, Vovó
interferiu, Vovô quase chamou a atenção da esposa por causa da baderna que se
estabeleceu).
Calma meus filhos. Eu disse que não se
recomenda o casório. Nesta estória não havia esse drama, eram apenas vizinhos e
não parentes; aliás nunca me referi também fossem primos; mas se queriam muito.
Que bonito, não é Vó!
Bonito sim Tereza. O que não foi
bonito é o aparecimento da Bruxa nesse idílio!
Puxa, estragou tudo!
(Aqui neste ponto a Bruxa engole até o
‘idílio’, Vovó não precisando explicar complicações nem interromper a narração;
ah essa Bruxa!)
Vai dizer que tem Lobo Mau também?
Nesta estória não.
Vó, Você disse que ele é sabido, aqui
ele é burro.
Quem é burro?
O Pedro, Vó. Como pode ter um Lobo Mau
se já tem uma Bruxa Má!
Não sei, filhos, isso é lá com vocês.
Prossigo?
Conta Vó, dizem gritando.
Está bem. Aí chegou a Megera, engana
Maria levando a pobre e pumba: guarda ela num saco!
Tadinha, Vó.
Tadinha nada, burra que foi, se fosse
o menino não caía nessa, dava um murro na cara da Bruxa e fazia...
Calma, como estão violentos hoje e
machões. Não falei que não desejo aqui o Clube do Bolinha!
(Murcham um pouco).
Daí a Bruxa oferece um doce ao
Joãozinho e ele vai atrás dela e então pumba: guarda ele num saco, põe encostado
ao saco da companheira...
(As meninas voltam-se rindo aos homens
e ninguém agora abre a boca).
Lá pelas tantas eles olham pelo buraquinho
do saco para ver o que estaria fazendo a Bruxa...
O que Vó?
Esperem, eu conto. Fazia comida.
Ah, igual a Tiana.
Pior que a Tiana, filho, Sebastiana
faz uma refeição ó da gostosa, não é? A Bruxa fervia água num tacho enorme,
para caber bem os dois sacos...
Que horror Vó!
(Já pretendiam cair por cima da mulher
a pauladas; Vovó espera a reação e aí volta à carga:)
Começaram os meninos a fazer um plano
para escapar e não virar comida de Bruxa...
Bruxa ‘atropófa’ né Vó!
Não, an-tro-pó-fa-ga, meu caro neto.
Antropófago, Aninha, é gente que come gente.
Que barbaridade Vovó! fala um grandinho.
(Levantou-se polêmica em torno,
citaram os programas de televisão, um dos rapazes lera certo livrinho com
nativo antropófago. Com o dispersar e comentários de não se acabar, o tempo
chamou a Sebastiana).
A Bastiana está avisando.
Voltam, ainda mastigando e mastigando
a Bruxa que deseja mastigar João e Maria. Vovó:
Continuo? Bem. Aí João conseguiu
rasgar sua prisão de saco com seu canivete e soltou a namorada enquanto a Bruxa
roncava.
Igual Vovô.
Isso mesmo, igual Vovô, diz Vovó, Vovô
olha a esposa a dizer “depois você me paga!” porém nada fala, aumenta o rádio,
agora é Vovó: ei Alfredo, assim este meu circo não escuta a estória. Igual, meninos.
Aí fugiram, andaram, primeiro correram
depois se cansaram e andaram na floresta.
Não se perderam?
Perderam-se; várias vezes saíram no
mesmo lugar donde vieram, quer dizer: perto da casa da Bruxa, roncando...
Ela prendeu de novo eles?
Não senhora, dona Cida, os garotos se
embrenharam outra vez na mata. E aí... tchã tchã tchã...
Que foi, Vó!
(A Aninha ameaçava chorar, soltou
inclusive a chupeta, Vovó sorri, ela acalma).
Que foi. Foi simples – estavam
perdidos na floresta. Nem sabiam voltar pra casa e naturalmente não desejavam
voltar para o tacho, agora fervente, da Bruxa. Perdidinhos da silva.
Vou narrar o restante da estória a
evitar que vomitem o almoço da Sebastiana, pois tem gentinha aqui num medaço...
Como foi?
Como foi, foi que a Maria...
Era Maria Helena?
Isso desconheço, quando os conheci já eram
casados e a bela mulher sendo apenas chamada Maria, não sei o sobrenome
igualmente. Bem, como dizia, a Garota disse ao Namorado chorando, ele chorando,
e falam os machões que homem não chora... A Maria precisou consolá-lo e falou
assim: meu querido, estamos salvos, eu fui jogando no chão umas migalhas de pão
desde que saímos de casa: é só ir procurando os pedacinhos e chegamos de volta.
Batem palmas os assistentes de Vovó.
Bateram palmas apressadamente... os
passarinhos haviam comido os pedaços de pão e agora não tinha a marca! estavam
mesmo perdidos.
!!!
Encontravam-se desanimados já, quando
Joãozinho se lembrou de uma coisa importante...
O que Vó?
Ele fizera como a companheira, mas no lugar de pão atirara de quando em
quando pedrinhas que trazia nos bolsos, carregava sempre o estilingue e as
pedras para caçar pássaros.
Vó, espera um pouco. Você disse outro
dia ser errado matar passarinho, não foi?
Foi, Pedro. Eu não falei que o garoto
João era um santo. Os moleques têm por hábito caçar, não é assim? Pois bem.
Agora valeu à pena ter pedras. Com elas o casalzinho pôde encontrar as que
haviam sido jogadas no solo e assim reencontrar o caminho até seus pais.
E ficaram felizes?
Ficaram. Se abraçaram aos amigos e
parentes na aldeia onde sempre viveram.
E a Bruxa?
A Bruxa... bem não se sabe o que
ocorreu certinho: soltaram os cachorros na casa dela e foi aquela gritaria! Não
sei se fugiu ou se os cães a mataram, eles estavam treinados somente a atacar o
Lobo Mau, aqui se trata duma Bruxa. O que acham vocês?
Já noitinha ainda os netos “achavam”
discutiam, não silenciavam, mesmo a Sebastiana gritando com eles: “diabretes,
calem a boca, é o último capítulo da das nove!”
20o.Os Músicos
Era uma vez... numa certa vez os
bichos no tempo em que os bichos falavam, eles resolveram imitar o bicho-homem
e... E foi aí que Vovó notou a falta de alguém. Cadê a Ivone? ora, onde ando
com a cabeça ela se foi ontem. Ah meninos, é como faltar um dedo na mão: dois,
não é, o Chico também, os dois primos se foram!
Comentam o fim de férias. Os vizinhos
não aparecem mais, igualmente já se preparam às aulas os grandes, que são
pequenos. Aí Vovó se lembra da Luana. “Ontem eu a vi” quando ao passear pela
farmácia, ao chegar na rua ali, ia com a empregada, a babá dela (lembrou-se da
bisbilhotice da mulher, gente é mesmo bisbilhoteira: "a sua filha não
volta mais?" "não é filha, nora" ah Dona Zaldira, coitado do seu
filho... Vovó costurou como pôde – negócio de serviço etc. e tal e a fugir
indagou por Luana diretamente à interessada “sô muiéi” respondeu a garotinha. A
Babá: a sua empregada também é Luana não é? Não, a garota entendeu mal, é
Sebastiana). Vi sim, meninos, uma gracinha. Agora tem um zum-zum naquela
plateia sobrante.
Vó, alguém não deu descarga e ainda
deixaram a torneira da pia pingando, dizem que fui eu... “Balofo!” Vovó:
Parem de gozar o Antônio. Além do mais
o dono do malfeito nunca aparece... A mim basta que o engraçadinho não mais se esqueça.
Foi a Aninha! (Os olhos verdes se
arregalam).
Calma garotada. Alguém viu? além do
mais a menina não alcança subir no vaso, é sempre preciso um grande ajudá-la.
Portanto não foi Ana. Agora chega disso. Eu tenho uma estória interessante aqui
na cachola.
Sorriram. "Conta, Vó!"
Estava dizendo que resolveram imitar o
homem. O homem antigamente... o quê? ah sim, na Europa e tinha bastante neve;
não pensem entretanto que seja gelo ano inteiro; embora o frio lá pior que o
daqui. Naquele tempo saíam por aí os grupos de artistas – de circo, teatro,
enfim apresentações musicais.
Não tinha na televisão?
Pior (ou melhor, pensou Vovó) pior,
não tinha apenas na televisão, o que não tinha mesmo era a própria televisão. Assim...
hein?
Falei que lugar atrasado a Europa, nem
tevê!
Não existia em nenhum lugar do mundo.
Então, as pessoas se apresentavam por aí como possível.
E os Bichos?
Calma, Joana, chego lá. Os Bichos
andavam numa situação terrível: não tinham o que fazer e a fome aumentava.
(Vovó teve de interromper a estória:
foi um discutir as semelhanças do hoje e o ‘antigamente’ – o pai de fulano desempregado;
a família de siclano em situação precária; Américo levantou o drama do pai,
Aninha ficando espantada a ouvir o mano e decerto quase não entendeu; falou o
menino da crise no lar e aí Vovô olhou aos lados de Vovó boquiaberto, não
contava com tanta clareza e sensibilidade; Ana? parecia não compreender o
irmão, de repente desabou a chorar; enfim foi um constranger).
Calma filhinha; estão vendo o que arranjaram!
Acho que hoje não temos ambiente para estórias...
Ah Vó, conta sim! todos gritando.
Está bem.
Eu dizia que os Bichos não encontravam
emprego e um grupo deles resolveu unir-se e trabalhar por conta própria.
Quantos, Vó?
Sei lá, Joana, uns cinco ou seis não
me lembro.
Você não viu esses!
Pera lá filhotes, não pensem que
conheci todos personagens das estórias que narro, apenas alguns.
(Vovô tossiu antes, depois foi aquela
gargalhada, assustando inclusive o radinho rouco com pilhas fracas. Vovó olha
para seu lado numa recriminação. As crianças sequer percebem, ou não demonstraram
notar a indisposição entre seus avós).
Tinha o Burro, fortão; tinha o
Papagaio, falador pra danar; tinha o Cachorro rosnador; tinha o Gato de vez em
quando abrindo os olhos e a boca de sono; tinha mais uma miudeza de Bichos.
Todos mas todos eles desempregados! Com uma agravante: eram já passados na idade.
Quantos anos?
Sei lá Heleninha. Cada um era velho
dentro de sua espécie. Por exemplo o Cachorro sendo menos velho que o Burro
Velho. Um Cão em seus dez anos já não tem coragem de correr atrás dum Gato, só
esbraveja e ladra. Olhem uma coisa, para acabar esta discussão direi: não
tinham registro como a Clara. A Clara:
Já vi o meu registro, Vó, mamãe levou
lá na escola quando comecei.
Então. Todos vocês têm registro, mesmo
a Aninha que é pequena ainda (aí sorriram verdes para Vovó).
Como eu falava, não tendo registro de
nascimento, não posso saber a idade certa deles. Todavia eram idosos; e se jovem
não encontra fácil lugar para trabalhar, que dirá um velho! (Os Avós se olham
desenxavidos; os netos não sabem se sorriem, silenciam).
Dizia eu então que se reuniram a
discutir como ganhar a vida. O Burro deu sua opinião, o Gato acordou e
perguntou “ele disse o quê?” O Papagaio falava sem parar, parecendo deputado
(precisou explicar deputado senador vereador).
O tio Zé é Vereador! (Mentira, é
carteiro).
Não briguem. O tio Zé dela é, eu sei;
o seu é Carteiro, o de um não é tio do outro. E tem muito Zé por aí.
Tem o Zé da Luana.
Isso, Pedro, o irmão de Luana, uma
gracinha ela.
Pronto, estamos agora de acordo! Bem.
Discutiram como Vocês agorinha (sorriem se olham) discutiram e somente a opinião
do Gato que acabara de sonhar com um Rato e um queijo, só a dele valeu e aceitaram
todos:
Se, disse o Bichano, nos reunirmos e
sairmos como o Bicho Homem que faz espetáculos por este mundo? Nós ficaremos
ricos!
Ficaram, Vó?
Calminha meninos, vou chegar a esse
ponto, vou contar tudo. Não vou...
Por quê?
Olhem a Bastiana. Vovô já indo na
frente a fim de não chegar demais por último à mesa. Os meninos vão num alvoroço,
Vovó apenas tem Aninha por companheira e seguem mãos dadas. Mastigam.
Voltam, ninguém precisa tocar sino a
se reunir. Todos querem os Bichos Artistas. Vovó encontra-se satisfeita:
Como eu falava... Américo, preste
atenção, você me parece hoje absorto. E vocês, viram passarinho verde ou têm
bicho carpinteiro! ninguém para quieto no lugar...
Como eu falava antes do almoço, os
Bichos se uniram a formar um circo ambulante. Ambulante quer dizer: não ficariam
num só lugar. Aliás um circo é ambulante, vai para uma cidade vai para outra,
monta-desmonta-monta de novo, assim.
A se apresentar é necessário
treinamento. Fizeram um depois dois ensaios, não chegaram a fazer o terceiro...
Por quê? já estavam bons...
Não, Pedrinho, o contrário: eram tão
ruins e desafinados que nem eles suportaram a terceira apresentação! O Gato
dizia por exemplo: Compadre Burro, experimente agora; o Burro zurrava uc-uc-uc!
E o Gato falava “ah que lindo!” no entanto nem eles realmente achando bom, como
falei não aguentaram sequer se ouvir.
Vocês estão rindo! Bem, uns artistas
atrapalhados desses não é para menos rir. Então resolveram sair assim mesmo,
ver se arranjavam uns trocados.
Trocar o que Vó?
Trocar nada. Ou por outra: trocar uma
linda peça de música por dinheiro dos assistentes. Trocados aqui quer dizer
moeda.
Entendido? Continuemos. Arranjaram um
carroção, puseram seus instrumentos de trabalho e subiram nele, saindo a se apresentar
por todos lugares.
O que tocavam, violão, gaita?
Não, os instrumentos deles eram suas
respectivas bocas, bocas e bicos. Só. E não se surpreendam: não tinham dinheiro
para comer, como comprar violão e gaita como disseram; pior seria adquirir um piano,
bem mais caro.
Pararam numa vila, cantaram – o Burro
zurrou lindamente, houve currupaco-papapaco a valer, miaus belíssimos, o Cão
ladrou muito bem e no final uivou. Foi isso na primeira parada.
Ganharam muito dinheiro?
Se ganharam! Nem se fale – pedradas!
Judiação!
É Joana, tadinhos. Mas não desistiram
não. Fizeram mil outras apresentações do
seu Circo. O próprio circo já servia para riso do povo: o Burro puxava a
carroça; em cima ia o Cão; em cima do Cão o Gato dormindo; em cima do Gato o
Papagaio matracando anunciando o espetáculo. Isso já sendo um espetáculo um show,
como se fala hoje. Todos se riam deles. Dinheiro? nada.
Iriam morrer de fome, pedra não se come.
Exato, filho, brilhante conclusão do
Pedro; aliás Pedro vem de ‘pedra’. Sim, iriam morrer de fome, mas...
Mas... Vó!
Mas filhotes, eles encontraram pelo
caminho foi um tesouro incalculável...
Conta logo Vó (menino sempre não
aprecia reticências, isso é um fato).
Está bem. O tesouro. Pararam a
descansar a goela num lugar e o lugar foi justamente nas imediações do esconderijo
de uns ladrões!
Puxa Vó, e os bandidos não mataram os
artistas?
Não, minha filha, não, quase deu-se o
contrário, isso sim. Porque os Bichos resolveram fazer um ensaio em regra para
nova apresentação. Começaram: zurrar ladrar miar etc., o Papagaio falando sem
parar de madrugada – os ladrões fugiram da casa deles com medo daquilo, quase
mataram foi de susto os Bichos, porque passavam correndo na escuridão. Aí os
Artistas entram curiosos para ver de manhãzinha a casa dos ladrões. Tinha
riquezas incalculáveis ali depositadas, uma verdadeira fortuna. Entraram e
resolveram descansar a fim de melhorar o padrão da voz do grupo.
E dormiram. Então voltam os bandidos,
puseram um deles, o mais corajoso, a verificar como estava a casa, ver o que havia
ocorrido na madrugada. Entrou ainda escuro, viu duas brasinhas no fogão onde o
Gato descansava de tanto dormir, vocês sabem que Gato aprecia bem a quenturinha
do fogão caipira, daqueles a lenha. Ah, disse o ladrão, ainda tem duas brasas
no fogão, vou acender meu cigarro...
E aí Vó?
Aí Tê, aí que a brasa miou era o olho
do Gato, o qual gritou o seu MIAU mais alto possível!
O ladrão saiu desesperado, passou pelo
chefão lá fora ainda correndo e gritando assombração... Nessa altura os outros
Bichos acordaram com o grito do Gato e do homem, zurravam ladravam e lá fora os
ladrões se falaram: é mesmo assombrada a casa! fugiram espavoridos, sumiram no
mundo.
E os Bichos Cantores comeram as coisas
dos ladrões?
Se comeram? comeram arrotaram e dormiram
gostoso, como Vovô (Vovô acorda, balança a cabeça lá na fumaça).
Mataram a fome?
Mataram a fome os Bichos; depois
entregaram as coisas roubadas à cidade mais próxima e receberam do prefeito do
lugar um prêmio por espantar os bandidos que infestavam a região; prêmio para viver bem o resto da vida.
Gostaram do prêmio, indagam ouvintes?
Ora... e vocês. Mesmo a Tiana ouve o
final rindo; e fala a todos demorar ainda a boia.
21o.A Pele de Asno
Chove. Chove sem parar, fevereiro
gosta de água; os meninos indóceis, não há prisão pior que residência, o
quintal exíguo proibido por São Pedro; e na rua nem se falar, mamãe nunca está
pra não deixar, papai saindo cedinho mas Vovó e Sebastiana pegam no pé, não deixam;
mesmo Vovô, bafora e impede o sair. Agora piorou, chove. Um mexe com outro outro
com um. Vovó: que é isso; Tiana, pondo o colchãozinho no sol! não tem sol porém
a Aninha catinga o colchão e precisa espichá-lo ao vento pelo menos. Quando a
“cavalona” vai parar de molhar a cama! Ana faz trejeito de coitadinha, Vovô ri.
O barulho aumenta é tapar bocas com ouvidos e somente Vovó a calar. Já vão
aquietando e alguenzinho grita lá dentro “não tem papel!” Sebastiana se
desdobra. Aos poucos a plateia se completa, incompleta.
Agora é o Toninho e as irmãs!
Minha gente, perdemos três cadeiras
cativas: o Antônio meu Toninho... não senhora, fizeram mal chamá-lo Balofo e me
faz muita falta; a Tê e a Heleninha (Vovó diminui todos nomes dos netos para
aumentá-los no coração...). Veem, vão-se acabando as férias e acabando o meu
público... Não estou gostando disto. Logo vocês também irão ouvir as estórias
das professoras...
Que chato, né Vó!
Chato sim para sua Avó; o Vô reclama
sua parte no sentimento do sofrer; sim, chato Joana. Estamos em quantos agora?
(Contam, erram, recontam, se esquecem
incluir-se; depois um berra:)
Sete, sete, Vó.
Sete. Dizem sete ser conta de
mentiroso. E isto já é mentira. Alfredo (grita baixinho Vovó) quase não dá quorum
para debate e conclusões... Vovô entende bem, as crianças indagam com os olhos.
Quase paro as estórias. Todavia vocês
já ouviram muitas. Porém garoto não tem fundo nem limite. “Conta mais!”
Conto. Para hoje escolhi a Pele de
Asno. Já sabem? Ninguém. Puxa.Vai lá.
É bonita?
Não sei, acho mais ou menos
interessante. E o que é belo! a uma pessoa algo é feio, para outra... Vocês
julgarão depois. Ih, o Pedrinho anda muito calado...
É a falta dos outros Vó, a gente só
pode brigar com estas porcarias aqui!
Sim senhor, o rapaz é positivo; se
declara briguento com alguma categoria...
(Riram; os que não entenderam a ironia
riram por imitação; ou do rir avô).
Querem?
Queremos!
Bem. Um Lobo que andava perdido num
caminho por aí estava faminto...
Era o Lobo Mau?
Era, decerto mau, Cidinha; decerto,
pois os amigos do Lobo o achavam muito bonzinho e correto. Modo de ver apenas.
Seja então o Lobo Mau.
Enfim andava cansado, cansado ser mau.
Será que cansa ser mau!
Não sei Pedro. Deve cansar.
Tanto que quando podemos ou pensamos na coisa preferimos ser bons. Será
que eu não tenho razão.
Tem sim, Vó.
A gente sempre se acha com razão, a razão
absoluta das coisas. Vou continuar nossa estória.
Então o Lobo Mau queria se apresentar
de Lobo Bom...
Já pensava enganar os outros, não é?
Talvez, menina Aparecida; e aí reside
um problema sério de justiça: depois que pensamos que uma pessoa é isso ou aquilo,
temos dificuldade em aceitar sua melhora e suas intenções, não acreditamos na
recuperação. Isto sim é maldade, maldade nossa!
Não entendo, Vó.
Não tem importância agora. Voltemos ao
Lobo que ia se apresentar de Bom. Pensou pensou, como iludir os outros, ele
igualzinho a Aparecida, os outros indivíduos não iriam mesmo crer... Aí ele
achou melhor enganar.
Não disse!
Disse, filha, ele queria matar a fome
comendo os Cordeiros numa propriedade. Se se apresentasse como Lobo, não
ficaria nem um Carneiro para contar essa estória, fugindo dele. Foi então...
Vó, não era Cordeiro?
Cordeiro e Carneiro é o mesmo meeeeé,
não é assim que faz o animal? Bem, chegava perto e fugiam dele. Daí pensou o
Lobo, pensou e executou. Encontra um burro morto na estrada, toma a pele dele e
se veste de burro!
Ele até que não era tão burro...
safado hein! e inteligente, né Vó?
Inteligente sim Pedrinho, muito.
Apenas que a mentira tem pernas curtas. Já ouviram isso? quer dizer: a verdade
aparece um dia. Foi bem assim.
Ele entrou no pasto dos Carneiros?
Entrou sim Joaninha, se misturou com
as Ovelhas e...
Vó, não eram Carneiros?
Ovelha é Carneiro é Cordeiro. Bem.
Quando o Pastor estava olhando as ovelhas, contando quantas, se não havia desaparecido
alguma, nesse momento olhe lá um burro no meio delas. Nem se preocupou, ninguém
teme um burro, que não é animal nada burro como se fala, e manso. Na hora...
Tchã tchã tchã, né Vó.
Ótimo, garoto. Na hora de pegar uma
descuidada Ovelha, virou-se o Lobo para melhor tomar sua presa e aí, sabem o
que houve?
Conta pra nós, conta!
Apareceu a traseira do Lobo por baixo
da pele de Asno!
Que negócio de Asno, não era couro de
Burro e devia feder pra burro.
Fedia Pedro, o Lobo ficou fedorento na
pele do bicho morto, Asno, Burro.
Aí... Vó?
Aí o Pastor caiu de pau no malandro,
cacete nele; e o Lobo Mau?
Não sabem então vocês... o Lobo Mau
passou agorinha aqui na disparada!
Todos olham, Aninha gruda-se medrosa à
Vovó.
22o.Avestruz Papagaio
Macaco
Ontem de noite houve um desfalque
considerável no elenco, mais na plateia de Vovó. Vovô também colaborou chorando
um pouco, a gente se apega às crianças, revê os filhos e isso é bom, mas a
perda dos netos! ora, Vô não tem direitos sobre eles, sofre a separação. Pior?
tem pior, se se vive perto vendo as coisas erradas que podem ser o certo e nada
se podendo fazer, melhor e menos pior: ver os garotos fazendo tchau. Não acha
Zaldira? Limpa o nariz enxuga olhos, responde “é” um ‘é´’ sem grandes
convicções. Ah, desfalque e tanto: Maria Clara,
João, Maria Aparecida. Cada um para seu lado, somem no mundo. As
macacoas dos velhos, elas não permitem deslocamentos frequentes, quando será
que reverão as preciosidades!
Noutro dia, até as crianças, até não:
principalmente elas andam estranhas. Fica chato, não fica? A Bastiana...
pareciam a ela filhos, chato para a empregada. Agora Vovó conta nos dedos
Aninha, Américo, mas estes são de casa e não se vão; Joana, Pedro... eles ir-se-ão
breve, a gente nunca sabe, só Deus. Reconta, são apenas quatro. Bem, podem
aparecer os de fora, aquela Luana é uma gracinha; não é provável, ano novo
escola nova vida nova, velhos Velhos. Vovô está inconsolável, parecendo
nervoso, acende apaga acende o cigarrão; abaixa de novo o radinho, joga longe o
jornal, anda vai pra lá volta, ah mundo sem porteira! E a mãe dos meninos...
Heloísa não aparece. Um dos filhos dos
Velhos fala na orelha do pai “a vagabunda fugiu com o serviço...” Será? gostaria
ter uma conversa mais séria com o Menino, porém some madrugadão e anda falando
sozinho o pobre. Aí chega Aninha sorrindo, passando o limpador de parabrisas
nos olhos dos Avós, se encosta em Vovó quer um colinho! quer colinho. Confesso,
minhas crianças, confesso, estou chateada perdendo todos dias meus netos.
Queria narrar outras estórias: o Pequeno Polegar, o Barba Azul. Mas acho que
não dará, nem sei se seus pais não vêm hoje levá-los igualmente... Vovó está
para chorar, sorri.
A mamãe vem!
Não sei Ana. Aí não aguenta: chora
mesmo. Vovô vem constrangido perto da mulher; desajeitado não sabe se carinha a
Velha se consola se pergunta as perguntas bobas que fazemos nessas horas
ingratas, não faz nada, chora também. Todavia um dessa plateia em fase de
extinção cobra da velha:
A estória, Vó!
Ah sim eu ia contar uma. Sabem,
escolhi um caso mais ou menos atrapalhado que trata do Avestruz, do Papagaio e
do Macaco. Tudo no tempo em que os bichos falavam.
Tem gelo e rei, essas coisas?
Não Joana, refere-se à neve, quer saber
se ocorreu na Europa não é? não senhora, essa é daqui mesmo.
E aqui no Brasil os bichos falavam também?
Se falavam, e como! acho até mais
falavam que os outros bichos da Europa e da Ásia; talvez não mais que os da África,
lá tem um mundo de bichos.
Vocês sabem que o Macaco e também o
Papagaio são os mais brasileiros dos animais. Um belo dia na Floresta, havia lá
uns clarões imensos das partes derrubadas, desmatadas – os estrangeiros vinham
aqui e sem cerimônia alguma derrubavam nossas árvores e as levavam para seus
países...
Que ladrões, né Vó.
Sim, Pedro, penso assim também. Pior,
roubavam e conseguiam em troca de espelhinhos sem valor que os nossos indígenas
carregassem nas costas a madeira até seus navios.
Contudo os tais estrangeiros não queriam
saber o que pensavam nossos Bichos! O Macaco pulava de galho em galho se
enrolava gostoso nos cipós...
Igual Tarzã, Vó.
Bem lembrado Pedro, igualzinho.
Reclamava ele o desmatamento medonho. Um dia os macacos não teriam mais onde se
dependurarem. O Papagaio falava também disso sem parar, reclamava a sorte, má
sorte. Foi nesse ponto os homens a trazer para cá os Avestruz. Prefiro ‘avestruzes’.
Da Europa?
Não, nem da África que tem tudo quanto é bicho
e muitíssimos primos de nossos Macacos, até Gorilas. Traziam da Austrália. Conhecem
o Avestruz?
Joana: vi um dia no Zoológico. Os
garotos viram na televisão. Aninha nunca.
O Avestruz, torna Vovó, é a maior ave
do mundo. Não sei quanto pesa mas é pesado; e corre até a oitenta quilômetros
por hora! parecendo um automóvel rápido. Tem um costume chato: come numa fase
da vida fezes (explica fezes).
Que nojento!
Para nós sim, Américo; eles necessitam
comer fezes.
Vó, tem gente que come...
Não venha com essa, Pedro.
É sério, Vó. Tinha a mulher da casa
perto da nossa, o nenê dela comeu.
Isso é outra coisa; não é uma
necessidade como o caso do bicho Avestruz.
(Todos olham o Pedro e fazem uma cara
de asco; Aninha sequer entende a conversa dos outros).
Como eu falava, o Macaco e o Papagaio
ficaram azucrinados... isso mesmo: grilados, grilados com a introdução desse
animal estrangeiro no país, pois julgavam não haver bastante Floresta para os
nossos. Então planejaram uma desforra à altura. Pensaram entrar numa fazenda de
criação de Avestruz e dar uma surra no intruso, expulsá-lo daqui.
Criam Avestruz?
Criam sim; vendem a carne desse bicho
vendem ovos. E cercam bem para não fugirem as aves.
Então não dava para entrar na fazenda.
Esperem lá. O Macaco pulou a cerca com
facilidade, se bem houvesse se enroscado no arame; o Papagaio fez melhor ainda:
voou por cima. Estão na fazenda de criação. Olham por todos lados: cadê o
Avestruz para aplicar aquela sonora surra! Procuram de lá, de cá, não acham...
Por que, Vó?
Já digo, Américo. Não se sabe como o
Avestruz foi avisado da invasão e aí fez o que a inteligência dessa ave faz: escondeu
a cabeça na terra! os nossos Bichos passaram mil vezes perto dela, o Macaco
inclusive, cansado, se encostou no corpo do Avestruz de cabeça enterrada e a
traseira para o alto. Chegou o Papagaio e disse: “Amigo, não precisamos nem bater
nele, o inimigo já fugiu e agora a Floresta é só nossa!”
Que bobos, não é Vó.
Me parece assim também, Joana. Aí
sabem o que aconteceu? chegou a matilha barulhenta...
Que é ‘matilha’, outro bicho!
Matilha é um conjunto de cães. Uma
latição de deixar a gente surda. Nossos heróis? ontem ainda escondidos na mata!
E o Avestruz, Vovó?
O Bicho, Pedro, ora ora, esse bicho se
desenterrou e foi bicar as suas coisas.
Cocô, credo!!
Vovó sorriu à carinha dos netos; ia
acrescer mais senões, chegou Sebastiana. Não precisou sequer avisar. Porém não
se comeu numa grande alegria. Ah, quem sabe não voltassem os momentos felizes
noutras férias...
23o. Conclusão Surrealista
A esta altura do escrito as linhas, cansadas,
resolvem tratar das coisas sobre a conclusão da obra. Mas diversos doutras
expõem a seguir um final absurdo, seja ou não seja a fim de provar que a
verdade pode parecer surreal. Portanto vejamos o que não aconteceu todavia
podendo sim ter ocorrido...
A)Pinocchio Aí pelas tantas, não menos,
notamos uma janela. O Macaco Brasílico que, parafraseando Borges a dizer o argentino
ser um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês – o Macaco Brasílico
nasceu na favela da Floresta, veste-se urbano e pensa que é yankee, pois
acompanha o basquete da NBA, pronunciando “ei” muito bem mascando
chiclé, o Macaco vê a janela e pensa Windows, anda cercado de ratos por
todos lados e fala, a indicar o bicho pequeno fazendo biquinho como antes seu
ancestral ‘caboclando’ francês, fala “mouse”, olha...
Olhar não adianta é preciso ver. Vê o
Pinóquio.
Pinóquio: Papai me fez de madeira, ah
que cara de pau. Me configurou bonzinho ingênuo e medroso. Mas não tenho medo.
Enfrento a Velha Zaldira. Digo-lhe: Vovó, você mentiu aos netinhos! Contou mil,
mil? mil e uma estórias. Mentiu. Mentiu também quando no início prometera
narrar (e nisto tenho dúvida) minha linda estória, minhas artes minhas encrencas.
Não contou. Mentiu quando não vendo a Nora em sua farrinha disse coisas (já se
defenderá: a Oposição me ajudou) falou dela sem ter visto. Ora, tudo – todos
sabem – tudo que não vemos não existe, ou atiramos no arquivo da invenção, que
é mentira. Portanto Vovó, você mentiu. E, se mentiu, tem a sua punição. Aliás
fica bem em Você o nariz crescido. É minha punição como praga a você rogada.
Quanto a mim, não sou Pinóquio. Deixo
de sê-lo. Passo outra encrenca à sua encrenca para o item ‘B’.
B)Os Sete e a Branca
B 1. A Branca - A Branca (limpa leve a neve, sobretudo
dos olhos, ou não ouve) a nívea Moça (nesse tempo em moda ainda devendo existir
uma meia dúzia de virgens) a jovem chama a velha: Vovó, escuta aqui. Que
conversa-fiada me inventou pra inventar distração aos netos... Nas condições expostas
não terá convencido sequer Aninha, a Luana não falo falará “sô muiéi” e é o
bastante. Nem Ana. Que dirá Pedro, malicioso à beça, parecendo um adulto do
Século XXI! Ainda bem que não me tenha atirado, sensual, sobre tantos homens,
eram sete logo você me joga o oitavo que é seu legítimo esposo e não dá mais no
couro, ou talvez por isso. Maldade das grandes! Nessa direção ponho você a ser
cariciada por um leão de chácara, meu mui estimado segurança Zangado. O qual,
se zangar...
B
2. Os
Anões - Ah não, não é verdade que não é mentira! Ela a chamar-nos Anões, eu
porta-voz dos Não-Anões, eu Dengoso da Silva, não, não aceito. Ingrata Vovó. Em
vez de nos deixar puros inocentes trabalhadores, pior: boias-frias num campo de
neve! tadinhos de nós. Quanta malícia (sei dirá que foi o Pedro...) Não, chega.
Ou entramos no MST, invadiremos os jardins do Capitólio nas geleiras de Washington.
Pois fique sabendo, Zaldira, somos muito homens, machos pra valer e nunca
ficamos a chocar a Branca de Neve; foi preciso a força da OTAN ajudar o
Príncipe Encantado para levá-la de nossa casinha com sete cadeirinhas sete
pratinhos sete urinoizinhos. Paro, ou choro.
C)A Roupa Nova
C 1. A Roupa - Sou a
Roupa. Sempre nova, grito, berro, esperneio se preciso for para Vovó não
ver-me, e sugerir aos Meninos também não me enxergar; estava lá para os
inteligentes do planeta checar-me vistoriar-me charmosa áurea dourada à beça.
Desconfio do gurizinho que me dedou dedando ao Rei para que dedasse os
Alfaiates, honestas criaturas, que esse gurizito não passasse de um dos Netos
de Vovó infiltrado no povo bom e leal. Inclusive suponho escuta telefônica, bem
ao gosto de ‘Toninho Malvadeza’ hoje em dia, posta no atelier dos bons e
talentosos oficiais de ‘pano e linha e agulha’ ai. Até suponho. Ainda bem que
Vovó não haja colocado a me rasgar um vira-lata maldoso ou tão só brincalhão
para me esfrangalhar toda. Canso-me. Passo não para o Rei, correndo até amanhã,
não: aos criteriosos profissionais.
C 2. Os Alfaiates - Veja Vó, estamos chorando. E
foi-nos difícil achar tanto crocodilo, tivemos de aproveitar lágrimas de
jacaré, em extinção, o que extinguirá igualmente as lágrimas (aqui neste ponto
agradecemos à pequena Ana nos ter fornecido um sobrante, pinçado de sua estória
verde). Choramos o não entendimento por criatura tão arguta como a senhora Dona
Zaldira de nossa arte e nosso ofício! Trabalhamos, suamos, furamos nossos
polegares no métier, fizemos uma linda Roupa. Vovó? apenas tendo olhos à
sua própria roupa, um vestido que se formos criticar... Bem, desejamos um Vovô
bem grande a fim de não saber apreciar-lhe o modelo de sua ‘alta’ costura...
Adeus, vamos cuidar de nosso ouro.
D)Lobo Bom e Chapeuzinho
D 1. O Lobo - Tô de mal! tô sim de mal, Vó. Você
trabalhou na minha estória de bandida comigo... Não, é exagero, na minha coisa
alguma: me pôs em todas outras quase, ajudada eu sei pelos seus Capetinhas, em
quase todas a minha bondade como sendo má. Contrassenso, falha interpretativa,
essas coisas. Porque sou um Lobo Bom! Pergunte pra mamãe! Mas o que me doeu
fundo foi pespegar-me a inverdade no desejo de comer a Chapeuzinho e os
bolinhos e o Caçador, este como sobremesa. Que indignidade. Apenas, atente
nisto, apenas comi a Vovozinha. Ainda assim mesmo tem duas atenuantes. Primeiro
pensei que ela fosse você; segundo, a fome era tamanha que a engoli, o que me
fez tomar leite de magnésia e chazinhos, tentar arrotar, além de me estragar a
goela (quem pode, pergunto, quem pode de sã consciência engolir uma Vovozinha
tão grande e ossada daquele jeito sem raspar sangrar a garganta!) e por final,
final coisa alguma é o meio, a dor no estômago, aquelas pelancas regurgitando
lá dentro, não existe, garanto, ácido clorídrico que desintegre vovó com três
dias e três noites sem comer! Uma experiência e tanto vivi! O pior (aí houve o
melhor pois veio o Caçador, eu diria canonizando o homem: São Caçador, o qual
me abriu a facão e tirou aquela velha indigesta, porque imagine, Vovó, ter de
vomitar a outra vovó!) o pior... Contudo havia outro medaço pior: e se ela me
fosse para o delgado e o intestino grosso e o temor do reto, da hemorroida! Ah,
desejo que a sua piore, por suas invenções maldosas.
D 2. Vermelho - Ai sou a Chapéu... Me inventou Vovó
o nome Maria. Está perdoada. Não perdoo é minha mãe. Que mãe desnaturada! me
mandando ao deus-dará entregar bolinhos (não invente não Vó, não tinha no cesto
maçã) à Vovozinha. Felizmente encontrei o Lobo Mau que me tratou com decência e
deferência; e olhe andava numa fome braba, tanto assim que engoliu Vovozinha;
não me comeu; se o fizesse eu sairia intacta junto com minha Vó após o facão
certeiro do Caçador. Porém é engano (digo para não feri-la com o vocábulo
‘mentira’!) que o homem me haja tratado com bondade e compreensão. Pelo
contrário, me olhando pedofílico-interneticamente falando... Você sabe que o homem
é o lobo do homem, não sei dizer isso em latim nem sei se foi criação
poético-filosófica de Plínio, sou matutinha europeia ignorante analfabeta. Não
nas coisas de amor! Sim, vi o macho no Caçador me olhando concupiscências... Felizmente
pensava que fosse Mau o Lobo e me deixou em paz. Depois , mesmo
quando rolávamos o bicho ao rio, não fosse Vovozinha para defender moral e bons
costumes... Mas a você, Vovó, perdoo. A ela não, coisa do velho choque
mãe-filha que só Freud pode explicar e não consegue. É isso.
E)Gato e Princesa de Prata
E 1. Botas - Vovó, acho que não me entendeu bem.
Bem. Olhe, tem outro porém, a pronúncia francesa “Carabá”, sou um rococó, me
doeram os ouvidos o seu linguajar abrasileirado coloquial. Não me entendeu:
queria chegar às bodas, ajudando o Zé Bobinho ‘meu’ amo, que no final não me
amava e não me entendeu igualzinho você, pois ele até o mês que vem vem com um
pau destamanhão, inclusive me fazendo perder uma de minhas encantadas Botas.
Aliás não adianta falar, pregar nesse deserto de sua casa agora sem criança!
Sim os meninos foram para a escola, até Aninha foi ao jardim de infância. Não
me entenderá. Somente as gatas me compreendem (assim mesmo apenas durante o
cio). Fecho com um zíper meu item, subitem.
E 2. Princesa Fujona - Fugi sim Vovó, e foi bárbaro,
um barato. Não conto, não se conta lua de mel nem falo sobre o trouxa. Entendamo-nos:
não o trouxa que ia casar com a Maria Canhão, eu já combinara com o Rei Papai
empurrá-la. Ele não entendeu até hoje as Botas, não entenderia as bodas. Falo
agora no Trouxa Encantado. Desencantado, desencantei o Príncipe. No dia
imediato ao casório, documentos passados numa comunhão de bens tudo na ordem,
pintei os cabelos, antes oxigenados em prata, em ouro. Pior , pior pra
mim, meu esposo nem percebeu a modificação, homem não vê as coisas só as coisas
que não vê... não vê, não vê você, Vovó, o Vovô! Além do mais havia junto ao
Príncipe um ajudante de ordens lindo lindo de morrer e... ah, pra quem saiba
ler um pingo não vira letra? assim é, cara Vovó, mais não digo...
F) Os Porcos
Sou
o Vento. Tufo derrubo estrago atinjo ‘medonho’. Deixo três Porcos, poupando o
restante do mangueirão, deixo a porcaria da porcaria sem casa. Ah, arranco a
janela, apenas issinho, arranco somente a da terceira, a do Nhe Nhem. Não devo,
Vovó, não preciso acabar com os Porcos a criar condições aos fazendeiros para
aumentar o preço da carne. A lei da oferta e procura. Não preciso acabar com
eles, tenho meu lugar-tenente faminto salivando: o Lobo Mau. Não sei quem matou
quem, se o Lobo ao Porco, se o Porco ao Lobo, talvez o homem tenha vendido no
mercado carne de porco, uma parte espumando, cachorro sei que espuma... A
caboclada compra e come; duma parte dessa carne decerto não conseguirá fazer
torresmo pra comer com feijão. Contudo isso não me importa, Vovó. Quero dizer,
pois sou demais conciso, quero dizer não haver apreciado sua apreciação sobre
meu poderio, porque sou a excelência na destruição. Sei também que você me
responderá como boa humana: esses estragos é melhor ver na televisão, para quem
envia seus Netos quando está rouca. Tornados Tufões etc.. Quero tão só lamentar
o pouco espaço ao meu espaço no soprar o mundo. Eu no seu lugar, porque sou
modesto, teria antes de derrubar casas de penas, arrasado a vila inteira. Sou o
Vento.
G)Jacaré da Aninha
Bom-dia
Vovó. Fiquei encantado com sua neta, apreciei deveras Aninha! sua graça sua
inocência. Bem, irritei-me um bocado com o fato dela me dar banho. Banho não,
eu quis morder o Pedro por aquele esguicho frio. Poderia na raiva comer a
garota, não é de meu feitio comer gente, só parte de gente, porém achei tão
graciosa a gentinha, que além do mais me contou estória e me levou a ouvi-la,
Vovó, no seu mentirolar e ainda me deu bolo que a Sebastiana fez (ah em tempo:
tinha fermento demais, formou nó lá dentrão; favor adverti-la, hoje em dia as
empregadas abusam; se não resolver, a Tiana tanto tempo sem homem, manda a
fêmea pra mim, meus dentes estão afiados...) Enfim, por isso não mordi a
menina. Agora, não gostei que me haja espremido, criancinha é um bicho desajeitado
e me provocou muita cócega. Ela não lhe disse Vovó, no seu dia de hemorroida,
não lhe falou que eu me ria a valer! Além do mais Aninha me vendo verde, como
poderia suspeitar-me sujo! Isso não entendi. Perguntei sim a elinha; e me
respondeu com a chupeta na boca: não consegui traduzir. Gostaria de saber
igualmente a opinião dos meninos, mas a estória não foi narrada a eles, só
ficou entre vocês três, a saber: ela verde, Vovó e o bonachão seu distinto
esposo. Três não, quatro, porque a boneca estripada ouviu direitinho. Gostaria,
ainda, escutar a apreciação de todo mundo sobre minha pessoa-Jacaré. Vovó, até
mais.
H)Bruxa, Massenet & Cinderela
H 1. O Sapatinho - Que horror Vovó, se ele, falo do
Príncipe, se me descobrisse Sapatão! não podia o bobo ter-me arrancado em forma
de Sandalhinha! Que mais falo? Ah quem deve, deve ser a Fada
.
H 2. A Fada - Fui entendida Vovó, fui? queria ser
boazinha, melhor: ser tomada por boa, boa no estilo ‘no tempo em que os bichos
falavam’. Terei falhado. Pretendi ajudar
Cinderela, iria deixá-la murchar e ser levada por um caipira, sim europeu mas o
lavrador europeu é tão ou mais matuto que o capiau entre vocês. Iria deixar o
bruto levá-la, virar cozinheira dele, de enxada a revirar neves pragas e
beterrabas! e ter filho a cada ano, envelhecer precocemente e enfear enrugar
igual você! Ah perdão, você até uma senhora bela, sobretudo com esse vestido
pregado novo de bolinhas que o velho não consegue enxergar, que vamos fazer
desse sexo falido! Ei, por último me transmita um alô-zinho à Tiana: sua
camisola vai muito bem, embora seja necessário lavá-la mais amiúde ou... Encerro,
porém ainda me lembro: abraços ao Bush, abraços saddamizados.
H 3. A Bruxa - Bem me definiu Vovó, sou, gosto ser, serei
sempre a megera. Posso não comer Saddam e arrotar petróleo, credo em
cruz! Quis papar o Rei, papei; quis papar a Cinderela, o Príncipe a papou ou o
mordomo e isso não é de minha conta; quis elevar as beldades que saíram de
minhas entranhas entretanto aquela prostituta disfarçada de Princesa nos roubou
o Reino do Príncipe. Contudo deu para distrair enquanto durou, como dura a
felicidade! Chega agora, ou remendo e apago, deletando por engano ou por meu
insatisfatório manuseio do computador; até
o mouse o Gato de Botas Siamês papou, não sendo culpa minha.
Poderia lamentar o leite derramado, para ser original, não o farei. A culpa.
Nunca é minha. Chega.
H 4. Massenet - Madame, por favor, não sei que faço
nestas letras bárbaras. Estarei no manicômio errado! assusto-me. Só vejo bruxas
príncipes gatos e reis, até uma, pasme-se! uma virgem, Virgem! Estou sonhando!
desclique-me o pesadelo ou morro de tanto morrer. C’est finis.
H 5. Cinderela - Vovó? ainda acordada... o que
disse, um serrote! Ah, sim, o Velho.
Então falo baixo e pronto. Sabe, enganei o trouxa. Não conte ao Pedro. Como?
não ouvi. Sim, já se foi e os outros netos também, isso? Então falemos de homem
para homem, sem medo ser mulher. Recebi do falecido o Reino, e ganhei o Reino
de meu pai, o Rei, ele deu a conta à Madrasta Malvada, como sabe Madrasta é um
traste que rouba o pai da gente. Mas cá pra nós fui enganada! não, não Vovó,
não me traiu, não conseguiria, era demais romântico, dum planeta que não é
deste mundo. Não traiu. Fui enganada doutra forma: é que ambos reinos estavam
falidos! Isso mesmo Vó-zinha; recebi massa falimentar como herança... Agora me
resta (não existe mais Príncipe a encantar nem Fada pra desencantar) resta
montar uma sapataria, dizem ser ramo que dá dinheiro – venderei sapatinho
sapatão e sandalhinha e aí ganho aquela nota preta. Entretanto não possuo
capital inicial... se você emprestar-me a aposentadoria... Ou que me ajude a
pedir ajuda ao órgão da SEBRAE mais próximo. Já sei, Vó, o que me responderá:
vai pedir dinheiro e conversar com a nora, a que fugiu com o Sr.Serviço da
Silva. Então adeus.
I)Leão e Rato
I, 1. Míquei Máuse - Sou eu, Vovó! Estou de passagem,
minha santa mulher, não por sofrer nas mãos do cigarro de Vovô; santa por haver
descoberto minha capacidade na arte do heroísmo, onde mostrei talento no
roc-roc, soltando Bush, foi Bush? talvez Saddam, não sei
bem, um grande rei da floresta. Ah, minhas recomendações ao menino Pedro, por
ter aventado possibilidade de me casar com a filha do rei e herdar a floresta
de petróleo inteirinha; agradecendo mais uma vez sua boa vontade e clarividência,
Vovó, lembrando a possível fome da noiva, como a aranha a comer o aranho, tadinho; e tadinho de mim,
por mim escolhendo uma rata, dessas que ficam cheirosas no cio de minha terra.
Olhe aqui Vovó, sigo os parâmetros nacionalistas de Mestre Macaco – noutra
estória queira me chamar MOUSE. Certo? ok? Em compensação teclarei
Zaldira corretinho para ver bonito na tela do computador. Combinado!?
I, 2. Leão - De minha parte, Vó, tenho comigo que não
deva agradecer nem com queijo a um suditinho de meia-tigela, por haver roído a
corda da rede da armadilha. Veja aqui olhe, meu muque! romperia as cordas! mais
ainda, comeria os caçadores (e não seriam os primeiros...) Quanto à sugestão do
fedelho seu neto, não daria uma legítima princesa para quem não de sangue azul.
Saiba, Vovó, ou você ficou gagá ou não sabe, por ignorância, sou o Rei da
floresta! Bem. Não exageremos. Acabaram com a floresta, puseram no lugar o
Simba Safári, o Zoológico e, pior: o circo! Meu Deus, quanta humilhação. Agora
é a república, a democracia, o feminismo... que horror, a ex-Rainha passa o
tempo a se pentear e a cuidar de seus direitos. Sou um Rei falido, Vovó, sou...
buaaaaaá (me empreste o colinho, divido com Ana e juro não comer sua neta,
aliás tem olhinhos verdes maravilhosos!)
J)Lebre e Tartaruga
J 1. A Tartaruga - Ainda bem, Vovó, seus moleques não me
chamaram cágado. Não apreciei sua apreciação na apreciação que fez sobre mim,
nos escritos narrados. Quer me parecer que lhe pareceu que não tive méritos a
vencer o bicho mais veloz da floresta. E você mesma, Vovó, confessou a minha
vitória! incontestável, a bem da verdade. Ponho aqui mais um ponto em argumentação:
venci a Preguiça. Portanto passei por dois adversários e fiz jus à premiação.
Em todo caso você fez o que podia, agradeço de coração.
J 2. A Lebre - Vó, tenho uma pequena reclamação a fazer-lhe.
Porque no seu texto me encaipirou denominando-me ‘preá’!? não; fico mesmo
contente por saber desse primo matuto, quem sabe se não me convidará um dia a
pescar no corgo, com umas e outras cachacinhas. Não, não me ofendeu. O que está
(observe o tempo verbal, continuo a pensar como quando numa fraude me tomaram o
prêmio, ofertando a consagração àquela lesma cheia de cacos emendados em cima
do intestino abarrotado de...) que está errado é a errada atitude de vossa
excelência, Vovó; não me acordando a tempo! Precisava apenas cinco minutos e
ainda passava da pasmada. Custava, tendo um circo inteirinho de netos brigando
e coçando piolho, custava, dizia, me mandasse xeretar unzinho deles! qualquer
menino adora pedra em caixa de marimbondo em cachorro preso em santo em vidraça
do vizinho, qualquer me atiraria um não sei que me acordando... A frase
seguinte é muito original e inventei agora: agora não adianta chorar o leite
derramado! Essa é a minha reclamação. Reclamação ou protesto! Demais tudo bem.
Ganho a próxima, pois o que vale é competir, qualquer futebolista ou
politicalho sabe a sobejo. Chega. Tchau, Vó.
L)Raposa & Cegonha
L, 1. Raposa - Tem razão, Vó, não adianta.
Depois que pisamos na bola ninguém passa mais a bola; ninguém acredita! Eu
tinha boa vontade; apenas gosto de fazer umas gozaçõezinhas, então pus o prato
raso para a comadre almoçar. Não foi de propósito. Foi o prato, foi a
brincadeira; agora, rir-se dela na hora do bicão querendo pegar o caldo... ah
se você estivesse lá no momento, se esborracharia de rir, ofendendo sua hemorroida.
A propósito, melhorou? Vê como sou gente boa, dessas que se preocupam com os
amigos! Enfim... Agora, a vingança, está na sua estória de minha vida, a
vingança chulinha da comadre eu não gostei: achei a atitude de uma baixeza sem
tamanho. Um dia que for novamente visitá-la (e não será numa festa, não caio
noutra, sabe, Vó, sou esperta) um dia vou provar suas uvas, talvez não estejam
mais verdes. Aguardemos, aguardemos.
L 2. A Cegonha - O que foi que a outra disse... está do
lado dela, Vovó? Que feio, que exemplo uma velha experimentada e sensível dá
aos netinhos! Não sabe o quanto sofri e não levei, pois não engoli nadinha da
sopa feita pela safada. Quanto à minha festa não teve conotação de vindita. Sou
ingenoide, não má. E deveria ser má, má como a Bruxa Má, não é que o
bicho-homem decretou meu desemprego... Antigamente eu levava (somente uma vez
derrubei lá do alto, não sei se Bush ou Saddam Hussein,
talvez Bin Laden) eu levava os bebês diretamente às casas e apenas umas
duas vezes o pai não aceitou e mandou entregar a encomenda no vizinho, sempre papai
e mamãe direitinho queriam o carregamento, conferiam a nota fiscal, reclamavam
sim do imposto um roubo do governo diziam, carga essa que havia me dado um
trabalhão; quantas horas não tive de trocar fraldas dar mamadeira meio azeda no
meio do caminho aos nenês! Isto posto saiba, Vó, fui prejudicada, como disse,
pelo bicho-homem: inventaram por aí a porcaria da maternidade e pílulas para
evitar criança, enfim me desempregando e à parteira matuta que ia a cavalo espremer
a parturiente. Pretendi até bolar com ela uma associação, a Associação em
Defesa do Nascimento Natural, o meu seria o setor de transporte; a parteira não
aceitou o alvitre, essa gente é sempre desconfiada. Bem, fica registrado o meu
protesto!
M)Cigarra e Formiga
M 1. Tabaco - Coch coch coch ai que tosse! não
aguento a ação da emulsão da Tobacco Company me grudando lá dentro meus
pulmõezinhos com a fumaça expedida de Vovô, como suporta você, Vovó! Não
precisa resposta, a gente já sabe de cor e salteado: ele não para, para um dia
e só para no cemitério; mas tem carros de razão pois quem bebe morre quem não bebe
morre... não é por aí? Cheguei aqui cansada com tanto peso carregando peso e a
fumaça só me complica mais. Mais não devo falar, porém advirto Vovó: ele fuma
até dormindo roncando e aí, não queima o colchão! Não é de minha conta. Desejo
apenas agradecer por compreender o meu e o trabalho das manas a encher nossa
despensa com as folhas. A cigarra não entendeu? Que entenda a esposa do
Sr.Cigarro um dia.
M 2. Cigarra
(alminha dela) - Puxa, como canto belissimamente! não acha, Vó? Quer
saber um segredinho, você é mulher apesar de perder essa virtude pela idade na
sua Terceira Idade, mulher aprecia segredo, não é? tenho um quentinho, mas não
conte aos seus netos, eles ao grupo escolar e aí não tem vazamento que aguente.
Pois bem: não morri de fome só para dar lição de moral em gente. Perraut ,
Grimm e seguidores como La
Fontaine não têm razão – gosto de cantar! e então me
esqueci, cantando, de comer. Que pena de mim, era uma ária belíssima. Era.
N)Os Bichos
N 1. João - A sua bênção, Vovó. Obrigado querida e
compreensiva senhora haver-me finalizado em plena felicidade como Príncipe
Encantado, gozando o gozo da Princesa Maria! Vovó poupou-me a poupança, o
trabalho, a dor e até o desemprego; traições, egoísmos e fofocas de parentes e
vizinhos, todo mundo acorde em concordância na felicidade. Obrigado, Vovó.
Deixo-lhe como lembrança uma lembrança de minhas pedras, das que deixei
inteligentemente no carreador a fim de acharmos a volta! Poderá pô-la como
bibelô no armário ou na estante junto com outros enfeites! ah, não na porta da
geladeira grudada com selinhos e lembrete de quando vence o gás, mui cafona e
besta. Quanto aos enfeites, de fato, há o fato, ou possibilidade, de Dona
Heloísa ser chutada pelo amante que a semântica atual apelida ‘namorado’ e
você, Vovó, chama “serviço” a inexplicar aos de fora; e assim sendo volta ela e
vai reclamar da feiura da beleza de minha pedra e do mau gosto na posição. Nesse possível, Vó, fica autorizada a usar
meu presente para atirar, assustando, ou Vovô ardendo fumaça ou o garoto
vizinho trazendo vira-lata, mas cuidando Vó-zinha não atingir Luana, não só por
ser ‘muiéi’, por ser uma gracinha. Ah sim, pedra se atira também no santo,
porém não vi nenhum na sua Vila. Isso é como falei a sua lembrança de minha
lembrança, João, o João de Maria.
N 2. Maria - Tenho uma reclamação a fazer... ah sim,
perdão, não, não dormi com vocês e se o fizesse como Aninha quando acorda com
medo noitona, como a Ana mijaria nocêis; sim não dormi, esqueci-me: bença, Vó!
Mas tenho reclamaçãozinha a fazer. Seguinte. Ninguém mais quer ser Maria, hoje
em dia, que rima! que rima por sua vez com porcaria. Não me invente inventar de
novo com apelido comum. Agora a moda é pôr nomes estrangeiros, desses que tem na
novela das oito. Não acha justo. Assim tolerarei ser de fato mulher como era a
mulher antanho, de abaixar a cabeça e ser parideira, mesmo porque João virou
feliz, por seu engenho e arte, Vó, e, aí, tem numerário à beça para sustentar
um exército infantil. Que mais digo? ah beijos, lembranças, à plateia e ao
radinho de Vovô. Pode, pode dar beijos também no Vovô. E na Tiana, em não ser
que possa ela chamar-se Maria Sebastiana, neste caso suspendo a sugestão, dando
apenas um abraço cerimonioso na cozinheira.
O)Músicos de Bremen
Se
os Meninos não houvessem ido à aula indagariam onde fica Bremen, Zaldira
respondendo à Aninha: “é depois da padaria” aos outros não sei, diria talvez
ser na Europa com neve e maçã pra valer, não: Branca de Neve não tem mais,
houve duas Grandes Guerras arrasou a Alemanha e a princesa e o príncipe se
bandearam para a América, outro lugar distante do Brasil e mais longe que a
padaria verde. Contudo tem muito músico ainda lá nas ‘Oropas’ França e Bahia.
Inclusive o Macaco e o Papagaio já sofrem deles influência, ‘gringam’ ora tenor
ora barítono e suas esposas de soprano. Tem sim. E ladrão. Isto tem, não tem
jeito, é um bem milenar a assustar o planeta inteiro. Enquanto que nós os verdadeiros
Bichos-Bicho, em oposição ao Bicho-Homem João, da dupla João e Maria, nós
ganhamos foi uma aposentadoria ‘poupançuda’ para o resto de nossos dias. Se
fôssemos matutos brasílicos, o dinheiro sequer daria para remédios aos nossos
achaques de bichos velhos. Do grupo musical livrou-se o Burro a virar salsicha
na terra da salsicha como prêmio. Caso morasse no Brasil morreria ou de recheio
na mortadela ou de salário mínimo ou de aposentadoria com falência do instituto
previdenciário. Os outros Cantores andam todos felizes pelo resto da vida,
segundo a verdade avó. Na terra de Vovó o Cão teria uma vida de cachorro, o
Macaco seria discriminado, sendo necessário até certa lei para garantir minoria
entre a minoria rica universitária; tudo isso no país onde tudo em se plantando
dá, deu no que deu. Optamos pela verdade avó, mais uma vez digo, e não me
identifico, que não sou besta, como porta-voz. Enfim optamos, ou cantaríamos
desafinados a chatear.
P)Lobo na Pele de Asno
Basta.
Digo basta, sou a Pele. Lógico, não a do Cursio Malaparte. A Pele que
caiu na asneira de apodrecer na estrada, feito um Asno. Basta, falo basta de
tanto Lobo Mau nas estórias dessa Velha Caduca. Além do mais inculcando nojo do
perfume exalado, o que posso provar com milhões de moscas a boa fragrância, um
princípio democrático: a maioria tem razão. Vesti condignamente o Lobo,
vestiria a Raposa, mais esperta, se preciso. Conscientemente. Vestiria até as
Ovelhas, não me pediram. Agora, naquele ontem, Vovó, naquele ontem não ficou
bem sequer decente eu receber primeiro que o Lobo meu amigo as cacetadas
daquele porco, o homem. Pior, o porco do Homem-Pastor me fez tapete persa para
limpar à entrada do seu casebre os botinões enlameados! Pode? Basta. Vovó-Gagá,
basta de asneiras. Ah sim, lembro-me, não vim dizer isto apenas, vim
‘personagizar-me’ como seu desafeto... Bom ‘sono’...
Q)Trio Elétrico
Q 1. Sou Avestruz - Sou, meu componente energético
anda enfraquecido, não falo, mudo, falo gringo australiano deturpando decerto o
inglês da Rainha. Calo-me aos fogosos.
Q 2. Macaco - Macaco não fala, só ao tempo em que os
bichos falavam. Não falo, pulo de galho em galho, bom operário nacional; vez
que outra caio do galho me espatifo no desemprego e arranjo subemprego para não
matar macaquinhos de fome. Fome não mais tem, tem Lula. Quá-quá-quá. Agora chega,
já disse muito quem não fala, fala agora o Papagaio.
Q 3. Sou Papagaio - Que importa me chamem vez por
outra ‘Mulata’, mulata dá o pé; sou muito ‘Louro’ dá o pé, né Vó? Nós nos
saímos mal nas nossas ‘desbravanças’ patrióticas. Especialmente agora que uso-abuso-costume
fizeram o sete de setembro virar quatro de julho; que me diz desta tirada hein
Vó! Patrióticas sim. Todavia valeu a intenção. Se não houvessem boas intenções
não haveria Inferno! e por extensão São Diacho onde pôr!? Lutamos pela pureza
racial brasileira, mas o que existe de nacional? O computador da Internet,
a globalização. A rigor não passaríamos da surra no Avestruz, aquele gringo
esperto pra burro a enterrar inteligências. Contudo, Vó, penso agora naquele
agora do faz de conta, se não acabaríamos amigos do sonso! Amigo se faz com uma
boa conversa, que eu, Papagaio da Silva, tenho muita. Perdemos. Ganhamos
ganhando este espaço na estória de Vovó e com destaque nestas suas Conclusões
Surrealistas ou Consumada Loucura. Por isso agradeço, Vó, agradeço em nome dos
três, ou seja o Macaco o Avestruz e xi... onde ando com a cabeça, esquecido,
falta um no Trio... ah sim, eu o Papagaio, Louro, ‘Mulata’ Mulata? é a
vovó-zinha. Vovó, tem mais um porenzico. Aguarde no fim do ano, mandaremos um
cartão de Natal de boas festas com gelo e Papai Noel, tudo no maior estilo, bem
brasileiro.
R)Vovó-versus-Vovô
R 1. Vovô o coadjuvante - Acorda, Zaldira, você está
se sentindo bem, quer outro comprimido daquele? Devo pôr o travesseiro calçando
melhor?
R 2. Vovó o bicho mais importante - Não estou
dormindo, homem. Relembro apenas as Estórias que narrei aos nossos Netos, isso
para não ficar só pensando neles.
R 3. O Sono ou Sonho ou Pesadelo - Vovó, já anda
falando sozinha!? ou a ‘ventriloquar’ estórias, pois falam bichos; bichos não
falam, falam netos, falam vizinhos, falam os que falam, falam os que não falam.
Falam. Ou apenas sugerem... o galo canta, o vento assobia, a chuva molha, os
outros ressonam e roncam, o mundo gira, a vida prossegue – o que mais pode fazer a vida?
Marília fevereiro 2003
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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