segunda-feira, 23 de março de 2020

Vovó conta Estórias


049(postado no Blog Livros Inéditos)







 V O V Ó

                                  C O N T A

                               E S T Ó R I A S

                                  
                                                         (romance)
              
                      Moacir Capelini





















moacircapelini@gmail.com


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                                               “Dizer a verdade, está bem, mas toda,
                                                            não podemos, não devemos.”
                                                                          Gabrielle S. Colette
                                                           -  -  -    
                                                                                                      
                                                           “(...) avançavam passo a passo e a cada
                                                            passo o horizonte recuava um passo (...)” 
                                                                          Simone de Beauvoir





 Esclarecimento Desnecessário
                             
           Ponho isto para o Futuro divertir-se. Chorei. Já manuscritei; e antes disso havia concebido e planejado esta obra, literalmente obra... Manuscritei critiquei datilografei critiquei digitei critiquei imprimi provisório; critiquei melhor a rever para reconstruir a obra – e critico agora para novamente digitar e criticar mais uma vez; então imprimir definitivo (existirá o definitivo?) à publicação. O livro vai em linguagem coloquial, muito mais próximo do povo, o autor é gente do povo. Desejo ao Leitor boa leitura.










































1o.Prolixólogo do Introito

          Os séculos que se foram os séculos que estão passando os séculos que virão, caso o mundo não acabe, o tempo enfim cheiinho de anos e milênios, ora com luz a se contar anos-luz ora não se pondendo contar, portanto a escuridão e aí não tendo cegueira que possa ver; o tempo passou passa passará e a perenidade das estórias da Carochinha é um fato consagrado desse mentir, vestindo-se belissimamente às vezes o esqueleto que perdura na Humanidade, tal como o Gato de Botas a Bela Adormecida o Chapeuzinho o Pinóquio e mil outrinhas, mil que não abrange talvez umas cem delas. Contudo encantaram encantam e possivelmente encantarão as gerações jovens, não como no dizer a faixa dos oito aos oitenta: a etapa abarcando os dois aninhos, já interessados nas coisas não muito inteligíveis, até os cem anos e um pouco mais, caso o velho se torne criança outra vez, tendo aqui um porém – o de o grupo com mais de cem não interessar ao mercado livreiro porque idoso quase não compra.
          Mas pera lá, tudo isso para dizer o quê?
          Ora, que vamos iniciar um contar.
          Justo. Todavia é necessário falar tanto e nadinha dizer!
          Está bem. Eu diria no meu coloquialismo “tá bom” a encerrar papos indesejáveis. Tá bom.
          Então comece a narrativa, pô.
          Bem. Aceito o alvitre. Antes é preciso contar o que se contar. Não, não me interrompa ou não conto o que contar:
          Temos um velho de menos de cem anos, ainda reconhecendo o vulto sentado rodeado por todos lados mas não é ilha, é sua digníssima esposa, vovó, a água em volta não é água são os meninos, netos bisnetos tatatatata (só mais um ta) taranetos e agregados bastante, crianças que estão rodeando aquela boca maravilhosa de figurar estórias; tanto assim a tevê desligada ou falando sozinha, os brinquedos espalhados igualmente sós tadinhos, e não chove lá fora espantando para dentro em fuga as crianças, elas a macaquear; tem sim ao redor da residência gradil e cadeado e chave. Vovó, ah a Vovó.



2o.Vovó

          Vovó devia ser a lua, é o sol nessa mixórdia que é reunião de mais de uma criança, criança grita bole implica exige atormenta pega toma teima esperneia grita de novo. Mais de uma é uma questão matemática com desejos pra não se errar no vai-um e se multiplica isso pelo número de menino, dois no caso em exemplo mil e um no extremo, porque se sabe não haja número maior que mil e um. Juntas as crianças apenas brincam e brigam ou brigam e brincam deixando a briga posterior aos adultos. Isso tudo com uma Vovó no meio, aqui vindo uma dispersãozinha a tratar o seu centralizar.
          Vovó é enrugada e mede uns vinte por cento menos de quando jovem e bela e o Vovô era um garanhão sentindo ciúmes do vizinho e das visitas por causa da gostosura que ele tinha na casa; vinte por cento; enquanto não passava ele de um e sessenta; pondo a culpa nos saltos dela ela a ficar cinco centímetros a mais vendo altão o marido ali embaixo mas ele se considerava macho demais para tanta temência.
          Agora ela tem base consciente do seu poder e da sua posição, oposição da oposição macha, sem exageros vernáculos. Enruga na pele amolece no caminhar porém enrijece por dentro e cresce por baixo da pele cansada. E ainda é muito mulher, mais que a oposição supõe. A oposição:
          Grrr, diz para não dizer que dizer e ajeita lá suas coisas, mexe a palha, gosta de corda, chupa chupa traga apaga acende outra vez fumaça o derredor e nada fala, grunhe.
          Fala a Vovó, fala Vovó a um personagem inexistente como os que inventa ou toma aos livros, ou na pior das hipóteses ilustra a dar brilho nas estórias, fala olhando de esguelha a oposição, vendo os meninos ali rodeando mas para ferir o esposo – esse velho porco! Um menino: quem Vó? Ela: essa porcaria; cada menino olha outro para ver melhor a porcaria e ela corrige esclarecendo: seu Avô, esse aí. E mostra de beiço. Um beiço fino pálido nem o batom ‘despalidando’ o ressecado que a linguinha corrige todo minuto com saliva escassa e bafo afogueado. Tosse.
          Ela tosse, tosse ele a se dizer presente na chamada que a vida faz todos dias e dá conta na falta de alguém que vai para os destroços do arquivo morto no quarto de despejo das autoridades competentes.
          Tosse. Ela olha para seu lado e isso é um mundo do mundo que passou. Os meninos:
          Conta, Vó!
          Conta do cavalo. Não, da moça; não, do anãozinho; não, daquela princesa; não, do galo; não, da... Nada disso, fala a Velha, pensam que sou trapo a me submeter a todos. Nem posso contar tudo a todos, a todos duma vez. Ordem, disciplina. Prometo narrar a mais bela! Palmas, asserenam, fecham a boca, abrem olhos, arregalam ouvidos, uns querem tanto que pretendem xeretar o cheiro dos meandros da estória. Ela sorri vitórias, mais uma vez olha o marido pitando aquele fedor raspando goela como fora ele o contador, tossindo desesperado o veneno de fabricar câncer. Volta-se a mulher aos netos, sorri pela ansiedade, a Aninha já lhe gruda em costume à saia, quer mais: quer colo bolinar pegar nos cabelos brancos ver se da princesa de cabelos negros e fita vermelha. Sobe mais, mexe no broche da Vó, trepa ainda, puxa o vestido no que sobrou do seio, olha o reguinho e a escuridão lá dentro e indaga o que é isso?
          Vovó também ela a raspar constrangida a garganta diz bem alto.
          Isso é... o Velho grita de lá:
          Pasteurização desativada.
          Os netos olham para si sem entender. A Velha responde malcriadamente:
          Homem pornográfico!
          Ele sorri, vai reacender a bituca da palha, quase a lhe queimar os beiços, quer aproveitar o restinho a melhor se suicidar e não fala, grunhe seu grrr...
          O público volta-se à Vó. Ela pede não sei que, trazem-lhe o xale. Se ajeita. Dá uma ordem, apagar a luz dos quartos, é preciso economizar não esbanjando energia. Espera, voltam na expectativa; vai começar a rotina, que é o ato de continuar as coisas.



3o.Os Oito Anões

          Hoje, diz Vovó, é segunda-feira não é? Bem, no dia santo da preguiça veremos os Oito Anões e a... Então lhe cortam a palavra criança não espera, por que é santo por que preguiça, ela dá o exemplo e fala baixinho nessa hora para mostrar o esposo, exímio na arte do trabalho e o trabalho que deu a ela, eleva a voz: então os Oito e a Princesa que se chamava... Interrompem outra vez, agora a Joana: por que oito se sabemos que na estória é a Princesa e Sete Anões!
          Calma meninos. Sim tem razão a Joana, sete mesmo. Mas sete é conta de mentiroso, que não vai passar de sete chegar a setenta e sete e nunca ultrapassará mil e um. Em segundo lugar, minha gente, são de fato Oito e não Sete. Indicou alto o Velho ali baforando o radinho de pilha, alto pra burro por ser meio surdo, caso não desejasse ouvir certas coisas; olhem o Oitavo, ela olhando de biquinho os meninos vendo, os novos dos mais novos interpretando mesmo o Avô e não entendendo e os mais velhos dos mais novos vendo além do ver, rindo. Prossigamos.
          Como eu disse a Princesa Branca de Neve... Cortaram. Realmente crianças, falei sim, falei baixinho. A Branca de Neve foi encontrada no gelo e... Vovó, gritou fino Ivone, como foi posta na geladeira se não cabe!
          Quem falou na geladeira! Aqui é sempre quente e em julho aquele friozão sem neve, na Europa não é assim, cai gelinho, farinha de gelo por cima da gente muitas vezes e a Branca por isso estava no gelo.
          Pera lá Vó, bica Américo, ela branca por causa do branco do gelo? que não é branco, já vi, a gente vê do outro lado...
          Tem razão garoto, tem razão, é transparente. Aí teve de explicar transparência, o porquê da brancura, caiu na besteira de comparar com o azul do planeta, a gente não vendo perto azul, e perdeu até a hora do almoço que nunca tem hora na hora de contar, prosseguir, até se cansou e ‘ufou’.
          Vamos continuar. Onde estávamos...
          Na Princesa, Vó, nos Sete que viraram Oito com o Vô... Agora ela quem corta “fala baixo”, a fugir dum possível entrevero. Está bem, já sei. A Princesa Branca de Neve andava desacordada e... Cortaram:
          De que jeito andava se dormindo! fala o Pedro, só sendo “sonambra” como a Tia Lita, era “sonambra”.
          Não meu filho. So-nâm-bu-la, é assim, sim? não não era sonâmbula é que... Aí não deixaram, teve de explicar a tia sonâmbula e ficam encantados com o fenômeno de milagres tão interessantes dando um medinho na gente de acordar andando e esbarrando na casa de noite e se se encontrasse o capeta ou uma assombração! e daí a Aninha esboçou choro olhos meio arregalados sendo verdes os olhinhos, isto senão. Acaricia elinha e ia retomar, vieram avisar a boia, era assim que falava sempre o Velho toda hora cobrando: “hoje não sai a boia nesta casa?” Uns querendo continuar a estória da Neve outros com uma fome sem tamanho, que no frio daquele calor dá uma bruta vontade de comer, expressão também do Velho, o qual apagou a economizar a bituca pra depois, antes a refeição. E segue a correria a tomar melhores lugares à mesa, os de fora, agregadinhos da vizinhança amiga não sabendo se correm à festa se voltam pra casa a tornar outra vez aos Sete Anões que eram Oito.
          Vovô bpuf! Vovó ‘sonolenta’ o almoço toma como prevenção os comprimidos; ele não, bpuf dorme na cadeira fazendo bolha que vem do estômago e é certeza dirá “dormindo não, mentirosa, descansando” ela olha desde a poltrona também cansada na sala que serve de refeitório e nunca chegam a acordo, ela aguarda esperando a netalhada a ouvir seu contar Anões, Sete na conta de mentiroso, sete não, Oito.
          Se achegam matracando, ela adverte: vocês precisam se entender no desentendimento! Se olham, Aninha coça a Vó a se coçar e quando vê vê a Vó ela dormindinho. Todavia isso não impede a cobrança dos outros e Vovó continua.
          Então a Branca de Neve escorregou na lisura do solo e ‘trebóf’ caiu, desmaiou. Tadinha dizem vozes. Daí vieram do trabalho os sete anões, pararam, pera lá Vó, você falou Oito agora são Sete, morreu um? Não, engraçadinho, fala Vovó, mostra de beiço alguém fazendo bpuf na cadeira “descansando” e retoma: os sete pararam mas aí um deles, sempre encrenqueiro igual o Pedro (o Pedro sorri amarelo) não queria ele parar na estrada e se chamava Zangado. Bateram palmas, os desafetos domésticos já gritam atrapalhando a atrapalhação da Vovozinha à referência Pedro Zangado, o que deu início de tumulto, a Velha dando um basta bastando dizer “aí a Princesa...” todos querendo saber.
          Aí a Princesa não acordou. Os pequenininhos, tinha um gorduchão deste tamanhinho (e mostrou Ana dormindo) esse sendo muito engraçado e amigo. Propôs o gordo que se levasse a moça para casa deles, para não sofrer frio. Zangado deu contra. Dunga, outro deles, insistiu que levassem aquele fardo bonito a morrer tranquila na casinha deles.
          Era pequena, Vó? reclama Antônio.
          Pequena assim... digamos coubesse apenas: Aninha, Joana, Ivone, Tereza, Maria Helena, Américo e Chiquinho. Os outros ficariam de fora, de tão pequeno o lar dos Anões! Escolhi para entrarem os menores de vocês, os grandes só uns quatro... Imaginam aquela ‘pequenura’ de residência, a narradora aguardando a caminhada da imaginação infantil, ficando a sorrir enquanto não voltavam do faz de conta. Voltaram, quiseram saber como os anões carregaram aquela gostosura, onde pegaram, os mais menos pequenos desejando esclarecimento se não abusaram pegando nas partes moralmente incorretas, a Vó respondendo como soube. Ia pôr já a Branca de Neve lá dentro e tudo o mais, iniciam a baderna, briguinhas costumeiras dentro da plateia a treinar para virar adulta. “Ele fica me empurrando!” outro grita a outrinha: “piolhenta!” e assim vai. Não vai. Vovó faz cara de poucos amigos, Vovô acorda do descanso olha todos lados e se preocupa por estar só naquela área quieta demais, todos a se olhar tentando interrupção que já existia, da estória, olhando o Vô a fixar os outros sorrir e tomar o binga acender a palha do cigarro. Então Vovó sorri, indaga onde parara e todos sorriem.    
          Quando a Branca de Neve acorda... Daí gritam felizes: não tinha morrido! Não, suas burras, elogia Pedro às manas e primas – como acordaria se estivesse morta!
          Continua Vovó. Olha em volta, achando uma gracinha o ambiente. A Moça começa ver as coisas pertencentes aos Sete Anões, não me falem mais em Oito já expliquei o besta do Oitavo onde está... os Sete tinham ido ao trabalho e cantavam “eu vou eu vou, para o trabalho eu vou” ando um pouco rouca, antigamente eu era um rouxinol a cantar e (aí o Velho gargalha e ela fica com raiva mas prossegue:) Ah diz a Branca, que cadeirinhas, contou sete, que mesinhas, ah os pratinhos os garfinhos os peniquinhos uma gracinha! Então... então voltaram os Anões.
          A meninada grita, o Pedro deseja interromper a Vó nesse apaixonante momento; e assim interrompe de vez a Vó.
          Esperem lá, crianças, não briguem. Viram? os gritos acordaram Aninha. Aninha mostra aqueles olhos verdes que daí uns dez ou doze anos iriam escabelar os moços casadoiros aptos à conquista amorosa, agora só os arregala a perguntar à plateia voltada para si e então vê a Vovó salvadora, procura e é carinhada pela senhora, indagando com os verdes onde foi parar os Anões e a Princesa. Vovó acode prontamente:
          Então filhotes, a Branca de Neve examina os trenzinhos de cozinha e é pega desprevenida pela chegada dos proprietários da casa. Ooooh! disseram sete vozes e a Jovem desmaiou de novo de susto!
          Naquele tempo hein Vó, mulher desmaiava à toa...
          Sim, mais ou menos, Chiquinho. Mais ou menos assim. Já sei que irá me perguntar por que hoje não é tanto. Digamos que o sexo frágil ficou mais forte, endurecido no trabalho e já não pode contar com o homem, sempre ocupado (olhou a oposição fumando parecença chaminé) a descansar... do descanso porque descanso cansa (olhou de novo e a chaminé fez um muxoxo de domínio apenas particular).
          Zangado... (tremeram medos os assistentinhos) Zangado queria tirar satisfação com Branca de Neve por mexer nas coisas alheias...
          Que é ‘alheias’ Vó. Explica alheia explica outros inexplicáveis, Aninha se achega melhor ao colo, ela continua:
          Agora então os Sete Anões encontram-se espantados e indagam e nem esperam resposta e já perguntam mais, parecendo vocês aqui... A Moça não sabe para quem responder primeiro e os Anões se reúnem numa assembleia (explica tim-tim por tim-tim assembleia à assembleia ouvinte) e debatem a situação da novata, intrusa na opinião de Zangado, o qual deseja a expulsão da Bela.
          Era muito bonita, Vó? quer saber João.
          Vovó descreve a beleza dela segundo o padrão de beleza como vê a beleza uma mulher, mulher embora passada. Pedro faz perguntas e quer o prisma macho, ela se constrange e o Velho parecendo alheado não estava desligado e aí cita a miss da época, mentindo melhor que a esposa: conheci a Bela! Vovó desmente o desmentido, o fuá se estabelece e o telefone trina o paradeiro daquele início do fim dos tempos.
          Alô.
          Vem Américo dizer que é mamãe. Vovó se levanta gemebunda, corre a lerdeza para atender o fio e volta às crianças, aí senta-se com tanta envergadura quanto a que teve ao se levantar e correr para o fone, suspira um ai e é obrigada a contar: mamãe tem serviço até mais tarde, não vem hoje, quer dizer – vocês já estarão dormindo quando... Então o Pedro:
          O tal serviço é aquele namorado dela?
          Cala a boca, pois não tem nada que ver com sua tia, diabinho.Voltemos à estória da Branca de Neve, não querem?
          Grito uníssono. Está bem, continuo. Sim, Aninha, os Sete Anões também, está bem Tereza são Oito o Oitavo... Deixa pra lá. Aí decidiram que a Princesa ficaria; combinaram que ela seria a empregada doméstica deles. Está bem, igual a Sebastiana mas vocês precisam definitivamente parar de responder mal para ela...
          Silêncio! constrangedor, continua.
          A Branca de Neve fazia comida aos sete e... Fazia abobrinha? fazia arroz? Quiseram saber se gostava de batatinha frita e bife, Vovó tenta explicar a boia, insere o chato Zangado que não gosta disto não quer aquilo reclama do sal exige mais pimenta e aí a molecada quer bater no Zangado e assim ninguém escuta a Vó pedindo silêncio e paz; Vovô pita bufa alevanta mais o volume do rádio e está em vias de gritar os gritos, a Aninha escorrega do colo e vai fazer e volta correndo para não perder nada, o Pedro cobra dela não ter dado descarga, logo agora que se asserenavam e a estória andava ameaçando prosseguir.
          Então, diz a Velha, a Jovem fica varrendo a casa, bolando um arrozinho com feijão torresmo e batata porém eis que... tchã tchã tchã...
          Olham o faz de contas contando as contas do imaginário, abrem a boca com sabor a imprevistos, até alguém abaixa o rádio enganando desejar ouvir mais a bola que a Neve. Ela conclui o recomeçar: chega a Rainha Má!
          E foi um disparar, um descer a lenha na maldade que iria perpetrar o ser diabólico, não sabendo bem quem fosse ele. Nisso deixaram-no em trapos, implorando misericórdia, misericórdia essa que desferiu-lhe Vovó:
          Calma garotos,  não é assim.  Ela chegou em paz. Vinha então com um  cesto de não sei que a vender para a Gata Borralheira e...
          Ei Vó, não é Branca de Neve!
          Sim, Branca de Neve que ia exatamente olhar a cesta com ‘nunseiquê’.
          Pera lá Vó, tem um homem todo dia aí na frente querendo empurrar manga podre para a Sebastiana pra dar dor de barriga em nós.
          Não senhor, Pedrinho, não se tratava de manga, maçã, na Europa só dá maçã pera e neve. Quiseram saber patins, apenas dois netos apreciando pera e Vovó não foi na conversa deles: maçã, pronto. Vocês me enlouquecem. Então Vovô gargalhou, ela bufou o gargalhar do marido e ele dizendo rir-se do jogador no rádio, ela acredita para poder continuar a estória:
          Quer dizer que comprou uma maçã... exatamente, meu filho, escolheu bem uma, pois poderia andar bichada. Imediato berraram: “maçã anda!”  “ah que burra, o bicho que andava, não é Vó?” Não, sim, ai! Eu disse ‘andar bichada’ como forma de expressão, andar aqui é estar, estar bichada, entenderam; sim o bicho anda de verdade e fura a fruta. Aí pegou a fruta... ora, é claro ser a maçã, não estamos falando que a vendedora trazia maçãs! Não era a “Véia”? Menino, que expressão horrível, mesmo em se tratando da mulher má. Vocês não me deixam contar.
          Quietude e conscienciazinha culpada. Vovó retoma:
          A Menina pega a maçã e põe na boca... meu Deus do Céu, assim não dá Tereza, é claro põe na boca pra comer e Menina que trato aqui é a Branca de Neve, aquela que arruma a cozinha e a casinha dos Sete Anões, sim Oito. Mas...
          Mas... a fruta encontrava-se envenenada!
          Não, Aninha, não chore, só provou não morreu. Caiu desacordada e a Bruxa Maldosa que era a Rainha num disfarce como vendedora e olhava no buraco da fechadura para ver a queda... sim filhinha, é coisa feia olhar na fechadura, então ela viu a Princesa cair trebóf! no chão e gargalhou numa alegria imensa!
          Pera um pouquinho, diz Maria Clara. Por que alegria. Vovó explica a Megera desejar o pai da Branca só para ela e ficar com o palácio encantado; e as joias; e o reino... O Pedro: e o mordomo não é?
          Não sei Pedro, não li essa parte.
          Daí  querem  saber  se  não  tinha  visto  o  resto ou  apenas  lera. Respondeu como pôde. Não, minha gente, a Branca de Neve não disputava com a Rainha Má o Rei, o rei era seu Pai.
          Pai de quem Vó, indaga Ana.
          Pai da Branca de Neve.
          Outro menino: então para que brigar, se era filha não ia casar com o Pai.
          Verdade, diz Vovó. Não ia casar, assim como o seu pai não se casou com a filha dele, desposou sua mãe, não é?
          O Pedro: com a mãe dela e com a secretária também...
          Cala essa boca porca, menino.
          Tinha porca cachorro galinha na Casa dos Anões? Vovó responde: é claro. Porém alguns ‘empecilham’ – e a neve não mata as galinhas?
          Vovó está desesperada com o saber do não saber sabendo os endiabrados netos na plateia. Um narra uma cena de tevê com geleira e gente morrendo nela, outrinho levanta a questão da mãe demorando, a Aninha quer sobremesa de novo e a Senhora é obrigada a explicar que isso apenas poderá ocorrer após o jantar; e essa Sebastiana não dando as caras! Vovô concorda plenamente com a oposição e ameaça gritar a janta à empregada do filho, engasga tosse olha a esposa prometendo com os olhos a ela que irá parar o cigarro. Os meninos querem o retorno à estória, Vovó promete para a noite.
          Mastigam, Vovó chama atenção dos que comem de boca aberta, Vovô fuma após o cafezinho. As meninas querem umas a novela, outras a continuação da estória, Vovó toma demais os comprimidos de não dormir e dorme antes da novela das nove somente acordando com o Velho a reclamar, a meninada já dormindo; num dos quartos a luz permanece acesa e os de fora matracam com os de casa, Vovô dá uns croques de mão fechada na porta exigindo silêncio, silêncio lá fora grilos noite o mundo de boca fechada, dentro a casa ressona; e todos só veem quando já é outro dia.


4o.Não os Dez Negrinhos, Ficaram Sete Anões

          A oposição está reunida com a situação; esta lhe puxa a orelhona de abano, cobra o remédio na hora certa, cobra o cumprimento da promessa em parar com o cigarro. A oposição apela, lembra as fraquezas feminis dos começos na vida conjugal. A situação acusa o inimigo de estimação até na escolha literária – você somente lia policial, agora nem isso lê, parou na Agatha Christie nos seus Nove Negrinhos, Dez ele corrige, culto, e sai à carga, acusa a acusação por ler apenas Coleções  do tipo Água e Açúcar; e agora ainda quer mentir aos nossos netos! Eles chegam com bandeiras desfraldadas, em meia hora todos assentos são tomados no teatro da neve, o relógio ainda assinala oito e quarenta, só falta a pequetita a qual vem arrastando sua fralda que lhe serve a coçar dia inteiro e fala embrulhado como o Vô, ela com chupeta ele com cigarro entortando a boca menos se fosse cachimbo, elinha, elinha se acerca da Vó, já beijou Vovô que fica radiante lá longe sorrindo para ela. Os outros ainda contam suas coisas, alguns moleques bravateando, as meninas maiores narram sonhos e trechos da novela das vinte horas de ontem, os machinhos mais irriquietos que elas. Vovó mexe por atacado:
          Ué, o que vocês desejam! (faz uma cara ingênua e inocente, aguarda o resultado da provocação).
          Hoje não tem estória? berra o Pedrinho.
          Não tem, filhos (ah! falam intercedendo a lamentar) eu nem me lembro se contava algo ontem. Não aguenta e ri do espanto geral. Cada um quer ter o mérito de lembrar mais. Os Anões, a Branca, a Bruxa; mas o Pedro, sempre ele: tinha o Rei enganado...
          Que é isso, Pedro, onde arranjou tal conversa!
          E não é, Vó, Você que disse: a ‘Véia’ queria o Palácio e o Reino só dela e por isso matou a bonita com maçã.
          Aninha arregala a verdura dos olhos, já querendo verter lágrimas pelo assassinato da Mocinha da estória pelo Bandidão que era a Rainha. Vovó contém ânimos exaltados:
          Pera lá meninada – não pus a coisa nesses termos. A Branca de Neve, oh meu filho, não mate mais a Jovem; Aninha ela não morreu, eu não falei que morreu: engasgou apenas. Você não engasgou aquele dia da bala? (faz com a cabecinha sim). Então, depois ela sarou igual a Aninha sarou. Aninha: eu chorei e papai me bateu nas costas! Exato, meu bem, precisava bater para desenroscar a bala entalada lá dentro. E a Branca de Neve se salvou!
          Batem palmas.
          Ela se salvou mas chegou a assustar bem seus irmãozinhos porque... o que foi?
          Você não tinha contado que ela levou os irmãos junto; e eles não brigavam com os Anões!?
          Ai meu Deus, vocês são dose para leão. Não, Francisco, falei “irmãozinhos” porque a Branca de Neve considerava os Anões como irmãos e eles tinham a Jovem por irmã.  Entenderam?  Você entendeu, Chico?  E aproveito esta parada para chamar a atenção do Antônio: não me puxe mais a fita da Maria Clara; está me dando um nó aquí notando isso. Bem, vamos para frente.
          Eu estava dizendo, quando essa porcaria me interrompeu, que a Princesa assustou os Anões imaginando ela haver morrido. Pois fizeram até o enterro dela e choraram muito... Não chora menina, não falei que não morreu? Que foi agora, oh Clarinha!
          Tadinha Vó, enterraram então ela viva!
          Minha Mãe Santíssima, quem falou uma besteira dessa. Eu disse que “pensaram” que a Moça houvesse falecido; e iam levando ela para o cemitério, lá nas montanhas cobertas de neve e... o que foi agora? sim, o cemitério devia ser da prefeitura e isso não importa no caso. Aí, vejam bem, aí a Branca de Neve caiu da rede na qual era transportada... sim, também tenho pena por haver caído na terra cheia de neve. Mas saibam, foi bom: no tombo o pedaço de maçã envenenada se deslocou da goela da Princesa e ela reviveu!
          Batem palmas gritam viva, virou um circo o teatro, bem ao gosto infantil; Vovô grita lá do canto dele: “que diabo de farra é essa, não consigo nem ouvir meu rádio!” Aquietam, olham pra Vovó.
          Bem, agora a Branca de Neve narra tudinho que a Megera fez a ela para os Anões. Zangado quer estraçalhar a Rainha Má, ele virou o maior defensor da Branca de Neve, ela inclusive canta belíssimas canções para ele. Ele...
          Casou com a Branca de Neve, Vovó?
          Ora essa, Joãozinho, Zangado era mais velho que o Velho aí (olham o Vô e ele ouvindo a observação derruba o cigarro da boca, abismado). A Branca de Neve encontrou foi um Príncipe Encantado! Aí naturalmente casou.
          Querem mil explicaçõezinhas, as meninas a saber se ele era belo, os meninos se conhecia lutas marciais se era espadachim e se cortou a garganta da bruxa. Aninha pergunta se tiveram filhos e se o Castelo ficava no Céu, todos outros rindo dela.
          Vocês estão rindo da menina, disse Vovó, estão rindo de bobos que são. Aninha tem razão, o Castelo era no Céu, pertinho do Céu pois no cume da montanha mais alta do mundo. (Precisou explicar cume). Filhos não sei se tiveram os filhinhos, mas se nasceu criança só poderia ser a mais bonita do universo porque com a beleza da Branca de Neve e a do belo Príncipe Encantado...
          E o Rei deixou de ser enganado pela mulher?
          Você outra vez com as suas, é ideia fixa Pedro! Nem vou responder. (Pediram, imploraram resposta) Está bem. Eu li que o Rei morreu de velhice, pois mais pra lá que certa gente (olhou e indicou o esposo com o beiço) e não fumava, aí viveu mais tempo, contudo morreu, deixando seus bens para a Branca de Neve, o reino as joias e tudo o mais.
          Pera um pouco Vovó, e o bobo do Príncipe... deve ter casado com a Moça para ficar mais rico ainda que antes...
          Ah quanta besteira fala meu neto Pedro. Ele se casou com ela por amor. Ora, o amor exclui os bens; toda riqueza não vale o amor!   
          Formaram dois grupos a discutir o assunto proposto por Vovó. Os a favor do interesse, outro grupo pró amor puro. Todavia não chegam a conclusão alguma, nisto aparentando o viver adulto; discutem mais, vão se encaminhando ao conflito, Vovó encerra o papo lembrando precisar sair, Vovô goza lá no seu lugar de costume: “vai fofocar com as outras linguarudas” Vovó mostra a língua, dá mau exemplo aos netos ao mesmo tempo, sorrindo importância. Além do mais meninos, sua mãe (disse como falasse a Américo) sua mãe vem mais cedo hoje, deixou recado com Sebastiana no telefone, posso portanto me ausentar.
          Olham-se incrédulos. Alguns pedem promessa da Vó para nova estória. Ela? Vou pensar, diz.



5o.Roupa Nova

          Naquele dia imediato foi Vovó quem se levantou com maus humores. Os meninos espalhados nos seus interesses por aí, ela havia se enfeitado com um vestido novo produto da tarde de ontem – ninguém viu, ninguém percebeu, nem o Velho, o Velho nunca via se via não via para elogiar, a rigor não saberia elogiar por descostume, os homens são assim mesmo dizia sempre Vovó, mas nem por isso perdoava a incapacidade masculina. Virou pra lá rodou pra cá a mostrar-se como uma jovem, como a que fora aí por uns sessenta anos atrás; e nada. Ninguém viu, ninguém vê: explodiu qualquer coisa, qualquer coisa serve de pretexto quando a causa é chata de revelar. Ele fumava.
          Já cedo ‘chaminezando’!
          Não ouve voz sequer, ouvindo seu eu lá dentro entre baforada e outra. Aí completa o velho, caso houvessem perguntado: o homem é uma loucura que ‘loucura’. Loucura no ser, loucura no ver, loucura no julgar. No fim ainda se põe de coitadinho e injustiçado.
          Eu odeio quando você fala complicado para gozar nos outros!
          Que foi Zaldira, não tinha hoje nem visto você. Os meninos...
          Virou-lhe as costas, foi ver qualquer na cozinha e matracar com a Sebastiana.
          O ambiente parece deserto, somente Aninha choraminga não sei que e os outros debandam, parece, só parece. Volta à sala, não para assistir resmungos e fumaças: a se sentar. Loguinho a Ana está enrabichada, aparece mais unzinho e outro e outro mais, longe da lotação completa. Conversa com um indaga doutro as coisinhas enormes às crianças. Alguém lembra o esquecimento da estória prometida, mais um comenta a sorte da Branca de Neve, ainda embranquecida pelo gelo de ontem; e quando vê, vê-se rodeada.
          Tá bom, eu conto, mas não ia contar, nem me lembrava dessas coisas, só pensava no meu vestido novo. Aí os que não haviam visto percebem agora a novidade; as meninas fazem perguntas pertinentes, os homens, filhotes de macho, apenas sorriem constrangidos. Alguém se lembra da novela ou do filme da noite, ela recriminando a ultrapassagem moral e é incidente: “quem deixou vocês na televisão até essa hora!” Ninguém com muito argumento, desconversa-se, e daí recobram a estória.
          A Roupa Nova do Rei!
          Se ajeitam ouvir, ouvem abrir o portão, o ringir característico do ferro gasto seco desarranjado; e bater com a paciência a ciência a educação de menino, aparecem dois um assinzinho risonho e outro maior, meio envergonhado.
          É o Zezinho, Vó; do setenta e cinco. E a irmãzinha. Eu falei das suas estórias, contei inclusive a Branca de Neve, não foi Zé? (Sim, de cabeça).
          Meu Deus do Céu, isto parece andar virando um teatro! Mas que gracinha ela é!
          “Sô Luana”. Vovó, agora é ela que faz de cabeça. “Sabe que sô muiéi?”
          Sim, é mulherzinha bonita. A bonita se ri toda, os meninos da casa comentam também, todos a postos, só o João voltou para sua residência, o pai veio cedinho buscá-lo; o restante são ouvidos atentos.
          Conto da Roupa Nova do Rei, havia num país distante... sim Aninha... distante é longe, mais longe que a padaria. Então nesse país havia um Rei muito poderoso e também muito vaidoso (explica vaidoso, a novinha arregala olhos). Um dia vieram dois espertalhões, espertalhão é uma pessoa que se aproveita dos outros (e isso acendeu ímpetos: xingam as forças do mal e Vovó tem de pedir moderação na língua e expressamente silêncio:) então convenceram o Monarca... a mesma coisa que Rei, pronto. Convenceram o Rei serem grandes alfaiates se propuseram a fazer-lhe uma Roupa Nova.
          Olharam-se, Joana está com novo vestido, vermelho, se sentindo o centro da estória. Começam as intervenções e Vovó toma enfim as rédeas:
          Então... (se calam) então eles falaram: Alteza, precisamos ouro para fazer a roupa. O Rei sorriu, o que não lhe faltava eram tesouros joias pedras preciosas ouro em todas formas e...
          Vovó, grita Clarinha, e o nome dos patifes (patife havia aprendido ontem na novela das oito horas, que havia atrasado por causa do horário político). Vovó fica abismada com a erudição e cambaleia um pouco, depois se acerta:
          Um era José outro Antônio.
          A plateia olha José e Antônio ali assistindo o desenrolar da estória, sorri; Antônio mais saidinho estufou-se herói, é bom ser herói mesmo herói negativo, gente não tem solução desde petitico, Antônio sendo grande para a idade pouca. Inicia a matracação os prós os contras, Vovó intervém de novo.
          Vamos lá. Temos o Rei, os Malandros (agora os homônimos se chateiam) e ouro, muito ouro! O Rei começa a enviar seus tesouros aos alfaiates e estes a costurar a Roupa.
          De verdade Vó, grita Ivone.
          Verdade que é mentira, menina, pois não é uma estória! Aí eles ficaram num salão costurando, passa agulha de lá, puxa pra cá, enrola, corta no dente as sobras...
          Ah igual a Sebastiana consertando meu short!
          Igual, Pedro. Daí acaba o material de costura... Alteza, diz José, Antônio pediu a Vossa Alteza mais ouro, para acabarmos a Vestimenta... e está ficando ótima!
          Não, meu filho, vestimenta pode ser tanto vestido de mulher, como meu lindo vestido aqui, tanto isso como as calças masculinas. Naquele tempo, Américo, homem e mulher usavam uma espécie de bata, uma toga... isso mesmo, parecendo a camisola da Bastiana; apenas que essa do Rei era rica, de luxo, e bem acabada, não sendo para dormir. Tão rica a Roupa, que andava sendo cosida com ouro!
          Tinha de cozinhar o pano de ouro?!
          Meu Deus, me salve! não Joaninha, não, aqui é de coser, isto é costurar; não é cozinhar no fogão da Sebastiana. Não, não, não me falem mais que o fogão entupiu! Também já sei bem que sai aquela fumacinha azulada e anda sujando o fundo da panela grande. Só não quero mais ouvir isso. Continuemos?
          Vovô se ri, ameaça entremeio à fumaça gargalhar, olha a aflição da esposa na berlinda dos pirralhos. Ela:
          Tá bom. Vamos lá. Continuavam agora com novo suprimento de ouro no fazer a Roupa real.
          Não era de mentira?
          Não, Cida, era de mentira mas era de verdade porque eles tomavam o ouro de verdade que os lacaios do Rei traziam. ‘Real’ é referente a Rei. Roupa real, roupa do rei, certo Cidinha? (faz que sim).
          Mais uma semana costurando agulha pra lá pra cá,  José,  o mais descuidado, toma um furo no dedo, sangra, impressiona os serviçais, estes correm a dizer ao Rei o que acontecia.
          Sim, o sangue era de verdade, igualzinho o da Maria Helena quando eu a ensinava costurar os paninhos da sua boneca e ela nisso se espetou...
          E chorei, né Vó?
          Abriu a boca no mundo. Sangue de verdade dos alfaiates embrulhões. O que me perguntou... ah sim, a agulha também era de verdade, a linha não.
          Chega de me interromper, já explico: a linha era...
          A linha telefônica interrompe Vovó.
          Volta manquitolando seu ai-ui, os meninos aguardam.
          Sua mãe vai ficar mais um dia fora, necessidade de serviço; vocês falarão depois a papai que ela está ocupada... Cala a boca Pedro. Você nada tem que ver com os negócios de sua tia lá fora. (Pedro avermelha; a meninada conversa se cutuca se desentende; Vovô intermedeia, grita com os netos, Vovó acalma por sua vez a turma, contando a continuação:)
          Daí, crianças... o Rei estava feliz, não via a hora em pôr a Roupa Nova que faziam para ele e então...
          Então vem Sebastiana, alegra Vovô anunciando o almoço. Até Vovó apreciou e todos correm à mesa, os Velhos chegam depoizinho.
          Onde foi que paramos... Vovó fala sonolenta, após a comida, mesmo não havendo lauta refeição, dá aquela preguicinha enjoada, Vovô se espicha no sofá e faz de conta não dormir, Aninha conta as bobaginhas a ele ele finge estar ouvindo, Vovó é quem tenta reunir aquela balbúrdia de moleque, tem a Luana que parece só saber uma frase aprendida “sô muiéi” os outros meninos matracam as brincadeiras, ela pisca pra ver melhor o parque infantil e espera que perguntem; indagam de fato:
          Você não vai continuar o Rei?
          Onde foi que paramos mesmo... ah os velhacos costuram com agulha de verdade uma Roupa de mentira.
          Isso mesmo Vó, disseram interessados.
          E vai por aí, toda semana trazem mais ouro, eles costuram, às vezes até se furam para mostrar serviço, comem do bom e do melhor e...
          Vó – grita interrompendo Ivone – comem abobrinha?  Eu não gosto de verdura nem um pouco. 
          Abobrinha não é verdura. Os alfaiates safados porém no comer ingeriam de tudo: carne arroz feijão abobrinha viu? verdura como a couve essas coisas, bem tratados, pois fazendo a mais bela Roupa para tornar o Rei ainda mais bonito...
          Era bonito mesmo?
          Não sei menino. Todo mundo se imagina uma beleza no entanto isso é discutível. Ele pensava ser belo e queria ficar belíssimo, que é ser mais belo no belo.
          As crianças se admiram, conversam entre si, não chegam a acordo sobre uma ou outra beleza no seu mundinho, a boneca da Aninha é um horror, dizem, e chora, não, a boneca não chora, estripada, a mãe, a Ana chora, Vovó consola, Luana diz “sô muiéi” já sei, benzinho, rosna Vovó, prossegue:
          Um dia o Rei mandou o ministro ver como andava a Roupa e... não criatura, a Roupa não andava é modo de falar. Bem, e... não senhora, falei ‘ministro’, sinistro é outra coisa, vamos continuar agora. Aí o Ministro conversa com os meliantes, os alfaiates estou dizendo, estes o convencem ser preciso inteligência bastante a perceber uma Roupa de Ouro e os fios que se cruzam em puro ouro, portanto invisíveis. Invisíveis? É o que não se pode ver... não, não é isso garota – não se via porque não existia, os malandros guardavam o ouro e enganavam o ministro os lacaios e é claro o Rei.
          Boboca, não é Vó!
          É sim Toninho. Aí um dia acabaram a Roupa, já não tinha mais ouro o Reino para fornecer a eles e disseram ao ministro do rei “agora está pronta! pode chamar Vossa Alteza a fim de experimentá-la”.
          Ele experimentou? ficou bonito? saiu por aí com a Roupa de Ouro? Querem gritando saber tudo, Vovó não sabe para quem responder primeiro, pede calma, ordem.
          É aí que está a questão. Vou dizer. Antes disso temos de comer, vocês só pensam em brincar brincar brincar e ouvir estórias e não se alimentam; vejam a pobre Maria Helena magrinha. Logo se ouve o coro dos primos por cima dela “magrela magrela”. Se desentendem. Vovó fica muitíssimo braba, manda todos ao refeitório fumegante, o sol se põe; comem, matracam, mais matracam do que comem.



6o.Em Faz de Conta Menino Vê o Real

          Vovó está com azia, nada que ingere fica em paz no organismo cansado. Toma sempre leite de magnésia, anda bem mal-humorada, não quer conversa, desconversa. Vêm os adeptos da Roupa, pesquisam possibilidades e acabam fugindo à tevê, os de fora voltam pra fora, os de dentro que são irmãos e primos de férias ora na televisão ora nos brinquedos espalhados no quarto; não se briga altão em respeito às dores de Vovó, Vovô inventa a emenda à sonolência do quilo com a sonolência do sono e acorda amanhã. Assim a noite de ontem já é hoje.
          E a farra recomeça. Agora tem sino... Alguém, só podendo ser o João que volta ao convívio deles, alguém traz um irritante, não fossem todos a irritar. A ser acionado sempre nas horas indevidas.
          Joãozinho senta-se frente à Vovó, a bagunça lá diante, ele conta de casa aos da casa, Vovó lhe dá atenção, olha o marido no seu posto de observação, hoje está mudo ou meio emburrado, deixa até o radinho mais baixo, se surdo não ouviria. Ela ouve a balbúrdia dos meninos somente, quase não se briga lá longe porém todos querem contar antes dos concorrentes suas coisas, todos querem falar ao mesmo tempo sem conseguir, esbravejam-se, ouvem o sino, correm à novidade e Vovó sorri ao ganhar a lotação completa no seu teatro com os participantes do circo. Ouve um dá razão a outro corrige sugere brinca com os netos; e tem os da vizinhança, Luana fala uma novidade: “sô muiéi”, Aninha trouxe um farrapo que se chama Zizita, carinha a filha e se esfrega na Vovó. Esta olha sorri outra vez.
          Já sei o que desejam.
          O Rei da Roupa, falam. Ela:
          Ah imaginava que me pedissem outra...
          Conta Vó, acaba Vó, o Rei.
          Já que insistem... O que falei ontem?
          A Roupa, Vó, estava pronta e o Rei já ia vestir e ficar bonitão todo de ouro.
          Isso mesmo, Pedro, você tem boa memória. Chamaram o Rei e o Rei falou aos alfaiates:
          Onde está minha Roupa Nova!
          Aqui Alteza,  olhe  como o traje  é  belo, a  barra  de ouro trabalhado, veja aqui este repuxo à esquerda – uma Vestimenta digna de um Rei Inteligente, pois só os inteligentes conseguem apreciá-la.
          O Rei, meninos, olhou aquilo invisível e pensou: não vejo nada; mas se apenas os inteligentes a veem, o ministro viu, os servidores viram e disseram que viram, se falo não ter visto me tomam por burro. Aí respondeu:
          Ah que beleza, senhores! Fizeram jus ao tesouro que meu Reino pagou. Ficou o homem todinho estufado examinando a Roupa...
          Ele viu de verdade, Vó!
          Ele olhou de verdade. É preciso muita capacidade para ver a mentira. O vaidoso somente se cobre de mentira, só vê a mentira, até espezinha a realidade para ter razão...
          Vó, quem é esse tal de ‘jus’ que você falou?
          Jus vem de justiça, quer dizer, Tê, os malandros, segundo o Rei, receberam o pagamento justo pelo grande e demorado trabalho que executaram; é isso Terezinha.
          E acabou?
          Não disse que acabou. Tem o desfile.
          Uns falam apreciar desfile, outros imitam corneta e tambor, virou um rebuliço a sala da Vó; havendo os não apreciadores, não podendo ver a baliza, uma quer ser baliza quando crescer, outros dizendo não existir baliza grande. Já é quase hora da Sebastiana avisar a refeição e ainda se discute. Vovó nada fala, em não ser:
          Vou parar a estória. Lata d’água fria na fervura. Aquietam; depois imploram o recomeço da continuação do fim.
          Bem. O Rei convoca o povo todo do Reino para vê-lo mais bonito no seu aniversário. Os servidores vão ler o aviso oficial nas esquinas do país, todos ficam sabendo. Arranjam um desfile, uma parada e tanto. O Rei se veste, com auxílio dos Alfaiates, se perfuma, se estufa na vaidade, recebe no Palácio elogios de todos em volta, todos inteligentes, porque apenas os inteligentes viam aquela Roupa milagrosa feita com linhas de ouro – todos se consideram inteligentes.
          Viam de fato, Vó.
          Viam sim, Américo, viam, diziam ver a Roupa, até elogiavam. Aí atrelam os cavalos reais à diligência oficial, o Rei vai em cima enobrecido e envaidecido por encontrar-se tão belo e ricamente vestido.
          Não era mesmo a camisola da Bastiana que você disse se chamar toga!
          Claro, Clara. Falei ricamente vestido, não com vestido de vestido desse aí que você usa, não; toga de ouro! Uma beleza, deslumbrante (explica antes das perguntas fatais ‘deslumbrante’). Enfim sentia-se o Rei um verdadeiro deus. Entretanto quando...
          (Aí tocam o sininho e se dá uma bronca geral no sineiro; após acalmam).
          Eu falava, disse Vovó, quando a carruagem do governo foi atravessar a praça...
          Vó, pera lá um pouquinho, não era diligência? dessas dos bandidos querendo tirar o ouro e aí os tiros, vi no seriado.
          Era sim, João, falei diligência para vocês entenderem. Uma carruagem luxuosíssima, pois sendo a do Rei. Acontece que ao passar na praça mais importante, o povão ali reunido a fim de avistar e...
          Viu?
          Viu sim Tê, viu, viu a carruagem viu os cavalos garbosos, o ministro e os homens do governo, o povão viu é claro o próprio Rei! o principal a se ver.
          Veem os netos nesse ponto a Sebastiana; ninguém quer almoçar, somente saber o final, devia ser o fim pelo jeito de Vovó, não deixam nem a empregada falar, apenas Luana sem ouvi-la a dizer “sô muiéi’. Conta, Vovó, os netos pronunciam costumeiramente ‘Vó’ mas agora a desejar suborná-la e para atendê-los carinham no falar.
          Está bem, crianças. (Enquanto isso Vovô já se levanta, fechara a boca do rádio e se preparara a ir à mesa, fica um pouco frustrado). Está bem, o Rei se estufa na sua felicidade, faz trejeitos a dizer “olhem a mais bela criatura do planeta!” entretanto nisso...
          (Silêncio sepulcral, expectativa, Aninha quase se desenroscou do colo da Velha, mesmo o Pedro está de boca fechada aberta no aguardo dos lances, Ela prossegue a narração:)
          ...um menininho do tamanho da Luana (esta grita “sô muiéi!”) sim Luana, o meninozinho fala bem alto como só uma criança sabe arder os ouvidos dos outros. Ele berra no meio de todo povo:
          O Rei está pelado! E falou mais coisas que não se deve dizer em público. O público ficou pasmado com tanta sabedoria num garotinho daquele tamanho. E foi um gargalhar e uma correria medonha envergonhada para todos lados! Dizem que o Rei está correndo até  hoje...
          Olham as crianças para todos lados (para ver o Rei?) e topam com Sebastiana, mãos à cintura feito bule, balançando pra lá pra cá a cabeça pela bagunça instaurada.
          Aí foram todos aos garfos.

7o.Chapeuzinho Vermelho

          O ambiente amanheceu meio pesado nesse princípio de dia; no restante dia anterior não houve estória, os adultos se atrapalharam atrapalhando os pequenos. Agora se levantam estes, se coçam, um que outro reclama, outrinho mexe indevidos; Sebastiana? olhe a cabeça ‘destamanhona’. Aos poucos se enfileiram rumo ao circo do teatro da Vó, ela ainda resmungando no quarto, na sala Vovô irritado, o cigarro não acende, o radinho está rouco fanhoso e aí chega Aninha chorosa. O Pedro me quebrou o porquinho que você deu! Foi não foi, sempre não foi. Vovô alisa os cabelos ondulados e olha a água brilhante nos olhinhos verdes, ela puxou à nora? aquela... deixa pra lá, carinha mais promete mais ainda, que isso é bastante fácil, promete arranjar outro porco às moedas vindas às mãos tão graciosas; está aflito, não é fácil solucionar problemas mil de menino, enquanto Vovó vem vindo virando vale de salvação entrando no corredor para chegar à sala, manquitola a infeliz, até que foi boa mãe agora é boa avó, ranzinza um pouco mas... vem vindo.
          Entra triunfal, por dentro dói pra valer por fora triunfa qual artista célebre no palco, na plateia a meninada acorre, uns beijam a velha outros se esquecem não esquecem a estória:
          Hoje, a do Chapeuzinho.
          Era Vermelho?
          Era. Claro Clara, não tem verde em estória. Quem a conhece!
          Eu, eu, eu...
          Todo mundo! não preciso contar, vou fazer crochê, ganho mais.
          Ah Vó! Menino, contou mil vezes? na milésima primeira ainda acha um encanto. Já estão reunidos, o dito pelo não dito, dita Vovó a regra: olhem aqui, não quero briguinhas Antônio, não quero sininho Sr.João, não quero... sete não quero, dos melhores; e a plateia mirim anda na expectativa e comportada. Não. Tem um bebê de cachorro.
          Quem me trouxe este vira-lata aqui!
          Um agregado mostra uma peleira com uma miudeza entremeada, sorrindo com o rabo. Carinho, estórias em torno do bicho, até Vovó sorri engraçadinho ao animal engraçadinho.  Espera acalmar aquela calma de berros:
          Era uma vez... (aí foi tiro e queda envergonhando moscas pelo zumbido, Luana não veio ou diria ser mulher, Aninha não chora mais o porco, inclusive Vovô deixa o rádio falar baixo, ou por fanha ou por haver melhorado seu ‘pau de orelha’, como a oposição costuma gozar).
          Era uma vez uma senhora que morava num recanto lá no fim do mundo... Era velhinha velhinha... (não conseguiu prosseguir teve de se comparar numa desvantagem com a Velhinha candidata à Vovozinha da Chapéu).
          Mas um dia... ah havia uma garotinha linda linda, parecendo a Ana (esta interessada) morava com a mãe do outro lado do mundo e...
          E o pai dela? não tinha ou ele estava namorando também a secretária dele...
          Pedro, mais uma dessas mando você de volta para sua casa! Tinha sim pai, havia morrido na guerra; agora só contava a menina com a Mãe.
          Tadinha dela né, Vó!
          Sim, Maria Helena. Aí Mamãe deu de presente a ela no aniversário um chapéu.
          Agora os ouvintes querem saber por que não deu brinquedo eletrônico, chapéu é coisa sem graça; quantos anos; ela gostou do presente; a cor do chapéu.
          Ora essa é boa, falei Chapeuzinho Vermelho me perguntam a cor! é o mesmo que indagar a cor do cavalo branco de Napoleão (perde dez minutos contando o Napoleão, aí a responder outras dúvidas:)
          Não havia brinquedo de pilhas naquele tempo e Mamãe era pobretona, viúva, oh Pedro, viúva e passava fome! Olhem aqui, não concordo com vocês, um chapéu é coisa muito bonita, qualquer mulher sabe disso, se Luana, ela não veio nem o irmão? ela diria neste ponto “sou mulher”, não é uma gracinha! Concordam com o discordar de Vovó, a Vó prossegue.
          O chapéu era vermelho, por isso Chapeuzinho Vermelho como disse. Ficou uma beleza na... na... na Maria, Mariazinha. (Se olharam).
          Aí Mamãe falou: Chapeuzinho, você pega esta cesta com maçã e bolinhos e vai levar...
          Vó, então foi na Europa, pois maçã; e neve tinha?
          Tinha, Ivone, tinha sim, um friozão de bater queixo! maçã também mas o que interessa mesmo é o bolinho.
          Debatem – sem solução como entre adultos – debatem bolinhos, gosto e tamanho, reclamam, a Sebastiana aparece soprar qualquer coisa na orelha de Vovó e aproveitam: “ontem, Bastiana, o bolinho estava encharcado e doce demais”. Ela fez uma careta gozada e se foi à cozinha porém isto não põe fim ao debate. Vó:
          Não conto mais, fiquem brigando seus bolos; ela ameaça levantar-se, o que só em pensamento dói faz ai; param, silenciam, comportados.
          Está bem. Mamãe pôs no cesto uns bolinhos: “menina, leve isto à Vovó que está sem comer, e cuidado na estrada!”
          A caixa de abelhas: – Vó há quantos dias a Velha passava fome; alguém achando que a garota já a encontraria morta; o Pedro lembra urubus a comer carniça de velha o que dá muito falar; por que ela disse “cuidado no caminho?” (alguém corrige “estrada e não caminho, sua burra”; outro: claro, não vê a violência dos bandidos na televisão!) Vovó:
          Parem parem! parem já. Me deixam nervosa (Vovô aumenta o volume pelo barulho no picadeiro). Fico nervosa com uma coisa dessas. Não é nada disso – é pura e simplesmente o Lobo!
          Olham horrorizados pra Vovó, daí Sebastiana anuncia o clássico “tá pronto”, Vovô antes de falar a doméstica já ia indo à cozinha que também serve de copa, Vovó suspende, responde o depois eu conto e tenta com certo sucesso se levantar.
          Vovô não volta logo, Vovó se preocupa, os meninos ainda mastigando a sobremesa e exigem. 
          Sim, como disse foi o Lobo Mau, ele iria mesmo loguinho aparecer e...
Queriam saber se grande, se muito comilão e feio porque realmente o consenso põe todos lobos maus feiosos e gulosos, poderia ainda ser mais. Responde Vovó. Comparam o bandido com os sofisticados malfeitores de hoje, lembram o ZeroZeroSete, alguém viu o desenho do Chapeuzinho Vermelho na tevê, quer de cátedra impor a imagem aos outros; Vovó:
Pera lá garotada, isso vai longe, o Lobo que vi era feio horrendo e maldoso, contudo nem um pouquinho parecido com o lobo que vocês matracam o...
Viu!!! Você viu o Lobo?
Vovó não responde,  Vovô é quem dá um gritinho entrando capenga na sala e diz: mentirosa e medrosa. Aí fala bem alto pra atingir a oposição – não saía nem fora de casa à noite... e se ri. Vovó olha com raiva aquela testemunha e ao mesmo tempo aliviada com a disposição do seu Velho. Os netos riem. Ela agora abre a boca:
Palhaço! Era uma vez... era uma vez...
Não Chico, ‘palhaço’ o seu avô, não senhor não vou recomeçar, quero só calma para continuar, ou não conto mais!
Silêncio.
Então, diz Vovó, a Chapeuzinho chegou na encruzilhada (explica à Aninha encruzilhada e por tabela aos outros pequenos) e daí parou, não sabia qual o caminho a tomar. Sim sim, João, cansada, aquele peso de bolinho, sim minha filha e de maçã também, ela, pobrezinha, ela fraca e pequena... Exatamente, garota, ela estava só!
E o Lobo; então não estava só.
Aí, menino, estaria mais só porque mal acompanhada. Um Lobão deste tamanho (olham pra cima a amostra de Vovó) e uma Chapeuzinho assinzita...
Vocês têm razão, coitadinha dela! E o Lobo Mau pergunta à menina:
O que você tem dentro dessa cesta?
Eu, eu levo uns bolinhos para a Vovozinha que está há três dias sem comer e não sei a estrada certa, aí chorou!
Vó, mas que burra né, contar justamente ao Lobo, se fosse eu corria!
Ela não era um cavalão como você, meu Pedro, era pequetita assim.
Ficaram pensativos...
Vó pera lá, antes de continuar você me esclarece uma coisa: dá para aguentar três dias sem comer, uma velhinha caindo aos pedaços...
Ai Pedro desabrido, pedra no meu sapato! onde já se viu tanta sem-vergonhice; eu não falei que ficou três dias (“falou sim, Vó”) falei sim três dias, não quer dizer que não tivesse nadinha em casa...
Tinha arroz tinha feijão tinha abobrinha Vó?
Tinha umas batatas e água e café, café não, não conheciam ainda café naquele tempo, era chá. Porém isso enfraquece, ela já fraca, gente idosa é mais frágil que a jovem.
Assim Vovó reacendeu o tão temível debate dos netos e não consegue fazer a Chapeuzinho comer o Lobo ou vice-versa. Vão comer para dormir e ver tevê enquanto a Aninha dorme no sofá, é levada pela empregada ao quarto, pois que os Velhos não puderam com aquele pesão de garotinha. 



8o.Pau no Lobo Mau

          Vovó põe os pingos nos ii. Os netos estão de rabo pra baixo, um que outro arrota o almoço, a Velha olha e balança como a dizer criança não tem jeito.
          Meninos, aproveito a oportunidade, me parece que estamos entre nós apenas, seus amiguinhos não vieram, falemos com franqueza. Não sei quem não sei por ordem de não sei quem lá me traz cachorro aqui – o qual ladrou toda hora – e Mamãe não quer, Vocês sabem disso. Outra coisa, aproveitemos estão entre irmãos e primos: não é assim que se trata gente de fora – é preciso convidar para o almoço, mostrar suas coisas, é de boa vontade: não bagunçar, virar a casa de pernas para o alto, pôr fora do lugar e, principalmente, brigar... nem entre vocês. Ora, quando a Heloísa voltar...
          Logo lembram que Mamãe está a serviço, o Pedro dá risada debochado descaradamente; Vovó adverte os mais velhos: é necessário dar exemplo, não criticar adultos, sobretudo parentes. Enfim a ambientação não é propícia à estória.
          Amanhã, se merecerem, eu conto.
          Reclamam imploram, querem ver destroçado o Lobo! Vencem.
          Está bem, filhos. Porém parem ou falem baixo, Vovô está por conta, não pode ouvir o jogo. Fizeram sim.
          Bem, o Lobo agora já sabe o que tem na cesta e para onde vai Chapeuzinho Vermelho.
          Ela deu o serviço, né Vó?
          É, Joana. Deu o serviço por ingênua e pura. Aí ele sumiu, nosso Lobo Mau.
          O Lobo! Então agora acabou a estória; eu não gostei desse final...
          Calma crianças, ‘sumiu’ quer dizer saiu de perto da menina. Na verdade correu à casa da Vovozinha para chegar antes da pequena.
          E aí? Aí? ora, bateu à porta. Vovozinha pergunta: quem está aí. O Lobo: “Chapeuzinho Vermelho, sua neta!”
          Era mentira, não era Vó?
          Era sim, Aninha, ele queria comer...  oh não chore mais menina...
          Ele ‘papou’ a Vovozinha...
          Mas que linguagem chula, Pedro! melhor ficar quieto. Daí a Vovozinha abriu a porta e tchoque! (nisto inclusive os grandinhos se assustam, Aninha se gruda no colo e Vovó reclama as unhas delinha, precisamos cortar as suas garras, estão maiores que as do Lobo!) Então pega a Vovozinha e come toda a Velha e...
          Comeu mesmo! mastigou Vó! Começa a discussão na assistência, põem casos até de antropofagia mui encontradiços na televisão, Vovó intervém, Vovô grita não estar ouvindo só ouvindo grito de menino. Vovó fala brava:
          Viram onde leva a bagunça!
          Aquietam. Continua.
          Agora é a Chapeuzinho quem se assusta – a voz da Vovozinha é rouca ela bate na porta. “Como sua voz está diferente, Vovozinha!”  “Estou rouca, minha Neta, rouca de tanta fome...”
          Vovó, grita Tê, como podia gritar se o Lobo mastigou e engoliu inteira ela?!
          Não, bobinha; primeiro que não falei ter gritado, falou rouco fraquinho; segundo não mastigou: a fome do bicho era tanta que a engoliu todinha. Por isso não aguentou sequer se levantar da cama com aquele barrigão cheiinho de Velha.
          Os Netos querem agora novos esclarecimentos: morreu ou ficou inteira, o Pedro ainda goza: o Lobo tava grávido de Vovozinha! “Besta, diz ao primo a Tereza”. Querem saber como Chapeuzinho arrombou a porta para dar bolos à Vovozinha que agora era o Lobo Mau. Será que pretendesse comer além da Vó a Chapeuzinho e, de quebra, tudo do cesto... e o Pedro: “que fominha esse bicho!”
          Esperem um pouco, eu informo. Não, diz Vovó, não não pôde arrombar a casa a menina, mas eis aparece um caçador e...
          Ela não teve medo do Caçador?
          Evidente que sim, minha filha, deve ter ficado com um medaço, porém maior medo devia ter do Lobo, não acham?
          Além do mais ela não sabia que o Lobo Mau engolira sua Avó. Então o Caçador... me larga, Aninha, está me doendo o braço de tanto me unhar! Como eu dizia o Caçador derrubou a porta, entraram e tchã tchã tchã!
          O Homem matou o Lobo, Vó?
          Não garota, não precisou.
          Por quê?
          O Bicho Lobo morrera de tanto engolir a Vovozinha?
          Economizou bala?
          Não meu Pedro, era espingarda dessa como a do seu tio: de espalhar chumbo. Não precisou atirar, o Lobo Mau estava passando mal!
          Tadinho Vó!
          Todos olham, abismados, a Heleninha ter pena do Lobo. Acordam e indagam: Você não falou já estar morto!
          Disse, o Caçador pensava e viu que não morrera, ainda respirava um pouco.
          E aí! ...
          Pera lá, vocês prometem não deixar resto nos pratos mais? a Bastiana está por conta com vocês todos. Vou falar quando seus pais vierem que estão comendo pouco deixando muito resto e também não ajudam a Tiana na tarefa de arrumar a cozinha...
          Concordam com a chantagem avoenga; imediato imploram a sorte do Lobo Mau.
          Bem. Vamos ao Lobo. O Caçador manda a Chapeuzinho olhar para o outro lado, faz um corte com o facão deste tamanho (olham surpresos!) tirou a Vovozinha de dentro do bucho do animal, ela correu a abraçar a Neta e...
          Ei Vó, então essa velha era mais forte que Você e Vovô, pois que ela saindo a correr...
          Que gracinha você me saiu, Pedro! nem respondo. Aí meninos, o Caçador pôs trinta pedras e... “não é muito”, moleque enxerido, foram trinta que eu vi (Vovô, que não escuta, gargalha pra valer, Vovó mostra-lhe feiamente a língua) vi sim trinta, encheu o barrigão, arrastou o Bicho para... 
          Que negócio é esse, não estava pesado não?
          Claro que sim João. Vovozinha e Chapeuzinho Vermelho ficaram vermelhas de tanto ajudar o Caçador a empurrá-lo até ao rio e aí...
          Aí, Vó!
          Aí tchibum! Acabou.
          Acabou? morreu? ficam discutindo seriamente aquelas tragicidades. Vovó e Vovô também se foram, ainda discutem as crianças.



9o.Botas & Gatos

          O Jovem não tinha onde cair morto! diz Vovó. Isso dispara línguas, o público mastigando o pão com manteiga e a Aninha havia derramado a caneca do leite e se lamentava por não querer parar com a mamadeira; os outros gozam entre si, ainda não estão prontos para a estória mas um deles não se contém:
          Vó, não tem estória hoje?
          Ora, não está ouvindo contar!?
          Ué, Você fala do homem caindo morto; já matando antes de começar...
          Está bem. Aceito o desafio. Me ajudem, vou me levantar ir ao meu quarto, pois não querem...
          Assim iniciou Vovó o Gato de Botas.
          Está bem, está bem. Era um homem ainda moço e pobre; por isso usei a expressão ‘não ter onde cair morto’, entenderam? Aí... vai alguém abrir o portão, estão batendo, parece a pirralhinha. Era.
          Ora viva, a Luana. Elinha: “sô muiéi!” Todos riem. Tem o vira-lata lambido mas também peludo que se ri também ladrando abanos. Os chegantes se achegam, Vovó refaz o introito e conta:
          Vivia lá nos confins...
          É longe, Vovó?
          Longe, filha, além das montanhas... além é depois, Ana.
          Depois da padaria de comprar sorvete?
          Depois do sorvete depois do pão. O que disse?
          É mais longe ainda que a Branca de Neve?
          Mais que a Casa dos Anões, não é? pois é mais ainda. Então o Jovem ficou triste com sua alegria... Explico já: ele vira a Princesa Cabelos de Prata e ficou feliz desejando casar-se com tal bela.
          A Bela Adormecida, Vó?
          É outra, não é que toda Bela seja adormecida, tem bela acordada, quando eu era jovem me achavam bela (Vovô faz grrr lá no rádio e fumaça). Essa era bela e rica.
          Despencam a perguntar os meninos.
          Toda princesa é ricaça?
          Todas. Todas que conheci.
          Vovô se ri até segurar a cinta no barrigão. Vovó, um pouco desconcertada, olha com vontade de xingar a oposição. Mas continua:
          Então ele ficou triste porque era pobrinho e a Princesa ricona, milionária; se apaixonou por ela e ia ter de ficar solitário (explicou solitário aos menores). Foi nesse ponto que entrou o nosso Gato.
          Não o nosso, garoto, já viu o Gato de Botas? já na tevê eu sei; quem não viu? passou outro dia o desenho. Daí não preciso contar a estória...
          Vou parar.
          Foi uma grita geral exigindo a narrativa.
          Está bem, crianças. Esse não tem Botas. (Ficam espantados, todos teriam que ter botas, como!) Vocês não me deixam falar. Não tinha. Aí falou ao Jovem:
          Ele falava, Vovó?
          Claro, Ivone, no tempo em que os bichos falavam. Sim faz tempo. O Gato perguntou:
          Meu caro, por que anda triste. Ele contou ao Gato sua desdita (ela explica desdita, Ana comenta “humm!” Luana: sô muiéi) Certo, filhinha, eu também sou mulher, aí Luana se espanta. Não se preocupe, falou o Gato, vou resolver seu problema; apenas exijo uma coisa: me traga amanhã cedinho um par de botas.
          Vó, gato não tem quatro pés?
          São patas não pés. Tem. Um par, par são dois, Ana, um par para as patas debaixo, ele ia ficar de pé igual o homem. Certo?
          Dizem sim com as cabecinhas, Luana imita os outros, gosta do exercício e fica fazendo pra cima e pra baixo a cabeleira escura. Vovó continua. Ou por outra vai continuar, vem Sebastiana, comem voltam barulham infernizam, até Vovó tapa orelhas e para cansada na poltrona. Aí estão por volta dela, Aninha proseia com Vovô e tem um menino também contando; correm para a Vó.
          Trouxe as Botas, Vó?
          Eu?! ah, sim, emprestadas, o rapaz não tendo dinheiro nem para comer...
          Comer dinheiro!
          Não, menina, já viu alguém comer dinheiro? (Aí contam uma de bode comendo dinheiro na televisão).
          Que bobagem, isso é mentira, bode come capim e milho igual burro. Dinheiro aqui é uma figura (explicou figura para explicar dinheiro). Com dinheiro que ele não possuía se compra comida.
          Ué, não tinha para comprar.
          Ai ai ai,  Vocês são dose!  Bem, não podia o jovem sequer comer, não teria numerário, numerário é dinheiro viu? não teria para adquirir botas, tomou emprestado.
          De quem?
          De quem? Clara, meu Deus! hoje eu morro – do tio dele. Quer saber o nome do tio? (fez que sim) Tio Sabino, pode perguntar ao Vô, ele vivia pescando com o Sabino e bebendo cachaça com ele no barranco...
          Olham curiosos Vovô.
          Vovô: grrr.
          Retoma a velha o seu contar.
          Então o Gato pôs as Botas.
          Por isso Gato de Botas?
          Por isso, João, por isso. E falou:
          Você agora é meu Amo, amo não é de amor, é o dono, entenderam? Faça de agora em diante tudo que eu indicar, aí casa com a Princesa! a Princesa dos Cabelos de Prata.
          Ah tem um treco errado.
          Treco, que linguagem, Pedro! o quê?
          Você disse que o Jovem virou Dono; agora é o Gato de Botas quem manda no Amo!   
          Bem bem, sabe que acho você o neto mais inteligente! não estufa não meu filho, a vaidade é a perdição deste planeta. E o egoísmo, este é maior perdição ainda. Sim, inverteu-se a posição. Mas ocorre de o Jovem ser puro o Gato esperto e pretendia ajudar seu Dono, Amo. Certo? (Fez que sim).
          Meu plano é o seguinte caro Amo, disse o Gato, todo vaidoso ele também por estar com Botas, meu plano: vou à frente por este mundo falando sobre sua grandeza e poder. Você, meu Amo, vá até ao Castelo e peça audiência com o Rei, apresente-se como o Marquês de Carabás.
          O Marquês ficou de boca aberta sem entender, sem saber o que falar, era inusitado!
          (Vovó para a estória, explica os vocábulos; depois iria sozinha no quarto consultar o dicionário ver se ensinara corretamente. Continua:)
          Agora o Gato de Botas anda por aí a mentir as grandezas do Amo, Marquês de Carabás. O quê? ah sim, claro que é errado mentir, porém não falei o Gato ser um santo, tão só esperto. E os fazendeiros procurados eram eles sim mui ingênuos, acreditavam em tudo.
          Todo mundo pensou mesmo que era Marquês?
          Todos acreditaram, até chegou o boato aos ouvidos do próprio Rei.
          E aí?
          E aí, meu Pedrinho, que está na hora sagrada de nossa refeição; não é Bastiana? Era.
          Todos foram em marcha.

10o.Bodas & Botas

          Ué, você veio sozinho? a Luana e o cachorro... Ele responde que a pequena dormiu, apenas ele escapulindo de casa, interessado em saber do Gato. Estão todos ansiosos, Vovó não deixa de estar feliz com tanto interesse, não diz, ri satisfeita. Têm mais senõezinhos de mesa, os netos discutem, “balofa” elogia um, “zoiúdo” responde balofa, Vovó não interfere, deixa a poeira abaixar; enquanto, olha o esposo ali perto longe roncando, falará depois ter apenas descansado; ela não tem é descanso naquelas pontadas de lado mas nem vale a pena falar dessas coisas para a molecada.
          Acalmam-se. Perguntam à Vó com os olhos:
          É, eu estava dizendo que o Gato trepado nas suas Botas douradas andou por todas terras anunciando: “aí vem o Marquês de Carabás, o nobre mais poderoso do planeta!” e matracava a todo povo onde estivesse que as propriedades por volta: “tudo é do Marquês de Carabás!” De maneira que toda gente aguardava o pobre Amo apaixonado pela Princesa das Pratas.
          Que safado esse Gato!
          Exato, Cidinha, safado e inteligente. Com tais atitudes provocou uma curiosidade imensa no Reino. O próprio Rei já falava aos ministros: “encontrem-me o Marquês de Carabás, ofereço meu trono a ele por herança, pois é certo que Glorinha vai amá-lo e desposá-lo!”
          O Marquês ficou sabendo disso?
          Ficou, Joana, ficou sim por intermédio do Gato de Botas que espalhara a novidade; assim por onde passava o Amo ouvia repetir as palavras visando atingir o Rei, este acabando por fazer a declaração ao próprio Gato. Aí pensou o Gato: meu plano está dando certo. Então ele procurou o Jovem pobretão virado Marquês poderoso e narrou sobre o interesse do Castelo.
          O Marquês ficou feliz e, apressadinho, tomou emprestado o melhor ginete no mercado para ir ao Castelo Real, desejava ir imediatamente pedir a mão da Princesa ao Rei.
          Só a mão, Vó?! Explica a senhora o costume assim dizer, a mão e o resto, inclusive os bens da moça;Américo, maiorzinho, tem outra dúvida:
          Pera lá Vó, ginete é algum carro de corrida na fórmula um ou se compra no supermercado?
          Não é isso! ginete é um cavalo; mercado quer dizer nesta estória estar disponível; nem havia supermercado lá. Certo?
          Foram.
          Não é ‘foi’?
          Não, meu filho, foram o Marquês e o Gato de Botas; e o cavalo também, claro. Foram. O Gato foi junto, não iria confiar no Amo, tão simplório, embora ótima pessoa. Foram juntos. Viajaram seis dias e seis noites sem parar e...
          Vó, xi, tem um troço errado.
          ‘Troço’ que linguagem banal é essa Pedro! O que viu errado. 
          Não comiam ou comiam e bebiam no lombo dos cavalos, o Gato ia decerto num cavalo também.
          Certamente, devia ser assim.
          Não é bem isso, Vozinha... não faziam xixi e cocô, igual nós (aí Aninha se assustou, havia urinado no colchão nessa noite). Porque suportar durante seis dias e seis noites!
          Olhem aqui meninos, o Pedro está com a razão, eles eram gente e gente...
          O Gato virou gente?
          Não, Aparecida, não, é modo de falar. Naturalmente paravam para isso e descansar os cavalos. Entenderam?
          Vovô fingia ouvir seu rádio e não aguenta: Viu só onde leva a mentira?
          O que mesmo Vossa Alteza falou? perguntou Vovó.
          Responde Vossa Alteza: “estou comentando uma besteira que o centro avante disse ao árbitro do jogo”.
          Parou a discussão adulta, os meninos, na expectativa da estória. Cobram de Vovó.
          Certo, filhos. Então chegaram ao Castelo. A festa andava preparada, pois praticamente selada a sorte, o casamento daquele pé-rapado que virou Marquês com a Princesa, a qual certamente iria querê-lo, pois belo e rico; ainda mais Sua Majestade desejando o enlace. O quê?
          Enlace é casamento.
          Foram dias e dias numa festança. Entretanto no segundo dia houve um problema. O Ministro Gato de Botas pediu audiência, já expliquei isso outra vez, ontem? Pediu audiência com o Rei. Nela apresentou seu Amo Marquês de Carabás e o Primeiro Ministro Real apresentou ao futuro genro do rei o Rei do País. Era o cerimonial apropriado; e havia muito pompa e luxo!
          Aí casaram, Vó?
          Esperem, vou contar. Prestem atenção no diálogo deles, diálogo? é conversa, um fala outro responde, e assim se esclarecem.
          O Senhor Marquês de Carabás, meu digníssimo Amo, Nobre proprietário das Terras (aí o Gato de Botas fez uma relação enorme das fazendas do Marquês dito de Carabás) e...
          Era mentira, né Vó?        
          Verdade que era mentira, filhinha, mas o Rei não sabia. Continuemos nós.
          O Marquês de Carabás tem a honra em pedir a mão da Princesa da Prata à Vossa Alteza Real, Rei e Progenitor... Progenitor é o mesmo que pai, Aninha.
          Então, meninos, o Gato de Botas, todo imponente, fez o pedido formal ao Rei. Este responde:
          O pedido honra este Reinado: aceito. Só tem uma coisa – é que a Princesa da Prata fugiu com o Príncipe Encantado na última sexta-feira... entretanto a Belíssima Princesa Maria encontra-se à disposição...
          Vó, tagarela um neto: parecendo mercado de peixe! os grandinhos riem os pequenos olham ora pra Vó ora o interferente. Outro pergunta: 
          Era bonita, Vovó?
          Não está você muito longe da verdade, parecia sim mercado, aí vendendo uma Princesa Maria. Se bonita! ora, nem se fale.
          ?!!
          Se era bonita? um canhão! Um canhão como falaria o nosso Pedro desbocado... Até ontem o Marquês de Carabás andava correndo atrás do Gato de Botas com um pau deste tamanho! o Gato em cima do muro assustado, encontrando-se apenas com uma Bota, a outra perdera na fuga apressada!
          A seguir Vovó faz uma força imensa a fim de se levantar, Bastiana ajuda sim, foram para a refeição, a garotada ainda comentando a estória, quase atropelando Vovô a entrar na cozinha.



11o.Porcaria

          Hoje, ontem também noite inteira, o que é abuso de expressão a dizer até dormir, hoje levanta a criançada em discussão. Vovó falou para não sei quem o assunto de hoje, os Três Porcos. Uns achando porcada, mas este vocábulo dando confusão como a falar por cada um, essas coisas; outros preferindo a porcaria mesmo, os grandinhos dizendo ser isso uma coisa feia; mas Vovó não iria falar coisas feias, que é feio; alguém contra-argumenta a oposição: Vovó fala coisas do Velho e o Velho... todos sabem homem é mais boca suja realmente. Aí a Vovó já escovou os dentes para dar bom exemplo; Vovô tirando ainda a dentadura do copo e fica uma gosma na água. Os meninos não, já de pé. Cedinho, parece que o calor ajuda a pular da cama se espreguiçar, abrindo a boca deste tamanho; o pão a manteiga o café o leite, Bastiana arruma a cozinha, os trens na pia, Aninha derruba os já ensaboados na cuba faz barulhão – está trepada na cadeira e se equilibra a aprender ou a ensinar Sebastiana e assim se molha um pouco bastante na barriga, os outros não, os irmãos e primos conversando brincando brigando esperando Vovó. Chega, cumprimenta Bastiana, sorri elogia a netinha cacheada olhando, os olhos verdes vendo os trecos garfos colheres facas, “cuidado para não se cortar, filha!” Vão à sala.
          Vovô saboreia a fumaça, pita gostoso, lê o jornal balança a cabeça branca negativamente, responde atrasado bom-dia, essas coisas. Vovó está rodeada. Ou conta cedo ou não conta como ontem não deu. Depois que o filho se foi e a nora não veio saiu às visitas e aí os garotos ficaram atormentando a Bastiana. Agora não é assim.
          Chegam-se, narram suas coisinhas, ouve procura contornar, é espécie de panos quentes na fervura familial. Ninguém das vizinhanças até agora; prometeu os Porcos, conta os Três Porquinhos.
          Era uma vez... Aninha! Chama, vem correndo. Repete. Era uma vez Três Porquinhos, isso no tempo em que os bichos falavam.
          Falavam de verdade, Vó?
          Que me consta falavam sim. Bem entendido: cada qual falava por certo na sua linguagem; o mérito estando em todos entenderem e... Como? ah sim, não não precisavam dublar como na televisão: todos entendiam e pronto. O burro zurrava a vaca mugia o gato miava o carneiro balia o cão ladrava etc. e tal, tal qual hoje em dia; contudo os bichos e por extensão o bicho homem: todos entendiam e se entendiam. O que foi mesmo que você disse?
          A Torre de Babel, falavam e não entendiam.
          Bem lembrado, Pedro. Não falei que é inteligente! mas neste caso não tem os outros bichos falando: são os homens que não se entendem. Até hoje é uma Babel, não veem guerras, inclusive as guerrinhas na casa,  marido e mulher... (olhou Vovô, que agorinha não ouve não costuma ouvir o que não lhe interessa) e os meninos já levantam os desentendimentos de pais e tios; ela grita: basta!
          Basta! se formos tratar de Babel, que era a Babilônia, se tratarmos do bate-boca entre casais... vira uma porcaria!  Todos riem, os pequenininhos rindo por imitação do riso da Vó. E assim, meus anjos (aqui disse baixinho) assim não teremos a Estória dos Três Porquinhos. Posso continuar?
          Poooode! Porém um deles dá uma bicadinha:
          Nessa não tem Lobo?
          Por que pergunta, filhote?
          Acontece que ontem (corrigem o ‘corrigidor’: trasanteontem) ficaram com medo, a Ana teve sonho...
          Teve, Aninha? (Fez sim com a cabeça os cachos balançam). Então eu não conto, ou tiro o Lobo e não é mais a estória; se a gente tirar a cabeça ou a perna de alguém esse alguém não é mais inteiro, a estória também não é completa. O que preferem: pedaço ou não contar por causa do Lobo...
          Discutem discutem sem parar. Joana fala pelo grupo.
          Vó, esse Lobo é mau como o outro?
          Não, filha, não é igual...
          Batem palmas dão viva, preocupando o Vô lá no radinho pelo barulho.
          Não é igual... é pior.
          Pior!
          Pior, meus filhos, o outro comeu a Vovozinha...
          Desejava era comer Chapeuzinho e os bolinhos e quem sabe não viesse a comer o Caçador!
          Bom raciocínio, Pedrinho. Acho que um dia você será doutor. (Incha-se o ‘doutor’).
          Pois bem, estou no limiar... limiar é início do início, está certo? Estou no limiar de largar tudo e ir bater um papinho gostoso com a fumaça e o rádio de pilha...
          Olham pros lado de Vovô e gritam Não!
          Querem e não querem, durma-se com um barulho deste! Pois saibam que o Lobo Mau agora deseja comer Três Porcos!
          Mas comeu mesmo ou só um igual ao da Vovozinha?
          Joana, minha querida Joana, para se saber o fim de uma coisa é preciso conhecer o início a coisa propriamente dita e, aí sim, saber o fim... Ah me ocorre uma outra saída aos que temerem o Lobo...
          Qual! pedem.
          É contar apenas aos corajosos, como ao Pedro. Enquanto os outros ficam no sofá assistindo Castelo Ra-tim-bum ou desenho, novela  não tem agora cedo.
          Optam a ouvir, todos, inclusive os chorosos.
          Vamos lá. Então, havia Três Porquinhos. O Roque, o Roque-Roque, que eram os maiores e o Nhe-Nhem, novinho.
          Que gracinha, né Vó!
          Gracinha é Você, Clarinha.
          E eu, Vó?
          Você também, Ana. Bem. Aí no mangueirão eles...
          Que é mangueirão, onde tem manga?
          Às vezes até existe mangueira no mangueirão e manga podre no chão, os porcos, porquinho porcão porco enfim é bicho que mais ingere porcariada, este nome vem de porco. Mangueirão é onde estão os porcos soltos; quando gordos ou engordando de tanto comer (os meninos gozam o Toninho) aí vão ficar na ceva num espaço menor cercado.
          Vó, por quê?
          Ora, se ficarem correndo soltos, por mais que eles comam queimam as gorduras; e porco magro tem pouco valor. (Agora é Antônio quem goza os primos; e Vovó:)
          Isso é válido a porco e para gente: comer sem parar para no cemitério; a gordura vai até o coração (Toninho fica pálido e ninguém quis gozar; e se olham um ao outro atarantados).
          Voltemos à nossa estória?
          Muito bem. No mangueirão havia um problema: ia dar uma tempestade, dessa de apagar a luz do sol!
          Vó, eu tenho medo de chuva e de trovão, diz Ivone. Quase todos concordam. E aí?
          Aí, meus filhos, os Porcos passaram a discutir como resolver a questão. Acharam melhor fazer casas sólidas para enfrentar o temporal. Roque não pensou duas vezes, arranjou um mundo de penas e fez uma linda casa. Roque-Roque tomou os melhores ramos e fez a sua muito bonita.
          E Nhe-Nhem?
          Nhe-Nhem, Joana, pensou pensou e pensou muito, era demais prudente; construiu a sua de pedras, o que lhe valeu dias e dias de trabalho e suor. Enquanto isso os outros, o Roque e o Roque-Roque, dormiam ou comiam e assim engordavam mais e ainda se riam do pequeno e sabido porco. Aí...
          Que aconteceu, não foi o Lobo!
          Não Joana não foi, foi um tufão negro e poderoso! o vento soprou tanto, arrasou tudo que havia... assoprou de tal maneira que quando viu Roque, não tinha mais casa, levadas as penas embora; Roque-Roque olhou lá longe e também sua casinha já sumia no meio do tufão!
          Não para não, Vó, que aconteceu?
(Sebastiana chega a ouvir um pouco dos porcos, não se trata do almoço).
A Bastiana disse-me que vai demorar a comida, queimou não sei o quê. Continuamos?
Vovô olha desenxavido não aprecia; ainda mais que seu time perdeu ontem o jogo. Acompanha com os olhos a Bastiana. Pita um pouco mais. Vovó:
Continuamos então? Nesse ponto, meninos, só resta a casa forte do mais novo dos porcos.
Nhe-Nhem Vó?
Nhe-Nhem sim. E os manos dele gritam abrigo, querem entrar a todo custo na casa de pedra. Sabem por quê?
!!!
Porque além do desastre e perda pelas casas levadas, vinha vindo o Lobo!
(Ana cobre com as mãos olhinhos verdes para não ver tão negra criatura).
E gritavam, acuda-nos Nhe-Nhem! acuda ou o Lobo nos come e aí é pior que o vento, o vento ainda batia as partes da janela e o porquinho Nhe-Nhem estava tentando fechar tudo melhor.
Ele deixou os outros entrarem!?
Deixou Heleninha, você não deixaria seus irmãos entrarem ou largaria os pobres na boca do Lobo Mau, hein!
Eu só tenho um irmãozinho e ele ainda está mamando na mamãe.
Certo, filha, e se ele estivesse aí fora ventando e um Lobo deste tamanho querendo... Não, não, isto é estória, não chore, ah que menina boba! Vamos deixar para outro dia?
Não! – gritaram.
Aí entraram e o Lobo Mau batia desesperado, a dizer: “oh porquinhos bonzinhos bonitinhos gordinhos, abram a um pobre lobinho morrendo de medo do tufão!”
          Ele queria comer os porquinhos, não queria Vó?
          Queria.
          Comeu?
          O que vocês acham?
          Nessa estória cada neto dá um fim no Lobo Mau e elevam os Porquinhos. O Pedro tem mais os pés na terra: acho que mataram o Lobo de tanto correr ele com medo das pauladas; aí o dono dos porcos deve ter fritado os Três Porquinhos e fez torresmo pra comer com feijão. Vovó concorda, os meninos comentam a conclusão sugerida:
          Não como mais torresmo!
          Nem eu!
          Não come sequer com arroz e feijão bem temperados Clarinha?!
          Voltam à sala de refeição, a cozinha-copa, tagarelando, Vovó sorrindo (por fora, por dentro num ai-ui) Vovô não se conforma com a perda dos pontos da equipe, culpa o árbitro, come emburrado, nem percebendo a folia das crianças.



12o.A Estória do Jacaré

          Hoje é um dia, e não é dia ainda os raios vêm vindo lá longe os galos também lá longe; é um dia, um daqueles dias terríveis para Vovó. Ela não contará certamente estórias, está de molho, Vovô costuma falar nestes termos. Ela de molho, dói aqui ali acolá, nem se levanta ou doerá ainda mais. Aquelas pontadas as bolas lá de dentro, e pior, isso sendo mais concreto que o absoluto: as hemorroidas! Saltaram sangraram doeram doem – ela é uma batalha perdida, sente-se também e piormente como a guerra perdida. Vovô se abobalha não sabe o que fazer, nunca se saiu bem como enfermeiro, anda pra lá volta pra cá, não resolve, resolve carinhar a esposa com grosseiras delicadezas amorosas mas ela se irrita mais, a dor convence qualquer ser. Ele põe o travesseiro mais desse jeito, ela não gosta, muda mais pra cima; cobre a mulher, oferece fazer chá de não sei quê feito pela Bastiana todavia quem vai trazer a infusão será ele realmente, isso é verdade; lembra as gotas os comprimidos; não quer médico a patroa, nada a convence e se convence ela mesma a ficar parada calada esticada meio arcada sem forçar nádegas numa posição melhor da pior na cama; então ele fica olhando a chocar sua fêmea, porque afinal de contas a ama, a seu jeito, que não tem jeito, mas ama. Ela olha, agora passando a crise, olha seu homem e se enternece com o enternecimento e desajeito dele. E isso é um mundo e vale o universo!
          Senta-se Vovô na beirada da cama a adivinhar o que possa desejar precisar Vovó. O quarto está na penumbra, quietude, as portas fechadas e lá fora ainda não há sinal do fim do mundo, porque os meninos dormem e depois virá o café o pãozinho a manteiga; e a conversa animada e depois ainda a estória, hoje não tem estória, é visto: não tem. Então conversa com ela mansinho, aquilo das intimidades a portas fechadas.
          Não acha Zaldira (nunca chegou ao estágio do “meu bem” e “querida”, ou somente experimentou tais poesias na lua de mel que se perde nos milênios de uma vida) não acha você que nossa nora tarda muito nesse serviço dela!... Não tá nem aí essa desmiolada, responde Vovó. (Mais um hiato de século, retoma a conversa:) O João, aquele vizinho, você sabe, é maldade pura eu sei, sabe o que disse? Ela: imagino mas toda vila sabe, falou o quê? Que a nossa Aninha é filha daquele sujeito do trinta e seis que se mudou... Ora, Alfredo (ela também não sabe mais dizer “querido” ou desaprendeu) ora, ainda hoje trai nosso filho! esse tal serviço é para ficar longe daqui e deixa pra nós os meninos, eu até gosto e aí vêm os outros netos para esta casa, virou parque infantil... (sorri olhando o esposo). É... diz Vovô. Porém deve ser verdade porque toda família tem olhos castanhos só ela os tem verdes como o ex-vizinho... não acha, Zaldira? Acho. Mas não quero pensar nisso porque adoro a menina! Eu também, concorda o homem. Você melhorou, não é! Ela: isso passa; avise a Sebastiana para cuidar deles, hoje não posso me levantar. Claro, Zaldira. E digo a eles que não tem estória.
          Todavia a estória é outra.
          Aninha não bate na porta, empurra a porta, vem arrastando a fralda pelo chão, encardida e gasta, a boneca estripada no braço, olhos verdes a sondar Vovó Vovô sorrindo, sobe com dificuldade na cama, Vovô vai falar para não mexer balançando o colchão, pois Vovó está doente, mas já chegou-se a ela, beija a Vó depois recebe beijo do Vô e se senta na forma arcada do corpo da Velha e começa a dizer suas costumeiras bobaginhas.
          Vó, diz, vi umas coisas, aquele Jacaré da estória.
          Qual, Ana!
          Aquele. (Os velhos se olham, Vovô até se esquece da vontade de fumar, abre também ouvidos). Aquele um, mas não é ruim, é bonzinho. Então o Pedro ajudou limpar ele, ele estava com fome e nós levamos ele na festinha...
          Que festa, minha filha...
          A festa, Vó. Aí ele estava voltando para vir escutar a estória de Você, eu contei pra ele só a da Branca de Neve e ele não teve medo do Lobo Mau e ele queria a do Chapeuzinho Vermelho e eu falei que Você vai contar do Chapeuzinho e da Vovó da Chapeuzinho...
          Então ele veio?
          Foi sim Vovô, ele veio. Aí passamos perto da lanchonete e tinha chovido e uma lagoa de água vermelha de suja e ele pulou na água e...
          (Aninha segura a boneca estripada sem cabelo, toma o pente da Vovó cheio de caspas e cabelos quebrados e aí passa e mais passa na calva da boneca, ajeita os fios do faz de conta, olha em volta e torna a olhar o efeito do seu trabalho; a seguir ela continua:)
          Então nós gritamos ele, ele estava limpinho e agora todo sujo de lama, mamãe não vai gostar de entrar aqui pingando o barro mas mamãe não voltou eu fui ver no quarto e o papai já foi trabalhar e eu tô com saudade da mamãe mas ela vai brigar com o Jacaré, não vai Vovó?!
          Acho que vai... e o Jacaré foi embora?
          Não, Vó, ele é grandão mas é pequeno e o Pedro pegou o esguicho com a borracha e espirrou água nele para limpar e eu fiquei segurando ele pra não fugir de medo de tomar banho como o cachorro da dona Chiquinha fugiu... e também aproveitei escovar os dentes dele, ele tem uns dentões assim, e pus pasta e usei a escova do Vovô escovar a dentadura mas não derrubei o copo de pôr a dentadura, viu Vô?! (Vovô fez sim, assentindo de cabeça).
          Ficou limpinho?
          Ficou bonito, Vovó. Aí nós pusemos a roupa do Américo nele, aquela que ficou pequena para o Américo; e eu pus até uma fita vermelha no pescoço dele mas ele estava com fome...
          ?!
          ...estava sim Vó, a lagoa era de água da chuva e não tinha peixe e ele estava com o papo vazio. Aí nós trouxemos o Jacaré escutar a estória porque podia até que ele comesse o Lobo Mau, não podia?
          Podia sim, filhinha. E daí, Ana?
          Aí eu dei bolo que a Bastiana fez naquele dia, dei para ele comer e ele matou a fome. Só que ele comia assim (imita a bocarra aberta, fechou olhinhos verdes) comia assim, mas comia de boca aberta, eu falei: Jacaré, é feio mastigar de boca aberta, pergunta se não é para a Vovó!
          Ele perguntou?
          Não sei Vovó, não perguntou a você!?
          Olharam-se os Avós. Vovô:
          Zaldira, você não disse que hoje nada de estória?
          Vovó olha aquela preciosidade penteando a filha estripada, seus olhos ressecados dos milênios sem conta se molham. “Vai tomar leitinho, Ana”.
          Só se for na mamadeira, Vó.
          Vovó: primeiro fazer xixi, não pode ficar segurando. Depois você mama.
          A garota escorregou ao chão, se esqueceu da boneca, saiu apressadinha, nem fechando a porta do quarto.



13o.Massenet e a Bruxa no Câmbio Paralelo

          O descanso de Vovó não ultrapassou os dois dias, um se distraindo com a hemorroida outro tratando esquecê-la na cama para se distrair. Foi então que recebeu visitas, as dos netos, que mais olharam a doentinha sem entender e falavam baixo ou conversando também baixo com Vovô investido em enfermeiro-chefe, o qual foi expulso no segundo dia pela paciente impaciente com o desajeito. Dando o lógico: não houve estória e sobrou muita responsabilidade à Sebastiana. Contudo terminou a fase de descanso e Vovó resolveu viver, com certo cuidado, é visto, então se levantou; retomou suas altas funções.
          Agora é cedo, a bagunça rotina a rotina da bagunça das crianças outra vez. E tem pãozinho, uns querendo comer a casca “vê se tem graça” e deixando o miolo, outrinhos fazem igual rato “onde já se viu!” engolindo o miolo deixando a casca por falta de educação “ninguém pode com os meninos hoje em dia” ou só a enganar pregando peça noutro primo ou, tem sim esta bela hipótese: por não pensar nos outros porque criança é um adulto no começo e o egoísmo, mais o egocentrismo, precisa iniciar é no berço. Tem rosca e pão e tem leite, sim alguém derrama na toalha; e tem café, café é pior: mancha a toalha; quando farelinho das migalhas do pão, se chocalha assim e assim volta o pano a estar limpo, mas com café... mancha, sobra para um adulto, digamos a empregada ou Vovó se Vovó de pé, Vovô não, não vê, só ri das artes e da atrapalhação, sobra assoprar que está é quente não está vendo o fumaça! “não é fumaça menino é vapor” assopra; e agora ficou muito frio demais, esquenta um bocado. Ah sim tem a nata do leite, tira-se a nata, eu quero com nata diz outro, a nata vira manteiga. E tem manteiga, tem manteiga demais, falta manteiga, alguém me roubou (ah que feiura acusar outrem de roubo!) alguém me tirou, então, o pão que eu tinha (não foi você foi a Tiana) que a Bastiana já havia posto manteiga. Tem moleque melando as mãos, “tira a mão melosa da cadeira!” não, na roupa também não, vá lavar na pia e não venha chocalhando as mãos caindo caldinho no chão, vê a toalha no banheiro! E se desentendem na concorrência pelo lugar na pia ou pelo lugar na mesa. Ora, criança não tem jeito porque tem muito jeito ao ser criança.
          Pronto. Pronto ao ponto, Vovó bate ponto, senta-se, com jeito, é preciso saber, e isso já é saber, senta-se, é ilha, as águas meninas por todos lados acorrem sorriem, temem no desajeito pedir ou lembrar o contar. Ela faz que não sabe por que a estão rodeando, como se não soubesse desejarem algo, deixa que prolonguem a conversa, olha a dengosa querendo subir ao colo e os outros advertem Aninha a Vovó estar doente, convalescente, a garotinha fica encostada olhando pra cima e pra baixo Vovó vê a plateia, vai falar qualquer – eis que lhe vem o marido:
          Você está em ordem, Zaldira, afirma perguntando. Ela: “assim assim” e emenda: sabe Alfredo, pensava num livro, só dei uma olhadela ontem, sobre Massenet. O Velho é todo ouvidos; Vovó prossegue – não lembra daquela fita de música na qual eu chorava ao ouvir! (Fez que sim) a Taís, Meditação. Não conheço a ópera, você nunca me levou a uma. A fita. O livro fala sobre a vida dele, era um, o último dos vinte e um filhos, e fugiu de casa indo a Paris, no Século XIX, e aí começou a brilhar; e quando morreu tinha um mundo de músicas, uma obra notável... Depois eu mostro a você; foi uma das meninas (referindo-se a uma das amigas dela, fofoqueiras na opinião do marido) ela me emprestou; se quiser ler... Vovô interrompe e sabe que não pode ofender uma convalescente querida: Zaldira, depois, agora nós temos compromissos – você, olhe os meninos! Eu... Vovó: você precisa fumar não é! quando será, me prometeu que... Não completa, a plateia tomada por seu público, já se metendo a cobrar o palco.
          Vovó, que estória é essa, só conta do Massê ao Vô!
          Massenet, Américo, Massenet; um grande músico, pianista e... é meio  complicado.
          Ele tinha medo do Lobo Mau ou era ele um lobo.
          Que gracinha, Pedro. Não vê que seu primo quer saber as coisas e você já começa a gozação!
          Desculpe, Vó, eu...
          Não me ofendi meu filho, a Vó ainda está meio dolorida. Quando estamos adoentados não avaliamos bem a intenção dos outros. (Beija Pedro, sorriem os demais, perguntam:)
          Vó, você depois vai contar essa estória pra nós ou é só para o Vô?
          Não é isso, Clara, talvez conte a ele sobre o livro do Massenet, mas não é isso: queria cobrar do seu Avô, ele promete sempre parar de fumar, isso faz mal, não para, vocês viram, olhem lá, saiu daqui e já está fumando tossindo fumando... Sei, querem a estória de hoje. Outro dia não prometi pra vocês a da Cinderela.
          Conta Vó!
          A Cinderela... esperem um pouco, vou atender Vovô, ele vem vindo outra vez; depois conto.
          Vovô chega fala baixinho, se bem que não haja baixinho a ouvido infantil, Zaldira, ouvi agora no rádio: o Bush invadiu o Iraque!
          Conversam alguns milênios de minutos, ficam sérios demais, Vovô torna à sua poltrona que é o trono dos solitários, Vovó fecha um pouco a cara, parece isolada dos vários olhos dos muitos ouvidos e da expectativa geral. Só unzinho não contém a curiosidade.
          Vó, essa outra estória que o Vovô lhe contou tem alguma Bruxa!
          Oh filhos... não falou ‘Bruxa’, disse ‘Bush’...
          Conta dessa estória, depois a da Cinderela.
          Não, Chiquinho, aquela do Bush é muito feia, talvez medonha para meninos tão lindos como vocês...
          Feia?
          ...uma estória (nem ouve o neto, fala como a um público virtual e distante, fala quase a si, ao gosto idoso) uma estória sim mas diferente, tem Bruxas Bruxos, por demais Lobos Maus, tem Lobo Mau sujando a água para pôr a culpa no Cordeiro, Cordeiro nada inocente também; suja para tomar o tesouro do Cordeiro, que é o petróleo.  E mata a juventude na guerra. Aliás a guerra, já disseram um dia: é a maneira dos poderosos liquidarem empecilhos e diminuírem o excesso populacional, matando jovens; é um horror, sim é um horror.
          Fica macambúzia Vovó, introspectiva, morta-viva, não fosse esse o ser do ser no velho. De repente ela acorda do pesadelo ao ter-se tornado ela mesma, acorda, olha, vê mil e uma carinhas olhando esperando merecendo carinho; puxa então sua própria orelha: o mundo que seja mau, estou diante da gota do bem, nada vale o sorriso de um menino. Sorriu. A plateia esperando sorri no sorriso da velha, destramela:
          E a moça, a Cinderela?!
          Exato, filho, eu falei a da Cinderela?
          Fazem sim contentes. Ela:
          Vamos à Cinderela. Ei-la que vem entrando na sala!
          Bastiana olhou atoleimada seu público olhador – a ‘bóia’, como diz Seu Alfredo, a boia está na mesa.
          Todos riem, Sebastiana não entende bem a graça dos outros porém ri, ri do riso da plateiazinha, do riso de Vovó, ri do contágio do riso, porque não há razão para se rir quando o planeta está a chorar, mesmo quando a gente não sabe das misérias estas contagiam minam corroem e por fim surpreendem; e matam! Não entende. Faz com os ombros que as coisas desnecessitam ser compreendidas e volta qual generala à copa fumegante, o batalhão infantil entende, segue, segue atrás, bem mais atrás e com marcha nadinha acelerada distante da marcial os dois velhos, indo num cadenciado ai ui.

14o.Cinderela Sem Bush

          Almoçam como sempre, sempre tem um, tem muito, sempre os que comem pelos olhos e pelos ouvidos – Vovó puxa orelhas e a Bastiana também falando contra os apressadinhos. Mastigar devagarinho, sem pressa no mastigar, trinta-e-três vezes pior fosse quarenta-e-quatro, devagarinho, sentar-se direitinho, guardanapinho benzinho. Não adianta, diz a empregada, um dia fazem certo noutro se esquecem. Ora a função do educador não é corrigir sempre, toda uma vida! Ah a vida. Destrambelham conversam contam se contradizem, falam baixinho comportado no começo berram no fim e saem a correr, de estômago cheio! Correm, Aninha não corre, está xeretando Vovó, olha lá em cimão a buscar o mundo que o mundo guarda por debaixo da cabeça branca e ela já se lembrando da filha-estripada que perdeu cabelos e nunca, nunca, tadinha, ficarão os fios brancos como os de Vovó. Esta percebe, olha lá em baixo, já sabe, quer colo porém Dona Hemorroida veta o pedido feito com olhinhos verdes, então olha sorrindo, alisa carinhando os cachos da neta; Vovô se foi mais adiante, quer saber mais de Bush para se esquecer desse horror, aquelas estórias de muitos Lobos Maus; e as duas, Vó e Neta andam na direção do teatro, a arena roubada pelo Bruxo, o teatro só contendo a Cinderela.
          Vovó senta-se com cuidado. Sempre se põe cuidadosamente, agora é mais atenciosa com os resquícios na recuperação. Além do mais não tem grande ânimo para contar suas estórias, se bem os garotos desconheçam o drama e apenas percebam por um sexto sentido que todos trazemos no dentrão. Ela afugenta mesmo a lembrança do dia cinzento no qual os homens se trucidam, e se trucidam diariamente! sim, mas não tão ostensivo igual hoje.
          Hoje, filhos...
          Olham em expectativa, alguém arrota outro corrige ameaça dedar à autoridade presente, menino é ótimo na arte do dedurismo, olham...
          Hoje... que dia mesmo é hoje?
          Alguém viu a folhinha para falar à Sebastiana o dia-santo do santo do dia. É quatorze de fevereiro, Vó.
          Obrigado fala Vovó (não tinha costume flexionar o cumprimento ao sexo o sexo que ela já perdera; isso válido a tantas mulheres não obrigadas a dizer obrigada) obrigado Toninho. Vejam bem, meados de fevereiro, suas férias estão acabando...
          Não apreciam demais o lembrete que é lembrete de aulas compromissos e cobranças, tem os que precisam voltar para casa, tem os que vão ficar sozinhos no seu lar e aí ficando tão chato depois que se forem os primos! Nem Vovó irá querer narrar suas estórias para esses exíguos lugares na plateia. E mamãe!
          Mamãe não volta mais Vó! diz chorando Aninha.
          Seu pai falou hoje cedinho que logo ela vem... Assim Vovó enxuga lágrimas verdes. Outros cobram Cinderela.
          Ah sim. Existia uma linda Princesa num Reino distante. 
          Ninguém pergunta, ninguém interroga a fim de não interromper tantos dias sem estória, Vovó prossegue; sua voz é tíbia, não é a mesma voz, é a mesma Vó com certeza, o mesmo sorriso de amor, de muita compreensão.
          O Rei havia se casado em segundas núpcias, núpcias é casamento, com outra mulher, após o falecimento da Rainha, a qual lhe havia dado a linda Princesa como filha, a Cinderela.
          Ela era boazinha!
          Era, filha, era boazinha. Pera lá, quem? a Cinderela sim era boa.
          Não, a Bruxa.
          Já sei, Tê, está querendo saber a Madrasta, quer dizer, aquela que ficou no lugar da Rainha, não é?
          É, Vó.
          Vejam como somos nós os seres humanos. Pensamos na Madrasta como a dona Tereza e já vêmo-la a Bruxa Malvada! Entretanto minha gente, existem madrastas boníssimas, verdadeiras mães em carinho e amor para seus enteados. A Cinderela era enteada da Madrasta. Sim, crianças, esta era má, uma Bruxa, se quiserem.
          (Os netos se entreolham).
          Um belo dia, depois de meses fazendo toda maldade miúda, isto é, coisinhas para prejudicar a pequena Princesa; depois disso a Bruxa passou a acusar e a enredar a pobre contra o Rei.
          Não era rica? Vó, você disse pra gente que todas Princesas que viu eram ricas.
          Sim, meu anjo, sim. Talvez não tenha dito ‘todas’; no geral são ricas. Aqui usei ‘pobre’ no sentido figurado, querendo dizer que ela era uma sofredora. Tanto o pobre quanto o rico pode ser um sofredor. Ela sofria bastante com a Rainha Madrasta. Aí ficou moça e mais bela. Então a Madrasta apanhou certa inveja da jovem.
          Por ser feia, né!
          Não, Maria Helena, era também bonita a Bruxa.
          A plateia se espanta: como pode ser uma Bruxa não horrorosa!
          Escutem, era bela, a Cinderela ainda ficou mais bonita que antes e é claro, muito mais que a bonita Madrasta.
          !!!
          Mas aí a Bruxa tentou afastar a pobre Princesa do Castelo: fê-la uma serviçal, vestiu a Princesa com trapos de gente da roça e a enviou para um lugar muito longe...
          E o Pai concordou!
          Não Joana, nem ficou sabendo, acreditou na esposa: a moça teria fugido de casa!
          (Os netos se indignam nesse ponto da estória. Querem dar uma surra na Bruxa, alguém sugere um Príncipe Encantado a encontrar Cinderela, Vovó aguarda serenar o bate-boca, sorri, até se esquecendo um pouco do Lobo Mau fazendo a Guerra).
          Nessa altura dos acontecimentos o Rei promoveu uma festa em grande estilo, por instrução da Rainha. Todas famílias poderosas do mundo vieram às festividades; os jovens ficaram ainda mais belos e atraentes com suas vestimentas. Todos vieram, brilho e alegria! Todos, todos menos a mais bela criatura...
          Cinderela, Vovó?
          Isso meu filho, Cinderela. Não tinha roupa decente para se apresentar, embora desejando imensamente como qualquer moça participar.
          Tadinha!
          Sim, Tê, pobrezinha dela. Então apareceu-lhe uma verdadeira Fada...
          Conta conta, Vó!
          Conto sim. A fada perguntou à Cinderela por que andava triste. Ela contou-lhe sua desdita. A Fada Boa teve pena da Princesa. Enquanto isso no primeiro dia de Festa apareceram muitos e belos jovens, moços e moças; um era o Príncipe Encantado!
          Esse era lindo!
          Era, Tê, o mais belo. E então encontravam-se na Festa do Palácio também as duas filhas da Rainha Bruxa, feiotas assim. Logo pretenderam o Príncipe e dançaram com ele e tudo o mais.
          Que mais é esse ‘mais’...
          Pedro, se for outra gracinha, mando você ajudar a Bastiana limpar o banheiro. É um modo de falar. Continuemos?
          Então lá na prisão da Princesa...
          Estava presa!
          Não falei presa na cadeia; ela encontrava-se num recanto longínquo e pobre, vivendo como roceira, vocês se lembram a razão, enfim por causa da Madrasta, não é?
          Fizeram que sim.   
          A Fada mandou Cinderela fechar olhos e quando abriu estava todinha vestida e mais linda; além do mais havia à sua disposição uma carruagem digna de uma rainha! Contudo a Fada fez-lhe uma recomendação: menina, não pode ultrapassar a meia-noite, ou o encanto se desfaz! Assim a Jovem se foi à Festa, desceu à porta do Castelo...
          Do Castelo dela mesma, não é?
          É sim. Ninguém sabia. Então entrou no salão e todos homens queriam dançar com Cinderela. O Príncipe ficou abismado ao ver tanta beleza.
          Dançou com ela?
          Dançou. Porém à meia-noite fugiu Cinderela, deixando o Príncipe atarantado. Ele perguntava a todo mundo, queria saber quem era aquela esplendorosa Princesa. As filhas da Bruxa ficaram enciumadas sentiram muita inveja da Cinderela. No terceiro dia de Festa, aconteceu tudo como na noite anterior, Cinderela à meia-noite ia fugindo mas o Príncipe foi correndo atrás dela. Ela? entrou rápido na sua carruagem, aí tchã tchã tchã...
          Que foi Vó!
          O Rapaz segurou um dos sapatinhos da Bela e a moça se foi.
          Foi mancando, Vó?
          Suponho que sim, Pedrinho. Porém isso não importa. Aí acabou a Festa, o Príncipe andava louco para reencontrar a tal Princesa. O que fez? mandou todo mundo procurar uma certa Jovem a qual conseguisse calçar o sapatinho. E não achava.
          E aí?  
          E aí, meninos, pôs um anúncio.
          Na tevê ou no jornal?
          Nem televisão nem jornal, naquele tempo os governantes mandavam serviçais lerem alto nas praças das cidadezinhas as suas ordens. A ordem do palácio: todas as mulheres deveriam experimentar o calçado. Aquela que tivesse o pé bem ajustado no sapato casar-se-ia com ele, Príncipe Encantado!
          Elas foram, Vó?
          Se foram! encheram as dependências do Castelo...
          Imagino a matracação das mulheres!
          Sabe duma coisa, Pedro, você está crescidinho demais e virando machão... igual seu Avô! (Vovô olha de longe Vovó e faz uma careta inteligível somente aos íntimos...)
          Pois bem, se ficarem mais um minuto quietinhos, acabo a estória da belíssima Cinderela.
          Daí foi um tal de experimentar sapato; dizem que as filhas da Rainha Má chegaram a cortar as pontas dos dedos para o pé entrar no sapato!
          Verdade, Vó!
          Verdade dessa mentira, não é estória? E tem uma coisinha me esqueci dizer, dizer que não sei: me perguntam se o direito se o esquerdo, geralmente nesses casos os príncipes se encantam pelo sapato direito para entortar a curiosidade de vocês... Continuando, olhem, o Príncipe cansou ver mulher querendo e não conseguindo calçar o sapatinho tomado da Cinderela. Que fez? foi de casa em casa...
          Cheirando o chulé delas?
          Meu Deus do Céu, posso com o Pedro!
          Continuemos. Foi a todas casas, ordenou o exame onde houvesse mulher moça.
          Mesmo a que fosse um canhão?
          Será possível, hoje você está impossível, meu neto.
          Bem. Até que chegou num casebre onde vivia a Princesa disfarçada em matuta.
          Disfarçada à força, né?
          Agora tem razão o Pedro. Não queriam que o Príncipe Encantado entrasse naquela palhoça, pois seria absurdo que estivesse ali a Princesa. Assim mesmo ele teimou. Então serviu direitinho o pé de Cinderela no sapato!
          E casaram?
          Casaram-se. Aí foi uma Festa ainda maior e por sete dias e sete noites seguidos. Cinderela ficou sendo a mulher mais feliz do mundo!
          Bateram palmas de alegria, gritaram também, o Vô olhando feio. A empregada já anunciava a janta. Ia iniciar-se a debandada, surge uma pergunta no furor daquele final:
          E o que aconteceu com o Brush?
          Não é Brush, Bush, Pedrinho; é um Lobo Mau mas de outra estória que nunca narrei a vocês. Contei sim foi da Bruxa Malvada, a Rainha. O Rei descobriu a intriga delas, das três, quer dizer, a Mãe e as Filhas, as três estão a correr dos soldados do Rei até agora, perdidas decerto nessas capoeiras por aí...
          Quando chegam à saleta para refeição Aninha se encontra examinando os chinelos da Sebastiana, mede com os palminhos, não se sabe o que pensando; muito menos entende a Bastiana. Vovó olha sorrindo e pisca cumplicidade ao Pedro.



15o.Rato e Rei

          Andava difícil Vovó recuperar-se. A rigor não esperava voltar a ser cem por cento; ansiava apenas cinquenta por cento do que fora;  contudo fazendo as contas na matemática da saúde aceitava chegar ao menos a uns oitenta por cento dos cinquenta e aí já atingindo cem na sua modéstia. Mas Vovô não deixava. Um calorão daqueles, o verão costuma ser brabo, então se liga o ventilador a conta sobe, o filho não diz mas a nora reclama a energia cara, ainda bem que não anda parando em casa com casos que a moralidade apelida serviço e congresso, coisas assim; ou reclamaria, porém que fazer na insuportável temperatura, mais de quarenta. E tem uma coisa: o barulho do ventilador, enjoadinho no trec-trec e zunir noite inteira, neutraliza o calor e barulha impedindo o sono! durma-se com um barulho desses se fala. Desliga. Então o esposo liga o ronco... já estava ligado, apenas o ventilador contrabalançando o serrote do velho. Agora é o roncar o responsável pela insônia! Ora, dá para recuperar os cem por cento! Aí se levanta, não o levantar-se com cuidado, noite toda, não: se levanta a enfrentar o dia, pois a noite fora mais ingrata. Anda com sonolência, uma zumbi! é, parece morta-viva, é tão só viva-morta.
          Bom-dia, Sebastiana. Conversam suas coisas que são as coisas do lar. A moça, não é mais moça, quer dizer, é passadona, um passado a esquecer. A velha também conta, quase as intimidades. Enfim os seres humanos de boa vontade se entendem. Tomam café fresco, que é quente; tomam a fresca da manhã que é quente também, o dia já promete os seus graus, talvez agradando pernilongos; baratas não, a moça velha é limpa, algumas... as que sobram estão sempre alvoroçadas desejando voar e aí assusta ambas. As mulheres, uma deixando ser mulher a outra quase nem se importando mais sê-lo, elas têm mais em comum além do calor de insônia e da barata ginasticando aeroplano; bem mais. As crianças por exemplo, preocupação de ambas. O galo se foi, os raios penetram e trespassam o vitrô, unzinho vem vindo.
          A sua bênção Vovó (fala mesmo “bença Vó”) bom-dia Tiana.
          Caiu da cama o Toninho...
          É, Vó.
          Filhote, aproveito o momento em que seus priminhos dormem, gozam muito sua gordura – você precisa moderar-se, comer menos doces e bolinhos. Eu sei que gosta. Come toda hora! só vejo você mastigando. Quer ser como o sujeito na televisão!? Você viu ontem Bastiana? Precisa três pessoas para carregar o infeliz...
          Antônio olha desconsolado para sua avó. Promete ingerir menos.
          Qual você vai contar para nós?
          Filho, estou pensando numa estória curta, pois necessito sair de tarde, vou à farmácia; sabe Tiana, não gosto assim mesmo vou.
          Qual Vó.
          A farmácia? Ah é claro, que lhe interessa farmácia e remédios. A do Leão e o Camondongo.
          Vai ser legal.
          É possível, Toninho. Já vêm os outros.
          Entram. Entra primeiro Vovô, rumina não dormir direito, Vovó olha Bastiana e balança negativo a cabeça. Aí os outros. Vêm prosa, vêm de todos lados, parece até que combinaram. Vovô:
          Ei, é a rota da Calábria!
          Tem moleque já entra brigando tem os que falando os que absortos; uns se sentam à mesa. Vovó:
          Tem gentinha que dormiu comigo, não precisa nem cumprimentar; tem gente com muita fome e entra direto. Aposto ter os que não escovaram os dentinhos...
          Aí se dá a justificativa. Gente é assim desde pequeninha – tudo que faz necessita justificar por que fez, temendo a crítica decerto; ou por ser orgulhosa, não aceitando a correção.
          Vovó, não Vovô, os adultos enfim ficam de cabeça cheia e agora chega Aninha esfregando o verde dos olhos chupeta na boca fala fala ninguém entende, para olha pra cima aquele show de gente grande, corre pra Vovó, abraça e é carinhada. Vovó não pode pegar peso, Vovô põe o tesouro na cadeira, ela não alcança a mesa e precisa ficar de pé e já vai tomando um pedaço de bolo, os grandes riem. Assim não se pode observar os errados dos errados.
          Agora Vovó senta-se no seu lugar preferido, com mais dificuldade é claro. Limpa educada a garganta, olha os seus netos, seu mundo seu universo.
          Cobram, indagam o título. Toninho já sabe, por isso dá uma de sabido:
          O Leão e o Camondongo!
          (Todos olham surpresos o primo).
          É esse o nome da estória, fala Vovó. Aninha puxa a mão dela e indaga qualquer na orelha. Vovó gargalha.
          Não, Aninha, ele falou  ca-mon-don-go. É rato, rato miúdo. Você entendeu agora?
          Dizem por aí – começou Vovó – dizem que um dia na Floresta um Leão... Vocês sabem não é? o Leão é o Rei da Floresta: o mais forte o mais corajoso e não ri à toa com o rabo como um cachorro lambeta.
          (Acham graça).
          Pois bem, um dia o Rei andava por esse mundo afora quando foi surpreendido, caiu numa armadilha que um Caçador deixara e...
          O Caçador que ajudou Chapeuzinho Vermelho, Vó?
          Olha aqui Joana, não tenho muita certeza mas decerto o tal Caçador era sim o mesmo, pois demais corajoso e havia já prendido muito Lobo Mau...
          (Ficam sonhando imaginações).
          O pobre Rei Leão estava agora prisioneiro! Já ouvia os tiros dos homens lá longe, logo estariam examinando a armadilha e então...
          Tadinho do Rei! que fariam com ele, comeriam?
          Não sei de ninguém que aprecie carne de Leão, porco e boi sim, Leão não sei; e a pele de Leão não tem beleza do tipo de beleza duma onça pintada. Enfim vinham vindo. Aí chegou um Ratinho, petitico assim, cabia na minha mão.
          Na minha também, Vó?
          Na sua também Cidinha. Ele percebeu o desespero do Rei, urrando enrolado na rede, quanto mais mexia mais se enrolava nela, gritava de raiva e não saía! Viu e perguntou: “Majestade, Rei desta Floresta, deseja soltar-se, quer minha ajuda?” O Leão olhou aquela coisinha de quatro patas e focinho miúdo e nem respondeu: balançou a cabeçorra, cabeçorra é cabeça grande, digo aos pequenos. Balançou num pensar, pobrezinho de meu súdito, tamanhinho assim, eu tão grande e poderoso não posso me desvencilhar, o que poderá fazer um Ratinho! O Camondongo, ca-mon-don-go Aninha, o Camondongo começou roc-roc-roc a roer as cordas na rede e quando já os homens estavam perto o Leão se soltou com um urro de vitória, graças à ajuda daquele animalzinho.
          Que fez o Leão, Vó?
          Que fez? não fez, Américo, apenas correu e o Ratinho também, pois não era tolo a esperar caçadores!
          A se eu fosse o Rei daria minha filha em casamento ao Rato que me salvou a vida.
          Muito boa essa, Pedro. Já imaginou que par! Uma Leoa, a Princesa, e um maridinho titico de pequeno para a Leoa comer quando não tivesse outra caça!
          É Vó, dessa vez você me pegou hein! mas então eu daria no lugar do Rei Leão um queijo para o Ratinho, como prêmio.
          Vovó concorda com Pedro. E com os outros netos. Para que também concordem consigo não pedindo outra estória, porque iria passear na farmácia.



16o.Preá de Capoeira e Tartaruga

          Era uma vez... isso li faz tempo, mas aqui devo fazer uns reparos, meus caríssimos netos.
          Assim começa Vovó. Antes, ainda nas intimidades do quarto, Vovô está que é uma beleza de macho: cueca samba-canção, pelos brancos no peito e falta deles na cabeça; procura debalde os chinelos, provavelmente chutados ainda que sem querer pela oposição; põe os pés grandes com unhas arreganhadas que apara a canivete depois de tanto a oposição azucrinar, o canivetão de esfiapar o fumo para o cigarro, põe pesões no solo mesmo, sente o friozinho bom a pulmões e à gota, arca pra baixo, encontra-os em namoro com o urinol, ela de pé. Zaldira, diz Alfredo piscando o sono que não dormiu o ronco impedindo, Zaldira, tenho de lhe falar uma coisa. Outra? indaga serena ginasticando seu ai-ui. Outra, responde. Olha, fiquei pensando em nossa situação (óbvio a dizer da situação e da oposição no conjunto). Até não dormi. Ela na maldade inocente sorri da primeira piada a ouvir nessa manhã.
          Seguinte, minha filha (e ela detesta o tratamento) a coisa aqui no lar anda brava! Nosso Menino (ele tem dessas fixações, o velho filho-mais-velho ainda é seu ‘Menino’) está à beira da falência. A firma... Agora está deixando menos todos dias, tem dia que eu compro as coisas com a magra aposentadoria; essa meninada come e esbanja. Eu sei, diz Vovó, eu sei. Que mais? Eu penso na Bastiana, acho que ele não anda pagando e ela faz tudo, inclusive compras lá fora...
          E vai por aí a conversa avoenga. Voltam-se aos pequenos, ela conta as coisinhas, ele a responder “vejo toda hora...” ela: como, escutando rádio adoidadamente, lendo o jornaleco só lê crimes; e ronca, como “vejo”? Se defende, não ofende: ela convalesce e é sua companheira. Param, ou não param mais, ela abre a porta, já encontra a pequena olhando pra cima, faz sinal ao marido e sorriem, vão as duas mulheres em gozo extremo à cozinha. Aí encontram a bagunça.
          Alimentam-se, alimentam as conversas e daí se dirigem ao circo.
          Era uma vez, mas isso li faz tanto tempo, vamos ver o que me lembro, a estória da Lebre e a Tartaruga. Para nós capiaus deveria ser o Preá do mato que tem um cheirinho ardido (conta como faziam a caçá-lo na armadilha quando criança, os seus manos faziam) o Preá e a Tartaruga, esta existindo em quantidade no Brasil. (Os meninos lembram o que viram na tevê sobre a defesa das Tartarugas e é Vovó quem aprende e sorri:)
          Bem. No tempo em que os bichos falavam (olha Aninha, tão perto de si, sente seu hálito, sorri à pequena e elinha devolve o sorriso à Vó). Então, havia um concurso para se saber quem o melhor. O melhor no tamanho já sabem venceu o Elefante (gritam, “venceu até o Dinossauro!”) Os Dinossauros não existiam mais e ainda existiu o Mamute maior que o Elefante e aí não concorreram. O mais esperto ganhou a Águia; o mais exímio artista no malabarismos ganhou o Macaco; o Papagaio na conversa e assim por diante. Para a disputa na velocidade, quem mais rápido, apresentou-se a Tartaruga, que havia antes eliminado o Bicho Preguiça, menos rápido que ela. Os Juízes ficaram abismados pela coragem dela.
          ‘Dela’ quem Vó? Tartaruga ou Bicho Preguiça e bicho preguiça não é homem...
          Não Tonico, não é homem. Homem é homem, você é homem. Não senhor, a gente fala macho e fêmea. Tem Bicho Preguiça fêmeo, até quando falamos “preguiça” pensamos fêmea, não é?
          Por isso eu falo que mulher é preguiçosa!
          Calma, Pedro. Não abramos a sessão dos clubes da Luluzinha e do Bolinha. Os dois têm méritos e defeitos. (Vovô acendia o cigarro, parou, olha para os lados do teatro, balança a cabeça desaprovando decerto o desacerto).
          Continuemos? No concurso temos ao menos dois concorrentes engraçados e interessantes: uma a Tartaruga moloide e lenta; outro, a Lebre, todos sabendo arisca e rápida no andar. Outros se candidataram sem qualquer chance, quem iria se pôr com a Lebre!
          Que burra!
          Quem, Pedrinho?
          Ora, Vó, burra a Tartaruga.
          É. Era e todos achavam. Hum, sinto cheiro de almoço no ar...
          Eu, eu, eu – todos aspiram gozam brincam. Vovô apaga o pito a melhor sentir a Sebastiana.
          Voltemos à Corrida, diz Vovó.
          Os concorrentes estavam ansiosos, se bem que a Tartaruga iria demorar umas duas horas a saber que sentia ansiedade. O povo por volta gritava, torcia, apostava. Ninguém desejando apostar seu dinheiro e perder na Tartaruga. Os Juízes deram a largada.
          Pera Vó, como fizeram para dar a ordem de partir.
          Olhem aqui, numa corrida de gente, a São Silvestre que viram outro dia na televisão...
          Não fui ver! lamenta Aninha...
          Não, querida, eles também não foram, viram somente pela tevê de ver desenho mas você não podia ver, estava dormindo com sua boneca. Olhem, na corrida os juízes dão um tiro para o alto e...
          Vó, e se a bala acertar errando o alvo e acertar alguém naqueles edifícios altos e...
          Ora, não seja fatalista, Américo. Por que acertariam alguém! Demais é tiro de festim. (Explica festim).
          Bom, agora entendem. Deu o tiro e quando olharam não mais viram a Lebre – zás! saiu sumiu como um relâmpago na estrada, olharam outra vez só havia poeira lá longe.
          E a Tartaruga, Vovó?
          Olharam outra vez para ver, estava lá no risco do chão feito para começar a disputa! ela encontrava-se ainda pensando para dar o primeiro passo...
          Coitadinha dela!
          É mesmo meninos, coitadinha. O povo comentava “já perdeu feio!” alguns diziam: essa chegará certamente ao final da corrida do ano que vem...
          Foi assim?
          Não foi bem assim não. Porque a Lebre ia já ganhando a corrida, se aproximava da linha de chegada, onde o responsável abanando uma bandeirinha xadrez, a Lebre tendo a língua de fora de tão cansada e aí resolveu descansar um pouco. Ela disse a si mesma: meu adversário é a palerma da Tartaruga, posso dormir três dias e três noites e ainda chego em primeiro lugar e ganho o prêmio.
          Qual Vó?
          Ivone, não me lembro o suficiente. Parece que era um quilo de capim, o que servia tanto para a Lebre que facilmente ganharia, como para a Tartaruga a qual perderia com certeza por lerda. E aí...
          Aí chega a Bastiana, bate palmas, sorridente, e aguarda o efeito.
          Vó, fala o Pedro: a Tiana espera, né Bastiana, quero é saber quem ganhou.
          Corrija-se. Não fale na infelicidade dum egoísta! “quero”, diga “desejamos” pois sei que todos querem saber, não é?
          (Era; gritam “sim”).
          Então vimos um rápido animal e outro animal lerdão numa aposta. Agora, pasmem crianças! A lerdona quem ganhou o capim!
          A Tartaruga!
          A Tartaruga. No dia que ela passou se arrastando sem pressa alguma a carregar sua casa nas costas, passando pela Lebre, esta dormia, dormia? roncava igualzinho um Velho nosso velho conhecido... No outro dia ela chegou ao marco final da corrida, a Tartaruga digo. E só mesmo no outro dia ainda a Lebre acordou!
          Pode ser que o Bem não vença o Mal sempre, contudo a plateia se ri alegre e satisfeita, isso é fato. A plateia se desfez para o almoço bastiano, os avós como hábito por último na comilança.





17o.Raposa de Sebastiana

          Um ‘trebófe’! essa a expressão de Vovô olhando... não, espantado não; a rotina não espanta, espanta sim às vezes, não: olhando apenas. Joãozinho levantou-se hoje mais cedo, costuma adentrar após muita tagarelice dos outros barulhando; olha a Sebastiana volta-se para Vovó: não tem, Vó? não tem o que João? Ela não tem cara de Raposa? Mas é um deus nos acuda! fim de mundo, essas coisas, como! menino não sabe ofender, por isso diz o que pensa: fala. Vovó afugenta a indignação e já sorri pros lados da empregada, “e não é que tem razão!” fala baixinho, brinca com Bastiana. Vira-se para João e aí, alto a impressionar o público a chegar, e você, olhando o engraçado do engraçado, e você Joãozinho, você me parece que saiu bem à Cegonha... Envergonha, sim envergonha a vítima no primeiro impacto mas depois corrige bondosa: com essas pernas compridas parece a Cegonha porém uma Cegonha inteligente e bela. João afirma preferir ser “cegonho”. Depois, esclarece Vovó, iremos ver a estória da Sebastiana e do “Cegonho” direitinho, agora!? café leite pão manteiga, ah sim você não gosta de leite então vai comer queijo, está em crescimento... sua prima não deve ter razão, não há razão a dizer que o queijo faz esquecer, isso são estórias do povo inculto.
          Depois, agora, estão a postos – Vovó no contar sorrir brincar sugerir corrigir, perdoar amar; eles, a plateia, com elinha ali perto grudada sempre hoje se esqueceu da filha estripada, não da chupeta, será que vê a chupeta em verde! Vovó:
          Aos que não saibam digo, não falo ao João nem a uns poucos naquela hora brigando por um naco de pão com manteiga, vocês não têm vergonha na cara! Não falo porque já sabem, não é Sr.João? trataremos hoje da estória da Raposa e a Cegonha. Olhe aqui, que eu saiba não existe ‘cegonho’, meu caro Joãozinho.
          Se ajeitam nas cadeiras, tem moleque no chão, se olham, um ri a outro, ou doutro? ajeitam-se. Vovó faz que não vê, vê. Sorri.
          Era uma vez uma Raposa muito falante.
          No tempo em que os bichos falavam, Vó?
          É e não é. Não sei se um pouco antes ou foi depois. Ora, não é comum uma Raposa falante, falasse antes eu do Papagaio, não, falo da Raposa mesmo. A Raposa continua isso sim a ser precavida e bicho precavido não fala, a melhor forma de falar é calar-se... Isso vale para menino também... (se olham, sem graça). Ela andava conversando na floresta, a contar vantagem. Sabemos que Raposa é animal matreiro e astucioso (explica aos pequenos a atingir também os grandes nos vocábulos) e sendo assim havia qualquer coisa errada no comportamento dela, a Raposa. Na verdade tentava armar um ardil a pegar trouxas.
          E a Cegonha?
          Neste ponto, Joana, introduzo na estória a Cegonha. A Cegonha é um tanto ingênua ou pelo menos quieta, todos sabem. Chegou-lhe aos ouvidos lá encimão, a Cegonha tem as pernas compridas assim e a Cegonha propriamente dita fica lá em cima das varetas das pernas. Ouviu aquela conversa da Raposa sem entender bem. Haveria, contava a Raposa, “uma festa lá em casa”. A Cegonha abriu os olhinhos encobertos com penugem, abriu as orelhinhas que não passam de dois buracos pequenos a ouvir melhor o convite. Pensou iguarias (Vovó explica iguarias) pensou banquete.
          Ela foi, Vó?
          Foi, Joana. Você me parece mais atenta que os outros. Minha neta viu passarinho verde!
          (Ai, por que Vovó fez tal pergunta... foram dez minutos explicando, quase teve de narrar outra estória a voltar para a estória da Cegonha com a astuciosa Raposa).
          Foi sim mas teve duas surpresas, até arregalou olhinhos, parecendo a Ana agora me olhando (carinhou Ana). A primeira é que não havia ninguém na festa, é claro meninos, a Raposa presente, era a dona da casa e da festa. Ficou sem graça, constrangida a visitante.  Em segundo lugar surpresa com o prato principal da festa. 
          Por que não foram à festinha?
          Por que o prato, Vó?
          Esperem respondo a todos. Por que sozinha a visita? os outros bichos já conheciam as manhas e artimanhas da Raposa; quando esta falava na Festa sorriam céticos (teve que explicar ceticismo) – ninguém foi na conversa da ‘embrulhona’ Raposa, somente a Cegonha como falei era ingênua.  O prato? bem, era um prato.
          Os garotos se olham surpresos, Vovó aguarda o impacto e daí retoma.
          O prato estava quase vazio, tinha uns caldinhos e aí... Pobre Cegonha, aquele bicão comprido, a ponta inclusive batia no fundo do prato, até machucava o bico, chupava e não subia comida alguma!
          Tadinha!
          Coitadinha sim menina. A Cegonha voltou com fome para casa. A Raposa? xi, ficou rindo, riu-se na cara da visita. A visita se foi embora chateada. Assim mesmo disse: “obrigada pela festa, Comadre”.
          Acabou, Vó? curta a estória hoje!
          Não e sim. Sim é curta. Não, tem um pouquinho mais.
          Aí a plateia se anima. Cada um inventa uma solução, uns querem uma desforra à altura, outros propõem a Cegonha nunca mais olhar na cara da outra. Vovó então:
          Gostei de Vocês. Estão pensando num problema que é também drama humano: o das relações sociais. Tem gente que age como vocês propuseram. Entretanto as mais das vezes a vida nos oferece saídas interessantes. Achei curiosa a atitude da Cegonha, parecia ela tão bobinha, não parecia?
          Conta logo, Vó.
          Conto sim. A Cegonha mandou um bilhete à Raposa nestes termos: “Comadre, também promoverei uma Festa na minha Casa. Conto com sua presença. Verá como sei cozinhar!”
          Foi?
          Foi, claro que foi. A Raposa é astuciosa mas também curiosa à beça, além de gulosa. Imaginou sonsa a ave, a Cegonha é uma ave pernalta vocês sabem. Já viram também isso na tevê! melhor, não preciso descrevê-la; e...
          Vó, falaram ser o bicho que traz os bebês para as mães...
          Pedro, você está me provocando? hoje em dia até crianças da idade de nossa Aninha não engolem isso. (O Pedro ri, bem malicioso).
          Continuemos? loguinho é o almoço, depois saio, depois ainda ter-me-ei esquecido e aí não contarei mais...
          Oh não Vó! lamenta a plateia.
          Está bem. Apareceu na casa da Cegonha a Raposa. “Comadre, você só convidou a mim!” Não, respondeu a Cegonha. É que fiz uma comida especial para você; a festa é em sua homenagem e para os outros será depois...
          Era verdade?
          Não era, Cida. Trouxe nesse momento a iguaria, a Raposa sentiu o cheiro, a saliva chegava a sair-lhe da boca, os olhos se arregalaram e...
          E... Vó, o quê?
          Tudo andava certo, só uma coisa errada para a esperta Raposa: o prato! Qual prato? ora, a Cegonha serviu o alimento nuns vidros fundos, garrafas, a comida lá dentro e a Raposa chupava o cheirinho dela e não conseguia... Enquanto a Cegonha botou o bicão lá no fundo da vasilha, tirava pra fora a engolir direito e perguntava: “que tal, Comadre” e a Raposa: “oh Comadre, está uma delícia!” e pensava, deve mesmo estar uma gostosura, dizia-se vendo levantar-se o vaporzinho da quentura lá do vidro.
          Aí, Vó, ela voltou chupando o dedo?
          Uma boa saída Ivone. Voltou pra casa numa raiva sem ter comido. Aconteceu outra coisa inesperada.
          Olhe Vó, eu no lugar dela virava o vidro e daí bebia todo caldinho.
          Magnífico, meu Pedro, não disse que é meu neto mais sabido, mais safado também, não precisa estufar-se portanto, tem lá seus defeitos, sim de fato inteligente. É, isso realmente aconteceu.
          Olham os primos ao Pedro e à Vovó, impressionados. Vovó:
          De fato foi o que ocorreu. Todavia tem uma coisinha nem o Pedro sabe...
          !!!
          Ela entornou a garrafa sim, a sopa fervendo veio pra cara da Raposa e... Bem, garotos, teve de antes da volta para sua casa passar no pronto-socorro dos bichos, e o Doutor...
          Quem era, Vó, o Doutor.
          Era o Papagaio. Ele mais falava que curava e o Enfermeiro sendo para azar da Raposa o Rinoceronte! Fazia o curativo abrutalhadamente na maior grosseria, a doentinha gritando e ele cruzando esparadrapos mascando chicletes como vocês e não estava nem aí com as dores da Raposa!
          Agora fiquei com pena da Raposa!
          Ficou né Pedro, tem bons sentimentos. Bem. Chegou em casa parecia o Frankestein remendada nos curativos, ah pobre Raposa...
          Vovó e os meninos, Vovô não nem Aninha, esta dormindo antes do final da estória no colo da velha, ele escutando o rádio da guerra não ouviu nada. Eles se levantam animados, comentam a Cegonha comentam a Raposa, imitam com muito recurso de imaginação o Rinoceronte mascando, todos vão para a Sebastiana, mas unzinho deles pergunta à Vó enquanto ela manquitola suas dores, velhas companheiras de velhas – “essa Raposa era aquela que gostava de uvas verdes?” Não, filho. É outra estória e outra Raposa, prima ou irmã dessa uma, essa não contarei a vocês, os pequenos não entenderiam. O garotinho se acha agora enorme e importante não sendo dos pequenos desentendidos em Raposa; então sorri.



18o.A Cigarra e a Formiga 

          Olhe a Vovó descansando por cansar de novo! E isso não estava no programa. Saiu, ainda os meninos disputavam a sobremesa, apenas dando tempo a chamar atenção do Toninho “me prometeu não abusar no doce, sim está gostoso eu provei, me prometeu...” e saiu correndo, que em velho é um pouco mais de úi no ái, Vovô ficou na cozinha e ela se foi. Voltou. Ah como voltou! Agora nessa manhã do hoje paga o abuso do ontem, de novo na cama “de molho” fala a oposição e a situação é obrigada a concordar. Os meninos.
          Eles discordam, logo agora que Vovó ia contar uma boa. Se espalham por aí, brigam disputam a tevê, uns querem o canal quatro outros têm preferência no desenho do seis, tem barulho, e tem baralho aquelas cartas ensebadas no uso, loguinho o Pedro é acusado por marcar de unha uma e sai sempre aquela do homem de barba nunca a donzela; as meninas preferem de casinha, levam os menorzinhos de ambos sexos que não se importam com sexo para filhos mas as bonecas também viram filhotes e se entendem; vez que outra se desentendem, correm levar ao Juiz Supremo e a Corte diz: encerrada a questão, Vovó não quer mais opinar e fala ambos opinantes-reclamantes terem razão, uma garota tendo de ir chamar Vovô. Aí o Vovô:
          Que é Zaldira, precisa mais daquele comprimido!
          Não, meu velho. Me fecha a porta e não deixa essas garotas entrarem hoje mais aqui! porque não me aguento e nem aguento...
          Vovô fica penalizado preocupado abismado com o rumo que as coisas vão tomando. A nora telefonou, a Bastiana lhe passou o fone, vai mais para longe no serviço, todavia isso não importa, não é Seu Alfredo? as crianças estão em boas mãos; nem quis saber delas, pretendia falar-lhe que a pequena chora a ausência materna, desligou. Vovô fica pensando, sequer indaga sobre o esposo! Não poderá pôr a questão nestes termos à mulher, apenas diz:
          Zaldira, está tudo sob controle, fecho a porta. Você não quer a compressa!
          Sai, deixa o escurão que ‘cinzenta’ uma velha.
          Não, Aninha, Vovó está dormindo, vamos com Vovô para a sala.
          Agora o ontem é ontem mesmo e agora é hoje. Todos se afobam na cozinha, Américo derruba quebra espatifa espalha os cacos da xícara para Bastiana de quatro ajuntar e não pode que tenha ficado fragmento cortante, limpa passa pano, a vista já não é mais aquelas coisas; os meninos comem se ‘lamecam’ se preparam ao segundo tempo, a tempo chega Vovó, triste sim mas é uma alegria presente. Murcha e enrugada, porém solta como pode o melhor sorrir. A casa volta nos eixos. Se alimenta a Senhora, segura Aninha no colo sentada na cadeira, a menina chupa o bico da mamadeira e olha de soslaio Vovó, ambas felizes, uma por não ser mais ainda infeliz. Depois a garota arrota, desliza pra baixo e fica de pé, pergunta qualquer coisinha e vai buscar a filha com as suas entranhas desentranhadas, Vovó tenta e consegue sair da cadeira, conversa um pouco com Sebastiana e vai se encontrar com o esposo na sala, depois se põe na poltrona rica de estórias e ‘tramelam’ então em família, hoje tem um estranho garoto e a volta de Zezinho, a Luana não veio contar ser mulher. Qual?
          A Cigarra e a Formiga.
          É bonita, Vó?        
          Eu acho. Tem gente que não aprecia. (Olha pros lados do Vovô).
          Vovô não gosta?
          Não, não falei isso, olhei seu Avô para ver o que faz mas já sabia de sobra: fumando e ouvindo futebol. Deve gostar da Formiga. É o caso da Formiga, uma vez a Cigarra...
          Vó, o Vô deve gostar mais da Cigarra e não da Formiga como você falou.
          Ora, Pedro, por quê.
          A Cigarra não é mulher do Cigarro?
          Você quer esculhambar! na verdade ele deve gostar da esposa que olha de longe; e muito mais do esposo que tem perto fumaçando os pulmões e os brônquios. Meninos, dá medo ver Vovô tossindo e o peito cheio. Enfim eu já fiz o que podia, é teimoso, olhem lá parece incêndio, é só fumaceira. (Os meninos riem). Chega, vamos em frente.
          A Cigarra ia andando por aí e viu um formigueiro em pleno trabalho. Ficou observando aquelas ‘pequenuras’ carregando folhas para dentro do buraco, algumas iam se arrastando e até suando!
          Por quê?
          Ora por que, por causa do peso.
          Uma folhinha!
          Para uma cavalona como você Heleninha. Para a Formiga um peso descomunal, formidável. Uma Formiga carrega um peso equivalente a três vezes o seu próprio. Helena pesa quarenta quilos (ela corrige: quarenta e um Vovó) quarenta e um, pronto, se for levar três vezes seu peso serão portanto uns cento e vinte quilos!
          Cento e vinte e três, Vó.
          Tá bom, Pedro, você é minucioso, cento e vinte e três. Já pensaram quanto esforço?!
          Agora sim entendo o suor dela.
          Ótimo. Aí a Cigarra balançou a cabeça e pensou: que burras; melhor minha vida. E se foi para casa fazer o que faz uma Cigarra.
          Fuma, Vó?
          Ora bolas que besteira, nem comento. A Cigarra canta. Cantou cantou e cantou uma linda ária. Bem. Um dia amanheceu nevando, uma beleza branca.
          Então era Cigarra europeia.
          Exato, meu filho. Aí veio o pior: a comida se acabou e não tem o que comer, enfraquece e morre de frio e fome.
          E a Formiga?
          Nem queiram saber a quenturinha lá embaixão; e comida a valer, as folhas que a Cigarra desdenhara e criticara a Formiga por trabalhar tanto depositando lá nas suas casinhas por baixo da terra; a comida a Formiga tem para quantos meses de neve houver. A formiga ficou viva e aí sim podendo cantar, primeiro trabalhar, depois cantar. Mesmo assim acreditamos não cantar, deve ficar alegre, não acham vocês?
          Uns achando que devessem as formigas. Outros supondo cantarem. As Lavapés mordem, cantam?
          As Formigas, indagou a Vó.
          Como é que canta uma Formiga, Vovó?
          É fácil saber, nunca ouviram? Fácil: formiga não canta.


         
19o.João e Maria

          É Vovô quem olha aquela assembleia infantil. Vovó não, tarda. O ajuntamento dos netos está um pouco apreensivo, chateado mesmo, a expectativa é a presença da Velha, ela sempre anima mas volta e meia fica de cama e então é um desastre para eles. Já bagunçaram ao gosto sebastiânico e acharam por bem esperar no salão contudo ela não chega nunca e mais se perguntam. Enquanto isso agora se comportam, porém criança não para, apenas um tem suspeita de abrigar piolho, embora somente a escola tenha melhor as sementes do bicho e estarmos nas férias, fim de férias; ele coça; volta a coçar, Sebastiana vê a vítima em potencial de longe e imagina advertir Vovó quando Vovó chegar e ela também se preocupa pela demora, o menino torna coçar-se, quando vê todos estão contaminados e se coçam, alguém grita “piolhento” o ofendido ofende se defende esbraveja, se afasta um pouco, Vovô sorri, acho que direi esse negócio à Zaldira; ela chega capenga, olha distribui sorrisos, as abelhas correm para a Rainha, Ana se esfrega nela, Bastiana fala um não sei que no ouvido de Vovó, Vovô pede audiência, a plateia se encontra agora indócil e cobradora.
          Ora, não falei ontem que iria hoje contar uma do tempo em que os bichos falavam!
          Negaram.
          Ai como são teimosos. É uma de bicho bravo, selvagem, ingrato, amargo, egoísta, às vezes hipócrita...
          Já sei – diz João – é estória de elefante talvez rinoceronte ou mesmo uma de dinossauro!
          Acho ser tigre ou onça.
          Pois Maria Helena, errou também. É um bicho terrível, o pior da floresta.
          Vó, assim você mata a gente de curiosidade.
          Ora bolas, lembrou adequadamente: esse bicho mata, mata inclusive os bichos de sua espécie... Agora, quem se aproximou da coisa foram João e Maria.
          Os dois ficaram orgulhosos e envaidecidos todavia nada falam. Então Vovó:
          Agora conto, isso no tempo em que os bichos falavam, a estória de João e Maria.
          A plateia é toda interesse em Joãozinho e Maria Helena, olha agora de novo para Vovó.
          Já sei. Vão indagar João é bicho Maria é bicho! Respondo, sim, são bichos, do grupo ‘bicho homem’, e ainda falam, pois nem o Leão, Rei da Floresta, nem a Onça nem a Cigarra falam mais!
          Perderam a fala?
          Não, não perderam, pois a Cigarra não canta, o Boi não muge, não zurra o Burro? No entanto não se entendem como nós bichos-homens, que de vez em quando nos entendemos.
          Ah, a estória do Bush outra vez!?
          Tem razão, Pedro. Agora nossa estória é mesmo de João e Maria.
          Joãozinho era um garoto, mais tarde iria casar-se com Maria, bem mais tarde, ela a tornar-se uma bela moça. Então...
          Pera aí Vó, primo com prima!
          Ué, filhos, muitos primos se casam, não é recomendável, pois os filhos deles, pela proximidade genética, o sangue deles, os nenês podem nascer defeituosos...
          (Foi um ai-ai ui-ui tremendo, Vovó interferiu, Vovô quase chamou a atenção da esposa por causa da baderna que se estabeleceu).
          Calma meus filhos. Eu disse que não se recomenda o casório. Nesta estória não havia esse drama, eram apenas vizinhos e não parentes; aliás nunca me referi também fossem primos; mas se queriam muito.
          Que bonito, não é Vó!
          Bonito sim Tereza. O que não foi bonito é o aparecimento da Bruxa nesse idílio!
          Puxa, estragou tudo!
          (Aqui neste ponto a Bruxa engole até o ‘idílio’, Vovó não precisando explicar complicações nem interromper a narração; ah essa Bruxa!)
          Vai dizer que tem Lobo Mau também?
          Nesta estória não.
          Vó, Você disse que ele é sabido, aqui ele é burro.
          Quem é burro?
          O Pedro, Vó. Como pode ter um Lobo Mau se já tem uma Bruxa Má!
          Não sei, filhos, isso é lá com vocês. Prossigo?
          Conta Vó, dizem gritando.
          Está bem. Aí chegou a Megera, engana Maria levando a pobre e pumba: guarda ela num saco!
          Tadinha, Vó.
          Tadinha nada, burra que foi, se fosse o menino não caía nessa, dava um murro na cara da Bruxa e fazia...
          Calma, como estão violentos hoje e machões. Não falei que não desejo aqui o Clube do Bolinha!
          (Murcham um pouco).
          Daí a Bruxa oferece um doce ao Joãozinho e ele vai atrás dela e então pumba: guarda ele num saco, põe encostado ao saco da companheira...
          (As meninas voltam-se rindo aos homens e ninguém agora abre a boca).
          Lá pelas tantas eles olham pelo buraquinho do saco para ver o que estaria fazendo a Bruxa...  
          O que Vó?
          Esperem, eu conto. Fazia comida.
          Ah, igual a Tiana.
          Pior que a Tiana, filho, Sebastiana faz uma refeição ó da gostosa, não é? A Bruxa fervia água num tacho enorme, para caber bem os dois sacos...
          Que horror Vó!
          (Já pretendiam cair por cima da mulher a pauladas; Vovó espera a reação e aí volta à carga:)
          Começaram os meninos a fazer um plano para escapar e não virar comida de Bruxa...
          Bruxa ‘atropófa’ né Vó!
          Não, an-tro-pó-fa-ga, meu caro neto. Antropófago, Aninha, é gente que come gente.
          Que barbaridade Vovó! fala um grandinho.
          (Levantou-se polêmica em torno, citaram os programas de televisão, um dos rapazes lera certo livrinho com nativo antropófago. Com o dispersar e comentários de não se acabar, o tempo chamou a Sebastiana).
          A Bastiana está avisando.
          Voltam, ainda mastigando e mastigando a Bruxa que deseja mastigar João e Maria. Vovó:
          Continuo? Bem. Aí João conseguiu rasgar sua prisão de saco com seu canivete e soltou a namorada enquanto a Bruxa roncava.
          Igual Vovô.
          Isso mesmo, igual Vovô, diz Vovó, Vovô olha a esposa a dizer “depois você me paga!” porém nada fala, aumenta o rádio, agora é Vovó: ei Alfredo, assim este meu circo não escuta a estória. Igual, meninos.
          Aí fugiram, andaram, primeiro correram depois se cansaram e andaram na floresta.
          Não se perderam?
          Perderam-se; várias vezes saíram no mesmo lugar donde vieram, quer dizer: perto da casa da Bruxa, roncando...
          Ela prendeu de novo eles?
          Não senhora, dona Cida, os garotos se embrenharam outra vez na mata. E aí... tchã tchã tchã...
          Que foi, Vó!
          (A Aninha ameaçava chorar, soltou inclusive a chupeta, Vovó sorri, ela acalma).
          Que foi. Foi simples – estavam perdidos na floresta. Nem sabiam voltar pra casa e naturalmente não desejavam voltar para o tacho, agora fervente, da Bruxa. Perdidinhos da silva.
          Vou narrar o restante da estória a evitar que vomitem o almoço da Sebastiana, pois tem gentinha aqui num medaço...
          Como foi?
          Como foi, foi que a Maria...
          Era Maria Helena?
          Isso desconheço, quando os conheci já eram casados e a bela mulher sendo apenas chamada Maria, não sei o sobrenome igualmente. Bem, como dizia, a Garota disse ao Namorado chorando, ele chorando, e falam os machões que homem não chora... A Maria precisou consolá-lo e falou assim: meu querido, estamos salvos, eu fui jogando no chão umas migalhas de pão desde que saímos de casa: é só ir procurando os pedacinhos e chegamos de volta.
          Batem palmas os assistentes de Vovó.
          Bateram palmas apressadamente... os passarinhos haviam comido os pedaços de pão e agora não tinha a marca! estavam mesmo perdidos.
          !!!
          Encontravam-se desanimados já, quando Joãozinho se lembrou de uma coisa importante...
          O que Vó?
          Ele fizera como a companheira,  mas no lugar de pão atirara de quando em quando pedrinhas que trazia nos bolsos, carregava sempre o estilingue e as pedras para caçar pássaros.
          Vó, espera um pouco. Você disse outro dia ser errado matar passarinho, não foi?
          Foi, Pedro. Eu não falei que o garoto João era um santo. Os moleques têm por hábito caçar, não é assim? Pois bem. Agora valeu à pena ter pedras. Com elas o casalzinho pôde encontrar as que haviam sido jogadas no solo e assim reencontrar o caminho até seus pais.
          E ficaram felizes?
          Ficaram. Se abraçaram aos amigos e parentes na aldeia onde sempre viveram.
          E a Bruxa?
          A Bruxa... bem não se sabe o que ocorreu certinho: soltaram os cachorros na casa dela e foi aquela gritaria! Não sei se fugiu ou se os cães a mataram, eles estavam treinados somente a atacar o Lobo Mau, aqui se trata duma Bruxa. O que acham vocês?
          Já noitinha ainda os netos “achavam” discutiam, não silenciavam, mesmo a Sebastiana gritando com eles: “diabretes, calem a boca, é o último capítulo da das nove!”






20o.Os Músicos

          Era uma vez... numa certa vez os bichos no tempo em que os bichos falavam, eles resolveram imitar o bicho-homem e... E foi aí que Vovó notou a falta de alguém. Cadê a Ivone? ora, onde ando com a cabeça ela se foi ontem. Ah meninos, é como faltar um dedo na mão: dois, não é, o Chico também, os dois primos se foram!
          Comentam o fim de férias. Os vizinhos não aparecem mais, igualmente já se preparam às aulas os grandes, que são pequenos. Aí Vovó se lembra da Luana. “Ontem eu a vi” quando ao passear pela farmácia, ao chegar na rua ali, ia com a empregada, a babá dela (lembrou-se da bisbilhotice da mulher, gente é mesmo bisbilhoteira: "a sua filha não volta mais?" "não é filha, nora" ah Dona Zaldira, coitado do seu filho... Vovó costurou como pôde – negócio de serviço etc. e tal e a fugir indagou por Luana diretamente à interessada “sô muiéi” respondeu a garotinha. A Babá: a sua empregada também é Luana não é? Não, a garota entendeu mal, é Sebastiana). Vi sim, meninos, uma gracinha. Agora tem um zum-zum naquela plateia sobrante.    
          Vó, alguém não deu descarga e ainda deixaram a torneira da pia pingando, dizem que fui eu... “Balofo!” Vovó:
          Parem de gozar o Antônio. Além do mais o dono do malfeito nunca aparece... A mim basta que o engraçadinho não mais se esqueça.
          Foi a Aninha! (Os olhos verdes se arregalam).
          Calma garotada. Alguém viu? além do mais a menina não alcança subir no vaso, é sempre preciso um grande ajudá-la. Portanto não foi Ana. Agora chega disso. Eu tenho uma estória interessante aqui na cachola.
          Sorriram. "Conta, Vó!"
          Estava dizendo que resolveram imitar o homem. O homem antigamente... o quê? ah sim, na Europa e tinha bastante neve; não pensem entretanto que seja gelo ano inteiro; embora o frio lá pior que o daqui. Naquele tempo saíam por aí os grupos de artistas – de circo, teatro, enfim apresentações musicais.
          Não tinha na televisão?
          Pior (ou melhor, pensou Vovó) pior, não tinha apenas na televisão, o que não tinha mesmo era a própria televisão. Assim... hein?
          Falei que lugar atrasado a Europa, nem tevê!
          Não existia em nenhum lugar do mundo. Então, as pessoas se apresentavam por aí como possível.
          E os Bichos?
          Calma, Joana, chego lá. Os Bichos andavam numa situação terrível: não tinham o que fazer e a fome aumentava.
          (Vovó teve de interromper a estória: foi um discutir as semelhanças do hoje e o ‘antigamente’ – o pai de fulano desempregado; a família de siclano em situação precária; Américo levantou o drama do pai, Aninha ficando espantada a ouvir o mano e decerto quase não entendeu; falou o menino da crise no lar e aí Vovô olhou aos lados de Vovó boquiaberto, não contava com tanta clareza e sensibilidade; Ana? parecia não compreender o irmão, de repente desabou a chorar; enfim foi um constranger).
          Calma filhinha; estão vendo o que arranjaram! Acho que hoje não temos ambiente para estórias...
          Ah Vó, conta sim! todos gritando.
          Está bem.
          Eu dizia que os Bichos não encontravam emprego e um grupo deles resolveu unir-se e trabalhar por conta própria.
          Quantos, Vó?
          Sei lá, Joana, uns cinco ou seis não me lembro.
          Você não viu esses!
          Pera lá filhotes, não pensem que conheci todos personagens das estórias que narro, apenas alguns.
          (Vovô tossiu antes, depois foi aquela gargalhada, assustando inclusive o radinho rouco com pilhas fracas. Vovó olha para seu lado numa recriminação. As crianças sequer percebem, ou não demonstraram notar a indisposição entre seus avós).
          Tinha o Burro, fortão; tinha o Papagaio, falador pra danar; tinha o Cachorro rosnador; tinha o Gato de vez em quando abrindo os olhos e a boca de sono; tinha mais uma miudeza de Bichos. Todos mas todos eles desempregados! Com uma agravante: eram já passados na idade.
          Quantos anos?       
          Sei lá Heleninha. Cada um era velho dentro de sua espécie. Por exemplo o Cachorro sendo menos velho que o Burro Velho. Um Cão em seus dez anos já não tem coragem de correr atrás dum Gato, só esbraveja e ladra. Olhem uma coisa, para acabar esta discussão direi: não tinham registro como a Clara. A Clara:
          Já vi o meu registro, Vó, mamãe levou lá na escola quando comecei.
          Então. Todos vocês têm registro, mesmo a Aninha que é pequena ainda (aí sorriram verdes para Vovó).
          Como eu falava, não tendo registro de nascimento, não posso saber a idade certa deles. Todavia eram idosos; e se jovem não encontra fácil lugar para trabalhar, que dirá um velho! (Os Avós se olham desenxavidos; os netos não sabem se sorriem, silenciam).
          Dizia eu então que se reuniram a discutir como ganhar a vida. O Burro deu sua opinião, o Gato acordou e perguntou “ele disse o quê?” O Papagaio falava sem parar, parecendo deputado (precisou explicar deputado senador vereador).
          O tio Zé é Vereador! (Mentira, é carteiro).
          Não briguem. O tio Zé dela é, eu sei; o seu é Carteiro, o de um não é tio do outro. E tem muito Zé por aí.
          Tem o Zé da Luana.
          Isso, Pedro, o irmão de Luana, uma gracinha ela.
          Pronto, estamos agora de acordo! Bem. Discutiram como Vocês agorinha (sorriem se olham) discutiram e somente a opinião do Gato que acabara de sonhar com um Rato e um queijo, só a dele valeu e aceitaram todos:
          Se, disse o Bichano, nos reunirmos e sairmos como o Bicho Homem que faz espetáculos por este mundo? Nós ficaremos ricos!
          Ficaram, Vó?
          Calminha meninos, vou chegar a esse ponto, vou contar tudo. Não vou...
          Por quê?
          Olhem a Bastiana. Vovô já indo na frente a fim de não chegar demais por último à mesa. Os meninos vão num alvoroço, Vovó apenas tem Aninha por companheira e seguem mãos dadas. Mastigam.
          Voltam, ninguém precisa tocar sino a se reunir. Todos querem os Bichos Artistas. Vovó encontra-se satisfeita:
          Como eu falava... Américo, preste atenção, você me parece hoje absorto. E vocês, viram passarinho verde ou têm bicho carpinteiro! ninguém para quieto no lugar...
          Como eu falava antes do almoço, os Bichos se uniram a formar um circo ambulante. Ambulante quer dizer: não ficariam num só lugar. Aliás um circo é ambulante, vai para uma cidade vai para outra, monta-desmonta-monta de novo, assim.
          A se apresentar é necessário treinamento. Fizeram um depois dois ensaios, não chegaram a fazer o terceiro...
          Por quê? já estavam bons...
          Não, Pedrinho, o contrário: eram tão ruins e desafinados que nem eles suportaram a terceira apresentação! O Gato dizia por exemplo: Compadre Burro, experimente agora; o Burro zurrava uc-uc-uc! E o Gato falava “ah que lindo!” no entanto nem eles realmente achando bom, como falei não aguentaram sequer se ouvir.
          Vocês estão rindo! Bem, uns artistas atrapalhados desses não é para menos rir. Então resolveram sair assim mesmo, ver se arranjavam uns trocados.
          Trocar o que Vó?
          Trocar nada. Ou por outra: trocar uma linda peça de música por dinheiro dos assistentes. Trocados aqui quer dizer moeda.
          Entendido? Continuemos. Arranjaram um carroção, puseram seus instrumentos de trabalho e subiram nele, saindo a se apresentar por todos lugares.
          O que tocavam, violão, gaita?
          Não, os instrumentos deles eram suas respectivas bocas, bocas e bicos. Só. E não se surpreendam: não tinham dinheiro para comer, como comprar violão e gaita como disseram; pior seria adquirir um piano, bem mais caro.
          Pararam numa vila, cantaram – o Burro zurrou lindamente, houve currupaco-papapaco a valer, miaus belíssimos, o Cão ladrou muito bem e no final uivou. Foi isso na primeira parada.
          Ganharam muito dinheiro?
          Se ganharam! Nem se fale – pedradas!
          Judiação!
          É Joana, tadinhos. Mas não desistiram não.  Fizeram mil outras apresentações do seu Circo. O próprio circo já servia para riso do povo: o Burro puxava a carroça; em cima ia o Cão; em cima do Cão o Gato dormindo; em cima do Gato o Papagaio matracando anunciando o espetáculo. Isso já sendo um espetáculo um show, como se fala hoje. Todos se riam deles. Dinheiro? nada.
          Iriam morrer de fome, pedra não se come.
          Exato, filho, brilhante conclusão do Pedro; aliás Pedro vem de ‘pedra’. Sim, iriam morrer de fome, mas...
          Mas... Vó!
          Mas filhotes, eles encontraram pelo caminho foi um tesouro incalculável...
          Conta logo Vó (menino sempre não aprecia reticências, isso é um fato).
          Está bem. O tesouro. Pararam a descansar a goela num lugar e o lugar foi justamente nas imediações do esconderijo de uns ladrões!
          Puxa Vó, e os bandidos não mataram os artistas?
          Não, minha filha, não, quase deu-se o contrário, isso sim. Porque os Bichos resolveram fazer um ensaio em regra para nova apresentação. Começaram: zurrar ladrar miar etc., o Papagaio falando sem parar de madrugada – os ladrões fugiram da casa deles com medo daquilo, quase mataram foi de susto os Bichos, porque passavam correndo na escuridão. Aí os Artistas entram curiosos para ver de manhãzinha a casa dos ladrões. Tinha riquezas incalculáveis ali depositadas, uma verdadeira fortuna. Entraram e resolveram descansar a fim de melhorar o padrão da voz do grupo.
          E dormiram. Então voltam os bandidos, puseram um deles, o mais corajoso, a verificar como estava a casa, ver o que havia ocorrido na madrugada. Entrou ainda escuro, viu duas brasinhas no fogão onde o Gato descansava de tanto dormir, vocês sabem que Gato aprecia bem a quenturinha do fogão caipira, daqueles a lenha. Ah, disse o ladrão, ainda tem duas brasas no fogão, vou acender meu cigarro...
          E aí Vó?
          Aí Tê, aí que a brasa miou era o olho do Gato, o qual gritou o seu MIAU mais alto possível!
          O ladrão saiu desesperado, passou pelo chefão lá fora ainda correndo e gritando assombração... Nessa altura os outros Bichos acordaram com o grito do Gato e do homem, zurravam ladravam e lá fora os ladrões se falaram: é mesmo assombrada a casa! fugiram espavoridos, sumiram no mundo.
          E os Bichos Cantores comeram as coisas dos ladrões?
          Se comeram? comeram arrotaram e dormiram gostoso, como Vovô (Vovô acorda, balança a cabeça lá na fumaça).
          Mataram a fome?
          Mataram a fome os Bichos; depois entregaram as coisas roubadas à cidade mais próxima e receberam do prefeito do lugar um prêmio por espantar os bandidos que infestavam a região;  prêmio para viver bem o resto da vida.
          Gostaram do prêmio, indagam ouvintes?
          Ora... e vocês. Mesmo a Tiana ouve o final rindo; e fala a todos demorar ainda a boia. 


21o.A Pele de Asno

          Chove. Chove sem parar, fevereiro gosta de água; os meninos indóceis, não há prisão pior que residência, o quintal exíguo proibido por São Pedro; e na rua nem se falar, mamãe nunca está pra não deixar, papai saindo cedinho mas Vovó e Sebastiana pegam no pé, não deixam; mesmo Vovô, bafora e impede o sair. Agora piorou, chove. Um mexe com outro outro com um. Vovó: que é isso; Tiana, pondo o colchãozinho no sol! não tem sol porém a Aninha catinga o colchão e precisa espichá-lo ao vento pelo menos. Quando a “cavalona” vai parar de molhar a cama! Ana faz trejeito de coitadinha, Vovô ri. O barulho aumenta é tapar bocas com ouvidos e somente Vovó a calar. Já vão aquietando e alguenzinho grita lá dentro “não tem papel!” Sebastiana se desdobra. Aos poucos a plateia se completa, incompleta.
          Agora é o Toninho e as irmãs!
          Minha gente, perdemos três cadeiras cativas: o Antônio meu Toninho... não senhora, fizeram mal chamá-lo Balofo e me faz muita falta; a Tê e a Heleninha (Vovó diminui todos nomes dos netos para aumentá-los no coração...). Veem, vão-se acabando as férias e acabando o meu público... Não estou gostando disto. Logo vocês também irão ouvir as estórias das professoras...
          Que chato, né Vó!
          Chato sim para sua Avó; o Vô reclama sua parte no sentimento do sofrer; sim, chato Joana. Estamos em quantos agora?
          (Contam, erram, recontam, se esquecem incluir-se; depois um berra:)
          Sete, sete, Vó.
          Sete. Dizem sete ser conta de mentiroso. E isto já é mentira. Alfredo (grita baixinho Vovó) quase não dá quorum para debate e conclusões... Vovô entende bem, as crianças indagam com os olhos.
          Quase paro as estórias. Todavia vocês já ouviram muitas. Porém garoto não tem fundo nem limite. “Conta mais!”
          Conto. Para hoje escolhi a Pele de Asno. Já sabem? Ninguém. Puxa.Vai lá.
          É bonita?
          Não sei, acho mais ou menos interessante. E o que é belo! a uma pessoa algo é feio, para outra... Vocês julgarão depois. Ih, o Pedrinho anda muito calado...
          É a falta dos outros Vó, a gente só pode brigar com estas porcarias aqui!
          Sim senhor, o rapaz é positivo; se declara briguento com alguma categoria...
          (Riram; os que não entenderam a ironia riram por imitação; ou do rir avô).
          Querem?
          Queremos!
          Bem. Um Lobo que andava perdido num caminho por aí estava faminto...
          Era o Lobo Mau?
          Era, decerto mau, Cidinha; decerto, pois os amigos do Lobo o achavam muito bonzinho e correto. Modo de ver apenas. Seja então o Lobo Mau.
          Enfim andava cansado, cansado ser mau.
          Será que cansa ser mau!
          Não sei Pedro.  Deve cansar.  Tanto que quando podemos ou pensamos na coisa preferimos ser bons. Será que eu não tenho razão.
          Tem sim, Vó.
          A gente sempre se acha com razão, a razão absoluta das coisas. Vou continuar nossa estória.
          Então o Lobo Mau queria se apresentar de Lobo Bom...
          Já pensava enganar os outros, não é?
          Talvez, menina Aparecida; e aí reside um problema sério de justiça: depois que pensamos que uma pessoa é isso ou aquilo, temos dificuldade em aceitar sua melhora e suas intenções, não acreditamos na recuperação. Isto sim é maldade, maldade nossa!
          Não entendo, Vó.
          Não tem importância agora. Voltemos ao Lobo que ia se apresentar de Bom. Pensou pensou, como iludir os outros, ele igualzinho a Aparecida, os outros indivíduos não iriam mesmo crer... Aí ele achou melhor enganar.
          Não disse!
          Disse, filha, ele queria matar a fome comendo os Cordeiros numa propriedade. Se se apresentasse como Lobo, não ficaria nem um Carneiro para contar essa estória, fugindo dele. Foi então...
          Vó, não era Cordeiro?
          Cordeiro e Carneiro é o mesmo meeeeé, não é assim que faz o animal? Bem, chegava perto e fugiam dele. Daí pensou o Lobo, pensou e executou. Encontra um burro morto na estrada, toma a pele dele e se veste de burro!
          Ele até que não era tão burro... safado hein! e inteligente, né Vó?
          Inteligente sim Pedrinho, muito. Apenas que a mentira tem pernas curtas. Já ouviram isso? quer dizer: a verdade aparece um dia. Foi bem assim.
          Ele entrou no pasto dos Carneiros?
          Entrou sim Joaninha, se misturou com as Ovelhas e...
          Vó, não eram Carneiros?
          Ovelha é Carneiro é Cordeiro. Bem. Quando o Pastor estava olhando as ovelhas, contando quantas, se não havia desaparecido alguma, nesse momento olhe lá um burro no meio delas. Nem se preocupou, ninguém teme um burro, que não é animal nada burro como se fala, e manso. Na hora...
          Tchã tchã tchã, né Vó.
          Ótimo, garoto. Na hora de pegar uma descuidada Ovelha, virou-se o Lobo para melhor tomar sua presa e aí, sabem o que houve?
          Conta pra nós, conta!
          Apareceu a traseira do Lobo por baixo da pele de Asno!
          Que negócio de Asno, não era couro de Burro e devia feder pra burro.
          Fedia Pedro, o Lobo ficou fedorento na pele do bicho morto, Asno, Burro.
          Aí... Vó?
          Aí o Pastor caiu de pau no malandro, cacete nele; e o Lobo Mau? 
          Não sabem então vocês... o Lobo Mau passou agorinha aqui na disparada!
          Todos olham, Aninha gruda-se medrosa à Vovó.






22o.Avestruz Papagaio Macaco

          Ontem de noite houve um desfalque considerável no elenco, mais na plateia de Vovó. Vovô também colaborou chorando um pouco, a gente se apega às crianças, revê os filhos e isso é bom, mas a perda dos netos! ora, Vô não tem direitos sobre eles, sofre a separação. Pior? tem pior, se se vive perto vendo as coisas erradas que podem ser o certo e nada se podendo fazer, melhor e menos pior: ver os garotos fazendo tchau. Não acha Zaldira? Limpa o nariz enxuga olhos, responde “é” um ‘é´’ sem grandes convicções. Ah, desfalque e tanto: Maria Clara,  João, Maria Aparecida. Cada um para seu lado, somem no mundo. As macacoas dos velhos, elas não permitem deslocamentos frequentes, quando será que reverão as preciosidades!
          Noutro dia, até as crianças, até não: principalmente elas andam estranhas. Fica chato, não fica? A Bastiana... pareciam a ela filhos, chato para a empregada. Agora Vovó conta nos dedos Aninha, Américo, mas estes são de casa e não se vão; Joana, Pedro... eles ir-se-ão breve, a gente nunca sabe, só Deus. Reconta, são apenas quatro. Bem, podem aparecer os de fora, aquela Luana é uma gracinha; não é provável, ano novo escola nova vida nova, velhos Velhos. Vovô está inconsolável, parecendo nervoso, acende apaga acende o cigarrão; abaixa de novo o radinho, joga longe o jornal, anda vai pra lá volta, ah mundo sem porteira! E a mãe dos meninos...
          Heloísa não aparece. Um dos filhos dos Velhos fala na orelha do pai “a vagabunda fugiu com o serviço...” Será? gostaria ter uma conversa mais séria com o Menino, porém some madrugadão e anda falando sozinho o pobre. Aí chega Aninha sorrindo, passando o limpador de parabrisas nos olhos dos Avós, se encosta em Vovó quer um colinho! quer colinho. Confesso, minhas crianças, confesso, estou chateada perdendo todos dias meus netos. Queria narrar outras estórias: o Pequeno Polegar, o Barba Azul. Mas acho que não dará, nem sei se seus pais não vêm hoje levá-los igualmente... Vovó está para chorar, sorri.
          A mamãe vem!
          Não sei Ana. Aí não aguenta: chora mesmo. Vovô vem constrangido perto da mulher; desajeitado não sabe se carinha a Velha se consola se pergunta as perguntas bobas que fazemos nessas horas ingratas, não faz nada, chora também. Todavia um dessa plateia em fase de extinção cobra da velha:
          A estória, Vó!
          Ah sim eu ia contar uma. Sabem, escolhi um caso mais ou menos atrapalhado que trata do Avestruz, do Papagaio e do Macaco. Tudo no tempo em que os bichos falavam.
          Tem gelo e rei, essas coisas?
          Não Joana, refere-se à neve, quer saber se ocorreu na Europa não é? não senhora, essa é daqui mesmo.
          E aqui no Brasil os bichos falavam também?
          Se falavam, e como! acho até mais falavam que os outros bichos da Europa e da Ásia; talvez não mais que os da África, lá tem um mundo de bichos.
          Vocês sabem que o Macaco e também o Papagaio são os mais brasileiros dos animais. Um belo dia na Floresta, havia lá uns clarões imensos das partes derrubadas, desmatadas – os estrangeiros vinham aqui e sem cerimônia alguma derrubavam nossas árvores e as levavam para seus países...
          Que ladrões, né Vó.
          Sim, Pedro, penso assim também. Pior, roubavam e conseguiam em troca de espelhinhos sem valor que os nossos indígenas carregassem nas costas a madeira até seus navios.
          Contudo os tais estrangeiros não queriam saber o que pensavam nossos Bichos! O Macaco pulava de galho em galho se enrolava gostoso nos cipós...
          Igual Tarzã, Vó.
          Bem lembrado Pedro, igualzinho. Reclamava ele o desmatamento medonho. Um dia os macacos não teriam mais onde se dependurarem. O Papagaio falava também disso sem parar, reclamava a sorte, má sorte. Foi nesse ponto os homens a trazer para cá os Avestruz. Prefiro ‘avestruzes’.
          Da Europa?
            Não, nem da África que tem tudo quanto é bicho e muitíssimos primos de nossos Macacos, até Gorilas. Traziam da Austrália. Conhecem o Avestruz?
          Joana: vi um dia no Zoológico. Os garotos viram na televisão. Aninha nunca.
          O Avestruz, torna Vovó, é a maior ave do mundo. Não sei quanto pesa mas é pesado; e corre até a oitenta quilômetros por hora! parecendo um automóvel rápido. Tem um costume chato: come numa fase da vida fezes (explica fezes).
          Que nojento!
          Para nós sim, Américo; eles necessitam comer fezes.
          Vó, tem gente que come...
          Não venha com essa, Pedro.
          É sério, Vó. Tinha a mulher da casa perto da nossa, o nenê dela comeu.
          Isso é outra coisa; não é uma necessidade como o caso do bicho Avestruz.
          (Todos olham o Pedro e fazem uma cara de asco; Aninha sequer entende a conversa dos outros).
          Como eu falava, o Macaco e o Papagaio ficaram azucrinados... isso mesmo: grilados, grilados com a introdução desse animal estrangeiro no país, pois julgavam não haver bastante Floresta para os nossos. Então planejaram uma desforra à altura. Pensaram entrar numa fazenda de criação de Avestruz e dar uma surra no intruso, expulsá-lo daqui.
          Criam Avestruz?
          Criam sim; vendem a carne desse bicho vendem ovos. E cercam bem para não fugirem as aves.                            
          Então não dava para entrar na fazenda.
          Esperem lá. O Macaco pulou a cerca com facilidade, se bem houvesse se enroscado no arame; o Papagaio fez melhor ainda: voou por cima. Estão na fazenda de criação. Olham por todos lados: cadê o Avestruz para aplicar aquela sonora surra! Procuram de lá, de cá, não acham...
          Por que, Vó?
          Já digo, Américo. Não se sabe como o Avestruz foi avisado da invasão e aí fez o que a inteligência dessa ave faz: escondeu a cabeça na terra! os nossos Bichos passaram mil vezes perto dela, o Macaco inclusive, cansado, se encostou no corpo do Avestruz de cabeça enterrada e a traseira para o alto. Chegou o Papagaio e disse: “Amigo, não precisamos nem bater nele, o inimigo já fugiu e agora a Floresta é só nossa!”
          Que bobos, não é Vó.
          Me parece assim também, Joana. Aí sabem o que aconteceu? chegou a matilha barulhenta...
          Que é ‘matilha’, outro bicho!
          Matilha é um conjunto de cães. Uma latição de deixar a gente surda. Nossos heróis? ontem ainda escondidos na mata!
          E o Avestruz, Vovó?
          O Bicho, Pedro, ora ora, esse bicho se desenterrou e foi bicar as suas coisas.
          Cocô, credo!!
          Vovó sorriu à carinha dos netos; ia acrescer mais senões, chegou Sebastiana. Não precisou sequer avisar. Porém não se comeu numa grande alegria. Ah, quem sabe não voltassem os momentos felizes noutras férias...



23o. Conclusão Surrealista

          A esta altura do escrito as linhas, cansadas, resolvem tratar das coisas sobre a conclusão da obra. Mas diversos doutras expõem a seguir um final absurdo, seja ou não seja a fim de provar que a verdade pode parecer surreal. Portanto vejamos o que não aconteceu todavia podendo sim ter ocorrido...

A)Pinocchio Aí pelas tantas, não menos, notamos uma janela. O Macaco Brasílico que, parafraseando Borges a dizer o argentino ser um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês – o Macaco Brasílico nasceu na favela da Floresta, veste-se urbano e pensa que é yankee, pois acompanha o basquete da NBA, pronunciando “ei” muito bem mascando chiclé, o Macaco vê a janela e pensa Windows, anda cercado de ratos por todos lados e fala, a indicar o bicho pequeno fazendo biquinho como antes seu ancestral ‘caboclando’ francês, fala “mouse”, olha...
          Olhar não adianta é preciso ver. Vê o Pinóquio.
          Pinóquio: Papai me fez de madeira, ah que cara de pau. Me configurou bonzinho ingênuo e medroso. Mas não tenho medo. Enfrento a Velha Zaldira. Digo-lhe: Vovó, você mentiu aos netinhos! Contou mil, mil? mil e uma estórias. Mentiu. Mentiu também quando no início prometera narrar (e nisto tenho dúvida) minha linda estória, minhas artes minhas encrencas. Não contou. Mentiu quando não vendo a Nora em sua farrinha disse coisas (já se defenderá: a Oposição me ajudou) falou dela sem ter visto. Ora, tudo – todos sabem – tudo que não vemos não existe, ou atiramos no arquivo da invenção, que é mentira. Portanto Vovó, você mentiu. E, se mentiu, tem a sua punição. Aliás fica bem em Você o nariz crescido. É minha punição como praga a você rogada.
          Quanto a mim, não sou Pinóquio. Deixo de sê-lo. Passo outra encrenca à sua encrenca para o item ‘B’.


B)Os Sete e a Branca

B 1. A Branca - A Branca (limpa leve a neve, sobretudo dos olhos, ou não ouve) a nívea Moça (nesse tempo em moda ainda devendo existir uma meia dúzia de virgens) a jovem chama a velha: Vovó, escuta aqui. Que conversa-fiada me inventou pra inventar distração aos netos... Nas condições expostas não terá convencido sequer Aninha, a Luana não falo falará “sô muiéi” e é o bastante. Nem Ana. Que dirá Pedro, malicioso à beça, parecendo um adulto do Século XXI! Ainda bem que não me tenha atirado, sensual, sobre tantos homens, eram sete logo você me joga o oitavo que é seu legítimo esposo e não dá mais no couro, ou talvez por isso. Maldade das grandes! Nessa direção ponho você a ser cariciada por um leão de chácara, meu mui estimado segurança Zangado. O qual, se zangar...

B 2. Os Anões - Ah não, não é verdade que não é mentira! Ela a chamar-nos Anões, eu porta-voz dos Não-Anões, eu Dengoso da Silva, não, não aceito. Ingrata Vovó. Em vez de nos deixar puros inocentes trabalhadores, pior: boias-frias num campo de neve! tadinhos de nós. Quanta malícia (sei dirá que foi o Pedro...) Não, chega. Ou entramos no MST, invadiremos os jardins do Capitólio nas geleiras de Washington. Pois fique sabendo, Zaldira, somos muito homens, machos pra valer e nunca ficamos a chocar a Branca de Neve; foi preciso a força da OTAN ajudar o Príncipe Encantado para levá-la de nossa casinha com sete cadeirinhas sete pratinhos sete urinoizinhos. Paro, ou choro.


C)A Roupa Nova

C 1. A Roupa - Sou a Roupa. Sempre nova, grito, berro, esperneio se preciso for para Vovó não ver-me, e sugerir aos Meninos também não me enxergar; estava lá para os inteligentes do planeta checar-me vistoriar-me charmosa áurea dourada à beça. Desconfio do gurizinho que me dedou dedando ao Rei para que dedasse os Alfaiates, honestas criaturas, que esse gurizito não passasse de um dos Netos de Vovó infiltrado no povo bom e leal. Inclusive suponho escuta telefônica, bem ao gosto de ‘Toninho Malvadeza’ hoje em dia, posta no atelier dos bons e talentosos oficiais de ‘pano e linha e agulha’ ai. Até suponho. Ainda bem que Vovó não haja colocado a me rasgar um vira-lata maldoso ou tão só brincalhão para me esfrangalhar toda. Canso-me. Passo não para o Rei, correndo até amanhã, não: aos criteriosos profissionais.

C 2. Os Alfaiates - Veja Vó, estamos chorando. E foi-nos difícil achar tanto crocodilo, tivemos de aproveitar lágrimas de jacaré, em extinção, o que extinguirá igualmente as lágrimas (aqui neste ponto agradecemos à pequena Ana nos ter fornecido um sobrante, pinçado de sua estória verde). Choramos o não entendimento por criatura tão arguta como a senhora Dona Zaldira de nossa arte e nosso ofício! Trabalhamos, suamos, furamos nossos polegares no métier, fizemos uma linda Roupa. Vovó? apenas tendo olhos à sua própria roupa, um vestido que se formos criticar... Bem, desejamos um Vovô bem grande a fim de não saber apreciar-lhe o modelo de sua ‘alta’ costura... Adeus, vamos cuidar de nosso ouro.


D)Lobo Bom e Chapeuzinho

D 1. O Lobo - Tô de mal! tô sim de mal, Vó. Você trabalhou na minha estória de bandida comigo... Não, é exagero, na minha coisa alguma: me pôs em todas outras quase, ajudada eu sei pelos seus Capetinhas, em quase todas a minha bondade como sendo má. Contrassenso, falha interpretativa, essas coisas. Porque sou um Lobo Bom! Pergunte pra mamãe! Mas o que me doeu fundo foi pespegar-me a inverdade no desejo de comer a Chapeuzinho e os bolinhos e o Caçador, este como sobremesa. Que indignidade. Apenas, atente nisto, apenas comi a Vovozinha. Ainda assim mesmo tem duas atenuantes. Primeiro pensei que ela fosse você; segundo, a fome era tamanha que a engoli, o que me fez tomar leite de magnésia e chazinhos, tentar arrotar, além de me estragar a goela (quem pode, pergunto, quem pode de sã consciência engolir uma Vovozinha tão grande e ossada daquele jeito sem raspar sangrar a garganta!) e por final, final coisa alguma é o meio, a dor no estômago, aquelas pelancas regurgitando lá dentro, não existe, garanto, ácido clorídrico que desintegre vovó com três dias e três noites sem comer! Uma experiência e tanto vivi! O pior (aí houve o melhor pois veio o Caçador, eu diria canonizando o homem: São Caçador, o qual me abriu a facão e tirou aquela velha indigesta, porque imagine, Vovó, ter de vomitar a outra vovó!) o pior... Contudo havia outro medaço pior: e se ela me fosse para o delgado e o intestino grosso e o temor do reto, da hemorroida! Ah, desejo que a sua piore, por suas invenções maldosas.

D 2. Vermelho - Ai sou a Chapéu... Me inventou Vovó o nome Maria. Está perdoada. Não perdoo é minha mãe. Que mãe desnaturada! me mandando ao deus-dará entregar bolinhos (não invente não Vó, não tinha no cesto maçã) à Vovozinha. Felizmente encontrei o Lobo Mau que me tratou com decência e deferência; e olhe andava numa fome braba, tanto assim que engoliu Vovozinha; não me comeu; se o fizesse eu sairia intacta junto com minha Vó após o facão certeiro do Caçador. Porém é engano (digo para não feri-la com o vocábulo ‘mentira’!) que o homem me haja tratado com bondade e compreensão. Pelo contrário, me olhando pedofílico-interneticamente falando... Você sabe que o homem é o lobo do homem, não sei dizer isso em latim nem sei se foi criação poético-filosófica de Plínio, sou matutinha europeia ignorante analfabeta. Não nas coisas de amor! Sim, vi o macho no Caçador me olhando concupiscências... Felizmente pensava que fosse Mau o Lobo e me deixou em paz. Depois, mesmo quando rolávamos o bicho ao rio, não fosse Vovozinha para defender moral e bons costumes... Mas a você, Vovó, perdoo. A ela não, coisa do velho choque mãe-filha que só Freud pode explicar e não consegue. É isso.


E)Gato e Princesa de Prata

E 1. Botas - Vovó, acho que não me entendeu bem. Bem. Olhe, tem outro porém, a pronúncia francesa “Carabá”, sou um rococó, me doeram os ouvidos o seu linguajar abrasileirado coloquial. Não me entendeu: queria chegar às bodas, ajudando o Zé Bobinho ‘meu’ amo, que no final não me amava e não me entendeu igualzinho você, pois ele até o mês que vem vem com um pau destamanhão, inclusive me fazendo perder uma de minhas encantadas Botas. Aliás não adianta falar, pregar nesse deserto de sua casa agora sem criança! Sim os meninos foram para a escola, até Aninha foi ao jardim de infância. Não me entenderá. Somente as gatas me compreendem (assim mesmo apenas durante o cio). Fecho com um zíper meu item, subitem.

E 2. Princesa Fujona - Fugi sim Vovó, e foi bárbaro, um barato. Não conto, não se conta lua de mel nem falo sobre o trouxa. Entendamo-nos: não o trouxa que ia casar com a Maria Canhão, eu já combinara com o Rei Papai empurrá-la. Ele não entendeu até hoje as Botas, não entenderia as bodas. Falo agora no Trouxa Encantado. Desencantado, desencantei o Príncipe. No dia imediato ao casório, documentos passados numa comunhão de bens tudo na ordem, pintei os cabelos, antes oxigenados em prata, em ouro. Pior, pior pra mim, meu esposo nem percebeu a modificação, homem não vê as coisas só as coisas que não vê... não vê, não vê você, Vovó, o Vovô! Além do mais havia junto ao Príncipe um ajudante de ordens lindo lindo de morrer e... ah, pra quem saiba ler um pingo não vira letra? assim é, cara Vovó, mais não digo...


F) Os Porcos        
Sou o Vento. Tufo derrubo estrago atinjo ‘medonho’. Deixo três Porcos, poupando o restante do mangueirão, deixo a porcaria da porcaria sem casa. Ah, arranco a janela, apenas issinho, arranco somente a da terceira, a do Nhe Nhem. Não devo, Vovó, não preciso acabar com os Porcos a criar condições aos fazendeiros para aumentar o preço da carne. A lei da oferta e procura. Não preciso acabar com eles, tenho meu lugar-tenente faminto salivando: o Lobo Mau. Não sei quem matou quem, se o Lobo ao Porco, se o Porco ao Lobo, talvez o homem tenha vendido no mercado carne de porco, uma parte espumando, cachorro sei que espuma... A caboclada compra e come; duma parte dessa carne decerto não conseguirá fazer torresmo pra comer com feijão. Contudo isso não me importa, Vovó. Quero dizer, pois sou demais conciso, quero dizer não haver apreciado sua apreciação sobre meu poderio, porque sou a excelência na destruição. Sei também que você me responderá como boa humana: esses estragos é melhor ver na televisão, para quem envia seus Netos quando está rouca. Tornados Tufões etc.. Quero tão só lamentar o pouco espaço ao meu espaço no soprar o mundo. Eu no seu lugar, porque sou modesto, teria antes de derrubar casas de penas, arrasado a vila inteira. Sou o Vento.

G)Jacaré da Aninha
Bom-dia Vovó. Fiquei encantado com sua neta, apreciei deveras Aninha! sua graça sua inocência. Bem, irritei-me um bocado com o fato dela me dar banho. Banho não, eu quis morder o Pedro por aquele esguicho frio. Poderia na raiva comer a garota, não é de meu feitio comer gente, só parte de gente, porém achei tão graciosa a gentinha, que além do mais me contou estória e me levou a ouvi-la, Vovó, no seu mentirolar e ainda me deu bolo que a Sebastiana fez (ah em tempo: tinha fermento demais, formou nó lá dentrão; favor adverti-la, hoje em dia as empregadas abusam; se não resolver, a Tiana tanto tempo sem homem, manda a fêmea pra mim, meus dentes estão afiados...) Enfim, por isso não mordi a menina. Agora, não gostei que me haja espremido, criancinha é um bicho desajeitado e me provocou muita cócega. Ela não lhe disse Vovó, no seu dia de hemorroida, não lhe falou que eu me ria a valer! Além do mais Aninha me vendo verde, como poderia suspeitar-me sujo! Isso não entendi. Perguntei sim a elinha; e me respondeu com a chupeta na boca: não consegui traduzir. Gostaria de saber igualmente a opinião dos meninos, mas a estória não foi narrada a eles, só ficou entre vocês três, a saber: ela verde, Vovó e o bonachão seu distinto esposo. Três não, quatro, porque a boneca estripada ouviu direitinho. Gostaria, ainda, escutar a apreciação de todo mundo sobre minha pessoa-Jacaré. Vovó, até mais.

H)Bruxa, Massenet & Cinderela

H 1. O Sapatinho - Que horror Vovó, se ele, falo do Príncipe, se me descobrisse Sapatão! não podia o bobo ter-me arrancado em forma de Sandalhinha! Que mais falo? Ah quem deve, deve ser a Fada
.
H 2. A Fada - Fui entendida Vovó, fui? queria ser boazinha, melhor: ser tomada por boa, boa no estilo ‘no tempo em que os bichos falavam’. Terei falhado.  Pretendi ajudar Cinderela, iria deixá-la murchar e ser levada por um caipira, sim europeu mas o lavrador europeu é tão ou mais matuto que o capiau entre vocês. Iria deixar o bruto levá-la, virar cozinheira dele, de enxada a revirar neves pragas e beterrabas! e ter filho a cada ano, envelhecer precocemente e enfear enrugar igual você! Ah perdão, você até uma senhora bela, sobretudo com esse vestido pregado novo de bolinhas que o velho não consegue enxergar, que vamos fazer desse sexo falido! Ei, por último me transmita um alô-zinho à Tiana: sua camisola vai muito bem, embora seja necessário lavá-la mais amiúde ou... Encerro, porém ainda me lembro: abraços ao Bush, abraços saddamizados.

H 3. A Bruxa - Bem me definiu Vovó, sou, gosto ser, serei sempre a megera. Posso não comer Saddam e arrotar petróleo, credo em cruz! Quis papar o Rei, papei; quis papar a Cinderela, o Príncipe a papou ou o mordomo e isso não é de minha conta; quis elevar as beldades que saíram de minhas entranhas entretanto aquela prostituta disfarçada de Princesa nos roubou o Reino do Príncipe. Contudo deu para distrair enquanto durou, como dura a felicidade! Chega agora, ou remendo e apago, deletando por engano ou por meu insatisfatório manuseio do computador; até  o mouse o Gato de Botas Siamês papou, não sendo culpa minha. Poderia lamentar o leite derramado, para ser original, não o farei. A culpa. Nunca é minha. Chega.

H 4. Massenet - Madame, por favor, não sei que faço nestas letras bárbaras. Estarei no manicômio errado! assusto-me. Só vejo bruxas príncipes gatos e reis, até uma, pasme-se! uma virgem, Virgem! Estou sonhando! desclique-me o pesadelo ou morro de tanto morrer. C’est finis.

H 5. Cinderela - Vovó? ainda acordada... o que disse, um serrote! Ah, sim,  o Velho. Então falo baixo e pronto. Sabe, enganei o trouxa. Não conte ao Pedro. Como? não ouvi. Sim, já se foi e os outros netos também, isso? Então falemos de homem para homem, sem medo ser mulher. Recebi do falecido o Reino, e ganhei o Reino de meu pai, o Rei, ele deu a conta à Madrasta Malvada, como sabe Madrasta é um traste que rouba o pai da gente. Mas cá pra nós fui enganada! não, não Vovó, não me traiu, não conseguiria, era demais romântico, dum planeta que não é deste mundo. Não traiu. Fui enganada doutra forma: é que ambos reinos estavam falidos! Isso mesmo Vó-zinha; recebi massa falimentar como herança... Agora me resta (não existe mais Príncipe a encantar nem Fada pra desencantar) resta montar uma sapataria, dizem ser ramo que dá dinheiro – venderei sapatinho sapatão e sandalhinha e aí ganho aquela nota preta. Entretanto não possuo capital inicial... se você emprestar-me a aposentadoria... Ou que me ajude a pedir ajuda ao órgão da SEBRAE mais próximo. Já sei, Vó, o que me responderá: vai pedir dinheiro e conversar com a nora, a que fugiu com o Sr.Serviço da Silva. Então adeus.


I)Leão e Rato

I, 1. Míquei Máuse - Sou eu, Vovó! Estou de passagem, minha santa mulher, não por sofrer nas mãos do cigarro de Vovô; santa por haver descoberto minha capacidade na arte do heroísmo, onde mostrei talento no roc-roc, soltando Bush, foi Bush? talvez Saddam, não sei bem, um grande rei da floresta. Ah, minhas recomendações ao menino Pedro, por ter aventado possibilidade de me casar com a filha do rei e herdar a floresta de petróleo inteirinha; agradecendo mais uma vez sua boa vontade e clarividência, Vovó, lembrando a possível fome da noiva, como a aranha a comer o aranho, tadinho; e tadinho de mim, por mim escolhendo uma rata, dessas que ficam cheirosas no cio de minha terra. Olhe aqui Vovó, sigo os parâmetros nacionalistas de Mestre Macaco – noutra estória queira me chamar MOUSE. Certo? ok? Em compensação teclarei Zaldira corretinho para ver bonito na tela do computador. Combinado!?

I, 2. Leão - De minha parte, Vó, tenho comigo que não deva agradecer nem com queijo a um suditinho de meia-tigela, por haver roído a corda da rede da armadilha. Veja aqui olhe, meu muque! romperia as cordas! mais ainda, comeria os caçadores (e não seriam os primeiros...) Quanto à sugestão do fedelho seu neto, não daria uma legítima princesa para quem não de sangue azul. Saiba, Vovó, ou você ficou gagá ou não sabe, por ignorância, sou o Rei da floresta! Bem. Não exageremos. Acabaram com a floresta, puseram no lugar o Simba Safári, o Zoológico e, pior: o circo! Meu Deus, quanta humilhação. Agora é a república, a democracia, o feminismo... que horror, a ex-Rainha passa o tempo a se pentear e a cuidar de seus direitos. Sou um Rei falido, Vovó, sou... buaaaaaá (me empreste o colinho, divido com Ana e juro não comer sua neta, aliás tem olhinhos verdes maravilhosos!)


J)Lebre e Tartaruga

J 1. A Tartaruga - Ainda bem, Vovó, seus moleques não me chamaram cágado. Não apreciei sua apreciação na apreciação que fez sobre mim, nos escritos narrados. Quer me parecer que lhe pareceu que não tive méritos a vencer o bicho mais veloz da floresta. E você mesma, Vovó, confessou a minha vitória! incontestável, a bem da verdade. Ponho aqui mais um ponto em argumentação: venci a Preguiça. Portanto passei por dois adversários e fiz jus à premiação. Em todo caso você fez o que podia, agradeço de coração.

J 2. A Lebre - Vó, tenho uma pequena reclamação a fazer-lhe. Porque no seu texto me encaipirou denominando-me ‘preá’!? não; fico mesmo contente por saber desse primo matuto, quem sabe se não me convidará um dia a pescar no corgo, com umas e outras cachacinhas. Não, não me ofendeu. O que está (observe o tempo verbal, continuo a pensar como quando numa fraude me tomaram o prêmio, ofertando a consagração àquela lesma cheia de cacos emendados em cima do intestino abarrotado de...) que está errado é a errada atitude de vossa excelência, Vovó; não me acordando a tempo! Precisava apenas cinco minutos e ainda passava da pasmada. Custava, tendo um circo inteirinho de netos brigando e coçando piolho, custava, dizia, me mandasse xeretar unzinho deles! qualquer menino adora pedra em caixa de marimbondo em cachorro preso em santo em vidraça do vizinho, qualquer me atiraria um não sei que me acordando... A frase seguinte é muito original e inventei agora: agora não adianta chorar o leite derramado! Essa é a minha reclamação. Reclamação ou protesto! Demais tudo bem. Ganho a próxima, pois o que vale é competir, qualquer futebolista ou politicalho sabe a sobejo. Chega. Tchau, Vó.


L)Raposa & Cegonha

L, 1. Raposa - Tem razão, Vó, não adianta. Depois que pisamos na bola ninguém passa mais a bola; ninguém acredita! Eu tinha boa vontade; apenas gosto de fazer umas gozaçõezinhas, então pus o prato raso para a comadre almoçar. Não foi de propósito. Foi o prato, foi a brincadeira; agora, rir-se dela na hora do bicão querendo pegar o caldo... ah se você estivesse lá no momento, se esborracharia de rir, ofendendo sua hemorroida. A propósito, melhorou? Vê como sou gente boa, dessas que se preocupam com os amigos! Enfim... Agora, a vingança, está na sua estória de minha vida, a vingança chulinha da comadre eu não gostei: achei a atitude de uma baixeza sem tamanho. Um dia que for novamente visitá-la (e não será numa festa, não caio noutra, sabe, Vó, sou esperta) um dia vou provar suas uvas, talvez não estejam mais verdes. Aguardemos, aguardemos.

L 2. A Cegonha - O que foi que a outra disse... está do lado dela, Vovó? Que feio, que exemplo uma velha experimentada e sensível dá aos netinhos! Não sabe o quanto sofri e não levei, pois não engoli nadinha da sopa feita pela safada. Quanto à minha festa não teve conotação de vindita. Sou ingenoide, não má. E deveria ser má, má como a Bruxa Má, não é que o bicho-homem decretou meu desemprego... Antigamente eu levava (somente uma vez derrubei lá do alto, não sei se Bush ou Saddam Hussein, talvez Bin Laden) eu levava os bebês diretamente às casas e apenas umas duas vezes o pai não aceitou e mandou entregar a encomenda no vizinho, sempre papai e mamãe direitinho queriam o carregamento, conferiam a nota fiscal, reclamavam sim do imposto um roubo do governo diziam, carga essa que havia me dado um trabalhão; quantas horas não tive de trocar fraldas dar mamadeira meio azeda no meio do caminho aos nenês! Isto posto saiba, Vó, fui prejudicada, como disse, pelo bicho-homem: inventaram por aí a porcaria da maternidade e pílulas para evitar criança, enfim me desempregando e à parteira matuta que ia a cavalo espremer a parturiente. Pretendi até bolar com ela uma associação, a Associação em Defesa do Nascimento Natural, o meu seria o setor de transporte; a parteira não aceitou o alvitre, essa gente é sempre desconfiada. Bem, fica registrado o meu protesto!


M)Cigarra e Formiga

M 1. Tabaco - Coch coch coch ai que tosse! não aguento a ação da emulsão da Tobacco Company me grudando lá dentro meus pulmõezinhos com a fumaça expedida de Vovô, como suporta você, Vovó! Não precisa resposta, a gente já sabe de cor e salteado: ele não para, para um dia e só para no cemitério; mas tem carros de razão pois quem bebe morre quem não bebe morre... não é por aí? Cheguei aqui cansada com tanto peso carregando peso e a fumaça só me complica mais. Mais não devo falar, porém advirto Vovó: ele fuma até dormindo roncando e aí, não queima o colchão! Não é de minha conta. Desejo apenas agradecer por compreender o meu e o trabalho das manas a encher nossa despensa com as folhas. A cigarra não entendeu? Que entenda a esposa do Sr.Cigarro um dia.

M 2. Cigarra  (alminha dela) - Puxa, como canto belissimamente! não acha, Vó? Quer saber um segredinho, você é mulher apesar de perder essa virtude pela idade na sua Terceira Idade, mulher aprecia segredo, não é? tenho um quentinho, mas não conte aos seus netos, eles ao grupo escolar e aí não tem vazamento que aguente. Pois bem: não morri de fome só para dar lição de moral em gente. Perraut, Grimm e seguidores como La Fontaine não têm razão – gosto de cantar! e então me esqueci, cantando, de comer. Que pena de mim, era uma ária belíssima. Era.


N)Os Bichos

N 1. João - A sua bênção, Vovó. Obrigado querida e compreensiva senhora haver-me finalizado em plena felicidade como Príncipe Encantado, gozando o gozo da Princesa Maria! Vovó poupou-me a poupança, o trabalho, a dor e até o desemprego; traições, egoísmos e fofocas de parentes e vizinhos, todo mundo acorde em concordância na felicidade. Obrigado, Vovó. Deixo-lhe como lembrança uma lembrança de minhas pedras, das que deixei inteligentemente no carreador a fim de acharmos a volta! Poderá pô-la como bibelô no armário ou na estante junto com outros enfeites! ah, não na porta da geladeira grudada com selinhos e lembrete de quando vence o gás, mui cafona e besta. Quanto aos enfeites, de fato, há o fato, ou possibilidade, de Dona Heloísa ser chutada pelo amante que a semântica atual apelida ‘namorado’ e você, Vovó, chama “serviço” a inexplicar aos de fora; e assim sendo volta ela e vai reclamar da feiura da beleza de minha pedra e do mau gosto na posição.  Nesse possível, Vó, fica autorizada a usar meu presente para atirar, assustando, ou Vovô ardendo fumaça ou o garoto vizinho trazendo vira-lata, mas cuidando Vó-zinha não atingir Luana, não só por ser ‘muiéi’, por ser uma gracinha. Ah sim, pedra se atira também no santo, porém não vi nenhum na sua Vila. Isso é como falei a sua lembrança de minha lembrança, João, o João de Maria.

N 2. Maria - Tenho uma reclamação a fazer... ah sim, perdão, não, não dormi com vocês e se o fizesse como Aninha quando acorda com medo noitona, como a Ana mijaria nocêis; sim não dormi, esqueci-me: bença, Vó! Mas tenho reclamaçãozinha a fazer. Seguinte. Ninguém mais quer ser Maria, hoje em dia, que rima! que rima por sua vez com porcaria. Não me invente inventar de novo com apelido comum. Agora a moda é pôr nomes estrangeiros, desses que tem na novela das oito. Não acha justo. Assim tolerarei ser de fato mulher como era a mulher antanho, de abaixar a cabeça e ser parideira, mesmo porque João virou feliz, por seu engenho e arte, Vó, e, aí, tem numerário à beça para sustentar um exército infantil. Que mais digo? ah beijos, lembranças, à plateia e ao radinho de Vovô. Pode, pode dar beijos também no Vovô. E na Tiana, em não ser que possa ela chamar-se Maria Sebastiana, neste caso suspendo a sugestão, dando apenas um abraço cerimonioso na cozinheira.
O)Músicos de Bremen

Se os Meninos não houvessem ido à aula indagariam onde fica Bremen, Zaldira respondendo à Aninha: “é depois da padaria” aos outros não sei, diria talvez ser na Europa com neve e maçã pra valer, não: Branca de Neve não tem mais, houve duas Grandes Guerras arrasou a Alemanha e a princesa e o príncipe se bandearam para a América, outro lugar distante do Brasil e mais longe que a padaria verde. Contudo tem muito músico ainda lá nas ‘Oropas’ França e Bahia. Inclusive o Macaco e o Papagaio já sofrem deles influência, ‘gringam’ ora tenor ora barítono e suas esposas de soprano. Tem sim. E ladrão. Isto tem, não tem jeito, é um bem milenar a assustar o planeta inteiro. Enquanto que nós os verdadeiros Bichos-Bicho, em oposição ao Bicho-Homem João, da dupla João e Maria, nós ganhamos foi uma aposentadoria ‘poupançuda’ para o resto de nossos dias. Se fôssemos matutos brasílicos, o dinheiro sequer daria para remédios aos nossos achaques de bichos velhos. Do grupo musical livrou-se o Burro a virar salsicha na terra da salsicha como prêmio. Caso morasse no Brasil morreria ou de recheio na mortadela ou de salário mínimo ou de aposentadoria com falência do instituto previdenciário. Os outros Cantores andam todos felizes pelo resto da vida, segundo a verdade avó. Na terra de Vovó o Cão teria uma vida de cachorro, o Macaco seria discriminado, sendo necessário até certa lei para garantir minoria entre a minoria rica universitária; tudo isso no país onde tudo em se plantando dá, deu no que deu. Optamos pela verdade avó, mais uma vez digo, e não me identifico, que não sou besta, como porta-voz. Enfim optamos, ou cantaríamos desafinados a chatear.

P)Lobo na Pele de Asno

Basta. Digo basta, sou a Pele. Lógico, não a do Cursio Malaparte. A Pele que caiu na asneira de apodrecer na estrada, feito um Asno. Basta, falo basta de tanto Lobo Mau nas estórias dessa Velha Caduca. Além do mais inculcando nojo do perfume exalado, o que posso provar com milhões de moscas a boa fragrância, um princípio democrático: a maioria tem razão. Vesti condignamente o Lobo, vestiria a Raposa, mais esperta, se preciso. Conscientemente. Vestiria até as Ovelhas, não me pediram. Agora, naquele ontem, Vovó, naquele ontem não ficou bem sequer decente eu receber primeiro que o Lobo meu amigo as cacetadas daquele porco, o homem. Pior, o porco do Homem-Pastor me fez tapete persa para limpar à entrada do seu casebre os botinões enlameados! Pode? Basta. Vovó-Gagá, basta de asneiras. Ah sim, lembro-me, não vim dizer isto apenas, vim ‘personagizar-me’ como seu desafeto... Bom ‘sono’...


Q)Trio Elétrico

Q 1. Sou Avestruz - Sou, meu componente energético anda enfraquecido, não falo, mudo, falo gringo australiano deturpando decerto o inglês da Rainha. Calo-me aos fogosos.

Q 2. Macaco - Macaco não fala, só ao tempo em que os bichos falavam. Não falo, pulo de galho em galho, bom operário nacional; vez que outra caio do galho me espatifo no desemprego e arranjo subemprego para não matar macaquinhos de fome. Fome não mais tem, tem Lula. Quá-quá-quá. Agora chega, já disse muito quem não fala, fala agora o Papagaio.
Q 3. Sou Papagaio - Que importa me chamem vez por outra ‘Mulata’, mulata dá o pé; sou muito ‘Louro’ dá o pé, né Vó? Nós nos saímos mal nas nossas ‘desbravanças’ patrióticas. Especialmente agora que uso-abuso-costume fizeram o sete de setembro virar quatro de julho; que me diz desta tirada hein Vó! Patrióticas sim. Todavia valeu a intenção. Se não houvessem boas intenções não haveria Inferno! e por extensão São Diacho onde pôr!? Lutamos pela pureza racial brasileira, mas o que existe de nacional? O computador da Internet, a globalização. A rigor não passaríamos da surra no Avestruz, aquele gringo esperto pra burro a enterrar inteligências. Contudo, Vó, penso agora naquele agora do faz de conta, se não acabaríamos amigos do sonso! Amigo se faz com uma boa conversa, que eu, Papagaio da Silva, tenho muita. Perdemos. Ganhamos ganhando este espaço na estória de Vovó e com destaque nestas suas Conclusões Surrealistas ou Consumada Loucura. Por isso agradeço, Vó, agradeço em nome dos três, ou seja o Macaco o Avestruz e xi... onde ando com a cabeça, esquecido, falta um no Trio... ah sim, eu o Papagaio, Louro, ‘Mulata’ Mulata? é a vovó-zinha. Vovó, tem mais um porenzico. Aguarde no fim do ano, mandaremos um cartão de Natal de boas festas com gelo e Papai Noel, tudo no maior estilo, bem brasileiro.






R)Vovó-versus-Vovô

R 1. Vovô o coadjuvante - Acorda, Zaldira, você está se sentindo bem, quer outro comprimido daquele? Devo pôr o travesseiro calçando melhor?

R 2. Vovó o bicho mais importante - Não estou dormindo, homem. Relembro apenas as Estórias que narrei aos nossos Netos, isso para não ficar só pensando neles.

R 3. O Sono ou Sonho ou Pesadelo - Vovó, já anda falando sozinha!? ou a ‘ventriloquar’ estórias, pois falam bichos; bichos não falam, falam netos, falam vizinhos, falam os que falam, falam os que não falam. Falam. Ou apenas sugerem... o galo canta, o vento assobia, a chuva molha, os outros ressonam e roncam, o mundo gira, a vida prossegue – o  que mais pode fazer a vida?

 Marília   fevereiro  2003












Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



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