segunda-feira, 30 de março de 2020

Em Visita


0137 (postado no Blog Livros Inéditos)















                          Em Visita   
                                                ( romance)
                                              Moacir Capelini
















moacircapelini@gmail.com



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“Os dramas dos astros desenrolam-se em eternidades, os da História humana  em horas, dias e anos – mas a experiência das almas não se mede por tempo e percepção.”               Franz Werfel



           O Nonno não falava quando falava, falava sim a Nonna e como falava! quase não falava, agora não falava mesmo, não mais falava, em visita constantemente aos seus.
          No fim, já calmo, não falando a enrolar sua língua num ‘italianês’, que seria português brasileiro em mistura com italiano e francês de sua província na divisa lá da sua terra no velho mundo – linguajar que a família entendia. No fim o fim, morreu dos pulmões, assoprava então, então parou. Não parou foi a velha. A velha em toda oportunidade no lembrar relembrar com certa revolta nada escondida na sua impaciência. “O Nonno e toda a italianada dele era grosseira, gritando estabanado, um dia esbravejou os burros, eu perto da pipa, grávida do Tim, esperando o Tim, gritou me assustei, fui parar no hospital, perdi um de meus rins! Não morri, morri na alegria... Veja as varizes por isso; se fechar a veia, então morro mesmo!”
          Mas o Nonno sim não falava falando pouco nessa altura ou seja no fim da existência dele e da vida do casal. Havia partido à comum troca de uma esposa cansada e faladeira por duas de vinte; agora, de crista caída, num retorno ao lar antigo, a ouvir os desaforos da mulher os impropérios das filhas as quais não perdoavam o deslize paterno – em suma um ambiente inóspito, desses a acolher malediência e a enxotar a paz; digamos também ele sentindo umas gotículas amargas a brotar na consciência... Assim findou, ainda com uma dor a mais em suas dores outras: a Neca, sua caçulinha que amava ao extremo, estando de mal. A família tendo o hábito se não perverso ridículo no dizer frequente “tô de mal”, igualzinho criança no brinquedo. Era tal a raiva da moça, que mesmo na hora última, a do desenlace, com extrema-unção e tudo o mais e ainda a jovem odiando seu velho. Fora preciso arrastá-la à força, os poderosos braços dos manos a obrigar Neca pedir – aqui sendo um ‘pedir’ e não pedir – o perdão dele ou perdoar ela ao pai, no ato de fechar os olhos, entregue manso.
          O velório pobre ocorrera na Avenida Carlos Gomes, então uma rua descalça quieta da nascente urbe. Enfim o Nonno não chegou ver o final da Guerra que se feria na Europa a deixar morrendo semelhante ele outros vivos violentamente mortos a se somar mais de cinquenta milhões de vítimas no planeta sofrido. Na casinha simples de operários o velho falecia, os parentes choravam os amigos se enterneciam e os curiosos estranhos se ajuntavam atraídos a farejar saber aquela concentração alarmante na casa benquista pelos conhecidos. As crianças não choravam com sentimento, a chorar sim mas por imitação e mais brincavam entre si qual numa festa, porém festa fúnebre de constrangimentos e vozes veladas; e o faziam ao longo de pitos dos adultos comportados a puxar-lhes as orelhas. Flores sol translado quietude ou só mesmo a encabulação e o vazio de uma nova vida ou apenas novo movimentar da gente, os da família dele e os conhecidos ainda a comentar aquela nova tragédia. Porque um passamento pobre é quase sempre uma tragédia aos viventes sim, uma tragédia pela surpresa e que nunca é anunciada pelos olhos, que o caboclo diz bom para a terra comer. Isto comum numa cidade pequena nova e à população que se via e via à maneira católica a morte. Por isso os dias seguintes foram de ajuntar cacos, discutir os poucos bens divididos ou brigar com muito abuso da arma feroz da língua; em não dar paz ao seu finado. O de sempre...
          Contudo o Nonno não acompanhou tais lances e assim mais tarde e num belo dia voltou junto aos seus, flagrando desde o início à chegada os errados na existência familiar.
          Encontra o Tim no limpar a fôrma de tijolo com uma lâmina de metal gasta, bem no fundo do instrumento, onde a protuberância tendo entrância das marcas feitas com formão assinalando as letras eme, MM a rigor, sigla a representar comercialmente Michel Malandroni (posteriormente o filho passaria as marcas, orgulhosamente, para seu nome, então CM, cê de Celestino porque Tim apenas aos íntimos da casa). Vê o malfeito da limpeza, pois deixando plastras rebarbas montículos de argila grudados ainda ao fundo, longe do seu perfeccionismo no que fazia como oleiro tradicional – e isso dói ao velho; assim lhe pega no pé, fala minutos que parecem horas e eternidades; chama o filho nos tentos, visto as pelotas não removidas na limpeza a endurecer e é claro que marcaria depois no barro mole o tijolo a ser desenformado e posto primeiro nas tabuinhas e posteriormente no chão em fileiras comportadas belas quase milimetradas – o velho sempre fora exigente, inclusive na honestidade dele próprio e na dos outros da família. Vê o velho o mais velho que é seu primogênito, em quem depositou sempre confiança no futuro; agora a praticar uma barbeiragem ou cometer desatenção, cara ao equilíbrio. Sim, primogênito e quase dono da olaria, o rapaz se pondo em sua empáfia já como mandão exagerando o mando nas falhas dos irmãos ali trabalhadores. O Nonno, quase sem poder conter-se, grita ao seu feitio o filho nas tarefas que na sua maneira de julgar não andavam a satisfazer. Sempre espevitado o homem, meio a falar sem pensar dosar equilibrando – já berra por cima do Tim. O Tim experimenta uma ligeira agitação, não mais que isso, um tremor desconhecido, a si não decerto a outrem, todavia não escuta a voz gritada agora ardida do genitor diante da flagrante desatenção e na falha do seu pupilo mais velho. Seria dessa forma que ensinara! pensa rapidíssimo o visitante se imaginando ainda morador entre os seus. Nonno...
          Ora, o Nonno apenas mais um dos Malandroni, emigrados forçados perdidos nos seus achados na crise europeia dos anos setenta do século dezenove, a fugir como mil e um outros da fome e da perseguição política à América. Uns emigrantes foram plantar primeiro mundo ao norte dela outros a se livrar apenas dos seus dramas mais próximos aportando longe nos trópicos ou na Argentina. Michel e as manas se fixaram com o pai e madrasta no Brasil. Após estágios curtos acabou o macho da espécie a deitar raízes num lugarejo na Alta Paulista, a nascente Marília, onde agora, no agora de antes, a findar com as lágrimas dos do sangue na avenida Carlos Gomes, local de casas simples e toscas da população pobre sem ser miserável.
          Não foi aí somente a ouvir mais bem sua velha, então menos moça, a ouvi-la nas lamentações e queixumes.
          Maria não temendo falar de sua deficiência nos rins ao marido aos filhos aos parentes aos conhecidos aos vizinhos e sobretudo às comadres a reclamar os berros do homem que levariam quase a patroa abortar o Tim e por causa disso destruindo uma parte das vísceras. Não. Sim, lembrava também outras mazelas; longe estando o lamento diário ser apenas dessas dores físicas – mas por todas horas colocava igual cunha essa cunha nas conversas familiais nada amenas... De fato, pondo frequente outras dores, as morais, que se infiltram minam destroem a paz, mormente a paz não bem cimentada na liga do tempo. As dores do constrangimento dela, se considerando uma espanhola tão bela tão jovem tão sonhadora e ter sido semelhante objeto comercial imposta e posta numa família italiana; e ter que pôr, impostamente também, Malandroni no seu Garcia paterno! Pior, teria pior? fora obrigada a aprender aquele idioma inventado de mistura piemontesa com o francês campônio da terra daquela gente barulhenta e cheia de exigência; felizmente convivera pouco com a sogra, sogra? madrasta, a curtir pouco igualmente o antigo tema do ‘amor’ entre sogra e nora. Não houvera sido um abuso!
          Havendo outras e outras mais dores a contar, nadinha à boca pequena...
          Entretanto não devera Maria ser tão rabugenta e ácida; isto na visão dos de fora, dentro decerto as coisas do dia a dia do casal com suas intimidades chãs nada exportáveis; porque Miguel amava aquela espanholinha braba, mesmo nessa altura em que ela sofrera vários partos portanto enfeando um pouco. Não sabia a contento dizer expor sentenças doces próprio dos poetas, grosseiro trabalhador chão e macho no seu tempo de machões; no entanto se dirigia à esposa no mais macio e leve perfumando as palavras para agradá-la. Isto mesmo tendo ali a seu lado mulher dos velhos tempos, imposta pela família num acordo entre as partes; situação que a miúdo não tem poesia que aguente... Carinhava a seu modo; no seu modo era não ferir com azorrague de vocábulos mais usados a atingir os outros machos e a gente de fora, ou palavras secas e sem compromisso que não fossem os comerciais.
          Ao lado disso ambos cônjuges a aprender na escola social, onde os caboclos brasileiros eram os mestres. Esta escola marcante na época do seu final, em que o Nonno sendo talvez malvisto por ser italiano, gente ligada ao Eixo quiçá perseguida pela gente da terra, malgrado não elevar seus conhecimentos os moradores e mais nessa antipatia os políticos no tempo que não havendo televisão só o rádio xingava os oponentes por causa da Guerra; ainda mais ainda: Getúlio tardava na sua ditadura a pender pelos Aliados. Nesse momento é que se acabava Miguel, Michel como era conhecido, Miguel dos Malandroni. O que não findava era a rusga da velha, então velha sim, pelas antigas e supostas agressões do esposo, no relembrar depois morto as ofensas aos conviventes.



           Todo mundo sabe que todo mundo tem linguagem quase individual e mais ainda a peculiar com suas características na família – coisas condizentes na existência da gente no grupo e as coisas da própria história da gente do sangue. D.Maria não fugindo à regra, Maria Garcia y Garcia os garcias vindos das partes materna e paterna; agora sem muita apreciação sua se torna Maria Garcia Malandroni; sendo que piormente um funcionário burro no cartório pôs errado Malandroni Garcia não Garcia antes e após o indevido Malandroni daquele homem gritador e que ainda por cima a trocara fazendo uns quatro anos por duas lambisgoias, só podendo ser elas gente lá da rua Bonfim de mau nome onde o prostíbulo, mesmo porque macho é tudo bicho sem-vergonha. A comadre em visita ouvindo arregalando crendo aceitando instigando mesmo no que concerne ao quem sabe haver mais umas pimentas nesse podre familial. Apenas um senão: a comadre não poderia acrescer que também o seu homem farinha do mesmo saco? acresceria sim mais: “esses italianos polenteiros são todos do mesmo nível moral de Miguel”, não acrescendo visto ela própria, a comadre, já ser uma nonna e seu pai sua mãe também peninsulares tal qual os sogros da outra. Daí Maria lhe conta, já não soubesse a comadre no ouvir narrar mil vezes, conta o episódio dos burros do cavalo seu esposo a gritar espantar a tropa virando a pipa e com o ato impensado empurrá-la ao hospital e isto noutra cidade às pressas, não havendo um na ocasião em Marília nascente.
          Comadre Pina escuta instiga novas prováveis sujeiras no crítico relacionamento de comadre Maria, num ato que mostra o prazer que o homem comum sente no sofrimento do outro; e ao mesmo tempo sendo uma satisfação à vítima, a qual aprecia demais parecer coitadinha para outrem sentir também suas dores e desabafos.
          Outrossim é provável que estas linhas até aqui e no restante da obra estejam a oferecer um quadro eivado de expressões usuais e do linguajar do povo; talvez mui chãos e a dificultar o entendimento. Isto é uma tradução que se pretende correta ao vernáculo, uma tradução dessa linguagem popular; embora sem alcançar decerto todo o pitoresco do falar na época, porque também a fala da gente se altera com o passar dos anos a enriquecer ou empobrecer uma literatura. Muita coisa vem da influência do tempo e do que existe à época e o existente, isto é os dizeres hoje vindos do consumismo que nos consome e nos nivela certamente por baixo no planeta. No momento tratado inclusive ditos e marchas carnavalescas eram absorvidos pela gente do povo e a linguagem retrato disso. A família em questão não foge à regra ou seria demais esdrúxula, uma dinossaura ao comum e piormente ao normal na sociedade. Entretanto havia em meio à média no povo ainda o linguajar dela, enfim desses Malandroni, termos ininteligíveis aos de fora. Aqui nem a comadre Pina entenderia.
          A propósito, agora Maria lamenta à comadre uma visita recente; no que seja na situação ou seja na ação dos visitantes, granjeando mais assunto e mais lamento e mais estórias a contar para outrem. Porque gente de fora dentro desarranja mexe remexe desarmoniza uma casa decente. Acredita, diz ela para a amiga, creia é um tal de usar as coisas e não repor no lugar. Se vão visitantes: a gente fica semana tentando achar utensílios que nos parecem haver de propósito sido escondidos; fora ainda o estrago; quebraram pratos amassaram mais a caneca amassada de estimação... e sabe quem teve que ouvir desaforos depois!
          Do seu lado Pina despeja naquelas orelhas já cansadas de falar e lamentar falas nos lamentos da rotina quebrada agora em seu lar. Demora um pouco, pois entre os semelhantes e mais entre iguais o despertador tem muita paciência, horas de paciência para ouvir – assim se contam as matronas mazelas intermináveis que interrompem, momentaneamente. Maria aproveita o cansaço da língua da outra e põe certa cunha curiosa sobre o dia a dia dentro de suas portas. Creia, comadre, o Miguel voltou da sirigaita dele meio surdo! Pois é, surdinho da silva; os meninos falaram falaram até que o bruto foi ao Dr.Mauro. Pôs um aparelho na orelha e... ah sim, melhorou nessa piora mas tem uma coisa até engraçada: se ele quer ouvir, ouve; se não, sendo por exemplo umas verdades que falo de suas mentiras? então sabe o que o malandro Malandroni faz? desliga o aparelhinho pra gente falar e falar sozinha e não escutar... Não, comadre Pina, o bicho aqui é brabo. Era então, morreu outro dia com velório na Carlos Gomes; depois a família entregou a casa ao velhaco seu João e assim alugou outra menos cara.
          Os anos se somam se acoplam se medem sobre os anos. Sempre esses encontros inesperados de visitas ansiosamente aguardadas sejam das comadres sejam doutras vizinhas e sejam até de parentes antes mais arredios, agora decerto desocupados e de línguas afiadas. Nas conversas dos grandes sempre os mais pequenos – os moleques ninguém segura – elinhos a ficar na barra da saia, ouvindo o que não lhes diz respeito; às vezes nem sendo próprio ao entendimento dos meninos. A doença é o prato cheio; a maledicência na forma de inocentes informes vem a galope. Em volta as crianças aos gritos os pequenos choram; o Tim então assinzinho choraminga ali, não arreda pé; agora já é um dos grandalhões, magro enfezado tardo no crescer porém dos grandes e até com direito a fumar e experimentar alguns tragos na roda adulta. Fala grosso, falando fino. Já se pensa grande velho enorme no seu poder, o poder da posição, por ser primogênito e ter crédito paterno e por esse motivo pensa frequente substituir um dia Miguel. Nisso de poder nem a Nonna, nonna dos futuros filhos dele, nem ela se põe; claro, estando perto. Longe critica à descadeirada Pina os abusos daquele frango empenando, bem melhor o filho que aquele sem-vergonha (este o epíteto do esposo de retorno ao lar com o rabo entre as pernas...) Mais cachorro que o cachorro. O Peri não fica longe daquilo. Decerto não interessado no colóquio das comadres, talvez mais nos meninos, a se coçar ali também na barra da saia de sua mãe; não pensará ele Maria a genitora?


            Se for ver o que vê o Nonno, não se vê; vê por dentro todo o fora que conversa na conversa entre si a filharada, a filharada fala, falando até os que nunca falaram – porque houve os saídos de anjinho ao cemitério enterrados para a vida; e assim mesmo falando, como que no comum do ser os seres escutam seus filhos. Mas quem faz mesmo a festa numa algazarra enorme barulhenta, a cruzar palavras ora ferindo ora mansas a agradar em ambos casos a rotina da família pobre e de prole vasta robusta a matracar quase tão perfeito quanto um bando de papagaios selvagens sem as benesses da gaiola – enfim barulho se não bastante a contento; quem barulha realmente são as crianças no rancho oleiro em pleno trabalho. O Nonno ouve aquilo dos seus, quer interferir (e, convenhamos, não pode:) se cala e por fim sorri. Sorri mais ainda ao pensar que andava morto, vivo no ouvido ouvindo barulheira.
          Não obstante não deixa, a seu hábito, não deixa de pegar no pé de sua tropa. Costumava sempre dizer com graça na sua sem-gracice que a exemplo dos burros na pipa ou na carroça da olaria os pequenos também sua tropa. E aí? aí é pegar brabo sério no medo imposto quebrado pelo manso do seu coração mole de italiano a sorrir de amor por dentro. Mas firme sim: a educação tem que se fazer com admoestação e palavras duras se preciso for a orientar os meninos. Diverso da velha, a velha Maria falando dia todo por cima deles, alto em vozes altas para impor respeito e não deixar cair a posição. Ora, intriga decerto da oposição, ele não tendo costume de gritar. No entanto embraveia. Menino! não vê estar marcando o tijolo mole com esses dedos sem jeito ao depositar o tijolo verde no chão? Dizia sempre nestes termos, mais ou menos assim, assim um pouco, visto embrulhar vocábulos italianos piemonteses brasileiros numa ótima linguagem para os de fora desconhecer e os de dentro entender, no linguajar próprio dos Malandroni na versão que até Maria sobretudo Maria a compreender; compreender! mais que isso, usar enriquecer tudo isso com seu idioma espanhol trazido dos seus. Gritado nunca, ele lamenta que ela assim pense e assim afirme; ela a lamentar pela grosseria do companheiro, mesmo no trato com os filhos (ele diria fosse ouvido no instante “necessário, Maria, necessário”). Agora, com ela, ela a reclamar à comadre Pina e às outras mulheres agora, comigo é berrar berrar dia inteiro todos dias!
          Contudo menino só aprende repetindo repetindo repetindo, às vezes esbravejando. Porque não se pode marcar o tijolo. Ora, tudo gira em torno do tijolo na obra oleira e essas porcarias desatenciosas a assinalar no barro verde; ficando dessa forma desfigurado o produto, sempre falo assim a vocês, desatentos, somente pensando brincadeiras. Não veem que insisto anos desde que eram pequeninos – ah o Lico precisava para alcançar a banca e usar a fôrma de tijolo pormos um caixote de querosene ou de sabão trazido da venda, para que subisse alcançasse fizesse tijolo nada de brinquedo dos bem acabados e trabalhados com arte esmero e boa vontade. Porque o resto de vocês é apenas brincar de trabalhar. Pior: me largam o serviço param a bancada e o trabalho dos outros que dependem do movimento de bater tijolo, para ir ver a arapuca ou constatar se queimados os brinquedinhos que fizeram de barro no forno ainda quente e também me quebram lá em cima tijolos inteiros pisando de qualquer jeito; não pensam que isso tudo custa dinheiro! Sua mãe? ela grita vocês igual mas por temor que despenquem lá de cima do forno e nisso concordo com ela. Vocês dão é muita preocupação pra gente! E agora o Tim, esse meu mais velho, está querendo dar uma de galo. Aliás tem razão, por ser o primogênito – os outros morreram, não sabendo eu como é que estão a me falar neste momento e a seus irmãos vivos – o Tim é o primeiro dos vivos que ficaram vivos, crescido por fora e não sei se deve me substituir um dia quando eu morrer, sim um dia morrerei e aí... É preciso ter boa conduta executar todos passos seja na feitura do tijolo, no esquadrinhamento do tijolo, na venda de um produto decente, sem nenhuma imperfeição; nisso eu falo falo e mais falo pra não destemperar o barro na pipa porém vocês, mais o Chico que os outros, sim são trabalhadores e corajosos não me queixo disso mas ele é mais pipeiro que todos os outros filhos; pois não é que anda destemperando o barro; já disse ao Chico muitas vezes: põe uma pá de argila do brejo que tem barro bom preto torba das melhores; e duas pás de saibro; essa a proporção adequada. Não, não me escuta, ele coloca a esmo. Dessa maneira o barro ora gruda mais na fôrma ora parece um monte arenoso sem consistência e depois de queimado ficará chocho fraco sem valor pra vender. Fazendo como fazem, que tijolo sairá? E o trabalho no forno, ai meu Deus! ora, quem pode com vocês...
          Todavia as crianças – têm uns crescidinhos já se pensando homens empenados e até as meninas que não são machas também no pensar em namoro – todavia os familiares não entendem... Entender? como entender se não chegam escutar o velho...
          Os meninos, pela ordem não de nascença, de sobrevivência, os filhos são o Tim a Lola o Pedro o Lico a Nena o Chico a Tê o Nico a Neca – foram os que sobraram da foice da morte nascidos, entre eles havendo uns dois ou três antes do primeiro que é apelidado Tim; e ainda depois outrinhos a aparecer-desaparecer por dentre os manos. O Nonno de seus filhos pai deles observando o andamento no serviço, a puxar orelhas porém moderando a fala no som e na ação; a mãe não, essa ralhando braba todos e mais em casa junto às garotas para mostrar algo de sua idiossincrasia e da habitual impertinência. Então, apreciando observar defeitos e falhas das meninas e mais do seu desafeto, a Nena; então diz cerimoniosa como num discurso “dona Prudência Justina Malandroni nada Garcia: você me quebrou a tigela queimou no fundo da caçarola o arroz deixou pedra no feijão e...” (acresceria, cerimoniosa ainda e quase rangendo dentes:) e... daí poria mais ferinos deslizes lembrados da pobre futura dona de casa mãe de família e produtora de netos a essa mesma avó Maria – pronunciando assim, ao invés de reduzir “Nena! você fez isto ou aquilo errado”. Também a Nonna sempre abusou um pouco das mãos, ou é que as nádegas apreciam as mãos ou varinha ou chinelas, chinelos como se diz até hoje nessa região do interior paulista. Doendo, decerto doendo, a doer em quaisquer das modalidades de castigo aplicado. Sem com isso Maria não amar os seus. A gente fica a imaginar como nas mesmas condições as genitoras ora batem ora assopram ora até choram depois pelo choro que provocam nos filhos; sem perder o amor, amor às vezes profundo aos seus submissos e protegidos. Se há rebeldias, claro, óbvio. Nalguns lares nessa altura do século vinte se distribui palmadas democraticamente à toda prole, mesmo visando corrigir apenas um membrinho do grupo. Os pais, embora a severidade ou abuso de poder, amando a prole. Não. Menos o Nonno bem mais a Nonna a tender violência, porém não se punindo nesse lar coletivamente mas destacando um faltoso ou a vítima da vez ou num caso o filho que sobrou, ele até apanhando por lerdo e não correr fugir a tempo... Assim a corrigenda entre os Malandroni. Cada casa um caso; ou só diferente por suas semelhanças. Daí o Nonno olha talvez um pouco constrangido ou chateado os seus a matracar na hora sagrada do trabalho, sequer eles notando a presença de Miguel, sequer ouvindo ou quem sabe por não o escutar.



           O Tim ah meu Deus... Se pensa grande, quer dizer adulto, daí mandão imperioso perfeito um deus perante o ali embaixo ou seja a ratada manos dependentes seus na olaria. Isso parecendo melhor no pior: o pai faleceu. Ele conta na rua, na ‘avenida’ (na época referindo-se o povo à Avenida Sampaio Vidal, o centro grande da pequena cidade, onde o maior vaivém dos habitantes) na avenida mais propensa ao vento ano inteiro... pensa que até poderiam mudar o nome de Marília para Ventania, tanto o soprar dos ares desde o Buracão que rodeia a urbe ainda menina. Conta o sofrer do velho a um amigo – puxa que mania, vício, desvio, o fato de se considerar amigo a todos com quem se fala! as mais das vezes mero conhecido; nem o parente por vezes merecendo o tratamento amigo – conta enfim que Miguel... “não diga que seu Miguel morreu!” morreu, e sofreu. Imagine que meu pai era demais teimoso; o Dr. Mauro mandou que ele se resguardasse pela pneumonia e, acredite, o meu velho (os outros irmãos e os vizinhos de perto morando longe do coração a tratá-lo “véio”, Tim não: diz circunspecto “meu Velho”) pois não é que saiu madrugada andando quilômetros e quilômetros daqui da cidade para ver lá longe como andava o forno, se no ponto da queima dos tijolos! foi a pé, realmente como todo caboclo o Tim e os seus acaipirados assimilando o linguajar da terra com migrantes de todos os rincões, e assim diz semelhante à caboclada pronuncia “di a pé” isto sendo agora sem importância. Retoma o que dizia, ao gosto do povo o qual faz digressões a curtir sua prolixidade para após tornar ao essencial no dizer, retoma o que dizia então, saiu foi lá na Conquista ver a olaria – piorou, voltou com febre alta, deu a pneumonia galopante! Assim ficamos órfãos. Não haviam contado ao senhor? Dia três de setembro último, lembro como se fosse hoje. Nesse ponto o primogênito do morto faz como qualquer homem comum: descreve impiedosamente a piedade quase pieguice dos passos formais sem poesia sem letra sem cuidado, apenas nos cuidados matemáticos nessa lógica do acabar. Para que as orelhas ouvintes possam igualmente sofrer o sofrimento!? O que impressiona um pouco, não: bastante. Ao narrar tira o chapéu, o vento já queria antes tirá-lo atirá-lo no chão; tira, coça, roça o chapéu, traga o cigarro, pigarro à disposição embora novo o mais velho, sequer se lembrando oferecer um rolete de tabaco ao amigo que o escuta, um da Sudam que fuma e fumaça a ambos. Reconta, conta o velório os convidados nessa festa triste e fúnebre; e fá-lo como qualquer homem da rua, numa forma como que em provar um ato tão banal como é o da morte. Não inventa, honesto inclusive nisso. O Tim é um sujeito honesto, sério, moralmente forte quase carismático na família, chega a ser impositor; e se mostra sempre um pouco sovina. Aqui se chocando ambas pessoas, pai e filho, na chefia da produção e comércio de tijolos, visto o genitor ser do tipo mão aberta e o primogênito não: quer educar impondo receita aos seus manos oleiros, agora seus submissos, fiscaliza o gasto medido e controlado. É um homem, embora pouco mais que meninão magro com barba a apontar, é um homem severo.
          Mais tarde um seu sobrinho inexpressivo iria experimentar a severidade do tio, um parente ordeiro e duro no trato familial. Era um garotinho tímido, filho primeiro também dum irmão de Tim, o Lico; este se casara tarde – na roça e na cidade roceira por depender em tudo do campo, aí se consorciava por costume cedo, ele entretanto velho a casar nos vinte e oito e a mãe do guri com dezoito, também já quase à beira ser tratada como ‘tia’, quer dizer: solteirona. Essa experiência foi mais ou menos assim:
          Aquele menino do início da década de quarenta, o Joãozinho do Lico, não sabia a continuação do tempo nem entendendo dos quarenta sequer de números. Aliás, sem abusar da verdade, desconhecendo também não só todos algarismos mas as letras todas. Não obstante a timidez doentia quase aceita nos padrões duma criança pobre, não obstante isso sentia uma atração pelos escritos que observava, inclusive pelo dístico na fronte do armazém do tio. Letras garrafais, letras miúdas no diário de escrituração ali presente naquela contabilidadezinha mambembe, a qual sendo paixão do tio; o sobrinho apenas assistente ali; não o assistente que ajuda e por vezes escreve anotações que depois ninguém a conseguir decifrar, pois o tio tendo queda à ordem e com boa caligrafia grafava bonito, aos olhos do pequeno letra bonita. Contudo era assistente por ver e observar aquele trabalho belo e mesmo fascinante. Opinião infantil.
          Então ele chegara muitas vezes de passagem flagrando tais registros, agora não: andava de castigo... É que os seus haviam saído, o pai na labuta nem se pensava sua presença; a mãe decerto em compras talvez nas coisas do enxoval do irmão que viria e daí aquela barriga imensa, embora desconhecesse na sua idade esses enigmas e havendo os tabus na família. Ou que ela pela gravidez houvesse ido ao médico, entre os pouquíssimos na urbe nascente; de maneira que o menino se encontrava no centro urbano onde se supõe a riqueza o luxo e todo bem-estar que as classes favorecidas desfrutam e apesar disso vicejava a pobreza remediada no local, o pobre pobre mesmo quase miserável naquela frente paulista da época, essa pobreza afugentada ou na periferia que por sua vez nascia ou nas imediações do município de ruas descalças e muito vento e muita poeira e muito barro. Mas por que de castigo.
          Ninguém estabelecera punição. Esta viera dos excessos na timidez e pela ausência dos seus, o garoto longe de casa, embora numa cidade pequena só haja perto; enfim não estava em seu domicílio porém na casa de comércio do tio, os tios residindo nos fundos do empório de secos e molhados, um empório o comum nesse tempo. Vivia um pouco os choramingos, mais por dentro que por fora, fora a secura a ferocidade e inospitalidade do ambiente, isto em razão da fama de inflexibilidade no parente; era preciso ser forte e obedecer as instruções maternas: não faça isso e aquilo na casa dos outros, obedeça sua tia e essas coisas que se diz a amedrontar educandos; a tia um pouco secarrona e de cara fechada no entanto boa senhora. “Vossa mãe já vem logo” dizia à aflição do rapazinho. O tio ainda mais fechado desejando ser visto por chefe honrado poderoso forte macho, como o rigor do tempo exigia. Enfim a corda, a parte mais fraca, estava nas mãos trêmulas da criança. Assim nem precisando o não mexa ali, não ponha a mão aqui, se fizer isto ou aquilo contarei à sua mãe, a tia pronunciando “vossa” numa linguagem também esta desconhecida ao menos não a usual. Aliás mamãe recomendara ao casal parente muito palmadas e cintadas na traseira, o que todo mundo na época e lugar achando correto...
          Com tais ameaços e o exíguo cabedal de conhecimento e de coragem, próprio dos tímidos e mais às crianças desse jeito educadas, o moleque não faria artes mesmo, mesmo fosse arteiro e moleque de rua, sendo somente menino um pouco contido e caipirinha como o apostrofavam.
          Vestia calças curtas desbotadas, era sardento semelhante muitos descendentes de italianos; não tinha suspensórios daqueles de elástico mui comuns mas tiras de pano à guisa de alças. Usava para sair de casa sandálias feitas rudemente e sem qualquer acabamento artístico, montadas com restos de pneumáticos, mais baratos – o que distinguindo sua condição porque os outros num passeio usando sapatos fechados às vezes lustrados de couro. Enfim tudo ajudando negativamente na sua timidez.
          A tia nas suas lides domésticas, parece que havia um priminho ainda não falante e de chupeta; pouco lhe dando atenção. O tio lá na sua altura, esquisito, de cenho carregado diante dele e a fazer pose ou só em provar sua posição enquanto a falar menos brabo com seus fregueses ali barulhando perto; o tio olhando mas mais de soslaio àquele pingo magro pobre de gente. Assim mesmo aproveitava enquanto a tomar qualquer coisa na escrivaninha onde o castigo e nisso a olhá-lo ralhar consigo ou abertamente a proibir mexer sobretudo na documentação que apinhava a mesa. Enquanto isso o menino ouvia os fregueses do tio no estabelecimento falarem, a falar falar falar, primeiro firme depois grosso gosmento e mole. De longe o garoto escutava aquele barulhar desde seu silêncio, aumentado pelas horas de vigília no castigo, ali ao lado da escrivaninha, constrangido na ânsia com a demora da mãe.
          No entanto o que mais feriu sua curiosidade e até seu sonhar como diante de imagem sagrada – foi a escrivaninha, que os tios tanto um quanto a outra pronunciando “iscrivania”, sem qualquer importância o desastre ortográfico ao visitante. O móvel é que o fascinava de fato, não os papéis os cadernos e livros e mesmo objetos desconhecidos como o mata-borrão a caneta de pau com pena metálica que vira o tio usar, aquele negócio de molhar a ponta no tinteiro cheiroso preto e depois espichar a letra na folha, o que poderia ser em grego ou não mas grego aos seus olhos analfabetos, tudo interessante curioso pra si; aliás nunca fora a uma escola, quase nem aos ricaços havendo vaga. De maneira que ficou no seu ‘matar tempo’ no tempo observando e mesmo catalogando na imaginação os objetos em cima esparramados. A rigor na ordem classificados e esparramados sim e também em ordem seguros com grampos de mola usados lustrosos; ou prendidos por pesos, não apenas contra o vento, a urbe era vítima de ventanias frequentes, ali naquele entremeio na casa dos tios e a casa de secos & molhados não ventava ou somente o suficiente a depositar detritos que dormitavam por cima de todos objetos e folhas com letra tremida mas uniforme e com certa beleza posta pelo secarrão tio.
          As horas mostraram ao garoto as letrinhas que ele desconhecia e também mil novidades, novidades para aquele mundinho desconhecido andante e tímido.
          Percebeu o móvel grandalhão, enorme à sua pequenice de gente; sua feitura nunca vista (o menino meio roceiro sequer havia visto por dentro uma casa urbana nem os lares ricos, ricos pra si). Era como certa mesa descomunal, tendo uma cobertura de peças cilíndricas de madeira, acopladas e móveis, sendo que a cobertura em puxando sobre, fechava a dita mesa; e pressionada para cima descobrindo a mesa. Isso foi uma descoberta e tanto a ele. Embaixo os quatro pés e entremeio quatro gavetas com seus puxadores, tudo de madeira lustrosa envernizada e cheirosa a lhe arder as narinas. Em cima da mesa, no plano horizontal, a mesa propriamente onde objetos e mil objetinhos, uma riqueza ao conhecimento de um bom ignorante, embora ainda criança e criança sempre uma promessa sobretudo a dominar tais conhecimentos. O que entretanto não só permitiu ocupação de tempo, ocupação como por exemplo não ter que pensar em mamãe nem estar num ambiente se não feroz ao menos hostil e contrário às fantasias que os seres experimentam. No entanto o que não somente permitindo a distração mas a revirar sua curiosidade de aprendiz foram os cinzeiros. O tio possuindo vários, fumante inveterado quase sempre baforando o tabaco à toda passagem ora a gritar a tia ora a pegar suas coisas ali, anotar por exemplo. Dois cinzeiros entretanto atraíram mais: uma vaca como que desmanchada e prensada de metal brilhante em cujo bojo dormiam tocos de cigarro e cinzas; igual ou semelhantemente no segundo, que era fisicamente um pneu. O menino não suportando a atração: tomou o pneumático, inclusive derrubando cinzas e tocos nos papéis do tio, o que se não ato corajoso pelo menos atrevido nos esquecimentos da ordem e das ordens recebidas; ou que facilmente umas nádegas possam aceitar como consequência talvez e não como correção; ao instinto e às tendências das crianças quem sabe não sejam intoleráveis... O menino manuseou cheirou a borracha de verdade, experimentou o cinzeiro colocado de pé como deve um pneu que se preze ficar – aí já sonhando como fosse mesmo um carro, daqueles fordecos antigos. Daí correu varou estradas cruzou ruas fonfonou nas esquinas cavalos carroças carroceiros e até...
          Ah, daí voltou o tio a deixar ser babá de bebuns para pilhar o sobrinho mexilão.
          Ainda Tim gastava suas forças e seu poder no falatório, o qual aprecia antecipar surras homéricas e outrinhas torturas; quando acordou o menino, no exato momento em que abalroava uma indevida baratinha ou carroça ou dupla de éguas ou mesmo no frear a tempo na passagem duma tropa ou boiada pela avenida, ouvia inclusive os sons do gado os gritos do boiadeiro... Nisso olhou aterrorizado para cima constatando um parente brabo cobrador de voz fanhosa grave e de olhar feroz que observava indignado o choferinho afoito...
          Aí fez beiço, extravasou sentimento, chorou abertamente. E será que mamãe não voltava!
          Mas agora tornemos aos princípios, à olaria, pois na época narrada, a do encontro do menino com o tio, já morrera o Nonno do Joãozinho e a sorte desse azar passara a rédea às mãos, fortes, de Tim.
          Traz os outros num cortado no trabalho, exige serviço e seriedade. O que um sacrifício imenso aos garotos, os quais por definição sendo liberais e imprevisíveis no tempo e incluindo a própria brincadeira. Ninguém ainda até hoje conseguiu convencer um menino que o trabalho é antônimo de brincadeira. Papai pegava leve, insistia – nessa altura da existência deles a morar na periferia urbana, a cidade pequena quase sem periferia e com muita pobreza a compensar a falta; aqui relembrando o tratamento de Miguel a cobrar sim os filhos; de fato insistia falava e no fim amansando sorria. Com o Tim não há disso: cobra ação cobra posturas; um que outro rumina baixo contra ordens do mano. Ao falecimento do Nonno, este já desmoralizado por ter pulado a cerca, expressão popular a significar adultério; e retornado à Maria, ouvindo por isso horrores dela e mais das filhas, os machinhos quase não falavam no assunto enquanto elas sempre. Assim conseguia o velho que alguns filhos o acompanhassem indo à olaria, longe uns sete quilômetros, o sete mui mal acreditado na sociedade. Iam, trabalhavam e já quase nesse tempo o pai não exigindo muito. Não muito? ao contrário, demais agora a exigência do Tim como novo chefe.
          Isto posto, entende-se por que motivo pouco mais de ano do falecimento os irmãos crescidos fugirem do negócio do Tim. O Tim se vê então na contingência de contratar gente de fora do meio oleiro; e aqui entra uma questão séria em vista não encontrar oleiros tarimbados e de consciência oleira. Assim improvisam-se roceiros e demais mão de obra no trabalho braçal, bruto.
          Numa olaria da época, aquela que servia a cidade fornecendo material básico de construção, o tijolo, numa assim, pobre incipiente manual e movimentada por muares – o chefe ou pseudo-proprietário necessita capital (que é o monstro de vinte cabeças da pobreza sem condição financeira) a fim de produzir. Precisa pagar a mudança da família trabalhadora que vem; às vezes liquidar suas dívidas com o ex-patrão; depois o novo empregado ou foge na calada da noite deixando o rastro da dívida nova ou faz acordo com o novo-já-velho patrão. Este tendo também despesa com sua própria família, no caso Tim fazendo um consórcio simples com dona Assunta, outra italiana, bela na opinião do namorado, o qual faz acordo matrimonial com a família dela; se Miguel vivo, ele iria firmar o ‘negócio’ envolvendo seu primogênito com a segunda filha do outro pai, um tal de Giovanni. Foi mesmo pelo interessado. Porém isto custou dinheiro. O novo lar igualmente consumindo ganhos do rapaz. Pouco depois ao desentender-se com os manos na olaria, tentaria o comércio, num habitual secos & molhados, empório ou armazém ou venda como se conhecia tal estabelecimento de comércio, onde o encontro narrado envolvendo o Joãozinho. Não se deu bem o Tim, mais tarde ainda voltaria aos tijolos, como ensinara Michel Malandroni. Faliu como comerciante na urbe: os devedores não lhe pagaram, e embora a meticulosidade do comerciante e sua correta escrituração (ele fizera uns estudos do que se chamava então guarda-livros, embora pouco mais que alfabetizado por algum letrado, por não haver na sua juventude escolas na região; além da ideia dominante de que ao homem bastante saber trabalhar e ganhar a vida). No caso do empório os credores entregaram o pobre à justiça e a falência foi decretada. Assim voltou. O bom a um oleiro é a olaria.



            No dia em que pôs os óculos ficou estranho, estranho mesmo. A gente não vê, vê sim embaciado engraçado esse quase triste na rotina a seguir. As lentes, dessas da gente olhar a pessoa com os óculos encavalados no nariz grande avermelhado e imagina como pode o freguês enxergar com aquilo de vidro grosso, a dar enjoo na gente, inclusive a gente finge não andar olhando vira de lado pra não ver aquele ver. Pois não é que ela pôs também seus óculos e nem conseguia dar passos – tudo girando por volta. No entanto o mundo asserenou parou para que ela andasse como antes do oculista receitar e o Miguel pagar, aí o pai reclamando o caro e a demora na chegada dos óculos da filha; mesmo porque a demora demorou um pouco mais que de hábito em vista na urbe pequena e nascente não haver condições e precisarem aguardar meses até vir de Campinas lá perto da capital. Com respeito ao preço, um desrespeito; no entanto conseguiu pagar com venda duns milheiros de tijolos. Enfim agora a Lola (aqui teríamos que agudizar a letra ‘o’ para não pensarem acento circunflexo, porque os de casa optavam pelo agudo); agora ela via bem e criando a nova aparência uma atmosfera agradável à sua vaidade. Os machos da espécie supunham então que toda mulher fosse vaidosa, um engano fatal da verdade, visto ser apenas mais ou menos assim... Ela com certeza vaidosa nas vestes e agora com a novidade dos óculos, a si eles a embelezaram mais ainda sua beleza anterior. Com certa razão dizia ou só pensando, porque os rapazes que a observavam viam-na um belo violão; enquanto que elas, elas as vizinhas com mau gosto consumado, notando somente as coisas de roupa e moda, sem dúvida fora de moda, enfim elas diziam Lola ser horrorosa; além de criticar à pobre na voz, voz de taquara rachada, uma expressão caipira a menosprezar rebaixando ferinamente a moça dos Malandroni, queridinha da mamãe afirmavam os manos e quase tão querida do pai, porque Miguel adorava, fosse lícito adorar gente, adorando mesmo a gentinha que era a gracinha a Neca, caçula dele; e de Maria Garcia y Garcia é óbvio.
          Não obstante todo incenso nesse quadro pintado para mostrar Lola com sua beleza, negada por umas e defendida pelos homens; não obstante isso quase não ia casando, casou-se. Pichava já a oposição a carreira vertiginosa dela rumo aos baixos pra virar titia, quando surgiu um Zé mais corajoso; o qual alegando orfandade não trouxe o genitor a pedir pelo filho a mão delicada dessa Malandroni bonita, linda no dizer do seu espelho, aquele do guarda-roupa, um monstrão para acondicionar as vestes limpas e passadas da casa, móvel no qual Maria descobrira uma depois duas e após mais baratas. Ora, aí estava o fim de uma presuntiva solteirona e o início duma vida a dois, a três e a quatro com aparecimento dos netos do Nonno que viriam.
          Todavia não foi tão tranquila essa passagem.
          Primeiro se enroscando num impeço de família. O Tim logo deu contra, a fim de que, pensava ele, os outros fossem a favor seu contra. Porque onde já se viu entrar nos seios Malandroni alguém de fora não sendo italiano ou pelo menos europeu – que a intriga dos costumes indicava ser povo mais forte mais puro mais belo mais certo etc. e tal – daí aceitar um caboclo com o apelido Silva! Felizmente aos destinos do planeta o amor não pensa dessa maneira. Melhor: não pensa não vê. Cego? e os óculos da Lola...
          Aqui chegamos noutro aspecto nesta tradução ao vernáculo numa tentativa pôr na linguagem culta o enredo e a fala com expressão da época e da gente do povo, qual os oleiros Malandroni. Estes assimilavam os dizeres e o pensar do povão, haja vista que apesar de palavras estrangeiras usadas dentro e quase fora de casa, absorviam gostos gestos sestros do povo miúdo da urbe e do campo onde a olaria; inclusive sofrendo inserções carnavalescas e doutras manifestações populares repetindo como a maioria ditos dessa origem. Brasileiros de nascimento os filhos de Miguel-Maria, brasileiros nos costumes nos gostos e nos interesses da terra; mas sempre com um puxar orelhas do pensamento imigrante, qual o da aceitação ou não da entrada dum caboclo no reduto europeu, então mui pouco europeu. O amor... Lola casou-se com Zé, diante de caras fechadas antes e sorrisos após dos manos e sobretudo dos pais. Aquela velha estória dos netos desmanchando impeços com gracinhas. Ninguém pretenda segurar o carro do mundo.
          Lola aqui apresentada com mais de uma exceção, o que fere a regra da regra, segundo esta precisa quase haver uma exceção para não se fugir à regra, ou dizer semelhante. Isto porque a jovem, não jovem na opinião oposicionista, indo já ao reino desgracioso das tias – a jovem madura se casou. Mais que isso: contrariando a regra, com um caboclo, este a lhe acrescer no Malandroni um Silva bastardo; e mais exceção sendo a família oleira, ela não oleira... quer dizer isto que embora todos inclusive a mãe nos barros nos burros nos berros nos urros do serviço braçal pesado dos tijolos – Lola só ficando em casa; trabalhava sim e isto o que melhor marcou na família, que é o respeito ao trabalho. Porém nunca sujou as delicadas mãozinhas no barro, não sendo algum dia a atirar num irmão mais afoito um pelote em despique pela pecha de solteirona; e também ia vez que outra levar café aos meninos na bancada onde faziam tijolos, então o pai longe eles na algazarra, ou Miguel a fiscalizar os filhos e assim virando eles uns doces com respeito e cuidados profissionais... Fora portanto umas escapulidas desse tipo ao rancho onde o serviço oleiro, a moça vivia no lar. Doce lar? Nem tanto, a mãe cobrava muito, sobretudo a matracar contra as más lembranças do marido, a questãozinha batida dos burros na pipa e os gritos do velho então novo e o final na perda dum rim; a matracar em cima da Nena seu desafeto; e matracar a irritar os outros filhos. No entanto – eis mais uma exceção a ferir a regra – a Lola intacta! Nada vendo havendo errado nela entre eles os olhos maternos. Isso tudo destoando no falatório geral, no constante pegar no pé e a jovem casadoira a ser tida se não santa, certa. A oposição, aliás oposiçõezinhas várias, via com horror e ciumeira o parcialismo. Nunca apanhou. Não cabia correção na pequena lindinha; não cabia admoestação na grande de pequena estatura na sua miudeza bela e por saber a mando da vaidade se arrumar ajeitar os cabelos castanhos, ainda mais bonita ou apresentável; despertando o trato alguns ciúmes nas manas e sem sombra de dúvidas nas vizinhas. Seria uma exceção à parte ainda se os outros componentes da família fossem feios ela bonita; isto porque o espelho do guarda-roupa os considerava no seu serviço profissional tanto as irmãs quanto os rapazes bem simpáticos...
          Pra concluir aqui o capítulo manhoso da regra com sua atrelada exceção, no unir-se ao José Silva a Lola, os membros da tribo olharam todos com maus olhos o novo parente não apenas por ser caboclo, portanto de segunda categoria no exército europeu; não só por essa razão: por não ser do mundo oleiro! Piormente já antes de conhecê-lo bem, se é que alguém possa conhecer bem outra pessoa, já era tachado como traste e interesseiro aproveitador da mana: viram-no um contumaz vagabundo. Um pouco como na época falava o roceiro de quem por cidadão ou em vista não ser da enxada. Essa aversão durou, lógico, muito, pouco tendo Lola dado à luz um neto ao Nonno e à Nonna; uma gracinha, expressa tal ‘originalidade’ na mistura dos idiomas a vigorar na família.
          O tempo passou – outra expressão idiota mas que se fazer? o tempo prosseguiu. No futuro, morto Miguel antes de acabar a Segunda Guerra, esparramados os filhos então maduros à vida, a velha mais velha e dependente, embora a língua ainda jovem forte franca incansável e uma língua de memória a se lembrar como se diz do elefante, Maria realmente fraca a viver da aposentadoria que no seu linguajar ao modo caipira era “pisentadoria” – ficou a Nonna se não intratável, chata. De maneira que sempre que possível os filhos e noras as filhas e genros torcendo que a pobre não assentasse praça no lar deles, sem ser isto descoberta fantástica da verdade no povo... Então ficou desde esse tempo Maria indo e vindo, ora a residir na capital onde a Lola se fixou como senhora Silva; ora nos lares dos filhos na velha nova urbe. Um constrangimento sem fim, com isso não se pretende acrescer sequer uma gota na verdade ao mundo. Até que faleceu na casa duma nora, também Maria semelhando ela.



            Miguel chega esbaforido, sente o suor descer escorrer-lhe molhar as bordas da camisa riscada de sua preferência na olaria, chega mas chega na capital no lar da filha. Lola na torneira abre fecha ensaboa enxágua escorre utensílios na pia impecável; enxuga passa pano úmido examina o efeito no serviço executado; enquanto na rua ali daquela periferia pobre, terá a rica! a rica é a pobre nas fraldas do centro urbano como bairro também necessitado porém não miserável semelhando a periferia pobre na rica cidade grande, capital dos paulistas; examina a tarefa que lhe deu trabalho e alegria ao mesmo tempo, visto sempre se conduzir dessa forma e mesmo ouvindo azucrinação da mãe quando na olaria ou na casa da cidade interiorana, ainda assim fazendo com alegria o serviço por apreciar operar na cozinha e demais as prendas domésticas; observando e se fiscalizando o bem feito se benfeito ouve não longe carros a rolar, sim os motores deles os condutores deles, ouve ao mesmo tempo a conversa vizinha, ouve o gritar crianças e o gritar das mães pelas crianças, enfim essas coisas quase não sendo consigo e de fato a rotina é a dos outros, a dela sendo todos dias escutar e nessa espécie de estado absorto ou de distração se lembra com saudade, que é próprio dos sentimentais, lembra-se do seu velho. Miguel chega como que cansado suarento mas alegre por vê-la. “Lola!” diz gritado, o Nonno nunca conseguiu expressar alegria mansamente e se exalta, se exaltava sempre. Então ela volta-se para os lados do pai. Ele não se contém abraça beija, nunca também se pôs a beijoqueiro a Maria sim a Tê e a Nena nem se fale todavia ele e os meninos não beijam, porque se não machões envergonhados de tais fraquezas e no conter ímpetos, machos no manter aparência e rusticidade; agora se esquece desse condimento no condicionamento e abraça e beija com alegria imensa a filha.
          Lola sente uma como que satisfação inexplicável na proximidade e não sabe bem ler isso em si mesma: supõe contentamento ao ver sua tarefa pronta ainda concomitantemente lembrando um quêzinho fortuito, quase sem esperar, um podre nas vizinhanças – justamente aquela dona Carmen pretensiosa a vender ideia de pureza correção alta moral e ainda mais por ser a vizinha dada a proselitismo, a falar assobiar cantar hinos todo santo dia e a incitá-la: querer à força levar Lola para sua igreja!  Isto um crime de lesa-majestade para a interiorana dos Malandroni porque da família desde o tempo oleiro dela era a que mais pedia conselho ao pároco e a que ia mais frequente à missa, parecendo uma papa-hóstia. Agora sujeita ao palavrório e à pregação da outra! Pois não é que soube antes, verificando depois, da visita na madrugada dum dom juan, a decerto não ter vindo para trocar palavras da palavra e comparar capítulos citar novos versículos... Vira, surpresa, vira sim, constatara esse contato espúrio na casa da vizinha, inclusive ouvira na saída do príncipe encantado a reação dos cachorros. Ausente o Zé – aquele negócio chato que a rotina adora expor, ou seja o costume a retê-lo no escritório depois do horário e até madrugada a dentro – ausente o Zé, aguardava indócil e ansiosa sua volta para narrar-lhe o crime... Dividia essa lembrança com a lembrança paterna naquele instante. Aliás a falta praticada por Miguel antecedendo um pouco o falecer era menos grave que a de Carmen agora, a Carmen aquela protestante tagarela; visto o pai haver conversado se entendido no desentendimento, após briga conjugal, no deslize de haver deixado o lar por outro durante meses: não enganando ninguém, antes se enganando (por que, se falou pensando, por que andar relembrando essas tristezas – mais permanecendo a alegria da saudade que a tristeza da recordação). Já a vizinha, se apresentando reta e religiosa mas num adultério contra seu Valdomiro, um boi sonso porém ótimo vizinho. Então, aguardava o esposo a fim de presenteá-lo com uma leviandade fresquinha, dessas umas de coçar a garganta. Foi nisso chegar Miguel.
          Não se assustou, absorta talvez distraída engolida na gostosura de haver flagrado o deslize da vizinha na vizinhança. Mas sentindo um tremorzinho curioso, teve imediato um bem-estar incontido – olhou examinou os trens de cozinha postos no rigor do hábito nos seus lugares; quase cheirou a cozinha, quase parou não estivesse parada para ver algum inseto a voejar e sujar o ambiente limpo; a seguir teria as mil tarefinhas ingratas amiúde ou da culinária ou do tanque ou da vassoura do balde do sabão da espuma; ou ainda a dos cuidados com o bebê a dormir e aqui tarefa mansa boa. É claro lembrava aquela estória a lhe instigar o ser, lembrava até ansiosamente, ou seja esperar o Zé, receber seus carinhos antes e depois imediatamente depois contar a Carmen. Virou-se, e o sol da manhã melhor iluminou num jogo de luzes a área.
          Nem assim viu de fato o pai.
          Miguel teve rápida sensação de desapontamento com provável indiferença dela e nem por isso se conteve no quanto tendo que falar à filha. Contaria que o Tim andava agora exagerando nos negócios, andava aporrinhando os meninos; que o primogênito já casara (e se corrigiu a tempo: ora, isso você sabe...) Contudo o que de mais importante desejava falar para Lola era sobre os problemas que pilhara na olaria propriamente dita: na gambeta... Daqui por diante esta tradução usará itálico como em palavras estrangeiras, quando termo oleiro, portanto desconhecido por quem fora do assunto. Na gambeta ele flagrou o Nico a derrubar tijolo e quebrá-lo e mais ainda: os cacos verdes não levou de volta à pipa pra misturar com o barro dormindo para noutro dia virar matéria ao Chico conduzir no carrinho e depositar na banca da Tê. Ah, saiba menina, disse tagarelando já destravado Miguel para sua Lola, saiba que ela faz tijolo com perfeição, esquadrinha como ensinei; pra ela o serviço é religião!
          Mas a filha, inexplicavelmente deu-lhe as costas e foi tratar da limpeza geral da casa. Ora espiava pela janela a provável chegada do Zé ora observava o sono no berço ora a porta (e o fazia com prevenção e sem vontade) a porta do quartinho onde descansava Maria, Maria chegara do interior na véspera, fora inclusive recebê-la na Estação da Luz; é visto não sentir demais simpatia e não ter muita afinidade com a mãe, tendo muito apego entretanto por Miguel; portanto não iria confiar as andanças da vizinha à genitora; não sendo nesses momentos em que não temos nada importante para dizer e então preenchemos o tempo dentro da conversa, constrangidamente, com ninharias e futilidades que nada dizem respeito à visita.
          Lola – na hora exata em que Miguel no seu habitual jeito de falar atrás dos outros, mesmo outrem a andar, a esbravejar e quem sabe a abrir os braços para mais falar por mímica e com as mãos que com a boca de falar todos sabem; justo quando decerto no lembrar a Nonna à filha, Maria arreganha a porta do seu sono do seu retiro de visitante íntimo, abre e antes do bom-dia, cumprimento a si desconhecido pois a abordar outrem já o fazia contando algo, algo aqui certamente como não ter dormido na cama estranha e a cachorrada a ladrar acordando até quem não dormira...
          A Nonna, Maria mais esparolada que o esparolado italiano esposo, Maria fala isso tudo, tudo de uma vez porque a gente tendo sempre a má expectativa a esquecer o que lembrar, afoita, quer transmitir rápido o conteúdo de quase um romance num mero e inexpressivo continho e aí o esbravejar no explosivo humano e se expondo na inconsequência do que for dito, se dizendo – tudinho fala, se aproveita duma cunha inserida de propósito aparentemente sem importância no colóquio para introduzir na conversa o que à beça Lola sabendo no convívio de vinte e tantos anos: Miguel aos berros a pipa os burros a perda de um rim. E o faz no tim-tim por tim-tim, impiedosamente.
          A filha faz de conta ser a primeira e virginal vez que ouve tal verdade, abusadamente verdade. Ouvindo a mãe, quase esqueceu-se do tão rico prato ao Zé e aqui narraria com graça mordaz até os latidos dos cães não aceitando eles um caso de adultério na vizinha, sem decerto pretenderem os seres caninos atirar a primeira pedra. Sim com graça contaria isso. À parente enfeixou a resposta com apenas um sorriso, sábio amigo cúmplice.
          Miguel assiste a cena, abre a boca, abre os braços de falar; chocalha pra lá pra cá a cabeça, nesta um chapéu de feltro gasto e quem sabe a exalar aquele azedinho de suor quase dormido. Enquanto elas, as mulheres da família, não o percebem; tão só Lola, parece-lhe, escuta um pouco longe longe nesse perto a voz do pai a dizer num italiano: sua mãe nunca esquece.
          Lola fica num pensar, será que ouvi o pai... ah cada coisa que a gente põe na cabeça. Não diz: sua genitora não ouviria, ocupada na lamentação.
          Por final Miguel desaparece aparece o Zé, vão para o cômodo conjugal. A sogra dele ouvindo as risotas dos filhos, curiosa sim e sem saber que a gente comum aprecia rir-se das lágrimas de outrem, duma Carmen por exemplo.



          Aqui, lá nas lonjuras do tempo no tempo da olaria, aqui necessário analisar um pouco o caçula dos Malandroni, o Nico; a exagerar porque a Neca sim, não o rapaz caçula; dos machos da espécie realmente o último a nascer – e a se manter vivo, lembrando aquele negócio dos anjinhos dos caixõezinhos ao cemitério dos mortos, indo enfim para a necrópole nascente na urbe nascente. Pois bem... ah, há um porém para complicar esta tradução e levar para frente a história da família, porém esse que é o ziguezaguear no tempo. Ora temos Miguel relembrando Lola na época em que não oleira entre oleiros; ora a mãe em pôr repor antepor pospor ou só encaixar a gritaria do esposo e a levá-la ao hospital com perda do rim, narra como fosse o dito no dito momento que narra; ora o Tim que aguarda o falecimento do genitor a tomar-lhe o poder na empresa, e seria uma empresa! ora o primogênito mesmo já casado falido de retorno à olaria; ora outros dados não se conscientizando ser na capital ou no interior dos paulistas; ora o que mais chocando a verdade a realidade a excepcionalidade a imaginação a mentira, ou seja a base temporal seriada nos fatos expostos. Dirimir-se-ia entretanto esses conflitos sem pretensões a imbróglio com um esclarecer: a imagem em toda narração sequer respeita a ordem o conceito linear nem o tempo; ele sim, o tempo, é apenas uma ilusão para distrair tratados envoltos no tédio na poeira duma estante. Para o homem comum nada mais existe, existe só o que pensamos e expomos à interpretação; esta realmente existe! Mas a interpretação de quem? de quem porventura se ponha a interpretar.
          Se se exigir mais profundidade nas afirmativas, saibamos haver sido antes da Guerra e após a Guerra.
          Postos os reparos, o Nico.
          O rapaz nunca foi um jovem confiável; inclusive aos seus, enquanto que os de fora demorando um pouco mais para descobrir a verdade. Quando menino era enredeiro, o campeão a dedar os manos, sempre vítima deles sempre um santo a molhar as fraldas da saia de Maria. Não tirava muita vantagem com Miguel, que o achava uma gracinha e se ria de suas gracinhas misturando italiano falado com português caboclo. O filho não obstante lia no velho ainda moço qualquer coisa de seriedade ou força moral decerto; porém não temendo, manhoso, apanhar não só porque o pai não batia e porque se orgulhando dos filhos, a elevá-los mesmo fosse uma patifaria a elogiar. Era mais coração. O coração da mãe ia além de coração de mãe e daí o Niquinho sabendo usar de manha e cuidados numa eventual queixa como preparo a se pôr ou neutro ou vítima ou santo atirando o desafetinho no fogo. Às vezes surtia efeito o estratagema às vezes sobrava palmada ou castigo para logo fugir ele do castigo. Em suma nada que se possa acrescer numa criança normal. O normal é que é preciso discutir melhor. No pior dessa melhor saída Niquinho corria para as irmãs, defensoras do pobre ante a ira materna. O tempo corrigia a distorção com o esquecimento benéfico quase momentâneo, não corrigiu seus desvios talvez de personalidade. Como púbere foi moleque igual outros, da família ou não; sua adolescência provou ser ‘aborrecência’ como hoje afirmam pensadores desocupados e assim deu muito trabalho, acostumado no mimo, próprio do caçula. Brigou nos bailes – sempre na roça, a olaria é rural, e residindo na cidade o jovem vai assim mesmo ao baile roceiro – brigou fugiu da responsabilidade saiu de vítima e se defendeu no tempo e na memória curta dos circunstantes. Acabou se casando, não cedo porque não há cedo ao roceiro da época. Porém se casou imaturo. Bem, ocorre de o macho de nossa espécie demorar mais pra chegar no ponto (e qual seria o ponto ideal à maturidade?) ao menos mais lento que a mulher. Esta sabe o que quer. Ida sabendo suficientemente extrair o que preciso do esposo; resultado dum consórcio bem aceito, ela de sangue italiano, embora já os Malandroni então ‘minados’ com a entrada de caboclos no seu meio, embora somente mais tarde é que a Lola traria um Silva... Ocorrendo neste ponto para esclarecer a verdade apenas que Ida consciente e esperta bastante para pôr na linha aquele doidivanas de bigodinho; o bigodinho seria indecente não fosse de uso comum abaixo de muito nariz acima de muito lábio masculino então.
          Contudo houve sim problemas. Miguel aceitou com sorriso, até engolindo alguns laivos de falsidade que a parte feminina da família descobrira já mas que a masculina (felizmente pra moça não o Nico...) permitindo ou se enganando ou até ficando indiferente. Não sendo assim com Maria, a Nonna se pôs logo na sua posição de sogra, sogra contra todas noras do planeta! Bem, isto não quer dizer que houvesse recebido a nova nora com duas pedras nas mãos. A coisa é explicável pelo inexplicável nas relações humanas.
          Nisto entra muito dum antigo costume italiano trazido do século dezenove: o hábito de em casando um filho este a morar com os pais ou ficando vizinho deles. Somando os outros casais incorporados incorrendo no mesmo costume, resultará uma soma de desentendimentos. Dessa forma Ida entrou naquele inferno, se bem que já trouxesse dos dela mesma essa aceitação imposta. Deu muito bate-boca e falatório e os xingos. A xingação é algo que sempre apareceu desde o início do contar este enredo, embora não registrado na fala até aqui da família. Ora, os Malandroni não eram santos.
          Em vista tais afirmativas, a miúdo aparecem a exaltação e o impropério naquelas bocas de misturar o dialeto piemontês aos outros dialetos conviventes dentro da casa; inclusive sacrificando o purismo em construções horríveis ou engraçadas como “antes sesse assim” ao invés de ‘antes fosse’. Mais ainda, usando no falar os membros da família certa violência; a fala não seria violência mas a língua de um modo geral é uma arma de maior alcance que a atômica... Houve o que na ocasião os caboclos urbanizados diziam “arranca-rabo”, com apartar e intervenções e bastante gritos, ora gritos de ofensa ora gritos na defesa dum ‘anjo’ nas mãos do verdugo desafeto familiar da hora. Quando da entrada, primeiro das esposas e genros de fora, depois e piormente intervenção dos vizinhos e elementos estranhos a dar palpite, então ferveu o ambiente. O curioso nessa situação é o antigo ofensor virar por vezes defensor de quem na berlinda sem paz. Todavia não é manifestação exclusiva dos de Miguel. Este último aspecto é bem flagrante quando o chefe, na briga com Maria, resolveu trocá-la por duas mais jovens – então afloraram grupinhos dentro da casa: os contra o velho, já velho para aventuras amorosas, sendo do contra mais as fêmeas da espécie e mais ainda ferrenhamente a liderar quase um complô se não guerra declarada a Neca; os meninos do outro lado ou do lado da boca fechada (nem sempre a concordar mas a discordar com educação e cuidados...) Neca não, era figadalmente inimiga de quem a achara pequena uma gracinha e como adulta embora imatura e volúvel ainda a adorava como santa.
          Neca fora mais próxima do Nico, um par caçula a crescer junto a aprender junto a trabalhar junto. Aliás este quesito o mais sintomático entre os de Miguel, pois todos filhos sem distinção se tornaram mui trabalhadores. Disso o pai se orgulhando com razão, como se orgulhara antes por amor.
          Não obstante essa proximidade dos caçulas, estes ora a se defender ora a desentender também, não obstante houve na convivência de ambos alfinetadas gozações e até maldades, embora maldades inocentes, de um contra o outro. Nico, a mexer aperrear sua mana, vivia por exemplo a lembrá-la “necas”. Durante muito tempo em meados do século ouvia-se um dito de origem carnavalesca ou só popularesco: “necas de quetibiribas”, mais ou menos isto, usado como negação peremptória; aqui nem eles sabendo bem o quê. Então o irmãozinho quase gêmeo da Neca lembrava para fustigá-la dia todo “Neca, necas” às vezes ‘cacofatando’ e repisando repetindo “canecas”... Quantas vezes a jovem não teve que correr atrás do mano de vassoura por isso! um dia atirou uma das tabuinhas no outro em pleno serviço na banca. Ele batia tijolos ela lançadeira. Ele modelando uma bolota de barro no chão, suspendia a pelota e prensava a argila na fôrma; ela tomava a fôr- ma, movimentando num bater a mesma, desenformava o tijolo mole (verde como diziam) sobre a tabuinha, tudo em cima da bancada; aí com a outra tabuinha pegando o tijolo e o colocando numa fileira no solo. Então repunha as tabuinhas na banca à espera de nova unidade. Entremeio gozações estórias e brigas a se pegarem os dois irmãos.
          O pai intercedendo. Daí gritava numa expressão italiana tentando ser sério contra os caçulas, assim como frequente o fazia diante outros meninos, seus filhos ou crianças vizinhas: “va! via, porcheria...” a dispersar briguentinhos e mesmo sem nenhuma razão, apenas a brincar com os pequenos. Imediato sorria mostrando que a ralhação praticada não passava de uma brincadeira dele.
          Cresceram assim no trabalho nas admoestações nas ofensas. Em criança paravam, ao horror dos olhares do pai, paravam a tarefa para verificar coisas de brincadeira. Nunca a mãe deu palpite na bancada lá no rancho; em casa ela não perdoava senões a falar e até fustigar; porém não batia, ou só esporadicamente nos caçulas, apesar de estrilos dos outros filhos se considerando vítimas.
          Pesa sobre os ombros do Nico ainda outro aspecto, não só como oleiro e mais tarde tendo virado chofer de táxi – a vaidade. O sujeito vivia, no serviço e mais fora das tarefas oleiras, vivia a se alisar se lavar se perfumar até; com ele não vigia a regra caipira, os caboclos tendo por costume banhar-se no sábado e praticando uma limpeza leve e improvisada no correr da semana; o Nico era limpíssimo e andava a passar cremes, aplicava no cabelo farto brilhantina e glostora (nomes de domínio público pelo uso no seu tempo de jovem); enfim asseado e bem penteado. Inclusive gozam nele nesse tempo a cabeça cheirosa e alumiada; longe de se ofender, mais demonstrava capricho e ser vaidoso. De maneira que, se outros criticavam por vaidosa na família e vizinhança o jeito da Lola, ele não fazia nisso coro com outrem. Mesmo quando trouxe de vez Ida para acrescer Malandroni, mesmo aí continuou a cultivar a boa aparência.
          Isto vai levar a uma conclusão curiosamente mui observada que é no homem pobre o descuido na apresentação, a mulher continua mais anos preocupada para não enfear; ele não: quase sempre relaxa, como a dizer – já fisguei meu par, não preciso mais parecer decente. O contrário não seria excepcionalidade? É caso pra pensar.
          Não pensava Nico, agia como bom vaidoso, apesar ter Ida como esposa e trazido ao mundo alguns poucos netos ao Nonno; no que ajudava bem dona estatística, a qual já não registrando mais que três ou quatro filhos por casal humano; até aí as famílias eram numerosas, tal qual a dos Malandroni.



            Aproxima-se o Nonno, vê o rapaz já homem feito e mais que isso quase um senhor idoso e isto choca um tanto o velho mais velho seu pai, o pai vê o Nico nas tarefas diárias como agora a se embelezar... ah não seria aqui melhor forma ‘desenfear’! Penteia-se limpa-se a se olhar vistoriar no espelho, no espelho constata seu bom gosto; para um oleiro autêntico e dos antigos oleiros a sobrar no mundo qual fora um dinossauro assustando a civilização barulhenta em torno – a esse oleiro dos tempos teimosos, a opção do filho um mau gosto um luxo um abuso da paciência e da sensatez... mas que fazer se é o próprio filho, o seu caçula; então se lembra da caçula Neca a lhe atirar desaforos. Nico repenteia-se, haverá o verbo repentear? o que isso interessando agora a um matuto importado do Piemonte. O novo velho torna a mexer a mecha ao lado, risca num risco marcante os cabelos a repartir os lados de cada lado, passa mais cosméticos cheirosos em forma de pasta cremosa na cabeça; se põe noutro jeito ao jeito melhor ao espelho, examina aos reflexos dos raios da manhã de sol para ver o efeito no penteado. Agora revê as sobrancelhas o Nico; que diacho, pensa não fala, que diabo achar o oculista, teima o moço velho teimando repetir o que lhe corrigiram “oftalm...” xi! fica oculista mesmo, aquele filho da mãe (não diz mãe diz algo a sujar a mãe do profissional, o que natural na sua costumeira boca suja) o que deu nessa praga de doutor me impondo óculos pra encavalar me escondendo as sobrancelhas e me enfeando a cara! nem sei se compro os óculos, agora acho estar bem... Nisso Ida bate na porta do banheiro onde o espelhinho no lavatório que limpa sempre ela com esmero; grita-lhe temendo no silêncio demorado que tenha dado alguma coisa. Estou bem, já saio já, responde à encardida criatura sua esposa. Nos últimos tempos só pilha defeitos nessa companheira, sua impaciência com ele por exemplo; daí se lembra da outra – uma sirigaita, descobriu Ida, uma vagabunda que vive na zona do meretrício e a querer dividir se não roubar-lhe o marido, o marido dá ainda uns retoques finais se olha se vê bonito, espanta uns fios dourados prateados horrorizando o ser do homem. Imediato se conscientiza abrindo a portinhola do sanitário e falando qualquer a ela, entregando apressado umas notas de dez de vinte, cada vez chora mais o dinheiro que aquele saco sem fundo engole da carteira, cada vez mais ter que aumentar a féria à gastona e só então sai correndo para funcionar seu táxi. Sai atrás do caçula Miguel, observara ouvira e tenta dar palpite ou corrigir abusos naquele filho vaidoso e ultimamente descontrolado, sendo envolvido por outra mulher. Deseja lhe dizer o risco que enfrenta, pensa e se cala no dizer, diria comparar o seu erro trocando a Nonna por outra, porém sórdida mentira que se tivesse posto com duas e abusaram inclusive numas três mulheres de baixa moral, intriga da Neca e aí chora... mas não é correto, ao menos comum homem chorar! chora a se lembrar da menininha que adorava então virando a cabeça e se voltando contra o genitor, a jogar contra um inimigo toda a família, como a defender sua mãe; ora... se repreende, eu não tive culpa também nesse cartório da existência!? Filho, não vá errar agora, pense o que sofri e sofro por isso: ainda é tempo de você desistir.
          Contudo Nico nem ouve o velho velho, sai brabo no carro a feder gasolina do carburador lerdo, ou pela Ida ou por seu atraso e a praça não andar boa; Miguel resmunga pelo filho virar-lhe as costas e sair afobado “nem me convidou entrar no automóvel e por essa razão terei que andar com as pernas cansadas até a avenida!” De fato a praça ruim; ele fazendo ponto na avenida, tem os outros na concorrência a lhe tomar a vez. Assim foge rápido com seu Ford preto 1941, do tempo em que ainda vinham ao país carros e depois a Guerra engoliu os recursos e o Brasil não conseguindo mais importar anos. Ele então no aguardo na avenida seus fregueses. Alisa limpa lustra o pretume da lataria ao vento frequente numa saraivada ali; semelhando o lustrar limpar alisar-se antes ante o espelho do sanitário de casa.
          Curioso não andar, enquanto aguarda, a se lembrar de suas crianças – crianças mas o Paulinho um Paulão dos grandes e os pais a insistir “meninos” – não em seus meninos, nos sobrinhos por contatos nos últimos dias. Mais especificamente a pensar no João do mano Lico. Este que apelidando “hominho” a fim de gozar seu tamanho seu porte inexpressivo sua magreza e a gozar fazer sofrer por espicaçar à Ana, a “Ana do anão”... quá-quá-quá o Nico é por índole bem ferino, pois adora menosprezar diminuir sujar outrem para tirar partido com graça em forma de piada e de tirada; não perde oportunidade a desfeitear alguém, mesmo aos do próprio sangue, como não fosse um Malandroni; ora, inclusive por cima do pai faz gozações a imitar-lhe gesto andar voz, “va! via, porcheria...” o som sai igualzinho o de Miguel. O Nico não apenas a fazer par com a Neca quando não visando ofendê-la primeiramente. Oh aquela porcaria (porcheria, arremeda o velho) de Joãozinho é um fedelho burro e pretensioso. Acredite – fala isto a um xereta do seu meio quando na espera de alugar seu Ford para uma corrida; sempre tem gente ali no ponto de automóveis a abordá-lo para dar palpite, enfim a conversa-fiada mui robusta ao homem comum – diz isso como gracinha talvez ou talvez a encher o tempo na espera e supõe decerto contribuir com isso na construção do planeta... diz no relembrar o sobrinho que... ah o rapaz desarrumado parecendo um espantalho é um Malandroni, filho mais velho do Lico, o Lico, esclarece ao outro, o Lico é aquele do meio que falei outro dia, creia que o garoto anda escrevendo!
          Que carta coisa alguma, nem bilhete acertaria escrever... olhe, quer saber duma coisa? não sabe, escrever sabe mal e mal (Nico pronuncia “malemá” como qualquer caboclo) alfabetizado na escolinha da Tomásia, a gorduchona; neste ponto despencam desancar a pobre solteirona ou por isto e por sua discutível profissionalização no magistério; daí retoma Nico ao sobrinho:
          Imagine o besta se põe nestas semanas a escrever um livro! não não, não é daqueles de escola, acho que nem cartilha conseguiria. Um de se ler. Ora bolas, num país em que se come arroz e feijão e abobrinha e carne quando um vizinho manda para casa de presente no Natal; num país como o nosso – diz bem brasileiro o língua quente – num assim irá alguém comer livro! Pois um burro está escrevendo para publicar vender um. Outro dia parei na casa ver o pai e o filho andava rabiscando certo calhamaço. Até mostrou a coisa, vaidoso orgulhoso e ingênuo, certo da mentirada que põe no papel. E a letra! me lembrei do que ouvi o padre, num domingo, afirma o tio prolixamente a se perder nos seus achados, num domingo fui levar um casal carola à missa e era aquele padreco na Santo Antônio, o bestinha falava no sermão “a letra que mata”; bem adequado ao Joãozinho. O Joãozinho...
          O João Malandroni inventou de criar um escritor, ele mesmo. Sonhou estórias, igual criança e poeta, estes sonham e creem no sonho na bobagem que vira realidade. Agora recolhe anotações esparsas por não ter o que fazer – o Nico diz o sobrinho ser um vagabundo e o meu irmão trabalhando feito burro de carga, o hominho sai madrugada volta madrugada pra casa para sustentar um bando de safados, aquela Ana minha cunhada outra incapaz e vagabunda; por que o hominho não põe ela e o filho na pipa na banca no forno trabalhar! Então o rapaz junta as porcarias ao longo de sua vida (ao homem da rua vida e existência a mesma coisa; e não é). Relê, corrige, remenda, rabisca, compara e chega quem sabe às suas conclusões. Mas aí vêm outras complicações. Ajunta costura corta revê e daí, só daí, redige a custo e ao custo de meses se não anos a coisa, redigindo o que supõe de valor. Toma cadernos e mais cadernos, consulta anotações, vezes muitas perde anotações, realinha as linhas, tenta não frequentemente com sucesso ler reler o que anotou. Por fim o fim: vai passar a limpo, ou nunca mais lerá os hieróglifos! Passa. Seu velho, o pobre Lico, comprou-lhe certa máquina de escrever. Primeiro fez curso de datilografia a catar grão de milho sem destreza na Escola Remington da Conceição, sabe a dona Conceição na rua Quatro de Abril, a data que é homenagem à fundação do município. Após o diploma, um ‘diploma’ tão somente, após se pôs a datilografar as besteiras no papel sulfite comprado na Livraria Brasil; aliás tudo em papelaria no lugar se adquire no lugar, na avenida aqui pertinho quase aí na frente ao ponto de táxi. Bem, escreve remonta corrige rasga xinga nervoso, toma outra folha refaz refazendo a lição de paciência. Datilografa datilografa datilografa até o mindinho cansar reclamar quase sangrar: onde se viu o teclado brasileiro ter tanto a tanto esse! o dedinho esquerdo não aguenta... Enfim acabou; de começar. Prossegue. Prossegue dias meses a escrever. A máquina de segunda mão não é do tipo Remington 12 que precisa apertar uma tecla para levantar todo o carro, este com um rolo de borracha o qual a chegar no final e fazer “plim” com o sininho avisando a desatenção. Agora é uma Olivetti cansada sim mas útil e mais leve mais solta para datilografar. As letrinhas é que então estão cansadas e sujas. O João para; limpa teclas cheias de restos da fita de graxa e de sujeira secas; retira sujidades com ponta de um alfinete; a letra daí sairá integral limpa bela legível. Outro drama é a fita a enroscar em cada extremidade e a rodar (ou não rodar a contento e com isto parar e portanto batendo vezes a mesma letra e furando o paninho!) Arranjou o pseudo-escritor uma forma mais econômica de sujar menos o mundo: usar uma fita preto-e-vermelho: ora escrevendo em preto, ora põe ele de cabeça pra baixo o rolo com roda de fita, assim escrevendo vermelho; afinal é um rascunho mesmo. Ah, quando eu for publicar de fato a obra, pensa o ‘escritor’, daí compro nova fita e registro só numa cor, limpa linda legal – ainda o sonho...
          E vai por aí adiante. Adianta? Fica o pobre rapaz nos sonhos da realidade, a tentar vender a ideia de sua verdade.
          O tio comenta o sobrinho, a sobra da burrice que viu de relance nessa falta. Porque eu vi isso com estes olhos que a terra há de comer, dizendo no modo caipira, fala ao xereta que o assiste alisar o carro, uma espécie de deus ou de cartão de visita ali no ponto de carros de aluguel na avenida ao fustigar do vento que assopra toda urbe vindo do Buracão.



            O conselho dos Malandroni instalado, todos os grandes da tribo ocupam seus respectivos lugares, Tim fuma fuma sempre, fuma desesperado e olha os homens da família ali dispostos a tratar questões que só lhes dizem respeito não aos outros de fora mesmo dentro da casa; apenas os machos pela ordem de nascimento ou de importância e aí não elas: as mulheres tenham mais sangue do sangue, de fora, por ordem tácita do costume secular quiçá milenar de o homem ser mais poderoso que elas, seres secundários conforme a oposição e porque em casos tais pode ocorrer que deem com a língua nos dentes e isto, aquilo, podendo resultar prejuízo a um conselho de grandes decisões. Pela ordem o primogênito, escapo da foice da morte e vingando com muita força muita competência e muita presença moral, o Tim não diz “está iniciada a sessão” não há formalismos, ou antes: há demais, o mais velho é sério intolerante inquebrantável, bastando um seu olhar contrário ao contrário para todos serem contrários e envergonhar quem porventura desejando, antes, aparecer insinuar lembrar falar infringir mentir impor. No entanto é verdade não haver qualquer cerimonial, bastando apenas o costume que mostra anos quem manda e dirige o pedaço e neste de quem a chefia. No lugar de destaque – uma cadeira de palhinha rústica simples na ponta da mesa onde cinzeiros cinzas tocos em volta a fumaça, haveria aguardente ou cheiro dela mas isso não: é uma casa de respeito. Ele chama-ordena sua esposa Assunta num quesitinho ou noutra banalidade, ninguém percebe porque o hábito elimina as curiosidades sem importância; ela traz ou leva algo enquanto ele rosna um limpar a garganta como para falar ou a começar aquele prosseguimento, visto de vez em quando se reunirem a discutir imbróglios menos vistosos e menos de domínio público a ser valorizados e destrinchados entre quatro paredes da sala. Deveria estar no trono, que é uma cadeira grosseira de palhinha já arrebentada demais usada lustrada no assento e de cor indefinível; deveria Miguel Malandroni, o das marcas MM no tijolo mas... O Nonno anda nesse meio, curiosamente não lhe ofertam assento, mesmo que não seja o que o seu mais velho tomou pra si – não lhe presenteiam qualquer um embora Assunta traga logo uma cadeira decerto empréstimo de comadres vizinhas, entra deposita o móvel sai rápido como que envergonhada (e o Tim, circunspecto sim, não demonstrando muito a sisudez, sem estar, é claro, alegre e como estaria se eles reunidos a discutir questões sérias de negócio e de homens; sai ela depressa). O pai fica ora perto dum ora doutro e não toma cadeira, parecendo desejar falar a seu modo gritado com os braços no misturar vocábulos italianos e brasileiros a se expressar como todos já ouviram todos sabem todos conhecendo por anos no convívio. Após o Tim o Pedro o Chico, o Lico seria o seguinte porém no mato onde fora buscar lenha com o caminhãozinho e portanto ausente (o que facilitando críticas; porque há coisas que não se fala presente o criminoso; e além disso a distância destrava as línguas) e imediato depois o Nico – o qual promete muita conversa e até uma que outra lembrança para gozar fraquezas alheias, embora ali impávido o Tim, com quem não se brinca por mais sério que o pai deles. Miguel assunta aquela reunião da família e desde já posto em não aceitar se ferido nos interesses. Hoje mais olha, por enquanto, enquanto não começa a sessão propriamente dita.
          Têm uns dramas que atingem a olaria como negócio, negócio de não se falar alto e inclusive olhar vez por outra se elas não xeretando nas imediações e logicamente não deixar com mais razão o vazamento para fora de casa, não só da sala... Começa no seu vozeirão grave grosso de mandar o chefe, antes observa e envia setas pelos olhos aos olhos dos manos, todos na expectativa e no aguardo da discussão dos problemas atinentes e os argumentos; não sendo assim, preciso fora que o Tim repreendesse com todo seu poder. Agora esperam, Miguel já indagou o de praxe: o que vai hoje na pauta! claro em piemontês dos mais puros piemonteses e ninguém respondeu; gritou puxou um deles pelo braço chamando atenção, no meio do barulho (que iria decerto acontecer embora a contenção pela natureza iniciática do assunto) então, no barulho e no avantajado duma conversa: quem ouve não escuta, mais prestando atenção e mais ainda querendo falar despejar suplantar outrem; somando-se a esse estado o fato serem italianos... Não ligam ao Nonno, ninguém presta cuidados na sua intervenção.
          Ali tão perto e também cuidando-se as vozes curiosas e mais finas que as grossas lá da sala; quer dizer, o Nico quando nervoso afina a boca a sair som quase tão fino quanto o delas... mas aqui a dizer não dizer alto o que a se dizer; fino. Assunta menos fino que as outras cunhadas e não sendo por gripe talvez mais por causa inalar anos a fumaça do tabaco do companheiro; ainda assim fino, feminino na garganta. Ali elas a conversar baixo, coisas como indagar de que se trata a reunião deles. Ora, isso saberiam logo não havendo segredo que nenhum Estado guarde do primeiro ministro ou um item do ministério que não chegue por descuido no leito. No de Assunta por exemplo.
          Elas falam do seu próprio assunto, do seu métier nas prendas, muito de criança muito de enfermidades e também muito de queixas por descuido dos machos e no abuso dos consortes, aqui a trocadilhar elas sem sorte. Lembram a infeliz Ana ausente e seus presentes problemas, a elas prato cheio, pois é gostoso bem falar mal doutrem quando os meninos perto sim no entanto quietos e havendo só algazarra dos primos lá fora nessa tarde-noite; a ponto tal a farra que alguma entre as mulheres tenha que ser destacada a fim de lembrar o esquecimento delinhos estar em casa do tio Tim, um meio bicho-papão nos assopros paternos e maternos, longe do lobo mau naturalmente.
          A Ana? parecia menina de brincadeira de roda ao nascimento do Joãozinho. Patati patatá; engrossam o contar no como surgiu o primeiro filho do casal, um quase monstro prematuro que não vingaria vingou e que só sabia chorar. Narram, como se as outras parentas desconhecessem no sadio princípio de se supor outrem a ignorar e por isso repetindo repetindo e repetindo; um pouco inventando. Verdade compararem outros partos outras partes do crescimento e trato dos seus próprios filhos; fixam mais em Ana, a bola da vez: picham, mais por ser cabocla portanto bárbara a entrar na família. Isto ocorre porque outra cunhada também caipira fôra fóra ralhar os filhos e sobrinhos na guerra santa infantil; assim podem fazer o pichamento sobre Ana ser mais contundente e concludente estando apenas europeias ali a falar (contra os não a favor).
          Embora na reunião feminina se desancassem aquelas a desancar; e havia sim muito a desancar; embora o lógico no ilogismo dum grupelho familial sem ordem e sem ordem do dia sem solenidade, embora brotou como algo compreensível, ao menos tolerável e mui inteligível na experiência de toda mulher, elas mulheres – o ser mãe. Todas presentes sabiam, por mais pichar ou falar gratuitamente da ausente, o quanto custando um filho, seus cuidados, suas preocupações seu abarcamento, até com prejuízo materno a favor desse milagre do nascimento, mesmo estando a descadeirar alguém frágil por longe e talvez mais distante do coração; e mesmo a avaliar por alto e mesmo que alguma entre elas não endesse o alcance da extensão do profundo sentimento – não se podendo negar a qualidade e a condição da mulher em geral, santa enquanto mãe! O desvelo o sacrifício o trabalho a elevar a manter a erguer a cria, no fazer da cria um homem para somar nos destinos do planeta; a embalar um serzinho que antes ser seu filho sendo já um filho da divindade, divindade a que todas e todos chamando Deus. Inclusive Ana, semelhando uma criança com criança ao colo, tendo nisso o reconhecimento delas; um pouco deles, um que outro dentre os machos conscientizando realmente esse estado.
          Eles sim tratavam coisas chãs chãos, a lidar com dados materiais: custo do tijolo, concorrência, preço, fisco, crise, empregado, até qualidade do produto. Tim, herdeiro maior na crise e na crise que envolvia o falecimento do pai deles, lamentou que os manos homens e mulheres houvessem afrouxado no trabalho, alguns debandando a outros setores; eles presentes mesmo não ficaram no osso duro de roer que lhe sobrara como chefe. Houve apartes e lamentações e justificações de todos interessados. Entre os membros da reunião só o Pedro não iniciando sua própria olaria no município; ele sempre na pipa e mais carroceando a puxar argila do barreiro junto ao Tim, este a dar ordens; ele nunca teria negócio próprio como os outros irmãos; tido pelos manos, mais ainda pela língua afiada do Nico, como um sujeito sem iniciativa... Não disseram, em boa política, o que pensando do Pedro. Agora o primogênito a fechar as portas, visto não encontrar gente com gabarito e improvisando por isso peões como oleiros... Isto lamentava Tim. Logo tentaria o comércio no ramo de secos & molhados e faliria; tendo que valer-se do nome honrado de Lico – tão criticado como hominho pelo caçula Malandroni e pichado pelos outros, os quais bicavam semelhando as mulheres ali perto a falar miúdo seus graúdos problemas com vozes inaudíveis quase. Lico faria o papel que mais tarde ensinariam os intelectuais: o de servir como testa de ferro; um ‘proprietário’ da nova olaria de Tim.



10°
             Agora Donana jaz viva morta, ou morta viva, numa cama pobre simples porém decente e se encontra totalmente desvalida – porém antes dessa velhice e do acabamento não foi assim, antes que isso dona Ana esperta trabalhadeira vigorosa... não tanto assim por ser doentia e inclusive frágil mas trabalhadeira sem dúvida e a viver a vida pela vida. É preciso neste ponto convir que fora por anos e possivelmente ainda sendo um homem comum do gênero feminino e portanto a confundir vida com existência; ou noutras palavras, a supor que vida seja uns dez decênios no máximo e se lembrará dos sonhos da juventude das decepções dos impedimentos agora como idosa e depois... e depois? o católico semelhante ela e os da família Malandroni com os quais conviveu, supondo o céu para si e para os seus e o inferno aos maus de fora. Ninguém tendo certeza que prostrada no leito a senhora em pele e ossos imagine assim. Quanto ao Lico, se se lembrar ela dele lembrar-se-á que faleceu, pensará o como morreu o marido lembrará as conquistas do casal as turbulências as enfermidades e muito a prole, enfim essas coisas e hoje o seu acabar – que segundo pensadores não acaba. No entanto aqui não é lugar para filosofias: ele expirou, ela ainda não e dá cuidados aos parentes, embora pareça que seu conhecimento após um derrame cerebral ou AVC conforme os médicos e a senilidade natural, não vai além do entender da criancinha que já fora; não tendo mais condições para dizer se concorda com esta tradução da fala sem voz desses oleiros a si engajados; ou se discorda.
          Não obstante entrou Ana, vindo de família humilde cabocla, no meio dos esparolados peninsulares Malandroni. Se namorou ou foi namorada ou conquistada pelo maduro Lico, não vem ao caso. O caso é sabido quando os italianos a criarem entraves a essa gente da terra, pois diziam os mesmos: o hominho, como lhe gozava Nico o mais novo dos homens; enfim o rapaz não poderia haver se enamorado de uma jovem se não italiana uma europeia como o fizera Tim com sua Assunta! Agora, trazer para dentro de casa uma caipira... Entretanto cedo Miguel se engraçou com a nora, Maria logo engrossou com a nora; aliás este pormenor iria pairar anos seguidos nas relações delas mesmo quando os três netos já grandes e portanto aceitos como é comum dar-se. Sempre ambas se rasparam se insultaram se xingaram quase, estando longe, perto se falando normal. Mas normal seria o quê. Durante anos o sogro sentiu simpatia por Ana, chegava a ir especialmente tomar sopa na casa do filho, elogiava a cozinheira e engolia barulhentamente os fios de macarrão com o caldo ainda a ferver, espantando a risonha nora. Isto porque no costume italiano mui cultivado, o casal veio morar próximo de Miguel-Maria, como vizinhos.
          Ana era menina no porte franzino e na idade, na idade se comparada ao marido trintão – quase um absurdo os trinta nos meios rurais da época com matrimônio cedo. Quase aprendeu ser mulher, senhora, doméstica, mãe não precisou aprender com ninguém... quase tudo com o esposo. Lico um sujeito trabalhador e cheio de iniciativa além de um oleiro artista: o acabamento do tijolo nas suas mãos e demais atividades pertinentes o fazia com amor e perfeição; o que a ressaltar perante os outros manos, os quais produziam muito e sem capricho, ao desgosto do pai. Ele não, desde pequeno – inclusive não teve infância como os meninos em geral, brincou de trabalhar – desde criança já subindo num caixote para alcançar a banca. A banca um móvel grosseiro de pau com uma prancha pesada por cima de um tripé como sustentação: lugar em que faziam o tijolo prensando o barro numa fôrma; aquela questão das tabuinhas... Depois perfazendo bem os exercícios doutras atividades, seja no barreiro seja no forno; mais tarde adquiriu um caminhão usadíssimo para trazer lenha, o combustível do forno, e levar à cidade os tijolos prontos. Ainda trabalhou anos entregando materiais de construção sempre ligados ao tijolo; aí tendo sua própria olaria. Nisto cabendo explicação. Os Malandroni não se entendiam, dando margem aos briguentos sair do negócio e formar sua própria olaria – como a olaria aqui descrita, não sendo uma só na mão de Miguel: volta e meia o velho tocava (expressão oleira) tocava uma ou duas ao mesmo tempo em lugares diversos. Outro aspecto a ser esclarecido é que o dono não dono. Como? a olaria existe na terra do fazendeiro, que aluga ou cede em porcentagem o espaço ao profissional explorar. Então monta os ranchos a abrigar o produto; na região o barro secando trinca e daí o prejuízo; daí necessário cobertura de folhas de zinco sobre estrutura de madeira, como troncos fincados no terreno plano; embaixo a atividade oleira. O pessoal a responsabilidade e o enfrentamento do fisco e da crise é do oleiro... Não proprietário sim responsável fiscal e legal no negócio. Assim Miguel assim Lico assim Chico e Tim e mesmo o Nico quando metido nessa atividade.
          Lico – e naturalmente Ana mais ainda, ah como medir amor! – o hominho, no dizer gozativo do irmão, ele adorava seu trio. O João seu primogênito se meteu a escrever virou escrevinhador, não poetastro não sabendo versos porém talvez menos mal a rabiscar na prosa. Antes disso fora menino amoroso, tal qual amorosa Mariinha, lógico aqui em homenagem à Nonna, a qual nem pela homenagem apreciando demais a neta; o caçula do pai o Miguelinho, óbvio em agrado ao Nonno. Este na ocasião a falecer tinha apego ao nenê do filho. Em suma o Lico amava os filhos e toda sua família. O que destoando um pouco dos manos e havendo gozação deles por essa ‘patifaria’ do coração mole. Tim, sério machão e a esconder inclusive o sorriso, criticava abertamente o Lico por essa fraqueza de carinhar beijar abraçar o fedelhinho que era João; porque ele, lembrando isso Assunta e não comentando numa boa política de esposa e mãe, ele falava nesse desvio de um macho Malandroni com coisinhas de mulher; e certamente mais tarde terá condenado o hábito do rapaz Joãozinho não só a escrever bobagens – crime de lesa-majestade ao caboclo duro acostumado ao peso e na grosseria no que faz – não só por inventar e redigir mas por ler romances, coisa de menina! Lico não se importava com crítica: aplicava direcionava aos seus sua querência. Às vezes tornando do serviço ingrato como chofer e na carga de lenha – abraçando as crianças como fosse a alegria da primeira vez!
          Joãozinho recorda uns momentos assim do genitor e rabisca mais ou menos o seguinte:
Agora nesse antanho o caminhão está com minhoca manhoso munheca, ou prudente nos abusos dos gastos!? parou de vez não anda empaca emburra não obstante é um amontoado de ferro lata fios em cima de quatro rodas de borracha e não zurra como burro nem... que faz paca, não late decerto. Parou de vez. O homenzinho magro desce, nervoso, bate a portinhola da cabine, não para quebrá-la espandongá-la, o veículo é seu ganha-pão de forma alguma desejaria entrar nos bolsos de propósito e menos na dívida que lhe come o ser a família a vida e ajuda bastante a farmácia, pois quanto mais ela aumenta aumenta o gasto de remédio e o pendura na botica é grande. Apenas por estar nervoso não sendo para menos. Essa porcaria... diz meio em português meio em italiano igual o Nonno, o qual gritava porcheria! diz mas não tem para quem e a gente fala alto sozinho mesmo e continuamente baixo lá dentro, gente é o ser mais tagarela que existe e muito rico em monólogo. É a décima vez que para, mais de dez vezes.
          Levanta o capô do motor daquele monstro, grande enorme ao homem pequeno e magro. O calor sobe exala cheiros de gasolina óleo e ferro quente, o radiador borbulha assopra empurra a tampa. Troca água, o vazamento goteirou embaixo a água, a tampa deixou passar o vapor colaborando e agora o homem repõe água fria morna do corote; e bebe também ele o calor é medonho; verte sua água igualmente urinando na estrada como fizera o carro, Lico olhando antes se deserta essa via pois sua moral proíbe abusos. Funga muxoxa a boca, dá um soco no ar não podendo socar a vida, volta ao carro. Mexe no distribuidor, olha a bobina quente tudo quente ao extremo, empurra o cabo do carburador e o petróleo esguicha o cheiro, o chofer balança a cabeça desaprovando o motor teimoso, fecha enfim o capô que ele apelida ora “capota” ora “cofre”. Então dá partida.
          Não parte, a ignição tem defeito. Balança outra vez a cabeça no pensar, tira o boné põe-no de novo, se coça irritado. A seguir levanta a almofada do banco e o volante quer atrapalhar, vasculha em baixo atrás e nos cantos encontra ferramentas, toma a manivela. Olha se ligada a chave de ignição, desce volta à cabina puxa o botão do afogador e o cheiro do combustível avisa estar certo entre os errados. Desce outra vez, vai à frente do carro, encosta-se ao para-choque olha ao redor vê longe uma pedra corre recolhê-la, calça a roda traseira temendo movimentar-se o caminhão, ele que não passa dum fordeco pé de bode imenso para a época. Agora engancha a manivela, força gira tenta tenta de novo e o motor pega; num átimo ele puxa a manivela corre pra cabine e pedala pedala no bombeamento o acelerador embaixo onde tem muita sujeira graxa e terra, acelera mais e afirma: o escapamento lá trás grita desesperado, fumaça cheira polui o ambiente; depois acalma lenteia afirma de vez. O homenzinho então sorri, olha o sol ardente olha o caminho se põe a caminho em primeira marcha. O veículo geme lento, o homem calca o pedal do acelerador, ele geme mais forte, o homem solta rápido o pedal muda violento para a segunda marcha e pisa outra vez o acelerador, o comboio pula berra desloca empurra o mundo e por fim se vai.
Agora é a reta imensa e plana o horizonte some no longe e perto o homem acelera interrompe engrena a terceira marcha acelera imediato o caminhão corre se imaginando automóvel quiçá pensando-se aeroplano teco-teco nos ares do mundo. É um mundo deslocando no mundo. Ela? ela geme atrás envergonhada.
          A carga geme atrita e desconta na vergonha seu peso. O carro geme o peso e geme sua fraqueza. E interrompe...
          O homem bombeia, torna a bombear o acelerador esguicha esguicha mas a gasolina só cheira e não sobe ao carburador. Param. O homenzinho nervoso, o carro se envolve no silêncio, a lenha agora não dá mais palpite.
          O motorista desce, xinga daquele nome, balança a cabeça olha a madeira olha a estradinha olha o veículo, olha o sol e imagina a hora que é sempre fora de hora. Não tem jeito.
          Levanta a capota do motor, examina. Mexe pra lá entorta pra cá, limpa isto desencosta fios tateia terminais; tenta consertar a bomba de gasolina por horas. Recoloca tudo esfolando sangrando dedos, fecha o motor. Faz tudo outra vez até dar manivela; consegue, funciona, movimenta lenteia aumenta velocidade engrena a marcha e marcha, assim se deslocam. A carga atrita o carro geme o homem urra nervoso. Andam uns quilômetros mais perto da tarde. Aí param.
          Desce, esbraveja, o caminhão não diz que não está nem aí, a carga incomodada pelo desnível. O homem olha aquilo, procura outra pedra, calça os pneus, remexe a caixa das ferramentas, desengancha o macaco.
          Engata o macaco numa reentrância da viga do eixo, vira vira vira a alavanca da engrenagem e a carga sorri decerto ‘desinclinada’;  uma das rodas traseiras se levanta, o homem já afrouxou porcas agora tira porcas e roda, joga tudo na margem da estrada num banco de areia. Tira o pneu da roda de ferro, tira a câmara de ar, examina o furo. Prepara a cola corta pedaço de câmara para o mister, raspa e lixa o estrago, aplica o grude põe o pedaço de borracha na câmara, espera secar, devolve a câmara à roda, remonta o pneu na roda, pega a bomba manual e acopla a mangueirinha no bico do pneu e aí se põe a encher de ar. Trabalha cansa sua enche, ufa! Recoloca no lugar devido, aperta as porcas, abaixa o carro e, no chão a roda, reaperta porcas. Geme a apertá-las, ajudado por uma alavanca de ferro já lustrosa do uso, até ringir ferro contra ferro. Guarda tudo, reexamina o todo já a noite chegando mansa.
          Dá partida com ajuda da manivela e o veículo grita bonito. Engrena, movem-se aceleram vencem o caminho caminham no escuro atrás do sol dos faroletes a tremer a trepidar nos buracos; a lenha atrita e rosna seu gritar o caminhão choroso; o homem quase assobia feliz.
          A estrada corre corre encurta, os três filhinhos vêm afoitos a gritar papai.
          O sono.
          O trabalho.  
          A vida.
          O planeta não para.
          O homem prossegue.
          Agora, passados anos, o hominho é um homenzarrão na responsabilidade; tem o carro, um menos gasto e quebrador sem ser novo de agência, tem esse veículo para carretos e então quase sempre os filhos ali a ajudar e aprender o respeito ao respeito e o respeito ao trabalho – e nisto reside a maior escola do homem comum, sem universidades. Além disso mantém duas olarias: a sua própria e a que dá nome assina embora semialfabetizado com letra itálica e tremida papéis do irmão mais velho, falido no comércio e sem direitos legais. E ainda cuida para não faltar o necessário na sua residência; precisa atender problemas que Ana não sabe resolver, não tendo ela iniciativa igual a Maria. A Nonna? a outra Maria, a Maria Conceição, uma cunhada que ajuda nas finanças o seu homem, o Chico Malandroni; faz isso no vender confecções, atividade então nascente na urbe que andava já longe ser nascente. Ana apenas uma doméstica emotiva e trabalhadeira, a cuidar dos filhos.
          Aliás é à Conceição que desabafa Ana; essa cunhada também teve o drama da antipatia dos italianos e mais das cunhadas irmãs do Chico – tudo por ser uma estranha naquele ninho, embora de origem portuguesa e menos ignorante segundo os sábios que a caipira (epíteto de Ana entre os novos familiares). Enfim ambas sofreram diante da nova casa e em razão disso acabaram confidentes. Claro, se falavam e reclamavam sempre longe dos companheiros, mas rodeadas dos filhos, Ana dos três, enquanto Conceição ajudara bem mais a estatística... Nessa ausência dos esposos, no começo chegava de repente Miguel, elas se calavam então constrangidas se não envergonhadas... Ultimamente ele surge fala dando lá seus palpites às noras, apreciando bem as duas, às vezes até a gritar à sua maneira usando demais os braços de falar: e se decepcionando com a acolhida delas... Adoraria narrar as coisas como antes, fazer observações quem sabe sobre o andamento do trabalho oleiro, talvez criticando direto os filhos às esposas deles; no entanto se cala abana a cabeça negativamente e já estando de novo a observar lá no rancho as atrapalhadas dos seus filhotes – ora! ora eram grandes adultos velhos, ora não passando de meninos mais para brincadeiras que para a seriedade que o trabalho exige. Nesse estado ficando Miguel atrapalhado, com uma interrogação no olhar...



11°
            Quando Michel Malandroni faleceu mostrava o perfil dum homem mediano na estatura magro e sem parecer andar enfermo como um doente crônico mas numa crise recente e um pouco abatido; enrugado ou enrugando nos seus sessenta janeiros tendentes virar dezembros cansados; usava só tirando a dormir um chapéu de feltro gasto igual demais conviventes caboclos machos da região, ele já se descobrindo não abusivamente macho da espécie porém ainda machista (e que fazer nisto num tempo em que inclusive a mulher é machista!) Ah sim, tendo pele queimada nos traços europeus e, curiosamente, não sendo desses imigrantes que ficam a ressaltar sua terra e seus patrícios no que havendo de bom e a esconder na memória safada o que de mau existir; além de raramente discorrer sobre sua gente de lá e a daqui espalhada sabe Deus onde, parecendo haver morado em Botucatu sua irmã mais velha. Não seria então o quase patriarca dos Malandroni um desses chatos que se engrandecem exagerando seu sangue; mesmo não tendo o pobre a arrogância do rico de pensar o seu azul. Uma que outra vez apenas escapou-lhe da boca algo nada meritório nas origens europeias: certa fuga e as razões escusas difusas confusas inconclusas resultando na vinda ao Brasil e fixação no oeste paulista. Para exagerar um pouco poder-se-ia falar desse homem ele ser um túmulo antes do túmulo; sendo que o cemitério tapa de vez a boca dos que falam demais e dos que falam pouco ou quase nada ao povo curioso e fútil saber... Contudo um cidadão trabalhador – tanto assim que faleceu nos abusos do serviço na sua olaria – trabalhador realmente e quem sabe honesto. Esta afirmativa em vista de nunca chegarmos humanos ao absoluto em nossas provas e na interpretação das provas. Enfim não deixou a urna sair da Carlos Gomes, sua morada última para a última morada no jargão popular e isto poesia horrorosa do filósofo de rua; não deixou em suma seu velório como mau pagador; embora lhe ficando à rabeira uma família a se desentender por muita coisa e também nas finanças, a provavelmente culpar por isso o velho. Esta afirmativa a se chocar com o pensamento do homem do povo, o qual teme mexer com alma doutro mundo e tem medo atirar no morto vivo coisas feias como dívidas, não pelas dívidas e pelas dúvidas mas por crer naquele negócio da alma voltar puxar mexer a coberta e o pé da gente. Absurdo! no entanto quem pode com o terror e a consciência pesada do homem comum? Terá sim o morto deixado algum embrulho semeado quando vivo; não por desonestidade e outras safadezas bem mundanas: pôr mero esquecimento; e no caso dos Malandroni a má ou imperfeita escrituração como registro nos seus negócios oficiais... O caipira fala disso em termos de rolos e enrolos. Os filhos herdeiros (o que herdará um pobre nos meios pobres...) ou assim tidos, não nos primeiros dias – aquela questãozinha chata do puxar cobertas após sono sonho agitado com o velho – não logo mas depois descobrem que a trapalheira nas anotações fiscais viram motivo de discussões intermináveis; no caso deles somente uma razão a mais para discordar lembrar falar sem na praxe terminar tudo em pizza, embora italianos. Em resumo, nas reuniões os podres dos pobres remexidos.
          A Nena parecia uma boboca nisso, diziam os desafetos, não defendia nem ofendia ninguém morto ou vivo, mais ficando nos ditos curtos como mera ouvinte sem tomar posição. A Neca porém não esquecendo ofensas; sequer nos primeiros dias após o enterro; ora, não afirmado que fora preciso arrastá-la ao perdão junto ao moribundo. Os outros como hábito da sociedade simples ou simplória, a visitar o túmulo pôr flores queimar velas ajeitar as coisas e... ah, chorar. Ela não: remexia o baú de memória, tomava partido materno; aliás todos dias tendo que ouvirem Maria narrar como fosse hoje agora acontecendo o acontecido: a pipa virando, os burros a virá-la, o esposo a berrar, a vítima a se assustar e correrem ao médico quase que perdendo o Tim na barriga; e por final o final triste da alegria a apresentar o consumatum est dos rins ficando com um só deles e novamente mostrar pra quem tendo olhos de escutar e olhar o estrago pelas varizes nas pernas como fruto desastroso da pipa, dos burros, do burro chucro que era o então jovem Miguel a gritar feito italiano, aliás mesmo italiano. Ai que tragédia. Infelizmente o homem simples adora tragédias, seja narrando seja ouvindo e os Malandroni ter que aturar a Nonna no bradar apertar sua tecla anos... Todavia não só ela, elas e mais a Neca, a recordar tais episódios e bem mais que isso o crime paterno pela conduta adulterina; porque os machos gostavam, agora morto o morto, viver reviver também o desastre moral (antes se calavam ou envergonhados como o Lico e o Tim; ou só constrangidos e quem sabe vendo exagero na língua delas). O Pedro não sabendo o que dizer, dizia e mais acompanhava a conversa dos manos todos. O Chico sim mais ferino, mais ferino ainda tendo algo alcoólico no aperitivo... Por que será que o homem simples não reconhece bebedeira em não sendo numa festa e aqui a se engrandecer até por engolir mais álcool que outrem; por esse costume decerto bárbaro apenas quer mostrar recender levemente o dito aperitivo; é o beber socialmente admitido, abusivamente admitido nas normas da sociedade em que vivemos e viviam os personagens da fala desta traduçãozinha barata.
          Não obstante tais esclarecimentos, o homem queimado de pele era manso e inclusive de temperamento alegre ou até engraçado. Não pretendendo imitar o europeu que brada com as mãos mais que com a língua, apreciava os seus filhos e muito os netinhos, mesmo a esposa irascível; usava uma expressão se não radiante positiva; com um detalhe mui explorado pelos seus críticos: a onomatopeia nos sons e a linguagem mímica no se apresentar. Ao Lico se pôs um dia como ajudante no caminhão; foi um espetáculo vê-lo mostrar como entrar de fasto o carro num beco para descarregar tijolos: gritava e imitava qual fosse ele mesmo o veículo rodando lento. O filho disparou a gargalhar da cena, embora entre os mais contidos e respeitosos da paternidade. Felizmente não conseguiu narrar a graça com graça não tendo esse filho o talento da graça a repassar aos manos; e, positivo esse negativo, seria lenha a mais na fogueira dos desafetos do genitor dentro da casa; ah se Neca soubesse, como exploraria tal cena para sujar ainda mais Michel. Era assim o velho entre os seus. Possível fosse mais solto e mais espirituoso com suas amantes, hoje guindadas como namoradas ou coisa desse jaez.
          Nos últimos dias entretanto o chefe presumido dos Malandroni não tendo grandes ânimos. Não agonizou como praxe mas se acabava tristonho, muito pouco a um ser alegre.
          Nos encontros familiais posteriores aparece ou assim se imaginando um ser até carrancudo; mormente quando da falta de respeito e atenção dos filhos ao se dirigir especificamente a um deles. Não entende como pode um ente querido virar as costas a um pai!



12°
              O Pedro sim um macho equivalente à sua irmã Nena no comportamento junto aos mais faladores e exaltados na conversa íntima em que as intimidades não gozando segredo por culpa da língua; isto sem afirmar que a vizinhança andasse curiosa... visto o palavrório ser rotina e a rotina habituou-se calar um pouco o interesse. Mas verdadeira sim a comparação: a Nena sequer opinava, o Pedro quando muito a resmungar no bate-boca contra deslizes paternos; ou sobre outro interesse de interesse. Quanto a Miguel – mil vezes ocorrera assim – quanto a ele, fugindo sempre do falatório dos filhos; um dia saira de perto longe ainda tapava com ambas mãos orelhas a arder. A mãe não, interferia bem e não apenas participando antes apimentando as coisas, embora o esposo vivo morto seu ímpeto ou por culpa no cartório. Miguel não exagerava demais, quando muito lembrava com um berrinho quase não ouvido a lhes dizer: o barro está esperando... Agora o pobre sequer ouvido, gritasse mesmo, dizendo manso. Ao Pedro não atraía assembleias dos seus: preferindo o assunto de passarinhos por exemplo.
          Já homem feito espichado arcado na cabeça lá nas alturas, a coluna viciada no extremo de fazer pender a cabeça e o chapéu para baixo; o rapaz e o Chico os mais altos na família, as meninas mulheres e portanto geralmente mais baixas; os outros meninos, o Lico baixinho magrinho fininho, os manos não mais corpulentos e no máximo na estatura do pai – porém Pedro ficava lá por cima, gozado pelos irmãos brincalhões como “espanador da lua”. Mas embaixo na mente. Era um ser com alguma inocência. A inocência costuma parecer-se com a pureza e ambas sendo discutíveis, filosoficamente discutíveis. Enfim um meninão magro e sem grandes pretensões; nunca chegando aos pés dos ambiciosos entre esses oleiros mambembes. Mambembes por quê? A olaria em questão não passa duma pequena indústria artesanal manual banal quase; sem a instrumentação da cerâmica na atualidade: morta ela hoje pelo automatismo que atira no desemprego primeiro depois na informalidade os trabalhadores, como o fizera aos roceiros expulsos os banqueiros vestidos de fazendeiros latifundiários. Ela, a olaria dos Malandroni, espécie de empresa envergonhada por sua limitação e pela época de sua existência. No  entanto deles, o Tim, que aprendera a vivenciar toda sorte de atividades na olaria, havendo iniciado como os outros em serviços de criança, como lançador por exemplo – agora na chefia, sempre ambicionando chegar a mais, dentro e fora do seu meio. Pedro não parecia ter essas necessidades: nunca passou de empregado simples e na casa era mero servidor não remunerado; claro, o pai repassando alguns níqueis para o filho passar nos cobres gastando na venda, ou a comprar passarinho gaiola ração; aqui no caso quirera de milho ou milho mesmo e então quebrando os grãos no martelo, paciente. Enquanto outros, irmãos ou apenas gente a serviço nessa incipiente empresa, uma agroindústria a bem dizer, enquanto outros com os mesmos trocados níqueis cobres pratas dinheiros miúdos, esses até se perdiam nos gastos e bebidas – Pedro não indo além de compra de menino. Trabalhador, inclusive a enfrentar o batente no pesado sem reclamar e até com alegria, porém simplório no ser. Diziam os que diziam a dizer dele um inocente; isto é, diziam assim no mau sentido... Agora nesse domingo acompanha o deslocamento do piado dum pintassilgo. Tem sempre à espera gaiolas, tem arapucas armadas ao gosto e à forma caboclas. Em casa mil ganchos onde prende essas prisões e seus prisioneirinhos de penas. É mui discutível o alardeado amor a pássaros, encarcerando os mesmos; aqui relevando um pouco em vista a inteligência menina do adulto Pedro. Discursa como um doutor idade tipo sexo espécie trinado de aves; não obstante nunca passou das primeiras letras, a duras penas aprendidas, e a rigor nunca também foi à escola; os Malandroni em peso não frequentaram aulas: aprendiam com um que outro entre os pouquíssimos letrados no meio rural e a se mudarem para a cidade, ainda assim não tiveram possibilidade para tanto na urbe, ela com poucas unidades escolares na época. Já seus filhos, os netos do Nonno, eles foram sim aprender, embora Marília ainda nova e sem grandes recursos. O que caracterizava esse homem era sua simplicidade sem maldade, como supõem os que supõem seja um santo. Isto abuso e mesmo crendice. No entanto verdadeiro que Pedro fosse e foi por toda existência um bom coração tendo mão aberta, aberta no dizer popular e sendo também pensamento popular que gente desse porte seja mui explorada pelos sabidos e espertalhões... Assim com o Pedro. Na pipa ou no barreiro ou a alimentar o forno municiando o mesmo com toras pesadas, enfim todos trabalhos o sujeito enfrentava; mas tocando a parte do pensador do maquinador do visionário, enfim daquele que vê longe, o Pedro ficava sempre a dever...
          Assim cresceu tornou-se adulto chegou a envelhecer, permanecendo com miolo de garoto. Nunca entendeu uma ironia e nisto estraçalhado pelos gozadores contumazes, inclusive o Nico ainda um moleque perto do mano a se olhar lá em cima, até ele quando não inventava sobre o Pedro então dizia uma verdade que o ferisse. Quase não ferindo mesmo assim porque inocente, andava longe ser o malasartes ladino e enganador, era um Pedro grandalhão portador dum cérebro de menininho. Isto fazendo das mulheres suas defensoras, as mulheres geralmente têm mais sentimento e mais compreensão elas mães mesmo antes dar à luz; assim as mulheres defendiam o mano ou o cunhado, no caso das esposas dos irmãos dele; curiosamente contra seus respectivos maridos. O Pedro fazia jus a essa defesa.
          Contudo o Pedrinho na mente e Pedrão na estatura exagerava inocência ou só desentender. Fica nesta tradução o insatisfatório ‘compreender’ até se discutir bastante e se conceituar inocência. Sim exagerava não tendo um crivo habituado com abusos e maldades e mundanices nos falatórios. Confiava cegamente e demais em Ana, sua cunhada de estimação, quem sabe por simpatia e afinidade; e aqui mais exagerando.
          Quando moço sua timidez não permitiu conquistas amorosas corriqueiras, quase só aproximou-se da italianinha Domênica com que se casaria. Natural neste esdrúxulo que se gozassem ambos e não só a namorada do rapaz por falar “caroça” e não carroça, “us buro” em vez de os burros. Também a crítica feroz não percebendo nomes feios e grosserias, ditos alto ou baixinho pelo pobre, visto igualmente tais críticos amantes do grosseiro falar e falar errado e nunca o certo no xingamento. O próprio Pedro era um desbocado semelhando os seus; nunca se afirmou nesta tradução ser um santo, só parecer um simplório. Isto a trazer algum embaraço para Ana e também à Maria, a Maria do Chico como a apelidavam para não se tomar maria erradamente, por exemplo a mãe deles... Essas cunhadas, embora de origem pobre, Ana do Lico vinda de família quase na miséria – embora isso muito contribuíram à educação quiçá civilização desses esparolados italianos. Primeiramente educaram como possível seus homens e após influíram beneficamente nos cunhados, sem tirarem das mulheres muita farinha (dizer caboclo nesse tempo); a Neca inclusive as insultando e jogando seus manos contra as consortes deles. O Pedro aprendeu ganhou nesse confronto na convivência e se apegou muito às duas mulheres.
          Gente dessa têmpera, quer dizer simples de coração, geralmente presenteiam outrem; sem a intenção dos maliciosos que é de comprar adesão de alguém. Assim despencou a trazer frutas (quase sempre roubadas nas roças por aí; é preciso convir que tanto os meninos como os que tenham adultos coração de menino – nunca discutiram propriedade) ou se habituou trazer como oferta à Ana abobrinha; decerto sem o incômodo de procurarem ambos saber origens... Num dado dia, a cunhada a esperar seu Joãozinho nascer e portanto tendente à irritação e a enjoos... olhe lá o Pedro com um saco cheio de abobrinhas! Além de quase exigir da cunhada que preparasse o alimento na forma afogada, abobrinha afogada; dias e dias assim fazendo. Ana explode, como estivesse diante duma inteligência normal. Normal, repetindo, seria o quê.
          Por fim o rapagão, já quase indo a ‘tio’ – será tio o macho de solteirona a virar tia! – já maduro o Pedro, então pediu a mão da jovem caipirona à viúva mãe dela, isto com ajudazinha das manas e também da própria sogra, futura sogra dele; a deixar Domênica rubra, não fosse já de epiderme vermelha e sardenta.
          Como a esposa semelhantemente simploriona, estava formado o casal mais esdrúxulo até aí entre os Malandroni. Miguel apreciou, Maria deplorou; ambos aceitaram, ajudaram o novo casal vizinho.
          Durante meses de namoro, bem ao estilo vergonhoso e respeitoso dos caipiras antigos, durante o tempo de encontros havendo se enriquecido o cabedal histórico da família, sobretudo com ditos ditos e ditos inventados pelas línguas fáceis e ferinas; não somente das bocas do sangue mas também da parentela distante e vizinhança próxima. O Pedro por seu lado colaborou bem ou com a verdade ou com a invenção dos outros para que fosse sempre invenção; ou sempre verdade... Por simplório e não saber medir o que dizer.
          Um belo dia foi corrigido advertido pela cunhada Ana, após reunião desta com a Conceição. Pedro, diz a esposa do Lico, você não pode contar-me e menos falar em frente da Tê e mais ainda perto da Neca certas coisas... Intimidades carícias e palavras ditas entre vocês namorados – não são da conta dos outros; sequer para mim deve trazer isso. Não vê, rapaz, insiste a já experimentada senhora, não vê que Domênica ficaria envergonhada perante os de fora!
          Foram dias a induzir o rapagão pensar na problemática. Mudando um pouco, um pouquinho só, pois quem não tenha maldade nos sentimentos dificilmente entenderá maldade na sua própria boca. Todavia amadureceu, meio lentamente porém amadureceu o homem; o casal amadureceu. Depois, casados, aguardando o Malandroni como quaisquer machos da espécie um machinho a lhe conduzir o nome ao futuro, depois se decepcionou o homenzarrão com a chegada da cegonha a trazer neta a Miguel. Tiveram mais duas outras garotas e a própria natureza se encarregou encerrar a produção em série, através de moléstias tidas por femininas.
          O curioso nessa relação, visto ambos cônjuges simplórios bons e puros em sua impureza (aquela questãozinha a discutir quem sabe à exaustão: pureza e inocência...) o curioso nisso sendo a primogênita crescer ladina. Inclusive – isto quase um ‘aborto’ no absurdo entre os Malandroni – sim inclusive estudou mais tarde enfermagem noutra região, se formando. Passou a enfermeirinha a ser luz dos pais, estes faleceriam anos depois ainda bons ainda simples ainda talvez puros.
          Portanto aparecendo aos pais uma luz. Luz neste espaço a Doroteia – onde, criticaram as línguas soltas, onde os bestas arranjaram tal nome! – pela direção que deu à casa, tratando com capacidade e dicernimento os problemas de seus velhos; a defendê-los da sociedade faminta rabugenta incompreensiva e exigente, exploradora dos pobres de espírito. Os genitores continuaram a fazer parte dessa sociedade.



13°
            A Nena. A Nena, assim como o Pedro, a fugir na conversa da conversa, a conversa esquentada dos manos. Podia ser a discussão sobre o fundamental aos destinos planetários e isto nunca aconteceu; podia ser a discussão sobre o irrisório dentro da insignificância: tudo dando margem a um falatório sem fim, um fim que não fosse apenas a distrair o relógio. Nena fugia, ou ficava a semelhar boneco inanimado mas constrangido no meio da ferocidade dominante nos debates; de fato não participando, embora de corpo presente qual um defunto vizinho que acompanhou um dia na missa fúnebre, credo! pensou Nena. Apesar da afirmativa outra afirmativa mais confiável ou provável: era um gigante, pequena magra fraca aparentemente, porém uma giganta no trabalho. Neste se desdobrando a valer, mesmo em casa e portanto submetida à fustigação de Maria; porque para a mãe dela nada satisfazendo no desafeto, desafeto que provava diário no trabalho seu grande valor. Que fosse no pilão.
          Pilão. Soca o grão soca espalha, ajeita espalha reúne soca soca cansa para sua olha vê olha pra frente vê pra trás interrogações. Pilão. Trabalho trabalha espalha reúne soca soca soca, um que outro milho do milho espirra voa salta cai; o cão.
            O Peri olha para Nena lá no alto, está sentado xeretando o olhar a olhar. Senta gozado nas patas traseiras meio sobre o rabo de falar não fala, ri de vez em quando; agora um pouco constrangido não sabendo se quero (pensa a doméstica oleira) que se ria, olha, olho pra si, aí ri.
          Mas o dente da espiga espirra se solta de dentro do pilão e pula e voa e cai ao solo e se espanta.
          As galinhas aqui neste terreiro estão ora alvoroçadas quem sabe o gaviãozinho no voar rasante ou outra coisa, o gato afoito talvez; se distraem logo, esquecidas a bicar a procurar suas coisas, acompanhadas de suas crias que são pintinhos a piar barulhentos. E todas e todos batizam sem preocupação a terra num feder ácido a estercar. E se movimentam sem parada. Umas poucas vêm nas imediações, curiosas, para ver quê ver: o grão a pular a voar a cair por exemplo ou um inseto voando. E olham pescoço comprido pra ver. Então se achegam mais mais não podem, o Peri.
          O cachorro olha em rabo de olhos as penosas. Nem por isso, isso já sabe o Peri, espantadas, só a maioria delas. Umas poucas vêm chegando chegando. Bicam aqui olham bicam acolá olham chegam: engole uma em disputa com as outras mais o milho e sobra poeira da trituração no pilão.
          Pilão. Ôlho do trabalho. Olho eu no ver o ambiente.
            O cão se levanta, coça remexe chocalha os pelos, morde enraivecido decerto o piolho o carrapato ou a pedra enroscada enrolada nos rolos de pelos, chocalha-se de novo, me olha e sorri, sorrio ao ver a cauda abanando a empurrar pra lá pra cá espalhando ciscos no chão como a varrer, nesta altura já sentado de novo nas patas a me ver vendo sim um deus de saias.
            Pilão. Soco soco seco, soco sem dó nem piedade. Por que ter piedade, trabalho; soco num toque-toque profundo surdo morno frequente compassado o passado o presente o futuro? não penso, penso, penso sim ou não seria gente. Agora soco moo esfarelo faço farelo farofa farinha farejo o andar do trabalho, malho molho a roupa debaixo, suo a pingar, ah a pingar dentro do cocho do pilão! credo. Olho, ajeito antes paro a ajeitar olhar escolher varrer preciso for ajuntar o milho a palha a falha e soco; soco compassado, o Peri sorri senti que sorriu mas não deve ser a me ver errar a soca a esparramar a espalhar e até saltar voando outros mais grãos; e não adianta indagar: sorrirá feliz de cauda e agora vê mais uma intrusa. Ela chega de manso, olha o Peri, amigo é verdade de se comer e beber juntos e que dá vez que outra na veneta a dar carreirões históricos; e é só penas que voam! Chega olha espreita avança bica bica engole, apressada, e foge, mais apressada ainda pois o amigo inimigo de coceiras e talvez... Foge. Vem outra interessada, tão quanto inocente.
          Pilão. Rachado. Está o pé de apoio que não é pé é toro, base da tora, o pé está rachado, por ordem do calor da velhice ou do uso, abuso. As bordas andam rachadas, vê-se os filetes com entranhas estranhas. As estranhas entranhas engolem sobras do milho e da palha socados triturados a pularem em desconforto e não pulam mais, se prendem engarranchadas nas frestas e aí um bem: fecham e solidificam as rachas, impedindo que mais grãos saltem se espalhem voem e caiam ao solo. Assim mesmo elas voltam. Espiam. Olham o Peri olham meu ser e o fazem curiosas com temor como donde sairá a cobra?! e olham, se voltando à dupla – a dona e o cão. Olham engraçado torcendo o bico de lado, a vista de galinha são duas bolas que só veem à direita à esquerda, em frente precisando virar a cabeça a espreitar melhor. Então se aproximam e vem mais uma e mais outra outras mais e aí o Peri já tem trabalho garantido. Elas gritam, gritam até os porcos os porquinhos soltos e os já castrados ansiando comida em boa lavagem no cocho e na casa que lhes é prisão. Todos gritam, ou choram aquelas avançadas canis; o Peri para e ri. Me olha e ri-se outra vez com a vitória. Volta a se sentar, antes ficou a girar em volta de si mesmo; antes ainda quase se deitou enrolado na terra e resolveu pelo sentar sentou-se a nos ver.
          Pilão. O pilão e eu.
            Pilão. Marca horas cobra horas, horas atento atenta que atente eu a socar suar espalhar ajuntar ressocar farelar farinhar fazer para, depois, ainda, fazer a comida. Os meus são cobradores. O sol cobrador. Até as criações cobram – o cão o osso o resto, a ave o grão a sobra, o porco o choro a manha o grito a lavagem em não desperdício. A família é que conta.
          Pilão. Soco. Trabalho. Faço. Espero. Esperam.
          Os meus irmãos já se foram ao rancho, o meu homem se foi anos... ah a solidão! a doença o velório o enterro a saudade! Não me deixou filhos. Apanhava dele sim, mas a saudade. Trabalham os manos. Ouço o bater da fôrma a ralhação de alguém sobre alguém, depois me dirão, lamentando para que eu lamente. Os grandes fazem na banca o tijolo; os pequenos já grandes na gambeta engambetam como eu engambeto quando a mãe aqui na casa deixa, carregam o forno, derrubam sim no pé no chão e quebram e lamento; ganham o pão. E brigam. Melhor brigarão quando forem adultos também como os grandes agora discutindo. E brincam, crianças nada sabendo fazer sem fazer brincadeiras; e fogem pra ver arapuca e a pescar no corgo, mas trabalham. Depois vêm almoçar, os da roça costumam levar a marmita no caldeirão, os meus irmãos briguentos comem na mesa. O pequeno mais pequeno, o Nico, senta gozado como o Peri e o Peri na soleira da porta. Atira sorrindo as sobras às galinhas. Elas vêm olhando correndo no chamarisco do menino; tem o cachorro em guardião, seja querendo o osso que sobre seja que não sobre a elas... E ladra e espanta e sorri abanando a contar ao garoto; e se entendem. Elas não entendem, arregalam primeiro voltam depois. Espreitam se achegam achegando devagarinho temerosas. E recomeça o recomeço. Sorrio da cena. Agora o pilão.
          Pilão. Soco o grão. Espalho. Ajunto. Soco seco soco firme firmo o cabo de pau a acertar o centro, espalho junto soco faço. Faço loguinho a comida, os meus trabalham lá embaixo ouço o socar o barro na fôrma, quase; ouço o bater taratatá a fôrma na bancada no bater o som frequente compassado no ritmo lento e até monótono. Eles trabalham a melhor sentir fome, esta vem vai some volta exige, exige trabalho, trabalham trabalho em sôco sóco em soco o fundo do pilão. A matéria se funde remexo ajunto separo, um que outro grão e fragmentos pulam voam caem comida às terceiras, o segundo olha enviesado e pode pegar a ladra no bote, vigia ladra para senta me olha prestando contas, sorrimos.
            O pilão e eu.
          Maria: “ainda no pilão, Nena!”
            Soco, canso, sento, fungo, relaxo, penso, planejo: me levanto. Corro à cozinha, consulto o despertador, olho o sol a conferir o relógio. Me convencem do atraso, deixo de vez o pilão – por enquanto. Faço a comida. O feijão é de ontem, escolho lavo tempero faço o arroz. Cheira o arroz; sentirão o alho a cebola lá na banca! Reclamarão ter deixado queimar o alho. Deixo agora ferver, corro levar um cafezinho aos manos, vê-los pitar a se falar, ouço seus ais; volto a correr respingando gotas de café e açúcar no trilho, chego antes de queimar-se a panela preta grudenta e aspiro a fumaça da lenha verde e choro sem chorar. Preparo a mistura, tem alface o que sobrou das bicadas de galinha ao voar dentro do cercado, ainda é preciso cortar asas à voadora! A linguiça que os meninos gostam, o pequeno Nico já grandão come metade metade ao Peri, sorridente num pagar-lhe as corridas às galinhas. E não tem mais. Tem sim.
          Agora volta ao pilão já, intima a velha Maria.
          Pilão. Volto um pouco, acabar a socagem mas... Tem galinha em volta tem galinha dentro tem galinha na beirada do pilão! E bicam e sujam, me irritando.
          Toco grito nem o cachorro se interessa, lá embaixo no rancho a latir no meio dos garotos e dos tijolos. Toco assim mesmo; entorno o pilão com os restos às criações, em festa, abano a cabeça: que fazer?
          Sorrio. O pilão, quem sabe, também, deitado a rolar na terra com galinhas pra todo lado; se fala a Nena.
          A Nena fazia de tudo – ora no lar aos resmungos maternos; ora na olaria. Aqui vez que outra, quase a fugir também da matracação na banca onde os irmãos no tró-ló-ló costumeiro, ela trabalhando com afinco na gambeta: recolhe tijolos meio moles, quer dizer ainda não suficientemente secos (é claro, pois a gambeta é exatamente para a devida secagem) um em cada mão, devagar atenta, às vezes marcando com dedos nas porções ainda frescas ainda exalando o enxofre próprio do barro e este o cheiro característico debaixo do rancho no qual estão os oleiros; assim onde empilhada ou esparramada essa mercadoria. Do chão leva até ao meio do rancho ou à extremidade na beirada dele. Aí deposita o tijolo em zigue-zague deixando frestas a circular vento, isto é nas camadas. Por vezes tendo que interromper as pilhas, não estando os elementos secos suficientemente, a suportar mais camadas acima; noutro dia, a noite ajudando na secagem – a qual tem na umidade e no inverno os melhores inimigos – noutro completando no alto a gambeta. O solo liberado à nova produção oleira pelos banqueiros. Estes longe serem banqueiros, visto pobres operários sem qualquer amparo legal; estando portanto distantes explorarem o povo pela força atrativa do dinheiro... Pois bem, a Nena cumpre sua tarefa. Amiúde interrompe esse trabalho aos gritos lá de cima, o chamamento de Maria Garcia y Garcia, chamado inevitável e improrrogável às impaciências marianas; dessa maneira interrompe a gambeta aos berros e mandos imperativos da genitora no lar. Refaz ou completa apressada então o serviço de casa. O que, curiosamente, aprecia. Talvez não aprecie discutir com a mãe, discutir no mau sentido, deplora certamente ouvi-la recriminar reclamar insatisfeita.
          Nena é mulher; e a mulher na olaria trabalha tanto quanto o homem; ou mais que ele? Não obstante, as tarefas pesadas isso claro dos machos e não de todos machos – os fracos ou adoentados não conseguem a contento exercer certas tarefas masculinas. Doutro lado seria raridade encontrar um homem, menos ainda um chefe de família, a perfazer tarefas culinárias tidas femininas. Seria machismo! ora, o oleiro é macho nessa época tanto quanto outros do sexo noutras atividades profissionais. A Nena pensará e pesará nesses termos? talvez sequer pense: executa as coisas a si pertinentes, parecendo fazer tal qual se faz no lavar o rosto comer ou defecar.
          Enfim oleiro não é ser à parte na comunidade mas sendo homem com defeitos e costumes de homem, sendo mulher com desvantagens e hábitos da mulher.Os quais vivem no pós-guerra.

14°
               Todas se casaram, quase a Lola ficando a reforçar a equipe das tias, gozada sempre por isso. A Nena exagerou no costume da família Malandroni consorciando-se mas enviuvada nova e novamente se casando, agora com um baiano, o Zé Baiano, cujo ventre pronunciado e a língua um pouco mentirosa alimentaram bem os debates familiais... A Neca, então participante da assembleia faladeira desde que aprendeu a balbuciar e que percebia ainda mais defeitos além da língua e da barriga do cunhado novo já velho na idade – também ela arranjou matrimônio com um dos vários namorados (nada que ver com antigos amantes na atual pichação, namorados de fato:) o João Vidraceiro, camarada prontamente aceito pelos familiares, não certamente por ser de origem europeia os pais vindo da Espanha como no caso da Nonna, nem por ser incertamente trabalhador, pela oportunidade de tirar-se a caçula da imundície do falatório incontrolável da sociedade tacanha do seu tempo... Enfim os Malandroni, sobretudo os machos dela já experientes e vividos, temeram a sorte e a abalada moral da jovem; porque até ao desaparecimento do Nonno ainda solteira embora bela ou só fogosa a Neca. Do lado desta havia mais um argumento sério: desagradava-lhe sujar-se no barro – não importando demais a boca dos manos nos entreveros que fustigavam a possível merecida paz dos que estivessem em paz, fora e dentro do grupo familial; ansiava ela, antes do pai falecer livrar-se da autoridade do velho, depois ansiando fugir da obscura tarefa oleira e assim fugiu ao ramerrão doméstico como dona de casa sim porém na cidade crescente e não na roça. Em suma desejava libertar-se e quem sabe ter existência estável quiçá rica, o que um sonho de milhões e também desengano a milhões de pessoas. Errou o alvo.
          Vidraceiro não passou anos a fio de um joão-ninguém quase. Visto belo exemplar macho, tido por honesto e profissional competente na sua área, desandou depois; assim logo nos primeiros meses de casamento. Por culpa dele, do vício dele, da instabilidade emocional dele? Ela nos primeiros dias já enjoando pelo cheiro do esposo; este vindo a si com padre cartório festa simples e assentimento da mãe dela e dos irmãos dela; sim Neca começou a reclamar junto aos manos nas rodas de confidências as quais viravam frequente discussões esquentadas, a reclamar pelo cheiro de massa de vidraceiro do seu Vidraceiro; e quase imediato às primeiras reclamações a reclamação pelo cheiro da bebida alcoólica. Não que fosse plenamente contrária nisso a recém-casada, por apreciarem todos na família o vinho, tão do gosto de Miguel e dos mais velhos manos; alguns destes adotaram cedo a cerveja mais barata e mesmo a cachaça a título de mero aperitivo e a beber ainda mais barato. Nenhum caiu embriagado na rua dando escândalo ou a criar caso com a polícia. Não foi assim com o cunhado deles: Vidraceiro se embebedava constante e sobretudo após a Neca deixá-lo; em futuro próximo sem futuro fugiria ela com outro homem para a capital e ainda a levar na fuga o Joãozinho filhote do esposo. Com a união do vidraceiro e a caçula se pôs cobro ao falatório (gratuito?) à potente língua do povo que pichava Neca como namoradeira; e se alimentou essa mesma boca nas brigas conjugais a dar espetáculo para a vizinhança; baixarias mui comuns nas classes menos favorecidas. Em resumo fugiu a caçula da olaria pelo matrimônio e após fugiu do casamento, abençoado na igreja Santo Antônio, justamente o casamenteiro por execelência. Ela prosseguiu seu destino, quase sem se comunicar mais com sua gente. Enquanto o pobre se acabou como acabam bebuns. Decerto a contar narrando estórias de sua vida, menos como vidraceiro que é de pouco interesse às orelhas que ofertam ou recebem goles e garrafas de aguardente; decerto estórias englobando tristezas comuns envolvendo uma belíssima mulher sem coração; isso: sem coração. E salvo registros policiais secos e imprecisos talvez, não deixou história.
          A Neca deixou entretanto muitas lembranças, seja no meio oleiro, seja nas recordações dos debates com os seus nada em segredo, seja as da conturbada vida conjugal.
          Falam igualmente os que falam que a jovem senhora ultrapassou com auxílio extra-conjugal a cota dos três ou quatro filhos estipulada pelo costume dos herdeiros de Miguel, o Chico extrapolando nisso um pouco, exagerado, o número dos netos do avô. Também falam ou só por falar ou a contentar a verdade, que ao fugir à capital Neca foi sugada pela voracidade da miséria. Nunca respondendo com suas curtas letras uma carta dos seus; ou terá sequer recebido, sem endereço fixo, qualquer missiva.
          Narrado assim por alto os baixos duma existência, não fica apurado ao menos delineado um sofrimento, o qual a rotina dos seres nem registrando algumas entre possíveis conquistas e alegrias. Apesar disso, Neca sofreu pela impetuosidade nas suas relações e por não aprender já adulta embora jovem a controlar a língua, esta arma poderosíssima. Claro sim andar nisso a impossibilidade em ter paz no seu lar e criar decentemente o filho (a receita valeria com certeza aos demais rebentos a que deu à luz doutros genitores; isto nova questão, voltemos nesta tradução bárbara à principal questão:) Enfim no tempo do desenlace do esposo houve bate-boca corriqueiro com ofensas mútuas a apurar o desastre de ambos cônjuges. Ocorre entretanto um senão: a caçula Malandroni nunca apanhou do Vidraceiro, o qual tendo direitos e prerrogativas machas na época e na sociedade (machista?) e por essa vantagem poderia ele, especialmente ‘reforçado’ no álcool, poderia descadeirar sua companheira e aí, por que não! até conseguindo o beneplácito em avaliação positiva da família dela. Nesse período quantos não achavam certo que o homem educasse sua mulher; mesmo fosse ela do sangue. Quer dizer, até familiares aceitando a correção num membro fraco, a jovem Neca no caso. Na roça muito mais exemplos dessa distorção, no meio urbano também mas com possível controle da civilização, quem sabe das leis da civilização... Entre os Malandroni nem Lico nem Nico, o Tim talvez, o Chico sem dúvida; nenhum a ‘corrigir’ sua consorte na violência macha pra valer, em não ser tentar corrigi-la com a violência da língua; e aqui seria língua-contra-língua. Ana e Maria Conceição se gabavam no feito de não serem jamais molestadas por seus maridos. E a opinião dos machões da família? O assunto não será posto neste espaço sofrido sofrível. A Neca – “Nêga” como a apelidava amoroso Vidraceiro – a Nêga nunca fora socada por ele... As vizinhas inclusive comentavam o esdrúxulo do contrário: ela surraria frequente o consorte (aqui sim sem sorte...) sobretudo bêbado mole fraco. Deixava, diziam aquelas pessoas que diziam, deixava o vivo morto no chão a dormir a curtir, indo viva vivíssima por aí, onde nem estas linhas nem as bocas dos olhos têm que se meter e saber e falar sem ferir a verdade. Aliás a verdade costuma se esconder bem, numa autodefesa, dos olhares profanos da ignorância. Enfim entreveros próprios ou habituais duma época; infelizmente distorção ainda não corrigida, apenas combatida nos dias de hoje. Hoje, ah hoje é sexta-feira dia treze no calendário. Posteriormente, ou seja antes ou durante o calendário, a tradução focará exatamente o senãozinho e decerto contravenção (ou crime?) quando entrarem outras famílias apensas à olaria de Miguel.
            Quanto ao Nonno, vivia maculado na sua paternidade no seu amor no seu apego à caçula, perdoando mesmo disparates que Neca então nervosa ofendida pelo planeta inteiro, os impropérios que ela proferia contra o genitor (ou à sua memória?) Pois via absurdamente ela no marido o pai; não se esquecendo jamais da afronta macha no adultério deste contra a mãe; e a revolver as miúdas afrontazinhas perdidas no dia a dia de sua noite; tão miúdas quiçá insignificantes que sequer o pai-ofensor percebera anos, enquanto que ela guardara cada minuto numa soma absurda. Menina! “bambina” dizia a cada lembrança que ouvia dela; ela não ouvia, demais egocêntrica para escutar mesmo um pai ali a seu lado. Não obstante Miguel procurava não interferir na relação conjugal da filha embora decerto condenando seu proceder e mais seu externo contato, semelhantemente adúltero. Repetia repetia Menina!



15°
     Dessa coisa de tratar as coisas violentamente entendia bem o Messias... Não obstante um ser pacífico; do tipo de pacifismo ou que engana ou enganado no nome e a gente em volta confundindo com moleza vergonha e até bondade quiçá santidade. O sujeito era de uma calma invejável no serviço e no trato com a vizinhança. Quem sabe esta o tomasse por desconfiado, o que demais não é de menos sendo mineiro. Aos italianos da olaria estranho um pouco o estranho. Enfim não muito dado mas com educação e respeito o caboclo. Nessa altura Miguel já havendo partido – o povo supondo ao céu os inimigos ao inferno; teria adversários ferrenhos o velho! não parecia, aqui não importa visto delinear-se não ele mas o Messias. O Messias a fazer tudo que fazendo vagarosamente cuidadosamente meticulosamente no trabalho da pipa, a qual fornece o barro pronto para uso na fabricação do tijolo. Foi logo pichado pelos patrões como bobo e lerdo. Nessa ocasião, havendo falecido o chefe, o Tim passava por imensas dificuldades pelo fato dos seus irmãos deixarem a olaria e não ter quem pôr no lugar; assim várias famílias vieram trabalhar embora inexperientes no métier oleiro. Não o caso da casa do Messias, este tendo passado por outras empresas congêneres e portanto experiente, apenas um tanto lerdão seja no transportar o carrinho de barro até à banca no rancho; seja a mexer bem a argila no picador, o picador um retângulo cavado um pouco fundo no chão, onde se remexe se mistura o barro que dormido deve ser posto na pipa propriamente dita – sendo pipa também todo esse conjunto; seja ainda no tratar dos burros, os quais devem girar o mastro da pipa, atividade em que eles são pelos oleiros mui maltratados no uso de impropérios e vara a feri-los. Um empregado italiano que fora pipeiro ainda no tempo de Miguel os xingava na sua língua materna talvez castamente, porém a tropa não entendia igual no português mal falado pelos outros as ofensas. Com Messias esse tratamento absurdo ou abusivo não se dava, abstendo-se ele da violência no trabalho – quase nem falava, sem ser mudo; contido somente. No serviço do barreiro, uma das funções do pipeiro, lá também se saindo a contento. Enfim um homem quietarrão sequer tramelando muito com seu companheiro nessa atividade, para desgosto do Pedro Malandroni mui falante. Mas...
          Bem, o Messias era outra gente no trato com sua gente em casa. A Zefa que o dissesse... No lar não manso, longe disso: frequentemente falava demais demais, mais ainda embriagado; apreciando deveras a caninha... Bêbado não desses que se amontoam no chão ou que dormem no bar, e aqui é na roça sem boteco nem venda, na olaria, dormem lá e são levados a dormir sem ver o caminho até sua casa sua cama; quando então se deposita o fardo aos cuidados da consorte, no caso não apenas sem sorte e não casada, dona Zefa amásia do Messias; não possuindo o casal filhos, ou estes semelhantemente sofreriam. Porque o Messias alcoolizado descontava seus infortúnios no lombo da mulher! Foram surras homéricas, sem que ninguém se metesse não se mete mesmo na briga conjugal; pior: sem que ninguém condenasse o criminoso ou contraventor dos bons costumes. Isto pode não parecer chocante, porém símbolo duma época entre pobretões. Em geral as fêmeas da espécie eram mui injuriadas na sua submissão e apanhavam por sua língua atrevida (Zefa por exemplo não parava de falar, insultada uma vez; e daí recebia mais socos) ou por ser a parte mais fraca da corda na relação. Apesar disso, no dia seguinte ao desastre fosse desastre era outro para ser o mesmo o Messias, um Messias com hábito de trabalhar num silêncio – vez que outra alertando os burros parados a se coçar: “eia!” dizia repetindo. Esse pipeiro silencioso e quase sorridente de voz baixa meio sem som, assim o fazia a indagar se mais carros da matéria-prima ou se menos desejando o cortador, este outro apelido profissional do banqueiro. Entre colegas ninguém iria relembrar e se constranger, por boa política ou porque ninguém tendo nada com a vida conjugal de ninguém, relembrar os tabefes que feriam a mulher partidos do seu homem...
          Foi dessa maneira, dessa maneira foi por meses até parar e se mudar o Messias, já sem Dona Zefa que sumira certa madrugada. Os oleiros sentiram sua falta, pois o homem um trabalhador “de mão cheia” como diziam afirmando ser desse tipo com o qual se pode sempre contar. Além do mais, e nisto o Tim bateu palmas alegre: saiu sem dever, o corrente era deixar dívida o ex-empregado por insaldável ela ou por má-fé. Aliás isso grave porque a olaria sempre no limite da pobreza; uma atividade quase sempre para sustento, precária; uma em que o empregado reclama o pouco ganho e muita dívida e o empregador reclama o nada no lucro e a falta de capital para investir e melhorar a indústria.
          No fim de sua estada na olaria dos Malandroni o pipeiro Messias andava triste, embora nenhum colega o tenha pilhado chorando. Olhava olhava mudo a porteira entrada da olaria, agora saída...
          Lá naquele cepo um tanto carcomido por baixo ainda assim ótima cadeira improvisada encontra-se sentado o Messias, caboclo magro e pálido, mais pálido parecendo pelo comum requeimado e mais descolorido agora nos avanços das coisas. Não se preocupar tanto com ele pois não anda adoentado: está é morrendo. Ninguém para a fim de analisar a situação concretamente mas todos estamos morrendo, e alguns desprevenidos num repente; o homem nesse caso não – sabe que sim. Aliás o mundo não tem mais a mesma graça, e na desgraça melhor partir. Dessa forma cisma esse oleiro.
          Depois que perdeu a Zefa, ah a Zefa.
          Enquanto lembra a mulher lembra num retrospecto na espera o trabalho que pensa deixar...
          Messias pipeiro por definição; cuida da pipa na olaria, uma indústria acanhada na técnica manual e encravada na roça. Seu ponto de serviço é cuidar da mistura da argila e levar ao rancho o barro para que este vire tijolo. A geringonça funciona assim: tem o picador, um retângulo onde a matéria-prima dorme em água. Na madrugada o Messias já atrelou uma dupla de burros à haste que se liga ao mastro da pipa; os burros virarão o mastro e a pressão empurrará pra baixo a argila com que o pipeiro encheu a dita pipa; a massa embaixo brota, ao giro constante dos animais, brota o barro no ponto; se parecendo grotescamente um ânus e a massa matéria fecal. Nesta altura para o Messias.
          Tem lugar o trabalho da mulher dele, tinha: ela se foi ele não se conforma e fuma e mais fuma outro cigarro nervosamente, lembra sua fêmea incansável, lembra sua carreira indo-se embora, passando apressada na madrugada, chorando, a porteira... a porteira agora bate, bate do vento bate da saudade bate no homem e seu barulhar ainda indo pela noite a fio fere mais o coração, aí ele chora por dentro – fora é um túmulo. Mudo sério circunspecto, cede ao trabalho diário embora a falta da companheira, como é comum aos outros oleiros: o oleiro sem a mulher não sabe fazer nada; assim caminha ele na descida horrorosa ao despenhadeiro.
          Era o trabalho dela; depois o Pedro deu certa mão uns dias. Agora sem a Zefa, agora ele mesmo toma a massa, sem qualquer prazer que antes sentia: carrega, abarrota a carriola, leva-a para o rancho, sequer responde à brincadeira de costume do pessoal; vai além – não responde o bom-dia; e o sol anda sorridente aos outros colegas. Por culpa da Zefa.
          Não. Reconhece que bebera além do costumeiro e bateu na amásia muito além do costumeiro (a troco de quê, meu Deus! não sabe, nem por que brigou nem por que bateu; bateu ao exagero, ela se foi...) ela se foi a chorar, descadeirada, humilhada, levando a trouxa nas costas, a porteira ah a porteira. Vira a sombra dela na lua cheia a sumir no fim da estradinha embarreada e passar a cancela, esta no seu bater bater bater...
          Agora está só; não existe maior solidão que a do solitário sem sua fêmea, embora a vida barulhenta ao seu redor. A vida não oferece mais nada pra si; trabalha tão só por acostumado, igual máquina, bebe como máquina, come semelhante máquina, deita-não-dorme como se máquina dormisse. Agora está só; no seu e no serviço dela. Em casa a cama abandonada. Se tivessem filho, Deus não quis; tivessem, assim pensa, ela teria levando a criança e o abandonado duplamente para ele ficar ainda mais sozinho...
          É isso que diz e teima a dizer para um pobre pedaço de pau onde fuma desesperado e memoriza desesperançado. Sua timidez não permite extravasamentos nem permite ir procurar implorar à Zefa o retorno. E nessas circunstâncias espera somente o fim. Coça o bigode ralo, coça o queixo por sestro, sem solução. Apenas espera a morte; seria uma solução!
          Olha pela milésima vez a saída; e a porteira não responde com entrada e retorno de alguém, bate bate bate.



16°
          Doroteia Malandroni, não grafado assim por ser da época passada e então Dorotéia, agora numa concessão à Reforma perdendo acento; era lutadora, era, faleceu enfermeira já quase aposentada. Ela não privou com Messias e só conheceu, como todo mundo afirma conhecer apenas tendo visto alguém, conheceu o homem na pipa ao levar um dia para o genitor café fraco doce no gosto do seu pai, o Pedro ajudando o outro; realmente viu o caboclo. Também em menina passou pela Zefa, não se assustando com o tratamento por cima da pobre senhora pelo hábito desse tempo. Mas conheceu bem o Joãozinho do tio Lico e quem sabe não haja brincado e brigado com o garoto pelo comum brigar e brincar, como encontradiço nas crianças. A menina demais ativa, o genitor demais simples talvez falto de qualquer peça na engrenagem da cabeça; dita menina arribou, como diziam os capiaus, arribou sua família a pô-la na ordem: registros anotações limpezas compras vestuários pagamentos – uma verdadeira diretora executiva naquele lar simples. Grandinha deixara a brincadeira de roda e de adivinhação entre os pequenos para ser pequena grande na atitude. Chegava a controlar os seus além das despesas, Domênica sequer sabendo gastar que dirá comprar com vantagem alimentos vestes remédios, aliás aqui como qualquer caboclo embora não sendo cabocla, a senhora fazendo chás para isso ou aquilo nas dores de sua gente; a filha já interessada nos medicamentos de caixa de vidro de amargor de bula que lia com desembaraço, decerto se preparando a ser enfermeira no futuro, um futuro que andou rápido ao seu presente. Controlava mãe pai, sem expediente ambos e um pouco marasmáticos, controlava as irmãs novas e logicamente mais submissas. Enfim ativa e fora ativa e mandoninha mesmo desde a cantiga de roda com primos e crianças das famílias que trabalhassem na olaria. Ela mesma era do tipo que o povo diz “um pé de boi” quer dizer disposta forte e não dispensando tarefas; e assim enfrentou a banca, ajudou o pai no barreiro parecendo homem com a pá cheia; e ainda nas poucas horas vagas preenchia o tempo trabalhando como volante. Aos oleiros volantes são os que fazem tarefas variadas miúdas ou dificultosas no forno ou na enforna e desenforna (encher e descarregar o forno de tijolos).
          Num belo dia – a exemplo dos tios quase sempre puxados pela Neca e pelo Chico que reuniam os próximos a discutir na assembleia e aí discussões com desaforos na quentura já das horas – num belo dia Doroteia por isso reune sua familinha a decretar-lhe (o verbo é proposital) a impor sua mudança da olaria para a cidade. A cidade não engatinhava mais, tendo inclusive escolas e um comércio ativo, então algumas ruas como a Coronel Galdino fervilham de agricultores a comprar e levar o necessário à roça, o dinheiro num correr solto. Ela quer transportar os seus a esse meio civilizado. A olaria encontrava-se na periferia da urbe, onde esta acabava iniciava o mato e o buraco dos oleiros. Apesar do que foi dito, começam os italianos e seus agregados a irem para outras olarias mais longe da vila e mais rentáveis. Preciso saber que oleiro é antes de tudo inimigo ou só adversário do meio ambiente, tão bem visto em nossos dias. Ele cava buracos enormes a busca da argila e ainda queima nas suas fornalhas a lenha a apurar o tijolo acabando dessa forma com a mata. Não foi por essa razão a mudança, é óbvio. No caso da mudança pobre do Pedro e sua gente, por instigação e mando quase declarado da filha mais velha. Deslocaram-se perto, pois como diziam era “um pulinho” porque sua olaria situada na beira de Marília. Foi uma transferência com mudança de modo de vida. Foram embora chegaram à casa pobre de madeira (isto quase característica da cidade, havendo pouca construção de alvenaria).
          Essa luta da neta a convencer os seus para se mudar, decerto não agradaria o Nonno, dando ele contra esse a favor, desejando não dispersar sua gente. Já falecido e portanto quando muito terá se dirigido à jovem voluntariosa sem resultado. Além desse provável pormenor, o Pedro continuou a trabalhar como oleiro para o Tim, indo de casa ao serviço perto, perto à gente do campo e nem existindo longe na cidade pequena. Certamente terá afirmado “vô di a pé” igual os caboclos. Enquanto isso a chefona dispôs o como agirem na fase que se iniciava. A mãe velha nova ainda lavaria roupa para as famílias ricas, Doroteia ficando a trabalhar aqui ali no possível; enquanto isso a estudar se preparar à futura condição da enfermagem; e se deu bem.
          Pedro era grande mas pequeno. Grande na estatura enorme no trabalho não fugindo ao pesado inclusive tendo alguma disciplina no desenvolvimento das tarefas; pequeno no cérebro, sem quase sequer saber desejar algo, não fosse a primogênita não sairia da rotina no viver embaixo. Ela sim grande e perspicaz e ainda mostrando uma tendência a domínio, mandaria no esposo ficou solteira; grande no tamanho, olhava pouco lá em cima o rosto do pai arcado como vareta na sua altura; aos outros todos, todas, via lá embaixo. Embora tal posição na família era pichada – pela tia Neca? pelos outros parentes também – tida por gastadeira e extravagante. Na compra na venda, a venda do Tonho, gastava mesmo o que não ganhara diziam intrigas. Abusos nos desnecessários, as tias criticavam chocolates e guloseimas na compra deles. Doroteia entretanto não permitia sujar o nome honrado do genitor: exigia o velho pagar tudo em dia. Depois era aquele negócio costumeiro entre capiaus no findar compras e haver pagamento: o dono da venda ofertava como presente umas balinhas às crianças para adoçar o freguês correto. Enquanto a dívida de outras famílias se somava à divida.
          No relacionamento familial os de Pedro se davam bem com os outros Malandroni, suas filhas de bem com os primos. Parece que mais se desentendiam os adultos, como era hábito anos entre a gente crescida, com uso pichações e gozações. Doroteia resmungava um pouco por isso e mais defendia a fraqueza dos pais, inocentes às ironias e maldades dos parentes. Havia no todo a convivência pacífica.
          Inclusive no trato com a gente de fora. Os Malandroni ao longo dos anos, antes e depois de Miguel, sempre tiveram convívio aceitável e recebendo famílias caboclas no seu seio e trabalhadores sozinhos também, os quais numa interação combinaram trocaram ideias e costumes. O que ocorria igualmente no restante da população nacional; isto quer dizer que os oleiros italianos, embora nos primeiros anos com alguma reserva, aceitavam os demais e até permitindo a mistura dentro do clã, os casos já visto da Ana da Conceição do Baiano do Vidraceiro – o que foi ótimo como componente a eles e aos outros brasileiros.
          Apesar desses dados certamente positivos, todos encontraram a morte. Sim, somos mortais, no sentido corrente, a família teve vários dos seus elementos não completando sua experiência terrena, a própria Doroteia por exemplo chegou a solteirona e desapareceu como tia ainda nova e pujante.
          No entanto a tradução dos feitos oleiros procura não entrar no passamento, nesse câncer, um câncer ainda hoje...



17°
          O senhor Michel Malandroni se consorciou com dona Maria Garcia y Garcia, e se não se acertavam em abrangência no amor não vai ao caso – formaram embora uma família oleira numerosa, a qual ofereceu recebeu trocou componentes culturais, populares que sejam; e assim contribuiu deveras com traços na sociedade da época, século passado. Se o italiano e a espanhola buscavam a felicidade, apesar dos descontos pelos grãos de areia na engrenagem, buscavam-na talvez... e se não a encontraram não se encontrando decerto por falha da própria felicidade, que os filósofos ainda não definiram a contento; portanto não tendo culpa total os pobres viventes do barro. Em todo caso lutaram brigaram viveram. Numas pinceladas é o que esta tradução deseja esclarecer.
          Quem sabe Miguel não tenha aceitado todos os lances na vivência dos seus... Algumas coisas feriam seu sentimento; ele mesmo quem sabe a desagradar outrem no caminho de sua gente. Não tinha por costume trocar ideias com a esposa, esta sempre em atritos e a relembrar suas recordações más: os burros a pipa os gritos os rins. No resto ficara impregnada a questão do adultério, um de vários pontas diziam e isto, uma verdade-mentira, não se perdoa, antes quem perdoar nos encontros os desencontros familiais, não permitindo cessar a labareda o fogo a fumaça a virar carvão... De sua prole devera ter queixas. Aquele negócio dos avós entenderem sim os desvios nos netos e não poderem falar e determinar outro rumo, precisando então nada mais que sofrer certo o errado; os idosos veem sabem criticam – não podem ou não devem abertamente falar o que vendo; pior: não sendo percebidos caso falem! tão velho o costume como o mundo. Embora, não achava certa a condução na casa da Tê.
          Tê desposara Frederico, Frizo aos de casa. Ou melhor: o hábito machista pra valer estabalece que o homem sim conquiste e se case com a mulher; para que ela aceite o costume não aceitando o homem e por isso brigue com ele, ou só se desentendam ambos ainda nubentes virando casados após a festança o padre o cartório. Enfim a Tê fez vir ao sangue italiano um descendente do primeiro mundo, se houvesse a expressão; um germânico. E aqui possível encaixar possível ideia errada. A de que por ser estrangeira de origem europeia uma pessoa seja civilizada, o suprassumo da cultura. Um erro ou apenas engano, Frizo não mais que um bastardo de sua terra primeiro-mundista. O que demais esse menos envolvendo os Malandroni, os quais vieram em fuga e fome da mesma vizinhança; ora, nenhuma região deporta sua gente da primeira linha, de alta cultura ou grande prestígio. O que exporta ela são famintos, inconsequentes, desregrados e até criminosos no degredo como a História registra para o Brasil português ou para a Austrália inglesa. Assim Frizo veio com os seus familiares sob condições adversas aos europeus. Não obstante a chegar à olaria como um rei, um suposto guru do saber; discutível.
          Era um sujeito trabalhador sim disposto sim fortalhão sim mas grosseiro. A gente da olaria também grosseira. Isto favorável a um casamento talvez ideal... Contudo o rapaz aloirado sem olhos azuis e nada dolicocéfalo como exigiam nazistas, ele colaborou e se entronizou se encaixou bem com novos parentes. Estes o ensinaram as lides oleiras. Mais para diante tornou-se chofer (assim naquele tempo o nome profissional do volante) e municiava o forno do sogro com lenha; mais adiante ainda, trabalhador e um pouco ambicioso a progredir naqueles meios, desandou (sentido benigno do vocábulo) a trabalhar com toras para entrega em várias serrarias da região. Depois sim desandou, no mal sentido, se embriagando frequente... Aqui entra um dado pequeno e grande na consequência, a ser posto mais tarde. E Miguel que achou disso, dona Maria? os filhos? Parece que o ambiente dentro da casa dos seus vizinhos (Tê e Frizo a morar grudados aos velhos) ele não aceitando plenamente.
          É um domingo, a banca silenciosa os burros no carrapicho e com seus carrapatos a descansar a pipa; meninos como sempre a brincar brigar gritar e gritar suas mães pelo abuso na culpa dos outros meninos; elas mesmas numa parola desregrada (ou não seria sequer conversa...) A parentela reunida informalmente na casa de Tê, a macarronada fumega cheira esfria e se bebe comportadamente... quer dizer alguns abusam, entre eles o dono da casa. Falam-se besteiras, entre elas de esporte, o esporte que não prende demais os parentes; no futebol por exemplo a maioria palmeirense como demais italianos, “palmeirista” como se dizem, só o Lico destoando como são-paulino, palmeirenses mas entre familiares só praticam de boca; ou seria esporte a batalha das laranjas? sim, vez que outra disputam, ganha o Chico sempre, disputam quem mais chupa laranja, e em meio a algazarra domingueira o vencedor sendo o Chico, já afirmado; enfim domingo desconversam o trabalho, riem criticam riem outra vez, Nico lembra num desserviço o hominho, Lico ausente, goza a Ana e daí as fêmeas da espécie desandam esquentam a língua e acontece o pior nesse pior: o pai e/ou a mãe a oferecer pinga aos outros e dando inclusive ao primogênito! o menino então filho único a aprender os primeiros passos não consegue bêbado mais dar passos, cai chora e mais a assistência ri gargalha. Se já houvesse nascido o casal de filhos que viria, decerto também a receber tal lição paterna. O Frederiquinho vê o mundo a rodar...
          O Nonno sequer sorri, enruga a carranca, não suporta a lição e a lição dos seus filhos. Sai entra na sua própria casa, não para matar saudades de Maria.
          Entretanto o caso apenas imagem duma folga, quase em folguedo a Tê. Durante a semana era a labuta. Seu homem na brutalidade do serviço, suarento no barreiro, enquanto ela demais corajosa e oleira eficiente. Sua bancada com auxílio duma das irmãs mais novas produzia muito tijolo. Na semana pega cedo, após amamentar seu filho (não com aguardente, com leite) após embica no serviço até quase noite, cobre como fosse um tapete o chão do rancho de tijolos; se bem que o Tim dizia sempre e descaradamente ao casal que a Tê produzia muito porém “macacos”, quer dizer peças feitas de qualquer jeito, visando só produção e dinheiro. Ah o dinheiro.
          No rancho ou noutro setor da indústria mandava o dinheiro. O ganha-pão afirmavam; a falta, a sobra a alimentar o sonho e também a discórdia. Assim quantos da família por isso a debandar, após o falecimento do chefe; e mesmo antes disso.
          Esse o estado de espírito entre oleiros, que as visitas de Miguel encontrando. Por isso o Nonno sofria. Falava criticava, gritava por vezes. Os Malandroni não ouviam...



18°
          Não o Pedro o pedro malasartes da família mas o Nico, o Nico encontra-se em papo descontraído com seu João, seu João senhorio dos pais na avenida Carlos Gomes, daí a pouco o velho morreria, doente mais doente então Maria. Falam fácil. Esta e aquele, ela a narrar lá dentro de casa à Pina as encrencas dos gritos de Miguel no ontem do casal: os burros a pipa o hospital os rins um dos rins etc. e tal. Conta como fosse a primeira das mil vezes. Ele não: é o primeiro contar do que contar ao estranho... Interessante não se pejar lavando a roupa suja fora de casa, pois João mais interessado nos aluguéis dos genitores de Nico, o qual narra estória para ridicularizar a própria mãe, ela velha ele rapazote longe estando ainda ser o futuro gozador nas rodas familiais junto à outra caçula... A mãe (se manifesta como a “Véia”) anda enferma, aqui o filho se faz de coitadinho sofredor pelo sofrimento materno – todo bom loroteiro faz tal preâmbulo a atrair mais confiança às orelhas dos outros, para depois, só depois, vender seu peixe. Faz tempão se queixa disto daquilo, ninguém resolve; toma chás caseiros e remédios de farmácia, nada resolve. Então a mãe procurou o dr.Mauro, o senhor sabe que é quem trata meu pai. (Nisto esbanja sofrer a moléstia paterna que levaria o velho ao cemitério; torna à mãe:) ela vive morrendo – daí Nico desanda ‘prolixar’ parecendo esta traduçãozinha que além de tudo o mais inventa vocábulos precisando, e vai além o sujeito nas suas costuras e remendos; inclui desagrado pela introdução entre os Malandroni da Ana pelo mano Lico num recente casamento – anda minha velha morrendo embora forte e é capaz mesmo do “Véio” ir antes dela. Semana passada foi a mãe à consulta. O doutor: “fala 33” “onde dói” o que você come etc. etc. e anota os rabiscos na ficha, faz careta (neste ponto o Nico usa-abusa de uma prolixidade amena: mais imita do que fala e torna um palhaço o médico se dirigindo à paciente impaciente e assim obtém imediato um ganho com o senhorio: este se ri da imitação...) Foi assim um dia inteiro na consulta a reclamar em sua ‘diplomacia’ a ineficácia do exame do profissional; a tanto que o dr.Mauro explode: “ochê...” o senhor já viu como fala chiando gozado o doutor, ochê é agora médico, eu me deito aqui e ochê me examina então e então me cura e... ah, na hora de pagar eu volto a ser o médico e ochê me paga a consulta... A velha? o senhor nem sabe o que aconteceu imediatamente – saiu pisando duro braba louca de raiva. E o pai teve que ir pagar os honorários ao dr.Mauro; ele não, o Tim quem foi lá na rua Prudente quitar pela família o estrago. Nós ficamos aqui na casa um mês ouvindo o falatório contra o Mauro, rogou mil pragas nele, o doutor está sujo com ela! Agora, o velho... Aí o Nico fechou a boca de rir abriu a boca de lamentar a piora de Miguel. Ai que língua o mais novo.
          Enquanto a conversa entre os dois, o Malandroni e seu João, o Peri nas proximidades aguardando. Um membro amoroso e confiável da família; demais apegado ao caçula, o caçula já de pelos imitando bigodinho e se achando homem, homem sim, se supondo adulto. O cachorro abana muito aos seus, porém com queda maior ao Nico. Agora sentado nas patas traseiras espera as ordens do irmão; isto porque cachorro deve se imaginar gente e do sangue dos seus. Inclusive para Maria tem sua graça, menos quando seja na volta do consultório ou por algum entrevero dela com o marido – então o cachorrinho lendo na face de sua mãe a ameaça se resguarda. Com o jovem Nico se esbalda sempre e se descontrai; visto o moço ser quase meigo no trato com criações; todos animais da casa ele quem trouxe e se não lava não alimenta não cura, ao menos carinha. Nunca chutaria o Peri.
          Mais tarde, adulto casado e pai responsável, ainda não tratará seus bichos no lar, deixando os cuidados à esposa. Ida igualmente amorosa e cuida dos animais; assim a aprender com os pais os filhos deles se tornam semelhantemente amorosos, o que próprio das crianças. Aliás, é fator determinante à educação dos pequenos haver animais de estimação na casa. Ah por que será crescer também os coraçõezinhos!



19°
          O Tim semelhantemente fazendo cara feia à entrada de Ana na família, à boca pequena critica o mano Lico pela introdução da cabocla. Caipira diz rasgado o caçula auxiliado no ferir por Neca e as outras. Mas ela inclusive a ser querida logo pelo sogro, não obstante intriguinhas; depois, morto, recebeu dela as lágrimas do coração; esse dito porque nem todos do sangue choraram por dentro o falecimento. Entretanto Ana como nora cunhada esposa e até na posição de mãe – tendo lá alguma culpa no cartório da existência visto falar também demais, válido a todas pessoas que não tenham muito o que fazer; por exemplo seres casadinhos de novo, o serviço acaba logo e logo vem a conversa-fiada. Não será essa a base do existir comadres? Ela, fora a comum rusga conjugal e imediato a se arrepender ou mesmo chorar pela falta, ela semelhante semelhantes a escorregar nas conversas de família. O cunhado Nico, de memória fenomenal, a reter deslizes a servirem numa de suas reuniões para ter argumentos ou bases sólidas e prováveis a enfeá-la diminuí-la sujá-la a fim de que todos na roda íntima possam usufruir rir e desopilar o fígado... Claro que o moço não habituado a injuriar apenas Ana, outros também. Toma o reservatório de recordações e apresenta numa das vezes um episódio bem marcante a demolir. Um dia, fala, conta aos outros e ainda pede aos convivas prontamente atendido testemunhos dos que foram testemunhas do fato, nesse dia (aproveita-se da arte da prolixidade a encaixar outros acontecimentos tão sólidos ou tão banais doutros seus adversários e vendidos como amados por ele aos participantes a quem se dirige para corroborar no que diz; diz então retomando a narração:) nesse dia a caipira foi dar palpite aos homens, curiosamente eles na cozinha que é lugar só de mulher ela se encontrando no quarto a cuidar do Joãozinho, “puxa que moleque feio!” e nisso ouvi algo mas não lembro agora sobre o que discutiam. Saibam que a Ana correu à cozinha interferir na conversa, deixando o Lico envergonhado. Lá estavam o... aí enumera cita lembra quais os participantes e o Natalim, o Natalim bêbado nem parava em pé de cachaça no miolo; ora, dizem que no vinho a verdade... Verdade minha gente, fala o Nico, o Natalim gritou que eu escutei: “vai comer sua merda pra lá, lugar de mulher é na cozinha!” Ela abriu então a boca no mundo, chorou desconsolada e voltou ao seu monstrinho, o menino parece um macaco não é mesmo!? os pais acham-no lindo. Nesse episódio tem mais uns negócios engraçados: primeiro que eram os machos que estavam na cozinha das mulheres. Segundo que aquele fracote do nosso irmão devia ter dado um murro na cara do Natalim por ofender em público a pobre Ana... O hominho... E foi por aí a língua ferina do caçula. Logo casar-se-ia, o primeiro filho, o Paulo, nasceu gêmeo com outro, este outro simiesco na forma, morreu quando ia viver... Aliás são dois pontos marcantes aos seres comuns a festividade alegre do nascimento e a fúnebre da morte. Então, nesse encontro das duas festividades, os Malandroni e os vizinhos no zum-zum a pichar baixo para não ofender sobretudo a infeliz mãe da cria, a Ida. O pai andou meio macambúzio e pensativo uns dias, após se esqueceu lembrou-se mais de brincar com outrem na língua solta; que era sua rotina.
          Ninguém escapava ao linguarudo. O Vidraceiro e mais tarde o Baiano, a Lola e o seu marido; enfim ninguém mesmo se livrando. Com um pormenor: quando presente a vítima também ela santificada, na boa política da gente falsa, a política de Nico. Baiano fora e continuou a ser até fugir da cidade um dos mais pichados pelo homem. Nos lapsos, então se valendo do auxílio nos seus esquecimentos naturais da também rica memória da esposa, de língua tanto quanto apimentada. Aliás nem ela a escapar de sua boca e isto virou frequência quando arranjou amante no meretrício. Depois, bem mais tarde, Nico já velhinho e enfermo, tratado pela nova-velha companheira; esta ele a apresentava como ‘namorada’, antecipando ou inaugurando quem sabe um costume (e a deturpação dessa palavra) que se instalou no fim do século.



20°
          A Nena por mais que fizesse não segurou o Zé Baiano, unido a si no padre, no cartório a pobre passou alguma vergonha no digital, pois analfabeta nunca entrou-lhe na cabeça o abecê; no primeiro casamento, semelhante, e viúva mais de ano não aprendeu. O Baiano sim assinou direitinho no livrão; ela teve de molhar o polegar na almofada e carimbar a tinta no dito livrão com auxílio do funcionário. Enfim estavam casados, ela talvez com mais mérito por além de trabalhar em casa eventualmente ajudar algum mano como lançadora. Nena era pouco oleira, mais doméstica que do barro, primeiro a aguentar a ranzinzice da mãe e agora casada novamente cuida do lar e do seu marido. O Baiano não se prestou demais às atividades da olaria, ajudou na falta de gente classificada vez que outra mas partiu logo a trabalhos fora como chofer; tentou infrutiferamente o comércio e não levava jeito; acabou no pichamento do Nico ao cunhado como “picareta”. Era corrente essa expressão na época a caracterizar alguém em quem não se confiasse, a comprar e vender mercadorias sobretudo automóveis usados. Ficava a exibir seu ventre no vento da avenida à espera de um oportuno que lhe desse ensejo a realizar um negócio. A Nena o adorava, exato: adoração, um deus a si; embora a desconcertante opinião do mano dela. Deixava seu homem horrendo bonito, bonito dizia, dizia o Nico o cunhado ser um mastodonte e ainda imitava com certa felicidade a voz fanhosa do homem e sua decantada barriga. O Nico, a se parecer com o parecido, chegava a desabotoar a própria camisa embaixo para mostrar a pressão absurda do ventre para fora! e o fazia com certa graça. Não inventando com muita graça as estórias nas quais mentia sobre o cunhado. Aliás o Baiano não sendo flor que se cheirasse... Na rotina ambos a se encontrar e conviver na avenida, o crítico já no ponto de táxi e o criticado lá também a farejar um freguês (cliente não se usava a tapear um trouxa ou ladino pretendendo enganar digamos o Zé Baiano). Apesar desse convívio diário meses e anos no local, fugiam ambos às vezes para os negócios oleiros, porém com mais frequência estavam na avenida a conseguir ganhos possíveis, possivelmente enormes segundo o sonho e a ilusão de cada um dos parentes. Meteram-se ambos também nas encrencas; e nisso o Zé saiu-se mal porque a língua do Nico bem mais potente e com mais freguesia quando a explorar erro alheio. Sobrava na desavença à Nena por vez chorar e mais amiúde lamentar. Ela ainda continuava sendo criticada na família pelo seu desafeto, a própria mãe.
          Logo mudou a situação financeira e a do ramerrão do casal pela vinda dos filhos. O genro de Maria suportou bem o pouco ganho na crise dos negócios até ao segundo filho. No terceiro deu no pé... Fugiu, ou não mais retornou ao lar para ver Nena. A outra seria bonita? talvez ao menos menos feia que a esposa. Todavia não trocara ele ela por duas de vinte como se fala popularmente, fugiu ao Paraná com uma amásia somente. O Nico sempre no lembrar que a mana um canhão enrugado – quem poderia com sua boca! – e que o safado se livrara da casa da mulher e das dívidas. Segundo sua modesta opinião o Baiano deixara um rombo na praça; daí a fuga. Deixara rombo maior em Nena, anos a chorar o desenlace, um que nem o trabalho nem os filhos encobrem e equilibram. Ao seu caçulinha a mãe dizia, disse vida inteira, “seu pai fugiu com a Bicha”, um substantivo que virou das piores adjetivações a um ser. Nunca soube a infeliz o nome correto da rival.



21°
          Decerto um choque profundo um sofrimento indescritível o do pai em flagrar no jornal, a tevê não chegara ao país, a foto do filho ladrão assassino criminoso enfim – Miguel não teve esse desgosto, quem sabe profundo, que tantos genitores vivem (ou morrem!) Porque podia se orgulhar se envaidecer dos seus: trabalhadores, chefes de família, com roda de amizades, em suma benquistos. Cabe nesta altura um reparo: dos filhos do Nonno os machos assim; das filhas todas como quase todas mulheres da época, ou seja submissas aos companheiros; exceção da Neca braba e mandona; a ponto de o Nico dizê-la “o macho do Vidraceiro”, ela o chefe de família. Isto posto, no entanto se aborrecia o patriarca deveras com desvios, sofrendo inclusive na hora de fechar olhos ao mundo por esse sentimento; ou ressentimento. O Nico talvez o que mais lhe trouxesse cuidados. Adorava a caçula, sim adorar é palavra demais forte, amava ao extremo embora a grosseria dos seus modos e o gritado na fala – apreciava, seu coração não o deixando mentir a si mesmo, pois é difícil uma pessoa na sua condição ter preferência; a consciência desperta da gente não pode aceitar; teoricamente o amor com mesmo tamanho mesma profundidade mesma expressão, assim ele expressar-se-ia a um amigo ou próximo confiável; teoricamente o amor a cobrir indistintamente todos, filhos e filhas. Que fazer se a apreciava ainda mais que ao Tim o sério e mais velho da prole, sendo que os outros filhos foram gracinhas e agora adultos de grande valor. De fato apreciava ainda mais a Neca. Justamente aquela que o velho percebe moribundo agonizante ser arrastada pelos homens da casa obrigá-la pedir-lhe perdão! Ora, isso dói.
          Outros filhos além dela igualmente falhavam – a língua mordaz do caçula era falha aberrante, quase não podendo diminuir a falta o fato ser 'honesto' e de respeito à gente de fora. Ah pobre pensamento paterno que não poderia nas horas e nos minutos seguir flagrar criticar educar talvez as patifarias pequenas e insignificantes da prole. Nico em exemplo, ao entregar tijolos de sua olaria com seu caminhão o fazia escondendo as peças defeituosas dos olhos dos outros, as mal queimadas as quebradas e mais que isso: contava como positivo um número ideal e fazendo questão receber integral a quantidade aleatória. Por que não fiscalizavam ao receber o material? gritava sua consciência inconsciente. Ora, (decerto a consciência argumentava) o inventar aumentar exagerar o que dizendo nos falatórios ou conversas gratuitas não seria pior! Prossegue no levantamento das distorções Miguel. Outros dos herdeiros nos quais depositara tanta confiança, abusavam da ingenuidade do Pedro e da Nena. Mais adiante o primogênito (aqui sempre lembrando o punhado saído antes de anjinhos; sim primeiro filho) mais tarde faliria por improbidade no comércio. Então o pai a se escabelar não apenas pelo desastre econômico, por outras coisas como o abuso alcoólico de Assunta e do próprio Tim; somando ainda no sentimento negativo os desentendimentos conjugais dos outros herdeiros... Se enervava por falar tentar abrir olhos dos familiares e – ah que horror! – ninguém ouvia. De repente estava ao lado dos filhos ainda crianças a se desentender no rancho, um dia flagrou os dois caçulas se pegando se atirando pedras e montículos de barro. Reclamava disso e não ouviam. Novamente encontrava-se no armazém do Tim. Não entendia aquilo. Mas a quem reclamar, confessar à Maria. Olhava a esposa, seu aspecto era de quem tendo coração duro, com mágoas e num falatório. Corria pra fora de casa, já encontrando novos errados: não estava certo... O Zé Baiano de quem tanto esperara agora deixando a Nena, procura a Nena e de repente já na capital frente a Lola e esta no aguardo ao Zé nem o escuta, não: certamente ouve, não dá mais atenção e lembrar que conversavam pai e filha como dois amigos toda a vida. Michel andava desconcertado com o planeta. Com Ana o Lico o pequeno; com Maria Conceição falava sobre o Chico e ela não parecia interessar-se; junto à Tê, condenava a bebedeira do seu marido, dizia isso e se expressava, supunha, a contento mas ela parecendo surda! Gritou nas orelhas de Domênica, a nora arregalou olhos depois meneou a cabeça desacreditando de si mesma. Que teria acontecido. O velho a suar em bicas, nervoso realmente com o desinteresse da sua gente; nem os amigos respondiam. Tem coisas que nos cansamos gritar e ninguém faz caso.



22°
          Conceição era Maria menos ácida que Maria, a sogra bem mais amarga. Idade. Sim a idade ajudaria entender não explicar visto haver mil outros componentes, positivos negativos, e ainda assim permanecendo incompreensível o ser. A nora não criticava no sentido destruidor ao Chico como Maria ao velho Miguel; nesta altura morto desaparecido fora até de circulação no mundo dos vivos. Ora, é preciso melhor conceituar vivo e esta traduçãozinha quer afirmar que se não podiam ver Michel Malandroni, assim como vendo Baiano a poder destratar o Nico por uma patifaria qualquer no estado inamistoso de ambos; e não podendo cara a cara Miguel ser notado, assim como a Nena não via nunca a Bicha, sabendo dela por terceiros, enganadores talvez, mas tocável sensível igual se aponta os burros a bufar carregando barro na carroça – não querendo isso provar que o velho italiano não existisse. Contudo Miguel ali presente e já se cansando mostrar onde o caminho a evitar o descaminho do filho. Grita inclusive o nome do filho. Chico, não caia nessa, diz. Via longe, descobrira podres no sujeito pretendendo comprar a olaria e todo o fundo de negócio inclusive tropa e apetrechos como fôrma enxada pá e outras ferramentas, a fôrma bastando o presumível novo dono trocar o miolo dela, retirar a marca ‘FM’ de Francisco Malandroni pela sua. Sim e na hora de pagar! Ao fechar o negócio, seriedade; todavia pagar o combinado... e como empregar depois o dinheiro noutra atividade? oleiro é oleiro, Chico, fala o pai. Entretanto pior mesmo o pagamento. Gritou o genitor ao filho a safadeza a má-fé do comprador, um tratante conhecido (dele, Miguel) e o Chico...
          O Chico infernizou desde então a cabeça da mulher. Maria Conceição vivia desabafando com as cunhadas, com a Neca não e logo fugiria do seu Vidraceiro e até da cidade; não confiável e tida linguaruda, não se confia em língua comprida. Mais procurava Ana, para quem até confidenciava o que tendo pejo deixar chegar ao esposo, um sujeito meio esquentado. Não obstante o consorte ia fazendo um mau negócio – desses de se arrepender por uma encarnação inteira – ia e não desejava expor suas ideias no lar. Depois piorou.
          O Chico já não dormia, dormia acordava no sobressalto do pesadelo. Inúmeras vezes sonhara com o pai. Às vezes narrando para sua família o sonho. Daí vêm aquelas questões de interpretar; algo assim parecendo um verdadeiro disparate da noite. E o negócio não saía, saía ele do vermelho na melhora das vendas de tijolos. Embora parecendo passar a crise, decidira mesmo vender a empresa mambembe, apesar dos alertas do Nonno... Não escutava. Ou por outra: Chico era determinado, quando dizia “não” era não, mesmo perdendo e entendendo o sim mantinha negação. Difícil conversar e pior demover gente desse tipo. A Maria não conseguira; apelara à sogra, esta fez como que lavar as mãos ou foi pior: deu ganho de causa e crédito às afirmações do filho. Toda nora compreende bem isso. Então procurava mais amiúde Ana.
          Ana, o Chico endoidou. Vive sonhando com nosso sogro, as crianças também falam nesses termos; eu mesma tive até impressão vê-lo uma noite... Isto abriu margem a se benzerem no costume religioso delas; Ana com certeza ficou temerosa.
          Retomaram vezes sem conta a conversa, sempre no mesmo tom. Um dia Conceição confessa à outra, aflita: Ana, homem não chora, o Chico anda chorando, e negando o choro, isso todos os dias. No almoço ontem corria lágrimas e pensei que ele fosse desmaiar. Ando cobrando dele ir ao médico; que não seja o careiro dr.Mauro, outro, tem um novo na cidade dizem que é dos bons. Não vai.
          Não foi, foi tragado, não obstante avisos do pai aflito próximo dele – foi tragado pelo comprador. Assinou como um boizinho manso a papelada. Ficou sem a olaria e sem o dinheiro. Prometeu em mil promessas exigir desfeitear bater, um dia mais nervoso usou o verbo matar, mataria a família todinha do outro. Parou felizmente na bravata e desceu de posição: se tornou empregado do Tim, o Tim que se levantava da falência no comércio; empregado na olaria do irmão como pipeiro...



23°
          O forno por assim dizer o coração da olaria. Não. Não serve a imagem, ele é mais dela a boca. Enfim toda produção tem que passar por ele e disso vindo o ganha-pão; por esse motivo o forno sobe no conceito oleiro. O coração a banca, a pipa? passemos à boca. O Natalim chucha com um cano comprido de ferro, ferro em brasa na extremidade lá no fundo da boca (boca da boca?) o forno tem no geral três bocas profundas a engolir toras que viram carvão e antes disso na combustão desprendem calor exalam cheiro tocado a enxofre, o calor sobe e queima os tijolos antes crus, se apurando na temperatura próxima a derreter argila; e assim pode-se resumir o conjunto em fogo calor fumaça cheiro – e dinheiro. Realmente o produto pronto no ponto é vendido; para haver uma luta contínua entre a fome a dívida o pagamento, numa equação curiosa. A extremidade lá no fundão avermelhado alaranjado azulado parece que treme, ilusão ótica, e muita vez atraindo sapos e mariposas como que hipnotizados por calor e luz na madrugada fria; os pobres seres se desfazem ofertando nesse sacrifício a vida... Natalim continua a empurrar lenha ao fundo da fornalha, arrastando empurrando já brasas como quase cadáveres das toras incandescidas: vez que outra pede auxílio doutro colega no mister que é uma tarefa pesada; nisso o calor esquenta e frita um pouco as mãos calosas no cano; embaixo coze assa os pés em sapatões caipiras ou mesmo em alpercatas (eles pronunciam como gente roceira “paragata” e até “precata”); um dia noite alta madrugada o Zé Preto carroceiro da fazenda vindo curioso ver a loucura ou brincadeira daqueles oleiros e assim ajudou municiar o forno – mas descalço! seus pés frigiam porém a caninha não permitiu ver a dor que decerto a cinza o carvão o fogo manso ou brabo impunham... Momento para contar causos.
          O Natalim não é de falar, é de ouvir. Com pinga no bucho menos que falar e quase não a escutar. Na hora do fogo forte então... Não estando a criticá-lo o Nico, o Nico estivesse diria “cuidado Lim, a cachaça vai chupar o fogo no cê”. Em geral quando de pileque se deita cedo o homenzinho solteirão. Mais tarde iria já no final da existência arranjar certa velha Maria, tão pingueira quanto ele, e se esborracham na cama a curtir. Para madrugada outra madrugar pegar atrelar a tropa de virar a pipa, pipeiro. Depois, pouco depois de Miguel, também faleceu o casal. Agora não bebeu a contento; e se indaga se há nalgum dia contento para um viciado. Quando não propriamente sóbrio, menos bebum, os Malandroni tiravam o Natalim da pipa para agradar o fogo o forno o tijolo. Os trabalhadores diziam dele como sendo: “um pau para toda obra”, disposto sempre em quaisquer operações.
          A olaria atraindo ao longo dos anos uma série de famílias – sempre necessitando aprender com os oleiros as coisas do métier – famílias roceiras ou apenas os peões, os quais se empregam no que aparecer pela frente; inclusive se afirma destes que sua casa é o chapéu. Uns desconhecidos, outros já habituados nessa atividade na região; entre os desconhecidos um que outro problemático enquanto alguns gostando tanto que acabam adotados; ora servem uma olaria, a do Chico por exemplo, ora outra, a do Lico a do Tim e assim por diante; havendo até vários que passaram pela do Nonno. Natalim foi um desses apensos e trabalhou para o cunhado Tim trazido por ser irmão de Assunta. Era um italianinho ruivo miúdo pequeno magro e forçudo. Bem entendido: bebido pela bebida não virava a pipa no dia; o que provocando muito bate-boca entre a irmã e o marido dela.
          Nessa hora está horas a cuidar do fogo no fogo-forte; então nesta fase não se pode por uns dois dias dormir se deitar descansar; o fogo precisa andar ativado e engolem as bocas um caminhão de lenha empilhada ali perto. Os homens entre eles necessário um realmente da arte e não é o caso do Natalim – a fim de não se fazer bobagem, como deixar passar do ponto ou municiar insuficientemente as bocarras famintas arreganhadas e mesmo gritonas pois que se ouve o barulho surdo e feroz do fogaréu no monstro fumegante a cheirar todo o mundo. Os desocupados ficam a olhar ali o serviço, são oleiros a descansar do dia de trabalho ou só a fugir em metade das caras-metades deles por briguentas e faladeiras e ainda cobradoras; enfim estão ali para um dedo de prosa com os trabalhadores efetivos no fogo; e vai que possa no forno sobrar algum gole às visitas... Natalim não é de conversa.
          Um homem quieto, sem assunto; desse tipo que a gente fica na frente horas, constrangido, fala fala fala e a pessoa não reage parece surda. Natalim desse jeito de gente, não fala e quando fala fala manso, tendo uma característica engraçada aos caipiras espreitando: não diz seu tijolo seu cigarro mas igual Assunta “vosso tijolo” “vosso cigarro” deixando meio perplexos os matutos, tão analfabetos quanto os semialfabetizados. Não tem causo para contar e escuta bem; às vezes a gente pensa estar ele a ouvir e os olhinhos com ou sem aguardente se fechando, o freguês a falar sem graça sozinho. No trabalho entretanto o homem é muito sério, ou seja não brinca em serviço, como o dito popular.
          Depois da queima, os oleiros tratam assim; iriam dizer fritar cozinhar assar o tijolo! depois os trabalhadores descansam dormem mesmo de dia a se recuperar. Sem auxílio da bebida (frequente como prêmio ao esforço dias e noites ingerem sim pinga da boa) sem precisar precisam e vão dormir. A olaria no entanto não dorme, dorme algumas horas apenas de noite, se algum banqueiro não estiver com a produção atrasada, aqueles montes de barro que por qualquer motivo não viraram tijolos ali esperando depositados no rancho... daí um lampião a exalar seu fedor de petróleo queimando ilumina o escuro ao trabalho. Até que na madrugada um pipeiro atrela seus burros, mulas geralmente, para virar a pipa. Nesse entremeio é o sono na olaria. Existe também o clarão da quentura fedorenta do forno a iluminar o trabalhador e o curioso narrando casos mais curiosos ainda nessa paisagem.


24°
          Miguel Malandroni deu de aparecer ao Natalim, não sabendo a vítima se andara bebendo além do seu além costumeiro; ou se sonho impreciso; ou estando sóbrio como possível no trabalho preciso – não havendo no absurdo qualquer certeza nessa dúvida. Contudo não estando o velho nada nada satisfeito com aquele parente emprestado; haja vista apreciar o sogro a nora Assunta e o neto que ela havia feito em comum acordo com o Tim, o parente de segunda mão sempre não agradou Miguel, o qual via o solteirão sem sangue, quer dizer nem oleiro nem Malandroni. Não llhe satisfazendo agora o desperdício na boca do forno e além do mais antevendo um problema: se Natalim dormisse entre uma boca e outra... sim davam uma embocada (municiamento de lenha) e descansavam hora até a próxima no esquente; e muitas quase a seguir emendando embocada a embocada durante o fogo forte. Vai que o homem dormisse e estragasse a fornada! Não se pode confiar em quem não oleiro de quatro costados e piormente tomando seus tragos... Grita, fala bravo enérgico sério respeitoso e depois sim, que diabo: grita para acordá-lo. Natalim com olhos fechados ou fechando, deve ter cera de mais nos ouvidos e assim prossegue lento, parecendo o cunhado. Tim? o filho o pai a alcunhá-lo “doce” ou seja na sua linguagem de entendimento apenas na família lerdo, amolentado – o que algo próprio em pôr enraivecido um homem que tudo fazendo a fazer ligeiro correndo rapidíssimo, só acompanhado por Lico, o hominho igual o Nonno parecia ter muito eletricidade e velocidade, contrário dos outros pobres mortais. Assim Miguel nas atividades comuns, só o Lico lhe puxando nesse traço; enquanto os outros somente seres normais. Aqui a tradução relembra se já discutiram concluindo sobre normal. O velho sempre não costumava mandar, fazia. Não por qualquer outro motivo mas em virtude, se virtude, dele mesmo não ter paciência a esperar o cumprimento da ordem ou pedido. Ora, vê agora no reflexo luminoso e na quentura alta do forno aquele pinguço lerdo com cara de sono... Esbraveja.
          O Nonno, guardadas proporções, fazia de tudo nas artes oleiras. Fiel ao ditado que afirma os olhos do patrão engordam a criação – andava frequente se não a fiscalizar os tíbios e incapazes ao menos executando ele mesmo as coisas por fazer. A prole observava já acostumada aquele vaivém do pai e sua exigência de correção quiçá perfeição no feitio do tijolo e nas ocupações atinentes ao serviço. Se deu por essa razão choques, conflitos pequenos e grandes, com a Nonna... “ah minha Nossa Senhora!” diziam num pedido-lamentação aos céus na fraqueza dos homens os Malandroni. E deu igualmente desacordo entre ele e os filhos. Com agregados não, ou bem menos, pois submissos e o velho tido por autoridade e conhecedor dos meandros do que se fazia. O Natalim é um desses apensos a circular entre as famílias dos oleiros. Nessa hora Miguel mostra como devem ser feitas as tarefas e pega no pé do pobre, inclusive nas questões menores: por exemplo como que o mesmo atira de qualquer jeito a alavanca de aço a ajudar mover uma tora mais pesada na lenha; e diz alto pra ouvir quem sabe o planeta: e se a alavanca que você deixou atirada a esmo se misturar se perder por baixo do monte de lenha! não pensou no dinheirão que paguei para comprar a ferramenta? Não pensou, não ouviu sequer, dormindo ou acordado em madorna com álcool no miolo. Michel balança negativo a cabeça, deixa o empregado e corre àcima do forno na capa, fiadas de tijolos deitados a cobrir as pilhas de tijolos pra queimar no forno. Quando vê se vê com os pés a esquentar arder queimar também na alta temperatura que sobe lá em cima e sente direto o habitual cheiro do fogo forte a exalar por toda região. Olha entre os trincos as frestas dos tijolos da capa: embaixo naquele alto os tijolos queimando são brasas vivas belas maravilhosas e – se porventura se tomasse um deles, a peça queimaria marcando destruindo a mão humana – e assim o Nonno, experiente, apenas olha examina a possibilitade de estar no ponto o material vermelho alaranjado incandescente e então sorri parecendo general em batalha, já vencida, vencida não a guerra a etapa. Sorri. Quer após comentar com alguém aquela vitória nada de pirro mas convincente, com alguém capaz de lhe provocar alegria imensa somente inteligível a um oleiro de alta cepa. A quem se dirigir! àquele moleirão, mais lerdo ainda que o Tim...
          Não viu, quando viu via lá em cima a quentura; e novamente quando se percebeu se vendo embaixo como num passe de mágica frente ao bebum. O bebum cochila semiencostado ao monte de lenha na madrugada. Miguel se indigna esbraveja explode. Nem o sonho do outro escuta seus gritos...



25°
          Quando o patriarca dos Malandroni andava se findando; embora entremeio à enxurrada decorrente de sua fraqueza física, dos deslizes morais em que escorregara, do falatório dos seus a criticá-lo, da crise financeira na qual se envolvera e à família – embora tais aspectos ou trágicos ou cômicos, ainda se pensando um homem. Quer dizer, era um homem e homem sabedor de não ser como quando jovem e então se imaginando um macho pra valer, quem sabe a vaidade a gritar-lhe o orgulho por ser visto desejado por muitas mulheres (alguns adolescentes exageram a julgar serem todas no planeta, a febre passa, passa a existência). Mas agora não era mais hora. Seu ser conscientizava a sobejo nada quase mais ser do pouco ser, válido a um velhote adoentado e fraco.
          Debalde o dr.Mauro o advertira nos cuidados, ou... Todos entendem isso. Nem todos, alguns entre muitos se esquecem ou enceguecem ou se perdem nas ilusões; que as mais das vezes não passam mesmo de ilusões. Estava assim configurada a situação de Miguel, se não consciente ao menos advertido, ou apenas querendo ele se iludir ser forte ser ágil ser positivo, ter enfim algum valor.
          Então fugiu, decerto da falação da Nonna? a qual já não mais falava com seu companheiro de tantas décadas. Não: fugiu dele mesmo, enfermo e objeto de preocupação dos filhos – saiu ainda madrugada. Deixou a av. Carlos Gomes com pouca febre, segundo a aferição no mais ou menos, comum ao homem comum, rumo à olaria. Distava a mesma uns sete quilômetros, quilômetros dos grandes e bem medidos, da cidade; o que pouco a um roceiro e a um italiano acaboclado. Não cumprimentou ninguém, sequer por falta de educação, por partir antes de outrem, as ruas a estrada de terra poeira e vento vazias. Marchou célere se achando fortalhão de novo o velho. Chegou.
          O fogo avermelhava o ambiente, o sol não alumiava o horizonte ainda, o forno num clarão longe dava pra ver, perto dava para sentir. Sentiu afogueado o rosto mas atribuindo à boca à brasa à fogueira na sua frente. Não se conteve: um oleiro que esteja a passar perto duma pilha de tijolos na rua olha toca experimenta bate num o outro tijolo para ‘ver’ o som; faz rápido como o corisco análise das peças expostas e se pergunta e se responde: está queimado, é forte, que tipo de barro usaram, não terão passado do ponto na queima deixando o mesmo chocho, não trincou, não está desclassificado e de quem veio, de qual olaria provindo e daí examina as marcas a comprovar. Tudo quase num relance. Vê tudo, tudo sabe do assunto. Ora, e quando além do vício oleiro o oleiro igual Nonno está de frente ao crime! sim isto imagem e aqui o crime é o certo o direito o máximo em alegria (por que não felicidade!) pois que ao oleiro tudo que toque ao tijolo queimando é o auge do que deseja alcançar. Sendo mesmo oleiro, repita-se. Miguel se encontra cansado sim quem sabe até extenuado e a ferver em febre num estourar o mercúrio no termômetro; sim porém sente um contentamento só inteligível a quem viveu ou vive no barro do barro para o barro, ele que andava mais perto do pó... Um contentamento indescritível, mas nem o contentamento desse jaez pode segurar um trabalhador obcecado pelo seu interesse e pelo seu afazer. Imediato, como mandava sua idiossincrasia, rápido subiu examinar os tijolos em cima fumegando amparado ele na capa de muitos graus na temperatura – como aliás já havia feito ‘ene-vezes’ na condição de dirigente dessa pequena indústria – subiu e permaneceu quase hora a estudar a queima, decerto já pensando resultados pois demais imaginativo; e dali pulou lá embaixo, coisa de uns três metros se tanto. Realmente não pulou pulando como o fizera criança emigrado da Europa; usando uma escada precária; aprendera talvez a precariedade nas coisas com a gente da terra, como é de fato a precisão entre caboclos. Os oleiros pregam improvisando com sobras de lenha fina e restos de tábuas sobre dois troncos nem sempre maciços e fortes uns lances desiguais – um objeto digno de estudo artístico... – e nessa geringonça sobe desce: às vezes cai xinga conserta usa novamente noutra fornada ou vai ver onde a goteira na falha da folha de zinco mal posta e por isso a perfurar embaixo no chão do rancho o tijolo verde (claro cru, queimado não derrete o material; aqui certa nuança: verde é mole, cru mesmo é a peça seca sem queimar). Miguel sobe, treme e treme toda a escada, se equilibra, chega em cima, toma aspira recebe o vapor deletério exageradamente quente e após esse abuso do uso desce; agora treme também não apenas por faltar equilíbrio na madeira cruzada, decerto pela febre. Chega em baixo olha em cima, corre (aqui muitíssimo devagar) corre ver outros senões, sol já alto, não critica erro no sol: na gente. Ah não se faz mais oleiros de fato como antigamente. Não terá proferido assim não sendo referência ao seu tempo entretanto pensado nesses termos. Ficando mui irritado pela falta de consciência oleira.
          Agora a febre atira suas setas com toda força, inúmeras setas, inúmeras vezes, no pobre gasto fraco enfermo corpo do velho. Teimoso? teimoso. Retorna a pé à cidade, na olaria não aguentou dirigir-se a ninguém; terá quando muito acenado a um que outro a se levantar tarde ao serviço, terá respondido um bom-dia quase devendo ser boa-tarde. Enfim chega empurrado pela falta de coragem à sua casa, sua mas do senhorio João onde os Malandroni assentando o lar.
          Adentra cansado se arrastando, arrasado. E a queimar mais que seus tijolos pelo fogo da febre.
          Chamam, alguém de boa vontade vai buscar, chamam o dr.Mauro. O médico surge passa um sabão (falavam assim à raspança) de leve injuria o paciente teimoso; os amigos podem exagerar na sua língua e o doutor mostra o vocabulário da intimidade. O enfermo sorri meio chorado, constrangido, quem sabe arrependido.
          A pneumonia fez o resto em forma mais ou menos galopante, galopante como o dizer na época.



26°
          Lá dentro da casa de um deles a falação corre solta; os ânimos exaltados por não se sabe o que nem o primeiro ofensor lembrando mais, então a Neca solta os cachorros (isto dito popular) a gritar e ouve em contradita desaforos; as vozes, nada mansas, as vozes se cruzam ora grossas como a do Chico ora finas igual a da Tê, Tê em conversa normal (substituamos na tradução por ‘comum’ visto o sábio não resolver nem atinar que seja de fato normal:) sim ela no diálogo comum de comadres bem comportado e numa voz sempre fina mas não gutural como agora a desabafar suplantar berrar mais alto que a mana caçula – em suma discutem os grandes, embora a Neca desta altura apenas; discutem faz tempo não se entendem realmente o que deu início à discórdia. Lá dentro da casa.
          Fora, perto do mau exemplo adulto, as crianças se desentendem melhor para no fim se entenderem ainda mais. Debaixo no rancho, na ponta onde o monte de areia. Areia? é areia simplesmente porém escolhida e sem impurezas. Uma das funções pipeiras é trazer para uso geral com preferência à banca a areia branquinha; geralmente quando se faz a descoberta no barreiro (a parte arenosa por cima da argila) então esse material é levado depositado na extremidade do rancho e aí dorme. Os adultos juntam protegem limpam a areia; daí a vez dos meninos: sobem esparramam carregam distribuem pelo chão de maneiras as mais variadas – enfim criam dentro da imaginação um mundo de coisas; e sujam e se sujam. Trazem cacos, a olaria é rica em pedaços imprestáveis de tijolos; trazem tocos pedras penas trapos restos brinquedos... brinquedo oleiro passa sempre pelo barro. Compõem os criadorezinhos mil formas. O curioso é a forma falar gritar chamar responder interceder apelar e mesmo xingar; aqui pedem auxílio ao que escutam eles no lar, sobretudo quando das encrencas conjugais; também são férteis na criação de outros nomes feios; além de atribuir alcunhas ou palavras que possam com mais categoria detratar o seu desafetozinho.
          Assim estão os pequenos fora, dentro do rancho; o rancho é um galpão comprido coberto com folha de zinco, tendo de espaço a espaço mastros de árvore pra segurar o madeiramento e a cobertura – para defender o básico numa olaria da região que é o tijolo. Da região, pois noutra geografia o barro de natureza diversa e por isso dispensando defesa da cobertura não trincando ao vento ao sol. Na região o vento campeia solto, o sol lá fora, ali encostado o tataratá do bater fôrma na bancada e a conversa adulta, desinteressante aos guris, um que outro zurro da tropa por perto. Isso na semana. No dia santo, que é o feriado caboclo e por extensão do oleiro e no domingo, lá longe os gritos no truco adulto ou a conversa desenfreada, a voz estridente do tio Nico ou a da tia Neca ou mesmo doutro tio e inclusive da gente de fora lá dentro. Os meninos? estão a brincar mas de preferência na areia...
          Agora é a estrada que sobe rumo ao pico da montanha... A montanha some de vista tão grande tão alta tão imponente, sua areia a escorregar pela força da gravidade solta parte e partículas pra baixo, a estrada toureia a dificuldade e em zigue-zague sobe vence encontra-se no cume! Umas vistinhas a piscar muito seu futuro nervoso veem dessa altura a planície que se perde como suas areias ao fim do horizonte vai além do horizonte até ao fim do mundo que não tem fim, a se perder. Será decerto deserto, o de Saára... Não tem! Como não tem se meu pai leu pra nós a estória e tinha... E os camelos e os beduínos na pachorra da caminhada. Todos se indignam e todos veem assim e todos dão palpites, com exceção do Peri, o qual apenas sabendo ciscar estragar as coisas da gente. Os brinquedos andam distribuídos esparsos fixos na área da areia de um ou de outro dono; vez que outra um se quebra, o barro trincado antes ou baque na falta de jeito no manuseio. Alguém chora. O mais chorão é o caçula do Tim, mimado derrama lágrima por qualquer; os outros não: soltos na areia. Todos primos falam opinam investem na verdade da sua mentira no faz de conta; não só primos pois vários colegas vindo das famílias de trabalhadores porém não do sangue Malandroni; com um aparte sobre o Peri que talvez seja primo também por sangue; estão ali na algazarra, com direito a voto – toda criança tem esse direito pra não ter inteiro quando madura. O cachorro não pensa nesses termos, só quer participar. Aqui os gritos, a fala é infernal e não suplanta a lá na casa, na casa os berros delas e deles já na posição não somente de atacar mas de impor vencer a guerra e nisso o general mais poderoso é uma ‘generala’, que se casaria com o Vidraceiro. Resumindo e comparando: na areia também já sobra areia nos olhos e som nas gargantas, ainda assim não chegando a espantar o mundo; o que bem diverso no caso da casa, a discussão entre pais e tios no de sempre.
          Elinhos retomam – sem haver parado suspenso só, uma que outra criança indo pra sua casa ou atrás doutra brincadeira mais séria – retomam o faz de conta, contam estragos (opinião adulta) contam as peças de barro e de tocos e de pedras. Alguém se incomoda e reclama doutro haver, sem querer, desmanchado a estradinha, parte dela, pisando ou por qualquer razão sem propósito. Ou foi no pocinho cavado na areia e mais profundo indo chegar no solo duro do rancho quiçá no Japão. Trocam-se bens, um bicho de barro por um caminhãozinho de barro, ou a boneca de espiga por outro objetinho de argila, queimada ou não. Isto porque muita vez no forno encontrado sorrateiramente entre a capa e a sobrecapa (oleiro põe embaixo da capa que é tijolo deitado outra fileira intermitante que chama a sobrecapa sendo de fato ‘sub’capa) enfim entre tais coberturas no forno o oleiro adulto descobre ao tirar o tijolo pronto brinquedo do oleirinho, posto aí para queimar dar novo colorido e ficar conforme o tipo de barro usado mais belo mais forte e mais leve. Na areia é comum brinquedos queimados ou crus. Se dá encrenca no local da brincadeira! encrenquinha, uma gracinha. Longe do teor da graça, que é uma desgraça dever-se-ia afirmar, longe da encontrada na casa no adulto no enfrentamento, desnecessário talvez...
          Agora começa nova encrenca, bem mais séria encrenca; começa mas podendo ocorrer noutro dia, a segunda-feira que é dia da preguiça e que o oleiro a copiar o roceiro usa para ir à cidade fazer compra, com horror e desaprovação patronal, a chefia interessada é na produção. Sim, a sujeira as coisas espalhadas no chão do rancho e sobretudo o estrago no monte de areia... Então, que fazer! então os adultos recolhem o butim da guerra ajuntando trecos espalhados, novamente ajuntam a areia. Ou não podem trabalhar. Além do ataque sub-reptício do virus da preguiça, pois não é uma segunda?
          Natural que os trabalhadores reclamem advirtam e alguns até surrem os seus pequenos por isso; uns poucos pais sorriem ou da arte ou pela lembrança terem sido meninos um dia. Reclamam e mais ainda pelo que fizeram os fedelhos no tambor de água. Oh, que fazer com criança. O tambor serve para resguardar as ferramentas como a fôrma e a enxada por exemplo, contra o ressecamento; então mergulham o que de madeira para inchar no tambor. Agora? na segunda-feira, agora somente nesse domingo atiraram areia dentro e brincaram com as ferramentas. Um dia – sem haverem adultos encontrado, lógico, o dono do malfeito – nesse acharam o tambor deitado, água escorrida infiltrada sugada pelo monte de areia.
          Ah, uma revolução, uma guerra.



27°
          Enquanto isso Miguel, fosse a fugir da barulheira quiçá das blasfêmias adultas, num correr ver os netos. Adorando criança – aqui adorar mesmo como se faz a um deus – vai perto, meio longe, da meninada. Sobra ao avô servir vez que outra de juiz nas causas já ganhas delinhos; porém o que mais ocorre é observar admirar apreciar aquela conversa plena de tanta imaginação sem as maldades do mundo. Sim, consola algum choro enxuga alguma lágrima mas que mais faz o velho é sorrir e olhar em distração o ‘saarinha’ com sua areia e seus camelos. Outras vezes mais tarde voltou ao parque infantil, com resultado decepcionante: ninguenzinho lhe trazendo questões para deixar ser problemas... Então assustou-se; se espantou e perdoou.
          Não sabendo como, já estando longe das crianças o pai do Chico, e se pega em frente ao filho. Chora o homem, homem não chora, chora esse homem a repensar erros nos negócios...
          Este texto tem insistido, e no trecho com uso de muitos tês agora, na tese de que os Malandroni filhos de Miguel pararam nos três ou quatro herdeirinhos – aqui relembrando o velho com sua velha na prole numerosa no costume da época – os outros filhos nos quatro enquanto o Chico extrapolando na produção com sua Maria aí por dúzia! Pois bem, o Nonno se aproxima do Chico, não cobra isso, claro, mas preocupado no seu sentimentalismo vendo um macho pra valer com lágrimas (vamos lá à verdade em verdade: semiescondido, não iria em público chorar feito mulher ou menino...) e pensa e conclui igual fazia intempestivo o velho quando novo na iminência dizer sem pensar: você não estará chorando por ter posto no mundo tanta criança!? Que bobagem falamos pensamos falar quando como que absortos a imaginar coisas. Anda tristonho por muito mais coisas na existência, hoje numa fase difícil. Não pelos garotos, por sinal a caçulinha linda como a Neca quando menina... ah a Neca nestes dias... deixa pra lá isso. Não pelas crianças, diria redarguindo ao pai, pelo gasto com elas. Sua casa é pesada e por ainda perder sua olaria, precisando ter que trabalhar de empregado para o Tim!
          O Chico é pipeiro de mão cheia. Esta expressão mui usada pelos oleiros, Miguel então abusa dela. Faz de tudo numa olaria mas é por definição um pipeiro; trabalha produz conhece como ninguém os lances da pipa. Sim porém agora se machucou, quebrou um braço e como empunhar a pá cheia como levantar carregar a carriola com montanha de argila; machucado, na tipoia de trapos já encardidos parecendo de criancinha sem cuidado, não adianta a Maria pegar-lhe no pé. De maneira que o Tim o substitui, traz por uns dias, que aliás se prolongariam demais, traz um tal de Zé ao seu lugar, o Zé Pipeiro.
          Tudo leva a crer que esse homem ou tenha visão de raio X ou de qualquer forma possa ter um sentido de direção para não sair por aí a trombar com seu veículo de uma roda pequena e grossa pregada com tira de pneu – havendo à sua frente montanha de barro a tapar os olhos! Não obstante o Zé, decerto José essa gente oleira bem como a roceira perde ou esquece o nome e se prende mais ao apelido, o Zé vê e acerta nesse erro: vai empurrando a carriola estando cheia até ao cume do não-se-pode-ver de argila, um peso enorme, a ziguezaguear por cima dumas tábuas enfileiradas que balançam afundam torcem à passada do carro; o homem além do mais tem o cuidado em não pisá-las, e vai toc-toc pisando sim o chão de lado com pés vestidos num calçado popular, a alpargata, que é próprio para não esburacar o solo arenoso e já preparado a servir de lastro aos tijolos moles. Ele segue, rola um pouco mais o carrinho e num uf! que não diz, tomba a carga pesada em fileira a outras cargas anteriores, como fossem pelotes enormes fazendo quase um canudo ou uma centopeia gigante comprida em gomos da argila escura.
          É quase com alegria (aí diria mesmo uf!) que ouve o banqueiro, seu colega que bate o tijolo ou que seja prensa porção de barro na fôrma adredemente preparada; quando enfim ouve o esperado “chega por hoje, Zé”. Ele faz média com o outro: “já que é suficiente... se quiser mais dois carros...” aí mui torcendo pelo não.
          O Zé trabalha na pipa ou se se quiser misturador da argila. Tem na pipa atrás acoplado o picador, um retângulo cavado no chão onde a matéria-prima dormiu em muita água; isto já dito mas é bom repisar nesta tradução. Nele o homem musculoso embora pequeno põe um pedaço de tábua a fim de não afundar na lama; aí com a pá toma ora porção de barro escuro mais liguento ora outra de saibro mais arenoso e atira em cima na cabeça da pipa para que ela moa e misture a matéria e dê embaixo doutro lado, como fosse imenso ânus (aqui imagem também repetida) um cordão argiloso já misturado e pronto para uso ao futuro tijolo. No geral tem um companheiro que faz o serviço de encher a carriola e levar ao banqueiro dentro do rancho onde o mesmo faz o tijolo. Não é o caso do Zé. A caçula da família toma quanto pode de barro, de acordo com sua compleição, põe no carrinho em carga e, quando não der para ver a frente, não para ela que é menina-moça e baixinha e miúda, ao pai, o qual não enxergará de tão alto – então grita o Zé. O Zé para os burros, dois deles que viram a haste da pipa a fim de misturar o barro, para os animais, larga a pá grudenta, sobe ao nível do solo, segura firme os cabos da carriola cheia; e vai tentando não derrubar a carga antes do tempo. Nunca derrubou.
          Curioso nisso é que é um homenzinho, forte mas pequeno e escuro de pele, aqueles músculos a saltar dos bíceps, uma fortaleza andante. E aí ziguezagueia até seu destino, a banca de fazer tijolos. Pegou madrugada e largará o trabalho cedo, cedo aos padrões urbanos que são as 18 horas; às 15 ou 16 já solta a tropa, se lava no mais ou menos e vai pra casa, às vezes dá uma prosinha com alguém. Dona Maria, também conhecida por Maria do Zé, está à sua espera. Não vai almoçar, por vezes come no serviço num caldeirãozinho amassado arroz e feijão, toma café, já tomou toda hora café como boca de pito um golinho para fumar. Em casa come mais mandioca cozida ou resto do almoço; café de novo e aí sim bebe um pouco. O  Tim diria “demais...”
          Pouco ao Zé é muito a derrubar qualquer um. Então se deita ou no chão de terra batida na sala mesmo ou na cama para a mulher reclamar “o porco” a sujar o lençol. Dorme imediato; nem ouve inteira a reclamação da esposa.
          É uma senhora esquálida e bem velha por enrugada precocemente, feia, gasta embora moça ainda; acabada. A série de partos, os filhos mortos até o único macho; as preocupações com as filhas casadas ou malcasadas (têm as que apanham; têm as que brigam com os maridos); os netos doentes, ah vida ingrata! Em casa sobrou a Zefinha e essa não casa ou por feia ou por tímida ou por doente ou por caçula.
          A caçula ajuda o genitor. Não tem ambos os melindres e delicadezas do carinho mas se estimam. No meio rural onde fica a olaria pobre é assim com todos, raramente os afagos e gestos de amor; têm mais querência e atração que outra coisa. O normal. Ou comum? A caçula é miúda magra e corajosa. Ajuda a mãe e trabalha qual homem com o pai. Não tem desses nhe-nhe-nhens da limpeza, cheira quase como o pai dela, um cheiro azedo de corpo; apesar disso a menina não possui a exalação do tabaco e do excesso etílico do chefe da família. Cheira. Pior quando está menstruada, eles chamam na roça “paquete” e ela tem vergonha disso e também mostrar as vergonhas. A garota mistura esses cheiros com o da roupa encardida usada diário, dentro do costume da gente pobre no campo. Ninguém arrepara nisso, que é de toda gente. No entanto é trabalhadeira.
          Agora ambos membros femininos tentam acordar o Zé, a cachaça já fez estragos físicos, mais próximo fá-lo dormir roncar.
          E é preciso ir pegar os burros, um é mula, pegá-los no pasto cheio de carrapicho e carrapato; depois prendê-los num cercado que chamam piquete para na madrugada o pipeiro, o Zé, tê-los às mãos para virar a pipa. “Eia!” ele diz.
          Não apenas isso, falta muita coisa pra fazer no dia que se acaba: discutir com a esposa por exemplo; e passar uma raspança na filha. Porém a dose de hoje – o barro em cansaço e a cachaça em descanso – a dose foi braba...
          Quem acordará o homem!
          O Tim o despachou logo, mais confiante no Chico.



28°
          O Chico desceu de posto virando mero pipeiro do irmão. Mesmo assim fala nesta reunião como um empresário e pode fazê-lo pois conhecendo muito do riscado. O Tim seu patrão longe dali vendo negócios enrolados; as meninas fora, meninas mas adultas casadas até enrugadas como a Nena que mostra no abandono hoje mais a idade; a Neca mais faladeira mais de gritar fora também, inclusive se mudando para a capital onde fugira do seu bebum. Elas enfim não contam porque neste momento não é propriamente um clube fechado dos homens mas em que eles tratam só de negócios e nem é domingo de cartas de baralho nem de copos de caninha não se festejando coisa alguma – até pelo contrário... – tratam enfim de problemas sérios a si pertinentes e quem sabe insolúveis. Inclusive quase falam baixo como determina o segredo e os temas que ficam em forma de camisa de força no lar; contudo não é um lar, lar apenas do Chico. Algumas delas ao redor da Conceição, elas referem-se a ela como “a Maria do Chico” ou só Maria; todas, todos já sabendo a referência sem confundir com as outras marias, a Nonna por exemplo. Ficam meio confinadas na cozinha, enquanto eles no terreiro longe nesse perto e distante da garotada barulhenta que pensa tudo que existe no mundo seja brincadeira e gritaria. Os homens estão num meio ruminar.
          A coisa se situa na crise, no avolumar da crise. Falta de numerário? venda pouca? dramas miúdos com empregados? o fisco feroz? o relacionamento entre os Malandroni? tudo isso porém mais a questão da concorrência, desleal como se pensa a concorrência. O Nico já em vias de partir com a amante e nisto não fala nem fala como hábito gracinhas sequer critica; critica sim no sentido positivo e coletivo sobre esse negativo visto estarem os manos de acordo, assim Nico fala sério. Lembra o pátio ferroviário. Estão trazendo de fora do município não só telhas que não fabricamos com nosso barro fraco e também tijolos! Viu as gôndolas de trem despejando tijolos branquinhos. Discutem como bons interessados oleiros o barro preto dando tijolo branco vistoso chegado a concorrer... a torba de um lado e a argila arenosa fraca pesada desta região. Falam sobre as técnicas usadas nas olarias de fora; olaria não, corrige o Pedro, até o Pedro nisso falante a dar palpite válido despertando atenção dos manos, olaria não: cerâmica. Põem na discussão agora a parafernália o instrumental numa cerâmica moderna, voltada à produção em grande massa e não como nas suas respectivas sub-indústrias, todas elas manuais e com mão de obra cara... ah os empregados. Cada um coloca seu caso na pauta e os exemplos. O Lico às voltas com uma família na olaria que ele toca (oleiro a dizer “tocar” se põe como verdadeiro dono da empresa, embora quase sempre endividado). Creia, diz, só me fazem macacos, contam a mais os tijolos, se endividam nas costas da gente e ainda afirmam que o patrão rouba! Pois não é que foi um me dedar no departamento do trabalho. Todos os presentes se alvoroçam; como bons brasileiros têm horror às coisas de governo, deploram o fisco, só veem corrupção e ainda pior: temem. Nesse ponto o Miserê lembra o Parnaso...
          Miserê talvez ele mesmo haja esquecido o nome de batismo, o peão pobre na época sem registro fora o de batizado, no entanto o apelido vindo por cantar repetir repisar o refrão duma marcha carnavalesca “trabalho não tenho nada, não saio do miserê!” pegou nele. O Miserê um agregado entre os Malandroni e embora empregado, de confiança, e portanto no grupo com direito a voto. Nessa intervenção pronuncia “Parnásio”, os outros também assim; um Parnaso sem qualquer poesia, para eles bem longe disso. Porque os tijolos de fora têm vindo sempre de um lugarejo chamado Parnaso; o trem despeja e mais despeja no pátio o material e assim a praça anda cheia estourando em oferta e preço... Então pra quem vamos vender nosso tijolo!
          A coisa está feia. Não sabem e o Chico anda agora mais sem forças para saber. Os manos dele ainda com olaria própria funcionando, mas sem capital de giro. Os respectivos pátios abarrotados sem saída! Agora falam não do pátio onde as mercadorias vindas de fora, inclusive tijolos; tratam dos seus pátios onde empilham tijolos queimados rosados estocados e sem perspectivas a irem às carrocerias dos caminhões que levem a carga ao centro urbano.
          Não encontram solução. É uma crise. A crise não acaba, perdura a interrogação. A reuniãozinha sim, se desfaz pela intromissão dos meninos e por uma que outra questão das mulheres, as quais embora com bule xícaras café a alegrar um pouco o ambiente carregado lhes trazem também outros problemas domésticos; tanto quanto difíceis.



29°
          Tê era mulherinha magra quase seca por determinação da natureza. Era. Tempo verbal válido a todos Malandroni – os futuros presentes então já decerto no passado agora: esta tradução não acompanha os descendentes – todos, pais e filhos, faleceram comprovadamente ou desapareceram sem deixar pistas; e, falecendo, a enfileirar atrás de Miguel, o qual num féretro simples saíra da av. Carlos Gomes. Era magrinha baixinha e fina mas forte; exagero afirmar fortalhona, fortinha. Feia? bela? tem a opinião da vizinhança, tem a da Neca e doutros familiares sobre, negativa tanto quanto, porém isso não convenceu o alemão Frederico visto se casarem. Além disso havia um lance válido para todos do sangue, que era o valor e a virtude no trabalho; o qual vez que outra faz anular ou contrabalançar apenas o defeito se feiura defeito, por essa virtude mundialmente reconhecida. Trabalhadeira em casa, ouvindo dona Maria pegar no pé das fêmeas da família; e onde mais se fazendo sentir o valor sendo no rancho. Tê uma banqueira de mão cheia. Este elogio compensa ser repetido pois era a mulher homem no trabalho pesado. Todavia cobrava um preço alto por isso falando falando contra quem lhe estivesse ali em auxílio. Banqueira, levantava o pastão (o bolo de barro a prensar na fôrma) levantava sem mostrar fraqueza assim como fazia com agulha e linha no pano. Trabalhava ora quieta aparentemente imperturbável ora tramelando sem parar ao ponto de irritar a Lola ali tentando ser lançadora ou companheiro outro, outra que fosse. A Lola não aguentou a experiência sequer uma semana, isto para não dizer como falavam que nunca sujou suas mãos vaidosas no barro; voltou para os trabalhos domésticos, muitíssimos porque Maria inventava mil afazeres a ocupar as filhas ou porque numa casa grande os serviços exageram mesmo; ou terá então tornado ao lar com saudade da mãe... contudo o desafeto preferido da Nonna era de fato a Nena. Tê recebera como lançador algum menino e por fim enganchou firme fixo não frouxo à Neca, ainda garota sem seio. Se deu o encontro bate-boca dos grandes entre pequenos, claro. Tê determinada, além de caprichosa e interesseira: queria produzir mais que outrem noutra bancada, sobretudo tendo alguma rixa com o colega a fazer também seus tijolos. Rixa benéfica à olaria se vê por a produção aumentar consideravelmente. Tê pretendia, para tapar a boca do banqueiro concorrente (da concorrente pois duas jovens duma família empregada por Miguel) pretendia forrar o rancho inteirinho, tal qual um tapete, com tijolos! Tudo positivo.
          O que negativo eram seus conflitos com irmãos. Ora era o moleque Nico a atrapalhar vindo cochichar com a Neca ou tomar em brincadeira uma pelota de barro donde ela retirava o seu para embocá-lo na fôrma – e por que, dizia, não vai o safado roubar argila na boca da pipa! – ora outro menino e até adulto a xeretar nas imediações da área sagrada do labor e portanto atrapalhando. Ela não: era ação contínua e não parava sob nenhum pretexto, não parava falava fazia e ralhava; a Neca sim suspendendo a tarefa a dar atenção para outra pessoa, assim parando de lançar, diziam “lanciá”, com as tabuinhas tirando da fôrma o tijolo mole e o depositando ao chão. Certa vez derrubou o tijolo das tabuinhas na hora de colocá-lo no solo, exato a conversar com o Nico, o que deu um falatório sem tamanho por parte da chefe no serviço, a Tê. A Neca sempre parava, parava também todo o serviço. Ora bolas, em toda atividade humana sempre existiram os que estacam quando falam e ficam olhando ao dialogador, parados! outros melhores ou piores falam andam fazem, sem desfeitear com isso a pessoa com quem conversa ou só ouvem; esta forma, sem precisar que se tome por falta de educação. Acontecendo por irritação (e ocorria diário) de não parar mesmo era a língua da Tê, minando a paz do dia.
          Agora, presente nesse ontem do passado, Tê, tarde, início de noite quase já a acender lampião para acabar o trabalho – ela conta as bandeiras. Pedira além das forças, quer dizer que por ambição de fazer muito mais unidades na sua banca que a banca das outras lá no rancho de cima, ela e a Neca no de baixo de par a par com o de cima, bem além do que poderia ir nas forças normais (comuns?) e então pedira ao pipeiro Messias mais carros à sua bancada; daí o acúmulo de serviço. Carro é a mesma carriola com argila em cima e a despencar a carga de barro no chão da banca; dito a banca de Tê. Via-se no local uma fileira interminável de montes avermelhado-escuro de barro no solo, desde o tripé da banca até chegar no extremo inicial quase na boca da pipa! era uma fileira a imitar na aparência minhoca centopeia linguiça – um horror, pra quem tivesse que engoli-la no bater da fôrma; uma beleza doutro lado na forma em zigue-zague semelhando estivesse ébrio no tombar o carrinho o pipeiro Messias; e ele sóbrio no serviço, apenas bebendo de mais no de menos da solidão visto a Zefa haver ultrapassado a porteira, a porteira que importunava e sangrava o coração do homem da mulher, ao bater bater no vento na noite na madrugada... A Tê conta.
          Conta soma registra no tijolo da última bandeira com palito usado de fósforo um garrancho de número; nuns algarismos que quase nem conseguindo a mesma Tê depois ler! para prestar conta (sem brigar com o pai, veja-se bem:) para enfim dar a soma da produção dela a Miguel. Não obstante a Neca... ai a Neca: interfere na hora em que concentrada nas grandes matemáticas, Tê não sabendo aritmética simples que dirá álgebra e outras loucuras! Interfere a perguntar bobagens a falar e falar, melhor fosse apenas resmungar não atrapalhando, numa voz alta. Reconta, irritada agora ao lume do lampião, o estômago grita a sopa da mãe feita pela Nena que queima demais o alho ou pela mana Lola, o caldo a fumegar, imagina os irmãos a sorver chupar estalar no líquido quente; e todos já foram embora, inclusive as bestinhas da outra bancada, só a Neca ali e ainda assim obrigada pela banqueira em segurar pra ela o lume claudicante agora na ventania que assopra na noite a chegar. Uf!
          Amanhã, diz numa voz que irrita a outra, amanhã eu vou pedir menos barro... Aí Neca abre um sorriso para aquele próximo futuro... e a irmã completa: mas só porque está acabando o terreiro do rancho, ou faríamos tijolo lá fora?
          Natural o desserviço desta traduçãozinha, pondo ou tentando pôr na língua culta reformada a linguagem bastarda da gente imigrante oleira roceira, povão enfim. Em virtude disso elinha pede desculpa agora; sem saber, e soubesse ao menos, para quem pedir...
30°
          Um dia, tardezinha, chega de manso o Tim junto à bancada da Tê. Quieto, mas como sempre quietarrão e enigmático o mano mais velho, não se permitindo nunca a descer ao tró-ló-ló mundano dos outros. Fizera mais que isso: afastara Neca num subterfúgio enganador pedindo-mandando que a garota fosse buscar café na casa da mãe deles. Então a sós, só então despejou na esposa o drama próximo passado infausto do esposo dela, o Frizo. Tê, disse embaraçado, Tê há uma coisa que devo comunicar... Ela corta o primogênito “não me fale em macaco, faço certo caprichado o melhor mas a Neca...” Aí despeja crítica contida semana sobre o desleixo da menina faladeira. Não, minha filha... Quando a usar tal expressão Tê já sabendo o chumbo grosso no comunicado do irmão sisudo. Não, acalme-se, é que o Frederico matou um menino! Chorou choraram quase, quase Tim se traiu nas lágrimas, coisa demasiada a um macho daquele porte...
          Narrou o acidente fatal. Frizo trabalhava como motorista a carregar tora às serrarias. Numa subida um garoto conhecido pulava alternadamente do barranco na carga de toras e desta de novo ao barranco, o caminhão lá embaixo na estrada; daí erra acerta o vão o chão não se livrando das rodas – esmagado! O chofer prossegue sem perceber na sua marcha lenta em primeira e o motor chorando o peso. Alguém grita-lhe o desastre; para, se horroriza e após chora desesperado. Nem um gole de pinga tendo no dia ingerido, só a fatalidade podendo explicar o inexplicado daquele crime não propriamente crime! Polícia remoção enterro e mais choros.
          O Tim narra o quanto pode o como pode a diminuir a dor da irmã. Param o serviço dela nesse dia; alguém decerto faria o trabalho no lugar de ambas; até Neca andava ao chegar de volta chorosa e pedia e tornava a pedir exigir como é comum ao homem comum explicação em minúcia daquela morte. Inicialmente culpando sem saber o saber ao próprio cunhado e apontando a bebida por causa. Depois todos aceitaram aquela fatalidade a que chamaram destino; quem sabe se não a fim diminuir a falta...
          Somente a vítima viva não aceitando. Desde então beberia muito, já não bebesse e o Nico num apimentar sempre falava “come pinga com farinha” e ria, ria também mesmo a Tê da gozação; agora não se riem: sofrem o Frizo. Daí passando a beber doses mais fortes e mais frequentemente. Uma vez caiu na rua. Não mais pararia tendo esse pretexto tão forte para si mesmo: via-se um assassino, embora ninguém na olaria ou fora dela com ânimo bastante em pôr afirmativa tão desonrosa sobre as costas frágeis do infeliz.
          O fim disso, e por que não dizer também para a banqueira Tê, a conclusão foi mudarem-se para a cidade – no costumeiro fugir da imagem do sofrimento – e aí não mais recebeu o chofer a amenização da laborterapia, ficando sem nada para fazer. Tê iria deixar Frederiquinho e os outros dois filhos passar fome! pôs-se a serviço de quem precisasse uma doméstica; deixou a banca na olaria para ao fim – isto é mesmo um fim comprovado, pois há fim desconhecido – para em suma trabalhar como cuidadora de enfermos ganhando alguma coisa; fazia também remunerado o serviço de injeções, na época entrava no país como salvação de todos males a penicilina e poucos em condições de injetá-la nos doentes sem hospitalização. Aqui entra o Frederico de novo; e sai: impossibilitado o homem de comprar sem dinheiro cachaça, tomava álcool puro que a mulher mantinha no lar para suas aplicações. Do exagero e no apodrecimento do fígado ele faleceu, ficou por fim viúva a Malandroni.



31°
          Tem disso, não tem? de o avô apegar-se a um dos netos quase em preferência ostensiva. Aliás existe mais um drama ligado à questão que é a autoridade do idoso: ninguém manda no filho; antigamente apenas impondo sem de fato mandar; ninguém ainda mais no filho do filho, ou o faz trazendo constrangimento (desnecessário!) Assim na dúzia em penca na casa do Chico, com o mais velho deste, o Celestino, uma clara homenagem ao mano Tim o qual tendo afinidade bastante com o Chico passando a estima à Maria Conceição. O Nonno tem queda flagrante ao menino. Isto requer uma certa explicação.
          Em verdade o primogênito deles não fora homem mas a Maria, menina que não vingou... aquele negócio chato de sair de anjinho. Depois Celestino apareceu para alegria do avô e fortuna da família; o que discutível. Em meados do século ainda vingava a tese cabocla segundo a qual uma casa com mais filhos mais rica (leia-se menos pobre) em vista haver mais mãos ao cabo da enxada na roça; a enxada passara, o êxodo rural forçado por fazendeiros afugentou e removeria mais ainda no pós-guerra os trabalhadores à cidade. Esta crescia a roça encolhia; e daí braços à enxada pra quê? A urbe inchada não sabe criar emprego aos novos cidadãos e assim as famílias são fracas fortes na sua quase miséria. Onde portanto a fortuna? O coração não pensa com tal lógica nem é demais radical também. O fato é que a família oleira igualmente indo morar na cidade ficando na ligação quando muito apenas o deslocamento quase diário do chefe indo ao trabalho ver fiscalizar as operações, a questão já posta dos olhos do patrão. Nesse entremeio Chico perde a sua olaria e vira pipeiro do outro, o Tim. No entanto a família já crescera, agora fechara, tarde, a ‘fábrica’: Conceição amarrara as trompas prolíficas porém continuava a dúzia e o amor que a ligava; em outras palavras, crescia para cima essa dúzia de crianças crescendo e se tornando adulta: não aumentando em número a satisfazer a estatística. As dificuldades foram enormes diante as crises contínuas na sociedade mas assim mesmo os membros a se casar constituir novos lares. O Neto Celestino mesmo um dia apareceu com o netinho de Chico. Contudo o Nonno não percebera...
          Ainda imaginando as gracinhas do seu preferido; e o fazia no tratamento em prol de Celestino, “Celestim” pronunciava; a ponto tal a trazer constrangimento sobretudo à nora. Saía o Nonno de casa já ela a carinhar para compensação os outros da penca a fim de que não descobrissem (fosse isso possível...) serem postos ao segundo plano. Natural que o avô amasse os demais; somente que na sua grosseria e desajeitamento agia nada diplomático e mostrava desejar tudo de melhor ao primogênito. O que curiosamente não demonstrara ao seu próprio mais velho quando nenê ainda; para disparar bronca sem tamanho da Nonna; que então soltava da prisão a cantilena da pipa dos burros do grito do susto do hospital dos rins do rim e aí mostrando as varizes abertas escorrendo, como consequência e prova... Resumindo, Miguel apreciava deveras o primeiro do Chico em detrimento dos outrinhos, apesar de entender não poder ter autoridade sobre filho do filho e agora (sem saber o velho da novidade:) com filhinho; e assim sucessivamente continuaria acontecendo caso tivesse paciência esperar as gerações futuras. Mas chocou.
          Celestino cresceu virou adolescente, sempre sendo estimado pelo Nonno; tornou-se oleirinho, o que vantagem nos princípios do avô.
          O rapaz, menino ainda se pensando homem, volta da labuta diária; é uma quinta-feira na segunda é mais preguiça e às vezes perde hora; a mãe chama chama, engole um café nem pega o pedaço de pão: vai às carreiras a engolir o atraso e a má vontade. Agora não, é uma quinta, já foi já trabalhou já fez das suas já voltou, já percorre o caminho costumeiro no retorno. Tudo costumeiro, exceção ao banho: na roça o costumeiro é lavar os pés as fuças e deitar-se assim mesmo após a janta, pois o hábito exige só tomar banho no sábado, ficar cheiroso; não, menos malcheiroso, limpo enfim. Hoje, nesse agora, agora sendo quinta, as sujidades e o calor medonho exigiram a exceção, exceção à regra, para que esta continue regra. Volta.
          Caminha pra casa devagarinho num andar balançado gozado, é gozado em razão disso pelos outros. Os outros cada qual na sua atividade após a atividade na olaria; cada qual faz sua tarefa na família numerosa, mamãe cobra cobra e assim mesmo cada um na sua, o irmão pequeno não voltou (ninguém segura moleque) sumiu na capoeira com os companheiros – sobra a ele a parte do moleque além das suas coisas; vai pôr lavagem aos porcos; estes choram manhosos. Atravessa o terreiro, antes, antes de tratar o mangueirão e os de ceva, antes tira água. O poço é fundo, totoca totoca o sarilho a enrolar a corda, puxa a lata cheia no caixote e derruba parte dentro em devolução sonante, outra parte fora nos seus pés a molhar a alpargata; enche um balde, põe o balde nas costas, no ombro esquerdo, e vai aquecê-lo na chapa de ferro do fogão; atravessa o terreiro espanta as galinhas na passagem, têm umas curiosas raciocinando comida no balde ou só imaginando: é água para o banho; outras correm do rapaz, gente é sempre um imprevisto no imprevisto do mundo; a par o Peri late por ali, ladra, coça, grunhe, late outra vez e não sai das barras das calças do rapaz, que é menino meio crescido e se pensa homem a passar as mãos nas penugens do rosto. Encostado ao poço ladrava impaciente ou a falar suas coisas para o irmão (o vira-lata pensa que o outro seja do sangue e a mãe dele mãe deles, só não apreciando quando Conceição vem de chinelo irritada). Olha o rapaz tirando água a pô-la no recipiente e a cruzar o terreiro, vai atrás que nem cachorrinho e é cachorro de pouca idade e muita pulga. Ladra ladra, elas se espantam até o galo desvira macho e corre do cão. O rapaz entra na cozinha, deposita o balde a esquentar, sopra sopra a atiçar a lenha, espalha fumaça e cinzas no cômodo acanhado, antes disso faz careta à mana ocupada em descascar um pré-alimento, faz mais: diz a ela uma qualquer banalidade para feri-la por desafeto. Sai, volta ao terreiro, ainda ouve a menina respondendo ruminando e a mãe já chega a cobrar mais empenho da filha nas coisas, dá-lhe uma bronca, pega-lhe no pé, sempre azucrina e azucrina os outros; o Chico recebe seu quinhão de ofensas da mulher mas não está nem aí com a conversa dela – escuta o rádio de pilha no descanso. O rapaz agora sonha.
          Primeiro sonha a realidade do banho que promete, aguarda o balde ao ponto térmico, senta-se no terreiro num toco e atiça o cachorro, atira longe um qualquer, o irmão corre fuça acha morde e traz o objeto ao mano, este de novo joga mais distante e se ri do outro a procurar, espantando de novo as galinhas. Enquanto, fuma seu cigarro, “pita” ele fala, já se ouvindo em voz a engrossar e o tabaco lhe dando status de homem; traga exala cheiro e fumaça azulada, já retorna o cão com o pedaço na boca; o rapaz toma aquilo atira noutro lugar e deixa o bobo à procura; procura ele a cozinha a quentura a vasilha, experimenta; a mana rosna e agora ela faz careta em sua direção, ele ri dela. Toma a baciona, põe a bacia no quarto da mãe e do pai, o único com porta e tramela, põe-na ao solo de terra batida; volta pega o balde quente e leva ao compartimento, despeja quente também o líquido. Começa a sonhar na imaginação.
          Despira-se, atirara aquelas peças fedorentas na cama do casal, antes disso outra mana deixara a roupa para troca, limpa, na cadeira ali perto. Ele sonha, quase nem sente a água tépida, mais para mais quente, ao menos mais que o calorão do tempo em volta. Senta-se na bacia, desajeitado, esparrama água nas proximidades, ela corre em riozinhos a fazer desenhos curiosos que somem sugados pela terra porosa, ele não vê, vê-se a si mesmo na olaria no trabalho de lançador, seu irmão mais crescido menos velho é o banqueiro e enche a forma com barro para o tijolo; ele tira da forma o tijolo mole pondo a forma de bruços na tabuinha e com outra tabuinha prende o tijolo e vai depositando no chão, marca a peça com dedos incautos ou na distração (sonha muito acordado com a filha linda do fazendeiro que arrenda a terra para Chico, assim algo inacessível, em não ser aos sonhos caboclos) e, machucando o tijolo, recebe admoestação do outro. Agora só passa no cineminha lá dentro rápido tal cena de labor, centra nela, a linda. Já repete pela segunda vez sabão feito pela mãe sem o cheiro de perfume e com cheiro de cinza e soda na mesma parte do corpo, nem vê, vê o sonho...
          Os de fora dentro da família, a mãe ralha o pai ouve a dupla sertaneja no rádio os outros ou correm e se gritam e até as irmãs conversam entre si as suas coisas – os de fora reclamam o retardar no banho, mas ele apenas sonha.
          Agora a libido cobra, a imaginação trabalha acelerado, vai num crescendo, não ouve fora ouve dentro do quarto mais ainda dentro de si, toma ansioso e sem contradita e se masturba, possui a linda, ela grita de prazer e amor por ele... a água da bacia tem nata espúria; ele amolece, menos viril, acorda e quase se condena, levanta-se, acorda de vez; a lamparina já consumiu quase metade do querosene que era para a noite ali naquele dia, faz desenhos em sombras intermitentes tremendo nas paredes do aposento e mostra a silhueta dum homem, que é rapaz e não sabe que é menino, tanto que já esquecendo o cansaço da jornada e se pensando limpo, quase à metade do banho.
          Olha, ouve (os de fora já ofendem, a mãe grita) se enxuga, ainda se lembra da bela e de suas carícias.
          Impossível também que esteja limpo totalmente. Não se importa; veste-se. Vai sair, jogar a bacia no terreiro, as galinhas a dormir no poleiro. A bacia não, a água suja da limpeza.
          Se as últimas linhas chocarem, trarão ao menos uma passagem como resgate da existência oleira, exemplificada no ‘dodói’ do Nonno, no pichamento dos manos desafetos.
          Era assim o preferido de Miguel quando menino, agora homem e pai por sua vez. Chega Celestino e o velho...
          Sim, de fato chocou-lhe profundamente a novidade... Bem, o Nonno vira mil vezes o neto os netos e outros netos dos demais filhos seus; inclusive com equivalente apego sempre a um dos três ou quatro herdeiros em cada casa dos seus; claro na de Chico que havia exagerado na criação ainda assim tendo sua preferência, aqui ostensiva como afirmado, ao Celestim. O que chocante espantável o fato de Celestim não ser mais um menininho mimoso, agora um senhor barbado barbudo alto qual o progenitor, arcado pela altura no costume dos grandes terem que abaixar ou pra ver ou para conviver com a média pequena da população. E pior – ou melhor! – não apenas homenzarrão, pai também. O engraçado na coisa é o velho haver tomado a criancinha no pensar fosse o próprio Celestim!
          E acordou de vez na perturbação pela algazarra, parecendo fosse qualquer coisa a se comemorar, natalício ou batizado do pequerrucho.
          Para mais uma vez, e pode até ser uma das mil vezes, se decepcionar com os parentes. Ninguém lhe dando atenção, embora sendo ele o patriarca dos Malandroni. Ninguém vírgula (assim se comunicava sempre, a interromper um falante e a quem desejasse corrigir esclarecer numa intervenção pouco educada. A rigor sequer o italiano sabendo o que vindo a ser vírgula, não letrado e menos na língua da terra cabocla). Ninguém, mas uma das netas agora adulta jovem bela e até mui sentimental conseguiu vê-lo. Isso, vê-lo em carne e osso como se falava na época dos vivos a opor mortos. Viu-o, percebeu suas formas, seu chapéu de feltro gasto e a roupa de costume, sorriu, tentou, exatamente tentou abraçá-lo beijá-lo pra quem sabe dizer “ah a quanto tempo Nonno!” pois fazia dezena de anos então. Não ouviu o que Miguel dizia, dizia não: diziam suas lágrimas.




32°
          Andava um alvoroço na olaria, na olaria do Lico, por causa dum inusitado... bem, não bem inusitado visto quase sempre ocorrer, na iminência da chegada de mudança. O comum do chegar com móveis pobres e badulaques, nestes em que os pobres são ricos e variados: latinhas de flor ferramentas brinquedos e outros e no meio de outros algo que a gente nunca a saber pra que serve, não sendo mesmo da conta de quem veja; e os móveis, naturalmente, como as cadeiras os bancos – todos necessariamente despregados e bambos – e os pesados a mesa a mesinha e ainda um pesadão, o guarda-roupa devidamente cheirando velhice e a dar suor nos homens, o homem dela a bela e os agora vizinhos numa oportuna solidariedade (já as moradoras mais um pouco avançadas substituindo solidariedade por curiosidade... embora também as mulheres olhando gulosamente o caminhão descarregando e os trens espalhados de qualquer jeito por volta da casa:) ai a casa! Sempre a tônica pois não há lugar bastante para todos pretendentes; isto leva ao patrão-oleiro um problema que é o de evitar trazer peões porque o solteiro não tem onde ficar – ocuparia uma casa inteira! o dono das terras cede pouco daí o oleiro se vê na contingência de optar por família completa trabalhadora. Isso porque numa pequena indústria como essa até as crianças operam, qual formiga todos a trabalhar. De maneira que a chegada da mudança do Bastião, Bastião Pipeiro, foi uma expectativa. As velhas famílias se perguntam o de praxe: tem criança? a mulher é isso ou aquilo? o homem é trabalhador e trabalhador competente (mas aqui indagação masculina); e elas de novo: se as crianças dela forem bagunceiras e briguentas nós... Enfim suposições e ansiedades banais e desnecessárias.
          No caso da casa do Bastião e sua Maria (trocando-se logo após a chegada seu nome Gonçalves por dona Maria do seu Bastião) ela bonita pra valer, segundo abalizada opinião dos homens inclusive achando de bom grado assim o patrão Lico; no caso dessa família não foi o costumeiro. Crianças? só uma garota e nem a patroa depois se dispôs a deixar ser doméstica; assim apenas o Bastião a produzir e ocupar a familinha dele uma residência inteira; uma de construção cabocla frágil pequena mal acabada tímida feia e de chão batido ainda por cima (devendo ser por baixo); não teria sido melhor, se pergunta Lico, haver contratado no lugar um peão!
          Vivia por entre as empresas Malandroni vários peões o Miserê o Nelson o Bento o Rubens, ora numa ora servindo noutra olaria dos italianos, pronunciavam “intalianu”. Todos em serviços gerais, destacados por exemplo à pipa se preciso. Geralmente  como volantes.
          Os volantes movimentavam a gambeta ou a enforna a desenforna no forno; ou pegavam no pesado fazendo fogo (claro, no forno). Supriam faltas. Vez que outra virando ajudantes do caminhão, indo ou buscar lenha nas matas ou levar entregando tijolos à cidade. Eles se misturavam aos rapazes Malandroni, alguns desfrutando da intimidade de irmãos e assim tratados. Nem todos, vários vieram servir desservindo, brigando se desentendendo entre oleiros e com o patrão; um chegou levar o chefe ao departamento do trabalho numa queixa. Mui grave em vista os Malandroni detestar coisas de governo... Eram na maioria ligados aos moços da família. Os mais abusivos ou ingênuos a se imaginar do sangue dos da casa; assim como o Peri se pensando do sangue dos meninos...
          Apesar das perspectivas nada animadoras a casa de Bastião se firmou junto aos outros e as amizades quase se cimentaram, não fosse isto absurdo entre seres humanos; o tempo destrói esses liames a ponto de os laços duradouros serem raridade. Não se anula aqui vínculos que nem o calendário nem a geografia desmancham. Trabalhador – porém do tipo lerdo e homem sem iniciativa, desses que só fazem mandados – trabalhador e produtivo. Em geral numa empresa desse porte na época os mais ambiciosos fazem sua tarefa e embocam num extraordinário qualquer, em que a olaria é rica e dá oportunidade até às crianças e mulheres não oleiras por definição. Sim, algumas eram banqueiras ou engambetadoras, tendo os trabalhos domésticos no segundo lugar – o que não faz e não força a pobreza! No caso da familinha do Bastião nem a esposa nem a filha no serviço do tijolo, não sendo pra levar a matula de alimento e o café ao pipeiro; não apareciam lá embaixo. É figura apenas, pois há olaria em cima e a residência em baixo. Bastião pegava tarde, cedo na pipa é madrugada (isso desagradando o patrão) e largava mais tarde ainda que os outros na mesma função; um dia noite desatrelava a tropa com lampião... enquanto o comum é no máximo às 16 horas o final do trabalho. Talvez o maior ponto de atrito porque Lico tendo certa querência a seus burros, um era mula forte rápida e coiceira; não via com bons olhos abusos sobre seus animais presos até noite; portanto o desgaste, desnecessário segundo o chefe, um desgaste nesse particular dificultou a permanência do empregado. Bom empregado, diga-se.
          Enquanto trabalhou, meses quase ano, a relação com os outros oleiros foi boa.
Ele na pipa, a esposa nas coisas de casa.
Maria, ah a Maria, a Maria volta fungando traz arcada sem ser arcada, esbelta, um feixe, apanhou a lenha por aí, não tem que dar conta à conta de ninguém, ninguém tem de dar conta, isso conta para a ideia de liberdade ela não sabe nem pensou que é liberdade, joga o feixe ao chão de terra batida na cozinha, alguns gravetos desprendidos e o choque lança longe uns por baixo do armário de pau também, outros atritam com os pés do fogão que não tem pés, desde o chão a subir com tijolos descascados até ao alto, que é baixo ainda assim alto à moça já não moça grisalhando nem moça é lógico ou se falaria, mal, do esposo... Para, cansada, anda cansada, cansada agora ao ver o fogão quente a cozinha pequena os trecos e no chão a lenha, combustível natural do fogão tipo caipira.
          Maria é caipira fala caipira age caipira e não se pensa caipira quando pensa pensa apenas a saber que é mulher. Mas não sabe que é bonita... talvez em jovem se olhando no espelho que diz ainda “espêio” agora não pensa nesses termos. É sensual e não sabe, é pura no quanto é possível um ser humano ser e não sabe não pensa; pensa o que fazer ao jantar, que o almoço “armôço” fala acariciando e arredondando o erre, foi o de sempre, o de sempre sendo arroz feijão e mistura. A sorte é que os seus não são enjoados (cita na mente a mente exposta por falta de sorte Dona Fulana e Dona Siclana com uma tal falta de sorte) qualquer coisa se engole, se o arroz com feijão bem temperados, se faltar sal, ah como o Bastião gosta de se salgar, salgado como jabá; agora ele foi buscar areia para uso nas bancas encontrada na descoberta do barreiro e irá soltar loguinho os burros e descansar a carroça. Não se sabe atraente, mesmo nos panos caseiros às vezes ensebados e mal postos, pensa vida, não se pensa gostosa mesmo porque não pertence ao mundo masculino e não tem ótica macha, pensa vida, vida simples de oleiro. Entretanto não pega no pesado na olaria, as outras sim, não ela, ela poderia ajudar seu homem que só sabe rir, desse tipo nunca se sabe o que pensa mas seu homem, ajudá-lo ao menos encher o carrinho com o barro que a pipa cospe parecença com ânus comportado nas fezes equilibradas; aí cortaria com aquelas mãozinhas graciosas os pelotes da argila depositá-los-ia na carriola e quando montanha de barro avisando o marido a levar para dentro do rancho aos batedores fazerem tijolos na banca (e nesse ponto admirando o Bastião arcadinho e com musculaturas empurrando o carrinho e inclusive tendo pena dele). Contudo só uma vez ajudou-o no mister, seu mister é cuidar da casa e da menina; teve um menino, o outrinho morreu, não gosta se alembrar se lembra e chora, chora só.
          Está só na beira do fogão, o fogão é uma trempe de tijolos mal assentados, tem a parte de baixo feito à guisa de pés usando-se tijolos; onde ficariam os pés de madeira, a madeira se queima, empurra então a lenha mais pro fundo da boca. A boca do fogão é retangular na entrada e no fundo se perde com cinza brasa carvão fuligem fumaça, a fumaça sobe pelo respiro no fundo e vai em direção de cima pela chaminé também de tijolos e depois se liberta – a Maria não tem nítida ideia de liberdade nem da liberdade da fumaça sabe apenas que sai a mesma de casa antes fica um pouco na casa ardendo os olhos da gente quando a lenha é meio verde – aí o vento leva a fumaça e vira fumaça também. Na base desse canudo de tijolos onde a lenha se queima está a chapa de ferro; tem três bocas redondas, antes havia umas tampas de ferro a tapar as bocas quando não tampadas com a panela ou o caldeirão a menina, quem pode nem o capeta cruz-credo com criança!? a garota perdeu as tampas por aí, isso não tem importância, a gente se vira, a Maria já nem usava mesmo as tampas; e assim vai aquecendo a chapa e não avermelha mas já acorreu destemperar uma panelinha esquecida seca, seca não: tinha um guisado queimou-se enxugando antes cheirou queimado depois e depois ainda destemperou a vasilha, a tampa ói amoleceu e... ah é tarde a lenha não pega fogo direito, ela chora sem querer parecendo quando a descascar cebola ou quando a se lembrar do anjinho, puxa já deveria estar andando, andando depressa ou não faz a janta, corre olhar o despertador e pra isso serviu uns meses na escola da fazenda e agora voltou.
          Voltou pra si a Maria Bonita, bonita sem saber, sem saber até o que fazia, sumiu na distração, vê o vapor a subir nem se lembra como preparou aquilo antes de preparar e agora é cheiro, o cheiro que atrai os curiosos, a filha o Bastião sorri chegando também e diz qualquer elogio ao seu próprio estômago; o cachorro igualmente xereta cheiros e se enrosca nos pés da gente e ela, a Maria, a Maria que nem sequer pensa que o patrão tem uns olhos enormes pra sua beleza de fêmea, a Maria se arca mais um pouco, assopra.
          Assopra assopra o fogo na lenha inconsumível e fumaça as fuças encinza a cozinha, as porções insignificantes ficam num voar e vão depositando devagar na terra batida de chão de terra de umidade de cheiro de solo e branqueiam, branqueiam até os pezinhos, lindos na sandália da Maria, um que outro cisco ainda aceso desce queima marca um pé e ela, a Maria, pula, pula engraçado e a família se ri da macaqueação.
          Assim a Maria na rotina. Rotina ela também o falar, falando fácil (não certo, talvez certo na língua caipira) e melhor sabendo ouvir, o que de uma sabedoria e tanto. Uma vez vindo a passeio Maria, Maria Garcia y Garcia, viúva Malandroni; após conversa com o filho e os seus netos visitou a xará. Conversou, narrou quilômetros em lamentos. Disse, aí sendo de fato pela primeira vez o lenga-lenga, disse da pipa do esposo gritão o espanto e o resto: mostrou as varizes. No fim as marias a se entender; e a velha e cansada genitora do patrão confessou aos parentes – “ah que criatura boa, embora feia a coitada...” Na verdade Maria do Bastião apenas ouviu a outra.



33°
          As olarias dos Malandroni andavam para trás remando contra a lama no mar da crise; mais bem dito não andavam. Seus membros se dispersando qual mão em punho fechado antes e agora aberta arreganhada os dedos um para um lado outros dedos para outros lados, ou perdidos por aí ou achados na avenida Saudade – que todos cidadãos respeitam a respeitar a memória. Contudo era antes, depois imediato ao enterro de Miguel; depois mesmo do falatório deles em reuniões informais ou convocadas, dessas reuniões que se faz às pressas mas sem hora para acabar. E prosseguiram tais encontros no seu existir aberrante, sobretudo na ferocidade das línguas mandonas e nas orelhas passivas dos ouvintes como as da Nena e do Pedro, os quais talvez disso se escandalizassem. O Tim raramente descendo ao nível dessa baixaria. O Lico também – quem sabe até por ter sido anos trabalhado pela Ana – também ele evitava tal barulho quiçá baboseira, com só um por cento de seriedade e afirmativas de algum valor. Frequente efervescer o combate dos oleiros. Mas isto longe ser o único aspecto negativo entre esses parentes.
          Ainda, apesar das baixas, ainda funcionavam umas poucas olarias e mesmo uma do pai, agora espólio mais de dívidas que de lucros apurados a receber de possível credor. Aqui alembrando o descaso ou somente incapacidade do velho em haver mantido ordem e registro nos seus negócios. Um dos filhos com essa mesma característica negativa, o Lico; os outros filhos dele não chegando ao primor nas anotações porém com mais cuidado... ou por haver suas respectivas esposas exigentes pegado nos seus pés, advindo daqui decerto alguns desentendimentos conjugais. O patriarca assim deixou os negócios. Enfim as pessoas configuram tal situação chamando isso como ‘rolo’, a expressar embrulho na circunstância e na escrituração da empresa deixada à morte por Miguel, a endoidar herdeiros... O que não é dado novo porque o mundo tem mostrado por séculos e séculos casos semelhantes. Os familiares ficaram desarranjados desnorteados desbaratados com o passamento e antes na crise e dores do passamento; e depois ao se deparar com a desordem nas contas. Assim o disse que disse o falaram que falaram então minando igual minam quase sempre os dias do após-túmulo. No entanto no caso deles resolvendo direto no bate-boca, o que não chega a ser solução, por vezes virando tão somente um desafogo um desabafo (inconsequente?) e isto terminou positivo, fez gerar novas empresas. Que eram as mesmas, vistas sob nova formalização. O Lico por exemplo investiu por isso na sua olaria própria, se dedicou de corpo e alma (expressão ao mesmo tempo profunda e banal; aliás tudo o homem banaliza, até as coisas sérias e inclusive as santas) dedicou-se muito e também se endividou mais e, melhor, adquirindo um caminhão, trocando o velho gasto por um novo-velho pouco usado, isto é de pouca oficina... E cuidou mais ainda de sua familinha no entanto sem perder o contato e a colaboração com os manos ainda presos aos negócios paternos. Suas crianças cresciam, morava a família agora na urbe com aluguel suportável. Ana então sequer desejando relembrar os inícios, sua introdução na família esparolada do esposo; os filhos mais novos nem sabendo o drama dos pais nesse dado início e nessa convivência bem sofrível com parentes...
          Quem sabe não haja nada de novo sob o sol, é provável que os atritos frequentes e nos mesmos moldes que o casal sofreu e suportou, tenham levado à rotina o choro no lar. Da consorte sem dúvida, o Lico este a viver (e não seria morrer!) a viver irritadiço, dessas irritações nervosas que trazem desregramento nas vísceras; ou seria o contrário. Enfim um pequeno inferno, um que nem as idas domingueiras à missa desfazendo; sequer a investida no trabalho curando, apenas amenizando.
          Trazida a noiva aos Malandroni, estes viraram vespas. Miguel pôs quanto pôde, pôde pouco, panos quentes na acidez de Maria; das filhas então... Então a Neca – agora casados a viver num verdadeiro cortiço e pior no caso deles: em casa do tipo parede-meia com a Nonna, nonna sim o Joãozinho já apontava enjoando mamãe. Todas cunhadas dirigiam desaforos à caipira, xingavam por vezes e vezes muitas a Neca ofendia, destravada contra Ana e já por hábito contra os outros parentes também – só não dirigia palavrão à Nonna, ou por ser aliada ou por temê-la... Campeou a ofensa fácil, com uma de um lado ouvindo ofensa e a outra xingando arremedando contando a outrem injúrias para a desafeto escutar.
          Estava inaugurada a temporada de ofensas e o inferno particular de Ana. Lico não escutando ou não enxergando! por se afundar na olaria ou partindo com o seu pé de bode, sobrava a ela enfrentar disparates e obscenidades e até presenciar vingancinhas ridículas: a caçula punha para derreter pedaço de sabão na tina de roupa já a enxaguar de Ana; tombava a tina; espécie de tambor de madeira para acondicionamento de vinho, cortado ao meio dando assim duas tinas às mulheres usarem na lavanderia a céu aberto junto a certa mina de água leve que abastecia todos. Sujava de propósito é claro, a roupa já seca pendurada no varal, um fio de ferro com grampos (fio de cerca de arame farpado). Fazia outras criancices e maldades a cunhadinha. Depois gargalhava; talvez a imitar a bruxa das estorietas. Ana entretanto longe ser a fada, ou só fazendo papel da ingênua que era de fato e da vítima que parecia. A completar, desandando no choro, arma não ainda em desaparecimento no mundo dos fracos. Lico no retorno ao lar a encontrava de lágrimas, ou porque não fizesse tanto tempo o ataque inimigo ou por causa da relembrança da ferida. O esposo dizia disso que ela era encasquetada. Quando o garoto nasceu, daí esperava-se uma acomodação: mas piorou a vida de Ana sob tal teto – os outros também sobretudo Neca com frequência a ofender inventar coisas e ferir mais a adversária; e logo a castigá-la no filho que nascera. O Nico gozava: “ah que monstrinho!” a Tê na risota, para diminuir a pobre cunhada. A Neca fazia sempre um balanço caricato do menino e concluía comunicando sempre: esse não chega a dois meses! A sogra? comungando com os filhos resmungava ou silenciava a ‘gritar’ no quem cala consente, a fim de magoar a nora incômoda.
          Passou. O que o tempo não conserta!
          Mudaram-se à cidade. Posteriormente a família do sogro se transferiria à urbe, aquela casinha que virou velório dele na Carlos Gomes descalça e pobre. O zum-zum contra Ana perdurou um pouco mais, partindo dos outros parentes; os ataques de Neca desapareceriam apenas quando já fugia ela com seu novo homem à capital, a deixar seu bebum. Nem quando as mães a apresentar seus respectivos Joõezinhos, o de Ana um menino e o da outra um bebê, ainda assim não se apreciavam, apenas um pouco se toleravam no milagre que as crianças possam provocar no simples existir.
          As coisas haviam mudado. Na época, enfermo já o pai, Tim o presumível chefe substituto também adoentado e assim sobrando os cuidados com os negócios paternos a Lico. Aí, embora dias apenas dois meses se tanto, houve mil pequenos desentendimentos entre o chefe e a Neca. Esta batia tijolos numa banca, tendo uma das manas domésticas a se refrescar da língua de Maria, então como lançadoras na bancada da caçula. Lico chega num dia e flagra a conversa interminável delas, Neca pisa o barro: o banqueiro molha um saco de estopa estende o pano por cima das montanhinhas de barro e praticamente dança por cima socando e umedecendo a argila ao seu trabalho, quase imediato desce ao solo indo cortar os pastões e os prensando na fôrma. Neca olha com desdém o ‘patrão’, pisca maldosamente ao Nico lá longe engambetando e dispara ofensas ao mano chefe. Um desastre. Pula ao chão, toma o barro, sem parar de falar e como não estivesse se dirigindo a um seu superior, xinga Ana ausente, xinga a barriga dela ainda não nascido e já por tabela xingando o sobrinho – o que enfurece o pouco diplomático Lico, pelas três frentes atacado: o serviço ali da Neca, a ofensa à esposa e mais muito mais a ofensa ao feto! O pai o mano o chefe disparam pesado contra a operária de boca suja: mostra os macacos no lugar dos tijolos esquadrejados, mostra outros indevidos no ofício como a sujeira no chão, o chão mal aplanado etc.; e defende sua familinha difamada. Fala fala nervoso, perde o controle e grita, grita mais que Miguel quando gritava pilhando indecência e erros no serviço. A moça quase avança, o homem quase a esmurra, empurra, emburra ela antes do choro gritado. Parecia o mundo houvesse desabado na cabeça da infeliz! Lico dá-lhe a conta e escala outro no lugar; escolhe o Nico, agora quietinho mansinho incapaz de proferir a gozação habitual “hominho” na frente braba do mano. Continua, acaba o serviço da mana, comportado; faz mais: capricha na feitura das peças, aliás isto uma qualidade dele pois não fazia macacos. O chefe ficaria mais semana, após arrendando outra olaria pra si. Entrega o comando para Tim.
          O Lico se assemelhava ao genitor deles tanto na determinação de trabalho quanto na desorganização dos registros. Em vão Ana lembrava sobre recebimentos, cobrava escrituração dos devedores; o esposo não se prendendo a esse tipo de ordem – quase nunca sabendo a quanto a dívida ou o crédito. Mais tarde ao falecer não deixaria os seus atarantados nisso porque já em aposentadoria e sem nenhum bem material disputável; do fisco havia já se esquecido... Não obstante um ser demais trabalhador, um exemplo no serviço.
          Lico não passando de um homem comum; foi exemplo no trabalho sim, embora toda existência doentio; porém corajoso. Sua vida não passa da que levam outros: trabalho rusga conjugal pouco ganho crescente despesa (sobretudo com o aumento da família) muito gasto na farmácia e com médicos – os gastos formais de agrado da rotina. No dia a dia um ser grosseiro e chão mas sentimental e amoroso, respeitoso e respeitado inclusive. Todavia é homem comum com seus defeitos conhecidos talvez exagerados e as qualidades nem sempre lembradas. Um dado entretanto ressalta nessa linha comum: não seu lamentar porém a forma de lamentar; com algo se não agravante ao menos desprovido de encanto – se supõe como outros agradar uma plateia, os amigos que o respeitavam mas a ficarem constrangidos diante certas ações; por exemplo não sabendo contar causos, como tanto aprecia o homem da rua; tem gente que a gente se ri antes de acabar a narração de uma estória humorística; o Lico era de uma sem-gracice a deixar desapontado quem a ouvir; depois, rindo penalizado. O mal está no contador não descobrir sua falha artística, pois é uma arte usar o talento de provocar riso. Lico nunca descobriu isso e gente desse tipo repete o feito anos, sem perceber a reação de outrem. Outro lado do mesmo homem, e isto a esposa – assim como Maria Conceição faria com o Chico Malandroni – isto Ana não conseguiu, conseguindo civilizar o bastardo esposo em tantas coisas, nisso não: limpava cutucava as narinas no tempo seco do ano publicamente. A mulher lembrava o homem no ato, suspendia ele o ato, distraído ei-lo novamente no ato... Claro que não inventou a porcaria, antes dele existir já existia a limpeza da sujeira no planeta. Mais outro aspecto. Tinha o péssimo costume de tomar, aqui é grosseiramente beber mesmo, enfim bebia café direto no bico do bule. Lico! nunca dissera a consorte “meu amor” “benzinho” ou terá dito? ele também com certeza desconhecia tais gestos da fala; Lico, gritava a mulher dele; sorria pra não chorar na pilhagem sem educação. Quando muito a dizer, constrangido também: “estou fazendo boca de pito” já acendendo outro cigarro; enfim uma justificativa boba como geralmente são justificativas. Agora, outro nojento hábito dele era mastigar de boca aberta. Você, dizia Ana no início e depois apenas vendo quieta, você parece nosso porco de ceva comendo lavagem. No começo afirmava isso pisando os ovos, como o amor por ele exigia; depois sério, depois ainda? não mais reclamando, olhava e ensinava o certo do errado ao filhinho; às vezes na frente do pai com fim educativo por tabela... Criança aceita civilizar-se com certa facilidade ou aprende por indução ou intuição; já o ditado popular afirma que burro velho não acerta marcha... Contudo Ana melhorou grandemente o procedimento social do esposo. O que mais pesou nisso foi levá-lo ver e criticar o que os manos exageravam na grosseria. Isto fez igualmente a concunhada Maria a educar o marido dela. A rigor ambas parentas eram melhor no respeito e no sentimento que o pessoal dos esposos; mas embora exemplares tendo semelhantemente muitíssimas arestas a desbastar; como ocorre amiúde com muitos nas muitas outras áreas sociais. Também nisto esta tradução não acresce coisa alguma no trabalho do tempo no mundo.



34°
          Há um pressuposto a se crer que os extremos possam um dia se tocar, quiçá se explicar e abusivamente se amar talvez, que seja pra se entender ou nunca mais se entendendo. Isto se encaixa na dramática Malandroni a ser compreendida em dois pontos, o antes, claro, e o depois; mais claramente possível: no tempo da Guerra e no após Guerra; o após podendo se estender até agora. A tradução da fala deles não se responsabiliza pelo extremo anterior e nem pelo extremo posterior, só expõe.
          Nos idos das décadas de quarenta e cinquenta era quase o caos entre oleiros. Elas. Não eles numa reunião, é visto não ser de negócios os negócios confusos a concorrência o pessoal o fisco essas coisas deles. Não. Elas que se uniam a dentadas nos seus negócios; naturalmente que os deles entravam sorrateiramente no meio à conversa feminina e aqui necessário admitir também a voz do silêncio, o silêncio que fala grita enfrenta briga obriga ou chora mudo, mudando vez que outra o destino das bocas que falam, essas falam, falam ou choram de maneira ostensiva.
          A literatura deve já cansar-se de entreveros sem boletim policial de ocorrência nas lavanderias abertas nos rios da vida e nos dos bares fechados na conversa-fiada. Mas não pode, cansada embora, fugir do bate-boca interminável delas ao redor da mina cheirando barros pesados com águas leves a manter o abastecimento e o falatório das Malandroni.
          De que falavam as Malandroni de puro sangue e as Malandroni filhas-adotivas, apócrifas. De enfermidade, de criança e mais uma vez sobre enfermidade, de dinheiro, isto é da falta de dinheiro; de mil coisinhas como encrencas no clã; aqui com belíssimo destratar... ah eles. Os homens, espécime sem espécie, eles mui ajudavam na conversa delas com suas atrapalhadas seja por seus negócios machos atingindo as mulheres seja de negócios com outras mulheres, atingindo as pobres ainda mais. Ou fortalecendo as bases já sólidas às brigas. Isto em virtude (virtude aqui força de expressão ou banalização da força) dos muitos casos de adultério. Algum olho mágico poderá lembrar que ambos sexos traem, até pôr um trair outro subtrair; ou garantir que um homem só poderá trair, traindo a outra mulher por sua vez um homem. O exemplo oleiro. Elas atentas nisso.
          O caso do pai nesse extremo no tempo bem flagrante ou machucador. Miguel ou também tido por Michel, daqueles piemonteses aportados nos brasis, aqui no debaixo em plena frente do desbravamento paulista – era agora reconhecido mulherengo; elas usavam reforçar a expressão na canalhice da gíria e esta escapa à tradução como não inteligível aos outros tempos vindouros então e então já passados; cada época tem sua gíria própria pra ferir ou a rir da fraqueza humana, por exemplo a de um certo Miguel... Diziam para mentir nesta descoberta surpreendente (o homem sempre o último a saber, aqui a Nonna não o Nonno) que andava com duas outras; provavelmente engano pois montou casa apenas com uma... que elas apelidavam sirigaita e não com duas claro, assim deixando Maria; depois tornou a Maria, não foi por isso morrer, a galopante o matou. Elas tratavam disso – já não à boca pequena como exigem segredos a se esconder dos de fora mas destravadamente entre si; davam inclusive as de sangue o direito a destratar o sogro também às sem sangue. Ninguém nessa batalha perdida para defendê-lo. Ninguém? Ana se calava por nova na casa, Maria Conceição condenava baixinho pra não condenar; outras das sem sangue como Assunta já podendo votar ou mais pra diante Domênica sem saber poder votar e depois ainda Ida, esta com direito mais garantido por adivinhar ser pelo Nico traída anos depois. Aliás os machos da espécie Malandroni no geral se aperfeiçoariam na coisa... Aqui um senãozinho: será que só olhar cupidamente descuidadamente inocentemente seria igual uma traição! No caso a casa suja e ofendida, nem a ofensa da morte eliminando a ofensa ou sobrando apenas um talvez, talvez a amenizar. Falavam disso.
          A Neca punha volume na garganta nisso, nisso não perdoou mesmo com alfanje da morte já no pescoço paterno. Sendo naquele momento a menina bela e namoradeira contra. Porém a favor após cheirar Vidraceiro. Todavia incentivava contra o vivo o vivo, lembrava depois magoada o morto vivo; longe de apenas defender a integridade conjugal da mãe. Lola não ia além do “onde já se viu!” indignado e mais tarde, não que não lhe ocorresse um igual na semelhança com o sr.Silva a ficar madrugada retido no escritório quando na capital o príncipe de Carmen assustando a baderna dos cachorros – agora junto das manas condena sim o pai porém imagina e leva tempo a comparar se uma das sirigaitas não seria bela tal qual ela mesma. A Nena, oh pobre da Nena, lava quieta sua roupa que é a roupa da casa e não diz o que acha a ninguém, menos à menina faladeira que é a Neca; mas chega pensar que pudesse seu finado vivo a viver com outra; todavia aqui “ora, cala-te boca” diria, dissesse, porque a gente da época tem um medo tamanho das almas, sobretudo as penadas; não: era sério amoroso pensa a viúva. Se adivinhasse igualmente que o Zé Baiano fugiria dela com a Bicha num caso amoroso, talvez despertasse brigasse xingasse todo gênero masculino; entregaria esses reles espécimes da espécie à Neca! Agora se cala. Olha, enxágua, vê uma sujidade numa peça e vai que seja mancha se pondo uma peça colorida encostada noutra, uma que descora junto duma que não e aí... aí a Nonna daria cria falaria falaria dia lá em casa, semana, pois não era fácil a vida dum desafeto já naqueles idos como nos dias de hoje, em não ser verdadeiro que os extremos se toquem. A Tê, bem a Tê bate barro no berro da fôrma no seu tataratá numa cadência e hoje sua lançadora está na roupa na mina na prosa na discórdia e assim a lançadora é lançador porque o Nico fala mais que mulher e é lançador com maiúsculo, não dos com letras pequenas; e assim ela no rancho não pode participar desse saudável rega-bofe de línguas – desde já é contra. Casou-se, seu alemão é sério ela pensa, mesmo banhado a pinga é respeitoso e trabalhador, vamos lá não trai. Para a banca, dá leite ao menino, descansa assim trabalhando em mãe, pensa nisso não concorda com isso, o pai exagerou. Contudo não participa na roda da conversa feminina na mina, onde crianças os meninos e as meninas param as bocas por algum entreverinho e seria uma gracinha, fora isso dão direito para mães e tias falar à vontade; trocar ideia, condenar bravas a fraqueza do velho.
          O velho torna ao lar, lar doce lar. Trabalha, vai visitar agora os seus com ou sem sangue, vai ver filhos e netos, diz à Ana “o Joãozinho é uma gracinha” não: quem lhe agrada mais na casa do Lico é Mariinha, elogia a menina a ponto de constranger a filha; Ana o chama pai, igualmente as outras cunhadas, só Domênica não conseguindo chamá-lo assim e se resguarda nas reticências quando necessário comunicação com o sogro; têm os momentos que a gente não se livra ser posto à prova, então pronuncia diante de Michel “seu Miguér” como fosse caipira sendo mesmo italiana acaboclada. E vai conversar com o Chico, agrada um da penca da Maria; e depois iria houvesse já nascido ver o Paulinho do seu caçula e conversar no meio às gargalhadas da nora – Ida apreciaria muito o sogro, em duas frentes tal qual se daria com o marido: diante gargalhando nas coisas, por trás chorando com a língua afiada... Em suma o Nonno revê, sequioso a matar saudade que mata a gente, revê os seus, se afunda nos negócios oleiros e adoece. Sim, briga inicialmente com a Nonna e continua o desentendimento, ela emburrada depois sôlta, sólta a língua contra o infiel. Assim ele visitando fora brigando dentro, sai ver a olaria enfermo, exagera e morre. Morre mas não se limpa, sujo na língua delas, mais na de Neca.
          Neste extremo ainda tem mais menos; na bica a escorrer feito cristal a água leve da mina, apenas com alguns entulhos atirados a esmo pelos Malandroninhos, sejam os de pleno sangue ou os de meio sangue (ora ora, como? onde pureza se o pai ou a mãe de sangue puro estará cruzado com o outro parceiro ou parceira, jogando assim fora a pureza sanguínia, mesmo nas participações de procedência europeia). São pedras são paus são brinquedos são chupetas são pecinhas usadas atiradas na água pelos projetos de gente ali a azucrinar mamãe, mamãe? mamãe quer falar mal do sogro ou do pai; quer sujar com a língua a moral das outras dos outros de fora presentes ou ausentes, ainda assim presentes na lembrança. A criança não deixa. Também se encontra ali xeretando o Peri, Perizinho a cheirar os meninos e a torcer um pouco amedrontado pelas coisas que os manos em balbúrdia atiram na tona da água da mina; nada mais faz que torcer e então ladra a igualmente atrapalhar a conversa e a boa discussão infamante das adultas. Aí, num descuido, digamos no ato de esfregar uma camisa ou para estendê-la no fio a fim de aquela bocuda porca atirar porcaria – o Nonno iria lamentar: porcheria! – enfim a gente olha pra lá, lá a Neca no seu afazer; pra cá e vê mais o que não deve olhar ver observar inocentemente mas qual! a gente flagra mesmo um errado e pronto: o desastre –  Joãozinho mergulha na tina, ainda bem com água transparente limpa posta a enxaguar definitivo as peças da gente! e se fosse suja de sabão que é de limpar aí usado emporcalhado, não seria ainda pior ao menino? Ana grita desesperada, retira seu guri, não diz como o dr.Mauro fala trinta e três: espreme a criaturinha, enxuga, beija beija aquele sobrinho da Neca e das outras tias ali, todas assustadas atarantadas a indagar ao mesmo tempo todas bocas ao sabor italiano se está vivo está bem e daí despenca o herói a chorar gritado para elas rirem aliviadas! inclusive Neca a tentar consolar as falas materna e do filho. Então, interrompido aquele buraco descontinuando o falatório, então entra a fase da condenação: como Ana descuidada... decerto falando mal dos outros e o céu a castigar no filho. Patati, patatá. Ela, a causadora de tantos transtornos no meio familial, toma de olhos vermelhos suas peças põe dentro da bacia, toma a bacia pesada, alevanta equilibra na cabeça de pensar bobagens válidas e absurdos absurdo, segura a bacia em cima equilibrando num semelhar circense e em baixo o filho na outra mão, o Joãozinho a andar com dificuldade e já esquecido do banho do mergulho do sol refletido na tina como piscina improvisada e pensa... o que será pensar um garotinho?  Ana olha para trás, sua carga sua bacia olham também forçadas pela mulher a olhar e ainda as cunhadas num tramelar comentar ferozmente o incidente ou acidente, em qualquer hipótese com mordacidade. Ela se vai gingando no equilibrar e na preocupação a recordar.
          Claro não faz uma autoanálise pra se alimentar no pessimismo doentio dela a se condenar mas se condena também, condenada às galés acorrentada às línguas ferinas delas. Da Neca comentara sem qualquer santidade após meses de observação o descaso com a roupa da casa, da casa? mesmo as peças íntimas da própria Neca – ensaboava e largava abandonando no balde ou na bacia, aquela enferrujada e arrebitada no conserto que os homens disseram haver ficado serviço porco e as mulheres a falar que ainda continuava vazando; sim deixava na bacia por tempo além da conversa delas, dias mesmo. Então o conjunto úmido depois a feder e a apodrecer o tecido; e a Neca? não ligando, um prejuizão à família. Uma vez não se conteve:  tirou o sabão, pôs corar com novo ensaboar no sol, enxaguou tudo, tudo pôs a escorrer no varal comunitário e, seco, recolheu tudinho dobrou depositou na sua própria bacia e aí levou para a Nonna – agradecer pelo trabalho? – para soltar os cachorros na nora, não o Peri os da linguagem figurada. O pior mesmo vindo da cunhadinha: três dias infernando falando pelo abuso e mais o resto da existência lembrando a afronta; sim porque foi uma afronta digna dos anais malandroni! Então, agora indo Ana, não chegara à sua metade de casa com o trambolhinho visto criança não rezar na mesma cartilha das pernas compridas adultas; então se pôs a recordar outras coisiquitas, em que sempre somos humanamente espicaçados ofendidos nas ofensas. Decerto não se lembrando haver falado, bem ou mal! falava dos descasos e demais desastres amorosos da cunhada pouco mais que menina e dona de casa. Em casa dela, na metade de Maria, a Neca num brigar falar insultar ofender não só a mãe dela mesma – a Nonna temporariamente quieta nisso na descoberta da infidelidade do esposo e aqui aliada da caçula. Porque Ana na lavanderia desfeiteara Neca. Neca tão desafeto dela quanto Nena da mãe dela, delas. A falar dela nesse relaxo e carregar nos ímpetos namoradeiros da garota; isto um crime de lesa-majestade a quem já casado e sem esperança errar como qualquer mortal. Ana sempre e por toda vida conjugal educou o marido e os filhos ver sob essa ótica o mundo; o que distorção ao mundo. É óbvio afirmar entretanto em geral o homem comum se acha o suprassumo do certo do direito do perfeito – o resto é a imperfeição. O que destoa nisso um pouco é ainda o ser da rua poder ser considerado bom. Ana assim. Assim entrou, desenroscou antes o barbante dum prego de segurar a porta contra galinhas intrusas e cabritas enxeridas; e entrou com bacia e menino para ruminar em paz sua desdita; a preparar a desdita da afronta Malandroni ao seu companheiro Lico.
          Puseram num debate neste extremo ainda mais senões. Discutiram as fêmeas aparentadas da espécie mais mais. E por que não dizer também lembretes leves alegres como o abuso no uso do batom, tão vigiado pela desafeto da desafeto; ou outras graças... Por exemplo o contar do viver dos conhecidos, quase sempre desconhecidos e sabidos de todos. Incluíram piadinhas as cunhadas irmãs de sangue ou sem sangue ricas na sabedoria das mais cabeludas; Neca mesmo, mesmo sendo mulher e quase já mulher no ponto de casar, Neca era demais boca suja. As outras sujas menos sujas; inclusive a dizer nomes impróprios aos machos, com ou sem sangue e até de fora dentro ali; aos machos os quais por definição ou característica já soltando obscenidade com facilidade e familiaridade.
          Isto nesses antigos tempos; noutro extremo...



35°
          Noutro extremo, agora o mundo não encontrando nos oleiros a mesma alegria, como por exemplo o canto – a caçula o caçula cantarolavam sempre, mas com segundas intenções a ofender, às vezes até em paródias das marchas carnavalescas da época, a época de agora eliminou até isso na festa popular, pondo no lugar do movimento de rua show televisivo ou inclui mesmo música pop importada a fim de atrair turista na passarela e ganhar dinheiro. As marchas existiam e existiam as paródias delas; em cima disso as letras da Neca para fustigar Ana na outra metade da casa geminada, Ana e outros desafetos. Mas verdade se diga: bem entoadas as músicas; isto dito porque as mais das vezes não somente os Malandroni o povo costuma desafinar e assim desafia o bom senso no som. O caçula tinha bons ouvidos e consequentemente cantava bem, sem inventar e criando como a irmã. Todavia não é mais tempo neste extremo de cantar e de alegria mas de silêncio quando muito e muito sofrer e muito chorar, morrer...
          Os homens, ou Malandroni de primeira linha e de sangue azul e vermelho, mesmo na sua nobreza suposta afirmada lembrada ou até esquecida; e os da segunda linha, adotivos e sem sangue, sem pleitear menos ainda, é claro, azul, bastando ser um Malandroni na adesão... – os homens, esses espécimes da espécie: então desaparecidos! Não há uma conclusão meio apressada desejando mostrar que existem na estatística mundial mais viúvas que viúvos? É isso. Era isso e daí não havendo mais machos no pós-Guerra espichado até hoje, hoje por abuso desta tradução; assim na passagem do Milênio (este que enganara ingênuas pessoas não acabando o mundo como apregoaram mentes desocupadas) nela sobrando apenas entre os Malandroni Donana, ainda por azar da sorte uma das sem sangue por apócrifa no clã. Eles se foram, elas se foram pouco depois, uma que outra mais apressada contudo morrendo antes deles todos mas já viúvas. Deixando o planeta, todas e todos a quase pedir um romance somente pra si, não o da existência de homem comum, uma obra girando exclusiva e particularmente em torno do seu passamento: dores, apelos, lamentações, recriminações, lembranças e remédios com sofrimento, e médicos com sofrimento, e hospitalizações com sofrimento; e morte e velório e sepultamento, tudo com sofrimento e esquecimento (e sofrer o esquecimento para quê!) Uma a uma das pessoas da família se indo embora ao desconhecido, conforme o homem da rua; sofrendo e fazendo sofrer pela dor da perda. Ora, nem iria alguém escrever romance em torno, estando o planeta no III Milênio a eliminar livros e substituí-los por telas digitais desconhecidas dos oleiros, os quais numa atividade econômica também já eliminada por máquinas.
          O que sobra? os que sobram.
          Nos últimos tempos a Neca morreu o Nico morreu, ambos na capital o interior a saber esse não saber por ouvir dizer; ainda bem não se precisar escrever novos romances... Outros mais desapareceram semelhantemente porque haviam desaparecido na falta de coesão familial e mais que isto pela falta das antigas visitas que se faziam, as quais geraram mil reuniões e assembleias quase sempre desastrosas na guerra das línguas; tudo na frente interiorana paulista, já esta velha ou apurada. Nestes últimos tempos havendo demorado um pouco Maria Conceição, negativista e a se lembrar constante do Chico dela, e por volta as crianças suas netas, Miguel vem chega quer carinhar seu preferido, pensa ser seu neto Celestim: são os filhos dela e os filhos dos outros filhos do seu filho Chico; onde o Chico ele indaga, na olaria? e a nora não responde não esclarece, demais presa às suas dores físicas e morais por conexão ou causa, que são as dores e incompreensões dos de sua prole e dos filhotes da prole. E aí, poderia dar atenção ao sogro! Faleceu ela. E a Garcia y Garcia? a Nonna nessa mesma casa de Conceição morreu antes, onde o velório e os parentes a comentar o sofrimento da velha Maria, a pipa os burros o burro gritão os rins as varizes os paninhos a enrolar e enxugar a exsudação das veias abertas perenemente. Alguém, não sendo a Neca então desaparecida, alguém mostra como butim duma batalha perdida trapos gazes de pensar pernas sangrentas, como herança que a pobre deixou aos herdeiros...
          João, o monstrinho segundo os tios, João da estirpe oleira dos Malandroni ultrapassava os portais de tia Assunta, a tia provinda da casa do signore Giovanni, apenas como visita à parenta ou em busca (ah valha-nos Deus!) a procura ao menos de vestígios da família para alimentar fazer crescer criticar apurar vencer empecilhos a compor com mais dados uma sua obra; enfim a recolher partículas loucas à loucura plena encadernada na typographia do bairro. Entra. Recebido pelos familiares, estranhos, uns por novos até desconhecidos, outros alheados por desconhecê-lo e entre estes a velha Assunta, tão só um resto matusalêmico, curiosamente destroço dos Malandroni, sem sangue por apócrifa casada com Tim, este sim puro sangue... morto. Viva, embora quase alienada, ela conversa com o sobrinho, tiram fotos para guardar à posteridade, a posteridade é exigente nas provas a prova sendo sine qua non para o existir ou nem ela mesma pode existir. Conversam os presentes abobrinha dentro do formalismo de educação e por fim deixam Assunta falar. Num dado momento da exposição o oleiro desvirtuado em literato descobre que a tia centenária o tomou imaginando ser ele o primo Paulo filho do desaparecido tio Nico – guarda então a viola no saco, isto dizer caipira, caipiras tanto quanto oleiros eliminados nas definições do ser; e se vai, antes se despede nos beijos e abraços... Noutra semana acompanhou com familiares velório e sepultamento dela, dela que não precisava agora mais delirar.
          Interessante como é vivo um velório. Ali os parentes a informar parentes sobre passados passamentos Malandroni, quase sempre longe e sem vínculos e dão esclarecimentos: da viúva Domênica, da viúva Lola, da duplamente viúva Nena, da viúva Tê não precisando informes por todos no sepultamento um dia desses; e dando notícias sobre os caçulas, meros epitáfios de túmulo, este existente decerto e os epitáfios sempre desprezados na quase indigência. Alguém entre alguns despertos do sono na vigília ao morto, no caso a morta, ao sabor do costume, alguém a inventar a pólvora ou a descobrir américa lamenta: “puxa, acabaram os Malandroni!”
          Um dia, num outro dia, doutra semana, noutra residência, porém no mesmo sentido o João; ah a curiosidade disparada nos mesmos olhos, os mesmos olhos a penetrar ver constatar um resquício Malandroni ainda vivo na tia Ida... Volta após anos, anos atrás visitava a miúdo a madura senhora ainda revoltada com a infidelidade e fuga do Nico; volta à casa dela como que em anteparo, sem panos quentes mas com amparo sentimental próprio do próprio sangue, apesar de a tia ser dos membros sem sangue. Contudo os anos mataram os anos e agora no retorno à residência que o infiel deixara como único bem por herança para Ida, a Ida mudada... a mesma entretanto. Fala fala a remexer suas rugas na passa de pele também matusalêmica, fala até com vivacidade as coisas que narra em minúcias os detalhes com todos pormenores insignificantes talvez sobre um dos sobrinhos dela, um João Malandroni... narra o como o onde a casa desse sobrinho. Ao próprio sobrinho. Mais uma vez vexado decepcionado um literato sem barro e de muito borrão se despede, a viola, o chapéu, um beijo um abraço para não perder o hábito.
          Então rumina quem rumina um consumatum est... Enquanto isso a incompreensão de Miguel ali prostrado de boca aberta e com inocência no olhar nesse até à vista.
          A perder de vista o filho de Lico numa ruminação se depara já em sua casa. O mesmo ladrar, estaria Peri nas imediações a instigar os outros cachorros? seria por algum vendedor nas horas sempre erradas? O mesmo portão a mesma cerca o mesmo quintal e o mesmo relacionamento no bairro. Adentra o sepulcro daquela prisão domiciliar e constata Donana, Donana é uma das sem sangue... No rigor da letra que mata, a única a restar da família com e sem sangue.
          Antes que todas confusões espantem expulsem matem sem enjaular ideias, um passeio ao extremo anterior: Os Malandroni reunidos na algazarra dos herdeiros, os velhos conversam em seu silêncio ou no silenciar empacar repetindo e repetindo as mesmas coisas e a observar quem sabe os jovens a rir fácil a falar desembaraçado a trocar como brincadeira insultos e graçolas. E nisso nesse instante a presença do Patriarca, ali atraído no ajuntamento dos seus. Antes se deparara com pilhas a esmo de tijolos. Observara atarantado mas feliz como todo oleiro, alegre ao notar tijolos da lavra malandroni, inclusive com seu emblema MM esculpido mas em alto-relevo impresso no tijolo; as pilhas mal compostas sim e que fazer se material já usado e após empilhado extraído dum prédio em desmanche. São cacos são peças inteiras reaproveitáveis talvez; expostas ao sol da tarde na rua para todos verem, não veem, passam, para; o Nonno para a fim de examinar eufórico o achado, este qual dinossauro por fora de tempo na construção de alvenaria sendo desfeita. Faz tudo de novo como mil vezes fizera e se pergunta de que barro quem fez estará perfeito e sem mácula no elaborado e na queima... ah, não suporta cede à curiosidade da oportunidade na oportunidade e assim toma um tijolo bate a ouvir tinir noutro tijolo para ver de orelha a qualidade. Olha por volta a gente que vai que vem que passa que movimenta no passeio o passeio movimentado na via pública, torna às pilhas e sorri numa felicidade que só um outro oleiro poderia avaliar – não uns olhos sem sangue!
          Quando vê, vê-se naquela balbúrdia do encontro da família. Todos a se contar peculiaridades nessa comunidade, a rigor comunidade familial. E nela, bem ao gosto deles em tempo ad aeternum dois herdeirinhos seus netos ou bisnetos, desses que apenas um dia ouviram falar dos velhos tempos dos velhos, se desentendem atraindo um juiz. Michel Malandroni intercede e diante do impasse grita numa expressão italiana tentando ser sério contra os jovens, assim como frequente o fazia diante outros meninos, seus filhos ou crianças vizinhas: “va! via, porcheria...” a dispersar briguentinhos e em conflito mesmo sem nenhuma razão, apenas a brincar com os pequenos. Imediato sorria mostrando que a ralhação não passava de brincadeira dele. Sorri. Os adultos indagam o porquê de um dos contendores, uma jovem, andar surpresa boquiaberta e ela: “vi um senhor...” descreve à assistência o vulto a voz a admoestação. As mulheres – algumas reconhecendo o dizer e a descrição feita do morto, vivo – algumas parentas choram, os homens também uns creem, não choram visto macho não chorar, porém outros...
          Entra o monstrinho no quarto da solidão entregue a Donana. Donana de olhos cerrados, a dormir a curtir o pesadelo, a se livrar do pesadelo do viver no sonho do sono? O filho não sabe, não sabe a mãe. Recorda e recordando se pensa acordada na juventude que se fora, fora ao menos juventude; na fase adulta de mulher que se imaginou Malandroni no Lico no João nos outros do seu sangue e mesmo dos sem sangue e nas conquistas humanas em soma de alegrias e tristezas, conquistas que foram certamente conquistas e derrotas, no sonho que planejara do futuro no passado de presente fortuito de tão rápido que se vê já se vendo novamente passado. Posteriormente as dores físicas periféricas das chagas anos abertas conservadas pela consciência dos homens e a compreensão apenas da Divindade, essas dores a curti-las onde curtir. Anos e anos pranchada qual boneco imóvel sem vida sem o sentir externo no apurar a verdade.
          Agora não fala mais. Falou uma vez quando já não mais falando, na manifestação a brotar da consciência ou na crise de suposta morte em vida; disse ao filho ali captando sopros do ser:
          O Nonno veio me visitar.
          O Nonno!? lembrou-se menininho o ajuntamento o sepultamento, abanou a cabeça agora mui branca cansada... E a velha ou o que lhe sobrou de mãe:
          O Nonno, sim; me pediu daquela sopa que tomava a ferver. Lembrou mais perguntou mais e você não crendo mesmo, nem crê sequer na visita...
          Desconversando o filho.
          Agora não fala, fala na ideia e no coração quem sabe, emudecida calada estática no silêncio já sem ais, os ais da existência. Contudo lembra em recordação os transes no acompanhar os oleiros e a dar base ao esposo aos filhos aos parentes aos conhecidos aos vizinhos aos desafetos dentro e fora do cortiço malandroni. Sorri, sorri menos com lábios pregados: os conviventes reunidos unidos na alegria ou no deboche ou no rir são, se vê no centro daquela atenção como leitora a lampião claudicante no rancho de tijolos, as crianças a dormir acordados adultos em torno da leitura que fazia – e ouve até sua própria voz e ainda vê a expressão dos oleiros parentes e apensos no acompanhamento do capítulo, na torcida sobre personagens e a fustigar o vilão... – chegava o fascículo de “Adorada e Repelida” no mato da olaria e já todos apressados curiosos a pedir a exigir quase para saber a continuidade, o lampião cansado desejando o aconchego no leito. No leito também as lembranças atrevidas das tristezas e dores dos seus na enfermidade no desentendimento conjugal e na intriga dos desafetos. Sem esquecer a luta eterna da necessidade contra o ganho pouco de sua família e das outras famílias oleiras dentro da família... É o silêncio que não grita não estardalhaça mas decerto se revolvendo no vulcão a se extinguir. O silêncio, o mudo silêncio...
          O silêncio semelhando bem ao dia que se acaba na noite que deseja dormir para sempre, mas pobre da noite! é apenas um escuro...

Marília dezembro 2011 – fevereiro 2012



















Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



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