quinta-feira, 26 de março de 2020

Seu Zé e Dona Maria


0121(postar no Blog Livros Inéditos)










                              Seu Zé e Dona Maria
                                                romance
                                         Moacir Capelini























moacircapelini@gmail.com


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“Eu sei,  e  estou  certo no  Senhor Jesus,  que                   
nenhuma  coisa  é  de si mesma  imunda a não
ser para aquele que a tem por imunda.”
                                                                             Paulo, Romanos, 14:14


Sumário da Obra


Cap. Primeiro – Desapresentação ou Início

Cap. Segundo – Os Primeiros Tempos

Cap. Terceiro – Interregno

Cap. Quarto – A Cidade

Cap. Quinto – História de Seu Zé e Dona Maria ou
                    apenas a do Homem Comum

Cap. Sexto – História de Seu Zé e Dona Maria: a Tormenta

Cap. Sétimo – História de Seu Zé e Dona Maria: a Bonança


         



































Cap. Primeiro Desapresentação ou o Início



A - Justificativa do título da obra. Isto a história duma existência, óbvio. O herói não fugiu da escola, não tinha escola na roça; aprendeu como possível as letras e nos números enroscou em sua indigência na pobreza da inteligência matemática: decorava a ordem um-dois-três, ou somente 1-2 já se cansando; voltava errava tornava insistia; aí aprendeu o número zero que não é número; então ficando a repetir 0121... Parou nessa lição tempo. Não é justo mantê-la titulando sua vida! Ora, a vida não passa do repetir lições nas tentativas de melhora aos seres.  “0121...” chegou a ser o título do livreto; mas tem  problemas ainda. Numa segunda abordagem o autor, este conseguindo ir além na tabuada terá chegado à do sete (conta de mentiroso dizem) na segunda percebeu que a heroína também do mesmo nível cultural do seu homem e daí não passando simbolicamente de uma dona Maria a assemelhar o herói seu Zé. Agora, como foi (veremos não foi...) como se livrou o escriba das sonâncias enquanto corriam as linhas... não se livrou de cacófatos (‘uma dona’ por exemplo); para fugir disso por vezes optou criar, criativo, palavras, ao horror dos puristas e ferindo o dicionário. Tais criações virão apostrofadas, isto para coroar aqui a linguagem coloquial. Vamos ao texto deste romance sem fôlego?



B -  Mamãe berra se escabela decerto acerta a voz, o vento sopra contra sopro mas ela berra insiste nos gritos, a tempestade vindo assustadora, implora à Santa Bárbara, ajunta em defesa os outros meninos, criança tem pra danar e o pequeno caçula, todos pequenos fora os grandes já na enxada na roça, o pequeno temporão ou teimoso num tá nem aí ou não estará mesmo ouvindo, insiste mais ela a chamar João Vítor, rouca, cansada, temerosa também, estertora “João Viiiíto!” A criança não escuta.
          O João Vítor, que o cartório lá na vila não aceitou por nome grande, e a gente em volta tem no costume dizer se de légua espichado é de ladrão de cavalo, o de cavalos então a maior praga na violência iniciante ou continuativa nas eras; não foi aceito por grande ou demais gringo quem sabe o nome; o João era na proposta inicial discutida na família enquanto elinho berrava no improviso de berço, pra ser João Vítor Eulálio Esculápio Eustáquio da Silva Gonçalves, tão petitico para tantos apelidos. O funcionário ranzinza pôs no livrão escrito José, pra virar depois Zé, da Silva embora – rabiscou com aquelas penas a molhar no tinteiro, fez cópia do documento, entregou, primeiro cobrou fez o troco lambeu a ponta do dedo igual o matuto assim fazendo no manuseio do dinheiro, porque as notas grudam fedem às vezes rasgam porém valem; enfim entregou a cópia ao pagante-declarante daquele nascimento, o pai analfabeto da cria; o qual saiu vaidoso orgulhoso por ter escrito no papel mais um machinho na família, vivo, os outrinhos anteriores em maioria saíram quase na totalidade como anjos no caixão ao cemitério ali mesmo na vila – o registro civil uma vitória da vida sobre a morte, a alegrar os parentes os compadres e os conhecidos, maismente alegrando a esposa dona Fiinha, que por sinal já esperando parece outro nenê, não aquele nenê trocado de João pra Zé no prazo legal, registro feito passado quase ano com mentira na datação a se livrar da multa. E assim o pai dele, tendo cuidadosamente amarrotado a folha que ele dizia “fôia” dentro dos conformes e atenções e posto dentro da broaca entremeio os outros documentos, assim ele montou de novo na mula num rumar pra casa. Dessa forma iniciou o Zé.
          Aliás o garoto, caso houvesse ido à escola não existente, mais tarde descobriria pela professora que o cartório havia registrado de fato ‘José’, com direito ao povo a apelidá-lo Zé; e não Vítor nem João e muito menos aqueles nomes por atacado gregos na roça e no cartório da roça. Ficou João Vítor um tempão na família até virar Zé definitivo.
          Assim iniciou o Zé.
          Mas o que é início.
          Pra uns, estes sendo loucos e de parte com o diabo, tisconjuro! pra uns é o fim. O fim é o começo no nascer renascer viver mil e uma vidas ou existências na vida; e sendo assim seríamos herdeiros de nós mesmos em pagar em retificar em refazer o malfeito e se aperfeiçoando melhorando – e dito nesses termos – o Zé estando no fim de mais uma etapa a iniciar outra, no exato momento que a mãe lhe grita “João Viiíto!” Outros afirmam que tudo não passa duma besteira consumada, onde já se viu não se viu nunca alguém que tenha morrido voltar pra contar e portanto é mentira. Assim o menininho vem puro e angélico. Daí sair de anjinho quando Deus chama a gente nova e parte ao túmulo num caixãozinho, de preferência carregado por outras crianças, vivas, à cidade dos mortos da Vila, com muito choro inconformado, da mãe sobretudo, choro e vela. Nestas condições que um João Vítor antes fora sepultado, a família guardando como homenagem o nominho pra ser repetido noutro irmão dele, o qual agora nasce cresce e é um anjo de bondade na sua alminha infantil... Aqui encaixamos a questão da inocência dum ser ao nascer; pensar não do homem comum e sim de pensadores ou malucos... Voltemos ao garoto vindo ao mundo.
          O anjo puro inocente está agachado. Faz força, não muita pois correra a defecar por ordem abrupta valente imperante da barriga, nunca a gente sabe o que comeu nem o que fez mal e no caso do João Vítor isso nem lhe passou pela cabeça. Tão só estava atirando no poço umas bagas de mamona, arrancava uma a uma as sementes e atirava lá embaixão fazendo gozado glute a remexer a tona que devolvia a claridade do dia desde o caixão estragado podre quase nem aguentando o balde amassado por uso e pesado preso ao sarilho, o qual fazia engraçado troc-troc a desenrolar levar o balde pro fundo e de volta, troc-totroc subindo cheio mas isso serviço de gente grande o João só vendo e apreciando bem a atividade; não agora. Agora pega a mamona, atira lá na água e decerto elas a ficar boiando por tão pouco peso e nem assustando os tambiús. Ah o caso dos tambiús, tinha o tio Arlindo metido no meio, o metido. O tio era gabola e pirambeiro igual o pai, só que o pai quietarrão e se falasse tremiam os filhotes pela ameaça a dar de cinta de sangrar até e a mãe implorando que não batesse, aí também apanhando pra ensinar quem manda no lar. Era pirambeiro, desses uns que ficam dormem moram na barranca do rio e bebem, ah isso sim bebem como fora água, água-que-passarinho-não-bebe; e curioso, não caem dentro do rio e se caíssem não tendo importância pois somente a afundar a barriga e metade dela ficando àcima da tona porque um córgo apenas. Desses uns que voltam contando os brutas peixes gigantescos mesmo que perderam (cada um com uma história bem documentada de existência) e trazendo de fato uns lambaris, alguns já a feder na decomposição; aí mostram os louros da vitória: uns peixinhos enfileirados enroscados nos paus forquilhados pelas guelras sangrentas já pretas antes rubras a ser descamados lavados salgados e fritos como mistura de almoço embora, mais cedo, pudesse servir a ajudar engolir arroz e feijão da janta anterior; aí a xeretice dos meninos e mais do vira-lata próximo, a quem sabe sobrar-lhe algo... Então o tio trouxe uma vez, não podendo tubarão quiçá baleia os quais quebraram a linha e engoliram anzol e minhoca fugindo; trouxe certo dia uns tambiús, já grandinhos, assim de quase palmo, menos diz a verdade, vivos, trouxe-os e os atirou no poço. Oh sim, dizem que dá sorte e limpa a água que a gente toma e dessa maneira não dando dor de barriga, alimpa igual faz sapo; lá dentro já tendo muito e rãs, daquelas pererequinhas que nunca a gente consegue pegar e quando, são frias lisas e cabem na mão de moleque. Daí os atirou lá embaixão. Fez mais: botou os peixes, tinha um moloide que morreu e estava moribundo e antes que fedesse a água e na água então jogou o defunto ao boboca do Peri, este ladrou propriedades porém foi mesmo a carijó que abocanhou o peixe quase morto, quer dizer: bicou certeiro e saiu com a presa presa no bico num correr pra todo canto contra a concorrência das aves, enquanto o besta do cachorro ficou na prontidão no aguardo doutro tambiú, que o tio não ofertou. Então desceu o balde de manso, desenrolando a corda do sarilho bonitinho devagar e cuidadosamente. Bem, quando trouxe de volta o balde só tendo água limpa, os tambiús a singrar naquele mundão líquido do poço lá embaixo. Desde essa época os curiosos de casa e de fora sempre no ver aquele criame extraordinário e a esdruxulice na água límpida e eles a pratear no reflexo do sol onde se banhando. O Joãozinho também se acostumou vê-los, só não sabendo a hora do meio dia, não por causa do despertador quebrado mas por não saber mesmo ver horas, com seus dois aninhos, talvez menos de dois. Olhava olhava, sobretudo quando a atirar objetos lá embaixão, vendo pelas frestas da podridão do caixote-de-poço a esfarelar. Olhava curioso os peixinhos a pular, como enxergando agora a semente de mamona a despencar no tigum na tona distante; um gozo! Sementes paus pedras, tudo atirado no poço, numa santa atividade de ingênuo e inocente no impulso de criança. Agora são sementes arrancadas semiverdes do cacho e pelos buracos passando e caindo nos metros pra si quilômetros de fundura. Mas eis que lhe cobram... a barriga se retorce contorce dói espalhafata puns incapazes de harmonizar o todo, dá enfim ultimato e o Zezinho corre ali perto mesmo para defecar. Quase nem conseguira abaixar as calças simples curtas sujas usadas. Desaperta, sua até. Já pensa de novo nas mamonas. Vai se levantando, elas em volta, elas as galinhas, vai se erguer, elas em volta, vai se levantando sequer no pensar se limpar, na roça servem folhas, alguns roceiros apelam ao sabugo seco de milho até; menino não pensa, o João Vítor, a mãe se esgoelando lá lonjão que é ali pertinho, ele não escuta não atende, sente apenas o malcheiro e vai puxando suas calcinhas pra cima, inclusive se esquece que mamãe irá cobrar-lhe haver feito cocô e sujado a roupa por dentro, só lembrando a brincadeira (o adulto porventura pensaria que pensasse um menino em altos negócios!) Elas também não pensam, olham, observam vêm chegando devagarinho e começa o resgate das fezes do garoto, quase nem lhe dão oportunidade para completar o puxar as calças e se arrumar direito no mais ou menos, para reatar finalmente o brinquedo: já embicam brigam disputam o alimento, chegam aos magotes pra comer a ex-comida da gentinha. Ele as espanta, abre entre elas como fosse uma rua naquela farra gulosa das aves, que imediato fogem e imediato também tornam insistem a bicar o monte. Elinho não pensa duas vezes, criança não pensa: toma o resíduo impuro e fedorento, a atrair também moscas enxeridas, e fá-lo com um pedaço de tábua velha, transporta a meleca, claro ainda ficando muito comer ao comer das penosas, elas de novo num ajuntamento; aí leva se arrastando gozado com pés nus no chão a coisa até à caixa esburacada do buraco do poço e atira pra baixo... faz mais: olha o efeito, imagina a luta dos tambiús do tio Arlindo no criame lá no fundo para comer suas fezes. Contudo não vê nada, ouve tão só tiguns, já que o sol somente brinca ao meio dia e deveria estar passando então o ponteiro no relógio ‘hélico’. Fica um pouco desapontado e sem graça, essa graça de gente, de vidinha de gente.
          Porque o João Vítor, e nem sabia assim chamar-se o Zé; porque ele está na sua infância e é um inocentinho. Um pouco arteiro, embora inocente como toda criança na visão do capiau.
          Era assim Seu Zé, que mora aí em frente.
          Era quase assim Dona Maria, que mora aí em frente junto com seu esposo, casados no padre e no cartório, supõe-se, Dona Maria do Seu Zé, o Seu Zé da Dona Maria.



C -  Dona Genoveva, ela em pessoa se esgoela a chamar, antes, depois gritar pela filha. Onde já se viu, pensa a conversar consigo mesma não tendo gente nas imediações, as imediações naquele dia querendo elas vomitar calor absorver receber passivamente quase a tempestade, diria, não diria então o costumeiro “valha-me Santa Bárbara!” e esconderia as crianças elinhas resguardadas no cemitério da Vila saídas com choros de anjinhos, sobrara a Maria, ela apelidara a garotinha Naíca, um apelido sem sentido por nada tendo com o nome Maria, Maria agora perdida naquelas brumas prenhes de chover ventar ‘tufonar’ derrubando o mundo a cabrita também a gritar desesperada berrando, os estrondos no céu estrondos na terra os objetos arremessados pelo bater das ondas do vento e tudo a cair com barulhão – e a menina não aparece, se desespera... Entretanto Maria não anda a fazer artes nem se perdera se perdendo ou fugindo na imensidão do nada feito em tudo. Não. Pegara no sono; nela soninho, antes abrira a boca, se iludira com não sei o quê, que podia ser borboleta passarinho minhoca besouro a se mexer, quando foi surpreendida no amolentamento e daí quando viu não viu, dormindo. Sequer ouviria os gritos estertorados da genitora. A chorar quase entregue ao não-tem-jeito, agora a soluçar baixinho, ou que a ventania estrondava os abusos dos sons eclipsando sua voz. Após o choro o grito o sofrer o sorriso no achado da filha, elinha ainda no pouco mais que andar, e não andava andava a dormir, pequetita assim. Um anjo a repousar, não existe maior figura a tratar da paz que a da criança, inocente, a dormir! Genoveva, então, agradeceu o presente que julgava haver perdido na tempestade; agradeceu aos céus – não clamou nem agradeceu à Santa, pois iniciava na época a família a se adequar no também incipiente movimento evangélico naqueles lados. Quis para agradecimento fazer uma prece em altos brados à feição da igreja, quis orar através do mais belo hino de sua nova seita; mas não sabia ainda neófita mexer com esse instrumental. Por isso apenas chorou alegrias, assim ‘desmolhando’ o coração e umidecendo todo o planeta pelo sentimento. Não fez nada. Nada mais que olhar e mais olhar aquela preciosidade morena. Sequer sabendo primeiro que a natureza trabalhara milênios a aperfeiçoar as vestes físicas de sua ‘raça’ indígena, bugra como dizia a mulher; nem sabendo também, logicamente, que nas lonjuras ali perto, dentro do mesmo orbe, outra criança escurinha traquinava a atirar seus restos no poço para vê-los ‘tigunar’ na tona aos curiosos ou espantadiços tambiús; e que esse moreninho representante macho seria, posteriormente, seu genro; um que o povo gostando a apelidá-lo Seu Zé. Seu Zé da Dona Maria. Dona Maria de seu Zé.



D – Mas isso tudo se liga aos inícios de Seu Zé; antes inclusive dos inícios. Sem querer traçar a árvore genealógica de José ou de João Vítor; na tentativa em gente pobre estando ela mais para arbusto, pé de mato, do que vetusta árvore. Não obstante havia sim ligação, mesmo nesta matéria não se tratando da selvageria do humano desvirando macaco ou a da selvageria do tempo em que mais falava o trabuco que a língua. No sangue realmente se ligava é certo ao pai e à mãe. O pai, seu Chico a esbanjar machezas como era a ocasião disso, o pai não tendo mãos leves nem tratos civilizados. Um psicólogo que se metesse a explicar o pai di-lo-ia um ser revoltado enrustido, sadomasoquista? O contar no boca a boca a família revela suas razões. Um irmão mais velho, deficiente, esclarece um pouco o revanchismo de Francisco. Emílio, o tio Emílio pro Zé, Emílio seu irmão (eles falavam “irimão”) nascera torto definhara as perninhas e abusava da fragilidade: chantageava os seus a imperar e tomara ao Chiquinho para mártir, com anuência da proteção materna exagerada. Virou cadeirante, palavra ainda não inventada; fizeram-lhe num improviso um carro de madeira a se sentar e para movimento ajuntando umas rodas duma bicicleta Hércules inglesa velha e quebrada. O curioso é que o executor da obra mostrou talento e o aleijado ajeitava suas perninhas secas razoavelmente bem e assim empurrado já mocinho pra todo lado por Francisco. Aí abusava e vivia gritando e inventando modas e artes como sendo feitas pelo maninho inteiro, sobretudo nas proximidades estando mamãe. Assim o moleque virou criado e quase escravo do moço. Praticamente não teve infância e no futuro próximo e no distante tornar-se-ia revoltado e ranzinza a se desrecalcar pros lado dos outros familiares. Assim foi entregue o Chico pela sua família, a qual tratara com a da viúva Maria o casamento com dona Fiínha (logicamente um apelido caboclo) esta pouco mais que menina mal crescida. Ele descontaria nela suas agruras de escravo tornando a pobre escrava e fazendo na pobre mil e um filhos. Guardadas as proporções, ocorreria semelhante quando a família de Chico negociou com a família da viúva Genoveva o casório do João Vítor com Naíca ou seja Maria, ele então caçula ‘sobrante’ quando do episódio da mamona do cocô e do tambiú no poço... Entre o pessoal do genitor de José havia mais um cadeirante, a tia Cida. A família produziu outras deformações ou degenerações, entre lunáticos e doidos varridos, mas isto não aparecendo no físico por deformação interna; não contou. As estórias e quase lendas que se falava dessa genealogia de arbusto relacionavam, de grave e para ter pena e a se contar baixo ou longe de estranhos perto dos íntimos, apenas os dois cadeirantes. Cida era o oposto de Emílio; este o tirano ela a santa. Aliás o povo antigo pegava demais no pé de suas fêmeas e alisava demais seus machos, fossem ou não deformados e abusados, o caso do tio Emílio. Ela como toda menina trabalhava ao exagero. Não podia ir à roça puxar enxada como as irmãs inteiras; no entanto fazendo todo o serviço doméstico desde pequenina. E se arrastava como possível, a puxar as perninhas incapazes, pulava como sapo se movimentava deslizando qual cobra e a acabar por fazer o serviço da mãe. Esta doente, sobretudo nos abusos de parto – era comum a mulher perecer dando no parto a vida para vida do filho; não sendo este o caso; ficou doente anos e foi substituída pela garota nas lides caseiras. Faleceu. Ficou gerenciando e mais fazendo de fato tudo a Aparecida. Tudo aqui, tirando algum serviço mais dificultoso nas prendas domésticas de então como rachar lenha pro fogão e puxar água do poço, ainda assim carregava se arrastando a vasilha quase cheia até à cozinha; dar manivela a movimentar o sarilho não conseguia.7 Por esse tempo o caixão da cisterna não tinha apodrecido nem havia tambiú lá embaixo nas águas, além de não se esperar que a jovem aleijada ficasse a brincar atirando mamona nos peixes e muito menos cocô... Uma Cida que seria bela fosse inteira. Não obstante com suas ilusões: se pintava, aparecia na janela a sonhar com o príncipe encantado; embora na roça, pobre em príncipes e mesmo em visitas machas outras; e foi assim até morrer, nessa altura sendo respeitada por todos, mesmo pelo azucrinante Emílio, o qual abaixava a crista na presença da mana, nessa época prateando e enrugando e decisivamente titia já sem esperança no casório. O Chico recebia dela bons olhos e guardou boa memória desse ente querido.
          O tempo passou. Houve anjinhos-tios e tios-vivos. Os tios inteiros ou deficientes de João Vítor foram todos eles desaparecendo como sói ocorrer entre os seres humanos. Sobrando seu Francisco, um pai velho, um “velho cabeçudo” reclamava a esposa longe do marido aos filhos e comadres; mais que um velho, quieto quase sem ruminações, apenas as suficientes; e abusivo nos seus atos; estes sequer podem ser contestados, mesmo estando a se dar no momento em que ela grita “João Viiíto!” Então o Chico é simulacro do macho, um homem fraco e doente, acabado.



E – Já dos lados de Naíca de nome próprio Maria, ela parecendo um anjo moreno de pálpebras cerradas a deslumbrar Genoveva, dessa banda da família do menino quase nada se sabe. A rigor nem Dona Genoveva conhecia muito. Viúva, a garota sequer conheceu o pai, a mãe de Maria apenas sabendo por ouvir falar que os seus familiares migraram de Minas ao Estado de São Paulo, então província, e que se meteram em muitíssimas encrencas; vivendo mais ou menos como ciganos um dia aqui outro noutro lugar não parando num roçado. Ela casou-se teve vários filhos, perdeu todos nas doenças corriqueiras e nos partos mal feitos. Naíca sobrou-lhe. Posteriormente esta seria a Maria de Zé e a velha indo ficar apenas como sogra desconfiada a residir com o casal, até morrer de tifo ou maleita. De maneira que a base intelectual e moral de Maria veio da família de Seu Zé, ela perdera sua genealogia caso a tivesse tido.



F - João Vítor anda agora ocupado com suas artes... Agora temos um casal à moda do tempo antigo (esta expressão sendo bastante safada e demais abrangente); poria tudo até chegar neste ponto o espaço de pouco antes do fim da II Grande Guerra; João Vítor, ainda todos analfabeticamente pensando assim e logo um letrado enxerido a descobrir a América do João lendo o registro oficial assinzinho de traças ou só furado com os buracos delas: “foi feito neste dia o assentamento de José, do sexo masculino e...” Nisto ninguém sabendo a satisfazer melhormente os escritos dissessem “é um menino homem” não diziam. Assim mesmo se espantou o público com a novidade após muitos anos já, o interessadinho ora olhava os lábios leituristas ora olhava o pai a falar baixo “o Mané do Cartório me enganou, oh cabra safado, pois falei prele escrever João Vítor Eulálio Esculápio Eustáquio da Silva Gonçalves!” Eustáquio era um tio do meu tio, Eulálio o avô da mãe, Esculápio não sei donde tirei isso acho que era o compadre que morreu na Fazenda Flor Roxa, não é assim Fiínha? A Velha consentiu e não discordou ninguém a discordar do Silva e do Gonçalves, talvez o Mané do Cartório; só o Chico, o Chico a dizer no quem sabe ir lá à Vila procurar o desaforado e dizer umas boas a esse Mané... “Mané! Chico, só se for o filho do Mané: o homem não deu um tiro no Mané por causa do...” De fato, não se discute com defunto, ou se leva o pior, tisconjuro cruz-credo e vixe! Assim o João Vítor, o qual nunca chegou a Joãozinho nos agrados íntimos, virou Zé, Zezinho em pequeno, grande um Tio Zé entremeio àquelas pequenices de gente mediana, mais ou menos baixa como depois em adulto a virar o Zé da Dona Naíca, a qual muitos conheciam mesmo por dona Maria. Por isso, quer dizer para não confundir Zés, ficou Zezinho, por sinal arteiro pra danar. Agora João Vítor anda ocupado com seus ofícios ou sejam aquelas suas artes...
          Já anda, ah como anda não param aquelas perninhas tortas e morenas, baias como falam; os grandes, todos da ‘grandura’ pequena ou de estatura média pra ser proeminente na família; esses grandes não podem ficar cuidando do molequinho; nem a mãe com um mundo de afazeres na casa e sobretudo levar a comida na roça ao Chico e aos meninos sobrantes e teimosos em não sair de anjinhos como os natimortos anteriores. São meninos já sabendo e podendo fumar e meninotas que não põem cigarro na boca, direito apenas de Fiínha no sexo a dar bons maus exemplos a diminuir um pouco na vida reta da matrona. Todos no eito, alegres ao ver a mãe com os apetrechos de comer, pois já passado das 8:30h do almoço a fome tamanha e o cansaço eram favoráveis ao parar comer e conversar. Os velhos falam suas coisas, Fiínha um pouco mais alto, ardido, o Chico baixo grosso e sem contestação nas suas afirmativas; desse tipo que faz vez que outra concessão à mulher falar alguma coisinha que o não contrarie. Faz xixi atrás dum pé de café, antes olha se as meninas não olham, bebe uma porção de água, água-que-passarinho-não-bebe não bebe, bebe só depois do serviço, no lar, quietinho; quando todos torcem que não beba de mais ou lhes sobram pancadas ou o correr de perto; de menos vai amolecendo amolentado para sua cama, ajudado pelas murmurações da patroa, então suficientemente corajosa a ajeitar o marido no colchão (por vezes chamando uma das meninas a auxiliá-la no mister, mesmo porque bebum pesa horrores sendo o bêbado a esdruxulice em pessoa, é mais fácil acomodar um porco ou um garrote esperneante que ao chefe da casa). Acalma. Os filhos já podendo então brincar e brigar em paz e sem temor gritando suas coisas; só no exagero Fiínha admoesta. Agora despeja a comida numa toalha no chão, o Peri... passa sem-vergonha diz e ele desarma o rabo de rir alimento. Sentam-se ajeitam-se mastigam comentam seu viver ali também. Todavia o céu não tá pra brincadeira naquela manhã; engolira o sol e as nuvens, estronda longe, estronda mais perto, parece que vai vomitar medo à terra, a eles em particular. Ela então se lembra do moleque! só; e menino sozinho é um perigo, especialmente se for arteiro como João Vítor... Larga todos tudo, corre pra casa desembestada. “João Vítor, João Viiíto!” Não encontra. E o garoto apenas espantando as galinhas a comer seu grude, nem um pouco preocupadas com as carrancas do céu nervoso com relâmpagos e trovões, as cabritas sim: berram, berram ao desespero; os porcos choram talvez a fome ou pelo temor; os insetos voejam a avisar e a fugir – o temporal então destrava flagrantemente ali perto. O João Vítor preocupado com atirar objetos nem sempre sólidos mas emolientes aos tambiús de tio Arlindo... A voz dela chega sim, deve chegar aos ouvidos, orelhas atentas mais ao ‘tigunar’ lá embaixão na tona da água do poço de caixote bem fraco podre por dezenas de anos no uso das gerações da família, desde o tempo de tia Cida, a qual falam fala o pai era toda enrolada nas pernas conseguindo fazer tudinho na casa. Ele fala assim quando sóbrio, às vezes entremeio ao tremelicar do lume da lamparina em que os seus ouvem as coisas e os causos, especialmente se tem algum compadre presente, ou vindo alguém a convidar para o terço na fazenda. Dona Fiínha assunta, dando lá suas bicadas, mas conta mais das lembranças da família de Chico, a de Genoveva quase nada tendo de recordação que possa interessar estranhos conhecidos. O João Vítor também assunta e espreita as sabedorias, não vai dormir, prefere a conversa da gente grande, só dorme ali sentado ouvindo, desouvindo em sumindo sumindo por vezes. Acorda noutro dia, já descansado da falação dos outros e de suas artes no dia anterior.

         
G – Agora o João Vítor Eulálio e demais latronices de cavalo em nomes grandes virou grande, grande de pequeno arteiro e corredor atrás do Peri ou com o Peri atrás das galinhas e já consciente ser José simplificado na boca da mãe Zé. Tendo ele ainda aí por uns três anos, mais ou menos, mais ou menos nos festejos de três natalícios os natalícios sem as frescurinhas de muitas festas urbanas, sequer na Vila havendo disso; porém lembrando sim o como foi como não aconteceu na data, um dia 25 de novembro e poderia com sorte haver esperado um mês mais para nascer e fazer aniversário com Jesus, a Vó Veva que falava assim a cultuar religião, dizem que possuía uma Bíblia preta e quase nova velha com a velha, sem que soubesse ainda ler, ou adivinhando as coisas ou ouvindo as coisas por um letrado a ler e explicar bonito – a pobre fora engolida pela família de Chico, e da filha também, tudo a girar em torno do pensamento católico. Morreu sempre a falar no Salvador e entoando mas quem sabe erradamente uns poucos hinos evangélicos desaprendidos pelos esquecimentos mais; sempre a falar que aquele tiquinho de neto pudesse haver esperado mês a coincidirem o aniversário e o Natal. Não obstante Fiínha alembrando a data – isso as parturientes por anos nunca a se esquecer – sempre mesmo falando ao Zé, então João Vítor: hoje o menino da mãe faz dois aninhos, depois “três aninhos!” e a ofertar um beijo uns abraços fortes na cria, a qual sequer entende bem essas ‘coiseras’; tanto assim que se esgueira espirrando pra baixo ao solo firme qual fizera se esgueirando puxado por Dona Dita Parteira na bacia com paninhos; e depois berrando, o Zé deu foi muito trabalho sobretudo a gritar o chorinho de noite por noite toda a incomodar o pai, o Chico reclamando lembrando que os outros filhos, mesmo os que saíram de anjinhos nos caixõezinhos, não choraram tanto; a mãe: vai ver que é dor de barriga; e punha pano quente e dava chás e o enrolava com faixas qual múmia do faraó nem sabendo que fora no Egito, só Genoveva que sabia de José a guiar os judeus escravizados e outras coisas mais que sabia ou que sabia inventar ouvidas dos outros a ler nos escritos sagrados; não sendo por isso o nome Zé José, sim por erro do Mané no cartório da Vila. Porém que chorava, chorava o moleque. Depois não ‘deschorou’ e pelo contrário ficando mais chorão. Sem que isso ocorresse por briga com outras crianças: o Zezinho crescendo só quase até ao pôr calças compridas e desvirar moleque virando homem. Nem por isso teve sua meninice na paz, ou apenas a tendo remota: arranja novas encrencas... Jovenzito, aos três anos atira pedras no mangueirão; tenta comer, ao menos experimentar, o gosto do cheiro da lavagem dos pobres porcos e não apreciou; atira pedras nos pássaros, nunca acertando, mais tarde com estilingue acerta dois ou três sem conseguir abatê-los; atira então pedra e paus nas galinhas, mais ingênuas e mais domésticas, machuca algumas espanta outras, o Peri já meio velhote ajuda seu deusinho arteiro no fazer malfeito: corre avança late e no fim às vezes uiva qual lobo embora sem pedigree e autêntico vira-lata. Brincam juntos, estão ambos com carrapicho e carrapato dos pastos em volta, quase sempre o Zé precisa apanhar por fugir longe de casa, tão só fugir ali pertinho; se subtrai às vistas maternas, contudo o Peri não o deixa esconder-se dos chinelos, ladra a mãe dos dois, ele que pensa ser irmão do Zezinho e a mulher a mãe de ambos. Todavia o menino sabe com arte fazer arte: arranca lascas do mangueirão, amarra a perna da galinha, solta o canário da gaiola do pai (e apanha da mãe depois outra vez do Chico na volta da roça, sem aprender a lição) atiça o cachorro no gato, monta a cavalo na cabrita, tenta um dia mamar direto nela o comum sendo mamar sim na mamadeira leite de cabra com café adocicado desses de grudar no gogó; vai examinar o que tem por baixo da égua. Enfim um capetinha. Mamãe não sabe o que fazer mais com o filhote. Fala fala reclama, bate algumas vezes na bundinha, chora o rapaz soluça para brincar esquece e repete doses. É dose. E se houvesse famílias por perto! vivem sós entre familiares; arranjaria decerto desentender para se entender com outras crianças vizinhas. Mais tarde, já garoto de escola nunca tendo ido a uma, mais tarde terão vizinhanças, aí o Zé moleque de enxada. Dará um menino trabalhador; e ficará cada vez mais fortalhão, inversamente proporcional enquanto seu velho mais velho e fraco. Não agora, todavia irá tornar-se como que um chefe, um líder, não mandãozinho nunca será abusivo nos mandos e desmandos, porém o chefe moral no eito; quase a ‘mandar’ no genitor, mandar pelas atitudes sérias que tomaria. Agora cresce, crescem suas diabruras, próprias dos inocentes que aportam nos clãs pobres do meio rural. ‘Descomeçando’ o começo em que os meninos aprendem a ser gente.



H – Zé adolesce. Antes ele é Zé e já se sabe Zé, não João Vítor; entretanto não conhece Naíca. Muito embora, moram próximos; aqui proximidade de roceiros, a família dela migrada das Minas Gerais, de Montes Claros pra cima já quase baiana e nordestina na sua morenice e costumes. A dele ali perto mesmo da Vila Queirós vinda de mais pra riba diria o pai do pai avô do Zé, das Alagoas, sem nunca haver tocado Maceió: os interioranos e sertanejos se bandeiam em geral de sertão ao sertão, hajam migrado. Então chegaram no interior de São Paulo e se fixaram puseram raízes aumentaram o clã, e não se mudaram, mudando tão só para outras terras na mesma terra, assim até chegar a Zé, que nunca ouvira falar na mocinha Maria, antes de olho noutras marias da espécie matuto. Já sofrera na época desespero em choro o passamento da mãe Fiínha, a deixar viúvo o velho Chico; o neto chorara pouco a vó, desconhecendo, e assim mesmo em vista da desvirtude da imitação ao ver os mais velhos com lágrimas e no luto, o Chico botou luto fechado pela mãe e depois pela esposa; também chorou pouquíssimo o Zé quando da Veva, Dona Genoveva faleceria nos braços da única filha, sua Naíca. Naíca era uma senhora moça casada do tipo andado, experiente, quando perdeu a mãe. Antes do passamento se consorciara com Zé, então longe ser João Vítor; antes ainda sendo uma formosa morena, sem que lhe fosse dado escolher o namorado o noivo o marido; não obstante o acordo das famílias contentou a jovem Maria a qual representa na época e posteriormente então casada uma lagoa mansa e de águas calmas, onde os sons mais flagrantes são os dos peixes a pularem de tardezinha e dos pássaros a rodeá-la batendo asas; o consorte ainda sequer namorado e mesmo um desconhecido: representa o rio, não o rio caudaloso e de corredeiras a barulhar nas pedras em cachoeira mas um riozinho com comportamento de córrego, também manso também tranquilo e em águas a mexer deslizar vibrar refletir a luz solar, igualmente com águas mansas. Ela sim a mansidão e a pacatez quase, porém o pretendente longe das qualidades de Maria. Ela brincou criança com outras crianças, não fora isolada como o Zé-João Vítor. A vizinhança lhe dera muitíssimas coleguinhas e amigas. Não obstante logo cedo tomava da vassoura a imitar mamãe; dava milho às criações; aprendeu bem a cozinhar e fora boa companhia à viúva Genoveva. Nunca tomou o cabo da enxada, em não ser a cuidar da horta ou duma que outra planta; tinha um jardim de latas, a roça tradicional não é pródiga na jardinagem e sim na plantação de sustento. A mãe também quase não trabalhara como agricultora, antes um pouco com os seus desaparecidos ancestrais; depois com o marido e filhos – todos engolidos prematuros pelo cemitério, não a necrópole da Vila Queirós. Quando morto o marido Genoveva comandou os peões, assim chamados os trabalhadores por dia. Apesar dos esforços da mulher, perdeu até a propriedade acanhada. Ao tempo do casamento da filha, não possuía nada de seu e iria ser mantida pelo genro. Maria, embora mansa e quase tímida, tendo certa facilidade a granjear amizades; sem contudo se dar ao luxo e talvez à volubilidade em ter namorados, descerto se engraçando por algum homem jovem então; a mãe era severa e tolhia abusos. De maneira que, num tempo de varões e virgens, casou-se virgem como fora até aí boa e mansa, sem ingenuidade, tendo ótima conduta moral. Não foi isso um presente ao Zé que seria Seu Zé da Dona Maria? Resta saber se merecendo ele o presente...
          Na adolescência o Zé deu algum trabalho, menos trabalho que costumam dar os jovens na cidade; chegou a respondão vez que outra, sem que Chico pudesse, fraco e quase à morte, dar-lhe uns tabefes e mesmo gritasse consigo. Fiínha então quem procurava dar cobro aos abusos. Depois ensaiou acompanhar os outros moços de sua idade aos bailes por aí, ricos de encrencas e facadas e sanfonas e namoros, aí não podia com o filho: ralhava falava quase aconselhava, pois sabia de experiência com a prole mais velha moça e sobrada daqueles tempos ricos no perder criança como anjinhos e caixões; sabedora, reclamava advertindo Zé dos perigos. Todavia conselhos não entram nas orelhas machas e o rapaz experimentou arruaças pra ter vantagens a bravatar no seu meio. Por sorte nesse azar nunca brigou de verdade, nunca também se engraçou demais com as festas, mais indo pra ver a sanfona a viola os outros nos folguedos; além disso sempre foi péssimo cavaleiro, uma vez caiu da mula andadeira sem estar bêbado sendo que não se viciou no álcool como demais jovens da época, ou seja: os parentes próximos os conhecidos e os desconhecidos. Logo se desgostou, tomando o rumo da seriedade da honra e do trabalho digno. Considerava-se um esteio da família na labuta diária e de fato era. Assim Maria recebeu igualmente o jovem como verdadeiro presente de casamento, seu homem em casamento.



I – Casaram-se no padre, ao costume no costume do tempo; sem grandes alardes e sequer nas preocupações com a lei, antes sim com a moda aceita no meio em que viviam, portanto nos festejos abençoados pela Igreja. Todavia nas festas sem festas. A crise que os fazia mambembes criaturas de um lado; doutro aquela que levaria à morte o velho Chico. Maria virou imediato babá do sogro e nas sobras as sobras ao príncipe encantado. O príncipe saindo trabalhar logo no dia imediato, a segunda-feira consagrada na urbe à preguiça e na roça também, estando o mato a crescer e a riqueza a se empobrecer... O comum na ocasião era o casal lavrador fazer lua de mel de enxada capinando na segunda, o sábado matrimonial regado com impaciências temores e bebidas e condizentemente algum vexame do noivo etilizado e a noiva ao vê-lo dormir. Ocorreu diverso a eles, ela a pegar no pesado doméstico, essas prendas domésticas a nunca acabar e ainda por cima no por baixo tendo um enfermo de respeito para cuidar; enquanto ele, o ‘noivo’, de enxada mesmo em vista ser chefe de sua turma no eito; ou no contrário seria quem sabe o caos, os manos sem expediente e de pouca iniciativa no trabalho ou então ficariam a curtir o matrimônio do Zé ou mesmo fugiriam à venda na compra e no dedinho de prosa. Um esbanjamento dizia o José deles nisso, por ser comedido quiçá seguro nos gastos se não sovina. No entanto esse novo defensor do clube dos sérios não passava do caçula da família, o ex-peralta João Vítor, “João Viíto!” gritava nos refolhos de sua mente a mãe Fiínha, esta já na Vila, no cemitério da Vila. Fez portanto o festejo de casório na luta, a enxada qual espada como arma contra a crise econômica a empobrecer melhormente os pobres. Não obstante feliz, o quanto a incapacidade humana permite na compreensão do vocábulo. Feliz a dar ordens apenas dando exemplo, quase sem falar o que dizer dos errados dos manos em meio ao solo ferido com hálito de terra e vegetais; feliz por consciente aguardá-lo na casa a esposinha bela e séria nas lides.
          Maria arruma desajeita as coisas no lar pobre, sem ter tido pretensões e sonhos além do necessário; por ter apenas mudado de casa, não de estilo de vida; agora a remexer a se pôr nas prendas de sua nova residência – uma casa grande nas proporções da família mas velha e gasta pelos anos desde Fiínha e antes de Fiínha, desde sim os tempos do Chico forte e até abusivo e nesse momento fraco e doente a ser cuidado; uma casa trabalhada pelos anos e com buracos novos e ventos intrusos nas lascas de coqueiro e barro a despencar, sabido que os roceiros se preocupam mais com a lavoura menos com o bem-estar da patroa – sua nova residência velha de mulher nova e sadia. No entanto vai aos poucos dando sua feição à feição do lar e dos moradores. Atende o velho, vê sua velha; esta logo faleceria a tremer suas maleitas; o sogro permaneceria um pouco mais, teimoso no sofrer. E havia nas costas fortes o peso no preparo da refeição e os cuidados mais aos cunhados ainda não casados e no serviço de lavrar com seu homem. Lava a montanha de roupa, acerta as coisas, varre, puxa água, maneja o sarilho do poço, decerto não olhando peixe nem sabendo ser local de tambiús, tio Arlindo apenas estória na casa; sequer nisso a conhecer a ‘sabência’ dum arteiro a atirar mamonas e fezes no líquido que agora escorre desde a vasilha no caixote da cisterna e que ela carrega com esforço para a cozinha e aos afazeres mais. Posteriormente faria disso tudo em barrigão arfando suando o esforço. Agora faz a cama, usam a que fora dos sogros, o Chico se acabando numa solteira dos meninos. Repõe objetos. Têm umas estatuetas no oratório de cultivo da sogra morta viva; coisas de trocar toalhinhas e velas. Faz isso e mais aquilo, esperta, e ainda sobra tempo a aguardar o noivo, ela continua a falar noivo e não esposo no desacostume do costume. Ele vem. Torna da roça suado sorrindo amor simples pros seus lados. O Zé da Dona Maria; Dona Maria do Seu Zé – ambos no preparo, em inícios de uma vida a dois, dois ombros amigos a se sorrir, quase sem se falar.






Cap. Segundo – Os Primeiros Tempos



A – O comum do homem comum é o filho responsável – aqui sem cognominar irresponsáveis os manos mas quem é que pode com a língua do povo! – o comum do acontecer é o membro deixar a casa; não foi assim: a casa deixou João Vítor, deixou que ele se perdesse por aí... Ora, quanto abuso na expressão. A rigor tão só o Zé não se esquecia ter sido João Vítor, ou como faria se esquecendo disso a narrar causos que fossem de anos e acontecimentos antigos dos seus aos seus, seus filhos. Sim, a gente tem necessidade premente a manter conservar... pera lá, hoje as gerações se esquecem das gerações que se foram; a frequência é a exceção no se lembrar e mais piormente narrar a memória de sua gente; digamos que estejamos a perder as origens ou apenas desprezando as raízes; enfim podemos afirmar a necessidade em, relembrando ao menos, passar à prole ou aos jovens o que fomos como unidade familial. E aí, lá nesse momento, o Seu Zé precisa, mesmo claudicando o que é próprio dos tímidos e dos não suficientemente preparados, passar as coisas aos filhos. O pai, diz o pai do filho, o pai me registrou José e todos me imaginavam João Vítor; inclusive o pai pensava... um dia um tal de Osório que era compadre do pai e um caboclo sabido pra valer, dizem até sabendo a cartilha e depois lia também a Bíblia para a Vó Veva porque ela era crente e o Padre Chiquinho quando vinha na Vila não gostava que ela lesse essas coisas, ela não lia mesmo por dificuldade – então o Osório lia pra ela, ele não sabendo cantar hinos crentes só a Vó, então morreu. Não. Sim o Osório também morreu, a velha morreu de maleita. Aí o Zé conta a vó a doença a morte e até esquecendo o que andava narrando: ah realmente, o Osório quem descobriu lendo meu registro que eu não era nem João nem Vítor apenas José, a mãe me chamava Zé, antes ela gritava João Vítor. Daí conta Zé o Zé quando pequeno, sem lembrar o quanto era levado, conta aos filhos. Porém que filhos! Ele conta reconta qual fosse velhote repetitivo aos seus, diz aos manos conviventes e à Dona Maria, a qual o chama logicamente Zé e não Seu Zé. Entre antigos a mulher tratava o esposo senhor, ela mais moderna; nem o Zé é um feroz patriarca e ditador na família, embora o chefe de fato da casa. Maria trata direto os cunhados por seus respectivos nomes mais ou menos desconhecidos e apelidos bem conhecidos. Aos de fora sim o respeito, nisso há na época uma dissintonia: todos homens sendo de fora pra si. E verdade também que para José as mulheres estranhas, quando não sabendo o nome duma comadre por exemplo, ele equivalentemente fala “dona Maria”.
          Num futuro nada remoto desse agora a família iria cortar não o vínculo de fato porém a chefia do Zé, o qual por anos a fio estava à frente dos negócios, sem que fosse um homem de negócios, apenas um trabalhador e com alguma iniciativa embora tímido. Porque ele constituiu sua própria família em consórcio com Maria. No começo dessa união ainda permanece dirigindo o grupo, ou somente sua enxada vai na frente da dos outros passando norma aos demais. Mas eis que os outros membros válidos se bandeiam aos poucos às outras roças, o velho Chico falece, liberando o Zé a virar de vez Seu Zé, da Dona Maria.


B – Antes o Zé não sendo mais João Vítor e Dona Fiínha por anos a se esquecer disso; o Zé ficou moço, esta expressão matuta a dizer somente que uma pessoa não é mais criança; resumindo virou homem, longe da boniteza do imaginário ideal, a ganhar conceito tornando-se respeitável, um senhor novo e sério. O homem da roça valoriza o outro trabalhador e que seja de palavra. Essa sua moral. O pai enfraquecia, sua enxada já não funcionava ou apenas como a dum menino, embora os filhos o respeitassem como genitor; os irmãos entretanto eram mais inconstantes. Assim o Zé passa à frente e pelo exemplo acaba imperando. Houve um episódio triste que corroborou para essa posição dele no clã. As crises econômicas que atingem lavradores de pequeno porte e atanazam as famílias roceiras têm muito em ver com o tempo: ou chove demais ou não chove; ou o vento o frio o excesso de calor – tudo influi, negativamente muitas vezes. Quando a dar tudo certo tem o errado do preço: no geral o pequeno plantador depende dos atravessadores e dos empresários, por vezes inescrupulosos. O resultado é sempre desvantajoso ao pobre, a dívida o fisco e outras agruras que pesam sobre ele comem sugam as forças pequenas, tornam-nas miseráveis; dessa maneira os lavradores somente a sobreviver. Antes da Guerra, a II, havia muitos sitiantes ou arrendatários ou só meeiros: plantadores mambembes ou inúmeros casos da agricultura de subsistência, sem filosofia comercial; aqueles pobretões vivendo mais do escambo e troca de gêneros entre vizinhos. A família do Zé viveu ao deus-dará da meação ou da pequena porção de terra arrendada. Não entremos no empobrecimento do solo nem na técnica incipiente e inadequada no manuseio da terra, pois isto seria o chover no molhado do caboclo a queimar para limpeza o terreno e a plantar e colher de maneira manual; além do mais adquire bens na cidade a preços exorbitantes entrando em dívidas que o invilece e empobrece ainda mais sua pobreza. O caboclo quando muito sonha um dia possuir a roça na qual trabalha, raro positiva o sonho. Foi o caso, o sonho ficando no sonho, o caso do clã de Chico. O Zé se vê na contingência constante de mudar-se com os seus para outros roçados; anos duros pelas intempéries climáticas, preços baixos na venda, porcentagem em pagamento além da possibilidade, tudo isso levam-nos à necessidade, à fome mesmo. Num ano plantaram algodão, noutro milho, tudo aleatoriamente no improviso brasileiro. A crise econômica advinda ou piorada com a Guerra comeu o plantador matuto, a família entrou em risco de fome; apertando o cerco houve cortes no básico: pôr na panela menos isto menos aquilo; mesmo ao pobre acostumado às faltas, isso levou a grandes preocupações para os membros. Aí apareceu a iniciativa do caçula José. Deixou sua gente amanhando a terra e foi trabalhar fora para uns vizinhos japoneses. Trabalhou meses e voltou com os bolsos cheios a auxiliar seu pessoal. Era pouco mais que um jovem baixo moreno trabalhador e corajoso. Alevantou sua gente. Noutro ano já melhoraram as condições e se puderam manter. O Zé podia dar exemplo e mostrar chefia: nunca mais deixou o comando de fato. Assim o conheceu a jovem Maria que entrou na família; curiosamente a fim de saírem logo ambos da família.



C -  A família de Chico, Chico morto, vai desaparecendo, seja na crise seja na debanda de seus componentes. A Dona Genoveva a Dona Fiínha ou tio Arlindo Cida Emílio e outros aleijumes, já eram meras lembranças, assim o Chico soma agora apenas recordações pra se contar quando contar. O Zé trazendo ao agrupamento a Naíca, sendo quase o último a deixar o barco, como bom comandante. Assim mesmo pode-se afirmar que foi descartado pelo clã, formando sua própria casa ou novo tronco. Continuaram os jovens esposos o velho costume de não parar muito tempo não se fixarem num lugar, tal qual seus ancestrais andejos indígenas. De fato trocaram o morar nos primeiros anos no consagrado dizer ‘seis por meia dúzia’, pois não é a residência que segura um caipira bem constituído mas o roçado. Assim se mudaram quase a cada época de plantio; a residir numa casa do tipo mais ou menos em substituição doutra anterior a se pensar mais precária. Os sonhos perduravam, a ânsia quem sabe, a de um dia possuir algo de seu. Contudo a lavoura, embora básico à sobreviência humana – a tanto que certo pensador a afirmar que se o campo desaparecer perecerá junto com o campo a cidade e o homem – embora, ela o setor mais fustigado na economia dos países pobres ou mal conduzidos; arregimentam-se contra a terra que fornece o alimento a adversidade: a intempérie e a urbe faminta de lucros; realmente a parcela pequena que pensa e executa lucros, a explorar com classe e engenho inclusive os próprios cidadãos urbanos de segunda categoria. Sobram poucos recursos aos lavradores mal preparados. O futuro expulsaria nesse ontem o homem do campo à cidade, a torná-lo urbanoide (bem o caso Zé e Maria) pondo no seu lugar o nada humano, com suas máquinas as grandes extensões plantadas as contaminações agrotóxicas e os aperfeiçoamentos nos ganhos muitos, a favor dos poucos detentores de vantagem e poder. De maneira que o casal em questão precisou transferir o objeto do sonho ligado ao dispositivo do tempo imemorial da posse miúda na roça ao sonho à posse miúda na cidade. Antes disso a mudar-se bastante. O Zé plantava a contento, pagava renda, se mudava para nova tentativa noutras terras, quase sempre sem saldo positivo na conta. Bastando a esta enfermidade econômica a doença física em que nossa gente é prenhe; e a crise comum: a sanha do proprietário da gleba e a imprevisão de tempo. Esta insolúvel pois mesmo os serviços meteorológicos atuais desacertam muitíssimo... Nisso tudo, o que poderíamos garantir para benefício de caboclos culturalmente pobres e endemicamente quase miseráveis! O Zé, estava ele a virar Seu Zé da Dona Maria, o Zé um desses plantadores matutos, trabalhador incansável, mas pobre e bem brasileiro; um indivíduo que mais aguarda os milagres e favores divinos representados nos santos de barro; do que realmente sabe e pode. Enquanto o labor sério e as mudanças do seu mobiliário simples embora sempre na mesma região dos pais, enquanto isso ele emprenhava a consorte...



D - Aqui de fato o início da romagem do casal Seu Zé e Dona Maria; antes disso apenas o preparo, espécie de prolegômenos de uma luta humana, luta bem rica e até extraordinária. O que poderá faltar talvez sendo a incapacidade (isto sim tem de sobra...) ao narrador da narrativa duma vida não só rica no homem comum, também infelizmente obscura exatamente por ser o comum no homem comum. Todavia a existência ou o movimento da existência só poderia começar com gente, não gente casal e sim a gentinha. Criança abalança o lar, cria problema a termos condição de vencer problema, e dá um colorido especialíssimo para toda casa. Ou a casa é tão só casa! porque toda casa tem direito a virar lar mas sem filhos não vira: se estreita seca morre. Digamos que menino é a vida do lar. O contrário é o contrário, feio contrário; como seria a humanidade sem o serzinho! Ora, nisso o Zé um macho pródigo, isto no sentido produtivo, porque fez mil filhos na mulher. Exagero? bem, os poetas são mais exagerados a santificar exageros... O capiau ainda mais exagerado não só nos causos que narrar (seja ou não seja pescador): exagera um bocado no dizer. O matuto pensa desde que era nativo de penas e flechas que o macho da espécie faz filho na fêmea, esta crendo também assim. O Zé foi pródigo. Maria ajudou um pouquinho seu homem no desiderato. Bem mais ajudou, desajudando, dona Morte. Era o comum dos tempos e tempos a saída do lar dum anjinho ao cemitério. O homem comum roceiro ou citadino imagina purezas mais no mortinho, mesmo no morto vivo por setenta anos. Morreu vira santo, assim teme-se alembrar os enganos erros e até as maldades perpetradas pelo vivente morto. Aqui não é lugar pra discutir filosofia e religião, mas para pôr o conceito de angelitude. Em vista dessa crença e também pelo apego humano, positivo este, então se chora se lamenta a perda. O cerimonial, simples que seja, o funeral é inclusive comovente; os anos primeiros que se seguem são terríveis de lembranças e pelo cultivo dessas tristezas. Numa outra abordagem chegaríamos inclusive à alegria no mesmo fato; não: o pobre lavrador é um triste; ou ingênuo no tratar a morte; e antes da morte, é muito claro, o sofrimento pelas dores físicas do ente querido e depois as dores morais na perda. Oh isto anda a virar um caso tétrico, voltemos à criança, criança é alegria. O Zé fez muita alegria na barriga da mulher.
          Não obstante tal esforço, tendo a cada ano novo menino a enriquecer o lar pobre, Maria sendo boa cabocla parideira e tudo o mais; não obstante sequer vingavam as crias! ou por abortos seguidos, a prejudicar a saúde da mãe, apesar do auxílio das comadres e vizinhas experientes e a boa vontade de muitos, de todos; ou a vingar sim e viver poucos meses ou ano somente... Os anjinhos. O curioso nisso é que na prole, a se contar por dúzia, nela as meninas não aportavam a vir à luz no lar de José e Maria. Assim os nomes dos natimortos e dos mortos seguiram o costume a homenagear parentes machos desaparecidos. Por isso Francisco Emílio Arlindo, não tendo oportunidade Genoveva e outras ancestrais. Quantas vezes não se mudaram de casa e até de roçado pela saída dum mortinho. Rios de lágrimas? rios, mesmo com gotas masculinas, o Zé mui emotivo. Aliás isto característica dos seus e também dos de Maria; quiçá de nossa gente do campo. De maneira que por esse esdrúxulo fenômeno, isto é: a saída de caixõezinhos, a família de José sempre sendo miúda magra pequena. Ou estavam em mudança com criança de colo ou em luto na perda; nunca chegando o filho a auxiliar o pai na enxada. Por quantos anos, talvez uns nove ou dez.
          Até que se cansaram, mudaram-se na costumeira fuga para a zona urbana. Sem terem os esposos o que contar das travessuras infantis, o que uma riqueza para qualquer família roceira pobre.
          O casal se amava, embora sem as demonstrações a exteriorizar a querência, mais apego misturado ao respeito mútuo. Um tratamento mui próximo também da aparência, do exterior em gente pobre sem ser miserável (ah, a miséria que é a mais horrorosa das feiuras no ser). Isto posto, não imaginar no casal um par de namorados e a presença de príncipes e princesas, sempre encantados sempre belos sempre o ideal. Ideal a beleza humana simples deles, a rir pouco e baixo e manso sim, a chorar quando necessário à lavagem da casa do coração. Sendo assim frequente no lar que se deslocava amiúde de casa em casa onde ambos a formar ninho, mas sem filhotes...
          Um dia – e isto é também expressão abrangente e demais vaga – num certo dia começaram pensar a deixar o trabalho ingrato no campo e os serviços das parteiras e da necrópole da Vila; a fugir para a interrogação da cidade. Ora, a cidade não tem ponto final, supõe mais recursos a concretizar quem sabe sonhos e o sonho de viver não melhor porém menos mal que a insegurança nas condições rurais.
          Contataram conhecidos e compadrios urbanos para achar um local e se foram de mudança do campo.
          Nem que fosse tal deslocamento somente a fornecer dados para esta narrativa...




Cap.Terceiro – Interregno



A -     Um lavrador nada apressado, a característica mais marcante do Zé se transformando em Seu Zé talvez seja a lentidão. No pensar no fazer no andar no tomar decisão no dormir, aqui sem apego ao revirar-se entre diabos e problemas mundanos e portanto sem insônia – em tudo o lentar, por condicionamento das ‘nervaturas’ de sua constituição. Não irritando Maria! Quem sabe, mas nunca ela afirmou isso (ao público, tímida e vergonhosa perante os de fora; se sobrou escutar ao marido, é próprio das orelhas consortes, aqui trocadilhando má-sorte). Em todo caso um caso de lentidão no ser. Nunca iria intempestivamente agir semelhante compadre Tonho. Antônio era assim: Joana, arrume as coisas junte as crianças: vamos mudar agorinha! Não parava, os trecos da família já acostumados, talvez alegres pelo movimento igual meninos, os seus preparados a viver de déu em déu ao léu. Não. O Zé demorava eternidade para pensar e mais que eternidade a decidir; outras mais eternidades para arranjarem as coisas e se deslocar – sempre a imaginar o definitivo. O definitivo é o provisório demais precário no homem comum; ao menos no tipo de homem simples como o Zé. Não iria num abrir e fechar olhos mudar-se de mala e cuia, isto dizer caboclo. Não iria abestalhadamente correr para cidade, ah a cidade dos sonhos e interrogações... Houve um estágio curto na Vila.
          O roceiro, expulso do seu mato pelas forças poderosas do latifundiário do grileiro ou da crise na qual se insere, expulso foge ao meio urbano. Quase sempre antes indo para um grupo urbano impregnado de lavoura e costumes rurais; depois para área que ele conhece como dos aventureiros, frentes pioneiras, como a região oeste do estado. Foge sim contudo não fá-lo direto, se acostuma no acostumar na Vila antes. A Vila não passa de ajuntamento urbano de roceiros, de tendência ou pretensão a virar cidade com administração taxação quiçá corrupção violentação e violência miúda e comum no normal do viver. Isso deplorando o temeroso agricultor. Embora, é assim que decide: morar na cidade morar primeiro na para-cidade; esta as mais das vezes se eternizando numa reunião pacata e indolente; ah isto seria demais paz! a paz almejada pelo ser humano.
          O Zé arrasta a família, agora Maria começa a entumecer o ventre de novo, quem sabe pela última vez; e se assentam na Vila. A Vila é boa de amizade sobretudo na amizade dos conhecidos e compadres anteriormente já compadres e bem antes conhecidos. Todavia ela não oferece emprego, quiçá servindo apenas expedientes para ganho ao chefe da casa; nem à esposa do homem oferta algo para arranjar uns cruzeirinhos a desafogar as faltas; não oferece tal premiação sequer aos moradores antigos, acanhada. Só há ganhos a título precário e insatisfatório. O Zé mora na semiurbe e vai procurar numa roça qualquer labor nas imediações a se firmarem; mesmo porque vem a ameaça de nova criança (seria outro macho; e outra saída de anjinho!) nova boca a sustentar e as despesas enormes para enfrentar. Vivem na Vila e o Zé consegue o pouco com sua enxada trabalhadeira quase como peão; houve um tempo de bonança comprovada por grandes colheitas na época do Chico na qual a família chega a ajustar diaristas, peões diziam; agora ele é peão para se manter, embora torne à Vila com Maria à noite, enquanto seus velhos peões sem responsabilidade e só tendo o chapéu (o matuto se expressa desse jeito a dizer que fulano não tem nada seu nem casa, muito menos casa).
          São apenas meses de amargura, não aguentam por muito, sequer a esperar o nascimento, decerto doutro hominho e quem sabe novo caixãozinho. Vão na mudança definitiva (mas o que vem a ser definitivo ao homem comum?) Enfim se mudam à cidade.


Cap. Quarto – A Cidade



A -     A cidade do interior paulista é uma vila que deu certo; a Vila não deu, vive a estreiteza e a modorra. A Cidadezinha se pega assustada com tanto aventureiro a buscar o eldorado; o qual não passa de tesouro dos primeiros anos; e mergulha após na interrogação. Todavia os moradores se assentam lutam se reproduzem e depois de algum tempo a urbe asserena exige e consegue foro de urbe mesmo, de município. Seus pioneiros-criadores, ou tão só primeiros habitantes, desconhecem quase sempre serem fundadores de algo estável: se perdem no ramerrão a conviver com o amor e o ódio, pensando mais no dia a dia no comer no dormir a temer a doença e a morte, na qual pensa tentando não pensar. Mas isto é o viver humano. Sim, o viver humano. Não vai além dum ser humano o vivente da região.
          No entanto existem os que vivem os mesmos dramas dos outros porém não na mesma intensidade (ou seria viver em maior intensidade ainda!) Estes são a minoria na minoria tida por intelectual, quase a porcentagem envergonhada do insignificante na população. Aí já estão a perceber – quem sabe o todo, se estas linhas não estiverem a exagerar – veem o coletivo ali próximo e chamam ao casario cidade. Mais ainda pernosticizam a encontrar um nome sonante a altura da grandiosidade da vila, a qual exagera e extrapola a Vila (esta já se viu antes eternamente a mesma coisa, semelhando a paz da modorra dos que não enxergam além). A urbe cresce, se avantaja. Nisso querem cognominar, uns exageradinhos no pensar Megalópolis, uma inventada sem corrupção nem violência; desejam um nome digno de tanta grandeza e tanta pujança. Pra quê? Ora, se ninguém atrapalhar como pode ficar! Chovem indicações, uns querendo afrancesar em exemplo, outros a ‘gringar’ novo esdruxular. Discutem, quem sabe se não até a se ofender. Surgem mil denominações; uns a impor Hinterland, não iriam abrasileirar a coisa esculhambando o esnobar, claro; outros mais pregam Punctum, que descobriram no dicionário sem poder ler o todo (o pormenor aqui é haver traça comendo parte da folha, justo no verbete). Ninguém se entende, estão a discutir pretensamente com amizade na única farmácia da povoação, que por sinal deixava a velharia de botica e farmácia com ph antigos. Aí é hora do almoço e se dispersam, voltam após o quilo e a sesta. Retomam por dias o entrevero informal a formalizar o nome da portentosa urbe, nascente. Ou crescente. Nessa altura da conversa mansa como possível entra a poesia para sonância melhor na soma. São poetastros de toda idade todo tamanho a dar palpite aos demais; tudo assopram: colibris nuvens borboletas ventos e infinidade doutras imaginações; um deles mais atacado e mirabolante propõe a cidade virar Universo. Não há consenso. Enquanto se desgastam no sonho, o povo acordado na versão zé-povinho batiza o local por Curva Grande, que mais tarde se desgastaria a acertar arestas a somente Curva. Mesmo porque para ser grande teria numa comparação haver a pequena, nunca encontrada. Aliás o povo comum não questiona, usa. Às vezes abusa. Outra rabugice destas linhas é o fato do capiau então pronunciar Curva arredondando gozado o erre a dar trabalhão para sua língua no enrolo. Rabugice maior das ditas linhas liga-se à discussão tratada a fim de encontrar o nome preciso desse ponto geográfico deixando ser mera vila, um lugar que existia porém o nome dele não existindo. Pois as mesmas pretendiam propor um topônimo simbólico, um lindo de morrer para a cidade viver. Todavia não se dispuseram a ouvi-las os defensores e detratores na discussão acesa. Escutassem os celerados a sugestão, nada resolveria: quem vence é o povo, o povo é quem manda. Mas note-se: o escriba caso possa haver algum escriba; nem suas linhas mal traçadas no lembrar quem manda ser o povo – ninguém se candidata a político.
          A propósito e bem a propósito, ninguém também sequer tomou conhecimento de tal formalização e do esquentamento da minoria gritante – andava o povão a trabalhar para Curva crescer suas linhas geométricas nada retas, andava enfim na labuta diária. O povo miúdo deixaria a essa cúpula os cuidados sobre lei governo justiça polícia e mais governo ainda e daí taxação e corrupção.
          Foi nessa altura, o carro andando anos, foi nesse ponto que o Zé e a Maria com o herdeirinho do esposo na barriga encontraram a cidade. Por sinal a fêmea da espécie matuto ia no tempo de ‘ganhar nenê’; portanto a fornecer mais um curvense (não seria curvence com cê da casa? não importa isso ao homem da rua) enfim mais um habitante ao orbe; para somar às duas ou três dezenas de milhares na população da urbe. Uma enormidade pensou Seu Zé vendo tanta gente a fervilhar as ruas descalças do centro urbano no sábado de compras. Puxa, imaginou depois comentou com sua Naíca, mas quanta gente tem o Brasil! Talvez julgasse o planeta quiçá o universo com suas galáxias. Ou é que o casal por demais pequeno naquela loucura de povo.



B - O casal se postou desde então como habitante de Curva, grande média pequena, não se importando com a gradação; aos dois uma imensidade.
          Naturalmente ambos se dispuseram a residir na periferia, visto o costume da timidez ajudada por bolsos frágeis; e além do mais pela imitação – o ser humano quase em tudo que faz fá-lo a imitar outrem, mesmo no simples ato de nomear as coisas no falar no andar – imitando enfim outros roceiros aboletados nos vilarejos pobres e sem infraestrutura no mundo, o que demais sabido hoje.
          Nesse ato de mudança à cidade e sua fixação como cidadão o roceiro se pensa habitante urbano, porém perduram gostos e costumes rurais. Não sabe que não se torna cidadão propriamente porém simples urbanoide. Morrerá se pensando aquilo, é isto. É isso. Isso o Zé a Maria os compadres e conhecidos já moradores velhos da Cidade nova, eles desconhecendo.
          Alugaram uma casa pequena de madeira, tudo era madeira em Curva; mesmo e sobretudo as árvores teimosas nos capões que sobraram no perímetro urbano e é claro a mata o cheiro do vegetal o cri-cri como sonância em volta da cidade. Por isso inúmeras serrarias, por vezes improvisadas com maquinário simples e algumas toras, muito movimento. A atividade principal, não obstante, sendo a lavoura; houvera anteriormente a crise do café, por causa da crise mundial de 1929 antes do surgimento da povoação; por causa da crise se plantava algodão e cereais; mas ainda perdurava um pouco o café na região. De maneira que não faltando serviço a um roceiro morador na periferia de Curva.


Cap.Quinto – História de Seu Zé e Dona Maria,
                         ou apenas a do Homem Comum



A  Agora... estas linhas não apreciam os mortos, os mortos que as perdoem mas preferem elas os vivos, os vivos Seu Zé e Dona Maria agora, agora estão bem, o quanto bem admita o homem comum. Ao menos asserenados, como que... ela representando sempre a mansidão da lagoa clara transparente calma ele um rio com força apenas de córrego porém igualmente claro; ambos sim parecendo se não águas cristalinas ao menos limpas limpos, o tudo no nada. Limpos. Sujo o mundo com suas guerras suas tréguas suas drogas droga, um pântano de líquidos barrentos fedorentos nojentos parados poluídos, o nada no tudo. Enquanto eles asserenados, antes foram as borbulhas nas fervuras infernais, inferno. Agora...
          Seu Zé passa aí em frente aqui na rua (diria rua Boa Morte!) a rua Boa Vida, uma via pública cheiinha de asfalto rachado e pós de asfalto no momento não poeira, chovendo horrores nos cântaros e será, diz o homem simples miúdo no pensar, será que não vai mais parar! a roupa mofa o cheiro do bolor se alevantando sopra pelo sopro do vento para dentro sai pra fora arde o nariz da gente pinga o nariz da gente e a gente molha o lenço não tem toalha que aguente, tudo molhado (ele é um urbanoide ligado às suas raízes rurais por isso diz não toalha: “tuáia”, não molha: “móia” e ainda intercala nas explicações da explicação que dê na fala “pra móde” e todos ouvem e todos entendem numa boa:) tudo molhado na rua Boa Vida.
          Seu Zé passa aí em frente, aqui na frente observam estas endiabradas e metediças linhas na curiosidade. Carrega a bengala: não isso mas a bengala o guia. Vai arcadinho numa posição simiesca, a andar balançando em suas pernas curtas. É um ser pequeno, pequeno como João Vítor? maior que o Zé adolescente quando iniciava com sua enxada a sair adiante dos manos e o velho Chico a sorrir vendo tanta vontade; não obstante não cresceu quase nada desde a adolescência e continua pequeno baixinho e grosso, atarracado, moreno do ser e moreno do queimado solar. Traz na cabeça um gorro. Não, um boné com propaganda em inglês duma multinacional, vermelho, vermelho esse quepe parecença com os do basquete americano que se “vê na tevê pra não entendê” (ele e os outros caboclos engolem o erre acertam o erro no som). Anda, quase correndinho que é o ‘deslentar’ um pouco num homem lento e lerdo até no pensar e que pensa nos termos de eternidade curta e pronuncia devagar a cansar vogais e consoantes, tudo que faz fá-lo devagarinho, quase mesmo no olhar. Olha a rua, se dirige ao extremo onde o ponto do ônibus circular – agora que ganhou na idade uma carteirinha de graça da empresa na força da lei, agora pode à toda hora sem gastar o escasso bolso ir pra baixo e pra cima para fazer o que precisa ou é que Dona Maria mandou; o homem do povo tem disso de substituir o pedido pela ordem e então ele diz que a patroa mandou comprar isto ou aquilo ou é que ele se esqueceu daquilo e precisa voltar à cidade, quer dizer ao centrão da urbezinha; a qual pensam falam parecendo no movimento a capital e quem sabe se não verdadeiro. Ou segue exatamente à outra extrema da rua e daí vem voltando pra sua casa. Não, Dona Maria não está a esperá-lo nem sabe ao certo que hora certa torna seu homem. Ele chega, cansado, sempre cansado, parece aquele corpo arcado nos músculos sempre com toneladas de peso e é o peso tão só dos anos e dos desgastes do tempo contra a fragilidade do ser. Chega para olha mexe regurgita um pouco sonda os bolsos arretira chaves, tem um molho respeitável a abrir todas fechaduras como manda a época de muita violência e fragilidades e instabilidades do homem que não habita a rua nem a ponte mas é o homem da rua no seu simples ser. Acha. Mete no buraco da fechadura de entrada, abre o portãozinho, penetra no seu lar. As linhas então ouvem, pois não apenas veem o que se passa; ouvem um barulhar abafado pelos segredos de estado de um lar modesto.  O casal é modesto, é simples, ele simplório quase, embora trabalhador honesto e de boa vontade. Ela é simples sem ser simplória, Dona Maria é o comum na dona de casa honesta trabalhadeira e, não fosse velha e portanto velha-rezadeira, é pelo menos religiosa e de boa moral, preocupada com o mal e contra o ferir manchar outrem. Escutam apenas o som surdo talvez, abafado com certeza pois que se não vai alardear à toda vizinhança as coisas que só toquem ao íntimo. A voz fina reclama a falta nas compras do seu velho – ela o trata “Véio” ou Zé e ele entende enquanto o esposo a chama “Véia” ou “Naíca” e no trato caseiro nas palavras com erre sempre engole a letra final, forma esta curiosa que nossos roceiros têm a acabar os erres, nunca totalmente mudos no campo – ou é falta ou a sobra na falta do dinheiro que também nunca sobra porém mais comumente minguado. Enfim o casal vive contido por gastos, gasto também no casto falar e nenhum dos membros abusando dos decibéis permitidos pela prudência. Mesmo o radinho, Seu Zé tem um falador porém fanhoso ou as pilhas que não dão no couro, inclusive esse rádio é limitado e ninguém sabe que está ligado, está. Em última análise a casa não é o silêncio de dois velhos mas não abusa no som. Agora se acalmam na discussão, fosse uma embora não bem caracterizada; falam baixinho no seu estilo, ele conta da cidade, ela conta do lar e das coisas que lhe são pertinentes. Como autêntica dona maria Dona Maria diz que seu zé esteve ali enquanto ele fora, precisando falar com Seu Zé. Pra ela todos homens, ao menos os que vistam calças compridas – roceiro poderia estar usando umas nas canelas, o da cidade aprecia a moda espicha a barra a relar os pés – todos enfim estejam ou não fumaçando o ambiente com os cigarros; que estejam ou não exibindo suas machezas mesmo que as mesmas não sejam mais que bravatas da boca pra fora a enfeitar uma condição; em suma os que estejam de calças, pra si seu zé; raramente, não sendo que saiba há tempo o nome verdadeiro do compadre ou só conhecido; pra si sempre seu zé e aí transmite ao Zé o recado. Seu Zé coça a cabeça de cabelos pretos despretejando na prata coça num tique para mostrar pensamento, lembrar ao menos; até nisso devagar, lentamente; e arresponde sim, indaga se prometeu voltar. Ela já amarrando o lenço na cabeça, só vive ou apenas se mostra sempre com o pano na cabeça, inclusive ao ir à Congregação nas suas preces coletivas usa o lenço; torce o nó prende as pontas e completa “disse que depois volta” pronunciando realmente “vorta”, ao sabor da fala do povo.



B – Dona Maria também é escurinha. Ora, o homem do povo, esse que afiança não ter discriminação e geralmente engole tudo, não tendo tem um pouco quiçá bastante: vê o negro de caracteres africanos por mais branco ou caldeado for e escamoteia a dizer dele que seja escurinho ou moreninho pra não ferir de preto e negro. Dona Maria à feição de Seu Zé também escurinha mas sem traços negros no seu escuro, mais ressaltando o escuro dos indígenas – os quais não sobressaindo na importância social aos da África negra; a sociedade branca não percebe vantagens nesses escuros e não diz declaradamente assim, apenas discrimina no salário e lhes dificulta o emprego; menos ainda apreciando, embora mestiça e carregada nas imperfeições nubladas, menos quando o amor ou a fortuita atração imanta um dos membros dela a se unir ao moreno... Contudo nem Maria nem José a se preocupar com isso, sem por essa razão se clarearem caucasicamente correto. Ela é gente nublada na pele, pequena de tamanho, de olhar terno de uma extrema bondade, teimosa no perdão, carinhosa no ser e rica sentimentalmente embora sua pobreza de bolso. Sabe demais compreender e ajudar, sem precisar auxílio dos panos quentes, costumeiros; antes que isso: é o amor na boca fechada e no coração aberto. Não diz o que pensa mas pensa o que diz, nem as linhas curiosas a descobrir o quê, pensa e se diz fala apenas ao companheiro. Dessa maneira se entendem; a ponto tal que ninguém, sejam as línguas vizinhas sejam os olhos parentes ou sejam os próximos na família, soube uma briga conjugal. Ora, isso pode intrigar quiçá ofender a rabugenta estatística e seus números absolutos. É claro ou mais claro ainda: justo; justo que hajam divergências entre os dois cônjuges. Contudo ela é precisa no falar. Tanto assim que nestes dias prenhes no desentendimento entre os humanos diz ao seu homem, quase zangada ou dura ou com energia ou com palavras medidas sem contradita: Zé vai levar lá no fundo essa lenha que seu zé trouxe! impera. Aliás, boa cabocla, pronuncia de fato “trôxi” e não trouxe que os letrados também não escrevem como falam. Ele olha, demora em seu ‘moloidismo’ vê as achas perto do portão (ora ora... que engraçado se diz: passei indagorinha quando cheguei da cidade e não percebi a lenha perto da entrada... está a conversar consigo mesmo nessa dúvida e ela:) vai Zé, leva lá no fundo; pode deixar que eu parto os galhos a machado. Antigamente, isto na roça e quando moraram na Vila, antigamente ela quem trazia o combustível pro fogão caipira não só trazendo mas partia em pedaços a madeira com o machado. Entretanto quem afiava a ferramenta era mesmo o Zé, o Zé gastava a lima no machado já com dentes e aproveitando afiar as facas de cozinha a deixá-las cortar qual navalha. O marido bom enxadeiro, péssimo machadeiro, desigualava as peças os toletes ora grandões ora pequetitos. Nesse momento em que Maria lhe passa ordens ela não é mulher mandona do tipo tão conhecido de abusos e menos ainda arrogante; longe disso: é mansa todavia firme nas palavras. Além do mais hábito, se não válido mundialmente com certeza valendo para a gente do nosso povo, o costume é o homem exagerar machezas em novo e em velho ouvir recriminações aos seus abusos por parte da companheira e obedecer ao imperativo dos vocábulos os quais ela sabe colocar e até com eles ferir talvez seu homem. O velho então obedece, quando muito rumina ou nega fazer (dizendo isso aos amigos no boteco) e obedece sim àquele ser franzino e forte e de moral alta; ou porque é justo, ou também achando justo. Seu Zé não põe tais minhocas na cabeça pequena a sobressair ao tronco ‘macacoide’ as pernas de cambalear curiosamente. Cambaleia com o feixe nas costas, devagar devagarinho ao gosto de sua natureza nos passos mansos lerdos e firmes tanto quanto a ordem ou lembrança que recebeu da sua Maria. E se entendem e se querem e se dão, num quem sabe fazer inveja aos circunstantes casais por perto; porque: puxa como os homens brigam com as suas mulheres! ou, no dizer da oposição, como elas intrigam e pegam no pé dos pobres machos da espécie Homo sapiens... O casal Zé-Maria às mil maravilhas. Contudo esta é outra expressão demais abrangente ou a nada dizer, pecando pela base visto o maravilhoso já ter tido ideia oposta. Não vem ao caso, o caso em questão é a amizade conjugal, após a tormenta dos anos, observe-se bem, o caso é essa amizade enfim e o apego do par aí na rua Boa Vida.



C – Seu Zé e Dona Maria, mais Seu Zé que Dona Maria, fizeram qual pedreiro a construir a base do lar. Por longos anos na roça a trabalhar, a cair inúmeras vezes com as intempéries e as intempéries da crise nos preços e abusos dos fortes fazendeiros arrendadores e governo recebedor, a cair de fato mas com dignidade e trabalho e se alevantaram prosseguindo na batalha. Não sabiam, ou sabiam? desconheciam estar a fazer qual o construtor que lança o alicerce e o contrapiso à casa, quiçá um palácio vetusto e quem sabe encantado. Cimentaram com seu esforço e tenacidade a existência, sofreram: nisso o povo gosta da expressão ‘o pão que o diabo amassou’. Apesar venceram. Venceram na derrota da fuga no êxodo rural; venceram ao deixar a Vila improdutiva e rotineira; venceram na luta terrível na fase da tormenta por que passaram já na Cidade. Tornaram-se curvenses e venceram nessas derrotas todinhas...
          Quando migraram para a zona urbana Maria carregava no seu ventre mais um postulante a anjinho. Debalde carregara crianças machas que ou não vieram à luz ou vieram mas se foram em meio a lágrimas maternas ao túmulo. Agora tem outro. Seria agora novo hominho a enriquecer o lar a empobrecer com choro o desfalque como anjinho?
          Não obstante – e nesse parto quase a mãe a perder a vida para dar vida ao filho – não obstante nasceu outro ser, então o médico garante ao casal assustado dizendo ser a última gravidez de Maria. E para alegria geral da família e da torcida dos próximos e conhecidos; mais ainda dos compadres que os atraíram à periferia de Curva; para alegria completa apareceu uma garota. Parecia mentira: tivera a parturiente ‘menina mulher’! A felicidade do Seu Zé não tinha tamanho de tão grande. Começavam bem a vida na Cidade, com uma criança que tanto prometia. Sim, temia o casal a frustração dos homens da casa os quais não chegaram sequer a mudar-se com os pais ao novo ambiente. Todavia algo lhes falava que a nenê daria certo.
          Assim cresceu entremeio da alegria – e das tristezas também as que os problemas da criação e da educação trazem: enfermidades, desentendimentos, despesas. Assim apareceu Mariana, ou apelidada no lar Joana Maria mas isto não importa!
          Uma promessa aos genitores? uma promessa e quase uma vida nova, ou vida rica em necessidades a incentivar luta. Isto porque houve muitíssimo sofrer a aprumar a jovem, de garota a chegar à moça casadoura... Assim os viventes da familinha de José eram agora três criaturas, a casa ampliada – o pai a mãe e Mariana.


D    Mariana crescia, afirmava-se. A família, mais Dona Maria, menos Seu Zé ganhando envergadura de chefe da casa no seu trabalho e tratando a duras penas de negócios, Seu Zé trazendo o básico ao sustento das três bocas seja nos serviços e no labor honesto seja em aprendendo a lutar ganhar comprar trocar vender receber o lucro aumentando o patrimônio aos seus, menos ele. Ela, Dona Maria, a granjear inúmeras amizades: sua casa, agora mudavam de residência e de bairro ou apenas trocavam os meios na pobreza e portanto casa aqui é o seu lar – nele ela recebia amigas e colegas, gente da Igreja Batista onde a senhora ia, depois as da Congregação quando se transferiu de denominação evangélica, enfim seu quintal andando mui frequente com visitas. Isso enriquecia, inclusive facilitando a sociabilidade da filha, Seu Zé mais arredio não recebendo amigos, tão só os seus aparentados; mesmo os compadres, compadres do tempo de católico, mesmo esses alguns falecendo ou não participando muito da amizade da família como antes. Embora, entravam ali como visitantes vários conhecidos do Zé; e é claro os que vindo apenas a título de negócio: compra e venda de terreno, pagamento de prestação, entendimentos nitidamente comerciais. Enfim casa cheia, bem longe do antigo isolamento no roçado. Cheia mas em termos, o casal não abusava não festejando não alvoroçando, enfim na vida tranquila, o quanto de tranquilidade pode haver numa família pobre no país a passar por crise. Em outras palavras, viver trabalhando toureando a inflação quem sabe se não sonegando como é agradável ao cidadão brasileiro, no entanto vivendo em relativa paz. Contudo a paz em si é relativa. Embora descontos pertinentes, levavam os três membros da familinha a sua própria vida.
          Na casa o ensino das prendas à menina e a vida doméstica de Maria; o descanso de José após a labuta diária; e as conversas amenas em família; até os aborrecimentos que atingem a todos seres comuns – doença escola numerário e inclusive desavenças pequenas, o que também comuníssimo. Nesse lar despontando a filha.
          Mariana não deu trabalho no tempo de menina; apenas o trabalho que dá criança. Adolesceu e aí já complicando. Merece por isso uma ressalva no viver e conviver...



E – Seu Zé anda firme no abecê, que ele diz engraçado “as lição di abecê” numa concordância comum nos homens comuns; ainda assim nas letras menos dificuldade mas mais dificuldade teimante nos números, apesar já desistir a repetir o zero o um o dois o um de novo; e pra somar! e fazer escrito o algarismo... o número um sai bem o dois tem umas perninhas a enrolar e enrola na cabeça; somar só de cabeça; contudo vai firme no abecê. A professora dele não é dessas a meter medo não dá reguadas não ameaça chamar o pai por traquinagem ou burrice do aluno. Não. A mestra é Mariana, uma tiguerinha de frágil corpo mas de expressão buliçosa e de muita beleza na beleza de toda menina. Apenas não para, ela não para, o aluno para olha quieto e inclusive pasmado a professora-menina. Não é assim, pai, ela diz numa voz agora meio empolada e melosa ou por ser demais importante na hierarquia. Ele tenta com o lápis quebra o lápis a ponta do lápis (aí vai demorar na sua lentidão refazer a ponta afinar o grafite com o canivete que herdou do Chico quando o pai vivo e vivia a lascar fininho o fumo na palha a baforar fumaceira do cigarro – um dos poucos objetos de lembrança dos seus no tempo da roça esse canivetão). Tenta, ‘retenta’; rabisca pra lá pra cá, força a letra a letra que pretende comer a linha de cima volta pra baixo come a de baixo e ‘eminhoca’ a palavra. A mãe não dá trabalho à mestrinha, antes quase a ensiná-la, lê com desenvoltura, devagar e cadenciado quase perfeito, lê o versículo; então a professorinha escuta de boca aberta, a velha fecha a Bíblia lembra algo que tem para fazer ou lembra num pior a filha o que está elinha esquecendo. O pai não. Ele é lento, teima no abecê ou reteima pois aprendera aos trancos e barrancos o alfabeto quando roceiro e largara mão do estudar, pensando mais na luta a fim de ganhar o pão à família, sacrificava-se em vista o pai adoecendo e fraco. E agora essa pirralha que foi ao grupo escolar e ainda o frequenta a lhe dar lições! Todavia agradece aos céus (nisso contrito e crente, tudo que faz agradece a Deus; não precisa a esposa ficar lembrando religião). Agradece ter uma filha tão sábia! imagina e exagera como todo pai a inteligência de Mariana. E quase acerta. Esse momento de aprender é difícil pra si; já ouviu dizer que burro velho não pega marcha e supõe verdadeiro o dito popular, haja vista a dificuldade (ele diz encaipirado "dificulidade") a dificuldade a empunhar a arma do lápis que lhe escorrega de entre dedos, mas por que será que fizeram um tão liso! Escreve, rabisca como sabe e pode na brochura adquirida na vendinha do Jango vendeiro quando eles moravam noutra vila da mesma periferia, esse Jango era um pouco careiro. O lápis... apaga o errado, a filha diz estar errado, apaga com a borracha, já gastou as quinas dela, ficando redondinha redondinha; e aí sobra a sobra, aquelas borras em fragmento de borracha e do abecê das letras. Não acerta mesmo nunca o acento de José, esquece, porém Gonçalves e Silva fazendo certinho. A filha sorri. Às vezes, quem pode com criança, às vezes larga a professora o aluno ali apagando os consertos e desacertos e vai ver uma colega e daí se esquece do pai, o aluno precisa gritar (Dona Maria diz que ele berra) gritar sim intimando a mestra para tornar à aula. Agora chove lá fora, não quer parar não parou dia todo, a luz acesa molhada, molhada a casa a gente respira umidade em tudo e então a Mariana não iria sair, mesmo porque Maria não permite a filha brincar na chuva e ainda por cima de noite.
          A filha é um amor, Seu Zé pensa embora não diga. A mãe diz e talvez pense mais beleza ainda e ainda com mais amor. Entretanto se preocupa, o sexto sentido feminino lhe assopra algumas tendências nem sempre positivas de Mariana. Corrige. Só algumas vezes respondeu-lhe a garota, não é propriamente respondona e malcriada; não apanhou por isso – os filhos que sobram do trabalho surdo e eficiente dos azares são resguardados; e em virtude dessa desvirtude abusam. Mariana não chega a abusar, talvez um pouco imperfeita aos desejos maternos. Nem por isso apanharia como comum nas famílias pobres nas quais os adultos descontam na prole suas próprias deficiências e incompreensões; a rigor a mãe nunca deu palmada em filho algum. Sim os pequenos morreram pequenos, esta é uma sobra a defender; todavia Maria é avessa às violências contundentes; apesar disso não pode livrar-se, tapando o sol com peneira, das outras ofensas na aceitação social. Seu velho esposo mesmo quando novo não era não é também de contundir. A professora continua sua lição, repete, não repete o aluno nem passa de ano escolar; melhora ele desiste ela, cada vez mais interessada nas coisas de menina maior. Em todo caso o Zé já podendo agora apreciar bem, se não acompanhar labialmente a leitura no Livro Sagrado ao menos acompanhar a esposa na leitura costumeira, talvez por causa da ingerência das aulas recebidas da filha... Contudo Seu Zé não sendo de muito agradar as letras. É melhor ouvido à leitura de Maria, esta sim mais teimosa na lição sagrada que a filha como mestra nas letras. Mas isto não é o maior drama familial; aliás o drama seria o futuro...



F – Seu Zé uma sem-gracice em pessoa. Outro dia pegadas estas linhas desprevenidas, naquela situação tal em que andamos absortos: vemos ouvimos quase sentimos – por que não o fedor dos corpos suados a passar e mais passar por nossa volta! – enfim andamos como que desligados e quando tornamos ao nosso imperfeito soma: olhe a coisa ocorrendo... Ocorrendo de Seu Zé a dizer sorridente (que é forma a propor a outrem um presente a vir, uma joia do saber ou quintessência de luz, a fim de se preparar abrir olhos ouvidos sentidos mais:) “tô cuma vontade de comer o que comi ontem na mesma hora...” Caem as pobres linhas na ratoeira e perguntam o quê? Ele: “ora, vontade de comer almoço” e sorri vitorioso da profundidade. As linhas? sorriram também, por educação. É o máximo desse vizinho delas. Está longe de um sujeito que possa animar uma conversa; longe igualmente do seu tempo de João Vítor. Ele se lembra da mãe a gritar João Viiíto! sempre que ouve a vizinha de cima a chamar o seu moleque, um Dito qualquer; fá-lo no mesmo timbre de Fiínha, no mesmo diapasão. Daí sorri, vez que outra fala disso à esposa, uma recordação que ela desconhece. Mas Seu Zé anda longe do bagunceirinho que fora. Neste ponto puxou a Filha um pouco, embora mais parecendo fisicamente ela a mãe; quando pequena vivia no quintal remexendo as coisas (nunca Mariana atirou excremento no tambiú de tio Arlindo no poço; só numa casa alugada na qual residiram havia poço, logo veio a água encanada, e no poço elinha somente atirando outras porcarias); agora, a azucrinar as criações ela mestra, embora com uns três ou quatro aninhos. Certo dia foi cutucar a choca, a choca a correr por cima da agressora para bicá-la nos seus apuros. Depois amansou cresceu entrou na escola, virou até mestra do pai e parece que deu o recado. Na época de mocinha já bem desembaraçada, herdando um pouco a incapacidade do genitor no particular de não saber animar com talento uma roda amiga. Teve muita amizade; porém apenas se beneficiaria dos achegos amigos após passar a tormenta que foi sua adolescência. A trazer nisto preocupação à mãe; lágrimas constantes e até discussão entre os dois velhos. Ou seria quem sabe por essa razão a falta de graça nas narrativas do Zé...



G   A menina Mariana ajuda Dona Maria nas prendas domésticas; serve também como recadeira: vai levar coisas pra mãe, leva ordens curtas. Na volta traz ou indo especialmente traz do boteco alguma comprinha à genitora. A genitora deplora bares bêbados e conversas mundanas, todavia não pode evitar quando necessário a faltar algum alimento que o Zé esqueceu de adquirir, ele anda esquecido e a senhora adverte o companheiro estar no mundo da lua. Agora pede-manda, manda pela terceira vez já, a garota na brincadeira não ouve, fala brabo entregar a roupa pro homem. O homem é o Sr. Sem-Chapéu, um descuido de seu zé porque Maria cognomina ‘seu zé’ a todos desconhecidos nas suas relações de mulher séria. Precisa ajudar seu velho, a coisa anda braba a aposentadoria pelo Funrural não sai, segundo enganação do advogado que Seu Zé contratou, um rábula metido, a quem Maria denomina apenas Doutor e o Zé já sabendo a que pessoa se refere ela “o Doutor esteve hoje aqui” ela diz. A dita aposentadoria, nos enrolos da papelama, apenas sairia dezena de anos após. Essa mulher toma pequenos compromissos a auxiliar como pode a casa, como lavar e passar roupa ao Sem-Chapéu, um seu zé dos mais desconhecidos que só tem o mérito de pagar direito num mundo de caloteiros e de aproveitadores. Lava e leva, leva mesmo a garota Mariana numa trouxa na cabeça, indo sempre acompanhada por uma coleguinha, a mãe não aceita menina-mulher a andar solta por aí. Por que Sem-Chapéu, parecendo um apelido esdrúxulo às linhas ‘curiosando’ a rua Tiradentes. Antes de se fixarem na rua Boa Vida que é inclusive pavimentada com asfalto e tem buracos e rachaduras que a ladrona da prefeitura (ela não se refere nunca nestes termos, educada e religiosa, mas as vizinhas de boca suja...) que as autoridades nunca remendam e são fendas existentes por toda via pública de cidade pobre; antes disso alugavam certa casinha de madeira na Tiradentes. Esta nem rua com direito a este registro, pois sequer automóvel passava lá, só carroça e cavalo, havendo na época muito cavalo, às vezes mula ou égua de montar e o cavaleiro logicamente. Olhavam curiosas a curiosidade da esposa de Seu Zé a tratar seu zé a todos; e não obstante não ao Sem-Chapéu, um freguês bom pagador, Mariana sempre a trazer de volta o dinheirinho contado e certo à mãe. Mas nem Mariana nem Seu Zé nem os parentes constantemente a vir tomar café na cozinha de Maria sabendo por quê. Ocorre que na ocasião o hábito mandava os homens de bem (os safados usavam igualmente decerto num semelhar gente honesta) mandava impunha o uso de chapéu, um chapéu de feltro muito em voga. Todos enfim. O Sr. Sem-Chapéu era exceção para que a regra existisse e isso chocava a simplicidade de Maria. Assim por um tempo um dos seus zés em disponibilidade atendia por Sem-Chapéu. Quer dizer, ele não sabia dessa extravagância, embora Mariana houvesse um dia dado com a língua nos dentes a chamá-lo assim na sua frente; marota, consertou o deslize como pôde. Entretanto logo o freguês mudou-se. Ou comprou usou chapéu e se perdeu no mundo da regra entre os machos da espécie.




Cap. Sexto – História de Seu Zé e Dona Maria: a
                   Tormenta



A – Decerto a fase mais dramática na existência de Seu Zé – por extensão e quem sabe com mais intensidade ainda na da esposa, sobejo que mulher possa sentir profundamente o cutelo cortante dum momento às vezes duma vida, a vida como entende vida o homem comum – mais dramática sim, desde as atrapalhadinhas e inconsequências de João Vítor até (e isto não poderia saber o pobre homem) até sua crise ao desencarne. Bem mais dramática em se pensando que a cria é o espelho do pai, ainda mais que isso: é o ferimento o sangramento, a derrota, no espelho partido; a se sofrer cada pedaço ao alumiar do vidro num reflexo de sol a partir... Decerto a mais dramática. Por envolver a menina de seus olhos: a menina-moça Mariana. Aqui o Zé lembra a mãe. Dona Fiínha, não uma carola consumada, dessas de enrabichar na saia do padre (num esclarecimento, a batina negra marcava e continuou marcar a vida religiosa exterior dos crentes; nunca os de Chico tendo visto sacerdote vestido em calças compridas e paletó como hoje); nada de carolice; contudo era apegada e mesmo devota de Santa Edwiges e olhava bem pros lados de São Judas – estes tidos por guardiões das causas impossíveis, mesmo porque a colheita ameaçada por chuva de mais ou chuva de menos, então se apelando na família a esses expedientes. Isto o Zé presenciando bem. Agora vive como que uma crise igual... igual! nem semelhante, por mais profunda como sói ocorrer nas coisas morais – ‘impegáveis’ insondáveis por vezes inextrincáveis, porém sentidas, a cavar vala profunda! Todavia como apelar aos santos, trabalhado então pela mulher e esta pelos evangélicos: não iria mais depender dos santos de barro nem de imagens, na casa a família não tendo mais disso. Apelar daí aos Escritos Sagrados. Alguns irmãos (eles os chamavam irmãos, um que outro apenas sendo do sangue; nessa altura restando bem poucos dos antigos roceiros da família, quase todos debandados por aí e certamente ainda uns católicos-de-batizado, quer dizer: da boca pra fora pois Seu Zé e mais Dona Maria achando respeitáveis aqueles contritos honestos sérios nas suas missas e no comportamento cristão) mas alguns desavisados irmãos-crentes a dizer que a menina Mariana andava a ser tentada pelo Demônio, um santo forte dos irreverentes de fora e mesmo dos inocentes de dentro no meio evangélico. Ora, mais o macho da espécie menos a fêmea por mais harmonizada e preparada na leitura, entretanto ela também nisso a se assustar. Todavia parecendo a crise ser profunda – soubesse iria ainda ser mais profunda que a profundidade aparente... – profunda e quem sabe irremediável! Não sabia o casal. Nem por isso deixando de sofrer, isto triste apanágio do ser humano. Começava, não estivesse a continuar somente, iniciava aí o maior drama do lar...



B   Começou na escola. Na escola de abecê a ensinar Seu Zé? na escola formal ainda naquele tempo deficiente na falta do elemento humano preparado a ensinar e a educar, isto é: fazer a parte em que as famílias falham; hoje o ensino é deficiente nos abusos e na sobra de mestres mal preparados e mal pagos, embora alguns apenas mereçam perceber mais do que o salário que recebem. Mas não vai ao caso esse caso naquele ontem. A menina crescida, ainda bela, Mariana, Joana se se quiser dizer, a menina era bonita será sempre bonita, até hoje como mulher assim. A garota espichando no físico e no conhecimento – as linhas proporiam o saber, sabendo-se que conhecer não é apenas ver e nem apenas também saber: é o dito ‘conhecimento’ saber em metade e vale menos da metade: o saber só é de fato saber, inteiro ou seja empregado ao bem social. Sabia a filha as letras, não brilhantemente; ou a ser dito doutra forma: não conhecia a contento tomando em parâmetro o que se ensinava na escola; sendo muito perante sua família quase iletrada. Agora, ter conhecimento num sentido mais lato, não, mesmo levando em conta a idade da criança. Porém isto talvez nem possa ser resolvido numa existência comum, o homem comum quase sempre nunca chega a tanto. Sabia ela, demonstrava na casa o saber e às amigas e ainda na vizinhança, quiçá no convívio do templo religioso. Por esse tempo Mariana começava a fugir também da religião, dos cânones rígidos dela, entretanto acompanhava a mãe Seu Zé quase não indo aos ofícios da crença. No entanto já falhava tanto nos bancos escolares quanto no meio evangélico. Por vezes Mariana dormindo na hora da prece ou na leitura dum capítulo promovida pela mãe. Parece que fugia, ou lutava para não fugir. Admoestada mas sem grandes resultados que não fossem as preocupações dos pais.
          Detectou primeiro Dona Maria, após também Seu Zé, acostumado na lerdeza até no ver: não percebia. Primeiro ela a notar a filha em más companhias. Os pais andam sempre desconfiados com amigos novos da prole, quando perduram encontros; ou é que tardava mais que costume na volta dela ao lar; ou que vindo com respostas arrevesadas ou apenas incompreensíveis; aí Maria se preocupando. José observava, sempre com impressão insuficiente pelo seu hábito de se ver inferior aos letrados, agora a menina uma letrada inclusive dando lições ao genitor; em razão dessa ‘inferioridade’ temia falar chamar certo o errado delinha. Não obstante quantas e quantas vezes o casal não discutiu, aqui com amor e compreensão, preocupado portanto na discussão positiva, a colocar o problema da filha! Porém qual problema, em que consistindo... desconhecia, sabia o sofrer.



C – Um belo dia... ah que expressão mais idiota: triste pelo susto. Foi um impacto a que os pais não estavam acostumados, ela chegou na casa. Mariana trazia uma colega, dessas que Maria achava debochadas, chegaram num falar e alegria, ninguém a condenar alegrias apenas se espantando no abuso. Depositou livros e demais objetos escolares na mesa, já a mãe: Mariana, almoce logo e leve a roupa pra dona... Nem terminou a frase, a filha: não levo coisa alguma, não sou burro de carga a andar por aí com trouxa na cabeça! A outra desandou a gargalhar, brincaram entre si as colegas, entraram no quarto de Mariana e ficaram a confabular suas coisas baixo; dali ganharam a rua, a filha só tornando à noite. Deu um nó na garganta da pobre senhora; Seu Zé no almoço quase esgasga no momento. Fizeram reticências, que é uma estranha arma da tristeza do espanto e da desesperança. A mulher ficou muda em lágrimas silenciosas o homem largou o prato, não iria chorar se macho não chora, partiu manso a tentar desanuviar e quem sabe vender um terreno e com isso arranjar meio de subsistência. No entanto igualmente ele não tirou mais a cena do pensamento; no jantar ainda macambúzio. Neste ponto começa uma via-sacra à família, mais a do casal num sofrimento pelo descaminhar de Mariana.
          Cenas semelhantes então ocorreram mais e mais, se amiudaram inclusive. Que isso fosse, num lar honrado e harmonioso até aí, que fosse um mal prenúncio ou anúncio de que a felicidade, mesmo a possível e admitida na estreiteza do homem da rua, fosse ela ter um final...



D – Seu Zé não era mais Seu Zé, ou era ainda José Eulálio Esculápio Eustáquio da Silva Gonçalves; o que dando um trabalhão, ele dizia “trabaião”, só para assinar o nome extenso por extenso nos negócios que realizava, já quase não precisando procurar o quefazer em roças nas imediações de Curva Grande. Não era no sentido ser um homem cansado e tão cheio de vivenciais problemas, problemas impensáveis quiçá irresolutos nessa altura da vida que levava; longe andando a luta até serena que levara como solteiro e nos primeiros anos de casado; agora os dramas se avolumando. Ia exatamente pondo estas questões matracando o dizer a dizer para suas orelhas mesmas, quando de volta abria o portão da residência, já ouvindo a esposa reclamar, a lamentar as atrapalhadas da filha, uma filha sobrante da voragem por dona morte engolidora de anjinhos. A filha única. Ainda por esses dias pegou-a em flagrante delito, sim delito aos adultos a uma casa decente e mesmo religiosa: Mariana empunhava numa parecença com arma de guerra nos dedos em vê um cigarrão. Mais, passou a discutir com a mãe de cigarro na boca, como o fazia a falar de chupeta quando criancinha, a quase não se entender o embrulhado, a falar então com a chupeta. Não havia jeito para deixar o vício a garotinha, inclusive os pais escondiam aquele engano mas a menina encontrava o engodo ou berrava ganhando a parada. Não havendo mais como evitar agora com o cigarro! Além de teimar, teimosa, com Maria a dizer-lhe não ter contraído o vício por causa da amiga Lia, uma das colegas que sua adolescência exigia por acompanhante.
          Era a primeira vez desse novo infortúnio na família. Outros conflitos semelhantes houve a estraçalhar por dentro. Exatamente quando Seu Zé formulava um plano de contar à esposa uma troca bem sucedida duma área com uma casinha pobre pelo seu terreno na baixada. Nem chegou a comunicá-la nesse triste dia; a vitória nas finanças virou mera derrota ou um ganho descolorido e sem qualquer brilho. Só no dia posterior pôde o casal conversar em torno do tal negócio. O restante das horas gastaram ambos a se consolar; ou apenas a repetir o contar dessa miséria na qual Mariana os atirava, a repetir sim o sofrer de maneira masoquista tão ao gosto de nosso povo miúdo.



E – Petulante, isso: Mariana andava abusiva e petulante, empostada a esconder um orgulho em si numa negação dos postulados evangélicos. Já não era companhia certa da mãe ao templo. E pior nisso sendo não consultar a Bíblia também no lar como o fizera até aí. Maria ora tendo o esposo a ir consigo ao culto ora tendo outra irmã; não mais a si o agradável acompanhamento da filha nem podendo contar com sua ajuda nos trabalhos domésticos então acumulados; Mariana agora vez que outra apenas se dispondo ao mister. Quanto à roupa precisava a senhora mesma entregá-la, continuando sua faina a trazer uns trocados para auxílio nas despesas. A filha por demais gastona, assim pensando Seu Zé, assim falando Maria, ambos decepcionados então e muitíssimo preocupados. Aí piorou a relação dela com os pais. Certa vez aparece de olhos vermelhos...
          O Zé, como em geral os machos da espécie, olhou e não viu. Naíca notou imediato e se preocupou ainda mais com a jovem, avisada pelo sexto sentido como frequente ocorrendo. Conversaram particularmente; aliás não mais precisavam os pais precaver-se quando assuntos melindrosos a temer ouvidos atentos (sempre fora a garota ligada nas coisas indevidas do casal...) pois agora a menina-moça raro no lar. Discutiram nos termos de que seria isso; o Zé supunha conjuntivite, que na roça chamavam dor-d’olhos e fora uma praga na sua meninice; Maria balançava a cabeça, forma que temos de espantar maus pensamentos, e não achava muito possível enfermidade física: qualquer coisa lhe soprava algo mais terrível e de fundo moral; semelhando a senhora a alguém que pressente uma avalanche necessariamente perigosa e quem sabe destruidora. Nunca puderam se desvencilhar a contento dessa sabedoria de que todo ignorante é prenhe; ou seja as coisas que sabemos sem poder explicar, ou por não ter gabarito ou por não poder provar afirmativa. Aqui talvez a raiz dos temores humanos.
          Mais tarde, bem mais tarde, quando pondo essas questões tão profundas quanto medonhas, concluíram haver faltado o diálogo, a conversa amigável quiçá amorosa entre os três membros da casa, esta que ainda era um lar.
          O homem da rua desconhece ‘o como’ e ‘o quê’ na problemática de alucinógenos entorpecentes e demais drogas. Sabe sim mas sabe por alto, imperfeitamente, e teme sem nada ou quase nada poder fazer com as mãos amarradas pela ignorância. Ora, isso dá uma ânsia e uma sensação de impotência, restando na situação apenas a tristeza por constatar essa impotência.
          Encontrava-se assim na altura a casa de Seu Zé e Dona Maria. Com Mariana sem Mariana e por demais sofrendo Mariana. Não existe agulha mais ferina que a que penetra seus filhos aos pais.



F –Por essa época a filha chega se debulhando em lágrimas no lar, era uma noite, a noite se prolongou por dias de choro e sofrimento à adolescente, com reflexos no ânimo dos genitores. A Lia tendo narrado o assassinato de uma amiga de ambas, certa jovem que deixara antes o ginásio onde estudavam. Na ocasião após os quatro anos primários vinha o exame de admissão e a seguir quatro outros anos de ginásio, assim se denominando ginásio a escola também. A morta viva fora colega e abandonara o curso em vista estar sua família numa crise moral – fato bem conhecido nos seus meandros por ambas colegas. A Lia afirmara o crime haver acontecido numa cobrança de dívida por drogas ou coisa parecida. Isso remexendo o íntimo de Mariana. O fato trouxe grande sofrimento à bela mocinha e muita insegurança. Não obstante apenas a filha narrou à mãe por alto, temerosa de se implicar ou ter que dar mais esclarecimentos, sempre constrangedores, haja vista a educação e mesmo a tradição da família. Chorou tempo, deixou uns dias de frequentar as aulas e se manteve pensativa, sem contudo se abrir plenamente com a mãe; Maria não se prestava a confidente da filha, por ser a mãe demais fechada e inclusive desconfiada; mais se abrindo a jovem com as colegas... Seu Zé não podia se intrometer na situação criada, em não ser como ouvinte da esposa nunca como ouvinte da filha. Esta o queria bem mas não o achava confiável; pior nisso não aceitando o fato do pobre matuto urbanoide ter nível cultural baixo, por pouco letrado, para merecer-lhe confissão. Haveria uma linguagem do coração para entendimento de pais e filhos, porém essa não fora acionada nem pela moça nem pelo casal. É curioso haver uma certa barreira a prejudicar uma relação sadia. Talvez assim. Por sua parte José supondo aquelas miserinhas coisas de mulher, não se intrometia.
          Passou a fase horrorosa; ou esfriou um pouco a fervura. Não venceu entretanto Mariana – e por extensão sua casa – as tendências horríveis quiçá destruidoras a deturpar, quem sabe destruir de fato, sua vida moral, tão sólida e rica nos alicerces. Infelizmente entraria noutra vertente mais deletéria.
G – A jovenzinha Mariana entrou daí num período louco talvez extravagante; a continuar sendo causa principal nas dores de Seu Zé e Dona Maria. A filha prometia como mulher, tendo uma beleza morena, nem bem os seios a apontar e já prometendo em graça e encantos feminis, depois ainda seria mais bela; mas não prometia como pessoa. Pelo menos na proposta dos seus, tidos por retos e exemplo no bairro. Ela não. Sim em criança, quando estimada no prolongamento dos dotes maternos e da seriedade paterna.
          O casal fora chamado na escola, só a mãe comparecendo. Igualmente no estabelecimento oficial nas reuniões tidas por pedagógicas apenas umas poucas mães a aparecerem. Nos quatro primeiros anos de estudo são amiudadas tais reuniões ou as que mais levam a sério os familiares; no período seguinte, o ginasial, alguns supõem a autonomia e a capacidade do aluno para estancar possíveis deficiências. Então as mães são gatos-pingados no dizer popular. Há casos, inúmeros casos, nos quais o interessado se mostra tendente (por menções vermelhas no boletim por exemplo) em não avisar a família sobre o convite da direção da escola; as mais das vezes mais pesa o desconhecimento do pai desse educando. Talvez este alvitre o correto entre os de Seu Zé. De início julgavam que sua filha fosse madura bastante e responsável, indo de vento em popa, um dito comum. Haja vista a letra dela, um primor na opinião paterna e motivo de orgulho materno. Contudo isso não bastando, a coisa evoluiu no mau sentido, quer dizer os descaminhos da garota, evoluiu e apodreceu de vez. Tem outra expressão aqui por lembrança destas linhas interessadas no problema: fechar a porta após entrar o ladrão. Mais ou menos assim ocorrendo.
          O primeiro aviso sério, tal qual um enfermo sabe a doença antes pelo estado febril, o primeiro foi o diretor-substituto convocar os pais da púbere. Maria já foi chorando, advertida pelo instinto; Seu Zé nessa vez participou indo na sua companhia. Ouviram oficialmente o que já sabendo ou seja que Mariana ia mal nos estudos, isto flagrante pelas notas vermelhas; contudo se assustaram ao saber da frequência, elinha quase na iminente fase do perder o ano no final do ano letivo. O caboclo diz: quando a vaca foi pro brejo! Quase isso. Porém mais sério, pois diz a autoridade constar más companhias e – isto a doer nos corações deles – havendo possibilidade no envolvimento e consumo de drogas. Que fumava, que respondia mal aos mestres, que se desentendia e até brigava com colegas, que se enturmava a elementos tidos por perniciosos perigosos quiçá criminosos.
          Todavia criticar levantar questões apontar erros é fácil, sempre foi fácil e a sociedade por demais acostumada a falar ou ver e aí mais falar. Difícil a correção; ao menos muitíssimo trabalhosa. A escola não propunha sequer um levantamento correto da enfermidade social que envolvia Mariana. E não sabia o que fazer, sabia sim: propunha expulsão, como fosse um remédio ou solução de um drama social tão grave e mais e mais se agravando. Por fim atirou no casal a culpa as causas e a solução, num autêntico lavar as mãos ‘pilateanas’.
          Com respeito às causas possíveis ou mais às atitudes esclarecedoras, os pais lembraram as crises anteriores que tanto os preocupavam; sem que isso fosse propriamente solução. Pior havendo por aqueles dias outros sintomas da crise moral que atingia Mariana em primeiro lugar e os velhos genitores após. Notaram que ela sumia com todo dinheiro que lhe passavam; aumentando o drama terrível ao constatarem desaparecimento de certos objetos como um relógio de bolso estimado por Seu Zé, ainda adquirido quando viveram na Vila, caríssimo à pobreza do homem; não foi mais encontrado o mesmo; outros objetos de pouca monta importantes a uma casa pobre sumiram como por encanto, nunca mais entrando estranhos nos aposentos da residência... Um dia flagraram Mariana vasculhando nervosa as coisas da mãe. Seguiu-se uma discussão, no mal sentido. Desaforos e palavrões, os pais arrasados. Além do mais a jovem aparecia vez que outra se não embriagada pelo menos com hálito desagradável.
          Foi por esse horrível e demorado tempo que a moça deu de ficar meio alongada... saía, tornava dias após. E voltando desconversava, emudecia até por semana. Alguma vez chorava sem motivo – os outros sempre a pensar na lágrima fácil da emoção, nunca em ver causas verdadeiras ou de peso. Por temer as coisas, os seres humanos temem desideratos. Preferem mais ver o azul da paisagem a remexer o sangrento vermelho que destrói vidas. Um pouco assim a família de Mariana a tratar de Mariana.
          Naquele tristonho dia retornaram da escola com nervos em trapos e como que aparvalhados. Os dias subsequentes não foram animadores nem amenizantes. Mas a sabedoria adverte que todas tempestades tenham algumas bonançazinhas quiçá a sustentar o ser.


         
H – Mariana vivia o inferno na sua vida. Verdade que o comum dos homens a confundir causa e consequência, nunca sabendo exato onde começa uma ou termina outra; e pior nisso: não interpreta satisfatoriamente. Contudo o inferno era regurgitado e talvez fervente no íntimo da moça.
          Agora já contornara um pouco o problema, perdera o último ano do ginásio, teimara no seguinte período letivo e refizera recompusera parte dos estragos e perdas, mesmo porque não existe o irreparável na vida; quem sabe uma existência possa ser prejudicada e alterada, o todo não se perde. O inferno seria tão só os momentos medonhos do sofrimento, porém não podem eles destruir uma vida. Prejudicam bem entretanto. Todavia se não pudermos recompor-nos com base em nossas perdas e enganos não mereceremos a glória da luta.
          Ela poria estas questões! Envolvida como se encontrava dificilmente analisaria o problema com clareza; mesmo porque quem anda a viver um drama não tem toda extensão desse drama e muito menos a solução. Era bem seu caso.
          Agora a Filha de Seu Zé e Dona Maria, mais madura, amansara um pouco; diminuíram seus ímpetos. Seu Zé dizia então a repetir o dito da esposa: a menina sossegou o pito. Não resolvera seu drama, até complicara noutra vertente também medonha. Porém desfizera-se o grupo ligado a drogas; ela se controlando mais ou contornando mais as horas críticas a sobreviver. Não era bem uma viciada. Inclusive se achegara aos familiares. Sem se tornar uma santa. Concluíra estudos básicos e já falava em termos de futuro, sendo embora uma pessoa de passado não recomendável. Incluso estar mui falada, isto gravíssimo numa casa dentro dos cânones religiosos e acostumada à consulta bíblica. Não voltara à frequência do templo, indo tão somente como visita social. Nisto já a mãe não lhe cobrando, por sentir o novo estado um ganho. Mas as preocupações perduravam, cimentadas pelos anos.
          Deixou Mariana de se imiscuir no mundo das drogas? parece que não. Além do mais a sociedade tem o hábito, ainda mais o vício, de alguém tendo praticado um deslize ela não perdoar nem esquecer: antes que isso cobra e conta como conta certa a manutenção do pecado. Isto pode explicar em parte a dificuldade de ressocialização dum prisioneiro solto pela bondade (abusiva?) da lei. De maneira que a moça carregava ainda o estigma, qual marca na testa em negro pichante. A todos verem de frente ou por trás à boca pequena. É assim gente.
          Ela gente. Encontra-se agora num coletivo, desses ônibus de estudantes, o qual trafega lento ante tantos buracos e o trânsito exigente, buzinas apitos barulhos; barulhos dentro do veículo. Os jovens têm riso fácil e farto; goza-se empurra-se brinca-se ela séria. Não quieta, em modorra ou neutra – desligada do todo. Rumina sua desdita, vão indo à aula num curso que ela supõe poder elevá-la, quem sabe um dia doutorá-la para vencer, mas já derrotada no fervilhar da mente. Nem mesmo seus iguais podendo acordá-la na letargia que não o é por dentro: dentro é o inferno nas brasas. Lembra alguém que lhe prometera uma dose; planeja o como ‘fazer’ dinheiro o dinheiro curto, de que forma obter uma vaga numa empresa; aí põe a questão da idade, algo assim demais preocupante a um jovem e até sem solução que é estar velha, ainda nos seus vinte anos. Ou como se desfazer de interesses amorosos. Este seu grande drama.
          Por temperamento talvez ou por outra razão nunca se apaixonou por um homem. Nem tende a depravações as quais não condena nos outros porém das quais não participa, não por normas morais rígidas ou por educação, as que recebeu dos pais ainda mais da mãe mais severa; não procura e sequer participa de possíveis aberrações, simplesmente por não valorizar; nem se ruboriza não tem falsa-moral para mostrar: é por sua idiossincrasia tal comportamento. No entanto este é um outro buraco na sua esburacada existência; sentisse visse notasse conscientizasse compararia as suas como mais numerosas e maiores fendas que as da via pública que ferem o ônibus e os estudantes numa algazarra indo à escola. É mais forte o barulho dentro de si que o de fora entre o gargalhar dos semelhantes.
          Há tempo que dá o vexame na casa pelos desvios. Isto tendo entrado no lar como fel em conta-gotas... Mariana, que por vezes o lar indica por Joana (parece que Maria desejava esse nome, o cartório ou o esposo esquecido mesmo errando e registraram Mariana;) Mariana já praticou até aqui vários abortos com ajuda de pessoas inescrupulosas e mesmo nas clínicas tidas por sérias. Os pais vivos dos mortinhos nem ela sabendo quais ou quantos. Nunca se fixou num homem, nunca cobrou de nenhum a paternidade. Não obstante já iniciou o fornecimento de netos ao Seu Zé, a matar de vergonha Dona Maria perante vizinhos e a constranger os parentes candidatos a explicadores de questões melindrosas...
          São dois os primeiros herdeiros da linhagem de Seu Zé, dois meninos de pais diversos. Teria depois outros três Mariana. Essa a filharada para José sustentar com seu curto ganho. Em oito ou nove anos – de imenso sofrer na casa – nessa breve fase Mariana povoou bem o planeta, tão subtraído na população pelas guerras e matanças a varejo em todas latitudes e longitudes. Um repovoamento diriam estas linhas a abusar na linguagem. Porém nas costas do pai de Mariana. A mãe dos netos dele vez que outra empregada, inconstante no tipo que o caipira chama pavio curto; explode fácil e não para no trabalho. Contudo o Seu Zé sorri ao ver as crianças a bagunçar e remexer nas coisas do avô espalhadas no quintal. Maria? Maria ama os meninos e quase não mais discute ou como falava: a chamar nos tentos a filha. A filha nessa altura da vida não trata mal os seus não destrata a genitora como antes; e se cala diante de algo que porventura o pai lhe diga.
          Mariana não sarou. Melhorou um pouco nos seus desregramentos; digamos que tenha sim ‘despiorado’ melhor, para também abusar na linguagem. Mas com certeza, embora não ficando menos bela, ainda é mulher imprevisível.
          A tormenta não se acabou; os ímpetos se enfraqueceram certamente. Mesmo sendo apenas uma promessa à bonança.




Cap. Sétimo – História de Seu Zé e Dona Maria:
                      a Bonança



A – Contava Seu Zé pra Dona Maria, baixinho baixinho, sim baixinho no seu jeito manso de falar vagaroso tão distante da brabeza estrondosa doutros matutos na roça, agora vivendo ele na cidade nessa pacata (ui!) rua Boa Vida, contava as suas coisas para a mulher. Não precisando para tanto duns pobres decibéis de não ofender educação, primeiro porque ela já sabendo tudo nada existindo em segredo a um casal nevando seus anos de matrimônio abençoado (naquele tempo pelo padre depois seria um pastor). Não existindo de fato segredos, menos o repetir e repetir como fazem os idosos no falar; nem precisando dizer tão baixo eles a sós; ou não: a via pública tornando público seus altões decibéis e aí para que segredar? fala-se na tonalidade normal, ou só comum, o outro ouve entende e prossegue na conversa, prosseguem. Mesmo porque por que não prosseguir sendo o costumeiro. Costumeiro no assunto, costumeiro estarem apenas os dois consortes na casa, costumeiro em vista do fato de o som vizinho estar a estardalhaçar uns gritos que os jovens da outra casa quase do tipo parede-meia de tão encostada apelidam música, a música no estilo ‘manso’, manso à juventude descompromissada sem crer que porventura haja esta má ventura: um casal velho cansado a ciciar suas coisas... ah sim não propriamente em segredo nessas circunstâncias. Além do mais a filha única que sobrara, Mariana, longe dali para ‘ver’ o contar sobre suas falcatruas e as consequências desses desandos. E não é pra ser assim em plena bonança!
          Naíre – Maria fora vezes sem conta apelidada Nair na casa de sua mãe; então Zé vez que outra assim se dirige à esposa; na conversa miúda a trata ‘Maria’ ou então ‘Nair’ como dito: nunca querida nunca meu amor, aspectos que não lhe cabe na grosseria – Naíre, ele pronuncia desse jeito sempre e não costuma respeitar o erre mudo que é mais forte por matar o vocábulo; ela acostumada ao som também responde, indaga mais, aponta defende ataca-não-fere; e vai por aí o diálogo, aqui sim um autêntico diálogo, haja vista haver duas bocas e quatro orelhas a se respeitar mutuamente; levando em conta que outros nos ‘diálogos’ apenas um fala outrem ouve não se incomodando o primeiro se o segundo sequer escutando e piormente com direito a também falar na sua vez. Naíre, você alembra que ela (claro ser Mariana, os pais na quase totalidade do conteúdo numa conversa é sobre os filhos que falam e, no caso, somente ela restou da filharada) ela mesma foi presa... Responde que sim, que não se conforma até hoje, ontem quando a conversar a repetir assuntos. Pior, naqueles tempos... e o coração da mulher abrange num átimo aquelas dores daqueles tempos ingratos, em plena tormenta o barco a afundar no mar de lama! Conversam contam-se as detenções as más companhias as vergonhas... ah, ela chegando não ter sequer coragem a sair na rua pra dar explicações para a vizinhança cobradora – se não direta e mal-educada até descaradamente, a cobrar de vista, a olhar para os lados dos pobres e envergonhados pais, sim pois Seu Zé não sabia também onde pôr a cara! mas isso pesando bem mais no lado feminino: Dona Maria pregara mais dera mais bons exemplos discutira mais também com a filha e portanto sentindo profundamente a desonra a vergonha; se bem, mal, que não se permite sondar o coração masculino podendo que Seu Zé ainda mais envergonhado e sofredor, ele que em si já se apresentava como tímido pai. Enfim um sofrimento a ser medido por toneladas de peso e não em gramas leves para efeito externo. Embora não ultrapassando ano o sofrer agudo, parecendo suas garras a abarcar muitos séculos; o tempo que Mariana destrambelhou de vez e acabou fichada na polícia, ah a polícia! você alembra Naíre quantas vezes a viatura aí na frente, os vizinhos curiosos. Depois a soltura e a deixar a vergonha com a gente! Mariana não respeitava sequer nossos netos seus filhos. Não tinha passado dos limites, Maria! Assim que aprendeu com a gente? Depois foi solta livre e limpa, o quanto é possível o exterior alimpar a sujeira interior. Se recompôs e venceu...
          Venceu!? se indagam e temem responder.
          Intercalam locuções e súplicas religiosas, eles nunca desistiram da teimosia em crer num milagre (uma esperança bem ao feitio crente) e na salvação da filha.
          O tempo passou, firme exato marcante – e deixou a eles o agora.



B – Estão a conversar, a vizinha ao lado não se sabe por que motivo desligou a caixa de som como bate-estacas a moer sangrar ouvidos incautos, embora treinados no todo dia dos dias, ainda assim feridos; desligou e os velhos estão num pôr suas coisas, é muito claro poder ser a propósito de Mariana o bem o mal que pesa e pesou respectivamente sobre ela; ou conversando sobre o vil metal. O homem da rua tem no dinheiro não somente um vale de compra mas sim um maior mal nesse símbolo de ingresso, sobretudo para quitação no desastre que é a economia ao joão-ninguém. Ou se fala no ganhar, aqui no sentido apenas de receber; ou como pagar; ou ainda o que fazer na contadoria miúda se tem mais pra pagar que a receber, se tem menor saldo em caixa e como fazer pra fazer, se tem se não tem por fim equilíbrio estas sofridas finanças tão barbaramente tratadas, ou no último recurso e um absurdo da realidade do pobre: se se vai apurar mesmo benefício (ora, entrar-se-ia na bolsa alheia, estando em dívida iminente; e por outro lado a questão triste de onde encontrar o numerário). Enfim um assunto maltratado pelo mau trato que sempre quase aparece... O dinheiro o drama do preço da voracidade do poderoso, aqui não é posta a razão de existir ou não governo e político e taxação e corrupção; tão só como lidar com o dinheiro; muitas vezes a se usar aquelas notinhas fedidas por excesso de mãos anteriores e que a gente guarda como fosse um tesouro, e é um tesouro para um pobre; Dona Maria à feição da gente pobre guarda quase as esconde enroladas, por vezes até entre seios; Seu Zé bota nos bolsos mais ou menos dobradas, perde sim às vezes pela rua e se recrimina e conta isso à esposa e daí recebe mais admoestações. Dinheiro. Uma família pobre, os 90% na população decerto ou mais, ela não pensa e muito menos age em aplicação em correção enfim em lucro; quer tão somente viver; sobreviver. Seu Zé e Dona Maria põem tais dramas do sobreviver, a seu jeito à sua maneira cabocla de iludir com jogo de cintura as dificuldades do comprar pagar honestamente e para isso falam ainda mais baixinho, igual quando a tratar dos problemas melindrosos de Mariana, agora também sobre as necessidades dos netos incorporados ao coração. Falam da economia e como fazer economia mas igualmente doutras questões. Inclusive das que lhes chegam por conviver – agora que é a paz; porém que é paz! agora que a filha pôs a cabeça no lugar e virou uma senhora de respeito e inclusive um pouco mais religiosa do que antes; sim a questão da convivência com outrem. Estão então conversando sobre os problemas de Patavina, não propriamente aproveitando quase festejando o desligar do cedê barulhento da jovem vizinha, não: somente por haverem tocado na ferida da amiga, a Patavina. No exato momento em que bate suas palminhas a mulher, ela tem um jeito engraçado no bater palmas, parece que com as pontas dos dedos, não naquele chocar de mãos e fazer pof-pof no bafo comprimido de concha; o dela saindo pif-pif ou pef-pef. Seu Zé olha, matreiro, pros lados de Maria, Dona Maria sorri pra ele, já haviam exatamente discutido as palmas débeis dela.

C – Patavina viveu quase toda vida na roça, em Minas; aí migrou pra cá, tendo sido requestada quase sequestrada, dentro do antigo costume da gente roubar a mulher e fugir num cavalo fogoso com a presa... enfim roubada por outro roceiro com quem se casou depois nos conformes; isto é, a família após o não-tem-jeito ajeita as coisas pra não passar vergonha e os namorados se unem e pronto. Por ser ex-lavradora tem muito que falar com Seu Zé, a quem respeita e se cala por isso, de vez em quando; ela não põe questões de classe social e finuras de educação; logo dá as costas ao amigo, está antes virada pra Dona Maria com a qual tem mais afinidades, isso comum entre mulheres com presença masculina fora da intimidade. Em vista do passado de ambos, quer dizer ela e Seu Zé, têm a trocar algumas experiências e recordações. Seu Zé se anima diante desses ouvidos: na roça tinha um compadre do pai que sabia como um doutor e me ensinava abecê, eu aprendi muito (ele diz “múntiu” como um baiano) muito quer dizer quase nada aí sobrando pra Mariana me ensinar; só não consegui foi os números. Eu decorava com voz alta um dois voltava no um aí aprendi o zero e... e ela não o deixando acabar. Dona Patavina não sendo propriamente do tipo ‘sem educação’, nesses negócios em que o homem comum diz “não cortando sua conversa” e corta a conversa, não: corta sim porque não se fixa nos outros – é uma autêntica egoísta; não é bem egoísta inclusive dada e nadinha muxiba, é bem mais egocêntrica e por isso nem vê outrem, Seu Zé por exemplo, que lhe fica lá embaixo ela uma vareta de velha espichada lá em cima. De maneira que essa conversa com Seu Zé morre, ele sorri constrangido talvez, enquanto Patavina já totalmente voltada pra amiga Dona Maria, a qual também fica lá embaixão delona, mas tem a esposa do Zé o valor a possuir cerne como madeira de lei e uma força moral; ou usando ela da caridade para escutar a senhora velha magriça e meio desengonçada. Diz as coisas Patavina, já está pondo a questão das desgraças que povoam a família; ela é quase uma desgraça ambulante, pois também se queixa aos parentes e outros conhecidos. Aí picha fulano beltrana e quase também xinga uma comadre, ela que tem a boca um pouquinho suja segundo Maria, a qual, embora esse negativo, ouve a amiga que precisa se desabafar. Imediato encontram-se tomando cafezinho, o café que faz a união das pessoas da plebe e serve também para avisar a visita que ela é visita e portanto necessita ir-se, é hora de voltar pra casa. Tem outro negativinho que Maria não aprecia nela (o caboclo diz realmente “aprecêia”) o fato dela andar sempre de cigarrão fedorento na boca; ainda deixa cair cinza no chão e isto tudo a lhe lembrar Mariana nos horrendos tempos dos temporais a fumaçar petulante a sala. Contudo se cala, não iria contar essas ignomínias à gente de fora, por mais de dentro nos achegos costumeiros de Patavina; isto tudo porque existe na intimidade das pessoas certa intimidade ainda mais resguardada, do tipo das que se agradam ir com a gente pro túmulo... Mesmo quisesse Maria levantar o problema não podendo: Patavina não deixa, antes destrava ela a língua e conta e narra nos pormenores desavenças; picha o governo, a si sempre um ladrão e aí entra na aposentadoria que não dá pra nada (Maria concorda e se põe a comparar sua própria, quer dizer a do marido, só no pensamento pois se cala e escuta a outra:) fala, fala alto ardido, bravata machezas de viúva e para só a enxugar suas lágrimas lembrando o finado; o qual foi bom enquanto durou igual a felicidade; se esquecendo de alguma patifaria do morto vivo. Depois desanda a contar das filhas, dos netos; não deles: falar neles, neles apenas vê o bem, isto embora um deles a se perder nas drogas,  maconha e pior o crack. Daí já hora pra nova bebericada de café, o dono da casa a ouvir quieto e comportado as mulheres, não toma café talvez o fizesse fumasse ingerisse na boca de pito como costume do Chico: não, toma apenas chá mas faz de conta também engolir com elas o café doce da esposa, num sorriso amigo do macho à visita. Esta diz que se vai, já afirmou três ou quatro vezes isso, acende outro chupa traga assopra e fala, ainda de chupeta na boca, sobre uns entreverinhos que presenciou e então sai. É a hora da canzoada. Patavina chega com eles se vai com eles, os cachorros; têm uns valentes de focinho a bravatear igualmente suas machezas na prisão rentes ao gradil; e têm os vira-latas soltos a ladrar a contento, parece que se unem – cães de todo planeta, uni-vos! – a aturdir a velha. Inclusive já tomou costume a empunhar um pau, parecença com bengala de velho, pra enxotar os cães vadios ou somente a fim de espantá-los, nunca emudecê-los. Chegou com os aplausos deles, ou vaias; sai agora acompanhada pelo coral das vozes. O casal se olha se entende e sorri. Ainda Patavina dá uma paradinha então na rua, quase regulamentar, e berra baixo não sabendo falar manso: Dona Maria, outro dia conto pra senhora daquela safada. Dona Maria assente, sorri de novo ao marido; numa espécie não de um pingo é letra mas num sorriso a dizer se não tudo alguma coisa pouco menos que tudo.



D – Já vai longe certo dia em janeiro doutro ano neste III Milênio no qual a Filha chega meio afobada. De novo? outra vez, vem sempre à casa da mãe e vê o pai. Agora é uma senhora distinta Mariana, pintou, dizem popularmente assim o fazer, pintou mil arruaças mas sempre se posicionando de vítima, ao sabor da crença da gente a viver procurar levar vantagem em tudo, e aqui não é vantagem nem diferença porque o homem comum é assim, ela um ser comum; para depois sossegar o pito lembra o ditado materno. Não chega tão intempestivamente como Patavina, não fuma mais semelhando a outra, esta vista meio de esguelha pela filha de Maria; enfim ambas não se beijam não se acham confiáveis e empatam, se ficarmos apenas nas meias loucuras. Não obstante Mariana melhorou, é outra, não fosse sermos todos dias outros, de maneira que os anos se espantam quando um ser vê o espelho ou para a fim de fazer autoanálise. É mulher de respeito – sempre querida e fora até pranteada pelos pais – ela chega hoje de imprevisto, não por imprevisto o imprevisto não valendo aos íntimos realmente; pela hora nesta hora deveria andar no trabalho, conseguiu com ajeito político uma vaga não disputada nos concursos muito comuns na atualidade e que são raramente fraudados... Não importa, importa que se colocou e exerce a função honestamente a ganhar o sustento da filharada; ou antes, a ajudar o companheiro pra dar de comer à família, a sua; inclusive já podendo vangloriar-se, tivesse desvio de personalidade, a auxiliar Seu Zé e Dona Maria, os pais a viver com a irrisória aposentadoria e a ficar na dependência da saúde pública, uma calamidade pública mostra a tevê. Não se vangloria, oferece com prazer e amor o que pode aos seus velhos.
              Filha, nós esperávamos... (fala Maria diz igualmente em bom caboclês o Zé “nóis num isperava”). Mariana justifica explica complica a confusão nas cabeças dos velhos porém ficam sabendo por fim uma dispensazinha do chefe ou retardo na entrada no ponto e a manhã vai alta; põe a febre do mais novo, uma espécie de rapa do tacho como se fala na rua; lembra a doença aos companheiros conjugais. A febre preocupa os pais dela, mais a Maria, pede quer detalhes, se conversam. Ela entrega não sei quê, nunca vem de mãos abanando visitar a casa, dá mais um recadinho, volta correndo abre fecha bate a porta do veículo a desmanchar, o Sérgio funciona aquilo aquilo já funcionando antes nem desligou o motor sai rateando, ainda o casal dá com a mão ao casal na casa, Dona Maria preocupada como sói acontecer em mãe de mãe.
          A frequência não explica o comum, pois existem filhos alongados nas famílias ou que só vindo cumprir o externo na roupagem da educação; Mariana ama de fato os do seu sangue e vive vibra sofre compactua o dia a dia de Seu Zé e Dona Maria. Parece até que a tormenta que viveu, estendendo à sua gente ganhos poucos grandes perdas, estreitou a amizade, fortaleceu o ímã parente. E não seria aqui uma compensaçãozinha, agora comparando ao antes, se intrometem estas linhas analisadoras! Sim, fortaleceu o ímã parente. Em análise mais demorada com razão, por ter o casal-raiz quase nada de seu: uma casinha das pobres na pobre rua Boa Vida, bagunceira e mesmo estardalhaçante nos abusos do movimento de veículos e pessoas e piormente com sons de toda altura permitida não-permitida pela legislação; também percebe o lar paterno a magra aposentadoria para o sustento, pois que Seu Zé semelhantemente sossegou o pito, no dizer de Maria: não anda agora mais por aí a conseguir uns negocinhos imprevisíveis ora a vender ora a comprar para revender, quem sabe; e quem sabe a sobrar nisso uns trocados a fim de investir nas coisas poucas para cobrir o salário magro incerto quando ia para a roça nas imediações de Curva Grande, portanto pequeno ingresso. Aí aparece a filha a socorrê-lo e não se descuida do velho e também de sua mãe. Já não se enfrentam as mulheres da casa, se respeitam e se querem. Assim os aparecimentos da bela Mariana não são visitas mas achegos de amor; antes de tudo revelam os cuidados filiais, amor sem contestação. Em vista disso as linhas se metem de novo e indagam sobre a harmonia.



E   Dona Maria apreciando a harmonização da filha nestes adiantados dos tempos no tempo dela e da Mariana; e nisso sobretudo gosta do genro – o fator básico à manutenção do agora estado normal, normal sim visto não ser muito comum. Porém Sérgio não pensa dessa forma. Melhor dizendo, sequer pensa nesses termos; quando a gente pensa muito em algo não faz; nem tendo mérito se mérito houver no que executar. Ele apenas vive. Mas também revive. Nunca passou pelo rebuliço, pela sensação do rebaixamento moral da esposa. Embora, uma vizinha diz terem se casado na igreja verde, que Mariana era isso e aquilo, que todo mundo sabe a sobejo... inclusive que fora objeto na defensoria pública e acusada por envolvimento em drogas. Ele, o Sérgio, não se negando ser vizinho bom e também com ‘rabos presos’ e história nada estória porém cheia de baixos até chegar ao amasiamento com Mariana; à qual não se nega boa conduta e correção como vizinha, sabendo-se não ser ‘flor a se cheirar’. Vida reta!? e os filhos... tem a Luzia que embora bonita a si feia e abusada, os filhos? cada um de uma cara nem sempre a cara do pai... E ainda que o Sr.Sérgio, a vizinha não tem intimidades por vê-lo fechadão daí ‘senhor’, que ele tem por sua vez um punhado com a mulher, a esposa legítima que dizem tem outro homem e os filhos por aí com os parentes; uma coisa sendo certa nesse errado é que o Sérgio não é um santo; não se pondo é verdade como santarrão, completa a vizinha com língua meio centímetro a mais que o normal, comum, de senhora comum. Portanto Sérgio possui seu alicerce movediço, trincado e intrincado ao menos, não virou de um dia para outro anjo nem se deve pensar o suprassumo no universo dos machos da espécie. Contudo é sóbrio e bom. E isso já é bom, um bem social. Fala em termos de família, o homem adora, adora de fato, seu caçula o Zezinho, com o nome do avô de propósito no comum acordo com Mariana, ela feliz por formar um lar sólido e definitivo (o que seria definitivo!?) e por ter um filho do seu homem. O rapaz, aqui exagero das linhas um pouco abusadas também nos substantivos e adjetivos que surjam, o rapaz na meia idade e mais pensando como o sogro consumadamente idoso; o genro longe ser um rapazinho inexperiente. Isso vem em benefício da patroa – ele gosta da expressão ‘minha patroa’ a indicar Mariana e inclusive ele ter-se-ia casado legalmente com ela, não fosse a encrenqueira ex-esposa, a quem atrelado. O menino José faz a ligação no sangue de Sérgio com o sangue de Mariana, só não unindo os outros seus filhos porque a ex-consorte não quer acordo; sobrando o afeto em ajuda quando necessário aos demais filhos, os dela; quanto à Mariana ela tem uma penca de meninos, meninos machos pois só a Luzia das que sobraram vivas. Agora a rapinha do tacho ajunta a querência, sofre-se quando ele a sofrer como na febre destes dias atacando a gargantinha. Faz mais o genro (emprestado lembra a língua viperina vizinha) fá-lo amparando, a aceitar na casa que montaram já há anos os filhotes crescidos dela e os trata como pai. Quer mais harmonia e ganho que isso! exclama Dona Maria a certa irmã, têm umas irmãs da igreja não confiáveis, fala-se de tudo e não se entra nas coisas enubladas como os vários desarranjos anteriores, mais os arranjos nem sempre agradáveis no grupo conjugal de Mariana. Essa entretanto é das íntimas e Maria conta e mesmo reconta e ainda repete a concordar consigo mesma para dar valor ao que diz à irmã: quer mais harmonia e ganho que isso! Sorriem no cafezinho a conversar, Seu Zé? o Zé foi à cidade (Maria quase sempre não diz cidade mas vila, igual fazia quando morando na roça e na Vila, aqui referindo-se à Cidade de Curva e não à Vila). Foi pagar ipeteú, já viu como ficou caro o imposto neste ano... a Mariana ajudou o pai um bocado ou então a gente não conseguiria pagar as coisas; e tem a água a luz e a escritura desta casinha. A irmã concorda de cabeça e desanda por sua vez a narrar seus dramas semelhantes. O homem comum é semelhante no que tem de parecido os seus problemas.



F  Imagine só – diz Seu Zé presumivelmente às duas mulheres, uma é a mulher a outra a mulher vizinha vindo tomar emprestado qualquer e esta nem escuta o homem: a gente tem o péssimo costume, quando o assunto doutrem seja desinteressante, a fugir pelas portas dos fundos num lembrar as coisas dos de casa; assim apenas ouve sorri e não sabe sequer o que fala Seu Zé – imagine só que o garoto já sabe número! (aqui foge Seu Zé à pele do Zé quase João Vítor de tão longe no tempo e fala a repetir, repete tão só à esposa a vizinha fugiu anteriormente para sua briga com o consorte e lembrando no meio uma encrenquinha havida com a filha); repete o homem como era burrinho nos algarismos; não entravam de jeito nenhum na cabeça, repetia o zero repetia o um repetia o dois repetia outra vez o bendito número um e... e se liga estar sozinho, sorri constrangido pois mesmo Maria voltada para a vizinha deles. Seu Zé não desiste, parecendo máquina automática ou carimbo daqueles que viu no INPS desde o balcão, diz outra vez insiste que o menino é sabido pra chuchu, isto dizer corrente para mostrar o quanto produz o neto. Seu Zé: o Tufãozinho (ora usa Furacãozinho) narra o avô, o neto já passou do abecê – ia contar do abecê quando Mariana lecionava ao pai enquanto a brincar, porém o entusiasmo com o garotinho não permite sair da estrada principal volta sem ter parado ao Furacãozinho, pois não é que ele passou mesmo das letras em pleno jardim da infância! mas o que me espanta, dona Maria, me espanta mesmo é saber número, faz até conta!! A mãe dele... narra minúcias que a gente do povo sempre ao pensar tesouros da inteligência e assim despeja nos outros; depois emboca contar a reação positiva do pai do neto, do genro Sérgio, ao qual tem grande consideração; espinafra para a vizinha e de sobra à esposa as coisas as conquistas delinho um colossinho nesses poucos aninhos de vidinha. Todavia não é ouvido, elas já se narrando assuntos feminis, ele para; não, sim foi sim um pouco escutado. A vizinha dona Maria: como é, Tufãozinho! Feliz, explica ao público, quem pode viver sem um público! explica à senhora que o vizinho doutro lado, como é mesmo o nome dele Maria? Ela acha que é seu zé, a outra refuta, terão dito a ela ser seu Otávio. Enfim, esse, ele me fala que só vê o moleque descer correndo da Kombi do Sérgio abrir rápido o portão e entrar gritando vô vó; logo de volta a correr tornar ao carro; e ainda grita. Seu Zé não sabe dar uma versão adequada usando a língua padrão, não respeita erres esses concordâncias nem escolhe vocábulos poéticos, assim mesmo dá seu recado, fá-lo de coração, o coração tem o hábito de andar com mais razão que a razão. Faz um excelente encômio, reveste de grandezas aquelas pequenices de neto; conclui: tem muita razão o vizinho – como é que ele chama? ela que seu zé a outra reprisa o nome ouvido e Seu Zé completa assim: não tem importância, esse homem apelidou bem o netinho, pois parece um tufão. Sorriem, Seu Zé embevecido não sabe gargalhar gargalharia.



G – Mas Tufãozinho é mais do que isso, quer dizer mais do que o futuro alegre no presente de Seu Zé. Ele um fator decisivo no equilíbrio do lar de Mariana. Em propósito estas linhas acham Mariana ter levado a sorte grande. Isto porque, num mundo como o nosso onde pululam dependentes e traficantes de drogas, aquele caso da filha dos velhos, tal caso agora se reduziu às insignificâncias, embora tendo havido o contato dela com o crime e a polícia – assim Mariana é tomada, a despeito da maledicência pichá-la não ser flor de se cheirar, vista enfim por normal a viver no comum. Ainda mais elevada na sua posição social por mãe esposa e filha, em tudo se não tendo menção honrosa ao menos com boas notas. Mãe sobretudo do menininho – os outros são grandes apesar de pequenos na estatura, adultos quase; havendo neste item alguns dramas comuns a serem levados na conta. O caçula não tem problema, criança não tem problema (opinião adulta) em não ser no sonho. É o mandarim no lar de Sérgio e Mariana, tudo gira ao redor delinho, mesmo os irmãos ou meio-irmãos como se diz estão voltados para o rapinha do tacho: suas gracinhas suas artinhas e artimanhas, inclusive tendo valor inestimável seus gritinhos vindos do sopro daqueles pulmões gigantõezinhos; tanto assim que no dia que o moleque permanece na casa dos avós o lar da mãe fica num silêncio medonho, machucador, terrível! ele é a animação. Papai faz tudo, sem exagerar veja-se bem, tudo que o filho deseje. Nunca teve coragem a corrigi-lo com os chinelos emprestados de mamãe... esta também preferindo usar os chinelos nos pés. Não obstante berra ela com o serzinho, chama-o nos tentos enfim é quem corrige e exige mais. O marido (“emprestado, igreja verde” morde a vizinha) ele é o menos duro na correção; ou não: antigamente temia-se a ferocidade paterna, a mãe nos panos quentes e só a gritar e dar palmadas, a prole temendo realmente o genitor carrancudo e machão. Ou não: um dia Sérgio quis cantar de galo, também chamou nos tentos por um abusinho nas artes, coisa assim de prejuízos e irreparáveis; já se esqueceram na casa o caso e a causa, tão importantes são as razões para corrigenda num lar pobre. Não importa, importa que o pai quis uma vez fazer valer aquelas mãos pesadas de adulto; chamou o guri, rezou-lhe um padre-nosso dos mais altões, do tipo não faça isso, isso foi demais e coisas desse jaez; a completar deu palmada, não foram palmadas, uma levinha parecendo “vamos brincar de apanhar?” levemente encostando a ‘mãozarrona’ na bundinha. Imediato o berro cortante, a casa num enxame o vexame a saber daqueles abusos. Ora, cinco minutos após a violência e brutalidade paternas o Zezinho a brincar e gritar alegre, o pai ainda choramingando no outro dia, à noite a se revolver na cama a se remoer de pena e numa autopunição. Prometeu no leito conjugal, a Mariana com rizinho gozador ouvindo, prometeu ter sido a primeira e última surra naquele tesouro. Aí fez o que faz um pai extremoso: a compensar comprou mil brinquedos ao menino; gastou o que não tendo para agradá-lo. Tinha um deles cheio de desengonços eletrônicos, o qual Furacãozinho executou eliminando em apenas meia hora, a fim provar a força real dum furacão.
          Não obstante ele é o fiel da balança, a qual não rouba no peso e é harmônica no lar de Mariana; ela pode sair sossegada ao trabalho, o pai do garoto sem trabalho fica a olhar, mais bem dito chocar, o menino. Leva-o à praça, leva-o a brincar com os de sua idade, leva-o à escola que é o pré-zinho; depois se ufana do progresso do filhote. Aliás todo mundo reconhece ser inteligente, tanto que já sabe ler bastante e escrever um pouco e nisto faz conta com números, parece bom na matemática e certamente não precisará decorar como o avô: um dois um outra vez e antes disso pondo o zero. Diz o avô: “meu netinho põe todos meninos da escola para trás!”
          Além do orgulho – um orgulho manso, um consorciado com dona vaidade, desse orgulho que desperta muito nos familiares – sua presença é importantíssima, é o fator de união entre os seus. Vai além esse dado positivo, pois sabe como ninguém cultivar amizade entre colegas; atrair a simpatia também dos desconhecidos.
          Papai? mamãe? todos? sorrisos.
          O lar vai para frente.
          A pequena economia nesse lar, o lar do garotinho, não é tão robusta; tem mês razoável, às vezes ganhos um pouco mais volumosos e tem a época das vacas magras, como diz Seu Zé numa possível queixa do genro quando parece as coisas desencaminharem. Contudo, após muitos anos de labor Sérgio recebeu indenização ao se aposentar numa borracharia, parou de trabalhar e a trabalhar por conta própria como se fala – com isso granjeou certo capital, investiu numa chacarinha e possui ainda a Kombi. Agora tem onde levar o moleque pra correr como cavalo a se sujar como porco; tem onde levar a família; nisto extensivo ao casal Seu Zé-Dona Maria. Todos cabem na perua, assim chamam aquilo a desmanchar de velha e uso. Mas é uma alegria sem tamanho, indo além do sonho no sonho que pudesse ter tido Mariana.
          A situação chega às raias da bonança, levando em conta os negativos a marcá-la; e a todos.



H – Um dia a felicidade extrapolou, quase a escorrer das bordas da vasilha de miragens e outros sonhos concretos da necessidade humana; a começar na alegria de suas espumas, elas a chegar na casinha da rua Boa Vida, onde o falatório a sem-gracice da rotina e o barulho da vizinha tão entusiasta por rock da pesada. Claro que o lar de Sérgio e Mariana a ser primeiramente atingido. Houve um casamento!
          Ora, isso parecendo corriqueiro e a se perder o ganho no comum. Mas não. Houve o enlace de Mariana; com um peso determinante a harmonizar o todo.
          Ocorreu em marchas e contramarchas de Sérgio para obter o divórcio; porque a encrenqueira vendeu caro, cedeu a contragosto e mesmo pôs mil empecilhos na cessão do ex-marido à mais recente inimiga, a Mariana. Um fator já quase impossível aconteceu nos lados dessa senhora com apelido pouco elegante de encrenqueira, e esse impossível foi um homem. Assim aceitou a legalização da separação e seu ‘ex’ a tornar-se marido da inimiga (uma que certas línguas diziam não ser uma flor a se cheirar e portanto também uma vitória da rival por tabela).
          Quando Mariana chegou na Boa Vida com o presente, virtual embora, na casa dos pais foi um delírio, educado sim porém delírio do mesmo jeito, um delírio a sonhar o concreto. Seu Zé não sabia direito o que falar o como expressar as coisas, anos sem a boca pronunciar tanta alegria ela já desacostumada costumada a assoprar tristezas e mais tristezas. Ninguém esperando melhor reação do homenzinho moreno e ainda não barrigudo como mais tarde; portanto falou qualquer coisa, coisa até sem nexo mas de grande peso vindo do coração; enfim dizia e não sabendo o que dizer de tanto que teria a dizer. Aos embrulhados, quem sabe embrutecidos, e aos tímidos os de casa perdoam. Mariana sorri ao ver o pai atrapalhado, sabedora de como anda feliz. A mãe, ora a mãe fez o que se espera de toda mãe, mormente das que passaram por muitas dores e tanto fel: chorou. Chorou minutos, depois abraçou a filha e não parava de soluçar. Tal situação só pode ser lida por quem for alfabetizado nos sentimentos do coração. Para no fim rirem, riam se olhavam e tornavam a rir. Porque a vida é uma piada, às vezes mal posta ainda assim tem seu quê hilariante. Só então a Filha esclareceu os comos, os porquês já sabiam à beça. Estava a explicar isso quando chegou a dupla: o pai do Tufãozinho e o Tufãozinho do pai. Tornaram a falar sobre o assunto, de fato repetir porque gente adora repetir mesmo que seja o óbvio; falaram refalaram no imbróglio, agora Mariana contou tim-tim por tim-tim, quieto o marido, ia ser imediatamente marido a tapar alguns centímetros a mais de língua vizinha; um marido de acordo com a lei. O noivo quase nada afirmou, apenas assentia no matracar da noiva; fosse por homem de poucas palavras, existem pessoas fechadonas, fosse porque houvesse nas imediações um tufão, tufão é algo perigoso e exige muito cuidado muitos olhos para vigiar.
          Após os tais episódios sobrou ainda alguma dúvida.
          Passaram, nesse grande ganho, a discutir a dúvida na possibilidade em haver também casamento no religioso; quem sabe não sobrando umas vestimentas brancas à noiva, o branco que mostra a virgindade e a pureza... Nisso todos os homens não sabendo dar palpite. Contudo ambos adultos felizes igual as mulheres. Mais feliz o garoto, sem saber o porquê.


 
I – Estas linhas ingênuas temem desarmonizar o todo, o todo seriam todas linhas com as letras do ‘a’ até o ‘z’ e de contrabando outras mais como o dáblio. Notinha: a Reforma Ortográfica em vigor desde janeiro de 2009 restabeleceu o W bem como o K e o Y no alfabeto. Claro, as pobres linhas desconheciam o futuro no passado 2008 quando presente. Sim, temência de perder o todo a contar a parte, a parte aqui sendo importantíssima visto que o orbe quiçá o universo girando em torno dela, dele, o Furacãozinho. O Furacãozinho afundou, usemos aqui a expressão da boca ainda incerta de Seu Zé ainda também assustado com o presente trazido pela filha que foi seu casamento, a ser logo casamento. A expressão dele: “u moleque tafuiô” (aqui longe de atafulhar, pois no sentido de ir correndo imediato ao fundo da propriedade) enfim o menino foi para o quintal do avô, deixou lá na frente os grandes. Cabe como parte a descrição física dos grandes, todos pequenos. Mariana encorpou um pouco e se tornou uma gostosura de fêmea da espécie mas é baixa, o Sérgio é de estatura mediana, Dona Maria ainda a escorrer gotas de alegria dos cantos dos olhos baixa tal qual a filha; enfim são adultos. Em suma o garoto disparou ao quintal, bagunça isto bole naquilo derruba qualquer, inadvertido e apressado (decerto por muitos compromissos pela frente...) apressado demais corre pra lá pra cá, Seu Zé feito bobo atrás. Não sabe o que fazer para agradar o neto. Aí pinta – muito usado o verbo na rua no sentido de criar – pinta um brinquedo e tanto. Rouba da esposa a bacia, a baciona de Maria pôr roupa, põe-na em meio do terreiro, o sol faz gozado no líquido uns reflexos a se chocarem com sombras e objetos nas imediações. Coloca a nadar na tona primeiro um peixe de papelão que fizera ao neto para que ele se entusiasmasse quando na visita aos avós; o moleque se alegra sobremaneira: mexe afunda não-afunda o papelão, põe terra por cima da coisa, ao riso do velho; este também criativo dá-lhe pedacinho de alumínio no lugar do peixão de papel molhado destroçado ‘furacãozado’; o metal um pouco só mas rápido afunda naquele rio de improviso mais lagoa quem sabe mar e no fundo brilha reflete os raios solares. O menino sorri e gargalha pelo efeito; Seu Zé volta a ser João Vítor e vê o tambiú de tio Arlindo no poço da bacia já meio suja porque o divertimento costuma ter cor de barro. Vê e narra ao boquiaberto netinho a história do tambiú na meninice, se esquecendo não de propósito o como atirar fezes e mamonas na água. Riem a valer, até extrapolam alegria, o neto gargalha barulhento... e é quando os noivos papai-e-mamãe a apresentar ótimo desmancha-prazer chamam a cria para irem embora. Então contrafeitas um pouco duas cabeças meninas.


J – Olhando assim por alto a ideia é positiva nas bonanças duma vida. Mas tem o mas... Uma família, não a familiazinha de Seu Zé em consórcio com Dona Maria a sofrer e alegrar-se e a sofrer outra vez parecendo a lição: um, dois, um de novo, e o zero que o pobre Zé não entendendo pra que serve de nada servindo não fosse o serviço de atrapalhar a gente. Não uma dessa família porém igualmente por tabela a dos velhos atingida – a família de Sérgio-e-Mariana (não seria melhor no melhor dos tempos, talvez, pôr Mariana em primeiro e Sérgio em segundo?) essa passou por maus bocados, quem sabe se não o pior dos piores momentos; e sendo claro exportou o sofrimento à rua Boa Vida; aqui sim cabendo com vantagem mudá-la para Boa Morte, todavia não aceitando decerto os ‘bagunçaldos’ vizinhos com direito a barulhar vida na rua Boa Vida. Sim foram maus.
          Um belo dia, noite avançada madrugada com vento quase tufão – e aí, onde o belo que estas linhas negam sim e deploram com certeza – a madrugada carrancuda e feroz, não fosse o silêncio então permitido pelos cães de assustar Patavina porém não permitido pela gritaria do vento no bater aquela droga de portãozinho esquecido destravado a teimar bater e mais bater; embora tudo, tudo no silêncio e eis que vêm as dores a marcar o que lhes parecendo a paz e a bonança com direito a casório e firmar a Filha e a ganhar um Genro. Batem, um conhecido? desconhecido destas linhas e no escurão como saber se todos gatos são pardos fala o dito popular; palmas batem e batem no coração. Seu Zé vem ver atender entender quem sabe o desentende, a coçar seu sono nos olhinhos já pequenos regalados menores ainda por ter sair da cama; apregunta, ouve: seu Neto, o João, não é o senhor Seu Zé, Seu Zé da Dona Maria!? seu neto foi acidentado... (espreitam a custo o susto ou o equilíbrio na experiência dum velhote – e isto é uma arte: não se pode dizer a verdade abruptamente ou se tem em vez dum morto dois defuntos; é preciso o cuidado nos cuidados) foi acidentado sim e não chegou vivo no hospital. A polícia levou o corpo tentando salvar o corpo, o corpo aos pedaços no pronto-socorro. Os detalhes mostram alguém voltando noite da pescaria, um ziguezaguear feito borboleta às tontas tantas voltas soltas rodas da bicicleta, delas pois havendo junto um amigo de vinte anos ele com dezoito incompletos; e das magrelas uma fora tolhida por automóvel – aqui um grito de espanto nos números estatísticos: o carro indo lento até nada de correrias e nada de álcool o comum a ceifar vidas! A rigor só atingindo a bicicleta do seu Neto. O choque o sangue o horror a tentativa no escuro da rodovia e... Ocorrência policial, constatação, embaraço e por fim a triste situação do não-tem-jeito.
          Seu Zé aparvalhado de pronto; tardou mais e mais na sua lentidão de natureza e mais ainda pela lentidão do infausto acontecer. Daí novos dramas, como comunicar a avó! Maria no entanto já nas imediações não precisando sequer narrar o drama, lavando o drama, não aos gritos, no choro fundamentado. Não alardeia a mulher sua dor, fá-lo com dor porém na confiança e certeza nos atos divinos; e isto faz do crente um ser mais equilibrado. Dona Maria sofrera por anos a fio e não se entregaria num momento tão machucador qual o do passamento do seu neto mais velho; filho quem sabe de quem, sequer a mãe a saber no meio às suas loucuras, mas filho sem dúvida de um tempo ultrapassado com suas intempéries e com grandes tempestades, agora a bonança. A bonança chocalhada na sua harmonia! Contudo sendo a velha, ela a velha, a consolar seu velho para provar que homem não chora todavia tendo coração em lágrimas. E se contam o contar, não por mera necessidade do contar, a se sentirem e a se suster. Aí têm novos e imediatos desdobramentos e dramas, os dramas são sempre prolíferos e geram também sempre novos dramas.
          Como dizer à Joana. Mais, onde encontrá-la. Não possuíam telefone, nem na casa velha nem na casa nova; só o dos vizinhos, o endereço do serviço da Filha a impossibilitar comunicação, não se encontrando no trabalho por aquelas horas e sim a curtir sua fase de casadinha de novo com o genro. Como fazer, acordá-los! a morte não tem subterfúgios, exige iniciativa e soluções. Como chamar vizinhos aqui na Boa Morte e os do bairro de Mariana?
          Enfim as coisas se resolvem, amiúde têm aqueles seres de boa vontade; a interessada filha pôde então chorar sua perda, a casa harmônica a lamentar sua dor.
          Enfrentamento burocrático. A burocracia tem por hábito matar o morto em desentranhamento de papéis e desinteresse de funcionários, como fosse vivo para assassiná-lo com irritação ou vendo nisso apenas número. Não obstante forneceu documentos para o féretro e seus festejos fúnebres a contento. Não conseguiu essa mastodonte, nem pensou, não conseguiu estancar lágrimas. Nem os consolos da solidariedade conseguiram anular a memória triste.
          Além do mais um cadáver e um túmulo mataram por si mesmos outra família nascente: o defunto vivo fazia a duras penas uma casinha para acolher a futura nora de Mariana, a nora apenas uma criança lamentava a experiente sogra; essa nora que decerto a vida enrolaria com novo pretendente, após o choro e o luto, porque a vida é assim.
          Agora Mariana e Sérgio, mais ela que ele, entendem-se, tentam se fixar no Furacãozinho, mais que antes, elinho cheio de vida e promessas de vida. Os avós tentam por sua vez usar o mesmo trunfinho, sem esquecer do se alembrar.


         
L – Seu Zé anda macambúzio, sorumbático. Mas o homem do povo é um túmulo que fala, diz o ver; parecendo ao ver que um pobre velho moreno baixinho e de andar lento, soubesse mais lento no pensar, não pensa. Então como sofrer! José sofre e seu gingar nos desengonços simiescos não pretende esconder seu íntimo: apenas não sabe como mostrar, e mostrar para quê? o como tem em si um inferno particular; isto sem qualquer valor, mesmo porque o inferno é o medonho ambulante e o levamos onde formos, caso não saibamos harmonizar as linhas mestras de nosso interior. Anda pensativo, fosse de tagarelar já não seria, não diz nada, excetuando o bom-dia (fala “bundia”) o boa-tarde “batarde” na sua voz rouquenha e sumidinha com temor em ser ouvida; falaria boa-noite e pronunciaria “banoite” , não o faz visto nunca ser visto noite adentro mais adentro do lar agora tristonho por essa morte; fala pouco excetuando também o diálogo nas compras de supermercado onde pergunta e responde aos desconhecidos. Quanto aos conhecidos aceitos por amigos é um desprazer para si haver de contar, recontar, as coisas do sofrer: o como foi, como está, como fazer, ou como pensa pensam fazer. Felizmente a filha traz-lhe sempre o Tufãozinho a fim de afugentar plúmbeas nuvens e os ventos pesados; traz-lhe mais ainda o genro o menino.
          Enquanto isso rumina suas ruminações, seja a andar ir vir das compras ou dos recados, seja sentado no fundo do quintal numa cadeira (a oposição a lembrar-lhe bichada podre quebrada e a despencar, não adianta não conserta e isto é próprio da oposição fala a oposição); dá preferência a uma de pau, lustrada por lustros de anos com seu peso e nisto nada demais: pois não tem essa coisa do ser comum se apegar a um certo objeto –  mesmo que o mesmo esteja partido velho feio, horroroso lembra a oposição – e usar reusar o dito objeto de preferência às bonitezas das outras coisas!? Assim sentado olhar fugindo vendo não conscientizando o que vê mas realmente preso no seu pensar. Claro está Maria a lhe dizer as coisas do lar, porém um casal idoso mais silencia seus barulhos internos pra fora que fala; estariam os cônjuges cansados do tanto conversar... diz sim as coisas, ele responde quase sempre sincopadamente no seu jeito. Ela não, fala desembaraçado. Todavia ele pensa. E ouve.
          Dona Maria agora tem visita, visita a qual sobra bem pouco ao macho da espécie, tristonho ou mudo. Agora, depois dos últimos infortúnios, agora têm os velhos mais amiudadas visitas. Ou elas vêm para colher informes ou vêm a consolar; ou tão só a descarregar seus pesos. É uma característica humana o despejar noutrem o acúmulo do sofrer, quiçá uma felicidadezinha a alegrar os tristes; ou não será por definição o homem um ser masoquista, que se alegra no autossofrimento e quer acaso repartir essa ‘riqueza’ com as orelhas vizinhas! Agora é dona Zefa, uma irmã (Seu Zé dizia quando dizia irimã “sua irimã taí Naíre”) uma que vem de vez em quando, quando não tem outra confidente disponível. Conta – antes perguntou é lógico dos resquícios provocados pela morte de João, o neto mais velho; Maria também por vezes apelidada por Zé como Nair e pronuncia baixinho “Naíre”, Maria aproveita lembrar os vexames que Seu Zé viera passando para alistar o neto no Exército, já quase pronto o certificado de alistamento e aí o desastre... chora um pouco e aguarda a outra: – afirma a irmã ter tido cinco filhos, a irmã Maria conhece o mais novo não é? Conta do esposo infiel, depois o amasiamento dele com uma jovem, após o como assassinou a ‘namorada’ por ciúmes e a prisão; diz que ainda assim ela a levar-lhe os pratos preferidos na cadeia; lembra das filhas envergonhadas do pai e o amor delas; conta os namoros e aparecimento dos netos. Narra as misérias de sua casa, o ganho pouco, a negativa de pensão paterna, o desemprego de quase todos membros da família. Conta demais sobre moléstias, desce aos pormenores ao gosto do povo; entra no capítulo dos médicos e os consequentes remédios, num lembrar cada profissional pichando os maus a quem chama ‘açougueiros’; e não se esquece das vizinhas – recita dramas dos dramas vizinhos e dos parentes dos vizinhos. Vai expor mais e lembra ter vindo consolar Dona Maria, o que já um consolo. Se esquece de Seu Zé, dormindo na cadeira; e não despencará a cadeira como percebe a mesma tão fraca a um velho tão pesado! mas não diz isso, apenas observa o homem a dormir.
          Dormindo?



M – Dormindo? Agora não, ou não: sendo sim por Seu Zé viajar no mundo das lembranças; o exterior dele mostra um velhote cansado, de cor morena, uma cor que não existe ou não sabe se definir sem errar, sentado numa cadeira, a cadeira comum e de fazer nhec-nhec com as travas de pau soltas e ainda por cima, por baixo, a balançar os pés do homem nas pernas curtas, ele diz realmente “balangá” sujando a forma padrão, mas seu padrão igual doutros caboclos na roça ou em casa na cidade; balança por suas perninhas mais curtas que as pernas da cadeira; os chinelos um já foi ao solo porém não dorme, o chinelo de sobra não dorme também apenas Seu Zé. Nisso vira João Vítor e está vendo o pai Chico num banco de três pés, o caipira fá-lo de três para acertar equilíbrio, com quatro ficaria mancando. Olha o genitor a fumar ou falando as coisas porém esse um recurso do filho agora avô pra fugir do pensamento trágico da morte violenta do neto na estrada e por isso a pobre Dona Maria ainda chora baixinho tão grande perda, ainda Mariana se distrai com o Tufãozinho no entanto a avó pobrinha dela e aí conta isso para a outra irmã e combinam também ida ao culto; enquanto ele absorto na cadeira no quintal quase ao nível da cozinha deles. Vez que outra abre ou desfecha os olhinhos empapuçados e então vê Peri. Peri, meu grande amigo, você me acompanha faz tempo, traz o sabugo de milho que atirei lá longe e depois eu jogo o sabugo com as mamonas nos tambiús no poço de tio Arlindo e (ah se pudesse dizer diria:) e os cães estão com a gente faz milênios e milênios, fiéis amigos pacientes sofredores e nada pedem em troca do amor puro que dedicam e pela querência... antes que isso recebem ralhação pancada e comida pouca e abanam, ainda abanam compreensão na incompreensão, todos cães, você Peri por extensão. Aí distingue o agora de hoje e percebe Peri mudado, não é lambeta, embora vira-lata de pelos brancos curtos, já estando brancos amorenados na sujeira de rolar na terra se emporcalhando e o bicho olha e vê o pai o irmão o... o que será que eles pensam de nós e então Maria podendo ser a mãe! O Peri anda sentado no chão e o rabo não é como antes peludo mas abana contentamento assim mesmo; olha pra cima e vê Seu Zé enorme e de olhos petiticos com cara gozada naqueles zigomas pronunciados de indígena numa expressão mansa e amiga e por isso sorri para ele a balançar pra lá pra cá a cauda empurrando terra e ciscos numa alegria imensa: será, diz o cachorro, que ele vai me dar isso que tem segurando pra comer! (Seu Zé segura um pedaço de metal ou objeto de plástico decerto sem cheiro) olha pra baixo flagra o pedinte, fica com pena, se alevanta rápido, isto custando muita lerdeza, corre, nele um andarzinho desengonçado menos vagaroso, entra na cozinha, examina isto examina aquilo nada na mesa, abre a geladeira, antes disso olhou a possibilidade da oposição perto, longe vêm até eles as vozes das irmãs a se contar as coisas, sorri sem pensar possam as mulheres estar tratando coisas tristes, abre afinal o refrigerador, toma uma tijela de louça lascada, levanta daí um cheiro de carne com tempero, o homenzinho pega um nacão do alimento, fecha a geladeira sem fazer barulho traiçoeiro, olha de novo o perigo e sai quase na ponta dos pés ao quintal premiar o Peri; este sorri e sorri ainda mais com o rabo a sentir a gostosura que Seu Zé tem nas mãos; recebe com delicadeza a carne, não abocanhando gulosão igual sempre fora Peri... Ué, interjeiciona o dono da casa, você era tão guloso e ao pegar a carne às vezes me acertava errando a morder nas pontas meus dedos... ai que besta eu, eu não sou mais João Vítor e o Peri morto enterrado atrás da tulha (ele pronuncia “túia”) como pode isso, nisso grita Peri. O outro sorrindo pela carne não atende ao apelido por ser de nome Lorde, britânico emprestado. Era um cão duma amiga de Maria, uma que fora viajar e pediu que a família cuidasse do animal. Seu Zé se conscientiza de vez, lembra-se que apenas possuem um gato o qual só sabe dormir e fugir mas não têm cachorro. Lorde agradece em boa educação britânica; quer dizer: fica esperando quem sabe a vinda doutra vianda na porção robusta; daí sim agradece meio constrangido e decepcionado. Seu Zé fica a menear a cabeça, a ponta do quepe ora pra direita ora pra esquerda, enquanto Lorde vai cheirar e ciscar como que patinando a terra e a grama.



N – Agora é agora, o agora destes dias conturbados no planeta como sempre; o homem não entendendo o homem briga e mata o homem, para tentar compreender o homem, para estabelecer a paz entre os homens. A par disso o progresso tecnológico. O homem a evoluir? O homem da rua contudo não põe tal indagação; prefere viver. Pra si viver é comer conversar ver tevê dormir amar, no amar coloca boas doses de sexo e vantagem; para atrapalhar, o temor da moléstia e o terror da morte. Acha melhor que tudo tudo mesmo esteja nos seus conformes, nos hábitos seculares. Ele só percebe o dia teme a noite e os empecilhos da noite e do amanhã. Ah sim, lembram estas linhas: tem o formalismo duma crença – seja católica evangélica ou qualquer. Basta-lhe isso para se distrair.
          Seu Zé assim. Dona Maria é o contrário para ser o mesmo. Enfim admitem o que se admite. E chega de pensar. Ou não se vive.
          Agora se acostumaram com tanta bonança, a borrasca passou; sim deixou marcas, terá arrancado telhas, terá derrubado alguma casa, terá eliminado seres humanos e outros animais mais animais. Todavia os seus perduram, Mariana e sua casa; e os daqui que a Boa Morte devolveu à Boa Vida; e ainda o restante da cidade portentosa com prefeito vereadores corrupção juiz cadeia polícia e mais corrupção – isto tudinho não sendo de nossa conta, na conta de vítimas apenas; apenas importa viver, o ramerrão, a rotina.
          Não obstante, quer dizer embora tais bobagens e as mentiras que se olha na televisão, não obstante tem sempre areia nos dentes da engrenagem da existência. Seu Zé é um bocado egoísta no falar enquanto ela, a esposa, ela se recolhe na timidez e no esconderijo das prendas domésticas e quase não demonstra ser também uma egoísta. Melhor, não seria egocentrista? talvez por só se ver. Um urbanoide desconhece o que outrem a pensar mas julga não ser boas coisas – ao menos o condenável pela religião, Seu Zé sendo sobremaneira religioso ou apenas a respeitar o que Maria fala, fala como sábia lê que é uma beleza a Bíblia e ainda comenta o que aprendeu na prédica pastoral – crê sim em maus pensamentos e maus atos segundo vê ou escuta dos comentários na rua Boa Vida, bem fofoqueira por sinal. Tem uma residência na esquina, nossos vizinhos diz a mulher ao Zé acreditar, os vizinhos dizem que mexem com drogas, essas porcarias e esses escândalos que nós vemos na novela das oito, a das nove a gente nem liga o aparelho por ser pior nas sujeiras – serão os fins dos tempos! Seu Zé fica com um medo tamanho; até para ir, aí vai pela esquerda no passeio do outro lado, para voltar da cidade passa por mania do caminhar sempre só pela esquerda (isso não está direito, lamenta a consorte) e então passa rente da casa-do-pecado... a bem da verdade não usa a calçadinha vai encostado à guia pelo asfalto, em não ser que esteja escorrendo rios de lama que mandam os de lá de cima a papear deixando o esguicho aberto a gastar a água da prefeitura essa que os moradores chamam ladrona e talvez tenham sua cota de razão. Pois é, ao voltar passa raspando a casa-da-perdição e dá de esguelha olhadela para ver se vê a gorducha dona Maria a qual falam ser desbocada e desrespeitosa; e aí se vê, faz de conta que não; se não força a fazer que vê, quem sabe... então se assusta e espanta umas ideias pecaminosas indevidas. Realmente evita proximidade da promiscuidade e sobre isso, já no lar, cicia para Dona Maria as coisas; então fala das outras coisas admitidas como as compras nas sacolas que trouxe dependuradas e podem conversar alto, que no seu caso ainda baixinho e rouco, ah que raiva ter esquecido a bengala não sabe onde, tem as compras, comparam preços, veem troco. Porém apenas quando o casal só no lar, pois hoje tem uma tal dona Maria, outra dona Maria, a da Conceição em homenagem à santa quando era católica, esta irmã da Congregação e por demais sofredora. Conversam. Ela conta do garoto, garoto dela, meninão adolescente e retardado mental que hoje deixou com a sogra um pouco. Ficou cego e se arranca os cílios se arranha e fala sem parar, a senhora já o viu não é irmã Maria. Pois é e com tudo isso ainda dou graças a Deus ter esse filho, os outros debandaram quando meu esposo se foi me largando. Não queira saber, irmã... Se vai, apressada ao seu próprio sofrimento, eles ficam a sós a conversar baixinho no seu estilo, a conferir as mercadorias. Sempre o Zé compra de  mais ou de menos algo, Maria lamenta, lamenta faz bem uns quarenta anos, inclusive antes de Mariana nascer e a morte levar os machinhos natimortos ou pequenos como anjinhos ao cemitério da Vila. Lamenta por lamentar, é sua característica quase; ele não se emenda e já tem a cabeça branca, tira o boné vermelho com propaganda duma empresa, resta mesmo muito cabelo porém os fios são neve. Ela olha, sorri, amiga, sem pensar que os seus também branquinhos por baixo do eterno lenço amarrado; se soltar os cabelos não chegariam aos calcanhares!
          De fato Seu Zé um pouco egoísta sim no falar; só fala ‘eu’ em tudo que diz, desconhece ‘nós’; quanto aos outros põe os mesmos quase como símbolos, entidades. Nisto também não destoando dos homens comuns no geral. Deverá – isto não sabem estas sabujas linhas – deverá igualmente pensar usando o vocábulo eu, agora que vai indo embaixo a fim de buscar água na fonte municipal. A água que a prefeitura bota nos canos para as torneiras da falante e rockeira rua Boa Vida é pegajosa, até no banho diário pro Zé semanal no costume da roça, até no banho parecendo limo, no corpo não pega sabonete e não deixa direito sair o sabonete ainda a espumar na pele. Tomar isso! grita, baixo, mas grita indignada Maria e igualmente as outras mulheres do pedaço. O líquido é pesado, mesmo passando pelo filtro; eles têm uma talha de cerâmica tosca, a qual deixava quando usada um sabor (mentira que água não tenha gosto) um gostinho gostoso de barro, isso na roça e na fase em que moraram na Vila; na Cidade é isso que nós temos. Toca o trabalho ao Seu Zé, com uma carriola, ele diz carrinho-de-pedreiro, levando uns frascos de plástico, toca a ele o serviço de trazer água pro lar. Vai numa lentidão daquelas de se ter paciência, muita paciência a se observar. Some nessa rua, reaparece no fim da rua a trazer a carga. Vem carregado cansado exausto inclusive mas devagar. Porém chega. Não grita a esposa para abertura do portãozinho: toma o molho de chaves, nunca acerta a certa erra umas três vezes e por fim acha aquela, reabre a fechadura que fechara (o lema da cidade atual é a prisão domiciliar...) entra na pinguela – pôs duas tábuas a cobrir o desvão entre o passeio público e seus degraus de escada à residência – entra se equilibrando para não tombar a carriola de água no chão. Penetra o quintal, vai ao fundo do corredor: começa a encher o reservatório ou deixa os galões cheios num quartinho de despejo. Água pra semana. Noutra volta à fonte artesiana para reabastecer.
          Não trabalha Seu Zé somente nisso ou que seja noutra coisinha como defender a esposa quando aparecem baratas no quarto; faz mais exercícios; vai por aí pegar algum galho ou pau a fim de trazer combustível ao seu fogão. Sim, o homem é moderno: compra com sua minguada aposentadoria gás, tem um fogão comum a brilhar por Dona Maria, mulher limpíssima asseada trabalhadeira exemplar. Todavia ele também é exemplar marido, no estilo dos velhos tempos. Fizeram, ele foi ajudado pelos netos maiores nisso, sobretudo pelo falecido recente, fizeram um fogão-caipira, um fogão extemporâneo, parecença com dinossauro na família dos fogões, com o fim de economizar o gás tão caro. Assim fumaça de vez em quando o lugar. Tanto que o vizinho, pai da maluca filha que arregaça as bocas da vitrola nos seus rocks a estrondar o silêncio do casalzinho velho, esse pai-vizinho fez reclamação pela fumaça do fogão de Seu Zé. Fê-lo direto, berrando doutro lado do muro, ameaçou delatar às autoridades. As autoridades são entidades; as entidades costumam ser entidades, portanto impegáveis; na hora de receber taxas ou para serem cientificadas dos contra-lei viram reais concretas tocáveis, intocáveis e ferozes; assim o homem da rua teme. Seu Zé ficou temeroso e aborrecido. Apagou o fogo, desfez a fumaça, dessas fumaças com cheiro e das quais exalam não só cheiro mas ardidura no nariz na cozinha cabocla, além de subir ao teto e formar o que o matuto chama picomã, um pretume terrível; se a lenha for meio verde então... oh quanto Maria ‘chorara’ na roça, aquela jovem morena bela que a família casara pra “ter família” um dizer dos roceiros, ter família com o trabalhador sério e homem de bem conhecido por Zé, tendo ele antes disso tido um nome quilométrico por falta de culpa do compadre do Velho Chico. Quanto chorara na fumaceira manhãzinho a preparar o café doce aos seus levarem pra lavoura. Agora não: Seu Zé fez seu fogão, sem grande arte e talento dos pedreiros, porém fez, fê-lo no quintal a céu aberto. De maneira que a fumaça se espalhando poluindo realmente o orbe  todavia só um pouquinho, pouquinho insignificantemente. Ainda assim o morador vizinho ali a rosnar. Não obstante, noutro dia o mesmo veio lhes pedir o uso do fogãozinho para acabar de cozinhar seu almoço na panela de pressão, sob a justificativa “nosso gás acabou...” Como bons evangélicos perdoaram numa boa-vizinhança. Maria comentou com seu Velho baixinho, mais baixinho pois fala já baixo: Zé, o castigo vem a cavalo... que é um dito roceiro.
          Seu Zé está aí de pé encostado no seu muro com dizeres de eleição, num pichamento que permitiu a um candidato também evangélico; está aí do outro lado, parece, dizem estas linhas, parece até um rio escuro o asfalto da rua Boa Vida, seus rachados reentrâncias e saliências semelhando as ondas ao reflexo do sol, o sol que ilumina rio rua gente vegetal a refletir na Boa Vida, longe das lembranças da Boa Morte; e quanto às sujidades como garrafas latas paus embalagens tudo há tanto no rio como na rua, ainda por isso o asfalto figurando o rio; e doutro lado, na margem de lá, Seu Zé parado a olhar quem sabe o mundo ou alguém, será a Kombi a desmanchar do Sérgio? ou será Dona Maria a se arrumar como toda mulher, atrasar como toda mulher, para que a oposição como toda oposição se aporrinhe; é de fato: encontra-se esse homem demonstrando nervosismo ou mal-estar, incomodado. Deste lado, desta margem do rio estas linhas sorriem disso até zombeteiramente pela figura baixinha barrigudinha com um boné enterrado na cabeça pequena; se fumasse estaria no terceiro cigarro, cuspiria a gosma, não fuma somente cospe na rua, não vê não se vê volta-se ao portãozinho, ela enfim aparece. Sombrinha contra sol ardido; cheirando água de cheiro? Elas não sabem, as linhas. Vão indo ambos velhos qual namorados. Não se abraçam não se enroscam: usam o estilo caboclo – ele na frente, ela atrás em fila indiana. Não, o lerdinho fica para trás invertendo as coisas, ela pega no pé do macho da espécie, diz alto, nela é menos baixo apenas, diz que estão atrasados. Vestem-se a caráter. Que expressão boba pois as linhas não são capazes descrever trajes, porém os vê sim em roupas simples de homens comuns, tendo tão só alguns traços indumentários do caboclo do mato quando tinha mato e caboclo puro no país.
          Depois voltam donde não sendo da conta de ninguém. Ele tira uma soneca, nem os gritos do rock metálico na vizinha pegada atrapalham. Ela se irrita; se irrita pelo barulho; assim mesmo trata das coisas da casa, lava cozinha arruma passa e muitos etc. mais do infindável labor doméstico. Trabalha muito, mas quietarrona; embora isto sofre seus pensamentos que são os pensamentos das coisas de família... tem a única neta mulher, os outros são machos dessa espécie cabocla, tem a Luzia, a Luzia enredada pela própria mãe dela e que é a filha Mariana; Mariana diz horrores da adolescente e isso traz ao miolo aquilo que o ser comum apelida “minhocas”. Enfim é uma senhora tímida.
          Antes, um dia, dizer um belo dia... bah! Antes houve uma reviravolta na Boa Vida. Seu Zé havia saído, parece que ajudava Sérgio a fazer algo para Mariana em casa deles ou toureava o Tufãozinho; ela só no lar, quando despencou a tempestade no costume da rotina. Apareceu a turma da dengue. A saúde pública preocupada com a limpeza e os casos nas imediações resolveu pulverizar a área. Todos moradores precisavam sair do domicílio, retirando também os animais de estimação. Por duas horas tocou ao povo ficar na via pública enquanto a desinfecção. As vizinhas fofoqueiras deliberaram deliraram. Mesmo Maria precisou ir pra fora levando a gaiola, o Zé gosta de canário, um amor profundo a passarinhos, tanto assim que os prende. Outros amarraram seus cães junto de si. O gato do casal deu no pé ninguém pôde defendê-lo da fumaça de inseticida. As outras pessoas trouxeram inclusive cadeiras a fazer sala no serão obrigatório; demais vizinhos a ficar sentados ou agachados na guia da rua. Uma conversa animada, uma festa; com todos seus ornamentos e quejandos: risos piadas estórias falatórios besteiras educadas ou grossas, de indignar gente tímida ou religiosa. Barulho condizente. Maria muda, quase muda, fora o sorriso e a vergonha descarada duma caipira. De repente se descuidou, tinha já um vira-lata a tentar comer-lhe os pássaros a raspar a gaiola. Uma experiência enorme e nova à pobre senhora. À noite ainda narrava ao Seu Zé no regaço do lar as novidades daquela novidade. Ele se surpreendeu com essa quebra do ramerrão. Por desencargo de consciência foi imediato vistoriar a gaiola onde dormiam os pássaros e nem percebendo um miau perto. Era tardão já, pois o guarda-noturno iniciava o apitar no silêncio, a avisar e alertar quem sabe possíveis ladrões interessados na Boa Vida.



O – É verdade que na rua Boa Vida na periferia rica de Curva Grande têm os que passam, tem o carteiro tem o lixeiro tem o vendedor tem o moleque insultante e tem inclusive o cachorro a passar e que ofende com sua presença o cachorro. O cachorro? Então a cachorrada (poderia ser dito agora canzoada, as linhas não permitem) a cachorrada em disparada atormentada a atormentar orelhas vizinhas – unzinho deles apenas pode despertar todo o globo e desvirar a Boa Vida na Boa Morte irritada pela ladração, a atormentar sim mais ainda quem sabe que a surdez da belinha que vive a engolir seus rocks naquelas alturas e daí superar as alturas com inocentes latidos, a ofender o todo e a parte, a parte das orelhas de Seu Zé por exemplo. Seu Zé e também Dona Maria que muitos pensam ser dona maria qualquer e os íntimos já ouviram o homenzinho a tratá-la “Naíre”. Ambos irritados agora hoje talvez por todo o dia ninguém sabe nem a interrogação a exclamação as reticências, não sabem com certeza só em dúvida mas não sabendo de fato a interrogação. Contudo é o silêncio agora, agora não é a paz, é o silêncio pois a cachorrada a dormir porque nenhum cão é de ferro e o casal torce que os focinhos não acordem. Bem, ele ela.
          Maria lava roupa, a panela aquece, a vassoura descansa ou dorme dorme igual um dos cães residente doutro lado não o lado do rock; esse unzinho é peludo e responde pelo nome de Paquito; Seu Zé conhece todos no pedaço por nome, sem qualquer apresentação formal nem houve apresentação por exemplo no caso do Lorde que fora Lord  britânico e dorme em hora certa e come em hora certa e ladra em qualquer hora igualzinho o Paquito; tomara Naíre, tomara que a irmã volte logo da viagem e venha buscar seu cachorro ou a gente recebe reclamação da vizinhança por esse latidor. Lava, espreme chocalha e sobra aquela chuvinha em respingo indecente que volta na cara da pobre; estica olha toma os prendedores põe a peça a secar no varalzão que Seu Zé lhe esticou no quintalinho. Lava torce chocalha e cheira, sim cheira o pano antes de pô-lo no varal; daí torcendo que venha um sol dos brabos a secar; então Seu Zé que não tem costume de brincar, de feitio sério quase carrancudo não fosse ingênuo pensar-se-ia mal ser mau; por pouco nessa hora não aguenta para gozar Dona Maria pelo ato de aspirar desde o tempo na roça passando pela Vila e agora na rua Boa Vida na pobreza dessa periferia rica de Volta; não diria em frente dos outros para não melindrá-la, aliás gostamos realmente de fazer gracinhas, as gracinhas que não arriscamos a externar na vida e na intimidade exportamos externando gozação, no seu caso não a melindrar envergonhar a cara-metade: apenas para brincar com ela. Uma verdade é que agora após tantas tormentas não estragaríamos as bonanças não quebraríamos os silêncios abrindo a boca pelo simples hábito de Maria antes de secar a roupa cheirá-la. Diria ah essa Velha, diria melhor pior “Véia” e ela sorrindo à brincadeira; essa Velha tem a mania de cheirar a peça antes pôr pra secar! Ela... ela? sorrindo somente. Ele: chegará um dia não indo apenas cheirar: passará sim a língua e quem sabe mastigando o pano!? Ela? a sorrir ao Velho e à Visita pelo gracejo; mas Seu Zé não tem graça alguma a contar piadas e no gracejar não sabe gracejar – não possui talento nisso. Todavia agora ele a vê nesse costume, escuta a panela de pressão chiar olha o que ele próprio faz, se não pôs errado o alpiste; apenas a vê e fala de si para si a criticá-la. Maria não se importa, nem que ouvisse Seu Zé na gozação barata se importaria; no entanto enquanto o Velho limpa a gaiola observa a esposa no trabalho e sorri matreiro a Velha no cheiramento do tecido ainda em gotas no fio. Não fala não se falam se olham e talvez nem se percebam, imbuídos em suas respectivas tarefas.
          Não se falam, ela entretanto diz “acho que o nome do companheiro da Irmã Antônia é seu zé...” Seu Zé arregala antes as orelhas depois os olhos no despropósito do propósito dela, Dona Maria falava tempo num diálogo interno mudo ao mundo, como poderia saber o esposo o nome doutro esposo, iludido no instante em tarefa de aposentado: cuidando de Lorde, limpava a vasilha punha água e ainda observava a grama bravia a vencer o canteiro de cebolinha lá diante e a necessitar enxada, portanto já em vista novo serviço. Responde que deveria ser seu xará mas argumenta não ter certeza. Noutro século ou milênio ou eternidade de minutos, enquanto ele a varrer perto da gaiola ela a enfileirar mais roupa no fio de aço estendido – é Seu Zé a indagar: será que eles vêm! Dona Maria diz que sim não tem ideia talvez quem sabe e prometeram.



P – Antes que as promessas se cumpram... esclareçamos uns abusos absurdos destas linhas. Seguinte. Lá pelos ínterins e seus entremeios, senão antes senão depois, mas com certeza travado nos pensamentos respectivos dos donos da casa, ela a cuidar da roupa ele a cuidar do canário, estando embora vivamente lembrando duma cena que lhes corroera a bonança ora em vigor – eis que elas, elas? as linhas metediças, elas criaram um autor escritor pensador e até mesmo criador delas, ele, pobrezinho! ele que constatou algo a estarrecer esses tempos de bonança de Zé e Maria.
          O autor criador etc. e tal: apresento às pobres e intrometidas linhas agora uma estória que suborna a aposentadoria de um escritor.
          Introito curto. Ontem, minto, anteontem, já havendo antes avisado todo mundo desconhecido haver parado de rabiscar porcarias; sabendo-se embora que uma estória e mais as bem-comportadas não ultrapassam limites superiores e menos os inferiores – eis que dá a cara uma. Uma!
          Aqui em Curva Grande a gente deseja comportar-se à altura como fosse a gente um nada; um nada que fala come defeca dorme sonha, sonhando parcamente que seja, seja dormindo por força da natureza seja acordado a criar sempre num sonho absurdo para não morrer ou só existir um pouquinho em pesadelo manso da vaidade e... ah ih oh por que não tê-la se a vaidade é característica humana! a gente tem e pronto; não tem gente na gente conhecida e bem conhecida por sua ignorância ou tão só se apresentando tímida mas a publicar contos novelas e romances? tem sim gente assim, tal gente a cumprir o mando dessa característica tão negativa quiçá positiva, conforme o caso: este positiva o negativo.
          Eis que surge (surge uma estória abobalhada a impor-se ou somente aparecendo por aparecer como ninguém tendo nada com isso e às vezes nem se notando a bobinha... Não isso:) ei-la na forma natural de se mostrar, existindo se não na pele nos olhos, na cara da gente.
          Bem, para não contar a estória ou já o fazendo porque não se pode fugir da realidade que se vê se sente se sofre mesmo! para tanto em tanto não fazendo esforço a me calar, narro primeiramente como foi que a dita cuja apareceu. Apenas vênia peço posso? passo a narrar ou descrever o como da coisa. No entanto – aqui novo pedido de vênia – no entretanto fá-lo-ei noutro capítulo.

          Segundo - Um, dois, dois pra lá, três pra cá, alevanta abaixa aspira solta respira descansa cansa... ah, fazia um escritor naquele tempo, importa lá qual tempo importa o escritor, fazia sua ginástica matinal. Matinal!? qual o quê. Exercício físico madrugando pois nem a claridade se mostrava, quando ela apareceu...
          Eu, eu? eu existo, ou não poderia narrar o absurdo do que vi aí aqui na frente; um, dois, dois pra lá, três pra cá e tudo o mais na sistemática ginástica nada escolástica e até mundana como só o homem do povo consegue fazer: faz um dia, assim como se promete não comer tanto açúcar tanta gordura tanto volume em tanta massa a abarrotar o prato se envergonhando no restaurante popular, aí todo mundo se volta pra gente e a gente bedelha o bedelho de todo mundo olhando a montanha: que é que vocês têm com isso! isso posto ainda completa: “sou eu não vocês quem pagará a conta no caixa”. Deixemos todo mundo nesse ver-nos na batalha campal mirando a gente deglutir feijão arroz e qualquer proteína.
          Enfim fazia ginástica a driblar o escuro o cinza o sol o frio o vento o tudo o nada lá fora, aqui dentro nos lances a chupar ar soltar ar flexionar membros remexer juntas a fazer com isso barulhinhos na secura – o sargentão no exército dizia estarmos quebrando pés de milho na roça quando na educação física mas ele era um gozador e agora estou sozinho e mal acompanhado da cena que presencio na rua – em suma me sacolejava nos movimentos da ginástica, quando ela apareceu... ela a estória? ela a estória.
          Forço um pouco meus gestos, alevanto-me nas pontas dos pés, sugo o ar bebo o ar como o todo lá de fora, encho os pulmões a quase estourar e daí, cansado ou só obedecendo imposição técnica de educação corpórea, solto o ar preso; ele feliz da vida sai estrondosamente e decerto aquece ou malcheira (se não existir malcheirar a gente inventa para agradar o ar preso-solto) malcheira o ambiente enquanto prometo e imediato me ponho a repetir a dose: um dois três pra lá etc. e tal e é quando ela surge! ela a estória? não, ela a Luzia. Quem a Luzia. Quer saber? leia a estória, pois ela surgiu... A Luzia? a estória da Luzia. Ninguém ainda sabendo que a jovem se chamando no cartório Luzia, ou melhor: eu não sabia, sabia o avô, sabia sábia a avó, sabia claro saber sabia a mãe da moça o pai não e nunca a mãe contou a ele e pra quê saber se andando por aí perdido ou preso e por isso mais perdido, sequer o homem tendo conhecimento que uns carinhos por cima duma qualquer mulherinha pudesse ter engendrado uma bela garota; em menina a mãe da menina fora linda e agora o desgaste dessa mãe da rapariga (cuidado temamos certas conotações ligadas à interpretação dessa palavra) agora o tempo deixa a pobre senhora apenas mulher mais ou menos sofrida e assim as duas fêmeas da espécie somente bonitas ou passáveis; o que não resume tais existentes a viver existência de fantasias sofrimentos e inclusive constrangimentos, estes que são sofrimentozinhos delicados educados contidos em sua vergonha.
          Acabo meus exercícios, doem juntas todas juntas na dor e no cansaço e... não, não acabo: ela não deixa.
          Ela a estória?
          Ela a Luzia?
          Elas ambas.
          E os outros também, visto não existirmos e não existir alguém sem o parâmetro do existir dos outros em torno, dos quais o terceiro capítulo se encarregará mostrar.

          Terceiro - Uma parada para descanso, não em minha ginástica caipira e feita sem ordem num ferir técnicas e ciências; admitidos abusinhos e esquecimentos; por exemplo, tem dia que faço tem outro que me esqueço fazer; num faço de manhã, noutro vou tratar outras coisas e me esqueço da coisa lembro tarde ou faço exercício de tarde ou então não faço coisa alguma estourada a hora, ora não me exercito por semana ora retomo a manhã ou faço à tarde, ótimo à persistência caipira. Às vezes não, não é por nada de tudo, tudo em nome do pretexto sem causa aparente; ou então estou a executar exercício e não acabo a série por causa dela. Da estória? da estória dela e por causa mesmo dela, do que vejo saindo creio ouço sobre ela e até ouvindo a voz dela. Tem uma vozinha, não me referindo agora à velha dona Maria, senhora pequena tolerante e a querer enquadrar-se como autêntica cristã – o Cristo não afirmou o amor sem condição e sem condição também a tolerância? A velha pratica os postulados do amor e da tolerância agasalhando recebendo a neta, não obstante apupos da realidade e da oposição a tentar impedir o feito cristão de Maria. Não vou antecipar que inclusive a própria genitora da jovem seja declaradamente sua opositora. Mas agora está dito.
          Portanto suspendo minha ginástica diante o quadro visto de minha janela quando chupava o ar puro, impuro pela chegada dos integrantes da estória, essa enxerida que apareceu do nada do quase nada a atrapalhar o anterior casamento de minha aposentadoria como contador de estórias, quiçá para mostrá-las a outrem a satisfazer a sanha de minha vaidade, a vaidade que os teimosos teimam dizer uma característica humana e a fim de não deixar ser gente, o escriba gente. Suspendo a ginástica, fecho a janela de passar ar puro, envergonhado então pela vergonha que a educação nos manda expressar fechando olhos, estes da casa e não os meus bem abertos; encosto portanto as partes da janela para não me verem que vejo o que vejo (e como!) o que fazem; visto ser coisa feia e condenável assistir a briga de vizinhos... Mais não digo, digo apenas no quarto capítulo.

          Quarto - À sorrelfa... será que foi à sorrelfa? sim foi, eu mero ser existente sequer pensando nela, nela estória? nela menina morena aqueles oculões na frente dos olhos pequenos – tem gente que usa óculos normais, o comum do ser deixa normal de tanto se ver e a gente fica a pensar parte a parte como parte da natureza e não é absolutamente o caso dela, dela estória? caso dela Luzia, morena magra (claro, visto não comer ou seja: nunca a vi comer, para ficar mais claro) magra sim, não se pense esquelética, morena e sem aqui recursos de linguagem sem-vergonha ou de má-fé a sugerir negruras e aliviar a má-fé numa expressão “morena” para não ferir educação e isto se vê quando alguém se dirige a um herdeiro da sofrida África negra; até a palavra preto é proibida a evitar conotações maldosas e algum processo judicial na cacunda da gente... Não. Não Luzia, um caso de morena branca queimada pelo sol do milênio incidente nos seus ancestrais, tanto assim que a mãe bonita desgastada de Luzia é também branca, branca bronca, nisto um lembrete porque ofendera os próprios pais: “vocês, falou a Mariana, vocês irão se arrepender dar guarida a essa peste (peste ou Luzia): verão o mundo de machos sem-vergonha todos dias – exagerou a mãe da filha à mãe dela – todos vagabundos a procurar Luzia!” Se arrependerão logo em dar guarida a essa ‘fia-da...’ (então se xingou bravamente e é preciso esclarecer que a mãe tocara a Luzia de sua casa recentemente, auxiliada pelo esposo).
          Contudo a mãe da filha, da filha da mãe, a mãe se enganara até ontem, minto, anteontem ou mesmo trasanteontem quando a diabinha me trouxe, a romper uma decisão de jamais voltar escrever contos novelas romances daqui (daquele de lá) por diante, me trouxe a cena que vi, manchando minha promessa. Aos amigos inexistentes e em falta deles os desconhecidos que passam aí na rua dos buracos em asfalto rachando rachado, a eles garantira haver parado a loucura tornando ao estado normal da gente, escriba se pensando gente.
          Como andava o autor destas bobagens presente à cena... não a cena de hoje, ontem, anteontem, trasanteontem: a cena anterior da mãe pondo em dúvida a moral da filha única dela, mãe (pedindo às linhas perdão pelo cacófato agorinha) não a moral da filha pois que atribuindo a filha dela vir duma prostituta, assim mesmo amada do Mestre se diz; portanto Joana dita e conhecida Mariana, se xingando a xingar Luzia, além de acusar seus próprios pais Zé e Maria de burrice aceitando acatando uma rameirazinha na casa e a esperar mil homens, se bem que nesse mal agora a cena mostrara-me apenas dois postulantes a conquistadores... Retomemos: como estava o escriba presente naquele passado no dia ainda noite buliçosa dessas de berros, Joana mãe de Luzia gritava qual mundana, embora recatada mormente quando em visita aos pais e a trazer o marido e os filhos, sem a filha porque Luzia a única na casa da mãe e do padrasto enquanto que os manos seus são mui machos e tendo ainda um pequeno como raspa do tacho que não imagina ser machinho e precisar defender a espécie contra a oposição feminina da irmã da mãe e das outras no mundo como requer o mundo; gritava berrava estertorava arrebentava meus ouvidos e as orelhas doutros vizinhos e a chocar uma vila pacata a pensar bem do casal silencioso de velhinhos aí na frente, a frente de minha janela por acaso indiscreta. Berrava o absurdo sem solução. Os absurdos não têm solução. Ora, o caso específico da Luzia parece não ter solução.
          Maior abandonada, a moça arranjou emprego e encrencas ao longo de curto período aí em frente residindo. É provável ser fácil arranjar encrenca; ao menos mais com mais encrencas outras pois que deve haver alguma paz num viver empregada, indo ao serviço e tornando ao sossego da paz do lar doce lar, aqui um emprestado a si pelos avós pobres; pobres e trabalhadores porque como sobreviver da aposentadoria de salário mínimo uma família simples e necessitada? Então Maria retalha e cose roupas de fora e seu consorte com pouca sorte, sabe-se, procura recicláveis para vender e recolher moedinhas à sobrevivência. Acontece que nos últimos meses aparece outra boca. Sim, come pouco, gasta bastante a ficar mais bonita, tem vez que se pensa menos feia, talvez abuse na economia ou é que a volubilidade do pensamento da vizinhança atribua uma possível exploração dos seus homens – o fato é que Luzia é modesta e contida. Assim sobrando como sobra negativa apenas seus desandos apesar de tornar apenas uma vez na semana passada quase em coma alcoólico, sendo trazida por gente de boa vontade ao vê-la na sarjeta; e imediatamente levada ao pronto-socorro após entrega da neta aos avós na madrugada fria. Demais dias são noites normais ao recolhimento do cansaço dessa jovem infeliz. Volta grita gritinho educado Maria num som “vó!” e a velha abre-lhe o portãozinho de gente, tendo o portão de carro no imóvel sem uso dada a pobreza sem miséria dos velhotes parentes. Entra. Some, mergulha no silêncio da madrugada, do gasto do abuso talvez de sua noite após o horário de trabalho e no silêncio do ciciado a esconder um provável escândalo; isto porque a família de idosos é religiosa e educada: engolirá decerto o sofrimento, todo sofrimento no mundo não deveria ser de exportação, poderia tão só ser um abominável embutido contido dentro de quatro paredes. Contudo não é assim o mundo. Nem o mundinho de José e Maria; onde esta mais fala e fala mais à vizinha confidente que a José, José menos apita, mas brabo fala alto além da normalidade ou do costume contra as injustiças do mundo, como por exemplo o de um comerciante que lhe abusa dos bolsos... De resto o homenzinho silencia ou comenta baixo com sua Maria, mesmo e sobretudo os desmandos da neta, terceira habitante do lar nessa rua de buracos no asfalto rachado rachando.
          Racharam o mundo...

          Quinto - No exato momento em que pensava o mundo, o mundo na amostra que se oferecia não expondo ainda as rachaduras no leito do asfalto sujo (porque ninguém imaginaria parar o povo que passa à noite e atira a esmo pedra detrito resto e demais sujidades às residências limparem de manhã, antes que isso o morador vive a lamentar a morte da educação do povo) não expondo pelo escuro do claro que se desenhava no horizonte; nesse momento eles chegam... não, ele chega, ele o mais afoito entre conquistadores de jovens luzias ou não luzias; ele ‘tataratando’ sua moto, curiosamente não mui barulhenta e isto não em respeito à vizinhança que dorme e nem mesmo por outro lado a acordar chamar implorar não propriamente mas a impor, até exigindo Luzia. Imediato, entre um e dois e três e aspiração e expiração numa ginástica caipira se bem me lembro, imediato parei num mero recreio bem-vindo visto não estar naquele instante com vontade flexionar-me – tem vez que a gente não se importa cresça o ventre por mil cervejas, cresça ou estufe como queiram: não tem movimento que faça de fato parar o inchaço da barriga, a gente justifica assim e assim suspende os lances e além do mais a ginástica não é grande problema. Suspendo a ginástica ao escutar o chamado, logo julgando fosse o seu ‘mototaxista’, ela tem certa preferência por um profissional e esse vem diário para levá-la ao trabalho, no retorno não posso garantir seja o mesmo, não  propriamente por andar em aposentadoria na criação de estórias porém simplesmente por andar dormindo e não a vejo chegar entrar sumir no portãozinho e no corredor e deste ao fim nos fundos da casa dos avós e agora dela também; contudo a chegada do rapaz manhãzinha isso posso até cronometrar e adivinhar. Sobe à garupa, antes bota o penico na cabeça... brinco sempre com quem se pode brincar que o capacete cor-de-rosa dela e o doutra cor doutrem me parece um urinol de cabeça pra baixo; tal brincadeira me livra ter saudade do vício eterno de escrever, do qual já dissera estar aposentado e me lembro relembro então haver chegado a Luzia e a estória da Luzia a romper quebrar desvirginar uma aposentadoria recente decente demente diz-me matreira a estória da Luzia, a Luzia ali na frente a roncar, não: a dormir ou já se apressando se vestindo engolindo o café adocicado de Maria (isto suposição por força da experiência caipira, porque todas casas caipiras de antanho faziam café fraco mas forte no adoçar; dona Maria ex-roceira e daí a conclusão nada apressada, prossigamos:) Então ela abre-fecha o portãozinho, não diz melifluamente “a sua bênção vovó querida” nem mesmo tchau, secarrona; bate a folha do portão no batente numa forma mais ou menos escandalosa e deseducada, e a seguir pula na garupa do seu homem do momento, compreensível por sinal; ele ‘tatarata’ o peso, pesinho, dela agora, arranca a acelerar mais a barulheira da barulhenta e somem por entre os rachos rachados rachando no asfalto desta pobre rua.
          O costumeiro mototaxista não era, era aviso enganoso. Depois saberia pior do que enganoso... Antes fosse o motociclista conhecido porque poderia o escriba em descanso e na aposentadoria merecida continuar o exercício, interrompeu a ginástica sem ao menos suar um pouco. Vê então um dos homens da Luzia em carne e osso como se diz. Mais ainda, brabo. Chama grita impõe assusta o mundo, até ouvindo isso os passantes passando a madrugar ao trabalho ou às suas respectivas ocupações a pé em moto em carro mas ninguém notando decerto, não sendo alguém ali pertinho a fazer ginástica e possivelmente o casal de velhos. Todavia a princesa não deu as caras ao caro príncipe bobamente encantado. Este vocifera, promete, antes sugerira e quase falou manso pra não espantar com certeza a vítima. Cansa. Toma o veículo já desligado liga balança a cabeça e se vai. Volta! Entremeio vem outro e segundo conquistador... Ela não escuta este novo herói de novela fracassada, ou enfim igualmente não atende; terá falado comentado com os avós sua temência; a gente supõe haver conversado com os seus, suposição apenas; o que minutos mais fica claro quando ocorre um desastre... O primeiro torna e encontra o segundo pleiteante pleiteando o que pleitear junto uma bela; e não aprecia. Apreciar? qual o quê. Se desaforam, se ofendem, se xingam e aqui aparece uma novidade velha como o mundo – o linguajar da malta maltrapilha ou pior: mancomunada com o mundo do crime, droga furto assalto assassinato e demais coisinhas miúdas na má-fé, isto que o vulgo defende com a expressão “levar vantagem em tudo”. Para encurtar ao entendimento, primeiro do escritor folgado e ora na aposentadoria a se convencer, por nada ter que fazer ou não; por isso se perguntando que tal uma ginastiquinha? Depois esclarecendo para quem tenha coragem ler a loucura. Mas já sendo uma loucura parar abrir a porta à estória, esta estória duma frágil jovem de nome Luzia magrinha moreninha atrevidinha atrativinha, diria safadinha a mãe da filha com dedo em riste a acusar sua mãe avó da neta por esse estado das coisas.
          A linguagem desses dois meliantes, o João e o José, merece uns reparos. Não foi por isto que se rompeu uma sólida aposentadoria dum intelectual em pleno exercício físico contrário e afrontoso se não às cervejas às barrigas. É que a gente é só ligar a televisão (não a enlouquecer) é só premer o comutador já surge além da propaganda casos de violência e crime envolvendo drogas e drogados. Os heróis depoentes e ainda não presos ou presos e soltos pela injustiça (o velho hábito: a polícia prende, a justiça solta e manda prender de novo e novamente dá soltura); enfim os participantes apreciando talvez aparecer no vídeo tagarela ou se calam por instrução do advogado ou somem para sempre após blá-blá-blá entretanto permanece o conhecimento da coisa. Até o ‘gingado’ de suas vozes é costumeiro, cultural? a enriquecer o cotidiano e o folclore desta época; são as vozes dos que se tratam ‘nóias’ e dos traficantes pequenos nesse grande mundo bandido. Tem um certo quê de sons e palavras características nesse linguajar, de modo que tanta vulgaridade chega a ser marca quase registrada a dar o conceito desse tipo de gente, gente também sim assim como o escriba é gente sem usar dessa forma barata de se expressar. Enfim uma língua de presídio. Desse tipo o diálogo entre os dois conquistadores ali nesta frente frente à frente se metralhando com vozes gingadas; não bem diálogo, este sendo momento em que se põe a limpo educadamente no possível as coisas dentro da compreensão civilizada. Não! aqui é a barbárie a grosseria solta destravada e suja, de língua medonha no palavreado de baixa categoria da sub-camada social, a fala da ralé mais desprezível na opinião burguesa decente e temerosa, esta gente que se diz condenada à prisão no lar enquanto livre a bandidagem! Pode até não ser assim mas assim se expressa o pequeno burguês, não só nesta periferia, em qualquer lugar onde o burguês estiver. O fato essencial é que ambos discutidores usam dessa sub-linguagem no diálogo que travam, bem agressivo e inclusive perderia a condição de diálogo à chegada dos dois velhos ao portão, sobretudo com as instâncias de José, o velho avô, a pedir que tanto o xará quanto João se demovessem se fossem dali com respeito e tal; quase imediato vem para junto deles a presa Luzia a discutir com ambos, ambos desejando certamente cada um por seu direito ser o melhor vilão! Portanto não mais a conversa um diálogo, não são apenas dois seres a se falar porém com certeza agora todos a se desfeitear, mais os homens desfeiteando a princesa pomo da discórdia ou pivô desse rebuliço...
          Virou um imbróglio, primeiro bem caracterizado e depois com ótimas apelações à turbulência das vozes e da agressão física!
          Os conquistadores baratos se puseram a empurrar-se, mormente o mais forte deles contra o mais fraco; minutos incontáveis se socaram se esbofetearam, parando vez que outra a indagar à princesa quem seu favorito; isto num palavreado inteligível aos três, demonstrando a baixaria na minha frente. Em dado instante ultrapassam limites, extrapolando inclusive o linguajar com sonoros palavrões! A própria ‘inatacável’ pivô da questão em vias de fatos tendendo já ao crime (felizmente no caso não havendo arma ou...) ela mesmo solta ofensas chãs contra os dois pretendentes. Ao final iria acrescer num alto e bom som que por ambos rapazes serem tão desclassificados mereceriam morrer, aí contida pelos seus, o choro de Maria a quem se ofendendo na sua concepção religiosa e segura também pelo avô, o qual ficou do princípio ao fim indo de cá pra lá de lá pra cá a tentar conter aqueles brutos, ele miúdo de físico fraco e velho, portanto outra vez fraco. Acusações e defesas-acusações atingiram altos decibéis, curiosamente sem aplausos, claro, não claro totalmente por não haver aparecido curiosos, amiúde farejando entreveros na rua, quem sabe também escondidos pelas frestas de suas respectivas janelas acostumadas no ver a rua Boa Vida...
          Nesse vai-não-vai o velho José, cansado de intimar e não podendo segurar o José novo e também o adversário talvez inimigo a pararem e partir deixando na paz possível a vila; então correu como pôde ao vizinho: “seu Tonho, chamou, chame a polícia!” Alerta suficiente aos ouvidos dos briguentos, sem contudo acalmá-los. Um deles, o João Conquistador parece, tenta escalar a muralha da residência pobre, voar por cima da princesa lá no quintal do imóvel, para tirar tudo a limpo. Puxado com esperneamento pra baixo pelos Zés velho e novo, desce enfurecido e tenta socar violentamente o rival. Nisso entra na confusão a interessada e semelhante leva sopapo do mais nervoso, cai, cai igualmente socado o rival e agora estando a começar uma sessão de chutes e o pisoteio, quando o vizinho aparece na sua motocicleta dizendo que a lei vinha vindo!
          Os conquistadores então se acalmam um pouco. Nesse ponto e a seguir vem se não um acordo formal final e feliz, um final talvez de humor duvidoso. Não se esperando o escritor desaposentado concluir “e viveram felizes para todo e sempre” no caduco estilo de era uma vez.

          Sexto - Não tem mais vez “era uma vez” nas conclusões apressadas, visto andar já o epílogo da cena – a deixar desconcertada até uma estória de luzia, imprevistas estória e luzia. Luzia decerto presenciando um fim inesperado... Ambos invasores conquistadores batedores quiçá vencedores-perdedores se puseram à desocupação da área de embate e fugem... Ocorrendo um inusitado: a motoca de um dos brigões, ofendida por não participar dos murros, não quer funcionar. Então o mais fraco ou o mais forte da dupla contendora se põe a empurrar o veículo magrela a fim de pegar no tranco; daí, funcionando, sobe na garupa do inimigo, a desaparecerem na ameaça do aparecimento da polícia, a polícia sempre inimiga dos inimigos...
          De fato a lei chega. Matraca confabula com seu Zé Velho sobre o assunto do pedido de intervenção legal, preenche sabiamente suas fichas técnicas tidas e ditas ‘beós’ e se vai. A única vítima, caso não sejam vítimas a estória nem a ginástica, a principal vítima já se surrupiara antes trepada na garupa do seu mototaxista habitual; não ficaria a constatar a cor do carro oficial da lei... Constatar não: registrar, pois registrar é próprio de aposentadorias e das loucuras.
- - -
          Isso. Isso colher torta das linhas e do criador das linhas; os de Mariana enfim chegam.

          Prometeram e cumpriram. Chega Sérgio, ouvem a lataria da Kombi parar quase abruptamente, o menino entra espevitado já gritando os avós e o silêncio silencia. Os adultos conversam, o quanto Tufãozinho deixa. O genro afirma haver deixado Mariana no serviço dela. Entrega a cria aos velhos, sai rápido aos seus negócios, ainda beija o Furacãozinho e depois no carro funcionando dá um outro beijo na ponta da mão e atira esse carinho ao filho no portão de entrada. Elinho agradece a sorrir e diz como bom brasileiro “tchau pai” e torna correndo para o seu avô.
          Vô, grita a seu jeito o professor, vamos à lição?
          Antes disso pega no pé do aluno, um aluno baixinho barrigudinho a andar simiescamente gozado ali no quintal; antes disso sim Furacãozinho chama a atenção de Seu Zé: você não vai pôr essas garrafas de boca pra baixo! a Tia (mestrona na escolinha, o garoto anda já na segunda série) a Tia fala que não pode deixar pra cima por causa da água que entra e forma casa ao mosquito da dengue, você não sabe? Seu Zé sorri orgulhoso daquele poço de sabedorias, obedece a ordem, logo está sentado na mesona da sala onde o mestrinho lhe cobra as letras, às quais não apelida abecê como antanho o aluno na roça.
          Seu Zé empunha uma caneta esferográfica, a qual não precisa ficar toda hora quebrando a ponta nem a ponta é de grafite a ser afinada, rabisca os caracteres. O Mestre dita espera examina cobra retifica e por fim sorri muita compreensão na limitação. O Aluno rabisca um pouco pesado o papel, marca assinalando o papel no outro papel embaixo no caderno e se sente realizado. De vez em quando olha lá a expressão fisionômica de Furacãozinho a fim de aprender melhor a pronúncia; o Professor observa atento Seu Zé a caprichar na folha. Faz a letra melhora a letra fixa a letra. Mas...
          Vô, agora tentemos de novo igual no outro dia, tentemos os números. Um, faz aí o número um. Olha. Está razoável. Faz então o dois, cuidado... não parece um patinho? Espera, balança pra lá pra cá a cabeça cheia de tufão; insiste no algarismo e dá ordem: um, mais uma vez o um. Depois vou ensinar o zero a você. Tem que pôr à esquerda do um, se puser à direita mudará o valor desse número, o conjunto aritmético e...
          E Seu Zé coça a cabeça, o boné dependurado no encosto da cadeira, livres aqueles cabelos brancos espetados. Coça a cuca olha a criança, Professorzão Furacãozinho, lindo de se ver.
          Dona Maria ali próximo gargalha à cena. A ela gargalhar é um sorrir manso delicado belo moreno. Sorri ajeitando o lenço nos cabelos nevados. Nos olhinhos dela uma lágrima de alegria.

- - - 

          Façamos a conclusão, não a conclusão da vida de Seu Zé e Dona Maria, a vida não termina mas apenas as existências na vida; todavia não fiquemos no espetáculo interminável duma novela televisiva sujeita a ibope, que finda necessariamente matando o vilão Senhor Tempestade ao gosto romântico e com o fito de premiar a mocinha Senhorita Bonança. Porque isso, assim posto, não é fim. Apenas a conclusão destas linhas, as quais se meteram muitíssimo nas linhas da estória. Outrossim nos guardemos do perigo dos etc. que engolem por hábito as reticências. Perpetremos somente um ponto. Final.
          Não obstante, façamos aqui uma última observação. Notemos que esta obra sem grande fôlego é mansa, sem grandes propostas, ao menos sem estardalhaços estapafúrdios. Digamos que pretendeu ela se igualar ao personagem principal, também ele secundário. Estando ambos Obra-e-Zé mais para cravo que não aparece, marca leve a orquestra; que para barulhentos metais como o trompete. Aos mansos a existência é mansa.

Marília,   fevereiro 2008    


















































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:




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