terça-feira, 31 de março de 2020

Contos sem Fada


0140(postado no Blog Livros Inéditos)  












                              Contos sem Fada

                                       Moacir Capelini


















moacircapelini@gmail.com


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Gráfica:

















“O conhecimento tenta explicar o inexplicável, estimula
  a fantasia e nos ajuda a lidar com o impossível.” 
                                            Arnaldo Cohen


Exortação
Assim como este livro, o livro é um olho mudo quiçá tolerante do autor pelos mundos onde ande.


Índice:
1.Lei do Arco-Iris, página 5
2.A Fila, pág. 6
3.Nuvens Escuras, pág. 8
4.Vida Conjugal, pág. 12
5.O Capitão, pág. 14
6.Dia do Dia ou da Desnecessidade do Humor Negro, pág. 17
7.Dinossauro Pterodátilo Essas Coisas de Era Uma Vez, pág. 19
8. Circonferência, pág. 22
9. Brincadeira de... pág. 23
10. Extemporaneidade, pág. 26 
11.Espelunca, pág. 28
12.O Defunto, pág. 31
13.Engano em Desengano, pág. 34
14.A Mula a Mala, pág. 35
15.As Clínicas, pág. 40
16.Morte Anunciada, pág. 43
17.Ossos do Ofício, pág. 45
18.A ex-Esposa, pág. 48
19.Uma Realidade que Virou Sonho, pág. 50
20.Ômi Holmes, pág. 61
21.O Amor que Fugiu, pág. 64
22.Desconhecimento Desconhecido, pág. 67
23.Ótica da Violência, pág. 69
24.Defuntaria, pág. 73
25.A Viagem? a Mudança, pág. 75
26.Exagerado Pai Nosso, pág. 78
27.O Anjo da Morte, pág. 80
28.O Crime em Maislândia, pág. 83
29.Um Silêncio, pág. 95
30.A Noite, Dia a Dia, pág. 97 
31.Morrer na Praia, pág. 100
32.Começo: onde se propõe não ser o fim, pág. 102
33.Eventual Campanheira, pág. 105
34.O Menino e o Elefante, pág. 107
35.Limiar do Fim, pág. 112





















1. Lei do Arco-Iris
         
          O homem que amo vem vindo aí... Foi assim que ele disse. Exatinho, ele, muito machão pelo visto e revisto. Chocando ouvidos desavisados mais. Porque o correto não seria ver a mulher e admirar uma jovem fêmea bela da espécie Homo sapiens?
          Porém é o que se pode esclarecer, ou pelo menos explicar razoavelmente, dentro dos artigos e parágrafos da lei do arco-iris. Contam os contos os cantos os santos populares e os trâmites todos ilegais do sistema caipira que por um desses insondáveis dispositivos místicos, é bastante e suficiente passar e ultrapassar um arco-iris com todas as suas sete cores, que seja por mil e uma formas e quem sabe não mais ou muito mais que setenta e sete vezes sete que, enfim, no dito momento de ultrapassagem ocorre o inevitável: mudamos de sexo! homem vira mulher mulher vira homem.  Se é agora um bem ou um mal, mal percebemos agora nos tempos modernos... E mesmo pode-se fazer o contrário e ainda assim dá o contrário. Provando uma verdade na afirmativa. Daí terá sentido a frase lá em cimão, do fulano, um sujeito bem constituído, não chocar pela chocante sentença, assim caidinho pelo homem que lá aparecia, parece.
          Conta-se, já não se canta, para esclarecer ou para mais confundir, que o jovem belo espécime homem do bicho homem, naquela hora chegando, foi recebido efusivamente pelo outro, o maluco da frase dita e redita, que o tal fora mulher. Isso mesmo, num dia de chuva e sol casamento de espanhol em que gotículas mil desviaram mil e uma cores do sol, que todos sabemos os ventos trazerem; nesse dia, no instante de sol e chuva casamento de viúva, a bela fêmea humana loura ou morena seios bem feitos fustigados por cabelos longos esvoaçantes dos ventos fazedores de arco-iris, andando cadenciado ou desleixado ou mesmo aflitamente por causa da chuva, pois o vulgo diz que a ‘vulga’ levando a vulva sempre teme a chuva, aflita portanto – nesse instante ela ultrapassou o arco, virando desvirando a iris, tornando de mulher homem. Nem cabem mais pontos de exclamação, nem mais se admiram, tantos arcos e tantas iris casadas desde que o mundo é mundo. Por essa razão da razão da lei do arco-iris, que o belo macho visto por outro macho vindo em nossa imagem, vindo também bem olhado bem ansiado e será certamente bem recebido.
          Mas não se impressione. Você não fuja aos ventos; mesmo que os ventos possam trazer para si a força do arco-iris. Nem veja viragos a cada mulher ou efeminados a cada homem. Porque existem os que nunca viram um arco-iris; e existem pessoas não acostumadas a falar “agora é a minha vez!” Não tema. Tema o tema destes escritos apenas; ou talvez o vento o sol a chuva...
Ribeirão Preto   outubro  1986





2.  A Fila

          Quem sabe não tivesse razão. Ziguezagueava sumia, um atrás do outro, sempre existe alguém que se enfia na frente da gente e um punhado assim para trás andando para frente, pensando andar, a gente no lugar da gente e parece que não anda. Anda. Anda um que outro tentando furar. E não dá raiva! Matracas, tem os que silenciam para não ofender o barulho dos outros. Sensação de estar perdendo tempo. Isso caso houvesse tempo mas é tão só interpretação. Orelhar audição a perder tempo de matar tempo, horas dias séculos? milênios até. Chove? Ah que calor. Precisa chover para esfriar. Preços das coisas ih... doenças e panaceias. E muito contar – violências ingratidões temências ciumeiras ‘besteirando’ egoísmo; injustiças contra o centro do universo que é o pensamento humano. E nada mais existe, o que é o grande valor da ignorância. Aquela fala da vizinha, aqueloutro do ladrão que entrou na casa, mais ali discutem inverdades, ainda mais para diante fofocam picham o governo e todos querem levar vantagem em tudo. Vendedores não tem, tem embora sempre nas filas sorvetes sanduíches guloseimas vistosas a troco dum trocado porém não há agora vendedores, só pessoas que falam importando pouco que se ouça; poucos assopram o falar quase apenas movendo os lábios sem que se ouça, uns mais exageram nos decibéis ao contar, outros ainda somente ferem baixo os errados, os quais são sempre nos outros fora do grupo. Ele não. E quem sabe não tivesse alguma razão. Ouvia, que consta ser a melhor forma de falar. Olhou para o lado do outro, que por sua vez é outro para outro mais, outros houverem e falam e imprecatam e destroem e... atingem? Esse outro também olhava na sua mudez. Assim mesmo respondeu advertindo (ou lamentando) a orelha do primeiro que sugeria dizer: isto mata, ah a fila! mata, morro de raiva. Retruca piscando o próximo: ah você já morreu, a espera aqui é para renascer. Quem sabe igualmente não tivesse razão. Aí encerrou o papo, antes batera enraivecido os pés dormentes de tanto esperar e se impacientar – sim, disse respondendo; então morro de novo.
          A fila deu mais um passo. Deste tamanhinho.
Marília   novembro  2002




3.  Nuvens Escuras

          Via, via negro, negro a existência sofrida... e se, se indagou, se tivesse que dobrar triplicando o sofrer dobrando a vida – a si pesada e supondo no fim uma existência de uns quarenta e oito janeiros com sabor a dezembros – sim, e se o azar sendo sorte a tantos por aí fosse mesmo azar e viesse ele chegar ao centenário! aí sorriu da bobagem que seria bobagem a outrem mas para ele mais que isso, um absurdo. A começar que detestava idosos tendo certa queda à criança, o velho um peso morto na sociedade e nisso se lembrou dum estudo que fizera sobre um povo primitivo asiático, qual mesmo o nome desse povo! quando isso! Puxa, voltara na recordação ao estudo no curso médio de jovem e sequer guardara a gente, a tribo – só o costume lá arraigado e decerto os ocidentais enxeridos terão já eliminado esse hábito salutar, pensou sádico e quase se condenando por pensar criminosamente. Enfim a norma tribal eliminando seus velhos ao chegarem aos cinquenta anos, quase sua idade agora. Inclusive os próprios idosos se autoimolavam ou seus familiares assassinavam o parente. Tudo admitido e válido nessa tribo. Na época terá o jovem mesmo considerado aberração.
          O tempo passou, ele aguçando a observação e nisso concluindo que salvo exceções, a velhice tendo um custo alto demais à população ativa. Inclusive achou por anos a aposentadoria desnecessária. Entretanto agora um médico aposentado... ah, cada peça nos prega o tempo. Não obstante computava no exercício profissional certa eficiência e honestidade; além de, embora oportunidades mil, nunca deixar a porfia pela cura e pelo bem-estar do paciente, que fosse o de idade avançada. Não sujara a consciência.
          Apesar, considerava aos quase cinquenta que sua existência andava suja. Fugira de situações que pudesse acarretar prejuízo alheio; não pôde evitar suas perdas financeiras e morais. Ou seja, outrem não se incomodava anos prejudicá-lo. Assim arranjou inimigos gratuitos (humano, lembrou logo em se defender). Parece que tudo concorria e concorrera a anular ora boas intenções ora a incúria que os tempos mostraram.
          No amor o amor lhe fora negativo. O pensamento religioso e filosófico trabalhara contra si, não por ser ateu pois bom cidadão e cumpridor das leis e tendo atento o respeito à sociedade e aos indivíduos. Tivera vários colegas e amigos tentando demovê-lo da descrença, enfim o proselitismo direcionado a si; sem lhe quebrar convicções. Na vida amorosa sim houve alguns despropósitos e até injustiças, visto amar com pureza e ser enganado. Nessa ordem de ideias sequer pensava mais no tempo de rapaz ainda imaturo e por isso sempre apaixonado por algumas ou muitas mulheres. Na fase não traiu e talvez nunca haja sofrido traição; garantia-se ter sido puro e bem intencionado. Até que se casou com uma colega de banco escolar, já quase na universidade. Depois se formaram, ela como dermatologista se especializando enquanto que ele optou pela ginecologia. Porém numa ocasião flagrou a companheira com um enfermeiro e se divorciaram. Pensou realmente no auge da crise a matá-la; superou o drama, apenas ficou mais pessimista do que era e, descrente, nem tentou sequer novo relacionamento. A ex-esposa não: uniu-se segunda e terceira vezes a outros pares e acabou pelo último assassinada numa crise de ciúmes e por trair o companheiro, o qual denominava namorado, a se encaixar no costume atual. Antigamente se chamava amante. Sentiu essa morte como fora a sua morte, ainda mantinha por ela algum sentimento mais puro.
          Nos negócios – fora a vida profissional em que colhera bons frutos e juntara algum pecúlio – nas empresas das quais participara fracassou, foi explorado e roubado inclusive; perdeu até o que trouxera do exercício na medicina.
          Um dia estava numa mesa de bar nada respeitável, sozinho, afundado no pesar os anos pregressos; encontrava-se no estado em que as pessoas dizem ser “fossa”. Pobre agora, fora quase milionário tivera prestígio e nome inabalável, essas coisas que o homem médio preza tanto. Contudo não andava a beber na mesa nem estando embriagado como se vê comumente. Longe disso pois fora sempre comedido e nunca abusivo, além de pela própria condição física andar limitado e nunca a ingerir bebidas fortes ficando por isso à beira do abismo, embora um pessimista e negativista também. Em resumo, bebia com prudência quando bebia, não chegando ao estado tão comum do sujeito que afirma beber socialmente e depois cai na rua. Ele sempre alerta no decoro e na imagem não iria dar espetáculo; mesmo por ocasião que a mulher o deixara havendo o divórcio: chorara escondido; não procurara o ombro dum amigo.
          Amigo, isso, sequer tivera pessoa confiável, em não ser aquilo que tratamos amigo porém apenas aos bate-papos leves e sem consistência; nenhum do tipo confidente; podendo espichar o tema com a garantia de nunca ter tido alguém íntimo. Claro haver-se entregue à esposa, a mulher pra si era sua consciência desperta e ostensiva. Enganou-se...
          Além do amor e dos negócios, em que perdeu, só perdeu; além teve por décadas problemas de saúde. Naturalmente que pôde contornar alguma coisa ou por ter-se tornado médico ou pela ajuda e esclarecimento de colegas, sobretudo os especialistas no sistema gástrico. Entretanto seu estado era crônico, independente ter ao alcance das mãos correções: o fígado trouxe subjugado o menino o rapaz o médico e agora o aposentado despojado de sua renda, enfim a glândula manteve sempre o homem sob cabresto, como diz o povo. Esta uma das razões e não só a prudência o autocontrole para não se entregar ao álcool, mesmo estando como agora no fundo do poço; isto também um falar do povo.
          Noutro incerto dia encontra-se ainda mais afundado e sem perspectiva de melhorar. Mesmo porque a melhora está condicionada à crença, ele descrente já de tudo, sobretudo do ser humano... Fora recolhido por mãos piedosas a um recanto de pessoas gastas e até desajustadas. Parecia então um matusalém, embora com sessenta dezembros. Quase sem nome e com certeza sem residência fixa. Era miserável se acabando.
          No recanto, a si um contrassenso até o nome pois definido como recanto da melhor idade; mesmo aí e apesar de sua desgraça (na sua opinião, desgraça) – não conseguiu se relacionar, vivendo sua morte lenta na vida mas calado. Nada o interessando. Permanecia ‘vendo’ o que sequer notava, quer dizer a graça desgraciosa da conversa do homem comum, os bailes as cantorias os falatórios e outras bobagens que tantos defendem.
          Nessa altura inclusive as pessoas piedosas que procuravam despertar seu interesse, nem elas haviam obtido qualquer bom resultado. Ele aguardando num canto do recanto a ceifa da morte, mui lerda ao seu gosto.
Marília   outubro  2012





4. Vida Conjugal

          As relações no mundo são ricas, são as alegrias são as tristezas são as lembranças são os sofrimentos a elevar pessoas e coisas, o que redunda na História da Terra.
          Entremeio são os desentendimentos a costurar essa História e a enriquecer (ou a empobrecer?) as relações...
          O Sol a Lua, aqui em ordem como manda a ordem e o costume, embora ela queira tomar de vez em quandinho a frente a desconsagrar o consagrado pelos séculos e milênios, amém. O Sol a Lua.
          Se casaram, quem sabe, a memória se esqueceu, se casaram decerto na igreja verde; se constituíram esposos e se amaram (neste ponto não se pondo em concordância a concordância que exige o amor). E viveram, ou vivem? viveram muito felizes (xô dona Carochinha, vai que invente muitos filhos Soizinhos Luazinhas e – para ser moderno – Bichinhas de ambos os sexos; verdade nisso o vocábulo ‘muito’).
          De repente, puxa vida como um de repente ajuda num texto na corda bamba! de repente vêm trovões, aí pondo a criançada debaixo da mesa de pau vai que caia telha que todos temem tempestade toda tensa e terrível, ai o corisco! A Lua temerosa olha não vê o Sol (ronca ou está morto... viuvez credo em cruz!) o Sol se escondeu atrás das nuvens negras, têm as Branquinhas todinhas num remelexo pro lado dele a Lua se enciúma, agora são as negras tensas e o safado lá atrás delas se escondendo e daí sobra à Lua proteger a prole composta de Soizinhos Luazinhas Bichinhas ainda não comprometidas. Ele? ora, o Sol não tá nem aí...
          É sempre assim, quando é dia o Sol canta de galo, dá as cartas, impõe, cria, exige, se envaidece; de noite se esconde no sono nos sonhos ou atrás das sirigaitas sinistras negras ou na pior das hipóteses sorrindo certamente às nuvens brancas e frívolas. A Lua acha frívolas.
          O Sol se esconde.
          A Lua trabalha. Trabalha trabalha trabalha, ilumina o lar pouquinho. Se o esposo estivesse presente seria a claridade suprema, a vida, agora troveja brabo. Depois molhando a casa as coisas: goteira e estrago. Não aguenta essa vida.
          O Sol não se perturba.
          A Lua trabalha. No fim de tudo anda cansada, arrasada: por que tem ser a fêmea e, é mesmo a fêmea, e o macho ao mesmo tempo!
          Aí o Sol chega. Sorrindo. Durma-se com um barulho desses – sorrindo. Arreganha esclarece põe todos em atividade, quer que até ela trabalhe esquecido da noite que se acabou na tarefa dela enquanto ele com as nuvens... ah deixa pra lá.
          A Lua muxoxa desagrado com o agrado de todos. Teimosa teima ficar a fim de provar direitos conjugais e capacidade de trabalho. Porém quase não é vista, o Sol ilumina tanto que ilumina por sobre o lume da Lua, a qual irritada ou desconcertada se esconde (agora é a vez dela uai!) se esconde nas nuvens. Contudo se mostra vez por outra numa rachadura das brancas assopradas de vento e quase não pode revelar o rosto. Aí arregala: o Sol Brilha!
          A Lua foge, desconsolada, prometendo, não podendo conviver com o esposo, prometendo sim ser a dona da próxima noite (então se lembra das sirigaitas negras e brancas, se vinga inventando sua Mãe para sogra do Sol). Puxa a cortina de fumaça, abre a boca sonolenta. E some.
Marília   abril  2003





5. O Capitão

         Capitão Zebuíno. Diplomado em Filosofia, Doutor em Finanças. A farda a cobrir-lhe e a completar uma vida exuberante; sucesso. Não sabia disso o Zeca da Juliana, velha feia e encardida. Ele chegou à Estação da Luz, mala e tudo. Espantado, parou o táxi no casarão branco, samambaias chafariz, a estátua nua (ah como está o mundo!) Conferiu. A empregada escurinha e gorda confirmou.
          --Zebuíno, sim senhor. Capitão Zebuíno.
          Esperou umas tantas horas, apreciando quadros na sala fofa, ora sentado ora se levantando ora fumando outro cigarro. Teve vontade de fazer um de palha; não ficava bem naquele ambiente. Chegou o Capitão. Era ele sim, mais gordo, ventre pronunciado, mais velho, bem vestido e perfumado. Não lhe cheirou bem.
          --Não me conhece mais? o Zeca da Juliana, do compadre Chico!
          --Ah... – torceu o nariz ao matuto; e completou o dono da casa – É mesmo, há quanto tempo...
          Fazia. O mundo deu tantas voltas, numa delas montou na vassoura da bruxa, estava ali posto em alta patente, estudado, ou pelo menos diplomado, os certificados expostos na parede abaixo do retrato do Presidente. Estava ali perto, rico querido ou elevado na sociedade. Todavia se lembrava da velha cidade interiorana, sua aldeia. E do Zeca olhando com olhos deste tamanho para ele; lembrava-se do Pedro Boi, das festanças. Da antiga situação vivida.
          Recordava ter sido apenas Zebuíno. O Zeca não o deixava esquecer. Até à meia-noite matracando, a contar novidades velhas, vomitando inconveniências que lutava por apagar na memória... A verdade é que ele continuava o mesmo dentro da farda, ou do fraque... os outros é que não sabiam disso. E o tagarela a falar a falar. Ainda bem que o Barão não viera naquela noite, nem a Duqueza da Boa Saúde; e faltaram os outros grandes amigos; porque diante do desbocado, ih que vexame! Tagarelava. Ele era quase mesmo só ouvidos, a fim de não encompridar conversas inadequadas. Entretanto não tinha sequer coragem para expulsá-lo, fazia-o tão somente por uma luta mental e um tremorzinho como sestro.
          --Lembra do Tidinho? Não? Aquele que pegou você roubando galinhas na casa do Chico Preto... E o Zé da Garça, o de botas... Pois é, ele ficou cinco anos preso por causa do Coronel. Mas a culpa era do seu primo João... e sua. Ora, você vivia desempregado e sem um tostão. Não culpo você, nem...
          --Ah... (foi ver se todos estavam dormindo. Estavam).
          Continuou aquele roceiro desabrido com seu discurso, entremeado dos “ah” e “sim” do Capitão. A boca há muito abria, que o sono nada respeita. O café se acabara na garrafa térmica. E falava falava. Que seria do amanhã! Como fazer para despachá-lo educadamente? e não voltaria, encontrado agora o caminho? Punha estas indagações, quando foi acordado pelo caboclo.
          --Você está lembrado quando se deu aquilo à defunta sua mãe? que Deus a tenha! Pois é... foi um tanto embaraçoso para a sua casa, suas primas tão cheias de pudor e muito religiosas... Você agiu corretamente naquele momento, todos diziam que sim. Porque o sujeito tinha bem umas cinco mulheres, e sua mãe, coitada, só ao cafajeste amante e ao seu pai... O Capitão Belarmino ficou fu...
          (O Capitão Zebuíno não o deixou ao menos terminar a palavra; propôs o conterrâneo fosse dormir, a visita viajara muito, devia ter muito sono.)
          --Amanhã nós conversaremos mais – prometeu o da alta linhagem.
         Amanhã...
          Na manhã seguinte, um dia quinze, o Capitão viajara atrás de seus negócios, afirmou a criada. Não, não retornaria tão cedo; porém havia deixado o dinheiro da passagem de volta ao amigo. E também pedia mil desculpas pela ausência.
 São Paulo   setembro  1977 





6. Dia do Dia ou da Desnecessidade do Humor Negro

          Vivia encafifado não por ter bastante, por não ter o dia. Dia ‘D’, fatídico, negro. Não, não é bem isso nem fatídico nem humor. E havia muito. Quase todos dias sem quase.
          Por que o da Vovó; tem o da Mãe do Pai do Economista da Criança, até dos Mortos. Tem dia pra todos dias não tem pro dia. E aí, tendo tantos, a parafernália o marketing a comunicação a animação; e o ganho. Fatura o comércio a indústria o setor de serviço e a propaganda mais especificamente. Tava direito? tava. Não estava não não ter dia.
          Não se pensou no açougueiro no bicheiro no espelunqueiro; no ladrão! entretanto o que mais tem é ladrão. O Dia do Ladrão. Teria juiz aguentasse... E se se instituísse o do Corruptor. Aqui não pensamos políticos, é hoje um sábado e por isso dia doutro pensar.
          Portanto estava, proposto nem se fale, estava era provado por a-mais-b a necessidade de e falta de, até sendo sacrilégio a ausência dessa santidade.
          Assim propôs o Dia do Estuprador.
          Tem gente que troca o ‘r’ o ‘p’ ao falar, não mudando a coisa nem a necessidade do Dia dele.
          Com base em tanta precisão se arregimentou apenas o necessário: imprensa ibope diz que dizem e o escambau. A convocar e consagrar o seu dia. Ou poderia ser o dia do Serial Killer mui mais nacionalista do internacionalismo global. Então ligou sua moto, foi trabalhar.
          Deixou em casa a esposa reclamando. Nessa altura da evolução ela já sabia falar falta isso aquilo não tem mais um quilo e falar da vizinha enxerida brigando por briga de meninos que depois brincam enquanto os grandes, ela titica assim, aí os grandes batendo boca e o ‘peteú’ atrasado, é i-pe-te-ú não se corrigia, depois da volta volta-se pra ela ela emburrada. Aí foi trabalhar de novo.
          Defender o leitinho das crianças? É. E também suas necessidades, sem necessidade disso, todos sabem, que fazer! Andou entrou voltou entregou xingou brigou enfrentou fugiu chegou espavorido cansado, ela ainda emburrada fechada a quantos homens houvessem por metro quadrado de macho. E noutro e noutro dia ainda e mais depois e depois mais ainda. Pensou repensou no Dia.
          E se ofertariam o de melhor e mais vistoso e necessário. No Dia da Mãe a flor, no da Criança brinquedo, no da Vovó o chocolate e faz mal. Ah no Dia do Pai o lenço a gravata ao desuso. E no dele...
          As lojas abarrotadas de facas, revólveres, inclusive os de brinquedo que impressionam bem, produtos eróticos, bebidas; e drogas é claro, droga! Uma festa, a sociedade, a tevê, o desempregado, o desentender, o desesperar. Uma Festa!
          Uma festa a convencer no Dia do Estuprador. Não convenceu a polícia, o povo a pedra a raiva a fúria, o impensar na festa. Não convenceu a justiça, nem pensar a consciência, esta não perdoando nunca, passando por cima da Divindade que sempre perdoa. Nem o pronto-socorro, o pronto-socorro em trabalho à moda Frankestein.
Marília   outubro  2003






7. Dinossauro Pterodátilo Essas Coisas de Era Uma Vez

          Vovó coçou a cara, estava visivelmente cansada quem sabe estafada ansiando por Freud férias e daí por diante.
          Diante dela a Chapeuzinho Vermelho medonhamente assustada. Ainda assim indagou a estória do dia.
          A do Dinossauro, minha neta!
          Vó, ainda tem Dinossauro!? o Caçador me falou que anda em falta.
          Ele, diz Vovó, estava querendo lhe comer... é isso.
          Mas, redarguiu a Jovem...
          Não tem? como não tem, tem inclusive Pterodátilo, unzinho passou voando agora a pouco, fique comigo, o bicho queria lhe comer...
          Ai que horror Vovó. E a estória?
          Era uma vez um Dinossauro que...
          Interrompeu a Menina: ele não é bem maior que esta sua casa, Vó!
          Maior, Neta, cuidado, quer lhe comer...
          Então, ai que medo, Vovó...
          Pera lá Garota, ir-me-á indagar por que este nariz tão grande e terei – está no script – terei que dizer “é pra te cheirar!” não vai perguntar?
          Vou. Por que esses olhões tão grandes!
          Pra te ver, minha Neta!
          Vovó, perinha lá, está fugindo do Dinossauro. Então...
          Então, Chapeuzinho, ah Você me deixa vermelho de...
          Vermelha, Você é minha querida Vovó, fêmea de Lobo Mau, vermelha com ‘a’.
          Tem razão, Filha, o Dinossauro um dia queria Maria e sofria de dia...
          'Mais' ele era muito grande?
          Era sim, Vermelho Gostosa, era de fato mas se deve dizer ‘mas’ não ‘mais’ como usou gramaticalmente incorreto, isto digo porque...
          Espere um pouco, Vó, não quero aula muito menos de língua, estou em férias e vou levando aqui uns bolinhos que a Mamãe...
          Ah o bolinho, vou te comer!
          Não é ‘te’ que se abusa, é ‘lhe’ que se usa.
          Como com te ou lhe se não se importar.
          Sim, me importo. Quero agora o Dinossauro que o Lobo Mau comeu e...
          Já sei disso: mastigou de boca aberta.
          É.
          Deu-se o contrário, Chapéu, o contrário: o Dino era maior que o Lobo, a ordem geral das coisas nas coisas pertinentes às coisas é o pequeno ser papado pelo grande, não é?
          É.
          Então. Aí o Dinossauro foi com aquele barrigão cheiinho de Vovó a uma lanchonete dançar hépe e régue e fúnque essas coisas do entulho cultural global e aí... 
          Mais Vovó, tá bem ‘mas’, como isso se Você está aqui me cheirando com esse nariz tão grande, por que assim um narigão, se Mamãe disse que o seu era tão petitico e um tão bonitinho...
          Pra te cheirar!
          Lhe, Vovó, ‘lhe’.
          Aí o Pterodátilo...
          Não era Dinossauro? mas não é maior que este casebre de Velhinhas passarem fome...
          Aquele da estória não. Não crescera, crescera só a barriga cheia de Velha. Então ele falou:
          Já sei já sei, já vi o script, já sei Vó: – falou quero agora um Chapéu.
          Foi isso sim, ora que diacho, não me deixa contar e olhe aí, derrubou um bolinho no chão, sujou, depois vai limpar com detergente bombril e pôr o tapete da casa no sol pra tirar a fedentina, não vê que sou Velhinho de linguinha assim demais cansada!
          Velhinho não, ‘Velhinha’ e linguona assim de grande, assustadora mesmo! A propósito... para que essa linguona, aí Vovó!
          Agora chega, Jovem. Já me papou o Dinossauro espantou o Pterodátilo e a estória toda, ainda me suja o chão com bolinho.
          !?
          Chega.
          Você vai me comer, Vó!
          Sim, tem direito a espernear, inclusive li seus direitos de acordo com a CIA.
          Vai como!? assada malpassada ao molho pardo ou será in natura?
          Vou.
          Mais, digo ‘mas’, está me levando para o quarto, não é na cozinha lugar de fazer Dinossauro no fogão?!
          Vou.
          Mas a Mamãe, o Caçador, o Bolinho...
          Não precisa mais ‘mas’, aqui é mais ‘mais’ mesmo; não precisa também limpar o chão, somente mandar depois a roupa de cama para a lavanderia.
Marília   outubro  2003
8. Circonferência

          A plateia, enorme. Sumidade santidade imunidade tempestade, ‘doutoriedade’. Chamando palestra aos íntimos, conferência aos mundanos, simplesmente porque não tinham inventado a circunferência a recorrência e a demência. Aplaudia-se a cada invectiva, a qualquer empolgação do expositor, no estilo ‘crie fama deite-se na cama’, aos mequetrefes a lama e à lama. Entusiasmava, patético, patéticas vozes, alardeando saber e saber dizer a saber contar. Contava já a sala com seu entusiasmo avassalador no estilo neopentecostal. Porém tudo se acaba. Acabam horas dizendo falando provando reprovando também, se santificando. Finalizou dialogando. Agora, findo. Todavia, diz, quero fazê-lo com chave de ouro:
          Abençoados!
          Repitam: a-ben-ço-a-dos!
          (O público desafinadamente:) Abençoados.
          Agora...
          Agora.
          Não!
          Não.
          Eu disse...
          Eu disse.
          Não é isso!
          Não é isso.
          Vocês não me entenderam!
          Vocês não me entenderam.
          Parem!
          Parem.
          Estou ficando louco!
          Estou ficando louco.
          Seus burrros!
          Seus burros.
          Chamem a polícia!
          Chamem a polícia.
          Tragam camisa de força!
          Tragam camisa de força.
          Ai meu Deus!
          Ai meu Deus.
          Algemas, cordas, armas!
          Algemas, cordas, armas.
          A polícia atendeu; vieram policiais, vieram suáte choque civil militar o escambau. Trouxeram camisas, só havia quinze, ele a primeira e único com direito a ponto de exclamação e reticências por hierarquia; as demais aos outros quatorze da primeira fila, não tinha camisa de força para mais de mil a fechar o círculo da circunferência.
Marília   maio  2002





9.  Brincadeira de...

          A menina entrou imperturbável e livre naquele recinto amigo, ela pensava amigo, entrou como todo e qualquer íntimo e assim adentrando pelo portão que abrira-fechara e após o corredor da casa entre esta e o muro, indo para os fundos da residência modesta mas não miserável pois dessas que todos os pequeno-burgueses e operários qualificados oferecem aos seus; ao penetrar já nos fundos a porta de entrada, escancarada às amizades e sem preconceitos com estranhos, aí se deparou com cena então a si familiar – o menino brincava, brincava como os outros moleques de caminhãozinho, carros espalhados, rodas soltas, unzinho sem roda rodando decerto por sua própria imaginação ou imaginação do doninho pra lá pra cá e ainda zunia seu motor a tremer a lataria de plástico verde desgastado do sol do tempo do uso. Ela achou graça. Parou quase acocorou-se perto, de olhos talvez cobiçosos. Ele? ele nem percebeu, porém notou loguinho depois e a convidou numa vozinha conhecida agradável “quer brincar de carrinho?” A menina sorriu, meneou meneando a cabeça bonita a mexer as tranças louras, naturais? ora dona verdade estraga prazeres, isto somenos. Sorriu demorou e após responde: prefiro brincar de boneca. Elinho agora ele a sorrir descrer repugnar até pelo absurdo com tantos automóveis ali espalhados. A companheira, ou só conhecida, ou só amiga, ou só parente sem atrito língua-e-dente, a companheira fez um trejeito indescritível e dando uns passos entrou de vez na casa; saiu da casa. Reteve-se antes de ir embora em pé de fronte do rapazinho. Ainda a brincar, mudando inconstante e inconsistentemente de carro de carga de caminho de gosto; aí olhou pra cima aqueles olhos esverdeados dela; muita vez a cor de sua vista podendo ser negra roxa preta e mesmo castanha que existem, contra cores que não existem mas continuou a brincar imitar de lábios o som do motor, agora alto parecendo o ronco numa subida com carga pesada. Mais uma vez meneou ela a cabeça bela alumiada ao sol que lhe aloirava bem os fios uns em trança outros soltos esfiapados. Trajava o comum porém bonito sem que o machinho da espécie notasse e talvez pra fazer a alegria ou inveja das outras feminhas. Quer de boneca!? Ele não responde ou nem escuta ouvindo o barulho forte do motor; e havendo uma falha no roncar, seria vela platinado carburador cisco no combustível igual no carro de papai. Papai! ela quase gritou completando – é o namorado de sua mãe. Certo esse errado, errado seu certo também porque sua mãe é ‘sua’ porque mãe no momento sendo a segunda namorada do seu genitor... Terceira, interfere ofendida, e você não tem nada com isso, visto não ser minha irmã nem minha amiga nem minha prima a falar nesses termos, então despencou nas lágrimas; ambos constrangidos não sabendo que mais dizer. Ela daí se encaminhando ao portão de saída, ele atrás de lado andando devagar como que a pedir perdão ou envergonhado. Por isso sorri, uma forma de não ter que falar ou apertar amistosamente as mãos, vai fechar o portãozinho à visita, ela em sua frente próximo exala seu cheiro que o homem, é um homem ela mulher, que ele não sabe precisar nem sabe se aprecia ou... A menina se adianta “acho que gosto de você, seu bobo”. O bobo não consegue responder, monossilaba qualquer, certamente ao pensar já num dos carrinhos e seria um do último tipo? qual a marca, qual ano de fabricação, funcionaria? Nisso a garota promete – diz estar atrasada – promete na pressa depois trazer-lhe a boneca mais bela amarela dela. Não escuta ainda o macho da espécie e quando assim não sabe o que mais dizer, emite qualquer som que pode ser sim, vai logo, não tenho culpa ou outro abuso do absurdo. Ela não interfere e sorri, sai some na rua no fim da rua já não mais que um vulto que o projeto de homem vê um pouco, forçando decerto e quem sabe já em cupidez...
          Contudo ela torna. Agora não é boca de noite, noite fechada consumada; sons difusos na vizinhança nem os cães alertas, um só ladra longe, até eles dormem ou ressonam. A noite é feita para dormir. Ela, não a noite a noite é passiva aos ativos dos acontecimentos. Ela diz coisas ternas, sugere, cheira, cheira e exala, o frio vem vindo lento depois a galope convidativo do sono do aconchego do perpetuar inclusive, coisas da noite que a noite e os amantes entendem ou exatamente não entendem mas conhecem, quiçá experimentam. Ela despe o resto das vestes, mesmo a camisola transparente atraente, inclusive aos bobos. O bobo se lhe achega, meio tímido lento medroso – não é um conquistador! Dá licença dona verdade? não, sim sabe brincar de carrinho; ela não, sim de boneca. Faz cada qual o intuitivo ao parceiro do dia da hora da noite, a noite conspirativa e cúmplice, e aí... bem, a noite é ótima pra dormir... depois vêm o dia os dias as outras noites; e a cegonha e as bonecas e os carrinhos.
          Ah sim, naquele tempo havia cegonha. Diz a carochinha que... ele não assume “ah, sumo” teria dito pensando; ela fica só com a boneca. Naquele tempo havia cegonha, afirma a carocha... Basta.
Marília  abril 2012





10. Extemporaneidade
         
          Num louco momento em meio a tantas eternidades hajam, um louco, pois que assim se pensou pensaram os que ainda pensavam – um lunático surgiu na estrada! Não quaisquer caminhos, no rumo certo quem sabe, menos ele sabendo, se viu no infindável, o asfalto negro e buracama, tendo duas faixas ‘inatravessáveis’ e bem menos válidas aos abusivos na condução. As conduções, autos apressados a correr desesperados ao sem fim, seu fim!? e viu sumir na sua frente a estrada na extrema, as pequenezas, nessa extrema da eternidade, ambas extremidades pois que olhou assustado nos dois lados para se assustar melhor. se espantando bem no ver carros de cores mil e gente essa gente de vestimenta esdrúxula, a largar os veículos a funcionar; ou por curiosidade ou por temor... E a curiosidade daquele ser curioso também era por admiração além da curiosidade pela vestimenta da gente. O pitecantropo se vestia bem a caráter: uma pele malhada por volta daquele disforme corpo arcado; além do mais os pelos espantados e os pelos da cabeça alevantados embora escorridos pelo pescoço curto e a barba enorme! Ninguém, pensaram os curiosos nas suas máquinas loucas, ninguém com a loucura a fantasiar-se fora de época carnavalesca assim. Ora, disse um petiz a indagar coisas e mais coisas para as quais nunca os adultos têm respostas, ora falou elinho: é óbvio, caro Watson, queissoveio por máquina do tempo. Mas ninguém creu ninguém com paciência a entender criança. Então os grandes retomaram seu ‘curiosar’ e sua temência a examinar aquela coisa andante vestida de pré-histórico ali à sua frente, assustada com as máquinas velozes e a gente raspada e vestida de esdrúxulo, igual o viam. Não sabia ele quê fazer e se fazer. Então optou em bater no peito sem imitar a Chita do Tarzã e berrar forte seu “u-u”. O impacto foi maior que o impacto do seu aparecimento ancestral naquele meio civilizado, se ligando nas duas faixas brancas no preto do asfalto e se perdendo nas extremidades de engolir automóveis, estes que eram bichos ainda desconhecidos ao pré-histórico. Por isso debandou, quis debandar, apenas se movendo sem saber pra onde correr; enquanto os civilizados, não obstante o berrinho do filhote assustado com os seus, os adultos também debandaram, que sem organização no corriqueiro ‘perna para que te quero’. Uns tantos sequer conseguiram no pavor entrar nos carros, outros desabalaram a largar aquelas conquistas poluentes da civilização. Nem sabendo, sabendo quem sabe o menino e nunca se ouve garoto, nem sabendo ninguém se o animal vestido de couro de bicho, se ele achou o canal do tempo, pois nesse tempo talvez nem existisse túnel que valesse.
Marília   julho  2005





11. Espelunca 

          Acho poderia pôr como “Ótimo em Espelunca”. Cheguei tarde na urbe interiorana. Notei tudo esquisito, noutro dia mudava a impressão sobre o lugar belo. Mas com respeito à acomodação mantive a ideia inicial: caíra numa ratoeira!
          Noite anterior tomara bom hotel noutra comunidade. Agora, cansadíssimo, não quis completar a informação de uma boa alma que me indicara: “tem uma ruinha, depois uma ruona e depois, no meio do quarteirão, um hotel; se quiser um melhor é pouquinho à frente”. Parei no primeiro e me dei mal.
          O prédio estava caindo fazendo supor centenário. A custo a hospedeira me atendeu e mostrou dois quartos com banheiro, minha exigência; escolhi um pintado no dia com ‘latéx’. Deixei as coisas na cama enquanto a dona poria toalha (depois me confirmando: “já ponhei”) e papel higiênico, eu iria ver horários na rodoviária e fazer meus planos para continuar a viagem.
          Voltei, estava agora trancado no meu paraíso pelo qual pagara mais ou menos 100% a mais à hoteleira. Iniciei o exame daquele máximo na definição de espelunca. Vejamos as suas características conforme possa agora a memória vomitar:
          Grande, teto de trava em madeira caibros cruzados por tábuas com muitas frestas. Nesse teto um ventilador adaptado que pedi aos céus não caísse na cama embaixo, ele só fazia barulho e não vento a espantar o terrível calor da região noroeste; não obstante foi de grande valia e ficou noite inteira ligado a contrabalançar a água que jorrava sem parar da descarga, o que barulho bom pra não dormir. No quarto ainda a cama de casal com dois travesseiros altos demais embora limpos, como limpa a roupa de cama, sendo apenas o lençol pois não tinha colcha; o colchão amanheceu afundado devendo ser de molas cansadas poucas ou buracos muitos nas ripas de sutentação no estrado. Tudo limpo, até as paredes limpas, em não ser o chão que estava respingado, embora não devesse reclamar por ser avisado pela recepcionista, que prometeu limpar o solo noutro dia, e nada dissera sobre a fechadura enguiçada. Agora, pernilongo, suponho por causa do cheiro da tinta, lá não era demasiado, pernilongo foi um só e cantava como noutros lugares, não me queixo dele. A instalação elétrica era autêntica gambiarra como mostrada na televisão quando matéria a condenar miséria explicar incêndio e dar exemplo fora da lei – impossível descrevê-la: uns zigue-zagues, nós, emendas, fios soltos, enfim o melhor no assunto. Havia uma vantagem: o interruptor era uma pera comum e funcionava bem. O ventilador é que precisava ligar direto numa tomada de improviso àcima da altura do homem mediano, embora um pequeno pudesse dar pulinhos para alcance. Pareceu-me que se gastou um rolo de fita isolante nos fios, talvez mais por interesse artístico. A luz era de umas quarenta velas e refletia bem no branco pintado. Não me lembro do estado dos batentes. Entremos no banheiro. Não tinha pia, até para escovar dentes se fazia por pingos do chuveiro, uma ducha velhíssima funcionando; bem entendido: com água fria porque não ligava a quente; além do mais não ficou gotejando como comum. O vaso sanitário era pouquinho sanitário, só pouquinho; quebrado trincado colado (não havia visto ainda um colado em não ser um certo atirado num entulho, por sinal cor de rosa com pintas pretas pintadas e desse tal não fiz também uma foto inusitada). Se disser como se supõe de entrada que fedia, seria mentir.  Porém havia bem outras sujeiras, o que valeu concordar com meu caprichoso ânus que se negou a fazer seu serviço profissional na coisa! Tampa? que é tampa de vaso... O cano de alimentação do vaso descia solto e remendado. A caixinha de descarga andava rachada, balançando entre as amarras de fios velhos de plástico. O cordão de puxar, de abrir, a descarga ia até quase ao vaso e por dentro devendo a caixa estar espandongada (palavra linda que se encaixa nessa mixórdia descrita) pois a água escorreu desde que cheguei até que saí (vivo!) do hotel, não se podia ligar e a água como disse escorreu sem parar barulhando ótimo a disparar a insônia! Ah, não havia luz e por isso dispensável se torna o interruptor elétrico no banheiro de um metro por um num chão molhado e grudando. Tinha um cesto para pôr papel sujo; não existindo porta-sabonete e sequer porta no banheiro.
          Terei me esquecido algum detalhe? Penico? não existe mais urinol numa pensão metida a hotel. O barulho duma certa máquina vizinha encobrindo o barulho dos hóspedes? mas isso não culpo o Pálace Hotel Universo. Preciso falar da janela: grandalhona, ‘frestosa’, pregada e ameaçando algumas de suas tábuas a cair. Outra coisa: não olhei debaixo da cama... E há um porém curioso o qual não posso explicar: saí de lá inteiro, vivíssimo. Embora muito mais cedo que o horário de costume no meu costume de hóspede noutros lugares, não ficando para ver houvesse café matinal, já temendo o café que tivesse...
          Na conclusão uma ideia: nunca experimentara como experimentado caixeiro-viajante melhor coisa em termo de espelunca; esse hotel atingiu tecnicamente o ótimo no gênero.
Marília   agosto  2002 




12. O Defunto

           Ocorreu de o João da Silva deixar este conturbado planeta, engolido por sete palmos de terra de péssima qualidade. Para alegria geral dos vermes e possivelmente para a tristeza do círculo familial.
           A notícia foi trazida num carro da rádio patrulha e entregue por um policial jovem ainda e inexperiente, o qual bateu palmas à frente do número quarenta e cinco:
           --É aqui a residência da viúva é do sr. João da Silva?
           Era. A viúva é que não sabia disso. Choro, lastimação, os vizinhos curiosos. Espantaram inclusive ao Juju, um latir interminável. Contou como foi como não foi; o coletivo despencado. Não, não sofrera nada, morte instantânea, consolou o de farda.
           --Meu João estava com tanta saúde! Pobres das crianças – lamentou a esposa.
           --Mas... – disse a chorosa criatura – ele não ia para Campinas quando partiu; falou-me que faria cobrança na região de Taubaté!
           O jovem desconhecia as razões, pois todos os defuntos têm lá as suas. Entregou-lhe uma pasta com uns folhetos e outros documentos dela conhecidos, inclusive comprovante do imposto de renda. Que não tivesse preocupação pelo enterro, o Instituto Médico Legal não liberaria os restos mortais. Foi embora, ficaram as lágrimas.
           Aquele dia treze virou um desastre completo para a família. O cume dessa crise entretanto ficou para outro dia, quando os membros se reuniram a fim de recolher os despojos do navio naufragado tão jovem. Entre as muitas lágrimas da senhora Ana e da filha mais velha, os parentes começaram a destrinçar a herança. Ora, isso é sempre um problema profundo ao pequeno-burguês. Os amigos vieram ajudar na obra de divisão e na de consolo. Sobravam a casa mediana sem pintura, um fusca de uns quatro anos de uso, agora descansado na garagem e economizando combustível para a nação; também algumas ações empregadas numa sociedade muito anunciada na televisão. E as dívidas, que lutavam com os créditos, ganhando deles por uns cinco a um. O Geraldo apresentou várias ideias para a solução dos problemas prementes e uma porção de palpites que desagradaram. Amigo da família, espécie de propriedade dela disposto para o que desse e viesse porém mui emotivo, mais era consolado que consolava.
           Passaram-se uns três dias, a dor não passou, sequer diminuiu na casa vazia; seu aspecto é que mudou. Dona Ana lavava roupas num tiec-tiec maquinal e em suspiros, a garota tomava suas bonecas e a pentear interminavelmente, o menino andava como sempre pelas ruas. Volta e meia um indesejável visitante a reabrir a ferida. Os amigos deviam por sua vez explicações sobre a morte do João à viúva e para os estranhos, as versões exagerando um pouco, como é necessário à personalidade de cada pessoa. O Geraldo, esse então pintava o defunto, vestia o mais recente hóspede de São Pedro com roupagem dourada, auréola angelical e tudo o mais; e se mortificava gostoso numas autocondenações, rememorando passagens antigas do convívio amigo: doía-lhe não haver aproveitado melhor seu tempo com o João vivo. Estava assim o sujeito compenetrado na porta da padaria do bairro, chegada a noite, quando alguém tocou-lhe os ombros:
           --Geraldinho! dá cá um abraço.
           --?!
           O que lhe aconteceu homem, está como cera! Olhe, achei direitinho aquilo que me pediu, em Taubaté... O que tem você? Gente acuda, o Geraldinho desmaiou!
           Apenas quando recobrou os sentidos é que o moço constatou ser o João da Silva em carne e osso. Diabo, não podia crer mesmo fosse assombração. Mas...
          Quanto ao João, o fato é que um larápio roubara-lhe a pasta na rodoviária. Não houve tempo hábil para dar parte à polícia, ou perderia seu ônibus já de partida; portanto fora sem pasta e sem os folhetos. Não tomara conhecimento daquele desastre pavoroso de Campinas... Por isso, ainda abanando o Geraldo ressuscitado, perguntou-lhe:
          --Como está meu pessoal?
 São Paulo   outubro  1977     


13. Engano em Desengano

          Andava, andando, andava esquecido e mesmo estivesse no lar, também esquecido o sujeito ainda jovem; aqui opinião dum vizinho em cacos e quase centenário, um que o tratava pormeu jovem”. Quanto ao dito lar, nessa altura não mais que força de expressão porque ficou para todo o sempre um ótimo eterno solitário – perdera a esposa primeiro, os filhos e finalmente os vizinhos, aqui exagerando por causa do matusalém a lhe encorajar a vaidade indicando-o pormeu jovem’, expressão mentida nas primeiras linhas destas linhas. Todos os circunstantes sem exceção, com exceção da exceção matusalêmica, todos fugiram dele; dizer-se lar por força da pena, realmente voltava pra casa a se esquecer que fora um lar com mulher e crianças brincando no faz de conta. Todavia não eliminando a premissa curiosa de se esquecer de tudo. Tudo neste ponto é tudo. Dizia, puxa, falava de fato “pôxa!’me esqueci de tomar café. Claro, a gente fila o cafezinho em casa alheia ou no bar da esquina. Não é grave. Errei, caramba, errei o almoço ontem, jantando! Não é grave. Jantando outro dia, quando vi estava era a almoçar! Não é grave. Xi, me enganei de esposa! Não é grave. Quer dizer, o marido terá achado errado ou o fulano ter-se-á esquecido entrando no guarda-roupa ou mesmo a fugir pela janela carregando as calças a se vestir na rua; e não chega a ser indecência, indecência é sair pelado na rua. Ih me esqueci pagar a conta. Ora, não é grave, hoje em dia quantos! não se pagou ontem, quita-se amanhã. Errei de casa, disse. Não é grave. A gente pode pensar por exemplo ter errado de casa acertando o lar. Desencontrei-me do amigo. Se errasse de amigo, a trocar ‘A’ por ‘B’, ainda não grave, todos são amigos até prova em contrário e portanto errando de amigo ainda acertou o amigo. Não é grave enfim. Ontem me enganei de  carro. Mas quantos não entram no automóvel errado, depois a chave de ignição não entra, sai o freguês a procurar o seu. É grave? não é. Errei... Errou? errei de cidade. Isso não é grave, talvez embaraçoso. Depois – falou o sujeito cheio de enganos e esquecido à beçadepois me esqueci de ficar quieto. Não é... É sim: fui preso, trancafiado na superlotação carcerária... Mui grave.
Marília   julho  2005





14. A Mula a Mala

          Custei mas voltei, compadre. Cheguei de volta ontem noitinha, a pobre, cansada, nem dormiu de pé como os outros burros: despencou no chão extenuada, quase caso de extrema-unção e aí teria de acordar o padre ao serviço religioso; ah tem visto o padre?
          Fui pra capital como havia dito que ia. Fui ver a filha, ela trabalha lá, não disse: trabalhava pois se mudou para Manaus. Então, fui lá na capital exatamente por causa dessa mudança. E aqui entra a teimosia e a teimosia da mula, visto a mula eu ter levado ou antes ela me levado me levando e levando a mala. Escuta só.
          Primeiro, que foi um trabalho insano cansativo o meu para tentar levar a mula que me levasse até a capital do estado no estado em que se encontra: longe daqui, tudo medido nos quilômetros dos grandes em mais de mil; e demais aborrecimentos da capital na capital. O motivo era dos bons e me pus na estrada, a ouvir palavrões dos caminhoneiros dopados querendo um ultrapassar o outro e a nos ultrapassar: a mula a mala e eu, claro, fui junto com elas.
          O motivo, a mudança. Ela... que mula que mala coisa alguma: a filha. Ela embirrou deixar o tribunal... Não senhor, compadre, não estava sendo julgada nem criminosa é – é um anjo, uma santa, como todas filhas de todos pais que se prezem. Ela trabalhava (ambos compadres a dizer “trabaiava” e pronunciando também “cumpádi” e não compadre) trabalhava no tribunal – aquilo dos bestas se enfiarem nuns vestidões negros por cima da camisa furada e da gravata e tendo uma expressão de peso ao público, enfim dum homem público santificado pelos deuses, eles deuses igualmente por sua autoridade; havendo no tribunal mil advogados e uns mequetrefes, entre eles minha filha funcionária do dito tribunal, na intimidade a menina tratada apenas Fia. E o povo e no meio do povo jornalistas abelhudos e xeretas a espocar luzes e câmeras até tevê tendo tudo teimoso pras vistas da gente. Mas ela... não a mula nem a mala a Fia, a Fia pediu a conta indenização por conta de mil anos de serviço esfolada no trabalho, não recebeu dinheiro porém a conta e rumou a Manaus.
          Não, não é aqui que acaba, acaba o começo e o porquê da mula da mala e da mais... não: da menos valia do seu compadre, oh meu compadre, o seu compadre aqui de volta para lhe contar os transtornos nas teimosias.
          Isto porque a Fia bem teimosa, não, compadre, mais teimosa que minha mula nem a mala, ninguém com mula podendo.  Acredite que bateu o pé... que mala coisa alguma, já viu mala com pé e mula não tem pé tem patas, quatro bem fortes e dispostas, as duas traseiras me sapecaram coices. Digo quem teimou foi a filha, a filha se foi de mudança, deixou seu apartamento – pra mim ‘apertamento’, não cabendo mais que vinte gatos trinta cachorros quarenta cabritos e nenhum dinossauro, sobrando somente um corredorzinho para ela morar e passar indo ao tribunal vindo do tribunal; e assim dei razão à teimosa Fia: dessa maneira não dava não deu deu no pé rumo a Manaus, falei que fora pra Manaus! ando um pouco desmemoriado, se já falei, falei e continuemos. O caso agora é outro: a viagem. Eu desejando que fosse de mula, mais terra firme com vista e no chão; ela, a Fia, ela teimando ir de avião, maior que aeroplano, de aviãozão na firmeza das nuvens e sem vista, vista sim pra baixo aqui embaixo.
          Estamos nisso: ela teimou sair do tribunal teimou ir de avião teimou mudar. Fui lá na capital tentar impedir a loucura desse perigo da viagem, ao menos interferir que fosse na mula, mala levaria no ar ou na terra. Na mala dela atulhou mil livros, ela não come arroz e feijão como nós: come livros; e por isso levou desde os calhamaços de filosofia e de grande sabedoria até a “Cartilha Sodré”, aquela que inicia com a lição da Pata Nada. Tudo em vão, porque teimou voou carregada de sabedoria e deixou minha mula e a mala minha sim mas sem atulhar a minha de livros e indo para o norte, o Amazonas, sabe o compadre.
          Da ida nem falo mais, falo mais da mula cansada e até o trabalho que ela me deu na capital; não a filha, a mula.
          Inicio com os problemas porque lá na capital tem muitos, tem trem, mataram o trem deixaram o de subúrbio para infernar o povo; tem ônibus até demais, só que não andam, andam inclusive de menos no trânsito caótico; e tem o metrô, metro o compadre tem e tem mesmo trena pra medir o roçado, falo de metrô, com chapéu no fim da palavra. O compadre não sabe disso, sabe a mula. Pois saiba – ninguém queria a mula, me expulsaram com a mula das estações das conduções e das ruas, mesmo estando na enchente, porque lá enche de água de trânsito e de pessoas abobalhadas no trânsito. Por fim encontrei o apartamento da filha.
          Pior foi quando a procurar sem achar o apartamento da Fia lá nos Jardins, os Jardins um bairro ricaço da capital. Então a mula defecava onde amarrada, eu prendia ela nas árvores dos Jardins, ela depositando montões fazendo xixi adoidada e aí... aí? aí, ai, vinham as criadas dos ricos com pazinha saquinho latinha recolher as fezes da barriga que não parava de encher-esvasiar! Não sei como come tanto, tanto come como governo o alimento do povo a mula... Nisto outra questão séria: a vaca dessa mula porca me comia as flores dos ricos e os ricos reclamavam reclamavam mandavam suas mequetrefes reclamar comigo; não adiantando reclamar com a mula que nem ouve a mala iria escutar criada? Bem, com isso foram horas e dias.
          Ah tem mais um lance curioso, compadre: a saco sem fundo dessa mula olhava pra mim e queria que eu partilhasse com ela ainda o meu pão com mortadela, a gente da cidade fala desse jeito e não sabe que é ‘mortandela’. A mula comera a planta dos outros e queria meu pão!
          Por final chegamos. Eu a mula a mala, a mala daquelas enormes de nordestinos, ótima para caber sabedoria que a filha iria levar pra Manaus não levou teimando ir de avião. Chegamos no apertamento; depois se foi a garota no seu aeroplano nos planos dela em ver de perto o rio Amazonas.
          Tornei a arrear a mula, agora de volta pra casa – iria tornar a pé ou de carona, voltaria no trem de segunda o homem matou o trem, invertendo pois que nos outros países é o trem que mata o homem aqui o homem... não tem trem e então pegaria uma carona com caminhoneiro no seu caminhão ou que fosse enfim viajar a pé (o compadre ao compadre dizendo mesmo “diapé”) a pé mesmo, pronto. Tudinho porque ela não quis... a mula quis a mala quis, a Fia foi de avião não quis, não falei isso?
          Pus outra vez os arreios, amarrei a mala; e viemos vindo pro sítio.
          Não queira saber, compadre, os desaforos que ouvia, ouvimos, a mala não a mula e eu, dos carros passando: caminhões automóveis apressados na rodovia. Não conto para sua comadre minha mulher a grosseria e a feiura dos dizeres que escutei ou ela me dá divórcio...
          Agora estamos aqui sãos e salvos. Mas inda lembro um porém que merece ser narrado.
          Quando ainda a convencer minha amada viajante, não compadre: nem a mala nem a mula – a filha... a Fia aceitava em parte meus argumentos por não arranjar um canto junto de gatos cachorros cabritos e dinossauros, e agora a junção da mula porém não me deixavam subir no elevador com ela, e nisto não ocorreria nova arca de noé!? em suma um canto somente seu no apartamento, embora precisasse a tanto continuar ouvir mais anos discursos de juízes a si mesmos santos anjos e autoridades. Falei sobre tudo e sobretudo das perigosas águas do rio Amazonas, ela, a filha, referindo-se ao seu horror sentido não só do trânsito da capital mas mais do rio Tietê, demais poluído comparando a limpeza e a claridade do rio Negro para onde desejava a mudancista se transferir. Propus, eu propus e a mula teimosa então não deu palpite – propus eu mesmo transladar o Tietê para o Amazonas e vice-versa, traria o rio Negro à capital; esta exportaria assim o rio poluído como oferta para Manaus (coisas assim de vantagens políticas).
          Não queira saber a resposta longa da bela moça em que me saiu a Fia. Falou simplesmente “não”.
          Sim, se foi. No avião, já disse, me deixando a viatura teimosa e comilona para tratar e não como condução na viagem da filha. Comilona a mula. O quê...
          Ah a mala, compadre, a mala; quer o compadre maior e pior mala que a mula!?
Marília   outubro  2012



15. As Clínicas

          Levei o pacientezinho, impacientezão diria melhor a dizer direito o errado... não, melhor falar que era eu a me impacientar com a falta de paciência dele. Melhor afirmar assim. Porque não tinha mais que três aninhos de vida, vamos exigir demais a um ser tão novo! E além disso com febre alta, sonolências alternadas com choramingos.
          Por outro lado me parecia a clínica mais a clínica numa segunda-feira, onde sobram gente e preguiça, uma por muitas pessoas outra por cansaço dos atendentes; e vamos lá que a nossa funcionária sim com má vontade mas sobrava nela beleza e charme, a jovem de nosso setor bonita pra valer.
          Isto não conta aos doentes, todos querendo ser atendidos; piormente exigindo serem curados; e os médicos não chegavam, embora passada a hora. Pesa muito no atendimento a consulta o encaminhamento, quiçá o sarar. Oh tadinhos dos enfermos.
          Meu pacientezinho reclamava resmungava faltando-lhe ar e a sentir dores mil... Abordei a mais bela, só aqui a minha preferência e intervenção, eu também paciente a cuidar do paciente impacientezinho. Perguntei-lhe quando...
          Chegam já-já, interrompeu-me.
          Interrompidos, logo adentrando os de branco, médicos e médicas, logo embora tenhamos esperado desesperadamente mais meia horinha.
          Quase fizemos fila, quase imploramos a exigir no estilo “cheguei primeiro” ou “eu vi antes, é meu”; sem que os profissionais se interessassem por nossa disputa, nossa dos pais e responsáveis pleiteando atendimento às suas respectivas crianças, bastantinhas. Por fim fomos atendidos.  Encaminhados, enchemos fichas pagamos a consulta e aí sim fomos penetrando os cubículos que são os consultórios a atacado na saúde pública nas suas clínicas gerais.
          O senhor... ah que gracinha de criança... brincou o jovem, era novo o nosso esculápio.
          Aí seguiu os cânones dos cânones, incluindo sobrar fichas e preenchimento de fichas; até nos foi dado direito balbuciar algumas palavras, nós eu, elinho, que é elão de tão grande meu doentinho não falou – rateou afogou ‘rabugiu’ sons quase lá dentro e tive falar por ele, é sempre assim: o responsável é quem explica. Aí o médico ouviu. Reescreveu nas fichas o que dispõem os cânones. Sorriu formal e profissionalmente, acabando por concluir:
          Está doente a criança. (Eu já sabia, o Doentinho mais que eu talvez). Não arrisco um diagnóstico, disse; aqui estão os documentos a encaminhá-lo aos especialistas e as guias para exames. Praxe.
          Agradecemos, agradeci em nome Delinhão, a soluçar, quase num escândalo.
          Fomos imediato em via-sacra, procurar as clínicas especializadas. Iniciamos por uma, conforme indicação anterior.
          A médica: diga 33, apalpa daqui olha de lá e conclui. Não posso diagnosticar mas prognosticar apenas – a meu ver é carburador.
          Dirigimo-nos à clínica especializada na carburação. A qual nos destinou à clínica para desarranjos elétricos.
          Nessa nova especialidade médica trocamos bateria (com garantia devida). Trocaram o platinado mexeram no distribuidor experimentaram a bobina, sucessiva e interminavelmente.
          Nada. Tudo no mesmo. O Chorãozinho me amolava, eu desesperado; não obstante nenhum médico especialista me desesperançava no sentenciar a morte anunciada de meu querido Doentinho, impaciente cansado o ser paciente.
          Por fim fomos encaminhados aos nutricionistas, “vai que...” disse com categoria um clínico.
          Fizeram mil experiências (puxa, os médicos pensam que nossas crianças são cobaias!)
          Trocaram óleo, puseram de câmbio no lugar do de cárter, substituíram sucessivamente também a gasolina o diesel o álcool em alternativa como combustível alternativo.
          Nada. Tudo negativo.
          A criança enjoada, esfregando faróis em lágrimas... eu descabelado descamizado despoluído nos bolsos já sem dinheiro! Joguei-a no ferro-velho, não obstante apenas seus três aninhos.
Marília    novembro  2004                   

16. Morte Anunciada


          Era destamanhinho. Mas supunha não ser tão diminuto; ou somente para não parecer tímido, coisas da complexidade humana, falava grosso e alto, espécie de “cheguei”. No entanto, ao entrar em casa ultrapassar o limiar do portal virava outro: tornava-se ele mesmo. Que lhe importava a veste rasgada ou sem passar a ferro ou o sapato furado? Chinelos nos pés, os pés no chão; se era ou não horário do alimento... Outro, ele mesmo.
          E para fugir dessa porcaria? Inventou inventar uma saída. Inventou a literatura. Não, nada disso, não estamos diante do inventor da literatura universal, apenas encontrando o descobridor de sua própria literatura; à qual adjetivava carinhosamente “literatura de fundo de quintal”. Bastante sugestivo, parece.
          Todavia não foi esse o único crime perpetrado contra a sociedade. Outros ocorreram. Desandou a produzir muito: andava criativo, poetava; deparava-se com a injustiça, filosofava; uma doidice polígrafa. Escreveu de tudo, como biografia (autobiografia, pois não conhecendo bem os outros) memorial, conto, poesia, crônica, romance, ensaio, teatro. Coisa de louco. Ou para maluco. Depois, somando todos os desatinos (e ainda continuava produzindo, ah que fertilidade!) resolveu passar uma peneira. Alias já fazia a peneira com critica e revisão a cada trabalho, montanhas de folhas já datilografadas. Então procedeu à classificação e compartimentação literária. Criou uma pasta para cada natureza de composição escrita. Numa delas, pasme-se! nela reservou a colocar obras publicadas. Chamou a pasta de “Participação”. Porque a loucura não tem tamanho nem medida e é doença que pode atingir boas parcelas sociais. Daí chegou – além dar à luz monstrinhos escritos – a meter-se procurar mercado. Uhn! E achou alguns jornais de portas semiabertas, uma que outra editora aceitando ler e criticar trabalhos enviados; mas sobretudo participou de concursos públicos, dezenas centenas. Guardava tudinho na de “Participação”. Com o resto da literatura fazia o mesmo, guardava. De maneira que os arquivos as estantes as gavetas e a própria cabeça, tudo andava cheio de obras; tudo todo prenhe.
          Já se falou fosse tímido? Se não, falemos, afirmamos, tímido. E petitico? Já? Não vem ao caso. O que ressalta é o fato de o homem chegar a um ponto curioso na sua vida literária; ou seja, temer acertar num concurso! Como alguém temeroso acertar na loteria. Esdrúxulo o liliputiano hein!
          Não pensou duas vezes, procurou um amigo desembaraçado. Contou suas mazelas e ressaltou a timidez; disse sobre o perigo que o envolvia, coisas que só os amigos compreendem. Se ganhar... (note-se a condicional) então, falou o polígrafo, você irá me representar no cerimonial. Alegando o quê? Indagou o amigo do amigo. O que quiser, o que vier na sua consciência; pode falar na entrega do prêmio, por exemplo, que eu morri.
          Dessa forma estava formalizada a fuga da solenidade e da berlinda, horroroso aos tímidos e problemas imensos se considerando a pequenice do escritor de obras fartas.
          Assim o amigo do amigo das letras compareceu à premiação, amigo é para essas ocasiões. Afirmou ao público que o pobre escritor falecera. Todos olharam espantados e condoídos. Consultou entretanto a consciência, ela doía bastantinho... Assim resolveu confessar ao povo: dissera mentira deslavada; o polígrafo morrera de fato mas aos cinco anos, antes de se alfabetizar.
          Andava então provando que a mentira é coisa feia; que nem todos sabem mentir com categoria; ou que seria melhor mentir sozinho em casa. Muito melhor.
Ribeirão Preto   novembro  1994





17.  Ossos do Ofício

          Aquela mulher atraente bela charmosa, um anjo, olhou sério ao companheiro – isso um indício de contrariedade segundo o histórico de família – e assim logo tentou o homem se compor ao figurino dela, na linguagem de um pingo ser letra. Mexeu-se, sem que estivesse como os olhares de sua mulher indicavam ele estando a flertar com uma beldade noutro banco dentro do ônibus circular. Enfim aquiesceu às ordens da ciumenta ainda bonita esposa. Ela não se fez de rogada nessa vitória, tendo por isso relembrado um abuso quando nos primeiros tempos, sem o filho ali debaixo do casal agora; então o macho vivia sonhando outra... Mas a crise passara, as brigas conjugais não. Ela examinou o ambiente com sua loca escura pra ver se não via a pretensa rival, olhou para baixo o comportamento do filhote a brincar com amigo imaginário e a conversar animadamente com o outro; seu esqueletinho arcado ali no chão do veículo perfazia curva interessante porém a mãe desgastada pela lembrança de antigas rusgas com o pai da criança sequer se prendeu ao menino; e carregou de propósito “amor, você de tanto olhar a sirigaita perderá outra vez a bola dos olhos...” Sorriu sem graça o contraventor. Ela emendou daí problemas sérios do dia a dia, os mais palpáveis como as contas as compras ou necessidades que o consumismo exige que se adquira. O esqueletinho, criança sempre parece não prestar atenção porém: relacionou elinho também os brinquedos necessários segundo a necessidade, sem esquecer os caríssimos eletrônicos os novos e sofisticados celulares coloridos e, claro, mais caros. Papai fez que sim a dizer não ou pelo menos num aceitar provisoriamente para não provocar escândalo no coletivo lotado. Ela sorriu ou para ele ou dele e não esquecendo as compras dela; aí despencou mostrar o que estragado no seu túmulo – não seriam tumbas mas túmulo como grafado pois jazigo coletivo e familiar, daqueles de gavetas à espera – mostrando assim as necessidades novas ditadas pela tevê e pela internet com belíssimas ofertas e razoáveis preços conforme pensamento seu da carteira do consorte. E acresceu nisso pagamentos aluguéis impostos dívidas dúvidas... De maneira que o esqueleto macho quase se desfez em mil pedaços, a custo juntados pela própria imaginação. Iam por essas razões começar, fosse no lar ou túmulo coletivo, iam dar início a um lance da tragédia do bate-boca conjugal com menino no meio forçando fosse ouvido lá em cima a fala dos seus dentes, os dentinhos inteiros e da primeira dentição enquanto os da mãe já implantados e os do genitor meras dentaduras postiças, inclusive estas com uns filetes de ouro atraindo ladrões de cemitério municipal. Não. Não prosseguiram, a ficar no início e projeto de batalha campal quiçá guerra fosse na casa e não no ônibus, a dar vexame aos circunstantes. Nessa altura o chofer já olhava com rabo de olhos, quer dizer de buracos dos olhos para o lado do casal e aí lhe aparecendo o nariz, o qual terá sido torto grande comprido, faltando agora por cima dos dentes cariados no lugar onde decerto tivera bigodes apenas a parte óssea das fossas nasais já sem cartilagem que a terra comera certamente obedecendo a lei da natureza. Então o casal se constrangeu, se compôs se comportou normal (o que seria normal!) até o esqueletinho gracioso notou o público a olhar curioso condenando a quebra do silêncio no veículo. Nesse transtorno que felizmente não se completou, ela voltou a sentar-se (havia se levantado um pouco ou para ver a rival outra ou para ferir melhor a oposição macha pega no flagrante). O esqueleto macho ruborizou-se, nessa situação em que a gente não sabe onde põe o chapéu; aliás usava mesmo um chapéu para cobrir esconder uma cicatriz na testa, onde recebera antanho um tiro do esposo doutra amante, amante que hoje tem o belo apelido de ‘namorada’. Sentou-se sua fêmea, ajeitando as costelas e compondo os ossos da medula. Enquanto, pilhado ele no descuido, sequer percebendo no ato de se pôr no assento o assento e mostrar o ilíaco trincado. Fez mais, fizeram: ele esparramando sem educação o metatarso e os cinco metatársicos e ela os artelhos bem ajuntados para não dar na vista com suas pontas esmaltadas de vermelho quase ‘cheguei!’ e num segurar a indefectível bolsa feminina. Nessa altura o esqueletinho já nem via o drama adulto caso houvesse observado e assim dialogava com outro imaginário, quem sabe também um exemplar ajuntado de ossos formando um belo garoto.
Marília   outubro  2012




18. A ex-Esposa

          Tive ímpetos a grafar ‘exposa’ e aí temendo ferir a base da palavra e pecar pela base, afugentar, quem sabe até assassinar, os puristas versados no latim no grego e no mais atual ainda ou seja a língua pátria, o inglês, escrevendo como desejara. Assim me ponho somente a recordar a esposa, sem volta de passagem lá no portão de embarque da rodoviária. Ainda essa tola ficou a abanar desde a janelinha do ônibus e a enxugar no lenço que lhe dei como lembrança de nossa lua de mel então sequer amargada como agora nas relações; a enxugar as gotas roladas e nadinha de crocodilo sabendo que ela me amava, me ama nessa despedida. Enfim encerrada a questão.
          A questão fundamental nem era o amor e o choro de amor, por seu apego e minha tolerância. Isto porque é inteligível, de tanto se ver, uma relação tão sofrível como a nossa até aí. Isto sim contou.
          O comum. Ela demais ciumenta. Um dia deu escândalo fez cena vendo minha conversa com amiga próxima; amizade de anos; ora, iria desprezar uma garota bela como a amiga tão só para não ofender os brios esponsais da esposa! Por semelhança não deveria manter amizade com as feias, com as velhas senhoras; e até com homens, desses machões pra valer... Com eles ela não se importando a possível ligação: embirrara na bela. Verdade com certa margem de possibilidade, visto me interessar por gostosuras mais. Menos por essa, casada com um amigo e tendo eu por princípio que mulher casada é igual irmã: não se deseja e na pior das hipóteses não se conquista. Ela, a esposa que tendi escrever usando xis e não o fazendo por medo das bordoadas críticas, ela não colocando a problemática nesses termos; apesar de nosso matrimônio já durar três anos (uma eternidade aos jovens desta época) e em razão disso conhecer o esposo que tem, tinha. Ou por isso mesmo, aqui cabendo reticências sem temor a errar.
          Bem. Com essas e mais aquelas nos desentendemos. Por último? não, por toda eternidade brigamos. Eu acusando ela ciumenta; ela dedo em riste a penalizar meu interesse nas mulheres; mentira deslavada e até poderia levantar o problema por exemplo o desinteresse nela, a esposa; aqui estaria na absoluta razão em vista eu detestar ciumeiras e aí perder pela esposa a atração, o desinteresse inclusive mais na última ‘década’ da eternidade.
          Em suma nos desentendemos, ela fez a mala, não se esquecendo recolher os apetrechos feminis, referindo-me aos cosméticos espalhados na penteadeira, além é claro da indefectível bolsa onde objetos como espelhinho batom essas coisas. Se arrumou comprou passagem e saiu pisando duro (num mostrar a raiva nela).
          Fui atrás. Ela julgando que fosse implorar sua volta ao lar, beijá-la amá-la. Não. Apenas um acompanhamento social cerimonioso, frio.
          Chorou. Abanou. Partiu. O ronco do ônibus a sumir. Fiquei a pensar: que tal casar-me agora com a bela, chifrando o amigo; a bela que é mulher mulher mesmo e assim não ficar preso na cela com um macho sem espécie se pensando espécie de mulher; ex-mulher, exposa diria.
Marília   março  2009





19. Uma Realidade que Virou Sonho

          Não sei por que estou narrando essas coisas ao senhor... Fico pensando viver a bestar de tanto me expor, o negócio é não se comprometer, todo mundo foge e se esconde, fecha a sete chaves seus segredos, eu a me abrir todinho com um desconhecido; pega mal... não, não, não ao senhor que nada tem com o peixe, pra mim que estou encrencado a valer, pega mal para mim. Apesar do que estou falando, da realidade desse sonho pouco ou quase nada posso temer, nada mais preciso temer nesta altura da vida.
          Aí me pergunto: não tive razão? que seja uma razãozinha, mas pensando bem... É que ela não me largava! O que mesmo poderia eu fazer?
          Primeiro me engracei dela, a Dória, ouro até o nome. Então creio ter feito mal. Visto ter família era querido, estimado nas fazendas por onde passei, amigos em todos os recantos onde morei. Minha mulher, a mulher legítima, havia me dado três filhos, filhas meninas, uma já moça casadoira, as outras duas empinavam para a vida, a caçulinha viera temporã, a raspa do tacho como a Maria minha esposa falava. Havíamos brigado muito – qual é o casal que não se desentende? – briguinhas, brigonas, a patroa me virava a cara e até acontecia o pior, para um macho é o pior que pode acontecer: não me queria na cama, eu tão necessitado. Uma vez fizemos um tratozinho para ver quem é que aguentava mais tempo sem o outro. Ela ganhou por dez a zero, tive de me humilhar, rastejar, implorar a ela aquilo que deveria ser uma atenção normal, legítimo no caso. Fez-me sim rastejar e tudo o mais, prometer mil coisinhas (que eu sabia antemão descumpriria... eu não chegava a ser um santo, existe homem santo?) Não que ela fosse uma geladeira, não era. Este aspecto torna sua vitória mais estrondosa. Assim eu raciocinava. Ainda hoje me acho com razão nesse pensamento.
          O tempo foi passando. As amizades crescendo, a família graças a Deus ampliando os laços sentimentais; domingo em casa parecia feira, parque de diversão, gentarada a se esparramar na minha residência, era comida e bebida pra todos, as crianças viviam interminável parque infantil, a Joaninha teria seus pretendentes cheirando ali por volta daquela festa contínua (todavia ela não costumava segredar nada, eu é quem observava os gaviões, pois a Joana era moça bonita). Festa sempre porém não interminável. (Aqui eu choraria na sua frente, seu Zé, não fosse a fonte estar quem sabe totalmente esgotada, não tenho hoje mais vergonha de chorar, é que não posso mais verter lágrimas!) Aí por 1981 ou 82 eu me mudei com a família da Fazenda Campos Belos para a cidade. Minha perdição...
          Havia morado em inúmeros municípios, cruzado várias vezes as fronteiras – fora do país nunca, tinha apenas ido ‘muambar’ no estrangeiro e continuava a residir em nossa terra. Tinha enfim mudado como se troca de roupa. Era olhar pra mulher, ela já entendia, fazendo cara feia porque é duro desfazer os trecos, já entendendo a Maria ser nova hora pra mudar. Sabe, não é? sobra mais para a mulher mudança, um descontrole danado. A gente parecia cigano. Uma vez num mês me desentendi com dois patrões, foram três mudanças! Os móveis não chegavam a envelhecer, a gente vendia por preço de banana ou dava. Ou o patrão boicotava tudinho pra ficar com a riqueza. Entenda o senhor que os cacarecos do pobre é uma riqueza incalculável a esse mesmo infeliz: uma latinha de flandres com cabo de arrebite um tesouro; qualquer coisinha barata tem ao pobretão um valor inestimável, um tesouro. Pôr tudo nos sacos, a Maria estava de tal maneira acostumada com aquele vexame que já guardava os sacos de estopa usados para a próxima viagem, sacões de farinha ou de açúcar, enfim tudo servindo a embalar os trecos miúdos. Apesar das ‘mudanceiras’, a cada lugar por onde passavam os meus, ficava semeada a semente da amizade, compadrios. E mui encrencas também. Sim, às vezes uma fofoca um mal-entendido mas sobretudo desavenças pelas coisinhas das crianças com adulto metido no meio, ah! uma revolução. Estou exagerando um pouco, naturalmente.
          Assim fomos vivendo. Eu que já era brigão na casa de meus pais, agora virara mandãozinho e queria impor no meu trabalho e no lar. Mais aqui, onde tinha liberdade para dizer o que pensava e me achava com todo o direito que o hábito concede aos machos. A Maria levava a pior. Quer dizer, era bem tratada e só dei nela uma surra, a primeira e a última: saiu esfolada e chorando e nunca mais se meteu a besta comigo. Porém com a língua dela não pude. Quando abria a matraca eu precisava inventar qualquer problema no serviço para resolver. Voltava, o ambiente era já mais calmo. Então eu perdia na cama outra vez.
          O que eu deveria fazer? Quantas vezes tive de me mudar – uma ocasião decidi foi de madrugada e os vizinhos só descobriram a nossa mudança já sol alto com os trecos no caminhão do Chico. Estava consumado. Não era só por meu desentendimento com a patroa; eu era assim, esquentado. Tadinha da Maria. Mas contra a sonegação dos meus direitos ah! isso não era possível perdoar, eu batia o pé xingava esbravejava, saía resmungando. Um dia pensei me matar!
          Olhe, não se espante Seu Zé, o senhor está diante de um suicida... nasci suicida. Cresci com uma garrucha dependura ao alcance da mão; muitas vezes corri para o estradão com o firme intuito de me desgraçar para desgraçar os outros, punindo a sociedade. Lá pelas tantas, cansado, frio, pensava melhor, quem sabe se não ajudado pelos anjos bons – e desistia de me matar; temporariamente. Até hoje, cabelos brancos, me dá uma vontadinha aqui dentro... Naquele dia imaginei pôr cabo de minha tênue vida; ora, a Maria, pensei, chegava a valer tanto!? eu morreria e ela ficaria para os outros... Além do mais, geralmente a causa era tão boba que eu me esquecia por que motivo deveria extinguir-me. Com a Maria era coisa de ciúme. Hoje sei que ela não chegava a ser vagabunda, até pelo contrário: uma senhora séria íntegra e digna mãe de minhas garotas.
          Mais tempo se passou. Eu continuava imprevisível chefe de casa e marido cobrador. A Maria com as coisinhas lá dela, eu estourando por qualquer porcaria. Aí apareceu uma oportunidade terrível...
          A esposa andava ganhando mais uma vez de dez-a-zero em matéria de sexo, nove, ou melhor, dez mesmo e eu resolvi tentar fazer um ponto. Fiz ponto na zona do meretrício da vila próxima.
          Umas mulheres repelentes, fumo álcool aparência. Escolhi a menos feia, que mais tarde se tornou belíssima para mim. A Dória. Era essa que encontrei. Fiz o serviço e me mandei feito um grande vencedor para meu lar honrado. Ao ver a Maria, saí correndo para chorar no canavial, homem não chora, eu achava hoje não penso mais assim. A consciência cobradora me azucrinou dias. Lutei, mui esperneei contra ela, calei-a um pouco e poucos dias depois, olhe eu de novo nos braços da Dória.
          Assim teve início a vida de duas vidas. Agora eu aprendia a mentir melhor, a dissimular, a enganar. Supunha estar empatando com a Maria, nos dez a dez. Ela parecia andar desconfiada; decerto o sexto sentido feminino lhe avisou de minhas andanças e atrapalhadas. O fato é que não chegava a me vigiar mas punha sempre um ponto de interrogação nas afirmativas que eu fizesse. De minha parte, a cabeça cheias de pecados, não tinha força para responder à altura e inventava qualquer saída, o ‘trabalho’ sempre amigo dessas horas difíceis... O tempo se foi acumulando.
          Um mês um ano um tempão incalculável. Eu era mais eu porque não era mais eu. Havia mudado, virado um esposo como muitíssimos que se encontram por aí. Acho que perdia qualidade. A meus próprios olhos não passava de um condenado ou apenas condenável. Nem por isso deixava a Dória.
          Ela engordava mais, eu sempre magro, apreciava as mulheres cheiinhas, enquanto a Maria andava que era carne-seca e preocupada, rabugenta embora moça ainda, as meninas num ‘brigueiro’ sem fim, o patrão me enchendo pra valer, fiz o que sabia fazer: mudei-me, impus a correria outra vez para a família, fomos de vez para a cidade; dali nos mudamos novamente para outra cidade, agora uma cidade grande, a capital, onde tudo ocorreu. Tudo em nome do amor, do amor que eu pensava ter pela Dória.
          Tudinho girava na minha cabeça em torno da amante, mesmo as mudanças que obrigara meus familiares fazer nos últimos tempos o fizera em função dela. Querendo se ‘limpar’, a pobre Dória arranjou um emprego na cidade e daí por diante ela trocava de emprego como queria, eu indo atrás feito besta, a levar comigo a mudança e a insatisfação de minha gente. Um dia propôs-me a moça montar casa para ela na capital. Obedeci.
          Começaram as encrencas maiores de minha vida, Seu Zé: ela não me largava mais! quer dizer, eu é que não largava mais dela. Dois sem-vergonha... Passei tirar mesmo o pão da boca de minhas adoradas crianças para encher a Dória de bugigangas; não comprava coisas caras para ela porque não podia, meu ganho era limitadíssimo. Cheguei a uma conclusão estranha.
          A conclusão: a amásia me queria realmente, eu me envaidecia com isso. Lisonjeado, forte emocionalmente (pensava eu) fui pondo a Maria para escanteio, era mais uma visita à família que morador da casa; já não punha comida no lar e passei a atrasar e depois negar pagamento até de impostos de água de luz – um autêntico cafajeste eu me tornara. Agora não me importava que a Maria me pegasse bilhetinhos de meu amor nos bolsos. Cheguei forçar a coisa, deixando de propósito uma foto de Dória nua no paletó apenas para a esposa achar. Foi um encontro do desencontro! Ela me desfeiteou chorou xingou-me até a mãe, que nada teria que ver com minhas safadezas. Eu o culpado realmente da situação, tinha mesmo conscientemente forçado a situação para brigar de vez com a Maria e a ter pé para, quem sabe, santificar uma saída do lar. Um cafajeste completo!
          Todavia eu não pensava ser errado, justificava tudo. Como não conseguia me desembaraçar da Maria, abri o jogo, contei tudinho para ela; fiz mais: mostrei fotografias pornográficas nas quais eu estava com a amante! eu havia perdido de uma vez a vergonha. Passei a ter duas famílias.
          Vivia mais com a Dória e tolerava a Maria, para ver as meninas de vez em quando. Daí piorou: deixei de contribuir com o lar e tentei ainda vender a residência financiada pelo banco, comprada com dificuldade e agora tendo prestações no atraso. A Maria deu duro brigou insistiu e não assinou a venda, firme nos direitos pela comunhão de bens. Passei vergonha diante do comprador e rompi o negócio, rompendo também por três meses com a família.
          Começaram minhas férias. Quase não trabalhava, só trabalhando quando acabava o dinheiro que Dória me pedia; chegando inclusive às vezes a aceitar uns trocados vindos do trabalho dela. Vivia com ela pra lá e pra cá. Vendi o carro (estivera bem na época) para comprar uma motocicleta mais barata e aí passeava com a amante na garupa feito um bói, de óculos escuros e tudo. Assim fiz chorar até minha filha mais velha, que vendo o abuso do pai voltou pra casa a lamentar para mãe. Eu havia amortecido a consciência para melhor gozar as minhas merecidas férias; eu achava merecidas. Apodreceu minha relação com as meninas: elas já não queriam me ver. Mais para diante as duas mais moças, agora haviam virado mocinhas de verdade, elas me odiavam! passei a sentir na carne os meus desatinos.
          Pensei repensei, tirei as conclusões e tomei o compromisso comigo mesmo de voltar a ser o que era. Já não era mais... Era sim um apenso de Dória. A custo me desvencilhei desta.
          Voltei chateado para a Maria, propus acordo, a boa senhora me aceitou, embora de orelhas em pé. As filhas não. Eu entrava, elas saíam de casa. Envergonhadas, perdi minhas meninas de uma vez. Isso me matou, me tem matado dia após dia! Tentei reconciliação com os familiares mais distantes, da linha de sangue e da geográfica. As cartas se cruzaram, vieram os perdões, minha mãe a primeira a entender; as filhas continuavam brigadas comigo. Aos poucos a mais velha mostrou qualquer complacência, as outras ficaram impassíveis, até condenando a mãe por ter voltado atrás e perdoado o traidor. Comprei geladeira nova para a Maria e coisiquitas mais. No entanto a sombra permanecia na casa.
          Fora de casa Dória me cercava por todos os lados e todos os lugares, obsessora. Mudou para o interior, voltou e não me largava. Dizia amores, prometia lealdade, se enfeitava, às vezes forçava e até ultimamente ameaçava inclusive me aparecer lá na casa, o lar de minhas filhas. Andava eu no mato sem saída. Minha casa era gelada para mim, enquanto que a amante me ofertava o calor e a compreensão...
          Rompi de novo com a família, mais precisamente com a minha Maria magricela; não briguei, conversei, negociei e mudei-me para a Dória. Fiz com a Maria um acordo, deixava mais da metade dos bens, levei o resto para um quartinho alugado; de onde ia visitar sempre a amada. Sentia-me assim como que deflorado. Estranho isso, não é Seu Zé? Era dessa maneira que me sentia após tantos transtornos. Eu não era mais sequer metade de mim. Agora me sentindo um fracalhão; e parti para o que pior ainda poderia me acontecer: a bebida...
          Na verdade não comecei a beber, continuei. Já fazia tempão tomava uns tragos, bebia com os amigos, cerveja é que não faltava, ganhava bem gastava melhor. Passei a aumentar gastos. Então voltei-me para a bebida a fim de apagar meu anuviado dia.
          Não sentindo tanta atração como antes por Dória, acho que no fundo pretendia morar em casa, ter novamente a família e, quem sabe, uma velhice digna, não sei bem o que pensava, procurando mesmo nem pensar. Durante uma crise emocional por que passei então, evitei a amásia, muitas vezes a evitei. Perdi a parada...
          Ela não aceitava mais migalhas, se aferrava no me querer, exigir até, chorava, reclamava, eu fugia. Mas perdi de uma vez o jogo da vida: ela grudou-se mais e mais a mim. Agora me perseguindo inclusive, ia xeretar no meu serviço, mandava recados por meus amigos e conhecidos, ia me procurar, ver se eu estava com a Maria, tinha ciúmes de minha legítima esposa. E não me encontrava lá, eu era no lar persona non grata. Quase me escondia, se possível fosse me esconderia dessa mulher. Fugia ainda mais para a bebida. Infelizmente para mim passava um período bom de saúde.
          Não se espante Seu Zé, não errei, achei mal estar bem de saúde. É que quando o fígado brigava comigo eu não podia beber; agora ele ajudava e eu me perdia na bebida. Depois piorou. Se fosse possível! Não, era realmente possível ficar mais ruim a minha pobre e miserável situação.
          Deixei a cerveja cara, optei pela cachaça. E, posteriormente ao problema que irei contar, caí nas bebidas mais destruidoras na qualidade e na quantidade: passava dias inteiros a curtir conhaque, bebia litros! Acontece que precisava, achava precisar, fugir de mim mesmo. Esse o pior que lhe disse, Seu Zé. E tendo um porém horrível no meio...
          Creio, amigo, que estou no ponto mais horroroso da minha narrativa. Acredito mesmo precisar de muita força para dizer tudo tim-tim por tim-tim. Quem sabe nem consiga mostrar tudinho. Assim mesmo o senhor vai se surpreender.
          Dória continuava me fustigando e ameaçando se mostrar para os meus, caso eu não me definisse por ela, então numa ciumeira danada. Cedi a ela, na verdade só aparência, pois havia formulado um hediondo plano para acabar de vez com tudo.
          Falei à mulher sofrida (era realmente sofrida, perdera os pais e fora criada por pessoas que abusaram frequentemente dela e depois foi atirada no meretrício, lugar de exploração por excelência de infelizes jovens – assim peguei-a já numa adiantada situação de sofrimento e descrença): Dória, eu lhe quero muito e vou morar com você; vamos comemorar nossas bodas fazendo a lua de mel. Aceitou, pôs sua trouxa no carro, um Fiat velho que ainda não havia jogado fora como mais tarde faria com todos bens; fomos para a estrada. Viajamos toda a tarde, entramos noite a dentro, eu sempre a lhe repetir que o destino era surpresa de núpcias, ela sorrindo esperançosa. Aí pelas dez da noite, num deserto escuro e frio parei o automóvel, o motor ainda funcionando, saquei minha querida garrucha, estourei a cabeça dela! Trêmulo mas consciente, meti pé na estrada uma hora; depois juntei aquele cadáver sangrento, puxei pra fora, cavei um buracão fundo, joguei ela dentro, entupi, esparramei galhos e folhas por cima, limpei como pude o carro, liguei, acelerei, fugi. Não fugi de mim mesmo...
          Eliminei qualquer vestígio do sangue comprometedor, joguei os restos e objetos da fulana, virei outro homem. Pensei haver virado: continuei eu mesmo, piorado!
          Seu Zé, não conte pra ninguém. Mas este molambo à sua frente tem essa história que o senhor ouviu. No entanto não parou aí meu sofrimento não... Começou outra história, também ou até mais dramática. Vou apenas resumir.
          Meses depois arranjei a Marilda, o senhor conhece a Marilda. Pois é, não sou homem de poder ficar sem fêmea. Ela não é tão bonita, porém excelente companheira. Saiba, é ela que evitou que eu me destrinchasse todo: me deu conselhos, me ajudou, me tolerou, me recolheu da rua, eu vivia como um cachorro sem dono; me fez sentir gente. Passei a trabalhar com dignidade dum ser humano; até o filhinho dela passou a me chamar pai, o que me engrandeceu bastante, nunca tive filho-homem agora tenho. Ela trabalha fora, eu trabalho lá na minha oficina, a gente vai vivendo. Até consegui aproximação com a Joana, agora adulta por conta dos sofrimentos que causei à minha casa sobretudo à Maria. Esta inclusive aceitou conversar comigo; e fico aqui a pensar: como mulher é um bicho tolerante! que Deus ajude as mulheres, elas são formidáveis. Os meus ainda resistem na capital, na mesma residência que eu quisera jogar fora e a Maria não deixou. Me animei até a ajudar o pouco que posso a Joaninha nas despesas da casa; as outras, como falei, continuam a me enjeitarem. Que fazer? Devo meu reerguimento e o que possuo à Marilda, o senhor bem sabe disso. Uma coisa entretanto ela ainda não deu jeito.
          O quê? de vez em quando me dá a crise de afundamento, mergulho na bebida, a fugir de Dória, ela não me dá descanso, me aparece no sonho, me aparece desperto mesmo, cobrando cobrando cobrando! e para fugir das besteiras que fiz com meus parentes todos. Eu próprio me condeno. Volto do trabalho cansado, pregado, janto a comidinha da Marilda, tem dia que nem como, ela entende, me leva para a cama, eu bebo mais, ela tenta impedir eu bebo mesmo assim, me apago na noite de mim mesmo, me escondo nas nuvens escuras do meu inferno! Ela entende, me carinha. No outro dia já posso esquecer algumas horas que eu sou eu, afugento alguns fugidios instantes de cobrança da vítima que eu produzi. Viro gente, compro, vendo, converso, fofoco, torno à Marilda.
          Encontro minha Dória me escarnecendo. Começa nova guerra, afogo tudo na bebida. Se não fosse a boa Marilda, estaria com certeza na sarjeta. Talvez inclusive sem saudades de mim mesmo. Eu não sou eu, Seu Zé.
Ribeirão Preto   julho  1994





20.  Ômi Holmes

          Tudo começou por mera curiosidade... aquela? outra, aquela outra da vizinha imaginar mil verdades sobre mim; e pior divulgar sua interpretação. Uns que o ômi chamado João; vulgares pronunciam “ômi” por homem, um homem desconhecido e de nome também desconhecido, este que para meu azar sou eu; outros dizem seu Zé e ainda Francisco e teve um abusado, abusada sendo mulher, a me tratar para distinguir doutros vizinhos “Ominho”. Parei com ela, inclusive ela sim acho ser mulherzinha e por ser mui falada tratá-la-ia nisso anã, não trato não falo não converso com gente desse tipo no bairro, preferindo o centro culto onde intelectuais e intelectuais de carreira trabalham ou moram. Mas tudo por causa da caminhoneta prateada nova – e posso desde já garantir: misteriosa – uma quase sempre escondida na garagem precária dos pais. Claro, não os genitores do veículo, são os fabricantes a Volkswagen, o ano nem sei sei não ser eu entendido, com certeza novo o carro.
          Falei cá com meus botões (curioso atribuir-se orelhas aos botões; garanto os meus serem mudos, o que enorme lição aos humanos os quais falam além do que devem...) Falei, aí tem dente de coelho, existe um ditado nesses termos a açular o interesse das pessoas. A minha curiosidade garanto é sim doentia.
       De maneira que me pus como verdadeiro detetive a pesquisar a destrinchar o imbróglio; a mim parece uma charada ou mal formulada ou bem apresentada a iludir trouxas e inocentes; entre os quais não me enquadro graças a Deus.
       Assim iniciei meu trabalho de caça ao tesouro. O tesouro, a sabedoria chegando ao cerne da questão que envolve tal camioneta e seu esquivo proprietário, caso seja mesmo o dono.
       Ah também advirto por minha posição favorecida na investigação, residindo aqui neste imóvel bem defronte ao dos pais dele e dele por extensão. Já dito haver um espaço adaptado como garagem ali na frente. Lembro igualmente morar nesta rua há mais de dez anos, onze pra ser exato. Isto posto fica esclarecido poder melhor que outrem observar o pomo da questão e as possíveis falcatruas. ‘Possíveis’ porque um bom pesquisador não despreza pequenos e até insignificantes quesitos como não despreza a verdade mostrada a todos bem como as interrogações que se coloca nas partes nebulosas... Não se despreza nem estas dúvidas possíveis e muito menos as certezas inquestionáveis.
       Isto porque a evidência de algumas parcelas do todo são flagrantes neste caso – me arrisco afirmar caso policial se bem minha posição nada oficial mas oficiosa talvez e realmente detetivesca, embora sem usar instrumentos precisos e preciosos a apurar – flagrantes os quais relaciono e sigo palmo a palmo com olhos de observador. O homem, um rapaz magro imberbe de fala fina; seu carro cor prata; seus amigos... ai! aqui lembro o dizer popular “com amigo assim, inimigo pra quê?’ uso do linguajar e de expressões suspeitos apesar comuns enfim aos moços nesta época, como ‘mano’ ‘mina’ ‘bagulho’ num dialeto a quase precisar um dicionário de gíria para entendimento e acompanhá-los. Acresço mais um dado básico: a fonte oficial dos recursos e a pobreza com endividamento da família. Poria nisto ainda a inconstância amorosa do sujeito – não ferindo especialmente o rapaz, o geral sendo o macho inconstante na espécie, enquanto a mulher mais equilibrada nos sentimentos, me parecendo bem mais homem a mulher que o próprio homem na espécie – em resumo sobra desconforto à mãe, a qual demonstra que Ju, a genitora assim o apelida mas Juliano da Silva, creio; Ju, afirma a senhora, é homem feito, feito porém menino não apenas na voz que não engrossou. Isto não entra no relato, é um lembrete a ajudar explicar o porquê dele ser, creio ainda creio, ser manuseado por outrem. Outrem na coisa é o traficante. Não um: a hierarquia que desova e desagua no último entre cobradores e nele que deve pagar o que deve; deve bastante no que a observação ‘sherloqueana’ observa...
       Enfim o que descobri neste trabalho: haver um tipo chamado “avião”, Ju, quer dizer elemento de ligação na distribuição de drogas; nada das da elite, aquelas populares como a maconha e o crack, do povão ignorante faminto desempregado. Com o corolário das dívidas (a tese do brasileiro bom pagador é figurada e furada, basta ver tevê) tais dívidas às vezes impagáveis e a próxima fase é assim mesmo cobrança e posterior eliminação dos seres comprometidos com as suas.
       Contudo o que descobri de fato neste trabalho sem lupa na qualidade de investigador ‘sherloqueano’ repito mas não profeta, além de haver o prateado na caminhonete? Que o menino se julgando homem maduro como todos jovens, que o sujeito não para num emprego decente, nestes dias trabalha como auxiliar de pedreiro com ganho irrisório e sem registro. Agora, aqui o milagre: com tal minguada receita compra carro último tipo, usa as melhores oficinas, lava encera lustra e passeia todos dias, todas noites o dia é da massa da cal do cimento da areia do suor... Passeia saindo com gente estranha e mal encarada, a qual por vezes lhe passando por telefone celular ordens taxativas ou subentendidas, com atos escondidos ou ignorados. Que os familiares lamentam junto seus vizinhos o membro macho herdeiro não colaborar na casa, antes tomando empréstimos esquecidos com os pais pobres para... Ora para quê!?
Marília   dezembro  2012





21. O Amor que Fugiu

          Vou insistir, pois o colega me parece curto de ouvido, queira não se ofender com isso, visto não me dar a entender entender. Repito: o doutor é um assassino; irá nos matar a ambos como o fez com outros que passaram por esta jaula... Um saiu desamarrado preso como nós; saiu sangrando e já nem falava mais, antes uivava qual cachorro perdido. Não obstante estamos achados...
          De fato, os facínoras do médico sabem onde nos encontrar. Vêm nos dar ração, água nos atira às vezes na cara e ficamos a passar sede, embora maior sede seja a da liberdade... Quanto tempo andamos feitos feras na cela! já perdi a noção, meço tempo pela barba aqui no peito e faço meus cálculos por dezenas de anos. Você é imberbe – será também surdo! – a minha cresceu a cada encolhimento de meu ser. Debalde tento avistar o sol lá fora na janelinha gradeada e mui estreita em cima.
          Agora ando mais calmo. Se calma for aceitação, se calma for a indiferença, se calma for não precisar mais da camisa de força do início. Olho vejo observo, nada falo.
          Contudo, se me tiver em conta as palavras, narro minha desdita, que é minha história; quem sabe se não a sua.
          Um belo dia (que expressão mais idiota!) um dia fui abordado na rua; sedado calado trazido trancado neste tugúrio infecto e fedorento. Então era um rapaz bonito; ela me achava belo; planejávamos até casamento, embora isto contrariasse a família do doutor, meu futuro sogro. De concreto sabia possuir ele um hospital, este hospital, e ser rico – a clientela, os pacientes, deixava nos cofres um tesouro incalculável nas suas mãos. Inclusive seria, era, ao doutor, uma oportunidade fazer por desfastio aqui experiências nas cobaias humanas, assim como nós agora. No meu caso com certa razão por ser eu um pé-rapado e desejar a princesa. Minha amada era então belíssima e se trajava ao gosto dos tronos. Filha única rica e prometida a um figurão político, igualmente riquíssimo; com possibilidade juntar heranças, coisa de ricaços, porque pobre anexa só misérias.
          Nós, os namorados, pensávamos doutra maneira. Ao jovem conta o amor a querência; eu os abraços e a presença.
          Estudávamos uma forma de união de nossos corações. Aqui lembro um ditado popular ‘o amor é cego’. Mas o coração enxerga bem. Pensamos inclusive fugir; o de costume na época, na qual após a fuga e a gravidez as famílias aceitando por não haver mais saída nem volta. Habitualmente se apegam os familiares ao neto vindo desse amor ilícito e assim santifica-se uma relação.
          Claro, não esperaria de meu sogro, futuro sogro, não aguardaria amizade; talvez da sogra, menos exigente.
          No entanto fui abordado certa noite fria. Os lacaios me aplicaram injeções: acordei aqui em camisa de força como já afirmei.
          Dessa data, da qual meus miolos não podem precisar mais, daí por diante vivi, digo: ‘vivi’ nesta lama. Nos primeiros tempos sofri horrores, andei a sangrar e a receber açoites e venenos a fim de me corroer, matar-me lentamente. Garanto: agora não passo dum morto, um vivo-morto. E, curiosamente, deixo agora mais e mais o desejo à liberdade: quase anseio pela crise de morte...
          Aliás não tenho escolha.
          Você também não. Não responde não interfere não se defende sequer. Outro dia os guardas vociferaram, não como alguns condenados a gritar noutras jaulas, mas vociferaram eu estar narrando minhas “besteiras” disseram; sou contador de bobagens assim eles me qualificam... Disseram que você é surdo, acresço: deve ser também mudo.
          É nesses lances esporádicos dizerem que o doutor se livrou do pretensioso namorado da filha, com uma simples ponta de agulha; informando que falaram à princesa que eu fugira ao compromisso e sumira no mundo. Me disseram, a gozar-me e me ofender, que ela já casada e possuindo um filho lindo igual a mãe. O que me doeu enormemente e magoou o coração...
          Será que não têm eles razão. Não pelo que contaram sobre o doutor mais lunático do que nós, não. De você ser realmente um surdo?
Marília   março  2009





22. Desconhecimento Desconhecido

          Nós... quem somos nós! talvez nem sejamos ou sejamos sim mas não nós, nós mesmos!? Não sabia de fato responder, não poderia sequer delinear meia dúzia de vocábulos adequados à compreensão. Aliás, pergunta-se, quem indaga? não saberia também.
          Contudo e sem sombra de dúvidas andavam todos no cemitério.
          Isto prosaico demais, demais onde todos indo um dia ou como visita ou em morada que se supõe definitiva.
          Era então o aparato o cerimonial, cerimonial fúnebre bem neste mal, o inusitado inclusive pois quem a prever tudo de tudo; tudo nos conformes enfim. No fim da rua, após a avenida, depois da alameda esta viçosa aquela não miserável porém na pobreza vê-se. Vasos tombados (não pelo patrimônio histórico o qual se detivera em não perder a memória aos vivos seus mortos ricos com opulentas capelas e belíssima estatuária o fausto em suma à indigência da história de um povo novo velho e quase sem lembrança nem registro). Sim vasos tombados caídos entre ervas daninhas através das rachaduras e das flores; flores? umas no mau gosto de lata de ferro enferrujado baratas – as naturais plantadas o tempo a intempérie secando havendo secado. E havia muita espremeção, nunca se sabendo como conseguem pôr por entremeio outros túmulos tumbas mais as mais estranhas e esdrúxulas realmente. E havia claro gente.
          Gente viva. Viva a gente morta! exclamar-se-ia houvesse pobre, pobre da rua da rua pobre fora do circuito dessa metrópole morta como a necrópole cercada por chorões de pinheiros arcados ao vento e melhormente cercada por muro qual muralha medieval no moderno entender. Junção do vivo, viva a morte. Todos.
          Reunem-se ao adeus, à terra, aos sete mentirosos palmos, palmas para o sete.
          Aqui jaz o soldado desconhecido.
          Agora se visita quem visita, é visita ao túmulo do soldado desconhecido conhecido de tanto se lembrar nas solenidades. Então se depositam flores e coroas e se constrangem e todos olham, olham até as câmeras nada atrevidas da tevê porém sim não são desinteressadas. E havendo outros.
          Os outros são um sem-número, mais de cem, e é claro neste escuro parentes e amigos.
          Mamãe desconhecida chora a verter lágrimas quem perto longe no pensar. Tem titio, titio desconhecido, tem outros mais, mais desconhecidos ainda; ainda contam-se os amigos (aí dando pra contar nos dedos, os quais na melhor dessa pior é a hipótese de haver nascido com seis dedos não chegando a sete, o sete seria mentira).
          Amigo desconhecido e desconhecido do amigo. Não obstante soma e até se contabiliza em lucros & perdas.
          Tem o irmão desconhecido, conhecido somente o número, o número indo além de seis bilhões e mais um pouco por pouco não caindo na estatística, ela também mentirosa quanto seus aleatórios números, ela em cifras imponentes.
          Tem o irmão, tem o pai, tem a mãe, tem mãe ou não tem; ora pai admite-se mãe não se pode omitir – todos eles bem desconhecidos.
          Desconhecidos, irmãos, diz o pároco a benzer a solenidade e se benzem; ainda se benzem fazendo cruzinhas ao sair da fortaleza (pra quê se morto não foge... ah tem os ladrões, fechemos a boca).
          Fechemos igualmente esta desconhecida estória.
Marília   maio  2009





23. Ótica da Violência

       O interessante nesta crônica é a crônica visão do escriba nos desastres morais que se dão hoje e que já se davam ontem, a condenar e mais condenar abusos de outrem – disse condenar, não discursar contra ou a favor – condenar realmente nas milhares de linhas escritas, quiçá publicadas ou escondidas a sete chaves; enfim a defender seu ponto de vista. Ou então a sofrer sozinho sem lamentar e sem que o drama da violência suma das ruas um dia.
       Não obstante não é o ver do personagem deste conto; conto longe ser do vigário pois a tapeação ou engano vindos do curto sentido humano na questão da vindita, a qual lavaria a honra e a vergonha. Portanto não tem, descobrir-se-á logo, um pensamento religioso assentado pelo então personagem nas coisas que fez (não faz mais, vivo) nas que pensou certo ou ser certo no errado dos outros.
       Assim ele chegou no lar... esbaforido seria dose visto constatarmos sua autodisciplina e até planejamento de um crime. Um? nunca um sequer no planeta sofre a solidão, não apenas porque crime gera crime como resposta mas porque engendra outros paralelos, num ferir quem ferir e os melindres feridos em quem atingir e por envolvimento ou por interpretação externa (também curta pois o autor defende que os meandros sempre sejam da conta do que fere sim, porém sendo da absoluta interpretação divina e não da pobreza do entendimento humano). Conclusão, preliminar embora, o personagem um ser metódico e quase autodeterminado. As falhas do homem, nunca havendo o perfeito, interferem a dizerem não existir autocontrole num criminoso.
       Porque o personagem é um criminoso.
       Desses que alimentam a imprensa em sábado sem notícia? Quase assim. Planejou meticulosamente seus atos de vingança e talvez não seja abusivo falar que projetou inclusive alimentar a tevê o rádio o jornal a internet, caso viessem clamar por sangue no sábado de acontecimentos prosaicos.
       Chegou ao lar, não certa mansão nos jardins de cidade grande, casa rica e um pouco isolada das outras residências de posses no conjunto habitacional de média classe; claro com aparato cerca elétrica muro parecendo muralha, mastins não: havia tão só o cachorrão daqueles bobos que só abanam alegrias aos meninos da casa e eventualmente ladram quem passar na rua, onde circulam carros de executivos na crise. Área com seguranças ostensivos também não, sim com alarmes escondidos.
       O lar quase fortaleza, quieto se não silencioso fora o latir do defensor bobo para divertir o casal de filhos, a menina grande para os cinco anos e o machinho pouco mais que iniciando andar. Quieto porém triste, porque a senhora, mulher bonita apesar de tristonha e afundada nas suas contradições. Exato assim quando chega imprevistamente o esposo.
       Entra na propriedade, apazigua o abuso dos sentimentos do cão, o qual quer-lhe lamber e botar as patas no peito do amo; após, sem ao menos beijar as crianças despacha as mesmas às imediações, dá-lhes um papel escrito e diz entregá-lo para o vizinho xis; paga-lhes o serviço com umas notas pequenas a fim de comprarem doces; a filha ainda pede esclarecimento se poderão adquirir chocolate, o que aceito nos meneados apressados do genitor, este já mostrando preocupação e suando. Saem os pequenos, ainda o homem recomenda de longe cuidado no atravessar aquela via mais ou menos pública do conjunto residencial. Nessa altura ainda exalam os cheiros de combustível do automóvel ali entremeio a garagem e a entrada daquela rua.
       Entra por fim na casa, vai ao quarto, encontra a esposa inclinada sentada cansada ou aturdida nos pés da cama do casal. Porta fechada sussurro ouvido não escutado por ninguém próximo, sequer pelas empregadas não havendo as mesmas ainda chegado à rotina. Discutem, primeiro alto depois semiabafado; e logo um silêncio quase sepulcral...
       Agora a companheira miúda qual bibelô encontra-se amarrada e amordaçada por aquele brutamontes. Só ele fala, baixo. Diz não suportar traição; vai além e conclui ter vindo do trabalho (nisso o celular oferece a voz manhosa da secretária; responde sincopado passar a funcionária o serviço ao doutor zê ou para o doutor ípsilon; desliga amordaçando igualmente o aparelho; retoma:) diz ter vindo do escritório mas que antes de chegar executara o amor do seu amor, o pai do casalzinho. E que agora ali está a completar a obra...
       A mulher se mexe se remexe se retorce se arregala e após amolece e aguarda.
       O homem mostra a lâmina, experimenta o fio num dos braços da vítima, brancos cuidados a cosméticos; sangra. Logo pratica devagar e meticulosamente o serviço, cujo resultado são montões de pedaços ensanguentados. Olha por final a sua obra.
       E completa de vez a obra, aí com um tiro certeiro nos próprios miolos.
       É o quadro que as autoridades encontram, vindas com o chamado do vizinho que recebera a comunicação pelos meninos, estes que não souberam ler o rápido texto porém cumpriram a ordem paterna.
       Isolada a residência, afugentados ou controlados os curiosos; vem o comentário do homem da rua espreitando a imprensa se movimentar e câmaras com holofotes hávidos no fim de semana; esse comentário gira em torno de haver vingança, com prós e contras. Enquanto parentes e amigos a falar baixo, alguns a verter lágrimas concedendo entrevista.
Marília   dezembro  2012





24. Defuntaria

          Já que estamos mesmo falando em defunto – disse o vivo, vivo a se pensar espertalhão quem sabe um virtuose na sua arte – então veja este aqui...
          O amigo olhou se olhou primeiro depois viu o cadáver, exposto, paciente na sua longa espera (longa na opinião de parentes esperando) olhou notou cobrou mais atenção ao ver o outro em desmanche e o amigo na tarefa; e achou lindo de morrer talvez mas não comentou seu próprio pensar, riu, num risinho que não dizia nada tudo a entender na longa amizade. O profissional prosseguiu.
          Este foi orgulhoso. Quer dizer, meu pai quando não tinha largado a mãe ainda nos dizia sempre conhecer o homem desde criança e ser ele orgulhosíssimo e cheio de nhe-nhe-nhem. Enricou atrapalhou-se empobreceu envelheceu enrugou sofreu morreu, interno na saúde pública, curtindo filas e filas só não ficando na fila anos agora porque apodrecendo ninguém deixa muito tempo o corpo – está aqui no preparo.
          O outro, o outro vivo a ser claro, o amigo fez “hum” que não quer dizer nada além de estar vivo, num movimento como provar vida. Daí o defunteiro continuou.
          Veja (viu ou só olhou) veja aqui esta dentadura postiça (o outro quis interpor “prótese” por dentista ou sofredor na cadeira do consultório... No entanto somente raspou a garganta e fixou a dupla, isto é o amigo e o soma da soma de sofrimento agora decerto sem sofrer pelo menos quieto). Antes ela encaixava bem, ou para melhor dizer, comentou, a dizer que o vi um dia chocalhá-la na boca e fazendo aquele movimento nojento com a língua ora socando a de cima pra cima ora a de baixo pra baixo quiçá com ajuda do indicador, o qual este cadáver vivo usando para outros fins também... Pois digo: não quer acomodar-se o dente no bruto!
          Veja (‘reolhou’ ou só viu de relance não preocupado com a ‘medonhice’ daquele ridículo espetáculo) veja bem as pernas magras do freguês aqui, antes a correr atrás de seus bens ou a abocanhar os dos outros ou apenas a fim de lutar pela vida, agora sem vida. Não vê meros cambitos e espetos de carne sem carne só ossos! Acredite meu caro, faleceu com uma encolhida a outra esticada e o resultado está aqui: precisei quebrar a encolhida para soltar e caber depois no caixão. Enquanto quentinho, bem, mas frio o corpo só quebrando; o que importa pouco aos olhos lacrimosos ou não no velório... Digo, ficará bonitinho vistoso o manhoso ser, ex-manhoso.
          Veja aqui a barriga, um ventre de mil cervejas; agora no fim o médico proibira álcool – os parentes dizem que o tomava puro às escondidas e isto não sei se verdadeiro – agora murchada e como nota apenas pelancas e sobras nas faltas. Tive de espremer abrir rasgar enxer com algodão... e aplicar milzinhas soluções como observa nos frascos vazios aqui nesta mesa.
          Veja o resto do resto que restou do que fora um grande homem. Por sinal volumoso nas carnes hoje somente no esqueleto e pele.
          Veja agora – agora se interessando o amigo do amigo defunteiro – veja as peças da roupa que a família mandou à funerária vestir seu querido. Pode até achá-las bonitas e na moda; acho as mesmas de horrível gosto... tudo bem. Me responda como pô-las-ei no sujeito! Enfim dá-se um jeito. Mesmo porque quase apenas perceberão o rosto sofrido ‘abonitado’ aqui nesta sala de maquiagem; observarão um pouco a parte de cima o restante coberto por flores, as flores que por sinal nunca atraíram o morto vivo...
          Veja nisto que segundo os de seu meio ele não passando do homem da rua, o comum dos mortais na abastança e na quase penúria antes da miséria de sua morte.
          É agora um cadáver mostrando o comum. Tão só para distingui-lo na sala do velório que será luxuosa, o que não me parece ocorrerá, ou pobre nos adereços da riqueza...
          Termino o serviço no meu ofício.
          Que acha? A terra melhor achará.
          (Sorriram ambos, o objeto a continuar calado).
Marília   maio  2009



25.  A Viagem? a Mudança

          Um senhor gasto, isto para não dizer numa sociedade viciada temente à verdade um velho. Cansado? exato, cansado. O ramerrão a rotina o dia a dia o todo dia; e decerto a carga dos anos, os anos que foram durante os tempos quase imemoriais janeiros alegres em soma e agora não passando de soma dos dolorosos dezembros nada sorrateiros e sim ostensivos. Enfim no ponto a conscientizar necessitar descansar, parar quem sabe. É isso próprio à condição de aposentado, sua condição. Ah o descanso. Não ia além: desejava fugir da violência no seu bairro – excesso de barulho, interferência de palpites vizinhos e sobretudo a baderna jovem com suas motos com suas reuniões com suas arruaças com suas bebedeiras com suas drogas, as quais alimentam o noticiário televisivo de nossos dias, estando o sujeito ainda dentro de nossos dias naqueles dias. Em suma precisando fugir disso e doutros tormentos. Foi daí que se lembrou duma viagem.
          Qualquer. Fizera ao longo da existência já mui outras. Fotografara e cronicara mil locais turísticos. Agora, nessa, coroaria o saber. Ora, se não o saber um deslocamento fora de casa traz fatalmente conhecimento. Nesses termos pensava.
          Então saiu por aí a verificar outras presenças com sua presença. Se bem aqui um mal pois não sendo do seu ser mostrar presença, mostrar-se; era mais por observar. No geral nas suas viagens deixava que outrem desse seu recado; um pouco por não desejar estar na berlinda; tem gente, ao contrário, que faz questão gritar e estardalhaçar se preciso para chamar atenção...
          Assim encontra-se num local, claro longe de casa como desejando. Observa o todo, verifica condições, estuda o ambiente, aprecia a beleza ou se ofende com o grosseiro o mal-acabado o rústico; embora também na rusticidade possa haver toques belos ou apreciáveis. Tem pela frente uma avenida, mais bulevar que avenida, visto esta apequenar o que é grande. Conta edificações, se sensibiliza com a estatuária a enfeitar o granito com seu bronze; repara um exemplar de anjo e aqui vai quase às lágrimas se lembrando os ofícios religiosos, ele um católico fervoroso, não apenas desses frequentadores de missa de corpo presente e que criticam a carolice alheia. Portanto sente no coração aquela lembrança de sua própria vivência e com isso se alegra deveras. Nota o carinho pelos exemplares botânicos tratados: são arbustos e árvores vetustas, são flores escolhidas educadas, nada que lembre o povão, o povão sem verde na sua rua barulhenta e violenta; nada. Tudo agradável, mesmo o ar que se respira.
          Não ficou nisso, pois quem só veja a luz do belo do edificante do majestoso não terá ideia da sombra. Foi conhecer outro local – eventualmente a fugir do seu, sofrido rotineiro desgastado na pobreza e sobretudo pela pobreza moral.
          Na sombra conheceu, forma abusiva de tratar e ver a epiderme não o cerne das coisas, conheceu se não a miséria a pobreza. Eram ruas mal definidas, sujas, tumultuosas e de aparência mal disfarçada. Além da falta do verde, havendo para ‘compensar’ excesso de entulho e abandono.
          Bem, se falou, se é para viajar, quiçá assentar praça morando definitivo – prefiro a vegetação bela, belas construções; com bom gosto e com arte no conjunto.
          Ia assim nessa discussão entre seus eus na intimidade, quando percebe que já não mais percebe. Nesse ponto, sem possibilidade de voto e de escolha notou estar sendo levado, agora de mudança sem seus cacarecos e móveis e utensílios e bens quase imateriais como livros e discos, levado numa urna do tipo caixa a pregos; sem direito a reclamação, ou por outra: com esse direito sim, sem ser ouvido nas suas exigências ou súplicas.
          Com um pior. Não lhe adiantara viajar a fim de conhecer locais onde pudesse se assentar. Levaram-no para outra área da necrópole, longe de fato da miséria e da sem-gracice do terreno pobre mas longe também da área nobre bela arborizada florida respirável dos milionários – conduziram o morto à revelia para a cova do poder médio da economia de sua classe social.
          Mais não disse; não podia dizer.
          E mais não falaram, indo cada qual aos seus negócios.
          Oh como há negócios entre vivos e ‘vivos’.
Marília   dezembro  2012
26. Exagerado Pai Nosso

          Perdera achara a hora a hora se fora era agora a hora; ora, o governo, aquele ladrão, o governo mudara o relógio do planeta e assim não fosse o despertador de acaso não encontraria a hora. Na hora agá cuspiram-lhe lá de cima embaixo no pau de galinheiro num ploct avisador. Olhou o pardalzito, xingou três gerações de pardais pelo cuspe, acabou a ofensa a esse despertador nem um pouco respeitador do relógio oficial com um xinguinho de nada. Enfim agora acordado, acordado pronto às atividades.
          Se espreguiçou olhou o longe viu o perto enquanto a algazarra das aves miúdas, ‘reolhou’ em cima: e se fosse um albatroz, ou maior ainda a maior ave penada do mundo: o avestruz... Aí apalpou onde o número do ponteiro do passarinho atingiu com acerto o erro. Mesmo assim despejou outro nome feio, agora mais manso com ânimo serenado.
          Se pôs a pensar, falando alto pois o pitecantropo gerador já homem comum e portanto não sabendo pensar só pensar no íntimo porém desandou a falar.
          É sim um ladrão! cobra as mais altas taxas do planeta. Pagarei por obrigado, mas fá-lo-ei com uma praga: oferto ao rei da gatunagem minha sogra, mais de centena de sogras e que me deu à força a esposa que fugiu com o cara do 35! Que fique com as sogras com as mulheres mais feias e ainda com os meninos, aí por passar já de seis bilhões; que o governo sustente os filhos com seis bilhões de mamadeiras. A ingrata fugiu ao lado do bruto, chorei noite toda e por isso ainda perdi a hora na mudança da hora, hora e vez do passarinho.
          Coçou de novo no lugar da cusparadinha a cabeça de pensar e retomou.
          E agora! Exatamente a minha mais bonita; como foi se engraçar com o malandrão do 35. Deixa pra lá, vamos reagir, mesmo na solidão.
          Ajeitou apertou um pouco as vestes, certa pele de onça, ex-onça, e se achou belo forte corajoso cheio de futuro etc. e tal. Com isso, lembrou-se, fiquei para trás; e agora alcançar o meu bando...
          Aí recordou-se haver se esquecido até de urinar. Desapertou na frente da residência número quarenta e quatro, ainda inexistente e inclusive a rua não havia, havia mato apenas; nem se fale trânsito congestionado e multa de trânsito, sequer propina e corrupção no trânsito e não havendo igualmente trânsito em trâmites do governo aquele ladrão. Mijou um lago, do qual escorreu um rio e aí pensou fazer a condução para ir lá longinho ao futuro; visto ter ficado para trás.
          Cavou um tronco, picotou com bico de pedra, queimou o miolo da árvore e poluiu um pouco, o meio ambiente sequer agradeceu nem tendo de quê. Suou demais, teve de abrir mil latas de cerveja a estufar o ventre parecendo grávido (ah maldita fujona e maldito mais ainda o vizinho do 35) e inclusive matou a sede. A piroga estava pronta.
          Embarcou singrou no rio de xixi rumo ao oceano, remou remou e por fim chegou num descampado; longe avistando já sua gente à frente impertinente teimante na sua labuta. Gritou os seus não ouviram ouviu no efeito bumerangue o eco a devolver o barulho de sua solidão. Teve por isso um rompante com ímpeto de medo terror e fúria; por que não dizer de vingança também.
          Então se propôs destruir a tudo, nada mais tendo seu: as mulheres fugidas, verdade que também as sogras e especialmente a mãe da que fugira com o safado do 35 – quebrou tudinho ao redor; matou o trem matou o do 35 matou o governo; arrancou a roupa, ou seja a onça malhada usada sujada estraçalhada puída e sentiu um alívio, qual sentira no esvaziar a bexiga e xingar o passarinho.
          Puxa vida o passarinho! e se fosse avestruz ou quem sabe uma ave dodô que falam fora a maior do planeta... não teria de xingar com um nomão!?
          Coçou a verificar a cabeça onde o alvo do cuspe.     
  Marília   fevereiro  2010





27. O Anjo da Morte  

          Dr.Comum, por extenso Doutor José Comum da Silva, com doutorado e especializações, recursos financeiros imensos guardados a sete chaves nos paraísos fiscais, personagem bem posto tendo clínica nos jardins a faturar horrores – tudo isso não vindo ao caso e fugindo à questão: dentro da questão recebeu visita, visita a bem da verdade desagradável. Aqui na problemática a entrar a visita no palácio na hora inadequada. Não tem esses dias nos quais a gente sente de repente não estar contente, não estar e bem pior: não conscientizar o porquê. Pintava no seu ser na hora de receber o visitante algo que poderia digitar no computadorzinho de lembranças como ciúmes ou só preocupação nisso; que é o estado tal em que tal negamos, temendo a gente mesmo concluir que a mulher da gente é bonita e cobiçada por todos todas reuniões que exige a sociedade. Seria então por ser a visita bela!
          Esta um homem se não belo, belo exemplar, bem vestido, bem cheirando, bem falante... Quer dizer, quase mudo pois é a boca fechada que melhor cala erros porventura a serem cometidos ferindo o purismo da língua.  A rigor as orelhas do anfitrião em potencial eram grosseiras e sua boca proferia anátemas contra o purismo da língua; o que os criados desconheciam, os de fora desconheciam, e mais nesse menos o visitante certamente desconhecia. Tanto assim usarem abusando no formalismo.
          Negócios à parte, Doutora Visita mostrou vir para ficar... longe ser mero visitante a negócios – os quais podendo engordar estufar sobremaneira não o paraíso mas os banqueiros dele. Pra ficar dias meses e que horror anos... isto após ver e ser apresentado à lindíssima consorte daquele já sem sorte dr.Comum, com clínica no jardim e bem de situação dentro e fora do paraíso.
          O visitante era um homem decente, bem posto bem vestido bem tudo enfim. Meia idade ou com idade indefinida, mudo inicialmente destravou diante das belezas do palácio nos jardins e dela no jardim.
          Fizeram apresentação, desnecessário noutros dias noutros meses e mais no ano, não mais que ano a tortura diária dos ciúmes e mais à noite feita para insoniar pensar e não para dormir. Ela dormia no seu quarto, o doutor piormente não dormia dormindo sem dúvida a visita tão próximo ou apenas longe do consorte...
          Quando já passados dias meses no torturante convívio; não: o doutor tratava e era tratado pela doutora visita bem, nos conformes; se não na melosidade segundo criados todavia a criadagem não tem se meter, os palpites e alvitres devem ficar entre criados somente; ou ser exportado talvez a outras importunas visitas sobre as relações da visita ao anfitrião e à mulher bonita de ambos; isto pensar de Comum, não necessariamente comum pensar. Quando já no aniversário dessa chegada e estada inusitada ou inadequada à ciumeira na casa e o doutor não tendo mais sossego para acumular bens nem como depositá-los no paraíso; mesmo porque apertando a fiscalização do fisco – ele também semelhando o povão da rua contra o governo, esse ladrão e corrupto, sendo ambos dessa oposição na hora de criticar e não contra na hora do voto – em suma já no momento de apagar as velinhas parabéns pique e pique pique é hora hora hora... ora, nesse momento o Doutor Visitante se declarou... Seria para se declarar rival do outro! ou outro absurdo que possa ocorrer nas relações das altas camadas sociais, segundo o pensamento dos criados e do povo lá fora querendo enxergar o que se dava dentro? Resumindo, se declarou a visita ao dono, ao horror estampado realmente numas faces belas ali próximo na torcida feminina. Disse:
          x x x  ou cobras e lagartos?
          Antes disso o proprietário da propriedade e da senhora bela olhando horrorizada então – o proprietário ofendeu moralmente a visita, quem sabe desejando o afastamento da mesma para não correr qualquer risco. Ela? sorriu sarcástica, o que ofensa de ofensor a qualquer mortal na posição de vítima inocente. Nesse ponto a vítima empunhou arma ultramoderna, engatilhou premeu desferiu e o projétil atingiu a visita! Claro, todos criados agora diante do barulhão e os inocentes curiosos do bairro chique dos jardins não respeitando os mastins os seguranças os alarmas pra ver da janela o crime, no entanto...
          A bala ultrapassou aquela transparência de corpo bem posto, fazendo o Doutor sorrir ao doutor, até a gargalhar!
          Ainda pasmado o dr.Comum, Comum da Silva mas não seu criado como se fala; ainda pasmo diante ouve o outro: “Sou o Anjo da Morte!”
          Sorri de novo. Enquanto o dono de tudo larga tudo, inclusive a bela; e para que nessa situação ter bela e propriedade e dinheiro nos paraísos fiscais, os paraísos mostrando a língua para o governo? Saiu a correr, atravessou a rua, uma enorme e larga avenida alameda ou bulevar, aí um carrão importado o matou.
          A visita sequer beijou a dama desmaiada ali pertinho; somente abanou a cabeça, devendo ser mesmo cabeça da morte.
Marília   fevereiro  2012



28. O Crime em Maislândia

          O senhor não sabe o quanto tenho sofrido, temos sofrido isso englobando os meus. Os meus? o menino que na época sequer havia nascido, aquele anterior que seria meu primeiro e morreu vivendo apenas mês, por causa decerto da crise que me envolveu e narro agora ao vizinho – bem entendido: narro porque estou observando o senhor e sua família faz mais de ano e agora tenho confiança a passar coisas tão escabrosas.... Tem o garoto e a menina mais nova já andando e chorando. Nessa época sequer achava pudesse mais engravidar, tentara em vão anos; quem sabe se tal crise não disparou minha natureza, daí por diante geramos três filhos; por essa altura sentia como que já a menopausa desistindo ser mãe, então apareceu o que nasceu e faleceu. Sabe, fiquei muitíssimo ruim, médico e tudo o mais; vai ver não podia nas circunstância ser internada hospitalizada, vivendo morrendo me escondendo deles. Englobando entre os meus é claro meu marido e também o resto dos nossos parentes e a gente costuma dizer que os familiares não se entendem, o que uma verdade, mentira que hajam parentes que não briguem. Contudo na hora H, quer dizer no extremo sofrimento e no perigo iminente eles acorrem (embora uns só a correr com medo dar testemunho) acorrem nos auxiliar e foi exatamente o caso. Assim estendo o sofrimento aos meus todos de um modo geral na vivência do problema, que era tão só meu problema, e até perdoo os familiares que fugiram de nós nesse momento triste ou se esconderam... aquele negócio de não testemunhar “não sei” “não vi” “não conheço a pessoa”. Mesmo porque todos correndo perigo e até perigo de morte!
          Dá licença um pouco, juntei o lixo e preciso agora levá-lo para dentro do quintal, meu presidiozinho particular, pôr na lata e depois nas sacolas de supermercado para na segunda-feira o lixeiro levar. Volto já já e prossigo.
          Pois é, vivi o maior drama por causa da crise que chocou Maislândia na década de noventa, aquele do figurão político que o senhor conhece bem, sabemos por aqui ser sua família eleitora dele na prefeitura e na câmara federal. Não sou contra; apenas que só meu esposo votou nele, eu não e aliás sequer voto mais temendo sair na rua, eu não voto apesar lhe dever muito favor... ou por outra: quem deve é ele, ele e sua gente encrencada, eles que me devem favor. Ora, favor não se costuma pagar. Nisto entra o crime que citei e o senhor terá ouvido mil vezes contar por aí e ler no jornal como assunto do dia além de acompanhar na tevê – meses nesta cidade só se falava na coisa. Eu fui chamada a dar entrevista e me neguei, por ordem do patrão, ainda meu empregador nesse tempo, agora não trabalho; trabalho sim pois a mulher quando empregada trabalha fora e muito no lar; hoje apenas trabalho aqui em casa, quando não dopada por excesso de medicamentos pesados, os de tarja preta, recebo muito desses toda semana; recebo porque o doutor José paga ainda o tratamento ao doutor amigo dele numa clínica de sua confiança, a fim de manter minha língua muda... e assim não gastamos tanto na farmácia. Tudo explicado em vista haver participado de certa forma e mesmo garanto haver participado no crime, seja presenciando seja a tentar impedir. Aguarde, logo esclareço também este ponto.
          Enfim mataram o Rafinha, nós da casa, casa da patroa, o tratávamos desse jeito carinhoso – infelizmente morreu.
          Estive a serviço desses ricaços por muitos anos, fiquei lá sete anos e tem gente a dizer que sete é conta de mentiroso; que fazer se permaneci como doméstica nesse emprego os sete e só deixei a residência no assassinato do rapaz, o mais novo deles, inteligência brilhante e promessa, promessa não cumprida porque os assassinos não deixaram cumprir. Verdade que se emaranhara nas drogas arranjara encrencas com traficantes e rivais, vai escutando o senhor. A coisa andava tão feia, horrorosa, que nem o grande político ficava quase no seu próprio lar, sob pretexto cuidar do eleitorado e da campanha. Políticos são sempre iguais, não semelhantes mas tudo o mesmo: em todo lugar vê eleitor e voto e faz propaganda, mesmo na derrota já prepara ‘trabalhando’ à outra eleição porvindoura, até se esquecem dos seus familiares. No caso a questão apodrecida pois naquela casa ninguém se dando, mais brigando e inclusive a usar da violência mais flagrante os tabefes aparecendo. Não falo do casal mesmo porque o senhor sabe divorciado, agora o homem se ligou a outra, uma belezinha nova, a velha ainda bela. Enfim problemas conjugais e aqui neste relato lembro só porque pode explicar ou ajudar na explicação do desentendimento... Afetando a vítima principal, o Rafael.
          Explico neste momento ao senhor, espero não comentar isso com sua esposa, a qual não indo muito com minha cara, ao menos não conversa, conversa com as outras daqui do pedaço e não quer nada comigo. Explico que naquele dia do crime, aliás assim todos dias, chegava eu de bicicleta porque morava lá longe no Baixadão e por isso vindo às vezes atrasada, dona Maria me pegava no pé com razão, a sua razão. Daí cheguei de bicicleta deixei o veículo nos fundos dos quais tinha chave. Notei tudo no silêncio, o menino dormia de mais uma noitada com amigos – e que amigos! quem sabe se melhor não fossem os inimigos... – os outros da casa saíram, a mãe dele viajando nos parentes dela o pai alongado a fazer campanha, por sinal ganhou e pelo crime havido pediu afastamento a se tratar e tratar também de meus negócios, os quais loguinho esclarecerei. O mais velho dos filhos, hoje político influente igual o genitor, esse na faculdade estudando, creio com afinco, sem pôr as mãos no fogo por ele nisso. De maneira que dormia o rapazinho, eu cheguei guardei a bicicleta, no momento carinhava as cadelas...
          Ah vou falar um pouco delas e da situação. Os ricos, por terem muito ganho a perder, os ricos se aprisionam nas mansões, botam cerca elétrica, fazem muro alto, põem portas intransponíveis, colocam cadeados os mais resistentes, e mais olhos eletrônicos e disparos por fios e câmeras, contratam seguranças – resumindo se defendem numa fortaleza! E ainda têm cães bravios desses de sangrar gente e é o caso das cadelas as quais só reconhecem os donos e os empregados próximos como eu nesse caso nessa casa. O que não adiantando porque os criminosos parece que têm parte com o demônio – o senhor sabe que sou evangélica? penso muito e temo satanás e neste crime vejo as mãos de belzebu – o fato é que ladrões entram nos palacetes fortificados e... ora, é só ver na televisão diariamente. Aqui é bem o caso, voltemos às ferozes cadelas do patrão.
          Cheguei, já vieram me lamber, afaguei-as dei comida dei água e... aí notei qualquer coisa errada, inclusive barulho estranho nas imediações, sabendo que o garotão a dormir no seu luxuoso quarto. Pois não deu para dizer qualquer nem quase pude me mover: já estavam a meu lado, um deles com um revólver deste tamanho, não sei calibre – de espingarda de chumbinho até canhão atômico minha ignorância não faz diferença. Sei que tremi temi e engoli a língua. Curiosamente só uma das cachorras brabas então a disparar xingar os estranhos e aí tive de calá-la por ordem da arma do bandido. Me encostou aquele cano frio nas costas e foi me guiando para que o guiasse rumo ao quarto do Rafa. O outro ficou fora olhando as cadelas distraindo as mesmas com ração.
          Chegamos na porta do quarto do moço. Aqui tento impedir, já via antecipado que iria o facínora abordar o pobre rico. Saiba que de vez em quando eu indo apartar na discussão dele com dona Maria e aí sobravam socos e tapas para meu lado; sóbrio o infeliz Rafinha era igual moça ou seja um amor de criatura; eu ouvia sempre seus desabafos e tínhamos amizade, guardadas proporções de patrão para empregada. Assim procurei protegê-lo naquela abordagem que redundaria no assassinato. Comecei a clamar ao Senhor em voz alta (pretendia alertar o patrãozinho e com isso prepará-lo para que fugisse do perigo:) não acordava, acordou sonolento ao abrir a porta e se deparar com o bandido armado!
          Este entrou, me empurrando pra fora, me intimando ir acalmar as cadelas iradas nem a arma do outro calando, corri longe aos fundos. Ao chegar ouvi tiros surdos como se fora dirigidos ao meu coração!
          O resto está nos depoimentos na polícia, tudo no sigilo quase nada vasou. Não falei com a imprensa, proibida e sem condições psicológicas para tal.
          Entretanto ao descer a escadinha indo às cadelas, o outro bandido não sei por que atirou em mim – aqui está veja a cicatriz ainda no braço, olhe! – rolei e me fiz de morta. Ainda assim o criminoso veio perto examinar se não me mexia e decerto me tomando por morta e o anterior tendo já completado o serviço, se foram pelos fundos, ainda um atirou e feriu uma das cadelas.
          Nunca acharam os devedores mandantes, claro, e nem os executores certamente pistoleiros contratados para eliminar o pobre moço. Esta a conclusão.
          E aqui se inicia outro drama, não sei se não ainda pior que isso dito às pressas ao vizinho, que me parece demais silencioso ou só respeitoso e educado. Insisto: não conte, pelo amor de Deus, não diga à sua companheira e a mais ninguém sobre o que narrei...
          Neste ponto a entrar polícia imprensa povo falador e meu drama e dos meus, os quais ecoam até hoje e também aqui encaixo Menoslândia.
          Menoslândia? quase em Mato Grosso, ainda no estado e quase também no estrangeiro ou mais longe que o estrangeiro ainda nos escondidos desta vida...
          Porque o patrão interferiu, a impedir que falasse pondo então indevidos por única testemunha, e a prejudicar sua campanha acesa, enfim para não complicar a questão e se complicar ele na polícia; e para me defender – o senhor irá saber que dado o envolvimento da vítima dessa violência no mundo da droga com traficantes e quadrilhas especializadas: eu, tendo escapado tomada morta junto às cachorras, viva seria alvo fácil e eliminada prontamente assim estivesse na rua. Aliás até dentro da cadeia poderia ser atingida executada para não deixar rasto e resto do crime. Verdade correr risco toda gente da mansão. Eu era olhos e, pior nisso: língua às autoridades.
          O doutor José então interferiu, primeiro para que o assunto não sujasse sua vida política, segundo que eu não fosse eliminada na queima de arquivo como suponho ocorrera ao próprio Rafa.
          A propósito, o patrão anos tendo rixa com o caçula, protegendo descaradamente o primogênito (isto válido à patroa com proteção e queda ao mais velho) a este mais velho iria, hoje, o pai dar apoio político rumo à prefeitura de Maislândia, o que espero acontecerá pelos rios de dinheiro que o chefe político investe no filho. Ainda sobre essa morte, meu esposo ouviu um dia alguém no povo a dizer que o pai tendo interesse de acabar com o caçula, o qual só lhe trazendo problemas; teria contratado os matadores; não devo endossar a afirmativa, mas não descarto infelizmente a possibilidade... O primogênito sempre o preferido dele. Querido, o mais querido na família, igualmente um inimigo em potencial – todos membros da família a se chocar nos atritos diários; aqui também sempre fui testemunha ocular e auditiva presenciando entreveros. Resumo duma família rica porém sofrida e desunida pelo interesse financeiro que a fortuna dá a quem do sangue... Na verdade isto acontece nos inúmeros grupos milionários porém semelhante entre pobres, estes a dividir e brigar não só pelo pão de cada dia mas por bens e herança quando morre um ente; que sejam trapos miúdos a herdar. Gente é sempre assim, fora raríssimas exceções, a maior parte se desentende na repartição. Ali no palacete do doutor José sempre atrito com dona Maria, o pomo da discórdia ia dos bens de origem improvável aos filhos, em detrimento do amor e da amizade. A meu ver aqui entra a questão religiosa, visto que na casa não havia e ainda não há agora crença alguma; só conta mesmo o poder da riqueza.
          Pois bem, falei que nisso entra Menoslândia. O doutor cuidou a desvencilhar-me das autoridades inclusive com advogados na minha defesa, conseguiu a peso de propinas tirar-me do vexame dos depoimentos mais longos – me levando pra lá, numa de suas fazendas de gado, me escondendo dos olhos do povo e escondendo minha língua que poderia prejudicar a causa e pôr em risco sua carreira política; assim me defendendo a vida também. A existência em Menoslândia marcou-me profundamente; e, claro, o temor o horror inclusive ser encontrada me acabou com a existência!
          Acabou transformando meus dias simples de doméstica pobre se deslocando do bairro pobre (aqui seria miserável comparando a este onde vivemos agora nós e o senhor vizinho com sua família, pobre mas não miserável:) desde lá até lá no bairro milionário para a mansão rica do doutor e da amiga dona Maria; ela bem próxima sempre de mim, as mulheres se entendem (e se mordem mais) se entendem menos com os homens; devo nisso colocar meu próprio consorte, não vem ao caso, volto ao crime. Transformando sim minha vidinha de trabalho e caminhar na bicicleta ao serviço e no trabalho na minha própria casa – transformando meus dias num inferno, com as perseguições temores e até me escondendo na aldeia, Menoslândia é desse tipo de aglomerado urbano de uma igreja e quatro casas, casebres realmente com muito mato por roda, bom para se esconder. Eu então parecia uma autêntica criminosa: assassinara a vida e vivia na existência infernal dos esconderijos.
           Neste dito ponto entram outras consequências talvez mais graves. Deixara em polvorosa e em temor constante meu lar, levava um filho – aquele que morreria com um mês, diante o período agitado na correria da fuga; nasceu e o perdi quase imediato. Mas não é isso, aquilo... Passei desde então a receber doses de tranquilizantes a contrabalançar o medo e o terror por que passava. Reconheço todavia não haver gasto tostão sequer: o doutor pagou tudo, desde consultas até remédios viagens estadia e meu salário, o qual entregue ao meu marido em Maislândia, o esposo meio escondido também, a fugir de curiosos e estranhos, talvez mal intencionados; sempre aqui em Maislândia, pois em Menoslândia eu uma desconhecida e isolada no mundo. Enfim não vivia.
          Eu vivia o inferno nesse inferno.
          Não posso afirmar sem ferir a verdade que vivesse propriamente escondida e solitária. Lá era mais uma criatura desconhecida dos desconhecidos. Sozinha propriamente não. Creia o vizinho mais esta dor: o patrão visitou-me vezes incontáveis e por duas vezes me assediando tentou me aliciar, quase a conquistar-me... O atrevimento chegou a tanto. Entretanto é assim todo mundo do seu porte político; além ser demais mulherengo e mesmo tendente à depravação. Ora, hoje me recupero e na década de noventa não passava dum trapo de mulher, sofrera muito e muito me desgastara – como conclusão, era mulher feia escura pobre e dependente do patrão. Uma vez já tentara abusar o dono da mansão na mansão. Agora tem-me às mãos no esconderijo. Fui praticamente tomada pelo conquistador, embora me defendesse com unhas e dentes como se diz; acabei sem o desejar traindo meu casamento... Não me entreguei porém por inteira, lutei e só fiz concessão ao safado por dependente de sua fortuna e nos ameaços da perseguição dos algozes seres ligados ao tráfico, que primeiro vitimara o menino Rafael e depois a família dele e por último aquela, esta, fugitiva. Foi em Menoslândia como falei ao senhor.
          Anos após tornei a Maislândia, as águas assentadas a poeira abaixada, acomodada a vida. Inclusive o primogênito deles na campanha que é essa agora e nem sei se virará prefeito daqui. No entanto e os meus.
          Parece que houve uma reviravolta com meu povo. Hoje vivo aparentemente bem nesta casa e bem os filhos que o senhor vê sempre, o Geraldo meu esposo harmonizado e tudo o mais. Não obstante veja a cerca elétrica, meu cachorro brabo e também notou que não só apagamos a luz à noite cedo e não me vê aqui na calçada frequente; nunca me encontrou a andar pelo bairro e na cidade. Se observador veria que não tenho sossego nem liberdade, não converso com ninguém e menos com estranhos, olho assustada sempre para todos lados. Isso por consequência do drama iniciado com o crime... Tem mais e ninguém fica sabendo: continuo anos num tratamento médico, tomo mil e um remédios de tarja preta e não durmo, praticamente não durmo: só vejo a cena do crime, acordada fecho olhos... para ver ainda a cena e vivo como fosse hoje minha vida pregressa desastrosa. De fato teria mais agravante se gastasse rios de dinheiro com os medicamentos ditos – faria uma relação de mais de um dia só indicando nomes de vidros cápsulas comprimidos e injetáveis – verdade seja dita, o doutor José cobre toda despesa. Foi assim até com a construção e antes compra do terreno desta residência nos quais os meus vivem. Tudo pago, pago eu com a boca fechada...
          Contudo há outras consequências ou dados ligados a essa terrível crise. E isso relaciona-se e até explica um pouco a vida dentro do casarão deles; e também o envolvimento familiar dos meus patrões com os algozes do filho. Melindroso demais, demais complicado e perigoso dizer. O tempo quase incógnita autoriza falar algo; se bem que ao senhor, o senhor me parecendo confiável visto nunca haver flagrado sua boca aberta fácil; o que nada semelhando, o senhor me perdoe pela ofensa se ofensa, nada parecendo o caso de sua companheira, a qual não me toma por amiga... O senhor confiável, ela não.
          Aí o porquê poder mesmo contar sobre alguns podres, seriam podres! enfim os negativos aqui aí do nosso lar.
          O Geraldo o senhor sabe é contido mas homem bom, bom companheiro desta sua vizinha esquisita. O povo da rua me tem por esquisita, não me importo. Se brigamos? claro, tem algum casal no mundo a completamente se entender? Porém vivemos até bem. Procuramos não ferir o outro; o que meio caminho andado no ser comum. Os meus filhos já adolescendo dão trabalho e preocupação como suponho os seus, porque é assim o mundo. São boas criaturas e isto não é nada próprio do ver materno, o qual costuma exagerar. A menina é companheira, o rapaz parece ter alguma areia nas engrenagens não quer ouvir conselho e anda, ao meu temor, anda nos seus passeios com amigos. Enfim nada que o sol ainda não tenha visto sobre o planeta. O terceiro filho que dei à luz, foi aquele caso e no caso foi realmente o primeiro pois julgava ameaços da menopausa o sintoma de gravidez quando do crime e da fuga a Menoslândia, portanto já grávida sem o saber; sabia menos o pai, o marido costuma ser o último a saber dizem... Uns ridículos vizinhos do outro bairro aventaram possibilidade ser o garoto filho do patrão; infelizmente com algum cabimento, dizem o político ter filhos por todos lados... Não: saí de Maislândia esperando o filho porém a crise do crime me impediu concretamente saber-me grávida dum menino, do Geraldo é claro. Seja como for o perdi logo. Ficaram os dois, o casal que tive após o inferno da fuga e o inferno do retorno à cidade. Sempre escondida, como alguém e a faca que não vê no pescoço. Um drama...
          O drama ainda – e não sei por quantos anos carregarei esta cruz da insegurança – o drama ainda presente, seja nos remédios, meu principal alimento! seja no temor terror horror em pôr a cara fora deste presídio, nossa residência mais parece uma cadeia; e pior nisso – fico mui angustiada é ter que sair dele. Como agora varrendo limpando a sujeira e neste dedo de prosa com o senhor.
           Ah o senhor, sei apenas se chamar Seu Zé também como meu ex-patrão e nada além, o senhor teria decerto muito a me dizer de sua vivência aqui e de sua própria vida, as coisas dos seus familiares e amigos. Não ouvi sequer nesse tempo de narração de meus dramas sua voz ao menos.
          Ora, mudos não falam, embora tenham boca e língua.
Marília   outubro  2012
29. Um Silêncio

          Quando viram não viram mais, tudo relegado se não ao esquecimento ao inexplicável; ou quem sabe mais ainda à indiferença. Era o abandono. Perfeito abandono! perfeição onde possa haver perfeição. O fato é que não havia presença naquela presença a deixar que a lei se cumprisse, a desmanchar o tudo a transformar em nada; houvesse nada. Mas havendo o vento. A chuva fustigara bastante, bastante e não bastava, bastante o sol a seca agora, agora existindo não o desânimo, a quietude. E isto seria a paz! A rigor era já um depósito à alegria de restos e entulhos – tudo fustigado pelo tempo, indo, no momento, impreciso e não medido, medível no entanto. Em suma nada havendo mais que restos e sobras nas faltas, talvez ou apenas o além do sofrimento do humano ou do que fora um dia humano, no seu ser e no ser do que a si ligado. Entretanto agora tudo andava relegado como que num cartão postal que já então se não mais enviava, resumido na vista do abandono; abandono mesmo a preguiçosos insetos e ativos pássaros, inativos. Nada havia no tudo. Não obstante aquele destroço fora a residência de um homem...
          Agora o vento atrevido assoprava sua força naquela inércia. Espalhava detritos leves, atirando os mesmos longe naquele perto e no distante do sumindo e desaparecendo; enquanto os pesados, os restos pesados, se rindo das ondas do sopro como rira dos raios solares e afrontaram as lágrimas do céu e sua umidade que sempre fica qual cartão de visita. Abandonado. Exato, abandono!
          Restando um que outro dos muitos papéis esvoaçantes de propaganda e de avisos a passear no ambiente... Voavam sua alegria ou irresponsabilidade naquela tristeza. Ou não: por que a indiferença e o abandono têm de cotejar o triste!? Ninguém a responder, ninguém ali lá aqui aquém além, além ainda naquela morte de vida; e portanto sem opções.
          Contudo havia na poeira sobre poeira entre cacos do todo uma parte a rir-se, que fosse do vento. Ria-se desbragadamente, não sorria educadamente ou no tipo da cara-fechada como se exige nos compromissos oficiais, até nos oficiosos. Nesse estado se poderia observar o talão de luz na cobrança por cima de cobranças, as cobranças anteriores desfeitas com novos feitos... desapareceram as mais antigas! ou superadas pela nova que marcava no registro a ‘quilowattagem’ mais recente na caixa de força sem luz a enferrujar-se e se carcomer com ajuda do tempo da chuva da umidade da secagem do sol, o sol lá em cima impávido por sua grandiosidade e indiferente decerto nas consequências das consequências. Voavam, só voavam inteiros ou como trapos de papel ou os pedaços dos inteiros agora também aos frangalhos que ora assobiavam nas portas dos restos de tijolos e pedras ora acalmavam-se ainda assim decompondo teimosos seixos e sólidos outros mais. Assim, também assim, avisos de água a faltar já líquido, água desligada até pelos poderes competentes incompetentes quem sabe; também eles a esvoaçar sem destino, com destino não entregue ao destinatário... E outros, outros mais a passar a passear indecisos no sítio ou só passantes apressados ou não a avisar na propaganda nos folhetos à solta. Avisavam investiam mostravam propunham o bem de seus preços e os preços como vantagem de suas lojas, ou que sendo anúncios de espetáculos ou o espantável da saúde ameaçada divulgado pelos órgãos sanitários. Todos tudo; tudo espalhado gritantemente agora mudo, mudo ou apenas sem serventia naquele local de abandono ou talvez abandonado.
          Então se podendo ver, se ver, se notar, se possível, as janelas da casa e suas portas imitantes fechadas. Também elas abandonadas junto com o geral abandono; a enfeitar paredes pobres velhas antes jovens vistosas relegadas agora e largadas. Silenciosas no silêncio.
          No silêncio no interior do imóvel imóvel caveira no esqueleto com roupas apodrecidas do que fora um homem.
          Sem que ninguém soubesse. Ou ninguém venha um dia a saber.
Marília   março  2010





30. A Noite, Dia a Dia

          Como a gota, gota a gota a pingar silente ou sonante, aparentemente intercalado mas contínuo (eterno!) todos dias naquela noite de poucos amigos emburrada monótona nebulosa e caprichosa em sua rotina e secura; anos assim, vinha o funcionário servidor penitenciário mudo ou de nenhuma conversa trazer alimento ao prisioneiro, a então mudar talvez a feição de sua cela com aquele almoço em refeição única no meio do dia – seria, pensava a frágil figura o dia na sua metade? – às onze horas pontualmente às onze e cinco, como fosse ele, funcionário, o próprio relógio inexistente ou só o ponteiro da máquina cega e irredutível no seu fazer de mecanismo frio... Todos dias todo santo dia naquele exemplar inferno de noites e dias a se confundir e esconder a vida na pobre existência. Já de longe, as horas a contar os minutos a seguir e quase na hora da hora os segundos apressados a sentir aquele nariz a escorrer nos bigodes dele e destes para a barba enorme pintando de branco suja sem pente se supõe, ou escorrendo pelas frestas de pele no rosto sofrido magro e descolorido, a sentir seu nariz a aproximação da marmita também magra; assim o preso gente ainda e a profetizar antecipando o sabor que teria; a mente já esperta a relacionar o que vir: arroz pastoso, feijão ora azedo ora insosso (para manter a forma?) um afogado picado salgado demais quase sempre, a forçar beber mais cedo a escassa água do incômodo cômodo, às vezes despejada essa ‘iguaria’ na lata feito latrina antes mesmo da transformação necessária pelos instestinos; aliás o cheiro desse improviso de sanitário unia o cheiro da véspera com o do dia empestando aquele sórdido ambiente já meses empestado... De resto na marmita assim trazida era o resto, raramente havendo carne ou qualquer proteína sem gosto para não cair decerto também na rotina nem perder a condição de raridade, coisas de cozinheiro ou sem responsabilidade ou sem respeito ou ainda sem saber sabor, de tão longe estando o freguês. No entanto sentia tudo a abranger o prisioneiro na chegada do funcionário. Essa a situação geral, o estado naquele estado.
          Era sua noite interminável, sem mudança por mais dias houvessem.
          Quase comparável àquele cidadão sem direitos uma outra situação rotineira: o sol sem sol. Sabia de cor por onde as frestas dos raios a tentar clarear sua sombra. Riscava, riscando somente para comprovar contar existir na inexistência, que é a ignorância do que se desconhece. Contar por contar com uns riscos, risco somado a outro risco, feitos para não confundir o dia da noite que passara com o dia da noite que vivia, se vivendo. Assim os rabiscos com um sólido encontrado naquele escuro eterno (eterno!) Para saber continuar prisioneiro ainda e ainda de coração pulsante? Têm coisas que o ser humano não pode responder ou não sabe responder ou teme responder...
          Um dia, um dia em plena noite – piorou.
          O guarda não veio. Não falar o outro já era uma tragédia particular a si; mas não conversar não trazendo a comida, mais trágico. Primeiro pensou otimista em atraso; no outro dia, quer dizer mais um risco na parede da noite no inferno, nesse seguinte não apareceu de novo, não seria portanto novo atraso à fome velha – desconfiavam seriamente os sopros da fome e confirmavam o mau augúrio – desconfiou não aparecesse, ou reaparecesse o funcionário com sua sem-fala com seu cheiro adrede conhecido misturado na mente o hálito do suor do homem uniformizado com os cheiros do desodorante e das iguarias, cada vez mais ‘iguarias’ e agora até sem essa certeza na rotina diária.
          E naqueles dias de tantos infaustos acontecimentos ou exatamente por faltar acontecimentos, não vindo o guarda com seus cheiros para ferir narinas ansiosas; naqueles coincidiu também de o sol suprimir seus raios ou seria alguma obstrução na janelinha lá do alto que gargalhava claridade agora escura e ausente... Que mais faltava, pensou, para que o inferno fosse completamente inferno?
          Noutro dia, mais fraco o frágil detento – ainda não aparecendo, reaparecendo? aquela regalia tão limitada da rotina na visita do funcionário e suas viandas quase sem viandas. E noutro e noutro mais.
          Menos a deduzir ficou quando surge novo funcionário a sondar sua prancheta no caminho do inferno com cheiro de latrina de novas podridões e de morte. Isto, a morte viera antes das determinações da burocracia.
          Disposta a contar somar talvez na estatística os descontos de menos um coração a pulsar.
Marília   março  2012





31. Morrer na Praia

          O sujeito, jeito apenas de falar, um sujeitinho miúdo cansado dos seus dias e mais ainda nos últimos dias, quase em inanição em fome braba, vivia o seu desespero na orla litorânea da ilha quem sabe a maior do mundo menor nas parcas oferendas. Cansado inclusive do próprio cansaço. Debalde olhando areias a sumir calor vaporizante a sumir árvores sim assim mesmo a sumir. Todas elas de comum acordo contra ele elas secas isoladas entre si e pouquíssimas às muitíssimas necessidades de sombras e mais negadoras ainda de frutos. Até que no até que enfim encontrou um coqueiro.
          O coqueiro andava arcado ao vento e ao seu próprio peso: os cocos numa abundância mas lá no alto! olhava o alto no seu baixo ser, que o rebaixava ainda mais na fome, os cachos as pencas os frutos sazonados ofertantes qual seios de mulher bela madura sadia sábia no seus dotes. No entanto inalcançáveis inalcançados...
          Parou no seu andar trôpego, olhou olhou em volta em cima em baixo e se viu; não viu o como. Entregou-se na extenuação a pensar.
          Aos poucos reconheceu as armas possíveis por volta, já que a mais valorosa não tinha valor algum pois não sabia não podia subir galgar o tronco; e no ápice do tronco lá o fruto!
          Percebeu um recurso e ajuntou as armas disponíveis: objetos poucos ao deus-dará. Iniciou a batalha contra a fome que o comia e mais contra a sede que o limitava. A sede, ah se pudesse beber toda água salgada ali a roncar na praia. Examinou melhor agora aquela altura de coqueiro. Assim iniciou a guerra contra o contra sua vida.
          Tomou seixos, arremessou pedras grandes e menores conforme suas forças. Atirou-os para cima. Errou para baixo. Cansou, extenuou-se mais pudesse no seu estado haver ‘mais’. Esgotou a reserva de munição: os cocos lá no alto intactos com seu líquido precioso e sua castanha de matar a fome e dar o reviver. Não acertava. A rigor não tendo sequer forças para atirar mais suas balas e isso em razão da perda da energia com o tempo e a fome, estes inimigos palpáveis...
          Por fim encontrou um crânio já despojado da gosma do pensamento, de músculos, de nervos e de sangue, já seco no sol ardente. Pediu constrangido e medroso perdão ao proprietário e assim enviou a cabeça aos cachos de coco, prenhes qual os seios na única mulher encontrada naquele deserto de calor e horror. Fez um esforço na força sobrante aprumou impulsionou expulsou o objeto humano rumo aos frutos.
          Contudo mais uma vez falhando, recebendo de volta não cocos porém fragmentos de ossos quase podres e dentes cariados, que lhe saraivaram o ser lá embaixo na areia quente... Chorou o desastre e o fracasso, lanceou olhares no perto e no distante e nada mais havendo. Cedeu.
          Caiu fraco inerte morto.
          Sequer esperou que ondas gigantescas fizessem o serviço de graça e sem dispêndio de horas cansaços e fraquezas. Então foi envolvido no todo que enterra e ao mesmo tempo esparge morte e vida a mancheias.
Marília   fevereiro  2010





32. Começo: onde se propõe não ser o fim

          Gritam pássaros arruaçam os adultos plenos no discutir mesmo seja apenas a discutir, no mal sentido; ri no riso gaiato o sol depois gargalha abre a janela do dia, se bem haja um mal que são sombras nuvens negruras promessas as quais, se cumpridas, molharão o mundo quiçá a diluviar o universo, ele não sabe disso e pensa o começo; ele o garoto, menino pouco mais que já sabendo andar. Se movimenta lerdo nessa manhã ainda a meio dormir, pulou da cama de gente grande a abrigar gente pequena miúda nova, em promessa qual a nuvem a chuva o universo e um pouco o dilúvio. É um menininho que sai para fora de casa, enquanto a mãe dentro rumina e boqueja com os irmãos, ela aprecia mais puxar orelhas das fêmeas nas responsabilidades que acha ser delas mas isso não incomoda o menino, a rigor nem ouve o bate-boca já está fora mesmo no terreiro da casa pobre, descalço, e por isso ouviria mais tarde mil admoestações e até além da língua a arma eficaz embora muda dos chinelos maternos; agora não pensa na coisa pensa que é o início e o sol anda meio intimidado; sem sombra de dúvidas não com a língua ou com o chinelo armas terríveis num lar pobre. É que a teimosa nuvem cega-lhe aqueles olhões gigantescos que faz com que as crianças virem-se para o alto a constatar o brilho, imediato precisam fechar os seus olhinhos apertando assim ó; enfim se liberta da obstrução e ilumina pujantemente o mundo o pedaço e imediato o menino num clarão que dá gosto ver. Então acorda de vez pois ainda anda a esfregar as pálpebras para remover o orvalho secado nos cantos como remela e daí vê bem o ambiente. Nisso se alembra haver esquecido de urinar e a coisa estava incomodando sem que conscientizasse a necessidade, corre ali perto na parede próxima à cozinha e desaperta; antes tem um pequeno drama que é pôr pra fora a torneirinha a fim de que ela ponha pra fora o líquido amarelado que deveria anteriormente ter umidecido e cheirado o lençol o colchão a cama entretanto é um garoto educado não urinou na roupa (antigamente na contravenção molhada se ameaçava com o crime das palmadas e até o recurso de cortar, o que ocasionando terror na criança). Tem a saída legal da torneira que é a frente numa abertura das calças bastando desapertar os botões, tirá-los das casas onde se enforcavam, o que já de domínio do projeto de homem macho pra valer; não obstante o costume manda tirá-la, libertá-la, por baixo que é mais fácil nas pernas curtas da calcinha que cobre as pernas ou coxas da criatura agora a fazer xixi represado na bexiga demoradamente. Fá-lo a contento, daí a cascata desce da parede e atinge o solo arenoso, faz um buraco inicial, umidece a base e então vira lago, o lago se enche extravasa vaza e escorre em riacho que desenha na terra um caminho nos meandros e parte como rio abaixo, dele se comunicando com o mar e aí a ligação do mijo da torneira da bexiga e do menino com o oceano sem fim, é o começo.
          Pensa que é o começo, é o início apenas do dia, o dia cheio pleno de preocupações com um possível brinquedo. Enquanto isso, e exalando um composto de amônia a perfumar o terreiro quiçá o mundo, enquanto isso elas se aproximam; elas as galinhas, o gato a se coçar roçando por ali a pedir carinho, o cachorro sorrindo ao dono, o qual já pode também sorrir desapertado aliviado ao amigo. Elas chegam, o sultão inclusive deu o beneplácito e então se aproximam daquele deus mijão e olham à espreita do que possa sobrar – ontem defecara o menino e enquanto fazia careta e um desenho com um pauzinho no chão logo elas desandaram ao desmanche do monte quase antes mesmo do filhote de homem puxar pra cima sem se limpar as calças. Agora observam curiosas. Ele observa também o ambiente vê sente a claridade solar após o atrevimento da nuvem e pensa aí residindo o começo de tudo e quem sabe da própria vida. Não: apenas daquele dia naquela hora daquele instante na eternidade. Mas como habitualmente ocorrendo, ocorre de uns porcos gritarem – decerto por menos comida e mais fome – gritam e o menino se esquece, indo vê-los no início, esquece o fim que pretendia, o de encetar a brincadeira; se esquece inclusive da refeição matinal que a genitora em debate ferrenho com as manas mais velhas preparava ao caçula do lar.
Marília  fevereiro 2010







33. Eventual Companheira

          Passou-me quase como relâmpago, não como a noite mal dormida que despeja mal-estar ou a tempestade dum pesadelo.
          Tomei contato do seu ser ainda no Terminal do centro urbano, sentei-me a seu lado no lugar vago; antes pedi educadamente licença à qual respondeu sim sem abrir a boca. Curioso como há gente que fala muda bastando o semblante, nela o da simpatia quase me sorrindo. No entanto foi muda todo percurso, ou a temer o motorista apressado lá na frente ou os buracos aqui embaixo, até descer onde sempre a vejo apear.
          Olhei aquele perfil feminino belo jovem, calculando uns vinte anos, a meu lado no balanço do circular. Exalava um perfume discreto e trajava simples – mesmo assim não saberia descrever a roupa dela porém simples com as calças a blusa e que mais! não sei, sei que era simples no conjunto. Mulher esguia a usar o de costume em nossa sociedade. Fiz uma comparação e notei ser um pouco mais alta que este seu companheiro de viagem curta. Carregava a indefectível bolsa feminina, me parecendo se não rica luxuosa com uns dísticos de marca e tendo uns dizeres em inglês; ainda nesse recipiente uns penduricalhos de enfeite a refletir a luz, tudo no colo... no colo não, mas ajeitado nas coxas com as tiras soltas por sentado o belo espécime da espécie. Entretanto o que notável pra mim o semblante. Via aquele rosto angélico sem quaisquer rugas ou excesso de pintura na maquigem costumeira a enfear, semelhante nos anjos; os olhos castanhos vivos, as sobrancelhas aparadas vaidosamente talvez, a ressaltar pele clara um pouco pálida; uma expressão sem mostrar as maldades os dramas os problemas contidos do homem comum, no entanto num homem comum na forma feminina, repito bela.
          Vezes muitas olhando pela janela, outras voltadas para meu lado a seu lado.
          Num momento ia a meu ver falar, quase se dirigindo aqui ao passageiro no banco contíguo; cheguei perceber os lábios pintados levemente de batom se moverem, não ouvi sua voz entretanto; já me supondo surdo, surdo ou só um pouco pela mudança do tempo, por meus resfriados essas coisas e portanto escutando eu nada além do ronco de nosso veículo e o barulho da rua. Ela sorriu. Outra vez sem abrir os lábios... Cheguei nesse ponto a me preparar ao que diz o comum do homem comum: está calor vai chover enfim coisas para início dum diálogo no qual um só fala impera impõe e o outro (eu por azar) de orelhas passivas abertas. Não, sim falou que a vi na expressão, não escutei nada.
          Como por inúmeras viagens a havia visto descer, ao nos aproximar do seu destino já me preparei, até levantei-me à sua passagem enquanto a formosa estudante (dedução ao notar livros e cadernos consigo) ela correspondeu me agradecendo; como ao me acomodar no ponto inicial, nessa descida não consegui saber ainda sua voz; e deveria ser mansa educada agradável ao coração. Enfim estando aí perto de mim a moça, de pé no aguardo da condução parar abrir a porta do meio onde se posta e lógico sair; vejo sempre essa menina já fora do ônibus andando em direção da esquina, um dia acompanhei aquele notável ser e percebi virar sumir à direita decerto sua casa.
          Agora segura com a mãozinha destra, a esquerda ocupada com seus pertences, a direita agarra o cano de proteção ao passageiro. O veículo para. A porta traseira se abre, descem várias pessoas; a porta do meio não é acionada – decerto por desatenção do chofer – vou inclusive me meter gritar talvez ao profissional abri-la à moça... mas a jovem desce assim mesmo, como fossem os ferros transparentes... arregalo bem minhas vistas e já flagro a mulher a andar normalmente no passeio público! Quase comentei com o banco de trás aquele inusitado, quando percebo que ela, não sei se interessada na gente que também descera ou no nosso veículo ou... e por que não? ou a me ver quem sabe a dar com a mão numa despedida simpática – daí não vê o poste de luz ali plantado e iria chocar-se, eu já disposto alertá-la do perigo sei lá, e eis novo imprevisto: a bela ultrapassa igualmente a torre de concreto, já estando além e andando, parecendo-me nos passos sequer a tocar o chão, a se movimentar sumindo na esquina.
Marília  abril 2015





34 - O Menino e o Elefante
                                        
          Tenho cá uma estória pra contar, se encontro ouvidos de boa vontade. De um menino. Do elefante não, que ele en-trou na estória por acaso, sem ser chamado.
          E acontece que o garoto andava olhando tevê; não há mal algum ver televisão; todos veem. Ele se achava acompa-nhado. Era um documentário, nada de crimes e violências; e o menino já atrapalhara demais o tio o pai e a mãe, fazendo per-guntas nas horas inadequadas. Tratava-se da embaraçosa situação referente ao nascimento dos animais. Ele se interessou mesmo foi pelo elefantinho. Até certo ponto nada reprovável; mas agora tem uma agravante: o elefantinho ficou órfão, ma-mãe elefanta morreu e os técnicos passaram a criar o animali-nho com todos os cuidados (ninguém esperava papai-elefante tratasse do bichinho, esperava?) O filme mostrou isso. O me-nino viu isso. Perguntou muito sobre isso.
          E não mais tirou o elefante da cabeça. Grande? absurdo, nunca; ele viu o pequenino assim. Resolveu querer um. O de barro que papai trouxe, ele espatifou; o de plástico que a madrinha ofertou, agora imprestável no lixo. Bom, restava à família levá-lo ao zoológico, provar-lhe a impossibilidade daquele pedido, com o tamanhão do bicho. Também não adiantou muito, porque existiam elefantes petitinhos, a tevê mostrara, todos haviam visto.
          E os familiares é que não tinham encontrado moleque tão teimoso, embirrado, sarnento. Como a psicologia moder-ninha ensina o não contrariar as crianças para não haver com-plexos... cederam.
          E é aqui onde começa o drama. Cotizou-se a família in-teira, dinheiro de vovó ao neto único, dinheiro de titia, de titio, ao único sobrinho; dos amigos lá da firma; todo o saldo de papai e ainda um pouco no cheque especial. Gracinha! o menino colaborou quebrando o cofre de barro, por sinal não porco e sim um elefante, tirando de lá suas economias, moedas guardadas fazendo tempo. A mamãe achou uma nota de quinhentos perdida em papéis velhos nem ela sabia mais da existência. Apurado o capital, o elefantinho chegou de navio africano com todos os cuidados possíveis; e tudo bem; um animal lindo lindo. Não era branco não, preto-cinza, engraçadinho.
          E meio na calada da noite – não podia mesmo ser dife-rente – entraram no apartamento, muitos psius, carregando o caixote, suor de papai mamãe titios amigos vovó dando palpi-tes. Mais para cima virem à esquerda pra lá pra cá olhe o dedo, entremeado de psius, toneladas de psius; o caixote pesava muito menos de tonelada. Gorjeta ao porteiro para que este batesse um papo conivente demorado com a Maria na garagem. Entrou o elefante.
          E todos dormiram no apartamento do menino irriquie-to, no 11° andar, cansados cansados; mas parentes e amigos a gente ajeita no chão e no sofá. Vovó ficou fazendo café e li-monada aos trabalhadores, não precisou de cama.
          E o sol nasceu.
          E o sol morreu.
          E renasceu.
          E descobriram que elefante dá trabalho. O Guga. Os nomes escondem os crimes. Melhor falar Guga a ficar lem-brando um elefante provisório num apartamento. Quer dizer, deveria ser provisório, entretanto a família não demoveu o moleque teimoso, embirrado, sarnento!
          E o Guga foi ficando, ficando...
          E o sol morreu.
          E renasceu.
          E descobriram que o malandrinho mamava todo o leite da casa e depois comia toneladas do que comem elefantes, não sei o que seja. Sabe?
          E por isso entravam coisas estranhas no elevador do prédio; o novo porteiro e os outros porteiros que se sucederam olhavam meio torto para aqueles pacotes subindo; tinha gente de outros apartamentos perguntando ao homem o que era aquilo tudo; porque gente é mesmo um bicho curioso. Ninguém pensava em animalzinho no 11° andar, apartamento 1113; ou pensava? não dizia nem confirmava nada.
          E renasceu o sol na terça-feira.
          E muitos cuidados como vacinação remédios vitaminas alimentos, toneladas de alimentos; desinfetantes, toneladas das grandalhonas de desinfetantes e papel higiênico. Tranquilizantes, cada vez mais quantidades de tranquilizantes.
          E mesmo o garoto rabugento – tadinho inocente! – moleque teimoso embirrado sarnento, ele melhorara o comportamento, satisfeitas suas necessidades, tomadas todas as doses de psicologia moderna. A família é que se desgastava um tanto. Digamos, o desejo do garoto era satisfeito em razão inversa à necessidade familial.
          E o bicho crescia, parecendo ter comido fermento. Crescendo também os problemas de papai mamãe titio, titia fugira com persona non grata, os amigos fugiram no segredo; vovó estava esclerosada, só falando em elefante, ninguém acreditando no jardim na pracinha na padaria do Maneco.
          E os vizinhos não costumam mesmo crer em velhotas. Havia um porém: elefante é coisa muito grande, mesmo sendo um cachorrinho seria proibido tê-lo no prédio, onde é expressamente impedido animais, todos sabem! nem todos.
          E o bicho crescia.
          E o sol nasceu, renasceu.
          E nada a vizinhança tirava do garoto jogando verde pra colher maduro; mesmo a professora Tia Florinda, apesar da mania do aluno em só entitular suas composições por “Elefantinho” “o Elefante bonito” “Guga, um amor de Elefante”. Pensou fosse mania dele; afinal o menino andava treinando para ser gente grande.
          E por essas e mais aquelas, o sol não se cansando de nascer morrer renascer, aconteceu o acontecido: o bairro todi-nho tomou conhecimento de um elefante daqueles enormes, com tromba e tudo, de chupar água na banheira e esguichá-la no vitrô – um desses inteirinho no apartamento 1113!
          E ninguém ouvira seus zurros! será que elefante zurra? ninguém percebeu o bichão assoprando sujeira no vitrô da área de serviço? não? impossível. O impossível constatado. Ninguém percebeu as toneladas de alimentos que subiram no elevador mais de ano! não? puxa, que gente! não observou quantas toneladas desceram pela lixeira, já devidamente transformada e catingando! Porque mesmo banhado diariamente com a ajuda de vovó, mesmo assim, com perfuminho e tudo, mesmo assim, tolerou-se a fedentina? puxa que gente ingênua, e forte! Bem, agora só faltava a imprensa para verificar, a tevê a registrar.
          E não dava para esconder mais. O sol se escondeu por vergonha, teve preguiça de renascer, coçou umas nuvens aí pelas nove horas, se espreguiçando para não parecer conhecer o elefante e seu dono... Nesse ponto não era mais o elefanti-nho que era do menino teimoso embirrado sarnento: era o ga-roto que pertencia ao elefantão, aquela trombona ploft-ploft pra cá pra lá.
          E agora? a vovó não sabia responder, o papai não podia responder, a mamãe chorava e não se punha a responder, titio se fora para não responder.
          E não era possível desmontar o elefante. Era? não era. O garoto não deixaria desmontar, se fosse possível.
          E assim mesmo começaram a quebrar as paredes lá do 11° andar, os bombeiros fizeram umas adaptações aos seus guindastes, o povo olhando curioso lá embaixo, porque gente é mesmo bicho curioso.
          E o menino, já na terceira série da escola, fez uma com-posição diferente, com título diferente; a qual iniciava assim: “Para que servem os bombeiros?” Como as crianças distorcem as coisas!
Ribeirão Preto   março  1980





35. Limiar do Fim

          Antigamente... mas que expressão mais horrorosa e vazia, na boca fácil do povo – que seria antigamente a um menino de uns dez anos ou a um velho de cem! tudo pode ser nada. Em todo caso época antiga e dos tempos antigos, os gozadores a se lembrarem de quando se amarrava cachorro com linguiça, todos já ouviram semelhante; o caso é que nesses anos longínquos tinha medo. Medo? não temor: pavor terror horror em vista ser um garoto tímido. Tão tímido quanto ignorante, claro quem sábio aos dez janeiros. Bem, o fato é que não apreciava nada nada ir visitar tia Teresa, mamãe achava a mana um imenso coração, uma sofredora a esgotar todas gotas possíveis do tonel das dores e além disso com força moral por mais velha, velha enrugada essa tia, tia dele. Além de tudo o mais ela meio cega e totalmente surda, dessas pessoas de se indagar farinha ouvir madrinha e não entender patavina. Outra situação que o apavorava igualmente era a visita à igreja, forçada por sinal, não queria missa preferindo a brincadeira com os moleques. Pois aí um grande drama seu, não pela religiosidade forçada e sim pelo medo, novamente medo pavor terror horror: mostravam aquele santo na cruz sangrando e de olhos abertos a clamar sofrimentos ou representado morto deitado numa agonia. Não desejava chegar próximo da estátua porém as mãos maternas o seguravam diante daquele crime, a si algo criminoso. Na casa da tia, não obstante os gritos dos primos e outros chamariscos caros à infância, havendo semelhante um crime exposto a ele como testemunha forçada; e pior nisso: a velha parenta viva forte impetuosa! agarrava (com amor! veja-se bem, com extremo amor por sua carência concreta:) juntava com suas secas garras de dedos finos unhas finas intermediado por voz fina, agudíssima; ele sem forças escapar dela, ela juntando amorosa mas grosseiramente o sobrinho nos seus braços para apertá-lo sufocá-lo na desmedida da chegada e da despedida, assim como a senhora não podendo medir harmonizar equilibrar a voz gutural num ferir nos decibéis – o que comportamento não só dela, por sinal dos outros familiares também. A custo, a muito se esforçar, escapulia. Aí sim, correndo no prazer da liberdade manchada embora por essa retaguarda doentia, aí se atirar aos meninos; correr gritar contar e quase não ouvir, porque desde pequenos já somos egocêntricos e assim ocorre o pouco ouvir e o muito falar. Ah depois havia a tal despedida, e como despedida novo sofrimento do pequeno preso por aquelas mãos rijas e frias. Uma vez fora pra casa com marcas quase a sangrar no braço direito, onde as unhas da tia surda ficaram dias a falar o doer.
          Porém no muito sofrer realmente os anos porvindouros provariam não haver ultrapassado o limiar, ainda...
          ¿Após viver o sofrer das 34 estórias anteriores não poderia, agora maduro formado na universidade da vida, vir a experimentar outras perdas mais convincentes ou concretas? e se chegasse ao ápice, ao clímax na dor!
          Agora encontra-se na situação de novo – há uma tese segundo a qual tudo que existe na face do planeta é novo; não é assim o novo proposto aqui – enfim está diante do irremediável que é o final.
          Um senhor passado exposto composto completo? maduro, não se pretende discutir aqui sexo dos anjos ou a bondade humana nem a dele: ele pelo menos maduro agora, agora olha examina toda vista que se lhe abre na imensidão e teme. Teme sobretudo o abismo à sua frente, está num penhasco onde os pés tremem inseguros, o corpo bombardeado pelo vento bravio, que ele toma por um tufão ou coisa desse jaez, a ventania o fere e atrai chupa-o na gritaria a ecoar em todo esse fim de mundo. Lá embaixo bem lá embaixo as águas espumam ao bater nervosas num cavar a rocha negra e brilhante ao sol, o sol entretanto desconhece tanta maldade e prossegue no seu lume incidente. Elas, as águas nervosas, investem batem lavam tentam, sem imediato conseguir, tentam o sucesso embora conscientes decerto na persistência e persistentes para atingir os objetivos. Elas gritam roncam semelhante canhão na guerra e se atiram de novo e outra vez nas pedras calmas. Ele vê aquilo se pensa se deseja uma rocha forte mas fraco, seus ouvidos ouvem ainda a tia... a tia o atrai puxa a grudá-lo manchá-lo sangrá-lo com suas unhas nada aparadas e a marcar doer sangrar; a tanto essa impressão que se olha no antebraço direito a dor o sinal e assim perde o equilíbrio... À frente também o limiar duma desconhecida atração que recebe com volúpia e assim desaparece sem que houvesse se despedido de alguém. Não havendo ninguém, só o barulho da natureza, a qual tolera os mansos contudo deplora elimina acaba com os que se supõem bravos.
Marília   outubro  2012














































































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços: