sexta-feira, 27 de março de 2020

O Mel e o Fel


0126(posto no blog Livros Inéditos)











                                  O Mel e o Fel

                                                   (novela)
                                              Moacir Capelini





















moacircapelini@gmail.com


capa:


data de publicação:


tiragem:


gráfica:






























Observação Primeira

Nesta pequena obra, podendo ser catalogada Novela, será usado o recurso dos sinais gráficos do apóstrofo a chamar atenção como frequente na literatura mas também o mesmo quando não encontrado o vocábulo no dicionário, o autor criando a palavra pelo som próximo da ideia a ser exposta; o demais segue na linguagem coloquial.













































“Creio que em cada vida há períodos em que o homem existe realmente, e
 outros em que ele não passa de um aglomerado de responsabilidades,  de
 fadigas e, para cérebros fracos, de vaidade.”
                                   Marguerite Yourcenar







                              Primeira Parte: O Mel













































Cap. 1

 A gente quando criança não pensa, pensa? Vê ouve tateia inclusive se for o caso, caso queira saber; não vê. Vê sem ver a Vó. Os de casa por causa da fala da mãe se dirigindo a ela Nonna, talvez por causa do lado da mãe, que é mãe dela ela de família italiana; não como o pai caboclo de quatro costados e um pouco teimoso. Mas de fato tudo gira em torno das coisas que não se vê e não se vê as que vê. A Velha entretanto existe e mais que existindo a dar um volume grande no trabalho: tudo a girar em volta de si. A pobre bem caduca. Eles que dizem assim, assim a apelidam ou chamam-na entre si Matusalém, bem não indo além dos cem e não anda, anda anda sim porém encolhida com mil inteiros a vigiar-lhe os cacos humanos. Vejo agora a Vó sentada ao sol no seu cadeirão a olhar nunca se sabendo o quê. De repente se levanta, a custo tenta tenta se estica ergue-se empinando, quer ir... todos acorrem, eu acho bom pois me livro um pouco da mãe, acorrem estão em sua volta. Aonde? perguntam todos ao mesmo tempo todos como italianos. Quer tomar umas tampas, fala tremendo até na voz quase inaudível assoprada, umas tampas, vai revirar o paneleiro, encontra duas adequadas e ruma ao fogão. Afirma haver deixado aceso o fogo, ah cuidado com o gordura quente diz, sempre temeu desastres agora um desastre humano no avançado dos anos por sua decomposição a pobrinha miudinha magrinha embodocadinha e caminha; vai no seu passo curto num arrastar chinelos no chep-chep ou eles a ela arrastando e aí chega minutos-horas-séculos-eternidade, eternidade acham os jovens impacientes da família, que medem a verdade das coisas – chega. Olha, vira a brancura dos cabelos, olha reolha sem saber o porquê. Daí caminha com as tampas, não tendo encontrado o fogão invisível por invisível e as deposita num móvel qualquer à frente;  então se senta na cama – sua fortaleza de todas horas – se estica se desembodoca, ajeita como pode as pernas e as meias dos pés sempre friorentos, neste calor abrasador aterrador e medonho; aí quando se percebe já não percebe ela o mundo e dorme e ronca e some.
            Libera a mãe.
          Pra meu desgosto e azar a mãe me volta inteira feroz na labuta, enquanto estou aqui aguardando com ânsia.
          Me prende outra vez como antes do corre-corre para ver a vó, prende entre as pernas, o vestido eu o amarroto com o corpo esguio e quente, sinto mais a quentura dela, no entanto a mãe não está pra brincadeira – vai catar meus piolhos!
            Faço o que posso, posso pouco aliás; moleques jogam bola gritam brincam gritam, gritam me mostrando minha perda e minha prisão – menos mais doe. Escuto eles na brincadeira enquanto vivo igual a madeira na morsa do pai: as coxas dela me seguram mais e mais eu menos menos aceitando e aí dói bastante grito tomo um croque. É o que sempre me acontece, porque não paro quieto, opinião adulta, o pente desliza pra lá pra cá, piormente o pente-fino que me parece escavadeira e raspa e puxa e arranca fios, grito! me dá com a quina do pente, arma poderosa, a língua sendo bem mais poderosa, soca em croque o couro, impaciente tendo ela mil outros afazeres e este pesteado (eu) não para nem pra limpeza a seu próprio bem; então resmunga não sei se aos outros parentes e conhecidos que não chegam sequer a me ver, ouvem-na na reclamação ah essas escolas de hoje em dia (não pensa que na sua meninice houvesse ido a uma ainda pior!) Este safado me traz milhões, exagera a mãe as centenas somente, milhões de piolhos e têm as lêndeas, ih achei mais uma. Bota vinagre põe outro remédio, um dia prometeu querosene, sinto imediato o cheiro nauseabundo de bichos e remédios e venenos e gentes, respiro o quente úmido malcheiroso que vem da genitora suada as gotas me atingem, a ‘fragrância’ me perturba, ela persiste: vai limpando os cabelos puxando fios batendo o pente no pano branco, ex-branco, e isto me aumenta o cheiro e a aflição, os outros gritam gooool eu preso entre quatro paredes de duas coxas fortes persistentes e corajosas valentes... Não obstante a mãe responde (a quem? estamos eu e o mundo calados e tememos certamente) “então, diz, não tem outro jeito, João”, João é meu pai ali olhando se a sogra dorme, dorme. João, precisa levar o menino ao barbeiro. Incomodado respondo respondão: não tenho barba pra cortar! Ela é quem lê meu pensamento e dispara – leva hoje mesmo e não traz esta porcaria mais enquanto não raspar tudo.
          Fiquei careca. Aí os meninos...
          Contudo até que a vida é boa.



Cap. 2  

Queria pudesse não haver, queria não ter derrubado a pirâmide empilhada dos trens de ferro e alumínio quanto às louças xi... cacos no chão – a fazer o estardalhaço que fez o conjunto destes inimigos da gente. Porque maior estardalhaço devo ouvir dela, a mãe. A mãe limpa neste instante aquele cachorro piolhento que é meu irmão do meio. Meio fácil de contar pois maior tarefa a tarefa na roça quando nós na roça e na olaria, só depois o pai inventou de trazer a família pra cidade; o que gostei bastante porque a sem-gracice lá era enorme e agora tenho o Chico pra namorar escondido; do pai, a mãe sabe, por alto mas sabe e isto grave porque irá fatalmente encher como seu hábito a cabeça dele, ele exigirá a presença do namorado, será que é mesmo meu namorado... Espero os acontecimentos e a língua da ‘Véia’ (ah se escutasse o som da voz de meu pensamento... neste particular). Porque antes de tudo o mais é só acabar lá a catação do piolhento virá saber aqui na cozinha se quebrei, não quebrei amassei uma ou duas panelas já amassadas e devo explicar o barulhão na queda. A gente aí lavando pondo em cima outra vez doutros utensílios e quando vê tá lá em cima, o que não quer dizer a fatalidade deva levar o monte a cair outra vez e pior no pior barulhar amassar quebrar sujar pra relavar e num pior ainda possível ouvir a ‘Megera’, ah se me escutasse por fora o de dentro meu pensar!
            Não tem importância: se ajunta os cacos, lava-se melhor e com mais cuidado e pronto. Agora me chega a Peteca.
            Lambeta, deve ter mais piolho que meu irmão e pulga com certeza mais que a gente. Senta-se engraçado aqui de baixo da mesa onde ponho os trens a enxugar; antes abana inocência pra mim com o rabo meio pelado. Acho que está um pouco barriguda e logo teremos choro de cachorrinhos na casa. Já sei também que morrerá parte e outra parte a ser dada aos vizinhos aos conhecidos, aqui se chamam amigos e tem muitos que não passam de apenas conhecidos visto não se poder contar com as outras pessoas nas horas mais difíceis; e aos compadres cheios de comadres e afilhados ainda do tempo da olaria e da roça onde vivíamos. Todo mundo virá ver as crias, as crianças pegarão os bichinhos, apertarão eles brincarão com eles; enfim o de sempre. O chato nisso é que a pequena sobrante vai querer os cachorros pra si. Se nossos irmãozinhos não houvessem morrido também eles iriam querer o zoológico doméstico. Aliás lembro pouco deles, mais fixei os enterrinhos e a choradeira da mãe, o pai até ele com lágrima pela perda das crianças. Por fim nos mudamos.
            Estamos em casa eu a mais velha, a Mariazinha e o piolhento – ah tomara que a mãe convença o pai a levar esse praga pelar sua cuca, toda hora ela fala nisso e deve sim convencer o velho; então gozarei até e muito mais os moleques seus colegas, ih estão berrando futebol, uma coisa sem-graça de bola e esfolões enquanto o bobo no sacrifífio nas pernas de nossa mãe.
            Agora tenho de escolher feijão pra pôr de molho a cozinhar amanhã cedo; felizmente hoje temos fogão a gás, era chato demais e trabalhoso ficar assoprando o de lenha a fumaça a arder os olhos da gente; além de lerdo; entretanto tinha compadre na olaria já possuindo fogão de gás e até radinho de pilha, nós não: tudo nas minhas costas e da mãe um pouco. Ainda preciso limpar o arroz e tenho mil outras tarefas chatas pra ficar aqui amarrada enquanto as outras meninas por aí passeando, um dia até ao cinema fui com elas porém a mãe me pega no pé: tenho de prometer cuidado ou não posso escapulir; o de sempre “não faz isso não faz aquilo olhe que...” Rabugenta. Será que ela pensa que sou sua criada ou prisioneira no lar!
            Ouço a mãe chamar o pai: João! leva o menino no barbeiro. Ela é mandoninha. Entretanto num certo dia levou uns sopapos do pai bêbado e aquietou emburrada e medrosa também. Quer dizer, não teme os filhos – sobrou até pra mim que sou moça, bateu no moleque e na pequena em desconto.
       Contudo melhorou, quase não mais apanho, apanho só de língua da língua dela. Agora. Antes era um inferno, além da gente trabalhar que nem burra o dia inteiro na olaria. Eu fazia inclusive tijolo na banca e o Joãozinho lançava pra mim; embora com o desajeito dele, só pensando na arapuca armada, corria ver a geringonça me deixando bater tijolo sozinha o safado; e pensando no rio com os outros moleques. A velha, a mãe, porque a Nonna não falava nada, nada que se entendesse por causa do miolo atrapalhado; mas a mãe sim vinha dar raspança em mim por ser grande e devendo ter responsabilidade. Além ter que fazer as coisas de casa na casa após o serviço no rancho. De maneira que melhorou bem com a mudança aqui pra cidade.
            Apenas não melhorou porque a mãe vem vindo pros lados de casa...



Cap. 3

 A mãe me chamava nenê, a nenê, me lembro bem; depois ficou de cara virada pra mim... Não isso, devia estar brigada com o mundo um dia até o pai bateu nela ela em nós, só porque fiz cocô no meio das galinhas e vim para dentro de casa e as galinhas atrás. Me limpou braba, já chorando e me bateu com chinelo e chorou choramos e então jogou longe a calcinha suja pra Marina lavar. Minha irmã andava já de olhos vermelhos e o pai ainda falando mole e repetia repetia repetia as coisas, dava inclusive medo chegar perto. Desde esse tempo me tratam Mariazinha, sou Maria igual a Nonna que é Maria. Entretanto já valho alguma coisa porque na olaria eu levava café no rancho para meus irmãos. Daí o João brincava comigo, fazia boneca de barro pra mim e a nossa irmã ralhava com a gente. Falam muito nos que morreram mas eu não vi, decerto também levavam café lá na banca ou ao pai na pipa com os burros girando gozado em volta. Agora não tem olaria, só tem cidade e muitas casas. Apenas a mãe que não para na brabeza dela. Tanto assim que outro dia me pegou no colo e fiquei assustada, depois coçou meu cabelo e também a cabeça da boneca, eu tenho uma e perdi a outra porque a Peteca rasgou ela no dente e jogaram meu brinquedo na lata de lixo. O lixeiro passa de carrocinha pegando as latas ele bate poc-poc a lata despejando o lixo fedorento e a Peteca e os outros cachorros latem sem parar. Eu chorei os pedaços da boneca indo embora, então o pai comprou outra de vestidinho e tudo e eu ri. E tem a Maria, não eu, a Maria e tem a Sueli e tem outras meninas para brincar. O pai gosta de mim, a mãe também mais ele; eu gosto dele; quer dizer, quando vem do bar falando esquisito não chego nem perto. Aí a mãe desanda a falar, ela não consegue ficar quieta quando começa reclamar, então procuro o João, meu pai também é João no entanto o João nunca bebeu no bar com aqueles homens, só joga bola e foge com os moleques na rua, depois volta de noite mas não vejo, vejo noutra manhã, estava eu dormindo. Brincar é bom. Ruim é que a mãe quer que eu fique pertinho dela pra ver como faz as costuras, eu não sei costurar e acho gozado o pedal da máquina e a roda da máquina. Vou pegando ajuntando trapinhos de pano que caem no chão, às vezes servem para a boneca . Enfim é ruim mas é bom.


Cap. 4

 Até que é bom agora, antes muito difícil. Na olaria e antes ainda no cafezal eu tinha a enxada e ainda a casa pra cuidar e maior problema as crianças pequenas; e pior, cuidar dos que morreram: só ficaram vivos meus três. Ah eles me dão é muito trabalho e preocupação demais. O João também me preocupa, quietarrão em casa mas quando volta do boteco... achei bom que fecharam a vendinha onde ia toda tarde; foge assim mesmo pro boteco mais longe com os amigos a conversar fiado e a gente aqui na labuta – homem é tudo porcaria. O João também, o Joãozinho, que está crescido e comilão. Com ele não posso: se afunda por aí com os moleques, moleque é assim ora na bola ora fora a fugir de casa; e brigar. Aí bate e apanha na rua e aparece aqui depois na casa; só vive esfolado. Agora piorou bem – os piolhos. Uma piolheira que não acaba mais. Falo João, leva esse safado no barbeiro, deixa ele careca, quero ver criar bichos na cabeça! Não leva, levou enfim. Aqui nesta casa foi uma gozação sem tempo e aguentou mil com a turma dele; porém moleque não tem vergonha na cara e pensa que o mundo é brincadeira.
       No entanto acho que está bom agora. No tempo da olaria era pior, muito trabalho e muita falta das coisas; além ter perdido lá e antes na roça as crianças, todas enterradas no cemitério da vila, aqui na cidade nenhuma. De maneira que em Finados tenho que ir pôr flores nos tumulinhos na vila. Agora melhorou porque posso trabalhar mais sossegada na costura, com os filhos grandes, a pequena grande já, a maior moça já. Pequeninha de cabeça. Mas trabalha também, salga demais ou deixa pedra no feijão só pensando no namorado, decerto não dá isso nada pois o sujeito não me parece boa coisa: estou de olho... Quebra prato derruba as coisas e não aprende a usar agulha e linha, enfim trabalha me ajudando. Queria ficar respondona, cortei o abuso com tabefes. Vamos ver no que dá.
            Melhorou igualmente porque nós dois não brigamos mais tanto como na olaria. Agora, primeiro passamos necessidades no começo quando mudamos pra cá, já é a segunda casa que alugamos, agora sim melhorou. O João não arranjava serviço às vezes tinha que ir pra roça nas imediações. Depois se empregou ganhando mal, tirou carta de motorista, comprou caminhão velho quebrador e por fim aprendeu comprar e vender terrenos pros outros. Um dia dá muito dinheiro outro não vende coisa alguma, entretanto a família continua comendo e tem a farmácia pra sustentar também, mais pela minha mãe que fica no morre não morre; difícil manter a vida; ah se não fosse a máquina de costura... Hoje tudo pago e quem sabe possamos comprar um dia uma casinha que seja nossa mesmo.
          Oh quanto sonho a gente tem.



Cap. 5

 Eu falo para vocês que em mulher não se bate, bato, batia, uma vez peguei foi a família inteira de cabo curto e acabei no colchão de atravessado mijei nos panos e noutro dia, sarado, ouvi até... A minha é braba, começa a falar e não para mais e por isso corrigi, não se corrige. Agora não faço como vocês: brigo com ela sim mas não abuso do braço; olhem, quase nem bato nos filhos. A pequeninha é grudada comigo, vou bater! O moleque some no mundo, quando volta não tem mais graça corrigir. A menina é grande é moça, bonita pra valer. Outro dia não é que estava de namoro... a mulher que disse, a minha mulher. Não sei no que vai dar. Ela quer que eu vire secreta da polícia e vá saber por aí se presta, não deve prestar se prestar mesmo que case de uma vez: não fiz filha pra ficar solteirona brigando em casa com a mãe. Elas se pegam bem no entanto deve ser por culpa da esposa pois esta não é de se cheirar... Agora, digo pra vocês aqui no bar, minha gente é trabalhadeira. Quando na olaria, falei que nós viemos da roça! e na roça também antes da olaria: todo mundo, guardadas as proporções do tamanho e força, todo mundo fazia alguma coisa pra ganhar uns trocados. Aqui na cidade, é como o caso de vocês com os seus, aqui é mais difícil arranjar serviço para criança; assim mesmo sempre que aparece já trabalham, até a pequena que largou outro dia a mamadeira, até ela não fica na rua e ajuda a mãe. Quer dizer: com o moleque a gente não tira muita farinha – só vive com os companheiros na rua. Inclusive uma vez fugiu da aula para bagunçar por esse mundo. Não posso com ele; nem a mãe que é tão braba pode. Hoje está careca, parece aquele homem do circo como é o nome dele? esse. A meninada abusou na gozação depois se acostumou com o cabeça pelada. Piolho. O seus também? Dizem que pegam na escola. No futuro vai se formar, ah se vai.
            Com as meninas não faço empenho no estudo. A gente sabe como é que é: elas ficam moças se envaidecem depois arranjam marido e a filharada pra pedir bênção ao vô. De fato estou ficando velho.
          Mas tem uma coisa – logo terei minha própria casa, aluguel é um dinheiro morto e que some do bolso da gente ao do proprietário. Não. Compro logo. O problema é que a praça anda ruim, não se vende, vende sim, não se recebe. E vocês sabem que ganho pela venda, pelo recebimento do negócio.
             Assim mesmo acho que a coisa até que está boa pro meu lado. Quando o Joãozinho se formar e virar doutor ainda vai melhorar mais. A gente quer independência e não ficar trabalhando feito burro para os outros enriquecerem. Vamos economizar ter casa própria e dinheiro para tocar um negócio de respeito; aí o moleque moço formado e com anel de doutor administrará a empresa.
            Por enquanto anda duro pra mim; e vamos lá para mulher também, honesta e trabalhadeira que é. Sim, fala porém não é faladeira: apenas conversa na amizade com as comadres. E dá exemplo aos nossos filhos que sobraram, os três, exemplo de honestidade e religião; quer dizer, não é muito de ir à missa e se fosse não teria minha companhia. No entanto defende a moral das crianças.
          Não tenho nesse particular queixa. E vocês?



Cap. 6

Olhe vizinha, a senhora chegou ontem e ocupa a casa daquela família da Genuefa, Dona Veva como eles falavam. Sim moraram, moraram sim quase dois anos nessa residência e verdade seja dita: foram corretos e apenas mudaram pra ir para casa deles se livrando do aluguel. Isso é fato e mérito mas, sem exagerar, era uma gente atrapalhada. Ela boazinha assim aos de fora dentro uma cascavel. Brigavam sempre, o homem voltando na boca da noite com a rua não querendo parar – bebinho da silva. Só tem uma coisa, ninguém e nem mesmo os moleques mexendo com ele por causa da embriaguês, pois respeitador e respeitado no bairro, mais nesta rua Boa Vontade. Agora, a mulher, mulherona dessas italianas grandonas e desajeitadas, ela com uma língua assim. Começava a falar não parando dia todo. E gritava também dia todo com o Joãozinho – um alívio pras mães a mudança deles – um capeta, ca-pe-ta. E piolhento: passou bicho aos meninos daqui. Mas a senhora decerto lavou bem e desinfetou a casa, porque a porca deixou mais lixo que o lixo do lixeiro da prefeitura aquela ladrona, ah antes que me esqueça: agora exigem pôr tudo nos sacos plásticos, se for na lata não levam; o lixeiro passa de segunda quarta e sexta, se não cair num feriado ou dia santo. Deve ter ficado nos quartos lêndeas do piolhento... Tinha a garota pequena, uma graça, embora chorona. E a moça, menina-moça, uma tal de Mariana ou Marina: namoradeira e sem-vergonha, a moral deixando a desejar... Além do relaxo no trajar, nunca vi gente mais desengonçada e sem gosto; isto ainda levando em conta que Dona Veva costureira e devendo ter mais condições de olhar os seus e dizem que fazia bem as roupas. Pudera, vieram da roça e nunca viraram cidadãos. Não sei no que vão dar aqueles meninos dela; e ah sim, tinha Dona Maria também, a avó, essa enrolava a língua no italiano ninguém sabendo o que falava; e quase morreu a coitada velhinha velhinha, saiu daqui com dois homens carregando a cama, não andava, dura... não dura muito. Não deu trabalho a ninguém, só a gente sabendo dela pelos gritos da filha, a Veva. Felizmente a senhora não sofrerá isso tudo, chegou ontem não é? 



Conversa para Advertência ao Leitor

É claro haver Leitor e Autor. Este poderá ser um mequetrefe da literatura; não é com certeza um superstar pesadinho por carregando tantos best-sellers e as glórias acadêmicas. Mas você não perde nada. Falo isto por lembrar um ditado que diz ‘em burro ganho não se olha idade’, você ganhou este volume (recordar o ditado mais uma vez) recebeu o mesmo ou está lendo o exemplar da estante na biblioteca pública e daí não tem o que reclamar, sobretudo a ganhar por ver a bibliotecária bonitinha, você sendo homem ou lésbica, aquele saindo de moda esta entrando na moda; então já novo prêmio. E a obra propriamente.
       Temos seis capítulos breves até aqui, os personagens tentam impingir-nos uma estória, cada qual pensando ou falando ao hipotético de orelha em punho e assim a dar seu recado. Se falharam é lá com eles e você, não comigo. Enfim deduziu uma família de capiaus migrada à cidade, nela tenta sobreviver e absorver o ambiente urbano. No entanto a vizinha... dessas de trazer na casa da gente doce e bolo e outros comes-e-bebes e ainda completa a oferta com um “não repara” e imediato pensa o que será que essa porca irá me dar para levar em troca, aí já sondando a casa os utensílios a roupa a fim de saber se é mesmo porca, neste caso específico o italiano tendo já a pecha de ‘porco’, o que maldade das grandes; essa tal vizinha por fim mostra à nova ocupante do palácio que a família desocupante não passava de urbanoide grosseira e quiçá sem futuro no mundo burguês, à vista pequeno-burguesa.
            Contudo o Leitor descobriu que não há mais quase nada além da migração e da luta. Quando muito percebeu em cada familiar a visão disso e cinco visões diversas da mesma coisa. A vizinha aí lembrada deu a sexta interpretação, ou seja liquidou seus ex-vizinhos, como exige a hipocrisia da amizade.
            Há outra advertência e isto mais grave. Estamos em tempo ainda. Viu que é início do Mel. O mel pode ser puro mas o que mais se encontra é o adulterado, batizado como falam. De baixa qualidade.
            A menininha tem sua versão inocente, a mãe também a sua a qual se encaixa no ‘pegar no pé’ dos outros; o velho ainda moço tem sonho; o moleque quer escapar para a brincadeira; a mana moça para o namorado. De maneira que fugir dos dramas familiais é doce... A nonna não existe e talvez nem suporte açúcar. Enfim o mel da família é o despiorar das amarguras pobretonas e interpor um doce leve e bem intermitente. Aliás a felicidade ao homem comum é limitada, a alegria dura pouco, é sempre suplantada pelo estado precário dela mesma.
            Ora, onde essa porcaria de autor quer chegar, você me indaga.
            Voltemos à advertência. Não lembrei agorinha a precariedade a insuficiência do mel segundo o pobretão? Mas, interfere o leitor, não poderá nos próximos capítulos haver um mel pleno! É aqui que reside o problema:
            Batizado ou puro é açúcar.
          Se você sofrer diabetes...
          Ainda terá tempo para desistir.
          Não diga... digo o seguinte: tem um provérbio assim ‘quem avisa amigo é’.
          ‘Pilateio’ minhas mãos. Assinado: o autor.
            O autor dedica o restante, a se iniciar no capítulo 7 deste mini-romance, ao teimoso Leitor.



Cap. 7  

Ao retomar as linhas apresentadas até ao capítulo anterior e a continuar nossa estória, nos deparamos com algo inusitado: a voz do tempo! Sou o tempo não paro o tempo só ando rumo ao futuro; estamos no futuro mas... cadê o Joãozinho. Hoje é um homem, desses com ‘o’ maiúsculo. Porém como o salto a chegar neste ponto... Digo eu o tempo – deve ter acontecido um batismo (por que só o mel possa ser adulterado!) sim um batismo nas areias de minha ampulheta: de repente o moleque não é mais piolhento nem os seus presentes estão mais no passado, no futuro, hoje. Agora sobe esse vapor prenhe de cheiros, a fragrância que mais aprecio; e sobe essa quentura que me envolve, envolve todo este banheiro, aqui para banho mesmo: curioso como se fala frequente ir ao banheiro quase nunca a banhar-se, a outras coisas. Agora não, me envolvo nesta gostosura de atmosfera que embacia e apaga quase o espelho de me ver homem belo rico saudável satisfeito e por satisfeito feliz. Sim sou feliz, nada me falta, claro tenho problemas mas os outros têm muito mais sou portanto menos necessitado mais feliz. De fato reconheço que esta alegria cheia de sonhos no limpar-me e me perfumar no vapor do banheiro, reconheço sim nela uns senões – não basta ser rico, no meu caso mui rico, a memória do passado me lembra e compara, a realidade do presente me contunde com seus barulhos desnecessários indesejáveis e indesejados. Contudo apenas ensombrece e não anula minha alegria e a felicidade em que vivo. A velha grita as criadas, continua a pegar no pé dos outros – elas descontam se vingam quebrando objetos caros e hipervalorizados e derrubando vasilhas que só têm o valor de escandalizar a paz e também à boca pequena xingam minha genitora dou-lhes razão – me faz a velha lembrar-me quando ela qual morsa do pai a prensar tábua na oficina de fim de semana da nossa casa pobre na Boa Vontade, ah essa rua de grandes e marcantes recordações, me prensa, me prensa a prensa faladeira nas suas pernas potentes e finca o pente-fino, me alavanca os fios escolhe escolhe resmunga reescolhe e me alimpa dos piolhos; vez que outra me oferta um croque bem dado com dado em ai, meu ai de sofrimento; ainda os meninos num por cima desse por baixo a gritarem gol, eu preso, aflito... Ouço neste instante nos recônditos da cabeça os gritos dela, exatinho neste momento em que me banho na banheira que é um luxo só e na água quente quase nem podendo distinguir a luz da lâmpada e a que vem do vitrozinho e quase não descobrindo onde a porta, tudo se entregando ao vapor; sim ouço nitidamente agora a falação dela atrasada à beleza. Realmente deve a mãe estar aflita nervosa mais nervosa que de hábito por chegar tarde ao cabeleireiro ótimo à sua vaidade; o chofer (ela o trata chofer como quando italiana costurando pra fora para ajudar o velho então um velho novo) o chofer paciente a esperá-la impaciente; a mãe até hoje não consegue dirigir sozinha e tem carteira comprada e tudo porém dependendo do motorista particular, fardado como sua exigência e chatice... Daí grita com uma, como fosse a criadinha culpada da incapacidade da patroa; grita berra estertora alardeia ao mundo com sua voz fina irritante como quando irritava a prole e mais ao capeta que eu era na rua, reconheço. Como gritando com o pai bêbado... ah sequer é bom lembrar disso; ou a gritar com a maninha sobrante os anteriores ficaram na vila enterrados, pouco me alembro; como a berrar a outra mana, a berrar e discutir com ela visto a Marina ser bocuda exigindo que a mãe gritasse mais gritado a espantar decerto vizinhas novas as velhas acostumadas a apanhar de voz... Então eu fugia, fugia não por isto exposto-lembrado apenas: fugia ao meu mundo que era meu mundo e mundo dos outros colegas. Foi entretanto bom. Agora é melhor. Agora mesmo rumarei após a limpeza e o desfrute à minha vida (vida boa! boa vida) a tratar de minhas coisas. Deixarei o ambiente, deixarei este inferno de gritaria com gritaria também das lembranças, ao paraíso do meu viver. Diria ao gosto de meu velho: o mel do bem viver, quando vivia mal.



Cap. 8

 A ‘véia’ vai dar cria se souber, antes falará por três dias esbravejando como antigamente quando me pegava em falta na cozinha, ih não tenho vontade alembrar. Vai se souber que deixarei o Chico. Como a vida é curiosa, antes ela olhava com má vista meu marido então namoradinho e vixe soubesse que me enroscava noutros rapazes ainda meninos; acabei por consorciar-me a ele e agora me cansei: tanto quis filhos – aí adoçaria a existência da mãe assim como amoleceria seus ímpetos, amansaria a língua dela – tanto eu quis, o Chico sempre pondo a culpa em mim por suposta infertilidade; os exames provaram que o macho da espécie não é lá tão macho; mesmo assim prosseguiu a me diminuir, decerto cansado de nosso casamento. Diz que exijo isto exijo aquilo e bem poderia exigir: minha família é rica a dele pobretona como quando nos casamos. Nem com ajuda do pai ele melhorou melhorando nosso relacionamento. Meu velho chegou a ofertar parte na empresa (possivelmente pensando nos netos que o Chico lhe daria). Mas agora piorou a situação entre nós melhorou a proporção das brigas nossas num bate-boca sem fim, um dia quis, ameaçou apenas, me bater igual fizera o pai por cima da mãe, a mãe merecendo linguaruda...
       Ela irá dar cria, enraivecida quem sabe a se sentir traída ao ter conhecimento da separação que propus ao esposo. A mãe irá, eu sei disso, irá defendê-lo e rebaixar-me: nunca viu meus méritos, se é que os tive; doutro lado me pegando no pé sempre por minhas faltas. Ora, sou um ser humano – e modéstia às favas uma jovem, ainda jovem, bela e inteligente; talvez de grande moral, incompreendida na família. Agora decidi mudar o rumo deste inferno conjugal, a gozar um resto de alegria que os anos me ofertam, o melzinho como diz o pai. A ele já contei o meu bem feito no malfeito. Ficou circunspecto apreensivo emudeceu e depois, já noutro dia, concordou comigo; ele mais meu pai, ela menos minha mãe. Inclusive pedi sua ajuda fechando a boca diante da mãe, o que quase desnecessário porque o velho se sente menos no ocaso nestes tempos e tem mais assunto com a nova secretária (ciciavam os dizem que dizem existência de outras amantes uma é chamada ‘namorada efetiva’, mesmo a mãe sabe disso, a infeliz). Não espero portanto que o pai confidencie minha situação à mãe. Ela saberá por mim logo, inclusive me preparo me fortaleço e se preciso municiar-me-ei o suficiente para enfrentar a fera. Levarei lenços para lágrimas e abafar os gritos, insultos; não lenço não: lençol para tanto. Nunca vi italiana mais italiana que essa italiana bocuda! Depois – aí já terei combinado definitivo com o Chico o nosso divórcio – bem depois, acalmado o choro e a explosão da mãe direi: “Dona Veva, tem mais...” Uso o instrumento de elevá-la a um ser estranho e de respeito como se faz com a gente de fora para solenizar uma ofensa (mas me indago: não poderá até ser um prêmio! sim, quem conhecerá o ser humano e todas reações da gente?) Direi assim: Dona Genuefa Negrini da Silva, a senhora vai virar avó – espero filho do... Aí deixo no ar, ela interferirá como hábito seu, é possível que a sua querida filha (chorará horrores, pois a ‘véia’ é safada e hipócrita) a sua Marininha, ande traindo o exemplar Chico. Eu interromperei a interrupção – exemplar e pouco homem, homem que sequer sabe fazer filho, estéril. Ela desfiará o tró-ló-ló, defenderá a honra da família, quem sabe, gente é imprevisível, quem sabe sim não abrir-se-á comigo pelas traições constantes do seu velho!? Não sei. Sei apenas haver contado isso ao interessado, o pai do filho, o médico disse que é machinho vou já comprar azul e preparar-me. Sei também que fiz o meu futuro ‘ex’ saber a esposa futura ‘ex’ estar grávida, aliás já percebeu logo meus enjoos e o ofendi em regra “porém não é seu!” e fi-lo como vingança. Mais uma razão que deve pesar na balança da separação. Ah me esquecia no meu esquecimento as poucas amigas dignas a conhecer segredos; e mais ainda falarei à mana, a Mariazinha. Curioso agora alembrar-me da nonna, D.Maria, essa não podendo entender o bisneto pois não entendia antes de falecer a própria neta.
            De maneira que o maior drama é mesmo o drama de conversar com a mãe...



Cap. 9  

Cheguei faz pouquinho nesta mansão dos meus pais, tenho lá em casa umas encrencas, verdade que meu companheiro é um bom homem, só não aceitou minha família que me casasse legalmente com um mequetrefezinho sem eira nem beira, a velha questão do destino da herança, coisa corriqueira entre os ricaços, o companheiro ora num emprego ora quase sempre desempregado ou subempregado e mal empregado mal remunerado; contudo sendo bom amigo; bom sim mas sem expediente, não é um homem vivo, no sentido que a isso se refere o pai; assim mais vive das misérias que imploro à mãe, nisto falta coragem para me dirigir ao chefe do clã; enfim vive meu companheiro mais de favores do que de seus próprios recursos. Agora mesmo me dispus a ouvir o discurso materno em resposta para mendigar uns trocados, no costumeiro ‘empréstimo’ insaldável... porém que fazer, sermos despejados sumariamente! e ainda faltam as coisas básicas no lar. Os meus choros não são dinheiro à compra de gêneros; pretendi falar nestes termos a ela para justificar o pedido ao implorar (pedido ou humilhação!) Chego e tudo vai por água a baixo... a mãe saiu. Saiu? indaguei. As criadas responderam uma que sim as outras de cabeça. E agora, onde, quando, volta? elas atarantadas. “Dona Mariazinha, nóis num sabe”. Não sabem, de certo se foi empetecar (interessante como são as palavras: acabo de me lembrar da Peteca, eu brincava tanto com ela e chorei sua morte no pneu do carro) sim a mãe foi empetecar-se nos institutos de beleza; ela não era vaidosa na Boa Vontade; ou era sim e não mostrava, não sendo ostensivo pelas agruras da vida, além de pouco simpatizar-se comigo e não me apreciar como filha: só tendo olhos para os lados do João, seu Joãozinho arreliento e bagunceiro; pisava também na Marina, azucrinava igualmente o velho novo então. Hoje enricaram, não cabendo discutir o como nem o quanto, parece que o pai não agiu sempre semelhando santo nos negócios e teve foi muita sorte. Sorte dela que pode esbanjar, esbanja até na minha falta e na pobreza de meu companheiro...
            Não obstante andamos em melhor situação que ela, eles. Não usamos da traição e nos amamos, quase me arrisco a dar neto aos velhos, a velha não se admite passada; o velho se imagina bem jovem com suas amantes. Enfim gastam a rodo enquanto ela a negar a sobra ao seu sangue caçula... Nega e se entrega por fim pois o coração dela é mel, amargo só a boca. Mas agora não está.
            Não sei. Espero? Volto? Exponho? Imploro? Explodo? Não sei.
       Para os criados não digo ao que venho, vim. Não se entrega o ‘ouro’ aos subalternos; devem conhecer a fraqueza do poder de nossa família. E os podres morais desse mel numa decomposição. Nem sabem suficiente, presumem suponho apenas, não sabem de minha quase indigência e de minhas necessidades. Ou sim, muito, possivelmente. Não podem adivinhar que a caçula da patroa é paupérrima em espécie e riquíssima em amor com seu amor. O que pensarão? Doutro lado, o que também sei de positivo sobre essas criaturas! Gozado esta tristeza: desconhemos as necessidades as conquistas os pensamentos os sentimentos dos que estão sujeitos à nossa ordem... A mãe saberá! Anda por demais debilitada pela cegueira das joias e do poderio; e ainda cega num abaixo dos quintos dos infernos, afundada na miséria da solidão na multidão do seu séquito hipócrita. Ah pobre mãe. Supõe-se a extrema beleza, defende a extrema riqueza, talvez não se pense o banco mundial, não se imagine uma ‘Vênus’ por mil operações plásticas e viver a se chocalhar nos balangandãs brilhantes. Nada.
            Tudo é o nosso íntimo.
            Lamento deveras a mãe, porém não resolvo nunca meu drama próximo ela distante. Onde? Aguardo?



Cap. 10  

Aquele antigo e não superado problema do rato sem o gato... Os patrões saíram, os empregados em festa, a festa da liberdade com algum deboche muita risada demais conversa e até abuso na invenção do que não existente ou ao contrário excessivamente verdadeiro. Línguas destravadas. Aqui uma inserção. Temos nessa reunião a linguagem popular, com os diálogos chãos da gente da terra migrada ou por causa do êxodo rural na expulsão imposta pelo fazendeiro ou por escolha voluntária do imaginário das pessoas riquíssimo em ver melhoria se mudando à zona urbana. O Autor, olha ele outra vez, o autor não pode permitir que essas pobres criaturas, isto é os personagens a criadagem reunida, falem a três por dois “nóis vai”  “se malapregunto”  “peguei e fui” etc. etc. – mesmo não podendo trocar isso pela linguagem culta; aqui lembrar caro Leitor o ‘mequetrefismo’ escrevinhador. Então uniformizemos a coisa e quem sabe também obedecendo um pouco a Reforma Ortográfica em vigor desde 2009. Vamos à festa da liberdade do pesoal servidor... A velha criada, servidora mais antiga do solar e que é forçosamente testemunho ocular dos fatos passados e presentes, a Maria, essa dá as cartas. Tudo na conversa informal – a gente do povo desconhece a formalização e a disciplina se bem possa ser até ordeira no que faz – tudo gira em torno dos patrões, eles fora é visto mas tudo igualmente devendo ter o beneplácito da Maria. Uma espécie de indivíduo primeiro-e-último, ou do tipo falei e disse no dizer popularesco. É curioso que nesse tempo a tevê arregalada na sua boca e então o homem da rua repita dizeres de novelas e espetáculos (inculcam com outras inglesas palavras a palavra show) na época em vigor ‘falei e disse’, está dito! A Ricota, paupérrima, burríssima, pequenina e irriquieta: Maria, tem o negócio da ‘véia’ sair todos dias na mesma hora atrasada e daí não atrasando mais que o atraso habitual, ou seja onze horas então põe toda casa em polvorosa, grita com a gente inclusive com o Tonho, aquele navalha que raspa de vez em quando o carro da patroa na garagem, até com ele! A Maria sorri essa vitória. A Vitória, uma negrinha perdedora que apanha do marido na sua casa mas no serviço ela é macha pra valer e então xinga a patroa, a patroa no cabeleireiro como agora no horário dessa reunião de cúpula da alta criadagem de Veva. Vitória diz: a vaca me faz jogar aos cachorros a comida que preparei no capricho e... Tem razão intercede Maria e acresce um acresciminho de respeito. Sim, interfere Joana, têm as questões morais, o espantalho (todos riem do gracejo sem graça e pejorativo próprio do desabrimento joanino) o espantalho sai, após berrar com a gente, no carro do Tonho, antes exige a impecabilidade no traje dele, chega quase ao absurdo de cheirar o Tonho pra ver que não cheire e que esteja nos trinques; a seguir dá ordens específicas a você Maria, para que nos olhe como fiscal do governo, aquele ladrão; mais uns gritinhos como lembrança e aí, só aí entra no carro do Tonho e manda tocar para frente. Porém como um dia falei, acho que tem questão moral envolvendo a patroa a sair tão bonita (nisso todos desandam no gargalhar, Vitorinha chega a fazer uc-uc e então mostrando aquela dorzinha na barriga no desopilar) sim sai ‘bonitinha’ para ver o namorado, vai coisa alguma pro instituto, mesmo porque nenhum instituto reforma o medonho em miss. Ah vocês viram a miss na televisão! Conversam meia hora sobre esse palpitante assunto e tornam às escapulidas da patroa. Joana: sim senhora, fala olhando a mestra Maria, por que motivo não pode a velha arranjar namorado novo se o velho dela tem mil namoradas menininhas, uma eu vi com estes olhos que a terra há de comer – pequena como a Vitória e com muitos adereços e penduricalhos se balançando nuns balangandãs nos braços e no pescoço que mais parece um circo de cavalinhos. Nesse ponto gastam apreciável tempo da conversa na conversa do circo montado a desmontar na cidade no desmanche regular permanente para outra localidade, um mambembe quase a morrer igual o trem, aquele que o homem matou no país. No entanto voltam ao assunto principal à baila. A Gringa falou na assembleia como pôde pôde pouco, sobre os erros dos acertos patronais; todos fizeram esforços, mais o Almério jardineiro ali sorrindo qual bobalhão, um esforcinho para entender a pichação do primeiro mundo ali presente. A Gringa com nome arrevesado francês inglês birmanês sabe-se lá, e de linguajar gozado longe do ‘caboclês’ culto e em vigor no palácio. Assim mesmo deu seu recado, todos rindo a agradá-la. Essa Gringa contratação recente de Veva a melhorar o padrão de atendimento na sua mansão, desregrado falou quando a apresentar a novata para a criadagem e mais à Maria, esta com direito adquirido. Prosseguem. “Num te falei procêis...” objeta a Vitória tratando concordando no descuido autoral, ela a insistir num ponto – a Mariazinha. A menina vem sempre aqui no palácio buscar alimento para sua choupana, a garota de mãe tão rica de pai tão poderoso morrendo de fome com o namorado dela; ah não lhes disse que o sujeitinho não é casado nem no padre nem no cartório com a filha da ‘véia’! Pois é. Inclusive é boa gente a menina mas é gente e gente não sabe viver sem viver a dar palpite pra gente. Palpita sim na cozinha e na cozinha não aceito palpite! (olhou arrogantemente pros lados da Maria, ao sorriso indefinível da Maria). A Maria: é possível, é possível... e nós aqui a engolir tudinho. Tem a outra escurinha que volta e meia briga com dona Veva, ah boquejam sem parar e não se dão como deveriam mãe e filha; nisto fico com a patroa (a Maria não tolerando e a chamar isso orgulho e caquetismo da menina:) vive aqui na mansão ao invés de cuidar de sua casa sua vida seu marido e não sei se não também dum seu amante, está bem gente eu concordo: namorado. Ora, digo isso porque da briga delas sempre sobra para nós... E o menino? este quando vim para os serviços da casa era pouco mais que moleque hoje um molecão irresponsável; e olhem que falam irá receber anel de doutor! Ele é isso que falei, creiam pretendeu o malandro passar a conversa em mim, como fosse eu uma dessas mulheres da zona do meretrício que vivem à sua volta, em volta do dinheiro dele bem entendido! Pois xinguei até não poder mais ao abusado. Nisto todas olharam e se olharam, ninguém disse desacreditar por causa das pelancas e rugas da Maria e de sua feiura congênita que já havia trazido do outro emprego; não disseram nada, se calaram pensando. Após o silêncio momentâneo a Maria deu prosseguimento à arenga. Olhe minha gente – estamos no meio de ricaços tarados que se vestem com a pele de carneiro da religião. Falo assim porque quem já viu a patroa indo à missa! quando muito passa dinheiro ao padre e se considera quite e com o pé no céu. Tem mais... Neste ponto menos porque ouviram parar um automóvel, cada qual tomou seu instrumento de trabalho vassoura pano sabão espanador, Vitória, derrotada ou só na expectativa, corre à cozinha mexe tampas examina as borbulhas na panela. Alarme falso, não era o Tonho, o carro do Tonho, outro qualquer; mas estava quebrado o encanto, visto ser encanto falar mal da vida dos outros ferindo inclusive Tiago apóstolo nas suas exortações.



Cap. 11 

Sim senhor, senhor João! não é que a vida, a vida é claro mas a existência na vida, vale à pena, ao menos para observar o ridículo humano nas suas ‘altas’ concepções e nas baixas concessões. Porque – aqui vou agradecer meus esquecimentos das lembranças tendo que voltar, inesperado, ao lar – porque não me ocorrera pegar a grande cúpula dos subalternos da mansão na malsã tarefa de ferir Tiago, será Tiago que pega no pé da judiaria estando esta a pichar os outros e mesmo seus irmãos de sangue! parece-me ser esse religioso: falaram gargalharam inclusive uns gritaram contra os patrões, nós, mais ainda elegendo a mãe, no que um mostrar bom apetite e bem no acerto... Entrei, quieto, quase sorrateiro, embora sem intenção mas ligado; inesperadamente – eles me imaginando longe, eu aquele garoto estroina bagunceiro e desligado... Sim, calaram-se, a Maria ainda sorriu contrafeita aos outros, o jardineiro, como é mesmo o nome desse bobo! nunca lembro lembrando nada ganharia, sorriu desajeitado é desajeitado por natureza; a Maria não: determinada; e hipócrita quem sabe, “Senhor João, voltou mais cedo hoje precisa de meus préstimos!?” (falou realmente num caboclês chão a deixar a mãe no chão no céu da raiva nas nuvens da ignorância própria dela; tanto assim que contratou uma gringa imaginando transformar o serviço numa oferta primeiro-mundista). Sequer respondi, fui ao escritório, revirei minhas coisas, por tabela os papéis do velho – ele ficará brabo depois eu sei constatada a maculação e isto pouco me importa, por fim achei guardei, ainda saía com a mão direita a enfiar documentos no bolso, quando me lembro da lembrança da lembrança. Puxa que pensar mais idiota este meu, pois sequer pensava na ligação quando voltava pra casa e de chofre surpreendi a alta cúpula em sua assembleia e nas discussões pertinentes. Ao sair agorinha acabei por lembrar-me também disso. Voltei de meu novo sair, eles elas já como nada houvesse pelo menos de grave anteriormente: uma varria outra limpava outra mais espanava, atarantados o jardineiro tonto e a estrangeira sem saber agir – daí esta última sorriu apenas pra sorrir, sorri em inglês em grego ou em caipira sei lá.
            Dessa forma, por isso me encontro ouvindo a gravação, deixando de lado até meu interesse primeiro quando vim atrás duns papéis que posteriormente do anteriormente achados na escrivaninha do velho; o velho, agora imagino outra vez, a pular de raiva o sumiço do documento, aí pondo a culpa na sua velha e nos velhos criados mexilões, ah tem uma que é pouco mais que menina, negra e eu não aprecio muito os ‘coloreds’ é assim que o Murilo fala, um gozador o Murilo.  Nisto lembro a Marina, um pouco escura e em criança a gente gozava nela “pretinha”. Vejamos a conversa.
            Um dia, faz tempo, um amigo descobriu na sua casa certo desrespeito na criadagem, sumiço de coisas, coisas assim. Tomou deliberação de montar uma geringonça eletrônica de fios e sensores nos lugares chaves a fim de flagrar delitos; flagrou. Aliás o infeliz flagrou mais que isso – conheceu a voz do amante da esposa e não é o meu caso; nem pretendia ir além de saber o que falavam os empregados dos seus patrões os patrões ausentes. Não mais que brincadeira, pois o que me importa o que falem se não me atingem...
            Todavia agora tomei conhecimento não ser tão estimado pela gangue servidora. Mostro a língua a essa lembrança do descuido dos empregados. Não é bem descuido porque desconheciam microfones que botei encaixados atrás dos quadros de horrível gosto artístico, da mãe, dos que estão na sala no salão e um dispositivo encaixei, valendo-me da experiência do amigo enganado traído depois divorciado, encaixei-o na geladeira da cozinha e por este percebi o quanto a chefa-de-cozinha é gutural e grosseira (o conteúdo dos assuntos – quase sempre o trivial o chão o grosso – o conteúdo pouco importa; não tendo teor melhor que o da assembleia gravada no salão para recepção dos convidados da mãe).
            Agora, uma coisa concluí do que disse a criadagem: os empregados não nos consideram santos... E têm eleita a mãe. Puxa como se fala nela e dela!
            Se eu, Sr.João, se eu mostrar isso às orelhas maternas – todos na rua. O que ótimo a engrossar o desespero no país do desemprego do insuficiente emprego e do abuso no subemprego. Não o farei, aguardo novas audições, que seja tão só a fim de rir e de continuar a afirmar que a vida vale a pena.



Cap. 12 

Agorinha andava sentindo um cheiro provocante de alho, um cheiro muito forte; deve ser por isso sei lá, me levando a lembrança ao ônibus cheio, a gente de pé espremida. As meninas a pequena com a grande, a grande pequena de cabeça e aquela ‘morenice’ de pele, deve ter puxado os lados do João; que sou branca, a mãe e todos nós avermelhados. Além do mais esses caipiras pisando no pé da gente, uns abusados ‘fedorando’ cigarro na cara dos outros, o chofer acho meio barbeiro e tem muito solavanco, vou indo cuidar dos túmulos de minhas crianças descansando na vila; porque se eu não cuidar elas morrem, elas morreram mas morrem as flores também e tudo descuidado porém ainda não cheguei, chegou no nariz o cheiro forte até enjoativo da mortadela, alguém levando pra casa trazida da venda na cidade o alimento para a família – todo mundo aprecia doce guaraná e mortadela, tudinho dentro das matulas de compra, decerto alguém esquecendo um pouco aberto o fecho do volume e então aquilo agredindo em hálito no coletivo fechado, janelinhas trancadas só por causa dum chuvisquinho à toa, sofro a lotação exagerada, uns passageiros sobem a lotar mais o lotar, outros felizmente descem a desencher, descem numa porteira ou noutra dos sítios na beira de estrada ali perto, lá longe os meus e o moleque já sei bem onde: na rua bagunçando com os outros – ninguém pode com moleque nem o capeta! e as meninas, ah a grande não irá deixar a outrinha sair de casa, não; nisso iria confiar no João, porque homem é tudo desligado é tudo porcaria, mas o meu é pelo menos trabalhador, bebe um pouco, bastante, com os vagabundos no boteco contudo se vira satisfatoriamente e traz as coisas necessárias no lar não deixa ninguém passar fome e tem inclusive sonhos: um dia quem sabe enrica. Aí a gente... hum que cheiro de mortadela... Mortandela! grita Veva às atarantadas empregadinhas, mequetrefes sem eira nem beira fardadas embora com os uniformes da mansão. Repete mortandela mortandela, alto para o mundo surdo escutar e a Maria, mais corajosa que as outras, indaga “Mortandela, Senhora!” Ela corrige a criada-mor. Não, sua burra, é mortadela mor-ta-de-la, ouviu? assim que se fala, fala olhando já a Gringa como para insinuar à estrangeira que devera ser mestra na etiqueta a fim de amansar as aborígenes matutas apesar de uniformizadas; como a lhe dizer na forma ‘um pingo é letra’: é para isso que lhe pago em dólar e não ensina as outras nas coisas de Primeiro Mundo; olhe aqui, aprenda e ensine: mor-ta-de-la, ‘ta’ insiste repete, escutou? A gringa faz um sim senhora de cabeça e oferta sorriso com som de choro e ainda se avermelha na sua brancura de pele sardenta. A Maria, mas enfim, Senhora, a senhora quer mortadela!! deseja que se prepare à base de mortadela um prato, chamo a Vitória e... E a patroa já saía da sala gritando o Tonho, e antes que o motorista respondesse, a completar: que chofer mais moleirão você me saiu; saiu, saíram de casa, a Veva ainda resmungando intrigada “ah que droga de servidores eu tenho!”



Cap. 13 

Tem um instrumento o qual costuma entregar os outros aos outros do mundo, ingratos o mundo e o instrumento – o espelho. O espelho; o espelho vê a bela que vê por sua vez nele certa mulher já passada no tempo mas, convenhamos, ainda bonitona. Ele diz que ela tem pele morena (aqui mero semantismo a fraudar a realidade que apresenta uma descendente de africanos misturada caldeada com brancos sem preconceitos, os quais colaboram na incompreensão social deste planeta dividido e nivelado moralmente por baixo; Marina, ela mesma se autodenominando Mariana, ela não pensa nestes termos porém vê sim a pele:) vê o escuro pensa claro e claro haver puxado o pai, os olhos não – eles são verdes da mãe, a mãe vai ficar tiririca quando houver coragem para contar a verdade sobre o fracasso do casamento e o broto que brota nesta barrigona bonita, olha acha bela belo o entumescido e então já pensa no machinho se mexendo no dentrão e pensa também num dos corolários que é o enxoval e no azul das cores; se ela souber que espero seu neto sim mas do sangue do namorado... ah aí dará chilique e vou ouvir até.  Olha em volta, o quarto meio desarrumado, cadeiras cama a penteadeira e torna ao espelho na penteadeira, se examina, toma o pente e se alisa e sorri, nem conscientizando o porquê do sorriso. Quem sabe por se sentir bem, ter esperança. E um pouco de temor. Como reagirá – a ‘véia’ eu sei com certeza – o velho! Talvez mereça um quinhão da herança o rebentinho ali se ajeitando no ventre. Lembrou-se duma reza “bendito é o fruto” parece assim, puxa há quanto tempo não vou à igreja. Antes a mãe exigia, mesmo quando ela mesma arranjando desculpa a faltar exigia. Os anos enterraram os anos, os anos virolaram sua existência: cresceu, cresceu de cabeça também embora a ‘véia’ não reconhecendo a conquista; namorou quase não noivou depois casou-se e se complicou após alguns pares de meses. Agora...



Cap. 14 

Muito interessante a reação das pessoas, gente é um ser inusitado e quando se espera A responde B, se B então A; nem penso no que pensa minha mulher sei o que pensa; isso ao que me lembro agora do pessoal de serviço, o pessoal doméstico, decerto a viver dos abusos da esposa, a Veva se imagina a deusa da beleza e da sabedoria é imperatriz do grito, imagino sim o que possam achar disso as criadas e os criados, aquele Tonho não passa dum boneco dela, no seu lugar pediria a conta. Mas surpreendi minha gente em casa num desabrimento incomum, pois são, parece, presos ou contidos e daí cheguei sem avisar, patrão não precisa mesmo avisar que torna ao próprio lar. Adiantei meu expediente, deixei os encarregados e diretores nas suas funções, larguei meu carro na oficina do Jango, em quem deposito confiança desde os tempos do primeiro automóvel que tive, não: antes desse o caminhão que me acompanhou a pobreza e a luta pela vida anos – aí resolvendo tornar à casa a pé (com esta barriga volumosa o médico me receitou caminhar, então uma oportunidade ao exercício) entrei de mansinho, verdade com certa curiosidade a flagrar o ambiente e vi: estavam numa verdadeira baderna, numa conversa solta de festejo... Entrei, passei por eles, a Vitória, aquela negrinha enxerida e safada correu às suas panelas, o jardineiro a gaguejar qualquer, a Maria, petulante, aflita no momento e bem assustada... Fui ao escritório, fiz que não os vi, fiz como que surdo, nem respondendo às suas tímidas indagações – as coisas bobas que se fala “o patrão quer isto, esqueceu aquilo, posso ajudar” e outras besteiras, eu inflexível no meu mutismo. Depois imitei a Veva e gritei a Maria, esta chegando pálida a me atender, perguntei de um qualquer impossível que soubesse e já sabia a resposta. Me pus nervoso por fora por dentro morria de rir da feição dela e da cara de cada um, a Gringa então quase desmaiou quando parei já andando a sair da casa em sua frente.
            Curioso como reagem os subalternos, sobretudo pegos desprevenidos e certamente de consciência pesada. O diferente é igual semelhando os outros; pois quantas vezes já choquei o pessoal miúdo em minhas empresas, ou descansando no trabalho que deveriam estar exercendo ou a falar borrachas no ‘besteirol’ que é a conversa do povo na rua – quando o chefe ausente! A mesmíssima situação que constatei na minha própria residência com o pessoal tomado de surpresa pela presença da autoridade. Mas a política patronal não pode se diminuir com tal afronta nem se melindrar com os que estão a seus pés.
            Volto ao Jango ainda a pé, ruminando sozinho os quadros que vi, as reações subalternas sempre que as tenho à minha frente. Inclusive rindo. Ora, pensei, o que deverão os passantes comigo a cruzar estar pensando. Ainda aqui pouco me importando.



Cap. 15   

Meus velhos andaram se pegando mais uma vez nestes dias, pelo de sempre: o dinheiro. Onde entra o vil metal nada sobrevive, sobrevive o dinheiro; temo que nem a família sobre. Aliás a julgar as dentadas de minhas irmãs sobrantes... sei lá se não seria igual ou pior houvessem os mortinhos desistido a serem anjos se igualmente nesta altura não entravam também eles na luta de matar e morrer que observo no exemplo de meus pais. Sempre o dinheiro, a falta a sobra esta virando falta na ambição que a sobra gera – antigamente era por falta a briga, agora é pela sobra, mal gasta devemos reconhecer. Raciocinam como fora a riqueza a felicidade suprema, possa conter ‘supremo’ na felicidade ou se acaso ela não se baste; a pensar. A riqueza seria a felicidade, objetivo final da existência. A rigor também eu – o macho da prole e único a sobreviver por dezenas de anos – sim também eu me conscientizo pensando semelhante. Ora, sou um membro da família rica. Logo percebi que haveria um ringue armado no quarto do casal; o quarto ou mais precisamente o da mãe o pai tem agora o seu para o ronco sossegado sem o azucrinar da velha; então foi que safei-me.
            Contudo ando presente nisso graças à parafernália que instalei para ouvir a residência, como já registrei neste meu diário que vive escondido mesmo dos familiares ou sobretudo deles e muito dos servidores que eu chamaria melhormente desservidores; enfim para ouvir os disparates dos criados. Nos quartos conjugais pus dois microfones, daqueles ‘petiticos’ mas sensíveis, instalei-os bem camuflados em cada quarto isto é o dela o dele...
          Isto posto, fugi às minhas diversões.
       Depois, caso não hajam mortos e feridos, escutarei para me divertir, mais que a diversão habitual, com o diálogo do diálogo que não existe entre eles. De antemão admito ela a chorar, seja por chantagem emocional seja por sensibilidade mesmo pois mais ligada que o velho. Bem entendido: ele tem mais que ela os pés no chão, tudo pra si gira em torno da matemática do ganho e da lógica dos fatos. Não obstante inclusive berra a dar um basta, esteja a mãe ou qualquer oponente exagerando. Porém evita estardalhaços e o escândalo; o que seria desatroso e fatal ou pelo menos prejudicial aos negócios dele, que por sinal vão de vento em popa, isto para ser eu como todos a repetir refrões e ditados populares. Na infância nós esperávamos aflitos vendo o circo de casa pegar fogo, enfim notando o desentendimento conjugal, de uma vez eu me lembro como fosse hoje: encheu a mãe de sopapos, deixando a pobre inchada. Mas estava bêbado éramos pobres e neles, os pobretões, a miséria costuma se diluir na vida e quase ninguém percebe ou não comenta a violência, porque a rotina não merece comentário realmente. Hoje é diverso: ambas oposições têm muito a perder. O escândalo envergonharia a mãe (que a propósito é o escândalo feito gente na sua baixaria no trato com a criadagem; fora de casa é mais diplomata suponho) e o mesmo escândalo atingiria o prestígio do velho, um dos grandes na elite do poder econômico nesta região. Nem de longe lembrando o braçal que fazia carretos num Fordinho quebrador...
            Volto agora pra casa. Os lutadores não morreram não se mataram e os criados apenas comentam à boca pequena, a Maria me responde que a patroa foi ao cabeleireiro e o meu pai ela mente “num vi ele hoje” não dando sequer para corrigir a frase caipira dela, nem os mentirosos merecem lição de gramática, se é que eu possa ser mestre nisso. Agradeci, aqui sendo por minha parte falso, fui ouvir os diálogos, torcendo que a gravação estivesse boa, audível na pior das hipóteses.
            Antes que decida escutar a fita, se é que o arguto pai não haja descoberto quase por acaso a fiação e um dos microfones, parece que um deles ficou mal posto; aqui estou sendo negativista pra ser melhor pessimista no meu consumado otimismo; antes que decida, não sei se me decido a levar um dia as gravações todas ao Murilo. Estaria eu temendo o ridículo ou o abuso de meu abuso à confiança do amigo! Sei lá. A conversa.
            Ela, seu porco, homem é tudo porcaria mesmo; bem que mamãe me avisava... Ele: a nhe-nhe-nhem que era dona Maria! Ela, a mamma foi exemplar e não é porque faleceu que digo isso, era de fato exemplar. Ele: quá-quá-quá. Bruto, munheca, sovina (onde a velha aprendeu o vocábulo, certamente no instituto com aquelas velhotas frequentadoras; ela usa e abusa onde quer encaixá-lo, como onomatopeia e como a onomatopeia exigir, onde aparecer oportunidade – sovina. O velho é ou mais comedido ou mesmo secarrão de boca. No tempo de pobreza era calado, só a mãe destramelava, importando pouco os indevidos das palavras porque o homem comum vê e se vê mais no sentido e no sentimento, o homem comum positivamente não poeta as coisas e não tem condição a discutir esse terror da língua que é a gramática e os reformadores da gramática. Não sei donde trouxe ‘sovina’, sabe entretanto que ofende, ofende-se o pai:) sua burra gastona! Quando pobres quase miseráveis mas trabalhadores todos até a Mariazinha operava recados, nesse tempo eu deixando dez mil-réis ou eram cruzeiros? sei lá agora me afunda em real, um absurdo; naquele tempo da Boa Vontade, então você também com boa vontade e parcimônia, eu deixava uma nota consigo: gastava o medido media o troco deixando troco a beneficiar a família, noutro dia eu tinha que entregar menos, mais agora exageradamente mais agora! hoje? pensa que sou o ministro da fazenda o dono do tesouro no país!! terei uma árvore cujo fruto seja o ouro... Gasta, nas besteiras, como fosse a esposa que manda no ministro, pera lá dona Veva, devagar com o andor. Ela: chora. Ela soluços. Eles, silêncio. Ela: sovina e linguarudo, inventador. Ele a cortar: in-ven-tor. Não muda a coisa, marido ingrato. Aí conta mil das lembranças e esquecimentos. Outro dia me lembro haver lido num autor russo qualquer coisa assim: a mulher, com sua memória astronômica guarda na reserva estratosférica coisinhas e insignificâncias machas como por exemplo uma bebedeirazica para, em momentos adequados no amargor da vida quando deveria ser mel pleno, a despejar o que depositou anos – daí despeja, tenta nocautear a oposição. O pai? resmunga rumina um grrr interminável parecendo a fera ferida a se aprontar para num descuido do oponente (piormente a mãe) atingi-lo também e na mesma moeda e proporção; desproporção visto o arsenal da língua macha ser franca mas fraca pra valer. Pobrinho de nós! quer dizer, reconheço estar me posicionando homem diante do diálogo ofensivo com idas e vindas dos genitores no habitual entrevero. Prossigo a ouvi-los.
            Você, diz Veva, lembra como desfazia de minha mãe! que a mãe puxe seu pé de noite... João, como assim, nem conversava com a italiana nem sobre ela, a nonna vocês diziam. Eu sim tenho nisso reclamação por ‘cortar’ com essa língua ferina a minha mãe. Ela: aquela preta se pensando branca? e seu pai quase negro também e você saiu branqueado igual o vizinho de vocês, aquele Tonho, por isso que não gosto desse nome acho que vou mandar embora o bronco Tonho ponho outro chofer pra choferar e... E gastar mais ainda? retruca nervosíssimo o opositor João.
            Nunca se entendem se ofendem e no fim deu a lógica: o choro e a oposição saindo a pisar duro rumo às suas empresas, e nesse fim de batalha nessa guerra interminável a cantar pneus como fazem jovens em nosso tempo; passou passando pelos criados quase a derrubá-los sumindo. Não vi, ouvi o estrondo gravado pela minha aparelhagem.
          Acho que devo consultar o amigo que me passou essa experiência na eletrônica, a qual me possibilitou ao menos ouvir por alto a baixaria dos pais – para ver se o amigo me aperfeiçoa a técnica.
          Ou não poderei continuar a rir do besteirol aqui em casa.


Cap. 16                       

Ele se saciou fugiu, fugiu como a fugir na madrugada fria me deixando ao ver navios, em não ver nada, nada mais que escutar o guarda-noturno no seu pio de estrilo na moto barulhenta, ambos no trio a moto escandalosa escandaloso o estrilo a avisarem o ladrão decerto incomodado por não conseguindo por isso fazer seu trabalho em paz que a paz é fundamental nos ofícios e o terceiro do trio é claro neste escuro da noite o guarda motoqueiro que me vem cobrar fim do mês os proventos e me indago onde arranjar numerário a prover se já nem mais converso com o Chico, este que assim mesmo me tomou a seu jeito, grosseiro animal selvagem e selvagem se saciou sem me perguntar se queria não queria, e a seguir fugindo igual o ladrão e me deixa nas ruminações banais... não fossem outras indisposições, isto já bastante argumento para deixá-lo: pedirei exigirei divórcio, o pai paga as custas vociferará mas paga porque sei onde piso e quanto piso – pedirei o necessário. Direi a ele mais uma vez que o filho não é do genro, direi que já estou comprometida demais; direi... ah o que direi? Agora se afunda na noite, certamente não quer terminar a noite no sofá, que se afunde com suas mulheres, será que o Chico seja igual o pai que tem muitas namoradas! a mãe sabendo metade e provavelmente sofre muito, quem sabe mais ainda que no perder beleza a qual no rigor nunca teve por seu exagero de tamanho, mais tamanho que o pai, tanto assim que ele ou punha sapato de salto ou não saía ao lado dela como requerendo um casal; agora! agora nem isso – separados de fato ou só convivendo nas aparências. Enquanto fora ele goza o mel de sua riqueza, nossa riqueza; o pequeno herdará? ah quanto se mexe e será que a gosma nojenta desse nojento marido não o terá ofendido! Preciso logo combinar com o paizinho do menino como ficará este embrulho... Um dia conto finalmente à mãe. Nem estou indo visitá-la mais a evitar nossas discussões. Porém tive uma boa ideia neste instante: o Joãozinho. Se não conseguir meios ao divórcio... o Chico sabe da coisa e joga com o tempo a me forçar na separação, nisso anda fazendo guerrinha de nervos ao ambiente sem ter ele mesmo que pagar advogados. Pensa que o tesouro do pai cobrirá todas despesas e possivelmente espera outro ganho usando a corrupção dos causídicos. Se falhar o pai, pedirei do pai por intermédio da mãe; se ela também falhar pedirei ao mano interferir exigir de nosso pai e extrairmos do pai por via do irmão o quanto preciso. Ao pai relembrarei que minha pele é a sua pele, apenas os olhos verdes herdei da ‘véia’. Que faço. Agora nada. Aguardo. Nada. Choro.



Cap. 17  

Vou parar um pouquinho na entrada do parque, este bosque de ar leve e gorjeios e demais hálitos da natureza. A natureza a ajudar-me refazer do inferno que vivo quando estou frente à faminta Veva, sumidouro da riqueza – ah se não houvesse enriquecido, onde arranjar meios a esse balde sem fundo! Como, agora, também, chegar na empresa, de que maneira encarar diretores e os mil funcionários na feição desfigurada que devo ter; tenho estou-me vendo no espelhinho retrovisor e eu mesmo não me recomendo... pudera após o pugilato com a esposa, esposa embora tudo que vivemos nestes dias. Preciso imediato recompor-me.
            Sou João, João Pai, pai do Filho. Ih, esse filho, um da prole que sobrou os poucos machinhos estão no cemitério da vila, puxa a luta que vivíamos lá; a maior parte menininhas, mortas, sobraram as duas, a Marina bem parecida comigo e semelhante à Maria minha irmã mais velha; com os olhos verdes da Veva. A pequena anda num embrulho, deve sobrar para mim: não tenho coragem deixá-la passar fome com seu ‘passa fome’, mas quem mandou se juntar com um sujeito pobre e desorganizado. Pior que isso o embrulho da Marina, me falou que vai chutar o marido – sobrando a despesa para quem!? Diria sobrar à mãe dela, e quem sustenta os abusos da Veva. Enfim, não queria dar escola às meninas exatamente por isso, por cair nas mãos desses desmiolados e sem-vergonha. Trabalhem como trabalhei, invistam tenham arrojo; uma cambada de incapazes. Sofri e consegui esse conglomerado e a fortuna que chama fortuna e cresce. A assegurar o futuro da família.
            Investi no João, João Filho, filho do Pai. Paguei horrores para sua educação. Está virando doutor como previ e desejei, anel no dedo, respeito social como nunca tive na pobreza ele terá na riqueza. Fundamentei tudo nisso. É um melzinho nessa vida ingrata. Agora vai se formar, ‘Doutor João!’ esqueci a data da formatura ando atrapalhado com essas vevas... todavia o papel de convite deve estar em casa na escrivaninha, se é que a Veva não haja remexido como seu costume as minhas coisas; aí revira tudo, tudo põe fora de ordem e lugar. Ou, muito pior, a criadagem: não ponho a mão no fogo por ninguém entre os domésticos (e igualmente desconfio de muitos empregados nas firmas inclusive três de meus diretores; vivo em sobreaviso...) Mas entre eles, a Maria é a menos confiável. Mandá-la-ia hoje embora, pagaria direitos, os quais me parecem mais abusos que direitos, a fim de me livrar desse fantasma; chega a querer dar ordens inclusive aos patrões; os outros são bonachões como o jardineiro bronco; e ainda haver a negra da cozinha, arrelienta e atrevida. Entretanto é questão fora de minha alçada. Não, não é bem isso, tudo sai dos meus bolsos dos meus cartões e de minhas contas bancárias enfim. Ora, a questão do lar deixo à Veva abusar como quer e de direito combinado dela. Me vingo deles nos gritos dela contra eles. Sem confiar. Agora, o filho é a menina de meus olhos, a minha razão de viver. Claro que me lembro sempre e o dia todo de minhas mulheres, mais da Janinha, darei inclusive uma residência de porte a ela, com escritura em nome da Jane para evitar encrencas com os meus herdeiros. Darei até mais dinheiro à gastona, que diabo tinha a Veva que me atirar no rosto as ofensas que jogou sobre mim! Nem a minha mãe foi poupada, inventou suas inverdades para me pisotear – não quero nem alembrar-me das horas que passamos com insultos! é por isso que estou agora nas árvores recorrendo à paz que aqui reina. A fugir disso!
            Não do Filho, o Joãozinho como o tratava na olaria, me é caro. É o meu coração. É aquele em quem deposito o futuro, o poder, a manutenção e até o crescimento nos negócios, a ampliação das empresas. E agora está em vias de receber o grau de doutor. Doutor João da Silva Júnior. A Veva assoprou um Negrini não aceitei, aliás sua família quase analfabeta, como apor isso, um desconhecido Negrini, num título igual merece meu herdeiro!
            Lamentavelmente não me parece tão entusiasta e interessado nos negócios o rapaz. Fica o tempo todo atrás de diversões e nas viagens – só gastos, enormes somas consumidas nessas atividades (ou desatividades). Falo sobre altos negócios e sobre negócios sérios, responde brincadeiras e futilidades. Outra das minhas preocupações ligadas ao João é o amigo; é Murilo pra cá Murilo pra lá. Se alonga do convívio dos seus para viver e seguir esse e outros estroinas; creio sejam filhinhos de papai como quase meu João. Porém o meu me acompanhou a vida de sofrimento. Na olaria andava sempre na pipa olhando meu esforço e até servia em menino para tocar os burros a fim de que virassem a haste e a pipa cuspisse barro. Depois viu de perto nossa luta na cidade quando nos mudamos, mesmo a da mãe, que tanto me auxiliou com a máquina de costura na manutenção da casa, hoje ela auxilia é a afundar as empresas gastando sem medida. Chega, não desejo sequer pensar na Veva: no Filho. Verdade que ela o tutela e inclusive mima-o, sempre foi seu querido em detrimento das meninas; embora gritasse com ele dia inteiro e até dando-lhe umas palmadas; o moleque fugia. Sempre foi um fujão, isso reconheço...
            Agora não – é minha esperança, pois os jogos do mercado poderão atingir minhas empresas mas espero muito dele a vencer em meu lugar; acho que seu porte físico poderá até ajudá-lo nesse mister, ele que puxou o sangue dos italianos, um irmão da mãe parecendo uma vareta a espanar a lua... o João alto e corpulento; talhado a presidir nossas empresas. Além disto o Filho está se preparando com títulos para ganhar respeito e consequentemente administrar o conglomerado inteiro! ah como demora esse dia.
            Por enquanto ainda foge ao compromisso, parece. Não me ouve os apelos, os quais são as linhas mestras a fim de o filho tornar-se o dono desse gigante que montei para a família, especialmente pensando nele. Digo-lhe do valor de estar presente ouvindo diretores e técnicos, se identificando ou aprendendo mesmo com a vivência nas empresas. Que ficasse um dia numa noutro noutra, a se familiarizar a se fazer presente a ‘engordar a criação’ no dizer caipira; a se prestigiar sofrendo os mil problemas que o pai enfrenta e vive e resolve. Enfim sugiro e inlusive digo-lhe direto o que vivencio agora aquilo que será seu no futuro; futuro próximo relembro: seu anel no dedo o canudo de formatura, em suma a posição e o prestígio de proprietário titulado e por direito. Não. Não aceita, parece, o alvitre.
            Todavia tem um mérito meu Joãozinho – não confronta não agride não fere não discute sequer, sorri.
       Vejo seu sorriso, que agora relembro, e oferto também esse presente aos pássaros gritões e a essas frondosas árvores; revejo seu sorrir e isso me engrandece o coração; ao me fazer sonhar com o sonho que é meu filhote.
            Mas é tarde, tenho encontro e compromisso atrasados a prejudicar os negócios. Ligo o motor. Ué, curioso e engraçado: havia esquecido o veículo funcionando. Ora essa, essa Veva me faz sair do sério até por tabela.



Cap. 18  

Meu querido diário, eu o apelidaria mensário quiçá milenário tal a frequência sem frequência a que o aciono em pôr estas mal traçadas linhas – isto decerto relembrança da velha olaria onde nós meninos fazíamos brinquedos de barro e aborrecíamos os adultos, entre eles um analfabeto, a mãe também praticamente sem letras para escrever pelo outro analfabeto: tocando ao Joãozinho que se iniciava na escola da fazenda alinhavar missivas à família do sujeito (a pedido-imposição da mãe ao filho, eu) e começando sempre assim “estas mal traçadas...” Depois disso eu precisava ler reler a carta ao filho da mãe, mãe outra do filho analfabeto, nisso me enroscando às vezes sequer conseguindo decifrar minhas próprias letras para os aflitos ouvirem. Eu já era, me lembro, um gozador nesse tempo, por força das circunstâncias. Mas quem lambia as bordas do envelope e o selo para grudar era sempre a mãe. Por que estarei lembrando a passagem... ah sim por causa das mal traçadas; se bem o mal tenha sido sanado porque a minha escrita é igualada e as figuras gráficas belas, nisto eu posso me envaidecer visto ganhar das minhas irmãs, que são mulheres de letra masculina portanto feia.
       Volto a este diário, nunca teimoso sempre passivo e de orelhas longas mansas e pacientes a me ouvir.
            Para dizer o que dizer, lamentar que seja; como agora. Ora, o pai tem um infinito e inesgotável sonho centrado no filho. Sou o filho do seu infinito e quem sabe mereça ser o sonho, sua meta. Contudo discordo de seus exageros de pai, mesmo que sejam exageros a me engrandecer. Por exemplo, quer que eu à força seja o chefe dos chefes, somente abaixo de Deus. Pensa que eu seja o suprassumo, o rei da sabedoria, além de possuir as condições sem as quais... o sine qua non das coisas – na arte de dirigir dirigidos e incapazes que a vida atirou sobre suas costas; e o pai a sonhar passar contemplar tornar o filho, o filho doutor, a vir ser o chefe supremo na economia regional (quiçá não esteja indo mais longe no exagerar exagerando eu poder chegar às culminâncias do país; tem gente que se possui terreno quer casa, se casa cidade, se cidade país e nesse crescer para chegar a deus e quem sabe a Deus! pobre do pobre pai rico). Bem, são sonhos, futuro; hoje.
       Agora não passo de estudante – sem grandes expectativas, sem grandes sonhos próprios que dirá ceder ao sonho alheio – estudante e gozador do que a existência nos oferece: dinheiro meio crença oportunidade. Realmente quero viver com os amigos, mais com o amigo, em atividade e festividade. Não mais.
          Não obstante o sonho, dele, perdura.
            Pensa que um anel seja o “abre-te, sésamo” a todas conquistas possíveis e impossíveis!
          No entanto o que sobra num doutor?
            Na verdade – diria, tivesse coragem bastante, ao meu velho – em verdade não sei nem o que sou; sou nada, nada ou mui pouco do que deseja Seu João da Silva. No rigor de todo rigor formar-me-ei com certeza, visto haver pago a faculdade quase vaga existindo o prédio faustoso e aristocrático a ganhar na arquitetura do vazio do seu ensino. Mais vazio meu curso, mais vago a frequência no curso real... Enfim virá o anel para ilustrar o sonho e embelezar o dedo; assim como as fotos que abrilhantarão o palácio de Veva para concorrer com os quadros de péssimo gosto nas paredes e também para haver na exposição o indefectível porta-retrato na mesinha da salona.
            No meio de tudo, de toda essa conquista, perdura a indagação que faço no meu íntimo há tanto tempo: e passarei no exame da Ordem! Ela não aceita pagamento de mensalidades e mesadas e, suponho, não se corrompe...


Cap. 19   

Veva vem vai volta vendo... vê vulva outra, explode: Maria! Entrara ela no quarto inesperadamente, inesperado sempre aos ingênuos ou não ingênuos mas ocupados surpresos; ocupadíssima a criada-em-chefe... Esta foi a cena de surpreendimento e aturdimento consequente, meu caro milenário; por isso volto a registrar agora algo, algo como deve ter acontecido entre as duas, uma de boca enorme, enorme a outra d’olhos de ver o que não devera ver constatar; volto após um seculinho a escrevinhar outras mal traçadas, se me permite o engenho e a arte; e o faço a traçar um flagrante no mínimo esdrúxulo não fosse grave, é grave, foi. Nisto ponho certa questão atinente não apenas aos abusos da gente simples (simples até prova em contrário). Digamos seja um ferir literário. Ora, a continuar minhas ‘maltraçadas’ no mesmo pé, meu pobre diário não entenderá nem aguardando para compreender por mil anos. Digo a sintetizar um ditado – o feitiço virado contra o feiticeiro, eu o feiticeiro. Ainda ininteligível! mensário burro. Então me explico melhor.
            Literário disse porque, não sabendo em qual russo li, o Dostoieviski? depois li referência no francês Hugo e por último no português Eça – veja meu diarinho como ando versado na prosa – li a ideia seguinte: não existe herói ao criado de quarto.
            Todavia como encaixar essa tolice da verdade na Veva e na sua criada-mor.
       O feitiço fi-lo com a engenhoca que o amigo traído me ensinou, ou seja a gravação. Com ela pilhei as crias domésticas virando serpentes a pichar a gozar os amos; amados de maneira alguma. Contudo, tudo parecendo certo, errado: o feitiço virou contra mim! A mãe tornou ao lar indo para não sei onde e voltou intempestivamente, tudo nela acontece intempestivamente por ser esparolada italiana; tornou e entrou no meu quarto. Aqui aciono outra vez os escritores citados, lembrando melhor o Vítor Hugo (outro dia pronunciei Hugo alongando e insistindo no ô francês dele perto da cozinha onde fui roubar um bolinho da frigideira e a Vitória desandou no riso, gargalhou na minha cara, como houvesse eu assoprado um disparate! ah essa gentalha) aciono os mesmos para comentar a invasão de minha privacidade. Seguinte. A mãe pegou a Maria examinando o instrumental das gravações – veja diarinho como fui exposto porque não deve a criada ter descoberto a fala da criadagem contra os patrões! não deve ter tomado conhecimento dos impropérios próprios dos proprietários se desaforando na alta baixaria!
       A Maria negou chorou implorou, chocou a patroa no incidente. Quem sabe aceitando Veva um creditinho miudinho destamanhinho no sentido de não estar a empregada vasculhando o quarto do Senhor Joãozinho, a mãe corrigindo imediato: Senhor Doutor João, veja lá como se dirige a uma autoridade, ele, eu! Até imagino a cara horrorizada da servidora nesse embaraço mas não vi isso; falou não estar vasculhando o compartimento só limpando o dito cujo (sem vassoura espanador pano sabão desinfetante?) Notou minha mãe fora de lugar um fio um plugue um qualquer desse gênero. Jurou a pés juntos inteira inocência a solteirona.
            A mãe deve ter usado sua especialidade com a subalterna. E ainda a criada aceitando isso como prêmio ao invés de ir pra rua ou pra cadeia. A mãe é especialista em gritar.
       Imagino, aqui só imaginação pois não presenciei ouvi da mãe quando a me tentar, contando o episódio, tentar sim puxar minha orelha, com diplomacia e educação em vista eu não ser mais o moleque arteiro que era sendo agora doutor com anel no dedo e tudo (tudo menos a Ordem, não passei no exame da Ordem, tento noutro ano). Não se castiga um doutor.
            Nesse ponto, com certa maldade reconheço agora, nesse ponto imagino também ver a mãe diante da Maria na sua aparência que observo desde menino; ou seja uma italianona, a Maria é pequena e esquelética, a italiana de rosto anguloso nada feminino com seu tique mais frequente: o de deixar escorrer saliva nos dois cantos dos lábios; sem afirmá-la ‘babenta’. Mesmo porque depois de me passar a raspança chupava de volta a gosma. Uma vez não é que achei nisso tanta graça que gargalhei, apanhando por gargalhar e pela arte que fizera, já não me lembrando qual visto menino esquecer rápido o malfeito...
            Esse o drama geral. Drama que me leva fatalmente a desativar o dispositivo, ou candidatar-me a ser vasculhado nas minhas safadezas íntimas. Ou seria, penso hoje, melhor tirar tudo para não correr risco e desativando levar a parafernália pra casa do Murilo. Depois disso, ou seja após a mãe narrar os seus tim-tins sobre o crime, fui tentar ouvir o crime.
       Como estava ligado o gravador e havendo um microfone embutido, escutei rabujar a criada uns desaforos antes ser pega no flagrante. Começa a falar sozinha coisas como puxa quanto toco de cigarro no cinzeiro, fuma demais esse porco; o que será esse troço na mesa do sem-vergonha (eu); foi quando desclicou o clique...





Cap. 20  

Fiquei apavorada naquele dia. Pensei semana toda nisso – a gente não tem mais sossego, que adianta ser rica milionária agora, se não posso ter confiança nos outros! Fiz o trapo da Maria virar mais trapo; fi-la chorar e prometer. Depois uni as pontas: a caixinha de ouro que sumira e sendo presente de amiga, as joias que eu valorizava sem encontrar mais, as peças íntimas guardadas a sete chaves, as chaves não por causa da Maria entretanto... e outros poréns; em suma perdi a confiança que depositava na mais séria das servidoras. E o que haveria no gravador... Nem o filho me esclareceu, apenas riu-se na sua forma gozadora. O Joãozinho me parece ser dissimulado. Enfim eis a ferida, desde então sempre aberta.
            Pior os sangramentos outros. Neste o menino promete desativar o aparelho; a mancha fica e não sei se não mais que a mancha. As outras dores suponho não possamos remover com o simples tirar da mesa do escritório do Joãozinho umas caixas e uns fios. É bem mais grave pois envolvendo a existência, o convívio na existência.
       O João me trai descaradamente; sei um pouco do muito. Tem um advogado da Jurema que me assoprou que eu não seja boba, boba não sou mesmo, até viva demais. Que devo provar as amantes dele e pleitear divórcio e os bens na justiça; me faz um precinho camarada e justo; prometi pensar.
            As filhas, aquela escurinha bocuda e agora está para dar cria, quer largar o Chico que é um homem correto e não vive com mulheres como certa gente faz comigo. Só problemas. A outra é mansa mas vive com um vagabundo e afirma gostar. Gostar de sustentar homem! sustentar coisa alguma: sai tudo de minha bolsa. Porém não me cria problema, estando a levar daqui o que precisa para lá viver, lá no pardieiro dela. Além do mais envergonha a família, família rica tendo uma miserável como membro. O que não dirá a vizinhança! Não sei e não saberei, porque essas madames enfeitadas neste jardim rico viram a caram pra mim. Nisto tenho saudade do bairro pobre; na Boa Vontade a gente conversava dia inteiro com as vizinhas, trocava pão e bolo, as crianças brincavam e brigavam, tudo na santa paz e amizade. Aqui? sou a solidão em solidão como asquerosa às asquerosas. Vingo-me: não olho aos pés-rapados ricos por fora, sou muitíssimo milionária para fazer concessões às nojentas. Comparem meu palacete e as casas delas!
            Além disso tudo tem o Joãozinho. Não quer que o chame assim – Doutor João. Ora, este menino sempre foi a razão de minha luta; inclusive punha de lado as meninas por ele. Não conscientizava isso então; agora sim. E me responde com sorriso, creio no deboche, de escárnio não velado talvez. Me pondo dessa forma  inda mais sozinha na minha solidão.
          Assim ando. O meu mel não é o mel deles todos. Acho que devo ficar mais com a Chiquita.



Cap. 21   

A Veva virou mãe de cachorrinho de madame. Não deixa isso ser um alívio para mim no volume de suas azucrinações – enquanto carinha e vive para a Chiquita, diminui as críticas sobre o esposo. Aliás esta residência mais parece casa de cachorros, tem a cachorrada para a cozinheira tratar e tem o resto do zoológico com seus gatos e até papagaios pras empregadas ensinarem nomes feios. O menino me trás de vez em quando algum cão perdido que acha; e não cuida, pouco importando. A cadela é o que vale agora.
            Isso tudo melhora meu ganho na vida, diante da crise que ameaça meus negócios. Mas o ganho principal neste momento é o João, meu Doutorzinho que é enorme e maior que o pai no seu físico, até maior que a mãe. Consegui após a formatura que fomos assistir – minha família, meus diretores e todos amigos – consegui que ele aceitasse aparecer engordar nossas criações... De início com má vontade, agora aparece com mais frequência, não sei o que pensando. É o futuro patrão de meus comandados atento e vivenciando as empresas. Sem atingir, ainda, o meu ideal, porque lhe falta um pouco de empenho e entusiasmo no trato das coisas. Não sendo talhado a negócios como sonhei, ao menos já cede um pouco e sobretudo aprende vendo olhando as questões tanto administrativas como participando também na amizade (interesseira, admito) com nossos ‘coirmãos’ concorrentes e clientes e correlatos. Enfim um ganho notável.
            Igualmente ganhei com a solução dos dramas que vivíamos – digo vivíamos pelo fato da Veva também a sofrer – o velho drama das meninas. Elas sempre me trouxeram preocupações, enquanto o garoto somente por ser doidivanas; e elas pela sua condição feminil, se é que me expresso bem no meu pensamento e isto já sendo uma bobagem porque o pensamento não precisa polir vocábulos para se formalizar; além de nenhuma pessoa saber o que estou pensando. À pequena dei uma casa quase do porte e custo da que passei à Janinha. Depositei uma soma considerável em nome da filha, o genro, seria genro um namorado no estilo de nossos dias! sei lá; ele não merece toda fé, é mais gente de apenas trocar palavras, não ideias... A outra é um caso mais sério. Andava querendo separação, seu interesseiro marido retardando o desenlace de olho na herança da família; enfim o Chico também fazia parte da torcida organizada à espera de minha morte... eu duro na queda. Contornei a situação, rezei um padre-nosso ao casal, acalmei os cônjuges, fiz o genro aceitar mesmo o apocrifinho que venha a nascer, já está para nascer: registrará o filho do outro como sendo seu e da mulher. A Marina sorriu pela solução encontrada ao seu drama mais profundo, que era além dos outros como a briga no lar, a questão da fuga do amante... O safado sabedor que seria pai e teria que arcar com novos compromissos havendo o divórcio de minha filha – deu no pé como se fala; sumiu. Ainda a Mariana ficou a chorar semanas essa perda. Por fim as coisas entram nos eixos. Comprei a paz como compro mercadoria às empresas e isto é triste saber; abri uma conta gorda em nome do Chico e ainda fiz promessas sonantes e tentadoras que um ótimo vendilhão não recusa. Se não resolvi questões insolúveis diminuí o impacto da tempestade, o ninho de abelhas.
            Abstraindo os gastos sem solução da Veva, houve um ganho de meu lado na família.
       Consegui o mel que procurava nelas, nas filhas, neles todos entretanto o Joãozinho é um caso à parte e especial. Gastei horrores e agora o barco do conglomerado mostra ter vazamentos além do da família... Sim a crise me parece atingir não só a economia nacional mas infelizmente a das empresas minhas, que devo deixar ao filho. É o único fel que turva as nuvens que percebo no fim do horizonte...

Cap. 22  

Meus olhos verdes não veem os verdes olhos da mãe faz tempo. Tempo não tenho eu para ir vê-la, brigar com ela; ela não vem aqui: vai ao instituto e às amigas fúteis do instituto. Me sinto de certa forma abandonada pela família pelo meu sangue, meu mel é nisso fel. O pai não vem de fato aqui, passa somente por minha casa; ainda mais correndo com a pressa que determina seus negócios. Veio antes da nenê, ficou então horas e dobrou o Chico despejou dinheiro nele que é o que mais aprecia na existência – acertou nossas pontas, fê-lo prometer registrar o garoto a nascer registrou a garota no erro de cálculo médico. Uma gracinha, não a sem-gracinha opinião do clínico errada. Amo assim mesmo a nenê, acho que amo ainda mais do que fosse menino. Até o Joãozinho travestido como Doutor João deu um pulo aqui em casa ver a única sobrinha. Mana, disse o mano, como essa negrinha se parece com a irmã do pai, era Maria? não sobrou ninguém do pai não é! Do lado da mãe também, ou morreram ou se afastaram, ou o que mais certo nesse errado – foram escorraçados. Os nossos não suportam os pobretões. Aí desandamos a pichar nossa Mariazinha que é uma quase indigente, era pois o pai ‘despiorou’ a situação financeira dela nestes dias, uma indigente no meio de nossa riqueza... Nisso concordamos porém o Doutor não permaneceu muito, ficou meia horinha não mais, o suficiente a desancarmos desafetos. Ameaçava o mano contar uma intimidade, eu curiosíssima nela, quando voltou da rua esse meu desmancha-prazeres de Chico. Como não se toleram, sorriram e se deram as mãos hipocritamente, disse meu irmão umas banalidades misturadas com amenidades e acabou; um se foi a certa reunião das empresas outro ficou; interessante, anda se engraçando da menina. Quando ela crescer um pouco o pai me prometeu uma viagem ao exterior, o que muito bom. Enfim a vida melhorou consideravelmente nestes tempos, só não posso esquecer o outro. Ah me esquecia nesta lembrança a Peteca, não a Peteca e me lembro dela neste instante sentada debaixo da mesa sorrindo com o rabo pra mim; é que o João me trouxe uma cachorra de pelúcia à nenê, recém-nascida. “Trouxe uma Peteca para sua Petequinha”, esse João tem cada uma!



Cap. 23  

Puxa como a vida melhorou nestes últimos dias! melhorou bem considerando a vergonha por que passava indo esmolar na má vontade da mãe. O pai nos deu casa e algum dinheiro para acertar dívidas; o meu Pedro trabalhando a ganhar pouco sim mas empregado. O pai disse “um melzinho a vocês” e acho que acertou nisso. Além do mais me animo em pôr um filho no mundo agora; agora que a Marina tem a sua filha, eu a vi dia desses uma gracinha, então me animei. Porque temos como manter um lar decente. Talvez possa daqui por diante inclusive receber visitas e deixar ser malvista mesmo pela mana, a mãe nem se fale. Proximidade com o pai e o João nada conseguirei nesse sentido – só pensam nos negócios, o mano sequer mantém grande amizade com a gente; deve andar ocupadíssimo apenas com os amigos, desde menino sempre assim. Decerto a situação muda quando tiver ele sua casa mulher e filhos. Ora, não sei não, falam tanto mal dele... Agora é doutor e isso pode tapar a boca do mundo. Enfim no meu canto já posso viver mais tranquila, viver com meu amado. Não devo me queixar.



Cap. 24  

Estou em viagem... Aí fora o frio do calor das vãs discussões e dos discursos vãos, o show dos pernósticos nos prognósticos técnicos em que tudo vira dinheiro, o dinheiro poder, o poder mando e desmando. Tudo nada. Dentro fujo folgo fundo o fundo do império da imaginação, mais concreto que o concreto e o concreto das construções de novas fases na expansão das empresas paternas, nossas, eu o pretenso e presumido presidente futuro num futuro incerto próximo supõe o pai. Vejo-o entusiasmado a dar a palavra para outro imperador boboca – todos, se não dizem e não dizem mesmo ser imperadores, pensam ao menos serem – o outro discursa mostra descreve particulariza aponta qual catedrático intocável, num ‘magister dixit’ das arábias como mestre duma só disciplina pedagógica dum só público vidrado e atento dum só desejo carreado dos muitos desejos e a recair sempre em crescer crescer crescer e poder; eliminar concorrências, aperfeiçoar o instrumental disponível, invadir tomar o mercado e... ah não tem fim; a ambição atrai ambição e não acaba. Contudo todos imperadores e todas nações e todos poderes acabaram. Isto, desagradável ou agradável à ignorância do homem, não é posto. Me exporto pra fora, o exterior me aplaude o interesse, o pai quase chora a alegria da conquista e me olha com ternura primeiro e imediato com olhos de cifrões, todos se olham como cifrões, mesmo quando a analisar prejuízos ou como evitá-los; todos vendo lucros e quem sabe o açambarcamento na economia. Anda muito calor nesse frio, recolho-me à minha coberta no meu interior, revejo os bonecos que falam. Falam como na tribuna do congresso neste congresso; talvez mas não ponho a mão no fogo nisso e duvido, talvez duvidando sim ao ver tanto corrupto quanto a corrupção nos políticos do país. Falam como salvadores, eu os observo. Um tem um bico engraçado e em cima do bico de lábios grossos um bigodinho de malandro antigo, me rio disso, jeito meu de gargalhar das besteiras da existência (logo o pai olha interessado para mim, os outros o imitam e aí me lembro dum folguedo infantil “fazer tudo que o mestre mandar!” todas crianças a responder a uma só voz “sim”; volto à sala de reuniões em meio à fumaceira de cigarros com matracas a discursar, esclareço aos olhos de se ver não haver pedido a palavra, fora apenas uma lembrança o que me fez rir, “prossigam” digo, “por favor” reforço educado. O bestalhão bicudo de bigode continua a exposição:) tranco-me agora sério, sério decerto o discurso; sério a fim de não ser notado e ao contrário suporem meu interesse; o que não vai tão longe porque tenho interesse nas caricaturas desse grotesco teatro empresarial; afirmando com essa atitude que a melhor forma de falar as coisas é realmente nada dizer e muito ver, ouvir nem tanto no meu caso pois torno à minha viagem... Acordo noto outro orador a pontificar apontando a lousa, rabisca qual professor ininteligíveis rabiscos que todos presentes entendem defendem pretendem decifrar melhor ou quem sabe melhor entender, menos eu, eu o doutor-presidente aprendendo a ser um ‘de fato’ do pai. É substituído antes quase ovacionado ao menos aplaudido, após quantas horas! desligaram as ampulhetas ou me desliguei? Substituído por um monstro, vi-o minotauro ou um bruxo fantasmagórico. Feio enorme gigantesco na sua feiura, e no entanto é um diretor um técnico profundamente conhecedor dos meandros e das coisas de sua empresa entremeio às empresas do conglomerado, quase o pai delira na alegria a ouvi-lo mas o doutor, eu, chateia-se. Então descrevo a mim mesmo o personagem que vejo, vejo-o homem horrendo, gorila mui horroroso e daí não posso fugir a uma comparação: ele é infinitamente feio, o Murilo é infinitamente belo! Fujo para o Murilo, deixo o mestre explicando esmiuçalhas técnicas e o futuro do mercado futuro, com o novo lançamento apresentado ali, lá longe estou num correr até ontem até amanhã e ninguém viu.
            Passei mais um dia terrível, mais um insisto, nessas assembleias e o pior disso é que votei levantando o braço quando cutucado pelo pai. Não exageradamente terrível porque fugi dali para aqui no meu dentrão. Contudo chateou-me à beça.
          Verdade que pareceu haver satisfeito o pai...
            O pai era um entre os homens machos, apenas uma diretora presente, por sinal velha e só vendo também cifrões igual os machos dessa espécie; era o pai um deles sim, embora o chefão. Um homem menor que o filho, menor até que a mãe, menor fisicamente que muitos líderes das empresas de sua empresa – porém o mais poderoso, desse tipo com peso de chumbo no voto, de fazer a balança pender ceder sofrer a pressão. E no final ainda a ser aplaudido. No entanto – agora relembrando o ‘criado de quarto’ aludido – no entanto não pra mim. Menos para a mãe que o azucrina sempre. Então vejo-o como um ser humano até frágil na sua fortaleza, saudável mas já a engordar e mostrando um ventre pronunciado, a calva a se prolongar, a pele enrugando um pouco, vincos da preocupação constante, pele clara todavia escuro nos traços africanos dos seus, tão pichados por Veva. Ainda assim, graças ao arrojo e à inteligência incomuns e notáveis, progrediu, venceu a pressão descarada como negro menos escuro na sociedade preconceituosa dos brancos, trocou um caminhão quebrador por um conglomerado de indústria e comércio! Isso tudo não é fantástico? por tudo isso me orgulho dele. Ora, quase o amo.
            Embora o exposto não aceito que me transforme noutro pai, mesmo com a vantagem de não ter uma Veva ranzinza a me sargentear.
          Dirijo-me a ela, à mãe à casa – posteriormente fugirei aos amigos e à diversão, pois me encontro enfarado, estafado estressado, isto para não melindrar o modismo de hoje. Acho que não conseguiria, falando, pôr tudo que pensei até aqui grafado no milenário com sabor a diário.
            Entro no palácio, esbarro passo de raspão pelos aturdidos servidores, penetro o quarto-santuário da velha se tratando, apesar da porta do aposento meio aberta, estado que não é comum na mãe.
            Ela se volta pra mim, o pente, fiapos de cabelo, o espelho gargalhando dela por seu físico cansado e reformado mil vezes – me vê, vai me dizer algo, decerto nada mui triste visto a expressão materna de alegria ao me notar. Não obstante ainda trago a lembrança dum íntimo comentário paterno “João, caro Doutorzinho, o meu mel anda agora muito bom demais para ser puro, não estará batizado!” Sorrio à recordação; a velha pensa que o sorriso é para sua alegria, mostra sem querer mostrar seu pente seus fios como a desejar dizer tanto, muda.
          Eu me saio como posso e gozo bem ao meu feitio: será que dona Genuefa Negrini da Silva não pegou piolho de mim!
          Nos rimos ambos, o riso fácil do mel.
           
         

         























“As jeremíadas nunca ressucitaram ninguém. Em
 compensação, envenenam os vivos.”
                              Françoise Dorin
           








                              Segunda Parte: O Fel


         












































Cap. 25  

Em geral você deseja que eu seja você para que você possa melhor criticar você no outro... A gente tem o péssimo hábito de querer modificar outrem pela nossa cartilha, cheia de erros e deslizes, e assim consertar o mundo para que o mundo chegue a concerto e quem sabe à perfeição. Tem sido esta a relação minha, nossa aqui em casa, com o pensamento da mãe, talvez o do pai. Ele nos deu a casa ajudou com dinheiro que a crise engoliu; fez mais embora a distância que nos separa: no episódio da triste perda do seu neto foi ao hospital, bancou toda despesa, exigiu tratamento digno longe do descaso da saúde pública. Deu enfim apoio até me deixar bem de volta ao lar; não poderia contar nisso com o Pedro, ótima pessoa mas sem expediente e não fazendo nada por tudo faltar na sua bolsa. Porém o tempo passou, melhorei da piora e entrei na rotina enquanto o pai na rotina dele e vivendo nos seus negócios. Já a mãe agiu diverso no mesmo episódio: chorou no hospital e depois fez pela primeira vez visita à casa da filha caçula em recuperação da saúde, esta agora entendo irrecuperável. Parecia a mãe ter aqui inclusive temor de encostar nos objetos chãos da pobreza quase miséria nossa; tomou a deliberação deixar uma sua criada, das mais recentes pois lá na mansão o que mais faz a mãe é trocar os servidores. Mesmo o Tonho com o qual estávamos acostumados foi dispensado e agora é outro motorista que a trouxe aqui. Deixou-me certa jovem para o que desse e viesse, mas a empregada mais conversava com a vizinha a contar seus próprios dramas que a olhar a ‘doentinha’ como me apelidou a genitora. De maneira que precisei mais confiar realmente noutra vizinha caridosa pra fazer os serviços de casa. Meu companheiro fazia no seu desajeito os ajeitos das coisas, derrubava quebrava, parecendo a Marina quando garota, para horror da mãe e assunto pra alimentar suas intermináveis discussões. Contudo quero afirmar – a mim mesma, a quem poderia me dirigir nesta casa isolada deste orbe – desejo afirmar que valeram as boas intenções de meus genitores e da vizinhança, até a simplória criada auxiliou-me. Não no caminhar de minha saúde... Sinto-me definhar, uma fraqueza sem volta, os medicamentos ineficazes, as dores contínuas – um sofrer para mim e para os que me cercam, quando os tenho aqui ao meu lado. Hoje ando só. Não obstante o verbo posto aqui a expressar meu pensamento, eu que nunca fui de muitas letras, só fizeram empenho com o mano e nós mulheres quase analfabetas, o pensamento desnecessitando palavras corretas concordâncias certas, enfim apesar da linguagem não ‘ando’: estou entravada nesta cama, decerto malcheirosa, já cheiros nem sinto mais. Na madrugada as cólicas aumentaram, dói ‘redói’ redói redói... sequer comuniquei isso ao companheiro; o que poderia fazer? e saiu bem escuro ao trabalho. Mas agora não passam nem as horas nem as dores e as ânsias como a me ver sentir morrer viva. Já deveria nesta altura escutar os barulhos pertinentes no silêncio desta periferia urbana pobre como nós; ouço-os de fato sempre,  o que então me prova ser dia: conheço os sons dos vizinhos a partir ao serviço igual o Pedro; são bicicletas são passos costumeiros são falatórios e conversas dos passantes; ouço sempre assim, até o carro velho do seu João Pedreiro escuto, inclusive na habitual dificuldade que ele tem para pôr em funcionamento o veículo. Tudo nos conformes. Mas agora, ora, hora dos pássaros que ouço todos dias: não os escutei hoje; o que inusitado porque controlo meu relógio do ser pelo ser dos pardais: nunca erram e neste inverno posso conferir no relógio-pulseira único presente que em toda existência ganhei da mãe; nestes dias faltando dez minutos para as sete que iniciam o gritar. Posso portanto me levantar pra fazer as coisas, o café por exemplo, porque pontualmente é 10 para as 7; não posso; não posso entrevada nesta cama de casal afundada na pressão de minha magreza bem mais de meu lado que do lado do companheiro, nem o colchão me suporta os meses... Ainda assim por que não cantam. Por que não vem o claro do dia. O dia alto a luminosidade não vem por quê!



Cap. 26  

Ontem cheguei ao meu lar – sei não ser benquisto nele sobretudo pela esposa, a menininha me agrada – meu lar enfim embora os problemas que enfrentamos nestes tempos. Onde há desgaste consumado abusado extravasado por nós ambos... Bem, mas tornei de minhas lides, ia-me esquecendo até o carro funcionando, eu mesmo assustado com descuidos dessa natureza (o que mostra como ando vago na mente) em suma penetrei na casa; achando estranho não ouvir o choro da criança a voz rouca da Marina e o barulho costumeiro da empregada, o único toque habitual o latir – tudo silêncio. Pior me encontrei ao ver dentro um desarrumo, qual abandono com objetos largados ao deus-dará. Então conscientizei-me estar sozinho. As portas do guarda-roupa e de alguns armários abertas; restos de roupa aqui ali. Nada. Vivente apenas o cão a rir-me alegrias e o restante sendo mesmo o silêncio. Abandono! Primeiro pensei ladrão, olhei o cachorrinho sem comida porém com água e ele não me esclareceu; imediato descobri estar na solidão, abandonado pela família. Isto imaginei na velocidade assustadora do pensamento somando deduzindo nossos desentendimentos, nossa quase separação apenas interrompida com intervenção do sogro. Fizemos um acordo, ela cedeu, perdera o amante; eu cedi não perderia nada em meus planos... Contudo vivemos meses quase ano como um casal decente, na amizade de exportação o nosso inferno. Por vezes ia no perder a cabeça, jogando fora a conquista... superei contive meus ímpetos e assim íamos vivendo. De maneira que tal abandono me chocou um pouco; mas imediatamente, otimista que sou, computei o ganho. A perda veio a calhar. Hoje pensei melhor e resolvi quem sabe ajuntar cacos e tentar o prêmio.
       Assim me pus a comunicar o Sr. João a fuga de sua filha com a neta, sabe-se lá para onde. O velho, pensei, indagaria “nem um bilhete!” Calculei o aborrecimento do homem o da família e talvez até o do desmiolado Joãozinho, agora exigindo ser tratado Doutor. A Mariazinha fez bem morrer, não sofre mais o destrambelho da irmã; aliás não se davam às mil maravilhas mas perda na família é perda. A velha já não muito amiga da minha esposa, ex; decerto não sentirá demais, falará sobre isso dia inteiro embora. Telefonei para o escritório, não consegui contatar o sogro, fora à casa. Certamente pra bater ponto visto viver mais com as amantes que com dona Veva, ou estando em negócios por aí. Não se encontrando na sede das empresas.
          Por isso rumo ao palácio dos sogros e conto à boca pequena aos interessados...
            Deixei o veículo, falhando nestes dias, deixei-o na oficina do Jango, na conta do velho para que ele pague depois; sigo a pé à mansão. Vislumbro lá uma conversa um tanto que formal e chata; terei de fazer-me compungido e perdedor; faz parte do jogo... Na verdade torcia pelo desenlace sem me sujar, deixando depois que meus advogados intercedessem por mim, por nosso ganho, eles têm grande interesse nos despojos. Ocorreu o desenlace sem minha culpa formal, não feri a lei nem os costumes. Assim candidato-me legalmente a um pecúlio invejável, o qual me bastará para o resto da minha existência...
       Indo, ocorreu um inusitado. Perto da mansão, eu sendo tomado por estranho e não se teme estranhos nessa estranha confraria da classe alta com seus baixos – próximo desandavam a comentar duas senhoras, uma apetecível outra a cair pedaços e bem arrumadas ambas e no luxo condizente ao seu meio social; comentavam sim não como gente alta e educada mas semelhante, semelhante! igual às lavadeiras de meu tempo de pobreza quando conheci e namorava a riquinha então pobretona na rua Boa Vontade. Igualzinho. Captei mais ou menos o seguinte diálogo: “sabe Tâmara, a velhota aí é um caco a se tratar diário no Instituto, fazendo uma reforma em todos dias. E o Sr. João, o magnata, trai a velha com mil vagabundas”. Foi por aí a conversa, a língua afiada; cada uma das senhoras ‘elevava’ os membros da família sem piedade, ninguém pondo em dúvida, longe disso: adicionando mais tempero. Tudo recaindo na verdade de cada ser.
            Quis permanecer mais tempo nas proximidades escutando, pescando, o que de uma feiura lamentável, não me ficava bem. Continuei portanto meus passos. Ah se soubessem esses arautos da verdade eu também ser membro, apócrifo e nas vias de expulsão porém membro sim do clã e interessado no ganho dessa perda... Esperava que falassem das filhas de Veva, para saber a quanto andava a ‘sabência’ da vizinhança do palacete; não fizeram referências, apenas desancaram a casa e o Doutor, pichado condizentemente como merece e todos sabem.
            Na residência bati a cara na porta, como dizemos na rua. O macho dessa espécie não chegara ali, a fêmea da espécie ainda no instituto de beleza, o qual nunca demoveu sua feiura. Ainda tive que aguentar conversa mole das criadas, criadas falam fácil mas quase nada sabendo e nunca provam as coisas ditas. Pior nisso foi ter que passar por três seguranças, pensei no ato: isto me parece fortaleza; os tais, me desconhecendo como familiar, igual cachorros bravios rosnadores e que mordem até moscas – eles me barraram, precisei mostrar documento como se exige numa repartição governamental ou bancária.
            Só agora noitinha pude contatar e contar ao sogro. Todavia não sei o que pensou da coisa.
          De meu lado, mexerei com meus pausinhos para tirar proveito desta minha infelicidade em ser abandonado...



Cap. 27  

Que horror o Chico, nem parece genro e no andar da carruagem ex-genro. Ah como sogra sobra! sim, como saber de algo tão grave por intermédio de terceiros e não dele... bem, não propriamente terceiros pois o João ligado ao sofrimento da Marina, inclusive interferira no caso a fim de aparar arestas do casal; o que de nada adiantou deu no que deu. Mas para onde sumiu essa cadela? nem umas linhas deixou a explicar atitudes; como aliás o Chico merece. Antes eu não queria o casamento, ele um quase miserável sem qualquer ganho. Ela insistiu casaram, mesmo com ajuda nossa – uma pobreza com sonho então a somar à pobreza dele, da sua gente, auxiliando nós a ‘sem dinheirice’ do rapaz. Até que ele não era feio nossa filha com bom gosto, porém pobre. Depois de muita conversa uniram-se e aceitamos. O João quase não deu palpite, assim mesmo brigamos por causa do casamento; mais na língua e valendo certa bebedeira porque a bebum tudo serve de motivo pra ir ao boteco; assim depois nos desentendemos pela garrafa também. Passou. Passaram anos. A Marina anos me atormentou demais com seu tormento conjugal a aumentar igualmente o meu tormento conjugal e por ser mãe. Agora, tudo correndo certo, a menina crescendo; eu sem qualquer apego a esses restos do amante dela mas enfim neta; a casa tudinho nos eixos. Chegou até a me afiançar haver diálogo franco e honesto como deve existir em casais – exemplo que não posso registrar como ganho no meu próprio lar por causa das safadezas do João – enfim tudo sob controle com eles: dá no pé. A provocar decerto falatórios; o que direi às meninas no Instituto! Só passo vergonha e sinto raiva. Nunca pude ter relações amistosas com essa criatura; essas criaturas, com ele também e o Chico agora nem para me falar direto!
            Já sei o que virá – a batalha judicial a luta do ex-genro pela herança. Só pensa lucro e perda.
            O João sequer deu detalhes, parece que se furta a tratar os assuntos graves dentro de casa, quando aparece aqui... em suma ele foge de conversa a fundo comigo, a me aumentar a solidão.
          Somente uma vantagem nisso, nesse triste processo: a criadagem desconhece a coisa e com isso retardamos a conversa desnecessária e mesmo negativa no meu meio. Já sondei e constatei ninguém saber nada. Decerto o Chico não deu com a língua nos dentes.
          Ah que mãe infeliz eu sou, outro dia perdi minha caçula para a morte; agora perco a mais velha para a vida.
          Por esse sujeitinho permanece a minha raiva e a indignação.



Cap. 28  

Este casarão frio e atrapalhado não tem jeito, entra ano sai ano o mesmo, mesmo desentender. Dona Veva nem ela se compreende, agora é Veva queria ser chamada Dona Genuefa Negrini todos atenderam a ordem e se dizia a única proprietária da casa, isto por uns dias: voltou a Veva e só melhorou um pouco nessas modificações em vista dela andar gritando menos com seu pessoal. Ninguém para aqui, não chega a ano o vínculo empregatício já cria a dona da casa caso, manda embora... De maneira que só eu sobro e permaneço uma eternidade. Meu nome é Maria, não precisa a formalidade de me chamar ‘Dona’, embora eu seja a chefa. Se precisar eu mesma despeço a criada até os criados, tenho carta branca a Patroa endossa tudo. Você tem certa liberdade, desde que esteja à risca cumprindo seu dever. Evite também entrar em choque com a criadagem sobretudo com os mais velhos de serviço. E cuidado especial com os seguranças aí por volta – é uma classe dentro da nossa classe, ou fora dela: não sorriem para nós, não sorriem. É a quinta ou sexta cozinheira que chega aqui desde que estou registrada. Entretanto relaxe, conto-lhe alguns segredos do ambiente; dos colegas nada: do pessoal mandante. Ela é essa velhota enjoada que viu; quando acorda com o diabo no couro, é bom sair longe; quando não, é só chata enjoada e exigente; não discuta nunca ordens. Ela se pensa linda, dê corda, faça elogio gratuito e ganhará sua defesa. Bem dito, até nova crise, ela sempre nos seus chiliques... Não sai de casa, em não ser para ir ao Instituto de Beleza e volta toda garbosa e perfumada. Sai aí pelas onze horas, sempre aflita e gritando os de perto. Nesse ínterim, ou melhor: fora desse período quem sofre realmente é a camareira; quanto a você cuidará da cozinha e só não poderá errar as receitas e encrencar sobretudo com a cozinheira-chefe. De retorno à casa dorme a tarde toda, não sendo tenha ficado retida com as amigas. Ah, tem o hábito de contar das amigas – tomar cuidado para não esquecer os nomes delas: seria crime de lesa-majestade o esquecimento. Tem a questão de seus enfeites ornamentos roupas e demais cuidados mas isso não a afeta, só as coisas da cozinha. Os outros servidores sofrem mais nas mãos da ‘Véia’ é assim que nós a tratamos, longe dela é claro. Vai notar que de vez em quando, às vezes até mais de uma vez no mês, aparece um senhor idoso barrigudo e meio escuro, de pouca fala e inclusive manso na voz, não sendo que haja discutido com a ‘véia’ pois aí melhor se esconder dele... É o Patrão. Felizmente vem pouco e não interfere no que fazemos. Agora, aquele quarto de cima que mostrei e que todos conhecemos por escritório: não ponha os pés lá, entendeu; apenas eu tenho esse direito. E se for será xingada com certeza por ele; enquanto ela falará na sua cara pelo resto da vida, aliás pelo resto do emprego... Nunca se dirija ao Patrão, apenas respondendo às suas perguntas. Não costuma fazê-las. O drama realmente é a ‘Véia’. Antes aparecia a filha mais nova, pobretona e infeliz; morreu ano passado. Vinha também vez por outra a outra, mais velha e mais bocuda. Vindo era um brigar e se gritarem mãe e filha, aquele negócio de amizade entre cachorro e gato. Sobrava para os criados, inclusive pra mim com a discussão; a tanto que rezávamos que não viesse, a patroa já falando sozinha o suficiente. No começo deste ano a Marina, se chamava Marina, ela deixou o marido e foi embora desta região. Dizem até que fugiu com um dos amantes dela, levou inclusive a filhinha única. Para a ‘Véia’ não mudou muito com a falta da filha, pois raras as sessões de luta de língua nessa altura; e a netinha da patroa não fez diferença porque essa velha parece que não tem sentimento: nunca reclamou na minha presença por ter perdido a menina; decerto não a apreciava. Uma das amigas dela confidenciou à Gringa, esta uma funcionária que trabalhou na casa, confidenciou que a Velha se considera Nova demais pra ter netos... A confidência só interessou aos meus ouvidos, porque a Gringa não chegou a entender o espírito da coisa. Enfim essas as pessoas entre os ricaços que podem aparecer por aqui, exceto é claro a que fugiu e a que faleceu. Agora, tem uma questão séria: o filho dela, o tal morava neste palacete, depois espaçou a permanência quase estada e por fim foi de mala e cuia morar com um amigo. Falam horrores dele e do amigo, no entanto aqui é proibido inclusive tocar no assunto... Preste bem atenção nisso que falei hein! Se aparecer o fulano, fique longe dele, não porque você seja nova e bonitinha, nesta casa não cabem vaidades, exijo trabalho. Fique longe digo porque é imprevisível. Tem quase sempre um sorriso maroto nos lábios, é maneiroso mas não confiável. Trata-se duma pessoa mais para se fazer chacotas e no fundo é impenetrável. Por isso ser perigoso. Poderá na sua cozinha ele mexer no que fizer, também não dará palpite. Poderia dizer que ele é um autêntico filhinho de papai mas contam toda família ter sido pobre, o que não acredito vendo os esbanjos e os abusos sobretudo desse filho da ‘véia’.
            Em suma, menina, rezei este padre-nosso para seus cuidados – se quiser ficar empregada mais de meses. Não se preocupe entretanto, o pagamento é sério e certo, eu mesmo trato disso, antes era a patroa. E fiscalizo seu trabalho, como faço com o dos outros. Certo?



Cap. 29  

Você é nova aqui, porcaria? A matuta encolheu-se toda, parecia frente a um delegado de polícia ou general aflita e medrosa.
          Foi assim que me dirigi à novíssima cozinheira, auxiliar da chefe-de-cozinha, chefa, o que mais tem na casa de meu pai onde a mãe desmanda é exatamente ‘chefe’ todo mundo lá chefia alguma coisa às vezes sequer tendo subordinado a comandar... Depois comi umas coisinhas, fiz umas caretas àquela virgem, virgem na residência bem entendido, e após mostrei a língua para que ela então sorrisse sorriu. Meu caro milenário, as coisas andam mudadas por lá depois que você se mudou pra casa do Murilo comigo. Temia demais a criadagem enxerida remexendo no meu quarto, sobretudo a metidinha daquela Maria; de maneira que achei por bem melhor trazê-lo pra cá a fim de não comprometer.
            Olhe aqui, de tudo lá transformado sobrou a velha. Entretanto a mãe também se modificou; para pior, ela não sabe mudar pra melhor, ou desaprendeu com os anos e sua solidão em meio aquele barulhar da casa. Essa vez chorou um dilúvio ao me ver, contou, recontou o que eu sabendo de sobra como o falecimento da pobre Mariazinha pobre. Aliás parece que os bens do pai andam andando para trás e por esse caminhar ficaremos pobres outra vez – isto o próprio pai um dia me confessou “Doutor, nosso mel está melando” disse mais ou menos nestes termos nas costumeiras alegorias que usa para comigo. Então a mana safou-se desse pesar nosso e pesar mais do pai. Quer dizer, ela saiu conosco da pobreza continuando pobre com seu pobre amor e morreu pobre, embora auxílio paterno. Enfim perdi a irmã. A irmã mais velha também: a Marina fugiu daqui da cidade, fugiu até da riqueza – terá seguido seu namorado! e levou a Petequinha dela. Do Chico com certeza fugiu. Estamos a três membros agora; mas cada um para seu lado. O velho aos negócios e às mulheres... enfim à sua perdição, sei lá não sei o que falo. Eu fugi ao Murilo e já quase nem ia ver a mãe. Fugi igualmente o quanto pude, não pude o quanto precisava, fugi daquelas reuniões da diretoria, só aparecendo numa que outra unidade das empresas, para não ficar chato nem destruir os sonhos do homem. Afinal é nisso que põe todo pensamento e imagina o futuro no meu futuro de empresário. Ora, pensasse que entra ano sai ano não dobro a Ordem... Não preciso de fato dela para dirigir as empresas, porém preciso doutras coisas como amar, ao menos gostar daquele sofrimento e das desgraciosidades que lá imperam. Pobre de meu rico pai!
            Mas enfim fui visitar mais uma vez a velha e retornei ao Murilo com a mesma sensação da visita do mês anterior. A casa está soçobrando e não é mais um lar. Nunca fora, talvez tenha sido quando o lar era a casa da rua Boa Vontade, pobre e de lutas. No bairro rico não é um lar é uma casa vazia preenchida com solidão. Digo mais: ser o vazio no tudo. Nada.
            Entretanto prendeu-me o coração o estado de minha velha. Velha mesmo. Agora só recebe, disse, a visita de uma que outra amiga dos tempos do Instituto de Beleza grato à sua feiura e decomposição! O pai vai levar dinheiro e reclamar também, ele a reclamar, da situação, suponho realmente até de mim e a pobre rica velha não disse nestes termos decerto para não me ferir.
            Recebe, isto frequente, a visita do médico. Antes ia ela à clínica e só falando nos remédios, ia, era quase obrigatório como o compromisso de ‘assinar ponto’ no Instituto. Agora não tem coragem. Aliás, meu diário paciente, quase nem mostra desejo e vontade a conversar sequer comigo. Em verdade nem eu com ela. Parece como que havermos perdido o interesse comum; não temos as mesmas coisas ditas antes a dizer – nossos interesses são até contrários, pelo menos diferentes. Assim não há assunto, a conversa murcha morre ou mesmo não nascendo...
            Vi deitada prostrada uma senhora idosa, não tão chata e azucrinante como a de anos atrás; como que paralisada semelhando estátua num guardar a expressão de sofrimento. Como quase não se cosmetiza mais – é alma ‘pura’ no corpo imóvel. Impressionante sua velhice irremediável num crescendo. Deu pena, deu pena.
            Chegou num ponto que nada mais tínhamos a falar, nada mais em comum; o comum entre estranhos.
          Deixei-a e à mansão na sua atual rotina do vazio das coisas; o palacete com gente muita gente e quase sempre nova gente a viver nesse velho casarão lustrado. Concluí a desconhecida no conhecido.
            Tornei ao Murilo e no caminho num pensar, tristonho, nessa mansão da solidão.
          Não é triste, caro diário! não é triste?
            Com isso quase me esquecia que apronto a documentação para a viagem ao exterior, essa que o pai me dá como prêmio (a quê? se for por vencer a Ordem... se for por pontificar na direção do conglomerado que ele criou...) Se não for um prêmio é, será sem dúvida, uma oportunidade à diversão válida. Ou, agora tenho esta visão: será sim uma busca de curiosidades e conhecimentos para fartar as páginas suas, diário. E quem sabe uma nova oportunidade para poder conviver melhor com o Murilo noutros rincões...
          Um ganho neste período mais para fel que para o sonho de mel do pai.



Cap. 30     

Recebi na minha condição profissional de autoridade certa missão dificílima, impossível não não existe o impossível mas o difícil existe sim e me remoí por dentro... Como farei! Aqui repenso aquele meu drama talvez intransponível e que me requeimará pelo resto de meus dias, drama insolúvel e suponho que possa também atingir milhares de outros cidadãos ou seja a escolha errada ou malfeita da profissão, isto porque poderia estar melhor advogando, mantendo uma banca com outros colegas; não, optei em ser delegado, um policial sempre na berdinda e arcando com a presença do crime e da loucura humana, sempre obrigado a tomar decisões a repercurtir pela evidência social. Ah não adiantam subterfúgios agora a fugir do problema: tenho esse problema pela frente. Devo comunicar – sem ferir e aqui a questão grave e básica, o pomo da efervescência – sim comunicar um drama profundo a um amigo, o João... Profundo de fato, se fosse comigo não choraria não gritaria não enlouqueceria! ou quem sabe tendo uma reação de autodefesa humana; o que sabemos disso? por mais equilibrado e harmônico o ser pareça. A rigor não sei a minha própria diante desse notável fato triste. Enquanto penso somo deduzo divido dores ou as dores multiplico – não resolvo – não resolvo nem a questão próxima, porque estes mequetrefes estão me olhando a aguardar minha ordem. Aqui me lembro de relance uma sentença que vi num muro do batalhão: obedecer é tão nobre quanto mandar. Mas decidir também não será nobreza. Eles andam na expectativa, tem os praças fardados tem outros da polícia civil, um da científica traja terno e gravata neste calorão, conversam baixo para não perturbar a autoridade circunspecta a decidir... Noutra ocasião em semelhança fui firme frio, funesto? isto não me tocou, fui essencialmente executivo na aplicação, sequer me envolvi, não, não bem isso pois até noutro dia ainda me feria o ser, contudo era de certa forma indiferente, houvesse indiferente, porque gente estranha. Chamei um subordinado, após mandei-o à viúva, antes determinei verem e me mostrar a ficha condizente. Imediato dei novas ordens e eu mesmo já a viver questiúnculas outras de familiares e dos estranhos conhecidos. Agora é diverso, envolve um amigo, desses confiáveis e que tomam no bar com a gente alguma coisa, que riem de nossas piadas e nos apresentam outros amigos também confiáveis. Nos envolvemos, incorporamos suas dores, sofremos consigo suas dores. O ideal seria eu próprio me dirigir à sua casa ou ao seu escritório na empresa ou até, por que não! até a um endereço de suas amantes. Não, não posso tomar tal atitude, devo tratar antes da supervisão e a fiscalizar os que examinam e medem o crime, levantam dados sobre o objeto, objeto realmente mesmo que antes do infausto o seguisse vivo e mais soubesse através do pai amigo e também meu amigo. Puxa, como farei. Ah, agora penso numa forma e numa saída correta. Ligo no celular ao João dizendo qualquer amenidade, algo não espantável e entro no caso... isso não; e se estiver dirigindo, se enlouquecer no trânsito eu igualmente não enlouqueceria ferissem meu filho! Não, direi que preciso vê-lo urgente. Irá no hábito da intimidade como resposta brincar comigo; aí digo: João, é coisa séria e... Vou fazer o seguinte, ligarei rápido a prepará-lo ao sofrimento e ao mesmo tempo chamo um ordenança a fim de trazer aqui um praça para buscá-lo, impedindo que também se mate ao volante num correr desesperado. João, vem cá. Não é João? ah sim, desculpe-me João é aquele soldado baixinho; Pedro. Pedro, aqui está o endereço. Vá agora mesmo com a viatura e traga o Sr. João da Silva meu amigo. A viatura da polícia não, com o meu carro, eis a chave. Já sabendo ele por alto o drama que irá viver. Finja não saber que o filho Doutor Joãozinho foi assassinado. Não lhe dê qualquer outra informação. Entendeu?


Cap. 31  

Aqui neste recanto de riqueza e luxo, mas luxo caipira como nunca vi pelas casas por que passei antes desta eternidade no ‘palácio’ da senhora Veva, aqui neste luxo em decomposição qual cadáver no campo santo, pontifica (ou sobrevive!) uma velha senhora que por anos todos nós apelidamos a gozar ‘véia’.
            Quase não dá mais ares de viver a infeliz. É a Velha velha, ou diria melhor Velha Veva Velha como apreciam colorir falar os poetastros sem camisa de força soltos por aí, no dizer a brincar; um deles abusou tempo no palacete mas por fim viajou sumiu ou se foi doutorar por esse mundo, a fim de gozar a riqueza paterna; foi embora e não desejo nem lembrar. Contudo a casa é a mesma casa desde o início da minha eternidade. Aquela árvore de flores violetas na entrada, os pássaros nela e por volta dela na algazarra irreverente pela manhã todas manhãs. O mesmo. Em todo esse tempo permaneço governanta, velha e ainda Nova; nem que isto seja a comparar-me à Velha Velha.
            É a mesma mesmo no revezamento de servidores: criados de quarto de cozinha de copa de lavanderia dos trabalhos gerais – ninguém para, ninguém aguenta; ou não sendo os servos aguentados. Perduro não obstante. O patrão terceirizou o pessoal, como costuma falar, igual fez contratando seguranças a cuidar da residência, olhar decerto a velha... Verdade com uma ponta de razão, inclusive coube-me despedir alguns que roubavam objetos e até alimentos, colocando a velha Velha num furor. Agora quase não tem gente a serviço e quase nem serviço à pouca gente. Parece que a crise de que fala a televisão afetou em cheio o palacete. Enquanto isso a ‘véia’ se esconde no seu mutismo, antes berrava desaforos, nem grita sua vitrola louquinha por modas caipiras de lembrança do seu tempo oleiro e da roça onde afiança haver vivido com os seus – nem Veva quer falar também disso mais, mais falam os discos à poeira. Sequer a velha conversando amiúde com o Sr.João quando de visita à esposa. Antes acabavam brigando, às vezes violentamente e hoje em dia não temos a perigosa situação de os criados ficarem a ouvir pelas frestas o destratar; apenas eu tenho esse desagradável privilégio. Enfim não somos mais que três servidores agora.
       A casa desmoronou a Velha Velha desmorona as empresas do patrão desmoronando. Há certa confusão no ambiente. Outro dia pegou fogo a discussão, questão de dinheiro falta de dinheiro, gritos, coisa de alta baderna, e me faltava público para discutir os desaforos como antigamente tinha e comentávamos entre nós sobre os patrões...
          Pesando esse quadro me pergunto para onde irei, se acabar minha eternidade!
- - -
            Penso que não sei (não posso!) mais pensar. Falar agora então... Meu palácio caminha nesse andar à choupana. Tudo nada dá certo. Tudinho me irrita nestes tempos, neste quase entrevar em que me acho. Perdi batalhão de filhos enterrados na guerra da existência no cemitério da vila; sofri os sobrantes na cidade pobre; perdi-os no paraíso rico, por tê-los sem os possuir estando ao meu lado longe sentimentalmente da mãe. Agora, hoje, tudo ruindo. O João não mais vem, quando vem vem para brigar; a ofender; a esconder o dinheiro, nosso dinheiro que gasta a rodo com as sirigaitas. As filhas morrem somem, o filho foge para um anel de doutor e pior ainda aos amigos, foge de mim... Mas ainda o amo, não sei dizer isso ao interessado: é a luz de meus olhos; se um dia me faltar... Mesmo quase nunca estando presente e quando presente nada me ofertando em não ser sua presença – é um bem; se um dia faltar estarei irremediavelmente cega!
            Enxergando ou meio cega, faz anos que morro; vejo e quase o único ser que percebo neste quarto trevoso é a Maria, ela já velha uma velha Nova perante meu caminhar matusalêmico, eu que gozava jovem a velha nonna a chamá-la Matusalém. Sim sinto-me morrer viva. Nem recebo mais visitas das amigas do Instituto anos me distraindo o ser. Só a do médico que é a dor, a realidade na dor...
            Uma coisa é certa entretanto na minha incerteza. A solidão. Não uma solidão da matrona milionária rica nas vaidades e nas esperanças. Uma solidão amarga qual fel no ambiente a desmoronar. Quem sabe a solidão possa diminuir as toneladas de seu peso com o retorno do filho agora nas andanças de suas viagens. Ou morro, sem precisar que alguém me ajude nisso; ninguém precisa de ninguém para morrer; basta a força: morre-se na força da sem-força.
          Curioso, ouço neste instante um cão a uivar, em jovem isso me causava arrepio! um cão uivando triste.



Cap. 32  

Ora essa o que desejará na madrugada o Mesquita... indaguei a este soldado com cara engraçada de macaco e não me respondeu a contento, não me leva à delegacia, o Dr. Mesquita encontra-se num motel; vou gozá-lo por isso, mas num átimo penso melhor: não brincarei com ele me parecendo coisa séria, ou não me chamaria... Eu podendo supor fosse em virtude da desvirtude dos processos contra meus diretores que roubaram metade das empresas com falcatruas porém isto questão da justiça ainda e não da polícia; não me chamaria... Seguimos hora já ao destino, o que será que o destino me reserva.
            Chegamos, estou apreensivo. O Mesquita, tapinhas nas costas, um túmulo de boca e isto sendo esdrúxulo demais para amigos com nossos hábitos e intimidades. Realmente ando apreensivo; preocupado tenho mil pensamentos, aguardando agora um pior que me possa surgir, lendo a fisionomia amiga circunspecta neste instante; quase leio lágrimas nos seus olhos de sentimental, embora a posição ingrata de autoridade que o homem ocupa.
          Chegamos num dos corredores onde tudo silencioso...
            Chegamos a um quarto aberto com um segurança no lugar de porta impedindo curiosos, curioso estou, curiosíssimo e já chorando por dentro, fora decerto a expectativa constrangedora de minha presença nessa presença inusitada no ambiente mal iluminado e nada recomendável (num quadro rápido e fugitivo vem foge de mim a Janinha, torno ao meu eu diante do amigo e seus subordinados:) sinto o suor estranhamente brotando e também os ânimos pra baixo, compungido; já quase exijo que ponham as cartas à mesa, o Mesquita me contém me consola me acalma me oferta o rosto da esperança tristonha no rosto igualmente compungido, mais compungido que à chegada nossa, me parecendo sofrer mais ainda que este seu amigo de anos, que é o que superlativamente devera e deverá sofrer num crime...
          Chegamos ao crime!
- - -
            Sinto-me imóvel, petrificado, estátua de carne e vida e ‘desalegria’ e sofrimento profundo; abismado, um abismo repleto de objetos vejo e o objeto humano estendido em meio me toma o ser me confunde me contunde me invade o todo me esfarrapa em insignificantes terríveis partículas vivas, ah vivas infelizmente, quisera nesse momento morrer, o morrer como ideia de desaparecer sem sequer ter existido e lamentavelmente existindo no vivendo-morrendo incompreensível ao ser comum! Em frente ao todo, tudo desnecessário, tudo a inexistir quase, existindo meu morto... Grito.
            Eu eu... grito por fora, terei externamente gritado berrado estertorado no nada! isso não sei, sei o imenso sofrer de minha dor flagrando o João meu Joãozinho meu grande Doutorzinho – proprietário empresário involuntário, sabia, o dono das empresas que gerei fiz crescer para suas mãos finas com anel de doutor e inteligência enorme abarcar governar ampliar a perpetuar a espécie dos Silva, que morre comigo com a vida dele que se esvai!
            O mesmo João que me povoou o ser, em quem depositei todo um destino, ofertei todo um destino, o destino não quis o presente e o entregou à foice da morte!
            Olho de volta de meu desmaio no choque do choque de meu ser a rever o morto querido...
            Tem um corpanzil em cor de cera próprio dos que ficam no centro dum velório; um corpo volumoso e belo, belo forte grande a impor a vida às empresas, a morte a impor a destruição duma existência tão prometedora... Tornara do Exterior e ainda não nos avistáramos, agora morre também o diálogo. Mas nisto existe ainda um pior no pior que examino de pé e quase nem sinto os pés neste fatídico impacto funesto: está de bruços, nu, sangrado já num líquido negro seco das horas nas horas anteriores do sofrimento quiçá da tortura e dos desvios morais...
          O punhal assassino fugiu com o assassino, tenta me informar o funcionário amigo, porém ouço longe sua voz, a voz de meu cérebro grita mais alto e mais próximo.
            Percebo com água anuviando os meus olhos seres a examinar meu Doutor, comparar usando lupas e estranho instrumental as minúcias do desastre ali desacordado para sempre – e este pensar me abala me afunda me mata. Derrubam algo nem ouço o barulho, alguém se agacha compara pergunta mede medem limpam cronometram quase, quase nem vejo, vejo-me e agora sou um despojo igual o filho, um despojo... e num como desacordando ainda ouço sons confusos dos técnicos distante a se referir a um nome, Murilo...
          Murilo, sim Murilo! grito, eu grito, não sabendo avaliar estar louco.

Marília   agosto  2009. 












Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



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