sexta-feira, 27 de março de 2020

Arca Louca de Noé


0128(ao Blog Livros Inéditos)











                                   Arca Louca de Noé
                                        contos
                                    Moacir Capelini
















moacircapelini@gmail.com   


capa:


data de publicação:


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Gráfica:




















“É com dificuldade que o homem se resigna a ser um saco
 de excrementos de duas patas.”
                          Michel Tournier
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“Um homem curto de certezas vai longe no campo das hipóteses.”
                              Marguerite Yourcenar





Índice:

1.No Tempo em que os Bichos Falavam......pág. 5

2.A Carne... e a Carne Assada..... p7

3.Não Era.......p21

4.História da Carochinha sem Príncipe Encantado.....p13

5.Arca sem Noé.....p19

6.Estória de Amor.....p25

7.Eva, Amor de Outono. E Adão....p29

8.Endereços Incertos....p32

9.A Viagem.....p35

10.Exigências Esponsais.......p38

11.O Passamento.....p41
       
12.Um Sentimento de Culpa....p43

13.Depoimento de Branquinha....p44

14.O Morador do 3° Andar....p48

15.Aconselhamento de um Morto....p54

16.Diálogos Ligeiramente Estranhos......p57

17.A Dúvida...p61

18.Vingançazinha.....p64

19.Conto do Telefone Louco....p70

20.Recordação de Estágio.....p73

21.O Primeiro do Último.....p76

22.Questão de Presente.....p79

23.Os Bebuns.....p81

24.Incertezas Conjugais....p88

25.A Invasão.......p90

26.Antro de Cegueira....p94

27.Ação....p99

28.Memorial: Extratos Etêticos....p101

29.O Presente....p105

30.Diaventura....p108

31.Sumindo em Sumiço....p114
      





















- No Tempo em que os Bichos Falavam
         
         Parecença com fábula, estorinha para criança, essas coisas e tal. Não. Melhor dizer sobre o registro no tempo gasto olhando os animais no zoológico, melhor falar. Admitindo-se até que os mesmos estivessem conversando, à moda deles, naturalmente. Enfim, parecença com uma estória doida.
        Se não, vejamos. Uma ocasião certo administrador maluco, somente poderia ser lunático ou em véspera de aposentadoria merecida, enfim suficientemente desgastado – esse dito funcionário de altas funções quis ter o prazer de ofertar um presente ao público pagante dos impostos que mantêm a nação, uma diversão sadia; a qual se transformou num espetáculo insólito e curioso. Pretendeu o quanto os bichos do zoo sob sua direção poderiam dar de bons exemplos aos outros animais, quer dizer, aos humanos, tidos quase sempre como bons exemplos aos irracionais. Bem, quis dar bons exemplos. Ou ao contrário. Porque nunca sabemos ao levarmos a cabo uma experiência se ela dará o resultado absolutamente esperado; é que às vezes no quase sempre das coisas as coisas são o contrário do contrário. Em conclusão a experiência constava no viver comum dos seres.
        Mas vejamos as etapas dessa democracia dos bichos trancafiados belamente no zoológico, o que, aos indivíduos mais sensíveis que vão em visita a essa prisão singular, é um ato afrontoso; e mostram no argumento a expressão dos prisioneiros. Porém deixemos de passionalismos pessimistas, pois os animais nessas condições vivem assim para a grandeza humana, bem como o firmamento existe para diversão exclusiva dessa vaidosa espécie.
            Na primeira etapa a curiosa experiência apresentou os animais grandes, enormes, desajeitados como o rinoceronte, pesados como o elefante, enfim os disformes e volumosos a ficarem presos (o administrador não quis iniciar a democracia arrebetando as grades para os animais conviverem na inteira liberdade, no provar liberdade irracional com a igualmente irracional liberdade do homem; e decerto temeu virar ele e seus funcionários comandados comidinha, ou que viesse a ficar incontrolável a situação, fechemos os parênteses por estarem enormes). Portanto os bichos de grande porte ficaram presos mesmo, ou estaria quem sabe comprometida a segunda etapa do fabuloso plano libertário. A etapa deveria ser, e foi, completada aprisionando juntos os animais de pequeno porte (os insignificantes não poderiam estar trancafiados, há muito tempo já não estavam, porque sairiam facilmente pelas frestas, o que explica o motivo de quando visitamos o zoológico nunca encontrarmos pulgas piolhos e pernilongos presos, não sendo que a prisão lhes convenha, como é o caso do piolho que ajuda o mico a se coçar. Eles enfim fogem a qualquer tentativa de aprisionamento; fechemos mais uns parênteses pelas mesmas razões apontadas aos parênteses anteriores). Grandes e pequenos bichos, todos fraternalmente juntos (e lembra aqui a mensagem religiosa de uns tempos atrás: família que reza unida permanece unida; animais sofrendo juntos permanecem juntos, ou qualquer coisa assim). Era o império da democracia! ao público humano ver; e quem sabe até aprender!
            Isso foi a teoria. Porque a prática, a confirmar a teoria, saiu diferente: os bichos grandes comeram os pequenos. Com exceção do macaco. Por falta de quorum, o congresso dos bichos para o bem da ciência, a demonstrar muita democracia para pouca cabeça diretora – esse parou de funcionar. Não foi possível sequer chegar totalmente à segunda etapa do plano, a comprovar que na prática a teoria é que é outra. Mui sabiamente entendeu Simão o macaco, que até hoje não desce de sua árvore pra verificar que os bichões não são tão brabos assim. Teoricamente assim.
 Ribeirão Preto    julho  1994





- A Carne... e a Carne Assada
         
        Andava relutante a escrever isto; dizia meu eu, enjoadinho e moralista: por que o drama, ferindo olhos e mentes! respondia o eu meu, chãozinho e depravado: por que não o drama, tão ao gosto brasileiro! E argumentavam-se. (Eu-consciente apenas ouvidos, deveria meter-me na briga familiar? eu não. Ouvia:) Que os céus condenariam, a eternidade de que tanto se fala, quase a agredir orelhas materialistas, estaria manchada – em dizer que é errado, até pecado, alguém contar dessas agruras que vão no íntimo da gente para outrem ouvir pensar sofrer. Daí o outro meu eu aproveitou-se do ‘sofrer’ para fazer o outro meu eu sofrer com seus próprios argumentos: “e não é bom sofrer, a depurar o espírito?” Ao que o outrinho redarguiu pronto: “sofrer, sim; procurar sofrer, nunca!” A admiração fui eu, o consciente, quem pus, isso pra ficar mais bonito.
        A conversa entre os dois eus já me azucrinava, eu me remexia na cama, oito horas das grandes e boas deitado, o sol se arreganhando na fresta, eu tardando a me levantar, com talvez (diria agora: com certeza) medo dos briguentos... Interferi, fui ao banheiro, dei descarga, mandei-os às favas, fiz café, disse basta. Venci. Perdi.
        Estou outra vez com os rixosos, neste ‘tectecar’ na máquina Olivetti. A ideia não me sai da cachola. Venceu, quem sabe, o segundo meu eu! Pra contar, pelo menos, a estória em que me envolvi e me tomava o ser nesta manhã. Imaginei mesmo a cara do sujeito.
        Nem meu eu nem o outro eu meu; sequer eu-consciente temos culpa no cartório, apenas por contar o contar. Porque o fulano era ainda moço. Quem sabe se não bonito. Não poderia julgar; garantindo, entretanto, ser o rapazinho um tanto impetuoso. Ocorre houvesse necessidade a experimentar seus penachos, pois se considerava muito homem. Tinha barba rala, um ameaço de bigode. Ela talvez o achasse atraente. É por isso armar a arapuca de pegar jovens... Pegou. Foi lá desarmar, segurou pra si a presa.
          O marido dela?
        Esse fica para o outro seguimento da estória. Por ora basta saber que era velhote já, tendo, crê-se, problemas de nível sexual profundos, quem sabe não fosse por força da idade. Mas ela, a jovem, a senhora era, deve ainda ser, nova e quarentona. Quarentona cansada de esbanjar beleza e amor contido. Tinha. Tinha sim filho, do esposo e dela, consta no testamento; porém filho é para amar, amar diferente, sem nenhuma sacanagem. Beijinho pra deitar, pra levantar cedinho na hora da aula; pra conversar nas refeições, para comprar roupa ou para deixar com titia levando a todas as diversões possíveis, por conta do dinheiro sobrando do consorte. Bastante herança, a dar trabalho suficiente ao cartório ao distribuidor ao juiz. A mansão de certa forma escondida, ela sozinha representava um valor respeitável. Com muito respeito entrou o rapaz na ratoeira.
            Entregou ao marido da bela a encomenda; ia dar no pé, de volta, o olhar da jovem quarentona não deixando... O lanche era frugal, até demais simples para uma família milionária. Ele é que não percebeu isso, embevecido e embriagado nela. Esquecendo mesmo da sua namoradinha e do cinema com sessão marcada, para conhecer melhor a fazenda dos ricos anfitriões. Ficou para o jantar também. E se foi. Mas voltou.
            Muitas vezes voltou. Ela exigia, exigiu muitíssimas vezes também. Tornou-se freguês, mais que amante. Ela que era a amante. E professora. Lecionou-lhe amor com toda intensidade. Ele aprendeu, julgando ela depender de seus encantos masculinos e da juventude comprovada... Quem sabe se não tivesse alguma razão! Entretanto iniciou nessas alturas a exigir da jovem senhora sua amante; coisas lá próprias dos grandes amores, o que não interessa aqui. Foi então que entrou o Nagib. Parece que se chamava Nagib.
            Havia prometido antes que depois contaria sobre o marido. Todavia é mui sem graça falar em homem – sobretudo os gastos pelo tempo a usura a sovinice e outras coisinhas mais indignas desta folha. Comigo não tem nada de papel aceitar tudo; possuo um crivo; permito a briguinha dos meus dois eus, neste ponto da narrativa um pouco emburrados entre si; mas não admito o contar mentira. Só aceito alguma se a mentira for bem narrada. Sobre o marido da esposa bonita de quarenta anos e um pouquinho mais, depois de haver fornecido os lindos traços daquele ser belo e atraente, daí passar a descrever o esposo da mulher, é algo horrível, asqueroso inclusive. Resumo apenas: era velho gasto ranzinza e vingativo. E agora chega, ou desmontarei o personagem, não ficará pedra sobre pedra, nem dará para prosseguir a estória. O homem.
            Nagib, o homem, assim descrito por constar no testamento, ricaço tem mesmo dessas coisas (o pobretão se contenta em distribuir, vendo o defunto na mesa, paninhos fotografias badulaques entre os próximos: não possui testamento). Era esposo da nossa bela.
            A bela recebeu o jovem garotão impetuoso de barba rala e bigodinhos apontando – no seu leito. Os perfumes do amor andavam espalhados, as ânsias engatilhadas, a imaginação febricitava, tudinho preparado a ofertar a ele o amor em toda a sua integridade e abusos... Nisso veio o marido dela.
        Foi ele quem deu no jovem-todo-forças-e-machismos a paulada no cangote. O conquistador dormiu, já quase dormia no ápice do amor por cima da bela de quarenta, no momento não mais contida pelos atrasos conjugais. Porém não morreu da pancada o machinho impetuoso. Foi minutos depois que a cimitarra o matou.
        A cabeça, ainda jovem e impetuosa, foi atirada aos mastins famintos. No entanto mais tarde chegou a ser enterrada junto a outros crânios de amores precedentes. Sim, houve disputa entre os cães; o jovem amante da amante é quem perdeu para os cachorros. O tronco foi levado a um compartimento, espécie de açougue. A cimitarra, indignada, aparou as coisas do rapaz, que daí deixou ser rapaz. Os gatos de madame receberam sua parte. Depois a experiência dos funcionários arrancou toda a pele daquele corpo inerte; não se sabe qual o destino da epiderme baia e queimada do sol.
            O gancho dependurou o jovem amante impetuoso, facilitando o trabalho chatérrimo de limpar tripas e vísceras nojentas. O sal chamou alho pimenta salsinha cebolinha e outros cheiros. O forno esperava fumegante. Executou belissimamente a assadura. Aí foi tirada aquela carne no ponto. A festa ocorreu horas depois.
            Esteve concorrida. Havia inclusive muitas outras pessoas além dos familiares e amigos. Eram criaturas imprevistas no banquete; necessitando certa dose de inteligência nas explicações do regabofes.
        Macaco? cruz-credo! muita gente não come mono, outras primeiro cospem; mas havia frangos e leitões a complementar. Nem as leitoas nem as galinhas estavam adocicadas... Todos apreciaram; todos e todos mesmo, elogiaram os cozinheiros.
            Madame agradeceu. Agradeceu mais ainda a um jovem impetuoso e louro, tendente a aceitar um convite da moça quarentona...
Ribeirão Preto    junho  1984





  - Não Era
         
        Olhem aqui, podem entrar, tudo isto é meu. Esse pessoal é minha gente. Tem sim vizinhos e conhecidos e mesmo desconhecidos, desses que entram na festa experimentam alguma coisa sorriem e se vão. A maioria, podem ver: compungida, são os meus. Mas o amigo aqui já sei, um tiro é tiro perdido e o acertou; aquele que encontramos ali fora foi um mero acidente e nunca saberá se foi acidente; e Você? “Discuti com um vizinho por bobagem, me esfaquearam”. Amigo não me leve a mal, estava sorrindo não de sua facada, longe disso: da minha mãe, aquela velhinha lá no canto ao lado da senhora de verde. Um dia me veio com esta: “a culpa é do Hermenegildo, ele não me avisou que era 31 e sim 25, vencia dia 31, precisava entregar o livro...”  Eu que nem sabia quando o vencimento da obra na biblioteca. Fiquei rindo, iria responder à mãe! Aquela com a de verde. A outra, de pé, é prima. Ah vejam o sujeito que entrou, solene, é familiar, tanto que veio: o médico. Estou aqui exatamente a perdoá-lo. Ligado ao meu falecimento. Não vou falar sobre cada convidado desta festa fúnebre. Alguns. O baixinho ali sentado, o que ri não, o sentado, é impagável, conta uma de português, sua especialidade, os outros riem. Todavia o mais engraçado é o que está na saleta tomando café, irá já já fumar lá fora. Conta mil e uma, a gente ria de doer a barriga, até eu com minhas dores ria-me, agora não. Acabou de tomar o café e sorri a nosso conhecido; velório, sabem, é bom para reencontro, deve ser a função mais importante do enterro. Olhem, como falei já vai indo pra fora, altão, ventre ‘cervejático’, de bem com a vida. Voltemos um pouco ao salão. Aquele ali sou eu, se precisasse lhes dizer. Não estou bonitinho! Terno, só usei um terno no casamento; percebam aquela chorona, ela, agora chora pelo cadáver; antes pelos nossos entreveros. A que está com ela é a mais velha, a menina pequena era a queridinha do pai aqui, tem o garoto também, ainda não veio, vem para o enterro. Ah mas lhes prometi narrar como foi. Pois morri de Não-Era. Estão espantados! Sempre tive umas dores safadas – juntas canela pé, enfim minha parte de baixo andava por baixo. Tinha o cidadão que mostrei, nosso médico por anos, como parente. Eu chegava no consultório e lhe dizia “ah Doutor dói aqui etc. e tal” toda semana era isso; no frio então! Tanto que eu já entrava ele dizia assim: “bom-dia Hermê, me chamava Hermê, dói o joelho o pé a canela, vou lhe contar a do papagaio”, contava a do padre; dava a receita, um tapinha nas costas, eu indo à botica, eles já acostumados lá comigo também. Isso anos. Até mês passado. Cheguei e cumprimentei esse ali, o médico; falei “Dr.”... Ele já completou assim: joelho-canela-pé, pô Hermê, já sei ele falou e me deu um receitão, que era sempre os mesmos medicamentos. Tomei entrei em coma durante quinze dias, bati as botas nem perceberam e ficaram olhando e trocando sondas no cadáver. Até que ontem tiraram os fios de torturar mudos e contrataram a Funerária São Vicente, a de minha preferência. De quê? ora, não era joelho não era canela não era pé. Não era. O que era? Que adianta saber agora. Deixem minha gente aí me olhando florido e de gravata, nunca me haviam visto de gravata; e logo chega o padre rezar por mim, padre que só vi no casório. Vamos pra lá: estão contando uma de padre com português, me agradava tanto.
 Marília   maio  2002

 

 

 



- História da Carochinha sem Príncipe Encantado


            Puxou seus óculos pra cima para não suar o nariz ou tão só a fim de não sangrar a pele dele, limpou a garganta, em velho ela é sempre mais seca, aquela coceirinha ou comichão, se ajeitou mais, incomodada; e iniciou a estória que os meninos pediam exigiam cobravam dela. Tratava-se de uma senhora gasta, como gasta é toda a história humana. Fez de conta não ter visto beliscões dum neto em outro, perdoou ao calor e até às moscas esvoaçantes. Disse – mas não foi numa voz rouquenha e anasalante fraquinha e suspirosa, pra que mentir? disse firme que não contaria uma estória de lendas e fantasias; se quisessem releria para eles as “Mil e Uma Noites”, edição tendo a sete chaves guardada, tão velha que apresentava um prefácio assinado por Machado de Assis em outubro de 1882; uns queriam outros não; ela optou pelo voto de Joaninha, por simpatia quem sabe (e se lhe fosse dado o direito a voto de Minerva por empate ela, a senhora idosa, optaria... bem, já andava cansada ler por mil e uma noites aos netos) fosse por simpatia enfim ou porque a menina ainda não soubesse votar, parecença com eleitor brasileiro, era apenas incapaz de decidir por quase ainda não saber falar, tadinha. Vovó, afinal, decidiu por elinha, dando desempate a favor da estória sem lenda e fantasia, deixando as belezas orientais para quando falhasse a sua capacidade inventiva. Então começou e desandou a narrar uma estória sem direito a “era uma vez” tão batido pelos contadores oficiais e numa compensação com muita reticência salvando inconclusões chatas. Falou não sobre um príncipe encantado, todos sabem em falta na Terra, mas de um sujeito encardido, por viver no mundo da ilusão sem opção a príncipe, como aparece até no título posto lá em cima.
        Era um homem desgastado, se bem não perdido na miséria. Era um homem solitário, muito embora rodeado de povo por todos os lados. Era um homem comum e normal quase, não obstante não congregar com seus irmãos a beber a jogar a se drogar no cigarro e demais elementos viciosos da imaginação. Era um homem puro todavia impuro, pois não contava com méritos de coração; puro tão somente ao consumo externo. Apenas um homem; apenas.
        Vivia, disse aos jovens a jovem velhota, o homem encardido na inteira solidão. Mesmo cercado de misérias e riquezas. Levantava-se. Melhor seria inventar vocábulo mais de acordo (levantar caberia apenas como expressão de efeito) porque de fato abaixava-se entrando na solidão, levantar-se é para quem for viver esplendorosamente sua vida, não sendo o caso dele.
        Não tinha nome? indagou Joaninha, única que ainda prestava atenção. Não, falou vovozinha, acho que se esqueceram de registrá-lo entre homens quando nasceu. Nome é para distinguir pessoas, ele não se distinguia.
            Levantava-se, retomou a velha. Ia fazer o que preciso no banheiro, desinfetava lavava enxugava e se penteava; se esquecia de notar rugas quase nem se via no espelho. Uma laranja a limpar a goela na cozinha. Limpava a pia, espantava baratas que ainda não tivessem ido dormir do trabalho de coleta noturna. Abria o vitrô para ver, receber vida vivificar-se. Ia ao quarto a praticar sua ginástica, simples flexões de braços pernas e respiração, perceber estar já enferrujando para não enferrujar. Pronto a se vestir, em geral só iria saber o que vestira no dia no momento de tirar as peças sujas e fedorentas a pô-las no cesto das roupas sujas enfim para dormir outra vez de noite. Também não era dado a cores, combinações artísticas, essas coisas. Poderia ter usado a mesma cor nas calças camisas e meias sem haver notado sequer a aberração ou palhaçada. Ou ter posto uma duma cor outra meia doutra cor. Não se via.
            Que burro, comentou Joaninha. Isso mesmo minha filha, respondeu à neta. Dos grandes. Nem nisso ultrapassava o mesmismo dos outros de sua espécie. Agora ia trabalhar, já havia feito os salamaleques da ginástica e engolido frio um copo de leite com pão duro. Trabalho, onde brincava de gente importante sendo tratado como gente de verdade, como se vê a verdade; ou então não ia trabalhar fora, optava pelo descanso; às vezes – acordava sempre nas mesmas seis horas – se levantava mais tarde por não ter o que fazer; ou acordava mais cedo, para ter mais tempo de ficar à toa. (A garotinha fez um muxoxo engraçado). Ia novamente à cozinha, olhava o despertador atrasado sempre para estar de novo atrasado, o relógio estava em cima da geladeira imitando um pinguim; depois dava prosseguimento à sem-gracice: tomava leite, às vezes com café solúvel granulado, engolia o pãozinho amanhecido como se disse, depois olhava o termômetro como não soubesse estar quente o tempo, andava de cá pra lá de lá pra cá dia inteiro, quase sempre usando o mesmo caminho o mesmo espaço; se medisse o trajeto feito contaria quilômetros e quilômetros, além da possibilidade de estar afundando o caminho gasto; depois olhava a janela pra ver o mundo, corria lerdo paquidérmico lá fora ver a vida escorrendo ou somente curtindo os pensamentos qual tecla de máquina de escrever, sempre batendo a mesma letra, inconformado pelo abandono da esposa, mesmo aceitando que ela devesse tê-lo deixado; fazia contas, parecia matemático: somava (mais dividia e ainda mais deduzia) tirava prova dos noves-fora e/ou real, lembrava as advertências amigas “casando-se você perderá uns vinte por cento de você mesmo”. Perdendo a companheira ela zerara a ele, zero por cento! Refazia contas, fazia de conta, não adiantava a conta e não adiantava coisa alguma, chegava no zero outra vez.
            Sujeito encrencado hein vó! falou a criaturinha, nesse ponto da narrativa os outros netos já brincavam de outras coisas e o público era apenas Joaninha. Sim, querida, encrencado pra valer. Voltava para dentro de casa, punha uma fita cassette ouvia desligava, pegava um setenta e oito rotações e chiava na vitrola o Chico Alves a dizer: “o homem sem mulher não vale nada!” desligava a RCA, quase gramofone. Saía para ver as flores no jardim, essas estavam belas e eram belas, molhava sua seca com mangueira, era uma delícia para ele decerto às flores. Sorriu Joaninha, nada falou, prosseguiu a vó de Joaninha. Voltava para dentro a esperar o almoço a janta, quase nem ligava o fogão, economizava gás, comia qualquer bobaginha, ótimo a um qualquer um. Ramerrão. Rotina. Fim de semana.
            Vinham os filhos pra casa, trocavam palavras, uns sorrisos, conversas amistosas porém insuficientes. Mesmo com os filhotes vivia a sua vida solitária: eles partiam para solução de seus problemas, fechavam-se ou fechavam as portas dos respectivos quartos para viverem também suas próprias solidões, deixando o genitor curtindo a sua com mais categoria, a qual só era interrompida pela arte culinária, mero ato de “queimar-lata”, como preferia dizer nosso herói. Também devia lavar roupa varrer a casa e outros senões domésticos, a favor de suas crianças (já adultas). Porém continuava cercado de solidão em todos momentos. A solidão estava nele, não no ambiente em que vivia. Amava os filhos, era por eles querido, mas cada um na sua própria vida. Com ou sem filhos, arrastava seus chinelos num andar engraçado, indo do quarto à sala pra ver quadros fixos na parede ou a xingar a tevê; voltando ao quarto ou à cozinha; ouvir a farra da meninada na sua gritaria gostosa da rua. Voltar ao quarto escrever para descarregar o excesso de negativismo, ir outra vez ao banheiro dar descarga ou enxugar as mãos; voltar à escrivaninha no seu quarto, ler o que escrevera por anos ou o que os outros por anos escreveram, a receber experiência de vida da vida dos sábios. Sair do quartinho, carteira nos bolsos, ir às compras, passar e ver na rua as caras, sorrir amarelo (riso tem cor? hein vovó, vovó desconversou fez que não ouviu continuou:) sorrir às pessoas que nada têm com nossos problemas. Voltar para casa, retomar a rotina, tomar o radinho japonês de pilhas, ouvir anúncios, irritar-se com anúncios e músicas estrangeiras, voltar ao jardim, ver a rua outra vez, curtir sua querida interrogação.
        Puxa, ajuntou Joana, cara (elinha pronunciava “cala”) maluco! Vovó fez com a cabeça que sim. Ficou com pena do seu personagem, não disse nada, a garota não entenderia. Falou somente que ia ao fim da estória, notara mesmo a Joaninha estar enjoada e perdendo a paciência por tanta besteira. Um dia... (aqui reticenciou a velhota).
        Um dia morreu. Quando? perguntou curiosa o publiquinho. Não sabia. Os vizinhos perceberam qualquer anormalidade naquela normalidade ôca. Descobriram cheirar mal, um fedor de carne putrefata e muita mosca esvoaçando desde a casa da solidão. O Sr.Sem Nome da família ilustre dos Solitários, esse jazia na cama, quietinho, defunto é quieto por natureza mesmo, por característica. Quem disse foi a polícia que arrombou cadeados e portas; a geladeira ainda trabalhava rouquenha e chocalhava sua poeira e seu enfeite, mas o pinguim marcava seis e trinta e um de não se sabe qual dia, ou se da tarde, parado sem corda igual o dono. De quê?
            A autópsia feita naquele cadáver em desmanche, aquele que deixara no lençol mancha já seca esverdeante pela decomposição quase completa de semanas, registrava como causa mortissolitudine complexa’. Todavia, para não chocar a ignorância popular Seu Dr. registrando “faleceu de morte morrida”, que todos entendem, até vovó até Joaninha então triste, tadinha; até os outros meninos se estivessem presentes, votantes em Scheherazade e as “Mil e Uma Noites”. Tecnicamente na ficha policial ficou o registro latino arrevesado mesmo, ocorrendo Joaninha não entender coisas de morto em línguas mortas.
Ribeirão Preto   novembro  1994





- Arca sem Noé

        Chego a admitir como natural você não conhecer meu amigo. É que ele não vive mais para o mundo, se não para os seus bichos, isolado portanto; considera bicho o bicho, não considera bicho o bicho-homem, mas deveria. Opinião minha, não a dele.
        Fui introduzido no seu meio, meio século já se passara desde nosso desligamento. Ele mudara tremendamente; fez questão falar não haver mudado: o mundo é que se alterara. Não estava, eu não estava, em condições de contradizê-lo. Contudo entrei na sua propriedade como amigo, assim fui tratado. Ele preferindo chamar-me amigão (minha consciência gritando “nem tanto!” eu pedindo que ela se calasse) e chamava a propriedade “Paraíso”. Como nada ele se parecendo a Adão, mesmo porque sequer notei uma Eva; opto nestas memórias a nomeá-lo apenas Noé.
        De fato, o que mais valorizava minha tese ‘noezista’ era a presença marcante de animais. Não digo pulgas moscas piolhos – isso tinha muito; sabemos que nos zoológicos nem se contam as insignificâncias e muito menos se numeram essas coisinhas. Enfim não são inventariados em nenhum lugar; não seriam também no Paraíso de Noé. Quero dizer bichos de grande porte, ‘pegáveis’ – do sapo até ao dinosauro. Nesta hora cabe-me um protesto por causa do protesto do leitor, com respeito ao dinossauro; convenhamos seja com dois esses, assim fala o Aurelião; porém meu costume ao indicar esse monstro do mesozoico é pôr um esse apenas. Estou perdoado? Sei também que me cabe neste ponto da narrativa outra observaçãozinha: como incluir dinossauros se eles desapareceram antes do homem aparecer na Terra? Realmente seria uma afirmativa vã que ele, o Noé, estivesse sendo tolo o suficiente a procurar dinossauros para completar sua coleção imensa. Entretanto posso afirmar ter visto um ovo enorme, que o meu amigo garantiu haver comprado de um pesquisador alemão, Fritz von Hannemann, que o mesmo havia encontrado numa caverna europeia da Boêmia, ovo autêntico de dinossauro. Quando estive no Paraíso já fazia trinta anos que Noé aguardava o nascer do dinossaurinho; ah o que havia sacrificado de galinhas para chocar o ovo! E não se pense neste momento que meu amigo tivesse matado as penosas, tendo em vista que as mesmas não houvessem dado à luz monstruosa criatura. Não. É que muitas haviam ficado no trabalho de chocar o dito ovão toda vida delas. Noé era contra o eliminar vidas! Um mérito dele, acho. Esclareço no lembrar outra vez que ele era pela vida animal, não incluía o ser humano como animal... Ocorre ainda uma ideia interessante a propósito do dinossauro: chocado (o Sr.Noé deverá, creio, aguardar milhares de anos até o nascer de seu monstro de estimação) necessariamente meu amigo terá que montar um hangar enorme, a servir de alojamento ao dito cujo. Porém são senões; vamos aos outros bichos; enfim os bichos-bicho, vamos nos lembrando sem cansar...
            Noé foi mostrando ao seu amigo, eu, sua coleção zoológica. Desconhecia meu desconhecimento, sabia nada de meu saber. Por isso descrevia com entusiasmo seus queridos conviventes, pensando que eu, por ser da civilização e da terra das máquinas (“e da loucura”, acrescia Noé) não conhecesse bichos. Fiz-lhe a concessão de ouvir sua enumeração em silêncio, o que provava minha alta educação. “Este é um cavalo” dizia-me, como eu não houvesse visto ainda o Maneco da Padaria. “Isto é uma cabra”. Eu engolia, como fosse raridade (fui criado com leite de cabrita, nunca mamei na minha genitora). “Um lindo espécime de cachorro!” fez grrr pra mim o lindo espécime; prosseguimos. Não se satisfazia mostrar-me: declinava o nome científico em latim “cane, da família canis familiaris”, idade procedência características possibilidades hábitos peculiares, me enchia a cachola com informes e terminologias. Curiosamente eu não me chateava demais, ou me apresentando mais paciente e educado que eu mesmo me supunha; quero dizer, somos desconhecidos a nós próprios. Continuemos o bicho-não-homem.
            “Isto é um scafaiu, vulgo escaravelho; apelidei-o Sexta-Feira”. Contou a história de Sexta-Feira: o bicho picou o irmão mais sem graça de Noé, matou-o em horas, numa sexta-feira dia treze. “Eis Tripa, da qual lhe falei”. Tripa, segundo Noé da família crotalus terrificus, deu golpe fatal num amigo da casa (estremeci!) amigo embora, indesejável... “Aqui vou lhe mostrar um exemplar de luncea, que os caboclos conhecem por onça pintada”. Indicou muitos exemplares magníficos, segundo ele, mas aquela era de estimação, pois foi encontrada comendo os restos do tio Chico, irmão atrevido da mãe, esta que por sinal fora ração de um crocodilo mais faminto; ora, comentou, o que uma velhinha iria fazer num lago? Não respondi, tinha engolido a língua. Ah, lembro-me agora dum senãozinho: seus queridos bichos eram ensinados. “Chicus – disse a um chipanzé – faça um carinho em nosso amigo aqui”, mostrou-me; o macaco aí pulou-me no peito, apertou o pescoço fez-me mostrar a língua que anteriormente havia engolido... “Chega, por agora, Chicus”; obedeceu ao mestre... Eu me esforçava por respirar e sorrir. “Vamos à área dos leopardos”, fomos. “Jonathan, então Noé mostrou-me um animal que me fuzilava com o olhar, é meu preferido”. Disse que Jonathan almoçara a tia Joana, por demais conversadeira. E tinha Petrus, macho competitivo, o qual jantara um tratador incauto (então cheguei-me mais próximo de Noé; quem sabe não devesse preferir Jonathan ou Petrus!...) Continuou Noé: “vamos agora a área de nossos irmãos de penas”. Imaginei pavões misteriosos, cisnes reais e outras belezas – por sinal existentes lá, todos animais de pena eram representados no imenso zoológico – preferiu levar-me a abutres e urubus. Espantei-me. “É melhor vermos Cinicus, primeiro, antes de nosso almoço, visto ser isso altamente ilustrativo.” Cinicus, um corvo dos grandalhões, que me mostrou como se eu desconhecesse carniça – fora pego no flagrante comendo restos do que havia sido o proprietário anterior das terras de Noé; em vista desse grande feito, meu amigo resolveu contemplá-lo e a seus correligionários com cadáveres dos jagunços e familiares putrefatos do ex-dono. Por essa razão o apreço demonstrado a Cinicus naquele momento.
            Fomos, por nossa vez, à nossa refeição. Eu, de mim posso falar, nada podia comer: só me lembrando carnes decompostas, tudo me cheirava mal ali. No entanto lambisquei educadamente algo, vegetal; Noé era vegetariano, contra sacrifício animal, como ressaltei. Andamos um pouco, para fazer o quilo (eu, trocadilhando, faria gramas, quando muito). O amigo propôs-me a sesta, no entanto eu não teria condições psicológicas de cerrar os olhos naquele zoológico, especialmente diante das estórias contadas... Após a digestão prosseguimos nosso passeio.
            Tendo indagado a Noé se não amava as plantas, ele provou-me mostrando um jardim. Fomos. Fez questão de apresentar-me Karina; Karina era uma dessas plantas africanas ou asiáticas, sei lá, que apreciam ingerir animais. Em provar-me seus poderes, chamou um criado malcriado que servia como lacaio ali, lhe ordenou subisse até Karina para tirar uma foto. “Daqui uns dez dias voltaremos para ver o que sobrou da praga do Zé” acrescentou assim que a planta carnívora enlaçou amorosamente ao José... Eu não falei coisa alguma; naquela hora imaginava como sair do Paraíso sem provocar no Inferno desconfianças desnecessárias... Continuamos vendo a vegetação, porém logo nos encaminhamos à parte dos leões. Estremeci.
            Entre um rugir e outro, Noé pintava as grandezas de seus amigos leões; descrevia o habitat ressaltava necessidades. Num dado instante falou sobre “Johannes” Hans para os íntimos, animal vistoso e grandalhão, naquela hora dormitando. Hans atacara com brilhantismo um amigo atrevido e ao pai de Noé, já meio acabadinho. Mostrou os túmulos dos dois. Insistiu na importância dessa lei da selva, no controle ecológico, assinalou entusiasmado o desvalor humano. “O homem é mero destruidor da natureza, do próprio homem mesmo”. Se eu entendia o porquê de ele, Noé, ser favorável à eliminação do ser humano, a preservar a natureza ofendida. Respondi entender. Fui honesto para não dizer que discordava. Ou nunca mais discordaria, pensei... Assim mesmo – oh “cala-te boca”! deveria ter-me calado – assim indaguei afoito se não achava melhor, por segurança, grades e jaulas para seus queridos animais. Quase teve uma síncope.
            Olhou-me feroz; conteve-se, maliciosamente ou por educação e respondeu: “Não acha que deveriam os homens, eles mesmos, estarem nas jaulas? donde a ferocidade animal se não nos abusos da humanidade!” Concordei. Medrosamente concordei. Disfarçando interesse. Que me mostrasse a área das borboletas, eu sempre me achegara às borboletas. O que era verdadeiro e menos perigoso. Sorriu feliz. Fomos.
        Chegamos ao borboletal. Acredito inclusive nem haja essa palavra; vou consultar novamente o Aurelião. Pusemos certa máscara engraçada, com muita ventilação. Estranhei. Vieram as borboletas, uma invasão delas, não éramos mais nós os invasores. De todas as cores de todos os tamanhos de todas as qualidades. Logo me cansei, pedi para ver bichos menos violentos; quase não podia enxergar se não borboletas! Fomos andando ao lado oposto, consultar aranhas. Noé se entusiasmou, descreveu cada ser que se apresentava, dava nomes e características. Até pararmos na que chamou “Dama”. Dama era uma viúva-negra de estimação: um dia uma tataravó dela beijara certo funcionário do governo que viera com fins burocráticos visitá-lo. Enviou aos meios oficiais o cadáver e o atestado de óbito assinado por um legista amigo, o qual loguinho, disse, iria conhecer. Fiquei mui temeroso a conhecê-lo. Suponho que andasse naqueles tempos um pouco medroso. No outro dia deveríamos visitar alguns especiais amigos de Noé e também veríamos o legista prometido. Todavia fiz cachorrada com meu anfitrião: subornei um dos três criados que ainda não tinham virado alimento de bicho selvagem, fugi com ele do Paraíso na boca da noite. Amanheci no Inferno. Graças a Deus.       
 Ribeirão Preto   janeiro  1987





- Estória de Amor


            Ocorreu um encontro. Tudo bem. Não. É exagero dizer tudo bem. O Pedro era senhor benquisto, um conceito a zelar, uns trinta e oito anos construídos a manter. Estava ruim por causa da Joana, não por causa da Catarina.
            Dona Catarina era esposa correta, mãe da molecada terror da vizinhança, caprichosa, fazia tudo que agradasse ao Pedro. E desconte-se, ele também corretíssimo e fazendo tudo que agradasse a senhora; ultimamente não andava no fazer tudo. Nem se afirma que não houvesse dentada e bate-boca; existe algum casal que se ame e não brigue? Desentendimentos caseiros, expressões na inexpressão conjugal. Teve. Arroz e feijão aluguel prestação. A vida é rotinão.
            Bem que o fulano poderia tolerar a rotina, viver em paz com a família, dar bons exemplos aos capetinhas terror no bairro. E o Pedro não se podia queixar: tolerava a rotina e tinha rotina à vontade, rotina nas doses certas; vivia em paz com a família e recebia paz, pegava-se frequentemente nas calças curtas a dar bons exemplos, tendo a compensação por ser ouvido (mas não obedecido, os filhos eram mais pra Belzebu do que para Pedro, não o das chaves, porém esse é outro problema). Rotina do viver. Despertador serviço almoço trabalho tevê descanso ‘entrecoberto’ por sonhos e medo de ladrão, preparo ao despertador e serviço do outro dia. Seis a um, o emprego ganhava de seis sobre o descanso dominical, gorjeta ao sábado, quando saía após o meio-dia e o coletivo o entregava à porta de Catarina às treze horas. Férias em dinheiro para ajudar nas despesas e no plano governamental de combater a inflação. A vida. Dona Catarina seu Pedro as crianças. A vida.
            Daí surgiu a Margarete. Não era Joana? Era. Joana Margarete das Flores. Bonita? Que é beleza? Pura, simpática, jovem. Um ano menos que dona Catarina. Viçosa, morena como dona Catarina, o Pedro gostava das morenas, questão de preferência. Viva, inteligente, ele embora um pouco machista, reconhecia essa verdade mostrada na vivacidade e sabedoria da jovem. Chegou assim sem ser chamada no guichê no qual trabalhava Pedro. E mudou sua vida.
            Ela voltou outras vezes ao guichê, já então sem necessidade a chamá-lo “Seu Pedro” e passando por cima da viciada burocracia. Ele não se importou pela falta de causa aparente, já qualquer coisa o atraía. Também houve encontros casuais na rua, no ponto de ônibus. Sua consciência dava-lhe ‘catarinadas’ incessantes; apesar disso andava gostando ser gostado. Não havia dúvida, a moça se interessava por ele; no espelho se penteando experimentava descobrir o que poderia interessar à jovem Margarete – e não descobria nada, só via um bagulho esfolado pelo tempo. Tanto é que se fosse mulher, pensava, não se escolheria para marido! Ou era que não possuía inteligência para observar seus encantos e predicados? Então, um motivo a mais para que ela não gostasse dele. Mas gostava. Coisas lá de mulher.
            Disse gostar. Encostou o bagulho do Pedro na parede, a pretexto de tomar um refrigerante. Disse amá-lo, e falou na mais sem-cerimônia possível, até chocando o homem. Ele respondeu primeiro a si mesmo não ter acreditado, nessa idade não se crê facilmente nas coisas. Ela disse amá-lo. Bem, não houve cena de beijos como nos filmes. Se houvesse seria uma cena ridícula à coleção da vida chocha. Ela falou pausadamente, deu seu recado sem se avermelhar e por fim convenceu o fulano. O qual  desejava mesmo ser convencido, no fundo ansiando que o convencesse, por querê-la. Pronto. Ela insistiu, deixando-o com a boca aberta e desarmado. Disse ter com ele afinidades anteriormente ao seu nascimento; que foram noutras gerações amantes. Ele, antes de acreditar, temeu primeiro, já que seus conhecimentos do extraterreno não iam além do temor à assombração e terror a velório. Agora se encontrava sentado diante de quem fora seu outro pedaço noutras existências. Não quis acreditar, temeu desacreditar; aqueles olhos lindos e penetrantes da moça fixos nele, prendendo suas ações, impondo sua vontade. Ela confirmou que noutras épocas ele igualmente era frágil e vivera sempre errado, se metendo com outros seres, ela já o guiara em situações semelhantes...
            Nesse dia mais que nos outros dias voltou desconcertado para o lar, tremendo diante de qualquer coisa, a consciência a acusar-lhe a perfídia, temendo dona Catarina, naquela noite muito nervosa. A esposa despejou-lhe as intrigas das crianças, as queixas dos vizinhos, lembrou cobranças e mais cobranças. Dormiu mal. Ou por outra, Pedro deitou-se com dona Catarina e dormiu e sonhou com Margarete. Acordou mal, ou prolongou a insônia, emendou com o dia seguinte, xingou ao despertador, foi xingado por dona Catarina, partiu ao trabalho. Margarete encontrou-se consigo, por acaso.
            Não aguentou a pressão emocional. Defendeu-se dela, pôs dona Catarina no meio, Margarete se assustou. E se foi chateada, consciência amargando e pesada.
          Um dia, outro dia. Ele arrependido, achando insuportável sem poder esperá-la como de costume... Saudade. Noutro dia voltou para ele, “oi” no guichê de atendimento. Falou não poder ficar sem ele mais, não sorveu todo o café no bar, deixou esfriar aos mosquitos. Insistiu amá-lo, recontou as existências anteriores, ele já cria e desejava crer. Ela demonstrou pesar por induzi-lo a deixar sua casa e os filhos, que fazer se se pertenciam há muitas gerações!? Pedro abaixou a cabeça gostosamente vencido. Ela o acariciou, confortou seu pobre ser, insistiu ser indispensável essa união, reunião; ele, na opinião daquela mulher jovem, andava praticando adultério (com a esposa legítima) contra ela. Pedro aceitou a argumentação, foi para o lar e beijou as crianças, chorou no banheiro que dona Catarina havia limpado, tomou os seus documentos, partiu com a Margarete. Não falou a ninguém para onde ia.
          Mas foi assim mesmo.
Ribeirão Preto   maio  1980





7° - Eva, Amor de Outono. E Adão
         
        Dizem que o amor tem linguagem universal, não respeita tempo idade tamanho gênero não respeita nada. O que é um desrespeito. Ela não pensava assim. Ou pensava e só não dizia. Mas ninguém supera a ação avassaladora da natureza, o que é da natureza da própria ação. Ou pensava. Eva. Ele não. Decerto não: apenas olhava o infinito; mais ou menos quando queremos descobrir a olho nu os planetas (dizem os astrônomos que não piscam) e as estrelas (falam cientistas, piscam) e não distinguimos porque a vista frágil ajudada pelo engenho e a arte da ignorância e à velocidade ano-luz não permitem ver olhar e separar qual ele qual ela. Ela não olhava as estrelas. Eva. Olhava ele. Eva, tadinha, cansada dos desamores estava assim assim de querência nos seus quarenta; quarenta dizia; cinquenta repetia teimoso o espelho. Bem. Mal dos solitários? Ou intriga da oposição! Assim chegou-se a ele. Adão. Falou aos seus ouvidos... Não não chegava a tais intimidades, primeira vez que via o homem; não obstante falou, disse-lhe qualquer. Dizem, aí – concreto – é intriga da oposição, que mulher só não casa com sapo porque não sabe qual o macho, intriga, como intriga, dizem que mulher fala muito. A estatística da Linguística, está na moda a moda da Neurolinguística não está? a estatística aponta que ela fala sete mil palavras por dia! ele? cinco mil vocábulos (uma questãozinha da disposição nos cérebros feminino e masculino). Adão? nem os seus cinco mil garantidos pela ciência e mostrados pela estatística, mortalmente mentirosa. Não, nem isso; abaixo disso, bem abaixo aos gostos das evas por aí, por Eva em particular. Ela não desistiu: fez trejeitos, mostrou vestido novo, perfumou o ambiente com uma fragrância gaulesa, mostrou-se como pôde. E por fim, que era tão só começo, desandou a falar. Melhor se houvesse gasto as sete mil numa hora de convivência? Bem menos, bem menos; mas o suficiente a enriquecer aquele Hércules, montanha de músculos, de sabedoria, achava saber e saber sete mil por dia; ele não, o Hércules. Quer dizer, não disse a ela. Ela olhou-o encantada. Não era bem o seu Hércules, Adão sendo mediano, másculo músculos meãos sem serem fracos, expressão simpática sem ser bela (ela, Eva, é quem o achou lindo de morrer para viver o resto do outono da vida e, quem sabe, suportar o inverno de bengalas dores ‘enrugares’). Vestia-se bem, terno do gosto atual, gravata vistosa, se bem que Eva não tenha apreciado a gravata, aqui é questão de somenos importância embora ela detalhista como outras evas. Contudo se vestia bem Adão. Olhava ao longe, ela tão perto... Viu seus olhos negros, queria azuis como o do galã naquela das oito; belos entretanto, expressivos. Olhou, ‘reolhou’, ficou em volta do homem como quem não estava, estava sim como a mosca e a mariposa ao redor da lâmpada, tossia a enganar Adão que via ou tossia para que Adão a visse. Porém olhava ele o longe. Talvez nessas fugas que o sonho acordado atira às criaturas a gente estando perto, longe e longe até da gente mesma. Talvez. Ela, Eva, continuava a gastar seu repertório das sete mil, falando a ele, Adão, tudo que supunha atrativos de amor, que fosse temporão nos seus quarenta que o palhaço espelho teimando ser cinquenta, o patife espelho da cômoda, prometeu inclusive virá-lo de costas quando voltasse – caso não realizasse uma conquista. Sim, o ideal é que o macho conquiste a fêmea, é da natureza; no caso o caso invertia mas hoje não tem mais disso, continuou matracando àquele Sansão, coisas belas da bela Dalila, Eva. Adão: nem os cinco mil de direito; menos que cinco quatro dois um, menos de mil palavras! Ela teimou, sem se dispor a imitar espelhos, Eva continuava ganhar a partida na qual Adão seguramente perdia não só nos sete-a-cinco, e bem menos de cinco, ela ganhava falando mostrando-lhe a sensaboria da solidão (quem lhe soprara que ele um solitário! decerto o sexto sentido feminino) falando da beleza da vida a dois quem sabe a alegria da família; ah a vida a três! Ele, Adão, olhava olhava olhava sempre longe... Eva cansando, pô: quase as sete mil já do estoque nessa hora e meia a levar para seu harém de quarto de moça, ainda moça (como é que não existe!) a levar Adão tão machão belão pra casa! porém já a cansar. Resolveu investir direto. Adão, menos que mil palavras, seria mudo? pensou a jovem quarentona, vistosa, xô espelho (“viro o teimoso de costas”) menos que mil talvez mudo! não tinha importância, emprestaria metade de suas sete mil a ele; ou falariam por mímica. E na cama... a linguagem universal. Avançou em Adão. Eva enlaçou-o, olhou primeiro para ver que ninguém via, via só Adão, abraçou o garanhão, beijou-lhe até a gravata (daria de presente no Dia dos Namorados outra) e atingiu-lhe o pescoço, afagou atrás sensual e apertou um botão sem querer ou sem pensar. Adão pôs-se a mexer sua cabeçorra meneando sim não sim não sim não, sem parar; mas sequer deu passo: as pernas também eram de madeira. Eva então proferiu sua última expressão do estoque das sete mil: “Que horror!” Eva.
Marília   abril  2002




  - Endereços Incertos  

         
        Interrogácio da Silva parou pasmado pasmacentado; ventava, milhões de invisíveis detritos fustigavam seu ser: eram reticências, exclamações indevidas, pontos que nunca são pontos finais, pontos e vírgulas, parênteses e seus aparentados como os colchetes alfinetes percevejos, mas não havia de fato percevejos contumazes sugadores fora de moda – uma imperceptível e fustigante multidão. Que fazer, se interrogou Interrogácio, se a gente não sabe: interrogar, logicou. A um passante; ora todos o somos; entretanto é um bom expediente pra quem parado, ora, parado não pode porque o mundo corre a milhões de quilômetros por hora rumo ao desconhecido, aproveitando economizar combustível usando tão só a gravidade e a atração universais.
        Cidadão... disse o cidadão perdidinho da silva.
          Pois não (e aí já estava negando? coisas da língua).
          Desejaria saber meu saber a saber um endereço.
          O amigo... (todo mundo vira amigo, pô!)
          Estou perdido neste mundão – esclareceu da Silva.
          Qual rua deseja.
          Esta. (Mostrou garranchos garatujados num papel com discutível limpeza, haja visto gasto e manuseio).
          Rua... rua... ah bem; me parece Rua dos Presentes.
          ?
            O irmão (pensou infortúnios mais) o irmão deseja então um presente. Aniversário, casamento, batizado (este totalmente fora de moda como os nobres percevejos que sugavam pobres naquelas camas patentes antigas) presente a amigo, a inimigo, a subornar chefia, para uma namorada desprevenida ou...
          O senhor está equivocado com Presente, redarguiu então o Silva.
          Ah sim, o senhor tem razão. Foi tão só uma referência. A Rua dos Presentes está próxima da Rua dos Ausentes... acertei agora?
          Ausentes! talvez, pois hoje em dia parece todos quase andam ausentes.
            Rua dos Ausentes. Agora, não sei bem, a gente não observa suficiente quando vê de relance: rua alameda travessa avenida, dos Ausentes com certeza.
          É perto? dá para ir a pé?
            Dá – falou o informante. Dá, vira à esquerda, depois à direita, segue cem passos pelo centro, verá a Praça dos Conservadores.
          Parece fácil, bedelhou Interrogácio da Silva. O outro fez com a cabeça que sim:
            Chegando à dos Conservadores siga em frente até à Rua dos que Passam.
            Rua dos que Passam. Vou anotar para não haver engano. Daí garatujou garranchos.
            Agora estamos nos que Passam, mentalizou?
          Sim.
          Aí vira à esquerda; outra vez à esquerda até ao morro, é Morro das Tristezas, se duvidar pergunte a um moleque, menino é o elemento da sociedade entre os mais bem informados. Entendeu?
            Sim – respondeu.
          Prossiga. Daí é fácil: pode até medir os passos – conte cento e doze passos e pronto: estará frente ao endereço que me pede!
          Ótimo, falou da Silva. Terá o amigo algum outro dado para não errar.
          Tenho: verá a placa, dessas comuns que a prefeitura põe e a ferrugem come e a população apedreja ou muda de direção o sentido da mesma para verificar se o forasteiro anda atento.
          Que placa!
            Rua dos Desencantados.
          E se eu – pediu Interrogácio – e se não achar a placa da rua e a rua da placa...
            Não tem erro, meu amigo (de repente a gente fica assinzinho e vira íntimo, amigo por exemplo) você não se perderá nem perderá o endereço procurado.
          Como?!
          Não se perderá – todas ruas vão dar exatamente na Alameda da Saudade.
          Todas!
        Sim senhor, todas. Que por sua vez levará meu querido irmão, Interrogácio da Silva? não é isso...
          Exato.
          ...essa Saudade leva-lo-á à Rua do Esquecimento. Tendo eu dúvida se rua ou recanto. Fácil.
          Fácil. Muito obrigado. Sigo portanto à Rua dos Presentes, não é assim?
          É.
          Era.
 Marília   dezembro  2002




- A Viagem    

        Eram apenas alguns jovens. A juventude não tem idade, poderíamos falar. Falo entretanto de jovens, não mais que adolescentes. Brasileiros. Portanto gozadores, como se supõe. Havia no entanto um senão, que não é senão mas uma lógica: amavam a aventura e se perdiam em leituras de ficção-científica... E quem sabe se não andassem assistindo muita tevê nas sessões das viagens interplanetárias! Por brincadeira – para um jovem a vida é uma brincadeira – inventaram de inventar certa máquina de tempo, para o tempo de antes e para o espaço do além. Por dias e dias encheram seus dias com martelar e martelar muitos dedos num ai, meses; madeira couro pregos panos etc., o material que tinham para o material da grande nave – seria uma grande nave, disseram-se e se acreditaram. Todos colaboraram trazendo suas sucatazinhas encontradas nos quintais e quartos de despejo. A animação era imensa, o trabalho árduo e quase sério, a colaboração foi completa (fora alguns poucos desentendimentos, sobretudo nos planos). Os planos levaram os rapazes a viajar antecipadamente por muitos lugares. Porém havia um consenso para a Antiguidade e a Grécia famosa. Ensurdeceram suas famílias ocupadas no quefazer fazendo eles o que deviam num toc-toc do martelo no rec-rec do serrote: a nave surgia quase pronta. Noutro dia acabariam a obra; e se entregaram ao descanso cansaço.
            Era uma nave feita a machado, por meninos, montada com restos possíveis do consumo; e pior, funcionou!
            Quando acordaram, cada um no seu lugar na espaçonave do espaço e do tempo, nem se despediram dos seus julgando se esconder da gozação adulta e mais ainda crendo que não funcionasse o monstrengo; deu a pior, funcionou. E quando acordaram de vez ainda estavam enjoados pela mudança brusca do agora para o antes misturado com o aqui e o além. O pior do pior é que não falavam grego e se encontravam bem no centro da Grécia Antiga, em pleno século cinco antes de Cristo!
            Olhavam assustados aos circunstantes... o que não destoava de todo, pois os gregos olhavam assustados também para aqueles bóis vestidos de século vinte. Viram um sujeito ainda jovem, jovem quase como eles mesmos, levando calmamente um cavalo a puxar uma charrete, parecia charrete, dentro da qual estavam jarras altas com azeite de oliva, conduzindo o veículo ao mercado. Mercado, isso, estavam num mercado duma praça enorme espaçosa bonita, movimentada, ouviam o murmúrio, alguns seres se elevavam aos outros em beleza ou em barulho. Havia umas barracas ajuntadas como fossem agrupamentos de feirantes. Foram para o local atraídos. Viam homens (puxa, somente homens! comentaram baixo, não fossem os gregos entenderem e ralharem com os visitantes...) jovens e até meninos, sobretudo homens adultos fazendo compra ou vendendo: alho ervilha trigo queijo de cabra couve cevada figo pera, coisas assim. Deu até água na boca da moçada; daí todos os rapazes imaginaram ser hora do almoço. De repente se assustaram mais gostoso ainda, quando um jovem rico num carro esportivo (entenda-se uma charrete leve puxada por dois corcéis rápidos) atravessou toda a praça numa corrida maluca, levantando poeira e gritos na correria. Os meninos brasileiros comentaram alegres “esse é dos nossos”, só faltava mesmo ser um carrão último tipo e o motorista não estar enrolado nuns panos, bonitos é verdade, mas igualando a todos. Sim, todo mundo andava enrolado naquilo; e faltavam as mulheres, puxa, onde é que estariam! ah, oh eis que viram uma, depois outra, pegando água numa fonte em certo canto na praça: levavam ânforas de cerâmica na cabeça, andavam graciosamente remexendo o corpo dentro de uns vestidos antigos, que iam até os pés. As outras deviam estar presas aos gineceus, porque mulher não podia ficar papagaiando por aí como homem. Resolveram mudar de ponto, foram para outro lugar, considerando o ajuntamento de gregos para ver aquelas coisas do futuro, eles. Cruzaram com alguns garotinhos conduzindo arcos, rodando os mesmos com auxílio de uns pedaços de pau. Os viajantes do espaço se entreolharam a pensar “nós também já um dia brincamos disso, hein!” Foram para o lado da ágora, defronte a um enorme templo de belíssimas colunas, gregas naturalmente. Ali inúmeros homens adultos desocupados se ocupavam a ouvir um orador desde a imensa escadaria, e discutiam política, provavelmente sugeridos com a peroração. Diante do primeiro comentário feito pelos viajantes do espaço-tempo, toda a plateia se voltou para os estranhos. Estes não esperaram saber o que os cidadãos pensavam sobre estrangeiros, saíram de fininho. E se dirigiram para outro lugar; onde perceberam novo ajuntamento. Era um casório. Os pais dos noivos estavam com tochas acesas à porta da nova casa dos recém-casados; o casal e o padrinho chegavam acompanhados por um cortejo que vinha alegre e a pé. Notados, preferiram os brasileiros não ter que dar explicações e foram procurar outras encrencas... Nisso quase trombaram com um sujeito forte que levava uma criança à escola; tratava-se de um escravo conduzindo o filho do seu amo; no braço levava a música, quer dizer, uma lira. Eles quase entraram com o escravo, um pedagogo, para ver como seria a escola daquele tempo. Entretanto a maior parte do grupo era acostumada mais a fugir e não a procurá-la... outra vez se olharam para saber o que fazer, para onde ir; foi quando um deles mais enxerido cismou de tentar olhar como era por dentro uma residência dos gregos, para ver se podendo ter a sorte a flagrar alguma garota bonita. Foi então que se pegaram rodeados pelos habitantes da cidade com expressões nada amistosas; como por sinal nunca e em nenhum lugar do planeta, mesmo antanho, se permitiu tais liberdades a estrangeiros, julgaram ser aquela hora a hora de partir, e bem depressa, porque já se vociferava contra os invasores do outro mundo. Nesse dito momento é que se lembraram de algo para eles muito importante: que fazer para tornar ao Brasil do século XX?
            Foi lhes dando uma agonia; e essa agonia aumentava em razão do aumento da gente helênica por volta deles, e de suas bravatas. Foram enfim apanhados, pois nem poderiam pensar correr para lugar nenhum, nenhum é lugar difícil de se encontrar como é sabido. Felizmente, para um dos jovens, ele acordou. Acordou com o barulho infernal dos amigos, empenhados a construir a tal máquina do tempo. Para irem a algum lugar perdido, a Grécia Clássica, por exemplo. 
Ribeirão Preto   janeiro 1988

 

 

 



10°  - Exigências Esponsais   

         
        Um dia foi um dia esquisito a Rachid Mil e Um Nomes, sultão oriental cônscio de sua superioridade macha e do poder do poder do seu dinheiro, uma fortuna incalculável para as contas de ‘vai um’ e piormente nas ‘de cabeça’. Sabia-se muito homem, homem mui rico e portanto sábio. Não obstante vivia entediado com a vida, sobretudo com a vida no seu harém. Eram briguinhas vaidadezinhas; até os eunucos lhe davam trabalho e preocupação. Resolveu acabar com a farra, optou a se desfazer do serralho, pôs em leilão as fêmeas bonitas, no que granjeou aumento considerável na riqueza; e as feias ofereceu aos sultões inimigos; destas, as que se tornaram presentes devolvidos (uma afronta que só atinge os que desejem continuar o negócio porém não aos que se desfazem do negócio) elas, pôs à venda nas lojas de ‘um e noventa e nove’. Os eunucos tiveram passe livre. Assim apurou o fundo de negócio, acresceu fortuna à fortuna. Mas ficou só. Só aguentou uma semana. Outra semana a pensar. Outra para tomar a decisão de sua vida! Resolveu formar outro harém, um que fosse de gestão ao modo ocidental, cheio de democracias e liberdades mais. Mais, optou a recheá-lo com mulheres ocidentais; certo, não sabiam a dança do ventre entretanto sabiam as coisas das liberdades, conforme com o novo serralho.
        Assim arregimentou um exército feminino, as melhores beldades ocidentais. Contratou lugares-tenentes já afeitos às coisas ocidentais, como por exemplo a corrupção. Num dado dia, após a época do jejum e das orações a Alá, o harém começou a funcionar. O primeiro passo não foi estudar o sagrado Corão mas foi a leitura da Constituição, na qual ficava claro o poder minoritário do dever e o majoritário do direito.
            Aí pelas tantas, o Sultão Rachid já branqueando o que restava dos cabelos, o senhor oriental das senhoras ocidentais encontrava-se exausto. Sentou-se. No vaso, único lugar em que podia ficar a sós, e partiu a relembrar sua vida pregressa, procurando não pensar no seu velho serralho oriental e na fortuna que possuíra. Somente na fase ocidental. A Maria diz: me traz um perfume assim assado. A Josefa – quero  hoje manjar tal. A Pedrina, não se esqueça de trazer mistura para o almoço. A Antônia: pode devolver a porcaria, isso não quero! A Ida – seu velho insolente! A Balbina, desejo todos bens aos meus filhos. A Madalena, pode trocar de pajem, esse é muito maricas. A Alberta: pensa que sou sua faxineira? A Luísa – exijo o melhor serviço de quarto. E mais e mais outras – todas querendo exigindo teimando brigando, brigando mais ainda com ele; todas enciumadas enciumando; todas gastando e não gostando; ninguém mais pedia ultimamente: exigia. Uma, depois mais de trinta outras também, falando com seu advogado, impondo assinar divórcio e defendendo a partilha dos bens. Os filhos herdeiros, nenhuma queria de nenhum submetê-lo ao exame do DNA.
            O Sultão Rachid Milieumnomesmais contou no dedo, errou no ‘vai um’ pra ‘menos um’ e concluiu não ter mais nada, só o recinto sagrado do banheiro, onde detinha o trono a pensar e pensar como não mais pensar. Aí bateram na porta. Queriam avaliar os bens do mictório, em exigências legais. Ele antes de responder relanceou para o rolo, de mui pouca qualidade.
 Marília   dezembro  2002







11° - O Passamento      

        Morri. Inusitado, porém deixei sem muita pena o planeta. Pensava na possibilidade dessa impossibilidade: ocorreu; imaginava a minha falta, a falta que poderia fazer ao convívio dos seres. De repente aconteceu.
          Poderia vaidosamente pensar que a Terra parasse no preito ao meu falecimento, tão importante, conforme minha própria opinião. Enganei-me. Embora a expectativa – ah mundo ingrato! – ninguém estava incomodado, em não ser a funerária temendo não receber dos herdeiros as despesas e os credores bastantinho assim assim preocupados pela mesma razão. Ocasionava de fato lágrimas sentidas na meia dúzia de circunstantes, entre os mais chegados e os da família. Demais apenas comentários curiosos e risotas às escondidas e mesmo abertamente.
            Enquanto isso a indiferença campeava.
            De outro lado o defunto, eu, na mesa feito besta; mãos cruzadas rezando à força preces que nunca pronunciaram os lábios; as rosas perfumando o cadáver – mas quem diz que rosa não cheira a defunto! desde criança sabia disso; curiosos passando e mais passando a simplesmente comprovar para contar a outrem a matéria-prima esticada na mesona, eu.
        Café para acordar as visitas.
          Hora sagrada da cachaça.
          Mais anedotas.
            Negócios também. Velório serve de entreposto para compra ou venda. Taí eu colaborando como nunca o fiz para o comércio local!
          E de reatamento para velhas relações emperradas com o tempo. Um mérito indiscutível. Oportunidade para quem não tinha oportunidade mostrar caridade e sentimentos mais.
            Enfim, grande coisa é um velório. Eu me agradeço pela possibilidade às oportunidades. Contudo o velório interrompe uma caminhada; quando a gente pensa que amanhã é mais um dia. É menos. A teimosice exige somar, a vida prefere deduzir. O resultado dessa conta é a morte.
            Ela só teria um mérito: uma saraivada nos inimigos ocasionais. Que agora perdoam ou temem querer mal a quem já partiu. Mesmo nessa hipótese, não chega a ser um prêmio; que interessa um amigo ou inimigo a um morto?
            Prêmio seria sentir a ‘insubstituição’ no serviço. Todavia chega a ser ridículo o pensamento. Pois o diretor, muito mais gente que eu, morreu e nem sequer paralisaram o serviço por um dia completo! Talvez pensassem uns minutos em mim os companheiros de jornada; nada mais.
        Em casa a angústia. Filhos chorando a perda, que o mestre tempo demonstrará por a+b não ser tanta. A esposa se livrando quem sabe dum peso, livre agora ainda moça, por sorte. Morrer também apresenta seu mérito.
            À vizinhança nada mudou, em não ser a não-passagem duma figura pela rua diário, curiosa ou interessante. Nada fora acrescentado a ela; por isso os vizinhos não sentiram e muitos sequer perceberam meu passamento.
            No emprego no lar nos arredores – coisa alguma de pungente. Pulo errado. Errado permanecer defunto. Ah, preferível desmorrer.
 Ribeirão Preto   junho  1981


12°  - Um Sentimento de Culpa
         
        Seria? Às vezes penso e me sinto culpado. Mas a ser original, não sendo nada original, diria que: adianta lamentar o leite derramado! porque ela já se foi desta para uma vida melhor, a gente sempre imagina não esteja sofrendo o que sofrem os que vivem ainda.
        Me lembra sempre que chegava à casa, a casa limpa e silenciosa, aí deixando ser silenciosa com a alegria dela... não importando que hora eu chegasse, por vezes madrugadão. Teria ciúmes, condenaria minhas liberdades, ‘minhocaria’ lá seus senões a meu respeito? eu não punha a questão assim, só queria o descanso após meus desregramentos e minhas manifestações egoísticas apenas esperava seus carinhos (imerecidos!?) Recebia-me fraternalmente, dava mostra de contentamento imenso! nunca me indagou no teor que as fêmeas tratam os machos: “onde você estava?” “quem?” “isso são horas!” Não, nunquinha. Recebia-me com expressão de amor e compreensão; bastava a ela um que outro afago, meu balbucio inexpressivo de tolerância.
        Acho que exagerava. Eu exagerava negando abraços e beijos; ela merecia mais – um poema. Isso mesmo: a poesia que eu dedicava às mulheres do mundo, as quais me esqueciam na primeira esquina da existência, negava a ela que me amava até à loucura. Não numa paixão desvairada: com gestos comedidos compreendendo seu lugar de fêmea. Pobrezinha da Sheila. Mereceria um homem melhor que eu. Mais: se a lei permitisse deveria eu ter-lhe dado meu nome (ao menos o nome era honrado...) Poderia ter-lhe deixado a casa, o carro não, nunca se interessou pelo veículo não sendo que eu estivesse nele. Era eu o seu mundo! Ah quanta ingratidão, eu fui ingrato. Poderia dar-lhe um dote – propriedades ações...
            Ora, que adiantam elucubrações e considerações tardias. Já derramou!
            Além do mais estou sendo irracional, ela não se beneficiaria mesmo dos meus bens e até de meu nome honrado (o que a lei, já lembrada, não permitia nem permite). Sim o que adiantaria isso se ela faleceu antes que seu amor, eu!
        Tenho pensado bastante. Acho que o caso requer um reparo desde a base. Que seja um pagamento póstumo ao que soneguei à Sheila. Imaginei pôr uns dizeres no seu túmulo. Ficaria bem? acho que sim. Inscreveria por exemplo – “Aqui Jaz Sheila da Silva! Seu Esposo Mundanus da Silva Pranteia em Dor a sua Falta!” E coisas desse nível.
            Resta saber se meus parentes aceitariam minhas homenagens nesses termos a uma simples cadela vira-lata; que ademais mordia ou rosnava à presença de qualquer Silva que não fosse eu. Porque eles são conservadores. Melhor ficar na lembrança das festas com que minha Sheila me recebia, mesmo que estivesse cambaleando. Um ladrar de tanta alegria, a ponto de acordar a vizinhança. Melhor apenas o lembrar.
 Marília   setembro  2002





13° - Depoimento de Branquinha

        Não sei se você me conhece, pois não viajo muito por estas bandas... encontro-me um pouco velha perdendo de certa forma o merecimento. Mas já fui peluda limpa linda, de uma brancura boa, dessas de impressionar por onde passava. Ah saudade ah mundo ingrato!
        Antes fogosa eguinha impulsiva e corredeira. Mais tarde virei gente grande, digo autêntica dama, uma égua imponente e cheirosa. Muito depois, envelheci. Foi então ocorrer-me a sorte grande ou infortúnio: apareceu em minha vida o Firmino.
            Ora, não se pense mal de minha pessoa, o Firmino nunca chegou a ser meu noivo e muito menos esposo. Nunca me corrompi nunca cedi; por mim o planeta acabaria por falta de crias. Não me casei jamais. Firmino era somente meu amo.
        Não se tratava de um herói, dum machão de renome nos rodeios; sequer um fazendeiro ou qualquer coisa assim de forte personalidade. Ele era isso sim um bêbado. Bebum inveterado, sem dinheiro e vivendo de expedientes, nunca trataria nem da família, esta é que o sustentava. Portanto foram os familiares que me compraram do tropeiro; eu estava na última fase da vida equina, que é a mortadela... e me ofertaram ao consumidor da cachaça.
        Como dizia, encontrava-me na minha fase final. Ou seja, trabalhara demais, arando terras puxando carroças e servindo de montaria; estava cambaia e enfraquecida, pedindo ao Criador que me levasse, antes que o matadouro me transformasse em enlatados e defumados de má qualidade.  Na última fase de uma égua! Aí entrou o Seu Firmino.
        Os filhos, cansados ver o pai caído nas estradas por aí, deram-me ao velho calvo e vermelhão. Virei seu veículo.
            Antes veículo que mortadela... ah, andava eu em repetições a repetir a mortadela; é que sou velha, idosos repetem muito; o que é muito grave se somarmos tais repetições às repetições dos bebuns, como o Firmino. Juro, não falarei mais na mortadela. Passemos à minha história propriamente.
        Na minha vida, modéstia e moléstia às favas, em nenhum momento dei trabalho aos meninos, a me procurar pelo matagal ou nos pastos ‘encarrapatados’ por exemplo. É que não dispunha nessa época da existência sequer coragem para fugir ou me esconder, como um animal jovem e rebelde, ficava amuada beirando um cocho grande de pau, pertinho dum cercado, onde andavam presos burros e mulas fortes para o trabalho pesado. De maneira que não dava chateação de me procurarem ou me gritarem. Bastava ao meu amo chamar: “Branquinha, cô-cô-cô!” eu vinha mansa como velha ovelha. Os cachorros? tinha muito muito vira-lata sarnento, mas eles estavam a mim acostumados e nem me latiam mais. As moscas, essas enchiam um bocado, voando e me chupando. Também, que fazer, se meu dono não me lavava não me raspava, meu cheiro devia atrair bem os mosquitos e as mutucas. Uma vez também tive berne: ei coceirinha gostosa; depois doeu pra danar. Me botaram creolina, sarou. Assim era só me chamarem, já vinha pra perto do Firmino. (Eu sabia que o milho que ele me mostrava para atrair-me apenas tinha palha; eu fazia de conta pensar ser grãos mesmo...)
            Já sabia o que desejava o amo e para onde iríamos: cachaça, a venda. O Boteco do João Leiteiro era onde o homem contava e ouvia causos, onde se embriagava a mais não poder. A lista, o pendura que pronunciava em boa língua caipira “pindura” aumentava; a família pagando as contas por fim no fim do mês.
            Você poderia me perguntar por que não davam um couro no bebum. Entretanto o homem não era de briga, inofensivo e amigo de todos, mesmo do vendeiro. A família cuidava dele por amor decerto, quitando a dívida sem reclamar. Quer dizer, devia sim reclamar bastante na casa, porém eu não entrava lá dentro pra saber.
            Após horas amarrada num tronco de botequim, vinha o Firmino trançando as pernas, a me montar. Era um trabalhão para o homenzinho subir; grudava-se na sela, se esparramava no arreio, às vezes caía do outro lado. Fequentemente alguém lá na venda ajudava o velhote a trepar na minha cacunda. Eu já tendo prática, sabia direitinho quando era para iniciar a marcha e para onde deveria levá-lo. Aliás a casa não ficava tão longe, menos de légua. Eu tocava meu troc-troc-troc, num andar lerdo, só mesmo tolerado pelos bêbados, que como todos sabem, não são lá muito exigentes. Tomava durante o trajeto o cuidado com as pedras e buracos, pois conhecia cada palmo da estrada e sabia como ia meu cavaleiro lá em cima: invariavelmente dormindo montado; sua cabeça pendendo pendendo até que num susto fazia “ai” e se endireitava no selim. Os pés iam firmes embaixo, as pernas esticadas; não tinha nem precisava esporas a me chuchar e ferir; eu mansa, como falei. Ia levando.
            Um dia aconteceu do Firmino cair, por mais bêbado que de costume ou por sono somente, porque ele tinha um sono pesado e roncava como serrote cortando. Foi: trebofe, no chão. Isso não ocorreu uma só vez não, muitas. Que fazia nesses momentos? Não fazia. Ficava quieta; às vezes aproveitando e cochilava também. Noutro dia, o sol alto, meu dono curado, esfregava os olhos, batia as mãos para limpar a terra da roupa, montava outra vez; e íamos troc-troc. Assim chegávamos.
            A mulher dele estava esperando de cara feia, as crianças pequenas assustadas, eu a desejar saber o que aconteceria ao amo; mera curiosidade. Nunca soube, me soltavam no pasto, levavam o homem para dentro de casa.
Ribeirão Preto   novembro  1983





14° - O Morador do 3° Andar

            Hoje é uma segunda-feira fria chuvosa e escura, tão escura quanto a vida do homem desconhecido, conhecido por todos os habitantes deste nosso prédio como o ‘morador do 3°’. Debalde fui às compras rápidas a julgar fugir à tempestade que ameaçava; volto um pouco molhado. Felizmente ninguém a me notar pelos corredores do edifício nem pela escadaria – até o elevador se encontrava quieto sem ranger suas ferragens e ferrugens, inclusive o novo zelador ressonando sentado na saída à minha entrada a voltar da rua. Muito menos elas, nem ela e também ele, morador recentemente vindo para cá; não tão recente, faz mais de ano já.
            Agora olho a chuva desde a janela, a respingar e molhar o vidro que arremendei com fita crepe nos trincados – mesmo porque em vão se clama os descuidos nesta morada, velha a despencar, ninguém conserta nada, usando mal nossa contribuição de condôminos. Remendei como pude e isso limita a visão da paisagem, imutável por uma década em que vivo, sobrevivo, neste lugar; vejo os respingos duma chuva que praticamente veio com alvoroço e sem alvoroço sumiu, entretanto deixando-nos gotículas ao vento fraco. Assim mesmo vejo um pouco, ouço muito mais a poluição sonora, na loucura que é esta megalópole.
            Aqui, apesar, é o silêncio. Ou se dorme ou não se levanta ou se não existe. Silêncio.
          O silêncio nos faz pensar, pôr em guarda a memória, ela, frágil e igualmente desmemoriada. É claro, neste ponto ser uma figura.
            Não obstante lembra-se ela de muita coisa, inclusive daquilo que não se deva lembrar. Será no intuito de machucar, ferir-me?
          Bem. Todos os dias, no respeito à rotina, desço para fazer minhas coisas, passo olho encontro pessoas, retorno revejo passando nos corredores as mesmas criaturas, a praticar as mesmas coisas a dizer os mesmos dizeres a silenciarem, como que concatenadas, nos mesmos sons – as quais, após minha passagem, comentam seus assuntos, quase nem a esperar que eu penetre meu tugúrio e feche convenientemente minha porta. Ainda tenho a ouvir – quase nunca ver, notando uma que outra vez apenas nesta década – a ouvir sim outros sons.
            Ouço no 2° andar a mulher do piano, a qual por mais de três anos eu pensava ser moça casadoira e vim a saber por flagrar uma senhora passada, secarrona, tristonha, muda quem sabe. Escuto seu dedilhar anos no teclado, invariavelmente o gênio Beethoven, mais precisamente opus 47, quase sempre à minha passagem o andante da “Sonata a Kreutzer”; ouvindo ou na ida ou na volta também outra preferência dela, e por que não dizer igualmente minha, exercitando seu Chopin, as valsas de Chopin, sobretudo a “Grande Valsa Brilhante”, opus 18, esta a durar não mais que cinco minutos (o suficiente tempo para não ser surpreendido a escutar essa artista amadora; assim mesmo eu fico ouvindo e observando para não ser surpreendido por línguas ferinas como as delas...) Enfim, de tanto passar nas imediações já decorei inclusive as notas, crendo eu a mulher sabê-las de cor, tal o exercitar por uns nove anos a fio. Passo, ouço, até com os olhos fechados dos ouvidos poderia, e poderei na próxima década, poderia garantir seja a execução dessas peças musicais; sem que a vizinha tenha melhorado sua técnica. É a rotina. Isto sem exagerar, pois a rotina é a face mansa do ser humano, a sabermos onde estamos a pisar.
            Ouço, ainda na rotina, o estardalhaço dele, o vizinho novo do 2° andar.  Sempre assim: ralha o mundo e raspa a garganta com voz rouca; a água do chuveiro dele, rente ao corredor de passagem, a escorrer barulhenta e a esbanjar; depois canta uma ária (imagina-se barítono, somos a plateia de sua ópera); após silencia e ainda mais escarra porca e espalhafatosamente. Então fujo num asco; quer dizer, aperto meus passos capengas.
            Ouço certo zum-zum meio surdo no apartamento quase à escada indo ao 1° andar, são vozeirões machos são choros feminis – sem que eu saiba quem e quê. Não sendo realmente da conta de nós moradores.
          Ouço, a marcar melhor a rotina, ouço as vozes delas... (Ainda voltarei a isto).
            De tudo o que tenho visto nestes dez anos que passaram e creio verei ainda o mesmo, pois a rotina repete e repetirá a rotina, de tudo ficam algumas indagações.
            Os habitantes do prédio desconhecem certamente sua própria vida, ao menos a vida completa; contudo conhecem demais a dele: o Morador do 3° Andar, que no final das contas todos sem exceção desconhecemos.
            Elas, volto a elas. Elas são duas senhoras maduras, no início da década mais joviais hoje um pouco circunspectas; assim mesmo não têm a língua presa...  Elas dizem, afirmo do que ouço apenas passando perto ao ir às minhas coisas e voltar da rua (ainda as encontrando na mesma conversa infindável!) dizem que o homem vive solitário, afirmam-lhe as virtudes de Matusalém, indicam seus afazeres diários; uma delas a garantir vê-lo sempre na missa domingueira das nove horas; esclarecem que sofre mil mazelas, ressaltando o arrastar a perna esquerda, a andar com dificuldade; e falam elas mais, não muito mais sobre o Morador do 3° Andar. Ora, que podem saber se não daquilo que veem no encontro dos desencontros no momento da passagem do pobre a descer do 3° passar no 2° em direção ao 1° andar?! Nada, quase nada. Todavia têm razão fixar-lhe o viver sozinho no pavimento de cima, visto os outros apartamentos entra ano sai ano viverem desocupados; no prédio temem inclusive sejam assombrados; a única assombração corajosa seria o Morador do 3° Andar. Outro ponto no qual suas mentiras, ou abusos, em que elas seriam verdades está na saúde do senhor, péssima; a prova: o arrastar a perna esquerda, num som abafado com o toque do bico do sapato, esquerdo, claro. Outra coisa que poderiam provar é a questão religiosa, pois eu também vou assistir à missa das nove e vejo uma delas sempre lá; mesmo neste caso não vou para ver os moradores de nosso prédio, mas para ouvir o pároco. Entretanto é sim verdadeiro que elas possam garantir-lhe a religiosidade.
            Quanto aos residentes dos andares de cima, não posso pensar, pensar posso, não posso é garantir como eles veem o Morador do 3° Andar. Ninguém desce pelas escadas onde poderiam encontrar-se comigo, só uso escadaria; preferem o elevador e arruaçar dentro do elevador, nunca parando no 3° pavimento. De maneira que tão só devo tentar saber o que pensamos todos a viver embaixo. Mais no 2°, porque a gente do 1° não para em casa, saindo madrugada voltando noite quase nova madrugada, assim a deixar suas residências como que abandonadas.
            E poderíamos nós do prédio na sua totalidade conhecer mais, ou o pouco, melhor que sabemos acerca do Morador do 3° Andar. Contudo o que sabemos? Oficialmente seu nome. Mesmo neste item, um caso pra pensar; e nesta altura entra o zelador do edifício.
            O novo. O velho nos acompanhou durante cerca de oito anos; o antigo, o atual sabe pouco escrever atender e trabalhar, muito ‘dorminhocar’; não adianta pedir confirmações sequer do nome do Morador do 3° Andar, não sabendo igualmente o nome de qualquer outro residente, por novo no serviço. O outro era esperto, ao menos acostumado conosco e foi quem disse aos condôminos chamar-se José, seu xará a distinguir aqui ele, José, e o Morador do 3° como Senhor José. Ficou nisto o saber, como soube eu que ele sabia, indo às minhas coisas na rua do sofrimento engolir poluição e desaforos, estes poluições morais.
            Então passei por elas mais uma vez. Elas falavam decerto sobre as coisas do 3° andar, suspendendo as garras da língua na minha proximidade e voltando aos ataques ferinos destravando a boca após minha passagem, ainda a ouvir suas risotas costumeiras. Elas diziam o 3° andar em péssimo estado, não quitando anos o aluguel e coisas deste jaez. A gente sem direito a defender o morador único do pavimento, elas não dando palavra a outrem. Falatório maldoso. E passara pelo piano pronto na pauta passada no próprio opus 47 e a insistir na Valsa Brilhante, as ofertas que recebera eu por uma década, aguardando ao menos outros dez anos nos belos acordes. Como quase sempre faço, cheguei parar, a estacar, se não por cansaço nas pernas mais a esquerda fraca, no ouvir a música, esta sem maldade nem falatório, antes com proposta de grande sentimentalismo. Prossegui a arrastar meu calvário minha solidão meu rotinar, na direção da escadaria ao 1° andar; ouvi o escarrar ouvi a tempestade a esbanjar a água que falta no planeta, ouvi o cantar do barítono e depois o espalhafatoso trovejo do homem; este estado diverso doutras vezes apenas no desafino ou no rouquejar pelos resfriados, quero crer; a ária em nada coincidia com o enlevo provocado pelo teclado anterior; então apertei o passo a descer, com os cuidados que a saúde me exige – rumo à via pública, a passar pela portaria, para ver com certeza o novato ressonar.
            Ia, numa pretensão justa, reclamar com o funcionário o apagão da noite anterior. Mesmo nessa escuridão flagrei atrás das velas as mulheres a matracar as coisas; ouvi o piano em exercício sobre Beethoven, acredito à luz trêmula de velas também; não escutei o banho espalhafatoso, pois ninguém esbanjaria água gelada no frio e no escurão, porém ouvindo o escarrar medonho; e aí apressei-me em vista da impressão desagradável, apressei-me a encontrar às apalpadelas o corrimão da escada ao 1° e à saída, após, para a rua.
          Flagrei o sonolento em toco de vela apagado. Acordei-o, abordei-o sobre as questões. Desejava, aproveitando-me da oportunidade, saber o que sabia do inquilino desconhecido. José? indaguei como quem nada querendo porém a ‘pescar’ uma resposta sobre a sabedoria que todo ignorante possui a sobejo. Inseri o que se poderia conhecer sobre o desconhecido do 3° andar. Ele coçou olhos, espantou nebulosidades, e já era quase dia embora escuro... ele: “José?” Contou tudo no como falecera o colega anterior. Insisti que falasse o que todos dizendo, a saber do homem lá de cima. Coçou-se novamente: “sei que é Seu José”. Ora, isso eu já sabia, sabia há mais de década, desde que vim à luz.
Marília   outubro  2004





 15°  - Aconselhamento de um Morto  
       
        O camarada fez uf em suspiro cansaço raiva indignação, mal-estar com certeza. Não parava. Desde cedinho o medonho ‘minhocando’ trinados, pensou no último recurso contratar uma telefonista; ui por que tem que ser telefonista; ainda por cima bela cheirosa apetitosa, aí ouviu na ressonância interna aquela vozinha enjoada: em razão de que contrataria a melosa da loja de departamentos “na seção de cosméticos você encontrará batons cremes” ah chega, gritou. Ponho um homem, desses machões a atender esta porcaria. E se ele for bicha! Agora chega de uma vez: não quero bela bicho nem bicha, puxo o plugue do telefone e acabou-se o que era doce e a estória! Não, telefonista não, não dá. Fujo. Pensou jardim pensou rua pensou Buracão; morara desde tamanhinho assim por Buracões – o povo dava esse nome aos itambés que ameaçavam sua terra quando na Terra. O caipira dizia “Taimbé” os urbanoides Buracão. Fugiu do telefone direitinho pro Buracão. Aí lembrou-se do riozinho lá embaixo, pescou prateou escamou limpou barrigadas furou o dedo no anzol e acordou. Bem, não constava estar dormindo. Gente tem disso de acordar sem ter dormido. Não obstante pesava sim uma sonolência, a sonolência da morte, ah que medo. Medo ‘maismente’ do trinado. Atendo não atendo!
            Alô, é o João de novo? Não era.
          Você pergunta se fui eu o sujeito do Escort que viu na tevê, não, seu ‘burraldo’, não tenho Escorte, tenho Fusca. A propósito... Conversaram bem hora. Desligou. Tocou. Tocou imediato. Agora, naquele agora não quis atender, cansou sorriu por cansar o tilintar, o aparelho cansou, decerto puseram mensagem na caixa postal. Quando parou começou.
            Começou ele a tentar telefonar.
            Funerária? Desembuchou certa estória longa, exigência muita exigência era exigente.
          Não quero flor. Ou por outra, quero; bastantinha, dos pés à cabeça. Adálias não gosto, rosas Deus me livre, não tolero. Rosa me cheira a defunto; acho que deve ser fixação da infância (Freud explica?) quando menino vi o Lauro morto com olhões arregalados como encontrado no fundo do rio. Foram semanas meses sonhando com o cadáver, não olhava nem o penico debaixo da cama, mamãe tinha de ninar-me. Dessas não, falou à bela jovem (por que motivo ser bela, era por acaso a telefonista!) a boa ficou com pena dele. Então, nada de flores? Não (pensou assim: “não sua burra!” burra mas bela) não, sim, quero, não não quero dálias e rosas, entendeu? Entendeu, anotou. Nome? Já falei, falou: Moacir. Sobrenome? Você é surda! de Tal. Tal com um ele só. Que mais?
            (Que mulherzinha burra, meu Deus! tem que ter mais no menos que é falecimento; complicação).
          Que mais? ora, desejo orientar o velório.
            Elinha deu o número do Disk-Velório, coisas da especialização. Ia discar. Discaram antes enquanto, trêmulo, anotava o número num papel na parede por base e aí a tinta não tintava pela superfície dura no papel inclinado assim pra cima, o papel caiu no solo, a gente nunca acha a caneta na hora da caneta e que importava a cor; tendo caneta, apenas não escrevia, falhava. Aí já gritando ele nervosinho, o telefone gritando. Atendeu.
        Alô. Sou eu. Sim. Claro que morri. Não leu no jornal não viu no jornal da televisão! você não disse que lhe contaram... Onde a dúvida. Sim. Mas o que quer saber, onde será o velório? Estou tratando disso agora, a droga da caneta me mata de raiva, não escreve estou quase me esquecendo o número do Disk-Velório. Liga depois e confirmarei. Onde pus o diabo da caneta, falhando bem, quem sabe se não faleceu igualmente minha esferográfica! (Riram doutro lado do fio). Então. Encontrei um lápis. Anotava o número do Departamento de Velórios, nem eu que sou o interessado sei o local, se depender de mim escolherei a sala doze, nunca aceitaria a sala vinte e quatro. Nadinha sei em definitivo. Repito vou ligar agora, você retorna daqui uns vinte minutos. Desligaram ligou.
        Velório? Engano, numero errado? Procurou a bela-mas-burra mais ou menos burra mas decerto bela, confirmou o Disk-Velório.
          Alô. Aqui? é Moacir de Tal (deu Rg. Cic.) Cédula Eleitoral não precisa? O que desejo:
        Olhe, anote bem – não quero piada de português, só as do papagaio. Ah sim, de padre pode. Lista de convidados com livro arreganhado na entrada dessa saída. Vaidade, muita vaidade. Quadro com pinturas na parede não, desejo parede limpa. Padre! não: só piada de padre, fui anticlerical figadal. Anotou? O serviço? bem, cafezinho, nada de bolachinhas para engordar gordinhas. Que mais? acho que só... ah espere aí: coloquem dístico na entrada antes de entrarem. De quê? sim: ‘é proibido fumar neste recinto’. Uma ultiminha para o féretro, não aceito aqueles carros silenciosos de transportar cadáveres. Não. Não me podem prestar o favor último levando-me pelas alças! peso somente sessenta e dois quilos pô! O quê? não ouvi, repita...  Ah, a despesa vai aos meus parentes.
            Trinou outra vez. Não atendeu. De novo. Novamente. Muxoxou raiva. Tocaram outra vez. Mentalmente respondeu: sim, eu morri, o velório é sala nove, dezesseis horas o féretro. Velório Municipal. Sim doeu. Porém quando vi não via tinha morrido. Deixo sim. Herança grande. Grandes dívidas. Tem a papelada. Pode pôr fogo, antes esperar setenta e duas horas ao menos. Aos pobres. Não, sim, diga o que achar melhor à vizinhança. Comentarão com a cara mais lavada possível: “era um santo homem.” Insistiu o trinado. Atendeu.
          Alô. O quê... interurbano a cobrar! e ainda de celular por cima nesse por baixo!!!
          Puxa vida, querem mesmo me matar até morto.
 Marília   outubro  2002





16° - Diálogos Ligeiramente Estranhos

          Dona Maria, não Dona Josefa por ser esta filha de chocadeira, Dona Maria se dispôs a procurar alimentos e quem sabe aproveitar a brecha em pegar umas beiradas nas conversas do terreiro. Quanto à Dona Zefa já conhecia o que pensavam a seu respeito, evitava ajuntamentos e fugia das fofocas. Dona Maria não, era estimada nesses meios do muito falar. Achava-se formosa, preferida naquele harém... Pensou – podendo apenas não passar de ideia sem base – imaginou houvesse pego Cocoricó doutro quintal e mesmo o Quiquiriqui Garnizé das vizinhanças a olhá-la insistentemente, com muita fome ambos... Daí contou tudinho às amigas, fazendo furor.  Agora o problema básico sendo o alimento da manhã.
        Ciscou ciscou levou fumaça fina de poeira para trás, nos olhos dos outros com certeza, porém isso é apenas senão – até encontrar algo. Pensou que fosse mera raiz. A raiz se mexeu. Portanto tratava-se de minhoca braba ou cobra mansa. Todavia na hora de fome não dá para filosofar. Bicou. E fê-lo quase em xeque-mate, só não acertou; isso fica por conta da cegueira parcial mas igualmente ceguidade, ou por vesgura dos óculos. Pensou haver portanto acertado uma pedra desacertando a minhoca. “Ai!” Óbvio não foi a pedra. “Não vê onde bica!” Dona Maria ficou atrapalhada, perdida nos inusitados da existência. Respondeu que desejava mesmo bicar retalhá-la comê-la, enchendo o papo a alimentar sua oveira próxima, porque os pintainhos já andavam grandes, um deles tentando imitar o esposo de todas, Mestre Cucurucu, embora tivesse parecença mais com um dos galos vizinhos; e por isso breve deixá-los-ia pensando ela na fome de Cucurucu no terreiro e seu ovário começando a se encher, era encher o papo; com minhoca por exemplo. “Ora, argumentou a vítima, e se eu não for minhoca!” Dona Maria ficou encabulada abismada atarantada bestificada, já não o fosse; por que, pensou, teria errado duas vezes o alvo? primeiro errando e depois pensando ser saborosa minhoca e não era uma! Enquanto pensava, pasmada, o alimento escorregou penetrou um túnel, se intrincou num verdadeiro labirinto. Quando Dona Maria resolveu perguntar não sendo minhoca o que seria? ficou numa interrogação inocente a sair do bico. Deliberou procurar ajuda e esclarecimento no seu meio.
            Encontrou as comadres, amigas de infortúnio, a cacarejar abobrinhas borrachas e outras futilidades mais ou menos profundas. Apresentou-lhes seu drama, que consistia em ter encontrado comida e perdido a mesma pela filosofia eficaz da possível minhoca. O conselho de amigas cacarejou a seu modo, cruzando Maria de perguntas e dando tantas ideias atrapalhadas que a preferida de Cucurucu ficou ainda mais desencontrada. Foi então surgir um voto certeiro e sensato, embora vindo de fora, da chocadeira, ou seja de uma filha dela segundo as más línguas, a Dona Zefa. Disse-lhe “por que a senhora (tratava a outra com muito respeito, o respeito que se deve à preferida do Sultão) por que a senhora não consulta nosso senhor Mestre Cucurucu?”
            Foi correndo Dona Maria ter com o chefão, naquela hora esticando as asas carijós a espreguiçar-se ou apenas treinando voos. Ele ouviu a esposa sem muito interesse no drama dela, olhou sim faminto aquelas cores alaranjadas com desenhos escuros nas extremidades das penas, respondeu qualquer evasiva para não ter de pensar e aí pensando na fêmea à sua disposição. Aí saciou-se. Ela se tremeu toda, se recompôs e voltou para a roda das fofocas. Agora tendo mais um problema a acrescentar aos seus: sim, não entendera bem a resposta de sua majestade.
            Discutiram de novo o como encontrar a minhoca, se fosse realmente minhoca. Sugeriram mil bicadas e mil e uma ciscadas em torno do local da mina de ouro, isto é a minhoca ou o verme que fosse. Alguém propôs trocar a minhoca enterrada por barata descoberta passante; outra comadre lembrou içás tanajuras ou coisas semelhantes. Então houve voto no sentido de todas, num mutirão, remexerem a mina. Antes porém ser posta a ideia em votação, aconteceu uma imprevista correria à área do ‘manah’, a última galinha a se decidir a ajudar Dona Maria a encontrar a minhoca, se minhoca, foi exatamente a própria Dona Maria. Vasculharam, arrasaram o ambiente, parecia guerra, cujo general parcialmente satisfeito dormitava no poleiro. Até que a última porção foi removida, sem êxito. As amigas de Maria estavam desenxavidas e contrafeitas. Quando no meio do solo revolvido um gritinho se fez audível: “Que é que vocês pensam que são!!!” era a minhoca ou qualquer coisa semelhante braba ou mansa. Os soldados empenados debandaram na correria cacarejante e espantada; Dona Maria gordona e preferida de Cucurucu foi a primeirona a correr; e chegou mais rápido que todas ao clube das fofocas, parecia mais uma franga empinada. Depois chegaram ofegantes as outras, a gritaria de espanto era medonha; acordou até Cucurucu, o qual se alarmando por seu harém.
            Agora era trocar ideia de como fazer para a submissão daquela atrevida e rebelde minhoca, caso fosse minhoca. Gastaram mais de hora na discussão. O Congresso da Fofoca expôs todas as alternativas. Todavia não encontrou saída. Apelaram à lucidez da Zefa, naquele momento sentindo saudades da sua chocadeira-mãe e visada por Cucurucu, acordado pela algazarra do harém e com uma fome sem tamanho. Dona Zefa sugeriu que nada mais elas propusessem e entregassem o caso às crianças, sempre muito ricas em iniciativa e juventude. Como não houvesse nenhuma proposta mais plausível, aceitaram as congressistas, até com acolhimento de Maria, preferência antiga de Mestre Cucurucu e saudosa dos olhares de todos Cocoricós das proximidades.
        As ninhadas se espalharam pelo sítio das minhocas, se fossem minhocas, reviraram a terra revirada pelas mães, num rebuliço e em piu-pius infindáveis, remexendo tudo com talento e arte, não deixando nenhuma porção do terreno, para orgulho das mamãs. E acharam realmente muita coisa. Não deixaram nadinha às genitoras de papos vazios. Saíram piando alegres e com papos cheios. Talvez não com minhocas, sendo a minhoca de alto teor nutritivo. Dona Maria é que nunca iria comprovar.
Ribeirão Preto   novembro  1984





17° A Dúvida

        A discussão girava em torno... geralmente se perdem as causas, gradando-se em pequenas miúdas insignificantes ou grandes enormes insuportáveis, ou no terreno das invisíveis, para ser visível nas intermináveis conversas, mais a fugir da fumaça do churrasco e do cheiro da carne, amolentados objetos coisas e confrades a se confraternizar no nada, tudo explicando porque coisa alguma se pode explicar ao comum do ser. Mas girava, parece, em torno dos músculos mal ou bem passados que mastigavam, e havia um deles de boca aberta, medonhamente mascando chupando assoprando depois para mastigar formar o bolo a deglutir e finalmente engolir a porção. Ainda bem que havendo bebida a auxiliar muito para desatrelar línguas, línguas soltas bastante também a alimentar se não a discussão a conversa. Suco disto e daquilo? sim porém sobretudo fermentados provindos do milho e da mandioca, o que dava para umas tantas pessoas dormitar dormir roncar, desaparecer no universo do universo fugindo (inclusive dos problemas e sobretudo:) de si mesmo. Uma porta aberta ao nada. Um nada aberto à porta da intemperança. Contudo voltavam à discussão inicial – nunca se sabendo quando algo seja começo de alguma coisa – discussão essa advinda por dúvida. Cruel? Depende de avaliação ser cruel, a rigor toda dúvida é cruel; deixando sê-lo ao deixar ser dúvida. Era ou não era.
        Glu dizia que sim. Com certeza patinho. Mas não sabendo dianteiro ou traseiro.
            Traseiro, é óbvio, afirmava Glu-Glu, porque magro. O da frente é mais gordo; provando o acerto desse erro a experiência em mais e mais outros churrascos e manuseios e traquejos. E também, vai lá: ‘chutômetro’ e dose de sensibilidade ou sexto sentido essas coisas.
            Bem. O bem não vinha, seria o consenso, os seres humanos não chegam fácil ao acordo nos desacordos, o que gera a discórdia, esta apenas neutralizada ante fermentados de milho ou mandioca.
            Aliás não havia entendimento de fato que fosse patinho. Daí partiram a outros melhores desentendimentos, enquanto olhavam outras pessoas no festejo, quase sempre mastigando ou embriagadas e assim mesmo ainda bebendo da mandioca ou do milho. Desentenderam-se sobre armas sobre trabalho, do qual se encontravam quilômetros de séculos longe por estarem num churrasco; sobre esporte; sobre mulher; sobre política não pois não fica bem mentir em festa o melhor sendo tomar outro copo e mastigar saborosa paleta.
        Paleta? não é...
          Glu que dianteira Glu-Glu que consumadamente traseira por ser magra a da frente bem mais gorda. Depois, antes doutro copo advindo do milho ou curtido da mandioca!? depois se apegaram às origens da carne.
          Afirmo que seja de homem.
            Glu-Glu, ainda que fosse a contrariar, tão só a contrariar, arremeteu-se provar (por A-mais-B? isto sendo outro e menos importante saber) provando, talvez, que fosse mão e braço de mulher. Veja a textura, o sabor adstringente (não sabia o que fosse adstringente, sabendo soar bem aos ouvidos). Sabidamente feminino este pedaço por delicado e belo.
          Não.
            Sim.
          Não.
          Sim, aceito mais um fermentado a milho.
          Tinha mais? tinha. Glu consultara a estatística, na época já mentirosa, a probabilidade era ser de homem (já lambia ossos nessa altura). Sei pelo sabor; sou um ‘expert’ no assunto; trabalhei como degustador na corte do Rei e...
          Pera lá, interrompe Glu-Glu. Mulher. Eu consultei o micro fiz pesquisa na internet tabulei dados – posso garantir inclusive zona de abate, multinacional responsável desta irresponsabilidade... (interrompeu para:)
            Obrigado, garção. Esta é da melhor safra de mandioca.
          Glu interrompe o interrompedor amigo – milho quer você dizer.
          Glu-Glu: milho, seja; não posso distinguir por ter ingerido mandioca demais. Porém vejo claro a carne. Quanto a você não conhece muito sobre.
          Sei.
            Não sabe. Um dia trarei assado um naco de nádegas dum macaco e você tomará por bunda humana masculina!
          Ia contradizer, só a contradizer, o queixo amolecendo a vista embaciada, ainda diria “de milho” e o outro retrucaria “mandioca”, citaria dados estatísticos provando o pedaço ser macho humano, imprimiria algo do computador para provar. Contudo igualmente se apagava. Ambos bebidos pela bebida; já não percebendo o cheiro do churrasco a fragrância do fermentado. De milho! De mandioca!
 Marília   agosto  2003





18° Vingançazinha    

        Tenho minhas dúvidas nessa dúvida ser vingançazinha ou a melhorar esse pior vingancinha, parecendo pequena veremos até bem grande, a forma talvez afrontando os puristas e mais os jovens da Academia e dicionaristas; mas isso tudo não vindo ao caso, vindo apenas a consecução do objetivo, ou seja a vingança; uma qualquer vingança do tipo alguém matou alguém? não, a minha particular vingança descontando abuso da Empresa Circular desta localidade.
            Passa por aqui? informei ao desinformado passante a carregar matulas compras arrastando a filharada contei até o sete, o número mentiroso, perdendo a conta depois, criança não para quieta à Estatística ‘mentirar’ dados, quando vi não vi mais o desinformado e respondi assim mesmo que não: o coletivo passa na rua de cima, torcendo inclusive que me tenha ouvido indo com aquela parcela considerável dos mais de seis bilhões na população terrena (ou terráquea, consulto a Academia?) Contudo fiquei, eu fiquei, em dúvida na dúvida do irmão que passou por mim, aquele bem apessoado nos filhos e matulas e a mulher? sim porque não poderia ter o perguntante gerado sozinho a penca, o contrário seria a mentira mais verdadeira a fêmea da espécie com vantagem fazer o menino sozinha, não boto muita certeza nesta dúvida. A dúvida ficou, pois muito que bem poderia passar o ônibus nessa frequentada via pública num sobe, cansado, e desce constante. Aí ocorreu-me uma cartada dupla:
          Provar a veracidade de meus informes.
            Vingar-me pelas falhas circulares empresariais não atendendo à Rua da Boa Vontade, onde me encontrava ao informar por tabela o pai da penca de garotos, ajudando o genitor a carregar matulas e compras.
          Foi então que planejei meu trabalho, cujo palpite da sensibilidade antevia longo.
            À verificação preparei-me, arranjei ajeitei carreguei cansei até as pernas a carregar a parafernália para conseguir objetivo (e me vingar pelo descaso da Empresa é óbvio).
            Plantei-me, em boa vontade digamos, plantei-me num ponto da Rua, pouco pra baixo, onde o dito descaso devendo a Empresa ter fincado um ponto de pau pintado com as cores da Circular e não fincou. Depositei as matulas, mas ói eu sem compras. E sem filhos em penca, piormente sem mulher a fazer crescer melhor as mentiras da Estatística para contar a população mundial. Depositei-as, conferi-as (puxa não me contento com os ‘as’ aqui usados e abusados, chamo os garotos fardados imortalizados no desconhecimento da turba ignorante!? depois resolvo o senão) conferi sim, trouxa por trouxa podendo eu ser tomado por trouxa, conferi inclusive uma lista que fiz das coisas para não me perder não confiando na terrível memória; relacionei: garrafa térmica, para o café sempre do dia anterior; moringa a manter fresca a água clorada da mina de minha torneira (os safados cortaram outro dia a ligação); o banquinho, ah que delícia sentar-me nele! havia inventado, informo ser um inventor e não patenteei o invento inventado com o fim de suportar a fila na casa bancária, anos, uma vida inteira planejando inventar uma cadeira desmontável do tipo de circo, o circo se foi com o trem ambos deletados pela tevê agora se viaja virtual e se assiste sentado no sofá; as cadeiras de circo fechavam-se ficando mais fácil guardar no fim do espetáculo que se acabou acabando o circo. Então imaginava imaginar um banquinho nesses moldes circenses desmontáveis, sanfonáveis caso se deseje purismo léxico (aí eu outra vez às voltas com o Museu da Língua!) e então acabei depois não precisar mais de fila bancária, não por ter acabado o banco a fila ou o dinheiro, tão só por ter acabado a minha conta no Paraíso dos Banqueiros cuja filial é na Avenida – porém eis que surge uma oportunidade a usar meu invento: então dobrei-o pu-lo (perdão ó Santa Academia!) pu-lo nas costas, desdobrei-o montei-o na calçadinha da Rua Boa Vontade, aqui pertinho de casa, sentei-me, que delícia... iria ficar esperando a condução de pé! barbaridade; e as varizes? Ao lado do banquinho depositei a tralha, o matuto diz com propriedade ‘tráia’ e fica melhor, os Garotões Imortais negam. Havia de um tudo – comida bastante a pouco comer: basicamente frutas e sanduíches. Aqui agradecendo os Puristas abrasileirarem a forma e também o conteúdo – os meus eram de pão com mortadela, cheirosa, e seu acompanhante (não se diz Romeu ao queijo Julieta à marmelada de chuchu? o meu sendo pão com mortadela o sanduíche e este pedindo o guaraná, qualquer capiau sabe disso) portanto o guaraná-zinho, aqui não cabendo a dúvida que em dúvida iniciei esta crônica documental e não precisarei consultar os Homens lá. Que mais? sobremesa não levei ao campo de batalha entretanto como compensação remedinhos não indicados e até contraindicados pela Saúde Pública, ela, no País doente, doente também. Pra quê? sobretudo contra a dor de cabeça que sabia ter de passar. O que mais? acho que mais nada. Pera lá, esquecia-me o essencial para um ser humano normal, eu me esquecia sim de relacionar: a privada volante! pois a ficar talvez dias por ser teimoso, me substituíram o nome do Cartório por João Teimoso tanto teimo tanto tonto fico. Vai lá, João Teimoso, eu. Poderia ficar sem! E de fato ficar fiquei dias semanas e até meses, anos não: morreria antes de ano não exageremos na teimosia. No saco de estopa tinha o penico para emergências, sem precisar visto estabelecer minha vigília perto do bar – enquanto ia ao mictório do boteco deixava um menino, não olhando-me as coisas porque quem se interessaria a roubar minha parafernália de esperar o ônibus circular! mas olhando pra ver em meu lugar se o monstro passava, a confirmar o sim “passa coletivo na Boa Vontade”. Voltava dando gorjeta ao garoto a comprar doces certamente e não é de minha conta, aí retomando meu posto. O penico falei e a garrafa de cerveja auxiliar, não bebo, a encher, ora bolas, de xixi. Durante o dia ‘gorjetava’ um garoto e urinava na dona, digo no mictório do bar que era ainda é duma senhora bonita que é uma gostosura; e de noite, nesse ponto a função da garrafa vazia, à noite fazendo no invólucro de vidro e depois soltando a ureia a nadar na guia da Rua Boa Vontade, escorrendo o líquido pra baixo, ninguém me esperando levar aquele fedor de água choca a despejar na privada de casa.
            Bem. Assim cumpri meu dever em ver, a constatar, se o ônibus passa ou não na Rua.
Madrugada já eu teimando iniciar minhas altas funções esperando que pudesse passar o Circular. Dia todo. Noite inteira. Não, sim todos sabem a linha funciona até no máximo meia-noite na periferia; por via das dúvidas ficava até quase à uma hora do outro dia com frio chuva vento dor de barriga fome e sono, que ninguém é de ferro nem um João por mais Teimoso. Ia pra casa rápido e rápido tornava ao meu posto bem posto a espiar que viesse vindo o bruto.
        Não obstante apenas ouvia seu funcionar longe, aguardando, ansioso, que passasse e até parasse no meu ponto. E, parando, provando a passagem do Coletivo na Boa. Às vezes tinha vontade de suspender a experiência e dizer qualquer dizer ao ilustre desconhecido, com suas matulas compras e crianças, tadinhas. Era preciso perdurar e assim fincava pé a esperar a condução.
          Contudo houve de fato alguns problemas que passo a enumerar.
            Cansava-me (de esperar! capaz) cansava-me de comer o pãozinho com mortadela e beber meu guaraná, coisas exíguas para não sobrecarregar o bucho e depois dar trabalho à Gostosura lhe pedindo e até implorando nos momentos mais solenes da dor no ventre o mictório aos fregueses e eu não sendo um pois apenas montava guarda ali perto a flagrar o Coletivo passar e não comprando cigarro e cachaça no balcão da Bela Dona, uma gostosura como disse. Cansava-me a comer dia inteiro o sanduíche e se compreende com facilidade era preciso comer frugalmente, ou me mudava pra minha casa e alugava meu próprio vaso sanitário; em vista disso comia pouco bebia quase nada – somente a me manter de pé sentado no banquinho para verificar se passava e até aí não passara o bendito Ônibus Circular. Tinha outro drama: os cães. Os vadios vinham xeretar cheirar minhas coisas, dava sim restos de meu banquete de pão com mortadela, o guaraná não queriam, a eles; vinham cheirar e um deles, vira-lata sacana, levantou a perninha na pernona teimosa e depois molhou meu banco! E ainda ladravam a infernizar até um Teimoso. Eu teimava, ficando na vigília a constatar a passagem. Outra questão eram os moradores: uns me perguntavam o que fazia acampado no passeio público; outros falavam gratuitamente a fofocar as coisas sobre minha estada. No fim... deixa pro fim. Em casa – eu estava no ponto de ônibus inexistente seja dito mas no local onde devesse haver um já não se faz Empresas como antigamente – estava sim também em casa em espírito. Porque não é que me cortaram a água a luz o telefone! este me importando pouco visto ninguém ligando pra mim em não ser os enganos a cobrar de longa distância ou a trempe do telemarketing me querendo empurrar mil novidades do mercado multinacional o que é uma glória globalizada. Porém ficar sem água e luz! “Beba guaraná”, mata a sede, diriam; e respondo: já experimentou tomar banho de guaraná? A luz tenho, tinha um maço de velas, agora um toco apenas. Me perguntava lá no ponto esperando a condução – como ligar sem luz a televisão e tomar banho frio por corte na rede elétrica! A Companhia de Luz resolvera o segundo problema cortando o fio; e a tv? Aí me dizia numa espécie parecendo o processo das “uvas verdes” da raposa: com essa programação o melhor é desligar a tevê, a Companhia compreendera meu problema e desligou o relógio. Pensava assim enquanto os curiosos me olhavam vendo um exemplar da espécie Homo sapiens inteirinho a esperar o Ônibus da Circular, esse sendo outro problema de minha estada a constatar a linha que devera passar na Boa Vontade e consequentemente informar o infortunado pai com penca e matulas me indagando o informe.
            Assim foram não dias: meses. Não chegou a ano, isso falei já.
          Porque não veio realmente o Ônibus, fato que anularia qualquer vingança teimosa, não veio, para que constatasse a linha ali ou não; sim veio a Viatura Policial, a pedido dos pedidos da gente nas imediações. Imagine-se que sequer pude dizer não haver pago as contas de luz água telefone por não poder deixar meu posto de observação indo à rede bancária pagá-las (nesse ‘pagá-las’ acertei, não é mesmo, Acadêmicos!) Nem os milicos desejavam saber sobre; sequer sobre como posteriormente iria procurar as crianças a informar-me elas onde o pai com matulas a dar-lhe preciosa informação da inexistência do Ponto Circular na Boa. Não iria indagar às matulas do pobre, seria loucura.
          Não seria?
 Marília   agosto  2003





19° - Conto do Telefone Louco
         
        623 etc. e tal... se esqueceu do número correto, teve de consultar anotações; a agenda estava ensebada gasta e cansadinha mas não era rica, andava isto sim desorganizada – uma série de dados, dados por superados então rasurados, às vezes usando para os consertos novas cores a distinguir as anteriores naquela balbúrdia; havia inúmeros números riscados. Um sujeito mais comprometido com as regras e o progresso compraria outra agenda, passando tudinho a limpo e deixaria de fora o que não servisse e aquilo que já não era (preferia escrever por cima em letra miúda e tremida ‘faleceu’). Nada disso acontecia; agora era remexer naquela sujeira, uma babel suja e gasta. Para tão só encontrar o número certo do José, no momento em questão esquecido por Dona Memória, mestra na arte de contar mentiras, ou melhor, no de guardá-las.
          Foi daí que discou o certo naquele erro.
            Discou discou discou, tornou a discar tentar ligar, impaciente. Ouviu tocar do outro lado da linha muitas vezes, cansou, o telefone cansou. Discou outra vez mais paciente e muito mais teimoso: no terceiro tilintar atenderam; uf! fez em pensamento.
          --É da residência do José?
            Era, disse primeiro que não era. A consciência cobrou, resolveu dizer que era; era honesto.
          --Mas não é o José quem está falando...
          Não era, não disse que era, era sincero.
          --É o João... amigo do Zé, pode chamar o meu amigo?
          Não, não podia (primeiramente falou estar muito ocupado; depois pensou melhor e respondeu que não se encontrava ali o José; deixar recado...)
          --Quem é o senhor (tratava-se de um homem com voz mais rouquenha) é algum parente dele alojado decerto na residência?
          Não, não era, era correto.
          --Algum amigo de meu amigo? insistiu o João.
            Não, não era amigo. Não mentia, teve de falar realmente quem era, porém não deu nome nem sobrenome. Apenas se identificou como ladrão. Andava na casa somente exercendo suas funções técnicas, nada mais.
          --Ah sim! exclamou o curioso amigo João do amigo José Ausente. E aproveitou a enriquecer seu ser, ávido de cultura, não perdendo a oportunidade. Indagou de tudo e recebeu de Mestre Ladrão uma aula completa de como entrara o que fizera e mesmo o quanto empilhara para levar – quantidade e qualidade. Precisando mesmo relatar ao João via fio telefônico (esclarecido não haver celular naquele tempo nem técnica digital). Pelo fio sim, pois estava longe do outro naquele colóquio inesperado. Disse ao João tudo, porque era profissional criterioso honesto sincero e correto.
            Após muito blá-blá-blá lembrou o João Telefonante do objeto principal de tanta procura na agenda ensebada e a consequente ligação ao José. José não estando veio-lhe à mente pedir ao Amigo do Alheio passar o recado ao Amigo Ausente. Entretanto o Sr.Larápio negava-se a anotar recado. Teve de pedir insistindo, teve de implorar (lembrou inclusive a santa mãe do Ladrão, supunha tivesse uma, para demovê-lo) não conseguiu de fato que entregasse tal recado ao José. Ao menos ele obteve uma significante vitória demovendo o Sr. Ladrão a rabiscar numa folha o recado joanino, espetando-o num prego à parede da casa aliviada do José.
            Por sorte, muita sorte mesmo, João falava com um cavalheiro. Honesto sincero e correto. Nem um pouco falso ou mentiroso. Ou perderia o telefonema.
Ribeirão Preto   junho  1994


20°  - Recordação de Estágio  
         
        Não te contei pra você? Perdão perdão, não sou faminto em  ‘concordanciar’. Aliás nem concordo sequer com acordo. Até faço muitíssimo esforço a concordar comigo mesmo, tarefa assaz difícil. Não obstante desejo me atrever a narrar algumas de minhas lembranças no meu estágio humano.
        Por que essa expressão, não me crê pessoa, eu ter sido gente! Um dia andava na sala da alta nobreza, limpíssima, iguaria à vontade tudo regado ao vinho da mais antiga safra. Eu, eu que estava vendo e presidia o banquete. Ordenava lacaios, sorrindo à visita e determinava à orquestra iniciar a primeira valsa. Não sei como fui suportar. Sobretudo o alimento. Mesmo porque me lembra haver suíno cheiroso assado, comilança das grandes. Ao despejarem-me a lavagem neste cocho maior fico a pensar como gente tem gosto extravagante. Melhor minha abóbora cozida com restos dos humanos, aqui se aproveita tudo; e nos oferecem. Além do banho, pois nos refestelamos na lama dia inteiro. Rosno um pouco sempre fui resmungão, desde que era gente. Contudo uma compensação tenho todos dias: a fêmea; existe uma porca linda linda, que me aceita bem. Bem, só o que estraga é a lembrança daquela festa no meu palácio. Um palacete, visto não ser grande ao exagero. Uma chateação a ficar paparicando parentes e amigos, uns desatoladores e chupins. Dava até raiva. Daí vieram às comemorações, comemorava-se não sei quê, pouco me importando agora, agora que possuo as cabritas só para mim! uma conquista e tanto. Vamos sempre pastar uma vegetação linda e saborosa. Verdade que não me deixam em paz, fico meio apartado delas, elas inclusive às vezes fogem de mim. No entanto mantenho meu ritmo e asseguro a descendência com determinação, não sou brincadeira não, não me olhe espantado, sou garanhão. A manada se dispersa, corremos os prados, matamos a sede no riacho a fome nos pastos sem fim, eu a fome sexual, meu apetite formidável, garanhão de primeira, reconhecido no haras, material exportável, não exportava quando homem. Era apenas amanauense, anotava, rabiscava nos cadernos e livros fiscais, uma azucrinação sem tamanho. E a mulher! petitica assim, mas braba. Nunca ouviu que as pequenas são as mais mandonas! Me pegava exigia e olhe, sou franco, um dia me bateu; sim estava bebum, não acertava voltar pra casa, me trouxeram. Me perdoou? coisa alguma: semana de falatório (guardou a coisa anos para me pegar de cabo curto sempre que eu desejasse contar vantagens...) e no fim, já disse, levei uns trancos dela. Ainda precisei aguentar a sogra na casa, um horror. Um horror mesmo quando não podia usar bem minha tromba. Não sabe como me sentia. A tromba é o melhor meio de comunicação a um elefante. Então lembro-me muito bem disso, elefante não se esquece, nunca ouviu falarem assim! bem, já haviam arrancado minhas presas, doeu muitíssimo, a presa tem valor no mercado e gente não pergunta ao dono, o elefante, se aceita o serviço odontológico.
            Tomei a presa, me alembro agora, arranquei do bicho, os meus ajudantes eram da terra mesmo, não me entendiam, nem eu falava sua língua. Depois, um achado e tanto, encontramos um cemitério dos paquidermes! uma fortuna. Apesar gastei com mulheres com viagens com jogo sobretudo nas cartas, nem quero recordar-me como eu era feio, mas possuía fortuna. Melhor feio horrendo, horripilante hipopótamo como sou. Aqui não se brinca em serviço; na reserva era diferente, tínhamos um mundo para nós, o paraíso. Depois me pegaram e a mais dois indivíduos e nos trouxeram pra cá: espaço exíguo, comida curta; tem o banho, ou morreria esturricado, a pele precisa da água; só que neste zoológico é apenas um tanque, não mais que um tanque, e ainda preciso ouvir besteiras humanas lá fora e a gritaria da meninada em excursão escolar, uma chateação. Além do mais não tenho companheira agora, um inferno. Antes não era assim.
            Era. Pior. Tinha os banqueiros, a gente corria pra lá pra cá, trabalhava, vivia para pagar contas. Morria endividado. No fim, após vida toda sustentando agiota e especuladores, no fim sobrou à família a cobrança dos banqueiros. Pagamos em espécie, dinheiro a inflação comera, pagamos em carne, confiscaram terras e o gado. Berrava desconsolado. Vi quando levaram minha mãe na gaiola, meus irmãos já vendidos sem consulta. As novilhas, minhas irmãs por parte de mãe com não sei que touro, nunca soube direito a história, as novilhas ficaram e foram apartadas de nós, já grandinhos. Me castraram, antes me enganaram a entrar num cercado. Agora me restabelecia e me espantava cada vez que chegava um caminhão com gaiola... Foi então que mandei prender o chefe do carro.
            Devia tê-lo feito ao patrão do sujeito, era apenas um mequetrefe o infeliz. Ao patrão. Dei uma de gostosão, quis fazer farol, mostrar serviço à sociedade, engaiolando os sem lei pela lei. A rigor eu recebia também propina e me preparava a desposar a filha dum coronel; o que não deu certo, a moça queria, o pai não apreciava militares, casou-a com um grã-fino da capital sem capital e com nome. Bolei um plano sinistro para assassinar os ricaços e deu no que deu.
            No que deu? Uma ninhada. Isso mesmo, nós os ratos temos é muita expressão para encontrar alimentos e a garantir a espécie. Nunquinha fui capaz de contar meus numerosos herdeiros. Depois foi a crise, botaram não sei o que em muitos lugares, envenenaram a água, morremos aos milhares! uma chacina. E nisso tudo eu muito participava.
            Mandei destruir choças, pôr fogo em aldeias inteiras, ah o fumo subindo... Entreguei as mulheres aos rapazes e eles se divertiram bem; os machos matamos, mandei não terem clemência e o batalhão foi por demais eficiente. Ganhei glória, fui citado nas obras didáticas, recebi comendas, houve desfiles. Contudo fui traído.
            Me traiu a sorte: quis entrar num túnel já escavado, me pisaram, me cortaram em dois, via de longe meu extremo a tremer, esta parte me engancharam no anzol, aquele ferro frio entrando nas minhas entranhas varando doutro lado... Para quê? para fisgar um peixe. Então eu...
            “Acorda, desgraçado!” Ela sempre delicada, entende que sou o chefe da família. Me levantei, fui lavar o rosto, remover a remela; e ainda piscava um pouco quando a patroa veio me olhar penteando os cabelos.
 Marília   setembro  2002





21° - O Primeiro do Último    
         
        Vai aqui alguma verdade, ou se toma por absurdo, o que é mentira. A verdade quando surrealista parece inverdade. Mas a verdade, dessas verdadeiras mesmo, é que andava cansado por último. Antes mudara-se e se mudara de novo a se pensar novo homem; não obstante somos novos todos dias, a rotina é que ‘inverdadiza’,  ou quando menos enublece o claro. Em síntese se cansava tanto cansar da rotina. Uma rotina violenta, se não na sua ostensividade machucadora, ao menos naquela que é sub-reptícia: o falar sem dizer. E nisto entram sons discos gritos arrastar de móveis gente e cães, os gatos a miar baixo delicados e inaudíveis quando a gente pouco nervosa; porque quando irada a ouvi-los também; e quebra de pratos, tilintar de trens de cozinha. Ah, isto sendo o mais importante no sem importância da educação que é o velado não dito previsto admitido e a se enraivecer adequadamente, o mais importante sendo as brigas conjugais a apagar baderna das crianças; brigas sim, dos outros. Aí não se podendo meter, chamar a polícia? apelar aos outros vizinhos igualmente briguentos! Não.
            Não dava mais sequer ficar mudando a mudar sempre ficando no mesmo pé: a gente muda, o barulho vai junto da gente. Ou se encontra a equivalência.
          E não tem jeito?
            Claro. Pensava que sim, tanto que se fixou no último andar, lá naquelas alturas. Ah que vista maravilhosa hein! panorama a dar e vender. Sobretudo quietude, o santo silêncio almejado...
            Então o casal debaixo se pegou, sai de baixo! Isto despertando os outros no edifício e imediações. Daí o porteiro o ascensorista a ouvir primeiro os desaforos nossos de cada dia, por último o síndico, que era uma síndica solteirona; e a gente a dizer que essa gente não faz nada, nem na reunião dos moradores! Não faz nada. Que fazer? Não fazer.
            Ou por outra, fazer. Fazer de conta nada haver, para ver se o problema com seus barulhos brigas e quejandos, se eles, mesmo eles, se esquecem.
          Não obstante não se esquecem. Pior.
            Desandaram a mudar; não o comportamento com suas inconsequências conjugais ao bem de todos; não, mudar de mudança. Um quilo, um quilão, uma tonelada de caminhões-baús num parar recolhendo trecos (móveis e demais tranqueiras domésticas, por exemplo televisão e outros restolhinhos como livros nunca lidos bons de amostra em lombadas na estante, sim: a estante levada pelos macacões ao carro); e consequentes desocupações das garagens no subsolo, o qual fica ainda abaixo do primeiro andar. Desandaram porém nisso havendo um pior.
            De fato. Levaram os trecos e até a gente briguenta gritona e seus gritõezinhos; sim mas igualmente suas casas, as debaixo. Pilares, paredes, chão inclusive contrapiso e piso, o piso frio; também uns que haviam optado por tacos de madeira a encher o bucho dos cupins, os quais se aproveitando a comer igualmente móveis e o portal das portas; daí levaram tacos cupins e o nada de tudo. Tudo vazio no depois! Pior.
          Ora, pode ter pior!?
          Como pôde sustentar-se a casa do primeiro no último andar...
          Pode haver quem vote ‘não pode’ o não pôde? Pode.      
Marília   março  2006





22° - Questão de Presente

        Todavia é passado; ocorreu; aconteceu quando sequer esperava. Já havia acontecido antes. Aconteceu várias vezes.
        Isso, lembrava-se, já havia acontecido vezes outras; muitas vezes; podia mesmo se gabar: quando sabemos ninguém receber nada hoje em dia, dia de crise, ele recebia sempre, tinha sorte. Talvez até demais. O que não agradava é que os presentes não agradavam. Uma vez recebera certa camisa de bolinhas, além do mais não lhe serviu; noutra ganhou foi um estojo o qual ficou mofando por não saber para que servia... Sim, deveria perguntar um estojo pra quê? por decoro não indagou. Noutro dia ganhou de presente balas e confeitos mais, sendo diabético. E um punhal de ouro, de ouro propriamente não, folheado, uma tapeação grosseira; mas poderia falar nisso à jovem delicada que lhe lembrara o natalício! mesmo para tal presente, violência à parte, não teria coragem de reclamar.
        Não reclamaria, não era de sua educação. Mesmo o despropósito do livro de natal. Ganhou e não levou; quer dizer, não se habituara a ler não leria aquilo. Contudo, reconheceu, o embrulho estava lindíssimo. Pior fora o último dos presentes.
            Chegou pela manhã. O entregador zeloso mostrou a documentação; pediu deixar na porta, assinou apoiando-se na parede, deu gorjeta (era educado).
          Assim que ficou só e pôs as tarefas urgentes em dia, foi examinar o presente. Podia muito que bem havê-lo examinado loguinho, fosse curioso. Nessa idade já não tinha mais razão para ser um curioso. Somente depois foi abrir o pacotão.
        Aí levantou certas questões: quem me enviou o presente? é presente? estarei fazendo anos hoje? Deixou de lado esse monólogo idiota e experimentou a esperança do que continha o embrulho volumoso. Começou por mudá-lo para o quarto dos fundos, detestava ser pego no flagrante abrindo caixa de presente. Além do mais ficando pra si mesmo a surpresa; porque afinal ainda era gente e gente se surpreende por costume. Foi então que se deu o inusitado.
            Desembrulhou; e se assustou gostoso. Surpreendeu-se: na cabeça de quem caberia enviar-lhe um defunto de presente!? Não se espantou pelo presente em si, entretanto sim pelo mau gosto.
            Sua atitude imediata não foi avisar a polícia. Mesmo porque ela poderia interpretar erradamente o fato – não é habitual ganhar cadáver a título de presente. Preferiu ficar prostrado, imaginando o absurdo não da escolha dele como presenteado, porém o absurdo da má escolha do que enviar a ele. Daí e para safar-se dos incômodos prováveis, pretendeu devolver o presente. Todavia não o fez, era educado. O comum é guardar, inclusive expor os presentes ganhados, mesmo nos casos em que não apreciamos os objetos. Ele não gostou daquele. Nunca amara gente morta; porém devolver ficava feio, embaraçoso; resolveu que ficaria a observação para si mesmo, pois era educado e não mostraria desdenhar o dito presente. Por essas considerações concluiu melhor esconder o presente, uma robusta criatura parecença enforcado com olhos esbugalhados de horror língua de fora deste tamanho, já cheirando a outro dia. Plantou-o no fundo do quintal, junto ao pé de abacate. Sim, antes amarrou o Juju, o qual ficou a uivar. Assim o presente virou passado.
Ribeirão Preto   setembro 1986

23° - Os Bebuns


          Ecoam na desmemória as lembranças da cabeça cansada qual o liquidificador onde se atira imprestáveis ajuntáveis aproveitáveis a triturar mexer e remexer para alimentar o ser no seu ser da memória, aí exala o álcool que às vezes mistura e desaparece no ar às vezes não, e fica e martela e ranzinza e machuca o presente, ausente. São seres que já não são. Perdidos no arquivo morto? nos ais do coração? Vômitos em vida da vida, a vida que se vai também.
            Papai molhava minha chupeta na cachaça. E contava o sujeito outras vantagens. O Firmino queria ser presidente, não conseguiu ser presidente e seria um presidente avermelhado e bonachão. No dia em que for presidente, disse, mando plantar o Brasil inteirinho com cana, para o açúcar? não: só faremos pinga! O Natalim brigava e amava sua Maria, bêbados ambos quem mais alcoolizado batia no outro, quem mais sóbrio no menos bebum cuidava do outro limpava a gosma enxugava a urina trocava a roupa; se cruzavam na cama a curtir a caninha a esperar a madrugada no trabalho oleiro. O desconhecido treinava a ser rebotalho social, já nos seus 16 ou 17 anos; então passava num zigue-zague na frente de casa, a minha casa: altão arcadão magrão bebão ia para extremidade da sarjeta ainda não colocada, voltava à outra da via pública, tremendo balançando desgovernando não caindo se sustentando a pegar o mundo fugidio e teimoso – o mundo é um todo encardido que não se fixa aos bêbados para se firmarem. Assim não é culpa da culpa que se esqueceu nem da aguardente que se lembrou, mas a culpa é a culpa do mundo que não para quieto. E não para.

            O Mundo Está Bebinho da Silva

          E tudo o mais é a loucura. Porque o homem pensa que o centro do universo seja o computador ou seja a guerra ou seja a poesia ou seja o negócio com muitos ganhos e pouca perda. Ele se engana. É o bar.
            O bar tem o vendeiro. O meu é o Jorge. Quando o Jorge fica ranzinza negaceando regando rogando saldar o pindura, onde o cachorro marca quanto quer contando com este embaralhamento; quando fica assim eu me mudo de Jorge, fico no bar. Tem o bar do Tonho, tem o bar da vendeira Maria aí tudo em respeito, tem o bar do Gordo, tem – vixe! – tem é muitos outros o mundo é um bar.
          Agora chegou um amigo. Todos são amigos, chegou um. E não tem mesinha pra todo mundo quando no fim do dia ou no fim de semana, a gente ou fugindo do serviço ou da mulher, mulher é um bicho que pega no pé do pobre marido exige isto quer aquilo, as crianças ajudam a mãe desajudar e infernam com briguinhas. A gente é de paz, foge à paz do bar. Não no fim de semana, concorrência enorme, agora tem, sobra mesa, quase todas espandongadas riscadas desordenadas, manquitolas e sujas,  tem sujeira de sujeira e tem sujeira de limpeza que são respingos de bebida, a grudar e melecar a roupa da gente. Bom-dia.
Mas nem me olha com a boca, sorri apenas com a boca, vê mesmo o vendeiro, o qual sorri ao freguês e a conta do escritório sabendo-se que o Governo é um ladrão anda alta; e precisa pagar a firma das bebidas e tem outras mais das mil coisas que se vende. E aí sorri ao freguês que entra, aguarda já sabendo que pedirá um copo, inclusive limpa o balcão com pano fedendo a umidade sabão vencido e sujeira de sujeira, a saúde pública, o fiscal é bem atrevido.
            Aí fala respondendo bom-dia.
            Pede, puxa cadeira e prosa, logo o Jorge serve e arde sua fumaça na fumaça do freguês, aqui não tem dessa grã-finagem de ‘cliente’ só freguês. Abre a garrafa atira a tampinha que vai gritar lá diante esbarrando na parede, despeja cerveja andeja esbraveja o cão, cachorro só nos pés da gente é capaz exportar suas pulgas e pragas na praga freguesa, realmente freguês. Mais alguma coisa? indaga o vendeiro, quase sempre um tira-gosto com gosto salgado alho tempero moscas a esvoaçar lambetas enxeridas, a mortadela picada ou um salgadinho qualquer, azeitona à parecença freguês de bom tamanho; ou somente a mortadela limpa e cheirosa no pratinho e já ele despeja meio copo de cerveja o outro meio é de espuma de cerveja e ela irá ficar em grude no bigodinho do freguês.
          Zé, seu criado.
            Eu igualmente sou Zé seu xará, no entanto sendo o Zé-da-dona-Chica, e o senhor...
            Travam conversa travam amizade, travam. Ficam a se olhar a se contar a se mentir as verdades. Verdade que tem é muito boa vontade e paciência que requer o lugar e a situação. Se oferecem bebidas, trocam ideias, as ideias vêm prontas ao começo, tardas ao fim, após meias e mais meias dúzias a enriquecer a dívida ao pindura, o novato arregaça bolsos, bolsos a se esvaziar; a cabeça a pender a língua a lerdar a gosma a babar. E se bravata até, mais se conta, o comum do comum não mais que o comum.
          A mulher brigou com a vizinha, um traste. Aí ele deu nas duas apanhou delas saiu de fininho escapou à paz do bar. O patrão, aquele chefe metido e fia-da-p. a mãe lembrada. O ganho pouco o gasto muito; ninguém compreende!
            Os amigos se entendem.
          De Zé para Zé um Zé cheinho de tolerância outro Zé a falar sem parar até o dinheiro parar, o pindura começar; o dono a reclamar, primeiro olhar enviesado depois anotar somar errar no ‘vai um’. Não tem importância, importância tem mesmo o bar.

            O Bar é o Consultório Sentimental

          Chega, não o chegador, o acostumado a chegar, vira dono do pedaço canta de galo dá ordens fala de cátedra explica ensina, às vezes quando quase a pileque e fala mole e aí quer atravessar a velhinha à força na rua ensinando explicando repetindo repetindo repetindo ao outro o que possivelmente outrem deseja saber e vai acompanhando pernas bambas inseguras o outro para o outro não errar e isso ocorre a ocorrer que um cego a guiar outro cego... Então ele chega.
            Olha sorri aos contumazes um que outro estranho, brinca, brinca até com o vendeiro o vendeiro estando de boa veneta e o pindura acalmado por recente pagamento, parcial sim porém a desinchar a conta e aí o vendeiro sorri também brinca também conversa também, também se mete na prosa solta. E chega e se achega mais; pede senta oferece conta ouve, algazarram até os partícipes. Então o dono olha meio matreiro ou em guarda.
          Conversam. O novo de novo, assunto de forasteiro é sempre novo, a todas velharias e repetir. A esposa... conta chora inclusive constrange mesmo, os solidários se compreendem se interpelam se interpretam se consolam no sofrer que vira sofrer comum. Ela, diz a ingrata evidência, anda com outro, o pequeno não se lhe parece, os olhos a cor da pele e outras ‘pareçuras’ mais desassemelhantes e aí chora outra vez, por vez da caninha ou da ingratidão ou da traição. Eles não têm semântica desprezam a gramática desconhecem a língua e de Zé para Zé de João para Ninguém se falam falando ‘cornuras’ e chifres. De repente num de repente desconhecido a todos desconhecidos o desconhecido arreganha de galo e ‘macha’ o nome: promete matar arregala olhos arregala a goela, grita xinga ofende, ofende inclusive a plateia que aumenta curiosa. E o vendeiro, ajudado pelos mais fortes da tribo, leva aquelas machezas pra fora, ameaça-as com lembrar a polícia. O herói se vai, os ‘de casa’ são levados dormindo a dormir em casa o de fora se vai, chifrado nos cornos alevantados ganhar nem que seja tão só no equilíbrio a ficar de pé andando tropegamente e se vitoria apenas a de não pagar a conta. A qual fica na conta lucros & perdas do boteco.

            O Bar o Bêbado que se Não Embriaga

          Não tem cachaça, tem cerveja clara loira gringa a matar a sede; um que toma um que oferece todos que pagam, pagam para ouvir contar suas coisas e riem, riem fácil. Rir da vida é chorar da verdade. Em verdade o rir o chorar o falar o respirar mesmo não passando de pretexto a engolir o copo, arrotar educadamente amargores, para ter direito a contar, desabafar. O que mais preza ao homem é falar, o mundo é ouvido, ouvido o bar. Tem um Zé no pedaço.
            O outro ou outro que é o mesmo Zé. E que fala e conta sua vantagem, não apenas a bravatar mas a ter o que contar. Conta da conta dos outros, mostra as conquistas alheias, ou é no serviço onde trabalha, ou porque não trabalha a levar vantagem em tudo que é privilégio dos ‘vivos’; ou somente a encher o tempo que enche o viver quando não se pode viver e é preciso narrar. E o sujeito, já os bebuns por volta perderam o nome os nomes só servem a atrapalhar, o sujeito comprou aquele carrão! e os outros veículos, a mulher dele vai fazer as unhas e demais bonitezas no belo carro dela; e se conta o lustro a cor a marca o ano o preço e até uma barbeiragenzinha – tudo é grande no faz de conta da verdade dos outros. E os outros se engrandecem a engrandecer o narrador; o narrador toma outra outra mais e não fica bêbado, um pouco mole destramelado, somente ele quer e deve falar e todas orelhas se abrem espertas a engolir tesouros das verdades e, aí, toma mais e mais outra para mais contar e estoriar a história, com graça com distinção chã a fim de engolir o tempo.
            O tempo é o alimento daqueles para os quais lhes sobra tempo. E então bebem mais engolem mais falam mais, se fregueses pinduram mais também.

            Lambari Bebum

          As portas se arreganham no bar ganham o Zé os não-Zé todos ninguém a se juntar naquele chamariz. A bebida cheirosa a fumaça ardida fedendo as horas a preencher os vazios do mundo. Às vezes não se toma, observa-se; tem sempre alguém à espera dos oferecimentos, tem sempre o folclórico de plantão – todos o conhecem, o dono o conhece mais ainda; servem ao menos como boas orelhas pacientes. Falam bastante.
          Quem fala fala de um tudo, alguns se especializando na arte; tudo num bar desperta narrações comparações conversações mais.
            Alguém responde que foi sim. Onde a pesca? foi boa, ninguém aprecia os fracassos. No barranco na margem no mato fora d’água dentro do bar – o maior peixe pescado possível. Faz-se comparações citam espécimes lembram pescarias conhecidas contam aventuras quase sempre no desconhecido. Os participantes viram heróis, tem sempre algum palhaço no meio a entreter; tem a boia feita de improviso; tem os tropeços que as viagens gostam de ofertar; mas sobretudo tem os peixes. Contam peripécias e imprevistos, tudo engolido pela deusa Aventura. Falam nos enormes espécimes, no trabalho e na artimanha a fim de arrancá-los para fora da água. Falam da volta cansada. Não esquecem dizer as estórias que não se contam em casa perto da patroa; não obstante as bocas se abrem na mesa regada a álcool.
        Todavia se esquecem do lambari, vermelho prateado pequeno arisco louquinho por minhoca, ladrão de minhoca.
          Bebem para compensação.

            Democracia Embriagada

          No dito pelo não dito dito tantas e tantas vezes a alimentar o não-fazer que é fazer da bebida objetivo, que se confunde com causas e pretextos, então se fala ao deus-dará. Fofocas fatos distorcidos pelo contar, quem conta um conto... transformando a verdade em nova e mais bela verdade no linguajar do povo, todos falam todos ouvem. E entra a maldade? a mentira a intemperança o despropósito inclusive! Trazem à baila fatos e novidades, novidades velhas de tão usadas, remodeladas pelas interpretações. O acontecer televisivo, por exemplo, ele virando ocorrência presenciada pelos olhos que a terra há de comer. Mas são os acontecimentos próximos e do bairro os que mais se comenta os que mais tocam fundo e ferem a sensibilidade e acirra curiosidades, num lugar onde todos falam onde todos ou não escutam ou escutam e não ouvem. Um local para que os Zés desta vida se interessem ao menos... no beber, em não fechar o beber? não, a fim de não fechar o pindura do beber.
Marília   novembro  2003                    
O Presente

            É passado. Sumiu no tempo; quase da memória, piormente não deixando saudade. Tem coisas que o ser humano quer esquecer põe debaixo num de cima. Mas, argumenta-se, não deve estar presente um presente? deve, não se deve esquecer também a pessoa que oferece as coisas, pois que sempre a gente se dá com aquilo que se dá; dá-se a si mesmo quem deu algo; por mera ingratidão da memória nos esquecemos ou transmutamos João ofertando a joia ou em Joana quem deu o beijo. Mistura lá dentrão o cinzento da massa. Ou terá sido a vizinha a tia ou o compadre. Contudo o presente está no pátio berrando (aqui um exagero) berrando presença pretensamente a agradar-nos. Não agradara, nem berrava.
            Mesmo porque onde se viu elefante berrar!
          Bem. Que faz elefante: fala? mia muge ladra zurra pia, ai esses bichos... fala decerto, fala na sua linguagem paquidérmica. Nós, nós humanoides supondo perfeições, somos nós que não conseguimos decifrar a escrita. Pera lá, escrita não é possível, língua, admitamos língua. Seja. Fazia um barulho medonho o animalão.
            Cala a boca, desgraçado, falou falando baixo para não acordar vizinhos. Cala já já! imperou. Elão deste tamanhãozão sorriu inocência e ficou decerto se perguntando “o que será fiz ao meu amo, tão brabo”...
            Chegou mansinho aos pés de patas meio quadradas do presente (de grego é cavalo, a gente sequer sabendo se branco como o de Napoleão se cor de burro quando foge). O elefante se alegrou, apreciava deveras aquele homenzinho de cabelos espetados com seus bigodes que mais pareciam fios de arame preto, um risco de cada lado, e será (perguntou o monstrão) que não atrapalha para comer, gente costuma limpar beiços na refeição. Se alegrou abanando a tromba pra lá pra cá, interminável, ele quase hipnotizando o dono. Porém este não ofertou comida – ralhou com ele. Se não se envergonhava a gritar alto assustando os amigos; e se despertasse o guarda-noturno roncando... Cala essa boca, já falei!
            Voltou para a casa, escondeu o frio debaixo do cobertor, recomeçou a contar carneirinhos, perdera a conta na interrupção do elefante, recomeçou do zero, não, do primeiro carneiro, só mudou a cor, chegou a três mil e trezentos e duas ovelhas... eis o presente num bater patas ou a empurrar não sei quê lá embaixo. Parou. De contar. Xingou. Vestiu-se, ia lá de pijamas passar vergonha no possível despertamento da vizinha do quarenta e quatro! contudo foi com chinelos. Chinelo ao menos é calçado e vira arma quando a criança embirra. Qual menino o meninão de trombas.
            Seu (falou um impublicável embora baixinho, educadamente) não disse para se calar! Mexeu a tromba sem entender. Calar não é apenas ausência de falar: subentende-se não fazer barulho algum! É isso. Quer chinelos? (Pensou o bichão: como calçá-los, todavia não respondeu). Psiu, nada de derrubar coisas, barulhar o ambiente. Isto é um condomínio. Após as vinte e duas horas silêncio, ou terei problemas (pensou vizinha do quarenta e quatro). Estamos entendidos?
            Puxou a coberta de novo, antes, aproveitando a segunda levantada madrugadão, puxa já tem galo avisando, foi urinar tomar cafezinho, dizem que café corta o sono, pôs cobertas, repôs, recomeçou três mil e quantos? recomeçou então por via das dúvidas do terceiro milésimo cordeiro. Entretanto não chegou a cinco mil, lá o elefante se raspava não encontrando jeito para dormir.
            Desceu a ensinar com quantos paus se faz uma canoa e outras verdades; não dorme? conte carneiros, não se aproveite de minha contagem já adiantada, conte da primeira ovelha em diante. Antes de falar isso xingou a mãezinha, no caso uma enorme ‘elefôa’ (ou elefanta?) vivendo na África longíssima de longínqua. O filho não entendeu a ofensa, o que teria feito mamãe: onde estaria naquelas horas, madrugada, já se ouvia cucurucus e uma que outra condução rolando lá fora. O amo esfregou os olhos, pregou sua moral burguesa, a tromba quase foi ao chão, arrasada... Ah meu Deus, essa não, pensou o homem: quer ver que tenho de levá-lo agora ao analista tentar vencer o sentimento de culpa! Andavam agora pesarosos, tanto o ofendido quanto o ofensor.
            Pera lá, meu nego: amanhã, amanhã não, é sexta, sábado levo você ao circo! Tem pipoca tem sorvete tem palhaço. Abriram a janela do quarenta e quatro e o homem pensou (levo sim essa porcaria ao circo, pra ficar lá mesmo!) mas não disse coisa alguma, somente reafirmou a chantagem na forma: silêncio é igual a circo. Sorriram tromba e boca.
            Boca fechada, subiu mansinho pra não despertar suspeitas, foi contar carneiros, pôs o pijama a coberta e recomeçou do cinco mil e um, por faltar certeza onde parara. Do cinco mil e dois em diante não vinha mais carneirinhos nem o sono. Iniciou a rememorar sua desdita, a se distrair, até que chegasse o maldito despertador avisando acordar; passou a rever no cinema da mente sua vida toureando um elefante, desde que o recebera de presente natalício, quem seria seu inimigo... não se lembrava. Lembrou-se das mamadeiras, dos brinquedos trazidos ao elefante, a tentativa de matriculá-lo no jardim da infância, tudo frustrado, haja vista fosse ainda analfabeto; a luta para empurrá-lo a brincar com os outros meninos e o pior: o relacionamento com as pessoas dos apartamentos vizinhos (imediato ouviu na memória a matraca do quarenta e quatro). Desistira andar com o elefante nas ruas, fora vezes levá-lo pastar no terreno baldio, mas e a encrenca no trânsito, as buzinas, o grilo fardado implicando querendo multar!  No entanto o pior era não poder sair sem uma pazinha, pazinha? um tonel, a recolher as fezes do garotão (a do quarenta e quatro queria, exigia, que enxugasse o xixi também, imagine-se como era louca a senhora, é louca). Comida, se afundava no supermercado e mais no pendura da vendinha no bairro. Ah o inimigo, maldito sujeito (e se fosse a tia!) maldito quem lhe dera o presente! Agora contava muitíssima ovelha para dormir... onde parara!? parecia cinco mil, cinco mil e quantas? Uma soneira... Porém havia ainda o pior do pior.
          O pior é que o despertador não sabia nadinha do drama.
Marília   novembro  2002




24° - Incertezas Conjugais
         
        Não teve jeito. Ou melhor, parecia não ter mais solução o impasse no lar... Ele teimava em não ser teimoso, ela não teimando mas era teimosa. Mulher, dizia ‘o’ cara-metade à sua metade outra, mulher estou arrependido pelo que eu fiz, me arrependo do dito de ontem, troco se quiser o dito pelo não dito, pronto. Ela sequer se movia. A rigor nem olhava ao homem, o homem é quem a rodeava ficando em frente de si a pedir, pedir! não, implorar quase o perdão. Nenhuma situação mais pungente que a cena de um machão de antanho a implorar o esquecimento de dívida. Sim porque o sujeito se achava endividado perante a consciência; decerto havia ferido a companheira num desses momentos infelizes nos quais nos deixamos levar pela boca afoita, despejamos asneiras ou menores besteirinhas sem pensar na extensão da ofensa. De fato ofensa, a senhora não parecia irritada porém adotava certamente como represália uma tática terrível pelo seu alcance que é ou a indiferença ou a mudez, a aguardar talvez não a vitória fácil entretanto a vitória real pelo rastejar do outro, se humilhando inclusive. Era o caso. O homem rodeava sua esposa, ele a tinha por esposa, não se sabendo se ela o aceitava como esposo; o fato era estar alheia e infensa aos ataques amorosos do indivíduo; não reagia às carícias ofertadas; pior que isto isso: não respondia ao seu interrogatório, interrogatório aqui no bom sentido pois que uma imploração. Ela impassível. O pobre olhou novamente para aquela mulher ou teimosa ou irredutível; se conhecendo mui pouco de suas razões, em pensar até no uso inadequado dum ou doutro vocábulo ou apenas mero deslize, desses que provocam revolta no efendido, ofendida neste caso, desses enfim que não têm mais arrumação. Não obstante ela não se mostrava ferida, ou apenas a usar tática de fazer o companheiro sofrer não respondendo... Desesperou-se mesmo o homem, por sua própria insistência, embora falasse baixo para quem sabe não expor intimidades conjugais aos ouvidos vizinhos; sim tanta insistência dele mesmo e igualmente tanta irredutibilidade da senhora, uma senhora inclusive bela e com expressão de anjo apesar de estar zangada, devia estar realmente contrafeita, ao menos ferida no seu ser, agindo assim; a bater o pé na teimosia de não falar e não responder ao consorte, ele a admiti-la por consorte, enquanto ela quem não abria de jeito algum a boca (que fosse a se defender!) não respondendo ao coitado. Por fim foi além no desespero o marido: saiu furioso ao bar, o bar que na razão delas as mulheres veem de maus olhos seus homens frequentar. Chegou pediu umas e outras, bravateou, desabafou com os amigos, pagou mais uma aos colegas e já embriagado destravou de vez a língua, não dizendo intimidades para não sujar a moral de sua esposa mas contando as atitudes de negação de sua companheira, corrigindo a tempo para mudez, a ficar mais com a verdade e em paz de consciência. Quase chorou, não chorou nos ombros amigos: tornou ao lar. Aí a senhora, bonita sim, de expressão angélica sim, não abrindo a boca! Não seria de enlouquecer, um dos esposos desejando perdão e se dispondo inclusive a atos humilhantes no implorar se não o amor dela o perdão (o esquecimento da ofensa já doutro departamento a que os seres humanos não têm acesso) o perdão pelo menos... mas ela irredutível ainda, ainda não respondia. Rodeou-a mais uma vez, a farejar; acariciou seus cabelos louros, beijou, desajeitadamente beijou, aquela face que amava... Contudo parecia estátua a dama. Esgotados todos os recursos do parco vocabulário masculino, o macho da espécie enfezou-se: deu-lhe um ultimato – ou  ela respondia, mesmo que não o perdoasse, aliás ainda não sabendo o infeliz sequer onde e em que havia pecado; ou ela respondia ou ele devolveria aquela fêmea muda ao estabelecimento ao qual servira como manequim na vitrine. É possível que fosse mesmo teimosa, porque no outro dia o manequim de gesso mostrava a costumeira expressão de anjo na loja de tecidos; enquanto o homem afogava suas mágoas pagando mais uma aos amigos no bar.
Marília   abril  2006






25° - Invasão

Sabia que eles haviam chegado. Todos sabiam. Todos pensavam que todos soubessem. Estavam lá. Sentiam-lhes o cheiro, o som estranho, a movimentação desusada naqueles recantos; depois cessou, tornou-se o quase nada imperceptível, o limiar do inaudível. Só a visão foi poupada por timidez da família; talvez fosse por causa disso.
        A família escondidinha. E as horas se passavam, quietas, irresolutas, inexoráveis. E já todos dominados; um planeta inteiro dominado; a família também dominada pelo temor. Paradoxalmente o pai era o mais medroso.
        Percebeu primeiro a catástrofe, vira com o sexto sentido, que é moléstia da condição humana; não precisou ver direto. Fora suficientemente eficaz a determinar como chefe familial o recuo de todos os seus, num juntar badulaques e quinquilharias básicas, a fugir à fortaleza debaixo da cama; afugentados na tulha do meio rural já por si inóspito nas lonjuras. O garotinho de calças à meia perna ainda cismou guardar também o Lilico, vira-latas assustadiço de pancadas a três por dois; a menina maiorzinha que a irmã do meio e mais a outra, não esquecendo ela o seu gato, contente das quenturas humanas a quem repartir também pulgas; mamãe medrosa como requer, prática no de comer e agasalho para as crianças em tempo de futuro ‘imedível’; ele o pai provido de ordens, do esconder embaixo da cama patente velhinha e ‘ringidora’ aposentada de visitas, provido também das últimas coragens para ver o que não ver, por frestas bem feitas e comuns numa casa pobre e agora abandonada; ele todo ouvidos a escutar barulhos habituais das aves fugindo espavoridas, zurrar da mula pisada no trabalho do arado; enquanto o Lilico aqui pertinho e quentinho junto dos meninos sem latir com medo ou por feliz. Certamente temeroso. Medo, todos com medo. Medo terrível deles.
            Não tiveram piedade cristã. Quem disse devessem ser cristãos! não deviam ser, nem tinham piedade; longe disso, arrasaram a tudo! seus raios mortíferos consumiram a roça seca, o milho crepitando no vento e no fogo, a casa... ah a casa, não deixaram pedra sobre pedra, mas não havia pedra, queimaram a madeira velha, banquinhos toscos, a mesa de caixão de querosene, nem mesmo pouparam o fogão caipira as cinzas espalhadas por tudo, as selas no quartinho de chão batido das crianças ao mesmo tempo sala de visitas a receber compadre João, o Firmino e os outros. Teriam matado igualmente os infelizes? Decerto que sim, nada respeitavam. O mundo ia se acabar, com certeza já andava acabando, porém todos os seus debaixo da cama. A residência é que não estava bem; nada deixaram, se houvesse muito a estragar, e tudo é um tesouro aos pobres: a canequinha esmaltada de ‘guarápa’ matinal, a chaleira pretume de fumaça anos, os pratos de louça lascada e vagabundos, os talheres grosseiros; e os mantimentos da última compra na venda – queimaram tudo, não havia complacência; a cozinha de pau a pique, restos de barro seco espalhados no quintal imundo; o sapé da cobertura, ah o sapé... impiedosos monstros destruidores. Agora a calma.
            A paz descia sobre escombros, se paz fosse aquilo: a anulação da vida. Porque em tudo há vida, na panela amassada, no banquinho de três pernas feito pelo tio Pedro, o fio de arame secando o charque e a linguiça na fumaceira acima do fogão – em tudo há vida; mesmo nos animais, a besta solta por aí ou morta. As vacas do patrão parando de mugir, agora pra que ter dinheiro e fazenda quando tudo foi eliminado? o patrão e os outros, deviam ter fulminado a todos, a tudo.
            O pai era bom medroso; sempre encarava a garantia, lutara pela proteção da família; um tanto ranzinza e preocupado, pretendendo a cada minuto impedir desastres miúdos aos seus; não conseguira evitar nem adivinhar a chegada não desejada daqueles seres estranhos. Agora já haviam chegado; e abusado de tudo, destruído em segundos, não esperaram o sol nascer. Acordaram o chefe da família; expulsaram os pobres diabos pra baixo da cama velha e acabada na tulha frágil inexpressiva mas poupada.
            E se apossaram dos bens quantos existiam, mataram rebeldias, controlaram a Humanidade, supõe-se. As hordas de milhões de corpos quase sem cérebros. A máquina infernal parando a iniciativa do ser humano, a forçá-lo ao trabalho nas atividades passivas, abelhas de dois pés e uma cabeça de miolo reduzido e sem expressão. A construir para quê?
            Então chegaram para ver a obra consumada do nada restante. E depararam-se com o magro chefe de família.
            O que havia dado ordens da proteção debaixo da cama. O que havia estabelecido uma disciplina de guerra naquele canto de vida. O que havia determinado aos seus não sair da fortaleza; ah como é difícil prender crianças por tanto tempo! O que havia disposto aqueles lugares mais perto da parede de lasca de aroeira, para os meninos. O que tinha lançado olhares fortuitos em defesa da prole ameaçada. O que havia constatado o casebre arder nas chamas coloridas. O que havia sofrido o drama da vivência com os filhos por horas e dias imensos, amostra da eternidade que é a brincadeira preferida do Sol. O que havia solucionado problemas pequenos de grande extensão. Ele. E a família e os outros, a saber: o cachorro e o gato dorminhoco, e mais o urinol de todos momentos, os jornais de embrulho cheios de matéria defecada atirados ao longe sem despertar suspeitas e atenção dos invasores.
            Chegaram para certificar-se da obra destruidora. E se depararam com ele; assim de pequeno diante deles. O comandante do grupo encapuzado e estranho sorria ou estava circunspecto, ares de vencedor; e aproximaram-se dele, isolado a defender os seus, e apontaram aquelas figuras monstruosas seu instrumental ao infeliz; e dispararam sem mais, porque nada mais havia.
          E assim ficou parado ou andando lento, por não saber o que fazer, sem sentir. Parecia toda a galáxia contra um só homem pensante. Todavia agora não pensava, não tinha importância. Passivo igual bilhões no planeta. E se apresentou e foi chamado pelos seus, entretanto já não existia com a mente destruída, porque somos mentes. Ficou à mercê da esposa prática e dos filhotes imaginantes cheios da fé inabalável na vida; para ele os filhos foram a esperança, agora não sabia mais disso.
Ribeirão Preto   setembro  1979

 

 

 


26° - Antro de Cegueira


            O sol ainda não brilhava porém a mostrar suas feições alegres como promessa. Ela era uma promessa, pensava estar grávida; devia estar esperando. Cantarolava. Comunicar a ele... Como receberia? E se não fosse, sendo falso alarme. Contar ao marido. Claro é o primeiro a saber. O último...
            --Oh querido ainda não saiu? Que bom... tenho algo para dizer-lhe. Realmente disse, ele no pensar que fosse algum recado a dar, algo a trazer para casa tardinha. Ficou absorto e surpreso, depois alegre e saiu, eufórico... no caminho terá feito mil planos, doutorado o filho, esqueceu-se mesmo dar nome ao primogênito. Passou o dia no meio dos funcionários da fábrica se esquecendo inclusive dar ordens, lembrando e pensando no seu herdeiro; escolheu mentalmente João que era o nome do pai dele; João Paulo, homenagem ao pai e ao avô por atacado. Ele se deslumbrava abobava-se introspectivo. E se fosse menina. Passou o final da tarde pensando um lindo nome feminino, evocando parentas; um nome de artista... ah isso seria com ela, ele não lia revistas nem ia ao cinema. Ela.
            Ela passou o dia cismarenta. Precisava ver Lúcio. Como já haviam passado as férias, ele se fora, engendrara aquele serzinho na barriga dela e voltara àquela tonta da esposa. E se ele viesse numa escapulida. Escrever seria perigoso. Ruminou como pôde. Até achar a solução.
            A solução chegou ainda eufórico, fazia cinco longos anos que esperavam uma criança, pensava a mulher ser estéril; ele impossível; impossível saber, nunca passaria a vergonha indagando ao Dr.Mário, o médico da firma, aí todos saberiam... Mas que bobagem e perda de tempo: João Paulo estava encomendado, Doutor João Paulo...
            --O que você disse, benzinha (não adornava a mulher, mas agora a mãe do Doutorzinho merecia carinhos e tratamento decente, ‘benzinha’). Ela respondeu submissa (ler agradecida, porém o esposo era quase analfabeto na linguagem do amor): -- eu pensei em você para convidar ele. Quem? ora bolas, ao Lúcio. Ele ficou abobalhado outra vez, ela reforçou a coisa, inventou ter sabido sobre uma indisposição no pobre rapaz; era velho amigo da família dela, costumeiramente um freguês de férias, passava todo fim de ano ali com eles, trazia às vezes seus filhos; agora era fevereiro, Lúcio se fora fazendo apenas dias... Coisas de mulher grávida decerto, pensou e não disse o marido. Falou à Benzinha que certamente o amigo não viria. Chegou uma semana depois. Agradeceu ao consorte da Benzinha. Ele andava mesmo ruim dos olhos.
            Abraçou o marido, beijou constrangido a mulher do outro, levantou os óculos escuros e lamentou:
            --Ah meu amigo, como é duro ser cego! Gostaria poder enxergar toda esta gente que só me dá carinhos. O esposo não aguentava cenas com excessos sentimentais, despediu-se do homem beijou a mãe do Doutorzinho e saiu correndo seu atraso ao serviço, porque o último que se deve atrasar é o chefe. Ficaram a sós, mamãezinha e papaizinho cego. Foram ao quarto dela.
            --Faz poucos dias, falou a senhora, no entanto pra mim um século; não aguento este mato, meu bem. Chorou, se abraçaram, eles quase se sentaram por cima dos óculos dele brincar de cego. Olhou aquela beldade loura oxigenada, gostava sim dela, melhor fêmea que a pobre mãe de suas crianças; contudo ainda preferia a outra amante da cidade. Ela não sabia da amante, tinha ciúmes só da esposa. Não mostrou ciumeira porém, andava demais ocupada a lamentar aquela vida rude, aquele marido ingênuo roncando no quarto dele, aqueles capiaus da vila querendo bisbilhotar em tudo, aqueles criadinhos da casa, entre os quais só Maria se salvava. Todavia não contou imediato por que chamara o amado. Finalmente falou; o sujeito não se tornou eufórico como o pai do Doutorzinho João Paulo, não; apenas se indignou. Por que ela deixara de se precaver! era preciso dar um jeito na coisa antes que se avolumasse, quem sabe umas beberagens, uma velha parteira para fazer o serviço; tudo ficaria como antes, ela não concordava? Não.
            --Não, disse a lourinha. Quero o nenê. Aquela porcaria não me engravida, tenho asco até do bobo, fujo do quarto dele e não entra no meu. Só você. Dessa forma estará sempre em mim. E chorou inconsolável. Ponto pacífico. Agora era viver uns dias nas férias extemporâneas com ela. De dia enquanto o esposo trabalhando; à noite enquanto ele dormindo. Continuaria cego para o cego esposo dela. Ora que diabo! ela era muito exigente e demais apegada; soubesse de seus casos amorosos morreria... Semana de amor. Lúcio não se interessava exageradamente pela mulher e nada pelo feto, entretanto não se joga fora umas férias eventuais daquele tipo. Discutiram umas particularidades de suas relações e mesmo o nome da criança, o enxoval era sem qualquer interesse a ele e assunto de fêmea. O nome da criança...
            --Querido, foi bom haver chegado. Me deixa dinheiro para comprar material, quero eu mesma fazer o enxoval de nosso filho. Ele sorriu com os olhos. Se fosse Doutorzinho era azul já sabia; se fosse garota, rosa, também sabia. Não sabia que ela sabia o nome.
            --Que acha de homenagear nosso amigo Lúcio... Ele se chocou, nunca pensara em pôr esse apelido no Doutorzinho. Ela era demais caprichosa e teimosa, não adiantava contrariar uma quase parturiente... Enfim no que muda a alegria de um pai com a troca de nomes? Aceitou Dr. Lúcio, Lúcio sendo por sinal um bom amigo. Pena que o infeliz nunca pudesse ver de fato o filho de Benzinha e dele; ao menos ouviria a homenagem. Inclusive propôs escrever à cidade para que o amigo soubesse da homenagem; seria o padrinho do garoto; por que ela não pensara nessa honra enquanto a estada naqueles dias ali com o casal? Escreveu. Feliz, imaginando a alegria de Lúcio ao receber a carta. Este respondeu imediato pela mão de sua consorte, agradecendo. Infelizmente não poderia ir para o parto, somente conheceria o Lucinho nas férias do fim de ano. Agradecia assim mesmo a homenagem e também o convite.
            O tempo passou. Benzinha engordou, estufou, ficou chata, bem mais chata, o esposo tornou-se ainda mais tolerante. A vizinhança comentou mais, a criadagem mexericou melhor, o médico também veio mais vezes em casa deles; até o padre apareceu a dar suas bênçãos e a ganhar um fielzinho no porvir. Ela lamentou o suficiente e deu à luz, auxiliada por uma velha e depois de novo pelo médico da empresa, este aparecendo com o pai oficial de Lucinho. Chegou mais tarde Lúcio enfim, primeiro veio seu filho saindo da barriga dela, depois é que veio o pai do filho, um padrinho no gozo de férias; porém não trouxe os irmãos de sangue do Doutorzinho Lúcio. Assim mesmo mamãe ficou feliz, mais feliz até, pois a molecada do amante irritava. Novas férias.
            As férias naquele monótono vilarejo acabaram, o pai presuntivo do Dr. se atrasou muitas vezes ao serviço, prerrogativa de mando, voltou muitas vezes ansioso pelo filho temporão, despediu-se do amigo mais duas vezes, o amigo cego que batizara seu herdeiro tardio apertou-lhe a mão, prometendo voltar no próximo ano. E voltou.
            --Querido, que horror! O padrinho de nosso garoto caiu do cavalo... Dessa vez bateu a cabeça e ficou de fato cego, não adiantou a botica e o padre, não adiantou procurar o médico. Foi de molho para o quarto do marido, ela ficou no dela ensinando o bebê a falar, o esposo passou a dormir na sala. Saiu atrasado ao serviço. Ela foi carinhar o doente irritado e a descansar. Este voltou para sua esposa, a tonta, e não pôde mais achar a amante urbana por estar realmente cego. Nem pôde voltar ver Benzinha com sua cria: a rigor não iria poder mais enxergá-la mesmo. E ela...
            Ela ficou só, na companhia do ingênuo esposo. Muito só.  Lucinho não era dela, era mais de Maria; depois seria mais da escola, posteriormente mais dos amigos ao fugir das aulas. Benzinha deixou ser Benzinha, era tão só a patroa de Maria, esposa dum chefe ocupado e preocupado. Envelheceu engordou ‘balofou’, sempre oxigenada. Tomou o espelho, presente do passado amásio. Não conseguiu ver sua feiura nem sua velhice cansada. Estava cega.
Marília   agosto  2001
27° - Ação
         
        Parecia até ingênuo. Ao menos tomou atitude ingênua. E tem aquela estória da velhinha também. Ingênuo lento tímido desajeitado realmente, provocando gargalhadas entremeio risos educados, forma mais caridosa de fazer o mal que certamente o riso gritado e gozador, avermelhando a vítima. Ingênuo a ponto de expor o malfeito com naturalidade possível sem pretender ganhar ou ser o primeiro a levar o prêmio. Assim, no acerto dos erros perpetrados no dia, falou: “minha má ação principal foi passar de carro chispando temendo a chuva iminente, sem ofertar carona para duas crianças aguardando ônibus à aula...” E após crivado de gracejos e motejos ferinos e irônicos e o olhar desaprovador do Presidente, se defendeu: “o coletivo deles andava atrasado”  “conheço os meninos, pior ainda, são meus alunos...” “eu não tinha quase pressa, na verdade.” Calou-se. Estava reprovado pelos olhares dos maiorais, pela vaia dos companheiros apinhando a sala de sessões; sentiu, mas talvez exagerasse, sentiu confabulações e críticas mordazes e à boca pequena, se calou. Se pudesse criava um buraco ali, fugia para dentro do buraco, quem sabe mesmo tapasse olhos e ouvidos! Quis arriscar uma defesa, como sempre entretanto ficou no campo da imaginação e não transformou argumentos em defesa sonante, embora na imaginação chegasse à tonitroante à estapafúrdia e à violenta. Bem envergonhado, calou-se. Diria, se dissesse, que pisoteou carreiro de formiga ou haver chutado um cão a ladrar, ou ter falado um que outro nome feio na rua. Concordou consigo mesmo (na linguagem da imaginação ele era o feroz atacante e o infame atacado ao mesmo tempo) aí, tendo dito a si próprio peremptoriamente: “Cala a boca!” Calou.
            O Presidente limpou a saliva a escorrer furtivamente dum lado dos lábios, deu um murro na mesa um urro na sala, impôs silêncio e completou: “esta reunião sagrada não é para baderna mas tão só a apurar o que os ilustres companheiros bem fizeram de mal.” Após o que, indicou outro concorrente. Nada falando daí por diante o chefe, no entanto estava ao centro de longa mesa, onde à frente uma faixa esclarecia – ‘já praticou sua má ação hoje?’
            Veio o indicado. Depois outro, outros tantos quanto quisessem, havia um princípio de liberdade e democracia, quase igualdade e com certeza fraternidade. Falaram em assassinato blasfêmia adultério roubo falatório corrupção sonegação desocupação prevaricação, insistiram em falso testemunho e desobediência, em política governo banco e muito imposto; vez por outra registrava-se um roubinho a galinheiro ou uma afanação barata, à facada desfalcando amigo e também nalguma falcatrua inocente para descontrair o auditório e desarmar torcidas, e para acabar tudo em pizza se possível.
        Contudo as manifestações não desarmaram, não contiveram o alvoroço no público; andava solta uma sanha de disputa e a calma não chegava; o Presidente, moço belo e voluntarioso, levantou-se e fez sinal mostrando a faixa na frente da mesa, apontou novo concorrente.
            Esse figurante expôs a estória da velhinha que não pretendia atravessar a rua e foi obrigada a isso por quatro aprendizes de escoteiro. A turba se inflamou em vez de rir com a anedota. O Presidente teve de se antecipar na divulgação do resultado das melhores nas piores más ações praticadas, para acalmar ânimos. Anunciou ao auditório, a todos portanto, que o próprio auditório houvera praticado a pior ação: ou seja a desordem.
        Aí, enquanto se media o desfecho provável da sessão, o ingênuo, armado da timidez e da lentidão, desajeitadamente inventou um buraquinho dentro do buracão anterior, mais profundo. Sumiu nele.    
Ribeirão Preto   março  1993




28°  - Memorial: Extratos Etêticos           
         
        Naturalmente não fui besta a esperar reação na descoberta da descoberta que fez, agora registro. É que nunca se sabe a reação dum etê. Esperei, prudente, que se fosse onde fosse, partisse, sumisse pra dar à luz a luz que deu no visto neste louco, disse louco, planeta. Mais ou menos assim, nada no rigor científico; mesmo porque já se foi, nada se comprovará mais.
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        Vi e estudei bastante animais neste mundo selvagem. Entretanto nenhum feriu-me tanto a sensibilidade como o bicho-casal. Parece-me até que dão os selvagens deste lugar esse nome, embora em cada região se pronuncie diverso o mesmo vocábulo. A crônica planetária tem certo como haver existido mil e uma espécies antes e ter outras mil e uma agora – são monstros como o dinossauro e o tigre, uma infindável relação; alguns dos animais me parecendo horrendos e primários, horrorosos, medonhos. Catalogarei os tipos, se possível enviarei amostras arroladas deles.
            Quanto ao bicho-casal vale a pena tentar descrevê-lo, por importante e por estar, embora em vias de extinção como ocorreu com o dito dinossauro desaparecido, por estar dominando o mundo neste momento, dando impressão seja da espécie gente.
          A questão mais grave no bicho-casal é o fato ter duas cabeças. Volto a este aspecto logo.
        Tem quatro olhos, quatro braços, quatro pernas; com equivalentes dedos superiores e inferiores numa ordem de dez e dez, vinte dedos, dos quais separei os do alto mais finos e compridos, os debaixo curtos grossos nos pés, o bicho fica de pé e esticado meio em arco, as cabeças lá em cima, nalguns com mais de três ins àcima do solo! Os braços, os quatro, são longos e desiguais, uns mais delicados e menos peludos, outro par peludo grosseiro e violento. Aliás é característica do ser a violência. Nas cabeças os olhos são às vezes penetrantes e odientos, numas poucas vezes e com pouca frequência mansos; sendo por vezes, isto é notável, composto o animal por um par manso outro odiento e vingativo. O interessante é não se trucidar as partes, tão díspares, talvez presas por ímã invisível mesmo ao nosso penetrar.
        O corpo do bicho-casal é curioso, no sentido anatômico. Porque por dentro são tripas minhocas novelos sanfonados cheios de detritos malcheirosos, impossibilitando ficar-se perto posto no avesso o corpo do bicho! Impressiona essa inferioridade. Tudo regado a líquidos e humores, fluidos, mais ou menos mal cheirosos quase sempre de cor avermelhada. Tanto possui o bicho-casal tais fluidos que oitenta por cento dele é líquido, até na ossatura tida por sólida, pois tem um esqueleto ósseo que o mantém palpável e ereto; se espremê-lo como um todo dará para carregar, extraída a parte líquida, num pequeno e leve embrulho de compras (isto é um dado interessante nesse ser: ele compra de tudo, tudo quer para si; compra coisas e consciências; extremamente egoísta!)
            Isso por dentro. Por fora: um amontoado de peles de várias cores, às vezes preto num par, com cabeça membros e corpo-parte todos pretos; e na outra parte do bichos cor branca ou amarela – tudo no mesmo bicho, o que dá um efeito colorido interessantíssimo. Ah antes que me esqueça: cheira terrivelmente mal este bicho! a tanto que inventou perfumes a atenuar aquilo que fere mesmo suas próprias narinas... A pele cobre tudinho, esticada, quando então se percebe cicatrizes por vezes, retrato da violência praticada e recebida e da falta de atenção. (Outros bichos não têm marcas assim, não sendo raramente, mais encontradiças realmente no bicho-casal). Esticada a pele, às vezes se encontra encolhida e enrugada. Tem mil deformações. Isto continuando a anatomia desse selvagem ser, a findar: uma parte do bicho tem uma protuberância, que por razões inexplicáveis entumescem endurecem e quando pretende explodir seus líquidos internos é a protuberância introduzida numa abertura da outra metade do corpo dele; ali vomita seus desesperos a protuberância e sai de lá mansinha pequena envergonhada ou satisfeita sonolenta ou embebedada. A parte receptora depois incha e vomita por sua vez expelindo filhotes, poucos, um ou dois, muita vez mortos: são filhos do bicho-casal, estranhas criaturas por choronas e frágeis. Concluo o bicho-casal ser hermafrodita! A propósito deste despropósito: registrei que o animal está em extinção; cada vez o bicho dá menos cria. Da cria que se salva o bicho-casal ora manda para a escola a aperfeiçoar a loucura, ora manda a produção ao matadouro, parace-me chamam “guerra”, que é um desentendimento entre casais de várias partes do Planeta, subjugados pela liderança infernal de alguns poucos bichos-casais aperfeiçoados no egoísmo. Assim está, me parecendo, decretada a extinção dessa subespécie.
        Fui obrigado a estender-me no fenômeno da extinção; contudo já dei uma amostra do caráter estapafúrdio e esdrúxulo do bicho-casal, o que, suponho, vem exatamente da existência das duas cabeças no animal.
        Torna-se quase impossível mas é ao menos difícil entender as cabeças. Entendêmo-las pelos seus atos e dizeres, os efeitos. A causa é sempre o apodrecimento ou imaturidade cerebral. Ele tem dois cérebros. Observem: um determina o falar demais; o outro a falar menos e também bobagem. Ora, como vive o bicho-casal nessa contradição! uma boca que fala muito; outra não fala ou pouco e mal. Pior: os atos são contraditórios, como narrei no bicho-burro um puxando o veículo para ‘a’ outro para ‘b’. Não acho semelhante, é igual.
            Existe um estado pior nesse pior que são os atos, imprevisíveis, determinados pelos dois cérebros, passados às duas bocas e às quatro mãos. Trata-se do seguinte – tudo é repassado às vezes ou quase sempre para as crianças. Realimentando uma cultura que chamam, creio, civilização. O nome é bonito, deturpado entretanto.
            Tem mais? tem. Muito mais. Mas ando extenuado nesse estudo. Nossos mestres pedem meu retorno. Fa-lo-ei amanhã.
-  -  -
            É isso. Essa a constatação. Defeitos e méritos? dirijam a critica ao etê que fez o estudo. Passo, escriba, apenas à nossa linguagem, esta sim podendo ser sofrível; podem me cacetear, atirar pedras. Nem por isso devo virar santo, não existe o negócio de atirar pedras em santo!?
Marília   fevereiro  2003
29° - O Presente

            É passado. Sumiu no tempo; quase da memória, piormente não deixando saudade. Tem coisas que o ser humano quer esquecer põe debaixo num de cima. Mas, argumenta-se, não deve estar presente um presente? deve, não se deve esquecer também a pessoa que oferece as coisas, pois que sempre a gente se dá com aquilo que se dá; dá-se a si mesmo quem deu algo; por mera ingratidão da memória nos esquecemos ou transmutamos João ofertando a joia ou em Joana quem deu o beijo. Mistura lá dentrão o cinzento da massa. Ou terá sido a vizinha a tia ou o compadre. Contudo o presente está no pátio berrando (aqui um exagero) berrando presença pretensamente a agradar-nos. Não agradara, nem berrava.
            Mesmo porque onde se viu elefante berrar!
          Bem. Que faz elefante: fala? mia muge ladra zurra pia, ai esses bichos... fala decerto, fala na sua linguagem paquidérmica. Nós, nós humanoides supondo perfeições, somos nós que não conseguimos decifrar a escrita. Pera lá, escrita não é possível, língua, admitamos língua. Seja. Fazia um barulho medonho o animalão.
            Cala a boca, desgraçado, falou falando baixo para não acordar vizinhos. Cala já já! imperou. Elão deste tamanhãozão sorriu inocência e ficou decerto se perguntando “o que será fiz ao meu amo, tão brabo”...
            Chegou mansinho aos pés de patas meio quadradas do presente (de grego é cavalo, a gente sequer sabendo se branco como o de Napoleão se cor de burro quando foge). O elefante se alegrou, apreciava deveras aquele homenzinho de cabelos espetados com seus bigodes que mais pareciam fios de arame preto, um risco de cada lado, e será (perguntou o monstrão) que não atrapalha para comer, gente costuma limpar beiços na refeição. Se alegrou abanando a tromba pra lá pra cá, interminável, ele quase hipnotizando o dono. Porém este não ofertou comida – ralhou com ele. Se não se envergonhava a gritar alto assustando os amigos; e se despertasse o guarda-noturno roncando... Cala essa boca, já falei!
            Voltou para a casa, escondeu o frio debaixo do cobertor, recomeçou a contar carneirinhos, perdera a conta na interrupção do elefante, recomeçou do zero, não, do primeiro carneiro, só mudou a cor, chegou a três mil e trezentos e duas ovelhas... eis o presente num bater patas ou a empurrar não sei quê lá embaixo. Parou. De contar. Xingou. Vestiu-se, ia lá de pijamas passar vergonha no possível despertamento da vizinha do quarenta e quatro! contudo foi com chinelos. Chinelo ao menos é calçado e vira arma quando a criança embirra. Qual menino o meninão de trombas.
            Seu (falou um impublicável embora baixinho, educadamente) não disse para se calar! Mexeu a tromba sem entender. Calar não é apenas ausência de falar: subentende-se não fazer barulho algum! É isso. Quer chinelos? (Pensou o bichão: como calçá-los, todavia não respondeu). Psiu, nada de derrubar coisas, barulhar o ambiente. Isto é um condomínio. Após as vinte e duas horas silêncio, ou terei problemas (pensou vizinha do quarenta e quatro). Estamos entendidos?
            Puxou a coberta de novo, antes, aproveitando a segunda levantada madrugadão, puxa já tem galo avisando, foi urinar tomar cafezinho, dizem que café corta o sono, pôs cobertas, repôs, recomeçou três mil e quantos? recomeçou então por via das dúvidas do terceiro milésimo cordeiro. Entretanto não chegou a cinco mil, lá o elefante se raspava não encontrando jeito para dormir.
            Desceu a ensinar com quantos paus se faz uma canoa e outras verdades; não dorme? conte carneiros, não se aproveite de minha contagem já adiantada, conte da primeira ovelha em diante. Antes de falar isso xingou a mãezinha, no caso uma enorme ‘elefôa’ (ou elefanta?) vivendo na África longíssima de longínqua. O filho não entendeu a ofensa, o que teria feito mamãe: onde estaria naquelas horas, madrugada, já se ouvia cucurucus e uma que outra condução rolando lá fora. O amo esfregou os olhos, pregou sua moral burguesa, a tromba quase foi ao chão, arrasada... Ah meu Deus, essa não, pensou o homem: quer ver que tenho de levá-lo agora ao analista tentar vencer o sentimento de culpa! Andavam agora pesarosos, tanto o ofendido quanto o ofensor.
            Pera lá, meu nego: amanhã, amanhã não, é sexta, sábado levo você ao circo! Tem pipoca tem sorvete tem palhaço. Abriram a janela do quarenta e quatro e o homem pensou (levo sim essa porcaria ao circo, pra ficar lá mesmo!) mas não disse coisa alguma, somente reafirmou a chantagem na forma: silêncio é igual a circo. Sorriram tromba e boca.
            Boca fechada, subiu mansinho pra não despertar suspeitas, foi contar carneiros, pôs o pijama a coberta e recomeçou do cinco mil e um, por faltar certeza onde parara. Do cinco mil e dois em diante não vinha mais carneirinhos nem o sono. Iniciou a rememorar sua desdita, a se distrair, até que chegasse o maldito despertador avisando acordar; passou a rever no cinema da mente sua vida toureando um elefante, desde que o recebera de presente natalício, quem seria seu inimigo... não se lembrava. Lembrou-se das mamadeiras, dos brinquedos trazidos ao elefante, a tentativa de matriculá-lo no jardim da infância, tudo frustrado, haja vista fosse ainda analfabeto; a luta para empurrá-lo a brincar com os outros meninos e o pior: o relacionamento com as pessoas dos apartamentos vizinhos (imediato ouviu na memória a matraca do quarenta e quatro). Desistira andar com o elefante nas ruas, fora vezes levá-lo pastar no terreno baldio, mas e a encrenca no trânsito, as buzinas, o grilo fardado implicando querendo multar!  No entanto o pior era não poder sair sem uma pazinha, pazinha? um tonel, a recolher as fezes do garotão (a do quarenta e quatro queria, exigia, que enxugasse o xixi também, imagine-se como era louca a senhora, é louca). Comida, se afundava no supermercado e mais no pendura da vendinha no bairro. Ah o inimigo, maldito sujeito (e se fosse a tia!) maldito quem lhe dera o presente! Agora contava muitíssima ovelha para dormir... onde parara!? parecia cinco mil, cinco mil e quantas? Uma soneira... Porém havia ainda o pior do pior.
          O pior é que o despertador não sabia nadinha do drama.
Marília   novembro  2002





30° - Diaventura         

            Um minutinho antes de perder o resto do tempo, um para esclarecer o título aí em cima feito comandante de navio que eu sei afundando nem ele sabendo, pobrinho. Seguinte, aqui trata-se do viajante intrépido, herói de novela fracassada, antecipando sabemos não passará de conto quiçá chegando a ‘tantada’, petitico. ‘Di’ é grego tanto como ‘bi’, bi-campeonato por exemplo que o time da gente nunca ganha; e se refere a dois, double, duplo, que sendo dose, é dose. No caso, caso tenha curiosidade a saber, saiba ser viagem. Viagem é viagem de ida e viagem de volta, portanto ‘di’ dos melhores se bem possa já adiantar sem estragar o final (nem o escriba com direito a saber) o final seja a volta sem volta! Tá explicado, prossigamos o começo.
            Um minutinho, outro. Num minuto já imaginava a Eternidade, a qual deve continuar com ‘E’ grande até se descobrir seu fim, aí banalizando em ‘e’ pequeno. A aventura! Pensou viajar viajar viajar, viajar é deixar despojos indesejáveis pra trás, é um pra-frente por excelência. Pensou pesou pensou outra vez concluindo navio.
            Ah navegar, navegar é preciso, aventura transatlântica, imaginou o visto no cinema transportando ao cineminha lá de dentro dentro de nós, uma pulga uma formiga um inseto não seria capaz de ir tão longe no perto da mente, terão mente! Não mentiu não negou fogo a si, foi à frente. Bolou planos e mais planos, gastou papel ‘ó’ de bastante, ajudando assim se não o próximo dilúvio que dizem agora a Terra acaba em fogo fogo adora papel, amassou papel pôs no cesto tomou mais papel A-2 A-4 A-sem, o escambau. Encheu todas folhas, passou a limpo as menos rabiscadas mais menos ilegíveis, compulsou dados esquentando a maquininha japonesa de pilhas (fez conta duas vezes, bi-conta portanto para ter certeza nas dúvidas) olhou abriu estendeu no chão que era grande não o chão logicamente enorme grande o mapa: apontou marcou mediu distâncias para o ‘x’, xis é a meta, sempre foi era no seu tempo continua a ser e o futuro do mundo será ainda xis. Para a empreitada foi estudar, abriu enciclopédia preferiu a Encyclopaedia Britannica mais segura, leu a valer – chegou arre! às conclusões.
            O mar, ah o mar! dá vontadinha até virar poeta só para não dizer as coisas que sente. O mar, oceanos, transatlânticos, turismos, lugares, reinos, somos todos Colombos braços dados ou não.
            Próxima etapa. Agências de turismo.
          Voltou para casa murcho o Viajante Intrépido Herói de Novela Fracassada, não pelo fracasso, capaz! por falta do pagamento. Atrasado coisa nenhuma, curto. Somou, errou outra vez o extrato pois o Banco tem a primazia de errar primeiro, resumiu, gastou outra vez a maquininha de somar nipônica sim a pilha não vazara ainda; e concluiu brilhante inteligente pacientemente “não dá”, vencido.
            Vencido! mas não é Intrépido? não existe intrepidez que aguente um vencido. Foi para frente, largou o navio dos milionários em viagem de férias; não desistiu de viajar. Por teimoso.
          Teimou não tirar da cabeça o navio.
Voltou mil e uma às propagandas prospectos aos folhetos ganhos nas Agências (aí realmente de graça independendo do extrato e do banqueiro, banqueiro é tudo ladrón disse pensando portunhol). Releu viajou na imaginação, sentiu-se no transatlântico, viu a passagem sentiu os dólares nas mãos no pagar acordou tinha reais xingou o banqueiro. E justificou.
Gente tem um péssimo costume: a cada fracasso a cada ato errado que pratique todo minuto justifica horas para levar vantagem no País do Faz de Conta. Ele (lembrar o Intrépido etc. e tal da Novela este Continho do Vigarião) ele: também que diabo, disse-se “diacho” que é um santo dos infernos mais aceitável na sociedade e não fere nem brios nem moral, diacho: só poderia comprar mesmo passagem à prestação em dólar a três por um dólar e ainda ficaria no porão do navio, não poderia  poderia sim subir ao convés ver as meninas peladas ao sol tomando uísque com soda mas no meu camarote do subsolo nem o mar veria! pô, se não é para ver o oceano as águas verdes (serão verdes!) as ondas e um que outro tubarão sondando cruz-credo e ai que bom uma ilha tropical balançando seus coqueiros, se é pra ver e não vendo metido no porão debaixo da classe endinheirada, pô outra vez, não vou, não vou nem que me paguem!
Não pagaram e também não foi.
Não foi, justificou não ir, desistiu do navegar.
Teimoso não desistiu de viajar.
Pôs pés no chão. De repente, isso ocorrendo muito em literatura, que é a cartola do escriba sem querer lembrar o fariseu, de repente seu fiat lux a repor o personagem, em nosso caso o Intrépido Viajante no trabalho. Curioso, não havia o escriba pensado que o Personagem estivesse, estava a trabalhar. Assim, de repente está o sujeito viajor sentado num restaurante na beira da estrada, não propriamente na beira, que é dose agora tripla numa estória admitindo apenas ‘bi’ ‘di’ ‘dupla’. Encontra-se numa cidadezinha interiorana almoçando. O garçom é uma garota cheirando cebola e fritura, ajudante decerto na cozinha da mãe ou dona, ele gostando de cebola e de cheiro fêmeo ela uma gostosura e lhe serve umas gostosuras também do tipo arroz feijão bife abobrinha e ai outra vez! salada de alface; tudo limpinho 100% ISO 92 e não sei mais que na limpeza pois os funcionários tiram insetos que porventura caiam xeretando a panela com luva de borracha dessas cirúrgicas e varrem quase todas semanas a cozinha e o chão do refeitório; ela, garçona, não, garçonete, lhe traz mais arroz e propõe romeu e julieta na sobremesa mas o queijo não se encontra muito fedido e o indefectível cafezinho. Ele, ingrato, não vê não ouve não sente, só vê a bela, usada um pouco bastante bela, não pode ver ouvir sentir sentindo estar em plena viagem.
Não disse ser teimoso!
Viajando sim, em turismo de pobre. Aguentou ônibus de longo percurso, ônibus com sabor a jardineira, ônibus circular e usando o que der e vier: os pés, carona, mula, trem; não trem, o trem já havia acabado sabido que noutros países o trem mata o homem no seu o homem matou o trem não tem. Viajando de tudo. De tudo. No sonho.
            Uni-vos teimosos sonhadores poetas filósofos loucos, irmãos!
          Sonhou. Verdade quando a Bela o arroz o cafezinho o romeu a julieta é de mais ou estragado – dá pesadelo. Porém sonhou bastante.
            Voltou – cansado? pô, que pergunta idiota oh fariseu – voltou pra casa a refazer forças para – pasmem os muitos fariseus desta vida com poucos escribas de plantão. Pasmem, voltou já fazendo planos de viagem. E a completar loucura poesia filosofia fraternais: viagem marítima!
            Bedelha-se farisaicamente com que roupa iria o Viajante Intrépido ao samba não convidado. De fato, fartavam-se banqueiros extratos e reais três para um dólar dos verdes às vezes falsificados quem pode com essa gente!?
            Neste ponto entram: invenção imaginação teimação sonhação (outra vez? direito a pesadelo? Calma no Brasil o Brasil não é nosso, ele achando que o mundo fosse dele). O escriba esclarecerá as coisas, se as intervenções pararem não digo: se se espaçarem um pouco. Isto porque tem estilo que aguente! Vamos ao esclarecimento, sendo ele a II parte da novela com sabor a contão.
            Segunda parte dois pontos.
            Aí o Viajante Intrépido – está lembrado do Herói? – aí  se vai a um porto, volta de lá porque o escritório é na Capital e volta depois ao porto empregado numa companhia de navegação, o nome dela é estrangeiro o escriba não sabe inglês; ela pertencendo a uma multinacional, o que é bom ao bom do Herói, porque globalizado irá conhecer o mundo, tapeando os gringos, pobrezinhos, a lhe pagar o turismo. Veja-se, é possível levar vantagem em tudo reza o bem sucedido brasileiro, no caso o Herói Viajante Intrépido.
            Caminemos, diria o Viajante logo após atracar seu navio numa estranja tipo ‘república banana’ ou ‘quintal’ da Metrópole, o Viajante Intrépido não chegou a ir à Metrópole, que é também conhecida por Paraíso; não que não desejasse: não o deixaram, ou deixaram (entretanto isso ocorreu depois) ir sim a um porto pobre perverso podre ele já num hospital improvisado por... (depois eu falo ou você não vai mesmo querer ler a continuação que não é ainda o fim, vai? continuemos:) deixaram-no num outro pobre país.
            Tratemos agora, ou vira III Parte não existindo terceira neste contão que seria Novela Fracassada cujo Herói é intrépido, tratemos do como.
            Como foi a viagem? muito mar? muitas garotas ‘uiscando’ sua soda? muita ilha tropical balançando seus cocos? Sim positivo. Muito mais trabalho, o que não estava nos planos e papéis e nas maquininhas japonesas nessa altura as pilhas a vazar e não tem mesmo jeito vaza.
            A empregadora de Intrépidos uma tal, em bom português de periferia, uma tal Grandes Navegações Desenganos & Co., enfiou nosso Herói como foguista ou coisa semelhante nas máquinas. Não viu o mar; assim mesmo enjoou pra valer. Minto nessa verdade, viu, viu mar nos portos. Aí não encontrou a bela com cheiro de fêmea e cebola nem comeu arroz com feijão, romeu (que horror!) demais, julieta bastante. Pegou uns tormentozinhos venéreos como gonorreia e irmãs e primas da gonorreia. Deixaram o pobrinho podrinho num porto em certo hospital como se disse improvisado e bem oriental, que o devolveu quase a deixar o sonho de viajar a bordo. Depois? piorou. Médico de bordo, capelão de bordo. Atirado aos que rondavam o navio em noite escura por ordem do comandante de bordo, não se sabendo se havia mais que um tubarão.
          Continuemos?
            Amigo da onça ou a onça propriamente dita! Quer que o escriba, tadinho dele, continue! depois de matarmos o Intrépido Fracassado Herói de Novela e o contãozinho? Não pensou com quê cara o escriba enfrentará os amigos e parentes do sujeito... o que irá dizer a eles?

Marília   setembro  2003                                                                                






31° - Sumindo em Sumiço               
         
        Era esse instante do milênio, essa situação que virou aquela. Aquela a lhe constranger os contrangimentos, os contrangimentos dos quais debalde fugimos humanos. Mas não pensava nestes termos então, então comum pensando-se normal. No entanto não passava de Zé. De inusitado apenas haver perdido o nome, ao menos o conhecido por Zé Constâncio. Perdera outras desavenças, não perdera a mulher. Ainda. Não se perde em vida toda oposição; a oposição é quem arranjava vez que outra alguma complicaçãozinha a manter normalidade.
            Realmente desconhecia saber quando perdera, já havendo perdido tanto, quando perdera a tal de normalidade. O fato era ter perdido. Deixara de ganhar outros dados que fazem o hoje a semana o ano a existência. Agora entretanto era o inusitado. Não seria a perda uma perda! sequer podendo raciocinar em torno; somente constatar. Lembrava-se, aí nitidamente a seu pesar e desfavor, lembrava-se ir num sumindo aos poucos desavolumando encolhendo desfazendo quem sabe, quem sabe por desuso. Não sabia. Isto não tendo importância maior, não possuindo mais então – ao constatar o inevitável. O objeto ficara pequeno afinara encolhera apequenara sim, mas existia. Num belo dia (ah que burrice a expressão!) num belo eis que não achava mais o que já quase não via, diminuto, antes a diminuir. Bem. Bem, disse, tudo se conserta; e se argumentou, ou contrargumentou talvez, se argumentando assim: ora bolas eu não vivo? eu não existo? eu não sou não sendo mais ele!? Porque ele não existia mesmo... existira, ‘desexistira’ aos poucos no encolhimento, até que um dia, por que belo dia se indagou, nesse não mais conseguiu vê-lo. Se espantou sim; e sequer nos acostumamos humanos com os espantos, ele humano por definição (a oposição é quem às vezes punha na dúvida a verdade). Enfim se espantou ao não percebê-lo dependurado em plena manhã fria, o inverno sequer havendo iniciado mas isto senão do mais importante que era o desaparecer. Retomou, sentado no vaso sanitário ao fazer suas forças, retomou o pensar: e eu não urino! Agora se assustava todos os dias.
            Por causa disso, daquilo, daquela situação? Por causa dela. Olhava não via. Via, via sim um buraquinho. Teria o pobre se suicidado indo ao buracão guloso após uma descarga! podia ser que fosse; agora era o agora do instante do milênio do tempo, que poderia ser antes e teimava ser agora. Mas eu não mijo? voltou a perguntar e respondeu positivo a esse negativo. Não precisaria mais molhar pra fora ou na tampa, a feder sua fedentina. E melhor: a oposição não reclamaria a sujeira. Ela o apelidara Zé Porco. Perdera o nome, ao menos esse nome daquele instante para este instante do milênio no tempo. Sobrava o buraco. Só o buraco.
            O resto se perdera. Ainda não perdera...
          A oposição (e isto não se pode explicar) após tanto bater na porta arrombou a porta abriu a porta escancarou a porta para ver sua oposição sentada, inusitadamente calma no vaso pitando aquele cigarrinho. Piormente nesse melhor do instante: não abriu a boca por aquilo que viu (ou pelo que não viu...) só abriu abismada. A boca.
Marília   maio  2006























Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:




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