0139(postado no
Blog Livros Inéditos)
Aeroporto de Bruxas
e
outras péssimas lembranças
Contos
Moacir
Capelini
moacircapelini@gmail.com
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“A posição do escritor é a sua composição.”
Lêdo
Ivo
Minha
escrita pode não passar de um desabafo da poesia
para escândalo da filosofia e consumar a
loucura.
Índice dos contos:
1. Aeroporto de Bruxas,
pág. 5
2.
2.A Fria sem Frio, 6
4.
Obviodóbvio, 10
5.
Fotografia da Destruição, 14
6.
Existência Segundo Mateus, 16
7.
Fabulinha no Buracão, 19
8.
Facho de Luz, 21
9.
Pós-Parto, 24
10.
Associação dos Namorados, 26
14.
Trajeto das Coisas, 38
15.
Cadáver em Mãos Cruzadas ,
42
16.
Gota d’Água, 45
17.
Farizéia da Silva, 49
18.
Primeiro o desastre, ocorrência policial de trânsito;
e a sequência segundo o homem comum, 52
19.
As Solidões, 53
20.
Goiabeira, 58
21.
O Título Sou Eu, 64
22.
Lance Prosaico, 67
24.
Porcaria, 73
25.
Choque sem força, 79
27.
Final de um Reinado, 83
28.
Na Oficina, 87
30.
Indiferenças Individuais, 95
31.
Corpo Eterno, 99
32.
Reverso do anverso Reverso, 102
33.
Empeços à Carne, 105
34.
Começo e Epílogo, 108
35.
Inúmeros Números N-Números, 110
36.
O Fim, 112
1. Aeroporto
de Bruxas
Um dia me peguei em casa de vovó; vovó
todos sabem todos compreendem todos acreditam ser a casa qual casa da sogra;
tanto que todos mandam, quase nem a dona mandando tanto. Então. A velha fez
pastéis bolinhos bolões, ah apreciei todos e mais o de chocolate e assim ingeri
a gostosura até passar por esse bem mal; me levaram inclusive ao pronto-socorro
acordei de novo na casa de vovó. Vovó fazendo de tudo para me agradar. Num belo
momento, isto abuso de linguagem, num esfregar olhos, atarantado, abri olho ao
abrir a porta, a porta de dentro aquela que fechava quando fechada a cozinha
onde a empregada não deixando ninguém mexer mesmo a sogra de papai, a separar
essa cozinha e o quarto em que vovó gostava me ver e ver meus primos, tem um
deles que é um horror de terror por bater na gente e se a gente chorar gritar
ou na pior hipótese contar tudinho à vovó então ainda levando mais uns murros...
esse; enfim a sala-quarto donde vemos vovó deitada prostrada agora e agora olha
mas não vê gente nem a gente, aí. Pois não é que ao abrir essa porta mal
encostada semiaberta a tapar um pouco os raios solares, não é que me deparei
com uma cena inusitada! Não aquela doutro dia na qual flagrei meu pai abraçado
com a vizinha do 44! não sendo a doutra semana também a beijar a empregada de vovó
que manda na vovó a qual não manda mais nem em sua própria casa e casa da sogra
embora ainda sogra de papai e da titia, esta aquela que me trouxe biscoitos e balas.
Daí fiquei chateado visto ainda pequeno demais para me constranger... Não, não
mesmo. O que vi de fato foi o vão da porta semiescancarada contendo mais de
cinco, mais de cinco não sei contar nem somar não somo até dez porque sou pequeno,
meu pai lembra minha mãe nas suas exigências. Em suma vi um punhado de
vassouras, um verdadeiro arsenal bélico, caso as bruxas da época houvessem
criado a guerra pois os mais espertos já a haviam inventado antes. Não isso: isto,
um aeroporto com as máquinas gastas sim mas todas centenas milhares delas com o
cabo pra cima e a barba de varrer pra baixo no chão naquele antro que
apelidaram não sei se depósito de usados ou aeroporto mesmo. Só tem uma coisa
que não entendi – por mais haver ali ficado de plantão, sequer observei uma
aproximar-se tomar seu aeroplano ou foguete e voar apesar de tantas vassouras
no vão no detrás da porta. E me pergunto igualmente onde é que o pai num encontro
a alisar a mulher do 44 afiançou a um amigo ela ser boa, se todos acham a
senhora ruim não devolvendo a bola da gente ou a viver dedando os meninos à empregada
de vovó.
Abril 2012
2.A
Fria sem Frio
Como
foguete embora lerdo penetrou o sujeito entre-meio o burburinho da gente
freguesa, cliente, no estabeleci-mento. Dentro a gente o sorvete o gelo, o gelo
bem mais talvez que nos polos, o calor bafejante. Fora. Fora eram ameaços da
natureza em quenturas quiçá fantasiadas com trovões e relâmpagos estes últimos
quase nem percebidos no sol a cair e se esconder em nimbus ameaçantes. Dentro
era o dentro, se não de paz ao menos de sossego velado e em expectativa; quando
adentrou, passou por mesas inúmeras, inúmeras cadeiras ocupadas por gente. Não
parou, parou tão só naquela do fundo, grande e já servida. Deparou-se com a
mesona e a taçona, daquelas avantajadas decoradas brilhadas em baixo coloridas em cima. Tinha cores
variadas no sorvete atraente e no pico dessa montanha uma frutinha vermelha
como chamarisco vistoso; dela escorria um caldo suposto grosso gosmento a
cobrir o confeito, a se derramar das bordas da taça e a melar a toalha limpa
suja então. Em volta dela na mesa como a servir, agora no abandono e no
silêncio, outras taças caladas murchas com restos desnecessários e desnecessários
lixos lixinhos nuns guardanapinhos e respingos deseducados e deselegantes; mas
sem cadeiras... a única entre as cadeiras no chão como que caída empurrada
escorregada tornada móvel imóvel no canto. Não se surpreendeu, não se
surpreendia. Olhou viu pensou? não disse, avançou na taça cheia como que a servi-lo
sem que soubessem seu gosto e queda por banana goiaba chocolate ou outro sabor
na fraqueza da fortaleza. A fortaleza, de corpanzil, e mais alta na parecença
estando de pé, ela ameaçou e imediato iniciou a deglutição daquela fantasia gelada
a escorrer gozando os ventiladores insatisfatórios a tanto calor que o fora
empurrava ao dentro. Dentro era a conversa a expectação e apenas um casal
falando baixinho as suas coisas, outrem de boca aberta, sem gritaria e espevitamento
igual criança; e assim noutras mesas no salão; enquanto ele a comer aquilo daquilo
belo aparente gelado escorrido escorrendo além abaixo das beiradas da taça. E o
fazia quase sem educação, na esganação talvez, entretanto não punha o problema
– só ingeria aquilo daquilo frio a esfriar por dentro o fora em suor no grande
corpo presente. Ausente decerto o garçom, achegou-se; limpou desajeitado a
mesona dos fundos, olhou o visitante, ameaçou perguntar para servi-lo após, porém
nada falou, só recolheu o instrumental usado e os lixos a grudar no seu
guardanapo ou toalha a lhe pender do braço. Ia certamente o freguês-cliente
pedir de banana de goiaba de chocolate, no entanto permaneceu na luta da guerra
na deglutição daquele doce frio, gelado, a escorrer. Foi mais além nesse aquém,
além o público comentava e anuía ao resmungo do garçom num quem sabe besouro
bicho ou outro perigo no canto a investir nos fregueses possivelmente saídos na
correria e no abandono espevitado do lugar. Continuou suou acabou deixou a
iguaria, atravessou enfastiado decerto por entre o público indignado ou só
curioso... E sumiu no sumir do mundo. À boca pequena ventilava-se o caldo ser
maligno ou mortífero mesmo, mesmo no escorrer da taça abandonada e após abandonada
segunda vez, vazia. Contudo não matara a vítima. Até ontem. Até hoje cedo.
Fevereiro 2009
3.A
koysa sem nome
Casaram nos conformes, conforme a
condição social e a crendice na roça admitiam. E foram felizes para todo o sempre,
xô ‘carochismo’. Ele, o macho da espécie, juntou para tanto pecúlio por várias
apanhas de café; ela, a fêmea da espécie, juntou caprichos ouviu palpites
brigou um pouco com os seus e não os ouviu. Diziam que ele não prestava sequer
lustrando o guatambu do cabo da enxada. Ele também teve que escutar desaforos
dos seus, estes jurando a pés juntos que a moça não era moça e portanto não
prestava. Não prestaram atenção, casaram, antes fugiram de casa e depois
grávida a virgem não tendo mesmo volta voltaram aceitos em termos aos seus,
agora morando o casal numa tapera própria, até o êxodo rural enxotar a casa
própria à cidade faminta de oportunidades e misérias. Montaram lar com os devidos
indevidos e dizem-que-disseram mais, não se tapa o sol nem a verdade. Verdade
que foram felizes e... ah xô carochismo. A fêmea da espécie e a espécie de
macho mantiveram o ramerrão, procriaram bastante trabalharam bastante, ele na
firma firme e trabalhador só ‘grevou’ quando todos operários grevaram e brigou
somente quando os outros carneiros exigiram a lei e se queixaram no
ministério-sem-trabalho. Demais foi a rotina a sair de casa cedo voltar tarde e
apenas poder brigar com a esposa certo e inteiramente nos domingos e feriados,
a cidade ateia atoa não tolera dias santos exige todos dias a tarefa e paga o
salário. Ela, a da espécie, ela trabalhando em casa cuidando da cria suas crias
e batendo roupa e papo com as vizinhas a desabafar dele com a comadre. Os
meninos então fizeram seu papel: brincaram brigaram brincaram brigaram e
encheram a cabeça dela, dela sem distração. Não. Tanto que não havendo
televisão na época teve foi uma ninhada. O primeiro dos pintos tendo os traços
da família do macho da espécie, mais menos dele mais-mais do irmão do pai
deles; os outros no galinheiro, com o galo ou trabalhando ou grevando na discussão
sindical da categoria, então os outrinhos saíram diferentes, mesmo porque não
existem iguais por serem bilhões as diferenças no planeta. Um semelhando o
padeiro, outro o vizinho aquele que discutiu com a vizinha e outra vizinha e se
mudou. E assim por diante, se não sempre e eternamente ao menos um pouco assim.
Daí no terreiro o macho – quem sabe a aceitar enredação dos seus, a sogra da
fêmea da espécie um pouco linguaruda ou isso apenas intriga oposicionista – daí
ele deu um basta. Quer dizer, a empresa deu-lhe um basta antes, depois entregou-o
ao seguro-desemprego depois ainda ao subemprego e mais pra diante ao nada, em
moda no país nas últimas décadas; entremeio a vida o mandou ao bar aos amigos à
bebida bebido bebum consumado libador. Você, disse à fêmea sem espécie, você me
traiu: veja os olhinhos puxados de nosso sexto filho! (Usou não a língua padrão
educada mas a ‘língua calão’, não calando a espécie de fêmea porém pondo lenha
na fogueira doméstica). E concluiu aquele macho trabalhador sem emprego e sem
dinheiro até pra quitar a dívida no boteco: vou matá-la e ao japonês da
esquina! Realmente disse na chulice da língua calão apagar ambos. Ou qualquer
coisa assim; assim nos autos no linguajar policiesco, em que o carochismo não
tem vez.
Fevereiro 2009
4.Obviodóbvio
Para tanto, tanto pensar no que
pensava, a tanto usou a escada; isso óbvio pois necessitando ver uns fios lá em
cima na laje, espremidos escondidos coloridos retorcidos entre ela e o telhado
neutralizante de sol ardente, contente; contente ele por haver não propriamente
sanado o problema porém descoberto o problema e isso lhe parecendo o óbvio;
depois, antes não. Tem aquele fiat lux
nas coisas obscuras, quando se acha e acha-se correto no comum “por que não
pensei nisso antes!” Então tomou da escada a subir e ultrapassar os umbrais
pela portinhola que é mais janelinha que porta ao vão da dita redita laje onde
fios.
Aproveitou-se daquele momento, qual
presente recebi-do, aquele da ida da senhora Fiinha à casa da sogra, bem dito a
sogra dele mãe dela doente. Aquele negócio de chamar mil parentes mil vezes à
despedida com mil choros mil pedidos de perdão e mil outras vezes melhorando,
apenas não sarando porque velhice não tem cura. Era uma dessas, uma das mil. A
esposa levou consigo a prole, o que presente sobre presente e daí sozinho
arranjar fios a desarranjar problemas.
Tomou a escada – a esposa logo
gritaria a lhe pegar no pé “num tá podre! vai cair como da outra vez...” Andava
livre disso agora, agora que se fora à mãe. Em todo caso examinou bem os
degraus, nenhum a se desmanchar, só um ou dois pregos enferrujando enferrujados
oferecendo perigo, deu lá umas marteladas e firmou as travessas; aí encostou a
extremidade de cima lá em cima e prendeu bem as extremas de baixo como pé.
Experimentou, forçou, sorriu confianças, desandou para o alto nas alturas.
Abriu a fechada portinhola de caber um homem comum um pouco barrigudo nela (ela
já xeretando: Zé, para de tomar cerveja, esses seus amigos... Espantou-a um
pouquinho, retomou o subir ultrapassar seu corpanzil na janelinha:) entrou, se
arrastou, encostou... por óbvio do costume se esqueceu desligar a eletricidade,
desceu foi ao relógio de luz, puxou a haste dos fusíveis da chave geral,
inclusive a do disjuntor; fechou trancou a porta do registro elétrico, vai
que... pensou, porque não poderia um moleque passar e passar a mão levar um choque!
Tornou à escada tornou ao subir tornou a tornar à laje e tornar aos fios. Ela,
não eles? não, ela dona Fiinha veio resmungona – Zé, cuidado, ih não posso com
gente teimosa e que exemplo dando às crianças! Espantou a lembrança, continuou
a singrar por mares nunca velejados: os pós os fios. Ah dedos de poeira
depositada longos anos; mas não tinha grilo não tinha nenhuma ou ela gritaria
lá longe de medo, porque barata não procura decerto fios poeiras bolores mofos
e cheiros irritantes; em todo caso examinou reexaminou com cuidado naquele
‘lusco-fuscar’ de sombras detritos e abafamentos, aí... antes disso fez o que pôde
pôde pouco segurar e despencou num atchim; aí sim lembrou o óbvio que era
ter-se encostado sujando a roupa embebida então no suor azedo e fedido agora
lembrando-se da voz de Fiinha a reclamar lamentar pegar no seu pé por isso;
felizmente andava visitando a tristeza da sogra, sogra dele. Parou de se
arrastar, se ficasse de pé meio curvado machucaria a cabeça de pensar na esposa
e não pensar na sogra. Prosseguiu olhou examinou ‘meticulosou’ passou as suas mãos
nas coisas do teto meio escuro e descobriu ali o óbvio...
Óbvio também que Fiinha devesse nessa
hora estar chorando ou conversando baixinho choramingando com suas irmãs, todas
dando bronca à bagunça dos meninos, os seus no meio, agora ele só, só
acompanhado de fios e problemas e pós obscuros e escuros no não saber, descobrindo
o óbvio.
Daí pensou azar. Por exemplo, o vento
bandido não poderia haver tirado a escada e então como descer? chamar Fiinha na
mãe pra chamar por sua vez qualquer vizinho ajudá-lo a descer! o óbvio sim
porém não o vento, pois uma escada mal encostada mal acoplada na parede não
poderia ser desalojada só poderia sê-lo com um vendaval um tufão e aí arremessada
ao chão... óbvio; enfim se arrastou desarrastando de volta ao limiar do umbral
da janela-portinhola de saída que fora de entrada intempestiva, embora já longe
as pragas e admoestações da esposa, nessa hora na sua mãe doente, moribunda
quem sabe.
Dessa forma começou o retorno, a
operação que apeli-daria desmancha-óbvio, desceu num uf comum e suspiro glorioso
vitorioso – livre em
terra. Todavia sem solução do óbvio, ou seja os problemas dos
fios e ainda por cima por baixo sem a presença de Fiinha pra narrar desabafar
justificar confiar seu óbvio insucesso.
Sim porque... e isso não era o óbvio!
porque não sabia o que fazer em eletricidade, um absurdo pegável quiçá com
sorte uma questão achável (não ‘solucionável’).
Então se lembrou que teria de chamar
um técnico, um profissional que entendesse do assunto, desses que não têm medo
a levar uma descarga, a qual dava horror à Fiinha ele se rindo dela sempre. E o
negócio é que a esposa não estava ali para achar o telefone dum eletricista de
gabarito.
Além disso, resolveu não contar sua
arte longe dela, en-quanto na sogra. Também teria depois dinheiro para pagar os
custos da obra? e quando, não sabendo, poderia executá-la... O óbvio é que
nunca mais mexeu na laje nem chamou o entendido, sequer sabendo pra que
chamá-lo. A soma a ser gasta foi gasta na milésima segunda crise da sogra, no
enterro dela. Obviedade por ser um dos parentes da velha com mais recursos que
os outros, os quais apelidava com estrilo da esposa “miseráveis”; em pobreza é
óbvio.
Fevereiro 2009
5.Fotografia
da Destruição
Havia acontecido, não se discutindo
isso, discutindo o como fora, sobretudo os que nada sabendo ou sabendo pouco, o
povo todo ele curioso, uns na gente mais que os outros – mas não mudava a
realidade nem a verdade. Em verdade ela andava por ali profissionalmente. Tanto
que as autoridades a observavam e não a viam, mais cuidando de suas coisas,
como e o quê pôr no relatório por exemplo. Tinha um cordão de isolamento, os
seguranças ali postos eram ferozes nos cumprimentos porém o povo forçava muito
a fita e mais forçando a contar o que sabia e o que não podendo ver... Ela não.
Desembaraçada circulava por entre destroços – toma uma pose aqui outra ali,
‘pose’ talvez péssimo como figura porque ninguém, fora os curiosos, a tentar
sair bem na foto. Ela clicava ali aqui se posicionava melhor, antes que fosse
tarde pois havendo possibilidade de alguém desatento mexer nas preciosas peças,
fossem as peças no lugar certo desse errado... Havia acontecido não mais se
discutia, havendo na área pedaços de bens materiais, troços distorcidos
quebrados jogados ao deus-dará; e pedaços humanos, o que projetava o sinistro o
receio o horror mesmo nos mesmos curiosos atentos lá fora ali a forçar as
guardas para ver o que não ver ou se não devendo ver (ah e o poder de atração
nefasta! nesse macabro no explodir ruir atrair mil olhos... gente é assim, não
consegue fugir ao vertiginoso imã do espetáculo negativo). Tomava fotografava
amava até os ângulos, quase como a chegar à perfeição e ao desvario perfeccionista
com gosto e arte; e seriedade, séria em tudo e naquilo que fazia, no fazer o
seu certo; errado que a situação enublasse a beleza feminina que poderia
ressaltar mais naquela feiura medonha do ambiente. Exalava ela como flor um
leve perfume, contrastando nisto também pelo irritável cheiro dos destroços,
quem sabe em vista dos produtos químicos esparramados e também da pólvora de
explosivos, o que as autoridades discutiam entre si a saber e computar objetos.
Outros funcionários da polícia técnica faziam na rotina levantamento da
destruição e dos possíveis sinais que levassem se não a acordo ao menos ao
registro frio dos dados. Ela não. Ela fotografava experiente o espalho o
estrago, como a querer guardar uma recordação cara ao sentimento; contudo era
igualmente fria e meticulosa no que fazendo. Ao auxiliar assoprava baixo
palavras técnicas do seu métier, sem
alarde com ordem com disciplina, ao gosto da câmera ali de olhos arregalados em
vendo pedaços do que restara... Fique próximo dessa parte de perna a fim de
compararmos depois da revelação o tamanho e a posição exatos como encontrado.
Anuía o ajudante, clicando mais e melhor a mulher. Não pise nisso: é mão de
gente; recomendava ao mequetrefe; e novamente incansavelmente sistematicamente
fotografava, fotografava mil partes da cena que os de fora dentro queriam mais
bem ver. O cordão de isolamento quase a romper, admoestavam os seguranças
crentes do seu poder e autoridade com olhar imponente... Aí ela percebeu outro
filete rubro já negro a escorrer seco de tempo vindo dum bloqueio qualquer;
clicou sua máquina melindrosa, habituada nas filigranas do medonho. Incansável
então cansada ou satisfeita do montante que guardara impregnado na virgindade
do escuro no interior da câmara, descansou a geringonça na correia daquele
instrumento agora a tiracolo no seu ombro. Olhou ao mequetrefe, indicou mais
alguns apetrechos ligados à parafernália, aguardou segundos dos milênios do
ajudante a recolher o que juntar para segui-la. Ela ofertou um sorrisinho
maroto ao chefe num conciliábulo com outros técnicos, e assim saiu levantando o
cordão dos seguranças à curiosidade dos curiosos em volta em frente. Os curiosos não
mediam esforços desnecessários e apócrifos na sua narração. Uns que a
explosão... outros a contar detalhes com conhecimento de causa pelos efeitos;
mais alguns a relembrar como eram os pedaços quando unidos em seres humanos e a
loja loja ainda.
Fevereiro 2009
6.Existência
Segundo Mateus
É
desnecessário procurar encrencas: elas vêm rápido e de graça, prontas
ao
uso no abuso. in Desaforismos &
Intimias, p226
Conforme Mateus o mundo é
possívelmente bom, era bom. Conseguia nas tristezas e misérias da existência a
alegria, se bem que uma alegria medida e sem quaisquer exageros; quem sabe já
antevendo os desastres da alegria em confronto com sua oposição-irmã, a
tristeza. Enfim seu ambiente desde criança, ainda uma criança quando deixou de
sê-lo, tal ambiente era sofrível e nem o convívio com os meninos comuns na vida
normal nem o convívio na escola nivelada embora por baixo puderam vencer essa
barreira – o sofrimento e a luta contra a precariedade no mínimo. O mínimo
sendo a família a casa e o bem da vida posto como um mal necessário entre os
seus. Os seus a mãe as irmãs as sobrinhas, o pai ausente presente com outra
mulher e seus meios-irmãos. Ainda integrando os seus os amigos da mãe e das
irmãs, assinzinho em amizade chegança intimidade inclusive. Por longe naquele
perto sentia formarem um todo, mas um todo perigoso... Logo sua consciência descobriu
a ilicitude.
Até
aí tendo não mais que dez ou doze anos e sendo uma espécie de criadinho entre
os seus e os apensos ou mandões dos seus. Nisso abusando mesmo. Tudo nas suas
costas de garoto. Nem as brincadeiras de
moleque na rua podiam completar-se na felicidade que elas propõem, caso
houvesse um recado ou uma entrega qualquer a fazer. Parecença com burro de
carga no dizer popular. Imperavam todos: vai levar isto Mateus, dizer pra dona
fulana isso ou aquilo Mateus. Vai logo, Mateus, some! Disparava reencetava o
brinquedo, interrompendo quando necessário. Além ser – isto não válido aos amiguinhos
da mãe e das irmãs mas direta ordem delas – babá das sobrinhas. Assim liberadas
as parentas adultas ao trabalho, ‘trabalho’ aos poucos a compreensão
esclarecia; enquanto ficava decretada sua prisão, pois a privação do brinquedo
a um menino é a pior clausura. Não obstante, aqui era onde se manifestando seu
coração puro apesar da impureza do meio: cuidava tratava qual mãezinha as
pequenas: remédio na hora certa, mamadeira na hora certa, certa no banho e
demais limpezas; além de conversar de igual para igual com aquelas ‘tantadurinhas’
gostosas a si, inclusive disparando sua criatividade de mãe no diálogo e na
arte (fazia suas micagens e seus salamaleques para agradar as menininhas e o
fazia com flagrante prazer, muito embora o desprazer da cela).
Todavia uma atenuante: não apanhava em
casa como determinando a moral da miséria.
Um belo dia a coisa apertou. Não o
drama da falta do básico, isso ocorria muito e é bem inteligível num país com
muito subemprego e mais desemprego. Por outra questão: os principais amigos da
mãe foram presos, um ainda a dormir com a mãe, mãe do Mateus veja-se bem, visto
a polícia não apreciar afagos íntimos. Levaram os oficiais inclusive as drogas
– o garoto conhecia isso e tinha que falar baixo referindo-se a ‘bagulhos’
‘moambas’ coisas desse jaez. Ficou assustado, as filhinhas dele desandaram a
chorar também. Por fim os amigos ficaram encarcerados, para a rotina soltá-los
depois e depois reprendê-los; enquanto a mãe dispensada após audiência. Daí por
diante a casa era o medo; não conseguia sequer dormir semelhando o homem comum,
menino comum então, nem isso podia mais o Mateus.
A vida prosseguiu, a rotina assentou a
poeira; até os ba-rulhos e o som – o ‘som’ eram os cedês na voz alta e estrondos
a que os amigos, soltos, deixavam barulhar enquanto distraiam a mãe do menino –
até os barulhos eram rotina. Quer dizer, durante as prisões alternadas dos
amigos o lar aquietava, menos a garganta das ‘pequenuras’, para alegria do
rapazinho.
Contudo tudo rotina inclusive o não
pensar nos termos de futuro. Isto porque logo, isto é em poucos anos de existência,
logo Mateus descobriu que não precisaria fazer planos como o faz um cidadão
comum.
Assim chegou num futuro próximo,
demais próximo para tão poucos anos vivendo, assim veio o desastre e ele quase
não percebeu. Um dia, um belo dia!? um dia os inimigos dos amigos, e por
extensão da mãe e das filhas da mãe (os inimigos raciocinando como tendo culpa
toda a casa...) um certo dia noite calma ao mundo nem os cães percebendo, ou
desandariam, ladraram assustados só imediatamente após... nessa madrugada
cerraram fogo com armas pesadas; acabando de vez com os amigos e a família
esdrúxula, não tão esdrúxula visto haver demais hoje essa precariedade.
Acabando com Mateus e elinhas no meio, os pequenos que não procuraram encrencas
quiçá sabendo o vocábulo se lessem não leram no dicionário.
Por raiva por vingança por
contingência ou apenas a aparecer como espetáculo inédito infelizmente
corriqueiro na televisão.
Fevereiro 2009
7.Fabulinha
no Buracão
Surpreendi-me, não da surpresa dele
ele que me não via nem via ninguém e nada além do que via, via por dentro decerto
e já é muito ver; supreendi-me pelo abuso de sua imaginação. Era, então, apenas
um buraquinho. Desses que irritam o trânsito engolem entulhos bebem as águas do
mundo e as do dilúvio do mundo! não: um inexpressivo de tão pequena insignificância.
Digamos a acertar a linguagem exigente da gente contente valente no criticar e
pouco fazer, digamos fosse pouco mais que um mijinho d’água fétida a passar
correr corroer carrear coisas e afundar numa vala da urbe mal cuidada pela
burocracia e pela corrupção dos políticos e barnabés, estes a bebericar
cafezinhos nos corredores da repartição, sequer pensando na população contribuinte
e nos xingos da população pela corrupção e pela burocracia – deixando assim
buracos intactos; virgens não pois antes a crescer e a crescer mais a cada
tempestade nas vias públicas planas ou em sobe-e-desce. Ele quietinho.
Mesmo porque quem possa imaginar que
imagine ficando a falar e comentar. Não. Quieto, ensimesmado, a pensar. Ou a
sonhar.
Cheguei-me ao sonho. Perto do sonho e
do sonhador. Este quieto. Olhador. Pretensiosamente vendo, vendo longe...
Perto, já encostado, surpreendi-me
pela pequenurona do buraquinho. Desses que veículos atirados, cegos, apressados,
sequer notando passando matando ou ao menos ignorando o agente, agentinho
melhor dizer.
Perto, junto, sorri. Eu sorri com
minha cauda curta, me deceparam a fala sou mudo no meu coto, cotó. Farejei
cheirei examinei e sorri, por dentro, por fora o coto mudo, sorri gar-galhei
até pela pretensão.
Imaginava nuns voos altos o
buracozinho um dia chegar a ser buracão! mais que isso – engolir o buracão...
Explico melhor a coisa.
Na terra dos buracos, uma cidade
interiorana pequena de grandes desejos, nessa urbe há muito buraco. Não falo dos
buracos médios que engolem em seu seio os buracos pequenos – já grandes,
enormes ao buraquinho sonhador. Não falo da buracaria à espera do socorro da
época das eleições quando milagres em terraplanagens e obras mais as mais
milagrosas e impossíveis, possíveis tão só à mirabolante promessa. Não falo
desses porque um engole outro (aí o buraquinho seria mastigado igual se faz
antes da cerveja como aperitivo a abrir o apetite). Não. Falo sim do buracão
mesmo. Isto é, em volta da cidade com seus políticos opulentos e com população
pobre não miserável, em torno dela só existem buracões, ela erigida pelo tempo
no alto e quase no pico da montanha; por volta itambés cavados pelos rios
teimosos e trabalhadores durante eternidades criando imensos vales. Ao pico o povo
da terra diz “espigão”; ao vale o povo da terra fala “buracão”. Sem pretensão
poética, a falar apenas falar.
Pois é esse, era esse o buracão do
buraquinho!
Indago eternidades ou só milênios após
ao meu coto mudo – visto que passei outras eternidades outros séculos outros
milênios atrás de cadelas cheirosas, apanhei por causa delas dos grandes fortes
bati nos fracos pequenos, todos nós atrás do cheiro delas, assim como o
buraquinho atrás do buracão – indago a saber o saber.
Saiba, me responde ex-rabo de plantão,
saiba que só existe buracão.
Olhei, pasmado, na procura do insignificante.
Elinho mastigava decerto o outrão com boca aberta. Que grosseria!
Março 2009
8.Facho de Luz
Quando U-u descobriu o claro de sol na
sombra no canto dum canto – sobremaneira espantou-se. Era a quinta-feira e ele
não sabia, dia treze desconhecendo, novembro no fim de ano não tinha
conhecimento; e sequer a poder pensar fosse começo dum século e final doutro
milênio antes doutro nos tempos e tempos amém – não sabia de verdade. Mas era
verdadeiro e realidade ostensiva vista pegável quase não fosse mero claro
quente na sombra fria de verão não obstante.
Olhou mais uma vez, ene-vezes se se
quiser, sequer mudando opinião sobre o achado. Antes que isso inclusive mais e
mais se impressionando.
O homem era e seria num talvez nada
virtual um pesquisador, sem ser um cientista ou inventor, estes não inven-tados
ainda. Corolário ao seu impulso aventureiro, assim fir-mou ideia naquela
grandeza bela clara amarela, fugidia...
Não é possível a um possível descobrir
apreender saber sozinho. Em razão disso chamou I-i para ver, ver que fosse
porém mais a fim de confirmar o achado; logo, a existir. Olhou, olharam, a
quatro olhos, olhos lacrimejantes, lacrimejantes brilhantes de espanto já sem
susto mas com belas surpresas. Requisitou mais olhos, olhos de toda tribo quiçá
olhos do universo em seu universo. Mil olhos viram de olhos arregalados!
Estava confirmado o achado perdido até
então para o mundo ou mesmo ao universo daquele acanho de universo: Era claro
incidente colorido a brilhar e a desmanchar a sombra na noite do dia se indo,
não de tédio porque o simples desconhece o tédio.
Embora tal conquista ao conhecimento
de U-u e de I-i por companhia e comprovação e por extensão aos seus e seus
respectivos universos – o saber ameaçava desmanchar desapa-recer quem sabe.
Em vista disso determinou como chefia
e mandado de mandato não homologado que se defendesse a riqueza. Coube a I-i o
lugar-tenente aos tementes e demais apensos no número dos números olhá-la;
fosse que pudesse haver- alguém surrupiá-la ao bem de todos, maismente de U-u,
virtual proprietário de tanto ostensivo concreto presente.
Entretanto ao exposto posto fosse
certo e convincente, não convincente a decerto certo falso-judas ou falso-amigo
ou falso lugar-tenente. Dessa forma flagrou o chefe em visita de surpresa ao
tesouro, I-i a tentar apagar o claro já em luz ainda cálida entretanto amorfa.
O crime custou uma cabeça uma vida ou só uma existência mais curta que devera.
O crime porém trouxe nova descoberta ao pesquisador sem laboratório mas com objeto,
claro quente brilhante furtacor: era não mais que certa réstea impegável! Foi
daí notar como ótimo sábio a mudança de posição da claridade.
Assim resolveu por mil dias e mil noites
fossem necessários ele mesmo olhar defender dirigir opor qualquer resistência –
na guarda do tesouro.
Contudo, tudo nos conformes da força e
da força da inteligência e da força da chefia, não pôde U-u manter pra si mesmo
a riqueza.
Ou foi o universo ou foi o mundo ou
foi o dia, dias após adoração do seu povo ao claro de sol no sol claro, o claro
veio a sumir; primeiro se enfraquecendo e a passar de forte ao morno para
finalmente desaparecer...
Para que pusesse a culpa em alguém? no
mal-olhado da cabeça sem olhos de I-i? E se houvessem inventado o filósofo, não
poderia sobrar nessa falta a explicação dum possível excesso na incidência do
calor e surgir o fogo e a destruição dum povo quiçá destruição do universo!
Assim U-u, I-i nem se lembra, U-u e todo
um povo, certamente também um universo caindo em a noite, na sombra da noite e
da provável ignorância.
Maio 2009
9.Pós-Parto
Às vezes o homem é pego desprevenido
nas coisas que usa cuida recebe aproveitando por momentos em se fazer notado; o
homem representante do macho da espécie e macho pro que der e vier ou só macho
pra valer. Isto porque pode dar-se de cambalear engulir seco aquele gostinho na
boca quando o causídico da medicina vem comunicar o que comunicar ao paciente
cliente quiçá freguês no hospital. No pós-operatório, mais bem dito esse mal
dito. Chegou olhou, olhou também o doente em fase de recuperação o profissional,
de branco descalçando as luvas, um dedo grudando por dentro teve de chocalhar
até desprender a borracha enquanto... Aí comunicou, vendo desperto ou a despertar
aquela consciência quem sabe pesada e agora após perigo e sofrer; comunicou
nestes termos. Foi um sucesso, meu caro, renovamos o amigo por pouco... Por
pouco!? Por pouco dinheiro digo, nosso lema é a medicina a ciência, o ganho
apenas nosso ganha-pão. Contudo tudo deu certo: é um homem novo. O homem de
jaleco branco e de luvas já sem luvas respirou suspirou e continuou – sucesso
porque atiramos no entulho aos cães vadios um deles, o mais estragado, e
conservamos intacto o outro testículo. O paciente agoniado: mas... Não senhor,
não virou bicha, não se impressione, tem um ainda pra uso e abuso; tiramos o
esquerdo que doía mais, deixamos o direito errado que doía menos; a pedido de
sua senhora... consultada optou direito, o namorado dela queria extração pura e
simplesmente dos dois, imprestáveis, segundo a oposição; mantivemos um inteiro
íntegro intacto a balançar correto daqui por diante; portanto fique descansado.
O senhor... iniciou dizer o vitorioso operado, o médico compreendeu. Não, nada
disso do que ia falar, não comunicamos o fato aos seus, aflitos à espera ali fora,
só ao interessado agora, você. A recuperação e alta serão logo nestes dias. Ah
sim, a equipe aproveitou a trocar e extrair alguns órgãos avariados...
aproveitou a economizar anestesia e anestesista além de novos transtornos com
possível retorno do amigo aos transplantes – enfim economia a seus bolsos
porque fizemos várias operações cirúrgicas, corretivas, ao mesmo tempo. O que
os senhores tiraram ou trocaram, decerto pondo bons no lugar dos estragados...
Estragados não, meu amigo: podres e imprestáveis. Sim, interveio o operado, o
quê? O causídico: o coração, sua esposa se queixava que não tinha, tinha em
decomposição, retiramo-lo. O fígado... O de beber o bar!? interrogou o doente
agora são. O de curtir suas cervejas, cervejas economizadas com a extração do
fígado e dos rins, todos incapazes velhos fracos inoperantes decompostos quase
– está livre! Ah sim, tem mais, encurtamos os intestinos, havia muita volta
desnecessária, livramos você de metros e mais metros de tripas e ainda a
baratear custos ou a cirurgia ficaria o olho da cara de cara, livramo-nos deles
vendendo a uma fábrica de linguiça, o que rendeu uns trocados. Fizemos ligação
direta, a funcionar portanto como em carro igual exímios profissionais de
objetos alheios. Oh sim, aproveito este comunicado a você a fim de esclarecer
que cortamos penduricalhos desnecessários, segundo o namorado de sua esposa, a
esposa não opinou a respeito; trocamos também braços e pernas – tivemos no item
pernas que destrocar, pois os meus auxiliares-estudantes-aprendizes encaixando
a esquerda na direita errado; rearracamos rerrecolocamos a direita direito na
esquerda... somenos; cabeça ih a cabeça deu dor de cabeça meu caro, deu o que
falar, se duvidar chamo nossa enfermeira-chefe que foi quem conduziu o caso...
Os olhos foi fácil o troca-troca, o queixo, o beiço, a cicatriz – tudo nos
conformes porém o nariz... Sua esposa queria um arrebitado, pusemos um não
gostou; o namorado dela queria em você um nariz adunco, feio, horroroso,
pusemos um helênico perfeito, perfeito?! O paciente fez sim de cabeça e o
médico prosseguiu o discurso. Na testa, já pontuda, o namorado de sua esposa
sugeriu um chifre... não, na dele não: na sua testa; todavia não achamos bode
em afinidade com o paciente, a equipe médica estava optando por... (aí o
paciente impaciente passou a mão na testa a testificar). A orelha, continuou o
clínico, aquela de abano com serrinha na direita errado, errada a natureza veja
bem; consertamo-la ao concerto. Está agora uma beleza logo verá sem se espantar
no espelho; aliás meu caro, nariz e orelha é onde a natureza falhou feio! pois
todas horripilantes, inclusive o meu a minha orelha em particular, confesso; e
a de sua esposa, a do namorado dela então! Enfim meu caro, ficou novo de novo.
Novo mesmo a conta; o que já nos pagou, pagou. O excesso da cirurgia precisa
quitar na tesouraria – nem a esposa nem o namorado de sua esposa quiseram
tratar do assunto: deverá pagar o serviço antes deixar o hospital, ou não
deixá-lo, em baixa, retido até honrar seu compromisso; é isso.
Fevereiro 2009
10.Associação
dos Namorados
Já sei o senhor é um macaco. O macaco
olhou com a-queles olhinhos inocentes e talvez de boa vontade; ou seria por
mera curiosidade? O outro agradeceu não as vistas mas pela visita. Sabe, disse,
esta é uma associação, uma entidade registrada e tudo o mais. Nem queira saber
o trabalho que isto dá ao secretário! eu. São mil coisinhas são mil questõezinhas
são mil exigencinhas são mil cobrancinhas, enfim como em qualquer outra
congregação ou confraria ou ajuntamento de seres iguais ou semelhantes e que
fazem o mesmo e pensam o mesmo e têm o mesmo pensar. Aqui se congregam todos,
talvez exagerando nisto pois difícil quase impossível abarcar o universo
namorado da nação, que o senhor conhece enorme. Contudo vêm sempre os
associados tirar uma casquinha; ou se comunicando conosco e com outros
namorados por carta por e-mail por telefone ou somente se ligando nas redes sociais
através da internet, o que ponto pacífico. Olhou olhou olhou graciosamente o
macaquinho nada travesso nos moldes dos monos, ora entortando a cara engraçada
ora a piscar e piscar; não disse nada não comentou coisa alguma e assim o
secretário continuando a dar as cartas. As questões maiores – pois em todas
associações creio dessa forma – as maiores partindo dos encrenqueiros e
faladores. E isto que direi agora não é somente argumento machista, no sentido
de que elas falam mais, talvez apenas falando também pelos cotovelos para
ajudar decerto a língua cansada, igualmente vemos os machos a expor demais o
desnecessário. Em suma quem dá mais trabalho à nossa administração, ao
secretário aqui em particular, são tanto o namorado quanto a namorada, enfeixados
na menção namorados. Com suas pieguices, suas descabidas exigências, suas questiúnculas
a conseguir a consagrada vantagem brasileira em tudo. Acredita o
senhor que um belo dia... aliás chovendo barbaridade, aquela molhadeira danada
no chão pelos guarda-chuvas dos reclamantes a pingar, a gente enxuga vem outro
a escorrer seu dilúvio aqui, ali. Olhou interessado o macaquinho e voltou-se ao
representante da entidade, por sinal bem falador quiçá revoltado com abusos.
Pois é, e não é que nesse belo dia, o de chuva dito, chegou um cliente, essa
gente não quer ser mais freguesa da gente; enfim um namorado a querer de volta
ou por vaidade a pecha de ‘amante’ sob alegação de que hoje em dia tudo é
namorado. Outro foi além indagando sem nossa oficial resposta “onde os
guarda-roupas em que se escondia o macho na visita à fêmea sem macho o macho
falho surgindo de repente!” Nem janela pra se fugir direito existe; as casas
mais fortalezas engradadas que residências da paz e do amor... O que poderíamos
responder? Outro ainda, outra a rigor, nos traz o seguinte problema: como fazer
para não fazer? Explico em nome dessa namorada contribuinte da associação. O
caso é que o namorado da namorada fora obrigado – atente lá o senhor nisso –
fora obrigado pela esposa gasta velha usada parideira a ficar em casa enquanto
seu último parto; por sinal disse haver complicação dias e hospitalização etc.,
precisando inclusive o pretenso chefe da casa olhar feito babá a prole; e nem
uma colherinha de chá dando a empregada doméstica gagá cara e feia ao pobre!
Ora, eu respondi à reclamante: o que pode a associação dos namorados fazer,
interferir não é de nossa alçada e fere o regimento interno e a constituição do
país e dá processo e tudo. A associada então aludiu tender cancelar a ficha, ou
não pagar mais a mensalidade irrisória... Aliás nem queira o senhor saber a inadimplência
nesta gestão em final, com troca dum presidente namorado para uma
desinteressada presidente eleita namorada. O caos. Alguns dos participantes
querem ter o direito em trair o namorado ou namorada com seu par! O cônjuge
traído, isto banal, aceito em unimidade, todavia um namorado traindo o próprio
namorado! ah dá o que falar. De fato dá e é o que mais se faz nestes meios:
falar. O pior entretanto não é isso e o senhor há de convir não ser o pior
havendo outro melhor pior: aqui agora está se tornando banalidade, que é a
união dum namorado com outro namorado, duma namorada com outra namorada. Ora, o
que será da moral do povo de nossa pátria amada! O macaco não respondeu, fez
trejeitinho e quem sabe haja sorrido, o que pareceu mais uma careta em momice.
Maio 2011
11.A
Verdade na Versão Bebuna
Naquele dia, o senhor sabe, era uma
segunda-feira, que o calendário assinala como sendo de amolentamento; o povo a
distorcer como preguiça. Eu não havia bebido coisa alguma, o senhor sabe que
bebo? socialmente bem dito. Aí chega um amigo... o senhor diria que tendo amigo
assim poderíamos dispensar todos inimigos de plantão... contudo o José sendo
ótima criatura, sempre honesto e colaborador na vila; desses para o que der e
vier. Aí ele chegou.
Sim senhor, no bar; onde eu compro
leite aos filhos, com o dinheiro do leite e pretendia inclusive quitar se não a
totalidade da dívida parte dela. E comprar meu cigarro, o senhor sabe que fumo?
fumo mas da marca mais popular e barata possível.
Sim senhor, ele que me convidou à
bebida; falei um tra-go apenas porque precisava tornar ao lar, a esposa me
esperava devendo levar da venda uns gomos de linguiça para mistura no almoço.
Não falei para o senhor, doutor, que foi antes do almoço! então.
Sim senhor, aceitei um trago, não
disse? um trago. To-mei dois, acho que foram dois o vendeiro cobrou quatro
mar-cou seis na dívida que ele registra (por ordem da mulher dele, posso
afiançar) a que ele pendura num prego na porta do escritório do bar e nem sei
se aquilo propriamente um escritório, dada a baderna e desorganização do amontoado
de papéis que a gente percebe do balcão onde entorna a garrafa ao copo, nossos
copos... nós dois sentados numa banqueta, a minha então desmunhecando, não
falei ao senhor?
Na verdade não contei as doses, sei
apenas que José en-goliu certamente o dobro das minhas. Portanto andava bêbado
o amigo, não andava. Caiu. Levantou-se, tomou um pedaço da madeira de minha
banqueta – deu em minha cabeça uma porretada!
Não sei, doutor, digo ao senhor que
não posso saber como foi que ele, não eu, caiu já morto!
Não falei ao senhor? quer ainda que
repita o que disso me lembro...
Naquele dia, o senhor sabe, tava numa
preguiça própria de segunda-feira e era mesmo segunda-feira. O Zé, um que me
jurara matar dizendo que eu olhava para a mulher dele, esse, já chegou no
boteco trançando pernas, sabe que ele bebe, bebia muito, doutor? Esse. Então
desandou a me intimar pagar certa dívida que eu nunca fizera.
Vendo o caminho que seguia a conversa
e o nervosismo do Zé e ainda por estar bebum, ele bebum, tomei o cuidado de
amansar o louco: ofereci a ele um trago e o fiz com jeito para tomar o segundo
o terceiro até cair.
Havia prometido que a despesa eu
mandava o vendeiro pôr no meu ‘pindura’. Nisso caiu.
Antes que acordasse lasquei-lhe o
porrete: arranquei parte de minha banqueta, das que nós estávamos sentados
bebendo, eu um pouco só, acredite senhor delegado, ele no porre, ofendendo o
público e este amigo dele por todas ventas. Arranquei bati bati, mas deve ter
sido pelo abuso alcoólico do Zé que o Zé morreu.
O resto tudo a polícia sabe, tá no...
como? ah nos autos senhor doutor. Mas tem aí nos papéis muita mentira porque
todos curiosos afirmaram que fui eu: foi ele.
Sim senhor, não repito mais isso.
Junho 2010
12.A
Cidade Abandonada
Eu disse para meu guia achar estranho
aquilo tudo rele-gado, inclusive as ruas, sobretudo as ruas e as casas.
Anterior-mente, falei, estivera num cemitério abandonado; não a necró-pole da
urbe abandonada, a de outra urbe viva movimentada mais movimentada ainda que
meu desejo, na comparação que fazia da viva cidade, com a cidade morta dos
vivos.
Então presenciara túmulos ao desleixo,
capelas ricas mais ricas em rachaduras e desmoronamentos mais, mais próprio aos
mortos; o lado pobre daquela miséria então chocava bem mais: era um horizonte
plano no desgaste de montículos achatados pela erosão de anos quiçá milênios. E
por cima naquele por baixo a se erguer, a vegetação teimosa em gramas a subir
restos tortos rotos mortos e no capim alto. Havendo certa árvore, aí calma
naquela soma parada de lama seca, ela a crescer seu lenho desde as entranhas da
morte subterrânea rica nas ofertas de vida àquele ser vivo de folhas a
farfalhar molemente na brisa morna aqui em cima, essa árvore a vicejar e
embelezar qual estivesse numa floresta sozinha mas forte e empinada pra cima
qual seta sonhando nuvens e firmamento – um choque de vida na morte daquela
cidade fantasma dos mortos morta. Não obstante dominava o ambiente as coisas
partidas rachadas, com o verde o pó o vento leve a cobrir o todo. Conquanto
mortos não só os mortos a ‘esqueletar’ decerto lá embaixo. A vida gritando
apenas nos pardais a ciscar e a xeretar suas riquezas em quireras por ali.
Isso era a cidade morta dos mortos em
suposto descanso. A qual agora lembrava a meu guia na semelhança com a cidade
ao relaxo.
Porque andara minutos incontáveis a
somar as horas pacientes na minha impaciência vendo o todo e não achando mesmo
nada.
Porque desanimava, atolando no
desânimo ali presente naquela ausência...
Vira ruas desertas – asfaltadas e bem
asfaltadas por sinal; limpas, nada do entulho espalhado que se espera em tal
situação – vira quintais e casas...
Vira inúmeras se não todas residências
vazias me im-pressionando; visto o visto provar ausências porque sendo casas
habitadas num mostrar vidas virtuais nas antenas de televisão ali expostas, uma
tendo um cano de ferro extenso e arcado do vento quando vento e em seta qual a
árvore viva dos mortos indicando querer furar também nuvens; esta antena das comuns
e das simples enquanto as outras muitas a enfeitar telhados eram parabólicas
parecendo guarda-chuvas abertos a colher as violências das cidades grandes lá
longe e a ensinar a pequena morta, ou tão só abandonada.
Vira por onde andei, andei muito
necessitando a peque-na cidade pouco tempo à sua exígua área física no mapa;
mas vira sim quintais com árvores vivas costumeiras, não abando-nadas no
abandono comum dos habitantes, supostos que fos-sem; vira mamoeiros laranjeiras
abacateiros e hortas com hor-taliças vivas ou só alegres do regador e a
mangueira que o povo apelida borracha sendo de plástico porque hoje em dia tudo
é plástico inclusive os veículos...
Vira automóveis indóceis tratores
lerdos e mais lerdos ainda caminhões desengonçados a cruzar as vias públicas
a-bandonadas, meramente a quebrar o silêncio pesado da solidão forçada e
inevitável. Não obstante não corriam as conduções nessas condições, antes que
isso a rolar devagar suas rodas pneumáticas no asfalto limpo negro sólido plano
mas quente. Andavam vagarosos e quase se cruzavam – sempre obedecendo a
sinalização e a lei; notara deslocar-se um carro último tipo no mercado atual,
chegou parar na faixa com expressão habitual ‘pare’ pintada no solo; isto a
honrar o sinal e a preferencial a ser cruzada. Imediato chegando também o
ônibus ali naquela rodoviária abandonada, contendo ela um que outro quiosque de
venda de guloseimas e passagens porém sem gente e nem informação aos possíveis
necessitados; entretanto não havendo pessoas e sequer voejantes insetos nem
detritos de restos humanos ou mesmo de poeira a circular mostrando vida; vindo
o coletivo dessa avenida preferencial onde o auto moderno a respeitar...
Contudo ninguém respeitava a vida.
Andara horas, as horas em seus minutos
teimosos e pe-renes, andara a virolar pelas ruas a cruzar ruas a esquadrejar
ruas nas ruas da cidade morta... Morta!
Andara para ver mil, mil e um,
possíveis movimentos de vida. Quase não vira. Vira uns pouquíssimos cães e isto
im-pressiona pois o que existindo nas urbes mais é exatamente cachorros –
nenhum ladrou, nenhum fosse apenas a ladrar-me os ouvidos; vi uma só galinha choca
e assustadiça ou apreensiva com um ser estranho ali a gotejar fracas e lerdas
passadas com olhos bisbilhoteiros de notar o que não via. Somente ela a gritar
medrosa e nada mais observando, nem cabras soltas nem cavalos, unicamente um
burro solitário atrelado com seus tapas na orelha vendo-me apreensivo, embora
sem temor para depositar toneladas de fezes e, curioso, sem moscas; enfim
existindo parado atrelado o muar.
Vendo demais, não vendo muito, pouco
quase nada por onde andei, a vasculhar aquela cidade abandonada, falei assim ao
meu guia já parecendo não mais incrédulo antes que isso espantado. Demais, de
menos? demais a falta de gente – ser que fere violenta e destrói para distração
a vida na existência que seria tranquila nas urbes interioranas caracterizando
a pacatez.
Onde a gente! perguntei. Não sabia. Nem
ele nem muito menos eu que indagava.
A gente decerto fugira das
residências, dos quintais, das ruas; nem os moleques a mexer o que se não deve
nem eles! e isto mais grave que o grave ainda: a gente ausente emperti-gada no
volante e nos pedais dos veículos circulantes! Teriam, isto pensei, teriam os
carros aprendido a virar-se sozinhos sem condutores? Teriam aprendido as leis
de trânsito e obedeciam cegamente! E as comadres do lugar? Teria o acaso por
acaso ceifado decepado línguas daquelas cabeças de não pensar compensando o
fato com o fato de habitualmente muito falar?
Nisso lembrei-me da hora, disse ao
guia já indignado supus, lembrei-me da igreja. A igreja vetusta imponente na
praça da matriz, só ela a imperar no coração pulsando certamente na cidade
morta, morta ou largada. Então berrava no belo de sua arquitetura de estilo
secular a sua imponência mostrando lá em cima o relógio, a marcar treze horas e
cinco minutos – mas ocorre possa ser os treze e os cinco do século passado e
não dos do agora vivo e movente; ele indicaria parado nos ponteiros e não pelo
som do seu som nas badaladas do bronze sonante a acordar para a realidade
preguiçosos ou indolentes mortos fugidos quem sabe para não tão longe...
Todavia nem se contando com a igreja,
o templo tam-bém a falhar: a bênção senhor vigário. O homenzinho branco de
preto sequer na porta da sacristia, mesmo fosse para ver o bem feito na limpeza
dos mequetrefes da vassoura... ai a vassoura, ela quedava abandonada e assim as
folhas do jardim em torno rolando ao léu nas vielinhas de pedriscos soltos e
nos bancos velhos rotos no tempo com seu granito rachando manchado sujo. Tudo
morto.
Morto! Abandonado.
Olhei meu guia, meu guia que olhava.
Então chegou meu coletivo. Um ônibus
pintado lustrado sujo da poeira de estrada.
Entrei, entramos, pagamos, sentamo-nos
nos nossos lugares, com bilhetes a nos desejar boa viagem como é sempre corrente.
Funcionou, acionou pedais, movimentou a
todos e assim fugi da morte ou da vida no abandono. Olhei, nem o guia nem os
demais passageiros mudos. Com certeza o coletivo andava tendo um motorista
vivo. Que me sorriu nessa fuga.
Julho 2010
13.A
Cobrança
1° Primeiro não
foi a cobrança, foi a dívida. Ela, ela não a dívida mas a jovem por ser nova
embora passada nos destrambelhos do mundo esse mundo em que vivia e vivendo
todos os seus – ela agora na sua presença. Era um mundo no universo do submundo
ali a se apresentar inferior, mesmo ele se admitindo também de igual
envergadura não obstante o grau que lhe tocara na hierarquia dos desmandos pela
chefia incógnita, esta se não mais perdida ainda que ambos, a saber ele ela.
Mas o problema indo além. Porque a jovem e graciosa senhora apesar do seu
semblante de temor em que se podendo ler também o horror – ela trazia e talvez
pudesse haver trazido de propósito duas criancinhas para amenizar a conta
retardar a conta ou não pagar a conta! Uma de berço no colo a fungar nos seios;
outra de berço embora andando, nessa hora se agarrava às vestes maternas a
pedir resguardo e proteção pelo ambiente hostil e desconhecido. Olhava num
vaivém na indagação muda à mãe e ao cobrante estranho, mesmo porque tudo é o
desconhecimento nessa idade. Houve um rápido bate-boca, ela a implorar quase
ele a cobrar. Os minutos esgotaram seus segundos.
2° Segundo que não
era só isso. A lei é a lei. Não era porque o primeiro namorado lhe fizera a
maior, fora preso, preso morto no presídio e assim as dívidas não se pagam.
Depois o outro e atual namorado livre e a esbanjar à custa de passar os pós e
as ervas porém num pagar em claudicância e fugas; antes de fugir fez a de seio
agora a dormir o sono relaxado dos justos. No entanto a família não sumiu
apenas consumiu. Gastou e sobrou e não quitou e a dúvida flagrante e a dívida é
certa e a conta é larga e a cobrança é justa.
Assim encostou aquela devedora na
parede do antro desconhecido na incógnita do futuro ali a se esgotar em segundos
eternos, sem o fim do bate-boca ou somente monólogo com audição vigiada e não
comprometedora.
3° Agora era a
hora. O homem olhou de novo quase ati-rando na cara da representante de tanto
dever sem dever em-bora admitindo dever e não ter mais “por enquanto”, isto a
insistir timidamente ou temerosa ou horrorizada; quase atirando de volta as
migalhas de pagamento ao pagamento tardio naquele rosto arregalado num segurar
com as unhas dos braços bracinhos dormindo. No entanto guardou o pouco do nada
no tudo e apontou de vez a arma... A pequena deu uns passos a se grudar na
genitora, a outra não sabendo sequer a cobrança que dirá a dívida ou a justiça
dela, muito menos a justiça; e desse modo a menina examinou naquele longe ali
pertinho o homem a arma e o instante, sem entender e ainda assim com medo,
muda...
O cobrador não pensou duas vezes nem o
ato pensando quem sabe, a somar seu próprio medo diante da chefia no prestar
suas contas e possivelmente receber a impiedade da justiça sem merecer porque
sempre não merecemos por mais desatinos existam. Num átimo feriu a jovem
senhora, que tombou a sangrar manchando também a de colo. A de passinhos curtos
na vida longa não sabendo se a agachar em defesa se a pedir defesa na morta. Enfim
examinou a cena a si desconhecida e fixou fragilmente o desconhecido. Este
ainda indeciso se apagava também aquelinha testemunha apontou mais uma vez a
arma, a arma ainda a tremer na mão direita.
Janeiro 2010
14.Trajeto
das Coisas
1.O dedo. O sempre inusitado das coisas ao homem comum,
que é o comum no homem comum, é sempre as coisas no inusitado. Por isso apenas
assustou-se no pensar não pudesse se espantar com mais nada, tudo ao redor. Não
obstante, aquele dedo... não qualquer mas o menor o mais curto o menos forte e sempre
sujeito a topadas involuntárias, involuntárias sempre aliás a lhe trazer
atenção. E dor. De repente foi a ausência da dor, a viver como fosse que não
fosse nele o dedinho dele no pé dele no extremo inferior dele, ainda sujo talvez
e cansado junto de todo um pé com cinco dedos ao todo a impingir na areia no
barro na terra na lama uma impressão de passos. Contudo examinou melhor o passo
o sinal do passo fundido no solo e somente achou o sinal o passo do pé imposto
pelo peso todavia sem a marca do mindinho (não da mão:) do pé esquerdo; com o
direito tudo direito e marcado à pressão como fôrma naquela superfície.
Ora, isso não sendo correto. E o que é
o correto!
Espanto. O inusual espanta.
Deixou espanto, a viver outros sustos.
Viveu dias; seus dias? muitos, quase
nem notando os dias. Até notar naquele fatídico dia, mas por que fatídico; não
sabendo ‘fatídico’, talvez uma visita ao dicionário esclarecesse. Entretanto
não é preciso que se saiba algo existir para existir ideia e para que algo
exista e isto sequer um pai dos burros resolvendo. O caso é ser-lhe estranho o
caso.
Agora era todo o esquerdo. Inda bem
que o direito di-reito e com os cinco dos dez inteiros; tendo portanto somente
nove agora.
Hoje, disse o homem comum hoje, hoje
não é como ontem. Ontem eu tinha dez... será que tinha?
2.O pé. Não seria que fossem já apenas nove? Por via
de dúvidas examinou reexaminou mais outra centena de vezes constatando ambos
pés um só deles sem dedinho...
Assim ao longo dos anos – sem prejuízo
das atividades comuns, altamente comuns – assim viveu o comum do viver,
inclusive não se descartando brigas com vizinhos os outros habitualmente
apreciam andar errados; e com a consorte e com os parentes e com o patrão e com
o desemprego e com o fisco e com todo governo aquele ladrão; e com a dor física
e mais ainda com a dor da supressão quiçá mutilação, sem que atinasse causas.
Ora, onde há tantas consequências causas para quê?
Agora era o pé. Que fosse o esquerdo
já maculado em grupo de apenas quatro dedos, salvos os grandes inclusive o gorducho
traquejado nas topadas o qual além do mais tem unha mais grossa mais dura mais
feia difícil de aparar exigindo compressa e mergulho horas na bacia para
amolecer ímpetos. Contudo nada certo porque suprimido e antes ele já devedor
dum minusculinho nas normalidades e não: nada disso, sumira agora o pé direito!
Debalde inventou justificou batalhas
com derrotas fla-grantes nessa guerra contra o seu inteiro.
O butim seria o resto do seu corpo!
Uma questão a pensar.
3.A perna. A pensar positivamente como que a sina o destino
ou só o acaso houvesse permitido um soma quase inteiro. O pessimismo em plantão
justamente naquela hora corrigiu para a falta do dedo no pé esquerdo e agora a
falta mais grave (car-regou no sadomasoquismo) da falta do pé direito. E isto
não sendo direito trocadilhou, tristemente.
Andava nesse diálogo do monólogo
íntimo quando percebeu que não apenas desaparecera o pé direito a lhe forçar andar
se andar torto... desaparecera a perna toda; e nisto para que servindo ainda
servindo se servisse e existisse não existindo mais a perna inteira do lado
direito! Arriscou num insignificante momento de loucura por que não sumira
antes da direita toda esquerda já aleijada com aleijume do mínimo, então não
mais completa na falta imposto isso pelo costume, esse minguinho do pé que
achara um dia de pouca loucura e muita vaidade o dito dedo uma gracinha; no
caso positivo desse negativo teria daí a perna o pé os dedos direito no direito,
tudo completo.
Mas o irremediável da realidade não
costuma brincar em seviço: faltava mesmo toda a perna direita; seu escroto
agora a balançar mais livre sem o estorvo da coxa da perna direita. Era a falta
que somava!
Porém o hábito pode fazer o monge,
pois que se acos-tumando, depois, com as partes de sobra – sobravam os restos
do seu corpo. Anos de corpo.
4.A outra. Então se habituara. Não com o estado em que
se encontrava porém com a rotina da perda, percebendo naquela manhã de sua
noite na existência haver acordado sem igual-mente a outra perna; e é claro
neste escuro: os pés os dedos que apreciam por sua vez acompanhar o inteiro das
pernas. Daí ele suspirou.
Suspirou aceitações. Constatações.
Concordando consi-go mesmo ter então ao menos o tronco os braços (fortes, gritou
a si o otimismo otimista naquele se levantar e mais não se podia erguer) e
principalmente possuindo a cabeça. Ah a cabeça de pensar.
5.Os braços. Mas
– e que lhe adiantando pensar direito ou torto – mas após um espaço de anos em
exercício para o costume e se habituando quem sabe com faltas e o sofrimento
nas faltas, após esse tempo na rotina descobriu não um só, que fosse o esquerdo
e isto mais grave sendo canhoteiro antes nisso fosse destro se o perdesse;
então constatando não apenas o esquerdo com mãos de emporcalhar papéis e gastar
canetas, também o direito – ambos braços não mais que cotos de braços!
E para que servindo pedaços de
inteiros indagou.
Por fim, não era o fim porém anos ao
fim, por fim aceitou o insolúvel.
Ainda aqui o otimismo gracejou com o
todo: o todo agora é o tronco e a cabeça. Ah, disse ainda o brincalhão, que
bela cabeça.
O pessimismo não respondeu à
provocação: somente coçou arrancou uns fios, quem sabe com saudade do pente de
antanho.
Nisso (e aqui vão belos anos, belos
por quê!) nisso olhou horrorizado onde devendo no leito andar no descanso o
tronco...
6.A cabeça. Percebia já sem susto, para que servem os
espantos que toda uma existência experimentamos quase sempre indevidamente: o
homem comum toma por novidade quiçá desastre iminente o tempo das águas que
sempre existiu e teme sempre também o que nunca existiu. Não mais se espantando
a flagrar a si mesmo com apenas a cabeça.
Agora, se falou então, agora não mais
me falta nada no tudo a perder, pois tenho ainda a cabeça.
Sou a cabeça. A cabeça o cérebro de
pensar. Tenho olhos para ver o que ver. Não viu, só imaginou, não mais via. Não
sentindo barulhos e as coisas. Só o cérebro com a mente de pensar e não ver;
ela para não sentir não ouvir não enxergar. Só pensar ou somente a singrar o
universo no encolhido universo.
Janeiro 2010
15.Cadáver
em Mãos Cruzadas
Desde pequeno, pequeno permaneceu em
grande, desde menino tendo um gosto discutível, aliás todos gostos são discutíveis,
esse bem notável que era o de cruzar as mãos. Não simplesmente cruzar porque
outrem possa igualmente cruzá-las e muitas vezes até; mas deliberadamente
cruzar no ventre, à maneira do gosto nos enterros no seu formalismo e demais
formalidades como a do caixão na mesa ao centro, a do morto enfeitado com
flores, e a das indefectíveis velas e dos cheiros de incenso; e também o resto
do velório como exige a curiosidade social e os desvios sociais também, pois que
o povo não fica no café no chá nas bolachinhas porém despenca a falar o que não
deve e entremeia o que deve, baixo este altão indevidamente aquele. Não isso ou
não apenas isso. Visto o sujeito, que era um sujeitinho uma gracinha em menino
e somente ficou ferozmente feio velho que os circunstantes banalizavam em ‘véio’; visto ser grande ou só adulto e
ainda cruzava mãos, aquele negócio de os dedos entrarem encaixando em dedos
numa cópula disfarçada educada vez que outra relaxada e até escachada, não
sendo bem seu caso. Seu caso: cruzava, cruzou de gracinha até velhinho passando
pela idade adulta válida à sociedade, cruzava direito todos dias todas horas,
como sestro; não existem os indivíduos que ficam brincando com os indicadores
ou com os polegares a imaginar manivela ou círculo e aqui cabendo sê-lo
perfeito (em que se pode enganar os olhos dos outros por ser o círculo imaginário
e o que se vê não se vê olhando só o polegar a rodar em volta do outro polegar
da outra mão). Têm outros cacoetes como o de cuspir constante, como o pôr e
tirar o chapéu ou enrolar pra lá pra cá aquela mechinha de cabelo envaretada
para cima; ou mesmo o hábito de pentear-se todo momento; têm mil outros
sestros, o dele cruzar na barriga as mãos como fosse um defunto. Em pequeno um
anjinho uma gracinha, costume que perdurou até à velhice foi dito.
Contudo é aqui – dizem filósofos
caipiras – aqui que a porca torce o rabo. Porque o fulano imitava imitou vida
toda ou apenas toda existência um morto enquanto vivo. Descruzava, mas quando via
quando percebendo... ah de novo cruzadas as suas mãos.
De maneira que resolveu um dia abusar
desse sestro ou apenas jeito costumeiro – cruzou retesou imobilizou-se qual
cadáver; numa forma que levava pensar a perfeição, sobretudo nas mãos cruzadas!
O pior nisso o crerem...
Então a sociedade, como iniciativa da
própria família e depois passando aos vizinhos aos amigos aos conhecidos e
mesmo para toda comunidade acreditar – fez o que sempre se faz, ou seja
partindo ao velório e ao enterro.
Ficou pranchado no recinto do velório
municipal, rece-beu os carinhos dos que desconheciam a morte, aqui apostro-fada
por estar vivo atento e inclusive uma vez que outra abrindo olhos velados pra
constatar quantos eram de fato amigos de ir até à sua morada última; fiscalizou
o café, disfarçou não ver o serviço de cachaça e a fumaceira do cigarro dos
inveterados houvessem havia muito; em suma viu e aguçou ouvidos a perceber
aquela festa fúnebre em sua homenagem.
A rigor apreciou o serviço funerário
até à troca de mãos no caminhar do féretro. Em poucas palavras um enterro na
altura e no merecimento (a seu ver, lógico não tapou o sol com a peneira nem
calou ‘dizem que falaram’ nem coibiu abusos quiçá pretendendo calar de vez a
boca ferina do povo; enfim andou tudo nos conformes a seu ver:) E assim prosseguiu
o séquito até à beira da sepultura. Aqui olhou gostou aprovou, fez com a cabeça
que sim, sequer deixando a oratória do orador oficial naquele necrológio acabar
a peroração e a gente a chorar já sendo antes as lágrimas contidas agora soltas
diante do ferir no discurso em sua defesa, feito por um rábula se pensando
amigo primeiro e depois orador de fato. O fato é que deu um berro maior que a
voz do panegírico funéreo rico nas repetições nas poesias e nas verdades nessa
mentira: berrou!
Pouquíssimas criaturas com a coragem
de permanecer na porta aberta daquele fecho de vida na ala dos pobres, não bem
dos pobres, a dos pequeno burgueses. A gritante maioria correu fugiu pulando
túmulos sagrados e quase numa só ordem qual ordem de comando militar, então
todos quase já no portão de saída na entrada do cemitério.
Tudo por causa decerto do cansaço de
mãos cruzadas toda vida e de um berrinho pouco mais que inexpressivo do cadáver,
aquele do título deste registro.
Janeiro 2010
16.Gota
d’Água
Faz pouco mais de três meses deu-se
aqui um fato insólito, insólito por inesperado porque não mais que o co-mum,
feijão com arroz ou a gota a pingar da torneira esquecida semiaberta ou ainda a
lâmpada também esquecida acesa nos fundos de casa a gente dorme nem percebe; ou
o corriqueiro lixo o lixo havermos pensado ser terça sendo já quarta-feira e aí
passa o lixeiro. Coisa afim e assim.
Assim me apareceu a velha. Uma como
quaisquer das muitas que teimam existir e existem. Trazia a netinha, depois
fiquei sabendo sobrinha-neta porque a nova velha disse ter tido apenas um
filho... A menina pulandinho em torno da vó, eu achando uma graça: sabem de
minha queda por criança o quanto doutro lado deploro velho, isto outra questão.
Olhava olhava examinava media quase
meu pedaço – coisa de inclusive intrigar – olhava curiosa e, me vendo, indagou
fez inúmeras perguntas e concluiu estar no lugar certo daquele errado. Falei
sobre a casa a vizinhança a família, se satisfez com meus dados, deu ela outros
e assim notei que sabia haver chegado, forasteira, ao seu destino. Foi mais
longe na precisão: tirou da bolsa surrada como surrada me pareceu sua pobre
rica vida uma foto...
A fotografia amarelecida e mui
manuseada mostrando uma família pequena, a minha! Eu me surpreendi e velho
sur-preso é o que há de mais banal mais estúpido e mais insólito também porque
a esteira do tempo já deveria haver gasto bem o inesperado e harmonizado o
caminho; no entanto fiquei de boca aberta pois era mostrada a minha gente. “Este
aqui, disse a senhora gasta não obstante com traços de beleza devendo ter sido
uma jovem atraente pensei, este é meu filho, meu único filho...” indicava um
garoto de três anos ao lado duma senhora nova com outra criancinha no colo e um
senhor jovem mas passado embora; havia um resto de rabo de cachorro, o Totó, e
um pedaço da carroceria do caminhão de meu pai; o que depõe contra o fotógrafo
amadorzão e ambulante (a mulher esclareceu ter contratado o profissional com o
fito de registrar seu filhinho para lembrança dela; ora, nesse tempo vi alguns
fotógrafos mambembes os quais passavam nas casas guardando cenas para a
posteridade da pobreza, devia ser o caso imaginei vendo essa obra de arte;
voltemos à cena:) O menino nas suas calças curtas meio espantado com o espocar
do fotógrafo, o menino era simplesmente eu!
Dir-me-ão haver qualquer engano nisso,
ou estranho porque a velha minha estranha, a garotinha curiosa a medir-me lá
debaixo decerto por notar meus óculos ou o chapéu, enfim curiosa elinha mas
também estranha; eu sendo apontado por filho da mulher.
É de fato estranho.
Ah, ao lado disso intrometi-me na
explicação dela; disse me parecer os traços do menino os mesmos do pai (quis
fazer supor um engano dela: o filho seria da família mostrada...) A que a velha
confirmou paternidade e justo parecer o garoto com o pai; quanto à mãe, a mãe
dele ela, ela a velha.
É de fato estranho.
Mais estranho ainda visto não ter-me
identificado a ela, elas, sequer falei morar na minha casa. Prossigamos.
Acresço a isso o fato que diminui a
estranheza: nestes tempos em que agoniza minha genitora é um tal de entra e sai
gente aqui, muitas vezes vizinhos desconhecidos por nós e até gente de fora
fora os parentes é claro. Enfim gente curiosa a torcer por epílogo se não fúnebre
ao menos a chocalhar o ra-merrão. De maneira que não me espantei com a presença
daquela ausência, desconhecida, espantei-me em mostrar na foto minha própria
gente e nela referindo-se a mim como seu filho de sangue. Claro não me
reconhecer também ela: eu então um garotinho inocente agora um velho carcomido
pelo bar ali da esquina; nenhuma semelhança.
Ela entretanto esclareceu poréns.
Narrou o que resumo a vocês. Que se
enamorou dum homem casado, pior disto sabendo-o comprometido, e com ele
gerando-me (o que a pobre não pôde constatar mesmo ao meu lado, lembram-se não
me identifiquei). Houve algo mais complicado à complicação que era a moral do
começo do século anterior ou seja o fato de sua família ser rica, aqui citando
mil propriedades de meu conhecimento e isto explicando o sumiço dos seus desta
terra. E principalmente a teimosia da jovem pelo amado. A família restringiu
sua liberdade, enviou-a para o exterior, Alemanha França Portugal, quis
torná-la freira; coisas assim. Esclareço o esclarecimento dela num outro ponto
chave – o meu destino. Os pais dela resolveram dar um fim ao neto espúrio, eu.
Falaram em levar-me à ‘roda’ na capital, tinha um convento no centro, onde hoje
a Santa Casa: eu seria entregue ali como enjeitado e incógnita para salvar a moral
da família milionária da sujeira daquela filha leviana, mas, e isto atendendo a
imploração da mãe de primeira viagem, acabaram dando-me em adoção à
familiazinha do pai da criança. Ocorria de minha mãe não segurar filho, houve
vários abortos e então entrava o enjeitado para compensar as perdas da esposa
de meu pai, casada com ele no padre. Com a lógica de tratarem bem o filho, o
que não fugiu à regra. Realmente fui como filho e só vim a saber disso há uns
três meses com o aparecimento da velhinha e a menina.
Ora, o caso poderia explicar a razão
de eu ter sido saco de pancadas, como diz o povo, enfim apanhando horrores da
mãe. O que não satisfaz visto quando ela despencou a engravidar e a vingar seus
próprios filhos, os mais velhos serem todos maltratados por ela sempre se deslumbrando
com o de colo ou aquele no ventre, aí descontando a raiva em nós maiores. Por
outro lado me defendeu sempre diante de injustiças flagrantes e me tratou com
amor de mãe, que eu pensava verdadeira porém me enganava.
Voltando à velha, elas, a menina assim
como chegara pelas mãos da tia-avó se fora também com ela, elas perdidas na esquina.
Todavia disse a senhora que a vida revirara a vida aos seus: os azares
empobreceram a todos, tudo se perdeu, restando a ela residir como esmola na
casa duma certa mana igualmente pobre, de quem aquela netinha saltitante que eu
via. Agora, me afirmou a criatura, aguardava a morte, para quem as moléstias
não souberam enviar.
Matutei nisso desde que a velha repôs
na bolsa esfolada a foto amarelecida em que eu o pivô e filho de sangue dela,
fruto de amor proibido com meu pai, então já falecido. Por causa disso ocorreu-me
o disparate de encarar minha genitora agonizante em pôr tudo a pratos limpos,
no dizer popular. Entretanto já não fala mais nem me reconhece minha mãe
adotiva... Daí, mordendo-me numa curiosidade doentia me dispus a ir reencontrar
minha mãe verdadeira, quem sabe me desculpando por não tê-la atendido a
contento, não ter abraçado e beijado como filho; dando-lhe talvez alento embora
tardio. Assim me dirigi ao endereço de minha tia, agora tia de sangue e igualmente
desconhecida. Cheguei, bati palmas, pedi informes. Uma senhora arcada e gasta
disse que a mana fora sepultada semana anterior...
Fiz mais, fui ao cemitério, quem sabe
apenas para render culto já desnecessário à morta. Apenas pra isso, pois como
diz o povo, morto não conversa. Terá razão a gente!
Abril 2010
17.Farizéia
da Silva
Um
tanto conservador o costume ou ela conservadora ou ainda ambos hábito e gente
contra as mudanças do mundo no mundo; ou apenas contrários às reformas
ortográficas que se sucederam, sem chegarem estas cada uma à reforma do ano. O
fato é que manteve-se de menininha até à morte como Farizéia, isto seria com esse do sapo e subentendido somente o acento
no é, virando fariseia. Outro dado se não também conservador ou habitual o
hábito de no sobrenome dela não assinar o segundo silva – visto ser Silva por
parte de pai, desconhecido ou ‘abandonante’ do lar; e Silva igualmente por
parte de mãe, esta por direitos iguais abandonante do lar, deixando a menininha
para a avó educar, o comum nestes dias – o que sendo uma forma sem graça se bem
haja García y García em outros povos hermanos.
Bem, nada de tudo que afirmado mudando
o que se não muda, que é a personalidade da gente. A personalidade se tem
alterado às vezes em parte como o caráter ou num que outro dado; porém o básico
permanece.
De maneira que Farizéia desde petitica
assim nas brin-cadeirinhas maldosa com o gato, o gato a fugir e ela a sorrir do
malfeito benfeito; desde pequena até madura a agir invariavelmente desse jeito:
fazia o fazer para fazer não fazer ou piormente pondo a culpa em outrem para –
ah sacanagem das grandes! – para em seguida sorrir demonstrar aparentar certa
ingênua santidade...
Enfim uma autêntica falsa, farça a
ajudá-la a se safar da pecha e do estigma do ser ruim.
Dona Farizéia da Silva e Silva, Silva
por parte de nenhum dos desconhecidos, conhecida e mesmo conceituada na rua Boa
Vida. Senhora pobre sim mas distinta e inclusive querida. Esse negócio na
amizade de trocar guloseimas e receitas de guloseimas, dar bolo e levar como
troca para casa uma outra iguaria igual todo mundo no comum do mundo, a alimentar
a boa vizinhança na rua Boa Vida; depois e antes morando noutras vias públicas
como a avenida Saudade, de boa lembrança à vida nestas linhas visto haver falecido,
ninguém ficando pra semente. Aqui um senão do farisaísmo destas linhas: não
viveram tais vizinhas felizes para todo o sempre e a dizer no final “ah como
era boa aquela vizinha, uma santa”.
Santa portanto e durante anos. Ora,
até os santos são pegos desprevenidos nos bolsos na crise flagrante do mundo no
mundo; a questão de sustentar os seus, havendo o consorte mas a ganhar apenas o
mínimo no salário-mínimo e a filharada a manter (além dos gastos para uma
educação santa igualmente, supõe-se) daí resolveu a senhora trabalhar como
doméstica numa casa vizinha, a auxiliar nos proventos do lar.
Então por anos imperou.
Imperar é aqui o verbo mais adequado e
conjugado, além do ferir, com classe, e prejudicar, se houver no caminho outrem...
Imperar. Imperou meses nas prendas domésticas nas suas domésticas prendas.
Neste ponto, quer dizer meses do ano no ano e meio do labor na dita vizinha residência;
nisto entram ciscos nos seus olhos: contrataram os da casa nova empregada a
ajudar Farizéia nas suas pesadas lides. Uma semana após fez-lhe a caveira,
assim se expressa o povo a dizer ofensas... Despachada a auxiliar intrometida,
Farizéia imperou, se pondo não obstante de vítima. Arranjaram nova auxiliar.
Fez Farizéia dela gatos e sapatos com choro sem vela. Mandada embora a segunda
ajudante – imperou impoluta na casa vizinha a vizinha Farizéia. Contrataram a
terceira, a terceira não foi aquela a quem fulana deu a mão!? diz assim a
ciranda. A mão nunca lhe deu, deu parte da incompetência da incompetente.
Ardilosamente dito nestes termos, acharam por bem os patrões, a patroa bem
dito, acharam melhor arranjar uma outra servidora, a quarta.
A quarta empregada não deixou Farizéia
(nem que acei-tasse ser fariseia dentro da reforma e tudo o mais) não a deixou
falsear a verdade nem ser ela, a quarta, caracterizada ladra, ladrona diria
Farizéia. Pois no primeiro dia de trabalho da contratada, quando a imperatriz
acusou a quarta de comer um dos dois pães guardados na geladeira e acusá-la
roubar óleo e dinheiro, este vale mais dinheiro que os alimentos, nesse
mo-mento, vermelha, nervosa, tremendo e temendo quem sabe perder o império a
uma porcaria de negrinha feia etc. etc., nisso sofreu certa pane no sistema,
caiu num tibuf lindo de se ver e de se chorar.
Choraram os vizinhos e mais os filhos,
o marido não quis chorar.
Daí mudou da rua Boa Vida, se mudando
definitivo e sem ninguém saber se mudou nas suas falsidades – foi para a
necrópole na avenida Saudade ou rua da Boa Morte.
Junho 2010
18.Primeiro
o desastre, ocorrência policial de trânsito;
e a sequência segundo o homem comum
Quase nem sentiram, ao menos os dois
não perceberam o perceber. De repente se viram entre os destroços dos carros,
um era automóvel não novíssimo menos ainda zero-quilômetro e o outro se não
velho ao menos bem usado. Isso tudo não importando agora que apesar do impacto
se viam inteiros, os pedaços por ali espalhados, cacarecos bons ao comum
ferro-velho por invendíveis e irrecuperáveis. Um notou de pronto aquele desmanche,
o segundo notando os ferros os ais a gente curiosa a se achegar e um pouco
depois as autoridades; a sirene permanecia irritantemente ligada e também o
pisca-pisca das luzes em alerta, aí chegaram bombeiros e paramédicos a tentar
salvar o que restara, restara pouco naquele muito estrago no entardecer quase
noite em rua movimentada então mais apinhada com o trânsito de veículos parado
no lugar, onde todos querem ver, alguns até a chorar, muitos precisando dar
explicações ou quase nenhum em não desejar sair na entrevista e nos holofotes
televisivos. Bem. Mal viam, se viam não se interessando demais, interessando
isto sim o erro alheio. Um dos motoristas tentou atingir com sua língua afiada
o adversário – você cruzou a preferencial, de minha preferência! O outro: como?
se você na contramão! eu? você, o outro: não senhor, foi você. Um a acusar o
inimigo, já inimigo o adversário eleito escolhido nas circunstâncias. Barbeiro!
um gritou. Ouviu a ofensa e revidou imediato, você, disse, você sim, nem deve
ter carta (na região todos falam da carteira carta) ou então comprou a carta
por telefone... nisso apalpando os quadris na procura de arma ausente, para seu
azar por sorte do adversário... Daí por diante se desfeitearam mais, a andar e,
assim, a se distanciar dos escombros... Não sabe ler placa de trânsito? não me
viu à sua direita, não percebeu a faixa! e se houvesse gente, se criancinhas
atravessando para a escola... gente! Ora, você sim sacrificou um colega meu de
serviço: virou monte de carne e sangue; e ainda quase me matou, por milagre
estou inteiro, assassino! Um entre contendores a querer esganar o outro pôr a
culpa no outro berrar o outro, dar escândalo; maior escândalo que os revirados
na esquina com máquinas destroçadas mortes sirenes lamentações, alimento para
semana aos jornais e à boca aberta da tevê; boletins de ocorrência, acionados
seguros e indenizações; choros perdas mais ainda perdas em vida, sem preço!
Contudo eles não punham imediato dessa maneira, antes querendo se pegar, de
fato, e mais de língua, um se encontrava nessa altura vermelho de raiva, o
outro possesso e com ódio flagrante. Ambos não chegavam a acordo? não chegando
ao menos a falar baixo educado e por que não dizer: numa tonalidade evangélica
como se habituaram a dizer e aprender nos seus ofícios religiosos; agora tão só
se pegando e tentando agredir para se trucidar melhor que o desastre na esquina
resultando montão de ferros retorcidos, local em que os polícias em vão a tentar
isolar apitando empurrando até, enquanto os caminhões-rebocadores e guindastes
chegavam; e as vizinhanças a somar prejuízos materiais, os morais não tendo
condições de apurar. Eles, embora os responsáveis, eles não viam, viam de
longe, perto ainda se ofendiam alardeavam e aí se constatando então longe
realmente naquele andar na disputa nos quilômetros que haviam engolido. Claro
houvessem antes apalpado os corpos intactos à procura de ferimentos, ao menos
para inculpar a oposição ali tão próxima. Não paravam de se insultar de buscar
a real culpa (sempre de outrem) e foi nesse ponto aparecer o velho São Pedro.
Vinha calmo lento se arrastando nas suas alpercatas e ao peso dos anos, barba
branca comprida, trazia o molho de chaves. A custo achou uma, enferrujada
decerto, tentou abrir, demorou, assim acalmando um pouquinho os dissidentes,
demorou mais e abriu a porta, esta rangeu nos gonzos... Olhou os dois
motoristas proprietários com muitíssima razão e imensamente ofendidos e só daí
falou: meus filhos, é assim que desejam a felicidade, se trucidando se
ofendendo se destratando com baixarias! Agora são anjos. Chamou uma anja linda
de morrer, a qual trouxe e pôs as auréolas nos postulantes; aliás um era altão
ela teve dificuldade e precisou ficar nas pontas dos pés em pôr o arco luminoso
nas mentes plenas de luz. Eles sorriram, um concupiscentemente por ver a
gostosura... Assim viraram santos, ambos entraram no céu, o inferno ficou
parado no desastre de trânsito e deu muito o que falar em comentários imaginosos,
visto o homem da rua inventar fácil.
Fevereiro 2009
19.As
Solidões
Um dia tormentoso, não fosse o dia já
sua noite e pior-mente ocaso – aqui poderia quem sabe abençoar o ocaso e também
o pior na vida visto ocaso simbolizar o fim e se fim o fim igualmente dos
problemas, os de um dia tormentoso por exemplo. Em qualquer situação fica claro
este escuro: vivia o pobre senhor em tormentos. Os financeiros sequer apareciam nisso,
sugados e encobertos por outros maiores e isto o colocando acima (ou abaixo?)
do comum, porque o comum dos seres vive a morte com os dramas da economia mal
administrada ou inadministrável. Natural que sendo um pobretão, morresse nessa
vida de pouco dinheiro e muito a quitar; não obstante maiores sim os outros.
O dia tormentoso não desfigurava as
questões próprias de sua avançada idade. Era desses homens ‘incasáveis’ e que
não se tendo definido em jovem e na época adulta pelo casamento, agora
esperando acabar a vida solteiro, solteirão sem ser solteirão empedernido.
Nisto pequena nuança: os que se recusam e batem o pé contra o matrimônio seriam
os empedernidos da gema ou puros (que horror de figura!) os que não conseguem
unir-se ou por timidez ou vergonha ou falta de uma comadre vizinha casadoura,
esses seriam mesmo os solteirões quem sabe incompreendidos. Ambos grupos
solitários e demorando morrer e assim a virar solteirões. Era do agrupamento
dos tímidos. Não muda coisa alguma pois solteirão, para fim de papo.
Antes de estas linhas se enroscarem ainda
mais, são precisos uns parâmetros à inteligência do texto. O ser usava vida e
existência como sinônimo. Se se puser pingos nos ii, não é. Porém válida a
dúvida ao solteirão solitário quiçá teimoso contra as comadres e portanto
empedernido. Não propriamente válida por ser ser comum.
Agora ocorre possa haver nessa vidinha
ou ocaso duma existência comum outros dramas, já indicados e sugeridos an-tes.
Sua noite.
A noite não era pra si um dia
esplêndido. Até pelo con-trário desse contrário da normalidade ao pobre – não o
dinheiro em dinheiro ele mais menos pois pobretão, sem viver na miséria. A
noite a questão, a noite que alguns teimam ser a paz o silêncio o relaxo o sono
o sonho regrado e bonzinho, a noite assim não existindo. Rolava pra lá, se
descobria de cá, tirava punha retirava cobertas e lençóis o problema sendo dele
e não dos panos da cama do colchão afundado; seria então a coluna ao meio a
doer inteira!? Também mas ardia comichava a pele, formigava o tato, suava o
todo. E fedia? satanás a responder por ele afirmava categórico que sim... Um
anjo poderia inclusive consolá-lo com promessas a melhorar um dia – não num dia
tormentoso igual o tormentoso dia: outro dia outro por vir no porvir. Sobravam
certamente mais aperfeiçoados problemas, sempre ligados ao descontrole duma
vida solitária não abstinente longe disso mas insatisfatória às necessidades prementes...
Assim se pejava por se pegar no
avantajado dessa des-vantagem idosa com poluções noturnas e ereções matinais de
ocaso na noite à promessa de novo dia – desconcertante a um indivíduo se
propondo à perfeição, sem perfeccionismo embora. Vivia em razão disso com
sonhos que não eram sonhos, mais e pior que isso: pesadelos!
No entanto buscou o infeliz solteirão
formas de se acertar ou acertar um pouco a personalidade. A tentativa o levou a
buscar comparação com outras pessoas, sem contudo indagar e piormente expor
seus íntimos dramas, isto grave para quem não tenha íntimos. Embora chegou a
algumas conclusões, conclusões não pois que isso não se acaba só diminui nos
ímpetos talvez. Uma foi se não ridícula ao menos insatisfatória. Bem, pensou,
nunca diria também não sendo louco a expor loucuras, bem tenho polução e o
mundo tem poluição e ainda as mulheres sangram todo mês eu menos que mês porém
tenho regra expelindo sem querer esperma; mancho do mesmo jeito os panos na
cama e na vestimenta, tal qual nossas fêmeas, oh e até que me ia bem uma ‘a la
carte’...
Ah – falou a si mesmo o solteirão após
tão brilhantes conclusões – ah isso deve ser semelhantemente drama de muitos se
não de todos mortais. Não será melhor agora eu tentar conciliar o sono,
acordar, lembrar o número no sonho e jogar na loteria e por via das dúvidas
também no bicho!? Quer dizer, não elimino as tormentas dum dia tormentoso ou
duma noite tormentosa em reflexo do dia tormentoso, mas posso ficar da noite
para o dia ou do dia para noite milionário e aí... ai, ora, nem eu me
aguento.
Julho 2011
20.Goiabeira
Agora a árvore sorri ao vento; e
ninguém sabe de nada, nem ela, a Maria, menos ela ou apenas supõe sem coragem a
me afrontar... talvez como faz sempre encobrindo as coisas da casa e os
malfeitos do esposo, esposo no padre sem cartório. Naquele tempo de nosso tempo
no casar, o juiz ou não tendo aqui na roça nem no povoado ou mesmo tendo mas o
costume do povo dispensava, não dispensava era a igreja e a festa. Ela sorri. A
goiabeira que plantei naquele lugar fatídico amaldiçoado temente não escondesse
bem. Sorri, não ela, a mulher, minha mulher não é de sorrir, de rir e, menos,
de gargalhar, pior nesse pior: se abre muito é à tristeza e ao choro. Hoje em
dia melhormente que às lágrimas ao mundo verteas no oratório, a rezar aos
santos todos por ele...
Era o mais velho, minto padre, o
segundo dos mais de dez filhos vivos que a Maria parideira ofertou no batismo.
O primeiro de fato saiu de anjinho com um ano. Assim ficou sendo o mais velho e
olhe que me deu foi muito trabalho, seguindo nas discussões intermináveis e
brigas realmente, pois o Zé era arreliento e briguento não só com o pai, com
todos; era, faleceu.
Na altura em que ocorreu o infausto
acontecimento já também pai de família, me dera três netos conhecidos, desses
de tomar bênção e tudo; e povoara os povoados por aí com descendentes
desconhecidos, seus filhos nem ele sabendo quantos. Cada vez que vinha aqui me
ver, quer dizer discutir comigo e matar a saudade da mãe, nos trazia
companheira nova cria nova encrenca nova; só casou de fato na igreja com a
Rita; mas não foi esta quem ele matou... Na época já vivia sozinho – esse tipo
de macho nunca vive sem fêmea – sozinho beberrão e bagunceiro, um dia quis se
desfazer duma prostituta, uma desse tipo que pega no pé da gente enciumada das
outras na casa de tolerância; fez plano, me confessou tudo para se engrandecer
e para mostrar como agira acabando com alguns probleminhas incômodos... Então
levou a infeliz, disse à pobre andar fugindo com ela a viverem felizes para
sempre; no caminho fê-la descer do cavalo num lugar ermo, deu-lhe três tiros de
garrucha, garrucha da qual nunca se desfazia trazendo a mesma na cintura, fez buraco
na mata, enterrou o cadáver e voltou feliz da vida por se livrar da infeliz.
Porém o tormento acompanhou desde esse dia sua mente, não tinha mais sossego
vivia agitado sequer podendo dormir, até aquele fatídico dia...
Naquele, naqueles tempos eu andava
meio incapaz, um médico de Santa Filomena me examinara depois que o doente
teimara anos em não ir à consulta apesar das dores; os filhos e mais a mulher
me levaram arrastado e assim o doutor exigiu que largasse a bebida o cigarro a
enxada e ficasse somente na casa feito mulher; estrilei e as dores me taparam a
boca. Fiquei nas prendas domésticas enquanto a mulher saía faxinar e ajudar os
meninos a trazer o sustento. Falo meninos porém criados e a Zefinha já casada em Santa Filomena só
ajudando mesmo meu genro e os filhos deles. Assim eu ficava só na casa, a ruminar
as coisas e ralhando com as criações e um que outro neto quando vinha me
azucrinar. Foi nesse ponto chegar naquele dia o Zé...
Chegou já contando vantagem, bêbado.
Eu não bebia mais, o médico... Naquele bebi e me deu umas coisas que não sei
nem explicar. Xinguei o filho, o filho me xingou, prometeu me bater prometi
matá-lo... Andávamos apenas nós dois aqui em casa, os outros no trabalho como
boia-fria a ganhar nosso pão. Bolei um plano horroroso, ofertei mais
aguardente, uma que trazia escondido da mãe dele, ele engoliu caiu dormiu –
então me aproveitei, lúcido, pensei-me lúcido, esmigalhei com o machado a
cabeça daquele inimigo que eu tinha gerado com a Maria e que agora vivia me
trazendo o horror da companhia, pois não falei que só vinha aqui na casa pra me
arranjar encrenca e trazer-nos encrencas de fora!? Daí acabei com a festa
assassinando o filho... Fui além na minha loucura, porque necessário esconder o
corpo a evitar complicações e explicações desnecessárias e mesmo briga com os
meus, os nossos. Cortei-o em pedaços, desossei-o na mesa e pus tudo no tacho,
os ossos atirei na privada, essa de buraco, fedida, ninguém podendo descobrir.
As carnes piquei miúdo; precisando inclusive amarrar os cachorros ou não me deixariam
trabalhar em paz...
Pretendia , veja padre que absurdo e até onde minha loucura no
caso; pretendia servir o Zé afogado, quer dizer feito ensopado, apurando o
tempero a aprimorar o gosto, e depois servir como mistura ao nosso arroz com feijão.
Expliquei, não foi? expliquei que eu era o cozinheiro da casa por não mais
poder trabalhar como homem válido fora, aquele problema da proibição do médico.
O médico foi o doutor João, o senhor conheceu, me disse que eu morreria morreu
ele primeiro...
Imagine, o filho como mistura... creia,
a loucura não chegara a tanto. Chegara sim, não se efetuou.
Aqui entra o drama de sumir com o
resto da prova do crime e também a goiabeira.
Pensei pensei na possível reação dos
meninos e mais na arguta Maria quando de tardezinha quase noite os meus
che-gassem jantar se lavar dormir e para conversa habitual... Assim tomei um
leitão e umas galinhas, matei preparei tudo no lugar do defunto em picadinho. Cortei
os bichos também, portanto nuns pedaços miúdos, temperei a gosto, aí inclusive
dei como presente restos e ossos aos cachorros, me pejava dar restos humanos, ainda
mais de meu sangue, aos cães cheirar e comer! Veja padre, tinha ainda certos
princípios.
Preparada a carne, de porco e galinha
bem entendido – nessa altura já tendo passado o efeito da bebida que tomara às
escondidas do doutor e da velha e suficientemente acordado – enfim preparada a
boia a contento à família, me pus a disfarçar meu crime, a consciência então me
lembrava o mal naquele momento. Que fiz? abri um buraco neste quintal, sem
cerca e quase nem quintal era mataria onde até hoje residimos. Bem, cavei
fundo, sempre enxotando das imediações os xeretas cachorros já desamarrados, despejei
o tacho cheio de Zé, morto e nos pedaços temperados, tapei essa cova acusadora
apressadamente, soquei... e agora, pensei, acho até que falei alto aí podendo
sem denunciar meu crime falar como falava constante com os animais e mais
quando os parentes tornavam ao lar; pensei: e os filhos e mais a mãe e piormente
aparecessem netos no pedaço a revirar as coisas no solo... Foi nisso ter uma
ideia muito boa: plantei umas sementes de goiaba, os meninos haviam roubado
umas frutas na beira da estrada na volta da tardinha anterior, umas goiabas vermelhas,
com bicho e saborosas. Tomei umas sementes delas e plantei na cova do filho.
Fiz mais: cerquei o local com paus fincados à guisa de defender a futura árvore.
De quem? ora, padre, das galinhas a remexer constante e mais dos netos, o
senhor sabe que criança revira tudo; eu diria e disse posteriormente que não
deviam fuçar ali na terra em que o vô havia plantado uma goiabeira. Loguinho me
perguntaram quando surgiria a árvore, quando daria fruta e se eu permitiria a
eles subir brincar apanhar goiaba essas coisas. Sim, respondi e inventei logo
como fazia sempre estórias sem pé nem cabeça em torno da coisa, para esconder
realmente a coisa...
Deu certo, os familiares aceitaram
minha tapeação. Em termos, pois não só a mulher desde essa época me olhava com
interrogações não apresentadas. Além do mais pude agradar posteriormente as
crianças trepadas agora na árvore.
Não obstante...
Naquele dia, naquela tarde, naquela
noite passei lá meus apuros a esconder bem o mal. Alguns entre os filhos a
sentir e me dizer na cara haver algo estranho no lar... Uns que o cheiro
diferente, outros que os animais indóceis... indóceis! A esposa desandou a me
fazer perguntas; depois se calando e somente faria perguntas com os olhos.
Descobriu não sei como que eu bebera; afirmando toda hora eu estar a esconder
qualquer. Comeu resmungando e esbravejando comigo mas também felizmente com as
crianças. Aqui reafirmo ser nossos filhos já adultos, tem o João que se fosse
mulher considerado titia, tem um deles casado largado ajuntado abandonado e a
viver agora aqui na casa trabalhando fora com os irmãos. Enfim a Maria a ralhar
com todos, comigo em particular: a falta de sal o sal de mais a casa suja os
animais doentes a ladração deles; em suma brigada com o mundo. Agora, com o que
mais se insurgiram ela e os filhos foi no tempero. Chegaram a inventar, porque
isso criação pura, indicaram a possibilidade da carne de porco andar adocicada,
como fosse humana (o que me deu certos arrepios e aqui uns latejos e lampejos
desagradáveis pelo tom – me indaguei, onde teria errado? ora, todo criminoso
tem a vaidade de haver perpetrado um crime perfeito...)
Contudo o drama – o externo bem
entendido – o drama passou pelo crivo daquele dia fatídico e depois pela sedimentação
do tempo.
O tempo passou, perdi fios ganhei fios
brancos, encar-quilhei; chorei filhos mortos e a mulher mais que eu. Além de
ela diário se apegar ao oratório que o senhor bem conhece ali no canto da sala
a rezar pelo Zé. Inventaram mil estórias sobre sua vida e mais sobre o sumiço
dele da vila, justificaram mil vezes mil coisas sobre a rocambolesca trajetória
do infeliz quando vivo. Chegaram até a procurar por aí pistas do filho,
inclusive indo à polícia, eu a me incluir nisso e agi assim para me defender é
claro, então igualmente procurando a investigar nos arredores para saber alguém
que soubesse do Zé... Ela entretanto nunca se convenceu bem, me olhando sempre
desconfiada e até a me sugerir esclarecimento nessa inexplicável interrupção
das visitas costumeiras do filho mais velho. Chegou a esposa a dizer-me que
havia expulsado o pobre que tanto ela amava. Brigamos por isso e por outras
razões muitíssimo. Sem desfazer dúvidas.
A dúvida aliás, padre, é a maior
certeza creio que a hu-manidade tem de si e de tudo que gire em torno do planeta.
Nesta casa a dúvida perdurou,
perdura...
Agora, uma certeza garanto. Com esta
findo neste mo-mento, o momento de haver tido a coragem bastante de fazer ao
senhor esta confissão neste fundo de quintal aqui no arrabalde. É a certeza da
alegria das crianças dependuras na árvore numa gritaria. A que elas não sabem e
por isso nem duvidam ser um pé de zé, cheio de goiabas vermelhas e bichos.
Julho 2011
21.O
Título Sou Eu
Hoje, neste bendito dia, cheguei em
minha casa levando um choque. Entrei como hábito, fechei cuidadosamente o portão,
ganhei o corredor indo à porta dos fundos e me pus a vasculhar o bolsinho de
níquel onde as moedas amarelas de ferro que usamos, em que costumeiramente
ponho também a chave solteira e limpa não sendo lisa por ter uma argola de metal
para distingui-la das moedinhas lisas, pelo tato distingo a chave. Mas eis meu
espanto: a chave não se encontrava no bolsinho onde deposito os cobres! Imediato
como acontece ao pensamento o pensamento voou longe vasculhou perto, perto da
esperança a encontrar o local onde perdera a infeliz chave... bem, infeliz eu
sem a chave para abrir a porta abrir a casa. Outro espanto tive daí: a porta
escancarada! Um calafrio como raio me percorreu de cima a baixo – pensei
ladrão, até revi no pensamento a fotografia do rebuliço dentro da casa, pois
essa gente gatuna não tem respeito com nada, explora afana leva o que de
importante achar e some deixando a bagunça, esta no aguardo do beó policial com
lamentação da vítima, infelizmente a vítima sendo eu. Eu me apavorei, inclusive
temi entrar na minha própria residência, também por ‘indesejar’ encontrar
aquela babel deixada e não encontrar o que o criminoso levara. Não só por isto,
por aquilo. Aquilo é que deduzi o esdrúxulo de estar aberta a porta e mesmo sem
que houvesse havido roubo – e aí me perguntei, não seria um caso de furto por
não haver violência do ladrão contra vítima, eu, e só violência contra os bens
da vítima, eu!? Em suma houve certeza naquele dito momento, a de não encontrar
a chave, de que eu não tivesse estado na casa, naquele, hoje neste bendito dia;
em todo caso poderia verificar a coisa e foi quando lembrei indagar sobre o
infausto acontecimento à vizinha geminada da casa, a qual atenta e cuidando de
sua velha, velha não dela: do filho da patroa, esta sim já inconsciente. A moça
limpava a velha e o vizinho, eu, cheguei-me à janela dela (o que uma falta de
educação sem tamanho) cheguei-me e fiz de chofre, antes de assustar assuntando
a jovem bonita desde a janela, fiz a pergunta: “você terá visto se porventura
já cheguei!?” Ela piscou um pouco como seu hábito a se indignar e respondeu (eu
pensando um não:) sim. O senhor esteve há umas duas horas atrás aqui, abriu a
porta de sua casa eu escutei bem, antes me cumprimentou, ia perguntar ao senhor
se trazia meu presente prometido, o senhor me prometeu... fiquei meio encabulada
e coisa alguma falei; vi inclusive uma sacola de supermercado a balançar nas
mãos do senhor (seria o presente, pensei, não perguntei); escutei o ranger da
porta, a propósito seria bom untá-la um pouco e... aí a bela enroscou um
conversar num discurso inacabável, cortei agradecendo o informe primeiro e
depois matutei em torno de minha chegada. Deixei a mulherinha a falar só (isto
mais deseducado ainda) e fui ver in loco,
ou rever, como fora a possibilidade de eu mesmo haver entrado antes, visto pela
vizinha, e não o ladrão, o que dá uma sensação boa de alívio. Entrei. De fato
nada fora do lugar e nenhuma bagunça esperada próprio desses inimigos do
bem-estar humano na sociedade. Nada. Tudo nos trinques como eu digo sempre e
nesse entrar na casa antes de mim decerto terei feito a mesma constatação.
Examinei o quarto o escritório a saleta, ainda com a pachorra de até verificar
detalhadamente o guarda-roupa a estante de livros e a de discos: todos
pertences panos papéis nos seus respectivos lugares; num espaço harmonioso. As
cadeiras as mesas tudinho na posição deixada. Fui ao absurdo – e isto não fosse
estar plenamente em ordem seria absurdo dum ladrão também exageradamente
absurdo – fui ao absurdo de examinar o banheiro, vaso sanitário papel higiênico
inclusive o cesto com resto a aguardar o lixeiro na quarta-feira, hoje terça –
nada fora de sua morada eterna, eterna visto o vaso a janela a haste de
pendurar a toalhinha de rosto sempre no lugar, eterno lugar e aí, aí,
barbaridade como nós humanos fazemos besteira! aí olhei no espelho do armário
da pia de escovar os dentes; que foi que vi? o vidro me devolveu certo: era eu
mesmo quem eu via. Portanto nadinha errado no dito banheiro. A conclusão é óbvia.
Se era eu hoje terça-feira me vendo e vendo meu quarto meu escritório meu
banheiro, é justo admitir que antes desta vistoria eu respeitara meu próprio
ambiente como o faço diário. E agora, hoje, mesmo sem precisar da chave, a qual
enroscada certinho por dentro na fechadura da porta, agora constato ter estado
realmente em casa antes, antes já poderia esperar que estivesse outra vez no
meu lar nesta terça, hoje. Assim olhei a cama o lençol sem mexer a deduzir poder
deitar-me descansado; sem temer ladrão sem temer a mim mesmo. Quase tornei à
vizinha na janela para agradecer por suas informações. Mas achei isto uma
babaquice sem tamanho e daí pejei-me. Fechei, sem bater e despertar curiosidades
desnecessárias, fechei a porta, sumi na cama num lindo sonho do sono sem
pesadelo. Merecidamente.
Setembro 2011
22.Lance
Prosaico
Daqui donde o vejo vejo um bicho.
Bicho peludo bravio grosseiro bruto; isso, um bruto. Tem uns pelos a mais no
seu menos. Cabelos escorridos negros grossos bravos nos espetados, debalde o
trabalho do pente, aliás o pente foi ao chão e no chão continua: pisou-o
despercebido ou preguiçoso no simples arcar. Não obstante é arcado o bicho
grandalhão, perfazendo o desenho em risco que vejo no corpo contra a luz fraca
do vitrô nesta manhã saindo da madrugada um contorno em arco tendo a cabeça um
pouco pendida semivirada à direita. O bicho olha não olha o que faz olhando
melhor o retângulo do espelho embaciado a sua própria face – e então
poder-se-ia indagar: não se assusta! sim, pois medonho se levantando de
pá-virada, um dito que repete quando fala, não fala agora mudo e quem sabe
introspectivo. Olha o vidro vê decerto o rosto peludo dos pelos da lua cheia,
que dizem instiga mais o crescer, nele mais o volumar na epiderme grossa com
eternos pontos negros da barba. Enquanto...
Enquanto estou aqui sentada sem
sucesso, as dores os gases os ares as cores até quase vejo enquanto. Olho vejo
de-ploro quase o que observo. Um bicho emudecido porém fa-zendo o que faz o
pensamento embutido a determinar mexer os membros do bicho sem que emita, mudo,
sons. Mas já sei pela rotina o que se passará daqui por diante vendo a fera. Hoje
se levantou nervoso, vive meio neurótico, não passou dum sorriso numa promessa
com feição de choro para o meu lado; a me tomar por desconhecida! Enquanto,
vejo o bicho.
Tem um corpo grosso grande peludo no
todo. Na cabeça os fios fartos – descobriu um início de calva que teme e cobre
com os excessos dos longos cabelos, um tanto vaidoso. Depois, não agora,
passará seus cosméticos machos a melhorar e aprumar a juba (uso juba a gozá-lo
e me faz como resposta caretas de brincadeira, agora introspectivo e mudo:) e
assim mesmo permanece um bicho bruto bobo. Tem umas pernas fortes grossas,
grossa e volumosa a musculatura dos bíceps e da caixa torácica; as pernas mostram
já cansaço e um pouco de varizes; o que não lhe agrada sequer ouvir lembrar. É
grosso no todo, todo ele. Encontra-se nu nessa tarefa da higienização. Olho,
sem precisar me esforçar desta louça fria que aqueço, olho vejo observo o bicho:
tem os penduricalhos murchos, igualmente peludos a completar os pelos, tem-nos
a balançar ao balanço dos movimentos e esforços com a lâmina no rosto; eles
quietos o quanto possível, um ovo dessa galinha macha quase engolido pelo
ventre donde a hérnia ostensiva o engole deixando o outro lá embaixo solto, e
agora não se queixa em seus uis costumeiros. Mais atento no que faz em cima, só
a barriga um pouco abusada se desencosta no encosto desprevenido na louça
gélida da pia do lavatório onde a água escorre desperdícios enquanto o trabalho
de escanhoar aqueles pelos negros duros grossos qual pinos. Então faz o que
faz, faz caretas no que faz, torce contorce estica encolhe olha se vê não me
vê.
Estou aqui sentada, sem sucesso quase
nas minhas dores enquanto...
Ele não percebe: conversa consigo
mesmo sem falar, eu leio não obstante porque os íntimos (pouco íntimos, lembro,
lamento) os de casa sabem traduzir movimentos e são versados na rotina. Agora
mesmo, no mesmo instante que a vizinha feia liga seu rádio no último decibel a
assustar um bairro, ele certamente sequer nota o rádio a propaganda a música
estridente e sim voando ao próprio pensar. Não temo a feia, horrorosa diria,
temo a outra... Ele chega tarde, às vezes já durmo não me chama se deita se
esparrama se contrai se esperneia problemas e se desliga de mim. Houvesse um herdeiro
não seria diferente! não sei. Ele me culpa, eu culpo ao esposo, o médico culpa
veladamente ambos e continuamos a sós... Não estará tentando ser macho ter
herança na presença da outra? um dia descobrirei. Agora só posso vê-lo.
Olho o bicho, se remexe se coloca em
melhor posição, raspa daqui limpa de lá, a espuma excessiva um pouco cai ao
chão outro tanto na cuba da pia e a água a engole com tocos de pelos negros
grossos bravos, mortos, ao buraco do lavatório; a água agora se borrifa também
no espelho que projeta a imagem do bicho peludo em negruras por toda a pele e
até nos penduricalhos, mais nos penduricalhos a balançar gozado nesta minha
tristeza...
Olho vejo sinto o bicho; sei até o que
ocorrerá no lance posterior ao movimento de arrastar a lâmina na espuma branca:
ferir-se-á, sangrará, escorrerá, limpar-se-á nervoso e tremerá ao fazê-lo na
toalhinha que lavei corei limpei passei dependurei ao lado do retângulo do
espelho para seu bel prazer ou necessidade. Passará certo creme odorizante no
machucado; depois porá mil vezes papel higiênico pra secar a ferida e ficará
como desajeitado que é a se autossoprar e acabará soprando mais ao vidro que ao
rosto ofendido. Por fim fará o restante do despelamento com cuidado, o cuidado
que faltou antes, posteriormente. Ainda assim permanecerá uma gota a brotar da
pele rústica grossa num vermelho, após cicatrizar dura no tempo e em marca
virando então negra dum negro rubro do sangue então andará seco.
Adivinho também a sequência:
vestir-se-á correndo, o-lhará correndo a pulseira o atraso, o carro a aquecer o
motor, o disparar, o se esquecer até de meu trono; quem sabe se lem-brando do
trabalho... do trabalho e dela no trabalho...
Abril 2009
23.A
Nora da Sogra
Não, a Sogra da Nora. Não; também não
pois tem certos temas indigestos ou controvertidos ou inadequados – ih o texto
fica no papel a esperar a esperar a esperar e não destrincha; aqui melhor o
Filho, o Filho da Mãe, Sogra da Nora, foi a perdição do ganho. Aliás o teimoso
texto se inicia – sim também com a intriga comum da oposição elinha a dizer que
elona oposição, esta que aquelinha, a qual diziam linda de morrer e... – tem
início com a desavença da sogra (ué, não era a mãe?) sim da mãe com o filhote.
O filhote era o comum de bater perna dia inteiro brigar com os colegas, com os
amigos não porque poupava amigos só jogava amigos contra amigos como exercício;
uma santa criatura o filhote. Ah e brigava a mãe com filho num bate-boca em não
acabar nunca, acabando num choro da mãe pois o filho tornava após o entrevero à
rua com os moleques. Os moleques que não morreram ou não fugiram nem fugiram ao
casamento e suas necessidades de chefe de família, esses ficaram a crescer com
o filho da mãe. Grande, ela pequena até no seu nome porque encolheram de Josefa
para dona Zefinha, ele grandão adultão solteirão até prova em contrário,
permaneceu a azucrinar mamãe. Fê-la brigar com a mana, mana dele, fê-la se
desentender com o marido, pai do herói. O pai não aguentou e fugiu ao serviço,
do serviço fugiu a outro serviço noutra cidade, de preferência longe do perto.
Assim ficaram se chocando, e para não perder a agilidade ambos filho e mãe,
dizia ele mãe e filho afirmando a oposição filho e mãe como constou ali; tudo
sem solução. Ou o choro é uma solução! ou o desabafar com as comadres da rua
Bom Princípio (que Zefinha sempre confundia com Bom Precipício, ainda
pronunciando errado ou distorcido o precipício, acertando se não a rua sua casa
direitinho). Daí piorou a piora, o que é o melhor aos pessimistas; piorou em
vista de o filho haver crescido, não ter querido permanecer na escola mas tornando-se
como compensação doutor em rua, com PhD
mestrado e doutorado ilustrado por phd já dito, doutorado especializado em nada
fazer. Ficava zanzando por aí, a aquecer a roda da bicicleta, esta que ele num
modismo apelidando “báique”; depois fez o pai comprar-lhe moto; e então a
aquecer ‘totorotando’ a motoca para ajudar o planeta a queimar combustível fóssil;
depois trocou de moto nuns rolos medonhos a agitar a polícia com ‘beós’ e tudo;
tudo por causa do combustível porque resolveu optar por biodísel etanol ou
álcool ou outro modismo na nova velha usada motocicleta contra a vontade da
mãe... ah oh ih ói a mãe outra vez; agora com pouco bate-boca pouco grito e
pouco choro? muito, o choro virou dilúvio. Daí nem a polícia dava conta do
recado nem o pai a enviar mais dinheiro a comprar motocas e a dar meios para
funcionamento delas. Assim desistiu o pai, o pai também existia e a gente
pensando que houvesse apenas mãe e filho e... e a nora? pera lá. O filho teimando
teimando em não fazer nada... Outro pera lá: ora, virolar de moto não é fazer algo!
É. A Zefinha achando que não e por isso brigou com o filho mais alguns anos até
dizer “basta!” Ela? não, Ele. Elão, agora é um sujeito desse tipo armário ou guarda-roupa
ou segurança com cara de mastim, embora manso. Manso e teimoso. Teima então
andar apaixonado por uma jovem linda de morrer; eles querem viver um romance. A
mãe entra no meio, grita como um pai, o pai não grita não e sequer tem voz...
quando é hora de falar alto e machão pra valer não grita: foge para outra
cidade longe, longe o bastante a fim de não saber o circo pegando fogo, longe
em não ver perto Zefinha, sua reclamação e seu choro ardido seguido de lamentaçõezinhas
às comadres da Bom Princípio, esta sim nuns maus lençóis daí por diante: a rua
movimentada pelas visitas policiais a apreender por roubo ou papéis
insuficientes as motocicletas; Zefinha por não ter como inverter as coisas se
põe só a lamentar. Saiba comadre: o meu louco filhote, não é que esteja se
desarranjando arranjando mais encrenca com uma sirigaita!! Não disse o texto
que se esperasse a Nora! A mãe (ué, não era a sogra?) a sogra reza um
padre-nosso à presuntiva nora; reza a dizer à outra mulher que ela, a sogra, não
quer ser sogra de ninguém; contudo é sogra não tendo mesmo mais jeito (a nora
mostra a barrigona e o argumento costuma convencer qualquer sogra, das que já
houve e das presentes, quem sabe não sobre para as que virão no futuro). Então
a sogra espreme a nora. Olha aqui, sirigaita de merda, diz Zefinha fina e educada,
aliás é mesmo fina parece bacalhau de magra porém a voz é bem forte e gutural
nos gritos, fique sabendo que sustento seu homem e não vou sustentar com o
dinheiro do meu marido a mulher do filho e o filho do filho! entendeu? Então
suma. Choraram ambas e o choro não
corrige distorções nem inventa a felicidade. Por isso o filho da mãe montou
casa improvisada nos fundos da casa da mãe (não era sogra?) da sogra da nora e
mora agora com ela e... Pera lá de novo: elas se falam, apesar? Não. Se olham?
Sim. Tem mais uma insignificante questão. Zefinha disse no celular ao celular
lá longe do pai do filho “ocê vai ser avô...!” e antes que emendasse lá umas
reclamações o pai do filho indagou abruptamente se o filho do filho é uma
gracinha, já se preparando a funcionar noutra cidade sua moto correr ver a
gracinha depois contar aos amigos. Não sei, respondeu a sogra da nora. E completando
na sua opinião a ofensa “nem nasceu ainda!” Nisto tendo razão bastante, não a
nora, a sogra.
Agosto 2011
24.Porcaria
Reinava a paz. A paz do Senhor segundo
o jargão religioso mui pouco pensado, pensando que a paz seja a riqueza em ter
coragem a suportar o que se deve suportar, enfim ter a força bastante para não
claudicar se rebaixar e fracassar como corolário. Não. Não se pensava nessa paz
mas na paz do descanso quiçá com alegria barata à vista em longo prazo, quem
sabe pra todo o sempre. Embora, muito trabalho pela frente, muito mesmo
assoprava dona experiência, porque a família já passara ene-vezes pela matança
retalhação limpeza tempero cozinhamento ou assadura e apuro da gordura com
peles a estalar trincando nos dentes e o povo dizia gozado “terréque” ‘onomatopeizando’
os sons e a atividade; e de novo, definitivo! que seria definitivo? sim outra
vez a limpeza; limpeza final enfim; a seguir vindo o cansaço que a cama cobre
para a vida cobrar. Ainda aqui a usar indevido vida por de fato ser existência,
mais expecificamente curta existência.
Nisso resumindo a porcaria?
Nisso. Claro não se tratar de porcaria
à moda dos meninos que ‘senvergonhamente’ praticam molecagem nas capoeiras por
aí. Não.
A matança e “cuidança” (tinha uma das
capiaus a dizer assim, textualmente assim; além das linhas se negarem a
regis-trar a feiura capioa); em suma o tratamento da carne de porco o porco
criado meses em casa; nessa casa e na casa dos outros, visto todos na época
assim fazerem: alimentar alimentar alimentar engordar matar cortar temperar
olhar cuidar apurar distribuir entre si ou entre vizinhos a carne. E por último
comer. Não, defecar por último e isso o ser vivo não põe quando vivo.
No capítulo curto grosso e rápido
contra os constran-gimentos possíveis, ou seja o do sacrifício do animal pelos
a-nimais tidos racionais; aqui ficando melhor dizer apenas o tio, com lastro
enorme na arte de torturar e matar cabritos a feste-jar o Natal, ou o porco,
como neste caso; no entanto se negava a eliminar galinhas – corriqueiro essa
facilidade às mulheres, não para ele. Nesse dia sem funeral nem cerimonial no
sacrifício do porco havendo uma gritaria danada, as crianças tendo que ser
levadas de perto ou chorando. Curiosamente apesar de carrasco do porco o tio, o
tio sem coragem bastante a esfaquear vacas; dizendo que elas a implorar nuns
berros antes da eliminação e por isso a cortar-lhe o coração... Ficava a
matança aos cuidados do tio, que a estar embriagado virava bebum-torturador por
não acertar o lugar de sangramento; e sóbrio apenas executor-carrasco. Todavia
todos morriam.
Mas os cuidados com o tratamento das
partes, os nacos da vianda a preparar, é que cabem medonhamente bem na
ex-pressão porcaria...
Gente, é aqui que entra de fato gente.
Dona Maria, oi dona Maria outra vez,
ela a mandar mandona. Não por ser velha e se dizendo nova perto da nonna acabadinha e que não fala coisa
com coisa; nem por se esticar, também lipoaspirar-se ao jeito da rica no meio
urbano e que não aceita envelhecer – não se estica, estica a existência apenas.
Contudo ainda fortalhona, os exageros e possíveis hipérboles são por tamanho e
banha; sem chegar aos pés da porca que jaz aberta exposta morta enfim na mesona
da cozinha, a cozinha já um tanto abusiva na extensão cabendo nela folgado uma
residência urbana de pobre, ela no meio rural. Onde se tagarela bem; ora em ‘caboclês’
e vez que outra em italiano; mas bem.
Bem, todos falam; melhor se pondo em
palavra medida ‘todas’ pois quase só elas barulhando, elas e elinhos, os quais
sem sexo ou sem pensar no sexo e as meninas já pensam sim um pouco; os machos
da espécie é que não por filhotes ainda. Alguénzinho na roda da saia materna,
atrapalhando no vivo trabalho da matança e cuidança do porco. A porca, coitada,
ela também perdendo o sexo na falação comum ‘carne de porco’, isto sem
importância à morta.
Está na berlinda na mesona. Grandona e
maior morta ainda que viva, aberta. Sobe um cheiro de açougue na cozinha, meio
comunitária, onde as moscas a esvoejar se divertem e se divertem os cães
olhando a gostosura lá em
cima. Suma , sua fia da... xinga o homem na feição feminina a
mãe da mosca, xô, xô não: passa desgraçado! O rabo entre patas sai manso pra
fora antes para um pouco na entrada da porta a porca a mosca a moça menina-moça
vem a empunhar arma (um chinelão assim de grande e poderoso!) arma de afugento
definitivo, o que houver de definitivo, o rabo entra mais entre pernas: pernas
pra que lhe quero não diz não late não morde foge. Mas volta, carne atrai,
atrai outros vira-latas e assim alvoroça, a cozinha não deixa nem alvoroçar
direito na conversa; a conversa dirige dona Maria.
Dá outras ordens, tem gente com
liderança de dentro e manda fora mesmo não investida e todos, todas obedecem. A
menina a moça a comadre a comadre da comadre a vizinha a tia, a mãe não diz
coisa com coisa apesar disso obedecendo; e mais ainda nisso os pequenos que só
atrapalham...
D.Maria: oh corno sem vergonha, saia
daqui porque está espirrando. E de fato se escuta o barulho perigosíssimo da
fervura apurando os pedaços temperados e o calor é medonho. Alguém a mando de
alguém quem? decerto ninguém, alguém de tranças espanta mosquitos atrevidos com
um abano. Embora, um que outro cai acresce nas frituras na quentura numa pretura
dessas que se fala os olhos não veem e o coração não sente. Abana espanta
assopra até; não obstante o calor aumenta, aumenta o cheiro aumenta a frequência
em volta da casa em volta da cozinha em torno os moleques se gritam pela
novidade, os cães se mordem ou só olham à entrada do paraíso, no paraíso o inferno.
D.Maria contra a gritaria. Faz isto
arruma aquilo, grita baixo; não sua burra: a maior, não vê que não cabe! Leva
essa pra lá... ah cuidado!!! (reticências não cabem no perigo, então vêm as
exclamações ao socorro, três em lugar dos três pontos a reticenciar, a imperar
o mando da mandona:) faca na mão de menino! meu santo Deus minha Nossa Senhora,
um descuido da gente e – ora quem pode com criança. E aí vem mais problemas a
infernizar a parolagem e o inferno do paraíso – derrubam num plaft em cacos
muitos e um inteiro; a carne ao chão melando o chão melando focinhos melando
nada descuidados por entre pernas pés humanos sem ordem.
Ordem na casa. Na cozinha.
Maria grita da janela não para
refrescar-se pelo calor terrível nas tarefas da cozinha: parem de brigar – além
da briga costumeira da cachorrada a cachorrada desses moleques, vocês sempre se
insultando. Assim os moleques lá fora param sem graça, param um pouco fora,
dentro a mandona volta a mandar.
D.Maria distribui serviço, sobra trabalho.
Um, uma, limpa outra guarda outrinha seleciona e tem aquelas em quem não se
pode mandar, confiar em nenhuma diz em pensamento Maria ,
mandar é que não, com filho a gente grita bate, na gente de fora... Dentro é o
desencontro, não de ordem e sim de tarefas. Chegando a um pequeno e quase
imperceptível cúmulo de se chocar alguém com alguém no caminho. Os desastres
inesperados são muitos e as risotas, o gargalhar até no epílogo.
Aqui não propriamente epílogo, fim da
porcaria.
De um não final, não tem fim. E tem a
questão do fogão caipira deles delas. O bicho urra suas lenhas as achas
desi-gualadas se acham no consumo, algumas verdes ainda e daí saindo muita
fumaça e a provocar ardiduras nos olhos da menina que atiça e ajeita a lenha para
esquentar ainda mais a quentura, encontra-se a jovenzinha vermelha naquela vermelhidão.
Em cima da chapa de ferro o tacho, a chapa quente onde os gotículas não sabem o
que fazer se pulam se dançam se desaparecem ou se voltam à borda do tacho
quentíssimo, o tacho fervente e a estalar peles e fritar o toicinho os nacos de
carne da morta gorda viva e mui manhosa – é a menina no lembrar que tratou
sempre da morta viva a viva fritada morta e portanto comportada agora e não
mais chorosa como na ceva do chiqueiro. Assopra mais cheira mais o ambiente. Nisso
chega ali um pequeno chorando. A chefa para olha faz que vê não vê determina
não ser nada grave, assopra o lugar ofendido também ela qual a outra ao fogo,
olha depois o menino e conclui: viu como sarou! e assim o doentinho foge alegre
às brincadeiras. Esse um final provisório mas não tem fim a trabalheira. A
sujeira impera, óleos gorduras insetos, baratas elas não temem, agora; têm os
insetos voadores sem necessidade de aparecer e que aparecem sem serem chamados,
voam rastejam sujam – gente diz sempre em termos de sujeira. E os trens. Ai os
trens fora de lugar, no lugar indevido ou no lugar mas que se não encontra
quando preciso. Pratos riscados trincados usados seminovos e também usados
emprestados. Tijelas latas vasilhas de plástico inclusive, hoje o plástico invade
o ontem recalcitrante e também presente ali... Ai ai ai tem entremeio a tudo
isso a conversa de todos em todos momentos, são estórias contadas inclusive em
torno daqueles talheres e dos objetos outros e se fala se lembra amiúde das
outras pessoas ali presentes ou ausentes escondidas e que se não encontram
embora vivas. E aparecem as estórias, estas mais frequentes, as estórias da
gente; gente puxa gente assim como estória puxa estória, um nunca acabar,
decerto ninguém falando mal de ninguém, estórias que se entrelaçam se entrechocando
se metendo na porcaria.
Da senhora Maria.
Setembro 2009
25. Choque sem força
O senhor Poesia era lesbicamente
casado com dona Realidade, as duas, Realidade e Poesia, casadas no padre no
cartório e onde mais se exigisse; a sociedade não sendo demais exigente, a
vizinhança sim, não casadas dizia insistia e insistia arranjadas amasiadas
concubinadas consorciadas enfim na igreja verde, este um dito popular na época,
imemorial. Contudo, quer dizer no legal da coisa, não ia bem a coisa; coisa
pouca assim de milênios, ou seja desde que o mundo é mundo, o imemorial aqui já
lembrado. Não indo bem realmente pelo flagrante choque.
Estaria aqui configurado o quadro das
reinações indis-crições indecisões e cisões conjugais? Um talvez sem quaisquer
certezas.
O conflito quem sabe não ofendendo
tanto a sensibili-dade social em vista da rotina, esta já rotina no sentido imemorial,
o que vai do segundo inexpressivo ao milênio histórico. Como sempre em se
tratando da rotina, não se percebendo nos segundos iniciais iniciantes; todavia
mudando entretanto o parecer na vizinhança – oh comadres de todo o mundo:
uni-vos – a qual passou melhor observar ambas, mormente quando já histórico e
às portas do divórcio; ou seja aquele negócio do espetáculo que todos apreciam
apreciar na vizinhança. Exato, no começo nem havia divórcio, no fim veio a
salvadora lei da separação dos corpos em separação já concretamente separados.
Em suma prato cheio às línguas comadres. Nada que o sol não haja visto antes,
pois assim que o mundo se faz.
Poesia ia via se havia, havia sim
flor. ‘Cantava’ a flor (claro sua esposa não saber disso, perdida na realidade
do mundo). Cantava cheirava quase lambia e amava a fragrância flagrante.
Realidade reclamava, braba, irritada
ao menos, o atraso no almoço; fumava após mas contrariada, aí dava no pé nos
pés dos seus negócios. Negócio de bolsa banco gerência pagamento rolar dívida,
dúvida muita dúvida. Depois nem dormia, insoniando enquanto a outra, outro a
pedido; enquanto ela sonhava com a flor com jardim com o perfume; a seu lado
aquele bafo de tabaco, sequer charuto cubano podia a dívida nos negócios da
família comprar, Realidade já optando por cigarros e cigarros de marcas inferiores,
contrabandeados ou não, visto dar o mesmo necrotério. Não dormia, dormia a parceira,
ansiando por estórias de amor.
Poesia, coisa de homem sem ter o que
fazer, Poesia so-nhava também acordada, sonhava com viagens, indo nisso até ao
fundo do quintalinho ver as plantas, imaginando cancuns paraísos disneylândias
mais, menos para satisfazer-se se satisfazendo virtualmente nos sonhos e nas estórias
dos sonhos. E pior: cria na cria do que criara. Pior no pior: despejando o sonho
na realidade da companheira Realidade; agora de volta ao jantar – puxa, não tá
pronto! pô!! Brigavam.
Brigavam feio. Realidade se não
apelando gritando ber-rando mesmo muito, a assustar purezas vizinhas. Por fim,
cal-mas, iam ao leito se acalmar mais, possível; e aqui ninguém tem nada com
isso nem as comadres no que faziam, se fazendo, fazendo bem. Bem, outro dia.
Seria o dia segundo, segundo os
segundos ou já histori-camente o sem-solução? não importa, importa que a vizinhança
falava, língua solta; dava receitas e palpites: por que elas não fazem assim ou
assado. Assado! isso, um bom assado e dizem que a marida adora comer do bom e
do melhor, embora as finanças da casa contradigam. Outra: por que não fazem
como nós, filhos; sim criança enche mas enche também o tempo, toma o tempo não
sobrando tempo a choques, impede até separação ou dá mais separação. Como
resolver este impasse... Quanto ao casal se havia não tinha pensado nisso; não
poderia resolver, houvesse pensado na coisa; em não ser por adoção a prole.
Poesia punha mais e mais minhocas na
cabeça, flutuando no cosmo difuso nebuloso lindo de se ver pra não se ver a
realidade chã. Enquanto Realidade voltava armada de canhão para o lar, onde a
flor e o sonho.
O choque após conflitos inicialmente
postos nos segundos já milenares – sem solução.
Daí veio a solução. Poesia meteu na
cabeça ser a segun-dona de sua esposa. A poder melhor sonhar ser mais infeliz.
Realidade arranjou secretário para poder sonhar a realidade.
E se não um fim de idílio, um fim pelo
menos.
Outubro 2011
Antes que tudo é preciso afiar a
língua, língua de matuto engole no texto e no título erres. Porque a garota não
prometia nessa promessa – toda jovem é promessa e os homens se pensando pra
valer machos anteveem ‘bonituras’ mais mais pra diante; ela ‘feiotinha’ inclusive.
Os seios apontavam na sua meninice, os adultos corrigindo os abusos e ainda
assim ela se olhava olhava reparando a transformação; sonhava enfim quem sabe
decerto que sim ser uma formosa mulher quiçá miss-qualquer da tevê. Mas não passando de menina, moleca zombam os
de casa.
Agora entre sonhos e brincadeiras,
visto aproveitar-se da tarefa nas brincadeirinhas da criança (mais criança que
ela); então brincava mostrava apontava imitava a voz do boneco sem voz; o
outrinho, um pouco mais que nenê, o outro a rir ou do boneco ou do som gozado
da voz do boneco. Ah é hora de comer. O bebê não quer, força experimenta
reimita aquela voz fanhosa catarrosa dos panos e enchimentos do boneco, elinho
sorrisinho e ela, a mãe precária e provisória, consegue o feito duma colherada
daquela papa com gosto de sem-gosto, ela ora erra ora erra mais no açúcar no
sal na quentura. E faz, aflita, o que pode pode pouco mas se entendem. A babazinha
e o babãozinho. Este derruba a sobra ‘pufa’ assoprando a meleca. Ela enxuga
limpa troca de novo as vestes, tem um babadouro cheirando azedo. Chocalha o
chorão corre pra lá volta pra cá, inventa isso ou aquilo, distrai a vítima, ela
mais vítima que a vitiminha. Por fim dá por encerrada a sessão comer defecar
outra vez e trocar de roupa, não podendo trocar de menino ou de serviço imposto
por sua pobreza e a quase indigência dos seus.
Agora toma aquele pesão de moleque
estufado com lá-grimas ainda, carrega gemendo o fardo pela falta de fartura em
seus músculos de magriça, carrega o fardo até a esquina. O sol anda brabo, o
movimento é quase nulo e não tem o que mostrar – se bem que a uma criança tudo
seja experiência nova. Busca, busca além busca aquém e eis que surge o au-au.
Fulaninho, diz, olha o au-au. Au-au
anda ele mole amo-lentado pelo sol pelo calor pelo gradil de impossível
rompi-mento, passivo. Au-au olha desconsolado aquela criança de vestido
encardido sujo lambido usado pobre enfim; com outra criança no colo, que não é
colo pois escorrega o menino dos peitinhos doloridos de babá; olha com meia
curiosidade (a ocasião, o tempo, as condições talvez não permitem curiosidade
total, se dispõe ao amolentamento). O menino olha por sua vez vê também au-au.
Au-au abana o rabo, o coto de rabo cortado, cotó, numa semialegria por ‘ver’ o
cheiro costumeiro e vezeiro da dupla; cheira melhor os dois, sorri mais mas não
ladra como desejando a criança grande a distrair a criança pequena. Ainda assim
um ganho.
Percebe a babá a seguir a rua deserta,
a fumaça ardente do sol no asfalto quente preto chato; ‘deschocalha’ o pequeno
a escorregar de novo, aperta um pouco o volume, o volume ameaça chorar, ela o
carinha rápido.
Afasta-se de au-au, da vista que vê e
veem ambos. Decide voltar ao portão de casa da casa dos outros, os outros sendo
a patroa de fora fora agora; agora abre entra deposita cansada o fardinho,
fardão pela gordura chorosa; deposita na ânsia que a televisão possa distrair
melhor um mundo.
Porque aquilo tudo é tudo o seu mundo.
Março 2009
27. Final
de um Reinado
Aquela
belíssima fêmea da espécie andava – e agora se-quer adiantando constatar –
andava pensando haver atingido o topo se não da glória o da beleza, fosse
vaidosa e talvez vaidosa igual mil mulheres, mil e uma. Isso um senão naquele
trajeto ao chegar ao cimo, desde que iniciara esse trajeto no longo caminhar.
Eram mil lances da escada de baixo até no extremo das alturas. Por fim um dia,
quem sabe anos depois de começar, num certo dia chegando ao ápice da rampa. Era
a seu ver o topo duma torre infinita e se arrastara até lograr êxito por longos
sete pavimentos em andar cadenciado persistente teimoso para cima e agora lhe
parecendo sim o topo do mundo quiçá do universo. Via lá da altura as alturas
mais e embaixo o inferno da insignificância das coisas no solo: gente, outros animais
e coisas como veículos em movimento da loucura; e já não podendo enxergar
formas miúdas e menos as microscópicas. Nesse momento tal era sua grandeza que
se pensou rainha.
Enfim por todos lados e direções que
via via a imensidão em volta em cima em baixo, nos baixos onde estivera a
conviver com seus iguais e dessemelhantes.
Enfim pensou estar bem ali no trono;
aqui mera refe-rência simbólica de sua grandeza sobre o mundo.
Verificou o novo lar. Nada luxuoso à
dignidade duma rainha; se pensara antes princesa mas agora após tantos degraus
na escada em escala para o alto, com certeza rainha na idade. Então resolvida a
cuidar da moradia e a fincar pés na eternidade.
Olhava da janela a amplidão da
paisagem geral e ao mesmo tempo os destroços ao seu redor, que eram móveis
improvisos, restos humanos dos homens quem sabe perecidos perecíveis. Contudo
dava para teimar viver naquele edifício altíssimo como a eternidade, abandonado
talvez. Logo percebeu o engano pois muita gente e sua barulheira e seu desentender
chegaram ali. Entretanto não restava dúvida ali sua primazia por idade e o
haver aportado antes que outrem. Houve assim um conviver pacífico...
Ou sofrível, visto não só no local mas
embaixo noutros andares andar a grita de mães crianças ou delas com os pais
presumidos sempre presumidos e seus familiares presumíveis ou não e apenas
supostos. Em suma o desentender e a violência do desentender de seus vizinhos
abaixo; e os dos conviventes no mesmo patamar, ou seja no sétimo andar.
O curioso para si era ser um ambiente
de cortiço o pré-dio aparentemente velho e abandonado, com seres mui vividos
pela subvida na luta pela sobrevivência. Então bandidos no jargão policial e da
sociedade fina no trato. Mui claro o escuro chocante a uma rainha. Porém necessário
persistir e assim continuou naquela esdrúxula relação.
Agora preciso se tornava ouvir sofrer
aceitar mesmo não podendo se conter por vezes diante dos outros moradores. Havendo
um rol imenso de desaforos e reclamações sem fim, nas quais sobressaindo a
falta de dinheiro, o dinheiro pouco o desemprego muito e tendo um pior – ah que
horror! – o periclitar nas relações afetivas... Brigas homéricas e lutas
labiais quilométricas, a arrasar orelhas; violência na violência e a violência
no engano da aceitação virtual com desmanche concreto. Nisso pais e filhos,
filhos e irmãos; acomodações periféricas e ódios mal contidos com apelo à
polícia, esta já cansada de intervenções baratas e quase fictícias – aquelas
que não dão ‘ibope’; ou por outra: as que dão exatamente o crescimento da
audiência televisiva. Ai a televisão! Ficava ligada arreganhada exposta em
crime e ao crime, para os de fora e para os de dentro respectivamente. De todos
e dos vizinhos; os grandes saíam a catar restos nas ruas ricas na poluição por
falta de provisão, enquanto os pequenos se digladiavam a se distrair na frente
da tela.
E a rainha ter que conviver com isso
para coexistir!
Entretanto nada dizia.
Do seu lado, lado a lado com outros
seres, humanos porém desumanos na grosseria da família miserável e em
desmanche, do seu olhava aquilo e tentava sobreviver – o que abuso de linguagem
de mui ferir uma rainha, rainha embora de poucos súditos. Um dia no tempo do
calor subiu voou inclusive entre a gente um provável zangão candidato a rei
(por que não!) Já não vivendo só. O contrário disso, ela se reproduziu a
mancheias, a espantar moradores, os quais no atrevimento e temência espargem
inseticidas, estes decerto encontrados vencidos nos restos e entulhos da sobra
rica aos pobres, numa alegria de miseráveis...
Quer dizer que aí residiu a tormenta:
a rainha e seus fa-miliares – e os filhotes eram uma gracinha – foram dizimando
morrendo, inclusive aquele macho perdido que se achara a-chando a rainha
encantonada no seu trono. Nada sobrou, so-brou a vaidosa rainha.
Agora era esconder-se dos ataques
assassinos da gente. Contudo perdurou sobreviveu a barata já velha cascuda e de
cheiro nauseabundo, nojenta no dizer da mais graciosa na prole humana; opinião
também dos vizinhos debaixo, os quais viviam a morte doutras baratas
semelhantes que semelhante havia galgado o prédio secular gritando por implosão
a se construir algo decente e a abrilhantar de novo o velho centro refúgio de
marginais, vociferava a imprensa.
Todavia ela perdurava. Escondia-se,
chocantemente a uma herdeira da realeza blatídea. Agora, após o envenenamento
dos seus, agora se ocultava nas estroncas do apartamento ou nas frestas dos
móveis de segunda mão já envelhecidos no seu novo lugar velho. Não podia mais
apreciar a vista do cume daquela torre tão alta como o mundo, tão dominadora
naquele centro do universo. Debalde buscou outra criatura de sua espécie a fim
de continuar rainha vaidosa de sua beleza e do seu mando. Sequer encontrando um
ser doutra espécie, como notara um dia certo pernilongo que subira há anos pelo
elevador, não podendo voar com as próprias pernas de suas asas àquela seta
voltada ao infinito do firmamento. Nem ele havia. Solitária e escondida como o
mais ínfimo e humilhado entre os súditos.
Não obstante teimava.
Persistiu até que um gato improviso de
fios na eletrici-dade roubada pelo edifício a imitar museu ou fantasma, até que
a improvisação da gente estourou queimou a tudo, em tudo dando trabalho aos
bombeiros, antes do desmoronar. Nisto se sabendo que a força de combate em
plantão não pretendeu salvar sua majestade. Se é que soube dela.
Agosto 2010
28. Na
Oficina
Naquela tarde quente voltava a pessoa
ter saudade... do que via? ou não via, via a saudade que não mais sentia, quem
sabe não mais que vício da saudade que sentira um dia. Em outras palavras
talvez saudade sim mas do tempo que sentia saudade, seca bruta parada quase
inerte qual a figura duma estátua. Não obstante agora não sentindo vendo ao
menos o que vira por menos de milênio, de século, de existência, a existência
que não suporta quase os setenta diz a estatística; e seria antes mesmo do seu
sentir o seu examinar, o que mais que ver apenas porque observando o impregnado
no lembrar outrem que seria ela mesma porventura este a ter saudade.
Nesse estado abriu a oficina – assim
chamada pelo hábito de pessoa rotineira; inclusive seus sonhos à noite, por
essa época sonhava e criava no que via no sonho; mesmo eles eram repetidos, ao
ponto poder afirmar sem mentir que à noite a chegar passaria por esta ou aquela
situação, já passada ou vivida noutros anteriores sonos. Nesse estado abriu a
porta emperrada enferrujada empoeirada daquilo que denominava aos de fora sua
oficina.
Gemeram gonzos escandalosamente e
dessa maneira ofertou ao ambiente o cheiro acre do lugar fechado qual túmulo milenar
daquele pequeno cômodo, incômodo à rotina dos outros de fora não à rotina dela
de dentro. A poeira assentada séculos se constrangeu com tanta vida naquela existência
finda; e se depararam seus olhos anos míopes com o milagre da oficina intacta,
intacta com tudo no lugar que a pessoa havia deixado quando deixara.
Não sendo volumosa a dependência
embora plenamente ocupada e dispostos os objetos nos seus lugares, eles comportadinhos
sem quaisquer rebeldias (mente-se aqui pois um dos ganchos de metal
desprendera-se ao peso do serrote enferrujado, ou por novo peso acrescido com
as pintas em pontos de oxidação na ferramenta – e portanto no chão tal qual
morta, morta ferramenta; ou só desfalecida enfim não respirando e imóvel). O
resto era um resto na sua respectiva posição. A grosa, as grosas havendo uma pequena
que era uma gracinha parecendo de brinquedo; elas gastas do trabalho insano ou
perseverante das mãos impertinentes da pessoa que ora arreganhara a porta atirara
luzes na ferramentaria. Os martelos, tinha o pai ou avô grandalhão desajeitado
pesadão grosseiro, ótimo num erro a produzir dores; o médio do tipo nem fede
nem cheira, em descuido também não acertando apenas a cabeça do prego
infeliz... e o mignon, igualmente uma
gracinha de brincadeira. O esquadro igual os outros instrumentais num painel
presos preso e mudo; quer isto dizer que não dava palpite no todo e permanecia
passivo: se medissem, media; se não, não. A serra de aço, para ferro é claro; o
arco de pua prendido no seu próprio gancho no quadro, suas pontas às tontas
atiradas ao léu na bancada de madeira maciça grossa tosca forte suja (aqui
sujeira somada a título milenar secular ou menos um pouco). Havendo
dependuradas outras ferramentas menos ou tão importantes quiçá nunca usadas e
por isso nem vistas ou numa colher de chá relacionadas, espécie de gasto ao
gosto desnecessário quando adquiridos por seus bolsos frágeis.
O restante da oficina guardava tanta
sujeira quanto o painel, claríssimo que não tanto quanto as tábuas postas em
horizontal a virar bancada, dessas que se marretam (isso, porém marreta não
possuíra a pessoa) que se barulha que se atordoa vizinhanças incomodadas mas
silenciosas só abertas nos seus próprios banzés, o que de todo povo culto... O
restante sujo como por exemplo uma estante onde se põe de tudo um pouco no
tempo bastante usada – sujo bem sujo. Sujeira de se medir com dedo, soprada a
sujar matar a luz do mundo e matar até o dedo. Nela no muito ou no todo havendo
a parte, ou seja o que não servindo para quem vistoriara os bens após a pessoa.
A pessoa parou, estática. Por fora.
Por dentro sofreu ao medir cada partícula do que fora de importância capital a
si, como toquinhos pedaços e inteiros estragados aproveitáveis quiçá bichados
carunchados sujados de tempo – sem valor, com um valor imenso à pessoa, então
revendo revivendo o que viveu se vivera um dia. Cada parcela daquele ex-todo sofreu
a pessoa na impressão e nas ideias impregnadas por associação, agora lembradas.
Era o tempo o sentimento a lembrança
as vitórias os objetivos os desenganos; a morte...
E sofreu, como quando sofrera não ter
mais saudade. Numa saudade na época em que fora a pessoa saudade.
A si bastou; bastando algumas gotas
apenas de lágrimas que sem esforço expeliu e que rolaram na face ainda secular
ou até milenar. Eram dores inexplicáveis ao exterior, o exterior tivesse no
momento curiosidade a perceber. Fechou a porta, ruidosa antes agora ela também
mansa, quem sabe sentindo da pessoa saudade.
Fevereiro 2012
Maminha era... não era Maninha que é
diminutivo de mana essa gente do sangue da gente que... pera lá: sou eu quem
narrando, não interfira não aborreça não chateie, sim Maminha como afirmei, não
de mana mas de mãe a mãe sempre fóra,
fôra mãe dos manos estando a
mãe biológica por aí, aqui criou os irmãos e daí Maminha, um apelido visto ser Florisbela,
bela pouco e chata bastante com a gente, esse negócio de pegar no pé da gente,
a filtrar destilar seu veneno nos mínimos detalhes aliás era em tudo detalhista
mística negativista pessimista neurótica escatológica escalafobética escabrosa
e possessiva; usando desse cabedal de ‘qualidades’ até no ministrar remédios
que nossa genitora saindo às andanças deixava para ela dar; tudo toda medicação
todo vidro ou tubo com drágeas comprimidos cápsulas, no seu ver tendo conteúdo
inócuo de farinha, um placebo. Nisto lembro sua vozinha... Sua avó, avó dela?
Ai, falo da voz miúda gutural ardida irritante de Maminha “isto aqui é um
placebom” e a gente nós pequenos imaginando fosse o nome do remédio; tinha o
“placerruim”, certo xarope amargo e fedido, repugnante para criança fazer
careta. Por não gostar? Claro, ora, se fosse gostoso de sabor chocolate ou doce
de estalar a língua não faria careta nem choraria nem correria dela o irmão
filho da Maminha, ela a disparar xingando atrás da criança levando o vidro e a
colher, um dia caiu quebrou o invólucro derramou aquela ameaça amarga de curar
doente, chorou ela por esfolar-se e depois pegou a vítima vitiminha se vingou
descontando e assim bateu de chinelo na traseira do brutinho; o pai brabo não
pela surra dada por sua preposta no enferminho entretanto por necessitar
comprar outro Placerruim, o velho de bolsos fracos ou vazios. Ela? rogava praga
pelas pragas dos manos da oposição, carinhando os da situação, a praguejar
contra os que dedavam essa mana-mãe, mística a crer então piamente que a praga
das praguinhas ‘desafetas’ viesse a importuná-la de noite na cama. Enfim não
passava de menina franzina forte na língua apenas e uma substituta de mãe, mãe
ausente nos seus negócios, sentimentais diziam as vizinhas desocupadas sem que
entendêssemos. Mais velha a mais velha da casa, depois tornou-se neurótica
antes de virar solteirona neurótica até agora. Foi nesse meio e dessa maneira
iniciar-me no mundo do crime; quer dizer por causa disso. Qual? Qual o quê? ah,
sim, o crime, isso, isto vamos ver.
Passei a escrever. Ou seja, anotar as
coisas que me rodeavam a fim de não esquecer; bem dito pois não memorizava
inclusive nomes, muita vez ia dedurar Maminha nos abusos à mãe visitante ao pai
distante ou ao estranho ausente presente embora e daí faltava palavra, som que
deva transmitir pensamento e me envergonhando na minha timidez e gagueira. Ficava
o não dito pelo dito pressuposto e não tornado som e até voz. Por isso então
pratiquei o crime...
Parecia-me bem um criminoso. Eu não
falei nesses ter-mos, não seja intrometido com suas invencionices: crime aqui é
o escrever. Passei anotar esquecimentos os quais viraram lembranças grafadas...
Em mau português. Verdade meu caro, em péssima linguagem e com erros grotescos
na língua. Superei (superei!?) superei a
fase ruim lendo bastante bastante escrevendo, redigindo calhamaços e mais calhamaços,
ótimos ao lixão da prefeitura aos catadores de papel e sucatas. Não obstante isso
formalizei-me escritor. Pode me alcunhar rabiscador, não me ofendo. Olhe, tive mesmo
publicada uma obra... Prima? obra-prima a prima da obra a prima da prima, a tia
a tia-avó sabendo-se que os machos da espécie não têm vez; a sobrinha a
companheira da obra, da tia que virou comadre... ah sim: a comadre a vizinha a
inimiga da obra e outras imitações que primam por obra. Enfim você pôs mãos à
obra, assim como esta obra!? Acabou desopilar-se, acabou igual Maminha no destilar
seu veneno corrosivo e destruidor meu caro ouvinte (ouvinte-interventor)?
Pois se já esgotou seu arsenal, fique
o amigo sabendo que pus sim no mercado uma obra. Não afiancei obra-prima, você
extrapolou tripudiou sobre escombros dum amigo vencido. Não obra-prima, prima
duma obra de vulto sim e por outro lado não chegando ao processo jocoso da obra
como pensa o homem comum.
Digamos fosse obra a satisfazer uma
vaidadezinha que trago comigo, ou não seria humano visto a vaidade ser característica
de gente; mais a satisfazer o quase ditado popular se-gundo o qual um homem com
‘o’ maiúsculo íntegro normal etc. etc. deve pra ser homem semear um filho
plantar uma árvore e escrever um livro. Eu fui além: publiquei uma
‘obra-prima’, no seu modo de dizer. Isto porque fácil, facílimo pra mim
escrever; mas publicar é dose pra matar inclusive defunto. Correr atrás do
editor divulgar e no meu caso sequer fui recebido apelei a um gasto medonho,
estando com bolsos furados, que é a opção gráfica; explico-me: levei as folhas
que havia datilografado, antes ‘manuscritadas’ e aqui um drama, aquele de nem o
autor conseguir decifrar ilegíveis rabiscos. Datilografei, gastei a ponta do
canivete em tirar erros por letras remontadas e a desmanchar rasuras reescrevendo
laudas e mais laudas para enfim levar aquela perfeição à gráfica dum amigo, os
inimigos nem quiseram analisar o possível rendoso negócio, um negócio comercial
longe da arte e daí aceito seu epíteto de obra-prima. Depois nos enroscamos
(aqui entra o analfabeto amigo gráfico e sua semiletrada assistente, então já
num computador que ela não dominava) nos enroscamos no título; eu queria
“Maminha Querida” uma forma hipócrita que achei para me perdoar ter sido um moleque
da oposição; ele só aceitava “Querida” e o resto era porcaria... quer dizer, se
dissesse da obra entenderia, mais tarde, hoje, entendi o xingamento dele ao meu
trabalho. Entendeu?
Assim semeei plantei escrevi um livro,
desse tipo mas-sudo (falou minha investida no empresário-gráfico e ele:)
ma-çudo a beça; em resumo grande volumoso um calhamaço como já dito, um livro
com mais de 100 páginas, que o amigo gráfico me espichou pra 110 adicionando propaganda
de sua firma e espaços vazios a intermediar o texto e toda a obra. Uma obra,
aceito que goze. Tem mais um senão.
Certo indivíduo inescrupuloso maldoso
tinhoso se a-propriou de minha propriedade intelectual literária meio científica
pois quase biografia de Maminha. Claro haver mexido na Maminha, trocou por
Maninha, Querida virou “Amorosa”. Republicou, ganhou horrores e se fez no mundo
editorial, você conhece bem o desenrolar e o resultado, melhor que o autor dos
originais dessa obra a parear com “Guerra e Paz” ou com “os Miseráveis”...
Ora, desde cedo, quer dizer desde o
manuscrever o conteúdo – narrara Maminha por toda sua existência sofrimentos
muitos e poucas alegrias até chegar à vitória final que é ser hoje tia enrugada
neurótica e de tiradas escatológicas catastróficas escalafobéticas no seu
negativismo doentio e no pessimismo detalhado a aguardar misticamente o fim do
mundo e sobretudo a extinção do homem, o macho que nunca teve o bom gosto de
admirá-la – desde mui cedo caiu-me inadvertidamente das mãos para mãos erradas
num virar obra de outrem suficientemente desonesto... Não senhor, não processei
o apropriador criminoso; ou antes, pretendi fazê-lo: a gagueira provinda da
timidez me impediu os passos. Fiz outra besteira maior que escrever tal volume
– comprei no supermercado exposta na estante de livros, onde best-sellers essas coisas, um “Maninha
Amorosa”, o qual subjugava escondia o texto original de “Maminha Querida”; li
reli analisei comparei repudiei chorei finalmente aquela joia na mão bandida
distorcida enfeada manchada pelo crime do roubo, ou apenas contravençãozinha
despreocupada mas bastarda em que se tornara a história de nossa irmã-mãe
presente naquele passado distante, virando estória comum embora vistosamente
apresentada encadernada encapada, capa dura dourada próprio duma obra de arte,
obra-prima encomendada pelo usurpador.
É isso, meu caro amigo. Um segredo de
Estado que era meu texto inicial o qual você ironizou como ‘obra-prima’,
di-vulgado após primeira e única edição quase fantasma da gráfica de meu amigo,
esse mais amigo que você, pois mostrando as garras de sua ignorância, sábio no
imprimir panfletos de eleição. Essa obra que acabei por curiosidade e teimosia
a comprar num supermercado em meio cebola banana e material de limpeza, esse
livro tinha trocado e suprimido o título original somente; o texto era o meu, o
autor impresso... não o meu, oh seu rato de igreja!
Abril 2012
30. Indiferenças
Individuais
Ocorrem te digo procê e aqui não
interfira no meu coloquialismo e mesmo na confrontação da discordância na concordância
pronominal, não sendo eu gramático nem você purista – ocorrem umas
discrepanciazinhas na minha família, não em sua pois se diz sem família; mas
não sem espírito crítico; ocorrem diferenças que os olhos dos outros veem, os
meus já acostumados não percebem visto dizerem que mulher de malandro, de tanto,
aprecia apanhar; não sendo este o caso, o caso do meu sangue; sim ocorrem desarmonizações
aqui em casa. Por
isso decerto papai andar por dezenas de anos irritado neurótico inclusive! não
sei bem; ou por essa razão andar mais fora com sua pastazinha de vendas e o
talonário de pedidos e portanto longe destas paragens. Aliás dizem e diz também
ele que a praça está ruim a negociar, sem dinheiro, fraca. Poderia o mau humor
do pai ser por esta razão. Alguns entre os manos a aventar hipótese de
indisposições conjugais. Sei lá. O fato é de mamãe e papai, nisto estendido
enormemente aos filhos do casal, de eles viverem as diferenças individuais.
Que, ademais, sendo válido ao restante do globo com sua população estimada nuns
sete bilhões de almas, sem valer o sete como número de mentiroso. Todavia nas
diferenças é uma verdade. Outra verdade é que mamãe seja parideira, hoje ontem
semelhando tempos antigos em que as mulheres pariam pra valer por dúzias,
enquanto a morte ceifava também em dúzias pra valer. Que me desminta a história.
Bem, contudo as diferenças são flagrantes neste lar; nós participantes por
estarmos próximos do próximo sequer notamos. Meus olhos estão acostumados a
estudar as divergências as diferenças e até as indiferenças.
Assim assustamo-nos, ou poderíamos ter-nos
espantado, com o aparecimento do Liquinho. Nesta casa é tudo tratado por todos
por apelido, a tanto perdermos a noção do nome de batismo no padre e no
registro do cartório civil, naquele livrão com cheiro de poeira traça barata e
papel velho quase a desmanchar.
Porque o Lico tendo cara de japonês!
japonês chinês coreano a gente se confunde não sabe quem. Assim como não sabemos
não distinguimos mil orientais que visitam a ilha populosa. Ele parecidinho com
eles, quem sabe de tanto vê-los por estas bandas. Entretanto mamou na mamãe, da
qual proveio, e respeitou sempre papai quando vindo este na sua visita a
reclamar pela venda pouca, a pouca comissão. Já a Mila, essa não respeita tanto
nosso velho; velho sim o velho porém moço ainda possibilitando até nova
gravidez na velha ainda mais nova que o pai. Não o dela que é nosso avô, o
nosso. Todavia parecidas ambas mulheres, é a cara de nossa mãe a nossa primeira
irmã. Também numas rusgas desnecessárias o Zefo, um dos do meio tendo dezena no
meio do meio entre manos. É entrar papai por uma porta, sai por outra o Zefo.
No entanto acho o mano parecidíssimo com papai e com o irmão gêmeo de papai. O
interessado não acha... Um dia, uma noite mais precisamente, deu-se um
inusitado para os pequenos.
Aconteceu de mamãe dar à luz outro
filho. Este um ne-grinho, o qual como demais ‘afriquilhos’, ou seja descendentes
africanos nascidos na ilha; sim, preto retinto alumiento depois ao sol em nossa
brincadeira de criança, cresceu e foi dos nossos o maior coração e de grande
iniciativa. Papai estrilou, após voltar das vendas, passara três anos ausente.
Brigaram no casal mas o Dito foi aceito enfim como filho dele, a ficar o dito
Dito dito por não dito, bem dito. Depois, cinco anos e dois meses depois, outra
controvérsia na discussão conjugal: papai ausente presente após nova viagem e
se deparando com nova cria em vias de nascer; aguardou e só prosseguiu viagem
com o nascimento do Fruto, parece-me que fora batizadinho Fritz não sei bem.
Frito dolicocéfalo olhos azuis mais alto que nós posteriormente quando
crescemos, ele nas alturonas nós aqui embaixo. Então, naquele então prestes ao
retorno o velho à vida de caixeiro-viajante, então despencaram lá dentro num
bate-boca só inteligível ao casal, os rebentos sem entender os arrebentos
entres os genitores. Demais, foram os demais herdeiros da ‘fortuna’ paterna e
da miséria de casa.
Ou seja nasceram mil e um novos manos,
manos de to-dos sexos possíveis e de possíveis variedades de idade; eu um do
meio no meio deles. Os nomes de batismo? bem, são tantos todos aceitos na
igreja, só um de nós que não beijou a pia batismal porque o pároco inventou
negar a presença dum filho de assassino que fugira da prisão resguardado por
mamãe de enorme coração, até que se matou o fugitivo acoçado pela lei; o padre
não quis batizar o pequeno agora adulto, pois diziam as más línguas ser filho
de suicida e a religião não aceitou. Papai, quando papai tornou à ilha, papai
pulou de raiva por isso e quis chamar aos tentos o chefe religioso. Felizmente
mamãe era devota de Santa Luzia e a santa não lhe permitiu que enchesse a
cabeça de papai pra ir tirar satisfação no templo; meu velho sempre teve pavio
curto e se temia ofendesse a santa autoridade. Assim tudo se harmonizou.
Em suma a harmonia voltou ao lar,
nessa ocasião éramos bem um exemplo da miscigenação no mundo e mais na ilha:
tínhamos irmãos de todas cores todos tipos todos tamanhos que existem no planeta.
Sobrepunham-se mais os hispânicos e orientais, gente com a qual minha gente
tendo contato vida inteira por causa do intenso comércio estrangeiro com os
ilhéus. Papai mesmo um desses estrangeiros, o qual parece ter vindo ultimamente
das viagens mais com objetivo de brigar com mamãe, contemporizando depois nas
discórdias e deixando a ela e à família uns trocados a nos manter; enfim vem
mais para se desentender, como é para o bem conjugal, e conhecer seu novo herdeiro.
Sim sempre saiu a trabalho ela em trabalho de parto ou com aquele barrigão
bonito, ou com bebê novo, novo ao velho bem entendido.
Dessa forma é que, embora havendo as
diferenças, mais pelas diferenças individuais que por outra coisa – é que nos
tornamos uma família numerosa e diversificada. Diversificada ao menos em nossos
apelidos, esquecendo nomes.
Maio 2012
31. Corpo
Eterno
Defendo
tese no mínimo discutível, a do corpo eterno. Alma eterna é já defendida e
aceita inclusive creio pela maioria absoluta, algumas pessoas vão mais longe
nesse mais perto que é nada haver eterno – tudo se desmancharia se desintegraria
a formar um terceiro corpo usuário em novos pertences das velhas partes,
imperecíveis então.
Têm indivíduos que não só não morrem
como teimam em não falecer, o caso do velho Chico e seu velho cão, num dia de
lixo, o cão um cachorro vira-lata e portanto de e-xistência mais curta que a do
homem; mas a deste (homem) eterna embora pesteado e no limiar do sumir por não
ter comida e quase igual à situação do cachorro dele, porque o cachorro só tendo
por alimento a sobra do amo pobre; a existência do velho não se extinguia não
morreu... era dia de lixeiro. O bicho veio numa correria atrás do caminhão de
lixo, vindo já de quadras e quadras esfalfado com a língua pra fora, por lhe
parecer ter corrido mil quilômetros como pobre e leal amigo do Chico; correndo
não atrás dos funcionários a lhes azucrinar o serviço com a ladração – até que
pararam os trabalhadores num dedo rápido de prosa, porque ninguém é de ferro no
sem-parar; e a rodona da engrenagem continuou girando na conversa de suas ferragens.
É nisso entrar o cão, agora quase sentado nas patas com a língua cansada e daí
estaria falando em soquinhos quase os trabalhadores sem entender; então, apenas
aí deu o seu recado, ou seja contando das coisas do dono, o Chico. Por fim
entenderam haverem desentendido posto um homem sofrido no lugar do saco seco de
lixo certo semelhante, também se tornado seco pela existência. Assim aos poucos
compreenderam aquela algaravia canina sobre seu amo, desentulharam o ser
humano, o qual desceu com auxílio dos lixeiros daquela geringonça fedido
lambuzado sim, inclusive a remover com as costas das mãos certas incertas
melecas da cara – dessa forma provando vida e teimando vida no provar energia a
todos curiosos ajuntados em volta do caminhão. Porque têm indivíduos que não
apenas teimam e até provam por a-mais-bê não haver morrido.
Contudo aqui é outra versão,
igualmente da teimosia todavia mais da eternidade dum corpo. Nisto
despreocupado com a da alma, garantida pelo óbvio. O sacerdote chega manhanzinho
depositar ofertas ao seu corpo; não o seu: o seu do outro. Dia inteiro noite
inteira noite e dia sem parar, ao outro matusalêmico ser seu na expectativa das
inexplicáveis permanências, inexplicável como por exemplo enfermidades mil e administração
de mil e um remédios: o das cinco o das dez os dos dez minutos o da hora
seguinte; e faz mais o dito ser passivo na espera: come come de tudo, onívoro,
mastiga masca abre fecha abre engole, portanto persistente portanto forte, sem
teimar de fato pois é já afirmado possível passivo: tão só aguarda e deglute.
Já comeu nos cem anos montanhas, dizimou canaviais trigais milharais etc.,
comeu chupou sangue e ossinhos e ainda lambeu com a língua asquerosa tudo de todos
bichos postos à disposição do ser humano teoricamente o rei da criação, enfim
liquidou com alimentos seus e dos próximos e dos distantes a si sempre
distantes porque o que lhe interessa é o ingerir. Um custo bárbaro grotesco
gigantesco à humanidade faminta morrendo exatamente de fome e sede, a televisão
mostra diário exemplares como exemplo definhando ainda crianças... Ele, o corpo
eterno, não pensa nesses termos, não pensa, come. Porém o ser já enxugou qual
bola seca de algodão rios e lagos e espera decerto beber oceanos – ora, outrem
que se vire, por exemplo que dessalinize o mar! Os laboratórios farmacêuticos
no orbe não sabem mais como sorrir sua multinacionalidade nos bolsos, com tanta
auxílio dele. E o cão, houve vários morreram e o último ele comeu, comera até
aí apenas churrasco de gato... De tudo engole, permanece.
O corpo eterno – magro esquelético
enrugado na pele restante esticada e quebradiça e na mostra dos esparadrapos e
demais bandagens, olho mortiço mas arregalado ansioso de mais, não obstante não
resmunga não descarta não rechaça não pede não implora não deplora e não ora,
ora: vive quer mais é ser um corpo que quer viver! – assim o corpo perdura.
Vem outrem, deposita em holocausto a
sua ignorância com mais vela, acende a nova na velha num lume a morrer pois a
vela não vela até ao fim: morre. Não morre.
Ele não morre, não quer morrer, não
aceita morrer, morrer é oferta e aceitação ou imposição para as outras vidas,
que vivem só mesmo para que ele viva.
Assim, vão-se um depois dois e aí por
diante centenários – ele não comemora mais natalícios, somente os centenários,
talvez faça planos aos milênios, prático.
Dessa forma e em suma somem, sobra. A
provar-me (ora, a quem provaria? a você que já morreu! a mim mesmo) ter razão
na tese do corpo eterno. Amém.
Junho 2012
32. Reverso
do anverso Reverso
O cara olhava caro o caro espelho ali
olhando por sua vez o cara que olhava sem olhar. Quer isto dizer sem afirmar
desmentir se mentira que não olhava o espelho propriamente no seu vidro frio
duro morto seco embora transparente, transparente sim não talvez a transmitir
revelar a mentira da verdade em todo possível – quando notou algo diferente se
não adverso: o bigode que à tesoura acertava paciente minucioso e até irritantemente
apresentava um... um? dois, três, não mais de quatro fios brancos, o que chocando
a destoar o negro do conjunto dos fios do bigode (o seu mau gosto gritou um
incômodo “vassoura negra”, não responderam imediato à desfeita nem ele nem o
bigode). Coçou a cara o cara cara a si, coçou após o bigode, o que fez
ressaltar na sua enferma vaidade mais ainda os brancos nos negros, aqueles a
lumiar no espelho. Foi quando observou de soslaio, ou melhor nesse pior:
olhando ora um ora outro dos espelhos, o grande que o feria mostrando já quase
a estardalhaçar defeitos do homem, na cara do homem e na cara o bigode; e o
pequeno retangular de madeira enganchada na extremidade da janela do banheiro,
refletido no outro, sendo menor tal espelhinho que o grande onde num palmo
cheirava no ver o bigode os fios os brancos nos pretos... Ora, o pequeno e
despretencioso apresentava ali lá longe um pouco bastante do homem da cara do
bigode dos fios, brancos ditos malditos embora, em meio aos pretos agora mais
negros porque a pretura nervosa não descora nem empalidece mas aperta ajunta
reforça a cor (decerto a deixar os três ou quatro fios mais envergonhados a
cara mais indecente e o homem mais irado). Nessa visão agastada observada pela
certeza do homem agora no espelhinho, os brancos nos pretos ainda mais brancos
e mais pretos, certamente ao reflexo da claridade do exterior que atingia ambos
espelhos, o grande ali perto da cara e o pequeno que refletia a cara do cara a
carregar melhormente fios brancos manchando a rebaixar fios negros do bigode.
Nisso ocorreu um transtorno, se não na verdade na verdade da mentira, que foi o
perceber o grandalhão refletindo a imagem do pequenininho naquele mundo cruzado
de espelhos, não mais que vidros pincelados de aço a enganar a verdade dos fatos...
De fato, viam os olhos na cara do cara o reflexo no grande do pequeno; e
conferiu o contrário que é o contrário do contrário sendo a vista do mesmo
objeto, a rigor a cara do cara com caro bigode e no bigode uns brancos (os
brancos podem ocorrer vez por outra também na mente e aí na mente do cara). Via
em suma no espelhão o espelhinho refletido, por sua vez refletindo a imagem do
espelhão o qual mostrava uma cara de bigode com bigode de três ou quatro fios
não negros como deve ser ainda a juventude dum bigode o qual a oposição goza em
vassoura, um apelido que não deve haver pegado, isto outro assunto tornemos ao
assunto. De maneira que os espelhos refletiam um ao outro e cada um dos
refletidos num oferecer bigode cara fios brancos e negros a enfeitar quem sabe
embelezando aquela feiura, desnecessária. Tanto assim que a cada vez que o cara
olhava um dos espelhos, o grande e o pequeno, via sem querer ver e via não só o
bigode negro com apócrifos fios brancos mas também imagens dum espelho no vidro
frio morto (morto!) do outro espelho e o pior nisso: mil outros espelhos
refletidos nos equivalentes espelhos que se olhavam e até se viam! Nesse
ínterim, ou briga de bastidores de espelhos desocupados ocupados
temporariamente em se ver agora vendo mostrando caros bigodes pretos e defeitos
brancos do cara nas caras e se intrometendo no meio à briga de família (nessa
altura os vidros os aços os reflexos já apelavam como bons parentes a se
entregar numa luta nada surda bem declarada...) nesse momento um dos espelhos
ou reflexos mentirosos das verdades das imagens berrou uma ofensa não só ao
inimigo adversário ou contra o contra, semelhando o homem, a humanidade por
extensão. E foi no exato instante em que o caro cara pulou no meio deles, iria
talvez apartar dar um basta, no entanto um projétil dos projéteis, seria ogiva
nuclear bala perdida língua desprevenida ou caco de vidro, o atingiu parou
prostrou matou calou o cara. Os espelhos terão se piscado nuns estilhaços um
acordo ou trégua talvez, tornando ao estado original de um espelho e de todos
espelhos que é um oval ou quadrado ou retângulo com um vidro morto duro seco
transparente e seu comparsa grudado, o qual pincela a mentira e dita a verdade.
Aliás a verdade está na cara.
Abril 2012
33. Empeços
à Carne
Lembro-me dum certo dia em que fui
visitar o amigo... aqui sabendo existir pessoas que consideram amigo o conhecido
o vizinho o eventual o fortuito o diferente o indiferente o próximo distante e
aí pode errar pelo excesso; talvez meu caso no caso dele. Fora um dia ao bairro
milionário levar-lhe um serviço – desejava encadernar um escrito num texto datilografado
julgando ser a fina flor da literatura e não era, era apenas calhamacinho de
retalhos da vivência – procurei o amigo para tanto, vira no jornal anúncio de
sua encadernadora e só me surpreendi por ser localizada no bairro dos jardins,
portanto milionário, embora constatado ao fundo da mansão. Enfrentei nessa
visita cães e gatos, coisas juntadas a esmo e cheiro de cola e tinta além de ouvir
a barulheira das máquinas. Apesar do dito os ditos cães não eram como pensei
mastins ferozes guardando riquezas mas risonhos vira-latas e um só entre eles
de raça famosa porém não pit bull que
aprecia carnes frescas humanas... Não cheguei ver a esposa belíssima dele,
ouvira e escutei a fala dos dois empregados do amigo, aliás o amigo custou
atender-me atendendo antes coisas do trabalho deles. Pronto, agora tinha mais
um amigo. Esclareceu aspectos do métier,
satisfez-me curiosidades, combinamos a capa o tamanho a cor o material os
dísticos e me fui. Semana depois encontrei-o mais sereno, conversamos não mais
que amenidades. Posteriormente tornei por qualquer razão. Agora sim houve mais
conversa profunda, o quanto se possa aprofundar, conversa entre íntimos.
Chegara naquele acanhado espaço na
área da riqueza, riqueza mesmo da vizinhança pois o amigo lutava a sobreviver;
e então me franqueou certas coisinhas que não se expõe da vida conjugal aos de
fora... eu já de dentro, supunha.
A mulher lhe dera os pequerruchos ali
– um inclusive me trazendo algum
constrangimento – os meninos e uma ga-rotinha linda, parecendo a mãe na foto de
casamento exposta na oficina dele; os irmãos demais a fuça materna (aqui a abusar
na linguagem do povo). A mãe sequer apreciava animais, não fossem os homens é
claro. A ladração e os miados a incomodavam nos seus afazeres; quais? indaguei
obtuso intruso mas não respondeu, em desconversa. Deduzi
que a bela senhora não parando no lar, de dia nos quesitos profissionais e de
noite nos encontros festivos com amigos, visto ninguém ser de ferro... Com isso
arranjou muita gravidez, alguma se desfazendo a tempo com auxílio amigo, e
noutras muitas ocasiões dera à luz: não via seus meninos? eu via. Fora por
isso, perguntei aos meus botões, se separarem! O fato é que não obstante
residindo ambos no mesmo terreno, dividiram o terreno por um muro, nada de muralha
com ganchos de ferro a espetar ou cacos de vidro a cortar, porém com altura
respeitável a conservar o respeito. Que os cachorros atenderam e os gatos não.
Tendo ali um portãozinho chaveado e seguro separando as casas dos cônjuges.
Havia, supus, um respeito ou empeço ou proibição! havia sim à passagem do
advogado dela para o terreno de meu amigo, o muro seria em razão do divórcio,
me indaguei. Do lado de sua ‘ex’ convivendo quase contra meu amigo, um sujeito
do tipo que apelidam bicha, mui perfumado, o que a mim (a ele supus) provocando
certa reserva...
Mais adiante esse estado traria
algumas complicações.
Agora o menininho caçula chegara
próximo da visita, eu; estávamos na beira da piscina – na área da encadernadora
demolida, inclusive o pai enchia com esguicho de borracha o lago – então o
garoto me viu mudar de bolso uma barra de chocolate a derreter naquele calorão,
terá ouvido o som cartacterístico do plástico que remexi envolvendo o confeito
e me pediu, imediato à negação gritou ao pai eu estar com o doce dele, embirrou
após chorar berrar. Ficamos nisso; não por esse motivo percebi o amigo
tristonho mas pela questão conjugal, melhor dizer como me falou: pela
trabalheira com advogados. O dele não se entendia com o dela. O comum entre a
gente de bens. Havia mais problemas.
A cada filho a bela mulher acionava
seu gay (parece as-sim que falam) o
qual exigia exame de DNA comprobatório de paternidade; dessa maneira ganhavam a
causa dos milionários que a senhora frequentava, seja nas baladas ou nas recepções
mui bem regadas. Lá vinham as pensões etc. e tal e daí o casal vivendo
nababescamente doutro lado; deste lado não propriamente a penúria de meu amigo
e sim angústia; inclusive o amigo também precisando contribuir fazendo frente a
novas pensões dos filhos de ambos divorciados... Quanto ao casal apócrifo,
refiro-me à senhora e seu advogado, este se não macho pra valer ao menos pra
valer esperto. Por fim não aguentando mais a situação meu amigo.
Isso explicaria o fato de um dia abrir
o noticiário na in-ternet e me deparar com o suicídio do pobre!
O tempo marchou, sempre marcha e por
vezes não o percebemos nem as mudanças que ele traz.
Certa vez a visitar o local a troco
nem sei de que, eis que me depara um problema; problema! drama.
A jovem mulher – não compreendo o
porquê de se manter sempre nova a velha esposa do meu amigo – ela me aponta um
filho que nunca poderia imaginar ser meu! Mais nesse menos acrescido: me
chegando intimação em casa para ir a juízo esclarecer sobre pensão de filho
desconhecido... Pior nesse melhor mesmo o fato de o tempo, esse aparador e apurador
de verdades e mentiras, o tempo revelar que todos herdeiros da jovem
coincidiram pelo exame na paternidade de meu amigo, ingloriamente morto por
antecipação.
Junho 2012
34. Começo
e Epílogo
Dona Deusa era uma deusa; se vocês me
espremerem mais um pouco confesso toda verdade e toda ela no santo no-me: Deusa
da Silva. Se não for bonito era bonita dona Deusa; tendo um quezinho de anja
quem sabe de santa essas coisas de religião. Entretanto seu Martírio, decerto
apelido onde já se viu um registro desse no cartório, o cartório não aceitaria
e a divulgação do apelido se deveu à família, mais à mãe de família; dizem que
sofreu demais pra pôr o filho no mundo e o mundo depois sofrendo a criá-lo. Seu
Martírio não, sim um feioso horroroso, só conseguindo companheira enricando ou
achando uma ingênua e inocente como a virgem santa Deusa.
Não obstante a beleza dela e a beleza
moral mais con-vincente esta que aquela, não obstante e, doutro lado, a fama
garanhônica do esposo antes mesmo de tornar-se namorado e noivo da moça nos
conformes e no costume antigo; enfim a-pesar de tudo exposto não engravidava.
Ela. Ele não esperava ser emprenhado.
Entra ano sai ano passa o tempo, a
matriz ou desativada ou somente inoperante – e os rios de dinheiro fortunas
gastas com médicos – em suma não pegava criança; o caboclo dizendo nesses
termos. Deusa foi ficando em razão disso irritada, caprichosa (no mau sentido)
e insuportável mesmo, embora rica. Levar aqui à conta a pobreza regional e
assim quem tem um carro anteriormente um cavalo e uma casa com pomar e cachorros
– é um ricaço. Ricaça e pobre ou solteira ou órfã de filho. Foi daí pensarem na
adoção.
Primeiro exigiu a família um filho de
primeira grandeza: belo forte o mais lindo, feio de morrer o que recebeu. Devolveu
a encomenda escura e aleijada à instituição de caridade. Diminuiu depois a
exigência e assim chegou um menino branco se não lindo bonito por fora;
horroroso por dentro.
Porém o casal Deusa-Martírio
desconhecia isso e apa-nhou amor desenvolveu cuidados com o apocrifinho. Modelou,
tentou modelar, à sua feição o garoto; deu-lhe instrução formal, grau de
doutor.
Antes da formatura precisou tratá-lo,
visto haver descoberto más influências sobre o rapaz. Seu tender à violência e
até ao crime fez os pais gastarem mundos e fundos de seus imensos recursos nas
clínicas e nos internatos para viciados nas drogas. Nisso entra uma via crucis de instituição em instituição
a fim de recuperá-lo.
Saía duma, enturmava-se com seus afins
nos vícios; voltava. Mas não bebia, só fumava. E se perdia em pós e seringas.
Além de envolver-se continuamente com os seus amigos no que faziam e dessa
forma arranjar encrencas com a polícia.
Anos assim. Os velhos, eram apelidados
velhos pelo gasto nada casto rapaz... os velhos, velhos então; antecipadamente
idosos, ela tingia os cabelos a remoçar ele prateava os fios perdia fios
ganhava calvície. Ambos desgastados e se considerando infelizes.
Contudo felizes com a formatura do
doutor. Durante o curso tiveram que praticamente comprar a frequência teórica
na escola particular. Agora o acerto final e as festas os cerimoniais.
Daí o doutor misturou bebidas, não de
seu hábito pois só fumava bastante e ingeria socialmente álcool, misturou com outras
semelhantes ou mais bravias drogas e foi pedir-imperar adianto no atraso
suposto de sua mesada; se desentendeu com Martírio, estripou-o e ainda tentou
matar Deusa como queima de arquivo.
O caso não foi arquivado. A imprensa
farejou primeiro e depois estardalhaçou o farto alimento por semanas meses e as
lembranças anuais.
Deusa deixou ser deusa, aliás estava
não mais que uva-passa e arremedo da jovem que fora; quando faleceu no hospital
meses após a época em que o filhote viraria doutor mas virando
presidiário.
Março 2009
35. Inúmeros
Números N-Números
Leledacuca. Ao menos menos que normal;
normal sendo o que bebe fuma xinga bagunça briga transa troca casa encolhe e
morre. Velório piadas flores reencontro “dá cá um abraço”. Não. Louquinho da
silva; desses que passam por nós, os normais, e achâmo-los anormais. Desses.
Contava somava deduzia acrescia e dividia. Sempre a gente esquece o vai-um ou
se esquece do zero, se à direita, dizem os esquerdistas, se à esquerda falam
nazistas. Não se entendia não entendia antes do não entender. Por causa delas.
Sete mil, disse. Não sete não, sete é
o ideal, a Maria mais de sete, bem mais. Deixemos para não complicar o ‘vai um’
desta vida. Apagou cálculos gastou borracha, borracha suja mancha o papel,
precisa passar constante o dedo na parte mais suja dela a fim de tirar negruras
para não sujar o almaço; fez conta por cima chegou à conclusão primeira: sete
mil realmente, deixa a Maria pra lá (claro, iria cortar a língua dela!) Sete
mil, sete mil multiplicado por trezentos e sessenta e cinco dias... bem – dois
milhões e quinhentos e cinquenta e cinco e se for bissexto, dois milhões
quinhentos e sessenta e dois mil. Hum. Digamos, disse, digamos que viva oitenta
anos, porque se em um ano são dois milhões e quinhentos e sessenta e dois mil,
oitenta vezes é igual a ah... a maquininha por favor! Isso porque na conta
estava dando duzentos e quatro milhões novecentos e sessenta mil, a maquininha
pelo amor de Deus! Assim tomou-a, chegou à mesma conclusão. Pera lá, falou-se,
não é todo ano que é ano bissexto; tirou vinte vezes anos bissextos, portanto
deduzindo cento e quarenta mil. Considerando os duzentos e quatro milhões e novecentos
e sessenta mil e tirando os cento e quarenta mil, ficam duzentos e quatro
milhões oitocentos e vinte mil palavras! palavra: é muito falar. Imagine se
fosse, imaginou, imagine a Maria!
Porque a mulher comum fala sete mil
por dia, enquanto o homem cinco mil. Se ela, ele falou, o Louquinho da Silva
falou, se tal mulher fosse a Maria... puxa, eu passaria oitenta anos não só
mudo, pois não me deixaria abrir a boca, como precisaria mais oitenta só para
um cálculo aproximado do matracar dela...
Isso caso não errasse no vai-um, no
dividir, estouraria a maquininha de pilha. É, acho, achou, acho que estouraria.
E se foi, a estourar de rir.
Maio 2002
36. O Fim
A
morte é o prêmio dos que não têm vida; é a alegria de sua tristeza. Mas a morte
é ameaça e punição aos que a têm. in Desaforismos & Intimias, p223
Faltava a si não a compreensão do
mundo no entendi-mento que o mundo tem das coisas; já se bastava no saber do
que sabia. Alguns a chamá-lo matusalém a gozá-lo no seu des-gosto. Outros se
achegavam naquele para-sepúlcro temerosos, quem sabe se não a se ver no ver...
Uns poucos por sangue e laços em seu redor, se condoendo ou não, pois sempre há
interesseiros, discordantes e periféricos (quer isto dizer os que se não
aprofundam nem querem nadinha com o interior se prendendo na aparência tão só).
Ninguém a imaginar tesouros poderes heranças vindo dum pobre diabo quase moribundo
meio vivo meio morto no aguardo da agonia final... Tinha também os mais
periféricos ainda e estes, de ambos sexos como nas outras categorias antes
citadas, esses quase mantinham a caixa de apostas embora nacionais puros caboclos
e não ingleses que se presenteiam nesse costume; apostavam no roxear lábios e
olhos, olhos fechados olhos abertos cegos ou vendo parados sem mais desejar enxergar
os sabores do mundo por volta; ou apostavam no silêncio ali perto em aguardo
(mas aguardo do quê!) ou longe na conversa alta da brincadeira chã e na piada a
matar o tempo de espera sempre longa afoitos; ou estes somente a antecipar o
velório onde a bebida e o fumo empalidecem um pouco o nervosismo e lugar certo
a tais errados, o defunto então esticado a cheirar suas flores que possivelmente
não cheirando vivo, o morto nem estando ali com essas irreverências. Contudo
era vivo, estava, embora morto para a vida como se supõe vida que não passa de
existência, por vezes sofrida. Só aos poucos o da berlinda mentalizava o que
ouvia, ouvia ainda apesar dos pesares naquela mostra cadavérica e esquelética
em que jazia na cama quente com fragrância de desinfetantes e urina curtida.
Estava nisso, sem graça sem jaça sem vida sem morte, quando chegou um aparentado,
porventura aquele que se espera que espere o vivo para que vire morto em paz
descansando... E aconteceu de fato expirar, antes tremer ter o roxo de aposta
premiando quem na espera tanto e tanto; antes ainda pronunciou ou pensou pronunciar
umas sílabas que coincidiram por sua vez com o nome do chegado. Assim deram por
encerrado o último ato daquilo não chegando a cem anos. E iniciaram os preparos
do velório, uma equipe procuraria regularizar o momento com assinatura médica,
outras a tratar do sepultamento dos convites dos avisos e é claro nesse escuro o
velório propriamente, mui esperado. Foi então que, mesmo não interessando ao interessado
tanto atropelo e cerimonial, foi daí ocorrer o choro o estertor a
sensibilização extrema, a hipocrisia de folga, e a santidade.
Fevereiro 2009
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Finalização
deste volume:
Marília setembro
2012
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados, 108pp.,
Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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