terça-feira, 31 de março de 2020

Aeroporto de Bruxas e outras péssimas lembranças


0139(postado no Blog Livros Inéditos)









                    Aeroporto de Bruxas
                              e
               outras péssimas lembranças

                                      Contos

                                  Moacir Capelini
















moacircapelini@gmail.com


capa:


data de publicação:


tiragem:


Gráfica:


















                                                       “A posição do escritor é a sua composição.”
                                                                                                       Lêdo Ivo

Minha escrita pode não passar de um desabafo da poesia
 para escândalo da filosofia e consumar a loucura. 



Índice dos contos:
                    1. Aeroporto de Bruxas, pág. 5
                        2. 2.A Fria sem Frio,  6
                        3. A koysa sem nome, 8
                        4. Obviodóbvio, 10
                        5. Fotografia da Destruição, 14
                        6. Existência Segundo Mateus, 16
                        7. Fabulinha no Buracão, 19
                        8. Facho de Luz, 21
                        9. Pós-Parto, 24
                        10. Associação dos Namorados, 26
                        11. A Verdade na Versão Bebuna, 29
                        12. A Cidade Abandonada, 31
                        13. A Cobrança, 36
                        14. Trajeto das Coisas, 38
                        15. Cadáver em Mãos Cruzadas, 42
                        16. Gota d’Água, 45
                        17. Farizéia da Silva, 49
                        18. Primeiro o desastre, ocorrência policial de trânsito;
                              e a sequência segundo o homem comum, 52
                        19. As Solidões, 53
                        20. Goiabeira, 58 
                        21. O Título Sou Eu, 64
                        22. Lance Prosaico, 67
                        23. A Nora da Sogra, 70
                        24. Porcaria, 73
                        25. Choque sem força, 79
                        26. A Babá não de babá, 81
                        27. Final de um Reinado, 83
                        28. Na Oficina, 87
                        29. A própria obra-prima, 90
                        30. Indiferenças Individuais, 95
                        31. Corpo Eterno, 99
                        32. Reverso do anverso Reverso, 102
                        33. Empeços à Carne, 105
                        34. Começo e Epílogo, 108
                        35. Inúmeros Números N-Números, 110
                        36. O Fim, 112






















1. Aeroporto de Bruxas

          Um dia me peguei em casa de vovó; vovó todos sabem todos compreendem todos acreditam ser a casa qual casa da sogra; tanto que todos mandam, quase nem a dona mandando tanto. Então. A velha fez pastéis bolinhos bolões, ah apreciei todos e mais o de chocolate e assim ingeri a gostosura até passar por esse bem mal; me levaram inclusive ao pronto-socorro acordei de novo na casa de vovó. Vovó fazendo de tudo para me agradar. Num belo momento, isto abuso de linguagem, num esfregar olhos, atarantado, abri olho ao abrir a porta, a porta de dentro aquela que fechava quando fechada a cozinha onde a empregada não deixando ninguém mexer mesmo a sogra de papai, a separar essa cozinha e o quarto em que vovó gostava me ver e ver meus primos, tem um deles que é um horror de terror por bater na gente e se a gente chorar gritar ou na pior hipótese contar tudinho à vovó então ainda levando mais uns murros... esse; enfim a sala-quarto donde vemos vovó deitada prostrada agora e agora olha mas não vê gente nem a gente, aí. Pois não é que ao abrir essa porta mal encostada semiaberta a tapar um pouco os raios solares, não é que me deparei com uma cena inusitada! Não aquela doutro dia na qual flagrei meu pai abraçado com a vizinha do 44! não sendo a doutra semana também a beijar a empregada de vovó que manda na vovó a qual não manda mais nem em sua própria casa e casa da sogra embora ainda sogra de papai e da titia, esta aquela que me trouxe biscoitos e balas. Daí fiquei chateado visto ainda pequeno demais para me constranger... Não, não mesmo. O que vi de fato foi o vão da porta semiescancarada contendo mais de cinco, mais de cinco não sei contar nem somar não somo até dez porque sou pequeno, meu pai lembra minha mãe nas suas exigências. Em suma vi um punhado de vassouras, um verdadeiro arsenal bélico, caso as bruxas da época houvessem criado a guerra pois os mais espertos já a haviam inventado antes. Não isso: isto, um aeroporto com as máquinas gastas sim mas todas centenas milhares delas com o cabo pra cima e a barba de varrer pra baixo no chão naquele antro que apelidaram não sei se depósito de usados ou aeroporto mesmo. Só tem uma coisa que não entendi – por mais haver ali ficado de plantão, sequer observei uma aproximar-se tomar seu aeroplano ou foguete e voar apesar de tantas vassouras no vão no detrás da porta. E me pergunto igualmente onde é que o pai num encontro a alisar a mulher do 44 afiançou a um amigo ela ser boa, se todos acham a senhora ruim não devolvendo a bola da gente ou a viver dedando os meninos à empregada de vovó.
Abril  2012




2.A Fria sem Frio

          Como foguete embora lerdo penetrou o sujeito entre-meio o burburinho da gente freguesa, cliente, no estabeleci-mento. Dentro a gente o sorvete o gelo, o gelo bem mais talvez que nos polos, o calor bafejante. Fora. Fora eram ameaços da natureza em quenturas quiçá fantasiadas com trovões e relâmpagos estes últimos quase nem percebidos no sol a cair e se esconder em nimbus ameaçantes. Dentro era o dentro, se não de paz ao menos de sossego velado e em expectativa; quando adentrou, passou por mesas inúmeras, inúmeras cadeiras ocupadas por gente. Não parou, parou tão só naquela do fundo, grande e já servida. Deparou-se com a mesona e a taçona, daquelas avantajadas decoradas brilhadas em baixo coloridas em cima. Tinha cores variadas no sorvete atraente e no pico dessa montanha uma frutinha vermelha como chamarisco vistoso; dela escorria um caldo suposto grosso gosmento a cobrir o confeito, a se derramar das bordas da taça e a melar a toalha limpa suja então. Em volta dela na mesa como a servir, agora no abandono e no silêncio, outras taças caladas murchas com restos desnecessários e desnecessários lixos lixinhos nuns guardanapinhos e respingos deseducados e deselegantes; mas sem cadeiras... a única entre as cadeiras no chão como que caída empurrada escorregada tornada móvel imóvel no canto. Não se surpreendeu, não se surpreendia. Olhou viu pensou? não disse, avançou na taça cheia como que a servi-lo sem que soubessem seu gosto e queda por banana goiaba chocolate ou outro sabor na fraqueza da fortaleza. A fortaleza, de corpanzil, e mais alta na parecença estando de pé, ela ameaçou e imediato iniciou a deglutição daquela fantasia gelada a escorrer gozando os ventiladores insatisfatórios a tanto calor que o fora empurrava ao dentro. Dentro era a conversa a expectação e apenas um casal falando baixinho as suas coisas, outrem de boca aberta, sem gritaria e espevitamento igual criança; e assim noutras mesas no salão; enquanto ele a comer aquilo daquilo belo aparente gelado escorrido escorrendo além abaixo das beiradas da taça. E o fazia quase sem educação, na esganação talvez, entretanto não punha o problema – só ingeria aquilo daquilo frio a esfriar por dentro o fora em suor no grande corpo presente. Ausente decerto o garçom, achegou-se; limpou desajeitado a mesona dos fundos, olhou o visitante, ameaçou perguntar para servi-lo após, porém nada falou, só recolheu o instrumental usado e os lixos a grudar no seu guardanapo ou toalha a lhe pender do braço. Ia certamente o freguês-cliente pedir de banana de goiaba de chocolate, no entanto permaneceu na luta da guerra na deglutição daquele doce frio, gelado, a escorrer. Foi mais além nesse aquém, além o público comentava e anuía ao resmungo do garçom num quem sabe besouro bicho ou outro perigo no canto a investir nos fregueses possivelmente saídos na correria e no abandono espevitado do lugar. Continuou suou acabou deixou a iguaria, atravessou enfastiado decerto por entre o público indignado ou só curioso... E sumiu no sumir do mundo. À boca pequena ventilava-se o caldo ser maligno ou mortífero mesmo, mesmo no escorrer da taça abandonada e após abandonada segunda vez, vazia. Contudo não matara a vítima. Até ontem. Até hoje cedo.   
 Fevereiro  2009




3.A koysa sem nome

          Casaram nos conformes, conforme a condição social e a crendice na roça admitiam. E foram felizes para todo o sempre, xô ‘carochismo’. Ele, o macho da espécie, juntou para tanto pecúlio por várias apanhas de café; ela, a fêmea da espécie, juntou caprichos ouviu palpites brigou um pouco com os seus e não os ouviu. Diziam que ele não prestava sequer lustrando o guatambu do cabo da enxada. Ele também teve que escutar desaforos dos seus, estes jurando a pés juntos que a moça não era moça e portanto não prestava. Não prestaram atenção, casaram, antes fugiram de casa e depois grávida a virgem não tendo mesmo volta voltaram aceitos em termos aos seus, agora morando o casal numa tapera própria, até o êxodo rural enxotar a casa própria à cidade faminta de oportunidades e misérias. Montaram lar com os devidos indevidos e dizem-que-disseram mais, não se tapa o sol nem a verdade. Verdade que foram felizes e... ah xô carochismo. A fêmea da espécie e a espécie de macho mantiveram o ramerrão, procriaram bastante trabalharam bastante, ele na firma firme e trabalhador só ‘grevou’ quando todos operários grevaram e brigou somente quando os outros carneiros exigiram a lei e se queixaram no ministério-sem-trabalho. Demais foi a rotina a sair de casa cedo voltar tarde e apenas poder brigar com a esposa certo e inteiramente nos domingos e feriados, a cidade ateia atoa não tolera dias santos exige todos dias a tarefa e paga o salário. Ela, a da espécie, ela trabalhando em casa cuidando da cria suas crias e batendo roupa e papo com as vizinhas a desabafar dele com a comadre. Os meninos então fizeram seu papel: brincaram brigaram brincaram brigaram e encheram a cabeça dela, dela sem distração. Não. Tanto que não havendo televisão na época teve foi uma ninhada. O primeiro dos pintos tendo os traços da família do macho da espécie, mais menos dele mais-mais do irmão do pai deles; os outros no galinheiro, com o galo ou trabalhando ou grevando na discussão sindical da categoria, então os outrinhos saíram diferentes, mesmo porque não existem iguais por serem bilhões as diferenças no planeta. Um semelhando o padeiro, outro o vizinho aquele que discutiu com a vizinha e outra vizinha e se mudou. E assim por diante, se não sempre e eternamente ao menos um pouco assim. Daí no terreiro o macho – quem sabe a aceitar enredação dos seus, a sogra da fêmea da espécie um pouco linguaruda ou isso apenas intriga oposicionista – daí ele deu um basta. Quer dizer, a empresa deu-lhe um basta antes, depois entregou-o ao seguro-desemprego depois ainda ao subemprego e mais pra diante ao nada, em moda no país nas últimas décadas; entremeio a vida o mandou ao bar aos amigos à bebida bebido bebum consumado libador. Você, disse à fêmea sem espécie, você me traiu: veja os olhinhos puxados de nosso sexto filho! (Usou não a língua padrão educada mas a ‘língua calão’, não calando a espécie de fêmea porém pondo lenha na fogueira doméstica). E concluiu aquele macho trabalhador sem emprego e sem dinheiro até pra quitar a dívida no boteco: vou matá-la e ao japonês da esquina! Realmente disse na chulice da língua calão apagar ambos. Ou qualquer coisa assim; assim nos autos no linguajar policiesco, em que o carochismo não tem vez.
Fevereiro  2009




4.Obviodóbvio

          Para tanto, tanto pensar no que pensava, a tanto usou a escada; isso óbvio pois necessitando ver uns fios lá em cima na laje, espremidos escondidos coloridos retorcidos entre ela e o telhado neutralizante de sol ardente, contente; contente ele por haver não propriamente sanado o problema porém descoberto o problema e isso lhe parecendo o óbvio; depois, antes não. Tem aquele fiat lux nas coisas obscuras, quando se acha e acha-se correto no comum “por que não pensei nisso antes!” Então tomou da escada a subir e ultrapassar os umbrais pela portinhola que é mais janelinha que porta ao vão da dita redita laje onde fios.
          Aproveitou-se daquele momento, qual presente recebi-do, aquele da ida da senhora Fiinha à casa da sogra, bem dito a sogra dele mãe dela doente. Aquele negócio de chamar mil parentes mil vezes à despedida com mil choros mil pedidos de perdão e mil outras vezes melhorando, apenas não sarando porque velhice não tem cura. Era uma dessas, uma das mil. A esposa levou consigo a prole, o que presente sobre presente e daí sozinho arranjar fios a desarranjar problemas.
          Tomou a escada – a esposa logo gritaria a lhe pegar no pé “num tá podre! vai cair como da outra vez...” Andava livre disso agora, agora que se fora à mãe. Em todo caso examinou bem os degraus, nenhum a se desmanchar, só um ou dois pregos enferrujando enferrujados oferecendo perigo, deu lá umas marteladas e firmou as travessas; aí encostou a extremidade de cima lá em cima e prendeu bem as extremas de baixo como pé. Experimentou, forçou, sorriu confianças, desandou para o alto nas alturas. Abriu a fechada portinhola de caber um homem comum um pouco barrigudo nela (ela já xeretando: Zé, para de tomar cerveja, esses seus amigos... Espantou-a um pouquinho, retomou o subir ultrapassar seu corpanzil na janelinha:) entrou, se arrastou, encostou... por óbvio do costume se esqueceu desligar a eletricidade, desceu foi ao relógio de luz, puxou a haste dos fusíveis da chave geral, inclusive a do disjuntor; fechou trancou a porta do registro elétrico, vai que... pensou, porque não poderia um moleque passar e passar a mão levar um choque! Tornou à escada tornou ao subir tornou a tornar à laje e tornar aos fios. Ela, não eles? não, ela dona Fiinha veio resmungona – Zé, cuidado, ih não posso com gente teimosa e que exemplo dando às crianças! Espantou a lembrança, continuou a singrar por mares nunca velejados: os pós os fios. Ah dedos de poeira depositada longos anos; mas não tinha grilo não tinha nenhuma ou ela gritaria lá longe de medo, porque barata não procura decerto fios poeiras bolores mofos e cheiros irritantes; em todo caso examinou reexaminou com cuidado naquele ‘lusco-fuscar’ de sombras detritos e abafamentos, aí... antes disso fez o que pôde pôde pouco segurar e despencou num atchim; aí sim lembrou o óbvio que era ter-se encostado sujando a roupa embebida então no suor azedo e fedido agora lembrando-se da voz de Fiinha a reclamar lamentar pegar no seu pé por isso; felizmente andava visitando a tristeza da sogra, sogra dele. Parou de se arrastar, se ficasse de pé meio curvado machucaria a cabeça de pensar na esposa e não pensar na sogra. Prosseguiu olhou examinou ‘meticulosou’ passou as suas mãos nas coisas do teto meio escuro e descobriu ali o óbvio...
          Óbvio também que Fiinha devesse nessa hora estar chorando ou conversando baixinho choramingando com suas irmãs, todas dando bronca à bagunça dos meninos, os seus no meio, agora ele só, só acompanhado de fios e problemas e pós obscuros e escuros no não saber, descobrindo o óbvio.
          Daí pensou azar. Por exemplo, o vento bandido não poderia haver tirado a escada e então como descer? chamar Fiinha na mãe pra chamar por sua vez qualquer vizinho ajudá-lo a descer! o óbvio sim porém não o vento, pois uma escada mal encostada mal acoplada na parede não poderia ser desalojada só poderia sê-lo com um vendaval um tufão e aí arremessada ao chão... óbvio; enfim se arrastou desarrastando de volta ao limiar do umbral da janela-portinhola de saída que fora de entrada intempestiva, embora já longe as pragas e admoestações da esposa, nessa hora na sua mãe doente, moribunda quem sabe.
          Dessa forma começou o retorno, a operação que apeli-daria desmancha-óbvio, desceu num uf comum e suspiro glorioso vitorioso – livre em terra. Todavia sem solução do óbvio, ou seja os problemas dos fios e ainda por cima por baixo sem a presença de Fiinha pra narrar desabafar justificar confiar seu óbvio insucesso.
          Sim porque... e isso não era o óbvio! porque não sabia o que fazer em eletricidade, um absurdo pegável quiçá com sorte uma questão achável (não ‘solucionável’).
          Então se lembrou que teria de chamar um técnico, um profissional que entendesse do assunto, desses que não têm medo a levar uma descarga, a qual dava horror à Fiinha ele se rindo dela sempre. E o negócio é que a esposa não estava ali para achar o telefone dum eletricista de gabarito.
          Além disso, resolveu não contar sua arte longe dela, en-quanto na sogra. Também teria depois dinheiro para pagar os custos da obra? e quando, não sabendo, poderia executá-la... O óbvio é que nunca mais mexeu na laje nem chamou o entendido, sequer sabendo pra que chamá-lo. A soma a ser gasta foi gasta na milésima segunda crise da sogra, no enterro dela. Obviedade por ser um dos parentes da velha com mais recursos que os outros, os quais apelidava com estrilo da esposa “miseráveis”; em pobreza é óbvio.
Fevereiro  2009





5.Fotografia da Destruição

          Havia acontecido, não se discutindo isso, discutindo o como fora, sobretudo os que nada sabendo ou sabendo pouco, o povo todo ele curioso, uns na gente mais que os outros – mas não mudava a realidade nem a verdade. Em verdade ela andava por ali profissionalmente. Tanto que as autoridades a observavam e não a viam, mais cuidando de suas coisas, como e o quê pôr no relatório por exemplo. Tinha um cordão de isolamento, os seguranças ali postos eram ferozes nos cumprimentos porém o povo forçava muito a fita e mais forçando a contar o que sabia e o que não podendo ver... Ela não. Desembaraçada circulava por entre destroços – toma uma pose aqui outra ali, ‘pose’ talvez péssimo como figura porque ninguém, fora os curiosos, a tentar sair bem na foto. Ela clicava ali aqui se posicionava melhor, antes que fosse tarde pois havendo possibilidade de alguém desatento mexer nas preciosas peças, fossem as peças no lugar certo desse errado... Havia acontecido não mais se discutia, havendo na área pedaços de bens materiais, troços distorcidos quebrados jogados ao deus-dará; e pedaços humanos, o que projetava o sinistro o receio o horror mesmo nos mesmos curiosos atentos lá fora ali a forçar as guardas para ver o que não ver ou se não devendo ver (ah e o poder de atração nefasta! nesse macabro no explodir ruir atrair mil olhos... gente é assim, não consegue fugir ao vertiginoso imã do espetáculo negativo). Tomava fotografava amava até os ângulos, quase como a chegar à perfeição e ao desvario perfeccionista com gosto e arte; e seriedade, séria em tudo e naquilo que fazia, no fazer o seu certo; errado que a situação enublasse a beleza feminina que poderia ressaltar mais naquela feiura medonha do ambiente. Exalava ela como flor um leve perfume, contrastando nisto também pelo irritável cheiro dos destroços, quem sabe em vista dos produtos químicos esparramados e também da pólvora de explosivos, o que as autoridades discutiam entre si a saber e computar objetos. Outros funcionários da polícia técnica faziam na rotina levantamento da destruição e dos possíveis sinais que levassem se não a acordo ao menos ao registro frio dos dados. Ela não. Ela fotografava experiente o espalho o estrago, como a querer guardar uma recordação cara ao sentimento; contudo era igualmente fria e meticulosa no que fazendo. Ao auxiliar assoprava baixo palavras técnicas do seu métier, sem alarde com ordem com disciplina, ao gosto da câmera ali de olhos arregalados em vendo pedaços do que restara... Fique próximo dessa parte de perna a fim de compararmos depois da revelação o tamanho e a posição exatos como encontrado. Anuía o ajudante, clicando mais e melhor a mulher. Não pise nisso: é mão de gente; recomendava ao mequetrefe; e novamente incansavelmente sistematicamente fotografava, fotografava mil partes da cena que os de fora dentro queriam mais bem ver. O cordão de isolamento quase a romper, admoestavam os seguranças crentes do seu poder e autoridade com olhar imponente... Aí ela percebeu outro filete rubro já negro a escorrer seco de tempo vindo dum bloqueio qualquer; clicou sua máquina melindrosa, habituada nas filigranas do medonho. Incansável então cansada ou satisfeita do montante que guardara impregnado na virgindade do escuro no interior da câmara, descansou a geringonça na correia daquele instrumento agora a tiracolo no seu ombro. Olhou ao mequetrefe, indicou mais alguns apetrechos ligados à parafernália, aguardou segundos dos milênios do ajudante a recolher o que juntar para segui-la. Ela ofertou um sorrisinho maroto ao chefe num conciliábulo com outros técnicos, e assim saiu levantando o cordão dos seguranças à curiosidade dos curiosos em volta em frente. Os curiosos não mediam esforços desnecessários e apócrifos na sua narração. Uns que a explosão... outros a contar detalhes com conhecimento de causa pelos efeitos; mais alguns a relembrar como eram os pedaços quando unidos em seres humanos e a loja loja ainda.
Fevereiro  2009




6.Existência Segundo Mateus
É desnecessário procurar encrencas: elas vêm rápido e de graça, prontas
ao uso no abuso.  in Desaforismos & Intimias, p226

          Conforme Mateus o mundo é possívelmente bom, era bom. Conseguia nas tristezas e misérias da existência a alegria, se bem que uma alegria medida e sem quaisquer exageros; quem sabe já antevendo os desastres da alegria em confronto com sua oposição-irmã, a tristeza. Enfim seu ambiente desde criança, ainda uma criança quando deixou de sê-lo, tal ambiente era sofrível e nem o convívio com os meninos comuns na vida normal nem o convívio na escola nivelada embora por baixo puderam vencer essa barreira – o sofrimento e a luta contra a precariedade no mínimo. O mínimo sendo a família a casa e o bem da vida posto como um mal necessário entre os seus. Os seus a mãe as irmãs as sobrinhas, o pai ausente presente com outra mulher e seus meios-irmãos. Ainda integrando os seus os amigos da mãe e das irmãs, assinzinho em amizade chegança intimidade inclusive. Por longe naquele perto sentia formarem um todo, mas um todo perigoso... Logo sua consciência descobriu a ilicitude.
          Até aí tendo não mais que dez ou doze anos e sendo uma espécie de criadinho entre os seus e os apensos ou mandões dos seus. Nisso abusando mesmo. Tudo nas suas costas de garoto.  Nem as brincadeiras de moleque na rua podiam completar-se na felicidade que elas propõem, caso houvesse um recado ou uma entrega qualquer a fazer. Parecença com burro de carga no dizer popular. Imperavam todos: vai levar isto Mateus, dizer pra dona fulana isso ou aquilo Mateus. Vai logo, Mateus, some! Disparava reencetava o brinquedo, interrompendo quando necessário. Além ser – isto não válido aos amiguinhos da mãe e das irmãs mas direta ordem delas – babá das sobrinhas. Assim liberadas as parentas adultas ao trabalho, ‘trabalho’ aos poucos a compreensão esclarecia; enquanto ficava decretada sua prisão, pois a privação do brinquedo a um menino é a pior clausura. Não obstante, aqui era onde se manifestando seu coração puro apesar da impureza do meio: cuidava tratava qual mãezinha as pequenas: remédio na hora certa, mamadeira na hora certa, certa no banho e demais limpezas; além de conversar de igual para igual com aquelas ‘tantadurinhas’ gostosas a si, inclusive disparando sua criatividade de mãe no diálogo e na arte (fazia suas micagens e seus salamaleques para agradar as menininhas e o fazia com flagrante prazer, muito embora o desprazer da cela).
          Todavia uma atenuante: não apanhava em casa como determinando a moral da miséria.
          Um belo dia a coisa apertou. Não o drama da falta do básico, isso ocorria muito e é bem inteligível num país com muito subemprego e mais desemprego. Por outra questão: os principais amigos da mãe foram presos, um ainda a dormir com a mãe, mãe do Mateus veja-se bem, visto a polícia não apreciar afagos íntimos. Levaram os oficiais inclusive as drogas – o garoto conhecia isso e tinha que falar baixo referindo-se a ‘bagulhos’ ‘moambas’ coisas desse jaez. Ficou assustado, as filhinhas dele desandaram a chorar também. Por fim os amigos ficaram encarcerados, para a rotina soltá-los depois e depois reprendê-los; enquanto a mãe dispensada após audiência. Daí por diante a casa era o medo; não conseguia sequer dormir semelhando o homem comum, menino comum então, nem isso podia mais o Mateus.
          A vida prosseguiu, a rotina assentou a poeira; até os ba-rulhos e o som – o ‘som’ eram os cedês na voz alta e estrondos a que os amigos, soltos, deixavam barulhar enquanto distraiam a mãe do menino – até os barulhos eram rotina. Quer dizer, durante as prisões alternadas dos amigos o lar aquietava, menos a garganta das ‘pequenuras’, para alegria do rapazinho.
          Contudo tudo rotina inclusive o não pensar nos termos de futuro. Isto porque logo, isto é em poucos anos de existência, logo Mateus descobriu que não precisaria fazer planos como o faz um cidadão comum.
          Assim chegou num futuro próximo, demais próximo para tão poucos anos vivendo, assim veio o desastre e ele quase não percebeu. Um dia, um belo dia!? um dia os inimigos dos amigos, e por extensão da mãe e das filhas da mãe (os inimigos raciocinando como tendo culpa toda a casa...) um certo dia noite calma ao mundo nem os cães percebendo, ou desandariam, ladraram assustados só imediatamente após... nessa madrugada cerraram fogo com armas pesadas; acabando de vez com os amigos e a família esdrúxula, não tão esdrúxula visto haver demais hoje essa precariedade. Acabando com Mateus e elinhas no meio, os pequenos que não procuraram encrencas quiçá sabendo o vocábulo se lessem não leram no dicionário.
          Por raiva por vingança por contingência ou apenas a aparecer como espetáculo inédito infelizmente corriqueiro na televisão.
Fevereiro  2009




7.Fabulinha no Buracão

          Surpreendi-me, não da surpresa dele ele que me não via nem via ninguém e nada além do que via, via por dentro decerto e já é muito ver; supreendi-me pelo abuso de sua imaginação. Era, então, apenas um buraquinho. Desses que irritam o trânsito engolem entulhos bebem as águas do mundo e as do dilúvio do mundo! não: um inexpressivo de tão pequena insignificância. Digamos a acertar a linguagem exigente da gente contente valente no criticar e pouco fazer, digamos fosse pouco mais que um mijinho d’água fétida a passar correr corroer carrear coisas e afundar numa vala da urbe mal cuidada pela burocracia e pela corrupção dos políticos e barnabés, estes a bebericar cafezinhos nos corredores da repartição, sequer pensando na população contribuinte e nos xingos da população pela corrupção e pela burocracia – deixando assim buracos intactos; virgens não pois antes a crescer e a crescer mais a cada tempestade nas vias públicas planas ou em sobe-e-desce. Ele quietinho.
          Mesmo porque quem possa imaginar que imagine ficando a falar e comentar. Não. Quieto, ensimesmado, a pensar. Ou a sonhar.
          Cheguei-me ao sonho. Perto do sonho e do sonhador. Este quieto. Olhador. Pretensiosamente vendo, vendo longe...
          Perto, já encostado, surpreendi-me pela pequenurona do buraquinho. Desses que veículos atirados, cegos, apressados, sequer notando passando matando ou ao menos ignorando o agente, agentinho melhor dizer.
          Perto, junto, sorri. Eu sorri com minha cauda curta, me deceparam a fala sou mudo no meu coto, cotó. Farejei cheirei examinei e sorri, por dentro, por fora o coto mudo, sorri gar-galhei até pela pretensão.
          Imaginava nuns voos altos o buracozinho um dia chegar a ser buracão! mais que isso – engolir o buracão...
          Explico melhor a coisa.
          Na terra dos buracos, uma cidade interiorana pequena de grandes desejos, nessa urbe há muito buraco. Não falo dos buracos médios que engolem em seu seio os buracos pequenos – já grandes, enormes ao buraquinho sonhador. Não falo da buracaria à espera do socorro da época das eleições quando milagres em terraplanagens e obras mais as mais milagrosas e impossíveis, possíveis tão só à mirabolante promessa. Não falo desses porque um engole outro (aí o buraquinho seria mastigado igual se faz antes da cerveja como aperitivo a abrir o apetite). Não. Falo sim do buracão mesmo. Isto é, em volta da cidade com seus políticos opulentos e com população pobre não miserável, em torno dela só existem buracões, ela erigida pelo tempo no alto e quase no pico da montanha; por volta itambés cavados pelos rios teimosos e trabalhadores durante eternidades criando imensos vales. Ao pico o povo da terra diz “espigão”; ao vale o povo da terra fala “buracão”. Sem pretensão poética, a falar apenas falar.
          Pois é esse, era esse o buracão do buraquinho!
          Indago eternidades ou só milênios após ao meu coto mudo – visto que passei outras eternidades outros séculos outros milênios atrás de cadelas cheirosas, apanhei por causa delas dos grandes fortes bati nos fracos pequenos, todos nós atrás do cheiro delas, assim como o buraquinho atrás do buracão – indago a saber o saber.
          Saiba, me responde ex-rabo de plantão, saiba que só existe buracão.
          Olhei, pasmado, na procura do insignificante. Elinho mastigava decerto o outrão com boca aberta. Que grosseria!
Março  2009




 8.Facho de Luz

          Quando U-u descobriu o claro de sol na sombra no canto dum canto – sobremaneira espantou-se. Era a quinta-feira e ele não sabia, dia treze desconhecendo, novembro no fim de ano não tinha conhecimento; e sequer a poder pensar fosse começo dum século e final doutro milênio antes doutro nos tempos e tempos amém – não sabia de verdade. Mas era verdadeiro e realidade ostensiva vista pegável quase não fosse mero claro quente na sombra fria de verão não obstante.
          Olhou mais uma vez, ene-vezes se se quiser, sequer mudando opinião sobre o achado. Antes que isso inclusive mais e mais se impressionando.
          O homem era e seria num talvez nada virtual um pesquisador, sem ser um cientista ou inventor, estes não inven-tados ainda. Corolário ao seu impulso aventureiro, assim fir-mou ideia naquela grandeza bela clara amarela, fugidia...
          Não é possível a um possível descobrir apreender saber sozinho. Em razão disso chamou I-i para ver, ver que fosse porém mais a fim de confirmar o achado; logo, a existir. Olhou, olharam, a quatro olhos, olhos lacrimejantes, lacrimejantes brilhantes de espanto já sem susto mas com belas surpresas. Requisitou mais olhos, olhos de toda tribo quiçá olhos do universo em seu universo. Mil olhos viram de olhos arregalados!
          Estava confirmado o achado perdido até então para o mundo ou mesmo ao universo daquele acanho de universo: Era claro incidente colorido a brilhar e a desmanchar a sombra na noite do dia se indo, não de tédio porque o simples desconhece o tédio.
          Embora tal conquista ao conhecimento de U-u e de I-i por companhia e comprovação e por extensão aos seus e seus respectivos universos – o saber ameaçava desmanchar desapa-recer quem sabe.
          Em vista disso determinou como chefia e mandado de mandato não homologado que se defendesse a riqueza. Coube a I-i o lugar-tenente aos tementes e demais apensos no número dos números olhá-la; fosse que pudesse haver- alguém surrupiá-la ao bem de todos, maismente de U-u, virtual proprietário de tanto ostensivo concreto presente.
          Entretanto ao exposto posto fosse certo e convincente, não convincente a decerto certo falso-judas ou falso-amigo ou falso lugar-tenente. Dessa forma flagrou o chefe em visita de surpresa ao tesouro, I-i a tentar apagar o claro já em luz ainda cálida entretanto amorfa. O crime custou uma cabeça uma vida ou só uma existência mais curta que devera. O crime porém trouxe nova descoberta ao pesquisador sem laboratório mas com objeto, claro quente brilhante furtacor: era não mais que certa réstea impegável! Foi daí notar como ótimo sábio a mudança de posição da claridade.
          Assim resolveu por mil dias e mil noites fossem necessários ele mesmo olhar defender dirigir opor qualquer resistência – na guarda do tesouro.
          Contudo, tudo nos conformes da força e da força da inteligência e da força da chefia, não pôde U-u manter pra si mesmo a riqueza.
          Ou foi o universo ou foi o mundo ou foi o dia, dias após adoração do seu povo ao claro de sol no sol claro, o claro veio a sumir; primeiro se enfraquecendo e a passar de forte ao morno para finalmente desaparecer...
          Para que pusesse a culpa em alguém? no mal-olhado da cabeça sem olhos de I-i? E se houvessem inventado o filósofo, não poderia sobrar nessa falta a explicação dum possível excesso na incidência do calor e surgir o fogo e a destruição dum povo quiçá destruição do universo!
          Assim U-u, I-i nem se lembra, U-u e todo um povo, certamente também um universo caindo em a noite, na sombra da noite e da provável ignorância.
Maio  2009






9.Pós-Parto

          Às vezes o homem é pego desprevenido nas coisas que usa cuida recebe aproveitando por momentos em se fazer notado; o homem representante do macho da espécie e macho pro que der e vier ou só macho pra valer. Isto porque pode dar-se de cambalear engulir seco aquele gostinho na boca quando o causídico da medicina vem comunicar o que comunicar ao paciente cliente quiçá freguês no hospital. No pós-operatório, mais bem dito esse mal dito. Chegou olhou, olhou também o doente em fase de recuperação o profissional, de branco descalçando as luvas, um dedo grudando por dentro teve de chocalhar até desprender a borracha enquanto... Aí comunicou, vendo desperto ou a despertar aquela consciência quem sabe pesada e agora após perigo e sofrer; comunicou nestes termos. Foi um sucesso, meu caro, renovamos o amigo por pouco... Por pouco!? Por pouco dinheiro digo, nosso lema é a medicina a ciência, o ganho apenas nosso ganha-pão. Contudo tudo deu certo: é um homem novo. O homem de jaleco branco e de luvas já sem luvas respirou suspirou e continuou – sucesso porque atiramos no entulho aos cães vadios um deles, o mais estragado, e conservamos intacto o outro testículo. O paciente agoniado: mas... Não senhor, não virou bicha, não se impressione, tem um ainda pra uso e abuso; tiramos o esquerdo que doía mais, deixamos o direito errado que doía menos; a pedido de sua senhora... consultada optou direito, o namorado dela queria extração pura e simplesmente dos dois, imprestáveis, segundo a oposição; mantivemos um inteiro íntegro intacto a balançar correto daqui por diante; portanto fique descansado. O senhor... iniciou dizer o vitorioso operado, o médico compreendeu. Não, nada disso do que ia falar, não comunicamos o fato aos seus, aflitos à espera ali fora, só ao interessado agora, você. A recuperação e alta serão logo nestes dias. Ah sim, a equipe aproveitou a trocar e extrair alguns órgãos avariados... aproveitou a economizar anestesia e anestesista além de novos transtornos com possível retorno do amigo aos transplantes – enfim economia a seus bolsos porque fizemos várias operações cirúrgicas, corretivas, ao mesmo tempo. O que os senhores tiraram ou trocaram, decerto pondo bons no lugar dos estragados... Estragados não, meu amigo: podres e imprestáveis. Sim, interveio o operado, o quê? O causídico: o coração, sua esposa se queixava que não tinha, tinha em decomposição, retiramo-lo. O fígado... O de beber o bar!? interrogou o doente agora são. O de curtir suas cervejas, cervejas economizadas com a extração do fígado e dos rins, todos incapazes velhos fracos inoperantes decompostos quase – está livre! Ah sim, tem mais, encurtamos os intestinos, havia muita volta desnecessária, livramos você de metros e mais metros de tripas e ainda a baratear custos ou a cirurgia ficaria o olho da cara de cara, livramo-nos deles vendendo a uma fábrica de linguiça, o que rendeu uns trocados. Fizemos ligação direta, a funcionar portanto como em carro igual exímios profissionais de objetos alheios. Oh sim, aproveito este comunicado a você a fim de esclarecer que cortamos penduricalhos desnecessários, segundo o namorado de sua esposa, a esposa não opinou a respeito; trocamos também braços e pernas – tivemos no item pernas que destrocar, pois os meus auxiliares-estudantes-aprendizes encaixando a esquerda na direita errado; rearracamos rerrecolocamos a direita direito na esquerda... somenos; cabeça ih a cabeça deu dor de cabeça meu caro, deu o que falar, se duvidar chamo nossa enfermeira-chefe que foi quem conduziu o caso... Os olhos foi fácil o troca-troca, o queixo, o beiço, a cicatriz – tudo nos conformes porém o nariz... Sua esposa queria um arrebitado, pusemos um não gostou; o namorado dela queria em você um nariz adunco, feio, horroroso, pusemos um helênico perfeito, perfeito?! O paciente fez sim de cabeça e o médico prosseguiu o discurso. Na testa, já pontuda, o namorado de sua esposa sugeriu um chifre... não, na dele não: na sua testa; todavia não achamos bode em afinidade com o paciente, a equipe médica estava optando por... (aí o paciente impaciente passou a mão na testa a testificar). A orelha, continuou o clínico, aquela de abano com serrinha na direita errado, errada a natureza veja bem; consertamo-la ao concerto. Está agora uma beleza logo verá sem se espantar no espelho; aliás meu caro, nariz e orelha é onde a natureza falhou feio! pois todas horripilantes, inclusive o meu a minha orelha em particular, confesso; e a de sua esposa, a do namorado dela então! Enfim meu caro, ficou novo de novo. Novo mesmo a conta; o que já nos pagou, pagou. O excesso da cirurgia precisa quitar na tesouraria – nem a esposa nem o namorado de sua esposa quiseram tratar do assunto: deverá pagar o serviço antes deixar o hospital, ou não deixá-lo, em baixa, retido até honrar seu compromisso; é isso.
Fevereiro  2009




10.Associação dos Namorados

          Já sei o senhor é um macaco. O macaco olhou com a-queles olhinhos inocentes e talvez de boa vontade; ou seria por mera curiosidade? O outro agradeceu não as vistas mas pela visita. Sabe, disse, esta é uma associação, uma entidade registrada e tudo o mais. Nem queira saber o trabalho que isto dá ao secretário! eu. São mil coisinhas são mil questõezinhas são mil exigencinhas são mil cobrancinhas, enfim como em qualquer outra congregação ou confraria ou ajuntamento de seres iguais ou semelhantes e que fazem o mesmo e pensam o mesmo e têm o mesmo pensar. Aqui se congregam todos, talvez exagerando nisto pois difícil quase impossível abarcar o universo namorado da nação, que o senhor conhece enorme. Contudo vêm sempre os associados tirar uma casquinha; ou se comunicando conosco e com outros namorados por carta por e-mail por telefone ou somente se ligando nas redes sociais através da internet, o que ponto pacífico. Olhou olhou olhou graciosamente o macaquinho nada travesso nos moldes dos monos, ora entortando a cara engraçada ora a piscar e piscar; não disse nada não comentou coisa alguma e assim o secretário continuando a dar as cartas. As questões maiores – pois em todas associações creio dessa forma – as maiores partindo dos encrenqueiros e faladores. E isto que direi agora não é somente argumento machista, no sentido de que elas falam mais, talvez apenas falando também pelos cotovelos para ajudar decerto a língua cansada, igualmente vemos os machos a expor demais o desnecessário. Em suma quem dá mais trabalho à nossa administração, ao secretário aqui em particular, são tanto o namorado quanto a namorada, enfeixados na menção namorados. Com suas pieguices, suas descabidas exigências, suas questiúnculas a conseguir a consagrada vantagem brasileira em tudo. Acredita o senhor que um belo dia... aliás chovendo barbaridade, aquela molhadeira danada no chão pelos guarda-chuvas dos reclamantes a pingar, a gente enxuga vem outro a escorrer seu dilúvio aqui, ali. Olhou interessado o macaquinho e voltou-se ao representante da entidade, por sinal bem falador quiçá revoltado com abusos. Pois é, e não é que nesse belo dia, o de chuva dito, chegou um cliente, essa gente não quer ser mais freguesa da gente; enfim um namorado a querer de volta ou por vaidade a pecha de ‘amante’ sob alegação de que hoje em dia tudo é namorado. Outro foi além indagando sem nossa oficial resposta “onde os guarda-roupas em que se escondia o macho na visita à fêmea sem macho o macho falho surgindo de repente!” Nem janela pra se fugir direito existe; as casas mais fortalezas engradadas que residências da paz e do amor... O que poderíamos responder? Outro ainda, outra a rigor, nos traz o seguinte problema: como fazer para não fazer? Explico em nome dessa namorada contribuinte da associação. O caso é que o namorado da namorada fora obrigado – atente lá o senhor nisso – fora obrigado pela esposa gasta velha usada parideira a ficar em casa enquanto seu último parto; por sinal disse haver complicação dias e hospitalização etc., precisando inclusive o pretenso chefe da casa olhar feito babá a prole; e nem uma colherinha de chá dando a empregada doméstica gagá cara e feia ao pobre! Ora, eu respondi à reclamante: o que pode a associação dos namorados fazer, interferir não é de nossa alçada e fere o regimento interno e a constituição do país e dá processo e tudo. A associada então aludiu tender cancelar a ficha, ou não pagar mais a mensalidade irrisória... Aliás nem queira o senhor saber a inadimplência nesta gestão em final, com troca dum presidente namorado para uma desinteressada presidente eleita namorada. O caos. Alguns dos participantes querem ter o direito em trair o namorado ou namorada com seu par! O cônjuge traído, isto banal, aceito em unimidade, todavia um namorado traindo o próprio namorado! ah dá o que falar. De fato dá e é o que mais se faz nestes meios: falar. O pior entretanto não é isso e o senhor há de convir não ser o pior havendo outro melhor pior: aqui agora está se tornando banalidade, que é a união dum namorado com outro namorado, duma namorada com outra namorada. Ora, o que será da moral do povo de nossa pátria amada! O macaco não respondeu, fez trejeitinho e quem sabe haja sorrido, o que pareceu mais uma careta em momice.
Maio  2011




11.A Verdade na Versão Bebuna

          Naquele dia, o senhor sabe, era uma segunda-feira, que o calendário assinala como sendo de amolentamento; o povo a distorcer como preguiça. Eu não havia bebido coisa alguma, o senhor sabe que bebo? socialmente bem dito. Aí chega um amigo... o senhor diria que tendo amigo assim poderíamos dispensar todos inimigos de plantão... contudo o José sendo ótima criatura, sempre honesto e colaborador na vila; desses para o que der e vier. Aí ele chegou.
          Sim senhor, no bar; onde eu compro leite aos filhos, com o dinheiro do leite e pretendia inclusive quitar se não a totalidade da dívida parte dela. E comprar meu cigarro, o senhor sabe que fumo? fumo mas da marca mais popular e barata possível.
          Sim senhor, ele que me convidou à bebida; falei um tra-go apenas porque precisava tornar ao lar, a esposa me esperava devendo levar da venda uns gomos de linguiça para mistura no almoço. Não falei para o senhor, doutor, que foi antes do almoço! então.
          Sim senhor, aceitei um trago, não disse? um trago. To-mei dois, acho que foram dois o vendeiro cobrou quatro mar-cou seis na dívida que ele registra (por ordem da mulher dele, posso afiançar) a que ele pendura num prego na porta do escritório do bar e nem sei se aquilo propriamente um escritório, dada a baderna e desorganização do amontoado de papéis que a gente percebe do balcão onde entorna a garrafa ao copo, nossos copos... nós dois sentados numa banqueta, a minha então desmunhecando, não falei ao senhor?
          Na verdade não contei as doses, sei apenas que José en-goliu certamente o dobro das minhas. Portanto andava bêbado o amigo, não andava. Caiu. Levantou-se, tomou um pedaço da madeira de minha banqueta – deu em minha cabeça uma porretada!
          Não sei, doutor, digo ao senhor que não posso saber como foi que ele, não eu, caiu já morto!
          Não falei ao senhor? quer ainda que repita o que disso me lembro...
          Naquele dia, o senhor sabe, tava numa preguiça própria de segunda-feira e era mesmo segunda-feira. O Zé, um que me jurara matar dizendo que eu olhava para a mulher dele, esse, já chegou no boteco trançando pernas, sabe que ele bebe, bebia muito, doutor? Esse. Então desandou a me intimar pagar certa dívida que eu nunca fizera.
          Vendo o caminho que seguia a conversa e o nervosismo do Zé e ainda por estar bebum, ele bebum, tomei o cuidado de amansar o louco: ofereci a ele um trago e o fiz com jeito para tomar o segundo o terceiro até cair.
          Havia prometido que a despesa eu mandava o vendeiro pôr no meu ‘pindura’. Nisso caiu.
          Antes que acordasse lasquei-lhe o porrete: arranquei parte de minha banqueta, das que nós estávamos sentados bebendo, eu um pouco só, acredite senhor delegado, ele no porre, ofendendo o público e este amigo dele por todas ventas. Arranquei bati bati, mas deve ter sido pelo abuso alcoólico do Zé que o Zé morreu.
          O resto tudo a polícia sabe, tá no... como? ah nos autos senhor doutor. Mas tem aí nos papéis muita mentira porque todos curiosos afirmaram que fui eu: foi ele.
          Sim senhor, não repito mais isso.
Junho 2010




12.A Cidade Abandonada

          Eu disse para meu guia achar estranho aquilo tudo rele-gado, inclusive as ruas, sobretudo as ruas e as casas. Anterior-mente, falei, estivera num cemitério abandonado; não a necró-pole da urbe abandonada, a de outra urbe viva movimentada mais movimentada ainda que meu desejo, na comparação que fazia da viva cidade, com a cidade morta dos vivos.
          Então presenciara túmulos ao desleixo, capelas ricas mais ricas em rachaduras e desmoronamentos mais, mais próprio aos mortos; o lado pobre daquela miséria então chocava bem mais: era um horizonte plano no desgaste de montículos achatados pela erosão de anos quiçá milênios. E por cima naquele por baixo a se erguer, a vegetação teimosa em gramas a subir restos tortos rotos mortos e no capim alto. Havendo certa árvore, aí calma naquela soma parada de lama seca, ela a crescer seu lenho desde as entranhas da morte subterrânea rica nas ofertas de vida àquele ser vivo de folhas a farfalhar molemente na brisa morna aqui em cima, essa árvore a vicejar e embelezar qual estivesse numa floresta sozinha mas forte e empinada pra cima qual seta sonhando nuvens e firmamento – um choque de vida na morte daquela cidade fantasma dos mortos morta. Não obstante dominava o ambiente as coisas partidas rachadas, com o verde o pó o vento leve a cobrir o todo. Conquanto mortos não só os mortos a ‘esqueletar’ decerto lá embaixo. A vida gritando apenas nos pardais a ciscar e a xeretar suas riquezas em quireras por ali.
          Isso era a cidade morta dos mortos em suposto descanso. A qual agora lembrava a meu guia na semelhança com a cidade ao relaxo.
          Porque andara minutos incontáveis a somar as horas pacientes na minha impaciência vendo o todo e não achando mesmo nada.
          Porque desanimava, atolando no desânimo ali presente naquela ausência...
          Vira ruas desertas – asfaltadas e bem asfaltadas por sinal; limpas, nada do entulho espalhado que se espera em tal situação – vira quintais e casas...
          Vira inúmeras se não todas residências vazias me im-pressionando; visto o visto provar ausências porque sendo casas habitadas num mostrar vidas virtuais nas antenas de televisão ali expostas, uma tendo um cano de ferro extenso e arcado do vento quando vento e em seta qual a árvore viva dos mortos indicando querer furar também nuvens; esta antena das comuns e das simples enquanto as outras muitas a enfeitar telhados eram parabólicas parecendo guarda-chuvas abertos a colher as violências das cidades grandes lá longe e a ensinar a pequena morta, ou tão só abandonada.
          Vira por onde andei, andei muito necessitando a peque-na cidade pouco tempo à sua exígua área física no mapa; mas vira sim quintais com árvores vivas costumeiras, não abando-nadas no abandono comum dos habitantes, supostos que fos-sem; vira mamoeiros laranjeiras abacateiros e hortas com hor-taliças vivas ou só alegres do regador e a mangueira que o povo apelida borracha sendo de plástico porque hoje em dia tudo é plástico inclusive os veículos...
          Vira automóveis indóceis tratores lerdos e mais lerdos ainda caminhões desengonçados a cruzar as vias públicas a-bandonadas, meramente a quebrar o silêncio pesado da solidão forçada e inevitável. Não obstante não corriam as conduções nessas condições, antes que isso a rolar devagar suas rodas pneumáticas no asfalto limpo negro sólido plano mas quente. Andavam vagarosos e quase se cruzavam – sempre obedecendo a sinalização e a lei; notara deslocar-se um carro último tipo no mercado atual, chegou parar na faixa com expressão habitual ‘pare’ pintada no solo; isto a honrar o sinal e a preferencial a ser cruzada. Imediato chegando também o ônibus ali naquela rodoviária abandonada, contendo ela um que outro quiosque de venda de guloseimas e passagens porém sem gente e nem informação aos possíveis necessitados; entretanto não havendo pessoas e sequer voejantes insetos nem detritos de restos humanos ou mesmo de poeira a circular mostrando vida; vindo o coletivo dessa avenida preferencial onde o auto moderno a respeitar...
          Contudo ninguém respeitava a vida.
          Andara horas, as horas em seus minutos teimosos e pe-renes, andara a virolar pelas ruas a cruzar ruas a esquadrejar ruas nas ruas da cidade morta... Morta!
          Andara para ver mil, mil e um, possíveis movimentos de vida. Quase não vira. Vira uns pouquíssimos cães e isto im-pressiona pois o que existindo nas urbes mais é exatamente cachorros – nenhum ladrou, nenhum fosse apenas a ladrar-me os ouvidos; vi uma só galinha choca e assustadiça ou apreensiva com um ser estranho ali a gotejar fracas e lerdas passadas com olhos bisbilhoteiros de notar o que não via. Somente ela a gritar medrosa e nada mais observando, nem cabras soltas nem cavalos, unicamente um burro solitário atrelado com seus tapas na orelha vendo-me apreensivo, embora sem temor para depositar toneladas de fezes e, curioso, sem moscas; enfim existindo parado atrelado o muar.
          Vendo demais, não vendo muito, pouco quase nada por onde andei, a vasculhar aquela cidade abandonada, falei assim ao meu guia já parecendo não mais incrédulo antes que isso espantado. Demais, de menos? demais a falta de gente – ser que fere violenta e destrói para distração a vida na existência que seria tranquila nas urbes interioranas caracterizando a pacatez.
          Onde a gente! perguntei. Não sabia. Nem ele nem muito menos eu que indagava.
          A gente decerto fugira das residências, dos quintais, das ruas; nem os moleques a mexer o que se não deve nem eles! e isto mais grave que o grave ainda: a gente ausente emperti-gada no volante e nos pedais dos veículos circulantes! Teriam, isto pensei, teriam os carros aprendido a virar-se sozinhos sem condutores? Teriam aprendido as leis de trânsito e obedeciam cegamente! E as comadres do lugar? Teria o acaso por acaso ceifado decepado línguas daquelas cabeças de não pensar compensando o fato com o fato de habitualmente muito falar?
          Nisso lembrei-me da hora, disse ao guia já indignado supus, lembrei-me da igreja. A igreja vetusta imponente na praça da matriz, só ela a imperar no coração pulsando certamente na cidade morta, morta ou largada. Então berrava no belo de sua arquitetura de estilo secular a sua imponência mostrando lá em cima o relógio, a marcar treze horas e cinco minutos – mas ocorre possa ser os treze e os cinco do século passado e não dos do agora vivo e movente; ele indicaria parado nos ponteiros e não pelo som do seu som nas badaladas do bronze sonante a acordar para a realidade preguiçosos ou indolentes mortos fugidos quem sabe para não tão longe...
          Todavia nem se contando com a igreja, o templo tam-bém a falhar: a bênção senhor vigário. O homenzinho branco de preto sequer na porta da sacristia, mesmo fosse para ver o bem feito na limpeza dos mequetrefes da vassoura... ai a vassoura, ela quedava abandonada e assim as folhas do jardim em torno rolando ao léu nas vielinhas de pedriscos soltos e nos bancos velhos rotos no tempo com seu granito rachando manchado sujo. Tudo morto.
          Morto! Abandonado.
          Olhei meu guia, meu guia que olhava.
          Então chegou meu coletivo. Um ônibus pintado lustrado sujo da poeira de estrada.
          Entrei, entramos, pagamos, sentamo-nos nos nossos lugares, com bilhetes a nos desejar boa viagem como é sempre corrente.
          Funcionou, acionou pedais, movimentou a todos e assim fugi da morte ou da vida no abandono. Olhei, nem o guia nem os demais passageiros mudos. Com certeza o coletivo andava tendo um motorista vivo. Que me sorriu nessa fuga.
Julho  2010




13.A Cobrança

       Primeiro não foi a cobrança, foi a dívida. Ela, ela não a dívida mas a jovem por ser nova embora passada nos destrambelhos do mundo esse mundo em que vivia e vivendo todos os seus – ela agora na sua presença. Era um mundo no universo do submundo ali a se apresentar inferior, mesmo ele se admitindo também de igual envergadura não obstante o grau que lhe tocara na hierarquia dos desmandos pela chefia incógnita, esta se não mais perdida ainda que ambos, a saber ele ela. Mas o problema indo além. Porque a jovem e graciosa senhora apesar do seu semblante de temor em que se podendo ler também o horror – ela trazia e talvez pudesse haver trazido de propósito duas criancinhas para amenizar a conta retardar a conta ou não pagar a conta! Uma de berço no colo a fungar nos seios; outra de berço embora andando, nessa hora se agarrava às vestes maternas a pedir resguardo e proteção pelo ambiente hostil e desconhecido. Olhava num vaivém na indagação muda à mãe e ao cobrante estranho, mesmo porque tudo é o desconhecimento nessa idade. Houve um rápido bate-boca, ela a implorar quase ele a cobrar. Os minutos esgotaram seus segundos.
       Segundo que não era só isso. A lei é a lei. Não era porque o primeiro namorado lhe fizera a maior, fora preso, preso morto no presídio e assim as dívidas não se pagam. Depois o outro e atual namorado livre e a esbanjar à custa de passar os pós e as ervas porém num pagar em claudicância e fugas; antes de fugir fez a de seio agora a dormir o sono relaxado dos justos. No entanto a família não sumiu apenas consumiu. Gastou e sobrou e não quitou e a dúvida flagrante e a dívida é certa e a conta é larga e a cobrança é justa.
          Assim encostou aquela devedora na parede do antro desconhecido na incógnita do futuro ali a se esgotar em segundos eternos, sem o fim do bate-boca ou somente monólogo com audição vigiada e não comprometedora.
       Agora era a hora. O homem olhou de novo quase ati-rando na cara da representante de tanto dever sem dever em-bora admitindo dever e não ter mais “por enquanto”, isto a insistir timidamente ou temerosa ou horrorizada; quase atirando de volta as migalhas de pagamento ao pagamento tardio naquele rosto arregalado num segurar com as unhas dos braços bracinhos dormindo. No entanto guardou o pouco do nada no tudo e apontou de vez a arma... A pequena deu uns passos a se grudar na genitora, a outra não sabendo sequer a cobrança que dirá a dívida ou a justiça dela, muito menos a justiça; e desse modo a menina examinou naquele longe ali pertinho o homem a arma e o instante, sem entender e ainda assim com medo, muda...
          O cobrador não pensou duas vezes nem o ato pensando quem sabe, a somar seu próprio medo diante da chefia no prestar suas contas e possivelmente receber a impiedade da justiça sem merecer porque sempre não merecemos por mais desatinos existam. Num átimo feriu a jovem senhora, que tombou a sangrar manchando também a de colo. A de passinhos curtos na vida longa não sabendo se a agachar em defesa se a pedir defesa na morta. Enfim examinou a cena a si desconhecida e fixou fragilmente o desconhecido. Este ainda indeciso se apagava também aquelinha testemunha apontou mais uma vez a arma, a arma ainda a tremer na mão direita.
Janeiro  2010




14.Trajeto das Coisas

1.O dedo.  O sempre inusitado das coisas ao homem comum, que é o comum no homem comum, é sempre as coisas no inusitado. Por isso apenas assustou-se no pensar não pudesse se espantar com mais nada, tudo ao redor. Não obstante, aquele dedo... não qualquer mas o menor o mais curto o menos forte e sempre sujeito a topadas involuntárias, involuntárias sempre aliás a lhe trazer atenção. E dor. De repente foi a ausência da dor, a viver como fosse que não fosse nele o dedinho dele no pé dele no extremo inferior dele, ainda sujo talvez e cansado junto de todo um pé com cinco dedos ao todo a impingir na areia no barro na terra na lama uma impressão de passos. Contudo examinou melhor o passo o sinal do passo fundido no solo e somente achou o sinal o passo do pé imposto pelo peso todavia sem a marca do mindinho (não da mão:) do pé esquerdo; com o direito tudo direito e marcado à pressão como fôrma naquela superfície.
          Ora, isso não sendo correto. E o que é o correto!
          Espanto. O inusual espanta.
          Deixou espanto, a viver outros sustos.
          Viveu dias; seus dias? muitos, quase nem notando os dias. Até notar naquele fatídico dia, mas por que fatídico; não sabendo ‘fatídico’, talvez uma visita ao dicionário esclarecesse. Entretanto não é preciso que se saiba algo existir para existir ideia e para que algo exista e isto sequer um pai dos burros resolvendo. O caso é ser-lhe estranho o caso.
          Agora era todo o esquerdo. Inda bem que o direito di-reito e com os cinco dos dez inteiros; tendo portanto somente nove agora.
          Hoje, disse o homem comum hoje, hoje não é como ontem. Ontem eu tinha dez... será que tinha?

2.O pé.   Não seria que fossem já apenas nove? Por via de dúvidas examinou reexaminou mais outra centena de vezes constatando ambos pés um só deles sem dedinho...
          Assim ao longo dos anos – sem prejuízo das atividades comuns, altamente comuns – assim viveu o comum do viver, inclusive não se descartando brigas com vizinhos os outros habitualmente apreciam andar errados; e com a consorte e com os parentes e com o patrão e com o desemprego e com o fisco e com todo governo aquele ladrão; e com a dor física e mais ainda com a dor da supressão quiçá mutilação, sem que atinasse causas. Ora, onde há tantas consequências causas para quê?
          Agora era o pé. Que fosse o esquerdo já maculado em grupo de apenas quatro dedos, salvos os grandes inclusive o gorducho traquejado nas topadas o qual além do mais tem unha mais grossa mais dura mais feia difícil de aparar exigindo compressa e mergulho horas na bacia para amolecer ímpetos. Contudo nada certo porque suprimido e antes ele já devedor dum minusculinho nas normalidades e não: nada disso, sumira agora o pé direito!
          Debalde inventou justificou batalhas com derrotas fla-grantes nessa guerra contra o seu inteiro.
          O butim seria o resto do seu corpo!
          Uma questão a pensar.

3.A perna.  A pensar positivamente como que a sina o destino ou só o acaso houvesse permitido um soma quase inteiro. O pessimismo em plantão justamente naquela hora corrigiu para a falta do dedo no pé esquerdo e agora a falta mais grave (car-regou no sadomasoquismo) da falta do pé direito. E isto não sendo direito trocadilhou, tristemente.
          Andava nesse diálogo do monólogo íntimo quando percebeu que não apenas desaparecera o pé direito a lhe forçar andar se andar torto... desaparecera a perna toda; e nisto para que servindo ainda servindo se servisse e existisse não existindo mais a perna inteira do lado direito! Arriscou num insignificante momento de loucura por que não sumira antes da direita toda esquerda já aleijada com aleijume do mínimo, então não mais completa na falta imposto isso pelo costume, esse minguinho do pé que achara um dia de pouca loucura e muita vaidade o dito dedo uma gracinha; no caso positivo desse negativo teria daí a perna o pé os dedos direito no direito, tudo completo.
          Mas o irremediável da realidade não costuma brincar em seviço: faltava mesmo toda a perna direita; seu escroto agora a balançar mais livre sem o estorvo da coxa da perna direita. Era a falta que somava!
          Porém o hábito pode fazer o monge, pois que se acos-tumando, depois, com as partes de sobra – sobravam os restos do seu corpo. Anos de corpo.

4.A outra.  Então se habituara. Não com o estado em que se encontrava porém com a rotina da perda, percebendo naquela manhã de sua noite na existência haver acordado sem igual-mente a outra perna; e é claro neste escuro: os pés os dedos que apreciam por sua vez acompanhar o inteiro das pernas. Daí ele suspirou.
          Suspirou aceitações. Constatações. Concordando consi-go mesmo ter então ao menos o tronco os braços (fortes, gritou a si o otimismo otimista naquele se levantar e mais não se podia erguer) e principalmente possuindo a cabeça. Ah a cabeça de pensar.

5.Os braços. Mas – e que lhe adiantando pensar direito ou torto – mas após um espaço de anos em exercício para o costume e se habituando quem sabe com faltas e o sofrimento nas faltas, após esse tempo na rotina descobriu não um só, que fosse o esquerdo e isto mais grave sendo canhoteiro antes nisso fosse destro se o perdesse; então constatando não apenas o esquerdo com mãos de emporcalhar papéis e gastar canetas, também o direito – ambos braços não mais que cotos de braços!
          E para que servindo pedaços de inteiros indagou.
          Por fim, não era o fim porém anos ao fim, por fim aceitou o insolúvel.
          Ainda aqui o otimismo gracejou com o todo: o todo agora é o tronco e a cabeça. Ah, disse ainda o brincalhão, que bela cabeça.
          O pessimismo não respondeu à provocação: somente coçou arrancou uns fios, quem sabe com saudade do pente de antanho.
          Nisso (e aqui vão belos anos, belos por quê!) nisso olhou horrorizado onde devendo no leito andar no descanso o tronco...

6.A cabeça.  Percebia já sem susto, para que servem os espantos que toda uma existência experimentamos quase sempre indevidamente: o homem comum toma por novidade quiçá desastre iminente o tempo das águas que sempre existiu e teme sempre também o que nunca existiu. Não mais se espantando a flagrar a si mesmo com apenas a cabeça.
          Agora, se falou então, agora não mais me falta nada no tudo a perder, pois tenho ainda a cabeça.
          Sou a cabeça. A cabeça o cérebro de pensar. Tenho olhos para ver o que ver. Não viu, só imaginou, não mais via. Não sentindo barulhos e as coisas. Só o cérebro com a mente de pensar e não ver; ela para não sentir não ouvir não enxergar. Só pensar ou somente a singrar o universo no encolhido universo.
Janeiro  2010




15.Cadáver em Mãos Cruzadas

          Desde pequeno, pequeno permaneceu em grande, desde menino tendo um gosto discutível, aliás todos gostos são discutíveis, esse bem notável que era o de cruzar as mãos. Não simplesmente cruzar porque outrem possa igualmente cruzá-las e muitas vezes até; mas deliberadamente cruzar no ventre, à maneira do gosto nos enterros no seu formalismo e demais formalidades como a do caixão na mesa ao centro, a do morto enfeitado com flores, e a das indefectíveis velas e dos cheiros de incenso; e também o resto do velório como exige a curiosidade social e os desvios sociais também, pois que o povo não fica no café no chá nas bolachinhas porém despenca a falar o que não deve e entremeia o que deve, baixo este altão indevidamente aquele. Não isso ou não apenas isso. Visto o sujeito, que era um sujeitinho uma gracinha em menino e somente ficou ferozmente feio velho que os circunstantes banalizavam em ‘véio’; visto ser grande ou só adulto e ainda cruzava mãos, aquele negócio de os dedos entrarem encaixando em dedos numa cópula disfarçada educada vez que outra relaxada e até escachada, não sendo bem seu caso. Seu caso: cruzava, cruzou de gracinha até velhinho passando pela idade adulta válida à sociedade, cruzava direito todos dias todas horas, como sestro; não existem os indivíduos que ficam brincando com os indicadores ou com os polegares a imaginar manivela ou círculo e aqui cabendo sê-lo perfeito (em que se pode enganar os olhos dos outros por ser o círculo imaginário e o que se vê não se vê olhando só o polegar a rodar em volta do outro polegar da outra mão). Têm outros cacoetes como o de cuspir constante, como o pôr e tirar o chapéu ou enrolar pra lá pra cá aquela mechinha de cabelo envaretada para cima; ou mesmo o hábito de pentear-se todo momento; têm mil outros sestros, o dele cruzar na barriga as mãos como fosse um defunto. Em pequeno um anjinho uma gracinha, costume que perdurou até à velhice foi dito.
          Contudo é aqui – dizem filósofos caipiras – aqui que a porca torce o rabo. Porque o fulano imitava imitou vida toda ou apenas toda existência um morto enquanto vivo. Descruzava, mas quando via quando percebendo... ah de novo cruzadas as suas mãos.
          De maneira que resolveu um dia abusar desse sestro ou apenas jeito costumeiro – cruzou retesou imobilizou-se qual cadáver; numa forma que levava pensar a perfeição, sobretudo nas mãos cruzadas! O pior nisso o crerem...
          Então a sociedade, como iniciativa da própria família e depois passando aos vizinhos aos amigos aos conhecidos e mesmo para toda comunidade acreditar – fez o que sempre se faz, ou seja partindo ao velório e ao enterro.
          Ficou pranchado no recinto do velório municipal, rece-beu os carinhos dos que desconheciam a morte, aqui apostro-fada por estar vivo atento e inclusive uma vez que outra abrindo olhos velados pra constatar quantos eram de fato amigos de ir até à sua morada última; fiscalizou o café, disfarçou não ver o serviço de cachaça e a fumaceira do cigarro dos inveterados houvessem havia muito; em suma viu e aguçou ouvidos a perceber aquela festa fúnebre em sua homenagem.
          A rigor apreciou o serviço funerário até à troca de mãos no caminhar do féretro. Em poucas palavras um enterro na altura e no merecimento (a seu ver, lógico não tapou o sol com a peneira nem calou ‘dizem que falaram’ nem coibiu abusos quiçá pretendendo calar de vez a boca ferina do povo; enfim andou tudo nos conformes a seu ver:) E assim prosseguiu o séquito até à beira da sepultura. Aqui olhou gostou aprovou, fez com a cabeça que sim, sequer deixando a oratória do orador oficial naquele necrológio acabar a peroração e a gente a chorar já sendo antes as lágrimas contidas agora soltas diante do ferir no discurso em sua defesa, feito por um rábula se pensando amigo primeiro e depois orador de fato. O fato é que deu um berro maior que a voz do panegírico funéreo rico nas repetições nas poesias e nas verdades nessa mentira: berrou!
          Pouquíssimas criaturas com a coragem de permanecer na porta aberta daquele fecho de vida na ala dos pobres, não bem dos pobres, a dos pequeno burgueses. A gritante maioria correu fugiu pulando túmulos sagrados e quase numa só ordem qual ordem de comando militar, então todos quase já no portão de saída na entrada do cemitério.
          Tudo por causa decerto do cansaço de mãos cruzadas toda vida e de um berrinho pouco mais que inexpressivo do cadáver, aquele do título deste registro.
Janeiro  2010




16.Gota d’Água

          Faz pouco mais de três meses deu-se aqui um fato insólito, insólito por inesperado porque não mais que o co-mum, feijão com arroz ou a gota a pingar da torneira esquecida semiaberta ou ainda a lâmpada também esquecida acesa nos fundos de casa a gente dorme nem percebe; ou o corriqueiro lixo o lixo havermos pensado ser terça sendo já quarta-feira e aí passa o lixeiro. Coisa afim e assim.
          Assim me apareceu a velha. Uma como quaisquer das muitas que teimam existir e existem. Trazia a netinha, depois fiquei sabendo sobrinha-neta porque a nova velha disse ter tido apenas um filho... A menina pulandinho em torno da vó, eu achando uma graça: sabem de minha queda por criança o quanto doutro lado deploro velho, isto outra questão.
          Olhava olhava examinava media quase meu pedaço – coisa de inclusive intrigar – olhava curiosa e, me vendo, indagou fez inúmeras perguntas e concluiu estar no lugar certo daquele errado. Falei sobre a casa a vizinhança a família, se satisfez com meus dados, deu ela outros e assim notei que sabia haver chegado, forasteira, ao seu destino. Foi mais longe na precisão: tirou da bolsa surrada como surrada me pareceu sua pobre rica vida uma foto...
          A fotografia amarelecida e mui manuseada mostrando uma família pequena, a minha! Eu me surpreendi e velho sur-preso é o que há de mais banal mais estúpido e mais insólito também porque a esteira do tempo já deveria haver gasto bem o inesperado e harmonizado o caminho; no entanto fiquei de boca aberta pois era mostrada a minha gente. “Este aqui, disse a senhora gasta não obstante com traços de beleza devendo ter sido uma jovem atraente pensei, este é meu filho, meu único filho...” indicava um garoto de três anos ao lado duma senhora nova com outra criancinha no colo e um senhor jovem mas passado embora; havia um resto de rabo de cachorro, o Totó, e um pedaço da carroceria do caminhão de meu pai; o que depõe contra o fotógrafo amadorzão e ambulante (a mulher esclareceu ter contratado o profissional com o fito de registrar seu filhinho para lembrança dela; ora, nesse tempo vi alguns fotógrafos mambembes os quais passavam nas casas guardando cenas para a posteridade da pobreza, devia ser o caso imaginei vendo essa obra de arte; voltemos à cena:) O menino nas suas calças curtas meio espantado com o espocar do fotógrafo, o menino era simplesmente eu!
          Dir-me-ão haver qualquer engano nisso, ou estranho porque a velha minha estranha, a garotinha curiosa a medir-me lá debaixo decerto por notar meus óculos ou o chapéu, enfim curiosa elinha mas também estranha; eu sendo apontado por filho da mulher.
          É de fato estranho.
          Ah, ao lado disso intrometi-me na explicação dela; disse me parecer os traços do menino os mesmos do pai (quis fazer supor um engano dela: o filho seria da família mostrada...) A que a velha confirmou paternidade e justo parecer o garoto com o pai; quanto à mãe, a mãe dele ela, ela a velha.
          É de fato estranho.
          Mais estranho ainda visto não ter-me identificado a ela, elas, sequer falei morar na minha casa. Prossigamos.
          Acresço a isso o fato que diminui a estranheza: nestes tempos em que agoniza minha genitora é um tal de entra e sai gente aqui, muitas vezes vizinhos desconhecidos por nós e até gente de fora fora os parentes é claro. Enfim gente curiosa a torcer por epílogo se não fúnebre ao menos a chocalhar o ra-merrão. De maneira que não me espantei com a presença daquela ausência, desconhecida, espantei-me em mostrar na foto minha própria gente e nela referindo-se a mim como seu filho de sangue. Claro não me reconhecer também ela: eu então um garotinho inocente agora um velho carcomido pelo bar ali da esquina; nenhuma semelhança.
          Ela entretanto esclareceu poréns.
          Narrou o que resumo a vocês. Que se enamorou dum homem casado, pior disto sabendo-o comprometido, e com ele gerando-me (o que a pobre não pôde constatar mesmo ao meu lado, lembram-se não me identifiquei). Houve algo mais complicado à complicação que era a moral do começo do século anterior ou seja o fato de sua família ser rica, aqui citando mil propriedades de meu conhecimento e isto explicando o sumiço dos seus desta terra. E principalmente a teimosia da jovem pelo amado. A família restringiu sua liberdade, enviou-a para o exterior, Alemanha França Portugal, quis torná-la freira; coisas assim. Esclareço o esclarecimento dela num outro ponto chave – o meu destino. Os pais dela resolveram dar um fim ao neto espúrio, eu. Falaram em levar-me à ‘roda’ na capital, tinha um convento no centro, onde hoje a Santa Casa: eu seria entregue ali como enjeitado e incógnita para salvar a moral da família milionária da sujeira daquela filha leviana, mas, e isto atendendo a imploração da mãe de primeira viagem, acabaram dando-me em adoção à familiazinha do pai da criança. Ocorria de minha mãe não segurar filho, houve vários abortos e então entrava o enjeitado para compensar as perdas da esposa de meu pai, casada com ele no padre. Com a lógica de tratarem bem o filho, o que não fugiu à regra. Realmente fui como filho e só vim a saber disso há uns três meses com o aparecimento da velhinha e a menina.
          Ora, o caso poderia explicar a razão de eu ter sido saco de pancadas, como diz o povo, enfim apanhando horrores da mãe. O que não satisfaz visto quando ela despencou a engravidar e a vingar seus próprios filhos, os mais velhos serem todos maltratados por ela sempre se deslumbrando com o de colo ou aquele no ventre, aí descontando a raiva em nós maiores. Por outro lado me defendeu sempre diante de injustiças flagrantes e me tratou com amor de mãe, que eu pensava verdadeira porém me enganava.
          Voltando à velha, elas, a menina assim como chegara pelas mãos da tia-avó se fora também com ela, elas perdidas na esquina. Todavia disse a senhora que a vida revirara a vida aos seus: os azares empobreceram a todos, tudo se perdeu, restando a ela residir como esmola na casa duma certa mana igualmente pobre, de quem aquela netinha saltitante que eu via. Agora, me afirmou a criatura, aguardava a morte, para quem as moléstias não souberam enviar.
          Matutei nisso desde que a velha repôs na bolsa esfolada a foto amarelecida em que eu o pivô e filho de sangue dela, fruto de amor proibido com meu pai, então já falecido. Por causa disso ocorreu-me o disparate de encarar minha genitora agonizante em pôr tudo a pratos limpos, no dizer popular. Entretanto já não fala mais nem me reconhece minha mãe adotiva... Daí, mordendo-me numa curiosidade doentia me dispus a ir reencontrar minha mãe verdadeira, quem sabe me desculpando por não tê-la atendido a contento, não ter abraçado e beijado como filho; dando-lhe talvez alento embora tardio. Assim me dirigi ao endereço de minha tia, agora tia de sangue e igualmente desconhecida. Cheguei, bati palmas, pedi informes. Uma senhora arcada e gasta disse que a mana fora sepultada semana anterior...
          Fiz mais, fui ao cemitério, quem sabe apenas para render culto já desnecessário à morta. Apenas pra isso, pois como diz o povo, morto não conversa. Terá razão a gente!
Abril  2010




17.Farizéia da Silva

          Um tanto conservador o costume ou ela conservadora ou ainda ambos hábito e gente contra as mudanças do mundo no mundo; ou apenas contrários às reformas ortográficas que se sucederam, sem chegarem estas cada uma à reforma do ano. O fato é que manteve-se de menininha até à morte como Farizéia, isto seria com esse do sapo e subentendido somente o acento no é, virando fariseia. Outro dado se não também conservador ou habitual o hábito de no sobrenome dela não assinar o segundo silva – visto ser Silva por parte de pai, desconhecido ou ‘abandonante’ do lar; e Silva igualmente por parte de mãe, esta por direitos iguais abandonante do lar, deixando a menininha para a avó educar, o comum nestes dias – o que sendo uma forma sem graça se bem haja García y García em outros povos hermanos.
          Bem, nada de tudo que afirmado mudando o que se não muda, que é a personalidade da gente. A personalidade se tem alterado às vezes em parte como o caráter ou num que outro dado; porém o básico permanece.
          De maneira que Farizéia desde petitica assim nas brin-cadeirinhas maldosa com o gato, o gato a fugir e ela a sorrir do malfeito benfeito; desde pequena até madura a agir invariavelmente desse jeito: fazia o fazer para fazer não fazer ou piormente pondo a culpa em outrem para – ah sacanagem das grandes! – para em seguida sorrir demonstrar aparentar certa ingênua santidade...
          Enfim uma autêntica falsa, farça a ajudá-la a se safar da pecha e do estigma do ser ruim.
          Dona Farizéia da Silva e Silva, Silva por parte de nenhum dos desconhecidos, conhecida e mesmo conceituada na rua Boa Vida. Senhora pobre sim mas distinta e inclusive querida. Esse negócio na amizade de trocar guloseimas e receitas de guloseimas, dar bolo e levar como troca para casa uma outra iguaria igual todo mundo no comum do mundo, a alimentar a boa vizinhança na rua Boa Vida; depois e antes morando noutras vias públicas como a avenida Saudade, de boa lembrança à vida nestas linhas visto haver falecido, ninguém ficando pra semente. Aqui um senão do farisaísmo destas linhas: não viveram tais vizinhas felizes para todo o sempre e a dizer no final “ah como era boa aquela vizinha, uma santa”.
          Santa portanto e durante anos. Ora, até os santos são pegos desprevenidos nos bolsos na crise flagrante do mundo no mundo; a questão de sustentar os seus, havendo o consorte mas a ganhar apenas o mínimo no salário-mínimo e a filharada a manter (além dos gastos para uma educação santa igualmente, supõe-se) daí resolveu a senhora trabalhar como doméstica numa casa vizinha, a auxiliar nos proventos do lar.
          Então por anos imperou.
          Imperar é aqui o verbo mais adequado e conjugado, além do ferir, com classe, e prejudicar, se houver no caminho outrem... Imperar. Imperou meses nas prendas domésticas nas suas domésticas prendas. Neste ponto, quer dizer meses do ano no ano e meio do labor na dita vizinha residência; nisto entram ciscos nos seus olhos: contrataram os da casa nova empregada a ajudar Farizéia nas suas pesadas lides. Uma semana após fez-lhe a caveira, assim se expressa o povo a dizer ofensas... Despachada a auxiliar intrometida, Farizéia imperou, se pondo não obstante de vítima. Arranjaram nova auxiliar. Fez Farizéia dela gatos e sapatos com choro sem vela. Mandada embora a segunda ajudante – imperou impoluta na casa vizinha a vizinha Farizéia. Contrataram a terceira, a terceira não foi aquela a quem fulana deu a mão!? diz assim a ciranda. A mão nunca lhe deu, deu parte da incompetência da incompetente. Ardilosamente dito nestes termos, acharam por bem os patrões, a patroa bem dito, acharam melhor arranjar uma outra servidora, a quarta.
          A quarta empregada não deixou Farizéia (nem que acei-tasse ser fariseia dentro da reforma e tudo o mais) não a deixou falsear a verdade nem ser ela, a quarta, caracterizada ladra, ladrona diria Farizéia. Pois no primeiro dia de trabalho da contratada, quando a imperatriz acusou a quarta de comer um dos dois pães guardados na geladeira e acusá-la roubar óleo e dinheiro, este vale mais dinheiro que os alimentos, nesse mo-mento, vermelha, nervosa, tremendo e temendo quem sabe perder o império a uma porcaria de negrinha feia etc. etc., nisso sofreu certa pane no sistema, caiu num tibuf lindo de se ver e de se chorar.
          Choraram os vizinhos e mais os filhos, o marido não quis chorar.
          Daí mudou da rua Boa Vida, se mudando definitivo e sem ninguém saber se mudou nas suas falsidades – foi para a necrópole na avenida Saudade ou rua da Boa Morte.
Junho 2010




18.Primeiro o desastre, ocorrência policial de trânsito;
 e a sequência segundo o homem comum

          Quase nem sentiram, ao menos os dois não perceberam o perceber. De repente se viram entre os destroços dos carros, um era automóvel não novíssimo menos ainda zero-quilômetro e o outro se não velho ao menos bem usado. Isso tudo não importando agora que apesar do impacto se viam inteiros, os pedaços por ali espalhados, cacarecos bons ao comum ferro-velho por invendíveis e irrecuperáveis. Um notou de pronto aquele desmanche, o segundo notando os ferros os ais a gente curiosa a se achegar e um pouco depois as autoridades; a sirene permanecia irritantemente ligada e também o pisca-pisca das luzes em alerta, aí chegaram bombeiros e paramédicos a tentar salvar o que restara, restara pouco naquele muito estrago no entardecer quase noite em rua movimentada então mais apinhada com o trânsito de veículos parado no lugar, onde todos querem ver, alguns até a chorar, muitos precisando dar explicações ou quase nenhum em não desejar sair na entrevista e nos holofotes televisivos. Bem. Mal viam, se viam não se interessando demais, interessando isto sim o erro alheio. Um dos motoristas tentou atingir com sua língua afiada o adversário – você cruzou a preferencial, de minha preferência! O outro: como? se você na contramão! eu? você, o outro: não senhor, foi você. Um a acusar o inimigo, já inimigo o adversário eleito escolhido nas circunstâncias. Barbeiro! um gritou. Ouviu a ofensa e revidou imediato, você, disse, você sim, nem deve ter carta (na região todos falam da carteira carta) ou então comprou a carta por telefone... nisso apalpando os quadris na procura de arma ausente, para seu azar por sorte do adversário... Daí por diante se desfeitearam mais, a andar e, assim, a se distanciar dos escombros... Não sabe ler placa de trânsito? não me viu à sua direita, não percebeu a faixa! e se houvesse gente, se criancinhas atravessando para a escola... gente! Ora, você sim sacrificou um colega meu de serviço: virou monte de carne e sangue; e ainda quase me matou, por milagre estou inteiro, assassino! Um entre contendores a querer esganar o outro pôr a culpa no outro berrar o outro, dar escândalo; maior escândalo que os revirados na esquina com máquinas destroçadas mortes sirenes lamentações, alimento para semana aos jornais e à boca aberta da tevê; boletins de ocorrência, acionados seguros e indenizações; choros perdas mais ainda perdas em vida, sem preço! Contudo eles não punham imediato dessa maneira, antes querendo se pegar, de fato, e mais de língua, um se encontrava nessa altura vermelho de raiva, o outro possesso e com ódio flagrante. Ambos não chegavam a acordo? não chegando ao menos a falar baixo educado e por que não dizer: numa tonalidade evangélica como se habituaram a dizer e aprender nos seus ofícios religiosos; agora tão só se pegando e tentando agredir para se trucidar melhor que o desastre na esquina resultando montão de ferros retorcidos, local em que os polícias em vão a tentar isolar apitando empurrando até, enquanto os caminhões-rebocadores e guindastes chegavam; e as vizinhanças a somar prejuízos materiais, os morais não tendo condições de apurar. Eles, embora os responsáveis, eles não viam, viam de longe, perto ainda se ofendiam alardeavam e aí se constatando então longe realmente naquele andar na disputa nos quilômetros que haviam engolido. Claro houvessem antes apalpado os corpos intactos à procura de ferimentos, ao menos para inculpar a oposição ali tão próxima. Não paravam de se insultar de buscar a real culpa (sempre de outrem) e foi nesse ponto aparecer o velho São Pedro. Vinha calmo lento se arrastando nas suas alpercatas e ao peso dos anos, barba branca comprida, trazia o molho de chaves. A custo achou uma, enferrujada decerto, tentou abrir, demorou, assim acalmando um pouquinho os dissidentes, demorou mais e abriu a porta, esta rangeu nos gonzos... Olhou os dois motoristas proprietários com muitíssima razão e imensamente ofendidos e só daí falou: meus filhos, é assim que desejam a felicidade, se trucidando se ofendendo se destratando com baixarias! Agora são anjos. Chamou uma anja linda de morrer, a qual trouxe e pôs as auréolas nos postulantes; aliás um era altão ela teve dificuldade e precisou ficar nas pontas dos pés em pôr o arco luminoso nas mentes plenas de luz. Eles sorriram, um concupiscentemente por ver a gostosura... Assim viraram santos, ambos entraram no céu, o inferno ficou parado no desastre de trânsito e deu muito o que falar em comentários imaginosos, visto o homem da rua inventar fácil.
Fevereiro  2009




19.As Solidões

          Um dia tormentoso, não fosse o dia já sua noite e pior-mente ocaso – aqui poderia quem sabe abençoar o ocaso e também o pior na vida visto ocaso simbolizar o fim e se fim o fim igualmente dos problemas, os de um dia tormentoso por exemplo. Em qualquer situação fica claro este escuro: vivia o pobre senhor em tormentos. Os financeiros sequer apareciam nisso, sugados e encobertos por outros maiores e isto o colocando acima (ou abaixo?) do comum, porque o comum dos seres vive a morte com os dramas da economia mal administrada ou inadministrável. Natural que sendo um pobretão, morresse nessa vida de pouco dinheiro e muito a quitar; não obstante maiores sim os outros.
          O dia tormentoso não desfigurava as questões próprias de sua avançada idade. Era desses homens ‘incasáveis’ e que não se tendo definido em jovem e na época adulta pelo casamento, agora esperando acabar a vida solteiro, solteirão sem ser solteirão empedernido. Nisto pequena nuança: os que se recusam e batem o pé contra o matrimônio seriam os empedernidos da gema ou puros (que horror de figura!) os que não conseguem unir-se ou por timidez ou vergonha ou falta de uma comadre vizinha casadoura, esses seriam mesmo os solteirões quem sabe incompreendidos. Ambos grupos solitários e demorando morrer e assim a virar solteirões. Era do agrupamento dos tímidos. Não muda coisa alguma pois solteirão, para fim de papo.
          Antes de estas linhas se enroscarem ainda mais, são precisos uns parâmetros à inteligência do texto. O ser usava vida e existência como sinônimo. Se se puser pingos nos ii, não é. Porém válida a dúvida ao solteirão solitário quiçá teimoso contra as comadres e portanto empedernido. Não propriamente válida por ser ser comum.
          Agora ocorre possa haver nessa vidinha ou ocaso duma existência comum outros dramas, já indicados e sugeridos an-tes. Sua noite.
          A noite não era pra si um dia esplêndido. Até pelo con-trário desse contrário da normalidade ao pobre – não o dinheiro em dinheiro ele mais menos pois pobretão, sem viver na miséria. A noite a questão, a noite que alguns teimam ser a paz o silêncio o relaxo o sono o sonho regrado e bonzinho, a noite assim não existindo. Rolava pra lá, se descobria de cá, tirava punha retirava cobertas e lençóis o problema sendo dele e não dos panos da cama do colchão afundado; seria então a coluna ao meio a doer inteira!? Também mas ardia comichava a pele, formigava o tato, suava o todo. E fedia? satanás a responder por ele afirmava categórico que sim... Um anjo poderia inclusive consolá-lo com promessas a melhorar um dia – não num dia tormentoso igual o tormentoso dia: outro dia outro por vir no porvir. Sobravam certamente mais aperfeiçoados problemas, sempre ligados ao descontrole duma vida solitária não abstinente longe disso mas insatisfatória às necessidades prementes...
          Assim se pejava por se pegar no avantajado dessa des-vantagem idosa com poluções noturnas e ereções matinais de ocaso na noite à promessa de novo dia – desconcertante a um indivíduo se propondo à perfeição, sem perfeccionismo embora. Vivia em razão disso com sonhos que não eram sonhos, mais e pior que isso: pesadelos!
          No entanto buscou o infeliz solteirão formas de se acertar ou acertar um pouco a personalidade. A tentativa o levou a buscar comparação com outras pessoas, sem contudo indagar e piormente expor seus íntimos dramas, isto grave para quem não tenha íntimos. Embora chegou a algumas conclusões, conclusões não pois que isso não se acaba só diminui nos ímpetos talvez. Uma foi se não ridícula ao menos insatisfatória. Bem, pensou, nunca diria também não sendo louco a expor loucuras, bem tenho polução e o mundo tem poluição e ainda as mulheres sangram todo mês eu menos que mês porém tenho regra expelindo sem querer esperma; mancho do mesmo jeito os panos na cama e na vestimenta, tal qual nossas fêmeas, oh e até que me ia bem uma ‘a la carte’...
          Ah – falou a si mesmo o solteirão após tão brilhantes conclusões – ah isso deve ser semelhantemente drama de muitos se não de todos mortais. Não será melhor agora eu tentar conciliar o sono, acordar, lembrar o número no sonho e jogar na loteria e por via das dúvidas também no bicho!? Quer dizer, não elimino as tormentas dum dia tormentoso ou duma noite tormentosa em reflexo do dia tormentoso, mas posso ficar da noite para o dia ou do dia para noite milionário e aí... ai, ora, nem eu me aguento.     
Julho  2011




20.Goiabeira

          Agora a árvore sorri ao vento; e ninguém sabe de nada, nem ela, a Maria, menos ela ou apenas supõe sem coragem a me afrontar... talvez como faz sempre encobrindo as coisas da casa e os malfeitos do esposo, esposo no padre sem cartório. Naquele tempo de nosso tempo no casar, o juiz ou não tendo aqui na roça nem no povoado ou mesmo tendo mas o costume do povo dispensava, não dispensava era a igreja e a festa. Ela sorri. A goiabeira que plantei naquele lugar fatídico amaldiçoado temente não escondesse bem. Sorri, não ela, a mulher, minha mulher não é de sorrir, de rir e, menos, de gargalhar, pior nesse pior: se abre muito é à tristeza e ao choro. Hoje em dia melhormente que às lágrimas ao mundo verteas no oratório, a rezar aos santos todos por ele...
          Era o mais velho, minto padre, o segundo dos mais de dez filhos vivos que a Maria parideira ofertou no batismo. O primeiro de fato saiu de anjinho com um ano. Assim ficou sendo o mais velho e olhe que me deu foi muito trabalho, seguindo nas discussões intermináveis e brigas realmente, pois o Zé era arreliento e briguento não só com o pai, com todos; era, faleceu.
          Na altura em que ocorreu o infausto acontecimento já também pai de família, me dera três netos conhecidos, desses de tomar bênção e tudo; e povoara os povoados por aí com descendentes desconhecidos, seus filhos nem ele sabendo quantos. Cada vez que vinha aqui me ver, quer dizer discutir comigo e matar a saudade da mãe, nos trazia companheira nova cria nova encrenca nova; só casou de fato na igreja com a Rita; mas não foi esta quem ele matou... Na época já vivia sozinho – esse tipo de macho nunca vive sem fêmea – sozinho beberrão e bagunceiro, um dia quis se desfazer duma prostituta, uma desse tipo que pega no pé da gente enciumada das outras na casa de tolerância; fez plano, me confessou tudo para se engrandecer e para mostrar como agira acabando com alguns probleminhas incômodos... Então levou a infeliz, disse à pobre andar fugindo com ela a viverem felizes para sempre; no caminho fê-la descer do cavalo num lugar ermo, deu-lhe três tiros de garrucha, garrucha da qual nunca se desfazia trazendo a mesma na cintura, fez buraco na mata, enterrou o cadáver e voltou feliz da vida por se livrar da infeliz. Porém o tormento acompanhou desde esse dia sua mente, não tinha mais sossego vivia agitado sequer podendo dormir, até aquele fatídico dia...
          Naquele, naqueles tempos eu andava meio incapaz, um médico de Santa Filomena me examinara depois que o doente teimara anos em não ir à consulta apesar das dores; os filhos e mais a mulher me levaram arrastado e assim o doutor exigiu que largasse a bebida o cigarro a enxada e ficasse somente na casa feito mulher; estrilei e as dores me taparam a boca. Fiquei nas prendas domésticas enquanto a mulher saía faxinar e ajudar os meninos a trazer o sustento. Falo meninos porém criados e a Zefinha já casada em Santa Filomena só ajudando mesmo meu genro e os filhos deles. Assim eu ficava só na casa, a ruminar as coisas e ralhando com as criações e um que outro neto quando vinha me azucrinar. Foi nesse ponto chegar naquele dia o Zé...
          Chegou já contando vantagem, bêbado. Eu não bebia mais, o médico... Naquele bebi e me deu umas coisas que não sei nem explicar. Xinguei o filho, o filho me xingou, prometeu me bater prometi matá-lo... Andávamos apenas nós dois aqui em casa, os outros no trabalho como boia-fria a ganhar nosso pão. Bolei um plano horroroso, ofertei mais aguardente, uma que trazia escondido da mãe dele, ele engoliu caiu dormiu – então me aproveitei, lúcido, pensei-me lúcido, esmigalhei com o machado a cabeça daquele inimigo que eu tinha gerado com a Maria e que agora vivia me trazendo o horror da companhia, pois não falei que só vinha aqui na casa pra me arranjar encrenca e trazer-nos encrencas de fora!? Daí acabei com a festa assassinando o filho... Fui além na minha loucura, porque necessário esconder o corpo a evitar complicações e explicações desnecessárias e mesmo briga com os meus, os nossos. Cortei-o em pedaços, desossei-o na mesa e pus tudo no tacho, os ossos atirei na privada, essa de buraco, fedida, ninguém podendo descobrir. As carnes piquei miúdo; precisando inclusive amarrar os cachorros ou não me deixariam trabalhar em paz... Pretendia, veja padre que absurdo e até onde minha loucura no caso; pretendia servir o Zé afogado, quer dizer feito ensopado, apurando o tempero a aprimorar o gosto, e depois servir como mistura ao nosso arroz com feijão. Expliquei, não foi? expliquei que eu era o cozinheiro da casa por não mais poder trabalhar como homem válido fora, aquele problema da proibição do médico. O médico foi o doutor João, o senhor conheceu, me disse que eu morreria morreu ele primeiro...
          Imagine, o filho como mistura... creia, a loucura não chegara a tanto. Chegara sim, não se efetuou.
          Aqui entra o drama de sumir com o resto da prova do crime e também a goiabeira.
          Pensei pensei na possível reação dos meninos e mais na arguta Maria quando de tardezinha quase noite os meus che-gassem jantar se lavar dormir e para conversa habitual... Assim tomei um leitão e umas galinhas, matei preparei tudo no lugar do defunto em picadinho. Cortei os bichos também, portanto nuns pedaços miúdos, temperei a gosto, aí inclusive dei como presente restos e ossos aos cachorros, me pejava dar restos humanos, ainda mais de meu sangue, aos cães cheirar e comer! Veja padre, tinha ainda certos princípios.
          Preparada a carne, de porco e galinha bem entendido – nessa altura já tendo passado o efeito da bebida que tomara às escondidas do doutor e da velha e suficientemente acordado – enfim preparada a boia a contento à família, me pus a disfarçar meu crime, a consciência então me lembrava o mal naquele momento. Que fiz? abri um buraco neste quintal, sem cerca e quase nem quintal era mataria onde até hoje residimos. Bem, cavei fundo, sempre enxotando das imediações os xeretas cachorros já desamarrados, despejei o tacho cheio de Zé, morto e nos pedaços temperados, tapei essa cova acusadora apressadamente, soquei... e agora, pensei, acho até que falei alto aí podendo sem denunciar meu crime falar como falava constante com os animais e mais quando os parentes tornavam ao lar; pensei: e os filhos e mais a mãe e piormente aparecessem netos no pedaço a revirar as coisas no solo... Foi nisso ter uma ideia muito boa: plantei umas sementes de goiaba, os meninos haviam roubado umas frutas na beira da estrada na volta da tardinha anterior, umas goiabas vermelhas, com bicho e saborosas. Tomei umas sementes delas e plantei na cova do filho. Fiz mais: cerquei o local com paus fincados à guisa de defender a futura árvore. De quem? ora, padre, das galinhas a remexer constante e mais dos netos, o senhor sabe que criança revira tudo; eu diria e disse posteriormente que não deviam fuçar ali na terra em que o vô havia plantado uma goiabeira. Loguinho me perguntaram quando surgiria a árvore, quando daria fruta e se eu permitiria a eles subir brincar apanhar goiaba essas coisas. Sim, respondi e inventei logo como fazia sempre estórias sem pé nem cabeça em torno da coisa, para esconder realmente a coisa...       
          Deu certo, os familiares aceitaram minha tapeação. Em termos, pois não só a mulher desde essa época me olhava com interrogações não apresentadas. Além do mais pude agradar posteriormente as crianças trepadas agora na árvore.
          Não obstante...
          Naquele dia, naquela tarde, naquela noite passei lá meus apuros a esconder bem o mal. Alguns entre os filhos a sentir e me dizer na cara haver algo estranho no lar... Uns que o cheiro diferente, outros que os animais indóceis... indóceis! A esposa desandou a me fazer perguntas; depois se calando e somente faria perguntas com os olhos. Descobriu não sei como que eu bebera; afirmando toda hora eu estar a esconder qualquer. Comeu resmungando e esbravejando comigo mas também felizmente com as crianças. Aqui reafirmo ser nossos filhos já adultos, tem o João que se fosse mulher considerado titia, tem um deles casado largado ajuntado abandonado e a viver agora aqui na casa trabalhando fora com os irmãos. Enfim a Maria a ralhar com todos, comigo em particular: a falta de sal o sal de mais a casa suja os animais doentes a ladração deles; em suma brigada com o mundo. Agora, com o que mais se insurgiram ela e os filhos foi no tempero. Chegaram a inventar, porque isso criação pura, indicaram a possibilidade da carne de porco andar adocicada, como fosse humana (o que me deu certos arrepios e aqui uns latejos e lampejos desagradáveis pelo tom – me indaguei, onde teria errado? ora, todo criminoso tem a vaidade de haver perpetrado um crime perfeito...)
          Contudo o drama – o externo bem entendido – o drama passou pelo crivo daquele dia fatídico e depois pela sedimentação do tempo.
          O tempo passou, perdi fios ganhei fios brancos, encar-quilhei; chorei filhos mortos e a mulher mais que eu. Além de ela diário se apegar ao oratório que o senhor bem conhece ali no canto da sala a rezar pelo Zé. Inventaram mil estórias sobre sua vida e mais sobre o sumiço dele da vila, justificaram mil vezes mil coisas sobre a rocambolesca trajetória do infeliz quando vivo. Chegaram até a procurar por aí pistas do filho, inclusive indo à polícia, eu a me incluir nisso e agi assim para me defender é claro, então igualmente procurando a investigar nos arredores para saber alguém que soubesse do Zé... Ela entretanto nunca se convenceu bem, me olhando sempre desconfiada e até a me sugerir esclarecimento nessa inexplicável interrupção das visitas costumeiras do filho mais velho. Chegou a esposa a dizer-me que havia expulsado o pobre que tanto ela amava. Brigamos por isso e por outras razões muitíssimo. Sem desfazer dúvidas.
          A dúvida aliás, padre, é a maior certeza creio que a hu-manidade tem de si e de tudo que gire em torno do planeta.
          Nesta casa a dúvida perdurou, perdura...
          Agora, uma certeza garanto. Com esta findo neste mo-mento, o momento de haver tido a coragem bastante de fazer ao senhor esta confissão neste fundo de quintal aqui no arrabalde. É a certeza da alegria das crianças dependuras na árvore numa gritaria. A que elas não sabem e por isso nem duvidam ser um pé de zé, cheio de goiabas vermelhas e bichos.
Julho  2011




21.O Título Sou Eu

          Hoje, neste bendito dia, cheguei em minha casa levando um choque. Entrei como hábito, fechei cuidadosamente o portão, ganhei o corredor indo à porta dos fundos e me pus a vasculhar o bolsinho de níquel onde as moedas amarelas de ferro que usamos, em que costumeiramente ponho também a chave solteira e limpa não sendo lisa por ter uma argola de metal para distingui-la das moedinhas lisas, pelo tato distingo a chave. Mas eis meu espanto: a chave não se encontrava no bolsinho onde deposito os cobres! Imediato como acontece ao pensamento o pensamento voou longe vasculhou perto, perto da esperança a encontrar o local onde perdera a infeliz chave... bem, infeliz eu sem a chave para abrir a porta abrir a casa. Outro espanto tive daí: a porta escancarada! Um calafrio como raio me percorreu de cima a baixo – pensei ladrão, até revi no pensamento a fotografia do rebuliço dentro da casa, pois essa gente gatuna não tem respeito com nada, explora afana leva o que de importante achar e some deixando a bagunça, esta no aguardo do beó policial com lamentação da vítima, infelizmente a vítima sendo eu. Eu me apavorei, inclusive temi entrar na minha própria residência, também por ‘indesejar’ encontrar aquela babel deixada e não encontrar o que o criminoso levara. Não só por isto, por aquilo. Aquilo é que deduzi o esdrúxulo de estar aberta a porta e mesmo sem que houvesse havido roubo – e aí me perguntei, não seria um caso de furto por não haver violência do ladrão contra vítima, eu, e só violência contra os bens da vítima, eu!? Em suma houve certeza naquele dito momento, a de não encontrar a chave, de que eu não tivesse estado na casa, naquele, hoje neste bendito dia; em todo caso poderia verificar a coisa e foi quando lembrei indagar sobre o infausto acontecimento à vizinha geminada da casa, a qual atenta e cuidando de sua velha, velha não dela: do filho da patroa, esta sim já inconsciente. A moça limpava a velha e o vizinho, eu, cheguei-me à janela dela (o que uma falta de educação sem tamanho) cheguei-me e fiz de chofre, antes de assustar assuntando a jovem bonita desde a janela, fiz a pergunta: “você terá visto se porventura já cheguei!?” Ela piscou um pouco como seu hábito a se indignar e respondeu (eu pensando um não:) sim. O senhor esteve há umas duas horas atrás aqui, abriu a porta de sua casa eu escutei bem, antes me cumprimentou, ia perguntar ao senhor se trazia meu presente prometido, o senhor me prometeu... fiquei meio encabulada e coisa alguma falei; vi inclusive uma sacola de supermercado a balançar nas mãos do senhor (seria o presente, pensei, não perguntei); escutei o ranger da porta, a propósito seria bom untá-la um pouco e... aí a bela enroscou um conversar num discurso inacabável, cortei agradecendo o informe primeiro e depois matutei em torno de minha chegada. Deixei a mulherinha a falar só (isto mais deseducado ainda) e fui ver in loco, ou rever, como fora a possibilidade de eu mesmo haver entrado antes, visto pela vizinha, e não o ladrão, o que dá uma sensação boa de alívio. Entrei. De fato nada fora do lugar e nenhuma bagunça esperada próprio desses inimigos do bem-estar humano na sociedade. Nada. Tudo nos trinques como eu digo sempre e nesse entrar na casa antes de mim decerto terei feito a mesma constatação. Examinei o quarto o escritório a saleta, ainda com a pachorra de até verificar detalhadamente o guarda-roupa a estante de livros e a de discos: todos pertences panos papéis nos seus respectivos lugares; num espaço harmonioso. As cadeiras as mesas tudinho na posição deixada. Fui ao absurdo – e isto não fosse estar plenamente em ordem seria absurdo dum ladrão também exageradamente absurdo – fui ao absurdo de examinar o banheiro, vaso sanitário papel higiênico inclusive o cesto com resto a aguardar o lixeiro na quarta-feira, hoje terça – nada fora de sua morada eterna, eterna visto o vaso a janela a haste de pendurar a toalhinha de rosto sempre no lugar, eterno lugar e aí, aí, barbaridade como nós humanos fazemos besteira! aí olhei no espelho do armário da pia de escovar os dentes; que foi que vi? o vidro me devolveu certo: era eu mesmo quem eu via. Portanto nadinha errado no dito banheiro. A conclusão é óbvia. Se era eu hoje terça-feira me vendo e vendo meu quarto meu escritório meu banheiro, é justo admitir que antes desta vistoria eu respeitara meu próprio ambiente como o faço diário. E agora, hoje, mesmo sem precisar da chave, a qual enroscada certinho por dentro na fechadura da porta, agora constato ter estado realmente em casa antes, antes já poderia esperar que estivesse outra vez no meu lar nesta terça, hoje. Assim olhei a cama o lençol sem mexer a deduzir poder deitar-me descansado; sem temer ladrão sem temer a mim mesmo. Quase tornei à vizinha na janela para agradecer por suas informações. Mas achei isto uma babaquice sem tamanho e daí pejei-me. Fechei, sem bater e despertar curiosidades desnecessárias, fechei a porta, sumi na cama num lindo sonho do sono sem pesadelo. Merecidamente.
Setembro  2011




22.Lance Prosaico

          Daqui donde o vejo vejo um bicho. Bicho peludo bravio grosseiro bruto; isso, um bruto. Tem uns pelos a mais no seu menos. Cabelos escorridos negros grossos bravos nos espetados, debalde o trabalho do pente, aliás o pente foi ao chão e no chão continua: pisou-o despercebido ou preguiçoso no simples arcar. Não obstante é arcado o bicho grandalhão, perfazendo o desenho em risco que vejo no corpo contra a luz fraca do vitrô nesta manhã saindo da madrugada um contorno em arco tendo a cabeça um pouco pendida semivirada à direita. O bicho olha não olha o que faz olhando melhor o retângulo do espelho embaciado a sua própria face – e então poder-se-ia indagar: não se assusta! sim, pois medonho se levantando de pá-virada, um dito que repete quando fala, não fala agora mudo e quem sabe introspectivo. Olha o vidro vê decerto o rosto peludo dos pelos da lua cheia, que dizem instiga mais o crescer, nele mais o volumar na epiderme grossa com eternos pontos negros da barba. Enquanto...
          Enquanto estou aqui sentada sem sucesso, as dores os gases os ares as cores até quase vejo enquanto. Olho vejo de-ploro quase o que observo. Um bicho emudecido porém fa-zendo o que faz o pensamento embutido a determinar mexer os membros do bicho sem que emita, mudo, sons. Mas já sei pela rotina o que se passará daqui por diante vendo a fera. Hoje se levantou nervoso, vive meio neurótico, não passou dum sorriso numa promessa com feição de choro para o meu lado; a me tomar por desconhecida! Enquanto, vejo o bicho.
          Tem um corpo grosso grande peludo no todo. Na cabeça os fios fartos – descobriu um início de calva que teme e cobre com os excessos dos longos cabelos, um tanto vaidoso. Depois, não agora, passará seus cosméticos machos a melhorar e aprumar a juba (uso juba a gozá-lo e me faz como resposta caretas de brincadeira, agora introspectivo e mudo:) e assim mesmo permanece um bicho bruto bobo. Tem umas pernas fortes grossas, grossa e volumosa a musculatura dos bíceps e da caixa torácica; as pernas mostram já cansaço e um pouco de varizes; o que não lhe agrada sequer ouvir lembrar. É grosso no todo, todo ele. Encontra-se nu nessa tarefa da higienização. Olho, sem precisar me esforçar desta louça fria que aqueço, olho vejo observo o bicho: tem os penduricalhos murchos, igualmente peludos a completar os pelos, tem-nos a balançar ao balanço dos movimentos e esforços com a lâmina no rosto; eles quietos o quanto possível, um ovo dessa galinha macha quase engolido pelo ventre donde a hérnia ostensiva o engole deixando o outro lá embaixo solto, e agora não se queixa em seus uis costumeiros. Mais atento no que faz em cima, só a barriga um pouco abusada se desencosta no encosto desprevenido na louça gélida da pia do lavatório onde a água escorre desperdícios enquanto o trabalho de escanhoar aqueles pelos negros duros grossos qual pinos. Então faz o que faz, faz caretas no que faz, torce contorce estica encolhe olha se vê não me vê.
          Estou aqui sentada, sem sucesso quase nas minhas dores enquanto...
          Ele não percebe: conversa consigo mesmo sem falar, eu leio não obstante porque os íntimos (pouco íntimos, lembro, lamento) os de casa sabem traduzir movimentos e são versados na rotina. Agora mesmo, no mesmo instante que a vizinha feia liga seu rádio no último decibel a assustar um bairro, ele certamente sequer nota o rádio a propaganda a música estridente e sim voando ao próprio pensar. Não temo a feia, horrorosa diria, temo a outra... Ele chega tarde, às vezes já durmo não me chama se deita se esparrama se contrai se esperneia problemas e se desliga de mim. Houvesse um herdeiro não seria diferente! não sei. Ele me culpa, eu culpo ao esposo, o médico culpa veladamente ambos e continuamos a sós... Não estará tentando ser macho ter herança na presença da outra? um dia descobrirei. Agora só posso vê-lo.
          Olho o bicho, se remexe se coloca em melhor posição, raspa daqui limpa de lá, a espuma excessiva um pouco cai ao chão outro tanto na cuba da pia e a água a engole com tocos de pelos negros grossos bravos, mortos, ao buraco do lavatório; a água agora se borrifa também no espelho que projeta a imagem do bicho peludo em negruras por toda a pele e até nos penduricalhos, mais nos penduricalhos a balançar gozado nesta minha tristeza...
          Olho vejo sinto o bicho; sei até o que ocorrerá no lance posterior ao movimento de arrastar a lâmina na espuma branca: ferir-se-á, sangrará, escorrerá, limpar-se-á nervoso e tremerá ao fazê-lo na toalhinha que lavei corei limpei passei dependurei ao lado do retângulo do espelho para seu bel prazer ou necessidade. Passará certo creme odorizante no machucado; depois porá mil vezes papel higiênico pra secar a ferida e ficará como desajeitado que é a se autossoprar e acabará soprando mais ao vidro que ao rosto ofendido. Por fim fará o restante do despelamento com cuidado, o cuidado que faltou antes, posteriormente. Ainda assim permanecerá uma gota a brotar da pele rústica grossa num vermelho, após cicatrizar dura no tempo e em marca virando então negra dum negro rubro do sangue então andará seco.
          Adivinho também a sequência: vestir-se-á correndo, o-lhará correndo a pulseira o atraso, o carro a aquecer o motor, o disparar, o se esquecer até de meu trono; quem sabe se lem-brando do trabalho... do trabalho e dela no trabalho...
Abril  2009




23.A Nora da Sogra

          Não, a Sogra da Nora. Não; também não pois tem certos temas indigestos ou controvertidos ou inadequados – ih o texto fica no papel a esperar a esperar a esperar e não destrincha; aqui melhor o Filho, o Filho da Mãe, Sogra da Nora, foi a perdição do ganho. Aliás o teimoso texto se inicia – sim também com a intriga comum da oposição elinha a dizer que elona oposição, esta que aquelinha, a qual diziam linda de morrer e... – tem início com a desavença da sogra (ué, não era a mãe?) sim da mãe com o filhote. O filhote era o comum de bater perna dia inteiro brigar com os colegas, com os amigos não porque poupava amigos só jogava amigos contra amigos como exercício; uma santa criatura o filhote. Ah e brigava a mãe com filho num bate-boca em não acabar nunca, acabando num choro da mãe pois o filho tornava após o entrevero à rua com os moleques. Os moleques que não morreram ou não fugiram nem fugiram ao casamento e suas necessidades de chefe de família, esses ficaram a crescer com o filho da mãe. Grande, ela pequena até no seu nome porque encolheram de Josefa para dona Zefinha, ele grandão adultão solteirão até prova em contrário, permaneceu a azucrinar mamãe. Fê-la brigar com a mana, mana dele, fê-la se desentender com o marido, pai do herói. O pai não aguentou e fugiu ao serviço, do serviço fugiu a outro serviço noutra cidade, de preferência longe do perto. Assim ficaram se chocando, e para não perder a agilidade ambos filho e mãe, dizia ele mãe e filho afirmando a oposição filho e mãe como constou ali; tudo sem solução. Ou o choro é uma solução! ou o desabafar com as comadres da rua Bom Princípio (que Zefinha sempre confundia com Bom Precipício, ainda pronunciando errado ou distorcido o precipício, acertando se não a rua sua casa direitinho). Daí piorou a piora, o que é o melhor aos pessimistas; piorou em vista de o filho haver crescido, não ter querido permanecer na escola mas tornando-se como compensação doutor em rua, com PhD mestrado e doutorado ilustrado por phd já dito, doutorado especializado em nada fazer. Ficava zanzando por aí, a aquecer a roda da bicicleta, esta que ele num modismo apelidando “báique”; depois fez o pai comprar-lhe moto; e então a aquecer ‘totorotando’ a motoca para ajudar o planeta a queimar combustível fóssil; depois trocou de moto nuns rolos medonhos a agitar a polícia com ‘beós’ e tudo; tudo por causa do combustível porque resolveu optar por biodísel etanol ou álcool ou outro modismo na nova velha usada motocicleta contra a vontade da mãe... ah oh ih ói a mãe outra vez; agora com pouco bate-boca pouco grito e pouco choro? muito, o choro virou dilúvio. Daí nem a polícia dava conta do recado nem o pai a enviar mais dinheiro a comprar motocas e a dar meios para funcionamento delas. Assim desistiu o pai, o pai também existia e a gente pensando que houvesse apenas mãe e filho e... e a nora? pera lá. O filho teimando teimando em não fazer nada... Outro pera lá: ora, virolar de moto não é fazer algo! É. A Zefinha achando que não e por isso brigou com o filho mais alguns anos até dizer “basta!” Ela? não, Ele. Elão, agora é um sujeito desse tipo armário ou guarda-roupa ou segurança com cara de mastim, embora manso. Manso e teimoso. Teima então andar apaixonado por uma jovem linda de morrer; eles querem viver um romance. A mãe entra no meio, grita como um pai, o pai não grita não e sequer tem voz... quando é hora de falar alto e machão pra valer não grita: foge para outra cidade longe, longe o bastante a fim de não saber o circo pegando fogo, longe em não ver perto Zefinha, sua reclamação e seu choro ardido seguido de lamentaçõezinhas às comadres da Bom Princípio, esta sim nuns maus lençóis daí por diante: a rua movimentada pelas visitas policiais a apreender por roubo ou papéis insuficientes as motocicletas; Zefinha por não ter como inverter as coisas se põe só a lamentar. Saiba comadre: o meu louco filhote, não é que esteja se desarranjando arranjando mais encrenca com uma sirigaita!! Não disse o texto que se esperasse a Nora! A mãe (ué, não era a sogra?) a sogra reza um padre-nosso à presuntiva nora; reza a dizer à outra mulher que ela, a sogra, não quer ser sogra de ninguém; contudo é sogra não tendo mesmo mais jeito (a nora mostra a barrigona e o argumento costuma convencer qualquer sogra, das que já houve e das presentes, quem sabe não sobre para as que virão no futuro). Então a sogra espreme a nora. Olha aqui, sirigaita de merda, diz Zefinha fina e educada, aliás é mesmo fina parece bacalhau de magra porém a voz é bem forte e gutural nos gritos, fique sabendo que sustento seu homem e não vou sustentar com o dinheiro do meu marido a mulher do filho e o filho do filho! entendeu? Então suma.  Choraram ambas e o choro não corrige distorções nem inventa a felicidade. Por isso o filho da mãe montou casa improvisada nos fundos da casa da mãe (não era sogra?) da sogra da nora e mora agora com ela e... Pera lá de novo: elas se falam, apesar? Não. Se olham? Sim. Tem mais uma insignificante questão. Zefinha disse no celular ao celular lá longe do pai do filho “ocê vai ser avô...!” e antes que emendasse lá umas reclamações o pai do filho indagou abruptamente se o filho do filho é uma gracinha, já se preparando a funcionar noutra cidade sua moto correr ver a gracinha depois contar aos amigos. Não sei, respondeu a sogra da nora. E completando na sua opinião a ofensa “nem nasceu ainda!” Nisto tendo razão bastante, não a nora, a sogra.
Agosto  2011


24.Porcaria

          Reinava a paz. A paz do Senhor segundo o jargão religioso mui pouco pensado, pensando que a paz seja a riqueza em ter coragem a suportar o que se deve suportar, enfim ter a força bastante para não claudicar se rebaixar e fracassar como corolário. Não. Não se pensava nessa paz mas na paz do descanso quiçá com alegria barata à vista em longo prazo, quem sabe pra todo o sempre. Embora, muito trabalho pela frente, muito mesmo assoprava dona experiência, porque a família já passara ene-vezes pela matança retalhação limpeza tempero cozinhamento ou assadura e apuro da gordura com peles a estalar trincando nos dentes e o povo dizia gozado “terréque” ‘onomatopeizando’ os sons e a atividade; e de novo, definitivo! que seria definitivo? sim outra vez a limpeza; limpeza final enfim; a seguir vindo o cansaço que a cama cobre para a vida cobrar. Ainda aqui a usar indevido vida por de fato ser existência, mais expecificamente curta existência.
          Nisso resumindo a porcaria?
          Nisso. Claro não se tratar de porcaria à moda dos meninos que ‘senvergonhamente’ praticam molecagem nas capoeiras por aí. Não.
          A matança e “cuidança” (tinha uma das capiaus a dizer assim, textualmente assim; além das linhas se negarem a regis-trar a feiura capioa); em suma o tratamento da carne de porco o porco criado meses em casa; nessa casa e na casa dos outros, visto todos na época assim fazerem: alimentar alimentar alimentar engordar matar cortar temperar olhar cuidar apurar distribuir entre si ou entre vizinhos a carne. E por último comer. Não, defecar por último e isso o ser vivo não põe quando vivo.
          No capítulo curto grosso e rápido contra os constran-gimentos possíveis, ou seja o do sacrifício do animal pelos a-nimais tidos racionais; aqui ficando melhor dizer apenas o tio, com lastro enorme na arte de torturar e matar cabritos a feste-jar o Natal, ou o porco, como neste caso; no entanto se negava a eliminar galinhas – corriqueiro essa facilidade às mulheres, não para ele. Nesse dia sem funeral nem cerimonial no sacrifício do porco havendo uma gritaria danada, as crianças tendo que ser levadas de perto ou chorando. Curiosamente apesar de carrasco do porco o tio, o tio sem coragem bastante a esfaquear vacas; dizendo que elas a implorar nuns berros antes da eliminação e por isso a cortar-lhe o coração... Ficava a matança aos cuidados do tio, que a estar embriagado virava bebum-torturador por não acertar o lugar de sangramento; e sóbrio apenas executor-carrasco. Todavia todos morriam.
          Mas os cuidados com o tratamento das partes, os nacos da vianda a preparar, é que cabem medonhamente bem na ex-pressão porcaria...
          Gente, é aqui que entra de fato gente.
          Dona Maria, oi dona Maria outra vez, ela a mandar mandona. Não por ser velha e se dizendo nova perto da nonna acabadinha e que não fala coisa com coisa; nem por se esticar, também lipoaspirar-se ao jeito da rica no meio urbano e que não aceita envelhecer – não se estica, estica a existência apenas. Contudo ainda fortalhona, os exageros e possíveis hipérboles são por tamanho e banha; sem chegar aos pés da porca que jaz aberta exposta morta enfim na mesona da cozinha, a cozinha já um tanto abusiva na extensão cabendo nela folgado uma residência urbana de pobre, ela no meio rural. Onde se tagarela bem; ora em ‘caboclês’ e vez que outra em italiano; mas bem.
          Bem, todos falam; melhor se pondo em palavra medida ‘todas’ pois quase só elas barulhando, elas e elinhos, os quais sem sexo ou sem pensar no sexo e as meninas já pensam sim um pouco; os machos da espécie é que não por filhotes ainda. Alguénzinho na roda da saia materna, atrapalhando no vivo trabalho da matança e cuidança do porco. A porca, coitada, ela também perdendo o sexo na falação comum ‘carne de porco’, isto sem importância à morta.
          Está na berlinda na mesona. Grandona e maior morta ainda que viva, aberta. Sobe um cheiro de açougue na cozinha, meio comunitária, onde as moscas a esvoejar se divertem e se divertem os cães olhando a gostosura lá em cima. Suma, sua fia da... xinga o homem na feição feminina a mãe da mosca, xô, xô não: passa desgraçado! O rabo entre patas sai manso pra fora antes para um pouco na entrada da porta a porca a mosca a moça menina-moça vem a empunhar arma (um chinelão assim de grande e poderoso!) arma de afugento definitivo, o que houver de definitivo, o rabo entra mais entre pernas: pernas pra que lhe quero não diz não late não morde foge. Mas volta, carne atrai, atrai outros vira-latas e assim alvoroça, a cozinha não deixa nem alvoroçar direito na conversa; a conversa dirige dona Maria.
          Dá outras ordens, tem gente com liderança de dentro e manda fora mesmo não investida e todos, todas obedecem. A menina a moça a comadre a comadre da comadre a vizinha a tia, a mãe não diz coisa com coisa apesar disso obedecendo; e mais ainda nisso os pequenos que só atrapalham...
          D.Maria: oh corno sem vergonha, saia daqui porque está espirrando. E de fato se escuta o barulho perigosíssimo da fervura apurando os pedaços temperados e o calor é medonho. Alguém a mando de alguém quem? decerto ninguém, alguém de tranças espanta mosquitos atrevidos com um abano. Embora, um que outro cai acresce nas frituras na quentura numa pretura dessas que se fala os olhos não veem e o coração não sente. Abana espanta assopra até; não obstante o calor aumenta, aumenta o cheiro aumenta a frequência em volta da casa em volta da cozinha em torno os moleques se gritam pela novidade, os cães se mordem ou só olham à entrada do paraíso, no paraíso o inferno.
          D.Maria contra a gritaria. Faz isto arruma aquilo, grita baixo; não sua burra: a maior, não vê que não cabe! Leva essa pra lá... ah cuidado!!! (reticências não cabem no perigo, então vêm as exclamações ao socorro, três em lugar dos três pontos a reticenciar, a imperar o mando da mandona:) faca na mão de menino! meu santo Deus minha Nossa Senhora, um descuido da gente e – ora quem pode com criança. E aí vem mais problemas a infernizar a parolagem e o inferno do paraíso – derrubam num plaft em cacos muitos e um inteiro; a carne ao chão melando o chão melando focinhos melando nada descuidados por entre pernas pés humanos sem ordem.
          Ordem na casa. Na cozinha.
          Maria grita da janela não para refrescar-se pelo calor terrível nas tarefas da cozinha: parem de brigar – além da briga costumeira da cachorrada a cachorrada desses moleques, vocês sempre se insultando. Assim os moleques lá fora param sem graça, param um pouco fora, dentro a mandona volta a mandar.
          D.Maria distribui serviço, sobra trabalho. Um, uma, limpa outra guarda outrinha seleciona e tem aquelas em quem não se pode mandar, confiar em nenhuma diz em pensamento Maria, mandar é que não, com filho a gente grita bate, na gente de fora... Dentro é o desencontro, não de ordem e sim de tarefas. Chegando a um pequeno e quase imperceptível cúmulo de se chocar alguém com alguém no caminho. Os desastres inesperados são muitos e as risotas, o gargalhar até no epílogo.
          Aqui não propriamente epílogo, fim da porcaria.
          De um não final, não tem fim. E tem a questão do fogão caipira deles delas. O bicho urra suas lenhas as achas desi-gualadas se acham no consumo, algumas verdes ainda e daí saindo muita fumaça e a provocar ardiduras nos olhos da menina que atiça e ajeita a lenha para esquentar ainda mais a quentura, encontra-se a jovenzinha vermelha naquela vermelhidão. Em cima da chapa de ferro o tacho, a chapa quente onde os gotículas não sabem o que fazer se pulam se dançam se desaparecem ou se voltam à borda do tacho quentíssimo, o tacho fervente e a estalar peles e fritar o toicinho os nacos de carne da morta gorda viva e mui manhosa – é a menina no lembrar que tratou sempre da morta viva a viva fritada morta e portanto comportada agora e não mais chorosa como na ceva do chiqueiro. Assopra mais cheira mais o ambiente. Nisso chega ali um pequeno chorando. A chefa para olha faz que vê não vê determina não ser nada grave, assopra o lugar ofendido também ela qual a outra ao fogo, olha depois o menino e conclui: viu como sarou! e assim o doentinho foge alegre às brincadeiras. Esse um final provisório mas não tem fim a trabalheira. A sujeira impera, óleos gorduras insetos, baratas elas não temem, agora; têm os insetos voadores sem necessidade de aparecer e que aparecem sem serem chamados, voam rastejam sujam – gente diz sempre em termos de sujeira. E os trens. Ai os trens fora de lugar, no lugar indevido ou no lugar mas que se não encontra quando preciso. Pratos riscados trincados usados seminovos e também usados emprestados. Tijelas latas vasilhas de plástico inclusive, hoje o plástico invade o ontem recalcitrante e também presente ali... Ai ai ai tem entremeio a tudo isso a conversa de todos em todos momentos, são estórias contadas inclusive em torno daqueles talheres e dos objetos outros e se fala se lembra amiúde das outras pessoas ali presentes ou ausentes escondidas e que se não encontram embora vivas. E aparecem as estórias, estas mais frequentes, as estórias da gente; gente puxa gente assim como estória puxa estória, um nunca acabar, decerto ninguém falando mal de ninguém, estórias que se entrelaçam se entrechocando se metendo na porcaria.
          Da senhora Maria.                                                  
Setembro  2009
25. Choque sem força

          O senhor Poesia era lesbicamente casado com dona Realidade, as duas, Realidade e Poesia, casadas no padre no cartório e onde mais se exigisse; a sociedade não sendo demais exigente, a vizinhança sim, não casadas dizia insistia e insistia arranjadas amasiadas concubinadas consorciadas enfim na igreja verde, este um dito popular na época, imemorial. Contudo, quer dizer no legal da coisa, não ia bem a coisa; coisa pouca assim de milênios, ou seja desde que o mundo é mundo, o imemorial aqui já lembrado. Não indo bem realmente pelo flagrante choque.
          Estaria aqui configurado o quadro das reinações indis-crições indecisões e cisões conjugais? Um talvez sem quaisquer certezas.
          O conflito quem sabe não ofendendo tanto a sensibili-dade social em vista da rotina, esta já rotina no sentido imemorial, o que vai do segundo inexpressivo ao milênio histórico. Como sempre em se tratando da rotina, não se percebendo nos segundos iniciais iniciantes; todavia mudando entretanto o parecer na vizinhança – oh comadres de todo o mundo: uni-vos – a qual passou melhor observar ambas, mormente quando já histórico e às portas do divórcio; ou seja aquele negócio do espetáculo que todos apreciam apreciar na vizinhança. Exato, no começo nem havia divórcio, no fim veio a salvadora lei da separação dos corpos em separação já concretamente separados. Em suma prato cheio às línguas comadres. Nada que o sol não haja visto antes, pois assim que o mundo se faz.
          Poesia ia via se havia, havia sim flor. ‘Cantava’ a flor (claro sua esposa não saber disso, perdida na realidade do mundo). Cantava cheirava quase lambia e amava a fragrância flagrante.
          Realidade reclamava, braba, irritada ao menos, o atraso no almoço; fumava após mas contrariada, aí dava no pé nos pés dos seus negócios. Negócio de bolsa banco gerência pagamento rolar dívida, dúvida muita dúvida. Depois nem dormia, insoniando enquanto a outra, outro a pedido; enquanto ela sonhava com a flor com jardim com o perfume; a seu lado aquele bafo de tabaco, sequer charuto cubano podia a dívida nos negócios da família comprar, Realidade já optando por cigarros e cigarros de marcas inferiores, contrabandeados ou não, visto dar o mesmo necrotério. Não dormia, dormia a parceira, ansiando por estórias de amor.
          Poesia, coisa de homem sem ter o que fazer, Poesia so-nhava também acordada, sonhava com viagens, indo nisso até ao fundo do quintalinho ver as plantas, imaginando cancuns paraísos disneylândias mais, menos para satisfazer-se se satisfazendo virtualmente nos sonhos e nas estórias dos sonhos. E pior: cria na cria do que criara. Pior no pior: despejando o sonho na realidade da companheira Realidade; agora de volta ao jantar – puxa, não tá pronto! pô!! Brigavam.
          Brigavam feio. Realidade se não apelando gritando ber-rando mesmo muito, a assustar purezas vizinhas. Por fim, cal-mas, iam ao leito se acalmar mais, possível; e aqui ninguém tem nada com isso nem as comadres no que faziam, se fazendo, fazendo bem. Bem, outro dia.
          Seria o dia segundo, segundo os segundos ou já histori-camente o sem-solução? não importa, importa que a vizinhança falava, língua solta; dava receitas e palpites: por que elas não fazem assim ou assado. Assado! isso, um bom assado e dizem que a marida adora comer do bom e do melhor, embora as finanças da casa contradigam. Outra: por que não fazem como nós, filhos; sim criança enche mas enche também o tempo, toma o tempo não sobrando tempo a choques, impede até separação ou dá mais separação. Como resolver este impasse... Quanto ao casal se havia não tinha pensado nisso; não poderia resolver, houvesse pensado na coisa; em não ser por adoção a prole.
          Poesia punha mais e mais minhocas na cabeça, flutuando no cosmo difuso nebuloso lindo de se ver pra não se ver a realidade chã. Enquanto Realidade voltava armada de canhão para o lar, onde a flor e o sonho.
          O choque após conflitos inicialmente postos nos segundos já milenares – sem solução.
          Daí veio a solução. Poesia meteu na cabeça ser a segun-dona de sua esposa. A poder melhor sonhar ser mais infeliz. Realidade arranjou secretário para poder sonhar a realidade.
          E se não um fim de idílio, um fim pelo menos.
Outubro  2011




 26. A Babá não de babá

          Antes que tudo é preciso afiar a língua, língua de matuto engole no texto e no título erres. Porque a garota não prometia nessa promessa – toda jovem é promessa e os homens se pensando pra valer machos anteveem ‘bonituras’ mais mais pra diante; ela ‘feiotinha’ inclusive. Os seios apontavam na sua meninice, os adultos corrigindo os abusos e ainda assim ela se olhava olhava reparando a transformação; sonhava enfim quem sabe decerto que sim ser uma formosa mulher quiçá miss-qualquer da tevê. Mas não passando de menina, moleca zombam os de casa.
          Agora entre sonhos e brincadeiras, visto aproveitar-se da tarefa nas brincadeirinhas da criança (mais criança que ela); então brincava mostrava apontava imitava a voz do boneco sem voz; o outrinho, um pouco mais que nenê, o outro a rir ou do boneco ou do som gozado da voz do boneco. Ah é hora de comer. O bebê não quer, força experimenta reimita aquela voz fanhosa catarrosa dos panos e enchimentos do boneco, elinho sorrisinho e ela, a mãe precária e provisória, consegue o feito duma colherada daquela papa com gosto de sem-gosto, ela ora erra ora erra mais no açúcar no sal na quentura. E faz, aflita, o que pode pode pouco mas se entendem. A babazinha e o babãozinho. Este derruba a sobra ‘pufa’ assoprando a meleca. Ela enxuga limpa troca de novo as vestes, tem um babadouro cheirando azedo. Chocalha o chorão corre pra lá volta pra cá, inventa isso ou aquilo, distrai a vítima, ela mais vítima que a vitiminha. Por fim dá por encerrada a sessão comer defecar outra vez e trocar de roupa, não podendo trocar de menino ou de serviço imposto por sua pobreza e a quase indigência dos seus.
          Agora toma aquele pesão de moleque estufado com lá-grimas ainda, carrega gemendo o fardo pela falta de fartura em seus músculos de magriça, carrega o fardo até a esquina. O sol anda brabo, o movimento é quase nulo e não tem o que mostrar – se bem que a uma criança tudo seja experiência nova. Busca, busca além busca aquém e eis que surge o au-au.
          Fulaninho, diz, olha o au-au. Au-au anda ele mole amo-lentado pelo sol pelo calor pelo gradil de impossível rompi-mento, passivo. Au-au olha desconsolado aquela criança de vestido encardido sujo lambido usado pobre enfim; com outra criança no colo, que não é colo pois escorrega o menino dos peitinhos doloridos de babá; olha com meia curiosidade (a ocasião, o tempo, as condições talvez não permitem curiosidade total, se dispõe ao amolentamento). O menino olha por sua vez vê também au-au. Au-au abana o rabo, o coto de rabo cortado, cotó, numa semialegria por ‘ver’ o cheiro costumeiro e vezeiro da dupla; cheira melhor os dois, sorri mais mas não ladra como desejando a criança grande a distrair a criança pequena. Ainda assim um ganho.
          Percebe a babá a seguir a rua deserta, a fumaça ardente do sol no asfalto quente preto chato; ‘deschocalha’ o pequeno a escorregar de novo, aperta um pouco o volume, o volume ameaça chorar, ela o carinha rápido.
          Afasta-se de au-au, da vista que vê e veem ambos. Decide voltar ao portão de casa da casa dos outros, os outros sendo a patroa de fora fora agora; agora abre entra deposita cansada o fardinho, fardão pela gordura chorosa; deposita na ânsia que a televisão possa distrair melhor um mundo.
          Porque aquilo tudo é tudo o seu mundo.
Março  2009




27. Final de um Reinado

          Aquela belíssima fêmea da espécie andava – e agora se-quer adiantando constatar – andava pensando haver atingido o topo se não da glória o da beleza, fosse vaidosa e talvez vaidosa igual mil mulheres, mil e uma. Isso um senão naquele trajeto ao chegar ao cimo, desde que iniciara esse trajeto no longo caminhar. Eram mil lances da escada de baixo até no extremo das alturas. Por fim um dia, quem sabe anos depois de começar, num certo dia chegando ao ápice da rampa. Era a seu ver o topo duma torre infinita e se arrastara até lograr êxito por longos sete pavimentos em andar cadenciado persistente teimoso para cima e agora lhe parecendo sim o topo do mundo quiçá do universo. Via lá da altura as alturas mais e embaixo o inferno da insignificância das coisas no solo: gente, outros animais e coisas como veículos em movimento da loucura; e já não podendo enxergar formas miúdas e menos as microscópicas. Nesse momento tal era sua grandeza que se pensou rainha.
          Enfim por todos lados e direções que via via a imensidão em volta em cima em baixo, nos baixos onde estivera a conviver com seus iguais e dessemelhantes.
          Enfim pensou estar bem ali no trono; aqui mera refe-rência simbólica de sua grandeza sobre o mundo.
          Verificou o novo lar. Nada luxuoso à dignidade duma rainha; se pensara antes princesa mas agora após tantos degraus na escada em escala para o alto, com certeza rainha na idade. Então resolvida a cuidar da moradia e a fincar pés na eternidade.
          Olhava da janela a amplidão da paisagem geral e ao mesmo tempo os destroços ao seu redor, que eram móveis improvisos, restos humanos dos homens quem sabe perecidos perecíveis. Contudo dava para teimar viver naquele edifício altíssimo como a eternidade, abandonado talvez. Logo percebeu o engano pois muita gente e sua barulheira e seu desentender chegaram ali. Entretanto não restava dúvida ali sua primazia por idade e o haver aportado antes que outrem. Houve assim um conviver pacífico...
          Ou sofrível, visto não só no local mas embaixo noutros andares andar a grita de mães crianças ou delas com os pais presumidos sempre presumidos e seus familiares presumíveis ou não e apenas supostos. Em suma o desentender e a violência do desentender de seus vizinhos abaixo; e os dos conviventes no mesmo patamar, ou seja no sétimo andar.
          O curioso para si era ser um ambiente de cortiço o pré-dio aparentemente velho e abandonado, com seres mui vividos pela subvida na luta pela sobrevivência. Então bandidos no jargão policial e da sociedade fina no trato. Mui claro o escuro chocante a uma rainha. Porém necessário persistir e assim continuou naquela esdrúxula relação.
          Agora preciso se tornava ouvir sofrer aceitar mesmo não podendo se conter por vezes diante dos outros moradores. Havendo um rol imenso de desaforos e reclamações sem fim, nas quais sobressaindo a falta de dinheiro, o dinheiro pouco o desemprego muito e tendo um pior – ah que horror! – o periclitar nas relações afetivas... Brigas homéricas e lutas labiais quilométricas, a arrasar orelhas; violência na violência e a violência no engano da aceitação virtual com desmanche concreto. Nisso pais e filhos, filhos e irmãos; acomodações periféricas e ódios mal contidos com apelo à polícia, esta já cansada de intervenções baratas e quase fictícias – aquelas que não dão ‘ibope’; ou por outra: as que dão exatamente o crescimento da audiência televisiva. Ai a televisão! Ficava ligada arreganhada exposta em crime e ao crime, para os de fora e para os de dentro respectivamente. De todos e dos vizinhos; os grandes saíam a catar restos nas ruas ricas na poluição por falta de provisão, enquanto os pequenos se digladiavam a se distrair na frente da tela.
          E a rainha ter que conviver com isso para coexistir!
          Entretanto nada dizia.
          Do seu lado, lado a lado com outros seres, humanos porém desumanos na grosseria da família miserável e em desmanche, do seu olhava aquilo e tentava sobreviver – o que abuso de linguagem de mui ferir uma rainha, rainha embora de poucos súditos. Um dia no tempo do calor subiu voou inclusive entre a gente um provável zangão candidato a rei (por que não!) Já não vivendo só. O contrário disso, ela se reproduziu a mancheias, a espantar moradores, os quais no atrevimento e temência espargem inseticidas, estes decerto encontrados vencidos nos restos e entulhos da sobra rica aos pobres, numa alegria de miseráveis...
          Quer dizer que aí residiu a tormenta: a rainha e seus fa-miliares – e os filhotes eram uma gracinha – foram dizimando morrendo, inclusive aquele macho perdido que se achara a-chando a rainha encantonada no seu trono. Nada sobrou, so-brou a vaidosa rainha.
          Agora era esconder-se dos ataques assassinos da gente. Contudo perdurou sobreviveu a barata já velha cascuda e de cheiro nauseabundo, nojenta no dizer da mais graciosa na prole humana; opinião também dos vizinhos debaixo, os quais viviam a morte doutras baratas semelhantes que semelhante havia galgado o prédio secular gritando por implosão a se construir algo decente e a abrilhantar de novo o velho centro refúgio de marginais, vociferava a imprensa.
          Todavia ela perdurava. Escondia-se, chocantemente a uma herdeira da realeza blatídea. Agora, após o envenenamento dos seus, agora se ocultava nas estroncas do apartamento ou nas frestas dos móveis de segunda mão já envelhecidos no seu novo lugar velho. Não podia mais apreciar a vista do cume daquela torre tão alta como o mundo, tão dominadora naquele centro do universo. Debalde buscou outra criatura de sua espécie a fim de continuar rainha vaidosa de sua beleza e do seu mando. Sequer encontrando um ser doutra espécie, como notara um dia certo pernilongo que subira há anos pelo elevador, não podendo voar com as próprias pernas de suas asas àquela seta voltada ao infinito do firmamento. Nem ele havia. Solitária e escondida como o mais ínfimo e humilhado entre os súditos.
          Não obstante teimava.
          Persistiu até que um gato improviso de fios na eletrici-dade roubada pelo edifício a imitar museu ou fantasma, até que a improvisação da gente estourou queimou a tudo, em tudo dando trabalho aos bombeiros, antes do desmoronar. Nisto se sabendo que a força de combate em plantão não pretendeu salvar sua majestade. Se é que soube dela.
Agosto  2010




28. Na Oficina

          Naquela tarde quente voltava a pessoa ter saudade... do que via? ou não via, via a saudade que não mais sentia, quem sabe não mais que vício da saudade que sentira um dia. Em outras palavras talvez saudade sim mas do tempo que sentia saudade, seca bruta parada quase inerte qual a figura duma estátua. Não obstante agora não sentindo vendo ao menos o que vira por menos de milênio, de século, de existência, a existência que não suporta quase os setenta diz a estatística; e seria antes mesmo do seu sentir o seu examinar, o que mais que ver apenas porque observando o impregnado no lembrar outrem que seria ela mesma porventura este a ter saudade.
          Nesse estado abriu a oficina – assim chamada pelo hábito de pessoa rotineira; inclusive seus sonhos à noite, por essa época sonhava e criava no que via no sonho; mesmo eles eram repetidos, ao ponto poder afirmar sem mentir que à noite a chegar passaria por esta ou aquela situação, já passada ou vivida noutros anteriores sonos. Nesse estado abriu a porta emperrada enferrujada empoeirada daquilo que denominava aos de fora sua oficina.
          Gemeram gonzos escandalosamente e dessa maneira ofertou ao ambiente o cheiro acre do lugar fechado qual túmulo milenar daquele pequeno cômodo, incômodo à rotina dos outros de fora não à rotina dela de dentro. A poeira assentada séculos se constrangeu com tanta vida naquela existência finda; e se depararam seus olhos anos míopes com o milagre da oficina intacta, intacta com tudo no lugar que a pessoa havia deixado quando deixara.
          Não sendo volumosa a dependência embora plenamente ocupada e dispostos os objetos nos seus lugares, eles comportadinhos sem quaisquer rebeldias (mente-se aqui pois um dos ganchos de metal desprendera-se ao peso do serrote enferrujado, ou por novo peso acrescido com as pintas em pontos de oxidação na ferramenta – e portanto no chão tal qual morta, morta ferramenta; ou só desfalecida enfim não respirando e imóvel). O resto era um resto na sua respectiva posição. A grosa, as grosas havendo uma pequena que era uma gracinha parecendo de brinquedo; elas gastas do trabalho insano ou perseverante das mãos impertinentes da pessoa que ora arreganhara a porta atirara luzes na ferramentaria. Os martelos, tinha o pai ou avô grandalhão desajeitado pesadão grosseiro, ótimo num erro a produzir dores; o médio do tipo nem fede nem cheira, em descuido também não acertando apenas a cabeça do prego infeliz... e o mignon, igualmente uma gracinha de brincadeira. O esquadro igual os outros instrumentais num painel presos preso e mudo; quer isto dizer que não dava palpite no todo e permanecia passivo: se medissem, media; se não, não. A serra de aço, para ferro é claro; o arco de pua prendido no seu próprio gancho no quadro, suas pontas às tontas atiradas ao léu na bancada de madeira maciça grossa tosca forte suja (aqui sujeira somada a título milenar secular ou menos um pouco). Havendo dependuradas outras ferramentas menos ou tão importantes quiçá nunca usadas e por isso nem vistas ou numa colher de chá relacionadas, espécie de gasto ao gosto desnecessário quando adquiridos por seus bolsos frágeis.
          O restante da oficina guardava tanta sujeira quanto o painel, claríssimo que não tanto quanto as tábuas postas em horizontal a virar bancada, dessas que se marretam (isso, porém marreta não possuíra a pessoa) que se barulha que se atordoa vizinhanças incomodadas mas silenciosas só abertas nos seus próprios banzés, o que de todo povo culto... O restante sujo como por exemplo uma estante onde se põe de tudo um pouco no tempo bastante usada – sujo bem sujo. Sujeira de se medir com dedo, soprada a sujar matar a luz do mundo e matar até o dedo. Nela no muito ou no todo havendo a parte, ou seja o que não servindo para quem vistoriara os bens após a pessoa.
          A pessoa parou, estática. Por fora. Por dentro sofreu ao medir cada partícula do que fora de importância capital a si, como toquinhos pedaços e inteiros estragados aproveitáveis quiçá bichados carunchados sujados de tempo – sem valor, com um valor imenso à pessoa, então revendo revivendo o que viveu se vivera um dia. Cada parcela daquele ex-todo sofreu a pessoa na impressão e nas ideias impregnadas por associação, agora lembradas.
          Era o tempo o sentimento a lembrança as vitórias os objetivos os desenganos; a morte...
          E sofreu, como quando sofrera não ter mais saudade. Numa saudade na época em que fora a pessoa saudade.
          A si bastou; bastando algumas gotas apenas de lágrimas que sem esforço expeliu e que rolaram na face ainda secular ou até milenar. Eram dores inexplicáveis ao exterior, o exterior tivesse no momento curiosidade a perceber. Fechou a porta, ruidosa antes agora ela também mansa, quem sabe sentindo da pessoa saudade.
Fevereiro  2012




29. A própria obra-prima

          Maminha era... não era Maninha que é diminutivo de mana essa gente do sangue da gente que... pera lá: sou eu quem narrando, não interfira não aborreça não chateie, sim Maminha como afirmei, não de mana mas de mãe a mãe sempre fóra, fôra mãe dos manos estando a mãe biológica por aí, aqui criou os irmãos e daí Maminha, um apelido visto ser Florisbela, bela pouco e chata bastante com a gente, esse negócio de pegar no pé da gente, a filtrar destilar seu veneno nos mínimos detalhes aliás era em tudo detalhista mística negativista pessimista neurótica escatológica escalafobética escabrosa e possessiva; usando desse cabedal de ‘qualidades’ até no ministrar remédios que nossa genitora saindo às andanças deixava para ela dar; tudo toda medicação todo vidro ou tubo com drágeas comprimidos cápsulas, no seu ver tendo conteúdo inócuo de farinha, um placebo. Nisto lembro sua vozinha... Sua avó, avó dela? Ai, falo da voz miúda gutural ardida irritante de Maminha “isto aqui é um placebom” e a gente nós pequenos imaginando fosse o nome do remédio; tinha o “placerruim”, certo xarope amargo e fedido, repugnante para criança fazer careta. Por não gostar? Claro, ora, se fosse gostoso de sabor chocolate ou doce de estalar a língua não faria careta nem choraria nem correria dela o irmão filho da Maminha, ela a disparar xingando atrás da criança levando o vidro e a colher, um dia caiu quebrou o invólucro derramou aquela ameaça amarga de curar doente, chorou ela por esfolar-se e depois pegou a vítima vitiminha se vingou descontando e assim bateu de chinelo na traseira do brutinho; o pai brabo não pela surra dada por sua preposta no enferminho entretanto por necessitar comprar outro Placerruim, o velho de bolsos fracos ou vazios. Ela? rogava praga pelas pragas dos manos da oposição, carinhando os da situação, a praguejar contra os que dedavam essa mana-mãe, mística a crer então piamente que a praga das praguinhas ‘desafetas’ viesse a importuná-la de noite na cama. Enfim não passava de menina franzina forte na língua apenas e uma substituta de mãe, mãe ausente nos seus negócios, sentimentais diziam as vizinhas desocupadas sem que entendêssemos. Mais velha a mais velha da casa, depois tornou-se neurótica antes de virar solteirona neurótica até agora. Foi nesse meio e dessa maneira iniciar-me no mundo do crime; quer dizer por causa disso. Qual? Qual o quê? ah, sim, o crime, isso, isto vamos ver.
          Passei a escrever. Ou seja, anotar as coisas que me rodeavam a fim de não esquecer; bem dito pois não memorizava inclusive nomes, muita vez ia dedurar Maminha nos abusos à mãe visitante ao pai distante ou ao estranho ausente presente embora e daí faltava palavra, som que deva transmitir pensamento e me envergonhando na minha timidez e gagueira. Ficava o não dito pelo dito pressuposto e não tornado som e até voz. Por isso então pratiquei o crime...
          Parecia-me bem um criminoso. Eu não falei nesses ter-mos, não seja intrometido com suas invencionices: crime aqui é o escrever. Passei anotar esquecimentos os quais viraram lembranças grafadas... Em mau português. Verdade meu caro, em péssima linguagem e com erros grotescos na língua.  Superei (superei!?) superei a fase ruim lendo bastante bastante escrevendo, redigindo calhamaços e mais calhamaços, ótimos ao lixão da prefeitura aos catadores de papel e sucatas. Não obstante isso formalizei-me escritor. Pode me alcunhar rabiscador, não me ofendo. Olhe, tive mesmo publicada uma obra... Prima? obra-prima a prima da obra a prima da prima, a tia a tia-avó sabendo-se que os machos da espécie não têm vez; a sobrinha a companheira da obra, da tia que virou comadre... ah sim: a comadre a vizinha a inimiga da obra e outras imitações que primam por obra. Enfim você pôs mãos à obra, assim como esta obra!? Acabou desopilar-se, acabou igual Maminha no destilar seu veneno corrosivo e destruidor meu caro ouvinte (ouvinte-interventor)?
          Pois se já esgotou seu arsenal, fique o amigo sabendo que pus sim no mercado uma obra. Não afiancei obra-prima, você extrapolou tripudiou sobre escombros dum amigo vencido. Não obra-prima, prima duma obra de vulto sim e por outro lado não chegando ao processo jocoso da obra como pensa o homem comum.
          Digamos fosse obra a satisfazer uma vaidadezinha que trago comigo, ou não seria humano visto a vaidade ser característica de gente; mais a satisfazer o quase ditado popular se-gundo o qual um homem com ‘o’ maiúsculo íntegro normal etc. etc. deve pra ser homem semear um filho plantar uma árvore e escrever um livro. Eu fui além: publiquei uma ‘obra-prima’, no seu modo de dizer. Isto porque fácil, facílimo pra mim escrever; mas publicar é dose pra matar inclusive defunto. Correr atrás do editor divulgar e no meu caso sequer fui recebido apelei a um gasto medonho, estando com bolsos furados, que é a opção gráfica; explico-me: levei as folhas que havia datilografado, antes ‘manuscritadas’ e aqui um drama, aquele de nem o autor conseguir decifrar ilegíveis rabiscos. Datilografei, gastei a ponta do canivete em tirar erros por letras remontadas e a desmanchar rasuras reescrevendo laudas e mais laudas para enfim levar aquela perfeição à gráfica dum amigo, os inimigos nem quiseram analisar o possível rendoso negócio, um negócio comercial longe da arte e daí aceito seu epíteto de obra-prima. Depois nos enroscamos (aqui entra o analfabeto amigo gráfico e sua semiletrada assistente, então já num computador que ela não dominava) nos enroscamos no título; eu queria “Maminha Querida” uma forma hipócrita que achei para me perdoar ter sido um moleque da oposição; ele só aceitava “Querida” e o resto era porcaria... quer dizer, se dissesse da obra entenderia, mais tarde, hoje, entendi o xingamento dele ao meu trabalho. Entendeu?
          Assim semeei plantei escrevi um livro, desse tipo mas-sudo (falou minha investida no empresário-gráfico e ele:) ma-çudo a beça; em resumo grande volumoso um calhamaço como já dito, um livro com mais de 100 páginas, que o amigo gráfico me espichou pra 110 adicionando propaganda de sua firma e espaços vazios a intermediar o texto e toda a obra. Uma obra, aceito que goze. Tem mais um senão.
          Certo indivíduo inescrupuloso maldoso tinhoso se a-propriou de minha propriedade intelectual literária meio científica pois quase biografia de Maminha. Claro haver mexido na Maminha, trocou por Maninha, Querida virou “Amorosa”. Republicou, ganhou horrores e se fez no mundo editorial, você conhece bem o desenrolar e o resultado, melhor que o autor dos originais dessa obra a parear com “Guerra e Paz” ou com “os Miseráveis”...
          Ora, desde cedo, quer dizer desde o manuscrever o conteúdo – narrara Maminha por toda sua existência sofrimentos muitos e poucas alegrias até chegar à vitória final que é ser hoje tia enrugada neurótica e de tiradas escatológicas catastróficas escalafobéticas no seu negativismo doentio e no pessimismo detalhado a aguardar misticamente o fim do mundo e sobretudo a extinção do homem, o macho que nunca teve o bom gosto de admirá-la – desde mui cedo caiu-me inadvertidamente das mãos para mãos erradas num virar obra de outrem suficientemente desonesto... Não senhor, não processei o apropriador criminoso; ou antes, pretendi fazê-lo: a gagueira provinda da timidez me impediu os passos. Fiz outra besteira maior que escrever tal volume – comprei no supermercado exposta na estante de livros, onde best-sellers essas coisas, um “Maninha Amorosa”, o qual subjugava escondia o texto original de “Maminha Querida”; li reli analisei comparei repudiei chorei finalmente aquela joia na mão bandida distorcida enfeada manchada pelo crime do roubo, ou apenas contravençãozinha despreocupada mas bastarda em que se tornara a história de nossa irmã-mãe presente naquele passado distante, virando estória comum embora vistosamente apresentada encadernada encapada, capa dura dourada próprio duma obra de arte, obra-prima encomendada pelo usurpador.
          É isso, meu caro amigo. Um segredo de Estado que era meu texto inicial o qual você ironizou como ‘obra-prima’, di-vulgado após primeira e única edição quase fantasma da gráfica de meu amigo, esse mais amigo que você, pois mostrando as garras de sua ignorância, sábio no imprimir panfletos de eleição. Essa obra que acabei por curiosidade e teimosia a comprar num supermercado em meio cebola banana e material de limpeza, esse livro tinha trocado e suprimido o título original somente; o texto era o meu, o autor impresso... não o meu, oh seu rato de igreja!
Abril  2012




30. Indiferenças Individuais

          Ocorrem te digo procê e aqui não interfira no meu coloquialismo e mesmo na confrontação da discordância na concordância pronominal, não sendo eu gramático nem você purista – ocorrem umas discrepanciazinhas na minha família, não em sua pois se diz sem família; mas não sem espírito crítico; ocorrem diferenças que os olhos dos outros veem, os meus já acostumados não percebem visto dizerem que mulher de malandro, de tanto, aprecia apanhar; não sendo este o caso, o caso do meu sangue; sim ocorrem desarmonizações aqui em casa. Por isso decerto papai andar por dezenas de anos irritado neurótico inclusive! não sei bem; ou por essa razão andar mais fora com sua pastazinha de vendas e o talonário de pedidos e portanto longe destas paragens. Aliás dizem e diz também ele que a praça está ruim a negociar, sem dinheiro, fraca. Poderia o mau humor do pai ser por esta razão. Alguns entre os manos a aventar hipótese de indisposições conjugais. Sei lá. O fato é de mamãe e papai, nisto estendido enormemente aos filhos do casal, de eles viverem as diferenças individuais. Que, ademais, sendo válido ao restante do globo com sua população estimada nuns sete bilhões de almas, sem valer o sete como número de mentiroso. Todavia nas diferenças é uma verdade. Outra verdade é que mamãe seja parideira, hoje ontem semelhando tempos antigos em que as mulheres pariam pra valer por dúzias, enquanto a morte ceifava também em dúzias pra valer. Que me desminta a história. Bem, contudo as diferenças são flagrantes neste lar; nós participantes por estarmos próximos do próximo sequer notamos. Meus olhos estão acostumados a estudar as divergências as diferenças e até as indiferenças.
          Assim assustamo-nos, ou poderíamos ter-nos espantado, com o aparecimento do Liquinho. Nesta casa é tudo tratado por todos por apelido, a tanto perdermos a noção do nome de batismo no padre e no registro do cartório civil, naquele livrão com cheiro de poeira traça barata e papel velho quase a desmanchar.
          Porque o Lico tendo cara de japonês! japonês chinês coreano a gente se confunde não sabe quem. Assim como não sabemos não distinguimos mil orientais que visitam a ilha populosa. Ele parecidinho com eles, quem sabe de tanto vê-los por estas bandas. Entretanto mamou na mamãe, da qual proveio, e respeitou sempre papai quando vindo este na sua visita a reclamar pela venda pouca, a pouca comissão. Já a Mila, essa não respeita tanto nosso velho; velho sim o velho porém moço ainda possibilitando até nova gravidez na velha ainda mais nova que o pai. Não o dela que é nosso avô, o nosso. Todavia parecidas ambas mulheres, é a cara de nossa mãe a nossa primeira irmã. Também numas rusgas desnecessárias o Zefo, um dos do meio tendo dezena no meio do meio entre manos. É entrar papai por uma porta, sai por outra o Zefo. No entanto acho o mano parecidíssimo com papai e com o irmão gêmeo de papai. O interessado não acha... Um dia, uma noite mais precisamente, deu-se um inusitado para os pequenos.
          Aconteceu de mamãe dar à luz outro filho. Este um ne-grinho, o qual como demais ‘afriquilhos’, ou seja descendentes africanos nascidos na ilha; sim, preto retinto alumiento depois ao sol em nossa brincadeira de criança, cresceu e foi dos nossos o maior coração e de grande iniciativa. Papai estrilou, após voltar das vendas, passara três anos ausente. Brigaram no casal mas o Dito foi aceito enfim como filho dele, a ficar o dito Dito dito por não dito, bem dito. Depois, cinco anos e dois meses depois, outra controvérsia na discussão conjugal: papai ausente presente após nova viagem e se deparando com nova cria em vias de nascer; aguardou e só prosseguiu viagem com o nascimento do Fruto, parece-me que fora batizadinho Fritz não sei bem. Frito dolicocéfalo olhos azuis mais alto que nós posteriormente quando crescemos, ele nas alturonas nós aqui embaixo. Então, naquele então prestes ao retorno o velho à vida de caixeiro-viajante, então despencaram lá dentro num bate-boca só inteligível ao casal, os rebentos sem entender os arrebentos entres os genitores. Demais, foram os demais herdeiros da ‘fortuna’ paterna e da miséria de casa.
          Ou seja nasceram mil e um novos manos, manos de to-dos sexos possíveis e de possíveis variedades de idade; eu um do meio no meio deles. Os nomes de batismo? bem, são tantos todos aceitos na igreja, só um de nós que não beijou a pia batismal porque o pároco inventou negar a presença dum filho de assassino que fugira da prisão resguardado por mamãe de enorme coração, até que se matou o fugitivo acoçado pela lei; o padre não quis batizar o pequeno agora adulto, pois diziam as más línguas ser filho de suicida e a religião não aceitou. Papai, quando papai tornou à ilha, papai pulou de raiva por isso e quis chamar aos tentos o chefe religioso. Felizmente mamãe era devota de Santa Luzia e a santa não lhe permitiu que enchesse a cabeça de papai pra ir tirar satisfação no templo; meu velho sempre teve pavio curto e se temia ofendesse a santa autoridade. Assim tudo se harmonizou.
          Em suma a harmonia voltou ao lar, nessa ocasião éramos bem um exemplo da miscigenação no mundo e mais na ilha: tínhamos irmãos de todas cores todos tipos todos tamanhos que existem no planeta. Sobrepunham-se mais os hispânicos e orientais, gente com a qual minha gente tendo contato vida inteira por causa do intenso comércio estrangeiro com os ilhéus. Papai mesmo um desses estrangeiros, o qual parece ter vindo ultimamente das viagens mais com objetivo de brigar com mamãe, contemporizando depois nas discórdias e deixando a ela e à família uns trocados a nos manter; enfim vem mais para se desentender, como é para o bem conjugal, e conhecer seu novo herdeiro. Sim sempre saiu a trabalho ela em trabalho de parto ou com aquele barrigão bonito, ou com bebê novo, novo ao velho bem entendido.
          Dessa forma é que, embora havendo as diferenças, mais pelas diferenças individuais que por outra coisa – é que nos tornamos uma família numerosa e diversificada. Diversificada ao menos em nossos apelidos, esquecendo nomes.
Maio  2012




31. Corpo Eterno

          Defendo tese no mínimo discutível, a do corpo eterno. Alma eterna é já defendida e aceita inclusive creio pela maioria absoluta, algumas pessoas vão mais longe nesse mais perto que é nada haver eterno – tudo se desmancharia se desintegraria a formar um terceiro corpo usuário em novos pertences das velhas partes, imperecíveis então.
          Têm indivíduos que não só não morrem como teimam em não falecer, o caso do velho Chico e seu velho cão, num dia de lixo, o cão um cachorro vira-lata e portanto de e-xistência mais curta que a do homem; mas a deste (homem) eterna embora pesteado e no limiar do sumir por não ter comida e quase igual à situação do cachorro dele, porque o cachorro só tendo por alimento a sobra do amo pobre; a existência do velho não se extinguia não morreu... era dia de lixeiro. O bicho veio numa correria atrás do caminhão de lixo, vindo já de quadras e quadras esfalfado com a língua pra fora, por lhe parecer ter corrido mil quilômetros como pobre e leal amigo do Chico; correndo não atrás dos funcionários a lhes azucrinar o serviço com a ladração – até que pararam os trabalhadores num dedo rápido de prosa, porque ninguém é de ferro no sem-parar; e a rodona da engrenagem continuou girando na conversa de suas ferragens. É nisso entrar o cão, agora quase sentado nas patas com a língua cansada e daí estaria falando em soquinhos quase os trabalhadores sem entender; então, apenas aí deu o seu recado, ou seja contando das coisas do dono, o Chico. Por fim entenderam haverem desentendido posto um homem sofrido no lugar do saco seco de lixo certo semelhante, também se tornado seco pela existência. Assim aos poucos compreenderam aquela algaravia canina sobre seu amo, desentulharam o ser humano, o qual desceu com auxílio dos lixeiros daquela geringonça fedido lambuzado sim, inclusive a remover com as costas das mãos certas incertas melecas da cara – dessa forma provando vida e teimando vida no provar energia a todos curiosos ajuntados em volta do caminhão. Porque têm indivíduos que não apenas teimam e até provam por a-mais-bê não haver morrido.
          Contudo aqui é outra versão, igualmente da teimosia todavia mais da eternidade dum corpo. Nisto despreocupado com a da alma, garantida pelo óbvio. O sacerdote chega manhanzinho depositar ofertas ao seu corpo; não o seu: o seu do outro. Dia inteiro noite inteira noite e dia sem parar, ao outro matusalêmico ser seu na expectativa das inexplicáveis permanências, inexplicável como por exemplo enfermidades mil e administração de mil e um remédios: o das cinco o das dez os dos dez minutos o da hora seguinte; e faz mais o dito ser passivo na espera: come come de tudo, onívoro, mastiga masca abre fecha abre engole, portanto persistente portanto forte, sem teimar de fato pois é já afirmado possível passivo: tão só aguarda e deglute. Já comeu nos cem anos montanhas, dizimou canaviais trigais milharais etc., comeu chupou sangue e ossinhos e ainda lambeu com a língua asquerosa tudo de todos bichos postos à disposição do ser humano teoricamente o rei da criação, enfim liquidou com alimentos seus e dos próximos e dos distantes a si sempre distantes porque o que lhe interessa é o ingerir. Um custo bárbaro grotesco gigantesco à humanidade faminta morrendo exatamente de fome e sede, a televisão mostra diário exemplares como exemplo definhando ainda crianças... Ele, o corpo eterno, não pensa nesses termos, não pensa, come. Porém o ser já enxugou qual bola seca de algodão rios e lagos e espera decerto beber oceanos – ora, outrem que se vire, por exemplo que dessalinize o mar! Os laboratórios farmacêuticos no orbe não sabem mais como sorrir sua multinacionalidade nos bolsos, com tanta auxílio dele. E o cão, houve vários morreram e o último ele comeu, comera até aí apenas churrasco de gato... De tudo engole, permanece.
          O corpo eterno – magro esquelético enrugado na pele restante esticada e quebradiça e na mostra dos esparadrapos e demais bandagens, olho mortiço mas arregalado ansioso de mais, não obstante não resmunga não descarta não rechaça não pede não implora não deplora e não ora, ora: vive quer mais é ser um corpo que quer viver! –  assim o corpo perdura.
          Vem outrem, deposita em holocausto a sua ignorância com mais vela, acende a nova na velha num lume a morrer pois a vela não vela até ao fim: morre. Não morre.
          Ele não morre, não quer morrer, não aceita morrer, morrer é oferta e aceitação ou imposição para as outras vidas, que vivem só mesmo para que ele viva.
          Assim, vão-se um depois dois e aí por diante centenários – ele não comemora mais natalícios, somente os centenários, talvez faça planos aos milênios, prático.
          Dessa forma e em suma somem, sobra. A provar-me (ora, a quem provaria? a você que já morreu! a mim mesmo) ter razão na tese do corpo eterno. Amém.
Junho  2012




32. Reverso do anverso Reverso

          O cara olhava caro o caro espelho ali olhando por sua vez o cara que olhava sem olhar. Quer isto dizer sem afirmar desmentir se mentira que não olhava o espelho propriamente no seu vidro frio duro morto seco embora transparente, transparente sim não talvez a transmitir revelar a mentira da verdade em todo possível – quando notou algo diferente se não adverso: o bigode que à tesoura acertava paciente minucioso e até irritantemente apresentava um... um? dois, três, não mais de quatro fios brancos, o que chocando a destoar o negro do conjunto dos fios do bigode (o seu mau gosto gritou um incômodo “vassoura negra”, não responderam imediato à desfeita nem ele nem o bigode). Coçou a cara o cara cara a si, coçou após o bigode, o que fez ressaltar na sua enferma vaidade mais ainda os brancos nos negros, aqueles a lumiar no espelho. Foi quando observou de soslaio, ou melhor nesse pior: olhando ora um ora outro dos espelhos, o grande que o feria mostrando já quase a estardalhaçar defeitos do homem, na cara do homem e na cara o bigode; e o pequeno retangular de madeira enganchada na extremidade da janela do banheiro, refletido no outro, sendo menor tal espelhinho que o grande onde num palmo cheirava no ver o bigode os fios os brancos nos pretos... Ora, o pequeno e despretencioso apresentava ali lá longe um pouco bastante do homem da cara do bigode dos fios, brancos ditos malditos embora, em meio aos pretos agora mais negros porque a pretura nervosa não descora nem empalidece mas aperta ajunta reforça a cor (decerto a deixar os três ou quatro fios mais envergonhados a cara mais indecente e o homem mais irado). Nessa visão agastada observada pela certeza do homem agora no espelhinho, os brancos nos pretos ainda mais brancos e mais pretos, certamente ao reflexo da claridade do exterior que atingia ambos espelhos, o grande ali perto da cara e o pequeno que refletia a cara do cara a carregar melhormente fios brancos manchando a rebaixar fios negros do bigode. Nisso ocorreu um transtorno, se não na verdade na verdade da mentira, que foi o perceber o grandalhão refletindo a imagem do pequenininho naquele mundo cruzado de espelhos, não mais que vidros pincelados de aço a enganar a verdade dos fatos... De fato, viam os olhos na cara do cara o reflexo no grande do pequeno; e conferiu o contrário que é o contrário do contrário sendo a vista do mesmo objeto, a rigor a cara do cara com caro bigode e no bigode uns brancos (os brancos podem ocorrer vez por outra também na mente e aí na mente do cara). Via em suma no espelhão o espelhinho refletido, por sua vez refletindo a imagem do espelhão o qual mostrava uma cara de bigode com bigode de três ou quatro fios não negros como deve ser ainda a juventude dum bigode o qual a oposição goza em vassoura, um apelido que não deve haver pegado, isto outro assunto tornemos ao assunto. De maneira que os espelhos refletiam um ao outro e cada um dos refletidos num oferecer bigode cara fios brancos e negros a enfeitar quem sabe embelezando aquela feiura, desnecessária. Tanto assim que a cada vez que o cara olhava um dos espelhos, o grande e o pequeno, via sem querer ver e via não só o bigode negro com apócrifos fios brancos mas também imagens dum espelho no vidro frio morto (morto!) do outro espelho e o pior nisso: mil outros espelhos refletidos nos equivalentes espelhos que se olhavam e até se viam! Nesse ínterim, ou briga de bastidores de espelhos desocupados ocupados temporariamente em se ver agora vendo mostrando caros bigodes pretos e defeitos brancos do cara nas caras e se intrometendo no meio à briga de família (nessa altura os vidros os aços os reflexos já apelavam como bons parentes a se entregar numa luta nada surda bem declarada...) nesse momento um dos espelhos ou reflexos mentirosos das verdades das imagens berrou uma ofensa não só ao inimigo adversário ou contra o contra, semelhando o homem, a humanidade por extensão. E foi no exato instante em que o caro cara pulou no meio deles, iria talvez apartar dar um basta, no entanto um projétil dos projéteis, seria ogiva nuclear bala perdida língua desprevenida ou caco de vidro, o atingiu parou prostrou matou calou o cara. Os espelhos terão se piscado nuns estilhaços um acordo ou trégua talvez, tornando ao estado original de um espelho e de todos espelhos que é um oval ou quadrado ou retângulo com um vidro morto duro seco transparente e seu comparsa grudado, o qual pincela a mentira e dita a verdade. Aliás a verdade está na cara.
Abril  2012



33. Empeços à Carne

          Lembro-me dum certo dia em que fui visitar o amigo... aqui sabendo existir pessoas que consideram amigo o conhecido o vizinho o eventual o fortuito o diferente o indiferente o próximo distante e aí pode errar pelo excesso; talvez meu caso no caso dele. Fora um dia ao bairro milionário levar-lhe um serviço – desejava encadernar um escrito num texto datilografado julgando ser a fina flor da literatura e não era, era apenas calhamacinho de retalhos da vivência – procurei o amigo para tanto, vira no jornal anúncio de sua encadernadora e só me surpreendi por ser localizada no bairro dos jardins, portanto milionário, embora constatado ao fundo da mansão. Enfrentei nessa visita cães e gatos, coisas juntadas a esmo e cheiro de cola e tinta além de ouvir a barulheira das máquinas. Apesar do dito os ditos cães não eram como pensei mastins ferozes guardando riquezas mas risonhos vira-latas e um só entre eles de raça famosa porém não pit bull que aprecia carnes frescas humanas... Não cheguei ver a esposa belíssima dele, ouvira e escutei a fala dos dois empregados do amigo, aliás o amigo custou atender-me atendendo antes coisas do trabalho deles. Pronto, agora tinha mais um amigo. Esclareceu aspectos do métier, satisfez-me curiosidades, combinamos a capa o tamanho a cor o material os dísticos e me fui. Semana depois encontrei-o mais sereno, conversamos não mais que amenidades. Posteriormente tornei por qualquer razão. Agora sim houve mais conversa profunda, o quanto se possa aprofundar, conversa entre íntimos.
          Chegara naquele acanhado espaço na área da riqueza, riqueza mesmo da vizinhança pois o amigo lutava a sobreviver; e então me franqueou certas coisinhas que não se expõe da vida conjugal aos de fora... eu já de dentro, supunha.
          A mulher lhe dera os pequerruchos ali – um  inclusive me trazendo algum constrangimento – os meninos e uma ga-rotinha linda, parecendo a mãe na foto de casamento exposta na oficina dele; os irmãos demais a fuça materna (aqui a abusar na linguagem do povo). A mãe sequer apreciava animais, não fossem os homens é claro. A ladração e os miados a incomodavam nos seus afazeres; quais? indaguei obtuso intruso mas não respondeu, em desconversa. Deduzi que a bela senhora não parando no lar, de dia nos quesitos profissionais e de noite nos encontros festivos com amigos, visto ninguém ser de ferro... Com isso arranjou muita gravidez, alguma se desfazendo a tempo com auxílio amigo, e noutras muitas ocasiões dera à luz: não via seus meninos? eu via. Fora por isso, perguntei aos meus botões, se separarem! O fato é que não obstante residindo ambos no mesmo terreno, dividiram o terreno por um muro, nada de muralha com ganchos de ferro a espetar ou cacos de vidro a cortar, porém com altura respeitável a conservar o respeito. Que os cachorros atenderam e os gatos não. Tendo ali um portãozinho chaveado e seguro separando as casas dos cônjuges. Havia, supus, um respeito ou empeço ou proibição! havia sim à passagem do advogado dela para o terreno de meu amigo, o muro seria em razão do divórcio, me indaguei. Do lado de sua ‘ex’ convivendo quase contra meu amigo, um sujeito do tipo que apelidam bicha, mui perfumado, o que a mim (a ele supus) provocando certa reserva...
          Mais adiante esse estado traria algumas complicações.
          Agora o menininho caçula chegara próximo da visita, eu; estávamos na beira da piscina – na área da encadernadora demolida, inclusive o pai enchia com esguicho de borracha o lago – então o garoto me viu mudar de bolso uma barra de chocolate a derreter naquele calorão, terá ouvido o som cartacterístico do plástico que remexi envolvendo o confeito e me pediu, imediato à negação gritou ao pai eu estar com o doce dele, embirrou após chorar berrar. Ficamos nisso; não por esse motivo percebi o amigo tristonho mas pela questão conjugal, melhor dizer como me falou: pela trabalheira com advogados. O dele não se entendia com o dela. O comum entre a gente de bens. Havia mais problemas.
          A cada filho a bela mulher acionava seu gay (parece as-sim que falam) o qual exigia exame de DNA comprobatório de paternidade; dessa maneira ganhavam a causa dos milionários que a senhora frequentava, seja nas baladas ou nas recepções mui bem regadas. Lá vinham as pensões etc. e tal e daí o casal vivendo nababescamente doutro lado; deste lado não propriamente a penúria de meu amigo e sim angústia; inclusive o amigo também precisando contribuir fazendo frente a novas pensões dos filhos de ambos divorciados... Quanto ao casal apócrifo, refiro-me à senhora e seu advogado, este se não macho pra valer ao menos pra valer esperto. Por fim não aguentando mais a situação meu amigo.
          Isso explicaria o fato de um dia abrir o noticiário na in-ternet e me deparar com o suicídio do pobre!
          O tempo marchou, sempre marcha e por vezes não o percebemos nem as mudanças que ele traz.
          Certa vez a visitar o local a troco nem sei de que, eis que me depara um problema; problema! drama.
          A jovem mulher – não compreendo o porquê de se manter sempre nova a velha esposa do meu amigo – ela me aponta um filho que nunca poderia imaginar ser meu! Mais nesse menos acrescido: me chegando intimação em casa para ir a juízo esclarecer sobre pensão de filho desconhecido... Pior nesse melhor mesmo o fato de o tempo, esse aparador e apurador de verdades e mentiras, o tempo revelar que todos herdeiros da jovem coincidiram pelo exame na paternidade de meu amigo, ingloriamente morto por antecipação.
Junho  2012




34. Começo e Epílogo

          Dona Deusa era uma deusa; se vocês me espremerem mais um pouco confesso toda verdade e toda ela no santo no-me: Deusa da Silva. Se não for bonito era bonita dona Deusa; tendo um quezinho de anja quem sabe de santa essas coisas de religião. Entretanto seu Martírio, decerto apelido onde já se viu um registro desse no cartório, o cartório não aceitaria e a divulgação do apelido se deveu à família, mais à mãe de família; dizem que sofreu demais pra pôr o filho no mundo e o mundo depois sofrendo a criá-lo. Seu Martírio não, sim um feioso horroroso, só conseguindo companheira enricando ou achando uma ingênua e inocente como a virgem santa Deusa.
          Não obstante a beleza dela e a beleza moral mais con-vincente esta que aquela, não obstante e, doutro lado, a fama garanhônica do esposo antes mesmo de tornar-se namorado e noivo da moça nos conformes e no costume antigo; enfim a-pesar de tudo exposto não engravidava. Ela. Ele não esperava ser emprenhado.
          Entra ano sai ano passa o tempo, a matriz ou desativada ou somente inoperante – e os rios de dinheiro fortunas gastas com médicos – em suma não pegava criança; o caboclo dizendo nesses termos. Deusa foi ficando em razão disso irritada, caprichosa (no mau sentido) e insuportável mesmo, embora rica. Levar aqui à conta a pobreza regional e assim quem tem um carro anteriormente um cavalo e uma casa com pomar e cachorros – é um ricaço. Ricaça e pobre ou solteira ou órfã de filho. Foi daí pensarem na adoção.
          Primeiro exigiu a família um filho de primeira grandeza: belo forte o mais lindo, feio de morrer o que recebeu. Devolveu a encomenda escura e aleijada à instituição de caridade. Diminuiu depois a exigência e assim chegou um menino branco se não lindo bonito por fora; horroroso por dentro.
          Porém o casal Deusa-Martírio desconhecia isso e apa-nhou amor desenvolveu cuidados com o apocrifinho. Modelou, tentou modelar, à sua feição o garoto; deu-lhe instrução formal, grau de doutor.
          Antes da formatura precisou tratá-lo, visto haver descoberto más influências sobre o rapaz. Seu tender à violência e até ao crime fez os pais gastarem mundos e fundos de seus imensos recursos nas clínicas e nos internatos para viciados nas drogas. Nisso entra uma via crucis de instituição em instituição a fim de recuperá-lo.
          Saía duma, enturmava-se com seus afins nos vícios; voltava. Mas não bebia, só fumava. E se perdia em pós e seringas. Além de envolver-se continuamente com os seus amigos no que faziam e dessa forma arranjar encrencas com a polícia.
          Anos assim. Os velhos, eram apelidados velhos pelo gasto nada casto rapaz... os velhos, velhos então; antecipadamente idosos, ela tingia os cabelos a remoçar ele prateava os fios perdia fios ganhava calvície. Ambos desgastados e se considerando infelizes.
          Contudo felizes com a formatura do doutor. Durante o curso tiveram que praticamente comprar a frequência teórica na escola particular. Agora o acerto final e as festas os cerimoniais.
          Daí o doutor misturou bebidas, não de seu hábito pois só fumava bastante e ingeria socialmente álcool, misturou com outras semelhantes ou mais bravias drogas e foi pedir-imperar adianto no atraso suposto de sua mesada; se desentendeu com Martírio, estripou-o e ainda tentou matar Deusa como queima de arquivo.
          O caso não foi arquivado. A imprensa farejou primeiro e depois estardalhaçou o farto alimento por semanas meses e as lembranças anuais.
          Deusa deixou ser deusa, aliás estava não mais que uva-passa e arremedo da jovem que fora; quando faleceu no hospital meses após a época em que o filhote viraria doutor mas virando presidiário.        
 Março  2009




35. Inúmeros Números N-Números

          Leledacuca. Ao menos menos que normal; normal sendo o que bebe fuma xinga bagunça briga transa troca casa encolhe e morre. Velório piadas flores reencontro “dá cá um abraço”. Não. Louquinho da silva; desses que passam por nós, os normais, e achâmo-los anormais. Desses. Contava somava deduzia acrescia e dividia. Sempre a gente esquece o vai-um ou se esquece do zero, se à direita, dizem os esquerdistas, se à esquerda falam nazistas. Não se entendia não entendia antes do não entender. Por causa delas.
          Sete mil, disse. Não sete não, sete é o ideal, a Maria mais de sete, bem mais. Deixemos para não complicar o ‘vai um’ desta vida. Apagou cálculos gastou borracha, borracha suja mancha o papel, precisa passar constante o dedo na parte mais suja dela a fim de tirar negruras para não sujar o almaço; fez conta por cima chegou à conclusão primeira: sete mil realmente, deixa a Maria pra lá (claro, iria cortar a língua dela!) Sete mil, sete mil multiplicado por trezentos e sessenta e cinco dias... bem – dois milhões e quinhentos e cinquenta e cinco e se for bissexto, dois milhões quinhentos e sessenta e dois mil. Hum. Digamos, disse, digamos que viva oitenta anos, porque se em um ano são dois milhões e quinhentos e sessenta e dois mil, oitenta vezes é igual a ah... a maquininha por favor! Isso porque na conta estava dando duzentos e quatro milhões novecentos e sessenta mil, a maquininha pelo amor de Deus! Assim tomou-a, chegou à mesma conclusão. Pera lá, falou-se, não é todo ano que é ano bissexto; tirou vinte vezes anos bissextos, portanto deduzindo cento e quarenta mil. Considerando os duzentos e quatro milhões e novecentos e sessenta mil e tirando os cento e quarenta mil, ficam duzentos e quatro milhões oitocentos e vinte mil palavras! palavra: é muito falar. Imagine se fosse, imaginou, imagine a Maria!
          Porque a mulher comum fala sete mil por dia, enquanto o homem cinco mil. Se ela, ele falou, o Louquinho da Silva falou, se tal mulher fosse a Maria... puxa, eu passaria oitenta anos não só mudo, pois não me deixaria abrir a boca, como precisaria mais oitenta só para um cálculo aproximado do matracar dela...
          Isso caso não errasse no vai-um, no dividir, estouraria a maquininha de pilha. É, acho, achou, acho que estouraria.
          E se foi, a estourar de rir.
  Maio  2002




36.  O Fim
A morte é o prêmio dos que não têm vida; é a alegria de sua tristeza. Mas a morte é ameaça e punição aos que a têm.  in Desaforismos & Intimias, p223

          Faltava a si não a compreensão do mundo no entendi-mento que o mundo tem das coisas; já se bastava no saber do que sabia. Alguns a chamá-lo matusalém a gozá-lo no seu des-gosto. Outros se achegavam naquele para-sepúlcro temerosos, quem sabe se não a se ver no ver... Uns poucos por sangue e laços em seu redor, se condoendo ou não, pois sempre há interesseiros, discordantes e periféricos (quer isto dizer os que se não aprofundam nem querem nadinha com o interior se prendendo na aparência tão só). Ninguém a imaginar tesouros poderes heranças vindo dum pobre diabo quase moribundo meio vivo meio morto no aguardo da agonia final... Tinha também os mais periféricos ainda e estes, de ambos sexos como nas outras categorias antes citadas, esses quase mantinham a caixa de apostas embora nacionais puros caboclos e não ingleses que se presenteiam nesse costume; apostavam no roxear lábios e olhos, olhos fechados olhos abertos cegos ou vendo parados sem mais desejar enxergar os sabores do mundo por volta; ou apostavam no silêncio ali perto em aguardo (mas aguardo do quê!) ou longe na conversa alta da brincadeira chã e na piada a matar o tempo de espera sempre longa afoitos; ou estes somente a antecipar o velório onde a bebida e o fumo empalidecem um pouco o nervosismo e lugar certo a tais errados, o defunto então esticado a cheirar suas flores que possivelmente não cheirando vivo, o morto nem estando ali com essas irreverências. Contudo era vivo, estava, embora morto para a vida como se supõe vida que não passa de existência, por vezes sofrida. Só aos poucos o da berlinda mentalizava o que ouvia, ouvia ainda apesar dos pesares naquela mostra cadavérica e esquelética em que jazia na cama quente com fragrância de desinfetantes e urina curtida. Estava nisso, sem graça sem jaça sem vida sem morte, quando chegou um aparentado, porventura aquele que se espera que espere o vivo para que vire morto em paz descansando... E aconteceu de fato expirar, antes tremer ter o roxo de aposta premiando quem na espera tanto e tanto; antes ainda pronunciou ou pensou pronunciar umas sílabas que coincidiram por sua vez com o nome do chegado. Assim deram por encerrado o último ato daquilo não chegando a cem anos. E iniciaram os preparos do velório, uma equipe procuraria regularizar o momento com assinatura médica, outras a tratar do sepultamento dos convites dos avisos e é claro nesse escuro o velório propriamente, mui esperado. Foi então que, mesmo não interessando ao interessado tanto atropelo e cerimonial, foi daí ocorrer o choro o estertor a sensibilização extrema, a hipocrisia de folga, e a santidade.
Fevereiro  2009

- - - - - - - -
Finalização deste volume: 
Marília  setembro  2012



































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



Nenhum comentário :

Postar um comentário