domingo, 29 de março de 2020

O Normal corretamente distorcido


0136(a ser posto no Blog Livros Inéditos)









                                  O Normal
                                              corretamente distorcido
                                                                   (romance)

                                                  Moacir Capelini



















moacircapelini@gmail.com



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                                                           “A tempestade põe seus ovos no cume das montanhas.”
                                                                                                       Lêdo Ivo
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                                            “Claro que a pureza nada pode contra a vileza.”
                                                                                        Franz Werfel




Cap. 1°    

 Tudo começou nesta madrugada fria de cinco de agosto de dois mil e onze, no ameaço de tempestade. Não uma tempestade com relâmpago trovão chuva vento, vento e chuva e medo e grito e terror e finalmente lamentação, comum ao ser normal. Não. A tempestade numa cabeça louca ou só aparentemente comum, a qual se afirma normal. Isto porque quantos são sãos quantos são equilibrados harmonizados no planeta sofrido a estourar nestes próximos dias com sete bilhões de homens!? O que importa é surgir a tempestade cheia de ideias, as quais serão no possível expostas por esta caneta nestas linhas neste papel a imitar texto, mesmo com palavras sonantes embora a se evitar cacófatos desnecessários e a cuidar da fiscalização da linguagem oficial sobre a oficiosa e, necessariamente, coloquial de cérebro comum se pensando normal. Aqui seria um normal corretamente distorcido apesar de ativo criativo inventivo. Tudo começou assim.
          Ah, há um lembrete em esquecimento que estas linhas precisam dirimir aos olhos leitores. Lembrete? mais um aviso objetivando nossa convivência, nisto exigindo conivência; ou é a conivência que exige a convivência para existir. Trata-se do uso (e se for abuso!) e mais que uso os cuidados com o aspecto ortográfico das palavras a serem disciplinadas no texto. Ou seja o expediente mui empregado na literatura que são os sinais do apóstrofo. O texto facultará essa forma para chamar atenção sim mas também e ainda mais sinalizar apontando vocábulos necessários entretanto não encontrados nos dicionários – e neste caso se inventa se cria algo no lugar, algo quase sempre correspondendo ao som desejado para a ação descrita. De resto é o coloquialismo já dito na forma popular do dizer e tentando no restante praticar a linguagem formal legal oficial aceita. Digamos que em tais expedientes se dando o direito na escrita a parcela de povo que toca à caneta, pois sendo realmente o povo mui prático por milênios o criador da língua e não seus gramáticos teóricos.
          Mas quem garante o tró-ló-ló aqui rabiscado? a Caneta.
          Sou Caneta Azul. Claro de sangue azul, de um azul esferográfico puro, nobre até prova em contrário. Dessas de plástico transparente sextavado para não escorregar nos dedos suados abençoados atrapalhados incapacitados a escrever nesse frio gelando impedindo direito o tato de quem tenha tato. Isso para a redação principal. Secundariamente tem a Vermelha para crítica e enfear o texto; e não dando a rubra no couro como dizem capiaus, então vêm a Verde, nada vendo o verde da esperança, longe disso pois derrotista fará volta e meia crítica por cima da crítica vermelha; e a Preta, esta a corrigir a correção da verde a qual corrigira a vermelha; todas atrevidas ao ver o mal no bem das críticas azuis, os azuis normais corretamente distorcidos. Amém.
          No entanto quem manuseará ditas canetas, a fim de expor o texto? a Mão.
          Sou a Mão, a dirigir essa toupeira burra tapada mero objeto azul de rasurar perfeições. Além do mais a natureza me deu uma igual diferente... diferente? torta e sem norte; e ainda me chamou gêmea dela, ah que raiva. A boboca mão Esquerda, estando as esquerdas fora de moda na sociedade atual, a Esquerda nem prumo tem. Quando por azar me firo ou tenho digamos um contratempo de bursite, então é um deus nos acuda. A bruta não sabe fazer nada no meu lugar, fá-lo sim mas errado e pelas metades; me dando aquela agonia. Porque não tem maior tormento que ver alguém que não saiba quem e o quê. Sai a letra horrorosa ininteligível e mesmo ilegível; assustando assim o Texto.
          O Texto, sou o texto do texto, grito, berrarei caso alguém inábil mexer indevidamente comigo. Apenas aceitarei carregar linhas certas de certas obras, decerto primas. Repudio as de fundo de quintal, as de entulho. Exijo boa redação com linhas e palavras sãs, com beleza com arte sem artimanha; enfim corporis sanus in mens sana, será desse jeito? acabaram com o latim e agora não dá pra saber a frase romana. Se não estiver bom e nos trinques... Ninguém vai desejar ver-me vomitar e expulsar porcarias; pois sou exigente.
          Estas Linhas. Vou pensar no caso do papel e das palavras sãs, cheios de nhe-nhe-nhens. À palavra digo afirmo reafirmo não dar a palavra. O papel então sequer deve falar! seria um papelão e de efeito ridículo – veja bem quem falaria: uma porção de restos, às vezes até da reciclagem de lixo, quer dizer lixo do lixo. Tanto quanto a caneta é um ser inanimado e sem direito a voto. Saiba quem necessitar saber que quem sabe sou eu, ou melhor gastando hastes e pontas a arredondar direi: nós. Quem sabe, quem realmente dá as cartas somos nós, Estas Linhas. Nós estaremos por nossa obra a dar palpite em toda obra. Esperem até ao fim! Fim de papo.
          Ora, todavia quem comandará, quem se desvencilhará, precisando, delas e de todos? o Cérebro.
          Sou o Cérebro. Se alguém citar insanidade, garantirei a sandice. Pior: apontarei uma como que verdade, apontarei a realidade nessas mentiras virtuais. Mais. Chamarei auxiliar-me a estatística, entidade costumeiramente mentirosa. Necessitando inventará dados; dados outros dados, maquiará e interpretará a seu jeito a criarmos a verdade, tão somente a verdade. A Mente... “não era o Cérebro?” era ora bolas, era e é; onde iremos parar ouvindo as Linhas o Papel o Texto a Caneta! no manicômio com certeza sem dúvida alguma. A mente, não minto afirmo provo etc. e tal, a mente está no cérebro; este é espécie de hotel, raramente com cinco estrelas a maioria nos sete bilhões não indo além de pensão barata, pardieiro de acolhida transitória. Nela, qual um quarto de hóspede pobrinho ou suíte luxuosa ou mesmo seu meio termo comum quase normal, corretamente distorcido, nela nele a alma, o espírito do freguês – se estiver livre é espírito eterno, se encarnado chamá-lo-emos alma. São tais entidades que estabelecerão parâmetros ao papel ao texto às palavras no texto e comandará com acerto (e erro, pois o errado e falho erra e inclusive o errado acerta no errado) dirigirá enfim as linhas, as quais orgulhosamente ‘se’ mentem Estas Linhas. Tendo um mais no menos: desejarão desejam desde agora interferir, dar palpites. Ainda prometem fazê-lo até o final da obra. Não seria que elas pretendem que seja isso o final dos tempos!
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          Sintetizando, a obra em questão deverá (aqui resumindo o conteúdo as ideias mestras o enredo enfim) deverá mostrar a estória de uma quadrilha, dessa bandidagem já corriqueira e que se vê comumente quase dentro da normalidade do entretenimento televisivo; tal quadrilha a planejar executar ferir mesmo num assalto certa mansão nos jardins de uma megalópole. Os criminosos espreitam entram assustam exigem cobram avançam tomam riquezas, todas riquezas – entre elas seres humanos e em especial uma bela jovem, observada desde o começo do ‘trabalho’ dos profissionais por um deles; claro que o bandido tem que ser o mocinho belo forte atrevido impávido corajoso e macho. Aliás se não tiver esse condimento, desligam a televisão, não dá ‘ibope’ e então como os magnatas darem o leitinho à mamadeira de seus filhos únicos!? Daí... Não, paremos; quem quiser leia o restante da obra, embora palpites das Linhas. Que aguente o reclamo geral de Linhas Papel Palavras Caneta, quiçá da Mente no Cérebro.
          Um autêntico desastre. Que não seja ecológico a acertar modismos mas uma tempestade pra ninguém botar defeito. Aqui sendo original.





Cap. 2°

Mas Xis não pensava em tempestades originais, pensava noutra coisa. Ou nem pensando por absorto e longe do próximo; a rigor próximos, os seus amigos conviventes e coniventes igualmente.
            Em verdade olhava não vendo o grupo perto de si, distante no pensamento. Tem gente que se abstrai e deixa seu presente aos presentes fugindo ao sonho. Pesadelo? talvez. O fato era não estar dando certo; ou assim a pensar Xis, sem pensar o descaso do outro. Contudo E dava lá seus pulinhos, enrolava colegas seus na empresa de eletricidade a fim de que cedessem a ele o caminhão. Isto porque seu cargo nada tendo que ver com a função de motorista, embora igualmente chofer e dirigindo seu fusca o qual no bairro de periferia se dizendo um monte de latas, piormente veículo talvez roubado ou adquirido com tapeações e velhacarias; porém havia de fato quitado o automóvel mas a viver não obstante a fugir de flagrantes policiais por causa da documentação improvisada. Com certeza logo arrumaria um jeito de trazer ao companheiro Xis o caminhão com aquela parafernália adaptada ao chassi, como escadas rolo de correntes de aço e demais aparelhagem de segurança para lidar com fios e postes no meio urbano. Claro, Xis desconhecia o esforço do companheiro no mister e assim absorto aparentemente, de fato preocupado. Por isso se perguntou, caso alguma coisa desse errado e não cedessem o equipamento a E, nesse caso o que poderiam fazer? inclusive imaginava substituir a ação em planejamento por outra saída a ser posta numa discussão. Quem sabe, pensou, quem sabe subornando um graduado da companhia de eletricidade. Tinha no respaldo como exemplo uma tentativa semelhante noutra cidade, malograda parcialmente em vista da dependência de outrem falho; que fazer agora com o novo pessoal a seu redor, não suficientemente confiável...
          Por isso recorria, sem saber sem perceber fazer, recorria a um sestro ou tique nervoso sempre que preocupado, o de coçar a nuca, o que bem esdrúxulo.
          Por via das dúvidas Xis pensou e imediato reuniu sua gente a rever e ressaltar o fundamental nos planos; mesmo sem a presença de E, companheiro encarregado de ação básica ao coroamento da questão. Sim, fundamental a parte confiada a E, porque se não houvesse a suspensão da energia na área onde o trabalho deles – tudo cairia por terra e havendo prejuízo medonho ao rendimento esperado. Dessa forma, embora aguardando comunicação de E a todo momento, juntou o pessoal no quarto dos fundos de sua residência, lugar temporário e moradia segura.
          Era casa alugada, pagara já três meses ia para o quarto aluguel (esperava com ansiedade, apesar do dicernimento e da determinação de sua personalidade forte; de fato esperava não ter de pagar a quarta prestação estando no vencimento dela já longe dali...) Certa moradia do tipo casa de pequeno-burguês, com o básico a viver mas aguardando poder melhorar melhorando a vida – o trabalho que planejavam e agora discutiam tornaria ótimas as condições, talvez definitivamente. Na verdade tanto Xis quanto o restante dos amigos conscientes não haver milagres para enriquecimento e independência financeira, pois em comum ou noutras oportunidades anteriores e com outros comparsas ganharam mundos e fundos porém gastaram com facilidade, alguns deles tornaram à antiga situação de quase penúria após ter tido tanto dinheiro, penúria ou pelo menos estado de insustentação. No grupo de um modo geral todos passaram, inclusive o chefe Xis, passaram na luta da existência pelas fases: empregado demitido desempregado e daí se metendo a expedientes de subemprego e até a cair nas atividades fora da lei; alguns fosse por suas tendências fosse pela ocasião ou ainda por falta de apoio social, alguns tinham perdido a pouca estima que haviam depositado em si mesmos; enfim bandearam-se para o crime. Uns mais outros menos se enveredaram ao roubo e até ao homicídio, enquadrados indiciados fichados no processo de latrocínio. Em suma, não havia naquele meio nem anjos nem santos. Todos, apesar disso, se punham para consumo externo como bons cidadãos; desse tipo religioso e de cumprimentar o conhecido ouvir com respeito vizinhos e desconhecidos. Dentro do grupo no entanto todos, indistintamente todos, temiam os colegas ou companheiros de infortúnio.
          Agora era algo diferente, ou apenas se dando uma pausa nesse temor para eficiência do serviço; as mentes sob orientação de Xis assim atentas ao chefe.
          Xis não chegando a ser carismático, não obstante em seu meio fazendo valer o ímã e quase a idade (alguns dentre eles com mais de cinquenta, Xis um forte quarentão). Ou seria que a experiência no métier fazendo a diferença. Enfim todos atentos.
          Repito, disse o chefe, não se pode usar daqui por diante outros termos se não ‘confeitaria’, guardem bem ou vai tudo por água abaixo. O desejado tesouro – e na confeitaria deve ter demais! – o tesouro é para nós ‘bolo’, às miudezas do bolo daremos o apelido ‘doces’. Está bem? Cuidado. Quantos grandes empreendimentos se perderam no planeta por causa dos descuidos e da falta de atenção. Aqui é indispensável, visto um deslize... se não cairmos todos nós ao menos alguns indo parar nas mãos dos ‘macacos’... Já vi esse filme antes e me safei; o prejuízo por causa da desatenção no serviço!
          (Neste ponto narrou abreviadamente trabalhos nos quais participou; num deles estando um dos presentes e nisto pediu a anuência e o testemunho da testemunha, quando todos voltados para ela. Retomou as linhas mestras da próxima tentativa. Antes de continuar se lembrou rápido como rápido é o pensamento, do atraso na comunicação de E e ainda se indagou: estará conseguindo o caminhão de luz?)
          Ah como os princípios desta época ‘contaminam’ as diversas atividades humanas. Pois na dita reunião chefiada por Xis, em que todos a falar baixo, talvez cuidadosos e mansamente, nela um dos ideais sendo exatamente os postulados democráticos, tão abusados e mais incompreendidos nos dias de hoje; então o comandante dando oportunidade para todos ou a quem precisando ou pedindo esclarecimento sobre a empresa que iriam levar à frente. Não só dando a palavra mas insistindo sobre a conquista maior a ser obtida; como que a despertar a consciência e a responsabilidade dos seus membros. O que ele ressaltou ao publiquinho acanhado porém demonstrando muito interesse na consecução do objetivo. “Nisto todos ganham tudo, ou tudo perdem todos!” Não há alternativa nem escapatória, desde que estejamos em ação; ora, não queremos frouxos entre nós. Agora tratando as fases e as minúcias delas para a proposta essencial, que era abordar a confeitaria e sub-repticiamente conseguir doces e bolos, depois enfatizou a consequência, terminada a inicial abordagem; pôs a questão assim o líder: como esconder temporariamente a riqueza; como e quando contatar os receptadores; e finalmente o capítulo difícil da distribuição do ganho, no ganho chegavam a ser otimistas.
          Durante mais de hora trataram pormenorizadamente a futura atividade e após passaram a analisar a oposição.
          Claro o oposto ser a lei a ordem a moral burguesa de nossos tempos, com seus representantes legais e a incompreensão que atinge tais representantes, mais especificamente os fardados. Óbvio todos conhecerem por saber ou vendo pela tevê a ação dos agentes da lei. Comum a crítica popular aos abusos e demais distorções na polícia e igualmente distorções e abusos na justiça, pondo em xeque princípios esperados na ação e mais pelo descaso na ação e no retardamento de processos e por fim no julgamento da coisa pública. Diríamos, sem precisar bicadas destas Linhas, haver no povo uma descrença nos que devem zelar e fazer valer a lei e a ordem, consequentemente. O grupo põe em pauta esses questionamentos para se valer das falhas visando obter benefícios. Dessa forma discutiu a assembleiazinha esdrúxula talvez e um pouco acanhada. Um dado que se pôs a extrair vantagem foi a burocracia, sempre a lerdear qual tartaruga e lesma; facilitando assim abusos. Outro aspecto lembrado a tornar possível a empreitada, a corrupção.
          Os ‘macacos’, afirma Xis, eles são até nossos aliados... Reticenciou a causar certo impacto, impactozinho dado o tamanho do congresso mambembe e improvisado. Aliás era uma das várias reuniões já feitas, esperando o chefe fosse a última antes do assalto à confeitaria. São em boa parte nossos amigos. É só ligar hoje mesmo a televisão e veremos informes sobre corruptos neste país, sobrando muito nisso os políticos, todavia corrupção por todos setores e inclusive nos quadros da polícia – a ponto de os macacos nem eles a confiarem nos outros companheiros macacos. Houve um magnata americaco, o mais rico entre ricaços, a dizer que todo homem tem seu preço. A ideia vai além e no que nos atinge saibam vocês que os macacos se vendem; a propina nos traz aliados em muitos deles. Todo mundo sabe disso e nós devemos nos servir desse buraco nas hostes da lei. Inclusive se fosse há um ano atrás valer-me-ia de certos contatos policiais que tive noutra empresa. Aconteceu de um tiroteio eliminar uns indicadores fardados, outros amigos da gente acabando presos. Nosso caro I presenciou até alguns desses desfalques em nossas linhas e pode garantir quantos dedos das mãos perdemos. Iremos agora perdê-los pela falta de cuidado!?
          A assembleia ilegal se alvoroçou um pouco e decerto cada um dos membros pesando seus prós e seus contras na próxima empreitada sob comando de Xis. Um deles a fumar nervoso, o chão do cômodo ‘floreado’ de bitucas e o ambiente era fumaça, fumaça talvez ainda maior e mais densa no pensamento, quiçá no temor que o futuro amiúde põe nas mentes comuns, pesadas na consciência ou não. O comum aqui seria normal! Isso porque em tal conjunto de seres a estudar um plano, o qual não podendo falhar sequer num detalhe, é inclusive praxe que exista a desconfiança... Não, sobre Xis não pesa esse fardo que por toneladas aflige a humanidade. Mas entre os participantes outros havia muito desse negativo: uns não confiando especialmente nalguns companheiros, outros ainda em todos, quem sabe mesmo na chefia da empresa demais arriscada e de grande valor; para compensar riscos vêm outros riscos a trazer os maiores ganhos possíveis, tudo simbolizado à turma como bolo. Seja como for, havia tensão e apreensão.
          Apreensão maior certamente em Xis. O que andaria fazendo E, conseguira dobrar seus companheiros da força & luz? não se daria uma notável e talvez incorrigível defecção! Sim porque E não sendo intocável, visto ser aceito no seu meio normal, ‘normal’. Por anos trabalhava com salário exíguo sim entretanto com família constituída, conversara Xis inclusive com dona Maria e uns filhos dele, o homem tendo amizades no bairro pobre e até o fusca ‘empurrável’ do companheiro E era do seu conhecimento. Portanto não um servidor da causa deles como sendo à toda prova; apenas caíra nas graças por andar anos endividado e agora atraído na possibilidade ter um extra, perigoso sim mas ganho notável, quer dizer o bolo ou sua parte nos doces, isto uma questão ainda aberta e a ser discutida no grupo. De maneira que confiava desconfiando das forças ainda não experimentadas e de sua possível determinação, de sua coragem também possível. Era o caso específico do amigo E. Foi nesse momento lembrar Xis (não comunicou, claro, a temência aos companheiros; o contrário seria inabilidade política num chefe que se preze) foi nessa lembrança ouvir o sinal do celular chamando. Todos ali num sobreaviso silensioso a ‘pescar’ o que falando o outro extremo do fio sem fio por mil e um quilômetros distante via satélite a transmitir. Pelas respostas de Xis deduziram os outros presentes o sucesso do funcionário da companhia de eletricidade, agora próximo dum transformador e pronto a desligar a energia da área da Mansão.





Cap. 3°

Aquele dia quase noite, em que todos na expectativa e no aguardo de contato de E com Xis – estando a equipe de plantão sendo a ‘paz’ do silêncio incômodo – aquele dia se transformou se modificou com o diálogo do companheiro lá longe nos jardins enquanto eles aqui no quarto dos fundos da casa do chefe, todos em preparo a mais um serviço; ou o primeiro trabalho de conjunto à maioria não experimentada a desafios tão espetaculosos como era provável o assalto à confeitaria. O agrupamento acompanhava o diálogo. “Está seguro que o transformador seja o da área da confeitaria?” indaga  Xis o mais baixo possível para não ferir o silêncio que se fazia e a paz necessária a todos, até aí se falando ciciadamente para não ferir a mesma paz o mesmo silêncio... Num instante da conversa das extremidades, valendo saber o chefe aqui e lá o companheiro na boca do seu celular às orelhas do celular do chefe presente, Xis lamentando o som telefônico falho e insuficiente observa “você está me parecendo a falar dentro duma lata vazia de querosene!” e sorriu de sua graça sem-graça para desanuviar decerto a assembleia carregada, o outro terá sorrido e comentado de leve lá longe.
          Estavam assim, os homens num alerta silente o chefe a dizer ou a escutar o comandado no celular, quando bateram... Bater aqui é uma intromissão de espantar qualquer paz conquistada até nesse ponto ou imposta pela situação um pouco carregada constrangedora tensa, como se pode inferir. Eram palmas, umas leves finas mansas tímidas qual palminhas de criança de não assustar ninguém; outras contundentes fortes ásperas duras plenas de energia, diriam as Linhas: machas pra valer; palmas dos visitantes, os quais poderiam ser vendedores, como esses vendedores de tudo um pouco nas horas indevidas (exatamente assim ocorrendo pela tensão no grupo quase fechado a chave planejando bolos e doces...) ou, isto um pior no intrometimento social: uns cobradores de qualquer, qualquer pessoa entende a ofensa... Na verdade era um casal de evangélicos, ela bela graciosa de cabelos presos nos seus longos fios louros enrolados por cima; ele forte pra valer sendo macho, embora manso até prova em contrário, lógico. Lá dentro havendo o caos!
          Xis percebendo a intromissão, sempre na hora indevida é bom repetir, percebendo isso fez sinais cabalísticos ou só ridículos em que a mímica substitui a voz, a voz a serviço e comprometida na causa de bolos e confeitarias e a obedecer quase cegamente ordens telefônicas – com a mão esquerda pressionava o celular contra a orelha vitimada por ser meio cega da audição a fim de escutar E na lata; com a direita que no momento coçava a nuca nervosamente, deixando o ridículo hábito de coçar sem sentido a cabeça, com essa mão direita falando aos companheiros para despachar intrusos lá fora, que um deles atendesse o ‘cobrante’ provável ou outro chato ofensor, atendendo sim mas sem implicar nem complicar a causa é visto; e igualmente sem interferir na precária ligação via fios sem fios entre ele e seu contato. Se dispôs ao mister I, até se esquecendo do cigarro por anos a amarelar o vê dos dedos prendendo aquela arminha cilíndrica inocente de praticar suicídio com sua fumaça, inclusive esquecendo a quase bituca a lhe queimar o nó dos artelhos – para correr atender a descartar o casal. A jovem criança quase não falou nada, apenas bicou manso qual menino tímido, e podia falar quanto quisesse no império da beleza pois a gente suporta bem matracar a mulher bonita, no caso sendo tímida porém numa triste compensação o consorte forte morte à paz, ao silêncio da paz, falando ele pelos dois, quase discursou toda a Bíblia àquele pecador recendendo a tabaco; pecador já ‘contaminado’ pela educação e pelo respeito; nisso o fumante joga longe a bituca, a bela acompanhando meio a sorrir o voo do brinquedo do morador, ela pensando ser o dono da casa, I a encavalar o toco de cigarro no indicador com o polegar e aí atirando a fumaça o fumo o pecado o brinquedo no arbusto do jardim, no que aquela fêmea olhando com seu ver menino... Sim, não teve piedade cristã o macho da espécie evangélica: falou falou falou séculos naqueles pobres minutos; os pregadores deram conselhos deram panfletos deram convites e deram agradecimento para I, I não podendo, naturalmente, dizer que estava em nome de Xis aguardando o desfecho duma ligação legal possivelmente ilegal.
          Tornou I ao convívio dos seus; narrou sucintamente o encontro dum pecador com pescadores santos, a santa, confiou I para ouvidos amigos, era bela e graciosa. Resumiu quase mudo de tão baixinho o colóquio lá no portão. Enquanto isso Xis ligava desligava interrompia insistia religava os sons de E no celular; antes que isso: este é quem não ligava não ligando direito e certo a voz, ainda mais a voz de E rouquenha lá longe. Xis nervoso, dentro dum nervosismo educado e quase suportável, escuta I a sintetizar sua participação religiosa; e por sua vez resume ao público o que ouviu do outro lado do celular, importante ao atendente e para os outros reunidos ali, a repassar com esse tentame os passos próximos possíveis propostos à abordagem da confeitaria seu bolo seus doces e o demais, demais obviedades.
          No outro extremo, noutro aparelho celular não roubado mas adquirido a duras penas nas sobras sempre em falta; no outro extremo, suando nas bicas, E fecha a boca do seu telefone, guarda aquela fonte de desentendimento pra se entender, guarda num porta-celular de percalina ou de couro gasto usadíssimo e prende a seguir tal parafernalinha com presilha num dos bolsos e aí, só aí, põe como se diz a mão na massa. O povo aprecia este dizer, E muito povo.
          Sofrera sofria até essa altura injunções das exigências sociais do seu estrato, baixo diríamos a repetir pobrezas. A família pesada, dona Maria até não muito gastadora (a oposição sempre a se referir a ela como “mulher gastona”) não demais ao menos menos que outras, não tanto quanto a comadre ‘x’ a comadre ‘y’ e a vizinha deles; no entanto a esposa doentia. As crianças... bem, apenas o mais velho casado e portanto carta fora do baralho, o que também dizer popular, e a filharada menor com as suas necessidades maiores e ainda mais necessidades quando a febre a moléstia a ambulância o pronto-socorro o hospital – isto chover no molhado, fala o homem comum. Enfim gastos muitos contra receita pequena dura curta. Diríamos, não interferindo nenhuma Linha na questão, diríamos o normal na luta de séculos da gente, o povão: de um lado a receita encolhida, doutro o gasto bastante, ironicamente não bastante; o corolário a dívida com exigências a empréstimos juros juras e usuras no meio, para intermediar lucros na sua perda. Dessa maneira E ficava cada vez mais devedor, enquanto o gasto se não ‘gastança’ da família aumentando sem parar e havendo uma agravante prometedora comprometedora ingrata: a precariedade no emprego dum mero escriturário na empresa de luz, nela inclusive a despontar certa incerta ameaça de corte aos funcionários mais velhos, portanto menos produtivos teoricamente, por valerem-se das garantias trabalhistas legais. Rondavam promessas mais que veladas e que se efetivavam sobre colegas nas suas condições, por aqueles tempos em que o rei era o computador, faminto frio equilibrado e apreciando deletar dados imprestáveis ao departamento de recursos humanos, desumano, dados esses de mais com produtividade de menos...
          Foi nessa crise lhe aparecer Xis, o qual se fazia acompanhar dum desconhecido, este parecendo mais aquele tipo de pessoa que só serve para testemunhar nosso testemunho. Isto quer dizer nossas vantagens nossas conquistas e mais ainda nossas promessas... As promessas costumam se impregnar de grandes e próximas vitórias futuras.
          Foi nesse ponto entrar um enorme ganho – fácil? ninguém proporia tal dentro de ambiente das profissões sérias; difícil. Difícil mas prometedor de muitas vantagens financeiras e quiçá enriquecimento.
          Na cabeça do funcionário E passou o cineminha da quase miséria de sua rotina como simples trabalhador, trabalhador assalariado e sério; e devedor; e não vendo nenhuma solução precária, por precária já em si não solução... Daí, diante da proposta daqueles amigos caídos do céu, a si salvadores; então visualizou e vislumbrou uma riqueza extraordinária; aquela que depois passaria a chamar-se bolo com alguns doces, estes mais amenos pra quem nada tenha como promessa na promessa da rotina. Numa fração de segundos conseguiu ver o fusca vendido ao ferro-velho e na garagem improvisada uma nova e sólida garagem contendo um auto zero-km sorrindo aos passantes na rua. Conseguiu ver uma residência operária virada mansão com lacaios e tudo que exige a riqueza imobiliária; viu de relance outras suas propriedades que nunca possuíra, tendo apenas a casinha de pobre construída com dívidas eternas e por retalhos melhorados ano após ano somente. Pôde ver também as viagens ao exterior, não sabia para onde, onde é sempre longe. Pejou-se um pouco sim mas pôde vislumbrar a bela secretária nova e a nova mais bela ainda amante, que chamaria ‘namorada’ pra não ficar mal à sociedade; nisto aliás auxiliava muito a dona Maria, nessa altura gasta velha lamentadora e cobradora; e ainda se recordou não ter mais um alento sequer da lembrança do tempo do jovem casal de namorados no jardim público indo pra lá pra cá de mãos dadas e corações juntos.
          Ora, o encontro com os dois amigos em meio a esse desastre sem esperança dum final não era equivalente à grande sorte, semelhando a sorte na loteria!?
          Dessa forma foi que dias após dias de abordagens conluios e acordos casou-se E com o grupo que se formava, cuja ação mais próxima e produtiva seria o assalto à confeitaria, advindo bolos e doces à beça. Isto porque a imaginação não tem peias nem esparadrapo na sua língua e ainda é capaz de ultrapassar o ganho o sonho e o sonho do sonho. Não se computa pesadelos, o imaginário não permite negatividade.
          Todo este esplanar passou de novo pela mente de E ao chegar com o caminhão ainda funcionando, agora já discutido com Xis o percurso os percalços e sua tarefa, a encaixar absolutamente na tarefa de cada um dos membros do agrupamento. Não podia falhar, quem sabe não podendo sequer tremer no andamento dos seus minutos, com atos medidos e cronometrados desde as ordens da chefia.
          Olhou ao redor depois olhou o poste certificou-se saber a contento o que lhe ensinara um colega da companhia de luz, o painel as alavancas os pedais o funcionamento do relógio indicador (já anteriormente recebera aulas do dito colega ao manejo da geringonça; aqui entra um porém: E ofertou um presente ao colega sim e não esclareceu nem se comprometendo a dizer sobre a confeitaria; óbvio que o outro não sendo um comparsa mas decerto imaginou coisas escusas...) Fez mais: experimentou antes da ação propriamente dita a aparelhagem e os instrumentos todos a funcionar satisfatoriamente.
          Tremeu então pelo medo ao risco; anteriormente não conseguia dormir na preocupação e na ansiedade, irritando a esposa, agora estava na iminência do risco; realmente um risco e essa tarefa algo inusitado a si, a si a quem não se admintindo erro; porque a possibilidade fatal extrapola a rotina dum ser apenas funcionário comum, sobretudo quando não se admitindo falhas, exatamente o caso nessa empreitada perigosa. Aí suou, tremeu, engrenou marcha em primeira, devagarinho, encostou o veículo no poste; olhou em cima dependurado aquele enorme retângulo escuro no claro das lâmpadas a atrapalhar tardias mariposas a vercejar luminosidades. Pressionou o comando, elevou o guindaste, acoplou como ensinado e indicado as garras no extremo do aparelho transformador – ‘bateu’, como dizia sua linguagem chã, bateu em seguida uma ligação de aviso final a Xis todo ouvidos. Assim puxou a chave desligou a energia e calou a luz de toda uma pequena região, rica e pobre agora no escuro! Fê-lo e imediato abaixou os tentáculos do guindaste, movimentou o caminhão na direção da confeitaria, a se encontrar com os seus.





Cap. 4°

Enfim aquela reunião se pensando a última não foi bem última, precisando com paciência esperar outra apressadinha no possível, a acertar as coisas sobretudo as coisas pendentes. Todos tendo suas dúvidas, piormente alguns não consientizando dúvidas; assim como nem sempre a fiscalizarmos o que fazemos e até nosso dizer em público, imediato dizendo. Não vê por exemplo cheirar mal, além do recente hálito dum mata-bicho ingerido às pressas antes de chegar aos companheiros e a Xis. Curiosamente e a três por dois o homem exclama “graças a Deus” ou “Deus me livre” e quando antanho teve a sorte de acertar uma bala num desafeto com tiro traiçoeiro disse vendo o cadáver fresquinho a constatar não haver morto o morto errado, acertando, falou baixo: “graças a Deus ter apagado o João, antes que me visse!” Qual seria o pensar dum criminoso sobre religião? a religião nos parece uma casca a estar bem com a sociedade; mas enfim não conseguimos penetrar no âmago da questão nem nos meandros do pensamento alheio.
          Agora, todos suados, ele não se preocupa igualmente suar cheirar falar pelos cotovelos, embora baixinho e dentro da cartilha do chefe. Quase gargalha sorrindo alto dos apuros de I frente aos evangélicos. Vai além: sai um pouco do grupo ver se vê ainda um resto do cheiro da pregadora que o outro diz ser bela e graciosa; aí acorda, se espanta com todos olhando para seu lado e então a se ver na berlinda e sentando-se quem sabe envergonhado e constrangido no seu lugar. O chefe nada comentou, apesar da vigília constante que exerce sua atenção a estudar aqueles comparsas, os quais poderiam pôr em risco a abordagem da confeitaria. Fazendo de conta não haver notado nada extraordinário prossegue na sua peroração com voz velada e mansa amansada pela educação e a vivência e mesmo pela posição ali junto daquelas feras. Sim porque o homem não é o lobo do homem? Comunicou que a fase crítica – a parte exercida por E, o caminhão, o transformador, o claro no escuro e portanto o escuro na zona confeiteira – que essa etapa ainda precisando uns retoques... aguardassem em guarda. Mais tarde, bem mais tarde, não tão demorado embora os ponteiros do relógio sem pressa alguma, mais tarde efetuariam a abordagem prevista. Quanto a E da Silva, quase dia imediato à abordagem seria demitido pelo computador da companhia num conluio com diretores do R.H., desumano como dito. Demitido por razões não suficientemente esclarecidas; recebeu alguns trocados na demissão à força; tanto quanto outros seus colegas de função e um mais graduado, não sendo aqui o local a encompridar tais sofrimentos. Enfim a empresa de luz devolveu E pra dona Maria da Silva. Isto tudo não cabe na confeitaria; desta somente se adianta um atraso mais complicado. Sabe-se ainda que E pleiteou de sua parte a sua parte no bolo e nos doces aos seguidores de Xis posteriormente. Mas isto no agora das Linhas do Texto do Papel rabiscado por certa incerta Caneta de sangue azul – agora não tem cabimento e se deve punir a boca das orelhas da paciência que não se habitua a esperar o andamento do caso. Por isso voltemos à última reunião após a anterior reunião.
          Antes do ajuntamento dos amigos na confeitaria, então E já desligado a energia do pedaço; antes disso houve por meses alguns problemas no recrutamento dos homens.
          Não eram santos a escolher. Será que Xis fá-lo-ia fossem puros... provavelmente não, o assalto previsto exigia coragem e determinação, não apostolado e caridade. A direção do grupo e a necessidade de serviço exigiam que os candidatos a membros dessa ‘confraria’ esquecessem, mesmo que por alguns dias, seus dias limpos e mais se lembrassem dos dias sujos, para não terem medo a se emporcalhar mais, preciso fosse... Que não fossem demais conhecidos pelos macacos, então marcados e seguidos. Arregimentou-se por meses a gente marcada ou só ferida no seu brio; não se esquecendo relacionar os que tivessem menos culpa no cartório social, com pequenas afanações.
            Assim agora reunida aquela gente, observava o chefe todo mundo de um modo geral a falar ou a receber no celular suas mensagens particulares, igual ele mesmo na chefia. Alguns pareciam colecionar aparelhinhos. Se bem que nesse mal pedira impondo que emudecessem desligassem os telefones durantes a sessão de paz e silêncio; apenas o dele desperto a contatar E a favor da causa de todos. Diria Xis, disse no pensamento ao observar o uso do aparelhinho telefônico: todos armados com seus celulares! seus porém a maior parte roubados por aí dos desatenciosos ou vítimas. Alguns faziam disso comércio; outros contatavam amigos prisioneiros ou ainda davam um jeito de fazer chegar aos seus queridos presos os celulares; ou através de familiares ou por profissionais advogados advogando essa causa infeliz de nossos dias...
          Via Xis uma gente chã – ou talvez não desse tanta importância ao fato, pois o meio condiciona a gente vicia a gente a gente não mais sente achando tudo normal; corretamente distorcido. Não obstante causava-lhe um certo nojo, não pela sujeira no vestuário dos outros, mesmo porque havendo a decência para consumo externo no grupo à sua frente; mas outra vez teimamos na ‘dopagem’ em vista o costume. K por exemplo, um sujeito baixo pequeno de olhos ferinos, com o hábito desagradável de limpar o salão. Assim se expressa a gente do povo miúdo sobre o vício de cutucar a mucosa ressecada nas fossas nasais; fá-lo o homem comum desabridamente, distraído ou consciente. Daí K, sequer limpando depois desse ato medonho e aceito o indicador com seu grudinho nojento no lenço; ocorrendo ainda pudesse tê-lo sujo a possivelmente limpar a sujeira do dedo... ou nem ter lenço. Tanto assim que Xis arranjando sempre uma forma banal mas educada, portanto mansa e cuidadosa, de não ferir o companheiro K e também não se ferir enojado nos encontros e na proximidade do homezinho – não lhe estende a mão direita torta no sujo no cumprimento; descarta o constrangimento dando umas palmadinhas amistosas nos ombros da submissa criatura. Por outro lado K um membro confiável; o quanto se pode ceder como avaliação ao lobo...
          Todavia o que realmente contando, seja na visão ou observação do chefe, não eram essas picuinhas que atingem mil pessoas nos bilhões do planeta. Eram os ‘feitos’, quase sempre notáveis e negativos, aqui se pensando em termos de Linhas e Textos e quiçá Canetas azuis. A sociedade quase não tolera a violência, comum em nossos dias; não sabe como lidar com ela tratá-la vencê-la livrar-se dela. Neste particular o agrupamento de Xis não atingia 100%, atingiria sim na violência fossem celerados, não eram, eram apenas negativos ao bem-viver social. Havendo no seu meio assassinos leves, aqueles ferindo sem intenção de matar, sendo assim mesmo crime. Porém o que tendo aos magotes eram ladrões. Curiosamente não se considerando ladrões, apenas fora da lei ou injustiçados por ela. Afanadores baratos como batedores de carteiras, elementos envolvidos no furto sem grandes repercussões e sem registro policial. Contudo não se sentindo criminosos por isso; alguns inclusive se tinham por vítimas. O melhor – e nisto nem Xis escapando – o melhor mesmo era não pensar que pensavam o que pensavam; às vezes é mais positivo não mexer na caixa de abelhas... Digamos que no trato diário, naquela reunião meio apressada por exemplo, digamos que preferissem os amigos conversar em cima da nova e promissora abordagem da confeitaria e seu bolo rechonchudo para enriquecer quase da noite para o dia milhões com milhões. Ora, assentaram de fato a noite para o dia do enriquecimento, ilícito pode-se garantir desde este momento.
            Classificada assim a questão, se preparam os membros ao trabalho, um serviço por gente desclassificada.





Cap. 5° 

Uma decisão difícil ou só complicada e constrangedora, estava configurada no limiar do assalto à confeitaria; mas Xis precisando tomar tal decisão para eficácia do projeto. Teria que mexer com seus homens, observara dias nos últimos dias o comportamento dos mais tíbios e portanto não confiáveis entre outros membros. Todavia nisso deu-se um inusitado que o favoreceu na tarefa ingrata; a rigor um fato bom para o delicado mister de cortar seu pessoal... Uns, exato dos mais aguerridos combatentes naquela guerra (com a contrapartida de exigir o butim após o assalto, um prêmio que seria fatia maior no bolo e não aceitando a ‘miséria’, diriam, da riqueza de apenas uns doces:) uns desse tipo foram, melhormente fora do meio, o meio confeiteiro bem entendido, esses foram sacrificados pelo acaso; acaso o acaso existisse. Vê por exemplo foi preso e mais três outros foram mortos pelos soldados num confronto corriqueiro no mundo do crime; tais servidores da lei por sorte não comprometidos como ‘aliados’ da gente de Xis. Vê entretanto fora sempre ameaça constante ali no grupo na vivência fora do grupo e piormente estando na cadeia, por ser provável dar com a língua dos dentes. Este drama à cúpula do grupo prosseguiria até que ele fugisse da delegacia improvisada como presídio – felizmente noutro dia, noutra noite a ser mais preciso, tomariam a mansão e o problema diminuiria muito. Assim Xis começou sua tarefa de limpeza.
          Até nessa altura havendo confiáveis apenas uns dois ou três homens, e os dois da cúpula dirigente, com os quais o chefe poderia contar; mas até aí não ficara claro a confeitaria ser a Mansão Ipsilone, cuja fama e poderio demais sabido na sociedade. O velho Ipsilone a controlar boa parte dos meios de comunicação e detendo colossal influência no empresariado do país; inclusive fazendo o controle sobre aliados na bolsa e no sistema financeiro; sendo ainda representado no exterior, mancomunado a setores de ganhos milionários e possivelmente – isto nunca se prova numa terra de ninguém! – com gordos depósitos bancários nos chamados paraísos fiscais... Enfim o chefe burguês um poderoso entre poderosos.
          Tornemos à limpeza de Xis sobre seu bando; voltemos antes que certas Linhas nos puxem as orelhas.
          Agora ficava mais claro e necessário tomar certas medidas preventivas. Expliquemos isto. No decorrer das várias reuniões na casa de Xis os homens já tomavam algumas precauções fundamentais pelo caráter de ilegalidade do ajuntamento; assim chegavam um a um, a despistar curiosos, saíam igualmente um a um espaçadamente pela mesma razão. Os vizinhos... em especial a velha senhora do 44, parece chamada dona , essa com olhos penetrantes abertos demais e a língua ainda mais escancarada. Não obstante Xis senhor benquisto, tido por afável e ótima conversa, pois quase mudo e com orelhas abertas a ouvir falantes e falatórios da fofoca entre moradores. Não obstante cuidados algo teria vazado. Isto justifica o diálogo seguinte quando o chefe abordado ao sair no portão de casa: “Sr.Xis, me falaram que vão instalar uma padaria aqui... será no terreno baldio encostado da casa do senhor! ah que bom, pois ninguém aguenta mais o ladrão da padaria na pracinha...” O chefe observa dona Tê e se ‘esfria’ um pouco mas tendo jogo de cintura, isto uma expressão popular; então responde ‘costurando’ e despistando: “Vizinha, não é nada disso, é que um de meus amigos que aqui aparecem é oficial de padeiro, desempregado, e aí vive a se referir ao assunto. Imagine que espera uma herança considerável e pretende sim montar panificadora, não aqui e sim noutra cidade.” Desse tipo o falatório. Naturalmente Xis dava também sua versão do mundo aos vizinhos, criava a contento os dramas dos seus, os quais não via nem sabia há anos... e precisando inventava parentes e moléstias deles, estas mui agradáveis ao colóquio do homem comum. Assim Xis bem aceito no seu pedaço, um bairro pobre. O que trazia alguma dificuldade era o fato ser um ser solitário a habitar residência tão grande embora pequena, quase operária. Virou para as cercanias um viúvo, sem nunca ter tido esposa nem viva nem morta, a fim de aplacar línguas, estas afiadas e que pudessem provocar escândalo e por fim prejudicar a causa dele; mesmo assim criavam vizinhos ainda em cima do invento do ‘viúvo’; felizmente ao grupo confeiteiro sequer descobrindo bolos e doces tal vizinhança; o máximo ou mais próximo da verdade a que chegaram era que o morador, segundo esses vizinhos, recebia amiúde homens amigos. Ora, como tapar a boca do mundo se apenas uma vez entrou na moradia um casal de namorados ou somente casados mas sem filhos! Tem coisas que não se explicam; melhor mesmo não explicar, aqui a aceitar os interesses e as necessidades de Xis.
          De maneira que o movimento no reduto do chefe semelhando um local de reunião de cidadãos acima de qualquer suspeita; inclusive os carros porventura estacionados na frente do n° 57 sendo os daqueles usados em uso e raramente um novo; e mais: importado, que é de grande chamarisco às vistas populares, nunca. Ali fumava-se, brincavam entre si prudentemente, um que outro a fazer gozações inocentes – tudo no certo tudo no comum do ser; mesmo na casa o rádio ou o disco também não extrapolavam o normal das coisas, o que seria correto e não distorcido.
          Ah se os vizinhos e eventuais passantes soubessem o que tratavam lá dentro do domicílio, que era mais um antro com planos e com discussões veladas quase sussurradas...
          Em determinados momentos, celulares mudos desligados imposto pelo chefe, um filme também mudo e mil vezes passado repassado para estudo daquela avenida, da alameda onde a Mansão. Vezes mil e uma um deles mostrando o pouco ou quase nada escondido ao povo e à imprensa enxeridos mas furtivamente vistos agora pelos ladrões (não admitiam tanta ofensa num pobre substantivo; todavia eram sim ladrões, embora sem casacas sem gravatas sem cargos públicos eletivos ou comprados). O filme a revelar insignificâncias enormes, pormenores importantes à empresa deles, no estudo por meses até aí. O filme e sobretudo o testemunho dos espiões infiltrados nas imediações nos jardins. Certo elemento da espionagem não passava de sorveteiro, a servir um funcionário qualquer que saísse entrasse pelos portais majestosos e mui guardados guardando a casa ricaça; ou que apitava seus sorvetes normalmente na avenida, sem intenção com intenção velada a notar registrar fixar a gente ali comprometida... Curiosamente naqueles dias, anunciando pudessem, o vulcão a explodir próximo e logo; também curiosamente passavam muitos veículos que em condições normais trafegavam noutras vias públicas não vigiadas e guardadas qual fortalezas militares, mas que nesse local aproveitavam-se da oportunidade para apreciar ‘melhor’ a arte ali exposta, a arquitetura mui longe dos gostos e tendências dos castelos medievais; estes bem mais modestos na riqueza que a riqueza representada pela Mansão Ipsilone e seu tesouro espalhado nos quatro cantos do país e nos quintos do exterior... Toda essa observação para apreciar e filmar e guardar e reter a servir de lastro num empreendimento escuso sim e que traria possivelmente enorme repercussão na vida de todos viventes, participantes ou não, enfim vítimas e ofensores (quem sabe estes igualmente vítimas...)
            Uma outra verdade, sub-reptícia a essa ação principal planejada indo à aplicação em breves horas mas não suficientemente esclarecida; é a verdade das ações paralelas desses homens decididos a tomar o tesouro inimigo, a confeitaria bolos e doces possíveis; tratando-se aqui da rotina dos membros aceitos ou não confiáveis na casa de Xis. Cada um tendo suas horas suas tarefas ou só atividades a eles dizendo respeito: desencontros domésticos, problemas nos expedientes nos quais engajados à sobrevivência; as relações pessoais de amizade e parentesco; e trapaças. Parece que este item o mais comum... Outro corriqueiro acontecer era a fuga à lei e à ordem estabelecidas. Em síntese quase todos participantes da célula do chefe eram fora da lei e ainda com fichas policiais talvez de grande monta. Entretanto as Linhas se negam a registrar o dia a dia de cada assecla de Xis; ou necessitariam milênios para tanto.





Cap. 6°

Cabe agora, agora antes que seja tarde demais e a confusão prejudique a clareza, fira a verdade e mais ainda prejudique a tomada nessa guerra entre a legalidade mais ou menos sustentável e a violência insustentável à ordem das coisas... Sim, cabe então fazer um desenho, esquemático que seja e seja mesmo longe das linhas da arte a qual empresta sempre sentimento e profundidade para fugir do puramente esquemático a prejudicar o próprio desenho. O desenho das figuras participantes na abordagem final da confeitaria.
          Logicamente é preciso realçar Xis. Se chefe se mentor se responsável e até influindo no destino dos companheiros, sejam os seguros sejam os não confiáveis membros; enfim necessário figurar primeiro na lista. Era realmente por mérito e talento um comandante nato. Sempre fora mandãozinho por onde passou; desde menino, a falar mais alto nos gritos dos moleques. Depois transviou-se, fugindo dos seus e aí poderia afiançar viver por conta própria, quase sempre de expedientes ora aceitos ora condenáveis. Poderia inclusive se jactar – e o fazia amiúde – ter conseguido educar-se por conta própria; ganhava perdia implicava resolvia, tudo da própria cabeça, mas claro sempre envolvendo outrem. Mais que isso: exercia certo fascínio sobre os conviventes coniventes sobreviventes da guerra social. Assim não tendo quase méritos os familiares sobre o ponto a que chegara Xis, quer dizer quase nada em termos da ordem estabelecida na regra da sociedade, esta sociedade ocidental cristã etc. etc.; podendo garantir com acerto quase absoluto nada dever ao sangue por sempre não receber coisa alguma da parentela; nisto exagerando a falar “sou de sangue sem sangue”. Referia-se ao berço. Oh quantos na humanidade têm berço!? Outra coisa... outra ou a mesma coisa – era um pouco egoísta. Por vezes nós nos surpreendemos ao pensar no egocentrismo que caracteriza o homem comum no planeta como sendo egoísmo; não é o mesmo, o mesmo é apenas semelhante. Um egoísta quer tudo para si, quer possuir. Ora todos temos um pouquinho que seja essa tendência e Xis não fugindo à regra. Mas a maioria tida por egoísta não passa de egocêntrica. Não pensa, pensa apenas ser o centro de todas as coisas: bens planeta universo, tudo estando voltado para si. Assim o universo seria uns pontos concêntricos somente. No caso de Xis? cedia ele de sua parcela no direito egocêntrico ao egoísmo para ter e ser de vez em quando algo e mais agora ambicionando uma confeitaria inteira. Naturalmente que os seres desse tipo – se não pisotearem as dificuldades e os que criem empeços – se não assim, assim mesmo se valem doutrem à conquista. Deixemos entretanto esboços psicológicos tentando desenhar a amostra desse líder. Um homem de boa estatura, corpulento e de olhares firmes, com uma fisionomia simpática ao convivente, se apresentando na sua pele quarentona branca queimada com barba feita mas sem apuro, deixando à mostra a força de sua ‘machura’ (ou seria a coisa pelos pelos dos ancestrais macacos?) E caso esse retrato não satisfizer, chamemos as Linhas, pois mulher melhor sabendo apreciar machões que os simples machos que poluem o mundo. Ou talvez sabendo ainda mais avaliar esse homem uma belíssima Ipsilone embutida no contexto duma confeitaria.
            Em toda e qualquer hipótese exercia seu ímã atrativo, quase carisma, e se valia do ‘instinto’ de chefe nato para se cercar de mil acompanhantes, sequiosos a obter ordens, norte, fim. Apesar disso precisando o homem às portas de sua maior conquista fingir e se descartar perante os mais fracos ou menos confiáveis.
          Ou seria porque houvesse muita gente o grupo estourando ou pela gente improdutiva! Talvez, talvez.
          Quanto aos companheiros... entre os não plenamente confiáveis destacando E na sua posição básica no manejo e tudo quanto a dizer respeito ao desligamento do transformador – a fim de tornar possível o assalto à Mansão; mas pesando aqui igualmente a precariedade ao lidar com gente imprevisível para esse caso (ora, todos seres são imprevisíveis) E sujeito ao incontrolável numa empresa multinacional a explorar energia pública; sendo aqui o objeto de análise um funcionário quase pinçado pela sorte na sorte de Xis havê-lo encontrado com dívidas e dúvidas e mais ainda por ser visado pelos dados do computador no emprego oficial; imprevisível também pelas questões familiais, o que foge totalmente do controle da gente de fora pois quem a saber no que dando simples discussão um pouco esquentada no lar! Enfim E sendo alvo por semanas no trabalho de observação pelos membros da equipe executante visando confeitarias... De pequena estatura, com velhice precoce lhes parecendo mas com lucidez necessária e suficiente a envolver colegas sem comprometer o grupo de Xis, E foi útil à causa; mais tarde executou sua parte na participação geral porém sem brilho nem destaque, e não se poderia mesmo nessas incógnitas expô-lo de mais ou... Sim sem mostrar as garras e dando conta do recado. O que acontecendo depois do assalto não cabe aqui. Entretanto seria de grande valor no assalto propriamente dito em seu início, após fugiu ou foi descartado pelo grupo, insegura a equipe da firmeza de E para agir já dentro da Mansão. Foi quase um entre os de dentro apesar dum elemento de fora...
          Os outros membros foram tão ou mais úteis. Um desses membros foi – não é Zé, Zé da Silva por exemplo, Zê mesmo. Indivíduo alto qual vareta, esguio, um pouco rabugento e teimoso e de maus bofes era um perigo ao grupo pensava o grupo pensando assim mais ainda Xis. Vivia se exaltando frente aos outros nos planos que discutiam em conjunto sempre a pedir impondo a palavra violentamente quase e a propor violência nas ações, assim a garantir “se eles reagirem passo fogo!” Parecia aos membros da cúpula querer mostrar serviço, se valer do fato de um dia haver eliminado uma vítima no seu caminho; e ainda por mostrar aversão (o que válido aos demais presentes) e ódio, inclusive, aos “milicos” como chamava os policiais. Em suma um sujeito valoroso corajoso, temeroso aos demais por sua temeridade e que poderia ser utilíssimo nas ações estando eles no interior da Mansão após a abordagem; um companheiro eficaz entretanto ao mesmo tempo perigoso ao empreendimento e... ora bolas, pra que gastar tinta e tempo com pessoa fora do baralho, sendo que a polícia o matou antes do assalto? Deixemos pois disto agora.
          Outro membro da ‘confraria’ era I. Demais prestativo, embora a trazer dissabores por falar indevidos; nada por fumar por vezes acendendo um no outro cigarro, pois quase todos a fumar. Além disso pesavam algumas contradições nos informes sobre seu recrutamento; a cúpula possuindo não apenas sobre I mas de todos eles um verdadeiro dossiê, a fim de tomar quando tomar decisões decisões inarredáveis, ou para aproveitamento da peça nesse xadrez ou a pura e simplesmente cortar jogar fora o elemento. Xis conhecia sua eficiência comprovada noutros ‘trabalhinhos’ embora atento nele para a ação que praticariam no futuro próximo. Os demais membros é que desconfiavam dele. Talvez por sua atitude corriqueira diante de uma discussão ou desentendimento qualquer: tinha por hábito dar razão aos dois lados como em panos quentes (esta maneira mais apreciada pelas mães, não por ladrões...) Forte, disposto, disponível sempre, foi por fim relacionado como integrante dos homens que atacariam de vez a Mansão. Entretanto após a intervenção da vizinha que se interpôs a pedir informes ao chefe sobre a simbólica padaria e talvez mesmo prejulgando mal o servidor, quase Xis o dispensou. Depois seria bem útil durante o assalto.
          Quem igualmente aproveitado depois nas ações já dentro da Mansão foi Vê. Verdade ter criado algum aborrecimento ao chefe, não pelo descaso na limpeza mas por irritar-se com um colega ao entrar numa das sessões de planejamento para avançar na confeitaria, e quase que imediato e em consequência brigar com esse tal colega por causa de um simples maço de cigarros... Xis não quer adverti-lo, joga uns verdes para colher a compreensão do seu comandado, ele não percebe a crítica velada ou a ajuda e exclama: “ah graças a Deus, pensava que fosse comigo”. Era. Era um ser mediano moreno e se dizer dele equilibrado seria exagero, teríamos nisso talvez que ouvir as Linhas reclamar pelo absurdo. Também, embora tais inferioridades, foi posto na lista de frente.
          Bem aproveitado foi Erre, um túmulo, múmia diziam baixo inaudível quase os membros do grupo participante por falar quase nada; e portanto não comprometer em coisa alguma a equipe que planejara e agora disposta ao assalto nas horas seguintes. Mesmo baixo, mais sorria ou se fazia entender ou por mímica ou por olhares (isto uma versão também da linguagem mímica) enquanto a boca fechada. Tem gente que por mais torça e se esforce não consegue ficar sem dizer o que dizer, geralmente alto, sem falar enfim o que sente; alguns entre os do grupo eram dessa parcela de papagaios embora se contivessem diante de Xis – não Erre que se calava sem esforço, apenas a seguir sua natureza. Uma questão de idiossincrasia decerto. Ora, esse estado de coisas criava perplexidade nos outros, seres comuns ele incomum portanto. Então despicavam com o desaforo: túmulo, múmia e mais epítetos depreciativos, próprio dos desafetos.  Por outro lado não era no meio confiável. Mas a cúpula tendo Erre como válido, isto por dispor de dados negados à assembleiinha. A desconfiança era mesmo dos outros iguais por diferentes do diferente.
            Um oh poderiam expressar conviventes do grupo de Xis na sessão, a sessão em que Ó aparecendo visivelmente drogado olhos mortos, mortos decerto os neurônios; e tal aspecto só provocando atenção e cuidados na gente da cúpula do movimento, pois o comum do tanto existir virando normal entre componentes, as mais das vezes na fumaça de seus cigarros e a feder álcool curtido na caninha na cerveja e ainda com mil outras manifestações somantes e mímicas do popular, como tiques e respostas sem sentido. Não se diga que estivesse Ó de tal forma dopado, levando os outros a procurar se não preparo como autodefesa, isso cada um por seu lado, e sim despertando quem sabe pressentimentos e mau agouro. Contudo ninguém reagiu ostensivamente ao incomum naquele comum, porque o comum do seu estar era estar ‘normal’ semelhando outros participantes. Nesse dia encontrava-se menos presente no seu presente, olhando apenas. Tanto assim que ninguém disse nada a esse propósito. Seria porque Ó grandalhão musculoso e do tipo de não levar desaforo pra casa! Talvez. Ninguém reagiu, deixando que o ‘normal’ tomasse conta do ambiente. Ó útil até aí, mais útil seria já quando no trabalho na Mansão. Curiosamente Ó elemento prudente e de ânimo estável; sem ser harmonioso no exagero que a harmonia possa comportar. Xis e os outros dois da direção sim se preocupam com ele. Pelo risco à saúde do rapaz, rapaz embora mais velho que o chefe? não, somente pelo risco à empresa de conquistar o tesouro Ipsilone.
          O ambiente perdurava calmo em relação a Ó e à sessão e até figurando assim noutras recentes reuniões, calmo – por fora – por dentro ansiedades prevenções nas cabeças de quase todos. ‘Quase’ porque sempre havendo nos agrupamentos certos errados indivíduos que ou não pensam ou não pensam detidamente no que devendo pensar ou ainda apenas em determinados momentos despertos ao problema central de todos. Seriam tais qual máquina; são os tais elementos que executam cegamente ordens.
          Em vista disso quase ninguém – embora certo temor de que a ignorância se reveste pela sabedoria não exposta de outrem mas que possa apresentar – quase ninguém portanto comentou. No entanto os outros dois da cúpula; Xis demais conhecendo e com atos quase previstos no trato diário e daí o respeito à sua direção; esses dois decidiram a três manter na lista de ataque Ó e o fizeram quase sem falar. Xis sabendo perfeitamente não serem mudos. Aqui trata-se de Ene e Agá, dois combatentes com o mérito, se mérito, de ajuntar quase a dedo aqueles seguidores e responsáveis a adequá-los no grupo, como se apurava antigamente, caboclos, no tacho a fervente potassa ao sabão. Enfim dessa forma apurados os homens ao trabalho perigoso e até violento de abordar a Mansão Ipsilone. Para tanto eliminaram oportunos inoportunos e os fracos os falhos que poderiam trazer problemas à causa deles. Embora aqui assim posto, em verdade o esforço na atração dos homens foi quase exclusivo de Xis. O trabalho de campo poderia ser dito, porque Xis foi em busca de E por exemplo. No entanto havendo posições definidas dentro da cúpula e tanto Ene quanto Agá com voto e peso nas decisões. Lógico que dado o segredo do andamento futuro as decisões aos mequetrefes só pudessem ser anunciadas sendo de fato decisões.
            Isso na fase final das seguidas reuniões desses aparentes santos e inatacáveis cidadãos reunidos na casa de Xis. Nas últimas entretanto aflorava mais a ansiedade, embora os subalternos menores só adivinhassem certamente o que fariam por ordem da cúpula; não sabiam de fato. Apesar disso observam os diretores do movimento um movimento inusual aos homens. Uns fumavam e quase colecionavam tocos de cigarros nos pés da mesa e das cadeiras ali improvisadas sem ordem na ordem; outros se manifestavam em formas até ridículas e longe do seu habitual. Muitos encurtavam ir ao banheiro voltar dele quase sem necessidade; ou por demais necessidade... Em suma aflorando visivelmente o nervosismo, esse estar sem poder justificar estar. Uma espécie de ocupar o tempo por não saber como ocupá-lo, gastá-lo.
          No andar do tempo, era como no findar o tempo, no apressar o tempo, tal qual morte anunciada ou sabida sem ser realmente conhecida...
          Assim encontrava-se a ‘confraria’ de Xis na iminência do golpe final que era a abordagem da Mansão.




        
Cap. 7°

No fim a Princípio era só buracos; nos buracos o 57 de Xis. A rua, tanto na parte asfaltada quanto na esburacada, ela tendo esse nome; o nome oficial na placa da esquina realmente Bom Princípio e os moradores deturpando a obedecer sonância semelhante e a provocar corruptelas bastardas e engraçadas; como a criação da senhora Tê, às vezes chamada dona 44 por causa do número de sua residência, aquela residindo próximo da casa de Xis. Pronunciava a moradora “Precipício”, precipício nem princípio sabendo o quê. Certo dia surgiu nas bandas um pernóstico vendedor, desses uns que afirmam carregam ofendem ouvidos com demais erres e esses a chiar as orelhas da gente. O moço demonstrou seu produto a passar em venda como de uso precípuo etc. e tal, Tê mais confundiu ainda o precipício dela com o precípuo dele e assim ventilou um novo dado cultural para mostrar erudição à sua roda de bate-papo e bate-pé e bate-língua.
          Tudo sob pretexto do lixo no dia do lixo, o lixo não levado ou mal carregado ou bem deixado nos seus sacos rasgados furados estragados pelos cães famintos na hora de almoço; ou por uma outra razão e mesmo sem razão a fim de que o grupo vizinho se unisse se reunisse partisse ao falatório habitual.
          Sabe duma coisa, vizinha, a casa ali do senhor Xis me parecendo mais um ponto de feira que residência decente, um lar. Dizem que espancava que brigava com a pobre esposa cristã e tudo o mais... brigavam muito, até que morreu e deixou o bruto viúvo e agora é essa sem-vergonhice: entra e sai gente, quase sempre na calada da noite! Ou por boa vizinhança ou por simples concordar concordou dona U com Tê, mas Tê sequer ouvindo a intervenção da outra e já carrega a verrumar: Tem uns amiguinhos do proprietário – nem dono é, alugou e dizem que não paga faz seis meses (U desdisse a afirmativa alheia: Xis estaria na casa fazendo apenas três meses... ) – certo e se errado não inventei, que sejam os três meses, nunca receberam os aluguéis do 57! já ponto de despejo sim. Não é então uma pouca vergonha? não importa, importa à gente a gente que entra e sai e fala, fala baixo conspirando decerto, pois não sendo com certeza reunião para uma festa como é frequente na casa da sirigaita da rua de baixo.
            Nesse ponto descambaram a desbancar ambas e mais uma terceira comadre meio passiva num desbancando a desabar aquela moral duvidosa de baixo daqui de cima, em cima a casa número 57.
          Tê um belíssimo exemplar fêmeo da espécie Homo, fora antes pequena uma gracinha, dessas gracinhas que o papai leva para mostrar com vaidade e orgulho aos amigos nos encontros, nos bares onde se maquina e se fecha lá algum negócio a acertar as finanças do lar e a enriquecer o patrimônio familial; tendo o chefe da casa mais uma penca no seu ninho à patroa cuidar se escabelar e no alívio havendo Tê, Tezinha, a princesa no lar para se curtir. Aqueles cachos louros, as bobaginhas ditas e outras gracinhas da gracinha. Contudo cresceu, abriu como flor plena e virou uma gostosura. À rapaziada na megalópole, esta na época com espírito e aspecto calmo no silêncio na paz, paz do interior e próprio da cidade pequena. Grande Tê na beleza a dar trabalho pelo seu viço de miss-qualquer-coisa ao mais velho irmão machão brigão diante dos amigos, amigos e de olho gordo na beldade Tê... Uma bela mulher, miúda, harmônica no físico pequeno grande no porte da beleza feminil. Enfim Tê sendo do tipo de se olhar passar, o povo falando “de fechar o comércio”, porém diante de outra vizinha agora e da vizinha U, ambas no trio com língua viperina – Tê não passa hoje dum canhão, de peça de museu, de um destroço humano no oceano da existência...
          Todos quase, quase todas vizinhas fogem de sua língua esperta afiada. Até o esposo. O sr.Silva aposentou-se e ficar sob jurisdição de Tê pesa demais, foge aos amigos a comentar sobre futebol política politicalha e, claro, mulher; todos se lembrando como eram lindas as secretárias dos patrões, ex-patrões.
          A senhora do 44 não se incomoda; se perturba sim, não dando trégua à paz da solidão estéril, sem os problemas que dá uma criança quando gerada gerados. Então se distrai distraindo as vizinhas. “Aquilo” (aquilo é o imóvel número 57) aquilo parece mercado de peixes, uma feira com seu entra e sai gente; gente! uma gente estranha lá, ali. Outro dia fui levar o aviso da água, atrasada não falei? o papel foi entregue na minha casa por engano do carteiro; fui ao bruto senhor Xis, brutalhão e mesmo bonito, me parece um macaco musculoso. Acreditem, o grosso nem me agradeceu pela gentileza...
          Fala horas. U dá lá suas bicadas e as outras – são já umas cinco ou seis defensoras das horas vazias a encher a rua, in Precipício – as outras acrescem tiram somam na soma. Tê Silva lidera com sua presença mas presença feia e língua mais feia ainda.
          Já viram os tipos no entra e sai? Têm uns mal-encarados. Tem um com trejeitos de bicha (riram) e têm uns petulantes e bem atrevidos, um deles de olharzinho esquisito e matreiro, esse se pôs pra meu lado, me achando decerto bela e atraente (riram outra vez, agora nem Tê a descobrir o motivo...) Em suma ninguém sabendo por que tanta visita. Coisas estranhas ali...
          U não fala, fala quando fala só fala no marido. Tudo leva a citá-lo, mesmo que detratando seu homem; irrita, inclusive, o publiquinho de saia sem saia visto hoje as mulheres a viver de calças. Tê dá uma risadinha irônica às referências da amiga colega vizinha oposição ou apenas e quase sempre orelhas disponíveis, uma risadinha velhaca em direção das vizinhas agora nesse comício que chega a ser diário, quando não atrapalhando a chuva; pois com a lama do pedaço descalço da rua Bom Princípio não dando sequer para andar, se equilibrar. Os carros então, os dos homens de Xis, ficam estacionados longe na parte negra do asfalto rachado gasto lavado.
          Outro dia vocês viram cinco deles empurrando uma lata velha de um? E as duas motos infernando os ouvidos da rua! Mas tem outros desses vagabundos... que nome dar a essa corja de esquisitões os quais chegam e ficam horas na casa de Xis! esses vêm de motocicleta; e tem uns vindo a pé (ela diz “di-a-pé” ao gosto do povo) pra bagunçar nossa pacata vila, coisas mesmo de polícia...
          Aí todo o grupo crítico falador se espanta, a polícia sempre sugere temência à gentalha. Então destravam, não estivessem elas de línguas soltas, a falar sobre o ambiente ali perto. E o fazem agora num tom cortante sim entretanto baixo, baixinho sem ser ciciado, ciciando o quanto possível ao homem comum, na sua versão feminina.
          Concluem, conclui a porta-voz da defesa da sociedade pura e decente: é de fato um mundo estranho. Põe sinal de exclamação para indignar melhor.
          Estranho sim, diria quiçá perverso. Disse disseram no comentário de não acabar nunca sobre o abandono da residência sem mulher, porque homem não sabe cuidar da casa. Lembram um motociclista entre eles com hábito a deixar sua moto no quintal porco de Xis, chega abre o portãozinho bate encosta a barulhenta na casa e daí entra (comentam:) seria o mito da moto na mata! porque o que tem de mato e sujeira, não havendo sequer uma planta, inclusive a roseira – vocês se lembram da velha roseira do 57? – a roseira que havia quando veio pra cá Xis, não cuidaram, morreu.
          Não tem coisa alguma plantada cuidada respeitada, tem de sobra muito inexplicável nisso tudo.
          A estranha gente lhes espicaça o gogó.
          Em certo dia o triunvirato se encontrava fora; decerto a tratar minúcias longe do alcance – perto das amigas de Tê pior seria, longe sim dos seus comparsas – a exercitar os segredos na arte de tomar em assalto a Mansão Ipsilone. Então, aqui entra aquele negócio que o povo fala de os olhos do patrão engordar a criação; ou de o cão longe perto a bagunçar o gato; mais ou menos isso; então as vozes ladras se soltando a incomodar a vizinhança. Ainda assim ficaram presos ao simbolismo da confeitaria seu bolo e os fragmentos nos doces amenos. E se soltaram de fato, não puderam se harmonizar a contento algumas vezes, por isso surgindo certas ofensas, se bem que veladas e até houve discussão, no mal sentido da coisa. Tudo em contradita às ordens de Xis ao sair de casa. A questão do cão e gato dita.
          Elas ficaram no alerta, abertas nas orelhas a municiar as virtuosas bocas. Nisso poderia entrar o vigilante. Em bairro pobre não há cerca elétrica mastins ferozes seguranças carrancudos; no entanto havendo demais vira-latas e estes amigos delas inimigas deles, a avisar da chegada da estranha gente em visita estranha no estranho ambiente estranho demais... Elas mui alertas.
            Eles, as visitas machas, eles a comentar decerto baixo mesmo sem os olhos percucientes do chefe. Puxa, que mulheres... uns, famintos e necessitados porventura, ao vê-las concupiscentemente todavia sem deixar o ferino do riso ou da risota, que é mais ferina e maior que o riso e ainda mais que o gargalhar num estardalhaço, este o alto do homem baixo e sem princípio.
          Na rua do Bom Princípio.





Cap. 8°

Xis talvez se imaginasse o primeiro e o maior dos triúnviros, ou que pudesse ao menos estar em pé de igualdade com os outros dois da cúpula. A gente submissa ao trio sim, se podendo garantir na escala mais baixa; não obstante para elas, fiscais atentas da rua Bom Princípio, para elas não passando duma corja de vagabundos, a pensar elas assim de todos, mesmo de Agá e Ene; e inclusive de Xis que viam mais amiúde como dono da casa, sendo mentor da causa (isto não sabiam as fofoqueiras de plantão...)
          Agora naquele antes, enquanto o pessoal aguardando ordens na residência porca suja em mato e moral, agora os dirigentes seguiam, ziguezagueando por vezes nos caminhos tortuosos e sujos da gente suja havendo sujeira nos pobretões ou o povo sujo emporcalhado nas vias pelo movimento e buzinas e impaciência da gente rica ou remediada ou operária, todos de gosto burguês a alimentar o consumismo. Agora por entremeio são três homens desconhecidos na turba, decerto a fugir do reconhecimento indevido por indevidos no passado recente... São três mas num só veículo a circular a procurar a encontrar a se esconder preciso for pois que ainda nessas coisas a berlinda não é bem-vinda somente um deles documentado aos imprevistos da lei e aos vistos das autoridades. O segundo triúnviro, Agá, tem carro importado, de milhões, roubado na semana não devendo estar no uso e circulação, mesmo precisando na abordagem da Mansão, ou sobretudo nessa abordagem perigosa; os cuidadosos nunca se expõem desnecessariamente. Quanto a Xis, não possuindo carro, se valendo e dispondo fácil do dos amigos. Curiosamente o chefe daquela gente estranha a Tê nunca fora indiciado, longe do exemplo dos outros dois e até da maioria de seus subordinados; enfim era, é um tipo que se conhece por “ficha limpa”.
          Ainda com respeito às observações das fofoqueiras, quem sabe Tê não tivesse razão sobre Xis e seu atraso na água e nos aluguéis; isto porque o dirigente se se aproveitou algum dia dos desatentos não foi por hábito, acaso somente. Contudo não sendo hora de abordar sua vida pregressa, visto o trio ter pressa: o relógio, qual bomba-relógio do portão de entrada da Mansão Ipsilone, exigia trabalho sério naquele longo dia. Por isso cruzaram a megalópole de norte a sul, de leste a oeste e ainda precisando queimar combustível, mais de um tanque, indo procurar e ratificar condições posições ou retificar defecções de membros longamente contatados anteriormente nas cercanias da capital. Urgia não só não perder tempo se aproveitando do tempo – ou teriam que desligar o relógio, desativar sua ‘bomba’; quiçá não apenas perder a oportunidade vantajosa após tantas reuniões, perdê-la para sempre.
          Nessa altura a chefia relacionava deserções ou diminuição dos quadros também pela fome da necrópole ou pela da prisão, com vantagem aos macacos. Eram meses de trabalho a tecer a tela no aliciamento, de contatação e de constatação final. Em suma estava no jogo muito envolvimento – para se jogar tudo pra fora da janela do desperdício...
          Além disso ficava ainda o gosto desagradável da desconfiança. Em todos, sentiam os diretores dessa empresa arriscada; e pior nisso e sem dizê-lo, havia o desconforto na falta de confiança entre si, quer dizer entre os da cúpula.
          Era nessas condições e com esse pessoal que se contava a tomar o que tomar, e desfrutar (isto seria mais sério e mais grave, ficando em suposições e conjeturas nessa ocasião...) O imediato sim é que era o passo a tramar agora naquele automóvel de Ene.
          Conversavam abertamente, falando ao natural e sem possíveis escutas ou presenças incriminadoras. Além de poderem analisar mais a fundo e friamente cada peça desse jogo, a encurtar pelas graças ou por mando dos ponteiros. Punham em evidência e discussão cada um dos elementos comparsas – os quais se desentendiam nesse mesmo instante para se entenderem melhor as fofoqueiras da rua Bom Princípio. Assim podiam citar sem constrangimento nomes e esclarecer entre dirigentes como estes viam os pontos fracos nos comandados ou até os pontos positivos sem provocar vaidades desnecessárias; tudo a benefício da causa em jogo, esclarecer enfim a conduta de cada membro sem provocar os habituais zum-zuns entre parceiros, o que seria impraticável estivessem como antes reunidos na sala, no quarto a bem dizer. Agora abertamente podiam mexer as peças, cortá-las preciso, acrescer posição necessária, trocá-las substituindo um por outrem; estabelecer em branco e preto as responsabilidades respectivas.
          Além de tudo o mais aventaram a possibilidade de atrair polícias mais chegados; e discutiram sobre os integrantes recentemente presos e até sobre os mortos, portanto desativados. Não foram nessa análise sentimentais mas práticos e lógicos. Ou ruiria toda a Mansão...
          Reservaram um tempo, aí o veículo com motor desligado e a paisagem um campo ermo, reservaram tempo a verificar informes dos seus contatos e olheiros ou tão somente os registros de que dispunham e que esclarecessem melhor o alvo do serviço que empreenderiam. Pesaram prós e contras na abordagem; quais meios mais seguros. Cansaram até a rever fotos adredemente tiradas para conhecer detalhes na grande empreitada.
          E o capítulo humano propriamente dito. Como eram seus homens, os mequetrefes a receber lição em casa; e os que por semanas trabalhavam no estudo da movimentação envolvendo a confeitaria.
          Outro capítulo tanto ou mais sério aos dirigentes, agora a observar não só o isolamento deles próprios aos cânones sociais, foram as implicações com a lei. O que fazer, falhando algum dos itens longamente debatidos entre os três chefes. Pôr todo o trabalho por água abaixo? salvar o que mais próximo e válido? deixar que os frágeis companheiros fossem engolidos como carne a piranha pelas forças policiais?
          Outra vez punham a questão da fidelidade e da capacidade para enfrentar tal desafio.
          O triunvirato sendo experiente também passou a rememorar passagens anteriores analisando os ‘serviços’ de que fizeram parte individualmente; pois é necessário aprender com acertos e possíveis erros para tentar impedir o fracasso.
          Deles apenas Xis nunca fora preso; os dois outros dirigentes, um deles, Ene, já fugira do presídio uma vez; o terceiro pagara envolvimento em certo latrocínio se valendo das lacunas legais e da corrupção.
          Era noite alta quando resolveram terminar com mais aquele encontro. Haviam assentado a próxima sexta-feira para se apossar de Ipsilone. Ou melhor: dos bens da família do magnata.





Cap. 9°

Sexta-feira, dia treze, não sendo agosto felizmente, “graças a Deus” diria Vê, Vê agora atrás das grades, Xis não se expressa nestes termos; ou porque negue ou porque não creia ou porque ainda sequer tenha uma robusta vida introspectiva. Um dia treze e se porventura a passar um gato preto... e tantas e tantas outras expressões semelhantes que o homem comum usa abusa – não Xis. Xis é homem prático. Seu porte avantajado já sugerindo e supondo isso, suas ações àcima das reações dos medianos e mais parecendo um homem com poder natural de mando sobre seus mequetrefes, estes a receber-lhe orientação – de tal forma que eles não percebem ou só percebem por alto sem maior análise a existência doutros triúnviros – enfim é enorme seu volume de presença, aqui sendo criada uma expressão de absurdidade para pincelar um grande chefe. Contudo Xis é frágil. Sim, não é frágil todo ser humano! Um pensador expôs a ideia de não haver herói para o criado de quarto desse mesmo herói... Ninguém é tão poderoso aos íntimos e Xis não foge à regra. Porém não grita não esbraveja – olha, manda. Mas quando reunido com suas entidades a trocar ideias a fazer planos ou simplesmente a tentar não obedecer-lhes os impérios ou só palpites: não passa dum pobre diabo como qualquer um que passe curioso olhando o número 57 na rua Bom Princípio; um pobre e por que não dizer miserável ser!?
          Encontra-se nesse estado de espírito.
          Ora, por fora bela viola. (Ai, esse linguajar do povo...)
          Por dentro...
            Aproximam-se as últimas horas, o relógio barulhento improvisado como enfeite na sala (e seria um bibelô horrendo na sua ‘mundice’ e ‘grosseirice’ no consumismo que importa da China até despertadores...) esse linguarudo matracador redondo com ponteiros lógicos mas não certos, esse avisa estar se esgotando o tempo estabelecido para o assalto. Ipsilone se aproxima. Enquanto isso a sua gente ou foge ou foi presa ou foi morta ou ainda e pior andando morta-viva, pela desconfiança que lhes desperta o grupo (lhes pois que Agá e Ene concordam em número grau gênero com Xis na particularidade perigosa). Nessas condições como dormir como não pensar como estar bem com a harmonia; e ainda a lhe pesar o dia a dia, o seu ganha-pão, mesmo sendo a tapar olhos da senhora do 44, enxerida à beça. “Faço uns bicos em vendas por aí, dona Tê”, inventa na hora a mercadoria que vende, que empurra aos compradores. Ou como faria no provar por a+b o dinheiro não cair do céu semelhando o maná bíblico? Com esse maná faz compras no mesmo supermercado de Tê, de U, das outras; aí aproveita a embasar melhor a aparência de existência normal, embora corretamente distorcida, como precisasse provar (ah e como precisava disso...) e se encontra com as vizinhas a empacotar objetos e alimentos nas sacolas plásticas a sujar melhor o meio e nisso concorda realmente que o preço da cebola o da batata nas alturas; isso mesmo, dona Tê, a senhora tem razão pois o padeiro da esquina igualmente acho que é um ladrãozinho. Das vendas lhe advindo o recurso ao pão de cada dia, semelhante qualquer mortal.
          Todavia agora é momento de se reunir com os seus, os de dentro de si. Então surgem enfeando as linhas as Linhas a propor a deste jaez como reunião secreta. Argumentam existirem as públicas, aquelas de se deixar penetrar até o vira-lata; as íntimas fechadas e vedadas a participação ao estranho – é bem o caso das reuniões que promove no quarto Xis, a fugir de olhares importunos e demais públicos. Por fim existindo as tais secretas, Xis se beneficia das benesses destas e anda a dialogar com seus diabretes. Engraçado, tem inclusive um cineminha onde vê passar o filme de sua pessoa numa conversa com eles. Anda, anda pra lá volta pra cá; sequer encontra o que procura nem conscientiza bem o que procura. Procuraria a paz; no entanto quem não tenta conseguir nas sete bilhões de criaturas no mundo a paz!? Sim sim procura a paz, não acerta a harmonia em si, em si lembrando andar as horas, andar? correr... Apesar disso não chega a acordo, inclusive consigo mesmo. E isto um absurdo entre os melhores absurdos. Não dorme, não dormiu bem à noite; não se alimenta corretamente ou melhor nesse pior: sequer percebe estar a ingerir as coisas, sem gosto sem ver, automaticamente. Quando vê, não vê de fato – está estendendo roupa no sol já forte das dez horas dessa manhã; prende, cai o prendedor não percebe, engancha as poucas peças a pingar a gotejar água e o sabão mal tirado; a rigor não viu lavar o pano, espremendo no seu jeitão; decerto os olhos delas a criticar-lhe ou o trabalho mal feito ou a sovinice não dando a roupa a lavar pra fora – ah tem sim uma vizinha do bairro que vem buscar as trouxas levando as sujas e a trazê-las limpas passadas mui pouco pagas “posso provar o que digo, dona U:” ele explora a infeliz que precisa tratar de sua filharada e do marido beberrão e desempregado. Xis sequer vê o que vê no todo em que ele mesmo está inserido e o que a fazer: esticando no varal calças camisas cuecas a escorrer contra o vento lento briguento ou teimoso a assoprar o mundo. Apesar disso fá-lo desconfiado, pois nunca temos segurança estar a sós, mesmo não tendo olhares das vizinhas ali por perto. Antes já fizera o que se não podendo deixar eternamente pra depois: lavar os trens amontoados sujos de cozinha, varrer com a vassoura cansada gasta fraca feia o pó; já passou um pano úmido menos sujo no chão mais sujo que o pano, a fim de remover manchas que enfeiam emporcalham ou apenas num mostrar pouco a ‘porquice’. Isto não só para não dar o que falar mas porque não ficaria bem receber na desordem seus comandados na reunião marcada para as quinze horas – esta do segundo tipo segundo as Linhas e não pública.
          No entanto enquanto tanto tanto trabalha, quase sem ver, no entanto formigam-lhe os planos as visões as falas as discussões das quais participou com triúnviros e mequetrefes, sobretudo as que trava agora com os seus secretos seres na secreta reunião dentro da mente em ansiedade se não em polvorosa. Analisa cada um dos homens; sem direito de vantagem aos dois do triunvirato (e será que a recíproca não sendo verdadeira! sim que Ene e Agá não estivessem também naquela hora ambos a abordá-lo nos seus possíveis deslizes e nas inferioridades no comando?) Não poupa ninguém, fala fala fala horas e as entidades escutam; no entanto parecendo as Linhas, elas metem o bedelho e respondem, malcriadas, e falam e inventam e instigam e ah: detonam o pobre Xis no seu pensamento num acúmulo igual panela de pressão preste a explodir; por causa duma simples sexta-feira, treze sim, não de agosto e sem nenhum gato preto atravessando na frente. Pudera, com tanto cachorro a ladrar todo o planeta nas imediações... a tanto, tanto que os cães acordam Xis nessa projeção do cineminha.



Cap. 10°

Outro poderia reagir diverso de Xis naquela manhã no sol no varal no arruaçar do cão infernado da senhora U vizinha da vizinha do 44 e dele, ele fosse outro. O chefe – poderíamos pichá-lo como a tudo hoje se formalizando no dizer as coisas então pichar Xis como chefe executivo nesse triunvirato? – o chefe entretanto não escuta bem o ladrar por ensimesmado, entretanto a ladração a acordar inteirinho um planeta com seus bilhões de seres; ou por outra: ouve sim mas ouve longe o ali tão perto, mais ouvindo realmente o infernar no mundo de suas dúvidas, através do cineminha da mente ligado; ora que outra desligado para lembrar as horas poucas que restam a chegar o dia treze decisivo na vida de tantos. Retoma a fita as imagens os sons o escuro no escuro da projeção e no escuro de suas dúvidas. As dúvidas ora negras ora aclarando no aparecimento dos personagens – aqueles com os quais se envolvera antes e se envolve agora quiçá se envolvendo no futuro nesse caminho sem volta, quase no ter diante de si já os portais da Mansão Ipsilone. Não vê o trabalho chão que automáticamente executa, analisa sim os personagens conviventes; imagina abarcar todos e em todos os senões.
          No triunvirato os chefes lhe parecendo três erros a tentar um acerto, este por enquanto factível e virtual. O concreto mesmo que pode somar é a amizade ou somente havendo o conhecimento nas relações e a certeza na desconfiança. A desconfiança é a tônica na chefia e nos quadros inferiores.
          Não seria estar, pensa Xis, se atirando ele numa jornada além de suas forças. Não poria em jogo – já estava pondo – sua existência limpa! Quer dizer, nisto não iria pôr em xeque sua consciência... Verdadeiro que até nesse dia tendo se não normalidade sob olhos da sociedade uma vida pregressa sem mancha; nunca se envolvera nos mais de quarenta anos nas complicações (sim, praticou muitas vezes contravenções quase inocentes... este quase por conta dos abusos dos outros membros:) nas complicações do tipo a envolver Agá, ligado ao ramo do contrabando, sobretudo de veículos de primeira linha. Ocorrendo não comentarem este particular nos encontros visando Ipsilone: há coisas que os códigos de honra vetam, ninguém pergunta nem se expõe o óbvio; mormente o óbvio sendo indiciamentos policiais. Nunca abordara, embora a possível intimidade a aproximar os líderes quando unidos na cúpula, nunca ‘exigira’ (isto um absurdo em se tratando da chefia) nunca exigira de Ene por exemplo o como de sua fuga da prisão. Enfim delitos e indiciamentos sendo quase tabus e não se tocando na ferida entre eles, unidos reunidos a favor da causa da Mansão, mais bem dito o bolo dela. Além do mais se atraindo por suas tendências mas apenas ao serviço, ou seja planejando discutindo ou só observando os homens à sua autoridade na sala, no quarto mais precisamente. Ali naquele trabalho não falam os dois ‘mudos’, Xis dirige a sessão, faz as ligações necessárias, cobra, mostra, exige o que preciso dos comandados. Não havendo implicação dos outros dois mandatários. No seu íntimo, no de Xis, no entanto, paira alguma desconfiança...
            A rigor ele não pode garantir em que seus dois colegas infringiram a lei. Não sendo o caso dos seus homens.
          O chefe passara meses no estudo deles, observara a conversa a sua relação por vezes conflitiva as suas explosões os seus rompantes e a atuação no estado normal, corretamente distorcido que seja; então davam eles o serviço. Esta expressão no linguajar do seu meio querendo dizer falar as coisas sem peias sem temências sem implicações desnecessárias; com a única exigência de não se falar alto, não pela ‘alta’ educação vigente sim pelo perigo de os sons sairem para o mundo, não ferirem as orelhas do mundo...
          Feito esse reparo ao comportamento dos homens, o mais a regalia do serem francos e livres no seu expor o que expor; todos entendendo todos; ninguém a penetrar entretanto na intimidade alheia. Decerto o haver grupelhos no grupo, fora do grupo ou fora da casa de Xis no trabalho dirigido, e tais grupelhos terem mais acesso aos dramas e conquistas e sonhos de conquistas individuais; coisa de colega para com colega, talvez não apenas colega mas amigo. Embora as vistas dos dirigentes, ninguém a deter a língua humana reunida. Então, agrupados, citam passagens e o comum sendo suas implicações e seus indiciamentos.
          Nesse particular no mundo do crime, Xis não chega a ser mestre talvez um aprendiz; sem a obediência na humildade como aluno, pois um chefe verdadeiro e cônscio e inclusive enérgico, mesmo com presença dos outros dois triúnviros.
          Xis pisa desatencioso focado no cinema da mente um tufo, se enrosca nisso e por isso se alembra de Vê. Vê fizera numa hora de desconcentração a limpeza do terreno ao chefe, o quintal andava que era só mataria e na língua ferina da senhora do 44 o 57 uma selva, o mato na mata e a moto a ‘totorotar’ na sujeira, um absurdo dela, ao menos um exagero viperino da ‘bela’ Tê. O servidor de enxada na limpeza, inclusive a assobiar uma ária da moda na época, época de carnaval, enfim no seu chep-chep com a ferramenta por livre e espontânea vontade. Xis encara nesse agora o distante no tempo e olha Vê como sendo um sujeito de boa vontade, embora língua solta e isto um perigo pois no momento, lamentando a situação o chefe, nesse dito momento supõe o homem preso. Num átimo se lembra também um descuido na conversa entre Ene e Agá na qual este afirma: “mandei apagar o infeliz, antes de soltar a língua aos macacos”; depois o encarregado do serviço já não encontrando o prisioneiro que certamente fugira; e Xis a somar sua participação ativa no assalto... Ora, encontrava-se Vê, por suas próprias palavras a um dos colegas, achava-se enquadrado no artigo 289, estivera já anteriormente detido por misturar-se a falsários. Assim o chefe lamenta agora a falta desse membro. Era bom servidor, ‘era’ por supô-lo morto. Ora, isto não seria repetir o homem comum, em cuja crença o morto cresce no valor quando vivo?
          Outro servidor útil, Erre, baixo forte quieto atento, dele alguém mencionara indiciamento no 148 por envolvimento num sequestro, cumpriu pena por dois anos; estando no meio do grupo, elemento esse que a chefia sentindo como de grande préstimo.
          Havendo membros do grupo com implicações em artigos leves do Código Penal, leves ou passáveis; problemático mesmo o caso de Ele, indivíduo de poucas palavras, ao menos assim enquanto na equipe (ou escola?) chefiada por Xis na Bom Princípio. Desse falavam ser homicida, enquadrado no 121, devendo cumprir quase vinte anos no presídio, fugira sem que ninguém pudesse explicar como... Não obstante acomodava-se no agrupamento não tendo grandes atritos. A comissão diria achar correto relacioná-lo para o dia treze; quem sabe desse sorte no habitual dia de azar... Entretanto na verdade não se dava a contento Ele com outrem, apenas se suportando, não vivia bem mesmo com supostos matadores e mais nesse menos não lhe satisfazendo aqueles da “legítima defesa”; aliás quase todos diziam quando diziam que caíram ou recaíram no crime para não morrer; assim como em geral na abordagem policial todo mundo vira inocente... o que bem humano visto nunca pensarmos ter culpa no cartório.
          Vários dos servidores com infrações menores que as de Ele. Todavia caso se fizessse o histórico desses homens o registro seria com certeza negativo. Negativo pra quem? Para a tomada da Mansão tais aspectos negativos não somariam como vantagem para a ação?
          Nesse ponto o morador do 57, vizinho da senhora Tê, acorda um pouco do seu devaneio. Seus diabretes cansados da exposição nessa fita de baixa qualidade. Se ela fosse projetada num cinema de urbe média, não haveria fuga do público... decerto exibida na telinha de tevê desse um baixo ‘ibope’ e perdesse a emissora audiência. Contudo ele não pensa nestes termos vendo ouvindo assistindo seu filme mambembe. Descobre a valia disso para análise e melhor conhecimento de sua turma. Claro, não anula a desconfiança que sente em presença tanto dos homens comandados quanto dos seus colegas comandantes.
          Então sua análise se fixando no item das armas.
          Era outro forte nos seus pontos fracos. Logicamente manejara e conhecia calibres tipos tamanho porte e marcas, sobretudo de revólveres. Não sendo entretanto exímio atirador, a perder nesse campeonato inclusive aos menos dotados mequetrefes. Nunca entrara no mérito desse demérito. Usara até aí arma sempre para atemorizar possíveis vítimas – e não poderia ser o desejo a se mostrar a elas um machão! Em boa política de mandatário, até por isso, nunca exibiu capacidade no manejo de arma; evitava pôr a questão, particularmente com Agá e Ene presentes.
          Isto indo ao encontro da ‘enxeridice’ das Linhas: elas iriam sem dúvida afirmar a minuciosa e cansativa descrição sobre tal aparelho mortífero. Além de lembrarem a violência. A propósito, nenhum membro, talvez não coincidindo com a opinião das fiscais do bairro; sim, nenhum se achando violento no que fazendo ou planejando, como por exemplo a missão do dia treze, já posta e sabida no quarto dos fundos silenciosos da residência de Xis. Ah, quanta paz!





Cap. 11°

Zebra! isso mesmo, gritou I lá no portão de entrada na luxuosa confeitaria: “deu zebra, chefe”, a porta e inclusive a Mansão inteirinha encontra-se minada por macacos armados até aos dentes, deu zebra... Este som como em cascata ora mais alto ora menos alto era um pedido de socorro do submisso mequetrefe I; ou aviso desse tipo no qual se constata o gato e daí os ratos a fugir por entre dedos, a se enfiar sumir nos vãos nos buracos. Quando num dos altos mais altos da gritaria, Xis acordou, sobressaltado, quase em pânico quase em agonia. Um sonho, mero sonho ou pesadelo na véspera de tomar abraçar com as mãos um tesouro extraordinário quiçá impensável cujo valor e montante não dava para supor; supor sim, mas com o exagero concernente, o qual os pessimistas avaliam por baixo e os otimistas somam por cima; ambas opções não indo além do exagero e no caso de Xis mais ainda por ser o seu imaginário do sono em ação, estando o lençol ainda a sugar as gotas de suor fedorento da noite indormida pesada ansiosa. O que mostra seu estado de espírito na véspera na antevéspera nas noites dos dias anteriores ao posterior assalto a Ipsilone. Faltava-lhe se não a experiência para comandar trabalho de tanta envergadura, a segurança. O pior na insegurança do chefe residia em não poder demonstrá-la, é claro: diante dos seus chefiados; mais ainda num descarte absoluto o sentimento, perante os outros dois chefões.
          Ficara assentado que ele dirigiria como autêntico executivo as ações iniciais – em sintonia e sincronia com Ene e Agá; ambos experientes no métier e noutros assaltos de menor porte. De maneira que Ipsilone seria o auge para estes também; no entanto já sacramentando a participação efetiva desses dirigentes por haver não apenas indiciamento deles bem como suas fichas respeitáveis nos meios policiais falando alto, mas ainda por terem aprendizado de anos no presídio, onde tiveram aulas receberam cursos e foram doutorados por mestres os melhores do seu meio... Xis não, nunca sendo sequer indiciado, somente envolvido e sobrevivido... Quanto a dirigir tarefa de tão alta responsabilidade, era ainda a experimentar, a comprovar. No entanto nem a si mesmo provara, ousava se confessar.
          Era cedo naquele muito tarde, já a beirar o treze, quando lhe aparece I, exatamente o comandado amigo de tantos anos, colega num roubo anterior quase frustrado. Trazia informes de Agá, deveriam receber ordens de Xis baseados nas informações e também repassar o chefe tudo da instrução para outros membros; Xis a par do trabalho de Ene e Agá, devendo de seu lado distribuir tarefas aos participantes.
          Num quase abuso de ingenuidade, Xis esteve na iminência de narrar o pesadelo a I; conteve-se a tempo. Urgia não perder mais tempo com loas e desnecessidades, a favor das ações na ação mais importante. O amigo foi (enquanto o chefe se levantando de vez e se preparando ao dia) foi vistoriar o ambiente, certificar-se da não existência de olheiros indesejáveis, olheiras a bem dizer. Tornou, tornaram à conversa anterior. O relógio barulhento e escandaloso na sala de Xis marcava pouco mais de nove horas, tarde naquele cedo com tanto a se fazer. Nem bem retomavam o colóquio velado, quando elas reapareceram.
          A senhora 44, dona U, as demais mais bem fiscalizando? Não, as evangélicas.
          Agora não sendo o casal teimoso a salvar do inferno aquelas almas devedoras: umas velhotas de chapéu, uma delas com fita vermelha como enfeite na cobertura, contra o sol no portão. Xis determinou o outro, experiente nessas coisas, ou escutá-las ou desembaraçar-se das crentes o mais breve possível. Atirou longe I o toco de cigarro comprometedor e assim partiu; voltou com um papel de mensagens, deu o mesmo como comprovação ao superior, retomaram a discusão de antes; não discussão propriamente todavia conversa amena mas produtiva, troca de ideias pela causa, a da Mansão.
          Segundo os informes Ene mais, Agá menos, contaram contataram contrataram certos elementos úteis para o dia treze sexta-feira, elementos esses desconhecidos de Xis – o que não lhe afetando o posto de chefia básico na ação principal – desconhecidas na aparência e na possível superficialidade as pessoas. Algumas não passando para ele de figuras, de personagens quase fictícios, de quase entidades (talvez entidades maléficas ou frívolas e interesseiras somente); mui longe do concreto do seu dia a dia com os homens e ainda assim mesmo se queixando, a quem? a si mesmo, ou seja aquela surrada questão da falta de confiança; integral crença ele sentindo não ter inclusive nos outros do triunvirato.
          Não obstante fora apresentado a uma dessas figuras, um “amigo para o que der e vier” disseram seus colegas na direção. Sempre nisso resguardando o caráter íntimo dele perante o novo ‘amigo’ ou ‘colega’. Para alguns desses personagens fora Xis apresentado como chefe também e inclusive como chefe maior, a despertar-lhe possível vaidade. Um deles, aquele “para o que der e vier” marcara bem Xis, impressionara. Curiosamente ocorrera a apresentação coincidentemente não só num dia treze mas também numa sexta-feira, entre mesas e copos de um ambiente mais ou menos escuro e escuso. Sentavam-se Ene e à sua frente. Pê, rezavam os informes encontrados no dossiê geral da chefia, um ex-policial, expulso fazia anos da corporação, por envolvimentos perigosos e corrupção. Eliminara em função legítima ou assassinara por desfastio e mero exercício alguns maus elementos do baixo mundo, mais abaixo ainda do que o mundo baixo em que vivia; por fim se sujara de vez, até cadeia tomou. Apesar, tendo trânsito livre entre o que eles chamavam macacos e igualmente se enfronhando com políticos; Pê a frequentar a gente de Ene e Agá, ambos firmando nele inteira confiança. Todavia esse participante ia além: vivendo no meio mundano da alta roda social, não a educada a expor berço, a endinheirada. Seus contatos permitiram mesmo por duas vezes entrar na Mansão nos dias festivos. Foi mais para cima nesse para baixo a ponto de cobiçar a filha do banqueiro Ipsilone. Não indo além da cobiça, o que decerto não destoando dos outros convidados de olho gordo nela. Isto expressão popular. Enfim relacionado Pê naquelas atividades como conviva nos folguedos nas danças e nos comes e bebes prodigalizados pela família burguesa. Em verdade na segunda visita já ‘trabalhando’ para Ene, era olho e ouvido do rei; entretanto imaginava, estando a participar dos planos dos chefes, também a se beneficiar com muito bolo: não aceitaria, dada sua posição e situação na empresa de Ene, doces, coisa pouca e próprio aos mequetrefes de Xis. Já nessa altura sabendo Pê muito sobre Xis, não o bastante...
          Xis não vendo com bons olhos os lados de Pê. Não tinha certeza até onde um ‘ex’ e até que ponto indo o sentido ‘policial’ naquele sujeito avermelhado pintado qual ovo de tico-tico, ruivo de cabelos encaracolados e a cheirar perfume; além de viver sempre engravatado, decerto com nó de forca no pescoço, mesmo para tomar seu café matinal em pijamas. Talvez o chefe de I de Ó de Vê não passando dum homem conservador preconceituoso e do tipo machão, embora sem jactâncias desnecessárias e perigosas ao seu posto como mandatário. Porém considerava – e isto ocorrera desde aquelas mesas e copos – considerava maneiroso Pê, o que poderia descambar falar pichar em público inclusive perante Agá ou Ene, com os subordinados tendo mais cuidado para segurar a boca; mas por dentro, enfim no seu linguajar interno, dizia ser um bicha, termo por esse tempo indo a se elevar ao Primeiro Mundo para se consagrar como gay. Em suma, pesando o valor ‘aferível’ do participante novato a si e experiente a Ene, apesar de tudo isso não poria a mão no fogo por esse ‘colega’.
          Também Agá mais tarde iria confirmar o prestígio de Pê à causa deles. Resolvera no consenso com os dois diretores, não obstante Xis a entortar o nariz: iria confirmá-lo nos lances dentro da Mansão; aliás a parte informativa dele era ainda da maior valia ao sucesso.
          Xis vai agora à procura de acertar os últimos detalhes com seus homens, em casa e na rua, onde procurados. Enquanto isso os demais dirigentes a tratar da logística. O como fariam para fazer corretamente, já repisado infindáveis vezes nos encontros. Dado o aviso final de Ene, Xis entraria a tomar com os seus a Mansão.
          Chegou a sexta-feira.





Cap. 12°

Que mais poderia um homem comum igual A desejar num mundo pleno em diferenças e indiferenças e desnivelamento social? Sim, não poderia imaginar galgar o topo a exemplo o dos Ipsilones – o tipo duma família gorda forte poderosa mandona e beneficiária por gorda forte poderosa mandona, beneficiária da pobreza e mais da miséria. Não, sim: poderia sonhar e às vezes sonhava, aproveitando não analisar profundamente sua miséria financeira e da ignorada miséria moral a viver despencar lá embaixo... Fora A um dia remediado, dessa forma os pobres veem seus ricos aos quais rodeiam como formigas; porque na periferia urbana alguém tendo um carro a empurrar na rua para ouvir conselhos e palpites da gente como fazer funcionar no tranco (assim diz o povão); e tendo também precariamente uma casa dessas operárias a serem construídas aos poucos nos fins de semana, a semana dedicada no emprego; gente semelhante considerada endinheirada mas remediada apenas – enfim A como exemplo disso um rico por ter família residência e veículo, rico aos outros pobres. Ficou miserável. As Linhas intrometidas nos lembram o desemprego o subemprego o expediente de ganho esporádico e a dívida e ainda por cima ou por baixo a perda da mulher, casada cansada ou errada; o descontrole e finalmente caindo no limo, quiçá nas drogas e nas drogas da bebida e do tabaco e talvez demais ‘submundices’. Concordamos com as Linhas, não com essa precária e ofensiva situação. Xis igualmente não concordando com isto, isto posto recebe A um apoio no seu meio; para que Tê e U e as outras vizinhas nas vizinhanças possam falar com base, pois não diziam a casa de Xis ser um ninho da bandidagem? Dessa maneira A virou um dos nossos, deles: Xis Ene Agá e os mequetrefes de olho gordo na Mansão Ipsilone. Está assim configurado A como dos quadros. Agora, já às portas das portas da confeitaria, o homem, um homem fininho magrinho pequeninho escurinho, baio por melhor dizer ele assim a se classificar; agora A se põe como bom olheiro. Agora foi aproveitado informante. Inventou de colocar à disposição da causa sua carroça, da qual ele mesmo é o burro, a recolher plásticos e demais recicláveis pelas ruas para vender por preço ínfimo humilhante quase ilusório, ótimo à exploração no depósito de sucatas. Faz isso anos, já antes ser legionário nessa causa pouco limpa; vazia a carrocinha os varais suspensos ela inclinada; e cheia, não tem jeito: A vira seu burro na própria carroça, própria mas emprestada pelo sucateiro; puxa empurra para recolhe mais e o mais vira montanha de fazer medo lá em cima como carga. Então empresta ele o tempo e o serviço aos de Xis, mais aos de Ene que de Xis e aí passa repassa infindáveis vezes na frente da Mansão. Revira o lixo dos magnatas no bairro milionário dos jardins; até faz certa amizade com uns lacaios – estes andam quase sempre mais próximos do próximo que próximo ao ricaço que lhe paga os proventos – faz contato com eles, obtém como quem não quer nada informações pra lá de úteis; não é A um bobo, ativo; se insinua, consegue dados, corre logo a Xis, dá o serviço. Agora quase a estourar o prazo que se estabelecera como treze sexta-feira passa mais vezes ver se tem sobra na sua falta, enche a carriola, canta assobiado desafinando mesmo no assovio uma ária da época, conversa trocando umas palavras com um deles indo despejar nos tambores de lixo o lixo rico na calçada e aí pega A o lixo reciclável, já freguês na assiduidade, dá com a mão a se despedir do mequetrefe dos ricos e após se põe a caminho. Sabe A que amanhã os homens seus colegas se porão a forçar a porta (como será isso! pensa, imagina no imaginário de homem sem cultura as mil formas possíveis de forçar derrubar entrar tomar aquela riqueza que sobra na sua falta de gente miúda e sem eira nem beira). Se apressa, chega afobado, quase nem despejou vidros papéis latas no depósito saindo a contar as poucas cédulas e muitas moedinhas para correr a Xis. Entra sôfrego na casa que é objeto de curiosidade das vizinhas; entra, para, olha, pede anuência em audiência reservada ao chefe: fala qual gago de soquinhos – que importa a ele se machuca a gramática se fere os melindres do pronome, a ele e a Xis e também aos homens que quase lotam o quarto de sessão e quase não ouvem o ‘chegante’ a despejar preciosidades à causa para o chefe, o chefe parecendo um gigantão ao lado do mequetrefinho miúdo. Enfim A narra o que sabe do que viu do que ouviu. Uma coisa é muito séria e seria ainda mais séria por ser falada baixinho, não para não chegar às orelhas da senhora do 44, não: para que até seus colegas na reunião desconheçam; segredo: isso mesmo, um segredo de Estado. O lacaio dera com a língua nos dentes a respeito do patrão dele, ouvira bem isso o empregado e ouvira melhor A: o chefe Ipsilone pretendia viajar a umas ilhas do paraíso fiscal inabordáveis amanhã. Amanhã! puxa amanhã é sexta. Instruiu Xis, logo este se comunicando com o restante triunvirato, instruiu no sentido de A ir tentar mais lixo no lixo do lixo altamente social; que obtivesse o horário preciso. Ou atrapalharia frustraria a abordagem o tesouro bolo aos grandes e doces aos pequenos subordinados, naquela grandeza medida em dinheiro joias quiçá a forçar aos dententores do poder a repassar-lhes no futuro ainda mais tesouros, mais ainda... Que se pusesse a caminho ordena o chefe, que fosse imediatamente. Troca A rápido um quê-zinho qualquer com outro, se acendem o cigarro amistosamente, ele sai de vez, correndo quase trotando, antes de passar pela porta saindo da casa entrando no mundo dirige um olhar um riso misteriosamente de importância aos lado do chefe; aí corre.
          Não obstante torna depois a Xis sem o mais do menos que havia obtido. Ora, nem o lacaio habitual pudera avistar. Uma desvantagem com uma vantagenzinha das pequenas: ah o que tendo de papelão e isopor no entulho rico! Sim, isopor o depósito não aceitando; no entanto deu ganho uns trocados bons, bons no bar, A se embriagando um pouco...





Cap. 13°

Via espiando o que ver naquele colosso arquitetônico, um mundo aos olhos do mundo. Assim vendo , Cê o sorveteiro a aquecer as informações ao triunvirato de Xis, visando a conquista da Mansão, do tesouro dela. Apitava naquela tarde quase noite, na boca da noite e nessa hora quem iria querer sorvete? sorvete feito lá sem grandes princípios e cuidados higiênicos e ainda acondicionado numa carriola pequena de aparência com sujidades populares, num recanto de milionários. Apitava e mais apitando como chamarisco de costume a talvez implorar compradores. Tinha um zelador Ipsilone já freguês, sempre que os olhos do patrão não engordando a criação (ah esse povo tem cada dizer...) daí comprava sobretudo de chocolate e de coco, chupava imediato ainda a trocar umas ideias – que na gente do povo é a conversa-fiada – a falar as bobagens deles, a criadagem, para quem sabe agradar Cê; apreciava contar piadas cabeludas o moço passado fardado não engravatado. Por entre as anedotas filtravam-se se espirravam à audiência de Cê uns dados básicos para a causa. Ora, não era por isso pago!? Quer dizer, nem Xis nem os outros a sequer mostrar a cor do dinheiro, teria que se valer dos picolés vendidos na rua a empurrar o carrinho de sorvete, firi-fi-fi dizia seu apito anunciando aquela novidade habitual; por outro lado, sabendo ele de sobra o porquê dos informes obtidos serem úteis a uma causa nem de longe perdida, ansiada isto sim; sabedor Cê da abordagem planejada à Mansão (são coisas que o povo sabe de sobra e ninguém diz ninguém prova ninguém se candidata à berlinda nisso: mas existe, o fato é inquestionável ao sentido popular, o qual sente longe o cheiro da vitória...) sabedor disso procura obter informações que levem ajudem os companheiros à consecução, sem ser ingênuo a trabalhar de graça, mesmo nas tarefas que fazemos sem explicitar o objeto temos pretensão de ganho... Portanto Cê esperando se não enriquecer no estilo dos desejos do imaginário dum E por exemplo, contentar-se-ia com bem menos o que lhe sabendo ao gosto do mais não do menos – quem poderá tourear a imaginação? Sim, aguardava ganhar receber o seu quinhão em salário justo, portanto grandioso, nos benefícios que toda quadrilha obteria, tomada de assalto a Mansão. Quer isto exposto dizer que sabia Cê não estar trabalhando por amor à arte...
          Todavia em que ficamos. O sorveteiro, aparentemente despretensioso, ele obtém um dado importantíssimo aos de Agá: o velho Ipsilone sairá de viagem não mais na madrugada de amanhã como previsto entre os seus e assoprado por lacaios; além disso iria a matrona a filha bonita e alguns agregados – acompanhantes desse tipo descaracterizado como chupim, desatolador e sem princípios que não seja o princípio de levar vantagem em tudo, tudo virando comes e bebes e viagens e jogatinas e demais abusos dos que têm contra quem nada possua além do sonho; o sonho é algo baratinho ao alcance de qualquer bolsa. Ou seja, a comitiva anteciparia algumas horas a partida às horas de férias. Realmente apenas Ipsilone trabalhando a merecer férias, trabalhando para enriquecer ainda mais todos a ele ligados, mesmo aos filhos esbanjadores e ao genro por via da filha bela. Todos com direitos adquiridos para gastar a rodo, como diz o joão-ninguém na rua, um Cê por exemplo, Cê agora interessado a apitar seu apito às orelhas freguezas. Nunca ousaria a expressão “meu cliente chupador de sorvete de coco e de groselha” ah, tem hoje de limão de laranja de chocolate. O homem fardado do outro lado da grade prefere chocolate; chupa chupa olha olha ninguém no emprego a olhar a infração e aí diz: puxa, este sim é do gostoso.
          Cê dá uma olhadela naquela colossal construção quase secular; a gente vê muito do pouco e tem muito mais (ah, como seria lá dentro!) Tem diante de si o amigo, já é amigo o freguês porque Cê é de um conversar abobrinhas e borrachas inacabáveis, eternamente inacabáveis, emenda um noutro assunto, assunta melhor a Mansão grandalhona lá dentro da muralha e continua a falar fácil solto e a ouvir (quer mais ouvir de fato mas não sabe se calar quando preciso, dentro da corretamente distorcida normalidade cabocla de homem semiurbano da rua). Assim conversam, o freguês repete a dose, não isso: repete sim o sorvete, agora, diz, me dá um de coco; quanto é mesmo que lhe devo? O lacaio uniformizado sem gravata à vontade tem vontade dizer: põe na conta, busca busca no bolso do uniforme o níquel de ferro amarelo e passa por entre o gradil os cobres ao sorveteiro amigo. Amanhã, viu? amanhã, se estiver calorão outra vez outra vez eu compro, vou experimentar aquele... Aquele? aquele é de salada de frutas, tem pedacinhos aparecendo na massa, eu vendo desse aí bem uns trinta por dia! Ih, a dar água na boca. Insiste Cê, então o homem (ele pronuncia “o véio”) vai viajar antes de viajar.... quer dizer, antes da hora que marcaram antes para ir pras estranjas!?
          Corre, aflito, a dar o recado ao patrão, para Ene para Agá para Xis, quem achar primeiro nesse último informe, que sabe privilegiado e básico ao treze, sexta é bom lembrar.






Cap. 14

Yale, isso mesmo pensou vendo anotando lá no caderninho do seu íntimo as coisas que via – ah e como e quanto e onde via... – ‘yale’ o tipo das chaves e fechaduras mais frequentemente encontradas nos restaurantes caros e de nome onde aparecendo de vez em quando. Pouco indo, enfim a coisa para si andava feia, não andava, e a promessa de Agá era indiscutivelmente uma solução, se é que haja solução para a solução. Abraçou de mãos abertas e franca o oferecimento. Propunha o outro requintes de cuidados mas oferecendo doutro lado compensação contra seu estado de miséria; ele se afirmava miserável no ganho pouco contra necessidade bastante, nunca bastante porque aqui entra o supérfluo a exploração a necessidade do homem comum.
          Não obstante não sendo um ser da plebe, supunha Efe. Efe era desse tipo gordo volumoso pesado lerdo qual paquiderme, cujo estômago tem de mais exigência e o meio em que vivendo com exigências ainda maiores. Desses seres que na rua pedem ou impõem espaço de três nas calçadas e ainda esbarram sem querer nas outras pessoas; ou dos que a tomar um ônibus precisam os dois bancos ao traseiro – hoje a lei protege obesos com obrigações a ofertar grandes e mais adequadas acomodações. Não precisando dizer que em quaisquer circunstâncias a se movimentar pachorrentamente contra a pressa alheia. Digamos, sem protesto das Linhas, que um só Efe tomando o espaço de bem uns cinco ou seis As; não cinco uns três; na proporção de três do porte de A fininho magrinho para um só colossal Efe...
          Embora o exposto Efe não conheceu A, viu-o uma vez sem saber quem, nunca soube do outro colega. Nem dos outros. Fora admitido no bando, de olho gordo o gordo no tesouro Ipsilone – enquanto Efe pertencente ao grupo (grupo aqui, inadequado pois desconhecendo os demais comparsas, inclusive Ene e Xis) enfim da equipe mas aceito apenas no setor informativo. Olheiro útil, se não o mais útil na função sem cargo. A rigor se defrontara, aqui a expressão é forte e exagerada; mudemos essa palavra: entrara na causa quase já a treze, ele no momento abordando um mequetrefe da Mansão enquanto por sua vez a tentar abordar, fracassando, o banqueiro. “O Patrão não está, está viajando” e completa esta inverdade comum a espantar penetras: além disso não temos autorização para deixar ninguém entrar sem cartão de visita ou ordem expressa da Família Ipsilone. Efe precisou depois contatar via telefone e insistir via celular e ainda reforçado com indicação anuente dum político seu amigo para depois entrar. Lembrando nisto que o político por definição é sempre amigo de todos presumíveis eleitores. Contudo verdadeiro que ambos participantes da ação, ou dos planos, se avistaram. No momento A empunhava sua fedorenta carrocinha de entulho reciclável, remexia o tambor a busca do tesouro da sucata; enquanto Efe, perturbado com tal presença estranha, tentava sem sucesso convencer o lacaio de Ipsilone entrar falar (ver anotar passar para Agá posteriormente os informes) enfim desejando contato direto com a cena do crime; e não bem com a vítima no crime; esta por sinal não estando à disposição, afirmava educadamente dona mentira da silva.
          Nessa aludida tentativa de se encontrar com o Velho Ipsilone para observar melhor o que em volta do Velho, notou não apenas a má vontade do empregado que o atendia; também, constrangido, notava A como intromissão dum destroço humano com uma carroça cheia de papelão; igualmente via ouvia meio longe no perto o chato pipipi insistente dum sorveteiro nas imediações. Não se conheciam os três. Na exigência do rigor ninguém no planeta se conhece, apenas percebendo doutrem perfis indumentárias e atitudes, quase sempre condenáveis se pessimista; e suportáveis e mesmo aceitáveis o que propõe a bonomia, sendo otimista. Assim Efe notou Cê viu A, teria ‘visto’ toda equipe de Xis e quem sabe esbarrando com sua corpulência e beleza de rinoceronte em Ene sem sabê-lo seu superior hierárquico nos confeitos e presuntivo bolo, bolo aos que pensam alto. Na abordagem, quase plantado no portão milionário, Efe percebeu – e quem não perceberia tanta ofensa atrocidade e selvageria urbanas! – notou mastins ladradores grossos graves machos a gritar poucos amigos, gritar e mais impor com a presença marcante ostensiva brutal no pedaço. Notou ainda as cercas eletrificadas lá em cima dos muros trajados com hera tratada e artisticamente aparada como muralhas intransponíveis. Visores eletrônicos gritantemente arregalados como alarmes; e decerto havendo mil parafernálias outras controladas por satélites, estes amigos dos que têm e exploram o poder planetário contra a violência dos fracos e miseráveis. Isto fora, exteriormente portanto, além dos seguranças inacessíveis e medonhamente inimigos da harmonia; ou amigos dela!? com certeza contrários a todo ladrão no mundo para que seu mundo se preserve e exista. Fora: o fracasso ou vitória pela metade na insuficiência dos dados assim percebidos. Porém, o dentro...
          Efe desconhecia não apenas Xis, de quem nunca ouvira falar; nem sabendo dos outros membros, tinha apenas como contato Agá. Os que porventura ‘conhecendo’, somente por referência aleatória e descuidada ou por citação em mera necessidade do serviço no qual se inserindo – esses não passavam a ele também de personagens fictícios figuras de linguagem a escolher conteúdo (comprometedor?) ou seja entidades. Mas a entidade no homem que se imagina positivo, se não criada por ele ou para ele: não existe. Ou põe em dúvida seu concreto palpável. Daí o passo curto à descrença. Efe cria no que lhe desse vantagem. Digamos a mesa farta, uma transação imobiliária bem sucedida e portanto com lucro. Por sinal o campo minado nas suas finanças pela concorrência desleal (a concorrência é sempre desleal na opinião dos que perdem); e a falta de dinheiro no mercado, a praça vivia a crise; na crise não se vende não se compra e piormente não se paga. Ora, Agá tendo ofertado uma solução sem crise alguma: bastando uns trabalhinhos aos seus afeitos olhos perquiridores observadores e detalhistas e com isso passar ao chefe os informes condizentes. Ah, isso um sine qua non: o pagamento dos dividendos de participação, gordos, a alimentar a felicidade suprema; ou seja dinheiro e renda ao resto da vida, esta que imaginava ser apenas a existência de seus quase cinquenta anos; isso com muita mulher muito passeio e muito repasto colorido vistoso gostoso, regado a bebida fina e não à pobrezinha da cerveja do pobre no seu universo pobre lhe custando muito suor. Ultimamente se valia de condução, suas pernas não suportando o sol a distância as horas, muito para um elefante pesado; então adquiriu um carro, trocou o veículo por outro menos mal e agora incluía no sonho o gasto e abuso de uns cobres a ter automóveis importados e não um carro usado gasto no qual entrava e do qual saía mais lentamente ainda e sempre com dificuldade. Esse auto estacionou agora no meio fio às portas do portão Ipsilone; observando o externo na via pública quase não pública com árvores flores e cuidados de jardinagem e arte na calçada em torno da Mansão.
          Assim desceu, já esperado pelo mequetrefe fardado que o atendeu, penetrando naquele santuário, a suntuosa residência. Assim entrou. Assim agora se encontra a bisbilhotar ainda mais que Tê que U que as outras as quais Efe desconhece e que minam todos recantos dos países, a fazerem levantamento do que existindo não sendo da conta delas; ele também a fazer o seu levantamento e detalhando riquezas e possibilidades de riquezas sem ser igualmente de sua conta.
          Ou não?  encontra-se Efe no ‘serviço’ à disposição da causa de Agá, mesmo desconhecendo a extensão da empresa, cuja vítima seria o velhote Ipsilone ali na sua frente, a calar-se mas em espreita daquele enorme negócio que o paquiderme suarento lhe trazendo para adquirir, ou seja um imóvel a preço de bananas (ah esse povo com seus ditos...)
          Efe observa, enquanto sua boca a mentir normal embora distorcidamente ao magnata; o qual ouvindo sim, não pensando num prejuízo que lhe adviria breve, é lógico, ouvindo com muito interesse o corretor asqueroso afundado no sofá a olhar furtivo seus pertences os quadros o ambiente de luxo.... Observa tudo, tudo depois repassando em minúcias para Agá.



Cap. 15°  

Bem, agora Xis aguarda um tanto curioso um tanto ansioso os outros da cúpula, a tentar – como fora em preparo a uma cirurgia, difícil perigosa complicada imprevisível – a tentar, enganando os companheiros, e se enganar a si mesmo andar tudo bem. Parado na frente duma loja movimentada, entra e sai gente, ele olha e examina melhor o ambiente calcula riscos, a cabeça pra cá à esquerda pra lá à direita ver se vêm não vêm espera mais um pouco e, enquanto, se volta para dentro na lembrança frente seus homens, os seus soldados, os quais supõe com os cortes feitos e os aproveitamentos estarem selecionados para o assalto amanhã à noite, claro será treze e se diz como incentivo e consolo que tudo vai dar certo... Passa em revista os comandados um a um pesa possibilidades sobretudo temendo os menos experientes – os frustrados fracassados descartados já – os que por falta de melhores informes comparativos serão postos no trabalho de campo, pois a teoria pode não funcionar nas ações tão perigosas quanto a da Mansão, mormente se o que chegou às suas mãos pelo companheiro A são informes corretos, ou seja antecipando Ipsilone a viagem e aí tendo de remexer no seu cronograma... Aqui um pior nisso! e, se fala no pensamento enquanto vendo se não vinham os amigos, nem tão amigos porque não totalmente confiáveis; sim, aqui entra uma complicação que é a de a Família Ipsilone assim como alterara antecipando a saída e alterando os planos do triunvirato, se ela mudasse outra vez, piorando ainda mais com nova antecipação: como ficaríamos então, chegando lá na Mansão armados até aos dentes, postos todos nos seus postos adrede e trabalhosamente encaixados cada qual na sua tarefa – e agora os malucos ricaços então longe nos ares nos mares... Iriam tomar tesouros na casa sem o dono da casa, fator básico conforme o planejamento para ficar-lhes o proprietário sob controle na mira do revólver! Ora, pensou, não falaria mesmo e ainda mais com voz alta expondo esse alto pensamento; ora, devo resolver o quanto antes a coisa e impor rápido aos meus comparsas submissos enquanto eles, Ene e Agá, não só deverão estar a par do novo problema quanto me ajudar no como resolvê-lo. É para isso que nos reuniremos, isto é: em pôr o negócio às claras e talvez, inteligentes e experimentados e corajosos com certeza, sim talvez me tragam um alívio nesta tensão que vivo agora. Olhou pra lá pra cá a tardança; e mais ainda sofreu uns minutos que sua ansiedade trocou por eternidades, até que Agá primeiro e depois mais desconfiado ainda Ene surgissem na esquina. Se cumprimentaram como não querendo ver-se juntos; ou melhor dizendo: como se o povo e no meio do povo a macacada infiltrada alarmada com a presença notasse a presença, a presença dos três juntos... Se encaminharam por entre a turba e se foram buscando se aproximando se unindo devagar até parar num ermo ou espaço menos sujo de gente e do olhar da gente, onde pudesse o trio conversar mais aliviado. Após troca rápida de palavras sem nenhuma complicação ostensiva, após subiram no carro de Ene estacionado num local menos claro, visto as lâmpadas também inimigas escondidas no seu lume.
          Rodaram algum tempo, tensos na verdade como exigia a situação e as modificações imprevistas com alterações dos Ipsilones na última hora; eles sendo os mais interessados segundo o planejamento de meses já estabelecido. Enfim teriam que discutir isso e também checar o andamento do pessoal da informação. Lógico custaria horas dentro dum veículo a rodar por aí e a estacionar nos lugares seguros onde suas respectivas vozes pudessem ser audíveis normais; sem precisar ser corretamente distorcidas.
          Olharam-se e se entenderam de olhar, natural estivessem os três um bocado tensos. Xis ainda mais, ou sendo que a experiência a frieza dos outros a esconder um pouco os nervos. Têm pessoas que ocultam sentimentos ou se apresentam harmoniosas e equilibradas, como pinceladas lindamente na superfície, mas um vulcão ebulição tensão por baixo da pele a estourar. Xis não era assim: quando muito assim com seus desiguais submissos e não com seus iguais ou apenas semelhantes colegas da direção... Tentava esconder seu estado de espírito, o que poderia nos seus descuidos levar a psicologia dos outros comandantes a descobrir e analisar quiçá se aproveitar dele... Xis apesar da corpulência gigante, os dois parceiros parecendo encolhidos no tamanho qual o exemplo de A naquele dia noite em que chegara passar informes catastróficos diante doutros membros na reunião; apesar disso sendo frágil ou com seus pontos fracos quase expostos. Entretanto nem Agá nem Ene sendo miúdos eram fracos; Ene com um poder ao discursar, desemudecendo diríamos a ofender as Linhas. Falava como que em última palavra, a fechar a linha o texto a obra mais extensa; falava e calava outrem, mesmo sendo um chefão do tipo Xis. Parecia ainda mais potente e maior que seu porte físico a palavra desse costumeiramente mudo ser; equivalendo pôr a última pá de cal na afirmação de alguém, mesmo esse alguém sendo da cúpula diretora. Não obstante não se atritando ambos companheiros de Xis. Era dessa gente que não fala, olha observa analisa pensa repensa e não explode: diz sorridente vitoriosa quase, que outrem está errado. Usando da sofisticação educada calculada controlada para simplesmente trocar o erro por engano. “Você, Xis, está nisso enganado”. Sem uso de reticências embromadoras, sem meios termos. Enquanto Xis – claríssimo não precisar tal artifício e usá-lo-ia para enredar sua pobre verdade; não precisando disso frente aos seus homens, escolhidos a dedo por ele mesmo a fim de impor sua capacidade e diretriz, a conquistá-los; usava mais um processo direto; enfim não era Xis por demais interativo, porém impondo um sem-número de vezes sua opinião, quase discricionariamente. Enquanto que diante agora dos outros triúnviros, ensaia uma força de liderança (esta inquestinável até pelos outros dois) ensaia sem lograr êxito... Xis mostra-se à beira do descontrole no controle emocional e isto soa mal na sua posição; num momento da conversa se vê obrigado qual uma criança guardar esconder sumir com suas armas e garras perante os dois companheiros comuns, incomuns por deliberados. Além do mais Xis é um carente, um emotivo contido.
          Frustrado no amor, amor banal do ser que não filosofa nem poetiza a manifestação do sentimento; aos quarenta e tantos anos nunca se firmara, nunca se unira a uma fêmea da espécie. Explicado em parte por sua vida desregrada, a viver fugir de exposições, mas não dos crimes, pois aceitando a contravenção mais segura à sobrevivência. Inclusive se podia gabar nunca ter indiciamento policial, podendo (e quem sabe sendo usado em razão disso pelos outros dois, quiçá por amizades anteriores e noutros lugares) podendo enfim ser acreditado e harmonizado não propriamente como santo e sim como normal, um ser normal no seu comum corretamente distorcido. Pensariam assim dele Agá e Ene? os homens seus soldados? a sociedade decente pagadora de impostos e xingadora do governo? os policiais? Não saberia Xis responder. Agora na aflitiva situação, menos acertaria errando no seu indormir suas noites anteriores a treze. O amor ou a falta de uma companheira não sendo questão agora posta; e seria mais uma soma nessa dedução. Porque mais próximo, Xis tem diante de si outros dois comparsas em pé de igualdade a discutirem o caso Mansão. Como tomá-la diante da volubilidade dos Ipsilones, ora não saindo na viagem ora a sair às 22 ora às 20 ora noutra hora. Os dramas com seus comandados, os problemas que estes apresentam; os com o pessoal que forneceu os dados – aqui também entraria na discussão não apenas o como pagar-lhe a jornada mas como se descartar dele quando nos bolsos a féria desse longo e trabalhoso mister, com seus riscos. Além de precisarem pôr os dirigentes à baila o sentido aventureiro da empresa, o qual não descarta imprevisibilidade e até o fracasso, este e suas consequências terríveis...
          Contudo há um lance de visão ou de desprendimento discutível quiçá de má-fé nos colegas Ene e Agá frente a Xis. Num momento de discussão mais acesa sobre os problemas em questão, Agá e Ene ponderados e Xis um pouco alterado, um deles fala a este: nós sabemos poder contar integralmente com você. Você é capacitado, é um chefe de fato, é o nosso comandante! Nós faremos tudo dentro da Mansão, porém sob suas ordens, confiantes na sua firmeza: todos, nós dois e seus homens, todos obedeceremos cegamente o que disser, porque todos confiamos no seu tino. Juntos nos apoderaremos do tesouro Ipsilone. Depois, conforme seu plano, traremos o Velho no cabresto na mira da pistola e exigiremos dele que nos alimente os bolsos por quanto pudermos a extrair os bens dos ricos. Naturalmente – longe já dos macacos que o protege sempre – nós seremos então os endinheirados; com pés no chão, contando que muito do que deveria estar nas nossas mãos não poderemos obter. Falamos da incalculável riqueza que o nome deles detém nos paraísos e na influência que o velhote tem entre os políticos e o governo. Nisso não podemos nos meter, sem sermos descobertos e aí teríamos nos arriscado à toa assaltando a Mansão, iríamos cair nas mãos de parte da polícia não comprometida com a gente. Ora, extorquiremos sim a nossa porção no assalto.
          Daí fizeram os três um levantamento do que constando nos informes chegados a eles. A madrugada se estendia se acabava até, era necessário guardar forças ao dia treze, rico em acontecimentos por vir. Ene exibiu um recorte de quase página da imprensa escrita. Lá o Velho na berlinda como flor de um imenso jardim num dia de festa nos jardins. Nisso Xis se fixou antes que nessa flor murcha, na flor bela que era a Ipsilone, nunca vira mulher tão esplendorosa na sua existência...
          Em verdade isso calou fundo na sua carência sentimental. Foi com muita força de vontade, ou melhor dizendo: foi preciso que se pusesse com mais firmeza a fixar e estudar o mapa que durante minutos analisaram, o mapa fornecido pelo gordo Efe e escrito por Agá, o qual a passar os dados numa confirmação aos outros dois triúnviros. Xis via o papel as indicações os traços os pontos tidos por mais perigosos – mas no meio de quase tudo entrava um perfil de mulher...





Cap. 16°

Fora Xis trazido de volta naquele carro negro na madrugada escura, o auto somente parou não estacionou propriamente na rua Bom Princípio, na esquina dela; decerto dona Tê e as outras a dormir ainda ou a se levantar se espreguiçar a se preparar ou para ver os errados e falar ou não. O vizinho dela, exausto trazido por seus iguais após uma noite sem noitada sem bebida sem quaisquer extravagâncias chegava. No trecho de rua até sua casa foi pensando a deglutir melhor os dramas que discutiram horas os dirigentes e os sucessos que adviriam em treze já a clarear com galos e cães no seu mister de acordar a gente.
          Ficava uma grande interrogação no seu ser. Aliás a interrogação separa em linha o pra cá conhecido do de lá rico pleno no desconhecer. A interrogação não tem tamanho, tal seu tamanho; ela pode ser tão grande quanto o mundo quanto o universo inclusive; e pode ser pequena gradada na insignificância insignificante até chegar no mínimo impensável a quase desaparecer na visão. No entanto continuar interrogação e ainda possuir seu poder, atrair fascinar. Poderá ter mil cores, ser verde da esperança azul prometedor vermelho sangrento da violência ou marron ou preto, retinta ela a ferir os olhos que veem. Poderá ser apresentada representada enfeitada escondida tapeada em várias formas, ‘ene-formas’, o que facilitado hoje pelo uso da informática e muito mais pelo uso da imaginação: deitada inclinada de pé de ponta-cabeça grossa fina riscada, talhada por máquina por caneta por lápis por um pedaço de carvão ou em vão mil outras maneiras de não saber as coisas. Ou tê-la que inventar pondo minhocas por cima do que possa existir ou não. Ainda assim continua a ser interrogação. A interrogação divide o conhecido ou pretensamente sabido daquilo que ainda não sabemos ou que nunca saberemos. Interrogação na interrogação mesma.
          Ficava a interrogação de Xis diante do quadro que teria, na precariedade do ser, a ganhar (ou perder!) nas peripécias do assalto à Mansão. Ainda permanecia algo, lhe doendo como uma lança ainda não retirada do corpo a sangrar fincada a feri-lo. Essa dor era a interrogação específica sobre as duas figuras com as quais estivera naquela noite a varar madrugada com dia a nascer. Quem eram Ene e Agá de fato? até onde, dado o conhecimento precário dessas criaturas, até onde confiar? o que pensavam de fato que ele pensasse ou fosse... Verdade que atingiram bem sua vaidade de homem mostrando crer na sua capacidade a chefiar entregando tão extraordinária empresa nas suas mãos, mas até que ponto iria realmente essa confiança depositada? teriam usado em toda extensão o poder de suas palavras, não pegajosas melífluas e de aparência vazias, supostamente sérias ajustadas. Noutras palavras, punha a extenção das afirmativas deles na profundidade absoluta, algo que não é absoluto: a fala humana. Isto porque mil são as interpretações da mesma fala ou duma só palavra usada. Oh como deplorava, sempre deplorara, a insuficiência dos sons desde a boca do homem. Não somos demais frágeis e incapazes em nosso dizer! se interrogou.
          Os próximos lances a se desencadear iriam pôr à prova a confiança dita redita vezes antes e mais afirmada naquela última reunião móvel dos três homens dirigentes dentro dum veículo como fosse uma torre de marfim isolada da sociedade. Sabia com certeza e já sem qualquer dúvida mesmo não confiar; ou melhor: confiar sim, desconfiando; e nisso era ótimo aluno na psicologia dos seres.
          Enquanto ele raciocinava em torno dessas questões, os outros pisaram, como adora o povo dizer, pisaram no acelerador, correram no sentido contrário dele, Xis indo no passo lento a pensar repensar para sua casa, certamente não de saudade de Tê e das outras. Os dois, libertos da presença quem sabe incômoda do outro chefe, então se olharam sorriram incognitamente e soltaram a seguir entre si suas confidências ou inconfidências. Talvez projetando usar o colega e seus outros colegas comandados a benefício próprio...
          Xis se propôs descansar umas horas, antes de retomar suas altas funções frente aos mequetrefes, possivelmente numa última reunião convocada a repasse e confirmação de tarefas à noite. Não lhe saía da cabeça, não obstante tantos dramas a resolver, uma expressão que ouvira do povo ainda quando menino “comei-vos uns aos outros” decerto brincadeira popular; no meio a tudo isso tinha consciência não conseguir tirar a imagem duma belíssima Ipsilone, a do recorte...
          Não chegou a conciliar o sono no ‘descanso’...





Cap. 17°

Havia um errado naqueles ostensivos certos na abordagem da Mansão. Mesmo a deixar de lado os aspectos incógnitos que uma empreitada dessa natureza oferece; mesmo assim algo saltitava ante a visão de boa vontade de Xis. Não podia ocorrer que houvesse uma cúpula dentro da própria cúpula... que uma em detrimento do desconhecimento ou do conhecimento não satisfatório, encaixada aparentemente noutra, estivesse no descompasso! Sim a mais forte, necessariamente havendo então a mais fraca e até frágil, que enfim esta fosse engolida pela primeira?
          Contudo aquele dia doze – não era treze! indagam as Linhas afoitas – contudo se acabando, as horas já em plena sexta-feira, uma sexta demais agitada para Xis. Juntara seus homens, ele feito um general responsável por soldados, selecionados a dedo, agora sobrando no máximo uns sete, no mínimo presumido os melhores homens, homens aguerridos dispostos determinados militantes conscientes, mercenários embora. Aqui entra um porém, o qual poderia parecer sem importância e desnecessário visto o tamanho do tesouro a ser conseguido na tarefa primordial do assalto. Não: básico à explicação da abordagem e a explicar o submeter-se os homens à direção do general, esses combatentes que nem de longe supunham um atrito entre os triúnviros, já seus conhecidos; julgando os tais combatentes dessas guerra Xis sua máxima autoridade, porém era de fato a máxima nessa altura às portas da Mansão!? Apenas um fator perdurando, a certeza na conquista do tesouro, ora em mãos de Ipsilone. A promessa feita refeita meses no trabalho desde o aliciamento deles até as reuniões frequentes passando pelo constrangimento dos cortes feitos; tal promessa andava de pé, firme a atraí-los para o chefe; com o dado positivo de agora em diante ser possível: ficariam decerto ricos da noite para o dia. Aqui é um absoluto desnecessário, visto as ações efetivas ocorrerem habitualmente à noite, dia de trabalho aos ladrões e inclusive válido para aqueles que se não definem ladrões, mas somando oportunidades, mesmo as oportunidades pensadas e adredemente preparadas... Em suma os membros dessa curiosa confraria desejavam o ouro; ah, o ouro ao bandido!? indagaria o popular. Todavia, em obtendo o ouro, ainda pretendiam continuar sob o ímã de Xis? Alguns pelo menos descartavam esta possibilidade (ou escolha?) porque julgando ao ter bolsos plenos dispensável um chefe... Além do mais já tergiversavam em torno da questão mas individualmente, cada qual no seu mundo, o mundo que é a mente humana; admitiam provavelmente um ‘talvez’ perigoso, ao menos com pesados riscos que é o de tapear o próximo. Ora, não estamos diante de anjos é preciso sempre alertar. São homens práticos ou possuindo aquilo que caracteriza um ser comum: é preciso viver o dia de hoje, de preferência com todas as vantagens do bem; bem nisto não é o bem, o bem materialmente na mão. Anjos não, viventes mui complicados por uma vida pregressa nada recomendável aos santos. Naturalmente, melhor aqui afirmar ‘comumente’, natural tendo eles afeições e relações amistosas quiçá algum desprendimento ocasional; o homem comum por mais manchado na honra esteja não é desprovido de boas intenções e inclusive de atos supostamente grandiosos, sobretudo frente aos que considere amigos. Não vê o mal em tudo, apenas em quase tudo. Porém como é corrente saber existem os que fogem duma relação por causa da consciência um pouco ou bastante pesada; alguns são arredios, pelo menos mais desconfiados. Isto válido dentro do grupo e é claro mais com relação aos de fora, mormente os que já sujaram a água nos contatos anteriores. Digamos fossem os de Xis não renitentes e perigosos bandidos, só bandidos ou fora da lei. Uns, foi visto, criminosos indiciados e até sentenciados e por isso foragidos, daí estarem escondidos. Admitamos que ninguém possa se esconder dos olhinhos da senhora do 44... Para tais elementos no estudo, o dia treze uma cartada grande, de grande risco, de grande resultado (aqui suposto...) – uma cartada final. Será possa existir o fim? Proporcionalmente e em boa parte isto valendo ao general deles.
          Xis não tem – já se deslocando o comboio rumo à Mansão – não tem confiança nos outros dirigentes. Não é uma possibilidade confusa mas agora madura conclusão. Ocorre um pior nisto, levando em consideração ele ser o general quiçá futuro marechal: desconhece não só a profundidade como os meandros do pensamento dos outros dois colegas e dos subalternos deles; e inclusive os dele mesmo, os imediatamente a si ligados, os que mantêm amizade por anos (seria apego ou só conhecimento sobre eles?) sobretudo no dia a dia os que vivem nas reuniões da rua Bom Princípio, “Precipício” diria Tê para as outras no conselho do bairro. A frequência dos soldados, uns em baixa..., outros na firmeza se não do caráter firmeza no consequente tesouro Ipsilone; essa frequência dava a Xis alguma confiança nos soldados sobrantes, sete não falhando a memória, tanto da quantidade quanto da mentira suposta nesse símbolo do número. Com tais companheiros segue firme, não marcha cadenciada como numa parada festiva, pois a guerra costuma ser mais machucante... Não, e sim com firmeza crente numa vitória dos ‘descamisados’  (isto expressão abusiva) dos que não têm, a tomar dos que possuem; possuem mas nem sempre com trabalho honesto. Enfim os que não têm e desejam ter, contra os que têm e não imaginam sequer perder parte do que possuem.
          Ora, o que vem a ser propriedade!?
          Não tem Xis confiança; nos que desconhecemos e até sem saber que existam isto fica claro, mas: e quando não tendo confiança no pessoal aliciado por Agá e Ene, seja na logística seja no setor da informação; tudo na ordem sine qua non para invadir e consequentemente se beneficiar apropriando-se do grande tesouro, mesmo este sendo parcelados doces e só algum bolo...
          Enquanto a marcha do batalhão no qual se destacam elementos como Erre, I, Ele, enquanto isso os outros triúnviros ajuntam suas relações, estas nem sempre machos da espécie como somos levados a supor até aqui, havendo uma que outra mulher participante ou infiltrada no meio que se deseja submeter. Poder-se-ia concluir afoitamente que o crime e os que o exercem sejam necessariamente homens. O mundo do crime será masculino! Todavia – fora ainda a possibilidade de os homens frequentarem bem mais a manchete da imprensa marrom e comprometida se autodefinindo especializada... e serem o ganha-pão desta – todavia supondo verdade que a estatística da ação contra Ipsilone não seja grosseira e demais violenta, o ato é pelo menos um flagrante grosseiro e violento. Será que os machos são mais corajosos arrojados audaciosos? Tal ação, a conquista desse bolo, sim audaciosa e de grande risco. Um ganhar, dizem otimistas, ou um perder, respondem pessimistas.
          Ene gastara nessa altura a bateria do celular, trocara infindáveis vezes de aparelho no contato desses quase anônimos; esta uma palavra inadequada sendo os mesmos de capital importância para a causa. Tendo aqui um dado curioso: este dirigente com memória de elefante... dizem que os paquidermes não se esquecem; o que uma figura a atrapalhar neste caso porque Ene assim como Agá de baixa estatura e magro; bem longe do peso dum Efe por exemplo. Contudo não esquecia sequer um número de telefone, o que facilitando sua ‘costura’ fazendo as aproximações necessárias à sua posição de mandatário, quem sabe de coordenador. Talvez possamos em cunha pôr a possibilidade de não memorizar seu próprio número... sem precisar de fato lembrar pois não telefonaria para si mesmo. Já seu colega Agá esquecendo tudo – inclusive os do seu uso próprio necessitando marcá-lo numa caderneta às mãos, um caderno com dados que fariam a felicidade dos policiais militares e civis, como um delegado seu desafeto. Claro, ruiria tudo, iria por água abaixo todo o trabalho não só dele mas o de Ene de Xis e dos soldadinhos de Xis, aos quais entre si os chefes gozando como pés-rapados. Ruiria sim e isso a alegrar mais ainda Ipsilone, nessa hora com um grupo reduzido de familiares e apensos mais chegados a planejar miudezas da grande viagem de férias; não sendo absoluto que todos outros e não só o Velho estivesse realmente cansado do trabalho.
          Um desses agregados ou pensionistas ou mesmo a feri-los melhor com o dizer popular ‘chupins’, um era o médico de cabeceira de Ipsilone. Parece que o determinado profissional conhecido na Mansão por , tendo no apelido um Silva patriótico apenas, os outros sobrenomes eram gringos, desses que a gente não consegue pronunciar. Quase não parando no consultório de renome, mais enfiado com a gente do ‘patrão’. Deste recebendo as benesses da amizade e da influência pela influência política do seu chefe e quase pai; não obstante o esculápio já com seus cabelos brancos.
          Contudo a Mansão andava tranquila, fora os planos e o agito do arrumar malas. O Velho mais que outrem atarefado afatigado nos contatos a deixar toda responsabilidade a um seu alto funcionário, advogado, para tratar na sua iminente ausência e na ausência de alguns meses os negócios inadiáveis. Também esse advogado de confiança e por isso ali presente nos preparativos. Lógico que um homem da envergadura do chefão da Família Ipsilone não teria total liberdade numa viagem, por mais equilíbrio exterior mostrasse, havendo efervecência no seu interior; seu interior fervia sim quase estourava – daí o ansiado descanso – mas não livrar-se-ia do peso acumulado em uma geração de enriquecimento, visto o perigo de quanto estivermos no alto mais perdemos ao cair... De maneira que havendo um prognóstico da mentira ou do engano em torno do seu desligamento total dos dramas a atingir a Mansão, mesmo distante latitudes e longitudes da megalópole, ela ainda presa a ele, aos negócios daquele tipo do patrão engordar a criação. Portanto desligar-se-ia, ligado. Este o drama de quem tendo muito. Nem de perto a imaginar um problema maior ainda e ainda em andamento: a existência de Xis e dos outros...
          Isto posto não elimina o perigo de sempre haver criminosos, dos criminosos de toda gradação, e da violência em si ligada fortemente a esses inimigos da sociedade. Tanto assim que a Mansão era quase uma ilha; uma fortaleza boa para se isolar daquela imundície representada por esses maus elementos; e distante também da miséria que é o parto do perto da loucura. Pelo menos assim visto no interior da Mansão. Em razão disso e para garantir a paz nessa ilha os visores eletrônicos as cercas as muralhas os cães os seguranças. Ainda assim não se sentiam seguros.
          Agá. Agora umas linhas sobre Agá.
          Enquanto os homens se preparam, avançam, Xis teme, Ene costura ligações acerta participantes a ele ligados – Agá um mundo à parte daquele mundo, não obstante direcionado aos outros, sincronizados embora nem sempre harmonizados todos; todos, inclusive Agá, sobretudo Agá, todos convergentes, isto quer dizer os grandalhões da causa e os pequenos soldados dessa guerra; os quais podendo se desconhecer ou apenas se suporem existentes; mais que isso: caso existentes, a trazer benefícios à mesma causa ou seja a conquista do tesouro Ipsilone! Enquanto os fatos se desenrolam Agá trama. Mais próximo de Ene que de Xis, concerta usar extraindo o máximo de vantagem e serviço do general e de seus soldados, então a chegar nos jardins; concerta maquina o que fazer no ápice da abordagem final da Mansão. Ficou à sua parte na operação o trabalho não só da diplomacia inerente à gerência e aqui se encontrando melhor com Ene, mas de sua responsabilidade o fornecimento dos veículos de transporte – inclusive passara dois a Xis com seus homens, já próximos nessa altura da zona dos jardins como afirmado. Outros carros, fossem ou não roubados, outros deixou nuns pontos críticos estratégicos e garantidos. No assunto melindroso não tendo intervenção: deixara à fineza e experiência de Ene os contatos com policiais corruptos e a anuência e interferência dos mesmos para que a lei não os incomodasse atrapalhando seja com objeções desnecessárias bem como a isolar desviando possíveis e indesejáveis patrulhas, estas sempre benquistas e bem-vistas no bairro milionário, o qual nunca se satisfaz apenas com seus seguranças mastins cercas e o mais a mais defendê-lo... Agá devendo como executivo e como diretor acertar possíveis desacertos entre as ligações, clandestinas logicamente... É quem fornece as viaturas enquanto procura dificultar se não impedir o trânsito das viaturas oficiais; além disso ficou-lhe ao encargo trajes a rigor. Aqui convém insistir na roupa comum, a de todo cidadão comum, visto o que mais se pretender evitar era o toque abusivo ostensivo da berlinda. Teria que fazer imaginar para quem passando na rua nada haver de extraordinário e de novo além do que se vê, ajudado pelo gosto da rotina. Enfim ocorre talvez algo inusitado, pois Agá a cuidar exatamente da segurança naquela insegurança que se perpetrava contra o bairro rico, simbolicamente armado de mastins de robôs de seguranças, os seguranças de poucos sorrisos... Não podia falhar. Ou... ora, lá vêm de novo os pessimistas!
          Só não tratou da vestimenta dos homens ligados a Xis e mais especificamente dos do contato E, o funcionariozinho da força & luz, os quais trajados no rigor também do costume: os uniformes tipo macacão (sem qualquer referência à polícia, óbvio) um macacão com faixa amarela e fundo marrom escuro ou cor muito próxima disto; e emblema da empresa, notados diário nas noites de apagões circuitos postes tombados na tempestade.
          Xis fizera a tempo contato com E, decerto este na sua tremura de insegurança comum entre os neófitos...
          Alô, E?





Cap. 18°

Weekend não, mais que no final de semana aquele homem comum já passara passando e mais passando na rua, ali avenida alameda quiçá bulevar nos jardins, vendo jardins e as heras nas muralhas da Mansão. Mais ou menos assim: a gente leva o cachorro da gente na cordinha a tomar uns ares e aí o desastre pela canzoada desperta na ‘ladração’ de irritar as orelhas de um mundo. Tem a lei da limpeza na megalópole e mais válido aos jardins porque bairro milionário não aceita fezes imundas a feder na rua, na avenida; por isso se recolhe, bom cidadão, os imprestáveis; imprestáveis não ao vira-lata. Os mastins de Ipsilone então nessa hora da passagem desejando derrubar o muro o gradil a comer o outro no jantar pois certamente a ração sem graça; a ponto de no lado de dentro o treinador perder a paciência e ‘berrarzinho’ os seus mastins (os Ipsilones envolvidos nesse momento com as malas, nem escutando a grosseria do funcionário); e no lado de fora gritando o seu vira-lata. Se olham ferozes ambos lados adversários caninos, Dê prossegue sua via-sacra de passear cachorro. Não apenas nesse fim de semana, mas nesse em particular em mais uma passagem, precisamente sexta-feira dia treze, azíago para Dê e qualquer homem comum. Por muitos fins iniciou e percorreu na caminhada, a observar curioso aquelas suntuosidades; tão distantes do seu bairro pobre só rico com relação à periferia. Notando então um desusado movimento nesse local: ora carros vistosos e potentes cheirando riqueza invisível escondida pelos vidros verde-escuros intransponíveis ao olho curioso pobre; ora a saírem dos portais do palácio os carrões; decerto, intuiu, decerto alguma festividade milionária e de grande pompa, quem sabe não possa me esclarecer disso consultando o jornal vendo a tevê e ainda pensou outras mais coisas para não pensar, enquanto o cãozinho a lhe puxar, impor continuação do passeio, passeio dele, cão, passeio também dele, homem comum.
          Bastante estranho a movimentação no fim de um dia já escurecendo findando ao início dos lances que mudariam os jardins quiçá o mundo... No leito da via pública, vigiada sim mas pública, automóveis se cruzam talvez mais que nos dias ordinários por força da rotina. Escurece, a noite impondo que eles acendam os faróis, na disputa com as luminárias amigas das mariposas distraídas. Uma garoa ameaça se desentender com o chuvisco fino, põe reflexo da luminosidade no asfalto. Então Dê já se recolhendo à casa à esposa à prole e o cão de língua de fora no extremo cansaço.
          Não se cansa nem um pouco a Mansão nessa noite, a noite que habitualmente se faz amiga do ladrão; ela fervilha no movimento... diríamos inusual? não fosse semelhante noutras tantas noites. Agora os Ipsilones se deslocarão aos paraísos ao descanso merecido, porque fazer crescer o pecúlio cansa fatiga estressa, isto aqui um dizer a melhorar piorando o dizer.
          Ela não aguarda o pessoal de Xis; apenas desconfia desde antes de nascerem Xis e os outros comparsas; daí mastins e seguranças – como suas congêneres milionárias construções a afrontar os casebres da periferia. Contudo o pessoal se aproxima. Seus contatos ligados, os outros da chefia a ligar igualmente seus celulares avisando informantes pondo nos seus respectivos postos os soldados dessa causa; os carros de trazê-los e para fugir preciso for se posicionam, os responsáveis consultam ou ‘reconsultam’? o seu mapeamento, tendo um com um dos mapas esfarrapado por dobrado remarcado assinalado e rasgado num ou noutro pedaço além da sujeira ensebada no uso – todos, todos realmente atentos às ordens. Que lhes importa que possam até se chocar essas ordens... Prestes ao trabalho. Os indóceis – e isto não poderá parecer abusivo? – os indóceis militantes sob ordens de Xis caminham como fora na caçada na mata na selva e é a selva de pedra, pedra preciosa reduzida ao símbolo do bolo e dos doces; indóceis ao serviço tão esperado meses. Os mastins, de faro fino, aspiram estranhos no pedaço, ficam também indóceis, é preciso chamar atenção a todo instante. Os mercenários de Xis ainda andam mais indóceis.
          Chegou a hora, Xis digitara ao ‘amigo’ E, E se deslocara quase que imediato ao seu posto, não de observação mas de trabalho mesmo. Tarefa básica, pedra angular à conquista do tesouro; sem a qual impossível o fato dar-se e dar-se a consequência do fato. Então E ‘reimagina’ seus sonhos, sonha o sonho de enriquecer da noite para o dia, deixar o emprego chão, ter imóveis, ter secretária linda, ah pobre da Maria... Anteriormente titubeara em contar, o chefe exigiu discrição, exigiu até a boca muda nessas coisas tão melindrosas tão perigosas diante da esposa...
          Maria, ele nunca tivera se não nos primeiros dias de união tratamentos carinhosos do tipo meu bem meu amor meu coração essas coisas dos poetas que o homem comum desconhece e daí apenas o tratamento você e Maria, Maria: vamos ficar milionários; não senhora, não comprei bilhete de loteria coisa alguma, vamos de fato ficar ricos; vai pensando na mansão que vou lhe dar e às crianças (então discursou um rol do que supostamente um pai imagina que a prole necessita a ser feliz; assunto em que a mulher ganha de dez a zero do esposo; assim mesmo relacionou diante dela o que faria milionário aos seus). O carro... jogo fora no ferro-velho, compro um... citou mil marcas desconhecidas da senhora Silva e mil vezes sabidas de sua vivência masculina. Fez mais E nesse disparate que é expor os desejos mil anos guardados escondidos retidos no pensamento a serem validados e despejados numa só noite a dois, ele ela pensando dormir, ela ele roncando feio como costume porém a gritar. Maria, não posso falar como ficaremos, ficamos já, milionários! Não, sim posso e devo falar à minha querida esposa (nesse ponto a consorte temendo a loucura pois não a chamara nunca até aí “querida”, enlouquecera E decerto). Maria – vamos tomar a Mansão dos Ipsilones, tomar-lhes o tesouro, vamos amanhã, que é sexta-feira treze, a qual passa não ser mais o dia do azar, da sorte! Amanhã, Maria...
          A cara-metade chocalhou E, gritou tanto, tanto a acordar os meninos “você tá com pesadelo outra vez E!”
          Acorda E, agora relembra o pesadelo, tem calafrios indo após a ligação do celular de Xis e se esfria: ah se tivesse mesmo que por alto narrado meu sonho para ela... Continua seu caminho a desligar o transformador da área dos jardins...
          Agora não sendo sonho.
          Olha ao redor depois olha o poste certifica-se saber a contento o que lhe ensinara um colega da companhia de luz, o painel as alavancas os pedais o funcionamento do relógio indicador (já anteriormente recebera aulas do dito colega ao manejo da geringonça; aqui entra um porém: E ofertou um presente ao colega mas não esclareceu nem se comprometendo a dizer sobre a Mansão; óbvio que o outro não sendo um comparsa, decerto imaginou coisas escusas...) Faz mais: experimentou antes da ação propriamente dita a aparelhagem e agora os instrumentos todos a funcionar satisfatoriamente.
          Treme então pelo medo ao risco; nas noites anteriores não conseguia dormir na preocupação e na ansiedade, irritando a esposa, agora está na iminência do risco; realmente um risco e essa tarefa algo inusitado a si, a si a quem não se admintindo erro; porque a possibilidade fatal extrapola a rotina dum ser apenas funcionário comum, sobretudo quando não se admitindo falhas, exatamente o caso nessa empreitada perigosa. Aí sua muito, treme, engrena marcha em primeira, devagarinho, encosta o veículo no poste; olha em cima dependurado aquele enorme retângulo escuro no claro das lâmpadas a atrapalhar tardias mariposas a vercejar luminosidades. Pressiona o comando, eleva o guindaste, acopla como ensinado e indicado as garras no extremo do aparelho transformador – ‘bate’, como diz a sua linguagem chã, bate em seguida uma ligação como aviso final a Xis todo ouvidos. Assim puxa uma chave desligando a energia e calando a luz de toda uma pequena região, rica sim e agora no escuro! Fá-lo e imediato abaixa os tentáculos do guindaste, movimenta o caminhão na direção da confeitaria, para se encontrar com os seus.
          Chega E com o seu caminhão no escuro do palácio dos Ipsilones, na esquina já lhe subiram à cabine dois dos homens de Xis, uniformizados com o macacão da força & luz; para frente ao portão da casa rica, com seus improvisos em lume nesse apagão forçado. Descem os ‘funcionários’ e acionam os criados do Velho, dizem vir para auxílio retomar a ligação, desfazer os defeitos, que os mesmos originados na alta voltagem da Mansão, mostram o veículo da empresa estacionado ali, pedem licença a entrar, arranjar desarranjos, retomar a eletricidade... As portas se abrem, manualmente sem ajuda elétrica da eletricidade muda e suspensa de seus automáticos; os fios mudos desligaram também os visores os sensores, não desligaram os seguranças atentos e menos emudeceram os mastins, contidos ou avançariam nos ‘humildes’ funcionários da empresa prestes ao serviço. Estes entram... Entram imediato num choque ferindo violentos, entram logo os outros cinco de Xis, armados até aos dentes! um deles empunha barulhenta metralhadora de silenciar possíveis incautos e afoitos...
          Ao mesmo tempo Xis faz sinais em convenção a E, E torna ao volante, move aquele monstruoso caminhão com guindaste, volta ao poste, religa o transformador, estando ele a quase pôr o coração pela boca afora, deixa o veículo numa rua debaixo, some, some inclusive temendo retorno à família. Decerto ‘virolou’ a esmo pela megalópole, num sem destino no seu destino.
          Os mercenários de Xis e os amigos dos outros triúnviros a penetrar como donos da Mansão na Mansão.
          Estava completa a mais importante cartada na abordagem. Daí por diante não seria aguardar a força da interrogação?





Cap. 19°

Dentro já daquele santuário da riqueza, lídimo representante da burguesia na sociedade – aquelas perigosas criaturas armadas até aos dentes se depararam com a Família Ipsilone estarrecida bestificada atarantada pega assim de chofre na sua rotina supostamente gostosa. Nunca vira a família, de fato, alguém a empunhar armas pesadas e outras menos sabidas mais desconhecidas como explosivos que aquela barbárie trazendo nas mãos. Em outras palavras, até ali apenas o suposto, ficcionalmente suposto ou coisa assim para fazer boi dormir ou então alegrar pondo temor nas criancinhas; e demais mentiras só vistas na televisão da verdade... Espantados o Velho Ipsilone, a Bela Ipsilone, a velha já inconsciente há tempo pra ver não via, o genro primeirão no exército dos chupins e o restante apensos e comensais da Família – que eram muitos, poucos nesse treze sexta-feira ao preparo de viagem; admitamos que o restante daquele resto social bem alimentado e mal configurado viesse quase na hora mesma da partida dos anfitriões, a qual não ocorreu; viria a se despedir da comitiva do Velho; mais ainda do tesouro do Patriarca.
          Olhavam aquilo horrorizados!
          Horrorizados também no dia anterior, nas noites anteriores e não apenas na quinta-feira; nos anos e anos anteriores se distraíram bem frequentando a casa, alguns deles praticamente residentes no palácio; horrorizados no dia na noite anterior à catástrofe da invasão violenta, nessa discutiam uma proposta de um dos membros, sabe-se lá se dos apensos se visita ocasional se do sangue Ipsilone para fazer a corte aos parentes ricaços; sendo Esse um dos maiores debatedores no grupo; Esse gordo baixo na estatura mas alto na voz, a defender já um pouco zonzo, etilicamente zonzo, enfim abusando da fala na defesa do tema; certa ideia como proposta absurda tal qual as ‘falanças’ da carochinha – segundo essa ideia um dia, mesmo que no fantástico inusitado da absurdidade mas se desejando empurrar com a barriga para depois bem depois e não aplicá-la no agora de hoje da água fria, gelada, da realidade – em suma defesa da proposta nojentamente absurda de a miséria no mundo da miséria, ela com seus desempregos corrupções desmandos, essa miséria tão distante perto, chegar abusar da boa vontade do poder e do mando constituídos, com seus satélites mamando no poder, a decretar o fim da ordem estabelecida no mundo ‘cristão’ democrático liberal nos passos da história do Ocidente. Ora, houve sim como houvera sempre nos saraus das noites a se perder de vista, houve outras irrealidades menores postas e até alguns temas não temas propriamente ditos, visto existirem a tapar buracos no descansar do respirar a fala no assunto principal.
          Nesse ontem todos falavam todos a debater e todos ficaram horrorizados. Aqui é um horror mudo para consumo dos que não falam, falam com os olhos e com as orelhas de orelhas caídas; a fim de que os que mandam na fala se sobreponham dirijam vençam deem a última palavra; a qual será forte grande alta definitiva eterna, enquanto durar. Aquela que fecha um discurso, escrito que seja sem o sangue azul de uma caneta cheia de pedigree no papel de primeira e finalizando um texto com linguagem de primeiro mundo. Mesmo a última palavra nesse caso não sendo a do Velho, nessa hora dormindo sobre cartas ao sorriso dum áulico não escolhido a dedo por muitos a ‘satelizar’ os grandes.
          A conversa a dormir no sono da noite, a noite na Mansão se esticava na madrugada e se perdia no sonho, quem sabe a se livrar do pesadelo no sono.
          A conclusão da temática discutida ou somente ‘discutida’ fôra: fóra com a miséria perigosa, dentro do divino da felicidade correta e integral em xeque pela possível violência violenta do cansaço das massas e da miséria das massas. Chocando um público, publiquinho nessa noite de quinta-feira no preparo da viagem de férias aos paraísos, chocando horrorizando. Admite-se que alguém tenha que ter tido sonhos maus em virtude dessa desvirtude machucadora e absurda da carocha, se tanto; tanto que teria esse alguém sido pego ainda na espreguiçadeira já na sexta à entrada quase barulhenta de Xis e seus degenerados asseclas acompanhantes. Mas pode não passar de suposição; visto a realidade flagrante ser agora bem mais séria e assustadora...
          É assim que se vê aquela gente milionária apoiada por apensos ricos frente aos vândalos, cruéis, assassinos, armados até aos dentes!
Cap. 20°

Gostei, diz por não gostar Esse, a dizer como na brincadeira de roda quando menino ao usar ironia “benfeito” ou qualquer coisa como “eu não avisei todos!”
          Todos apalermados frente ao crime, frente aos facínoras armados até aos dentes, conscientizando a turba, turbinha nem um pouco uma gracinha, com medo se não com terror. Porém Esse nada mais dizendo, quem sabe a fervilhar-lhe o pensar; e com certeza fervilhando sua mudez ótima a engolir a língua o restante no grupo dominador dominado; sim, completamente dominado desarmado inclusive da arma mais eficaz e feroz que é a língua, esta que prejudica tanto a humanidade homens mulheres ricos e pobres. Até o Velho quieto, o coração, há o coração! o coração pela boca; no entanto ameaça apenas num gesto fraco, desses mais da linguagem mímica, num “o que é que está havendo por aqui!” ou: quem vocês pensam que são... ou então: não sabem com quem estão falando... ou outra qualquer aberração na exclamação.
          Xis dá as ordens, impera sua vontade, a vontade armada como todas vontades dos membros da confraria violenta armada. Indica mostra determina subjuga de olhar, insere um que outro senão não planejado e menos ainda discutido com seus homens. Ordena ordenando quase disfarçadamente cheio de diplomacia mas também de firmeza aos outros dois triúnviros, ali disfarçados como voluntários soldados desse exercitozinho não fardado; só uniformizados no macacão faixa emblema de força e de luz os primeiros dois a abrirem com jeito respeito e submissão quase os portais, para depois imediatamente ambos e o restante violenta e chocantemente entrarem de vez na Mansão, subjugando seguranças lacaios e até mastins pela persuasão eficaz das armas.
          A violência responde “presente” à chamada naquela noite iniciante. Os homens invasores sentem-se inclusive seguros sob o comando de Xis, mesmo aqueles sob comando de Agá e de Ene. Aos poucos porém estes dois vão ocupando posições e pondo às claras as intenções adredemente discutidas longe de Xis – no objetivo primeiro e último de agarrar bens, tendo ou não tendo o Velho nas mãos com sequestro que se inicia. Ocorrem fatos não previstos, isto a fim de que se cumpra a quase regra de a teoria nem sempre ser válida quando na prática; esta ocorrendo violenta, como se deduz.
          O tagarela Esse, se não espevitado, aparecendo como um orador de profundidade entre intelectuais apressados e de invejável palavra, o tagarela encontra-se trêmulo como os outros agora reféns de bandidos, com a iniciativa de travar a língua e sendo o primeiro também, quase como líder de um povo sem norte, indo à frente dos demais à paz duma sala improvisada em prisão provisória, se supõe, ele supõe. Ninguém reage. “Ou morre!” se antecipa a afirmar o novo chefe da Mansão à gente áulica do poder na Mansão. O poder desativado do Velho, o Velho se estremece, titubeia um pouco, ameaça falar reclamar não aceitar (e no seu íntimo em ebulição desaguando atirar lavas nos bárbaros, examina ainda sem tranquilidade as armas deles até aos dentes e desiste do ímpeto, se ímpeto:) abaixa a cabeça, vencido, segue, segue como fora um dos seus chupins então reféns da sorte no azar do momento, momento demais crítico e imprevisto... Suas vísceras estão prenhes de sangue a expor, sua mente a explodir embora quieto diante do consumado. O consumado costuma seguir-se da paz, quase do sonho quiçá até duma satisfação, aqui para ser medonhamente pessimista e ter mau gosto. Mas não, em Ipsilone patriarca de uma geração e proprietário da Mansão e com toda consequente influência que seu dinheiro consegue no mundo e mais no mundo financeiro; no Velho, longe da ‘satisfação’, é um consumatum est sem se consumar; é entrega temporária visando apenas a violência ali na sua frente obrigando a si e aos seus seguir em fila indiana à ‘masmorra’ da prisão domiciliar que é uma sala hermeticamente fechada, que seja somente violência temporária, pensa numa temporária dum quase acaso, este um inimigo ferrenho do eterno... Não obstante anda a explodir, não explode e se cala. Entra com o restante do seu povo no cômodo imundo, toda prisão é imunda, a sala antes dependência primorosamente limpa e especial às visitas políticas secretas, por isso quase separada da Mansão na Mansão, agora um presídio!
          Xis faz a ‘chamada’ dos presentes quase ausentes enfiados no medo. Separa o Velho, entrega-o para Ene a fim de este cumprir o planejado. Pretendiam retê-lo, antes ‘aliviando’ como falavam nas reuniões da Bom Princípio, as riquezas, para depois, aí sim, levá-lo numa companhia forçada e extrair dele lentamente demoradamente e necessário torturando espremendo exigindo novas parcelas do tesouro – aqui seria o dinheiro mais manuseável – ao longo de meses desde o cativeiro de Ipsilone. Este plano sendo mais da lavra dos triúnviros outros, Xis ficaria então só na administração dos bens, conforme dito por eles a ele. Isto outra conversa, teriam afirmado ser a coisa coisa do futuro.
          O presente reserva agora outros problemas ou aspectos do mesmo problema.
          Enquanto isso ocorre, Xis se perde no ganho...

Cap. 21°

Jamais havia Xis pensado nisso... Não, a afirmativa absurda, mesmo em se tratando dum homem prático e apenas se voltando por quarenta e tantos anos ao dia a dia das dificuldades terrenas; mais perdido nas suas contravenções, pequenas e grandes, a tentar não descer ao crime consumado. Não descartara o sangue e o ferimento moral de qualquer pessoa; sem com isso procurar por índole o crime ostensivo e machucador. Embora tudo isso, longe ele da poética do pensar, mais ainda da poética do sentir, piormente da do dizer. Não obstante fora como qualquer outro aprisionado ao sentimento amoroso; mas não apenas se pondo naquele da pura e simples atração. Não é um anjo. Seria um homem viajado vivido experimentado? Ora, o que os anos não fazem na transformação de um pobre ser. Todavia nunca tivera seriamente uma companheira; quase não sentira a geografia, que dirá em termos de um lar. É muito difícil – diríamos impossível!? – bem difícil entrar e saber com certeza as coisas do coração de um homem. Em todo caso a afirmativa segundo a qual não possa haver um ser sem amor e de que até se possa amar demais, não está descartada... O fato é Xis nunca ter tido grandes amarras amorosas; talvez houvesse ficado nos casos fortuitos sem se prender e sem se machucar, sem se ferir...
          Agora não. Vira Eme um dia por mãos dos outros dirigentes num recorte a discutir os lances da abordagem à Mansão. Uma vista, se não de relance quase despretensiosa, daquela jovem... Jovem? quarentona igualmente, aberrantemente (ah que palavra dura!) aberrantemente bela à sua feiura macha, a mulher parecendo mais necessitada a ser milionária que a se dispor à conquista de amor, ainda mais tão distante de si a foto num papel amarelecido batido usado lanhado marcado dobrado mil vezes de imprensa vazia; pois sendo uma página jornalística de uma festa social da alta roda.
          Somente nesse dia a viu e não poderia mesmo deparar-se com ela, devendo se fixar nos pontos de ataque ao tesouro e não poetar descuidos de amor, claro. Somente aí, e daí... Não mais a encontrou, encontrar? nunca a vira, nunca mais poderia vê-la. Em não ser agora.
          Agora Ene e Agá agarram seus elementos a vigiar trabalhar desfrutar confrontar; Eme um desses elementos; nisso Xis se adianta se vale da posição de chefe supremo a pedir exigindo a moça. Vou... diz baixinho quase no ouvido de Agá; diz pensar extrair da milionária herdeira tudo (leia-se tesouros) a que “tenho” direito, “temos” se corrige a tempo. Sai escoltado por I e Erre, este um túmulo na boca, ambos dispostos cegamente a cumprir ordem do chefe. A jovem segue entre eles saindo da sala-prisão, a mulher mui amedrontada (ou não?)
          A rigor o dirigente desses malfeitores ficou, ao entrarem calando seguranças mastins que não se calam e o grupo pilhado aparvalhado diante da violência do assalto, o chefe ficou preso numa como que flechada semelhando a imagem gasta estúpida ridícula do anjo cupido no amor... Ora, que Eme linda não lhe sendo surpresa; porém tão linda como a vista empurra naquele instante ao coração quase desprevenido, não sabia. Agora nota mais ângulos na beleza da moça, que o recorte ou não sabia ou não podendo focar, quem sabe a deformar de propósito os gráficos; chegou a imaginar assim e outros absurdos que o ridículo inventa. De qualquer maneira eis ali aquelas formas aquele corpo aquela presença marcante impondo seu coração ao coração endurecido no combate da existência; e até mais endurecido de fato na descrença que os insucessos impõem à vida.
          Teve ele um choque – a realidade se habituou a chocar inocentes corações nos imprevistos. Digamos estivesse Xis, armado até aos dentes, desarmado; completamente desarmado. Mas urgia nessa hora combater, ao sair da prisão precariamente estabelecida numa sala de visitas mais ou menos vigiada ou isolada do resto da Mansão; urgia o autocontrole, a usar aquele ser precioso ao coração, o qual teve a propósito ou só por costume de belo sexo um trejeito especial diverso dos outros trejeitos feminis e um olharzinho para aquele homem enorme poderoso armado e talvez bonito, de uma forma que só os amantes percebem... Para fugir da fraqueza, Xis fala algo macho duro forte marcante e próprio da linguagem do mundo criminoso a I, dá uma ordem minúscula, dessas de não se cumprir ou cumprir sim pela obviedade da afirmativa; o caso de: faço sim sem que você me ordene. Sorriram a se entender chefe e mequetrefe. Ela apenas a olhá-los a medir sem compreender bem coisa alguma.
          Enquanto, a explosão da ação dura imposta pelos outros dirigentes, felizes com o afastamento do ‘amigo’ e seus rabichos. A ação de fato. Com todos desdobramentos, doidos e doídos, que a ação dispôs.
          No início ou para mostrar serviço e convencimento dos novos direitos vigentes agora na Mansão, um dos de Xis ferira, a pistola apontada, a um dos mastins e um tratador do cão; dera um tiro num segurança, este já nos planos que fosse eliminado por não ser dos seguranças engajados ‘comprados’ e comprometidos com Agá. Isso marcou como sendo a linha divisória do lado de fora e a paz em nova ‘paz’ aqui dentro. A fim de assustar provar comprovar constatar a violência que usariam e já usando. A calar abusos da reação, fosse a mesma tentada.
          Mais para diante Ene, tão quieto nas reuniões nas imediações de Tê e das outras línguas, esse Ene mandou um deles dar coronhada num falante entre medrosos, os mesmos que discutiam ontem o perigo da violência nos violentos. Ene mesmo posteriormente daria um murro numa lacaia chorosa e lamentadora a emudecê-la. No mais – e aqui vai muita carga menos – no mais foi o silêncio que o medo impõe, impõe mais ainda portas trancadas; com um pior constatado: aquela gente da Mansão foi despojada não só de bens supérfluos ou preciosos miúdos. Os homens então iniciaram o juntar subtraindo celulares e adereços da gente pequena e mais da gente grande entre os proprietários. Começa aí o recolhimento de toda e qualquer riqueza, acondicionadas a seguir nos carros luxuosos de Ipsilone e convivas, semimortos então, esses e outros veículos já tirados das garagens e postos em prontidão de fuga na fuga que fatalmente (afirmavam pessimistas e otimistas) ocorreria após arrecadação de bens, enfim a ‘limpeza’.
          Contudo mais feridas seriam arroladas no cômputo da violenta abordagem.
          A mais séria seria marcante e se liga ao velhote patriarca da família. Isto sim, a chocar bem.
          O Velho eleito pelos dois dirigentes daquele exército malfeitor a ser a principal fonte de renda dessa suposta rendosa empresa. Deveria, segundo plano deles, servir primeiro de cicerone a se visitar os pontos escondidos de tesouros no tesouro; arrecadariam tudo no todo possível; depois seria presa como prisioneiro meses a se extorquir mais gotas à chuva guardada nos cofres fora da Mansão em paraísos e até nos do país, mormente aqueles sitos na megalópole. Não deu certo.
          Ao girar, sob mira de arma, nervoso, altamente emotivo, trêmulo em demasia o registro de um dos maiores cofres atrás dum quadro vistoso, decerto o depósito abusando riqueza em toda sua conhecida apresentação; nesse momento teve Ipsilone síncope fulminante! esmoreceu cedeu rolou morto. Não o sabiam sem vida (o que absurdo da lógica, a lógica mostra que a morte do corpo não é mais que fim duma existência, não da vida; mas isto discutível, dizem os que discutem). Enfim temos um corpo velho enrugado caído no chão.
          Chamam os novos mandantes o médico de Ipsilone, Bê, nesse instante o esculápio tão prisioneiro quanto os prisioneiros. Vem o amigo de cabeceira do amigo prostrado inerme. Chega, medroso, não do seu saber e de possível falha na sua experiência profissional, temeroso daquelas miras nas armas dos bandidos, isto uma formulação da terminologia na Mansão, talvez igualmente usada nas congêneres da megalópole. Olha, abaixa-se, examina, constata, olha, olha agora na direção de Ene e este com expressão feroz e expectante, apreendendo talvez uma perda irreparável no planejamento. Diz manso baixo quase inaudível assoprado num choro: Ipsilone está morto!
          Arrastam o cadáver a esconder na prisão ocasional junto com sua gente; descartando assim os triúnviros aquele amontoado de carnes poucas ossos muitos e peles rugosas sem serventia então; a tratarem de encontrar demais cofres por conta própria. Aqui entrariam explosivos, daí haver alguns especialistas no contingente. Ah, não faríamos barulho agora, para assustar quem sabe as Linhas.
          Isto a parcela no trabalho dos outros chefes do bando. Xis não se encontra entre eles, Xis curte Eme...





Cap. 22°

Lamento, diz o chefe observando aquela gostosura de cheiro tão atraente a seu lado, ladeados ambos por I e Erre armados até aos dentes e com suas feições nada amistosas à representante herdeira dos Ipsilones. Lamento senhora, tratá-la tão rispidamente tão brutalmente tão duro mas tem hora em que é preciso ser preciso e contundente mesmo. No meu caso não posso ofertar-lhe como merece uma flor, uma pétala ao consolo sequer: o necessário está em primeiro lugar. Lamento, insiste Xis.
          A gostosura sorri contrafeita, porém já vendo aquele espécime da espécie com bons olhos. Aliás não foi apenas Xis a ser tomado engolido sugado por uma beleza feminina que achou extraordinária, a balançar acelerando o coração desavisado como desavisados todos corações; no ato da abordagem inicial, em que a flagrância da fragrância fétida daqueles bárbaros selvagens cruéis e outros adjetivos a ‘desbrilhantar’ vocábulos, nesse ato devendo provocar em Eme tão sensível uma onda de repugnância frente aqueles bastardos, embora assim ela sentiu num como absurdo desequilíbrio humano uma atração terrível, por que não aberrante? uma atração incontrolável por aquele homenzarrão de rosto fechado vincado semelhando máscara de dragão chinês, mas com olhos simpáticos numa face de menino inocente. Inexplicável, se falou a bela, até se desligando momentaneamente do medo que dava o medo que os outros por volta demonstravam, se desligou inclusive do velho pai ali, que dava na família preocupação pelo estado emocional doentio e a crise por que passara naqueles tempos a ponto de o doutor Bê ficar-lhe à cabeceira. Eme se desligou de tudo – inclusive daquela metralhadora aterradora desnorteadora e assassina encostada apontando, mesmo esse perigo iminente sumira da visão: somente Xis perdurara nessa e dessa abordagem inicial. Posteriormente, ou seja um espaço depois medido em minutos não em hora o tempo, perdurou ainda nela aquele quadro benéfico cujo centro era o chefão da malta. Oh isto é chocante é esdrúxulo: porque nessas condições, ou seja o errado, o certo é gritar chorar espernear muito o abuso ali frente sua visão. No entanto já descobrira, antes que seu consagrado sexto sentido feminino o fizesse, amá-lo.
          Aqui tem início uma discussão que se perde na noite dos anos com seus séculos e séculos e seus milênios e o incontável. Será que Eme, abstraindo-se a beleza, quem sabe a ganância e a certeza ser herdeira breve – embora desconhecendo que o genitor naquele momento a estar correndo perigo de vida e mais que isso que esmorecia caía morto ante a tortura assassina e igualmente por que não deveria se preocupar com a sorte dos seus e entre sua gente os que mais apreciava e assim sofrendo muito. Não. Conseguiu se desligar desde a tomada chocante da Mansão e até nos minutos que se seguiram seguida por dois guardiões armados e um Xis, uma beleza de homem segundo proporções femininas... Em suma abstraindo outrem e o fato da possível perda da Mansão e ainda por cima (ou por baixo?) se fixar num só homem! Mas sosseguemos um pouco o pito como diz o caboclo, outros lembram a expressão devagar com o andor para não se quebrar o santo. Ponderemos dessa maneira, não para fugir desta breve e maluca discussão. Isto porque havendo uma complicação a mais: Eme casada. Casada com Jota, um dos agregados de Ipsilone, ou apenso exatamente por ser genro; enfim um sujeito também corpulento porém disformemente barrigudo, dessa espécie cujo mundo não passa de produtor de boi e de assados regados em bebida fina a fim de satisfazê-lo nunca satisfazendo. Bonachão e improdutivo. Dez anos no consórcio com Eme e o casal sem filhos, embora a parte matriz desejar um (os ricos não sabem contar mais que um; o miserável não é miserável na conta, extrapola mesmo a conta e depois não paga a conta ou não pode pagar, coitado, a conta. Mais ou menos assim). Agora, nos últimos anos, Eme não espera nada mais do companheiro a si unido no cartório no padre no cerimonial na pompa para tudo aparecer na coluna social da imprensa. Nada. Digna, apesar, sem ser o tipo da consorte fiel sem sorte de um esposo de festa – ressente a falta. Ipsilone também dá suas bicadas de avô, de não-avô ou avô frustrado. Que esperar, diz o Velho lamentando à bela Eme sua herdeira de fato; que esperar dos seus dois irmãos perdidos no mundo a gastar a rodo e sem qualquer compromisso!? Já fazia quase ano haviam desaparecido do cenário, não só dos compromissos comezinhos do seu meio e da posição, mas sumiram dos parentes. Então, diz o pai, dali não me virá herdeiro nenhum... conto com vocês. Eme sorri com um sabor desagradável. Não contando ela com Jota. Tocava-lhe aparecer na rotineira e quem sabe vazia vida na Mansão; ou a se distrair nas viagens, a planejada mais recente não se realizando, os invasores ali palpáveis a fim provar esse desacerto...
          De maneira que um sentimento lá nas profundezas desse coração feminino lhe dizia algo confuso que pudesse redundar na modificação do seu estado. Isso exatamente sentiu em segundos, se firmou em minutos na companhia de Xis, as horas próximas confirmariam o acerto de mais um erro na existência dos seres...
          Está aí o porquê de não se pejar não se condenar não pensar no esposo, àquela hora se borrando ante inimigos tão duros na prisão precária e talvez a imaginar andar perdendo uma coxa de faisão fumegante. Ela não, sequer se martirizando a lamentar perder um marido convencional para as festas e solenidades.
          Assim entra o par na alcova luxuosa de Eme. Os seguranças de Xis ficam de plantão e de armas até aos dentes, esperando fora na porta daquele ninho...





Cap. 23°

Porém aqueles seguranças pouco ou nada tiveram que fazer, além do aguardo ansioso de Xis, decerto exigindo da ricaça herdeira abrisse as portas da riqueza escondida nos compartimentos – pensou I, terá comentado baixinho com seu igual dessemelhante; qual nada, responde Erre pessimista a seu jeito para o companheiro mais dessemelhante ainda: a joia e a riqueza do nosso chefe é de outra espécie... e acresce umas reticências a apimentar. O ordenança I fuma quase que desesperado a lentidão dos minutos, não suporta parado sequer hora. Hora depois, macambúzio impaciente, Erre, múmia muda mudo, desiste do plantão; faz um muxoxo inexplicável ao ‘amigo’ de infortúnio, alisa o tambor de sua arma e deixa o trabalho da guarda indo para o andar de baixo ver o que os colegas tão ambiciosos quanto ele mesmo encontraram na pilhagem e se havendo novas instruções dos outros chefes. Muito havia ocorrido no térreo e na sala de tortura onde confinados os apensos do Patriarca. Desce. Não chega ao fim da escadaria, nem pode apreciar todo o luxo dos tapetes, sequer percebe as paredes já sem os quadros de valor; não vê nada não ouve nada, quando acorda num impacto está desacordado, morrendo... e aí ouve confusamente os gritos dos policiais, sua arma queda sem valor nos primeiros degraus lá em baixo no solo... É o fim de um sonho, tem gente que sequer sonha um sonho decente, ele a pensar sempre na fortuna, perde maior fortuna perdendo a vida, a existência na vida.
          Mas havendo mil poréns, mil e um, até chegar a esse trágico desfecho.
        Enquanto isso Xis ama sua companheira, decerto a seu jeito, não levando muito jeito no seu jeito grosseiro; Eme recebe de braços abertos seu parceiro; os parceiros se entendem naquele paraíso de uma suíte enorme decorada ao melhor gosto da herdeira daquele trono se decompondo (ou não?) Faz hora o convívio ou conluio amoroso numa quase conspiração, não tendo aqui direito os olhos do mundo saber intimidades porque nenhuma intimidade deve ser exposta ao bedelho humano e só é da conta do casal, embora o mundo não pense assim. Faz hora de fato, como se não bastassem segundos para o macho engendrar seu primeiro filho, e por sinal o primeiro dela, o qualzinho seria no futuro que se iniciava o único a herdar de Ipsilone, mesmo que neto bastardo e com sobrenome também de Jota.
          Vai aqui esclarecimento sobre esse tão profundo encontro em concerto e harmonia, o casal sem pensar ser ali nesse momento hora inteira de amor, ou apenas um encontro realmente ocasional. Não fosse dessa maneira, seria retornar ao imaginário do amor puro entre o plebeu e a nobre, coisa que a herança cultural da burguesia deplora e não aceita; concluindo numa linguagem grossa o idílio com o “fim de papo, e pronto!” papai-burguês fala assim à chorosa donzelinha; a qual diria como resposta numa réplica por sua vez mas a temer não dizendo: só a dar tchau para o amado dentro do hábito hoje em dia; amado? melhor conquistador barato, poderíamos com licença das Linhas acrescentar; por isso o conquistador intrépido corajoso etc. etc. iria após chorar igualmente, visto agora os machos da espécie poderem verter gotas lagos oceanos no choro sem se envergonhar por sua fraqueza ‘feminil’. Pronto, consumado: encontro amoroso carnal fortuito.
          Assim Xis se conformando com as evidências, volta à rua Bom Princípio, à beira do precipício, tristonho solitário.
          Ora, como nossas canetas andam pessimistas!
          Durante hora durante, o amor lá dentro. Hora a forçar até o fiel ordenança I a coçar sua cabeça imaginando coisas absurdas do chefe lá no interior da suíte luxuosa, certamente não mais forçando a bela a entregar joias abrir cofres atulhados de tesouros, pois um homem prático e do seu meio mundano faz isso em minutos quiçá segundos; e enquanto hora não terá o mequetrefe mais qualificado ouvido os tiros da lei pranchando morto o mequetrefe menos confiável na escada! não terá ali do lado de fora da câmara nupcial escutado os explosivos no uso a destrancar portas e cofres, visto nem Agá nem Ene a brincar de roubo a banco com pedaços de pau a imitar metralhadora! não terá se assustado com a barulheira na festa com uso na melhor das hipóteses de festins nas armas mas sim barulho das vozes da violência e da fuga dessas vozes à chegada policial com megafones nada educados e menos mansos! O mequetrefe, porteiro na guarda daquele ninho de amor, que a sorte oferta a Xis e a Eme mas o azar oferece à Mansão; o mequetrefe fiel apenas coça intrigado a cabeça (sem medo enroscar-se nos chifres, quem com essa preocupação deveria ser Jota...) Apenas coça a cabeçorra de homem pequeno.
          Mas... será estariam surdos também os felizes ‘namorados’ no casal!?
          Melhor concluir imaginando, a completar ausências lacunas lapsos e espaços em branco das metediças Linhas.




  
Cap. 24°

Impetuosos os policiais, macacos gozavam sobre os mesmos os mesmos adversários de sempre, os fora da lei; impetuosos no trato com os homens do bando de Xis de Ene de Agá, na Mansão encurralados, talvez.
          Existe sempre na linguagem por mais vasta ou prolixa ou curta e grossa a teimar concisão um talvez, ou muitos da espécie. Os policiais não tendo certeza na chegada ao local do crime e na dúvida – porque como confiar de fato nos informantes da contraespionagem! – nessa dúvida, que não só atinge casais em encontros fortuitos mas também estraga negócios desfaz famílias chocam vizinhos, na dúvida chegam cuidadosos. E se, pergunta-se um policial graduado na chefia, e se for engano de os bandidos (dessa corja experimentada e a fuga do presídio pela porta da frente prova a prova... dessa corja se espera tudo:) enfim, e se houve falsa informação estarem criminosos com suas armas engatilhadas de fato munidas e não ‘munidas’ de festins... estivessem municiadas de fato com a morte de chumbo comprimida na bala! Imediato dá ordens à precaução.
          Sim, vazara decerto a questão dos festins no grupo invasor e as dissensões entre membros, o que ocorre quase sempre após o roubo na divisão do produto; aqui já antes mesmo da abordagem da Mansão havendo: Xis não confiava mais nos dois como anteriormente, Agá num conluio com Ene a dividir antes da posse o tesouro entre si; mais tarde exporia a desavença a crônica policial, não sendo que por sábado terrível sem notícia noticia-se qualquer, até invenções bem apresentadas e versões em cima (seria melhor em baixo) de outras mais versões, coisas da imprensa compromissada. Com o quê? Tornemos ao tema. A crônica da violência cotidiana afirmaria que a perícia tentava demonstrar que o corpo fuzilado desfigurado quase torturado encontrado com certeza ser de Ene; um de quilômetro na ficha de registro, a satisfazer a curiosidade dos experts do jornal especializado. Muito assunto a repetir na televisão por semanas, superado apenas por qualquer outra banalidade mais chocante.
          Afirmaria ainda a imprensa, não com nobre azul mas tinta marrom, que Agá, mentor cruel frio calculista, teria mandado eliminar o amigo, ah pôr melhor inimigo nisso! Que Agá em fuga escondido no país; claro não na megalópole porém na interrogação do país ou no exterior a gozar no paraíso os bens de Ipsilone guardados a sete chaves nos bancos seguros noutro sobrenome fictício ótimo aos incógnitos.
          Trocando em miúdos, a polícia melhor armada e sem festins, armada até aos dentes e mais ainda que os dentes criminosos; a lei enfim chega cuidadosa na Mansão, cerca a quadra, suja com o medo os jardins, levanta suspeita entre passantes, impedidos na circulação; trânsito suspenso antes por batedores depois por agentes de cenho carregado e poucos amigos, quem sabe a imitar os mastins de Ipsilone. Os policiais entram pelos portais, os helicópteros fiscalizam lá em cima e comunicam aqui em baixo o rádio do comando, este orienta, ordena seus subalternos; enquanto ambulâncias acionadas se aproximam com suas sirenes, os técnicos fotógrafos e outros oficiais já se preparando não a flagrar bandidos mas a constatar e registrar cientificamente um ocorrido violento. Os técnicos não, os participantes fardados entram em cena com armas em punho a enfrentar o que der e vier, uns poucos muitos após tomam de vez o espaço da antes poderosa e intacta Mansão... Confirmando a baixa notável, a marcar a história de um povo, ferir suscetibilidades educadas e toda uma sociedade – o falecimento de Ipsilone. Supostamente assassinado, quiçá torturado; e também a baixa de um que outro da criadagem; o caso do segurança chegara a eles, o do mastim não: seria depois mero enfeite à imprensa marrom. Ponderando poder haver crimes menores, maiores o desfalque (o bando facínora usava a expressão ‘limpeza’) o desfalque do tesouro. A quanto chegaria! a especulação e os holofotes de tevê na madrugada já contavam aos telespectadores somas bilionárias fantásticas mirabolantes a envergonhar a educação da verdade, que a crítica do homem da rua não sabe desmentir. Contudo, isso tudo desconhecendo os meios oficiais a entrar agora naquela praça de guerra, onde fora o paraíso da Família.
          O trabalho não obstante se resume agora não mais que de rescaldo, visto o novo desconcertante cenário encontrado: os criminosos já haviam fugido, não da polícia – retardada por corruptos e interessados agentes, trabalhados por Pê, amigo dos amigos legais e amigo submisso a Agá, com trânsito lá e cá na cerca da lei... – fugidos não da polícia, de Xis e ao encontro de sua ganância, ligada a interesse de ambos inimigos de Xis, entregue este às piranhas do seu louco amor (e não seria isto a paixão! deixemos o julgamento ao critério dos poetas e filósofos...) Os dirigentes criminosos sumindo com sua gente escolhida, desconhecida inclusive de Xis; sumindo na interrogação que se põe sempre a ignorância. Antes abarrotaram os automóveis de Ipsilone, a perdê-los pouco mais tarde na madrugada quente, qual se faz com cachorrinhos e gatinhos em sacos atirados no rio para deixar na paz um lar pobre; aqui no caso carros abandonados à escuridão noturna quando transferiram aos seus automóveis o tesouro, não todo tesouro e sim o que puderam arrecadar no tesouro; sabendo-se de sobra que o maior seria extraído de Isilone vivo, então morto, morto portanto o principal filão de ouro. Felizmente, para contentar leitores ávidos nas garrafais da banca de revista e jornal da esquina movimentada, felizmente a lei encontra alguns corpos a alimentar o sangue necessário ao espetáculo que as fotos da imprensa então permita circular entremeio aos destroços! Com permissão inclusive das fatais sovadas gastas chãs entrevistas, em que umas poucas vaidades oficiais se mostram, mostrando-se mais aquela ferida lacaia no choro dos seus “ah, queria Ipsilone como a um pai” e dando mais pormenores para indignações violentas interagindo ao apresentador famoso do programa da alta baixaria televisiva.
          A seguir entram peritos a recolher dados para medir distâncias, investigadores a cheirar causas e interpretações (só mais tarde a xeretar repórteres). Recolhem detalhes, fragmentos interessantes à balística e a facilitar enquadramentos e, por que não dizer: facilitar encontro de criminosos e quem sabe prender criminosos; para os advogados interferirem achar brechas na lei, a justiça dar habeas corpus soltar para a polícia tentar recapturar bem mais tarde, não havendo decurso de prazo no tempo legal invalidando a prisão; sim prender bandidos e deter suspeitos. Suspeitos!  isso mesmo, entrevistam os oficiais civis a gente da Mansão, essa gente ainda equilibrada apesar de tudo, visando achar suspeitos de facilitar ocorrências na tragédia de tanta repercussão, havendo aqui oportunidade para oportunas cunhas e nuanças que possam alimentar papéis, os calhamaços grampeados furados a furadores e arquivados em meio de estantes traças poeira esquecimento e provável exumação dos restos guardados a sete chaves no arquivo morto.
          Os peritos sorriem, ou não sorriem por indiferentes, na saída à chegada da imprensa com sua parafernália e estardalhaços a facilitar a vida da curiosidade popular, impedida ultrapassar as indefectíveis fitas esticadas proibitivas das liberdades impedindo olhos profanos. No fim – haveria final para alguma coisa neste sofrido orbe! – no fim a lei se rende e dá entrevista coletiva num discurso oficializado, para o qual toda verdade se rende e até a mentira se dobra a seus pés. O discurso leva a mil interpretações, entremeadas com bem nutridos comerciais.
          E os pingos nos ii?
          A festa. Conta o dicionário, admitindo todos saberem a sobejo festa, haver o festim, uma de pequenas proporções, geralmente familiar, e é claro tendo comes e bebes e besteiras a se fartar. Na rubrica armamento diz que o festim pode até estar numa festa de arromba e das maiores como as que se davam na Mansão com seus convidados a parentela os agregados. Pode estar na festa se houver algum desentendimento na bebedeira e além da bebedeira – tão só para espantar porque as balas do festim não são balas mas cartuchos sem chumbo, pra fazer apenas barulho. Os militares em festividades comemorações e cerimoniais fúnebres usam festim. Na Mansão, a Mansão presa de fato sob a mira de armas de fogo seja com Xis seja com os outros dois – já foi dito não estarem ali por brincadeira de bandido contra mocinho como nos seriados na matinê do cinema de antanho: estavam sim armados até aos dentes – nessa Mansão num treze sexta-feira o que havia era, não arma de brinquedo que os mequetrefes empunham a assaltar roubar pouco assustar muito, mas armas de verdade e bala de verdade de ferir de verdade de matar de verdade; haja vista o mastim o segurança mortos no início e um que outro entre a pugna da violência bandida contra o medo na gente de Ipsilone; o que resultou em cadáveres, não mais que três porém cadáveres assim mesmo, cadáveres do pessoal que ou falou demais ou exigiu não podendo demais exigir ou a aparar arestas, pois Ene vez que outra e mais contundentemente Agá mandando eliminar sem piedade – num mar de sangue dizem as manchetes do sábado na primeira página. No mais os triúnviros à frente de parcela do exército de Xis e dirigindo sua gente escolhida a dedo, usando realmente arma municiada com festim, sem ser portanto municiada visto ter apenas pólvora fedida e estampido barulhento.
          Mas aqui uma conotação lamentável; lamentável ao chefe ‘supremo’ Xis. Ocorreu de seus inimigos travestidos amigos, responsáveis na empresa a fornecer armas, mesmo a de Xis, e notoriamente seus homens, cujo aprendizado se dera no precipício da Bom Princípio sob olhares instigantes intrigantes da senhora Tê; enfim os membros do grupo tendo sem o saber armas com festins... O segurança mesmo portava arma de verdade com cartucho de intestinos de mentira. Ora bolas, como, soubesse, como defenderia um casal de pombinhos no quarto luxuoso da mãe do filho de Xis! Terá o ordenança I dito nestes termos ao escrivão ao delegado às algemas mais tarde? Foi exato o que deu-se: os criminosos corajosos horrorosos (segundo a gente do palácio) tiveram forças e se pensaram grandes e tendo valentia por portarem armamento mortífero – na verdade armas sem alma, a alma não se vê afirmam e portanto não poderiam ver suas armas vazias...
          Entretanto foi o bastante a intimidar primeiro e dominar depois e depois ainda servindo a provocar a crise que levou Ipsilone para o outro mundo antes que deveria ir; e seus lacaios de língua mais comprida igualmente a descansar na paz... O bastante a conseguir a riqueza da noite para o dia (na visão barata do sonhador comum, os mequetrefes do grupo não passando de meros homens comuns, de pensar grande mas de conquista mirrada). Ficariam, presume-se, milionários já no sábado, quando os curiosos que leram viram ter havido o acontecimento do século, o roubo do milênio. Ou somente leu Agá, Ene morto e os mequetrefes enganados dispersos, a esperar quem sabe a loteria, as muitas loterias em inflação, estas a iludir toda uma nação com ganhadores de número irrisório, insignificante estatisticamente tapeadoramente distorcidamente; ganhadores que recebem um prêmio e precisam se esconder a pelo menos não morrer na perseguição aos novos milionários. Ah, posto assim, o ser humano não é um contrassenso!





Cap. 25°

Know-how de primeiro mundo, cursos, um dinheirão gasto no aperfeiçoamento técnico e profissional a tratar bandido tão desqualificado! um bandidinho, um mequetrefe mesmo entre criminosos, sobrante de matança em regra, matança e fuga em massa enganando autoridades! – reclama enfurecida a autoridade lá de cima a olhar afundado acuado medroso numa cadeira I diante do escrivão , Gê funcionário inexpressivo não passando de catador de grão de milho no teclado como o fazia antes na Remington de escrever irritando a mesmíssima autoridade com o barulhinho chato. Mas Gê ainda menos expressivo que entre iguais na sua casa; lá um pouco diferente da esposa também não sendo ela barriguda como barrigudo o marido.
          Gê, imperou o delegado cheio enfastiado no lenga-lenga do criminoso a depor ali ao ser pego num flagrante com arma de bala sem alma disposta a matar gente preciso fosse. Gê, acabe logo com esse meu sofrimento no sofrimento desse... (aí aplicou um nome feio entre os mais bonitos dirigidos à mãe do aterrorizado I; xingo proibido por Linhas distorcidas). Anote para os autos que esse mequetrefinho fazia guarda ao facínora maior, no ato do estupro à pobre rica, a belíssima Eme dos Ipsilones...
          Protesta I, a se dizer guarda do chefe sim, mas que o chefe não feria a mulher, visto esta andar quando olhou na fresta, agarrada a beijar o noivo e...
          “Cala a boca!” berrou irritadíssimo Dábliu, doutor Dábliu, doutor com aperfeiçoamento primeiro-mundista e tudo o mais. Sentenciou ao escrivão: anote que o bruto presente – ah, não digitar errado hein! melhor catar seu gão de milho devagar para não ter que refazer e me deixar nervoso – anote que o bruto presente não foi apenas o único dos bandidos preso em flagrante; no entanto também se declinando como ordenança de Xis “para o que der e vier”, nessa frase pondo com aspas a significar mais, ouviu? para o que der e vier, não foi assim dito? e corrija-se, negrinho burro: não é “vinhé”, entendeu? Entendeu coisa alguma, essa gentalha não sabe escrever não sabe falar não sabe se pôr... ainda mais querendo o tesouro Ipsilone!
          Não senhor doutor, se apressa I a dizer.
          Cala a boca, seu... você está querendo apanhar antes de apanhar depois! Que droga, trazer experiência do mundo culto para abordar a ‘tranqueira’ dum ordenança a defender com arma de festim o chefe dos vagabundos, assim a desmoralizar não só a polícia científica, a polícia inteira! Era só o que faltava. Cala essa boca.
          (Fez I de cabeça que sim).
          Portanto, Gê, pode enquadrá-lo no 121 também, a sujar mais esse sujo com os artigos que traz já na ficha quilométrica. Faça isso porém depois chega, porque acho que desse pau não sai mais mel...
          Embora quase a estourar, o dr.Dábliu foi compreensivo e quase tolerante com o preso durante o depoimento, permitindo inclusive o escuro I fumar um cigarro da ponta à bituca, concedeu inclusive na boca de pito um cafezinho já frio na garrafa térmica. Quem sabe tal concessão por suas próprias necessidades no vício, porque a autoridade fumando um pouco e o escrivão bastante e sem parar. Aguardou minutos e gritou seu ordenança; aí olhando para os lados do escrivão afirmou: realmente, daí não sai mel, pode trancafiá-lo. Vamos agora tratar do grandão. Quê, vai chamar o guarda, que ele me traga o chefe da quadrilha.
          Entregue o preso, Quê tornou ao seu papel principal na repartição, além do leva e traz, ou seja: sorrir ao delegado. Sorria fácil aos desaforos de sua companheira no lar; dona Maria não era Silva no cartório nem no padre todavia com mérito aguentar o companheiro e viver razoavelmente bem com o simplório Quê, acostumada a desfeiteá-lo e a receber como troco um sorriso de teor desconhecido. O doutor no distrito já diverso da amiga do funcionário, este a tratando ‘namorada’. Dábliu nervoso demais, especialmente com seu escrivão; o delegado desse tipo que não leva desaforo para casa e no trabalho sempre irritadiço.
          Agora deve conduzir o depoimento de Xis no caso da Mansão.
          Xis declara de início frente aos policiais nunca ter sido indiciado, o que verdade, não ter família, o que certo, não ter filho, o que errado ou engano ou ignorância não sabendo a gravidez da amada herdeira dos Ipsilones.
          Sentado na mesma cadeira que anteriormente ocupou seu ordenança I, pudessem veriam os que pudessem ver uma imagem já repetida envolvendo a figura de Xis perante outrem: um gigante, agora de crista caída nas mãos das autoridades e a prestar depoimento em crimes e acusações preliminares; um gigante sentado frente um escrivão pequeno e barrigudo não demais gordo; e o delegado pequeno e magro, grande e até robusto na lei, um pouco neurótico, neurótico bastante. Noutra versão da imagem poderia ser comparado o chefe na rua Bom Princípio ao lado dos demais triúnviros, ou diante um serviçal – Xis parecendo lá homenzarrão. Aqui um gigante preso e com expressão vencida, embora os olhos inocentes.
          Você se afirma inocente – fala a cutucar Xis o delegado, um sorriso irônico lhe escapa no canto da boca.
          Não senhor doutor, nunca aleguei nem pensei declarar inocência; disse nunca ter sido indiciado... Sim senhor, tenho quarenta e sete, completados neste mês.
          Ah, parabéns – lembrou mordaz a autoridade nessa entrevista forçada – acontece que não ser indiciado não prova angelitude.
          Obrigado, não sou anjo, não seria mesmo tendo ficha limpa; o flagrante que a polícia fez prova minhas faltas, eu sei.
          Sr.Xis, antes de prosseguirmos (olharam ambos o escrivão alheado talvez, a talvez pensar nos seus dramas particulares; acorda o funcionário e assim este se volta para o chefe e o chefe preso ali:) antes disso quero um esclarecimento sobre minúcia no processo que ora iniciamos mas já volumoso; uma curiosidade que me remexe lá por dentro e me coça a garganta. Me explica um senãozinho. Como é mesmo esse negócio de um bando determinado violento perigoso e supostamente experiente no seu métier; estar abordando um palácio, um personagem tão importante como o Velho Ipsilone, uma fortuna extraordiária e quase impensável – tudo enfrentado com bala de festim! Desde já garanto-lhe que isso é para nós um desafio, pra mim em particular procuro satisfazer o saber e a ciência; aos outros policiais um desafio sim, diante de verdadeiro absurdo; e por que não dizer: um ato extremo de coragem exporem-se dessa forma, afrontando toda a polícia com armamento de faz de conta... Nunca acontecendo tal surrealismo na minha folha de serviço à instituição; e veja tenho já cabelos brancos.
          Xis sorri triste, se coça involuntariamente, encara respeitoso porém com fisionomia envergonhada ante a descoberta, descoberta! longe disso pois sendo domínio no meio e até razão de graçolas entre os funcionários iguais diferentes. Decerto havia gente rindo disso como piada. Não obstante, se não cerimonioso o depoimento, ao menos sério e a autoridade circunspecta embora honestamente curiosa; o preso também sério, sequer sabendo como iniciar possível explicação. Isto porque o absurdo não explica, apenas existe para ser ou não aceito ou ser apenas ininteligível ou só confuso.
          Bem, insisto, diz Xis, insisto antes de tentar satisfazer o doutor, que nunca fui indiciado. Sim mas raramente nestes quarenta e sete anos cheguei a ser logrado. Ora, em toda existência é possível enganar e ser enganado, suponho mesmo que todos nós seres humanos possamos passar por essa experiência desagradável. No entanto um logro tão grande e com tanta consequência, creio não ter acontecido a uma pessoa antes nem a uma instituição. Sim senhor, eu me declaro logrado! Sinceramente não sabia das balas de festim, fui tapeado pelos outros dirigentes, e meus homens por tabela, sem que possam nos admitir inocentes. Não existe inocência em nosso meio; chego a admitir inclusive que também no restante da sociedade. Não sabia dessas balas, quase todas assim mas não todas pois que matamos um segurança e um cachorro, claro com bala mesmo, para entrarmos e sermos respeitados. Assumo. Agora, as armas ocas, ocas poderíamos afirmar, delas não sabia nem que a arma de meu ordenança, igualmente detido aqui, era sem valor; sem valor que não o de provocar o efeito psicológico que qualquer arma poderá impor à vítima.
          Um engano o sr.Xis garante – replica aparentemente manso ou controlado o dr.Dábliu. Coça um anel vistoso e daí completa irônico e já mostrando rispidez: engano em um ‘chefe’! (carregou na palavra).
          Poderia, posso, responde Xis, devo sim envergonhar-me disso; meu orgulho pisoteia minha vaidade ferida. Contudo fui enganado nesse particular. Entretanto, doutor, quem não é enganado? inclusive um chefe de governo pode ser enganado. Aliás é o que mais se vê, sabendo a corrupção que campeia hoje em dia na política do país. Nós pobres mortais vimos ao mundo a enfrentar tal drama, desde o dirigente duma nação até aqui por baixo na vida comum do homem comum. O que não invalida nem justifica meu erro, eu supondo ser um chefe e tapeado por trapaceiros, estes igualmente em chefia e má-fé –  não devendo isto ser, suponho, novidade aos policiais.
          Não é. Sabe duma coisa: acho que você tem alguma razão. Assim mesmo pegará uma cana braba pelo resto dos seus dias, não apenas pelo engano como diz, diz o delegado. Ficará ao fim do processo no xadrez por ser responsável pela matança que sua gente procedeu. Enfim não nos cabe sentenciar agora, a justiça tratará do seu desatino e do seu destino e talvez dos dos outros que porventura pudermos prender, chefes e demais criminosos. Ah, nisso tudo tem algo de bom – graceja o oficial Dábliu – vocês ajudaram e ajudarão ainda muito mais a distrair jornalistas enxeridos atrevidos que vivem a nos azucrinar com sua ‘xeretice’.
          Recolhido Xis, I já numa cela comum superlotada como aprecia a televisão mostrar; recolhido o chefe provisoriamente numa cela menos cheia, ficaram ambos no aguardo dos trâmites e depois julgamento e condenação é visto; em suma o trabalho da justiça. Para após meses irem ao presídio cumprir penas respectivas, a do ordenança um pouco leve porém mais pesada que as das suas infrações anteriores; I inclusive habituado... Xis tomaria mais anos, sem ter decerto pegado a praga como se diz, a praga ou alvitre do doutor Dábliu.
          Os demais companheiros, sejam os seguidores de Xis sejam os dos outros chefes, se espalharam por aí: ninguém preso e se preso depois sequer a imprensa a noticiar a banalidade. Já longe no tempo com respeito à repercussão da morte de Ipsilone e o grande roubo ao Palácio, mesmo isto a realidade diluiu e transformou como o feijão com arroz diário. Por um certo tempo próximo do tempo, ainda dando algum ‘ibope’. Mesmo a Família não incentivando o noticiário; inclusive um jornalista fora processado por abuso de curiosidade, aquele negócio do risco e coragem por causa de um ‘furo’ de reportagem, como diz o jargão na imprensa, um passar por cima da moral mais refinada dos milionários. Contudo, isso foi apagando na memória do povo.
          Naqueles primeiros dias, atentos policiais com possíveis novas prisões, não confirmadas, naqueles era preciso tomar outros depoimentos a enriquecer se não o saber encher estantes aumentar arquivos, quiçá satisfazer o arquivo morto para que não fosse esquecido na poeira e pelos insetos na paciência dos anos. Naqueles espremeram alguns serviçais da casa, a fim de apurar prováveis envolvimentos e infiltrações bandidas anteriormente ou apenas a recolher dados que fornecessem um quadro mais perto da abordagem criminosa. Enfim alimento para os autos e processos a municiar os festins da justiça, quem sabe se não para fazer justiça.
          Nessa época não incomodaram o alto escalão do Palácio Ipsilone, o qual prosseguiu em sua vida, mui apreciado pela rotina e o silêncio dos justos. Entretanto – fora Jota e o resto do pessoal, aqui entrando lacaios seguranças o advogado da família e o médico Bê – era preciso avistar-se com Eme, agora a toda poderosa Ipsilone; isto sem magoá-la e igualmente sem expô-la à malta da rua ansiosa curiosa furiosa? furiosa no disse me disse corriqueiro.
          Na ocasião Eme foi firme, procurou em nenhum momento incriminar o pai de Xisinho, uma gracinha se falava na Mansão. Fugiu o quanto pôde, auxiliada na cobertura pelos próprios funcionários da polícia deslocados até ao Palácio ouvi-la. Não foi intimada a depor no distrito. A rigor nunca entrara a jovem quarentona rica numa repartição policial; apenas acontecendo isto dois anos depois, meio às escondidas e com ajuda de funcionários untados da penitenciária. Então iria mostrar ao genitor do menino a foto do príncipe herdeiro; o rei chorou.
          Agora Eme responde com meias palavras ou com inteiras nas quais não se comprometa. Não acrescenta nada importante às investigações em curso, nada no assunto a sobejo sabido da polícia, de Dábliu em particular. Até o que dentro da suíte se passou na companhia de Xis disse por alto, suprimiu o que dando margem a interpretações malévolas. Foi todavia prática, a concordar como vítima de estupro, a fortalecer tese num ‘pedido’ da cúpula oficial engrossando a culpabilidade do dirigente do bando criminoso; em que achou melhor exagerar a lei depondo o fardo de toneladas do que fez do que pensou fazer e do que não praticou, ‘praticando’ tão somente a agradar autoridades. Como Xis nunca leu o processo em não ser sabendo o que o advogado levou ao seu conhecimento: nunca soube haver feito tudo o que legalmente praticou. Isto não o tornando mais infame. Sim, não havia nunca sido indiciado; agora muito indiciado, como na imagem dum pau de galinheiro no seu tempo de menino, o pau de baixo. Tudo normal, um pouquinho distorcido no seu comum mas normal.





Cap. 26°

Ratificaram crimes ações intenções prevenções pretensões de Xis já preso processado sentenciado condenado nas condenações enfim. Para que tudo pudesse ficar como antes, a rotina não aprecia o depois quando muito aceitando o agora. Não, gosta mesmo do agora, tudinho nos conformes.
          A gente esquece nem lembra mais a imprensa faroleira espetaculosa, os que porventura em má ventura sofreram e sofrem – que se danem que se apurem que se depurem. O ramerrão ou se restabelece ou se cria ou prossegue. As novidades roubam com ou sem festim a cena e o mundo caminha.
          Parece que a sociedade e mais as orelhas dela trabalhadas pela então novidade do caso Mansão e da espetacular coragem dos homens já tachados irremediavelmente bandidos, amenizado apenas criminosos pela imprensa sem cor, isto é: não marrom; parece que tal sociedade descansa cansada na sua paz.
          Mas o que será mesmo paz!
          Na Mansão igualmente rotina, com algum lembrete como devoção à memória, claro. Eme agora o Velho dos velhos tempos, a mais cuidar de Xisinho, naturalmente com amor dedicação cuidado materno e cuidados especialmente a preparar o príncipe ao futuro reinado. Porém talvez a jovem quarentona... certas mulheres muitas vezes e alguns homens de vez em quando a cortar dezenas de anos para deixar o registro civil contrariado emburrado enquanto esse teimoso registro vive a somar certo os aniversários. Aqui Eme bate o pé firme e diz aos poucos íntimos visto essa gente bem não tagarelar tais coisas para a multidão, da qual quer distância; diz aos de confiança ter pouco mais de quarenta, menos de cinqueta com certeza, essa a dúvida. Sim talvez Eme ainda se desgaste mais do que com o herdeirinho com os negócios da Família; ela é ele agora, o novo Velho Ipsilone. Jota não dá palpite, em não ser se bom se mau o tempero do assado. Além disto o marido apenso é figura de destaque, um destaquinho dos pequenos, por se fazer genitor de Xis e o ‘pai’ tem no ‘filho’ seu sobrenome entremeio ao grande Ipsilone que ficou ao menino, a provir do avô; este, dizem ao garoto, os assassinos sacrificaram. Assim virou o ex-chefão nesse sacrifício um santo. Ganhou estátua, uma escultura a ser mostrada no salão do centro do palácio no tamanho natural com expressão natural e com aura natural, próprio dos anjos. Inclusive alguém num dos saraus milenares a discutir poesia e questões da época, como por exemplo a possibilidade do execrado miserável inventar de inventar a violência da falta para tomar a sobra, isso por já estar no histórico da Família, isso de fato assusta. Tal orador lembra lembrar sugerindo às autoridades religiosas a beatificação do Velho; por essa razão e como prova guardou a parentela a expressão de sofrimento dele no corpo em sua câmara mortuária, plasmado na cera a registrar à posteridade, esta cada vez mais desmemoriada em nossos dias. No palácio continua como sempre o entra e sai de figurões políticos no salão quase de festa sem festim provando a influência dos Ipsilones sobre os mesmos e a modelar o destino do país. Partindo tal impulso dos Ipsilones; não, da Ipsilone.
          Isto em texto em papel em linhas em caneta de sangue azul trabalhado ou bedelhado por Linhas tortas, pretendendo ser romance, neste momento já a estrebuchar olhar a velinha ou velhinha (que importa o sexo aos idosos?) pretendendo isso na sua pretensão; embora, tal romance poderia não passar de novela; pior: novela de televisão! que horror. E se, poríamos após meses consulta à opinião dos telespectadores no se mata se se premia bandidos e mocinhos, ah como a jovenzinha linda! No caso entraria Xis estando na penitenciária a se penitenciar de logros festins falcatruas falsidades, seus mequetrefes já diluídos nos informes jornalísticos; quem sabe a se descobrir sua inocência ou que tenha sido o crime já prescrito antes ser preso julgado condenado etc. e tal, isto ato como que milagroso – os milagres existem pois são vistos hoje na mídia nos canais religiosos sim in conclusio como verdadeiro inocente, haja vista seu olhar de inocência e a ansiar decerto viver no futuro que deseja próximo num modesto lar com Eme Xisinho e ainda um cachorro peludo menos barulhento que o vira-lata da senhora Tê.
          Tê, anda agora mais bela – esticada na clínica de cirurgia plástica – continua no precipício com as outras vendo errado o certo, o sr.Silva ainda anda sentado no boteco longe dela; a casa dos facínoras já sem mato e sujeira hoje alugada para nova gente decente certa em se ver errado. Porque igualmente na Bom Princípio campeia a rotina, diz o conclusão da novela; a tevê repetirá o capítulo final por hábito ou a aproveitar anunciar a nova novela do horário nas chamadas e nos jargões; isto aqui também continua, como a rotina.
          Mas o que podemos agora fazer, não sendo isto propriamente uma novela.
          Romancinho? Por que não tentar esboçar alinhavar mesmo que por alto o baixo dum romance às escondidas, no qual a heroína – mocinha para não distorcer demais o normal, moça de cinquenta ela garante quarenta – no qual Eme na calada da noite à sorrelfa etc. etc., ela procura o herói. Lembrar que Xis anda parado tempão preso sentenciado sem promessa de redução da pena por bom comportamento, nisto abstraindo-se a possibilidade negativa de desentendimento com os colegas uniformizados na hora de tomar sol ou por qualquer troca de celular inexistente nos abrigos prisionais oficiais de segurança máxima, enfim coisas lá de presos. Chega a mocinha, descobre-se do disfarce aceito em propina ofertada aos funcionários, se avista com o amado. Choram ambos, se contam as novidades já sabidas de cor e salteado, o homem é uma repetição no orbe; se contam as novidades possivelmente não sabidas: o macho da espécie presidiário só poderá decerto pichar colegas e o novo carcereiro ou a boia fraca fria fedida; a fêmea da espécie Ipsilone tem bem mais novas novidades, também já rotineiras. Diz: o menino é um amor de inteligência paciência e competência, o primeiro aluno da classe na educação de estilo VIP, isto é apenas ele com os mestres visitantes do primeiro mundo; nosso pimpolho é bom belo (burro não! palavra de mãe). Será um autêntico Ipsilone. Ah, tem a orelha do pai o nariz do pai o olho inocente do pai – o pai estufado orgulhoso vaidoso à beça, as lágrimas escorrem quase a molhar a foto delinho sentado no trono da Mansão. Por fim se abraçam se beijam se juram amor eterno, os pais de Xisinho.
          Mas... mas? indagam as Linhas normais corretamente distorcidas. Eme sai do inferno infecto miserável ambiente sem dizer coisa alguma; e pra quem diria! sai certamente desolada. Todavia urge pôr os pés no solo da realidade, em que possa estar pesando o distorcido, comum ao normal dos seres. Entra naquele carrão, dá sinal ao motorista fardado, ruma célere então aos negócios de gerenciar mandar ditar ordens àquele mundo chamado Mansão e seus tentáculos nos paraísos. Porque nos dias de hoje já não se faz como antigamente; ou seja de uma nobre burguesa se apaixonar perdidamente por um plebeu. Se apaixonar hoje sim, não abrir mão do nome do dinheiro da posição.
          Ou será que a mente no cérebro possa mesmo não ter razão...

Marília agosto-setembro  2011



















































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020


Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:


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