06 (esta obra e as demais neste Blog, seguem a
apresentação no feitio posto à publicação gráfica; o número que antecede os
parênteses represanta a Pasta original do trabalho)
Tino da Silva, seu
criado
romance
Moacir Capelini
moacircapelini@gmail.com.
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Gráfica:
“(...)
haverá nome certo para a solidão do depois?”
Artur da Távola - - - -
“Humor,
rebelião tranquila do espírito contra a
miséria
envergonhada da condição humana.”
Aníbal Machado
A história de um Juvêncio
Pobre Tino, aportou num pau de galinheiro no
sofrido planeta, sujeito pesado. Devendo o fato ter ocorrido lá pelos anos
trinta, uns cinco ou seis após a Revolução de Outubro getulista, nascendo provavelmente
(em se tratando desse personagem tudo é possível, inclusive o nascer...) numa
cidadezinha do interior paulista. Chamemo-la como referência ‘A’, a evitar
verificações desnecessárias.
Indica-se
Juvêncio no registro, os próprios familiares diziam ser Juventino, o povão quem
é que pode com o povo? o povão lascou-lhe loguinho o apelido Tino. Pegou. Era
um sujeito moreno e mediano em tudo: altura inteligência visão desejo
necessidade comportamento. Assim conseguiu se perder nos intrincados das
estatísticas da Estatística, ciência pouco ciência e um tanto convencional e
mentirosa, Deus me livre! E ninguém, ninguenzinho mesmo, por menos comum fosse
o desencurralaria dos meandros comuns. Até poderia se chamar João, Antônio,
José, não mudando sua sorte, nada mudaria em Juventino. Inclusive
seus apelidos; apelido é o esforço que a sociedade exerce para diferenciar
pessoas – mesmo esses apelidos em nada portanto mudariam o homem que descrevi.
É
claro, esperar que existisse na época apenas uma forma a dizer e fazer gente,
não é mesmo? desse jeito saindo o Juventino igualzinho aos Joões aos Josés aos
Antônios. Não. Possuía uma diferença assinzinha: uma cicatriz na testa, provocada
brilhantemente por um berne! De fato, isso não é muito louvável. Tanto assim
que nosso amigo vivia a esconder o sulco; e o fazia muito bem com os cabelos
através de certa mecha a lhe cobrir todo o franzido da testa redonda vincada
desde menino pelas rugas preocupadas, as pontas da dita mecha chegando até à sobrancelha
direita, a obrigar o rapaz aquele impulso dos fios para trás, as pontinhas dos
cabelos por cima do crânio, mas – teimosa! – voltando tal mecha a incomodar os
olhos. Ah, um lembrete para não esquecer depois: depois ficou calvo e a
cicatriz... deixa isso pra lá.
Esse
o Tino, um homem comuníssimo, pobre Tino. Você irá conhecê-lo melhor, nessa
estória tipo ‘água com açúcar’. Antes aceite um convite deste seu amigo e
talentoso escriba.
Cap. I – Convite ao
leitor
Olhe, estou convidando você para um café. Cafezinho
bem brasileiro, pretinho, gostoso, caro. Artigo de exportação e pretexto para
conversas-fiadas na mesa de bar. Não acha meu leitor ficar bem neste momento um
papo? O mundo, pelo que se propaga, anda tomado pela violência. É hora, suponho,
para descanso, a curtir um café.
Não
que o Tino deplorasse café, fosse adepto do chá europeu ou asiático, com seu
ritual. A bem da verdade acresceria neste ponto que o sujeito tinha sim uma
birra do chá: para ele chá queria dizer remédio, imaginava até a mãezinha (teve
mãe, é apenas um esclarecimento oportuno que faço) com a xícara fumegante empurrando
a infusão para dentro do garoto à força! Isto o caso do chá. Café. Gente comum
aprecia o comum, o café é comum, bebida de todos os brasileiros. Desde
pequenino ficou dependente dessa bebida: na mamadeira tomava aos dois anos o
leite com café; depois a coisa piorou para seu lado, a família passou a tomar
café sem leite, às vezes pão (primeiro com manteiga, a margarina ainda não
surgira dominadora, e mais para diante, sem manteiga). Ficou, portanto, freguês
do café. Cresceu freguês, até virar homem. Ora, não seja maldoso com o
indivíduo, ele nasceu homem, um ‘menino homem’ como falou a parteira barriguda
ao anunciar à mamãe. O que eu disse foi que o sujeito cresceu, ficou adulto.
Entretanto é no estágio adulto que nos interessa o Tino. Porque só gente grande
tem dessas coisas; e aqui entra no caso um caso de amor... Como falei, chega de
violência, vamos ao amor.
Cap.II – Um caso de
amor
Para não ser diferente dos seres humanos – e não
era mesmo, estamos lembrados que o sujeito não passava de pessoa comum,
comuníssima insisto – o Tino amou. Nada de amor estilizado das capas de
revistas, nadinha do romantismo piegas que a propaganda difunde, porém um
querer sentimentalizado, uma querência mundana, igualmente amor, trazendo em si
as consequências cabíveis e admitidas.
É
por essa razão que tomaremos o nosso Tino saindo ele da adolescência, não
esquecendo nunca o ser humano que fora até aí, não fazendo propriamente tábula
rasa – no entanto valorizando uma fase de sua vida simples, de gente do povo.
Melhor é dizer “estudando” que valorizando.
Nesse
tal momento, por causa do amor, é que introduzo a menina Norinha.
A
Norinha? uma garota também simples. Acho era mais simples que bonita, ou bonita
na simplicidade e na pureza, uns trejeitos graciosos. Uma garota semelhante às
outras, com a vantagem ser melhor que as outras, na opinião do Tino. Baixa na
estatura, fina mas cheia de carnes, um sorriso leve fazendo supor tudo; e mais
um pouco. Quem sabe se não destoasse da beleza do rapaz, ele constantemente a
perguntar ao espelho sua opinião e sempre obtendo respostas se não negativas
evasivas, os espelhos são de fato teimosos.
Essa a moça. No fim da década que nos interessa, os anos cinquenta,
usava uniforme de normalista – o que se encaixava bem, já que o Tino vivia assobiando,
por não saber direito a letra, a música “Normalista”, então sucesso
interpretado pelo excelente Nelson Gonçalves; possuía inclusive um disco em 78
rotações da página popular, a qual não podia ouvir pela vitrola
desarranjada. A menina possuía um andar
cadenciado empurrando eroticamente (opinião do rapaz) a barra da saia pra lá e
para cá; e também se apresentava com tez clara de espanholinha, tendo uns
cabelos escorridos e aparados em horizontal a roçar o pescoço um pouco dourados
ao sol das sete e trinta horas da manhã... De manhã esse sol gaiato rindo dos
transeuntes apressados, lá iam as duas ou três meninotas para a aula, a Norinha
entre elas, nisso havendo também como destaque a Lourdes que falava enjoado –
elas a andar correndo ou a correr andando, para atingir a sineta do Colégio do
Estado, atrasadas sempre. E mais atrás, às vezes beirando as jovens, dois jovens
amigos, o Tino querendo alcançar as jovens e ao mesmo tempo temendo a companhia
feminina; a fingir interessar-se pelas conversas religiosas do José seu companheiro,
na verdade prestando mais atenção no jogo daquelas pontas de saia... Sim, era
tímido. Depois é que continuou tímido, avermelhando menos por pouco ou por
muito. Quase sempre as alcançavam mesmo.
Então,
conversa vai conversa vem, desde o simples bom-dia acompanhado por sorrisos que
ele imaginava bem mais que sorrisos; ou qualquer outro expediente como “estamos
atrasados, hein!” e outras verdades e mais sorrisos que ela supunha para si;
assim chegavam à escola. Ou não entravam. Aí surgiu certa amizade... Quer
dizer, para sua recém saída virgindade em matéria de malícias de amor, a coisa
se apresentava como amizade pretensiosa por parte da mocinha bela e por parte
dele, dele com certeza.
Neste
ponto você terá, por razões que são suas, ficado de certa forma abismado por eu
haver posto a questão da virgindade do moço. Vou então narrar aqui um episódio
o qual nos dará a medida mais próxima da pureza do Tino. Ele subia a rua Nove
de Julho, escorregando o coturno militar nos paralelepípedos saltados do
calçamento, quepe oliva penso na cabeça quase careca como a caserna dispõe,
olhava a travessa próxima temendo carros na disparada, porque automóvel também
passa por sobre uniforme de atiradores; e atravessava essa via quando um grupo
de moçoilas meio barulhentas cruzou com ele, mexendo em elogios com o ilustre
varão servidor de Caxias! Bom. Que é que tem isso? Nos nossos dias é inclusive
natural, naqueles causariam espécie! E tem sim mais alguma coisa, pois que o
rapazote pela primeira vez descobriu ser homem... pasme um pouco mais você: ele
pensava ainda ser moleque, desses de quebrar vidraças e tudo o mais porém não
quebrava nunca quebrou, era sujeito comportado; apenas pensava estar ainda
molecão, na fase da despreocupação amorosa... Daí você me indaga e a farda? O
hábito realmente não faz o monge; ele se vestia como soldado, atirava (e errava
sempre, o sargento gozando nele e também os colegas visto esse mundo ser mesmo
intolerante) sim, atirava lá no estande de tiro do Tiro de Guerra 227, armado
no pasto da Fazenda Bonfim, entre cocô de vacas despreocupadas e impatrióticas,
no meio do carrapicho para esfolar a barriga no exercício de rastejo quando o
sargentão nervoso descontava nos jovens as noites mal dormidas, sendo a culpa
da esposa sargenta, tadinhos dos soldados; sim nesse lugar ele atirava,
atirador de verdade, fardado, praça número 141 o Tino (quer jogar no bicho?
ninguém está vendo a contravenção) um soldado de verdade. Então ia pela Nove de
Julho, cruzando a av. Pedro de Toledo, se escorregando no calçamento pelos cravos
do coturno trof-trof e eis que passam as garotas mexendo com o pobre, chamando
o menino de “bacana” (que gosto delas
hein!) Tendo outra coisa: o Tino era por demais tímido. Conto outra de soldado
do soldado Tino. Seguinte. Um belo dia o Tiro de Guerra foi convidado a
desfilar sua garbosidade numa outra cidade, também pequena; a soldadesca desce
do caminhão numa parada qualquer, vai zoar, bagunçar, no meretrício; nosso
herói ficou olhando somente olhando a bagunça, assustado... não nos assustemos
agora com o susto dele por causa das bonitinhas, decerto colegiais, a chamá-lo
bacana. Mas você vai me permitir uma suspensão curta neste momento, não é? é
que permanece um senãozinho na dúvida da dúvida em que ficamos eu e você pelo
gosto extravagante das meninas vendo nosso Tino fardado. Vou falar um pouco sobre
a Pipoca; ela nos esclarecerá de certa maneira o gosto feminino com relação ao
macho... verá que nem sempre nós temos razão.
Vamos
à Pipoca. Certo dia a fêmea canina andava cheirosa os namorados se arrastavam
de amores e brigavam se mordiam se batiam pela linda donzela... A família teve
medo se cruzasse com um joão-ninguém e as consequências funestas. A Pipoca foi
trancafiada com um macho de raça pura, beleza no pedigree e na aparência; já se imaginavam nas vizinhanças da casa
do Tino os cachorrinhos lindos. Uma semana de amores... a Pipoca não se
entregou, quase entregando o parceiro à morte pela paixão, tadinho! O príncipe encantado foi devolvido aos donos, a
donzela (ainda donzela apesar de) acabou solta na rua... Apareceu um vira-lata
sujo fedido zarolho e sarnento, tomou conta do coração da jovem. Os filhotes
nasceram lindos lindos, na opinião das crianças humanas; e será que o rapaz
aprendera alguma lição na lição da cachorra? Se aprendeu não pensou nisso
naquela hora a receber elogios feminis, vestido de soldado n° 141. Ponto final.
Deixemos
a cadela, voltemos ao Tino. Agora podemos entender as meninas que o gritaram “bacana”
(merece até ponto de exclamação). É portanto nesse dito momento que ele descobre
não ser garoto mais, mas um homem! Nesse dia marchou melhor, errou a pontaria
melhor, ficou a raspar a garganta se fazendo de importante por nada, falando
apenas para sentir a voz gostosa que assoprava, chegou a vistoriar o espelho, o
espelho não o convenceu demais; as garotas entretanto... mulher é mulher, tem
razão; quebrou o espelho estúpido e sem arte nem gosto na tarefa de apreciar
beldades masculinas, atirando os cacos no buraco da privada de buraco; disse
que foi sem querer à mãe. Estava deflorado o pobre!
Continuemos.
Foi na condição de recém desvirginado que o Tino começou a se interessar pela
Norinha, aquela tendo o sol a dourar a cabeça de manhã, fato que acontece para
todas as mulheres expostas ao sol matinal das sete e trinta, ele é que não
estava sabendo disso; eu disse que se quebrara a virgindade e grassou um começo
de malícia xeretando aquela moral sólida do rapaz. O coturno militar ficava a
cheirar o chulé sob a cama juntinho do cheiroso urinol debaixo do colchão de
solteiro, a farda esparramada nos pés da cama pra mamãe recolher e lavar a
terra e o encardume pelo rastejo na madrugada. Ele deixava tudo isso no quarto,
era agora o sonhador dentro dum uniforme escolar, suado por correr a alcançar a
menina Norinha, pretextando a sineta do Colégio na Avenida Sampaio Vidal. Coisas
lá dele.
Depois
a malandra garota Norinha inventou de inventar sua entrada no orfeão da
professora Rute, a querida mestra de música. Bem, quer dizer, ela já se
encontrava no grupo da segunda voz, fala meio grave e um pouco rouca – quando
ele foi incluído no pessoal de canto, então na quarta voz. Não ficava assim tão
longe, que uma fresta entre o mar de cabeças não favorecesse ambos. Para uma
relação em caráter de amizade até que andava bem, ótimo. Dessa forma iam
aprendendo a moderar suas respectivas vozes, isto é, a dela já educada. Depois
sair correndo, andar na frente, fazendo de conta não ter pressa, para num
imprevisto gostoso se deparar com as colegas do primeiro ano, alcançando seu
agrupamento. Já todos a descerem a Nove de Julho... e assim, olhares de cá para
lá, corridelas, encontrões casuais por força da rotina escolar – saiu da escola
professor simpatizado com ela, ela ficou mais um tempo a receber o diploma.
Tino se foi ao mato para ganhar a vida. Ela, a Norinha, continuou estudante.
Agora
você quer saber se é aqui o término do caso de amor. Eu respondo convidando o
leitor amigo para mais um cafezinho. Não, café não tira o sono coisa alguma. Ou
tira. O pessoal diz que tira e coisa e tal. Porém fique sem tomar a sua xícara
ver se pode; aquela dorzinha na cabeça que vem e tudo o mais. Pior seria tomar
vodca ou o contumaz uísque. Um café, enquanto vou lhe contar certo encontro.
Cap.III – Encontro
casual e/ou fatal
Acontece que possuíam esses dois anjos, o Tino e a
Norinha, outro anjo, um anjo da guarda, certa amiga comum, a qual não admitiu
que o caso se encerrasse na saída do moço do Colégio. Ah como mulher adora
casar as amigas! Uma visita à cidade pelo professor da roça; depois um
bate-papo informal como mandam as amizades, pronto: deu com a língua nos
dentes. Foi contar de leve à amiga da amiga, por sinal bonita (nada fora do
entendimento, pois ao homem dos vinte e dois anos todas as mulheres são belas e
sensuais) que achava linda e sensual a espanholinha, uma tal de Nora Perez,
aquela que estudava com a gente na Escola Normal, a de cabelo assim etc. etc..
A amiga da amiga acresceu outros et coeteras na descrição do rapaz e se prontificou
a facilitar uma relação mais íntima e duradoura com a pretendida, em seu zelo
no ofício de ‘santantônia’, no qual era mestra. Ao que ele negou para admitir o
desejo e agradecer. Além do mais, está muito claro se a amiga da amada quisesse
seu endereço... tudo bem, que a gente precisa mesmo sempre saber donde moram os
amigos, não é assim? Partiu. E recebeu na escola da roça um bilhete da colega
de Norinha, a coisa se arranjara, a moça vivia interessada também, esperasse à
saída da matinê no cinema, por curiosidade acontecendo as sessões nas tardes de
domingo e não de manhã como propõe o vocábulo; onde o seriado ou coisa que o valha.
Você
pensa que o bestalhão foi ao encontro marcado? Foi. Ou não foi: não conseguiu
divisar a sua querida no mundaréu saindo se atropelando, moleques a assoviar a
gritar, papéis de bala esvoaçando, casais de mãos dadas, outros com uma menina
por vela acompanhando como era costume – mas e a Norinha! Não a viu. Não teria
vindo ao cinema? quem sabe se não estivesse pouco interessada no encontro... O
fato é não ter aparecido. Mais tarde comprovou que ela nunca o perdoaria a cegueira.
Marcou-se
nova entrevista sob a batuta de Santo Antônio casamenteiro de saias. Ah a longa
espera semanal! Dona imaginação fez-lhe companhia. Chegou sábado tão esperado.
Na
frente do Colégio, o Colégio tantas vezes trabalhando a uni-los; naquele lugar
o Tino e a Norinha trocaram as primeiras palavras como namorados; juras de amor
não, isso mais tarde. Sim, ela disse, é claro, desejar, entretanto por que não
fora esperá-la na saída da matinê no cinema na avenida? Foi não foi. Os perdões
e passeios na pracinha, pipoca flor olhares e enrubescimentos. Gostoso, muito
gostoso! andar por andar, para andar, no ver outros casais porém mais se vendo
que aos outros; um encontro casual, resvalo tão somente com desculpas, outros
sem desculpa; dá licença pegar suas mãos? não, nada disso, é pegar diretamente
as mãos da jovem. Mais pipoca, sorvete? Papai não aprecia filha chegando tarde
da rua. Descer pela Igreja São Bento, dizer bobagens de namorados antes de
entregar a moça na casa, quer dizer, perto de casa. Novo encontro marcado.
Novos encontros. E desencontros.
Entretanto
agora encontrava-se amarrado o pobre Tino, Sr.Juvêncio da Silva para o imposto
de renda que loguinho iria arranhá-lo. Pobre dele. Amava. Sofria. Uma ideia não
se desliga da outra. Começaram as minhocas.
Boa
cabeça para minhocas. Será que algum sujeito não iria mexer com sua pequena! e
se ela gostasse? Nesse caso não teria apreciado realmente o jovem professor
enamorado... Ora quem foi que disse que ela não gostava dele! Será que não
mudaria de ideia? Continuaria pensando nisso por seis longos anos! Sujeito
persistente hein! É verdade também que não tendo dom de prever o futuro, mesmo
porque era um ser comum. Persistente, embora. Porém no começo foram as dúvidas.
Depois parece que se fixaram as dúvidas, as quais só não eram maiores em vista
da ingenuidade de ambos; ocorre nessa idade todos sermos ingênuos. Talvez o
maior mal da humanidade seja deixar as dúvidas nas certezas a trocar tudo pelas
certezas nas dúvidas.
É verdade
nesse namoro incipiente que a distância física colaborava negativamente;
contudo o correio supria a falha e colaborando positivamente, a levar alento
feminino ao professor matuto. As cartas dela eram agradáveis, oh como eram
esperadas! A menina chegava ao ponto de perfumar o papel escrito, no afã de
prender ainda mais o seu namorado; colava florzinha e pássaro no canto direito
superior da folha. E jurava querê-lo sem dizer isso diretamente, recatada e
prudente. Ele respondia naquele letrão ilegível sem meias palavras, dizendo
amá-la pensar nela somente nela e outras besteiras dos amantes. No que ambos
acreditavam e os dois duvidavam um pouquinho. O tempo foi passando e cimentando
tudo com as pregas do costume aquela relação. Enfim amarrados. Ele exercia a
fidelidade muito pouco masculina; ela bem feminina e sincera, na prudência,
sempre comedida nas afirmativas. O tempo, malandro, cozinhou tudo no caldeirão
da verdade, aqueceu a relação na chama das incertezas e nas certezas das
dúvidas. Não os declarou marido e mulher para todo o sempre amém; entretanto
fez dos jovens namorados seres firmes e maduros. Aproveitou para alugar-lhes a
máscara da felicidade e do dever cumprido para com a sociedade, por largos
anos. Sujeitos a tempestades e algumas bonanças.
Porém
agora que estamos na fase de tempestades, que tal um café pequeno e quente?
Repito,
quer um café?
Você
prefere uísque. Bem, é uma forma de crer no mundo; e gosto não se discute;
tomando essa bebida estaremos a amparar e fazendo crescer as multinacionais.
Que falta de patriotismo! que me diz a isso? eu optaria pelo café, pretinho,
gostoso, cheiroso, caro é verdade, mas solução bem mais barata que a do seu
uísque. Enfim opinião. Opinião do Tino?
Optava sempre por café? Não será por isso que ela deu o fora nele!?
Cap.IV – Um fora
fora de época
Ocorre que a opinião do Tino não poderia ser muito
diversa da minha sobre o café. Acontece que o moço não bebia. Ou por outra,
ficava nas bebidas leves: era adepto do guaraná, a Coca-Cola não surgira
ainda no país. Abstêmio? Coisa alguma, era fraco para bebidas alcoólicas.
Suficientemente fracalhão, a ponto de entrar em pileque com apenas meia garrafa
de cerveja ou um copo de vinho de mesa. Daí talvez a língua presa e sua falha
mais flagrante, a timidez doentia do moço. Porque os antigos já diziam “in
vino veritas”. Ele ficava sempre na mentira do medo e da timidez. É quase
inexplicável o fato de nosso amigo ter tido coragem tanta para falar de amor à
Norinha, ‘bater o barro’ na expressão roceira de propor namoro. Agora estava
confirmado: era para a sociedade o namorado de Norinha, a bonita de cabelos
dourados ao sol.
Era
tão namorado, tão namorado da bela, que chegaram, na confirmação de
compromisso, às primeiras brigas. Aí com a colaboração da garota, não iria
brigar sozinho. Ora há tantas e tantas razões sem razões para os casais brigarem,
que se perde no intrincado as possíveis causas verdadeiras. Nelas a gente
desabafa; a Norinha desabafava com a Regina, enquanto ele contava tim-tim por
tim-tim todos os lances ao confidente de plantão, a fantasia. Quanto à amiga da
namorada era confidente mais concreta; por sinal o Tino a achava linda, uma
Regina de olhar meigo e puro; além do mais o namorado da namorada vivia
inconformado pela amiga da namorada, ou mais por causa da mãe dela, uma bruxa
ressequida, desejando casá-la a qualquer preço com um radialista safado, a
jovem pretendendo ser freira; não obstante o Tino se perguntava se era lícito a
sociedade perder aquele materialzão feminino para os conventos... Enfim, eram
por esses caminhos que passavam as brigas do casal Tino-Norinha, as causas
sendo sempre indefiníveis. Digamos houvesse ciúmes de um lado e falta de
atenção, alegada, de outro.
Foi
no momento das primeiras brigas que deu-se a introdução de um elemento novo,
uma jovenzita dos seus oito anos, linda linda como o são as crianças. A Cidinha
virou vela dos dois. Ela não chegava a incomodar o casal, então quase sem pretensões
elevadas. Elinha subia e descia ruas praças e jardins – qual um rabo, os olhos brilhantes cheios de curiosidade
pelo mundo, atrás do garotão e da jovem Norinha. Como fosse grande perigo macho
o Tino e a menina enorme defesa a favor das castidades de plantão! Contudo era
um mal necessário a menina; e não chegava a impedir sequer as pequenas
discussões do casal. Foi por esse tempo que tudo começou a mudar.
Então
a moça ganhou coragem e o mandou passear. Disse que o pai descobrira o namoro
deles, não queria amor inconsequente, sim estudo e formatura. Ele aceitou, se a
garota não o queria, era possível ter outro fulano metido na coisa; ele não
apreciava comer no mesmo prato dos outros, pensou rancoroso. Pensou e não
disse, apenas aceitou. Aproveitou para soltar as minhocas da cabeça; e não poderia
ser que os irmãos da Norinha não gostassem dele! não conseguia o rapaz
chegar-se a eles; havia o Pedro encrenqueiro, toda família tem seu malasartes
aluado e comprometedor. Também ao moço ocorreu a jovem estivesse desgastada
pela mãe dela, doente mental, quem sabe se não tivesse vergonha frente ao namorado
por isso! Norinha pusera o problema em discussão entre as minhocas da cabeça do
rapaz. Entretanto na hora ele apenas aceitou o desenlace. Mas ficou enraivecido.
Você não pretende que pulasse de contentamento, não é? Não obstante é mais
complicado do que parece ser. Ele, o timidão, ingênuo, era debaixo disso tudo
um homem. Não é por haver nascido ‘menino homem’ e não ‘menina mulher’ como diz
o caboclo, não era por isso, e sim porque a jovem suscitava nele pensamentos
eróticos, desejos inconfessáveis ou não suficientemente sabidos ou conscientizados,
talvez. Talvez coisas lá de jovem na fase de afirmação e pujança masculina.
Inclusive, para não passar vexame diante da namorada tão atraente, comprara com
míseras economias um suporte, dessas saqueiras comuns, as que os atletas usam a
defender tão nobres órgãos. Que sujeito interessante: temia parecer um homem
normal, era comum apenas. Provável tenha sido prático o rapaz, pois vivia ao
lado da moça sempre com a mão direita no bolso, envergonhado... E justamente na
inauguração do suporte, segurador das pujanças viris, a jovenzinha deu-lhe o
fora! Daí surgiu novas minhocas para morar com as outras na cachola dele: “será
que ela pôde descobrir...” Foi embora para sua casa, ruminando e numa raiva danada.
Aqui
um alô aos presentes. Quase ameacei abrir um capítulo novo e especial a esse
pormenor tão importante para aqueles namorados. Não havia tantos presentes como
se possa imaginar; o tempo de convívio fora curto e o rapazinho um autêntico pão-duro, talvez nem fosse essa a
opinião da moça Nora, comedida e simples no viver; parece que o indivíduo tinha
mão fechada. Mesmo assim, descontados possíveis senões, presenteara sua amada
quando amada: um bauzinho de madeira espécie de porta-joias, uma foto dele para
ela adorar, não sei se adorou não devia ter mau gosto... e mais nada. Quer
dizer, será que havia mais? ah memória fraca! Bem, havia lá um presente sui
generis (não falei que o camarada era original, não? acabo de falar). O
tal presente constou num sermão à moça no ‘dia dos namorados’, doze de junho,
suficientemente propagado pelos comerciantes do país a vender mil bugigangas
lucrando por cima dos casais; nesse dia. Ele falou falou falou e mais falou,
completando a pregação à jovem abismada e completou: “este é meu presente do
dia...” Ela sorriu amarelo e imediato entregou-lhe um certo embrulho, uma caixinha
com um par de abotuaduras para as camisas do Tino; o presente dela. Você pensa
que ele não agradeceu? agradeceu. Noutras oportunidades oferecera ao rapaz
vários outros objetos, lembranças, coisas assim como meia-lenço-camisa, ah o
grande problema de não se saber o que o outro sexo aprecia! Norinha teve lá seu
drama, mesmo assim presenteou ao ingrato. Agora estavam na fase do devolver.
Ela exigia e ele negava devolução. Afinal, presente se devolve? Ele foi durão;
não queria a foto, que ela a queimasse; guardaria a dela e os presentes como
lembranças. Tinha direito, achou ter. Dessa forma e assim decidido, os
problemas da jovem devem ter sido bem maiores que os do rapaz.
O
principal é que o Tino havia tomado o fora. Por isso sentiu raiva.
Agora,
em contrapartida, sentia-se como Adão quando tornou-se viúvo. Espera lá, será
que Adão ficou algum dia viúvo? Acho que deva consultar a Bíblia para saber. Isso
não importa aqui. Assim foi andando andando enquanto pensava e remoía suas
minhocas, quando deu conta de si, passara já sua casa; cismando e baratinado
ultrapassara a igreja e a linha do trem da Companhia Paulista. Acordou, pulou a
linha férrea, voltou para casa; a chutar pedras e gatos. Havia, pensou, um bem
a reconhecer – estava livre de compromissos. A liberdade é muito cara a um
homem.
Então
aconteceu para completar a desgraça do fora, a desgraça maior de um desemprego.
Ou poderá ter sido uma bênção. Sim porque teve que deixar a cidade do interior,
despedido da escola, fugindo assim, obrigado pelas circunstâncias, da lembrança
do namoro; agora era procurar noutras plagas um ganha-pão, também o drama de
toda juventude, a qual nunca encontra colocação na sua própria terra e se vê na
contingência de procurá-la na capital. Teoricamente andaria longe para curar
desenganos de amor!
E
vem você se intrometendo novamente, a perguntar se agora acabou de uma vez por
todas o caso de amor do garoto Tino, aquele sujeito encrencado que aportou num
pau de galinheiro. Não afirmei que o fora da moça no moço ingênuo encerrou esse
amor. Mentiria caso afirmasse. É que... bem, vamos a um conhaque para esquentar
um pouco.
O
Tino? depois eu conto. Quanto ao conhaque é uma bebida europeia ao que me
consta; não me corrija porque não sou enciclopédia. De qualquer forma é uma
bebida estrangeira, nós não a inventamos! Como já firmei posição nacionalista...
Portanto vamos ao café outra vez: não tenha medo perder o sono, ainda não se
comprovou a veracidade disso; e além do mais são onze horas desta noite, não
existe bebida que impeça dormir. Um cafezinho gostoso e cheiroso, enquanto
inicio o contar sobre o reatamento amoroso.
Cap.V – O reatamento do idílio.
Nosso Tino andava macambúzio. Os jovens têm disso
vez por outra; os velhos têm sempre. Falta dinheiro... ora bolas entristecer-se
por faltar coisa tão imunda, o vil metal; não nos impressionemos demais, é
questão de idiossincrasia do sujeito. Problemas de adaptação na cidade grande e
desumana; não sabia ele que as capitais não são de ninguém, porque são de
todos; era pegar sua partezinha, recolher-se à sua propriedade no grande nada
do viver, que em si é já ilusão. Não compreendeu isso e se afundou na miséria
da tristeza. Deveria saber usar o antídoto da tristeza profunda, que é o amor.
Vamos com calma, o moço aprenderá.
Quer
dizer, tinha lá também suas razões e as razões desarrazoadas. Destas e com estas
encheu papéis e mais papéis nas cartas-desabafo aos parentes e ainda mais aos
mais próximos, os genitores; eles sem grande cultura mas com dose suficiente da
cultura do coração. Contou suas mazelas, escondeu o problema concreto da falta
de meios financeiros, que o desemprego não conseguia esconder; e esbanjou,
impiedoso, o drama do inconcebível e quase inarrável! Molhou a carta aos pais
com lágrimas puras, tadinho. Disse aos entes queridos, lá nas lonjuras
interioranas, de uma possível ameaça de derrame cerebral, afetando todo seu
psiquismo: dormências parciais esquecimentos pesadelos; enfim se abriu com os
seus; e com isso melhorou um pouco, usando tal válvula de escape. Ninguém vive
sem ninguém íntimo! Por outro lado nasceu-lhe novo problema, que era o problema
de transmitir seus problemas, os de seu íntimo profundo, aos familiares, ainda
mais sobrecarregando-os, sem que pudessem (gritou-lhe o raciocínio) amenizar ao
menos a sua carga emocional. Assim se condenou, não fosse já condenado, isso
por vários dias. Dizia-se, matracando lá dentro da cachola, ser um anjo mau,
azucrinando pobres velhinhos indefesos! xingou-se então; tinha esse direito.
Não obstante, noutra semana enviou mais carta-problema, igual uma carta-bomba
terrorista a estourar os sentimentos dos que lhe deram a vida. Nela narrou
inúmeros sonhos terríveis, amigos de suas noites indormidas. Depois ainda ficou
sofrendo a possível sofrência interiorana lá nas lonjuras, as lágrimas de
mamãe! Puxa, que indivíduo confuso e masoquista... Dá até raiva. Eu que tenho
raiva.
Porém
confesso, vencido, tinha suas razões fortes; sua tristeza estava bem
fundamentada nos alicerces econômicos do desemprego. Porque a gente e essa
gente é gente solteira, com menos encargos costumamos dizer, não tendo o amparo
do outro ser a dividir as sofrências; e assim a casa cai se apenas houver uma
parede; exatamente dessa forma, porque o bicho gente é assim mesmo: se afunda
na primeira tempestade; na melhor das hipóteses faz água o barco; hajam latinhas
para tirar a lama! Não arranjava emprego e o dinheiro escasso acabava. Já
pensou a deprimência por viver encostado a parentes da capital, na expectativa
de um prometido trabalho! Poderia, sim, ajustar a personalidade com o amor,
você insistirá. Concordo. Mas serviço é o ganha-pão, uma coisa séria aos pobres.
Ah...
sentar-se de manhã num banco de praça, olhando meio desesperançado o “Diário
Popular”, recortar a secção classificada do “Estadão”, não é coisa mole, não é
brincadeira. As pombas faziam companhia comendo restos de alimentos, pipocas
atiradas ao chão; haviam outros noutros bancos também a sofrer igualmente o
drama, tinha a suavizar seu estado a vegetação no jardim público – queria era
trabalhar.
Sujeito
trabalhador hein! um mérito, cremos; o negócio entretanto é mais complicado:
trabalha-se na esperança de receber numerário para comprar alimentos etc.; o
óbvio, concordo. Todavia o trabalho traz inclusive segurança para garantir a
paz, para se dormir sossegado. Taí o porquê de pretender colocação. A gente
busca dignificar-se pelo fazer, o emprego nos dá essa satisfação. Nem sempre,
você argumenta, isso outro desvio psicológico que não compete destrinchar neste
momento tiniano. Bem, no caso de você, caro leitor, continuar se intrometendo,
convidarei o amigo a tomar outro café!
Porém
não tema estourar de tanto café que já ingeriu, como na estória do senhor
respeitável que apreciava chá. Seguinte. Ele fora fazer uma visita à senhora
respeitável dum amigo dele também respeitável, em hora inadequada. Foi intimado
a sair do guarda-roupa do casal, intimado sim pela garrucha do esposo da
senhora respeitável, justificando a visita ter vindo apenas tomar chá com a
dama. Pois bem, o senhor amigo e esposo respeitável, digo, a sua garrucha,
encomendou à esposa uma latinha de vinte litros de chá para o visitante e para
ela também. Tomaram o chá quente, muito mesmo, apreciavam deveras chá e a
garrucha andava por demais exigente. Quando o respeitável visitador já se
encontrava empanzinado e enfastiado com tanto líquido, empacotou no chão; aí
chegou a ambulância a fim de levá-lo; então aquele enfermeiro gozador disse ao
visitante respeitável aquilo não ser nada grave, bastava tão somente ingerir um
chazinho...
Não
estou a desejar enfastiá-lo de café, compreenda meu leitor; nem o Tino apreciava
chá, chá é coisa para remédio e o moço não se considerava tão enfermo assim,
era jovem e forte, pensava ser forte.
Pobre
de meu fraco Tino. Andava azucrinado com tantos problemas de ordem econômica,
já evitava tomar cafezinho nos bares com os amigos para não gastar; chega um momento
que é sua vez de pagar, chato né? Evitando o café, o que não era tão difícil
assim porque numa cidade grande e desumana a um estranho não há muitos amigos a
oferecer gulodices no bar. Sorte dele, que voltava para casa (dos outros, vivia
com uns tios) agora sem haver encontrado serviço, mais chateado, os recortes de
jornal ensebados. E ainda precisando andar pelas ruas com os sapatos furados a
procurar os endereços e sendo obrigado a economizar o almoço, aproveitando o jantar
na casa dos parentes! drama. Especialmente ao sentir cheiro de carne tostada
com batatas fritas nalguma residência por aí, ele de barriga vazia murchinha,
infeliz. Voltava para casa, tentava justificar à tia os insucessos, sofrendo a
cobrança diária do tio nuns olhares inquiridores... Encontrava-se arrasado!
Entretanto possuía a noite para conversar consigo mesmo, a ouvir-se os planos
para o amanhã incerto. Contudo o rapaz bem que merecia o suplício, porque
teimoso à beça; aos teimosos as melhores pauladas.
No
que teimava, viver por exemplo? Em andar atrás de serviço quando o correto
seria fugir da ocupação? Nada disso; ele era orgulhoso não aceitando qualquer
vaga, não queria vender batatas na feira, não desejava varrer as ruas imundas:
pretendia ser caixeiro-viajante, fórmula que inventou para fazer turismo de
graça, passear remuneradamente, maneira de pobre conhecer o mundo e passear
(imaginou fosse passeio) sem gastar o dinheiro, que por sinal não possuía mais
nessa altura. A realidade mostrava outra faceta: ainda estava desempregado, um
mês, segundo mês, sabe-se lá mais quantos a curtir... Daí havia as eleições. E
café, você indaga. Não senhor, é tempo de eleição.
Cap.VI – Festa de
inleição
Ainda trazia no bucho sensação da falta de comida,
na cabeça a dúvida do emprego, no coração o poema de Pompílio Diniz contando o
drama caboclo da eleição na roça, de maneira graciosa. Repetia mentalmente
alguns versos lembrados da “Festa de Inleição”. Talvez por época de renovação
eleitoral, os deputados assinzinho atrás das pessoas, sorrindo sorrindo; o Tino
sem dinheiro para salvar a democracia com seu voto; sim porque ele votava na
sua terra, a cidade grande não lhe dera meios para custear a viagem ao
interior, antes tomara-lhe os últimos níqueis. Como fazer? pensava o legalista
jovem. Era legalista, nacionalista, cumpridor das exigências oficiais; e também
não votava nos candidatos comprometidos com as forças ocultas que o Jânio mais
tarde iria enfatizar. Foi então conseguir um passe através dum político e se
foi na segunda classe apinhada no trem da Paulista. Assim, supôs ajudar quem
ajudava a democracia, votou secreto; revendo por consolo os familiares. Nosso
amigo sendo mui sentimental e ligado aos seus.
Chorou
como convém, de alegria, de emoção; e por ainda estar desempregado.
Conversaram, desabafou o infeliz. Aproveitou a ocasião para rever a Norinha; de
longe, bem entendido; também se comunicou com a moça igualmente de longe num
“oi”. Descobrindo – mas já sabia de sobra – que gostava dela, dela sentia falta
muita falta... Espere, tem uma coisa a esclarecer.
Pois
não é que enganei o leitor? Sim, entitulei o capítulo anterior como “Reatamento”
e não reatei coisa alguma! Antes de me chamar prolixo e enganador barato,
ofereço ao amigo o café que não havia prometido (fica por conta do episódio “Reatamento”...)
um café gostoso. Preto, bom. Tem preconceito de cor? e porventura haveria café
não preto? Pedirei ao moço do bar, que é uma garçonete bonita, que nos sirva um
autêntico água de batatas, clarinho. Aproveitando-me
do instante em que paramos para reatar o caso de amor entre o Tino e a Norinha.
Bem.
Tristeza não lhe faltava e mesmo sobrava. Alegria também sobrava, porque vira a
jovem saindo do adro da igreja São Bento. Ela era filha de Maria, ele razoavelmente
ateu. Ela cedeu um pouco ao longo do curto convívio com seu namorado: deixou de
pertencer à confraria mariana, porém continuara religiosa. Daí tê-la visto
saindo da igreja e cruzando a pracinha próxima, depois descer a Nove de Julho.
Ela disse posteriormente numa carta ter deixado a congregação; aqui entenda-se:
na carta, pois não lhe dirigiu palavra naquele encontro fortuito a que me
refiro; enquanto ele falou “oi” mentalmente e ela não ouviu decerto. Contudo
ele a viu com os olhos que a terra haveria um dia comer, para dizer na apurada
linguagem caipira. Ou por outra, reafirmou a si mesmo gostar da menina.
Descobrira
um quê no seu andar, uma beleza sem par no vestir, que por sinal era o simples
trajar; viu a saia batendo nos joelhos (não havia notado que as saias femininas
– ora, deve acontecer a mesma coisa às dos homens escoceses... – as lindas
saias femininas executavam sempre o roçar pernas, válido para todas mulheres é
claro, mas o Tino ingênuo, como podemos deduzir facilmente; e amante; estava
amando!) notou os cabelos esvoaçantes e singelos da moça, agora melhor
compostos e dourados ao sol não das sete e trinta, porém pelo sol da missa das
nove horas. Teve ímpetos de gritar por entre ruas “Norinha, Norinha!” não
gritou não ficava bem a um homem da capital, agora era da capital do estado, a
um reservista desempregado e sofredor; é, não ficava bem. Por essa razão guardou
a distância cabível e honrosa da presa... Pensou melhor, voltou para mamãe e
papai, despedir-se dos manos, tomar novamente o segundão, compromissado no
encontrar emprego.
Chegou
em São Paulo. Poucos
dias depois veio-lhe uma carta gostosa da mocinha Nora Perez. Não declarava
amor. Não se entregava. Não lamentava por ele não havê-la procurado no
interior. No entanto punha um sim saboroso de amizade e amizade é uma promessa
de afeto para quem necessitar. Ele bem que precisava. Dizia sentir saudades do
tempo em que ela era feliz, quando tinha um moço bom e talentoso ao seu lado
(ele releu muitas vezes seu próprio nome talentoso e bom). Chegara ao Tino o
momento de pensar, se é que houvesse parado pensar. Pensar no amor, por que
razão só iria se martirizar nas questões puramente econômicas!? bobagem. Tinha
necessidade das bobagens de amor, preencher o nada que é a vida, ele a pensar
nos vinte e três janeiros (outubros, fazia em outubro) que a vida era o tudo.
Chegara a hora de pensar; e ele não pensou, respondeu ardentemente a missiva.
Ela respondeu a resposta, ele por sua vez a resposta da resposta. Assim
reataram o caso de amor.
É isso
que aconteceu.
Está
bem agora?
Então vamos
tomar um café por conta da casa, a fim de comemorar o matrimônio (não
exageremos!) Café quente refresca a cuca, estimula os ânimos. Daí teremos
forças para continuar nossa conversa sobre o Tino, Sr. Juvêncio da Silva,
conhecido nos meios familiares por Juventino, enfim sobre seu segundo erro, ou
segundo namoro, se ficar melhor dizer. Anda curioso?
Cap.VII – Caminhada
ao segundo erro, ou muito
pelo contrário
Aliás o erro tornava o moço muito mais humano, pois
errar é humano, diz o ditado. Entretanto ele não sabia estar caminhando para
novo desvio, ou seria burro bastante não evitando. Agora ocorre que ele deva
entrar na segunda classe do trem da Paulista, viajar quase todo o dia, ou toda
a noite, porque fica melhor liberar seu dia de sol a procurar emprego, não cabe
aos escribas atrapalharem os desempregados. Enfim ele viaja noite inteira para
cair nos braços da amada, a qual iria decerto esperá-lo na estação ferroviária.
Patético, não? ou romântico.
No
entanto não foi bem assim. Deu-se mesmo o contrário, porque o homem fugiu para
mais longe... Ele encontrou colocação afinal, o tão sonhado emprego (puxa, você
estava agoniado e eu aqui igualmente torcendo por ele, não aguentando vê-lo
chegar à Vila Maria na capital maluca, bico abaixado, recortes usados, a dizer
para a tia “hoje não deu” a abaixar a vista para a vista inquiridora do tio a
falar entre botões e na cama à esposa “essa peste não arranja trabalho por
vagabunda; além de comer por dez vacas!”) Ah o Tino trabalhando! Imediato
escreveu a novidade para a nova garota.
Não,
à velha garota namorada novamente, a novidade é que era nova, novíssima. Sim
arranjara serviço como viajante de pilhas, na Companhia das Pilhas
Multinacionais (não falei que ele era politicamente nacionalista?) Já pensou, o
mundo estava salvo! Bem, o mundo dela sentiu deveras, o amado agora iria para
mais longe – Paraná Rio de Janeiro Minas. Loguinho no momento em que ele
deveria correr para ela, mesmo no segundão da Estrada de Ferro Paulista; e
acontecia o fugir para mais e mais distante. Porém não existe distância aos
corações e ao correio, esta uma instituição na época quase falida mas que
serviu brilhantemente como Santo Antônio ao distinto casal.
Dessa
forma começou o leva-e-traz corriqueiro postal, servindo por taxas módicas o
carteiro aos jovens separados no mapa do Brasil, tão próximos no coração. Romântico?
As cartas desmentiam as afirmativas; e se contivessem – elas continham
realmente – juras de amor, também levavam-traziam por outro lado encrenquinhas
familiares, enredinhos e mexericos, os miúdos das relações enfim; e também
notícias de importância restrita a um dos contendores. Isso sem falar... espere
um pouco, já sei que você se admirou por eu usar a expressão ‘contendores’,
visto a meu ver (não tenho direito a opiniãozinha sequer!) o que acontece
amiúde entre homens e mulheres por esse mundão de Deus, quer dizer uma luta às
vezes surda e subentendida, às vezes flagrante e às claras, na qual o macho
quer a fêmea, subjuga o adversário e tudo o mais, já conhecemos, até as
crianças do grupo escolar sabem de sobra; porém não se perdoa o adversário,
relembrando cada um isso nas horas oportunas por mais inoportunas possam parecer...
enquanto que a fêmea precisa do macho para seus desideratos, facilita a
conquista ou mesmo atira umas iscas (digamos uma carta do interior à capital)
enfim facilita a tarefa por precisar; e igualmente não perdoa ao macho adversário
por essa tal conquista que ela mesma ajudou facilitando. Então, casados ou não,
namorando ou só pretendendo, se estabelece entre ambos uma luta, surda como
falei, todavia luta; é apenas diferença de estágio. Diria, baseando-me nessa
afirmativa, que eram Tino e Norinha contendores no estágio de namoro, de
segundo namoro. Suas cartas muitas vezes levavam trechos de interesse apenas
dela ou somente dele. Assim ele nunca descobriu quem era uma tal de Marta e o
que fazia nas missivas dela um cachecol verde com bolinhas pretas; não obstante
nunca se esqueceu de mandar por intermédio da namorada um abraço afetuoso à
Marta, pedir que tomasse cuidados especiais para com o cachecol e suas
bolinhas. Ela agradecia pela atenção demonstrada e demais lembretes dele
(pequenas grandes coisas, no dizer de Norinha).
De
maneira que tendo o correio por amigo comum, se escreviam e se amavam por
correspondência. Tino contava de Londrina da lama no tempo de chuva da bela
região paranaense; falava sobre as montanhas e as siderúrgicas mineiras, enviava
postais de Mariana e Ouro Preto, de Itabira do poeta Drummond; descrevia
Lafayette e Patrocínio; enfim por onde andasse de pasta na mão a ofertar as
maravilhosas Multinacionais – imediato umas linhas para sua garota. Ao chegar a
Belo Horizonte, onde praticamente residia, embora no Hotel Bragança, ansiedade!
estavam lá as cartas acumuladas da moça Norinha. Ela confirmava haver recebido
sua correspondência, comentava a terra natal, tão sua conhecida, tinha apenas
isso a expor, enquanto ele mostrava à companheira seu conhecimento do desconhecimento
dela de todo um Brasil! A menina falava ainda do andamento no curso, os planos
para ser professora efetiva um dia; e não se esquecia do cachecol a brincar com
a curiosidade do rapaz; a Marta igualmente não ficava de fora. Como seus papéis
eram pedacinhos dela viajados até o Bragança! então ele se deleitava nas folhas
caprichosamente manuscritas e lamentava não estar na sua companhia. Assim
trocavam juras de amor, ao modo deles.
Por
fim ela lhe cobrava uma visita. Que diabo de namorado era aquele a usar o correio
para chegar a ela! precisava de sua presença, conversar diretamente, trocar
ideias. Ele, mui imaginoso, lia nas palavras dela mais, muitíssimo mais... E de
repente gritou: “não gastarei nem mais um centavo noutra saqueira!” o que não
tinha sentido, mesmo para o sujeito. Depois disso olhou por todo o quarto de hotel,
certificando-se estar só... tomando a seguir a cueca que lavara na pia contra o
regulamento do hoteleiro, para vestir após o banho demorado a sonhar. No banho
deu foi prejuizão ao Bragança, porque se perdeu nos devaneios debaixo do
chuveiro, ansiando pela namorada... Num susto lembrou-se por qualquer
associação de ideias dum freguês das pilhas Multinacionais e flagrou os
negócios não andarem muito bem, porque as vendas caíam assustadoramente, a
concorrência ia feroz, a companhia gringa ameaçava o vendedorzinho com seus
cortes salariais. Ora bolas, pensou, teriam os negócios o direito de
intrometer-se com Nora? Como resposta ficou apenas mais quinze minutos no
banho, se relaxando e amando a jovem conterrânea.
Aí
se enxugou se vestiu e lustrou os sapatos com a toalha de rosto, no estilo
caixeiro-viajante; indo a seguir para o almoço.
Durante
a refeição no meio a bifes e batatas, veio para visitá-lo a moça. Não largava.
Será que não podia pensar noutra coisa? mesmo nas garotas, quantas linduras não
povoavam o sagão do restaurante! ele bestalhão, preso a fidelidades tacanhas; que
fazer, estava nele, se disse, era sua personalidade. Então deixemo-la
acompanhar o Tino também ali comendo filé e trincando alface a repetir e mais
repetir educadamente a sobremesa, um doce de leite bem mineiro, por conta da
gorjeta ao Zezinho garção. Tinha a Edmeia, hóspede paraense, sensual cálida
simpática acessível, a qual o aceitava bem. Ele porém não queria profanar seu
amor puro; assim não passava do bate-papo simples com a jovem morena. Ela
sorria num chamarisco, punha nosso Tino contra a parede a exigir dele convites
antecipadamente aceitos. Contudo o caixeiro-viajante não se dispunha a formulá-los,
a convidar ninguém. Depois se grudava às juras da última carta, consultava a
única foto que roubara à Norinha, certa fotografia para documentos conseguida a
custo, a qual ele trazia sempre na carteira para mostrar ou esconder aos
amigos, espécie de prova sine qua non a dizer ao planeta sempre desconfiado
da gente macha: “eu também sou homem com agá maiúsculo!” Era o sustentáculo de
sua personalidade, ainda em formação.
Assim
encompridava meses um namoro com existência a título precário, considerando-se
sua trajetória como um todo. Vista desse jeito, a ligação não foi mais que um
erro ou engano que outra coisa. Entenda-se, ele, o Tino, prendia a moça e estava
a ela condicionado por palavras; e agora tão somente por cartas. Sugeriu à
donzela que tal relação deixava muito a desejar, não a queria por prisioneira;
escrevia-lhe que a seu ver achava ela possuir um futuro amoroso promissor e
brilhante até, sem ele; ficava presa a um viajante de meia pataca, um
mequetrefe em matéria de vendedor. Ela respondia às suas ponderações com
repreensões pelo excesso de pessimismo (matéria na qual o Tino atingira quase a
perfeição) ela respondia a resposta inclusive com novas juras de amor e chegou
a sugerir necessidade de seus carinhos; só isso. Por causa dessas veleidades
ele se amarrando ainda mais à garota, não tinha força para romper de vez. Mas
desconfiava dever. Crises existenciais de jovem bem imaturo. Foi por ocasião
parecida que ele consumou mais uma besteira, a enriquecer a sua coleção. Não,
talvez mesmo tenha sido antes, agora a burrice teria razão mais forte para
existir: começou a confidenciar sua rica pobre vida para um diário... A bem da
verdade, parecença com jornaleco dirigido a público de parcos recursos
culturais e ainda por cima (seria melhor dizer por baixo) chegando ao destino
lá um dia que outro por semana. A comparação que fiz, acordemos aqui, é bem a
contento, pois que a matéria-prima, as tais confissões tinescas, ela saía
intermitentemente (puxa quanto tê tem o vocábulo! daria um belíssimo estudo,
deixa pra lá voltemos à baboseira do sujeito:) Se fosse neste ponto da
narrativa transcrever todo o calhamaço das anotações dele, que por sinal roubei
à enchente de 1973 no bairro de Santo Amaro na capital, a qual roubara ao grisalho
Tino derretendo as folhas amarelecidas, acreditando eu a água da chuva ter
tido, após lavar os papéis, tido sim um tratamento gástrico num hospital
especializado, a desentranhar tanta porcaria do bucho... como é que eu dizia?
ah, sim, se eu fosse transcrever tudo da sobra na lama teria realmente que escrever
novo romance, somente para essa parte! Conclusão: transcreverei um trechinho de
um dia: “20 de julho deste ano frio, estou é quente pelas irresoluções de minha
pobre vida. Encontro-me cansado com tantas e tantas viagens. As vendas
despencaram, periclitam, não passo de enchedor de relatórios para esses gringos
filhos de umas ‘p’.. Entretanto como me pagam as viagens para eu conhecer as
meninas mineiras... vamos lá, escrevo invento encho folhas timbradas pela Companhia
das Pilhas Multinacionais, mando aos bestas para lerem e me enviarem numerários.
Não vendo pilhas, só vejo as garotas! pera lá
seu Tino de uma figa, e a Nora! é, tem esse senão, no entanto quem me
garante que ela me quer de verdade? ademais, quando vejo aquela loura de
Patrocínio... hummmm me esqueço até da família, que dirá dela...” Continuou por aí, entrou na família num
tró-ló-ló quem sabe nem digerível pelos parentes íntimos. Por isso interrompo o
diário, prometendo retomá-lo noutro momento quando for o momento.
Quem
reler o entulho tinesco, quer dizer o diário dele, verá mui presente a Norinha.
Era o problema de sua vida no seu exílio nas Alterosas. E havia uma outra
questão. A menina deixava claro nas cartas a sua família não apreciá-lo demais,
e muito menos estar feliz por uma relação dela consigo, na condição tênue do
namoro. Não obstante, tempos depois a jovem confessaria que o pai vivia
atirando indiretas quando ao iniciar ela a aproximação com o Tino, naquele
tempo o rapaz era mais oleiro que estudante, como do barro sua família; então o
velho dizendo à filha: “vamos comprar tijolos, Norinha...” ela corando pra
valer. De fato não dá para entender mulher; e não é apenas jargão macho; ao
menos a Norinha sendo indecifrável! Seria o velho Perez Valiente tão brabo como
a jovem dissera para romper a primeira vez com o namorado? E agora, na segunda
fase desse esquisito idílio, ela vem com essa de que a família não o apreciava
muito... Botou minhocas de novo na cabeça do escrevinhador de relatório das
rechonchudas vendas de pilhas. Por isso
ficava obrigado a comunicar-se com a jovem por uma terceira pessoa. O caso se
tornava ainda mais complicado. Isso martirizava.
Enfim
você me parece cansado pelas tolices do herói; poderia então aceitar de minha
parte novo convite a um café. Que acha? sente-se ao lado aqui do escriba. Café
preto, forte, saboroso, fumegante. Aguarde o descanso de minha goela, vou
narrar sobre a visita do grande conquistador Tino da Silva, visita à sua fiel
donzela Norinha, a bela lá lonjão.
Cap.VIII – Visita inesperada
Eis um jogo com cartas marcadas. A menina sabia que
o namorado iria chegar, recebera antecipadamente missiva e respondera a ele
dando ciência saber da vinda do moço à terrinha. No entanto assustou-se quando
o rapaz apareceu em frente de sua residência, lá nas proximidades do bar do pai
dela. Não se assuste, por sua vez, no bar do sogro apenas se vendia bebidas
alcoólicas guaraná e cigarros, doces também, café não. Um estabelecimento de
bairro, no Largo do Sapo. Pois bem, foi lá. Ficou meio sem graça, descontrolada
com o inesperado... E pronto, ele engoliu o sapo, estava mesmo no Largo do
Sapo, parece que engoliu. Não beijou o namorado, não foi por ele beijada.
Esperava o amigo comportamento mais avançado de um tímido borocoxô da marca do
Tino! enfim isso não altera a timidez doentia do rapaz das pilhas
Multinacionais. Agora, se esperava lirismos, se enganou redondamente. O
romantismo ao inferno. Ele era o que era, não mais, devo inventar torcer a
verdade então! não podia ser diferente.
Espero
de minha parte que o leitor não aguardasse um episódio do tipo água com açúcar...
(quanto ao escriba, tendo certeza ser o escrito de muita água e pouco açúcar.)
Enfim tratemos o Tino na sua sem-gracice e pronto. Agora quer você o curioso da
questão? Em Belo Horizonte
ou em qualquer lonjura ele era o fortalhão, o conquistador, o machão perigoso,
garanhão destacado, dobrando a pobre gatinha indefesa, tomada finalmente após
artimanha eficaz de D.Juan, ele. Na frente do crime entretanto preferia
ser assistente, não se encorajando a ir além do “minha querida” e pegar na
mãozinha dela. O machão das cartas amorosas, pegando realmente as mãos da moça.
Por sinal, que mãos! ele se impressionava com a delicadeza, a alvura da pele,
os dedos gordinhos melindrosos. Encantava-se por vê-la no Jardim da Praça,
naquele banco batizado pelas andorinhas chilreantes nas árvores próximas, ela
olhando um ponto fixo imaginário quem sabe, nunca a ele diretamente, a
conversar com o namorado, quase nada além do que dizia nas missivas de amor. O
pobre se decepcionava, embora prestando atenção embevecido por sua figura
feminina quase num perfil; e não tinha a coragem suficiente para admitir a si
mesmo a fragilidade da relação, certamente medroso do amor puro que sentia por
ela. Era assim, e o bobalhão nem para indagar pelo menos da Marta, pedir o cachecol
verde com bolinhas pretas, matando a curiosidade. Perdeu uma oportunidade,
embora viesse a ter outras oportunidades mais, e não saberia nada além do que
já não sabia do cachecol e da moça.
Ora,
o amigo a imaginar cenas e mais cenas sentimentais e quiçá indecorosas... Tirar
o cavalo da chuva, desse pau não sai mel, onde foi que amarrei minha égua! e tantos
outros ditados caipiras que tivermos nas algibeiras; jogue fora as pretensões,
nosso herói não dá no couro. Eu igualmente estou profundamente decepcionado com
ele. Ah que droga!
Dessa
maneira, murchinho, querendo enganar-se numa discutível vitória, eis o Tino
outra vez de segundão no trem de ferro das dez para as oito da noite, varando
em claro a viagem de volta para São Paulo (aqui sem conotação estranha como o
esquecerem a luz acesa, no trem fica, ficava, mesmo acesa noite inteira; daí
‘em claro’). Da capital paulista partiria de volta a Minas, firme no pensamento
ter ganho uma grande batalha de amor, porém se perguntando constantemente “onde
está o general?” com vergonha responder. Viajou chegando esculhambado pelo
sacolejo do trenzinho e do banco duro de madeira fazendo calos, naquele carro
onde muitos roncavam entre sacolas e malas, enquanto o pobre Tino curtia
acordado um amor de gosto extravagante e uma dor de cotovelos como se diz por
aí. Cansado física e moralmente. O dinheiro curto nos bolsos, a viagem longa
vencida; uma batalha sem o natural e esperado butim. Restava o consolo de a segunda
parte da caminhada ser de poucas horas, num confortável Viscont da Vasp,
ou mesmo num Convair da Real, tudinho pago pela Companhia das Pilhas
Multinacionais. Tornou a Belo Horizonte. Porém antes duas surpresas de fundo moral.
Uma quando, parece que por vingança do exíguo carinho recebido na sua terra,
fez elogios e se desdobrou nas observações a uma jovem, tais elogios dignos de
um Casanova, à aeromoça longa loura linda. Quanto à segunda surpresa, ele não a
provocou. Até parecendo um castigo divino, se acreditasse no divino: a aeronave
ficou a circular lá por cima, sacolejando ante a tempestade lá por baixo, sem
poder aterrissar; entre as frestas das nuvens na janelinha do avião podia
distinguir a Praça Sete, mais um largo que praça de verdade, onde se encontrava
a Igreja São José; e percebia a Avenida Amazonas a partir do obelisco: portanto
sabia estar já em
Belo Horizonte. Teimoso ou precavido o comandante avisava o
descer nos próximos cinco minutos, porém voavam nas tentativas fazia hora! Será
que havia suficiente combustível! (o que ele um vendedor ignorante e leigo a
entender do assunto?) será que dava para aguentar mais tempo! e se a tempestade
continuasse ou ainda piorasse? Estava enjoado, ia pôr fora o almoço gentilmente
ofertado pela linda loura longa aeromoça, apelou à bela mulher, não por ser ela
mulher bela nem loura nem longa... Enfim desceram. Então foi curtir os seus
desastres no hotel, espécie de residência do mocinho deste filme louco se não
chanchada, o Tino.
Bem,
caro leitor, parece-me que a estrada anda um pouco árdua nesta distância da
narrativa. Para reconfortar, pasme! não oferecerei a você café. Que tal uma
cachaça? Nada de uísque estrangeiro, nada de cerveja alemã que além de gringa
tem o demérito de fazer crescer a barriga engravidando mulheres e homens, nada
de vinho europeu, ou de conhaque vodca e demais bebidas igualmente alienígenas
no planeta brasileiro; nem champanhe, pelas mesmas razões e porque nada temos a
brindar. Cachaça bem brasileira. Poderia me aproveitar do momento para fazer um
panegírico da branquinha. Encurtarei dizendo somente que ela é bem nacional.
Apenas tem uma coisa: é bebida alcoólica. Imagine os bebuns que temos por aí e
quantos lares desfeitos por ação da aguardente! pense nos paus-d’água nessa
vida que todos conhecemos. Mesmo brasileira ficará de lado. Para não perdermos
a pausa, tomemos um pretinho saboroso fumegante café. A fim de voltar ao Tino.
Cap.IX – Rotina do
passear
Não havia dito que ele imaginava suas viagens
passeios turísticos? A realidade, ajudada pelo chove e não molha do seu
frustrado caso de amor, essa realidade mostrava um viajante que fora semelhar
turista entusiasmado entusiasmado ele mesmo no seu trabalho, inicialmente, com
direito a ganhar prêmios e elogios da Companhia por causa de suas vendas
fulminantes, o que fazia o rapaz pensar o mundo fosse de sua propriedade, não
era; para agora sentir-se apenas um vendedorzinho marreta e comum, como homem
comum que sempre fora. Nada mais. Até havia menos. Menos nas visitas menos
fregueses menos viagens menos pedidos. Consequentemente tendo menos dinheiro a
receber e inclusive havendo ameaça velada a ser despedido.
Os
gringos raciocinavam em
dólares. Mas enquanto eles raciocinavam em dólares,
transformavam os cruzeiros vendidos pelos viajantes, nosso amigo entre eles,
transformavam enfim tudo nos dólares, pagando a Empresa os magros cruzeiros por
comissões e os salários devidos; e ainda ficavam com a sagrada mais-valia dos
coitados, aproveitando o momento a enviar o lucro excedente para os Estados
Unidos. No meio de tantas cifras o Tino passeava. Primeiro pensava passear;
depois descobriu estar dando um duro tremendo e o melhor de si para a Companhia
das Pilhas Multinacionais nas viagens cansativas por repetição e desgastantes
pelos relatórios tolos. Por outro lado havia os bons momentos. Por exemplo as
sessões de cinema, os bate-papos com novos amigos; e conhecer pessoas é um
negócio apaixonante. Nesses bons momentos poder-se-ia incluir uma temida
ideia... por que não dizer? sim, as tentativas tinianas de infidelidade. Assim
foi com Ana Maria.
Então
o leitor me lembra para lembrar ao Tino a Nora. Que Nora? indago. Ah sim, a
Norinha Perez. A propósito, quando ele se meteu com Ana Maria registrou algo
interessante no diário: “22 de agosto, vim agora do passeio com a Ana Maria.
Ela...(aqui faço um corte nas besteiras escritas; quero mostrar como ele já se
sentia de certa forma viúvo ou divorciado da conterrânea). Quando namorávamos a
Norinha se apresentava com um aspecto assim quieta mas alegre em todas
oportunidades que se ofereciam; isso no início. Agora ela aparece ainda quieta
e mais triste, como que ensimesmada. Ainda a considero sem espontaneidade numa
conversa. Tenho a impressão que se eu ficasse calado durante duas horas o silêncio
seria absoluto nesse tempo. Por que seria? Será que ainda gosta de mim? E
antes, gostava? Somente uma vez me lembro haver surpreendido a menina a
olhar-me ternamente; oh como me fez bem! Depois de longo tempo de namoro parece
que a minha estima por ela continua tal qual nos primeiros dias; será amor? e
como me faz sofrer. Naturalmente nós vemos o mundo sob prismas bem diferentes.
Para mim ela parece bem reacionária (isto do jargão esquerdista dele). Será? é
bobinha como quase todas as mulheres; não conhece nem analisa a política.
Decerto se me casasse com ela, sob minha orientação ela se moldaria. Mulher
deve ser o ser mais adaptável do mundo. Tenho impressão que a Norinha quer é
paz, paz de um lar seu mesmo, filhos, casa, quintal, galinha, jardim – ora, não
é exatamente o que persigo!? Quem sabe se... ah, eu e minhas atrapalhadas! E
que atrapalhadas... agora tem a Ana Maria...” Sujeitinho mais gozado, ou
desequilibrado. Conheceu Ana Maria, menina recém-saída do parque infantil, a andar
ao seu lado em Monte
Carmelo , na praça da cidade, quase gastaram a calçada nas
volta do jardim. Realmente não passou disso, embora as bravatas que o Tino
conta no diário, lembra-se? de fato, resolvi cortar essa parte por demais
besteira ele haver registrado. Teve igualmente um quê de infidelidade com a
Elizabeth. Fugiu com ela para o cinema de Bom Despacho pra verem um filme que
ele não viu, viu a moça durante a fita toda; e por fim saíram envergonhados
ambos após a sessão... Ainda no capítulo das infidelidades ele se lembrou da
Regina de Coromandel, onde se fazia mineração e era praça boa para suas pilhas
multinacionais, ele tentando colher aquele brilhante moreno violão, atraente,
difícil. Curiosamente não se lembrava muito bem dos fregueses compradores das
pilhas, sim das jovens nas lojas dos comerciantes com suas conversas
animadoras; e se lembrava da loira irmã dum freguês de Patrocínio. Tais
lembranças mexiam com sua emoção e traziam sempre o negativismo da consciência
pesada... afinal ainda possuía uma namorada firme no interior paulista. Chato,
não é?
Um
aspecto notável do ‘passeio’ era o esquecer-se dos fregueses, que eram a base
do seu ganha-pão; para lembrar muito mais dos hotéis nos quais teve mais
aconchego. Talvez porque o hotel seja para o viajante uma espécie de casa onde
o nômade se sente no lar perdido. Das meninas nem se fale. E a Norinha? Ela
aparecia-lhe às vezes, numa frieza terrível nas cartas simples. Então, meio
brigados, não fazia muita falta nem diferença para ele nessa altura. Contudo as
missivas da moça chegavam e lembravam enxeridas à consciência do rapaz suas
andanças. No entanto ele atirava a culpa na falta de atenção da namorada, como
desconto se faz em nota fiscal... isso perturbando um pouquinho, não tinha
dúvida. Guardou também na cabeça os insucessos nas vendas, por atingir-lhe os
bolsos; guardou igualmente os insucessos na infidelidade, a infidelidade que
tanto combatia nos outros. Quantas vezes acompanhou os amigos a prostíbulos e rendez-vous,
mais como assistente que como freguês das infelizes... acabava por mero ouvinte
dos dramas das mulheres que usando-as como objeto, achava objeto abjeto. Além
do mais não dispunha de muita coragem macha, sua timidez o massacrava,
triturava o extrovertido brotando do seu ser. Nunca teria a força suficiente a
procurar esses lugares escusos sozinho. Outra coisa que guardava na memória da
fase de suas viagens eram os mil acidentes em que participara, desastres de
trânsito presenciados, discussões por aí. Tinha ainda no cérebro os gritos dum
garotinho nas rodas do seu ônibus e o alvoroço dos passageiros na cidade Pará
de Minas. E se lembrava com nitidez dum acidente no jipe no qual viajava com o
Hircano e o Alcino, colegas: o carro dando cambalhotas as malas caindo por cima
dele na friagem da Serra de São Dionísio; não morreu! Claro, ou eu teria de matar
a estória do Tino com a morte dele. Trágico não é? Enfim não se esqueceu
daquele inverno. Era o que se lembrava; que memória malandra! Entremente sua
vida também virava um desastre e ele uma discussão interminável. Aos poucos ia
ficando safado e até relaxado no serviço, talvez por não mais acreditar nele,
não aceitar o que andava fazendo. Um dia – bom paulista – perdera a condução em
Divinópolis, por simples cinco minutos; já não se preocupava com sua imagem do
cumpridor de horários e obrigações profissionais... Outro dia para trabalhar às
oito horas da manhã acordou às doze. É, estava degringolando, ou já totalmente
entregue. Não se pense que fosse por bebidas, não passava do copinho de
cerveja, o segundo já lhe amargava a boca; e isso quando alguém para pagar a
conta; era mais pelo refrigerante.
Contudo virolava por aí nas terras há
muito dele conhecidas, enquanto os gringos pensavam seus dólares lá na
Companhia das Pilhas Multinacionais; e pagavam meros cruzeiros inflacionados.
Acontece que ele, o Tino, agora reconhecia entristecido não valer como vendedor
sequer tostões desvalorizados... Andava novamente em crise existencial, sentia
a irrealidade da propaganda que fazia do seu produto, sentia os lucros virando
dólares; e por isso recebia mal os cruzeiros de salários, os quais ia retirar
no City Bank filial mineira. Descobriu que não poderia ter escrúpulos
para vender, se quisesse vender. Positivou as contas e concluiu negativamente.
Um seu colega alterava os pedidos feitos; outro iludia o lojista incauto
exagerando as qualidades do material; outro ainda tapeava os comerciantes nos
preços unitários; ele se achava cúmplice da tramoia. Finalmente questionou seus
produtos: as pilhas eram perecíveis, não podiam dormir na prateleira mais que
seis meses, possuindo o moço os códigos de vencimento da Companhia; não se
conformava saber estar vendendo algo com prazo a vencer num prejuízo certo ao
freguês amigo... Tinha enfim escrúpulo exagerado. Decaiu muito e conseguiu
ainda descer mais... Parecia aquele personagem do filme de Gilda de Abreu “O
Ébrio”, ele se sentia mais no picadeiro de um circo! Desceu mais ainda, saía
para a rua derrotado. E trazia de volta os talões de pedidos quase em branco
para o hotel, a lançá-los no relatório famigerado. A Companhia não estava apreciando.
De maneira que no dia que pediu a conta, o fato não tinha coisa alguma com a
Norinha, é claro, muito com os gringos; nesse dia a empresa de Pilhas Multinacionais
gostou imenso da atitude do sujeito, inclusive ofertou passagem para ele de
volta à capital paulista, o que ficava menos oneroso que uma indenização
trabalhista pra atirá-lo fora do picadeiro a se esborrachar na rua do desespero.
O curioso da questão é o fato de a namorada estimar quando soube de sua demissão.
Assim o Tino ficaria mais perto dela, menos longe.
Mas
o herói desta estória era um sujeito orgulhoso. Notou o orgulho dele? Era.
Tanto
assim que, ao pedir demissão das pilhas, alegou precisar um retorno aos estudos
interrompidos; como nos lembramos o rapaz fora professor, se bem que mau aluno
na escola da vida. Precisou se convencer dessa verdade. Porém nunca uma verdade
foi tão mentirosa.
Por
isso ele se candidatava aos vinte e poucos anos a comer sanduíches de
mortadela, apelidando a coisa de almoço ou jantar. Quer ver? vamos aos
sanduíches; e se quiser o clássico cafezinho para acompanhar o pão com fatia de
burro velho frigorificado...
Cap.X – Em tempo de
sanduíches
Antes de morder com ou sem raiva e mesmo com fome
um sanduíche, e caso se admita ajudando o bolo a descer um cafezinho, teve o
Tino a brilhante ideia de comunicar o fato importante de sua chegada à jovem lá
do interior (as outras ele andava tentando esquecer ou trocando pelos femeões a
passar diário na Rua Direita). Ela sabia que ele retornara à terra paulistana.
Agora a missiva, mais bilhete que outra coisa, recebida por ela dizia:
“querida, cheguei hoje de manhã de Belo Horizonte, estou no Hotel Record na Rua
Quintino Bocaiuva. Amanhã procuro novo emprego. Depois escrevo a você uma carta
decente. Beijo do seu Torrão de Açúcar” (que sujeito besta!) Vê como é fácil
beijar numa carta hein! Na hora do vamos ver como fica, como ficaria...
Foi
assim que se iniciou ao namorado da Norinha uma nova fase na sua história,
marcada por muitas agruras e um repensar constante. Agruras e dores fazem
pensar e repensar o homem. Mesmo poder-se-ia falar em filosofia, uma filosofia
do pensador de beira de estrada, desses que já começam suas pregações
desacreditados. Felizmente (não estou a gozar o coitado não, falo sério)
felizmente o público de nosso Tino era condescendente e tolerava bem suas
bravatas, toleraria inclusive seu pregar no deserto: falava a si mesmo. O discurso
sendo mais ou menos fulgurante, conforme houvesse uma porta fechada a emprego
pretendido, ou segundo o tamanho do sanduíche. Assim punha a pratos limpos sua
vida, seus vinte e lá vai fumaça anos, descobrindo seriamente ofendido não ser
ninguém, não haver feito nada ainda no mundo; a rigor nem rigor tinha para com
seus planos. Era como tantos jovens por este mundão, disputando a afirmação
social, a vencer na vida e ter um lugar entre os seres, enfim algo reconhecido.
Tentava unir isso tudo ganhando o pão de cada dia comendo o pão que o diabo
amassara, como fala por aí o doutor povão. Também curtia as filas.
Ficava
nas filas paulistanas para tudo, nas dos candidatos a emprego, primeiro com
pretensão de estar bem colocado; e agora por último aceitando qualquer
colocação, desde que pudesse comer. E nas de condução nem se fale. Bem. Até que
um dia arranjou numa Empresa de Eletrodomésticos na Avenida Rio Branco um
lugarzinho, como mero auxiliar de escritório, ganhando rechonchudo
salário-mínimo! Preencheu a ficha, andava já craque no preenchimento de
formulários nos departamentos de pessoal... Propôs doze mil pensando com pés no
chão por baixo, deram onze: aí pulou de alegria.
Começou
a ‘tectecar’ na Olivetti, na Remington 12 cansada, ou batucando na Royal –
enchendo papéis e mais papéis, sem o menor sentido para ele, igualzinho os relatórios
das pilhas multinacionais, situação desagradável a um sujeito das vendas e do
magistério; chegou a sentir saudades do tempo em que fazia tijolos com a
família. No escritório chamavam-no “professor”, título que pôs a valorizar seu
pedido de emprego; ele porém recebia o apelido como sinal de rebaixamento
social a que estava exposto; nunca sentira antes, agora tendo vergonha ser um
‘mestre’ ganhando o que um ‘boy’ percebia. Bem, era uma questão de ponto
de vista, apenas ponto de vista, pois numa sociedade capitalista desorganizada
e até com valores invertidos e distorcidos – tudo se mede pelo dinheiro. A
humilhação do Tino era flagrante. Voltava por causa disso deprimido para casa.
Ia esperar condução rumo seu quartinho, encontrar seu colega Ari, já a sair
para seu trabalho como garçom, este ganhando muito para conquistar e trazer
para o quarto garotas aos dois... A convivência do desregrado companheiro um
dia atingiu o Juvêncio em toda sua extensão, quando ocorreu o que sempre
acontecia, de o Ari trazer e insistir com ele a participar, trazer sim umas
garotas da rua. Até aí tudo bem; entretanto havia a janela (que tem uma janela?
para outra pessoa realmente nada, quem sabe; ao Tino ela um despertador,
somente um despertador! o amigo deixava a dita janela do quarto aberta e quando
a claridade matinal berrava ser quase sete horas, o rapaz garção permanecia
roncando mas nosso Tino se levantava correndo para a fila do ônibus e seu escritório)
como dizia, tinha a janela; naquele dia o companheiro fechou a dita janela para
não constranger a parceira trazida... e se esqueceu de abri-la depois. Então o
auxiliar da Companhia dormiu até às oito e perdeu o dia. Isso é lá algo
importante! é. Para outro qualquer perder um dia de serviço é perder um dia de
trabalho, para ele não, pois que andava enterrado na frágil economia; assim
teve de suprimir uma refeição por causa de uma simples janela. Ainda por cima a
temporada aumentou-lhe a depressão. Já era deprimido por natureza, voltava ao
quartinho afundado no pessimismo. Daí se sentava na cama, que é o improviso da
cadeira, olhava desalentado os livros empoeirados descansando, olhava para suas
coisas espalhadas e isso o atingia frontalmente, apreciava tudo nos seus
devidos lugares, arranjadinho, para satisfazer seu íntimo; agora a bagunça,
tudo atrapalhado, igual sua própria vida... Não se dispunha a escrever para a
Norinha no meio de badulaques, tendo chegado ao ponto dum certo arraso moral.
Neste ponto analisava a situação, concluía por insustentável. Sentindo não
poder consigo mesmo, não ganhava para se manter, era obrigado pela condição
reservar dinheiro ao coletivo e a sacrificar uma refeição diária. Uma delas, o
jantar, seria – e era de fato – de sanduíche magro e um café, o café tão ao
gosto do leitor... A outra, a da manhã, sendo ou nada (coisa terrível pra quem
se acostumara a mastigar por toda uma vida o alimento matinal) o nada ou um
pãozinho com leite gelado, a refeição mais barata e consentânea aos bolsos magros.
Havia o prêmio de no almoço comer num restaurante operário o arroz e feijão
clássico, quentinho, um bife magro; puxa, uma felicidade quase como os
filés-mignons do Hotel Bragança... Com tal cardápio andava se enfraquecendo. Juntou
a fome o bolso vazio e a crise emocional – ficou mais uns dias sem comer direito
para arranjar dinheiro a solucionar de vez o problema: foi consultar-se com um
psiquiatra!
Bateu
à porta do consultório do Dr.Virgílio. Indagou à mocinha o preço da sessão,
contou notas ensebadas, marcou o dia. Chegou cedo. Foi bem atendido, respondeu
a enorme questionário, confidenciou na entrevista, viu esquemas; o clínico
concluiu pelo cansaço e a falta de dinheiro do paciente. Despediu o nosso
herói, impingiu-lhe ainda a compra de um livro de sua autoria. Partiu o Tino
para sua casa. Mais deprimido e mais sem dinheiro. A crise aumentou.
Ao
lado dessa situação, sentimentalmente ia mal. Trabalhava na área das Estações,
rica de interioranos, desocupados e prostitutas. As meninas da Rua Aurora e
imediações se ofereciam, ele sem recursos para um contato assim; e, felizmente
(ah como é terrível a felicidade!) felizmente deprimido demais para necessitar
os préstimos das mulheres... O que se diria então do esperar um amor puro e
doce como o que sonhara! Ora, deixemos o habitual pensar que somente os poetas
por malucos, as mocinhas por imaturas e os desligados por desligados da
realidade possam amar com pureza; o rapaz vivia lá suas elucubrações amorosas
visto ser grande sentimental. Sim, seu amor puro. No entanto a namorada fixa e
fiel estava sendo deixada para trás. De repente, numa segunda-feira própria
mais às preguiças do gentio e às fossas dos intimistas, nessa segunda na qual vivia
o auge do pessimismo, escreveu à garota, deu-lhe o fora! (puxa, homem corajoso,
fico até arrepiado). Ele a se vingar agora; da primeira vez tomara o fora dela.
Alegou o drama financeiro, temer o futuro da moça casadoira, e precisar ele
mesmo estudar com afinco, apenas se dedicar aos estudos superiores. Na verdade,
nas suas condições de viver só poderia mesmo era passar na frente do edifício
da faculdade. Parece que fugia da responsabilidade e do dever, os quais ele
próprio criara para manter o caso de amor; porém se sentia incapaz a prolongar
o namoro. Em virtude disso rompeu com ela, a namorada interiorana, nesse
momento mais uma namorada formal que um amor. Logo recebeu resposta dela. Dona
Leonora Lopez Perez Valiente lamentava, sentia ser para ele um empecilho.
Todavia se quisesse a sua amizade um dia, ela continuava a mesma de sempre. E
embora séria, mais séria que de hábito, mais cerimoniosa que costumava ser (e
quem sabe não fora por isso a levar o fora!) então narrou das coisas da cidade;
dizia na carta seu pai adoentado e temer ela o pior.
Vou
me abster contar sobre as reações do moço Tino, para não encompridar demais a
estória e também por desconhecimento meu do assunto, não dá realmente para a
gente acompanhar toda a rotina desses malucos no planeta. No entanto fácil é
deduzir o que uma pessoa deprimida abarrotada de problemas pensou no alívio de
um de seus dramas.
Dessa
maneira acabava mais um capítulo amoroso do seu Juvêncio da Silva, tido por
Juventino. Não falei haver terminado a estória, disse tão somente o capítulo. E
agora já sei, você com línguas de fora aceitará um café. Aproveite, ainda não
esfriou. Se estivesse frio, fácil seria esquentá-lo e requentá-lo como todo
mundo faz para economizar ou de preguiça fazer outro mais cheiroso nesses
coadores de papel. Café, sabe? cura pessimismo. Em contrapartida não cria otimismos,
que eu saiba. Talvez estimule. Que me diz? Porém não deixemos o Tino
abandonado, especialmente agora que o infeliz anda mais infeliz e na sua fossa;
quem sabe o que estaria pensando lá com seus botões!
Cap. XI – Os
martírios
Melhor se tivesse dado outro título, completando o
mesmo com ideias mais ou menos assim: ‘a cidade grande na qual um fulano de tal
vira número e não adianta reclamar.’ Tem razão, seria muito longo e não diria
nada porque nada diz coisa alguma, as palavras são ocas, os seres do globo por
demais subjetivos, ninguém entende ninguém, as guerras os desentendimentos os
bate-bocas não me desmentem jamais. Com isso estou é fugindo ao tema principal:
o Tino e seus desarranjos.
Agora
nosso herói sentia-se solteiro, livre e desimpedido, vivendo ao deus-dará, ou
melhor dizendo, viúvo. Só e sem possibilidade para arranjar alguém. Não falei
que não tivesse capacidade e é possível não tivesse de fato, ou tivesse; e se
arrumasse teria que deixar a companheira como fizera com a Norinha. Então
voltou-se para a porta do estudo. Que é bom refúgio.
Inscreveu-se
num cursinho preparatório à faculdade, perto da Praça João Mendes. Um curso
como os outros famigerados cursinhos da época, mais caça-níqueis a contar com o
talento dos alunos para se autopromoverem (neste caso específico a escola escolhera
bem mal...) Objetivo principal: ingressar na USP. Porém não pôde pagar a
segunda mensalidade e devia parte da primeira. Por isso continuou vivendo de
esperança como fonte inesgotável aos tolos, alimento a encher as fossas morais
de um sem-número de tinos desta vida. Como o dizer comum determina que a
esperança é a última a morrer, vivendo de esperança e salário-mínimo, o qual a
inflação teimosa teimava a deixar literalmente mínimo, a inflação não tem meias
conversas – então o rapaz podia se considerar alimentado...
De
esperança em esperança ia vivendo; você me permite assinalar 'vivendo'. Um dia
pintou-lhe uma fresta para sair da terrível rotina e do corre-corre paulistano.
Era interiorano inveterado; por azar da sorte encontrou um senhor Seu Zé, cinquenta
anos de São Paulo, o qual lhe afirmara peremptório: “nós do interior, moço,
poderemos viver a vida inteira nesta terra de loucos, não nos acostumaremos; e
se não morrermos debaixo de um veículo entre os milhares que existem ou de facada
por aí, morreremos com certeza de saudades de nosso interior, a vila que nós
temos na memória!” Foi o quanto bastou. Ele pensou pensou pensou, puxa...
Poderia voltar ao interior, à sua querida terra, ingressar na Faculdade de Filosofia
de lá mesmo, comer na casa a comidinha saborosa da mamãe e ajudar no que
pudesse a família. Seus pais ainda oleiros, ele não tinha medo do serviço
bruto, amava demais a arte dos antigos sumérios, nascera no barro e gostava do
barro. Não pensou mais. Juntou as coisas, o que foi facílimo por quase nada
ter, possuía lá uns trequinhos e livros poucos; pediu demissão no escritório da
empresa, tomou o segundão barato para sua terra. Parecia-lhe rumar para o
eldorado mitológico! tornou-se feliz na mesma hora. Isso porque o ser humano
luta para assumir algo, quando assume já sente a realização. Conta pouco o
insucesso possível, conta o momento: a felicidade pode apenas ser um momento de
felicidade. Enfim ele sentia-se realizado.
Não,
não senhor, sequer procurou a Norinha; jamais faria coisa dessa. Apenas ficou
zangado pelo não ter o que fazer inicial, zanzando por aí, a trabalhar em
pequenos expedientes, enquanto estudava. Demonstrou capacidade no estudo, o que
não se pode negar. Preparou-se, fez vestibular e ingressou na Filosofia.
Penetrou a vida estudantil na década de sessenta.
Daí
entrou numa fase de otimismo; e muito estudo pesquisa consulta discussão; o
mundo vivia o perigo de o moço Tino solucionar seus grandes problemas, os
dramas mundiais, e isso muito sério! Aproveitando a ocasião para se chegar às
belas colegas; não sabia bem se por questão de estudo, se por serem bonitas...
Também encheu o tempo se aproveitando do momento para ilustrar-se nos trâmites
políticos do grêmio da escola, a participar ardentemente, como requer a
juventude, das grandes e alvoroçadas discussões no seu meio, a propor critérios
para salvar a pátria ameaçada pela direita entreguista! Entretanto enquanto
andava efervecendo com os colegas na ebulição patriótica, imiscui-se na
filosofia dos pensadores socialistas e tudo o mais, se esquerdizando gostosamente
– eis que pregam à nação estarrecida o primeiro de abril de sessenta e quatro!
Tem
aí o início de novo drama ao Juventino, porque o Tino andava virando realmente
o Sr. Juvêncio da Silva, honrado por seu santo nome amém. Por essa ocasião lecionava
para se manter num colégio particular. Aí começou a sentir tanto no serviço
quanto na faculdade as perseguições políticas, porque a radicalização campeava
feroz. Nascia entre todos na comunidade a desconfiança e a fase de terror
mesmo! Os quadros na Faculdade se desfalcaram, elementos que fugiam ou
simplesmente desapareciam, professores alunos e funcionários; os cursos se
desorganizaram. Sobraram os livros, bem entendido: os não comprometedores; os
livros ao menos haviam para estudar, se houvesse condição absoluta para tanto;
era a forma de conviver indiretamente com os autores lúcidos, na opinião do
rapaz, e sem comprometimento com a situação instalada no país. A biblioteca da
Faculdade sendo excelente refúgio para não ver injustiças que via lá fora.
Nesse tempo os estudos iam aos trancos e barrancos, um nó na garganta, uma
vontade de gritar sem poder, o medo apavorante! Mas o Tino levado pela
medorreia, fazia como era comum no futebol: ficava como mero torcedor (aí se
criticava por isso, não se perdoando, a sofrer ainda mais). Torcedor contra os
militares no poder da nação e torcedor dos exilados políticos. Ao lado da
torcida diária, a ler muito as teorias agora tornadas subversivas, encenava uma
participação qualquer, reunindo-se a outros estudantes para tentar ligação
operária, objetivando formar um grupo forte contra a situação. Num desses momentos
participativos, se encontrava à noite escura com amigos trocando ideias debaixo
da caixa d’água da Prefeitura, às escondidas como sói acontecer nos dias de
crise; foi quando ouviu-se um barulho de andar; ele e a turma apanhando sua
coragem, a desandar na maior fuga que já se admitiu, devendo haver deixado por
aí muitas porções de coragem e força perdidas pelo chão, acabando o esboço de
tragédia como é comum ocorrer: debaixo da cama, ou pelo menos trancados no
quarto, com batedeira patriótica no peito. Com o Tino fora assim. Restava
somente o torcer.
Enquanto
torcia, anotava. A escrever no seu diário mequetrefe coisas assim: “Em 2.6.64.
Vim agora do Correio, tendo conversado com o Waldomiro, meu lúcido amigo. Ele
me lembrou algo esquecido na carta que enviei à Cidnéia na Bélgica, aquele
problema da perseguição ao Prof. João... Imagine a grandeza de um mestre em Filosofia
sendo inquirido pelo besta quadrado do Lorí, metido a policial! Ai, o período
da Inquisição e Quarteladas. Que horror! Noutra missiva direi isso à minha
amiga. Outra coisa é ter lido no sábado na parte política da Folha um artigo
demonstrando que a Abrilada de 64 não foi apenas o quê se vê, haveria ter
outras forças acumuladas contra o governo do Jango, forças que explodiram e
aproveitaram a oportunidade. Agora campeiam desvairadamente pretendendo ‘limpar’
a corrupção e os privilégios da elite. Assim, pensei de início, a ‘revolução’
dos milicos traria algo de positivo, mais importante mesmo que as perseguições
políticas; esse rasgo de felicidade se desfez quando lembrei-me dos que fazem
tais limpezas, eles se vão tornando intocáveis – os Levys, os Ademares, os
Lacerdas, direita direita direita nojenta! E a política externa? este país
virou o que a Rádio Havana disse domingo: terra de golpe gorila. Diziam assim
“el ministro gorila do ejército del Brasil” enfim uma vergonha para nós. Ah
droga, paro por aqui, vou tentar dormir, pois como tirar mesmo de noite este nó
da goela?!”
Enquanto
o Tino curtia sua crise e os fatos atingiam os estudantes, a menina Norinha se
mudava para a capital. Portanto se invertia a situação do tempo em que eram
namorados, agora era sua vez de ficar na terra e ela distante. Ia para a cidade
grande na qualidade de professora. E ainda por cima tentava ao rapaz, arrasado
como é fácil imaginar, tentava ela um terceiro romance, ou terceira fase da
mesma sofrida estória de amor.
Antes
que se digne a ouvir-me a narrativa do último enlace, garanto ser o último
realmente, antes disso convido o distinto amigo a tomar uma cerveja. Não
engorda nem faz crescer a barriga não. O que faz crescer o ventre é outra coisa
muito diferente, e isso não nos atinge graças à bondosa mãe que é a natureza. É
sim estrangeira a cerveja, alemã? deve ser alemã, que diabo! o que poderá
combater esse calor pavoroso. Nesta altura não proponho café, porém cerveja
germânica, de malte lúpulo cevada vitamina B-1. Devagar, para não se resfriar.
Depois conto o resto, o segundo reatamento dos dois românticos seres.
Cap. XII – Segundo
reatamento, ou mundo quase louco
A cerveja esfriava. Não, o que esfria é o café e
não houve como estamos lembrados café nesta parada, mas cerveja; cerveja
esquenta por dentro, o corpo vai lentamente se aquecendo também por fora;
enquanto isso as gotículas a escorrer da borda do copo para a toalha encardida
do bar. Então me lembro que me esqueci do Tino. Em verdade não é tão grave assim
o fato que não possa ser remediado, porque o próprio interessado descobriu
bastante aterrorizado que vivera bem uns três anos sem ver, sem viver, sem
perceber suficientemente as coisas...
Um
dia, num frio medonho reforçado com um vento irritante, o Tino se pegou na
Penha paulistana, tendo descido de sua condução na rua Amador Bueno, um ônibus
despedaçado, andando não se sabe como na sofrida linha São Miguel; isso depois
de engolir todos os engarrafamentos da Avenida Celso Garcia e respirar a
poluição dos veículos e fábricas no Tatuapé bem como das axilas de marmitas e
maletas. Chegou na frente da igreja. Não ia rezar, é fácil deduzir, continuava
ateu talvez fosse ainda mais ateu. Encontrou-se com ela. Era mais Leonora, mais
Lopez, mais Perez e mais Valiente; entretanto se apresentava de Norinha. Bela e
simples. Contudo o sujeito pensou descobrindo que se passaram na sua vida três
ou quatro anos, sem que percebesse! Como?
Conseguira
formar-se. E não era fácil formar-se num curso superior, vivendo com a
sociedade o drama político e econômico que ela engolia em seco graças ao novo
que se tornava velho regime militar. Ficava difícil ao brasileiro fazer planos
para o futuro, numa terra sem futuro, estando a economia parada pela recessão e
até sem perspectivas. Não obstante Juventino fizera um concurso e fora
aprovado. Enquanto os trâmites burocráticos cozinhavam o galo no ritmo pausado
de elefante incômodo, não permitindo ao postulante o ingresso definitivo no
magistério oficial, ele se contentava com substituições nas escolas possíveis.
Assim, partiu de volta a São Paulo. Estava perto da jovem de novo, você dirá. Porém
a capital é muito grande na concepção da gente pequena, muito grande para
alguém estar perto de alguém. Onde tudo se mede por quantas conduções se toma,
a cidade imprime o seu corre-corre cotidiano, não restando muita possibilidade
ao amor. Contudo você me lembra que não existe distância para os que se amem,
não há correria a impedir um encontro amoroso. Concordo, isso é quase verdade.
Dizia
uma antiga composição popular da gostosa música brasileira “as cartas não
mentem, jamais”. Se forem as do baralho, ainda cabe um crédito razoável. No
entanto as cartas que um ser entrega nas mãos do correio para que este as deposite
nas mãos do outro ser amado, já é nova história. Porque ao se preparar para
novo sofrimento na capital do estado – que é
como se conhece o viver na cidade grande a um matuto – o Tino receberia
certa mensagem da Norinha, a qual dizia... Espera lá, antes fizera outra
besteira (ele também sabia fazer burradas; ah a gente pode evitar certas
atitudes sociais!) Acontece que faleceu o Sr. Perez, o espanhol genitor da moça;
e nosso amigo, por achar correto, foi à missa do homem, a do sétimo dia, dos
trinta, os dias não têm importância aqui para nós; e fora apresentar os pêsames
à filha, julgando consolar a pobre sua ex-namorada amiga, somente amiga. Viu a
infeliz de preto, olhar acabado, sentiu pena dela; porque é assim que agimos
nessas situações. Conversou longamente com a professorinha, tentando demovê-la
da tristeza, enfim para elevá-la, relembrando suas qualidades, mesmo porque ela
as possuía de sobra; não andava inventando nem um pouco. Porém não ficou apenas
nisso.
Foi
exatamente agradecendo-lhe pela atenção dispensada a si que a Norinha mandou
aquela missiva mencionada (retornara à capital, vinda dos funerais no
interior). Então dizia entre senõezinhos que o estimava, reforçando na carta a
tônica anteriormente usada no entanto não suficientemente gasta de toda, a da
“saudade do tempo em que eu (ela) era feliz por ter alguém bom (ele leu ele
próprio por vaidade masculina) justo e compreensivo”, sendo que esse mesmo
alguém não tivera piedade do coração dela, despedaçado perante a vida, ela que
nunca mais poderia ter outro amor, sentindo-se ligada ao passado venturoso. Uma
isca. Ele mordeu a isca: respondeu lamentando seu espevitamento e culpando a
situação que se encontrava, atirando a culpa nos militares; assim entrou na
prisão dela. Outra vez.
Novamente
o correio gostou muito e às custas das finanças dos dois namorados decerto
melhorou sua economia.
Somente
que agora as cartas iam a São Paulo e chegavam a ela dirigidas ao serviço duma
irmã. Era o destino deles não se comunicarem diretamente.
Daí
a fogueira se acendeu, as labaredas às vezes ardiam os olhos e chegavam a
queimar. Devia ter madeira ainda verde. Ou pior, pau podre, desses que se
deixam incinerar com facilidade, porém não chegam a aquecer se não momentaneamente;
e depois oferecem as cinzas ao vento cobrador implacável e constante, sujando
os olhos abertos pra ver a vida no que ela tem de melhor. Logo, antes que se
esperasse, apagou; e esfriou. Havia sido assim seu amor.
Era
assim também agora a fogueira na Penha.
Foi
então que o moço Tino se encaminhou enfriado, tiritando pelo temor do seu caso
sem caso, e também por causa do frio inóspito da terra inóspita soprado nos
transeuntes teimosos vivendo os seus respectivos eus. Caminhava friorento, ele
caminhava, ele que não se acostumava ali naquela babel, que voltava a morar
precariamente na capital dos paulistas já sentindo saudades do calor de sua
terra natal. Agora na Penha.
Naquele
recanto do leste paulistano andava à sua espera a cobradora dos tributos. Ele o
íngênuo pagante dos impostos duma vida.
Sentiu
aquilo ser um amor por expressão, apenas força de expressão, mas não tinha
conteúdo... Ateve-se como um estranho diante da garota, numa situação que nos
poucos minutos despencou o que houvera construído ao longo de seis anos longos,
os anos de convivência; enfim era o fim dum caso amoroso discutível. Já não
conseguia sentir os cabelos dourados ao sol das sete horas e trinta; e apenas
eram oito; seria possível envelhecer em tão somente meia hora! não encontrou os
trejeitos da jovem do Colégio Estadual; nem seu andar, nem seu quê atraente, o
qual havia morado tanto tempo no coração virgem quiçá inocente. Agora podia com
toda força que não tivera por anos a fio nas ocasiões as mais diversas – enfim
podia despedir-se sem medo a se magoar. Não dava também importância exagerada
ao possível despertar da magoa na mulher, via à sua frente a mulher. Estava no
limiar da liberdade. Sentiu não depender dela mais para ser livre ou não; optou
voltar para as axilas e a poluição da Celso Garcia e do Belém onde sua
hospedaria.
Norinha
não se entregou no ringue. Deu ao companheiro um velado ultimato, um mês
honroso de prazo, para sair de cabeça erguida; e quem sabe se não para poder
prendê-lo, já que o perdia mesmo – prender o sujeito por uma provável quarta
vez! No entanto logo desistiria do seu intento.
A
luta no jogo daquele dia no ringue do bairro da Penha mostrava a moça
suficientemente preparada. Fez-lhe discurso ela. Provou-lhe o que já sabia
muito bem: que estiveram por mal que fosse ligados por seis anos! não eram seis
meses, muito menos seis dias. E um compromisso assim desabonava a mulher, visto
a sociedade ser feroz com suas fêmeas; e com os homens bem intencionados (os
malandros estão perdoados antecipadamente por essa mesma sociedade). Então que
ele mostrasse naquela hora suas qualidades a honradez; e que realmente a amava
como diziam suas cartas. Quanto a ele, por seu lado não podia no instante
encará-la... Contudo defendeu-se dizendo que se ela desejava casar-se apenas
com um compromisso despojado de homem por dentro... por que não preferindo
encontrar o amor de outro rapaz, mais puro que ele, ele era o incapaz bem conhecido
dela, não melhoraria; assim concluiu a peroração afirmando não estar para
infelicitar a ninguém. Ela entretanto não aceitou prontamente a argumentação do
namorado demissionário, voltando à carga: e o tempo não contava?! o que diriam
todos? na sua idade recomeçar no amor com outro? estava ali diante dele a
mulher direita jogada às traças! e por culpa de quem? por culpa exclusiva dele,
que tomou seu precioso tempo, para avisá-la tardiamente não a desejar!
Patético, ela apelou aos sentimentos.
Todavia
o moço Juventino parecia dopado, sem qualquer sentimento. Encontrava-se
decidido, sentia-se forte em vista ser flagrante sua fraqueza diante dela. Seu
pensamento se fortalecia entretanto nesses ataques da Norinha, relembrando encontros
e fracassos anteriores. Não podia ceder. Ou cederia metade da vida, a vida
inteira.
Nosso
herói sofredor pensava muito naquele momento da separação. Entrevia o futuro se
se mantivesse ao lado da moça. Isso porque nas vezes que a procurara durante o
relacionamento, não a encontrando. Sim, ela estava agora muito distante da
jovem dos cabelos dourados chocalhando espalhados ao vento da terra natal e ao
sol das sete e trinta. Nesses anos fora recebido poucas vezes na casa dela e
Norinha não ofertara intimidade e o calor familial que ele no seu solteirismo
buscava. Ela se apegando então ao cerimonial e ao formalismo com que cercamos
os desconhecidos. Ele se vingava naquele instante do rompimento na Penha, numa
situação de rara coragem no seu ser para desabafar; lembrando que nunca poderia
contar a outrem haver recebido dela sequer um abraço carinhoso. Era mais para a
distância que para o aconchego. Isso tudo embora as famílias de ambos lados
criassem já um ambiente de simpatia e aceitação. Como desposá-la nessas
condições. Teve vontade dizer tudo o que sentia à moça, não disse. Dessa
maneira a jovem, porque a Norinha ainda era jovem, ali se despediu dele com um
simples aperto de mão, próprio de estranhos... Porém conversou no final daquele
‘entrevero’ polido com o rapaz Tino por mais uns minutos, na condição de bons
amigos... estranhos; visto que os amigos podem ser sempre os estranhos que se
prezam.
Havia
um senão entre os dois namorados também, o que pode esclarecer as distorções um
pouco. Financeiramente ela andava em melhor situação que a dele. Nesse epílogo
acabava de trocar seus dois cargos efetivos no magistério por um precário cargo
do rapaz; ela achando certamente não convir ceder, mesmo que a ganância (opinião
dele é claro) ferisse o ex-namorado, noivo para o pensamento dos conhecidos. Enfim
ele percebia metade dos proventos dela, desejava que a namorada deixasse uma
das escolas... Não lhe ocorreu, bem entendido, não ocorreu ao Tino que o
acúmulo de cargos da moça acontecesse por necessidade inconfessável (aos de
fora tudo é inconfessável). Não podia que sustentasse a família? não pensou
assim o rapaz. No auge das discussões no rompimento procurava lembrar-se mais
do gosto amargo que trazia certa vez dentro dum subúrbio da Central do Brasil,
voltando da Cidade Patriarca onde ela morava, o formalismo que lhe fora
dispensado. Num relance voltou-lhe a situação, transportada até aquele momento
decisivo no qual discutia consigo mesmo para se manter firme e ‘ganhar’ da moça
que o encostava à parede a um possível matrimônio. Agora ele estava com ela à
sua frente, desfazendo de vez o relacionamento que o prendera tanto tempo;
enquanto que ela nesse dito momento se mostrava falante e forte, como se não
estivesse perdendo de uma vez por todas o namorado. Seria orgulhosa! para
mostrar ou não admitir não haver perdido a partida? No consumatum est,
a ‘amiga’ nos bons modos de amizade,
falou sobre familiares os dramas do bairro os problemas das escolas onde
trabalhava, coisas assim. Parecia ter um sentido a desanuviar possíveis
querências, porque a Norinha não era de ceder, não se rebaixava. Ou talvez não
soubesse chorar, ele pensava que ela não soubesse; se chorasse, não o faria naquele
instante. Esboçou mesmo um sorriso, a encobrir a decepção.
Nos
laços-fora! ele ainda pretendeu apresentar algum consolo “lamento, Norinha
(ainda gozava intimidade, guardadas as proporções) lamento ter-lhe tomado seis
anos de vida, ter ocupado o espaço que porventura outro homem viesse a preencher
melhor preparando o seu futuro; lamento deixá-la adulta, madura, sem
esperança!” entretanto não disse. Pretendeu ainda falar: “não posso igualmente
prender-me a você que não me soube amar ou que tenha amado a seu modo, sem
provar por atos; e sinto ter-me sentido como o namorado mais estranho do
planeta, sem direito a viajar na sua intimidade, participando de seus dramas e
gozando a sua alegria.” Nada falou. Apenas tentou transmitir pensando:
“Norinha, lamento de verdade haver roubado anos da sua juventude que tanto você
me cobrou ainda agora.” Não chegou a expor o pensamento. Acrescentou
mentalmente: “fico sentido em relação a você, não ter amado nem sabido amá-la
direito, se bem que você não me deixou oportunidade; sinto não ter amado bem e
só respeitado, tendo mesmo ao exagero a fidelidade descabida quando sua pessoa
ausente ou eu longe de você!” (Aqui se esquecendo das mineirinhas...) Contudo
não disse coisa alguma. Já não compensava dizer. Transmitiu seu adeus, lembrou
à menina qualquer coisa engraçada, a esconder sua vergonha e a doentia timidez.
Então
ela disse um “até outro dia”, cobrando-lhe num repisamento o prazo que dera
momento antes. Levava decerto o amor ferido e o desalento por companheiro;
certamente dignidade e orgulho suficientes para não implorar.
Dessa
forma o leitor julga ficar livre do Tino? Engano. Nem de mim. Que não lhe
ofereço o fim da estória, nem uísque, nem cerveja loura, não ofereço sequer o
vinho de Baco. Porém o habitual café. Antes de lhe dar o gostinho da finalização,
irei conduzi-lo ao rapaz constrangido, quando a acontecer seu retiro espiritual.
Cap. XIII – O retiro
de amor
Já viu um donzelo no retiro espiritual? Não, não era
tempo carnavalesco. Na época desta narrativa sendo costumeiro pelos religiosos
fuga a um retiro, para não participar da mundanidade. O fulano nada tendo de
religioso nem de moralismo do jovem fanático; não vivia o drama no conhecido “o
mundo vai acabar!” Porém Juvêncio partia para o exílio de amor.
Diríamos
que houvesse ficado num estado de choque e descrente da vida em razão daquela
crise da separação, ainda tão recente. O que não seria loucura afirmar. E
mentira deslavada admitir. Mesmo porque o sujeito andava, poderíamos dizer, se
sentindo mais livre; portanto mais para festa que vivendo na convencional
fossa.
Ninguém
iria imaginá-lo na fossa moral, como é abusivo falar hoje. Chateado sem dúvida.
Embora, entendera que sua vida não parara. Havia até um mérito nisso tudo.
É
que ele pensava em Norinha ainda. Sabia o prazo que lhe dera a pensar se esgotara
num mês, fazia meses. E agora decerto ela também se considerava mais livre. É
claro, andava mais livre. Supunha nosso Tino que então a moça poderia, livre do
entrave que ele era, arranjar um parceiro melhor, porque ela bem merecia a
sorte favorável. Além do mais muito dissera sem que ela ouvisse, porque o
cérebro fala baixinho demais e somente nós mesmos escutamos; dissera a si lá dentrão
dele, que a consciência tardava reconhcer o óbvio. Concluía que na separação do
casal a moça levara vantagem sobre ele (não se importava ele haver perdido).
Desejava firmemente a felicidade e a realização plena da garota.
Agora
residia novamente no interior. Gostava da nova urbe, a que chamarei “B” para
não confundir com sua terra, a cidade ‘A’. Apreciava ‘B’, sua paz sua gente
amiga. Trabalhava feliz e até engordara com o passar do tempo. Frequentemente
no entanto lembrava-se da Norinha; afinal ela havia também marcado a
personalidade do rapaz; não convivera com a moça apenas para brincar. A
lembrança ocorria nas conversas informais diante do espelho.
O
frio ouvinte mostrava cara peluda, o sabão a espuma branca de um lado, a lâmina
do outro, cenho carregado e as rugas apressadas fazendo careta na preocupação
que adora a brincadeira do envelhecer senhores. Dirigia a si mesmo as
indagações costumeiras, quase sempre sem respostas; punha dúvida à possível
felicidade da mulher sua ex-namorada quase ex-noiva. Torcia por ela. Que
arranjasse outro homem, fosse com ele feliz.
Porém
o Tino não se encontrava distante quinhentos quilômetros da jovem para
esquecê-la; se não bastassem os anos de convivência, esquecendo-se já por
hábito... não precisava ficar, repreendeu-se, lembrando a garota. O que passou
passou, irremediável. Ora, não havia concluído não amá-la realmente, porém
apenas havendo um respeito e a formalidade do namoro! Então por que viver
avivando tais questões? Ah a gente não é dona do pensamento. Retomava o pensar,
desejava que ela fosse totalmente feliz. Porém quando recebeu carta de sua
irmã, por sinal amiga e correspondente da Norinha, na qual ela comentava o
enlace da ex-namorada com um italiano nato, desconhecendo suas própria reações
– amargou deveras. Bem, para dizer a verdade houve de sua parte um suspiro de
alívio: o pobre Tino trazia a sua consciência pesada, culpava-se caso a jovem
envelhecesse solteira, virasse tia, por causa dele. Não obstante (vá entender a
natureza humana!) sentiu um temor, um vazio, por haver perdido definitivo quem
ele acreditava ser mulher correta. Possível no fundo do fundo no seu eu
houvesse mesmo amor! Ele punha a dúvida. Logo sobreviria outra ideia, nascida
na contumaz maternidade dos poetas dos loucos e dos filósofos: por que ela
viveria infeliz? Espera lá, donde o sujeito extraiu esse pensamento maluco? de
alguma entrelinha da missiva de sua irmã, dum sonho, do nada que tudo nos inventivos
dá à luz? Seja como for, estava aí uma razão para sofrer gostoso. Num repente a
Norinha parira dois filhotes (ele não tinha nada com isso, não chegara ao
estágio do beijo sequer e só perdera um suporte atlético numa noite de
desenlace...) Sim, concordemos, não poderia numa doidura das loucas maluquices
se apresentar como pai? No entanto entregava a paternidade ao italiano. Pobre
da Norinha, que no invento do rapaz no retiro amoroso imaginou que pudesse
estar infeliz, numa possível frieza do novo casal... Ficou o nosso
herói-perdedor com uma vontadinha ser o culpado; ora que diabo, seria ele quem
empurrara o peninsular velho para a Norinha!? e quem foi que lhe disse ser
idoso? De repente deixou ‘B’, tomou ônibus – tinha pressa, porém, seguro, não
quis viajar de avião caro, e não ficava bem esperar o trenzinho vagaroso da
Araraquarense – foi de ônibus à capital, da Luz partiu ao Brás, daqui à Cidade
Patriarca aguentando o sujo subúrbio da Central. Tinha necessidade encontrá-la,
pedir desculpas por tudo, tudo o que não dissera naquele dia do desenlace – e o
encontro foi patético com lágrimas e abraços; corajoso, disse-lhe direto que afinal
das contas a família dele estimava ela, Norinha, a dela gostava dele, Tino,
achava que gostava; quis pedir perdão pelo tempo que a moça perdera com ele,
pelo sofrimento, pela separação. Ela, maldosa, vingativa, mostrou-lhe a aliança
de matrimônio com o italiano, na mão esquerda! Desamarrou a égua, subiu à sela,
saiu num trotão de volta a ‘B’. Amargou deveras. Atirou o pincel com espuma
branca, jogou ao chão fazendo barulho o aparelho de barbear. Poder-se-ia
aceitar uma dor de cotovelos autêntica.
Num
recurso defensivo prendeu-se à memória, à saudade. Então num relance reviu a Norinha
nas várias fases do convívio mútuo, o que já um pleonasmo redundante. Viu a
moça, ele esperando por ela na escadaria da Igreja São Bento, religiosa e ingênua,
sorridente, simples, bela, achou-a bela. Depois sentiu seu progresso: deixou ser
filha de Maria e menos religiosa, mais encarando a vida mundana e conjugal com
ele no futuro, terminando a segunda fase do namoro. Na terceira, se despojando
quase da religião como o namorado apreciava, ela seguindo o pensamento do
noivo, a sociedade pensava que fosse noivo; então mostrava-se pró-ateia e desejava
que o rapaz lhe desse noções de socialismo, se é que ele soubesse ao menos pra
si, chegando a propor ao universitário Tino que a ajudasse nesse mister de
encontrar Politzer e a literatura marxista. Quis o problemático Juvêncio da
Silva agora pedir à garota novo perdão. Lembrou-se ela casada com um rival
italiano e ele vivendo em ‘B’, um mundão de trabalhos a corrigir e a presença
das provas dos alunos empilhadas.
Nesse
dia trabalhou com mais afinco. Para esquecer que não a amara suficientemente,
um pouquinho sempre ficando, ou por sentir-se preterido (quem poderá entender o
labirinto do coração!) ou por ser o pomo de uma vingança... Precisava
esquecer.
Todavia pôs os pratos na balança, tomou
os pesos honestos e riu-se da situação; riu-se do seu próprio ridículo.
Aproveitou a máscara do riso para não contar nada para ninguém. Ninguém se
interessaria mesmo.
Não
obstante carregava dúvida nos ombros frágeis.
Com
dúvidas ou somente dores de cotovelo, partia para a vida. Já estava mesmo
lutando. Assim engajava-se no sofrer diário e vivia as tormentas do Brasil,
curtindo sua cota de cidadão desafortunado como todo brasileiro pobre.
Para
fugir ao pesadelo amoroso? talvez. O fato é que praticava o santo remédio da
laborterapia; e ainda por cima engordava. Não pensando cair jamais nas
enrascadas de outro caso de amor. Então aceitava-se por solteiro, defendia o
celibato inveterado com unhas e dentes, como arma do não sofrer (maneira curiosa
de suportar um sofrimento). Quem sabe não estivesse agindo qual mocinha
desenganada candidata forçada à titia. Contudo não era infeliz por isso, o que
provava acerto.
Entrementes
sonhava acordado, quase acordado. Nesses curiosos voos, mesmo neles, a
preocupação em não ferir suscetibilidades e manter-se fiel à amada; enquanto
namorava a Norinha, fiel a ela, após perdê-la a mente ainda encontrava-se presa
à ex-companheira. Costumava imaginar-se querido por mulher extremamente bonita,
rica (no que revelava bom gosto...) a qual tinha sempre um defeito grave:
adorava o Tino! Passava pelas fases do conhecer, do namoro, do querer embirrado
(ah, como essas mulheres são teimosas...) e quando geralmente ia entrar na fase
do casório, aí acordava o moço (lembrar ele ser celibatário convicto). Quando
namorando a Norinha lembrava-se, chateado, que possuía namorada como se tivesse
uma esposa e contrato de casamento; depois quando perdera a moça, continuou a
imaginar estórias doidas para ajudar a personalidade solteira, tendo de repente
a impressão que ainda a Nora existia na sua vida. Sua noção de fidelidade era
meio estrambólica, como se vê. A realidade mostrando de maneira sobeja que se
encontrava livre, nova situação.
Em
vista dessa nova situação ao Tino, livre e desimpedido, ouso aqui afirmar e
chamá-lo trintão balzaquiano; daí ele já podia sair, se quisesse, do retiro no
qual entrara, visto não necessitar mais viver e pensar Norinha. Por isso
arranjava novas amizades e o fazia por força da profissão e das condições
oferecidas pela cidade na qual residindo. Também podia livremente viajar a São
Paulo.
Agora
não tinha segundas intenções nas visitas à capital, ele ferrenho interiorano.
Rever amigos, tratar de alguns negócios; e mesmo passear. Porém tornava mais
feliz para ‘B’, do que quando ia para a cidade grande. Não se arrependera haver
escolhido num concurso o lugar. Voltava-se para o trabalho, votando toda
atenção aos alunos e às montanhas de exercícios trabalhinhos e provas, como
manda o ofício. Ajuizado, provava haver sarado da moléstia do amor e se conscientizado
no sossego de solteirão sem grandes pretensões. Ainda não se livrara,
entretanto, da timidez doentia de todos os momentos que estivesse na berlinda,
difícil evitar em se tratando de professor. Tinha marcante no pensamento um
desses terríveis momentos. Estava tomando posse do seu cargo, apresentava-se ao
diretor turco de sua escola; este ofertou-lhe uma xícara de café (não a você,
leitor!) o professorzinho quase derrubou o líquido quente sobre o documento de
posse! tremendo por estar (pensava estar) sendo vigiado nas suas atitudes pelo
homem à frente e sua bela, ah como era bela! sua bela secretária... Mais tarde
descobriu, a rir, que o Sr.Tomé tremia mais que ele. Isso mais tarde. Na
ocasião temia a berlinda. Igualmente não se despojou do caráter ingênuo. A
ingenuidade é um buraco no caminho humano. Ele caiu no buraco; não conseguiria
sair tão facilmente.
E
você me pergunta se se machucou, induz-me a passar salzinho e vinagre pra não
inchar, assoprar um pouco para sarar, como vemos na música do bicho-papão. Mas
ninguém tira ninguém do buraco, se caiu... Passar álcool, se esfolou. Puxa, e
não é que isso me lembra bebidas alcoólicas! Uísque não por ser mais alcoólico,
vodca é russa e falar russo na plena vigência do Ato Cinco dos militares, que
maluquice! Nem vinho, nem conhaque. Um cafezinho, sim senhor, um café (não vá
tremer igual o Tino na posse como professor do Estado...) Cafezinho saboroso e
fumegante, para nós ambos: eu e o leitor paciente. Café bem brasileiro. Que seja
apenas para você me ouvir explicar essa questão do buraco de nosso Juvêncio,
digo, Juventino, digo melhor, o Tino.
Cap.XIV – Quem está
fora quer entrar, quem dentro quer sair
Um dupla caipira, Tonico & Tinoco? repetia
antigamente a gozar a luta surda na sociedade e os desenganos conjugais e os
muitos erros desproporcionados a alguns casamentos: “quem tá de fora qué entrá,
quem tá de dentro qué saí”... O casamento? um buraco. E dava o próprio exemplo
o autor da composição, dizendo na toada: “sô casado fáis um ano...” Naturalmente
ele se esquecia dos poucos acertos em matéria de casório, quando se vive sempre
lua de mel, enfim casais felizes. O Tino pensava assim, não dizia nada como era
seu costume, esboçava um sorriso por notar a argúcia dos cantadores. Eles
continuavam, repetiam o refrão.
A
vida não era só casar, namorar e casar. Nem muito menos nosso herói aceitando o
“casai-vos e multiplicai-vos” dos sermões domingueiros. Mesmo porque padre não
tem drama comum, o drama de sustentar e educar os filhos; é bastante fácil
falar e pregar a ingênuos. Ele não se considerava ingênuo, no que podia mostrar
bom gosto. Pense bem, eu é que o considero um simplorião. Posso mesmo estar
enganado, ou se não admitisse o possível engano, seria eu o ingênuo... Não, não
era o Tino pelo “multiplicai-vos”. Inclusive pichando os pobretões por eles terem
filhos na razão direta, não, razão inversa dos bens, quer dizer isso: eram cada
vez mais filhos e menos dinheiro... Estava errado. Porém daí concluir fosse
contra o casamento e contra os meninos seria um tanto apressado.
Ele
solteiro, defendia-se no ofício de celibatário. Uns pingos nos ii – não contra
o matrimônio dos outros, apenas contra o seu. Agora, quanto aos moleques...
andava na idade crítica. Apreciaria você que eu pusesse exclamação?
Sim,
havia descoberto que o homem tem igual a mulher sua idade crítica. A fêmea tem
a sua por parar de produzir; o homem para iniciar sua produção (ou por tardar
iniciar?) Assim ele pensando. Conversava com outros rapazes, concluíra haver
muitos deles chegado à mesma conclusão, alguns tardiamente. Ele passava dos
trinta anos (um para-titio?) Não se impressionava ser trintão, porém a ficar
sim aquele amargor por não sentir sua continuação na Terra. Não havia ainda parado
pesar prós e contras, para ver que nada o planeta perderia por sua não
continuidade. Nem chegara ao ponto que compreendemos o espírito não perecer e
que o filho pode não ser de fato seu filho, e tão somente uma herança física,
somática, perecível. Sentia o drama de não perdurar na Terra; portanto sofrendo
gostoso. Achava-se como que logrado pela vida no concerto com a Humanidade, sem
o mais sagrado, reconhecia: a procriação.
Vem
o leitor enxerido a meter o bico no meio. Ele era solteiro, diz (concordo)
desimpedido (quem duvida?) cônscio das franquias sociais, aquele bem que a
sociedade fornece ao ser pela glória ser ele um homem! Ponto por sinal discutível,
e me abstenho de tomar partido e votar, pois que sou também homem, não
pretendendo (eu) ficar disponível para levar pancadas indevidas na posteridade.
Você porém insiste que o moço era moço (embora um pouco besta, reconheçamos) e
sendo moço desimpedido: fizesse o filho que desejasse aí por esse mundo de
Deus; fêmeas nunca faltaram inclusive sobrando; e o rapaz não era tão medonho,
não faltava sequer pedaços ao Tino, pronto. Igualmente consideremos outro fator:
não era feio de espantar na rua as crianças; o sujeito se apresentando apenas como
um homem comum igual se vê aos montes; ora, que se pusesse a esguichar meninos
pelos recantos deste mundão, semelhante à estória do Feijãozinho, na qual o pai
do personagem havia semeado feijões por volta da casa e... Bato palmas a você,
leitor, pelo brilhante raciocínio, deixo o Tino a plantar bebês e colaborando
com a maternidade. Acontece entretanto um senão, já lembrei isto noutras
passagens desta pobre e despretensiosa narrativa: o fulano um timidão,
doentiamente tímido e vergonhoso. Além de não podermos cobrar-lhe ingenuidade;
tinha muita.
Daí
por mais boa vontade que tivesse...
Também
havia a questão de princípios. Vamos respeitar os seus princípios. O homem
temia, chegando mesmo ao pavor, a possibilidade engendrar criança na barriga de
prostíbulos. Morria de medo das ‘mulheres de vida fácil’. Coisas lá dele.
Imaginava, pois demais imaginoso, o sofrimento da prole de suas entranhas
atirada à ‘ninguenzice’ (imagine que o dicionário não pôde me auxiliar! assim
tomei a liberdade inventar o vocábulo) enfim um carinha jogado ao léu na incógnita!
Batia pés juntos por teimoso, era teimoso pra danar, ele, eu havia me esquecido
falar sobre essa característica negativa vez que outra positiva. Diante do
escrito, preferível não ter descendente. Ainda mais procriar com as sirigaitas
das esquinas por aí, pavor! nunca, além do mais poderia vir complicação na
parte do delegado, barulho manchete no jornal da cidade ‘B’, mui conservadora.
Já pensou a moral dele onde iria parar? Então imaginou ler, saboreando o prato
do dia nos bares e salões de barbeiros, com o jornal arreganhado: “Professor Juvêncio
da Silva abusou de infeliz donzela, negando-se a se casar com a pobre!” Bonito?
também achei feio, não daria para jornalista o rapaz, por não saber sequer
escolher o chamarisco na manchete sangrenta de primeira página. O Tino não deveria
ter melhor sorte nem como jornalista nem como casadoiro. E casório com essinhas
da rua... chi! (é com xis? agora é sua vez ir ao dicionário comprovar, eu já
gastei minha língua de matracar besteiras no umidecer as pontas dos dedos a
desenrolar as terríveis orelhinhas que se formam nas páginas do Aurelião). Diria
quando tive a dúvida do ‘x’ que temia o sujeito essas mulheres da rua; pra si
era simplesmente vergonhoso. Nunca cairia nos braços e nas manhas de fêmeas
complicadoras. Estamos lembrando que o Tino entrara no time daqueles ossos
duros e inveterados solteirões? Consumatum est.
Ficava
na coluna ‘débito’ na contabilidade da vida uma criança a menos, a Terra
infeliz sem um Tininho, quem sabe se não desfalcada de muitos Tininhos!!
A
vida no entanto é uma gata manhosíssima, uma bruxa trapaceira, a ficar nas
esquinas de vassoura em punho; contra todos os Tinos que já nasceram, os que
existem ainda e contra os que porventura virão, porque o mundo irá ainda
receber outros semelhantes bobalhões. Apesar, ele comeu da maçã envenenada (a
prova, segundo afirmavam, o cocoruto no gogó subindo e descendo ao falar ou ao
beber água). O pobre rapaz casou-se. Casou-se. Sem mais nem menos? é, sem mais
nem menos quase, talvez, não: com certeza afirmo – até com mais menos. Todavia
o expor é um tanto longo, se bem que ocorresse em tão somente quinze dias (ah
sujeito atrapalhado!) quinze apenas, porém de narração longa. Por esta razão
convido o amigo parar um pouco e – já sabe – chamo sua excelência a tomar um
cafezinho, pretinho, saborosinho, fumegantezinho, brasileirinho. Taí, sou contra
o álcool, já disse anteriormente, e contra o fumo; entretanto vou lhe conceder
o direito a fumar na minha presença esta vez, porque café pede fumo, o tabaco
quer a boca de pito como falava o vovô. Solte para o alto a fumaça, os fumantes
nunca se lembram dos não fumantes, ficam a atirar fumaceira fedida na cara da
gente. Então? aguarde que esclarecerei o casório do Tino.
Cap.XV – O solene ato de entrega do garoto Tino, pelo Padre Belchior, à
doce e linda senhorita Joaninha
Sábado. Dona Joaninha encontrava-se toda de branco,
esvoaçante desde a barra do vestido de noiva até à pequena mão da gentil Chiquinha,
menina simpática nos trajes de dama de companhia; véu e grinalda, Dom Belchior
sorrindo lá no fundo da igreja, os convidados do altar olhavam o Zé Sacristão
também a sorrir lá no fundo do templo, convidados e mais convidados sorrindo
curiosos (ou não seriam convidados) espalhados por toda parte, a formar um
cinturão nas laterais; a moça (ah, como a sociedade é linguaruda, tem sempre
que pôr dúvida) a moça ia entre emocionada e confiante; temia-se mas não tinha
perigo que ela desmaiasse, quem sabe lá o que vai na mente feminina! ia
confiante e guiada pelo genitor barrigudo, o véu e a grinalda a encostar no
ombro esquerdo (esquerdo ou direito?) do seu velho; na direção do dito altar, todo
decorado para a ocasião; os músicos anunciando com seus violinos um pouco
desafinados uma página de Mendelssohn; os santinhos sorriam ao público (não bem
isso, eles tinham era mais uma fisionomia de piedade e compunção, a chegar dar
pena, talvez não estivessem preparados para uma tal solenidade, e sim para a
missa de corpo presente; de fato dava pena!) e no altar esperavam Dom Belchior
e o assistente, a consumar o ato. Nosso Tino também caminhando, embora numa
expressão de ‘não tem mais jeito!’ (não chorava) ia ao lado do Geraldão, na
falta do pai dele tendo por senhor de companhia (será que existe isso?) o amigo
Geraldo, espécie de padrinho do noivo. O noivo trajava negro como convém a um
luto pelo fim do celibato defendido tantos anos com unhas e dentes, parecença o
celibato com um hímen guardado a sete chaves, ferozmente, contra ataques
mundanos; o que é normal num celibatário inveterado e teimoso. A bem dizer mais
força fazia para trás que em direção do pároco Belchior sorrisos e do perfumado
sacristão idem a sorrir; enfim marcha
nupcial a ré caminhando para frente, o Geraldão lhe pregando vez por outra uns
cutucões disfarçados e educados. Isso os convidados sempre curiosos e atentos
não percebiam, porém os olhinhos de lince com raio-x ligado da sogra Dona Manoela
interpretavam magnificamente, ela estando vestida alegremente para gozar a
cerimônia religiosa e de desencargo de consciência. Temia e tremia o rapaz seriamente,
e suava (por que se esquecera de aplicar desodorante! ih cabeça ih cabeça...) e
esbranquiçava cera o noivo feliz. Porque chegando sua hora fatal, a de a noiva
feliz ser-lhe entregue para os cochichos circunstantes, aos planos da lua de
mel (e consequentes novos cochichos, a boca do povo não se tapa com um sermão
do Padre Belchior todo sorrisos). Ficando ainda a dever, após isso tudo,
explicações sem coragem a levá-las efeito sobre a festa, o porquê de faltar
cervejas ou esbanjar doces ou o azedume dos manjares, e a propósito de quantas
cadeiras emprestadas pelo Tião do bar, as toalhas por Dona Maria. Entretanto
seria problema para depois, visto o matrimônio celebrado e seu cerimonial o
drama maior, ele entendia bem, ela entendia, todos convidados pareciam entender
e aceitar, talvez não entendessem a ganhar direito depois aos cochichos no alto
estilo. Disse que sim, é praxe, se bem um conhecido seu dissera “não” e saíra
às carreiras, num papelão, dando comida na forma de falatório aos festeiros curiosos.
Disse que sim, não chegou a ouvir direito o castelhano do padre, ficou mais
prestando atenção nas alianças que estavam no lugar inadequado, olhando a
barbicha do sacerdote. Pronunciou como autômato “sim” sem pensar, aos puxões do
Geraldo; depois quem sabe minutos depois ou se milênios depois, ou foi antes
dele? ela também falou aceitar (é, deve ser antes de ele assoprar o seu sim,
nervoso demais a atentar nisso). E o sim dela não chocou a ninguém. Obedecido à
risca o diálogo religioso no cerimonial, Dom Belchior transmitiu conselhos mais
ao tímido e vergonhoso Tino que à decidida e corajosa Joana; precisava mesmo
ter ela coragem bastante a receber o tremedor e pálido noivo suado cheirando
por susto, sr.Tino; enfim ela o aceitou, fazendo bem o papel feminino e ficando
então casada, carregando desde então o comprido nome de Joana Angélica Catuaba
da Silva, Silva ganho do sr.Juvêncio da Silva, sem dar sequer um catuabinha
para o marido, é o costume. A cerimônia do lava consciência se perpetrava. E se
encerrava. O fotógrafo pôs a máquina a tiracolo e foi tomar na saída a pose do
arroz sobre o casal a descer a escadaria aos cumprimentos, ver quem desejava
sair junto da noiva e até do noivo na documentação para a posterioridade e o
álbum, alguns milhares de cruzeiros na época, preço módico. Todos agora voando
atrás do carro dos noivos (por que noivos, se se casaram?) e dos comes e bebes
na casa da noiva, não mais dela, dos sogros do fulano. O sábado se encaixava
bem na tarefa de casamento, aquele dia do Senhor fora bem alegre.
Pare
de ler só um pouco. Se você não descobriu a grosseira e deslavada mentira, daí
não mostrou muita atenção. Porque o Tino nunca se casaria num cerimonial
desses, avesso a reuniões e inclusive a congraçamentos sociais. De fato estava
aí um sujeito tímido e vergonhoso. Se dependesse de um casamento no estilo,
haveria mais uma Joaninha solteirona no planeta – e como existe solteirona
hein! – mais uma. Acontece que semelhantemente Joana, da estirpe dos Catuabas
mineiros, uma garota tímida. De maneira que a falta do cerimonial nas núpcias
não mudou coisa alguma nela também.
A
fome com a vontade de comer? talvez ou nem tanto. Ora, então vejamos como foi
que os dois tímidos e ingênuos, engraçadamente ingênuos e tímidos – como foi
que se conheceram noivaram casaram. Porque o Tino, não obstante tudo que atirei
por cima dele, se casou, como foi afirmado. Não é mentira essa verdade.
Foi
dito que ele professor. Professor concursado e vivendo para o ofício de corpo e
alma, então desenganado das coisas do amor. E vai que acontece o inesperado.
Quer dizer, a rigor não existe no mundo nada que não seja o inesperado; esta
vida é uma sucessão de surpresas, às vezes agradáveis e nem sempre agradáveis.
Diria, aproveitando-me da ocasião, que o rapaz esperava ver de onde surgiria a
cobra. Não posso afirmar ainda isso porque nesse tal momento da história do
moço ele não encontrara ainda o Garcia, um amigo de São Paulo, de volta a morar
na capital, já casado e tudo o mais; esse amigo incutiria, fosse preciso no
mestre em negativismo, o pessimismo e a descrença pela vida nesse interiorano
de ‘A’ residindo em ‘B’. A expressão do ‘onde surgir a cobra’ era portanto do
Garcia, que emprestei antecipando, a fim de acertar a frase. Voltemos ao Tino
casadoiro – houve algo incomum a ele: apareceu a Joana! Não me arrisco a dizer
qual o anjo que a enviou pronta para ele, se Gabriel se Belzebu. Fica para o
desfecho da narrativa, caso haja desfecho digno desse nome, naturalmente.
Apenas sabemos que num dia ele se encontra de mãos entrelaçadas com as
mãozinhas dela (sejamos corretos para com a nossa consciência: as dela eram maiores,
os dedos afilados e compridos, quando armados na forma de concha para baixo
dava ideia duma aranha na posição de atacar, dessas tais quando mortas ficam
assinzinhas pequenas).
A
Joana era um tipo desses que entram na estória da gente sem ser chamados e sem
que se perceba. Então, respondendo “presente” nos fins da década de sessenta
numa sala de aula. Quando o rapaz foi notar, não dava mais jeito, o jeito era
casar... Porém tudo tem sua história. Ele escolheu a garota para que ela o
escolhesse como parceiro, ou vice-versa, nem sei mais. A história dessa entrada
triunfal da jovem nesta estória mambembe igual um circo de periferia: ele
escolhera como professor do Estado ‘B’ pelo Diário Oficial, não sabia da existência
da cidade nem onde ficava. É muito lógico haver confiado no trem da
Araraquarense para chegar e chegou lá. Aí. Aí é que começa.
Era
um dia ensolarado, o que não distinguia a localidade, pois ela tem sol gostoso
todos os dias. Ele não sabia disso, viera da nebulenta São Paulo, poluída como
requer. Então achou lindo o dia e bela a cidade. Arranjou casa; leia-se quarto
de hotel na Rua Pernambuco. Em breve trabalhava na urbe com afinco. Agora despreocupado
com os misteres do amor, como sabemos, não sabia sequer da Norinha; e sem saber
das artimanhas da bruxaria, que as bruxas andavam soltas naquele tempo. Foi por
consequência que engoliu meses e meses a vida, bebeu alegria, sorveu tristezas
do pensar, se afundou nas preocupações do dia a dia. Ele não chegava a pensar
(era ingênuo, está lembrado?) que suas alunas fossem por baixo dos uniformes
escolares mulheres. Ou pensava, a gente nunca sabe ao certo o que imaginam os tipos
ingênuos. Um dia em que andava mais desguarnecido, apareceu a jovem Joana, mais
precisamente a senhorita Joana Angélica Catuaba, Catuaba por parte do pai dela,
um senhor gordo e barrigudo, ah! já contei isso. Ela. E fazia sol e ele não
percebia. Entrara pela retina, tornara-se rotina; uma rotina necessária, gostosamente
necessária.
Ah
meu caro, mas antes da Joana você precisa saber da titia Rosinha.
Por
essa época andava meio interessado na Rosa, moça madurona e consentânea com o
rapaz esdrúxulo (ué, ele não tinha escolhido o ofício do celibato? você me
indaga e isso atrapalha meu fio da estória, acabo por esquecer-me da Rosinha,
vamos a ela:) fizera o Tino inclusive um teste curioso para saber o grau de
ingenuidade da mulher – espalhara no seu meio ser pai de santo... e a Rosa veio
pedir a ele informes religiosos sobre o assunto, exigindo do sujeito encenação,
para alimentar ainda mais a confiabilidade dela. Com essa bobagem de nada foi
nascendo entre os dois madurões amizade mais chegada, tendenciosa da parte
masculina. Ele estava interessadíssimo nela, sentindo a fêmea atrativa e tudo o
mais; daí intrometeu-se entre eles um palito inocente. O negócio do palito é
equivalente ao vento do Sebastião. Agora você me força a contar além da estória
do palito, a do vento; veja em que atrapalhada me meti! Pois bem, o vento
primeiro. O Sebastião, um que não chegara a Bastião mais íntimo para o Tino
quando viajante nas Minas, o Sebastião vendia produtos farmacêuticos, colega do
Tino vendedor das Pilhas Multinacionais. Foi ele mesmo quem confidenciou o fato
ao moço das pilhas; disse ter desfeito um noivado com uma linda criatura a quem
amava até ao desespero, porque a noiva soltou-lhe um vento intrometido (ou
‘extrometido’?) após ingestão de batatas e repolhos num restaurante (que o
noivo Sebastião havia ofertado a ela, valha-me uma santa qualquer misericordiosa!)
e isso, o vento digo, o chocou profundamente, visto ele nunca haver pensado nos
termos de mulher praticando uma coisa tão baixa! Por essa razão casou-se com
outra não tão querida, supondo desventada, eu supondo sua suposição. Foi assim
narrado ao caixeiro-viajante Juvêncio da Silva. Este, agora professor em ‘B’,
se encrenca com um simples palito... A Rosinha dos belos olhos azuis estava a
almoçar quando o sujeito passou por sua casa, pretextando qualquer coisa e
escondendo o móvel da visita, que era o interesse macho por fêmea de maneiras
tão graciosas, como tem acontecido muitas vezes nestes últimos milhares de anos
na Terra; o comum do interesse entre os sexos. Bem, daí ocorre a tragédia: ela
sai para atendê-lo palitando os dentes, belos é verdade mas... chupando as
comidas incrustadas, pra não perder nada que ficara retido naqueles dentinhos
miúdos a enfeitar a rosa da face e a expressão ingênua. Esse o fim do romance,
sem que ela, a Rosinha, sequer desconfiasse haver começado... Foi nessas
condições que uma Joana ganhou duma Rosa na seleção dos viventes prender um
certo Tino, desses que andam sobrando a três por dois no planeta e lá na cidade
interiorana de ‘B’ também.
Ora,
vamos dizer lamentando, isto é prosaico. Não me dispus a ir além do prosaico,
ótimo ao ser comum, o Tino. E igualmente não espere grandiosidades amorosas
quando ele se voltar para a Joana. Ou cairá do cavalo, como fala o caipira.
A
Joana, embora aluna, foi notada; logo mostrou interesse pela mocinha; não como
aluna, como atriz, porque a conheceu numa peça de amadores no teatro estudantil
de férias. Guardou a jovem no coração para si. Depois vieram as aulas normais.
Então na relação diária passou a percebê-la. Sua razão não lhe deu razão:
dizia, gritava a ele ela ser aluna, merecia respeito; e tinha mais argumento, a
riqueza. Ele seria contra as riquezas do mundo? Sim. Não, contra os detentores
das riquezas do mundo. Achava que a moça fosse fazendeira ricaça ou coisa assim,
ele tendo preferência por gente de sua classe econômica, porque não passava de
assalariado. Todavia a relação amiudou-se, por força das circunstâncias. Uma
colega da Joana, vestida de Santantônia, atiçou o fogo entre os dois. Ele ficou
enrubescido, gaguejou, brincou para sair-se daquela encrenca (sempre fazia
assim para não ter de enfrentar um problema em público) uma encrenca que ele
julgava ínfima, um pequeno caso sem importância, certa menininha com um
solteirão, ela uma criança ele maduro (ou caindo pedaços... não vou opinar,
fica ‘maduro’). Não era uma pequena encrenca, dessas corriqueiras com que os
mestres se deparam na sala de aula vez por outra. Não era. A Santantônia quis
provar decerto a si mesma sua capacidade casamenteira e provar semelhantemente
não ser insignificante a encrenca; ganhou a aposta. Ele o fortalhão abrigou-se
como pôde das investidas femininas, gritou e esperneou como era possível,
fazendo as vezes do sapo que grita e esperneia e assim mesmo encaminha-se na
direção hipnotizante da bocarra da serpente. Tadinho. Do sapo sim, ainda mais
do Tino. Desconversou, entrou na matéria, ou antes continuou a matéria, errou
nomes e datas, as alunas perdoaram com pena do professor embaraçado, as
mulheres sabem ainda mais que os homens perdoar. Ele desconversou porém já não
sabia dar aulas mais, se acaso houvesse um dia sabido, por causa daquele
embaraçante Terceiro Ano Clássico, de garotas tão simpáticas. Sorriu desconcertado,
marcou prova marcou trabalho, remarcou e se atrapalhou, deu livre consulta, já
não estava mais livre. Noutro dia ela veio mansinha, um anjo, mansinha
mansinha, aquele jeito de mulher submissa, a pedir orientação para o futuro,
porque os alunos nessa fase da vida têm mesmo dificuldades, negócio de livro a
ser visto e outras coisas mais do curso, assim e assado... O mestre
emprestou-lhe livros, saiu vexado vermelho corredor a dentro, fugindo como era
possível. Agora não havia mais sossego. Felizmente para si não tinha aula todos
os dias na sala da moça; poderia portanto recompor-se daí por diante. Além do
mais tendo o sábado e também o domingo para livrar-se de problemas diários no
ofício. O fim de semana para ver as meninas na cidade ou para fugir delas, o
que é ótimo a um solteirão empedernido... Havia também o cinema para diversão.
A
sessão começava às vinte horas. Ele ainda via a propaganda dos filmes no sagão,
nem mesmo se decidira pela comédia. Foi quando apareceu a Santantônia, morena
sensual que na chamada respondia no Terceiro Clássico por Célia, essa. Chegou com
um olhar suplicante. Dizia que a pobre da Joana, ele se lembrava da Joaninha de
olhos deste tamanho, cabelões quase lá embaixo... aquela que lhe mostrara na
sala o vestido de bolinhas novo, o qual ela mesma cosera, prendada, aquela...
lembrava-se? pois, judiação! não tinha dinheiro para a entrada no cinema,
doidinha que estava para ver o Fernandel. Sim sim, arranjava, por que não, o
bilhete de ingresso à jovem; pôs a mão no bolso direito a revirar notas
ensebadas. Santantônia repreendeu o professor, que é isso, não é mesmo?! não
iria a infeliz criatura entrar sozinha na sessão, mulher não vê um filme
desacompanhada... o que o povo iria falar dela? Aceitou. Não está lindo? Não vê
lirismo poesia romance?
Dessa
forma saíram do cinema na direção da Praça Central, a marcar o segundo encontro
e discutir as bases do namoro. Enquanto no cinema nem viram a fita nem ao Fernandel;
o Fernandel ficou talvez decepcionado com o casal. O rapaz desajeitadão quase
encostado à moça, ela aguardando oportunidade para melhor estabelecer o
flagrante de prisão, coisas assim de mulher que as mulheres sabem fazer com maestria
e já nascem sabendo; uma tarefa infinitamente mais fácil quando tratam com
ingênuos; e o Tino um fulano suficientemente ingênuo. Na pracinha florida
combinaram o segundo encontro, depois o terceiro o quarto, perderam a conta. O
jardim via tudo, a tudo registrava no seu caderno de notas; o público era
testemunho. Iam pra lá, voltavam para cá; se perdiam se encontrando pelas ruas
nas imediações, voltavam à praça. Já viu aquelas formiguinhas abobalhadas
andando desajeitadas e sem direção em cima em baixo atrás na frente da
guloseima esquecida na mesa da cozinha? os dois pareciam as formigas. Os outros
namorados não agem igual? Estavam assim, assim se acostumavam um ao outro,
trocavam confidências, tornavam o nada um tudo, buscavam as estrelas pô-las ao
chão, cheiravam as flores e as admiravam. Concentrando o mundo em si mesmos,
não viam sequer aos casais que passavam abraçados pela mesma razão que é sem
razão, razão do coração... ensimesmados nos sentimentos – é inexplicável o
amor! Trocavam também mazelas um ao outro para que o outro perdoasse; e
realmente perdoava. Assim das pequenas grandes coisas, os corações estavam
cheios e transbordantes. A Praça não se cansava registrar para a posteridade. E
é provável que haja perdido o caderno. Os Pássaros cantavam como homenagem ao
par. Tudo era para enfeitar o ambiente justo a fim de que os dois se sentissem
bem. A Lua gaiata, as Estrelas formosas, o Firmamento sorrisos; e as Plantas e
os Insetos; e mesmo os Seres Humanos inclusive existiam ali próximo em função
dos enamorados Tino-Joana! Ou quem sabe também doutros casais. Puxa, que
prodigalidade imaginosa têm os pares!
Dessa
forma chegou o décimo quarto dia. Era muito namoro para quem houvesse ficado
preso a um caso de amor por seis anos infruntíferos... Ele temeu, tremeu. Quis
deixá-la; criou encrenca à pobrezinha Joana de olhos grandes e bolinhas azuis,
tadinha. Ela protestou, esperneou, gritou; ela a bonita dos olhos assim; e
assim manteve firme o namorado. No entanto para isso fez carinhos, ofereceu
amor, criou-lhe confiança, fez-se de objeto necessário. Então esperou, esperta.
Ele pesou na balança da equidade; pôs seis anos indiferentes e cerimoniosos,
num prato, e noutro os quatorze dias de amor simplicidade e satisfação. Pediu a
Joana em casamento. É curioso e inesperado (não disse que é! será que é mesmo?)
curiosa e inesperadamente ela aceitou! Eu não havia dito que neste mundo só
existe o inesperado! Pode me acreditar, não minto.
Contudo
o rapaz não deu o próximo passo: não foi falar ao pai dela, como é praxe.
Também, para que iria falar ao velho se não queria casar-se com ele mas com a
filha! Dispensou cerimonial, fez com a jovem um rateio do que possuíam, do crédito
e do débito, concluíram mais pelo débito que para o crédito, mandou às favas o
mobiliário e o imóvel as vestimentas e as festas, ela aceitou tudo. Decidiram
ir ao cartório tratar dos interesses matrimoniais. O oficial da pretoria mostrou
a lei, pregou-lhes a peça da lei, a espera regulamentar dos dias para os
editais de proclamas e a escrituração. Pensavam os dois que pudessem se unir
imediatamente, tiveram de aguardar ordem da lei. Aproveitaram para se
fotografar e documentar à posteridade, num estúdio perto. Depois se casaram
dentro da lei. Só na lei, ambos sendo ateus e anticlericais. Somente depois
disso foram contar à família dela para ficar com raiva e ouvir dos parentes as
reprimendas, neutralizadas aliás por um almoço de amizade. Só então partiram à
lua de mel. Ah malucos!
De
maneira que o Tino encontrara uma louca para sua maluquice. Apenas agiu o novo
par diverso dos outros casais, por ingenuidade, é possível fosse por
ingenuidade. Agora, se você quiser saber como é que o Tino se saiu na lua...
Bem, acho melhor tomarmos uma dose para descanso e preparo. Não de uísque, sabe
que faz mal ao fígado; conhaque ataca o coração; de cerveja não se toma doses;
portanto resta-nos um café. Depois conto o resto.
Cap. XVI – A lua
A Lua, dizem, é dos namorados. Entretanto a de mel
é com certeza dos casados recentes. Chego até imaginá-la não doce, deve ser
amarga e insatisfatória; não sei bem como possa ser, por solteiro e sem
experiência nessas andanças; mas deve ser insatisfatória, pois que os parceiros
só a desfrutar uma única vez e não repetem, via de regra, a dose. Depois ficam
a fazer referência à dita cuja nos termos “antes de nossa lua de mel” “na minha
lua de mel” a palavra minha já acusando talvez desunião após a viagem; ou dizem
“depois da lua de mel”. Ninguém entretanto vive planejando a segunda a terceira
ou a quarta luas. Os filhos não deixam, argumentam uns; outros casais
argumentam qualquer como argumento, argumento que não convence a nós solteirões.
Que acha? Eu é que não posso no assunto achar coisa alguma. Porém o Tino, esse
achou, e achou direitinho. Você julgando o infeliz antecipadamente! pondo
minhocas naquela cabeça chocha dele. E não sem alguma razão, porque nosso amigo
vivia titubeante. Nunca o Tino conseguiria uma tirada valorosa, posando para a
fotógrafa amadora e zarolha, Dona História. Se dependesse dele uma grande
atitude como a de D.Pedro, resolvendo a mando do Bonifácio: eu fico! o Brasil
ainda seria colônia lusa e não colônia do imperialismo ianque (puxa, perdão,
olhe o escriba se envolvendo nas besteiras de um personagem discutível...)
Portanto
foi com essa galhardia que o nosso bravo herói tomou a delicada esposa nos
braços, Dona Joana Angélica Catuaba da Silva – repito: Catuaba por parte da
família paterna e Silva por parte do marido dela senhor Juvêncio da Silva. Então
partiram à lua de mel. Não houve latinhas (quis botar uma porção delas
amarradas atrás do carro, as de leite condensado, de óleo de soja, de
inseticida, essas coisas barulhentas, eu quis, no outro capítulo naquele
momento após a descida na escadaria da igreja e a foto à posteridade; parei
pensar na besteira que iria fazer, mais parecença com enlatados americanos de
tevê a se exibir na sessão da tarde; gritou-me aqui dentro uma raiva
nacionalista, deixei sem latas, pronto). Portanto, como dizia, não houve
latinhas e buzinas, pichação a giz no automóvel das vítimas com os dizeres
‘casadinhos de novo!’ nem nada. Um sujeito apagado como o Tino, o qual não deu
festa e que teve apenas dois assistentes como testemunho no casamento, duas
assistentes a bem da verdade, duas alunas visitando o cartório pra ver se era
mesmo verdadeiro o que as más línguas afirmavam, estas dizendo que seu Juvêncio,
o professor, estaria casando com a Joaninha do Terceiro Clássico; aí constataram;
então, que esperar!? O que se poderia esperar dum homem que no seu casório não
oferece cervejas nem doces e apenas fala para um único amigo “ói, João, eu
casei hoje, viu?” Que vou argumentar diante disso! Ele tomou uma Kombi
emprestada, botou dentro dela uma escrivaninha gasta, certa máquina de escrever
Olivetti velhinha e uns sulfites a imprimir sabatinas de alunos, mais uns
livros de estimação guardados num lugar mais ou menos escondido antes, temendo
a Inquisição militar, umas roupas usadas numa certa mala de fibra das antigonas:
eis seus pertences e sua mudança, em plena lua de mel. E a doida que o aceitou
no estado que se encontrava por companheiro trouxe para o veículo também sua
mudança, ou seja: maleta e uns livros, juntando a isso uns apetrechos
domésticos, coisas de ‘chá de cozinha’ que as jovens ofertam na intimidade para
a noiva. Isso. Juntaram os trapos os nubentes, partiram. A estes dois lunáticos
pode-se aplicar bem o dito popular “fulano? enloucou casou e mudou”. É,
realmente casaram e mudaram. Foram para São Paulo, lugar no qual interioranos
adoram fazer experiências para sentir o gostinho de voltar de lá um dia... Sim,
foram para a capital onde, caso faltassem os doidos, eles completariam a cota a
satisfazer dona Estatística, ansiosa a mentir com dados verdadeiros.
No
caminho pararam numa cidade, chamá-la-ei ‘C’ para não confundir com ‘A’ e ‘B’;
aí tomaram hotel, a fazer coisas que não nos diz respeito.
Partiram
de uma vez por todas; no outro dia estavam na capital do estado, gozando o frio;
porque era fim de junho e no mês de junho faz frio no interior mas frio
autêntico mesmo é na Terra da Garoa. Foram... para casa? não, nem sequer tinham
casa para ir! (não falei serem pirados!) Foram para a lua de mel, ou não seria
tempo de lua de mel, puxa. É muito claro, não levaram a mudança na trajetória
da lua, não fique assim gozando tanto os pobres! Deixaram os badulaques de mudança
entulhando os parentes, para que servem parentes? Então prosseguiram se
emelando no mel dessa lua. Rio de Janeiro!
Rio.
Pontos turísticos a turistas sem dinheiro, a volta das pernas cansadas e muitos
sanduíches com guaraná como serviço à la carte no estilo caipira, volta
a descansar no hotel, sem compromisso. A se beijarem de novo, a se abraçarem
outra vez etc. e tal, porque neste ponto da frase cabem etc. etc. pra valer.
Por essa razão acordavam cansados para o café matinal no bairro de Santa
Teresa, a preparar-se à caminhada na Guanabara maravilhosa, desfrutando das
alegrias os nubentes; e não se esquecendo também as fotos no Corcovado... para
a já cansada posteridade.
Dessa
maneira os dias adocicados da lua rolaram numa rapidez fantástica e
desconhecida pelo ser humano, imprópria do tempo, o qual normalmente gasta
vinte e quatro horas para um só dia e esse tempo agora exagerava um pouquinho
com os pobres ricos na felicidade, Tino-Joana. Bem, acordaram pela carteira
quase vazia, despertador infecto e malcheiroso. Como não dispunham doutro
caminho, voltaram a São Paulo para morar – não iriam ficar residindo na lua sempre
– para morar sim e esquecer a lua de
mel; e como o fazem os outros casais, levando a comprobatória fotografia a fim
de provar à posteridade, igual um butim duma batalha gostosa.
Para
quem fez sua viagem nupcial à Europa e foi jogar em Mônaco, ou aos Estados
Unidos com direito a divórcio no outro dia em Miami – notar os radiantes Dona
Joana e Sr.Tino após a lua, pode parecer gozação; e se se considerar essas
pessoas vivendo e lutando no ramerrão, no pagar dívidas com trabalho, a
costurar rendinhas ao nenê dando pontapé na barriga da mamãe – enfim, para quem
viajou a Las Vegas ou ao príncipe Ranier, a lua de mel do Tino e de sua querida
esposa Joana, a lua não chega realmente a ser lua. Mas garanto teve muito mel;
esse mel continuou adoçando a vidinha simples do casal. Por outro lado pode
melhorar um pouco a avaliação da lua de Joaninha-Tino se considerarmos ser bem
mais magra a lua dos roceiros. Eles fazem a festa com sanfona e padre, cerveja
e guaraná; às tantas, entre risotas, o casal vai dormir, ele bêbado e às vezes
mesmo carregado pelo irmão da noiva meio tocado também e de olho numa garota
qualquer do baile; e o noivo é atirado na cama; o sono para o casal, ele já
deitado, deitara “drumindo” como falam e ela com o irmão precisaram tirar-lhe
os sapatos para o bebum descansar melhor; por isso não existindo sequer um
‘etc.’ digno desse nome, é óbvio; daí vem o domingo, o casamento é necessariamente
feito no sábado, o qual é igualmente próprio para as mudanças caboclas. No domingo
acordando ambos, de noite deitam-se outra vez, só aí acontecendo algo mais expressivo
como argumento natural da senhora Pornografia a ajudar comadre Demografia, quem
sabe se não com riquezas grotescas; assim acordam os casadinhos de novo na segunda
de preguiça, para irem de enxada gozarem a lua de mel. Assim acabam nossos
matutos engrandecendo (sem ter tal pretensão) a lua do Tino com sua amada, a
mui bonita de olhos deste tamanhão. Até melhor que as de Las Vegas e do Principado
de Mônaco.
Agora,
diz o amigo, inveterado nos cafés desse imenso Brasil, que nada mais pode
ocorrer ao Tino nem à mulher do Tino, visto que o comum acontecerá; e aconteceu
mesmo: as brigas com farto bate-boca do casal, o nascimento (ai que gracinha!)
do herdeiro ao trono, um garoto, depois o resto da série; que envelheceram os
pais e portanto perdeu a graça a estória; ora a vida é isso aí. Eu confirmo, é
assim mesmo. Você desejava o quê: desgrenhamento de cabelos, gritos, pancadaria,
pronto-socorro, dona Cota percorrendo toda a vizinhança a culpar os homens do
planeta e o sem-vergonha em particular, a boa velha se atirando a acudir uma
pobrezinha, a olhar por ela e as crianças, estas desmanchando-se igualmente num
berreiro e por fim a polícia indagando quem foi e... Você acha que devo mentir?
Se a vida já não é por si mesma uma grande mentira! porque a minha é um
reforçar essa verdade, colaborando com um número a mais para Dona Estatística,
a mentirosa que gosta de brincar de ciência – acha de fato que devo mentir?!
Que acha do achar?
No
entanto deixo de lado as expectativas mesquinhas da inverdade e as fantasias da
realidade; vê-se que o amigo é imaginoso e não me cabe açular minhocas na sua
cabeça; que me diria agora, neste exato momento, se lhe segredasse que a
Norinha (havia se esquecido da Nora Lopez? a dos cabelos dourados ao sol das
sete e trinta, a confundir decerto a moça com Joana do Tino e tudo o mais...) a
Norinha em carne e osso, apareceu no meio do milharal...
Creio
andar espantado o Leitor.
Oh
não posso com gente assustada! A ela sempre nosso povo oferece da panaceia
nacional a erva cidreira, chá quente; acharia de boa prudência tomar chá
relaxante agora, para que eu possa contar depois sobre esse negócio da Norinha
aparecendo no milharal com o Tino – onde já se viu, o homem passou a ser casado!
Chá, que chá coisa alguma. Quer melhor remédio para o susto? café.
Sim
café.
Depois do café eu lhe assopro baixinho
as coisas da fazenda...
Cap.XVII – Norinha e Tino no milharal da Fazenda!
Não estou sabendo direito quem foi que soltou esse negócio
do milharal. Talvez porque não se admite fazenda sem milho com plantação
vistosa; e levando em consideração que o Tino sempre andou perdido por
ingenuidade nesta estória, bem poderia estar igualmente perdido no milharal de
qualquer fazenda; deve ter sido a causa na injunção dessa palavra. Além do mais
milharal é ideia que, a ser verdadeira, também inculpa criatura moralmente
inatacável, a Norinha, atirando assim sobre senhora também casada (aquele
negócio do italiano...) atirando sobre ela a má-fé. Que atrapalhada jogar-se a
Norinha, esposa doutro, nos lugares escusos... e ainda a piorar essa piora,
justamente com o moleirão do Tino. Acredito sinceramente num engano, porque
gente costuma empurrar isso nas costas da imprensa para facilitar as coisas inexplicáveis.
Mas não resta dúvida que realmente ocorreu na fazenda... Mais precisamente na
Secretaria da Fazenda, pertinho da Praça Clóvis Bevilacqua, antes mesmo deles
(já observou como a expressão ‘eles’ aqui ‘deles’ é uma entidade que se presta
a tudo?) pois é, antes deles esconderem a praça para fazer um buraco a enterrar
a estação do Metrô; nesse lugar.
Tal
encontro, casual, digamos tenha sido casual entre os ex-namorados Tino e
Norinha na Fazenda, tira um pouco a rotina do casal, aqui Tino-Joana, vivendo
sem o romantismo dos livros, lutando pelo arroz e feijão e para livrar as
crianças da desidratação, a procurar leite Ninho por aí, sumido das prateleiras
a forçar aumento nos preços. Enfim vivendo o dia a dia chato para a literatura
e a academia de letras, casal sem dramas de sangue com polícia e manchete nos
jornais. Em todo o caso o amigo Leitor não espere renovar o susto tomado, porque
não tenho intenção mostrar nenhuma indecência, a mais picante possível, entre
Dona Leonora Valiente e Seu Juventino da Silva.
Porém
aconteceu de ambos entrarem na fila do elevador à procura da irmã do Tino,
funcionária no último andar, a qual já havia eu dito também ser amiga da
Norinha, sua conterrânea. Um ia falar à mana e mostrar orgulhoso a barriga da
esposa à titia futura; e a outra, a Norinha, indo apenas trocar um dedinho de
prosa amiga, aproveitando a oportunidade pelas compras na Rua Direita, por
sinal bem torta. Pode não parecer espetacular o encontro, porém na São Paulo
tão grande uma coincidência no meio de milhões de pessoas, é qualquer coisa
notória. Encontro no elevador. Foi daí que o Tino apresentou à Dona Leonora sua
mulher, se bem que no embaraço do imprevisto houvesse apresentado a esposa como
sua aluna da urbe ‘B’ o que era certo porém não estava certo, pois com a barrigona
daquele porte ficaria mal até... não fosse o conserto imediato do equívoco não
sendo equívoco; daí o homem completou com expressão mui a seu gosto “esta é a
minha senhora!” A Norinha acreditou é claro. Ele perguntando rápido da família
dela, porque convém indagar dos conhecidos pra fugir de embaraços
desagradáveis; e narrou como foi se casar também ele, visto ser o fulano bem tagarela
apesar de simplório, ou até por isso mesmo. A Norinha a responder descorada
desapontada desconcertada às perguntas, sem coragem ou sem interesse para
igualmente perguntar; e por esses motivos saindo apressada, em São Paulo todos têm
pressa e a gente desculpa. Ele sorriu,
Dona Norinha apenas falou adeus e se foi aparentemente constrangida, não sem
antes falar à digna esposa do ex-namorado, Dona Joana Angélica Catuaba da
Silva, o comum do dizer: “ah muito prazer conhecê-la”.
Foi
então o rapaz matraca contar à mulher o que havia representado para ele aquela
Norinha preocupada e de parecença num desgaste. Contou a seu modo, porque
também não era lícito usar outra maneira e de falsidade com a esposa que ele
tanto respeitava, apegado sempre à fidelidade, um traço marcante no seu ser.
Foi assim falar sobre a mesma, disse ter tido afeição pela moça quando moça,
agora ele era dela, somente dela, Joaninha, a dos olhos grandões. Daí a pouco
comprou-lhe pipocas (a suborná-la?) sem que ela pedisse e chocolate sem que ela
demonstrasse desejar; desejava sim, era louca por chocolate; também adquiriu
flores para a mulherzinha pôr na garrafa de guaraná arremedando vaso solitário;
e mais pra diante ainda numa loja de variedades deu-lhe como presente um
autêntico vaso solitário azul, cor preferida da consorte. Decerto a
compensar... Nisso entraram na multidão, virando número de estatística, para
provar que dentro de qualquer mentira podemos encontrar algumas verdades.
Quanto
a mim, não tenho a consciência pesada, porque não prometi a ninguém casos escandalosos.
E se houve alguns deslizes morais, mesmo tais delizes estão muito aquém das
falcatruas cometidas pelos nossos distintos políticos; nestas condições,
crê-se, os políticos têm maior categoria e perfeição que um mero escriba rascunhador
de uma estória qualquer dum Tino encontrado por esse mundo afora. Não tenho a
consciência pesada, repito. Porém nosso amigo Juvêncio tinha, com certeza.
Naquele dia do encontro com a ex-amada foi para casa da esposa dele e não dormiu
bem (por cansaço?) Aproveitou a carona da insônia, que por sua vez se fazia
acompanhar do ressonar de sua cara-metade, dos apitos dos guardas-noturnos à
distância, próximo os cachorros (contou mais de cem talvez exagerando) então
sofreu gostoso. Foi nesse ponto que desandou pensar na situação, querendo descarregar
a consciência dos quilos a mais. Sentiu o sofrimento pelo suposto sofrer da
ex-companheira. Via nela a menina desiludida agora, a garota honesta que
acreditara nele, que lutara mesmo para tê-lo por marido; e que só o deixou
esgotadas todas as possibilidades. Casando-se com outro... quem sabe se não sem
amor! se casou e fez bem, agiu correto e logicamente. Aí o rapaz insonioso
desejou-lhe felicidade outra vez, sem que ela tivesse conhecimento; desejou-lhe
porque reconhecia seus méritos e por temer haver feito a jovem perder seis longos
anos, os melhores da juventude, presos a ele. Porém, agora, naquele ontem do
Tino, entre as coceiras pelas pulgas trazidas desde o centro da capital (não se
conformava com o fato de São Paulo ter tanta pulga!) essas pulguinhas atrevidas
e famintas e o ressonar gostoso da mãe do seu filho, aí voltava-se para a
expressão sofrida da Norinha, a estranha pressa que se apossara dela e a
atacara no encontro casual; via sua palidez desusada, revia a cera da tez; isso
tudo o agitava, punha minhocas na cabeça e indagações sem respostas. Dizia lá
consigo, seria a moça feliz com outro? quem saberia se o marido da Norinha não
a espancava! Quis bater nele pelo mau gênio e as pauladas que a pobre recebia,
se conhecesse o marido dela, se ele fosse menor que ele, Tino, se ele próprio
tivesse lá muita coragem e valentia a andar metendo a mão nos outros... Poderia
ser inclusive um ótimo esposo o esposo da Nora, é podia. Contudo por que ela
estaria triste no encontro! ainda o amava? e como ter a certeza que ela o houvesse
amado algum dia! teria mesmo deixado raízes na infeliz? Assim se martirizava
num sadomasoquismo, portanto contra si mesmo. Indagou-se: ela não desejaria
realmente ter filhos dele e se enciumara vendo o filho dele na barriga da Joana...
Ah quanta bobagem na cabeça. Aí acordou dentro da insônia – sentiu estar
roubando com o irreal o real pertencente à esposa. Beijou o sono dela, beijou
ternamente Dona Joana e depois tornou a beijá-la violentamente, acordando a
mulher no seu reparador descanso; ficou a olhar embevecido sua querida, real.
Osculou o ventre dela estufado ao filho que chutava displicente mamãe. Ela
sorriu para o Tino. O Tino fez xixi, para não ter perigo de molhar a esposa
quando dormisse, por se lembrar daquele dia... Só então conseguiu também ele partir
como um puro, se apagando. Naquele mencionado dia foi até engraçado, era nos
primeiros de casamento, ih nem conto; conto. Fazia frio e os carros rolavam na
avenida próxima. Um que outro ‘pleibói’ buzinando ou a cantar pneus, agitando a
madrugada. Operários dorminhocos se esticando do trabalho diurno, qual bananas
a desempenar. Fazia muito frio mesmo. Três horas, se tanto. Mexeu-se, brigou
com o cobertor, tapou o rosto com o lençol, a enganar isolados pernilongos.
Estava ali um pequeno-burguês com frio. A Joana ressonava forte, não ouvia
buzinas e pernilongos. Quentinha. Puxou a coberta, egoísta. Ficou ele sem
cobertura, gelado; teve de acordar totalmente; teimava dormir. Não dava, muito
frio. Foi daí que notou o homem estar molhado até... cheirava a mictório público.
Era apenas funcionário público. Chocou-se. Aqui inicia seu drama; o Tino não se
conformava com o que fizera, afinal um ingênuo mas não sabia ainda disso.
Começou a se recriminar: “com essa idade, Sr.Juvêncio!” “puxa vida, um professor”
“pera lá, existe idade para urinar?” respondeu-se. Taí. Casou madurão, a moça,
coitada... tem importância isso? Estava molhado. Descia do púbis até à perna,
liso, malcheiroso. Desgraça! pior que a guerra; as guerras estão longe, pensou,
no Vietnã, ele na cama ali, molhado. Esfriava; não podia ser diferente.
Esperou. Então a esposa se mexeu de novo. Que pensaria? Um homem daquela idade,
mestre, benquisto entre os vizinhos e os amigos. Xi! molhado. Precisava zelar
pelo emprego o nome os bens a posição. Não era um joão-ninguém, ou era, não
tinha importância isso, estava fedorento e molhado, frio. E a honra a zelar!
Não procurava ser exemplo para a esposa, para os outros? um tanto moralista. A
Joana se mexeu outra vez, decerto incomodada... será que estava sonhando? Devia
estar acordando a jovem senhora. Ah, que vergonha! Como encará-la? Que lhe
dizer? Tivesse já o nenê, culpava a criança, menino urina mesmo toda hora. Não
tinha, tinha na barriga dela. Com aquele tamanhão fazer xixi nela! E se se
lavasse rápido; então levantar-se-ia devagar; aí se se trocasse e... bolas! O
frio não era de brincadeira. Os pernilongos foram-se; não apreciavam amoníaco
certamente; os pleibóis não eram mais ouvidos também; só a mulher acordando...
Como lhe falar da patifaria: “querida eu...” “meu bem...” e que dizer depois? Não
era o dono da casa? Sim, tendo o direito de mijar na cama, na esposa? Por
extensão estava a molhar a certidão de casamento, que blasfêmia! Por que teria
ingerido tanto líquido à noite? Diabo, precisava acontecer! Levantou um pouco
mais as cobertas, ver se secava aquilo, soprou, ah o ridículo... aquele maldito
cheiro, o friozinho incômodo – levantou de leve a coberta, depois tentou
levantar-se, não acendendo a luz. Ela acordou assim mesmo: “o que aconteceu
benzinho?” Ele respondeu “hum?” para não responder, para retardar ao menos a
batalha perdida. Ela insistiu. Depois veio chorando para o marido envergonhada:
“não tive coragem de falar que sofro da...” chorava meio desesperada, porém
ele, o Tino, perdoou à sua fêmea, era casado de novo tinha ainda muita
querência... Não podia se esquecer. Bem, agora podia até sorrir por aquela
noite, dormir como um homem puro.
Pois
bem, é tarde e eu lhe confesso estar cansadíssimo do cansaço do besta de
meu-nosso herói. Herói negativo. Que tal me oferecer um café? Depois contarei
sobre umas ideias, certas minhocas encardidas virolando a mente do Tino.
Cap. XVIII – O homem, esse desconhecido, e seus
amores de
contrabando
Eu estava dizendo na última afirmativa sobre o Tino
que ele encontrou a fórmula para dormir após insônia, como fosse um puro. Acho
não ter exagerado; exageros maiores que os simplórios cometerem ainda será
pouco; o rapaz como sabemos era ingênuo vamos perdoá-lo. Então acordou cedo por
conta do despertador, aquela praga infernal que ele e sua Joana deixavam na
cozinha longe dos ouvidos sensíveis do sujeito, ela quase sempre dormindo como
um pau, enquanto o consorte temia uma provável insônia; e acordado, era o casal
sem dormir... solução encontrada: a peste de relógio escondido no armário da
cozinha lá longe. Porém às seis horas o mesmo peste era o amigão do Tino, e
como amigo o despertador perdoando a cara de sono e a raiva que o amo lhe devotava;
enfim preciso acordar mesmo, ir ao serviço. Como realmente ia diário, o café
ainda queimando a goela, indo ao trabalho brigar com os alunos exigir
exercícios e atenção na matéria explicada; depois voltava para o arroz com
feijão da Joana e o bife de chapa. Na época, antes de retornar para o segundo
período de aulas, lá se encontrava na mente do rapaz outra vez a impressão da
Norinha. A Joana a ficar no quarto costurando a roupa do nenê enquanto a
barriga permitia, ele ficava com a Norinha durante a lavagem dos pratos e esfregando
as panelas a pensar fixo nela e tudo que ocorrera na véspera, só acordando do
devaneio no momento que escorregara um prato fazendo barulho terrível,
assustando a Joaninha, já de si assustadiça; o Tino recolhe os cacos no lixo; a
retomar o pensamento. O jeito dela, a pressa, a possibilidade ser infeliz, tudo
o martirizava. O leitor me interrompe: concordo, o sujeito é demais encucado,
quando é que você sairá disto! O Tino, voltemos ao Tino, o Tino se perguntava
até onde seria o culpado, realmente seria? Então viajou com a ex-namorada ao
ontem distante, na cabeça sempre as minhocas, deixou o corpo lavando os trecos
da Joana. E a viajar com a Norinha, por mera associação, foi a outras paragens;
no entanto quase sempre acabava em ‘A’, sua terra natal. Dessa forma entrou na
estória a estória do amigo Clodoveu.
Não
era bem Clodoveu mas Clodoaldo, e isto já devo ter dito; um tipo bonitão, as
garotas inclusive se impressionavam quando o sujeito passava e diziam alto ele
ser lindo; o Tino é quem o apelidara Clodoveu, a brincar consigo nos colóquios
intermináveis entre ambos. O moço como retribuição chamava o Tino por Sabatino.
Quites, entabulavam as suas conversas nas quais misturavam filosofia política
crises nacionais e acabavam invariavelmente amenizando tudo com o assunto preferido:
mulher. É curioso, futebol não entrava no blá-blá-blá. O Tino para aguçar o amigo
sem fêmea e para também se deliciar a si próprio pela mesma razão ou mesma
falta, criava estórias a contar ao companheiro; ambos donzelos ainda, adoravam
tal assunto. O criador inventava a mulher perfeita, ia aos soquinhos a incluir
no caso “as pernas da Josefa” “os seios da Marli” e daí por diante, compondo um
verdadeiro franquesteim de beleza sem par. O Clodoaldo, imaginoso, ia
incorporando os pedaços; e quando o amigo lhe notava o brilho no olhar, aí
concluía a mulher se entregando chocantemente, ao gosto dos depravados! Assim a
chocar o companheiro. Então se despediam, quase sempre numa gargalhada. Estavam
os colegas nesse tipo de encontro, quando o Tino fora fisgado pela Norinha.
Andava a pensar justamente nessa época, ele estando exato no momento em que era
levado pela Nora para o matinho... quando as mãos bobas do sujeito acabaram por
derrubar uma pilha de pratos canecos e outras tralhas, só quebrando mesmo um
copo velho, assustando assim mesmo a esposa, a qual não podia assustar por
ordem médica estando a criança adiantada no bucho; e se assustou. Ele correu
para ela, deixando a Norinha desapontada.
Acalmou
dona Joana e voltou à cozinha nas suas altas funções, mesmo porque apenas
faltavam os talheres, o despertador em cima do armário grudando pela gordura
das coisas fritas, ele fiscalizando enxerido o amo a lavar garfos e facas;
faltava nadinha a acabar para a volta ao trabalho. Por essa razão quase nem
ouviu a Norinha chamá-lo ao matinho, ouviu sim. Foi.
Ele
deveria levá-la para sua casa, após a primeira sessão do Cine São Luís ou a
reunião das filhas de Maria, o Tino a esperar na escadaria da igreja bastante
impacientado: “até que enfim...” ela se desculpou pela demora, eles descendo
devagar meio com pressa por ser horas altas e o sogro não aceitava filha tarde
de volta, as perguntas chatas que fazia o velho e tudo o mais. Desceram o
baixadão e subiram a Rua Nove de Julho, tomaram a direção ao fim da cidade,
nunca sendo longe numa cidade pequena, ele gozando a moça por morar na última
rua da vila, no mato, o “matinho” como o namorado dizia a brincar com os
cabelos dourados. Eles andavam muito achegados, ele ensaiando um beijo que não
se animava dar por ser demais corajoso, ela se encostando mais ao rapaz por
causa do nível do terreno, sempre mui amigo dos enamorados; aí o Tino tomando-lhe
as mãos, abraçando a Norinha; e assim a Joana pegou os dois num flagrante! Ele
enxugou sem graça a colher pingando água no chão, o despertador mandou o amo
para o serviço, ele antes a beijar a Joaninha um pouco envergonhado, foi dar
aulas de novo. Ia sair, ui tinha o chão para limpar, aquelas manchas de sabão
secadas e resquícios da gordura espirrados no cimento e no fogão, que raiva,
pensou, bombril para limpar as chapinhas e os queimadores. O despertador
arregaladão ameaçadorzinho disse que sim.
Começou
às pressas limpar, bateram palmas. Olhou pelo corredor, despachou o pedinte mas
foi impiedosamente atirado pela memória ao velho corredor com balaústres de
madeira... trajava então roupas caseiras, segurava um livro de latim, o vento
lhe trazia aromas conhecidos, ele estudava e aguardava ansioso uma jovem linda,
a mais bonita entre as mulheres para ser exato, conforme pensa um rapagão emplumando...
Cerca de balaústre ligando a sua casa à da vizinha dona Teresa, uma
jabuticabeira teimando viver e o cimentado aquecendo as raízes e seus pés (o
Tino estudava descalço). Por cima um céu imperturbável aos desmandos mundanos;
quinze horas, quinze e cinco, e dez. Ela tardava, o suor das mãos denotavam
impaciência no rapazinho, umideciam as páginas do latim; o texto selecionado
pelo Padre Walfredo, o mestre que fazia o menino Juvêncio de palhaço na frente
dos outros: “o senhorr feio tô Korréia?” O aluno xingava mentalmente o alemão,
enquanto se encostava na lousa de sujar a roupa como bom brasileiro, o costume
manda encostar-se em todo lugar disponível, parede ponto de ônibus lousa; agora
saía com roupa suja para a carteira, envergonhado, uma vergonha com seus
desesseis anos e precisava tirar nove de latim ou ficava reprovado! Mãos
trêmulas a molhar as páginas execráveis do latim. Preferia vê-la. A passar
diário, passando agora das quinze... Suportaria estar de volta ao escritório, a
aguentar os colegas de serviço num pôr apelidos idiotas nele, melhor que
suportar o padre “Aesopus vinit vicinus latronis” diabo, será assim? quem esse
Esopo? que importava, ela passaria logo, atrasada mais de quinze, quinze e
quinze! Chegou-se à cerca, ver melhor, fazer de conta andar lendo o latim, espreitando
uma bela a desfilar; vem vindo alguém “a, ae, is..” o que o padre tinha contra
ele e sua garota linda? que tomasse lá suas cervejinhas, não se metesse nas
coisas de amor... “canis et...” ora, por que terá atrasado! quinze e vinte;
passará, jogará seu olhar enviesado para o corredor, da maneira que só ela
sabia fazer, um olhar cálido, mexendo suas células, em cadeia, o coração,
tremendo o cérebro, abrindo o apetite; num fazer o pobre tropeçar, tossir
interminavelmente; oh, se tivesse tido coragem enganchava a jovem...
conquistava a bonita, ah se conquistava! “Canis et...” cão o padre, a escola,
por que estava tão atrasada!? Quinze e trinta quase, ela não passava, quando
passava trazia um perfume na extremidade que dava para a rua e a fragrância entrava
pelo corredor, a saia colegial balançando, os pesinhos a enfeitar sua rua;
passava, buscando o rapaz sem olhar, mexendo consigo; ele grudar-se-ia ao seu
busto empinado, beijaria aquelas faces, e enternecendo-se nos lábios sem
pintura, se apossaria daquela beleza simples, ainda ajeitaria as tiras que
prendiam a saia, tiraria um cisco maculando a blusa branca, cheiraria seu
gangote, aí aplicando seu mais terno beijo; e antes que ela dissesse “oh” já
tomando seus livros a fim de conduzir a jovem para sua casa lá pra cima. Mas
ela não viera então, passava das quinze e trinta! “Canis, canis, canis”. Daí,
quem sabe se não temerosa, ela veio, passou na rua ali à frente. Passou com outro,
olhou caçoante para seu lado. Retomou o projeto de homem a tarefa do padre,
nenhuma jovem iria fazê-lo tirar nove, imagine só: nove de latim...
Vivia
agora o Tino com a moça do corredor, não chegou perceber o acabamento da
limpeza, pegou-se, surpreendido, a se arrumar rapidamente para o trabalho, o
sapato esquerdo não queria entrar por causa daquele defeito no pé; entrou, foi.
Encurtou
a rua Bom Jesus com pressa; não obstante precisou parar num velório. Sempre
tivera respeito para com gente morta; em menino temia não ser cortês suficientemente
com o defunto, depois ele vingativo aparecia conversar consigo coisas de
inconveniência na cama, tinha de puxar as cobertas tampar a cara no travesseiro,
ou chamar a mamãe se não era hora de se levantar... Nisso se pegou com o Lauro
olhões arregalados no afogamento! Bem, a rigor precisava tão somente pretexto
para ver a Josefa e as outras meninas simpáticas; viu, achou as garotas
apetitosas, ele andava com uma fome devoradora no solteirismo, a ponto de não
fazer muita seleção e por isso a Zefa se tornava ainda mais bela, mesmo num
velório; todavia não pôde livrar-se do Lauro defuntado na mesa pobre rica nas
flores com muitas rosas coloridas; guardou aquele cheiro nauseabundo das rosas
e sempre uniria o perfume a velório. O morto olhava para ele sem complacência e
curioso, indignado com tanta sem-vergonhice onde só havia respeito, aquele
fulaninho vendo as meninas e tendo lá ideias eróticas no local de se penalizar
um cadáver afogado nas águas escuras do Rio do Peixe. Então o rapaz deixou todas
elas para o Lauro; e encontrou diante de si um jardim com rosas a perfumar o
fim da rua Bom Jesus e o barulho irreverente dos alunos. Trabalho prova
exercício; explicação e muito fazer.
Veio
o dia do pagamento, o enxoval do bebê ficou com uma parte, a farmácia com
outra, fizeram as despezas do mês e começaram a Joana e o Tino nos planos para
o outro pagamento. Eles anotaram os gastos, deduziram do ganho, inverteram
tirando o ganho do gasto, pra ver quanto deviam; a rigor ele anotava ela
acompanhava interessada dando palpites. Procuraram tentando limitar a
ferocidade numérica através do subterfúgio da letra bonita (a dele horrível)
ou melhor dizendo, da letra caprichada.
Ao fazê-lo o Tino lembrou-se do tempo em que trabalhava num escritório, o Zé
Carlos num capricho de letra, o homem arredondava e apunha uns riscos
compridos, ensinando o molecão Juvêncio nos afazeres da escrituração, porém
intempestivo nos repentes para chamar a atenção dos meninos briguentos e fugitivos
ao trabalho; uma vez atirou uma pilha de livros fiscais por cima dos empregadinhos,
esparramando tudo num estrondo maluco; ao Tino coubera um ‘Livro de Selos’ aos
outros os de ‘Vendas & Consignações’ e ‘Registro de Compras’. Foram para a
rua levar suas tarefas. Agora disso o Tino se ria, a Joana não sabendo de quê.
É que lembrou-se do Dico lhe apelidando “Louquinho” por seu andar espantadiço,
continuou a rir, a mulher querendo esclarecimento, ele, maldoso, não contou
nada. Continuava a somar e a deduzir, fazendo seu apertado orçamento. Daí a
crise do país chamou o interesse ou desviou o interesse, a seleção de futebol igualmente
exigiu a atenção do casal a fim de não ver como demorava o outro pagamento. Ele
se esqueceu da Norinha e da mixórdia na sua juventude que ia tão distante, para
ficar mais nos cuidados que a esposa requeria prestes a dar à luz. Ora, pode
existir algo mais fantástico e apaixonante que aguardar um filho?
O
herdeiro monopolizou ao Tino; e muito mais claramente à mãe do filho dele. Você
já teve alguma vez essa experiência? É lógico que sua expectativa seja menor
agora que a da época do pobre Juventino esperando bebê, da Joana. O amigo
também anda na expectativa. Condoendo-se de sua situação tomo liberdade a
ofertar um café. Tome, depois conto como foi o parto do Tino.
Cap.XIX – Um contribuinte da estatística
contra
a guerra e a fome
matadoras das gentes
Eles andavam como seres humanos comuns pelas ruas
de São Paulo; eram mesmo seres comuns. Dois interioranos a conhecer a cidade
grande, a megalópole, nesses ônibus lotados por aí. Quase o Tininho nasceu num
coletivo, pois estava beirando já a hora da cegonha. Não, o pai não acreditava
na cegonha, embora ingênuo. O casal era só amores porém temperava tudo com as
atribulações da vida e a apreensão do nascimento, a ouvir as opiniões de todos
sobre aquela linda barriga, uns dizendo seria hominho outro mulherinha. Os
pais, ele querendo que fosse um macho e dizendo não se importar que fosse
menina, a Joana querendo mesmo menininha para depois vesti-la graciosamente,
mas preferia ouvir o que o marido falasse, concordando com o pai da criança
porque nada alteraria o sexo do nenê já formado e curioso a nascer. Hoje existe
o ultrassom a detectar, naquele ontem não havia, só a opinião das comadres.
Então o médico se intrometia no processo, controlando todo desenvolvimento da
gravidez. Embora a aparente aceitação do bom estado em que se encontrava a
mulher, não obstante o Tino saiu de madrugada a procurar táxi para a Joana à
maternidade; quase ele abortou, nervoso e impaciente. Encontrou o veículo. Pôs
a maleta dela no auto, seguiram; o carro quebrou-se por azar, foi preciso outro
automóvel; e aí se desesperou; naquelas horas ela é quem acalmava o marido,
ficando o homem menos nervoso. Chegaram. Virou pai dum lindo garoto, ele achava
lindo e não adiantando falar que nenhum recém-nascido tem feição definida, o
rapaz via beleza num centímetro qualquer do bebê. Ora, bonito é o que a gente
acha bonito. Antes estivera nervoso na espera, se fumasse naquele tempo, teria
fumado toda uma carteira. Agora passara a impaciência, era o contentamento! contentamento
não se descreve, não cabe na folha datilografada; talvez nem nas dos computadores
de nossos tempos. O Tino vibrou, transformou-se de homem comum a rei de
repente! Imperador. Deus. Ofertou rosas e chocolates à mamãe (curioso nesse
ponto não unir a rosa ao defunto, como impregnado na sua mente; no momento
sublime tinha a rosa como representante da vida!) Tudo para a mamãe: Ela era a
criatura mais bonita do Planeta, do Universo, beijou vibrando aquela santa,
Dona Joana, agradecido. Era sim totalmente feliz.
A
felicidade é um bem comum, ele é que imaginava ser apenas dele. Certamente
exagerava. Daí apareceu a Norinha outra vez no pensamento, a rir-se do rapaz,
seu desajeitamento de pai de primeira viagem, seu nervosismo, ou veio apenas
para lembrar que ela não era tão feliz quanto ele, por causa dele, ele pensando
que ela não fosse feliz suficientemente. E se entristeceu. Daí acordou, porque
iam trazer ao quarto o garoto visto pelo buraquinho do berçário, justamente a
oportunidade para Seu Juventino vê-lo perto. Então papai se afundou outra vez
no contentamento e extravasou e se esbaldou na chuva da alegria. Num instante
lembrou que agora precisava pegar ainda mais aulas no colégio para as
mamadeiras e a alimentar mais a mãe produtora de suculento leite. Assim fez com
a Joana os planos para aquele filho, como outros pais suficientemente
imaginosos costumam fazer. Num golpe de mágica o moleque virou doutor, presidente,
cientista, santo. Já era um santo, ou mais precisamente um anjo. Nesse ponto
chorou berrou o garoto, decerto assustado com tantos e tantos encargos e o peso
da responsabilidade; daí foi levado de volta ao convívio de outros doutores
presidentes cientistas e santos no berçário. O pai correu, medroso perder o lugar,
ao cartório de Moema para documentar o nascimento do primogênito – à
posteridade – andava entusiasmado com tudo.
Dessa
forma o Tininho aumentou a população, pois seu pai vivia impressionado com a
Guerra da Coreia e a do Vietnã, e mesmo ainda contava as perdas em vidas para a
Humanidade naquelas catástrofes evitáveis. O Tininho andava ali no livro do
cartório com testemunhas e tudo o mais, dentro do rigor da lei, a repor na
estatística mundial, fazendo mais um gol para a equipe do Nascimento Futebol
Clube, pondo o da Mortalidade Atlético Clube na defesa! Papai orgulhoso e num
entusiasmo sem tamanho.
Esse
foi o primeiro. E veio o segundo. A segunda, pois era garotinha. Não deu tanto
trabalho para a expectativa do casal, por contar já com a experiêcia do primeiro
filho. Assim mesmo projetou a família inúmeros caminhos no mundo da imaginação,
numa torcida medonha para que fosse menininha. Papai sonhava com isso. Só tendo
um senão: filho de professor precisar vir nas férias para não complicar a complicada
vida no magistério; e a garota não sabia disso, apareceu quando ainda se
encontrava o casal discutindo quando teria o segundo rebento. “Tem certeza
estar grávida!” Depois o médico confirmou e desandaram os pais fazer os planos
e a torcida para ser mulher. A experiência falava mais alto, o Tino se indagou
por dentro: e se a menina chorar dia e noite como o Tininho? deu nele um frio
na barriga... Ela veio ao mundo e não foi chorona como o irmão. O casal Tino-Joana
contava agora com a segunda criança, a garota mais bela do Universo; fizeram os
pais seus planos em função da menina, tudo equivalente ao que fora feito para o
menino, chegou a miss a rainha a deusa, fizeram também a menina chorar,
assustada como seu irmãozinho. Engrossou a estatística, outro gol ao time do
Nascimento Futebol Clube.
O
jogo pendia por dois a zero para o Nascimento F.C., o Mortalidade A.C. que se
cuidasse, dessa forma tremendo a Guerra do Vietnã, embora com napalm e suas
Fortalezas Voadoras B-29.
Assim
com os primeiro e segundo filhos; depois vieram o terceiro o quarto o quinto...
Pensa que ele junto com a linda Joana, a dos olhos deste tamanho, deveriam
cobrir as perdas do globo e povoar o mundo sozinhos? Ele um rapaz pacato, sério
apesar ingênuo, e pobre bastante pobre para arcar com tantas bocas... uh tenha
dó! Já ele era pai de cinco, puxa vida. Ainda tendo a contabilizar um aborto tubário,
no qual quase perdeu sua querida esposa e ficou horas aflito no sagão do
hospital a mitigar uma irformaçãozinha que fosse sobre a situação de sua amada,
não gostando sequer lembrar-se. Seriam portanto seis filhos! Encontrava-se
nosso herói perturbado.
Ora,
não se zangue com o Tino, nem comigo, aceite um cafezinho (antigamente havia
acento grave no ‘e’ não é mesmo?) aceite um, para fazermos as pazes. Depois
disso contarei outra faceta desse grande procriador, muito pouco patriarcal.
Cap.XX – Lembranças da memória nem sempre muito dignas de um senhor respeitável
Eu lembrava faz pouco as bravatas do Tino na amarga
estrada do viver. Punha meu ingênuo personagem como um mestre reprodutor, o
qual havia chegado a cinco filhos e talvez um dia houvessem outros a contar...
(que raiva tenho das reticências!) se bem no dizer do povão – o futuro só a
Deus pertence. O futuro naquele passado. A questão posta não era apenas o de
procriar, pois isso relativamente fácil, especialmente levando à conta Dona
Joana Angélica Catuaba da Silva ser das fortalhonas, o protótipo da fêmea
parideira de nosso sertão; além de estarem numa cidade cheia de exemplos, populosa,
porque viviam na capital bandeirante e digo isso somente para lembrá-lo da
coisa, sem haver necessidade. Todavia acontece um porenzinho: seu íntegro
marido, o da Joana parideira, respeitável pagador do imposto de renda, era
pobre; já era pobre no primeiro filho (desconta no imposto o filho?) sim, pobre
no primeiro e no quinto continuava pobre ganhando o que sempre ganhara. Um
esclarecimento: não falei miserável e sim o Tino ser pobre. Em matemática, se
não devo ter provado fugir da escola, são como resultado um dividido por cinco:
cinco mamadeiras, cinco pães (os pais é lícito imaginar também comerem, sempre
deixam o melhor aos filhos e se contentam com as sobras) ainda uma porção de
fraldas cueiros talquinhos chupetas multiplicados por cinco; e o salário do
pai, o Tino, como falei, continuava o mesmo, numa curiosa luta e luta ainda
contra a inflação. Portanto o salário dividido por cinco (deve ser isso, sempre
tomei segunda época como se dizia na matemática!) Ora, mais justo afirmar que a
família ficou mais rica em filhos e mais pobre em dinheiro. Aliás os
pobres são sempre ricos na falta de recursos.
Tal
situação punha nosso amigo num coçar a cabeça, num arrancar cabelos; a bem da
verdade não arrancava coisa alguma, porque a natureza já fizera de graça o
favor a ele, era calvo, apelidado nas classes após entrega das notas vermelhas
na prova “aeroporto de moscas”. Isso levando o Tino a ficar ainda mais feio do
que fora moço cabeludo, ou no falar da senhora Joaninha (mulher é mesmo às
avessas) na sua matracação com dona Cota nas vizinhanças: “meu esposo anda
menos bonito nestes dias”.
Como
não estamos aqui para discutir gostos e estética, mas somente relatar fatos,
vamos aos fatos. O Tino vivia nervoso, neurótico mesmo. Entretanto não dizia
nada a ninguém, pouco ou quase pouco ou menos que o pouco o pouco que se sabia,
partindo dele; apenas era possível constatar que suas classes tomavam conceitos
baixos e nenhum trabalho dos alunos prestava ao professor. Nessa altura xingava
muito mais ao governo do que normalmente, o governo tem costas largas e costas
quentes ao povo, por sinal geralmente com razão. Isso nos últimos tempos. Um
pouco mal-humorado, isso flagrante. E se tivesse dinheiro iria ver o jogo do
Corinthians, atirar casca de laranja no campo e desprestigiar a mãe do juiz,
para acerto na personalidade.
Entrementes
procurava pessoas ouvintes no seu meio, os colegas; ouvindo como troco as
lamentações deles. Não tinha lá muita sorte com respeito aos colegas do outro
sexo (um senhor casado tem de se preocupar com isso! ih deixa pra lá) não tinha
sorte com as mestras. Ou melhor dizendo, não procurava contato com as filhas de
Eva, em não ser no campo restrito do serviço, vendo nas possíveis beldades o
espírito que cada um de nós traz, independente do sexo que a sociedade nos
impôs. Elas seriam para ele uma espécie de mulheres sem sexo! Paradoxal, não?
Não
seja apressado no julgamento do infeliz, não vá imaginá-lo um casto um santo.
Verdade que respeitava Joaninha, amava a moça e aos cinco filhos. Aqui insisto
o que falei dele para com a Norinha: o homem era fiel até às últimas consequências.
Você me aborrecendo com lembranças das garotas mineiras com quem andou o
vendedor das Pilhas Multinacionais... isto senão. Fora fiel à Norinha, depois
sendo fiel à Dona Joana. Devia ser destino, mesmo ele sendo ateu não cresse no
destino, nem eu creio e suponho que você também, mesmo assim devia ser mesmo o
destino na questão da fidelidade. Fidelíssimo. Nas oportunidades que teve –
teve muitas como a santa memória do Tino vomitava – nessas oportunidades
faz-nos pensar tomasse outros caminhos... Como no caso da Cidona, por exemplo,
a que apreciava cuecas vermelhas... Exatamente, apenas umas reticências podem
salvar a afirmativa.
A
Aparecida era um mulheraço desses que envergonham o esposo quando saem
dependurados nos braços do seu homem, a balançar as ancas para mexer com os
machos de plantão discutindo futebol na esquina. A colega era sabedora dos seus
predicados e se achava linda; tendo razão. Quanto ao Tino, ele por voto de
castidade ou fidelidade, sequer poderia dar uma voltinha com ela, coitado! Bem,
essa donzela não possuía marido (geralmente à esposa é posse) e vivia a falar
estranhamente entre os colegas homens na zorba vermelha: o irmão usava zorba
vermelha, um amigo do irmão usava zorba vermelha, e olhava para os outros a
colher eco... envergonhando ao Tino, enrubescido e apegado ao voto salvador das
tentações mundanas o diabo, ou a diaba, à solta, um pecado a menos no
purgatório. Não tinha coragem dizer para essa jovem que ele usava ainda cueca
samba canção, mui vergonhoso. Ela, a bela da zorba, um tanto coquete e enfeitada
atiçando o neófito no terrível jogo baixo do mundo; se bem que para um ingênuo
por todos os meios nos quais estiver inserido ele seja um neófito.
Contudo
a consciência é que não dava muito sossego. E vivia a incomodar a memória e o
coração do nosso amigo. O coração tomava as rédeas, freava ao Tino e ele a galope
voltava correndo à mulher e à filharada. Conversava um pouquinho no lar, a
família perguntava se passara no banco, se pagara o carnê e o aluguel; beijava
as crianças; a esposa, dela já perdera o hábito do beijo; e se beijasse a
Joana, com certeza ela desconfiaria de alguma coisa nele, como uma criança crescida
a qual oscula antes e depois pede dinheiro a comprar doce. Ele era macaco
velho, não caía do galho, como fala o povo. Beijava como reforço o caçula, ao
outro para evitar ciúmes, ao do meio para não praticar injustiça e aos outros a
satisfazer sua consciência meio pesada; não mais à consorte, a qual ficava tão
somente no “oi”; olhou daí para as crianças, elas vinham com tais e tais
reivindicações e eram tantas as reclamações das coisinhas delas próprias, que o
Tino teve de fugir pela porta dos fundos; então pegou a memória desprevenida,
fê-la contar outros casos, no vomitório geral, quando a gente relembra os
mortos da gente, dormindo dentro do cérebro. Daí não quis mais saber da Cidona
Pornográfica e suas cuecas. Pensou na Maria Helena.
A
Maria Helena não chegava a ser a interiorana bonita. A Cidona convivera com ele
na periferia de São Paulo, enquanto que a Maria Helena era parte de sua
juventude, no momento que ele deixara o Tiro de Guerra 227 e ingressara na
Escola Normal para tornar-se professor. Boa distância no tempo e no espaço,
próprio do vaivém no pensamento, considerando a memória não ter dessas
veleidades geográficas e temporais, justificado está. A moça possuía olhos
tentadores, enfeitando uma garota casadoira, dessas mulheres que todo pretexto
virando causa de matrimônio, ou na pior das hipóteses para namoro (e depois
casório). Acontece que a jovem cobiçava o Tino, feio para nosso padrão de
beleza, concordo com você, mas com mulher é diferente, está lembrado do caso da
Pipoca que falei já... pois é, ela apreciava, ela aqui quer dizer a Maria Helena,
o Juvêncio soldado de todos os caxias de nosso exército. Outra coisa, é visto
sempre a ajuda das outras mulheres e até de homens a um possível par a ser formado,
aquela ajuda social a empurrar, enfim para que depois os jovens se unam pelo
sagrado casamento e ‘sejam felizes para todo o sempre amém’; no caso, não
havendo o ataque da parte socialmente admitida como atacante e nem do macho como
atacante (todos pensam deva ser o macho a procurar sua fêmea, nos tempos atuais
a coisa se inverte) não havendo os atacantes como eu dizia, a própria senhorita
Maria Helena atacava. E como! Lembrar que por esse tempo, aí por volta de 1957,
o rapaz era já formado e diplomado na ingenuidade. Ela no entanto facilitando a
tarefa para ele. Não deu em nada, por razões óbvias. Ela gordona, as grandes
ancas bamboleando devagar, com olhares ternos tênues e submissos ao meninão
magrela como bacalhau (que será ter o mundo contra o bacalhau, não me consta
seja tão magro, o Tino sendo muito mais esquelético, desse tipo que nos machuca
até olhar a ossada furando a pele); o sujeito entretanto era analfabeto na
linguagem dos olhos e do amor. A moça, numa última tentativa, quis levá-lo a
conhecer a mãe, quem sabe ele fosse desses casos singulares de querência por
sogras! Não era. A velha, moça ainda, um tanto magra sem ser bacalhau conforme
o Tino, simpática, ela não conseguiu ajudar a filha. Enquanto isso a gorda
amiga de nosso maluco teve de satisfazer-se apenas com a amizade e o coleguismo
do sujeito, apreciando a tirar-lhe uma casquinha vez por outra quando surgia na
aula de cabeça pelada; e fazia “oh!” o ‘oh’ mais desanimado possível, xingando
ao barbeiro que tosara a juba do seu medroso leão. Talvez o rapazote cortasse
seus cabelos para obter esse transe nas colegas, ou que fosse tão somente para
não ter de se pentear manhãzinho. A Maria Helena não se conformava com a
depenação. Nem por isso casou-se com ele, como sabemos; desposou um outro. O
nosso herói logo seria presa da Norinha, esta substituída com vantagem pela
Joana. A lembrança da Joana Catuaba atirou-o violentamente para o hoje, daquele
dia; tinha de pagar uma prestação do berço da última criança fabricada com a esposa.
No entanto
não conseguira empréstimo com nenhum amigo, para limpar o nome, liquidando
também as prestações outras atrasadas. Ultimamente a atitude do procurar
dinheiro por aí para saldar os compromissos se repetia com frequência, ele se
encontrava na fase de achatamento salarial pelos progressos da inflação; o que
não apenas drama do Tino mas dos tinos que compõem a classe trabalhadora da
nação. Arrancar mais um fio, dos poucos que sobraram na calva tiniana. Porém
quando a dor moral andava mais gostosa, quando a gente pensa ficar louco, a
sair gritando por aí ser o rei da China e tudo o mais – nesse dito momento
fugiu apressado por uma janelinha qualquer. E encontrou sorridente a Marilena.
Daí foi
passear com ela pelas ruas do sem fim, Lena de cá Lena de lá, tanta confiança
com ela! quando estudavam filosofia juntos, mesmo quando ela lhe dava tanta asa
ele poderia dizer-lhe o que pensava; sem poder falar contudo que a considerava
sensual, que apreciava seu jambo de pele e as filigranas de pensamento atraindo
deveras, a menina era inteligente; ele imaginava casar-se com a mocinha qualquer
dia. A Lena ia com ele para todos os lugares que o pensamento admite; pensava
nela no chuveiro e se esquecia de sair da água; ia com ele para a cama, curtir
consigo a solidão de solteiro sem fêmea; e mesmo andava com o Tino pelas ruas e
esquinas, ocupando sempre lugar de destaque no pobre cérebro. Ao entrar na sala
de aula de História Contemporânea ou de Teoria, pronto, a Marilena oferecendo
um sorriso de realidade, também sensual, porém mais longíquo que as distantes
raízes da imaginação; daí o chamava deliciosamente “Maurice” que inventara para
ele, tudo era aliás delicioso em partindo da garota Lena; por que o apelido?
nunca soube o Juvêncio. Assim o Tino viveu dois anos dos quatro juntos na Faculdade,
na expectativa dum oportuno falar à moça, dizer seu amor, deixar Hitler no seu
costume de exterminar judeus e também deixar Henri Sée e outros teóricos na
paz, e só tratar com ela das coisas do coração. Um dia ajuntou força e criou
coragem pra vencer definitivamente aquela bela morena. Nesse dia, um dia depois,
ela apresentou-lhe seu noivo... Esse choque lembrou ao moço outro, e recuando
ainda mais, foi à ré no tempo, porque o tempo come para frente e para trás,
quando viu se viu diante de garota linda amada, acompanhando outro homem, um
jogador profissional do time da cidade, obrigando o então meninão Juvêncio a
derrubar sem saber o livro de latim. Ah terrível provação! Fugiu dela, da
Marilena, correu como quem fugisse dum buraco sem fundo onde estivera
encerrado; e debandou sem olhar para trás, viu de relance sua colega Lena e o
noivo, mostrou-lhes a língua malcriadamente. E continuou a viver como bom menino
ao lado da amiga. Havia numa compensação a Leonice, a Leico, as demais colegas
belas para se relacionar. Procurou não saber mais nada do que ocorria no
noivado da garota amada; vingança.
Naquele
momento de uma recotrdação bem amarga para ele, doía-lhe a consciência também.
Por isso viajou rápido para a casa da
Joana, no túnel do tempo que inventara, sem contar para ninguém sobre suas
falcatruas. Antes de entrar no querido lar, deparou-se com o cobrador de não
sei o quê. Deprimiu-se outra vez, como convém nessas situações.
Não
há quem tolere cobradores, ele reagiu voltando para a Faculdade. Pisou a grama
como um colegial, embora adulto, riu-se de nada por ser tudo, abanou um “oi”
para o presidente do grêmio estudantil e adentrou o corredor; depois se viu na
biblioteca compulsando alguma raridade. Lá encontrou a Leico. Porém não se
surpreendeu por ter já acabado a aula sem assisti-la, interessava mais a companhia
da moça. Deixaram a escola e desceram a Rua Nove. Era agradabilíssima e podia
junto dela expor o que pensava sem receio, pois confiava na japonesinha.
Examinou-a dos pés à cabeça, gulosamente; achou ótimo que pensassem os
transeuntes ele fosse seu namorado. Imaginou imediato os filhos que teriam, mesticinhos,
os mestiços são lindos. Ela perguntou-lhe quase à queima roupa se era favorável
a matrimônio misto, porque isso estava há muito tempo no seu pensamento, preso
de tradições nipônicas. Ele sim favorável, por que não seria? se nascera numa
área da colônia asiática, quantos exemplos de uniões assim presenciara. Não,
não era contra casamento entre raças diferentes, especialmente se a moça fosse
bela como sua colega... Ela sorriu do gracejo aceitou o elogio; então disse
indiretamente estar presa por costume a um nissei, sem amá-lo. Depois casou-se
com o pretendente; assim o Tino ficou a curtir mais um apego ou saudade.
Talvez
mais saudade dele próprio, geralmente ao sentir a lembrança dos outros sentimos
realmente nossa presença no ato que nos lembramos; era jovem e cheio de planos
extravagantes. Agora executava os planos com saudades do passado. A ele não
sobravam alternativas no hoje. Era pagar a prestação, correr por aí na busca de
alguém que se dignasse a salvar um nome e desse por empréstimo uns míseros
cruzeiros. Oh pensando bem, para que salvar um nome?
Por
que salvar um nome comum? Juventino, Juventino da Silva, grande coisa! Haveria
decerto centenas, milhares de juventinos neste mundo. Tanto que se um velho
louco, desses que aparecem muito na Inglaterra, anunciasse por zelo só justificável
nos dementes, uma herança qualquer igualmente doida, a um José da Silva
existente nesse mundo de Deus, apareceriam a recebê-la bem uns dez bilhões
(não, não podia ser, errara no cálculo, a Terra não chegava ainda aos quatro bilhões;
trocou por modestos milhões, costumava se perder nos números e nas cifras
matemáticas) seriam uns dez milhões ou mais. Decerto com os juventinos por aí
aconteceria a mesma coisa, pouco menos; estava convicto ter mil e um homônimos;
o episódio da compra do sofá deixava clara a situação: para provar à Associação
de Proteção ao Crédito que ele não era outro, tão somente ele mesmo, que havia
lá uns biquinhos safados e não era outro homem – ah isso foi longe. Quer dizer,
teve de provar que não era Juvêncio da Silva, para demonstrar ser Juvêncio da
Silva! Realmente um contrassenso. Era isso que andava tentando salvar? bolas!
(ele disse realmente outra coisa ao outro lado da mente, um sonoro palavrão
aprendido quando moleque no grupo escolar, ficou no “bolas” por homenagem à
Dona Alice, excelente professora do quarto ano). Daí fez o que devia: não quitou
a prestação e sentou-se no sofá, aquele que tanto exigira dele, sentou-se com
suas crianças, e elas adoraram a iniciativa de papai; ligou a tevê, ou melhor,
mudou de canal e somente achou novelas e comerciais. Por isso ficou vendo sem
ver, prestando atenção mais nas brincadeiras dos filhos e nas briguinhas. Logo
havia um enovelado de meninos por cima dele, a procurar carícias – como a
infância é faminta de carinhos! – a perguntar um tudo, julgando papai sábio.
Num instante transformou-se no sábio, professor, mestre em vida, a submeter o
público mirim desejoso de conhecimentos. Nesse ponto Dona Joana aportou na
sala, se atracou na poltrona, também desinteressada nas novelas, a poltrona à
sua frente; ele ficou chateado. Não que ela quisesse conferir se o sábio
ministrava conhecimentos adequados aos garotos, nem demonstrava ciúmes por seus
filhos serem só dele agora, porque eram mais dela o dia inteiro; porém é que a
mulher perguntou onde houvera estado, tanto demorara... Ele, santo, sem poder
responder a contento, iria falar que estivera com a Cidona vestida de zorba
vermelha, ou apreciando as nádegas da Maria Helena, ou abraçando à sensual
Lena, ou muito menos casando-se com a Leico japonesa? Afinal de contas não
ficava bem. Respondeu sem muito ânimo, murcho: “tava dando aulas”. Daí se
lembrou, feliz, que procurara abater as dívidas com dinheiro emprestado, não
conseguira recurso... assim a explicar o atraso de duas horas para a janta e...
bem, como dissera nada conseguiu; baixou o olhar, infeliz. Ela, porque muito
sentimental e compreensiva, achegou-se ao Tino, pôs a mão esquerda nos seus ombros,
fez massagem como carícia, a fim de desanuviá-lo. Então partiu esquentar a
comida para o esposo.
O
alimento aquecia e cheirava na cozinha, os meninos foram chamados a brincar por
outras crianças vizinhas – o barulho era infernal lá fora. A tevê vomitava
lugares-comuns e chateava a todo público, ele. Acendeu outro cigarro, agora se
tornara inveterado fumante; deixou o envenena peito brincando de queimar o
braço do sofá para Dona Joana zangar-se, e se lembrou do quê não se lembrar, se
embrenhando no repositório de besteiras que era sua memória. Lá encontrou uma
certa Denise...
Ele
brotava de farda verde, a raspar os cravos do coturno nos paralelepípedos
urbanos; e andava todo orgulhoso e garboso por ser um soldado do exército nacional;
e ainda por cima ter-se descoberto homem. Grande descoberta, por sinal, de uma
criança ingênua. Descobrira nesse contexto o amor, um amor sem coragem de conquistar
o amor. Então ficava no seu ofício de auxiliar de escritório no escritório do
Sr. Alaor; e na hora do almoço ela, a Denise, passava por ali. Descia a rua São
Luís, olhava para ele convidativa, decerto olhava também para os outros homens
– dizem das jovens dos dezesseis serem como o sol, olham para todos! – ele é
que se imaginava o centro do universo: seria um tinocentrismo não
suficientemente estudado pelos filósofos e astrônomos. De maneira que ela
passava para não se sabe onde, e voltava de não se sabe onde para onde saíra,
sua casa certamente; e roçava o olhar terno e malicioso ao estatelado e viciado
rapazinho servidor do exército brasileiro nas horas vagas; e o moço a apreciar
bem a garota passar. Ela sorria pelos olhos azuis e nos lábios de beijar; ele
sorria correspondendo indo após admirar a jovem na porta de aço, a deixar a
máquina de escrever abandonada, somente para vê-la descer a rua ou subir,
desejar aquelas formas simples e atrativas femininas. Todos os dias era assim
no almoço de plantão no escritório. Todos os dias formulava seus audaciosos
planos de conquista... Ah mulheres, Don Juan Tino da Silva andava se
preparando! Numa segunda-feira, um meio-dia no relógio barato que ele guardava
no bolso de níquel, suando em bicas talvez no nervosismo da insegurança, sabidamente
inadequada para grandes conquistas amorosas, ele, D.Juan, indo à caça por aí,
abordou a Denise na avenida, largou a porta semicerrada do trabalho e voou para
a avenidona para cercá-la, abordando de vez a Denise, passando, corajoso, como
nada a desejar, por ela e as suas colegas, avançou, fez a declaração! Ela
entretanto foi demais feroz e ferina nas respostas e expôs o Tino ao ridículo
no meio do público, gozando seus galanteios frouxos e sem-graça, até com
gargalhadas dum coro (parecia houvesse combinado o gozo com sua banda!) No
entanto ele seguiu como fosse um nobre, sem olhar aos cães, a rigor cadelas,
que ficaram rindo atrás. Assim perdeu uma noite de sono, não por pensar nela, a
fim de formular uma vingança cruel à desfeiteadora Denise. A primeira vingança
foi mudar seu nome, o qual ele desconhecia mesmo, havendo apelidado a menina
assim como ponto de referência; mudou para Belmira, nome que achava horrendo e
bem adequado à moça que o havia envergonhado. Depois aplicou outro plano mais
hediondo ainda: quando ela passasse na frente do escritório, ele não se levantaria
da tecla (verdade saber antecipadamente que erraria horrores, gastaria a ponta
da língua molhando a borracha pra apagar remontes das letras e troca das
mesmas; isso compensaria, ah não tinha importância refazer inclusive a guia de
recolhimento inteira!) pois não se levantaria e quem sabe não tivesse coragem
suficiente pra fazer um muxoxo atrevido visível à Belmira! (chegou a imaginar
um sinal pornográfico, porém era um nobre ofendido, não um sujeito de
periferia... não obstante morar na periferia). Feito isso, lavou o rosto do
sono não satisfeito, entrou no dia de trabalho e então executou ferozmente
também, el vingador, a segunda etapa do terrível desiderato. Não
entendeu o porquê da jovem continuar passando diário na frente do serviço, a
sorrir gostoso para si (quase voltou atrás na honra, se escarrapachando aos
seus pés de fada!) É, as mulheres são de fato atrapalhadas e enigmáticas, pensava
o garoto Tino. Aí assustou-se todo pela voz alta que usou contra a Denise, xingada
Belmira, quando Dona Joana entrava também na sala no momento, mandando desligar
o aparelho das drogas vídeas e ordenando que fosse comer na cozinha para não
derrubar feito criança restos no tapete. O bife estava arreganhado, não tinha
importância, fazia bons dias que não entrava carne na casa, as novidades são
sempre bem-vindas mesmo estando arreganhadas. Depois veio a sobremesa o que se
recebe após refeição num lar pobre: café.
Ah
café me lembra que o amigo é louco por ele. Não o censuro pelo bom gosto; sei
não apreciar o café tipo água de batata igualmente, que o Tino andava a engolir
por vingança da mulher dele, a Joana, no fato ter andado com tantas outras, em
lugar de pagar a prestação do berço do último (por enquanto, supunham,
preocupados) o último Catuabinha da Silva. Preferimos um café forte, fogoso de
quente e cheiroso. Desses bem do sabor brasileiro. Pra fazer boca de pito, se
lhe convier. Olhe, cá entre nós, diz o ditado “quem não tem cachorro caça com
gato”; um café, mesmo fracote, será melhor que um uísque ou uma cerveja. E tem
o valor de prestigiar o que é nosso. Não acha?
Por
sua vez o Tino não tirava essas conclusões. Inclusive diria ele não estar onde
se encontrava. Andava longe longe, de tão perto. Voltava-se para o futuro, que
outra coisa não é se não um viver antecipado, por pressa que seja, ou por deplorar
o presente, ou noutra hipótese para fugir do passado... O passado e o futuro
destroem o presente de qualquer um. Vejamos, como conclusão deste relato
chinfrim, o futuro do rapaz.
Cap. XXI – O futuro, antes um resto do passado
Tomava seu café requentado como sobremesa, Dona
Joaninha se vingara. O sabor da infusão deixava esquecer a comida ainda quente
no estômago; a compensar foi atirado com violência à Segunda Guerra, sendo
apenas um menino. A custo a goela deixava descer ante os olhares severos de mamãe
um café adoçado com cana-de-açúcar, a “guarápa” no linguajar do dono daquele
casebre caboclo nos cafundós, uma gente sem possibilidade a ficar nas filas do
racionamento de sal pão gasolina açúcar; no lugar do açúcar branquinho moendo e
adoçando aquele café horrível à visita citadina, na opinião do moleque Tino,
para ele fazer cara feia na sem-cerimônia envergonhando os pais na casa
hospitaleira. Não era correto agir assim, corrigiu Dona Alice Matos, no seu
linguajar carioca sibilando esses e aí pediu desculpas à querida mestra, sem
perceber que um acontecimento distava anos do outro. A seguir quase engasgou no
café requentado pela realidade joanina. Lembrou-se se lembrar muitas vezes da
respeitável professora das primeiras letras; e isso acontecia sempre ao ferir
os bons costumes; mentalmente agradeceu-lhe a lembrança, já crescido nos seus
treze anos. Daí voltou à sala.
Olhou
a tevê desligada, ligou sua televisão da memória, a fugir da incapacidade a
vencer problemas terrenos e palpáveis – a assistir angelicais noções de
juventude fugidia. Visitou a meninice, quebrou vidraças, usou estilingue e bola
de vidro, esta na sua região conhecida por ‘búrica’; apertou campainhas, correu
e mais correu. Então se deparou com a Rameme. Ela andava esquecida no seu
diário de mocinho meio moleque. O qual
dizia: “Rameme. Descobri que se chamava Rameme. Fiz um ‘R’ na areia do
chão de minha terra; cortei a canivete de cinco mil réis o tronco do
pessegueiro, configurando a letra, brotava inclusive a resina na ponta da
lâmina como sangue da árvore que eu feria. Acho que estava apaixonado, amando,
seria a primeira vez?”
Na
idade em que se ama a vida, a vida de nada valeria sem seu olhar oblíquo. Desci
da bicicleta, fiz minhas pernas com dezesseis anos andar empurrando a magrela –
somente para não passar imediato por ela, para gozar seu perfil feminino
delicado, à distância. Acabou a subida da rua, veio o cruzamento plano, elas
continuaram a empurrar a bicicleta devagarinho, num andar mole dos que não têm
pressa. E o imposto do Escritório vencia daí a pouco, que importava? despedido,
procurava outro emprego, não iria perder o prazer de segui-la... Seu vestido
acabava por saia larga, beije, num zigue-zague; as extremidades do pano balançavam
como ondas do mar, o mar que eu ainda não vira, vira nos filmes; e depois
tocavam de leve a doce praia roçando ora a frente esplendorosa, de onde subiriam
umas coxas firmes e um ventre macio; ora a traseira, mostrando-se vincado às
nádegas; então ouvia imaginando o farfalhar, os sons ocos que fazia... Desejava ser o vestido da moça – era o
admirador da menina coberta pelo vestido. Dobrou a rua Pedro de Toledo,
dobramos.
Fez
trejeitos, notando-se admirada por mim. Voltou-se como rainha, olhou para a
frente para ver atrás, como fazem as fêmeas, da maneira de quem nada quer, e
quer; olhou para frente, pressentir se eu ainda a seguia... Mais de semana a
mesma coisa. O imposto?! Seus cachos no cabelo, caindo nas costas, o vento
teimoso empurrando-os à frente, ao pescoço, interminável luta de mãos delicadas
repondo aquele enfeite da natureza no lugar, a brincar gostoso com o vento.
Seus traços árabes, sobrancelhas negras e grossas como fossem para-lamas a brincar
com duas jabuticabas, lábios de me beijar!? Oh demais pra mim, disse no pensamento
o Tino.
Ela
entrou na sua casa. Fechou o portão, sorriu muda ao namorado, tinha de me
considerar namorado! Amanhã no almoço passará outra vez. De novo tomarei a
bicicleta, pra ver o balanço da saia nos joelhos, escondendo as pernas grossas.
Voltarei a segui-la, sei disso, receberei seus sorrisos. Terei coragem, falarei
com a R... quem terá dito chamar-se Rameme? Se assustou com a lembrança: onde
estaria agora seu velho diário; e se os meninos houvessem encontrado, a
desenhar garatujas; riscado espalhado pela vizinhança por aí! e, pior ainda, se
a esposa houvesse achado esses rabiscos da juventude toda coração... Bobagem,
respondeu-se, ela nem conhecia essas fraquezas literárias do consorte, que dirá
encontrar aquele diário comprometedor?
Andava
nestas conjeturas quando ouviu passos fortes, Joana vindo na direção da sala.
Desligou a tevê da memória, ligou a disfarçar a tevê da sala, na ocasião
vomitando imensos anúncios em suaves prestações, foi fumar ressabiado na janela,
a assoprar fumaça para fora. Aproveitou-se do momento para olhar a mulher do
Sargentelli. Era assim que chamava brincando à mulata da casa frente à sua e
começou a rir e a bater papo consigo mesmo (num cuidado com possível ouvido
aguçado de Joana...) E se dizia, ao mesmo tempo se respondia, a brincar de
bobo: “Faz muito tempo mora aí nessa frente a garota. Nos meses que imitei o
tatu, dentro de um invólucro de gesso a fiscalizar minhas vértebras
acidentadas, ela distribuiu sons guturais pelo bairro, um nhe-nhe-nhem
engraçado, que se sobressaía no tró-ló-ló das comadres na rua, durante a
conversa infindável sobre o ramerrão as doenças os bolos. Só pude ouvir, preso
à doença. Levantei-me afinal. Não está melhor que era antes. Impossível. Seu
olhar se filtrou por entre galhos de meu pinheiro, uma árvore teimosa à sanha
dos homens, os quais destroem toda vegetação impiedosamente; passou pelos
galhos espinhentos sem se machucar nas pontas da araucária; pelas abelhas, pelo
sol, chegaram aqui esses raios; provindos de uns olhos brancos, que só os
negros conseguem ter. Um lenço pintado cobrindo a cabeça mulata, deixando livre
um rosto simpático, destoante do gingar e da voz. Abaixo o corpo bem
disciplinado e suficientemente distribuído – manhas da natureza? – as pernas
para manter o andar bonito e difundir que a beleza ainda não se acabou... Uma
beleza diferente, causando inveja decerto no mulherio da vila. E para assanhar
os rapazes da padaria. Ela marcha inperturbável, se mostrando ingênua, quando o
instinto e os gracejos revelam-lhe o mundo masculino aos seus pés! Violão de
carne e osso, esbanjando o que outras tantas buscam desesperadas nas fábricas
de maquiagem e nas drogas cosméticas. Tão simples e ingênua. No entanto vende
por meio salário-mínimo seu trabalho de doméstica numa casa de
pequenos-burgueses; quando poderia ganhar isso por dia, apresentando-se num
samba gostoso do Sargentelli, a deixar suas mulatas de boca aberta... Têm razão
os lusos, os quais apreciam a cor. Num repente notou ter deixado o outro bobo-ele-mudo,
só falando o primeiro bobo-falante-ele. E riu-se do Sr.Juvêncio da Silva. A
Joana reapareceu, indagou por que se ria, respondeu ser da briga dos pardais
barulhentos no jardim, ela não disse se aceitou a desculpa. A esposa foi mexer
nas coisas dela, ele concluiu haver fumado nesse ínterim mais de cinco cigarros
sem perceber, contando o da boca já na bituca quase a queimar os lábios; era
fácil contar os tocos. Iniciou o recolhimento contra possíveis ranzinzices de
sua mulher, empurrando as cinzas para baixo do tapete qual fazia quando menino
as sujeiras; Dona Joaninha retornou com um pano úmido, a passar nos móveis. Ele
a acompanhava com os olhos, dizia sim ao que falava a senhora, não entendia bem
o quê. Para fugir do embaraço em que se encontrava tomou uma revista na mesinha,
fingiu ler para enganá-la e surrupiar-se da balbúrdia dos filhos e seus amigos
lá fora, matando bem metade da população bandida no oeste americano; a se surrupiar
do caos que era sua pobre mente. Fingiu ler para iludir, iludiu-se pois lia já
sem querer. Havia na revista um conto do sobrenatural a se impressionar
vivamente, o Tino se impressionava facilmente embora negasse de pés juntos.
Bem. Certa mulher quarentona, estranha, com um dom especial, chegava para perto
de um ser qualquer, olhava fixo nele, se chegava mais perto ainda, tocava com
seus dedos afilados de mão peluda, encostava no sujeito; pronto, o enterro era
no outro dia; e assim o conto dizia quantas e quantas vezes acontecera daquela
forma; até que um dia a mulher quarentona olhou-se no espelho, projetou seus
dedos afilados para a própria imagem; no outro dia saiu seu enterro! um féretro
tão sem pompa quanto os de suas vítimas. Nosso Tino, diante do que leu, ficou
um tanto apavorado; tinha o péssimo costume e ingenuidade bastante para acreditar
que a ficção pudesse ser verdadeira, ou encoberta numa camuflagem marota do
escritor; mordeu os lábios fedendo a nicotina. Não aguentou aquela coceirinha
que dá na gente quando deseja fugir de algo e sentindo por esse algo atraído:
outra estória sobrenatural; foi ler novo
conto da mesma natureza.
Dona
Joana Catuaba da Silva não deixou o marido acabar, ou melhor nesse pior,
iniciar a outra leitura; e o fez numa conversa danada; ele teimou e terminou
assim mesmo a leitura. Falou e mais falou sobre questões várias, enquanto o
Sr.Juvêncio da Silva respondia o que achava ela gostar de ouvir como resposta;
todavia ele também não conseguia em contrapartida ler completamente nada. Num
dado momento sorria, o assunto sendo triste e sem graça. Ela se admirou.
Advertido, disse à esposa lembrar-se de um caso ocorrido a um colega. Ela não
deixou por menos: fê-lo narrar. O Tino cedeu. É que o Orozimbo se pegou nos
maus lençóis. Aconteceu de o malandro do Pedro (ela conhecia seu colega Pedro)
aplicar-lhe uma tremenda peça! Fez o comum, mas com tal arte, e enfrentou a
arte consumada com certa manha, que nem o diabo descobriria. Enrolou todo o
pobre Orozimbo, tido sempre por sério, não se sabendo a opinião dos céus. Tomou
de um batom cor viva, manchou o paletó do terno cinza do infeliz e mexeu no
cheque dele nos tocos sobrantes a escrever complicações; e sobretudo naquele de
final treze, número azíago à mulher dele, dona Chica: “uma despesa com a Filomena...”
Bem, poderia fazer isso tudo e deixar pôr as reticências, envenenava menos. Não
fez mais nada o Pedro, a fim de não chamar muito a atenção da senhora.
Se
descobriu? Se adiantou falar que ela era a única na sua vida? Se valeu implorar
não saber como tudo aquilo ficara registrado e a mancha safada? Um velhote
daqueles, tinha lá graça sair com as filomenas por aí... nunca nunca. Só pensar
um pouco e sentir ser impossível, mesmo porque não conhecia nenhuma sirigaita
como dona Chiquinha apelidara a ‘rival’, muito menos com o nome de Filomena.
Intriga da oposição decerto. Quem? Argumentou o Orozimbo como soube e pôde. E
pouco soube e nada pôde. Provando a sobejo que a arma da língua não é macha.
Separação? divórcio, só havia desquite naquele tempo. Ameaçou a esposa um
estardalhaço, a envergonhar a família inteira dele, mesmo a sogra dela, sobretudo
a sogra. Chorou. Está certo, mulher aprecia choro, impressiona gostoso; ele
também chorou, é feio homem chorar; porém sempre se consegue um perdão
provisório... Até descer a poeira, ou mesmo aparecer o arteiro da estória.
O
Malasartes contou para dona Francisca tim-tim por tim-tim a brincadeira.
Provou, implorou para ela acreditar, acendeu velas ao inocente amigo Orozimbo:
os santos não costumam aceitar esmolas de mentirosos! Mostrou o batom usado,
entregou à dona do dono a folha não usada do cheque. Contudo havia um senão
terrível: o número treze.
Quando
tudo parecia calmo no lar de Orozimbo – ela quase já sorria, os dois amigos
notaram a mulher olhando fixo o esposo, numa desconfiança embutida na testa...
Dona
Joaninha Catuaba não achou nenhuma graça na estória, igualmente ficou a olhar
fixo para os lados dele. Vexado, Tino chegou a se arrepender haver contado o episódio,
tinha mesmo jurado a si mesmo nunca mais narrar piada, piada é para quem tenha
talento, as suas faziam chorar. No fundo temia lhe fizessem igual ao Orozimbo,
não falou nesses termos a ela para não estragar mais o humor a explodir na
senhora. Por outro lado não desejava certamente ela estragar seu matrimônio,
antes lutava para zelar. Felizmente nesse momento difícil entraram na sala dois
meninos, ela correu para vê-los e ouvir seu contar, coisinhas lá das crianças;
enquanto o Tino sentou-se, tomando os óculos. Passou a limpá-los com papel
higiênico como era seu costume, livrando as lentes grossas das gorduras e sujidades
do tempo; já não enxergava o suficiente de óculos, quase cego com o aparelho de
vidro e não sabendo a razão real disso. Entretanto lembrou-se, azedo, estar
mais velho e mais desgastado ainda que idoso. Deu uma olhadela ver se Joaninha
voltada para ele, fez bolinha com o papel de limpar os óculos e atirou a mesma
no chão, junto ao canto entre a televisão e o sofá; imediato se abaixou e
recolheu a sujeira, sem saber direito onde depositá-la. Fez cara feia ao sofá,
como se ele fosse as prestações vencidas, porém tinha certa razão... Sentou-se,
escarrapachado.
Sentou-se
afundando com raiva no móvel. Aos poucos fugia dos problemas, não via sequer o
vomitório da televisão. Encontrava-se em meio a duas forças terríveis: o sofá
como fator de relaxamento dispondo o pensar livremente, o ser provocador do
pensar; e ao contrário, era o ser como receptáculo da tevê, por si mesma já uma
contra-ideias impedindo a liberdade de pensamento. Venceu o sofá; o televisor
mostrava dentifrícios (um de limpar as sujeiras deixadas pelas impurezas do
refrigerante; este para sujar ainda mais os dentes e dar oportunidade a ampliar
as vendas dos cremes dentais – ah que
dupla! pensou nosso herói-sofredor). Após, temendo o cliente, fez anúncios de
sofás mais dentro da moda. O Tino não percebeu a briga velada entre o sofá e a
tevê, recostou-se saboreando a fofura da borracha estufando o pano escolhido
pela esposa para decoração da sala pequeno-burguesa.
Porém
a satisfação não o livrou de lembranças desagradáveis. Num relance viu enormes
pilhas de provas a corrigir, trabalhos em equipe a passar crítica, e se lembrou
de não sei que da burocracia chateanteante no funcionalismo. Nem se libertou
duma lembrança que o fustigara dias passados, um fato ocorrido no trabalho. Ele
estava a iniciar o descanso suposto merecido no recreio dos alunos, quando
surgiu uma ex-aluna na sala dos professores, pedindo orientação. Garota bonita,
podia ser feiosa. Não chegava a impressionar como artista de cinema; e não era
mesmo artista; muito embora possuísse a parcela de arte que lhe foi concedida
no berço para representar no palco da vida. Apenas moça. Procurou o professor,
deu-lhe a mão, “como vai” etc.; contara haver ingressado na Faculdade de
Economia; disse estar fazendo certo trabalho com pretensões a livro um dia, sobre
Pancho Villa, que ela pronunciava a gringar “Pantcho” numa voz rouquenha. Bem,
agora as dificuldades na pesquisa, se o Tino poderia ajudá-la. Ajudou a jovem
imediato com um “parabéns” que sempre não nos custa nada, propôs à pleiteante a
procura da embaixada mexicana e as bibliotecas mais categorizadas. Tudo bem.
Entretanto a meia hora que ficou com a jovem mulher fora para si terrível, meia
hora durando com certeza séculos. Ocorreu ela começar por sentar-se a seu lado no
sofá (ih como os sofás perseguiam o coitado!) um sofazinho gasto como o serviço
público, duro e rasgado; sentaram-se informalmente, ela já não temendo aquela
máquina de fabricar notas vermelhas; em razão disso, quantas vezes não fez o
sinal avançar!... Avançado o sinal verde-amarelo-vermelho, encostava sua coxa
quente na dele, ele se mudava para mais adiante, mas a jovem se encostava
novamente; haviam começado na extremidade esquerda, já estavam na da direita,
ele quase a cair, o sinal avançado por ela tantas vezes, dando na vista de
colegas, sobretudo os mais faladores e menos íntimos, atraindo os olhinhos da
velhota Lalá, a recolher decerto material para conversas posteriores. O mestre
vivia seu drama de homem casado e sério; a menina não dava sossego, quase o
empurrava, e untava seus atos com um fungar contínuo; ela não se importando ser
macha no ataque, ele não se conformando em ser fêmeo... poderia agir de outra
forma? se perguntava agora distante. Quase já gritava agonizante no episódio,
quando uma colega veio salvadora: “Tino, a diretora tá chamando ocê”. Ele
desfez o colóquio, antes: interrompeu a conversa, prometendo por fora que ela o
procurasse noutro dia, e por dentro nunca o fizesse. Ficou azucrinado por tempo,
embora não fosse tão moralista, o fato o atingira bastante. Agora estava a
relembrar, que é forma da gente sofrer mais vezes do que precisa – quando
surgiu de novo a Joana, de repente; absorto como se encontrava (ou
compenetrado?) como sempre vivia, tanto que num qualquer momento ela chegasse
seria de repente. Ele enrubesceu como um colegial, a esposa não percebeu o
deslize, pensando lá nas coisas dela. Como resposta ao nada, lembrou-se do
amanhã, o sábado costumeiro. Ele não apreciou a lembrança, no entanto sabia
muito bem do que a cara-metade andava a falar.
Fazia
tempo que o sábado era seu; seu dia na cozinha! Ah que tristeza para a família,
os moleques a reclamar da comida e tudo; além do mais, para um machista isso
bem grave. Ele engoliu seco, respondeu também seco ao lembrete da companheira;
e pôs-se num retrospecto a narrar para si mesmo a experiência do pai – que
agora repetia no seu próprio lar, ele a vítima.
Enquanto
fazia as coisas na cozinha se contava o genitor (havia inclusive registrado
isso no diário); o que foi bom por não ter quase visto a chateação por que
passava Joana semana toda na tarefa; quando percebeu, acordou do pensar e sem pesar
descobriu haver acabado visto o sonho neutralizar um pouco a realidade dura. Eterno
sonhador, se pôs a rir. O Tino adulto
envelhecido estava rindo de suas bobagens de adolescente metido a literato de
quinta categoria. Não obstante gostou. Não de repetir o pai dele, quase com a
única diferença ser o seu dia o sábado e não o domingo de papai. E havia o
mérito por ser mais experiente nas questões de cozinha. Olhou para ela, a
mulher andava ali xeretando, ela que não apreciava o esposo a escrever suas
besteiras, no que tendo alguma razão.
Agora
vou tirar meu amigo da narrativa, fazendo-lhe um convite para uma cervejinha
gelada. Não se espante meu caro; ela é estrangeira, sei disso, porém o calor é
nacionalistamente nosso, vamos à cerveja. Pensava você que eu fosse um puro?
Olhe, se não houver cerveja na geladeira, tomemos um café quentinho... Só então
iremos viajar pelo futuro do rapaz, a acabar de vez este tró-ló-ló.
Cap. XXII – O futuro só a Deus pertence
Nada melhor que o lugar comum para finalizar a estória
de um herói comum, um não-herói ou anti-herói para ser mais preciso. Acontece
que Juventino é um ser ingênuo, portanto comum. Ah! pasmemos até, nas habituais
indignações e lá pelas tantas no relógio da vida, o sujeito comum irá exatamente
se descobrir comum, portanto deixando ser um homem comum (contudo seria na bem
adiantada das horas; no momento em que exponho os minutos dessa pobre
existência o Tino é o comum, um ingênuo). Ele andara por aí colhendo os frutos
da experiência humana e fez uma série de descobertas. Talvez a mais
interessante tenha sido no seu próprio serviço, a escola. Concluiu ser a sala
com seus membros verdadeiro laboratório. Neste percebeu um punhado de jovens
representantes da sociedade, sofrendo dramas e ansiedades, convivendo entremeio
da concorrência de seus coleguinhas; e aprisionando o mestre pelos regulamentos
escolares, mas também a sofrer as atitudes nem sempre democráticas dos
professores. No pensar nisso lembrou Juvêncio quantas vezes precisou tomar
severas posições e corrigendas, ferindo assim seu coração! Dessa forma se
sentia apenas um dos professores. Notava que mais ele aprendia com a relação
que o aluno a quem se dirigia. Aliás todos somos mestres e alunos na escola da
vida. Bem, não é tão grande descoberta, concordo; todavia nele doeu, concorda?
Através dos seus meninos uniformizados tentou conhecer a alma do ser humano e
seus valores assentados nos modismos sociais. Porém aprendeu a amar os estudantes,
se já não os amasse. Por isso não tratava muito diferente seus alunos e os
filhos da Joana.
Oh!
Dona Joana. Aprendeu a ouvi-la muito – quantas
vezes calado – ou por reconhecer-se errado, ou porque na água em
ebulição não se ateia mais fogo. E aprendia. Depois Dona Joaninha Catuaba
chegava para ele, mais mulher que antes, a encostar-se no esposo, sua forma de
pedir perdão sem se humilhar. Dessa maneira aprendia também a conviver com sua
companheira. Ela, por seu lado, tendo muitas queixas do homem. Ele, dizia a
jovem e cansada senhora, era um tal de calar-se, que chegava minar a sua fúria
contra o consorte (perdão pelo trocadilho, não invejaria tal sorte...) Ele possuía
o poder de falar com boca fechada e ela o poder para criticá-lo tanto ouvi-lo se
calar. Outro paradoxo da vida, eu sei. Todavia não posso fazer nada contra as
idiossincrasias alheias. A esposa igualmente aprendeu esse senão, falava e
falava somente a desabafar. Depois se achegava a ele, como perdão ou pedindo
perdão por blasfemar contra sujeito tão vaca morta como era Seu Juvêncio, o
marido, o Padre Belchior às favas. Não obstante se queixava à vizinha Dona
Cota, porque Dona Lili, a sogra do Tino, essa havia morrido, Joana estava sem o
confessor natural. E a vizinha ouvia que o marido da Joana era meio, meio não,
inteiramente relaxado. Tudo a deixar para amanhã e para mais tarde...
Quebrou-se o liquidificador? a tevê? o banheiro entupido? Sempre as mesmas evasivas
para o não-fazer; sendo que o quê dava mais raiva nela, tadinha, é ele não chegar
a dizer que não faria, apenas não fazendo. Depois, quando todos já andavam
conformados com o objeto quebrado, aparecia o Sr.Juventino consertando a coisa,
a levar de vez ao técnico, a desentupir o entupido. Como num burro velho não
adianta bater, ou só como desabafo, pois não aprende nem se modifica mesmo –
então ela desistia, ou falava para não perder o costume, sem grandes expectativas.
De sua parte ele bem a conhecia e por essa razão deixava a mulher falando
falando sem parar e enquanto ela papagaiava terríveis investidas, dava ele lá
os seus pulinhos visitar a equipe enorme das ex-namoradas... Foi essa outra
grande aprendizagem do sujeito, a de que com todo temor (reconhecia ser moleirão,
apenas não sabia ser tão ingênuo) e apesar toda temência que tivesse, assim
mesmo Dona Memória vomitava para ele, numa sessão especial ao rapaz Tino, uma
plêiade de lindas mulheres que amara; agora, distante no tempo, muito pouco
exigiam dele. Após o desfile das jovens beldades (não importando naquele dito
instante elas também fossem velhotas ou meias-idades como o próprio herói, nas
lembranças eram jovens lindas como as conhecera) depois desse desfile de beleza,
continuava num discurso a mulher, a destruí-lo, um Cícero um Demóstenes de saia
(na verdade Joana apreciava trajar calças compridas) contra todos os maridos do
planeta, sim do planeta visto pichar o gênero masculino todo com os defeitos do
Tino; todos, o dela ali encolhido, só lhe restando dizer para ela: “tem razão,
querida” – embora já não se lembrasse ao certo qual o assunto e qual a esposa
com razão. E se nem um garoto dos cinco aparecesse a pedir um informe dos costumeiros
ou um doce salvador, teria de ouvi-la muitos minutos mais, séculos no
dicionário de sua santa paciência. Somente depois da batalha vinha o jornal da
tevê para a distração (ou a ficar ainda mais com raiva) ou roubando tempo para
escrever suas tolices; um punhado de bobagens rabiscadas sem saber ao certo por
que motivo o fazia.
Encontrava
também um negócio grave no seu ser, era mais uma experiência a acrescentar na
sua existência vulgar. É que descobrira não se conhecer; logo o Tino pensando a
única certeza restante era a de conhecer-se a si mesmo! Pois não é que a praga
do meu herói (herói é força de expressão, você compreende) não é que ele não
sabia que não sabia sobre o próprio umbigo! Sejamos corretos: não precisou
Sócrates filosofar para ele, porque a gente aprende quando a correia atinge
nosso lombo. Bem. Notou primeiro escrever contos crônicas e mesmo poesias (não
falei que era doido?) Até neste ponto da narrativa – você dirá entre um gole e
outro do saboroso café – até aí, você me interrompe, um mal que atinge os
membros das melhores famílias, digo na linguagem dos filósofos das ruas. Certo.
Entretanto escrevia sem objetivo; isto muda consideravelmente a situação; é: escrevia
sem objetivo claro para ele mesmo; talvez fosse para ajudar a megera Dona
Memória, caceteante criatura, ajudá-la a relembrar a Norinha, a Maria Helena, a
Leico. Aos poucos percebeu tudo se ligar ao mesmo cerne – e que cerne! – ele.
Um dia, não, uma tarde, Dona Joana o pegou no flagrante, coitado, leu suas besteiras,
xingou nosso Tino de memorialista, uma acusação muito grave a um memorialista
que não se saiba memorialista; conforme Joana o esposo tinha o costume de
vomitar apenas suas vivências e seu sentir sem nada criar, um escritor sem
estilo, sem imaginação. O infeliz passou muitos dias num complexo de culpa, por
culpa de Freud, decerto. Teve ímpetos de queimar tudo, sem coragem para
fazê-lo; sentia seus escritos como fossem seus filhos; e filho da gente, por
mais feio seja, horrendo mesmo na apreciação da esposa, nesse caso a pessoa
quer bem e ama; assim não teve coragem bastante para destruir. No entanto o mal
do Juvêncio era muito maior ainda, imenso. Acontece que ele escrevia sob
pretexto de melhorar a linguagem (chãzinha, aliás) sem pretensões maiores. Essa
explicação entretanto sendo uma faceta da enfermidade, sim verdadeira doença!
porque descobriu andar sujeito aos escritos, sem poder se livrar! atrelado ao
vício de escrever... Doença incurável, pelo visto. Ninguém entendia o
descaminho, inclusive a esposa que ele costumava dizer sua consciência com voz
alta, mesmo ela não entendia. Irremediavelmente perdido.
Quanto
a nós não estamos perdidos. Tomemos nosso cafezinho estimulante, vamos ingerir
nosso habitual levanta-defuntos. Servirá como pausa.
Cap. XXIII – Pausa. Para meditação?
Sei lá. Pausa, talvez em virtude do fato da
existência anos atrás do programa na Rádio Tupy do Rio, parece-me, de ordem
sentimental e de aconselhamento, sob orientação do Júlio Lousada, com esse
título, nosso Tino precisando dumas palavras nesse sentido. Mas vamos fazer nós
nossa pausa. Creio mesmo estar você cansado com tantas atrapalhadas do garoto
Juvêncio, herói muitíssimo sem-vergonha. Abaixo o Tino! Chega de viver
mulherengo sem conquista de fato. Isso enche a paciência da gente. Afinal de
contas o sujeito só viveu até aqui com pornografia na cabeça, mesmo quando em
briga com Dona Joana, uma santa, a pobre falando só, no maior dos desprezos do
esposo débil e medroso. Ele sequer via-se com medo, sentia apenas um temor lá
no fundão do seu euzinho. Falei também que a criatura esbraveja mutismos matando
quase a pobre esposa de raiva.
No
entanto nem sempre posicionou-se sem língua. Até arriscou um berrar
impropérios, que é aquilo que falamos a outrem sem consentimento da oposição,
desagradando nossos contrários. Tem um senão. Seguinte: se fôssemos julgar
pelas aparências, diríamos o casal viver às mil maravilhas (caminho para ser
original, é bom ser original na linguagem, já me felicito) pois onde um só fala
dois não brigam, isto me parecendo ser um ditado popular. Todavia a verdade era
outra. Dona Joana Catuaba da Silva, Silva por parte do Silva do Tino, já se
cansava ser Silva e mais parir todo ano quase um silvinha para as vanglórias machistas.
Serviço demais, mundão de trabalhos domésticos, aquela droga de a gente estar
acabando o almoço e já a pensar o que fazer para a janta; gritaria de meninos,
tendo apenas duas menininhas futuras ajudantes de mamãe e três, olhe: três, e
três é bastante para ‘menino homem’, três molecões endiabrados, a chutar bola e
pedra na vizinhança com reclamações a valer; rusgas e... rugas! tinha, dizia o
espelho do guarda-roupa (este com a última prestação quitada, embora os cupins
destruindo o que ainda restando) o espelho falava alarmando Dona Joana sobre o
futuro da senhora parideira... O Tino? não se emendava de jeito nenhum, por
isso não melhoravam a vida, o bestalhão perdido na sua literatura de fundo de
quintal com tendência ao memorialismo, em vez de arrumar emprego melhor. Dona
Joana Catuaba partiu para o ataque: falou ao companheiro umas boas verdades.
Não gostou muito o homem, enfrentou a esposa! (aqui não é força de expressão coisa
alguma, enfrentou mesmo). Ele xingou-lhe a família, começou a encontrar desmanzelos
no lar, proibiu a mulher ir xeretar as coisas para Dona Cota. Fez mais o
corajoso marido: cortou-lhe parte da mesada. Ou por outra, a inflação comeu um
pouco mais do menos que era seu salário e aí restava menos do menos para deixar
mais na casa. Ela estrilou, ele reforçou a coragem e devolveu desaforos. Assim banalizou-se
a relação num bate-boca infernal e infindável; as crianças andavam assustadas e
amedrontadas. As cenas! Xi as cenas... Uma baixaria digna das favelas, onde
sobram línguas faltando pão; sendo um lar pequeno-burguês. Para apimentar mais,
as famílias resolveram tomar partido; é claro a dele torcia pelo Tino, a dela
torcia por Dona Joana. O mestre na
escola oficial do Estado não passava dum pobre e sofrível aluno com notas vermelhas
na escola da existência; não sabia contemporizar e compreender o drama da
mulher. Separação! Falaram nos termos do cada um para si, como era a moda que
se iniciava naquele tempo. Os filhos, os maiorzinhos pelos menos, interferiram,
pediram aos egoístas pais por eles próprios, defendendo eles a defesa dos indefesos.
Não adiantou demais, contou um pouco somente na redução daquela infeliz
somatória. A família andava abalada, a relação periclitando mesmo... Após altos
e baixos, com o Tino precisando dormir várias vezes no sofá, não
suficientemente pago e já bem gasto, a família Silva se desfazia. Enfunações,
palavras ríspidas... enfim para que falar aquilo que hoje a televisão explora
de sobra? Por isso estou encurtando a estória, a fim de resumir tudo.
No
fim de contas, Dona Joana arranjou ela mesma um emprego e se encheu de
confiança, se cansava ser dependente de um esposo tão frouxo. Contudo incidiu
noutra problemática – deixou de precisar dele, se é que algum dia realmente
dependeu do companheiro, ficando ligeiramente orgulhosa. Estava deixando
deliberadamente ser sua companheira, apenas aceitava-o como o pai dos filhos.
Por outro lado ele igualmente sentia a mulher como ímã às avessas. Passou a
evitar Dona Joana; e ela a ele também. Um dia de chuva cor de chumbo e vento
gélido Dona Joana Catuaba da Silva falou-lhe desejar devolver ao legítimo
proprietário seu Silva; o Tino não teria indenização pelo uso por anos seguidos
do Silva de estimação dele. Procuraram a lei, ele pagou os famintos honorários
advocatícios. As crianças? Se fôssemos falar nelas e seu drama, teria o
rabiscador por certo que escrever outra estória, esta sim realmente dramática;
mataria meu leitor com doses letais de café fortíssimo. Acabemos de uma vez com
esta pausa longa.
Será
que as pausas servem a curtir sofrimentos? Com certeza elas servem para
destroçar de vez as famílias! Ora, chega de interrogações embaraçosas e de
exclamações que destroçam corações. Aceite, por mera piedade ao escriba, um
café; pois como observa ando triste, profundamente triste. Depois convido o
amigo paciente para o futuro que lhe prometi faz tempão.
Cap.XXIV – Futuro prometido, em epílogo
O Sr. Juvêncio da Silva, Juventino se estiver do
lado da família dele, Tino para os íntimos apressados, esse ali postado numa
pose para fotografia... Você me pergunta como ficou após a separação, se foi ao
desquite depois ao divórcio, tão legalista como gostava ser o homem. Bem, ficou
sim arrasado, choroso até, chorou por uns cinco anos a perda de sua Joana, nem
a companhia dos filhotes consolava aquele coração ingênuo; mas eu me nego a
contar sobre o assunto; a menos que façamos nova pausa... acredito não aceite,
nem a ingerir mais veneno cheiroso gostoso, pretinho e brasileiro, de origem
árabe, o café, sabemos, estimulava as cabras da Etiópia. A foto à posteridade:
a objetiva do tempo fotografando o simplório que era; e revelando uma cara
enrugada, não mais que isso, sem preocupação com beleza; aliás nunca fora a
favor da estética. Deixando à dita posteridade o aspecto fundamental da
ingenuidade. Agora, hoje, ainda simples e ingênuo apesar de idoso, afundado na
sensaboria das insignificantes vidas; embora houvesse aprendido com a vida, o
Tino se apresenta inteiro por fora, destroçado por dentro.
É
verdade aprendera muita coisa na vida, reagira contra o ramerrão diário com
suas prestações seus enguiços os impostos os governos a burocracia; embora, encontrando-se
vivo (vivo!?) porém com a face descolorida. Assim encarando a existência, a jogar
os anos e seu futuro. Para suportar, quem sabe apenas a suportar e temperar o
dia sem graça, nisso não lhe restando mais que as Norinhas a temperar as Joanas
deste mundo, num sonho, ou pesadelo? a esperar o fim dos tempos. O sonho
somente a servir para identificá-lo como vivo; e tendo ainda seus escritos para
ouvir suas lamentações e para medir as batidas de um coração sofrido. Bolas,
isso o presente; e o futuro? Este é um ser irreal, mais força de expressão que
de fato, o porvir se lhe apresentando como sem solução, solução correta para um
homem ingênuo. Contudo mesmo nessas condições é necessário fazer planos para o
tal futuro...
O
futuro do Tino, Sr.Juvêncio da Silva, foi ontem. Ora, não vi o ontem passar,
como ando distraído!
Vê,
distração pura. Inclusive as distrações mais graves, meu caro, eu escondo
tomando um café. Quer um gole? Saboroso, cheiroso, pretíssimo, brasileiro. Não
tem contraindicação.
Ribeirão Preto,
abril 1980; Marília, dezembro
2004 ♀♂
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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