sábado, 21 de março de 2020

Tino da Silva, seu criado


06 (esta obra e as demais neste Blog, seguem a apresentação no feitio posto à publicação gráfica; o número que antecede os parênteses represanta a Pasta original do trabalho)










                       Tino da Silva, seu criado

                                           romance
                                      Moacir Capelini















moacircapelini@gmail.com.


capa:


data de publicação:


tiragem:


Gráfica:






















                                                         “(...) haverá nome certo para a solidão do                                                                            depois?”
                                                                                                               Artur da Távola                                                                                                                                                                                                                            - - - -     

                                                                      “Humor, rebelião tranquila do espírito contra a
                                                                        miséria envergonhada da condição humana.”
                                                                                                               Aníbal Machado                                                                         




A história de um Juvêncio

Pobre Tino, aportou num pau de galinheiro no sofrido planeta, sujeito pesado. Devendo o fato ter ocorrido lá pelos anos trinta, uns cinco ou seis após a Revolução de Outubro getulista, nascendo provavelmente (em se tratando desse personagem tudo é possível, inclusive o nascer...) numa cidadezinha do interior paulista. Chamemo-la como referência ‘A’, a evitar verificações desnecessárias.
          Indica-se Juvêncio no registro, os próprios familiares diziam ser Juventino, o povão quem é que pode com o povo? o povão lascou-lhe loguinho o apelido Tino. Pegou. Era um sujeito moreno e mediano em tudo: altura inteligência visão desejo necessidade comportamento. Assim conseguiu se perder nos intrincados das estatísticas da Estatística, ciência pouco ciência e um tanto convencional e mentirosa, Deus me livre! E ninguém, ninguenzinho mesmo, por menos comum fosse o desencurralaria dos meandros comuns. Até poderia se chamar João, Antônio, José, não mudando sua sorte, nada mudaria em Juventino. Inclusive seus apelidos; apelido é o esforço que a sociedade exerce para diferenciar pessoas – mesmo esses apelidos em nada portanto mudariam o homem que descrevi.
          É claro, esperar que existisse na época apenas uma forma a dizer e fazer gente, não é mesmo? desse jeito saindo o Juventino igualzinho aos Joões aos Josés aos Antônios. Não. Possuía uma diferença assinzinha: uma cicatriz na testa, provocada brilhantemente por um berne! De fato, isso não é muito louvável. Tanto assim que nosso amigo vivia a esconder o sulco; e o fazia muito bem com os cabelos através de certa mecha a lhe cobrir todo o franzido da testa redonda vincada desde menino pelas rugas preocupadas, as pontas da dita mecha chegando até à sobrancelha direita, a obrigar o rapaz aquele impulso dos fios para trás, as pontinhas dos cabelos por cima do crânio, mas – teimosa! – voltando tal mecha a incomodar os olhos. Ah, um lembrete para não esquecer depois: depois ficou calvo e a cicatriz... deixa isso pra lá.
          Esse o Tino, um homem comuníssimo, pobre Tino. Você irá conhecê-lo melhor, nessa estória tipo ‘água com açúcar’. Antes aceite um convite deste seu amigo e talentoso escriba.

 

 


Cap. I – Convite ao leitor


Olhe, estou convidando você para um café. Cafezinho bem brasileiro, pretinho, gostoso, caro. Artigo de exportação e pretexto para conversas-fiadas na mesa de bar. Não acha meu leitor ficar bem neste momento um papo? O mundo, pelo que se propaga, anda tomado pela violência. É hora, suponho, para descanso, a curtir um café.
          Não que o Tino deplorasse café, fosse adepto do chá europeu ou asiático, com seu ritual. A bem da verdade acresceria neste ponto que o sujeito tinha sim uma birra do chá: para ele chá queria dizer remédio, imaginava até a mãezinha (teve mãe, é apenas um esclarecimento oportuno que faço) com a xícara fumegante empurrando a infusão para dentro do garoto à força! Isto o caso do chá. Café. Gente comum aprecia o comum, o café é comum, bebida de todos os brasileiros. Desde pequenino ficou dependente dessa bebida: na mamadeira tomava aos dois anos o leite com café; depois a coisa piorou para seu lado, a família passou a tomar café sem leite, às vezes pão (primeiro com manteiga, a margarina ainda não surgira dominadora, e mais para diante, sem manteiga). Ficou, portanto, freguês do café. Cresceu freguês, até virar homem. Ora, não seja maldoso com o indivíduo, ele nasceu homem, um ‘menino homem’ como falou a parteira barriguda ao anunciar à mamãe. O que eu disse foi que o sujeito cresceu, ficou adulto. Entretanto é no estágio adulto que nos interessa o Tino. Porque só gente grande tem dessas coisas; e aqui entra no caso um caso de amor... Como falei, chega de violência, vamos ao amor.

 

Cap.II – Um caso de amor


Para não ser diferente dos seres humanos – e não era mesmo, estamos lembrados que o sujeito não passava de pessoa comum, comuníssima insisto – o Tino amou. Nada de amor estilizado das capas de revistas, nadinha do romantismo piegas que a propaganda difunde, porém um querer sentimentalizado, uma querência mundana, igualmente amor, trazendo em si as consequências cabíveis e admitidas.
          É por essa razão que tomaremos o nosso Tino saindo ele da adolescência, não esquecendo nunca o ser humano que fora até aí, não fazendo propriamente tábula rasa – no entanto valorizando uma fase de sua vida simples, de gente do povo. Melhor é dizer “estudando” que valorizando.
          Nesse tal momento, por causa do amor, é que introduzo a menina Norinha.
          A Norinha? uma garota também simples. Acho era mais simples que bonita, ou bonita na simplicidade e na pureza, uns trejeitos graciosos. Uma garota semelhante às outras, com a vantagem ser melhor que as outras, na opinião do Tino. Baixa na estatura, fina mas cheia de carnes, um sorriso leve fazendo supor tudo; e mais um pouco. Quem sabe se não destoasse da beleza do rapaz, ele constantemente a perguntar ao espelho sua opinião e sempre obtendo respostas se não negativas evasivas, os espelhos são de fato teimosos.  Essa a moça. No fim da década que nos interessa, os anos cinquenta, usava uniforme de normalista – o que se encaixava bem, já que o Tino vivia assobiando, por não saber direito a letra, a música “Normalista”, então sucesso interpretado pelo excelente Nelson Gonçalves; possuía inclusive um disco em 78 rotações da página popular, a qual não podia ouvir pela vitrola desarranjada.  A menina possuía um andar cadenciado empurrando eroticamente (opinião do rapaz) a barra da saia pra lá e para cá; e também se apresentava com tez clara de espanholinha, tendo uns cabelos escorridos e aparados em horizontal a roçar o pescoço um pouco dourados ao sol das sete e trinta horas da manhã... De manhã esse sol gaiato rindo dos transeuntes apressados, lá iam as duas ou três meninotas para a aula, a Norinha entre elas, nisso havendo também como destaque a Lourdes que falava enjoado – elas a andar correndo ou a correr andando, para atingir a sineta do Colégio do Estado, atrasadas sempre. E mais atrás, às vezes beirando as jovens, dois jovens amigos, o Tino querendo alcançar as jovens e ao mesmo tempo temendo a companhia feminina; a fingir interessar-se pelas conversas religiosas do José seu companheiro, na verdade prestando mais atenção no jogo daquelas pontas de saia... Sim, era tímido. Depois é que continuou tímido, avermelhando menos por pouco ou por muito. Quase sempre as alcançavam mesmo.
          Então, conversa vai conversa vem, desde o simples bom-dia acompanhado por sorrisos que ele imaginava bem mais que sorrisos; ou qualquer outro expediente como “estamos atrasados, hein!” e outras verdades e mais sorrisos que ela supunha para si; assim chegavam à escola. Ou não entravam. Aí surgiu certa amizade... Quer dizer, para sua recém saída virgindade em matéria de malícias de amor, a coisa se apresentava como amizade pretensiosa por parte da mocinha bela e por parte dele, dele com certeza.
          Neste ponto você terá, por razões que são suas, ficado de certa forma abismado por eu haver posto a questão da virgindade do moço. Vou então narrar aqui um episódio o qual nos dará a medida mais próxima da pureza do Tino. Ele subia a rua Nove de Julho, escorregando o coturno militar nos paralelepípedos saltados do calçamento, quepe oliva penso na cabeça quase careca como a caserna dispõe, olhava a travessa próxima temendo carros na disparada, porque automóvel também passa por sobre uniforme de atiradores; e atravessava essa via quando um grupo de moçoilas meio barulhentas cruzou com ele, mexendo em elogios com o ilustre varão servidor de Caxias! Bom. Que é que tem isso? Nos nossos dias é inclusive natural, naqueles causariam espécie! E tem sim mais alguma coisa, pois que o rapazote pela primeira vez descobriu ser homem... pasme um pouco mais você: ele pensava ainda ser moleque, desses de quebrar vidraças e tudo o mais porém não quebrava nunca quebrou, era sujeito comportado; apenas pensava estar ainda molecão, na fase da despreocupação amorosa... Daí você me indaga e a farda? O hábito realmente não faz o monge; ele se vestia como soldado, atirava (e errava sempre, o sargento gozando nele e também os colegas visto esse mundo ser mesmo intolerante) sim, atirava lá no estande de tiro do Tiro de Guerra 227, armado no pasto da Fazenda Bonfim, entre cocô de vacas despreocupadas e impatrióticas, no meio do carrapicho para esfolar a barriga no exercício de rastejo quando o sargentão nervoso descontava nos jovens as noites mal dormidas, sendo a culpa da esposa sargenta, tadinhos dos soldados; sim nesse lugar ele atirava, atirador de verdade, fardado, praça número 141 o Tino (quer jogar no bicho? ninguém está vendo a contravenção) um soldado de verdade. Então ia pela Nove de Julho, cruzando a av. Pedro de Toledo, se escorregando no calçamento pelos cravos do coturno trof-trof e eis que passam as garotas mexendo com o pobre, chamando o menino de  “bacana” (que gosto delas hein!) Tendo outra coisa: o Tino era por demais tímido. Conto outra de soldado do soldado Tino. Seguinte. Um belo dia o Tiro de Guerra foi convidado a desfilar sua garbosidade numa outra cidade, também pequena; a soldadesca desce do caminhão numa parada qualquer, vai zoar, bagunçar, no meretrício; nosso herói ficou olhando somente olhando a bagunça, assustado... não nos assustemos agora com o susto dele por causa das bonitinhas, decerto colegiais, a chamá-lo bacana. Mas você vai me permitir uma suspensão curta neste momento, não é? é que permanece um senãozinho na dúvida da dúvida em que ficamos eu e você pelo gosto extravagante das meninas vendo nosso Tino fardado. Vou falar um pouco sobre a Pipoca; ela nos esclarecerá de certa maneira o gosto feminino com relação ao macho... verá que nem sempre nós temos razão.
          Vamos à Pipoca. Certo dia a fêmea canina andava cheirosa os namorados se arrastavam de amores e brigavam se mordiam se batiam pela linda donzela... A família teve medo se cruzasse com um joão-ninguém e as consequências funestas. A Pipoca foi trancafiada com um macho de raça pura, beleza no pedigree e na aparência; já se imaginavam nas vizinhanças da casa do Tino os cachorrinhos lindos. Uma semana de amores... a Pipoca não se entregou, quase entregando o parceiro à morte pela paixão, tadinho! O  príncipe encantado foi devolvido aos donos, a donzela (ainda donzela apesar de) acabou solta na rua... Apareceu um vira-lata sujo fedido zarolho e sarnento, tomou conta do coração da jovem. Os filhotes nasceram lindos lindos, na opinião das crianças humanas; e será que o rapaz aprendera alguma lição na lição da cachorra? Se aprendeu não pensou nisso naquela hora a receber elogios feminis, vestido de soldado n° 141. Ponto final.
          Deixemos a cadela, voltemos ao Tino. Agora podemos entender as meninas que o gritaram “bacana” (merece até ponto de exclamação). É portanto nesse dito momento que ele descobre não ser garoto mais, mas um homem! Nesse dia marchou melhor, errou a pontaria melhor, ficou a raspar a garganta se fazendo de importante por nada, falando apenas para sentir a voz gostosa que assoprava, chegou a vistoriar o espelho, o espelho não o convenceu demais; as garotas entretanto... mulher é mulher, tem razão; quebrou o espelho estúpido e sem arte nem gosto na tarefa de apreciar beldades masculinas, atirando os cacos no buraco da privada de buraco; disse que foi sem querer à mãe. Estava deflorado o pobre!
          Continuemos. Foi na condição de recém desvirginado que o Tino começou a se interessar pela Norinha, aquela tendo o sol a dourar a cabeça de manhã, fato que acontece para todas as mulheres expostas ao sol matinal das sete e trinta, ele é que não estava sabendo disso; eu disse que se quebrara a virgindade e grassou um começo de malícia xeretando aquela moral sólida do rapaz. O coturno militar ficava a cheirar o chulé sob a cama juntinho do cheiroso urinol debaixo do colchão de solteiro, a farda esparramada nos pés da cama pra mamãe recolher e lavar a terra e o encardume pelo rastejo na madrugada. Ele deixava tudo isso no quarto, era agora o sonhador dentro dum uniforme escolar, suado por correr a alcançar a menina Norinha, pretextando a sineta do Colégio na Avenida Sampaio Vidal. Coisas lá dele.
          Depois a malandra garota Norinha inventou de inventar sua entrada no orfeão da professora Rute, a querida mestra de música. Bem, quer dizer, ela já se encontrava no grupo da segunda voz, fala meio grave e um pouco rouca – quando ele foi incluído no pessoal de canto, então na quarta voz. Não ficava assim tão longe, que uma fresta entre o mar de cabeças não favorecesse ambos. Para uma relação em caráter de amizade até que andava bem, ótimo. Dessa forma iam aprendendo a moderar suas respectivas vozes, isto é, a dela já educada. Depois sair correndo, andar na frente, fazendo de conta não ter pressa, para num imprevisto gostoso se deparar com as colegas do primeiro ano, alcançando seu agrupamento. Já todos a descerem a Nove de Julho... e assim, olhares de cá para lá, corridelas, encontrões casuais por força da rotina escolar – saiu da escola professor simpatizado com ela, ela ficou mais um tempo a receber o diploma. Tino se foi ao mato para ganhar a vida. Ela, a Norinha, continuou estudante.
          Agora você quer saber se é aqui o término do caso de amor. Eu respondo convidando o leitor amigo para mais um cafezinho. Não, café não tira o sono coisa alguma. Ou tira. O pessoal diz que tira e coisa e tal. Porém fique sem tomar a sua xícara ver se pode; aquela dorzinha na cabeça que vem e tudo o mais. Pior seria tomar vodca ou o contumaz uísque. Um café, enquanto vou lhe contar certo encontro.

 


 


 

Cap.III – Encontro casual e/ou fatal


Acontece que possuíam esses dois anjos, o Tino e a Norinha, outro anjo, um anjo da guarda, certa amiga comum, a qual não admitiu que o caso se encerrasse na saída do moço do Colégio. Ah como mulher adora casar as amigas! Uma visita à cidade pelo professor da roça; depois um bate-papo informal como mandam as amizades, pronto: deu com a língua nos dentes. Foi contar de leve à amiga da amiga, por sinal bonita (nada fora do entendimento, pois ao homem dos vinte e dois anos todas as mulheres são belas e sensuais) que achava linda e sensual a espanholinha, uma tal de Nora Perez, aquela que estudava com a gente na Escola Normal, a de cabelo assim etc. etc.. A amiga da amiga acresceu outros et coeteras na descrição do rapaz e se prontificou a facilitar uma relação mais íntima e duradoura com a pretendida, em seu zelo no ofício de ‘santantônia’, no qual era mestra. Ao que ele negou para admitir o desejo e agradecer. Além do mais, está muito claro se a amiga da amada quisesse seu endereço... tudo bem, que a gente precisa mesmo sempre saber donde moram os amigos, não é assim? Partiu. E recebeu na escola da roça um bilhete da colega de Norinha, a coisa se arranjara, a moça vivia interessada também, esperasse à saída da matinê no cinema, por curiosidade acontecendo as sessões nas tardes de domingo e não de manhã como propõe o vocábulo; onde o seriado ou coisa que o valha.
          Você pensa que o bestalhão foi ao encontro marcado? Foi. Ou não foi: não conseguiu divisar a sua querida no mundaréu saindo se atropelando, moleques a assoviar a gritar, papéis de bala esvoaçando, casais de mãos dadas, outros com uma menina por vela acompanhando como era costume – mas e a Norinha! Não a viu. Não teria vindo ao cinema? quem sabe se não estivesse pouco interessada no encontro... O fato é não ter aparecido. Mais tarde comprovou que ela nunca o perdoaria a cegueira.
          Marcou-se nova entrevista sob a batuta de Santo Antônio casamenteiro de saias. Ah a longa espera semanal! Dona imaginação fez-lhe companhia. Chegou sábado tão esperado.
          Na frente do Colégio, o Colégio tantas vezes trabalhando a uni-los; naquele lugar o Tino e a Norinha trocaram as primeiras palavras como namorados; juras de amor não, isso mais tarde. Sim, ela disse, é claro, desejar, entretanto por que não fora esperá-la na saída da matinê no cinema na avenida? Foi não foi. Os perdões e passeios na pracinha, pipoca flor olhares e enrubescimentos. Gostoso, muito gostoso! andar por andar, para andar, no ver outros casais porém mais se vendo que aos outros; um encontro casual, resvalo tão somente com desculpas, outros sem desculpa; dá licença pegar suas mãos? não, nada disso, é pegar diretamente as mãos da jovem. Mais pipoca, sorvete? Papai não aprecia filha chegando tarde da rua. Descer pela Igreja São Bento, dizer bobagens de namorados antes de entregar a moça na casa, quer dizer, perto de casa. Novo encontro marcado. Novos encontros. E desencontros.
          Entretanto agora encontrava-se amarrado o pobre Tino, Sr.Juvêncio da Silva para o imposto de renda que loguinho iria arranhá-lo. Pobre dele. Amava. Sofria. Uma ideia não se desliga da outra. Começaram as minhocas.
          Boa cabeça para minhocas. Será que algum sujeito não iria mexer com sua pequena! e se ela gostasse? Nesse caso não teria apreciado realmente o jovem professor enamorado... Ora quem foi que disse que ela não gostava dele! Será que não mudaria de ideia? Continuaria pensando nisso por seis longos anos! Sujeito persistente hein! É verdade também que não tendo dom de prever o futuro, mesmo porque era um ser comum. Persistente, embora. Porém no começo foram as dúvidas. Depois parece que se fixaram as dúvidas, as quais só não eram maiores em vista da ingenuidade de ambos; ocorre nessa idade todos sermos ingênuos. Talvez o maior mal da humanidade seja deixar as dúvidas nas certezas a trocar tudo pelas certezas nas dúvidas.
          É verdade nesse namoro incipiente que a distância física colaborava negativamente; contudo o correio supria a falha e colaborando positivamente, a levar alento feminino ao professor matuto. As cartas dela eram agradáveis, oh como eram esperadas! A menina chegava ao ponto de perfumar o papel escrito, no afã de prender ainda mais o seu namorado; colava florzinha e pássaro no canto direito superior da folha. E jurava querê-lo sem dizer isso diretamente, recatada e prudente. Ele respondia naquele letrão ilegível sem meias palavras, dizendo amá-la pensar nela somente nela e outras besteiras dos amantes. No que ambos acreditavam e os dois duvidavam um pouquinho. O tempo foi passando e cimentando tudo com as pregas do costume aquela relação. Enfim amarrados. Ele exercia a fidelidade muito pouco masculina; ela bem feminina e sincera, na prudência, sempre comedida nas afirmativas. O tempo, malandro, cozinhou tudo no caldeirão da verdade, aqueceu a relação na chama das incertezas e nas certezas das dúvidas. Não os declarou marido e mulher para todo o sempre amém; entretanto fez dos jovens namorados seres firmes e maduros. Aproveitou para alugar-lhes a máscara da felicidade e do dever cumprido para com a sociedade, por largos anos. Sujeitos a tempestades e algumas bonanças.
          Porém agora que estamos na fase de tempestades, que tal um café pequeno e quente?
          Repito, quer um café?
          Você prefere uísque. Bem, é uma forma de crer no mundo; e gosto não se discute; tomando essa bebida estaremos a amparar e fazendo crescer as multinacionais. Que falta de patriotismo! que me diz a isso? eu optaria pelo café, pretinho, gostoso, cheiroso, caro é verdade, mas solução bem mais barata que a do seu uísque. Enfim opinião. Opinião do Tino?  Optava sempre por café? Não será por isso que ela deu o fora nele!?

 


 



Cap.IV – Um fora fora de época


Ocorre que a opinião do Tino não poderia ser muito diversa da minha sobre o café. Acontece que o moço não bebia. Ou por outra, ficava nas bebidas leves: era adepto do guaraná, a Coca-Cola não surgira ainda no país. Abstêmio? Coisa alguma, era fraco para bebidas alcoólicas. Suficientemente fracalhão, a ponto de entrar em pileque com apenas meia garrafa de cerveja ou um copo de vinho de mesa. Daí talvez a língua presa e sua falha mais flagrante, a timidez doentia do moço. Porque os antigos já diziam “in vino veritas”. Ele ficava sempre na mentira do medo e da timidez. É quase inexplicável o fato de nosso amigo ter tido coragem tanta para falar de amor à Norinha, ‘bater o barro’ na expressão roceira de propor namoro. Agora estava confirmado: era para a sociedade o namorado de Norinha, a bonita de cabelos dourados ao sol.
          Era tão namorado, tão namorado da bela, que chegaram, na confirmação de compromisso, às primeiras brigas. Aí com a colaboração da garota, não iria brigar sozinho. Ora há tantas e tantas razões sem razões para os casais brigarem, que se perde no intrincado as possíveis causas verdadeiras. Nelas a gente desabafa; a Norinha desabafava com a Regina, enquanto ele contava tim-tim por tim-tim todos os lances ao confidente de plantão, a fantasia. Quanto à amiga da namorada era confidente mais concreta; por sinal o Tino a achava linda, uma Regina de olhar meigo e puro; além do mais o namorado da namorada vivia inconformado pela amiga da namorada, ou mais por causa da mãe dela, uma bruxa ressequida, desejando casá-la a qualquer preço com um radialista safado, a jovem pretendendo ser freira; não obstante o Tino se perguntava se era lícito a sociedade perder aquele materialzão feminino para os conventos... Enfim, eram por esses caminhos que passavam as brigas do casal Tino-Norinha, as causas sendo sempre indefiníveis. Digamos houvesse ciúmes de um lado e falta de atenção, alegada, de outro.
          Foi no momento das primeiras brigas que deu-se a introdução de um elemento novo, uma jovenzita dos seus oito anos, linda linda como o são as crianças. A Cidinha virou vela dos dois. Ela não chegava a incomodar o casal, então quase sem pretensões elevadas. Elinha subia e descia ruas praças e jardins – qual  um rabo, os olhos brilhantes cheios de curiosidade pelo mundo, atrás do garotão e da jovem Norinha. Como fosse grande perigo macho o Tino e a menina enorme defesa a favor das castidades de plantão! Contudo era um mal necessário a menina; e não chegava a impedir sequer as pequenas discussões do casal. Foi por esse tempo que tudo começou a mudar.
          Então a moça ganhou coragem e o mandou passear. Disse que o pai descobrira o namoro deles, não queria amor inconsequente, sim estudo e formatura. Ele aceitou, se a garota não o queria, era possível ter outro fulano metido na coisa; ele não apreciava comer no mesmo prato dos outros, pensou rancoroso. Pensou e não disse, apenas aceitou. Aproveitou para soltar as minhocas da cabeça; e não poderia ser que os irmãos da Norinha não gostassem dele! não conseguia o rapaz chegar-se a eles; havia o Pedro encrenqueiro, toda família tem seu malasartes aluado e comprometedor. Também ao moço ocorreu a jovem estivesse desgastada pela mãe dela, doente mental, quem sabe se não tivesse vergonha frente ao namorado por isso! Norinha pusera o problema em discussão entre as minhocas da cabeça do rapaz. Entretanto na hora ele apenas aceitou o desenlace. Mas ficou enraivecido. Você não pretende que pulasse de contentamento, não é? Não obstante é mais complicado do que parece ser. Ele, o timidão, ingênuo, era debaixo disso tudo um homem. Não é por haver nascido ‘menino homem’ e não ‘menina mulher’ como diz o caboclo, não era por isso, e sim porque a jovem suscitava nele pensamentos eróticos, desejos inconfessáveis ou não suficientemente sabidos ou conscientizados, talvez. Talvez coisas lá de jovem na fase de afirmação e pujança masculina. Inclusive, para não passar vexame diante da namorada tão atraente, comprara com míseras economias um suporte, dessas saqueiras comuns, as que os atletas usam a defender tão nobres órgãos. Que sujeito interessante: temia parecer um homem normal, era comum apenas. Provável tenha sido prático o rapaz, pois vivia ao lado da moça sempre com a mão direita no bolso, envergonhado... E justamente na inauguração do suporte, segurador das pujanças viris, a jovenzinha deu-lhe o fora! Daí surgiu novas minhocas para morar com as outras na cachola dele: “será que ela pôde descobrir...” Foi embora para sua casa, ruminando e numa raiva danada.
          Aqui um alô aos presentes. Quase ameacei abrir um capítulo novo e especial a esse pormenor tão importante para aqueles namorados. Não havia tantos presentes como se possa imaginar; o tempo de convívio fora curto e o rapazinho um  autêntico pão-duro, talvez nem fosse essa a opinião da moça Nora, comedida e simples no viver; parece que o indivíduo tinha mão fechada. Mesmo assim, descontados possíveis senões, presenteara sua amada quando amada: um bauzinho de madeira espécie de porta-joias, uma foto dele para ela adorar, não sei se adorou não devia ter mau gosto... e mais nada. Quer dizer, será que havia mais? ah memória fraca! Bem, havia lá um presente sui generis (não falei que o camarada era original, não? acabo de falar). O tal presente constou num sermão à moça no ‘dia dos namorados’, doze de junho, suficientemente propagado pelos comerciantes do país a vender mil bugigangas lucrando por cima dos casais; nesse dia. Ele falou falou falou e mais falou, completando a pregação à jovem abismada e completou: “este é meu presente do dia...” Ela sorriu amarelo e imediato entregou-lhe um certo embrulho, uma caixinha com um par de abotuaduras para as camisas do Tino; o presente dela. Você pensa que ele não agradeceu? agradeceu. Noutras oportunidades oferecera ao rapaz vários outros objetos, lembranças, coisas assim como meia-lenço-camisa, ah o grande problema de não se saber o que o outro sexo aprecia! Norinha teve lá seu drama, mesmo assim presenteou ao ingrato. Agora estavam na fase do devolver. Ela exigia e ele negava devolução. Afinal, presente se devolve? Ele foi durão; não queria a foto, que ela a queimasse; guardaria a dela e os presentes como lembranças. Tinha direito, achou ter. Dessa forma e assim decidido, os problemas da jovem devem ter sido bem maiores que os do rapaz.
          O principal é que o Tino havia tomado o fora. Por isso sentiu raiva.
          Agora, em contrapartida, sentia-se como Adão quando tornou-se viúvo. Espera lá, será que Adão ficou algum dia viúvo? Acho que deva consultar a Bíblia para saber. Isso não importa aqui. Assim foi andando andando enquanto pensava e remoía suas minhocas, quando deu conta de si, passara já sua casa; cismando e baratinado ultrapassara a igreja e a linha do trem da Companhia Paulista. Acordou, pulou a linha férrea, voltou para casa; a chutar pedras e gatos. Havia, pensou, um bem a reconhecer – estava livre de compromissos. A liberdade é muito cara a um homem.
          Então aconteceu para completar a desgraça do fora, a desgraça maior de um desemprego. Ou poderá ter sido uma bênção. Sim porque teve que deixar a cidade do interior, despedido da escola, fugindo assim, obrigado pelas circunstâncias, da lembrança do namoro; agora era procurar noutras plagas um ganha-pão, também o drama de toda juventude, a qual nunca encontra colocação na sua própria terra e se vê na contingência de procurá-la na capital. Teoricamente andaria longe para curar desenganos de amor!
          E vem você se intrometendo novamente, a perguntar se agora acabou de uma vez por todas o caso de amor do garoto Tino, aquele sujeito encrencado que aportou num pau de galinheiro. Não afirmei que o fora da moça no moço ingênuo encerrou esse amor. Mentiria caso afirmasse. É que... bem, vamos a um conhaque para esquentar um pouco.
          O Tino? depois eu conto. Quanto ao conhaque é uma bebida europeia ao que me consta; não me corrija porque não sou enciclopédia. De qualquer forma é uma bebida estrangeira, nós não a inventamos! Como já firmei posição nacionalista... Portanto vamos ao café outra vez: não tenha medo perder o sono, ainda não se comprovou a veracidade disso; e além do mais são onze horas desta noite, não existe bebida que impeça dormir. Um cafezinho gostoso e cheiroso, enquanto inicio o contar sobre o reatamento amoroso.





Cap.V – O reatamento do idílio.

Nosso Tino andava macambúzio. Os jovens têm disso vez por outra; os velhos têm sempre. Falta dinheiro... ora bolas entristecer-se por faltar coisa tão imunda, o vil metal; não nos impressionemos demais, é questão de idiossincrasia do sujeito. Problemas de adaptação na cidade grande e desumana; não sabia ele que as capitais não são de ninguém, porque são de todos; era pegar sua partezinha, recolher-se à sua propriedade no grande nada do viver, que em si é já ilusão. Não compreendeu isso e se afundou na miséria da tristeza. Deveria saber usar o antídoto da tristeza profunda, que é o amor. Vamos com calma, o moço aprenderá.
          Quer dizer, tinha lá também suas razões e as razões desarrazoadas. Destas e com estas encheu papéis e mais papéis nas cartas-desabafo aos parentes e ainda mais aos mais próximos, os genitores; eles sem grande cultura mas com dose suficiente da cultura do coração. Contou suas mazelas, escondeu o problema concreto da falta de meios financeiros, que o desemprego não conseguia esconder; e esbanjou, impiedoso, o drama do inconcebível e quase inarrável! Molhou a carta aos pais com lágrimas puras, tadinho. Disse aos entes queridos, lá nas lonjuras interioranas, de uma possível ameaça de derrame cerebral, afetando todo seu psiquismo: dormências parciais esquecimentos pesadelos; enfim se abriu com os seus; e com isso melhorou um pouco, usando tal válvula de escape. Ninguém vive sem ninguém íntimo! Por outro lado nasceu-lhe novo problema, que era o problema de transmitir seus problemas, os de seu íntimo profundo, aos familiares, ainda mais sobrecarregando-os, sem que pudessem (gritou-lhe o raciocínio) amenizar ao menos a sua carga emocional. Assim se condenou, não fosse já condenado, isso por vários dias. Dizia-se, matracando lá dentro da cachola, ser um anjo mau, azucrinando pobres velhinhos indefesos! xingou-se então; tinha esse direito. Não obstante, noutra semana enviou mais carta-problema, igual uma carta-bomba terrorista a estourar os sentimentos dos que lhe deram a vida. Nela narrou inúmeros sonhos terríveis, amigos de suas noites indormidas. Depois ainda ficou sofrendo a possível sofrência interiorana lá nas lonjuras, as lágrimas de mamãe! Puxa, que indivíduo confuso e masoquista... Dá até raiva. Eu que tenho raiva.
          Porém confesso, vencido, tinha suas razões fortes; sua tristeza estava bem fundamentada nos alicerces econômicos do desemprego. Porque a gente e essa gente é gente solteira, com menos encargos costumamos dizer, não tendo o amparo do outro ser a dividir as sofrências; e assim a casa cai se apenas houver uma parede; exatamente dessa forma, porque o bicho gente é assim mesmo: se afunda na primeira tempestade; na melhor das hipóteses faz água o barco; hajam latinhas para tirar a lama! Não arranjava emprego e o dinheiro escasso acabava. Já pensou a deprimência por viver encostado a parentes da capital, na expectativa de um prometido trabalho! Poderia, sim, ajustar a personalidade com o amor, você insistirá. Concordo. Mas serviço é o ganha-pão, uma coisa séria aos pobres.
          Ah... sentar-se de manhã num banco de praça, olhando meio desesperançado o “Diário Popular”, recortar a secção classificada do “Estadão”, não é coisa mole, não é brincadeira. As pombas faziam companhia comendo restos de alimentos, pipocas atiradas ao chão; haviam outros noutros bancos também a sofrer igualmente o drama, tinha a suavizar seu estado a vegetação no jardim público – queria era trabalhar.
          Sujeito trabalhador hein! um mérito, cremos; o negócio entretanto é mais complicado: trabalha-se na esperança de receber numerário para comprar alimentos etc.; o óbvio, concordo. Todavia o trabalho traz inclusive segurança para garantir a paz, para se dormir sossegado. Taí o porquê de pretender colocação. A gente busca dignificar-se pelo fazer, o emprego nos dá essa satisfação. Nem sempre, você argumenta, isso outro desvio psicológico que não compete destrinchar neste momento tiniano. Bem, no caso de você, caro leitor, continuar se intrometendo, convidarei o amigo a tomar outro café!
          Porém não tema estourar de tanto café que já ingeriu, como na estória do senhor respeitável que apreciava chá. Seguinte. Ele fora fazer uma visita à senhora respeitável dum amigo dele também respeitável, em hora inadequada. Foi intimado a sair do guarda-roupa do casal, intimado sim pela garrucha do esposo da senhora respeitável, justificando a visita ter vindo apenas tomar chá com a dama. Pois bem, o senhor amigo e esposo respeitável, digo, a sua garrucha, encomendou à esposa uma latinha de vinte litros de chá para o visitante e para ela também. Tomaram o chá quente, muito mesmo, apreciavam deveras chá e a garrucha andava por demais exigente. Quando o respeitável visitador já se encontrava empanzinado e enfastiado com tanto líquido, empacotou no chão; aí chegou a ambulância a fim de levá-lo; então aquele enfermeiro gozador disse ao visitante respeitável aquilo não ser nada grave, bastava tão somente ingerir um chazinho...
          Não estou a desejar enfastiá-lo de café, compreenda meu leitor; nem o Tino apreciava chá, chá é coisa para remédio e o moço não se considerava tão enfermo assim, era jovem e forte, pensava ser forte.
          Pobre de meu fraco Tino. Andava azucrinado com tantos problemas de ordem econômica, já evitava tomar cafezinho nos bares com os amigos para não gastar; chega um momento que é sua vez de pagar, chato né? Evitando o café, o que não era tão difícil assim porque numa cidade grande e desumana a um estranho não há muitos amigos a oferecer gulodices no bar. Sorte dele, que voltava para casa (dos outros, vivia com uns tios) agora sem haver encontrado serviço, mais chateado, os recortes de jornal ensebados. E ainda precisando andar pelas ruas com os sapatos furados a procurar os endereços e sendo obrigado a economizar o almoço, aproveitando o jantar na casa dos parentes! drama. Especialmente ao sentir cheiro de carne tostada com batatas fritas nalguma residência por aí, ele de barriga vazia murchinha, infeliz. Voltava para casa, tentava justificar à tia os insucessos, sofrendo a cobrança diária do tio nuns olhares inquiridores... Encontrava-se arrasado! Entretanto possuía a noite para conversar consigo mesmo, a ouvir-se os planos para o amanhã incerto. Contudo o rapaz bem que merecia o suplício, porque teimoso à beça; aos teimosos as melhores pauladas.
          No que teimava, viver por exemplo? Em andar atrás de serviço quando o correto seria fugir da ocupação? Nada disso; ele era orgulhoso não aceitando qualquer vaga, não queria vender batatas na feira, não desejava varrer as ruas imundas: pretendia ser caixeiro-viajante, fórmula que inventou para fazer turismo de graça, passear remuneradamente, maneira de pobre conhecer o mundo e passear (imaginou fosse passeio) sem gastar o dinheiro, que por sinal não possuía mais nessa altura. A realidade mostrava outra faceta: ainda estava desempregado, um mês, segundo mês, sabe-se lá mais quantos a curtir... Daí havia as eleições. E café, você indaga. Não senhor, é tempo de eleição.

 

 

 



Cap.VI – Festa de inleição


Ainda trazia no bucho sensação da falta de comida, na cabeça a dúvida do emprego, no coração o poema de Pompílio Diniz contando o drama caboclo da eleição na roça, de maneira graciosa. Repetia mentalmente alguns versos lembrados da “Festa de Inleição”. Talvez por época de renovação eleitoral, os deputados assinzinho atrás das pessoas, sorrindo sorrindo; o Tino sem dinheiro para salvar a democracia com seu voto; sim porque ele votava na sua terra, a cidade grande não lhe dera meios para custear a viagem ao interior, antes tomara-lhe os últimos níqueis. Como fazer? pensava o legalista jovem. Era legalista, nacionalista, cumpridor das exigências oficiais; e também não votava nos candidatos comprometidos com as forças ocultas que o Jânio mais tarde iria enfatizar. Foi então conseguir um passe através dum político e se foi na segunda classe apinhada no trem da Paulista. Assim, supôs ajudar quem ajudava a democracia, votou secreto; revendo por consolo os familiares. Nosso amigo sendo mui sentimental e ligado aos seus.
          Chorou como convém, de alegria, de emoção; e por ainda estar desempregado. Conversaram, desabafou o infeliz. Aproveitou a ocasião para rever a Norinha; de longe, bem entendido; também se comunicou com a moça igualmente de longe num “oi”. Descobrindo – mas já sabia de sobra – que gostava dela, dela sentia falta muita falta... Espere, tem uma coisa a esclarecer.
          Pois não é que enganei o leitor? Sim, entitulei o capítulo anterior como “Reatamento” e não reatei coisa alguma! Antes de me chamar prolixo e enganador barato, ofereço ao amigo o café que não havia prometido (fica por conta do episódio “Reatamento”...) um café gostoso. Preto, bom. Tem preconceito de cor? e porventura haveria café não preto? Pedirei ao moço do bar, que é uma garçonete bonita, que nos sirva um autêntico água de batatas, clarinho.  Aproveitando-me do instante em que paramos para reatar o caso de amor entre o Tino e a Norinha.
          Bem. Tristeza não lhe faltava e mesmo sobrava. Alegria também sobrava, porque vira a jovem saindo do adro da igreja São Bento. Ela era filha de Maria, ele razoavelmente ateu. Ela cedeu um pouco ao longo do curto convívio com seu namorado: deixou de pertencer à confraria mariana, porém continuara religiosa. Daí tê-la visto saindo da igreja e cruzando a pracinha próxima, depois descer a Nove de Julho. Ela disse posteriormente numa carta ter deixado a congregação; aqui entenda-se: na carta, pois não lhe dirigiu palavra naquele encontro fortuito a que me refiro; enquanto ele falou “oi” mentalmente e ela não ouviu decerto. Contudo ele a viu com os olhos que a terra haveria um dia comer, para dizer na apurada linguagem caipira. Ou por outra, reafirmou a si mesmo gostar da menina.
          Descobrira um quê no seu andar, uma beleza sem par no vestir, que por sinal era o simples trajar; viu a saia batendo nos joelhos (não havia notado que as saias femininas – ora, deve acontecer a mesma coisa às dos homens escoceses... – as lindas saias femininas executavam sempre o roçar pernas, válido para todas mulheres é claro, mas o Tino ingênuo, como podemos deduzir facilmente; e amante; estava amando!) notou os cabelos esvoaçantes e singelos da moça, agora melhor compostos e dourados ao sol não das sete e trinta, porém pelo sol da missa das nove horas. Teve ímpetos de gritar por entre ruas “Norinha, Norinha!” não gritou não ficava bem a um homem da capital, agora era da capital do estado, a um reservista desempregado e sofredor; é, não ficava bem. Por essa razão guardou a distância cabível e honrosa da presa... Pensou melhor, voltou para mamãe e papai, despedir-se dos manos, tomar novamente o segundão, compromissado no encontrar emprego.
          Chegou em São Paulo. Poucos dias depois veio-lhe uma carta gostosa da mocinha Nora Perez. Não declarava amor. Não se entregava. Não lamentava por ele não havê-la procurado no interior. No entanto punha um sim saboroso de amizade e amizade é uma promessa de afeto para quem necessitar. Ele bem que precisava. Dizia sentir saudades do tempo em que ela era feliz, quando tinha um moço bom e talentoso ao seu lado (ele releu muitas vezes seu próprio nome talentoso e bom). Chegara ao Tino o momento de pensar, se é que houvesse parado pensar. Pensar no amor, por que razão só iria se martirizar nas questões puramente econômicas!? bobagem. Tinha necessidade das bobagens de amor, preencher o nada que é a vida, ele a pensar nos vinte e três janeiros (outubros, fazia em outubro) que a vida era o tudo. Chegara a hora de pensar; e ele não pensou, respondeu ardentemente a missiva. Ela respondeu a resposta, ele por sua vez a resposta da resposta. Assim reataram o caso de amor.
          É isso que aconteceu.
          Está bem agora?
Então vamos tomar um café por conta da casa, a fim de comemorar o matrimônio (não exageremos!) Café quente refresca a cuca, estimula os ânimos. Daí teremos forças para continuar nossa conversa sobre o Tino, Sr. Juvêncio da Silva, conhecido nos meios familiares por Juventino, enfim sobre seu segundo erro, ou segundo namoro, se ficar melhor dizer. Anda curioso?

 

 

 



Cap.VII – Caminhada ao segundo erro, ou muito

                 pelo contrário


Aliás o erro tornava o moço muito mais humano, pois errar é humano, diz o ditado. Entretanto ele não sabia estar caminhando para novo desvio, ou seria burro bastante não evitando. Agora ocorre que ele deva entrar na segunda classe do trem da Paulista, viajar quase todo o dia, ou toda a noite, porque fica melhor liberar seu dia de sol a procurar emprego, não cabe aos escribas atrapalharem os desempregados. Enfim ele viaja noite inteira para cair nos braços da amada, a qual iria decerto esperá-lo na estação ferroviária. Patético, não? ou romântico.
          No entanto não foi bem assim. Deu-se mesmo o contrário, porque o homem fugiu para mais longe... Ele encontrou colocação afinal, o tão sonhado emprego (puxa, você estava agoniado e eu aqui igualmente torcendo por ele, não aguentando vê-lo chegar à Vila Maria na capital maluca, bico abaixado, recortes usados, a dizer para a tia “hoje não deu” a abaixar a vista para a vista inquiridora do tio a falar entre botões e na cama à esposa “essa peste não arranja trabalho por vagabunda; além de comer por dez vacas!”) Ah o Tino trabalhando! Imediato escreveu a novidade para a nova garota.
          Não, à velha garota namorada novamente, a novidade é que era nova, novíssima. Sim arranjara serviço como viajante de pilhas, na Companhia das Pilhas Multinacionais (não falei que ele era politicamente nacionalista?) Já pensou, o mundo estava salvo! Bem, o mundo dela sentiu deveras, o amado agora iria para mais longe – Paraná Rio de Janeiro Minas. Loguinho no momento em que ele deveria correr para ela, mesmo no segundão da Estrada de Ferro Paulista; e acontecia o fugir para mais e mais distante. Porém não existe distância aos corações e ao correio, esta uma instituição na época quase falida mas que serviu brilhantemente como Santo Antônio ao distinto casal.
          Dessa forma começou o leva-e-traz corriqueiro postal, servindo por taxas módicas o carteiro aos jovens separados no mapa do Brasil, tão próximos no coração. Romântico? As cartas desmentiam as afirmativas; e se contivessem – elas continham realmente – juras de amor, também levavam-traziam por outro lado encrenquinhas familiares, enredinhos e mexericos, os miúdos das relações enfim; e também notícias de importância restrita a um dos contendores. Isso sem falar... espere um pouco, já sei que você se admirou por eu usar a expressão ‘contendores’, visto a meu ver (não tenho direito a opiniãozinha sequer!) o que acontece amiúde entre homens e mulheres por esse mundão de Deus, quer dizer uma luta às vezes surda e subentendida, às vezes flagrante e às claras, na qual o macho quer a fêmea, subjuga o adversário e tudo o mais, já conhecemos, até as crianças do grupo escolar sabem de sobra; porém não se perdoa o adversário, relembrando cada um isso nas horas oportunas por mais inoportunas possam parecer... enquanto que a fêmea precisa do macho para seus desideratos, facilita a conquista ou mesmo atira umas iscas (digamos uma carta do interior à capital) enfim facilita a tarefa por precisar; e igualmente não perdoa ao macho adversário por essa tal conquista que ela mesma ajudou facilitando. Então, casados ou não, namorando ou só pretendendo, se estabelece entre ambos uma luta, surda como falei, todavia luta; é apenas diferença de estágio. Diria, baseando-me nessa afirmativa, que eram Tino e Norinha contendores no estágio de namoro, de segundo namoro. Suas cartas muitas vezes levavam trechos de interesse apenas dela ou somente dele. Assim ele nunca descobriu quem era uma tal de Marta e o que fazia nas missivas dela um cachecol verde com bolinhas pretas; não obstante nunca se esqueceu de mandar por intermédio da namorada um abraço afetuoso à Marta, pedir que tomasse cuidados especiais para com o cachecol e suas bolinhas. Ela agradecia pela atenção demonstrada e demais lembretes dele (pequenas grandes coisas, no dizer de Norinha).
          De maneira que tendo o correio por amigo comum, se escreviam e se amavam por correspondência. Tino contava de Londrina da lama no tempo de chuva da bela região paranaense; falava sobre as montanhas e as siderúrgicas mineiras, enviava postais de Mariana e Ouro Preto, de Itabira do poeta Drummond; descrevia Lafayette e Patrocínio; enfim por onde andasse de pasta na mão a ofertar as maravilhosas Multinacionais – imediato umas linhas para sua garota. Ao chegar a Belo Horizonte, onde praticamente residia, embora no Hotel Bragança, ansiedade! estavam lá as cartas acumuladas da moça Norinha. Ela confirmava haver recebido sua correspondência, comentava a terra natal, tão sua conhecida, tinha apenas isso a expor, enquanto ele mostrava à companheira seu conhecimento do desconhecimento dela de todo um Brasil! A menina falava ainda do andamento no curso, os planos para ser professora efetiva um dia; e não se esquecia do cachecol a brincar com a curiosidade do rapaz; a Marta igualmente não ficava de fora. Como seus papéis eram pedacinhos dela viajados até o Bragança! então ele se deleitava nas folhas caprichosamente manuscritas e lamentava não estar na sua companhia. Assim trocavam juras de amor, ao modo deles.
          Por fim ela lhe cobrava uma visita. Que diabo de namorado era aquele a usar o correio para chegar a ela! precisava de sua presença, conversar diretamente, trocar ideias. Ele, mui imaginoso, lia nas palavras dela mais, muitíssimo mais... E de repente gritou: “não gastarei nem mais um centavo noutra saqueira!” o que não tinha sentido, mesmo para o sujeito. Depois disso olhou por todo o quarto de hotel, certificando-se estar só... tomando a seguir a cueca que lavara na pia contra o regulamento do hoteleiro, para vestir após o banho demorado a sonhar. No banho deu foi prejuizão ao Bragança, porque se perdeu nos devaneios debaixo do chuveiro, ansiando pela namorada... Num susto lembrou-se por qualquer associação de ideias dum freguês das pilhas Multinacionais e flagrou os negócios não andarem muito bem, porque as vendas caíam assustadoramente, a concorrência ia feroz, a companhia gringa ameaçava o vendedorzinho com seus cortes salariais. Ora bolas, pensou, teriam os negócios o direito de intrometer-se com Nora? Como resposta ficou apenas mais quinze minutos no banho, se relaxando e amando a jovem conterrânea.
          Aí se enxugou se vestiu e lustrou os sapatos com a toalha de rosto, no estilo caixeiro-viajante; indo a seguir para o almoço.
          Durante a refeição no meio a bifes e batatas, veio para visitá-lo a moça. Não largava. Será que não podia pensar noutra coisa? mesmo nas garotas, quantas linduras não povoavam o sagão do restaurante! ele bestalhão, preso a fidelidades tacanhas; que fazer, estava nele, se disse, era sua personalidade. Então deixemo-la acompanhar o Tino também ali comendo filé e trincando alface a repetir e mais repetir educadamente a sobremesa, um doce de leite bem mineiro, por conta da gorjeta ao Zezinho garção. Tinha a Edmeia, hóspede paraense, sensual cálida simpática acessível, a qual o aceitava bem. Ele porém não queria profanar seu amor puro; assim não passava do bate-papo simples com a jovem morena. Ela sorria num chamarisco, punha nosso Tino contra a parede a exigir dele convites antecipadamente aceitos. Contudo o caixeiro-viajante não se dispunha a formulá-los, a convidar ninguém. Depois se grudava às juras da última carta, consultava a única foto que roubara à Norinha, certa fotografia para documentos conseguida a custo, a qual ele trazia sempre na carteira para mostrar ou esconder aos amigos, espécie de prova sine qua non a dizer ao planeta sempre desconfiado da gente macha: “eu também sou homem com agá maiúsculo!” Era o sustentáculo de sua personalidade, ainda em formação.
          Assim encompridava meses um namoro com existência a título precário, considerando-se sua trajetória como um todo. Vista desse jeito, a ligação não foi mais que um erro ou engano que outra coisa. Entenda-se, ele, o Tino, prendia a moça e estava a ela condicionado por palavras; e agora tão somente por cartas. Sugeriu à donzela que tal relação deixava muito a desejar, não a queria por prisioneira; escrevia-lhe que a seu ver achava ela possuir um futuro amoroso promissor e brilhante até, sem ele; ficava presa a um viajante de meia pataca, um mequetrefe em matéria de vendedor. Ela respondia às suas ponderações com repreensões pelo excesso de pessimismo (matéria na qual o Tino atingira quase a perfeição) ela respondia a resposta inclusive com novas juras de amor e chegou a sugerir necessidade de seus carinhos; só isso. Por causa dessas veleidades ele se amarrando ainda mais à garota, não tinha força para romper de vez. Mas desconfiava dever. Crises existenciais de jovem bem imaturo. Foi por ocasião parecida que ele consumou mais uma besteira, a enriquecer a sua coleção. Não, talvez mesmo tenha sido antes, agora a burrice teria razão mais forte para existir: começou a confidenciar sua rica pobre vida para um diário... A bem da verdade, parecença com jornaleco dirigido a público de parcos recursos culturais e ainda por cima (seria melhor dizer por baixo) chegando ao destino lá um dia que outro por semana. A comparação que fiz, acordemos aqui, é bem a contento, pois que a matéria-prima, as tais confissões tinescas, ela saía intermitentemente (puxa quanto tê tem o vocábulo! daria um belíssimo estudo, deixa pra lá voltemos à baboseira do sujeito:) Se fosse neste ponto da narrativa transcrever todo o calhamaço das anotações dele, que por sinal roubei à enchente de 1973 no bairro de Santo Amaro na capital, a qual roubara ao grisalho Tino derretendo as folhas amarelecidas, acreditando eu a água da chuva ter tido, após lavar os papéis, tido sim um tratamento gástrico num hospital especializado, a desentranhar tanta porcaria do bucho... como é que eu dizia? ah, sim, se eu fosse transcrever tudo da sobra na lama teria realmente que escrever novo romance, somente para essa parte! Conclusão: transcreverei um trechinho de um dia: “20 de julho deste ano frio, estou é quente pelas irresoluções de minha pobre vida. Encontro-me cansado com tantas e tantas viagens. As vendas despencaram, periclitam, não passo de enchedor de relatórios para esses gringos filhos de umas ‘p’.. Entretanto como me pagam as viagens para eu conhecer as meninas mineiras... vamos lá, escrevo invento encho folhas timbradas pela Companhia das Pilhas Multinacionais, mando aos bestas para lerem e me enviarem numerários. Não vendo pilhas, só vejo as garotas! pera lá  seu Tino de uma figa, e a Nora! é, tem esse senão, no entanto quem me garante que ela me quer de verdade? ademais, quando vejo aquela loura de Patrocínio... hummmm me esqueço até da família, que dirá dela...”  Continuou por aí, entrou na família num tró-ló-ló quem sabe nem digerível pelos parentes íntimos. Por isso interrompo o diário, prometendo retomá-lo noutro momento quando for o momento.
          Quem reler o entulho tinesco, quer dizer o diário dele, verá mui presente a Norinha. Era o problema de sua vida no seu exílio nas Alterosas. E havia uma outra questão. A menina deixava claro nas cartas a sua família não apreciá-lo demais, e muito menos estar feliz por uma relação dela consigo, na condição tênue do namoro. Não obstante, tempos depois a jovem confessaria que o pai vivia atirando indiretas quando ao iniciar ela a aproximação com o Tino, naquele tempo o rapaz era mais oleiro que estudante, como do barro sua família; então o velho dizendo à filha: “vamos comprar tijolos, Norinha...” ela corando pra valer. De fato não dá para entender mulher; e não é apenas jargão macho; ao menos a Norinha sendo indecifrável! Seria o velho Perez Valiente tão brabo como a jovem dissera para romper a primeira vez com o namorado? E agora, na segunda fase desse esquisito idílio, ela vem com essa de que a família não o apreciava muito... Botou minhocas de novo na cabeça do escrevinhador de relatório das rechonchudas vendas de pilhas.  Por isso ficava obrigado a comunicar-se com a jovem por uma terceira pessoa. O caso se tornava ainda mais complicado. Isso martirizava.
          Enfim você me parece cansado pelas tolices do herói; poderia então aceitar de minha parte novo convite a um café. Que acha? sente-se ao lado aqui do escriba. Café preto, forte, saboroso, fumegante. Aguarde o descanso de minha goela, vou narrar sobre a visita do grande conquistador Tino da Silva, visita à sua fiel donzela Norinha, a bela lá lonjão.

 

 

 



Cap.VIII – Visita inesperada


Eis um jogo com cartas marcadas. A menina sabia que o namorado iria chegar, recebera antecipadamente missiva e respondera a ele dando ciência saber da vinda do moço à terrinha. No entanto assustou-se quando o rapaz apareceu em frente de sua residência, lá nas proximidades do bar do pai dela. Não se assuste, por sua vez, no bar do sogro apenas se vendia bebidas alcoólicas guaraná e cigarros, doces também, café não. Um estabelecimento de bairro, no Largo do Sapo. Pois bem, foi lá. Ficou meio sem graça, descontrolada com o inesperado... E pronto, ele engoliu o sapo, estava mesmo no Largo do Sapo, parece que engoliu. Não beijou o namorado, não foi por ele beijada. Esperava o amigo comportamento mais avançado de um tímido borocoxô da marca do Tino! enfim isso não altera a timidez doentia do rapaz das pilhas Multinacionais. Agora, se esperava lirismos, se enganou redondamente. O romantismo ao inferno. Ele era o que era, não mais, devo inventar torcer a verdade então! não podia ser diferente.
          Espero de minha parte que o leitor não aguardasse um episódio do tipo água com açúcar... (quanto ao escriba, tendo certeza ser o escrito de muita água e pouco açúcar.) Enfim tratemos o Tino na sua sem-gracice e pronto. Agora quer você o curioso da questão? Em Belo Horizonte ou em qualquer lonjura ele era o fortalhão, o conquistador, o machão perigoso, garanhão destacado, dobrando a pobre gatinha indefesa, tomada finalmente após artimanha eficaz de D.Juan, ele. Na frente do crime entretanto preferia ser assistente, não se encorajando a ir além do “minha querida” e pegar na mãozinha dela. O machão das cartas amorosas, pegando realmente as mãos da moça. Por sinal, que mãos! ele se impressionava com a delicadeza, a alvura da pele, os dedos gordinhos melindrosos. Encantava-se por vê-la no Jardim da Praça, naquele banco batizado pelas andorinhas chilreantes nas árvores próximas, ela olhando um ponto fixo imaginário quem sabe, nunca a ele diretamente, a conversar com o namorado, quase nada além do que dizia nas missivas de amor. O pobre se decepcionava, embora prestando atenção embevecido por sua figura feminina quase num perfil; e não tinha a coragem suficiente para admitir a si mesmo a fragilidade da relação, certamente medroso do amor puro que sentia por ela. Era assim, e o bobalhão nem para indagar pelo menos da Marta, pedir o cachecol verde com bolinhas pretas, matando a curiosidade. Perdeu uma oportunidade, embora viesse a ter outras oportunidades mais, e não saberia nada além do que já não sabia do cachecol e da moça.
          Ora, o amigo a imaginar cenas e mais cenas sentimentais e quiçá indecorosas... Tirar o cavalo da chuva, desse pau não sai mel, onde foi que amarrei minha égua! e tantos outros ditados caipiras que tivermos nas algibeiras; jogue fora as pretensões, nosso herói não dá no couro. Eu igualmente estou profundamente decepcionado com ele. Ah que droga!
          Dessa maneira, murchinho, querendo enganar-se numa discutível vitória, eis o Tino outra vez de segundão no trem de ferro das dez para as oito da noite, varando em claro a viagem de volta para São Paulo (aqui sem conotação estranha como o esquecerem a luz acesa, no trem fica, ficava, mesmo acesa noite inteira; daí ‘em claro’). Da capital paulista partiria de volta a Minas, firme no pensamento ter ganho uma grande batalha de amor, porém se perguntando constantemente “onde está o general?” com vergonha responder. Viajou chegando esculhambado pelo sacolejo do trenzinho e do banco duro de madeira fazendo calos, naquele carro onde muitos roncavam entre sacolas e malas, enquanto o pobre Tino curtia acordado um amor de gosto extravagante e uma dor de cotovelos como se diz por aí. Cansado física e moralmente. O dinheiro curto nos bolsos, a viagem longa vencida; uma batalha sem o natural e esperado butim. Restava o consolo de a segunda parte da caminhada ser de poucas horas, num confortável Viscont da Vasp, ou mesmo num Convair da Real, tudinho pago pela Companhia das Pilhas Multinacionais. Tornou a Belo Horizonte. Porém antes duas surpresas de fundo moral. Uma quando, parece que por vingança do exíguo carinho recebido na sua terra, fez elogios e se desdobrou nas observações a uma jovem, tais elogios dignos de um Casanova, à aeromoça longa loura linda. Quanto à segunda surpresa, ele não a provocou. Até parecendo um castigo divino, se acreditasse no divino: a aeronave ficou a circular lá por cima, sacolejando ante a tempestade lá por baixo, sem poder aterrissar; entre as frestas das nuvens na janelinha do avião podia distinguir a Praça Sete, mais um largo que praça de verdade, onde se encontrava a Igreja São José; e percebia a Avenida Amazonas a partir do obelisco: portanto sabia estar já em Belo Horizonte. Teimoso ou precavido o comandante avisava o descer nos próximos cinco minutos, porém voavam nas tentativas fazia hora! Será que havia suficiente combustível! (o que ele um vendedor ignorante e leigo a entender do assunto?) será que dava para aguentar mais tempo! e se a tempestade continuasse ou ainda piorasse? Estava enjoado, ia pôr fora o almoço gentilmente ofertado pela linda loura longa aeromoça, apelou à bela mulher, não por ser ela mulher bela nem loura nem longa... Enfim desceram. Então foi curtir os seus desastres no hotel, espécie de residência do mocinho deste filme louco se não chanchada, o Tino.
          Bem, caro leitor, parece-me que a estrada anda um pouco árdua nesta distância da narrativa. Para reconfortar, pasme! não oferecerei a você café. Que tal uma cachaça? Nada de uísque estrangeiro, nada de cerveja alemã que além de gringa tem o demérito de fazer crescer a barriga engravidando mulheres e homens, nada de vinho europeu, ou de conhaque vodca e demais bebidas igualmente alienígenas no planeta brasileiro; nem champanhe, pelas mesmas razões e porque nada temos a brindar. Cachaça bem brasileira. Poderia me aproveitar do momento para fazer um panegírico da branquinha. Encurtarei dizendo somente que ela é bem nacional. Apenas tem uma coisa: é bebida alcoólica. Imagine os bebuns que temos por aí e quantos lares desfeitos por ação da aguardente! pense nos paus-d’água nessa vida que todos conhecemos. Mesmo brasileira ficará de lado. Para não perdermos a pausa, tomemos um pretinho saboroso fumegante café. A fim de voltar ao Tino.

 



 

 

Cap.IX – Rotina do passear


Não havia dito que ele imaginava suas viagens passeios turísticos? A realidade, ajudada pelo chove e não molha do seu frustrado caso de amor, essa realidade mostrava um viajante que fora semelhar turista entusiasmado entusiasmado ele mesmo no seu trabalho, inicialmente, com direito a ganhar prêmios e elogios da Companhia por causa de suas vendas fulminantes, o que fazia o rapaz pensar o mundo fosse de sua propriedade, não era; para agora sentir-se apenas um vendedorzinho marreta e comum, como homem comum que sempre fora. Nada mais. Até havia menos. Menos nas visitas menos fregueses menos viagens menos pedidos. Consequentemente tendo menos dinheiro a receber e inclusive havendo ameaça velada a ser despedido.
          Os gringos raciocinavam em dólares. Mas enquanto eles raciocinavam em dólares, transformavam os cruzeiros vendidos pelos viajantes, nosso amigo entre eles, transformavam enfim tudo nos dólares, pagando a Empresa os magros cruzeiros por comissões e os salários devidos; e ainda ficavam com a sagrada mais-valia dos coitados, aproveitando o momento a enviar o lucro excedente para os Estados Unidos. No meio de tantas cifras o Tino passeava. Primeiro pensava passear; depois descobriu estar dando um duro tremendo e o melhor de si para a Companhia das Pilhas Multinacionais nas viagens cansativas por repetição e desgastantes pelos relatórios tolos. Por outro lado havia os bons momentos. Por exemplo as sessões de cinema, os bate-papos com novos amigos; e conhecer pessoas é um negócio apaixonante. Nesses bons momentos poder-se-ia incluir uma temida ideia... por que não dizer? sim, as tentativas tinianas de infidelidade. Assim foi com Ana Maria.
          Então o leitor me lembra para lembrar ao Tino a Nora. Que Nora? indago. Ah sim, a Norinha Perez. A propósito, quando ele se meteu com Ana Maria registrou algo interessante no diário: “22 de agosto, vim agora do passeio com a Ana Maria. Ela...(aqui faço um corte nas besteiras escritas; quero mostrar como ele já se sentia de certa forma viúvo ou divorciado da conterrânea). Quando namorávamos a Norinha se apresentava com um aspecto assim quieta mas alegre em todas oportunidades que se ofereciam; isso no início. Agora ela aparece ainda quieta e mais triste, como que ensimesmada. Ainda a considero sem espontaneidade numa conversa. Tenho a impressão que se eu ficasse calado durante duas horas o silêncio seria absoluto nesse tempo. Por que seria? Será que ainda gosta de mim? E antes, gostava? Somente uma vez me lembro haver surpreendido a menina a olhar-me ternamente; oh como me fez bem! Depois de longo tempo de namoro parece que a minha estima por ela continua tal qual nos primeiros dias; será amor? e como me faz sofrer. Naturalmente nós vemos o mundo sob prismas bem diferentes. Para mim ela parece bem reacionária (isto do jargão esquerdista dele). Será? é bobinha como quase todas as mulheres; não conhece nem analisa a política. Decerto se me casasse com ela, sob minha orientação ela se moldaria. Mulher deve ser o ser mais adaptável do mundo. Tenho impressão que a Norinha quer é paz, paz de um lar seu mesmo, filhos, casa, quintal, galinha, jardim – ora, não é exatamente o que persigo!? Quem sabe se... ah, eu e minhas atrapalhadas! E que atrapalhadas... agora tem a Ana Maria...” Sujeitinho mais gozado, ou desequilibrado. Conheceu Ana Maria, menina recém-saída do parque infantil, a andar ao seu lado em Monte Carmelo, na praça da cidade, quase gastaram a calçada nas volta do jardim. Realmente não passou disso, embora as bravatas que o Tino conta no diário, lembra-se? de fato, resolvi cortar essa parte por demais besteira ele haver registrado. Teve igualmente um quê de infidelidade com a Elizabeth. Fugiu com ela para o cinema de Bom Despacho pra verem um filme que ele não viu, viu a moça durante a fita toda; e por fim saíram envergonhados ambos após a sessão... Ainda no capítulo das infidelidades ele se lembrou da Regina de Coromandel, onde se fazia mineração e era praça boa para suas pilhas multinacionais, ele tentando colher aquele brilhante moreno violão, atraente, difícil. Curiosamente não se lembrava muito bem dos fregueses compradores das pilhas, sim das jovens nas lojas dos comerciantes com suas conversas animadoras; e se lembrava da loira irmã dum freguês de Patrocínio. Tais lembranças mexiam com sua emoção e traziam sempre o negativismo da consciência pesada... afinal ainda possuía uma namorada firme no interior paulista. Chato, não é?
          Um aspecto notável do ‘passeio’ era o esquecer-se dos fregueses, que eram a base do seu ganha-pão; para lembrar muito mais dos hotéis nos quais teve mais aconchego. Talvez porque o hotel seja para o viajante uma espécie de casa onde o nômade se sente no lar perdido. Das meninas nem se fale. E a Norinha? Ela aparecia-lhe às vezes, numa frieza terrível nas cartas simples. Então, meio brigados, não fazia muita falta nem diferença para ele nessa altura. Contudo as missivas da moça chegavam e lembravam enxeridas à consciência do rapaz suas andanças. No entanto ele atirava a culpa na falta de atenção da namorada, como desconto se faz em nota fiscal... isso perturbando um pouquinho, não tinha dúvida. Guardou também na cabeça os insucessos nas vendas, por atingir-lhe os bolsos; guardou igualmente os insucessos na infidelidade, a infidelidade que tanto combatia nos outros. Quantas vezes acompanhou os amigos a prostíbulos e rendez-vous, mais como assistente que como freguês das infelizes... acabava por mero ouvinte dos dramas das mulheres que usando-as como objeto, achava objeto abjeto. Além do mais não dispunha de muita coragem macha, sua timidez o massacrava, triturava o extrovertido brotando do seu ser. Nunca teria a força suficiente a procurar esses lugares escusos sozinho. Outra coisa que guardava na memória da fase de suas viagens eram os mil acidentes em que participara, desastres de trânsito presenciados, discussões por aí. Tinha ainda no cérebro os gritos dum garotinho nas rodas do seu ônibus e o alvoroço dos passageiros na cidade Pará de Minas. E se lembrava com nitidez dum acidente no jipe no qual viajava com o Hircano e o Alcino, colegas: o carro dando cambalhotas as malas caindo por cima dele na friagem da Serra de São Dionísio; não morreu! Claro, ou eu teria de matar a estória do Tino com a morte dele. Trágico não é? Enfim não se esqueceu daquele inverno. Era o que se lembrava; que memória malandra! Entremente sua vida também virava um desastre e ele uma discussão interminável. Aos poucos ia ficando safado e até relaxado no serviço, talvez por não mais acreditar nele, não aceitar o que andava fazendo. Um dia – bom paulista – perdera a condução em Divinópolis, por simples cinco minutos; já não se preocupava com sua imagem do cumpridor de horários e obrigações profissionais... Outro dia para trabalhar às oito horas da manhã acordou às doze. É, estava degringolando, ou já totalmente entregue. Não se pense que fosse por bebidas, não passava do copinho de cerveja, o segundo já lhe amargava a boca; e isso quando alguém para pagar a conta; era mais pelo refrigerante.
          Contudo virolava por aí nas terras há muito dele conhecidas, enquanto os gringos pensavam seus dólares lá na Companhia das Pilhas Multinacionais; e pagavam meros cruzeiros inflacionados. Acontece que ele, o Tino, agora reconhecia entristecido não valer como vendedor sequer tostões desvalorizados... Andava novamente em crise existencial, sentia a irrealidade da propaganda que fazia do seu produto, sentia os lucros virando dólares; e por isso recebia mal os cruzeiros de salários, os quais ia retirar no City Bank filial mineira. Descobriu que não poderia ter escrúpulos para vender, se quisesse vender. Positivou as contas e concluiu negativamente. Um seu colega alterava os pedidos feitos; outro iludia o lojista incauto exagerando as qualidades do material; outro ainda tapeava os comerciantes nos preços unitários; ele se achava cúmplice da tramoia. Finalmente questionou seus produtos: as pilhas eram perecíveis, não podiam dormir na prateleira mais que seis meses, possuindo o moço os códigos de vencimento da Companhia; não se conformava saber estar vendendo algo com prazo a vencer num prejuízo certo ao freguês amigo... Tinha enfim escrúpulo exagerado. Decaiu muito e conseguiu ainda descer mais... Parecia aquele personagem do filme de Gilda de Abreu “O Ébrio”, ele se sentia mais no picadeiro de um circo! Desceu mais ainda, saía para a rua derrotado. E trazia de volta os talões de pedidos quase em branco para o hotel, a lançá-los no relatório famigerado. A Companhia não estava apreciando. De maneira que no dia que pediu a conta, o fato não tinha coisa alguma com a Norinha, é claro, muito com os gringos; nesse dia a empresa de Pilhas Multinacionais gostou imenso da atitude do sujeito, inclusive ofertou passagem para ele de volta à capital paulista, o que ficava menos oneroso que uma indenização trabalhista pra atirá-lo fora do picadeiro a se esborrachar na rua do desespero. O curioso da questão é o fato de a namorada estimar quando soube de sua demissão. Assim o Tino ficaria mais perto dela, menos longe.
          Mas o herói desta estória era um sujeito orgulhoso. Notou o orgulho dele? Era.
          Tanto assim que, ao pedir demissão das pilhas, alegou precisar um retorno aos estudos interrompidos; como nos lembramos o rapaz fora professor, se bem que mau aluno na escola da vida. Precisou se convencer dessa verdade. Porém nunca uma verdade foi tão mentirosa.
          Por isso ele se candidatava aos vinte e poucos anos a comer sanduíches de mortadela, apelidando a coisa de almoço ou jantar. Quer ver? vamos aos sanduíches; e se quiser o clássico cafezinho para acompanhar o pão com fatia de burro velho frigorificado...

 

 



 

Cap.X – Em tempo de sanduíches


Antes de morder com ou sem raiva e mesmo com fome um sanduíche, e caso se admita ajudando o bolo a descer um cafezinho, teve o Tino a brilhante ideia de comunicar o fato importante de sua chegada à jovem lá do interior (as outras ele andava tentando esquecer ou trocando pelos femeões a passar diário na Rua Direita). Ela sabia que ele retornara à terra paulistana. Agora a missiva, mais bilhete que outra coisa, recebida por ela dizia: “querida, cheguei hoje de manhã de Belo Horizonte, estou no Hotel Record na Rua Quintino Bocaiuva. Amanhã procuro novo emprego. Depois escrevo a você uma carta decente. Beijo do seu Torrão de Açúcar” (que sujeito besta!) Vê como é fácil beijar numa carta hein! Na hora do vamos ver como fica, como ficaria...
          Foi assim que se iniciou ao namorado da Norinha uma nova fase na sua história, marcada por muitas agruras e um repensar constante. Agruras e dores fazem pensar e repensar o homem. Mesmo poder-se-ia falar em filosofia, uma filosofia do pensador de beira de estrada, desses que já começam suas pregações desacreditados. Felizmente (não estou a gozar o coitado não, falo sério) felizmente o público de nosso Tino era condescendente e tolerava bem suas bravatas, toleraria inclusive seu pregar no deserto: falava a si mesmo. O discurso sendo mais ou menos fulgurante, conforme houvesse uma porta fechada a emprego pretendido, ou segundo o tamanho do sanduíche. Assim punha a pratos limpos sua vida, seus vinte e lá vai fumaça anos, descobrindo seriamente ofendido não ser ninguém, não haver feito nada ainda no mundo; a rigor nem rigor tinha para com seus planos. Era como tantos jovens por este mundão, disputando a afirmação social, a vencer na vida e ter um lugar entre os seres, enfim algo reconhecido. Tentava unir isso tudo ganhando o pão de cada dia comendo o pão que o diabo amassara, como fala por aí o doutor povão. Também curtia as filas.
          Ficava nas filas paulistanas para tudo, nas dos candidatos a emprego, primeiro com pretensão de estar bem colocado; e agora por último aceitando qualquer colocação, desde que pudesse comer. E nas de condução nem se fale. Bem. Até que um dia arranjou numa Empresa de Eletrodomésticos na Avenida Rio Branco um lugarzinho, como mero auxiliar de escritório, ganhando rechonchudo salário-mínimo! Preencheu a ficha, andava já craque no preenchimento de formulários nos departamentos de pessoal... Propôs doze mil pensando com pés no chão por baixo, deram onze: aí pulou de alegria.
          Começou a ‘tectecar’ na Olivetti, na Remington 12 cansada, ou batucando na Royal – enchendo papéis e mais papéis, sem o menor sentido para ele, igualzinho os relatórios das pilhas multinacionais, situação desagradável a um sujeito das vendas e do magistério; chegou a sentir saudades do tempo em que fazia tijolos com a família. No escritório chamavam-no “professor”, título que pôs a valorizar seu pedido de emprego; ele porém recebia o apelido como sinal de rebaixamento social a que estava exposto; nunca sentira antes, agora tendo vergonha ser um ‘mestre’ ganhando o que um ‘boy’ percebia. Bem, era uma questão de ponto de vista, apenas ponto de vista, pois numa sociedade capitalista desorganizada e até com valores invertidos e distorcidos – tudo se mede pelo dinheiro. A humilhação do Tino era flagrante. Voltava por causa disso deprimido para casa. Ia esperar condução rumo seu quartinho, encontrar seu colega Ari, já a sair para seu trabalho como garçom, este ganhando muito para conquistar e trazer para o quarto garotas aos dois... A convivência do desregrado companheiro um dia atingiu o Juvêncio em toda sua extensão, quando ocorreu o que sempre acontecia, de o Ari trazer e insistir com ele a participar, trazer sim umas garotas da rua. Até aí tudo bem; entretanto havia a janela (que tem uma janela? para outra pessoa realmente nada, quem sabe; ao Tino ela um despertador, somente um despertador! o amigo deixava a dita janela do quarto aberta e quando a claridade matinal berrava ser quase sete horas, o rapaz garção permanecia roncando mas nosso Tino se levantava correndo para a fila do ônibus e seu escritório) como dizia, tinha a janela; naquele dia o companheiro fechou a dita janela para não constranger a parceira trazida... e se esqueceu de abri-la depois. Então o auxiliar da Companhia dormiu até às oito e perdeu o dia. Isso é lá algo importante! é. Para outro qualquer perder um dia de serviço é perder um dia de trabalho, para ele não, pois que andava enterrado na frágil economia; assim teve de suprimir uma refeição por causa de uma simples janela. Ainda por cima a temporada aumentou-lhe a depressão. Já era deprimido por natureza, voltava ao quartinho afundado no pessimismo. Daí se sentava na cama, que é o improviso da cadeira, olhava desalentado os livros empoeirados descansando, olhava para suas coisas espalhadas e isso o atingia frontalmente, apreciava tudo nos seus devidos lugares, arranjadinho, para satisfazer seu íntimo; agora a bagunça, tudo atrapalhado, igual sua própria vida... Não se dispunha a escrever para a Norinha no meio de badulaques, tendo chegado ao ponto dum certo arraso moral. Neste ponto analisava a situação, concluía por insustentável. Sentindo não poder consigo mesmo, não ganhava para se manter, era obrigado pela condição reservar dinheiro ao coletivo e a sacrificar uma refeição diária. Uma delas, o jantar, seria – e era de fato – de sanduíche magro e um café, o café tão ao gosto do leitor... A outra, a da manhã, sendo ou nada (coisa terrível pra quem se acostumara a mastigar por toda uma vida o alimento matinal) o nada ou um pãozinho com leite gelado, a refeição mais barata e consentânea aos bolsos magros. Havia o prêmio de no almoço comer num restaurante operário o arroz e feijão clássico, quentinho, um bife magro; puxa, uma felicidade quase como os filés-mignons do Hotel Bragança... Com tal cardápio andava se enfraquecendo. Juntou a fome o bolso vazio e a crise emocional – ficou mais uns dias sem comer direito para arranjar dinheiro a solucionar de vez o problema: foi consultar-se com um psiquiatra!
          Bateu à porta do consultório do Dr.Virgílio. Indagou à mocinha o preço da sessão, contou notas ensebadas, marcou o dia. Chegou cedo. Foi bem atendido, respondeu a enorme questionário, confidenciou na entrevista, viu esquemas; o clínico concluiu pelo cansaço e a falta de dinheiro do paciente. Despediu o nosso herói, impingiu-lhe ainda a compra de um livro de sua autoria. Partiu o Tino para sua casa. Mais deprimido e mais sem dinheiro. A crise aumentou.
          Ao lado dessa situação, sentimentalmente ia mal. Trabalhava na área das Estações, rica de interioranos, desocupados e prostitutas. As meninas da Rua Aurora e imediações se ofereciam, ele sem recursos para um contato assim; e, felizmente (ah como é terrível a felicidade!) felizmente deprimido demais para necessitar os préstimos das mulheres... O que se diria então do esperar um amor puro e doce como o que sonhara! Ora, deixemos o habitual pensar que somente os poetas por malucos, as mocinhas por imaturas e os desligados por desligados da realidade possam amar com pureza; o rapaz vivia lá suas elucubrações amorosas visto ser grande sentimental. Sim, seu amor puro. No entanto a namorada fixa e fiel estava sendo deixada para trás. De repente, numa segunda-feira própria mais às preguiças do gentio e às fossas dos intimistas, nessa segunda na qual vivia o auge do pessimismo, escreveu à garota, deu-lhe o fora! (puxa, homem corajoso, fico até arrepiado). Ele a se vingar agora; da primeira vez tomara o fora dela. Alegou o drama financeiro, temer o futuro da moça casadoira, e precisar ele mesmo estudar com afinco, apenas se dedicar aos estudos superiores. Na verdade, nas suas condições de viver só poderia mesmo era passar na frente do edifício da faculdade. Parece que fugia da responsabilidade e do dever, os quais ele próprio criara para manter o caso de amor; porém se sentia incapaz a prolongar o namoro. Em virtude disso rompeu com ela, a namorada interiorana, nesse momento mais uma namorada formal que um amor. Logo recebeu resposta dela. Dona Leonora Lopez Perez Valiente lamentava, sentia ser para ele um empecilho. Todavia se quisesse a sua amizade um dia, ela continuava a mesma de sempre. E embora séria, mais séria que de hábito, mais cerimoniosa que costumava ser (e quem sabe não fora por isso a levar o fora!) então narrou das coisas da cidade; dizia na carta seu pai adoentado e temer ela o pior.
          Vou me abster contar sobre as reações do moço Tino, para não encompridar demais a estória e também por desconhecimento meu do assunto, não dá realmente para a gente acompanhar toda a rotina desses malucos no planeta. No entanto fácil é deduzir o que uma pessoa deprimida abarrotada de problemas pensou no alívio de um de seus dramas.
          Dessa maneira acabava mais um capítulo amoroso do seu Juvêncio da Silva, tido por Juventino. Não falei haver terminado a estória, disse tão somente o capítulo. E agora já sei, você com línguas de fora aceitará um café. Aproveite, ainda não esfriou. Se estivesse frio, fácil seria esquentá-lo e requentá-lo como todo mundo faz para economizar ou de preguiça fazer outro mais cheiroso nesses coadores de papel. Café, sabe? cura pessimismo. Em contrapartida não cria otimismos, que eu saiba. Talvez estimule. Que me diz? Porém não deixemos o Tino abandonado, especialmente agora que o infeliz anda mais infeliz e na sua fossa; quem sabe o que estaria pensando lá com seus botões!

 



 

 

Cap. XI – Os martírios


Melhor se tivesse dado outro título, completando o mesmo com ideias mais ou menos assim: ‘a cidade grande na qual um fulano de tal vira número e não adianta reclamar.’ Tem razão, seria muito longo e não diria nada porque nada diz coisa alguma, as palavras são ocas, os seres do globo por demais subjetivos, ninguém entende ninguém, as guerras os desentendimentos os bate-bocas não me desmentem jamais. Com isso estou é fugindo ao tema principal: o Tino e seus desarranjos.
          Agora nosso herói sentia-se solteiro, livre e desimpedido, vivendo ao deus-dará, ou melhor dizendo, viúvo. Só e sem possibilidade para arranjar alguém. Não falei que não tivesse capacidade e é possível não tivesse de fato, ou tivesse; e se arrumasse teria que deixar a companheira como fizera com a Norinha. Então voltou-se para a porta do estudo. Que é bom refúgio.
          Inscreveu-se num cursinho preparatório à faculdade, perto da Praça João Mendes. Um curso como os outros famigerados cursinhos da época, mais caça-níqueis a contar com o talento dos alunos para se autopromoverem (neste caso específico a escola escolhera bem mal...) Objetivo principal: ingressar na USP. Porém não pôde pagar a segunda mensalidade e devia parte da primeira. Por isso continuou vivendo de esperança como fonte inesgotável aos tolos, alimento a encher as fossas morais de um sem-número de tinos desta vida. Como o dizer comum determina que a esperança é a última a morrer, vivendo de esperança e salário-mínimo, o qual a inflação teimosa teimava a deixar literalmente mínimo, a inflação não tem meias conversas – então o rapaz podia se considerar alimentado...
          De esperança em esperança ia vivendo; você me permite assinalar 'vivendo'. Um dia pintou-lhe uma fresta para sair da terrível rotina e do corre-corre paulistano. Era interiorano inveterado; por azar da sorte encontrou um senhor Seu Zé, cinquenta anos de São Paulo, o qual lhe afirmara peremptório: “nós do interior, moço, poderemos viver a vida inteira nesta terra de loucos, não nos acostumaremos; e se não morrermos debaixo de um veículo entre os milhares que existem ou de facada por aí, morreremos com certeza de saudades de nosso interior, a vila que nós temos na memória!” Foi o quanto bastou. Ele pensou pensou pensou, puxa... Poderia voltar ao interior, à sua querida terra, ingressar na Faculdade de Filosofia de lá mesmo, comer na casa a comidinha saborosa da mamãe e ajudar no que pudesse a família. Seus pais ainda oleiros, ele não tinha medo do serviço bruto, amava demais a arte dos antigos sumérios, nascera no barro e gostava do barro. Não pensou mais. Juntou as coisas, o que foi facílimo por quase nada ter, possuía lá uns trequinhos e livros poucos; pediu demissão no escritório da empresa, tomou o segundão barato para sua terra. Parecia-lhe rumar para o eldorado mitológico! tornou-se feliz na mesma hora. Isso porque o ser humano luta para assumir algo, quando assume já sente a realização. Conta pouco o insucesso possível, conta o momento: a felicidade pode apenas ser um momento de felicidade. Enfim ele sentia-se realizado.
          Não, não senhor, sequer procurou a Norinha; jamais faria coisa dessa. Apenas ficou zangado pelo não ter o que fazer inicial, zanzando por aí, a trabalhar em pequenos expedientes, enquanto estudava. Demonstrou capacidade no estudo, o que não se pode negar. Preparou-se, fez vestibular e ingressou na Filosofia. Penetrou a vida estudantil na década de sessenta.
          Daí entrou numa fase de otimismo; e muito estudo pesquisa consulta discussão; o mundo vivia o perigo de o moço Tino solucionar seus grandes problemas, os dramas mundiais, e isso muito sério! Aproveitando a ocasião para se chegar às belas colegas; não sabia bem se por questão de estudo, se por serem bonitas... Também encheu o tempo se aproveitando do momento para ilustrar-se nos trâmites políticos do grêmio da escola, a participar ardentemente, como requer a juventude, das grandes e alvoroçadas discussões no seu meio, a propor critérios para salvar a pátria ameaçada pela direita entreguista! Entretanto enquanto andava efervecendo com os colegas na ebulição patriótica, imiscui-se na filosofia dos pensadores socialistas e tudo o mais, se esquerdizando gostosamente – eis que pregam à nação estarrecida o primeiro de abril de sessenta e quatro!
          Tem aí o início de novo drama ao Juventino, porque o Tino andava virando realmente o Sr. Juvêncio da Silva, honrado por seu santo nome amém. Por essa ocasião lecionava para se manter num colégio particular. Aí começou a sentir tanto no serviço quanto na faculdade as perseguições políticas, porque a radicalização campeava feroz. Nascia entre todos na comunidade a desconfiança e a fase de terror mesmo! Os quadros na Faculdade se desfalcaram, elementos que fugiam ou simplesmente desapareciam, professores alunos e funcionários; os cursos se desorganizaram. Sobraram os livros, bem entendido: os não comprometedores; os livros ao menos haviam para estudar, se houvesse condição absoluta para tanto; era a forma de conviver indiretamente com os autores lúcidos, na opinião do rapaz, e sem comprometimento com a situação instalada no país. A biblioteca da Faculdade sendo excelente refúgio para não ver injustiças que via lá fora. Nesse tempo os estudos iam aos trancos e barrancos, um nó na garganta, uma vontade de gritar sem poder, o medo apavorante! Mas o Tino levado pela medorreia, fazia como era comum no futebol: ficava como mero torcedor (aí se criticava por isso, não se perdoando, a sofrer ainda mais). Torcedor contra os militares no poder da nação e torcedor dos exilados políticos. Ao lado da torcida diária, a ler muito as teorias agora tornadas subversivas, encenava uma participação qualquer, reunindo-se a outros estudantes para tentar ligação operária, objetivando formar um grupo forte contra a situação. Num desses momentos participativos, se encontrava à noite escura com amigos trocando ideias debaixo da caixa d’água da Prefeitura, às escondidas como sói acontecer nos dias de crise; foi quando ouviu-se um barulho de andar; ele e a turma apanhando sua coragem, a desandar na maior fuga que já se admitiu, devendo haver deixado por aí muitas porções de coragem e força perdidas pelo chão, acabando o esboço de tragédia como é comum ocorrer: debaixo da cama, ou pelo menos trancados no quarto, com batedeira patriótica no peito. Com o Tino fora assim. Restava somente o torcer.
          Enquanto torcia, anotava. A escrever no seu diário mequetrefe coisas assim: “Em 2.6.64. Vim agora do Correio, tendo conversado com o Waldomiro, meu lúcido amigo. Ele me lembrou algo esquecido na carta que enviei à Cidnéia na Bélgica, aquele problema da perseguição ao Prof. João... Imagine a grandeza de um mestre em Filosofia sendo inquirido pelo besta quadrado do Lorí, metido a policial! Ai, o período da Inquisição e Quarteladas. Que horror! Noutra missiva direi isso à minha amiga. Outra coisa é ter lido no sábado na parte política da Folha um artigo demonstrando que a Abrilada de 64 não foi apenas o quê se vê, haveria ter outras forças acumuladas contra o governo do Jango, forças que explodiram e aproveitaram a oportunidade. Agora campeiam desvairadamente pretendendo ‘limpar’ a corrupção e os privilégios da elite. Assim, pensei de início, a ‘revolução’ dos milicos traria algo de positivo, mais importante mesmo que as perseguições políticas; esse rasgo de felicidade se desfez quando lembrei-me dos que fazem tais limpezas, eles se vão tornando intocáveis – os Levys, os Ademares, os Lacerdas, direita direita direita nojenta! E a política externa? este país virou o que a Rádio Havana disse domingo: terra de golpe gorila. Diziam assim “el ministro gorila do ejército del Brasil” enfim uma vergonha para nós. Ah droga, paro por aqui, vou tentar dormir, pois como tirar mesmo de noite este nó da goela?!”
          Enquanto o Tino curtia sua crise e os fatos atingiam os estudantes, a menina Norinha se mudava para a capital. Portanto se invertia a situação do tempo em que eram namorados, agora era sua vez de ficar na terra e ela distante. Ia para a cidade grande na qualidade de professora. E ainda por cima tentava ao rapaz, arrasado como é fácil imaginar, tentava ela um terceiro romance, ou terceira fase da mesma sofrida estória de amor.
          Antes que se digne a ouvir-me a narrativa do último enlace, garanto ser o último realmente, antes disso convido o distinto amigo a tomar uma cerveja. Não engorda nem faz crescer a barriga não. O que faz crescer o ventre é outra coisa muito diferente, e isso não nos atinge graças à bondosa mãe que é a natureza. É sim estrangeira a cerveja, alemã? deve ser alemã, que diabo! o que poderá combater esse calor pavoroso. Nesta altura não proponho café, porém cerveja germânica, de malte lúpulo cevada vitamina B-1. Devagar, para não se resfriar. Depois conto o resto, o segundo reatamento dos dois românticos seres.


Cap. XII – Segundo reatamento, ou mundo quase louco


A cerveja esfriava. Não, o que esfria é o café e não houve como estamos lembrados café nesta parada, mas cerveja; cerveja esquenta por dentro, o corpo vai lentamente se aquecendo também por fora; enquanto isso as gotículas a escorrer da borda do copo para a toalha encardida do bar. Então me lembro que me esqueci do Tino. Em verdade não é tão grave assim o fato que não possa ser remediado, porque o próprio interessado descobriu bastante aterrorizado que vivera bem uns três anos sem ver, sem viver, sem perceber suficientemente as coisas...
          Um dia, num frio medonho reforçado com um vento irritante, o Tino se pegou na Penha paulistana, tendo descido de sua condução na rua Amador Bueno, um ônibus despedaçado, andando não se sabe como na sofrida linha São Miguel; isso depois de engolir todos os engarrafamentos da Avenida Celso Garcia e respirar a poluição dos veículos e fábricas no Tatuapé bem como das axilas de marmitas e maletas. Chegou na frente da igreja. Não ia rezar, é fácil deduzir, continuava ateu talvez fosse ainda mais ateu. Encontrou-se com ela. Era mais Leonora, mais Lopez, mais Perez e mais Valiente; entretanto se apresentava de Norinha. Bela e simples. Contudo o sujeito pensou descobrindo que se passaram na sua vida três ou quatro anos, sem que percebesse! Como?
          Conseguira formar-se. E não era fácil formar-se num curso superior, vivendo com a sociedade o drama político e econômico que ela engolia em seco graças ao novo que se tornava velho regime militar. Ficava difícil ao brasileiro fazer planos para o futuro, numa terra sem futuro, estando a economia parada pela recessão e até sem perspectivas. Não obstante Juventino fizera um concurso e fora aprovado. Enquanto os trâmites burocráticos cozinhavam o galo no ritmo pausado de elefante incômodo, não permitindo ao postulante o ingresso definitivo no magistério oficial, ele se contentava com substituições nas escolas possíveis. Assim, partiu de volta a São Paulo. Estava perto da jovem de novo, você dirá. Porém a capital é muito grande na concepção da gente pequena, muito grande para alguém estar perto de alguém. Onde tudo se mede por quantas conduções se toma, a cidade imprime o seu corre-corre cotidiano, não restando muita possibilidade ao amor. Contudo você me lembra que não existe distância para os que se amem, não há correria a impedir um encontro amoroso. Concordo, isso é quase verdade.
          Dizia uma antiga composição popular da gostosa música brasileira “as cartas não mentem, jamais”. Se forem as do baralho, ainda cabe um crédito razoável. No entanto as cartas que um ser entrega nas mãos do correio para que este as deposite nas mãos do outro ser amado, já é nova história. Porque ao se preparar para novo sofrimento na capital do estado – que é  como se conhece o viver na cidade grande a um matuto – o Tino receberia certa mensagem da Norinha, a qual dizia... Espera lá, antes fizera outra besteira (ele também sabia fazer burradas; ah a gente pode evitar certas atitudes sociais!) Acontece que faleceu o Sr. Perez, o espanhol genitor da moça; e nosso amigo, por achar correto, foi à missa do homem, a do sétimo dia, dos trinta, os dias não têm importância aqui para nós; e fora apresentar os pêsames à filha, julgando consolar a pobre sua ex-namorada amiga, somente amiga. Viu a infeliz de preto, olhar acabado, sentiu pena dela; porque é assim que agimos nessas situações. Conversou longamente com a professorinha, tentando demovê-la da tristeza, enfim para elevá-la, relembrando suas qualidades, mesmo porque ela as possuía de sobra; não andava inventando nem um pouco. Porém não ficou apenas nisso.
          Foi exatamente agradecendo-lhe pela atenção dispensada a si que a Norinha mandou aquela missiva mencionada (retornara à capital, vinda dos funerais no interior). Então dizia entre senõezinhos que o estimava, reforçando na carta a tônica anteriormente usada no entanto não suficientemente gasta de toda, a da “saudade do tempo em que eu (ela) era feliz por ter alguém bom (ele leu ele próprio por vaidade masculina) justo e compreensivo”, sendo que esse mesmo alguém não tivera piedade do coração dela, despedaçado perante a vida, ela que nunca mais poderia ter outro amor, sentindo-se ligada ao passado venturoso. Uma isca. Ele mordeu a isca: respondeu lamentando seu espevitamento e culpando a situação que se encontrava, atirando a culpa nos militares; assim entrou na prisão dela. Outra vez.
          Novamente o correio gostou muito e às custas das finanças dos dois namorados decerto melhorou sua economia.
          Somente que agora as cartas iam a São Paulo e chegavam a ela dirigidas ao serviço duma irmã. Era o destino deles não se comunicarem diretamente.
          Daí a fogueira se acendeu, as labaredas às vezes ardiam os olhos e chegavam a queimar. Devia ter madeira ainda verde. Ou pior, pau podre, desses que se deixam incinerar com facilidade, porém não chegam a aquecer se não momentaneamente; e depois oferecem as cinzas ao vento cobrador implacável e constante, sujando os olhos abertos pra ver a vida no que ela tem de melhor. Logo, antes que se esperasse, apagou; e esfriou. Havia sido assim seu amor.
          Era assim também agora a fogueira na Penha.
          Foi então que o moço Tino se encaminhou enfriado, tiritando pelo temor do seu caso sem caso, e também por causa do frio inóspito da terra inóspita soprado nos transeuntes teimosos vivendo os seus respectivos eus. Caminhava friorento, ele caminhava, ele que não se acostumava ali naquela babel, que voltava a morar precariamente na capital dos paulistas já sentindo saudades do calor de sua terra natal. Agora na Penha.
          Naquele recanto do leste paulistano andava à sua espera a cobradora dos tributos. Ele o íngênuo pagante dos impostos duma vida.
          Sentiu aquilo ser um amor por expressão, apenas força de expressão, mas não tinha conteúdo... Ateve-se como um estranho diante da garota, numa situação que nos poucos minutos despencou o que houvera construído ao longo de seis anos longos, os anos de convivência; enfim era o fim dum caso amoroso discutível. Já não conseguia sentir os cabelos dourados ao sol das sete horas e trinta; e apenas eram oito; seria possível envelhecer em tão somente meia hora! não encontrou os trejeitos da jovem do Colégio Estadual; nem seu andar, nem seu quê atraente, o qual havia morado tanto tempo no coração virgem quiçá inocente. Agora podia com toda força que não tivera por anos a fio nas ocasiões as mais diversas – enfim podia despedir-se sem medo a se magoar. Não dava também importância exagerada ao possível despertar da magoa na mulher, via à sua frente a mulher. Estava no limiar da liberdade. Sentiu não depender dela mais para ser livre ou não; optou voltar para as axilas e a poluição da Celso Garcia e do Belém onde sua hospedaria.
          Norinha não se entregou no ringue. Deu ao companheiro um velado ultimato, um mês honroso de prazo, para sair de cabeça erguida; e quem sabe se não para poder prendê-lo, já que o perdia mesmo – prender o sujeito por uma provável quarta vez! No entanto logo desistiria do seu intento.
          A luta no jogo daquele dia no ringue do bairro da Penha mostrava a moça suficientemente preparada. Fez-lhe discurso ela. Provou-lhe o que já sabia muito bem: que estiveram por mal que fosse ligados por seis anos! não eram seis meses, muito menos seis dias. E um compromisso assim desabonava a mulher, visto a sociedade ser feroz com suas fêmeas; e com os homens bem intencionados (os malandros estão perdoados antecipadamente por essa mesma sociedade). Então que ele mostrasse naquela hora suas qualidades a honradez; e que realmente a amava como diziam suas cartas. Quanto a ele, por seu lado não podia no instante encará-la... Contudo defendeu-se dizendo que se ela desejava casar-se apenas com um compromisso despojado de homem por dentro... por que não preferindo encontrar o amor de outro rapaz, mais puro que ele, ele era o incapaz bem conhecido dela, não melhoraria; assim concluiu a peroração afirmando não estar para infelicitar a ninguém. Ela entretanto não aceitou prontamente a argumentação do namorado demissionário, voltando à carga: e o tempo não contava?! o que diriam todos? na sua idade recomeçar no amor com outro? estava ali diante dele a mulher direita jogada às traças! e por culpa de quem? por culpa exclusiva dele, que tomou seu precioso tempo, para avisá-la tardiamente não a desejar! Patético, ela apelou aos sentimentos.
          Todavia o moço Juventino parecia dopado, sem qualquer sentimento. Encontrava-se decidido, sentia-se forte em vista ser flagrante sua fraqueza diante dela. Seu pensamento se fortalecia entretanto nesses ataques da Norinha, relembrando encontros e fracassos anteriores. Não podia ceder. Ou cederia metade da vida, a vida inteira.
          Nosso herói sofredor pensava muito naquele momento da separação. Entrevia o futuro se se mantivesse ao lado da moça. Isso porque nas vezes que a procurara durante o relacionamento, não a encontrando. Sim, ela estava agora muito distante da jovem dos cabelos dourados chocalhando espalhados ao vento da terra natal e ao sol das sete e trinta. Nesses anos fora recebido poucas vezes na casa dela e Norinha não ofertara intimidade e o calor familial que ele no seu solteirismo buscava. Ela se apegando então ao cerimonial e ao formalismo com que cercamos os desconhecidos. Ele se vingava naquele instante do rompimento na Penha, numa situação de rara coragem no seu ser para desabafar; lembrando que nunca poderia contar a outrem haver recebido dela sequer um abraço carinhoso. Era mais para a distância que para o aconchego. Isso tudo embora as famílias de ambos lados criassem já um ambiente de simpatia e aceitação. Como desposá-la nessas condições. Teve vontade dizer tudo o que sentia à moça, não disse. Dessa maneira a jovem, porque a Norinha ainda era jovem, ali se despediu dele com um simples aperto de mão, próprio de estranhos... Porém conversou no final daquele ‘entrevero’ polido com o rapaz Tino por mais uns minutos, na condição de bons amigos... estranhos; visto que os amigos podem ser sempre os estranhos que se prezam.
          Havia um senão entre os dois namorados também, o que pode esclarecer as distorções um pouco. Financeiramente ela andava em melhor situação que a dele. Nesse epílogo acabava de trocar seus dois cargos efetivos no magistério por um precário cargo do rapaz; ela achando certamente não convir ceder, mesmo que a ganância (opinião dele é claro) ferisse o ex-namorado, noivo para o pensamento dos conhecidos. Enfim ele percebia metade dos proventos dela, desejava que a namorada deixasse uma das escolas... Não lhe ocorreu, bem entendido, não ocorreu ao Tino que o acúmulo de cargos da moça acontecesse por necessidade inconfessável (aos de fora tudo é inconfessável). Não podia que sustentasse a família? não pensou assim o rapaz. No auge das discussões no rompimento procurava lembrar-se mais do gosto amargo que trazia certa vez dentro dum subúrbio da Central do Brasil, voltando da Cidade Patriarca onde ela morava, o formalismo que lhe fora dispensado. Num relance voltou-lhe a situação, transportada até aquele momento decisivo no qual discutia consigo mesmo para se manter firme e ‘ganhar’ da moça que o encostava à parede a um possível matrimônio. Agora ele estava com ela à sua frente, desfazendo de vez o relacionamento que o prendera tanto tempo; enquanto que ela nesse dito momento se mostrava falante e forte, como se não estivesse perdendo de uma vez por todas o namorado. Seria orgulhosa! para mostrar ou não admitir não haver perdido a partida? No consumatum est,  a ‘amiga’ nos bons modos de amizade, falou sobre familiares os dramas do bairro os problemas das escolas onde trabalhava, coisas assim. Parecia ter um sentido a desanuviar possíveis querências, porque a Norinha não era de ceder, não se rebaixava. Ou talvez não soubesse chorar, ele pensava que ela não soubesse; se chorasse, não o faria naquele instante. Esboçou mesmo um sorriso, a encobrir a decepção.
          Nos laços-fora! ele ainda pretendeu apresentar algum consolo “lamento, Norinha (ainda gozava intimidade, guardadas as proporções) lamento ter-lhe tomado seis anos de vida, ter ocupado o espaço que porventura outro homem viesse a preencher melhor preparando o seu futuro; lamento deixá-la adulta, madura, sem esperança!” entretanto não disse. Pretendeu ainda falar: “não posso igualmente prender-me a você que não me soube amar ou que tenha amado a seu modo, sem provar por atos; e sinto ter-me sentido como o namorado mais estranho do planeta, sem direito a viajar na sua intimidade, participando de seus dramas e gozando a sua alegria.” Nada falou. Apenas tentou transmitir pensando: “Norinha, lamento de verdade haver roubado anos da sua juventude que tanto você me cobrou ainda agora.” Não chegou a expor o pensamento. Acrescentou mentalmente: “fico sentido em relação a você, não ter amado nem sabido amá-la direito, se bem que você não me deixou oportunidade; sinto não ter amado bem e só respeitado, tendo mesmo ao exagero a fidelidade descabida quando sua pessoa ausente ou eu longe de você!” (Aqui se esquecendo das mineirinhas...) Contudo não disse coisa alguma. Já não compensava dizer. Transmitiu seu adeus, lembrou à menina qualquer coisa engraçada, a esconder sua vergonha e a doentia timidez.
          Então ela disse um “até outro dia”, cobrando-lhe num repisamento o prazo que dera momento antes. Levava decerto o amor ferido e o desalento por companheiro; certamente dignidade e orgulho suficientes para não implorar.
          Dessa forma o leitor julga ficar livre do Tino? Engano. Nem de mim. Que não lhe ofereço o fim da estória, nem uísque, nem cerveja loura, não ofereço sequer o vinho de Baco. Porém o habitual café. Antes de lhe dar o gostinho da finalização, irei conduzi-lo ao rapaz constrangido, quando a acontecer seu retiro espiritual.

Cap. XIII – O retiro de amor


Já viu um donzelo no retiro espiritual? Não, não era tempo carnavalesco. Na época desta narrativa sendo costumeiro pelos religiosos fuga a um retiro, para não participar da mundanidade. O fulano nada tendo de religioso nem de moralismo do jovem fanático; não vivia o drama no conhecido “o mundo vai acabar!” Porém Juvêncio partia para o exílio de amor.
          Diríamos que houvesse ficado num estado de choque e descrente da vida em razão daquela crise da separação, ainda tão recente. O que não seria loucura afirmar. E mentira deslavada admitir. Mesmo porque o sujeito andava, poderíamos dizer, se sentindo mais livre; portanto mais para festa que vivendo na convencional fossa.
          Ninguém iria imaginá-lo na fossa moral, como é abusivo falar hoje. Chateado sem dúvida. Embora, entendera que sua vida não parara. Havia até um mérito nisso tudo.
          É que ele pensava em Norinha ainda. Sabia o prazo que lhe dera a pensar se esgotara num mês, fazia meses. E agora decerto ela também se considerava mais livre. É claro, andava mais livre. Supunha nosso Tino que então a moça poderia, livre do entrave que ele era, arranjar um parceiro melhor, porque ela bem merecia a sorte favorável. Além do mais muito dissera sem que ela ouvisse, porque o cérebro fala baixinho demais e somente nós mesmos escutamos; dissera a si lá dentrão dele, que a consciência tardava reconhcer o óbvio. Concluía que na separação do casal a moça levara vantagem sobre ele (não se importava ele haver perdido). Desejava firmemente a felicidade e a realização plena da garota.
          Agora residia novamente no interior. Gostava da nova urbe, a que chamarei “B” para não confundir com sua terra, a cidade ‘A’. Apreciava ‘B’, sua paz sua gente amiga. Trabalhava feliz e até engordara com o passar do tempo. Frequentemente no entanto lembrava-se da Norinha; afinal ela havia também marcado a personalidade do rapaz; não convivera com a moça apenas para brincar. A lembrança ocorria nas conversas informais diante do espelho.
          O frio ouvinte mostrava cara peluda, o sabão a espuma branca de um lado, a lâmina do outro, cenho carregado e as rugas apressadas fazendo careta na preocupação que adora a brincadeira do envelhecer senhores. Dirigia a si mesmo as indagações costumeiras, quase sempre sem respostas; punha dúvida à possível felicidade da mulher sua ex-namorada quase ex-noiva. Torcia por ela. Que arranjasse outro homem, fosse com ele feliz.
          Porém o Tino não se encontrava distante quinhentos quilômetros da jovem para esquecê-la; se não bastassem os anos de convivência, esquecendo-se já por hábito... não precisava ficar, repreendeu-se, lembrando a garota. O que passou passou, irremediável. Ora, não havia concluído não amá-la realmente, porém apenas havendo um respeito e a formalidade do namoro! Então por que viver avivando tais questões? Ah a gente não é dona do pensamento. Retomava o pensar, desejava que ela fosse totalmente feliz. Porém quando recebeu carta de sua irmã, por sinal amiga e correspondente da Norinha, na qual ela comentava o enlace da ex-namorada com um italiano nato, desconhecendo suas própria reações – amargou deveras. Bem, para dizer a verdade houve de sua parte um suspiro de alívio: o pobre Tino trazia a sua consciência pesada, culpava-se caso a jovem envelhecesse solteira, virasse tia, por causa dele. Não obstante (vá entender a natureza humana!) sentiu um temor, um vazio, por haver perdido definitivo quem ele acreditava ser mulher correta. Possível no fundo do fundo no seu eu houvesse mesmo amor! Ele punha a dúvida. Logo sobreviria outra ideia, nascida na contumaz maternidade dos poetas dos loucos e dos filósofos: por que ela viveria infeliz? Espera lá, donde o sujeito extraiu esse pensamento maluco? de alguma entrelinha da missiva de sua irmã, dum sonho, do nada que tudo nos inventivos dá à luz? Seja como for, estava aí uma razão para sofrer gostoso. Num repente a Norinha parira dois filhotes (ele não tinha nada com isso, não chegara ao estágio do beijo sequer e só perdera um suporte atlético numa noite de desenlace...) Sim, concordemos, não poderia numa doidura das loucas maluquices se apresentar como pai? No entanto entregava a paternidade ao italiano. Pobre da Norinha, que no invento do rapaz no retiro amoroso imaginou que pudesse estar infeliz, numa possível frieza do novo casal... Ficou o nosso herói-perdedor com uma vontadinha ser o culpado; ora que diabo, seria ele quem empurrara o peninsular velho para a Norinha!? e quem foi que lhe disse ser idoso? De repente deixou ‘B’, tomou ônibus – tinha pressa, porém, seguro, não quis viajar de avião caro, e não ficava bem esperar o trenzinho vagaroso da Araraquarense – foi de ônibus à capital, da Luz partiu ao Brás, daqui à Cidade Patriarca aguentando o sujo subúrbio da Central. Tinha necessidade encontrá-la, pedir desculpas por tudo, tudo o que não dissera naquele dia do desenlace – e o encontro foi patético com lágrimas e abraços; corajoso, disse-lhe direto que afinal das contas a família dele estimava ela, Norinha, a dela gostava dele, Tino, achava que gostava; quis pedir perdão pelo tempo que a moça perdera com ele, pelo sofrimento, pela separação. Ela, maldosa, vingativa, mostrou-lhe a aliança de matrimônio com o italiano, na mão esquerda! Desamarrou a égua, subiu à sela, saiu num trotão de volta a ‘B’. Amargou deveras. Atirou o pincel com espuma branca, jogou ao chão fazendo barulho o aparelho de barbear. Poder-se-ia aceitar uma dor de cotovelos autêntica.
          Num recurso defensivo prendeu-se à memória, à saudade. Então num relance reviu a Norinha nas várias fases do convívio mútuo, o que já um pleonasmo redundante. Viu a moça, ele esperando por ela na escadaria da Igreja São Bento, religiosa e ingênua, sorridente, simples, bela, achou-a bela. Depois sentiu seu progresso: deixou ser filha de Maria e menos religiosa, mais encarando a vida mundana e conjugal com ele no futuro, terminando a segunda fase do namoro. Na terceira, se despojando quase da religião como o namorado apreciava, ela seguindo o pensamento do noivo, a sociedade pensava que fosse noivo; então mostrava-se pró-ateia e desejava que o rapaz lhe desse noções de socialismo, se é que ele soubesse ao menos pra si, chegando a propor ao universitário Tino que a ajudasse nesse mister de encontrar Politzer e a literatura marxista. Quis o problemático Juvêncio da Silva agora pedir à garota novo perdão. Lembrou-se ela casada com um rival italiano e ele vivendo em ‘B’, um mundão de trabalhos a corrigir e a presença das provas dos alunos empilhadas.
          Nesse dia trabalhou com mais afinco. Para esquecer que não a amara suficientemente, um pouquinho sempre ficando, ou por sentir-se preterido (quem poderá entender o labirinto do coração!) ou por ser o pomo de uma vingança... Precisava esquecer. 
          Todavia pôs os pratos na balança, tomou os pesos honestos e riu-se da situação; riu-se do seu próprio ridículo. Aproveitou a máscara do riso para não contar nada para ninguém. Ninguém se interessaria mesmo.
          Não obstante carregava dúvida nos ombros frágeis.
          Com dúvidas ou somente dores de cotovelo, partia para a vida. Já estava mesmo lutando. Assim engajava-se no sofrer diário e vivia as tormentas do Brasil, curtindo sua cota de cidadão desafortunado como todo brasileiro pobre.
          Para fugir ao pesadelo amoroso? talvez. O fato é que praticava o santo remédio da laborterapia; e ainda por cima engordava. Não pensando cair jamais nas enrascadas de outro caso de amor. Então aceitava-se por solteiro, defendia o celibato inveterado com unhas e dentes, como arma do não sofrer (maneira curiosa de suportar um sofrimento). Quem sabe não estivesse agindo qual mocinha desenganada candidata forçada à titia. Contudo não era infeliz por isso, o que provava acerto.
          Entrementes sonhava acordado, quase acordado. Nesses curiosos voos, mesmo neles, a preocupação em não ferir suscetibilidades e manter-se fiel à amada; enquanto namorava a Norinha, fiel a ela, após perdê-la a mente ainda encontrava-se presa à ex-companheira. Costumava imaginar-se querido por mulher extremamente bonita, rica (no que revelava bom gosto...) a qual tinha sempre um defeito grave: adorava o Tino! Passava pelas fases do conhecer, do namoro, do querer embirrado (ah, como essas mulheres são teimosas...) e quando geralmente ia entrar na fase do casório, aí acordava o moço (lembrar ele ser celibatário convicto). Quando namorando a Norinha lembrava-se, chateado, que possuía namorada como se tivesse uma esposa e contrato de casamento; depois quando perdera a moça, continuou a imaginar estórias doidas para ajudar a personalidade solteira, tendo de repente a impressão que ainda a Nora existia na sua vida. Sua noção de fidelidade era meio estrambólica, como se vê. A realidade mostrando de maneira sobeja que se encontrava livre, nova situação.
          Em vista dessa nova situação ao Tino, livre e desimpedido, ouso aqui afirmar e chamá-lo trintão balzaquiano; daí ele já podia sair, se quisesse, do retiro no qual entrara, visto não necessitar mais viver e pensar Norinha. Por isso arranjava novas amizades e o fazia por força da profissão e das condições oferecidas pela cidade na qual residindo. Também podia livremente viajar a São Paulo.
          Agora não tinha segundas intenções nas visitas à capital, ele ferrenho interiorano. Rever amigos, tratar de alguns negócios; e mesmo passear. Porém tornava mais feliz para ‘B’, do que quando ia para a cidade grande. Não se arrependera haver escolhido num concurso o lugar. Voltava-se para o trabalho, votando toda atenção aos alunos e às montanhas de exercícios trabalhinhos e provas, como manda o ofício. Ajuizado, provava haver sarado da moléstia do amor e se conscientizado no sossego de solteirão sem grandes pretensões. Ainda não se livrara, entretanto, da timidez doentia de todos os momentos que estivesse na berlinda, difícil evitar em se tratando de professor. Tinha marcante no pensamento um desses terríveis momentos. Estava tomando posse do seu cargo, apresentava-se ao diretor turco de sua escola; este ofertou-lhe uma xícara de café (não a você, leitor!) o professorzinho quase derrubou o líquido quente sobre o documento de posse! tremendo por estar (pensava estar) sendo vigiado nas suas atitudes pelo homem à frente e sua bela, ah como era bela! sua bela secretária... Mais tarde descobriu, a rir, que o Sr.Tomé tremia mais que ele. Isso mais tarde. Na ocasião temia a berlinda. Igualmente não se despojou do caráter ingênuo. A ingenuidade é um buraco no caminho humano. Ele caiu no buraco; não conseguiria sair tão facilmente.
          E você me pergunta se se machucou, induz-me a passar salzinho e vinagre pra não inchar, assoprar um pouco para sarar, como vemos na música do bicho-papão. Mas ninguém tira ninguém do buraco, se caiu... Passar álcool, se esfolou. Puxa, e não é que isso me lembra bebidas alcoólicas! Uísque não por ser mais alcoólico, vodca é russa e falar russo na plena vigência do Ato Cinco dos militares, que maluquice! Nem vinho, nem conhaque. Um cafezinho, sim senhor, um café (não vá tremer igual o Tino na posse como professor do Estado...) Cafezinho saboroso e fumegante, para nós ambos: eu e o leitor paciente. Café bem brasileiro. Que seja apenas para você me ouvir explicar essa questão do buraco de nosso Juvêncio, digo, Juventino, digo melhor, o Tino.

 

 

 



Cap.XIV – Quem está fora quer entrar, quem dentro                     quer sair


Um dupla caipira, Tonico & Tinoco? repetia antigamente a gozar a luta surda na sociedade e os desenganos conjugais e os muitos erros desproporcionados a alguns casamentos: “quem tá de fora qué entrá, quem tá de dentro qué saí”... O casamento? um buraco. E dava o próprio exemplo o autor da composição, dizendo na toada: “sô casado fáis um ano...” Naturalmente ele se esquecia dos poucos acertos em matéria de casório, quando se vive sempre lua de mel, enfim casais felizes. O Tino pensava assim, não dizia nada como era seu costume, esboçava um sorriso por notar a argúcia dos cantadores. Eles continuavam, repetiam o refrão.
          A vida não era só casar, namorar e casar. Nem muito menos nosso herói aceitando o “casai-vos e multiplicai-vos” dos sermões domingueiros. Mesmo porque padre não tem drama comum, o drama de sustentar e educar os filhos; é bastante fácil falar e pregar a ingênuos. Ele não se considerava ingênuo, no que podia mostrar bom gosto. Pense bem, eu é que o considero um simplorião. Posso mesmo estar enganado, ou se não admitisse o possível engano, seria eu o ingênuo... Não, não era o Tino pelo “multiplicai-vos”. Inclusive pichando os pobretões por eles terem filhos na razão direta, não, razão inversa dos bens, quer dizer isso: eram cada vez mais filhos e menos dinheiro... Estava errado. Porém daí concluir fosse contra o casamento e contra os meninos seria um tanto apressado.
          Ele solteiro, defendia-se no ofício de celibatário. Uns pingos nos ii – não contra o matrimônio dos outros, apenas contra o seu. Agora, quanto aos moleques... andava na idade crítica. Apreciaria você que eu pusesse exclamação?
          Sim, havia descoberto que o homem tem igual a mulher sua idade crítica. A fêmea tem a sua por parar de produzir; o homem para iniciar sua produção (ou por tardar iniciar?) Assim ele pensando. Conversava com outros rapazes, concluíra haver muitos deles chegado à mesma conclusão, alguns tardiamente. Ele passava dos trinta anos (um para-titio?) Não se impressionava ser trintão, porém a ficar sim aquele amargor por não sentir sua continuação na Terra. Não havia ainda parado pesar prós e contras, para ver que nada o planeta perderia por sua não continuidade. Nem chegara ao ponto que compreendemos o espírito não perecer e que o filho pode não ser de fato seu filho, e tão somente uma herança física, somática, perecível. Sentia o drama de não perdurar na Terra; portanto sofrendo gostoso. Achava-se como que logrado pela vida no concerto com a Humanidade, sem o mais sagrado, reconhecia: a procriação.
          Vem o leitor enxerido a meter o bico no meio. Ele era solteiro, diz (concordo) desimpedido (quem duvida?) cônscio das franquias sociais, aquele bem que a sociedade fornece ao ser pela glória ser ele um homem! Ponto por sinal discutível, e me abstenho de tomar partido e votar, pois que sou também homem, não pretendendo (eu) ficar disponível para levar pancadas indevidas na posteridade. Você porém insiste que o moço era moço (embora um pouco besta, reconheçamos) e sendo moço desimpedido: fizesse o filho que desejasse aí por esse mundo de Deus; fêmeas nunca faltaram inclusive sobrando; e o rapaz não era tão medonho, não faltava sequer pedaços ao Tino, pronto. Igualmente consideremos outro fator: não era feio de espantar na rua as crianças; o sujeito se apresentando apenas como um homem comum igual se vê aos montes; ora, que se pusesse a esguichar meninos pelos recantos deste mundão, semelhante à estória do Feijãozinho, na qual o pai do personagem havia semeado feijões por volta da casa e... Bato palmas a você, leitor, pelo brilhante raciocínio, deixo o Tino a plantar bebês e colaborando com a maternidade. Acontece entretanto um senão, já lembrei isto noutras passagens desta pobre e despretensiosa narrativa: o fulano um timidão, doentiamente tímido e vergonhoso. Além de não podermos cobrar-lhe ingenuidade; tinha muita.
          Daí por mais boa vontade que tivesse...
          Também havia a questão de princípios. Vamos respeitar os seus princípios. O homem temia, chegando mesmo ao pavor, a possibilidade engendrar criança na barriga de prostíbulos. Morria de medo das ‘mulheres de vida fácil’. Coisas lá dele. Imaginava, pois demais imaginoso, o sofrimento da prole de suas entranhas atirada à ‘ninguenzice’ (imagine que o dicionário não pôde me auxiliar! assim tomei a liberdade inventar o vocábulo) enfim um carinha jogado ao léu na incógnita! Batia pés juntos por teimoso, era teimoso pra danar, ele, eu havia me esquecido falar sobre essa característica negativa vez que outra positiva. Diante do escrito, preferível não ter descendente. Ainda mais procriar com as sirigaitas das esquinas por aí, pavor! nunca, além do mais poderia vir complicação na parte do delegado, barulho manchete no jornal da cidade ‘B’, mui conservadora. Já pensou a moral dele onde iria parar? Então imaginou ler, saboreando o prato do dia nos bares e salões de barbeiros, com o jornal arreganhado: “Professor Juvêncio da Silva abusou de infeliz donzela, negando-se a se casar com a pobre!” Bonito? também achei feio, não daria para jornalista o rapaz, por não saber sequer escolher o chamarisco na manchete sangrenta de primeira página. O Tino não deveria ter melhor sorte nem como jornalista nem como casadoiro. E casório com essinhas da rua... chi! (é com xis? agora é sua vez ir ao dicionário comprovar, eu já gastei minha língua de matracar besteiras no umidecer as pontas dos dedos a desenrolar as terríveis orelhinhas que se formam nas páginas do Aurelião). Diria quando tive a dúvida do ‘x’ que temia o sujeito essas mulheres da rua; pra si era simplesmente vergonhoso. Nunca cairia nos braços e nas manhas de fêmeas complicadoras. Estamos lembrando que o Tino entrara no time daqueles ossos duros e inveterados solteirões? Consumatum est.
          Ficava na coluna ‘débito’ na contabilidade da vida uma criança a menos, a Terra infeliz sem um Tininho, quem sabe se não desfalcada de muitos Tininhos!!
          A vida no entanto é uma gata manhosíssima, uma bruxa trapaceira, a ficar nas esquinas de vassoura em punho; contra todos os Tinos que já nasceram, os que existem ainda e contra os que porventura virão, porque o mundo irá ainda receber outros semelhantes bobalhões. Apesar, ele comeu da maçã envenenada (a prova, segundo afirmavam, o cocoruto no gogó subindo e descendo ao falar ou ao beber água). O pobre rapaz casou-se. Casou-se. Sem mais nem menos? é, sem mais nem menos quase, talvez, não: com certeza afirmo – até com mais menos. Todavia o expor é um tanto longo, se bem que ocorresse em tão somente quinze dias (ah sujeito atrapalhado!) quinze apenas, porém de narração longa. Por esta razão convido o amigo parar um pouco e – já sabe – chamo sua excelência a tomar um cafezinho, pretinho, saborosinho, fumegantezinho, brasileirinho. Taí, sou contra o álcool, já disse anteriormente, e contra o fumo; entretanto vou lhe conceder o direito a fumar na minha presença esta vez, porque café pede fumo, o tabaco quer a boca de pito como falava o vovô. Solte para o alto a fumaça, os fumantes nunca se lembram dos não fumantes, ficam a atirar fumaceira fedida na cara da gente. Então? aguarde que esclarecerei o casório do Tino.




Cap.XV – O solene ato de entrega do garoto Tino, pelo Padre Belchior, à doce e linda senhorita Joaninha
                                                                              
Sábado. Dona Joaninha encontrava-se toda de branco, esvoaçante desde a barra do vestido de noiva até à pequena mão da gentil Chiquinha, menina simpática nos trajes de dama de companhia; véu e grinalda, Dom Belchior sorrindo lá no fundo da igreja, os convidados do altar olhavam o Zé Sacristão também a sorrir lá no fundo do templo, convidados e mais convidados sorrindo curiosos (ou não seriam convidados) espalhados por toda parte, a formar um cinturão nas laterais; a moça (ah, como a sociedade é linguaruda, tem sempre que pôr dúvida) a moça ia entre emocionada e confiante; temia-se mas não tinha perigo que ela desmaiasse, quem sabe lá o que vai na mente feminina! ia confiante e guiada pelo genitor barrigudo, o véu e a grinalda a encostar no ombro esquerdo (esquerdo ou direito?) do seu velho; na direção do dito altar, todo decorado para a ocasião; os músicos anunciando com seus violinos um pouco desafinados uma página de Mendelssohn; os santinhos sorriam ao público (não bem isso, eles tinham era mais uma fisionomia de piedade e compunção, a chegar dar pena, talvez não estivessem preparados para uma tal solenidade, e sim para a missa de corpo presente; de fato dava pena!) e no altar esperavam Dom Belchior e o assistente, a consumar o ato. Nosso Tino também caminhando, embora numa expressão de ‘não tem mais jeito!’ (não chorava) ia ao lado do Geraldão, na falta do pai dele tendo por senhor de companhia (será que existe isso?) o amigo Geraldo, espécie de padrinho do noivo. O noivo trajava negro como convém a um luto pelo fim do celibato defendido tantos anos com unhas e dentes, parecença o celibato com um hímen guardado a sete chaves, ferozmente, contra ataques mundanos; o que é normal num celibatário inveterado e teimoso. A bem dizer mais força fazia para trás que em direção do pároco Belchior sorrisos e do perfumado sacristão idem a sorrir; enfim marcha nupcial a ré caminhando para frente, o Geraldão lhe pregando vez por outra uns cutucões disfarçados e educados. Isso os convidados sempre curiosos e atentos não percebiam, porém os olhinhos de lince com raio-x ligado da sogra Dona Manoela interpretavam magnificamente, ela estando vestida alegremente para gozar a cerimônia religiosa e de desencargo de consciência. Temia e tremia o rapaz seriamente, e suava (por que se esquecera de aplicar desodorante! ih cabeça ih cabeça...) e esbranquiçava cera o noivo feliz. Porque chegando sua hora fatal, a de a noiva feliz ser-lhe entregue para os cochichos circunstantes, aos planos da lua de mel (e consequentes novos cochichos, a boca do povo não se tapa com um sermão do Padre Belchior todo sorrisos). Ficando ainda a dever, após isso tudo, explicações sem coragem a levá-las efeito sobre a festa, o porquê de faltar cervejas ou esbanjar doces ou o azedume dos manjares, e a propósito de quantas cadeiras emprestadas pelo Tião do bar, as toalhas por Dona Maria. Entretanto seria problema para depois, visto o matrimônio celebrado e seu cerimonial o drama maior, ele entendia bem, ela entendia, todos convidados pareciam entender e aceitar, talvez não entendessem a ganhar direito depois aos cochichos no alto estilo. Disse que sim, é praxe, se bem um conhecido seu dissera “não” e saíra às carreiras, num papelão, dando comida na forma de falatório aos festeiros curiosos. Disse que sim, não chegou a ouvir direito o castelhano do padre, ficou mais prestando atenção nas alianças que estavam no lugar inadequado, olhando a barbicha do sacerdote. Pronunciou como autômato “sim” sem pensar, aos puxões do Geraldo; depois quem sabe minutos depois ou se milênios depois, ou foi antes dele? ela também falou aceitar (é, deve ser antes de ele assoprar o seu sim, nervoso demais a atentar nisso). E o sim dela não chocou a ninguém. Obedecido à risca o diálogo religioso no cerimonial, Dom Belchior transmitiu conselhos mais ao tímido e vergonhoso Tino que à decidida e corajosa Joana; precisava mesmo ter ela coragem bastante a receber o tremedor e pálido noivo suado cheirando por susto, sr.Tino; enfim ela o aceitou, fazendo bem o papel feminino e ficando então casada, carregando desde então o comprido nome de Joana Angélica Catuaba da Silva, Silva ganho do sr.Juvêncio da Silva, sem dar sequer um catuabinha para o marido, é o costume. A cerimônia do lava consciência se perpetrava. E se encerrava. O fotógrafo pôs a máquina a tiracolo e foi tomar na saída a pose do arroz sobre o casal a descer a escadaria aos cumprimentos, ver quem desejava sair junto da noiva e até do noivo na documentação para a posterioridade e o álbum, alguns milhares de cruzeiros na época, preço módico. Todos agora voando atrás do carro dos noivos (por que noivos, se se casaram?) e dos comes e bebes na casa da noiva, não mais dela, dos sogros do fulano. O sábado se encaixava bem na tarefa de casamento, aquele dia do Senhor fora bem alegre.
          Pare de ler só um pouco. Se você não descobriu a grosseira e deslavada mentira, daí não mostrou muita atenção. Porque o Tino nunca se casaria num cerimonial desses, avesso a reuniões e inclusive a congraçamentos sociais. De fato estava aí um sujeito tímido e vergonhoso. Se dependesse de um casamento no estilo, haveria mais uma Joaninha solteirona no planeta – e como existe solteirona hein! – mais uma. Acontece que semelhantemente Joana, da estirpe dos Catuabas mineiros, uma garota tímida. De maneira que a falta do cerimonial nas núpcias não mudou coisa alguma nela também.
          A fome com a vontade de comer? talvez ou nem tanto. Ora, então vejamos como foi que os dois tímidos e ingênuos, engraçadamente ingênuos e tímidos – como foi que se conheceram noivaram casaram. Porque o Tino, não obstante tudo que atirei por cima dele, se casou, como foi afirmado. Não é mentira essa verdade.
          Foi dito que ele professor. Professor concursado e vivendo para o ofício de corpo e alma, então desenganado das coisas do amor. E vai que acontece o inesperado. Quer dizer, a rigor não existe no mundo nada que não seja o inesperado; esta vida é uma sucessão de surpresas, às vezes agradáveis e nem sempre agradáveis. Diria, aproveitando-me da ocasião, que o rapaz esperava ver de onde surgiria a cobra. Não posso afirmar ainda isso porque nesse tal momento da história do moço ele não encontrara ainda o Garcia, um amigo de São Paulo, de volta a morar na capital, já casado e tudo o mais; esse amigo incutiria, fosse preciso no mestre em negativismo, o pessimismo e a descrença pela vida nesse interiorano de ‘A’ residindo em ‘B’. A expressão do ‘onde surgir a cobra’ era portanto do Garcia, que emprestei antecipando, a fim de acertar a frase. Voltemos ao Tino casadoiro – houve algo incomum a ele: apareceu a Joana! Não me arrisco a dizer qual o anjo que a enviou pronta para ele, se Gabriel se Belzebu. Fica para o desfecho da narrativa, caso haja desfecho digno desse nome, naturalmente. Apenas sabemos que num dia ele se encontra de mãos entrelaçadas com as mãozinhas dela (sejamos corretos para com a nossa consciência: as dela eram maiores, os dedos afilados e compridos, quando armados na forma de concha para baixo dava ideia duma aranha na posição de atacar, dessas tais quando mortas ficam assinzinhas pequenas).
          A Joana era um tipo desses que entram na estória da gente sem ser chamados e sem que se perceba. Então, respondendo “presente” nos fins da década de sessenta numa sala de aula. Quando o rapaz foi notar, não dava mais jeito, o jeito era casar... Porém tudo tem sua história. Ele escolheu a garota para que ela o escolhesse como parceiro, ou vice-versa, nem sei mais. A história dessa entrada triunfal da jovem nesta estória mambembe igual um circo de periferia: ele escolhera como professor do Estado ‘B’ pelo Diário Oficial, não sabia da existência da cidade nem onde ficava. É muito lógico haver confiado no trem da Araraquarense para chegar e chegou lá. Aí. Aí é que começa.
          Era um dia ensolarado, o que não distinguia a localidade, pois ela tem sol gostoso todos os dias. Ele não sabia disso, viera da nebulenta São Paulo, poluída como requer. Então achou lindo o dia e bela a cidade. Arranjou casa; leia-se quarto de hotel na Rua Pernambuco. Em breve trabalhava na urbe com afinco. Agora despreocupado com os misteres do amor, como sabemos, não sabia sequer da Norinha; e sem saber das artimanhas da bruxaria, que as bruxas andavam soltas naquele tempo. Foi por consequência que engoliu meses e meses a vida, bebeu alegria, sorveu tristezas do pensar, se afundou nas preocupações do dia a dia. Ele não chegava a pensar (era ingênuo, está lembrado?) que suas alunas fossem por baixo dos uniformes escolares mulheres. Ou pensava, a gente nunca sabe ao certo o que imaginam os tipos ingênuos. Um dia em que andava mais desguarnecido, apareceu a jovem Joana, mais precisamente a senhorita Joana Angélica Catuaba, Catuaba por parte do pai dela, um senhor gordo e barrigudo, ah! já contei isso. Ela. E fazia sol e ele não percebia. Entrara pela retina, tornara-se rotina; uma rotina necessária, gostosamente necessária.
          Ah meu caro, mas antes da Joana você precisa saber da titia Rosinha.
          Por essa época andava meio interessado na Rosa, moça madurona e consentânea com o rapaz esdrúxulo (ué, ele não tinha escolhido o ofício do celibato? você me indaga e isso atrapalha meu fio da estória, acabo por esquecer-me da Rosinha, vamos a ela:) fizera o Tino inclusive um teste curioso para saber o grau de ingenuidade da mulher – espalhara no seu meio ser pai de santo... e a Rosa veio pedir a ele informes religiosos sobre o assunto, exigindo do sujeito encenação, para alimentar ainda mais a confiabilidade dela. Com essa bobagem de nada foi nascendo entre os dois madurões amizade mais chegada, tendenciosa da parte masculina. Ele estava interessadíssimo nela, sentindo a fêmea atrativa e tudo o mais; daí intrometeu-se entre eles um palito inocente. O negócio do palito é equivalente ao vento do Sebastião. Agora você me força a contar além da estória do palito, a do vento; veja em que atrapalhada me meti! Pois bem, o vento primeiro. O Sebastião, um que não chegara a Bastião mais íntimo para o Tino quando viajante nas Minas, o Sebastião vendia produtos farmacêuticos, colega do Tino vendedor das Pilhas Multinacionais. Foi ele mesmo quem confidenciou o fato ao moço das pilhas; disse ter desfeito um noivado com uma linda criatura a quem amava até ao desespero, porque a noiva soltou-lhe um vento intrometido (ou ‘extrometido’?) após ingestão de batatas e repolhos num restaurante (que o noivo Sebastião havia ofertado a ela, valha-me uma santa qualquer misericordiosa!) e isso, o vento digo, o chocou profundamente, visto ele nunca haver pensado nos termos de mulher praticando uma coisa tão baixa! Por essa razão casou-se com outra não tão querida, supondo desventada, eu supondo sua suposição. Foi assim narrado ao caixeiro-viajante Juvêncio da Silva. Este, agora professor em ‘B’, se encrenca com um simples palito... A Rosinha dos belos olhos azuis estava a almoçar quando o sujeito passou por sua casa, pretextando qualquer coisa e escondendo o móvel da visita, que era o interesse macho por fêmea de maneiras tão graciosas, como tem acontecido muitas vezes nestes últimos milhares de anos na Terra; o comum do interesse entre os sexos. Bem, daí ocorre a tragédia: ela sai para atendê-lo palitando os dentes, belos é verdade mas... chupando as comidas incrustadas, pra não perder nada que ficara retido naqueles dentinhos miúdos a enfeitar a rosa da face e a expressão ingênua. Esse o fim do romance, sem que ela, a Rosinha, sequer desconfiasse haver começado... Foi nessas condições que uma Joana ganhou duma Rosa na seleção dos viventes prender um certo Tino, desses que andam sobrando a três por dois no planeta e lá na cidade interiorana de ‘B’ também.
          Ora, vamos dizer lamentando, isto é prosaico. Não me dispus a ir além do prosaico, ótimo ao ser comum, o Tino. E igualmente não espere grandiosidades amorosas quando ele se voltar para a Joana. Ou cairá do cavalo, como fala o caipira.
          A Joana, embora aluna, foi notada; logo mostrou interesse pela mocinha; não como aluna, como atriz, porque a conheceu numa peça de amadores no teatro estudantil de férias. Guardou a jovem no coração para si. Depois vieram as aulas normais. Então na relação diária passou a percebê-la. Sua razão não lhe deu razão: dizia, gritava a ele ela ser aluna, merecia respeito; e tinha mais argumento, a riqueza. Ele seria contra as riquezas do mundo? Sim. Não, contra os detentores das riquezas do mundo. Achava que a moça fosse fazendeira ricaça ou coisa assim, ele tendo preferência por gente de sua classe econômica, porque não passava de assalariado. Todavia a relação amiudou-se, por força das circunstâncias. Uma colega da Joana, vestida de Santantônia, atiçou o fogo entre os dois. Ele ficou enrubescido, gaguejou, brincou para sair-se daquela encrenca (sempre fazia assim para não ter de enfrentar um problema em público) uma encrenca que ele julgava ínfima, um pequeno caso sem importância, certa menininha com um solteirão, ela uma criança ele maduro (ou caindo pedaços... não vou opinar, fica ‘maduro’). Não era uma pequena encrenca, dessas corriqueiras com que os mestres se deparam na sala de aula vez por outra. Não era. A Santantônia quis provar decerto a si mesma sua capacidade casamenteira e provar semelhantemente não ser insignificante a encrenca; ganhou a aposta. Ele o fortalhão abrigou-se como pôde das investidas femininas, gritou e esperneou como era possível, fazendo as vezes do sapo que grita e esperneia e assim mesmo encaminha-se na direção hipnotizante da bocarra da serpente. Tadinho. Do sapo sim, ainda mais do Tino. Desconversou, entrou na matéria, ou antes continuou a matéria, errou nomes e datas, as alunas perdoaram com pena do professor embaraçado, as mulheres sabem ainda mais que os homens perdoar. Ele desconversou porém já não sabia dar aulas mais, se acaso houvesse um dia sabido, por causa daquele embaraçante Terceiro Ano Clássico, de garotas tão simpáticas. Sorriu desconcertado, marcou prova marcou trabalho, remarcou e se atrapalhou, deu livre consulta, já não estava mais livre. Noutro dia ela veio mansinha, um anjo, mansinha mansinha, aquele jeito de mulher submissa, a pedir orientação para o futuro, porque os alunos nessa fase da vida têm mesmo dificuldades, negócio de livro a ser visto e outras coisas mais do curso, assim e assado... O mestre emprestou-lhe livros, saiu vexado vermelho corredor a dentro, fugindo como era possível. Agora não havia mais sossego. Felizmente para si não tinha aula todos os dias na sala da moça; poderia portanto recompor-se daí por diante. Além do mais tendo o sábado e também o domingo para livrar-se de problemas diários no ofício. O fim de semana para ver as meninas na cidade ou para fugir delas, o que é ótimo a um solteirão empedernido... Havia também o cinema para diversão.
          A sessão começava às vinte horas. Ele ainda via a propaganda dos filmes no sagão, nem mesmo se decidira pela comédia. Foi quando apareceu a Santantônia, morena sensual que na chamada respondia no Terceiro Clássico por Célia, essa. Chegou com um olhar suplicante. Dizia que a pobre da Joana, ele se lembrava da Joaninha de olhos deste tamanho, cabelões quase lá embaixo... aquela que lhe mostrara na sala o vestido de bolinhas novo, o qual ela mesma cosera, prendada, aquela... lembrava-se? pois, judiação! não tinha dinheiro para a entrada no cinema, doidinha que estava para ver o Fernandel. Sim sim, arranjava, por que não, o bilhete de ingresso à jovem; pôs a mão no bolso direito a revirar notas ensebadas. Santantônia repreendeu o professor, que é isso, não é mesmo?! não iria a infeliz criatura entrar sozinha na sessão, mulher não vê um filme desacompanhada... o que o povo iria falar dela? Aceitou. Não está lindo? Não vê lirismo poesia romance?
          Dessa forma saíram do cinema na direção da Praça Central, a marcar o segundo encontro e discutir as bases do namoro. Enquanto no cinema nem viram a fita nem ao Fernandel; o Fernandel ficou talvez decepcionado com o casal. O rapaz desajeitadão quase encostado à moça, ela aguardando oportunidade para melhor estabelecer o flagrante de prisão, coisas assim de mulher que as mulheres sabem fazer com maestria e já nascem sabendo; uma tarefa infinitamente mais fácil quando tratam com ingênuos; e o Tino um fulano suficientemente ingênuo. Na pracinha florida combinaram o segundo encontro, depois o terceiro o quarto, perderam a conta. O jardim via tudo, a tudo registrava no seu caderno de notas; o público era testemunho. Iam pra lá, voltavam para cá; se perdiam se encontrando pelas ruas nas imediações, voltavam à praça. Já viu aquelas formiguinhas abobalhadas andando desajeitadas e sem direção em cima em baixo atrás na frente da guloseima esquecida na mesa da cozinha? os dois pareciam as formigas. Os outros namorados não agem igual? Estavam assim, assim se acostumavam um ao outro, trocavam confidências, tornavam o nada um tudo, buscavam as estrelas pô-las ao chão, cheiravam as flores e as admiravam. Concentrando o mundo em si mesmos, não viam sequer aos casais que passavam abraçados pela mesma razão que é sem razão, razão do coração... ensimesmados nos sentimentos – é inexplicável o amor! Trocavam também mazelas um ao outro para que o outro perdoasse; e realmente perdoava. Assim das pequenas grandes coisas, os corações estavam cheios e transbordantes. A Praça não se cansava registrar para a posteridade. E é provável que haja perdido o caderno. Os Pássaros cantavam como homenagem ao par. Tudo era para enfeitar o ambiente justo a fim de que os dois se sentissem bem. A Lua gaiata, as Estrelas formosas, o Firmamento sorrisos; e as Plantas e os Insetos; e mesmo os Seres Humanos inclusive existiam ali próximo em função dos enamorados Tino-Joana! Ou quem sabe também doutros casais. Puxa, que prodigalidade imaginosa têm os pares!
          Dessa forma chegou o décimo quarto dia. Era muito namoro para quem houvesse ficado preso a um caso de amor por seis anos infruntíferos... Ele temeu, tremeu. Quis deixá-la; criou encrenca à pobrezinha Joana de olhos grandes e bolinhas azuis, tadinha. Ela protestou, esperneou, gritou; ela a bonita dos olhos assim; e assim manteve firme o namorado. No entanto para isso fez carinhos, ofereceu amor, criou-lhe confiança, fez-se de objeto necessário. Então esperou, esperta. Ele pesou na balança da equidade; pôs seis anos indiferentes e cerimoniosos, num prato, e noutro os quatorze dias de amor simplicidade e satisfação. Pediu a Joana em casamento. É curioso e inesperado (não disse que é! será que é mesmo?) curiosa e inesperadamente ela aceitou! Eu não havia dito que neste mundo só existe o inesperado! Pode me acreditar, não minto.
          Contudo o rapaz não deu o próximo passo: não foi falar ao pai dela, como é praxe. Também, para que iria falar ao velho se não queria casar-se com ele mas com a filha! Dispensou cerimonial, fez com a jovem um rateio do que possuíam, do crédito e do débito, concluíram mais pelo débito que para o crédito, mandou às favas o mobiliário e o imóvel as vestimentas e as festas, ela aceitou tudo. Decidiram ir ao cartório tratar dos interesses matrimoniais. O oficial da pretoria mostrou a lei, pregou-lhes a peça da lei, a espera regulamentar dos dias para os editais de proclamas e a escrituração. Pensavam os dois que pudessem se unir imediatamente, tiveram de aguardar ordem da lei. Aproveitaram para se fotografar e documentar à posteridade, num estúdio perto. Depois se casaram dentro da lei. Só na lei, ambos sendo ateus e anticlericais. Somente depois disso foram contar à família dela para ficar com raiva e ouvir dos parentes as reprimendas, neutralizadas aliás por um almoço de amizade. Só então partiram à lua de mel. Ah malucos!
          De maneira que o Tino encontrara uma louca para sua maluquice. Apenas agiu o novo par diverso dos outros casais, por ingenuidade, é possível fosse por ingenuidade. Agora, se você quiser saber como é que o Tino se saiu na lua... Bem, acho melhor tomarmos uma dose para descanso e preparo. Não de uísque, sabe que faz mal ao fígado; conhaque ataca o coração; de cerveja não se toma doses; portanto resta-nos um café. Depois conto o resto.





Cap. XVI – A lua

A Lua, dizem, é dos namorados. Entretanto a de mel é com certeza dos casados recentes. Chego até imaginá-la não doce, deve ser amarga e insatisfatória; não sei bem como possa ser, por solteiro e sem experiência nessas andanças; mas deve ser insatisfatória, pois que os parceiros só a desfrutar uma única vez e não repetem, via de regra, a dose. Depois ficam a fazer referência à dita cuja nos termos “antes de nossa lua de mel” “na minha lua de mel” a palavra minha já acusando talvez desunião após a viagem; ou dizem “depois da lua de mel”. Ninguém entretanto vive planejando a segunda a terceira ou a quarta luas. Os filhos não deixam, argumentam uns; outros casais argumentam qualquer como argumento, argumento que não convence a nós solteirões. Que acha? Eu é que não posso no assunto achar coisa alguma. Porém o Tino, esse achou, e achou direitinho. Você julgando o infeliz antecipadamente! pondo minhocas naquela cabeça chocha dele. E não sem alguma razão, porque nosso amigo vivia titubeante. Nunca o Tino conseguiria uma tirada valorosa, posando para a fotógrafa amadora e zarolha, Dona História. Se dependesse dele uma grande atitude como a de D.Pedro, resolvendo a mando do Bonifácio: eu fico! o Brasil ainda seria colônia lusa e não colônia do imperialismo ianque (puxa, perdão, olhe o escriba se envolvendo nas besteiras de um personagem discutível...)
          Portanto foi com essa galhardia que o nosso bravo herói tomou a delicada esposa nos braços, Dona Joana Angélica Catuaba da Silva – repito: Catuaba por parte da família paterna e Silva por parte do marido dela senhor Juvêncio da Silva. Então partiram à lua de mel. Não houve latinhas (quis botar uma porção delas amarradas atrás do carro, as de leite condensado, de óleo de soja, de inseticida, essas coisas barulhentas, eu quis, no outro capítulo naquele momento após a descida na escadaria da igreja e a foto à posteridade; parei pensar na besteira que iria fazer, mais parecença com enlatados americanos de tevê a se exibir na sessão da tarde; gritou-me aqui dentro uma raiva nacionalista, deixei sem latas, pronto). Portanto, como dizia, não houve latinhas e buzinas, pichação a giz no automóvel das vítimas com os dizeres ‘casadinhos de novo!’ nem nada. Um sujeito apagado como o Tino, o qual não deu festa e que teve apenas dois assistentes como testemunho no casamento, duas assistentes a bem da verdade, duas alunas visitando o cartório pra ver se era mesmo verdadeiro o que as más línguas afirmavam, estas dizendo que seu Juvêncio, o professor, estaria casando com a Joaninha do Terceiro Clássico; aí constataram; então, que esperar!? O que se poderia esperar dum homem que no seu casório não oferece cervejas nem doces e apenas fala para um único amigo “ói, João, eu casei hoje, viu?” Que vou argumentar diante disso! Ele tomou uma Kombi emprestada, botou dentro dela uma escrivaninha gasta, certa máquina de escrever Olivetti velhinha e uns sulfites a imprimir sabatinas de alunos, mais uns livros de estimação guardados num lugar mais ou menos escondido antes, temendo a Inquisição militar, umas roupas usadas numa certa mala de fibra das antigonas: eis seus pertences e sua mudança, em plena lua de mel. E a doida que o aceitou no estado que se encontrava por companheiro trouxe para o veículo também sua mudança, ou seja: maleta e uns livros, juntando a isso uns apetrechos domésticos, coisas de ‘chá de cozinha’ que as jovens ofertam na intimidade para a noiva. Isso. Juntaram os trapos os nubentes, partiram. A estes dois lunáticos pode-se aplicar bem o dito popular “fulano? enloucou casou e mudou”. É, realmente casaram e mudaram. Foram para São Paulo, lugar no qual interioranos adoram fazer experiências para sentir o gostinho de voltar de lá um dia... Sim, foram para a capital onde, caso faltassem os doidos, eles completariam a cota a satisfazer dona Estatística, ansiosa a mentir com dados verdadeiros.
          No caminho pararam numa cidade, chamá-la-ei ‘C’ para não confundir com ‘A’ e ‘B’; aí tomaram hotel, a fazer coisas que não nos diz respeito.
          Partiram de uma vez por todas; no outro dia estavam na capital do estado, gozando o frio; porque era fim de junho e no mês de junho faz frio no interior mas frio autêntico mesmo é na Terra da Garoa. Foram... para casa? não, nem sequer tinham casa para ir! (não falei serem pirados!) Foram para a lua de mel, ou não seria tempo de lua de mel, puxa. É muito claro, não levaram a mudança na trajetória da lua, não fique assim gozando tanto os pobres! Deixaram os badulaques de mudança entulhando os parentes, para que servem parentes? Então prosseguiram se emelando no mel dessa lua. Rio de Janeiro!
          Rio. Pontos turísticos a turistas sem dinheiro, a volta das pernas cansadas e muitos sanduíches com guaraná como serviço à la carte no estilo caipira, volta a descansar no hotel, sem compromisso. A se beijarem de novo, a se abraçarem outra vez etc. e tal, porque neste ponto da frase cabem etc. etc. pra valer. Por essa razão acordavam cansados para o café matinal no bairro de Santa Teresa, a preparar-se à caminhada na Guanabara maravilhosa, desfrutando das alegrias os nubentes; e não se esquecendo também as fotos no Corcovado... para a já cansada posteridade.
          Dessa maneira os dias adocicados da lua rolaram numa rapidez fantástica e desconhecida pelo ser humano, imprópria do tempo, o qual normalmente gasta vinte e quatro horas para um só dia e esse tempo agora exagerava um pouquinho com os pobres ricos na felicidade, Tino-Joana. Bem, acordaram pela carteira quase vazia, despertador infecto e malcheiroso. Como não dispunham doutro caminho, voltaram a São Paulo para morar – não iriam ficar residindo na lua sempre – para  morar sim e esquecer a lua de mel; e como o fazem os outros casais, levando a comprobatória fotografia a fim de provar à posteridade, igual um butim duma batalha gostosa.
          Para quem fez sua viagem nupcial à Europa e foi jogar em Mônaco, ou aos Estados Unidos com direito a divórcio no outro dia em Miami – notar os radiantes Dona Joana e Sr.Tino após a lua, pode parecer gozação; e se se considerar essas pessoas vivendo e lutando no ramerrão, no pagar dívidas com trabalho, a costurar rendinhas ao nenê dando pontapé na barriga da mamãe – enfim, para quem viajou a Las Vegas ou ao príncipe Ranier, a lua de mel do Tino e de sua querida esposa Joana, a lua não chega realmente a ser lua. Mas garanto teve muito mel; esse mel continuou adoçando a vidinha simples do casal. Por outro lado pode melhorar um pouco a avaliação da lua de Joaninha-Tino se considerarmos ser bem mais magra a lua dos roceiros. Eles fazem a festa com sanfona e padre, cerveja e guaraná; às tantas, entre risotas, o casal vai dormir, ele bêbado e às vezes mesmo carregado pelo irmão da noiva meio tocado também e de olho numa garota qualquer do baile; e o noivo é atirado na cama; o sono para o casal, ele já deitado, deitara “drumindo” como falam e ela com o irmão precisaram tirar-lhe os sapatos para o bebum descansar melhor; por isso não existindo sequer um ‘etc.’ digno desse nome, é óbvio; daí vem o domingo, o casamento é necessariamente feito no sábado, o qual é igualmente próprio para as mudanças caboclas. No domingo acordando ambos, de noite deitam-se outra vez, só aí acontecendo algo mais expressivo como argumento natural da senhora Pornografia a ajudar comadre Demografia, quem sabe se não com riquezas grotescas; assim acordam os casadinhos de novo na segunda de preguiça, para irem de enxada gozarem a lua de mel. Assim acabam nossos matutos engrandecendo (sem ter tal pretensão) a lua do Tino com sua amada, a mui bonita de olhos deste tamanhão. Até melhor que as de Las Vegas e do Principado de Mônaco.
          Agora, diz o amigo, inveterado nos cafés desse imenso Brasil, que nada mais pode ocorrer ao Tino nem à mulher do Tino, visto que o comum acontecerá; e aconteceu mesmo: as brigas com farto bate-boca do casal, o nascimento (ai que gracinha!) do herdeiro ao trono, um garoto, depois o resto da série; que envelheceram os pais e portanto perdeu a graça a estória; ora a vida é isso aí. Eu confirmo, é assim mesmo. Você desejava o quê: desgrenhamento de cabelos, gritos, pancadaria, pronto-socorro, dona Cota percorrendo toda a vizinhança a culpar os homens do planeta e o sem-vergonha em particular, a boa velha se atirando a acudir uma pobrezinha, a olhar por ela e as crianças, estas desmanchando-se igualmente num berreiro e por fim a polícia indagando quem foi e... Você acha que devo mentir? Se a vida já não é por si mesma uma grande mentira! porque a minha é um reforçar essa verdade, colaborando com um número a mais para Dona Estatística, a mentirosa que gosta de brincar de ciência – acha de fato que devo mentir?! Que acha do achar?
          No entanto deixo de lado as expectativas mesquinhas da inverdade e as fantasias da realidade; vê-se que o amigo é imaginoso e não me cabe açular minhocas na sua cabeça; que me diria agora, neste exato momento, se lhe segredasse que a Norinha (havia se esquecido da Nora Lopez? a dos cabelos dourados ao sol das sete e trinta, a confundir decerto a moça com Joana do Tino e tudo o mais...) a Norinha em carne e osso, apareceu no meio do milharal...
          Creio andar espantado o Leitor.
          Oh não posso com gente assustada! A ela sempre nosso povo oferece da panaceia nacional a erva cidreira, chá quente; acharia de boa prudência tomar chá relaxante agora, para que eu possa contar depois sobre esse negócio da Norinha aparecendo no milharal com o Tino – onde já se viu, o homem passou a ser casado! Chá, que chá coisa alguma. Quer melhor remédio para o susto? café.
          Sim café. 
          Depois do café eu lhe assopro baixinho as coisas da fazenda...





Cap.XVII – Norinha e Tino no milharal da Fazenda!

Não estou sabendo direito quem foi que soltou esse negócio do milharal. Talvez porque não se admite fazenda sem milho com plantação vistosa; e levando em consideração que o Tino sempre andou perdido por ingenuidade nesta estória, bem poderia estar igualmente perdido no milharal de qualquer fazenda; deve ter sido a causa na injunção dessa palavra. Além do mais milharal é ideia que, a ser verdadeira, também inculpa criatura moralmente inatacável, a Norinha, atirando assim sobre senhora também casada (aquele negócio do italiano...) atirando sobre ela a má-fé. Que atrapalhada jogar-se a Norinha, esposa doutro, nos lugares escusos... e ainda a piorar essa piora, justamente com o moleirão do Tino. Acredito sinceramente num engano, porque gente costuma empurrar isso nas costas da imprensa para facilitar as coisas inexplicáveis. Mas não resta dúvida que realmente ocorreu na fazenda... Mais precisamente na Secretaria da Fazenda, pertinho da Praça Clóvis Bevilacqua, antes mesmo deles (já observou como a expressão ‘eles’ aqui ‘deles’ é uma entidade que se presta a tudo?) pois é, antes deles esconderem a praça para fazer um buraco a enterrar a estação do Metrô; nesse lugar.
          Tal encontro, casual, digamos tenha sido casual entre os ex-namorados Tino e Norinha na Fazenda, tira um pouco a rotina do casal, aqui Tino-Joana, vivendo sem o romantismo dos livros, lutando pelo arroz e feijão e para livrar as crianças da desidratação, a procurar leite Ninho por aí, sumido das prateleiras a forçar aumento nos preços. Enfim vivendo o dia a dia chato para a literatura e a academia de letras, casal sem dramas de sangue com polícia e manchete nos jornais. Em todo o caso o amigo Leitor não espere renovar o susto tomado, porque não tenho intenção mostrar nenhuma indecência, a mais picante possível, entre Dona Leonora Valiente e Seu Juventino da Silva.
          Porém aconteceu de ambos entrarem na fila do elevador à procura da irmã do Tino, funcionária no último andar, a qual já havia eu dito também ser amiga da Norinha, sua conterrânea. Um ia falar à mana e mostrar orgulhoso a barriga da esposa à titia futura; e a outra, a Norinha, indo apenas trocar um dedinho de prosa amiga, aproveitando a oportunidade pelas compras na Rua Direita, por sinal bem torta. Pode não parecer espetacular o encontro, porém na São Paulo tão grande uma coincidência no meio de milhões de pessoas, é qualquer coisa notória. Encontro no elevador. Foi daí que o Tino apresentou à Dona Leonora sua mulher, se bem que no embaraço do imprevisto houvesse apresentado a esposa como sua aluna da urbe ‘B’ o que era certo porém não estava certo, pois com a barrigona daquele porte ficaria mal até... não fosse o conserto imediato do equívoco não sendo equívoco; daí o homem completou com expressão mui a seu gosto “esta é a minha senhora!” A Norinha acreditou é claro. Ele perguntando rápido da família dela, porque convém indagar dos conhecidos pra fugir de embaraços desagradáveis; e narrou como foi se casar também ele, visto ser o fulano bem tagarela apesar de simplório, ou até por isso mesmo. A Norinha a responder descorada desapontada desconcertada às perguntas, sem coragem ou sem interesse para igualmente perguntar; e por esses motivos saindo apressada, em São Paulo todos têm pressa e a gente  desculpa. Ele sorriu, Dona Norinha apenas falou adeus e se foi aparentemente constrangida, não sem antes falar à digna esposa do ex-namorado, Dona Joana Angélica Catuaba da Silva, o comum do dizer: “ah muito prazer conhecê-la”.
          Foi então o rapaz matraca contar à mulher o que havia representado para ele aquela Norinha preocupada e de parecença num desgaste. Contou a seu modo, porque também não era lícito usar outra maneira e de falsidade com a esposa que ele tanto respeitava, apegado sempre à fidelidade, um traço marcante no seu ser. Foi assim falar sobre a mesma, disse ter tido afeição pela moça quando moça, agora ele era dela, somente dela, Joaninha, a dos olhos grandões. Daí a pouco comprou-lhe pipocas (a suborná-la?) sem que ela pedisse e chocolate sem que ela demonstrasse desejar; desejava sim, era louca por chocolate; também adquiriu flores para a mulherzinha pôr na garrafa de guaraná arremedando vaso solitário; e mais pra diante ainda numa loja de variedades deu-lhe como presente um autêntico vaso solitário azul, cor preferida da consorte. Decerto a compensar... Nisso entraram na multidão, virando número de estatística, para provar que dentro de qualquer mentira podemos encontrar algumas verdades.
          Quanto a mim, não tenho a consciência pesada, porque não prometi a ninguém casos escandalosos. E se houve alguns deslizes morais, mesmo tais delizes estão muito aquém das falcatruas cometidas pelos nossos distintos políticos; nestas condições, crê-se, os políticos têm maior categoria e perfeição que um mero escriba rascunhador de uma estória qualquer dum Tino encontrado por esse mundo afora. Não tenho a consciência pesada, repito. Porém nosso amigo Juvêncio tinha, com certeza. Naquele dia do encontro com a ex-amada foi para casa da esposa dele e não dormiu bem (por cansaço?) Aproveitou a carona da insônia, que por sua vez se fazia acompanhar do ressonar de sua cara-metade, dos apitos dos guardas-noturnos à distância, próximo os cachorros (contou mais de cem talvez exagerando) então sofreu gostoso. Foi nesse ponto que desandou pensar na situação, querendo descarregar a consciência dos quilos a mais. Sentiu o sofrimento pelo suposto sofrer da ex-companheira. Via nela a menina desiludida agora, a garota honesta que acreditara nele, que lutara mesmo para tê-lo por marido; e que só o deixou esgotadas todas as possibilidades. Casando-se com outro... quem sabe se não sem amor! se casou e fez bem, agiu correto e logicamente. Aí o rapaz insonioso desejou-lhe felicidade outra vez, sem que ela tivesse conhecimento; desejou-lhe porque reconhecia seus méritos e por temer haver feito a jovem perder seis longos anos, os melhores da juventude, presos a ele. Porém, agora, naquele ontem do Tino, entre as coceiras pelas pulgas trazidas desde o centro da capital (não se conformava com o fato de São Paulo ter tanta pulga!) essas pulguinhas atrevidas e famintas e o ressonar gostoso da mãe do seu filho, aí voltava-se para a expressão sofrida da Norinha, a estranha pressa que se apossara dela e a atacara no encontro casual; via sua palidez desusada, revia a cera da tez; isso tudo o agitava, punha minhocas na cabeça e indagações sem respostas. Dizia lá consigo, seria a moça feliz com outro? quem saberia se o marido da Norinha não a espancava! Quis bater nele pelo mau gênio e as pauladas que a pobre recebia, se conhecesse o marido dela, se ele fosse menor que ele, Tino, se ele próprio tivesse lá muita coragem e valentia a andar metendo a mão nos outros... Poderia ser inclusive um ótimo esposo o esposo da Nora, é podia. Contudo por que ela estaria triste no encontro! ainda o amava? e como ter a certeza que ela o houvesse amado algum dia! teria mesmo deixado raízes na infeliz? Assim se martirizava num sadomasoquismo, portanto contra si mesmo. Indagou-se: ela não desejaria realmente ter filhos dele e se enciumara vendo o filho dele na barriga da Joana... Ah quanta bobagem na cabeça. Aí acordou dentro da insônia – sentiu estar roubando com o irreal o real pertencente à esposa. Beijou o sono dela, beijou ternamente Dona Joana e depois tornou a beijá-la violentamente, acordando a mulher no seu reparador descanso; ficou a olhar embevecido sua querida, real. Osculou o ventre dela estufado ao filho que chutava displicente mamãe. Ela sorriu para o Tino. O Tino fez xixi, para não ter perigo de molhar a esposa quando dormisse, por se lembrar daquele dia... Só então conseguiu também ele partir como um puro, se apagando. Naquele mencionado dia foi até engraçado, era nos primeiros de casamento, ih nem conto; conto. Fazia frio e os carros rolavam na avenida próxima. Um que outro ‘pleibói’ buzinando ou a cantar pneus, agitando a madrugada. Operários dorminhocos se esticando do trabalho diurno, qual bananas a desempenar. Fazia muito frio mesmo. Três horas, se tanto. Mexeu-se, brigou com o cobertor, tapou o rosto com o lençol, a enganar isolados pernilongos. Estava ali um pequeno-burguês com frio. A Joana ressonava forte, não ouvia buzinas e pernilongos. Quentinha. Puxou a coberta, egoísta. Ficou ele sem cobertura, gelado; teve de acordar totalmente; teimava dormir. Não dava, muito frio. Foi daí que notou o homem estar molhado até... cheirava a mictório público. Era apenas funcionário público. Chocou-se. Aqui inicia seu drama; o Tino não se conformava com o que fizera, afinal um ingênuo mas não sabia ainda disso. Começou a se recriminar: “com essa idade, Sr.Juvêncio!” “puxa vida, um professor” “pera lá, existe idade para urinar?” respondeu-se. Taí. Casou madurão, a moça, coitada... tem importância isso? Estava molhado. Descia do púbis até à perna, liso, malcheiroso. Desgraça! pior que a guerra; as guerras estão longe, pensou, no Vietnã, ele na cama ali, molhado. Esfriava; não podia ser diferente. Esperou. Então a esposa se mexeu de novo. Que pensaria? Um homem daquela idade, mestre, benquisto entre os vizinhos e os amigos. Xi! molhado. Precisava zelar pelo emprego o nome os bens a posição. Não era um joão-ninguém, ou era, não tinha importância isso, estava fedorento e molhado, frio. E a honra a zelar! Não procurava ser exemplo para a esposa, para os outros? um tanto moralista. A Joana se mexeu outra vez, decerto incomodada... será que estava sonhando? Devia estar acordando a jovem senhora. Ah, que vergonha! Como encará-la? Que lhe dizer? Tivesse já o nenê, culpava a criança, menino urina mesmo toda hora. Não tinha, tinha na barriga dela. Com aquele tamanhão fazer xixi nela! E se se lavasse rápido; então levantar-se-ia devagar; aí se se trocasse e... bolas! O frio não era de brincadeira. Os pernilongos foram-se; não apreciavam amoníaco certamente; os pleibóis não eram mais ouvidos também; só a mulher acordando... Como lhe falar da patifaria: “querida eu...” “meu bem...” e que dizer depois? Não era o dono da casa? Sim, tendo o direito de mijar na cama, na esposa? Por extensão estava a molhar a certidão de casamento, que blasfêmia! Por que teria ingerido tanto líquido à noite? Diabo, precisava acontecer! Levantou um pouco mais as cobertas, ver se secava aquilo, soprou, ah o ridículo... aquele maldito cheiro, o friozinho incômodo – levantou de leve a coberta, depois tentou levantar-se, não acendendo a luz. Ela acordou assim mesmo: “o que aconteceu benzinho?” Ele respondeu “hum?” para não responder, para retardar ao menos a batalha perdida. Ela insistiu. Depois veio chorando para o marido envergonhada: “não tive coragem de falar que sofro da...” chorava meio desesperada, porém ele, o Tino, perdoou à sua fêmea, era casado de novo tinha ainda muita querência... Não podia se esquecer. Bem, agora podia até sorrir por aquela noite, dormir como um homem puro.
          Pois bem, é tarde e eu lhe confesso estar cansadíssimo do cansaço do besta de meu-nosso herói. Herói negativo. Que tal me oferecer um café? Depois contarei sobre umas ideias, certas minhocas encardidas virolando a mente do Tino.





Cap. XVIII – O homem, esse desconhecido, e seus
                     amores de contrabando

Eu estava dizendo na última afirmativa sobre o Tino que ele encontrou a fórmula para dormir após insônia, como fosse um puro. Acho não ter exagerado; exageros maiores que os simplórios cometerem ainda será pouco; o rapaz como sabemos era ingênuo vamos perdoá-lo. Então acordou cedo por conta do despertador, aquela praga infernal que ele e sua Joana deixavam na cozinha longe dos ouvidos sensíveis do sujeito, ela quase sempre dormindo como um pau, enquanto o consorte temia uma provável insônia; e acordado, era o casal sem dormir... solução encontrada: a peste de relógio escondido no armário da cozinha lá longe. Porém às seis horas o mesmo peste era o amigão do Tino, e como amigo o despertador perdoando a cara de sono e a raiva que o amo lhe devotava; enfim preciso acordar mesmo, ir ao serviço. Como realmente ia diário, o café ainda queimando a goela, indo ao trabalho brigar com os alunos exigir exercícios e atenção na matéria explicada; depois voltava para o arroz com feijão da Joana e o bife de chapa. Na época, antes de retornar para o segundo período de aulas, lá se encontrava na mente do rapaz outra vez a impressão da Norinha. A Joana a ficar no quarto costurando a roupa do nenê enquanto a barriga permitia, ele ficava com a Norinha durante a lavagem dos pratos e esfregando as panelas a pensar fixo nela e tudo que ocorrera na véspera, só acordando do devaneio no momento que escorregara um prato fazendo barulho terrível, assustando a Joaninha, já de si assustadiça; o Tino recolhe os cacos no lixo; a retomar o pensamento. O jeito dela, a pressa, a possibilidade ser infeliz, tudo o martirizava. O leitor me interrompe: concordo, o sujeito é demais encucado, quando é que você sairá disto! O Tino, voltemos ao Tino, o Tino se perguntava até onde seria o culpado, realmente seria? Então viajou com a ex-namorada ao ontem distante, na cabeça sempre as minhocas, deixou o corpo lavando os trecos da Joana. E a viajar com a Norinha, por mera associação, foi a outras paragens; no entanto quase sempre acabava em ‘A’, sua terra natal. Dessa forma entrou na estória a estória do amigo Clodoveu.
          Não era bem Clodoveu mas Clodoaldo, e isto já devo ter dito; um tipo bonitão, as garotas inclusive se impressionavam quando o sujeito passava e diziam alto ele ser lindo; o Tino é quem o apelidara Clodoveu, a brincar consigo nos colóquios intermináveis entre ambos. O moço como retribuição chamava o Tino por Sabatino. Quites, entabulavam as suas conversas nas quais misturavam filosofia política crises nacionais e acabavam invariavelmente amenizando tudo com o assunto preferido: mulher. É curioso, futebol não entrava no blá-blá-blá. O Tino para aguçar o amigo sem fêmea e para também se deliciar a si próprio pela mesma razão ou mesma falta, criava estórias a contar ao companheiro; ambos donzelos ainda, adoravam tal assunto. O criador inventava a mulher perfeita, ia aos soquinhos a incluir no caso “as pernas da Josefa” “os seios da Marli” e daí por diante, compondo um verdadeiro franquesteim de beleza sem par. O Clodoaldo, imaginoso, ia incorporando os pedaços; e quando o amigo lhe notava o brilho no olhar, aí concluía a mulher se entregando chocantemente, ao gosto dos depravados! Assim a chocar o companheiro. Então se despediam, quase sempre numa gargalhada. Estavam os colegas nesse tipo de encontro, quando o Tino fora fisgado pela Norinha. Andava a pensar justamente nessa época, ele estando exato no momento em que era levado pela Nora para o matinho... quando as mãos bobas do sujeito acabaram por derrubar uma pilha de pratos canecos e outras tralhas, só quebrando mesmo um copo velho, assustando assim mesmo a esposa, a qual não podia assustar por ordem médica estando a criança adiantada no bucho; e se assustou. Ele correu para ela, deixando a Norinha desapontada.
          Acalmou dona Joana e voltou à cozinha nas suas altas funções, mesmo porque apenas faltavam os talheres, o despertador em cima do armário grudando pela gordura das coisas fritas, ele fiscalizando enxerido o amo a lavar garfos e facas; faltava nadinha a acabar para a volta ao trabalho. Por essa razão quase nem ouviu a Norinha chamá-lo ao matinho, ouviu sim. Foi.
          Ele deveria levá-la para sua casa, após a primeira sessão do Cine São Luís ou a reunião das filhas de Maria, o Tino a esperar na escadaria da igreja bastante impacientado: “até que enfim...” ela se desculpou pela demora, eles descendo devagar meio com pressa por ser horas altas e o sogro não aceitava filha tarde de volta, as perguntas chatas que fazia o velho e tudo o mais. Desceram o baixadão e subiram a Rua Nove de Julho, tomaram a direção ao fim da cidade, nunca sendo longe numa cidade pequena, ele gozando a moça por morar na última rua da vila, no mato, o “matinho” como o namorado dizia a brincar com os cabelos dourados. Eles andavam muito achegados, ele ensaiando um beijo que não se animava dar por ser demais corajoso, ela se encostando mais ao rapaz por causa do nível do terreno, sempre mui amigo dos enamorados; aí o Tino tomando-lhe as mãos, abraçando a Norinha; e assim a Joana pegou os dois num flagrante! Ele enxugou sem graça a colher pingando água no chão, o despertador mandou o amo para o serviço, ele antes a beijar a Joaninha um pouco envergonhado, foi dar aulas de novo. Ia sair, ui tinha o chão para limpar, aquelas manchas de sabão secadas e resquícios da gordura espirrados no cimento e no fogão, que raiva, pensou, bombril para limpar as chapinhas e os queimadores. O despertador arregaladão ameaçadorzinho disse que sim.
          Começou às pressas limpar, bateram palmas. Olhou pelo corredor, despachou o pedinte mas foi impiedosamente atirado pela memória ao velho corredor com balaústres de madeira... trajava então roupas caseiras, segurava um livro de latim, o vento lhe trazia aromas conhecidos, ele estudava e aguardava ansioso uma jovem linda, a mais bonita entre as mulheres para ser exato, conforme pensa um rapagão emplumando... Cerca de balaústre ligando a sua casa à da vizinha dona Teresa, uma jabuticabeira teimando viver e o cimentado aquecendo as raízes e seus pés (o Tino estudava descalço). Por cima um céu imperturbável aos desmandos mundanos; quinze horas, quinze e cinco, e dez. Ela tardava, o suor das mãos denotavam impaciência no rapazinho, umideciam as páginas do latim; o texto selecionado pelo Padre Walfredo, o mestre que fazia o menino Juvêncio de palhaço na frente dos outros: “o senhorr feio tô Korréia?” O aluno xingava mentalmente o alemão, enquanto se encostava na lousa de sujar a roupa como bom brasileiro, o costume manda encostar-se em todo lugar disponível, parede ponto de ônibus lousa; agora saía com roupa suja para a carteira, envergonhado, uma vergonha com seus desesseis anos e precisava tirar nove de latim ou ficava reprovado! Mãos trêmulas a molhar as páginas execráveis do latim. Preferia vê-la. A passar diário, passando agora das quinze... Suportaria estar de volta ao escritório, a aguentar os colegas de serviço num pôr apelidos idiotas nele, melhor que suportar o padre “Aesopus vinit vicinus latronis” diabo, será assim? quem esse Esopo? que importava, ela passaria logo, atrasada mais de quinze, quinze e quinze! Chegou-se à cerca, ver melhor, fazer de conta andar lendo o latim, espreitando uma bela a desfilar; vem vindo alguém “a, ae, is..” o que o padre tinha contra ele e sua garota linda? que tomasse lá suas cervejinhas, não se metesse nas coisas de amor... “canis et...” ora, por que terá atrasado! quinze e vinte; passará, jogará seu olhar enviesado para o corredor, da maneira que só ela sabia fazer, um olhar cálido, mexendo suas células, em cadeia, o coração, tremendo o cérebro, abrindo o apetite; num fazer o pobre tropeçar, tossir interminavelmente; oh, se tivesse tido coragem enganchava a jovem... conquistava a bonita, ah se conquistava! “Canis et...” cão o padre, a escola, por que estava tão atrasada!? Quinze e trinta quase, ela não passava, quando passava trazia um perfume na extremidade que dava para a rua e a fragrância entrava pelo corredor, a saia colegial balançando, os pesinhos a enfeitar sua rua; passava, buscando o rapaz sem olhar, mexendo consigo; ele grudar-se-ia ao seu busto empinado, beijaria aquelas faces, e enternecendo-se nos lábios sem pintura, se apossaria daquela beleza simples, ainda ajeitaria as tiras que prendiam a saia, tiraria um cisco maculando a blusa branca, cheiraria seu gangote, aí aplicando seu mais terno beijo; e antes que ela dissesse “oh” já tomando seus livros a fim de conduzir a jovem para sua casa lá pra cima. Mas ela não viera então, passava das quinze e trinta! “Canis, canis, canis”. Daí, quem sabe se não temerosa, ela veio, passou na rua ali à frente. Passou com outro, olhou caçoante para seu lado. Retomou o projeto de homem a tarefa do padre, nenhuma jovem iria fazê-lo tirar nove, imagine só: nove de latim...
          Vivia agora o Tino com a moça do corredor, não chegou perceber o acabamento da limpeza, pegou-se, surpreendido, a se arrumar rapidamente para o trabalho, o sapato esquerdo não queria entrar por causa daquele defeito no pé; entrou, foi.
          Encurtou a rua Bom Jesus com pressa; não obstante precisou parar num velório. Sempre tivera respeito para com gente morta; em menino temia não ser cortês suficientemente com o defunto, depois ele vingativo aparecia conversar consigo coisas de inconveniência na cama, tinha de puxar as cobertas tampar a cara no travesseiro, ou chamar a mamãe se não era hora de se levantar... Nisso se pegou com o Lauro olhões arregalados no afogamento! Bem, a rigor precisava tão somente pretexto para ver a Josefa e as outras meninas simpáticas; viu, achou as garotas apetitosas, ele andava com uma fome devoradora no solteirismo, a ponto de não fazer muita seleção e por isso a Zefa se tornava ainda mais bela, mesmo num velório; todavia não pôde livrar-se do Lauro defuntado na mesa pobre rica nas flores com muitas rosas coloridas; guardou aquele cheiro nauseabundo das rosas e sempre uniria o perfume a velório. O morto olhava para ele sem complacência e curioso, indignado com tanta sem-vergonhice onde só havia respeito, aquele fulaninho vendo as meninas e tendo lá ideias eróticas no local de se penalizar um cadáver afogado nas águas escuras do Rio do Peixe. Então o rapaz deixou todas elas para o Lauro; e encontrou diante de si um jardim com rosas a perfumar o fim da rua Bom Jesus e o barulho irreverente dos alunos. Trabalho prova exercício; explicação e muito fazer.
          Veio o dia do pagamento, o enxoval do bebê ficou com uma parte, a farmácia com outra, fizeram as despezas do mês e começaram a Joana e o Tino nos planos para o outro pagamento. Eles anotaram os gastos, deduziram do ganho, inverteram tirando o ganho do gasto, pra ver quanto deviam; a rigor ele anotava ela acompanhava interessada dando palpites. Procuraram tentando limitar a ferocidade numérica através do subterfúgio da letra bonita (a dele horrível) ou  melhor dizendo, da letra caprichada. Ao fazê-lo o Tino lembrou-se do tempo em que trabalhava num escritório, o Zé Carlos num capricho de letra, o homem arredondava e apunha uns riscos compridos, ensinando o molecão Juvêncio nos afazeres da escrituração, porém intempestivo nos repentes para chamar a atenção dos meninos briguentos e fugitivos ao trabalho; uma vez atirou uma pilha de livros fiscais por cima dos empregadinhos, esparramando tudo num estrondo maluco; ao Tino coubera um ‘Livro de Selos’ aos outros os de ‘Vendas & Consignações’ e ‘Registro de Compras’. Foram para a rua levar suas tarefas. Agora disso o Tino se ria, a Joana não sabendo de quê. É que lembrou-se do Dico lhe apelidando “Louquinho” por seu andar espantadiço, continuou a rir, a mulher querendo esclarecimento, ele, maldoso, não contou nada. Continuava a somar e a deduzir, fazendo seu apertado orçamento. Daí a crise do país chamou o interesse ou desviou o interesse, a seleção de futebol igualmente exigiu a atenção do casal a fim de não ver como demorava o outro pagamento. Ele se esqueceu da Norinha e da mixórdia na sua juventude que ia tão distante, para ficar mais nos cuidados que a esposa requeria prestes a dar à luz. Ora, pode existir algo mais fantástico e apaixonante que aguardar um filho?
          O herdeiro monopolizou ao Tino; e muito mais claramente à mãe do filho dele. Você já teve alguma vez essa experiência? É lógico que sua expectativa seja menor agora que a da época do pobre Juventino esperando bebê, da Joana. O amigo também anda na expectativa. Condoendo-se de sua situação tomo liberdade a ofertar um café. Tome, depois conto como foi o parto do Tino.








Cap.XIX – Um  contribuinte  da  estatística contra
                 a guerra e a fome matadoras das gentes

Eles andavam como seres humanos comuns pelas ruas de São Paulo; eram mesmo seres comuns. Dois interioranos a conhecer a cidade grande, a megalópole, nesses ônibus lotados por aí. Quase o Tininho nasceu num coletivo, pois estava beirando já a hora da cegonha. Não, o pai não acreditava na cegonha, embora ingênuo. O casal era só amores porém temperava tudo com as atribulações da vida e a apreensão do nascimento, a ouvir as opiniões de todos sobre aquela linda barriga, uns dizendo seria hominho outro mulherinha. Os pais, ele querendo que fosse um macho e dizendo não se importar que fosse menina, a Joana querendo mesmo menininha para depois vesti-la graciosamente, mas preferia ouvir o que o marido falasse, concordando com o pai da criança porque nada alteraria o sexo do nenê já formado e curioso a nascer. Hoje existe o ultrassom a detectar, naquele ontem não havia, só a opinião das comadres. Então o médico se intrometia no processo, controlando todo desenvolvimento da gravidez. Embora a aparente aceitação do bom estado em que se encontrava a mulher, não obstante o Tino saiu de madrugada a procurar táxi para a Joana à maternidade; quase ele abortou, nervoso e impaciente. Encontrou o veículo. Pôs a maleta dela no auto, seguiram; o carro quebrou-se por azar, foi preciso outro automóvel; e aí se desesperou; naquelas horas ela é quem acalmava o marido, ficando o homem menos nervoso. Chegaram. Virou pai dum lindo garoto, ele achava lindo e não adiantando falar que nenhum recém-nascido tem feição definida, o rapaz via beleza num centímetro qualquer do bebê. Ora, bonito é o que a gente acha bonito. Antes estivera nervoso na espera, se fumasse naquele tempo, teria fumado toda uma carteira. Agora passara a impaciência, era o contentamento! contentamento não se descreve, não cabe na folha datilografada; talvez nem nas dos computadores de nossos tempos. O Tino vibrou, transformou-se de homem comum a rei de repente! Imperador. Deus. Ofertou rosas e chocolates à mamãe (curioso nesse ponto não unir a rosa ao defunto, como impregnado na sua mente; no momento sublime tinha a rosa como representante da vida!) Tudo para a mamãe: Ela era a criatura mais bonita do Planeta, do Universo, beijou vibrando aquela santa, Dona Joana, agradecido. Era sim totalmente feliz.
          A felicidade é um bem comum, ele é que imaginava ser apenas dele. Certamente exagerava. Daí apareceu a Norinha outra vez no pensamento, a rir-se do rapaz, seu desajeitamento de pai de primeira viagem, seu nervosismo, ou veio apenas para lembrar que ela não era tão feliz quanto ele, por causa dele, ele pensando que ela não fosse feliz suficientemente. E se entristeceu. Daí acordou, porque iam trazer ao quarto o garoto visto pelo buraquinho do berçário, justamente a oportunidade para Seu Juventino vê-lo perto. Então papai se afundou outra vez no contentamento e extravasou e se esbaldou na chuva da alegria. Num instante lembrou que agora precisava pegar ainda mais aulas no colégio para as mamadeiras e a alimentar mais a mãe produtora de suculento leite. Assim fez com a Joana os planos para aquele filho, como outros pais suficientemente imaginosos costumam fazer. Num golpe de mágica o moleque virou doutor, presidente, cientista, santo. Já era um santo, ou mais precisamente um anjo. Nesse ponto chorou berrou o garoto, decerto assustado com tantos e tantos encargos e o peso da responsabilidade; daí foi levado de volta ao convívio de outros doutores presidentes cientistas e santos no berçário. O pai correu, medroso perder o lugar, ao cartório de Moema para documentar o nascimento do primogênito – à posteridade – andava entusiasmado com tudo.
          Dessa forma o Tininho aumentou a população, pois seu pai vivia impressionado com a Guerra da Coreia e a do Vietnã, e mesmo ainda contava as perdas em vidas para a Humanidade naquelas catástrofes evitáveis. O Tininho andava ali no livro do cartório com testemunhas e tudo o mais, dentro do rigor da lei, a repor na estatística mundial, fazendo mais um gol para a equipe do Nascimento Futebol Clube, pondo o da Mortalidade Atlético Clube na defesa! Papai orgulhoso e num entusiasmo sem tamanho.
          Esse foi o primeiro. E veio o segundo. A segunda, pois era garotinha. Não deu tanto trabalho para a expectativa do casal, por contar já com a experiêcia do primeiro filho. Assim mesmo projetou a família inúmeros caminhos no mundo da imaginação, numa torcida medonha para que fosse menininha. Papai sonhava com isso. Só tendo um senão: filho de professor precisar vir nas férias para não complicar a complicada vida no magistério; e a garota não sabia disso, apareceu quando ainda se encontrava o casal discutindo quando teria o segundo rebento. “Tem certeza estar grávida!” Depois o médico confirmou e desandaram os pais fazer os planos e a torcida para ser mulher. A experiência falava mais alto, o Tino se indagou por dentro: e se a menina chorar dia e noite como o Tininho? deu nele um frio na barriga... Ela veio ao mundo e não foi chorona como o irmão. O casal Tino-Joana contava agora com a segunda criança, a garota mais bela do Universo; fizeram os pais seus planos em função da menina, tudo equivalente ao que fora feito para o menino, chegou a miss a rainha a deusa, fizeram também a menina chorar, assustada como seu irmãozinho. Engrossou a estatística, outro gol ao time do Nascimento Futebol Clube.
          O jogo pendia por dois a zero para o Nascimento F.C., o Mortalidade A.C. que se cuidasse, dessa forma tremendo a Guerra do Vietnã, embora com napalm e suas Fortalezas Voadoras B-29.
          Assim com os primeiro e segundo filhos; depois vieram o terceiro o quarto o quinto... Pensa que ele junto com a linda Joana, a dos olhos deste tamanho, deveriam cobrir as perdas do globo e povoar o mundo sozinhos? Ele um rapaz pacato, sério apesar ingênuo, e pobre bastante pobre para arcar com tantas bocas... uh tenha dó! Já ele era pai de cinco, puxa vida. Ainda tendo a contabilizar um aborto tubário, no qual quase perdeu sua querida esposa e ficou horas aflito no sagão do hospital a mitigar uma irformaçãozinha que fosse sobre a situação de sua amada, não gostando sequer lembrar-se. Seriam portanto seis filhos! Encontrava-se nosso herói perturbado.
          Ora, não se zangue com o Tino, nem comigo, aceite um cafezinho (antigamente havia acento grave no ‘e’ não é mesmo?) aceite um, para fazermos as pazes. Depois disso contarei outra faceta desse grande procriador, muito pouco patriarcal.








Cap.XX – Lembranças da memória nem sempre muito                dignas de um senhor respeitável

Eu lembrava faz pouco as bravatas do Tino na amarga estrada do viver. Punha meu ingênuo personagem como um mestre reprodutor, o qual havia chegado a cinco filhos e talvez um dia houvessem outros a contar... (que raiva tenho das reticências!) se bem no dizer do povão – o futuro só a Deus pertence. O futuro naquele passado. A questão posta não era apenas o de procriar, pois isso relativamente fácil, especialmente levando à conta Dona Joana Angélica Catuaba da Silva ser das fortalhonas, o protótipo da fêmea parideira de nosso sertão; além de estarem numa cidade cheia de exemplos, populosa, porque viviam na capital bandeirante e digo isso somente para lembrá-lo da coisa, sem haver necessidade. Todavia acontece um porenzinho: seu íntegro marido, o da Joana parideira, respeitável pagador do imposto de renda, era pobre; já era pobre no primeiro filho (desconta no imposto o filho?) sim, pobre no primeiro e no quinto continuava pobre ganhando o que sempre ganhara. Um esclarecimento: não falei miserável e sim o Tino ser pobre. Em matemática, se não devo ter provado fugir da escola, são como resultado um dividido por cinco: cinco mamadeiras, cinco pães (os pais é lícito imaginar também comerem, sempre deixam o melhor aos filhos e se contentam com as sobras) ainda uma porção de fraldas cueiros talquinhos chupetas multiplicados por cinco; e o salário do pai, o Tino, como falei, continuava o mesmo, numa curiosa luta e luta ainda contra a inflação. Portanto o salário dividido por cinco (deve ser isso, sempre tomei segunda época como se dizia na matemática!) Ora, mais justo afirmar que a família ficou mais rica em filhos e mais pobre em dinheiro. Aliás os pobres são sempre ricos na falta de recursos.
          Tal situação punha nosso amigo num coçar a cabeça, num arrancar cabelos; a bem da verdade não arrancava coisa alguma, porque a natureza já fizera de graça o favor a ele, era calvo, apelidado nas classes após entrega das notas vermelhas na prova “aeroporto de moscas”. Isso levando o Tino a ficar ainda mais feio do que fora moço cabeludo, ou no falar da senhora Joaninha (mulher é mesmo às avessas) na sua matracação com dona Cota nas vizinhanças: “meu esposo anda menos bonito nestes dias”.
          Como não estamos aqui para discutir gostos e estética, mas somente relatar fatos, vamos aos fatos. O Tino vivia nervoso, neurótico mesmo. Entretanto não dizia nada a ninguém, pouco ou quase pouco ou menos que o pouco o pouco que se sabia, partindo dele; apenas era possível constatar que suas classes tomavam conceitos baixos e nenhum trabalho dos alunos prestava ao professor. Nessa altura xingava muito mais ao governo do que normalmente, o governo tem costas largas e costas quentes ao povo, por sinal geralmente com razão. Isso nos últimos tempos. Um pouco mal-humorado, isso flagrante. E se tivesse dinheiro iria ver o jogo do Corinthians, atirar casca de laranja no campo e desprestigiar a mãe do juiz, para acerto na personalidade.
          Entrementes procurava pessoas ouvintes no seu meio, os colegas; ouvindo como troco as lamentações deles. Não tinha lá muita sorte com respeito aos colegas do outro sexo (um senhor casado tem de se preocupar com isso! ih deixa pra lá) não tinha sorte com as mestras. Ou melhor dizendo, não procurava contato com as filhas de Eva, em não ser no campo restrito do serviço, vendo nas possíveis beldades o espírito que cada um de nós traz, independente do sexo que a sociedade nos impôs. Elas seriam para ele uma espécie de mulheres sem sexo! Paradoxal, não?
          Não seja apressado no julgamento do infeliz, não vá imaginá-lo um casto um santo. Verdade que respeitava Joaninha, amava a moça e aos cinco filhos. Aqui insisto o que falei dele para com a Norinha: o homem era fiel até às últimas consequências. Você me aborrecendo com lembranças das garotas mineiras com quem andou o vendedor das Pilhas Multinacionais... isto senão. Fora fiel à Norinha, depois sendo fiel à Dona Joana. Devia ser destino, mesmo ele sendo ateu não cresse no destino, nem eu creio e suponho que você também, mesmo assim devia ser mesmo o destino na questão da fidelidade. Fidelíssimo. Nas oportunidades que teve – teve muitas como a santa memória do Tino vomitava – nessas oportunidades faz-nos pensar tomasse outros caminhos... Como no caso da Cidona, por exemplo, a que apreciava cuecas vermelhas... Exatamente, apenas umas reticências podem salvar a afirmativa.
          A Aparecida era um mulheraço desses que envergonham o esposo quando saem dependurados nos braços do seu homem, a balançar as ancas para mexer com os machos de plantão discutindo futebol na esquina. A colega era sabedora dos seus predicados e se achava linda; tendo razão. Quanto ao Tino, ele por voto de castidade ou fidelidade, sequer poderia dar uma voltinha com ela, coitado! Bem, essa donzela não possuía marido (geralmente à esposa é posse) e vivia a falar estranhamente entre os colegas homens na zorba vermelha: o irmão usava zorba vermelha, um amigo do irmão usava zorba vermelha, e olhava para os outros a colher eco... envergonhando ao Tino, enrubescido e apegado ao voto salvador das tentações mundanas o diabo, ou a diaba, à solta, um pecado a menos no purgatório. Não tinha coragem dizer para essa jovem que ele usava ainda cueca samba canção, mui vergonhoso. Ela, a bela da zorba, um tanto coquete e enfeitada atiçando o neófito no terrível jogo baixo do mundo; se bem que para um ingênuo por todos os meios nos quais estiver inserido ele seja um neófito.
          Contudo a consciência é que não dava muito sossego. E vivia a incomodar a memória e o coração do nosso amigo. O coração tomava as rédeas, freava ao Tino e ele a galope voltava correndo à mulher e à filharada. Conversava um pouquinho no lar, a família perguntava se passara no banco, se pagara o carnê e o aluguel; beijava as crianças; a esposa, dela já perdera o hábito do beijo; e se beijasse a Joana, com certeza ela desconfiaria de alguma coisa nele, como uma criança crescida a qual oscula antes e depois pede dinheiro a comprar doce. Ele era macaco velho, não caía do galho, como fala o povo. Beijava como reforço o caçula, ao outro para evitar ciúmes, ao do meio para não praticar injustiça e aos outros a satisfazer sua consciência meio pesada; não mais à consorte, a qual ficava tão somente no “oi”; olhou daí para as crianças, elas vinham com tais e tais reivindicações e eram tantas as reclamações das coisinhas delas próprias, que o Tino teve de fugir pela porta dos fundos; então pegou a memória desprevenida, fê-la contar outros casos, no vomitório geral, quando a gente relembra os mortos da gente, dormindo dentro do cérebro. Daí não quis mais saber da Cidona Pornográfica e suas cuecas. Pensou na Maria Helena.
          A Maria Helena não chegava a ser a interiorana bonita. A Cidona convivera com ele na periferia de São Paulo, enquanto que a Maria Helena era parte de sua juventude, no momento que ele deixara o Tiro de Guerra 227 e ingressara na Escola Normal para tornar-se professor. Boa distância no tempo e no espaço, próprio do vaivém no pensamento, considerando a memória não ter dessas veleidades geográficas e temporais, justificado está. A moça possuía olhos tentadores, enfeitando uma garota casadoira, dessas mulheres que todo pretexto virando causa de matrimônio, ou na pior das hipóteses para namoro (e depois casório). Acontece que a jovem cobiçava o Tino, feio para nosso padrão de beleza, concordo com você, mas com mulher é diferente, está lembrado do caso da Pipoca que falei já... pois é, ela apreciava, ela aqui quer dizer a Maria Helena, o Juvêncio soldado de todos os caxias de nosso exército. Outra coisa, é visto sempre a ajuda das outras mulheres e até de homens a um possível par a ser formado, aquela ajuda social a empurrar, enfim para que depois os jovens se unam pelo sagrado casamento e ‘sejam felizes para todo o sempre amém’; no caso, não havendo o ataque da parte socialmente admitida como atacante e nem do macho como atacante (todos pensam deva ser o macho a procurar sua fêmea, nos tempos atuais a coisa se inverte) não havendo os atacantes como eu dizia, a própria senhorita Maria Helena atacava. E como! Lembrar que por esse tempo, aí por volta de 1957, o rapaz era já formado e diplomado na ingenuidade. Ela no entanto facilitando a tarefa para ele. Não deu em nada, por razões óbvias. Ela gordona, as grandes ancas bamboleando devagar, com olhares ternos tênues e submissos ao meninão magrela como bacalhau (que será ter o mundo contra o bacalhau, não me consta seja tão magro, o Tino sendo muito mais esquelético, desse tipo que nos machuca até olhar a ossada furando a pele); o sujeito entretanto era analfabeto na linguagem dos olhos e do amor. A moça, numa última tentativa, quis levá-lo a conhecer a mãe, quem sabe ele fosse desses casos singulares de querência por sogras! Não era. A velha, moça ainda, um tanto magra sem ser bacalhau conforme o Tino, simpática, ela não conseguiu ajudar a filha. Enquanto isso a gorda amiga de nosso maluco teve de satisfazer-se apenas com a amizade e o coleguismo do sujeito, apreciando a tirar-lhe uma casquinha vez por outra quando surgia na aula de cabeça pelada; e fazia “oh!” o ‘oh’ mais desanimado possível, xingando ao barbeiro que tosara a juba do seu medroso leão. Talvez o rapazote cortasse seus cabelos para obter esse transe nas colegas, ou que fosse tão somente para não ter de se pentear manhãzinho. A Maria Helena não se conformava com a depenação. Nem por isso casou-se com ele, como sabemos; desposou um outro. O nosso herói logo seria presa da Norinha, esta substituída com vantagem pela Joana. A lembrança da Joana Catuaba atirou-o violentamente para o hoje, daquele dia; tinha de pagar uma prestação do berço da última criança fabricada com a esposa.
No entanto não conseguira empréstimo com nenhum amigo, para limpar o nome, liquidando também as prestações outras atrasadas. Ultimamente a atitude do procurar dinheiro por aí para saldar os compromissos se repetia com frequência, ele se encontrava na fase de achatamento salarial pelos progressos da inflação; o que não apenas drama do Tino mas dos tinos que compõem a classe trabalhadora da nação. Arrancar mais um fio, dos poucos que sobraram na calva tiniana. Porém quando a dor moral andava mais gostosa, quando a gente pensa ficar louco, a sair gritando por aí ser o rei da China e tudo o mais – nesse dito momento fugiu apressado por uma janelinha qualquer. E encontrou sorridente a Marilena.
Daí foi passear com ela pelas ruas do sem fim, Lena de cá Lena de lá, tanta confiança com ela! quando estudavam filosofia juntos, mesmo quando ela lhe dava tanta asa ele poderia dizer-lhe o que pensava; sem poder falar contudo que a considerava sensual, que apreciava seu jambo de pele e as filigranas de pensamento atraindo deveras, a menina era inteligente; ele imaginava casar-se com a mocinha qualquer dia. A Lena ia com ele para todos os lugares que o pensamento admite; pensava nela no chuveiro e se esquecia de sair da água; ia com ele para a cama, curtir consigo a solidão de solteiro sem fêmea; e mesmo andava com o Tino pelas ruas e esquinas, ocupando sempre lugar de destaque no pobre cérebro. Ao entrar na sala de aula de História Contemporânea ou de Teoria, pronto, a Marilena oferecendo um sorriso de realidade, também sensual, porém mais longíquo que as distantes raízes da imaginação; daí o chamava deliciosamente “Maurice” que inventara para ele, tudo era aliás delicioso em partindo da garota Lena; por que o apelido? nunca soube o Juvêncio. Assim o Tino viveu dois anos dos quatro juntos na Faculdade, na expectativa dum oportuno falar à moça, dizer seu amor, deixar Hitler no seu costume de exterminar judeus e também deixar Henri Sée e outros teóricos na paz, e só tratar com ela das coisas do coração. Um dia ajuntou força e criou coragem pra vencer definitivamente aquela bela morena. Nesse dia, um dia depois, ela apresentou-lhe seu noivo... Esse choque lembrou ao moço outro, e recuando ainda mais, foi à ré no tempo, porque o tempo come para frente e para trás, quando viu se viu diante de garota linda amada, acompanhando outro homem, um jogador profissional do time da cidade, obrigando o então meninão Juvêncio a derrubar sem saber o livro de latim. Ah terrível provação! Fugiu dela, da Marilena, correu como quem fugisse dum buraco sem fundo onde estivera encerrado; e debandou sem olhar para trás, viu de relance sua colega Lena e o noivo, mostrou-lhes a língua malcriadamente. E continuou a viver como bom menino ao lado da amiga. Havia numa compensação a Leonice, a Leico, as demais colegas belas para se relacionar. Procurou não saber mais nada do que ocorria no noivado da garota amada; vingança.
          Naquele momento de uma recotrdação bem amarga para ele, doía-lhe a consciência também. Por isso viajou rápido para a  casa da Joana, no túnel do tempo que inventara, sem contar para ninguém sobre suas falcatruas. Antes de entrar no querido lar, deparou-se com o cobrador de não sei o quê. Deprimiu-se outra vez, como convém nessas situações.
          Não há quem tolere cobradores, ele reagiu voltando para a Faculdade. Pisou a grama como um colegial, embora adulto, riu-se de nada por ser tudo, abanou um “oi” para o presidente do grêmio estudantil e adentrou o corredor; depois se viu na biblioteca compulsando alguma raridade. Lá encontrou a Leico. Porém não se surpreendeu por ter já acabado a aula sem assisti-la, interessava mais a companhia da moça. Deixaram a escola e desceram a Rua Nove. Era agradabilíssima e podia junto dela expor o que pensava sem receio, pois confiava na japonesinha. Examinou-a dos pés à cabeça, gulosamente; achou ótimo que pensassem os transeuntes ele fosse seu namorado. Imaginou imediato os filhos que teriam, mesticinhos, os mestiços são lindos. Ela perguntou-lhe quase à queima roupa se era favorável a matrimônio misto, porque isso estava há muito tempo no seu pensamento, preso de tradições nipônicas. Ele sim favorável, por que não seria? se nascera numa área da colônia asiática, quantos exemplos de uniões assim presenciara. Não, não era contra casamento entre raças diferentes, especialmente se a moça fosse bela como sua colega... Ela sorriu do gracejo aceitou o elogio; então disse indiretamente estar presa por costume a um nissei, sem amá-lo. Depois casou-se com o pretendente; assim o Tino ficou a curtir mais um apego ou saudade.
          Talvez mais saudade dele próprio, geralmente ao sentir a lembrança dos outros sentimos realmente nossa presença no ato que nos lembramos; era jovem e cheio de planos extravagantes. Agora executava os planos com saudades do passado. A ele não sobravam alternativas no hoje. Era pagar a prestação, correr por aí na busca de alguém que se dignasse a salvar um nome e desse por empréstimo uns míseros cruzeiros. Oh pensando bem, para que salvar um nome?
          Por que salvar um nome comum? Juventino, Juventino da Silva, grande coisa! Haveria decerto centenas, milhares de juventinos neste mundo. Tanto que se um velho louco, desses que aparecem muito na Inglaterra, anunciasse por zelo só justificável nos dementes, uma herança qualquer igualmente doida, a um José da Silva existente nesse mundo de Deus, apareceriam a recebê-la bem uns dez bilhões (não, não podia ser, errara no cálculo, a Terra não chegava ainda aos quatro bilhões; trocou por modestos milhões, costumava se perder nos números e nas cifras matemáticas) seriam uns dez milhões ou mais. Decerto com os juventinos por aí aconteceria a mesma coisa, pouco menos; estava convicto ter mil e um homônimos; o episódio da compra do sofá deixava clara a situação: para provar à Associação de Proteção ao Crédito que ele não era outro, tão somente ele mesmo, que havia lá uns biquinhos safados e não era outro homem – ah isso foi longe. Quer dizer, teve de provar que não era Juvêncio da Silva, para demonstrar ser Juvêncio da Silva! Realmente um contrassenso. Era isso que andava tentando salvar? bolas! (ele disse realmente outra coisa ao outro lado da mente, um sonoro palavrão aprendido quando moleque no grupo escolar, ficou no “bolas” por homenagem à Dona Alice, excelente professora do quarto ano). Daí fez o que devia: não quitou a prestação e sentou-se no sofá, aquele que tanto exigira dele, sentou-se com suas crianças, e elas adoraram a iniciativa de papai; ligou a tevê, ou melhor, mudou de canal e somente achou novelas e comerciais. Por isso ficou vendo sem ver, prestando atenção mais nas brincadeiras dos filhos e nas briguinhas. Logo havia um enovelado de meninos por cima dele, a procurar carícias – como a infância é faminta de carinhos! – a perguntar um tudo, julgando papai sábio. Num instante transformou-se no sábio, professor, mestre em vida, a submeter o público mirim desejoso de conhecimentos. Nesse ponto Dona Joana aportou na sala, se atracou na poltrona, também desinteressada nas novelas, a poltrona à sua frente; ele ficou chateado. Não que ela quisesse conferir se o sábio ministrava conhecimentos adequados aos garotos, nem demonstrava ciúmes por seus filhos serem só dele agora, porque eram mais dela o dia inteiro; porém é que a mulher perguntou onde houvera estado, tanto demorara... Ele, santo, sem poder responder a contento, iria falar que estivera com a Cidona vestida de zorba vermelha, ou apreciando as nádegas da Maria Helena, ou abraçando à sensual Lena, ou muito menos casando-se com a Leico japonesa? Afinal de contas não ficava bem. Respondeu sem muito ânimo, murcho: “tava dando aulas”. Daí se lembrou, feliz, que procurara abater as dívidas com dinheiro emprestado, não conseguira recurso... assim a explicar o atraso de duas horas para a janta e... bem, como dissera nada conseguiu; baixou o olhar, infeliz. Ela, porque muito sentimental e compreensiva, achegou-se ao Tino, pôs a mão esquerda nos seus ombros, fez massagem como carícia, a fim de desanuviá-lo. Então partiu esquentar a comida para o esposo.
          O alimento aquecia e cheirava na cozinha, os meninos foram chamados a brincar por outras crianças vizinhas – o barulho era infernal lá fora. A tevê vomitava lugares-comuns e chateava a todo público, ele. Acendeu outro cigarro, agora se tornara inveterado fumante; deixou o envenena peito brincando de queimar o braço do sofá para Dona Joana zangar-se, e se lembrou do quê não se lembrar, se embrenhando no repositório de besteiras que era sua memória. Lá encontrou uma certa Denise...
          Ele brotava de farda verde, a raspar os cravos do coturno nos paralelepípedos urbanos; e andava todo orgulhoso e garboso por ser um soldado do exército nacional; e ainda por cima ter-se descoberto homem. Grande descoberta, por sinal, de uma criança ingênua. Descobrira nesse contexto o amor, um amor sem coragem de conquistar o amor. Então ficava no seu ofício de auxiliar de escritório no escritório do Sr. Alaor; e na hora do almoço ela, a Denise, passava por ali. Descia a rua São Luís, olhava para ele convidativa, decerto olhava também para os outros homens – dizem das jovens dos dezesseis serem como o sol, olham para todos! – ele é que se imaginava o centro do universo: seria um tinocentrismo não suficientemente estudado pelos filósofos e astrônomos. De maneira que ela passava para não se sabe onde, e voltava de não se sabe onde para onde saíra, sua casa certamente; e roçava o olhar terno e malicioso ao estatelado e viciado rapazinho servidor do exército brasileiro nas horas vagas; e o moço a apreciar bem a garota passar. Ela sorria pelos olhos azuis e nos lábios de beijar; ele sorria correspondendo indo após admirar a jovem na porta de aço, a deixar a máquina de escrever abandonada, somente para vê-la descer a rua ou subir, desejar aquelas formas simples e atrativas femininas. Todos os dias era assim no almoço de plantão no escritório. Todos os dias formulava seus audaciosos planos de conquista... Ah mulheres, Don Juan Tino da Silva andava se preparando! Numa segunda-feira, um meio-dia no relógio barato que ele guardava no bolso de níquel, suando em bicas talvez no nervosismo da insegurança, sabidamente inadequada para grandes conquistas amorosas, ele, D.Juan, indo à caça por aí, abordou a Denise na avenida, largou a porta semicerrada do trabalho e voou para a avenidona para cercá-la, abordando de vez a Denise, passando, corajoso, como nada a desejar, por ela e as suas colegas, avançou, fez a declaração! Ela entretanto foi demais feroz e ferina nas respostas e expôs o Tino ao ridículo no meio do público, gozando seus galanteios frouxos e sem-graça, até com gargalhadas dum coro (parecia houvesse combinado o gozo com sua banda!) No entanto ele seguiu como fosse um nobre, sem olhar aos cães, a rigor cadelas, que ficaram rindo atrás. Assim perdeu uma noite de sono, não por pensar nela, a fim de formular uma vingança cruel à desfeiteadora Denise. A primeira vingança foi mudar seu nome, o qual ele desconhecia mesmo, havendo apelidado a menina assim como ponto de referência; mudou para Belmira, nome que achava horrendo e bem adequado à moça que o havia envergonhado. Depois aplicou outro plano mais hediondo ainda: quando ela passasse na frente do escritório, ele não se levantaria da tecla (verdade saber antecipadamente que erraria horrores, gastaria a ponta da língua molhando a borracha pra apagar remontes das letras e troca das mesmas; isso compensaria, ah não tinha importância refazer inclusive a guia de recolhimento inteira!) pois não se levantaria e quem sabe não tivesse coragem suficiente pra fazer um muxoxo atrevido visível à Belmira! (chegou a imaginar um sinal pornográfico, porém era um nobre ofendido, não um sujeito de periferia... não obstante morar na periferia). Feito isso, lavou o rosto do sono não satisfeito, entrou no dia de trabalho e então executou ferozmente também, el vingador, a segunda etapa do terrível desiderato. Não entendeu o porquê da jovem continuar passando diário na frente do serviço, a sorrir gostoso para si (quase voltou atrás na honra, se escarrapachando aos seus pés de fada!) É, as mulheres são de fato atrapalhadas e enigmáticas, pensava o garoto Tino. Aí assustou-se todo pela voz alta que usou contra a Denise, xingada Belmira, quando Dona Joana entrava também na sala no momento, mandando desligar o aparelho das drogas vídeas e ordenando que fosse comer na cozinha para não derrubar feito criança restos no tapete. O bife estava arreganhado, não tinha importância, fazia bons dias que não entrava carne na casa, as novidades são sempre bem-vindas mesmo estando arreganhadas. Depois veio a sobremesa o que se recebe após refeição num lar pobre: café.
          Ah café me lembra que o amigo é louco por ele. Não o censuro pelo bom gosto; sei não apreciar o café tipo água de batata igualmente, que o Tino andava a engolir por vingança da mulher dele, a Joana, no fato ter andado com tantas outras, em lugar de pagar a prestação do berço do último (por enquanto, supunham, preocupados) o último Catuabinha da Silva. Preferimos um café forte, fogoso de quente e cheiroso. Desses bem do sabor brasileiro. Pra fazer boca de pito, se lhe convier. Olhe, cá entre nós, diz o ditado “quem não tem cachorro caça com gato”; um café, mesmo fracote, será melhor que um uísque ou uma cerveja. E tem o valor de prestigiar o que é nosso. Não acha?
          Por sua vez o Tino não tirava essas conclusões. Inclusive diria ele não estar onde se encontrava. Andava longe longe, de tão perto. Voltava-se para o futuro, que outra coisa não é se não um viver antecipado, por pressa que seja, ou por deplorar o presente, ou noutra hipótese para fugir do passado... O passado e o futuro destroem o presente de qualquer um. Vejamos, como conclusão deste relato chinfrim, o futuro do rapaz.





Cap. XXI – O futuro, antes um resto do passado

Tomava seu café requentado como sobremesa, Dona Joaninha se vingara. O sabor da infusão deixava esquecer a comida ainda quente no estômago; a compensar foi atirado com violência à Segunda Guerra, sendo apenas um menino. A custo a goela deixava descer ante os olhares severos de mamãe um café adoçado com cana-de-açúcar, a “guarápa” no linguajar do dono daquele casebre caboclo nos cafundós, uma gente sem possibilidade a ficar nas filas do racionamento de sal pão gasolina açúcar; no lugar do açúcar branquinho moendo e adoçando aquele café horrível à visita citadina, na opinião do moleque Tino, para ele fazer cara feia na sem-cerimônia envergonhando os pais na casa hospitaleira. Não era correto agir assim, corrigiu Dona Alice Matos, no seu linguajar carioca sibilando esses e aí pediu desculpas à querida mestra, sem perceber que um acontecimento distava anos do outro. A seguir quase engasgou no café requentado pela realidade joanina. Lembrou-se se lembrar muitas vezes da respeitável professora das primeiras letras; e isso acontecia sempre ao ferir os bons costumes; mentalmente agradeceu-lhe a lembrança, já crescido nos seus treze anos. Daí voltou à sala.
          Olhou a tevê desligada, ligou sua televisão da memória, a fugir da incapacidade a vencer problemas terrenos e palpáveis – a assistir angelicais noções de juventude fugidia. Visitou a meninice, quebrou vidraças, usou estilingue e bola de vidro, esta na sua região conhecida por ‘búrica’; apertou campainhas, correu e mais correu. Então se deparou com a Rameme. Ela andava esquecida no seu diário de mocinho meio moleque. O qual  dizia: “Rameme. Descobri que se chamava Rameme. Fiz um ‘R’ na areia do chão de minha terra; cortei a canivete de cinco mil réis o tronco do pessegueiro, configurando a letra, brotava inclusive a resina na ponta da lâmina como sangue da árvore que eu feria. Acho que estava apaixonado, amando, seria a primeira vez?”
          Na idade em que se ama a vida, a vida de nada valeria sem seu olhar oblíquo. Desci da bicicleta, fiz minhas pernas com dezesseis anos andar empurrando a magrela – somente para não passar imediato por ela, para gozar seu perfil feminino delicado, à distância. Acabou a subida da rua, veio o cruzamento plano, elas continuaram a empurrar a bicicleta devagarinho, num andar mole dos que não têm pressa. E o imposto do Escritório vencia daí a pouco, que importava? despedido, procurava outro emprego, não iria perder o prazer de segui-la... Seu vestido acabava por saia larga, beije, num zigue-zague; as extremidades do pano balançavam como ondas do mar, o mar que eu ainda não vira, vira nos filmes; e depois tocavam de leve a doce praia roçando ora a frente esplendorosa, de onde subiriam umas coxas firmes e um ventre macio; ora a traseira, mostrando-se vincado às nádegas; então ouvia imaginando o farfalhar, os sons ocos que fazia...  Desejava ser o vestido da moça – era o admirador da menina coberta pelo vestido. Dobrou a rua Pedro de Toledo, dobramos.
          Fez trejeitos, notando-se admirada por mim. Voltou-se como rainha, olhou para a frente para ver atrás, como fazem as fêmeas, da maneira de quem nada quer, e quer; olhou para frente, pressentir se eu ainda a seguia... Mais de semana a mesma coisa. O imposto?! Seus cachos no cabelo, caindo nas costas, o vento teimoso empurrando-os à frente, ao pescoço, interminável luta de mãos delicadas repondo aquele enfeite da natureza no lugar, a brincar gostoso com o vento. Seus traços árabes, sobrancelhas negras e grossas como fossem para-lamas a brincar com duas jabuticabas, lábios de me beijar!? Oh demais pra mim, disse no pensamento o Tino.
          Ela entrou na sua casa. Fechou o portão, sorriu muda ao namorado, tinha de me considerar namorado! Amanhã no almoço passará outra vez. De novo tomarei a bicicleta, pra ver o balanço da saia nos joelhos, escondendo as pernas grossas. Voltarei a segui-la, sei disso, receberei seus sorrisos. Terei coragem, falarei com a R... quem terá dito chamar-se Rameme? Se assustou com a lembrança: onde estaria agora seu velho diário; e se os meninos houvessem encontrado, a desenhar garatujas; riscado espalhado pela vizinhança por aí! e, pior ainda, se a esposa houvesse achado esses rabiscos da juventude toda coração... Bobagem, respondeu-se, ela nem conhecia essas fraquezas literárias do consorte, que dirá encontrar aquele diário comprometedor?
          Andava nestas conjeturas quando ouviu passos fortes, Joana vindo na direção da sala. Desligou a tevê da memória, ligou a disfarçar a tevê da sala, na ocasião vomitando imensos anúncios em suaves prestações, foi fumar ressabiado na janela, a assoprar fumaça para fora. Aproveitou-se do momento para olhar a mulher do Sargentelli. Era assim que chamava brincando à mulata da casa frente à sua e começou a rir e a bater papo consigo mesmo (num cuidado com possível ouvido aguçado de Joana...) E se dizia, ao mesmo tempo se respondia, a brincar de bobo: “Faz muito tempo mora aí nessa frente a garota. Nos meses que imitei o tatu, dentro de um invólucro de gesso a fiscalizar minhas vértebras acidentadas, ela distribuiu sons guturais pelo bairro, um nhe-nhe-nhem engraçado, que se sobressaía no tró-ló-ló das comadres na rua, durante a conversa infindável sobre o ramerrão as doenças os bolos. Só pude ouvir, preso à doença. Levantei-me afinal. Não está melhor que era antes. Impossível. Seu olhar se filtrou por entre galhos de meu pinheiro, uma árvore teimosa à sanha dos homens, os quais destroem toda vegetação impiedosamente; passou pelos galhos espinhentos sem se machucar nas pontas da araucária; pelas abelhas, pelo sol, chegaram aqui esses raios; provindos de uns olhos brancos, que só os negros conseguem ter. Um lenço pintado cobrindo a cabeça mulata, deixando livre um rosto simpático, destoante do gingar e da voz. Abaixo o corpo bem disciplinado e suficientemente distribuído – manhas da natureza? – as pernas para manter o andar bonito e difundir que a beleza ainda não se acabou... Uma beleza diferente, causando inveja decerto no mulherio da vila. E para assanhar os rapazes da padaria. Ela marcha inperturbável, se mostrando ingênua, quando o instinto e os gracejos revelam-lhe o mundo masculino aos seus pés! Violão de carne e osso, esbanjando o que outras tantas buscam desesperadas nas fábricas de maquiagem e nas drogas cosméticas. Tão simples e ingênua. No entanto vende por meio salário-mínimo seu trabalho de doméstica numa casa de pequenos-burgueses; quando poderia ganhar isso por dia, apresentando-se num samba gostoso do Sargentelli, a deixar suas mulatas de boca aberta... Têm razão os lusos, os quais apreciam a cor. Num repente notou ter deixado o outro bobo-ele-mudo, só falando o primeiro bobo-falante-ele. E riu-se do Sr.Juvêncio da Silva. A Joana reapareceu, indagou por que se ria, respondeu ser da briga dos pardais barulhentos no jardim, ela não disse se aceitou a desculpa. A esposa foi mexer nas coisas dela, ele concluiu haver fumado nesse ínterim mais de cinco cigarros sem perceber, contando o da boca já na bituca quase a queimar os lábios; era fácil contar os tocos. Iniciou o recolhimento contra possíveis ranzinzices de sua mulher, empurrando as cinzas para baixo do tapete qual fazia quando menino as sujeiras; Dona Joaninha retornou com um pano úmido, a passar nos móveis. Ele a acompanhava com os olhos, dizia sim ao que falava a senhora, não entendia bem o quê. Para fugir do embaraço em que se encontrava tomou uma revista na mesinha, fingiu ler para enganá-la e surrupiar-se da balbúrdia dos filhos e seus amigos lá fora, matando bem metade da população bandida no oeste americano; a se surrupiar do caos que era sua pobre mente. Fingiu ler para iludir, iludiu-se pois lia já sem querer. Havia na revista um conto do sobrenatural a se impressionar vivamente, o Tino se impressionava facilmente embora negasse de pés juntos. Bem. Certa mulher quarentona, estranha, com um dom especial, chegava para perto de um ser qualquer, olhava fixo nele, se chegava mais perto ainda, tocava com seus dedos afilados de mão peluda, encostava no sujeito; pronto, o enterro era no outro dia; e assim o conto dizia quantas e quantas vezes acontecera daquela forma; até que um dia a mulher quarentona olhou-se no espelho, projetou seus dedos afilados para a própria imagem; no outro dia saiu seu enterro! um féretro tão sem pompa quanto os de suas vítimas. Nosso Tino, diante do que leu, ficou um tanto apavorado; tinha o péssimo costume e ingenuidade bastante para acreditar que a ficção pudesse ser verdadeira, ou encoberta numa camuflagem marota do escritor; mordeu os lábios fedendo a nicotina. Não aguentou aquela coceirinha que dá na gente quando deseja fugir de algo e sentindo por esse algo atraído: outra  estória sobrenatural; foi ler novo conto da mesma natureza.
          Dona Joana Catuaba da Silva não deixou o marido acabar, ou melhor nesse pior, iniciar a outra leitura; e o fez numa conversa danada; ele teimou e terminou assim mesmo a leitura. Falou e mais falou sobre questões várias, enquanto o Sr.Juvêncio da Silva respondia o que achava ela gostar de ouvir como resposta; todavia ele também não conseguia em contrapartida ler completamente nada. Num dado momento sorria, o assunto sendo triste e sem graça. Ela se admirou. Advertido, disse à esposa lembrar-se de um caso ocorrido a um colega. Ela não deixou por menos: fê-lo narrar. O Tino cedeu. É que o Orozimbo se pegou nos maus lençóis. Aconteceu de o malandro do Pedro (ela conhecia seu colega Pedro) aplicar-lhe uma tremenda peça! Fez o comum, mas com tal arte, e enfrentou a arte consumada com certa manha, que nem o diabo descobriria. Enrolou todo o pobre Orozimbo, tido sempre por sério, não se sabendo a opinião dos céus. Tomou de um batom cor viva, manchou o paletó do terno cinza do infeliz e mexeu no cheque dele nos tocos sobrantes a escrever complicações; e sobretudo naquele de final treze, número azíago à mulher dele, dona Chica: “uma despesa com a Filomena...” Bem, poderia fazer isso tudo e deixar pôr as reticências, envenenava menos. Não fez mais nada o Pedro, a fim de não chamar muito a atenção da senhora.
          Se descobriu? Se adiantou falar que ela era a única na sua vida? Se valeu implorar não saber como tudo aquilo ficara registrado e a mancha safada? Um velhote daqueles, tinha lá graça sair com as filomenas por aí... nunca nunca. Só pensar um pouco e sentir ser impossível, mesmo porque não conhecia nenhuma sirigaita como dona Chiquinha apelidara a ‘rival’, muito menos com o nome de Filomena. Intriga da oposição decerto. Quem? Argumentou o Orozimbo como soube e pôde. E pouco soube e nada pôde. Provando a sobejo que a arma da língua não é macha. Separação? divórcio, só havia desquite naquele tempo. Ameaçou a esposa um estardalhaço, a envergonhar a família inteira dele, mesmo a sogra dela, sobretudo a sogra. Chorou. Está certo, mulher aprecia choro, impressiona gostoso; ele também chorou, é feio homem chorar; porém sempre se consegue um perdão provisório... Até descer a poeira, ou mesmo aparecer o arteiro da estória.
          O Malasartes contou para dona Francisca tim-tim por tim-tim a brincadeira. Provou, implorou para ela acreditar, acendeu velas ao inocente amigo Orozimbo: os santos não costumam aceitar esmolas de mentirosos! Mostrou o batom usado, entregou à dona do dono a folha não usada do cheque. Contudo havia um senão terrível: o número treze.
          Quando tudo parecia calmo no lar de Orozimbo – ela quase já sorria, os dois amigos notaram a mulher olhando fixo o esposo, numa desconfiança embutida na testa...
          Dona Joaninha Catuaba não achou nenhuma graça na estória, igualmente ficou a olhar fixo para os lados dele. Vexado, Tino chegou a se arrepender haver contado o episódio, tinha mesmo jurado a si mesmo nunca mais narrar piada, piada é para quem tenha talento, as suas faziam chorar. No fundo temia lhe fizessem igual ao Orozimbo, não falou nesses termos a ela para não estragar mais o humor a explodir na senhora. Por outro lado não desejava certamente ela estragar seu matrimônio, antes lutava para zelar. Felizmente nesse momento difícil entraram na sala dois meninos, ela correu para vê-los e ouvir seu contar, coisinhas lá das crianças; enquanto o Tino sentou-se, tomando os óculos. Passou a limpá-los com papel higiênico como era seu costume, livrando as lentes grossas das gorduras e sujidades do tempo; já não enxergava o suficiente de óculos, quase cego com o aparelho de vidro e não sabendo a razão real disso. Entretanto lembrou-se, azedo, estar mais velho e mais desgastado ainda que idoso. Deu uma olhadela ver se Joaninha voltada para ele, fez bolinha com o papel de limpar os óculos e atirou a mesma no chão, junto ao canto entre a televisão e o sofá; imediato se abaixou e recolheu a sujeira, sem saber direito onde depositá-la. Fez cara feia ao sofá, como se ele fosse as prestações vencidas, porém tinha certa razão... Sentou-se, escarrapachado.
          Sentou-se afundando com raiva no móvel. Aos poucos fugia dos problemas, não via sequer o vomitório da televisão. Encontrava-se em meio a duas forças terríveis: o sofá como fator de relaxamento dispondo o pensar livremente, o ser provocador do pensar; e ao contrário, era o ser como receptáculo da tevê, por si mesma já uma contra-ideias impedindo a liberdade de pensamento. Venceu o sofá; o televisor mostrava dentifrícios (um de limpar as sujeiras deixadas pelas impurezas do refrigerante; este para sujar ainda mais os dentes e dar oportunidade a ampliar as vendas dos cremes dentais – ah  que dupla! pensou nosso herói-sofredor). Após, temendo o cliente, fez anúncios de sofás mais dentro da moda. O Tino não percebeu a briga velada entre o sofá e a tevê, recostou-se saboreando a fofura da borracha estufando o pano escolhido pela esposa para decoração da sala pequeno-burguesa.
          Porém a satisfação não o livrou de lembranças desagradáveis. Num relance viu enormes pilhas de provas a corrigir, trabalhos em equipe a passar crítica, e se lembrou de não sei que da burocracia chateanteante no funcionalismo. Nem se libertou duma lembrança que o fustigara dias passados, um fato ocorrido no trabalho. Ele estava a iniciar o descanso suposto merecido no recreio dos alunos, quando surgiu uma ex-aluna na sala dos professores, pedindo orientação. Garota bonita, podia ser feiosa. Não chegava a impressionar como artista de cinema; e não era mesmo artista; muito embora possuísse a parcela de arte que lhe foi concedida no berço para representar no palco da vida. Apenas moça. Procurou o professor, deu-lhe a mão, “como vai” etc.; contara haver ingressado na Faculdade de Economia; disse estar fazendo certo trabalho com pretensões a livro um dia, sobre Pancho Villa, que ela pronunciava a gringar “Pantcho” numa voz rouquenha. Bem, agora as dificuldades na pesquisa, se o Tino poderia ajudá-la. Ajudou a jovem imediato com um “parabéns” que sempre não nos custa nada, propôs à pleiteante a procura da embaixada mexicana e as bibliotecas mais categorizadas. Tudo bem. Entretanto a meia hora que ficou com a jovem mulher fora para si terrível, meia hora durando com certeza séculos. Ocorreu ela começar por sentar-se a seu lado no sofá (ih como os sofás perseguiam o coitado!) um sofazinho gasto como o serviço público, duro e rasgado; sentaram-se informalmente, ela já não temendo aquela máquina de fabricar notas vermelhas; em razão disso, quantas vezes não fez o sinal avançar!... Avançado o sinal verde-amarelo-vermelho, encostava sua coxa quente na dele, ele se mudava para mais adiante, mas a jovem se encostava novamente; haviam começado na extremidade esquerda, já estavam na da direita, ele quase a cair, o sinal avançado por ela tantas vezes, dando na vista de colegas, sobretudo os mais faladores e menos íntimos, atraindo os olhinhos da velhota Lalá, a recolher decerto material para conversas posteriores. O mestre vivia seu drama de homem casado e sério; a menina não dava sossego, quase o empurrava, e untava seus atos com um fungar contínuo; ela não se importando ser macha no ataque, ele não se conformando em ser fêmeo... poderia agir de outra forma? se perguntava agora distante. Quase já gritava agonizante no episódio, quando uma colega veio salvadora: “Tino, a diretora tá chamando ocê”. Ele desfez o colóquio, antes: interrompeu a conversa, prometendo por fora que ela o procurasse noutro dia, e por dentro nunca o fizesse. Ficou azucrinado por tempo, embora não fosse tão moralista, o fato o atingira bastante. Agora estava a relembrar, que é forma da gente sofrer mais vezes do que precisa – quando surgiu de novo a Joana, de repente; absorto como se encontrava (ou compenetrado?) como sempre vivia, tanto que num qualquer momento ela chegasse seria de repente. Ele enrubesceu como um colegial, a esposa não percebeu o deslize, pensando lá nas coisas dela. Como resposta ao nada, lembrou-se do amanhã, o sábado costumeiro. Ele não apreciou a lembrança, no entanto sabia muito bem do que a cara-metade andava a falar.
          Fazia tempo que o sábado era seu; seu dia na cozinha! Ah que tristeza para a família, os moleques a reclamar da comida e tudo; além do mais, para um machista isso bem grave. Ele engoliu seco, respondeu também seco ao lembrete da companheira; e pôs-se num retrospecto a narrar para si mesmo a experiência do pai – que agora repetia no seu próprio lar, ele a vítima.
          Enquanto fazia as coisas na cozinha se contava o genitor (havia inclusive registrado isso no diário); o que foi bom por não ter quase visto a chateação por que passava Joana semana toda na tarefa; quando percebeu, acordou do pensar e sem pesar descobriu haver acabado visto o sonho neutralizar um pouco a realidade dura. Eterno sonhador, se pôs a rir. O Tino adulto envelhecido estava rindo de suas bobagens de adolescente metido a literato de quinta categoria. Não obstante gostou. Não de repetir o pai dele, quase com a única diferença ser o seu dia o sábado e não o domingo de papai. E havia o mérito por ser mais experiente nas questões de cozinha. Olhou para ela, a mulher andava ali xeretando, ela que não apreciava o esposo a escrever suas besteiras, no que tendo alguma razão.
          Agora vou tirar meu amigo da narrativa, fazendo-lhe um convite para uma cervejinha gelada. Não se espante meu caro; ela é estrangeira, sei disso, porém o calor é nacionalistamente nosso, vamos à cerveja. Pensava você que eu fosse um puro? Olhe, se não houver cerveja na geladeira, tomemos um café quentinho... Só então iremos viajar pelo futuro do rapaz, a acabar de vez este tró-ló-ló.



Cap. XXII – O futuro só a Deus pertence

Nada melhor que o lugar comum para finalizar a estória de um herói comum, um não-herói ou anti-herói para ser mais preciso. Acontece que Juventino é um ser ingênuo, portanto comum. Ah! pasmemos até, nas habituais indignações e lá pelas tantas no relógio da vida, o sujeito comum irá exatamente se descobrir comum, portanto deixando ser um homem comum (contudo seria na bem adiantada das horas; no momento em que exponho os minutos dessa pobre existência o Tino é o comum, um ingênuo). Ele andara por aí colhendo os frutos da experiência humana e fez uma série de descobertas. Talvez a mais interessante tenha sido no seu próprio serviço, a escola. Concluiu ser a sala com seus membros verdadeiro laboratório. Neste percebeu um punhado de jovens representantes da sociedade, sofrendo dramas e ansiedades, convivendo entremeio da concorrência de seus coleguinhas; e aprisionando o mestre pelos regulamentos escolares, mas também a sofrer as atitudes nem sempre democráticas dos professores. No pensar nisso lembrou Juvêncio quantas vezes precisou tomar severas posições e corrigendas, ferindo assim seu coração! Dessa forma se sentia apenas um dos professores. Notava que mais ele aprendia com a relação que o aluno a quem se dirigia. Aliás todos somos mestres e alunos na escola da vida. Bem, não é tão grande descoberta, concordo; todavia nele doeu, concorda? Através dos seus meninos uniformizados tentou conhecer a alma do ser humano e seus valores assentados nos modismos sociais. Porém aprendeu a amar os estudantes, se já não os amasse. Por isso não tratava muito diferente seus alunos e os filhos da Joana.
          Oh! Dona Joana. Aprendeu a ouvi-la muito – quantas  vezes calado – ou por reconhecer-se errado, ou porque na água em ebulição não se ateia mais fogo. E aprendia. Depois Dona Joaninha Catuaba chegava para ele, mais mulher que antes, a encostar-se no esposo, sua forma de pedir perdão sem se humilhar. Dessa maneira aprendia também a conviver com sua companheira. Ela, por seu lado, tendo muitas queixas do homem. Ele, dizia a jovem e cansada senhora, era um tal de calar-se, que chegava minar a sua fúria contra o consorte (perdão pelo trocadilho, não invejaria tal sorte...) Ele possuía o poder de falar com boca fechada e ela o poder para criticá-lo tanto ouvi-lo se calar. Outro paradoxo da vida, eu sei. Todavia não posso fazer nada contra as idiossincrasias alheias. A esposa igualmente aprendeu esse senão, falava e falava somente a desabafar. Depois se achegava a ele, como perdão ou pedindo perdão por blasfemar contra sujeito tão vaca morta como era Seu Juvêncio, o marido, o Padre Belchior às favas. Não obstante se queixava à vizinha Dona Cota, porque Dona Lili, a sogra do Tino, essa havia morrido, Joana estava sem o confessor natural. E a vizinha ouvia que o marido da Joana era meio, meio não, inteiramente relaxado. Tudo a deixar para amanhã e para mais tarde... Quebrou-se o liquidificador? a tevê? o banheiro entupido? Sempre as mesmas evasivas para o não-fazer; sendo que o quê dava mais raiva nela, tadinha, é ele não chegar a dizer que não faria, apenas não fazendo. Depois, quando todos já andavam conformados com o objeto quebrado, aparecia o Sr.Juventino consertando a coisa, a levar de vez ao técnico, a desentupir o entupido. Como num burro velho não adianta bater, ou só como desabafo, pois não aprende nem se modifica mesmo – então ela desistia, ou falava para não perder o costume, sem grandes expectativas. De sua parte ele bem a conhecia e por essa razão deixava a mulher falando falando sem parar e enquanto ela papagaiava terríveis investidas, dava ele lá os seus pulinhos visitar a equipe enorme das ex-namoradas... Foi essa outra grande aprendizagem do sujeito, a de que com todo temor (reconhecia ser moleirão, apenas não sabia ser tão ingênuo) e apesar toda temência que tivesse, assim mesmo Dona Memória vomitava para ele, numa sessão especial ao rapaz Tino, uma plêiade de lindas mulheres que amara; agora, distante no tempo, muito pouco exigiam dele. Após o desfile das jovens beldades (não importando naquele dito instante elas também fossem velhotas ou meias-idades como o próprio herói, nas lembranças eram jovens lindas como as conhecera) depois desse desfile de beleza, continuava num discurso a mulher, a destruí-lo, um Cícero um Demóstenes de saia (na verdade Joana apreciava trajar calças compridas) contra todos os maridos do planeta, sim do planeta visto pichar o gênero masculino todo com os defeitos do Tino; todos, o dela ali encolhido, só lhe restando dizer para ela: “tem razão, querida” – embora já não se lembrasse ao certo qual o assunto e qual a esposa com razão. E se nem um garoto dos cinco aparecesse a pedir um informe dos costumeiros ou um doce salvador, teria de ouvi-la muitos minutos mais, séculos no dicionário de sua santa paciência. Somente depois da batalha vinha o jornal da tevê para a distração (ou a ficar ainda mais com raiva) ou roubando tempo para escrever suas tolices; um punhado de bobagens rabiscadas sem saber ao certo por que motivo o fazia.
          Encontrava também um negócio grave no seu ser, era mais uma experiência a acrescentar na sua existência vulgar. É que descobrira não se conhecer; logo o Tino pensando a única certeza restante era a de conhecer-se a si mesmo! Pois não é que a praga do meu herói (herói é força de expressão, você compreende) não é que ele não sabia que não sabia sobre o próprio umbigo! Sejamos corretos: não precisou Sócrates filosofar para ele, porque a gente aprende quando a correia atinge nosso lombo. Bem. Notou primeiro escrever contos crônicas e mesmo poesias (não falei que era doido?) Até neste ponto da narrativa – você dirá entre um gole e outro do saboroso café – até aí, você me interrompe, um mal que atinge os membros das melhores famílias, digo na linguagem dos filósofos das ruas. Certo. Entretanto escrevia sem objetivo; isto muda consideravelmente a situação; é: escrevia sem objetivo claro para ele mesmo; talvez fosse para ajudar a megera Dona Memória, caceteante criatura, ajudá-la a relembrar a Norinha, a Maria Helena, a Leico. Aos poucos percebeu tudo se ligar ao mesmo cerne – e que cerne! – ele. Um dia, não, uma tarde, Dona Joana o pegou no flagrante, coitado, leu suas besteiras, xingou nosso Tino de memorialista, uma acusação muito grave a um memorialista que não se saiba memorialista; conforme Joana o esposo tinha o costume de vomitar apenas suas vivências e seu sentir sem nada criar, um escritor sem estilo, sem imaginação. O infeliz passou muitos dias num complexo de culpa, por culpa de Freud, decerto. Teve ímpetos de queimar tudo, sem coragem para fazê-lo; sentia seus escritos como fossem seus filhos; e filho da gente, por mais feio seja, horrendo mesmo na apreciação da esposa, nesse caso a pessoa quer bem e ama; assim não teve coragem bastante para destruir. No entanto o mal do Juvêncio era muito maior ainda, imenso. Acontece que ele escrevia sob pretexto de melhorar a linguagem (chãzinha, aliás) sem pretensões maiores. Essa explicação entretanto sendo uma faceta da enfermidade, sim verdadeira doença! porque descobriu andar sujeito aos escritos, sem poder se livrar! atrelado ao vício de escrever... Doença incurável, pelo visto. Ninguém entendia o descaminho, inclusive a esposa que ele costumava dizer sua consciência com voz alta, mesmo ela não entendia. Irremediavelmente perdido.
          Quanto a nós não estamos perdidos. Tomemos nosso cafezinho estimulante, vamos ingerir nosso habitual levanta-defuntos. Servirá como pausa.





Cap. XXIII – Pausa. Para meditação?

Sei lá. Pausa, talvez em virtude do fato da existência anos atrás do programa na Rádio Tupy do Rio, parece-me, de ordem sentimental e de aconselhamento, sob orientação do Júlio Lousada, com esse título, nosso Tino precisando dumas palavras nesse sentido. Mas vamos fazer nós nossa pausa. Creio mesmo estar você cansado com tantas atrapalhadas do garoto Juvêncio, herói muitíssimo sem-vergonha. Abaixo o Tino! Chega de viver mulherengo sem conquista de fato. Isso enche a paciência da gente. Afinal de contas o sujeito só viveu até aqui com pornografia na cabeça, mesmo quando em briga com Dona Joana, uma santa, a pobre falando só, no maior dos desprezos do esposo débil e medroso. Ele sequer via-se com medo, sentia apenas um temor lá no fundão do seu euzinho. Falei também que a criatura esbraveja mutismos matando quase a pobre esposa de raiva.
          No entanto nem sempre posicionou-se sem língua. Até arriscou um berrar impropérios, que é aquilo que falamos a outrem sem consentimento da oposição, desagradando nossos contrários. Tem um senão. Seguinte: se fôssemos julgar pelas aparências, diríamos o casal viver às mil maravilhas (caminho para ser original, é bom ser original na linguagem, já me felicito) pois onde um só fala dois não brigam, isto me parecendo ser um ditado popular. Todavia a verdade era outra. Dona Joana Catuaba da Silva, Silva por parte do Silva do Tino, já se cansava ser Silva e mais parir todo ano quase um silvinha para as vanglórias machistas. Serviço demais, mundão de trabalhos domésticos, aquela droga de a gente estar acabando o almoço e já a pensar o que fazer para a janta; gritaria de meninos, tendo apenas duas menininhas futuras ajudantes de mamãe e três, olhe: três, e três é bastante para ‘menino homem’, três molecões endiabrados, a chutar bola e pedra na vizinhança com reclamações a valer; rusgas e... rugas! tinha, dizia o espelho do guarda-roupa (este com a última prestação quitada, embora os cupins destruindo o que ainda restando) o espelho falava alarmando Dona Joana sobre o futuro da senhora parideira... O Tino? não se emendava de jeito nenhum, por isso não melhoravam a vida, o bestalhão perdido na sua literatura de fundo de quintal com tendência ao memorialismo, em vez de arrumar emprego melhor. Dona Joana Catuaba partiu para o ataque: falou ao companheiro umas boas verdades. Não gostou muito o homem, enfrentou a esposa! (aqui não é força de expressão coisa alguma, enfrentou mesmo). Ele xingou-lhe a família, começou a encontrar desmanzelos no lar, proibiu a mulher ir xeretar as coisas para Dona Cota. Fez mais o corajoso marido: cortou-lhe parte da mesada. Ou por outra, a inflação comeu um pouco mais do menos que era seu salário e aí restava menos do menos para deixar mais na casa. Ela estrilou, ele reforçou a coragem e devolveu desaforos. Assim banalizou-se a relação num bate-boca infernal e infindável; as crianças andavam assustadas e amedrontadas. As cenas! Xi as cenas... Uma baixaria digna das favelas, onde sobram línguas faltando pão; sendo um lar pequeno-burguês. Para apimentar mais, as famílias resolveram tomar partido; é claro a dele torcia pelo Tino, a dela torcia por Dona Joana.  O mestre na escola oficial do Estado não passava dum pobre e sofrível aluno com notas vermelhas na escola da existência; não sabia contemporizar e compreender o drama da mulher. Separação! Falaram nos termos do cada um para si, como era a moda que se iniciava naquele tempo. Os filhos, os maiorzinhos pelos menos, interferiram, pediram aos egoístas pais por eles próprios, defendendo eles a defesa dos indefesos. Não adiantou demais, contou um pouco somente na redução daquela infeliz somatória. A família andava abalada, a relação periclitando mesmo... Após altos e baixos, com o Tino precisando dormir várias vezes no sofá, não suficientemente pago e já bem gasto, a família Silva se desfazia. Enfunações, palavras ríspidas... enfim para que falar aquilo que hoje a televisão explora de sobra? Por isso estou encurtando a estória, a fim de resumir tudo.
          No fim de contas, Dona Joana arranjou ela mesma um emprego e se encheu de confiança, se cansava ser dependente de um esposo tão frouxo. Contudo incidiu noutra problemática – deixou de precisar dele, se é que algum dia realmente dependeu do companheiro, ficando ligeiramente orgulhosa. Estava deixando deliberadamente ser sua companheira, apenas aceitava-o como o pai dos filhos. Por outro lado ele igualmente sentia a mulher como ímã às avessas. Passou a evitar Dona Joana; e ela a ele também. Um dia de chuva cor de chumbo e vento gélido Dona Joana Catuaba da Silva falou-lhe desejar devolver ao legítimo proprietário seu Silva; o Tino não teria indenização pelo uso por anos seguidos do Silva de estimação dele. Procuraram a lei, ele pagou os famintos honorários advocatícios. As crianças? Se fôssemos falar nelas e seu drama, teria o rabiscador por certo que escrever outra estória, esta sim realmente dramática; mataria meu leitor com doses letais de café fortíssimo. Acabemos de uma vez com esta pausa longa.
          Será que as pausas servem a curtir sofrimentos? Com certeza elas servem para destroçar de vez as famílias! Ora, chega de interrogações embaraçosas e de exclamações que destroçam corações. Aceite, por mera piedade ao escriba, um café; pois como observa ando triste, profundamente triste. Depois convido o amigo paciente para o futuro que lhe prometi faz tempão.




Cap.XXIV – Futuro prometido, em epílogo

O Sr. Juvêncio da Silva, Juventino se estiver do lado da família dele, Tino para os íntimos apressados, esse ali postado numa pose para fotografia... Você me pergunta como ficou após a separação, se foi ao desquite depois ao divórcio, tão legalista como gostava ser o homem. Bem, ficou sim arrasado, choroso até, chorou por uns cinco anos a perda de sua Joana, nem a companhia dos filhotes consolava aquele coração ingênuo; mas eu me nego a contar sobre o assunto; a menos que façamos nova pausa... acredito não aceite, nem a ingerir mais veneno cheiroso gostoso, pretinho e brasileiro, de origem árabe, o café, sabemos, estimulava as cabras da Etiópia. A foto à posteridade: a objetiva do tempo fotografando o simplório que era; e revelando uma cara enrugada, não mais que isso, sem preocupação com beleza; aliás nunca fora a favor da estética. Deixando à dita posteridade o aspecto fundamental da ingenuidade. Agora, hoje, ainda simples e ingênuo apesar de idoso, afundado na sensaboria das insignificantes vidas; embora houvesse aprendido com a vida, o Tino se apresenta inteiro por fora, destroçado por dentro.
          É verdade aprendera muita coisa na vida, reagira contra o ramerrão diário com suas prestações seus enguiços os impostos os governos a burocracia; embora, encontrando-se vivo (vivo!?) porém com a face descolorida. Assim encarando a existência, a jogar os anos e seu futuro. Para suportar, quem sabe apenas a suportar e temperar o dia sem graça, nisso não lhe restando mais que as Norinhas a temperar as Joanas deste mundo, num sonho, ou pesadelo? a esperar o fim dos tempos. O sonho somente a servir para identificá-lo como vivo; e tendo ainda seus escritos para ouvir suas lamentações e para medir as batidas de um coração sofrido. Bolas, isso o presente; e o futuro? Este é um ser irreal, mais força de expressão que de fato, o porvir se lhe apresentando como sem solução, solução correta para um homem ingênuo. Contudo mesmo nessas condições é necessário fazer planos para o tal futuro...
          O futuro do Tino, Sr.Juvêncio da Silva, foi ontem. Ora, não vi o ontem passar, como ando distraído!
          Vê, distração pura. Inclusive as distrações mais graves, meu caro, eu escondo tomando um café. Quer um gole? Saboroso, cheiroso, pretíssimo, brasileiro. Não tem contraindicação.   
Ribeirão Preto,  abril  1980; Marília,  dezembro  2004  ♀♂































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                                  Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



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