046(para o Blog
Livros Inéditos)
ZÉ OLEIRO
(romance)
Moacir Capelini
moacircapelini@gmail.com
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Dedicatória
Ao
mano ‘Mauri’, aquele de nós
que
mais sabe sentir a Olaria.
“Para os
homens é difícil
entender o
que
as mulheres desejam, até porque
elas
próprias não raro ignoram.”
Italo Svevo
- - -
“Sexta-feira na segunda ou
quinta
na próxima terça.”
Alejo Carpentier
Introduçãozinha
a uma insignificância de vida
O
Milênio ia se acabando embrulhado, fazia décadas o parto no Planeta. Quando
viesse a suposta luz haveriam sim festividades: foguetório show barulho televisivo para os que não podendo sair e festejar
vissem outros na alegria. Pobres e ricos se confraternizariam, aconteceriam
manifestações no mundo inteiro, pois era fato que o Orbe ficara pequeno por
causa das comunicações. O visual iria também globalizar-se. Mas a luz não
chegara ainda. A Humanidade a progredir materialmente e engripando na moral; a
violência ia se tornando uma violência por se saber violência. A exploração
sobre o público rendendo horrores e a população mundial a participar imediato
de levantes guerras genocídios, elevando malfeitores comuns a heróis. Os
políticos davam as cartas; os grandes grupos econômicos criavam situações a vender
seus produtos, a dominar mercados. Droga tráfico contrabando tragédia holocausto.
E as guerras mundiais para mostrar como é possível imitar a ficção científica.
Bombas no Oriente, desentender e ódios no Ocidente. Fome. Medo. Psicose.
Loucura. Mentira como filigrana na educação. O homem aprendera bem a se matar e
a se destruir; questionamento pregação desemprego. Preço imposto doença
corrupção, rotina. O povo em luta para a liberdade e o direito; a cidadania
discutida. Congressos ONU Tratados Bolsas Cotações. A Humanidade a lutar a
enfrentar a sofrer, para dar um passo. Faltavam poucas dezenas de anos para, em
festas, ficar tudo como estivera, uns melhorando piorando outros. Entretanto o
Zé não sabia e não sabe disso, continua pescando.
1ª
parte - o simples e a poesia
Cap.1° – Zé, Rio, Córgo, Essas
Coisas
A água corre. Parada, parece-lhe
parada no meio do leito, pulam peixes a se refrescar um pouco a tomar ar quem
sabe ou possa ser a apanhar bichinhos insetos incautos – fazem um plaft ao sair
voltar ao seu habitat e somem e
voltam e plaft mas podendo ser outro peixe agora e dos grandes com certeza, um
dia enganchará um no anzol. Mudar a isca. A minhoca, pobrezinha, branca dura
gasta encolhida enrugada prendida no gancho de ferro... será que é de ferro? a
ponta tem aquela fisga danada a enroscar o dedo da gente: fura entra enterra
sangra dói, dói lá dentro, agora? é tirar a canivete, ainda bem que ele esteja
desinfetado de tanto cortar o fumo, ah ainda tem palha, xô fia-da-mãe, mosquito
tem mãe, dizem que uma dá mil mosquitinhos nas águas paradas e o pernilongo alonga
o canto fininho, decerto cantando; a gente precisa ficar parado quieto fixo
firme sem a tremura ou o peixe percebe, enquanto os bandidos sugam e cantam,
xô; lá diante plaft prancheia mergulha depois de mostrar o prateio de escamas e
some no mundo de águas! as águas estão mansas, elas conversam baixinho chiam lá
suas coisas que nós não entendemos mas estamos boquiabertos na conversa dessas
águas; chega o gravatinha, não mais que libélula a exercitar asas, senta-se sem
cerimônia na cana da vara, nem pesa, será que não espante a pesca! outros insetos
de todos tamanhos se achegam também tomam água certamente ou comem as coisiquinhas
deles na moita, apreciam a margem chegam ao barranco, a onda leve se encontra
igualmente no barranco e empurra ciscos folhas pedaços de pau espanta a
borboleta, ah tem é muita, de todas cores e tamanhos, alçam voos sobem descem
brincam festejam o sol da tarde, o sol vai sumindo aos poucos, avança a sombra
abrindo caminho ao escuro, os sanguessugas apertam o cerco atacam zunem zumbem
bolem chupam, ploft um já era, tem outros a passear interessados no alimento
caboclo e ih: tem as mutucas – essas abrem brechas chupam o matuto de canudinho;
xô essa revoada de cantores miúdos sugadores em potencial, para. Para o Zé,
enrosca a vara no barro, apoia o instrumento tosco numa forquilha improvisada impondo
a vara para cima com ponta esticando a linha, olha antes se não saiu à tona, dá
olhadela se a parte enterrada no solo está bem fincada, por via das dúvidas uma
pedra por cima, vai que um bruta peixe (imaginou bem uma baleia que não é peixe,
como sói ocorrer a um pescador) vai que um me arranca a isca a linha a ponta da
vara, pode até que me leve toda a parafernália! enquanto isso os pernilongos se
divertem, dá um tapa daqui no outro braço no pescoço e na própria cabeça, dá outro
de lá, dá palmada no ar, nervoso, e não acerta um sequer e aí acalma um pouco,
para acender o cigarro a fumaçar gostoso para dentro e para fora a espantar os
fios-da-p.. Risca o binga, daqueles cilíndricos cor de cobre, gasto no uso, alumiento
nos extremos de tanto manuseio, bate pra lá bate pra cá risca mais: escapam
faíscas cisquinhos incandescentes brilhando já à boca da noite e incedeia a mecha
e sobe um fogo que clareia a área da tarde a escurecer e avermelha a ponta do
cigarro pronto anteriormente, amarrado com barbante fino de palha na palha que
enrolou o fumo picado em partes miúdas. Suga suga suga assopra, o terror
daquelas pequenuras voantes e cantantes, elas se calam e fogem, o Zé se assenta
outra vez no barranco úmido, vitorioso, a umidade volta às nádegas molha a
palha molha o lenço encardido fornece material para enferrujar o canivete de
folha e a melar a carne humana, ao menos a refrescá-la bem; ajuda o adormecimento
da bunda; porém ele nem vê nem sente nem percebe nem raciocina em torno, fixo
olhante à tona d’água à linha à pesca, não respira alto para não espantar o
peixe, lá diante pia nunseiquê, o sapo-martelo começa a bigornar e os pernilongos
voltam de ‘cara lavada’ sem qualquer constrangimento e com apetite, ele olha o
embornal, quase não o vê na semiescuridão, percebe alguns poucos, que o cansaço
e o pessimismo teimam não passar de meia dúzia de lambaris e o otimismo a
acreditar passe bem de dúzia das grandes; as dúzias regurgitam no pano decerto
a espantar restos de vida ou as formigas famintas o peixe incomodando, um dia
ah naquele dia! naquele a cobra-d’água estava tentando engolir os lambaris e
tinha ainda um bagre sangrando da recente pesca – então foi um berro que deu,
deu de pau na bicha; ela fugiu, mas será que não houvesse levado o maior! agora
só formigas, bate no embornal a espantá-las; noutra tarde traria o samburá
presente do Compadre, aí deixando na água para conservar mais tempo os
peixinhos. Aí se levanta, olha com rabo dos olhos a linha se não esticada puxando
a ponta molinha molinha da vara e não está, ajeita o esqueleto se espreguiça
aproveita se bater batendo um gordo pernilongo, o sangue o seu sangue se
esparrama escorre no braço peludo e queimado do sol, avermelha, xinga ao morto,
raspa a garganta, cospe, ouve a coruja e ouve o vento que inicia cresce e
depois acabará mesmo com qualquer pescaria, droga: o vento espanta o peixe!
Ajeita melhor o embornal, conta de novo a meia dúzia, toma picadas das formigas
remanescentes, olha melhor por volta ver se não periga, relanceia para a vara –
todos trabalhando de bandido contra o pescador, até a fome. Toma um gole de
café frio azedo deixando um gostinho de velheira lá no fundão, chuta um tolete
de pau, conversa sozinho mais um pouco, engole uma dose de cachaça do vidro de
remédio deixando outra parte para a despedida; então, só então, se lembra da
Maria.
Cap.2° – Tem a Maria e as Coisas
da Maria
A mulher... enche o saco sim me pega
no pé. Pede isso exige aquilo um pouco vaidosa, fala que é para os filhos. Na segunda-feira
vai outra vez comprar. Agora precisa tomar cuidado com o trilho, é tanto
zigue-zague tem buracos em não caber no buraco, para a esquerda depois mais
para a esquerda ainda até o monjolo, o besta trabalha de graça tendo milho no
cocho ou não, mas agora não dá para ver o milho talvez a água no reflexo da
claridade desaparecendo, e faz tcheque gozado o peso pra socar, aos poucos vai
ouvindo o som do monjolo portanto se aproxima dele e indo certo no rumo,
caboclo enxerga de noite igual coruja, depois do monjolo é que deve virar à direita,
direito para casa, ah a Maria. Segunda-feira vai à Vila, compra as coisas miúdas,
o pão de padeiro, a gente gosta mais do que o que a gente faz na roça, mais
torradinho, e quando o caminhão vem pegar tijolos sempre se encomenda pão de padeiro
para a outra viagem, os outros oleiros também, faz plec na boca bem assado, os
meninos com pão de padeiro não tem manteiga que chegue! compra remédios também
e as coisas dela, a gente fala que são as melecas e ela fica alumiando, nesse
dia não gosto de apertar ela assim: gruda tudo. E tem... ah essa não, enroscou
a vara pequena na árvore em cima! devia ter tido paciência enrolando bem, terá
ficado alguma ponta de fora e agora está tudinho embrulhado; se puxar quebra a
ponta da vara – se fosse a grandona se explicaria,
porém a pequena veja só – e vara sem ponta é como homem sem cabeça (xi lembrou
a mula sem cabeça!) não vale coisa alguma, é jogar fora e pegar outra nova,
tenho bem umas quatro no preparo secando, dá trabalhão dá trabalhão; trabalho
agora desenroscar a danada, ainda por cima tem lambari pulando no embornal, ih
a Maria vai ficar por conta, não gosta de limpar peixe “por que não jogou no
corguinho!” e eu “cala a boca mulher” a maiorzinha já pode escamar e tirar a
barrigada, outro dia se cortou com a faca nós amarramos um pano no dedinho
pusemos uns matos amassados, nós, a Maria pôs, chorou se assusta com sangue, tadinha,
e a fritada vai ser um colosso, os meninos gostam, a Maria reclama, mulher tem
dessas coisas. Desenroscou, ficaram uns restos de mato na linha e na ponta da
taquara do reino, com o sol amanhã na hora do almoço eu tiro e desembaraço
melhor, o fio de plástico vira um trebofe, meu pai pescava era de cordonê no
tempo dele, tinha traíra na taboa e no brejo, bagres deste tamanhão! A mãe
pegava também no pé dele, ele nem estava aí, chutava o balde quando bêbado, a velha
precisava esconder a garrafa, ele encontrava a bebida e depois batia nela e nos
meninos todos, era homem democrático... Ih tem um fedendo, lambari não aguenta
nada. Agora, jogar fora... como provar depois a pescaria? Acontece que
cheirando mal um só que seja terei de ouvir dia inteiro, não: este resto de
noite, a gozação da Maria. Já escuto o precti pocti do monjolo, está pertinho
pertinho e preciso olhar bem o chão ou me afundo na irregularidade do terreno e
tem ainda por cima aí em baixo as cobras: se morderem a botina quebram os
dentes; se alcançarem a perna... dizem que têm umas que mordido a gente grita
dia e noite, tem outras que matam o sujeito envenenado horinha depois! Tem os
cri-cris, será que não mordam os grilos! é claro, bicho miúdo. O Compadre
Tonho, elas pegaram os franguinhos dele, um alvoroço medonho no galinheiro, os
cachorros vixe! as vacas e os burros ficaram gritando, ele deu foi tiro até com
a cartucheira. Depois, noutro dia, só penas espalhadas... podia ser sucuri, enfim
era das grandonas. Isso é pouco. Tem, dizem que tem nunca vi, tem assombração
amedrontando! Olha temeroso, para, para até a respiração pra ver direito e ouve
o monjolo toc-toc sem parar compassado. Anda na direção, empurra ramos se fere
nos galhos, arranha no ‘arranha gato’ se encrenca nas trepadeiras, o chapelão
cai ao solo, agacha toma a cobertura e se põe à frente e então o silêncio da
noite que se fecha. Para, escuta. Alguém ou algo se desenroscou de cima fazendo
no baque um som oco e pesado, pula tremuras o coração, sequer nota a infinidade
de insetos companheiros seus no escuro, mesmo os vagalumes com seus lampiões
acesos e seu parentinho o caga-fogo que acende seu escuro e apaga deixando mais
escuro ainda o Zé nem isso consegue perceber, atento ao medo. Têm os cheiros
das plantas pisadas exalando embalando a noite, o céu lá em cima sorri mil
estrelas, uma nesga de lua faltando um pedaço se mostra e o rapaz continua a
caminhar. Chega ao monjolo. Olha aquela geringonça no seu trabalho pelo
trabalho qual máquina, e é mesmo máquina cabocla de fazer farinha e canjica. O
cocho derrama a água, o Corguinho engole as sobras, brilha à escassa luz; ele
bebe o seu cansaço, se lava removendo o fedor azedo, respira fundo, lembra da estória.
Um monjolo havia esmigalhado a cabeça dum infeliz desajeitado, olha a máquina:
seria a mesma! examina por volta se tem respingos de cérebro humano se sangue,
sorri de sua lembrança boba, suspira, aí sente-se mesmo cansado, parecença com
o peso do mundo. Respira profundamente, junta as coisas, reconta lambaris,
atira nas águas aquele podrinho, encolhe asqueroso o nariz, lava a mão calosa;
marca prumo e se vai em direção da olaria.
Cap.3° – A Olaria, a Maria
Chega a tropeçar na estradinha a sair
do mato, aí sente-se vitorioso, ao menos salvo. Anda mais uns metros e já
avista a olaria, escura, coitada, abandonada, amanhã será aquele movimento o
barulho, se os adultos não barulhassem a contento os meninos não se
esqueceriam... As casas pobres em cima alumiam nas lamparinas trepidantes
tremedeira de luzes, só a Fazenda tem lampião a querosene aquela luminosidade
da Vila dentro da sede das terras; não aprecia nem um pouco o administrador
mandão mas o homem não põe a cara com a gente oleira. A olaria é um mundo à
parte na roça, mais chegada à cidade que à fazenda e seus roceiros. Iluminam
tremelicam as luzinhas avermelhadas saindo pelas janelas e as frestas muitas,
decerto já depositando no nariz dos moradores aquele grudinho preto do
querosene. Em casa também. Olha a sua entre a meia dúzia doutras. Nada
especial. Só que a Maria certamente já dava janta aos meninos e reclamava sua demora
“aquele teimoso” fala fala fala, mete o pau, por trás; e pela frente na sua
presença também até receber um xingamento a altura assustando as crianças, que
param de comer. Agora o cachorro vem fazer-lhe festa, ainda está na estrada
perto da pipa longe um pouco. Peri! abana feliz pula ladra avisa, os seus
apontam à janela, ouve a conversa sem parar da Maria, bate o pé no rolete
horizontal à porta, raspa os botinões ringideiros no chão, entra, sorri aos
garotos, o pequeno larga o prato corre abraçá-lo examinar o embornal, a mãe ralha
grita desacata impõe a volta à mesa, grita o menino grita o marido, lamenta sem
diplomacia a demora deplora seus peixes “devia estar descansando pra amanhã,
fica lavando minhoca...” Entra no quarto de terra batida, tira as botinas (ouve
o costumeiro: “joga o chulé lá fora!”) esparrama os dedões, coça o dedinho
torto, xi preciso cortar as unhas, empurra as botinas ainda cheirando a sebo
passado para conserva juntando com o cheiro do suor dos pés, empurra os
calçados para debaixo da cama escuta a reclamação do penico, olha se a Maria
não inventou de entrar no quarto, tira as calças (o “bachêro” diz a esposa)
quase ficam de pé sozinhas, arranca a camisa e nota um rasgo novo (deve ser
aquela hora no monjolo) ela cheira a contento, atira-a na cadeira tosca com uma
ripa quebrada na guarda, o assento cambaio mas aguentando bem a camisa, suspira
seu cansaço, cospe por costume aos pés da cama do casal, está agora sentado
nela, olha a porta que não venha a mulher ralhar-lhe estar sujo sentado naquele
ninho que mostra um afundado na palha de seu lado, alguns cocorutos bons para
machucar o sono da gente, afinal levanta-se,
põe a roupa de ontem mesmo que serviu para dormir até hoje e servirá para
abrigá-lo até à próxima madrugada. A de cima é a camisa de meia furada e limpa,
embora com cheiro de corpo, do seu corpo, e a gente se acostuma com o próprio
fedor; embaixo o calção de brim desbotado cansado velho gasto gostoso, calça os
chinelos com sola de pneu e vai lavar-se na bica lá fora. Os meninos já brigam
quem ficará com o lambari maior, a velha garante que dessa vez não abre nenhuma
barrigada “quem pescou que se afomente” diz aos moleques às orelhas do pai, o
Zé faz de conta que não é com ele, passa sabão de cinza que a Maria fez no tacho
e tem um cheiro desagradável, espuma suas sujeiras, remove com água limpa, o
Peri sentado patas cruzadas assuntando seu deus, o deus faz bluluf com água na
boca e vem vindo para dentro pingando “outra vez levo você, meu nego” diz ao
cão, ele entende e se não entende ri do mesmo jeito alegre com o rabo, “e não é
pra ficar latindo sem parar me espantando os peixes!” o Peri tem vontade dizer
que aceita o alvitre e as condições e as imposições porém não fala nestes
termos, abana de orelha em
pé. Entra na casa, antes ouve o lamento feminino por não se
ter enxugado bem, os respingos no chão ela vê, depois a Maria nota a toalha
feita de pano de farinha de trigo ou de açúcar cristal suja e manchada e assim
lamenta com mais razão sentenciando: “homem é tudo porco!” Senta-se o porco,
“tá frio” fala baixinho. E ouve admoestação da esposa: por que se atrasou, por
que você mesmo não põe outra vez na chapa a esquentar, as crianças comeram
quente, “quem manda...” repete repete desmonta todas pescarias vivas; come
enfunado, ela olha emburrada, no terreiro os meninos gritam gritam o cachorro
se gritam se entendem no desentender chamam a Maria como juiz, ela esbraveja
esbraveja e vai arrumar a cozinha, bate os trecos esfrega enxuga guarda, a
seguir vai repreender seu homem, está dormindo sentado não ouve coisa alguma, o
café da sobremesa claro como água de batata e doce como garapa encontra-se ao
meio na xicrinha, umas gotas na mesa melando atraindo aquelas formigas xeretas
– a mulher silencia nuns resmungos. Chocalha aquela montanha macha, a montanha
desperta, ela se condói do companheiro, fala carinhosamente, quase usa ‘bem’
bem sabe usar o tratamento para ajudá-lo ir para a cama. Grita os seus baixinho
para não acordar o chefe da família, o qual já ronca, “ah desgraçado!” ela o
empurra, ele muda de posição, desronca e ronca outra vez, ela coça a cabeça, a
pequenininha grita: “manhê a senhora tem piolho como eu?” põe os filhos dormir,
assopra a lamparina, aquele cheiro característico do combustível juntamente com
o pano queimado de pavio pelo fogo no apaga-acende, que antes fazia crescer e
encolher as sombras das pessoas e objetos na parede agora apaga, ela se deita
se agita se ajeita se encaixa se acopla naquele corpanzil desajeitado de homem
e pensa que já deve passar das nove da noite, se acerta no seu buraco de colchão
também pobre mas limpo, e quando vê não vê vê em sonho...
2ª parte - o feijão com arroz sem filosofia
Cap.4° – Madrugada, Batente
Acorda Zé! se mexe rola pra lá pra cá,
se estica encolhe pensa que foi sonho do sono foi sono do sonho da realidade do
som da Maria. Ela já de pé no fogão assopra, foi pegar mais lenha no terreiro,
as achas que ela partiu a machado nem isso o marido tem tempo de fazer o tempo
apenas à pesca, escolhe a lenha escolhe gravetos a facilitar o fogo do fogão,
já tocou o Peri, cachorro só vive nas pernas da gente, volta à cozinha assopra
de novo e a chama não quer afirmar, a lenha verde se vinga nos olhos dela: arde
penetra defuma, que hora seria! Assopra outra vez ajeita a lenha une as brasas
assopra: a cinza é empurrada pelo tufão humano sobe gruda à chaleira de ferro
grosso preto velho usado e desce à chapa de ferro também esquentando se fixando
à parede, a mulher limpa com um pano úmido, antes de pegá-lo examina se não tem
barata, morre de medo de barata só do marido que não tem e ralha e xinga e
esbraveja com ele até que ele solte as mãos pesadas aí ela chora e vai reclamar
o carinho e a pena dos filhos; logo se esquece e ralha e xinga e esbraveja de
novo, agora olha a barata, não tem barata, muda a lamparina de lugar, fica com
a cabeça meio inclinada fugindo da incidência do lume para melhor enxergar na
penumbra o pano e pegar se não tem, não tem mesmo barata, é bicho nojento, não
aprecia realmente são as que voam ameaçam abrem asas fazem caretinha e pronto:
parece que sabem o alvo – a Maria! grita socorro, ele nem liga, as crianças
aproveitam para fugir também, agora não tem barata no pano nem nas imediações,
tem cheiro, fica o grudinho e o cheiro nas coisas, cheira o pano e constata
além do cheiro de bolor pela umidade e o do tecido velho o perfume das “disgramadas”...
Limpa a cinza, olha a água se na medida; toma o coador de flanela gasta impregnada
do pretume do pó de café, olha cuidadosamente, cheira se tem cheiro indevido,
não cheira, assim mesmo limpa antes de passar o pó despejando água fervente.
Toma os grânulos do café, ah acha haver deixado passar um pouco do ponto, decerto
o torrador está com o cilindro apodrecendo ou é que a Joana parou de virar a
manivela, merecia um puxão de orelha a garota, mas passou com certeza o ponto,
vai dar aquele gostinho amargo e de queimado na infusão, lá vem o Zé reclamar,
a gente faz tudo direitinho trabalha igual burra, grita moleque dia inteiro,
ajuda aquele porco na banca, trabalha como ótima ‘lanciadora’, limpa as pazinhas,
vai pôr elas no tambor com água para não empenar, limpa e areia a forma para o
tijolo sair retinho e esquadrejado, bonito, e já o Zé reclamando a lerdeza. No
dia que estou adoentada e não vou ao rancho ele fica na cama e não vai também,
homem de olaria é mulher, se a companheira não vai, ele não trabalha. Homem é
uma cambada! E depois ainda fica ouvindo o patrão reclamar que o tijolo não
ficou bonito, após tanto trabalho. Agora olha de novo seu fogão. Volta ao
quarto: Zé! Seu fio-da-(xinga a sogra) acorda! Já tem quase sol! Torna à
cozinha. Fumaça, fervura; toma os grãos depressa, atrasada, põe no moinho, gira
a manivela, sua pela rapidez na tarefa, sobe um cheiro gostoso do pó. Ajeita a
latinha debaixo, quase um pires, põe o pó da latinha na caneca feita de lata de
óleo com alça arrebitada, despeja o que sobrou da fervura da chaleira na
canecona, subindo exala no ambiente a fragrância do café saboroso enquanto vai
pondo o líquido preto no bule esmaltado com manchas pelo estourar contínuo do
esmalte, o cheiro agradável chega até ao quarto penetra as narinas machas, ele
acorda interessado, senta-se rápido na cama, esbarra no urinol ao meio com lotação
noturna, pés no chão, coça os dedos, pisca, passa as costas das mãos fechadas
nos olhos, remove alguma remela incômoda, tosse, pigarra, espirra, se levanta,
estica os cambitos, rosna qualquer coisa e se lembra alegre do café e triste
pelo serviço lá embaixo esperando. Se veste. Calça do tipo ‘bate e enxuga’, algum
remendo, grosseira, azul, foi azul, camisa que já teve seus desenhos nos tempos
áureos, põe as ‘precatas’ o Patrão não quer botinas duras estragando o chão
para pôr tijolos moles, as alpargatas são roxas de um roxo desanimado e têm uns
furos na parte do dedão mais intrometido, a sola é de cordas e cheira mesmo
corda de cânhamo. Pensa no chapéu, ora não cabe chapéu de palha debaixo do rancho
que tem cobertura de zinco enferrujado contendo furinhos para dar goteiras e
marcar os tijolos já quase secos, então os meninos com seus pezinhos delicados
entram entre as carreiras e vão cobrir com tijolo queimado ou alguma tabuinha
os locais sujeitos. Deixa o chapéu na parede preso a um prego enferrujado: não
vai pescar, vai ao trabalho. Responde sim à Maria embora não tenha ouvido o que
disse a mulher; e fala a si mesmo: depois do serviço. Acho que vou experimentar
a curvinha, lá o Compadre João pegou foi uma piapara. Já vou, responde e se
encaminha para a refeição matinal, ainda madrugada. Senta-se no banco tosco velho
com madeira cansada lustrada pelo uso e abuso. Achega-se mais à mesinha também
tosca que fora um dia caixote, coberta com toalha grosseira e limpa, onde estão
o bule cheiroso e quente pra danar, as rodelas de pão caseiro que a Maria faz
que é uma gostosura, toma a xícara lascada, tem preferência por ela, a mulher
não deixa as crianças usá-la “é do pai” ralha e elas às vezes pegam-na assim
mesmo e vão brincar e com colher e alguma panela na casinha de faz de conta e
se esquecem no meio das galinhas, o Peri outro dia andava lambendo os restos na
xícara e deu-lhe uma chinelada, ela só anda armada com os chinelos; depois, um
pouco trêmulo, mais preso no sono mais ainda no sonho que na dura realidade da
porta da cozinha pra fora, depois então toma mais um pouco na xícara
lascadinha, onde o café fumega gostoso, segurando com a mão esquerda (“vai derrubar,
homem!”) e com a direita molha o pão e dá uma mordida, a seguir engole o café,
uf! quente demais queima o beiço a língua na ponta, a massa sobe desce enrola dispersa
e ele continua a mastigar e o faz de boca aberta igualzinho o Peri ou como os
bichos no mangueirão, engole sem pressa, não precisa correr para pegar no
pesado; e assim beberica mais café e come mais pão, como um burro, lembra a
esposa, e satisfaz aquela montanha de músculos muitos pelos muito suor muito
sono e pouco dinheiro. Ela já vem vindo a sair do quarto do casal, passa pela
sala escura, bate na porta das crianças grita a Joana dá recados faz
recomendações e vem à cozinha lembrar seu homem irem ao rancho, já se alimentou
à prestação enquanto assoprando a lenha afugentando baratas fervendo a água e
coando, vamos, diz. Saem, encostam de leve a porta, cruzam o terreiro, pegam a
estradinha e chegam ao rancho da olaria. Ela corre ao tambor de água pegar a
fôrma de tijolos e as duas tabuinhas e ele, em vez de ir já preparando a tarefa
inicial, está sentado nuns tijolos improvisados como banco fumando sua palha e
será preciso ser lembrado, relembrado, pela companheira, para dar suas últimas
baforadas, se encontra macambúzio e nada responde ou discutiriam. Segue enfim
para a bancada. O pipeiro, coitado, hoje sozinho, grita sua tropa, os burros
andam em volta da pipa, esta vomita como um ânus o barro parecendo caminho
entortado, o homem tem de pular no quadrângulo do picador contendo a
matéria-prima abaixo do nível e se afunda na lama do barro e água, medir no
‘mais ou menos’ brasileiro as pás grudando o material cheias, joga a seguir em
cima da pipa alternadamente de um tipo de argila e doutro, grita outra vez os
animais, a coisa vira e continua vomitando embaixo, ah se o outro pipeiro
houvesse vindo mas não veio, agora pula outra vez para cima, enche o carrinho
com roda de pau pregado na periferia com sola de pneu, enche de barro até quase
não poder ver à frente e vai gemendo a levar o barro às duas bancas prontas ao
trabalho. O Zé olha a sua, preferiria o piau da curvinha e não tem jeito, olha
sem jeito pra Maria, ela franze a cara que é até bela, ele olha aqueles pelotes
de barro, o pipeiro já derrubou como fila sete carriolas parecendo uma cobra ou
linguiça aos gomos, gomões, faz sinal ao colega parar, a mulher chucha com o
cotovelo ao marido e ele grita: então mais três carros, Pedro! E xinga, por
dentro, terá de ir mais tarde nesse dia ver o poço cevado e a tentar a fisga do
piau... Começam.
Cap.5° – O Banqueiro
Ela já aplainou o chão com o rodo,
instrumento que é um pedaço de tábua estreita e grossa com um cabo à feição de
enxada; limpou a fôrma, raspou as tabuinhas, pôs na bancada areia branca, que o
pipeiro sendo sua obrigação traz, trouxe a secar na ponta do rancho, onde os
meninos pequenos se divertem no faz de conta porque os grandinhos já têm
tarefas miúdas e não podem perder tempo com sua própria natureza. A lançadora Maria
amontoa a areia em cima da banca, areia a fôrma para não grudar barro e também
areia as tabuinhas – aguardando o seu homem ter vontade para começar o trabalho,
o sol está nascendo e o lampiãozinho trazido foi apenas para alumiar o caminho.
Ele raspa a garganta, cospe, fala nunseiquê, a fêmea só resmunga e fica atenta.
O Zé corta o barro com os polegares arreganhados, deixando na bolota grande no
chão os riscos dos dedos, embola rola pra cá pra lá a formar o pastão levemente
maior que o futuro tijolo em que virará; outros banqueiros cortam com uma das
mãos, se canhoto com a esquerda, a outra mão livre tendo ao mesmo tempo atirado
areia no solo onde rolará a bolota, ele, o Zé, tem um sestro de apertar os
lábios e ringir os dentes a cada tomada de areia, alérgico talvez (mas capiau
não conhece alergia, que é frescurinha de cidade). A seguir suspende qual
gigante a bolota e soca a mesma contra a forma, o ar escapa e pufa pra fora;
ele dá um soco na forma para que a matéria-prima preencha os vazios dentro, aí
toma o arco que a esposa trouxe do tambor d’água com os outros apetrechos que
ficaram dormindo imersos, é um arco de madeira feito de pau roliço ainda verde
e secado com paciência arcado e depois preso por fio de arame de aço. Com esse
instrumento corta a sobra de cima da fôrma, retira a sobra com uma das mãos,
com a outra pega porção de areia na banca, atira sobre o corte ainda fresco, derruba
areia no chão esparramada onde formará novo pastão. E fará isso compassadamente
dia inteiro. A Maria acompanha todo movimento do esposo, toma as tabuinhas
areadas, uma deitada planando horizontalmente sobre dois sarrafos de pau e a
outra de pé, a facilitar posterior manuseio. Pega a forma cheia, ajeita, dá
pancadinhas rápidas nas quinas, vira a mesma sobre a tabuinha deitada, puxa
harmoniosamente a forma pra cima e o tijolo está belo mole e pronto! areia a
seguir a fôrma fazendo um salamaleque próprio ao trabalho, arcando assim o
instrumento e já o deixa preparado para o marido repetir a dose anterior, ele
que ela atrasando segundos impaciente chama a atenção ou goza nela; ela já pôs
a outra tabuinha por cima do tijolo, pega com delicadeza e cuidado o tijolo e o
deposita na carreira uniforme de pé no solo. A cada três, coloca um por cima
meio atravessado e também de pé, este sendo a bandeira, a qual será no final
contada somada multiplicada por quatro ou por três se resolver a lançadeira
Maria pôr dois em baixo e a bandeira; cada lançador tem a sua marca própria e
vaidade: uns põem assim outros assado dando formas diversas às bandeiras, sem pensar
que esteja dando seu tipo único no meio a bilhões de criaturas no Globo. Ali
pensam no trabalho feito. Param de vez em quando, ele fuma, toma café antes
como ‘boca de pito’ e o faz frequente bebendo direto no gargalo do bule (a
Maria muxoxando ao ver) o Zé se importando pouco que as moscas já hajam
xeretado no bico que ele lambe e depois estala a língua; conversam as suas coisas,
a Maria fala dos planos da compra na segunda-feira e ele tem vontade a dizer
sem coragem que ela gasta demais nas porcarias de mulher e ela lembra o Zé do
que comprar na ‘compra do mês’ na venda, de sua competência; às vezes o Zé
desanda a falar de pesca e não encomprida ela não gosta; aí na pausa o
banqueiro conta as bandeiras já completas, multiplica por quatro e faz as contas
no chão arenoso com um pauzinho chegando às conclusões, a Maria se surpreende
com tanta sabedoria e capacidade matemática, aquelas coisas que ficam
embrulhando lá dentrão dela; e admira seu macho sinceramente. Ele toma um
palito de fósforo e marca imprimindo na última bandeira ainda mole a soma
subtotal para depois acrescer outras somas parciais – todas lá longe deles – e
registrar o total da produção diária, quando então estão aptos a descansar; quer
dizer, ela vai trabalhar denro de casa gritar os meninos preparar a janta lavar
roupa passar com ferro de brasa, o que solta cisco incendidos que vão queimar
marcando a peça, e ensinar as meninas nas lides feminis, corrigi-las, já que os
moleques são mesmo incorrigíveis e não estão nem aí, soltos pelos pastos armados
de seus potentes estilingues e fazendo porcaria com os outros garotos, nem o
diabo pode! O Zé tomando a varinha ou tratando do encastuamento ou mesmo vendo
se o anzol não estará rombudo, a chumbada no lugar, o embornal a garrafa de
café que sobrou de cedo e o vidrinho de remédio com pinga que é menos vidrinho
de acordo com as necessidades; “oh Zé!” diz ela, cadê o cachorro de homem, já
foi pelos trilhos, se afundando e ainda precisa gritar o Peri, o diacho vive
correndo atrás das frangas, é só pena que voa! quando a gente manda ele pegar a
galinha o besta fica olhando pra gente; no momento que temos a penuda nas mãos
o Peri quer dar suas mordidas o entojado, vê se pode! Estamos parados contando
os tijolos, a descansar um pouco que ninguém é de ferro, aquelas dores nas
costas (por que será que o povo fala ‘dor de cadeiras’!?) Enquanto isso o Zé
ouve a outra banca no rancho de cima e a Joana já vem trazendo coisas para
comer, deve ser mandioca cozida que a mãe deixou fervendo no fogão quando
saímos madrugada e os meninos ainda na cama. Não importa, a gente para outra
vez.
Cap. 6° – A Outra Banca
Tomam o café, ele fala “guarapa” e é
bem meloso, só que este trazido pela Joana é quentinho. A menina grande, pequena
minguada magra, recebe instruções da mãe e uma raspançazinha como rotina de
vida, traz informes dos moleques aí pelos matos. Ano que vem, diz o Zé, acabo
com a farra, vou pôr os dois no trabalho... E a escola, retruca a mãe! Depois
da escola ponho os dois a engambetar. E você? berra a Maria, vai pro rio! Não
responde, manda a menina tirar as coisas da banca, começa a pisar o barro já ressecado;
pôs um saco de estopa molhado por cima das bolotonas, sobe em cima e pisoteia
saracoteia parecendo dança. Ninguém se ri nem é comum o riso nessas bandas não
havendo razão naquele momento constrangedor... Se vão pra casa as duas garotas,
a grande pequena e a pequenina caçula, o pai assopra qualquer lembrança à
esposa e vai para o rancho de cima. Luís! falou o Zé. Parara o bater fôrma,
cada lançador imprime seu modo, o Chico costuma dar dois toques a mais que a
Maria. Em compensação conversa mais que ela no serviço com seu batedor de
tijolo, o Toninho, mano mais velho e raquítico. Este cobra o irmão, dirige
baixo calão mostrando autoridade como primogênito da família. Meu pai não está
“foi na venda”. Decerto buscar mais suprimento etílico e fumo, usa cachimbo. O
costume da turma do Luís é este: o pai inicia o trabalho e chega bem mais tarde
que o Zé; fica horinha batendo tijolo e zangando com os meninos, só dona
Assunta a mãe é mais ranzinza; ele corta o tijolo o Toninho lança, fazendo lá
boa porção de ‘macacos’ como sempre reclama o patrão – tijolos tortos, marcados,
mal esquadrejados, enfim longe da obra de arte. Após hora toma café, não tendo
caninha, comendo pão azedo especialidade que dona Assunta sabe como mestra fazer
e endurecer, Dona Maria tem horror aos pães da amiga nada amiga porque se criticam
à beça por trás; e aí não tem jeito: o costume é oferecer o pão saído quente e
posteriormente a presenteada dá o troco com sua fornada fresca (maneira de ter-se
sempre pão novo no lar e manter as boas relações sociais). Contudo o da Assunta
é duro e azedo demais, os meninos da Maria reclamam e a família do Zé acaba em
razão disso dando às galinhas, as quais nunca reclamaram, ao contrário: brigam
entre si na disputa dos pedacinhos. Depois de comer a turma do Luís, ele a
mulher fanhosa dele e uma rataiada miúda e magra, o chefe passa o comando ao
Toninho, o qual fica todo inchado e envaidecido pela deferência paterna,
promete cinta aos que não obedecerem; o pai sobe pra casa, ele na frente ela
atrás e atrás ainda no rabo da fila a ‘rapa do tacho’ que é a garotinha miúda
que anda pulandinho a alcançar os grandes. No lar se veste a caráter o chefe,
põe suas botinhas e um chapelão e aí pé na estrada, ainda ouvindo os pedidos resmungados
de compra da esposa, às vezes o cão vira-lata Campeão (não se sabendo em que
campeão pois é pele e ossos) às vezes ele segue o dono, o deus na égua cansada
e o cachorro abanando se esforçando acompanhar o deus chapeludo de barba feita
a navalha que deixa a cara lisa parecendo novo o velho. Assim o Luís se vai. Aí
o Toninho canta de galo azucrina os pequenos, exige fuma traga manda levantar o
volume do radinho de pilhas, que fica por cima da gambeta onde estão os
cigarros a caixa de fósforos e o vidro de café nadinha melhor que o da Maria.
Nervoso, quase sempre xinga a prole do pai. Não está: “foi na venda”. Dá ao Zé
emprestado um pouco de fumo de corda que seu velho usa, palha não, o outro não
precisa. Conversam sobre o serviço, trocam dados da produção, o Zé se esquece e
aumenta a sua para quase milheiro corrige menos uma centena, relembram o barro
hoje fora do ponto: os primeiros carros estavam esborrachando de mole, os
últimos duros quebrando as mãos da gente (mostra o polegar e o indicador para
provar o erro na assertiva) nem o pastão obedece e fica quebradiço; o Toninho
concorda, é muito subserviente aos de fora e algoz aos comandados. Depois se
entrosam conversando de pescaria, ambos bem achegados a essa diversão, exímios
e teimosos. Não contam causos, só o Luís sabe melhor os de assombração. O Zé
vai narrar o de ontem no monjolo, da cobra deste tamanhão e já se prepara abrir
os braços a dar significância à sua valentice e contará ainda do lambari
estragado podre fedendo, mas escuta os gritos da Maria lá embaixo, volta para o
outro rancho, deixa o Toninho num riso enigmático. Chega chateado. Ela: vai
deixar dormir o barro para amanhã! Não responde, joga a bituca do cigarro com a
alavanca da ponta dos dedos, ela sobe fumaçando e cai lá diante apagada já e
sem graça. Recomeça seu trabalho de banqueiro. Em cima o Toninho também, apenas
ralha com o mano, acha um que outro defeito e cobra atenção do seu lançador,
que não é mais que um gurizinho a quase não poder com o tijolo fresco muito mais
pesado que quando sai queimado do forno para o caminhãozinho do patrão. O
Toninho retomando suado o corte do barro (e em razão disso também o batedor de
tijolo ser chamado cortador). Levanta o pastão, parece um menino meio
desencorajado na tarefa tão pesada, magriça e pequeno, não se sabendo como
aguenta tempão lá em cima com o pelote de barro. Desce a porção, acerta dentro
da forma, corta com o arco sobrando retalhos mil por desajeito, os quais grudam
ao lado da fôrma, sujando a ferragem da fôrma, os ferros existindo a reforçar o
aparelho de madeira, sujando também o solo onde caem retalhinhos, uma sujeira
imensa! (O Zé não fala mas quando vê o trabalho do colega grita na mente: sujeito
porcalhão). Comparando as duas bancas, o Zé não trabalha assim, é limpo e
disciplinado, talvez por ter ao lado a Maria implicante parecendo um ferrão a
cutucar boi de carro. Na banca do Toninho é sujeira e a grande produção; ele
trabalha rápido para mostrar serviço ao pai e autoridade aos irmãos. Os macacos
são postos nas filas e as bandeiras se sucedem. Depois conta à sua maneira
quantas, erra bem no vai-um soma a mais e o patrão anda sempre desconfiado...
Enquanto isso os outros irmãozinhos trabalham por aí, sobretudo na gambeta. Na
sua volta o Luís, não estando por demais bebum, vai olhar fiscalizando o
serviço dos filhos ou até ajudá-los engambetar. Tomam os tijolos em ‘meia
seca’, retirando as bandeiras e os outros tijolos de pé e levam à extremidade
no rancho a receber mais ventilação e até sol; os mais secos ficam nas fileiras
com espaço entre as unidades em forma de zê, cruzando-se as pontas; os menos
secos, às vezes até ficando marcados pelas mãozinhas das crianças, são posto
nas fileiras de cima; acontecendo também dos menores derrubarem ao chão o
tijolo, o qual voltará à pipa misturado à matéria-prima comum para virar barro
de novo e posteriormente novos tijolos. Na gambeta são seis ou sete fiadas de
ponta a ponta do rancho nas extremidades do mesmo e, por necessidade, até são
improvisadas gambetas no meio do rancho entre os esteios de madeira, estes
muita vez com buracos comuns na árvore que fora e onde agora as corruílas gritam
e põem seus ovinhos e vicejam insetos e lagartixas, estas diminutos dinossauros;
tais esteios sustentam o telhado na cumeeira. Fazendo isso os engambetadores
abrem terreno, tirando os tijolos do chão e pondo-os nas gambetas, para que se
ocupe o espaço pelos banqueiros nos dias posteriores com seus tijolos moles. Lá
estão as crianças; tramelam sim, desentendem-se e se xingam choram prometem e
silenciam aos gritos do Toninho lá na banca ‘olhos e ouvidos do rei’; escapam
toda hora ver a arapuca ou metendo pedra nos passarinhos e voltando ao trabalho
outra vez com afinco, temerosos do aparecimento ou do mano mais velho ou do
pai, este com os seus olhinhos empapuçados, temendo os moleques o velho mesmo
que as pálpebras se fechem por tanta aguardente... Todos no trabalho, numa olaria
os meninos têm o que fazer, aparentando formigas humanas. Mas eis que vem a chuva...
O barulho infernal no teto de zinco ninguém ouve ninguém, o Luís grita os garotos,
a Maria grita o Zé; ninguém se entende. Chuva de manga, barulho, passa, some; o
trabalho não para. No entanto se é
contínua tira o ponto, passa do ponto o barro, mina água e não se opera noutro
dia, em não ser os volantes como a gente miúda na gambeta e os adultos na
enforna e desenforna. Têm o que fazer. Além do mais existe outro drama ao
oleiro: o excesso de umidade impede a secagem do tijolo e às vezes retarda a
enforna do mesmo, pois o produto tem de estar seco para a queima. Cada setor
depende de outro. Assim a chuva incessante pode determinar as férias na olaria,
esta que nunca tem férias.
Cap. 7° – Hoje Tem Pão Grande
O Zé está na beira do rancho vendo a
chuva. Ela che-gou intempestivamente ninguém esperava, caiu forte, se foi,
voltou antes com lufadas de vento relâmpagos e trovões assustando a Maria, ela
morre de medo de morrer com tempestade, que não só assusta a gente assusta
também as baratas para assustar mais a gente; largou o barro e o marido falando
sozinho, aliás não dava mesmo para escutar nadinha o zinco da cobertura do
rancho gritando mais alto que o grito humano e a chuva esbraveja agora sem
parar. A Maria correra para casa acudir os garotos, a menor tendo terror a
trovão e chora desesperada. O Zé acabou o serviço sozinho, estava no último
carro, fazendo as vezes sua e a da lançadora, enfim terminou. Não está agora
vendo a chuva preocupado como os pipeiros ficam com muita água, a chuva tira o
ponto do barro e se perde o trabalho, não se ganha o pão de cada dia não virando
a pipa! todos afirmam a suspensão de amanhã, alguns vão mais longe ainda: é
preciso soltar já os animais no pasto, pois o comum é deixar os dois da pipa
presos no piquete roendo algum milho no cocho e comendo capim cortado, deixando
cair aquela baba costumeira e espantando moscas com a cauda. Não está nadinha
preocupado com o fazer ou não fazer tijolos, chateado sim é com a suspensão da
pescaria que faz sempre após o trabalho, logo agora que ia experimentar a
curvinha e trazer para casa um piau dos monstruosamente grandes para mostrar
seu talento na arte pesqueira e tapar a boca da oposição faladeira. Que fazer,
vontade de Deus não se discute. A Maria sempre fala nestes termos, ele não
pensa nas coisas de religião. É ela quem leva vez por outra as crianças ao terço
e às rezas lá na sede da Fazenda; quantas vezes não estava voltando da pesca
ela já saíra, coisa muito das boas, o ruim apenas ter de limpar os peixes e
fritá-los sozinho. Agora não tem peixe com esse temporal que não para. Olha as
goteiras mais que goteiras são fios escorrendo caindo igual cachoeira desde as
pontas da telha de zinco; e lá no chão correm rápido em minúsculos córregos que
engordam a enxurrada deixando um que outro laguinho empoçado, as gotículas caem
e pulam, dizia em menino os soldadinhos e então sonhava quando crescesse virar
soldado general comandante, virou oleiro parou até de estudar no primeiro ano,
fugiu da escola goza a Maria; volta aos soldadinhos, sonha acordado com sua
infância distante, ouve o gritar estridente da mãe “Zezinho vem pra casa, já é
noite!” era uma senhora paciente e amorosa, mas de vez em quando sobrava a
varinha da mamãe para ele e os manos; entretanto foi realmente encapetado, se
recrimina o Zé; agora, apreciava mesmo ao pai, sujeito correto e trabalhador,
nunca relara a mão nele, somente naquela vez na qual soltou o cachorro do
vizinho, só naquela. Recorda os irmãos, quase todos falecidos, ah melhor não
pensar nessas coisas, antes planejar a pesca para outro dia, nesse a chuva... a
vaca já foi ao brejo! vixe, se lembrou da vara deixada como armação com um pedaço
de mortadela de isca, que eles diziam na olaria “mortandela” e o Antônio não o
Toninho, o Tonho do Seu Chico, esse falava “mortangoela” porque passava na
goela da gente. Decerto a enchente havia já levado vara anzol (daqueles caros!)
a carne e quem sabe o maior peixe nunca visto na região! Deplora profundamente.
Aí surge o Peri, todo molhado e fedendo a cachorro molhado é claro, fazendo
festa primeiro para, depois, se chocalhar expulsando o excesso de água nos
pelos; então ficando todo eriçado e o amo tendo se esconder atrás da gambeta
enquanto os respingos impulsionados do cão: água e sujeira dele. Mas achou bom
a vinda do animal. Dá para distrair um pouco. Após o Peri vem o menino do meio
com a sombrinha da mãe e uns panos encerados a cobrir o pai para voltarem para
casa. Manda o filho tocar um burro que viera se esconder da chuva no rancho e
acertar as tábuas cruzadas como cerca improvisada na ponta do rancho, ou então
as criações entrariam toda hora pisando o tijolo mole; o Peri mesmo, quantas
vezes teve de gritá-lo a sair das fileiras prontas do material. Pega a matula:
o bule, a caneca esmaltada, a garrafa de água da mina, um pedaço de pão quase
inteiro que a Maria esqueceu na pilha de tijolos saindo a correr aterrorizada pela
chuva, ajeitou como pôde e se prepara a enfrentar a saraiva da chuva. E a
Maria. Entram embarreados na sala, ela olha torto. As crianças andam indóceis
com a novidade chuvosa, a esposa irritada pelo acúmulo no serviço doméstico e o
fogo não vai de jeito nenhum com lenha molhada, o Zé se aboleta numa cadeira
meio despregada, a que a Maria sempre fala torcer para que desmunheque despenque
com o dono em cima, pois deixa a consertar tudo para amanhã e amanhã nunca é
hoje... Agora aparecem umas goteiras na sala, têm de mudar de posição a mesona
pesada, arrastam pra cá empurram as coisas no meio à gritaria dos meninos
imitando a gritaria dos pais, colocam os trecos mais perto do oratório onde a
Maria queima lá suas velas e outras besteiras, ele fala besteiras. Agora o pai
tira o calçado e manda a pequena pôr na frente da chapa do fogão para secar, a
Maria já grita da cozinha “quer queimar este chulé!” ele nem liga. De repente
os meninos brigam por qualquer motivo e não é preciso mesmo motivo a criança se
desentender, uns gritam o pai outros a mãe para sua defesa, a Maria xinga também
o aliado com voz fanhosa vinda do fogão, a central daquele cheiro bom de carne
de porco e uma meleca de frigideira; lá, donde sai uma fumaça de arder olhos
defumando toda casa, foi lá que se derruba uma vasilha e a mãe vai à loucura
grita a ajudante por algo insuficientemente ouvido espantando as crianças
todas, olhando ora o lado da cozinha da fumaceira ora pro pai, este voando em
imaginação porém não pescava. Ouvia o seu velho dizer “hoje é dia de pão grande”
quando o barro não dava ponto, como decerto acontecerá amanhã, a chuva cai sem
parar parece o dilúvio aumentou e já é noite fechada. Mas por que a expressão!
nunca soube nunca indagara ao pai e
agora já se fora ao céu, a mana mais nova falava assim, pro céu. De repente
teve lá umas gotas inadvertidas nos olhos mas homem não chora; e precisou
acordar da viagem: pudera, aquele cheiro de carne! A Maria chama a todos, é
pegar no fogão direto e encher o prato, o dele é um fundo e já trincado ninguém
mexe, até para lavar tomam cuidado ou se quebra de uma vez e aí o Zé “dá cria”
fala a oposição, briga mesmo; cada qual que se sirva, a mãe cuida da pequenininha.
Levanta-se o chefe da casa, sequer lavou o rosto nem nada para comer, o ideal
seria com o suor do dia impregnado um banho daqueles, isso atividade para o
sábado diz o costume caboclo. Depois da boia conversar um pouco, escutar o radinho
que vem do outro lado por cima da parede desde a casa do Luís, e escutar dentro
de casa a mais nova falando errado gozado; a Maria optando por menos trabalho
no já muito trabalhar empurrando os filhos para a cama. Antes disso indaga: pôs
o urinol? cuidado com a lamparina e diz mais algumas coisinhas, criança a gente
tem sempre de repetir e ainda fazendo errado. O Zé já esparramado de través na
cama, “não vai trocar de roupa não, oh porco...” Apagam o lume, a noite
arregala sua escuridão molhada.
Cap. 8° – A Lagoa
A semana foi assim. Rotina do viver. A
pipa virando, o par de burros, um era mula, puxando num caminho interminável no
círculo a haste, os gritos dos pipeiros aos animais, de vez em quando um nome
dos mais feios; teve um empregado na olaria que conversava com os burros como
com os colegas, “quer comer, papazinho?” “vocês querem ir passear com o papai
de caminhão?” os animais decerto não entendiam bem o animal dito racional e nem
por isso paravam de puxar as correntes que os ligavam ao mastro da pipa, ainda
mais com o cabo do enxadão ali como arma do pipeiro... O Pedro Pipeiro não age
assim, apenas educadamente ofende a mãe dos burros, eles andam mais depressa. É
assim a rotina pipeira. Nos ranchos é o barulho de costume: da fôrma batendo e
se friccionando na tábua da banca, a cantoria desafinada dum que outro oleiro
gritando as mesmas modas de viola, sem viola, as canções roceiras; e tem é
semana inteira criança gritando entre si, menino berra em qualquer latitude ou
somente a gritar. Também ocorre o ronco do Chevrolet do Patrão chorando sua
carga de lenha ou indo com a de tijolos para a cidade. Lá em cima a mulherada
cantando desafinadamente rezas católicas enquanto matracando e lavando nas
pranchas suas roupas no tempo roubado ao tijolo. Rotina. Às vezes não, se
quebrando a rotina, a pesca coletiva na lagoa. O mais entusiasmado nesse mister
é o Luís Botinha. Luís de quê? oleiro geralmente não precisa genealogia e não é
que despreze o sobrenome, não sabe ou deturpa o sobrenome, os apelidos viram
sobrenome: Botinha por exemplo. O mais, e os filhos dele; todos acompanham a
atividade. Semana todinha planejando imaginando a alegria da alegria da hora, a
hora de bater a lagoa. Na várzea, onde na seca era só mato e no tempo das águas
os homens arriscavam o plantio do arroz sem terem gabarito para tanto que sua
ordem são os tijolos, na várzea formam pequenos e médios reservatórios de água
suja, buracos que se comunicam por canais com o rio próximo durante as cheias;
no tempo seco, após a enchente, os buracões feitos e escavados pelos pipeiros
na busca da matéria argilosa, eles se tornam lagoas, poços com forte cheiro de
enxofre e raízes podres, nesses locais o líquido represado anda cheio de peixes
tentando sobreviver após terem procurado a desova, vários deles sobretudo o
curimbatá. Tal situação parece comum às regiões oleiras, a olaria sempre cava
buracos e estraga terras cultiváveis, bem como incinera as matas das imediações
nas suas fornalhas famintas. Prejudica o meio ambiente e fornece material para
a cidade crescer; como evitar? Agora é a felicidade aos oleiros: vão bater a
lagoa! Pululam animais aquáticos, os peixes os batráquios bichos miúdos, lá vez
que outra o lagarto e um jacaré. Alvoroço no pessoal da olaria mas o Zé não
está demais extravasante, porém o pessoal do Luís... Entretanto toda gente
oleira participa no domingo marcado à pesca coletiva. Suja-se mais a água já
suja e escura, os moradores pulam e batem com paus a aumentar a escuridão líquida
e barrenta, o sol logo mostra os focinhos dos peixes aflitos na tona da água à
procura de menos sujidades e mais oxigênio. Então os homens mais ativos se
atiram por cima dos pobres a paulada e às vezes com facões e mesmo usando peneiras
que servem normalmente na olaria para coar areia mui usada na profissão; ou as
pessoas num arrastão a empurrar o cardume cansado para a margem onde se
despencam a bater! Os garotos, sob grito das mulheres no barranco, vão enchendo
latas de vinte litros que as famílias recebem ao comprar óleo, enchem-nas de
‘curimbas’, como é costume chamar. Uma gritaria infernal de medonha, a tanto
que se não o pau ou facão a matá-los, os peixes morreriam de susto nos berros
dos predadores insaciáveis. A Maria na beirada com as outras não grita demais,
demais cansada tanto gritar em casa, mais as outras mulheres oleiras com seus
filhotes lá na água na algazarra. O Zé Oleiro ajuda sim os colegas, se meleca
se molha se afunda naquele pântano a acertar algum moloide; seu negócio entretanto
é a pesca de barranco a vara e a armação de espera, quem sabe a piapara
prometida por Santa Esperança, deusa quase sempre enganosa... Depois da lagoa é
levar aquela fartura e jogar o apodrecido e o excesso da pescaria na própria lagoa,
que é vida e ao mesmo tempo cemitério. A Maria salga o que pode salgar, o
safado do Zé nem dá mão! manda à comadre na fazenda e os outros habitantes
fazem o mesmo enviando aos amigos e parentes longe. Depois? depois ficam as
estórias, matéria-prima para as semanas seguintes quebrando a monotonia e a
vida rotineira no rancho de tijolos. Na imediata segunda-feira a Maria já
ranzinza o Zé “nós estamos até aqui de curimba, você atrás de lambari
preparando a varinha...” Matraca, chama o homem nos tentos, segunda é dia dela
ir comprar suas melecas em vaidade no Patrimônio, não fica ele olhando as
crianças! Não foi pescar, ela também não foi comprar. E se deitam mais cedo,
cada um enfunado no seu buraco de estimação na palha da cama do casal. Ele
loguinho ferrando no sono, ronca gostoso parecendo serrote; ela fica mais tempo
reclamando baixinho e posteriormente sonha ter ido a cavalo na égua emprestada
ao Luís à Vila. O galo, não sabendo da coisa, grita avisando ser terça-feira.
Cap. 9° – O Forno
Mais uma semana. Essa foi das
compridas, tem semana boazinha, passa depressa, no domingo ao menos, que é a recompensa
duma semana batendo tijolo, no domingo o Zé pode ir sem consciência pesada ao
rio. “Lavar minhoca”. Está bem, lavar minhoca. Se espraiar. Pensar, descansar
de cansar no tijolo e cansar de descansar na pesca, sentado no barranco. Sem temer
a Maria, seu falatório: o domingo é sagrado. Ela mesma sempre põe a coisa
nestes termos. Enquanto isso ela indo às outras casas, não somente as da
olaria, ver por exemplo a comadre na colônia da fazenda; a criançada se ajunta
à criançada, brigando sim gritando demais e brincando também, as comadres
patati-patatá, cansando a língua de falar mal dos maridos. Ele está consciente
disso e pode pescar à vontade, às vezes mesmo na companhia dum colega mas preferindo
ficar sozinho, quietinho; porque silêncio e peixe sempre dando boa combinação.
É domingo. É seu dia! Essa entretanto foi, é, das compridas, não passava de
tanto chover e trabalhar pouco (e ganhar mais pouco ainda e entrar no pindura
na Venda ou em dívida com o Patrão). Até que enfim raiou o sol, no sábado, tem
sábado sem sol! No domingo toma a tralha e vai ao rio, sem se preocupar com
recriminações feminis. Porque durante a semana, mesmo tendo dado um duro, a
andar até com dor nos rins, durante a semana ela me pega no pé por causa de
peixe. Somente por peixe? me azucrina noutras inocências: outro dia foi no
leite; não bebo leite só café de manhã de madrugada, dia inteiro; tomei uma
xícara outra xícara me grita na terceira “olhe o bezerro!” leite é pra menino,
de ano pra diante a gente trata com arroz e feijão, fui beber leite... No peixe
é que pega mesmo, pensa já no trilho, pra lá do monjolo. Gozado: mastiga o
tambiú o bagre que levo para casa, diz que está bom, fala com boca cheia
espirrando grãos de arroz na toalha, contudo reclama minha pescaria fazendo a
gente ir todas tardes pesaroso ao rio. Agora está bonito porém deve dar pouco:
muita água na semana chovendo e não dá para achar nem o pocinho das piabas, anda
tudo revirado lá no fundão! Ah pernilongo... isso tem, continua tendo. O patrão
é uma besta. Me imaginando bobo ou coisa assim: “você, Zé, podia dar uma
mãozinha no forno”. Que espere sentado, já fiz semana toda tijolo. Verdade
haver produzido pouco; mas não fui eu quem abriu a torneira de São Pedro! Fiz o
que pude, ajudei na gambeta, quinta-feira estava com o carrinho cheio
enfornando. Agora quer me roubar o domingo... e se deixar de fisgar uma baita
traíra! ah não tem conversa mole. Não falei nestes termos, aleguei a dor nas
cadeiras. O forno na olaria é engolidor de fogo como no circo, mais ainda: consome
caminhões e caminhões de lenha; antes eram carroções. É talvez o local mais
importante na olaria, o Zé sequer pensa nisso, pensa peixe, só vê a banca e a
pesca após a banca. O forno é equivalente na cidade ao banheiro: tudo passa por
ele, é o rei da residência. O forno é quem dá as cartas – queima a produção
queimando literalmente a madeira, tanto que não existem matas fechadas perto da
olaria cabocla: ela já incinerou toda árvore disponível! não satisfeita engole
as matas distantes, o caminhão vai buscar a lenha quilômetros e quilômetros
longe da fornalha. Ela arreganha suas três bocarras ou olhos de dragão os quais
não cospem para fora, para dentro. O forno engole a lenha transforma a madeira
na brasa viva. Assim eleva sua própria temperatura a mais de mil graus, azula
lá em cima, feroz. Começou apenas com o fogo lento passou ao forte e exige não
parar na sua sanha! Aí se cansa, esfria, solta, depois, milheiros e milheiros
de tijolos: rosados vermelhos brancos, enfim de conformidade à matéria-prima.
Se for barro preto, torba por exemplo – vira branco. Na olaria do Zé, onde o Zé
não passa de mequetrefe, caprichoso é verdade na sua banca mas que só faz
porque tem a Maria cobrando senões e loguinho corre ao rio... nessa olaria dá
tijolo cor-de-rosa, bonito. Sobra no assoalho do caminhãozinho um pó rosado,
fino, que entra nos olhos da gente, lixa a mão, deixa a mão mão-de-mulher de
fina; às vezes sangra a constante fricção. E têm os acidentes na desenforna
como na enforna, oleiro conhece bem o assunto: o tijolo acerta o dedo, o tijolo
que morde, faminto, as mãos, o tijolo caindo no pé; e por fim (nunca existe
fim) o tijolo pesado descadeirando o trabalhador, herniando os mais fracos (ah
o caso do ‘Véio’ na olaria do Baixadão:
ficou com as coisas caindo nos joelhos...) Todavia é o ganha-pão. Bendito seja!
O Zé se responsabiliza (com ajuda da mulher, bem entendido) apenas pelo fazer
tijolos, ca-prichosamente, é preciso insistir. Cru mole úmido. Depois de
engambetado e devidamente seco o produto é levado por carriolas com roda de pau
e tira de pneu de caminhão pregada, alguns vão fazendo gozado sotóque-sotóque
na sua imperfeição, indo das pilhas para dentro do forno. Nele é posto cruzado
o tijolo ou ao menos ralamente colocado para facilitar passagem de labaredas ou
a quentura vindas das bocarras. Começa no chão do forno com o chamado crivo,
tijolos na base, os quais ficam chochos leves e quebradiços pelo excesso da temperatura.
Materiais nessas condições muita vez são sacrificados e invendáveis. Acima do
crivo vão as pilhas até encher o forno, na última fiada, já quase ao teto; este
por vezes é queimado pelo fogo que sobe do forno propriamente dito ou arrancado
pelo tufão e pela tempestade. Nesse nível faz-se a capa: tijolos ruins postos
deitados a servir de tampão e cobertura a pressionar e barrar as ondas de calor
a subir. Na capa, quando se inicia a desenforna, é comum encontrar-se brinquedos
dos meninos, moleque de olaria brinca e faz o passatempo de barro; depois
deposita com autorização e sem autorização adulta seus trequinhos a queimar.
Realmente é assar como pão, o oleiro insiste na “queima”. A expressão é válida
para as grandes cerâmicas ricas e organizadas também. Não, a olaria do Zé (na
que o Zé Oleiro trabalha e escapa loguinho pro rio) ela é pobre e manual, os
tempos modernos estão tratando de enterrá-la e a crise econômica do país é o
seu coveiro preferido... O Zé não pensa nisso, não pensa, pensa peixe. Será
hoje meu dia de sorte! pia uma ave, os pernilongos fazem festa, ele se bate
enraivecido ter de mexer no equilíbrio da varinha de cana-do-reino, a água é
muita, a correnteza não respeita a linha: empurra o anzol a chumbada perde a
partida ela empurra pra baixo a corrente sopra pra cima, alguém belisca, para,
espera, cansa, tira a minhoca desenxavida e com frio na água, dá um impulso e
retém o anzol brincando de balanço de parque infantil na mão, olha, é: morderam
mesmo, é dos grandes. Merece até minhoca nova, minhocuçu, sangrento, xi a lata
de minhocas anda fervendo de formiga... xinga, o xingo serve para a formiga
para o pernilongo e para a falta de sorte e ainda para a lembrança de amanhã, amanhã
é segunda-feira, pô, o que a Maria está fazendo aqui! Toma água bebe café da Maria,
o que ela fez cedinho, hoje se levantou tarde o sol saindo e depois saiu ela
com os meninos, eu estou aqui pescando, tardezinha pego o piau. Nessa hora o
forno vai como pode: tem o Patrão e dois oleiros, o Pedro Pipeiro e o Luís,
este foi para casa tomar café e voltou alegre cheirando pinga. Trabalham.
Trabalham, está quase cheio o forno. Talvez ainda hoje se possa fazer a porta.
A porta é aproveitamento de cacos de tijolos assentados a seco à maneira dos
pedreiros mas sem massa. Acabada, reboca-se com as mãos diretamente por fora
com barro misturado à terra comum dando pouca liga, ficando um acabamento horroroso
porém eficiente: não passa nada não vaza sequer fumaça. Queimado o tijolo ela é
desfeita e os cacos conseguem ficar mais cacos ainda, fosse possível. São duas
portas, uma já pronta, enquanto os homens conversando ou cantarolando desafinos
entram com suas carriolas e enfornam; o Patrão faz porta e um pouco da capa.
Quer o homem acabar tudo hoje. Imediato põe fogo, inicia o esquente. Fogo lento
dois dias. No terceiro, se os tijolos não estiverem molhados, se úmidos terão
os homens que prolongar o esquente, no terceiro dia vê-se em cima se no ponto,
aí é fogo forte, muita lenha, sem parar dia e noite, um trabalho mortal! O
trabalhador desconhece que suas entranhas estão recebendo venenos e calor
letais. O oleiro, todo pequeno trabalhador, o oleiro é imediatista e se
escraviza no trabalho próximo e na dívida perene, que terá de ser saldada. Enquanto,
o Zé se distrai na curva. Já tem uns peixinhos, coisa pouca, no samburá que um
dia ganhou de presente do Compadre, a cobra foi lá na rede visitar seus
lambaris, precisou largar a vara depressa, exatamente no melhor momento no qual
puxava gostoso a linha, puxou o samburá para fora a cobrinha se esguiou covarde
ao chão pulou na água, ele suspirou tristezas e voltou à vara, a minhoca andava
então envergonhada com alarme falso... Ele se distrai na pesca. Os colegas acabam
a fornada, a fumaça inicia o seu cheiro característico. No fogo forte o enxofre
atinge toda a olaria na exalação e ‘fedora’ o ambiente. À noite, e se calhar o
fogo no domingo em que não se trabalha mas tão só encontra-se o encarregado a
cuidar da fornalha, então é divertido. Cada um proseia a seu modo. Causos. O
Luís tem centenas, mil e um. Fala das assombrações que viu com os olhos que a
terra há de comer ou viram os olhos dos outros testemunhos oculares e fidedignos.
Caninha café conversa. A plateia bica, interrompe, conta também, cruzam-se
informações. A sabedoria oleira. Madrugada quase, quase ninguém, um que outro
teimoso a ajudar, ajudando antes com a língua, ajudar o colega atirando lenha
lá naquelas funduras famintas e o tempo passa, o sol vem avisar. Nessa hora o
Zé ronca, a Maria já fez o café o Peri começa a atacar as galinhas, estas estão
tentando ver se enxergam alguma minhoca ou inseto desprevenido e se não ao
menos umas pedrinhas ou então bicam a latinha de flor da Maria, a Maria dá
nelas. Depois chama xô xô xô joga milho ou arroz da panela que estragou, ou a
que o porcalhão esqueceu aberta e a barata, ah a barata... Quando o forno está
frio, aí um que outro aceita fazer serão após o serviço normal durante a semana
e no dia inteiro quando domingo, em dia santo não, isso não, no domingo descarregam
o forno para carregar o caminhão. Empilham lá fora no pátio e caso a venda esteja
animadora ajudam tirar os tijolos vez por outra quentinhos que não se aguenta
já diretamente do forno para a carroceria do veículo. O Zé não. Só ajudou um
dia, o Patrão pegou o banqueiro de cabo curto: você vai receber hoje na segunda
viagem, ajuda os outros a encher o caminhão? Disse sim com a cabeça. Por azar
tomou uma macetada na quina dum tijolo, sangrou, chupou o dedo, aquele gostinho
salgado, depois mijou no próprio dedão pra desinfetar, enrolou com o lenço sujo
de ranho e depois ainda a Maria pôs uma água verde de planta que ela guarda na
latinha trazida da comadre. Doeu? disse que não, pois é muito homem, a Maria
sabe disso porque depois consolou o marido como fosse menininho, aí quase
chorou mesmo; uh vai homem grande chorar perto das crianças!... O forno, ah o
forno, dele é que sai o numerário, o ganha-pão oleiro. O Zé não está agora
pensando nesses termos, anda se enroscando no trilho, a vegetação apreciou a
chuvarada cresceu bem, enrosca o Zé enrosca o embornal enrosca o samburá, fá-lo
desligar com cuidado para não quebrar as malhas, a vegetação gosta também de
enroscar a ponta da varona, só a varinha teve de jogar fora: levaram a ponta o
anzol a isca, um peixe tantadona assim! E ele perdeu. Quase perde o rumo do
monjolo, tão chateado marcha. Não foi um bom domingo; no final não foi. Foi,
vai embora para sua Maria.
Cap. 10° – Barreiro Carroça Burro
O Zé conseguiu com muito jeito tapear
a Maria. Foi simples. Não foi, teve de pensar bastante, inventou aquele dedo inchado,
inchado sim mas não por causa da prensada que a fôrma de tijolo lhe deu semana
passada: machucado pescando no momento em que espetava a minhoca espetou também
o polegar. Sangrou, fez xixi no dedão a gotejar vermelho, urina não é desinfetante!
por via das dúvidas também despejou, com pena, o restinho da cachaça do vidro,
logo aquela que o Luís Botinha trouxera da venda dita importada não se sabe donde,
ótima, o restinho dela, só ficou o cheiro gostoso no vidro. Inchou assim mesmo.
E a esposa ficou com dó-zinho dele, ela mesma diante dos seus ais sugeriu falar
ao Pedro parar no quarto carrinho. Fizeram pouco tijolo. Agora, doente, não
ficava bem ir ao rio, embora acabado o serviço na banca. Aí pegou carona com o
Pipeiro, foram de carroça buscar areia para uso geral no rancho, só então o Pedro
soltaria os burros. Foi muito interessante, novidade para o Zé, que só fica
entocado debaixo do rancho dia inteiro ouvindo a mulher enrolando a fôrma na
areia e batendo o instrumento na bancada, ela me deixa surdo com isso, pensa. A
tropa vai indo puxando a carroça, em dez minutos o doente se esqueceu já seu
dedo grosso não gordo demais. Eia! diz o carroceiro, o cabo do relho, eles
falam “reio”, o cabo para frente encavalado no ombro esquerdo dele, a tira de couro
de agradar o burro nas costas do homem, o carroção faz barulheira ringe, as
rodas de pneu velho e careca uma cheia a outra baixa e murcha um pouco, o todo
enlameado por barro do voltar carregado derramando da caçamba e pela estrada
ziguezagueando vai a deixar o rastilho de argila escorrida e seca por meses
anos a fio na labuta; o comboio prossegue rumo ao barreiro, o chão está marcado
de tanto passar ida e volta com material pesado (agora se desloca vazia a
carroça apenas o Pedro no comando o Zé xeretando alegrias e curiosidades) e assim
fazendo afundar na terra arenosa e frágil e dessa forma marcando fundo, são
dois trilhos afundados no solo, o miolo quase a raspar o eixo de ferro
entortado da carroça espandongada. A estrada ao barreiro é feia, muita pedra e
piçarra, pouca e baixa vegetação, esses matos de brejo; e o barranco é alto.
Vira a condução, o carroceiro grita com o burro que pensa ser menos burro e
burramente quer que entenda: “mais para trás, seu burro!” não se ofende puxa
empurra encosta, a alça do reio no focinho argumenta o Pedro, mostra o cabo do
reio perto do tapa dele, o animal olha assustado, o outro burro segue o
anterior e empurram de vez o carroção de traseira para o barreiro. O homem,
vitorioso, desfeiteia a mãe do irracional, para mostrar quem é que manda aqui. Está
no barreiro mas não vai encher com argila, vão levar a areia, que é mais leve,
além do mais se derramará com facilidade durante a viagem de volta pelas
frestas inúmeras. O Zé desce e fica espiando o carrego, quebra pauzinhos,
arranca capim amargoso e mete na boca igual criança e passa a morder; ao lado
disso conversa com o Pedro as coisas comuns, diz para ele que a Maria é boa mãe
porém pega muito no seu pé, conta a real história do dedo machucado, riem da Maria
pela tapeação e aí caem no assunto de pesca. O Pedro é mais mentiroso que o colega,
chega a parar com a pá enterrada no solo de pé e se apoia no cabo dela para dar
mais base às estórias, tem um peixe que pegou no Tietê antes de vir para esta
olaria, o qual não caberia na carroça da cabeça ao rabo! O Zé acredita. Conta
também as suas bravatas, vira herói das estórias que lhe narravam quando menino
e o Pedro assente de cabeça. Carrega mais um pouco, ou vai carregar; os burros
de tanto se coçar e espantar moscas ou interessados também a saber aquelas de
pescador já foram para frente mais de metro, é preciso repetir a manobra
anterior e fixar a carroça mais perto do barranco. Embaixo o buraco que os
pipeiros fazem tirando argila; por cima dela é o horizonte arenoso, objeto
daquela viagem cheia de peixe e ainda com pouca areia. O retirar areia de cima
do barro é a descoberta: leva-se parte ao rancho para uso; às vezes o patrão
carrega no caminhão um tanto para vender à construção civil na cidade, o que
ele chama de saibro e os pedreiros dizem servir a economizar cal; o que não se
vende ou não se leva ao rancho é atirado nuns montes irregulares nas imediações,
pois é preciso avançar nas veias do solo em busca do barro, a matéria-prima do
tijolo; a olaria é faminta e desfigura a paisagem, destrói a área agricultável.
Mas os trabalhadores não estão nem aí para o filosofar nem para defender o meio
ambiente, apenas se dispõem a encher o veículo e sonhar com seus peixes. O Zé
relembra outra vez a Maria. A minha, diz o Pipeiro, começa com nhe-nhe-nhem!
bato de cinta, já apanhava do pai dela e não se acostumou: fica com um medaço!
outro dia, fala o homem, a deixou com lábios grossos por um soco na cara;
menino em casa não chia também. O Zé sorri a tanta macheza e lembra estar cheia
a carroça. Voltam. O carroceiro chocalha o reio, ele botou umas tampinhas de
garrafa entre o cabo e o couro cru, a tropa já entende ao barulhinho tilintado
e anda e puxa e funga e sua e sopra nas ventas. O Zé vai andando ao lado
assuntando aquelas curiosidades. O colega não bate quase na criação, ela é
ensinada, burro de olaria volta sozinho à pipa ou para o barreiro, é só soltá-lo,
dando inclusive tempo a contar vantagens enquanto o bicho carrega o peso
enorme. O arreamento é cruel, fere machuca sangra o infeliz animal; posteriormente
se põe creolina na ferida, não para espantar moscas enxeridas nem para que não
doa: se infeccionar e a criação ficar doente não trabalhará na olaria. Pior
mesmo se morrer, prejuizão. Os poucos animais existentes são soltos no pasto, o
qual na seca é um horror, sendo preciso complementar a alimentação com milho ou
cana de burro dura. Os dois burros da pipa que deverão estar na labuta desde as
duas ou três horas da madrugada ficam presos noite toda num cercado diminuto, o
piquete; o oleiro não quer se molhar no orvalho dos pastos procurando sua força
de trabalho; em razão disso os animais são sacrificados com prisão à noite e
prisão de dia puxando a carroça ou virando o mastro da pipa. E o sol! O Zé em
pouco tempo tem a testa e o pescoço queimados, branquelo ou apenas ‘branqueado’
por viver sempre debaixo da folha de zinco. É esquisito, diz. É esquisito. O
Pedro está neste momento desatrelando os burros, um é mula, dando água a eles.
O Zé dá com a mão ao colega e segue para sua Maria; já pensa na cara de doentinho
para mostrar à companheira.
Cap. 11° – Compra na Venda
Está aí a questão formada... Ela
aceitou, em troca do Zé não lhe cobrar vaidades, “as melecas” ele fala sempre assim.
Traria uns dois anzóis, dos azulões não prestando, insistiu o homem nos de ouro,
latões de ferro dourado bons para dourado naturalmente, nunca havia pegado
nenhum, um dia levaram a rã e o anzol, ficou só pedaço de linha e a vara, pôs a
culpa no anzol, seria dourado! Dos de ouro, dizem que são mais caro, você paga
e pronto. Ela assentiu de olho num pote de creme. Normalmente por um potinho daqueles
o Zé dava cria, falava dia inteiro, a terça-feira, na quarta ainda reclamando.
Negócio feito: dois anzóis dourados grandes em troca, além das outras
costumeiras coisas, de um potezinho, um só, de creme, com direito a uma
terça-feira tranquila e somente dedicada às discussões normais. Maria vai à Vila,
Patrimônio insiste o teimoso. Ela pensou revidar no fim do mês: ele vai à Venda
fazer a compra grande do mês, que é na mesma localidade onde compra as
‘melecas’, direi, pensou, direi assim: “Zé, você vai na Vila e compra isto e
aquilo...” e ele pensando ter ganhado a causa dirá “trago sim do Patrimônio, se
encontrar barato”. As pequenas coisas e demais miudezas na segunda, a Maria
voltando carregada e cheirosa. No fim do mês, por conta do recebimento ou
garantia dele no começo do outro mês, a comprona. O Zé toma emprestado a
carroça de transportar barro, “já falei com o patrão” lembra ao Pedro (que aproveita
a pedir ao amigo lhe trazer uma garrafa da boa, da que o Luís trouxe não serve,
iludiram o homem porque no bebum todo mundo monta); os burros cansados do
trabalho bruto e duro desde madrugada e aí uma folga à tropa indo passear no
Patrimônio ver os cavalos amarrados perto da Venda; daí trazendo de volta a
compra, levinha levinha se considerando o peso do barro. Eia! diz se dizendo
carroceiro, ô ô ô! Exigindo parar a carroça na frente do boteco. Não vai beber!
lembra-lhe a mulher e ele retruca sem convicção: quando foi que voltei bêbado...
(ela vai contra-atacar, ele:) nunca fiz como o Botinha que vem esparramado dormindo
no lombo da égua. É seu trunfo. Agora amarra a criação no toco em frente à
Venda, o Peri veio atrás xeretando, fica ali a olhar os burros e latindo aos
estranhos, ou pondo o rabo entre as pernas quando o estranho é um cachorro
grande e brabo e aí apenas se mostram os dentes, os do Peri são bons e fortes,
melhores que os do amo, o Zé tem uns buracos pretos na frente e agora inventou
de ficar chupando ar e cospe fazendo um chiado que a Maria reputa nojento e ele
nem liga, para enquanto ela olha recriminando para um pouco ele e loguinho
esquece e cospe e chia e ‘nojenta’. Amarra os animais, cumprimenta seu João, sorri
a um que outro conhecido, tem um bebum que não sai da Venda, às vezes dorme
bêbado no areião da rua ali mesmo até os familiares buscarem a carga ou os
amigos levarem-no. O Cabo do Destacamento nem prende mais, passa por cima e se
ri dele. O Zé abana ao bebum, se achega no balcão, raspa a garganta importante
por conta do aumento no pindura, o João Vendeiro limpa com um pano cansado o
balcão perto do Zé, trocam conversa por trocar, já sabe: põe um copo pequeno
grosso no fundo e não enche, coloca metade cheirando forte a cana. O freguês
sorri. Faz sinal ao Vendeiro, este põe outro copinho e já o bebum está ali
sorridente, engole num só trago o trago, estala a boca, sorri ao Zé. O Zé conta
a ele e pra quem ouvidos que hoje exigiu apenas dez carrinhos de barro, fez
nunsei quantos e erra pra mais sem intenção, só com intenção se mostrar grande
trabalhador e o Vendeiro escuta ouvindo, pensa que deva estar com muito
dinheiro se bem que a conta do mês passado não tenha sido totalmente quitada e
terá de sobrecarregar a deste mês. Parei cedo, diz o grande comprador mediano
bebedor e modesto nas amizades por timidez e feitio. Parei só para vir fazer
compras, a mulher (aí conta da Maria; no terceiro copo já estará batendo na
Maria e a filharada toda com medo do papai) continua bravatando, entra pelo
dourado a piapara todos perdidos mas recuperados porque a caninha dá uma realidade
indiscutível. Somente para quando se lembra da lista que a Maria deu para
orientar no que comprar, que ele escreveu com suas mãos a voz da Maria, só para
não esquecer, pois é demais desmemoriado e mais ainda, diz a experiência, após
o quarto ou quinto não dá para ter certeza quantos copos, aí sempre perde a
conta pensa quatro o João fala cinco e registra seis no pindura. Vai ficar no
pindura com autorização escrita do patrão, passada numa letra miúda que não dá
para ler acho preciso ir à cidade comprar óculos (e aí dá uma coceirinha no
nariz e atrás da orelha, da vez que experimentou lente e não se acostumou).
Agora, a sua própria escrita lê bem, com ‘desembaraço’ e gaguejando: u-ma lá-laá-ta
de óleo, querosene, vinagre, arroz – o mesmo tanto do outro mês. Feijão vai menos
dois quilos porque ainda tem lá em casa. A Maria falou, falou ele ao João, se for
carunchado outra vez devolve para aquele ladrão (substituiu cauteloso por
“homem da Venda”) um pacote com caixa de fósforos, uma lamparina nova (a Joana
derrubou quebrou ui o perigo se puser fogo e queimar até a casa, Virgem! não
falou nada disso ao Vendeiro: uma lamparina disse). Maizena, da caixa grande (a
petitica não larga da mamadeira de jeito nenhum e a cabrita está dando pouco leite)
açúcar (ele garranchou com dois esses, e depois teve dificuldade para ler e
culpou a lente que não tinha) apenas um saco, pra nós e as baratas da Maria.
Ah, põe cinco quilos de linguiça, daquela mesma os meninos gostam daquela; jabá
se estiver magro, a Maria me mata se for manta de gordura. Ih esquecia da
banha, uma lata grande. O Vendeiro trouxe um exemplar para amostra, pois a
grande do Zé era média para ele, a média ficava mais cara que a pequena e o
Vendeiro prometeu acertar tudo quando o Escritório aparecesse buscar os papéis,
ele havia já perdido alguma vez ou sido roubado no seu estabelecimento!? O Zé
respondeu que sim por dentro e que não meneando a cabeça, nessa hora um tanto
zonza. Pediu mais umas mercadorias não anotadas na lista em papel de caderno
escolar que a Maria lhe passara, passara ele a linha, ora o garrancho pra baixo
da de baixo ora esbarrava tremida na de cima e ultrapassava, contudo dando para
entender, a gente tendo muito tempo e paciência, os burros é quem não tinham,
tinham fome sede cansaço e nenhum entendimento e além do mais o Peri entendia
de, em vez de ficar no seu posto de guarda, xeretar nos pés do Zé e o pior foi
noutra compra, não não, não foi na outra, foi noutra ainda: largou tudo para ir
brigar com os vira-latas atrás da cadelinha cheirosa. Pede mais agora uns
negócios, se esquece e se lembra depois da garrafa do Pedro todavia não
consegue saber mais da marca pedida e exige que se ponha na conta do outro a
dele anda enorme. O Vendeiro anota imediato a fim de não se esquecer pois devia
ser mais esquecido que o Zé, cabeludo, por já calvo. O milho! Que milho, pergunta
o João. Não está escrito na ordem do patrão um saco de milho? não. Então o homem
se esqueceu, porque anda faltando milho aos burros, o pasto está ruim e decerto
não se alembrou. Olhe lá, registra isso na conta do Patrão, não vai errar pondo
no meu pindura, aí não pago. Não pagou, escreveu seu nome ‘Jose Silva’ nunca
punha acento e nem sabia para que o sinal; ia escrevendo ‘Oleiro’ em vez de
Silva, tanto pesa um apelido. Pegou as compras, as da lista e outras que a
mulher do Vendeiro ajudou lembrar, tanto tanto era, o comerciante precisou
ajudar pôr na carroça dos impacientes burros; o Vendeiro quem ajudou, o bebum
não ajudou, dormia sentado no banco caindo de lado na parede. Gemeram os animais,
o Zé apertou a mão do Vendeiro, abanou aos conhecidos, e deu ordem de partida
olhando a saída para a estrada, vendo mais de uma, as quais teimavam e brincavam
com sua lucidez de esconde-esconde. O que diria à esposa, as coisas estão caras
ou que se esquecera de relacionar algo?
Cap. 12° – Visita Inesperada
Para um roceiro, mesmo seja morador na
olaria, o Zé por exemplo, a visita é sempre inesperada. Não aquela dos conhecidos
e portanto a costumeira troca, ‘a comadre vai na comadre’, os compadres, a
meninada já se conhecendo e sabendo onde pegar para brigar e até brincar. Não.
Gente de fora é que conta no susto, pois dá susto, ao menos é surpresa. Um dia
chegaram uns parentes na olaria, parentes desconhecidos mesmo aos próprios
parentes, os parentes do Nego Pipeiro, este um sujeito que fugiu de madrugada
deixando o patrão por conta que a conta andava alta. Gente de cidade. A Maria
tinha por norma dizer que pessoas da cidade eram “cheias de bosta de galinha” (tal
excreção sendo ao homem comum excreção mais excreção que a excreção humana,
esta decerto nobre) e quanto a isso o Zé não opinava, ria. Chegaram. A mulher
toda esticada e cheirosa, as fêmeas oleiras já iniciaram as bicadas sem
conhecer o anjo; um homenzinho, que elas calcularam ter o dobro da idade da
esposa dele, velha demais por sua vez segundo intriga da oposição; dois garotinhos
de sapatos e meias, coisa bastante esdrúxula pensaram os que pensaram; a
família enfim, burguesinhos que logo a oleirama toda ficou a pensar ricos.
Entraram no casebre do Nego, encostaram o automóvel ‘lumiento’ ao lado e foram
recebidos primeiro pelo ladrar constante e os vizinhos olhando das janelas e
portas, arregalados como vissem dinossauros ou gente doutro planeta portanto
não gente; e depois apareceu a ‘Véia’, esposa do Nego, e as crianças logo atrás
mas imediato foram alisar o carro, cheirá-lo mesmo; enquanto já-já-zinho a dona
chegante foi chamando os seus para dentro da enxóvia-parente, e a parenta da
casa mais preocupada a pedir desculpa pelo desarranjo no lar; e aí o
inevitável: se beijaram as senhoras. O Nego largou o picador, onde se encontrava
afundado até à canela, embora usando tábuas como seu lastro na base barrenta da
pipa; se limpou como pôde e foi para casa com os filhos contando no trajeto
sobre a chegada dos tios e sobretudo entusiasmados com o carrão. Entrou
constrangido e fedendo suas lamas na sala pobre de terra batida, fazendo balançar
os cantos dos móveis feitos com caixote de cebola tendo teias de aranha porque
a gente limpa e não limpa tudo nem vê, as crianças tomam o tempo inteirinho e
aí a pequena armou um berreiro – o Nego não percebeu isso não se sabendo a
visita o que pensou, estava o chefe da casa meio envergonhado, que é forma
bonita do roceiro se constranger; os parentes estando nas cadeiras menos ruins,
algumas emprestadas às pressas na vizinhança, a conversar; trocaram apertos de
mãos, falaram rápido sobre e dos outros parentes comuns os quais não se viam e
referiam a cartas que já não se escreve mais anda todo mundo preguiçoso;
falaram na tia morta, mencionaram outros doentes, morte e doença sempre
atrativo a qualquer brasileiro eles sendo brasileiros. O Nego pouco tendo a
dizer, a mulher dele é quem contava dele no seu lugar e falava de si mesma com
muita competência, se queixando satisfatoriamente pela dor ao lado etc. e tal.
O Zé acabou um pouco mais cedo e nesse dia se prejudicou na sua experiência
pesqueira, curioso também pela novidade vizinha. A visita do colega não ficou
para dormir, nem teria onde; além disso a mulher não aceitaria tanto
desconforto; assim mesmo fez questão de conhecer as lides oleiras, o homem
tendo os meninos em volta, as mulheres ficaram dentro da casa falando e
contando suas coisas. Depois do mostra isso mostra aquilo o Zé se dispôs a dar
explicação didática do trabalho na banca, onde era catedrático, fez inclusive
um tijolo para demonstração, e aí se entusiasmou. Todos se interessaram, o Nego
quase nada tendo a contar, mas a conversa caiu em pescaria e se entenderam
entender bem; a visita prometendo outra, especialmente para pescar sob
orientação de Mestre Zé. Enquanto isso os meninos urbanos desataram destramelar
com os outros capiauzinhos, contaram vantagem e se agradaram ver o carreiro dos
preás. Agora, entre as mulheres lá em cima na casa foi diferente... Os homens
tornaram à residência do Nego, elas ainda trocavam ideias e farpas na cozinha.
Foi aí que resolveram fazer visita também às outras famílias a troco duma
lembrança qualquer. Na vez da Maria os visitantes penetraram o santuário
doméstico como requer aos desconhecidos. Limparam os pés, bateram as solas no
tolete de pau à entrada, sentaram-se na sala do Zé, não havendo assento (inteiro
nem se fale) para todos, os de casa ficaram de pé em volta da visita, o Zé
constrangido, encostou-se no portal de entrada do quarto do casal, a Maria ia e
vinha a falar mostrando, quase nada havia para mostrar (não mostraria os
estragos dos ratos e baratas e isso tinha de montão). O retrato oval numa
ampliação! Ah eu e o Zé no casamento, contou o padre a festa, o Zé olhava os
circunstantes de cara indefinível, bigodinho, olhos mansos ou temerosos, cabelo
repartido brilhando a brilhantina e refletor. Ele agora não tem mais bigode,
disse por dizer por nada ter a dizer a Maria. Ela olhava o fotógrafo assustada,
bonitona no espanto e quem sabe com esperança. Eu tinha dezoito anos, completou.
A senhora visitante mordiscou por dentro:
“faz tempo hein!” porém apenas sorriu e aproveitou para narrar seu
casório, sendo que as outras oleiras já falavam serem amigados, sem mesmo saber
sequer o nome do casal vítima; do lado dos meninos se tratavam pelo nome, o
menor do Zé tendo apelido ‘Tim’ sem conhecer o próprio e verdadeiro nome; toda
meninada lá fora gritando o pequeno, moleque não aprecia solenidade. As garotas,
a Joana servia a mesa envergonhada e se envaideceu quando a mãe disse “é verdadeira
dona de casa!” mas a pequetita se encontrava no quartinho tímida e não queria
sair e se mostrar para a visita. O assunto se esgotou, nem o Zé se aventurava
contar, anedotas muito menos somente sabendo as que não se narra na frente de
senhoras, contaria sobre peixes, no entanto andava embaraçado um nó aqui no
gogó. A Maria não. Falava das galinhas e das crianças; em geral quando os seres
humanos comuns se encontram cada qual tem muito a dizer, contando de si e de
suas relações; e se calam nas perguntas ou por desinteresse noutrem ou por nem
chegar supor a vida fora de sua própria vida. A galinha carijó, a cabrita
magra, a ajuda ao Zé na bancada, a vida cara. Enfim encontrava-se esgotado o estoque.
A visita sorria e nada mais havendo para dizer, disseram o “até outro dia”, os
da Cidade em bons modos falaram “muito prazer” o prazer fosse talvez chamar os
filhos, funcionar aquela máquina bela e cara, um mundão de notas e cifrões,
quem sabe uma vida toda fazendo tijolos pra ter ditas notas para comprar uma,
pensavam os oleiros, eles todos reunidos ao bota-fora, vendo os parentes na
despedidas, a mulher esquelética do Nego chorava sentimentos, ele sorria sem
graça olhando suplicante ao Zé, o Zé nada mais tinha para falar. A visita ligou
o veículo, e já andando o auto novinho em folha com uns esfolões do dirigir urbano,
aí brecou de repente; o visitante segurando a direção virou a cabeça para trás na
janela: depois eu volto e vamos pescar. O Zé se riu todo e abanou feliz, nem
ouvia o menorzinho gritando-lhe esclarecimento sobre automóveis, não ouvindo ou
por sabedoria cansada. Abanou outra vez mas apenas havia poeirão na estrada.
Cap. 13° – O Zé Oleiro Vai à
Cidade
Agora passou um pouco, só um pouco. A
Maria pegou no pé, falou falou; e vai lá que tendo sua razão, vê onde a gente
não percebe. Você não vai tratar esse dente, homem! ia falava que ia não ia,
quase não ia mais tentar o piau. Parecendo de propósito: doía no finzinho da
produção. Eram dez carrinhos? eram dez; eram quinze, eram quinze carriolas de
barro: ao fim começava aquela dorzinha enjoada e chata; mês assim, mais de mês,
muito mais. A comadre da Maria enviou uma garrafada, nadinha. Losna poejo e não
sei o que mais, chá chá de coisas amassadas, simpatia... A dor prosseguindo o
inferno do seu inferno. Dava manhãzinho também; de noite após discussão com a
esposa. Madrugada. Levantou certa madrugada foi para a cozinha, tentou ele mesmo
fazer um chá, oi a Maria já atrás dele, preocupada, olhando seu homem. Não
passava. Vivia agora de cara torta, inchadona de lado, pano amarrado. Até que
não deu. Espera Seu Darci, Zé. Não podia esperar mais, o dentista apareceria só
mês que vem, vinha num jipe pulador, trazendo a parafernália, tinha um
motorzinho (ele com um terror daquilo) o Seu Darci bombeava os pedais que nem a
máquina de costura da Maria, o troço girava a broca furava os dentões dos
roceiros. Acontece que não dava para esperar, não aguentava a dor! A mulher
pegou ele de calças curtas: “Zé! ocê tá chorando” aí ela chorou também por
causa do choro dele, ficou prostrada até, assustando os meninos. O Zé: qual
nada, uma dorzinha no dente, só isso, e foi para o rancho, o costume sendo ela
ir na frente com o lampião, ele atrás e o Peri feito cachorrinho mais atrás mas
ele realmente cão. Trabalhou para esquecer, a dor não se esquecia, e a mulher
perguntando com os olhos e ele respondia machudo: “você tá é marcando o tijolo
com a tabuinha!” ela sorria contrafeita... E no almoço não podia mastigar
direito, isso era direito! Não tinha mais gosto. O Toninho aparecia xeretar
falar as bobagens dele, não tinham assunto o papo acabava. Se irritava
frequente com os filhos, até a petitica, era vidrado na caçula da família, nem
ela lhe agradava embora falando errado gozado pra ele. Aí a Maria prometeu: na
outra viagem do caminhão você vai para a cidade e cura o seu dente! Respondeu
sim pra dizer não com o silêncio; e teve sorte, o veículo se quebrou não veio
não foi, feliz por se livrar do cirurgião. Pôs fumo, água de fumo que dizem é
bom, uma pomada preta que o Pipeiro usou um dia na pereba; jogou umas aguinhas
benzidas pelo padre. Qual! A diaba daquela dor devia ter medo do dentista
também, ou do caminhão – passou desinchou um pouco naquele dia. Noutro voltou
sorridente a azucrinar o Zé! “Nós não temos dinheiro” falou à Maria, como
procurar dentista, só se fosse no Patrimônio (ela corrigiu: Vila, teimosa) mas
a farmácia era boa sim e o boticário nada entendia, não vou. Vai. Vai sim,
homem de Deus; vai amanhã mesmo para a cidade, aviso hoje o Pedro para não pôr
barro em nossa banca na madrugada. Dinheiro? a gente arranja para o ônibus.
Ficou na estrada, ganhou poeira, a condução passou atrasada e nem viu o Zé na
beira do caminho, olhou lá diante a jardineira sumia no meio do poeirame! Ficou
contente, agora diminuiu um pouco a dor e eu volto pra casa: falo que o ônibus
não parou à Maria. Aí parou. Um carro velho ofereceu carona, foi, desajeitado.
Chegou à frente da residência do patrão. Bateu palmas. Depois esperou indócil a
volta dele dos negócios. Chorou as mágoas, recebeu um dinheirinho “adiantado”
foi procurar o consultório do Doutor. Hora, mais de hora, foi atendido, entrou
tremendo, examinado, furaram limparam gritou feito menino. Teve de tomar injeção
na farmácia, seu outro terror de estimação era a agulha, dava uma coisa lá
dentro. Enfim passou bem a dor, embora ficasse com dor da dor da hora do
motorzinho, esse sim zunia de lhe dar medo. Quando enfraqueceu o latejo se
aventurou passear, embora meio amortecido na bochecha. Foi ver a pracinha, viu
foi as garotas embonecadas, uma gostosura. Depois andou por aí no sol quente o
Doutor havendo proibido sol e exercício. Parou numa sorveteria, o dentista não
fala sempre que quando arranca e sangra o dente é bom sorvete e gelo! Não era
bem o caso mas não raciocinou assim. Tomou metade dum sorvete de coco e
chocolate (sentiu sabor de cravo e remédio) e foi fazer hora para o ônibus das
cinco da tarde, que partiu mais tarde quinze minutos. Chegou na porteira da
fazenda, tomou a estradinha da olaria e se entregou todo inteiro à curiosidade
da Maria, narrou tim-tim por tim-tim, só não mencionou as belas que gulosou na
praça. Ah, disse à esposa, o Doutor recomendou não trabalhar amanhã... Ela
concordou: bem, tadinho de você, não poderá ir pescar... O Zé se deitou mais cedo,
fazendo cara de doentinho. A casa ficou silenciosa.
Cap.14° – O Caminhãozinho
Um dia a mulher não falou nada. Viu
sim mas nadinha disse. Ele pegou uma colher de sopa, abriu a tampa da panelona,
aquela de ferro, preta, suja de anos, pelo carvão da fumaça, a Maria não
aguentava mais lixá-la com pedaço de tijolo, passava pano molhado, molhado com
sabão e areia, no esfrega-esfrega não limpava não saía mais o pretume. O Zé nem
vê a sujeira do pretume, não vê sujeira em nada, ela fala sempre “esse homem é
porco”; agora toma a colher, levanta a tampa, tira uma porção de doce de abóbora
com coco, tem lá uns pedações na meleca do doce que são uma gostosura e tem
cravo aí tem de tirar de lado no prato quando no prato a fim de não ficar lembrando
o dente o dentista e parecendo perninha de barata... quando o prato é de sopa
precisa separar outras preturas como alho queimado, agora é doce de abóbora com
pedaços de coco, o Zé tira uma porção, aspira o hálito do cravo que sobe, faz
assim com a cabeça, toca direto na boca a massa, olha para ver se a Maria não
olha, mergulha de novo a colher usada no doce e mais uma e mais outra vez;
empurra atrás dos trens de cozinha a colher suja limpa por sua língua; e sai
mastigando. Ela viu? viu. Viu também que deixou aberta a panela, a tampa encavalada
na borda da panela escorrendo melequinha e gotículas de água na chapa, caindo
fazendo plif-plif subindo um vapor pelo contato do doce e o ferro mais quente
da chapa naquele fogão mal limpado pela Joana crianças não tem jeito mesmo!
Viu. Deveria falar: anda tratando das moscas e das baratas!? Não disse, o que
prova não ser tão intolerante como a oposição comenta no clube macho. Foi para
a cozinha e tampou ela mesma a panela, desamiga das baratas, e botou a colher
suja numa caneca com água, a Joana lavaria depois. Depois, bem depois chegou o
caminhão. O ajudante vem pedir um cafezinho à Maria. Quebrou o carro? (Maneira
engraçada de perguntar por que atrasou tanto chegar o veículo). Disse que sim,
arrumaram quebrou de novo e agora o Patrão estava limpando o carburador e as
velas. Velas? não sabia precisar velas... Não, retificou o Baiano, é vela de
ferro com louça branca, não sabendo para que servia a vela. O caminhão traz
lenha leva tijolo. Às vezes a gente da olaria vai fazer compra na cidade, se
livrando da exploração do João Vendeiro, que esfola bem os matutos. Quando tem
várias viagens no dia sempre alguém trepa na carroceria. Então ajuda-se a
descarregar a carga, bate perna compra isso e aquilo e volta na última viagem
para a olaria. Por vezes o Patrão traz pequenas encomendas como remédio e
sempre o pão de padeiro, agora em crise por causa da II Guerra andam pondo fubá
e mandioca no pão o pão ficando pesado. O Zé se arruma depressa na sua lerdeza.
Toma banho no bacião, coisa chata por não ser sábado; e por ser na bacia
prefere o córrego e até a bica. Vai derramando água no quarto e a Maria fica
por conta com ele. E o beleza, diz, nem se dá ao trabalho de jogar pela janela
a água suja de sujeira e sabão. O menorzinho outro dia fez xixi no banho e
levou umas lambadas. Não, o Zé não faz, faz no penico, mas o sem-vergonha não
joga o urinol, depois ela atira aquele fedor no baixadão, todas casas fazem
assim. Se arruma se abonita, gravata não põe, não vai tirar retrato nem ver as
mulheres... será mesmo? Mordisca lá um ciúme, ela não quer pensar nisso, e que
os outros das outras não têm vergonha na cara está fora de dúvida. Ele se arruma bem para rever o dentista
aproveitando os tijolos que vão indo para a cidade crescer. Foi outra luta, uma
batalha, não: uma guerra convencê-lo voltar ao dentista, “se não está doendo!” Caiu
a massinha ou ele a engoliu decerto com pão e linguiça ou peixe; e o buraco incomoda,
fica toda hora pondo a ponta da língua pesquisando o vão; e entra água fria
entra água quente, doce de abóbora os coquinhos lá dentrão, ui! sopa arroz
feijão mandioca, até vento inventa entrar na cavidade; ele não reclama de medo
dela reclamar porém faz careta, a qual é já uma linguagem inteligível.
Convencido ao sacrifício, está pronto. Todavia só aparece no pátio quando vê a carga
quase completa na carroceria. Chega, brinca com o Baiano suado e só para com as
intimidades quando vem vindo o Patrão. Funciona, rateia, falha, acelera,
afirma, engrena e partem, o Zé em cima da carga como um rei, faz tchau aos meninos
e responde lá nas lonjuras “trago sim”. Depois volta com o embrulho de doce à
prole curiosa. Alegre, o dente fechado lacrado, novamente virgem às dores, dor?
Virgem! Mas o carro enguiçou mais uma vez no caminho de ida, atrasou um pouco,
parou e sarou. No fim tudo dá certo, dizem. O Chevrolezinho não era belo e
‘bebia’ um bocado, reclamava o dono. Agora, na mata um verdadeiro gigante, de
fato sendo do tipo Gigante, parecia trator, ninguém o segurava, ninguém conseguindo
pará-lo, em não ser a vela velha e o carburador novo estragado. Uma tantada
assim de lenha retorcida de campo onde se cata gabiroba. Chega na olaria, despeja
a carga medonha no pátio do forno mais perto das bocas, o forno engole tudinho,
mastiga e solta fumaça. Depois? Bem depois fazem a desenforna, o Zé não
apreciando nada nada trabalhar com carrinho tirando tijolo às vezes quente do
forno e fazendo pilhas de duzentos e cinquenta tijolos, cento e vinte ao lado
de cento e vinte e uma bandeira ligando as duas partes, a bandeira com dez tijolos;
muitas pilhas, muito trabalho e pouco ganho, ganha mais se tirar da água um
dourado, um piau que seja. Não gosta. Às vezes os homens fazem a desenforna
diretamente no caminhão, quando a cidade é faminta e a construção civil se
ativa. Todos ganham, o Zé não gosta mas com a Maria faz mais tijolos, sua
dívida junto ao Patrão diminui bem. O caminhão cheira a ferro quente gasolina e
óleo, este sempre pingando por baixo melando a areia e o radiador parece que
mija água (depois o motor ferve, param, trocam ou remontam água que se leva num
corote pequeno; como aquela porcaria tem sede!) cheira também a borracha dos
pneus carecas sob ação do sol. Um dia ajudou a trocar pelo sobressalente um
pneu furado, furado não, estourado, pareceu-lhe tiro de canhão; aí se lembrou
queria ser militar. Começou a pensar na família quando ele um moleque igual ao
Paulinho, seu mais novo. Desce da carroceria, vai correndo mostrar o velho
dente novo de novo, dar o embrulho aos meninos. Feliz. Se achando ao menos alegre,
um pobretão de olaria pobre desconhece o vocábulo felicidade.
Cap. 15° – A Criança Oleira
Tudo começou no momento em que o Zé
mandou o mais velho, o Júlio, ir procurar o isqueiro, seu precioso ‘binga’,
supostamente perdido no barreiro. O garoto chamou os amiguinhos para ajudar na
procura do tesouro paterno, não acharam tesouro algum, se é haverem procurado
direito, e se desviaram um pouco do trajeto, criança tem sempre a atenção
voltada para suas preciosidades, um bambu uma rolinha a borboleta a lebre. E se
esqueceram do principal, que era não haver encontrado o principal. Se embrenharam
nos brejos e capoeiras, foram dar numa pegada diferente da dos animais domésticos,
o Peri foi igualmente ajudar na empresa, a empresa da liberdade. A meninada
oleira tem todo o mundo para correr e mais ainda a sonhar. Trabalha sim, faz
capa na cobertura do forno, trata da gambeta, às vezes como os filhos do Pedro
carregam a carriola com barro na pipa para o genitor levar ao fundo do rancho
nas bancas, além de servicinhos que presta a criançada na limpeza: regar o
terreno do rancho, esparramar areia para secar e demais miudezas. Contudo sobram
horas e horas para a brincadeira, a qual também se exercita em pleno trabalho,
este nunca demais sério a moleque; brinca de várias formas: pesca no córrego de
varinha e com peneira, nada na água verde da lagoa (a mãe proíbe, vai assim
mesmo engolir água contaminada) cria mil coisinhas de barro e tudo o que a
criança doutros lugares e de todos tempos tem para se divertir ou esquecer as
coisas chatas dos adultos. E existem as árvores para se lembrar macaco. Naturalmente
não se costuma dar ao oleirinho objetos sofisticados e muito menos os elétricos
da cidade, nem sua família tem possibilidade bastante, caso possa saber um dia
de tais brinquedos. Sobram o correr gritar brincar, de cabra-cega por exemplo.
Tem uma brincadeira interessante, mais aos menos grandinhos: o tambor. Trata-se
dum recipiente usado na época da Grande Guerra para transporte de combustível;
na olaria serve a manter úmidos cabos de pá a fôrma de tijolos as pazinhas e o
arco de cortar o barro na fôrma; ficam na água para não estragar, preparados ao
uso imediato; é um bem de todos trabalhadores. Bem. Os pequenos vivem dependurados
no dito tambor: vasculham, atiram pedras e areia e também barro sujando a água;
remexem gritam; ninguém pode com eles, os adultos ocupados no trabalho! Ao
fundo do tambor ficam detritos tantos que vez por outra os oleiros grandes, com
ralhação e resmungo, têm de tombar a vasilha e retirar a massa suja. Aí põem
água limpa, fazem recomendações, os meninos se olham; loguinho estão fazendo um
fuá no líquido, sujeitos a apanhar e apanham frequente, ainda assim se esquecem
das recomendações, pois criança é muito esquecida... Agora os pirralhos estão
por aí espalhados, o Júlio na frente, nisto puxando ao pai que o avô dizia ser
o capeta feito gente; a turma desembesta por toda parte, aos latidos do Peri. O
que vamos fazer! lamenta a Maria. A Maria culpa ao Zé, o Zé à Maria. Procuram,
dão recados, a noite avança, descobrem que o Peri também não está. Ela chora,
reza, promete ao oratório, olha o Júlio naquela fotografia instantânea que tiraram
na Vila, os irmãozinhos desconhecem o paradeiro, os grandes saem à caça, toda
olaria alvoroçada na busca dos garotos, gritam, chamam, só o eco responde e de
má vontade... Depois, bem depois, um lampião consegue descobrir um estilingue
no trilho. Vão ao monjolo, se perdem para achar na mata baixa mas intrincada,
nada concreto! O Zé anda feito bobo, a consciência aperta um pouco, corre ao
barreiro no escurão e volta mais agoniado, procura no forno no rancho e na bica
de água, vai ver o poço no rio onde ceva seus peixes com espiga de milho
roubada numa roça e nadinha de meninos; os outros pais estão também perdidos
atrás deles. O Zé olha para todos escuros, volta choroso, tristonho. E encontra
o garoto Júlio narrando à Maria em casa suas bravatas, comendo esganadamente a
janta fria da chapa no fogão apagado. Nada fala o Zé, um nó na garganta, dá sim
vontade bater, dá vontade beijar. Vai tomar o último gole de café da noite e se
deita, pouco depois encontraria o isqueiro debaixo do leito. Quando a Maria vem
para a cama do casal ele não está roncando, tem os olhos arregalados e parece
que apanhou de alguém. Da vida. Apanhou da vida.
Cap. 16° – Amigos de Infortúnio
A olaria amanheceu tristonha. Já
andava apreensiva, a doença é um aviso fúnebre; embora a enfermidade possa
ficar uma temporada boa afastada, nem sempre a saúde impera nesse meio; porque
a olaria é insalubre com seu barro e sua umidade constante, as madrugadas dos
trabalhadores, os vapores deletérios na operação com o forno; e mil e um acidentes
e imprevistos no trato com tijolos. Mas a febre é algo sintomático ou da
decomposição do ser humano ou do agravamento interno da pessoa. E a gente pobre
apela às beberagens, chás; reza-se. Ela não dispõe de recursos para médico e
hospitalização, às vezes lhe resta a botica na Vila, mais ou menos longe do
serviço. A olaria apreensiva com o estado da doentinha de um dos pipeiros, o
Nego. A mais nova ativa e brincalhona da família contraiu não se sabe o que nem
onde nem como alguma moléstia, a febre veio, entristeceu os membros da casa e
finalmente nesta madrugada os enlutou! Estão compungidos, o moral um tanto pra
baixo. A olaria participa do sofrimento. Algumas mulheres choram outras
lamentam, os homens comentam baixinho, as crianças ouvem e se espantam. Trazem
flores, alguém foi à Vila buscar o caixãozinho com uma fita dourada nele; tratar
dos papéis; parece que o encarregado tendo sido o Luís, essa vez não bebeu. No
entanto é ele quem fornece a cachaça para o velório do anjinho. Puseram a menina
defunta na mesa emprestada do Zé, o Nego está ruim de vida, a sua é de caixote
de sabão comprado não aguentaria sequer o caixão vazio; a cada mudança que faz
o pobre sujeito, tem cada vez menos trens de cozinha e móveis, só filhos trouxe
bastante para a olaria, vindo doutra igualmente pequena e pobre. A mesa no
centro da sala de terra batida varrida após respingos de água para não levantar
poeira, especialmente varrida para a cerimônia simples de velório; tem as
cadeiras em volta, a maior parte cedidas pelos vizinhos, mesmo as desmunhecadas
da casa da Maria estão a serviço para a gente se sentar. As flores vêm em
profusão, figuram mais dálias lírios e sobretudo rosas, somente as dálias estão
viçosas, o restante é minguado como os oleiros. Servem café, não se sabe de
onde vem tanto café, doce de arder a garganta, fraquinho de pó até se podendo
ver o fundo das xícaras e dos copos, eles bastante usados alguns trincados; e
tem uns bolinhos pequenos e grandes mas um bocado duros e azedos a Maria
pensando acertando terem vindo do fogão da Assunta, ninguém reclama, todos
querem conformar a mãe inconsolável, olham apiedados ao pai, mais ainda aos
seus mulatinhos, uma escada humana descalça e franzina parecendo o cadáver
pequeno na mesa. A aguardente cheira bem, o Luís é o primeiro a servir e mais a
se servir. Conversam. Coisas de oleiros: produção, goteira, enforna, falta de
dinheiro e aqui têm muito a dizer. A olaria parou, os pipeiros, um é o pai da
morta, eles já haviam soltado os burros conforme a doente piorava. Avisaram o patrão
na cidade, ele não vem hoje mas virá amanhã para o enterro. Passam a noite
assim; as crianças inventam brincadeiras, ninguém pode com elas; os adultos, um
que outro conta piadas no terreiro enganando a noite, porém a maior parte anda
compungida e não abusa. Fala-se baixo. Logo os meninos cedem e dormem, uns nos
colos maternos outros nos cantos ou são levados para suas casas. No fim da
noite que é o começo do dia, anunciado primeiro pelos galos e depois pelos
irreverentes passarinhos, aí já tem pouco mais que meia dúzia de pessoas
duronas, o Zé encontra-se perto da Maria fazendo de conta não ter sono e ronca
um pouco no ombro dela. Começa a faina, sem o trabalho lá embaixo na olaria
propriamente dita. O Zé acorda dizendo não haver dormido a Maria olha sem
responder, ele dá uma escapada lá em casa, sendo a mesma onde estão porque são
três casas com paredes ao meio. Chega à cozinha abrindo a porta que o vento faz
bater sem parar pela tramela frouxa, não existindo fechadura e chave porque,
ladrão houvesse, de casa pobre gatuno só leva susto, dizem, e porque os moradores
não têm tais preocupações; abre a porta meio esburacada, entra na sua cozinha
da Maria e come feijão arroz e uns restos de mistura, restos igualmente das
baratas famintas, faminto. Volta ao posto, havendo encostado de leve sem bater
a porta a fim de não acordar os meninos antes do tempo; volta ao lugar como bom
cristão. Narra à mulher como estão os filhos no quartinho deles, ela exausta
pelo velório parece um pouco também cadáver, e se falam manso. Oito horas já,
esperam o caminhão, que só chegará mesmo às nove e trinta e cinco, aí eles temendo
que o cadarverzinho possa cheirar um pouco mal; surgindo causos em que se
contam de enterros passados, Dona Maria, não a Maria, ela fala de um certo
morto no Norte levado desmanchando numa rede, um fedor de não se aguentar. Põem
algodão naquele ser cor de cera em seus orifícios nasais na boca na orelhinha
dela, mas, tadinha, cheira assim mesmo e levanta uma onda nauseabunda de ovo
choco estourado, cheiro enjoativo para estômagos vazios e fracos, as crianças
despertam indagando por que fedendo e é necessário responder baixo no ouvido
delas. Fecham o caixão. É um choro desesperado sobretudo da genitora que
acompanhara de perto aquele sofrer; e embora todos afirmem o descanso delinha,
as mulheres falam que a garota foi anjo para o céu – não convencem a dor materna,
a pobre mãe desmaia, é socorrida, algumas senhoras também choram e uns poucos homens
vão esconder suas fraquezas longe do público. Levam o esquife ao caminhão encostado
ali perto, pequeno mas enorme para tão pouco defunto, a carroceria fica
gigantesca mesmo. A meninada transporta as flores e uma coroa também de flores
até ao carro. Partem para o cemitério da Vila, pobre como a Vila, e antes
passam o corpo a ser benzido na igreja, mais capela que igreja, não tendo sequer
padre porque não era domingo e restou aos mais piedosos abençoar os restos
humanos do anjinho; um responsável benze sim porém não deixa abrir o caixão,
embora da mesma forma exale o cheiro como se a madeira não estivesse bem vedada.
Aí vai para a última morada aquela pobrinha criatura. O carro, choferado pelo
Patrão, leva a gente de volta; amanhã é retomar a produção, foram dois dias naquele
sofrer. Os acompanhantes não oleiros se despedem na entrada da fazenda e os
outros descem da carroceria no pátio do forno; as mulheres com certa
dificuldade, enganchando o vestido nas ferpas do veículo; as crianças algumas
chorando outras ajudadas pelos grandes descem, a maioria já gritando seus
brinquedos, animada. O pai da morta iria retomar a pipa e trabalhar uma semana;
depois daria no pé.
Cap. 17° – Conta & Fuga
Aconteceu o que, demais, ocorre entre
os seres huma-nos: o acerto de contas; entre os oleiros também acontece. O
acerto da economia simples – o deve-haver, o soma-deduz-divide-multiplica,
aspecto que na pobreza nacional é estado de calamidade pública por causa do
vai-um. Além do mais figura dando importância à coisa o velho costume do ‘levar
vantagem em tudo’, o qual virou lei; todo mundo sabe e pensa que tal costume
seja bem brasileiro e é mesmo, porém de manifestação por todo planeta. Ah e
existe nesse contexto o expediente mui usado e inclusive surrado de tanto uso que
é o uso da discussão, esteja presente ou não a caninha... Assim. O centro das
ações é o Patrão, este na olaria não mais que um sujeito pobre pensando
burguesmente, qual ilha carregada de dívidas por todos lados, mais ou menos
como um brasileiro comum tendo sua corda no pescoço, figura esta que dá bem a
visão das finanças na pequena burguesia. O Patrão avisou a turma para o acerto
dos números, em geral temos uma ideia muito vaga de haveres débitos e lucro,
muito lucro. Entra agora a ponta do lápis, que na olaria quebrava frequente,
uma ponta grossa calcada pela musculatura pesada de pegar tijolo sempre com
mais de quilo; façamos aqui uns parênteses a explicar: o tempo foi aperfeiçoando, dos tijolões que as paredes
centenárias guardam como peças de museu, enormes nos quilogramas de mais de
mil; chegou ao ponto do Zé na desenforna, roubada horinha do peixe, tomar dois
tijolos em cada mão por leves e pequenos grandes enormes para o menino mais
velho que admirava aqueles dedões compridos paternos e envaidecia bem a esposa.
Para depoizão ficar cada unidade tão pequena hoje que um garotinho levanta
brincando o tijolo. Ao lado dessa situação se mantinha ou crescia o preço; o
tijolo diminuía no peso e tamanho... Digamos a olaria se antecipava aos
fornecedores de supermercados atuais jogando com a embalagem a enganar o trouxa
que passa pelo caixa e, vamos lá, a moça é bonita! Espera lá: estamos
quilometrando demais estes parênteses, fugindo como quem foge da dívida que os
sobrantes honestos de hoje dizem sagrada. Voltemos à ponta do lápis quebrada.
Enfim se quebrava muito a ponta, ainda por cima o Zé tem lá o feio costume de
lamber a extremidade do lápis soletrando o vai-um na de vezes; pior, nervoso
porque a parcela não dando certo morde a outra extremidade também do lápis,
quebra o lápis! E o grafite sorri em liberdade, ele olha o seu público refletido
pelo lume da lamparina desconsoladamente, a Maria tendo medo de falar alto para
não atrapalhar sabedorias e o pequeno xeretando nas pernas do genitor, vez por
outra se esticando nas pontas dos pezinhos, o queixo encaixando na borda da
mesa a olhar granduras na sua curiosidade lá em cimão e vê uma brochura sebosa
e um pai deste tamanho na giganteza e assim treme o móvel – e aí não há
paciência que baste a tanta matemática! o Zé bate com a quina da mão (e dói pra
burro!) gritando raiva, treme até o cilindro fino do grafite que se
independentizou da madeira mascada com aquele dente que o Doutor consertou ao
Zé, o Zé dando bom mau exemplo à sua cria. Dessa forma vai noite a dentro,
quase meia lamparina de combustível, que o ladrãozinho da Venda registra num
preço que é uma barbaridade, sem chegar a conta a ser Caixa-2. Termina. Com um
sabor de não-conclusão mas isso importa pouco, a própria vida é inconclusão.
Vai para o quarto, no quartinho os filhos já não aguentaram faz tempo, a Maria,
até a Maria, abre a boca deste tamanho querendo comer o sono o sonho o mundo;
segue atrás do homem para seus respectivos buracos no colchão de palha, não
abre a boca, só de sono, silencia pressentindo o vulcão macho. O qual se deita
de cara fechada, só fala um fiadaputinha dos petiticos a fim de não ferir a
madrugada e logo ronca. Ela, a Maria, indaga-se: só por causa da conta! e
arresponde dormindo envolvida no cê-cê do companheiro. O galo canta, avisa,
liga outra vez seu despertador, o casal se levanta para o trabalho, ela diz a
ele que sonhou e conta o sonho a ele escutando em má vontade aquelas bobagens.
Ele não diz que sonhou e está sendo honesto, o ronco lhe espanta não o sono, o
sonho; e nunca se lembra do que sonhou, nessa noite seria pesadelo. Vai atrás
da Maria, atrás do lampião não, acordaram atrasado e os raios solares economizam
querosene, vai atrás mal humorado. Batem tijolos, rotinam. Lá na banca do
Toninho se resmunga mais, pelo mesmo motivo; apreensivos. A coisa ferve mesmo
entre os pipeiros; assim os burros apanham mais que de costume. O Pedro é
equilibrado nas finanças, deve menos. O Nego deve as calças e falta comida na
casa... Ora, o Patrão prometeu vir hoje acertar. A gente sempre pensa ter uma
bolada a receber mas o comum é se acrescer mais um débito ao débito do mês anterior,
no caso sempre dois ou três meses e assim embolando o negócio; a gente tira por
conta da conta no Vendeiro, este erra no vai-um com honestidade, acresce no
preço a descontar o prejuízo que o zé-ninguém lhe dá, ainda soma à soma a soma
dos juros, complicando a insaldabilidade. É puramente uma questão de simples
complexidade. É simples. Acabam o serviço, o Zé diz a si mesmo à Maria não pode
dizer: hoje não tem pesca. O Toninho dá uma risada sem graça nem graça tem
mesmo a sorrir, é o defensor do pai, o Luís sempre bêbado e quando não
embriagado ninguém confia na sua palavra e o filho é seu segurança, mesmo
porque é um letrado entre os melhores semialfabetizados da região, chega a ler
com vantagem oratória estorinhas no livro da escola de quando andava pela
escola, trêmulo até na voz reticente à família assombrada pela cultura e a
lamparina não reclama mas o lume vai vai vai se extinguindo e volta a iluminar
seu bigodinho incipiente em mostra de ‘adultez’ macha, dona Assunta raspa a
garganta pra escutar melhor o filho, ele agora sorri amarelo aguardando o
Patrão chamar sua vez que é a vez do pai. Contudo são chamados os volantes, só
dois adultos meio vagabundos e com pouco a receber; porque o restante nesse
serviço é a garotada que faz; depois o acerto é direto com os chefes familiais.
Passa logo a entrevista com os volantes dos serviços gerais. A agonia maior
fica por conta da conta do pipeiro Nego, o Pedro Pipeiro está seguro, não gasta
desnecessário e a família é pequena, ainda por cima a mulher feia dele faz seus
servicinhos às outras, lava roupa etc., e ganha um pouco, quase não recebe mas
ganha, que seja em espécie, ajudando bem o marido, que a língua da Assunta diz
ser marido sim duma comadre dela lá na Vila, a Chiquinha é amante. Não fala
isso à senhora, até lhe dá um pão, ela dizendo italianamente “pom”, azedo e duro;
além de ofertar o sorriso costumeiro. O Nego não – está mui aflito. Deixam-no
por último, é conta mais difícil a acertar, poderá quem sabe redundar num
“acerto de conta” que é a demissão sumária na roça. Pede ao Luís um traguinho,
o Nego fala ter certa dor de cabeça e aguardente sendo ótimo remédio. Entra um
sai outro e outro, chega-se às conclusões, empurra-se com a barriga o débito
para outro acerto posterior, à feição brasileira. E o pipeiro, o qual dá um
duro no picador atirando em meio à meleca a argila para cima da pipa a fim de
que a mesma moa e misture a matéria e vire barro para o Zé reclamar estar muito
mole e o Toninho também reclamar por muito duro; o pipeiro Nego entra na sala.
Trata-se da sala do Zé, escolhida como escritório precário, sendo a casa que
tem a mesa mais sólida e além do mais o café da Maria é bem gostoso, o Patrão
fala assim e ela fica cheiinha de vaidade. Os adultos não permanecem no cômodo,
só as vítimas patrão-empregado, e as crianças xeretam olhando o falar dos homens
(o Patrão nunca deixa entrar as mulheres, dão muito palpite na ‘hora da onça
beber água’, aí a Maria não apreciando o falar). Senta-se o Nego, nega ter
faltado terça, lembrou-se que era dia santo ou que a doentinha... a falecida
dele e chora constrangendo o Patrão, o qual perdoa e só não pode perdoar toda a
imensa dívida “você veio devendo, eu quitei lá na outra olaria e paguei a sua
mudança...” É, sim senhor (ele fala “sinsôr” e revira gozado o erre ao gosto
caipira mas o Patrão não percebe pois também caboclo de imigrância italiana).
Concorda no discorda concordando que é uma discordância não machucante. Somam,
dividem, deduzem bastante, quer dizer, o Chefe fala lê números numa escrita
tremida que sabe não saber erudita porém tendo muito senso matemático na
prática longínqua dos algarismos. Enfim nosso caboclo sabe que é e sabe que não
sabe dizer que é isto ou aquilo. No meio das contas, um nunca acabar, o Peri
ladra sem cansaço e descontrola qualquer escritório e suas finanças! Cala a
boca, dizem xingando a senhora cadela sua querida mamãe da qual quase não se
lembra. Ele sorri de cauda, para, um pouquinho, e re-toma, ladra parece que uma
galinha ou existe outro vira-lata no pedaço, o que dispara a conversa canina
por todas casas, o Patrãozinho reclamando como é que com tanta dívida os seus
oleiros sutentam a matilha! A vítima número dois concorda “sinsôr” e dá um
risinho de consolação. Acabam a conta, o da cidade toma o Chevrolet, o Baiano
ajuda, e os oleiros também, a empurrar na descida para funcionar no tranco, aí
se lembra que esqueceu de entregar embrulho de balas aos pequenos, deixa aquela
lata velha funcionando com o afogador puxado para não morrer, desce e joga os
doces aos meninos e assim a farra se consuma; adoram os petizes ao homenzinhão.
Vão-se embora. Os matutos ficam conversando, agora mais livres, sobre suas
coisas, para fugir do constrangimento. Mas o Nego se recolhe cedo, confabula
com os seus. Noutro dia acorda a olaria, desce
o Zé à banca, o Pedro Pipeiro informa que o Nego deu no pé, fugiu, só
deixou as baratas e muita sujeira, que os pobres não se acostumam limpar a casa
quando a deixam vazia. Aí os moleques vão xeretar os aproveitáveis, que à
brincadeira sempre tem serventia, em suma fazer o rescaldo e encontrar algum
possível butim daquela guerra dolorida.
Cap. 18° – O Ganho da Perda
O
Pedro Pipeiro andava atrapalhado; conscientizava-se estar ficando velho,
não pelos seus quarenta e poucos, não tinha bem ideia nem registro em não ser o
de batismo sem saber também quando fora batizado, portanto andava no escuro do
saber. Sabia por alto passar dos quarenta. Que indagasse à mulher. Bem, no
geral um homem comum tendo lá suas dúvidas concernentes à idade pergunta para
sua companheira, mulher sabe data, sabida pra danar, aniversário casamento e
outras minhoquinhas em que o macho tem dificuldade, “pergunte à sua mãe” diz ao
menino. Que indagasse à mulher; mas o Pedro não confiava nela, inclusive lhe
dando umas surras, dizia ao Zé, isso para mostrar falta de confiança. Então?
não sabia saber sabendo passar de quarenta. Embora um oleiro não esperasse
chegar a ser matusalém; no meio pobre às vezes com menos de quarenta anos já um
idoso. Não punha a coisa nestes termos, não. O problema estando no fato de o
carrinho lhe pesar, colocava sempre alguns pelotes a menos e lá dentro sentia
uma felicidade quando o Zé (este sempre colaborando mais pedindo menos, a Maria
olhava feio ao homem exigindo outro carro para sua bancada) quando o colega
dizia “chega por hoje, Pedro” e ele automaticamente a comentar “você é quem
sabe” sabendo quem devesse saber mesmo era a Maria; e se irritava quando o
fominha na banca do Luís pedia mais quatro carros ainda, ou mais, mais a mostrar
serviço ao Botinha. O fato era isso: estava cansado e cansando mais cedo.
Agora? piorou. Piorou sim, trabalha sozinho após a mudança às correrias na madrugada
do companheiro Nego, velho também mas ainda forte. Piorou. Agora pula no picador,
se emeleca bonito, joga com a pá grudenta a matéria lá em cima, grita os burros
e imediato pula pra cima a carregar o carrinho (se bem os meninos ajudem
carregar todavia criança não é para contar) e levá-lo gemendo lá nas bancas. E
quando estão os banqueiros iniciando o trabalho na extremidade do rancho! aí
tem a extensão do rancho inteirinho para andar, sem poder mostrar fraqueza,
dando uma vontadinha de parar no meio do caminho, descansar, o músculo do braço
querendo saltar a pele, estourar! Havendo um porém terrível: vez por outra ao
regar o chão os lançadores ou os meninos para o terreno afirmar exageram a água
e amolece o chão, a roda com o peso tamanho afundando... Costuma pôr umas
tábuas como lastro e vai equilibrando o carro o barro o escarro soltando...
anda cuspindo demais e a mulher fala “tá ruim dos pulmões!?” francamente, já
teme. Cansado. Velho? Pega agora mais cedo, larga mais tarde, a tropa atrelada
impaciente querendo se esticar presa às correias do arreamento à carroça e
secando ao solão. Ganha mais é verdade, mas parece que irá gastar o a-mais e
mais ainda com remédio. Madrugada: uma tosse de não parar, acordando as casas,
o cigarrão aceso quase sem parar; e ainda tosse mais por isso. Andava o Pedro
assim até desanimado pelo excesso e pela falta. Gente. É gente. Um dia veio a
esperança. Pedro, falou o Patrão funcionando o calhambeque daquele Chevrolet,
acho que arranjei outro pipeiro para trabalhar com você. Chegou a mudança três
dias após, meia carroceria com trens espalhados, um guarda-roupa rachado sem
espelho fazia tempo, mesa tosca, cadeiras, bacias amassadas, latinhas de flor,
cachorros só dois e muita, muita mesmo, criança, uma berrava no colo da senhora
mulata. A família do Tião, devia ele ser Sebastião de Jesus, ninguém curioso a
saber tanto. Tião. Magrinho. A ponto de o Pedro abalançar desesperançado: ih
aquele esqueleto de pele escura... E se enganou. Agora que o Zé estava no quarto pondo outra vez a ‘lancha’ a
Maria falava sempre a gozar seu pesão esparramado a tentar pôr meia e ela brigando
com o teimoso, com razão: a meia usada dura suja fedida enrolada um pouco no
cano “não vai trocar!” tinha o outro par limpo mas um pé furado, machucando o
dedão de furar meia, preferia a que fica de pé tanto ensebada, tanto entrar e
sair acostumada no sapato de ir à venda, sapato que é botina, por que diacho a
Maria vive esquecendo das coisas ou será que não marquei na lista de compras!
Então pensava no que o Pedro lhe falara tardinha, o Pedro não punha fé no “pipeirinho
novo”, magrela, sem graça, uma perda irreparável o Nego, que fugiu para não ter
de pagar a conta no lugar do Patrão que devia de pagar para ele; e aí o Nego
virando um Negão, um trabalhador de mão cheia, como um sujeito safado que se
torna santo quando morre. O Zé também não foi com a cara do novato, um
desengonçado. Isso, sem graça. Além do mais havia umas brigas no pedaço: cachorro?
os cachorros arrancaram naco do Peri; e o pior os meninos, a Joana reclamou ao
pai que os irmãos se mediam com os moleques do novo pipeiro. Mês depois se invertia
o julgamento. Aliás o julgamento humano é sempre precário. As famílias se
acomodaram, as mulheres se sorriram (quer dizer, se mordiam também) a meninada
à solta no pique-esconde e outras brincadeiras, o Zé morrendo de sono, a Maria
gritando os dela a voltar pra casa, o Zé: “ocêis vão dormi fora! vô fechá a
porta!” e esperava mais um pouco acabar a roda o corre-corre; mesmo porque
menino está sempre a começar o brinquedo quando o adulto chama “agora, lamenta,
agora que ia ser a minha vez...” O Tião era gente mansa, manso no falar, manso
no ouvir, isto que é o que mais agrada o ser humano, nobre burguês ou miserável,
enfim ter quem escute sem cobrança. Esta uma característica do Tião. Ele
conquistou o Zé pelo dourado. Contou-lhe o dourado a piapara e outros monstros
fisgados (esquecendo-se do lambari) falou na festa da garotada a retalhar os
peixes enormes... o homenzinho ouviu, sorriu com a cabeça preguiçoso de abrir a
boca. O Zé virou herói e respeitado, assim considerando o novato amigo para o
que desse e viesse. Os outros oleiros apreciaram o homem, sobretudo gostando
muito de suas orelhas. Cada qual demonstrou suas conquistas ao Tião, ele respondendo
sim de cabeça meio pixaim. Até o Luís, este o considerou um santo, pois ouviu o
repetir estórias sem reclamar e sem lhe virar as costas quando andava demais
chato. Mesmo o Baiano, ajudante do caminhão; o Chefe lhe dissera que o Tião ganhava
muito dinheiro, trabalhava e sempre tinha em haver, situação incomum numa
olaria; quitara a mudança que ele, Patrão, havia pago quando foi buscá-lo no
outro emprego. Enfim gente de bem. Só o café da nova família não dava para
engolir: em vez de pó de café e açúcar devia pôr decerto açúcar e folha de
batata. Isso não diminuía o trabalhador; inclusive trabalhando os filhos,
somente o de colo não operava (no entanto chorando muito a compensar) Dona Zefa
punha o chorão numa cesta, ralhava com ele, tapava sua boca com chupeta (um
pedaço de pano enrolando um torrão de açúcar cristal) e ficava livre para ela
também engambetar ou ajudar os filhos na enforna, eles mais derrubando tijolo
no chão que levando as unidades ao forno. E pior. Sempre tem um piorzinho a se
lembrar: a Maria se engraçou do chorão, às vezes largava o Zé na banca e corria
consolar o pequeno do Tião. Para a olaria, para os moradores de um modo geral,
não deixou ser um ganho a vinda dos novatos.
Cap. 19° – O Despertador
Tem um dizer no povo segundo o qual
não se deve confiar na memória alheia; e menos na capacidade doutrem comprar as
coisas para a gente. Assim pensava a Maria. Igualmente não fica bem reclamar
dos que nos favorecem. Não devia ter posto na cabeça do Zé ele mesmo comprar a
geringonça! Pensando melhor melhor confiar no galo, galo canta na hora da hora,
nunca haviam perdido hora. Depois repensou relembrou e se achou exagerada na conclusão.
Mas verdade: o galo continua não se enganando. Peça ao homem trazer um relógio,
falou ela para ele. E uma recomendação que fez: não seja um caro. De fato não
veio caro, se bem desconhecesse o preço na praça, ficou o negócio entre os homens
e o Zé de vez em quando não dava reposta a contento. Experimentou não reclamar
na quarta nem na quinta-feira sobre a pesca sagrada do Zé, a amolecer o esposo.
Mesmo assim o Zé não deu o serviço e nada lhe falou sobre; porém concluiu terem
pago pouco pelo relógio. Grandalhão, uma capotinha lumienta em cima para
trinar. O Zé experimentou reexperimentou, ela teve medo de mexer no maquinismo
quebrar o instrumento e ouvir o resto da vida o homem reclamando. Os meninos,
bem, criança a gente tem que mandar parar de fuçar, o pai tira a cinta e mostra
autoridade a fim largar de fazer o bicho esgoelar. Todo mundo experimentou a
coisa e funcionou direitinho. No dia seguinte só acordaram com o sol, confiando
no relógio, nem o galo conseguiu despertar o despertador para o despertador acordar
o casal, ela, ele não acordava sequer atirando água fria, precisando sempre
chamar três vezes, às vezes trazer o bule cheirando perto do nariz da criatura
e, aí sim, perguntava se o café estava pronto que ele havia acordado fazia
tempão, ela voltando à cozinha para não ouvi-lo mentir. Ninguém. Nem os meninos
acordaram, ou apenas mais tarde como era costume deles... Inclusive os pipeiros,
diz a Maria, devem ter posto bem uns dez carros a mais para você! Aí se
assustou e gritou a esposa para irem mais depressa e terá pensado lá dentro
“outro dia sem ir ver a ceva!” Foi um dia atrapalhado, quando começa torto não
desentorta! tudo deu errado por causa da porcaria, a porcaria do despertador.
O patrão quis saber ainda tomando
cafezinho da Maria se o relógio era bom. Respondeu “uma beleza” sem concordar
consigo mesma. De noite discutiram o relógio, discutiram o mais baixo que
requer um segredo, pois numa casa com parede ao meio não existem segredos; o pessoal
do Luís ouvia o rádio e o casal conversava sobre a infeliz compra. O Zé achando
que devessem jogar a coisa no rio; aí pensou na possibilidade espantar o
dourado e retificou: no rio não, no forno, jogo na boca em pleno fogo forte! O
Júlio se meteu com um argumento – pai me dá o relógio, deve ser bom para
brincar, desmonto... não acabou de falar, o Zé nem respondeu, olhou franzindo a
cara ao filho. A Joana não falava, ria; deveria estar achando engraçada a
comédia. Não estando a garota muito longe da verdade, pois a vida é comédia,
embora com momentos trágicos. Os menores também colaboravam desejando que o pai
desse corda outra vez para ouvirem o grito do despertador. Aí à Maria ocorreu o
seguinte: vai ver você não deu corda nele. É como feijão e arroz, sem comida o
troço não fala... Riram. Depois ela propôs ao marido ir à cidade ele mesmo e
trocar por outro. A pequenininha parecendo não estar sequer ouvindo a conversa
berrou não querer trocar de pai! Riram-se, se explicaram. Ficou de na
segunda-feira o Zé ir de ônibus trocar o monstrengo ou mesmo comprar outro. E o
dinheiro? Bem. Se ela costurasse para as outras famílias? se o Zé fosse toda
tarde após a banca enfornar ou desenfornar... O homem não concordou,
discordaram mais e puseram de volta o despertador na caixa, a Maria não
conseguiu reembrulhar como viera a compra. Optaram pelo galo e o sol uns dias.
Na segunda o Zé Oleiro foi trocar, aproveitando a penúltima viagem do tijolo,
tendo pedido pouco barro, fato que contrariou o patrão. Voltou com outro,
experimentaram mas foram dormir preocupados. Contudo às cinco horas tocou o
alarme, acordou toda a casa, os meninos correram a olhar de perto aquele herói
cheio de números e ponteiros. Os vizinhos também acordaram, os que não tinham
ido já ao trabalho; acordaram, o que é desvantagem numa casa geminada. Foi toda
uma terça-feira de conversa sobre a coisa. O Zé chegou a pensar levar o relógio
tagarela a cronometrar cada peixe que fisgasse. Nada comunicou à oposição.
Assim mesmo a Maria olhou desconfiada para seu lado; essa coisa de sexto
sentido e sensibilidade feminina que descontrola qualquer homem, o homem aqui
sendo o Zé; olhou e sorriu matreira deixando o esposo pensativo.
Cap. 20° – Baile na Roça
Foi antes. Não, depois. Eles não
chegam a acordo quando ocorreu, ela que antes, e mulher costuma ter melhor
memória, mais ainda em se tratando das coisas do amor... Ele omite passagens
nebulosas, assim mesmo quer ter razão e teimar, pois é bem teimoso, deseja
afiançar que foi depois, as crianças do Zé estão curiosas e interessadas,
inclusive a petitica que nada sabe e já quer ter direito a voto dizendo lá as bobaginhas
dela. “Foi depois porque eu peguei e fui ver sua prima...” Ela discorda, não
por ele ter ‘pegado’, é da linguagem popular e nem percebe a mulher o Zé
falando dessa maneira. Discorda pela prima, achando que ele se enganou. Ora,
importa que algo se tenha dado antes ou depois, se o que mais interessa é a conquista
dela por ele! Com isso a plateia ri e se entusiasma, pois é incomum papai e
mamãe contarem as coisas de namoro. Ficam encantados os meninos, a Joana, normalmente
não se metendo em conversa adulta e quase nem nas de criança, ela também
procura estimular os pais a falar deles antes deles, filhos, nascerem. E diz
numa voz macia: “e aí, pai...” “verdade, mãe?” Às vezes os grandes apenas respondem
rindo espicaçando a curiosidade ou cruzando olhares que os meninos acompanham
arregalados. Eles unem as pontas, interpretam à sua moda trechos e fatos,
supõem algum ‘talvez’ significativo e de aparência enigmático e chegam a certas
afirmativas quase montando o quebra-cabeça da história. O Zé se ri, gaiato, a
contar como ‘engambelou’ a futura sogra e de que maneira se sujou todo com medo
a falar ao avô das crianças pedindo sua mãe. Havia proposto até fugir com a
moça, não é mesmo Maria? Ela quem sabe desejasse que seu homem a tratasse por
“meu bem” mas essas frescurinhas são tratamentos que não se vê na roça, já se
acostumou com o estilo do Zé. Porém eu não aceitei, responde. Seu pai (disse
olhando o Júlio) me parecia um sujeito maluco, trabalhava na olaria e nós não
tínhamos confiança em homem que não tivesse lavoura garantida, ninguém queria
entre nós, não é Zé? Fez com a cabeça que sim, concordando com o não, que era
tal e qual. Naturalmente eles não usando esta linguagem e mais fugindo ao
coloquialismo, propensos ao “nóis-vai” e coisa parecida, porque a concordância
nunca concorda demais no campo (e, para horror dos puristas, o uso igualmente
na cidade). Continuam. Você me queria, não é? A Maria responde, puxa! se
insistisse mais uma vez eu fugia com você... O público bate palminhas. Conta,
mãe, conta como foi... insiste a garota mais velha. Conto. Ele vai dizendo se
foi ou não. Eu continuo a achar que foi antes, diz a mulher olhando maliciosa o
marido, ele apenas raspa a garganta meio atrapalhado. Eu já havia encontrado o
Zé. Aí aconteceu o baile na fazenda, todas moças foram. Os rapazes também, eu
tinha um irmão briguento... outro dia falo sobre ele; havia no salão inclusive
gente de fora, até da cidade. O seu pai mesmo era considerado de fora para nós,
ele foi com um amigo da olaria dele... O Chico – bicou o Zé e ameaçou falar
sobre o Chico e uns negócios lá da olaria em que moravam, fugindo um pouco do
assunto, os meninos estrilam, desejam o baile, conta mãe! Está bem. Daí a
sanfona, o sanfoneiro barrigudo, você lembra Zé? Lembro, era o Zé Mulato e
tinha um cavaquinho um violão e um pandeiro. Isso mesmo Zé, o magricela tocava
cavaco e tinha dois violeiros, era um ou eram dois... Dois, mulher, aquele Zé
do Fundão e um baixinho não me lembro o nome dele... Certo, dois. Era quase
meia-noite, nós já de saída, meu pai não queria permanecer, eu havia dançado
com três rapazes, só então seu pai teve coragem me tirar. É... fala o Zé, a
meninada ri gostoso. Nós, continua a Maria, nós dançamos duas modas, esse bobo
me pisava no pé, ficava vermelho, eu queria rir dele e aí estragava tudo porque
fugiria de mim... eu gostava dele... Aí o pai veio falar que ia embora (e
assoprou baixinho na minha orelha: “esse não presta”) então foi que teimei e
prometi ao Zé namoro às escondidas. Casaram? Bedelhou o Júlio. Casamos, filho,
só bem depois, o Zé teria ainda muitos meses de correr assustado pelo velho meu
pai... não é mesmo Zé? É sim, mulher, mas eu era valente. A Maria nada comenta,
apenas cai na gargalhada. Os meninos pedem esclarecimento e ela: naquela noite
do baile ele mostrou foi muita valentia... Ué, se defende o marido, acha que eu
deveria entrar na briga dos outros e tomar uma facada no bucho! Verdade
meninos, seu pai fez bem ao fugir do rebuliço. Baile na roça, fim de baile é
sempre isso: tiro garrafada facada, por ciúme geralmente (teve de explicar
‘ciúme’ aos garotos). Tem sempre os bêbados e... deixa pra lá, não é Zé? Meneia
sim o homem. Continua a mulher: enfim briga feia, furaram até a sanfona. O
fazendeiro inclusive proibiu baile em suas terras. Agora, que foi gozado seu
pai fugir... me largou sozinha e correu! É... diz o Zé. Ela pisca a ele e
completa – entretanto eu gostava de você e começamos firme no namoro. Porém
este homem ficou mais de mês para ter coragem a me pedir ao meu pai... Era
muito corajoso o Zé! Agora vocês vão para a cama, a lamparina está quase seca,
não é Zé? Contudo os meninos querem saber como foi como não foi, só a pequena
dormindo no colo da Maria. Ela conta do padre da festa da bebedeira de seu
noivo, encurta alguma coisa: precisariam bater tijolo no outro dia. Não insistam,
vão dormir, amanhã conto como foi loguinho que nós fizemos o casório. Ah, Joana,
não esqueça pôr o urinol; amanhã cedo deixa o colchão desta porcariazinha no
sol, porque está cheirando muito xixi. Foi depositar a caçula na cama, os
garotos já de volta lá de fora onde tinham ido fazer as necessidades, o menor
não ia sozinho mesmo que fosse noite enluarada. A bênção, pai; bênção, mãe,
disseram, mas dizem nesse estrato da sociedade
“bença”.
Cap. 21° – Primeiros Tempos
Oleiros
Agora a Joana não sabe o que fazer.
Uma situação nova para ela que está faz tão pouco tempo no mundo. O leite derramou;
ferveu primeiro cresceu subindo até a borda da panelona, escorreu e... bem, a
criaturinha só percebe no momento em que fazia tcháf na chapa e, mais ainda,
escorria pelo fogo ora apagando o fogo ora ele, o fogo, fritando ferindo olfato
cheirando toda casa e as duas casas ao lado pelo teto aberto a fumaceira, o
cheiro de leite queimado se intrometendo nas outras intimidades da vizinhança.
Um desastre! ela não sendo capaz de abarcar toda extensão do desastre mas era
sim um desastre; ela primeiro gritou e depois chorou a novidade, tadinha! Os
vizinhos se espantaram antes com o cheiro depois com a fumaça e a seguir com o
grito agudo da Joana e assim todo mundo acorreu, todos ao mesmo tempo acudir. E
não era nada, sendo o bastante. Tão só o leite derramado. Então sobra não fazer
mais coisa alguma porque agora é tudo fazer: limpar, colher o resto que ainda
permanece na panela, limpar de novo, abrir a janela meio solta e fica duro
abrir foi difícil fechar por andar engripada, a Maria já nem fala mais não adianta
falar ao Zé consertar que irá dizer como quem diz me dá uma caneca de água (só
bebe naquela e os meninos vivem levando o utensílio a brincar de terra lá fora
e às vezes trazem sujeira para dentro também, não a Joana não, é responsável uma
verdadeira doninha de casa, agora esqueceu a panela derramou o leite da panela)
ele fala “depois conserto” com naturalidade e tudo o mais, com o Zé não tem jeito! Ainda aqui, nesta
história trágica do leite derramado, o Zé, sempre ele! tem lá a sua culpa nesse
cartório doméstico, pois a filha mais velha estava justamente rememorando o
contar do heroísmo paterno, com certa poesia embutida no meio, na conquista da
Maria, donzela mui linda, de família roceira e não querendo ferir sua linhagem
nobre porque o rapaz não era roceiro, aliás mais tarde irá tentar uma
plantaçãozinha de milho, ele falava “mío”, e não deu certo, não porque apenas
desconhecia lavoura, sendo oleiro, mas porque em olaria os burros ficam de
noite e no domingo dia todo circulando por aí (donde se deduz: o burro oleiro
goza em relação aos outros burros doutras atividades inteira liberdade; verdade
que passa no varal se enrosca na roupa e a Maria xinga a mãe dele e o animal
não liga para isso vai pastar noutras plagas; feliz; feliz a gente não pondo o
peso da carroça sangramentos e pancadas, pois oleiro é pródigo no bater) os
burros circulam indo xeretar na porta da casa oleira, às vezes pisam a flor da
Maria e ela xinga as criações sem olhar vendo estar os meninos perto a lhes ensinar
como ofender e xinga também educadamente “desgraçados!” o Zé é mais boca suja e
aí sim, ela precisa lembrá-lo ter filhas e ser necessário respeitar ‘menina
mulher’; neste ponto a Maria ficando com pena do esposo por crise de consciência
e dando uma risadinha que é mais lamento que rir. Pisam sim a flor e de
repente, mas devagar, na noite de lua cheia os burros comeram o milho
embonecado do Zé (ele já pensava levar espiga na ceva do rio e aí diminuindo o
perigo da visita à lavoura dos roceiros perto... a Maria pensando no curau para
as crianças e pamonha que ela mais gosta e então os burros...) Rememorava a
Joana como foi, ‘talvezando’ decerto o como não foi também, enfim como foi que
papai casou-se com mamãe, o vovô tadinho deu aquilo nele e morreu daí ficou mês
no hospital na cidade, infelizmente ela, Joana, só pôde ver o defunto na mesa
em casa e a vovó chorava muito porque o velho não poderia mais bater nela
porque todo mundo falava que ele era um machão. Tadinho do vô, ele não queria
deixar e depois, a mãe que falou isso: ela chorou chorou bastante porque gostava
do pai, do pai dela, Joana, e o pai dela, dela Maria, acabou cedendo. Então se
encontravam na sala, todo sábado o oleiro ia fazer a corte à roceira, a velha
de olho por ordem do velho, no entanto, disse mamãe, ela fechava um pouco o
olho a benefício dela, Joana, que tinha muita pressa em vir para o mundo e aí
derramou. Limpa agora a chapa quente, o pano molhado e ensaboado frita e seca
rápido precisa molhar de novo e vai ficando finalmente limpinho a mamãe vai
reclamar do mesmo jeito. Põe outras achas a renovar a lenha, sopra e sopra,
cansa, torna a assoprar; agora limpa a cinza que se espalhou por todo lado, põe
o feijão, ainda bem escolhera os grãos ontem, lava de novo, coloca no caldeirão
para cozinhar, se fosse o feijão e não o leite queimado ah não quer nem pensar!
Olha o caldeirão outra vez e faz o resto do trabalho doméstico. Começa a
descascar a mandioca, ainda precisa ver os ovos no ninho, outro dia mandou o
pequeno recolher os ninhos e ele não deixou nem o indez no local e a galinha
preta ficou feito boba não sabendo onde pôr; pior, trouxe ovo choco, não quer
nem pensar nessa hipótese, melhor ela mesma ir coletar, não se pode confiar em
criança, pensa não se pensando criança também a mais velha da prole. Corre
volta olha o caldeirão se tem água suficiente, daí senta-se, a facona na
mãozinha vai limpando a mandioca, apoia na borda da cadeira a raiz, pressiona
secciona em pedaços miúdos o alimento,
tira a casca com risco de se cortar, só uma vez aquele talho o sangue a
gritaria, agora está grande, pensa-se grande e não chora mais; e assim volta a
lembrar o idílio dos genitores, conforme lhes contaram numa das noites anteriores,
a pequenina não aguentou dormiu logo. Prometeram narrar o que aconteceu após a
festa de casamento. Somente não cumpriram: o dia foi pesado, o Zé se foi na
boca da noite pescar, voltou tarde e a Maria ficou enfunada, não deu. Nessas
horas a Joana, a doninha da casa, cheia de lembranças desagradáveis em situação
semelhante à volta do pai com uns lambaris no embornal, ela não quis relembrar
a promessa deles, calou-se, foi ajeitar os trens de cozinha a fim de não dar
lugar à reclamação materna.
Cap. 22° – Ainda os Primeiros
Tempos
Foi semana se desentendendo no
entendimento. Na família? dentro da família; mas parece que a bruxa andava às
soltas, a crise atingia bem toda olaria. O Patrão, nervoso, xinga os empregados
por causa do Baiano; o Zé xinga não se sabe por que razão a Maria, ela à Joana,
a Joana ao Júlio, o menino não xinga, chuta o Peri, o cão não vê sequer um gato
a dar de cima. O mês, aquela semana se desentendendo. Ora a Maria ora o Zé,
mais o Zé, teimoso, ela falava que era teimoso igual mula velha. Intriga da
oposição? talvez. Enfim não tinha ambiente para conversa amena familial; os
meninos iam loguinho para a cama, porque as brincadeiras costumam cansar
demais, logo dormiam, o Júlio com uma razão a mais que os manos: o Zé cumpriu a
ameaça e pôs o filho na gambeta, ele fugindo mais que os outros moleques já
entrosados no trabalho, ia ver a arapuca e um dia pegou sim um nhambu; e não queria
deixar a Maria fazer nhambu frito na frigideira e chorou vendo as penas que o
Peri cheirava e o vento espalhando no terreiro. Agora já voltava do serviço
como gente grande e não passando de um pirralho, pois não puxara a altura do
Zé; cansado mesmo; pra roncar como o pai? não conseguia, não obstante já
querendo fazer cigarro de palha igual ao Zé, o Zé dando-lhe uma tunda das boas
por desejar ter vício, onde já se viu! e aí tinha a anuência da Maria. Certa
terça-feira, de noite, houve ambiente favorável em casa, desandaram a falar, os
pequenos felizes a ouvir estórias entremeio histórias, a história da família,
suas origens. A sua Mãe (a Maria olhou sério para ver se concordaria ou se
puxava a orelha do esposo) ela era roceira. E analfabeta. Ela fez que sim. O
pai dela, seu avô, era bom sujeito porém menina-mulher para ele só na cozinha e
na enxada, apenas deu estudo para os seus tios, que eram umas porcarias (a
Maria preparou defesa no preparo do bote masculino) eles trabalhavam sim mas
muito mais que trabalhar safadeavam, quem pegava mesmo no duro eram as meninas,
a sua mãe era a melhor (a Maria sorriu honestamente). Por isso o velho não
queria que eu levasse ela para minha olaria... Neste ponto os esposos disseram
pouco desdisseram muito e os filhos temeram e ficaram na expectativa, a pequena
se aninhou na mãe, descontraindo o ambiente meio tenso e carregado. A Maria: de
fato, meu pai prendia muito nós mulheres e soltava demais os meninos. Aí teimei
e casei com seu pai – fomos para uma olaria menor que esta. O Zé: um pouco mais
pequena mas ganhei foi muito dinheiro lá; só que eu cortava tijolo e lançava
(dizia “lanciava”) tudo sozinho, quinze, um dia foram vinte carrinhos de barro
(ela olhou para ele:) bem, vinte só uma vez, deixei dormir o barro para o outro
dia, teimei bater tijolo com ajuda dum lampião até noitona e ainda larguei dois
carros para depois, depois dormi demais perdi a hora... nesse tempo a Maria não
me acordava porque era solteiro! (Riram). Aí veio ela. Nós compramos as coisas
(relacionaram as tralhas de cozinha, a cama-patente, nhec-nhec fazia, a mesa) e
escutem só, crianças: o primeiro café a sua mãe coou num pano de prato porque a
gente se esqueceu de comprar coador! Eu falei para essa aí: “ai que café gostoso!”
e a boba... A Maria: é sim eu acreditei que estivesse bom,
o cachorrão... (riram a valer, a pequenininha acordou assustada). O Zé: então
nós começamos a cortar tijolo, eu ensinei a mãe de vocês, ela era da roça nunca
tinha visto uma fôrma de tijolo, passei a produzir mais, muito mais e... A Maria
cortou a palavra do homem: e sobrou mais tempo para pescaria, não é? É. É sim,
Maria. Mas foi bom esse tempo, não foi? Foi, respondeu a mulher, acarinhou a
nenê, dormindinho outra vez, os outros andavam curiosos e encantados por
aqueles contares, o pai retomou a palavra, primeiro buscando na ideia que fugia
do miolo. Ela, disse, lançava e encostava o bucho cada vez maior na banca, um
barrigão assim, você Joana! (Todos olharam a Joana, a mais feliz criatura do
planeta naquele instante, porque a felicidade existe sim mas na forma de instantes
fugazes de felicidade). Que bobo... sorriu-lhe a Maria. O Zé raspou a garganta
outra vez, toda vez embaraçado raspava, raspou: quase a menina nasceu no meio
do tijolo... A Maria completando o esposo: eu comecei a sentir pontada, cada
vez mais e não sabia de coisa alguma. As mulheres me ajudaram, trouxeram a Dona
Joana, parecia mais uma bruxa a falecida Dona Joana, que Deus a tenha, a que fez
o parto, viu filha? Por isso escolhi esse seu nome. A Joana não falou nada, molhou
os olhos um pouquinho. Aí a conversa voltou aos parentes da Maria, falaram sobre
os mortos, a falecida o falecido essas coisas; e a noitona iniciou a abocanhar
a familinha do Zé, deu-lhe sono ronco sonho e descanso.
Cap. 23° – A família na Cidade
Não dava para todo mundo ir. Não, não
dava, fizeram as contas, os pequenos não pagam, mas a Joana eles querem cobrar.
Seria capaz de exigir passagem do Paulinho. Ida e volta, as comprinhas miúdas e
haviam as guloseimas, iriam deixar menino sem doce! Daí lembraram o Chevrolet,
falaram com o patrão, ele não se mostrou grato com a perda por causa da banca
parada, porém sendo dia santo (aí decerto pôs na cabeça: que diabo, tem santo
todos dias, só ver o calendário da Igreja... não iria convencê-los nem discutir
com devotos; fez concordância de cabeça) enfim pelo dia santo a pipa não iria
virar mesmo e tinha a fazer duas viagens de tijolos. Eles foram à cidade com o
Patrão e voltaram no outro dia de ônibus. A Maria na cabina com o Chefe levando
a traquina de quase colo; o Zé e os outros em cima dos tijolos na carroceria.
Cuidado menino, rosnou, o tijolo morde sua bunda, quando tem curva morde a
carne da gente ao mexer pra lá pra cá. Era uma festa aos petizes o passeio, trepados
lá na carga. O vento, a poeira dos tijolos nos olhinhos, ai, mas apreciaram
bastante. Desceram, foram ver a irmã da Maria e combinar dormir lá no dia
santo, os parentes não precisam cerimônia, chegam se aboletam conversam
conversam, falam coisas que precisam dizer e mais fofocam desnecessariamente,
as crianças brigam, um inferno; na periferia o caboclo se sente em casa, pois é
como na roça, é uma roça dentro da cidade, nas bordas da ci-dade; assim não se
distanciam muito do lar. Além do mais o trabalho parente continua na roça, o
lavrador residindo no meio urbano, muita coisa próxima para falar. No entanto
existe o drama da noite, o parente chegante se ajeita como pode no chão, mesmo
com a chanha dos meninos num nhe-nhe-nhem inacabável, a pequenininha não
desgrudava da Maria temendo perdê-la a gente nunca sabe o que passa numa cabeça
infantil. Durante o dia foram à igreja, a Maria lá dentro ajoelhada (o Zé
imaginando como aguenta, ele não suportava machucando o osso querendo furar pra
fora) se ajoelha com os pequenos, eles imitando desajeitadamente a mãe; o Zé lá
fora no pátio fumando adoidado a olhar as coisas e, à noite, a custo acompanhou
a procissão porém não quis segurar vela. Andaram o período todo, cansaram bem,
tinha os sobrinhos junto com a família para mostrar as grandiosidades citadinas.
Viram o trem, os meninos ficaram boquiabertos, acumularam coisas pra contar
como vantagem depois na olaria. A pequetita se agarrando com medo daquele bicho
fumaçante e ainda mais quando apitou. Depois foram ver o circo, parque de diversão
não havia, porém os bichos maravilharam toda gente, muito mais ao Júlio e o Zé
se enamorou do elefante, nunca havia encontrado nenhum. Deu até vontade gastar
dinheiro na entrada, entretanto a Maria controlava o esbanjo, não permitiria e
além do mais começava tarde da noite e não tinha matinê, o qual se dava não de
manhã mas de tarde, nos domingos. Havia mais uma questão: o horário do circo
coincidindo com o da procissão. Disse não a Maria; o Zé não discutiu, prometeu
às crianças a diversão noutra viagem. Depois da romaria pela grande cidade, que
era pequena e não chegava a média sendo enorme aos matutos, mais aos
capiauzinhos, cansados e abrindo a boca de sono, após os ofícios religiosos,
somente aí tiveram tempo a matracar melhor as coisas parentes, com o que os
meninos não concordaram e dormiram uns até sentados enroscados nas mães. Os
grandes, a cunhada do Zé era pequena e o marido não ficava mais que palmo mais
alto, eles passaram a prosear; o Zé falou da banca, um pouquinho do piau mas
olhou a Maria e sossegou o pito; os outros contaram da lavoura, do caminhão que
os levava ao eito, das pessoas e dos acontecimentos urbanos que sabiam sem
participar e que dão argumentos de bravata e engrandecimento deixando arregalados
os oleiros. Após tanto conversar foram para a cama, os de fora aos colchões
surrados no solo, a Maria preocupada que a menininha pudesse mijar nas coisas
dos outros e mesmo nela direto, porque criança adora envergonhar; então
dormiram. Acordaram cedo, doendo o esqueleto para todo lado como se queixou à
Maria o Zé. E por cima nesse por baixo tiveram de ficar esperando os da casa se
levantar, gente de cidade não tem muita pressa... havendo um drama novo: como
tapar a boca dos meninos, destramelados, falando alto os outros dormindo! Um
modesto tabefe e pronto, pronto não: mais choradeira. A pequena, reclamando sua
mamadeira com leite da cabrita; como convencê-la não terem trazido sua ‘vaca’
de estimação?! Subiram no ônibus, desceram na porteira da olaria na hora do almoço,
que é hora que não tem hora. Chegaram na casa, ainda bem Dona Assunta houvesse
dado milho às criações e soltado um pouco a cabrita para pastar, embora a diaba
tenha passado o beiço numas plantinhas da Maria, sendo tiro e queda: as plantas
iriam morrer porque língua caprina seca tudo! Todavia estavam contentes, os
meninos felizes em reencontrar os brinquedos, seus tesouros largados na olaria
por um longo feriado.
Cap. 24° – Conversa Afiada
Todas reunidas. Quase. Pois a novata
Zeza não levava a tanto a intimidade; podendo que estivesse com certa vontadinha
de participar naquele conclave cheio de mistério e... não, era até desabrido; apesar disso, a Zeza não
se encontrava presente. Os pequenos rodeando as mães, a molecada não: fazia por
aí sua disputa. A Maria contava da cidade com animação, ‘cortava’ um pouco os
seus parentes, as esquisitices de quem tem lá o rei na barriga, não poupando a
irmã, mesmo porque tinham suas diferenças, gostava mais da falecida e gente
morta costuma virar santa quando deixou ter suas falhas terrenas, gostava sim
desde quando ainda viviam na fazenda na última casa da colônia, ai que
saudades! Agora fala da briga entre os primos, defende as razões do Júlio, mais
ou menos o queridinho da mamãe em casa contra o desafeto do Júlio o Paulinho,
defende o menino diante os encrenqueiros primos da cidade; a Joana assunta.
Assunta, Dona Assunta, assunta também mas resmungando; Joana olha vez para a
mãe defendendo o irmão arteiro na opinião nunca exposta por ela, vez para
Assunta. As mulheres contam seus ais. Eu nunca apanhei do Zé! nunca me pôs a
mão, é teimoso mas isso não fez, se envaidece a Maria. As outras, apenas a
Assunta não pode elogiar o Luís, pois quando moço tinha a mão pesada, só hoje
não batendo, mais provável o contrário, bebum enche o saco com suas repetições,
a Assunta larga o homem falando só e corre à banca do Toninho. As outras todas
já levaram suas surras; lembram a vizinha que se foi – o Negão ela pedia as
coisas, não tinha para dar dava pancada, só tendo dívida, descontando na
coitada. Nos filhos batia? Uma que sim outra vira com os olhos que a terra... A
mulher agora coitadinha, antes, na convivência, elas achavam justa a correção
masculina, o homem dava de cinta nela, marcava. Lembram a menina morta a se
santificarem na língua. Proseiam mais. Começam a dizer dos seus anseios – e
podem livremente falar, os machos estão por aí longe delas, o Zé pesca, o Luís
curte a caninha e dorme, os outros, um no campo de futebol na fazenda. Elas não
sabem que gosto mais tonto aquele de correr atrás de bola. E as brigas! lembra
a Maria. Outra conta do irmão lá não-se-sabe-onde quebrando a canela no campo.
É isso, diz a Assunta: futebol (ela fala gozado “futibola”) futebol não dá camisa
pra ninguém! Concordam. O meu, insiste a Maria, não tenho queixa, apenas essa
porcaria de pescar todo santo dia, me larga sozinha limpando a banca e já está
no rio o safado, assim mesmo é bom trabalhador, só que dorminhoco demais e
ronca que nem porco no mangueirão! Riram a valer. A propósito, comadre Zefa,
aquele porquinho... o meu do meio? responde perguntando a outra. Não, mulher, o
porco mesmo, não mando resto de comida a você para pôr na lavagem! Ah, sim,
comadre, ele anda estufado. O Chico disse que nós tardamos capar o bicho, agora
está gordão, olhinhos fechados até. Vão matar? Vamos sim, fala a comadre
enquanto as outras olham interessadas; não vamos esperar rachar as banhas, dá
dó não dá? Fizeram sim de cabeça, há uma delas que tem de sair de casa quando
vão matar porco, aquela gritaria medonha, dói no coração fala a pobre. A Maria:
nesse dia mando os meus ir pescar com o Zé, ficam todos assustados! a pequena
não entende ainda, permanece comigo. O assunto morreu, mesmo os assuntos morrem;
no entanto admite-se haver carne fresca próxima, o costume é mandar um pouco
para cada casa, a porção mais reforçada em oferta aos que oferecem restos para
o proprietário da criação pôr na lavagem. A Maria receberá a sua, fará na
panela, gritará os pequenos para ficarem longe na fritura do toicinho
espirrador a valer; comerão torresmo e a carne cheirosa do porco e ainda cortará
nuns pequenos pedaços uma parte bem passada e porá a guardar na geladeira deles,
que é a lata de gordura, em que as porções ficarão submersas e serão tiradas
nos dias subsequentes para recozinhar reassar e ingerir. Entretanto existe
igualmente o perigo pela dor de barriga e o intestino solto, temendo pelo abuso
dos seus. Aprendeu isso tudo com a falecida mãe na roça quando ainda moça e
apenas via o Zé de longe. Aprendeu também a conservar limão quando escasso por
não ser época, pondo a fruta enterrada na areia no chão, areia seca debaixo da
casa, quando a residência tem um porão, a desta olaria não tem. Conversam
ainda, mas eis que as criações se atracam, os galos daqui querem depenar o galo
da vizinha nova, os meninos a torcer na briga das aves, a atirar pedras nelas;
e a gente não pode deixar uma coisa dessas, pode?
Cap. 25° – O Radinho
A Maria resolveu martelar a paciência
do esposo. Não era, disse-lhe, de pedir coisas... E as “melecas”? lembrou para
não esquecer o Zé, aproveitando reclamar dela que não estava areando bem a
fôrma, por isso a grudar um pouco o tijolo... Ela escutou e fez não ter ouvido:
agora quero um rádio. Discutiram. Ele se descontrolou ficando trêmulo, quase
fez macacos, uns tijolos deformados em vez de belas unidades; que mulher
teimosa a Maria, pensou; pensou? deve ter falado mesmo que baixo, a julgar pela
expressão dela. A coisa andava assim: primeiro ouviam no radinho do Luís, o
Luís ouvia, o Toninho mudava de estação toda hora querendo outra dupla caipira
– os ouvintes eram obrigados a acompanhar sua programação radiofônica. E o som
subia pelo vão do telhado preto de picomã e fumaça das cozinhas que se
confraternizavam lá em cima, então as modas de viola passavam para o lado do
Zé, ele cantando baixinho arremedando desafinado as cordas ou a sanfona, com
muita categoria aliás, a gente do campo de orelha dura como o Zé tem por norma
desobedecer a norma e deturpar nomes e letras musicais, ele o fazia bem; e
todos escutavam, não apenas ele ouvindo o rádio vizinho. Ela, a Maria, já
pedindo um no tempo daquelas pilhonas de mil horas, que duravam bastante, quase
seiscentas horas, isso quando as pilhas custavam ainda mais caras que os próprios
aparelhos receptores; o Zé desdizendo o dito da Maria ou como intriga da oposição;
rádio? ninho de baratas, falando a mexer com a esposa: ah como esse bicho gosta
de fios e vãos! E aí a Maria fazendo cruz-credo! Depois começaram a vender radinhos
(outro dia mesmo ele viu o preço numa loja da cidade quando foi mostrar o dente
ao doutor: disse o nome da loja e ela esqueceu, ele piormente se esqueceu do preço,
sempre esquecia) aí começaram ofertar rádios pequenos com pilhinhas de japonês,
o Luís tinha desse tipo, os quais comem mais pilha que os meus peixes engolem
minhoca! falou o Zé pra Maria. Não dá. Dá, responde insistindo a mulher, dá, eu
engambeto, o Júlio ajuda você carregando o carrinho na enforna... Ele não
respondeu a afronta, pensando no prejuízo pesqueiro. Aí a situação complicou.
Complicou para os lados do Zé: a mulher viciou em novela, queria escutar lá com
Dona Assunta, o Luís é claro dormia e o primogênito fumava ouvindo suas modas,
coincidindo na hora do início da segunda novela. Posta a situação nestes termos
o Zé capitulou. Capitulou, levou afundando consigo um premiozinho – a Maria
prometeu não encher sua paciência impedindo a pescaria e mesmo se propôs a
procurar o anzol dourado que não se achava em nenhum lugar (não sendo difícil
ocorrer: a Vila, disse, e corrigiu Patrimônio a agradar o Zé, a Vila era tão pequena
que andava com aquelas pernas fortes todinho o lugarejo e, aí, não encontrava
mesmo, somente os azuis). Ah por que não compramos na cidade naquele dia que lá
fomos! Dia santo, lembrou a Maria, andava tudo fechado, apenas o circo funcionando
e que não funcionava. Foi bom ver os bichos, não foi? foi. Capitulou o homem,
subiu à carroceria na primeira viagem de tijolos e voltou na última viagem do
dia com o radinho para ela. E mais uma carga de pilhas como reserva para o
bucho do rádio. Parecia um cavalo novo, todos querendo dar uma voltinha; não
parou de tocar dia todo, na casa, na banca, na desenforna, na pesca ela não
deixou levar o aparelho; o Zé não desejava mesmo, “sua tonta: espantar meu
dourado!” vê se pode. Foi uma pausa, umas férias nas brigas do casal. Deixaram
um pouco de se desentender. Entenda-se, o desentender velho, costumeiro, pois a
disputa pelo direito a sintonizar trouxe melhores formas para se desentender.
3ª parte - o drama e a loucura no drama
Cap. 26° – Hora Para o Inesperado
Gente é um tipo de animal engraçado.
Nunca supõe que a dor possa visitá-lo. Mesmo nas horas dedicadas em ver a dor
dos outros, como por exemplo reunidos familiares e amigos, os do Zé a falarem
nos parentes, depois a falarem dos parentes; parecendo que a dor nos outros não
nos possa chegar. Ela vem de mansinho, manda lá seu recado pela febre, o
mal-estar; sequer os chás da roça e até o remédio que o boticário da cidade
intente enviar aos caboclos resolvem. Existem as panaceias conhecidas, as quais
se pretende que batam triturem e enterrem dona doença e todas suas coirmãs: sem
sucesso, que não o ilusório. E às vezes, cansada de tanto azucrinar essa dona
doença as famílias, ela entrega o objeto à morte para solução final; solução
que na verdade é dissolução... nem o final sendo realmente final, a admitir a
continuidade do espírito. Quanto à morte, ela não perdoa, como foi o caso da
garotinha do Nego, a qual tiveram de enterrar depressa. Um dia foi o dente do
Zé. Um dia é apenas forma de situar a dor, a qual é mais ação concreta, não se
pegando materialmente como o tijolo, este por aqueles tempos não andava de boa
qualidade, enfermo também ele; o patrão reclamava, a construção consumidora
havia já reclamado; um puxão de orelhas no Pedro Pipeiro, ele por sua vez
reclamando da veia de argila e coisa e tal. Mas além do susto no dentista havia
lá umas febrinhas das safadas, a febre decerto nada apreciando aqueles barros e
umidades das quais a pipa a banca e a gambeta andavam plenas. Os oleiros eram
fumantes, o Luís pitava de cachimbo tendo a devida boca torta de cachimbo, os
outros usando fumo de corda ou cigarro comprado com ótimos alcatrões. Havia portanto
agravantes. E mais, os homens na lida do forno: se queimavam se defumavam se envenenavam
nas bocas do dragão e subiam nas costas dele para se envenenarem melhor, para
ver o tijolo em brasa, coisa bonita de se ver. E dessa forma se fragilizando,
se candidatando a ser ótimos doentes. Além do mais pulava-se constante lá de
cima da capa, ou usando o expediente da escada feita a machado, pulava-se de lá
do alto, aspirando primeiro a quentura depois o vento frio pela mudança brusca
na temperatura! Ou mesmo faziam os trabalhadores fogo sob chuva. Ah não tinha
jeito. Ou se brincava com a saúde? Quanto ao Zé, tinha sua forma particular de
insalubridade: diário o barranco o brejo a água na canela para alcançar melhor
o remanso e fisgar um peixe, ao som de teimosos e desafinados pernilongos. Um
oleiro morrera anos atrás com maleita por esses abusos que a ignorância dizia
inevitáveis. Porém essas coisas apenas acontecem aos outros ou só figuram nos
causos, com ou sem assombrações. Ocorre entretanto agora que a enfermidade
ronde a família do Zé e da Maria. A febrezinha, a dor de cabeça, a batedeira
sem graça no coração, pontadas a esmo. Simpatias, beberagens, nada evitara
aquele caixãozinho de anjo... Temeram. Espremeram todas plantas de valor
medicinal na roça: carquejo poejo arruda etc. etc.. Um belo dia, esse foi belo
realmente, após pegar um por um na família pondo cada vítima pranchada na cama,
na sua vez o Zé apreciou bem por não trabalhar na banca e detestou por não
poder tentar o piau – um belo dia todos passaram, se passaram os germes, que
naturalmente não viam mas diziam por aí existir; assim embora enfraquecidos, amarelecidos,
pálidos, melhoraram; e noutro belo dia já se sentiam quase dispostos. Que
sentimento bom é a bonança! o sarar é como o renascer. A rotina desde então
rotinou. Contudo existia, diziam existir, no ar, o perigo o Zé não acreditando
muito e a Maria um pouco sim, tendo mais medo que realmente crença, sobretudo
por causa da prole e até chegou a chorar uma vez. Falavam haver chupança, que ela
dava doença; tinha lá muitíssimo percevejo, a criançada vivia se coçando, os
grandes também. Aí jogaram querosene, ela falava “criosena”, às vezes até
direto da lamparina, a Maria levantando um pouquinho o pavio e despejava nas
frestas das camas, ou com o pavio ainda pingando aquele fedor – lamecando o
estrado da cama, quando então aproveitava varrer o algodãozinho nos cantos formado
com poeira e detrito dos tecidos, acumulado por meses e anos. Aí os garotos
reclamando por causa do cheiro desinfetante na hora de dormir e às vezes rezar,
quando a Maria ali sargentando os filhos. Agora, com a chupança era mais fácil
– o Zé pegava uma mecha acesa e batizava a rachadura, os bichos saindo adoidados.
Será que dava mesmo doença aquilo tudo! O ser comum está sempre em dúvida, só
não duvida da mentira. Nesse ponto conturbado da vida do Zé Oleiro entra a dor.
Cap. 27° – Insônia
Estou longe em ser aquele doutros
tempos, pensa o Zé. Longe ser o garanhão que sempre fui. Não. Fala a si mesmo,
mesmo porque não podemos passar açúcar na boca da consciência, comprar sua
cumplicidade e conivência a troco de meia dúzia de palavras, palavras que
apesar de não ser ditas e, é claro, nem ouvidas, chocalham o edifício da
verdade. Verdade que faz lá seu esforço a forçá-la aceitar, tenta iludi-la tapeá-la
mas... a mente não mente, sabe. A Maria sabe disso, especialmente a Maria; os
vizinhos, a olaria toda sabe; bem, até as crianças descobriram a verdade: nunca
fui garanhão! Aquele episódio do baile, acabamos rindo, o Júlio mesmo o Júlio
que não é de riso fácil gargalhou. Fugi como um covardão. Ora, pera lá, teriam
me estripado cortado em pedacinhos e vendido no açougue da cidade, o açougueiro
do Patrimônio só vendia postas clandestinamente, inclusive poderia ser exposto
no balcão dele! E nesse caso meu Júlio a Joana os outros não teriam nascido.
Pô, que bobageira ando pensando. Pensando para não pensar. Não consigo é
dormir, dormindo não se pensa se pensando tão só a sonhar. Eu não sonho. Não,
não é bem isso, sonho: não me recordo o que vivi no sonho... vivi? onde? será
que existe céu como fala a Maria? mas agora estou seguramente no inferno! Ela
sim se lembra tudinho que vive e pensa dentro do sonho dela; não satisfeita, conta.
Conta pra mim. Agora não conta mais, enjoou de me contar e não ligo a mínima,
se desconcerta e aí conta para os outros, Dona Assunta adora ouvir a Maria
narrando. Eu não chego a me lembrar do meu, se é que tenho sonhado, ou será que
estou a viver um sonho; pior, um pesadelo! Ela agora ressona ao meu lado, um
cheirinho bom de fêmea que ela exala, respira qual anjo, será que anjo respira!
se ajeita no vão dela, está parecendo uma minhoca enrolada na cama, a palha cedeu
dando lugar ao seu corpo cansado descansando o dia de hoje no batente, ou é de
ontem! quantas horas serão, a porcaria do despertador arrebentou a corda,
preciso levar ao conserto e não tenho confiança no sujeito, falam por aí que
troca as peças até as da mãe dele se tiver mãe, põe peça usada cobra nova, e a
gente não entende, paga, cobra quanto quer; porém como levaria o relógio, se
não posso andar!!! Esta é minha terceira noite sem dormir, terceira com sabor
de eternidade. Agora ela se mexe, apenas vejo seu perfil, sua magreza, coitadinha,
exagera no trabalho faz por ela e por mim ao mesmo tempo, voltando arrasada
para nossa casa, deita dorme, não ronca como eu, não sei bem a história, ela
fala que ronco; nunca ouvi. Se a gente acorda de repente escuta o roncar, talvez
invente isso para me azucrinar, cantar de galo sobre mim... espere, o galo
cantou outra vez, pensava que cantasse só a avisar para acender o lampião e
correr ao rancho bater tijolo e não: canta noite inteira! será que não acorda
as marias dele... decerto elas acordam e dormem logo, pois se levantam
dispostas a cacarejar ao sol; e não acordaram com o ronco do seu galo? ara,
quanta porcaria eu penso só por estar acordado... ué que será isso. É na casa
do Luís ao lado de lá. Parou, deve ser a garotinha, acordou ninaram ela, ela
dormiu outra vez. Eu? fico aqui: estico encolho dobro as pernas, coço o pé,
será que está sarando? quando pequeno igual meu caçula mamãe falava que ao
coçar é porque iria sarar... coço a cabeça, reviro a cabeça no travesseiro pra
lá pra cá, experimento de bruços dói a perna a perna ficando quieta torcendo
que a mulher não se mexa ou balançará doendo mais! Reviro com cuidado
novamente, cruzo braços descruzo aperto fecho a mão o punho sem uso é claro não
irei socar ninguém, a quem socaria, à vida? Vida de cão... o Peri vem sempre me
cheirar xeretando no quarto abana o rabo, amigo; o Peri não latiu esta noite,
na outra não me deixou dormir, ladrando, tadinho dele sempre dócil não iria me
manter acordado só para me ver sofrendo, nem deve ser pelo latido, não peguei
foi no sono, tanto é verdade que não latiu hoje e estou... pera, hoje é ontem,
ontem será já hoje e assim por que não cucurucou o galo, ih parece que lembrei
o galo, agora bate asas para cantar e deve ser o carijó, sim deve ser ele, o do
vizinho novo, responde agora o meu, o meu é mais homem, homem não, mais macho,
macho e bonito, nestes tempos troca penas e está feio, não feioso talvez
inclusive horrendo quem sabe: as galinhas andam assim de gostando dele, ele faz
cocoricó parecendo não querer nada e as tolas vêm para ver se é minhoca ou bichinho
e aí ele... ai! não posso nem pensar alto e já dói!... Faz semanas que ando
nesta vidinha chata. Esta perna não melhora. Lateja sem parar, já tomei tudo
que podia, a comadre da Maria mandou o mais velho dela trazer para ela e ela me
dar uma garrafada com não sei o que verde e tem uns troços que param no fundo e
a Maria fala sempre “chocoalha Zé!” eu
faço movimento pra cima pra baixo o líquido se junta e o gosto... brrrr, que
horror, um sabor de... eu nunca comi cocô mas sei que é ruim. No final de contas
tomo assim mesmo, poderia despejar no penico e ela pensaria que eu houvesse
engolido aquilo, não é de meu feitio enganar a Maria (parece que vai acordar,
vou pensar mais baixo) não, engano: engulo a porcaria, no começo eu vomitava,
aí sim no urinol, no começo apenas eu vomitava no penico, realmente o lugar
onde deveria ter jogado a meleca fedida, fede enxofre, parece a fumaça do forno
no fogo forte, fumaça líquida, grossa, gosmenta, está certo que fecho os olhos
para não ver que não suporto, porém engulo agora comportadinho, até ando a
apreciar, falam que se acostuma inclusive com paulada, a água desce queima rasga
e depois me dá um gás medonho e então a Maria reclama se expilo perto dela, as
crianças riem e ela fala que eu seria ótimo professor para dizer que eu
deseduco os meninos, intriga da oposição.
Dói, continua a doer. Tomei as pastilhas que o Pedro tinha em casa anos
de velhas nem sabia para que o farmacêutico havia receitado e vendido, a gente
no desespero... tomei. Falam que tem um curandeiro na fazenda, a Maria disse
que me levará a camisa de dormir para ele benzer. Tomei um vidro amargoso que o
Luís ganhou dum amigo no boteco, todo mundo é amigo para ele, o Botinha me deu
bebi metade e me deu um destempero, tadinha da Joana precisando ir jogar o
penico toda hora no baixadão, quase morri, estou vivo; a Maria agora mudou de
posição; eu mudo. Mudo pra lá volto pra cá, tem a palha macia mas alguém ao
encher o colchão com palha rasgada deixou ponta na ponta, como cabeça, tem umas
três assim. Estão machucando, entra entre as costelas, me dá coceira primeiro e
depois dói, machuca mesmo, só não sentia quando trabalhava... Faz semanas estou
nisto. E passo sempre umas pomadas, todo mundo me traz unguento para me brilhar
o pé, às vezes desincha porém a dor faz é tempão... Tudo começou na pesca. Eu
não queria falar a ela – e aí ouvir recriminações dela – se falasse haver ferido
o pé tentando salvar a vara a linha o anzol que o dourado... e poderia bem ser
maior que dourado, então pisei em falso no fundo d’água e havia tirado a
alpargata para não molhar a lona dela e aí torci, sei lá, feri na planta do pé,
a lancha como fala minha Maria – se acaso falasse a verdade ela subiria o morro.
Pensei dizer depois que chegasse de mansinho à noite aqui na casa e todos estariam
conversando, talvez os meninos já no segundo sono e a Maria apagando suas
brasas no fogão, eu entrando com ‘pé de veludo’ e me deitando na cama: “ai
Maria, que foi Zé ela responderia me vendo doente, ai Maria, caí de cima da
banca!” e ela condoída... não, isso não colaria: o que eu estaria fazendo em
cima da bancada que tem três pés e quase nenhum equilíbrio e então cairia sim e
antes a banca é quem cairia! Não podendo acreditar pois ela não é boba a
engolir uma estória dessas. “Ai Maria,” eu então falaria dessa forma, ai: eu
estava pisando o barro ressecado com o pano molhado e enrosquei o pé esquerdo no
remendo que você fez quando o tecido não era trapo e servia a vestir o seu
corpo, ah como ficava bem o vestido de bolinhas em você! Ela me olharia vaidosa
de um lado condoída doutro e diria pra mim: e então?! eu: enrosquei o esquerdo
e ia caindo fui apoiar com o pé direito e aí!... aí eu gritaria a dar mais dor
à minha dor como relevância, mostraria o pé ferido e... Bem, acho sensatamente
que não creria. Sou um fracassado na arte da mentira! não dou para a coisa. Cheguei
puxando a perna, um pé só, pulando como saci, me apoiei no batente da sala e
falei... não, pensando bem não falei nada, doía pra danar e andava já inchado o
pé, no rio mesmo a precatinha não entrava mais no pé gordo, calcei apenas o pé
esquerdo e a outra eu nem sei, devo ter perdido no barranco no monjolo ou no
trilho, já estava mesmo furada no dedão quase saindo a unha pra fora e fedendo
bastante, ia jogar fora era só comprar outra no João Vendeiro, aquele ladrão.
Me encostei ao batente da porta, suando frio e, bem sejamos francos, chorava!
Não falei foi coisa alguma, a Maria gritou apavorada mas imediatamente me amparou,
quase me levou no colo, como é que mulher tem tanta força e parece fraquinha!
me ajeitou nesta cama, os meninos já por volta, a pequena berrava não sabendo o
que ocorria na casa, o Luís veio, tão bebum quase me caiu por cima, o Toninho o
resto da oleirama me dando apoio ou só porque gente é um bicho mais curioso que
macaco – xi não desejo alembrar: começou meu martírio. A Maria... ela agora acordou.
Senta-se na beirada da palha, limpa os olhos, olha assustada a realidade que
vê, parece triste, tem à sua frente, ao lado, meu pé inchado deste tamanho,
apalpa se tem febre. Eu fico constrangido, ela se mostra preocupada; o galo
aponta pra lá, é o nascer do sol.
Cap. 28° – Pesadelo da Insônia
Agora me doem as nádegas. Não aprecio
injeção, até nem sei por que inventaram agulha. Quando posso desvio do caminho
da farmácia, tem gente que adora lugares macabros – para mim farmácia tem
parentesco estreito com hospital e cemitério, ah e também igreja com suas velas
e incensos deploro. Fujo. Não deu agora, não pude evitar; não podendo ir à
cidade para eles me furarem gostoso, me mandaram um furador de estimação, coisa
da Maria. O rapaz parecendo mais doente que eu, pálido e palito nos cambitinhos
dele; chegou no ônibus que passa às treze e voltou (dei graças a Deus) no das
dezessete. Chegou, abriu a maleta, não, o estojo de latinha comprida, tirou as
coisas, mediu no vidro cilíndrico, olhou contra o sol o nível, e já ia me
furando o braço rindo, sim rindo o sádico. Eu falei – rapaz, você não vai furar
o meu osso de jeito nenhum! Mas... disse o sujeitinho e eu: fecha a janela,
fecha a porta, que no caso de nosso quarto é apenas um saco de estopa escuro
que a Maria pôs como cortina e para não se ver a gente desde lá da sala, porque
o que tem de visita para mim agora!... fecha a porta, eu disse, e gritei a
Joana: filha não me deixa nenhum capiau entrar na casa agora que o moço vai me
curar; ainda olhei temeroso o teto, vai que um moleque safado me vê nu olhando
da outra casa para cá, essas porcarias de casas com parede ao meio, nunca mais
morarei numa, já avisei a família, na próxima olaria arranjo uma só nossa e isolada.
E promessa é dívida. Ele? fechou sim a janela e reclamou ficar escuro e por
isso podendo errar a agulha! Me assustei mais e aí respondi, olhando o tamanho
da baita, não erra, puxa o saco da porta e adverti a menina outra vez e disse:
rapazinho, você não me fura o braço, poderia atingir o osso, eu tenho um
esqueleto forte nos braços, então me quebra essa droga de agulha lá dentro (o
bicho se assustou, decerto não havia pensado nessa possibilidade horrível).
Não, sentenciei: injeção só na bunda, lugar gordo e de muita carne, parte certa
da gente bater no filho da gente quando faz artes que moleque nem o capeta
pode, a minha nestes dias anda magrinha, mesmo assim é nela essa operação
torturante. Imediato já abaixei as calças, o calção na verdade porque só vivo
de cama e não preciso me enfeitar com calças camisa sapato, o sapato que é
minha botina acho não poderei pôr tão cedo, o pesão estufado como sapo, doendo
adoidado. Aí me furou, eu na hora imaginei estar pegando o piau que sempre me
foge, somente para não pensar que o garotão ia me entranhar a agulha. Que santa
mão! nem vi a picada. Agora, o remédio, não sabendo eu se remédio mesmo ou
veneno – doeu pra burro! ardeu, abriu lá dentrão as entranhas, rasgou qual faca
e continuou a doer, embora o rapaz tenha mostrado depois a seringa vazia e a
maldita agulhona. Continuou seu trabalho. Mas eu não chorei, que sou macho!
Guardou os apetrechos, disse que iria depois na farmácia ferver as coisas para
mais tarde espetar outro freguês, eu já ficando com pena do novo freguês. A
conta? por conta da Maria. Eu fiquei sim por conta, não pela conta, pela dor.
Dia todo doendo, mais que a dor no pé direito, mais, agora doem ainda as
nádegas ofendidas. E prometeram repetir
a operação na outra semana, não sei quando...
Enquanto isso, não durmo. Acho até que não terei nunca mais sono. Sono
tenho; digo melhor – nunca mais dormirei. Ficarei aqui curtindo este pesadelo
que virou minha vida! Não sei não. Talvez tenha ainda mais preocupação pela
esposa. A pobre Maria sofre muito com o meu sofrer, sofre com os filhos, sofre
com o futuro, chora; sofre demais com o serviço. No rancho agora ela é o homem. A infeliz tem de ela mesma cortar tijolo e é
franzina de corpo! faz a minha vez batendo o tijolo, pisando o barro, fazendo o
pastão, enchendo a fôrma num gemer, outro dia escapuli pro rancho antes de
piorar o pé e vi com meus próprios olhos o sacrifício dela! imediato vira
lançadora que é seu serviço que eu ensinei quando estava barriguda da Joana,
trabalho que ela executa com perfeição e amor, eu é quem pegava no pé dela:
Maria você está machucando o tijolo mole, Maria a carreira de tijolos está
ficando torta e assim você vai sair lá na pipa com isso! Maria, a bandeira está
feia; Maria rastela com rodo, o chão anda esburacado; Maria me traz mais perto
o café... Tadinha ela só resmungava e fazia. Agora é banqueira e lançadora ao
mesmo tempo. E tem mais: no começo eram macacos e produzia pouco, o barro dormia
no rancho ressecando para outro dia; mas hoje é uma belezinha de tijolo, obra
de arte inclusive, o patrão que fala assim. E faz quase tanto tijolo como quando
em dupla comigo! que diaba de mulher. Dá vontade até beijar abraçar a Maria,
com perigo da gente fazer mais um oleirinho chorão... No entanto a coisa anda
braba, não dá para dar arroz e abobrinha a tanto menino. Se vier outro garoto
será uma catástrofe. Bem, que esperar com esta dor me comendo, com o cansaço
dela que já chega quase dormindo de volta (sem ter ido pescar como eu fazia...)
a pobre às vezes dorme por cima do prato da janta que a Joana fez, nem grita
mais com a filha... É assim, por isso não terá criança nova no meio da gente
mijando no nosso colchão e sobrando para a Joana lavar paninhos de cocô. Ah a
minha Maria, o galo já está gritando para ela se levantar, correr logo ao batente.
Cap. 29° – Invertem-se os Papéis
Júlio! grita a Maria, vai depressa
pegar outra lata de areia, eu fico acertando o terreno, anda logo moleque! insiste:
anda rapazinho, estamos atrasados, são dez horas o Pedro falou, e nós ainda
temos uns sete carros pra bater. Não lamenta, não tem tempo para lamentar,
trabalha trabalha trabalha – é o chefe da família agora. Faz tijolo, o Júlio
quase não alcança a tábua da banca, quase não aguenta tirar o tijolo da fôrma, as
mais das vezes ela tirando no seu lugar e pondo o tijolo mole na tabuinha e aí
sim o menino vai depositar no chão, marca o tijolo com inabilidade, faz carreira
num zigue-zague parecendo cobra de tijolo; derruba de vez em quando o tijolo
que ia ser tijolo e vira uma plastra no chão, e chora esfrega as mãos sujas de
areia nos olhos, teme a mãe que faz cara fechada; assim o projeto de tijolo voltando
à pipa; retoma tremendo o trabalho com mais cuidado... ah como é dura a escola
da vida. Mas criança esquece logo, vez por outra foge para ver se o preá caiu
na armadilha, uma lata grande de óleo vazia que pôs no buraco cavado no trilho
do bicho e que embutiu disfarçando por cima com umas terrinhas para a lebre não
perceber; aí havendo umas poucas vezes volta alegre gritando a olaria inteira
com um preá seguro pelo pescoço na mãozinha de criança – todos se alvoroçam com
a vitória, a meninada acorre pra ver pegar mexer com o animalzinho olhos
arregalados espantados por haver tanto bicho-homem enrodeando. Ela percebe sim
a fuga do companheiro e, mãe, vê que não vê, sorri, no entanto precisa cobrar o
serviço, a conta em débito cresce, o patrão fala andar enorme. O Paulinho virou
Paulo mas continua pequeno; já engambeta, bem entendido: até à quinta fiada,
não alcança mais alto, às vezes derruba no meio do caminho o tijolo, especialmente
quando está acabando a carreira lá no esteio e precisa trazer o peso não
aguentando chegar até à extremidade do rancho, onde por azar da felicidade vê
com alegria a borboleta azul voando e quando vê vê o tijolo marcado por seus
dedos e fica na espera da bronca da Maria. Nessa altura da vida todo mundo
precisando fazer alguma coisa. Agora, no rancho o maior drama é o da Maria, não
apenas por ter de fazer as vezes do marido enfermo entravado e a gente nunca
sabe quando sarará e já teme que não sare mais! não, não é isso, é
simples-mente a complexidade ter de contar os tijolos feitos. Nunca dá certo
sua matemática, reconta, às vezes apanha mais da aritmética às vezes menos,
sempre apanha; os homens vêm contar para ela os tijolos; e a encontram
chorando. O Zé? bem o Zé poderia contar, fazer as contas, não pode ficar de pé,
às vezes fica um pouco e conta imponente quanto se fez e depois volta pulando
igual saci para casa... Na casa as mulheres da casa se desdobram, se viram bem.
A Joana já era antes a dona mesmo, fazia de tudo. Agora faz a parte da Maria
que virou homem e tem que trabalhar no pesado e ainda vive dormindo em pé não
se conta mais com a mãe. Faz, faz bem feito, embora por vezes passe o sal ou
falte, se corta na faca, não percebe alguma pedra no feijão e dá uma sensação
horrível mastigar comida com pedra; se queima vez por outra, outro dia virou o
caldeirão com água quase a ferver! Joana dá conta do recado. A pequena cresceu,
ainda toma mamadeira com leite de cabra, fala errado mais certo agora; e
trabalha também: vai buscar coisas miúdas na vizinhança e sobretudo se dispõe a
distrair o Zé na cama. O casal está assim: ele só fica em casa; ela só fica no
rancho trabalhando. Apenas não vai toda tarde pescar...
Cap.30° – A Escada. Subir? Descer
Tinha na olaria uma escada, obra de
arte na arte de contrariar a arte. Objeto malacafento, pregado com sarrafos, um
ultrapassando a longarina da escada outro faltando quase não dando fixar com
pregos na extremidade, os pregos a maioria entortada; de maneira que arranca-se
a ponta do prego que estava entrando na longarina de madeira dura e teimosa,
põe-se a endireitar o dito prego na borda dum carrinho de tijolo desocupado e
sujo de fragmentos de tijolos, aí o trabalhador tomba o carro para a farinha
cair no chão, destomba e então coloca o prego torto a desentortar com muito
bater de martelo, errando xingando a dor, fincando depois o prego seminovo
outra vez no sarrafo, prendendo o sarrafo na longarina a montar a escada (caso
não haja a contento sarrafo, o oleiro prega uma tábua estreita que achar num
ótimo improviso; bem homem comum). Dessa forma imita um carpinteiro fazendo uma
escada ‘bonita’ e prática. Não tendo acertado, ao menos atingiu o improviso,
brasileiro é muito criativo. Agora tem a escada, dá para subir, às vezes se cai
dela, a subir no forno ver a capa se os meninos fizeram certo, se anda saindo
suficiente a fumaça, a qual irá arder muito o olho. Para isso serve uma escada
na olaria; não tem melhor serventia, em não ser naquele vento verdadeiro
vendaval e tiveram que pôr outra folha de zinco no rancho de cima, por causa
das folhas que voaram até à várzea a xeretar na lagoa. Para quase mais nada
serve uma escada. É instrumento ideal para subir. Ao Zé era para descer! Descia
a olhos vistos, assustando os familiares, a Maria era só lágrimas, nos
cantinhos longe dos meninos para não chegar espantá-los... Realmente o Zé piorava.
Piorava no sentido moral também: agora cismava ter ciúmes do Baiano, a tanto a
Maria evitar servi-lo com seu apreciado café. O esposo estaria ficando gagá!
Além de tudo ainda andava contando e recontando sua vida pregressa, virava, nas
estórias de menino numa outra olaria, um garoto que a Maria nunca havia visto
por tê-lo conhecido e amado um banqueiro adulto forte e belo, na sua opinião um
homem bonito, se dispondo inclusive a contrariar o velho e fugir com o oleiro.
Vivia contando aos visitantes seu tempo de moleque, a meninada jogando bola no
campinho que os garotos mesmo fizeram para jogar descalços a machucar dedões
nas guanxumbas mal aparadas, gritando ardido “gol!” roubando, um dizia três ou
quatro somando-se a bola daquela hora; se valeu o gol se não; o Zé mandãozinho
quando ainda apenas fazia gambeta e pescava, ah já pescava de varinha no
córrego sem pretensão a dourados; ou tinha pretensão? Narrava as coisas aos outros
de fora e também aos seus filhos ali crentes naquele poço de sabedoria, contava
da briga entre as torcidas quando a Fazenda Ipê ia jogar na Rocinha. Isso e
muito mais. Ela sorria, quase não se alegrando mais, caminhava para sua banca
de tijolos, depois gritava lá de baixo: “Juliooooô!” o Zé precisando cutucar o
menino a atender os apelos maternos. Mas estava visivelmente descendo... Um dia
veio visitá-lo o Zé Paraíba, vinha sempre o Zé Preto do qual nunca se soube o
nome exato e que trabalhava como carroceiro na fazenda. Volta e meia apareciam
outros roceiros ver o funcionamento da olaria; à noite na boca do forno, que
atrai sapos incautos a se atirar suicidas na quentura da claridade, os roceiros
também imitavam os anfíbios, só vindo a prosear. E o proseio era de causos, de
acontecer trágico ao gosto do homem comum; às vezes piadas; falavam das
colheitas e os oleiros quase nada sabendo disso, por sua vez falando coisas
desconhecidas dos lavradores. Agora visitam sobretudo o Zé, como consideração
que se tem aos enfermos. O doente se alegra, mesmo nessa situação precisamos
público. Fala de suas pescarias, aí sempre se entusiasma. Alguma vez se irrita,
deseja estar sozinho com seus botões e suas dores, a visita desconhece o drama
e fala e diz e receita – todos são médicos no país. E todos serão defuntos, com
certeza.
Cap. 31° – Lembrança dos Degraus
Tinha gente que dizia, e essas coisas
não se fala diretamente, mas havia os que pensavam ser mal-olhado, trabalho feito
contra o Zé, tudo o que agora se passava com o Zé, a Maria achava que pensavam;
assim pensava pensava muito nessas encrencas quando no trabalho na banca, agora
se encontrava dormindo. Não dormia. Apenas pensava que dormia, quase nunca
perdendo o sono, o cansaço a entregava ao sono, este era tanto, tão pesado que
já não sonhava... Exatamente, não sonhava mais, não sonhava também acordada como
na juventude – que a olaria e o sofrer gastaram. Dormindo agora. Caso sonhasse
alguma vez não poderia lembrar-se mais como dantes. Dormia, dormia acordada,
pois acordada no trabalho às vezes dormia. Ele está aí ao lado, pobre do Zé. Já
contei uns dez cantos do galo e ainda não consigo pregar o olho, fecho sim o
olho não durmo sei estar acordada, ele ronca, diz que não, antes, Deus me
livre! Depois a dor era grande e não dormia e nem roncava, revirava toda hora a
procurar como não doer esse pé medonho, dá até medo ver. Ronca, diz não dormir,
a Joana vê ele dormindo dia inteirinho, como ter sono depois à noite!? não dá
para convencer esse homem teimoso e a gente perdoa porque compreende que a dor
não tem remédio. Dorme agora, não a sono solto, geme de vez em quando não se
pode nem mexer o colchão já grita. Sim agora ronca e não é por isso que não durmo.
Acho que seja pela consciência: a cabeça não me dá sossego... é amanhã, já
quase hora do despertador me avisar a hora para a banca e ainda não dormi, mas
hoje é quase ontem ou o ontem que vira mais rápido hoje pra mim, eu não devia
ter feito aquilo. Agora não tem jeito, a comadre me deu uma garrafada, não
consegui expulsar de mim este fardo que aumenta já no meu ser! Na verdade não
tive coragem bastante em beber tudo e vomitei de remorso antes de saber se
realmente é gravidez. Como farei. Ele se mexe, geme e vai acordar de uma vez;
não tenho força e temo até conversar com o Zé, muito menos sobre o assunto
delicado, homem não pode entender disso. Não devia ter agido como mocinha
inexperiente, como eu condenaria a Joana se fosse nela... Está ficando crescida
e bonita. A gente precisa pensar bem, ou traz um traste para dentro de casa que
possa abusar da menina! não quero nem pensar. Na fazenda vi um caso parecido e
um destroçamento da família. Por que fui tão fraca. Sem-vergonha isso sim. Se o
Zé me matasse eu... não, estou é ficando louca. Preciso me cuidar, me policiar.
Tocou o despertador, antes tinha quebrado, os galos logo tocarão o seu outra
vez; não vou chamar o Júlio, coitadinho, deixo o menino dormir um pouco mais e
vou fazendo sozinha tijolo, mais tarde a Joana acorda ele e vai lançar na
banca. A filha já está de pé na cozinha, Deus me livre um traste daquele aqui
por minha culpa me acabando com a garota! preciso é ser cuidadosa... Ela faz
tudo no silêncio quase não se percebe estar fazendo o café, acende o fogo, mexe
os trens não deixando bater coisa alguma para não ferir o pai doente e não me
acordar antes do tempo, pensa que durmo como sempre, sem saber minha mágoa, o
drama em que vivo e a insônia... Mas como é que um miserável daquele podia se
interessar por uma mulher esquelética como eu e ainda por cima casada! Não
quero pensar. Por que penso! Não era melhor me prender ainda mais, trabalhando.
Sim, pagaria a dívida com o patrão, ele fala que só aumenta e reclama o prejuízo
geral na olaria; Deus me livre se parar agora tudo: como sustentar as crianças!
O Zé nesse estado, não podendo trabalhar, só remédio caro... Não desejo mais
pensar nisso. Me levanto, me entrego às tarefas, fujo no trabalho. Joana? está
pronto o café?
Cap. 32° – Degrau Quebrado e o
Peixe
Naquele dia foi a consagração.
Domingo, o Zé não trabalha de domingo, às vezes na segunda quando vai fazer compra
e sábado pega pouco barro a descansar; e não trabalha também nos dias santos,
sequer sabendo o nome do santo, que diabo, não trabalha mesmo em respeito à
Maria porque ela é devota, embora sem grandes exageros e ele, o Zé, não
querendo saber nem um pouquinho de religião; no entanto é oportunidade a fugir
da banca... no sábado é bom sobrando mais tempo pra ver se fisga aquele
dourado. Sempre foi assim: domingo, meio sábado, e quando com sorte na
sem-sorte do pipeiro por muita chuva e não dando ponto para virar a pipa – o Zé
não precisando trabalhar e aí ficava ‘obrigado’ a pescar. Dessa forma foram os
tempos, pescava toda tarde, noite voltava a ouvir lamúria da Maria, o embornal
cheio de lambaris e tambiús, nunca o piau nunca o dourado. Um dia pegou um
dourado! Foi uma consagração. Primeiro fisgou um peixinho prateado, chegou a
guardá-lo no embornal, o samburá furara, tirou de novo o lambari do embornal
com dó (como provar depois haver pegado, que fosse um só e já podia se
vangloriar: “não voltei sapateiro!” pois é indignidade pescadora tornar à casa
sem nenhuzinho) pena deu perder a prova mas diacho, seria uma isca excelente
para tirar para fora um dourado, melhor sendo uma rãzinha que fica nadando na
tona d’água a atrair o peixão, na falta de uma rã: o peixinho mexilão.
Espetou-lhe o anzol grande de ouro e naquele momento agradeceu mentalmente a
Maria haver encontrado tal maravilha de anzol! Verdade que ficou constrangido
ao espetar rasgando o corpinho e com pena de si mesmo – vai que perco a isca e
nem pego o dourado, meu povo me gozando por voltar todo ferido dos garranchos
no trilho, cansado e pior: sem nenhum peixe o peixão tendo comido o meu lambari!
neste ponto sendo um castigo do céu (benzeu-se como a Maria sempre usava fazer,
ele mais com medo que por crença; e ainda lhe ficando a dúvida: terei feito os
sinais do lado certo!) Ajuntou a linha desde a ponta da varona, deu um impulso
enorme e atirou tudo lá no meio do rio, na corredeira que o restinho do sol
refletia dando uma ideia de vida. O lambari se esperneou saracoteando escapar
já meio morto porque não tem peixe mais frágil que lambari, se esperneou
bastante com o rabo e terá eriçado as escamas, acompanhou a força da onda no
correr da água e, ao tomar um caminho no mar do rio onde ele se estreitava e
aumentava a velocidade do líquido, o Zé no barranco acompanhando com a vara
grossa esticada e tropeçando temendo cair n’água fria quente naquele adeus de
tarde, nesse momento – o dourado! Abocanhou, faminto e guloso, o serzinho
prateado, prateando ele também no ouro de sua natureza e mais ainda na saída
d’água; uma beleza! O Zé prendeu a respiração para a luta, retesou os músculos,
esticou os braços, apertou a vara com sua força enorme, a presa querendo fugir
com a isca e ele a trabalhar a cansar a força dela com sua força humana,
trazendo aos poucos para seu lado: a batalha entre o pescador e o peixe! Foi
sim a consagração, foi a consagração por toda uma vida a esperar o segundo o minuto
da fisgada, num relance viu a sua gente recebendo o pescador trazendo aquele
peixe gigantesco, parecendo até maior que ele mesmo, visionou num relance de memória
a propaganda no vidro de remédio: o pescador, o peixão nas suas costas, o peixe
maior que o homem, o rabo a arrastar pelo chão! e se viu vendo o povo oleiro, o
Toninho largando Dona Assunta servindo pão azedo e café doce; o Pedro correndo
com as mãos sujas de barro; o Nego, até o Nego que fugira depois da morte da
filha, até ele! e a Maria, a Maria sequer conseguindo falar, abismada, os
meninos a receber o pai e o dourado o Peri em festa ladrando alegrias, toda
criançada oleira pulando e berrando como fora a pescadora ela, ele? o Zé, bem:
chorando, homem não chora mas, puxa vida! vida toda esperando o piau, fisgou um
dourado daquele tamanho... não se conteve mais: gritou seu entusiasmo sua
alegria completa, a Maria acordou o Zé – “que foi Zé, pesadelo!?” Aí continuou
o pesadelo, dando uma dor sem tamanho, uma agulhada no pesão inchado, parecença
com um sapo estufado. Então chorou.
Cap. 33° – Só Ficou o Degrau
Partido
Num certo dia, estando acordado, bem
desperto, e apesar de tudo o que vivia, foi igualmente uma consagração. Porque
o Zé Oleiro recebeu visitas no domingo, no outro domingo não iria dar por causa
ter sido removido para a cidade, após muito vaivém, ele era teimoso, discutiu
com a Maria não entendendo sua boa intenção. Porém naquele domingo foi sim uma
consagração. Vieram as visitas, não o costumeiro, vieram muitas... As mulheres
eram um pouco sem graça, elas só falavam em doença (ele querendo fugir da
doença) falavam de criança e falavam das outras mulheres, ele sorrindo amarelo,
o amarelo que é a cor do constrangimento, ou a fugir das vozes finas delas se
fazendo doentinho. Com os homens foi bem diferente. Se contavam causos e o Zé
tinha assunto pra valer narrando suas pescas, acabou até acreditando haver pego
o dourado, contou tim-tim por tim-tim o como e o depois, a festa de sua chegada
no lar, naturalmente olhou vendo se a Maria se encontrava longe conversando com
a mulherada e ralhando as crianças porque menino vive na roda da saia. Nesses
momentos se entusiasmava, virava herói, esquecia o pé, ao menos afastava para
lonjura a dor e ficava escutando a safada lá no distante a agulhar-lhe as
carnes, aí passava pomada, uma que veio da Vila e ele disse aos outros “do Patrimônio”
e daí lamentou aos visitantes não fazer efeito algum só brilhando a pele. Então
perguntaram mais do machucado no pé, a perna estava avermelhando azulando e
adormecendo e por isso começou a sofrer mais adequadamente a dor, como alguém
tendo uma dívida se ninguém lembrar a existência dela esse alguém facilmente se
esquecerá nem saberá que tenha a dívida, pois é lembraram a dor, a qual apertou
de tal modo a espantar os peixes e os outros causos, deixando as visitas sem
assunto e desejando ir embora não achando como achar jeito de fugir. O Zé
aproveitou a tomar pílulas receitadas por não sabia quem, engoliu devolveu à
caneca, aquela tortura, e precisou por insistência da Maria (enquanto a Joana
olhava perplexa o pai) tomar, ela exigindo que não perdesse o remédio e o Zé
teve de engolir, reengolindo a pastilha que não passava na goela, bem como seu
próprio resto engosmado na caneca, a talzinha de sua preferência, agora separada
somente para o Zé tomar água e remédio, que ele já não suportava mais; e então
os homens visitantes olhavam para ele uns assustados outros com pena e um dos roceiros
chegou a sair do quarto por ter estômago fraco para essas coisas; e aí a Maria
também saiu chorando, a Joana carinhava o Zé como nunca fizera com sua boneca
porque virara dona de casa antes do faz de conta. Diante de tanto embaraço, não
houve mais causos, não houve mais fisgar dourado, os amigos se despediram rogando
pelos seus santos a favor daquele enfermo, o qual se encaminhava, parecia, a
virar santo ele também, que é o que o homem comum pensa. Foi daí se despedirem
dando a mão àquele defunto em potencial, desejando as melhoras, uma belíssima
metáfora aos que desconheçam melhores figuras semânticas. O Zé ficou só com os
seus, o silêncio veio de novo gritar no seu quarto, carinhar a amiga mais
próxima, a dor. Mas o que mais lhe doeu foi um indiscreto ou simplório indagar:
“Dona Maria vai ganhar outro nenê?”
Cap. 34° – Maternidade ou Hospital?
Dona Assunta assuntava assuntava numa
espreita já durando tempo e aí a curiosidade venceu a vergonha, embora a gente
não tenha nada que ver com a vida alheia. “Seu Zé parece que vai ser pai outra
vez...” Pôs as reticências decerto sem pretender ferir ninguém e apenas para
ver o que acontecia, a vizinha enrubesceu e desandou a chorar. Assunta pensou
diante disso ter ferido mesmo a Maria, o que é uma verdade insofismável porque
ninguém chora sem ter um ferimento profundo. Apenas não alcançou a causa. Ficou
pensando naquilo e certamente havia tratado antes do assunto com o Luís, este
não devendo ter ouvido bem, embaciado na aguardente das boas comprada no João
Vendeiro; além do mais os machos não alcançam a extensão nem a profundidade
dessas coisas nem dão o valor real a uma gravidez. Matutou lá no miolo o
seguinte: de duas uma, ou a Maria andava com nenê ou com barriga d’água, porque
disso ela, Assunta, conhecia de sobra, tinha um ventre bem avantajado de tanto
parir, morrendo meia dúzia sobrando só o Toninho a Irene e mais uma rataiada,
porque o Botinha apenas sabia beber e fazer filhos na gente. Nisso tinha experiência
e extrema sabedoria. Agora, andava era com vergonha a perguntar e se chateou
sobremaneira com a resposta molhada, a vizinha chorava e soluçava muito, aí
veio a Joana sem coragem de falar mas consolando a mãe com suas mãos delicadas,
a Maria acabou por enxugar os olhos na barra do vestido respingado com barro e
areia do tijolo e até sorrindo sem graça. Olhou a Assunta e fez que sim de cabeça,
entrando na cozinha, quase entrou na da Assunta grudada à sua casa. Então
ocorreu de a Maria entrar em casa e sair dela mesma a fugir do seu drama, ao
qual deu à filha a versão ‘dor de cabeça’, o que é do estilo feminino faz mais
de mil anos. Deitou-se, e ainda era dia claro, se fosse ela o Zé, estaria após
a estafa da banca na pesca. Deitou-se ao lado do pai de seu bucho crescente,
voltada para a outra banda, sem coragem a olhar para ele... Quieta, só abriu os
olhos quando sentiu a presença da filha para ver-lhe a febre, sorriu pra a
garota, fechou de novo abriu seu pensar. Por que fora fraca... O Baiano vinha
tomar cafezinho sempre, o Zé já enciumado, ela cortou a visita do homem a
evitar sofrimento ao marido. Mas o que precisava ela ir ver o fogo à noite no
forno sabendo que o patrão havia mandado o Baiano ajudar naquele serviço, ele
que era apenas ajudante do caminhão. Porém ela foi... lembrava-se, arrependida,
o chão escuro do rancho e depois como voltara pra casa envergonhada e com pena
do pé do esposo. Agora aquele barrigão! E se nascesse negroide o bebê, como
explicar ao companheiro escuro do sol e aloirado!? Chegou a ficar feliz quando
o patrão disse haver despedido o Baiano, pois se desentenderam. Um mês após
veio no lugar do Pedro Pipeiro outro trabalhador. Ela andava sem sorte... O Zé
Oleiro gemeu. A Maria o apalpou apiedada pelo seu sofrer físico e pelo seu
sofrer moral futuro; examinou-o como para ver a febre, agora andava sempre febril
o Zé; apalpou o homem em
compensação. E chorou baixinho por mais de uma razão.
Cap. 35° – Uma Família
Entristecida e a Viola de
Cinco Cordas
Vivia-se entre os oleiros uma semana
difícil. No quarto do Zé ele não se dispunha a contar da pescaria aos de fora,
não querendo responder às perguntas da Maria, quase não falava com os meninos.
Não obstante o trabalho continuava. O patrão dizia que a dívida também continuava;
embora tivesse diminuído um pouco. A banca da Maria não parava, a fôrma gritando
seu bater compassado; o Júlio andava mais esperto, não crescera demais mas
produzia a contento ajudando a mãe. O Paulo já ganhava bem uns trocados e até enfornava
pondo pouco tijolo no carrinho e mais do menos no carro para desenforna porque
o tijolo não pesa tanto após a queima; aí derrubando também a carga e quebrando
a enriquecer o monte de cacos. A pequena não estava tão pequena e falava muito;
vivia na banca da mãe e servia para buscar café em casa; em casa tocando as
galinhas xeretando na cozinha; e ‘trabalhava’ também no monte de areia na extremidade
do rancho, esparramava brincando o monte e depois ajuntava por ordem da Maria a
areia toda, trabalhando portanto. Elinha não entendia bem por que mamãe andava
com a pança naquela grandura. Nem os outros filhos da Maria, supondo eles talvez
a causa; apenas a Joana já tentando costurar uns panos de recém-nascido
percebia logo ter outro irmãozinho, ela torcendo que fosse irmã. Na roça, na
olaria por extensão, quase nada se diz num assunto enigmático, todavia se supõe
muito, às vezes tendo alguma certeza, das certezas que não se diz. Ela, a
Joana, só ela poderia ter coragem, chegou inclusive fazer à genitora a pergunta
embaraçante “para quando?” a Maria respondeu como pôde e dessa vez não chorou.
Para a olaria como um todo as coisas não corriam bem. O Pedro Pipeiro
encontrara nova colocação, oleiro não para no serviço, mais transfere a dívida
para dever a novo patrão. O ex-patrão exige que o que recebe o empregado pague
a dívida e a despesa da mudança anterior que lhe fez, se o oleiro ficou pouco
tempo trabalhando, para liberar o empregado, não sendo o caso do Pedro.
Mudou-se. A pipa passou a dar pouca matéria-prima para os banqueiros fazerem
tijolo, o novo pipeiro não satisfazia, não entendia do riscado como o Pedro, sequer
sabendo carrocear e judiando da tropa e assim a entrar em choque com o patrão.
Logo depois da mudança do pipeiro velho veio nova gente para cuidar desse
setor, um rapaz solteiro e esquisito. Então nunca mais o ponto do barro era o
mesmo dos bons tempos; ora mole ora duro; a natureza ou a qualidade e não
apenas a consistência do barro despadronizou, e a olaria entrou a produzir
pior: tijolos desigualados, uns fortes demais e trincavam ao menor vento na secagem;
ou fracos e chochos e ainda mais pesados, espatifando-se na mão. O dono
reclamou com sua turma, melhorou num dia piorou noutro. As vendas caíram e o
material não tinha quase aceitação urbana por sua qualidade insuficiente a
enfrentar a concorrência. Esta se fazendo até por tijolos importados vindos de
cerâmicas organizadas. Poder-se-ia afirmar que a olaria do Zé, onde o Zé apenas
morava mas não mais trabalhando, que a olaria andava doente como o banqueiro,
ex-banqueiro Zé. Sua gente fazia das tripas coração, a Maria caprichava mais,
caprichava e não produzia por bater pouco, ou então fazia muito mais parecendo
os macacos do Toninho, já a família do Luís também falando desejar acertar as
contas com o patrão. Os meninos do Zé trabalhando no rancho, a menina virando
menina-moça, em casa trabalhando bastante, todos auxiliando a cobrir gastos. Ele,
o Zé Oleiro, era grande consumidor de remédio, pesando bem no orçamento
familial, um pindura enorme na botica da Vila. Cachaça deixou de beber, vez por
outra apenas, quando a Maria longe lá embaixo, aí aceitando a oferta do Luís;
mesmo assim a Joana falava com jeito advertindo o pai pelo abuso. Na olaria o
que não mudara para pior foi ter melhorado a diversão deles. O rapaz novo da
pipa não trabalhava com grande ganância e perfeição, amante de largar mais cedo
o serviço (não indo pescar sempre como o Zé banqueiro, só de vez em quando, e
assim mesmo não apreciava o pocinho das piabas nem demais os pernilongos de
lá). Não, nada disso. No entanto tocava bem viola, o povo falava que tocava
bem, os meninos ficaram encantados, sobretudo as garotas, as jovens das
famílias oleiras. Aí a Maria se preocupou com razão em razão de sua própria
experiência... A Joana acabava cedo a cozinha só para ouvir o Zé, diziam que o
novato era Zé, ele falando sou “Zé do João”, João meu pai. A Irene se
engraçava. E como o sujeito era bamba na viola! a qual não era viola, violão de
seis cordas. Agora a Maria, além de se preocupar com o de dentro dela, além de
se preocupar com o Zé com a perna e o pé que o boticário lhe dissera precisar
levar urgente ao médico na cidade mas ele sendo interessado achava que não
devia ir... além disso tudo, se preocupava a Maria com o Zé, o novo Zé Pipeiro,
um bom tocador de viola.
Ah a viola! É visto não ser bem viola,
porque o instrumento possuía cerca de seis cordas, um violão bonito de se ver,
se bem um pouco sujo e decerto a grudar um bocado por causa dessa cera que
formam os anos de uso nas superfícies. O Zé Pipeiro era tido por exímio, talvez
um virtuose das cordas. Todos o rodeavam, alguns até traziam presentes ao tocador, frutas e bolinhos, como o bolinho frito azedo
encharcado da Assunta que a Irene ofertava meio envergonhada ao moço, um rapaz
desse tipo de gente sem idade, por tanta ou por indefinível. Feio? horrendo
dizia o Toninho, ele grande conhecedor por terem no lar um enorme espelho trincado
na sala, certamente assustando bem a Assunta e o Luís vendo dois ou mais
luíses. Opinião macha. As fêmeas achavam-no belo, pelo menos atraente. O Zé
conquistava a plateia dedilhando o instrumental mais parecença com mulher
donzela de ótima conformação. Toda tarde reinava nas ondas sonoras, deixando os
burros mais cedo, a gente extasiada ouvindo e mesmo os burros a olhar não se
sabe se apreciando também; cantava as suas dores de amor, preferindo parece
esse tema nas canções; tinha também uma de tropeiro que ele apresentava meio
desafinadamente. O som da viola é que era interessante aos caboclos e os
atraía. O Zé Banqueiro ouvia agora de sua casa, aquele pé enorme aquela perna
grande por inchada, o Zé Violeiro a tocar a cantar, uma vez tendo entrado o músico
no seu quarto e aí tocou em audição especial ao Banqueiro, já nessa altura sem
muito interesse por artes, tanto que o radinho estava parado e sem pilhas; não
se interessava nem mesmo por peixes; o Violeiro tocou, olhou para os lados da
Joana, deixando a Maria muitíssimo preocupada; e ainda por cima, ao sair,
raspou-se de propósito na mulher barriguda, mostrando muita malícia e ofertando
um risinho cínico, ela se vexando a avermelhar indignada. Então por esse tempo
aconteceu uma tragédia: quebrou-se uma corda do violão! a corda mi. Bem, que
fazer. O público muito exigente, nadinha conhecedor, sorria feliz ao ver o homem
dedilhar manquitola evitando os sons finos e se virando com as cinco restantes,
decerto com vantagem na criação.
Além da atração musical, pensando por
sua Joana, a Maria viu crescer ainda mais seus problemas com esse novo pipeiro
que substituía o Pedro: ele fazia questão a ficar papeando suas abobrinhas ao
levar o carro cheio a despejar barro para a banca da Maria. Indo sempre além
das coisas concernentes ao trabalho. Um dia propôs, enquanto o garoto Júlio foi
pegar areia lá longe, propôs o sujeito fugirem – deixar o esposo doente e
imprestável e aquela molecada barulhenta dela. A infeliz abriu a boca no mundo,
enquanto ele se pôs a consolá-la: “o filho não é meu!” ela não parando de
chorar, foi preciso largar o trabalho, largar o barro para o outro dia.
Cap. 36° – A Pesca
A Mãe anda nervosa, deve estar doente.
Assim mesmo me deu folga “vai pescar, vai, acabo sozinha; mas não volte tarde,
não faça como seu pai fazia” não faça isso não faça aquilo, volte antes de
escurecer, cuidado no barranco, a cobra, essas coisas, ah como fala. Mas eu sou
homem, quer dizer, ainda não cresci igual o Pai, sou capaz de fazer tijolo,
acho que sou... Anda nervosa, outro dia até me bateu embora eu não fosse o
culpado. Pesco no barranco, tem a ceva do Pai, deve ter muito lá, um dia pego
um peixe grandão! Ele disse que pegou um, fala para todo mundo que vai visitar
seu quarto; e me dá muita explicação, é um pescador de mão cheia. A Mãe pega no
pé. O pé não anda bom, o homem da farmácia naquele dia que a gente foi lá na
Vila disse pra Mãe, ela não falou isso para ele e contou para nós depois em
casa; falou para não dizer nada perto da irmãzinha porque ela contará direto
pra ele, ela já sabe falar as coisas, errado mas fala. Eu não conto. Conto pra
Mãe “o Pai estava chorando...” Ela ficou assustada e aí também chorou. Agora
viro pra lá do monjolo, o Pai sabe direitinho e me ensinou. Gosto de pescar porém
até hoje só peguei lambari, um dia... todos dias tenho de trabalhar, não sei se
é porque a Mãe discutiu com o Patrão; depois ficou soluçando na banca. Aí fiz o
serviço caprichado para não ter de conversar com ela. Depois largou dois montes
de barro e foi pra casa e me deixou guardando as coisas; aproveitei para experimentar
fazer sozinho e não consegui, o pastão grudou na forma, uma sujeira; deu mais
trabalho limpar depois. Trabalho desde cedinho e meu irmão também na gambeta;
só que ele é muito encrenqueiro. De dia. De noite não. A gente brinca gostoso
com os moleques. Domingo e quando não vira a pipa, aí a meninada grita feliz.
De pique, de esconder, de balança caixão, de búrica, de pião; as meninas
brincam com as outras nas coisas delas, de vez em quando a gente vai lá perto
só para insultar as bobas, então elas gritam as mães e a Mãe me grita e me
xinga. E tem as arapucas; e tem as coisas de barro que eu faço, outro dia fiz
um caminhão igual o Chevrolet e mostrei ao Baiano e ele riu, o Homem mandou ele
embora. Depois a gente põe para queimar entre os tijolos mas quase sempre os
grandes, os volantes da olaria, eles quebram os brinquedos na desenforna. Os
outros meninos também fazem coisas, tem os que sobem na capa do forno descalços
queimando o pé para tirar antes que os homens encontrem; meu caminhão não se
quebrou. O Pai achou ele lindo; me prometeu fazer um peixe de barro quando
voltar pra banca. Ele é muito bom para mim, não fui eu quem perdeu o binga
dele, ele achava que era; a Mãe grita com ele para não queimar o colchão com o
cigarro, porque outro dia pegou fogo no pano do colchão; eu já sei fazer cigarro
com a palha, pego o canivete do Pai e pico miudinho o fumo e ponho... o Pai não
deixa fumar e me bateu um dia que eu experimentava um e tossi muito. Ele bateu
sim mas agora eu tenho pena dele por causa da perna, está deste tamanho e não
quer saber de criança perto da cama, só deixa a Joana que tem cuidado e leva os
remédios e café ao Pai. Acho que é só virar pra lá chego no rio. Tenho minhoca,
tem umas que já escaparam da latinha de manteiga, tenho o embornal do Pai, ele
não queria deixar trazer “e quando eu sarar e for pegar as tralhas de pescar e
você sumiu com o embornal!” depois balançou a cabeça: “ah pode ficar pra você,
filho... me traz ele cheio de peixe!” Perguntei se cabia dourado e riu de mim,
o Pai não ri mais e antigamente só não ria quando brigava com a Mãe. Saí correndo
contente e ainda me deu a varinha torta, aquela fininha, deu um rolo assim de
linha e cinco anzóis, falou para não perder e tomar cuidado e não me espetar
com eles – pulei de alegria, meu pai é muito bom. A Mãe também, ela não me deixa
ver o preá; e se escapar ou morrer na armadilha! Assim mesmo é boa pra gente,
só um pouco nervosa e parece preocupada. Estão falando que eu vou ter um
irmãozinho. Enquanto o nenê estiver pequenininho não vamos trabalhar na banca,
igual a mulher lá na fazenda que ficou na cama, a Mãe... aí vou pescar bastante
e correr com os outros, vou ver a arapuca, vou... xi a Mãe já me chama, não
peguei nenhum peixe! a voz dela está cada vez mais perto, vem vindo pra cá do
monjolo “Julioooô” que porcaria; e o sol ainda nem sumiu...
Cap. 37° – Um Sonho da Realidade
O Zé nunca sonha. Pensa que não.
Agora? Agora a dor impede qualquer sonho, o sonho que é egoísta, exigente. Não
dorme, se não dorme como sonhar se fosse dado ao sonho! Ela sonha? Agorinha
deve estar sonhando, revira na cama a mulher, que estará sonhando, já não me
comunica nem o sonho nem o sonho da realidade, dura para ela com essa barriga
estufada e o trabalho quando tiver de ir para o rancho. Deve sim ter muito a
falar e não conta... Eu também, a dor me toma todos dias, não desejo nem lembrar
as coisas para não sobrecarregar a Maria; quando será o parto, quem... qual
parteira ajudará no quinto, quinto filho? Puxa já tenho menino mocinho, o Júlio
sabe até fazer tijolo ajudando a mãe; e pescar, dei o embornal pra ele encher
de tambiú... ai, dói. Lembro todo minuto; minha dor acalmou um pouco e me
irrita menos; ou terá cansado ela também de me torturar?! O Zé pensa nestes
termos, nos momentos em que se descuida a enfermidade e lhe dá alguma folga. Ah
pudesse aproveitar a folga para pescar... Aproveita relembrar suas coisas, coisa
pouca, as de sua vida oleira, as de sua pescaria, as dos dramas familiais, são
lembranças e relembranças, a lembrança pode ser um reviver, mas pode igualmente
ser um pedacinho da morte que lhe vem à prestação, nada comparável às suaves
prestações do radinho, pobre dele, engasgado sem pilha. Lembra ter tido para os
seus seus sonhos, mesmo não os tendo à noite, hora de roncar não de sonhar,
sonhos sim acordado. Pensava pôr as crianças aprender. E se comprometera mesmo.
Disse à Maria entre um bater e outro prensando na fôrma o tijolo, após haver
contado as bandeiras e sonhar iludindo-se estar mais perto de acabar com a
dívida junto ao patrão: mulher, acabo com a vadiagem do Júlio e do Paulo, vão
engambetar ganhando um dinheirinho em vez de bagunçar por aí; você tem razão,
primeiro irão aprender na escola da fazenda e depois trabalhar no rancho.
Promessa. Agora não faz minutos da folga que a dor lhe fornece ao descanso, a
imaginar seja bem uma hora matracando consigo mesmo, e se lembra entristecido
não ter passado da promessa a sua promessa... Mais ainda, se prometeu, aí sem
comunicar à Maria, prometeu que não repetiria o erro do sogro: as meninas
estudariam também como os dois garotos (interessante, não fazendo planos
incluindo o mudinho apenas os dois espertos...) elas estudariam; agorinha a
Joana veio ver-lhe a febre e trouxe um remédio que a mãe mandou dar porém não sabendo
igual à genitora ler a bula! mocinha feita e sem livro. Amargurou-se. Contudo
que fazer se precisava controlar a casa! pobre Joana. E a pequena, ainda
mamando sua cabrita... um dia, prometeu de novo a si mesmo sem grande
convicção, poria a criaturinha na escola e os moleques. Então neste ponto se lembra
menino indo da olaria para a escola da fazenda lá no Ipê. Um ano, quase um ano
de estudos e depois fugiu... A Maria tinha razão a gozar o marido: fugiu da
professora. Ah sabia conta direitinho, dava lição na de somar e só errava na de
vezes, por causa do maldito vai-um, vai-um ainda dava pra tocar, quando
vão-dois ih que tristeza e o resto era sim nebuloso, porém ainda assim somava
bem para deduzir na dívida com o patrão. Mandaria o Júlio e o Paulinho, nem que
brigassem no caminho pois não se davam bem, mandava ambos, já antevia o maior
lendo sabiamente como o Toninho do Luís que lia desembaraçado aos soquinhos a
cartilha! Iriam para a fazenda, só na volta o trabalho, iriam sim. Pera lá, mas
a escolinha só tem o prédio agora, não vem mais professora! Não vem porque acabou
a colônia, igualmente apenas destroço das casas, esse povo anda louco fugindo
para a cidade! ou será por culpa do fazendeiro que só quer gado e não mais
‘gado humano’. Oh pobre do pobre. Ponho então os meus na cidade, lá tem
inclusive grupo escolar bonitão que já vi. Pegam o ônibus de manhã ali na estrada,
será um problema acordarem mais cedo porém vão, vão meus filhotes de caminhão
em cima dos tijolos; até a Joana mando estudar, não faço como o velho meu sogro
que só pensava nos meus cunhados, a cambada que lhe dava dor de cabeça; sei que
a Maria não gosta que se fale nisso mas é a pura verdade; e por fim acabaram
mortos ou sumindo no mundo; morreu o pai? apenas tinha ‘filha mulher’ para chorar,
é isso que o velho ganhou. Não, comigo não é assim, ponho as duas... e se o
outro que vai nascer for mulher, ponho elinha também na aula. Aí melhoro, falo
pra Maria: “Maria, vamos embora desta olariazinha, mudamos amanhã mesmo para a
cidade, arrumo emprego e poremos nossas crianças no grupo escolar!” Sei que a
Maria vai gostar. Ainda quero um dia morar numa bela casa no Centrão, perto da
escola e deixo a Maria se melecar com as vaidades dela pra ficar bem bonita; olaria?
aqui só venho tentar fisgar um dourado na curva e ainda pego uma rabeira no
caminhão de tijolo para não pegar e pagar ônibus; ela? vai se embelezar que é
uma beleza, vai ficar bonita como na fazenda e aí... aí sentiu uma fisgada, uma
e depois milhares de agulhadas, a realidade chegou cobrante, nenhum grande
sonho resiste a uma pequena realidade, esta sendo pouco maior que insignificante,
nem o Zé sabendo o tamanho delas, realidade e dor. Apenas sabendo sim que doía,
depois aumentando para sofrer horrores! era decerto bem um pedacinho da morte.
Cap. 38° – O Lento Andar da
Carruagem
Ao Zé Oleiro a piora piorava pior, ou
melhor: melhor; assim meses, um tempão na cama preso na sua própria casa, as
finanças aos trancos e barrancos, sua autoridade de chefe da família em plena
decomposição e cada vez mais teórica, só restando a Joana, a qual tinha
realmente paciência com ele, porque os outros fugiam, pois a rotina abranda
dilui e elimina a sensibilidade. Mesmo a Maria, agora esperando o sexto herdeiro,
já nem o pobre sabendo quantos eram se contasse os filhotes perdidos entre a
Joana e o Júlio, perdera a conta, não conversavam sobre o assunto; nem a Maria
dava mais atenção como antes, só cuidando do barrigão e chorando a infeliz. A
Maria com uma vida intensa por dentro agora. Mais sofria que vivendo; ou o
sofrer é viver! por fora era o trabalho exigente e exagerado, estafante, para
dar comida aos seus. Além disso sobrava a ela as compras miúdas e a do mês,
esta anteriormente apenas atividade do marido, e ainda a busca de recursos
médicos: o Zé piorava a olhos vistos. A mulher não poderia tratar suficientemente
da criança que vinha chegando. Pensava se atormentando, e se for mulata igual o
Baiano, aquele safado; como enfrentar o Zé. Como se desviar do outro Zé, um
violeiro atrevido... mas e se fosse dele! Ela perdera muitas batalhas na vida,
agora precisava enfrentar a guerra. Andava à sua frente a decadência do viver e
o futuro sombrio do esposo; e ainda o futuro mais sem futuro da nova criaturinha;
contudo lhe sobrava ainda tratar a contento da prole. Pensou mudar-se para o
meio urbano. E o que fazer lá! de que forma ganhar a vida, empregar os meninos;
a única vantagem seria poder cuidar melhor do Zé; o boticário fê-la compreender
que a perna dele estava comprometida; advertiu a Maria, se demorasse muito
ficaria viúva, aí lhe dando arrepios. No trabalho o patrão pretendia que ela
saldasse a dívida, ela fazendo tijolo cada vez menos. Pesou todas possibilidades.
Logo surgiu nova dor: o Zé Pipeiro foi detido pela polícia acusado por mil
coisas, havendo um homem querendo matá-lo por adultério. Enquanto isso a
produção oleira voltou a cair, a crise interna mostrava a doença econômica
minando a pequena indústria; enquanto a crise externa aumentava com a concorrência.
O patrão, descapitalizado, propunha parar, entregar tudo ao governo, dizia.
Claro isto ser o vocabulário do desespero no homem miúdo diante das cobranças
do fisco. Os outros empregados já procuravam lugar melhor, menos pior que
fosse; alguns se bandeavam para a lavoura, outros tentavam a cidade. O Zé
piorou mais, fosse possível piorar. Então foi levado ao hospital já um tanto
alheado e desinteressado pelo planeta. Uma via-sacra a internação. O
caminhãozinho de tijolos não leva tijolo, leva o Zé à cidade; antes a carroça
de barro de trazer compras da Venda levara desajeitadamente o homem até à Vila,
ele sequer teimando ser Patrimônio, o farmacêutico nada podendo fazer. Agora o
Patrão carrega o Zé para o hospital público, a Maria, barrigão assim parecendo
gêmeos e aí seria um desastre maior se dois em vez de um escurinho. Entraram,
um dia inteiro para ser atendidos não obstante a gravidade, pois ninguém na
família dispunha documentação. Operaram o Zé, tem agora só um pedaço de Zé, a
Maria barriguda assim assim a passar mal, espera na sala de recuperação que o
esposo volte à consciência, aguarda silenciosa, pensando nas crianças lá na
olaria, a olaria também moribunda, a mãe lembrando a pequena decerto tratada
pela Joana; sentindo o rebento que se mexe agitado dentro dela; imaginando mil argumentos
a dizer ao seu companheiro, o como convencer o Zé. O Zé Oleiro não abre os olhos,
respira, se respira, imperceptivelmente. Como receberá o novo filho. Não sabe.
Sabe apenas que nunca mais seu homem passará o monjolo a pescar dourado. O
resto são as incertezas do mundo.
Marília dezembro
2002
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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