0140(postado no Blog Livros Inéditos)
Contos sem Fada
Moacir Capelini
moacircapelini@gmail.com
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“O conhecimento tenta
explicar o inexplicável, estimula
a fantasia e nos ajuda a lidar com o
impossível.”
Arnaldo
Cohen
Exortação
Assim como este
livro, o livro é um olho mudo quiçá tolerante do autor pelos mundos onde ande.
Índice:
1.Lei do Arco-Iris, página 5
2.A Fila, pág. 6
3.Nuvens Escuras, pág. 8
4.Vida Conjugal, pág. 12
5.O Capitão, pág. 14
6.Dia
do Dia ou da Desnecessidade do Humor Negro, pág. 17
7.Dinossauro
Pterodátilo Essas Coisas de Era Uma Vez, pág. 19
8.
Circonferência, pág. 22
9. Brincadeira
de... pág. 23
10.
Extemporaneidade, pág. 26
11.Espelunca, pág. 28
12.O Defunto, pág. 31
13.Engano em Desengano, pág. 34
14.A Mula a Mala, pág. 35
15.As Clínicas, pág. 40
16.Morte Anunciada, pág. 43
17.Ossos do Ofício, pág. 45
18.A
ex-Esposa, pág. 48
19.Uma
Realidade que Virou Sonho, pág. 50
20.Ômi
Holmes, pág. 61
21.O
Amor que Fugiu, pág. 64
22.Desconhecimento
Desconhecido, pág. 67
23.Ótica
da Violência, pág. 69
24.Defuntaria, pág. 73
25.A
Viagem? a Mudança, pág. 75
26.Exagerado
Pai Nosso, pág. 78
27.O Anjo da Morte, pág. 80
28.O Crime em Maislândia, pág. 83
29.Um Silêncio, pág. 95
30.A
Noite, Dia a Dia, pág. 97
31.Morrer na Praia, pág. 100
32.Começo: onde se propõe não ser o fim, pág. 102
33.Eventual Campanheira, pág. 105
34.O Menino e o Elefante, pág. 107
35.Limiar do Fim, pág. 112
1. Lei do Arco-Iris
O homem que amo vem vindo aí... Foi
assim que ele disse. Exatinho, ele, muito machão pelo visto e revisto. Chocando
ouvidos desavisados mais. Porque o correto não seria ver a mulher e admirar uma
jovem fêmea bela da espécie Homo sapiens?
Porém
é o que se pode esclarecer, ou pelo menos explicar razoavelmente, dentro dos
artigos e parágrafos da lei do arco-iris. Contam os contos os cantos os santos
populares e os trâmites todos ilegais do sistema caipira que por um desses
insondáveis dispositivos místicos, é bastante e suficiente passar e ultrapassar
um arco-iris com todas as suas sete cores, que seja por mil e uma formas e quem
sabe não mais ou muito mais que setenta e sete vezes sete que, enfim, no dito momento
de ultrapassagem ocorre o inevitável: mudamos de sexo! homem vira mulher mulher
vira homem. Se é agora um bem ou um mal,
mal percebemos agora nos tempos modernos... E mesmo pode-se fazer o contrário e
ainda assim dá o contrário. Provando uma verdade na afirmativa. Daí terá sentido
a frase lá em cimão, do fulano, um sujeito bem constituído, não chocar pela
chocante sentença, assim caidinho pelo homem que lá aparecia, parece.
Conta-se,
já não se canta, para esclarecer ou para mais confundir, que o jovem belo
espécime homem do bicho homem, naquela hora chegando, foi recebido efusivamente
pelo outro, o maluco da frase dita e redita, que o tal fora mulher. Isso mesmo,
num dia de chuva e sol casamento de espanhol em que gotículas mil desviaram mil
e uma cores do sol, que todos sabemos os ventos trazerem; nesse dia, no
instante de sol e chuva casamento de viúva, a bela fêmea humana loura ou morena
seios bem feitos fustigados por cabelos longos esvoaçantes dos ventos fazedores
de arco-iris, andando cadenciado ou desleixado ou mesmo aflitamente por causa
da chuva, pois o vulgo diz que a ‘vulga’ levando a vulva sempre teme a chuva,
aflita portanto – nesse instante ela ultrapassou o arco, virando desvirando a
iris, tornando de mulher homem. Nem cabem mais pontos de exclamação, nem mais
se admiram, tantos arcos e tantas iris casadas desde que o mundo é mundo. Por
essa razão da razão da lei do arco-iris, que o belo macho visto por outro macho
vindo em nossa imagem, vindo também bem olhado bem ansiado e será certamente
bem recebido.
Mas
não se impressione. Você não fuja aos ventos; mesmo que os ventos possam trazer
para si a força do arco-iris. Nem veja viragos a cada mulher ou efeminados a
cada homem. Porque existem os que nunca viram um arco-iris; e existem pessoas
não acostumadas a falar “agora é a minha vez!” Não tema. Tema o tema destes
escritos apenas; ou talvez o vento o sol a chuva...
Ribeirão Preto
outubro 1986
2. A Fila
Quem
sabe não tivesse razão. Ziguezagueava sumia, um atrás do outro, sempre existe
alguém que se enfia na frente da gente e um punhado assim para trás andando
para frente, pensando andar, a gente no lugar da gente e parece que não anda.
Anda. Anda um que outro tentando furar. E não dá raiva! Matracas, tem os que
silenciam para não ofender o barulho dos outros. Sensação de estar perdendo
tempo. Isso caso houvesse tempo mas é tão só interpretação. Orelhar audição a
perder tempo de matar tempo, horas dias séculos? milênios até. Chove? Ah que
calor. Precisa chover para esfriar. Preços das coisas ih... doenças e
panaceias. E muito contar – violências ingratidões temências ciumeiras
‘besteirando’ egoísmo; injustiças contra o centro do universo que é o pensamento
humano. E nada mais existe, o que é o grande valor da ignorância. Aquela fala
da vizinha, aqueloutro do ladrão que entrou na casa, mais ali discutem
inverdades, ainda mais para diante fofocam picham o governo e todos querem
levar vantagem em
tudo. Vendedores não tem, tem embora sempre nas filas
sorvetes sanduíches guloseimas vistosas a troco dum trocado porém não há agora
vendedores, só pessoas que falam importando pouco que se ouça; poucos assopram
o falar quase apenas movendo os lábios sem que se ouça, uns mais exageram nos
decibéis ao contar, outros ainda somente ferem baixo os errados, os quais são
sempre nos outros fora do grupo. Ele não. E quem sabe não tivesse alguma razão.
Ouvia, que consta ser a melhor forma de falar. Olhou para o lado do outro, que
por sua vez é outro para outro mais, outros houverem e falam e imprecatam e destroem
e... atingem? Esse outro também olhava na sua mudez. Assim mesmo respondeu advertindo
(ou lamentando) a orelha do primeiro que sugeria dizer: isto mata, ah a fila!
mata, morro de raiva. Retruca piscando o próximo: ah você já morreu, a espera
aqui é para renascer. Quem sabe igualmente não tivesse razão. Aí encerrou o
papo, antes batera enraivecido os pés dormentes de tanto esperar e se
impacientar – sim, disse respondendo; então morro de novo.
A fila deu mais um passo. Deste
tamanhinho.
Marília novembro
2002
3. Nuvens
Escuras
Via, via negro, negro a existência
sofrida... e se, se indagou, se tivesse que dobrar triplicando o sofrer
dobrando a vida – a si pesada e supondo no fim uma existência de uns quarenta e
oito janeiros com sabor a dezembros – sim, e se o azar sendo sorte a tantos por
aí fosse mesmo azar e viesse ele chegar ao centenário! aí sorriu da bobagem que
seria bobagem a outrem mas para ele mais que isso, um absurdo. A começar que
detestava idosos tendo certa queda à criança, o velho um peso morto na
sociedade e nisso se lembrou dum estudo que fizera sobre um povo primitivo
asiático, qual mesmo o nome desse povo! quando isso! Puxa, voltara na
recordação ao estudo no curso médio de jovem e sequer guardara a gente, a tribo
– só o costume lá arraigado e decerto os ocidentais enxeridos terão já
eliminado esse hábito salutar, pensou sádico e quase se condenando por pensar
criminosamente. Enfim a norma tribal eliminando seus velhos ao chegarem aos cinquenta
anos, quase sua idade agora. Inclusive os próprios idosos se autoimolavam ou
seus familiares assassinavam o parente. Tudo admitido e válido nessa tribo. Na
época terá o jovem mesmo considerado aberração.
O tempo passou, ele aguçando a
observação e nisso concluindo que salvo exceções, a velhice tendo um custo alto
demais à população ativa. Inclusive achou por anos a aposentadoria
desnecessária. Entretanto agora um médico aposentado... ah, cada peça nos prega
o tempo. Não obstante computava no exercício profissional certa eficiência e honestidade;
além de, embora oportunidades mil, nunca deixar a porfia pela cura e pelo
bem-estar do paciente, que fosse o de idade avançada. Não sujara a consciência.
Apesar, considerava aos quase
cinquenta que sua existência andava suja. Fugira de situações que pudesse
acarretar prejuízo alheio; não pôde evitar suas perdas financeiras e morais. Ou
seja, outrem não se incomodava anos prejudicá-lo. Assim arranjou inimigos
gratuitos (humano, lembrou logo em se defender). Parece que tudo concorria e
concorrera a anular ora boas intenções ora a incúria que os tempos mostraram.
No amor o amor lhe fora negativo. O
pensamento religioso e filosófico trabalhara contra si, não por ser ateu pois
bom cidadão e cumpridor das leis e tendo atento o respeito à sociedade e aos
indivíduos. Tivera vários colegas e amigos tentando demovê-lo da descrença,
enfim o proselitismo direcionado a si; sem lhe quebrar convicções. Na vida
amorosa sim houve alguns despropósitos e até injustiças, visto amar com pureza
e ser enganado. Nessa ordem de ideias sequer pensava mais no tempo de rapaz
ainda imaturo e por isso sempre apaixonado por algumas ou muitas mulheres. Na
fase não traiu e talvez nunca haja sofrido traição; garantia-se ter sido puro e
bem intencionado. Até que se casou com uma colega de banco escolar, já quase na
universidade. Depois se formaram, ela como dermatologista se especializando
enquanto que ele optou pela ginecologia. Porém numa ocasião flagrou a
companheira com um enfermeiro e se divorciaram. Pensou realmente no auge da
crise a matá-la; superou o drama, apenas ficou mais pessimista do que era e, descrente,
nem tentou sequer novo relacionamento. A ex-esposa não: uniu-se segunda e terceira
vezes a outros pares e acabou pelo último assassinada numa crise de ciúmes e
por trair o companheiro, o qual denominava namorado, a se encaixar no costume
atual. Antigamente se chamava amante. Sentiu essa morte como fora a sua morte,
ainda mantinha por ela algum sentimento mais puro.
Nos negócios – fora a vida
profissional em que colhera bons frutos e juntara algum pecúlio – nas empresas
das quais participara fracassou, foi explorado e roubado inclusive; perdeu até
o que trouxera do exercício na medicina.
Um dia estava numa mesa de bar nada
respeitável, sozinho, afundado no pesar os anos pregressos; encontrava-se no
estado em que as pessoas dizem ser “fossa”. Pobre agora, fora quase milionário
tivera prestígio e nome inabalável, essas coisas que o homem médio preza tanto.
Contudo não andava a beber na mesa nem estando embriagado como se vê comumente.
Longe disso pois fora sempre comedido e nunca abusivo, além de pela própria
condição física andar limitado e nunca a ingerir bebidas fortes ficando por
isso à beira do abismo, embora um pessimista e negativista também. Em resumo,
bebia com prudência quando bebia, não chegando ao estado tão comum do sujeito
que afirma beber socialmente e depois cai na rua. Ele sempre alerta no decoro e
na imagem não iria dar espetáculo; mesmo por ocasião que a mulher o deixara
havendo o divórcio: chorara escondido; não procurara o ombro dum amigo.
Amigo, isso, sequer tivera pessoa
confiável, em não ser aquilo que tratamos amigo porém apenas aos bate-papos
leves e sem consistência; nenhum do tipo confidente; podendo espichar o tema
com a garantia de nunca ter tido alguém íntimo. Claro haver-se entregue à
esposa, a mulher pra si era sua consciência desperta e ostensiva. Enganou-se...
Além do amor e dos negócios, em que
perdeu, só perdeu; além teve por décadas problemas de saúde. Naturalmente que
pôde contornar alguma coisa ou por ter-se tornado médico ou pela ajuda e
esclarecimento de colegas, sobretudo os especialistas no sistema gástrico.
Entretanto seu estado era crônico, independente ter ao alcance das mãos
correções: o fígado trouxe subjugado o menino o rapaz o médico e agora o
aposentado despojado de sua renda, enfim a glândula manteve sempre o homem sob
cabresto, como diz o povo. Esta uma das razões e não só a prudência o
autocontrole para não se entregar ao álcool, mesmo estando como agora no fundo
do poço; isto também um falar do povo.
Noutro incerto dia encontra-se ainda
mais afundado e sem perspectiva de melhorar. Mesmo porque a melhora está
condicionada à crença, ele descrente já de tudo, sobretudo do ser humano...
Fora recolhido por mãos piedosas a um recanto de pessoas gastas e até
desajustadas. Parecia então um matusalém, embora com sessenta dezembros. Quase
sem nome e com certeza sem residência fixa. Era miserável se acabando.
No recanto, a si um contrassenso até o
nome pois definido como recanto da melhor idade; mesmo aí e apesar de sua
desgraça (na sua opinião, desgraça) – não conseguiu se relacionar, vivendo sua
morte lenta na vida mas calado. Nada o interessando. Permanecia ‘vendo’ o que
sequer notava, quer dizer a graça desgraciosa da conversa do homem comum, os
bailes as cantorias os falatórios e outras bobagens que tantos defendem.
Nessa altura inclusive as pessoas
piedosas que procuravam despertar seu interesse, nem elas haviam obtido
qualquer bom resultado. Ele aguardando num canto do recanto a ceifa da morte,
mui lerda ao seu gosto.
Marília outubro
2012
4. Vida Conjugal
As relações no mundo são ricas, são as
alegrias são as tristezas são as lembranças são os sofrimentos a elevar pessoas
e coisas, o que redunda na História da Terra.
Entremeio são os desentendimentos a
costurar essa História e a enriquecer (ou a empobrecer?) as relações...
O Sol a Lua, aqui em ordem como manda
a ordem e o costume, embora ela queira tomar de vez em quandinho a frente a
desconsagrar o consagrado pelos séculos e milênios, amém. O Sol a Lua.
Se casaram, quem sabe, a memória se
esqueceu, se casaram decerto na igreja verde; se constituíram esposos e se
amaram (neste ponto não se pondo em concordância a concordância que exige o
amor). E viveram, ou vivem? viveram muito felizes (xô dona Carochinha, vai que
invente muitos filhos Soizinhos Luazinhas e – para ser moderno – Bichinhas de
ambos os sexos; verdade nisso o vocábulo ‘muito’).
De repente, puxa vida como um de
repente ajuda num texto na corda bamba! de repente vêm trovões, aí pondo a criançada
debaixo da mesa de pau vai que caia telha que todos temem tempestade toda tensa
e terrível, ai o corisco! A Lua temerosa olha não vê o Sol (ronca ou está
morto... viuvez credo em cruz!) o Sol se escondeu atrás das nuvens negras, têm
as Branquinhas todinhas num remelexo pro lado dele a Lua se enciúma, agora são
as negras tensas e o safado lá atrás delas se escondendo e daí sobra à Lua
proteger a prole composta de Soizinhos Luazinhas Bichinhas ainda não comprometidas.
Ele? ora, o Sol não tá nem aí...
É sempre assim, quando é dia o Sol
canta de galo, dá as cartas, impõe, cria, exige, se envaidece; de noite se esconde
no sono nos sonhos ou atrás das sirigaitas sinistras negras ou na pior das
hipóteses sorrindo certamente às nuvens brancas e frívolas. A Lua acha
frívolas.
O Sol se esconde.
A Lua trabalha. Trabalha trabalha
trabalha, ilumina o lar pouquinho. Se o esposo estivesse presente seria a
claridade suprema, a vida, agora troveja brabo. Depois molhando a casa as coisas:
goteira e estrago. Não aguenta essa vida.
O Sol não se perturba.
A Lua trabalha. No fim de tudo anda
cansada, arrasada: por que tem ser a fêmea e, é mesmo a fêmea, e o macho ao mesmo
tempo!
Aí o Sol chega. Sorrindo. Durma-se com
um barulho desses – sorrindo. Arreganha esclarece põe todos em atividade, quer
que até ela trabalhe esquecido da noite que se acabou na tarefa dela enquanto
ele com as nuvens... ah deixa pra lá.
A Lua muxoxa desagrado com o agrado de
todos. Teimosa teima ficar a fim de provar direitos conjugais e capacidade de
trabalho. Porém quase não é vista, o Sol ilumina tanto que ilumina por sobre o
lume da Lua, a qual irritada ou desconcertada se esconde (agora é a vez dela
uai!) se esconde nas nuvens. Contudo se mostra vez por outra numa rachadura das
brancas assopradas de vento e quase não pode revelar o rosto. Aí arregala: o
Sol Brilha!
A Lua foge, desconsolada, prometendo,
não podendo conviver com o esposo, prometendo sim ser a dona da próxima noite
(então se lembra das sirigaitas negras e brancas, se vinga inventando sua Mãe
para sogra do Sol). Puxa a cortina de fumaça, abre a boca sonolenta. E some.
Marília abril
2003
5. O Capitão
Capitão Zebuíno. Diplomado em
Filosofia, Doutor em
Finanças. A farda a cobrir-lhe e a completar uma vida exuberante;
sucesso. Não sabia disso o Zeca da Juliana, velha feia e encardida. Ele chegou
à Estação da Luz, mala e tudo. Espantado, parou o táxi no casarão branco,
samambaias chafariz, a estátua nua (ah como está o mundo!) Conferiu. A
empregada escurinha e gorda confirmou.
--Zebuíno, sim senhor. Capitão Zebuíno.
Esperou umas tantas horas, apreciando quadros na sala fofa, ora sentado
ora se levantando ora fumando outro cigarro. Teve vontade de fazer um de palha;
não ficava bem naquele ambiente. Chegou o Capitão. Era ele sim, mais gordo,
ventre pronunciado, mais velho, bem vestido e perfumado. Não lhe cheirou bem.
--Não me conhece mais? o Zeca da Juliana, do compadre Chico!
--Ah... – torceu o nariz ao matuto; e completou o dono da casa – É
mesmo, há quanto tempo...
Fazia. O mundo deu tantas voltas, numa delas montou na vassoura da
bruxa, estava ali posto em alta patente, estudado, ou pelo menos diplomado, os
certificados expostos na parede abaixo do retrato do Presidente. Estava ali
perto, rico querido ou elevado na sociedade. Todavia se lembrava da velha
cidade interiorana, sua aldeia. E do Zeca olhando com olhos deste tamanho para
ele; lembrava-se do Pedro Boi, das festanças. Da antiga situação vivida.
Recordava ter sido apenas Zebuíno. O Zeca não o deixava esquecer. Até à
meia-noite matracando, a contar novidades velhas, vomitando inconveniências que
lutava por apagar na memória... A verdade é que ele continuava o mesmo dentro
da farda, ou do fraque... os outros é que não sabiam disso. E o tagarela a
falar a falar. Ainda bem que o Barão não viera naquela noite, nem a Duqueza da
Boa Saúde; e faltaram os outros grandes amigos; porque diante do desbocado, ih
que vexame! Tagarelava. Ele era quase mesmo só ouvidos, a fim de não
encompridar conversas inadequadas. Entretanto não tinha sequer coragem para
expulsá-lo, fazia-o tão somente por uma luta mental e um tremorzinho como
sestro.
--Lembra do Tidinho? Não? Aquele que pegou você roubando galinhas na
casa do Chico Preto... E o Zé da Garça, o de botas... Pois é, ele ficou cinco
anos preso por causa do Coronel. Mas a culpa era do seu primo João... e sua.
Ora, você vivia desempregado e sem um tostão. Não culpo você, nem...
--Ah... (foi ver se todos
estavam dormindo. Estavam).
Continuou aquele roceiro desabrido com seu discurso, entremeado dos “ah”
e “sim” do Capitão. A boca há muito abria, que o sono nada respeita. O café se
acabara na garrafa térmica. E falava falava. Que seria do amanhã! Como fazer para
despachá-lo educadamente? e não voltaria, encontrado agora o caminho? Punha
estas indagações, quando foi acordado pelo caboclo.
--Você está lembrado quando se deu aquilo à defunta sua mãe? que Deus a
tenha! Pois é... foi um tanto embaraçoso para a sua casa, suas primas tão
cheias de pudor e muito religiosas... Você agiu corretamente naquele momento,
todos diziam que sim. Porque o sujeito tinha bem umas cinco mulheres, e sua
mãe, coitada, só ao cafajeste amante e ao seu pai... O Capitão Belarmino ficou
fu...
(O Capitão Zebuíno não o deixou ao menos terminar a palavra; propôs o
conterrâneo fosse dormir, a visita viajara muito, devia ter muito sono.)
--Amanhã nós conversaremos mais – prometeu o da alta linhagem.
Amanhã...
Na manhã seguinte, um dia quinze, o Capitão viajara atrás de seus
negócios, afirmou a criada. Não, não retornaria tão cedo; porém havia deixado o
dinheiro da passagem de volta ao amigo. E também pedia mil desculpas pela ausência.
São Paulo
setembro 1977
6. Dia do Dia ou da Desnecessidade
do Humor Negro
Vivia encafifado não por ter bastante,
por não ter o dia. Dia ‘D’, fatídico, negro. Não, não é bem isso nem fatídico
nem humor. E havia muito. Quase todos dias sem quase.
Por que o da Vovó; tem o da Mãe do Pai
do Economista da Criança, até dos Mortos. Tem dia pra todos dias não tem pro
dia. E aí, tendo tantos, a parafernália o marketing
a comunicação a animação; e o ganho. Fatura o comércio a indústria o setor de
serviço e a propaganda mais especificamente. Tava direito? tava. Não estava não
não ter dia.
Não se pensou no açougueiro no
bicheiro no espelunqueiro; no ladrão! entretanto o que mais tem é ladrão. O Dia
do Ladrão. Teria juiz aguentasse... E se se instituísse o do Corruptor. Aqui
não pensamos políticos, é hoje um sábado e por isso dia doutro pensar.
Portanto estava, proposto nem se fale,
estava era provado por a-mais-b a necessidade de e falta de, até sendo sacrilégio
a ausência dessa santidade.
Assim propôs o Dia do Estuprador.
Tem gente que troca o ‘r’ o ‘p’ ao
falar, não mudando a coisa nem a necessidade do Dia dele.
Com base em tanta precisão se
arregimentou apenas o necessário: imprensa ibope diz que dizem e o escambau. A
convocar e consagrar o seu dia. Ou poderia ser o dia do Serial Killer mui mais nacionalista do internacionalismo global. Então
ligou sua moto, foi trabalhar.
Deixou em casa a esposa reclamando.
Nessa altura da evolução ela já sabia falar falta isso aquilo não tem mais um
quilo e falar da vizinha enxerida brigando por briga de meninos que depois
brincam enquanto os grandes, ela titica assim, aí os grandes batendo boca e o
‘peteú’ atrasado, é i-pe-te-ú não se corrigia, depois da volta volta-se pra ela
ela emburrada. Aí foi trabalhar de novo.
Defender o leitinho das crianças? É. E
também suas necessidades, sem necessidade disso, todos sabem, que fazer! Andou
entrou voltou entregou xingou brigou enfrentou fugiu chegou espavorido cansado,
ela ainda emburrada fechada a quantos homens houvessem por metro quadrado de
macho. E noutro e noutro dia ainda e mais depois e depois mais ainda. Pensou repensou
no Dia.
E se ofertariam o de melhor e mais
vistoso e necessário. No Dia da Mãe a flor, no da Criança brinquedo, no da Vovó
o chocolate e faz mal. Ah no Dia do Pai o lenço a gravata ao desuso. E no
dele...
As lojas abarrotadas de facas,
revólveres, inclusive os de brinquedo que impressionam bem, produtos eróticos,
bebidas; e drogas é claro, droga! Uma festa, a sociedade, a tevê, o
desempregado, o desentender, o desesperar. Uma Festa!
Uma festa a convencer no Dia do
Estuprador. Não convenceu a polícia, o povo a pedra a raiva a fúria, o impensar
na festa. Não convenceu a justiça, nem pensar a consciência, esta não perdoando
nunca, passando por cima da Divindade que sempre perdoa. Nem o pronto-socorro,
o pronto-socorro em trabalho à moda Frankestein.
Marília outubro
2003
7. Dinossauro Pterodátilo Essas
Coisas de Era Uma Vez
Vovó coçou a cara, estava visivelmente
cansada quem sabe estafada ansiando por Freud férias e daí por diante.
Diante dela a Chapeuzinho Vermelho
medonhamente assustada. Ainda assim indagou a estória do dia.
A do Dinossauro, minha neta!
Vó, ainda tem Dinossauro!? o Caçador
me falou que anda em falta.
Ele, diz Vovó, estava querendo lhe
comer... é isso.
Mas, redarguiu a Jovem...
Não tem? como não tem, tem inclusive
Pterodátilo, unzinho passou voando agora a pouco, fique comigo, o bicho queria
lhe comer...
Ai que horror Vovó. E a estória?
Era uma vez um Dinossauro que...
Interrompeu a Menina: ele não é bem maior
que esta sua casa, Vó!
Maior, Neta, cuidado, quer lhe
comer...
Então, ai que medo, Vovó...
Pera lá Garota, ir-me-á indagar por
que este nariz tão grande e terei – está no script
– terei que dizer “é pra te cheirar!” não vai perguntar?
Vou. Por que esses olhões tão grandes!
Pra te ver, minha Neta!
Vovó, perinha lá, está fugindo do
Dinossauro. Então...
Então, Chapeuzinho, ah Você me deixa
vermelho de...
Vermelha, Você é minha querida Vovó,
fêmea de Lobo Mau, vermelha
com ‘a’.
Tem razão, Filha, o Dinossauro um dia
queria Maria e sofria de dia...
'Mais' ele era muito grande?
Era sim, Vermelho Gostosa, era de fato
mas se deve dizer ‘mas’ não ‘mais’
como usou gramaticalmente incorreto, isto digo porque...
Espere um pouco, Vó, não quero aula
muito menos de língua, estou em férias e vou levando aqui uns bolinhos que a
Mamãe...
Ah o bolinho, vou te comer!
Não é ‘te’ que se abusa, é ‘lhe’ que se usa.
Como com te ou lhe
se não se importar.
Sim, me importo. Quero agora o
Dinossauro que o Lobo Mau comeu e...
Já sei disso: mastigou de boca aberta.
É.
Deu-se o contrário, Chapéu, o
contrário: o Dino era maior que o Lobo, a ordem geral das coisas nas coisas
pertinentes às coisas é o pequeno ser papado pelo grande, não é?
É.
Então. Aí o Dinossauro foi com aquele
barrigão cheiinho de Vovó a uma lanchonete dançar hépe e régue e fúnque essas
coisas do entulho cultural global e aí...
Mais
Vovó, tá bem ‘mas’, como isso se
Você está aqui me cheirando com esse nariz tão grande, por que assim um
narigão, se Mamãe disse que o seu era tão petitico e um tão bonitinho...
Pra te cheirar!
Lhe, Vovó, ‘lhe’.
Aí o Pterodátilo...
Não era Dinossauro? mas não é maior
que este casebre de Velhinhas passarem fome...
Aquele da estória não. Não crescera,
crescera só a barriga cheia de Velha. Então ele falou:
Já sei já sei, já vi o script, já sei Vó: – falou quero agora
um Chapéu.
Foi isso sim, ora que diacho, não me
deixa contar e olhe aí, derrubou um bolinho no chão, sujou, depois vai limpar
com detergente bombril e pôr o tapete da casa no sol pra tirar a fedentina, não
vê que sou Velhinho de linguinha assim demais cansada!
Velhinho não, ‘Velhinha’ e linguona assim de grande,
assustadora mesmo! A propósito... para que essa linguona, aí Vovó!
Agora chega, Jovem. Já me papou o
Dinossauro espantou o Pterodátilo e a estória toda, ainda me suja o chão com
bolinho.
!?
Chega.
Você vai me comer, Vó!
Sim, tem direito a espernear,
inclusive li seus direitos de acordo com a CIA.
Vai como!? assada malpassada ao molho
pardo ou será in natura?
Vou.
Mais, digo ‘mas’, está me levando para
o quarto, não é na cozinha lugar de fazer Dinossauro no fogão?!
Vou.
Mas a Mamãe, o Caçador, o Bolinho...
Não precisa mais ‘mas’, aqui é mais
‘mais’ mesmo; não precisa também limpar o chão, somente mandar depois a roupa
de cama para a lavanderia.
Marília outubro
2003
8. Circonferência
A plateia, enorme. Sumidade santidade
imunidade tempestade, ‘doutoriedade’. Chamando palestra aos íntimos, conferência
aos mundanos, simplesmente porque não tinham inventado a circunferência a
recorrência e a demência. Aplaudia-se a cada invectiva, a qualquer empolgação
do expositor, no estilo ‘crie fama deite-se na cama’, aos mequetrefes a lama e
à lama. Entusiasmava, patético, patéticas vozes, alardeando saber e saber dizer
a saber contar. Contava já a sala com seu entusiasmo avassalador no estilo neopentecostal.
Porém tudo se acaba. Acabam horas dizendo falando provando reprovando também,
se santificando. Finalizou dialogando. Agora, findo. Todavia, diz, quero
fazê-lo com chave de ouro:
Abençoados!
Repitam: a-ben-ço-a-dos!
(O público desafinadamente:) Abençoados.
Agora...
Agora.
Não!
Não.
Eu disse...
Eu
disse.
Não é isso!
Não
é isso.
Vocês não me entenderam!
Vocês
não me entenderam.
Parem!
Parem.
Estou ficando louco!
Estou
ficando louco.
Seus burrros!
Seus
burros.
Chamem a polícia!
Chamem
a polícia.
Tragam camisa de força!
Tragam
camisa de força.
Ai meu Deus!
Ai
meu Deus.
Algemas, cordas, armas!
Algemas,
cordas, armas.
A polícia atendeu; vieram policiais,
vieram suáte choque civil militar o escambau. Trouxeram camisas, só havia
quinze, ele a primeira e único com direito a ponto de exclamação e reticências
por hierarquia; as demais aos outros quatorze da primeira fila, não tinha
camisa de força para mais de mil a fechar o círculo da circunferência.
Marília maio
2002
9. Brincadeira
de...
A menina entrou imperturbável e livre
naquele recinto amigo, ela pensava amigo, entrou como todo e qualquer íntimo e
assim adentrando pelo portão que abrira-fechara e após o corredor da casa entre
esta e o muro, indo para os fundos da residência modesta mas não miserável pois
dessas que todos os pequeno-burgueses e operários qualificados oferecem aos
seus; ao penetrar já nos fundos a porta de entrada, escancarada às amizades e
sem preconceitos com estranhos, aí se deparou com cena então a si familiar – o
menino brincava, brincava como os outros moleques de caminhãozinho, carros
espalhados, rodas soltas, unzinho sem roda rodando decerto por sua própria imaginação
ou imaginação do doninho pra lá pra cá e ainda zunia seu motor a tremer a
lataria de plástico verde desgastado do sol do tempo do uso. Ela achou graça.
Parou quase acocorou-se perto, de olhos talvez cobiçosos. Ele? ele nem
percebeu, porém notou loguinho depois e a convidou numa vozinha conhecida agradável
“quer brincar de carrinho?” A menina sorriu, meneou meneando a cabeça bonita a
mexer as tranças louras, naturais? ora dona verdade estraga prazeres, isto
somenos. Sorriu demorou e após responde: prefiro brincar de boneca. Elinho
agora ele a sorrir descrer repugnar até pelo absurdo com tantos automóveis ali
espalhados. A companheira, ou só conhecida, ou só amiga, ou só parente sem
atrito língua-e-dente, a companheira fez um trejeito indescritível e dando uns
passos entrou de vez na casa; saiu da casa. Reteve-se antes de ir embora em pé
de fronte do rapazinho. Ainda a brincar, mudando inconstante e inconsistentemente
de carro de carga de caminho de gosto; aí olhou pra cima aqueles olhos
esverdeados dela; muita vez a cor de sua vista podendo ser negra roxa preta e
mesmo castanha que existem, contra cores que não existem mas continuou a brincar
imitar de lábios o som do motor, agora alto parecendo o ronco numa subida com
carga pesada. Mais uma vez meneou ela a cabeça bela alumiada ao sol que lhe
aloirava bem os fios uns em trança outros soltos esfiapados. Trajava o comum porém
bonito sem que o machinho da espécie notasse e talvez pra fazer a alegria ou
inveja das outras feminhas. Quer de boneca!? Ele não responde ou nem escuta
ouvindo o barulho forte do motor; e havendo uma falha no roncar, seria vela platinado
carburador cisco no combustível igual no carro de papai. Papai! ela quase
gritou completando – é o namorado de sua mãe. Certo esse errado, errado seu
certo também porque sua mãe é ‘sua’ porque mãe no momento sendo a segunda
namorada do seu genitor... Terceira, interfere ofendida, e você não tem nada
com isso, visto não ser minha irmã nem minha amiga nem minha prima a falar
nesses termos, então despencou nas lágrimas; ambos constrangidos não sabendo
que mais dizer. Ela daí se encaminhando ao portão de saída, ele atrás de lado
andando devagar como que a pedir perdão ou envergonhado. Por isso sorri, uma
forma de não ter que falar ou apertar amistosamente as mãos, vai fechar o portãozinho
à visita, ela em sua frente próximo exala seu cheiro que o homem, é um homem
ela mulher, que ele não sabe precisar nem sabe se aprecia ou... A menina se
adianta “acho que gosto de você, seu bobo”. O bobo não consegue responder,
monossilaba qualquer, certamente ao pensar já num dos carrinhos e seria um do
último tipo? qual a marca, qual ano de fabricação, funcionaria? Nisso a garota
promete – diz estar atrasada – promete na pressa depois trazer-lhe a boneca
mais bela amarela dela. Não escuta ainda o macho da espécie e quando assim não
sabe o que mais dizer, emite qualquer som que pode ser sim, vai logo, não tenho
culpa ou outro abuso do absurdo. Ela não interfere e sorri, sai some na rua no
fim da rua já não mais que um vulto que o projeto de homem vê um pouco,
forçando decerto e quem sabe já em cupidez...
Contudo ela torna. Agora não é boca de
noite, noite fechada consumada; sons difusos na vizinhança nem os cães alertas,
um só ladra longe, até eles dormem ou ressonam. A noite é feita para dormir.
Ela, não a noite a noite é passiva aos ativos dos acontecimentos. Ela diz
coisas ternas, sugere, cheira, cheira e exala, o frio vem vindo lento depois a
galope convidativo do sono do aconchego do perpetuar inclusive, coisas da noite
que a noite e os amantes entendem ou exatamente não entendem mas conhecem,
quiçá experimentam. Ela despe o resto das vestes, mesmo a camisola transparente
atraente, inclusive aos bobos. O bobo se lhe achega, meio tímido lento medroso
– não é um conquistador! Dá licença dona verdade? não, sim sabe brincar de carrinho;
ela não, sim de boneca. Faz cada qual o intuitivo ao parceiro do dia da hora da
noite, a noite conspirativa e cúmplice, e aí... bem, a noite é ótima pra
dormir... depois vêm o dia os dias as outras noites; e a cegonha e as bonecas e
os carrinhos.
Ah sim, naquele tempo havia cegonha.
Diz a carochinha que... ele não assume “ah, sumo” teria dito pensando; ela fica
só com a boneca. Naquele tempo havia cegonha, afirma a carocha... Basta.
Marília abril 2012
10. Extemporaneidade
Num louco
momento em
meio a tantas eternidades
hajam, um louco ,
pois que assim se pensou pensaram os que
ainda pensavam – um
lunático surgiu na estrada !
Não quaisquer caminhos ,
no rumo certo
quem sabe, menos
ele sabendo, se viu no infindável , o asfalto
negro e buracama, tendo duas faixas
‘inatravessáveis’ e bem menos
válidas aos abusivos na condução . As conduções , autos
apressados a correr
desesperados ao sem fim ,
seu fim !?
e viu sumir na sua
frente a estrada
na extrema , as pequenezas, nessa extrema da eternidade ,
ambas extremidades pois
que olhou assustado nos
dois lados para se assustar melhor . Aí se
espantando bem no ver carros de cores
mil e gente
essa gente de vestimenta
esdrúxula , já
a largar os veículos
a funcionar ; ou
por curiosidade
ou por
temor ... E a curiosidade
daquele ser curioso
também era
por admiração
além da curiosidade
pela vestimenta
da gente . O pitecantropo
se vestia bem a caráter :
uma pele malhada
por volta daquele disforme
corpo arcado; além
do mais os pelos
espantados e os pelos da cabeça alevantados embora
escorridos pelo
pescoço curto
e a barba enorme !
Ninguém , pensaram os curiosos nas suas
máquinas loucas, ninguém
com a loucura
a fantasiar-se fora de época
carnavalesca assim .
Ora , disse um
petiz a indagar
coisas e mais
coisas para
as quais nunca
os adultos têm respostas ,
ora falou elinho: é óbvio ,
caro Watson, que
‘isso ’ veio
por máquina
do tempo . Mas
ninguém creu ninguém
com paciência
a entender criança .
Então os grandes
retomaram seu ‘curiosar’ e sua temência a examinar
aquela coisa andante
vestida de pré-histórico
ali à sua
frente , assustada com
as máquinas velozes
e a gente raspada e vestida
de esdrúxulo , igual
o viam. Não sabia ele quê fazer
e se fazer . Então
optou em bater
no peito sem
imitar a Chita
do Tarzã e berrar forte
seu “u-u”. O impacto
foi maior que
o impacto do seu
aparecimento ancestral
naquele meio civilizado, se ligando nas
duas faixas brancas no preto do asfalto
e se perdendo nas extremidades de engolir automóveis ,
estes que eram bichos ainda desconhecidos
ao pré-histórico . Por isso debandou,
quis debandar , apenas
se movendo sem saber
pra onde
correr ; enquanto os civilizados, não obstante o
berrinho do filhote assustado com os seus , os
adultos também debandaram, só que sem organização no corriqueiro
‘perna para que te quero’. Uns tantos sequer conseguiram no pavor entrar
nos carros ,
outros desabalaram a largar
aquelas conquistas poluentes da civilização .
Nem sabendo, sabendo quem sabe o menino
e nunca se ouve garoto ,
nem sabendo ninguém
se o animal vestido
de couro de bicho ,
se ele achou o canal
do tempo , pois nesse tempo talvez nem existisse túnel
que valesse.
Marília julho
2005
11. Espelunca
Acho
poderia pôr como “Ótimo em Espelunca”. Cheguei tarde na urbe interiorana. Notei
tudo esquisito, noutro dia mudava a impressão sobre o lugar belo. Mas com
respeito à acomodação mantive a ideia inicial: caíra numa ratoeira!
Noite
anterior tomara bom hotel noutra comunidade. Agora, cansadíssimo, não quis
completar a informação de uma boa alma que me indicara: “tem uma ruinha, depois
uma ruona e depois, no meio do quarteirão, um hotel; se quiser um melhor é
pouquinho à frente”. Parei no primeiro e me dei mal.
O
prédio estava caindo fazendo supor centenário. A custo a hospedeira me atendeu
e mostrou dois quartos com banheiro, minha exigência; escolhi um pintado no dia
com ‘latéx’. Deixei as coisas na cama enquanto a dona poria toalha (depois me
confirmando: “já ponhei”) e papel higiênico, eu iria ver horários na rodoviária
e fazer meus planos para continuar a viagem.
Voltei,
estava agora trancado no meu paraíso pelo qual pagara mais ou menos 100% a mais
à hoteleira. Iniciei o exame daquele máximo na definição de espelunca. Vejamos
as suas características conforme possa agora a memória vomitar:
Grande,
teto de trava em madeira caibros cruzados por tábuas com muitas frestas. Nesse
teto um ventilador adaptado que pedi aos céus não caísse na cama embaixo, ele
só fazia barulho e não vento a espantar o terrível calor da região noroeste;
não obstante foi de grande valia e ficou noite inteira ligado a contrabalançar
a água que jorrava sem parar da descarga, o que barulho bom pra não dormir. No
quarto ainda a cama de casal com dois travesseiros altos demais embora limpos,
como limpa a roupa de cama, sendo apenas o lençol pois não tinha colcha; o
colchão amanheceu afundado devendo ser de molas cansadas poucas ou buracos
muitos nas ripas de sutentação no estrado. Tudo limpo, até as paredes limpas,
em não ser o chão que estava respingado, embora não devesse reclamar por ser
avisado pela recepcionista, que prometeu limpar o solo noutro dia, e nada
dissera sobre a fechadura enguiçada. Agora, pernilongo, suponho por causa do
cheiro da tinta, lá não era demasiado, pernilongo foi um só e cantava como
noutros lugares, não me queixo dele. A instalação elétrica era autêntica
gambiarra como mostrada na televisão quando matéria a condenar miséria explicar
incêndio e dar exemplo fora da lei – impossível descrevê-la: uns zigue-zagues,
nós, emendas, fios soltos, enfim o melhor no assunto. Havia uma vantagem: o
interruptor era uma pera comum e funcionava bem. O ventilador é que precisava
ligar direto numa tomada de improviso àcima da altura do homem mediano, embora
um pequeno pudesse dar pulinhos para alcance. Pareceu-me que se gastou um rolo
de fita isolante nos fios, talvez mais por interesse artístico. A luz era de
umas quarenta velas e refletia bem no branco pintado. Não me lembro do estado
dos batentes. Entremos no banheiro. Não tinha pia, até para escovar dentes se
fazia por pingos do chuveiro, uma ducha velhíssima funcionando; bem entendido:
com água fria porque não ligava a quente; além do mais não ficou gotejando como
comum. O vaso sanitário era pouquinho sanitário, só pouquinho; quebrado
trincado colado (não havia visto ainda um colado em não ser um certo atirado
num entulho, por sinal cor de rosa com pintas pretas pintadas e desse tal não
fiz também uma foto inusitada). Se disser como se supõe de entrada que fedia,
seria mentir. Porém havia bem outras
sujeiras, o que valeu concordar com meu caprichoso ânus que se negou a fazer
seu serviço profissional na coisa! Tampa? que é tampa de vaso... O cano de
alimentação do vaso descia solto e remendado. A caixinha de descarga andava
rachada, balançando entre as amarras de fios velhos de plástico. O cordão de
puxar, de abrir, a descarga ia até quase ao vaso e por dentro devendo a caixa
estar espandongada (palavra linda que se encaixa nessa mixórdia descrita) pois
a água escorreu desde que cheguei até que saí (vivo!) do hotel, não se podia
ligar e a água como disse escorreu sem parar barulhando ótimo a disparar a
insônia! Ah, não havia luz e por isso dispensável se torna o interruptor
elétrico no banheiro de um metro por um num chão molhado e grudando. Tinha um
cesto para pôr papel sujo; não existindo porta-sabonete e sequer porta no banheiro.
Terei
me esquecido algum detalhe? Penico? não existe mais urinol numa pensão metida a
hotel. O barulho duma certa máquina vizinha encobrindo o barulho dos hóspedes?
mas isso não culpo o Pálace Hotel Universo. Preciso falar da janela:
grandalhona, ‘frestosa’, pregada e ameaçando algumas de suas tábuas a cair.
Outra coisa: não olhei debaixo da cama... E há um porém curioso o qual não
posso explicar: saí de lá inteiro, vivíssimo. Embora muito mais cedo que o
horário de costume no meu costume de hóspede noutros lugares, não ficando para
ver houvesse café matinal, já temendo o café que tivesse...
Na
conclusão uma ideia: nunca experimentara como experimentado caixeiro-viajante
melhor coisa em termo de espelunca; esse hotel atingiu tecnicamente o ótimo no
gênero.
Marília agosto
2002
12. O Defunto
Ocorreu de o João da Silva deixar
este conturbado planeta, engolido por sete palmos de terra de péssima qualidade.
Para alegria geral dos vermes e possivelmente para a tristeza do círculo
familial.
A notícia foi trazida num carro da
rádio patrulha e entregue por um policial jovem ainda e inexperiente, o qual bateu
palmas à frente do número quarenta e cinco:
--É aqui a residência da viúva é do
sr. João da Silva?
Era. A viúva é que não sabia disso.
Choro, lastimação, os vizinhos curiosos. Espantaram inclusive ao Juju, um latir
interminável. Contou como foi como não foi; o coletivo despencado. Não, não
sofrera nada, morte instantânea, consolou o de farda.
--Meu João estava com tanta saúde!
Pobres das crianças – lamentou a esposa.
--Mas... – disse a chorosa criatura
– ele não ia para Campinas quando partiu; falou-me que faria cobrança na região
de Taubaté!
O jovem desconhecia as razões, pois
todos os defuntos têm lá as suas. Entregou-lhe uma pasta com uns folhetos e
outros documentos dela conhecidos, inclusive comprovante do imposto de renda.
Que não tivesse preocupação pelo enterro, o Instituto Médico Legal não
liberaria os restos mortais. Foi embora, ficaram as lágrimas.
Aquele dia treze virou um desastre
completo para a família. O cume dessa crise entretanto ficou para outro dia,
quando os membros se reuniram a fim de recolher os despojos do navio naufragado
tão jovem. Entre as muitas lágrimas da senhora Ana e da filha mais velha, os
parentes começaram a destrinçar a herança. Ora, isso é sempre um problema profundo
ao pequeno-burguês. Os amigos vieram ajudar na obra de divisão e na de consolo.
Sobravam a casa mediana sem pintura, um fusca de uns quatro anos de uso, agora
descansado na garagem e economizando combustível para a nação; também algumas
ações empregadas numa sociedade muito anunciada na televisão. E as dívidas, que
lutavam com os créditos, ganhando deles por uns cinco a um. O Geraldo apresentou
várias ideias para a solução dos problemas prementes e uma porção de palpites
que desagradaram. Amigo da família, espécie de propriedade dela disposto para o
que desse e viesse porém mui emotivo, mais era consolado que consolava.
Passaram-se uns três dias, a dor não
passou, sequer diminuiu na casa vazia; seu aspecto é que mudou. Dona Ana lavava
roupas num tiec-tiec maquinal e em suspiros, a garota tomava suas bonecas e a
pentear interminavelmente, o menino andava como sempre pelas ruas. Volta e meia
um indesejável visitante a reabrir a ferida. Os amigos deviam por sua vez
explicações sobre a morte do João à viúva e para os estranhos, as versões
exagerando um pouco, como é necessário à personalidade de cada pessoa. O
Geraldo, esse então pintava o defunto, vestia o mais recente hóspede de São
Pedro com roupagem dourada, auréola angelical e tudo o mais; e se mortificava
gostoso numas autocondenações, rememorando passagens antigas do convívio amigo:
doía-lhe não haver aproveitado melhor seu tempo com o João vivo. Estava assim o
sujeito compenetrado na porta da padaria do bairro, chegada a noite, quando
alguém tocou-lhe os ombros:
--Geraldinho! dá cá um abraço.
--?!
O que lhe aconteceu homem, está como
cera! Olhe, achei direitinho aquilo que me pediu, em Taubaté... O que tem
você? Gente acuda, o Geraldinho desmaiou!
Apenas quando recobrou os sentidos é
que o moço constatou ser o João da Silva em carne e osso. Diabo, não podia crer
mesmo fosse assombração. Mas...
Quanto ao João, o fato é que um larápio roubara-lhe a pasta na
rodoviária. Não houve tempo hábil para dar parte à polícia, ou perderia seu
ônibus já de partida; portanto fora sem pasta e sem os folhetos. Não tomara
conhecimento daquele desastre pavoroso de Campinas... Por isso, ainda abanando
o Geraldo ressuscitado, perguntou-lhe:
--Como está meu pessoal?
São Paulo
outubro 1977
13. Engano em Desengano
Andava, andando, andava esquecido e mesmo estivesse no lar, também
esquecido o sujeito ainda jovem ; aqui opinião dum vizinho
em cacos
e quase centenário ,
um que
o tratava por “meu
jovem ”. Quanto
ao dito lar, nessa altura
não mais
que força
de expressão porque
ficou para todo
o sempre um ótimo
eterno solitário
– perdera a esposa primeiro ,
os filhos e finalmente
os vizinhos , aqui
exagerando por causa
do matusalém a lhe encorajar
a vaidade indicando-o por ‘meu jovem ’, expressão
já mentida nas primeiras linhas destas linhas .
Todos os circunstantes
sem exceção ,
com exceção
da exceção matusalêmica, todos fugiram dele; aí
dizer-se lar por
força da pena ,
realmente voltava pra
casa a se esquecer
que fora um
lar com
mulher e crianças
brincando no faz de conta. Todavia não eliminando a premissa
curiosa de se esquecer
de tudo . Tudo
neste ponto é tudo .
Dizia, puxa , falava de fato
“pôxa!’me esqueci de tomar café .
Claro , a gente
fila o cafezinho em
casa alheia
ou no bar
da esquina . Não
é grave . Errei, caramba ,
errei o almoço ontem ,
jantando! Não é grave .
Jantando outro dia ,
quando vi estava era
a almoçar ! Não
é grave . Xi ,
me enganei de esposa !
Não é grave .
Quer dizer , o
marido terá achado
errado ou o fulano
ter-se-á esquecido entrando no guarda-roupa
ou mesmo
a fugir pela
janela carregando as calças a se vestir na rua ; e não chega a ser indecência ,
indecência é sair pelado na rua .
Ih me esqueci pagar a conta .
Ora , não
é grave , hoje
em dia
quantos ! não
se pagou ontem , quita-se amanhã . Errei de casa ,
disse. Não é grave .
A gente pode pensar
por exemplo
ter errado de casa
acertando o lar . Desencontrei-me do amigo . Se errasse de amigo ,
a trocar ‘A’ por
‘B’, ainda não grave, todos são amigos até prova em contrário e portanto errando de amigo
ainda acertou o amigo .
Não é grave
enfim . Ontem
me enganei de carro .
Mas quantos
não entram no automóvel
errado, depois a chave de ignição não entra, sai o freguês
a procurar o seu .
É grave ? não
é. Errei... Errou? errei de cidade . Isso não é grave , talvez embaraçoso . Depois – falou o sujeito
cheio de enganos
e esquecido à beça – depois me esqueci
de ficar quieto .
Não é... É sim: fui preso ,
trancafiado na superlotação carcerária... Mui grave.
Marília julho
2005
Custei mas voltei, compadre. Cheguei
de volta ontem noitinha, a pobre, cansada, nem dormiu de pé como os outros
burros: despencou no chão extenuada, quase caso de extrema-unção e aí teria de
acordar o padre ao serviço religioso; ah tem visto o padre?
Fui pra capital como havia dito que
ia. Fui ver a filha, ela trabalha lá, não disse: trabalhava pois se mudou para
Manaus. Então, fui lá na capital exatamente por causa dessa mudança. E aqui
entra a teimosia e a teimosia da mula, visto a mula eu ter levado ou antes ela
me levado me levando e levando a mala. Escuta só.
Primeiro, que foi um trabalho insano
cansativo o meu para tentar levar a mula que me levasse até a capital do estado
no estado em que se encontra: longe daqui, tudo medido nos quilômetros dos
grandes em mais de mil; e demais aborrecimentos da capital na capital. O motivo
era dos bons e me pus na estrada, a ouvir palavrões dos caminhoneiros dopados
querendo um ultrapassar o outro e a nos ultrapassar: a mula a mala e eu, claro,
fui junto com elas.
O motivo, a mudança. Ela... que mula
que mala coisa alguma: a filha. Ela embirrou deixar o tribunal... Não senhor,
compadre, não estava sendo julgada nem criminosa é – é um anjo, uma santa, como
todas filhas de todos pais que se prezem. Ela trabalhava (ambos compadres a
dizer “trabaiava” e pronunciando também “cumpádi” e não compadre) trabalhava no
tribunal – aquilo dos bestas se enfiarem nuns vestidões negros por cima da
camisa furada e da gravata e tendo uma expressão de peso ao público, enfim dum
homem público santificado pelos deuses, eles deuses igualmente por sua autoridade;
havendo no tribunal mil advogados e uns mequetrefes, entre eles minha filha
funcionária do dito tribunal, na intimidade a menina tratada apenas Fia. E o
povo e no meio do povo jornalistas abelhudos e xeretas a espocar luzes e
câmeras até tevê tendo tudo teimoso pras vistas da gente. Mas ela... não a mula
nem a mala a Fia, a Fia pediu a conta indenização por conta de mil anos de serviço
esfolada no trabalho, não recebeu dinheiro porém a conta e rumou a Manaus.
Não, não é aqui que acaba, acaba o
começo e o porquê da mula da mala e da mais... não: da menos valia do seu compadre,
oh meu compadre, o seu compadre aqui de volta para lhe contar os transtornos
nas teimosias.
Isto porque a Fia bem teimosa, não,
compadre, mais teimosa que minha mula nem a mala, ninguém com mula podendo. Acredite que bateu o pé... que mala coisa
alguma, já viu mala com pé e mula não tem pé tem patas, quatro bem fortes e
dispostas, as duas traseiras me sapecaram coices. Digo quem teimou foi a filha,
a filha se foi de mudança, deixou seu apartamento – pra mim ‘apertamento’, não
cabendo mais que vinte gatos trinta cachorros quarenta cabritos e nenhum dinossauro,
sobrando somente um corredorzinho para ela morar e passar indo ao tribunal
vindo do tribunal; e assim dei razão à teimosa Fia: dessa maneira não dava não
deu deu no pé rumo a Manaus, falei que fora pra Manaus! ando um pouco desmemoriado,
se já falei, falei e continuemos. O caso agora é outro: a viagem. Eu desejando
que fosse de mula, mais terra firme com vista e no chão; ela, a Fia, ela
teimando ir de avião, maior que aeroplano, de aviãozão na firmeza das nuvens e
sem vista, vista sim pra baixo aqui embaixo.
Estamos nisso: ela teimou sair do
tribunal teimou ir de avião teimou mudar. Fui lá na capital tentar impedir a
loucura desse perigo da viagem, ao menos interferir que fosse na mula, mala
levaria no ar ou na terra. Na mala dela atulhou mil livros, ela não come arroz
e feijão como nós: come livros; e por isso levou desde os calhamaços de filosofia
e de grande sabedoria até a “Cartilha Sodré”, aquela que inicia com a lição da
Pata Nada. Tudo em vão, porque teimou voou carregada de sabedoria e deixou minha
mula e a mala minha sim mas sem atulhar a minha de livros e indo para o norte,
o Amazonas, sabe o compadre.
Da ida nem falo mais, falo mais da
mula cansada e até o trabalho que ela me deu na capital; não a filha, a mula.
Inicio com os problemas porque lá na
capital tem muitos, tem trem, mataram o trem deixaram o de subúrbio para
infernar o povo; tem ônibus até demais, só que não andam, andam inclusive de
menos no trânsito caótico; e tem o metrô, metro o compadre tem e tem mesmo
trena pra medir o roçado, falo de metrô, com chapéu no fim da palavra. O compadre
não sabe disso, sabe a mula. Pois saiba – ninguém queria a mula, me expulsaram
com a mula das estações das conduções e das ruas, mesmo estando na enchente,
porque lá enche de água de trânsito e de pessoas abobalhadas no trânsito. Por
fim encontrei o apartamento da filha.
Pior foi quando a procurar sem achar o
apartamento da Fia lá nos Jardins, os Jardins um bairro ricaço da capital. Então
a mula defecava onde amarrada, eu prendia ela nas árvores dos Jardins, ela
depositando montões fazendo xixi adoidada e aí... aí? aí, ai, vinham as criadas
dos ricos com pazinha saquinho latinha recolher as fezes da barriga que não
parava de encher-esvasiar! Não sei como come tanto, tanto come como governo o
alimento do povo a mula... Nisto outra questão séria: a vaca dessa mula porca
me comia as flores dos ricos e os ricos reclamavam reclamavam mandavam suas
mequetrefes reclamar comigo; não adiantando reclamar com a mula que nem ouve a
mala iria escutar criada? Bem, com isso foram horas e dias.
Ah tem mais um lance curioso,
compadre: a saco sem fundo dessa mula olhava pra mim e queria que eu partilhasse
com ela ainda o meu pão com mortadela, a gente da cidade fala desse jeito e não
sabe que é ‘mortandela’. A mula comera a planta dos outros e queria meu pão!
Por final chegamos. Eu a mula a mala,
a mala daquelas enormes de nordestinos, ótima para caber sabedoria que a filha
iria levar pra Manaus não levou teimando ir de avião. Chegamos no apertamento; depois se foi a garota
no seu aeroplano nos planos dela em ver de perto o rio Amazonas.
Tornei a arrear a mula, agora de volta
pra casa – iria tornar a pé ou de carona, voltaria no trem de segunda o homem
matou o trem, invertendo pois que nos outros países é o trem que mata o homem
aqui o homem... não tem trem e então pegaria uma carona com caminhoneiro no seu
caminhão ou que fosse enfim viajar a pé (o compadre ao compadre dizendo mesmo
“diapé”) a pé mesmo, pronto. Tudinho porque ela não quis... a mula quis a mala
quis, a Fia foi de avião não quis, não falei isso?
Pus outra vez os arreios, amarrei a
mala; e viemos vindo pro sítio.
Não queira saber, compadre, os
desaforos que ouvia, ouvimos, a mala não a mula e eu, dos carros passando: caminhões
automóveis apressados na rodovia. Não conto para sua comadre minha mulher a
grosseria e a feiura dos dizeres que escutei ou ela me dá divórcio...
Agora estamos aqui sãos e salvos. Mas
inda lembro um porém que merece ser narrado.
Quando ainda a convencer minha amada
viajante, não compadre: nem a mala nem a mula – a filha... a Fia aceitava em
parte meus argumentos por não arranjar um canto junto de gatos cachorros
cabritos e dinossauros, e agora a junção da mula porém não me deixavam subir no
elevador com ela, e nisto não ocorreria nova arca de noé!? em suma um canto
somente seu no apartamento, embora precisasse a tanto continuar ouvir mais anos
discursos de juízes a si mesmos santos anjos e autoridades. Falei sobre tudo e
sobretudo das perigosas águas do rio Amazonas, ela, a filha, referindo-se ao
seu horror sentido não só do trânsito da capital mas mais do rio Tietê, demais
poluído comparando a limpeza e a claridade do rio Negro para onde desejava a
mudancista se transferir. Propus, eu propus e a mula teimosa então não deu
palpite – propus eu mesmo transladar o Tietê para o Amazonas e vice-versa,
traria o rio Negro à capital; esta exportaria assim o rio poluído como oferta
para Manaus (coisas assim de vantagens políticas).
Não queira saber a resposta longa da
bela moça em que me saiu a Fia. Falou simplesmente “não”.
Sim, se foi. No avião, já disse, me
deixando a viatura teimosa e comilona para tratar e não como condução na viagem
da filha. Comilona a mula. O quê...
Ah a mala, compadre, a mala; quer o
compadre maior e pior mala que a mula!?
Marília outubro
2012
15. As Clínicas
Levei o pacientezinho, impacientezão
diria melhor a dizer direito o errado... não, melhor falar que era eu a me impacientar
com a falta de paciência dele. Melhor afirmar assim. Porque não tinha mais que três
aninhos de vida, vamos exigir demais a um ser tão novo! E além disso com febre
alta, sonolências alternadas com choramingos.
Por outro lado me parecia a clínica
mais a clínica numa segunda-feira, onde sobram gente e preguiça, uma por muitas
pessoas outra por cansaço dos atendentes; e vamos lá que a nossa funcionária sim
com má vontade mas sobrava nela beleza e charme, a jovem de nosso setor bonita
pra valer.
Isto não conta aos doentes, todos
querendo ser atendidos; piormente exigindo serem curados; e os médicos não
chegavam, embora passada a hora. Pesa muito no atendimento a consulta o
encaminhamento, quiçá o sarar. Oh tadinhos dos enfermos.
Meu pacientezinho reclamava resmungava
faltando-lhe ar e a sentir dores mil... Abordei a mais bela, só aqui a minha
preferência e intervenção, eu também paciente a cuidar do paciente impacientezinho.
Perguntei-lhe quando...
Chegam já-já, interrompeu-me.
Interrompidos, logo adentrando os de
branco, médicos e médicas, logo embora tenhamos esperado desesperadamente mais
meia horinha.
Quase fizemos fila, quase imploramos a
exigir no estilo “cheguei primeiro” ou “eu vi antes, é meu”; sem que os profissionais
se interessassem por nossa disputa, nossa dos pais e responsáveis pleiteando
atendimento às suas respectivas crianças, bastantinhas. Por fim fomos
atendidos. Encaminhados, enchemos fichas
pagamos a consulta e aí sim fomos penetrando os cubículos que são os
consultórios a atacado na saúde pública nas suas clínicas gerais.
O senhor... ah que gracinha de
criança... brincou o jovem, era novo o nosso esculápio.
Aí seguiu os cânones dos cânones,
incluindo sobrar fichas e preenchimento de fichas; até nos foi dado direito balbuciar
algumas palavras, nós eu, elinho, que é elão de tão grande meu doentinho não
falou – rateou afogou ‘rabugiu’ sons quase lá dentro e tive falar por ele, é
sempre assim: o responsável é quem explica. Aí o médico ouviu. Reescreveu nas
fichas o que dispõem os cânones. Sorriu formal e profissionalmente, acabando
por concluir:
Está doente a criança. (Eu já sabia, o
Doentinho mais que eu talvez). Não arrisco um diagnóstico, disse; aqui estão os
documentos a encaminhá-lo aos especialistas e as guias para exames. Praxe.
Agradecemos, agradeci em nome Delinhão , a soluçar,
quase num escândalo.
Fomos imediato em via-sacra, procurar
as clínicas especializadas. Iniciamos por uma, conforme indicação anterior.
A médica: diga 33, apalpa daqui olha
de lá e conclui. Não posso diagnosticar mas prognosticar apenas – a meu ver é
carburador.
Dirigimo-nos à clínica especializada
na carburação. A qual nos destinou à clínica para desarranjos elétricos.
Nessa nova especialidade médica
trocamos bateria (com garantia devida). Trocaram o platinado mexeram no distribuidor
experimentaram a bobina, sucessiva e interminavelmente.
Nada. Tudo no mesmo. O Chorãozinho me
amolava, eu desesperado; não obstante nenhum médico especialista me
desesperançava no sentenciar a morte anunciada de meu querido Doentinho,
impaciente cansado o ser paciente.
Por fim fomos encaminhados aos nutricionistas,
“vai que...” disse com categoria um clínico.
Fizeram mil experiências (puxa, os
médicos pensam que nossas crianças são cobaias!)
Trocaram óleo, puseram de câmbio no
lugar do de cárter, substituíram sucessivamente também a gasolina o diesel o
álcool em alternativa como combustível alternativo.
Nada. Tudo negativo.
A criança enjoada, esfregando faróis
em lágrimas... eu descabelado descamizado despoluído nos bolsos já sem dinheiro!
Joguei-a no ferro-velho, não obstante apenas seus três aninhos.
Marília novembro
2004
16. Morte Anunciada
Era destamanhinho. Mas supunha não ser
tão diminuto; ou somente para não parecer tímido, coisas da complexidade
humana, falava grosso e alto, espécie de “cheguei”. No entanto, ao entrar em
casa ultrapassar o limiar do portal virava outro: tornava-se ele mesmo. Que lhe
importava a veste rasgada ou sem passar a ferro ou o sapato furado? Chinelos
nos pés, os pés no chão; se era ou não horário do alimento... Outro, ele mesmo.
E para fugir dessa porcaria? Inventou
inventar uma saída. Inventou a literatura. Não, nada disso, não estamos diante
do inventor da literatura universal, apenas encontrando o descobridor de sua
própria literatura; à qual adjetivava carinhosamente “literatura de fundo de
quintal”. Bastante sugestivo, parece.
Todavia não foi esse o único crime
perpetrado contra a sociedade. Outros ocorreram. Desandou a produzir muito:
andava criativo, poetava; deparava-se com a injustiça, filosofava; uma doidice
polígrafa. Escreveu de tudo, como biografia (autobiografia, pois não conhecendo
bem os outros) memorial, conto, poesia, crônica, romance, ensaio, teatro. Coisa
de louco. Ou para maluco. Depois, somando todos os desatinos (e ainda
continuava produzindo, ah que fertilidade!) resolveu passar uma peneira. Alias
já fazia a peneira com critica e revisão a cada trabalho, montanhas de folhas
já datilografadas. Então procedeu à classificação e compartimentação literária.
Criou uma pasta para cada natureza de composição escrita. Numa delas, pasme-se!
nela reservou a colocar obras publicadas. Chamou a pasta de “Participação”.
Porque a loucura não tem tamanho nem medida e é doença que pode atingir boas
parcelas sociais. Daí chegou – além dar à luz monstrinhos escritos – a meter-se
procurar mercado. Uhn! E achou alguns jornais de portas semiabertas, uma que
outra editora aceitando ler e criticar trabalhos enviados; mas sobretudo
participou de concursos públicos, dezenas centenas. Guardava tudinho na de
“Participação”. Com o resto da literatura fazia o mesmo, guardava. De maneira
que os arquivos as estantes as gavetas e a própria cabeça, tudo andava cheio de
obras; tudo todo prenhe.
Já se falou fosse tímido? Se não,
falemos, afirmamos, tímido. E petitico? Já? Não vem ao caso. O que ressalta é o
fato de o homem chegar a um ponto curioso na sua vida literária; ou seja, temer
acertar num concurso! Como alguém temeroso acertar na loteria. Esdrúxulo o
liliputiano hein!
Não pensou duas vezes, procurou um
amigo desembaraçado. Contou suas mazelas e ressaltou a timidez; disse sobre o
perigo que o envolvia, coisas que só os amigos compreendem. Se ganhar...
(note-se a condicional) então, falou o polígrafo, você irá me representar no
cerimonial. Alegando o quê? Indagou o amigo do amigo. O que quiser, o que vier
na sua consciência; pode falar na entrega do prêmio, por exemplo, que eu morri.
Dessa forma estava formalizada a fuga
da solenidade e da berlinda, horroroso aos tímidos e problemas imensos se
considerando a pequenice do escritor de obras fartas.
Assim o amigo do amigo das letras
compareceu à premiação, amigo é para essas ocasiões. Afirmou ao público que o
pobre escritor falecera. Todos olharam espantados e condoídos. Consultou
entretanto a consciência, ela doía bastantinho... Assim resolveu confessar ao
povo: dissera mentira deslavada; o polígrafo morrera de fato mas aos cinco
anos, antes de se alfabetizar.
Andava então provando que a mentira é
coisa feia; que nem todos sabem mentir com categoria; ou que seria melhor
mentir sozinho em casa.
Muito melhor.
Ribeirão Preto novembro
1994
17. Ossos
do Ofício
Aquela
mulher atraente bela charmosa, um anjo, olhou sério ao companheiro – isso um
indício de contrariedade segundo o histórico de família – e assim logo tentou o
homem se compor ao figurino dela, na linguagem de um pingo ser letra. Mexeu-se,
sem que estivesse como os olhares de sua mulher indicavam ele estando a flertar
com uma beldade noutro banco dentro do ônibus circular. Enfim aquiesceu às ordens
da ciumenta ainda bonita esposa. Ela não se fez de rogada nessa vitória, tendo
por isso relembrado um abuso quando nos primeiros tempos, sem o filho ali
debaixo do casal agora; então o macho vivia sonhando outra... Mas a crise
passara, as brigas conjugais não. Ela examinou o ambiente com sua loca escura
pra ver se não via a pretensa rival, olhou para baixo o comportamento do
filhote a brincar com amigo imaginário e a conversar animadamente com o outro;
seu esqueletinho arcado ali no chão do veículo perfazia curva interessante
porém a mãe desgastada pela lembrança de antigas rusgas com o pai da criança
sequer se prendeu ao menino; e carregou de propósito “amor, você de tanto olhar
a sirigaita perderá outra vez a bola dos olhos...” Sorriu sem graça o
contraventor. Ela emendou daí problemas sérios do dia a dia, os mais palpáveis
como as contas as compras ou necessidades que o consumismo exige que se
adquira. O esqueletinho, criança sempre parece não prestar atenção porém:
relacionou elinho também os brinquedos necessários segundo a necessidade, sem
esquecer os caríssimos eletrônicos os novos e sofisticados celulares coloridos
e, claro, mais caros. Papai fez que sim a dizer não ou pelo menos num aceitar
provisoriamente para não provocar escândalo no coletivo lotado. Ela sorriu ou
para ele ou dele e não esquecendo as compras dela; aí despencou mostrar o que
estragado no seu túmulo – não seriam tumbas mas túmulo como grafado pois jazigo
coletivo e familiar, daqueles de gavetas à espera – mostrando assim as
necessidades novas ditadas pela tevê e pela internet com belíssimas ofertas e
razoáveis preços conforme pensamento seu da carteira do consorte. E acresceu
nisso pagamentos aluguéis impostos dívidas dúvidas... De maneira que o
esqueleto macho quase se desfez em mil pedaços, a custo juntados pela própria
imaginação. Iam por essas razões começar, fosse no lar ou túmulo coletivo, iam
dar início a um lance da tragédia do bate-boca conjugal com menino no meio
forçando fosse ouvido lá em cima a fala dos seus dentes, os dentinhos inteiros
e da primeira dentição enquanto os da mãe já implantados e os do genitor meras
dentaduras postiças, inclusive estas com uns filetes de ouro atraindo ladrões
de cemitério municipal. Não. Não prosseguiram, a ficar no início e projeto de
batalha campal quiçá guerra fosse na casa e não no ônibus, a dar vexame aos circunstantes.
Nessa altura o chofer já olhava com rabo de olhos, quer dizer de buracos dos
olhos para o lado do casal e aí lhe aparecendo o nariz, o qual terá sido torto
grande comprido, faltando agora por cima dos dentes cariados no lugar onde
decerto tivera bigodes apenas a parte óssea das fossas nasais já sem cartilagem
que a terra comera certamente obedecendo a lei da natureza. Então o casal se
constrangeu, se compôs se comportou normal (o que seria normal!) até o esqueletinho
gracioso notou o público a olhar curioso condenando a quebra do silêncio no
veículo. Nesse transtorno que felizmente não se completou, ela voltou a
sentar-se (havia se levantado um pouco ou para ver a rival outra ou para ferir
melhor a oposição macha pega no flagrante). O esqueleto macho ruborizou-se,
nessa situação em que a gente não sabe onde põe o chapéu; aliás usava mesmo um
chapéu para cobrir esconder uma cicatriz na testa, onde recebera antanho um
tiro do esposo doutra amante, amante que hoje tem o belo apelido de ‘namorada’.
Sentou-se sua fêmea, ajeitando as costelas e compondo os ossos da medula.
Enquanto, pilhado ele no descuido, sequer percebendo no ato de se pôr no
assento o assento e mostrar o ilíaco trincado. Fez mais, fizeram: ele esparramando
sem educação o metatarso e os cinco metatársicos e ela os artelhos bem
ajuntados para não dar na vista com suas pontas esmaltadas de vermelho quase
‘cheguei!’ e num segurar a indefectível bolsa feminina. Nessa altura o esqueletinho
já nem via o drama adulto caso houvesse observado e assim dialogava com outro
imaginário, quem sabe também um exemplar ajuntado de ossos formando um belo
garoto.
Marília outubro
2012
Tive ímpetos a grafar ‘exposa’ e aí
temendo ferir a base da palavra e pecar pela base, afugentar, quem sabe até
assassinar, os puristas versados no latim no grego e no mais atual ainda ou
seja a língua pátria, o inglês, escrevendo como desejara. Assim me ponho
somente a recordar a esposa, sem volta de passagem lá no portão de embarque da rodoviária.
Ainda essa tola ficou a abanar desde a janelinha do ônibus e a enxugar no lenço
que lhe dei como lembrança de nossa lua de mel então sequer amargada como agora
nas relações; a enxugar as gotas roladas e nadinha de crocodilo sabendo que ela
me amava, me ama nessa despedida. Enfim encerrada a questão.
A questão fundamental nem era o amor e
o choro de amor, por seu apego e minha tolerância. Isto porque é inteligível,
de tanto se ver, uma relação tão sofrível como a nossa até aí. Isto sim contou.
O comum. Ela demais ciumenta. Um dia
deu escândalo fez cena vendo minha conversa com amiga próxima; amizade de anos;
ora, iria desprezar uma garota bela como a amiga tão só para não ofender os
brios esponsais da esposa! Por semelhança não deveria manter amizade com as
feias, com as velhas senhoras; e até com homens, desses machões pra valer... Com
eles ela não se importando a possível ligação: embirrara na bela. Verdade com
certa margem de possibilidade, visto me interessar por gostosuras mais. Menos
por essa, casada com um amigo e tendo eu por princípio que mulher casada é
igual irmã: não se deseja e na pior das hipóteses não se conquista. Ela, a
esposa que tendi escrever usando xis e não o fazendo por medo das bordoadas
críticas, ela não colocando a problemática nesses termos; apesar de nosso
matrimônio já durar três anos (uma eternidade aos jovens desta época) e em
razão disso conhecer o esposo que tem, tinha. Ou por isso mesmo, aqui cabendo
reticências sem temor a errar.
Bem. Com essas e mais aquelas nos
desentendemos. Por último? não, por toda eternidade brigamos. Eu acusando ela
ciumenta; ela dedo em riste a penalizar meu interesse nas mulheres; mentira
deslavada e até poderia levantar o problema por exemplo o desinteresse nela, a
esposa; aqui estaria na absoluta razão em vista eu detestar ciumeiras e aí perder
pela esposa a atração, o desinteresse inclusive mais na última ‘década’ da
eternidade.
Em suma nos desentendemos, ela fez a
mala, não se esquecendo recolher os apetrechos feminis, referindo-me aos
cosméticos espalhados na penteadeira, além é claro da indefectível bolsa onde
objetos como espelhinho batom essas coisas. Se arrumou comprou passagem e saiu
pisando duro (num mostrar a raiva nela).
Fui atrás. Ela julgando que fosse
implorar sua volta ao lar, beijá-la amá-la. Não. Apenas um acompanhamento
social cerimonioso, frio.
Chorou. Abanou. Partiu. O ronco do
ônibus a sumir. Fiquei a pensar: que tal casar-me agora com a bela, chifrando o
amigo; a bela que é mulher mulher mesmo e assim não ficar preso na cela com um
macho sem espécie se pensando espécie de mulher; ex-mulher, exposa
diria.
Marília março
2009
19. Uma Realidade que Virou Sonho
Não sei por que estou narrando essas
coisas ao senhor... Fico pensando viver a bestar de tanto me expor, o negócio é
não se comprometer, todo mundo foge e se esconde, fecha a sete chaves seus
segredos, eu a me abrir todinho com um desconhecido; pega mal... não, não, não
ao senhor que nada tem com o peixe, pra mim que estou encrencado a valer, pega
mal para mim. Apesar do que estou falando, da realidade desse sonho pouco ou
quase nada posso temer, nada mais preciso temer nesta altura da vida.
Aí me pergunto: não tive razão? que
seja uma razãozinha, mas pensando bem... É que ela não me largava! O que mesmo poderia
eu fazer?
Primeiro me engracei dela, a Dória,
ouro até o nome. Então creio ter feito mal. Visto ter família era querido, estimado
nas fazendas por onde passei, amigos em todos os recantos onde morei. Minha
mulher, a mulher legítima, havia me dado três filhos, filhas meninas, uma já
moça casadoira, as outras duas empinavam para a vida, a caçulinha viera temporã,
a raspa do tacho como a Maria minha esposa falava. Havíamos brigado muito –
qual é o casal que não se desentende? – briguinhas, brigonas, a patroa me
virava a cara e até acontecia o pior, para um macho é o pior que pode
acontecer: não me queria na cama, eu tão necessitado. Uma vez fizemos um tratozinho
para ver quem é que aguentava mais tempo sem o outro. Ela ganhou por dez a
zero, tive de me humilhar, rastejar, implorar a ela aquilo que deveria ser uma
atenção normal, legítimo no caso. Fez-me sim rastejar e tudo o mais, prometer
mil coisinhas (que eu sabia antemão descumpriria... eu não chegava a ser um
santo, existe homem santo?) Não que ela fosse uma geladeira, não era. Este
aspecto torna sua vitória mais estrondosa. Assim eu raciocinava. Ainda hoje me
acho com razão nesse pensamento.
O tempo foi passando. As amizades
crescendo, a família graças a Deus ampliando os laços sentimentais; domingo em
casa parecia feira, parque de diversão, gentarada a se esparramar na minha
residência, era comida e bebida pra todos, as crianças viviam interminável
parque infantil, a Joaninha teria seus pretendentes cheirando ali por volta
daquela festa contínua (todavia ela não costumava segredar nada, eu é quem
observava os gaviões, pois a Joana era moça bonita). Festa sempre porém não
interminável. (Aqui eu choraria na sua frente, seu Zé, não fosse a fonte estar
quem sabe totalmente esgotada, não tenho hoje mais vergonha de chorar, é que
não posso mais verter lágrimas!) Aí por 1981 ou 82 eu me mudei com a família da
Fazenda Campos Belos para a cidade. Minha perdição...
Havia morado em inúmeros municípios,
cruzado várias vezes as fronteiras – fora do país nunca, tinha apenas ido
‘muambar’ no estrangeiro e continuava a residir em nossa terra. Tinha enfim
mudado como se troca de roupa. Era olhar pra mulher, ela já entendia, fazendo
cara feia porque é duro desfazer os trecos, já entendendo a Maria ser nova hora
pra mudar. Sabe, não é? sobra mais para a mulher mudança, um descontrole danado.
A gente parecia cigano. Uma vez num mês me desentendi com dois patrões, foram
três mudanças! Os móveis não chegavam a envelhecer, a gente vendia por preço de
banana ou dava. Ou o patrão boicotava tudinho pra ficar com a riqueza. Entenda
o senhor que os cacarecos do pobre é uma riqueza incalculável a esse mesmo
infeliz: uma latinha de flandres com cabo de arrebite um tesouro; qualquer
coisinha barata tem ao pobretão um valor inestimável, um tesouro. Pôr tudo nos
sacos, a Maria estava de tal maneira acostumada com aquele vexame que já guardava
os sacos de estopa usados para a próxima viagem, sacões de farinha ou de
açúcar, enfim tudo servindo a embalar os trecos miúdos. Apesar das ‘mudanceiras’,
a cada lugar por onde passavam os meus, ficava semeada a semente da amizade,
compadrios. E mui encrencas também. Sim, às vezes uma fofoca um mal-entendido
mas sobretudo desavenças pelas coisinhas das crianças com adulto metido no
meio, ah! uma revolução. Estou exagerando um pouco, naturalmente.
Assim fomos vivendo. Eu que já era
brigão na casa de meus pais, agora virara mandãozinho e queria impor no meu
trabalho e no lar. Mais aqui, onde tinha liberdade para dizer o que pensava e
me achava com todo o direito que o hábito concede aos machos. A Maria levava a
pior. Quer dizer, era bem tratada e só dei nela uma surra, a primeira e a
última: saiu esfolada e chorando e nunca mais se meteu a besta comigo. Porém
com a língua dela não pude. Quando abria a matraca eu precisava inventar
qualquer problema no serviço para resolver. Voltava, o ambiente era já mais
calmo. Então eu perdia na cama outra vez.
O que eu deveria fazer? Quantas vezes
tive de me mudar – uma ocasião decidi foi de madrugada e os vizinhos só
descobriram a nossa mudança já sol alto com os trecos no caminhão do Chico.
Estava consumado. Não era só por meu desentendimento com a patroa; eu era
assim, esquentado. Tadinha da Maria. Mas contra a sonegação dos meus direitos
ah! isso não era possível perdoar, eu batia o pé xingava esbravejava, saía
resmungando. Um dia pensei me matar!
Olhe, não se espante Seu Zé, o senhor
está diante de um suicida... nasci suicida. Cresci com uma garrucha dependura
ao alcance da mão; muitas vezes corri para o estradão com o firme intuito de me
desgraçar para desgraçar os outros, punindo a sociedade. Lá pelas tantas,
cansado, frio, pensava melhor, quem sabe se não ajudado pelos anjos bons – e
desistia de me matar; temporariamente. Até hoje, cabelos brancos, me dá uma
vontadinha aqui dentro... Naquele dia imaginei pôr cabo de minha tênue vida;
ora, a Maria, pensei, chegava a valer tanto!? eu morreria e ela ficaria para os
outros... Além do mais, geralmente a causa era tão boba que eu me esquecia por
que motivo deveria extinguir-me. Com a Maria era coisa de ciúme. Hoje sei que
ela não chegava a ser vagabunda, até pelo contrário: uma senhora séria íntegra e
digna mãe de minhas garotas.
Mais tempo se passou. Eu continuava
imprevisível chefe de casa e marido cobrador. A Maria com as coisinhas lá dela,
eu estourando por qualquer porcaria. Aí apareceu uma oportunidade terrível...
A esposa andava ganhando mais uma vez
de dez-a-zero em matéria de sexo, nove, ou melhor, dez mesmo e eu resolvi
tentar fazer um ponto. Fiz ponto na zona do meretrício da vila próxima.
Umas mulheres repelentes, fumo álcool
aparência. Escolhi a menos feia, que mais tarde se tornou belíssima para mim. A
Dória. Era essa que encontrei. Fiz o serviço e me mandei feito um grande
vencedor para meu lar honrado. Ao ver a Maria, saí correndo para chorar no
canavial, homem não chora, eu achava hoje não penso mais assim. A consciência
cobradora me azucrinou dias. Lutei, mui esperneei contra ela, calei-a um pouco
e poucos dias depois, olhe eu de novo nos braços da Dória.
Assim teve início a vida de duas
vidas. Agora eu aprendia a mentir melhor, a dissimular, a enganar. Supunha
estar empatando com a Maria, nos dez a dez. Ela parecia andar desconfiada;
decerto o sexto sentido feminino lhe avisou de minhas andanças e atrapalhadas.
O fato é que não chegava a me vigiar mas punha sempre um ponto de interrogação
nas afirmativas que eu fizesse. De minha parte, a cabeça cheias de pecados, não
tinha força para responder à altura e inventava qualquer saída, o ‘trabalho’
sempre amigo dessas horas difíceis... O tempo se foi acumulando.
Um mês um ano um tempão incalculável.
Eu era mais eu porque não era mais eu. Havia mudado, virado um esposo como
muitíssimos que se encontram por aí. Acho que perdia qualidade. A meus próprios
olhos não passava de um condenado ou apenas condenável. Nem por isso deixava a
Dória.
Ela engordava mais, eu sempre magro,
apreciava as mulheres cheiinhas, enquanto a Maria andava que era carne-seca e
preocupada, rabugenta embora moça ainda, as meninas num ‘brigueiro’ sem fim, o
patrão me enchendo pra valer, fiz o que sabia fazer: mudei-me, impus a correria
outra vez para a família, fomos de vez para a cidade; dali nos mudamos novamente
para outra cidade, agora uma cidade grande, a capital, onde tudo ocorreu. Tudo
em nome do amor, do amor que eu pensava ter pela Dória.
Tudinho girava na minha cabeça em
torno da amante, mesmo as mudanças que obrigara meus familiares fazer nos
últimos tempos o fizera em função dela. Querendo se ‘limpar’, a pobre Dória
arranjou um emprego na cidade e daí por diante ela trocava de emprego como
queria, eu indo atrás feito besta, a levar comigo a mudança e a insatisfação de
minha gente. Um dia propôs-me a moça montar casa para ela na capital. Obedeci.
Começaram as encrencas maiores de
minha vida, Seu Zé: ela não me largava mais! quer dizer, eu é que não largava
mais dela. Dois sem-vergonha... Passei tirar mesmo o pão da boca de minhas adoradas
crianças para encher a Dória de bugigangas; não comprava coisas caras para ela
porque não podia, meu ganho era limitadíssimo. Cheguei a uma conclusão estranha.
A conclusão: a amásia me queria
realmente, eu me envaidecia com isso. Lisonjeado, forte emocionalmente (pensava
eu) fui pondo a Maria para escanteio, era mais uma visita à família que morador
da casa; já não punha comida no lar e passei a atrasar e depois negar pagamento
até de impostos de água de luz – um autêntico cafajeste eu me tornara. Agora
não me importava que a Maria me pegasse bilhetinhos de meu amor nos bolsos.
Cheguei forçar a coisa, deixando de propósito uma foto de Dória nua no paletó
apenas para a esposa achar. Foi um encontro do desencontro! Ela me desfeiteou
chorou xingou-me até a mãe, que nada teria que ver com minhas safadezas. Eu o
culpado realmente da situação, tinha mesmo conscientemente forçado a situação
para brigar de vez com a Maria e a ter pé para, quem sabe, santificar uma saída
do lar. Um cafajeste completo!
Todavia eu não pensava ser errado,
justificava tudo. Como não conseguia me desembaraçar da Maria, abri o jogo,
contei tudinho para ela; fiz mais: mostrei fotografias pornográficas nas quais
eu estava com a amante! eu havia perdido de uma vez a vergonha. Passei a ter
duas famílias.
Vivia mais com a Dória e tolerava a
Maria, para ver as meninas de vez em quando. Daí piorou: deixei de contribuir com o
lar e tentei ainda vender a residência financiada pelo banco, comprada com
dificuldade e agora tendo prestações no atraso. A Maria deu duro brigou
insistiu e não assinou a venda, firme nos direitos pela comunhão de bens.
Passei vergonha diante do comprador e rompi o negócio, rompendo também por três
meses com a família.
Começaram minhas férias. Quase não
trabalhava, só trabalhando quando acabava o dinheiro que Dória me pedia; chegando
inclusive às vezes a aceitar uns trocados vindos do trabalho dela. Vivia com
ela pra lá e pra cá. Vendi o carro (estivera bem na época) para comprar uma
motocicleta mais barata e aí passeava com a amante na garupa feito um bói, de
óculos escuros e tudo. Assim fiz chorar até minha filha mais velha, que vendo o
abuso do pai voltou pra casa a lamentar para mãe. Eu havia amortecido a
consciência para melhor gozar as minhas merecidas férias; eu achava merecidas.
Apodreceu minha relação com as meninas: elas já não queriam me ver. Mais para diante
as duas mais moças, agora haviam virado mocinhas de verdade, elas me odiavam!
passei a sentir na carne os meus desatinos.
Pensei repensei, tirei as conclusões e
tomei o compromisso comigo mesmo de voltar a ser o que era. Já não era mais...
Era sim um apenso de Dória. A custo me desvencilhei desta.
Voltei chateado para a Maria, propus
acordo, a boa senhora me aceitou, embora de orelhas em pé. As filhas não. Eu
entrava, elas saíam de casa. Envergonhadas, perdi minhas meninas de uma vez.
Isso me matou, me tem matado dia após dia! Tentei reconciliação com os
familiares mais distantes, da linha de sangue e da geográfica. As cartas se
cruzaram, vieram os perdões, minha mãe a primeira a entender; as filhas continuavam
brigadas comigo. Aos poucos a mais velha mostrou qualquer complacência, as
outras ficaram impassíveis, até condenando a mãe por ter voltado atrás e
perdoado o traidor. Comprei geladeira nova para a Maria e coisiquitas mais. No
entanto a sombra permanecia na casa.
Fora de casa Dória me cercava por
todos os lados e todos os lugares, obsessora. Mudou para o interior, voltou e
não me largava. Dizia amores, prometia lealdade, se enfeitava, às vezes forçava
e até ultimamente ameaçava inclusive me aparecer lá na casa, o lar de minhas
filhas. Andava eu no mato sem saída. Minha casa era gelada para mim, enquanto
que a amante me ofertava o calor e a compreensão...
Rompi de novo com a família, mais
precisamente com a minha Maria magricela; não briguei, conversei, negociei e mudei-me
para a Dória. Fiz com a Maria um acordo, deixava mais da metade dos bens, levei
o resto para um quartinho alugado; de onde ia visitar sempre a amada. Sentia-me
assim como que deflorado. Estranho isso, não é Seu Zé? Era dessa maneira que me
sentia após tantos transtornos. Eu não era mais sequer metade de mim. Agora me
sentindo um fracalhão; e parti para o que pior ainda poderia me acontecer: a
bebida...
Na verdade não comecei a beber,
continuei. Já fazia tempão tomava uns tragos, bebia com os amigos, cerveja é
que não faltava, ganhava bem gastava melhor. Passei a aumentar gastos. Então
voltei-me para a bebida a fim de apagar meu anuviado dia.
Não sentindo tanta atração como antes
por Dória, acho que no fundo pretendia morar em casa, ter novamente a família
e, quem sabe, uma velhice digna, não sei bem o que pensava, procurando mesmo
nem pensar. Durante uma crise emocional por que passei então, evitei a amásia,
muitas vezes a evitei. Perdi a parada...
Ela não aceitava mais migalhas, se
aferrava no me querer, exigir até, chorava, reclamava, eu fugia. Mas perdi de
uma vez o jogo da vida: ela grudou-se mais e mais a mim. Agora me perseguindo
inclusive, ia xeretar no meu serviço, mandava recados por meus amigos e
conhecidos, ia me procurar, ver se eu estava com a Maria, tinha ciúmes de minha
legítima esposa. E não me encontrava lá, eu era no lar persona non grata. Quase me escondia, se possível fosse me
esconderia dessa mulher. Fugia ainda mais para a bebida. Infelizmente para mim passava
um período bom de saúde.
Não se espante Seu Zé, não errei,
achei mal estar bem de saúde. É que quando o fígado brigava comigo eu não podia
beber; agora ele ajudava e eu me perdia na bebida. Depois piorou. Se fosse
possível! Não, era realmente possível ficar mais ruim a minha pobre e miserável
situação.
Deixei a cerveja cara, optei pela
cachaça. E, posteriormente ao problema que irei contar, caí nas bebidas mais destruidoras
na qualidade e na quantidade: passava dias inteiros a curtir conhaque, bebia
litros! Acontece que precisava, achava precisar, fugir de mim mesmo. Esse o pior
que lhe disse, Seu Zé. E tendo um porém horrível no meio...
Creio, amigo, que estou no ponto mais
horroroso da minha narrativa. Acredito mesmo precisar de muita força para dizer
tudo tim-tim por tim-tim. Quem sabe nem consiga mostrar tudinho. Assim mesmo o
senhor vai se surpreender.
Dória continuava me fustigando e
ameaçando se mostrar para os meus, caso eu não me definisse por ela, então numa
ciumeira danada. Cedi a ela, na verdade só aparência, pois havia formulado um
hediondo plano para acabar de vez com tudo.
Falei à mulher sofrida (era realmente
sofrida, perdera os pais e fora criada por pessoas que abusaram frequentemente
dela e depois foi atirada no meretrício, lugar de exploração por excelência de
infelizes jovens – assim peguei-a já numa adiantada situação de sofrimento e
descrença): Dória, eu lhe quero muito e vou morar com você; vamos comemorar nossas
bodas fazendo a lua de mel. Aceitou, pôs sua trouxa no carro, um Fiat velho que
ainda não havia jogado fora como mais tarde faria com todos bens; fomos para a
estrada. Viajamos toda a tarde, entramos noite a dentro, eu sempre a lhe
repetir que o destino era surpresa de núpcias, ela sorrindo esperançosa. Aí
pelas dez da noite, num deserto escuro e frio parei o automóvel, o motor ainda
funcionando, saquei minha querida garrucha, estourei a cabeça dela! Trêmulo mas
consciente, meti pé na estrada uma hora; depois juntei aquele cadáver
sangrento, puxei pra fora, cavei um buracão fundo, joguei ela dentro, entupi,
esparramei galhos e folhas por cima, limpei como pude o carro, liguei,
acelerei, fugi. Não fugi de mim mesmo...
Eliminei qualquer vestígio do sangue
comprometedor, joguei os restos e objetos da fulana, virei outro homem. Pensei
haver virado: continuei eu mesmo, piorado!
Seu Zé, não conte pra ninguém. Mas
este molambo à sua frente tem essa história que o senhor ouviu. No entanto não
parou aí meu sofrimento não... Começou outra história, também ou até mais
dramática. Vou apenas resumir.
Meses depois arranjei a Marilda, o
senhor conhece a Marilda. Pois é, não sou homem de poder ficar sem fêmea. Ela
não é tão bonita, porém excelente companheira. Saiba, é ela que evitou que eu
me destrinchasse todo: me deu conselhos, me ajudou, me tolerou, me recolheu da
rua, eu vivia como um cachorro sem dono; me fez sentir gente. Passei a trabalhar
com dignidade dum ser humano; até o filhinho dela passou a me chamar pai, o que
me engrandeceu bastante, nunca tive filho-homem agora tenho. Ela trabalha fora,
eu trabalho lá na minha oficina, a gente vai vivendo. Até consegui aproximação
com a Joana, agora adulta por conta dos sofrimentos que causei à minha casa
sobretudo à Maria. Esta inclusive aceitou conversar comigo; e fico aqui a
pensar: como mulher é um bicho tolerante! que Deus ajude as mulheres, elas são
formidáveis. Os meus ainda resistem na capital, na mesma residência que eu
quisera jogar fora e a Maria não deixou. Me animei até a ajudar o pouco que
posso a Joaninha nas despesas da casa; as outras, como falei, continuam a me
enjeitarem. Que fazer? Devo meu reerguimento e o que possuo à Marilda, o senhor
bem sabe disso. Uma coisa entretanto ela ainda não deu jeito.
O quê? de vez em quando me dá a crise
de afundamento, mergulho na bebida, a fugir de Dória, ela não me dá descanso,
me aparece no sonho, me aparece desperto mesmo, cobrando cobrando cobrando! e
para fugir das besteiras que fiz com meus parentes todos. Eu próprio me
condeno. Volto do trabalho cansado, pregado, janto a comidinha da Marilda, tem
dia que nem como, ela entende, me leva para a cama, eu bebo mais, ela tenta
impedir eu bebo mesmo assim, me apago na noite de mim mesmo, me escondo nas
nuvens escuras do meu inferno! Ela entende, me carinha. No outro dia já posso
esquecer algumas horas que eu sou eu, afugento alguns fugidios instantes de
cobrança da vítima que eu produzi. Viro gente, compro, vendo, converso, fofoco,
torno à Marilda.
Encontro minha Dória me escarnecendo.
Começa nova guerra, afogo tudo na bebida. Se não fosse a boa Marilda, estaria
com certeza na sarjeta. Talvez inclusive sem saudades de mim mesmo. Eu não sou
eu, Seu Zé.
Ribeirão Preto julho
1994
20. Ômi
Holmes
Tudo começou por mera curiosidade...
aquela? outra, aquela outra da vizinha imaginar mil verdades sobre mim; e pior
divulgar sua interpretação. Uns que o ômi chamado João; vulgares pronunciam
“ômi” por homem, um homem desconhecido e de nome também desconhecido, este que
para meu azar sou eu; outros dizem seu Zé e ainda Francisco e teve um abusado,
abusada sendo mulher, a me tratar para distinguir doutros vizinhos “Ominho”.
Parei com ela, inclusive ela sim acho ser mulherzinha e por ser mui falada
tratá-la-ia nisso anã, não trato não falo não converso com gente desse tipo no
bairro, preferindo o centro culto onde intelectuais e intelectuais de carreira
trabalham ou moram. Mas tudo por causa da caminhoneta prateada nova – e posso
desde já garantir: misteriosa – uma quase sempre escondida na garagem precária
dos pais. Claro, não os genitores do veículo, são os fabricantes a Volkswagen, o ano nem sei sei não ser eu
entendido, com certeza novo o carro.
Falei cá com meus botões (curioso
atribuir-se orelhas aos botões; garanto os meus serem mudos, o que enorme lição
aos humanos os quais falam além do que devem...) Falei, aí tem dente de coelho,
existe um ditado nesses termos a açular o interesse das pessoas. A minha
curiosidade garanto é sim doentia.
De maneira que me pus como verdadeiro
detetive a pesquisar a destrinchar o imbróglio; a mim parece uma charada ou mal
formulada ou bem apresentada a iludir trouxas e inocentes; entre os quais não
me enquadro graças a Deus.
Assim iniciei meu trabalho de caça ao
tesouro. O tesouro, a sabedoria chegando ao cerne da questão que envolve tal
camioneta e seu esquivo proprietário, caso seja mesmo o dono.
Ah também advirto por minha posição
favorecida na investigação, residindo aqui neste imóvel bem defronte ao dos
pais dele e dele por extensão. Já dito haver um espaço adaptado como garagem
ali na frente. Lembro igualmente morar nesta rua há mais de dez anos, onze pra
ser exato. Isto posto fica esclarecido poder melhor que outrem observar o pomo
da questão e as possíveis falcatruas. ‘Possíveis’ porque um bom pesquisador não
despreza pequenos e até insignificantes quesitos como não despreza a verdade mostrada
a todos bem como as interrogações que se coloca nas partes nebulosas... Não se
despreza nem estas dúvidas possíveis e muito menos as certezas inquestionáveis.
Isto porque a evidência de algumas
parcelas do todo são flagrantes neste caso – me arrisco afirmar caso policial
se bem minha posição nada oficial mas oficiosa talvez e realmente detetivesca,
embora sem usar instrumentos precisos e preciosos a apurar – flagrantes os
quais relaciono e sigo palmo a palmo com olhos de observador. O homem, um rapaz
magro imberbe de fala fina; seu carro cor prata; seus amigos... ai! aqui lembro
o dizer popular “com amigo assim, inimigo pra quê?’ uso do linguajar e de
expressões suspeitos apesar comuns enfim aos moços nesta época, como ‘mano’
‘mina’ ‘bagulho’ num dialeto a quase precisar um dicionário de gíria para entendimento
e acompanhá-los. Acresço mais um dado básico: a fonte oficial dos recursos e a
pobreza com endividamento da família. Poria nisto ainda a inconstância amorosa
do sujeito – não ferindo especialmente o rapaz, o geral sendo o macho inconstante
na espécie, enquanto a mulher mais equilibrada nos sentimentos, me parecendo
bem mais homem a mulher que o próprio homem na espécie – em resumo sobra desconforto
à mãe, a qual demonstra que Ju, a genitora assim o apelida mas Juliano da
Silva, creio; Ju, afirma a senhora, é homem feito, feito porém menino não
apenas na voz que não engrossou. Isto não entra no relato, é um lembrete a
ajudar explicar o porquê dele ser, creio ainda creio, ser manuseado por outrem.
Outrem na coisa é o traficante. Não um: a hierarquia que desova e desagua no
último entre cobradores e nele que deve pagar o que deve; deve bastante no que
a observação ‘sherloqueana’ observa...
Enfim o que descobri neste trabalho:
haver um tipo chamado “avião”, Ju, quer dizer elemento de ligação na distribuição
de drogas; nada das da elite, aquelas populares como a maconha e o crack, do povão ignorante faminto
desempregado. Com o corolário das dívidas (a tese do brasileiro bom pagador é
figurada e furada, basta ver tevê) tais dívidas às vezes impagáveis e a próxima
fase é assim mesmo cobrança e posterior eliminação dos seres comprometidos com
as suas.
Contudo o que descobri de fato neste
trabalho sem lupa na qualidade de investigador ‘sherloqueano’ repito mas não profeta,
além de haver o prateado na caminhonete? Que o menino se julgando homem maduro
como todos jovens, que o sujeito não para num emprego decente, nestes dias trabalha
como auxiliar de pedreiro com ganho irrisório e sem registro. Agora, aqui o
milagre: com tal minguada receita compra carro último tipo, usa as melhores
oficinas, lava encera lustra e passeia todos dias, todas noites o dia é da
massa da cal do cimento da areia do suor... Passeia saindo com gente estranha e
mal encarada, a qual por vezes lhe passando por telefone celular ordens
taxativas ou subentendidas, com atos escondidos ou ignorados. Que os familiares
lamentam junto seus vizinhos o membro macho herdeiro não colaborar na casa,
antes tomando empréstimos esquecidos com os pais pobres para... Ora para quê!?
Marília dezembro
2012
21. O Amor que Fugiu
Vou insistir, pois o colega me parece
curto de ouvido, queira não se ofender com isso, visto não me dar a entender
entender. Repito: o doutor é um assassino; irá nos matar a ambos como o fez com
outros que passaram por esta jaula... Um saiu desamarrado preso como nós; saiu
sangrando e já nem falava mais, antes uivava qual cachorro perdido. Não obstante
estamos achados...
De fato, os facínoras do médico sabem
onde nos encontrar. Vêm nos dar ração, água nos atira às vezes na cara e
ficamos a passar sede, embora maior sede seja a da liberdade... Quanto tempo
andamos feitos feras na cela! já perdi a noção, meço tempo pela barba aqui no
peito e faço meus cálculos por dezenas de anos. Você é imberbe – será também
surdo! – a minha cresceu a cada encolhimento de meu ser. Debalde tento avistar
o sol lá fora na janelinha gradeada e mui estreita em cima.
Agora ando mais calmo. Se calma for
aceitação, se calma for a indiferença, se calma for não precisar mais da camisa
de força do início. Olho vejo observo, nada falo.
Contudo, se me tiver em conta as
palavras, narro minha desdita, que é minha história; quem sabe se não a sua.
Um belo dia (que expressão mais
idiota!) um dia fui abordado na rua; sedado calado trazido trancado neste tugúrio
infecto e fedorento. Então era um rapaz bonito; ela me achava belo;
planejávamos até casamento, embora isto contrariasse a família do doutor, meu
futuro sogro. De concreto sabia possuir ele um hospital, este hospital, e ser
rico – a clientela, os pacientes, deixava nos cofres um tesouro incalculável
nas suas mãos. Inclusive seria, era, ao doutor, uma oportunidade fazer por desfastio
aqui experiências nas cobaias humanas, assim como nós agora. No meu caso com
certa razão por ser eu um pé-rapado e desejar a princesa. Minha amada era então
belíssima e se trajava ao gosto dos tronos. Filha única rica e prometida a um
figurão político, igualmente riquíssimo; com possibilidade juntar heranças,
coisa de ricaços, porque pobre anexa só misérias.
Nós, os namorados, pensávamos doutra
maneira. Ao jovem conta o amor a querência; eu os abraços e a presença.
Estudávamos uma forma de união de
nossos corações. Aqui lembro um ditado popular ‘o amor é cego’. Mas o coração
enxerga bem. Pensamos inclusive fugir; o de costume na época, na qual após a
fuga e a gravidez as famílias aceitando por não haver mais saída nem volta.
Habitualmente se apegam os familiares ao neto vindo desse amor ilícito e assim
santifica-se uma relação.
Claro, não esperaria de meu sogro,
futuro sogro, não aguardaria amizade; talvez da sogra, menos exigente.
No entanto fui abordado certa noite
fria. Os lacaios me aplicaram injeções: acordei aqui em camisa de força como já
afirmei.
Dessa data, da qual meus miolos não
podem precisar mais, daí por diante vivi, digo: ‘vivi’ nesta lama. Nos primeiros
tempos sofri horrores, andei a sangrar e a receber açoites e venenos a fim de
me corroer, matar-me lentamente. Garanto: agora não passo dum morto, um
vivo-morto. E, curiosamente, deixo agora mais e mais o desejo à liberdade:
quase anseio pela crise de morte...
Aliás não tenho escolha.
Você também não. Não responde não
interfere não se defende sequer. Outro dia os guardas vociferaram, não como
alguns condenados a gritar noutras jaulas, mas vociferaram eu estar narrando
minhas “besteiras” disseram; sou contador de bobagens assim eles me
qualificam... Disseram que você é surdo, acresço: deve ser também mudo.
É nesses lances esporádicos dizerem
que o doutor se livrou do pretensioso namorado da filha, com uma simples ponta
de agulha; informando que falaram à princesa que eu fugira ao compromisso e
sumira no mundo. Me disseram, a gozar-me e me ofender, que ela já casada e
possuindo um filho lindo igual a mãe. O que me doeu enormemente e magoou o coração...
Será que não têm eles razão. Não pelo
que contaram sobre o doutor mais lunático do que nós, não. De você ser realmente
um surdo?
Marília março
2009
22. Desconhecimento Desconhecido
Nós... quem somos nós! talvez nem sejamos
ou sejamos sim mas não nós, nós mesmos!? Não sabia de fato responder, não
poderia sequer delinear meia dúzia de vocábulos adequados à compreensão. Aliás,
pergunta-se, quem indaga? não saberia também.
Contudo e sem sombra de dúvidas
andavam todos no cemitério.
Isto prosaico demais, demais onde todos
indo um dia ou como visita ou em morada que se supõe definitiva.
Era então o aparato o cerimonial,
cerimonial fúnebre bem neste mal, o inusitado inclusive pois quem a prever tudo
de tudo; tudo nos conformes enfim. No fim da rua, após a avenida, depois da
alameda esta viçosa aquela não miserável porém na pobreza vê-se. Vasos tombados
(não pelo patrimônio histórico o qual se detivera em não perder a memória aos
vivos seus mortos ricos com opulentas capelas e belíssima estatuária o fausto
em suma à indigência da história de um povo novo velho e quase sem lembrança
nem registro). Sim vasos tombados caídos entre ervas daninhas através das rachaduras
e das flores; flores? umas no mau gosto de lata de ferro enferrujado baratas –
as naturais plantadas o tempo a intempérie secando havendo secado. E havia
muita espremeção, nunca se sabendo como conseguem pôr por entremeio outros
túmulos tumbas mais as mais estranhas e esdrúxulas realmente. E havia claro
gente.
Gente viva. Viva a gente morta!
exclamar-se-ia houvesse pobre, pobre da rua da rua pobre fora do circuito dessa
metrópole morta como a necrópole cercada por chorões de pinheiros arcados ao
vento e melhormente cercada por muro qual muralha medieval no moderno entender.
Junção do vivo, viva a morte. Todos.
Reunem-se ao adeus, à terra, aos sete
mentirosos palmos, palmas para o sete.
Aqui jaz o soldado desconhecido.
Agora se visita quem visita, é visita
ao túmulo do soldado desconhecido conhecido de tanto se lembrar nas solenidades.
Então se depositam flores e coroas e se constrangem e todos olham, olham até as
câmeras nada atrevidas da tevê porém sim não são desinteressadas. E havendo outros.
Os outros são um sem-número, mais de
cem, e é claro neste escuro parentes e amigos.
Mamãe desconhecida chora a verter
lágrimas quem perto longe no pensar. Tem titio, titio desconhecido, tem outros
mais, mais desconhecidos ainda; ainda contam-se os amigos (aí dando pra contar
nos dedos, os quais na melhor dessa pior é a hipótese de haver nascido com seis
dedos não chegando a sete, o sete seria mentira).
Amigo desconhecido e desconhecido do
amigo. Não obstante soma e até se contabiliza em lucros & perdas.
Tem o irmão desconhecido, conhecido
somente o número, o número indo além de seis bilhões e mais um pouco por pouco
não caindo na estatística, ela também mentirosa quanto seus aleatórios números,
ela em cifras imponentes.
Tem o irmão, tem o pai, tem a mãe, tem
mãe ou não tem; ora pai admite-se mãe não se pode omitir – todos eles bem desconhecidos.
Desconhecidos, irmãos, diz o pároco a
benzer a solenidade e se benzem; ainda se benzem fazendo cruzinhas ao sair da
fortaleza (pra quê se morto não foge... ah tem os ladrões, fechemos a boca).
Fechemos igualmente esta desconhecida estória.
Marília maio
2009
23. Ótica da Violência
O interessante nesta crônica é a crônica
visão do escriba nos desastres morais que se dão hoje e que já se davam ontem,
a condenar e mais condenar abusos de outrem – disse condenar, não discursar contra
ou a favor – condenar realmente nas milhares de linhas escritas, quiçá
publicadas ou escondidas a sete chaves; enfim a defender seu ponto de vista. Ou
então a sofrer sozinho sem lamentar e sem que o drama da violência suma das
ruas um dia.
Não obstante não é o ver do personagem
deste conto; conto longe ser do vigário pois a tapeação ou engano vindos do
curto sentido humano na questão da vindita, a qual lavaria a honra e a
vergonha. Portanto não tem, descobrir-se-á logo, um pensamento religioso assentado
pelo então personagem nas coisas que fez (não faz mais, vivo) nas que pensou
certo ou ser certo no errado dos outros.
Assim ele chegou no lar... esbaforido
seria dose visto constatarmos sua autodisciplina e até planejamento de um crime.
Um? nunca um sequer no planeta sofre a solidão, não apenas porque crime gera
crime como resposta mas porque engendra outros paralelos, num ferir quem ferir
e os melindres feridos em quem atingir e por envolvimento ou por interpretação
externa (também curta pois o autor defende que os meandros sempre sejam da
conta do que fere sim, porém sendo da absoluta interpretação divina e não da
pobreza do entendimento humano). Conclusão, preliminar embora, o personagem um
ser metódico e quase autodeterminado. As falhas do homem, nunca havendo o
perfeito, interferem a dizerem não existir autocontrole num criminoso.
Porque o personagem é um criminoso.
Desses que alimentam a imprensa em
sábado sem notícia? Quase assim. Planejou meticulosamente seus atos de vingança
e talvez não seja abusivo falar que projetou inclusive alimentar a tevê o rádio
o jornal a internet, caso viessem clamar por sangue no sábado de acontecimentos
prosaicos.
Chegou ao lar, não certa mansão nos
jardins de cidade grande, casa rica e um pouco isolada das outras residências
de posses no conjunto habitacional de média classe; claro com aparato cerca
elétrica muro parecendo muralha, mastins não: havia tão só o cachorrão daqueles
bobos que só abanam alegrias aos meninos da casa e eventualmente ladram quem passar
na rua, onde circulam carros de executivos na crise. Área com seguranças
ostensivos também não, sim com alarmes escondidos.
O lar quase fortaleza, quieto se não
silencioso fora o latir do defensor bobo para divertir o casal de filhos, a menina
grande para os cinco anos e o machinho pouco mais que iniciando andar. Quieto
porém triste, porque a senhora, mulher bonita apesar de tristonha e afundada
nas suas contradições. Exato assim quando chega imprevistamente o esposo.
Entra na propriedade, apazigua o abuso dos
sentimentos do cão, o qual quer-lhe lamber e botar as patas no peito do amo;
após, sem ao menos beijar as crianças despacha as mesmas às imediações, dá-lhes
um papel escrito e diz entregá-lo para o vizinho xis; paga-lhes o serviço com
umas notas pequenas a fim de comprarem doces; a filha ainda pede esclarecimento
se poderão adquirir chocolate, o que aceito nos meneados apressados do genitor,
este já mostrando preocupação e suando. Saem os pequenos, ainda o homem
recomenda de longe cuidado no atravessar aquela via mais ou menos pública do
conjunto residencial. Nessa altura ainda exalam os cheiros de combustível do
automóvel ali entremeio a garagem e a entrada daquela rua.
Entra por fim na casa, vai ao quarto,
encontra a esposa inclinada sentada cansada ou aturdida nos pés da cama do
casal. Porta fechada sussurro ouvido não escutado por ninguém próximo, sequer
pelas empregadas não havendo as mesmas ainda chegado à rotina. Discutem,
primeiro alto depois semiabafado; e logo um silêncio quase sepulcral...
Agora a companheira miúda qual bibelô
encontra-se amarrada e amordaçada por aquele brutamontes. Só ele fala, baixo.
Diz não suportar traição; vai além e conclui ter vindo do trabalho (nisso o
celular oferece a voz manhosa da secretária; responde sincopado passar a
funcionária o serviço ao doutor zê ou para o doutor ípsilon; desliga
amordaçando igualmente o aparelho; retoma:) diz ter vindo do escritório mas que
antes de chegar executara o amor do seu amor, o pai do casalzinho. E que agora
ali está a completar a obra...
A mulher se mexe se remexe se retorce se
arregala e após amolece e aguarda.
O homem mostra a lâmina, experimenta o
fio num dos braços da vítima, brancos cuidados a cosméticos; sangra. Logo
pratica devagar e meticulosamente o serviço, cujo resultado são montões de
pedaços ensanguentados. Olha por final a sua obra.
E completa de vez a obra, aí com um tiro
certeiro nos próprios miolos.
É o quadro que as autoridades encontram,
vindas com o chamado do vizinho que recebera a comunicação pelos meninos, estes
que não souberam ler o rápido texto porém cumpriram a ordem paterna.
Isolada a residência, afugentados ou
controlados os curiosos; vem o comentário do homem da rua espreitando a imprensa
se movimentar e câmaras com holofotes hávidos no fim de semana; esse comentário
gira em torno de haver vingança, com prós e contras. Enquanto parentes e amigos
a falar baixo, alguns a verter lágrimas concedendo entrevista.
Marília dezembro
2012
24. Defuntaria
Já
que estamos mesmo falando em defunto – disse o vivo, vivo a se pensar espertalhão
quem sabe um virtuose na sua arte – então veja este aqui...
O amigo olhou se olhou primeiro depois
viu o cadáver, exposto, paciente na sua longa espera (longa na opinião de parentes
esperando) olhou notou cobrou mais atenção ao ver o outro em desmanche e o
amigo na tarefa; e achou lindo de morrer talvez mas não comentou seu próprio
pensar, riu, num risinho que não dizia nada tudo a entender na longa amizade. O
profissional prosseguiu.
Este foi orgulhoso. Quer dizer, meu
pai quando não tinha largado a mãe ainda nos dizia sempre conhecer o homem
desde criança e ser ele orgulhosíssimo e cheio de nhe-nhe-nhem. Enricou
atrapalhou-se empobreceu envelheceu enrugou sofreu morreu, interno na saúde
pública, curtindo filas e filas só não ficando na fila anos agora porque apodrecendo
ninguém deixa muito tempo o corpo – está aqui no preparo.
O outro, o outro vivo a ser claro, o
amigo fez “hum” que não quer dizer nada além de estar vivo, num movimento como
provar vida. Daí o defunteiro continuou.
Veja (viu ou só olhou) veja aqui esta
dentadura postiça (o outro quis interpor “prótese” por dentista ou sofredor na
cadeira do consultório... No entanto somente raspou a garganta e fixou a dupla,
isto é o amigo e o soma da soma de sofrimento agora decerto sem sofrer pelo
menos quieto). Antes ela encaixava bem, ou para melhor dizer, comentou, a dizer
que o vi um dia chocalhá-la na boca e fazendo aquele movimento nojento com a
língua ora socando a de cima pra cima ora a de baixo pra baixo quiçá com ajuda
do indicador, o qual este cadáver vivo usando para outros fins também... Pois digo:
não quer acomodar-se o dente no bruto!
Veja (‘reolhou’ ou só viu de relance
não preocupado com a ‘medonhice’ daquele ridículo espetáculo) veja bem as pernas
magras do freguês aqui, antes a correr atrás de seus bens ou a abocanhar os dos
outros ou apenas a fim de lutar pela vida, agora sem vida. Não vê meros
cambitos e espetos de carne sem carne só ossos! Acredite meu caro, faleceu com
uma encolhida a outra esticada e o resultado está aqui: precisei quebrar a
encolhida para soltar e caber depois no caixão. Enquanto quentinho, bem, mas
frio o corpo só quebrando; o que importa pouco aos olhos lacrimosos ou não no
velório... Digo, ficará bonitinho vistoso o manhoso ser, ex-manhoso.
Veja aqui a barriga, um ventre de mil
cervejas; agora no fim o médico proibira álcool – os parentes dizem que o tomava
puro às escondidas e isto não sei se verdadeiro – agora murchada e como nota
apenas pelancas e sobras nas faltas. Tive de espremer abrir rasgar enxer com
algodão... e aplicar milzinhas soluções como observa nos frascos vazios aqui nesta
mesa.
Veja o resto do resto que restou do
que fora um grande homem. Por sinal volumoso nas carnes hoje somente no esqueleto
e pele.
Veja agora – agora se interessando o
amigo do amigo defunteiro – veja as peças da roupa que a família mandou à funerária
vestir seu querido. Pode até achá-las bonitas e na moda; acho as mesmas de
horrível gosto... tudo bem. Me responda como pô-las-ei no sujeito! Enfim dá-se
um jeito. Mesmo porque quase apenas perceberão o rosto sofrido ‘abonitado’ aqui
nesta sala de maquiagem; observarão um pouco a parte de cima o restante coberto
por flores, as flores que por sinal nunca atraíram o morto vivo...
Veja nisto que segundo os de seu meio
ele não passando do homem da rua, o comum dos mortais na abastança e na quase
penúria antes da miséria de sua morte.
É agora um cadáver mostrando o comum.
Tão só para distingui-lo na sala do velório que será luxuosa, o que não me
parece ocorrerá, ou pobre nos adereços da riqueza...
Termino o serviço no meu ofício.
Que acha? A terra melhor achará.
(Sorriram ambos, o objeto a continuar
calado).
Marília maio
2009
25. A Viagem? a Mudança
Um senhor gasto, isto para não dizer
numa sociedade viciada temente à verdade um velho. Cansado? exato, cansado. O
ramerrão a rotina o dia a dia o todo dia; e decerto a carga dos anos, os anos
que foram durante os tempos quase imemoriais janeiros alegres em soma e agora
não passando de soma dos dolorosos dezembros nada sorrateiros e sim ostensivos.
Enfim no ponto a conscientizar necessitar descansar, parar quem sabe. É isso
próprio à condição de aposentado, sua condição. Ah o descanso. Não ia além:
desejava fugir da violência no seu bairro – excesso de barulho, interferência
de palpites vizinhos e sobretudo a baderna jovem com suas motos com suas
reuniões com suas arruaças com suas bebedeiras com suas drogas, as quais
alimentam o noticiário televisivo de nossos dias, estando o sujeito ainda
dentro de nossos dias naqueles dias. Em suma precisando fugir disso e doutros
tormentos. Foi daí que se lembrou duma viagem.
Qualquer. Fizera ao longo da
existência já mui outras. Fotografara e cronicara mil locais turísticos. Agora,
nessa, coroaria o saber. Ora, se não o saber um deslocamento fora de casa traz
fatalmente conhecimento. Nesses termos pensava.
Então saiu por aí a verificar outras
presenças com sua presença. Se bem aqui um mal pois não sendo do seu ser
mostrar presença, mostrar-se; era mais por observar. No geral nas suas viagens
deixava que outrem desse seu recado; um pouco por não desejar estar na
berlinda; tem gente, ao contrário, que faz questão gritar e estardalhaçar se
preciso para chamar atenção...
Assim encontra-se num local, claro longe
de casa como desejando. Observa o todo, verifica condições, estuda o ambiente,
aprecia a beleza ou se ofende com o grosseiro o mal-acabado o rústico; embora
também na rusticidade possa haver toques belos ou apreciáveis. Tem pela frente
uma avenida, mais bulevar que avenida, visto esta apequenar o que é grande.
Conta edificações, se sensibiliza com a estatuária a enfeitar o granito com seu
bronze; repara um exemplar de anjo e aqui vai quase às lágrimas se lembrando os
ofícios religiosos, ele um católico fervoroso, não apenas desses frequentadores
de missa de corpo presente e que criticam a carolice alheia. Portanto sente no
coração aquela lembrança de sua própria vivência e com isso se alegra deveras.
Nota o carinho pelos exemplares botânicos tratados: são arbustos e árvores vetustas,
são flores escolhidas educadas, nada que lembre o povão, o povão sem verde na
sua rua barulhenta e violenta; nada. Tudo agradável, mesmo o ar que se respira.
Não ficou nisso, pois quem só veja a
luz do belo do edificante do majestoso não terá ideia da sombra. Foi conhecer
outro local – eventualmente a fugir do seu, sofrido rotineiro desgastado na
pobreza e sobretudo pela pobreza moral.
Na sombra conheceu, forma abusiva de
tratar e ver a epiderme não o cerne das coisas, conheceu se não a miséria a
pobreza. Eram ruas mal definidas, sujas, tumultuosas e de aparência mal
disfarçada. Além da falta do verde, havendo para ‘compensar’ excesso de entulho
e abandono.
Bem, se falou, se é para viajar, quiçá
assentar praça morando definitivo – prefiro a vegetação bela, belas construções;
com bom gosto e com arte no conjunto.
Ia assim nessa discussão entre seus
eus na intimidade, quando percebe que já não mais percebe. Nesse ponto, sem possibilidade
de voto e de escolha notou estar sendo levado, agora de mudança sem seus
cacarecos e móveis e utensílios e bens quase imateriais como livros e discos,
levado numa urna do tipo caixa a pregos; sem direito a reclamação, ou por
outra: com esse direito sim, sem ser ouvido nas suas exigências ou súplicas.
Com um pior. Não lhe adiantara viajar
a fim de conhecer locais onde pudesse se assentar. Levaram-no para outra área
da necrópole, longe de fato da miséria e da sem-gracice do terreno pobre mas
longe também da área nobre bela arborizada florida respirável dos milionários –
conduziram o morto à revelia para a cova do poder médio da economia de sua
classe social.
Mais não disse; não podia dizer.
E mais não falaram, indo cada qual aos
seus negócios.
Oh como há negócios entre vivos e
‘vivos’.
Marília dezembro
2012
26. Exagerado Pai Nosso
Perdera achara a hora a hora se fora
era agora a hora; ora, o governo, aquele ladrão, o governo mudara o relógio do
planeta e assim não fosse o despertador de acaso não encontraria a hora. Na
hora agá cuspiram-lhe lá de cima embaixo no pau de galinheiro num ploct
avisador. Olhou o pardalzito, xingou três gerações de pardais pelo cuspe, acabou
a ofensa a esse despertador nem um pouco respeitador do relógio oficial com um
xinguinho de nada. Enfim agora acordado, acordado pronto às atividades.
Se espreguiçou olhou o longe viu o
perto enquanto a algazarra das aves miúdas, ‘reolhou’ em cima: e se fosse um
albatroz, ou maior ainda a maior ave penada do mundo: o avestruz... Aí apalpou
onde o número do ponteiro do passarinho atingiu com acerto o erro. Mesmo assim
despejou outro nome feio, agora mais manso com ânimo serenado.
Se pôs a pensar, falando alto pois o
pitecantropo gerador já homem comum e portanto não sabendo pensar só pensar no
íntimo porém desandou a falar.
É sim um ladrão! cobra as mais altas
taxas do planeta. Pagarei por obrigado, mas fá-lo-ei com uma praga: oferto ao
rei da gatunagem minha sogra, mais de centena de sogras e que me deu à força a
esposa que fugiu com o cara do 35! Que fique com as sogras com as mulheres mais
feias e ainda com os meninos, aí por passar já de seis bilhões; que o governo
sustente os filhos com seis bilhões de mamadeiras. A ingrata fugiu ao lado do
bruto, chorei noite toda e por isso ainda perdi a hora na mudança da hora, hora
e vez do passarinho.
Coçou de novo no lugar da cusparadinha
a cabeça de pensar e retomou.
E agora! Exatamente a minha mais bonita;
como foi se engraçar com o malandrão do 35. Deixa pra lá, vamos reagir, mesmo
na solidão.
Ajeitou apertou um pouco as vestes,
certa pele de onça, ex-onça, e se achou belo forte corajoso cheio de futuro
etc. e tal. Com isso, lembrou-se, fiquei para trás; e agora alcançar o meu bando...
Aí recordou-se haver se esquecido até
de urinar. Desapertou na frente da residência número quarenta e quatro, ainda
inexistente e inclusive a rua não havia, havia mato apenas; nem se fale
trânsito congestionado e multa de trânsito, sequer propina e corrupção no
trânsito e não havendo igualmente trânsito em trâmites do governo aquele
ladrão. Mijou um lago, do qual escorreu um rio e aí pensou fazer a condução
para ir lá longinho ao futuro; visto ter ficado para trás.
Cavou um tronco, picotou com bico de
pedra, queimou o miolo da árvore e poluiu um pouco, o meio ambiente sequer
agradeceu nem tendo de quê. Suou demais, teve de abrir mil latas de cerveja a
estufar o ventre parecendo grávido (ah maldita fujona e maldito mais ainda o
vizinho do 35) e inclusive matou a sede. A piroga estava pronta.
Embarcou singrou no rio de xixi rumo
ao oceano, remou remou e por fim chegou num descampado; longe avistando já sua
gente à frente impertinente teimante na sua labuta. Gritou os seus não ouviram
ouviu no efeito bumerangue o eco a devolver o barulho de sua solidão. Teve por
isso um rompante com ímpeto de medo terror e fúria; por que não dizer de vingança
também.
Então se propôs destruir a tudo, nada
mais tendo seu: as mulheres fugidas, verdade que também as sogras e especialmente
a mãe da que fugira com o safado do 35 – quebrou tudinho ao redor; matou o trem
matou o do 35 matou o governo; arrancou a roupa, ou seja a onça malhada usada
sujada estraçalhada puída e sentiu um alívio, qual sentira no esvaziar a bexiga
e xingar o passarinho.
Puxa vida o passarinho! e se fosse
avestruz ou quem sabe uma ave dodô que falam fora a maior do planeta... não
teria de xingar com um nomão!?
Coçou a verificar a cabeça onde o alvo
do cuspe.
Marília fevereiro
2010
27. O Anjo da Morte
Dr.Comum, por extenso Doutor José
Comum da Silva, com doutorado e especializações, recursos financeiros imensos
guardados a sete chaves nos paraísos fiscais, personagem bem posto tendo
clínica nos jardins a faturar horrores – tudo isso não vindo ao caso e fugindo
à questão: dentro da questão recebeu visita, visita a bem da verdade desagradável.
Aqui na problemática a entrar a visita no palácio na hora inadequada. Não tem
esses dias nos quais a gente sente de repente não estar contente, não estar e
bem pior: não conscientizar o porquê. Pintava no seu ser na hora de receber o
visitante algo que poderia digitar no computadorzinho de lembranças como ciúmes
ou só preocupação nisso; que é o estado tal em que tal negamos, temendo a gente
mesmo concluir que a mulher da gente é bonita e cobiçada por todos todas
reuniões que exige a sociedade. Seria então por ser a visita bela!
Esta um homem se não belo, belo
exemplar, bem vestido, bem cheirando, bem falante... Quer dizer, quase mudo
pois é a boca fechada que melhor cala erros porventura a serem cometidos
ferindo o purismo da língua. A rigor as
orelhas do anfitrião em potencial eram grosseiras e sua boca proferia anátemas
contra o purismo da língua; o que os criados desconheciam, os de fora
desconheciam, e mais nesse menos o visitante certamente desconhecia. Tanto
assim usarem abusando no formalismo.
Negócios à parte, Doutora Visita
mostrou vir para ficar... longe ser mero visitante a negócios – os quais podendo
engordar estufar sobremaneira não o paraíso mas os banqueiros dele. Pra ficar
dias meses e que horror anos... isto após ver e ser apresentado à lindíssima
consorte daquele já sem sorte dr.Comum, com clínica no jardim e bem de situação
dentro e fora do paraíso.
O visitante era um homem decente, bem
posto bem vestido bem tudo enfim. Meia idade ou com idade indefinida, mudo
inicialmente destravou diante das belezas do palácio nos jardins e dela no
jardim.
Fizeram apresentação, desnecessário
noutros dias noutros meses e mais no ano, não mais que ano a tortura diária dos
ciúmes e mais à noite feita para insoniar pensar e não para dormir. Ela dormia
no seu quarto, o doutor piormente não dormia dormindo sem dúvida a visita tão
próximo ou apenas longe do consorte...
Quando já passados dias meses no
torturante convívio; não: o doutor tratava e era tratado pela doutora visita
bem, nos conformes; se não na melosidade segundo criados todavia a criadagem
não tem se meter, os palpites e alvitres devem ficar entre criados somente; ou
ser exportado talvez a outras importunas visitas sobre as relações da visita ao
anfitrião e à mulher bonita de ambos; isto pensar de Comum, não necessariamente
comum pensar. Quando já no aniversário dessa chegada e estada inusitada ou
inadequada à ciumeira na casa e o doutor não tendo mais sossego para acumular
bens nem como depositá-los no paraíso; mesmo porque apertando a fiscalização do
fisco – ele também semelhando o povão da rua contra o governo, esse ladrão e
corrupto, sendo ambos dessa oposição na hora de criticar e não contra na hora
do voto – em suma já no momento de apagar as velinhas parabéns pique e pique
pique é hora hora hora... ora, nesse momento o Doutor Visitante se declarou...
Seria para se declarar rival do outro! ou outro absurdo que possa ocorrer nas
relações das altas camadas sociais, segundo o pensamento dos criados e do povo
lá fora querendo enxergar o que se dava dentro? Resumindo, se declarou a visita
ao dono, ao horror estampado realmente numas faces belas ali próximo na torcida
feminina. Disse:
x
x x ou cobras e lagartos?
Antes disso o proprietário da
propriedade e da senhora bela olhando horrorizada então – o proprietário
ofendeu moralmente a visita, quem sabe desejando o afastamento da mesma para
não correr qualquer risco. Ela? sorriu sarcástica, o que ofensa de ofensor a
qualquer mortal na posição de vítima inocente. Nesse ponto a vítima empunhou
arma ultramoderna, engatilhou premeu desferiu e o projétil atingiu a visita!
Claro, todos criados agora diante do barulhão e os inocentes curiosos do bairro
chique dos jardins não respeitando os mastins os seguranças os alarmas pra ver
da janela o crime, no entanto...
A bala ultrapassou aquela
transparência de corpo bem posto, fazendo o Doutor sorrir ao doutor, até a gargalhar!
Ainda pasmado o dr.Comum, Comum da
Silva mas não seu criado como se fala; ainda pasmo diante ouve o outro: “Sou o
Anjo da Morte!”
Sorri de novo. Enquanto o dono de tudo
larga tudo, inclusive a bela; e para que nessa situação ter bela e propriedade
e dinheiro nos paraísos fiscais, os paraísos mostrando a língua para o governo?
Saiu a correr, atravessou a rua, uma enorme e larga avenida alameda ou bulevar,
aí um carrão importado o matou.
A visita sequer beijou a dama
desmaiada ali pertinho; somente abanou a cabeça, devendo ser mesmo cabeça da
morte.
Marília fevereiro
2012
28. O Crime em Maislândia
O senhor não sabe o quanto tenho
sofrido, temos sofrido isso englobando os meus. Os meus? o menino que na época
sequer havia nascido, aquele anterior que seria meu primeiro e morreu vivendo
apenas mês, por causa decerto da crise que me envolveu e narro agora ao vizinho
– bem entendido: narro porque estou observando o senhor e sua família faz mais
de ano e agora tenho confiança a passar coisas tão escabrosas.... Tem o garoto
e a menina mais nova já andando e chorando. Nessa época sequer achava pudesse
mais engravidar, tentara em vão anos; quem sabe se tal crise não disparou minha
natureza, daí por diante geramos três filhos; por essa altura sentia como que
já a menopausa desistindo ser mãe, então apareceu o que nasceu e faleceu. Sabe,
fiquei muitíssimo ruim, médico e tudo o mais; vai ver não podia nas circunstância
ser internada hospitalizada, vivendo morrendo me escondendo deles. Englobando
entre os meus é claro meu marido e também o resto dos nossos parentes e a gente
costuma dizer que os familiares não se entendem, o que uma verdade, mentira que
hajam parentes que não briguem. Contudo na hora H, quer dizer no extremo
sofrimento e no perigo iminente eles acorrem (embora uns só a correr com medo
dar testemunho) acorrem nos auxiliar e foi exatamente o caso. Assim estendo o
sofrimento aos meus todos de um modo geral na vivência do problema, que era tão
só meu problema, e até perdoo os familiares que fugiram de nós nesse momento
triste ou se esconderam... aquele negócio de não testemunhar “não sei” “não vi”
“não conheço a pessoa”. Mesmo porque todos correndo perigo e até perigo de
morte!
Dá licença um pouco, juntei o lixo e
preciso agora levá-lo para dentro do quintal, meu presidiozinho particular, pôr
na lata e depois nas sacolas de supermercado para na segunda-feira o lixeiro
levar. Volto já já e prossigo.
Pois é, vivi o maior drama por causa
da crise que chocou Maislândia na década de noventa, aquele do figurão político
que o senhor conhece bem, sabemos por aqui ser sua família eleitora dele na
prefeitura e na câmara federal. Não sou contra; apenas que só meu esposo votou
nele, eu não e aliás sequer voto mais temendo sair na rua, eu não voto apesar
lhe dever muito favor... ou por outra: quem deve é ele, ele e sua gente
encrencada, eles que me devem favor. Ora, favor não se costuma pagar. Nisto
entra o crime que citei e o senhor terá ouvido mil vezes contar por aí e ler no
jornal como assunto do dia além de acompanhar na tevê – meses nesta cidade só
se falava na coisa. Eu fui chamada a dar entrevista e me neguei, por ordem do
patrão, ainda meu empregador nesse tempo, agora não trabalho; trabalho sim pois
a mulher quando empregada trabalha fora e muito no lar; hoje apenas trabalho
aqui em casa, quando não dopada por excesso de medicamentos pesados, os de
tarja preta, recebo muito desses toda semana; recebo porque o doutor José paga
ainda o tratamento ao doutor amigo dele numa clínica de sua confiança, a fim de
manter minha língua muda... e assim não gastamos tanto na farmácia. Tudo
explicado em vista haver participado de certa forma e mesmo garanto haver
participado no crime, seja presenciando seja a tentar impedir. Aguarde, logo
esclareço também este ponto.
Enfim mataram o Rafinha, nós da casa,
casa da patroa, o tratávamos desse jeito carinhoso – infelizmente morreu.
Estive a serviço desses ricaços por
muitos anos, fiquei lá sete anos e tem gente a dizer que sete é conta de mentiroso;
que fazer se permaneci como doméstica nesse emprego os sete e só deixei a
residência no assassinato do rapaz, o mais novo deles, inteligência brilhante e
promessa, promessa não cumprida porque os assassinos não deixaram cumprir. Verdade
que se emaranhara nas drogas arranjara encrencas com traficantes e rivais, vai
escutando o senhor. A coisa andava tão feia, horrorosa, que nem o grande
político ficava quase no seu próprio lar, sob pretexto cuidar do eleitorado e
da campanha. Políticos são sempre iguais, não semelhantes mas tudo o mesmo: em
todo lugar vê eleitor e voto e faz propaganda, mesmo na derrota já prepara
‘trabalhando’ à outra eleição porvindoura, até se esquecem dos seus familiares.
No caso a questão apodrecida pois naquela casa ninguém se dando, mais brigando
e inclusive a usar da violência mais flagrante os tabefes aparecendo. Não falo
do casal mesmo porque o senhor sabe divorciado, agora o homem se ligou a outra,
uma belezinha nova, a velha ainda bela. Enfim problemas conjugais e aqui neste
relato lembro só porque pode explicar ou ajudar na explicação do
desentendimento... Afetando a vítima principal, o Rafael.
Explico neste momento ao senhor, espero
não comentar isso com sua esposa, a qual não indo muito com minha cara, ao
menos não conversa, conversa com as outras daqui do pedaço e não quer nada
comigo. Explico que naquele dia do crime, aliás assim todos dias, chegava eu de
bicicleta porque morava lá longe no Baixadão e por isso vindo às vezes atrasada,
dona Maria me pegava no pé com razão, a sua razão. Daí cheguei de bicicleta
deixei o veículo nos fundos dos quais tinha chave. Notei tudo no silêncio, o
menino dormia de mais uma noitada com amigos – e que amigos! quem sabe se melhor
não fossem os inimigos... – os outros da casa saíram, a mãe dele viajando nos
parentes dela o pai alongado a fazer campanha, por sinal ganhou e pelo crime
havido pediu afastamento a se tratar e tratar também de meus negócios, os quais
loguinho esclarecerei. O mais velho dos filhos, hoje político influente igual o
genitor, esse na faculdade estudando, creio com afinco, sem pôr as mãos no fogo
por ele nisso. De maneira que dormia o rapazinho, eu cheguei guardei a bicicleta,
no momento carinhava as cadelas...
Ah vou falar um pouco delas e da
situação. Os ricos, por terem muito ganho a perder, os ricos se aprisionam nas
mansões, botam cerca elétrica, fazem muro alto, põem portas intransponíveis,
colocam cadeados os mais resistentes, e mais olhos eletrônicos e disparos por
fios e câmeras, contratam seguranças – resumindo se defendem numa fortaleza! E
ainda têm cães bravios desses de sangrar gente e é o caso das cadelas as quais
só reconhecem os donos e os empregados próximos como eu nesse caso nessa casa.
O que não adiantando porque os criminosos parece que têm parte com o demônio –
o senhor sabe que sou evangélica? penso muito e temo satanás e neste crime vejo
as mãos de belzebu – o fato é que ladrões entram nos palacetes fortificados
e... ora, é só ver na televisão diariamente. Aqui é bem o caso, voltemos às
ferozes cadelas do patrão.
Cheguei, já vieram me lamber,
afaguei-as dei comida dei água e... aí notei qualquer coisa errada, inclusive
barulho estranho nas imediações, sabendo que o garotão a dormir no seu luxuoso
quarto. Pois não deu para dizer qualquer nem quase pude me mover: já estavam a
meu lado, um deles com um revólver deste tamanho, não sei calibre – de
espingarda de chumbinho até canhão atômico minha ignorância não faz diferença.
Sei que tremi temi e engoli a língua. Curiosamente só uma das cachorras brabas
então a disparar xingar os estranhos e aí tive de calá-la por ordem da arma do
bandido. Me encostou aquele cano frio nas costas e foi me guiando para que o
guiasse rumo ao quarto do Rafa. O outro ficou fora olhando as cadelas
distraindo as mesmas com ração.
Chegamos na porta do quarto do moço.
Aqui tento impedir, já via antecipado que iria o facínora abordar o pobre rico.
Saiba que de vez em quando eu indo apartar na discussão dele com dona Maria e
aí sobravam socos e tapas para meu lado; sóbrio o infeliz Rafinha era igual
moça ou seja um amor de criatura; eu ouvia sempre seus desabafos e tínhamos
amizade, guardadas proporções de patrão para empregada. Assim procurei
protegê-lo naquela abordagem que redundaria no assassinato. Comecei a clamar ao
Senhor em voz alta (pretendia alertar o patrãozinho e com isso prepará-lo para
que fugisse do perigo:) não acordava, acordou sonolento ao abrir a porta e se
deparar com o bandido armado!
Este entrou, me empurrando pra fora,
me intimando ir acalmar as cadelas iradas nem a arma do outro calando, corri
longe aos fundos. Ao chegar ouvi tiros surdos como se fora dirigidos ao meu
coração!
O resto está nos depoimentos na
polícia, tudo no sigilo quase nada vasou. Não falei com a imprensa, proibida e
sem condições psicológicas para tal.
Entretanto ao descer a escadinha indo
às cadelas, o outro bandido não sei por que atirou em mim – aqui está veja a
cicatriz ainda no braço, olhe! – rolei e me fiz de morta. Ainda assim o
criminoso veio perto examinar se não me mexia e decerto me tomando por morta e
o anterior tendo já completado o serviço, se foram pelos fundos, ainda um atirou
e feriu uma das cadelas.
Nunca acharam os devedores mandantes,
claro, e nem os executores certamente pistoleiros contratados para eliminar o
pobre moço. Esta a conclusão.
E aqui se inicia outro drama, não sei
se não ainda pior que isso dito às pressas ao vizinho, que me parece demais silencioso
ou só respeitoso e educado. Insisto: não conte, pelo amor de Deus, não diga à
sua companheira e a mais ninguém sobre o que narrei...
Neste ponto a entrar polícia imprensa
povo falador e meu drama e dos meus, os quais ecoam até hoje e também aqui
encaixo Menoslândia.
Menoslândia? quase em Mato Grosso,
ainda no estado e quase também no estrangeiro ou mais longe que o estrangeiro
ainda nos escondidos desta vida...
Porque o patrão interferiu, a impedir
que falasse pondo então indevidos por única testemunha, e a prejudicar sua
campanha acesa, enfim para não complicar a questão e se complicar ele na
polícia; e para me defender – o senhor irá saber que dado o envolvimento da
vítima dessa violência no mundo da droga com traficantes e quadrilhas
especializadas: eu, tendo escapado tomada morta junto às cachorras, viva seria
alvo fácil e eliminada prontamente assim estivesse na rua. Aliás até dentro da
cadeia poderia ser atingida executada para não deixar rasto e resto do crime.
Verdade correr risco toda gente da mansão. Eu era olhos e, pior nisso: língua
às autoridades.
O doutor José então interferiu,
primeiro para que o assunto não sujasse sua vida política, segundo que eu não
fosse eliminada na queima de arquivo como suponho ocorrera ao próprio Rafa.
A propósito, o patrão anos tendo rixa
com o caçula, protegendo descaradamente o primogênito (isto válido à patroa com
proteção e queda ao mais velho) a este mais velho iria, hoje, o pai dar apoio
político rumo à prefeitura de Maislândia, o que espero acontecerá pelos rios de
dinheiro que o chefe político investe no filho. Ainda sobre essa morte, meu
esposo ouviu um dia alguém no povo a dizer que o pai tendo interesse de acabar
com o caçula, o qual só lhe trazendo problemas; teria contratado os matadores;
não devo endossar a afirmativa, mas não descarto infelizmente a
possibilidade... O primogênito sempre o preferido dele. Querido, o mais querido
na família, igualmente um inimigo em potencial – todos membros da família a se
chocar nos atritos diários; aqui também sempre fui testemunha ocular e auditiva
presenciando entreveros. Resumo duma família rica porém sofrida e desunida pelo
interesse financeiro que a fortuna dá a quem do sangue... Na verdade isto
acontece nos inúmeros grupos milionários porém semelhante entre pobres, estes a
dividir e brigar não só pelo pão de cada dia mas por bens e herança quando
morre um ente; que sejam trapos miúdos a herdar. Gente é sempre assim, fora
raríssimas exceções, a maior parte se desentende na repartição. Ali no palacete
do doutor José sempre atrito com dona Maria, o pomo da discórdia ia dos bens de
origem improvável aos filhos, em detrimento do amor e da amizade. A meu ver
aqui entra a questão religiosa, visto que na casa não havia e ainda não há
agora crença alguma; só conta mesmo o poder da riqueza.
Pois bem, falei que nisso entra
Menoslândia. O doutor cuidou a desvencilhar-me das autoridades inclusive com advogados
na minha defesa, conseguiu a peso de propinas tirar-me do vexame dos
depoimentos mais longos – me levando pra lá, numa de suas fazendas de gado, me
escondendo dos olhos do povo e escondendo minha língua que poderia prejudicar a
causa e pôr em risco sua carreira política; assim me defendendo a vida também.
A existência em Menoslândia marcou-me profundamente; e, claro, o temor o horror
inclusive ser encontrada me acabou com a existência!
Acabou transformando meus dias simples
de doméstica pobre se deslocando do bairro pobre (aqui seria miserável
comparando a este onde vivemos agora nós e o senhor vizinho com sua família,
pobre mas não miserável:) desde lá até lá no bairro milionário para a mansão
rica do doutor e da amiga dona Maria; ela bem próxima sempre de mim, as
mulheres se entendem (e se mordem mais) se entendem menos com os homens; devo
nisso colocar meu próprio consorte, não vem ao caso, volto ao crime.
Transformando sim minha vidinha de trabalho e caminhar na bicicleta ao serviço
e no trabalho na minha própria casa – transformando meus dias num inferno, com
as perseguições temores e até me escondendo na aldeia, Menoslândia é desse tipo
de aglomerado urbano de uma igreja e quatro casas, casebres realmente com muito
mato por roda, bom para se esconder. Eu então parecia uma autêntica criminosa:
assassinara a vida e vivia na existência infernal dos esconderijos.
Neste dito ponto entram outras consequências
talvez mais graves. Deixara em polvorosa e em temor constante meu lar, levava
um filho – aquele que morreria com um mês, diante o período agitado na correria
da fuga; nasceu e o perdi quase imediato. Mas não é isso, aquilo... Passei desde
então a receber doses de tranquilizantes a contrabalançar o medo e o terror por
que passava. Reconheço todavia não haver gasto tostão sequer: o doutor pagou
tudo, desde consultas até remédios viagens estadia e meu salário, o qual
entregue ao meu marido em Maislândia, o esposo meio escondido também, a fugir
de curiosos e estranhos, talvez mal intencionados; sempre aqui em Maislândia,
pois em Menoslândia eu uma desconhecida e isolada no mundo. Enfim não vivia.
Eu vivia o inferno nesse inferno.
Não posso afirmar sem ferir a verdade
que vivesse propriamente escondida e solitária. Lá era mais uma criatura desconhecida
dos desconhecidos. Sozinha propriamente não. Creia o vizinho mais esta dor: o
patrão visitou-me vezes incontáveis e por duas vezes me assediando tentou me
aliciar, quase a conquistar-me... O atrevimento chegou a tanto. Entretanto é
assim todo mundo do seu porte político; além ser demais mulherengo e mesmo
tendente à depravação. Ora, hoje me recupero e na década de noventa não passava
dum trapo de mulher, sofrera muito e muito me desgastara – como conclusão, era
mulher feia escura pobre e dependente do patrão. Uma vez já tentara abusar o
dono da mansão na mansão. Agora tem-me às mãos no esconderijo. Fui praticamente
tomada pelo conquistador, embora me defendesse com unhas e dentes como se diz;
acabei sem o desejar traindo meu casamento... Não me entreguei porém por
inteira, lutei e só fiz concessão ao safado por dependente de sua fortuna e nos
ameaços da perseguição dos algozes seres ligados ao tráfico, que primeiro
vitimara o menino Rafael e depois a família dele e por último aquela, esta,
fugitiva. Foi em Menoslândia como falei ao senhor.
Anos após tornei a Maislândia, as
águas assentadas a poeira abaixada, acomodada a vida. Inclusive o primogênito
deles na campanha que é essa agora e nem sei se virará prefeito daqui. No
entanto e os meus.
Parece que houve uma reviravolta com
meu povo. Hoje vivo aparentemente bem nesta casa e bem os filhos que o senhor
vê sempre, o Geraldo meu esposo harmonizado e tudo o mais. Não obstante veja a
cerca elétrica, meu cachorro brabo e também notou que não só apagamos a luz à
noite cedo e não me vê aqui na calçada frequente; nunca me encontrou a andar
pelo bairro e na cidade. Se observador veria que não tenho sossego nem
liberdade, não converso com ninguém e menos com estranhos, olho assustada
sempre para todos lados. Isso por consequência do drama iniciado com o crime...
Tem mais e ninguém fica sabendo: continuo anos num tratamento médico, tomo mil
e um remédios de tarja preta e não durmo, praticamente não durmo: só vejo a
cena do crime, acordada fecho olhos... para ver ainda a cena e vivo como fosse
hoje minha vida pregressa desastrosa. De fato teria mais agravante se gastasse
rios de dinheiro com os medicamentos ditos – faria uma relação de mais de um
dia só indicando nomes de vidros cápsulas comprimidos e injetáveis – verdade
seja dita, o doutor José cobre toda despesa. Foi assim até com a construção e
antes compra do terreno desta residência nos quais os meus vivem. Tudo pago,
pago eu com a boca fechada...
Contudo há outras consequências ou
dados ligados a essa terrível crise. E isso relaciona-se e até explica um pouco
a vida dentro do casarão deles; e também o envolvimento familiar dos meus
patrões com os algozes do filho. Melindroso demais, demais complicado e
perigoso dizer. O tempo quase incógnita autoriza falar algo; se bem que ao
senhor, o senhor me parecendo confiável visto nunca haver flagrado sua boca
aberta fácil; o que nada semelhando, o senhor me perdoe pela ofensa se ofensa,
nada parecendo o caso de sua companheira, a qual não me toma por amiga... O
senhor confiável, ela não.
Aí o porquê poder mesmo contar sobre
alguns podres, seriam podres! enfim os negativos aqui aí do nosso lar.
O Geraldo o senhor sabe é contido mas
homem bom, bom companheiro desta sua vizinha esquisita. O povo da rua me tem
por esquisita, não me importo. Se brigamos? claro, tem algum casal no mundo a
completamente se entender? Porém vivemos até bem. Procuramos não ferir o outro;
o que meio caminho andado no ser comum. Os meus filhos já adolescendo dão
trabalho e preocupação como suponho os seus, porque é assim o mundo. São boas
criaturas e isto não é nada próprio do ver materno, o qual costuma exagerar. A
menina é companheira, o rapaz parece ter alguma areia nas engrenagens não quer
ouvir conselho e anda, ao meu temor, anda nos seus passeios com amigos. Enfim
nada que o sol ainda não tenha visto sobre o planeta. O terceiro filho que dei
à luz, foi aquele caso e no caso foi realmente o primeiro pois julgava ameaços
da menopausa o sintoma de gravidez quando do crime e da fuga a Menoslândia,
portanto já grávida sem o saber; sabia menos o pai, o marido costuma ser o
último a saber dizem... Uns ridículos vizinhos do outro bairro aventaram
possibilidade ser o garoto filho do patrão; infelizmente com algum cabimento,
dizem o político ter filhos por todos lados... Não: saí de Maislândia esperando
o filho porém a crise do crime me impediu concretamente saber-me grávida dum menino,
do Geraldo é claro. Seja como for o perdi logo. Ficaram os dois, o casal que
tive após o inferno da fuga e o inferno do retorno à cidade. Sempre escondida,
como alguém e a faca que não vê no pescoço. Um drama...
O drama ainda – e não sei por quantos
anos carregarei esta cruz da insegurança – o drama ainda presente, seja nos
remédios, meu principal alimento! seja no temor terror horror em pôr a cara
fora deste presídio, nossa residência mais parece uma cadeia; e pior nisso –
fico mui angustiada é ter que sair dele. Como agora varrendo limpando a sujeira
e neste dedo de prosa com o senhor.
Ah o senhor, sei apenas se chamar Seu Zé
também como meu ex-patrão e nada além, o senhor teria decerto muito a me dizer
de sua vivência aqui e de sua própria vida, as coisas dos seus familiares e
amigos. Não ouvi sequer nesse tempo de narração de meus dramas sua voz ao menos.
Ora, mudos não falam, embora tenham
boca e língua.
Marília outubro
2012
29. Um Silêncio
Quando
viram não viram mais, tudo relegado se não ao esquecimento ao inexplicável; ou
quem sabe mais ainda à indiferença. Era o abandono. Perfeito abandono!
perfeição onde possa haver perfeição. O fato é que não havia presença naquela
presença a deixar que a lei se cumprisse, a desmanchar o tudo a transformar em
nada; houvesse nada. Mas havendo o vento. A chuva fustigara bastante, bastante
e não bastava, bastante o sol a seca agora, agora existindo não o desânimo, a
quietude. E isto seria a paz! A rigor era já um depósito à alegria de restos e
entulhos – tudo fustigado pelo tempo, indo, no momento, impreciso e não medido,
medível no entanto. Em suma nada havendo mais que restos e sobras nas faltas,
talvez ou apenas o além do sofrimento do humano ou do que fora um dia humano,
no seu ser e no ser do que a si ligado. Entretanto agora tudo andava relegado
como que num cartão postal que já então se não mais enviava, resumido na vista
do abandono; abandono mesmo a preguiçosos insetos e ativos pássaros, inativos.
Nada havia no tudo. Não obstante aquele destroço fora a residência de um
homem...
Agora o vento atrevido assoprava sua
força naquela inércia. Espalhava detritos leves, atirando os mesmos longe
naquele perto e no distante do sumindo e desaparecendo; enquanto os pesados, os
restos pesados, se rindo das ondas do sopro como rira dos raios solares e
afrontaram as lágrimas do céu e sua umidade que sempre fica qual cartão de
visita. Abandonado. Exato, abandono!
Restando um que outro dos muitos
papéis esvoaçantes de propaganda e de avisos a passear no ambiente... Voavam
sua alegria ou irresponsabilidade naquela tristeza. Ou não: por que a
indiferença e o abandono têm de cotejar o triste!? Ninguém a responder, ninguém
ali lá aqui aquém além, além ainda naquela morte de vida; e portanto sem opções.
Contudo havia na poeira sobre poeira
entre cacos do todo uma parte a rir-se, que fosse do vento. Ria-se desbragadamente,
não sorria educadamente ou no tipo da cara-fechada como se exige nos compromissos
oficiais, até nos oficiosos. Nesse estado se poderia observar o talão de luz na
cobrança por cima de cobranças, as cobranças anteriores desfeitas com novos
feitos... desapareceram as mais antigas! ou superadas pela nova que marcava no
registro a ‘quilowattagem’ mais recente na caixa de força sem luz a enferrujar-se
e se carcomer com ajuda do tempo da chuva da umidade da secagem do sol, o sol
lá em cima impávido por sua grandiosidade e indiferente decerto nas
consequências das consequências. Voavam, só voavam inteiros ou como trapos de
papel ou os pedaços dos inteiros agora também aos frangalhos que ora assobiavam
nas portas dos restos de tijolos e pedras ora acalmavam-se ainda assim
decompondo teimosos seixos e sólidos outros mais. Assim, também assim, avisos
de água a faltar já líquido, água desligada até pelos poderes competentes incompetentes
quem sabe; também eles a esvoaçar sem destino, com destino não entregue ao
destinatário... E outros, outros mais a passar a passear indecisos no sítio ou
só passantes apressados ou não a avisar na propaganda nos folhetos à solta.
Avisavam investiam mostravam propunham o bem de seus preços e os preços como
vantagem de suas lojas, ou que sendo anúncios de espetáculos ou o espantável da
saúde ameaçada divulgado pelos órgãos sanitários. Todos tudo; tudo espalhado
gritantemente agora mudo, mudo ou apenas sem serventia naquele local de
abandono ou talvez abandonado.
Então se podendo ver, se ver, se
notar, se possível, as janelas da casa e suas portas imitantes fechadas. Também
elas abandonadas junto com o geral abandono; a enfeitar paredes pobres velhas
antes jovens vistosas relegadas agora e largadas. Silenciosas no silêncio.
No silêncio no interior do imóvel
imóvel caveira no esqueleto com roupas apodrecidas do que fora um homem.
Sem que ninguém soubesse. Ou ninguém
venha um dia a saber.
Marília março 2010
Como a gota, gota a gota a pingar
silente ou sonante, aparentemente intercalado mas contínuo (eterno!) todos dias
naquela noite de poucos amigos emburrada monótona nebulosa e caprichosa em sua
rotina e secura; anos assim, vinha o funcionário servidor penitenciário mudo ou
de nenhuma conversa trazer alimento ao prisioneiro, a então mudar talvez a
feição de sua cela com aquele almoço em refeição única no meio do dia – seria,
pensava a frágil figura o dia na sua metade? – às onze horas pontualmente às
onze e cinco, como fosse ele, funcionário, o próprio relógio inexistente ou só
o ponteiro da máquina cega e irredutível no seu fazer de mecanismo frio...
Todos dias todo santo dia naquele exemplar inferno de noites e dias a se confundir
e esconder a vida na pobre existência. Já de longe, as horas a contar os
minutos a seguir e quase na hora da hora os segundos apressados a sentir aquele
nariz a escorrer nos bigodes dele e destes para a barba enorme pintando de
branco suja sem pente se supõe, ou escorrendo pelas frestas de pele no rosto
sofrido magro e descolorido, a sentir seu nariz a aproximação da marmita também
magra; assim o preso gente ainda e a profetizar antecipando o sabor que teria;
a mente já esperta a relacionar o que vir: arroz pastoso, feijão ora azedo ora
insosso (para manter a forma?) um afogado picado salgado demais quase sempre, a
forçar beber mais cedo a escassa água do incômodo cômodo, às vezes despejada
essa ‘iguaria’ na lata feito latrina antes mesmo da transformação necessária
pelos instestinos; aliás o cheiro desse improviso de sanitário unia o cheiro da
véspera com o do dia empestando aquele sórdido ambiente já meses empestado...
De resto na marmita assim trazida era o resto, raramente havendo carne ou qualquer
proteína sem gosto para não cair decerto também na rotina nem perder a condição
de raridade, coisas de cozinheiro ou sem responsabilidade ou sem respeito ou ainda
sem saber sabor, de tão longe estando o freguês. No entanto sentia tudo a
abranger o prisioneiro na chegada do funcionário. Essa a situação geral, o
estado naquele estado.
Era sua noite interminável, sem
mudança por mais dias houvessem.
Quase comparável àquele cidadão sem
direitos uma outra situação rotineira: o sol sem sol. Sabia de cor por onde as
frestas dos raios a tentar clarear sua sombra. Riscava, riscando somente para
comprovar contar existir na inexistência, que é a ignorância do que se
desconhece. Contar por contar com uns riscos, risco somado a outro risco,
feitos para não confundir o dia da noite que passara com o dia da noite que
vivia, se vivendo. Assim os rabiscos com um sólido encontrado naquele escuro
eterno (eterno!) Para saber continuar prisioneiro ainda e ainda de coração
pulsante? Têm coisas que o ser humano não pode responder ou não sabe responder
ou teme responder...
Um dia, um dia em plena noite –
piorou.
O guarda não veio. Não falar o outro
já era uma tragédia particular a si; mas não conversar não trazendo a comida,
mais trágico. Primeiro pensou otimista em atraso; no outro dia, quer dizer mais
um risco na parede da noite no inferno, nesse seguinte não apareceu de novo,
não seria portanto novo atraso à fome velha – desconfiavam seriamente os sopros
da fome e confirmavam o mau augúrio – desconfiou não aparecesse, ou reaparecesse
o funcionário com sua sem-fala com seu cheiro adrede conhecido misturado na
mente o hálito do suor do homem uniformizado com os cheiros do desodorante e
das iguarias, cada vez mais ‘iguarias’ e agora até sem essa certeza na rotina
diária.
E naqueles dias de tantos infaustos
acontecimentos ou exatamente por faltar acontecimentos, não vindo o guarda com
seus cheiros para ferir narinas ansiosas; naqueles coincidiu também de o sol
suprimir seus raios ou seria alguma obstrução na janelinha lá do alto que
gargalhava claridade agora escura e ausente... Que mais faltava, pensou, para
que o inferno fosse completamente inferno?
Noutro dia, mais fraco o frágil
detento – ainda não aparecendo, reaparecendo? aquela regalia tão limitada da
rotina na visita do funcionário e suas viandas quase sem viandas. E noutro e noutro
mais.
Menos a deduzir ficou quando surge
novo funcionário a sondar sua prancheta no caminho do inferno com cheiro de
latrina de novas podridões e de morte. Isto, a morte viera antes das determinações
da burocracia.
Disposta a contar somar talvez na
estatística os descontos de menos um coração a pulsar.
Marília março
2012
31. Morrer na Praia
O sujeito, jeito apenas de falar, um
sujeitinho miúdo cansado dos seus dias e mais ainda nos últimos dias, quase em
inanição em fome braba, vivia o seu desespero na orla litorânea da ilha quem
sabe a maior do mundo menor nas parcas oferendas. Cansado inclusive do próprio
cansaço. Debalde olhando areias a sumir calor vaporizante a sumir árvores sim
assim mesmo a sumir. Todas elas de comum acordo contra ele elas secas isoladas
entre si e pouquíssimas às muitíssimas necessidades de sombras e mais negadoras
ainda de frutos. Até que no até que enfim encontrou um coqueiro.
O
coqueiro andava arcado ao vento e ao seu próprio peso: os cocos numa abundância
mas lá no alto! olhava o alto no seu baixo ser, que o rebaixava ainda mais na
fome, os cachos as pencas os frutos sazonados ofertantes qual seios de mulher
bela madura sadia sábia no seus dotes. No entanto inalcançáveis inalcançados...
Parou
no seu andar trôpego, olhou olhou em volta em cima em baixo e se viu; não viu o
como. Entregou-se na extenuação a pensar.
Aos
poucos reconheceu as armas possíveis por volta, já que a mais valorosa não
tinha valor algum pois não sabia não podia subir galgar o tronco; e no ápice do
tronco lá o fruto!
Percebeu
um recurso e ajuntou as armas disponíveis: objetos poucos ao deus-dará. Iniciou
a batalha contra a fome que o comia e mais contra a sede que o limitava. A
sede, ah se pudesse beber toda água salgada ali a roncar na praia. Examinou
melhor agora aquela altura de coqueiro. Assim iniciou a guerra contra o contra
sua vida.
Tomou
seixos, arremessou pedras grandes e menores conforme suas forças. Atirou-os
para cima. Errou para baixo. Cansou, extenuou-se mais pudesse no seu estado
haver ‘mais’. Esgotou a reserva de munição: os cocos lá no alto intactos com
seu líquido precioso e sua castanha de matar a fome e dar o reviver. Não
acertava. A rigor não tendo sequer forças para atirar mais suas balas e isso em
razão da perda da energia com o tempo e a fome, estes inimigos palpáveis...
Por
fim encontrou um crânio já despojado da gosma do pensamento, de músculos, de
nervos e de sangue, já seco no sol ardente. Pediu constrangido e medroso perdão
ao proprietário e assim enviou a cabeça aos cachos de coco, prenhes qual os
seios na única mulher encontrada naquele deserto de calor e horror. Fez um
esforço na força sobrante aprumou impulsionou expulsou o objeto humano rumo aos
frutos.
Contudo
mais uma vez falhando, recebendo de volta não cocos porém fragmentos de ossos
quase podres e dentes cariados, que lhe saraivaram o ser lá embaixo na areia
quente... Chorou o desastre e o fracasso, lanceou olhares no perto e no
distante e nada mais havendo. Cedeu.
Caiu
fraco inerte morto.
Sequer
esperou que ondas gigantescas fizessem o serviço de graça e sem dispêndio de
horas cansaços e fraquezas. Então foi envolvido no todo que enterra e ao mesmo
tempo esparge morte e vida a mancheias.
Marília fevereiro 2010
32. Começo: onde se propõe não ser o fim
Gritam pássaros arruaçam os adultos
plenos no discutir mesmo seja apenas a discutir, no mal sentido; ri no riso
gaiato o sol depois gargalha abre a janela do dia, se bem haja um mal que são sombras
nuvens negruras promessas as quais, se cumpridas, molharão o mundo quiçá a
diluviar o universo, ele não sabe disso e pensa o começo; ele o garoto, menino
pouco mais que já sabendo andar. Se movimenta lerdo nessa manhã ainda a meio
dormir, pulou da cama de gente grande a abrigar gente pequena miúda nova, em
promessa qual a nuvem a chuva o universo e um pouco o dilúvio. É um menininho
que sai para fora de casa, enquanto a mãe dentro rumina e boqueja com os
irmãos, ela aprecia mais puxar orelhas das fêmeas nas responsabilidades que
acha ser delas mas isso não incomoda o menino, a rigor nem ouve o bate-boca já
está fora mesmo no terreiro da casa pobre, descalço, e por isso ouviria mais
tarde mil admoestações e até além da língua a arma eficaz embora muda dos chinelos
maternos; agora não pensa na coisa pensa que é o início e o sol anda meio
intimidado; sem sombra de dúvidas não com a língua ou com o chinelo armas
terríveis num lar pobre. É que a teimosa nuvem cega-lhe aqueles olhões gigantescos
que faz com que as crianças virem-se para o alto a constatar o brilho, imediato
precisam fechar os seus olhinhos apertando assim ó; enfim se liberta da obstrução
e ilumina pujantemente o mundo o pedaço e imediato o menino num clarão que dá
gosto ver. Então acorda de vez pois ainda anda a esfregar as pálpebras para
remover o orvalho secado nos cantos como remela e daí vê bem o ambiente. Nisso
se alembra haver esquecido de urinar e a coisa estava incomodando sem que
conscientizasse a necessidade, corre ali perto na parede próxima à cozinha e
desaperta; antes tem um pequeno drama que é pôr pra fora a torneirinha a fim de
que ela ponha pra fora o líquido amarelado que deveria anteriormente ter umidecido
e cheirado o lençol o colchão a cama entretanto é um garoto educado não urinou
na roupa (antigamente na contravenção molhada se ameaçava com o crime das palmadas
e até o recurso de cortar, o que ocasionando terror na criança). Tem a saída
legal da torneira que é a frente numa abertura das calças bastando desapertar
os botões, tirá-los das casas onde se enforcavam, o que já de domínio do
projeto de homem macho pra valer; não obstante o costume manda tirá-la,
libertá-la, por baixo que é mais fácil nas pernas curtas da calcinha que cobre
as pernas ou coxas da criatura agora a fazer xixi represado na bexiga
demoradamente. Fá-lo a contento, daí a cascata desce da parede e atinge o solo
arenoso, faz um buraco inicial, umidece a base e então vira lago, o lago se
enche extravasa vaza e escorre em riacho que desenha na terra um caminho nos
meandros e parte como rio abaixo, dele se comunicando com o mar e aí a ligação
do mijo da torneira da bexiga e do menino com o oceano sem fim, é o começo.
Pensa que é o começo, é o início apenas
do dia, o dia cheio pleno de preocupações com um possível brinquedo. Enquanto
isso, e exalando um composto de amônia a perfumar o terreiro quiçá o mundo,
enquanto isso elas se aproximam; elas as galinhas, o gato a se coçar roçando
por ali a pedir carinho, o cachorro sorrindo ao dono, o qual já pode também
sorrir desapertado aliviado ao amigo. Elas chegam, o sultão inclusive deu o
beneplácito e então se aproximam daquele deus mijão e olham à espreita do que
possa sobrar – ontem defecara o menino e enquanto fazia careta e um desenho com
um pauzinho no chão logo elas desandaram ao desmanche do monte quase antes
mesmo do filhote de homem puxar pra cima sem se limpar as calças. Agora
observam curiosas. Ele observa também o ambiente vê sente a claridade solar
após o atrevimento da nuvem e pensa aí residindo o começo de tudo e quem sabe
da própria vida. Não: apenas daquele dia naquela hora daquele instante na eternidade.
Mas como habitualmente ocorrendo, ocorre de uns porcos gritarem – decerto por menos
comida e mais fome – gritam e o menino se esquece, indo vê-los no início, esquece
o fim que pretendia, o de encetar a brincadeira; se esquece inclusive da
refeição matinal que a genitora em debate ferrenho com as manas mais velhas
preparava ao caçula do lar.
Marília fevereiro 2010
33. Eventual Companheira
Passou-me quase como relâmpago, não
como a noite mal dormida que despeja mal-estar ou a tempestade dum pesadelo.
Tomei contato do seu ser ainda no
Terminal do centro urbano, sentei-me a seu lado no lugar vago; antes pedi educadamente
licença à qual respondeu sim sem abrir a boca. Curioso como há gente que fala
muda bastando o semblante, nela o da simpatia quase me sorrindo. No entanto foi
muda todo percurso, ou a temer o motorista apressado lá na frente ou os buracos
aqui embaixo, até descer onde sempre a vejo apear.
Olhei aquele perfil feminino belo
jovem, calculando uns vinte anos, a meu lado no balanço do circular. Exalava um
perfume discreto e trajava simples – mesmo assim não saberia descrever a roupa
dela porém simples com as calças a blusa e que mais! não sei, sei que era
simples no conjunto. Mulher esguia a usar o de costume em nossa sociedade. Fiz
uma comparação e notei ser um pouco mais alta que este seu companheiro de viagem
curta. Carregava a indefectível bolsa feminina, me parecendo se não rica luxuosa
com uns dísticos de marca e tendo uns dizeres em inglês; ainda nesse recipiente
uns penduricalhos de enfeite a refletir a luz, tudo no colo... no colo não, mas
ajeitado nas coxas com as tiras soltas por sentado o belo espécime da espécie.
Entretanto o que notável pra mim o semblante. Via aquele rosto angélico sem
quaisquer rugas ou excesso de pintura na maquigem costumeira a enfear,
semelhante nos anjos; os olhos castanhos vivos, as sobrancelhas aparadas
vaidosamente talvez, a ressaltar pele clara um pouco pálida; uma expressão sem
mostrar as maldades os dramas os problemas contidos do homem comum, no entanto
num homem comum na forma feminina, repito bela.
Vezes muitas olhando pela janela,
outras voltadas para meu lado a seu lado.
Num momento ia a meu ver falar, quase
se dirigindo aqui ao passageiro no banco contíguo; cheguei perceber os lábios
pintados levemente de batom se moverem, não ouvi sua voz entretanto; já me
supondo surdo, surdo ou só um pouco pela mudança do tempo, por meus resfriados
essas coisas e portanto escutando eu nada além do ronco de nosso veículo e o
barulho da rua. Ela sorriu. Outra vez sem abrir os lábios... Cheguei nesse
ponto a me preparar ao que diz o comum do homem comum: está calor vai chover
enfim coisas para início dum diálogo no qual um só fala impera impõe e o outro
(eu por azar) de orelhas passivas abertas. Não, sim falou que a vi na
expressão, não escutei nada.
Como por inúmeras viagens a havia
visto descer, ao nos aproximar do seu destino já me preparei, até levantei-me à
sua passagem enquanto a formosa estudante (dedução ao notar livros e cadernos
consigo) ela correspondeu me agradecendo; como ao me acomodar no ponto inicial,
nessa descida não consegui saber ainda sua voz; e deveria ser mansa educada
agradável ao coração. Enfim estando aí perto de mim a moça, de pé no aguardo da
condução parar abrir a porta do meio onde se posta e lógico sair; vejo sempre
essa menina já fora do ônibus andando em direção da esquina, um dia acompanhei
aquele notável ser e percebi virar sumir à direita decerto sua casa.
Agora segura com a mãozinha destra, a
esquerda ocupada com seus pertences, a direita agarra o cano de proteção ao
passageiro. O veículo para. A porta traseira se abre, descem várias pessoas; a
porta do meio não é acionada – decerto por desatenção do chofer – vou inclusive
me meter gritar talvez ao profissional abri-la à moça... mas a jovem desce
assim mesmo, como fossem os ferros transparentes... arregalo bem minhas vistas
e já flagro a mulher a andar normalmente no passeio público! Quase comentei com
o banco de trás aquele inusitado, quando percebo que ela, não sei se
interessada na gente que também descera ou no nosso veículo ou... e por que
não? ou a me ver quem sabe a dar com a mão numa despedida simpática – daí não
vê o poste de luz ali plantado e iria chocar-se, eu já disposto alertá-la do
perigo sei lá, e eis novo imprevisto: a bela ultrapassa igualmente a torre de
concreto, já estando além e andando, parecendo-me nos passos sequer a tocar o
chão, a se movimentar sumindo na esquina.
Marília abril 2015
34 - O Menino e o Elefante
Tenho cá uma estória pra contar, se
encontro ouvidos de boa vontade. De um menino. Do elefante não, que ele en-trou
na estória por acaso, sem ser chamado.
E acontece que o garoto andava olhando
tevê; não há mal algum ver televisão; todos veem. Ele se achava acompa-nhado.
Era um documentário, nada de crimes e violências; e o menino já atrapalhara
demais o tio o pai e a mãe, fazendo per-guntas nas horas inadequadas. Tratava-se
da embaraçosa situação referente ao nascimento dos animais. Ele se interessou
mesmo foi pelo elefantinho. Até certo ponto nada reprovável; mas agora tem uma
agravante: o elefantinho ficou órfão, ma-mãe elefanta morreu e os técnicos
passaram a criar o animali-nho com todos os cuidados (ninguém esperava
papai-elefante tratasse do bichinho, esperava?) O filme mostrou isso. O me-nino
viu isso. Perguntou muito sobre isso.
E não mais tirou o elefante da cabeça.
Grande? absurdo, nunca; ele viu o pequenino assim. Resolveu querer um. O de
barro que papai trouxe, ele espatifou; o de plástico que a madrinha ofertou,
agora imprestável no lixo. Bom, restava à família levá-lo ao zoológico,
provar-lhe a impossibilidade daquele pedido, com o tamanhão do bicho. Também
não adiantou muito, porque existiam elefantes petitinhos, a tevê mostrara,
todos haviam visto.
E os familiares é que não tinham
encontrado moleque tão teimoso, embirrado, sarnento. Como a psicologia
moder-ninha ensina o não contrariar as crianças para não haver com-plexos...
cederam.
E é aqui onde começa o drama.
Cotizou-se a família in-teira, dinheiro de vovó ao neto único, dinheiro de
titia, de titio, ao único sobrinho; dos amigos lá da firma; todo o saldo de papai
e ainda um pouco no cheque especial. Gracinha! o menino colaborou quebrando o
cofre de barro, por sinal não porco e sim um elefante, tirando de lá suas
economias, moedas guardadas fazendo tempo. A mamãe achou uma nota de quinhentos
perdida em papéis velhos nem ela sabia mais da existência. Apurado o capital, o
elefantinho chegou de navio africano com todos os cuidados possíveis; e tudo
bem; um animal lindo lindo. Não era branco não, preto-cinza, engraçadinho.
E meio na calada da noite – não podia
mesmo ser dife-rente – entraram no apartamento, muitos psius, carregando o
caixote, suor de papai mamãe titios amigos vovó dando palpi-tes. Mais para cima
virem à esquerda pra lá pra cá olhe o dedo, entremeado de psius, toneladas de
psius; o caixote pesava muito menos de tonelada. Gorjeta ao porteiro para que
este batesse um papo conivente demorado com a Maria na garagem. Entrou o
elefante.
E todos dormiram no apartamento do
menino irriquie-to, no 11° andar, cansados cansados; mas parentes e amigos a
gente ajeita no chão e no sofá. Vovó ficou fazendo café e li-monada aos
trabalhadores, não precisou de cama.
E o sol nasceu.
E o sol morreu.
E renasceu.
E descobriram que elefante dá
trabalho. O Guga. Os nomes escondem os crimes. Melhor falar Guga a ficar
lem-brando um elefante provisório num apartamento. Quer dizer, deveria ser
provisório, entretanto a família não demoveu o moleque teimoso, embirrado,
sarnento!
E o Guga foi ficando, ficando...
E o sol morreu.
E renasceu.
E descobriram que o malandrinho mamava
todo o leite da casa e depois comia toneladas do que comem elefantes, não sei o
que seja. Sabe?
E por isso entravam coisas estranhas
no elevador do prédio; o novo porteiro e os outros porteiros que se sucederam
olhavam meio torto para aqueles pacotes subindo; tinha gente de outros apartamentos
perguntando ao homem o que era aquilo tudo; porque gente é mesmo um bicho curioso.
Ninguém pensava em animalzinho no 11° andar, apartamento 1113; ou pensava? não
dizia nem confirmava nada.
E renasceu o sol na terça-feira.
E muitos cuidados como vacinação remédios
vitaminas alimentos, toneladas de alimentos; desinfetantes, toneladas das
grandalhonas de desinfetantes e papel higiênico. Tranquilizantes, cada vez mais
quantidades de tranquilizantes.
E mesmo o garoto rabugento – tadinho
inocente! – moleque teimoso embirrado sarnento, ele melhorara o comportamento,
satisfeitas suas necessidades, tomadas todas as doses de psicologia moderna. A
família é que se desgastava um tanto. Digamos, o desejo do garoto era
satisfeito em razão inversa à necessidade familial.
E o bicho crescia, parecendo ter
comido fermento. Crescendo também os problemas de papai mamãe titio, titia
fugira com persona non grata, os
amigos fugiram no segredo; vovó estava esclerosada, só falando em elefante, ninguém
acreditando no jardim na pracinha na padaria do Maneco.
E os vizinhos não costumam mesmo crer
em velhotas. Havia um porém: elefante é coisa muito grande, mesmo sendo um
cachorrinho seria proibido tê-lo no prédio, onde é expressamente impedido
animais, todos sabem! nem todos.
E o bicho crescia.
E o sol nasceu, renasceu.
E nada a vizinhança tirava do garoto
jogando verde pra colher maduro; mesmo a professora Tia Florinda, apesar da
mania do aluno em só entitular suas composições por “Elefantinho” “o Elefante
bonito” “Guga, um amor de Elefante”. Pensou fosse mania dele; afinal o menino
andava treinando para ser gente grande.
E por essas e mais aquelas, o sol não
se cansando de nascer morrer renascer, aconteceu o acontecido: o bairro
todi-nho tomou conhecimento de um elefante daqueles enormes, com tromba e tudo,
de chupar água na banheira e esguichá-la no vitrô – um desses inteirinho no
apartamento 1113!
E ninguém ouvira seus zurros! será que
elefante zurra? ninguém percebeu o bichão assoprando sujeira no vitrô da área
de serviço? não? impossível. O impossível constatado. Ninguém percebeu as
toneladas de alimentos que subiram no elevador mais de ano! não? puxa, que
gente! não observou quantas toneladas desceram pela lixeira, já devidamente
transformada e catingando! Porque mesmo banhado diariamente com a ajuda de
vovó, mesmo assim, com perfuminho e tudo, mesmo assim, tolerou-se a fedentina?
puxa que gente ingênua, e forte! Bem, agora só faltava a imprensa para
verificar, a tevê a registrar.
E não dava para esconder mais. O sol
se escondeu por vergonha, teve preguiça de renascer, coçou umas nuvens aí pelas
nove horas, se espreguiçando para não parecer conhecer o elefante e seu dono...
Nesse ponto não era mais o elefanti-nho que era do menino teimoso embirrado
sarnento: era o ga-roto que pertencia ao elefantão, aquela trombona ploft-ploft
pra cá pra lá.
E agora? a vovó não sabia responder, o
papai não podia responder, a mamãe chorava e não se punha a responder, titio se
fora para não responder.
E não era possível desmontar o
elefante. Era? não era. O garoto não deixaria desmontar, se fosse possível.
E assim mesmo começaram a quebrar as
paredes lá do 11° andar, os bombeiros fizeram umas adaptações aos seus
guindastes, o povo olhando curioso lá embaixo, porque gente é mesmo bicho curioso.
E o menino, já na terceira série da
escola, fez uma com-posição diferente, com título diferente; a qual iniciava
assim: “Para que servem os bombeiros?” Como as crianças distorcem as coisas!
Ribeirão Preto março
1980
35. Limiar do Fim
Antigamente... mas que expressão mais
horrorosa e vazia, na boca fácil do povo – que seria antigamente a um menino de
uns dez anos ou a um velho de cem! tudo pode ser nada. Em todo caso época
antiga e dos tempos antigos, os gozadores a se lembrarem de quando se amarrava
cachorro com linguiça, todos já ouviram semelhante; o caso é que nesses anos
longínquos tinha medo. Medo? não temor: pavor terror horror em vista ser um
garoto tímido. Tão tímido quanto ignorante, claro quem sábio aos dez janeiros.
Bem, o fato é que não apreciava nada nada ir visitar tia Teresa, mamãe achava a
mana um imenso coração, uma sofredora a esgotar todas gotas possíveis do tonel
das dores e além disso com força moral por mais velha, velha enrugada essa tia,
tia dele. Além de tudo o mais ela meio cega e totalmente surda, dessas pessoas
de se indagar farinha ouvir madrinha e não entender patavina. Outra situação
que o apavorava igualmente era a visita à igreja, forçada por sinal, não queria
missa preferindo a brincadeira com os moleques. Pois aí um grande drama seu, não
pela religiosidade forçada e sim pelo medo, novamente medo pavor terror horror:
mostravam aquele santo na cruz sangrando e de olhos abertos a clamar
sofrimentos ou representado morto deitado numa agonia. Não desejava chegar próximo
da estátua porém as mãos maternas o seguravam diante daquele crime, a si algo
criminoso. Na casa da tia, não obstante os gritos dos primos e outros
chamariscos caros à infância, havendo semelhante um crime exposto a ele como
testemunha forçada; e pior nisso: a velha parenta viva forte impetuosa! agarrava
(com amor! veja-se bem, com extremo amor por sua carência concreta:) juntava
com suas secas garras de dedos finos unhas finas intermediado por voz fina,
agudíssima; ele sem forças escapar dela, ela juntando amorosa mas
grosseiramente o sobrinho nos seus braços para apertá-lo sufocá-lo na desmedida
da chegada e da despedida, assim como a senhora não podendo medir harmonizar
equilibrar a voz gutural num ferir nos decibéis – o que comportamento não só
dela, por sinal dos outros familiares também. A custo, a muito se esforçar,
escapulia. Aí sim, correndo no prazer da liberdade manchada embora por essa retaguarda
doentia, aí se atirar aos meninos; correr gritar contar e quase não ouvir,
porque desde pequenos já somos egocêntricos e assim ocorre o pouco ouvir e o
muito falar. Ah depois havia a tal despedida, e como despedida novo sofrimento
do pequeno preso por aquelas mãos rijas e frias. Uma vez fora pra casa com
marcas quase a sangrar no braço direito, onde as unhas da tia surda ficaram
dias a falar o doer.
Porém no muito sofrer realmente os
anos porvindouros provariam não haver ultrapassado o limiar, ainda...
¿Após
viver o sofrer das 34 estórias anteriores não poderia, agora maduro formado na
universidade da vida, vir a experimentar outras perdas mais convincentes ou
concretas? e se chegasse ao ápice,
ao clímax na dor!
Agora encontra-se na situação de novo
– há uma tese segundo a qual tudo que existe na face do planeta é novo; não é
assim o novo proposto aqui – enfim está diante do irremediável que é o final.
Um senhor passado exposto composto
completo? maduro, não se pretende discutir aqui sexo dos anjos ou a bondade
humana nem a dele: ele pelo menos maduro agora, agora olha examina toda vista
que se lhe abre na imensidão e teme. Teme sobretudo o abismo à sua frente, está
num penhasco onde os pés tremem inseguros, o corpo bombardeado pelo vento
bravio, que ele toma por um tufão ou coisa desse jaez, a ventania o fere e
atrai chupa-o na gritaria a ecoar em todo esse fim de mundo. Lá embaixo bem lá
embaixo as águas espumam ao bater nervosas num cavar a rocha negra e brilhante
ao sol, o sol entretanto desconhece tanta maldade e prossegue no seu lume
incidente. Elas, as águas nervosas, investem batem lavam tentam, sem imediato
conseguir, tentam o sucesso embora conscientes decerto na persistência e
persistentes para atingir os objetivos. Elas gritam roncam semelhante canhão na
guerra e se atiram de novo e outra vez nas pedras calmas. Ele vê aquilo se
pensa se deseja uma rocha forte mas fraco, seus ouvidos ouvem ainda a tia... a
tia o atrai puxa a grudá-lo manchá-lo sangrá-lo com suas unhas nada aparadas e
a marcar doer sangrar; a tanto essa impressão que se olha no antebraço direito
a dor o sinal e assim perde o equilíbrio... À frente também o limiar duma desconhecida
atração que recebe com volúpia e assim desaparece sem que houvesse se despedido
de alguém. Não havendo ninguém, só o barulho da natureza, a qual tolera os
mansos contudo deplora elimina acaba com os que se supõem bravos.
Marília outubro
2012
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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