051(postagem
no Blog Livros Inéditos)
G U
E R R A em P
A Z
romance
Moacir
Capelini
moacircapelini@gmail.com
capa:
tiragem:
gráfica:
O todo não é o todo
é o
‘muito’ na Guerra do todo.
Escriba
Quá quá
quá.
Fariseu
Plano Geral da
OBRA
I – Parte do PARTO
Introdução e Explicação
Desnecessária
II – Partinha do PARTO
Guerra na Juventude
III – Partinha do PARTO
Guerra na Velhice
IV – Partinha do PARTO
Guerra na Roça
V – Partinha do PARTO
Guerra no Circular
VI – Partinha do PARTO
Guerra na Sabedoria Popular
VII – Parte Média do PARTO
Evolução dos Atritos na Guerra
VIII – Partezinha do PARTO
Eterna Guerra Santa
IX – Partona do PARTO
Algumas Recordações das
Lembranças em Plena Guerra,
por amostragem
X – Parte à Parte no Final do
PARTO para OBRA
Conclusão – Descarga Regulamentar - Enfim a PAZ!
A Guerra é um
triste exemplo
da
prática do humor negro
I - Parte do
PARTO
Introdução e Explicação Desnecessária
Olhou o homem e o homem era um mundo
cabendo o tudo
o nada o impossível, todo
um possível
O desentendimento, não a Paz, seria a da
Guerra? o desentendimento terá começado no início; início dos tempos. O homem
não sabia ser homem nem se importando que não fosse homem; a sua fêmea, talvez
não tivesse igualmente pretensão em ser fêmea daquele macho peludo; ambos mais
preocupados com a premência no se livrar de piolhos entre os insignificantes,
não podendo preocupar-se com bactérias e mais com o menos da existência dos
vírus por filtráveis, pois desconheciam tais pequenuras somente vendo as
tantadinhas visíveis e aí, ah pobres! como coçava e os coçadores vez por outra
virando comida igual ocorre entre nossos primitivos galãs de televisão nos
atuais documentários, numa coceira sem tamanho. Doutro lado, o lado mais forte:
preocupando-se dia e noite com possível vigilância de um clã nascente a olhar
(não a defender o clã – avisá-lo bugiando gritarias) preocupação essa constante
persistente envolvente numa espécie à espécie de espécie sine qua non: o
animal feroz. Naturalmente machos e fêmeas adultos e crianças naquela
choradeira querendo mamar – todos hominídeos de um modo geral temendo o animal
feroz por não saber-se mais feroz ao restante mundo animal vegetal mineral e
posteriormente sideral: o próprio ser humano! Então aflitando-se com os ferozes
quatropés com muita fome! Leões onças tigres mamutes enraivecidos, tais mamutes
pondo minhoca na cabeça dos elefantes tão pacíficos. E havia macacos pra todo
lado ajudando os irmãos macacos-humanos não propriamente a se defender: a
gritar e correr em exemplo ao estilo. Havendo mileuma especiezinhas quase todas
a parecer ferozes também ao humanoide, elinhas fugindo dele, no princípio:
primeiro se foge depois se indaga se é amigo; aliás o nativo humano não devia
ser mesmo de sorrir pois assava no espeto os miúdos flechados.
Bem. Era o início no começo anuvioso
brumoso rico em ignorâncias e demais fraquezitudes.
Era o primevo dos tempos.
Tempos viriam em que o macho da espécie Homo
sapiens, livrado já, já depurado da monice mas até hoje em momice e esgares
de dor por suas dores – esse macho iniciava aquilo que em série seria série do
desentender-se com sua fêmea.
Começa o começo desse princípio do
primevo dos tempos primeiros com o fato banal do homem desejar, através dumas
coisinhas lá dentrão dele que até hoje não se pode explicar, pelo simplesmente
desejar sua fêmea que não sabe ser sua, muito menos que fora sua costela. Não
apresenta flores, não lê sua última poesia, isto um encanto à Academia com
direito à imortalização canonização desconhecimentação essas coisas. Nem fala
palavras bonitas, falaria feias chãs pobres rasantes. Não. Conquista na marra,
pronto. Ponto final. Gruda puxa arrasta possui.
Ela não reage. Reage: grita. Esperneia.
Não xinga, nem sabe falar. Esperneia. Grita outra vez. Depois aguarda. Observa,
vê, constata o ventre inchando (pensará: que diabo de mato comi que me fez
tanto mal!) Quando vê, vê um barrigão imenso.
Grita geme pare, para cansada para
desfalecer quem sabe; sabe o macho olhando nada saber. Não sabe ajudar no parto
mas descobre a cria bem gritona qual mamãe – barbaridade!
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- - - -
O problema masculino é como possuir
mais e mais mulheres; mais que os outros homens, porém os outros homens não
querem pacificamente deixar.
O problema feminino é como fugir,
correr daquela besta peluda, apenas não sendo pior o bípede que o leão o tigre
a onça etc. e tal, estes comem mesmo e mastigam satisfeitos. Já o homem,
sempre insatisfeito, é um animal feroz
que não mastiga, mastigando vez por outra, de boca aberta, feito porco o porco.
Ele é o inimigo que pretende sua fêmea, ela olhando temerosa aquelas
musculaturas macacas comendo outro homem mais fraco na paulada. Nessa altura já
antevê a mulher seu inimigo de estimação.
-
- - - -
Assim teve início a série que se
intitula A Guerra do Sexo; e se propõe o como foi travada a feia Guerra, em
Paz, o quanto possível, que sabemos milênios depois impossível.
Explicação Desnecessária
Ponhemos (é claro que está errado este
certo, o matuto fala assim acha certinho, estou Escriba errado com ele; fala a
falar gostoso) ponhemos portanto os pingos dos ii em nossa ‘Guerra em Paz’, que
por sinal não tem letra ‘i’. Os pingos tentando conversarmos, eu Escriba e
Você; como qualquer escriba decente exige o fariseu, achei por bem farisar o
leitor. A conversa tratará desse tema em partes, as pequenas chamar-se-ão
‘partinhas’ as grandes ‘partonas’, as do meio apenas ‘partes’; pondo-se os
capítulos seguintes para análise de exemplos encontrados pela vida em fora, no
provar a tese do óbvio: o homem briga com a mulher. A oposição formulando a
coisa nestes termos – a mulher briga com o homem. O Escriba, a fim de evitar
pichações indesejáveis (vai que se candidate a qualquer cargo público...) para
tanto equacionou o problema assim: um briga com outro, outro briga com um, naturalmente
este ‘um’ bem como o ‘outro’ nenhum deles é o Escriba nem o Fariseu. Caminemos.
Ah, antes de ‘caminarmos’, mas chega de portuñol; antes faço um reparinho. Seguinte.
Bata-me depois, depois que me for; saiba-se tomei, eu Escriba, tomei os
exemplos, os ‘casos’ aqui tratados, do que vi senti ou me contaram. Já fui
acusado memorialista por essa razão. Apenas dei minha roupagem, a língua
(“língua afiada” diriam Fariseus desocupados). Note o fariseu leitor que o escriba
escrevinhador não obedece os cânones acadêmicos e põe tudo na linguagem
coloquial; até criando vocábulos segundo o som da rua. Mea culpa. Caminemos?
II
– Partinha
do PARTO
Guerra na Juventude
A juventude é
um acordo
necessário
ao desacordo
A Mariana, sua classe na escola ela
dizendo “minha sala”, estará nestes dias homenageando uma professora de quem
gostam muito, a qual desfalcará o estabelecimento com aposentadoria ano que
vem. Reúnem-se discutem cotizam-se decidem, tem os senõezinhos na rivalidade
com outras classes; muitos. Enfim decidiram falaram e conseguiram consentimento
da diretora. Tem? tem agora o costume do ‘café da manhã’, ofertaram uma cesta
matinal à mestra, antes brigaram; uns falam mais alto sempre é assim e assim é
que aparecem mais as meninas, os garotões, desajeitados, são eleitos representantes
de suas salas e se intimidam se desencontram se desentendem os líderes machos
da série e toca às meninas tomar peito. Dito e feito na cesta à professora.
Agora é a festa. E discutem acaloradamente, os meninos dão lá sua bicadinha mas
permanecem senão alheios longe ao menos. E está decidido por maioria absoluta e
democrática no grito. Façamos uma festa em regra. Não se trata de adulação,
gente – a mulher é nossa professora ‘legal’ desde o ano passado. Pronto.
Na hora do boi beber água... (quer dizer,
o dizer é a onça matar a sede).
Entram as despesas. Faz décadas e
décadas, antes delinhas serem gente e virar estudantes para festejar certa
mestra, já havia sintomaticamente a diferença entre mulheres e homens. Sempre
se decide assim: eles trazem refrigerantes – em festa estudantil se empanturram
de líquidos; elas os pratinhos. Aí se desentendem para entender-se entre fêmeas
o que fazer (geralmente a mãe-via-filha). Enfim se acertam. Acertando desacertam.
Os meninos – diz uma soldada do
exército feminil, uma gracinha em tranças e sardas – eles estão reclamando o
refrigerante ser muito caro! que droga: façam as contas um prato de qualquer é
qualquer absurdo, o dobro o triplo do preço do refrigerante deles.
Falta palavrão calão nomão deste tamanhão?
não deve faltar, o decoro feminino já superado por anos e anos feministas,
todas elas querem ter o mesmo direito e já admitem não serem iguais, viva a
diferença! É por aí. Contudo brigam sim. Uma berra, por mais exaltada: quem não
trouxer bebida, fora! rua! Porque na hora da festa os que não contribuíram
querem comer, não querem?
Uns que sim outros que não.
Olha aqui, moleque (aí ele não aprecia
e terá respondido em xingamento, a língua macha sempre foi solta não é por
culpa do feminismo; não apreciando por se pensar um Hércules e sobretudo homem,
moleque é a vovó-zinha, que é um impropério descabido de concordância para
discordar) falando já às costas dele: no seu aniversário darei a você um cinto
(aí se interessa, olha para ela) um “sinto muito”. Comer em nossa festa...
Nessa idade homem e mulher não se
entendem. Se guerreiam.
III – Partinha
do PARTO
Guerra na Velhice
Na chamada
Terceira Idade o homem é
uma mulher mais dependente; a mulher
um homem mais exigente
Velho é um modo de falar, falar idoso,
idoso na fala, fala ai-ui. Num asilo é comum estarem curtindo a sua ociosidade,
fruto do sacrifício nos anos incontáveis: a família os negócios amigos colegas
os falecidos sobretudo os falecidos, são lembrados. Já não se lamenta mais nem
os falecidos. Um cansaço sem tamanho pesando sobre a boca, boca fechada entre
mulheres, ou que estejam deixando sê-lo, elas que sempre foram tagarelas cuja
língua só descansando em fevereiro por menos dias no ano, segundo intriga da
oposição; a oposição de boca cerrada vendo o não visto ou, se conversando,
conversando com o lá dentrão, remoendo suas coisas. Ambos grupos calados.
Neste ponto penso: concordará o
Fariseu não concordando decerto já na ‘Partinha’ anterior. Bem, vai assuntando.
Calados. É o que se vê se se fizer uma
visita a uma casa de descanso.
Verdade que uns não têm de que
descansar, descansaram a vida inteira; porque convenhamos, os canalhas e preguiçosos
também envelhecem. Mas isso sendo válido mais para o lado masculino e não
adianta gritar: “está do lado delas?” Porque, convenhamos outra vez:
dificilmente se encontra mulher que não trabalhe, que não haja trabalhado
muito, demais até, e um pouco entre elas, pouco. É da condição humana? é do
estado biológico? Algumas respondendo certamente: mulher tem mais vergonha na
cara. Aí não se sabendo. Aliás que se pode saber nessa questão!
Saber apenas, por constatar, que nos
parece que a Guerra anda em trégua nessa altura do campeonato, pois não falam
os idosos, apenas olham tristes, por isso não se falam, não se falando perdem a
grande oportunidade na vida em se desfeitear! Interrompem o Escriba neste estudo:
já vi muita briga em asilo. (É só dar oportunidade ao Fariseu, joga areia nos
olhos dos outros.) Sim, não.
Sim, é humano. Dentadas não são
exclusividade dos animais selvagens ou gatinhos brincalhões roendo o sofá na
sala. Não. Não porque o privilégio de se morder figura quase sempre entre as
próprias mulheres; e dentro do grupo masculino. Se sobra debate e ofensa ao
lado de lá!?
Aí não é sim, não é não. Dá empate, às
vezes com direito à prorrogação até que a Diretoria venha pôr cobro ao embate.
Contudo sobra um senãozinho
interessante – os idosos brigam sim com suas dores. E o ‘ai’ nem o ‘ui’ têm
sexo.
A rigor o velho não tem sexo.
Tem sim, afinal dando acordo. Urina
realmente; às vezes acontecendo fora do vaso, que é mesmo difícil acertar.
Agora uma notinha sobre o assunto. O
episódio ‘macho’ ou ‘fêmea’ da Guerra nessa altura a se descer para a segunda
divisão no campeonato, me parece um pouco desfigurado ou – aí concordo,
escriba, com os fariseus por aí quantos houverem – daria sim para ver mais
exemplos. Então vamos concluir mais acertadamente no desacerto. Veja bem vejam
se muitos houverem, se se não conversam: como saber os lances das batalhas! Uma
respeitável de cabelos brancos tingidos de roxo ou violeta terá dito “esse véio
sem vergonha!” um da oposição não pintando os seus só por não ter fios mas a
apresentar linda careca, ele também dizendo: “um canhão vaidoso essa véia!”
Como vamos saber, se não dizem ou se dizem e o Escriba parece anda surdo.
Difícil acertar, caro Fariseu.
IV – Partinha do PARTO
Guerra na Roça
Errô o arvo
armô
aquele banzé
Iscurraçô
u bandido
crendo
virá fuá
errô
no credo
errô
no cravo
Ficô
de neto
pra
criá
Juvêncio. A muié me pega no pé; me
pegô no pé a vida inteira; envelheço, me cobre o pé, antes eu esquentava o pé
frio dela moça; quando fô aos pé-junto junta a mão, cruza no meu peito, se
preocupa com os pé no lado do pé do caixão; dô no pé deste mundo. Aí eu viro santo.
Dá para rir? mas da verdade não se ri,
vira mentira.
Comadre Maria. O Tonho foi o capeta.
Trabalhador (falava “trabaiadô”) bom pai, puxava orelha dava de cinta corrigia
os pequenos; plantava como ninguém, não enricou, quem trabalha não tem tempo a
ganhar dinheiro, o pai que falava assim. Ele em moço, Deus me livre credo em
cruz! entrava a cavalo na cozinha, bebinho bebinho. Arruaceiro. E batia na
gente, a gente corria e os meninos pro mato, uma choradeira. Ele era o primeiro
eu a última a falar. Aí amansou e morreu. Uma penca de filhos (falando “fíos”)
só sabia mesmo fazer filhos, uma dúzia não contando os que saíram anjinhos nos
caixões brancos; e deixou herança: dívida e pobreza. Porém me deixava ir na
missa e nas rezas, em terço também ia com a gente, o Tonho era animado na
festa. Ele na frente em cima da mula, eu na garupa ou a pé (“di-a-pé” falava) indo atrás com os
meninos.
A prosa. Maria da Glória Maria
Aparecida Maria do Rosário Maria da Conceição tem Maria no mato a dar com pau,
Maria para quantos Zés houverem Zé da Conceição Zé Bigode Zé Carneiro Zé de
Maria, até existe José.
Cada qual reúne os seus, mandam obedecem
contam intrigam se desentendem. Se entendem quando em grupo.
O grupo macho, e são machos pra danar,
o grupo conta piada causos e mentiras, sempre verdadeiras no ponto em que são
os heróis.
O fêmeo tagarela suas coisas, riem uma
das outras e de preferência das ausentes e contam suas intimidades, sempre que
a saia esteja livre de mãos crianças. Falam delas e falam deles, os quais dão
sempre motivo e oportunidade, pois fornecem ótimas matérias-primas pelo
machismo. Mas igualzinho às pobres da cidade as roceiras adoram falar em doença
e panaceias. Além de serem mais afeitas à religião, aqui se comparando oposta
aos homens.
Tem um senão em que não cabe a oposição:
ambos sexos, ao contar o seu causo ou a dar seu testemunho, aprecia garantir,
fugindo da possibilidade quanto possível... – o haver visto com os olhos (grafam
‘zóios’) que a terra há de comer!
Os dois agrupamentos gostam das diversões,
e isto é humano. Na roça estão sempre de olho nos bailes por exemplo. Nele ficando
claro os motivos bélicos. Os machos se engalfinham pelas mulheres, ou por
desejá-las ou porque os outros desejam as suas; elas se deixam a esperar
tagarelando baixo nos bancos e cadeiras. Algumas, menos belas, tomam o famoso
chá-de-cadeira e se candidatam ao posto de solteironas ou titias. A maior parte
aproveita a oportunidade para namoro. Entretanto nesse meio alegre os grupos
estão separados nitidamente no final das contas ou da festa. Se olham às vezes
à distância, se atraem – porém não se confiam...
Contudo assim nascem casamentos
ajuntamentos filhos, a geração se solidifica.
Não se diga a exagerar que Guerra não
seja coisa útil.
V – Partinha do PARTO
Guerra no Circular
Vencer gente é
relativamente fácil; mas
vencer a gente, difícil quase impossível
Gente de fora. A mulherona o
homenzinho a filha bonita; desnecessário dizer ‘bonita’, pois em mulher só
existe beleza; a feiura é a beleza zangada; ela não se encontrava zangada
apenas bela e carregava certa sacola a tiracolo. Entram no ônibus, ele se
informa antes com um passageiro subindo “entra pela frente?” o aposentado
perambulando por aí em cada cidade se depara com modo diverso nos circulares. Sobem,
sentam-se, desembocam a falar e se desentendem. Não diz nada, o Escriba não
diz, percebe a coisa desandando. Ele fala baixo ela fala alto, elinha olha vez
que outra e dá bicadas frágeis na discussão genitora. De repente o negócio
esquenta, o macho da espécie em função de casado e exercendo cargo de chefe da
família levanta-se paga ao cobrador indica os seus a posteriormente passar na
catraca, recebe o troco e se senta. Ela, a rainha do lar em viagem, avoluma
acusações – dessas que a gente procura não saber e faz de conta não ter ouvido
só ter ouvidos armados de orelhas. Ouve: “Você quer que eu não veja, não sou
cega; quer dar escândalo!” Matracam mais viajam mais, agora a menina sorri, e é
um sorriso também bonito, sorri talvez das coisas que intrigam para alimentar a
luta na guerrinha familiar. Contudo não se entendem, não têm um sorrir para
desmanchar uma briga bem fundamentada. Continuam a se desentender só mais um
pouco, pouco põem pra fora: se o carro é aquele mesmo, para o local possível a
descer e outros menores desentenderes. Ele se envergonha, vermelho ficou
vermelhão, ela olha pra lá pra cá como vendo e não vê; ele resolve resolver o
problema de vez perguntando ao funcionário da Circular no Circular presente. O
hospital é longe. Esperam chegar, aproveitam a discutir mais um pouquinho, pra
não perder tempo, tempo é dinheiro; a garota ou por ter aprendido a lição ou
por rotina na lição, sorri. Levantaram-se enfim, a gorda senhora sofrendo a
roleta, o macho idoso descendo pela frente. A Guerra não, a batalha se encerrou.
VI - Partinha do PARTO
Guerra na Sabedoria Popular
O homem vê o mundo pelo seu limitado
mundo e se pensa sábio no mundo
Para início de abordagem vejamos algumas
ideias colhidas no correr do tempo desprezando o tempo e o contar do tempo pelo
calendário que o povão apelidou ‘folhinha’, ela teimando em mostrar neves
europeias a agradar no sol tropical; tudo dentro do estilo e da proposta
proposta pelo Escriba, seu criado, importunado vez que outra (sempre) pelo Fariseu,
naqueles olhões tamanhos.
Poeta popular filosofando a mulher: fica
doido e varrido quem quer se meter a entender a mulher.
Outro – o homem e a mulher, cada um é
respectivamente a vítima incompreendida no casamento.
Mais outrinho: a mulher precisa muito do
homem: para de vez em quando ter um filho, sem exagerar aqui; para carregar
piano e guarda-roupa na mudança; e para se sentir primeiro uma vítima do machismo;
e em segundo lugar sentir-se perfeita criticando a imperfeição dele.
Ah quanta acidez no dizer! Baixemos um
pouco o volume da linguagem e da língua sábia, apelemos à pessoa da rua. O Vô
Pereira por exemplo olha a velhinha dele: “ela? fica chep chep na roupa cheira
a roupa...” Ela retribui a poesia, a lembrar mil e uminhas falhas machas, “ele
fala: laranja pompona; orelha dura”, curiosamente o Vô de orelha mole parecença
sem osso ao menos sem cartilagem. É isso, breves atritos ao longo da vida.
Mas prossigamos nessa apresentação dos
linguarudos supostamente pensadores entre o povo. Vamos em abordagem apressada
registrar alguns resquícios, nesgas tão só, do que se pensa que pensa o povo
pensar em nossa Guerra tão linda de morrer.
Nota de Falecimento
Aqui neste espaço, concordem ou não os
Fariseus, é caso sobre algum Escriba a contar – filigranas surrupiadas em lata
de lixo (e poderia ser diverso!) restos que deveriam em bom comportamento ambiental
com direito a reciclagens e oportunidades a pobres seres (o Clube do Bolinha a
dizer mais nesse menos existir homens machos pra valer; o da Luluzinha, nomes
que os gringos nos emprestaram cobrando royalties, há nesse menos do
mais que mais tem é mulher dessas que são uma gostosura) enfim tais restos por
ser papel irão ao saco de papel e papelão, com certo cuidado para não sobrar na
sobra algum plástico ou alumínio ou vidro ou barata, só depois cheio o saco com
saco cheio então entregar ao catador de restos na rua em dia de lixeiro que se
sabe segundas quartas e sextas-feiras com probabilidade nos dias ímpares das
feiras nos outros bairros, o domingo é domingo, na outra segunda outros restos,
uf! Enfim estes restos extraídos da lata, não tem mais agora agora é saco
plástico – onde os atirou um Sábio, ele atirado após ao Manicômio, sem qualquer
preocupação da parte do interessado, porque agora não tem, dizem, mais choques
elétricos, pois a ser mentira da verdade sendo horroroso segundo o Valter, um
amigo do Escriba que foi um dia depositado também no Manicômio e disse... não
digo ou choro e é feio homem chorar.
Vejamos portanto tais preciosidades,
atidas ao tema que se sabe a Guerra entre
machos, por não sê-lo mais e jamais talvez tenham sido, o Escriba não bota a
mão no fogo pelos outros; e a mulher, linda de morrer e morrer em Guerra é o
que há de mais nobre.
Nota de Rodapé metida no entremeio:
o Fariseu sempre me azucrinando e no desejo de envergonhar-me pinoquiando o
nariz comprido me encosta: “Escribinha do meu coração!” aí eu já ficando
alerta, e o nome!
Por que razão as pessoas têm nomes?
decerto pra não confundir. Imagine-se o Zé da Silva que levou gemendo o saco, o
saco com papel e papelão cheio de besteiras escritas pelo hóspede do Manicômio,
levou a vender baratinho no depósito e a bagunça no depósito é um espetáculo
muito bonito de se ver, o Zé a se confundir com o Bill Gates. Aí puseram
Zé pra diminuir José aí gringaram Bill
para abreviar o Guilherme dele. Tirando tais senões não há senão. O senão
ficando por conta do Sábio o qual em grande sabedoria se esqueceu do próprio
nome e foi atirado no hospício, sem choque mas à força, soube-se. Enquanto um
choquinho em agrado trazendo de volta à memória sábia o nome do Sábio; o que
trar-me-ia (que horror esta construção! aí o Escriba preferindo o caipirês) um
drama imenso em cobrança de direitos autorais, caso algum Fariseu assopre na
cachola desperta do dito Sábio dormindinho havermos roubado sua ‘sabedoria em
gotas’ e (pus ‘havermos’ a comprometer e responsabilizar Fariseuzinhos de meia tigela
na apropriação indébita, paremos com estes parênteses e esta Nota de Rodapé:) e
paremos.
Vejamos estes sábios pensamentos do
Sábio formulados no Século XX:
O homem é a imperfeição perfeita, não
lhe falta qualquer desvio.
O Burro do Sábio não pôs se é homem
macho pra valer, valendo aos dois sexos, me enganando... Passemos a outro. No
fim a gente põe aspas nos pensamentos e soma os a favor macho e os a favor fêmeo,
cuidando em não errar no vai-um, chegando às nossas conclusões. Prossigamos.
O homem não conversa, monologa com um
ouvinte.
(Não estaria no mesmo caso do caso anterior!)
Mãe, um ser imperfeito investido,
temporariamente, em santidade.
(Quando for visitá-lo no Hospício
perguntarei se não é apelação; podendo ser uma artimanha delas contra nós,
incluo Você, Fariseu, também).
As certezas para o homem são sempre
relativas e condicionais. (Será que desejou incluir a mulher nesse ‘homem’?)
O homem, o macho, é um macaco em fase
de despelamento.
O enfeite da Terra fica por conta das
flores dos pássaros e das mulheres, amenizando a aridez da vida.
A mulher é um homem bem acabado; o homem
é uma mulher mal feita.
Será a mulher uma criança responsável?
(Não deu para sentir nessas frases a
acidezinha do Sábio Popular engaiolado para choque! Vejamos outros pensamentos:)
Ideias anotadas por ele no Século XXI:
O homem, o macho tão badalado antanho,
não passa de um farejador e caçador de fêmeas de baixa categoria.
As
mulheres experimentam hoje toda
sorte de maluqueiras, inclusive praticando o
ininteligível na opinião masculina, para noutra encarnação vir como homens e entender
as mulheres.
Olho a rua. Puxa como tem mulher
bonita neste Planeta; deve ser a compensar os Canhões. E é tempo de Guerra.
O macho pode, momentaneamente,
possuir; mas quem de fato ‘come’ é a mulher...
(Está entendido por que foi parar no
Sanatório!? continuemos:)
Mulher é um bicho bonito que vez por
outra brinca de santidade dando cria e cuidando de bichinhos que falam besteirinhas
deliciosas.
Mulher bonitona que passa e nem liga a
um homem é uma boa estupidamente gelada.
O perfume nas mulheres é o cio
artificial para atrair machos.
A mulher é a secretária do homem por
tagarela; o homem é mais ou menos mudo, não pode falar em não ser nas horas de
plantão.
O homem é um bichão por fora cheio de
bichos por dentro e infinidade de bichinhos nos miolos.
Toda mulher é bela, até prova em contrário.
(Tenho eu Escriba dúvida se brotou do
miolo do miolo mole sozinho; suponho haja pedido auxílio doutros loucos em tudo
que vimos até aqui. Vejamos outros pensamentos a poder fazer melhor juízo sobre:)
A complicação feminina. Imagino-me um
objeto dentro duma bolsa de mulher... Seria a primeira vez que um objeto
ficaria louco neste Planeta!
O macho humano fala pouco é muito
‘falista’ e falho.
O ventre feminino vale uma eternidade.
O homem é um macaco com macacoas.
Mulher é um animalzinho gostoso que esconde
as qualidades da gente, ressalta nossos defeitos; e por isso briga com a gente
pra gente se desentender com ela.
Preferível ser um homem a ser um
macho.
Mulher um homem, enfeite para cama
mesa e banho.
Para muitas mulheres o homem é um mal
necessário; para muitos homens a mulher é um mal imprescindível.
O homem depende em tudo da mulher, até
para ser infiel à mulher.
Definição sintética de mulher jovem e
bela: uma provocação.
O homem e a mulher, cada um é
respectivamente a vítima incompreendida no casamento.
Toda mulher descobre em tempo que o
homem é um carregador de piano em potencial.
A mulher, não qualquer mulherzinha
devassa defeituosa delituosa cheia dos desvios, aí se igualando na dessemelhança
da mulher, a mulher adoça a amargura do homem e equaliza o ser na família no
filho no porvir.
Um velho macho é um carregador de
armário, cansado.
Encontrei uma resposta convincente ao
drama doméstico que assola a Humanidade: por que o homem briga com a mulher?
porque a mulher briga com o homem. É portanto simples.
-
- -
Uf! o Escriba, eu, ufa cansaços.
Prometi uma análise criteriosa, uma opinião formal sobre a opinião do Sábio Louco
Popular, temo também cair em tentação, ser levado e atirado ao choque, que já
não existe mais nas cadeias especializadas em doidos. Pelo sim pelo não,
partamos ao sétimo capítulo, sétima partinha (esta sendo agora ‘Parte Média’)
da Obra, lembrando aqui o sete, sete é conta de mentiroso...
VII – Parte Média do PARTO
Evolução dos Atritos na Guerra
Trajetória do homem comum:
nasce,
uma gracinha
cresce,
um capetinha
adulta,
um briguentinho
envelhece,
um chatinho
morre,
um santinho
Vejamos nesta parte as partículas do
todo, sob orientação saudável do Alfabeto usado no País, ‘a’ ‘b’ ‘c’ e daí por
diante, a indicarem os assuntos da VII Parte Média, por sua vez parte do PARTO
(não me parta a cara, nobre Fariseu).
a)Dois Nenês
Para uma criancinha a outra
criança
é uma boneca que
fala
não acaba a pilha e dá
tapa
na cara da gente
Quer-me parecer que as diferenças na
diferença entre os dois sexos não sejam notáveis; quem sabe por exatamente
sê-lo não chamem tanto a atenção.
Dona Maria mostra o seu lindo de
morrer, a fitinha pregada com durex na falta de cabelo na bela cabeça indica
devesse anunciar sua nenê, linda de morrer. E a coloca na cama, enquanto narra
as coisas que não são de sua conta à conta da Comadre porque também não é da
conta da Comadre. Ela, não a Comadre, é visto, a nenê esperneia bonito e fala,
pois já fala “baaah” e saliva bem a falar, molha o peitinho, antes molhou o
babador, continua esperneando talvez ache interessante aquelas hastes pra cima
ziguezagueando e são seus pezinhos; aí o inevitável: molha a cama da Comadre,
agora existe fralda descartável aos mijões sem conta.
Ao seu lado tem um senhor respeitável,
macho pra danar, falando grosso e chamando pros tapas mas ainda não fez nada
disso por ser criancinha embora já saiba falar. Diz “baaah” igualzinho a
filhota de Maria. E chocalha aquelas hastes parecendo a nenê ao seu lado, sem
saber também aquilo ser suas perninhas. Ué, tem a terceira perninha ou torneira,
não puseram direito a ‘borrachinha’ que agora é de plástico e é preciso trocar
sempre pois não veda a goteira. E mais umas gotas, ultrapassa os cueiros, vaza
na cama da mamãe, mamãe lá matracando com a Comadre Maria e gargalham e tomam
outro café e se riem dos outros outra vez; elinhos continuam na sua e
dizem “baaah”, agora um pouco mais a
demonstrar impaciência molhada em fedor, ameaçam gritar o choro, estão lado a
lado como bons soldados que se deverão no futuro combater, ao menos na língua.
Ela Ele. Ele se diferencia dela, mija igual, talvez a mesma quantidade meio
avermelhada meio amarelada cheirando amoníaco; se diferencia defecando um misto
de leite e papinha, empapa a cama de mamãe, que por enquanto ri, vai chorar de
raiva lavar corar enxaguar pôr no sol o ‘pano de cocô e xixi’ daqueles projetos
de gente que, em se alcançando, unhar-se-iam, não se sabendo agorinha inimigos.
b)Dois na Brincadeira
Garotos garotas, brincam aí fora. Falam
gritam
discutem mandam intrigam defen-
dem
se defendem ofendem choram tor-
nam
silenciar. Voltam à baderna como se
o
ato fora mal interpretado e o diretor exi-
gindo
repetir: falam gritam discutem não
se
entendem novamente. Parecem adultos
De repente, que é forma cômoda para
acomodar as coisas intrincadas dos Escribas desta vida tormentosa querendo
convencer Fariseus sabidamente incrédulos, de repente estão a oposição de
braços dados, devendo antes ser ‘as oposições’, a oposição do lado de cá contra
a oposição do lado de lá, nesse momento apenas se distinguindo uma por ter de
abaixar arreganhar as coisas e “verter água” no dizer caboclo; outra abrindo a
torneirinha, ainda pequena e não tão mansa que o proprietário useiro e vezeiro
não manuseie e manipule de tal sorte que às vezes tem sorte e mamãe não pega o
flagrante e aí não condena, nem o Diabo pode com moleque ela fala decerto
antecipando intrigas da oposição; a Mariazinha é mais fácil de criar mas como
andam as coisas cada vez mais difíceis e tem gaviõezinhos já rondando a presa,
preza a filha e a deixa presa enquanto os moleques por aí em gritaria; a oposição
liga sim a torneira e mija no muro, sem vergonha do vizinho sem-vergonha, que é
ele bem sem-vergonha todo pedaço tá cansado de saber, ó. De repente. E brincam
de casinha ele é o filho, o Zezinho desconhece a coisa a fundo mas sabe ser
filho, é cômodo como cômodo a Escribas enganando Fariseus ser filhinho da mãe;
Mariazinha lhe traz comidinha na latinha de sardinha comportadinha e o filhinho
come no faz de conta e faz de conta que come e mastiga de boca aberta o porco e
ainda, porco, derruba no peito suja a camisinha, vê a camisa vermelha suja que
a mãe de verdade não faz de conta e bate mesmo, quem aguenta ficar lavando
roupa desse imundo! e tem razão ambos e o terceiro a ter razão é a mãe de faz
de conta e o Zezinho brinca com a oposição, tendo assim ‘ó’ de oposição, porque
nessas coisas tem mais menina que moleque, brincam que é uma beleza e sobra lá
uns desentenderes coisa pouca e às vezes acontece o desconhecer. Sim porque vez
por outra o homem, filhote do macho da espécie em extinção Homo sapiens
antes tendo sido de Cro-Magnon Autralopithecus e mesmo macaco declarado,
o homem não sabe que é homem ou será, ou Deus me livre e guarde, opte pelo terceiro
sexo, já estão lutando mesmo pelo casório de duas fêmeas e o de dois machos a
gente nunca sabendo em que dará; esse homem não se sabe homem e se mistura com
elas, enquanto pequeno, elas já grandinhas e sabem das coisas coisa pouca e
saberão depois mais das coisas; e assim se misturam e se não encrencam, porém
brigam sim, sem sair dentada mas muita correção das mães, aí não estando nem um
pouquinho em faz de conta. E aí faz de conta que o Escriba, eu, convenceu Você,
Fariseu.
c)Dois na Escola – a Oposição
Parafraseando Lobato, se as mulheres
se beijam por
não poder morder-se;
podemos
dizer: nós seres
humanos
mordemos primeiro por não sabermos
beijar
O Zezinho não faz mais xixi no muro,
faz sim mas já sabe se esconder, esconder o crime, e fica aquela fedentina,
gente sendo como o Bob o Bob não bobeia: levanta a perna mamãe
falando ser ‘pata’ a gente achando engraçado engraçado também levantar a perna,
bem, a pata e molha sempre a mesma árvore depois cheira e cheira a urina, ele
menino também urina no mesmo lugar com o mesmo conforto, esconde o feito do
malfeito sem ser mau, normal ora. Na fralda não, desabrigadamente no tijolo do
muro também não e olha pra lá olha pra cá e não vem gente, curioso não teme ao
gato ao pardal ao Bob e faz. A Mariazinha, a mãe chamando “Mariinha!” em
jeito doméstico, ela não se agacha por aí, está grandinha e depois irá ficar
uma bonitura, é meio feiota e não desengonçada como os garotos, é meio, faz
caretas no aperto mas corre em casa e se senta comportada e enxuga e limpa como
a mamãe explicou; ah e dá descarga direitinho. Aí vai. Vão pra escola, ele mais
atrasado ela menos atrasada. Na aula se aconjuntam, tem ‘aconjuntar’? não faço
a pergunta ao Fariseu, pois quem sabe a resposta não faz a pergunta, se agrupam,
ele corre bravatar aos outros meninos, ela falando manso baixinho as coisas das
coisas que já sabe e as outras mais ainda das coisas, crescidas. Por crescidas
se dão conta da beleza do namoro e muita coisa de artista, “vi na das oito ontem”
e só param o falar quando interrompem o falar por ter-se chegado algum moleque
enxerido, e voltam a se falar à boca pequena quando se vai embora o intrometido
e se riem. O riso é a arma fácil do jovem; que ele usa quando deve usar e
quando não sabe usar usando aqui dum direito o direito de viver sua fase no
sempre das coisas. Em classe, da primeira meio bobinhos à oitava série meio
malandrinhos, em classe tudo muda e fica do mesmo jeito, o jeito de ver o mundo
femininamente e o jeito masculinamente de ver. Joãozinho (mas não era Zezinho!
lembra o chato Fariseu o Escriba indaga sem contra-resposta: e não é tudo a
mesma coisa? algum nome já conseguiu mudar o Mundo!) ele pensa que é o bom, se
integra primeiro no Clube do Bolinha como os gringos nos mandaram, ela primeiro
no da Luluzinha pela mesma forte razão; depois se independentizam (não tem.
Xingo ao Fariseu, teimoso, quem teimoso o Escriba o Fariseu? perdoemo-nos as encrencas nossas
de todos dias na língua;) vão melhor crescendo e se defendem acusando a
oposição, cada qual em seu clube, o que é flagrante na Escola, como foi e ainda
é na Escola da Mariana: “esses moleques são...” elas; eles: “essas meninas...” e
vai por aí, paro por aqui. Que farisaicamente se esperneiem, espernear é um
direito constitucional. E pronto.
d)Dois na Adolescência
O que faz da gente a gente que a
gente é é o que pensa a gente
Homem é um bicho sem vergonha, mas até
que ele é bonitinho. Não é como os outros. Responde “presente” no Colegial mas
não está. “Ele anda olhando aquela bruxa...” Zezinho, não era João! o Escriba
responde presente e afirma José, Zé se acha o dono do mundo, talvez mais humilde
aceite ser proprietário dum harém, a Mariazinha... não é lá aquelas coisas, a
gente puxa o cabresto, se alguém mexer com ela vai ter comigo, e avermelha.
Não, não tem dessas vergonhinhas bobas, é a nota, agora no conceito do conceito
e créditos etc. e tal, crédito para o qual contribui com bastantinho débito e
se encosta nas costas dos outros da equipe, sempre tem lá umas menininhas que
fazem tudo pra gente, as bobas estudando e elevando a aprovação do grupo pela
mestra, ele fazendo uma cara de entendido, olhando cinicamente como fosse um
sábio eruditando conheceres e vendo um femeão na professorinha nova e aí... bem
aí Mariazinha responde por ele e a equipe ganha um conceito azul, avermelha
bem. Bem pior entrassem na droga, ficam na droga de vida que é a vida, gritam os
adultos pessimismando mas não são adultos: apenas se bicam se ofendem nas
oportunidades surgidas, a da gravidez por exemplo; ele não se engravida, foge;
ela que embarriga precocemente e as famílias se entendem entender, ou não mais
se entendem. Aí, as loucuras da juventude, ainda bem nem Fariseu nem Escriba
sejam jovens, sendo adultos respeitáveis e respeitados.
e)Dois Adultos em Oposição
Marido entre nós:
na pobreza é um mata-fome da
passa-fome;
na classe abastada é o
sem-sorte da consorte
Mariazinha, Mariinha pra mamãe que
teve quase um xilique pelas besteiras nem o Diabo pode mas isso não é válido
aos rapazes? Mariazinha já fez a barba passou água ‘qualquer coisa’ na cara
dando um cheirinho agradável e fica assim de garotas a xeretar e tem culpa em
ser tão atraente! se queixa com os outros os outros tendo sempre os mesmos
dramas e se contam das noitadas muito chope e rolam outras coisinhas e... péra lá,
Mariazinha está nesse ponto! que Maria coisa nenhuma, Zé. Não falei que excesso
de Fariseus atrapalha escassos Escribas!? Zé, naturalmente. Agora Dr. José,
Sr.José se se quiser, Zezinho apenas à esposa do respeitável; à secretária
também, por ser uma gostosura. Ela é uma senhora femeão, Mariazinha, Zinha até
ao chefe, não é propriamente Mariazinha porque no seu tempo já caíra de moda a
moda da Maria – os nomes eram os da novela fora os do cinema, Maria aqui, se me
perdoa e permite o Fariseu, Maria apenas figuradamente. A Maria-Esposa agora
espera (o segundo filho? capaz, ficou no primeiro iria estragar sua plástica e
a beleza, parindo, dando à luz um exército!) sim espera o Zé, telefonou vem
mais tarde, aquele maldito escritório, vem mais cedo, madrugada. Enquanto
ela... a gente nada tem que ver com a
vida íntima dos outros, eu Escriba não tenho, debitar aos Fariseus por aí a
bedelhice. Neste ponto nada acresço ou cresceria esta conversa virando romance,
gênero que ninguém lê, lê somente revista em quadrinhos, muito menos ocupados
em farisaísmos os leitores.
f)Dois Casados
Os cônjuges consideram seus respectivos cônjuges
como o melhor animal adversário de estimação
O Zé, diz a Maria, é nada nada
confiável.
Ele não. É um senhor distinto, se os
outros andam em farras por esse mundo... ele vai com a esposa à missa domingueira
encontra os amigos na igreja, batiza os filhos, não é um só? não enche o saco,
fala nervoso o Escriba e tudo o mais. Tem os encontros mas tudinho familial –
churrasco cerveja conversa-fiada alguma
piada, a peluda falando baixo. Gente educada. Só no lar é que vai pegando um
pouco a engrenagem e se desentendem, ela cobra cobra ele nas coisinhas, ele se
esquece das coisas, bom pai bom marido e só a Comadre não sabe de tudo do muito
pouco que se sabe, e ela chora, a Comadre não, esta só faz aquela carinha de
piedade por fora por dentro rindo da boba, o meu? diz a Comadre foi bom; agora
não quer pagar a pensão, devo pô-lo no juiz, lindo esse ‘pô-lo’ tanto que o
computador grafará por sua conta ‘pólo’ isto é outra encrenca, naquela encrenca
ela chora encrencada, o Zé não é confiável. Ela não exagera.
g)Dois na Velhice
Nada mais engraçado que velho sem
graça.
Um
homem ou uma mulher no ocaso é um
caso de naufrágio
na tentativa de
salvar
fragmentos
dispersos na tona...
Não exagera Maria, Zinha aos próximos,
se fosse moderninha prafentex coisa assim exageraria, estando no terceiro
marido ou quarto casamento. Ele perdendo a conta, só contando o bolso, a
Justiça é implacável além de cega não enxergando as injustiças miúdas dos
pequenos as graúdas do graúdos; implacável e tem a pensão xis a pensão ipsilone
e tudo o mais e pagar universidade, os filhos afundam a economia da gente,
perde a conta pois tem a secretária e a outra, sim não exagera, quer somente o
que é dela, tem que defender o filho, ela o fez sozinha! a Comadre diz que não
e têm razão ambas. Agora acalmou um pouco a coisa. Estão velhinhos, dourados
terceira idade e outras tapeações a encobrir ais e uis. Esse aí, o José... diz
a Dona Maria, chateada nem lhe trazem o neto pra ver e quebrar os bibelôs da
estante. E diz e trocam ais as mulheres, não se pode mesmo confiar na oposição.
Homem! dormindo ainda assim não se confia, o Zé... o Zé! esse homem... Ouve engole resmunga pra
ela, ela manda nele pois jovem mandou nela ou pensa haver mandado, só escuta e
dessa maneira não brigam mais: não se falam. O Escriba, Fariseu, descobriu que
no dia imediato em que a Natureza corrigir esse defeito que é o defeito da
gente falar, nesse dia abençoado não haverá mais desentendimento, muito menos
batalhas e a Guerra, só a Paz. É portanto a faculdade do falar que tira a
faculdade ou deturpa ao menos a faculdade. Como não se falam, estão uns,
homens, pra lá, umas, mulheres, no grupo luluzúquico – então já não brigam, no
asilo; em casa vez por outra se chocam, não têm mais nada a dizer. Em não ser
quando vem gente em casa caso não esteja o casal desagregado agregado em casa
dum filho e só brigando sogra e nora e nora e sogro, mas aqui entra outra
conversa, desconverso quantos Fariseus possam haver. Quando vem gente em casa
não tem caso: apenas os jovens falarão, rirão gozarão bastante; os velhos verão
não ouvirão por surdez ou por não lhes passarem a bola (na reserva? cartão
vermelho?) e se vão os de fora íntimos, e os íntimos velhos vão pra cama
descansar varizes ou se sentam, quando muito se olhando sem se verem, para
melhor ver o ruminar.
Péra lá um pouquinho, não estará o
Escriba se repetindo repetindo outros anteriores capítulos! Bilhete ao Fariseu:
a vida é uma repetição de erros, nisso consiste o acerto. O acerto é filosofia
da poesia da loucura da paciência, a paciência para qual peço juridicamente vênia.
h)Dois no Cemitério
O que mata o homem não é
o
uso, o abuso
Ah que maravilha, que gostosura o
cemitério! tudo quietinho não tem briga não tem oposição. Tem tristeza, quiçá
desesperinho a sujar aquelas limpuras; Dona Maria, que já foi bonita pra chuchu
nunca se conformando com a forma gráfica dessa água limbenta que gruda nos
dedos da gente e a Comadre sempre falando cortar dentro d’água que não gruda
gruda sim gruda pouco e por que ‘ch’ se xadrez é com xis! coisa pouca nesse
bastante porque agora basta, o Zé na frieza do lá embaixão, se esquecendo ela
ele ter sido um marido safado ou sendo ela antes intratável, ah era tão
bom! e chora de novo, velho como o mundo
é mundo; o fato é sobrar viúvas frágeis tanto existiu o sexo forte que morre
mais cedo com tanto cigarro e aperitivo e noitadas do jovem forte até em sexo,
agora sete palmos pra cima, ele lá embaixo naquelas friezas e depois se
adesmanchará, credo não quero nem pensar e não pensa, chora. E todos consolam e
vai pelo ar um cheiro de flor murchando e de vela porque o que defunto mais
gosta é de vela o sebo a derreter! Pensamos que eles se consolam e vamos logo à
saída da entrada, os funcionários estão aflitos para ir brigar com as esposas
no reduto do lar e além do mais quem gostaria, quem se arriscaria a ficar preso
na necrópole... Ninguém. Ninguém para contar a história dessa estória, sobrando
apenas eu, Escriba, que não obstante só ter testemunha de meu
testemunho, leio releio assino embaixo sete palmos acima dos sete abaixo, onde
reza que o Zé não reza mais e Você, caríssimo Fariseu, suponho também reze sete...
o que reza um fariseu milenarmente consagrado? não importa, sete é já conta de
mentiroso. E neste prolongamento de conversa nossa... Dona Maria! gritamos não
ouve, só escuta a si mesma “ele era tão bom”, inconsolável, isso não encerra o
assunto; talvez a Batalha, uma, não a Guerra, a permanecer a Guerra em Paz.
VIII
– Partezinha
do PARTO
Eterna Guerra
Santa
A Bela e o Fero. Existirá alguma
coisa
no mundo mais subjetiva
que a beleza!
Tanto não acabou que me proponho, não
havendo demais ntervenções farisaicas, a
tentar resolver o dilema, aqui indagando por saber que não sabe o Fariseu o que
seja dilema, pois não deve caber isso numa Guerra limpa santa como é a Guerra
em Paz entre homem e mulher. Seguinte. Como é que as mulheres veem a briga
‘homem contra mulher’; e os homens a briga ‘mulher contra homem’. Se na bagunça
formada, pois onde já se viu uma guerra sem desordem! se, digo escribamente
falando e perguntando, se a mulher defende outra mulher perante o homem; que
fará como agirá a mulher diante de sua rival. Não sei, saibamos juntos, porque
Escribas e Fariseus que não saibam unidos permanecem unidos, esse um princípio
de moral religiosa mesmo, mesmo porque o período gramatical anda parecidinho
com ‘samba do criolo doido’.
Talvez um bom caminho a saber seja o
caminho das filigranas e miudezas que vivemos vendo ouvindo sentindo na Guerra
que se desencadeia ao nosso lado. A Neusa por exemplo, vizinha bela boa briguenta
bençoada por evangélica, tudo com bê, ela lamenta ao ver a sujeira que a
oposição deixou agora na pia, o diabo é que todo santo dia todo tem que
trabalhar para tirar o sustento fora e eles, os machos, não limpam não lavam,
quando lavam não lavam bem deixando sujeira na roupa mancham a roupa, custa
separar a azul credo como sai tinta e a vermelha eu falei, fala agora: põe sal,
uma colher, e um pouco de vinagre na primeira água quando tecido novo, uma
sujeira, homem? homem faz tudo pela metade. Mas chega de especialistas bélicos
e especializações com mestrado doutorado o escambau na tese da vida reta, a
Laura é diferente. O gordo da magra, ele destamanhão, ela é magrela e fica bem
chamarem-na Laurita, ela alimpa o balcão da venda, tem cachaceiro já raspando a
goela, tem outros a cuspir e a fumar adoidados e a babar, quando nenezinhos
babavam pra valer e mamãe limpava com a fralda a pontinha dela e todos achavam
uma gracinha, agora a babar babagem bobagem babaca bobando bobo a falar mole;
ela balança pra lá pra cá a cabeça morena bonita ainda, ainda bem usada e o
gordo não vem nunca mas chega bufando e ela limpa o mármore de pedra pedra de
granito trincado sujo, esses sujos e até seu gordo oponente faz sujeira por
relaxo e ela despenca o saber: homem? é tudo porco. E talvez com razão, não
tiro a razão pela razão em ser Escriba esperando a espera do Fariseu que também
concorde nessa discordância e aí já acordado.
Acorda um personagem meu, como se diz
quando o personagem é ela? não sabe que sei que não. Não importa. Esfrega os
olhos, aquelas remelinhas endurecidas quando a gente, aqui homem e mulher, se
levanta, abre a boca o dormir indormido, a cachorrada tem uma no pedaço e eles
latem no latido dos outros por causa dela, será que exista Guerra entre os
cães, macho contra fêmea! não vem ao caso, ele, ela a personagem afirma: “Todo
homem é confiável. Esteja ele dormindo”. Isso certamente não revela confiança
total naquela montanha de músculos com muitíssimo pelo e pouquíssima massa
cinzenta. A propósito.
Sim. Bem adequado – quem o mais a ser
mais inteligente ser. Aí não se sabendo sabendo-se não se possa medir a
mensurar a contento no pleno absoluto. Recaímos sem saber no nunca acabar, o
homem dizendo que o homem, a mulher a dizer que a mulher, mulher ou homem? O homem
tosse, tosse outra vez e novamente e a mãe do Vicente, um amigo aqui do Escriba
a falar do pai dele: “ói o leão!” aí o leão morre e a deixa viúva e ela imita
Dona Maria a falar: “ele era tão bom!” sem conhecê-la, veja bem. Bem a saber um
episodinho da Guerra contra o esposo que se achava ele decerto mais inteligente
por homem. Quem? Ora não sairemos do círculo vicioso como quem o primeiro o ovo
ou a galinha? Isso tudo não é eterno! Que é eterno? a Guerra, a Guerra Santa?
Contudo, essa argumentação safada
exposta até aqui irá demonstrar um obvinho: não conhecemos muito dessa Santa
Guerra. Em vista disso iremos nas linhas seguintes, mais de meia dúzia de
linhas, apresentar alguns possíveis elementos a esclarecer nossa
(Escriba+Fariseu e Filiteus e Cananeus e Doutores e Publicanos e a Massa
Ignara) nossa também Santa ignorância no assunto; com direito antecipado a
fornecer dados a entendermos enfim a Guerra em Paz.
IX
– Partona
do PARTO
Algumas Recordações das Lembranças
em Plena Guerra, por amostragem
O homem não conhece o homem.
Mas o homem arremeda explicar
o homem
Este ponto do trabalho presente tem
por objetivo apresentar algumas páginas, como dito mais de meia dúzia delas, a
fim de exemplificar essa luta incansável (infindável?!) entre os dois sexos,
tomando-se fatos corriqueiros, uns intrincados e anuviados outros, incompreensíveis
quem sabe todos, as mais das vezes ocorrendo ao nosso redor. Digamos que o
Escriba, desocupado, se ocupe a encontrar os argumentos que não soube
satisfatoriamente ofertar até nesta trigésima oitava página. Poderia
agora desenvolver um romance em torno do palpitante assunto ‘24’, em pôr cisco
e areia nos olhos dessa farisaiada por aí; não o fazendo em virtude da falta de
virtude no mercado: o preço do papel, o preço da tinta, o preço da digitação
(todos querem se aproveitar do pobrezinho Escriba, pensando o infeliz ser rico
e que esteja escondendo o ouro ao bandido e por isso metendo a faca; e não é, é
aposentado, um animal perfeitamente em extinção).
Antes de prosseguir, aí
desenvolvendo tais argumentos, vamos
alertar para a maneira de apresentação das ‘partezinhicas’ desta Partona número
Nove.
É o seguinte. Vamos enumerar assim:
1ª, 2ª, 3ª e daí por diante quantos trabalhos como exemplos for possível, torço
eu Escriba que muitos, a fim dar base às afirmativas, embora tais trabalhos
sejam amostragem de ranger e lágrimas.
Admitindo sim desde já – um arremedo
de explicação.
Feitos os esclarecimentos, pé na
estrada.
IX – 1ª IoIô
Na guerra conjugal só existe oposição:
a situação, camaleona, desvira
no embate e ataca oposicionada
Estou me lembrando de duas coisas que
esqueci: o jogo que nunca aprendi bem fazendo o gozo da meninada perdendo a ela
no ioiô, um costume francês, e o lembrete dum escritor, me parecendo Eça, o
qual falava das mulheres sempre terem guardado em estoque as lembrancinhas da
estupidez macha, em reserva para os embates na Guerra do casal, aí a
companheira despejando suas coisas na fuça do sujeito ele, pobrezinho, não se
sabendo safar.
E agora nesse ontem deveria haver mencionado
não o fazendo por esquecer-me, não por não me lembrar, me lembrando, portanto,
que são três e não ‘duas coisas’. Agora eu, tadinho de mim, andava jogando no
meio do casal, parecendo candidato à bala perdida em alguma favela carioca
entremeio a bandidos, saiba-se: traficantes dum lado polícia doutro, eu no meio
como disse e contestariam fariseus. Estava.
Agora eu era o herói e meu cavalo não
falava inglês, eu o Escriba, não falava, olhava, como no jogo do ioiô prum lado,
o lado dela, pro outro, o lado dele, ambos a me perguntar com os olhos “está do
lado da oposição!”
Porque é coisa chata ir visitar o
casal amigo, mais menos se parente, ainda pior por ser parente portanto íntimo.
Aí despejam suas coisas eu olho terrificado, o que dizer! Você lembra daquele
dia? (eu é quem me lembro do Eça) ele não se lembrando, nos esquecemos das
lembranças chatas. E os contendores se xingam, se forem bem educados; tudo isso
se for parente, o irmão do Zé por exemplo, aí pode falar aquele nome e se
machucar o irmãozinho do esposo ele é da família e perdoa. Você naquela
noite... me fez isto ou aquilo; e falando em noite na alcova devera estar ela
defendida dos indiscretos, nesse ponto constrange a gente no meio dos tiros ou
pedras ou...
Ninguém, é verdade, morre. Morre de
raiva, ficam emburrados chateados compungidos envergonhados mas... já me
atingiram não tem como desfazer.
Quer dizer, faz-se algo: pedem desculpas,
quando muito isso; e a gente fala pra consolar o entre mortos e feridos umas
verdades verdadeiras: que nada, tudo bem, é assim mesmo (‘assim mesmo’ é o tipo
da expressão idiota que fala sobre o tudo nada dizendo) tem nada não, é
assim mesmo, todos brigam etc. e tal e aí você, não eu, eu sim conto, ela enxugando
no lencinho ele com cara de tacho, eu conto: a Fulana? fez isto e aquilo me
disse me desfeiteou xingou-me até a quarta geração, o que é mentira da verdade,
verdade esquecer-me do que disse e como foi que a arrasei, arrasei a Fulana,
tanto que me deu um pontapé na traseira e fiquei chupando no dedo, ah
costuminho bobo, quando moleque chupava no dedo e mamãe: um dia Escribinha, ela
era carinhosa, um dia ponho merda de passarinho no seu dedo só para ver se
perde esse costume, não tem vergonha!
Não tenho. Só de lembrar. Lembrar ia
narrar linda estória duma briga conjugal assistida com estes olhos que a terra
há de comer, não fui além dumas pancadinhas, eu olhando como no jogo ora um ora
outro. Ah que dor.
IX – 2ª Uma Noite na Cama com o Inimigo
A vida
conjugal é uma teimosia-gêmea
em que
um teimoso teima a demover
uma teimosa da oposição
De repente – já devo ter justificado em
não sei onde o ‘de repente’, que é a absurdidade para salvar um escriba duma
situação em que nada tenha pra falar e aí fala – de repente um Escriba, não:
deletemos ‘Escriba’, por que só escriba deva apanhar e ficar em situação
difícil quiçá insustentável! Botemos no lugar agora um Fariseu, pra ele ver
como a coisa é dura de meu lado. De repente um pobre fariseu de nome Zé, muito
bonito, o nome gringo é o bonito o fariseu feioso, aí estou vingado. Um tal de
Zé se pega numa contingência que não definiríamos como ‘paz’. Sua bela (essa é
bela, toda vizinhança acha, os homens do pedaço; tanto ouve fiu-fiu e cantadas
no centro de compras; e o esposo, tido enfim por esposo, fica assinzinho com
ciumeira) sua bela consorte, aqui já tendo conotação burguesa, ela, essa
lindura, brigou com ele. Ele que disse; disse ela o contrário: o homem brigou
ofendeu a sogra e os parentes dela, ela? primeiro ficou ofendida, depois não
falou nada, talvez por fevereiro e se fala menos; depois ainda chorou baixinho
quase inaudível somente elevando o tom do choro quando o inimigo perto;
finalmente ficou bicuda pra seu lado. Não, mudemos esse ‘finalmente’ para ato
contínuo, mais consagrador em tipo xeque-mate! isso. Portanto foram pra cama,
não cantavam os galos, o galo começa a cantar mas ela parara de chorar só
emburrada, virada pro outro lado que não o lado dele, o dele com um afundadinho
maior porque homem que se preze e Fariseu se preza é mais pesado afunda o
afundado mais que a beldade cheirosa de costas. Certo, tem um errado até eu
Escriba já descobri: ela não mandou o companheiro para o sofá nem fugiu ainda
ela para a casa da mamãe, se bem que tenha pensado o telefone com defeito,
tanto que já planejara, quando voltassem às boas, mandaria seu homem reclamar
na empresa, agora apenas enfunada e piormente muda; surda também sobretudo à
voz grave modulada a “meu bem” “meu amor” “luz da minha vida” e até... não,
perdão ele não pediria, falei que o Fariseu é só feio talvez horroroso,
pobrezinha dela, não disse que não é homem, aí não se rebaixaria não pediria
perdão pois não foi quem provocara escândalo, somente a oposição faz isso, é
oposição e pronto.
De repente, talvez um terceiro de repente
desta safra – ói ele, o Fariseu, dormindo, dormindo de verdade, roncando não ou
a bela perderia o seu feitio diplomático, dava uma sombrinhada nele e aí
acordaria a recomeçar desavenças, brigas, batalhas, a Guerra. Não. Não roncava.
E não aconteceu coisa alguma.
Ele dormiu mesmo.
Talvez a inimiga tenha insoniado sem poder
culpar o serrote no seu dizer que é o dizer do roncar.
No outro dia... ora não sei, não me
perguntem, indaguem ao Fariseu, pois sai da alçada escribeira.
IX – 3ª Plantação
O homem, o macho, é um caçador de
fêmeas a ser cassado pela civilização
É isso que penso. Um escriba, por
extensão o Escriba, é um lavrador. Em razão de toda e qualquer besteira que lhe
saia, sai de sua lavra. Quer mais lavrador? A sentença em epígrafe é uma
lavrinha dele, uma loucurinha preambular da loucura, à loucura propriamente
dita. Dito, vamos ao não dito.
Ele – afirma a tese – é caçador deve
um dia (o da caça por exemplo) ser cassado tolhido em seus ímpetos e desmandos.
Antevejo, o Escriba antevê, antevejo uma gritaria imensa de fêmeas, a gente
nunca sabe qual escolher pois é tudo uma gostosura, uma gritaria em que se
sobressai a Comandante em Chefe, Chefa, a berrar fino doendo ouvidos: “Mulheres
de todo mundo, uni-vos!” a gente não ficando para ouvir melhor o pior: ser
cassado. E, pergunto, e os direitos da pessoa humana!?
Nesse dia, sim nesse terrível dia
haverá então ‘choro e ranger de dentes’ como prometido.
E para nós, os escribas comportadinhos
monogamicamente solitários... nós que temos uma e única fêmea da espécie
Escriba, que não olhamos sequer em não ser que não esteja presente o Fariseu,
não olhamos mesmo para a fêmea da espécie Fariseu e temos certeza ser linda de
morrer e até, por que não dizê-lo, uma gostosura! Para nós, dizia quando dizia,
a nós nem o consolo a ser consolado pela nossa sem-sorte à qual mandamos calar
a boca e aí ficou resmungando! oh, piedade,
clemência, já não se faz arruaceiras como antigamente.
Neste ponto da desnarrativa (pois nada
contei enchi linguiça) neste ponto deveria sim falar gritar urrar berrar contra
abusos do abuso cassante. Mas calo-me, em protesto.
IX – 4ª Miudezas & Grossuras
Fico a pensar
no homenzarrão. Poderia
ser pormenor no todo! talvez em criança;
e sua
fêmea então a minúcia, o filhinho
em
descuido podendo ser o
detalhe que
faltava; melhor, que não faltava...
Era grandalhão ossudo vareta, vareta
não supõe sempre magruras, ele corpulento, cheio, cheio de coisa, não no sentido
do não me toques. Ela.
Ela sim assinzinho, melindre, um pouco
parecença com uma planta rasteira com tal nome, a mulher de nome Joaquina.
Joaquina e não tenho culpa, o pai tem por ordem da mãe, até o padre eles têm em
cartório, o pároco aceitou como esses goleiros que engolem o frango e pronto.
Pronto não, precisa sair escoltado de campo ao lado do árbitro, aquele ladrão.
Se o vigário aceitou não tem discussão; ela não pensando assim até hoje, ontem,
não posso me responsabilizar no que ocorreu nestas outras vinte e quatro horas,
até ontem exigia ser chamada ‘Ina’ que não compromete. Aliás está errado esse
certo de os pais registrar os filhos, estes dever-se-iam registrar e daí
escolher um lindo nome, a carregar pelo resto da vida em aceitação tácita da
opção, digamos Joaquina, que abreviaria mais tarde cansada casada com outro que
não fosse o ‘Joaquim não encontrado’ e então virando ‘Ina’ o que é inaceitável
pelo consorte, sendo burguês, sem sorte sendo pé-rapado, o caso deste caso.
Mentira abusiva dos escribas por aí
que o Escriba ouça a discussão (baixo calão não então fecho orelhão a desofender).
Verdade que sai lascas iscas faíscas até se pode ver em lua nova na cheia não
por excesso luminoso; e o foguinho que salta da língua poderosa dela,
destamanhão, a língua, ela petitica magrelinha e se me deixa São Diacho meu
protetor falar diria feia, não existindo isso em mulher, mulher só pode ser
menos bela. Feio pra ele, aquela montanha de músculos e o som grosso lá encimão
sai baixo ela escuta assim mesmo e rebate. E as crianças tadinhas!
Aqui não é parque infantil, é ringue:
ela peso-pena e dá pena; ele peso-pesado com cinturão da Liga Mundial e tudo. A
pena derruba o galo derruba a montanha, arranha se preciso for o Cinturão da
Liga, dá nele de cinta, engano: de língua!
Novidade dessa ontura? de hoje que
seja. Davizinho não deu uma surra tamanha no Golião?
Não sendo assim, me enganaram. Devo
enganar fariseus e filisteus.
IX
– 5ª In Verdade
Proprietário do
Viaduto
tem
direito constitucional
sobre Beldade no Viaduto
Suponha, tudinho. Achava que tudo
coubesse dentro da verdade, mesmo a verdade. Por isso falou, inclusive insistindo
no que disse:
É tudo meu! Não terá posto sinal de
exclamação, ficando essa arte por conta da arte literária farisaica. Mostrou.
Tremido. A foto tremia em suas mãos firmes a firmeza da afirmação; amarelada,
não da velhice mas do uso do abuso até pela exposição diária aos matutos. Uma
foto assim das antigonas, seis por qualquer coisa, hoje sendo padronizado em
dez por quinze.
Que lindo! ela exclamou “qui” e não
“que”, ao sabor brasileiro. De fato lindo, mesmo o fotógrafo – via-se não se
via – amadorzão, desses a cortar pés ou cabeças dos atrevidos pretendendo
xeretar na imagem; além do que havendo os de vaivém num movimento, e, aí, tremem,
não dando para saber quem seja o incógnito; com certeza ser incógnito apenas;
não importando.
Importa o Viaduto! disse o Antônio, Tonho
para sua cabocla namorada pretensa noiva se o velho não viesse criar caso ou
futura esposa, não dessas de agora sim com padre primeiro depois cartório; e
naturalmente o baile; baile na roça saindo facada e tem sanfona, não é o caso,
o caso entregue ao futuro, o futuro também pertencendo à verdade: tudinho cabe
dentro da verdade.
Arrepare o Viaduto, a gente, carros
passando. Tudo meu! (aí pôs sinal, a literatura não precisou farizar o texto).
Botou exclamação, admirando na admiração
daquela beldade trigueira, com mãos calosas do cafezal e pelas mordidas de
mosquito, esfoladas um pouco, mesmo assim belas. E acresceu, a mostrar como um
milionário da cidade tendo antes sido expulso da roça e se emburguesado, como
sofre também um ricaço:
Não sabe Matilde como me dá trabalho
cobrar dos carros...
Ela se interessou. Então pagavam a
passar naquela ponte enorme em despropósito cheiinha de arcos e frescurinhas!
Pagam, diz Antônio, e não pagam. Uns
caloteiros.
A namorada arregalou olhos e a
boquinha, aquela de futuramente beijá-lo.
Não pagam direito e não tem
importância, os prédios que vê ao fundo são meus também e de lá recebo tudo...
Engasgou com o susto a Beldade futura
arquiburguesa, não comentou. O Rei expôs mais exemplares de arte flagrados à
posteridade por sua codaquinha usada e de lentes embaciadas. O Centro da
Capital.
Tudo meu! Já havia em roda uma roda de roceiros cunhados
e vizinhos vendo interessados tanta riqueza e ouvindo o contar das Mil e Uma
Noites em pura linguagem caipira emigrada para a cidade grande.
Casaram. Baile sem facadas a fugir da
regra. Viajaram para casa, a ele a rotina a ela a residência nova na Capital.
Na periferia feia rústica violenta real. Depois cuidou aquela Beldade dos
filhos e dos netos, envelheceu desembelezou.
Tudinho cabendo na Verdade, como numa
Pasta do Computador onde cabe toda trapalhada, dos fariseus, que se possa
criar.
IX – 6ª Passear na Floresta
Vamos passear na floresta enquanto...
Pior, ela sabe o que seu Lobo quer
Mariinha passeava em braços dados com
outra Maria, da Glória da Conceição da Penha da Dona Dita não se sabe, ia pra
lá voltavam, iam como namoradas as meninas, meninas têm dessas coisas ensaiando
ao Lobo. Enquanto o Príncipe não aparecia, o footing no jardim o coreto
a encardida bandinha os moleques xeretando um que outro cachorro e gatos longe
do cães, aí assustou-se. Foi seu primeiro flerte e o garoto era feioso feiando
a se exercitar ser homem Hércules míster essas coisas, era então não mais que
moleque de penugem entre o nariz e o lábio superior. Esboço de relação de longe
e platônica, embora não soubessem Platão filosofia e poesia, só loucura
concretizavam. E marcaram através de da Penha ou de da Glória ou de da
Conceição o matinê, que se realizava e sempre foi assim em cidade pequena, à
tarde não de manhã, no circo não, tinha ido embora já desfeito e o delegado
estava assim com a mão na cabeça de tanto reclamarem os pais pelas Marias suas
inocentes puras virgens não mais virgens, tanto que o Doutor pensando em não
deixar mais circo aportar na Cidade, com esse nome a Vila, armar e depois os
pais em ais a reclamar e aí a população da Vila a crescer. Não. Matinê de
cinema, onde quebrava a máquina, primeiro ficava a tremer a imagem depois
cortava a fita, e os namorados não se importando pois filme é pretexto sempre
às causas. Não. Sim. Disse não ao moleque, sim, Mariinha disse sim ao outro,
que se foi desarmado o circo, ficando um neto ao pai de Mariinha que virou
Maria, pra criar. Concorda, meu caro Fariseu? Sim, agora digo sim: uma
contendora sem poder brigar com o contendor fuginte dela. Concorda?
IX – 7ª Inconclusões
A existência
para todos, homens que brigam
com as mulheres que brigam com os homens,
em
bom desentender, é sempre inconclusa
Era preciso acabar com isso que era
aquilo. Apagou soprando a vela e não se fez a escuridão porque sendo dia e
calor e cansaço e indecisão, achou melhor ir-se. Mesmo porque cemitério dá
sempre um medinho na gente, gente viva, morta a gente não deveria mais de ter,
agora tadinho, ah era tão bom! que o Senhor o tivesse, tivesse ficado vivo,
quem sabe das coisas, chutava as coisas, todos só querem chupar, desmama filhos
ainda querem mais, e casam e trazem noras pra também desatolar e vêm os netos,
o pequeno a cara de vovô, tem cada coisa e dona Cota não sabendo de nada, como
pode o neto ser o vô, ia dizer umas verdades à vizinha mas a gente não diz, diz
o que não pensa pensando não ofender e se constrange dizer; por que não briga
em paz com o marido dela em vez vir palpitar palpites na casa da gente? o que
fazer, voltar, pôr arroz, e de molho o feijão pra amanhã, atender telefonema
essa chatice, ah é bom desabafar com a filha a nora não entende e critica,
critica até o filho que é filho dela e que se entendam me entendia às mil com o
Tonho, tem fariseus que não entendem e picham, picham até a visita ao cemitério,
não importa não me importo volto noutro domingo após a missa vou direto nem
volto pra casa ouvir intriga da oposição e a filha também arranha de oposição,
que discorde do dela, o meu está guardado quietinho debaixo da carneira, eu
queria fazer capela pôr dizeres lindos ‘aqui jaz’ e tudo a que tem direito ele,
brigava cruz-credo brigava sobretudo quando bebia com os amigos e aí brigava em
vez de com os amigos comigo tadinha de mim, descontando isso era bom, não santo
não, não tem santo não, arranjo outro, não tem santo mesmo, era bom, aí acendo
mais uma, mais três.
IX
– 8ª História de Amor com Nota de Rodapé
Tratamento
adocicado
nem
sempre indicado
Amaram-se.
O comum do ser sendo. Ela menos, não
ingenoide e piormente pura, esta já ideia impura; mas simples e sem grandes
exigências. Casou-se virgem, o que é nestes dias disparate por ninguém
acreditar, você, Fariseu, não crê, afirmo virgem e religiosa, missa regular.
Ele nem um pouco extraordinário, quem sabe mais vivo e vivido, um experimentado
homem como a sociedade exige. Amaram-se. Nisto não entro por não entender do
assunto. Querência, atração, regularização do
consórcio com o padre o cartório e arroz atirado a dar sorte na saída do
templo, isso também não entendo, entendo sim porém não gosto desse tró-ló-ló. Fiquemos
no casamento, desses matrimônios
duradouros que vão da cerimônia de enlace até a cerimônia fúnebre do desenlace,
com direito a velório e enterro de primeira classe. Ela virando uma viúva senão bela rica e
disputável.
Desde a lua, com mel e planos, antes
da viagem e antes mesmo da união oficial já o namoro de ambos, onde havia o
costuminho romântico e poético: ele beijava a orelhinha dela e dizia... bem,
não temos direito a direitos de alcova. Todavia é certeza todos terem sua
linguagem conjugal, onde se nada no tudo das palavras vibráteis despertadoras
da sensibilidade, que ela possuía demais ele demais sabendo desferir (sem ser
do tipo beijoqueiro). Aliás a linguagem se espalha em todos campos do mundo,
tem a formal para se expressar e as estrangeiras para não se entender;
entendem-se os povos. Existem as profissionais e as de rua, pródigas em gíria.
Existe a de alcova como falei, própria ao casal, os filhos no meio entendem ou
só a usando sem saber; sabendo bem o par, o par amoroso como ele-ela.
Ele a beijava, de início lambia até, até
não nos devemos intrometer. Beijava e imediato dizia a expressão chave assoprando
delícias naquele ouvidinho bonito.
Não nos interessa o que dizia o homem,
não é da minha não é da sua conta, mas não exijamos demais nesse particular
pois sei que o Fariseu já foi xeretar no rodapé. Então confirmemos: o sujeito
falando “meu doce de coco” na orelhinha sensual da menina de seus dezoito
dezenove anos, que é idade... deixa pra lá.
Com um porém. O corriqueiro é se
esquecer o homem da mulher com quem se enlaçou, não usando vocábulos agradáveis
sonantes e despertadores da sensibilidade feminina durante a vida, só o
fazendo, matreiro (ou poeta, quem diz que não existem, se existem loucos e filósofos!)
só o fazendo nos primeiros dias. Depois?
ou vira ‘carne de vaca’ como popularmente falamos ou simplesmente se
esquece lembrando-se das dívidas de seus negócios e mesmo doutras coisas que se
não deva lembrar. O comum.
No caso deles não. Nem um só dia
deixando nos momentos oportunos e à noite já quase entregues aos braços de
Morfeu: meu doce de coco! Digamos tenha o sujeito tirado sub-repticiamente o
ponto de exclamação logo após o primeiro mês ou antes do depois da primeira
briga, entre eles apenas desentendimentozinho. Só viviam enlaçados a provocar decerto
ciumeira na sociedade, rica em B.O. na
polícia desquite divórcio e equivalente amasiamento com o semanticamente
correto ‘namorados’.
Amaram-se para
cimentar o matrimônio, cheio de filhos, bem uns quatro, a petitica um amor do
papai. Amaram-se com os inconvenientes do ramerrão. Em casa trazia ele as
nervuras da empresa; ela administrava o nervoso dele com suas neuroses: cuidar
do lar desgasta o ser – ah essas empregadas... Contava os desasfdoros delas.
Tinha uma, dentuça. Malcriada não,
atabalhoada. Derrubava coisas quebrava bibelôs deixava sujeira para trás ao
outro dia e bedelhava indevidos – uma
capeta. Um dia pôs na rua a dentuça. Ele? não dava palpite: em casa, “meu doce
de coco”, você quem manda. A rainha do lar. E outras, outras mais, não parando serviçais; também a meninada dava trabalho pleno a
salário insuficiente. Ademais empregada só sabe se queixar, algumas até roubar.
Deus me livre e guarde!
Tinha as amigas. A estas se queixando
melhor, que homem não entende das coisas. A elas podia falar intimidades; até
usar as expressões da linguagem conjugal interdita aos profanos. “Ele, ela
dizia, me chama doce de coco!” Mulheres
se compreendem, se conversam nas conversas, trocam ais e uis falam criança
falam empregada falam moda, à moda que todos sabemos ou pensamos saber.
Não sabemos – nem você nem eu, eu muito
menos o que se passa onde passam as coisas em plena região doméstica.
Assim foram indo as coisas. Cresceram os
filhos, a pequena já na faculdade prestes a se formar para qualquer profissão
liberal, os manos formados e profissionais. A empresa, fundada em bases dos
fundos dela, ele a fez crescer e também crescer em problemas e num certo dia...
Bem, mal se sentou na cadeira da
presidência caiu fulminado, o coração sequer perdoa o coração que dirá o cérebro
fervilhando cifras. Assim deixando o costumeiro dizer à esposa: “meu doce de
coco!” nessa altura sem exclamação, esta
engolida pelas atrocidades dos negócios de um
homem de negócios. Ela virou viúva, quem sabe se não apetecível mas deixando
ser coco no doce.
No velório que se seguiu ao médico e
mesmo ao legista, a polícia sempre vive desconfiada e não crê em doce de coco
facilmente; nesse velório houve tudinho que se exige – choros velas flores anedotas à boca pequena.
Chato descrever isso tudo, não concorda
comigo?
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Não obstante
aconteceu um porém digno de nota. Quem mais chorava, e como! quem mais era a
dentuça; não se convida para festas subalternos e menos os serviçais despedidos,
de quem se costuma esquecer. Contudo gente é intrusa, veio. Choraram, ela e duas crianças; até
chegou a beijar o cadáver branco como cera, levantando suspeita e provocando
escândalo além dos ciúmes na viúva, com sabor a coco decerto. A dentuça passou
a falar aos convivas do morto que o mesmo
detestava doce-de-coco(**) apreciando somente o
de amendoim; aproveitou-se a desaforada a lembrar outros inconvenientes; mas
isso não vindo ao caso.
Nota. O senhor
exposto na mesa em vida dizia aos íntimos não suportar o doce de coco, dava
enjoo e dor de barriga; além do mais penetrando fragmentos pelos vãos da dentadura
postiça, um horror.
IX
– 9ª Abórto
Abôrto?
A Ideia de que tive ideia
brigou com o Sr. Motivo
abortou um
filho
a filha em Solidão
Aborto sim, tento abortar não fazer,
faço errado outra vez, vez por outra não faço, faço que sim engulo a dor, choro
a lavar, lavas a escorrer, agora não tem jeito, não tem mais jeito. Buscou a
clínica do sofrer para dessofrer enganar o não existente. Primeiro procurou em
boa indicação a Bruxa, nem todas são más, e garrafadas a expulsar pois que dona
de seu corpo, o corpo não sabendo disso e por isso cobra, cobra depois se
quiser se não se quiser. E se livrou. Definitivo. O que é definitivo? Ficou o
definitivo o tumor o câncer, cobrantes. E engana o ser o ser enganado cobrado
perdido sobrado cansado nunca saciado, saciando em vício e desmancha em vício e
perde, não tem mais o comum, aquele que o normal da vida paga em vida. A vida
prosaica farisaica laica do sagrado. Aí se assenta se alimenta na ilusão e
vegeta e seca e morre, morre antes a juventude envelhecida sem direito a viver,
a arrastar-se em sobrevida que é subvida na saúde pública, a qual é o óbito
oficial da gente pobre, pobre em ganho perde a chance, pobre por ignorância, aí
já muito saber, sem poder brigar com um só, a brigar com o mundo. E se vai, sem
epitáfio e sem nome, com muita terra sete palmos por cima, em provisório
ante-poço de todos. Abortou em viver, viveu em abortar; episódio da Guerra em
guerra perdida. A refazer.
P.S. – meu caro
Fariseu, não venha com sua filosofia desmancha-prazeres a dizer-me que a poesia
escriba seja fúnebre e ademais não tendo o sabor da briguinha corriqueira entre
machos e fêmeas da espécie em extinção dos terráqueos. Não. A minha personagem
terá fabricado seu monstrinho por partenogênese! Não terá sido induzida à tragédia
pelo explorador etc. e tal? Concordo com seu pensamento, pois deve estar
pensando: a filosofia e a poesia são a Loucura.
IX
– 11ª Em Concordância
Conquistazinha, coisa pouca,
para macho lésbico
Já sei,
concorda comigo. Não com o sujeito?
Ele olhava olhava, via, claro, via, a
que serve olhos, pra ver naturalmente. Se bem que não devesse ficar vendo, quer
dizer olhando, pois quantas vezes não olhamos e vemos, é da definição humana.
Pior o caso deste caso, caso não olhasse e visse, via vendo. Chateando a vizinhança,
a Vizinha Boa.
Vai ser boa lá nas Cocadas!
Também expressão do sujeito, sujeito
agora à nossa crítica, minha e sua.
Bem. Ficava vendo todos dias todo o
dia. Embora ela é quem não ficasse dia todo em casa, trabalhando na loja de
calçados. Bem; pensou comprar ou só experimentar um parzinho, tem freguês chato
faz descer a prateleira e não compra; desde já se dispunha em não comprar
mesmo, pois seria pretexto a sentir em seus pezões (xô xulé!) as mãozinhas da Boa.
Chamá-lo-ei Sujeito, que não é um nome
bonito, sei; a ela Maria, há alguém sem nome!
Assim ficava vendo todo santo dia: segunda
e terça e quarta e quinta e sexta, sábado e domingo sendo ótimos pra ver a Boa
porque graças à semana inglesa os trabalhadores ficam em casa descansando.
Ela não. A Maria, ela não.
Sim, descansava e ficava em casa às
vezes no fim de semana, mas não só para ser vista pelo sujeito vizinho.
Morava em frente. Ou ela que residia
de propósito no número 44 diante do 33, casa do sujeito casado com olhos
destamanhão.
Depois melhorou. Melhorou a quem? me
pergunta, ao sujeito, lógico. Comprou uns óculos escuros, desses que se vê e
não se vê que se vê, desses. Por desgraça ou apenas a lhe dar prejuízo ou
raiva, não os usou. Que usasse uma das lentes. Não, desse jeito não serve, serve
é olhar e ver com as duas.
Não queira entretanto adiantar as
coisas, pois aqui estou somente a contar do meu contar. Não se beneficiou do
par de óculos escuros, meio esverdeados para ver mais verde a Vizinha Boa,
Maria como apelidei pra não deixá-la desnomeada.
É que o interessado descobriu outro,
outros talvez, interessado igualmente nela. Chegava, fechavam o portãozinho
fechavam portona da sala e quem sabe a do quarto. Dormiam lá dentro. Aí melou.
Ele que usava essa expressão chula,
‘melou’. A ciumeira. Quis, eu quis (não me meto em vida alheia e assim deletei
o verbo conjugado no presente fiquei no ‘queria’ sem jeito a executar tentames)
eu quis levantar a lebre, diria: “você está enciumado!” Ele negaria é óbvio.
Bem diria insistindo “tem boi na linha” no caso um touro, ele pensava estar
sendo traído, teria imaginado comprar um baita trabuco, expressão usual do
sujeito não minha que sou pelo padrão vernáculo admitido na Academia. Compraria
arma e ói nós com um vizinho assassino em vindita contra conquistadores dessas
Marias!
Depois, não muito depois, saía o namorado,
agora se usa namorado a manchar o santo nome amante, consagrado por centenas de
anos na arte de pular a cerca com ou sem guarda-roupa.
Saía. Imediato (estou forçando este
‘imediato’ vamos pôr um hiato de suas meias horas, por aí) imediato entrava
outro. Um dia levantou o sujeito profissional em ver na madrugada só para ver
não viu, viu mas não viu bem se era outro, pois não poderia que o primeiro tivesse
saído a comprar cigarros tomado umas e outras e voltado! podia sim. Não viu
bem.
Bem, ser traído pelo primeiro ou pelo
segundo ficava do mesmo tamanho, tinha a sensação em estar sendo traído!
Me pergunta Fariseu nesta altura do
contar o que pensava a mulher, não a do 44, a do 33, a esposa gorducha do
sujeito. Não sei. Creio entretanto que não haja dito a ela. Você contaria?
Eu não contaria, mas eu não conto.
Nisso apenas o meu contar sobre a apaixonite do sujeito dia e noite olhando
aquela Boa Vizinha e já disposto a comprar até a loja toda só para sentir as
mãozinhas dela nos pezões dele.
Agora havia aquela pedra. Escrevo com
maiúscula? não, mancha o padrão. Aqui é pedra mesmo: no sapato dele, no caminho
dele, no coração dele.
Quase atirou ao chão e pisoteou em
cima virando cacos seus óculos escuros de ver a Boa e não deixar que outrem visse
que via a Vizinha, outrem de preferência fêmeas gorduchas e ranzinzas.
Um dia, foi até um dia antes de arranjar
casa noutro bairro, aí sendo a esposa que não se acostumava longe de mamãe e
não foi porque o genro adorava a sogra e sentia saudades. Um dia mudou-se.
Pergunta ao Escriba: constatou ter
perdido a Boa para o namorado dela! Não sei bem. Falou que o amante era ‘a’
amante, uma questão de lesbianismo.
Oh não me cobre explicação. Nada sei
nada vi. Sou bom brasileiro.
IX – 12ª Cavalo,
Burro? a Brigar com Égua
O cavalo Belarmino
se desentendeu
com a égua Bastiana
Deu-lhe um coice daqueles. Acertou aqui, ó,
quase desmaiou. Tentou outra vez em xeretança, levou o troco. Que burro!
O cavalo em trote tropeça meça não
meça distância, vai cheirar o indevido. A Dita não quer graça com castrados, belos
que sejam, vistosos.
Entrou no boteco, bebeu, contou vantagem
desdobrou dramas, chegou no lar cheirando pinga vendo mais que uma porta várias
mulheres, e isto é um ganho com certeza; e tendo muitas dívidas e isto já é um
desastre. Então dormiu.
Como porco, quando escarrapachado
assim dizia ela como um porco e talvez tivesse razão; o porco suou e verteu
água no sonho e acordou molhado e fedendo. E ainda por cima no baixo não sarou.
Sarou apenas da bebedeira.
A esposa, santificada no padre, lhe
pegou no pé, sempre pegava. E falava falava falava e fugia, ele fugia ao
serviço e fugia ao balcão frio da venda; costumava ficar alisando em carinho o
mármore que era granito velho sujo e grudento a esperar que o servissem. Aí
voltava bebinho da silva.
A égua da Benedita, dito e feito: a
brigar com ele. Somente por umas causinhas assim como falta de arroz e feijão
sobra de pindura no armazém de secos & molhados; e havendo bastante pouco
trabalhar e em consolo menos numerário.
Só por isso!
Só égua.
Só burro a brigar.
Quer mais? Fariseu.
IX – 13ª
Ora Pílulas
Em defesa, pra não prolon-
gar
a Guerra ; por faltar
futuros
combatentes
Dona Mariquinha gosta mais de escutar,
não sabe ler só pouco assinar o nome, apreciando ouvir estória; fala fofoqueia
mas sem intenção cruz-credo em prejudicar, e ouve bem: para que temos olhos
senão pra ver! Não gosta de ler, a Maria que gosta. Todos romances a lhe chegar
às mãos; agora não tem jeito, o jeito é ver tevê, tem a das oito gosta da das
nove, lia bastante até, até comprarem televisão. Comentou na roda as pílulas.
Riram a valer, a Mariquinha fazendo ic-ic engraçado, riram do rir dela. A Prudence?
A Prudência e as Pílulas do Hugh Mills, a Prudence engoliu errado
e engordou, “ganhou nenê?” claro, Marica, veja só! Aí a Maria riu-se da
empregada imprudente da Prudence que também... “ela pariu!” naturalmente,
ou ia ficar grandona inchada nem podendo dormir com falta de ar, ia? não ia
decerto. Ah Maria, na Vila foi assim. Assim! todas querendo ver não se vê
pensamento só vendo. Assim de grandona, era do marido não, não tinha. E estufou
e pariu, naquele tempo... Tinha outra que dormiram e o Seu Zé nem ficou sabendo
e aí... E aí Marica! todas querendo saber. Ué, não deu um, deu dois duma vez e
nenhum parecia com Seu Zé. Puxa, falaram do que falou. Falou e tinha a prima
Zefa. Qual? A Zefa ora. Tomou suas providências, a prima sempre foi cuidadosa,
um amor de casa, não era a sujeira de sempre, sujeira foi a boca, quem pode com
a boca do povo, já era penca, aí veio outro não adiantando beberagem e
garrafada, tinha uma bruxa na Vila, não adiantou quando quer vem mesmo a mulher
não querendo, chorão pra burro, burro o primo, ele que era de sangue, vivia por
aí com a mulherada e passava as coisas pra ela, tadinha, uma penca assim
(olharam todas) aí emprenhou engordou e deu “coisera” no estômago dela de tanta
água benzida da bruxa, entretanto nasceu.
Chorão. Verdade? perguntaram. Das verdadeiras. Não é que nem a estória,
Maria? Ora Mariquinha, depois que vieram as pílulas... Todas olharam.
IX – 14ª Bilhete de Consolação
Contar
brigar
pedir
desbrigar,
voltar?
Chegou em casa o Escriba. Antes, bem
antes, em planos, os planos mirabolantes quase sempre: como a esposa
reagiria... cansado de tantos atritos, ela decerto também deveria estar,
sobrava o amor, amor sim havia, amor salva qualquer matrimônio; não levava
flores, flor é coisa de poeta, tinha uma dificuldade imensa em decorar poesias,
a professora Nilce obrigava, sofria, tremia, as meninas papagaiavam aquele não
dizer, dizer entendesse não entendia entendessem, flor não, levava em
compensação planos concretos, ela deliciar-se-ia com as vendas, que entende de
vendas mulher! o quanto comprar com o resultado das vendas, mirabolou casa
mirabolou viagem, ah a segunda viagem de mel!
Mas não estava, a cama desfeita a
poeira nos móveis o silêncio... Aí viu o papel e se alegrou, primeiro curiosou
depois leu.
“Querido Zé, você me encontra no lugar
de costume. Aí nos beijaremos...” que safadinha! beijou antes do beijo em
promessa beijou sim o bilhetinho, curto e cheio de promessas.
Banhou-se fez a barba vestiu-se a
caráter, entremeio pensou sonhou: ela perdoou-me, perdoo-lhe seus pronomes
errados no bilhete (a esposa sempre errava na próclise distorcia ênclises,
detestava mesóclises) que malandrinha, “no lugar de costume”. Perfumou-se, desperfumou-se
“não sou fresco”. Calçou o melhor sapato, conferiu a mais bela gravata, a de preferência
da mulher. “Querido Zé, você me...” lembrava relembrava extasiado. Olhou-se
melhor ao espelho, tomou os documentos, conferiu a carteira contou cédulas, sorriu.
Daí fechou a cara. Que diabo, não me
chamo José, ao menos fosse José Alfredo!
IX
– 15ª Humor
Escurinho
Matar brigar sangrar mastigar e
brigar entremeio
Um incauto a pensar
alguém se aproveitando de alguém feminina, tadinha, no escurinho, e quem mandou
se expor e ir a esses escuros tétricos que existem. Mas incauto e ingênuo; na
melhor das boas vontades apressado nas conclusões. Pois não é nada disso a
proposta aqui.
Ora vejamos... trata-se
aqui sim do gosto tão ao gosto nacional do sangrento e do violento. Com humor.
Por que o humor apenas servirá à graça e a provocar risota! Defende-se o direito
também ao choro, se não medonhando em gritos lancinantes, ao menos nas gotas de
lágrimas bem derramadas, talvez com método e parcimônia, gotas a rolar dos
olhos puros de um ser e... ah chega de santismos. A verdade.
Na verdade a Verdade tem
desses desagrados, não a prudência ou mesmo o riso inocente. Tem os das manchetes.
O jornal, qualquer no país,
o que ele mostra na primeira página? No do Interior é apelo roubos estupros
mortes acidentes – tem para todos gostos. No da Capital, toda a imprensa rica e
poderosa não mostra essas nojeiras como a nossa capiau, não – são os grandes
desastres, de aviação por exemplo, e mais a guerra, a ameaça da guerra e a consequência
da guerra. Doses homeopáticas? não, doses cavalares e por atacado. Os artigos
de fundo tem fundo ou na possibilidade de ‘x’ ter ou vir a fabricar artefatos
atômicos; e tem bastante firulas políticas que matam mais que a primeira página
ou tanto quanto a burocracia.
A Televisão, ah a tevê!
ela, dizem os dirigentes e proprietários, mostra o que o público telespectador
exige. Exige pouca verdade quase nenhuma mansidão e muita violência, a enlatada
e a nossa ao vivo. Porque – ora apelemos ao patriotismo ao nacionalismo essas
coisas – porque sabemos a sobejo produzir violência e sangue, muitíssimo sangue
de primeira qualidade; e é isso que vemos na telinha. A telona desapareceu
quase com o rádio e o trem no País, não contam; antes eram os arautos da violência.
Não se fala em maldade, sim na violência, que encaixa a maldade e a
infelicidade das vítimas.
Portanto a
ideia defendida é o gosto, é o sabor a sangue e violência. Não apenas o que se
mostra: a necessidade do homem nacional nessa ordem.
-
- -
Não se espante, caro Fariseu. Adianta
falar isso! o leitor é incauto, apressado. Pedimos não obstante não se
espantar. Pois até aqui o preâmbulo apenas; a estória começa agora. Dois
pontos. Tá bom, exclamação também.
- - -
O sujeito
chega de noite, cansado, no lar. A patroa, tadinha, nem beija seu homem, se acostumou
que gente pobre não tem dessas frescuras românticas havendo tão só o enlevo na
fase de namoro, mas em havendo quatro meninos a pedir papá não vendo o papai
deles chegando – ela apenas
levanta a cabeça em sua direção, armada de faca, armada a
contar a traquinagem dos pequenos ou a briga das vizinhas, que foi assim e assim, sim foi engraçado, deu até polícia e
pronto-socorro, eu não falei que ia dar nisso! armada de faca cortando carne,
os enjoadinhos irão reclamar, um que tá fino outro que grosso demais, ou cru ou
dirão “manhê você salgou duas vezes o meu”. O arroz virou papa, é pra comer
assim mesmo sem chiar. E agora chega o pai, tosse, resmunga, se esborracha no
sofá, ah os meninos rasgaram outra vez a capa do sofá, se esborracha vendo o programa
esportivo, está quase na hora da novela das oito e o que homem acha de bom em
chutar bola! O marido:
Maria, não
sabe o que aconteceu. Não, não tem aumento, só de serviço no trabalho e
mandaram meu ajudante embora. Não é isso: o Campadre João (aí ela para interessada
e pergunta de olhos:) o Compadre morreu.
Parou de vez a
faca, há frituras queimando, essa menina não tem cuidado; agora mata a gente,
depois matará o marido e só está namorando ainda. Você falou que o Compadre...
Mortinho da
silva.
Foi aquele
fia... do...
Não, mulher,
caiu do caminhão!
Conta como
foi! tadinha da Comadre Zita.
Escorregou...
Narrou tim-tim por tim-tim, cada lance, deveria ter estudado e virado cronista
ou locutor, ficou apenas mecânico na fábrica, “desgraçado do patrão, um
ladrão”. Contou tudinho, parou a plateia inteira para ouvir, até a fumaça da
panela com cheiro de queimado parou a ouvir também, não deu opinião; a gente
deu, inclusive o pequeninho enfiou a colher torta na conversa adulta. E narrou
e mais narrou. Já sentados à mesa, tinha uns no sofá rasgado comendo com prato
na mão e vendo tevê mostrando uma explosão de gás doméstico na favela, ah pobre
televisão, falava a ninguém todos ouvindo papai contar a morte mastigando de
boca aberta (normalmente é assim, e como narrar direito a morte do Compadre de
boca fechada mastigando!)
Maria,
espirrou miolo pra todo lado, tinha caldinho de miolo com sangue, os cachorros
a gente tinha de tocar eles, veja que imundície! Hum a carne tá gostosa só a
batata não tem sal. Aí Maria as melecas...
Prosseguiu o
marido a todos ouvidos femininos masculinos adultos e infantis ouvirem até se
deitar, com recomendação materna “não mija na cama ou te corto o bilau” e “não
vai sonhar com o bicho papão”, coisas dessa ordem.
E se deitaram
não muito tarde que tem labuta noutro dia. Na hora de rezar três ave-marias, a
horrorosa da vizinha escarrou, parecia arrancar os bofes fora; manhãzinho a
gente tomando café com pão (ah a manteiga acabou amanhã tem que trazer mais não
vai errar a marca outra vez) aí nessa hora a porca escarra na horinha exata. Não dá nojo!
Ih fala baixo,
se os meninos ouvirem contam pra Vila, criando problema.
IX – 16ª À Procura do Endereço
Vivo
na capela
do
morto
Teimoso. Eu Escriba na escrita na
desdita me considero teimoso a me teimar Fariseu. Eu que naquela de lá, a rua
estreita esquadrejada, a quadra de cá lembra teimoso, não teimo que tenha
razão! não. Vira-me a cara, cara de gente, vamos em frente... é ali não acolá,
acolá mais ainda a avenidona. Perguntamos – eu pergunto ele teima teimoso a
mudar selar lábios que a si são beiços – indagamos. Não respondem. Bato palmas
a esclarecer, eu bato, bate pé não colabora, olha, me vê, descrê, prevê... a
embrulhada confusão contramão paixão em burrice. Minha, teima; teimo, sua. Não
acordamos nesse acordo, andamos mais chegamos menos. Aqui. Ali. Consenso!?
Lê-se (eu leio, o Fariseu é analfabeto de pai e mãe, o que pouco importa temos
milhões e milhões de, nesta colônia; na colônia em que estamos ainda é pior:
não leem mesmo, não adianta teimar. Por isso eu leio ele não lê, teimoso) vê-se
bem é a residência de Ana de Tal. Que tal? indago a ferir meu acerto no erro
dele; sorri a derrota não deglutida; depois põe a soberba no bolso do orgulho,
engulho até, e aí, abaixa a cabeça vencida, vencido. Que caso! Ah que caso! Uma
autêntica voluntária da pátria da Guerra, a nossa Guerra. A mandar (de língua
veja bem) a desmandar também. Seu Chiquinho tadinho pobrezinho de grandão,
parecia um gigante era um gigante montanha de colossão, se comprimia diante
daquela potência de língua. Pergunto: é aqui, antes de me responder: e seu
Chiquinho pranteado consorte de sua sem-sorte... é aqui que a Senhora reside?
Por que perguntar o óbvio, quem sabe a resposta não faz a pergunta, já sei, não
me responde portanto não briga mais com seu Chico e sabendo, indagar pra quê!
quanta estupidez, estupidez recolho como meu mérito não em teimosia pela
teimosia de Fariseu, sejamos honestos. Pergunto a saber sem dever, vejo bem a
placa no túmulo, Ana Língua, não língua mais o esposo, o esposo noutro agora,
quietinho para tão grande esqueleto. Olho o Fariseu. Tem razão, ó teimoso: ela
não relatará podrices da Guerra, nem ele, se acharmos. Tenho eu Escriba, tenho
razão é aqui: Alameda da Saudade número 13.
IX – 17ª Vida Conjugal
Uma briguinha
astronomicamente
perfeita
As relações no mundo são ricas, são as
alegrias são as tristezas são as lembranças são os sofrimentos a elevar pessoas
e coisas, o que redunda na História da Terra.
Entremeio são os desentendimentos a costurar
essa História e a enriquecer (ou a empobrecer?) as relações...
O Sol a Lua, aqui em ordem como manda
a ordem e o costume, embora ela queira tomar de vez em quandinho a frente a
desconsagrar o consagrado pelos séculos e milênios, amém. O Sol e a Lua.
Se casaram, quem sabe, a memória se
esqueceu, se casaram decerto na igreja verde; se constituíram esposos e se
amaram (neste ponto não se pondo em concordância na concordância que exige o
amor). E viveram, ou vivem? viveram muito felizes (xô Dona Carochinha, vai que
invente muitos filhos Soizinhos Luazinhas e – para ser moderno – Bichinhas de
ambos os sexos; verdade nisso o vocábulo ‘muito’).
De repente, puxa vida como um de repente
ajuda num texto em corda bamba! de repente vêm trovões, aí pondo a criançada
debaixo da mesa de pau vai que caia telha pois todos temem tempestade, toda
tensa e terrível, ai o corisco! A Lua temerosa olha não vê o Sol (ronca ou está
morto... viuvez credo em cruz!) o Sol se escondeu atrás das nuvens negras, tem
as Branquinhas todinhas em remelexo pro lado dele, a Lua se enciúma, agora são
as negras tensas e o safado lá atrás delas se escondendo e sobra à Lua proteger
a prole composta de Soizinhos Luazinhas Bichinhas ainda não comprometidas. O
Sol? não tá nem aí...
É sempre assim, quando é dia o Sol
canta de galo, dá as cartas, impõe, cria, exige, se envaidece; de noite se
esconde no sono nos sonhos ou atrás das sirigaitas sinistras negras ou, na pior
das hipóteses, sorrindo certamente às nuvens brancas e frívolas. A Lua acha
frívolas.
O Sol se esconde.
A Lua trabalha. Trabalha trabalha
trabalha, ilumina o lar um pouquinho. Se o esposo estivesse presente seria a claridade
suprema, a vida, agora troveja brabo. Depois molhando a casa e as coisas:
goteira e estrago. Não aguenta essa vida.
O Sol não se perturba.
A Lua trabalha. No fim anda cansada, arrasada:
por que tem de ser a fêmea e é mesmo a fêmea e o macho ao mesmo tempo!
Aí o Sol chega. Sorrindo. Durma-se com
um barulho desses – sorrindo. Arreganha esclarece põe todos em atividade, quer
que até ela trabalhe esquecido da noite em que se acabou na tarefa dela
enquanto ele com as nuvens... ah deixa pra lá.
A Lua muxoxa desagrado com o agrado de
todos. Teimosa, teima ficar em provar direitos conjugais e capacidade de trabalho. Porém quase não é vista, o Sol
ilumina tanto que ilumina por sobre o lume da Lua, a qual irritada ou desconcertada
se esconde (agora é a vez dela uai!) nas nuvens. Contudo se mostra vez por
outra numa rachadura das brancas assopradas de vento e quase não pode revelar o
rosto. Aí arregala: o Sol Brilha!
A Lua foge, desconsolada, prometendo,
não podendo conviver com o esposo, prometendo ser a dona da noite (então se
lembra das sirigaitas negras e brancas, se vinga inventando sua Mãe para sogra
do Sol). Puxa a cortina de fumaça, abre a boca sonolenta. E some.
- - -
(Neste
ponto já sei, o Fariseu está indignado; logo agora que ia o Escriba indagar se
não achou essa batalha aí em cima um tanto nebulosa para uma Guerra em
Paz, louca ao menos. Então não
perguntarei e pronto!)
IX – 18ª Imantação
de Amor
Era noite, escuro, silêncio,
o falatório da imaginação
Sexta, não tarde demais, dia 13 dá
sorte dá azar, não dá, sentam-se juntos todos dias, sendo noite, nebulosidade
semi-escuridão também ajuda; precisam estar juntos para falar as suas coisas a
perder a ganhar a eternidade. Escolhem um lugar mais consentâneo e ameno ao seu
estado, estado de alerta ele, ela um pouco indignada, tivesse não mais
existindo lábios estariam em muxoxo zangados, tivesse, mas olha o longe, perto
ele assunta seu amor ali a se remexer insatisfeita. Mudemos de túmulo, diz a
fêmea da espécie em extinção Homo sapiens, este anda frio e abandonado.
As velas não eram mais que ex-velas derretidas esparramadas adequado ao
desleixo; se levantam andam vagam olham como podem e pede ela em cansaço pararem
e se ajeitam noutro. Está bom. Ele concorda, acorda discorda dos que não a
acham encantadora, olha sua parceira, ela arreganha a caveira, mostra uns
dentes belos, um fora de lugar fora encapado em ouro os ladrões... ele ainda se
sensibiliza com a fêmea por trinta e um dentes lindos, quisera ter vinte que
fosse, em vida já postiços e agora desdentado para todo o sempre. Ela se
importa, ele tem costelas machas protuberantes, uma beleza, ela acha belas.
Voltam a se falar, interminável diálogo, ligados pelo imã do amor, falam de
suas coisas das coisas que viraram coisas, coisas boas em vida, ela mais um
pouco que seu amor, só falando menos em fevereiro que tem apenas 28, ele que acha
assim decerto por intriga da oposição. A oposição se ajeita cruza as pernas,
uma a cavalo na outra, inclina-se feminina e belamente em arco, olha por um
espelhinho de mão velho e gasto mas que lhe retribui ainda as feições, vê a
falta do trigésimo segundo dente e lamenta, ele a consola, dispersa aquela
concentração triste e pergunta outras coisinhas a distrair a esposa, ela sorri,
mesmo assim a dentadura não tem o brilho de antanho, ele faz que não vê, vê o
menino que se achega, quer carinho materno, mamãe ralha com ele, ah filho
alongado, onde se meteu! Elinho chora mostrando a caveira implorante e lamentavelmente
não há olhos e muito menos lágrimas, que fazer. Não me diga, filhote, que
estava de novo brincando com ossinhos das mãos do defunto tirado do poço ontem!
não responde a criança, abaixa a caveirinha envergonhada, quer falar serem
ossos de cobra morta porém e a consciência? Abraça o destroço da mãe, ansiando
perdão e proteção. Papai se achega também, acaricia o craninho do garoto,
faz-lhe umas caretas sem precisar esforço algum e o menino chora de rir, indo
sapear usando um fêmur por cavalinho sumindo entre avenidas dos túmulos
grã-finos cheios de santos de barro e capelas em mármore. Ficam a sós novamente.
Se abraçam se olham se apertam, de repente tem um repente a senhora:
Cadavérius, você me prometeu mudança para outra necrópole... É, responde o
marido. Me dizia – ah como os homens são falsos e mentirosos – me dizia haver
não sei onde uma todinha gramada. É, bem... Bem é... Ela: mas não cumpriu. Aqui
é gelado, fede a vela de sebo pobre, é mataria e sujeira! Estava transtornada
indignada arrasada. Ele: se quiser benzinha, dou-lhe uma coroa nova em folha.
Não respondeu. Respondeu: não. Ele – vou lhe dar um caixão com fitas roxas...
Nem ligou a dama. Ele novamente: querida, ofereço a você aquela missa de corpo
presente. Ela abanou a caveira e ficou a olhar o eterno, que por sinal começava
na mesma rua deles, num mausoléu após a sepultura do casal. Ele retoma:
amorzinho, prometo... Ela, não prometa, já sei, é a velha estória: “ali tem um
desmanche novo de carros velhos”, não, não quero. Ele, sem argumento – você é
linda! A defunta sentou-se a chorar no colo duma estátua erigida ao lado do
dístico ‘aqui jaz’, antes perdera a cabeça, o homem a ajudara achá-la no solo,
ela a encaixa levanta o rosto e nada comenta. O esposo não se contém –
“Defúntica, meu grande amor, me corta o coração!” Ela examina o que sobrou do
consorte: “mentiroso, os vermes comeram seu coração!” Alguém vivendo morto sem
sorte, os consortes decerto.
- - -
(Um
teste de coragem: será que o Fariseu não está a tremer após a Guerra haver
passado pelo Cemitério!?)
IX
– 19ª Reencontro Familial
Até que veio ao lugar,
e
tinha um desmiolado
a
atrapalhar as causas
A velha Maria andava nervosa,
alvoroçada seria melhor dizer. Mexia pra lá corria pra cá, andandinho
eletriquinha. Não obstante sequer tendo agilidade e menos ainda jovialidade.
Está configurada inclusive por velha, “a Véia” diziam os seus.
Pouco muito o suficiente. Parente às
vezes nem isso, é ultrapassante. Ela que falava assim usando a expressão – “enche
o saco” (em mulher, velha e nova, ficando melhor falar sacola). Não possuía a
língua presa e pegava pesado.
Sempre assim.
Agora não bem assim. Andava triste,
macambúzia, pessimista, adepta do menos-pior para qualquer situação ser ao
menos suportável.
Engrolava mastigante o que não podia
digerir. O caso do menino João, por exemplo.
O Menino acaba com minha vida. “Minino”
dizia ao sabor da gente do povo.
Um negócio enrolado, atrapalhada da
juventude, o neto com seus 39 anos, para a Velha um garoto. E tinha mais netos,
um que outro filho cheio de filhos, a se esquecerem de pedir a bênção, “tomá
bença”, em seu linguajar. Atrapalhadas vindas por cima dela, sendo mais grave
ainda o caso do Menino, ele seu desafeto de estimação.
Até não aguentar.
Vou chamar todos parentes a tratar do
assunto, ou estouro a cabeça! (Não usou linguagem da Academia, desconhecendo
por desconhecido nos meios populares o monstro com tal nome. Aliás apenas usa o
linguajar rico mas simples o povo da Terra de Nóis-Vai, que não dista muito
daqui do Não Sei Onde).
Todos!
Resmungou que sim mastigando sílabas
comendo por vezes frases inteiras, cuspindo sem parar, empurrando o vira-lata.
Passa Peri, vai deitar (“deitá” comia
também os erres e esses apreciando bem acentos, os quais não poria se escrevesse,
não o fazendo mesmo por analfabeta).
Lavou mais, pôs secar, antes corou no
sol, praticou emburrada mais domesticidades, porém monoideando o Menino, as
coisas do Menino.
Dona Maria!
Atendeu a vizinhança, tramelaram, lavaram
a ‘roupa suja’ sem necessidade em corar; falaram muito, pouco sobre o Menino,
tão só o que se possa exteriorizar referindo-se aos íntimos. Aos íntimos o
íntimo, o segredo de família a sete chaves. Não tinha jeito.
Vou convocar nossa gente.
Fê-lo como o faz a gente sem e-mail
e sem letras. O povão manda recado, se corresponde à sua maneira.
Compadre Belarmino, não aguento mais.
Abriu o coração. Tinha o Zé, compadre também, estavam no grupo todos irmãos
primos e tios, os pais de Maria não foram incomodados, idosos muito para sofrerem
atrapalhadas do tataraneto. Tia Zefa, irmã mais velha da Velha e mui outros
parentes de sangue, alguns tidos por “carne e osso” dizia; dialogou mesmo com
outros familiares, desses que é melhor ficar longe e se preferindo no lugar até
vizinhos e desconhecidos. O ambiente esquentou bem tratando casos melindrosos.
Bem. Bem, falou Maria, a questão
principal é essa, o João apronta, não quer casar com a infeliz, já de sete
meses um barrigão destamanho. Não trabalha, não traz nada pra casa e ainda me
leva as coisas da latinha, outro dia fui contar os níqueis! faltava bons
cobres. Não passei sequer à família esse drama, nossa família aqui é só briga:
apenas se discute e já querem morder. Por isso chamei vocês (falava “ocêis” e
abusava no uso do não num “num”).
Se olharam. Estava remexida a caixa de
abelhas, destramelaram palpitaram discutiram.
Noutro dia a Velha comunicou o
veredicto colhido na Assembleia, tendo a pachorra de enumerar quê dissera cada parente.
Todos, a filha os netos, ficaram embasbacados.
Não pelo veredicto em si ou pelo consumatum
est das coisas; só mesmo uma neta teve a desbocagem para falar:
Vó, todos eles já morreram faz tempo!
IX – 20ª
Uma do Roberto
Ela, não ela,
a outra
Era gamado nela, coitado. Não podia
mais nunca podendo ter vivido sem ela, e não era casado sequer, caso de paixão.
Paixão ‘e/ou’ vício. Chegava falava em seu silêncio, que era do tipo caladão,
sorria ao vê-la. Depois se comprazia nela, se perdia nela, vaporizava-se nela.
Aí ela, era ela não ele, ela que o transportava primeiramente em zigue-zague a
escolher os caminhos, estradas perdidas pelo faro do ser, a achar a casa a
porta a sala a dependência disponível, a cama enfim a cama, depois o sono o
sonho o acordar; e estava, então estaria já de sobejo e antemão sabendo,
molhado. E fedido. E emporcalhado. E poderia responder: mas conduzido por ela,
imposto por ela. Não adiantava trocar de marca, o efeito sendo sempre o mesmo –
o de que ela mandava nele, o Roberto. Aí é que ela vinha, paciente, amorosa.
Ela a cachaça? a mulher; a mulher que não era mulher e bonita pra valer, só
amasiada do Roberto. Os outros também vinham, vez por outra arrastando,
bêbados, o bebum e o entregavam para ela se fartar; ela os mandava embora;
muito fácil, à embriaguez a ela basta empurrar fazer cara feia, difícil a quem
tenha uma cara tão bonita. Batia pé, se iam. Era agora sua vez em limpar o homem,
trocar o homem (podendo decerto pensar trocar ‘de’, e como se o amava! ah o
amor) e ajeitar seu homem para que dormisse bem limpo; somente depoizinho se
molhava mais e mais defecava, ela atenta a limpá-lo de novo. Aí o Roberto parou
de defecar fedido, parou de mijar amoníacos e pior no melhor: parou de beber. A
polícia o matou por engano num acerto. E ela? a aguardente! não a pinga, a
amásia bonita, antes mesmo de, antes, já antes largara dele, pois aquilo era
vida! não era. Era uma batalha farisaica da vida.
IX – 21ª Em Frangalhos
eu
sou
você
você
sou
eu?
um lar que se desfaz
um coração despedaça
o lodo da memória
vômito do pensamento
uma saudade viva
num coração morto
as lágrimas silenciosas
que o silêncio cala
falam dum eu
que já não sou
sobram vestígios da família
saudades espalhadas em ilha
cercada dos horrores
da solidão
das dores
alimento dum futuro
cedo tornado passado
espezinhando o presente
IX – 22ª Presente para
Minha Mulher
Pegar no pé da
gente
é
arte. Do Capeta
Sabia, Escriba, que minha Velha é
chata? era chata. Era quando jovem. Não, não me provoque, a sua não chega aos
pés da minha. Pegava no pé. Não, não a sua, a sua, que me conste, é uma bela
mulher... Sim, concordo, a galinha do vizinho é mais gorda, em nossa espécie
queremo-la mais magra esbelta esbanjando feminilidade, uma gostosura. Sei que
era? era. Ou que eu andava surdo dos olhos e só a via, vi-me preso num belo
dia, arroz atirado à saída do templo, o que não passava de surpresa para mim
por ser ateu. Ela sabia? sabia. Depois lua de mel, as crianças nascendo e
nascendo, ela se esquecendo. Esquecendo sim. Não, não creio em ciúmes, nunca
fui seria por ciúmes de meus filhos e a ciumeira dela! me grudava: onde você
foi, tava olhando que eu vi – essas coisas. Pior em casa. Em casa a chateação,
eu daí não parava em casa, apenas variava no ‘pindura’, mudando de boteco. Em casa
não dava para ficar. Por causa da choradeira e sobrar algo pra mim? Isto
contava pouco, ou por outra: o suportável. Porque me inventava inventos mil a
me desagradar. Desagradar mais, afirmo, nos cuidados com a casa. Era casa e
mais casa, a casa o fim das coisas. Limpar brilhar tapetes remelexos mudança de
móveis, lustrar aqui lustrar ali; ali não pode pisar, já entrou com as patas
sujas o sujo. Mais que assim, assim é demais. Eu falei um dia. Um dia, outro
dia, dei-lhe um presente. Era o natalício, eu falava seus quarenta ela me
remendava trinta e cinco, trinta e quatro anos e meio. Até nisso me pegava no
pé, até nisso me azucrinava a virgem; quer dizer, não era mais nessa altura e aqui
sim sou o culpado. Andava assim a coisa. Aí dei-lhe um presente; diria, um
presente a abrandar-lhe ímpetos; a relembrar juventude? homem, não havia
pensado nestes termos mas até que cabe. Aguardou o presente prometido bem dois
meses, eu amigo das surpresas. Ah me ocorre que não tenha eu sido genuíno nem
original, me assopraram no boteco o presente, um bebum que se equilibrava, eu
me equilibrando no balcão, bem mais forte que ele. Passados os dois meses
regulamentares começou a chegar o presente da mulher: veio o pedreiro, porco
até eu reconhecia; veio o servente desajeitado mais que eu; veio a tralha de pedreiro
com suas miudezas pás enxadas colher de pedreiro talhadeira marreta mangueira
para obter nível, tudo. E material à beça: cal cimento areia pedra rejuntamento
tijolo bloco piso, piso frio. Gelada, ela entrou numa gelada! Sujeira como em
nenhum casamento com um apreciador de caninha que pudesse a esposa encontrar.
Sujou passadeira, sujou ouvidos (gritou: “vou ficar louca!”) sujou a sala sujou
a cozinha sujou o corredor, sujou o ambiente com menino à solta e até a Sheila,
que é minha cadela parideira, até ela entrava e saía como fora sua casinha de cão
circulando sem cerimônia! Tem mais? tem mais sim: fazer café, almoço com pena
do rapaz ajudante, o oficial trazia marmita ela só precisando aquecer a vasilha
para o trabalhador. Enfim tudo da bagunça, o escambau! Inclusive andei
pensando, apenas pensando, que o presente esteja presente nos cabelos brancos
da patroa. Ela agora, caro Escriba (e não vá me envergonhar escrevinhando suas
besteiras em cima de minha desdita com a mulher...) ela agora, eu lhe garanto,
ela sim admite agora ter mais de cinquenta. Bem. Eu? gaiato, lembro por dentro
o fora do presente de aniversário e aí concordo com a esposa. Não acha ser boa
política a política de concordar com a cara-metade?
IX – 23ª A Mulher...
A Mulher do Fariseu,
ele quem diz, não eu
A Mulher
Vizinha:
Segunda,
Preguiça.
Acorda.
Rosna.
Ronca.
Escarra.
Molesta.
Bronca.
Instiga.
Contesta.
Irrita.
Briga.
Enguiça.
Manda.
Desmanda.
Trabalha.
Sua.
Soa.
Grita.
Cobra,
a Cobra.
IX – 24ª
Um
Caso que não Contei ao Fariseu
Acordei criança
E
o mundo era mau
E
sangrava o grito!
Não
seja que seja pra não rir, rir do Escriba, primeiro que não se sabia escriba,
soubesse não podendo sê-lo por analfabeto; rir do Escriba? do Fariseu por não
saber do Escriba e em segundo lugar desconhecer o caso.
Desmamara e não entrara bem no mal do
bem do mundo, imaginando que todo lar, lar fosse, todo do equilíbrio da luta da
mansidão, até desconhecendo a guerrinha doméstica por não ser em casa vista,
vista sim não percebida pelo menino. Em virtude disso garoto não conta na
Guerra nem conta a Guerra. É preciso se defrontar com fariseus e filisteus
desse mundo, o mundo a conhecer para desconhecer o drama humano de engolir
sapos a fim de viver. A morte? Só existindo para se temer a inexistência a existência
da assombração de noite e aí se cobrindo a se esconder e se esquecer até do sonho
temendo o pesadelo.
Oh o pesadelo existe, sempre existiu
decerto, certamente ainda existirá enquanto perdurar nossa vulnerabilidade como
homem. E o pesadelo...
O pesadelo chegou manchando a
virgindade. Ele era açougueiro ali na rua de cima. “Querida”, provavelmente desconhecia
o tratamento e tratou por nome a esposa, vou viajar, disse. Ela, a boa
companheira sendo assim, acompanhou o marido até ao bota-fora e o deixou na plataforma
do trem, terão se acenado!? Ela voltando para casa a pular nos braços do outro,
naquelas lonjuras do tempo não era ‘namorado’, amante mesmo. Aí, o esposo que
subira por uma portinha descera pela outra o trem já se movendo, chega grita
xinga avança, a fêmea corre, antes seu macho pulara a janela. Ela corre ele
corre atrás; ela avança a rua mais acima, chega quase à minha janela de garoto,
ouço a infeliz, ainda ouço nitidamente passados sessenta anos, e de repente se
cala; ele alimpa a faca de estripar vaca desossar porco e está saciado. Ela?
não sei talvez imaginasse ir ao Céu, não garanto se existe lá algum lugar a
tanto adultério deste Planeta. Ele? o júri lavou-lhe a honra ameaçada e deve
ter ido trabalhar, dessossar as vacas, cuidar dos negócios, sumir no mundo.
Não conseguindo sumir da mente escriba.
IX – 25ª Batalha na Guerra dos Sexos
Ela chora
pequenininha depois chora
por
causa da filhinha
depois chora
ao perder a filha ao lobo no altar
Bufava. Ouvi nitidamente um não sei
quê levando uns chutes, outro não sei quê, talvez mais pesado, sofrendo uns
empurrões; e mais mais, menos, nesses casos sempre menos. E nomes feios,
horrendos calões; hoje a civilização infinitamente longe da época em que aprendemos
a falar e só depois, isso sim, só depois conseguimos xingar; ainda hoje não melhoramos
nosso padrão na arte de xingar (igualmente continuamos a chutar as coisas por
não podermos chutar as pessoas) – continuamos atingindo a mãe do desafeto. Bem.
Vamos em frente com esta atenuação: existem mil e uma palavras feias menores,
tão comuns que não tememos tapa na boca como ocorreu agora, tadinha, com a
Zizita, a qual chora sem parar como se houvesse perdido a guerra e foi só um
tabefinho na boquinha desferido pelo papaizinho o qual foi trabalharzinho, por
causa daquela linda palavra feia aprendida no parque infantil e berra e
esperneia e irrita mamãe. Esta bufa chuta empurra emburra talvez, xinga com certeza
ao marido, que o Clube da Fofoca diz não ser.
Esbravejou a vizinha, que acho bela,
eu Escriba acho, ele não acha ou tão só andava com raiva e se foi. Esbraveja
ainda, esbraveja empurra malcriadamente os trecos no corredor, lamenta e por
fim comenta comigo, umas orelhas aqui em plantão. Diz que homem é tudo
porcaria, e deverá ter razão porque mulher, mulher entende do assunto.
Enquanto, elinha berra burra ou sábia a atrair elona bela bola de neve a rolar
aumentar o volume da raiva contra os machos, os quais nos pegou em calças
curtas, tomando o exemplo nada exemplar do esposo.
O senhor sabe que aqui está cheio de
entulho, olha estas barras, o tonel ali furado, as tábuas podres cheias de
prego, eu morro de medo dos meninos se machucarem... e aquela porcaria se
foi... ainda bateu na Zita!
(Pus lá meus paninhos, não a salvar o
sexo e muito menos o consorte dela, mais sem sorte pois a secretária é mais
bonita e não exige tanto quanto aí na casa deles. Falei sabiamente à moça que a
vida é assim mesmo, uma conclusão que a Humanidade ainda não tinha expresso).
A vida! qual nada seu Escriba. Meu
marido é uma desgraceira. Fica neste corredor a badulaca (corrigi sábio ‘badulaques’
nem me ouviu continuou sua arenga:) esta badulaca bagunçando e olhe, hoje é dia
de levarem os destroços, a Prefeitura bem entendido, os daqui do bairro. Não
sabia?
(Respondi que não, outra vez nem
ouviu. Blablablou contra os machos, sem temer atingir-me, o que é a vantagem
dos velhos, e por velhos, desassexuados).
Veja seu João Escriba, isto é depósito
de – cala a boca Zita! – de baratas. Tenho um medo de baratas... Ele? nem tá
aqui.
(Mentrometi: não tá mesmo, foi trabalhar).
Foi. Foi é pras negas dele! Homem?
Quando no namoro é uma beleza. Depois? é isto aqui. A bagunça, irrita a gente,
nega as coisas e ainda bate nessa praguinha e me deixa com a cabeça ó,
destamanho!
(Falei nos defendendo: mas tem os bons
momentos...)
Qual, capaz! uma droga.
(Pichou xingou, aproveitou xingar a menina
manhosa, chutou um nunseiquezinho dos pequenos e gritou enfurecida:)
Porcaria. Por-ca-ri-a. Isso!
(Propus uma solução sábia, sábio que
sou em não me meter na vida dos casais, ou sobra pra gente. Propus que, não
podendo pôr os trecos fora para a Prefeitura levar e limpar o pedaço, então
pusesse o consorte na calçadinha, e logo, porque já ouvíamos a cachorrada na
esquina xingando os funcionários a arrastar coisas imprestáveis ao caminhão.
Punha ela ele no entulho e pronto: resolvida a situação).
É, disse a bela vizinha. Cala a boca,
sua fia... (e se xingou). É, é sim um negócio a pensar...
(Terá aceitado o alvitre? Não sei,
tive de correr a atender mais um engano telefônico. Ia exatinho propor também
que a senhora irritadiça jogasse sim seu homem e não fosse correr depois,
desesperada: me devolve meu macho, gritando e esperneando atrás do caminhão de
lixo tal qual moleque querendo pegar a rabeira, que isso é muito feio, pega mal
à mulher jovem bela casada e as vizinhas do Clube a olhar curiosidades. Não
propus, quando voltei ao meu posto de escuta ela discutia lá dentro com a
Zitinha, a qual parara de repente o choro).
IX – 26ª Um Impossível
O homem é incapaz ser mulher. Por
isso continua macho como possível
Impassível, não reage não se ofende
não mexe palha não ralha não falha falha exagera na falha e ela! tadinha. Aí
fala.
Não é possível! só acredito porque vi.
Às vezes a gente não crê mesmo vendo, que choca a normalidade porque o comum,
comum ao homem comum a ele normal. Acredita?!
Estoura dona Candinha ou Joana ou
Maria ou ‘Fariséia’ ou ‘Escribéia’, aí peço não mexer com minha cara-metade,
metade da cara já com aquelas melecas a melhorar o sabor da pele da gente
beijar quando os meninos aí pelas vizinhanças. Estoura explode para os lados da
vizinha.
O
Pedro, diz realmente “o safado do Pedro”, onde já se viu uma coisa dessas!
tomou todo leite, ele, só bebo leite não injeito uísque nem vodca... leite e
saio (eu Escriba) do meio do casal, nada tendo que xeretar nele ela fala dele:
o Pedro tomou tudinho; não por causa do leite, da mosca! Aqueles dentinhos em
serra que tem na frente, um mandou pôr incrustação em ouro que fica uma beleza
e alumia bem, bem chamando atenção da plateia. Então, bebe o leite, suga o líquido,
escorre feito criança na barriga um homão daquele, e pior, tem pior! tem
vizinha tem, suga e não engole a mosca, presa nos dentes; depois sopra a mosca
no chão, ela se estremelica toda com as asinhas molhadas e, é claro, não mais
voa; sim tem pior vizinha, pior se engolisse a mosca e pior do pior se mastigasse
o inseto – um porco!
Impossível. Agora é a Vizinha
impossibilitando.
Vai que... não seja muito homem ou que
seja e essa sirigaita... a gente mostra à fulana que ele é um pouco porcalhão
em defesa da propriedade. Propriedade essa que não anda satisfazendo a legítima
(no Padre e no Cartório) a legítima proprietária em vários sentidos.
Ah, quem será que não entende a
oposição: o homem, a mulher?
X – 27ª Parte
Mais Fraca do Leão
O poeta, a
fragilidade feminina, o
‘fortalhão’ fazendo o que ela
quer
O Leão é forte, todo mundo sabe disso,
o dono o Rei da Floresta. Parece que não conseguiram com mil páginas poéticas e
filosóficas demonstrar a fraqueza feminil, se tiver de brincar (brigar nem se
fale) brincar de brincadeirinha com a Leoa que porventura encontrar... bem,
ponho em meu lugar o Fariseu. Além do mais, na Floresta, qual bicho mais enviúva,
está na cara: o Bicho-Mulher. É portanto um forte. E tem outras fortalezas em
guarda e resguarda, resguarda bem sua memória privilegiada, a qual vomita os
vômitos que seu companheiro desconhece ou deseja esquecer. E aí brigam? É. É
verdade das verdadeiras igualmente que possui o Bicho-Mulher, um bicho lindo de
se ver, de se tocar, quando ele permite, de se amar – possui outrinha reserva de reserva chata. Eu,
Escriba, a considero chata. Seguinte. Falam os entendidos, os neurolinguistas
aqui em lembrança, eles afirmam que a nossa fêmea, a fêmea do Homo sapiens,
tem uma capacidade craniana para melhor manusear essa máquina medonha terrível
intrincada e bem confusa, a manuseá-la com formulações de sete mil palavras por
dia! enquanto nóis-zinhos, estou atraindo o chatérrimo Fariseu pro meu lado a
dividir incapacidades, nós apenas cinco mil. Terei errado no vai-um? é possível
e aí fazendo uso do direito masculino com base em nossa deficiência. Por
essinha diferença de duas mil partículas agrupadas a menos mais somos frágeis.
Tadinhos de nós! Aí está uma razão forte para Eva gritar com a gente o esquecimento
da gente; ainda usando suas duas mil a mais para nos desfeitear, vencer-nos. É
isso. Assim perdemos fácil essa guerra que só ameniza um pouco em fevereiro,
pois noutros meses... Não é justo que o justo apele à intriga ou à oposição!?
Falei. E disse.
IX – 28ª Jane,
Chita, Tarzã
No limiar da Guerra
era
a Floresta
Parece que naquele tempo a floresta era
mais amável, ao menos não tão braba e hostil como noutros tempos. Tinha onça e
leão? tinha decerto, quem sabe até dinossauro dragão e outros monstros, parece
também que mais temiam o homem que o homem a eles. Melhor, não havia homem, só o
Tarzã, sendo uma floresta imensa, o que torna o Tarzã um Tarzã destamanhinho.
Talvez fosse a opinião da Jane. Ah pobre da Jane. A Jane
se perdera na selva, seu avião quebrou-se e se espatifou tornando a área onde
caiu um cemitério de pecinhas e o queimado; ela fora espirrada antes de tocar o
solo, ejetada, não se sabe, e viveu (se não for assim não tem jeito da história
continuar, vira ela estória, como a do Chapeuzinho Vermelho e ninguém vai de sã
consciência desejar isso, nem o Fariseu). Agora, bela, robusta, escultural, miss
qualquer coisa, nota dez em mulheril, agora está andando nesses escurões
entremeio às árvores! Com medo, é claro, tadinha. Pensa cobra, já não havia
daquelas que batiam papinho com Eva, só poderia ter das que não brincam em
serviço. Bem. Tinha outros ferozes bichos? Tinha, só podia ter. E pequenos nem
se fale. Pobre Jane, é um se bater contínuo, espanta um inseto vem mil
insetos. Tinha sim borboleta, borboletas lindas e multicores. E peixe e rio a
valer, mas não sabia pescar diante da fome tamanha. Bichos médios como os
veadinhos saltitantes tinha pra valer e dava para matar a fome quanta fome
houvesse; a Jane não queria ‘viado’, ela ansiava encontrar o Tarzã –
aqueles musculões, um gigante belo (e aqui tendo grandes expectativas para Boys
em série). Agora, naquele agora o que via a se fartar de ver era Chita. Tinha
Chita para todos gostos, retesando cipós pulando árvores, dando recital de
circo, ao vivo. E a Jane apreciou bem. Tanto que escolheu a mais
inteligente da espécie, a qual passou a ser eternamente, enquanto durando é lógico,
sua companheira. Onde ia Jane ia Chita. Esta em grande esplendor na arte
da gritaria. Andaram andaram andaram mês e ano, mais de. Já vestindo a dona da
Chita uma linda tanga de pele de onça, dessas de fazer coceirinhas. Bem,
cheirava um pouco mal por mal curtido o couro, a Jane não tinha PhD
em curtumaria. A Chita se mostrava como Eva, pelada. Só que naquele tempo não
havia vergonha, somente ânsias. Jane tinha ânsias a encontrar Tarzã. E
que não demorasse demais, não fosse por exemplo ao final da fita; mesmo porque
apenas haveria na plateia para ver Jane, admirar sua plástica extraordinária,
os machos; e crianças, pois a Chita prende sempre menino nas suas cambalhotas e
nos gritos estridentes já sendo em estado normal um pouquinho escandalosa no
seu espalhafato. Aí elas encontraram o Tarzã no ‘até que enfim’. Haviam passado
por mil e um pernilongos e outros sanguessugas, se bem que eles apreciassem
mais o exemplar humano branco e belo que a peleira macaca. Então se depararam
com Tarzã em carne e osso, um colosso, embora não desse para ver aquelas alturas
de macho: estava agachado (fazendo o quê! não se sabe). A Jane, por
aquela tantada de machura, gritou feliz! a Chita gritou assustada pelo grito da
mulher, ou enciumada, antevendo que um pedaço, exatamente o maior e mais
gostoso da ama, seria do homem. O Tarzã não escutou, andava meio surdo; então
berrou, a mona berrou ainda mais que a mulher. Não adianta, disse em puríssimo
inglês de Oxford a Jane à Chita de perfeita orelha de Cambridge
– ele não é meio surdo, é inteirinho... Aí ficaram na frente daquele
Hércules para ver se via, ela fez trejeitos feminis, mostrou curvas, os seios
fartos, o cabelo esvoaçante e loiro, exalou o cio da fêmea necessitada;
enquanto isso a Chita macaqueou a dona, pulou e cambalhotou, comeu até uma
banana com a boca aberta pra irritar o sujeito e ainda ficou sorrindo sua
gargalhada com os beições. Nada. Chita, disse Jane, também é cego o
macho... Então o colosso se levantou, demorando bem uns dez minutos a conseguir,
coçou a calva, tirou e pôs a dentadura, tomou uma bengala encastuada com ouro e
diamante os quais naquele tempo sobravam e não valiam nadinha seja em libra
seja em dólar; e aí o Tarzã tentou e conseguiu andar nuns passinhos curtos
fazendo ai-ui, provando que aquela montanha de músculos falava. Então olhou
desconsolado um cipó enorme, onde os amigos da Chita brincavam de balanço.
Nesse ponto daquele tempo a Jane chorou amargurada, até soluçou, tendo a
Chita ido consolá-la. Mesmo porque por que existe Chita?
IX – 29ª Beldades, Miss essas
coisas
Arrocha mas
não
atocha,
pôxa
Já se cansava em cansar de tanto vê-la
como a velar defunto, defunta no caso, credo! Mas era duma beleza fenomenal.
Custara muitíssimo a conquista e enfim emplacara. Casou no padre no juiz, no
delegado se preciso fosse não foi preciso... Uma paixão ardente a quanta
riqueza dispunha, dispunha demais. O comum desse privilégio único; uma oferta
da natureza e da sorte. Do acaso. Foi por acaso que a viu e encontrou no
jardim, era ainda é a mais bela flor. Arregimentaria se necessário na conquista
um exército uma cidade um país, se ela exigisse. Contudo não necessitava mais
que o Adão belo rico e, mais importante, a lamber o chão por ela! Então casaram-se,
comunharam em bens e aí pôde a Bela ser ainda mais bela – cosméticos luxos
especialistas em beleza. O ótimo ao seu ótimo. Porém se cansava. Ele, o rico,
poderoso, proprietário da pérola de maior valor no mercado. Se cansava, não por
não se cansar, por ela ser bela, era cada vez mais Afrodite. Por que não
Minerva! Era isso, era disso seu cansaço: a Bela não dizia coisa com coisa;
dizia sim, e envergonhava. Não dava sequer para brigar, puxa vida! Dessas belas
que precisamos esconder não apenas por andar o terreiro cheiinho de gaviões
famintos. Aí cansou. Entregou a propriedade à concorrência desleal, cultora da
beleza a qualquer preço. E tomou emprestado a um seu mequetrefe, o qual recebeu
como prêmio o salário triplicado eneplicado, sua fiel esposa. Assinzinho magrela
e feia, é feio dizer ‘feio’ à mulher ela pode quando muito ser menos bonita.
Pintada, na pele, pintada rebocada a cosméticos baratos, dona duma vozinha
irritante, gritona – e sábia. Sabia ao menos declamar ‘batatinha quando nasce’
e citava com categoria dois livros lidos, do terceiro esquecera o nome do autor
e o título da obra igualmente. Havendo ainda ao esposo a opção de ir vez que
outra ver Afrodite afrontar Minerva. Me enerva, dizia aquele fariseu dos filisteus;
não dizendo, apenas pensando.
IX – 30ª Trialoguinho
Liguei a máquina de desentendimento,
pra
não ter culpa em cartório
Tinha a Dona, não assim um material a
ser atirado no Lixão da Prefeitura e depois reciclado ao bem do Meio Ambiente,
mas passada. Tinha Elle, Elle escrito com dois eles pois antiguinho bastante.
Tinha o Terceirão que era um mosquito assinzinho da Dengue e não falava nada no
triálogo em não ser o costumeiro ihiiiiii, mesmo assim desafinadamente.
Não se afirma Bela ela, nem Suportável
o caco; e o Inseto... que se pode dizer? dengoso, isso: dengoso.
Você, fala a Dona, já investindo
intimidades, Você precisa mulher – e mulher entende da falta de mulher após longamente
pesquisar campo macho, tendente a deserto decerto e aridez.
O macho faz sim de cabeça que é melhor
forma a dizer não quando não se tem certeza nas certezas.
Prossegue a Dona nele interessada.
Veja, viu, melhor, olhou, veja essas panelas grudando. O chão, olhou viu o
chão, o chão não é lavado faz um ano! (A diferença neste caso é a exclamação: a
fêmea vive a exclamação; o macho não põe exclamação só ponto final). A cama, ah
que horror! (e o homem ou não vê horror ou ainda economiza o sinal, sinal aqui
de economia e gramatiquice) um horror em sujeira, coisas das sobras das coisas
que sobram na falta feminina... (reticencia Dona, o bobo fica olhando feito
bobo aquela gostosura e não entende os desentendimentos). Os móveis, afirma
ela, trocaria primeiro de lugar depois trocaria os móveis de tanto arrastar os
seus velhos e fora de moda. (Aí Elle não entende, talvez no próximo ano venha a
saber; ano aqui é ano-luz).
É falta de mulher na casa, insiste
Dona, nele interessada bastantinho.
O Caco olha.
Então!? o que me diz.
Sim, sei disso. É que perdi o trem...
(Agora é Dona quem não sabe do ponto
de exclamação; não investe de interrogação, fica a olhar as reticências
propostas).
Digo, diz Elle a esclarecer, perdi.
Descasei, perdi meu amor.
Ela, impaciente, ele, Elle, ficaria
certamente milênio no ponto final, sabemos Dona admirar exclamação; ela:
Ih, rapaz, tem bilhões de mulheres! a
Você milhões ao menos...
(Elle sequer nota os três pontinhos em
Dona; contudo é necessário responder:)
Sou modesto, Dona, aceito apenas as
minhas Sete regulamentares, ficando com uma em cada dia; Sete não, Seis, descanso
domingo, Dia do Senhor.
Dona não contra-argumenta. Põe a viola
no saco junto com exclamações interrogações reticências, resmunga, vira-lhe as
costas. Mesmo assim Elle não entende; acende pita fumaceia, aí pensa que pensa,
não pensa.
IX – 31ª Descrição de Papai e Mamãe
Para brigar direito
é preciso
aprender primeiro não brigar
Só olho, sô olho. Ver o ver do sentir
do quase não dizer, a dizer. Dizer que antanho talvez não fôssemos tão belos, a
dar razão para Darwin. Papai e Mamãe, por exemplo. Pai do pai do pai e
aí afora interminavelmente, terminando no Adão e sua linda esposa senhora
madame Adão, Eva. Ele.
Ele se coça bastante, já havia muita
praga sanguessuga e suor cheirando bem. Senta-se na pedra se levanta pragueja a
preguiça e o não ter o quefazer apenas pensando, os vocábulos de praguejar não
se inventara ainda. É bonito; belíssimo, não chegando a ser lindo, a beleza extrema
seria açambarcada por Eva.
Testa curta, olhinhos perscrutadores
perdidos nos pelos, pelos pra todo lado; uma cara safada em cima dum tronco
curto arcado, peludo um pouco menos na barriga ao nível do umbigo no centro
dianteiro, tudo em cima de cambitos peludos pretos acinzentados tortos; pela traseira
o tronco em cima mostra uma entrância no meio da espinha e mais abaixo as
nádegas pequenas que só tem serventia para sentar e não sabe que é o lugar
certo de apanhar. No fim das pernas tem uns pés escarrapachados dedões abertos
não sabendo se se prende às árvores nos galhos se se planta no chão de criar
bicho de pé. Descobre de tanto pular que servem para andar, melhor correr: da
onça ou da esposa que lhe saíra das costelas em defeito.
Ela tem um pouco mais de pelo na
cabeça e os fios não são ainda louros oxigenados como determina a propaganda na
tevê; tem boca e falaria às tramelas, não falando (coisa terrível lembra
Fariseu: pois não dá para xingar o marido) não falando por não haverem
inventado a fala, ou discutiria (“eu não disse?”fala o Fariseu) discutiria a
das oito a das nove; e também fofocaria a vizinha porque a bugia não tem graça
na sua graça. Narizinho assim, boquinha sem batom mas vermelha, passa a
linguinha a umidecer os lábios de beijar primeiro a cria que o malvado peludo
preguiçoso coçador caçador eventual pôs lá dentro da barriga dela, a qual fica
lá embaixo que o rostinho apreensivo vê crescer inchar e depois mexer e não são
gases com certeza pois raiz e fruta só pufam não remexem tanto nem dão coices
lá dentrão. Penteia os pelos da barriga com as mãos, ajeitando os da cabeça
também, porque felizmente não tem pente ainda a enroscar (piolho tem e serve de
vez em quando como alimento e coça pra burro). Tem pelos escuros também nas
pernas; e quanto aos pés são como os do esposo, menores que os dele, e não tem
graça esmaltar e deveria ficar mais bonita, talvez linda. Roupa não tem, tem
pele e pelo; tem lá uma de onça que ele caçou quando corria dela, delas, e não
tinha mais árvores a subir enfrentou o bicho matou comeram a carne dando uma
espuminha na boca até se inventar assá-la; e assim a pele vira vestido, fede
sim mas fica mais bonita e se olha. Agora é Eva quem segue Adão, ou porque
gostou ser vítima arrastada pelos cabelos ou para não ser vítima da bocarra do
leão, mais feio que seu macaco feio e bem mais comedor que Adão.
Agora ela geme, vomita por baixo,
depois de tanta força as fezes choram e gritam e querem chupar aqueles peitões
lá em cima, enquanto Adão fica olhando asssustado não sabendo se de medo do
medinho que nasceu e berra, se da medona que cuspiu o medinho; ou estando assustado
por não fazer nada. Então faz. Ajuda. Ajuda limpar o resto do parto, olha
curioso aquele vagido extravagante, sai. Eva e eu e você e os outros saímos
atrás de Adão, aprendemos a dar tapa no pernilongo a correr dos demais bichos e
assim nasce a família, a qual só depois bem depois começa a se desagregar, com
muita fofoca briga e violência, a loucura
em consumação.
Porém isso não é tão belo e já não é
ontem.
IX
– 32ª Psiu! Silêncio
Em silêncio
o
silêncio que ficou
ficou o silêncio
da
saudade que chorou
a
gota
a
lágrima
o
dilúvio
que
murchou...
Chegou em casa antes do devido, devido
dispensa no trabalho, e encontra seu amor. Não esperava seu amor, mas o amor
não se encontra, encontra-se em relação com outro amor. Assustou-se. Chorou.
Como lutar com uma traição dessa!
porque, disse, porque, veja bem, fosse outra, lutava brigava chorava implorava
– o amor justifica todo e qualquer constranger.
Nestas condições atiro a toalha, rendo-me.
E fujo.
Como lutar com uma traição dessa! se
fosse outra mulher, um homem! meu próprio homem, pai delinha... não respeita a
filha?
Fujo.
Deixou o lar, deixou a cama ocupada
dele com outro, desandou.
Tivesse mãe, fugia para casa da sogra
do esposo. Mas... Ao deus-dará, a lutar e criar a menina.
Seu Escriba, não enlouqueci não sei como.
Olhei pra ela. Nunca vi uma ‘Fariséia’
tão linda, mesmo após o dilúvio, ainda sobrando uma gota a me convencer; e
condenar. Nunca tão linda.
Ou é que me encontrava há tempo sem
mulher.
IX – 33ª Amor Canibal
Lambe coça aperta mastiga
chupa
sopra caroço do osso
colosso
de moço foi moço
Naquele tempo faz muito tempo no tempo
em que os bichos falavam, os homens ainda não as mulheres sim mas ninguém
entendia, nesse tempo antes do tempo de amarrar cachorro com linguiça e depois
do faz de conta, contavam que era assim, felizmente dizem os fariseus faz é
muito tempo, no tempo em que o homem não comia a mulher o absoluto sendo o
contrário que é intriga da oposição – o macho comia o macho e não brigava com a
fêmea, ou por a Guerra não se ter declarado ou era por nenhum haver-se
declarado solenemente contra o outro contendor, já se conhecendo nesta altura
do campeonato de sobra ela que ele, ele que ela, aí não havendo consenso nem
guerra. Guerra sempre foi guerra e se comia o macho. O homem comia o homem da
outra tribo julgando mastigar a carne ingerir o poder a força do opositor,
sempre um Hércules daqueles tempos, forte e corajoso. O churrasco anda animado,
não tem disco não tem fita, a música não passa de u-us, contudo há dança em
festejo e o homem mastiga o homem, sobra? sobra um resto de banquete pra fêmea
assanhada assinzinho com vontade de comer homem, e mastigam espremem apertam
chupam o caldinho a escorrer, se era não mais, era moço, deflorado em seu
heroísmo; ao vencedor as batatas, agora não tem agora para ele, tem hora para
outro e come e joga o osso aos cães que se digladiam dentando-se em guerra, ah
a guerra. Ele olha para os lados dela, ela olha pra ele e corre e depois vem
puxada arrastada pelos cabelos e o macaco peludo suspira vitorioso, venceu,
milênios a possuir a vencer a guerra. Tem algum Escriba que aguente tanto heroísmo!
IX – 34ª Joana
Teimoso
Que é um ano a
teimar. Nada,
perto
do ano-luz
No destrincho desta guerra da Guerra
concordar-se-á com a discordância gramatical de Joana, antes o antes.
Antes ela esperara paciente o marido impaciente,
o Zé Burro, ele sim teimoso à beça. Família que espera unida permanece unida. A
dizer pelo dito ainda não dito que havia bastantinho menino, tem família em que
só dá garota a afirmar o grupo de Eva, tem as que misturam torneirinhas e xoxotinhas,
aí não se pendendo nem pros lados dela nem pros lados dele; e tem o grupo onde
só Adão canta de galo – que é o caso do Zé Burro e da Joana, esta herdeira de
Nhá Zefa que falam foi a fêmea da espécie mais teimosa que houve, porque a
Joana teimava teimava teimava, e emburrava.
Agora está ao lado da jamanta com os
moleques – menino dá trabalho dobrado e se dividirmos por dois teremos quatro
filhos, o petitico esse não conta dorme, primeiro mama, depois dorme a sono
solto os outros palpitam brincam brigam, ela emburrada já, pra não perder o costume.
Mas não por causa deles, dele.
O Zé era meio cabeça dura, ela quem
falava nestes termos com razão, enquanto ele teimava ela não ter razão. Dura,
bom profissional.
Agora era uma jamanta, dessas de
quilômetros com tantas rodas não dando a contar, as primeiras grandonas as
últimas lá no distante petiticas rodinhas. Antes, entenda-se antes bem antes do
antes, era cavalo. Seu pai, sogro dela, seus avós foram ladrões de cavalo. A
tecnologia a modernidade impõem as mudanças, isto é a civilização, as mudanças
em regra; rouba-se automóveis hoje não os animais de antanho. Começou pequeno o
Zé, Zezinho, afanando coisinhas sem valor, como brinquedo do vizinho chorão
faltando uma roda das quatro e sobrando muito “é meu” outrinho “é meu”, choros.
Depois foi evoluindo, roubou bicicletas coisas assim. Formado e apto optou como
tantos pelo carro. Porém agora – exagerou? – agora, em desafio quem sabe, fez a opção
por uma jamanta e encrencou.
Está ela emburrada, Zé Burro teimando.
A jamanta não sai do lugar, não tem
ligação que funcione pra funcionar, não funciona. Então ela desce com a prole,
ele nervoso, já fez de tudo, quase chamou acordando na madrugada o proprietário
do veículo, não quer ligar de jeito algum.
Ela fica emburrada aguentando criança
choramingas, o pequeno quer mamar mais um pouco, os outros um quer dormir outro
acordar, todos pretendem irritar primeiro mamãe emburrada depois papai teimoso
nervoso na profissão. Fica de lado no passeio público mas não se encontra
passeando, só emburrada. O Zé vai pra lá volta mexe remexe e decide, comunica a
ela, ela ouve, emburrada com a burrice macha, não fala nada só fala com a cria,
puxar orelha dum dar croque na cabeça doutro e olha aquilo.
Joana (ela quer, não diz,
falar: não grita ou acorda o dono
os vizinhos do dono e aí...) Joana a roda não roda, travada, o motor não
funciona: vamos empurrar a jamanta.
Naturalmente ela não aceita. Ele,
teima, empurra empurra geme empurra, não sai do lugar, culpa a carga valiosa
mais valiosa que o caminhão propriamente dito. Ufa, desiste.
Não desiste em roubá-lo, só de
empurrar: vê se pega no tranco um homão daqueles e uns pirralhos empurrando e
um jamantão tão teimoso pô! Não, o petitico já mamou e dormiu, esse não ajudou
papai empurrar o comboio e que adiantaria que força tem um nenê! Bem. Mal, mal
para o Zé, da família dos Burros, Teimoso por parte de pai. Vai em frente.
Entenda-se, o carro parado. Vai em
frente no desiderato: Joana – grita mais baixo o chefe da família – Joana, não
tem jeito, o jeito é desmontar tudo e montar lá diante.
Ela? desemburra pra arregalar os
olhões, os olhões que a embelezavam por baixo das sobrancelhas arcadas. Porém
nada fala, fica de boca aberta fechada olhando. Ele...
Trabalha, trabalha, desenrosca porca,
mexe parafuso, abusa da chave de fenda, enraivece mete o martelo, xinga, se
emeleca na graxa, xinga, chega perto dela a mostrar indignação ela olha a
indignação e seu homem mais indignada, recua um pouco para não se sujar com a sujeira
do macho e a possibilidade da prole se engraxar também, ele prossegue. Bate pra
lá, ajeita pra cá... horas. Sua, cansa, xinga, antes olha se não acordara o
dono da geringonça. Conseguiu, arre!
Olha o Zé Burro sua fêmea num “não
disse!” vitorioso.
Aí começa outra batalha, não é a da Guerra,
os Fariseus desta vida andam curiosos em saber, não: a batalha da guerrinha
para roubar uma jamanta com ajuda da família unida, o pequeno dorme e não
participa se não em corpo presente, os outros, ela voltando agora a emburrar-se
balança a cabeça a loucurar a loucura consumada, ainda não bem consumada, de seu
homem, teimoso.
Começa prossegue horas já quase sol a
labuta. E acaba de montar a jamanta, primeiro remontou o cavalo, nada em ver
com o cavalo-avô, chamam ‘cavalo’ motor cabine e as primeiras rodas com pneus assim,
a tração. Depois o truque, um truque de linguagem vinda de truck gringo.
Estava novinha de novo a jamanta inteira!
Subiram, se amontoaram na cabine, esta
uma jardineira com passageiros podendo relaxar dormir até, o Zé não dorme, a
curtir sua vitória. Ela, não a vitória, se chamava Joana não sei de quê, não
sei de quê trazido de sua família, que não era ladrona de cavalos (aí seria de
égua!?) e recebendo no padre o sobrenome dele, Burro. Ela olha pra ele, talvez
temerosa que os donos acordassem pois o sol já estando de pé, olha a indagar –
vamos enfim, o que falta?
Ele, mexe tenta outra vez, não pega,
xinga, teimoso, e o teimoso caminhão não funciona, apenas não se encontrando no
lugar por metros adiante do lugar novamente montado e bonito, xinga outra vez,
olha, agora é ele quem está emburrado e não fala, olha os dele, vê a cria, vê a
esposa, Joana nunseiquê Teimoso.
IX
– 35ª Maria Guilhermina
Que mais? intriga
da
oposição
Fiquei a pensar naquele dia como as
fêmeas se entendem entre elas. Já viu numa barulheira que é o vozerio feminino
quando qualquer de nós aparece de imprevisto? ou se calam calando o ambiente ou
não se calam sequer ouvindo nosso falar grosso potente macho. E aí ou a gente
sai de fininho num ‘não é comigo’, ou envergonhado, somos tidos por tímidos, não
é mesmo Fariseu?
Mas era, eu digo melhor não era, não
era a mesma coisa. Com a Maria Guilhermina não era, tenho certeza.
Porque fora muito cedo, em criança,
operada, tadinha. Não dizia coisa alguma. Muda. Isso, muda.
Todavia não deixava ser fêmea por essa
razão; sequer quis subentender tal. Muito fêmea. Bela. Duma beleza imedível;
aliás não se pode medir boniteza.
Talvez eu pensando assim pelo fato de
estar comigo toda uma vida, a vida dela, eu já adulto e servindo o governo e
ela nascera então; depois cresceu, crescendo em tamanho e beleza, também virou
adulta. E posso afirmar, vai ouvindo, me amava até à loucura! um amor puro,
desses que nem as mulheres outras entendem. A minha por exemplo.
A Matilde me pegava no pé. Por causa dela?
me indaga: sim, por causa dela. Era uma ciumeira sem tamanho. Verdade se diga –
eu também amava a Maria Guilhermina. A mulher: “serve para ser sua filha, seu
velho estúpido!” me carinhava com outras ofensas, coisa dos ciúmes próprios das
fêmeas.
Por isso tenho lá minhas razões a
afirmar que elas se entendam. A meu ver, talvez ao seu também, se entendem para
melhor se desentender.
Me pergunta – se entendiam. Não, a
Matilde não ia muito com a cara de Maria Guilhermina, sobretudo quando ganhou
os contornos adultos a ressaltar sua beleza... ah não quero nem pensar. De seu
lado a Guilhermina também com suas reservas. Aí a ciumeira, como disse, só fez
aumentar.
Matilde: Zé por que então você não
dorme com a Maria Guilhermina!
Eu: Você é ciumenta e atrevida; não
crê em meu porte moral!
Daí por diante. Discussão para o resto
da noite, beicinho pra semana, eu feito besta no sofá com um frio daqueles.
Agora, minto se disser que discutiam
ambas. Minha esposa falava até gastar a corda, aí chorava, antes me desfeiteava
desfeiteando Maria Guilhermina, que Matilde dizia a me ofender “sua amante!”
nem usando o eufemismo “namorada” que se usa hoje em dia. Com a Guilhermina não
discutia mas pela simples razão desta haver ficado muda, a operação das cordas
vocais como lhe contei. Ou seria uma tragédia lá em casa. Pois a consorte se
dizendo sem sorte pela concorrência desleal de meu amasiamento com outra.
Havia outra conotação desagradável nisso
tudo e em nossos entreveros: as crianças. Ficava mal.
Pensei muito tempo na questão. Nossas
discussões eram intermináveis, Matilde não percebia que eu ficara mudo igual a
Maria Guilhermina, ela continuava gastando a língua, me desancando. E os meninos,
é visto – olhos arregalados assustados, o pequeno inclusive abria um berreiro,
o que facultava às vezes pararmos em trégua o bate-boca, ela, eu já quieto e
vencido. Ah sim, se as crianças aceitavam Maria Guilhermina? Aceitavam. Mais o
pequenininho o qual não entendia das coisas.
Todavia o negócio era comigo. O canhão
daquela língua era voltado a me destruir. E destruiu, Você sabe que destruiu.
Tanto que após o falecimento da Guilhermina virei esta sem-gracice que me vê.
Agora, faço uma confissãozinha ao Fariseu,
não deixe chegar isso à oposição ou me senta o cacete com a língua. Seguinte. A
mulher matou a rival... ouça baixo, por favor. Terá, suponho, posto veneno no
osso da coitadinha. Nem veterinário resolveu! sim, chorei. O caçula também
chorou. Oh não tem jeito para essas coisas, tem?
IX
– 36ª
Da Surra que Apliquei na Mulher
Não me engano quando bato,
só bato quando me engano
Chover no molhado. Falar que mulher de
malandro apanha e gosta. Lugar comum, fujamos, sejamos puros, não inocentes,
puros. Porque, convenhamos, não existe inocência no miolo de um esposo que bata
na esposa.
Acho me enquadrar neste caso.
É bater – tenho necessidade em grafar
com dois tês a ser mais contundente e autêntico – é sim bater e levar o troco.
Pois não é que a megera me haja dado um tapa no rosto! Minha cara mulher bateu
em minha cara. Pode uma coisa dessa?
Houve um senão, se não dois senões.
O primeiro que não tenho bem a certeza
se me bateu primeiro. Pode inclusive ter apenas planejado ou pensado instantezinho
em me abordar tabefar-me a seguir. Não iria ficar pondo eu minhoca na cabeça,
tem gente que fica no “se” e “se” etc. e tal. Eu? não sou desses: dei a
resposta imediato, talvez antes que o imediato. Depois a gente fica com dó; porém
já foi; foi, foi e pronto, não dá para desfazer. Me indagam se a levei ao
Pronto-Socorro após o desmonte, um soco deste ih, eu dei foram vários.
O segundo ponto a tratar ligando a
essa questão, já sei e me perguntam também se sangrou quebrou sobrou ocorrência
be-ó essas coisas: os vizinhos. Bem, não me meto com vizinhos não aceito vizinhos
nas surras que dou nela, daria neles, sou violento, caso interviessem. Não, não
deu enxeridos. O mais grave desse grave foi o Lulu, o qual ladrou uma semana,
exagero: dia inteiro, por eu haver socado a mulher. Mas cachorro não conta,
pois em contrapartida, digamos que a esposa houvesse ela me batido – o Lulu
latiria contra ela da mesma forma. Contudo, como disse, disse eu a soquei. Com
respeito a quebraduras e sangrias não sou médico, minha profissão é marido.
Marido chamando nos tentos a esposa, fim de papo. E se ela, à feição da mulher
de malandro, se ela haja apreciado peço nem perguntar à vítima: tenho certeza
que não responderá, um verdadeiro túmulo. Aliás não admito que meus dependentes
critiquem meus atos e piormente levantem a voz em casa.
Portanto sou durão. Machão? bem, sou
machão.
Na outra ponte... Não não me enganei devendo
dizer noutro dia, mesmo porque estava no porre e bêbado não sabe se realmente
já é outro dia ou outra semana. Mudei de ponte, fui a um viaduto, não sei
igualmente o nome do viaduto, não tem importância. Mudei, levei os trecos nas
costas, duas matulas enormes, dentro duma pus a esposa, o que sobrou dela,
enchi-lhe a barrigada com capim, material sempre a sobrar perto de pontes no
arrabalde, costurei com barbante mesmo – ficou novinha outra vez. Boa para
outra surra. E não venham com gozação por cima de mim: faço com ela o que
desejo, inclusive bato se precisar correção.
IX – 37ª Atualização nos Diálogos
Para viver as coisas do hoje
com
desencontros do ontem
Oi mano, ótimo encontrá-lo por estas
bandas. Reencontrá-lo. Quanto tempo hein. Tem sabido de todos? Dela, mais
especificamente dela você sabe...
Não a viu mais? Lembra, falei que fora
um dia minha esposa! Esposa mesmo, papel passado padre e tudo que manda o figurino.
É namorada agora de seu colega? Não sabia, sabia estar um caco, pobre dela.
Me lembra nosso tempo... Não, nosso
não falo eu você e a turma, não, eu e ela. Disse que foi minha amante um dia?
Ah nem falo. Tudo nos conformes: cama mesa e banho; guarda-roupa. Não apreciava
seu armário, acho que foi por essa razão que larguei-a ao marido dela; um dia
chegou bêbado e tive de ficar preso lá dentro, me conhece: não gosto nem de
barata nem de naftalina. O sujeito depois que a abandonou se amasiou com aquela
que lhe foi esposa um dia... Você não aprecia lembrar, é justo. Então. Mais pra
diante me casei com ela, depois de viver com o cafajestezinho que foi seu
chefe, você também não gostava dele eu sei. Bem. Na ocasião eu andava com sua
mulher; entenda-se: com a sua atual consorte que teve a falta de sorte ter-me
por amásio e agora com a sorte grande em ter-lhe por esposo. Não é marido legalmente?
Ah apenas fica com ela; entendo.
E ela, ainda funga? Não entendeu.
Quero dizer o costume chato de assoprar na gente no café matinal. Ah sim, deveria
ser os dentes, agora tem dentadura postiça, ficou mais bonita a criatura?
Um dia, bem isso foi ela mesma quem
disse, não lhe contou quando viveram meses juntos... pois bem, ela me disse dos
dramas com o Pitecantropo. Não sabe? Ele a arrastava pelos cabelos e a levava à
caverna, o monstro; ainda mais a obrigava comer crua a carne dos rivais, o
macaco andava em ciumeiras. Verdade ser muito briguenta, não vamos pôr a culpa
apenas no homem.
Somente levou vantagem com um namorado.
Qual ora, pode chamar esposo companheiro amásio amante ou namorado, sabe agora
é namorado, o planeta está perdido de namorado. Pois é, só vantagem com um
deles.
Ela falava falava, reclamava, pichava,
estrilava, indagava, espetava – ele nada respondia; foi o matrimônio mais longo
dela, antes de mim antes de ser sua, antes. Xingava a ele à mãe dele à família,
o sujeito nada. Não reagia, não respondia, não respondia muito menos mais à
altura. Assim foram vivendo e só a deixou viúva e enterrado. Aí não falava e
nem respondia às provocações da mulher. Em vida a suportou bem. Com senãozinho:
era mudo de nascença. O que não importava, pois ela falava pelos dois.
Mano, ainda não me respondeu se tem sabido
dela.
IX – 38ª Donadão
A maçã
a serpente
as fêmeas
da gente
Apostei nela. Apostei, que a ser
mulher, eu mulherista já disse, apostando a ganhar, o mal do jogador é investir
no errado do perdedor a dar ao menos empate; empate de capital à perda. A ser,
esclareço farisaicamente, a ser mulher, porque macaca peluda cheirando a cria
criando encrenca criando criança. Não por outra razão, razão não tivesse – por
ser descendente direto dessa nobreza, por parte de Adão, veja bem, sou macho
pra valer. Sou por ela, Senhora Adão, não por ser parideira e encher o mundo
este mundão de Deus; por cuidar de seus direitos. Cuidou direito, direitinho
dos direitos – fugiu quando necessário; verdade que a oposição a encontrou acuada
e a arrastou pelos cabelos longos (nem sei por que longos, se macaca não tem
sequer cabelos, pelos, curtos ainda por cima) comeu a mãe de boca aberta em feiura
de estilo, mas que quer se Adão, se macaco, se macaco é feio! e aí... bem,
nascemos, digo, eu Escriba, “nascemos” porque o Fariseu veio dela, Dona Adão,
também. Duro reconhecer isso hein! E se defendeu aprendendo a macaca a falar,
só em fevereiro que ainda não estava inventado com menos dias, aí falava menos,
o falar mal dele, Adão, aquele macaco bruto (lembrar que sou mulherista,
feminista não, tenha paciência onde já se viu o Escriba queimando sutiã!)
querendo bater na tadinha da esposa por causa da ciumeira, tendo em vista a
macacada em volta. Defendeu-se defendendo a cria, nós, quer dizer tatataranós,
da sanha macha. Defendeu-se defendendo um macaquinho bonito, isto é: menos
horroroso que seu macaco proprietário Adão, tá certo abrindo brechas à ciumeira
primeiro e depois à traição, aí por que acho e tenho minhas dúvidas no fraterno
Fariseu. Isso tudo, não culpo mamãe, tatataramãe, não. A Serpente. A gente.
Apostei.
IX – 39ª
A Marisa que Não Vi
A
pensar, a pensar.
Que
possa não haver
Não vi, viram por mim, Fariseu. Lá no
lonjão distante. E chovia. Chovia miséria também. E chovia filhos, aí por uns
oito vivos os outros saíram de anjinhos. Sim, não chovia marido. Chovia a
cântaros, despejavam dezembro janeiro fevereiro, a água barrenta lavando-lhe o
chão lambendo as bordas da roupa malcheirosa da cama pobre, a acudir aqui, ali
a meninada, põe bacia e panelas nas goteiras, muitas, pouca comida a tantos. E
o homem da casa? fora de casa. Bebum perdido esparramado rolando nas terras
molhadas do cafezal, curtindo seu desligar. Então falou a visita – Marisa, ela
se chamava Marisa, você me dá um deles para criar... E ela chorou igualzinho a Sheila.
A Sheila só tem seis, eles brigam choram exigem mamãe; vai que pegam um,
não dá, rosna ladra enfrenta não dá; aí o homem vende e dá os filhotes, mas ela
chora. Não tia, não fala uma coisa dessa, me corta o coração. E as lágrimas se
encontram no rio da miséria com as gotas da chuva. Quem sabe não acordem o
homem, não coloquem o homem a cuidar dos rebentos. Não lhe bate o homem?! as
cicatrizes deveriam impedir a dor da pergunta, elas que são as dores acalmadas
no tempo. Não dou. Não deu. A Leoa agarra com unhas e dentes seus cachorrinhos
a Gata arranha a ameaça a Galinha avança defensora dos pintos. E a Marisa. Uma
que não vi, não se precisa enxergar para existir.
IX
– 40ª
Acarinhar o Inimigo
O faz de conta
existe virtual e
concretamente, pois mentira
da verdade
Estava, eu Escriba, espreitando o
desenrolar daquilo, depois... só depois. Ele não me deu tempo para avisar olhinhos
inocentes a caçar o que não ver, ia cassar o sujeito, como disse não me deu tempo:
correu fugiu escondeu-se atrás de não sei quê, mas dos bem galhados folhados,
agachou a desachar achou a esposa. A bem da verdade esposinha, aqui sem desejar
melindrar o amor e as carícias do amor – braba. Já avisei incautos cuidarem-se
das pequenas, que são tiriricas. Esbravejou ofendeu o esposinho, esse sim
grandalhão e fortão como manda o figurino macho, macho assim do tempo em que se
amarrava cachorro com linguiça, melhor dizendo do tempo em que se amarrava
homem com mulheres. Bem. Bem ficou elinha a azucrinar-lhe, desfeitear a
montanha de muque, estando em posição de chaleira, bule não pois só se arca um
dos braços, em chaleira são os dois e dá melhorzinho ideia da ideia raivosa da
senhora jovem bela, gostosura, e por que a porcaria não ficou com ciúmes de
mim! temo não me temam, noutra vez ponho um Fariseu daqueles belos somente a
lhe fazer inveja e aí, aí, ai, sim se defender defendendo a sua propriedade
contra invasores, ou seja defender aquela titiquinha de mulher braba quase ao
histerismo, não afirmando eu isso para não depor contra as machuras do esposo.
Encontrado, ah meu Deus! Avançou xingou, agora sou eu quem fecha orelhas com
tapume desses que uso quando o vizinho me ‘roca’ metálico altão seu rock and
rol da pesada de tremer meus bibelôs na estante, e são umas gracinhas.
Xingou cansou de, parou a respirar. Mamãe estava ali pertinho vendo sem ver de
rabo d’ólhos o noro agachado a implorar socorro, este socorro de agora, agora
em português do Brasil que não é português, sem adiantar coisa alguma. Experiente
como toda velha a sogra mãe da ‘titica de galinha’ assinzinha bravinha lindinha
vermelhinha, aproveitou-se do hiato entre um e outro xingar genros e disse,
dois pontos – que foi isso, meu Deus! (a exclamação é minha, Escriba, eu que a acresci;
não sei como essa gente fala emociona admira e ofende o ofendido, não usa ponto
de exclamação. Volto pra escola a desaprender gramática). Mamãe, falou aquela
ofensora de pobres maridos (maridos de todo mundo uni-vos!) mãe, esse filho
da... (xingou bonito a sogra, sim tem desses lances a Velha não aceita a Jovem
a Jovem a pichar a Velha, não tem?) me trouxe isto – aí mostrou um lenço
branco, discutivelmente branco, e então depôs a prova do crime contra si mesma,
por que não pôs ‘pó mais branco’ com cheirante de novo perfume, não é de minha
conta – isto aqui e olhe a indecência. Então a vítima descoberta em sua
montanha de músculos e pelos se levantou e disse à sogra, minha querida mãe (a
mãe dela lhe dá apartezinho “não me venha com essa não seu...”aí xingou o xingo
que ensinara à filha não dizer que a filha desaprendeu otimamente) ela está
nervosa somente por isso... isto, mostrou a ex-donzela agora Senhora Montanha
de Carne e Pelos, isto vermelho. Mamãe: isso é batom e pronto. Elinha: batom de
minha maior rival! Aproveitou a rexingar o filho da sogra e a sogra, a ofender
o filho dela. Simplesmente por isso? isto digo eu Escriba, pois, que fosse
Fariseu, jogava fora o lenço discutivelmente branco com mancha de batom e
comprava outro mais limpo e ainda não encardido; e por tabela eliminaria a
prova do crime, se crime. Tanto espalhafato pra quê, falei. Quer dizer, não
falei nestes termos ou sobrava pra mim, uma tantadinha daquela, boa sim, e
braba pra cachorro! não disse, olhei. Olhei o caretão de sujeito pegar a
caretinha, jogar como um fardo leve de lenha nos ombros – lá se foi aquela
gostosura esperneando, enquanto a sogra do montanha indaga à visita espantada como
eu “eu falava o que mesmo...” Aí o Fariseu me pergunta e depois? sei eu por
acaso que fizeram depois, vivo a entrar nas intimidades do quarto conjugal! ah,
‘depois’!? Aí desliguei o televisor, a programação, uma baixaria sem tamanho;
me indagam a razão em manter tanto ligado – como um livro para você saber que é
mesmo ruim terá de lê-lo concluindo: isto não se deve ler; também, como
descobrir o dramalhão a baixaria?!
IX
– 41ª O Violino sem Arco
A
oposição é um
bem para
justificar
os erros da situação
Agora era quinta-feira, não aprecio as
quintas, agora era Sr... Fariseu? Fariseu, quinta-feira. Ela roncava. Já sei o
que diria na sexta manhãzinho “seu bruto, serrote! não me deixou dormir”.
Sempre assim, vida todinha de casados, com menos a lua de mel e os primeiros
dias, aí eu ela nós não nos ofendíamos. Depois acrescemos o vai-um e só foi
pena que voou, aí veio a menina de olhos azuis, agora não se vê dorme, azuis,
amenizou um pouco; me pegava no pé, volto do serviço ela a falar a falar, ia
com os amigos ao bar a fim de aumentar o ‘pindura’ e aí brigava com a gente
pelo ‘pindura’ pelo bar pelos amigos, brigava mais ainda pelo roncar. Nesse
ponto ele chegou.
Fininho fininho a cantar pra nós. Pra
mim, ela dormia e roncava. Estou vendo sentindo ouvindo constatando de olhos
arregalados só para vê-la deitada de lado me dando as costas, orelhas assim
ligadas ouvindo, ouvindo seu ronco. “Você roncou noite inteira não me deixando
pregar olhos!” Eu a contestar; ela: “só não acordou a menina porque criança tem
sono de pedra”. Olhávamos os olhos azuis da garota. Foi assim, Sr.Escriba? ah
desculpe, Sr.Fariseu.
Agora, em novo agora, ele, o
pernilongo, chegou como não quisesse nada; nada disso, chegou foi trombeteando
seu instrumental, que na verdade é o violino. Reinou reinou a me fazer
serenata. Insisto no ‘me’ ela roncava a pôr-me culpa por não deixá-la dormir
direito, vê se pode! Cantou fininho voou-me aqui na orelha de escutar a esposa
roncar, dei-lhe um tapa e me acertei não sabendo ter tanta força, fugiu;
retomei o dormir! capaz, só o tentar, tentar sim: ela de lado a roncar ele de
lado a gemer seu arco, em verdade não via arco algum via violino, ouvia seu
finar miúdo. Foi Sr... bem assim noite toda até cansei.
Foi bem desse jeito como falei. Aqui
inicio outro agora.
Agora estou em fase de vingança!
Sim, sou terrível, implacável,
cobrador.
Armei meu esquema completo. Comprei
arma. Se bem que tenha sido um mal, mal pensei: dever-me-ia dedicar à tortura
sobre ele. Por exemplo ocorreu-me adquirir não um violino igualzinho, uma
rabeca primitiva e tosca; então reinar grasnar seus ouvidos com uma ária
regional. Sim, acho que mereceria um pernilongo daqueles; dizem serem as fêmeas
que nos chupam o sangue e é uma atenuante, poderíamos ter mais boa vontade com
elinha, não mereceria a pobre. Mereceria um violino afinado e um virtuose, eu, a
tocar seu funeral! absurdo, loucura; até nisso me chocaria com a esposa a me
lembrar outras atitudes impensadas minhas para insultar-me (ah tem muito ‘me’
na frase? ora, ‘mé’ pro Fariseu) e... deixa
pra lá, o fato é que optei não à tortura: à morte violenta rápida consumada
consumindo o pernilongo!
Comprei arma sim, vai ouvindo
Sr.Fariseu... oh desculpe, Escriba, não? ah sim é mesmo, Fariseu.
Adquiri um revólver. Como usaria um
recurso de compressão-redutiva, invento
dum primo da esposa, essa que fugira a
me dizer chorando “vou para a casa de mamãe”, tudo bem mas levar-me olhinhos
azuis! Pelo princípio poderia diminuir assinzinho até de um lançador de míssil
da NASA a um simples estilingue. Bem. Submeti a arma, um 38 passou para
22, mais ainda no menos: virou um revolvinho assinzito de microscópico
(inclusive fiquei com pena em usá-lo a assassinar, pois ficava bem em minha
coleção em pôr no porta-bibelôs da sala). Municiei a arma. Me pus a caçar a
caça, cassar seus direitos à vida ao canto para insoniar-me o ser e brigar com
ela para que pudesse brigar comigo. Cacei cacei cocei a orelha a ouvir melhor e
ao ouvir o fininho tocar seu instrumento, zás!
Peguei o bicho, Sr.Filisteu, digo
Escriba, ah perdão, a gente não dorme e a memória... Sr.Fariseu, peguei finalmente
a vítima.
Quer dizer, vítima mesmo consagrada
configurada de verdade, eu; ele vítima no sentido em que seria cadáver, morta
por estas mãos. Bem. Apontei.
Aí o inseto tremeu nas bases. Olhei-o
firme no propósito, em meu intento. Ele? levantou os bracinhos, as patinhas
direi a ela para não me pegar no pé, as patinhas, fiz clique armando o gatilho,
tinha seis balas, mirei, fechei este olho negro aqui, negro avermelhado de
tanto não dormir no ronco dela e no violino dele; quando ia disparar...
Não Sr... é Fariseu não é! vê, estou
guardando até bem o som, não falou assim o caretinha, disse “help”, eu:
não entendo inglês, nesta casa não se gringa! ele então: “socorro! piedade!
clemência!” Afinou. Porque na hora do vamos ver... Ajeitei melhor o revólver a
fazer sofrer minha vítima, o pernilongo. Olhamo-nos, eu decidido, ele
implorante e pasme Sr... uma lágrima rolou-lhe dos olhos, azuis não, a filha os
tem, os dele cor de burro quando foge. Eu estava realmente decidido, nem que a
mulher parasse de roncar, nem que voltasse, aí teria mesmo ido embora, nem
isso, nada me demoveria em minha frieza assassina. Apertei o indicador, disparei
três vezes!
A primeira passou perto, furou a
parede tão somente e aí já pensando na bronca da esposa e me lembrando agora
solitário e não importando o buraco no reboco oco do furo.
O segundo tiro foi mais certeiro e
errei pouco, arrancou-lhe um dos braços levantados ainda. Tanto assim que ao
erguer outra vez os bracinhos, patinhas se se quiser, só conseguiu elevar a
direita à minha esquerda, a esquerda à minha direita se esfacelara completamente!
O terceiro foi o quarto. Explico
Escriba Fariseu Filisteu essas coisas, explico, o terceiro tiro falhou não
saiu. O quarto que virou terceiro aí acertei o para-defunto, morreu! Sangrou,
sangrou meu próprio sangue que chupara rindo seu violino! Lógico, economizei
duas balas, estão na arma que escondi e a polícia achará, a balística confirmará
para os autos. Ato contínuo pensei.
Havia a possibilidade em esconder o
corpo, não é assim que se faz a fazer certo? Oh, teria fatalmente que voltar ao
local do crime etc. e tal, tal desisti, deixei o cadáver jazendo ao chão junto
do pé de minha cama, agora vazia que ela me deixara, ficara bem no chão no encontro
com a parede.
Fui tratar das questões pertinentes ao
funeral ao velório ao necrológio em jornal chamar parentes e amigos. A esposa
não chamaria mesmo, iria ficar chorandinho com lenço toda hora a mostrar
serviço pois sentimental, eu que sou frio e calculista. Ainda por cima e se me
inventasse a ex-esposa trazer a menina, aqueles olhos azuis em lágrimas. Não
não chamei a consorte do sem sorte aqui, assassino se se quiser dizer, mas sem
sorte.
Arranjei carpideiras a lastimar o
morto, arregimentei bêbados desconhecidos (acha que deveria alardear entre amigos
e conhecidos haver um morto e um assassino!) dei-lhes café e logicamente
cachaça, contei a do português e a do papagaio a passar a noite, iriam ficar a
cheirar rosas do defunto pernilongo! Animei o convívio do falecido.
Aí enterramos o corpo em pompas e com
honras, militares não, a vítima fora músico violinista talvez exímio e virtuose,
andava longe de soldados não chegara nem a fazer o tiro de guerra e não
merecendo esse tipo de homenagem. Mandei pôr laje na campa do campo santo, pus
cruz, vai que fosse cristão. Nome no ‘aqui jaz’ não pude pôr por não haver
descoberto o registro civil do pernilongo. Poria.
E – caro Sr. parece que é Fariseu!? –
caro Sr. fiquei, estou até hoje, aguardando a exumação o encontro da arma o
processo e a ordem policial; aguardando quem sabe a volta dela, que decerto já
descobriu quem é que ronca; aguardando meus olhos azuis, péra lá o vizinho é
quem tinha olhos azuis... não isso não importa agora; aguardando que não venha
outro cantor com outro violino: faria tudinho outra vez e, confessemos, é
desgastante, é de tirar o sono.
IX – 42ª Enlace
em Desenlace
No limiar da
loucura.
Mas
já é a loucura...
Chegou o fariseuzinho assim assim.
Não, não tão assim, mais que assim, ela que era baixinha, forte mas de pequena
estatura, dessa forma seu homem parecendo um gigante e aí chegou. Até já
pensando ir pros quintos, o que é bom lugar. Poderia se tornar profissional
nessa infelicidade! o que é em primeira abordagem um mau negócio.
Porque veja bem, já tendo grande experiência
com a primeira depois com a segunda e a quarta, a terceira não contando por
durar o experimento tão só duas semanas das curtas, às vezes se acaba na lua de
mel a coisa, no caso um matrimônio de grande duração se estendendo por quinze,
quatorze dias. Contudo era um homem de grande conhecimento na matéria, não
entendia mulher porém tendo enorme conhecimento em brigar com mulher. Usava aos
íntimos, os de seu lado, dizer que ela brigara consigo. Como é verdade aos de
fora que são de dentro por intimidade saber a intimidade do casal... nunca se
pode apurar.
Agora brigaram. Se ofenderam. Não
disseram aquele nome, talvez desconhecessem, não disseram, educados, se ofenderam
ofendendo-se; tem mil maneiras a ofender outrem, o dos quintos era muito
versátil e sua ofensa atingindo uma amplitude imensa. Até para ensinar Elinha,
com estatura pequena e língua grandalhona.
Não importa, importa que já não se
entendiam, ela precisando pensar em seu segundo esposo; ele já se disse imaginando
os quintos.
Brigaram. As dívidas as dúvidas devidas
e indevidas vieram à baila, alegrou bastante a argumentação conjugal, desconjugando
a contento. Até ao ponto que se sabe o ótimo no desentender para se entender
numa boa e fazer as malas.
Aí, numa linda tirada, lembrou-se o
gigantinho duma norma no antigamente: a mulher, chorando, dizia ao seu homem –
está tudo acabado entre nós, vou para casa da mamãe!
Chegou o fariseuzinho de malas em casa
de mamãe; malas televisão roupas quadros máquina de escrever quebrada e outros
trecos. Todavia não chorava pensando já os quintos, a mãe é quem chorava. Ah
essas mulheres.
IX
– 43ª Ode à Mortandela
Tem um cheiro matuto
nessa
briga
Aqui neste espaço do espaço ocupo,
ocupo agora o espaço da mortandela; o caipira fala assim “mortandela” e não
muda as coisas somente a mudar minha situação. Porque veja bem, estou incômodo
entre duas fetas (isto igualmente caipirês) duas fatias macias dias comprado o
pão muxibando, do sanduíche. O matuto come o pão com mortadela num prazer
imenso imensa a fome na beira ou da estrada ou do barranco pescando, neste caso
engolindo a gosma com guaraná pra fazer mais gosma.
Chega de ode à mortadela cheirosa seu
alho espantando em volta e o caboclo não consegue esconder a comida mesmo bem
escondida nas compras que trouxe da cidade, chega sim de ode.
Agora, neste agora, sou a mortadela a
viver meu estertor do viver no domingo. Qual? ora, após aquele sábado que foi
ontem, não dizendo um dia antes da segunda de amanhã não sei se terá, decerto
que sim, se terei. Agora almoço.
Almoçar é banal! mas não como eu como.
Como? mortadela entre duas fetas em
briga linda esplendorosa na Guerra.
Do lado de lá tenho uns vizinhos que
bem se desentendem bem, já foi pior: se gritavam os cônjuges, um dia o mais
forte bateu no mais fraco (não direi qual o mais nem o qual venceu, por maldade
minha, Escriba) os meninos interferiram com sua arma a apaziguar os pais, a do
choro; agora só brigam de língua, viraram evangélicos, ele deixou o tabaco e
grita baixo ela alto e se entendem na briga. Não sei por que cargas d’água se
farpeiam a enfeitar meu almoço.
Não como mortadela. Arroz e feijão
beterraba e peixe, mortadela não. Sou a mortadela (comesse agora mortadela
estaria na autofagia comendo-me; e teria sim um mau gosto espantoso, devo ser
duro de roer).
Do lado de cá é o caos, ferve neste
calor já a ferver a gente, a fritar a assar. Prefiro assar. Eles preferem
brigar. Fazem almoço pra sair bem tarde e aproveitam brigar e também brigam por
isso; aí todo mundo fala e, curioso, todo mundo tem razão. Os filhos,
adolescentes e brigo se disserem não ser ‘aborrecentes’ – eles interferem
também, mas ao contrário dos guris do
lado de lá, os do lado de cá interferem pra pôr mais lenha na fogueira dos
pais. E se discute bem, o casal deve ter começado a coisa na cama ou por isso
mesmo, não advogo ter direito a entrar nas intimidades alheias, e acabarão resolvendo
o impasse, ao menos o de hoje, o de sempre ficará pra depois, acabarão em achar
solução na cama, isso não aliviando: a vida é um círculo vicioso também.
Não. Nego-me a transmitir as ofensas
de lado a lado, do lado de cá e do lado de lá que já tratei, não obstante os
Fariseus estarem famintos por fofoca suculenta. Não seriam capazes a imaginarem
as ofensas! Nego-me.
Porque não se dá direito a nenhuma
mortadela dedar as fatias de pão dum sustancioso sanduíche.
IX – 44ª Ela Entre Duas Flores
O
homem é um ser reclamento. Se lhe
satisfizerem reclamará não ter de quê
Parece que existe uma prevenção contra
‘Fariséia’ baixinha. Mas se a pessoa é pequena, se não cresceu, cresceu apenas
em belezura e não em outros setores do ser, o que se vai fazer: distorcer a
verdade! Ser pela verdade do Ser, este o lema aqui. Verdade que exageramos, e
por que o exagero não pode ser verdade! Paremos com filosofias. O texto pede é
poesias. Ficam de fora a Filosofia a Ciência a Moral, esta costuma dificultar
demais as belas criações literárias. Portanto finquemos pé na Poesia e na
Literatura a melhorar o padrão dela. Ela? belíssima, ah, um pouco faladeira
reclamadora lamurienta, escondeu o ouro ao bandido enquanto moça (ou não
casava, mesmo que fosse com um deles, os gêmeos); mostrou essa face já os papéis
passados e filharada, filharada se considerarmos três bastante; aí dava porém
não dava para devolver. Porém havia um mérito nela, nesta Joaquina, o Fariseu
pensando Maria. Qual? ela nunca bateu no marido; quem sabe por não descobrir
qual era o verdadeiro, nós que estamos a defender a verdade do ser passamos neste
ponto por embaraço, melhor até pular esta parte. Prossigamos. Aí, antes lógico
de parir o trio uma garota e dois meninos, conheceu o futuro marido. Namoraram
noivaram entremeio fizeram o que fizeram e fizeram bem e casaram e fizeram mal.
Começaram a brigar, donde se deduz ser o casamento um criador de desequilíbrio.
Já sabemos, irão contar mil casos de pessoas que se dão lindamente se casam e
têm de se descasar por estarem feiamente em comportamento. Briga desentender
desinteligência, apelo e grosseria até. Não obstante não se separaram mesmo
porque ela não saberia de quem se divorciar; aí aguentou; tendo mais um
fatorzinho impeditivo que era o padre. Ele disse pra ela, aos dois e se se
quiser aos três, “até que a morte os separe”. A Joaquina cumpriu à risca o
mandamento e assim a briga conjugal se prolongou até... poderia neste ponto
dizer “até à morte de José e a viuvez de Joaquina” não podemos fazer tal
afirmativa ver-se-á por quê. Acontece, aconteceu, que poderia o morto ser João.
Este e José eram cara de um focinho do outro, não tem essa expressão popular?
Então. Desde o namoro o noivado e o início do casório a pobre não descobriu
quem era quem; a muito custo soube que o esposo tinha um irmão gêmeo autêntico,
ou gêmeo idêntico bem pouco fraterno por ser demais fraterno; nessa altura já
passara o vexame não tinha jeito. Indagam: e o DNA! Não tinha exame naqueles
dias e tivesse quem garante um resultado comprobatório no caso gêmeo, não fica
sempre a dúvida? Enfim aqui não cabe Ciência, garantimos, nem Moral, por não
ser possível na confusão do trio, agora se falando não serem a garota e os dois
meninos: a mãe da garota e dos dois meninos e o presumível pai deles, não se
aventando nunca um vizinho sacana pois Joaquina era dos velhos tempos em que
desconheciam adultério (e esse fato só pode ser antes de existir ‘fato’). Ainda
assim, seria o trio menino da paternidade de José ou de João? flores, advindas
da família ‘Flor que não se cheira’, quatrocentona e tudo o mais. Se a mãe –
não sendo por ser pequenina grande em boniteza e briguenta com quem estivesse de plantão no
matrimônio – se a mãe, se ela desconhecia por não conhecer ao certo qual seu
homem, se nessas condições, como poderiam as crianças saber. Por via das dúvidas
tomavam a bênção “a bênça pai” ao pai José e ao tio João ou ao pai João e ao
tio Zé. Aí surge uma questão séria. Seguinte. Joaquina, vixe ficou feia
desgastada enrugada, sem perder a rabugice dos primeiros tempos brigando, sem
ter batido no esposo nunca embora; mas tendo desses negativos em sua folha de
serviço, passou à Segundona, a primeira virou a empregada bonita que ela mesma
arranjou no mercado das domésticas. A nova Bonita igualmente ficou confusa,
nunca descobriu qual foi o engraçadinho... porque tinha à disposição dois
velhotes gêmeos bem malandros. Dessa forma a Joaquina, muito embora não os
deixando e o faria sem saber a quem abandonar, permaneceu no cargo em
cumprimento do contrato. Porém não deixou ser reclamante. No final das contas
com razão de sobra.
IX – 45ª A Briga Desbrigada
A beleza pode
ser tão só um reflexo
da
necessidade de quem a vê
Ela, a Márcia, não era bela, era
linda. Não não caro Fariseu, não chega a um contrassenso, nem uma ‘pequena’ confusão
de minha parte. Considero a confusão seja una, não existindo peso a ela do tipo
“seu Manoel, me pesa um quilo de confusão”. As pequenas desaparecem em meio à
confusão geral das coisas, as médias ficam perdidas no meio do caminho entre
extremos confusos, só a grande pode aparecer, produzir frutos, portanto desproduzir.
E aqui volto à confusão que gerou a confusão referente à Márcia. Por que teria
a amiga, sou seu amigo veja bem, por que teria a amiga de não ser bela mas
linda. Bem. Ela é um canhão desses enferrujados que se põe nas praças públicas
para turista ter um fundo a posar à posteridade num clique de máquina fotográfica?
Não. Quer dizer, faz tempo que não a vejo, engordou envelhou, é possível; deve
ainda sorrir gostoso e do seu íntimo os olhos exportar uma beleza intraduzível,
que traduzi em linguagem coloquial por linda; penso, talvez que um outro tradutor
dê diversa expressão (e aqui chamo
atenção ao perigo que a sociedade corre por causa das traduções literárias por
exemplo, nunca o original e o puro do toque criador). Onde, me indaga, onde, em
que situação, enfim quando demonstrou essa beleza sua amiga! Fácil responder –
sempre, em tempo lugar e atitude. É neste sempre que reside a grandeza humana.
Tudo bem. Um dia a Márcia me decepcionou. A gente a pensar: não seria este despropósito
a acertar a regra, pois que não existe regra sem exceção. Não importa, importa
ter-me decepcionado. Ela mesma diria: Binha (isto vem de Escribinha, os íntimos
podem manusear à vontade nossos apelidos e ainda rimos gostoso da criação)
Binha, meu santo (isto agora abusinho dela) eu estou mal com o Toninho! Claro
despencou a chorar. Começou a amiga a brigar com o Toninho? Não é bem o caso,
nem os íntimos podem xeretar o íntimo dos íntimos, ela e ele; ele menos por não
se simpatizar comigo. Nem começou, como bom casal, normal, comum ao menos, já
se pegavam no pé nas pequenas grandes coisas, que o futuro transforma em
grandes pequenas coisas, na inversão que dá aversão analisar por isso paro.
Continuo a relatar a Márcia e a minha decepção com a Márcia, gente linda tem
obrigação de não brigar feio. Contudo brigou, que fazer! me contou chorosa não
dar mais, pus panos quentes, em bom exercício que aprendi com mamãe, a qual
procurava explicar e justificar entreveros dos outros se esquecendo dos dela com
papai, isto sendo outra coisa da mesma coisa.
Porque a Márcia ela mostrou-me os reflexos de suas sentidas lágrimas, e
agora as meninas! falou assim. Consolei-a, sem saber a profundidade da
confusão, esta das baitas em grande tantada: o Toninho estava flagrantemente
traindo a amiga. Não confunda: ele não traía a amante para ficar com a esposa,
deu pra entender? Traía a Márcia. Bem, o que fazer. Aí eu não sabia – Você
saberia, Fariseu? – não sabia o que responder. Foi então que se separaram, ele
foi com a outra mais nova mais bela, a linda a chupar o dedo e aí expulsando o
Toninho de casa. Um ano dois cinco anos enfim. Volta o filho pródigo, chora pra
Márcia chora pras filhas verem seu sentimento, entram em acordo, se amigam, a
Márcia começou a trair a amante do Ex-Marido. Fez mais, depois me contou,
sorridente. Binha, meu santo, Binha de uma figa (vê se isso é jeito de tratar
um amigo!) vou lhe contar um segredo: vou me casar outra vez! Imaginei
prontamente uma lista enorme de rapazes disponíveis – descasados amigados desquitados
ajuntados, não acertei. É um divorciado... ah, abri a boca espantado, sou do
tipo que não sabe apreciar à altura um segredo; aí não aguentei. Quem? conheço
o tal? bom partido? essas coisas. Me tapa a boca falante através de minha orelha
escutante – o Toninho! Ué uai puxa vixe! Não senhor, Binha, não se espante não,
vou casar com o meu ex-esposo. Somos divorciados, não há impedimento legal.
Olha, Fariseu, é o segundo caso que conheço de recasamento, pois uma escritora
gaúcha casou-se com seu ‘ex’. O caso da Márcia entretanto, por minha
proximidade, é o melhor. Pior somente por me convidar para padrinho, eu tão
desajeitado e fuginte das festas. Além do mais, quê que acha deverei comprar
como presente de núpcias?
IX- 46ª
Instrumental da Guerra
O drama do homem comum
pode banalizar o absurdo
A diminuir talvez as culpas humanas
põe-se as culpas nas coisas. A Rabeca deve ser a materna avó matuta do Violino,
que é filho fino da senhora Viola, a qual vez por outra se conflita com o pai
do menino, o raspador de goela Violoncelo, este tendo pelo lado paterno o
Contra Baixo; baixo?! intriga da oposição. Matutando que o homem comum usa mais
instrumentos também comuns para ganhar sua própria guerra, usou a caneca. Fosse
ao menos a de alumínio bate fere enche amassa prejuíza enfeia e fica antes,
quase, como no castelo de abrantes. Não. Tomou a caneca de louça, dessas grosseiras
sem pedigri e sem Boêmia, adquirida no um e noventa e nove ou outra das lojas
baratinhas, tomou essa que era meu exemplar de engolir sopinha de pão com leite
pouco açúcar e muito café, me pegando no pé “parece porco pedro puxa para” eu
não parava; sem me lembrar agora o que fazia a dever parar. Aí brigou comigo,
tinha o Pedro Malasartes quando era moleque e ele falava na escola “cunhêu”
brigou cunheu, aí não perdoava, ela não me perdoaria, razão em argumento para
me fustigar os errados dos errados que sempre acerto falando. Porém não foi por
isso. Foi por outra mais importante razão, não importando, já esqueci mesmo,
não se esqueceu, então não aguentei tenho pavio curto dei-lhe um sopapo, mas
foi o primeiro. E único. Me deixou, deixou a porta aberta escancarada, eu com
ciúmes dos outros escribas. Perdão fariseus desta vila em periferia, perdão
pois não sei bem se por isso ou outra razão das razões que acumularam que ela
se foi. Não explico, explique Freud que é de seu métier e ganha
rios a explicar, explicar desejo somente em esclarecimento ter sido antes que
me quebrou a caneca grossa de louça de minha estimação, atirou-a, provo por a+b,
atirou atirando a pobre no teto, manchou em cima estilhaçou em baixo, eu limpei
solitário o chão grudando leite açúcar pouquinho café bastantão, nem o nacos de
pão dando a reaproveitar. Precisei comprar outra à sopa. Não das de alumínio,
dizem que faz mal à saúde, saúde que perdi, perdendo a companheira, talvez se
ganhe mais perdendo em língua. É, talvez em língua.
IX-47ª Machismos, Feminismos
O macho não tem medo da fêmea,
tem
de si mesmo por causa dela;
que
ela venha saber do temor
Num belo dia em que o planeta andava
parado na loucura, então os jovens gritavam surdos a tremer o chão na música
metálica; e as gerações se desaforavam; e os políticos do lugar paravam no
andar corruptos; surdos metálicos delicadezando até a corrupção, mesmo a
mãezinha gritona aos terríveis filhotes estacava lá nos fundos vizinhos a
respirar; nesse hiato embrabou o Parafuso. Por causa de si mesmo?
Naturalmente que não. A Porca, sua
pranteada companheira andava ela parando nas suas sujeiras. E isso era, continua
a ser, inadmissível. Ele que sim. Ela, ouvisse, que não, a femininizar dizendo
‘talvez’ que é a mesma coisa.
Percebeu o Sr., Doutor aos íntimos,
Sr.Parafuso que ela parecia espanada. Espanada! mas isso é grave. Quem sabe não
tanto.
A oposição a afirmar que seu esposo o
espanado; por velho por abuso no uso por uso no desuso? quem poderia responder.
O fato é que não entrava mais. Não
entronizava jamais, ele a se envergonhar; ou não: a envergonhá-la a pensar
(isso não se comunica, é faca de dois gumes, volta-se contra as fraquezas e
insuficiências da acusação. Aí é manter o papel e ficar a pensar pensando que a
oposição possa por sua vez pensar quê se pensa. E se ofendendo da mesma forma:
-- seria melhor dizer-se quê se dizer).
Todavia... a estória poderia
prolongar-se ir bem longe. Entrar ferramentas?
O Parafuso enciumado, quem é essa tal
de Chave Fixa? é a de Boca! Uma Chave de Fenda não cabe aqui; Chave Inglesa
talvez, onde os britânicos não se metem!? E o Sr. Parafuso parafusando minhocas
na cabeça supondo quem sabe lesbianismos mais. Não. Paremos.
Entrando ainda no ‘pode ser’ do
manuseio. Como fizeram para fazer, ou por outra: para não conseguir fazer; e no
final espanar a rosca, tadinha...
Da Rosca?
Da Porca.“Porca miséria” diria o Nonno.
Daí o esposo não tem contemplação, não suporta sequer um melindrezinho. Assim
não dá.
Dá, nem se sabe para que servem
Manuseios e Ferramentas. O leigo não sabe, pensa que apenas serve para nada,
talvez a fim de ser taxados agradando o Governo. Os especialistas sabem, é da
profissão.
Sabia com certeza, estava espanada.
Ela sabia pensava saber espanado.
Contudo e aí?
Aí que: espanada ou espanado ou espanados
a nada servindo. Serve ao desmanche, serve a derreter, serve ao reciclo e...
Bem, voltando, metalurgizado, tudo de
novo em folha como antes da Guerra para a Guerra de Abrantes.
IX – 48ª No Tempo em Que os
Bichos Falavam
O Papagaio destronando o Leão na
retórica a
Raposa ainda mais ma-
treira
a Tartaruga chegando antes
que o Cágado
Quinta-feira
na Floresta, cri-cris dos Grilos piar miar urrar horas, o Papagaio fantasmando
uma demagogia, o Leão preocupado preocupando os Bichos. Entre eles o
Bicho-Homem a provocar desconfiança a ludibriar os outros até Dona Águia. Sou
meu próprio fariseu em minha escribaria, opto pelo Bicho-Mulher contra o
Bicho-Homem, até contra a Floresta, sou mulherista e não abro. Se estou do lado
dela, me indagam, aí não precisando ser necessariamente Fariseu. Estou. Estou
sim por sua beleza, por sua penetração, por seu sexto sentido, por sua
gostosura. Penso inclusive, não, decidi: vou, eu Escriba, abrir uma delegacia
da mulher só para mim! a receber todas injustiçadas do Planeta; e tem mais,
Bicho-Homem não entra, entra no pau isso sim; nem Bicho de Pé, se existir acho
que não tem mais, quando menino dava uma coceira agradável no dedo do pé, só
era chato quando mamãe tomava a agulha pra tirar e nós crianças unidas jamais
serão vencidas abríamos a boca no mundo. Vou aceitar em minha delegacia todas
elas, será uma Central da Mulher, decerto chocando-me com os poderes públicos que
já possuem sua clientela; isso pouco me importa. Aceitarei louras morenas
verdes, todas; altas baixas, mesmo estas que azucrinam os maridos por serem
brabas; magras gordas e as mais ou menos, não darei preferência para não
ocasionar zum-zum em meu harém, brigas, favoritismos. Arregimentarei o
Bicho-Mulher. Assim fazendo estarei de consciência tranquila livrando-as dos
ditadores em casa e que os tais fiquem chupando no dedo, não permitirei
devolução de mercadoria. Porque estou assinzinho com o Bicho-Mulher, tadinhas.
E nessa decisão não tem contradita, a única que teria realmente: a do Fariseu,
sou meu próprio fariseu em minha escribaria. Tenho dito.
IX
– 49ª Doze Mais Doze
Um dever, não abusar
do
direito
Toda vez que um nome não tem vez é a
vez de Zé. Zé se presta às mais curiosas situações e mesmo não havendo qualquer
situação. Mas o Zé não entendia assim e criou sua própria situação. Eu sei do
caso por ser amigo do filho. O filho: meu pai foi sempre um homem da lei, cristão,
correto, pobre porém correto. Foi. Não por haver morrido, por deixar de ser
tudo isso, o Geraldo seu filho quem me disse e aí não invalidando a correção
embora a pobreza, pois não enricou a enricar apenas de filhos e nessa época
difícil um malabarismo de alcance extraordinário, porque hoje ou não se tem ou
então não passando de um; ou dois ao gosto burguês, sempre o casalzinho.
Voltemos, continuando, voltemos ao Zé
do Geraldo. Papai teve doze filhos! o que é facílimo, mamãe fez a força pra não
desgastar seu homem. Já é bastantinho. É. Aí a terceira ou quarta das manas se
engraçou dum jovem, tido por correto pobre e de boa família, também numerosa,
devendo ele, Geraldo, ser igualmente o terceiro ou quarto dos homens. O pretendente
um tipão trabalhador, espécie que o povo chama de “bom partido”. Amaram-se
encontraram-se muitas vezes, não tem forma mágica a evitar encontro de jovens
que se atraem, embora o rapaz de outra e vizinha cidade, enquanto a família da
moça doutra vila com esperança a virar centro urbano com prefeito e tudo o
mais. Não obstante essas dificuldades foram os enamorados se encontrando amiudamente
e o namoro se afirmou esquentando a se tornar noivado e depois com direito a
casório. O comum enfim. E a família? O Geraldo, sendo dos ‘primogênitos’,
aceitava o consórcio?
Sim ele e os onze, isto é os dez, a
mana é claro concordando ela até ansiava por aquela bonitura de macho. Este logo
amansou na ceva da família da garota, passou a rondar primeiro e após a entrar
na varanda, uma área estreita da casa para umas duas ou três cadeiras de ver a
tarde se ir e chegar a noite e os pernilongos; namorados não prestam atenção
aos sanguessugas. Achegou-se o pretendente, pois homem sério; a Velha fechou os
olhos e ao menos enquanto o Zé em negócios por aí a mana do Geraldo e o
quase-noivo se aventuraram em prosseguir na felicidade namorada; num que outro
dia, às escondidas indo à matinê do cinema. Estavam as coisas assim, embora
ainda preciso o consentimento do Velho Zé, quando o Zé apareceu em casa. E
desapareceu.
A Viúva resolveu acertar as questões, não
sendo favorável à “pouca vergonha” – propôs um casamento decente. O decente
sujeito aceitou imediato e entraram com os papéis.
Na hora da onça beber água... não tem
essa expressão! bem, aí o cartório fez as publicações matrimoniais de praxe,
mas encrencou.
Descobriram que o decente jovem era
irmão da irmã do Geraldo, seu irmão também e dos outros onze filhos do Velho
Zé, ou dez, que o Geraldo esqueceu incluir-se. Como isso!
Se foram ao cemitério? foram, não
adiantando perguntar as coisas ao Zé; apenas puseram umas velas trocaram as
flores secas, etc. e tal; a Viúva desejando muito saber o ‘como’, não o como
eles mesmos brigavam pois já sabia o suficiente, saber de que jeito seu correto
embora pobre cristão cidadão marido exemplar, pai, como fizera outro filho na
cidade vizinha e pretendente à Maria, então sua irmã, havendo neste ponto
outras minhocas na cabeça da Mãe, “e se os namorados também fizeram...”
cruz-credo! que atrapalhada.
Não era atrapalhado em vida o Zé,
inclusive sendo bem organizado e criterioso. Mantinha outra esposa, fez com ela
doze filhos, um deles agora pretendendo desposar a Maria sua meio-irmã. Fez
mais, deu os mesmos nomes dos doze de cá
aos doze de lá, donde viera o noivo da Maria; assim a Maria de Cá correspondia
exatamente à Maria de Lá; isso por organizado, para não dar confusão a ele, Zé,
caso alguém perguntasse do Geraldo de Cá respondia pelo de Lá para evitar constrangimentos.
Contudo agora o Pretendente de Lá se enamora da Maria de Cá, não poderia ter
ficado com a Maria de Lá? parecendo que
o rapaz tinha certa queda por irmã...
Enfim teve essas complicações e outras
mais. Não se sabe, não se vai saber nunca; por exemplo, se na Família de Lá do
Velho Zé havia o mesmo bate-boca conjugal que na Família de Cá. Isso porque as
Viúvas se negaram a ver-se, que dirá trocar agruras domésticas. Mesmo porque o
organizado garanhão não informava a outra família quando numa cidade; assim que
o negócio esquentava fugia para poder brigar em paz com a mãe dos outros doze
filhotes.
Agora, Fariseu, não me peça mais
esclarecimento; não sei se incestuou o Pretendente, não sei se a Maria entrou
para o convento como era moda antigamente por amor fracassado. Talvez o Geraldo
possa esclarecer melhor. Não. Também morreu.
IX – 50ª Sofrer
Como poderia viver
sem
a luta do sofrer!
Nesta 50ª partezinhica e que fora 51ª,
numeração que é uma boa ideia dizem por aí, o 51 também o número da minha Pasta
“Guerra em Paz”, Pasta essa donde saíram os ‘casos’ deste livreco; nesta partezinhica quero lembrar que Você não está
em viagem de férias, a Terra não é lugar para turismo. Mas para entender o sofrer,
a luta, a depuração. Não me lembro de nada, um desentendimentozinho meu sequer,
pois sou pelo bem. Que os outros briguem, que se xinguem, que escandalizem.
Depois se beijem, padra mostrar serviço. De férias não estamos, não, sim
entendo. Entendo que não entenda, não saiba de nada. Quem sabe! ora, quem
sabe... A vizinha? A vizinha insulta ele; ele se enche, enche a cara e enche a
cara dela, fica assim ó. Merece? Questão de julgamento. O vizinho, o outro
vizinho, só bateu uma vez; os filhos gritavam em defesa da mãe e ele parou,
nunca mais pôs a mão, ela dizendo aí em frente às minhas orelhas que ele nunca
lhe pôs as mãos, enganando minhas orelhas atrevidas e aí me pergunto se foi
sonho! Agora não bate, bate de língua. Ela língua de lá, ele língua de cá, os meninos
no meio, tadinhos; e se vão aos seus compromissos – aulas por exemplo, brincar
– e os pais estão livres, podem se bater à vontade, e se xingar e se esfolar e
se ofender e se dizer e se contradizer. Não fazem coisa alguma.
Alguma que se faça fazem-na quietinhos em silêncio, o silêncio que não chega a
ser amigo de fariseus, nem de escribas. E assim nos olhamos, sem o quefazer.
Nesse ponto entra o ‘i’ da questão a qual não tem i: inventamos. Que seja a sofrer;
pois nunca o Escriba proporia ao Fariseu um consórcio a explorar uma agência de
turismo, que dizem dá muito dinheiro. Não temos dinheiro para isso, sobra o
sofrer pelo sofrer dos outros.
IX
– 51ª Salada de
Frutas (estragadas)
A ser bom inimigo
de uma pessoa
precisaríamos
desejar-lhe a sogra
do
primeiro casamento a sogra do
segundo
e a do terceiro dando pal-
pite
para seu quarto matrimônio
Achei, eu Escriba achei, achei por bem
pôr um pouco de cisco em olhos farisaicos com esta Salada, com a qual prometo
findar a Partona do Parto, que é número IX, ela que nos deu por amostragem alguns
casos da Paz doméstica que corrói o organismo social. Ao iniciar não me propus
a mil e uma, aí seria ferir quase o todo, mostrando apenas algumas partes,
partículas se ficar melhor. Contudo me proponho agora em mais umas vinte
reencarnações seguidas como Escriba (não havendo nenhuminha ‘Fariséia’) em mostrar e demonstrar o
todo. Por esta encarnação que se encerra nestes próximos dias, somente pude dar
tal amostrazinha. E falhei? Concordo, devo ter realmente falhado. Na partícula
‘51ª’ que entitulo Salada com as podres frutas, para consolo do Fariseu,
vejamos alguns ingredientes rápidos.
51ª - ‘A’ Laranja Madura
Dilema e opção:
se brigo, não penso
se penso, não brigo
“Laranja Madura, na beira da estrada,
tá bichada oh Zé, ou tem marimbondo no pé”. O Ataulfo Alves versejou assim. Mas
ele não. Tinha uma cara de tristeza e de ‘não tem jeito’, que não tinha jeito.
Dedou-me a mulher, sua traidora consorte, sem sorte sendo seu homem, um deles
segundo a testemunha me dando o serviço, sendo ele aposentado pobre doente
velho, um autêntico pé na cova. Aproveitou minha companhia no Circular para
acertar sua personalidade tíbia – então narrou-me
intermináveis mazelas domésticas. O diabinho do Escriba ficou horrorizado, não
pelas mazelas, pelo desacostume no vomitar intimidades. Aí só faltou indagar
para aquele mártir com expressão de santo sofredor: vai ver, eu falando assim
sem coragem de falar, vai ver que sua bruxa-esposa já lhe bateu alguma vez. Constrangi-me
indagar. Aliás não precisei indagar. Acredita, disse a vítima, acredita que um
dia Ela me bateu! (Aqui dentro eu disse vixe!) Concluiu: Ela e meus filhos
também. Eu, eu Escriba, não aguentei, desci um ponto antes do meu.
51ª - ‘B’ Maçã Faltando
um Pedaço (ah essas Serpentes!)
Cada um de nós
tem o dever
a
ser burro por conta própria;
ninguém deve
ser burro de
pai
e mãe
Quem conhece o Índio conhece a Sueli.
Eu por serem meus vizinhos, Ela antes dele. Aqui chegou comprou terreno,
arregimentou todos parentes em mutirão a construir a casa, quitou dívidas,
recebeu dinheirão em acordo na empresa em que trabalhou anos, se emburguesando;
aí comprou telefone comprou carro se perfumou e quase se embelezou, porém já
era bonita. Então deu uma vontadinha danada de macho e saiu à caça. Trouxe o
Índio, que os outros chamam Sr.Valdemar. Virou nababo, aguinha fresca cerveja e
cansaço de tanto não fazer nada. Daí fez. Começou por mandar nela, fazendo a
pobre fofocar à vizinha; fez mais ainda – bateu nela. Esse negócio de ‘mulher
de malandro’ que adora apanhar? parece que tem esse dizer. Nessa altura se cria
o Inferno, se porventura já não houvesse sido inventado. Apanhou, xingou, apanhou
por ter xingado, chorou; ele? se foi. A Eva não se conformou, pôs a culpa na
cobra e foi reaver o Adão. Adão de volta, sem flecha, numa boa. Agora de casa
carro comida costume. Diz Dona Carochinha: e foram felizes para todo o sempre.
51ª - ‘C’ Banana, a
Preço de Banana?
A dor deveria
ser privativa, inalienável,
para
consumo interno, e não existir para
exportação. O
homem comum fere
tal
princípio:
abre a boca no mundo
Ela era assinzinho de bela e meiga. Do
tipo ‘mãe’ a viver pra família. Aí a família estava rica: propriedades carros
bem-estar, o Zé era agora Doutor José Executivo; com direito a secretária. A
esposa meiga bela e simples veio-nos chorar as mágoas. Ah Dona Escribeia (minha
pranteada companheira que fugiu com um Fariseu e ainda não fugira) ah querida
vizinha, ah que saudade do tempo em que ele era ‘Zé’... Andava de bicicleta,
batia ponto na fábrica, levava marmita e só vez que outra me batia, só xingava.
Agora a Secretária... Chorou choraram choramos chorei – puxa até ando bem no verbo.
51ª - ‘D’ Mamão de Roça
Beber à saudade
Morrer à saudade
Gostava da Tia. A Tia Maria, quando
sóbria. Mas ela bebia, dava vexame e aí apanhava. Bem entendido, se o Tio
Natalim estivesse bêbado. Bebiam, se xingavam, se batiam, apanhavam, gosmavam,
se prostravam na cama a curar a bebedeira; e se acudiam depois – quem se levantasse
mais forte cuidava do outro. Ela era versada em apanhar, já levara socos de
outros homens antes, até aportar no Tio. Um mar de rosas, um casal perfeito.
Oleiros, trabalhavam com disciplina arte e amor. Então meu tio trazia da
venda... bebiam, brigavam, saravam depois. Até ficar somente a viúva e ser
recolhida triste ao asilo, saudosa do tio, da cachaça, da surra, da surra da
vida. E desaparecer.
51ª - ‘E’ Abacaxi
Como enganar
um bobo
na casca do ovo
Era chatoquinha Dona Chatoquinha. Era.
É. Agora voltou a ser. Porém se cansava da solidão, a filharada criada, casada,
ocupada, abandonada ela, ela se achando abandonada; tinha a mais nova,
empregada como mãe solteira, a qual não parava em casa a continuar mais vezes
mãe. Então Dona Chatoquinha decidiu arranjar um ‘namorado’, considerando-se
moderninha, o que fica bem em chatoquinhas. Com esse não brigava tanto como com
o Falecido, será que houvesse tirado a sorte grande! já poderia trabalhar em
paz fora, seu novo homem olharia a casa para ela, enquanto não estivesse dormindo.
Então voltou cedo com saudade namorada e achou o Namorado namorando a filha.
Adiantava brigar? Mandou embora o casal e se enamorou da solidão, uma solidão
abacaxi como é comum na solidão.
X
– Parte
à Parte no Final do PARTO para OBRA
Conclusão – Descarga Regulamentar – Enfim
a PAZ!
Não é preciso pensar para existir; mas
é necessário existir para pensar
Ao tomar da
pena de ganso a rabiscar esta Parte à Parte em final deste PARTO para concluir
a OBRA – sofri muito, eu Escriba (o Fariseu rindo de boca fechada, cínico).
Porque homem não sabe dar à luz?! também. Mas em virtude da desvirtude abaixo,
que são os rompantes escribas. Acompanhe um pouco de boca fechada sim, mesmo de
olhos cerrados, porém com as orelhas arregaladas, para ouvir minhas lamentações
no descaminho de meu caminho, a concluir esta Guerra em Paz.
Primeiramente assentei existir a
Guerra. Entretanto duvidei. Da Guerra? da Paz. Quanto ao ‘em’, este é bonzinho
não deu trabalho. Sobrando a Guerra, a Paz. Desesperado o Escriba traçou o dito
caminho nos passos seguintes.
1° -- Deletar a coisa. Agorinha mesmo
digitando relei sem querer na tecla ‘Delete’ sumiu tudo! tive de refazer. Aí
pensei numa grande saída a esta entrada: deletar tudo; acabou a Guerra,
logiquinho haver ficado a paz! magnífico, pensei. Tanto trabalho para nada,
bastava deletar, pronto. É a saída.
2° -- Fechar o olho. Fechar os olhos,
meia dúzia de cílios liquidam a fome a miséria a droga a bandidagem a briga
doméstica! Aqui envolvendo golpe de mágica, fadas, bruxas. Bastando fechar olho
e vem o ‘fiat lux’ na escuridão.
3° -- Dormir. Cair nos braços de Orfeu
ou é Morfeu morfina essas coisas? dormir, apagar, apagando o ‘Zé que bate na
Maria que bate no Zé que bate no enenúmero dos infinitos’. Oh que felicidade.
4° -- Mudar. Não é mudar-se. Não
entremos na encrenca da mudança, com filtro e espelho quebrados, mudar.
Livrar-se do desentendimento que enriquece a periferia. Podendo cair numa
vizinhança mais braba em o novo domicílio. Fiquemos só no mudar a mudar a verdade,
o que desejamos é apenas mudar.
5° -- Dar pileque no Fariseu. Fácil,
sabendo-se que nosso povo é beberrão. Aí não dá mais palpite, não vê erros para
não vermos erros.
6° -- Virar-se. Virar as costas, virar
o rosto, deixando o circo pegar fogo. Então não veremos e, dizem, o que se não
vê não existe.
7° -- Bravatar. Uma forma boa a
resolver problemas é contar vantagem. Pode não atrair a atenção alheia mas acabamos
por acreditar em nossas grandezas. Ora, havendo a grandeza desaparece a
insignificância, digamos a da Guerra.
8° -- Mudar de Canal. Você está vendo
ao vivo um marido estripado por uma potente beldade. Não quer? muda: do quatro
para o dois para o sete para o onze volta ao três muda ao nove e dele ao vinte,
passando pelo doze o seis etc. e tal. Que tal? Pode aproveitar o mesmo sangue a
economizar.
9° -- A Santa. Eurequei a Santa solução.
Interferir nas Academias a mudar de posição os vocábulos – ‘Guerra’ passa a ser
‘Paz’. Trocam-se as palavras ou, conservando, mudam-se os conceitos das mesmas.
10° -- Troca de Conteúdo. Dá trabalho
sim mas deve, suponho, dar resultado: encher com guaraná as garrafas de
cachaça; trocar a maconha pondo no cigarro fumo. Dá câncer e diminui em
contrapartida o excesso populacional. Dá trabalho já disse. E dá resultado (não
falei ‘bom’).
11° -- Língua e Muque. Também
trabalhoso, talvez eficiente método. Corta-se a língua feminina e/ou muque que
dá força ao macho. Simples, não havendo causa não tem consequência.
12° -- Mudar a Natureza. Provocar
mudança da Natureza Humana. Transformar a Moral do homem. Essa é a provável
solução ao drama que estudamos, é o fundamento da Guerra; e sumindo a Guerra, Paz
pra quê!? Felizmente não é assunto literário nem seara escriba; é para
religiosos. Também, espero, necessário para tanto tanto tempo... milênios. Tenhamos
paciência.
13° -- Descarga. No estado em que a
sociedade se encontra, é mais simples a resolução: dar descarga.
E aí! entupir esgotos, desempregar
Escribas!
14° -- Recomeço. Começar o mundo tudo
de novo, certinho.
-
-
- -
Ora,
aguardemos um pouco. Tentamos solucionar as coisas mostrando primeiro a Guerra,
não a Guerra: a Guerra em Paz que se não vê vendo no íntimo dos lares, a enfear
nosso ser. Seria talvez melhor buscar a Paz doutra forma; todavia Paz não é
artigo que adquirimos na feira de quarta-feira. Quem sabe alguém tenha mais
adequada solução que as já propostas. Os Sábios... Sei haver inferido que eles debatem a
questão; daí folheei as páginas anteriores da Obra até aqui e não achei
referência aos Sábios e, pior, não encontrei sabedoria... Na hipótese de tais
Sábios discutirem realmente e entrarem em acordo, ficando eles mesmo em Paz a
saber o que é Paz, pois decerto sabem a Guerra, nessa hipótese sim, aguardemos
bastantinho tempo.
São Paulo setembro
2019
(revisão
final, romance escrito em Marília novembro 2003)
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva, romance,
139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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