segunda-feira, 23 de março de 2020

Guerra em Paz


051(postagem no Blog Livros Inéditos)












                       G  U  E  R  R  A   em   P  A  Z
                                                romance
        Moacir Capelini

















moacircapelini@gmail.com


capa:


tiragem:


gráfica:





















  O todo não é o todo
  é o ‘muito’ na Guerra do todo.
                                            Escriba

  Quá quá quá.
                        Fariseu 

Plano Geral da  OBRA
                                  
               I – Parte do PARTO
               Introdução e Explicação Desnecessária

               II – Partinha do PARTO
               Guerra na Juventude

               III – Partinha do PARTO
               Guerra na Velhice

               IV – Partinha do PARTO
               Guerra na Roça

               V – Partinha do PARTO
               Guerra no Circular

               VI – Partinha do PARTO
               Guerra na Sabedoria Popular

               VII – Parte Média do PARTO
               Evolução dos Atritos na Guerra

               VIII – Partezinha do PARTO
               Eterna Guerra Santa

               IX – Partona do PARTO
               Algumas Recordações das Lembranças em Plena Guerra,
               por amostragem

               X – Parte à Parte no Final do PARTO para OBRA
               Conclusão –  Descarga Regulamentar -  Enfim a PAZ!


































                              A Guerra é um triste exemplo
                                            da prática do humor negro


I - Parte do PARTO

                       Introdução e Explicação Desnecessária
                      Olhou o homem e o homem era um mundo
                              cabendo  o  tudo o nada o impossível, todo
                              um possível
         
O desentendimento, não a Paz, seria a da Guerra? o desentendimento terá começado no início; início dos tempos. O homem não sabia ser homem nem se importando que não fosse homem; a sua fêmea, talvez não tivesse igualmente pretensão em ser fêmea daquele macho peludo; ambos mais preocupados com a premência no se livrar de piolhos entre os insignificantes, não podendo preocupar-se com bactérias e mais com o menos da existência dos vírus por filtráveis, pois desconheciam tais pequenuras somente vendo as tantadinhas visíveis e aí, ah pobres! como coçava e os coçadores vez por outra virando comida igual ocorre entre nossos primitivos galãs de televisão nos atuais documentários, numa coceira sem tamanho. Doutro lado, o lado mais forte: preocupando-se dia e noite com possível vigilância de um clã nascente a olhar (não a defender o clã – avisá-lo bugiando gritarias) preocupação essa constante persistente envolvente numa espécie à espécie de espécie sine qua non: o animal feroz. Naturalmente machos e fêmeas adultos e crianças naquela choradeira querendo mamar – todos hominídeos de um modo geral temendo o animal feroz por não saber-se mais feroz ao restante mundo animal vegetal mineral e posteriormente sideral: o próprio ser humano! Então aflitando-se com os ferozes quatropés com muita fome! Leões onças tigres mamutes enraivecidos, tais mamutes pondo minhoca na cabeça dos elefantes tão pacíficos. E havia macacos pra todo lado ajudando os irmãos macacos-humanos não propriamente a se defender: a gritar e correr em exemplo ao estilo. Havendo mileuma especiezinhas quase todas a parecer ferozes também ao humanoide, elinhas fugindo dele, no princípio: primeiro se foge depois se indaga se é amigo; aliás o nativo humano não devia ser mesmo de sorrir pois assava no espeto os miúdos flechados.
Bem. Era o início no começo anuvioso brumoso rico em ignorâncias e demais fraquezitudes.
Era o primevo dos tempos.
Tempos viriam em que o macho da espécie Homo sapiens, livrado já, já depurado da monice mas até hoje em momice e esgares de dor por suas dores – esse macho iniciava aquilo que em série seria série do desentender-se com sua fêmea.
Começa o começo desse princípio do primevo dos tempos primeiros com o fato banal do homem desejar, através dumas coisinhas lá dentrão dele que até hoje não se pode explicar, pelo simplesmente desejar sua fêmea que não sabe ser sua, muito menos que fora sua costela. Não apresenta flores, não lê sua última poesia, isto um encanto à Academia com direito à imortalização canonização desconhecimentação essas coisas. Nem fala palavras bonitas, falaria feias chãs pobres rasantes. Não. Conquista na marra, pronto. Ponto final. Gruda puxa arrasta possui.
Ela não reage. Reage: grita. Esperneia. Não xinga, nem sabe falar. Esperneia. Grita outra vez. Depois aguarda. Observa, vê, constata o ventre inchando (pensará: que diabo de mato comi que me fez tanto mal!) Quando vê, vê um barrigão imenso.
          Grita geme pare, para cansada para desfalecer quem sabe; sabe o macho olhando nada saber. Não sabe ajudar no parto mas descobre a cria bem gritona qual mamãe – barbaridade!
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          O problema masculino é como possuir mais e mais mulheres; mais que os outros homens, porém os outros homens não querem pacificamente deixar.
          O problema feminino é como fugir, correr daquela besta peluda, apenas não sendo pior o bípede que o leão o tigre a onça etc. e tal, estes comem mesmo e mastigam satisfeitos. Já o homem, sempre  insatisfeito, é um animal feroz que não mastiga, mastigando vez por outra, de boca aberta, feito porco o porco. Ele é o inimigo que pretende sua fêmea, ela olhando temerosa aquelas musculaturas macacas comendo outro homem mais fraco na paulada. Nessa altura já antevê a mulher seu inimigo de estimação.
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          Assim teve início a série que se intitula A Guerra do Sexo; e se propõe o como foi travada a feia Guerra, em Paz, o quanto possível, que sabemos milênios depois impossível.

Explicação Desnecessária

         
          Ponhemos (é claro que está errado este certo, o matuto fala assim acha certinho, estou Escriba errado com ele; fala a falar gostoso) ponhemos portanto os pingos dos ii em nossa ‘Guerra em Paz’, que por sinal não tem letra ‘i’. Os pingos tentando conversarmos, eu Escriba e Você; como qualquer escriba decente exige o fariseu, achei por bem farisar o leitor. A conversa tratará desse tema em partes, as pequenas chamar-se-ão ‘partinhas’ as grandes ‘partonas’, as do meio apenas ‘partes’; pondo-se os capítulos seguintes para análise de exemplos encontrados pela vida em fora, no provar a tese do óbvio: o homem briga com a mulher. A oposição formulando a coisa nestes termos – a mulher briga com o homem. O Escriba, a fim de evitar pichações indesejáveis (vai que se candidate a qualquer cargo público...) para tanto equacionou o problema assim: um briga com outro, outro briga com um, naturalmente este ‘um’ bem como o ‘outro’ nenhum deles é o Escriba nem o Fariseu. Caminemos. Ah, antes de ‘caminarmos’, mas chega de portuñol; antes faço um reparinho. Seguinte. Bata-me depois, depois que me for; saiba-se tomei, eu Escriba, tomei os exemplos, os ‘casos’ aqui tratados, do que vi senti ou me contaram. Já fui acusado memorialista por essa razão. Apenas dei minha roupagem, a língua (“língua afiada” diriam Fariseus desocupados). Note o fariseu leitor que o escriba escrevinhador não obedece os cânones acadêmicos e põe tudo na linguagem coloquial; até criando vocábulos segundo o som da rua.  Mea culpa. Caminemos?









II – Partinha do PARTO
                                  Guerra na Juventude
                                                                       A juventude é um acordo
                                                                                         necessário ao desacordo

          A Mariana, sua classe na escola ela dizendo “minha sala”, estará nestes dias homenageando uma professora de quem gostam muito, a qual desfalcará o estabelecimento com aposentadoria ano que vem. Reúnem-se discutem cotizam-se decidem, tem os senõezinhos na rivalidade com outras classes; muitos. Enfim decidiram falaram e conseguiram consentimento da diretora. Tem? tem agora o costume do ‘café da manhã’, ofertaram uma cesta matinal à mestra, antes brigaram; uns falam mais alto sempre é assim e assim é que aparecem mais as meninas, os garotões, desajeitados, são eleitos representantes de suas salas e se intimidam se desencontram se desentendem os líderes machos da série e toca às meninas tomar peito. Dito e feito na cesta à professora. Agora é a festa. E discutem acaloradamente, os meninos dão lá sua bicadinha mas permanecem senão alheios longe ao menos. E está decidido por maioria absoluta e democrática no grito. Façamos uma festa em regra. Não se trata de adulação, gente – a mulher é nossa professora ‘legal’ desde o ano passado. Pronto.
          Na hora do boi beber água... (quer dizer, o dizer é a onça matar a sede).
          Entram as despesas. Faz décadas e décadas, antes delinhas serem gente e virar estudantes para festejar certa mestra, já havia sintomaticamente a diferença entre mulheres e homens. Sempre se decide assim: eles trazem refrigerantes – em festa estudantil se empanturram de líquidos; elas os pratinhos. Aí se desentendem para entender-se entre fêmeas o que fazer (geralmente a mãe-via-filha). Enfim se acertam. Acertando desacertam.
          Os meninos – diz uma soldada do exército feminil, uma gracinha em tranças e sardas – eles estão reclamando o refrigerante ser muito caro! que droga: façam as contas um prato de qualquer é qualquer absurdo, o dobro o triplo do preço do refrigerante deles.
          Falta palavrão calão nomão deste tamanhão? não deve faltar, o decoro feminino já superado por anos e anos feministas, todas elas querem ter o mesmo direito e já admitem não serem iguais, viva a diferença! É por aí. Contudo brigam sim. Uma berra, por mais exaltada: quem não trouxer bebida, fora! rua! Porque na hora da festa os que não contribuíram querem comer, não querem?
          Uns que sim outros que não.
          Olha aqui, moleque (aí ele não aprecia e terá respondido em xingamento, a língua macha sempre foi solta não é por culpa do feminismo; não apreciando por se pensar um Hércules e sobretudo homem, moleque é a vovó-zinha, que é um impropério descabido de concordância para discordar) falando já às costas dele: no seu aniversário darei a você um cinto (aí se interessa, olha para ela) um “sinto muito”. Comer em nossa festa...
          Nessa idade homem e mulher não se entendem. Se guerreiam.






III – Partinha do PARTO

                              Guerra na Velhice

                                                            Na chamada Terceira Idade o homem é
                                                                                   uma mulher mais dependente; a mulher
                                                                                   um homem mais exigente

          Velho é um modo de falar, falar idoso, idoso na fala, fala ai-ui. Num asilo é comum estarem curtindo a sua ociosidade, fruto do sacrifício nos anos incontáveis: a família os negócios amigos colegas os falecidos sobretudo os falecidos, são lembrados. Já não se lamenta mais nem os falecidos. Um cansaço sem tamanho pesando sobre a boca, boca fechada entre mulheres, ou que estejam deixando sê-lo, elas que sempre foram tagarelas cuja língua só descansando em fevereiro por menos dias no ano, segundo intriga da oposição; a oposição de boca cerrada vendo o não visto ou, se conversando, conversando com o lá dentrão, remoendo suas coisas. Ambos grupos calados.
          Neste ponto penso: concordará o Fariseu não concordando decerto já na ‘Partinha’ anterior. Bem, vai assuntando.
          Calados. É o que se vê se se fizer uma visita a uma casa de descanso.
          Verdade que uns não têm de que descansar, descansaram a vida inteira; porque convenhamos, os canalhas e preguiçosos também envelhecem. Mas isso sendo válido mais para o lado masculino e não adianta gritar: “está do lado delas?” Porque, convenhamos outra vez: dificilmente se encontra mulher que não trabalhe, que não haja trabalhado muito, demais até, e um pouco entre elas, pouco. É da condição humana? é do estado biológico? Algumas respondendo certamente: mulher tem mais vergonha na cara. Aí não se sabendo. Aliás que se pode saber nessa questão!
          Saber apenas, por constatar, que nos parece que a Guerra anda em trégua nessa altura do campeonato, pois não falam os idosos, apenas olham tristes, por isso não se falam, não se falando perdem a grande oportunidade na vida em se desfeitear! Interrompem o Escriba neste estudo: já vi muita briga em asilo. (É só dar oportunidade ao Fariseu, joga areia nos olhos dos outros.)  Sim, não.
          Sim, é humano. Dentadas não são exclusividade dos animais selvagens ou gatinhos brincalhões roendo o sofá na sala. Não. Não porque o privilégio de se morder figura quase sempre entre as próprias mulheres; e dentro do grupo masculino. Se sobra debate e ofensa ao lado de lá!?
          Aí não é sim, não é não. Dá empate, às vezes com direito à prorrogação até que a Diretoria venha pôr cobro ao embate.
          Contudo sobra um senãozinho interessante – os idosos brigam sim com suas dores. E o ‘ai’ nem o ‘ui’ têm sexo.
          A rigor o velho não tem sexo.
          Tem sim, afinal dando acordo. Urina realmente; às vezes acontecendo fora do vaso, que é mesmo difícil acertar.
          Agora uma notinha sobre o assunto. O episódio ‘macho’ ou ‘fêmea’ da Guerra nessa altura a se descer para a segunda divisão no campeonato, me parece um pouco desfigurado ou – aí concordo, escriba, com os fariseus por aí quantos houverem – daria sim para ver mais exemplos. Então vamos concluir mais acertadamente no desacerto. Veja bem vejam se muitos houverem, se se não conversam: como saber os lances das batalhas! Uma respeitável de cabelos brancos tingidos de roxo ou violeta terá dito “esse véio sem vergonha!” um da oposição não pintando os seus só por não ter fios mas a apresentar linda careca, ele também dizendo: “um canhão vaidoso essa véia!” Como vamos saber, se não dizem ou se dizem e o Escriba parece anda surdo.
          Difícil acertar, caro Fariseu.





IV – Partinha do PARTO
                                   Guerra na Roça
                                                                          Errô o arvo
                                                                                                       armô aquele banzé
                                                                                                       Iscurraçô u bandido
                                                                                                       crendo virá fuá
                                                                                                       errô no credo
                                                                                                       errô no cravo
                                                                                                       Ficô de neto
                                                                                                       pra criá

          Juvêncio. A muié me pega no pé; me pegô no pé a vida inteira; envelheço, me cobre o pé, antes eu esquentava o pé frio dela moça; quando fô aos pé-junto junta a mão, cruza no meu peito, se preocupa com os pé no lado do pé do caixão; dô no pé deste mundo. Aí eu viro santo.
          Dá para rir? mas da verdade não se ri, vira mentira.
          Comadre Maria. O Tonho foi o capeta. Trabalhador (falava “trabaiadô”) bom pai, puxava orelha dava de cinta corrigia os pequenos; plantava como ninguém, não enricou, quem trabalha não tem tempo a ganhar dinheiro, o pai que falava assim. Ele em moço, Deus me livre credo em cruz! entrava a cavalo na cozinha, bebinho bebinho. Arruaceiro. E batia na gente, a gente corria e os meninos pro mato, uma choradeira. Ele era o primeiro eu a última a falar. Aí amansou e morreu. Uma penca de filhos (falando “fíos”) só sabia mesmo fazer filhos, uma dúzia não contando os que saíram anjinhos nos caixões brancos; e deixou herança: dívida e pobreza. Porém me deixava ir na missa e nas rezas, em terço também ia com a gente, o Tonho era animado na festa. Ele na frente em cima da mula, eu na garupa  ou a pé (“di-a-pé” falava) indo atrás com os meninos.
          A prosa. Maria da Glória Maria Aparecida Maria do Rosário Maria da Conceição tem Maria no mato a dar com pau, Maria para quantos Zés houverem Zé da Conceição Zé Bigode Zé Carneiro Zé de Maria, até existe José.
          Cada qual reúne os seus, mandam obedecem contam intrigam se desentendem. Se entendem quando em grupo.
          O grupo macho, e são machos pra danar, o grupo conta piada causos e mentiras, sempre verdadeiras no ponto em que são os heróis.
          O fêmeo tagarela suas coisas, riem uma das outras e de preferência das ausentes e contam suas intimidades, sempre que a saia esteja livre de mãos crianças. Falam delas e falam deles, os quais dão sempre motivo e oportunidade, pois fornecem ótimas matérias-primas pelo machismo. Mas igualzinho às pobres da cidade as roceiras adoram falar em doença e panaceias. Além de serem mais afeitas à religião, aqui se comparando oposta aos homens.
          Tem um senão em que não cabe a oposição: ambos sexos, ao contar o seu causo ou a dar seu testemunho, aprecia garantir, fugindo da possibilidade quanto possível... – o haver visto com os olhos (grafam ‘zóios’) que a terra há de comer!
          Os dois agrupamentos gostam das diversões, e isto é humano. Na roça estão sempre de olho nos bailes por exemplo. Nele ficando claro os motivos bélicos. Os machos se engalfinham pelas mulheres, ou por desejá-las ou porque os outros desejam as suas; elas se deixam a esperar tagarelando baixo nos bancos e cadeiras. Algumas, menos belas, tomam o famoso chá-de-cadeira e se candidatam ao posto de solteironas ou titias. A maior parte aproveita a oportunidade para namoro. Entretanto nesse meio alegre os grupos estão separados nitidamente no final das contas ou da festa. Se olham às vezes à distância, se atraem – porém não se confiam...
          Contudo assim nascem casamentos ajuntamentos filhos, a geração se solidifica.
          Não se diga a exagerar que Guerra não seja coisa útil.





V – Partinha do PARTO
                                  Guerra no Circular
                                                          Vencer gente é relativamente fácil; mas
                                                                               vencer a gente, difícil quase impossível 

          Gente de fora. A mulherona o homenzinho a filha bonita; desnecessário dizer ‘bonita’, pois em mulher só existe beleza; a feiura é a beleza zangada; ela não se encontrava zangada apenas bela e carregava certa sacola a tiracolo. Entram no ônibus, ele se informa antes com um passageiro subindo “entra pela frente?” o aposentado perambulando por aí em cada cidade se depara com modo diverso nos circulares. Sobem, sentam-se, desembocam a falar e se desentendem. Não diz nada, o Escriba não diz, percebe a coisa desandando. Ele fala baixo ela fala alto, elinha olha vez que outra e dá bicadas frágeis na discussão genitora. De repente o negócio esquenta, o macho da espécie em função de casado e exercendo cargo de chefe da família levanta-se paga ao cobrador indica os seus a posteriormente passar na catraca, recebe o troco e se senta. Ela, a rainha do lar em viagem, avoluma acusações – dessas que a gente procura não saber e faz de conta não ter ouvido só ter ouvidos armados de orelhas. Ouve: “Você quer que eu não veja, não sou cega; quer dar escândalo!” Matracam mais viajam mais, agora a menina sorri, e é um sorriso também bonito, sorri talvez das coisas que intrigam para alimentar a luta na guerrinha familiar. Contudo não se entendem, não têm um sorrir para desmanchar uma briga bem fundamentada. Continuam a se desentender só mais um pouco, pouco põem pra fora: se o carro é aquele mesmo, para o local possível a descer e outros menores desentenderes. Ele se envergonha, vermelho ficou vermelhão, ela olha pra lá pra cá como vendo e não vê; ele resolve resolver o problema de vez perguntando ao funcionário da Circular no Circular presente. O hospital é longe. Esperam chegar, aproveitam a discutir mais um pouquinho, pra não perder tempo, tempo é dinheiro; a garota ou por ter aprendido a lição ou por rotina na lição, sorri. Levantaram-se enfim, a gorda senhora sofrendo a roleta, o macho idoso descendo pela frente. A Guerra não, a batalha se encerrou.








VI -  Partinha do PARTO  
                                   Guerra na Sabedoria Popular
       O homem vê o mundo pelo seu limitado
                                                                                  mundo e se pensa sábio no mundo

Para início de abordagem vejamos algumas ideias colhidas no correr do tempo desprezando o tempo e o contar do tempo pelo calendário que o povão apelidou ‘folhinha’, ela teimando em mostrar neves europeias a agradar no sol tropical; tudo dentro do estilo e da proposta proposta pelo Escriba, seu criado, importunado vez que outra (sempre) pelo Fariseu, naqueles olhões tamanhos.
Poeta popular filosofando a mulher: fica doido e varrido quem quer se meter a entender a mulher.
Outro – o homem e a mulher, cada um é respectivamente a vítima incompreendida no casamento.
Mais outrinho: a mulher precisa muito do homem: para de vez em quando ter um filho, sem exagerar aqui; para carregar piano e guarda-roupa na mudança; e para se sentir primeiro uma vítima do machismo; e em segundo lugar sentir-se perfeita criticando a imperfeição dele.
Ah quanta acidez no dizer! Baixemos um pouco o volume da linguagem e da língua sábia, apelemos à pessoa da rua. O Vô Pereira por exemplo olha a velhinha dele: “ela? fica chep chep na roupa cheira a roupa...” Ela retribui a poesia, a lembrar mil e uminhas falhas machas, “ele fala: laranja pompona; orelha dura”, curiosamente o Vô de orelha mole parecença sem osso ao menos sem cartilagem. É isso, breves atritos ao longo da vida.
Mas prossigamos nessa apresentação dos linguarudos supostamente pensadores entre o povo. Vamos em abordagem apressada registrar alguns resquícios, nesgas tão só, do que se pensa que pensa o povo pensar em nossa Guerra tão linda de morrer.

Nota de Falecimento
Aqui neste espaço, concordem ou não os Fariseus, é caso sobre algum Escriba a contar – filigranas surrupiadas em lata de lixo (e poderia ser diverso!) restos que deveriam em bom comportamento ambiental com direito a reciclagens e oportunidades a pobres seres (o Clube do Bolinha a dizer mais nesse menos existir homens machos pra valer; o da Luluzinha, nomes que os gringos nos emprestaram cobrando royalties, há nesse menos do mais que mais tem é mulher dessas que são uma gostosura) enfim tais restos por ser papel irão ao saco de papel e papelão, com certo cuidado para não sobrar na sobra algum plástico ou alumínio ou vidro ou barata, só depois cheio o saco com saco cheio então entregar ao catador de restos na rua em dia de lixeiro que se sabe segundas quartas e sextas-feiras com probabilidade nos dias ímpares das feiras nos outros bairros, o domingo é domingo, na outra segunda outros restos, uf! Enfim estes restos extraídos da lata, não tem mais agora agora é saco plástico – onde os atirou um Sábio, ele atirado após ao Manicômio, sem qualquer preocupação da parte do interessado, porque agora não tem, dizem, mais choques elétricos, pois a ser mentira da verdade sendo horroroso segundo o Valter, um amigo do Escriba que foi um dia depositado também no Manicômio e disse... não digo ou choro e é feio homem chorar.
          Vejamos portanto tais preciosidades, atidas ao tema que se sabe a Guerra  entre machos, por não sê-lo mais e jamais talvez tenham sido, o Escriba não bota a mão no fogo pelos outros; e a mulher, linda de morrer e morrer em Guerra é o que há  de mais nobre.

          Nota de Rodapé metida no entremeio: o Fariseu sempre me azucrinando e no desejo de envergonhar-me pinoquiando o nariz comprido me encosta: “Escribinha do meu coração!” aí eu já ficando alerta, e o nome!
          Por que razão as pessoas têm nomes? decerto pra não confundir. Imagine-se o Zé da Silva que levou gemendo o saco, o saco com papel e papelão cheio de besteiras escritas pelo hóspede do Manicômio, levou a vender baratinho no depósito e a bagunça no depósito é um espetáculo muito bonito de se ver, o Zé a se confundir com o Bill Gates. Aí puseram Zé  pra diminuir José aí gringaram Bill para abreviar o Guilherme dele. Tirando tais senões não há senão. O senão ficando por conta do Sábio o qual em grande sabedoria se esqueceu do próprio nome e foi atirado no hospício, sem choque mas à força, soube-se. Enquanto um choquinho em agrado trazendo de volta à memória sábia o nome do Sábio; o que trar-me-ia (que horror esta construção! aí o Escriba preferindo o caipirês) um drama imenso em cobrança de direitos autorais, caso algum Fariseu assopre na cachola desperta do dito Sábio dormindinho havermos roubado sua ‘sabedoria em gotas’ e (pus ‘havermos’ a comprometer e responsabilizar Fariseuzinhos de meia tigela na apropriação indébita, paremos com estes parênteses e esta Nota de Rodapé:) e paremos.
          Vejamos estes sábios pensamentos do Sábio formulados no Século XX:
          O homem é a imperfeição perfeita, não lhe falta qualquer desvio.
          O Burro do Sábio não pôs se é homem macho pra valer, valendo aos dois sexos, me enganando... Passemos a outro. No fim a gente põe aspas nos pensamentos e soma os a favor macho e os a favor fêmeo, cuidando em não errar no vai-um, chegando às nossas conclusões. Prossigamos.
          O homem não conversa, monologa com um ouvinte.
          (Não estaria no mesmo caso do caso anterior!)
          Mãe, um ser imperfeito investido, temporariamente, em santidade.
          (Quando for visitá-lo no Hospício perguntarei se não é apelação; podendo ser uma artimanha delas contra nós, incluo Você, Fariseu, também).
          As certezas para o homem são sempre relativas e condicionais. (Será que desejou incluir a mulher nesse ‘homem’?)
          O homem, o macho, é um macaco em fase de despelamento.
          O enfeite da Terra fica por conta das flores dos pássaros e das mulheres, amenizando a aridez da vida.
A mulher é um homem bem acabado; o homem é uma mulher mal feita.
          Será a mulher uma criança responsável?
          (Não deu para sentir nessas frases a acidezinha do Sábio Popular engaiolado para choque! Vejamos outros pensamentos:)
          Ideias anotadas por ele no Século XXI:
          O homem, o macho tão badalado antanho, não passa de um farejador e caçador de fêmeas de baixa categoria.
          As  mulheres experimentam  hoje  toda  sorte  de  maluqueiras, inclusive praticando o ininteligível  na  opinião masculina,  para noutra encarnação vir como homens e entender as mulheres.
          Olho a rua. Puxa como tem mulher bonita neste Planeta; deve ser a compensar os Canhões. E é tempo de Guerra.
          O macho pode, momentaneamente, possuir; mas quem de fato ‘come’ é a mulher...
          (Está entendido por que foi parar no Sanatório!? continuemos:)
          Mulher é um bicho bonito que vez por outra brinca de santidade dando cria e cuidando de bichinhos que falam besteirinhas deliciosas.
          Mulher bonitona que passa e nem liga a um homem é uma boa estupidamente gelada.
          O perfume nas mulheres é o cio artificial para atrair machos.
          A mulher é a secretária do homem por tagarela; o homem é mais ou menos mudo, não pode falar em não ser nas horas de plantão.
          O homem é um bichão por fora cheio de bichos por dentro e infinidade de bichinhos nos miolos.
          Toda mulher é bela, até prova em contrário.
          (Tenho eu Escriba dúvida se brotou do miolo do miolo mole sozinho; suponho haja pedido auxílio doutros loucos em tudo que vimos até aqui. Vejamos outros pensamentos a poder fazer melhor juízo sobre:)
          A complicação feminina. Imagino-me um objeto dentro duma bolsa de mulher... Seria a primeira vez que um objeto ficaria louco neste Planeta!
          O macho humano fala pouco é muito ‘falista’ e falho.
          O ventre feminino vale uma eternidade.
          O homem é um macaco com macacoas.
          Mulher é um animalzinho gostoso que esconde as qualidades da gente, ressalta nossos defeitos; e por isso briga com a gente pra gente se desentender com ela.
          Preferível ser um homem a ser um macho.
          Mulher um homem, enfeite para cama mesa e banho.
          Para muitas mulheres o homem é um mal necessário; para muitos homens a mulher é um mal imprescindível.
          O homem depende em tudo da mulher, até para ser infiel à mulher.
          Definição sintética de mulher jovem e bela: uma provocação.
          O homem e a mulher, cada um é respectivamente a vítima incompreendida no casamento.
          Toda mulher descobre em tempo que o homem é um carregador de piano em potencial.
          A mulher, não qualquer mulherzinha devassa defeituosa delituosa cheia dos desvios, aí se igualando na dessemelhança da mulher, a mulher adoça a amargura do homem e equaliza o ser na família no filho no porvir.
          Um velho macho é um carregador de armário, cansado.
          Encontrei uma resposta convincente ao drama doméstico que assola a Humanidade: por que o homem briga com a mulher? porque a mulher briga com o homem. É portanto simples.
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          Uf! o Escriba, eu, ufa cansaços. Prometi uma análise criteriosa, uma opinião formal sobre a opinião do Sábio Louco Popular, temo também cair em tentação, ser levado e atirado ao choque, que já não existe mais nas cadeias especializadas em doidos. Pelo sim pelo não, partamos ao sétimo capítulo, sétima partinha (esta sendo agora ‘Parte Média’) da Obra, lembrando aqui o sete, sete é conta de mentiroso...





VII – Parte Média do PARTO
                                         Evolução dos Atritos na Guerra
                                                               Trajetória do homem comum:
                                                                                         nasce, uma gracinha
                                                                                         cresce, um capetinha
                                                                                         adulta, um briguentinho
                                                                                         envelhece, um chatinho
                                                                                         morre, um santinho

          Vejamos nesta parte as partículas do todo, sob orientação saudável do Alfabeto usado no País, ‘a’ ‘b’ ‘c’ e daí por diante, a indicarem os assuntos da VII Parte Média, por sua vez parte do PARTO (não me parta a cara, nobre Fariseu).


a)Dois Nenês
                                                           Para uma criancinha a outra
                                                                                         criança é uma boneca que
                                                                                         fala não acaba a pilha e dá
                                                                                         tapa na cara da gente

          Quer-me parecer que as diferenças na diferença entre os dois sexos não sejam notáveis; quem sabe por exatamente sê-lo não chamem tanto a atenção.
          Dona Maria mostra o seu lindo de morrer, a fitinha pregada com durex na falta de cabelo na bela cabeça indica devesse anunciar sua nenê, linda de morrer. E a coloca na cama, enquanto narra as coisas que não são de sua conta à conta da Comadre porque também não é da conta da Comadre. Ela, não a Comadre, é visto, a nenê esperneia bonito e fala, pois já fala “baaah” e saliva bem a falar, molha o peitinho, antes molhou o babador, continua esperneando talvez ache interessante aquelas hastes pra cima ziguezagueando e são seus pezinhos; aí o inevitável: molha a cama da Comadre, agora existe fralda descartável aos mijões sem conta.
          Ao seu lado tem um senhor respeitável, macho pra danar, falando grosso e chamando pros tapas mas ainda não fez nada disso por ser criancinha embora já saiba falar. Diz “baaah” igualzinho a filhota de Maria. E chocalha aquelas hastes parecendo a nenê ao seu lado, sem saber também aquilo ser suas perninhas. Ué, tem a terceira perninha ou torneira, não puseram direito a ‘borrachinha’ que agora é de plástico e é preciso trocar sempre pois não veda a goteira. E mais umas gotas, ultrapassa os cueiros, vaza na cama da mamãe, mamãe lá matracando com a Comadre Maria e gargalham e tomam outro café e se riem dos outros outra vez; elinhos continuam na sua e dizem  “baaah”, agora um pouco mais a demonstrar impaciência molhada em fedor, ameaçam gritar o choro, estão lado a lado como bons soldados que se deverão no futuro combater, ao menos na língua. Ela Ele. Ele se diferencia dela, mija igual, talvez a mesma quantidade meio avermelhada meio amarelada cheirando amoníaco; se diferencia defecando um misto de leite e papinha, empapa a cama de mamãe, que por enquanto ri, vai chorar de raiva lavar corar enxaguar pôr no sol o ‘pano de cocô e xixi’ daqueles projetos de gente que, em se alcançando, unhar-se-iam, não se sabendo agorinha inimigos.

b)Dois na Brincadeira
                                                 Garotos garotas,  brincam aí fora. Falam
                                                                          gritam discutem mandam intrigam defen-
                                                                          dem se  defendem  ofendem choram  tor-
                                                                          nam silenciar. Voltam à baderna como se
                                                                          o ato fora mal interpretado e o diretor exi-
                                                                          gindo repetir:  falam gritam discutem não
                                                                          se entendem novamente. Parecem adultos

          De repente, que é forma cômoda para acomodar as coisas intrincadas dos Escribas desta vida tormentosa querendo convencer Fariseus sabidamente incrédulos, de repente estão a oposição de braços dados, devendo antes ser ‘as oposições’, a oposição do lado de cá contra a oposição do lado de lá, nesse momento apenas se distinguindo uma por ter de abaixar arreganhar as coisas e “verter água” no dizer caboclo; outra abrindo a torneirinha, ainda pequena e não tão mansa que o proprietário useiro e vezeiro não manuseie e manipule de tal sorte que às vezes tem sorte e mamãe não pega o flagrante e aí não condena, nem o Diabo pode com moleque ela fala decerto antecipando intrigas da oposição; a Mariazinha é mais fácil de criar mas como andam as coisas cada vez mais difíceis e tem gaviõezinhos já rondando a presa, preza a filha e a deixa presa enquanto os moleques por aí em gritaria; a oposição liga sim a torneira e mija no muro, sem vergonha do vizinho sem-vergonha, que é ele bem sem-vergonha todo pedaço tá cansado de saber, ó. De repente. E brincam de casinha ele é o filho, o Zezinho desconhece a coisa a fundo mas sabe ser filho, é cômodo como cômodo a Escribas enganando Fariseus ser filhinho da mãe; Mariazinha lhe traz comidinha na latinha de sardinha comportadinha e o filhinho come no faz de conta e faz de conta que come e mastiga de boca aberta o porco e ainda, porco, derruba no peito suja a camisinha, vê a camisa vermelha suja que a mãe de verdade não faz de conta e bate mesmo, quem aguenta ficar lavando roupa desse imundo! e tem razão ambos e o terceiro a ter razão é a mãe de faz de conta e o Zezinho brinca com a oposição, tendo assim ‘ó’ de oposição, porque nessas coisas tem mais menina que moleque, brincam que é uma beleza e sobra lá uns desentenderes coisa pouca e às vezes acontece o desconhecer. Sim porque vez por outra o homem, filhote do macho da espécie em extinção Homo sapiens antes tendo sido de Cro-Magnon Autralopithecus e mesmo macaco declarado, o homem não sabe que é homem ou será, ou Deus me livre e guarde, opte pelo terceiro sexo, já estão lutando mesmo pelo casório de duas fêmeas e o de dois machos a gente nunca sabendo em que dará; esse homem não se sabe homem e se mistura com elas, enquanto pequeno, elas já grandinhas e sabem das coisas coisa pouca e saberão depois mais das coisas; e assim se misturam e se não encrencam, porém brigam sim, sem sair dentada mas muita correção das mães, aí não estando nem um pouquinho em faz de conta. E aí faz de conta que o Escriba, eu, convenceu Você, Fariseu.

c)Dois na Escola – a Oposição
                                                 Parafraseando Lobato, se as mulheres
                                                                          se  beijam por  não poder  morder-se;
                                                                           podemos  dizer:  nós  seres  humanos
                                                                           mordemos primeiro por não sabermos
                                                                           beijar

          O Zezinho não faz mais xixi no muro, faz sim mas já sabe se esconder, esconder o crime, e fica aquela fedentina, gente sendo como o Bob o Bob não bobeia: levanta a perna mamãe falando ser ‘pata’ a gente achando engraçado engraçado também levantar a perna, bem, a pata e molha sempre a mesma árvore depois cheira e cheira a urina, ele menino também urina no mesmo lugar com o mesmo conforto, esconde o feito do malfeito sem ser mau, normal ora. Na fralda não, desabrigadamente no tijolo do muro também não e olha pra lá olha pra cá e não vem gente, curioso não teme ao gato ao pardal ao Bob e faz. A Mariazinha, a mãe chamando “Mariinha!” em jeito doméstico, ela não se agacha por aí, está grandinha e depois irá ficar uma bonitura, é meio feiota e não desengonçada como os garotos, é meio, faz caretas no aperto mas corre em casa e se senta comportada e enxuga e limpa como a mamãe explicou; ah e dá descarga direitinho. Aí vai. Vão pra escola, ele mais atrasado ela menos atrasada. Na aula se aconjuntam, tem ‘aconjuntar’? não faço a pergunta ao Fariseu, pois quem sabe a resposta não faz a pergunta, se agrupam, ele corre bravatar aos outros meninos, ela falando manso baixinho as coisas das coisas que já sabe e as outras mais ainda das coisas, crescidas. Por crescidas se dão conta da beleza do namoro e muita coisa de artista, “vi na das oito ontem” e só param o falar quando interrompem o falar por ter-se chegado algum moleque enxerido, e voltam a se falar à boca pequena quando se vai embora o intrometido e se riem. O riso é a arma fácil do jovem; que ele usa quando deve usar e quando não sabe usar usando aqui dum direito o direito de viver sua fase no sempre das coisas. Em classe, da primeira meio bobinhos à oitava série meio malandrinhos, em classe tudo muda e fica do mesmo jeito, o jeito de ver o mundo femininamente e o jeito masculinamente de ver. Joãozinho (mas não era Zezinho! lembra o chato Fariseu o Escriba indaga sem contra-resposta: e não é tudo a mesma coisa? algum nome já conseguiu mudar o Mundo!) ele pensa que é o bom, se integra primeiro no Clube do Bolinha como os gringos nos mandaram, ela primeiro no da Luluzinha pela mesma forte razão; depois se independentizam (não tem. Xingo ao Fariseu, teimoso, quem teimoso o Escriba  o Fariseu? perdoemo-nos as encrencas nossas de todos dias na língua;) vão melhor crescendo e se defendem acusando a oposição, cada qual em seu clube, o que é flagrante na Escola, como foi e ainda é na Escola da Mariana: “esses moleques são...” elas; eles: “essas meninas...” e vai por aí, paro por aqui. Que farisaicamente se esperneiem, espernear é um direito constitucional. E pronto.
                                                  
 d)Dois na Adolescência
                                                            O que faz da gente a gente que a
                                                                                           gente é é o que pensa a gente

          Homem é um bicho sem vergonha, mas até que ele é bonitinho. Não é como os outros. Responde “presente” no Colegial mas não está. “Ele anda olhando aquela bruxa...” Zezinho, não era João! o Escriba responde presente e afirma José, Zé se acha o dono do mundo, talvez mais humilde aceite ser proprietário dum harém, a Mariazinha... não é lá aquelas coisas, a gente puxa o cabresto, se alguém mexer com ela vai ter comigo, e avermelha. Não, não tem dessas vergonhinhas bobas, é a nota, agora no conceito do conceito e créditos etc. e tal, crédito para o qual contribui com bastantinho débito e se encosta nas costas dos outros da equipe, sempre tem lá umas menininhas que fazem tudo pra gente, as bobas estudando e elevando a aprovação do grupo pela mestra, ele fazendo uma cara de entendido, olhando cinicamente como fosse um sábio eruditando conheceres e vendo um femeão na professorinha nova e aí... bem aí Mariazinha responde por ele e a equipe ganha um conceito azul, avermelha bem. Bem pior entrassem na droga, ficam na droga de vida que é a vida, gritam os adultos pessimismando mas não são adultos: apenas se bicam se ofendem nas oportunidades surgidas, a da gravidez por exemplo; ele não se engravida, foge; ela que embarriga precocemente e as famílias se entendem entender, ou não mais se entendem. Aí, as loucuras da juventude, ainda bem nem Fariseu nem Escriba sejam jovens, sendo adultos respeitáveis e respeitados.

e)Dois Adultos em Oposição
                                                     Marido entre nós:
                                                                         na pobreza é um mata-fome da passa-fome;
                                                                          na classe abastada é o sem-sorte da consorte

          Mariazinha, Mariinha pra mamãe que teve quase um xilique pelas besteiras nem o Diabo pode mas isso não é válido aos rapazes? Mariazinha já fez a barba passou água ‘qualquer coisa’ na cara dando um cheirinho agradável e fica assim de garotas a xeretar e tem culpa em ser tão atraente! se queixa com os outros os outros tendo sempre os mesmos dramas e se contam das noitadas muito chope e rolam outras coisinhas e... péra lá, Mariazinha está nesse ponto! que Maria coisa nenhuma, Zé. Não falei que excesso de Fariseus atrapalha escassos Escribas!? Zé, naturalmente. Agora Dr. José, Sr.José se se quiser, Zezinho apenas à esposa do respeitável; à secretária também, por ser uma gostosura. Ela é uma senhora femeão, Mariazinha, Zinha até ao chefe, não é propriamente Mariazinha porque no seu tempo já caíra de moda a moda da Maria – os nomes eram os da novela fora os do cinema, Maria aqui, se me perdoa e permite o Fariseu, Maria apenas figuradamente. A Maria-Esposa agora espera (o segundo filho? capaz, ficou no primeiro iria estragar sua plástica e a beleza, parindo, dando à luz um exército!) sim espera o Zé, telefonou vem mais tarde, aquele maldito escritório, vem mais cedo, madrugada. Enquanto ela... a gente nada  tem que ver com a vida íntima dos outros, eu Escriba não tenho, debitar aos Fariseus por aí a bedelhice. Neste ponto nada acresço ou cresceria esta conversa virando romance, gênero que ninguém lê, lê somente revista em quadrinhos, muito menos ocupados em farisaísmos os leitores.

f)Dois Casados
                                            Os cônjuges consideram seus respectivos cônjuges
                                                                  como o melhor animal adversário de estimação

          O Zé, diz a Maria, é nada nada confiável.
          Ele não. É um senhor distinto, se os outros andam em farras por esse mundo... ele vai com a esposa à missa domingueira encontra os amigos na igreja, batiza os filhos, não é um só? não enche o saco, fala nervoso o Escriba e tudo o mais. Tem os encontros mas tudinho familial – churrasco cerveja  conversa-fiada alguma piada, a peluda falando baixo. Gente educada. Só no lar é que vai pegando um pouco a engrenagem e se desentendem, ela cobra cobra ele nas coisinhas, ele se esquece das coisas, bom pai bom marido e só a Comadre não sabe de tudo do muito pouco que se sabe, e ela chora, a Comadre não, esta só faz aquela carinha de piedade por fora por dentro rindo da boba, o meu? diz a Comadre foi bom; agora não quer pagar a pensão, devo pô-lo no juiz, lindo esse ‘pô-lo’ tanto que o computador grafará por sua conta ‘pólo’ isto é outra encrenca, naquela encrenca ela chora encrencada, o Zé não é confiável. Ela não exagera.
g)Dois na Velhice
                                                 Nada mais engraçado que velho sem graça.
                                                                          Um homem ou uma mulher no ocaso é um
                                                                          caso  de naufrágio  na  tentativa  de  salvar
                                                                          fragmentos dispersos na tona...

          Não exagera Maria, Zinha aos próximos, se fosse moderninha prafentex coisa assim exageraria, estando no terceiro marido ou quarto casamento. Ele perdendo a conta, só contando o bolso, a Justiça é implacável além de cega não enxergando as injustiças miúdas dos pequenos as graúdas do graúdos; implacável e tem a pensão xis a pensão ipsilone e tudo o mais e pagar universidade, os filhos afundam a economia da gente, perde a conta pois tem a secretária e a outra, sim não exagera, quer somente o que é dela, tem que defender o filho, ela o fez sozinha! a Comadre diz que não e têm razão ambas. Agora acalmou um pouco a coisa. Estão velhinhos, dourados terceira idade e outras tapeações a encobrir ais e uis. Esse aí, o José... diz a Dona Maria, chateada nem lhe trazem o neto pra ver e quebrar os bibelôs da estante. E diz e trocam ais as mulheres, não se pode mesmo confiar na oposição. Homem! dormindo ainda assim não se confia, o Zé...  o Zé! esse homem... Ouve engole resmunga pra ela, ela manda nele pois jovem mandou nela ou pensa haver mandado, só escuta e dessa maneira não brigam mais: não se falam. O Escriba, Fariseu, descobriu que no dia imediato em que a Natureza corrigir esse defeito que é o defeito da gente falar, nesse dia abençoado não haverá mais desentendimento, muito menos batalhas e a Guerra, só a Paz. É portanto a faculdade do falar que tira a faculdade ou deturpa ao menos a faculdade. Como não se falam, estão uns, homens, pra lá, umas, mulheres, no grupo luluzúquico – então já não brigam, no asilo; em casa vez por outra se chocam, não têm mais nada a dizer. Em não ser quando vem gente em casa caso não esteja o casal desagregado agregado em casa dum filho e só brigando sogra e nora e nora e sogro, mas aqui entra outra conversa, desconverso quantos Fariseus possam haver. Quando vem gente em casa não tem caso: apenas os jovens falarão, rirão gozarão bastante; os velhos verão não ouvirão por surdez ou por não lhes passarem a bola (na reserva? cartão vermelho?) e se vão os de fora íntimos, e os íntimos velhos vão pra cama descansar varizes ou se sentam, quando muito se olhando sem se verem, para melhor ver o ruminar.
          Péra lá um pouquinho, não estará o Escriba se repetindo repetindo outros anteriores capítulos! Bilhete ao Fariseu: a vida é uma repetição de erros, nisso consiste o acerto. O acerto é filosofia da poesia da loucura da paciência, a paciência para qual peço juridicamente vênia.

h)Dois no Cemitério
                                                           O que mata o homem não é
                                                                                         o uso, o abuso

          Ah que maravilha, que gostosura o cemitério! tudo quietinho não tem briga não tem oposição. Tem tristeza, quiçá desesperinho a sujar aquelas limpuras; Dona Maria, que já foi bonita pra chuchu nunca se conformando com a forma gráfica dessa água limbenta que gruda nos dedos da gente e a Comadre sempre falando cortar dentro d’água que não gruda gruda sim gruda pouco e por que ‘ch’ se xadrez é com xis! coisa pouca nesse bastante porque agora basta, o Zé na frieza do lá embaixão, se esquecendo ela ele ter sido um marido safado ou sendo ela antes intratável, ah era tão bom!  e chora de novo, velho como o mundo é mundo; o fato é sobrar viúvas frágeis tanto existiu o sexo forte que morre mais cedo com tanto cigarro e aperitivo e noitadas do jovem forte até em sexo, agora sete palmos pra cima, ele lá embaixo naquelas friezas e depois se adesmanchará, credo não quero nem pensar e não pensa, chora. E todos consolam e vai pelo ar um cheiro de flor murchando e de vela porque o que defunto mais gosta é de vela o sebo a derreter! Pensamos que eles se consolam e vamos logo à saída da entrada, os funcionários estão aflitos para ir brigar com as esposas no reduto do lar e além do mais quem gostaria, quem se arriscaria a ficar preso na necrópole... Ninguém. Ninguém para contar a história dessa estória, sobrando apenas eu,  Escriba,  que não obstante só ter testemunha de meu testemunho, leio releio assino embaixo sete palmos acima dos sete abaixo, onde reza que o Zé não reza mais e Você, caríssimo Fariseu, suponho também reze sete... o que reza um fariseu milenarmente consagrado? não importa, sete é já conta de mentiroso. E neste prolongamento de conversa nossa... Dona Maria! gritamos não ouve, só escuta a si mesma “ele era tão bom”, inconsolável, isso não encerra o assunto; talvez a Batalha, uma, não a Guerra, a permanecer a Guerra em Paz.








































VIII – Partezinha do PARTO
                                                 Eterna Guerra Santa
                                                                           A Bela e o Fero. Existirá alguma
                                                                                             coisa  no mundo  mais  subjetiva
                                                                                             que a beleza!

          Tanto não acabou que me proponho, não havendo demais  ntervenções farisaicas, a tentar resolver o dilema, aqui indagando por saber que não sabe o Fariseu o que seja dilema, pois não deve caber isso numa Guerra limpa santa como é a Guerra em Paz entre homem e mulher. Seguinte. Como é que as mulheres veem a briga ‘homem contra mulher’; e os homens a briga ‘mulher contra homem’. Se na bagunça formada, pois onde já se viu uma guerra sem desordem! se, digo escribamente falando e perguntando, se a mulher defende outra mulher perante o homem; que fará como agirá a mulher diante de sua rival. Não sei, saibamos juntos, porque Escribas e Fariseus que não saibam unidos permanecem unidos, esse um princípio de moral religiosa mesmo, mesmo porque o período gramatical anda parecidinho com ‘samba do criolo doido’.
          Talvez um bom caminho a saber seja o caminho das filigranas e miudezas que vivemos vendo ouvindo sentindo na Guerra que se desencadeia ao nosso lado. A Neusa por exemplo, vizinha bela boa briguenta bençoada por evangélica, tudo com bê, ela lamenta ao ver a sujeira que a oposição deixou agora na pia, o diabo é que todo santo dia todo tem que trabalhar para tirar o sustento fora e eles, os machos, não limpam não lavam, quando lavam não lavam bem deixando sujeira na roupa mancham a roupa, custa separar a azul credo como sai tinta e a vermelha eu falei, fala agora: põe sal, uma colher, e um pouco de vinagre na primeira água quando tecido novo, uma sujeira, homem? homem faz tudo pela metade. Mas chega de especialistas bélicos e especializações com mestrado doutorado o escambau na tese da vida reta, a Laura é diferente. O gordo da magra, ele destamanhão, ela é magrela e fica bem chamarem-na Laurita, ela alimpa o balcão da venda, tem cachaceiro já raspando a goela, tem outros a cuspir e a fumar adoidados e a babar, quando nenezinhos babavam pra valer e mamãe limpava com a fralda a pontinha dela e todos achavam uma gracinha, agora a babar babagem bobagem babaca bobando bobo a falar mole; ela balança pra lá pra cá a cabeça morena bonita ainda, ainda bem usada e o gordo não vem nunca mas chega bufando e ela limpa o mármore de pedra pedra de granito trincado sujo, esses sujos e até seu gordo oponente faz sujeira por relaxo e ela despenca o saber: homem? é tudo porco. E talvez com razão, não tiro a razão pela razão em ser Escriba esperando a espera do Fariseu que também concorde nessa discordância e aí já acordado.
          Acorda um personagem meu, como se diz quando o personagem é ela? não sabe que sei que não. Não importa. Esfrega os olhos, aquelas remelinhas endurecidas quando a gente, aqui homem e mulher, se levanta, abre a boca o dormir indormido, a cachorrada tem uma no pedaço e eles latem no latido dos outros por causa dela, será que exista Guerra entre os cães, macho contra fêmea! não vem ao caso, ele, ela a personagem afirma: “Todo homem é confiável. Esteja ele dormindo”. Isso certamente não revela confiança total naquela montanha de músculos com muitíssimo pelo e pouquíssima massa cinzenta. A propósito.
          Sim. Bem adequado – quem o mais a ser mais inteligente ser. Aí não se sabendo sabendo-se não se possa medir a mensurar a contento no pleno absoluto. Recaímos sem saber no nunca acabar, o homem dizendo que o homem, a mulher a dizer que a mulher, mulher ou homem? O homem tosse, tosse outra vez e novamente e a mãe do Vicente, um amigo aqui do Escriba a falar do pai dele: “ói o leão!” aí o leão morre e a deixa viúva e ela imita Dona Maria a falar: “ele era tão bom!” sem conhecê-la, veja bem. Bem a saber um episodinho da Guerra contra o esposo que se achava ele decerto mais inteligente por homem. Quem? Ora não sairemos do círculo vicioso como quem o primeiro o ovo ou a galinha? Isso tudo não é eterno! Que é eterno? a Guerra, a Guerra Santa?
          Contudo, essa argumentação safada exposta até aqui irá demonstrar um obvinho: não conhecemos muito dessa Santa Guerra. Em vista disso iremos nas linhas seguintes, mais de meia dúzia de linhas, apresentar alguns possíveis elementos a esclarecer nossa (Escriba+Fariseu e Filiteus e Cananeus e Doutores e Publicanos e a Massa Ignara) nossa também Santa ignorância no assunto; com direito antecipado a fornecer dados a entendermos enfim a Guerra em Paz.

IX – Partona do PARTO
                
                     Algumas Recordações das Lembranças
                     em Plena Guerra, por amostragem
                                                                          O homem não conhece o homem.
                                                                                             Mas o homem arremeda explicar
                                                                                             o homem

          Este ponto do trabalho presente tem por objetivo apresentar algumas páginas, como dito mais de meia dúzia delas, a fim de exemplificar essa luta incansável (infindável?!) entre os dois sexos, tomando-se fatos corriqueiros, uns intrincados e anuviados outros, incompreensíveis quem sabe todos, as mais das vezes ocorrendo ao nosso redor. Digamos que o Escriba, desocupado, se ocupe a encontrar os argumentos que não soube satisfatoriamente ofertar até nesta trigésima oitava página. Poderia agora desenvolver um romance em torno do palpitante assunto ‘24’, em pôr cisco e areia nos olhos dessa farisaiada por aí; não o fazendo em virtude da falta de virtude no mercado: o preço do papel, o preço da tinta, o preço da digitação (todos querem se aproveitar do pobrezinho Escriba, pensando o infeliz ser rico e que esteja escondendo o ouro ao bandido e por isso metendo a faca; e não é, é aposentado, um animal perfeitamente em extinção).
          Antes de prosseguir, aí desenvolvendo  tais argumentos, vamos alertar para a maneira de apresentação das ‘partezinhicas’ desta Partona número Nove.
          É o seguinte. Vamos enumerar assim: 1ª, 2ª, 3ª e daí por diante quantos trabalhos como exemplos for possível, torço eu Escriba que muitos, a fim dar base às afirmativas, embora tais trabalhos sejam amostragem de ranger e lágrimas.
          Admitindo sim desde já – um arremedo de explicação.
          Feitos os esclarecimentos, pé na estrada.

IX – 1ª                                       IoIô
                                                             Na guerra conjugal só existe oposição:
                                                                             a situação, camaleona, desvira
                                                                             no embate e ataca oposicionada

Estou me lembrando de duas coisas que esqueci: o jogo que nunca aprendi bem fazendo o gozo da meninada perdendo a ela no ioiô, um costume francês, e o lembrete dum escritor, me parecendo Eça, o qual falava das mulheres sempre terem guardado em estoque as lembrancinhas da estupidez macha, em reserva para os embates na Guerra do casal, aí a companheira despejando suas coisas na fuça do sujeito ele, pobrezinho, não se sabendo safar.
          E agora nesse ontem deveria haver mencionado não o fazendo por esquecer-me, não por não me lembrar, me lembrando, portanto, que são três e não ‘duas coisas’. Agora eu, tadinho de mim, andava jogando no meio do casal, parecendo candidato à bala perdida em alguma favela carioca entremeio a bandidos, saiba-se: traficantes dum lado polícia doutro, eu no meio como disse e contestariam fariseus. Estava.
          Agora eu era o herói e meu cavalo não falava inglês, eu o Escriba, não falava, olhava, como no jogo do ioiô prum lado, o lado dela, pro outro, o lado dele, ambos a me perguntar com os olhos “está do lado da oposição!”
          Porque é coisa chata ir visitar o casal amigo, mais menos se parente, ainda pior por ser parente portanto íntimo. Aí despejam suas coisas eu olho terrificado, o que dizer! Você lembra daquele dia? (eu é quem me lembro do Eça) ele não se lembrando, nos esquecemos das lembranças chatas. E os contendores se xingam, se forem bem educados; tudo isso se for parente, o irmão do Zé por exemplo, aí pode falar aquele nome e se machucar o irmãozinho do esposo ele é da família e perdoa. Você naquela noite... me fez isto ou aquilo; e falando em noite na alcova devera estar ela defendida dos indiscretos, nesse ponto constrange a gente no meio dos tiros ou pedras ou...
          Ninguém, é verdade, morre. Morre de raiva, ficam emburrados chateados compungidos envergonhados mas... já me atingiram não tem como desfazer.
          Quer dizer, faz-se algo: pedem desculpas, quando muito isso; e a gente fala pra consolar o entre mortos e feridos umas verdades verdadeiras: que nada, tudo bem, é assim mesmo (‘assim mesmo’ é o tipo da expressão idiota que fala sobre o tudo nada dizendo) tem nada não, é assim mesmo, todos brigam etc. e tal e aí você, não eu, eu sim conto, ela enxugando no lencinho ele com cara de tacho, eu conto: a Fulana? fez isto e aquilo me disse me desfeiteou xingou-me até a quarta geração, o que é mentira da verdade, verdade esquecer-me do que disse e como foi que a arrasei, arrasei a Fulana, tanto que me deu um pontapé na traseira e fiquei chupando no dedo, ah costuminho bobo, quando moleque chupava no dedo e mamãe: um dia Escribinha, ela era carinhosa, um dia ponho merda de passarinho no seu dedo só para ver se perde esse costume, não tem vergonha!
          Não tenho. Só de lembrar. Lembrar ia narrar linda estória duma briga conjugal assistida com estes olhos que a terra há de comer, não fui além dumas pancadinhas, eu olhando como no jogo ora um ora outro. Ah que dor.

 

IX – 2ª                        Uma Noite na Cama com o Inimigo

                                                                    A vida conjugal é uma teimosia-gêmea
                                                                                   em que  um  teimoso  teima a demover
                                                                                   uma teimosa da oposição
         
          De repente – já devo ter justificado em não sei onde o ‘de repente’, que é a absurdidade para salvar um escriba duma situação em que nada tenha pra falar e aí fala – de repente um Escriba, não: deletemos ‘Escriba’, por que só escriba deva apanhar e ficar em situação difícil quiçá insustentável! Botemos no lugar agora um Fariseu, pra ele ver como a coisa é dura de meu lado. De repente um pobre fariseu de nome Zé, muito bonito, o nome gringo é o bonito o fariseu feioso, aí estou vingado. Um tal de Zé se pega numa contingência que não definiríamos como ‘paz’. Sua bela (essa é bela, toda vizinhança acha, os homens do pedaço; tanto ouve fiu-fiu e cantadas no centro de compras; e o esposo, tido enfim por esposo, fica assinzinho com ciumeira) sua bela consorte, aqui já tendo conotação burguesa, ela, essa lindura, brigou com ele. Ele que disse; disse ela o contrário: o homem brigou ofendeu a sogra e os parentes dela, ela? primeiro ficou ofendida, depois não falou nada, talvez por fevereiro e se fala menos; depois ainda chorou baixinho quase inaudível somente elevando o tom do choro quando o inimigo perto; finalmente ficou bicuda pra seu lado. Não, mudemos esse ‘finalmente’ para ato contínuo, mais consagrador em tipo xeque-mate! isso. Portanto foram pra cama, não cantavam os galos, o galo começa a cantar mas ela parara de chorar só emburrada, virada pro outro lado que não o lado dele, o dele com um afundadinho maior porque homem que se preze e Fariseu se preza é mais pesado afunda o afundado mais que a beldade cheirosa de costas. Certo, tem um errado até eu Escriba já descobri: ela não mandou o companheiro para o sofá nem fugiu ainda ela para a casa da mamãe, se bem que tenha pensado o telefone com defeito, tanto que já planejara, quando voltassem às boas, mandaria seu homem reclamar na empresa, agora apenas enfunada e piormente muda; surda também sobretudo à voz grave modulada a “meu bem” “meu amor” “luz da minha vida” e até... não, perdão ele não pediria, falei que o Fariseu é só feio talvez horroroso, pobrezinha dela, não disse que não é homem, aí não se rebaixaria não pediria perdão pois não foi quem provocara escândalo, somente a oposição faz isso, é oposição e pronto.
          De repente, talvez um terceiro de repente desta safra – ói ele, o Fariseu, dormindo, dormindo de verdade, roncando não ou a bela perderia o seu feitio diplomático, dava uma sombrinhada nele e aí acordaria a recomeçar desavenças, brigas, batalhas, a Guerra. Não. Não roncava.
          E não aconteceu coisa alguma.
          Ele dormiu mesmo.
          Talvez a inimiga tenha insoniado sem poder culpar o serrote no seu dizer que é o dizer do roncar.
          No outro dia... ora não sei, não me perguntem, indaguem ao Fariseu, pois sai da alçada escribeira.

 

IX – 3ª                            Plantação

                                                               O homem, o macho, é um caçador de
                                                                                fêmeas a ser cassado pela civilização
           
          É isso que penso. Um escriba, por extensão o Escriba, é um lavrador. Em razão de toda e qualquer besteira que lhe saia, sai de sua lavra. Quer mais lavrador? A sentença em epígrafe é uma lavrinha dele, uma loucurinha preambular da loucura, à loucura propriamente dita. Dito, vamos ao não dito.
          Ele – afirma a tese – é caçador deve um dia (o da caça por exemplo) ser cassado tolhido em seus ímpetos e desmandos. Antevejo, o Escriba antevê, antevejo uma gritaria imensa de fêmeas, a gente nunca sabe qual escolher pois é tudo uma gostosura, uma gritaria em que se sobressai a Comandante em Chefe, Chefa, a berrar fino doendo ouvidos: “Mulheres de todo mundo, uni-vos!” a gente não ficando para ouvir melhor o pior: ser cassado. E, pergunto, e os direitos da pessoa humana!?
          Nesse dia, sim nesse terrível dia haverá então ‘choro e ranger de dentes’ como prometido.
          E para nós, os escribas comportadinhos monogamicamente solitários... nós que temos uma e única fêmea da espécie Escriba, que não olhamos sequer em não ser que não esteja presente o Fariseu, não olhamos mesmo para a fêmea da espécie Fariseu e temos certeza ser linda de morrer e até, por que não dizê-lo, uma gostosura! Para nós, dizia quando dizia, a nós nem o consolo a ser consolado pela nossa sem-sorte à qual mandamos calar a boca e aí ficou resmungando!  oh, piedade, clemência, já não se faz arruaceiras como antigamente.
          Neste ponto da desnarrativa (pois nada contei enchi linguiça) neste ponto deveria sim falar gritar urrar berrar contra abusos do abuso cassante. Mas calo-me, em protesto.

 

IX – 4ª                                Miudezas & Grossuras

                                                            Fico a  pensar  no homenzarrão.  Poderia
                                                                           ser pormenor no todo! talvez em criança;
                                                                            e sua  fêmea então  a minúcia,  o filhinho
                                                                           em  descuido  podendo  ser  o detalhe que
                                                                            faltava; melhor, que não faltava...

          Era grandalhão ossudo vareta, vareta não supõe sempre magruras, ele corpulento, cheio, cheio de coisa, não no sentido do não me toques. Ela.
          Ela sim assinzinho, melindre, um pouco parecença com uma planta rasteira com tal nome, a mulher de nome Joaquina. Joaquina e não tenho culpa, o pai tem por ordem da mãe, até o padre eles têm em cartório, o pároco aceitou como esses goleiros que engolem o frango e pronto. Pronto não, precisa sair escoltado de campo ao lado do árbitro, aquele ladrão. Se o vigário aceitou não tem discussão; ela não pensando assim até hoje, ontem, não posso me responsabilizar no que ocorreu nestas outras vinte e quatro horas, até ontem exigia ser chamada ‘Ina’ que não compromete. Aliás está errado esse certo de os pais registrar os filhos, estes dever-se-iam registrar e daí escolher um lindo nome, a carregar pelo resto da vida em aceitação tácita da opção, digamos Joaquina, que abreviaria mais tarde cansada casada com outro que não fosse o ‘Joaquim não encontrado’ e então virando ‘Ina’ o que é inaceitável pelo consorte, sendo burguês, sem sorte sendo pé-rapado, o caso deste caso.
          Mentira abusiva dos escribas por aí que o Escriba ouça a discussão (baixo calão não então fecho orelhão a desofender). Verdade que sai lascas iscas faíscas até se pode ver em lua nova na cheia não por excesso luminoso; e o foguinho que salta da língua poderosa dela, destamanhão, a língua, ela petitica magrelinha e se me deixa São Diacho meu protetor falar diria feia, não existindo isso em mulher, mulher só pode ser menos bela. Feio pra ele, aquela montanha de músculos e o som grosso lá encimão sai baixo ela escuta assim mesmo e rebate. E as crianças tadinhas!
          Aqui não é parque infantil, é ringue: ela peso-pena e dá pena; ele peso-pesado com cinturão da Liga Mundial e tudo. A pena derruba o galo derruba a montanha, arranha se preciso for o Cinturão da Liga, dá nele de cinta, engano: de língua!
          Novidade dessa ontura? de hoje que seja. Davizinho não deu uma surra tamanha no Golião?
          Não sendo assim, me enganaram. Devo enganar fariseus e filisteus.


IX –                              In Verdade
                                                                       Proprietário  do  Viaduto
                                                                                         tem direito constitucional
                                                                                         sobre Beldade no Viaduto

Suponha, tudinho. Achava que tudo coubesse dentro da verdade, mesmo a verdade. Por isso falou, inclusive insistindo no que disse:
          É tudo meu! Não terá posto sinal de exclamação, ficando essa arte por conta da arte literária farisaica. Mostrou. Tremido. A foto tremia em suas mãos firmes a firmeza da afirmação; amarelada, não da velhice mas do uso do abuso até pela exposição diária aos matutos. Uma foto assim das antigonas, seis por qualquer coisa, hoje sendo padronizado em dez por quinze.
          Que lindo! ela exclamou “qui” e não “que”, ao sabor brasileiro. De fato lindo, mesmo o fotógrafo – via-se não se via – amadorzão, desses a cortar pés ou cabeças dos atrevidos pretendendo xeretar na imagem; além do que havendo os de vaivém num movimento, e, aí, tremem, não dando para saber quem seja o incógnito; com certeza ser incógnito apenas; não importando.
          Importa o Viaduto! disse o Antônio, Tonho para sua cabocla namorada pretensa noiva se o velho não viesse criar caso ou futura esposa, não dessas de agora sim com padre primeiro depois cartório; e naturalmente o baile; baile na roça saindo facada e tem sanfona, não é o caso, o caso entregue ao futuro, o futuro também pertencendo à verdade: tudinho cabe dentro da verdade.
Arrepare o Viaduto, a gente, carros passando. Tudo meu! (aí pôs sinal, a literatura não precisou farizar o texto). Botou exclamação, admirando na  admiração daquela beldade trigueira, com mãos calosas do cafezal e pelas mordidas de mosquito, esfoladas um pouco, mesmo assim belas. E acresceu, a mostrar como um milionário da cidade tendo antes sido expulso da roça e se emburguesado, como sofre também um ricaço:
          Não sabe Matilde como me dá trabalho cobrar dos carros...
          Ela se interessou. Então pagavam a passar naquela ponte enorme em despropósito cheiinha de arcos e frescurinhas!
          Pagam, diz Antônio, e não pagam. Uns caloteiros.
          A namorada arregalou olhos e a boquinha, aquela de futuramente beijá-lo.
          Não pagam direito e não tem importância, os prédios que vê ao fundo são meus também e de lá recebo tudo...
          Engasgou com o susto a Beldade futura arquiburguesa, não comentou. O  Rei  expôs mais exemplares de arte flagrados à posteridade por sua codaquinha usada e de lentes embaciadas. O Centro da Capital.
          Tudo meu!  Já havia em roda uma roda de roceiros cunhados e vizinhos vendo interessados tanta riqueza e ouvindo o contar das Mil e Uma Noites em pura linguagem caipira emigrada para a cidade grande.
          Casaram. Baile sem facadas a fugir da regra. Viajaram para casa, a ele a rotina a ela a residência nova na Capital. Na periferia feia rústica violenta real. Depois cuidou aquela Beldade dos filhos e dos netos, envelheceu desembelezou.
          Tudinho cabendo na Verdade, como numa Pasta do Computador onde cabe toda trapalhada, dos fariseus, que se possa criar.

 


IX – 6ª                                  Passear na Floresta

                                                               Vamos passear na floresta enquanto...
                                                                               Pior, ela sabe o que  seu Lobo quer

          Mariinha passeava em braços dados com outra Maria, da Glória da Conceição da Penha da Dona Dita não se sabe, ia pra lá voltavam, iam como namoradas as meninas, meninas têm dessas coisas ensaiando ao Lobo. Enquanto o Príncipe não aparecia, o footing no jardim o coreto a encardida bandinha os moleques xeretando um que outro cachorro e gatos longe do cães, aí assustou-se. Foi seu primeiro flerte e o garoto era feioso feiando a se exercitar ser homem Hércules míster essas coisas, era então não mais que moleque de penugem entre o nariz e o lábio superior. Esboço de relação de longe e platônica, embora não soubessem Platão filosofia e poesia, só loucura concretizavam. E marcaram através de da Penha ou de da Glória ou de da Conceição o matinê, que se realizava e sempre foi assim em cidade pequena, à tarde não de manhã, no circo não, tinha ido embora já desfeito e o delegado estava assim com a mão na cabeça de tanto reclamarem os pais pelas Marias suas inocentes puras virgens não mais virgens, tanto que o Doutor pensando em não deixar mais circo aportar na Cidade, com esse nome a Vila, armar e depois os pais em ais a reclamar e aí a população da Vila a crescer. Não. Matinê de cinema, onde quebrava a máquina, primeiro ficava a tremer a imagem depois cortava a fita, e os namorados não se importando pois filme é pretexto sempre às causas. Não. Sim. Disse não ao moleque, sim, Mariinha disse sim ao outro, que se foi desarmado o circo, ficando um neto ao pai de Mariinha que virou Maria, pra criar. Concorda, meu caro Fariseu? Sim, agora digo sim: uma contendora sem poder brigar com o contendor fuginte dela. Concorda?

IX – 7ª                  Inconclusões
                                                     A existência para todos,  homens  que brigam
                                                                   com as mulheres que brigam com os homens,
                                                                   em  bom desentender, é sempre inconclusa

          Era preciso acabar com isso que era aquilo. Apagou soprando a vela e não se fez a escuridão porque sendo dia e calor e cansaço e indecisão, achou melhor ir-se. Mesmo porque cemitério dá sempre um medinho na gente, gente viva, morta a gente não deveria mais de ter, agora tadinho, ah era tão bom! que o Senhor o tivesse, tivesse ficado vivo, quem sabe das coisas, chutava as coisas, todos só querem chupar, desmama filhos ainda querem mais, e casam e trazem noras pra também desatolar e vêm os netos, o pequeno a cara de vovô, tem cada coisa e dona Cota não sabendo de nada, como pode o neto ser o vô, ia dizer umas verdades à vizinha mas a gente não diz, diz o que não pensa pensando não ofender e se constrange dizer; por que não briga em paz com o marido dela em vez vir palpitar palpites na casa da gente? o que fazer, voltar, pôr arroz, e de molho o feijão pra amanhã, atender telefonema essa chatice, ah é bom desabafar com a filha a nora não entende e critica, critica até o filho que é filho dela e que se entendam me entendia às mil com o Tonho, tem fariseus que não entendem e picham, picham até a visita ao cemitério, não importa não me importo volto noutro domingo após a missa vou direto nem volto pra casa ouvir intriga da oposição e a filha também arranha de oposição, que discorde do dela, o meu está guardado quietinho debaixo da carneira, eu queria fazer capela pôr dizeres lindos ‘aqui jaz’ e tudo a que tem direito ele, brigava cruz-credo brigava sobretudo quando bebia com os amigos e aí brigava em vez de com os amigos comigo tadinha de mim, descontando isso era bom, não santo não, não tem santo não, arranjo outro, não tem santo mesmo, era bom, aí acendo mais uma, mais três.

IX – 8ª História de Amor com Nota de Rodapé
                                                                       Tratamento adocicado
                                                                                                       nem sempre indicado

          Amaram-se.
          O comum do ser sendo. Ela menos, não ingenoide e piormente pura, esta já ideia impura; mas simples e sem grandes exigências. Casou-se virgem, o que é nestes dias disparate por ninguém acreditar, você, Fariseu, não crê, afirmo virgem e religiosa, missa regular. Ele nem um pouco extraordinário, quem sabe mais vivo e vivido, um experimentado homem como a sociedade exige. Amaram-se. Nisto não entro por não entender do assunto. Querência, atração, regularização do  consórcio com o padre o cartório e arroz atirado a dar sorte na saída do templo, isso também não entendo, entendo sim porém não gosto desse tró-ló-ló. Fiquemos no casamento,  desses matrimônios duradouros que vão da cerimônia de enlace até a cerimônia fúnebre do desenlace, com direito a velório e enterro de primeira classe.  Ela virando uma viúva senão bela rica e disputável.
          Desde a lua, com mel e planos, antes da viagem e antes mesmo da união oficial já o namoro de ambos, onde havia o costuminho romântico e poético: ele beijava a orelhinha dela e dizia... bem, não temos direito a direitos de alcova. Todavia é certeza todos terem sua linguagem conjugal, onde se nada no tudo das palavras vibráteis despertadoras da sensibilidade, que ela possuía demais ele demais sabendo desferir (sem ser do tipo beijoqueiro). Aliás a linguagem se espalha em todos campos do mundo, tem a formal para se expressar e as estrangeiras para não se entender; entendem-se os povos. Existem as profissionais e as de rua, pródigas em gíria. Existe a de alcova como falei, própria ao casal, os filhos no meio entendem ou só a usando sem saber; sabendo bem o par, o par amoroso como ele-ela.
          Ele a beijava, de início lambia até, até não nos devemos intrometer. Beijava e imediato dizia a expressão chave assoprando delícias naquele ouvidinho bonito.
          Não nos interessa o que dizia o homem, não é da minha não é da sua conta, mas não exijamos demais nesse particular pois sei que o Fariseu já foi xeretar no rodapé. Então confirmemos: o sujeito falando “meu doce de coco” na orelhinha sensual da menina de seus dezoito dezenove anos, que é idade... deixa pra lá.
          Com um porém. O corriqueiro é se esquecer o homem da mulher com quem se enlaçou, não usando vocábulos agradáveis sonantes e despertadores da sensibilidade feminina durante a vida, só o fazendo, matreiro (ou poeta, quem diz que não existem, se existem loucos e filósofos!) só o fazendo nos primeiros dias. Depois?  ou  vira ‘carne de vaca’  como popularmente falamos ou simplesmente se esquece lembrando-se das dívidas de seus negócios e mesmo doutras coisas que se não deva lembrar. O comum.
          No caso deles não. Nem um só dia deixando nos momentos oportunos e à noite já quase entregues aos braços de Morfeu: meu doce de coco! Digamos tenha o sujeito tirado sub-repticiamente o ponto de exclamação logo após o primeiro mês ou antes do depois da primeira briga, entre eles apenas desentendimentozinho. Só viviam enlaçados a provocar decerto ciumeira na sociedade, rica em  B.O. na polícia desquite divórcio e equivalente amasiamento com o semanticamente correto ‘namorados’.
Amaram-se para cimentar o matrimônio, cheio de filhos, bem uns quatro, a petitica um amor do papai. Amaram-se com os inconvenientes do ramerrão. Em casa trazia ele as nervuras da empresa; ela administrava o nervoso dele com suas neuroses: cuidar do lar desgasta o ser – ah essas empregadas... Contava os desasfdoros delas.


Tinha uma, dentuça. Malcriada não, atabalhoada. Derrubava coisas quebrava bibelôs deixava sujeira para trás ao outro dia  e bedelhava indevidos – uma capeta. Um dia pôs na rua a dentuça. Ele? não dava palpite: em casa, “meu doce de coco”, você quem manda. A rainha do lar. E outras, outras mais,  não parando serviçais;  também a meninada dava trabalho pleno a salário insuficiente. Ademais empregada só sabe se queixar, algumas até roubar. Deus me livre e guarde!
Tinha as amigas. A estas se queixando melhor, que homem não entende das coisas. A elas podia falar intimidades; até usar as expressões da linguagem conjugal interdita aos profanos. “Ele, ela dizia, me chama doce de coco!”  Mulheres se compreendem, se conversam nas conversas, trocam ais e uis falam criança falam empregada falam moda, à moda que todos sabemos ou pensamos saber.
Não sabemos – nem você nem eu, eu muito menos o que se passa onde passam as coisas em plena região doméstica.
Assim foram indo as coisas. Cresceram os filhos, a pequena já na faculdade prestes a se formar para qualquer profissão liberal, os manos formados e profissionais. A empresa, fundada em bases dos fundos dela, ele a fez crescer e também crescer em problemas e num certo dia...
Bem, mal se sentou na cadeira da presidência caiu fulminado, o coração sequer perdoa o coração que dirá o cérebro fervilhando cifras. Assim deixando o costumeiro dizer à esposa: “meu doce de coco!”  nessa altura sem exclamação,  esta  engolida  pelas  atrocidades dos negócios  de  um homem de negócios. Ela virou viúva, quem sabe se não apetecível mas deixando ser coco no doce.
No velório que se seguiu ao médico e mesmo ao legista, a polícia sempre vive desconfiada e não crê em doce de coco facilmente; nesse velório houve tudinho que se exige – choros  velas flores anedotas à boca pequena.
Chato descrever isso tudo, não concorda comigo?
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Não obstante aconteceu um porém digno de nota. Quem mais chorava, e como! quem mais era a dentuça; não se convida para festas subalternos e menos os serviçais despedidos, de quem se costuma esquecer. Contudo gente é intrusa,  veio. Choraram, ela e duas crianças; até chegou a beijar o cadáver branco como cera, levantando suspeita e provocando escândalo além dos ciúmes na viúva, com sabor a coco decerto. A dentuça passou a falar aos convivas do morto que o  mesmo detestava doce-de-coco(**) apreciando somente o de amendoim; aproveitou-se a desaforada a lembrar outros inconvenientes; mas isso não vindo ao caso.
Nota. O senhor exposto na mesa em vida dizia aos íntimos não suportar o doce de coco, dava enjoo e dor de barriga; além do mais penetrando fragmentos pelos vãos da dentadura postiça, um horror.

IX – 9ª                            Abórto Abôrto?
                                                                                  A Ideia de que tive ideia
                                                                                                       brigou com o Sr. Motivo
                                                                                                       abortou  um  filho
                                                                                                       a filha em Solidão

          Aborto sim, tento abortar não fazer, faço errado outra vez, vez por outra não faço, faço que sim engulo a dor, choro a lavar, lavas a escorrer, agora não tem jeito, não tem mais jeito. Buscou a clínica do sofrer para dessofrer enganar o não existente. Primeiro procurou em boa indicação a Bruxa, nem todas são más, e garrafadas a expulsar pois que dona de seu corpo, o corpo não sabendo disso e por isso cobra, cobra depois se quiser se não se quiser. E se livrou. Definitivo. O que é definitivo? Ficou o definitivo o tumor o câncer, cobrantes. E engana o ser o ser enganado cobrado perdido sobrado cansado nunca saciado, saciando em vício e desmancha em vício e perde, não tem mais o comum, aquele que o normal da vida paga em vida. A vida prosaica farisaica laica do sagrado. Aí se assenta se alimenta na ilusão e vegeta e seca e morre, morre antes a juventude envelhecida sem direito a viver, a arrastar-se em sobrevida que é subvida na saúde pública, a qual é o óbito oficial da gente pobre, pobre em ganho perde a chance, pobre por ignorância, aí já muito saber, sem poder brigar com um só, a brigar com o mundo. E se vai, sem epitáfio e sem nome, com muita terra sete palmos por cima, em provisório ante-poço de todos. Abortou em viver, viveu em abortar; episódio da Guerra em guerra perdida. A refazer.

P.S. – meu caro Fariseu, não venha com sua filosofia desmancha-prazeres a dizer-me que a poesia escriba seja fúnebre e ademais não tendo o sabor da briguinha corriqueira entre machos e fêmeas da espécie em extinção dos terráqueos. Não. A minha personagem terá fabricado seu monstrinho por partenogênese! Não terá sido induzida à tragédia pelo explorador etc. e tal? Concordo com seu pensamento, pois deve estar pensando: a filosofia e a poesia são a Loucura.

IX – 11ª                           Em Concordância
                                                                            Conquistazinha, coisa pouca,
                                                                                                para macho lésbico
                                                                    
Já sei, concorda comigo. Não com o sujeito?
Ele olhava olhava, via, claro, via, a que serve olhos, pra ver naturalmente. Se bem que não devesse ficar vendo, quer dizer olhando, pois quantas vezes não olhamos e vemos, é da definição humana. Pior o caso deste caso, caso não olhasse e visse, via vendo. Chateando a vizinhança, a Vizinha Boa.
          Vai ser boa lá nas Cocadas!
          Também expressão do sujeito, sujeito agora à nossa crítica, minha e sua.
          Bem. Ficava vendo todos dias todo o dia. Embora ela é quem não ficasse dia todo em casa, trabalhando na loja de calçados. Bem; pensou comprar ou só experimentar um parzinho, tem freguês chato faz descer a prateleira e não compra; desde já se dispunha em não comprar mesmo, pois seria pretexto a sentir em seus pezões (xô xulé!) as mãozinhas da Boa.
          Chamá-lo-ei Sujeito, que não é um nome bonito, sei; a ela Maria, há alguém sem nome!
          Assim ficava vendo todo santo dia: segunda e terça e quarta e quinta e sexta, sábado e domingo sendo ótimos pra ver a Boa porque graças à semana inglesa os trabalhadores ficam em casa descansando.
          Ela não. A Maria, ela não.
          Sim, descansava e ficava em casa às vezes no fim de semana, mas não só para ser vista pelo sujeito vizinho.
          Morava em frente. Ou ela que residia de propósito no número 44 diante do 33, casa do sujeito casado com olhos destamanhão.
          Depois melhorou. Melhorou a quem? me pergunta, ao sujeito, lógico. Comprou uns óculos escuros, desses que se vê e não se vê que se vê, desses. Por desgraça ou apenas a lhe dar prejuízo ou raiva, não os usou. Que usasse uma das lentes. Não, desse jeito não serve, serve é olhar e ver com as duas.
          Não queira entretanto adiantar as coisas, pois aqui estou somente a contar do meu contar. Não se beneficiou do par de óculos escuros, meio esverdeados para ver mais verde a Vizinha Boa, Maria como apelidei pra não deixá-la desnomeada.
É que o interessado descobriu outro, outros talvez, interessado igualmente nela. Chegava, fechavam o portãozinho fechavam portona da sala e quem sabe a do quarto. Dormiam lá dentro. Aí melou.
Ele que usava essa expressão chula, ‘melou’. A ciumeira. Quis, eu quis (não me meto em vida alheia e assim deletei o verbo conjugado no presente fiquei no ‘queria’ sem jeito a executar tentames) eu quis levantar a lebre, diria: “você está enciumado!” Ele negaria é óbvio. Bem diria insistindo “tem boi na linha” no caso um touro, ele pensava estar sendo traído, teria imaginado comprar um baita trabuco, expressão usual do sujeito não minha que sou pelo padrão vernáculo admitido na Academia. Compraria arma e ói nós com um vizinho assassino em vindita contra conquistadores dessas Marias!
          Depois, não muito depois, saía o namorado, agora se usa namorado a manchar o santo nome amante, consagrado por centenas de anos na arte de pular a cerca com ou sem guarda-roupa.
          Saía. Imediato (estou forçando este ‘imediato’ vamos pôr um hiato de suas meias horas, por aí) imediato entrava outro. Um dia levantou o sujeito profissional em ver na madrugada só para ver não viu, viu mas não viu bem se era outro, pois não poderia que o primeiro tivesse saído a comprar cigarros tomado umas e outras e voltado! podia sim. Não viu bem.
          Bem, ser traído pelo primeiro ou pelo segundo ficava do mesmo tamanho, tinha a sensação em estar sendo traído!
          Me pergunta Fariseu nesta altura do contar o que pensava a mulher, não a do 44, a do 33, a esposa gorducha do sujeito. Não sei. Creio entretanto que não haja dito a ela. Você contaria?
          Eu não contaria, mas eu não conto. Nisso apenas o meu contar sobre a apaixonite do sujeito dia e noite olhando aquela Boa Vizinha e já disposto a comprar até a loja toda só para sentir as mãozinhas dela nos pezões dele.
          Agora havia aquela pedra. Escrevo com maiúscula? não, mancha o padrão. Aqui é pedra mesmo: no sapato dele, no caminho dele, no coração dele.
          Quase atirou ao chão e pisoteou em cima virando cacos seus óculos escuros de ver a Boa e não deixar que outrem visse que via a Vizinha, outrem de preferência fêmeas gorduchas e ranzinzas.
          Um dia, foi até um dia antes de arranjar casa noutro bairro, aí sendo a esposa que não se acostumava longe de mamãe e não foi porque o genro adorava a sogra e sentia saudades. Um dia mudou-se.
Pergunta ao Escriba: constatou ter perdido a Boa para o namorado dela! Não sei bem. Falou que o amante era ‘a’ amante, uma questão de lesbianismo.
          Oh não me cobre explicação. Nada sei nada vi. Sou bom brasileiro.

IX – 12ª                    Cavalo, Burro? a Brigar com Égua

                                                                                        O cavalo Belarmino
          se desentendeu
                                                                                                             com a égua Bastiana

           Deu-lhe um coice daqueles. Acertou aqui, ó, quase desmaiou. Tentou outra vez em xeretança, levou o troco. Que burro!
          O cavalo em trote tropeça meça não meça distância, vai cheirar o indevido. A Dita não quer graça com castrados, belos que sejam, vistosos.
          Entrou no boteco, bebeu, contou vantagem desdobrou dramas, chegou no lar cheirando pinga vendo mais que uma porta várias mulheres, e isto é um ganho com certeza; e tendo muitas dívidas e isto já é um desastre. Então dormiu.
          Como porco, quando escarrapachado assim dizia ela como um porco e talvez tivesse razão; o porco suou e verteu água no sonho e acordou molhado e fedendo. E ainda por cima no baixo não sarou. Sarou apenas da bebedeira.
          A esposa, santificada no padre, lhe pegou no pé, sempre pegava. E falava falava falava e fugia, ele fugia ao serviço e fugia ao balcão frio da venda; costumava ficar alisando em carinho o mármore que era granito velho sujo e grudento a esperar que o servissem. Aí voltava bebinho da silva.
          A égua da Benedita, dito e feito: a brigar com ele. Somente por umas causinhas assim como falta de arroz e feijão sobra de pindura no armazém de secos & molhados; e havendo bastante pouco trabalhar e em consolo menos numerário.
          Só por isso!
          Só égua.
          Só burro a brigar.
          Quer mais? Fariseu.

IX – 13ª                                  Ora Pílulas  
                                                           Em defesa, pra não prolon-
                                                                          gar a Guerra ; por faltar
                                                                          futuros combatentes

          Dona Mariquinha gosta mais de escutar, não sabe ler só pouco assinar o nome, apreciando ouvir estória; fala fofoqueia mas sem intenção cruz-credo em prejudicar, e ouve bem: para que temos olhos senão pra ver! Não gosta de ler, a Maria que gosta. Todos romances a lhe chegar às mãos; agora não tem jeito, o jeito é ver tevê, tem a das oito gosta da das nove, lia bastante até, até comprarem televisão. Comentou na roda as pílulas. Riram a valer, a Mariquinha fazendo ic-ic engraçado, riram do rir dela. A Prudence? A Prudência e as Pílulas do Hugh Mills, a Prudence engoliu errado e engordou, “ganhou nenê?” claro, Marica, veja só! Aí a Maria riu-se da empregada imprudente da Prudence que também... “ela pariu!” naturalmente, ou ia ficar grandona inchada nem podendo dormir com falta de ar, ia? não ia decerto. Ah Maria, na Vila foi assim. Assim! todas querendo ver não se vê pensamento só vendo. Assim de grandona, era do marido não, não tinha. E estufou e pariu, naquele tempo... Tinha outra que dormiram e o Seu Zé nem ficou sabendo e aí... E aí Marica! todas querendo saber. Ué, não deu um, deu dois duma vez e nenhum parecia com Seu Zé. Puxa, falaram do que falou. Falou e tinha a prima Zefa. Qual? A Zefa ora. Tomou suas providências, a prima sempre foi cuidadosa, um amor de casa, não era a sujeira de sempre, sujeira foi a boca, quem pode com a boca do povo, já era penca, aí veio outro não adiantando beberagem e garrafada, tinha uma bruxa na Vila, não adiantou quando quer vem mesmo a mulher não querendo, chorão pra burro, burro o primo, ele que era de sangue, vivia por aí com a mulherada e passava as coisas pra ela, tadinha, uma penca assim (olharam todas) aí emprenhou engordou e deu “coisera” no estômago dela de tanta água benzida da bruxa, entretanto nasceu.  Chorão. Verdade? perguntaram. Das verdadeiras. Não é que nem a estória, Maria? Ora Mariquinha, depois que vieram as pílulas... Todas olharam.

IX – 14ª                           Bilhete de Consolação

                                                                                                       Contar
                                                       brigar
                                                                                                                   pedir
                                                       desbrigar,
                                                                                                                  voltar?

          Chegou em casa o Escriba. Antes, bem antes, em planos, os planos mirabolantes quase sempre: como a esposa reagiria... cansado de tantos atritos, ela decerto também deveria estar, sobrava o amor, amor sim havia, amor salva qualquer matrimônio; não levava flores, flor é coisa de poeta, tinha uma dificuldade imensa em decorar poesias, a professora Nilce obrigava, sofria, tremia, as meninas papagaiavam aquele não dizer, dizer entendesse não entendia entendessem, flor não, levava em compensação planos concretos, ela deliciar-se-ia com as vendas, que entende de vendas mulher! o quanto comprar com o resultado das vendas, mirabolou casa mirabolou viagem, ah a segunda viagem de mel!
          Mas não estava, a cama desfeita a poeira nos móveis o silêncio... Aí viu o papel e se alegrou, primeiro curiosou depois leu.
          “Querido Zé, você me encontra no lugar de costume. Aí nos beijaremos...” que safadinha! beijou antes do beijo em promessa beijou sim o bilhetinho, curto e cheio de promessas.
          Banhou-se fez a barba vestiu-se a caráter, entremeio pensou sonhou: ela perdoou-me, perdoo-lhe seus pronomes errados no bilhete (a esposa sempre errava na próclise distorcia ênclises, detestava mesóclises) que malandrinha, “no lugar de costume”. Perfumou-se, desperfumou-se “não sou fresco”. Calçou o melhor sapato, conferiu a mais bela gravata, a de preferência da mulher. “Querido Zé, você me...” lembrava relembrava extasiado. Olhou-se melhor ao espelho, tomou os documentos, conferiu a carteira contou cédulas, sorriu.
          Daí fechou a cara. Que diabo, não me chamo José, ao menos fosse José Alfredo!

IX – 15ª                                  Humor Escurinho
                                                                          Matar brigar sangrar mastigar e
                                                                                             brigar entremeio

Um incauto a pensar alguém se aproveitando de alguém feminina, tadinha, no escurinho, e quem mandou se expor e ir a esses escuros tétricos que existem. Mas incauto e ingênuo; na melhor das boas vontades apressado nas conclusões. Pois não é nada disso a proposta aqui.
Ora vejamos... trata-se aqui sim do gosto tão ao gosto nacional do sangrento e do violento. Com humor. Por que o humor apenas servirá à graça e a provocar risota! Defende-se o direito também ao choro, se não medonhando em gritos lancinantes, ao menos nas gotas de lágrimas bem derramadas, talvez com método e parcimônia, gotas a rolar dos olhos puros de um ser e... ah chega de santismos. A verdade.
Na verdade a Verdade tem desses desagrados, não a prudência ou mesmo o riso inocente. Tem os das manchetes.
O jornal, qualquer no país, o que ele mostra na primeira página? No do Interior é apelo roubos estupros mortes acidentes – tem para todos gostos. No da Capital, toda a imprensa rica e poderosa não mostra essas nojeiras como a nossa capiau, não – são os grandes desastres, de aviação por exemplo, e mais a guerra, a ameaça da guerra e a consequência da guerra. Doses homeopáticas? não, doses cavalares e por atacado. Os artigos de fundo tem fundo ou na possibilidade de ‘x’ ter ou vir a fabricar artefatos atômicos; e tem bastante firulas políticas que matam mais que a primeira página ou tanto quanto a burocracia.
A Televisão, ah a tevê! ela, dizem os dirigentes e proprietários, mostra o que o público telespectador exige. Exige pouca verdade quase nenhuma mansidão e muita violência, a enlatada e a nossa ao vivo. Porque – ora apelemos ao patriotismo ao nacionalismo essas coisas – porque sabemos a sobejo produzir violência e sangue, muitíssimo sangue de primeira qualidade; e é isso que vemos na telinha. A telona desapareceu quase com o rádio e o trem no País, não contam; antes eram os arautos da violência.
Não se fala em maldade, sim na violência, que encaixa a maldade e a infelicidade das vítimas.
Portanto a ideia defendida é o gosto, é o sabor a sangue e violência. Não apenas o que se mostra: a necessidade do homem nacional nessa ordem.
-  -  -
Não se espante, caro Fariseu. Adianta falar isso! o leitor é incauto, apressado. Pedimos não obstante não se espantar. Pois até aqui o preâmbulo apenas; a estória começa agora. Dois pontos. Tá bom, exclamação também.
-  -  -
O sujeito chega de noite, cansado, no lar. A patroa, tadinha, nem beija seu homem, se acostumou que gente pobre não tem dessas frescuras românticas havendo tão só o enlevo na fase de namoro, mas em havendo quatro meninos a pedir papá não vendo o papai deles chegando –  ela  apenas  levanta  a cabeça  em sua direção, armada de faca, armada a contar a traquinagem dos pequenos ou a briga das vizinhas, que foi assim  e assim, sim foi engraçado, deu até polícia e pronto-socorro, eu não falei que ia dar nisso! armada de faca cortando carne, os enjoadinhos irão reclamar, um que tá fino outro que grosso demais, ou cru ou dirão “manhê você salgou duas vezes o meu”. O arroz virou papa, é pra comer assim mesmo sem chiar. E agora chega o pai, tosse, resmunga, se esborracha no sofá, ah os meninos rasgaram outra vez a capa do sofá, se esborracha vendo o programa esportivo, está quase na hora da novela das oito e o que homem acha de bom em chutar bola! O marido:
Maria, não sabe o que aconteceu. Não, não tem aumento, só de serviço no trabalho e mandaram meu ajudante embora. Não é isso: o Campadre João (aí ela para interessada e pergunta de olhos:) o Compadre morreu.
Parou de vez a faca, há frituras queimando, essa menina não tem cuidado; agora mata a gente, depois matará o marido e só está namorando ainda. Você falou que o Compadre...
Mortinho da silva.
Foi aquele fia... do...
Não, mulher, caiu do caminhão!
Conta como foi! tadinha da Comadre Zita.
Escorregou... Narrou tim-tim por tim-tim, cada lance, deveria ter estudado e virado cronista ou locutor, ficou apenas mecânico na fábrica, “desgraçado do patrão, um ladrão”. Contou tudinho, parou a plateia inteira para ouvir, até a fumaça da panela com cheiro de queimado parou a ouvir também, não deu opinião; a gente deu, inclusive o pequeninho enfiou a colher torta na conversa adulta. E narrou e mais narrou. Já sentados à mesa, tinha uns no sofá rasgado comendo com prato na mão e vendo tevê mostrando uma explosão de gás doméstico na favela, ah pobre televisão, falava a ninguém todos ouvindo papai contar a morte mastigando de boca aberta (normalmente é assim, e como narrar direito a morte do Compadre de boca fechada mastigando!)
Maria, espirrou miolo pra todo lado, tinha caldinho de miolo com sangue, os cachorros a gente tinha de tocar eles, veja que imundície! Hum a carne tá gostosa só a batata não tem sal. Aí Maria as melecas... 
Prosseguiu o marido a todos ouvidos femininos masculinos adultos e infantis ouvirem até se deitar, com recomendação materna “não mija na cama ou te corto o bilau” e “não vai sonhar com o bicho papão”, coisas dessa ordem.
E se deitaram não muito tarde que tem labuta noutro dia. Na hora de rezar três ave-marias, a horrorosa da vizinha escarrou, parecia arrancar os bofes fora; manhãzinho a gente tomando café com pão (ah a manteiga acabou amanhã tem que trazer mais não vai errar a marca outra vez) aí nessa hora a porca escarra  na horinha exata. Não dá nojo!
Ih fala baixo, se os meninos ouvirem contam pra Vila, criando problema.

IX – 16ª                       À Procura do Endereço
                                                                                     Vivo
                                              na capela  do
                                                                                                                        morto

          Teimoso. Eu Escriba na escrita na desdita me considero teimoso a me teimar Fariseu. Eu que naquela de lá, a rua estreita esquadrejada, a quadra de cá lembra teimoso, não teimo que tenha razão! não. Vira-me a cara, cara de gente, vamos em frente... é ali não acolá, acolá mais ainda a avenidona. Perguntamos – eu pergunto ele teima teimoso a mudar selar lábios que a si são beiços – indagamos. Não respondem. Bato palmas a esclarecer, eu bato, bate pé não colabora, olha, me vê, descrê, prevê... a embrulhada confusão contramão paixão em burrice. Minha, teima; teimo, sua. Não acordamos nesse acordo, andamos mais chegamos menos. Aqui. Ali. Consenso!? Lê-se (eu leio, o Fariseu é analfabeto de pai e mãe, o que pouco importa temos milhões e milhões de, nesta colônia; na colônia em que estamos ainda é pior: não leem mesmo, não adianta teimar. Por isso eu leio ele não lê, teimoso) vê-se bem é a residência de Ana de Tal. Que tal? indago a ferir meu acerto no erro dele; sorri a derrota não deglutida; depois põe a soberba no bolso do orgulho, engulho até, e aí, abaixa a cabeça vencida, vencido. Que caso! Ah que caso! Uma autêntica voluntária da pátria da Guerra, a nossa Guerra. A mandar (de língua veja bem) a desmandar também. Seu Chiquinho tadinho pobrezinho de grandão, parecia um gigante era um gigante montanha de colossão, se comprimia diante daquela potência de língua. Pergunto: é aqui, antes de me responder: e seu Chiquinho pranteado consorte de sua sem-sorte... é aqui que a Senhora reside? Por que perguntar o óbvio, quem sabe a resposta não faz a pergunta, já sei, não me responde portanto não briga mais com seu Chico e sabendo, indagar pra quê! quanta estupidez, estupidez recolho como meu mérito não em teimosia pela teimosia de Fariseu, sejamos honestos. Pergunto a saber sem dever, vejo bem a placa no túmulo, Ana Língua, não língua mais o esposo, o esposo noutro agora, quietinho para tão grande esqueleto. Olho o Fariseu. Tem razão, ó teimoso: ela não relatará podrices da Guerra, nem ele, se acharmos. Tenho eu Escriba, tenho razão é aqui: Alameda da Saudade número 13.

IX – 17ª                               Vida Conjugal

                                                                       Uma briguinha
               astronomicamente
 perfeita

          As relações no mundo são ricas, são as alegrias são as tristezas são as lembranças são os sofrimentos a elevar pessoas e coisas, o que redunda na História da Terra.
          Entremeio são os desentendimentos a costurar essa História e a enriquecer (ou a empobrecer?) as relações...
          O Sol a Lua, aqui em ordem como manda a ordem e o costume, embora ela queira tomar de vez em quandinho a frente a desconsagrar o consagrado pelos séculos e milênios, amém. O Sol e a Lua.
          Se casaram, quem sabe, a memória se esqueceu, se casaram decerto na igreja verde; se constituíram esposos e se amaram (neste ponto não se pondo em concordância na concordância que exige o amor). E viveram, ou vivem? viveram muito felizes (xô Dona Carochinha, vai que invente muitos filhos Soizinhos Luazinhas e – para ser moderno – Bichinhas de ambos os sexos; verdade nisso o vocábulo ‘muito’).
          De repente, puxa vida como um de repente ajuda num texto em corda bamba! de repente vêm trovões, aí pondo a criançada debaixo da mesa de pau vai que caia telha pois todos temem tempestade, toda tensa e terrível, ai o corisco! A Lua temerosa olha não vê o Sol (ronca ou está morto... viuvez credo em cruz!) o Sol se escondeu atrás das nuvens negras, tem as Branquinhas todinhas em remelexo pro lado dele, a Lua se enciúma, agora são as negras tensas e o safado lá atrás delas se escondendo e sobra à Lua proteger a prole composta de Soizinhos Luazinhas Bichinhas ainda não comprometidas. O Sol? não tá nem aí...
          É sempre assim, quando é dia o Sol canta de galo, dá as cartas, impõe, cria, exige, se envaidece; de noite se esconde no sono nos sonhos ou atrás das sirigaitas sinistras negras ou, na pior das hipóteses, sorrindo certamente às nuvens brancas e frívolas. A Lua acha frívolas.
          O Sol se esconde.
          A Lua trabalha. Trabalha trabalha trabalha, ilumina o lar um pouquinho. Se o esposo estivesse presente seria a claridade suprema, a vida, agora troveja brabo. Depois molhando a casa e as coisas: goteira e estrago. Não aguenta essa vida.
          O Sol não se perturba.
          A Lua trabalha. No fim anda cansada, arrasada: por que tem de ser a fêmea e é mesmo a fêmea e o macho ao mesmo tempo!
          Aí o Sol chega. Sorrindo. Durma-se com um barulho desses – sorrindo. Arreganha esclarece põe todos em atividade, quer que até ela trabalhe esquecido da noite em que se acabou na tarefa dela enquanto ele com as nuvens... ah deixa pra lá.
          A Lua muxoxa desagrado com o agrado de todos. Teimosa, teima ficar em provar direitos conjugais e capacidade  de trabalho. Porém quase não é vista, o Sol ilumina tanto que ilumina por sobre o lume da Lua, a qual irritada ou desconcertada se esconde (agora é a vez dela uai!) nas nuvens. Contudo se mostra vez por outra numa rachadura das brancas assopradas de vento e quase não pode revelar o rosto. Aí arregala: o Sol Brilha!
          A Lua foge, desconsolada, prometendo, não podendo conviver com o esposo, prometendo ser a dona da noite (então se lembra das sirigaitas negras e brancas, se vinga inventando sua Mãe para sogra do Sol). Puxa a cortina de fumaça, abre a boca sonolenta. E some.
-  -  -
(Neste ponto já sei, o Fariseu está indignado; logo agora que ia o Escriba indagar se não achou essa batalha aí em cima um tanto nebulosa para uma Guerra em Paz,  louca ao menos. Então não perguntarei e pronto!)

IX – 18ª                             Imantação de Amor

                                                                                Era noite, escuro, silêncio,
                                                                                                     o falatório da imaginação

          Sexta, não tarde demais, dia 13 dá sorte dá azar, não dá, sentam-se juntos todos dias, sendo noite, nebulosidade semi-escuridão também ajuda; precisam estar juntos para falar as suas coisas a perder a ganhar a eternidade. Escolhem um lugar mais consentâneo e ameno ao seu estado, estado de alerta ele, ela um pouco indignada, tivesse não mais existindo lábios estariam em muxoxo zangados, tivesse, mas olha o longe, perto ele assunta seu amor ali a se remexer insatisfeita. Mudemos de túmulo, diz a fêmea da espécie em extinção Homo sapiens, este anda frio e abandonado. As velas não eram mais que ex-velas derretidas esparramadas adequado ao desleixo; se levantam andam vagam olham como podem e pede ela em cansaço pararem e se ajeitam noutro. Está bom. Ele concorda, acorda discorda dos que não a acham encantadora, olha sua parceira, ela arreganha a caveira, mostra uns dentes belos, um fora de lugar fora encapado em ouro os ladrões... ele ainda se sensibiliza com a fêmea por trinta e um dentes lindos, quisera ter vinte que fosse, em vida já postiços e agora desdentado para todo o sempre. Ela se importa, ele tem costelas machas protuberantes, uma beleza, ela acha belas. Voltam a se falar, interminável diálogo, ligados pelo imã do amor, falam de suas coisas das coisas que viraram coisas, coisas boas em vida, ela mais um pouco que seu amor, só falando menos em fevereiro que tem apenas 28, ele que acha assim decerto por intriga da oposição. A oposição se ajeita cruza as pernas, uma a cavalo na outra, inclina-se feminina e belamente em arco, olha por um espelhinho de mão velho e gasto mas que lhe retribui ainda as feições, vê a falta do trigésimo segundo dente e lamenta, ele a consola, dispersa aquela concentração triste e pergunta outras coisinhas a distrair a esposa, ela sorri, mesmo assim a dentadura não tem o brilho de antanho, ele faz que não vê, vê o menino que se achega, quer carinho materno, mamãe ralha com ele, ah filho alongado, onde se meteu! Elinho chora mostrando a caveira implorante e lamentavelmente não há olhos e muito menos lágrimas, que fazer. Não me diga, filhote, que estava de novo brincando com ossinhos das mãos do defunto tirado do poço ontem! não responde a criança, abaixa a caveirinha envergonhada, quer falar serem ossos de cobra morta porém e a consciência? Abraça o destroço da mãe, ansiando perdão e proteção. Papai se achega também, acaricia o craninho do garoto, faz-lhe umas caretas sem precisar esforço algum e o menino chora de rir, indo sapear usando um fêmur por cavalinho sumindo entre avenidas dos túmulos grã-finos cheios de santos de barro e capelas em mármore. Ficam a sós novamente. Se abraçam se olham se apertam, de repente tem um repente a senhora: Cadavérius, você me prometeu mudança para outra necrópole... É, responde o marido. Me dizia – ah como os homens são falsos e mentirosos – me dizia haver não sei onde uma todinha gramada. É, bem... Bem é... Ela: mas não cumpriu. Aqui é gelado, fede a vela de sebo pobre, é mataria e sujeira! Estava transtornada indignada arrasada. Ele: se quiser benzinha, dou-lhe uma coroa nova em folha. Não respondeu. Respondeu: não. Ele – vou lhe dar um caixão com fitas roxas... Nem ligou a dama. Ele novamente: querida, ofereço a você aquela missa de corpo presente. Ela abanou a caveira e ficou a olhar o eterno, que por sinal começava na mesma rua deles, num mausoléu após a sepultura do casal. Ele retoma: amorzinho, prometo... Ela, não prometa, já sei, é a velha estória: “ali tem um desmanche novo de carros velhos”, não, não quero. Ele, sem argumento – você é linda! A defunta sentou-se a chorar no colo duma estátua erigida ao lado do dístico ‘aqui jaz’, antes perdera a cabeça, o homem a ajudara achá-la no solo, ela a encaixa levanta o rosto e nada comenta. O esposo não se contém – “Defúntica, meu grande amor, me corta o coração!” Ela examina o que sobrou do consorte: “mentiroso, os vermes comeram seu coração!” Alguém vivendo morto sem sorte, os consortes decerto.
-  -  -
(Um teste de coragem: será que o Fariseu não está a tremer após a Guerra haver passado pelo Cemitério!?)

IX – 19ª                              Reencontro Familial
                                                                                   Até que veio ao lugar,
                                                                                                       e tinha um desmiolado
                                                                                                       a atrapalhar as causas

          A velha Maria andava nervosa, alvoroçada seria melhor dizer. Mexia pra lá corria pra cá, andandinho eletriquinha. Não obstante sequer tendo agilidade e menos ainda jovialidade. Está configurada inclusive por velha, “a Véia” diziam os seus.
          Pouco muito o suficiente. Parente às vezes nem isso, é ultrapassante. Ela que falava assim usando a expressão – “enche o saco” (em mulher, velha e nova, ficando melhor falar sacola). Não possuía a língua presa e pegava pesado.
          Sempre assim.
          Agora não bem assim. Andava triste, macambúzia, pessimista, adepta do menos-pior para qualquer situação ser ao menos suportável.
          Engrolava mastigante o que não podia digerir. O caso do menino João, por exemplo.
          O Menino acaba com minha vida. “Minino” dizia ao sabor da gente do povo.
          Um negócio enrolado, atrapalhada da juventude, o neto com seus 39 anos, para a Velha um garoto. E tinha mais netos, um que outro filho cheio de filhos, a se esquecerem de pedir a bênção, “tomá bença”, em seu linguajar. Atrapalhadas vindas por cima dela, sendo mais grave ainda o caso do Menino, ele seu desafeto de estimação.
          Até não aguentar.
          Vou chamar todos parentes a tratar do assunto, ou estouro a cabeça! (Não usou linguagem da Academia, desconhecendo por desconhecido nos meios populares o monstro com tal nome. Aliás apenas usa o linguajar rico mas simples o povo da Terra de Nóis-Vai, que não dista muito daqui do Não Sei Onde).
          Todos!
          Resmungou que sim mastigando sílabas comendo por vezes frases inteiras, cuspindo sem parar, empurrando o vira-lata.
          Passa Peri, vai deitar (“deitá” comia também os erres e esses apreciando bem acentos, os quais não poria se escrevesse, não o fazendo mesmo por analfabeta).
          Lavou mais, pôs secar, antes corou no sol, praticou emburrada mais domesticidades, porém monoideando o Menino, as coisas do Menino.
          Dona Maria!
          Atendeu a vizinhança, tramelaram, lavaram a ‘roupa suja’ sem necessidade em corar; falaram muito, pouco sobre o Menino, tão só o que se possa exteriorizar referindo-se aos íntimos. Aos íntimos o íntimo, o segredo de família a sete chaves. Não tinha jeito.
          Vou convocar nossa gente.
          Fê-lo como o faz a gente sem e-mail e sem letras. O povão manda recado, se corresponde à sua maneira.
          Compadre Belarmino, não aguento mais. Abriu o coração. Tinha o Zé, compadre também, estavam no grupo todos irmãos primos e tios, os pais de Maria não foram incomodados, idosos muito para sofrerem atrapalhadas do tataraneto. Tia Zefa, irmã mais velha da Velha e mui outros parentes de sangue, alguns tidos por “carne e osso” dizia; dialogou mesmo com outros familiares, desses que é melhor ficar longe e se preferindo no lugar até vizinhos e desconhecidos. O ambiente esquentou bem tratando casos melindrosos.
          Bem. Bem, falou Maria, a questão principal é essa, o João apronta, não quer casar com a infeliz, já de sete meses um barrigão destamanho. Não trabalha, não traz nada pra casa e ainda me leva as coisas da latinha, outro dia fui contar os níqueis! faltava bons cobres. Não passei sequer à família esse drama, nossa família aqui é só briga: apenas se discute e já querem morder. Por isso chamei vocês (falava “ocêis” e abusava no uso do não num “num”).
          Se olharam. Estava remexida a caixa de abelhas, destramelaram palpitaram discutiram.
          Noutro dia a Velha comunicou o veredicto colhido na Assembleia, tendo a pachorra de enumerar quê dissera cada parente. Todos, a filha os netos, ficaram embasbacados.
          Não pelo veredicto em si ou pelo consumatum est das coisas; só mesmo uma neta teve a desbocagem para falar:
          Vó, todos eles já morreram faz tempo!

IX – 20ª                             Uma do Roberto

                                                                                      Ela, não ela, a outra

          Era gamado nela, coitado. Não podia mais nunca podendo ter vivido sem ela, e não era casado sequer, caso de paixão. Paixão ‘e/ou’ vício. Chegava falava em seu silêncio, que era do tipo caladão, sorria ao vê-la. Depois se comprazia nela, se perdia nela, vaporizava-se nela. Aí ela, era ela não ele, ela que o transportava primeiramente em zigue-zague a escolher os caminhos, estradas perdidas pelo faro do ser, a achar a casa a porta a sala a dependência disponível, a cama enfim a cama, depois o sono o sonho o acordar; e estava, então estaria já de sobejo e antemão sabendo, molhado. E fedido. E emporcalhado. E poderia responder: mas conduzido por ela, imposto por ela. Não adiantava trocar de marca, o efeito sendo sempre o mesmo – o de que ela mandava nele, o Roberto. Aí é que ela vinha, paciente, amorosa. Ela a cachaça? a mulher; a mulher que não era mulher e bonita pra valer, só amasiada do Roberto. Os outros também vinham, vez por outra arrastando, bêbados, o bebum e o entregavam para ela se fartar; ela os mandava embora; muito fácil, à embriaguez a ela basta empurrar fazer cara feia, difícil a quem tenha uma cara tão bonita. Batia pé, se iam. Era agora sua vez em limpar o homem, trocar o homem (podendo decerto pensar trocar ‘de’, e como se o amava! ah o amor) e ajeitar seu homem para que dormisse bem limpo; somente depoizinho se molhava mais e mais defecava, ela atenta a limpá-lo de novo. Aí o Roberto parou de defecar fedido, parou de mijar amoníacos e pior no melhor: parou de beber. A polícia o matou por engano num acerto. E ela? a aguardente! não a pinga, a amásia bonita, antes mesmo de, antes, já antes largara dele, pois aquilo era vida! não era. Era uma batalha farisaica da vida.

IX – 21ª                                Em Frangalhos
                                                                                                          eu
                                                                                                                                     sou
                                                                                                                                     você
                                                                                                                                     você
               sou
                                                                                                                                     eu?

                                          
                                           um lar que se desfaz
                                           um coração despedaça

                                           o lodo da memória
                                           vômito do pensamento

                                           uma saudade viva
                                           num coração morto

                                           as lágrimas silenciosas
                                           que o silêncio cala
                                           falam dum eu
                                           que já não sou

                                           sobram vestígios da família
                                           saudades espalhadas em ilha
                                           cercada dos horrores
                                           da solidão
                                           das dores
                                           alimento dum futuro
                                           cedo tornado passado
                                           espezinhando o presente

IX – 22ª                          Presente para Minha Mulher
                                                                               Pegar no pé da gente
               é arte. Do Capeta

          Sabia, Escriba, que minha Velha é chata? era chata. Era quando jovem. Não, não me provoque, a sua não chega aos pés da minha. Pegava no pé. Não, não a sua, a sua, que me conste, é uma bela mulher... Sim, concordo, a galinha do vizinho é mais gorda, em nossa espécie queremo-la mais magra esbelta esbanjando feminilidade, uma gostosura. Sei que era? era. Ou que eu andava surdo dos olhos e só a via, vi-me preso num belo dia, arroz atirado à saída do templo, o que não passava de surpresa para mim por ser ateu. Ela sabia? sabia. Depois lua de mel, as crianças nascendo e nascendo, ela se esquecendo. Esquecendo sim. Não, não creio em ciúmes, nunca fui seria por ciúmes de meus filhos e a ciumeira dela! me grudava: onde você foi, tava olhando que eu vi – essas coisas. Pior em casa. Em casa a chateação, eu daí não parava em casa, apenas variava no ‘pindura’, mudando de boteco. Em casa não dava para ficar. Por causa da choradeira e sobrar algo pra mim? Isto contava pouco, ou por outra: o suportável. Porque me inventava inventos mil a me desagradar. Desagradar mais, afirmo, nos cuidados com a casa. Era casa e mais casa, a casa o fim das coisas. Limpar brilhar tapetes remelexos mudança de móveis, lustrar aqui lustrar ali; ali não pode pisar, já entrou com as patas sujas o sujo. Mais que assim, assim é demais. Eu falei um dia. Um dia, outro dia, dei-lhe um presente. Era o natalício, eu falava seus quarenta ela me remendava trinta e cinco, trinta e quatro anos e meio. Até nisso me pegava no pé, até nisso me azucrinava a virgem; quer dizer, não era mais nessa altura e aqui sim sou o culpado. Andava assim a coisa. Aí dei-lhe um presente; diria, um presente a abrandar-lhe ímpetos; a relembrar juventude? homem, não havia pensado nestes termos mas até que cabe. Aguardou o presente prometido bem dois meses, eu amigo das surpresas. Ah me ocorre que não tenha eu sido genuíno nem original, me assopraram no boteco o presente, um bebum que se equilibrava, eu me equilibrando no balcão, bem mais forte que ele. Passados os dois meses regulamentares começou a chegar o presente da mulher: veio o pedreiro, porco até eu reconhecia; veio o servente desajeitado mais que eu; veio a tralha de pedreiro com suas miudezas pás enxadas colher de pedreiro talhadeira marreta mangueira para obter nível, tudo. E material à beça: cal cimento areia pedra rejuntamento tijolo bloco piso, piso frio. Gelada, ela entrou numa gelada! Sujeira como em nenhum casamento com um apreciador de caninha que pudesse a esposa encontrar. Sujou passadeira, sujou ouvidos (gritou: “vou ficar louca!”) sujou a sala sujou a cozinha sujou o corredor, sujou o ambiente com menino à solta e até a Sheila, que é minha cadela parideira, até ela entrava e saía como fora sua casinha de cão circulando sem cerimônia! Tem mais? tem mais sim: fazer café, almoço com pena do rapaz ajudante, o oficial trazia marmita ela só precisando aquecer a vasilha para o trabalhador. Enfim tudo da bagunça, o escambau! Inclusive andei pensando, apenas pensando, que o presente esteja presente nos cabelos brancos da patroa. Ela agora, caro Escriba (e não vá me envergonhar escrevinhando suas besteiras em cima de minha desdita com a mulher...) ela agora, eu lhe garanto, ela sim admite agora ter mais de cinquenta. Bem. Eu? gaiato, lembro por dentro o fora do presente de aniversário e aí concordo com a esposa. Não acha ser boa política a política de concordar com a cara-metade?

IX – 23ª                                       A Mulher...
                                                                                        A Mulher do Fariseu,
                                                                                                              ele quem diz, não eu

                                                   A Mulher
                                                   Vizinha:
                                                   Segunda,
                                                   Preguiça.
                                                   Acorda.
                                                   Rosna.       
                                                   Ronca.
                                                   Escarra.
                                                   Molesta.
                                                   Bronca.     
                                                   Instiga.
                                                   Contesta.
                                                   Irrita.
                                                   Briga.
                                                   Enguiça.
                                                   Manda.
                                                   Desmanda.
                                                   Trabalha.
                                                   Sua.
                                                   Soa.
                                                   Grita.
                                                   Cobra,
                                                   a Cobra.

IX – 24ª                 Um Caso que não Contei ao Fariseu
                                                                     Acordei criança
                                                                                                       E o mundo era mau
                                                                                                       E sangrava o grito!

          Não seja que seja pra não rir, rir do Escriba, primeiro que não se sabia escriba, soubesse não podendo sê-lo por analfabeto; rir do Escriba? do Fariseu por não saber do Escriba e em segundo lugar desconhecer o caso.
          Desmamara e não entrara bem no mal do bem do mundo, imaginando que todo lar, lar fosse, todo do equilíbrio da luta da mansidão, até desconhecendo a guerrinha doméstica por não ser em casa vista, vista sim não percebida pelo menino. Em virtude disso garoto não conta na Guerra nem conta a Guerra. É preciso se defrontar com fariseus e filisteus desse mundo, o mundo a conhecer para desconhecer o drama humano de engolir sapos a fim de viver. A morte? Só existindo para se temer a inexistência a existência da assombração de noite e aí se cobrindo a se esconder e se esquecer até do sonho temendo o pesadelo.        
          Oh o pesadelo existe, sempre existiu decerto, certamente ainda existirá enquanto perdurar nossa vulnerabilidade como homem. E o pesadelo...
          O pesadelo chegou manchando a virgindade. Ele era açougueiro ali na rua de cima. “Querida”, provavelmente desconhecia o tratamento e tratou por nome a esposa, vou viajar, disse. Ela, a boa companheira sendo assim, acompanhou o marido até ao bota-fora e o deixou na plataforma do trem, terão se acenado!? Ela voltando para casa a pular nos braços do outro, naquelas lonjuras do tempo não era ‘namorado’, amante mesmo. Aí, o esposo que subira por uma portinha descera pela outra o trem já se movendo, chega grita xinga avança, a fêmea corre, antes seu macho pulara a janela. Ela corre ele corre atrás; ela avança a rua mais acima, chega quase à minha janela de garoto, ouço a infeliz, ainda ouço nitidamente passados sessenta anos, e de repente se cala; ele alimpa a faca de estripar vaca desossar porco e está saciado. Ela? não sei talvez imaginasse ir ao Céu, não garanto se existe lá algum lugar a tanto adultério deste Planeta. Ele? o júri lavou-lhe a honra ameaçada e deve ter ido trabalhar, dessossar as vacas, cuidar dos negócios, sumir no mundo.
Não conseguindo sumir da mente escriba.

IX – 25ª                 Batalha na Guerra dos Sexos

                                                                 Ela chora pequenininha depois chora
                                                                                  por  causa  da  filhinha  depois chora
                                                                                  ao perder a filha ao lobo no altar

          Bufava. Ouvi nitidamente um não sei quê levando uns chutes, outro não sei quê, talvez mais pesado, sofrendo uns empurrões; e mais mais, menos, nesses casos sempre menos. E nomes feios, horrendos calões; hoje a civilização infinitamente longe da época em que aprendemos a falar e só depois, isso sim, só depois conseguimos xingar; ainda hoje não melhoramos nosso padrão na arte de xingar (igualmente continuamos a chutar as coisas por não podermos chutar as pessoas) – continuamos atingindo a mãe do desafeto. Bem. Vamos em frente com esta atenuação: existem mil e uma palavras feias menores, tão comuns que não tememos tapa na boca como ocorreu agora, tadinha, com a Zizita, a qual chora sem parar como se houvesse perdido a guerra e foi só um tabefinho na boquinha desferido pelo papaizinho o qual foi trabalharzinho, por causa daquela linda palavra feia aprendida no parque infantil e berra e esperneia e irrita mamãe. Esta bufa chuta empurra emburra talvez, xinga com certeza ao marido, que o Clube da Fofoca diz não ser.
          Esbravejou a vizinha, que acho bela, eu Escriba acho, ele não acha ou tão só andava com raiva e se foi. Esbraveja ainda, esbraveja empurra malcriadamente os trecos no corredor, lamenta e por fim comenta comigo, umas orelhas aqui em plantão. Diz que homem é tudo porcaria, e deverá ter razão porque mulher, mulher entende do assunto. Enquanto, elinha berra burra ou sábia a atrair elona bela bola de neve a rolar aumentar o volume da raiva contra os machos, os quais nos pegou em calças curtas, tomando o exemplo nada exemplar do esposo.
          O senhor sabe que aqui está cheio de entulho, olha estas barras, o tonel ali furado, as tábuas podres cheias de prego, eu morro de medo dos meninos se machucarem... e aquela porcaria se foi... ainda bateu na Zita!
          (Pus lá meus paninhos, não a salvar o sexo e muito menos o consorte dela, mais sem sorte pois a secretária é mais bonita e não exige tanto quanto aí na casa deles. Falei sabiamente à moça que a vida é assim mesmo, uma conclusão que a Humanidade ainda não tinha expresso).
          A vida! qual nada seu Escriba. Meu marido é uma desgraceira. Fica neste corredor a badulaca (corrigi sábio ‘badulaques’ nem me ouviu continuou sua arenga:) esta badulaca bagunçando e olhe, hoje é dia de levarem os destroços, a Prefeitura bem entendido, os daqui do bairro. Não sabia?
          (Respondi que não, outra vez nem ouviu. Blablablou contra os machos, sem temer atingir-me, o que é a vantagem dos velhos, e por velhos, desassexuados).
          Veja seu João Escriba, isto é depósito de – cala a boca Zita! – de baratas. Tenho um medo de baratas... Ele? nem tá aqui.
          (Mentrometi: não tá mesmo, foi trabalhar).
          Foi. Foi é pras negas dele! Homem? Quando no namoro é uma beleza. Depois? é isto aqui. A bagunça, irrita a gente, nega as coisas e ainda bate nessa praguinha e me deixa com a cabeça ó, destamanho! 
(Falei nos defendendo: mas tem os bons momentos...)
          Qual, capaz! uma droga.
          (Pichou xingou, aproveitou xingar a menina manhosa, chutou um nunseiquezinho dos pequenos e gritou enfurecida:)
          Porcaria. Por-ca-ri-a. Isso!
          (Propus uma solução sábia, sábio que sou em não me meter na vida dos casais, ou sobra pra gente. Propus que, não podendo pôr os trecos fora para a Prefeitura levar e limpar o pedaço, então pusesse o consorte na calçadinha, e logo, porque já ouvíamos a cachorrada na esquina xingando os funcionários a arrastar coisas imprestáveis ao caminhão. Punha ela ele no entulho e pronto: resolvida a situação).
          É, disse a bela vizinha. Cala a boca, sua fia... (e se xingou). É, é sim um negócio a pensar...
          (Terá aceitado o alvitre? Não sei, tive de correr a atender mais um engano telefônico. Ia exatinho propor também que a senhora irritadiça jogasse sim seu homem e não fosse correr depois, desesperada: me devolve meu macho, gritando e esperneando atrás do caminhão de lixo tal qual moleque querendo pegar a rabeira, que isso é muito feio, pega mal à mulher jovem bela casada e as vizinhas do Clube a olhar curiosidades. Não propus, quando voltei ao meu posto de escuta ela discutia lá dentro com a Zitinha, a qual parara de repente o choro).

IX – 26ª                               Um Impossível

                                                                  O homem é incapaz ser mulher. Por

                                                                                   isso continua macho como  possível


          Impassível, não reage não se ofende não mexe palha não ralha não falha falha exagera na falha e ela! tadinha. Aí fala.
          Não é possível! só acredito porque vi. Às vezes a gente não crê mesmo vendo, que choca a normalidade porque o comum, comum ao homem comum a ele normal. Acredita?!
          Estoura dona Candinha ou Joana ou Maria ou ‘Fariséia’ ou ‘Escribéia’, aí peço não mexer com minha cara-metade, metade da cara já com aquelas melecas a melhorar o sabor da pele da gente beijar quando os meninos aí pelas vizinhanças. Estoura explode para os lados da vizinha.
          O Pedro, diz realmente “o safado do Pedro”, onde já se viu uma coisa dessas! tomou todo leite, ele, só bebo leite não injeito uísque nem vodca... leite e saio (eu Escriba) do meio do casal, nada tendo que xeretar nele ela fala dele: o Pedro tomou tudinho; não por causa do leite, da mosca! Aqueles dentinhos em serra que tem na frente, um mandou pôr incrustação em ouro que fica uma beleza e alumia bem, bem chamando atenção da plateia. Então, bebe o leite, suga o líquido, escorre feito criança na barriga um homão daquele, e pior, tem pior! tem vizinha tem, suga e não engole a mosca, presa nos dentes; depois sopra a mosca no chão, ela se estremelica toda com as asinhas molhadas e, é claro, não mais voa; sim tem pior vizinha, pior se engolisse a mosca e pior do pior se mastigasse o inseto – um porco!
          Impossível. Agora é a Vizinha impossibilitando.
          Vai que... não seja muito homem ou que seja e essa sirigaita... a gente mostra à fulana que ele é um pouco porcalhão em defesa da propriedade. Propriedade essa que não anda satisfazendo a legítima (no Padre e no Cartório) a legítima proprietária em vários sentidos.
          Ah, quem será que não entende a oposição: o homem, a mulher?

X – 27ª                  Parte Mais Fraca do Leão

                                                                        O poeta, a fragilidade feminina, o            
                                                                                                     ‘fortalhão’ fazendo o que ela quer

          O Leão é forte, todo mundo sabe disso, o dono o Rei da Floresta. Parece que não conseguiram com mil páginas poéticas e filosóficas demonstrar a fraqueza feminil, se tiver de brincar (brigar nem se fale) brincar de brincadeirinha com a Leoa que porventura encontrar... bem, ponho em meu lugar o Fariseu. Além do mais, na Floresta, qual bicho mais enviúva, está na cara: o Bicho-Mulher. É portanto um forte. E tem outras fortalezas em guarda e resguarda, resguarda bem sua memória privilegiada, a qual vomita os vômitos que seu companheiro desconhece ou deseja esquecer. E aí brigam? É. É verdade das verdadeiras igualmente que possui o Bicho-Mulher, um bicho lindo de se ver, de se tocar, quando ele permite, de se amar –  possui outrinha reserva de reserva chata. Eu, Escriba, a considero chata. Seguinte. Falam os entendidos, os neurolinguistas aqui em lembrança, eles afirmam que a nossa fêmea, a fêmea do Homo sapiens, tem uma capacidade craniana para melhor manusear essa máquina medonha terrível intrincada e bem confusa, a manuseá-la com formulações de sete mil palavras por dia! enquanto nóis-zinhos, estou atraindo o chatérrimo Fariseu pro meu lado a dividir incapacidades, nós apenas cinco mil. Terei errado no vai-um? é possível e aí fazendo uso do direito masculino com base em nossa deficiência. Por essinha diferença de duas mil partículas agrupadas a menos mais somos frágeis. Tadinhos de nós! Aí está uma razão forte para Eva gritar com a gente o esquecimento da gente; ainda usando suas duas mil a mais para nos desfeitear, vencer-nos. É isso. Assim perdemos fácil essa guerra que só ameniza um pouco em fevereiro, pois noutros meses... Não é justo que o justo apele à intriga ou à oposição!? Falei. E disse.

IX – 28ª                           Jane, Chita, Tarzã

                                                                       No limiar da Guerra
                                                                                                       era a Floresta

Parece que naquele tempo a floresta era mais amável, ao menos não tão braba e hostil como noutros tempos. Tinha onça e leão? tinha decerto, quem sabe até dinossauro dragão e outros monstros, parece também que mais temiam o homem que o homem a eles. Melhor, não havia homem, só o Tarzã, sendo uma floresta imensa, o que torna o Tarzã um Tarzã destamanhinho. Talvez fosse a opinião da Jane. Ah pobre da Jane. A Jane se perdera na selva, seu avião quebrou-se e se espatifou tornando a área onde caiu um cemitério de pecinhas e o queimado; ela fora espirrada antes de tocar o solo, ejetada, não se sabe, e viveu (se não for assim não tem jeito da história continuar, vira ela estória, como a do Chapeuzinho Vermelho e ninguém vai de sã consciência desejar isso, nem o Fariseu). Agora, bela, robusta, escultural, miss qualquer coisa, nota dez em mulheril, agora está andando nesses escurões entremeio às árvores! Com medo, é claro, tadinha. Pensa cobra, já não havia daquelas que batiam papinho com Eva, só poderia ter das que não brincam em serviço. Bem. Tinha outros ferozes bichos? Tinha, só podia ter. E pequenos nem se fale. Pobre Jane, é um se bater contínuo, espanta um inseto vem mil insetos. Tinha sim borboleta, borboletas lindas e multicores. E peixe e rio a valer, mas não sabia pescar diante da fome tamanha. Bichos médios como os veadinhos saltitantes tinha pra valer e dava para matar a fome quanta fome houvesse; a Jane não queria ‘viado’, ela ansiava encontrar o Tarzã – aqueles musculões, um gigante belo (e aqui tendo grandes expectativas para Boys em série). Agora, naquele agora o que via a se fartar de ver era Chita. Tinha Chita para todos gostos, retesando cipós pulando árvores, dando recital de circo, ao vivo. E a Jane apreciou bem. Tanto que escolheu a mais inteligente da espécie, a qual passou a ser eternamente, enquanto durando é lógico, sua companheira. Onde ia Jane ia Chita. Esta em grande esplendor na arte da gritaria. Andaram andaram andaram mês e ano, mais de. Já vestindo a dona da Chita uma linda tanga de pele de onça, dessas de fazer coceirinhas. Bem, cheirava um pouco mal por mal curtido o couro, a Jane não tinha PhD em curtumaria. A Chita se mostrava como Eva, pelada. Só que naquele tempo não havia vergonha, somente ânsias. Jane tinha ânsias a encontrar Tarzã. E que não demorasse demais, não fosse por exemplo ao final da fita; mesmo porque apenas haveria na plateia para ver Jane, admirar sua plástica extraordinária, os machos; e crianças, pois a Chita prende sempre menino nas suas cambalhotas e nos gritos estridentes já sendo em estado normal um pouquinho escandalosa no seu espalhafato. Aí elas encontraram o Tarzã no ‘até que enfim’. Haviam passado por mil e um pernilongos e outros sanguessugas, se bem que eles apreciassem mais o exemplar humano branco e belo que a peleira macaca. Então se depararam com Tarzã em carne e osso, um colosso, embora não desse para ver aquelas alturas de macho: estava agachado (fazendo o quê! não se sabe). A Jane, por aquela tantada de machura, gritou feliz! a Chita gritou assustada pelo grito da mulher, ou enciumada, antevendo que um pedaço, exatamente o maior e mais gostoso da ama, seria do homem. O Tarzã não escutou, andava meio surdo; então berrou, a mona berrou ainda mais que a mulher. Não adianta, disse em puríssimo inglês de Oxford a Jane à Chita de perfeita orelha de Cambridge – ele não é meio surdo, é inteirinho... Aí ficaram na frente daquele Hércules para ver se via, ela fez trejeitos feminis, mostrou curvas, os seios fartos, o cabelo esvoaçante e loiro, exalou o cio da fêmea necessitada; enquanto isso a Chita macaqueou a dona, pulou e cambalhotou, comeu até uma banana com a boca aberta pra irritar o sujeito e ainda ficou sorrindo sua gargalhada com os beições. Nada. Chita, disse Jane, também é cego o macho... Então o colosso se levantou, demorando bem uns dez minutos a conseguir, coçou a calva, tirou e pôs a dentadura, tomou uma bengala encastuada com ouro e diamante os quais naquele tempo sobravam e não valiam nadinha seja em libra seja em dólar; e aí o Tarzã tentou e conseguiu andar nuns passinhos curtos fazendo ai-ui, provando que aquela montanha de músculos falava. Então olhou desconsolado um cipó enorme, onde os amigos da Chita brincavam de balanço. Nesse ponto daquele tempo a Jane chorou amargurada, até soluçou, tendo a Chita ido consolá-la. Mesmo porque por que existe Chita?

IX – 29ª                          Beldades, Miss essas coisas

                                                                                   Arrocha mas não
                                                                                                       atocha, pôxa

          Já se cansava em cansar de tanto vê-la como a velar defunto, defunta no caso, credo! Mas era duma beleza fenomenal. Custara muitíssimo a conquista e enfim emplacara. Casou no padre no juiz, no delegado se preciso fosse não foi preciso... Uma paixão ardente a quanta riqueza dispunha, dispunha demais. O comum desse privilégio único; uma oferta da natureza e da sorte. Do acaso. Foi por acaso que a viu e encontrou no jardim, era ainda é a mais bela flor. Arregimentaria se necessário na conquista um exército uma cidade um país, se ela exigisse. Contudo não necessitava mais que o Adão belo rico e, mais importante, a lamber o chão por ela! Então casaram-se, comunharam em bens e aí pôde a Bela ser ainda mais bela – cosméticos luxos especialistas em beleza. O ótimo ao seu ótimo. Porém se cansava. Ele, o rico, poderoso, proprietário da pérola de maior valor no mercado. Se cansava, não por não se cansar, por ela ser bela, era cada vez mais Afrodite. Por que não Minerva! Era isso, era disso seu cansaço: a Bela não dizia coisa com coisa; dizia sim, e envergonhava. Não dava sequer para brigar, puxa vida! Dessas belas que precisamos esconder não apenas por andar o terreiro cheiinho de gaviões famintos. Aí cansou. Entregou a propriedade à concorrência desleal, cultora da beleza a qualquer preço. E tomou emprestado a um seu mequetrefe, o qual recebeu como prêmio o salário triplicado eneplicado, sua fiel esposa. Assinzinho magrela e feia, é feio dizer ‘feio’ à mulher ela pode quando muito ser menos bonita. Pintada, na pele, pintada rebocada a cosméticos baratos, dona duma vozinha irritante, gritona – e sábia. Sabia ao menos declamar ‘batatinha quando nasce’ e citava com categoria dois livros lidos, do terceiro esquecera o nome do autor e o título da obra igualmente. Havendo ainda ao esposo a opção de ir vez que outra ver Afrodite afrontar Minerva. Me enerva, dizia aquele fariseu dos filisteus; não dizendo, apenas pensando.

IX – 30ª                   Trialoguinho

                                                              Liguei a máquina de desentendimento,
                                                                              pra não ter culpa em cartório

          Tinha a Dona, não assim um material a ser atirado no Lixão da Prefeitura e depois reciclado ao bem do Meio Ambiente, mas passada. Tinha Elle, Elle escrito com dois eles pois antiguinho bastante. Tinha o Terceirão que era um mosquito assinzinho da Dengue e não falava nada no triálogo em não ser o costumeiro ihiiiiii, mesmo assim desafinadamente.
          Não se afirma Bela ela, nem Suportável o caco; e o Inseto... que se pode dizer? dengoso, isso: dengoso.
          Você, fala a Dona, já investindo intimidades, Você precisa mulher – e mulher entende da falta de mulher após longamente pesquisar campo macho, tendente a deserto decerto e aridez.
          O macho faz sim de cabeça que é melhor forma a dizer não quando não se tem certeza nas certezas.
          Prossegue a Dona nele interessada. Veja, viu, melhor, olhou, veja essas panelas grudando. O chão, olhou viu o chão, o chão não é lavado faz um ano! (A diferença neste caso é a exclamação: a fêmea vive a exclamação; o macho não põe exclamação só ponto final). A cama, ah que horror! (e o homem ou não vê horror ou ainda economiza o sinal, sinal aqui de economia e gramatiquice) um horror em sujeira, coisas das sobras das coisas que sobram na falta feminina... (reticencia Dona, o bobo fica olhando feito bobo aquela gostosura e não entende os desentendimentos). Os móveis, afirma ela, trocaria primeiro de lugar depois trocaria os móveis de tanto arrastar os seus velhos e fora de moda. (Aí Elle não entende, talvez no próximo ano venha a saber; ano aqui é ano-luz).
          É falta de mulher na casa, insiste Dona, nele interessada bastantinho.
          O Caco olha.
          Então!? o que me diz.
          Sim, sei disso. É que perdi o trem...
          (Agora é Dona quem não sabe do ponto de exclamação; não investe de interrogação, fica a olhar as reticências propostas).
          Digo, diz Elle a esclarecer, perdi. Descasei, perdi meu amor.
          Ela, impaciente, ele, Elle, ficaria certamente milênio no ponto final, sabemos Dona admirar exclamação; ela:
          Ih, rapaz, tem bilhões de mulheres! a Você milhões ao menos...
          (Elle sequer nota os três pontinhos em Dona; contudo é necessário responder:)
          Sou modesto, Dona, aceito apenas as minhas Sete regulamentares, ficando com uma em cada dia; Sete não, Seis, descanso domingo, Dia do Senhor.
          Dona não contra-argumenta. Põe a viola no saco junto com exclamações interrogações reticências, resmunga, vira-lhe as costas. Mesmo assim Elle não entende; acende pita fumaceia, aí pensa que pensa, não pensa.

IX – 31ª                 Descrição de Papai e Mamãe

                                                                            Para brigar direito  é preciso
       aprender primeiro não brigar

          Só olho, sô olho. Ver o ver do sentir do quase não dizer, a dizer. Dizer que antanho talvez não fôssemos tão belos, a dar razão para Darwin. Papai e Mamãe, por exemplo. Pai do pai do pai e aí afora interminavelmente, terminando no Adão e sua linda esposa senhora madame Adão, Eva. Ele.
          Ele se coça bastante, já havia muita praga sanguessuga e suor cheirando bem. Senta-se na pedra se levanta pragueja a preguiça e o não ter o quefazer apenas pensando, os vocábulos de praguejar não se inventara ainda. É bonito; belíssimo, não chegando a ser lindo, a beleza extrema seria açambarcada por Eva.
          Testa curta, olhinhos perscrutadores perdidos nos pelos, pelos pra todo lado; uma cara safada em cima dum tronco curto arcado, peludo um pouco menos na barriga ao nível do umbigo no centro dianteiro, tudo em cima de cambitos peludos pretos acinzentados tortos; pela traseira o tronco em cima mostra uma entrância no meio da espinha e mais abaixo as nádegas pequenas que só tem serventia para sentar e não sabe que é o lugar certo de apanhar. No fim das pernas tem uns pés escarrapachados dedões abertos não sabendo se se prende às árvores nos galhos se se planta no chão de criar bicho de pé. Descobre de tanto pular que servem para andar, melhor correr: da onça ou da esposa que lhe saíra das costelas em defeito.
          Ela tem um pouco mais de pelo na cabeça e os fios não são ainda louros oxigenados como determina a propaganda na tevê; tem boca e falaria às tramelas, não falando (coisa terrível lembra Fariseu: pois não dá para xingar o marido) não falando por não haverem inventado a fala, ou discutiria (“eu não disse?”fala o Fariseu) discutiria a das oito a das nove; e também fofocaria a vizinha porque a bugia não tem graça na sua graça. Narizinho assim, boquinha sem batom mas vermelha, passa a linguinha a umidecer os lábios de beijar primeiro a cria que o malvado peludo preguiçoso coçador caçador eventual pôs lá dentro da barriga dela, a qual fica lá embaixo que o rostinho apreensivo vê crescer inchar e depois mexer e não são gases com certeza pois raiz e fruta só pufam não remexem tanto nem dão coices lá dentrão. Penteia os pelos da barriga com as mãos, ajeitando os da cabeça também, porque felizmente não tem pente ainda a enroscar (piolho tem e serve de vez em quando como alimento e coça pra burro). Tem pelos escuros também nas pernas; e quanto aos pés são como os do esposo, menores que os dele, e não tem graça esmaltar e deveria ficar mais bonita, talvez linda. Roupa não tem, tem pele e pelo; tem lá uma de onça que ele caçou quando corria dela, delas, e não tinha mais árvores a subir enfrentou o bicho matou comeram a carne dando uma espuminha na boca até se inventar assá-la; e assim a pele vira vestido, fede sim mas fica mais bonita e se olha. Agora é Eva quem segue Adão, ou porque gostou ser vítima arrastada pelos cabelos ou para não ser vítima da bocarra do leão, mais feio que seu macaco feio e bem mais comedor que Adão.
          Agora ela geme, vomita por baixo, depois de tanta força as fezes choram e gritam e querem chupar aqueles peitões lá em cima, enquanto Adão fica olhando asssustado não sabendo se de medo do medinho que nasceu e berra, se da medona que cuspiu o medinho; ou estando assustado por não fazer nada. Então faz. Ajuda. Ajuda limpar o resto do parto, olha curioso aquele vagido extravagante, sai. Eva e eu e você e os outros saímos atrás de Adão, aprendemos a dar tapa no pernilongo a correr dos demais bichos e assim nasce a família, a qual só depois bem depois começa a se desagregar, com muita fofoca briga e violência, a loucura  em consumação.
          Porém isso não é tão belo e já não é ontem.

IX – 32ª                             Psiu! Silêncio
                                                                                   Em silêncio
                                                                                                       o silêncio que ficou
                                                                                                        ficou o silêncio
                                                                                                       da saudade que chorou
                                                                                                       a gota
                                                                                                       a lágrima
                                                                                                       o dilúvio
                                                                                                       que murchou...

          Chegou em casa antes do devido, devido dispensa no trabalho, e encontra seu amor. Não esperava seu amor, mas o amor não se encontra, encontra-se em relação com outro amor. Assustou-se. Chorou.
          Como lutar com uma traição dessa! porque, disse, porque, veja bem, fosse outra, lutava brigava chorava implorava – o amor justifica todo e qualquer constranger.
          Nestas condições atiro a toalha, rendo-me. E fujo.
          Como lutar com uma traição dessa! se fosse outra mulher, um homem! meu próprio homem, pai delinha... não respeita a filha?
          Fujo.
          Deixou o lar, deixou a cama ocupada dele com outro, desandou.
          Tivesse mãe, fugia para casa da sogra do esposo. Mas... Ao deus-dará, a lutar e criar a menina.
          Seu Escriba, não enlouqueci não sei como.
          Olhei pra ela. Nunca vi uma ‘Fariséia’ tão linda, mesmo após o dilúvio, ainda sobrando uma gota a me convencer; e condenar. Nunca tão linda.
          Ou é que me encontrava há tempo sem mulher.



IX – 33ª                           Amor Canibal

                                                                       Lambe coça aperta  mastiga
                                                                                         chupa sopra caroço do osso
                                                                                         colosso de moço foi moço

          Naquele tempo faz muito tempo no tempo em que os bichos falavam, os homens ainda não as mulheres sim mas ninguém entendia, nesse tempo antes do tempo de amarrar cachorro com linguiça e depois do faz de conta, contavam que era assim, felizmente dizem os fariseus faz é muito tempo, no tempo em que o homem não comia a mulher o absoluto sendo o contrário que é intriga da oposição – o macho comia o macho e não brigava com a fêmea, ou por a Guerra não se ter declarado ou era por nenhum haver-se declarado solenemente contra o outro contendor, já se conhecendo nesta altura do campeonato de sobra ela que ele, ele que ela, aí não havendo consenso nem guerra. Guerra sempre foi guerra e se comia o macho. O homem comia o homem da outra tribo julgando mastigar a carne ingerir o poder a força do opositor, sempre um Hércules daqueles tempos, forte e corajoso. O churrasco anda animado, não tem disco não tem fita, a música não passa de u-us, contudo há dança em festejo e o homem mastiga o homem, sobra? sobra um resto de banquete pra fêmea assanhada assinzinho com vontade de comer homem, e mastigam espremem apertam chupam o caldinho a escorrer, se era não mais, era moço, deflorado em seu heroísmo; ao vencedor as batatas, agora não tem agora para ele, tem hora para outro e come e joga o osso aos cães que se digladiam dentando-se em guerra, ah a guerra. Ele olha para os lados dela, ela olha pra ele e corre e depois vem puxada arrastada pelos cabelos e o macaco peludo suspira vitorioso, venceu, milênios a possuir a vencer a guerra. Tem algum Escriba que aguente tanto heroísmo!

IX – 34ª                          Joana Teimoso

                                                                       Que é um ano a teimar. Nada,
                                                                                         perto do ano-luz

          No destrincho desta guerra da Guerra concordar-se-á com a discordância gramatical de Joana, antes o antes.
          Antes ela esperara paciente o marido impaciente, o Zé Burro, ele sim teimoso à beça. Família que espera unida permanece unida. A dizer pelo dito ainda não dito que havia bastantinho menino, tem família em que só dá garota a afirmar o grupo de Eva, tem as que misturam torneirinhas e xoxotinhas, aí não se pendendo nem pros lados dela nem pros lados dele; e tem o grupo onde só Adão canta de galo – que é o caso do Zé Burro e da Joana, esta herdeira de Nhá Zefa que falam foi a fêmea da espécie mais teimosa que houve, porque a Joana teimava teimava teimava, e emburrava.
          Agora está ao lado da jamanta com os moleques – menino dá trabalho dobrado e se dividirmos por dois teremos quatro filhos, o petitico esse não conta dorme, primeiro mama, depois dorme a sono solto os outros palpitam brincam brigam, ela emburrada já, pra não perder o costume. Mas não por causa deles, dele.
          O Zé era meio cabeça dura, ela quem falava nestes termos com razão, enquanto ele teimava ela não ter razão. Dura, bom profissional.
          Agora era uma jamanta, dessas de quilômetros com tantas rodas não dando a contar, as primeiras grandonas as últimas lá no distante petiticas rodinhas. Antes, entenda-se antes bem antes do antes, era cavalo. Seu pai, sogro dela, seus avós foram ladrões de cavalo. A tecnologia a modernidade impõem as mudanças, isto é a civilização, as mudanças em regra; rouba-se automóveis hoje não os animais de antanho. Começou pequeno o Zé, Zezinho, afanando coisinhas sem valor, como brinquedo do vizinho chorão faltando uma roda das quatro e sobrando muito “é meu” outrinho “é meu”, choros. Depois foi evoluindo, roubou bicicletas coisas assim. Formado e apto optou como tantos pelo carro. Porém agora – exagerou? – agora, em desafio quem sabe,  fez a opção  por uma jamanta e encrencou.
          Está ela emburrada, Zé Burro teimando.
          A jamanta não sai do lugar, não tem ligação que funcione pra funcionar, não funciona. Então ela desce com a prole, ele nervoso, já fez de tudo, quase chamou acordando na madrugada o proprietário do veículo, não quer ligar de jeito algum.
          Ela fica emburrada aguentando criança choramingas, o pequeno quer mamar mais um pouco, os outros um quer dormir outro acordar, todos pretendem irritar primeiro mamãe emburrada depois papai teimoso nervoso na profissão. Fica de lado no passeio público mas não se encontra passeando, só emburrada. O Zé vai pra lá volta mexe remexe e decide, comunica a ela, ela ouve, emburrada com a burrice macha, não fala nada só fala com a cria, puxar orelha dum dar croque na cabeça doutro e olha aquilo.
          Joana (ela quer,  não diz,  falar:  não grita ou acorda o dono os vizinhos do dono e aí...) Joana a roda não roda, travada, o motor não funciona: vamos empurrar a jamanta.
          Naturalmente ela não aceita. Ele, teima, empurra empurra geme empurra, não sai do lugar, culpa a carga valiosa mais valiosa que o caminhão propriamente dito. Ufa, desiste.
          Não desiste em roubá-lo, só de empurrar: vê se pega no tranco um homão daqueles e uns pirralhos empurrando e um jamantão tão teimoso pô! Não, o petitico já mamou e dormiu, esse não ajudou papai empurrar o comboio e que adiantaria que força tem um nenê! Bem. Mal, mal para o Zé, da família dos Burros, Teimoso por parte de pai. Vai em frente.
          Entenda-se, o carro parado. Vai em frente no desiderato: Joana – grita mais baixo o chefe da família – Joana, não tem jeito, o jeito é desmontar tudo e montar lá diante.
          Ela? desemburra pra arregalar os olhões, os olhões que a embelezavam por baixo das sobrancelhas arcadas. Porém nada fala, fica de boca aberta fechada olhando. Ele...
          Trabalha, trabalha, desenrosca porca, mexe parafuso, abusa da chave de fenda, enraivece mete o martelo, xinga, se emeleca na graxa, xinga, chega perto dela a mostrar indignação ela olha a indignação e seu homem mais indignada, recua um pouco para não se sujar com a sujeira do macho e a possibilidade da prole se engraxar também, ele prossegue. Bate pra lá, ajeita pra cá... horas. Sua, cansa, xinga, antes olha se não acordara o dono da geringonça. Conseguiu, arre!
          Olha o Zé Burro sua fêmea num “não disse!” vitorioso.
          Aí começa outra batalha, não é a da Guerra, os Fariseus desta vida andam curiosos em saber, não: a batalha da guerrinha para roubar uma jamanta com ajuda da família unida, o pequeno dorme e não participa se não em corpo presente, os outros, ela voltando agora a emburrar-se balança a cabeça a loucurar a loucura consumada, ainda não bem consumada, de seu homem, teimoso.
          Começa prossegue horas já quase sol a labuta. E acaba de montar a jamanta, primeiro remontou o cavalo, nada em ver com o cavalo-avô, chamam ‘cavalo’ motor cabine e as primeiras rodas com pneus assim, a tração. Depois o truque, um truque de linguagem vinda de truck gringo. Estava novinha de novo a jamanta inteira!
          Subiram, se amontoaram na cabine, esta uma jardineira com passageiros podendo relaxar dormir até, o Zé não dorme, a curtir sua vitória. Ela, não a vitória, se chamava Joana não sei de quê, não sei de quê trazido de sua família, que não era ladrona de cavalos (aí seria de égua!?) e recebendo no padre o sobrenome dele, Burro. Ela olha pra ele, talvez temerosa que os donos acordassem pois o sol já estando de pé, olha a indagar – vamos enfim, o que falta?
          Ele, mexe tenta outra vez, não pega, xinga, teimoso, e o teimoso caminhão não funciona, apenas não se encontrando no lugar por metros adiante do lugar novamente montado e bonito, xinga outra vez, olha, agora é ele quem está emburrado e não fala, olha os dele, vê a cria, vê a esposa, Joana nunseiquê Teimoso.

IX – 35ª                     Maria Guilhermina
                                                                                   Que mais? intriga
                                                                                                       da oposição

          Fiquei a pensar naquele dia como as fêmeas se entendem entre elas. Já viu numa barulheira que é o vozerio feminino quando qualquer de nós aparece de imprevisto? ou se calam calando o ambiente ou não se calam sequer ouvindo nosso falar grosso potente macho. E aí ou a gente sai de fininho num ‘não é comigo’, ou envergonhado, somos tidos por tímidos, não é mesmo Fariseu?
          Mas era, eu digo melhor não era, não era a mesma coisa. Com a Maria Guilhermina não era, tenho certeza.
          Porque fora muito cedo, em criança, operada, tadinha. Não dizia coisa alguma. Muda. Isso, muda.
          Todavia não deixava ser fêmea por essa razão; sequer quis subentender tal. Muito fêmea. Bela. Duma beleza imedível; aliás não se pode medir boniteza.
          Talvez eu pensando assim pelo fato de estar comigo toda uma vida, a vida dela, eu já adulto e servindo o governo e ela nascera então; depois cresceu, crescendo em tamanho e beleza, também virou adulta. E posso afirmar, vai ouvindo, me amava até à loucura! um amor puro, desses que nem as mulheres outras entendem. A minha por exemplo.
          A Matilde me pegava no pé. Por causa dela? me indaga: sim, por causa dela. Era uma ciumeira sem tamanho. Verdade se diga – eu também amava a Maria Guilhermina. A mulher: “serve para ser sua filha, seu velho estúpido!” me carinhava com outras ofensas, coisa dos ciúmes próprios das fêmeas.
          Por isso tenho lá minhas razões a afirmar que elas se entendam. A meu ver, talvez ao seu também, se entendem para melhor se desentender.
          Me pergunta – se entendiam. Não, a Matilde não ia muito com a cara de Maria Guilhermina, sobretudo quando ganhou os contornos adultos a ressaltar sua beleza... ah não quero nem pensar. De seu lado a Guilhermina também com suas reservas. Aí a ciumeira, como disse, só fez aumentar.
          Matilde: Zé por que então você não dorme com a Maria Guilhermina!
          Eu: Você é ciumenta e atrevida; não crê em meu porte moral!
          Daí por diante. Discussão para o resto da noite, beicinho pra semana, eu feito besta no sofá com um frio daqueles.
          Agora, minto se disser que discutiam ambas. Minha esposa falava até gastar a corda, aí chorava, antes me desfeiteava desfeiteando Maria Guilhermina, que Matilde dizia a me ofender “sua amante!” nem usando o eufemismo “namorada” que se usa hoje em dia. Com a Guilhermina não discutia mas pela simples razão desta haver ficado muda, a operação das cordas vocais como lhe contei. Ou seria uma tragédia lá em casa. Pois a consorte se dizendo sem sorte pela concorrência desleal de meu amasiamento com outra.
Havia outra conotação desagradável nisso tudo e em nossos entreveros: as crianças. Ficava mal.
          Pensei muito tempo na questão. Nossas discussões eram intermináveis, Matilde não percebia que eu ficara mudo igual a Maria Guilhermina, ela continuava gastando a língua, me desancando. E os meninos, é visto – olhos arregalados assustados, o pequeno inclusive abria um berreiro, o que facultava às vezes pararmos em trégua o bate-boca, ela, eu já quieto e vencido. Ah sim, se as crianças aceitavam Maria Guilhermina? Aceitavam. Mais o pequenininho o qual não entendia das coisas.
          Todavia o negócio era comigo. O canhão daquela língua era voltado a me destruir. E destruiu, Você sabe que destruiu. Tanto que após o falecimento da Guilhermina virei esta sem-gracice que me vê.
          Agora, faço uma confissãozinha ao Fariseu, não deixe chegar isso à oposição ou me senta o cacete com a língua. Seguinte. A mulher matou a rival... ouça baixo, por favor. Terá, suponho, posto veneno no osso da coitadinha. Nem veterinário resolveu! sim, chorei. O caçula também chorou. Oh não tem jeito para essas coisas, tem?

IX – 36ª                    Da Surra que Apliquei na Mulher
                                                                              Não me engano quando bato,
                                                                                                   só bato quando me engano

          Chover no molhado. Falar que mulher de malandro apanha e gosta. Lugar comum, fujamos, sejamos puros, não inocentes, puros. Porque, convenhamos, não existe inocência no miolo de um esposo que bata na esposa.
          Acho me enquadrar neste caso.
          É bater – tenho necessidade em grafar com dois tês a ser mais contundente e autêntico – é sim bater e levar o troco. Pois não é que a megera me haja dado um tapa no rosto! Minha cara mulher bateu em minha cara. Pode uma coisa dessa?
          Houve um senão, se não dois senões.
          O primeiro que não tenho bem a certeza se me bateu primeiro. Pode inclusive ter apenas planejado ou pensado instantezinho em me abordar tabefar-me a seguir. Não iria ficar pondo eu minhoca na cabeça, tem gente que fica no “se” e “se” etc. e tal. Eu? não sou desses: dei a resposta imediato, talvez antes que o imediato. Depois a gente fica com dó; porém já foi; foi, foi e pronto, não dá para desfazer. Me indagam se a levei ao Pronto-Socorro após o desmonte, um soco deste ih, eu dei foram vários.
          O segundo ponto a tratar ligando a essa questão, já sei e me perguntam também se sangrou quebrou sobrou ocorrência be-ó essas coisas: os vizinhos. Bem, não me meto com vizinhos não aceito vizinhos nas surras que dou nela, daria neles, sou violento, caso interviessem. Não, não deu enxeridos. O mais grave desse grave foi o Lulu, o qual ladrou uma semana, exagero: dia inteiro, por eu haver socado a mulher. Mas cachorro não conta, pois em contrapartida, digamos que a esposa houvesse ela me batido – o Lulu latiria contra ela da mesma forma. Contudo, como disse, disse eu a soquei. Com respeito a quebraduras e sangrias não sou médico, minha profissão é marido. Marido chamando nos tentos a esposa, fim de papo. E se ela, à feição da mulher de malandro, se ela haja apreciado peço nem perguntar à vítima: tenho certeza que não responderá, um verdadeiro túmulo. Aliás não admito que meus dependentes critiquem meus atos e piormente levantem a voz em casa.
          Portanto sou durão. Machão? bem, sou machão.
          Na outra ponte... Não não me enganei devendo dizer noutro dia, mesmo porque estava no porre e bêbado não sabe se realmente já é outro dia ou outra semana. Mudei de ponte, fui a um viaduto, não sei igualmente o nome do viaduto, não tem importância. Mudei, levei os trecos nas costas, duas matulas enormes, dentro duma pus a esposa, o que sobrou dela, enchi-lhe a barrigada com capim, material sempre a sobrar perto de pontes no arrabalde, costurei com barbante mesmo – ficou novinha outra vez. Boa para outra surra. E não venham com gozação por cima de mim: faço com ela o que desejo, inclusive bato se precisar correção.





IX – 37ª                 Atualização nos Diálogos

                                                                       Para viver as coisas do hoje
                                                                                         com desencontros do ontem
         
          Oi mano, ótimo encontrá-lo por estas bandas. Reencontrá-lo. Quanto tempo hein. Tem sabido de todos? Dela, mais especificamente dela você sabe...
          Não a viu mais? Lembra, falei que fora um dia minha esposa! Esposa mesmo, papel passado padre e tudo que manda o figurino. É namorada agora de seu colega? Não sabia, sabia estar um caco, pobre dela.
          Me lembra nosso tempo... Não, nosso não falo eu você e a turma, não, eu e ela. Disse que foi minha amante um dia? Ah nem falo. Tudo nos conformes: cama mesa e banho; guarda-roupa. Não apreciava seu armário, acho que foi por essa razão que larguei-a ao marido dela; um dia chegou bêbado e tive de ficar preso lá dentro, me conhece: não gosto nem de barata nem de naftalina. O sujeito depois que a abandonou se amasiou com aquela que lhe foi esposa um dia... Você não aprecia lembrar, é justo. Então. Mais pra diante me casei com ela, depois de viver com o cafajestezinho que foi seu chefe, você também não gostava dele eu sei. Bem. Na ocasião eu andava com sua mulher; entenda-se: com a sua atual consorte que teve a falta de sorte ter-me por amásio e agora com a sorte grande em ter-lhe por esposo. Não é marido legalmente? Ah apenas fica com ela; entendo.
          E ela, ainda funga? Não entendeu. Quero dizer o costume chato de assoprar na gente no café matinal. Ah sim, deveria ser os dentes, agora tem dentadura postiça, ficou mais bonita a criatura?
          Um dia, bem isso foi ela mesma quem disse, não lhe contou quando viveram meses juntos... pois bem, ela me disse dos dramas com o Pitecantropo. Não sabe? Ele a arrastava pelos cabelos e a levava à caverna, o monstro; ainda mais a obrigava comer crua a carne dos rivais, o macaco andava em ciumeiras. Verdade ser muito briguenta, não vamos pôr a culpa apenas no homem.
          Somente levou vantagem com um namorado. Qual ora, pode chamar esposo companheiro amásio amante ou namorado, sabe agora é namorado, o planeta está perdido de namorado. Pois é, só vantagem com um deles.
          Ela falava falava, reclamava, pichava, estrilava, indagava, espetava – ele nada respondia; foi o matrimônio mais longo dela, antes de mim antes de ser sua, antes. Xingava a ele à mãe dele à família, o sujeito nada. Não reagia, não respondia, não respondia muito menos mais à altura. Assim foram vivendo e só a deixou viúva e enterrado. Aí não falava e nem respondia às provocações da mulher. Em vida a suportou bem. Com senãozinho: era mudo de nascença. O que não importava, pois ela falava pelos dois.
          Mano, ainda não me respondeu se tem sabido dela.

IX – 38ª                                    Donadão

                                                                                          A maçã
                                                                                                                       a serpente
                                                                                                                       as fêmeas
                                                                                                                       da gente

          Apostei nela. Apostei, que a ser mulher, eu mulherista já disse, apostando a ganhar, o mal do jogador é investir no errado do perdedor a dar ao menos empate; empate de capital à perda. A ser, esclareço farisaicamente, a ser mulher, porque macaca peluda cheirando a cria criando encrenca criando criança. Não por outra razão, razão não tivesse – por ser descendente direto dessa nobreza, por parte de Adão, veja bem, sou macho pra valer. Sou por ela, Senhora Adão, não por ser parideira e encher o mundo este mundão de Deus; por cuidar de seus direitos. Cuidou direito, direitinho dos direitos – fugiu quando necessário; verdade que a oposição a encontrou acuada e a arrastou pelos cabelos longos (nem sei por que longos, se macaca não tem sequer cabelos, pelos, curtos ainda por cima) comeu a mãe de boca aberta em feiura de estilo, mas que quer se Adão, se macaco, se macaco é feio! e aí... bem, nascemos, digo, eu Escriba, “nascemos” porque o Fariseu veio dela, Dona Adão, também. Duro reconhecer isso hein! E se defendeu aprendendo a macaca a falar, só em fevereiro que ainda não estava inventado com menos dias, aí falava menos, o falar mal dele, Adão, aquele macaco bruto (lembrar que sou mulherista, feminista não, tenha paciência onde já se viu o Escriba queimando sutiã!) querendo bater na tadinha da esposa por causa da ciumeira, tendo em vista a macacada em volta. Defendeu-se defendendo a cria, nós, quer dizer tatataranós, da sanha macha. Defendeu-se defendendo um macaquinho bonito, isto é: menos horroroso que seu macaco proprietário Adão, tá certo abrindo brechas à ciumeira primeiro e depois à traição, aí por que acho e tenho minhas dúvidas no fraterno Fariseu. Isso tudo, não culpo mamãe, tatataramãe, não. A Serpente. A gente. Apostei.




IX – 39ª                          A Marisa que Não Vi

                                                                                   A  pensar,  a  pensar.
                                                                                                       Que possa não haver

            Não vi, viram por mim, Fariseu. Lá no lonjão distante. E chovia. Chovia miséria também. E chovia filhos, aí por uns oito vivos os outros saíram de anjinhos. Sim, não chovia marido. Chovia a cântaros, despejavam dezembro janeiro fevereiro, a água barrenta lavando-lhe o chão lambendo as bordas da roupa malcheirosa da cama pobre, a acudir aqui, ali a meninada, põe bacia e panelas nas goteiras, muitas, pouca comida a tantos. E o homem da casa? fora de casa. Bebum perdido esparramado rolando nas terras molhadas do cafezal, curtindo seu desligar. Então falou a visita – Marisa, ela se chamava Marisa, você me dá um deles para criar... E ela chorou igualzinho a Sheila. A Sheila só tem seis, eles brigam choram exigem mamãe; vai que pegam um, não dá, rosna ladra enfrenta não dá; aí o homem vende e dá os filhotes, mas ela chora. Não tia, não fala uma coisa dessa, me corta o coração. E as lágrimas se encontram no rio da miséria com as gotas da chuva. Quem sabe não acordem o homem, não coloquem o homem a cuidar dos rebentos. Não lhe bate o homem?! as cicatrizes deveriam impedir a dor da pergunta, elas que são as dores acalmadas no tempo. Não dou. Não deu. A Leoa agarra com unhas e dentes seus cachorrinhos a Gata arranha a ameaça a Galinha avança defensora dos pintos. E a Marisa. Uma que não vi, não se precisa enxergar para existir.





IX – 40ª                              Acarinhar o Inimigo
                                                                       O faz de conta existe virtual e
                                                                                          concretamente, pois mentira
                                                                                           da verdade

          Estava, eu Escriba, espreitando o desenrolar daquilo, depois... só depois. Ele não me deu tempo para avisar olhinhos inocentes a caçar o que não ver, ia cassar o sujeito, como disse não me deu tempo: correu fugiu escondeu-se atrás de não sei quê, mas dos bem galhados folhados, agachou a desachar achou a esposa. A bem da verdade esposinha, aqui sem desejar melindrar o amor e as carícias do amor – braba. Já avisei incautos cuidarem-se das pequenas, que são tiriricas. Esbravejou ofendeu o esposinho, esse sim grandalhão e fortão como manda o figurino macho, macho assim do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, melhor dizendo do tempo em que se amarrava homem com mulheres. Bem. Bem ficou elinha a azucrinar-lhe, desfeitear a montanha de muque, estando em posição de chaleira, bule não pois só se arca um dos braços, em chaleira são os dois e dá melhorzinho ideia da ideia raivosa da senhora jovem bela, gostosura, e por que a porcaria não ficou com ciúmes de mim! temo não me temam, noutra vez ponho um Fariseu daqueles belos somente a lhe fazer inveja e aí, aí, ai, sim se defender defendendo a sua propriedade contra invasores, ou seja defender aquela titiquinha de mulher braba quase ao histerismo, não afirmando eu isso para não depor contra as machuras do esposo. Encontrado, ah meu Deus! Avançou xingou, agora sou eu quem fecha orelhas com tapume desses que uso quando o vizinho me ‘roca’ metálico altão seu rock and rol da pesada de tremer meus bibelôs na estante, e são umas gracinhas. Xingou cansou de, parou a respirar. Mamãe estava ali pertinho vendo sem ver de rabo d’ólhos o noro agachado a implorar socorro, este socorro de agora, agora em português do Brasil que não é português, sem adiantar coisa alguma. Experiente como toda velha a sogra mãe da ‘titica de galinha’ assinzinha bravinha lindinha vermelhinha, aproveitou-se do hiato entre um e outro xingar genros e disse, dois pontos – que foi isso, meu Deus! (a exclamação é minha, Escriba, eu que a acresci; não sei como essa gente fala emociona admira e ofende o ofendido, não usa ponto de exclamação. Volto pra escola a desaprender gramática). Mamãe, falou aquela ofensora de pobres maridos (maridos de todo mundo uni-vos!) mãe, esse filho da... (xingou bonito a sogra, sim tem desses lances a Velha não aceita a Jovem a Jovem a pichar a Velha, não tem?) me trouxe isto – aí mostrou um lenço branco, discutivelmente branco, e então depôs a prova do crime contra si mesma, por que não pôs ‘pó mais branco’ com cheirante de novo perfume, não é de minha conta – isto aqui e olhe a indecência. Então a vítima descoberta em sua montanha de músculos e pelos se levantou e disse à sogra, minha querida mãe (a mãe dela lhe dá apartezinho “não me venha com essa não seu...”aí xingou o xingo que ensinara à filha não dizer que a filha desaprendeu otimamente) ela está nervosa somente por isso... isto, mostrou a ex-donzela agora Senhora Montanha de Carne e Pelos, isto vermelho. Mamãe: isso é batom e pronto. Elinha: batom de minha maior rival! Aproveitou a rexingar o filho da sogra e a sogra, a ofender o filho dela. Simplesmente por isso? isto digo eu Escriba, pois, que fosse Fariseu, jogava fora o lenço discutivelmente branco com mancha de batom e comprava outro mais limpo e ainda não encardido; e por tabela eliminaria a prova do crime, se crime. Tanto espalhafato pra quê, falei. Quer dizer, não falei nestes termos ou sobrava pra mim, uma tantadinha daquela, boa sim, e braba pra cachorro! não disse, olhei. Olhei o caretão de sujeito pegar a caretinha, jogar como um fardo leve de lenha nos ombros – lá se foi aquela gostosura esperneando, enquanto a sogra do montanha indaga à visita espantada como eu “eu falava o que mesmo...” Aí o Fariseu me pergunta e depois? sei eu por acaso que fizeram depois, vivo a entrar nas intimidades do quarto conjugal! ah, ‘depois’!? Aí desliguei o televisor, a programação, uma baixaria sem tamanho; me indagam a razão em manter tanto ligado – como um livro para você saber que é mesmo ruim terá de lê-lo concluindo: isto não se deve ler; também, como descobrir o dramalhão a baixaria?!

IX – 41ª                       O Violino sem Arco
                                                                       A  oposição  é  um  bem  para
                                                                                         justificar os erros da situação

          Agora era quinta-feira, não aprecio as quintas, agora era Sr... Fariseu? Fariseu, quinta-feira. Ela roncava. Já sei o que diria na sexta manhãzinho “seu bruto, serrote! não me deixou dormir”. Sempre assim, vida todinha de casados, com menos a lua de mel e os primeiros dias, aí eu ela nós não nos ofendíamos. Depois acrescemos o vai-um e só foi pena que voou, aí veio a menina de olhos azuis, agora não se vê dorme, azuis, amenizou um pouco; me pegava no pé, volto do serviço ela a falar a falar, ia com os amigos ao bar a fim de aumentar o ‘pindura’ e aí brigava com a gente pelo ‘pindura’ pelo bar pelos amigos, brigava mais ainda pelo roncar. Nesse ponto ele chegou.
          Fininho fininho a cantar pra nós. Pra mim, ela dormia e roncava. Estou vendo sentindo ouvindo constatando de olhos arregalados só para vê-la deitada de lado me dando as costas, orelhas assim ligadas ouvindo, ouvindo seu ronco. “Você roncou noite inteira não me deixando pregar olhos!” Eu a contestar; ela: “só não acordou a menina porque criança tem sono de pedra”. Olhávamos os olhos azuis da garota. Foi assim, Sr.Escriba? ah desculpe, Sr.Fariseu.
          Agora, em novo agora, ele, o pernilongo, chegou como não quisesse nada; nada disso, chegou foi trombeteando seu instrumental, que na verdade é o violino. Reinou reinou a me fazer serenata. Insisto no ‘me’ ela roncava a pôr-me culpa por não deixá-la dormir direito, vê se pode! Cantou fininho voou-me aqui na orelha de escutar a esposa roncar, dei-lhe um tapa e me acertei não sabendo ter tanta força, fugiu; retomei o dormir! capaz, só o tentar, tentar sim: ela de lado a roncar ele de lado a gemer seu arco, em verdade não via arco algum via violino, ouvia seu finar miúdo. Foi Sr... bem assim noite toda até cansei.     
          Foi bem desse jeito como falei. Aqui inicio outro agora.
          Agora estou em fase de vingança!
          Sim, sou terrível, implacável, cobrador.
          Armei meu esquema completo. Comprei arma. Se bem que tenha sido um mal, mal pensei: dever-me-ia dedicar à tortura sobre ele. Por exemplo ocorreu-me adquirir não um violino igualzinho, uma rabeca primitiva e tosca; então reinar grasnar seus ouvidos com uma ária regional. Sim, acho que mereceria um pernilongo daqueles; dizem serem as fêmeas que nos chupam o sangue e é uma atenuante, poderíamos ter mais boa vontade com elinha, não mereceria a pobre. Mereceria um violino afinado e um virtuose, eu, a tocar seu funeral! absurdo, loucura; até nisso me chocaria com a esposa a me lembrar outras atitudes impensadas minhas para insultar-me (ah tem muito ‘me’ na frase? ora, ‘mé’ pro Fariseu)  e... deixa pra lá, o fato é que optei não à tortura: à morte violenta rápida consumada consumindo o pernilongo!
          Comprei arma sim, vai ouvindo Sr.Fariseu... oh desculpe, Escriba, não? ah sim é mesmo, Fariseu.
          Adquiri um revólver. Como usaria um recurso de  compressão-redutiva, invento dum primo da esposa,  essa que fugira a me dizer chorando “vou para a casa de mamãe”, tudo bem mas levar-me olhinhos azuis! Pelo princípio poderia diminuir assinzinho até de um lançador de míssil da NASA a um simples estilingue. Bem. Submeti a arma, um 38 passou para 22, mais ainda no menos: virou um revolvinho assinzito de microscópico (inclusive fiquei com pena em usá-lo a assassinar, pois ficava bem em minha coleção em pôr no porta-bibelôs da sala). Municiei a arma. Me pus a caçar a caça, cassar seus direitos à vida ao canto para insoniar-me o ser e brigar com ela para que pudesse brigar comigo. Cacei cacei cocei a orelha a ouvir melhor e ao ouvir o fininho tocar seu instrumento, zás!
          Peguei o bicho, Sr.Filisteu, digo Escriba, ah perdão, a gente não dorme e a memória... Sr.Fariseu, peguei finalmente a vítima.
          Quer dizer, vítima mesmo consagrada configurada de verdade, eu; ele vítima no sentido em que seria cadáver, morta por estas mãos. Bem. Apontei.
          Aí o inseto tremeu nas bases. Olhei-o firme no propósito, em meu intento. Ele? levantou os bracinhos, as patinhas direi a ela para não me pegar no pé, as patinhas, fiz clique armando o gatilho, tinha seis balas, mirei, fechei este olho negro aqui, negro avermelhado de tanto não dormir no ronco dela e no violino dele; quando ia disparar...
          Não Sr... é Fariseu não é! vê, estou guardando até bem o som, não falou assim o caretinha, disse “help”, eu: não entendo inglês, nesta casa não se gringa! ele então: “socorro! piedade! clemência!” Afinou. Porque na hora do vamos ver... Ajeitei melhor o revólver a fazer sofrer minha vítima, o pernilongo. Olhamo-nos, eu decidido, ele implorante e pasme Sr... uma lágrima rolou-lhe dos olhos, azuis não, a filha os tem, os dele cor de burro quando foge. Eu estava realmente decidido, nem que a mulher parasse de roncar, nem que voltasse, aí teria mesmo ido embora, nem isso, nada me demoveria em minha frieza assassina. Apertei o indicador, disparei três vezes!
          A primeira passou perto, furou a parede tão somente e aí já pensando na bronca da esposa e me lembrando agora solitário e não importando o buraco no reboco oco do furo.
          O segundo tiro foi mais certeiro e errei pouco, arrancou-lhe um dos braços levantados ainda. Tanto assim que ao erguer outra vez os bracinhos, patinhas se se quiser, só conseguiu elevar a direita à minha esquerda, a esquerda à minha direita se esfacelara completamente!
          O terceiro foi o quarto. Explico Escriba Fariseu Filisteu essas coisas, explico, o terceiro tiro falhou não saiu. O quarto que virou terceiro aí acertei o para-defunto, morreu! Sangrou, sangrou meu próprio sangue que chupara rindo seu violino! Lógico, economizei duas balas, estão na arma que escondi e a polícia achará, a balística confirmará para os autos. Ato contínuo pensei.
          Havia a possibilidade em esconder o corpo, não é assim que se faz a fazer certo? Oh, teria fatalmente que voltar ao local do crime etc. e tal, tal desisti, deixei o cadáver jazendo ao chão junto do pé de minha cama, agora vazia que ela me deixara, ficara bem no chão no encontro com a parede.
Fui tratar das questões pertinentes ao funeral ao velório ao necrológio em jornal chamar parentes e amigos. A esposa não chamaria mesmo, iria ficar chorandinho com lenço toda hora a mostrar serviço pois sentimental, eu que sou frio e calculista. Ainda por cima e se me inventasse a ex-esposa trazer a menina, aqueles olhos azuis em lágrimas. Não não chamei a consorte do sem sorte aqui, assassino se se quiser dizer, mas sem sorte.
          Arranjei carpideiras a lastimar o morto, arregimentei bêbados desconhecidos (acha que deveria alardear entre amigos e conhecidos haver um morto e um assassino!) dei-lhes café e logicamente cachaça, contei a do português e a do papagaio a passar a noite, iriam ficar a cheirar rosas do defunto pernilongo! Animei o convívio do falecido.
          Aí enterramos o corpo em pompas e com honras, militares não, a vítima fora músico violinista talvez exímio e virtuose, andava longe de soldados não chegara nem a fazer o tiro de guerra e não merecendo esse tipo de homenagem. Mandei pôr laje na campa do campo santo, pus cruz, vai que fosse cristão. Nome no ‘aqui jaz’ não pude pôr por não haver descoberto o registro civil do pernilongo. Poria.
          E – caro Sr. parece que é Fariseu!? – caro Sr. fiquei, estou até hoje, aguardando a exumação o encontro da arma o processo e a ordem policial; aguardando quem sabe a volta dela, que decerto já descobriu quem é que ronca; aguardando meus olhos azuis, péra lá o vizinho é quem tinha olhos azuis... não isso não importa agora; aguardando que não venha outro cantor com outro violino: faria tudinho outra vez e, confessemos, é desgastante, é de tirar o sono.


IX – 42ª                        Enlace em Desenlace

                                                                                   No limiar da loucura.
                                                                                                       Mas já é a loucura...

          Chegou o fariseuzinho assim assim. Não, não tão assim, mais que assim, ela que era baixinha, forte mas de pequena estatura, dessa forma seu homem parecendo um gigante e aí chegou. Até já pensando ir pros quintos, o que é bom lugar. Poderia se tornar profissional nessa infelicidade! o que é em primeira abordagem um mau negócio.
          Porque veja bem, já tendo grande experiência com a primeira depois com a segunda e a quarta, a terceira não contando por durar o experimento tão só duas semanas das curtas, às vezes se acaba na lua de mel a coisa, no caso um matrimônio de grande duração se estendendo por quinze, quatorze dias. Contudo era um homem de grande conhecimento na matéria, não entendia mulher porém tendo enorme conhecimento em brigar com mulher. Usava aos íntimos, os de seu lado, dizer que ela brigara consigo. Como é verdade aos de fora que são de dentro por intimidade saber a intimidade do casal... nunca se pode apurar.
          Agora brigaram. Se ofenderam. Não disseram aquele nome, talvez desconhecessem, não disseram, educados, se ofenderam ofendendo-se; tem mil maneiras a ofender outrem, o dos quintos era muito versátil e sua ofensa atingindo uma amplitude imensa. Até para ensinar Elinha, com estatura pequena e língua grandalhona.
          Não importa, importa que já não se entendiam, ela precisando pensar em seu segundo esposo; ele já se disse imaginando os quintos.
Brigaram. As dívidas as dúvidas devidas e indevidas vieram à baila, alegrou bastante a argumentação conjugal, desconjugando a contento. Até ao ponto que se sabe o ótimo no desentender para se entender numa boa e fazer as malas.
          Aí, numa linda tirada, lembrou-se o gigantinho duma norma no antigamente: a mulher, chorando, dizia ao seu homem – está tudo acabado entre nós, vou para casa da mamãe!
          Chegou o fariseuzinho de malas em casa de mamãe; malas televisão roupas quadros máquina de escrever quebrada e outros trecos. Todavia não chorava pensando já os quintos, a mãe é quem chorava. Ah essas mulheres.        

IX – 43ª                           Ode à Mortandela
                                                                                   Tem um cheiro matuto
                                                                                                       nessa briga

          Aqui neste espaço do espaço ocupo, ocupo agora o espaço da mortandela; o caipira fala assim “mortandela” e não muda as coisas somente a mudar minha situação. Porque veja bem, estou incômodo entre duas fetas (isto igualmente caipirês) duas fatias macias dias comprado o pão muxibando, do sanduíche. O matuto come o pão com mortadela num prazer imenso imensa a fome na beira ou da estrada ou do barranco pescando, neste caso engolindo a gosma com guaraná pra fazer mais gosma.
          Chega de ode à mortadela cheirosa seu alho espantando em volta e o caboclo não consegue esconder a comida mesmo bem escondida nas compras que trouxe da cidade, chega sim de ode.
          Agora, neste agora, sou a mortadela a viver meu estertor do viver no domingo. Qual? ora, após aquele sábado que foi ontem, não dizendo um dia antes da segunda de amanhã não sei se terá, decerto que sim, se terei. Agora almoço.
          Almoçar é banal! mas não como eu como.
          Como? mortadela entre duas fetas em briga linda esplendorosa na Guerra.
          Do lado de lá tenho uns vizinhos que bem se desentendem bem, já foi pior: se gritavam os cônjuges, um dia o mais forte bateu no mais fraco (não direi qual o mais nem o qual venceu, por maldade minha, Escriba) os meninos interferiram com sua arma a apaziguar os pais, a do choro; agora só brigam de língua, viraram evangélicos, ele deixou o tabaco e grita baixo ela alto e se entendem na briga. Não sei por que cargas d’água se farpeiam a enfeitar meu almoço.
          Não como mortadela. Arroz e feijão beterraba e peixe, mortadela não. Sou a mortadela (comesse agora mortadela estaria na autofagia comendo-me; e teria sim um mau gosto espantoso, devo ser duro de roer).
          Do lado de cá é o caos, ferve neste calor já a ferver a gente, a fritar a assar. Prefiro assar. Eles preferem brigar. Fazem almoço pra sair bem tarde e aproveitam brigar e também brigam por isso; aí todo mundo fala e, curioso, todo mundo tem razão. Os filhos, adolescentes e brigo se disserem não ser ‘aborrecentes’ – eles interferem também, mas ao contrário dos  guris do lado de lá, os do lado de cá interferem pra pôr mais lenha na fogueira dos pais. E se discute bem, o casal deve ter começado a coisa na cama ou por isso mesmo, não advogo ter direito a entrar nas intimidades alheias, e acabarão resolvendo o impasse, ao menos o de hoje, o de sempre ficará pra depois, acabarão em achar solução na cama, isso não aliviando: a vida é um círculo vicioso também.
          Não. Nego-me a transmitir as ofensas de lado a lado, do lado de cá e do lado de lá que já tratei, não obstante os Fariseus estarem famintos por fofoca suculenta. Não seriam capazes a imaginarem as ofensas! Nego-me.
          Porque não se dá direito a nenhuma mortadela dedar as fatias de pão dum sustancioso sanduíche.

IX – 44ª                 Ela Entre Duas Flores

                                                               O homem é um ser reclamento. Se lhe
                                                                               satisfizerem reclamará não ter de quê

          Parece que existe uma prevenção contra ‘Fariséia’ baixinha. Mas se a pessoa é pequena, se não cresceu, cresceu apenas em belezura e não em outros setores do ser, o que se vai fazer: distorcer a verdade! Ser pela verdade do Ser, este o lema aqui. Verdade que exageramos, e por que o exagero não pode ser verdade! Paremos com filosofias. O texto pede é poesias. Ficam de fora a Filosofia a Ciência a Moral, esta costuma dificultar demais as belas criações literárias. Portanto finquemos pé na Poesia e na Literatura a melhorar o padrão dela. Ela? belíssima, ah, um pouco faladeira reclamadora lamurienta, escondeu o ouro ao bandido enquanto moça (ou não casava, mesmo que fosse com um deles, os gêmeos); mostrou essa face já os papéis passados e filharada, filharada se considerarmos três bastante; aí dava porém não dava para devolver. Porém havia um mérito nela, nesta Joaquina, o Fariseu pensando Maria. Qual? ela nunca bateu no marido; quem sabe por não descobrir qual era o verdadeiro, nós que estamos a defender a verdade do ser passamos neste ponto por embaraço, melhor até pular esta parte. Prossigamos. Aí, antes lógico de parir o trio uma garota e dois meninos, conheceu o futuro marido. Namoraram noivaram entremeio fizeram o que fizeram e fizeram bem e casaram e fizeram mal. Começaram a brigar, donde se deduz ser o casamento um criador de desequilíbrio. Já sabemos, irão contar mil casos de pessoas que se dão lindamente se casam e têm de se descasar por estarem feiamente em comportamento. Briga desentender desinteligência, apelo e grosseria até. Não obstante não se separaram mesmo porque ela não saberia de quem se divorciar; aí aguentou; tendo mais um fatorzinho impeditivo que era o padre. Ele disse pra ela, aos dois e se se quiser aos três, “até que a morte os separe”. A Joaquina cumpriu à risca o mandamento e assim a briga conjugal se prolongou até... poderia neste ponto dizer “até à morte de José e a viuvez de Joaquina” não podemos fazer tal afirmativa ver-se-á por quê. Acontece, aconteceu, que poderia o morto ser João. Este e José eram cara de um focinho do outro, não tem essa expressão popular? Então. Desde o namoro o noivado e o início do casório a pobre não descobriu quem era quem; a muito custo soube que o esposo tinha um irmão gêmeo autêntico, ou gêmeo idêntico bem pouco fraterno por ser demais fraterno; nessa altura já passara o vexame não tinha jeito. Indagam: e o DNA! Não tinha exame naqueles dias e tivesse quem garante um resultado comprobatório no caso gêmeo, não fica sempre a dúvida? Enfim aqui não cabe Ciência, garantimos, nem Moral, por não ser possível na confusão do trio, agora se falando não serem a garota e os dois meninos: a mãe da garota e dos dois meninos e o presumível pai deles, não se aventando nunca um vizinho sacana pois Joaquina era dos velhos tempos em que desconheciam adultério (e esse fato só pode ser antes de existir ‘fato’). Ainda assim, seria o trio menino da paternidade de José ou de João? flores, advindas da família ‘Flor que não se cheira’, quatrocentona e tudo o mais. Se a mãe – não sendo por ser pequenina grande em boniteza e  briguenta com quem estivesse de plantão no matrimônio – se a mãe, se ela desconhecia por não conhecer ao certo qual seu homem, se nessas condições, como poderiam as crianças saber. Por via das dúvidas tomavam a bênção “a bênça pai” ao pai José e ao tio João ou ao pai João e ao tio Zé. Aí surge uma questão séria. Seguinte. Joaquina, vixe ficou feia desgastada enrugada, sem perder a rabugice dos primeiros tempos brigando, sem ter batido no esposo nunca embora; mas tendo desses negativos em sua folha de serviço, passou à Segundona, a primeira virou a empregada bonita que ela mesma arranjou no mercado das domésticas. A nova Bonita igualmente ficou confusa, nunca descobriu qual foi o engraçadinho... porque tinha à disposição dois velhotes gêmeos bem malandros. Dessa forma a Joaquina, muito embora não os deixando e o faria sem saber a quem abandonar, permaneceu no cargo em cumprimento do contrato. Porém não deixou ser reclamante. No final das contas com razão de sobra.
                   
IX – 45ª                 A Briga Desbrigada
                                                                       A beleza pode ser tão só um reflexo
                                                                                         da necessidade de quem a vê

          Ela, a Márcia, não era bela, era linda. Não não caro Fariseu, não chega a um contrassenso, nem uma ‘pequena’ confusão de minha parte. Considero a confusão seja una, não existindo peso a ela do tipo “seu Manoel, me pesa um quilo de confusão”. As pequenas desaparecem em meio à confusão geral das coisas, as médias ficam perdidas no meio do caminho entre extremos confusos, só a grande pode aparecer, produzir frutos, portanto desproduzir. E aqui volto à confusão que gerou a confusão referente à Márcia. Por que teria a amiga, sou seu amigo veja bem, por que teria a amiga de não ser bela mas linda. Bem. Ela é um canhão desses enferrujados que se põe nas praças públicas para turista ter um fundo a posar à posteridade num clique de máquina fotográfica? Não. Quer dizer, faz tempo que não a vejo, engordou envelhou, é possível; deve ainda sorrir gostoso e do seu íntimo os olhos exportar uma beleza intraduzível, que traduzi em linguagem coloquial por linda; penso, talvez que um outro tradutor dê  diversa expressão (e aqui chamo atenção ao perigo que a sociedade corre por causa das traduções literárias por exemplo, nunca o original e o puro do toque criador). Onde, me indaga, onde, em que situação, enfim quando demonstrou essa beleza sua amiga! Fácil responder – sempre, em tempo lugar e atitude. É neste sempre que reside a grandeza humana. Tudo bem. Um dia a Márcia me decepcionou. A gente a pensar: não seria este despropósito a acertar a regra, pois que não existe regra sem exceção. Não importa, importa ter-me decepcionado. Ela mesma diria: Binha (isto vem de Escribinha, os íntimos podem manusear à vontade nossos apelidos e ainda rimos gostoso da criação) Binha, meu santo (isto agora abusinho dela) eu estou mal com o Toninho! Claro despencou a chorar. Começou a amiga a brigar com o Toninho? Não é bem o caso, nem os íntimos podem xeretar o íntimo dos íntimos, ela e ele; ele menos por não se simpatizar comigo. Nem começou, como bom casal, normal, comum ao menos, já se pegavam no pé nas pequenas grandes coisas, que o futuro transforma em grandes pequenas coisas, na inversão que dá aversão analisar por isso paro. Continuo a relatar a Márcia e a minha decepção com a Márcia, gente linda tem obrigação de não brigar feio. Contudo brigou, que fazer! me contou chorosa não dar mais, pus panos quentes, em bom exercício que aprendi com mamãe, a qual procurava explicar e justificar entreveros dos outros se esquecendo dos dela com papai, isto sendo outra coisa da mesma coisa.  Porque a Márcia ela mostrou-me os reflexos de suas sentidas lágrimas, e agora as meninas! falou assim. Consolei-a, sem saber a profundidade da confusão, esta das baitas em grande tantada: o Toninho estava flagrantemente traindo a amiga. Não confunda: ele não traía a amante para ficar com a esposa, deu pra entender? Traía a Márcia. Bem, o que fazer. Aí eu não sabia – Você saberia, Fariseu? – não sabia o que responder. Foi então que se separaram, ele foi com a outra mais nova mais bela, a linda a chupar o dedo e aí expulsando o Toninho de casa. Um ano dois cinco anos enfim. Volta o filho pródigo, chora pra Márcia chora pras filhas verem seu sentimento, entram em acordo, se amigam, a Márcia começou a trair a amante do Ex-Marido. Fez mais, depois me contou, sorridente. Binha, meu santo, Binha de uma figa (vê se isso é jeito de tratar um amigo!) vou lhe contar um segredo: vou me casar outra vez! Imaginei prontamente uma lista enorme de rapazes disponíveis – descasados amigados desquitados ajuntados, não acertei. É um divorciado... ah, abri a boca espantado, sou do tipo que não sabe apreciar à altura um segredo; aí não aguentei. Quem? conheço o tal? bom partido? essas coisas. Me tapa a boca falante através de minha orelha escutante – o Toninho! Ué uai puxa vixe! Não senhor, Binha, não se espante não, vou casar com o meu ex-esposo. Somos divorciados, não há impedimento legal. Olha, Fariseu, é o segundo caso que conheço de recasamento, pois uma escritora gaúcha casou-se com seu ‘ex’. O caso da Márcia entretanto, por minha proximidade, é o melhor. Pior somente por me convidar para padrinho, eu tão desajeitado e fuginte das festas. Além do mais, quê que acha deverei comprar como presente de núpcias?

IX- 46ª                  Instrumental da Guerra

                                                                         O drama do homem comum
                                                                                            pode banalizar o absurdo

          A diminuir talvez as culpas humanas põe-se as culpas nas coisas. A Rabeca deve ser a materna avó matuta do Violino, que é filho fino da senhora Viola, a qual vez por outra se conflita com o pai do menino, o raspador de goela Violoncelo, este tendo pelo lado paterno o Contra Baixo; baixo?! intriga da oposição. Matutando que o homem comum usa mais instrumentos também comuns para ganhar sua própria guerra, usou a caneca. Fosse ao menos a de alumínio bate fere enche amassa prejuíza enfeia e fica antes, quase, como no castelo de abrantes. Não. Tomou a caneca de louça, dessas grosseiras sem pedigri e sem Boêmia, adquirida no um e noventa e nove ou outra das lojas baratinhas, tomou essa que era meu exemplar de engolir sopinha de pão com leite pouco açúcar e muito café, me pegando no pé “parece porco pedro puxa para” eu não parava; sem me lembrar agora o que fazia a dever parar. Aí brigou comigo, tinha o Pedro Malasartes quando era moleque e ele falava na escola “cunhêu” brigou cunheu, aí não perdoava, ela não me perdoaria, razão em argumento para me fustigar os errados dos errados que sempre acerto falando. Porém não foi por isso. Foi por outra mais importante razão, não importando, já esqueci mesmo, não se esqueceu, então não aguentei tenho pavio curto dei-lhe um sopapo, mas foi o primeiro. E único. Me deixou, deixou a porta aberta escancarada, eu com ciúmes dos outros escribas. Perdão fariseus desta vila em periferia, perdão pois não sei bem se por isso ou outra razão das razões que acumularam que ela se foi. Não explico, explique Freud que é de seu métier e ganha rios a explicar, explicar desejo somente em esclarecimento ter sido antes que me quebrou a caneca grossa de louça de minha estimação, atirou-a, provo por a+b, atirou atirando a pobre no teto, manchou em cima estilhaçou em baixo, eu limpei solitário o chão grudando leite açúcar pouquinho café bastantão, nem o nacos de pão dando a reaproveitar. Precisei comprar outra à sopa. Não das de alumínio, dizem que faz mal à saúde, saúde que perdi, perdendo a companheira, talvez se ganhe mais perdendo em língua. É, talvez em língua.

IX-47ª                         Machismos, Feminismos
                                                                       O macho não tem medo da fêmea,
                                                                                         tem de si  mesmo por causa dela;
                                                                                         que ela venha saber do temor

          Num belo dia em que o planeta andava parado na loucura, então os jovens gritavam surdos a tremer o chão na música metálica; e as gerações se desaforavam; e os políticos do lugar paravam no andar corruptos; surdos metálicos delicadezando até a corrupção, mesmo a mãezinha gritona aos terríveis filhotes estacava lá nos fundos vizinhos a respirar; nesse hiato embrabou o Parafuso. Por causa de si mesmo?
          Naturalmente que não. A Porca, sua pranteada companheira andava ela parando nas suas sujeiras. E isso era, continua a ser, inadmissível. Ele que sim. Ela, ouvisse, que não, a femininizar dizendo ‘talvez’ que é a mesma coisa.
          Percebeu o Sr., Doutor aos íntimos, Sr.Parafuso que ela parecia espanada. Espanada! mas isso é grave. Quem sabe não tanto.
          A oposição a afirmar que seu esposo o espanado; por velho por abuso no uso por uso no desuso? quem poderia responder.
          O fato é que não entrava mais. Não entronizava jamais, ele a se envergonhar; ou não: a envergonhá-la a pensar (isso não se comunica, é faca de dois gumes, volta-se contra as fraquezas e insuficiências da acusação. Aí é manter o papel e ficar a pensar pensando que a oposição possa por sua vez pensar quê se pensa. E se ofendendo da mesma forma: -- seria melhor dizer-se quê se dizer).
          Todavia... a estória poderia prolongar-se ir bem longe. Entrar ferramentas?
          O Parafuso enciumado, quem é essa tal de Chave Fixa? é a de Boca! Uma Chave de Fenda não cabe aqui; Chave Inglesa talvez, onde os britânicos não se metem!? E o Sr. Parafuso parafusando minhocas na cabeça supondo quem sabe lesbianismos mais. Não. Paremos.
          Entrando ainda no ‘pode ser’ do manuseio. Como fizeram para fazer, ou por outra: para não conseguir fazer; e no final espanar a rosca, tadinha...
          Da Rosca?
Da Porca.“Porca miséria” diria o Nonno. Daí o esposo não tem contemplação, não suporta sequer um melindrezinho. Assim não dá.
          Dá, nem se sabe para que servem Manuseios e Ferramentas. O leigo não sabe, pensa que apenas serve para nada, talvez a fim de ser taxados agradando o Governo. Os especialistas sabem, é da profissão.
          Sabia com certeza, estava espanada.
          Ela sabia pensava saber espanado.
          Contudo e aí?
          Aí que: espanada ou espanado ou espanados a nada servindo. Serve ao desmanche, serve a derreter, serve ao reciclo e...
          Bem, voltando, metalurgizado, tudo de novo em folha como antes da Guerra para a Guerra de Abrantes.

 

IX – 48ª         No Tempo em Que os Bichos Falavam

                                                                 O Papagaio destronando o Leão na
                                                                                   retórica  a  Raposa ainda  mais ma-
                                                                                   treira  a Tartaruga  chegando antes
                                                                                   que o Cágado
         
          Quinta-feira na Floresta, cri-cris dos Grilos piar miar urrar horas, o Papagaio fantasmando uma demagogia, o Leão preocupado preocupando os Bichos. Entre eles o Bicho-Homem a provocar desconfiança a ludibriar os outros até Dona Águia. Sou meu próprio fariseu em minha escribaria, opto pelo Bicho-Mulher contra o Bicho-Homem, até contra a Floresta, sou mulherista e não abro. Se estou do lado dela, me indagam, aí não precisando ser necessariamente Fariseu. Estou. Estou sim por sua beleza, por sua penetração, por seu sexto sentido, por sua gostosura. Penso inclusive, não, decidi: vou, eu Escriba, abrir uma delegacia da mulher só para mim! a receber todas injustiçadas do Planeta; e tem mais, Bicho-Homem não entra, entra no pau isso sim; nem Bicho de Pé, se existir acho que não tem mais, quando menino dava uma coceira agradável no dedo do pé, só era chato quando mamãe tomava a agulha pra tirar e nós crianças unidas jamais serão vencidas abríamos a boca no mundo. Vou aceitar em minha delegacia todas elas, será uma Central da Mulher, decerto chocando-me com os poderes públicos que já possuem sua clientela; isso pouco me importa. Aceitarei louras morenas verdes, todas; altas baixas, mesmo estas que azucrinam os maridos por serem brabas; magras gordas e as mais ou menos, não darei preferência para não ocasionar zum-zum em meu harém, brigas, favoritismos. Arregimentarei o Bicho-Mulher. Assim fazendo estarei de consciência tranquila livrando-as dos ditadores em casa e que os tais fiquem chupando no dedo, não permitirei devolução de mercadoria. Porque estou assinzinho com o Bicho-Mulher, tadinhas. E nessa decisão não tem contradita, a única que teria realmente: a do Fariseu, sou meu próprio fariseu em minha escribaria. Tenho dito.

IX – 49ª                             Doze Mais Doze
                                                                                   Um dever, não abusar
                                                                                                       do direito

          Toda vez que um nome não tem vez é a vez de Zé. Zé se presta às mais curiosas situações e mesmo não havendo qualquer situação. Mas o Zé não entendia assim e criou sua própria situação. Eu sei do caso por ser amigo do filho. O filho: meu pai foi sempre um homem da lei, cristão, correto, pobre porém correto. Foi. Não por haver morrido, por deixar de ser tudo isso, o Geraldo seu filho quem me disse e aí não invalidando a correção embora a pobreza, pois não enricou a enricar apenas de filhos e nessa época difícil um malabarismo de alcance extraordinário, porque hoje ou não se tem ou então não passando de um; ou dois ao gosto burguês, sempre o casalzinho.
          Voltemos, continuando, voltemos ao Zé do Geraldo. Papai teve doze filhos! o que é facílimo, mamãe fez a força pra não desgastar seu homem. Já é bastantinho. É. Aí a terceira ou quarta das manas se engraçou dum jovem, tido por correto pobre e de boa família, também numerosa, devendo ele, Geraldo, ser igualmente o terceiro ou quarto dos homens. O pretendente um tipão trabalhador, espécie que o povo chama de “bom partido”. Amaram-se encontraram-se muitas vezes, não tem forma mágica a evitar encontro de jovens que se atraem, embora o rapaz de outra e vizinha cidade, enquanto a família da moça doutra vila com esperança a virar centro urbano com prefeito e tudo o mais. Não obstante essas dificuldades foram os enamorados se encontrando amiudamente e o namoro se afirmou esquentando a se tornar noivado e depois com direito a casório. O comum enfim. E a família? O Geraldo, sendo dos ‘primogênitos’, aceitava o consórcio?
          Sim ele e os onze, isto é os dez, a mana é claro concordando ela até ansiava por aquela bonitura de macho. Este logo amansou na ceva da família da garota, passou a rondar primeiro e após a entrar na varanda, uma área estreita da casa para umas duas ou três cadeiras de ver a tarde se ir e chegar a noite e os pernilongos; namorados não prestam atenção aos sanguessugas. Achegou-se o pretendente, pois homem sério; a Velha fechou os olhos e ao menos enquanto o Zé em negócios por aí a mana do Geraldo e o quase-noivo se aventuraram em prosseguir na felicidade namorada; num que outro dia, às escondidas indo à matinê do cinema. Estavam as coisas assim, embora ainda preciso o consentimento do Velho Zé, quando o Zé apareceu em casa. E desapareceu.
          A Viúva resolveu acertar as questões, não sendo favorável à “pouca vergonha” – propôs um casamento decente. O decente sujeito aceitou imediato e entraram com os papéis.
          Na hora da onça beber água... não tem essa expressão! bem, aí o cartório fez as publicações matrimoniais de praxe, mas encrencou.
          Descobriram que o decente jovem era irmão da irmã do Geraldo, seu irmão também e dos outros onze filhos do Velho Zé, ou dez, que o Geraldo esqueceu incluir-se. Como isso!
          Se foram ao cemitério? foram, não adiantando perguntar as coisas ao Zé; apenas puseram umas velas trocaram as flores secas, etc. e tal; a Viúva desejando muito saber o ‘como’, não o como eles mesmos brigavam pois já sabia o suficiente, saber de que jeito seu correto embora pobre cristão cidadão marido exemplar, pai, como fizera outro filho na cidade vizinha e pretendente à Maria, então sua irmã, havendo neste ponto outras minhocas na cabeça da Mãe, “e se os namorados também fizeram...” cruz-credo! que atrapalhada.
          Não era atrapalhado em vida o Zé, inclusive sendo bem organizado e criterioso. Mantinha outra esposa, fez com ela doze filhos, um deles agora pretendendo desposar a Maria sua meio-irmã. Fez mais, deu os mesmos nomes  dos doze de cá aos doze de lá, donde viera o noivo da Maria; assim a Maria de Cá correspondia exatamente à Maria de Lá; isso por organizado, para não dar confusão a ele, Zé, caso alguém perguntasse do Geraldo de Cá respondia pelo de Lá para evitar constrangimentos. Contudo agora o Pretendente de Lá se enamora da Maria de Cá, não poderia ter ficado com a Maria de Lá?  parecendo que o rapaz tinha certa queda por irmã...
          Enfim teve essas complicações e outras mais. Não se sabe, não se vai saber nunca; por exemplo, se na Família de Lá do Velho Zé havia o mesmo bate-boca conjugal que na Família de Cá. Isso porque as Viúvas se negaram a ver-se, que dirá trocar agruras domésticas. Mesmo porque o organizado garanhão não informava a outra família quando numa cidade; assim que o negócio esquentava fugia para poder brigar em paz com a mãe dos outros doze filhotes.
          Agora, Fariseu, não me peça mais esclarecimento; não sei se incestuou o Pretendente, não sei se a Maria entrou para o convento como era moda antigamente por amor fracassado. Talvez o Geraldo possa esclarecer melhor. Não. Também morreu.

IX – 50ª                          Sofrer

                                                                                   Como  poderia viver
                                                                                                       sem a luta do sofrer!

          Nesta 50ª partezinhica e que fora 51ª, numeração que é uma boa ideia dizem por aí, o 51 também o número da minha Pasta “Guerra em Paz”, Pasta essa donde saíram os ‘casos’ deste livreco; nesta  partezinhica quero lembrar que Você não está em viagem de férias, a Terra não é lugar para turismo. Mas para entender o sofrer, a luta, a depuração. Não me lembro de nada, um desentendimentozinho meu sequer, pois sou pelo bem. Que os outros briguem, que se xinguem, que escandalizem. Depois se beijem, padra mostrar serviço. De férias não estamos, não, sim entendo. Entendo que não entenda, não saiba de nada. Quem sabe! ora, quem sabe... A vizinha? A vizinha insulta ele; ele se enche, enche a cara e enche a cara dela, fica assim ó. Merece? Questão de julgamento. O vizinho, o outro vizinho, só bateu uma vez; os filhos gritavam em defesa da mãe e ele parou, nunca mais pôs a mão, ela dizendo aí em frente às minhas orelhas que ele nunca lhe pôs as mãos, enganando minhas orelhas atrevidas e aí me pergunto se foi sonho! Agora não bate, bate de língua. Ela língua de lá, ele língua de cá, os meninos no meio, tadinhos; e se vão aos seus compromissos – aulas por exemplo, brincar – e os pais estão livres, podem se bater à vontade, e se xingar e se esfolar e se  ofender e  se dizer e se contradizer. Não fazem coisa alguma. Alguma que se faça fazem-na quietinhos em silêncio, o silêncio que não chega a ser amigo de fariseus, nem de escribas. E assim nos olhamos, sem o quefazer. Nesse ponto entra o ‘i’ da questão a qual não tem i: inventamos. Que seja a sofrer; pois nunca o Escriba proporia ao Fariseu um consórcio a explorar uma agência de turismo, que dizem dá muito dinheiro. Não temos dinheiro para isso, sobra o sofrer pelo sofrer dos outros.

IX – 51ª                 Salada de Frutas (estragadas)
                                                                       A ser bom inimigo de uma pessoa
                                                                                         precisaríamos  desejar-lhe a sogra
                                                                                         do primeiro casamento a sogra do
                                                                                         segundo e a do terceiro dando pal-
                                                                                         pite para seu quarto matrimônio

          Achei, eu Escriba achei, achei por bem pôr um pouco de cisco em olhos farisaicos com esta Salada, com a qual prometo findar a Partona do Parto, que é número IX, ela que nos deu por amostragem alguns casos da Paz doméstica que corrói o organismo social. Ao iniciar não me propus a mil e uma, aí seria ferir quase o todo, mostrando apenas algumas partes, partículas se ficar melhor. Contudo me proponho agora em mais umas vinte reencarnações seguidas como Escriba (não havendo nenhuminha ‘Fariséia’) em mostrar e demonstrar o todo. Por esta encarnação que se encerra nestes próximos dias, somente pude dar tal amostrazinha. E falhei? Concordo, devo ter realmente falhado. Na partícula ‘51ª’ que entitulo Salada com as podres frutas, para consolo do Fariseu, vejamos alguns ingredientes rápidos.

51ª - ‘A’           Laranja Madura
                                                     Dilema e opção:
                                                                   se brigo, não penso
                                                                    se penso, não brigo

          “Laranja Madura, na beira da estrada, tá bichada oh Zé, ou tem marimbondo no pé”. O Ataulfo Alves versejou assim. Mas ele não. Tinha uma cara de tristeza e de ‘não tem jeito’, que não tinha jeito. Dedou-me a mulher, sua traidora consorte, sem sorte sendo seu homem, um deles segundo a testemunha me dando o serviço, sendo ele aposentado pobre doente velho, um autêntico pé na cova. Aproveitou minha companhia no Circular para acertar sua personalidade tíbia –  então narrou-me intermináveis mazelas domésticas. O diabinho do Escriba ficou horrorizado, não pelas mazelas, pelo desacostume no vomitar intimidades. Aí só faltou indagar para aquele mártir com expressão de santo sofredor: vai ver, eu falando assim sem coragem de falar, vai ver que sua bruxa-esposa já lhe bateu alguma vez. Constrangi-me indagar. Aliás não precisei indagar. Acredita, disse a vítima, acredita que um dia Ela me bateu! (Aqui dentro eu disse vixe!) Concluiu: Ela e meus filhos também. Eu, eu Escriba, não aguentei, desci um ponto antes do meu.

51ª - ‘B’       Maçã Faltando um Pedaço (ah essas Serpentes!)
                                                             Cada um de nós  tem o dever
                                                                                         a ser burro por conta própria;
                                                                                         ninguém  deve  ser  burro de
                                                                                         pai e mãe

          Quem conhece o Índio conhece a Sueli. Eu por serem meus vizinhos, Ela antes dele. Aqui chegou comprou terreno, arregimentou todos parentes em mutirão a construir a casa, quitou dívidas, recebeu dinheirão em acordo na empresa em que trabalhou anos, se emburguesando; aí comprou telefone comprou carro se perfumou e quase se embelezou, porém já era bonita. Então deu uma vontadinha danada de macho e saiu à caça. Trouxe o Índio, que os outros chamam Sr.Valdemar. Virou nababo, aguinha fresca cerveja e cansaço de tanto não fazer nada. Daí fez. Começou por mandar nela, fazendo a pobre fofocar à vizinha; fez mais ainda – bateu nela. Esse negócio de ‘mulher de malandro’ que adora apanhar? parece que tem esse dizer. Nessa altura se cria o Inferno, se porventura já não houvesse sido inventado. Apanhou, xingou, apanhou por ter xingado, chorou; ele? se foi. A Eva não se conformou, pôs a culpa na cobra e foi reaver o Adão. Adão de volta, sem flecha, numa boa. Agora de casa carro comida costume. Diz Dona Carochinha: e foram felizes para todo o sempre.

51ª - ‘C’       Banana, a Preço de Banana?
                                                           A  dor deveria  ser privativa,  inalienável,
                                                                          para consumo interno, e não existir para
                                                                           exportação.  O  homem  comum  fere  tal
                                                                          princípio: abre a boca no mundo

          Ela era assinzinho de bela e meiga. Do tipo ‘mãe’ a viver pra família. Aí a família estava rica: propriedades carros bem-estar, o Zé era agora Doutor José Executivo; com direito a secretária. A esposa meiga bela e simples veio-nos chorar as mágoas. Ah Dona Escribeia (minha pranteada companheira que fugiu com um Fariseu e ainda não fugira) ah querida vizinha, ah que saudade do tempo em que ele era ‘Zé’... Andava de bicicleta, batia ponto na fábrica, levava marmita e só vez que outra me batia, só xingava. Agora a Secretária... Chorou choraram choramos chorei – puxa até ando bem no verbo.

51ª - ‘D’         Mamão de Roça
                                                    Beber  à  saudade
                                                                 Morrer à saudade

          Gostava da Tia. A Tia Maria, quando sóbria. Mas ela bebia, dava vexame e aí apanhava. Bem entendido, se o Tio Natalim estivesse bêbado. Bebiam, se xingavam, se batiam, apanhavam, gosmavam, se prostravam na cama a curar a bebedeira; e se acudiam depois – quem se levantasse mais forte cuidava do outro. Ela era versada em apanhar, já levara socos de outros homens antes, até aportar no Tio. Um mar de rosas, um casal perfeito. Oleiros, trabalhavam com disciplina arte e amor. Então meu tio trazia da venda... bebiam, brigavam, saravam depois. Até ficar somente a viúva e ser recolhida triste ao asilo, saudosa do tio, da cachaça, da surra, da surra da vida. E desaparecer.






51ª - ‘E’          Abacaxi
                                       Como enganar
     um bobo
                                                na casca do ovo

          Era chatoquinha Dona Chatoquinha. Era. É. Agora voltou a ser. Porém se cansava da solidão, a filharada criada, casada, ocupada, abandonada ela, ela se achando abandonada; tinha a mais nova, empregada como mãe solteira, a qual não parava em casa a continuar mais vezes mãe. Então Dona Chatoquinha decidiu arranjar um ‘namorado’, considerando-se moderninha, o que fica bem em chatoquinhas. Com esse não brigava tanto como com o Falecido, será que houvesse tirado a sorte grande! já poderia trabalhar em paz fora, seu novo homem olharia a casa para ela, enquanto não estivesse dormindo. Então voltou cedo com saudade namorada e achou o Namorado namorando a filha. Adiantava brigar? Mandou embora o casal e se enamorou da solidão, uma solidão abacaxi como é comum na solidão.


X – Parte à Parte no Final do PARTO para OBRA
       Conclusão – Descarga Regulamentar – Enfim a PAZ!

                                                             Não é preciso pensar para existir; mas
                                                                                            é necessário existir para pensar
         
          Ao tomar da pena de ganso a rabiscar esta Parte à Parte em final deste PARTO para concluir a OBRA – sofri muito, eu Escriba (o Fariseu rindo de boca fechada, cínico). Porque homem não sabe dar à luz?! também. Mas em virtude da desvirtude abaixo, que são os rompantes escribas. Acompanhe um pouco de boca fechada sim, mesmo de olhos cerrados, porém com as orelhas arregaladas, para ouvir minhas lamentações no descaminho de meu caminho, a concluir esta Guerra em Paz.
          Primeiramente assentei existir a Guerra. Entretanto duvidei. Da Guerra? da Paz. Quanto ao ‘em’, este é bonzinho não deu trabalho. Sobrando a Guerra, a Paz. Desesperado o Escriba traçou o dito caminho nos passos seguintes.
          1° -- Deletar a coisa. Agorinha mesmo digitando relei sem querer na tecla ‘Delete’ sumiu tudo! tive de refazer. Aí pensei numa grande saída a esta entrada: deletar tudo; acabou a Guerra, logiquinho haver ficado a paz! magnífico, pensei. Tanto trabalho para nada, bastava deletar, pronto. É a saída.
          2° -- Fechar o olho. Fechar os olhos, meia dúzia de cílios liquidam a fome a miséria a droga a bandidagem a briga doméstica! Aqui envolvendo golpe de mágica, fadas, bruxas. Bastando fechar olho e vem o ‘fiat lux’ na escuridão.
          3° -- Dormir. Cair nos braços de Orfeu ou é Morfeu morfina essas coisas? dormir, apagar, apagando o ‘Zé que bate na Maria que bate no Zé que bate no enenúmero dos infinitos’. Oh que felicidade.
          4° -- Mudar. Não é mudar-se. Não entremos na encrenca da mudança, com filtro e espelho quebrados, mudar. Livrar-se do desentendimento que enriquece a periferia. Podendo cair numa vizinhança mais braba em o novo domicílio. Fiquemos só no mudar a mudar a verdade, o que desejamos é apenas mudar.
          5° -- Dar pileque no Fariseu. Fácil, sabendo-se que nosso povo é beberrão. Aí não dá mais palpite, não vê erros para não vermos erros.
          6° -- Virar-se. Virar as costas, virar o rosto, deixando o circo pegar fogo. Então não veremos e, dizem, o que se não vê não existe.
          7° -- Bravatar. Uma forma boa a resolver problemas é contar vantagem. Pode não atrair a atenção alheia mas acabamos por acreditar em nossas grandezas. Ora, havendo a grandeza desaparece a insignificância, digamos a da Guerra.
          8° -- Mudar de Canal. Você está vendo ao vivo um marido estripado por uma potente beldade. Não quer? muda: do quatro para o dois para o sete para o onze volta ao três muda ao nove e dele ao vinte, passando pelo doze o seis etc. e tal. Que tal? Pode aproveitar o mesmo sangue a economizar.
9° -- A Santa. Eurequei a Santa solução. Interferir nas Academias a mudar de posição os vocábulos – ‘Guerra’ passa a ser ‘Paz’. Trocam-se as palavras ou, conservando, mudam-se os conceitos das mesmas.  
10° -- Troca de Conteúdo. Dá trabalho sim mas deve, suponho, dar resultado: encher com guaraná as garrafas de cachaça; trocar a maconha pondo no cigarro fumo. Dá câncer e diminui em contrapartida o excesso populacional. Dá trabalho já disse. E dá resultado (não falei ‘bom’).    
          11° -- Língua e Muque. Também trabalhoso, talvez eficiente método. Corta-se a língua feminina e/ou muque que dá força ao macho. Simples, não havendo causa não tem consequência.
          12° -- Mudar a Natureza. Provocar mudança da Natureza Humana. Transformar a Moral do homem. Essa é a provável solução ao drama que estudamos, é o fundamento da Guerra; e sumindo a Guerra, Paz pra quê!? Felizmente não é assunto literário nem seara escriba; é para religiosos. Também, espero, necessário para tanto tanto tempo... milênios. Tenhamos paciência.
          13° -- Descarga. No estado em que a sociedade se encontra, é mais simples a resolução: dar descarga.
          E aí! entupir esgotos, desempregar Escribas!  
          14° -- Recomeço. Começar o mundo tudo de novo, certinho.
-  -  -  -        
Ora, aguardemos um pouco. Tentamos solucionar as coisas mostrando primeiro a Guerra, não a Guerra: a Guerra em Paz que se não vê vendo no íntimo dos lares, a enfear nosso ser. Seria talvez melhor buscar a Paz doutra forma; todavia Paz não é artigo que adquirimos na feira de quarta-feira. Quem sabe alguém tenha mais adequada solução que as já propostas. Os Sábios...  Sei haver inferido que eles debatem a questão; daí folheei as páginas anteriores da Obra até aqui e não achei referência aos Sábios e, pior, não encontrei sabedoria... Na hipótese de tais Sábios discutirem realmente e entrarem em acordo, ficando eles mesmo em Paz a saber o que é Paz, pois decerto sabem a Guerra, nessa hipótese sim, aguardemos bastantinho tempo.
São Paulo   setembro  2019 (revisão final, romance escrito em Marília novembro 2003)









Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:




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