quarta-feira, 25 de março de 2020

Crescendo e Outras Novelas


0103(postar no Blog Livros Inéditos)










                    Crescendo e Outras Novelas
                                                                                                                              Moacir Capelini


















moacircapelini@gmail.com


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                                                  “Não estamos no mundo; é o mundo
                                                                             o que está em nós.”
                                                           Álvaro de las Casas






 Índice das Novelas:

                    Construção; pág. 5
                                      
                    Crescendo Além; pág. 17

                    Vítima Viúva do Viúvo Vivo, Vivaldino; pág. 81















































 A Construção
              Às vezes me parece que somos uma mentira de verdade.


I   Era no tempo. Essa gente não tem tempo o tempo que sobra na falta. Não tem idade, ou por não ter ou ter muita. Não tem anos nem o impensável milênio; não tem mês, quem sabe percebendo a curta semana, a qual dura eternidade de se não ver passar. Passava. Existia. Existindo. Ninguém faz perguntas ninguém a ouvir. Existindo. Pegou-se existindo, mas talvez não haja pensado nesses termos, já sendo o bastante. Andava pra lá, voltava, voltava! donde por quê para quê e outras indagações que geralmente não se põe. Punha o pé na estrada, a estrada da vida, na vida da vila, a vila afundada a ser vista da montanha, o homem só olha mesmo pra baixo, debaixo não vê o alto, do alto pensa o baixo, o povo se perdia naqueles afundados do seu ramerrão. A faina engolia o homem a família a moradia a aldeia sem pretensão. Não tinha pretensão. Ou antes, tinha sim ele somente uma.
          Em vista disso andava ao deus-dará pra lá pra cá pra cima pra baixo a quase não parar, parando a respirar a descansar a desafogar a desofegar da rotina na rotina. Era só, só não estava na aldeia daqueles afundados mas só por ninguém saber disso. Certas criaturas surgem como que por encanto ou passe de mágica: não têm origem não têm ontem não têm existência concreta, apenas existem entre o passado inexistente desconhecido e o futuro incerto a todos e a todos que não vejam o amanhã a viver o triz fugaz do agora.
          Agora pensava, se pensasse e decerto pensando, agora não precisava pensar com a certeza da rotina. Ia voltava parava quase já a parar andando tão lento por trôpego arcado pesando talvez os anos quando os anos existiam. Não falava, porém não se descobriu ser mudo; não reclamava, ou por não ter de que ou por saber ninguém ouvi-lo; surdo? ninguém nunca testou essa capacidade, a auditiva, como demais se estende a outros andarilhos. Isso mesmo, um andarilho ocupado na desocupação ou cansado na idade. Encarquilhado, pele e ossos qual múmia andante em andante o mais lento imaginável. A vila também modorrenta quanto a vida, sem qualquer pressa. O velho é quem talvez tivesse menos pressa; e para que a pressa se todos chegam!



II   O sol, os raios intensos a arder, os raios fracos impedidos pelas nuvens; as nuvens esbranquiçadas na leveza ou as pesadas e negras; o trovão assustador o corisco avisador a chuva, a chuva! a tempestade bravia apavorando a aldeia pobre quiçá miserável rica no não-saber se assustando. O vento a fustigar construções seculares sem direito à civilização na rotina do não aspirar – a tempestade a lavar a vila a terra a vida. Contudo o velho ao deus-dará, quem sabe a se esconder num vão também perdido. A tempestade lavando o mundo o solo o vilarejo o velho por extensão.



III  O tijolo. A unidade era caco era pedra era pedaço de unidade, pra ser alguma coisa. Coisa sem valia. Valendo tesouro ao homem idoso sem família sem norte sem amizade sem abrigo à permanência; mesmo porque nada é definitivo, talvez a morte, a morte nem ela sendo. Andava a rotinar, de lá pra cá de cá pra lá para baixo e para cima a empurrar seu corpo magro arcadinho cansado possivelmente, rotinando o não fazer: tomou um caco que fora tijolo, quem sabe não pudesse com um inteiro, encontrasse inteiro. Ninguém notou ninguém viu ninguém a participar do achado e da remoção do achado daquele tesouro; por isso ninguém a perguntar pelo destino da riqueza. Não obstante a gastar em passinhos miúdos e lerdos todo um dia cheio de horas até ao morro esquecido, somente não relegado pelo vento e pelo abandono, que é o deus dos desamparados e cujo presente é o exercício da paciência. Ninguém notando a cobrar posturas a exigir comprovação porque essa gente sem tempo tem a graça de ser esquecida também pelas autoridades, isto talvez o único bem de que dispõe. Assim levou o pedaço de tijolo encontrado por aí, por aí deixando no depósi-to ao uso futuro, o porvir com vento frequente chuva ocasional dia ou noite.



IV  A construção. A construção é a soma das somas. Pensava a parte? pensava o todo? não pensava sequer? Sequer o povo a perceber, um que outro menino em ver no entanto criança não pensa o pensar, só no seu pensar; a pensar a brincadeira e o correr ainda mais, mais pensar no fazer-curto; enquanto não cresce a virar adulto e a ser engolido pelos dramas do viver. Não pensava? ou igual menino, pois velho é o menino de volta. Mais que pensar fazia fazendo: recolhia mais um pedaço do inteiro para quem sabe ter um inteiro com pedaços. Ia longe seu depósito de cacos, aí pra mais de cem, não sabendo ou não tendo já paciência a contar até esse incontável. Isto querendo dizer bem mais de cem dias a trabalhar semelhante à galinha que enche o papo com grãos. Depositava, a cada dia em que saindo na alvorada e voltando ao crepúsculo, a cada dia depositava na colina escolhida a parcela diária e já chegando a volume respeitável de partes ao todo que ninguém compreendia. Depois foi depois – mais cento mais outro cento por grupo e grupos de cem dias de trabalho. Ampliava também a área de pesquisa na região, ou seja a apagada aldeia e suas cercanias – prenhe de restos na decomposição de prédios seculares ou pelo abandono desses restos sem valor na via pública. Isto a levar alargamento da distância e equivalente ampliação do cansaço àquelas pernas duras mas frágeis, trabalhadeiras e dispostas mas limitadas no vigor; embora tendo a lentidão sem pressa de chegar: para que a pressa se todos chegam... Andava compassado disciplinado determinado. Cuja resposta era após a coleta o transporte dum tijolo, dum pedaço de tijolo, até à colina. Depositava olhava sentia o labor; e se distraía a encaixar cada parte a formar um todo, um só tijolo; e muitos tijolos, mais de cem muito mais de cem, exposto o homem aos rigores do tempo, mais ainda à tempestade que fustigava o morro a aldeia o mundo. Mais uma noite que fora tarde que fora manhã e que fora sombra da madrugada anterior vencidas. Cansaço. Andava cansado. No entanto não desistiu.



V  Na vila os habitantes viviam; sobreviviam como presente da miséria. Mui preocupados com desentendimentos conjugais, com os bate-papos sociais, com as atividades econômicas pertinentes, com os arranjos e consertos nas suas moradias, e até com a vida dos outros – por isso não chegavam a perceber o velho. Este vivia das sobras nas faltas da periferia mais pobre que o centro mais rico por ser de menor pobreza; alguns poucos moradores atiravam-lhe pães ou outro qualquer alimento que sempre não faltam nas faltas; bebia no ribeirão; vivia ou se mantinha. Mudo quieto, surdo? No entanto se cansava também da solidão. Se é que não houvesse sido sempre um solitário... Aí apareceu o cachorro.



VI   O cão. Agora havia um companheiro, numa soma de dois solitários perfazendo uma amizade. Não tinha nome, os cães perdidos em mudança de gente ou perdidos ou mesmo escorraçados por outros cães com dentes mais afiados não têm nome. Para que nome. O homem também não tinha nome. Uns a chamá-lo João outros José ou Antônio ou Francisco ou... muitos a indicá-lo por ‘Velho’ ou ‘Vô’ ou ‘Tio’. O pobre não respondia, respondia de olhar, respeitador ou quem sabe temeroso. Olhava ao vivente e prosseguia no seu desiderato: a carregar o caco a compor... que será que faria o matusalém a lerdear arrastando um pé em falsete a sair da comunidade! Não indo além a curiosidade, ninguém sabia, ninguém mesmo tendo interesse para destrinchar a dúvida se dúvida. Ele prosseguia. Agora tinha um cachorro. O homem na frente sem pressa, para que a pressa se todos chegam! e sem pressa o cão atrás a andar de quatro, cadenciando aos dois pés em calçado rústico semelhante às vestes gastas. Ambos lerdos andantes e ritmados. O companheiro lhe caíra do céu como presente ao seu vasto passado. Olhou o animal para o homem, observou seu movimento para onde não indaga um cão – e se foi chegando e aí o acompanhou como irmão. Nunca mais se separaram, todavia há a questão da morte que ronda que agarra um primeiro que ao outro; na vida nunca se separaram e então seguiu o velhote esse cachorro, um bicho comum estragado pelo abandono e cheio de seus bichos miúdos e de suas coceiras, feio sujo lambido: igual gente povo e miséria. Assim se juntou àquele resto humano, também feio sujo e lambido; a dupla – um tesouro em soma de duas misérias. Contudo se compreendiam e se tornaram inseparáveis amigos. Então o velho tendo com quem repartir o pão e outros restos alimentícios. Um dia o cão arreganhou os dentes, atento, a defender o homem a quaisquer ataques possíveis dos imprevistos; e o velho sorriu de satisfação; aliás quem mais sorria, embora não com frequência, era o cãozinho, abanava sua cauda ao amo. Fosse na coleta de mais um caco de mais um dia, fosse a descansar na estrada daí se enrolando o cão feito minhoca ou centopeia ao lado do ser humano – nunca deixava seu companheiro idoso. No morro, no vão encontrado onde ficava a cacaria de tijolos, o cão dormia enrolado, quase a tocar o dono nos pés de pé, e no corpo quando o velho a dormir no chão. O dono não gritava por ele, não lhe deu um nome, podendo que mudos não nomeiem nada; tão só estalando dedos e a sorrir na banguela da boca murcha – o amigo (ou irmão!) o amigo entendia.



VII  A construção conforme a construção, assenta-se um e um mais tijolos, cacos de tijolos enfileirados; a cima outro tijolo também pedaço de tijolo em fileira; entremeio a massa mole feito pasta que o velho arranjou com terra das imediações e água trazida num vasilhame improvisado, igualmente resto de cozinha dalguma casa na vila. Assentava, arcava gemia levantava, assentava olhando o efeito – o companheiro a olhar também o efeito no conjunto, olhinhos arregalados ao fazer humano, em expectativa no ver embaciado nas órbitas remelentas. É certo que não entendia bem aquele remelexo e a parede a se erguer. O velho parando a descansar de tanto serviço, sem coragem a continuar. O material se acabara, tinha muito para fazer no seu improviso como pedreiro, ao feitio de bom homem comum. O chão fora fácil, embora trabalhoso; as meias paredes e a parede dos fundos ameaçavam virar mesmo construção de verdade, e era sim de verdade, uma verdade talvez com anuência do cão amigo; no entanto faltava quase tudo ainda. Assim se dispôs com ajuda do cão a recomeçar a coleta na comunidade de seus cacos perdidos ao léu e a conduzi-los para o morro, ao vão do morro, onde o olhômetro já calculara sete palmos quase sem ter de escavar usando sucata de enxada encontrada num lixo dos residentes. Descansou uns dias da faina, retomou a faina. Partiu como costumeiro na alvorada, chegou na manhã, passou todo um dia, regressou no crepúsculo saindo da vila e chegando no ‘lar’ já noite. Chegaram, ele na frente o cão atrás fiel.



VIII    O comum... Mas ninguém notando qualquer diferença na aldeia, talvez tomassem os residentes já a dupla por pintura natural da paisagem. Retomando o morador sua rotina que é a soma da segunda-feira da terça da quarta da quinta da sexta do sábado do domingo, no qual se lembra do descanso e de oferta aos deuses e aos sacerdotes para o templo dos deuses. Trabalho lar alimento sono, o sonho e a esperança! quem sabe sabendo entremeio o desentender no lar no serviço e até no sono com pesadelo: isso o viver comum. A dupla – um idoso arcado magro ao extremo, com andar lento olhar cansado; e um cão arcado magro lento a abanar cansado – a dupla passando diário, toda criança sabendo todo adulto vendo sem ver e sem grande interesse pelos dois viventes esdrúxulos. A comunidade não alterou seu ramerrão, a vida continuou lenta pelo tempo, e o tempo foi passando em soma de segundos minutos horas e dias, sem qualquer modificação ostensiva. Dia a dia, parte a parte a formar o todo; a vida semelhante à construção desconhecida no vão desconhecido no morro conhecido embora sem qualquer interesse dos habitantes. A coleta prosseguia; se possível imaginar, de tanto passar pelos caminhos a imitar ruas comunitárias as quatro patas e os dois pés, já estariam gastas – ruas e solas – do tanto passar e mais passar. Aí a dupla de amigos retornava à casa.



IX   A casa para eles era aquele vão estreito onde as paredes aumentavam na altura, apesar dum profissionalismo discutível e sem arte alguma. O homem assentava seus cacos, trazidos como sempre de longe com sacrifício, o cão supervisionava olhando o trabalho a admirar aquele deus a ajeitar tijolo e barro para fazer a parede. O serviço não parava, não obstante a vagarosidade no exercício; o tempo ainda mais não parava: compassado, permanente, eficiente na sua exatidão. Agora se cronometrava em anos e não mais meses e menos dias e horas. O velho era mais velho, o cachorro menos novo, ambos cansados sem andar acabados. As paredes ganhavam aquela altura enorme de sete palmos. Não possuíam revestimentos se não reintrâncias embarreadas toscamente; e se encontravam prontas; inclusive o homem velho tendo grande dificuldade a subir até ao nível da borda delas e da borda também da colina, precisando adaptar cacos sobre cacos numa escada de improviso para sair ou entrar descendo ao piso. O cão nunca precisou sacrifícios para tanto: permanecia sempre a fiscalizar a obra ou a endeusar o velho mas de patas cruzadas num feitio todo seu vendo o trabalho lá de cima. Enfim a casa de tijolos, em cacos, estava acabada, muito embora sem teto (o construtor sequer idealizara cobertura, sabendo talvez trabalho à outra geração...)



X   Iniciava-se outra fase, vencida a do pedreiro antecedida esta da do coletor de material; a fase do carpinteiro, ofício a que toda gente do povo em todos povos sempre improvisou a contento. Agora o homem e seu cão ainda saíam na alvorada e retornavam além do pôr de sol ou no fim da claridade não havendo sorriso solar. Então recolhiam a madeira o prego e demais sucatas nos lixos da periferia urbana. Mesmo a ferramentaria, não mais que faca imprestável e uma que outra porção de ferro à guisa de martelo, tudo encontraram (o homem a recolher o cão em ver o homem) nos entulhos que a educação ou a ignorância jogam por sem valor. Novamente todos dias saíam voltavam traziam pedaços, já não de tijolos mas de tábuas e pregos usados.



XI   Um dia... um dia o idoso arcado cansado iniciou seu novo trabalho, após satisfazer-se com o montante do material recolhido: a confecção de uma caixa, que a curiosidade canina via ser retangular, larga na estreitura, comprida pouco mais que a altura do ‘marceneiro’ se este deitado. Era quase uma casa de madeira dentro duma residência de alvenaria. O cão sorriu, abanando seu rabo, decerto de contentamento pelo contentamento do homem, o qual quem sabe sentindo inclusive alegria (por que não felicidade!) a alegria certamente por andar acabando sua obra. Todo ser mostra satisfação quando termina um objeto de arte. Porém isto é o perfil em resumo do resultado. O dia a dia foi entretanto sofrido. O cachorro observa o humano, este planeja examina mede experimenta bate, bate com o martelo de improviso na cabeça do prego velho a enfiar nos restos de madeira; sua funga acerta erra acertando o dedo esquerdo com o ferro na direita: grita espantando o cão, este olha sem saber como auxiliar o companheiro; o homem ainda urra de dor. Assopra, as gotas de sangue continuam a brotar, olha por volta nem vê o amigo na paisagem da dor! urina com dificuldade idosa a desinfetar o ferimento, toma a seguir um trapo sujo, enrola o machucado. Noutro dia ainda a mão inchada vestida no trapo e a dor a diminuir. Isto tudo custou umas férias forçadas no ofício de carpinteiro. Aí retomam a rotina, o bicho em ver o homem no bater compassado seus pregos, agora com certo cuidado... Por fim o término daquela obra de arte sem pretensão a qualquer arte.



XII   Passaram os cacos do tempo, o todo era quase a vida. A vida que se não percebe na ampulheta, a vida que escoa espreme esgota e finda na gente. A gente passada em paz na casa. Veste madeira, está ao fundo do vão feito residência acabada embora rústica; esticada, hirta. Todos, para que pressa, todos chegam. O companheiro gane uiva late desesperos no limiar do teto, o sem-teto com sua boca arreganhada ao sol e à tempestade; sequer o animalinho percebe na tristeza que o envolve o fustigamento da ventania, grânulos a metralhar inclementes os pelos negros curtos curtidos pelo tempo. Continua a reclamar aos gritos a morte do amo. Vêm uns meninos nas suas brincadeiras e se deparam com o trágico. Voltam à aldeia, avisam o cheiro da podridão aos familiares; as mulheres vêm ‘curiosar’ constatar e voltam espavoridas lá embaixo. Os homens sobem o morro, flagrando o cheiro nauseabundo, espantam urubus a voejar e a pular nas imediações. Fazem mais: constroem afoitos o teto que faltava – empurram atulhando a cena necrológica com pedras e terra. Retornam à vila para os afazeres. Somem as aves de rapina. Permanece o cão. Olha saudoso a tumba, chora na sua língua. Prefere ficar ali, morrer junto do capitão do seu navio sossobrado afundado coberto.

Marília   abril  2006







































 Crescendo  Além  

          Um literato é  um fabricante-restaurador  de
               Verdades. Com meia, até com insignificante
                fração da Verdade,  faz  uma verdade inteira.
                E,  arremedando o  Milagre  do  Pão,  ainda
                consegue   fazer  sobrar  migalhas   e   mais
               migalhas,   às  quais  pole (diria ‘pule’? não
                digo, irreverente)  e  embeleza.  Ou enfeia...


1° - Introito

“José. Como outro José qualquer. Enjoado tanto ser José. Trocaria por João. Mas seria João Ninguém. Que adiantavam essas conjeturas! estava aumentando, não era o mesmo. Nunca somos os mesmos a cada momento que passa.”
- - -
          Revirava o lixo, onde o lixo mais se concentra; lá estão restos de resto, que são muita vez a matéria regurgitada reme-xida misturada e já cheirando nada a perfume francês e sim ao quase insuportável – sólidos indigeríveis pelo bucho da santa nature-za, líquidos a escorrer nauseabundos; tudo ao sabor do tempo. Tinha latas e também latas de plástico; tinha descartáveis se oferecendo ao desmanche; tinha restos putrefatos de toda origem animal, quiçá humana ou consumida parcialmente pelos humanos; tinha imprestáveis eletrônicos como celulares fora de moda e teclados quebrados de micro quando não computadores inteiros aos pedaços e desprezados... tinha em meio nesse porco todo igualmente um calhamaço atirado no entulho, este que é abrigo e alegria das moscas dos pobres com fome e certamente dos microrganismos mil, que naturalmente eu não via. Aí, deparando-me com o tal calhamaço... Este calhamaço referente a um volumoso tratado de não sei quê, amarelentos papéis, furados rasgados jogados; onde numa que outra parte figurava flagrantemente haver nadado na lama duma enchente, o que me autorizava a cabeça imaginar pudesse ter vindo à luz ou sido escrito na capital paulista, rica nessas misérias; sem que pudesse melhor identificar e piormente estabelecer autoria. Apenas devo afirmar que vi o volumoso escrito; e pensei quilos pesos dinheiros, se bem mal pagassem nos depósitos de aparas. Não obstante, por ser terrivelmente curioso, pus-me a examiná-lo... Imagine-se este seu servidor lendo (às escondidas ou me prenderiam no hospício) lendo sim à luz de vela, embaraçado e embaciado por esta miopia, leitura em voz alta, labialmente e a gastar a ponta da língua, não por causa do falar: por molhar o indicador a desgrudar as páginas. Elas tendo por título “Crescendo”, crescendo em mim a curiosidade quando me deparei com o período aspado no início deste atual rabisco.
          De fato a minha folha é um rabisco; o qual tentarei pas-sar a limpo depois; não se a tanto me ajudar o engenho e a arte não:  se porventura conseguir mais papel e lápis a registrar. Porque antes de arranjar o papel devo obter primeiro comida, nos tempos idos facilmente encontrável no lixão, agora a concorrência aperfeiçoa a luta e não sobra muita.  Ou se morre. Pretendo, antes de morrer, passar a limpo sim. Porque ocorre-me poder encontrar um doido que publique o volume; rendendo algum numerário; e na pior das hipóteses venderei o calhamaço mais enriquecido com as pobrezas de meus comentários e aí, sim, dará bom dinheiro no sucateiro.
          Postas as coisas nestas condições, ponho-me ao trabalho de narrar o assunto, o qual ainda não sei qual seja, seja o que for já farejando matéria interessante.
          Antes de mais nada advirto que não usarei aspas – por-que vou apresentar ao louco editor o livro como sendo de mi-nha lavra...
          Feito tais reparos, vamos em frente.



2° - Um Acidente Inexplicável

          Acho bem melhor – a evitar um possível leitor atirar no fogo o restante, isto é, deste 2° Capítulo até o fim, havendo fim; sem ler; e, quem sabe, com raiva, pisoteando inclusive o 1° Capítulo que deu um trabalhão passar a limpo – acho melhor portanto introduzir daqui por diante dois auxiliares, para engraçar a sem-gracice disto, a saber: o Capeta e o Anjo. Estes darão o palpite na hora devida. O Servidor, eu, desde este momento já prometendo pôr a culpa, quando porcaria o escrito, no Capeta. Assim poderemos destrinchar o assunto sem preocupações.
          Vamos ao José, que apelidaremos ‘Zé’ a economizar letra papel e ponta de lápis, sabido o Servidor andar por estes tempos seco e duro.
          O Zé virolava por aí, com certeza a procurar o que não perdera, quando aspirou ar contaminado numa área de usina.
          Pera lá, Servidor, diz o Capeta, terá algum ar que não seja hoje em dia poluído? Já sei: dir-me-á o infeliz achar-se em plena floresta tropical, invenção mui jeitosa quando um escritor inventa um traste, o Zé por exemplo...
          Calma, Irmão.
          Cala a boca ‘Irmão’ Anjo. A bola não é sua, é do bobo.
          Diga ‘Servidor’, não ‘bobo’, Ser-vi-dor.
          Cala a boca de novo ‘Irmão’, falo com o celerado mexedor dos lixos desta vida e encontrador de calhamaços. Ora bem, o Zé estará na Grande São Paulo na Grande Salvador na Grande Qualquer Coisa a se poluir!?
          (Meu Deus, onde estaria com a cabeça para criar esses auxiliares bem ‘desauxiliares’! E agora, devo matá-los? mas sou contra a pena de morte, continuo favorável à pena de vida... Ora, aguento. Respondo ao bruto:)
          Bem, meus amigos, devo alguma explicação; e para fugir de um choque nacionalista bairrista essas coisas, afirmo que o personagem Zé, José a pedido do Anjo, o Zé se encontrava num país do Primeiro Mundo, nas estranjas; sabem que eles, os chefes primeiro-mundistas, teimam em não assinar o Tratado de Kioto  porque são os maiores poluidores da atmosfera. Agora, não me invente o Capeta perguntar como, duro, o Zé conseguiu viajar pra lá, nem se houve problema na alfândega, mormente ele queimado de pele e se parecendo com terrorista... Vai que... Não, não me indague, quem sabe a resposta não faz a pergunta. Adianto para não matar o Capeta de curiosidade: não sei. Além do mais quem está duro sou eu, pulo miúdo para comprar papel e lápis, falei; o Zé talvez tivesse dinheiro...
          Dólares?
          Dólares, Capeta. Euros também; o resto da moeda no mundo vale menos que o Real, caiamos na real.
          Que horror!
          Que horror o que, Diabo.
          Capeta.
          Tá bom, Capeta. Por que motivo esse ‘horror’.
          Sua linguagem pobre, rica nos trocadilhos. Continue, quero ver esse Zé gemer de engasgo com o ar poluído.
          Obrigado. Continuo. Sim engasgou tossiu escarrou.
          Que nojo! foi sangue?
          Igualmente acho nojento, Capeta; sangue não, não disse ‘tuberculoso’ só engasgado. Assim voltou pra casa lá nos Jardins.
          Então era rico!
          Não senhor meu caro Anjo, o nosso Zé não tinha um gato a puxar pelo rabo...
          Puxa vida, que Servidor cheio de originalidades.
          Posso prosseguir, Capeta? Está bem. Vou explicar tim-tim por tim-tim (realmente ando com a veia solta hoje para originalidades). Em São Paulo a região dos Jardins é área dos endinheirados. Ocorre entretanto que a quaisquer loteamentos de periferia paupérrima nessa cidade, e noutras urbes também, dão-se pomposamente o nome de Jardim,  Jardim Ângela, por exemplo, onde o Capeta deve ter muitos amiguinhos para assoprar ‘malfazejamentos’... O Zé retornou a esse lugar pobre; no calhamaço sustancioso que encontrei no Lixão da Prefeitura e dos urubus não constava em qual jardim, não sendo o dos ricaços, é visto. Posso continuar? Em outras palavras: Vocês dois me deixarão acabar ao menos este lindo Capítulo 2°!
          Quem cala consente; prossigo no meu contar; sim, o contar do autor o qual desconheço o nome.
          Já chegou o Zé em casa sentindo uns negócios estranhos. Loguinho experimentava enjoos.
          Tava grávido?
          Que horror digo eu agora, Capeta. Não vou nem res-ponder. Bem. Enjoado, não queria comer nada. Dona Marica preparou uma canja deliciosa o vapor se elevando o cheiro do tempero exalando gostosuras e o homem, nada.
          Brochou?
          Onde vamos parar, Capeta! e que linguagem chula; e infernal. Claro. Nada aqui quer dizer: não conseguia o chefe da família engolir a sopa. Gostou?
          Gostei, Servidor, gostei; assim... decerto ele não tendo mãe; a minha me dava tapa na boca quando eu não comia, so-mente não comia pra sair correndo a brincar; ele tinha mãe? Assim, sem alimento, nós já assassinamos de início o Zé e acabou-se a estória.
          Capeta, você é fértil na imaginação. Não comeu, quer dizer, não tomou o caldo por estar enjoado.
          E que fez o ‘bucho’?
          Qual bucho Capeta. Era uma senhora respeitável e até bonita. ‘Bucho’ vê se pode. Não é mesmo, Anjo?
          É, Irmão.
          Bonita, ou engolível; enfim o que merecia o Zé, mais feio que dívida. Mas trabalhador, honesto.
          Chega, tem elogio demais.
          Tá bom Capeta. Aí foi dormir. Não dormiu.
          Contou carneirinhos?
          Não sei. Tinha insônia, era costumeiramente de não pe-gar no sono; desses que inventam verificar após deitados se fecharam a porta, que vão ver por que a torneira está pingando, que batem na cara a acertar a cara do pernilongo, que põem coberta tiram coberta, que cutucam a mulher dizendo à pobre não precisar ter medo e parece haver ladrão lá fora (isso decerto a se vingar na patroa que não deixa o esposo em paz no verão vendo barata pra todo lado: “lá tem uma!” “ai, vai voar em mim” e o coitado toca a plaft daqui plaft de lá e não acerta quando acerta sobe aquele cheiro e a gente se lava se lava e não sai o cheiro nem o grudinho – certamente a se vingar). Enfim desse tipo de criatura chata que não dorme, não deixa outrem dormir. Contudo agora o Zé tem razão: um mal-estar tamanho. Vira pra lá, volta pra cá; levanta-se por fim, lê, não vem o sono. Grita o Peri, “cala a boca, fia-da-p.”!
          É dos meus.
          É, Capeta, é. Coitado, como dormir se está mal! Madrugada, manhãzinho, sol sorrindo vermelho – constata não haver pregado olhos. E pior: percebe lá dentro uma certa remexeção.
          Não existe ‘remexeção’.
          Existe, inventei agora. Você entendeu, Capetinha? Então não enche. Aí a Marica se levanta, abre a boca, vai ao banheiro porém não toma banho, ou toma, ela se lava faz o que faz e se olha ao espelho do armarinho.
          Se assusta?
          Meu Deus, Diabo, como vou saber. Ah decerto não a-precia ver uma ruga a mais, não vai ao caso. Vai sim à co-zinha, derruba vasilhame acende o fogo ferve água olha o leite pega o pão a manteiga e... ah vazou o leite subindo aquele cheiro de queimado, xinga nervosa usando aquele nome.
          Cruzes!
          Não, Anjo, essa é das minhas, sou um diabo pró-Marica e não abro.
          Vocês dois querem parar de intrometer-se, ou não posso continuar narrando essa linda e desentulhada estória.
          Linda não sei, Servidor. Maluca.
          Certo, Capeta, maluca, concordo, a contragosto mas concordo, prossigo a narrativa, pois já ando me apaixonando pelo Zé e sua Marica. Então... onde mesmo estava?
          Na esposa preparando cafezinho ao seu querido José, como sói aos cônjuges que se amam e...
          Careta meloso e pernóstico esse Anjo.
          Você poderia ter-se calado. Enfim deixa pra lá. De fato a senhora fazia o café, que os lusos chamam pequeno almoço. Aí vem o Zé, cara ruim resmungando balançando a cabeça pra cá pra lá, senta-se na cadeira desmunhecada junto à mesa da cozinha, a mulher torcendo para que desmunheque de vez e derrube o marido, ela cansa de falar relembrar o conserto. E o Zé: “calma,  depois eu faço,  Má”,  abrevia o nome dela e ainda faz biquinho para melhor irritar a companheira; esta responde e pergunta, cretinamente, se dormiu bem.
          Não deu beijinho?
          Não deu, Capeta, esse uso está em desuso na pobreza. É tão só carícia para lua de mel. Depois? destratam-se os cônjuges; e apenas se toleram quando um esteja doentinho. Não sei se se beijaram. Assim mesmo a fêmea do casal ajeitou as coisas ao marido, insistiu a engolir ao menos um pãozinho, ainda cochicha no ouvido dele: é daquele que eu fiz ontem. Pus manteiga, que é margarina etc. e tal. Porém não adianta: o macho do casal se encontra ainda enjoado. Se queixa. Aí ela dá seu palpite – foi isto foi aquilo o que fez mal, a sopa você nem tomou. Ele, não tenho nada, mulher; apenas sei não me sentir bem. Engole de má vontade o café, sai, deixa a Marica comendo sozinha e chateada. Mesmo porque ela gosta do Zé.
          Ué não é horrendo!
          Não falei horrendo, feio. Acontece que mulher também gosta de homem feio. Estamos entendidos? Aí vai ao quintal. A esposa ainda na cozinha:
          Você não vai trabalhar hoje, bem!?
          Ele responde mal humorado, estando debaixo da laran-jeira, esfregando nervoso a mão no estômago, a fazer massagem. Tosse, tosse muito, raspa a garganta frequente, uma hora dá um gritinho ‘ai’ e aí a esposa vem correndo ver o que é que aconteceu ao seu homem.
          Conversam se perguntam. Tem muita interrogação e bastante preocupação, nenhuma resposta plausível, aquela dor ‘ai’ de novo...
          Daí ele cai no chão?
          Cai coisa alguma, onde anda com a cabeça, Capeta. O homem está parado, se queixando sim mas parado, não iria de forma alguma cair.
          Eu pensei.
          Pensou e não aconteceu. Assim mesmo a mulher in-veste. Vocês sabem o costume feminino – pegar no pé e chamar nos pontos seu companheiro. Foi assim. Vai ao médico, Zé. O Zé era teimoso; primeiro não responde, depois resmunga, após responde só para ver se ela para de falar, não para; aí diz que não precisa de médico, ela insiste fala repete, ele cede: vai à farmácia. O boticário dá uns comprimidinhos desses que ficam enroscados no gogó; e uns líquidos amargos, um pó-zinho. Um dia, dois dias de tratamento e não resolve.
          Pobre homem!
          Tem razão, Anjo. Então o Zé volta à botica e o dono propõe que vá ao médico.
          Boa tarde, Doutor. Foi no mesmo dia, pensou deixar para o outro, a mulher ficou cobrando, as dores forçaram o infeliz,  daí foi.
          Bem feito!
          Por que, Capeta, acha que ele não tenha agido acerta-damente?
          Não, seu moço, depois de tanto a mulher falar e o besta ficar sofrendo, primeiro sofreu só depois procurou ajuda clínica! Não é um bestalhão?
          Concordo um pouco consigo, Capeta. Todavia há uma atenuante nesse retardamento – ao Zé horrorizava pensar em agulhas e injeções. Aí eu concordando com o personagem, tenho ojeriza a furações e sangueira. Deixa pra lá, vamos ao essencial.
          O esculápio...
          Não era o médico?
          Esculápio é figura pra dizer médico. Pronto. O médico: diga 33, deite-se aqui, vamos ver a febre, me conta sua alimen-tação nos últimos dias, dorme bem, essas coisas que todos perguntam. Conclusão, ele não ficou sabendo o que tendo o paciente. Assim mesmo receitou falou orientou pediu exames de laboratório. Tudo nos conformes.
          Sarou?
          Não, Anjo. O Zé permaneceu do mesmo tamanho; quer dizer, do mesmo jeito. Aí a mulher dele se preocupou mais, chamou os parentes contou às vizinhas, um alvoroço! No final fez sua dona o dono dela voltar ao clínico.
          Este convocou uma junta médica. Começou nesse ponto o que o Zé chamou de ‘Inquisição’. Havia três profissionais, cada um abordando o paciente conforme seu interesse e sua experiência, é claro. Claro o doente não estar compreendendo, pelo menos a perceber bem claro. Via aborrecido os ‘advogados’ daquela causa perdida, que era ele. Os médicos indagavam e mais indagavam, repetiam as interrogações, anotavam enriquecendo seu fichário, talvez interessados nas futuras teses a defender, discutiam entre si, trocavam informes, sempre na linguagem da classe – o interessado se achava uma cobaia manuseada, cansou de olhar para este ou para aquele estudioso; permanecia entretanto o mais ignorante dos seres naquela confraria. Tudo agravado no aumento de suas dores.
          Os dias se passaram. Agora lhe doía nas costas no ventre nas pernas na cabeça, parecia estar estufando de dentro para fora; a superfície esticava crescia intumescendo, inclusive deformando. A junta dos clínicos não acordava um diagnóstico; e menos ainda curava. O doente sofria se preocupava se desesperava mesmo. A família fica alarmada.
          Qual família! somente tinha a esposa, a qual me pareceu atrapalhadona.
          Calma Capetinha do meu coração.
          Não apela.
          Não apelo, gosto de você, sou sincero. Todavia tenha calma; vou esclarecer mais um pouco.
          Realmente não consta houvesse filhos. Um negócio qualquer um distúrbio, e a dona da casa não engravidava.
          Não disse que o Zé era brocha?
          Quem falou isso, Capeta; e que linguajar o seu. Eu não falei nesses termos, você fez naquela hora certa referência maldosa. Além de enfermo por um mal desconhecido – talvez incurável? não sei – além disso, atribuir-lhe a impotência! Tenha a santa paciência, coitado. Enfim o ginecologista ou qualquer coisa assim, obstetra? sei lá, examinou a Marica e constatou um defeito de...
          De fabricação?
          Ora ora, gente é produto de fábrica por acaso! Um de-feito congênito; não há tanta mulher que não pode gerar filhos. Enfim isso.
          Nem com o vizinho?
          Ah, Diabo, chega de azucrinar. Continuemos o sofrer de nosso Zé.
          O Sr.José não fez ele também exames a saber se fértil?
          Não sei, Anjo; suponho que não, pois como falei antes ele temia médicos e injeções; era preciso muita muita matracação da mulher para fazê-lo tomar uma simples aspirina, parava na garganta e acabava por vomitar a droga.
          Que droga de sujeito mole.
          Concordo agora consigo, meu Capeta. No entanto mesmo concordando fico do lado dele, a me identificar nisso com o pobre Zé...
          Também é medroso.
          Sou. Tenho coragem a dizer isso.
          !!
          Estão rindo de mim? Não me importo. Vamos para frente com esta narração. O que eu falava mesmo?
          Que o bunda-mole não tinha família.
          Isso, mas não é isso: não aceito seu linguajar desbocado. De fato não tinha nem um ente, não sendo a mulher.
          Era casado de fato? de padre e tudo... não gosto dos sacerdotes.
          Sei não, Capeta. E pouco importa, hoje em dia até o fisco admite amásia como dependente no imposto de renda. Não vai ao caso. Sua família era ele e a Marica.
          E o Peri.
          Exato, o cachorro o gato as galinhas.
          Os carrapatos os percevejos os...
          Chega de escachar com minha estória dos outros, oh serzinho diabólico.
          Tá bom. Tenho razão, não tenho?
          Tem. Não importa. Falava em termos de família para lembrar os pais os tios os sobrinhos os demais parentes de segundo e terceiro graus etc..
          Os velhos não morreram?
          É hoje hein Capeta. Não sei se morreram; e caso positivo nesse negativo, não continuam os pais pais deles, os pais do Zé os pais da Marica. Sim, se falecidos admite-se não estejamos a referir-nos a tais parentes. De qualquer forma a família como um todo concordava alarmada, não sabendo o que fazer, que rumo tomar. Aliás nada havia pra fazer, os de fora, por mais de dentro sejam como parentela próxima, os outros enfim não poderiam salvar o Zé.
          Só Deus salva.
          Sim Anjo. Porém coloquemos a coisa na instância hu-mana. A pobre Marica já se descabelava, não dormia agora ela também, a sofrer o marido.
          Não era amásio juntado namorado, coisa desse naipe?
          Ora Capeta, não interessa; quer que ponha em vez de marido companheiro? eu ponho, pronto: não pregava olho pensando no companheiro dela, cada vez mais doente, apesar esforço do seu médico e da junta. Enfim, desesperante! ou, como poria o profissional da medicina: um quadro insolúvel.
          Aí por mais de mês enfrentando a Inquisição (ele falava assim) as indagações um nunca acabar, o Zé se indagando por sua vez – estão querendo pegar-me numa contradição! pois me fazem e repetem mil perguntas. E o remédio? Já trocaram uns duzentos; e exames e tudo o mais. Não me curarão, pelo visto, vão sair do consultório mestres clínicos nas minhas costas! Todavia quem paga a conta? e se respondia, o cobaia Zé.
          Realmente já se afundava na conta da farmácia; e ainda experimentaram toda a amostra grátis, com resultado de não ter resultado. Ultimamente a Marica ‘cantava’ os parentes e amigos para fazer a popular vaquinha, a cotização juntando numerário a fim de sustentar o tratamento do marido... como disse? ah sim: companheiro.
          Contudo...
          Contudo?!
          ... o doente continuava doente; cada vez mais ruim.
          O nosso herói Zé experimentava uma espécie de incha-ço. Inclusive dos ossos. Parece que até crescia. A mulher, sempre olhara pra cima a falar com o esposo, agora levantava ainda mais a cabeça para vê-lo lá em ‘cimão’... O Zé olhava para ela lá em ‘baixão’!
          Isso parecia ser o maior efeito de sua desgraça por cer-tamente haver cheirado gases numa usina ou sei lá onde. Crescia a olhos vistos. Só havendo uma atenuante, que era ter diminuído a dor. Ou que já não focalizasse tanto a dor, diante o crescer desmesurado. Sabem que mesmo com a dor nos acostumamos. No seu caso o crescimento chamava mais sua atenção. Enfim intrigava...
          Querem saber que rumo tomou a coisa? esperem para se esclarecer no outro capítulo.






3° - Um Gigantinho

          Agora chovia a cântaros, o Zé...
          Peraí, Servidor, me serve um pouco – como esse chove se não chove anda um solão de arrebentar mamona!
          Diabo... sim, Capeta, vai me deixar falar, escrever, vai dar-me liberdade! Em primeiro lugar, já que é tão minucioso, disse ‘chovia’; agora, de verdade (sim senhor, é verdade, fosse mentira iria gastar papel e lápis para os quais não disponho de meios!) agora, de verdade faz sol, chovia. Em segundo lugar, Capetinha, você faz as vezes do ignorante...
          Não briguem, Irmãos.
          Não se preocupe, Anjo. De minha parte não quero briga, mas esclareço melhor esse cara aí...
          Seguinte. Um dia viajando, sabem que aprecio viajar? tomo o primeiro ônibus que achar, pego a mala de rodinhas...
          Epa, vai contar, repetir seus feitos? o escriba só fala nisso e não pensa naquilo.
          Sossega Leão; está bem, Capeta, volto na expressão chover a cântaros. Uma vez nas minhas viagens vi numa rodoviária, me parece que foi a de Porto Ferreira, então percebi uma placa com uma sentença mais ou menos assim: Quando o sábio aponta a Lua, o ignorante olha o dedo. Não é textual, a ideia básica sendo essa. O meu Capeta está vendo o dedo... Vamos à Lua, a estória do Zé.
          Nada disso, homem. Ninguém me trata ignorante sem troco. A ‘sabedoria’ presente...
          Calma, Irmãos!
          O Anjinho está certo, não briguemos. O nobre Capeta me faz o favor de ficar esperando a narração, ou não andamos, andamos como fosse na esteira da aula de ginástica: dar mil passos e permanecer no mesmo lugar. Entendido?
          !!
          Dito isso, prossigamos. O Zé, como eu disse...
          Não disse: iniciamos o 3° Capítulo agora.
          No 2° Capítulo eu findava narrando que o Zé crescia, suas dores também mas se preocupava ainda muito mais com a sua transformação estrutural...
          Que lindo esse ‘estrutural’, parece linguagem de...
          Chega!
          Ele se transformava, sentia crescer a ossatura esticar a pele avolumar o músculo; o coração, o qual aumentando a assustar, o coração pulsava tremendamente rápido em mais de cem mais de quinhentas vezes por minuto!
          Não é batia?
          Vai ver que é, Capeta, batia 500 vezes não sei se por minuto ou por segundo ou ainda menos de segundo.
          Por hora.
          Por ora não escacha. Não sabendo também quanto pulsa o coração no estado normal, sei apenas que o meu dobra quando esse caretinha me abre o bico. Não fosse o respeito que tenho pelo Anjo...
          Obrigado, Irmão Servidor. E daí, enfim o coração do Senhor José.
          O coraçãozinho dele, do tamanho do nosso, virou coraçãozão. Tudo nele crescia a ritmo fantástico: tornava-se ele um gigante.
          Que nem o Hulk?
          Isso é invenção televisiva, falo sobre uma verdade. A verdade era que o Zé aparecia aos outros como um gigante, um gigantinho ainda: iria ficar maior.
          Embora um pequeno gigante já passava por maus bocados. O quê? ah Capeta, pense em você mesmo com um porte grandalhão, chifres ó deste tamanho, cascos ambos parecendo assadeiras de bolo e...
          Chega. Agora digo eu: chega. Já imagino como o maluco do Zé se sentindo.
          Prossigo. Gigante pequeno, enorme no meio de nosso povo, de baixa estatura ou apenas de média altura. Ganhou inclusive o apelido ‘Espanador da Lua’. Todos olhavam para aquela coisona, a cabeça dele sobressaía na multidão! Deixou inclusive de usar chapéu...
          Ninguém mais usa mesmo.
          Sim Capeta, ninguém. Ele a fim de não parecer mais alto e chamar a atenção alheia. Caso fosse mulher, não usaria saltos altos pela mesma razão.
          Por que não experimentava os sapatos da Marica, ou é que ela batia nele?
          Meu Deus, Diabo! quer parar. Onde já se viu uma anã-zinha emprestar seu calçado de salto alto (e que redundância horrível) onde já se viu; e ainda bater num gigante.
          Tem mulher que bate.
          Tem. Aqui não tem.
          Tinha, eu tinha uma Diaba que me batia; quer dizer, não batia... eu correndo.
          Que gracinha. Aqui não tem. O Zé é pacífico; ama a mulherinha e não bateria nela e ela, óbvio, não iria surrar-lhe. Pera lá, onde eu me encontrava?
          O Irmão falava no drama do Sr.José na multidão, por ser gigante e o povo de estatura pouco elevada.
          Hei careta enrolado.
          Não ofenda o Anjo. Continuemos enfim. Muito obrigado meu Anjinho.
          Então nosso Zé...
          Seu.
          Está bem, meu Zé encontrava-se descontente por haver crescido, ainda aumentaria mais e não sabia disso; descon-tente e pondo minhoca na cabeça. Como viver, conviver en-tremeio gente baixinha um homem naquelas alturas! Imaginou mudar-se ao hemisfério norte. Lá ao menos não seria conside-rado tão grande, anormal, pois a média de estatura é superior à daqui. Um gigante entre gigantes. Todavia e a língua e os costumes. Ocorre fosse talvez um aumento de problemas e não a solução ao seu problema. Além do mais como dar-se-ia sua deslocação? Caberia num assento de supersônico? Podendo ir em navio, que companhia de navegação aceitaria um tamanho daqueles. Dinheiro para tanto... não vimos que não podia o homem sequer cobrir os gastos com o tratamento!?
          Ganhava salário mínimo ou tava na caixa de seguro do INPS?
          O Capeta tirou o dia a brincar comigo.
          Enfim o Zé resolveu ficar na sua terra mesmo e suportar as chacotas e incompreensões das pessoas; firme ao lado da família, quem sabe pudesse voltar à normalidade e trabalhar, para ter um lar comum e convivência simples. Às vezes não damos o devido valor a essa convivência simples, um tesouro inestimável. Ele punha essas questões. Não desejava ser mais que ninguém. Não obstante fisicamente era enorme agora, destoava na sociedade inteira.
          Um dia surpreendeu-se, não cabendo no leito conjugal.
          Então não se deve dizer “um dia”, dorme-se à noite; ou o safado nada fazendo e a dormir de dia!?
          Vou engolir essa. Passemos para a frente. Ele não cabia mais na cama. Ponderou, podia que ela houvesse encolhido... Não, não, impossível. Pensou noutra hipótese, bem hipótese afinal: Marica estaria diminuindo igual a cama; e ficaria engraçadinha. Já imaginou, porque o pensamento é rápido e criativo nos seres – ele no carregar a esposa pra lá e pra cá como fora menininha de colo. Riu-se da besteira que o pensamento lhe lembrou. Contudo a realidade ali estava a atirar um balde de água fria. Olhava a todos ao redor para baixo, era ele quem aumentava de tamanho...
          Uma coisa que aprendia, todos precisamos saber: a ver-dade apenas tem uma face. Mesmo se force a poesia a filosofia a virtualidade e outras visões da loucura. Só uma face.
          Continuava o Zé, a duras penas, sua vida, uma vida na rotina e que agora não comportava rotina. Todos dias ele era maior, maior ainda o drama do conviver. Tentava combater aquelas absurdidades. Em vão. O tratamento médico sendo inócuo, sua esperança não tinha esperança; perdia a esperança por muito a zero para a realidade, a qual é a soma de concretos. E sofrimentos.
          Porque sofria com a realidade. Atingindo as raias da ir-realidade, a já perder o contato com os outros semelhantes, cada vez mais desiguais. Crescia desmesurado o pobre – em semanas meses menos de ano. Ano mais e mais não era  Zé, Zé da Marica.
          Perdia sensivelmente contato com os homens. Talvez nem fosse mais homem. Teria sido homem algum dia! pensou, não sendo capaz de responder.
          Foi por essa ocasião andar tão grande que elevou um amigo, com certa facilidade, acima do nível do solo.
          Se fosse eu o amigo, me mandava.
          Sim, Capeta. Perdeu o último dos amigos. Aliás nunca sabemos quem é um amigo, amigo seria o mais conhecido próximo que realmente amigo. Os outros haviam fugido antes. Estava sozinho.
          Virara de fato um Gigante.
          E pensamos a concluir a ideia: o grande é mesmo grande! ou é minúsculo.




4° - O Gigante. Um Gigante em Sua
     ‘Tantadura’ Completa

          Positivamente, acontecia o negativo para o José. Virava grandalhão, espantosamente um Gigante, um Gigante nunca suposto, que dirá Gigante visto.
          Esse novo estado não lhe trazia as vantagens do superlativo. E o atirava ao confuso mundo da interrogação.
          Além de perder, visto perder sistematicamente a relação com outros humanos. Ainda seria humano?
          Você acredita, Servidor, não, não deve crer – mas estou ficando com pena do sujeito.
          Quem sabe, Irmão Servidor, ocorra um milagre e nosso Irmãozinho Capeta desenvolva agora um sentimento mais profundo de caridade, abandone de vez as ideias infernais!
          Ih...
          De minha parte, não meto o nariz nas coisas de religião; discutam à vontade. Vou continuar passando a limpo o calhamaço, quietinho quietinho. Com licença.
          Não senhor. Não falei que esse boboca de Anjo é enro-lado à beça! Vou ficar xeretando; não se livrará de mim.
          Está bem. Sequer pensava em me livrar.
          Agora nós temos um Gigante autêntico. Cresceu cresceu cresceu, não pode o Zé paralisar seu aumento físico. Já é, sem o desejar, um empecilho aos outros. Mais: um perigo mundial.
          É fácil admitir o que se pensava do Gigante – mas de sua parte vivia um drama pungente. Ocorreu um dia em desespero, um desespero inteligível apenas no superlativo, ele desconhecia nessa altura mesmo as insignificâncias duma vida normal ou tão só comum, como é a relação humana mil vezes chã: desejos esperanças infelicidades dores arrasamentos constantes, alegrias fugazes. Só podia avaliar as coisas nos moldes colossais e espetaculares. E para isso voltava no pensamento de homem simples pequeno e mesmo insignificante: apenas a poder medir o extraordinário e ciclópico de sua atual grandeza. Tudo precisava agora ser visto na sua proporção de animal enorme; e, pior ainda, animal pensante.
          Ocorreu-lhe esse dia no desespero; mais que noutros dias (e nenhum era mais igual, talvez não houvesse sido nunca a ele; e a ninguém). Sentiu-se coisa, percebeu o abandono das pessoas, de toda sua espécie. Entretanto não seria o Zé quem abandonara a espécie! Todos fugiram dele, mesmo as criaturas mais íntimas.
          Por que não gritou pela Marica?
          Ora Capeta, se gritasse... imaginou que poderia aconte-cer ao planeta! a vibração de sua voz possante, as ondas sonoras, o vento (ou vendaval?) o vento deslocado desde aquela imensa boca. Bem.
          Comunicava-se com a mulher sim mas tão somente por sinais. Acontece que sua voz já não era a mesma; seria voz! A esposa? berrava ao seu homem, então um Gigante, lá debaixo as coisas necessárias de comunicação.
          Pedia, impondo, comprar ovos no supermercado?
          Você Diabinho, é mesmo original. Como pode um ho-mão daquele entrar no supermercado. E se eu disser que sim, você, encrenqueiro, irá com certeza querer saber o tamanho da cédula paga no caixa e se a caixa bonitona.
          Isso mesmo, boa ideia Servidor. Quero saber se as notas de reais viraram dólares, dos verdes hein!
          Caro Anjo, faça-me um favor, sim? Leve este traste daqui, ensine-o, dirija seus passos nos caminhos dos céus. Ou não posso escrever. Já errei mil vezes e perdi muito papel que me custou o olho da cara.
          Fico quieto agora. Só olhando. Não abrirei mais a boca. Pronto.
          Obrigado a ambos. Continuo o José.
          Não é Zé.
          Você prometeu... Então... então peraí, já me perdi, não lembro o que eu mesmo dizia.
          Meu Irmão: falava que o Gigante José desejava arden-temente comunicar-se com sua esposa amada, com a qual se uniu num cerimonial religioso sob a orientação do padre, só não nos disse qual o nome do padre nem qual foi a igreja. E a respeitável senhora não podendo fazer chegar sua bela voz aos ouvidos enormes do Esposo Gigante e...
          Sim Anjo, obrigado.
          Não falei que é pernóstico e enrolado?
          Basta, Capeta, não recomece. Todavia Irmão Anjo, você exagerou um pouco. Há dúvida até acerca de se se casaram no religioso. Nem sei se era bela a voz da mulher; mas o Zé gostava muito. Inclusive como gigante tinha saudade das coisas faladas pela Marica. É, supõe-se fosse uma voz agradável de se ouvir, como geralmente é o som feminino.
          Minha Diaba falava alto fino e desgraciosamente, saiba para seu governo.
          Não falei ‘todas’ usei inclusive a expressão atenuante ‘geralmente’.
          Entendi.
          Prossigo. Acontecia, no drama que estamos a mostrar o sofrer do Gigante, acontecia que seus ouvidos...
          Vai ver eram orelhonas assim, ó.
          ... sim deviam ser enormes orelhas e ouvidos, estes já não captavam igual, como antes quando era normal, ou o comum no comum dos homens. Não podia ouvir com clareza aqueles sons da amada, não podia fazer chegar aos dela a sua poesia de amor.
          Que besta!
          Quem, o Zé, Capeta?
          Os dois, os três, os quatro.
          !!
          Você, Servidor, e o Zé: dois; os três – você, o tonto aqui com cara de bobo e ingênuo e ainda o Zé; ou os quatro, ou seja: você, o Zé, o Anjo, a Marica.
          Quanta irreverência. Vou tomar um copo d’água somente para despistar. Ou acabo estourando.
- - -
          E agora, vai continuar a estória?
          Vou. Eu andava falando sobre a situação desesperadora do Gigante Zé, porque já não poderia contar sequer com sua cara-metade. Não foi isso? Bem.
          Deixou, pensou haver deixado, deixou o lugar em que estava tratando com a companheira, num desânimo tremendo, desesperançado, decepcionado. Nada lhe ocorria que pudesse fazer para mudar a situação. Penosa, penosa.
          Nesse ponto desejou correr, pois aumentou com o fra-casso citado seu desespero, parecendo que estivesse rolando da ribanceira para a loucura! Pretendeu correr, correr de todos, de si mesmo até; porém como é possível...  Todavia apenas poderia quando muito andar, imenso estava, andar só andar ao acaso.
          Descobriu sobrar-lhe espaço tão só fora do Planeta. Que fazer, desejando fugir, como fugir para fugir de si mesmo! Taí um drama ao qual não é dada a solução a ninguém, independente da estatura da riqueza da cultura – não se foge de si; somente existe fuga para o próprio interior do indivíduo. Aí não era um drama específico do Gigante; ele não pensava assim. Aliás não dá para pensar equilibradamente enquanto no estado de desespero.
          Pobre ser!
          Sim Anjo, pobre ser.
          Mesmo que pudesse fugir, para onde iria? Não há longe a um Gigante; e o perto não chega a ser fugir.
          Entretanto este é um aspecto do sofrimento de uma criatura. Um ser tem muitas outras oportunidades a descobrir o sofrimento...
          Eu tô com sono.
          Também eu, Capeta. Imaginava que diabo não dormisse. E anjo? Vamos ao descanso, já passa bem da meia-noite, essa cachorrada ladrando nossa próxima insônia... Amanhã, se quiserem honrar-me com sua presença...

5° - O Drama da Fome Pessimistamente Correto

          Hoje vivemos um dia fúnebre. O sol, cadê o sol. Chu-visca escurece sem ter clareado antes o dia, é quase noite em nosso dia, equivalendo à nebulosidade no espírito de José, nosso Gigante.
          O qual exagerou um bocado, acho, saindo um pouco do planeta.
          Ora ora, nem parece observação dum Capeta, quase sempre debochando...
          É que tenho, Servidor, tenho sim meus princípios, meus momentos de nobreza e sensatez.
          !!
          E de observação também, sempre minha antena ligada. Por exemplo...
          Por exemplo... o quê.
          Duas coisas. Primeiro você iniciou o escrito referindo-se ao besta como sendo José. Nos acostumamos chamá-lo Zé simplesmente. Mas isto é uma ‘pequenura’. Tenho uma ‘grandura’, é o segundo ponto.
          Vamos lá Capeta.
          Segundo, não deu até agora, estamos no quinto capítulo, não revelou o sobrenome dele, o nome de família. O que representa mesmo a pessoa é o nome de família.
          Caro amigo, não dou tanta importância ao nome do pai do Zé...
          Certo, poderia nem ser o que era.
          Como assim, Diabo!
          O sobrenome certo não poderia ser o do vizinho? aí errado o nome certo.
          Já começou hein? Pense o que desejar; o meu persona-gem é honrado, honrado também seu nome de família. Se fizer muita questão digo, apenas a contentá-lo, que o Zé se chamava José Xis, ou X Y – geralmente temos mais de um sobrenome. Então Xis por parte de mãe, Y por parte de pai, que é o último entre os sobrenomes. O Zé portanto, José XY.
          Z por conta do vizinho? E tem mais-zinho senhor literato, especialmente literato que remexe o lixão à procura de calhamaços duvidosos, se apegando às simplificações do tipo x y z para não ter que dar explicações vexatórias. É ou não é?
          Não sei Capeta. Anjo, quer ver o feitiço virar realmente contra o feiticeiro?
          Não entendi, Irmão Servidor.
          Espere a reação do Capeta. Capetinha do meu coração, se exige nome de família, essas coisas; então qual o seu, nós o conhecemos apenas por Capeta.
          Me chama Diabo de vez em quando. Diabo sou por parte de papai. Sou rico em sobrenomes, todos nobres. Vou explicar. Mamãe, que Deus a tenha, era também Capeta, na sua versão feminina. Ela era boazinha, não quero nem falar nisso ou choro. Boazinha e democrática: se doava a todo Inferno... Assim sou Capeta Satanás Belzebu Cão Demônio Legião Tinhoso e finalmente Diabo, porque Mamãe-Capeta era casada com ele, o Diabo – no padre, viu Anjo! – e dessa forma o Diabo é meu pai oficialmente, sem que Mamãe ela própria descobrisse qual meu verdadeiro sangue. Ah e antes que se escandalizem vou falar algo sobre uma vergonhinha da família. Seguinte. Nós temos um parente capiau também, o Diacho, um tio, não apreciamos lembrá-lo; fica assim meio chato, criou-se como que um tabu: ninguém fala; somente nos parentes ricos e notáveis. E...
          Chega, Capeta. Não importa, seu debochado. Voltemos ao Zé, que seja X Y ou Z. O que importa mesmo é o fato de andar infeliz. Até pessimista.
          Se o Zé não tivesse dores para infelicitá-lo, para virar pessimista, tinha a da fome, questão que iremos tratar daqui por diante.
          Embora grandalhão, imensa e superlativamente grande, a ultrapassar no tamanho as raias do absurdo, como falei e se não o digo – embora isso, isso tudo nada contribuindo para torná-lo superior aos próprios olhos. Ao contrário, se ‘insignificantava’.
          Epa, isso não existe.
          Existe sim, Capeta, acabei de criar o vocábulo; logo verá nas próximas edições do Aurelião e do Huaiss. Quiçá vertido ao inglês, que é a língua franca de hoje em dia. Dada a importância dessa palavra, a qual inventei para levar ao entendimento público a situação inusitada e específica de um gigante pensar-se miudamente pequeno.
          Ora chega, Servidor. É mais enrolado que o Anjo. Xô!
          Vamos meus caros, vamos por fim à questão da fome e do pessimismo no Zé.
          Quando falo de pessimismo (ao Zé seria um super-pessimismo) é preciso convir não ser possível gradação. Um pessimista pode ter a estatura e o volume que for – um anão e um gigante podem ter a mesma densidade. Diria melhor haver um pessimista e nisso um ótimo a ‘pessimismar’.
          É hoje, Anjo, o cara deve andar atrapalhado de vez; ou será pelo chuvisco e o dia escuro. Fiquemos longe dele, está enlouquecendo.
          O que estão cochichando? Não me importa. Continuo o José. O Zé andava pessimista. Ora, um pessimista apenas vê a face negativa das coisas. Ao pessimista figura todos dias todas horas todos momentos andar aberta a temporada de caça à infelicidade. Pior, acha que a infelicidade fatalmente irá cair-lhe nas costas! Quem poderá remover essas distorções da idiossincrasia dele!?
          Não falei, Anjo!
          Faz de conta que eu nada ouvi. Aliás sabiam que ando meio surdo ultimamente?
          Só ouve o que quer.
          Isso mesmo, Capeta Diacho da Silva. Somente o que desejo. E gostaria que você se calasse um momentozinho, digamos um ano.
          Vou prosseguir, após meu desabafo. Porém não me lembro mais o que dizia.
          A fome do Sr.José, Irmão.
          Obrigado Anjo, a fome. Sim.
          A fome... sempre a fome. Ela crescia paralelamente ao crescimento de José. E aí constata-se um problema terrível: o Gigante se torna um prejuízo à população. Comia por muitos, progressivamente, não ingeria como um homem normal, comum se se quiser dizer. Em consequência, não obstante saber que parte do alimento uma criança emprega no crescimento e um gigante também, nele se incorpora ao seu ser, enfim no corpanzil medonhamente grande se o gigante for o Zé – como consequência desse ingerir quilos (toneladas em termos ‘josézicos’) proporcionalmente teria de expelir a sobra...
          Agora estou apreciando.
          Está apreciando o Capeta. Eu esperava realmente que fosse gostar, diabinhos e moscas adoram mesmo.
          Vai apelar outra vez?
          Peço desculpa ao amigo Capeta. Posso continuar?
          O Zé comia aqueles exageros e por consequência não depositava seus dejetos igual um homem, o homem comum. Não existia vaso sanitário e descarga para seu tamanho.
          Estava assim configurado um drama para todos habitantes do mundo. Exatamente num orbe em que a fome atingia bilhões, ele comendo por milhões, sujando por milhares e milhares de pessoas. Bebia então rios e lagos poluídos, que esperar de fontes puras com tanta sujidade por séculos e séculos! Agora é que o Gigante apareceu e mais sujou o ambiente, por mais e mais comes e bebes... Já não se importava como ao tempo em que sua Marica o pegava tomando água diretamente na torneira, “Zé, por que não bebe do filtro!” Não tem mais filtro. Ingere líquido, que seja porco e barrento, como se fosse milhões de pessoas, embora um só gigante.
          Era preciso tomar providências organizadas contra a-quele Gigante inimigo da população! E já se fazia isso.



6° - Um Mundo Contra o Gigante

          Formaram-se centenas de congressos naquele mundo a debater o problema do mundo para, quem sabe, formular uma solução ao mundo.
          Que pena não estar lá...
          Onde e quem, Capeta?
          Ora, eu, Capeta; e nos tais Congressos. Assopraria mil e uma saídas, de preferência contraditórias e ficaria vendo o circo pegar... ah que lindo fogaréu pra se ver!
          Não pretendo comentar isso. Vamos aos congressos.
          Fizeram-se reuniões, assembleias especiais por toda parte; se convocando organismos internacionais com todas siglas, o homem apreciava naquele tempo deveras as siglas, as siglas por sua vez apreciando anuviar e esconder conteúdos, virando assim sociedades secretas ao vulgo ao joão-ninguém. Para os intelectuais, prato cheio. Os médicos defenderam suculentas teses com o improvável do não-se-sabe. Os advogados choraram até de alegria ter tanto que dizer, discursar com vista às próximas eleições; os políticos profissionais então, ah os políticos: em todas oportunidades eles se encontram, não precisando nem palanque, bastante um banco de pau uma cadeira a subirem ficarem na berlinda no blá-blá-blá pra valer. E se escreveram livros e mais livros sobre o assunto. O Gigante. Poetaram ‘loucuraram’ filosofias, gozaram picharam o Zé. Virou matéria-prima infindável, era veia aurífera ao tudo que é o nada. Jornais tevês rádios. Falaram falaram falaram, discutiram parodiaram riram choraram xingaram se xingaram. Uma loucura! Para, no final, que já não tinha fim, para no final concluírem haver um grande problema. Ora, isso inclusive São Diacho sabia, não sabe?
          Titio sabe.
          Obrigado meu Capeta. Assim, como estava dizendo, os homens se reuniram e, se não chegaram a solução alguma, fizeram ao menos muito barulho.
          Arregimentaram todas orelhas disponíveis, invocaram toda santa lei, citaram artigos e alíneas levantaram todos acór-dãos para o sem-acordo, se exaltaram belamente. Todavia al-gumas propostas interessantes salvaram-se. As quais sem solucionarem coisa alguma serviram pelo menos ao desabafo; porque o homem médio no comum do homem necessita desabafar, ou se perde no intrincado não sai do intrincado e aí estoura: vai para o hospício. Serviram tais congressos como alguma válvula de escape.
          Contudo, como dizia, houve propostas admiráveis. Um agrupamento propunha fornecer à população tapumes plásti-cos a cegar a cegueira para não ver o Gigante. Outro pregava o suicídio em massa. Mais de um via a solução no envio do Zé para outro planeta. Uns radicais estabeleciam que o Gigante pagasse a conta, o que era consenso, não se chegando a acordo tão só na moeda a ser usada; os nacionalistas queriam que fosse em reais; os entreguistas em dólares. Chegaram a nomear cobradores, enfim executores da dívida aberta e avolumada com a existência do Gigantão. Alguns extremistas  queriam  tomar-lhe  os bens inexistentes; outros desejavam tomar atitudes perigosas como proibir ao Zé comer; o que não tinha sentido, ele se curvaria um pouco e pegaria a comida ao seu bel prazer (esta expressão é estúpida aplicada a um gigante sofredor); além disso qual o corajoso a impedi-lo comer! No meio da barafunda uns militaristas, desses que primeiro batem depois indagam, esses queriam pura e simplesmente detonar o Gigante. Já levantavam fundos a fabricar superarmas e supermunições. Em meio, um que outro a advertir sobre o possível tiro pela culatra a alvejar e explodir a população necessitada de defesa. No entanto houve propostas singulares como dormir chorar e virar a cabeça pra lá.
          Pra lá de loucos.
          Concordo Capetinha. Discordo apenas se insistirem a continuação desta narrativa hoje. A chuva parou? Bem, a fome não. Vou almoçar. Não convido os dois amigos; primeiro que são entidades de vento e vento não come. Em segundo lugar mataria vocês, comessem, por ser a minha gororoba; ando ‘descozinhando’ horrores...
7° - Drama em Persona Non Grata

           Ultimamente andava assim a situação. Os maiores no planeta haviam decretado como indesejável o Gigante José.
          Do seu lado o homenzarrão voltou a analisar melhor sua triste vida. Sentia um terrível drama de consciência. Começou pesar os seus pesares; aproveitou-se também a matar saudade de si mesmo. Qualquer pessoa, independente do seu volume corporal, quando tem saudades pensa no ambiente no qual viveu pensa nos outros nesse dito ambiente analisa a sentimentalidade da época, mas sobretudo é de si mesmo que se lembra. A saudade é de si; de quando a pessoa era mais ela mesma. Foi assim com o Zé. Fez um relato de sua vida pregressa para suas orelhas usando a voz da consciência, essa que ninguém, feliz ou infelizmente! ninguém escuta. Assim. Aliás não poderia na realidade contar a mais qualquer outro ser, fosse possível ter ouvidos e a paciência dum confidente à disposição. Porque não havia esse confidente. Mesmo a companheira, a esposa muita vez pode ser tomada pela consciência desperta e externa dum homem – mesmo essa lhe faltava agora. E estivesse ali presente andaria disposta ouvir-lhe os ais! Somente podendo contar consigo, e assim falou-se. Parece o caso tão extraordinário? então nunca se observou uma criança a falar sozinha, nunca se notou um idoso na conversa animada com mais ninguém! Ainda há o fato do louco. O louco está louco. O grandalhão  não estaria?
          Tagarelou e para tanto não era preciso boca aberta nem som, talvez indispensável o conduto da audição. Ficou tudo no dentrão do seu eu... Viu nessa análise os prejuízos causados primeiro à família e aos amigos, os quais haviam fugido com diplomacia antes e depois espavoridos. Posteriormente ocasionou prejuízo à toda sociedade e à humanidade por extensão. Não era um peso morto agora?! não produzia, consumia apenas. Também lembrou-se da fome insaciável por que passava, uma necessidade indefinível e infindável. Enquanto isso deixava sua família na miséria, sem fazer nada por ela. Não era um paradoxo: um gigante impotente! Pior que isso, afundava o celeiro de famintos de todos hemisférios. Pesava na sua balança as toneladas ingeridas de alimentos, alimentos roubados por seu estômago sem fundo... Então virara um parasita e desfrutador de bens! Virara, convinha ter virado um boa-vida.
          Ah que ‘boa’ vida...
          Nessa altura da conversa interior passou em revista, co-mo fora um cineminha, o início do gigantismo. Via a explora-ção que se fazia à custa do seu desmoronamento moral. Em-presários políticos curiosos, a organização capitalista do seu drama. Era apresentado como um fenômeno, um monstro que rendia lucros vendia jornal dava audiência televisiva. Faziam até promoções propagandísticas para vender ao consumismo um “José, o Gigante do seu Mundo!” Deixara ser o ‘Espanador da Lua’ como brincavam os amigos, para locupletação dos potentados da economia e da política. Era tão somente um objeto comercializável comercializado...
          De repente tudo mudava. Perceberam-no um monstro de verdade, um ser infernal e perigoso. Virou alvo outra vez dos grandes e poderosos. Capitalizaram os potentados os méritos mostrando ao público o perigo que representava o Gigante. Agora era a desmoralização. Gritavam por sua destruição! queriam reduzi-lo a nada, a cinzas. Era a partir desse momento a praga mundial concentrada.
          O Gigante se perguntou, e se se puserem a destruir-me! teria de sentir as dores físicas nas suas partes inferiores, plantadas na superfície planetária; enquanto isso não se dava dava-se a pungente dor moral. Já percebia o asco o desprezo; e doía muito mais que um possível prejuízo físico. De qualquer forma sentia dor, a dor que é a morte a varejo...
          BOM-DIA, Servidor.
          Puxa, Diabinho, estava tão introspectivo e absorto pas-sando a limpo... me assustou, sabe?
          Sei. Sei também que agora existo.
          ?!
          Isto porque faz duas horas que escreve, escreve sem parar, nem me viu nem me vê, nem ao pobre Anjo, o qual não passa de uma bolha, não importando muito. Mas o Capeta posto de lado! Pior, sequer sendo percebido! Em razão disso eu falei “bom-dia”, educadamente, e já quase ‘boa-noite’...
          Ah peço desculpa aos amigos. Não se ofenda, Capeta: lerei tudinho a você.
          Não precisa, ó ‘ingenoide’: já xeretei com meus olhos cada besteira que você grafava; inclusive rindo-me cada vez a quebrar a ponta do lápis; então, que beleza os nomes feios saídos do seu coração generoso, quá-quá-quá.
          Irreverente desaforado! Pois o Capítulo 8° escreverei às escondidas.







8° - Gigante Com e Sem Palpite

          Hoje como veem é um dia bem neutro. Parou o chuvisco? veio o sol? ficamos pelo meio, o que talvez seja melhor porque aí...
          Não fazemos nada.
          A ideia não é de se jogar fora, meu Capetinha. Não fazer nada. Não se dorme não se come não se trabalha não se levanta da cama não se pensa, inclusive.
          Não se calhamaça.
          Ué, uai como diz o mineiro. O nosso Diabo resolveu inventar palavras!
          Também não se bobeia.
          Diabinho, um outro vocábulo curioso a esdruxular as coisas!?
          Outro.
          Explique-se, me parece indócil, indócil demais para dias neutros; diria: viu passarinho verde?
          Não vi, homem. Vai lá a explicação. ‘Calhamaça’ é do verbo calhamaçar. Eu inventei o verbo, ou não poria ação ao lixo. Seguinte. Se vossa senhoria achou um cadernão cheio de bobagem e com mais e mais falhas, folhas arrancadas, faltando expressões frases inteiras – e nisso até você! você inventa a encher os interstícios, e inventa bem pois criativo, cria tudo do nada; se achou essa ‘coisa’, bem faria procurasse outras de maior valor, deixa pra lá; não não deixo: que tal vasculhar o Lixão da Prefeitura outra vez para achar garrafas, brinquedos faltando partes, latas, vidros, alumínios, quiçá um pedaço de sanduíche de mortadela ao seu almoço! – limparia o meio ambiente, claro ficaria mais enfermo aspirando aqueles perfumes, limparia sim o meio, ajudaria na reciclagem, o calhamaço não é papel? viraria papel higiênico, pronto. Onde eu estava, já me perdi.
          O Irmão Capeta falava em limpar o meio ambiente e explicava ‘calhamaça’.
          Sim Anjo, seu Diabo de estimação explicava; aproveito-me da dica explico a expressão ‘não se bobeia’, referente a você: o bobo da corte é nosso Anjo.
          Pare, Capeta. Ele tem boa vontade, não merece ofensas. Estou curioso no seu ‘calhamaça’, desembuche.
          Ora, meu burro amigo, será não haver ficado claro o que seja ‘calhamaça’! pois é a situação tal: não se dormindo se comendo se trabalhando, não se fazendo nada, nada obsta não se passar a limpo igualmente o calhamaço cheiinho de besteiras, onde já se viu um Zé-das-Tantas a tanto cresça cresça mais ainda a furar a atmosfera pra cima; depois essa invenção maluca na qual ele olha pra baixo e vê os anõezinhos querendo detoná-lo e, nesse porém, não sobrando uns pedacinhos de gigante para fazer a mistura do almoço, ou ir-se-ia comer apenas arroz e feijão! Aproveitemos a carne delão, é proteína a um povo que passa fome no planeta. Não é uma insensatez!?
          Anjo! que posso responder. Não respondo à provocação do Capeta. Me dá meu boné que vou embora. Ele tem razão, está certo: não se calhamaça hoje.



9° - Acordar do ou no Pesadelo!
                             
          O Gigante José. Independente seu drama, o desastre que levava no cérebro, este também a estourar – independente desse drama continuava desmesurada e desproporcionalmente a aumentar o seu volume, a crescer. Na mesma proporção aumentavam os seus inimigos, contando bilhões já, quem sabe. O mundo tendo igualmente avolumado o temor, era então seu maior cataclisma!
          Do lado gigante o Gigante via tudo isso, não se podia livrar, só crescer... Por dentro o emaranhado de lembranças, a autoanálise, que trazia um peso espantoso no prato da balança do seu equilíbrio. Visto assim friamente era uma vida semisso-litária: um homem junto dos outros homens entretanto sem os outros; sem consolo sem afeto, abandonado pela própria família e isto doía muito em José, sempre fora um defensor familial.
          Todavia nem tudo precisava ser contabilizado como débito na sua nova situação. Tivera sim que aguentar desaforos dos inimigos (porque quem se pode livrar deles, embora não os procurando a poder achá-los nos gratuitos!) as antigas inimizades do seu tempo de homem comum, o que tão facilmente se apelida normal. Agora estavam distantes do Zé; e se livrava também dos cobradores, essa gente miúda que nos aperreia com seus carnês e lembretes de nossas dívidas pequenas, pois as grandes são cobradas pelo governo, entidade difícil de configurar, e as enormes estando por conta da justiça. Ah quanta injustiça! Desses inimigos todos havia se livrado. Isso não seria o aspecto positivo do negativo em que vivia!? A fuga espavorida de inimigos e credores não deixa ser um bem. Mas e a dos amigos, mais conhecidos e pessoas chegadas que realmente amigos; a fuga dos familiares, isso sim atingia mais fundo o Gigante.
          Agora nessa introspecção se avantajava uma outra questão – a questão sexual. O sexo talvez seja um drama insolúvel. Na vida de relação cada qual resolve à sua maneira a necessidade, ela se aproxima da fome a equilibrar-se, mesmo a um ser comum vivendo com esperança comum e expectativa comum. Algumas pessoas não resolvem. Transposto para o ambiente do Gigante, que era não ter ambiente, aí não se resolvia mesmo. Sentia-se preso de problemas desse teor. A companheira fugira... porém, raciocinou, que poderia fazer em seu benefício então a pobre senhora! era apenas uma anãzinha liliputiana na comparação ao seu tamanho colossal. Felizmente, se é que pudesse haver algum ‘felizmente’ ao Zé, a depressão psíquica diminuía as premências ligadas ao sexo.
          Havia outra questão básica naquele pesadelo que vivia. Desejava no íntimo e com toda força do coração trabalhar. Que saudade sentia da labuta chã! Entretanto seria inclusive ridículo e impensável pensar no trabalho. Naquele momento naquele dito instante milhões se esperneavam no desemprego; contudo seria lícito que ansiasse por trabalhar, o sustento com ganho; ah seria sim, todos temos direito a desejar equilíbrio através do labor diário e honesto. Era direito, do gigante ao anão. Porém, voltando desse esdrúxulo sonhar... em que condições, se não tinha condição! Não poderia equilibrar a personalidade com a benesse do labor; enquanto isso o Zé reconhecia o cansaço no ócio.
          Ah problemas e mais problemas.
          Mas Servidorzinho, quem não tem problema!?
          Pode ser, Diabo, pode ser exato, no entanto ponho mi-nhas dúvidas na qualidade dos problemas dum Capeta.
          Acha realmente que não tenhamos nós a Capetada nossos problemas! Pensa que é fácil fiscalizar a sua burrice faminta? ou não saber que fazer a irritar o Anjo? Tem mais, mas dá trabalho lembrar. E para xeretar no seu tratado do Gigante Cretino. Imagine o que faço para pensar como não deixar você passar a limpo o tal calhamaço.
          Ai chega, Capetinha safado. Voltemos ao Zé.
          Irmão Servidor, pensei houvesse acabado o assunto.
          Quer saber, Anjo. Por hoje, cansado como estou, já quebrei a ponta do lápis cinco vezes (é mentira que xingo por isso) já rasguei três folhas – imagine meu prejuízo. Por hoje. Agora paro, repito por hoje. Amanhã...



10° - O Tempo Perdido

          Sabe, Anjinho, fiquei a pensar nessa noite e nesta ma-drugada, vê minhas olheiras! insônia, Anjo, insônia, negócio humano de virar pra lá voltar-se pra cá, enrugar o lençol suar fungar berrar ao meu dentrão; empurrar o penico achar os chinelos, chep-chep indo feito sonâmbulo encontrar o banheiro, voltando pra cama, para ainda não conciliar o sono! um drama meu caro Anjo, drama do bicho gente que você desconhece. O amigo me indaga para que isso! também pergunto por que não se dorme. Sem resposta, resposta não dou faz anos. Agora é diferente, pra ser igual, é diverso e especial: o Zé entrou na minha vida, trazido pelo bendito calhamaço, cheio de besteiras diz nosso comum amigo brincalhão Capeta. Sim, concordo. Contudo entrou na vida criou vida estragou-me a vida; e virou pretexto para meu não dormir. Pensava como pensar o tempo.
          Não liga, Anjo, o cara endoidou, não lhe disse? Quando o Servidor não tem outra razão para não ter razão e, assim, não ter razão para não ter de verdade, mentirola ele o tempo mentirolando inclusive a própria verdade...
          Diabinho, não chamei você para a briga, apareceu aqui de gaiato, visto falar ao Anjo, criatura cordata mansa boa confiável linda e até necessária. Qual é então a verdade!
          A verdade, ó achador de lixo no lixão, a verdade é a mentira. É tudo mentira. E sendo isto verdade, quer dizer a mentira – por que perder o sono? burrice burrice eu sei.      
          Meninão debochado: o tempo é mentira?
          É verdade que é mentira; mentira que é verdade. Falei.
          Caro Irmão Servidor, acho que também ficarei louco, igual a vocês dois. Em que língua falam, pois não entendo pa-tavina do que dizem. Com sua licença, vou tomar um arzinho ver a paisagem as borboletas. Aqui me parece um ambiente carregado. Adeus.
- - -
            Viu o que me arranjou? Não direi “que o Diabo carre-gue também o Capeta”, não tem sentido e além do mais nem o Diabo quer o Diabo. Na hipótese ficaria agradecido: antes só que mal acompanhado. Sozinho escreveria brilhantemente sobre a questão do tempo, a qual azucrinou-me noite toda, das vinte e duas horas de ontem às seis horas de hoje. Mas não resolvi o problema; nem dormi.
          Judiação!
           Não goze, Capeta. Fique. E fique o quanto possível de boca fechada, ou não abro meu cabedal de cultura, sequer passarei a limpo este imbróglio e aí...
          Aí?
          Aí que não venderei a obra a um demente-editor, não receberei numerário a fim de pagar as contas.
          E o sucatão?
          O sucatão, me lembrou bem; obrigado Capeta; não é tão mau quanto eu havia pensado. Lembrou-me a saída honrosa: vender isto como papel por quilo. Façamos a conta, quanto acha que o calhamaço poderá render?
          Quimeras não enchem estômagos.
          Como?
          Falei, caro Servidor, disse eu que é melhor escrever já, sem perda de tempo, sobre o nada de sua mentira, o qual você chamou “tempo”.
          Tem razão. Esquecer-me-ei temporariamente da insô-nia e das contas que devo pagar.
          O Zé. Que espaço de tempo se passara ao José desde que era nada, a passar-se por normal com draminhas diários inclusive aquelas indisposições conjugais, os choques com os colegas de serviço, os desentendimentos com os vizinhos, por causa daquelas porcarias das brigas entre moleques na rua e o som alto a explodir os miolos, a questão da conta pra pagar; e se não bastando tão pouco a se inquietar, a inquietação do sonho: o homem comum sofre também pelo sofrer dos personagens que vê na tevê, ao vivo que seja nas reportagens da violência cotidiana e também pelos mortos imaginados que se mostra nas novelas e filmes; e aí a gente simples a sofrer masoquista porque tão fácil desligar o ligar da televisão. Qual espaço de tempo se passara ao Gigante desde que não era gigante até chegar ao tamanhão, de assustar todo um mundo! Não sabia. Sabia que o relógio, e para que existem relógios! sabia que marcara horas sem parar, dera voltas incontáveis no mostrador, apagara vencera dias e noites, meses anos; parecia-lhe séculos e milênios e havia ocorrido ontem... O tempo por menor que ele seja, é eterno e infinito ou pelo menos incalculável para quem viva um drama autêntico. Fome inimigo solidão sexo emoção dor; todas as dores. E o crescer. Drama autêntico. Estava José grande demais, ele mesmo assim considerando.
          Perfurara as nuvens, crescera, a beber gases mais puros: um supergigante, herói dos contos de fadas; e no entanto o pobre sequer desejava sê-lo... Pegou-se fora da atmosfera, pesando o peso dos gigantes-monstros; e suas gramas eram toneladas. O corpanzil de José ameaçava alterar os movimentos do Globo, visto estar pesando mais num ponto! Enfim o problema era para todos...
          Para, ou choro. E coisa feia e até absurda um Capeta a chorar! Chega, Zé Burro, chega de drama, dramalhão de circo mambembe. Vá olhar sua panela de pressão, chiando barbari-dade, sinto mesmo um cheiro de tostados.
          Vou. Mas volto, quero acabar esta porcaria, desejo passar a limpo tudinho.
          Deve é passar a limpo sua própria vida, palavra sensata do amigo Diabo.
          Acontece que...
          Vai logo, ou se queima.



11° - Nas Alturas mas Distante das Alturas

          Queimou?
          Queimou!
          Queimou. Bem feito, eu avisei. Ficou sem janta ou fez outra... jogou o queimado no lixo com a panela e tudo.
          Não exagere, Capeta. Não me goze, para com seu gozo e maldade. Deixei de molho na água e amanhã limpo raspo e uso a panela de pressão outra vez. O Anjo não voltou?
          Não voltou, decerto ofendido: você é um malcriado, não sabe tratar um amigo daquele quilate!
          Não ofendi a ninguém, muito menos ao Anjo. Você, sim, Diabo, mereceria ofensas; porém como ofendê-lo se não tem vergonha na cara; não tem brios. Ainda me fica xeretando, tanta coisa a fazer, não acabo mais o calhamaço.
          Pobrezinho do Servidor. A propósito Mestre (mestre catador de lixo no lixo) que tem para hoje no Gigante José.
          Faço de conta não ter ouvido o deboche. O Gigante? bem, ele está lá naquelas alturas, você se lembra?
          Claro, só fala nisso (e deveria falar ‘naquilo’) somente nisso semana inteira, vou esquecer-me!?
          Semana! como o tempo passa. A verdade, sabemo-lo com a cara aspirando o ar acima do ar, este ar poluído, ar nosso de todos dias. Deve ser, supomos um vento puro. E tomara, visto aqui embaixo ter gente em mais altura...
          Mexendo comigo!
          Não, Capeta. Falo a sério agora. Contei dos congressos que se formaram a expulsar o Gigante daqui. A rigor tinha so-mente parte dele aqui pra baixo, nesta loucura de sociedade. É gente viajando, gente lutando, gente trapaceando, gente ma-tando gente, gente xingando comendo brigando passando fome e um que outro pulando de alegria; mormente as pessoas desligadas, aquelas que só veem a propaganda na televisão ou, pior, as que só veem de fato crimes e violências, coisas mundanas enfim.
          Contudo, isso tudo não interessa; ao menos para estas linhas. Ou interessa sim, interessa aqui não o peixe pego por atacado na rede, porém os que pulam como à tardezinha aparecem na tona dos rios... alegrando o pescador que se entristece porque pulam e não vêm se engarranchar no anzol dele; e aí vai voltar ‘sapateiro’ pra casa! que dirá à mulher já aquecendo a frigideira e a meninada à espera para comer peixe frito...
          Arroz e feijão.
          Arroz, feijão e não tendo peixe que o pai não fisgou, Capeta, então é mesmo arroz feijão e abobrinha. Porém não me interrompa mais, estava poetando... Você estragou tudo, ora bolas.
          Continuemos. Não interessa como falei sobre a gente em congressos a matracar criticar berrar contra o Zé. Interessa neste ponto os peixes que, isoladamente, pulam à tona a tomar ar, sei lá, a colher bichinhos incautos voando ou soçobrando na superfície, a qual brilha fraco ao sol poente...
          Como não quer intervenção: aguento poesia filosofia, demais loucuras de mais!
          Calma. Pelo amor de Deus, Diabo – não me abra mais a boca. Ou não acabo. Outra vez me derrubou o castelo com um sopro! um bafo de mau hálito.
          Agora, de uma vez por todas, vou continuar. Se me in-terromper, chamo seu Tio Diacho. Então nós iremos ver a manifestação dos gatos pingados na sociedade, a exemplo dos peixes a pular dando o seu recado em lindas imagens prateadas e a se bater na tona da água e aí somem, quase não se sabendo se realmente existiram ou fora um sonho fugaz do pescador. Trataremos desses que chamei... como, como? ah sim ‘gatos pingados’.
          Tais ‘peixes’, um deles, num suculento comércio de besteiras com outro comentava o Zé. Todo mundo no Mundo só falava no Gigante, no começo enquanto crescia ‘no’ Gigante e depois, enorme o Zé, ‘do’ Gigante. É sempre assim: a mão que aplaude o jogador no campo é a mesma que lhe atira pedra quando erra o chute; e ainda xinga a mãe do coitado. Aqui não entrando a boa velhinha do Zé, já falecida quando o homem se pôs a crescer; ou como sofreria a pobre senhora! Aqui só o Gigante. Um mequetrefe propõe, como se acha todo mundo a se meter pra salvar o mundo: “Se o governo pintasse o Gigante para a gente saber onde está!” Outro lambari metido a dourado: “Seria muito interessante fazer uma escada enorme para a gente subir ver a cara dele”. E vai por aí o ‘besteirol’. O mais interessante, ou inusitado apenas, foi um agregado de peixes miúdos. Esses eram do tipo idealista; defendendo não se mexer na Natureza, pois o Gigante seria formação dessa Santa que nós sujamos a nos divertir sujando. Para não tocar nessa criação, não maculá-la, tais inteligências propunham a mudança de toda Humanidade para outras galáxias! Tinha igualmente arraia-miúda com propostas tão ou mais esdrúxulas. Houve quem pretendesse uma organização para desinfecção e purificação do alimento para dar ao Gigante. Um certo peixinho todo desorientado – o tal dizia melhor desinfetarmos o cocô delão! Todos propunham algo. Até os que propunham simplesmente ‘propostas’.
          Todavia chegava-se fácil à conclusão de que a loucura estava concretizada. Era uma verdade.
          Era mentira, não era, Servidor?
          Você não me disse faz pouco, Diabinho, que a mentira é a verdade!




12° - O Gigante Laaaaaá Longe

          A verdade, Diabinho, é que os debaixo aqui olhavam curiosos a imensidão que se perdia além das nuvens – e a gente pensa em tudo que possa haver, exagera sempre; e não acerta. Como estaria a cabeçorra do Gigante. E, pera lá, disseram: deve estar com uma barba deste tamanho. Aí surgindo os peixes miúdos a suporem como fazia ele e quê fazer a fazer a barba do Zé... aquele mundão de espuma; cortar com gilete ou com foice; e o problema se, lembraram, se se lavrar-lhe um ‘bife’ lanhando a pele... alguém afoito já gritando o rio de sangue a escorrer e mais escorrer da cara do Gigante! Porque não há limite à imaginação de quem tenha imaginação, o povaréu ficando a temer temor tomar um literal banho de sangue de gigante, o Gigante José.
          Tô ferrado, Servidor! Com você e sua loucura incurá-vel... vou chamar o Anjo para nos equilibrar. Mesmo porque fiquei envolvido pelo seu envolvimento. Sinto-me pegajoso; e Capeta pegajoso... verá o que é bom pra tosse; estou a grudar por seu calhamaço. Chamarei o Anjo, quiçá todos seus irmãozinhos dos céus. E será pouco a aguentá-lo.
          Capeta, está me ofendendo.
          Estou. Prossiga.
          Continuarei, não obstante deboches... oh voltou nosso amigo Anjo, que bom. Depois contar-lhe-ei o que me fez o Diabo; me deixou em trapos! Mas agora, após uma brilhante análise que fiz, seguindo o calhamaço, bem entendido, após a análise de como a gente simples pensava o Gigante, então vejamos de novo lá por cima.
          Ah pobre do Zezinho, agora um Zezão enorme de ‘tantadura’, ah o pobre. Respira aspira inspira expira suspira a viver sem poder deixar de pensar, o pensamento é atributo básico do homem, ou não é homem. Quisera, diz ao seu eu o José, quisera anonizar-me!
          Que é isso!
          Simples, Capeta, por Deus oh Diabo: não é capaz de entender um vocábulo que inventei agorinha, um que salta aos olhos. Seguinte: ora, ‘anonizar-se’ é se tornar anão. Isso não salta aos olhos!
          Se vocês dois não respondem é o quem cala consente, aqui o consente é entende. Por isso continuo esta linda estória, a estória do sofrimento do Zé lá nas nuvens, além delas.
          De repente, lá além dizem venta mais que aqui no com pé no chão. Aí vem-lhe a lufada – o Zé arregala os olhos, a saraiva atinge sua testa, enruga ele o testão preocupado; o tufão prossegue a fustigar: esvoaçam os cabelos, e os fios estão enormes! e os fios esticam-se para trás por quilômetros...
          Tinha piolho caspa brilhantina?
          Decerto, Capeta, decerto. E aí, aproveitando-me do en-xerimento diabólico, aí os piolhos se grudando aos fios para não serem levados pelo vendaval, um deles...
          Dos fios?
          Que dos fios, dos piolhos, ó ignorância perfeita pernós-tica e avantajada, dos piolhos e muitos escapam sendo levados de roldão na força ciclônica a se perder por aí!
          Credo!
          Credo? Você é ateu. Se fosse o Anjo, porém anjos não banalizam as palavras. Em todo caso aceito sua intervenção a me ajudar conduzir milhares de piolhos desde a cabeleira do Gigante, a se perder irremediavelmente.
          Quanta asneira, meu pobre Servidor desregulou de vez. Sabe duma coisa, dá pena.
          Sabia que o Diabo não é tão feio como se pinta, pelo menos você não é – a demonstrar sentimentalidade. É, conve-nhamos, um pouco debochado sim mas sentimental. Continuo agora a descrição desse sofrer gigantesco.
          O Zé grita pede socorro... e a quem apelar! se no fundo ele é mais poderoso que todos prontos-socorros da Terra. Então funga.
          E cada vez que funga ou assopra ou suga uma porção de ar é um desastre planetário! atinge o equilíbrio do mundo e dos seres liliputianos que vivem nele.
          Não tem realmente a quem apelar.
          Não tem religião o José, nosso pobre irmãozinho que demais cresceu?
          Não tem, Anjo. Quer dizer, até agora no calhamaço não existe qualquer referência. É um caso a pensar.
          Prometo a você: havendo uma falha uma falta numa página, aí preencherei com ótima criação, no caso religiosa. Mais ainda, darei a palavra ao Anjinho, autoridade no assunto.
          Chega de melaço, desse adocicado. Quero saber o so-frimento do celerado Zé.
          Quer então mais sofrimento, Capeta! que belo sadoma-soquista me saiu. Estou deveras decepcionado. Encerro isto. Por hoje. Tchau.



13° - Volta das Alturas Para as Baixuras

          Anda mais calminho agora?
          Estou. Estou de volta, Capeta. Quero encerrar de vez esta porcaria.
          Falou sensatamente.
          A encerrar? 
          Sensato dizer porcaria. Fosse eu, seu amigo para o que der e vier, me picharia por debochado. Agora saiu de sua própria boca, ela quase maior que a do Gigante. Você disse “essa droga de porcaria”.
          Não disse, Diabrete, falei ‘porcaria’ apenas, droga!
          Não disse!
          Anjo, me segura um pouco o Capeta. Pretendo acabar de vez com o calhamaço que me acaba.
          Bem. Aqui neste plano da vida, os terráqueos se esper-neavam discutindo como eliminar o maior drama do orbe: Zé.
          Por todos lados os cientistas e pensadores de modo geral se reuniram apressados para discussões intermináveis. Já sabemos a sobejo como são os congressos para discutir os problemas e, quando não existem, como fazer para que existam para ter matéria a salivar. A conclusão sabemos também de sobra, é o mesmo: peroração exclamação interrogação.
          Parece que já esteja estabelecido como são os congressos e a conclusão dos congressos, tal modelo e cartilha, ou seja o comum lavar a roupa-suja com as eventuais boas maneiras e as consagradas ofensas. Naqueles a tratar de José e todo o drama pela existência inegável do Gigante, neles não se fugiu à regra.
          Puseram na ordem do dia o como resolver e como contrabalançar e estabelecer um equilíbrio planetário, tendo em vista a presença do Gigante. Falaram se desentenderam se destrataram, levantaram a questão crucial; de que maneira solucionar o equilíbrio físico e como e onde encontrar matéria de peso equivalente ao peso de José! E se, diziam os sábios, o monstro que absorvera matéria dentro e fora do Mundo, se o mesmo deixasse de repente o planeta! que poderia ocorrer! Claro, seria a perda de grande parte do seu peso natural. Lembravam já se haver constatado alterações térmicas que se esboçavam; para quem sabe depois fritar ou gelar a população! não estaria a humanidade diante um desastre ‘orwelliano’ perfeito e com isso afetando não só os homens (o Zé Gigantão diria:  “pigmeus”) não apenas eles, todos os seres vivos.
          Todos criticavam gritavam ‘salvavam’ o mundo mas ninguém imaginava o sofrimento do Gigante.
          O impasse estava formado.



14° - A Volta ‘ao’ ou ‘do’ Gigante

          Voltemos ao nosso Gigante, minha gente, se é que te-nhamos saído dos dramas dele. Por quê? Meninos, antes de prosseguir...
          Acabar.
          Acabar sim meu Capeta; antes de prosseguir no acabar tentando realmente finalizar o ‘a limpo’ deste calhamaço, tenho um segredinho para vocês.
          Conta logo, sou curioso e estou. Veja a careta do Anjo como mostra certa expectativa também.
          Já conto. Seguinte. Acho haver descoberto um salvador da pátria: vi um Editor inteirinho!
          O Capeta: sei perfeitamente o que vai acontecer – correrá atrás do sujeito, implorará a impressão dessa... pronunciaria um nome feio não o fazendo em respeito ao Anjo, então fica o de sempre ‘porcaria’; é capaz pedir adiantado algum dinheiro, falando no gasto “perdi papel e ponta” mostrará os lápis, toquinhos de lápis; irá mais longe na patifaria: inventará dez filhos para tratar e a esposa doente! Sem nunca haver conseguido mulher e, lógico, crianças. Não é?
          É.
          Tá vendo! Servidor de meia-tigela, qual o nome do Edi-tor, que empresa a dele, é de grande envergadura ou tipografiazinha xinfrim?
          Uma pergunta de cada vez, Diabo. A resposta é uma só questão: vi um doido. Nada mais. Na hipótese, sendo louco poderá ser Editor, aquele que me abreviará e me reporá dos gastos com ponta de grafite e papel. Vocês viram tive que optar por papel de embrulho ultimamente a economizar sulfite no alto preço que se encontra.
          Embrulho, falou com categoria.
          Não me goze, Capetinha. Sou um escritor sério, ao me-nos um passador a limpo honesto e equilibrado. Aliás não o fosse, aguentaria um magrelo pestiado e debochado Capeta!
          Engulo. Não se impressione, Anjo, não estamos em luta, ele é assim mesmo. Engulo o que nos conta mas, trocando por miúdos...
          Bem, amigo Capeta, trocando em miúdos vi tão só um lunático pensando que possa ser um editor, o Editor que me salvará da penúria. Embora não tenha certeza se completamente doido, pois na sociedade é mais fácil achar os que não são desequilibrados, tão poucos.
          Mea culpa!
          Não sei o que responder, Capeta.
          Não responda. Aproveite-se do restinho da ponta de lápis, papel vou, por bondade minha e até o Anjo ajudar-me-á, vou procurar no entulho restos de papel para você finalizar de vez a porcaria.
          Vê minhas lágrimas! tocou-me fundo. Obrigado.
          Não tem de quê. Vamos a ganar hombre!
          Obrigado também pela ofensa hispânica. Eu dizia que o problema era de todos, todos seres vivos sofriam no mundo, sem que se suspeitasse o sofrer do Gigante.
          Como sabemos o homem é egoísta; os habitantes do infeliz planeta pensavam em si mesmos. O infeliz também, ou mais infeliz de todos: o Zé passava por um frio tremendo pelo frio que sentia nas extremidades superiores. Era um frio nunca sentido por qualquer humano antes. No mesmo instante em que a população via seu próprio interesse e o Gigante a sofrer o suplício do gelado na cabeça, nesse mesmo instante seus pés ardiam no calor do solo; e mais ainda o sofrimento pelo rechaço da turba alvoroçada.
          Ai, irmão Servidor, estou bem sentindo o que o pobre irmãozinho Gigante passava com sua face além da atmosfera! ah pobre dele...
          Tem razão Anjinho. Um sofrer de impossível medida, porque só avaliamos as coisas pelas coisas que sentimos vemos e abordamos; essa situação, ou seja o respirar além das nuvens a tão grandes alturas, ultrapassa nossa compreensão. Somente calculamos algo próximo. Foi um sufoco ao deixar a nossa camada, empurrado no seu crescer daqui debaixo para cima. Um sentir profundo. Falta de ar decerto, tosse. E isso um novo drama, como relatei antes, um drama também à população, seus irmãozinhos anões aqui. Porque bastante um acesso de tosse ou um simples espirro do Zé a gerar um vendaval de chocalhar como um terremoto todo um mundo em miniatura. Olhava agora para baixo e tinha a visão de Gigante: via homenzinhos sádicos e medíocres, os quais se espezinhavam e se digladiavam. Eram os mesmos homens que, no seu tempo de anão liliputiano igualmente, sequer se interessaram pela sua sorte; não quiseram de verdade salvá-lo; apenas pensavam explorar o Zé quando o Zé crescia, posteriormente ficando um Gigante além das nuvens. Nesse triste momento – sofrendo os horrores da falta de ar, sentindo frio, enquanto aquelas migalhas humanas feriam-no nos seus pés – nesse momento teve ímpetos maus; no entanto ao contrário do que lhe faziam sentiu pena dos anõezinhos insignificantes; porque bastaria pisoteá-los.  Não o fez. Agora de fato estava só.



15° - Instantes Finais;  do  Calhamaço?  Não,  do 
        Sofrer Gigante

          Andava só.
          E mal acompanhado?
          Voltou Capetinha? Havia sumido, consegui graças a isso adiantar bem meu trabalho você longe; e já chega debochando.
          Ingrato. Estava no entulho procurando papel pra você.
          Perdão, mil perdões. Fico-lhe grato. O Gigante, como eu dizia,  andava só realmente.
          O crescimento implicou na solidão. Aí ocorreu um des-dobramento curioso; ou quem sabe previsível à pessoa solitária: volta-se para dentro de si mesma, pensa repensa e...
          Enlouca.
          Vez que outra poderá enlouquecer. Porém o comum é ser o ser já louco; só poderá alguém nessas condições exagerar um pouquinho no desequilíbrio. O Zé estava, ou quem sabe não estivesse, andava nesse limiar. Já imaginaram os estragos, caso ficasse doidinho, doidão!
          Nesse ponto terrível ao Zé e terrível igualmente ou mais terrível, se houver ‘mais’ para o terrível, mais ainda ao povinho lá embaixo; nesse dito momento ele optou por uma tábua de salvação.
          Comprou um guarda-chuva ou casou?
          Quer esculhambar Diabo! Deixa pra lá, ou não acabo isto, continuo portanto.
          Nosso Gigantão sentiu imensa necessidade a adotar um deus supremo. Criou seu deus na imaginação, para seu companheiro, para não estar só; para ouvir suas queixas, para consolá-lo, explicar-lhe o que não podia entender, visto só ver nuvens e lá longe o mundo a seus pés. Mas sobretudo para consolo na sua solidão. Aí inventou também que esse deus o criara. Porém eis os inusitados do ser humano em crise: negou esse deus violentamente, berrando até, diante doutro estado de desespero e de irresolução. Daí matou o deus, achando-se no direito, pois que o tinha parido para pari-lo. Matou. Roncou. Assustou nervoso um mundo! No entanto o mundo...
          Com sua licença Irmão Servidor. Preciso uns esclareci-mentos. Meu Irmãozinho certamente não deixou amadurecer bem esse trecho no qual trata Deus... Exagerou, não se ofenda por favor mas como falar sobre o Ser Supremo nesses termos! Gostaria de um repensamento na questão e aí, sim, seu veredicto, crendo eu sensato.
          Anjo. Meu Anjo, não quis ofendê-lo nas suas convicções. Desejo antes de mais nada fazer uns reparos no seu reparo. Vou querer depois a opinião do Capeta a propósito.
          Oh Servidor, necessito procurar mais papel no lixo...
          Viu, Anjo, ele nos fugiu pela tangente. Não é essa a ex-pressão usual? Fugiu por razões óbvias – o Diabo dar sua opi-nião sobre Deus...
          Volto ao seu reparo, meu Anjo. Seguinte. Observou que não falamos na mesma Entidade!? Veja na folha como escrevi: com minúsculo. Você se referindo a Deus, portanto com maiúsculo. O José, Gigante a ultrapassar nuvens, solitário, a cabeça a estourar, à beira do precipício da loucura, esse José ao desespero, em desespero de causa opta pela causa dum ‘deus’. Necessitava ter alguém com quem falar e talvez a ajudá-lo fugir do pavor da destruição por dentro. Então criou o deus; passou um pouco o drama ou, pior, não passou, o deus não lhe conveio, não o ajudou a solucionar seu grande problema da solidão e continuando o infeliz gigante a receber mil ofensas dos desinteressados por sua pobre sorte. Que fez! matou o deus. Justificou o ‘assassinato’ – havia criado, ‘descriou’ o invento. Isso o dito.
          É compreensível, Irmão. Contudo, não acha que ele encontraria melhor sorte se acreditasse mesmo em Deus Todo Poderoso!
          Acho. Porém ao menos no que temos como ponto de partida, o Calhamaço, agora uso maiúsculo no ‘C’ a significar mais nossa fonte, o Calhamaço não nos autoriza ver concretamente uma crença profunda. É um drama humano. Quem sabe, indago, quem sabe o autor do Calhamaço não fosse ele mesmo ateu! e aí não ponho as mãos no fogo. Um cético pode por criação criar um deus; depois pôr um seu personagem, no caso o José Gigante, a matá-lo, eliminá-lo. Ainda gozando: ele criou um deus para criá-lo, a ele personagem; que sói ser o próprio escritor; porque essa gentalha das letras costuma praticar memorialismo e/ou autobiografismo...
          Coloco mais uma questão básica, Anjinho: não poderá, se ainda vivo e eu não sei se, não poderá neste momento ele, Escritor, ser um crente, haver superado a loucura que é o absurdo em não ter descoberto que o homem, pequeníssimo ser no Universo, não poderia ter ele – o qual não pode sequer com seus insignificantes vírus – não poderia repito haver o mesmo criado o Universo; se o maior atrai o menor; o correto sendo o Universo haver criado o homem. E como a complexidade e a harmonia da complexidade é infinitamente mais poderosa, somente um ser mais Poderoso podendo fazer nascer e manter vivo o Universo. O homem sendo pulga menos que pulga, invisível, anos-luz invisível, ao Universo e até ao próprio homem, como criar o macro que ele, homem, não vê por longe e grande! Então, quem sabe, concluindo o autor pela existência dum Deus, este sim com maiúsculo.
          Mas chovemos no molhado, meu Anjo: sou apenas o agente passador a limpo.
          Paremos com esta conversa, o Capeta traz agora um pouco mais de papel. Não irei constrangê-lo, paro por hoje.
          Antes. Convenceu-se?
          Parece-me que sim, Irmão Servidor. Parece-me.



16° - A Expulsão Anã do Gigante

          Olhem quanto material encontrei. Tem algum papel sujo é verdade, mas não irá sujar-se mesmo com as bobagens do tal Calhamaço!
          Está bem, Capeta. De qualquer forma agradeço, é uma economia no pindura em que este seu Servidor vive. Onde havia parado na exposição?
          O Irmão José andava nervoso, assustou o Mundo.
          Obrigado Santo Anjo, é exatamente nesse ponto aí haver parado. Vou prosseguir. Todavia há um porém.
          Que será agora, ele faz de tudo para não terminar essa porcaria. Deve ter medo ou não saber como acabar. Eu? poria fogo, ou vendendo na sucataria no estado em que se encontra. Que acha disso o Anjo.
          Não acho nada, Irmão Capeta; deixemos o Irmão Servidor concluir  passando a limpo.
          O Anjo é sensato. Assustou o mundo. O mundo entre-tanto começou ferir e a enxotar o Gigante.
          Já sei: xingou a mãe dele!
          Não. Haviam praticado toda ofensa verbal permitida no cardápio dos restaurantes da educação e da civilização. Estava isso sim extremamente alvoroçado o povo, levado por guias de opinião. Uma consulta do tipo ‘ibope’ provava o Gigante José ser o maior inimigo da população; isso na opinião dos desorientadores e interessados, exatamente os que se consideravam prejudicados nos seus negócios, prejudicados sim pela presença daquele monstrengo com forma de homem que ia do solo aos céus; o qual podendo num outro instante nervoso pisotear arrasar territórios, desviar o curso de rios, provocar derramamento de lagos a pisar com os pesões enormes a área liquida; e, esbarrando sem querer esbarrar, a derrubar edifícios até aí sólidos! Cumpria enfim acabar com a ameaça, mesmo estivesse estabilizado e plantado na sua provável quietude como uma árvore, uma árvore imensa que pensava e pior podendo agir; cumpria acabar de vez.
          O Calhamaço?
          Oh Diabo atrevido, não me quer poetando soluções, quer a solução acabando com meu passar a limpo. Inclusive com meu enlevo de passar a limpo.         
          Saibam, cumpria acabar era com o Gigante. Isso todos desejavam, agora também os indecisos entre os habitantes, não apenas os líderes que costumam levar a malta a apedrejar para somente depois indagar o que se deva indagar ao defunto ensanguentado!
          Que trágico.
          Trágico de fato, Capeta. Trágico. Cômico somente o papel de maria vai com outras manifestado pelo zé-povinho. Trágico na coisa em si, trágico logicamente ao José Gigante.
          Teve início assim a execução, o enxotamento do pobre, que ainda crescia sem parar. Usou-se bombardeios, ao lado de ensurdecedores mecanismos eletrônicos, a fim de comunicar ao interessado sua expulsão. Ameaçaram usar a força atômica como armamento a destruí-lo; dizia-se na época essa força ser suficiente para acabar com o planeta sessenta vezes! como se não bastasse acabar uma única vez... Ora, acabando com o mundo então acabava-se com o Gigante no mundo, o que é de ‘inteligência’ extremamente desenvolvida...
          Se fosse eu o Zé, inteligente como sou, mudava-me para outro planeta; bastavam alguns passos.
          Se fosse você, Capeta. O Zé estava demais ligado à Terra, para deixá-la. Além do mais, para onde iria!
          Contudo agora ele não pensa nisso; pensa na população que vê lá embaixo. Entendeu perfeitamente o dramático apelo e quem sabe se até não temeu a violência que emanava do po-pulacho. Aí voltou a pensar e encontrou saída nessa solução proposta por nosso Capeta: fugir definitivo da Terra.
          Viram como sou inteligente!?
          É. É inteligente pra burro! Mas repensou a questão. Para onde iria! Pesava a razão dos homenzinhos liliputianos, pois era improdutivo e prejudicial. Se pôs como anão e seu dilema conhecido: é melhor existir um parasita, e no seu caso um parasita tão grande, ou melhor seria mesmo exterminá-lo?
          A segunda opção tinha o mérito da solução parcial ao problema da fome mundial. Sobraria, expulsando o Gigante, no pensamento anão, sobraria apenas a costumeira parcela de famintos, coisa pouca, da ordem de bilhões. O Zé então con-sumia por outros tantos esfomeados, na sua fome progressiva.
          E o Gigante. Que pensava disso?
          O José sabia perfeitamente como se sentia; a par disso precisava resolver sua terrível voracidade. Não obtinha mais comida tão facilmente! Aí fez o que faz qualquer um, do maior ao menorzinho dos homens: apelou à imaginação.
          Puxa, Servidor – resolveu o grande problema da fome mundial num toque de mágica, ou de gênio ao menos. Pensar que não existe a fome! Parabéns.
          Anjo, me dá outra vez meu boné. Não aguento a gozação desse chifrudo sorrindo malícias. Já sei como devo ofender daqui por diante um inimigo de estimação; direi: desejo-lhe um Capeta! Vou almoçar, me livro do Diabo. Não os convido a engolir a gororoba comigo.



17° - Será Que Existe Fim ao Fim!

          Enfim só. Eu pensei, pensava ao engolir minha comida. Pensei mais. Se entretanto não voltasse para junto de meus amigos, livrar-me-ia do Capeta perdendo o Anjo. Observem como andava nervoso após aquela hora! Cheguei a imaginar vingar-me no Diabrete assim, ó: chegaria aqui mudo, de boca fechada. Depois achando ridículo me dispus a voltar ao seu convívio e estou de novo neste local a acabar de uma vez o que o Capetinha chama ‘porcaria’... E querem ver mais uma coisa – quando vi, nesse pensar enquanto comia, não percebi mais a gororoba, havia engolido tudinho! Portanto me encontro aqui, feliz.
          Na parte que me toca, pois o bobalhão angélico apenas sorri, como sempre; na parte que me toca parabenizo-me haver ajudado um Amigo a engolir seu veneno sem gosto e sem valor. Ainda folgo tê-lo de volta, meu Servidor. Ou então a quem iria azucrinar!?
          Não posso, Capetoide, com tanta lógica.
          Agora minha gente, chego para acabar, a-ca-bar de uma vez por todas este passamento. É um pouco fúnebre, né? Aqui passamento no sentido de passar a limpo o Calhamaço acabando o Calhamaço.
          A fim de vender logo no depósito de papel usado ou ‘loucurando’ a procurar o Louco-Editor que venha a publicar e lhe dar um lucrinho. Acertei?
          Acertou. Que posso dizer! Bem, acabemos o meu pesa-delo deste pesadelo. O Zé.
          Interrompemos o drama  dele  quando,  não podendo mais conseguir comida, ao menos na mesma proporção de aumento de sua gigantesca fome, quando enfim apelou à ima-ginação. Não foi?
          Foi, Irmão; esclareça isso melhor para entendermos.
          Correto Anjo. Apelou, pensou, imaginou bolos mons-truosos...
          Só gosto dos de chocolate.
          Não importa, capetas não comem nem os de chocolate, não precisam ter escolha.
          Malcriado, sem educação, não teve mãe, se teve, ela fa-lhou, deveria ter batido na boquinha do Servidorzinho, que já seria uma porcariazinha a sonhar passar a limpo Calhamaci-nhos houvessem os mesmos nos Lixõezinhos das suas Prefei-turazinhas...
          Calinha a boquinha Capetinha. Então pensou imenso bolo, de chocolate, pronto, a pedidos. Pensou churrasco... já sei, não precisa me encher: não era o Zé um vegetariano; churrasco sangrento cheiro de carvão hálito de gotas a escorrer na brasa...
          E cerveja? Vai me dizer que ele fosse abstêmio! Metade dos abstêmios bebem mais da metade do álcool que...
          Chega de palpite, ou não acabo. Acabo sim, acho nesta altura não ter mais honra...
          Vergonha na cara.
          Sim, não tenho vergonha na cara, pois tantas vezes prometi não acabar se alguém interviesse (leiam-se Capetas Intrujões) – e no final não cumpri. Agora é pra valer, é definitivo. Acabo. Onde parei?
          O Irmão falava na fome com soluções gigantescas: bolo, diz o Irmãozinho presente, de chocolate, bolo e também carne em forma de churrasco.
          Certo, Anjo. O churrasco, um super churrasco, estava ali à disposição do Zé, embaciando o espaço sideral com a fumaceira! Contudo a realidade a contrabalançar sua imaginação fértil era horrível: não havia mais comida para si; igualmente acontecendo a bilhões de anõezinhos irmãos aqui no solo terreno.
          Eram problemas de todo lado; como resolver?
          Olhou o Gigante José entristecido mais uma vez com o seu mundo, pobre mundo! Pensou. Os anões lá embaixo deviam estar pensando também. Em quê? O pensamento de um Anão seria menor que o de um Gigante! Ocorreu-lhe pudesse mesmo ser maior. O pensar poderia se tornar o denominador comum à espécie, independente do volume das criaturas!?
          Entretanto já não poderia averiguar quem não tinha mais noite nem dia.
- - -
           Bem, meus pacientes amigos Anjo e Capeta, finalizamos a obra. Não precisa o Diabo dizer-me ser realmente ‘obra’. Consegui dar, na minha modesta opinião, o recado – não o meu, sou mero passador a limpo de um Calhamaço encontrado no Lixão. Meu mérito consiste haver executado a tarefa em linda letra (está certo, tremida, mas caprichada). Se introduzi algum pensamento foi em virtude da falta do pensamento, enfim por faltar na folha, ou por a mesma se encontrar rasgada e ilegível. Nesta hipótese contei com Vocês, Amigos, a me sugerir ou até criando outras imagens (apócrifas sim) a completar o dito Calhamaço.
          Agora volto-me a Vocês dois, Capeta e Anjo, às suas pessoas. A publicação, o encontro do Louco-Editor, ou no final de conta a venda como apara de papel no depósito; e mais, que é menos, o prejuízo que tive com papel e ponta de lápis: tudo é exclusivamente por minha conta, eu Servidor.
          No entanto preciso eu acertar as contas para lhes dar a conta...
          Fa-lo-ei de acordo com o vigente no País. Pago à base do salário-mínimo por uma semana trabalhada... está bem, nove dias. Do dia 4.1.2004 a hoje, dia 13.1.2004.
          Inclusive o Capeta poderá conferir na folhinha, cuidan-do não mexer nas coisas que assinalei para lembrar aniversário de alguém ou esquecer-me-ei.
          Não senhor, não me dê palpite mais, está desligado do emprego! O Anjo também. Qualquer dúvida procurem seus direitos no Departamento do Trabalho. Ah, antes que me es-queça: pagarei se receber do Louco ou do Sucateiro.
          É isso. Obrigado. Tenham um bom dia.

 Marília  janeiro  2004




















































Vítima Viúva do Viúvo Vivo, Vivaldino

                    De quantos arrependimentos se faz uma vida!


A – Vítima. Um dos problemas mais sérios que um possível literato, possivelmente também honesto e de bons sentimentos e a temer avaliação tanto dos bons quanto dos sentimentos, um desses problemas é o envolvimento com a moral do personagem. Em outras palavras, teme um escriba, já em campo de trabalho, teme atingir o cerne das atitudes alheias (alheias sim, pois  ¡de quanto será o escrevinhador no personagem que porventura houver criado; uns 5% a ser bonzinho a si mesmo, a puxar brasa à sua sardinha, ou uns 95 quem sabe 99 por cento e aí quase virando relato autobiográfico!  Nisto o alheio se alheia, ele: ora, onde as atitudes alheias se ele sou eu?) Verdade, nega e renega a oposição à disposição na sua imposição batendo o pé: “Mentira!” Verdade que se toma todos ovos ao cuidado para não pisar e daí constranger se não ofender o personagem em sua moral a bem dizer; neste caso apregunto: era mesmo vítima a Vítima, viúva a Viúva, embora de viúvo o Viúvo, seria viúvo... e  sendo vivo, vivo Vivo? no sentido de um vivaldino Vivaldino... Bem, mal começo lá vêm minhocas a atrapalhar a cachola e em razão disso criaria aqui um personagem entre personagens tão só a coçar desanimado a cabeça, poupando então a minha. Daí digo xô minhocagem.
          Tomo o presente, vamos em presente que atrás vem gente atrás sem o passado, tomo o presente para não machucar a verbalização nesta verborreia. Tomo agora a Vítima, ah tadinha da vítima, xô também o enguiço de me imbuir da moral alheia, coisa tacanha e mofa; que diabo, valha-me São Diacho, por que não falar usando sim sim não não, no que houver a dizer dela. Falo. Tomo-la (que horror de construção, bah) a lavar roupa chep-chep aí no tanque, desligado o tanquinho a economizar energia (leia-se pagar menos à Força & Luz) economizar água (não à falta do desperdício d’água da água no planeta, não: para não ajudar, embirrada a mulher, não dar colher de chá para a ladrona da Prefeitura no seu burocratizado Depto. de Águas e Esgotos) chep-chep esfrega bate chocalha resmunga e dependura no varalzinho da área de serviço;  por que não estende lá fora ao vento ao sol ao calor para secar? mas e o pessimismo onde o exercitará então – pois não pode como o raio que se acostuma cair na mesma cabeça cair com chuva quiçá tempestade estragando o serviço! bem, lava sacode estica no fio da área, eu escriba nada tendo com isso: não prometi, acho ter prometido, não me meter na vida alheia? com a moral alheia, corrija-se. Bem. Tadinha, pensa. E ele não vem; ajuntaria ‘mais’ ou ‘nunca mais’ a dar significância, aí me intrometendo não me intrometo, fica ‘não vem’, acresceria “ah como Viúvo demora”, não será andar-me traindo, diz pensando ela, eu então a entrar na vida alheia outra vez, deixa pra lá.



B – Viúvo. Tá lá nos seus afazeres (sentimentais?) na capital distante, ela aqui no interior, também distante. Trabalha traba-lha trabalha, vai pra lá vem pra cá trabalha trabalha trabalha, trabalha no quê? sei lá, lá é de minha conta, prometi... Dizem ser marceneiro. Então ouçamo-lo nas poéticas batidas do martelo, erra, até mestres e melhores profissionais nem sempre têm dedo esquerdo esperto rápido em prontidão a desviar da mão direita assassina, não: martelo assassino e tchã, aí xinga. Faz o curativo, não também: a Benzinho faz para ele, ele não chora não grita só gritou na hora, que diacho iria ficar gritando sem parar e chorando por uma batidinha de nada! nada coisa alguma, doeu horrores, aí Benzinho, às vezes trata a moça não mais moça “Benzinha” efeminando o dizer, Benzinho assopra limpa desinfeta enrola ‘esparadrapa’ o esparadrapo e antes pôs umas melecas curativas e um líquido vermelho, bateu o pé que não doeria, bateu o pé que doeu: mas homem não chora, ah se considera muito macho, não é Benzinha? Ela sorri abalança a cabeleira loira, oxigenada? não respondo não me meto na escolha doutrem ou seria imiscuir-se a julgar a moral dela (trato é trato, não meto o bedelho aqui, não digo se natural a cor, bem que podia ser, pois escorrida a cabeleira clara, ela tirando vez que outra as mechas a cair por sobre os olhos verdes e aí sim a conclusão: loura natural ou loira com ajudazinha de uns líquidos tonificantes e colorantes). Voltam. Ela pros afazeres na cozinha da filial ou da matriz, deixa isto a outro capítulo. Ele voltando ao martelo (assassino ou pelo menos criminoso; ora bolas, a serra de fita a tupia até uma inocente furadeira são mais assassinas e mais criminosas, tadinho do martelo) volta então ao martelo aos pregos ao esquadro em cima da bancada onde adaptou um suporte que suporta o radinho a falar asneiras e cantar nojeiras, o radinho nem ligou à dor que aquele sem-vergonha fê-lo sofrer; o lápis de carpinteiro ao serviço de marcenaria, ponta grossa corpo em madeira chata – risca isto, toma outro ponto como referência, desconta acresce remede a confirmar exatidões, para concluir a operação; olha a dor no dedo o embrulho de esparadrapo manchado de vermelho (será o remédio que Benzinho pôs ou gotas de sangue! aí se assusta, chamaria mamãe, é um adulto com laivos de neve já a surgir nos poucos fios na cabeça; não ficaria bem gritar mamãe e mesmo a amoreca a esfregar lá na cozinha; ah mas quase chama por ela outra vez pra ver se não era de fato gotas do seu sangue a escorrer! porém que droga – é um homem, o homem dono da filial, filial ou matriz). Deixa o sangue deixa o remendo rápido no dedo deixa a dor, se põe a medir ajustar ajuntar comparar, quase se esquece dum acidentinho, conclui estar de acordo com o planejamento no desenho rabiscado quase grosseiramente num papel, consulta o papel, volta à madeira e passa cola, encaixa as partes, bate as partes, prega um prego de reforço; deixa nas mãos seguras do ‘sargento’ para prender tais partes a fim de secar no ponto certo. É quase um móvel, ali imóvel e prensado pelo sargentão; tem o pequeno que chamaria cabo ou soldado diz a brincar num pensamento e sorri, já começa a assobiar, aprecia assobiinhos leves em vez de cantarolar e aí mostrando estar alegre; sorri pra si mesmo, pois somos todos nossos palcos nossos palhaços e nossas plateias. Sorri e sorri de si mesmo pela bobagem da atitude. Enquanto olha aquela trempe de madeira na trempe de ferro do sargento pensa nela se alembrando. Da Benzinha? da Vítima.



C – Vítima outra vez. Agora, este agora querendo dizer ontem trasanteontem ou outro dia, agora acabou Vítima de lavar sua roupa. O vento irreverente malha chocalha espalha atrapalha no fio de varal da área a visão dela; e tem o caso de precisar abaixar-se toda vez que passa e passa toda hora vai pra lá vem pra cá, atrapalha. Não atrapalha seu pensar. Aliás não dá bem para pensar bem, mal pode ouvir o som do vento a badernar as peças dependuradas, o chão metralhado por gotas a cumprir a lei de gravidade; mal podendo escutar o dentro e quer ainda melhor escutar o de dentro, preocupada. A causa fundamental dessa disfunção são as crianças: estão lá na sala ou no quarto dum deles a ouvir pra si e para o resto do planeta seus rocks. Não contentes com essa expansão da cultura ameaçam, um de cada vez e depois ambos num dueto, são apenas dois adolescentes se fossem mais mais ainda o barulho e o ensurdecer; sim ameaçam não satisfeitos e se contentam em acompanhar arremedando inglês, as guitarras não conseguem imitar só o ‘croner’ da banda; não obstante e tão bem- intencionados com o resto da população do globo cantam desafinadamente, me parecendo às orelhas terem herdado essa qualidade da mãe: Vítima da Silva desafina até no falar, fala em falsete gozadamente (isto irreverência de minhas orelhas, mas deixa estar...) E quando Vítima vai silvar na canção, religiosa veja-se bem, fá-lo num desafino, ora metálica ora a engrossar a voz, sem querer imitar Viúvo porém por ser rouca. Falei rouca, não me parecendo louca. Todavia a mulher não aguenta o barulhão cultural lá na sala, quer pensar, pelo menos ouvir o farfalhar da roupa a secar no varalzinho e não pode. Meneia seu desconsolo, a cabeça bela pra cá pra lá, pois ainda bonita e o macho da espécie inventou inventar viver com Benzinha tendo uma esposa bonitona no interior distante! Prometo e tentarei cumprir a jura em não fazer mais julgamento da moral e do gosto alheios. Olhe, cruzei os dedos, dei três beijos num deles para mostrar a intenção. Intenção mais séria é tratar de Vítima. Então ela deixa a lavanderia e foge desesperada (pera lá, ‘desesperada’ é dose braba, deixêmo-la ir com educação lentamente, indo inda no pensar pelo caminho o que tentava e a turma doméstica do karaokê não permitiu) foge sim ao fundo do quintal. Quando eles moravam na capital lá distante não dispunham sequer quintal, este lhe parecendo chácara fazenda quiçá latifúndio com mato, onde brota bem carrapicho tiririca e também abobrinha, não abóbora: ouviram minhas tapadas orelhas que o pé morreu; tem cebolinha salsa e dois pés de couve já nesta alturona, quase dá pra ver pelo buraco do muro, é o tipo de couve gigante ou de metro. Agora, este agora mais próximo que o outro, agora ela vê o terreno e se lembra, se é que já não estivesse lembrando, do Viúvo porque...  eu disse que estava, não disse? estava lá debaixo das peças de roupa; aí destampou a meninada no rock tipo heavy metal (é assim?) e a pobre não podia pessimismar positivamente, abandonou o posto a área de serviço para ir ao fundo de quintal. De fato as reticências obrigaram a explicação viúva. Vamos a ela. Viúvo veio, quem sabe, visitar Vítima olhar os filhos, os filhos do rock, conversar com os parentes (dela, os dele estão na capital distante) ou só descansar a título de férias, eu indagando se seria descansar da fogosa Benzinho; o pessoal ali no Bar do Jorge diz outra coisa – Viúvo da Silva aproveitando enquanto Vítima vai com a dupla roqueira à igreja ele bebendo sua cervejinha no Bar. Isto não deve pesar como pecado do autor destes rabiscos, é argumento da vizinha do outro lado, apenas dei linguagem, incapaz de meter-me nos sentimentos alheios, mui pouco alheios porque toda a rua vê isso o bairro vê isso a cidade do interior distante vê isso, o mundo por extensão não vê isso. Isso é que é o direito. O direito disso, ou seja a versão bebúmica dos bebuns em roda de Viúvo fala que Vivo apareceu por estas bandas tão somente a beber e bater papo com eles. Não me situarei na coisa, detesto fazer julgamento apressado. Por tudo ela se alembra do homem, posso dizer seu homem ou aguardemos a solução da questão ‘matriz ou filial’ e qual é qual. Vítima segue ao fim do latifúndio entre tiriricas e couves e se lembra dele; a imagem que guarda é de um Viúvo esbelto da silva capinando, o caboclo fala “carpindo” isto só a embananar o texto; Viúvo carpina a mata virgem acumulada, sua e raspa o chão com a enxada trazida dos parentes da esposa, Vítima da Silva, ajunta o mato, aí sobem aqueles incríveis mosquitinhos nele, uns gritam fininho outros mordem picando certinho, se dá de tempo em tempo uns tapas acerta um que outro e retoma a faina; enquanto conversa com ela, ela: eu era tão feliz e não sabia! (não sei donde imitei a sentença ou só parafraseei). Fala fala a cada enxadada na erva, fala com ela as coisas deles, deles como casal, ora altão quando sem importância ora baixinho irritando certas orelhas quando coisa íntima do par de pombinhos (xô melosidade!) Fala fala, ela se sente feliz por ter um homem só dela e se alembra em plantão na memória do casamento distante na capital distante uma felicidade tão quanto distante, o padre o cartório a festa simples os convidados ah o padre! agora, este agora pode até ser hoje, agora virou evangélica: uns a dizer que da Assembleia outros que da Universal e tem os teimosos a teimar ser da Batista ou da Metodista, porque a vizinhança ignara ignora e pentecostaliza tudo como ‘crente’. Vítima tem o direito de lembrar-se do casório com as bênçãos do padre, não tem? Sorri pra ele, ele prossegue desmatando aquela gigantesca amazônia já beirando o muro dos fundos e está cansado. Se encosta no cabo da enxada de pé, olha o desbrônquio na mata virgem, olha a ex-virgem e diz para Vítima que irá tomar primeiro um banho e depois uma cerveja, porém diz realmente que irá comprar pão e leite no Jorge, ali. Ela concorda, vai conversar com a parentela, vem no contrapeso o terceiro ‘roqueiro’ a participar do disco com os primos e jogar bola com os mesmos. Viúvo vai bravatar, enquanto isso, no Bar. Falar alto como os outros e contar piadas, rir beber, fumar não não fuma, não apreciando pequenos vícios. Ela conversa mais um pouco com os parentes, quando vê não vê, não vê o marido, decerto carinhando Benzinho lá na capital distante, a vítima Vítima, distante no interior, sozinha sozinha sozinha. E os filhos? Ora ora, moleque num tá nem aí.



D – A prole. A prole, é mole? é difícil e duro a aguentar pois garotões adoram a cama, mais tarde quererão, feio ‘quererão’ vai desejarão cama e companhia, não falei “mulher” para não dar constrangimento ao constrangimento mais adiante... A prole se levanta cedo. Vítima acorda mais cedo do cedo chama um cutuca outro mostra braveza num ferir sua mansura (mansuetude é de uso exclusivo na linguagem anti-coloquial, fica mansura, cabendo bem às vítimas, tadinhas, neste mundo) braveja igual trovão guerra e político de oposição, esbraveja a perda da hora, o despertador, aquele infame, já tocou faz tempo e nada e aí ela investe: Fulano! não escuta Fulano, Fulano-2° berra ela, então se remexe se volta se revolta resmunga; ‘Fulaninho’ ou Fulano-1° é quem deveria ser Fulaninho... Insiste Fulano-2°, acorda rapaz, pô, ocês vão ficar na cama e perder a aula!? Lilica concorda, é a cadela que faz estardalhaços de amor todos os dias quando as crianças saem ou quando voltam as crianças, concorda lá na frente, late esbravejando também na linguagem popular para a dona, ou só ama em vista de Viúvo ser o dono do pedaço (matriz ou filial?) e Vítima sendo propriedade privada do dono, segundo me consta dito e redito por orelhas a olhar no buraquinho (ah têm dois, o buraco é mais embaixo, o buraquinho no muro é mais em cima; agora uni ‘embaixo’ e ‘encima’ coloquialmente; sem esperar que concordem comigo acadêmicos e o pessoal que fala “veja bem” se os tais vierem a ler isto; no caso positivo negativo decerto e a desejarem praticar suicídio sem deixar pista feito crime perfeito; não creio também que a outra metade da população, os sem-cultura, venha igualmente a ler; portanto, tadinho de mim e de minhas orelhas curiosas e buracos enredeiros!) Enfim Vítima berra baixo os filhos a acordar para ir à escola, o café já cheirando na cozinha ela voltara a cutucá-los e aí a Lilica desembesta a latir popular, modera o gogó e usa linguagem outra: ladra educada como resposta ao abaixamento do berro de Vítima, como resposta sim concordando com a ama não dona porque a dona é o dono, ou em última análise é a dona sim porque Benzinho faz beicinho emburra choraminga e quem sabe não dirá: “num ponho mais esparadrapo no seu martelo, digo no dedo martelado, nem chupo o sanguinho do dedo se...” e ele, Viúvo Vivo desamortece e cede, portanto uma escala assim: dona do dono dono da dona-ama ama apenas da Lilica e daí reforço que tenha minha mão escrito certo ‘dona’ para dizer Vítima, Vítima da Silva com erregê e cique e registrada agora no evangelismo pentecostal num livro dos dízimos. E a prole. Bem, a prole se estica, resmunga outra vez, não canta antes choraria não canta mas se espreguiça alevanta. Então a batalha na guerra do banheiro, a fim de não tomar ducha fria credo, ainda mais Víti-ma do lado de fora num bater na porta com o nó do dedo fora de hora a hora pelo gasto de energia – o numerário enviado na ordem do juiz por Viúvo aí nada Vivo é curto não cobre os desperdícios, as crianças não entendem, criança nunca entende e gasta esbanja, a hora! Então saem, antes a batalha pra ver quem usa primeiro quem esquece de dar descarga primeiro e quem mija fora do vaso primeiro e se esquece melhor de levantar a tampa (a de cima da de baixo) do dito vaso sanitário e mamãe dará uma segunda bronca de costume primeiro. Saem, correm devagar, ambos querendo ser o segundo quem sabe com o prêmio de perder a hora do ônibus e chegar fora da hora à escola e então ter argumento para voltar pra casa mais cedo, tem um rock novo que receberam numa fita emprestada ou cd quiçá dvd –  Vítima põe a mão na cabeça. No entanto é válida a briga fraterna para ver quem usa primeiro come primeiro abocanha a maior fatia de bolo primeiro e sai de casa pra aula segundo. Vítima põe a mão na cabeça assim de cheia. Contudo quase não brigam os irmãos, discutem numa boa inimizade, não se xingam, quando positivo no negativo lá vem mamãe lembrar: “Vocês estão entristecendo a Deus!” Se olham sem rir, param. Por mais de dois minutos. Aliás quanto dura a paz neste mundo! Uns falam mais de dois minutos outros que até um dia e dão a isso o nome de trégua como entende o mundo. Se vão, tornam. Um Fulanão ou Fulano-1° chega antes, às vezes depois depois que arranjou um amor, isto compensando se mudar a família para o interior distante, na capital distante não se tendo sossego era só drogas e violências mais violentas, ficava a prole trancada de-dentro e de-fora os bandidos – só isso dito santificando a vinda ao interior distante e mais bem mais pelo amor, o amor salvará o mundo? Então Primeiro chega às vezes depois de Segundo, Fulaninho geralmente volta da aula depois. Antes Fulanão se senta com seu amor, ciciam as coisas de amor, combinam, quase se acariciam ostensivamente mas olham o público no ônibus circular a olhar e desolham, educados. Diria, se dissesse “Amorzinho” porém o namorado é maior que ele, desses tipos que temem bater a cabeça no teto baixo do veículo; Fulanão, não – alto sim porém ainda de pé fica livre para descer antes do seu amor, faz tchauzinho, sorri, na rua já o carro a andar e ele abana ao amor e o amor abana a mãozona a Primeiro. Assim chega depois, uma fome tamanha, entra, a mãe já vindo abrir-lhe a passagem no gradil, entra e quer comer o mundo, ai, diz Vítima, como adolescente come! quer engolir o mundo. Segundo, primeiro, chega, entra, carinha Lilica, esta usa uma linguagem popular a latir alegrias; aí se dirige à mesa, antes atirou o material escolar num canto e noutro os tênis jogados onde se possa direito tropeçar e Vítima reclama com razão – daí ataca a mesa e quer dominar a fome que o ataca. Fome é assim, igual o final do mundo: morre num dia e semelhante à fênix renasce noutro. Noutro dia a prole resmunga vai à aula volta dela, a Lilica corresponde, mamãe arresponde monossílabos e já tá com minhoca na cabeça a cumprir a rotina dos pessimistas.



E – Pessimismo. De negativo em negativo a galinha enche o papo. Vítima é vítima de moléstia. Incurável? que é curavel! Já por índole vê o alto por baixo, após a sentença da justiça (insisto sempre a grafar ‘justiça’ com jota dos petiticos; quem sabe por crer na Justiça, a Justiça Divina) tal sentença estabelecendo um lar a três, ela ama os filhos e eventualmente o seu homem vindo outro dia desbastar tiriricas de praguejar couves; teve a cervejinha a umidecer as bravatas no bar; ela ama, embora ponha pingos nos ii, ama seu homem ou ‘ex’ que acabou (nada recente, demorou meses os entraves burocráticos da justiça até à pensão) acabou de voltar para Benzinha e estando distante na capital distante. Ela, Vítima da Silva com erregê e tudo desconhece inteirinha Benzinho, apenas desconfiando a possibilidade das outras; daí terá ciúmes das outras? Tem ou teve Amor, Querido, Cucuzinho e isto nem as orelhas especializadas em ver buraquinhos e buracões na muralha que separa a verdade da mentira com o espalhafato da imaginação nem elas sabendo, ¿Cucuzinho não seria caso duma linguagem de alcova, além da padrão cheiinha de acadêmicos e da coloquial aqui pros caboclos em roda? Ora, dizem as más línguas que houve, quem sabe hajam, ainda outras, agora não se discute: é Benzinho. Vítima fica doente só em pensar, descartados todos pessimismos que corroem a gente. Porque Viúvo ficou doente. Ficou é uma forma safada: engloba dias meses anos dezenas nem o médico a saber certo. Agora, agora que Vítima ‘monossilaba’ tão somente disposta a conversar com Vítima-B, Vítima-A é boazinha um anjo na doçura e só põe azul e açúcar nela, mas Vítima-B lhe responde perguntando será que foi operado? o telefone tilinta que já foi, está na mesa em recuperação lá longe na capital distante num certo hospital pago com o olho da cara, expressão bem carrasca. Ela atenta atenta e atende, conversa, desliga; religa quer saber mais. Horas depois dizem pelo fio e telefone é bicho ingrato: ele conta resume deturpa sonega informação; dizem que entrou às 13:30h e permaneceu até às 16 horas na cirurgia. Então vem depois, agonias depois, num uf o tilintar outro: se recupera Viúvo! Daí chegam os parentes dela como visita, Vítima conta no tim-tim por tim-tim a operação o antes o após e comenta a se contentar em compensação, compensação bem dito de pessimista com doutorado: Menina, diz Vítima num misto de Vítimas A e B, e ela, continua Vítima, nisto a gente pergunta quem será ela, a sogra amada idolatrada nos salve?  Vítima não nos responde e continua à parente: ela indo pra lá pra cá com meu carro; ainda A ou B carrega no ‘meu’! pera lá, tem carro? o carro é status é o sine qua non da forma burguesa de pensar o mundo. O mundo soçobraria sem automóvel! O dele ficou pajeando a Lilica na garagem cercada de grades por todos os lados, ilha da segurança; e acumulando poeira, ela num despique iria lavar limpar lustrar o dele para a outra (na matriz ou na filial?) enfim a rival rodar com o de Vítima por aí naquele trânsito do inferno na capital distante! ora ora, capaz. Menina entende, mulher entende das coisas de mulher. Vítima tem mais outras dores, não só a da preocupação. Ora ora ora estes ‘ora’ por estar com o saco cheio pois é chato ouvir pessimista arengando, em suma retruca a mana Menina, parenta linda de se ver pra se viver, ora Vítima: desabafe com os garotos. A prole? num tá nem aí. Apenas concordando não andar certa no errado do rock nas alturas enquanto papai geme lá na mesa de operação, então canta baixo as tristezas de saber o genitor entre a vida e a morte, como figura bem qualquer cirurgia de hospital, das melindrosas cheias de complicações até à pequena cirurgia que pode ser também de trato caseiro com curativos por mãos acariciantes de Benzinho num dedo mole preso no duro martelo assassino. Entendem isso os filhos e abaixam o som da alegria que as tristezas e acabrunhamentos intentam estragar ou só perturbar. Vítima se despede de Menina, ou pelo contrário é Menina que se despede indo embora a outra  fica; daí grita Lilica para não gritar e não usar linguagem chã a latir, fecha o portão do gradil a chave, volta para dentro onde é mais fácil sofrer sua desdita.
F – Cocozim. Vítima andava azucrinada a andar andando de lá pra cá de cá pra lá na área restrita, a lavanderia, aí imaginando conceitos de matemática ela tendo pouco mais que umas noções além das primeiras letras, a vida fora dura antes de Viúvo com Viúvo após Viúvo, ainda mais Vivo. Daí, e por essas razões que as razões desconhecem mas o sentimento sabe de goleada, daí não sabe bem área, faz as contas remexe retifica refaz cálculos e... e deixa pra lá: pensa o quintal uma área grande nos metros grandes, dos quadrados, quadrado ela entende; enfim é grande, grande e até maior que seus dramas, ainda assim pensa nele, no Viúvo. Eu pergunto por perguntar, sem esperar o absurdo da resposta, pergunto se com tudo por que passa, a trabalheira com os moleques, nesta hora estão enfastiados do saber que os mestres lhes empurram goelas do cérebro a dentro lá na escola e tadinhos aguentaram os solavandos do circular e antes o frio o vento gélido e a triste separação de Lilica a berrar quando saíram seus ladrares assustando a vila ainda a dormir, tadinhos de nós seus vizinhos, eles dão trabalho enorme para Vítima; indago se apesar disso ainda sobra uma tantadinha no sofrimento a pensar nele, nele! no Viúvo, aquele que o padre (o padre foi posto agora a escanteio e no seu lugar confessa Viúva ao pastor ou chora as mágoas com o sacerdote evangélico do seu templo; ele que é bem bonito porém casado e decerto não no padre e cartório, consorciado com sua consorte, aquela metidinha) aquele que o padre lhe juntou em casamento e disse solene: até que a morte os separe, talvez tenha usado outra linguagem, o nervosismo não deixou ver a beleza de tal linguagem, o padre um pouco feio gasto e ilustrado, mas que seria ‘ilustrado’! Vítima antes de se autocomer e se autodestruir me responde na cara assim, me deixando atarantado: o que é que o senhor tem que ver com isso? Bem feito para o escriba, o qual prometera ele mesmo não se intrometer na vida alheia e mais na moral da vida alheia. Contudo Vítima retoma o pensar, vai pra lá, volta, torna, retorna retoma o pensar, na ideia fixa, monoideísta consumada: ai meu querido Viúvo, estará se recuperando, quase morreu cruz-credo, aí se lembrando católica ex-católica, lembrou o padre a festa após o cerimonial e... ah, ainda bem que vivo Vivo. Logo se recuperará, virá nos visitar quiçá morar comigo por todos tempos e tempos amém. (Se benzeu). Aí, no vai e vem externo não externando o íntimo e a olhar se alguém enxerido não vendo-ouvindo seus pensamentos, descuidada pisa. Oh isto é um desastre! Lilica sua fia... (tapou a própria boca abusiva, olhou melhor se alguma orelha de plantão e prosseguiu:) você sujou fedeu esparramou emporcalhando a garagem, mamãe pisou, olha aí, aqui, sua... Lilica se assusta com a descoberta, não prima pela alta educação, não faz sentadinha comportada de bem com a sociedade e sem sujar o assento com xixi como os manos antes de sair para a aula; e nem limpa com rolo perfumado, daqueles de florinhas, por sinal se esqueceram de trocar só tendo o cilindro de papelão do meio, os comerciantes devem estar maquiando e faturando sobre a coisa ao pôr menos metros pelo mesmo preço, a subir sub-repticiamente o preço, a dar na vista, visto acabar mais rápido que de costume; não, não usou papel higiênico e – é incrível, mamãe até vai dar a bronca! ... – não deu descarga também; sim economizou água, a água que falta no planeta e ajudou a baixar a conta, deve estar errada, devem estar botando aleatoriamente os números, porque onde já se viu a conta tão alta! ou será que foram os meninos, indaga-se Vítima da Silva, Silva da parte do seu homem via padre e cartório, agora tadinho na recuperação: ah dará uma chamada nos filhos, e pegar-lhes-á no pé por desajudarem no serviço doméstico atirando papel usado fora do cesto mijando na tampa e, pasme-se! não dando descarga. A Lilica suspira de alívio, no entanto mamãe (a cadela se pensa irmã dos meninos, mais do menos velho, o pequeno, que é grande, e menos um pouco do grande, esticadão e que fala em falsete não se sabendo homem com agá maiúsculo a falar sonando como garota; e a mãe deles por extensão claríssimo ser sua mãe; então mamãe:) mamãe olha feio pros lados da cachorrinha e reclama: cagona ca-go-na! vê de soslaio se o indevido não foi escutado, se porventura não tem uma ‘irmã’ nas imediações, toma a pazinha a vassoura, recolhe com raiva incontida as bolotas, “pô por que não faz num só canto pô”. Põe na sacola do lixo, ah o lixo – esquecera que hoje é quarta, dia de lixeiro, recolhe depressa outras sacolas plásticas plenas de tão cheias, acrescenta a do cocô, olha mais feio ainda mas é bela não tem jeito, dá um jeito de fechar ao menos a cara para a fêmea canina e daí vai pôr tudo na rua; quando fizer uma casa, o Viúvo prometeu uma, aí manda colocar uma lixeira grande na frente no passeio público; enquanto for residência alugada põe no chão mesmo (então pensa a se lembrar da canzoada a remexer os sacos, esparramando tudo, terá de refazer o serviço). Desse inocente cocô foi atirada ao cocô de Viúvo... Viúvo andava um dia loguinho após a mudança da capital distante para a distante cidade do interior distante a arrumar as coisas, furar paredes com o zunido da furadeira, aquele gritadinho irritante dela, bate aqui bate lá empurra móveis desloca badulaques, nervoso; aí também pisou, ouviu Vítima um montão por cima dela – você, Vítima, não quis um cachorro!? alimpe. Ela mentalmente corrigiu: é cadela e a Lilica ficou olhando meio desconfiada sobrar algo daquele entrevero para si. Agora volta no caminho do pensamento, pensa com saudade em Viúvo, mais bonito do que nunca na imagem, já sem ter que tirar os chinelos lamecados de fezes e a pegar-lhe no pé, vê o homem no seu esplendor, constata triste na sua alegria fugaz que Viúvo está nas mãos de Benzinho, será que a ‘vaca’ nojenta é quem dirige meu carro! olha o carro dele ali a cobrir Lilica para que possa defecar em paz e possa ao abrigo xingar na sua língua os passantes: meninos de escola insultadores contumazes, bêbados, vendedores de porta a porta, meu Deus as palmas! Varre empurra ajeita empilha apara com a pazinha deposita na sacola do lixeiro...  ai! não é um lixo lá na capital aquela mulherzinha!!



G – Amada-Amante. Benzinho é linda de morrer, lá na capital distante. Roda por aí, quase bateu na traseira doutro, quase a raspar lataria naquele trânsito bruto daquela selva de pedra, ‘burguésa’ seu veículo e num tá nem aí se raspar se estragar, nem chiará Viúvo ‘se’; não por ser má condutora choferando displicente no movimento, quem sabe a exibir tanta beleza. Poderia fazer isso e mais: consumar um choque com outro carro somente para estragar o dia da outra lá na matriz (ou é filial!) mas não faria bonito esse feio caso soubesse ser o automóvel de Vítima, não sabe: crê em Viúvo como proprietário, anda ela apenas a ajudar o namorado – Viúvo a apresentou na sociedade por sua namorada – ela já foi namorada doutros tantos namorados antes do antes, quer auxiliá-lo a levar trazer transportar a velha chata, nunca se deu bem com sogras; porém faz o possível, queima quanto precisar ou puder ou desejar gasolina, ele a corrige: Benzinho, é álcool e fica de manhã nesse frio dando um duro na partida a ligar pegar funcionar sair da garagem (pô como tem ladrão!) sair sim e ganhar a rua. Ainda Viúvo critica sua arte no conduzir, a casa não: agora lhe deu outra empregada, a antiga era uma ladrona, óleo arroz e até joia, somente a que Viúvo ofertou de presente por aquela noite não levou embora, pensou a patroa fazer beó na polícia; essa empregada agora é boa e nisso não tem de se virar na cozinha sendo Viúvo tão enjoado etc. e tal. Tal pensa no pensamento a sua disposição para enganar o trânsito caótico enquanto a sogra matraca matraca matraca, que fazer! No entanto agorinha leva com atenção e paciência o namorado pra casa, ‘lar doce lar’ e coisa e tal, sim com muito cuidado no volante: não vai que abra a barriga cruz-credo! e ele narra tudo a Benzinho. Tudo bem entendido, as coisas da cirurgia, o que presenciou não presente anestesiado e os médicos e suas parafernálias a salvá-lo, isso não viu porém assim mesmo detalha para ela as coisas, mais as que se seguiram depois, ou sejam as dores os incômodos, enquanto Viúva lá longe no interior distante impossibilitada de ouvir tantos incômodos, Benzinho ouve dá corda espicha a conversa, quem sabe a tapar um pouco a bocarra da conversa da sogra assinzinho com as dores do filho e aí se unindo ambas no sentimento. Tudo não. Nem poderia. Poderia Viúvo contar de Amor, de Querido, de Cucuzinha nem se fale... não fala, é hora e vez de Benzinha e não dessas outras e outras mais namoradas; ora, não seria que fosse por essas razões que Vítima foi ser vítima ou viúva Viúva no distante! Ele não diz. Não sabe? Sabe que dói, cuidado “Cucuzinho” grita ele numa quase trombada... ela arregala olhos ao seu homem, olha pro lado dele e pro lado da sogra, a sogra a engolir numa boa política a língua...

H – Amada Amante-II. Pouco depois, ou melhor errando antes, antes disso tudo é o nada a Benzinho, não sabia de sua existência nem ela que ele brigado com a namorada e a completar o lote por atacado com outras mais namoradas (ele até hoje não suporta imoralismos, não admite que fossem amantes – lembra aos amigos enxeridos ser inclusive casado no padre com Vítima, ainda não Viúva, ele sim viúvo Viúvo Vivo sem se imaginar Vivaldino, moralista à beça e lembra aos esquecidos que tem esposa e dois filhos, não iria dizer que um deles é um pouco nhe-nhe-nhem pois machão, machão Viúvo, o qual tem dois carros, sim um estando em nome de Vítima, já vítima Vítima com certeza embora não viúva Viúva, em nome sim e de fato não porque a boba tem carteira de habilitação do tipo “alô” e não tem coragem de enfrentar o trânsito maluco na cidade maluca – o resultado é simples para entender: fica Viúvo com o dele e o dela, o dele, no momento que o estúpido escriba registra estas desgraceiras tapeando não se meter na moral dos outros, nesse momento o dele-esposo está com ela-Vítima, Vítima da Silva, e ainda por cima na garagem com a Lilica por baixo para a cadela mais confortavelmente defecar; enquanto o carro de Vítima-Viúva se esperneia e se espreme entremeio aos motoristas doidos na harmoniosa capital distante, perto a dar um xilique na ‘chofera’ Benzinho ao ter de aturar a mãe do namorado e o namorado de mamãe, mamãe a ralhar por causa dos vãos e buracos da Prefeitura ladrona, isto referente à ladrona distante e não à ladrona distante no interior distante. Pera lá: vou escrevinhador reler este imbróglio a me achar. Pronto, reli, achei, heureka! achei: o bruto maneiroso dito Viúvo ao pensar em Vítima quiçá nos filhos e no Bar do Jorge lá distantes, próximo de Benzinho a dirigir nuns zigue-zagues banais e ele involuntariamente chama a chamá-la à atenção nos perigos, perto mais proximinho as suas dores na barriga – aí errou no dizer em vez de Benzinha “Cucuzinha”, isso. E agora? agora teria que dar explicação em casa: ou explicando que errara o nome, errara de namorada, ou teria de se dizer doente o dodói essas coisas pra Benzinha esquecer, mulher nunca esquece, dizem que elefante também nunca e esmaga e imprensa e chateia e mata! Mata? me manda embora pensa Viúvo, aí lembra a casa ser dele e a de Vítima, agora fechada na capital distante, a casa igualmente é dele, a de Vítima no interior distante sabe-se alugada mas quem paga o aluguel! ele. Ele fala altão isso e espanta pela segunda vez Benzinho e nisso a sogra de Benzinha não sabe o que faça para defender pondo os paninhos quentes na defesa do filho. Pera lá outra vez: fecho os parênteses ou não digo o que precisava dizer. Que dizer? ora: a temência que saiba a namorada das outras namoradas, admitindo não admitisse a pecha de amante e amantes, isso nesta concordância da discordância. Assim encerro os parênteses crendo haver ganho o prêmio Guinness Book na especialidade encher linguiça em literatura. Todavia fi-lo com boa intenção, a ganhar a grana sim mas para sobretudo não entrar na moral alheia. Isso enfim). Resumindo é o nada porque Benzinho não existia, existia no seu coração de homem probo e de respeitabilidade no bairro onde ninguém sequer lhe sabendo o nome, apenas os dos filhos e da Lilica, aquela cadela porca, porque menino e cão se chama se grita toda hora e os ouvidos alheios não ficam alheios. Existia sim e existiam outras no coração de Viúvo a enganar vítimas sobretuto Vítima; nessa altura existia de fato só Cucuzinha, esquecera inclusive não se lembrar mais de Amor e Querido, em não ser vez que outra; no subconsciente apenas existia Cucuzinha. Ai ai ai Cucuzinha... Ia pra lá pra cá com ela, feito casal. Colônia de férias, Bahamas, Jersey, Cancum, Myame (credo meu inglês caboclo!) enfim iam pra todo canto, à Suíça inclusive no entanto só para depositar ou tirar uns trocados da conta, não sendo da conta do governo e menos da conta do escriba aqui a desnecessitar ver estudar malhar moral alheia. Uma dúvida final: e na oficina de marceneiro a amante perdão namorada auxiliava igual Benzinho, esparadrapeira a valer? Isto não sei, nem Viúvo decerto sabendo, seu negócio sendo leitos conjugais; eles aparentavam consortes na lua de mel. A lua durou a vida toda, até negar Viúvo uma qualquer coisa à namorada, já detentora de outros namorados, ou por mais namorados ou por mais ricos e viajados. Assim, deixou Viúvo viúvo, quiçá Vítima (aqui precisava chamá-lo “Vítima-II” a  ‘I’ sendo Vítima, uma expert em sofrência no interior distante). Chorou? Em público não, porque homem não chora. Nem deixou patente e claro por que a chamava Cucuzinho ou zinha. Talvez, isto num alvitre magro sem potência de explicação às verdades e às realidades do imaginário, talvez em virtude dos segredos de alcova, a dizer o repetir (repetir é manter as linhas literárias a sangrar; um artifício dos escrevedores, julgando eles esquecidos os Leitores. Ou burros. Todavia como falei, nisto não me meto, não me metendo nos sentimentos e no moralismo alheios).
          Agora resta a esclarecer outros amores, amores que cer-tamente Vítima, encafuada no interior distante, desconhecia ou tão só no pensar supunha, sempre errando, gente costuma errar até no acerto...



I – Vítima ou Vítima-I outra vez   Lá na cidade distante da capital distante, lá, aqui, Vítima acorda mais cedo que na semana por domingo; o restante da burguesada acorda ou só se levanta mais tarde por domingo, ela mais cedo; pensa primeiro Viúvo para depois pensar nos filhos, estes ainda a roncar no outono frio e escuro; mas antes das seis já acorda a trempe, a qual resmunga como resmunga a se levantar à escola; se revesam os irmãos no banheiro, um já respingou meio dormindo pra fora do vaso sanitário o xixi para o outro não reclamar estando na cozinha no café com leite e manteiga, Vítima só alerta à feiura dele a mastigar de boca aberta “parece porco” lembra ela esse esquecimento e então parte se trocar em pôr o uniforme (uniforme igual às outras no serviço religioso ao qual se prepara). Chega um ao café matinal (e não seria ‘madrugal’! pois escuro ainda). Chega o segundo menino, o menor que é alto. Nem se conversam se olham comem rápido e mudam a roupa aos ofícios religiosos domingueiros. Até pretendia iniciar este capítulo atacando a ‘irmã’, sem qualquer valor de juízo e sem mexer com sentimentos e a moral dela; o estardalhaço que a Lilica fez decerto na passagem de um cão andejo me desviou o intento, aí Vítima a acordar os dorminhocos e tudo o mais neste menos, e foi que esqueci a dita ‘irmã’. Chegou ontem ou outro dia qualquer, entrou conferenciou matracou, matracaram ambas à saída; a irmã já longe, sem estar distante na capital distante, distante sim pois perto de Vítima distante no interior distante, daí gritou andandinha para Vítima: façamos tudo por Jesus. Chavão ou hábito, o certo é que Vítima trabalha e participa com elas, elas aqui a somar umas três na meia dúzia que vi na rua dando recado para a Irmã-Vítima, Vítima da Silva, não sabendo qual recado pois não me meto na vida das outras pessoas ou em sua moral. Agora é apenas uma irmã a ser atacada pelo escriba, inocente escrevinhador. Se despedem, sorriem, prometem, Vítima fecha o portão no gradil e Lilica ficando feliz da vida que a ama não saia, antes fique a limpar os toletes da noite acumulados e a ‘fedorar’ embaixo do carro dele, o dela tá lá nas mãos inseguras de Benzinho a transportar namorados e sogras. Ah tem a questão diferente da diferença de marcas dos autos, porém isto não falo – iria também manchar a honra dos veículos! pois prometi e cumpro não meter-me na moral dos outros, aqui automóveis, bastando falar pretos e novos, do ano? qual ano. Estão os três moradores do lar prontos e à disposição da seita pentecostal, disto dizendo os vizinhos mais e outros menos ignaros crentes. Contudo não saem em dupla, dupla não: em trio a formar uma família unida marchando unida; não, o garoto enorme sai primeiro, bate o portão, a cadela faz um escarcéu, o menino anda cadenciado meio moleirão como é seu jeito; vai a ruminar a mordida que lhe deram no último dia de aula onde a criançada empenando apelidou-o “maricas” pela fala maneirosa e efeminada nos trejeitos; vai aborrecido ou apenas a pensar no namorado: será que a mãe dele irá viajar mesmo! aí arranjará um pretexto qualquer como por exemplo um trabalhinho escolar extra após a aula e se entregará na casa do outro nos braços do seu amor, um rapagão mui visado pelos colegas na escola. Aí sorri felicidade e prossegue a caminho do templo. Os dois atrasados saem por fim, o mais novo aguarda a mãe, esta faz uma vistoria rápida no lar, toma a bolsa e os livros religiosos, até o que o primogênito esqueceu de pegar e saem batem o portão trancam o portão com expressiva e furiosa saudação de Lilica, nadinha religiosa. Ganham a rua, passam a rua, somem no fim da rua no começo do dia; sua excelência alaranjada sorri raios a clarear o domingo; mesmo porque não se admite domingo sem sol brilhante, com o sol no sábado e segunda com preguiça. Vão indo aos ofícios; enquanto isso, ela não quer mas tem ideia fixa no seu homem: estará atrasada a pensão que o juiz determinou? ou não está a contento com a limitação do numerário? ou outro ‘ou’ como por exemplo o da saudade; e assim Vítima vai ruminando as coisas enquanto não chega ao templo, o pequeno esticadão não fala e ajuda o pensar materno. Aquela ‘vaca’ pra cima e pra baixo com meu carro e pior: com Viúvo, Vivo, pra lá pra cá e também a ‘megera faladeira’ com o casal, megera é o nome que amorosamente destina à sogra, porém nesta altura não seria ‘ex-sogra’! Mais nesse pobre menos que é sua pobre vida solitária a três, pensa mais um pouco: na outra visita, não nesta última e recente viagem de Viúvo antes dele ser operado pelo doutor... aí não lembra o nome do médico, lembra-se dele apenas. Ele dormia na outra cama, pediu, quem sabe pela febre em vista dos tumores (seria grave!) pediu sim dormir com ela na sua cama; ela? prontamente. Na madrugada entretanto abraça a esposa e fala com impetuosidade “Amor!” ela se alvoroça se dá se doa se... ele acorda, oh diz a esfregar os olhos, era você, Vítima... e sorri desajeitado para seu lado. Fazem o que podem. Agora ela pensa como tão estranha fora a manifestação macha... seria que... tem noção da existência duma Benzinho, por sinal péssima motorista etc. e tal, tal a ruminação da infeliz religiosa a caminho da prática do bem, o bem que para muitos é participar do cerimonial certo no dia certo, o certo é o domingo. Tenta deixar de lado aquelas embromações e atrapalhadas que a existência lhe aplicara, a trocar tudo pela expectativa de trabalhar com as criancinhas na escola dominical; aprecia deveras crianças e sorri com o coração.
J – Amor com Amor se paga. Ah quanta poesia tem o mundo, o mundo distante da cidade do interior distante e da capital distante, cor-de-rosa azul um roxinho para desbrilhar extremos – ah o amor. “Amor”, diz ela a ele, você sonhou esta noite com uma tal de Querido! Ele, Viúvo mui Vivo, a se defender da defesa na defesa: não meu bem, Querido é o filho do meu chefe, quando eu trabalhava na marcenaria do Estado no estado em que se encontrava (dá a fim de fugir do ataque, sua versão de burocracia e corrupções mais, segundo seu talento e engenho e arte, só a despistar avanços das oposições nos meandros oníricos em que Querido ainda pensava ser de antes de Amor, a Amor ali fungando despertada assustada preparada a descobrir patifarias namoradas; e de orelhas abertas, acordadas certamente pelos roncos dos viúvos ou dos vivos, que depois se poriam de vítimas, a ler-se Vítima-2ª, a primeirona lá no interior distante da capital distante; e aí ele pensando que ela se esquecera graças às artimanhas das embromações e espertezas machas; ora, imaginava o homem, não desse certo errando ainda, mostraria o dedo o martelo o assassino e por fim umas gotas de sangue vermelhas da martelada; isso não sendo possível porque a consertadora de dedos com esparadrapos e melecas vermelhas ser Benzinho, porém a Benzinha Viúvo tendo apenas em vista na época, perdesse Amor. Ela? não caiu no laço:) pera lá, Amor – a história me parece mal contada, semelhando mais a uma estória... o fato, meu belo exemplar do macho da espécie em extinção, o fato é que você falou “Querido” e me abraçou e... ah, voltarei pra casa de mamãe (então pensou numa punição maior: trazer mamãe pro genro-emprestado se divertir, dentro do estilo ‘sogra e genro’ num amor perfeito) – disse assim Amor a chorar e ele... Ora bolas, chega! deu joia, deu outro carrão do ano, deu apartamento em cobertura no bairro chique da capital distante: comprou a paz e a continuação daquele casamento a cumprir ordens do padre “até que a morte os separe”... pera um pouquinho, tá esquisito; a citação aspada tem valor ao matrimônio dela, Amor, com o esposo dela, ela apenas amante, não amante não: é um vocábulo ferino demais; reparo isso com outro mais usado hoje portanto já com arestas aparadas – namorada, namorada de Viúvo, não exageradamente vivo porque deixou que do seu sonho no sono transpirassem despertassem indevidos e nisso o pesadelo realista com o gritinho erótico Querido. Tem mais nesse menos cheio de sonegações no curto capítulo ‘J’? Tem mais umas quirerinhas e miudezas outras mas não conto. Ou entraria nos sentimentos e na moral deles, bato o pé teimando não me propor escribamente falando narrar nem aparências nem alcovas, ou, ainda, seria flagrado nas calças curtas entrando de novo na moral. Conto. Conto apenas que o esposo de Amor voltou mais cedo (terá esquecido o maço de cigarros ou um documento; não pegando Vivo, ao contrário não daria para continuar esta prosa, não o pegando por pular a janela de cuecas e a deixar Amor assustada). Vivo Vivo, viúvo Viúvo, nunca mais tornou ao ninho naquela mansão, decerto não sendo pela promessa e ameaça de uma sogra novinha em folha para uso nos abusos.



K – Vítima novamente ou Vítima-‘II’. Um reparo a este capítulo. Não existe ‘k’ antes da reforma que vivia depois, tomei escrevinhador a letra emprestado doutros alfabetos mais conservadores, por ser conservador. Defendo também o ‘w’ e o ‘y’, vítimas relegadas ao esquecimento por causa da modernização. Portanto mantenho K esta parte da volta de Viúvo enxotado à Vítima. Tornou o macho da extinção à casa e aos filhos, embora visse com desgosto a tendência ao maneirismo e os trejeitos do primogênito, aqui tratado Primeiro. Voltou aos seus, à Lilica não, loguinho chegaria ela nenê canina e iria fazer as arruacinhas e antes da bagunça chorar bastante noite toda não deixando ninguém dormir e Viúvo: Vítima, querida, esta ainda emburrada pois ele falara altão em sonho “Querido” e depois retificara no sonho seguinte “Amor” ela desejando ouvir “Vítima” – ¡e não seria a causa de o juiz ter facilitado os trâmites e dar carta de alforria com pensão à senhora Vítima da Silva! – querida, não tem do que reclamar essa choradeira, porque eu não queria cachorro em casa, tá bem: cadela, pronto; eu não queria e nem escolhi esse nome besta, poria antes um nome inglês na cachorra; agora, minha filha (ela odiava quando Viúvo a usar tal expressão, porém nada dizendo, se falasse defender-se-ia, rebelde, portanto não mais vítima Vítima; compreenda-se este imbróglio; prossigamos:) minha filha, agora você que limpe o cocô varra o xixi e se possível tape a boca... ah, tem mais um porenzinho: vai crescer e mijar na calota de meu carro, na do seu também, daí um prejuízo (ela quis falar: pera lá boneco, cadela não levanta a perninha pra urinar na calota e nas árvores a marcar área de domínio; nem abriu a boca, só a ouvir Viúvo exaltado) e, continuou o macho da espécie, e se possível tape mesmo a boca dessa filha... ou seria filhinha-da-pê? ou ocê tapa o focinho dela ou volto pra casa de mamãe ou torno à marcenaria, que por sinal o serviço tá atrasado, tem umas encomendas de móveis etc. e tal. Ficava no lar de dia, Vítima montara uma escola infantil para ajudar no orçamento pelas despesas altas, porque o muxiba não queria deixar todo dinheiro para cobrir os gastos e agora tendo a boca de Lilica a mais para comer; de noite fugia para Amor, perdera Amor ao marido de Amor, perdera Querido, fugia então às outras fêmeas da espécie nada em extinção, ao contrário: cada vez mais viçosas e apetitosas. Assim Vítima apelou à justiça; Viúvo levou a mudança da capital distante ao interior distante, se pôs uns dias de férias a beber umas cervejas e praticando bravatamento no Bar do Jorge. Depois partiu ao distante deixando os seus no interior distante onde Vítima treina paciência e sofrimento a edificar sua prole. Agora a prole desafina seus rocks com ajuda do primo menos desafinado mas compensando a ser bem mais bagunceiro: grita inventa jogos grita grita a inventar bola bate bola briga, briga de mentirinha no faz de conta e aí ganha no grito. Vítima deixa que a paz enterre sua paz lá no quarto de um dos filhos; e foge a conversar com a parentela feminina na visita; conversam, lamenta a cirurgia de Viúvo, lamenta os desmandos de Benzinho e indaga: “será mesmo que Viúvo tem outra na capital distante!” Neste ponto Vítima virara de fato Viúva. Porém a mana a consola, qual o que, deve ser intriga da oposição, decerto a mãe dele etc. e tal, tal a peroração. Aí desembicam a narrar as coisas no templo e a participação religiosa na vida da comunidade; se contam as ‘irmãs’, contam as entrevistas com as deserdadas da sorte; Vítima põe à mana os diálogos com as sofredoras. Eu disse, diz Vítima que disse à mulher no desespero: “a senhora não iria mesmo pô-lo na rua... Veja meu caso: não tenho contato com homem...” assim despeja suas ‘vitimuras’ por cima do desespero da desesperada. A mana anui; conclui Vítima, a falar então abobrinhas borrachas e ‘vasiismos’ a encher o falar da vida. Como toda gente comum. É isso.

L – Desenrôlo do imbróglio com dois extremos no meio.
Pera lá, desembucho a acabar de vez com o acabar – ou não acaba. Os dois extremos. Vítima-Um num dos extremos, na cidade distante da capital distante do interior distante num pensar; Vítima-Dois, noutra extremidade, na capital distante da cidade distante do interior distante num pensar. Vítima tadinha – por que tadinha, retiro a pena, ou intrometer-me-ia no sofrimento dela, ela com direito garantido a ‘masoquismar-se’, como tem direito a viver e direito a morrer e antes disso com direito a arranjar um amante, amante!? credo em cruz: namorado apenas pensa, mas isto impensável; já afirmou outro dia à mana Menina e confirmou à mãe delas, sogra, uma das sogras, de Viúvo Vivo, mãe de Vítima enfim, pela seguinte frase: “não tenho mais contato com homem em extinção!” não, não é bem assim, ‘em extinção’ acresci pra pôr sal pimenta ou vinagre como tempero. Vítima fora comedida nestes termos, que repito a fim de não se dizer estar o escrevinhador a se meter na moral alheia: “não tenho mais contato com homem!” Bastando-lhe a prole o cocô de Lilica e o trabalho junto aos desavalidos que procuram o templo. Aliás ninguém ignaro me esclareceu definitivamente se é pentecostal mesmo ou se mesmo fica ‘crente’, me arregimentando como membro da vizinhança ignorante. Isto posto ponho a repetir tão somente que a bela senhora cuja vizinhança ignorante tem-na por Vítima, essa senhora ainda não chegou às suas conclusões matemáticas, aquele negócio da área do latifúndio, mui soberbo em tiririca e couve; ela que ainda permanece a andar de cá pra lá da lavanderia onde balangam engraçadinhas as peças de roupa a pingar no chão por gravidade sem gravidez, só molhando nada mais; desse lugar até ao xixi do carro do esposo, ‘ex’ o juiz aceitando e melhorando a piora da exígua pensão à prole que come um mundo e canta desafinadamente seus rocks, o Primeiro desafina mais numa ‘pró fala feminina’ e o Segundo que é menor grandão ameaça mais o desafino na ‘fala pró macho’, já a festa da Lilica a fazer festa é ‘fala pró canino’ mesmo, se bem mal popularize sua linguagem a latir feio fino na macacada que a insulta passando após a aula do grupo escolar; e na linguagem mais acadêmica quando pensa que Vítima vem armada de língua e vassoura, se engana, tadinha da cadela, pois Vítima pensando varrer a calçadinha e sorrir ao vizinho, nada de jogar fora, se mal que não pentecostal nem crente. Está portanto assim a vida de Vítima da Silva, ganhou em justa causa o direito de usar o Silva de Viúvo, também Vítima como ver-se-á em tempo. Mas na outra extrema deste meio encontra-se Viúvo, Viúvo anda distante. Distante na capital distante do distante interior de Vítima, senhora mui fechada e que não externa o interior; ele não. Viúvo da Silva é vivo, externa tudo, bravata inclusive, fala tudo, mesmo distante da cerveja distante do Bar do Jorge próximo; havendo trocado só de bar e de companheiros bebuns – externa tudo; quer dizer, não seria um Vivo vivo se externasse tudo: não fala de Amor de Querido de Benzinho; de Cucuzinho muito mais menos – é um túmulo. Fala bastante, tagarela mesmo, ao som do arroto doutra cerveja, fala sim doutras namoradas, confia, mais bêbado, a um outro bêbado o dizer ‘amante’, que a sobriedade a probidade a respeitabilidade inibem dizer. Porém fala só por alto. Por baixo apenas conta de marcenaria, do dedo, do martelo assassino. Mata e mostra o pau, positivo. Agora no entanto não fala somente: pensa num banco de jardim, terá pensado a olhar fazendo a barba ao espelho, o ingrato frio direto verdadeiro e absoluto no mostrar rugas e o trabalho lento do tempo. Agora pensa, sente o frio do cimento nas nádegas, arcado para frente, vendo sem enxergar os passantes indiferentes às dores alheias. Será que será preciso voltar murcho à prisão domiciliar... Todos o abandonaram, antes todas já haviam deixado solitários seus bolsos anteriormente recheados; as fontes se esgotavam ou se esgotaram. Todos. Com exceção da enfermidade resistente a cirurgias e tratamentos. Agora a pensar pensar pensar. O que lhe sobrara. O que ganhara no ganho. O que se ganha, o sonho? Viúvo da Silva constata a solidão.
- - -
          Ah se me dessem a palavra. E se não houvesse intromissão na vida alheia. Por que, pensa agora neste agora o escriba nas suas ‘escrivinhações’, por que não uni a somar em boa aritmética duas solidões pra ver se ocorria uma realidade! Mas a realidade não será um sonho, onde nem as vítimas nem os viúvos podem entrar; para não exporem a moral aos outros. Talvez. Com certeza.
 
 Marília   maio  2006

                                         














































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:




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