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Blog Livros Inéditos)
Entardecer
sem Sol
(romance)
Moacir
Capelini
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“Toda solidão cresce de
acordo com o quadrado da
distância em que se
nutre e propaga, e dessa forma
o mundo deixa, cada vez
mais, de tentar penetrá-la.”
Emil
Ludwig
Cap.1°
Naquela manhã
que poderia ser radiante e iluminada mas não era, era acabrunhada a manhã como
fora quase tétrica terrível ao menos a semana de chuvisco nuvem chumbo e apreensão
– quase assim também ela; a dona de casa Tereza, grafado com zê visto ser da
linguagem da época e que abreviavam preguiçosos ou por costume Te, sequer pondo
o chapéu do circunflexo como determina a lei da língua obrigatório nas
oxítonas; ela nem por sombra de dúvidas tendo essa preocupação nem drama no
redigir, não passara das primeiras letras inclusive; mal dando a soletrar no
livro de catecismo, uma cartilha borrada suja pelo uso desuso no tempo na família.
Além do mais o tempo escuro e dizem mesmo fazer mal desgastar a vista ler as
letrinhas, os títulos e subtítulos sim, não as pequenas que dançavam não
paravam quietas na leitura. Em todo caso trabalhava, trabalhadeira. O João,
mesmo o João ao qual precisando frequente perdoar nas rusgas domésticas, mesmo
ele reconhecendo essa verdade. Trabalhava com afinco no infindável, visto
serviço de casa nunca terminar, a gente está preparando o almoço já pensando
que fazer na janta – nunca termina todos sabem. Curioso é Te não perceber o
desgaste no gasto de suas energias no momento do quefazer, só noite adiantada
sentindo certo cansaço, na hora que as pernas ansiam e os pés exigem cama; aí
num rápido levantamento da jornada é que avaliava. Nesta hora não. Anda limpando
a cômoda onde as gavetas repletas de roupas ou velhas sem uso ou de uso esporádico
ou a aguardar as peças o trabalho minucioso do remendo – e do tempo por que não
dizer, a gente relega pra depois coisas pequenas tendo a primeira labuta mais
exigente. Assim atulhando no móvel roupas da casa; algumas, se não todas, com
um cheiro que nos traz ardor nas narinas pelos meses acondicionadas sufocadas
presas no móvel antigo. Antigo? que é antigo num tempo em si doutros tempos. O
fato é que Te esfrega aquilo, na sua superfície envernizada, o que dá um certo
grudinho nos dedos nesse contato por causa do ar úmido, realmente envernizada a
madeira chegando a lustrar. Tira poeira acumulada, remove encosta pra lá
objetos (esses que o lar nunca acha onde pôr, põe em cima da cômoda, além é
claro daqueles postos como enfeites) agora remove-os para poder ter espaço na
limpeza; tira tapetinhos – este nome indevido porém semelha de fato tapete –
umas toalhas minúsculas como base ao objeto feitas de tricô trabalhado com
paciência amor e arte pela mãe dela sogra tolerante do João, até que se davam
bem e não aquela chatice das brigas constantes entre sogra e genro, a mãe que a
Mãe Santíssima a tivesse, devendo estar numa vida melhor lá no céu, que é como
o homem comum pensa, pensa Te a remover e examinar se não encardida a pecinha a
basear objetos, a peça mais para decoração e enfeite – ora, não poderia estar
suja? e se tivesse filhos pequenos mexilões ainda por cima nesse por baixo não
ocorreria mexer remexer indagar ou até levando a arte da avó para brincar no
quintal sujando, se bem um mal que basta o pano de linhas trabalhadas nos
dedinhos de menino já a sujar marcando. Daí toca para a mãe das crianças o lavar
passar engomar com ferro quente nas brasas e amido de arroz a endurecer direito
o paninho. Então o repor na mesa lustrosa da cômoda e por cima o objeto pesando
– ou por que não! a quebrar tendo menino deixado cair no solo. Um dia, mas isso
nunca acontecera na casa, foi narrado por vizinha, aquela dona Carmen
faladeira, então quebraram, esconderam os cacos para não apanhar; outro então
dos seus capetas fez melhor o pior: colou a parte quebrada enfeando o inteiro. Não
isso não viu no seu lar, pobre sim, não de abuso e molecagem... Limpa lustra
assopra detritos quase, quase cheira, o que absurdo, quase cheira a superfície
de cima da cômoda.
Enquanto, pensa...
Por onde andará agora o filho?
Já um rapaz maduro. Abusando um pouco,
estendendo a ideia não poderia afirmá-lo ‘tio’ pois se uma solteirona velhona
bonachona como a Margarida, a Margarida deveria ser avó se houvesse casado,
passada enrugada embora não irritante como o comum acontecer; se Margarida
ficou pra titia, titio meu Pedro. Ah o menino sabe o que faz; não posso dizer
trabalhador como o pai, não posso afirmar estudado, não chegaria a doutor,
fugiu cedo da escola em
Venda Grossa mas enfim trabalha por aí entretanto não para no
serviço ou pede a conta ou mandam ele embora, hoje nem isso por desempregado;
deve nestas horas andar cheirando os amigos, sobretudo aquele Domingos, um
sujeito que não me inspira confiança, nem o João indo com a cara do amigo de
nosso filho. Onde poderá estar o nosso menino nestas horas... Aí Te despenca a
pensar os anos passados, corre, embaraçada confusa insegura, corre ao tempo no
qual nascera o rapazinho. Uh que horror de existência levava. Cada gravidez era
um novo tormento; por fim paria morrendo o nascituro; ou ainda mais frequente
era abortar. Teria Te ao seu redor não fosse isso bem uns vinte filhos – e que
algazarra entre os seus, os seus reunidos noras genros netos... Nada ficou, ficou só aquele sentimento de fracasso, debalde
pediu auxílio aos santos devota mais de Santa Luzia, queimou mil velas e nada!
Até que a Mãe Santíssima me ouviu e vingou meu Pedrinho! Oh que felicidade.
Enfim já andava estragada por dentro inclusive nunca mais daí por diante
engravidei.
Nisso revê cada ano cada mês até, o
coração materno pode abrigar isso tudo e mais; revê o passado os lances as pessoas
a si unidas, revê com aflição e sofrimento de novo velhas enfermidades por que
passara e mais as ligadas ao herdeiro, a sofrer de novo as mesmas dores... Um
dia o filho único ia morrendo, não fosse um médico de passagem por Venda Grossa
que o curou e mais ainda a fé que atraíu Santa Luzia a cuidar na devolução da
vida ao menino! Nesse ponto Te em lágrimas, o coração quer-lhe passar pela boca
afora. Revê a luta para manter vivo e forte o garoto, nisso lembra o marido também
pronto ao que desse e viesse a defender o fedelhinho. Uma vez teve de largar o
balcão do armazém a fugir pra casa e levar em prantos o garoto à botica, único
recurso que Venda Grossa dispondo. Felizmente e com ajuda divina sarou. Fez
promessa e desde esse triste momento o oratório no canto da sala, onde Te
podendo mais se concentrar e se valer da fé. Ao relembrar essa difícil época a
senhora quase que automaticamente encontra-se a olhar num agradecimento para o
altar improvisado com santinhos de barro imagens qual fotografias em estampas e
velas a queimar fumaçar cheirar exalar toda casa. Onde agora Pedro!
Mas o que estou fazendo aqui lá tanto
ao trabalho, che-guei nesta sala sem ver... Torna ao quarto acanhado onde a cômoda
para tratar.
Agora examina se a limpeza a contento,
no trato ao móvel antigo não terá com a barriga num desajeito empurrado aquele
monstrengo pesado a encostar na parede também de madeira. No vão, isso é certo,
ajuntam-se elas, mais as cascudas fedorentas, têm as marronzinhas menores e mais
ágeis que é só ver Te já preparam voo e é sem dúvida precisar ela gritar berrar
até e claro não estando amolentados os joelhos correr. Quando aqui no lar
aquele palerma do esposo é possível que venha em socorro: espanta as baratas,
mata em plaft plaft algumas mais lerdas na parede ou no chão usando o chinelo
da companheira; para esse mister pode contar com João; de resto é esperar que
sente a traseira no sofá – um que ele comprou usado dum colega da firma, embora
usado grande num tomar todo espaço na sala pequena porém confortável, e já
tendo um cheiro ruim como que pegajoso no olfato pelo tempo nos dias úmidos; e
aí não tem como, não sendo pelo grito da barata, acaba o marido dormindo no
sofá, antes ter que acordá-lo para ir pra cama de vez. Agora, caso elas inventem
e intentem surgir, não há remédio pois está sozinha no lar... Olha.
Olha desconfiada, toma engancha dedos
com cuidado a extremidade no móvel quase rente à parede de tábuas, fecha pálpebras
em não ver o que não deseja realmente ver, puxa arreda pra cá a cômoda e se
alivia um pouco. Continua a limpar cuidar dos objetos adredemente postos a cima
do móvel, examina melhor na possibilidade em não estar nas posições corretas
cada um deles e as toalhinhas de crochê (ela fala “croché”) e daí vai tomar uma
peça das gavetas entre as seis três de cada banda; tenta puxa esforça não
desprende a gaveta, esta não se move pela umidade do tempo dias a inchar a
madeira e aí se esforça sua escorrega enfim a mão agora depois as duas mãos –
tudo emperrado. Não tem jeito, aguardará chegar a força bruta masculina para
mover a gaveta a fim de tirar a peça de roupa; aproveitaria remendar a dita
cuja mas... Desiste. Limpa com pano molhado e outro seco após o restante dessa
mobília, quase um dinossauro no tempo por fora de tempo e ainda é o tempo
antigo visto muitíssimas residências terem desse tipo no mobiliário pobre, somente
o sofá é móvel novo no sentido ser da moda recente pois o resto na casa da
senhora são as peças pesadas maciças como sempre se usou desde os tempos
imemoriais. Limpo agora e agora toma da vassoura já gasta já cansada já mui
usada para tirar o grosso no quarto conjugal. Varre por baixo da cômoda, da
cama do casal, tenta com insucesso por baixo do criado-mudo, arrasta por fim o
movelzinho cheirando a cigarro do esposo, aliás João tendo impregnado a si até
o cheiro do tabaco e na sua respiração é ofegante como afogado, ela encontra
mil tocos escondidos debaixo. Após, com pano de chão limpa o chão. Porém fá-lo
quase igual autômato visto pensar pensar pensar insistentemente seu estado sua
existência e a existência de tantos problemas, os quais preenchem o viver do
homem comum; ela uma fêmea dessa espécie nada em extinção. Pensa ,
quase fala.
Fala sim, o ser comum distraído fala
alto seu pensamento; volta e meia é tomado de surpresa e por que não dizer de
escândalo e imediatamente de vergonha – olha pra lá pra cá – então sorri ao
constatar Te ela andar sozinha. Onde o menino; pula no pensar ao marido e se
diz, ah esse meu João não tem ambição alguma, não se importa de ficar parado no
tempo e no mesmo lugar: de moço solteiro vivia atrás do balcão pesando arroz e
fubá e até hoje já velho calvo uns fios brancos restantes ainda no mesmíssimo
emprego no mesmíssimo armazém em Venda Grossa... o patrão dele morreu, a família
toca o negócio e o esposo lhe parece plantado na casa de secos & molhados,
sem futuro. Só faz trabalhar trabalhar trabalhar e descansar do serviço no
sofá, uma pescaria de vez em quando com aqueles pinguços safados, fumar, ouvir
o rádio, agora tem um de pilhinhas antes era só o do empório, daqueles
grandalhões e uma pilha de mil horas a durar umas seiscentas a iludir os
fregueses de lá. Fica ali plantado, não conversa, ouve alguma dupla caipira e o
futebol, uma coisa sem graça nenhuma; e dorme... Não me dá atenção. Assim, com
quem vou falar? O menino deve estar com sua canalha, não me simpatizo nem um
pouco com esse tal Domingos. E as vizinhas...
De vez em quando um dedo de prosa na
vizinhança todavia conto realmente é com a comadre Inês.
Pobrinha dela, anda não apenas
adoentada: a enfermidade é das perigosas. Anos nos falamos, minha única e verdadeira
confidente, agora...
Te continua como espécie de máquina a
varrer limpar afastar cadeiras remexer cantos no entanto pensando longe, lá
fora o Peri ladra não se sabe o quê; não entra dentro de casa, Te não permite,
inclusive bate nele se preciso impor respeito. Quando o menino menino, outro
cachorro entrava e sujava o lar, era Peri igualmente morreu e o Pedro chorou
bastante. De resto ela fica só em casa.
Trata-se de certa mulherona, dessas
troncudas e altas, os ossos na magreza a saltar e tem um andar desengonçado,
bom ótimo às vizinhas gozarem para se elevar na beleza própria; contudo a gente
de fora reconhece dona Te corajosa e trabalhadeira. A conversa-fiada afiança
que ela é grosseira bruta e que inclusive bate no pobre João, o que invento
desnecessário para quem não tenha melhor no lugar, apenas sabendo ver defeitos
não as qualidades de outrem. No entanto é benquista, embora secarrona aos
desejos das comadres vazias no bairro.
O bairro? é um reduto da periferia de
Venda Grossa, esta lugarejo com prefeito e câmara é certo mas falto de tudo;
mesmo de tamanho, se dizendo uma urbe grande e não passa de cidadezinha
acanhada, ainda por cima nesse por baixo descalça poeirenta na seca e barrenta
nas águas, lugar onde viceja à guisa de palácio uma casa ordinária que é sede
do executivo; a câmara onde pomposos blá-blá-blás políticos também uma
residência comum, embora ambas de alvenaria rachada suja sem pintura ou com
tinta envelhecida, tendo alguns tijolos deslocados aparecendo. E ainda tem o
município meia dúzia ou pouco mais de outros prédios quase sempre de tábuas, fora
a casa da ricaça dona Inês e o armazém onde João trabalha e é querido, este um
edifício de tijolos com pintura azul meio berrante e com letras garrafais
anunciando seu negócio aos possíveis forasteiros, a gente do lugar encontra de
olhos fechados a venda mais importante de Venda. À noite, agora bem entendido,
antes eram lampiões lamparinas escuros, agora o lume das lâmpadas elétricas e o
barulho tá-tá-tá do motor dísel que o prefeito, um ladrãozinho conforme a
oposição, motor que ele adquiriu com superfaturamento e corrupção dizem os do
contra, enfim para fornecer luz ao lugar. Até às vinte e duas horas é uma Venda
brilhante alegre meninos a correr e brincar gritar, adultos a sentenciar
verdades nas suas mentiras de causos; e depois dessa hora é o pretume o escuro
o silêncio o sono o sonho, quiçá algum pesadelo.
Dona Te e Seu João, eventualmente o
garoto, nesse viver em
Venda Grossa.
Cap.2°
Em casa da
comadre, a comadre Inês, não andava o ambiente às mil maravilhas, embora alguém
desconhecido pudesse imaginar o contrário, seria o contrário. Era o local da
dor e do sofrimento, muito embora vendo e julgando pela empregada Maria, a
imaginar agora o contrário do contrário... Porque ela com um sorriso sempre
pronto anunciado por aqueles dentes mui brancos que os negros mostram no ferir
o escuro de pele; e os olhos duas jabuticabas nos globos branquíssimos provocando
o mesmo efeito. Maria ou anunciava a visita ou trabalhava com afinco e até ao
exagero, a escorrer-lhe gotas em quase riacho no rosto gracioso. Uma outra empregada
apenas lavadeira e tendo a serviço certa velha cozinheira e ainda outra
servidora meio rabugenta, a enfermeira, sem contar o pessoal masculino de
serviço – todas entre as mulheres destoando do pendor da jovem Maria; jovem sim
mas já mãe abandonada e a dar duro na sobrevivência dos seus. Tudo isso a favor
do bem-estar dessa patroa.
Dona Inês tendo um verdadeiro palácio
das mil e uma noites naquela urbe pobre e sem expressão econômica; apesar ser
um palacete não demais opulento e de arquitetura até sóbria nas linhas; contudo
a melhor residência e o melhor prédio de Venda Grossa por fina. Fina no trato
na presença no respeito que os moradores ofertavam à família da senhora rica.
Talvez milionária em vista a pobreza do lugar e a maioria esmagadora de casebres,
mesmo perante casas melhorzinhas e quase sempre de tábuas. Um pouco a questão
de na terra de cegos o rei quem um olho. O olho aparecia se oferecendo aos
forasteiros, porquanto os vendenses já acostumados porém percebendo assim mesmo
o belo na área de Inês; essa mansão se mostrando logo no centro urbano, ainda
mais que os edifícios da prefeitura e da câmara. Não obstante a moradora era
comedida e educada, moralmente um ser elevado e por essa razão o palacete
aparecendo ao menos por fora modesto e sem extremos de luxo. Dentro do casarão
todavia sem luxo também mas uma excelência no trato na limpeza no respeito e
até na graça. Além do ambiente quase fraterno; considerando aqui o hábito
secular de se guardar posições sociais e a hierarquia, o patrão o submisso o
estranho o visitante.
Claro nisto tudo não haver exagero –
nunca fora de ex-tremos a proprietária – mais agora quando as visitas mais
fla-grantes e mais frequentes são os médicos, estes vindo de fora porque Venda
Grossa ainda sem recursos nem tendo hospital nem coisa alguma; o prefeito sem
respaldo político pleiteava agora um posto de saúde junto ao governo estadual,
até aí sem sucesso. A proprietária daquela riqueza vivia como epitetava comadre
Te “a pobrezinha da comadre” vivia na miséria em questão de saúde. Isso posto é
necessário convir nos rios e rios de dinheiro (milhões de cruzeiros imaginavam
conterrâneos da ricaça) eram quantidades astronômicas no gasto com a velha ainda
moça, nascida pouco antes que sua comadre pobre. Aliás a comadre bem-nascida
batizara na igreja do padre José, mais capela melhorada que templo vetusto,
batizara o Pedrinho da outra amiga.
Raramente Te fazia visita à comadre
rica; antigamente, quer dizer poucos anos atrás, aparecia mais; vez por outra
Inês igualmente passando sem qualquer afetação mas por sim-ples amizade na casa
de comadre Te, inclusive trocava umas palavras quase formais com o compadre,
não estivesse o homem ouvindo no sofá o jogo ou no sofá sentado dormindo.
Contudo essas passagens da ricaça visava a amizade e mesmo pela intimidade com
a mulher dele. Nalgumas ocasiões a estada se prolongava horas, horas de consolo
e sadia troca de ideias e sentimentos, talvez desabafos. Claro virem à baila dores
desentendimentos sofrimentos de ambas. Inês não apenas compreendendo Tereza
fazia a parte da consulente, como dever de amigas de fato. O mérito disto, ser uma
caridade sem esforço.
Não podiam se furtar ambas, cada qual
no seu depoi-mento franco, não podiam deixar remexer suas respectivas fe-ridas
– que são lembranças que se conta à boca pequena, proi-bidas às orelhas dos de
fora, estes quase sempre torpes e a de-sejar destrinchar meandros sangrentos e
futilidades morais, no sentido miúdo e aberrante, com o fim de alimentar
conversa de baixaria e maldade entre a gentalha. Não. Eram conversas
construtivas e – isto necessário embora – nas quais se punham os estragos a que
todos somos sujeitos no viver na relação social, sobretudo na sociedade mais e
mais corrompida no ponto em que os anos avançam na tecnologia porém quase
retrograda no aspecto moral. Não se pretende nesta altura moralismo, visto por
mais se recuando no tempo ainda não se alente a pureza proposta por idealistas
e poetas. Isto a afirmar que também as duas senhoras amigas não poderiam fugir
dos deslizes, seja daqueles entre os seus e nem se fale os da vizinhança e mais
ainda os de Venda Grossa como um todo.
Ora, Te lamentava não poder convencer
o esposo a mudar sua configuração; ainda mais agora praticamente não se falando
os esposos, como no contrário é bom a um casal que se ama. Lamentava as
estripulias do afilhado de Inês. Este um caso quase à parte e nunca umas poucas
pobres linhas a contentar olhos e ouvidos curiosos rapidamente. No entanto elas
sabiam a profundidade dos dramas ligados a Pedro; isto é, nem todos... e
sabendo, o diálogo ficava no habitual ‘um pingo é letra’ como diz a expressão
popular.
Da parte de comadre Inês ainda pior.
O quê! seria pior ter montanhas de
cruzeiros, talvez montes e montes de dólares? Ocorre de muitíssimos problemas
da tragicomédia humana embora muita vez envolvendo dinheiro tem pouco nos
cifrões e muito na inabilidade na in-compreensão no orgulho na vaidade e se
liga a mais aspectos; quem sabe tudo isso não pudesse dissolver-se numa pitada
de caridade... Os personagens dos dramas a mais das vezes olhando o próprio
umbigo apenas, sequer notam a necessidade e a possível solução. Assim o mundo a
se pôr como o caos. Não bastavam montanhas: para Inês era preciso mais por
exigir não uma riqueza e a propriedade acima de qualquer suspeita porém seu
matrimônio em crise, o que já refletindo anos na saúde física da bela
milionária; somente comadre Te conhecendo a fundo. Bela? isto discutível, pois
a beleza é uma predisposição dos olhos que veem. Nisto ainda outra vertente que
é ambas se acharem bonitas; e aqui a dúvida entre os seres que se relacionam
pela confusão entre a ideia de beleza e simpatia.
Enfim nada que o sol ainda não mostrou
na vivência de amigos. Em suma se apreciavam se aceitavam se compreendiam e se
confidenciavam. Enquanto o mundo a rodar e a rotina a campear solta naquela e
noutras sociedades.
Todavia a existência de Inês tendo
profundos abalos, lances morais terríveis e marcantes; tudo escondido das demais
pessoas conviventes. Que sabia a coletividade de Venda sobre o martírio por que
passava a senhora importante na urbe? Quase nada. Então o povo põe no lugar do
que não conhece seus inventos e criações imaginosas; às vezes uma insignificante
porção da realidade é pinçada a alimentar rodinhas da gente que ri fácil que
chora fácil mas que mais facilmente deturpa. E assim nunca seriamente se apura
a verdade.
Sabia-se por alto o senhor Giovanni ser o proprietário do melhor
imóvel e de algumas casas e terrenos em Venda Grossa ; ter riqueza noutras praças, talvez
com passagens ao exterior. Alguns o tinham por um bem-sucedido vendedor, viajante,
a representar no país uma empresa de porte internacional. Outros mais
desocupados a divulgar poderes secretos no italiano, fosse mesmo peninsular; ou
quem sabe, não sabiam, falavam, quem sabe um ladrão de alta categoria; daí raramente
aparecer no lugarejo e quase sempre o fazia na boca da noite sem se mostrar ao
povo no sol claro. De fato comprovado e visto não existindo nada e ninguém a
poder garantir. Nenhuma pessoa a pedir esclarecimentos à grande senhora; apesar
de algumas investidas tímidas no pessoal servidor, o qual chegando ser nisso um
túmulo...
Agora pioravam as coisas, as coisas de
se conhecer a fundo os atos alheios, porque a verdade mais flagrante nos dias
era a situação da saúde, precária, da senhora Inês, esposa daquele gringo
esquisito, mais visitante que morador de Venda Grossa...
Comadre, diz para Te Inês numa
passagem pela casa da outra, então já mostrando os sintomas ostensivos da enfermi-dade
que riscaria a pobre do mapa dos vivos porém ainda forte no riso sofrido e
franco e também com voz firme – comadre Te, Giovanni acaba com minha vida...
Creia, descobri com uma parenta daquelas íntimas visto ter uma porção respeitável
de gente do sangue que não me respeita e sequer tem compaixão nas coisas de meu
casamento com esse homem abusado, acredite termos descoberto mais três amantes
dele. Um verdadeiro mulherengo. Ah saiba mais ainda: na proporção em que
consegue aumentar seu harém distribuído aqui no país e até no exterior –
diminui a oferta na casa. (Choro, se enxuga, recebe a mão de Te num carinho
desajeitado porém todo coração). No mês passado inclusive não pude colaborar
com a obra do padre José: não tinha como, pois devo fazer primeiro frente aos
gastos no lar; o lar consome e até esbanja... A enfermeira Gertrudes por
exemplo é um sumidouro nas finanças; as outras servidoras mais modestas e até
morro de pena da Maria com sua filharada a quase passar fome... Agora Giovanni
me nega o básico na contribuição – se não me ama, não me respeita também, ao
menos não sonegue numerário essencial ao andamento do lar. E tenho o gasto astronômico
na botica, hoje é farmácia que se diz e o Zé Boticário que só pensa nos votos
terá que mudar o próprio nome para Zé da Farmácia; ele fica a discutir na
câmara e sua farmácia vazia é um paradeiro tal qual Venda Grossa e portanto não
encontro lá os medicamentos necessários: tudo tem que vir das cidades grandes a
alto custo! Enquanto isso meu esposo... acho que sequer pode ser chamado seu
compadre. A propósito, como anda nosso Pedrinho?
A conversa segue horas. Desviam o
assunto focando no afilhado, o que servia e serve à lamentação da mãe. Não chegam
a grandes conclusões. Falam mais um pouco e no momento em que o compadre chega
na sua bicicleta elas param, Inês torna ao lar, se beijam antes. Ambas ficam
como que confortadas, desatoladas ou desentulhadas se se pode afirmar nesses
termos os acúmulos dos problemas que carregam, sem que a sociedade frívola
saiba, e menos ainda profundamente.
Cap.3°
Uma coisa é
certa nesse errado, que é existir um topônimo tão esdrúxulo quanto Venda
Grossa; o que não trazendo tantos transtornos visto a urbe não passar de um
cuspe e com população ínfima; a dizer o insignificante no concerto mundial,
isto tomando a fala de uns poucos críticos desse lugarejo, decerto mais viajados
e experientes, saindo para ver novos horizontes e não a ficar chocando
encolhidos apalermados na vidinha rotineira de Venda. Parece – e não é preciso
grandes esforços e sabedorias a deduzir o óbvio da dedução – parece, antes de
virar Venda Grossa, o estradão ali conter dois armazéns de secos & molhados
ou venda, onde não pode faltar cachaça, dois botecos um acanhado outro menos
acanhado, o que suficiente aos cavaleiros de passagem a se munir e satisfazer necessidades.
O primeiro, menor, num domingo recebeu Zé Valentão, sujeito forte e mais forte
armado de garrucha e aguardente; os fregueses beberam mais falaram mais exageraram
mais seus causos, a ponto de um freguês valentinho qualquer temê-lo e num
descuido do maior atirar no copo na boca de rompantes e bravatas, estourando o
copo o beiço o cérebro do fortalhão. O crime não teve como sempre testemunhas
porque à chegada dos polícias vindos de cidade longe, longe os que
assistiram... O proprietário mambembe abandonou o botequim e se mudou, pois
desde então ninguém ia mais beber lá, temendo o fantasma valentão e bravateiro
e dessa forma faliu o dono. Restou o outro boteco, a venda grossa. Grossa
tomada por grande assim como concerto grosso ou homem grosso, quer dizer
volumoso. A grosso modo narram assim a estória os antigos moradores da vila,
por terem ouvido falar, tais contadores reunidos em quaisquer pontos ou na pracinha
abandonada sem verde, na falta de espaço de convívio e de assuntos mais sérios.
Contudo o nome pegou em vista perdurar a maior e depois a única venda para
abastecer essa área isolada na região. A venda, surgindo casas nas imediações e
transformando o aglomerado num município, essa venda foi para diante e é hoje
justamente o principal empório, onde João trabalha anos para dar sustento ao
seu lar, lar este em que dona Tereza se queixa da solidão. Esse contar, com
seus acréscimos próprios de moradores com pouco quefazer, esse contar se
perpetuou e seria histórico houvessem os anais escritos, escritos são apenas as
coisas de leis e decretos no blá-blá-blá da câmara ou nas taxações indevidas
exageradas absurdas do executivo; acrescidos no débito de os textos serem
errados mal grafados ferindo o padrão culto. Demais, só o narrar na oralidade
do povo miúdo.
Em todo caso, aí início da existência
de Venda Grossa.
Contudo o que é a cidade?
No mapa figura não mais que um ponto
fora do traçado ferroviário da araraquarense, não mui distante de Catanduva e
Rio Preto, locais onde os menos faltos de recursos a procurar recursos como os
de saúde por exemplo e os legais; porque os miseráveis sempre não podem se
deslocar e têm que se virar com chás caseiros. Venda Grossa surgiu da necessidade
política, vivendo às expensas também de favores políticos da política dominante
na província anos; daí a pouca expressividade do prefeito, tido por explorador
pela oposição na câmara onde seu partido é minoritário. O Zé da Botica já
firmado como Zé da Farmácia é quase a única voz do executivo no legislativo; e
ouve em razão disso insultos no balcão de remédios, dirigidos ao “ladrãozinho”,
sua excelência o prefeito. Assim mesmo não deixa de fornecer pílulas pós vidros
de remédios com letrinhas miúdas, afronta aos míopes e analfabetos fregueses,
não deixa não de atender os ofensores, o que é próprio dos bons comerciantes.
Além do mais o farmacêutico, farmacêutico-prático não se exigiria formado, ele
é o único ‘médico’ nessa urbe. O prefeito tenta anos instalação de um posto de
saúde, mesmo considerando que já na época a saúde andava doente e hoje mais
agravado o estado, tenta um posto junto ao governador. O posto policial havia
conseguido noutra gestão, o posto que é um destacamento militar em cuja direção
encontra-se o cabo Geraldo, o qual se pensa general com funções de mando como
delegado de polícia.
Tratada friamente, quer dizer com
olhos sérios e secos da ciência e dos estudiosos, Venda é um amontoadinho de
ca-sebres – já visto haver uma residência enorme aos pequenos, um verdadeiro
palacete nas mãos da família da senhora Inês; a prefeitura a câmara e uma que
outra de alvenaria, o restante casas pobres de tábua e casebres, primos das
favelas atuais; fora uma que outra edificação menos ruim – isto curiosamente na
periferia de Venda Grossa, quase fora do perímetro urbano; e o comum se não o
normal nas cidades bem definidas é serem suas respectivas periferias a pobreza
relegada pelas autoridades. Em Venda a periferia é inclusive melhor posicionada
que o centro (teoricamente rico ou mais bem cuidado, às vezes cartão de visitas)
porque ela se confunde com o meio rural; não no sentido do estado miserável em
que se encontram hoje os poucos caboclos roceiros, sendo já na época expulsos
pelo latifúndio a viver mais mal do que vivendo no roçado a morar na cidade sem
infraestrutura. Portanto Venda um caso à parte na generalidade. João e Tereza
mesmo, com moradia velha mas sólida na periferia. Enfim a periferia sem as
benesses da urbe moderna como água encanada tratamento de esgoto luz elétrica
coleta de lixo calçamento, de boa estrutura embora de casas pobres.
A cidade tomada na sua parte central e
o bairro por volta, este pobre de fato e mais que a urbe como um todo, embora a
afirmação de algumas casas sólidas sem riqueza notável; a cidade não vai no
momento em que vivem os personagens citados além de uma rua, pomposamente chamada
Avenida Central, com outras em torno, quase que apenas rodeando a capela do
padre José, mas sem demarcação: com nomes formais, espécie de títulos a
engrandecer a verdade de famílias locais ou até de pessoas desconhecidas e a
agradar os políticos do estado ou da federação, ou mesmo com nomes históricos
igualmente desconhecidos da população. Em suma usa-se nomenclatura oficial nas
vias públicas que não se sabem ruas, são mais carreadores e trilhos de passagem
a cruzar o casario pobre se não miserável.
Tem nisso mais agravantes. A região é
seca, o estradão, agora Avenida Central, ela numa extremidade a levar ao nada
do mato e noutra ao nada do desconhecido (os vendenses ou grossenses se se
quiser pensam ser rumo das cidades grandes onde o poder maior que do prefeito;
e indicam assim aos que porventura passam por ali). O estradão é caminho de ida
ou vinda de roceiros eventuais viventes ou passantes que param a comprar bens em Venda Grossa ou a
irem para municípios maiores. Entretanto Venda é área geográfica mui seca; no
tempo das águas o barreiro a lama o escorrego a dificultar montarias e quase
inviabilizando a possibilidade dos raros veículos motorizados a surgir. E na
seca, que vige em quase todo ano, é a seca a poeira a sujeira constantes; tanto
que a cor das moradias é a do pó amarelado tendente à vermelhidão. Ano todo
desse jeito, a ponto de quase ninguém reclamar assim como não reclama de sua
própria pele ou da vestimenta simples um caboclo pobre.
Agora, animais (bem entendido, os
menos inteligentes) tendo muito. Amarram-se os mesmos nas poucas árvores teimosas
que o homem permitiu viver; e em tocos fincados às vezes com argolas e ganchos
a fim de segurar cavalos ou muares. Bicho de pequeno porte existe bastante;
aqui nem lembradas as pequenices como piolho pernilongo formiga. Grandes é
claro em volta da urbe ter o gado bovino nas fazendas. O gado vacum foi ao
longo dos anos tomando o lugar da gente miúda que trabalhava a terra ou vivia
como caipira, o gado de propriedade da gente rica a residir nas cidades grandes
e inclusive na capital. O boi a vaca criados e a economia gira na região em
torno desse ganho, o qual não gera emprego. De maneira que as finanças
vendenses provindo disso e do quase nada mais, a urbe não dispondo de indústria
e nem tendo setor de serviço (hoje mui valorizado nas cidades dignas desse
nome). A economia tão somente baseia-se no comércio, fraco e dependente de
crises e possíveis picos positivos em alguma colheita, trazida por fornecedores
sem estrura para levar seus produtos à cidade grande.
Assim também afetada a circulação de
veículos – não animais, visto haver muito barulho de cascos no chão de terra da
Avenida – e a presença enfim de carros é quase raridade. Vêm caminhõezinhos,
que à população da época são gigantescos, carros para entregar mercadorias
sobretudo na venda em que
João atende no balcão. Claro havendo o automóvel da prefeitura
à disposição do chefe do executivo e um que outro de vereadores menos pobres;
um deles é carro oficial da câmara. A prefeitura conta com certo caminhão para
levar trabalhadores mal pagos a consertar uma que outra ponte por exemplo.
Aliás não há muita ponte, os riachos são distantes e a água à população vem de
poços comuns, sempre fundos pois a região praticamente não recebe chuva e não
tem rio. Sem água encanada, havendo certa caixa d’água fornecedora a abastecer
os meios oficiais e à população restante numa crise com seca das bravas.
Em iluminação pública, Venda Grossa
era a escuridão total; daí a compra do motor-gerador, o que trouxe muitíssimo
bate-boca mormente na câmara onde os ‘salvadores da pátria’ não se entendiam...
A propósito, sempre que envolve dinheiro, todos lugares assim, daí a discussão
enorme. Em Venda custou muita desavença mas até que os postes e umas lâmpadas
fracas aclararam a noite, havendo mesmo festa do populacho por essa novidade; o
clarão até às vinte e duas horas bem entendido; hora na qual se desliga a
parafernália e o vendense ou acende a lamparina ou vai dormir ou brigar com o
cônjuge, porque isto e tanto quanto no resto do mundo é igualmente conquista da
gente de Venda...
A população é no geral cabocla, meio
escura de pele, mesmo Inês Te e os principais do lugar são desse tipo étnico;
quase sem exagero se pode afirmar que o único habitante branco ariano caucásico
‘puro’ é a enfermeira Gertrudes, uma que tem sobrenome que ninguém inclusive a
patroa consegue pronunciar, dado o excesso de consoantes, o brasileiro é mais
vocálico, ao menos no pronunciar e entender. Só ela, embora fale bem a língua
cabocla vendense; isto é: sabe falar bem o errado da população em que inserida.
No entanto secarrona demais, demais orgulhosa do seu saber no métier como profissional da saúde. Inclusive
a se dirigir à paciente sua patroa usando o linguajar médico, o que assusta um
pouco os matutos da casa e de fora. Nas outras residências e nas poucas casas
comerciais e também muito visto na missa e encontros religiosos, o povo é o
caboclo queimado de pele e de linguagem característica dessa gente em qualquer
local que viva. Na população poderia ainda citar, mesmo sem qualquer destaque,
as pessoas folclóricas que todo município oferece ao mundo.
Alguns são mais notórios, porém fica
isso para outro capítulo.
Cap.4°
Quase Te pode
ser uma figura desse tipo, o folclórico... se não agora, agora que mulher
madura magérrima fazendo algum contraste com o esposo igualmente maduro
barrigudo sentado no sofá, ela sempre de pé; mas antes disso quando se casaram,
ele então mediano na estatura e fino de corpo, ela alta já sendo mais alta que
ele e ainda por cima em baixo punha sapatos de saltos: o povo a dizer no
pichamento um par tão esdrúxulo indo à missa. Nunca se falou nesses termos na
frente do casal; o próprio casal descobriu o ridículo; aliás a perda do hábito
de saírem juntos, não abraçados e a se beijar e se roçando, isso
desatualizou-se não se cristalizando nas incoerências das relações; assim ele
se voltou inteiro ao trabalho no armazém, ela às prendas exclusivamente
domésticas. No entanto a perdurar o constraste, não a pichação pública.
Tal situação, quem sabe hilariante,
mesmo porque o povo da rua aprecia rir, a situação foi de meses apenas, enquanto
Tereza novidade em Venda
Grossa , João já da terra... Eles levavam a efeito o idílio,
idílio este com suas reservas e descontos, numa trama (quem sabe aqui o termo
indevido) só inteligível aos corações enamorados não aos de fora. A conquista,
este outro indevido, a conquista da jovem pelo jovem caixeiro atendente no
armazém mais importante de Venda – foi trabalhosa ao rapaz. Ia, foi, meses a
cavalo, um animal emprestado pelo seu patrão que o estimava; indo na direção
dum sítio nas imediações de Catanduva, deixava a montaria em casa de um
conhecido, tomava ônibus no estradão empoeirado que vinha da capital rumo à
cidade grande (numa comparação com Venda, mero cuspe no mapa) descia antes de
chegar à urbe e andava a pé (pronunciavam todos “diapé”) chegando noite à
amada; tendo saído domingo manhãzinho. Pernoitava no sogro, futuro sogro, conversava
amenidades que ao homem comum é de extremo valor, conversava ele mais com o
sogro que realmente com a namorada, uma que viera a conhecer e se interessar
num baile acompanhada do mano mais velho e amigas; tendo o moço trânsito livre
também com os futuros cunhados. Quase que apenas via, revia, a moça dentro dos
costumes da época. Será que isso não aguçando ainda mais o interesse nos
jovens!? Enfim comia bebia com a família dela o João e na segunda-feira
madrugada punha os pés no caminho de volta; mesmo porque numa casa de secos
& molhados quase na roça, o movimento exige mais no sábado e na segunda aos
balconistas. Os cavalos saem do boteco carregados e ainda mais as carroças a
levar as compras para o meio rural. A rigor Venda era um aglomerado sem expressão
e pertencente à roça. Nessas condições o dono sentindo alívio quando do retorno
desapeando da montaria o empregado. Aliás não era João apenas benquisto pelo
empregador e pela freguesia mas um elemento necessário. O rapaz conhecendo
tudinho dos problemas no empório e inclusive um pouco na escrituração
particular do estabelecimento e sendo respeitado pela experiência de anos seguidos
no balcão; um quase chefe entre os outros servidores da casa comercial.
Valorizado pelo trato, o empregado com certo tino e habilidade, sem falar ser
demais simpático e ter muitos amigos nesse grupo social. Assim possível avaliar
a deferência do velho patrão concedendo não só o veículo mas mais muito mais
cedendo parte da segunda-feira para que ele chegasse a Te. Um alívio portanto.
Descia do cavalo desatrelava o animal e se punha já a tentar auxiliar no restinho
do exigente dia de trabalho. As mais das vezes chegando já noite da segunda e
assim não tendo remédio. Nunca como razão da falta a loja descontara um centavo
sequer do moço. Verdade que a compensar decerto, o ganho mensal era irrisório,
de poucos cruzeiros. Por final, se é que exista final para algum problema se
não o de uma situação apenas; resumindo sentiu alívio o velho quando seu
funcionário casou-se lá no sítio do sogro com Tereza, em cerimoniais na outra
cidade; e a trouxe sem quaisquer luxos de lua de mel para Venda. Assim o
empório se livrou dos apertos no intenso movimento de fim de semana, onde João
dava conta do recado. Inclusive, embora de mãos habitualmente fechadas, o chefe
dele passou ao sujeito ao mesmo tempo sorridente e espantado algumas notas de
cruzeiros, das grandes, como presente nupcial.
Foram residir na mesma casa onde
residem até hoje; primeiro alugada, depois o senhorio se foi de Venda e negociou
com o inquilino o imóvel por valor quase simbólico e dessa maneira virando
proprietário o casal. Isto não é de espantar ninguém, porque à época terrenos e
casas de tábua valendo pouco, num município isolado da civilização e parado no
tempo. O que podendo causar espécie seria haver alguns cidadãos com propriedade
de valor, um que outro entre os políticos e a família da senhora Inês.
Outro elemento mais ou menos
folclórico em Venda foi o soldado Dionísio, um que amava Baco e já exalava álcool
quase por natureza. Logo o trocaram por novo praça. Dionísio era só barriga e
lentidão; como exercer suas funções policiais quando o cabo exigindo pressa e
tirocínio... Todo mundo o gozava e falava gracinhas pelo tipo – nunca diante do
homem é lógico.
Houve também por muitos anos o Lico;
sabe-se lá e ninguém sabendo seu nome numa terra em que a maioria com apelido.
Lico marcou época por andar constantemente ébrio e a falar mole os desconexos.
Um dado o caracterizava, que era o de gargalhar despropósitos, inclusive não estando
com aguardente no bucho, isto quase impossível visto sempre alguém ofertando
bebida nos parcos bares, inclusive no armazém de João. Popular, gargalhava
gritado e nervosamente o neurótico ser. A tanto que acabou no xadrez
improvisado quando da instalação do posto policial numa residência alugada. O
cioso cabo Geraldo o deteve gargalhando na rua, pensou baderneiro, e desocupado
ele mesmo ou para mostrar serviço no trabalho como chefe de polícia, engaiolou
Lico. Primeiro fez-lhe um tiroteio de perguntas, nesse dia o pobre não havendo
bebido por não ter achado nenhuma oferta e vivia sem tostão sequer a comprar ao
menos uma dose, não obstante gargalhando sem parar; o cabo mandou Dionísio
dar-lhe umas lambadas, tarefa para qual não levava jeito mas enfim cumpriu a
ordem superior; quanto mais batia mais gargalhava o Lico. Acabou atirado no
quartinho que haviam adaptado como cela sem grade porém com porta e cadeado. Continuou
a rir nervosamente, não deixando o delegado dormir e decerto também a vizinhança
incomodada; quanto ao praça barrigudo, ele roncava de dar gosto. Na madrugada
vieram o prefeito o padre e mais alguns amigos em comissão para defesa do
prisioneiro: “senhor cabo, diz o padre, Lico é um pobre diabo, um inofensivo
ser, um quase demente, seu riso não é descaramento.” Assim Lico tornou à
liberdade na prisão de sua demência.
Um dia o povo gozador tomou outro ser
folclórico para chamar atenção na cidade. Casou o mesmo, a mesma pois sendo a
Maria Touca, com o Lico. Claro, só na brincadeira.
Ela era chatoquinha, quase uma anã
deformada, sempre tendo um gorro vermelho listrado na cabeça de poucos
pen-samentos e menos sentenças. A meninada não a deixando em paz nas suas
andanças como pedinte. “Maria Tôca” gritavam moleques atrás dela; a velhota
enrugada a falar embrulhado respondia com resmungos e disparates e mais ainda
xingando, tinha demais a boca suja; por vezes atirava pedra nos garotos que a
atormentavam. Quando comunicaram seu casamento à interessada, esta quase enlouqueceu
de raiva.
O marido morreu antes que a esposa,
faleceu de bebe-deira, e sem saber do matrimônio...
Venda Grossa não marcou presença por
seus poucos habitantes folclóricos, sim por ela mesma ser a folclórica nos seus
costumes quase a desconhecer os hábitos da civilização.
Cap.5°
Dona Te –
algumas pessoas e sobretudo meninos os quais não sabem o porquê dos nomes, quem
sabe a atender o costume em
Venda Grossa a abreviar criar assentar divulgar apelidos, já
emendando para Donatê, aqui pondo sim o chapeuzi-nho do circunflexo e a
respeitar oxítonas – Dona Te agora, de enxada na mão a reforçar calos, agora
filosofa. Derruba a ma-taria em que se transformou o quintal, mesmo porque se
não for ela, ele não arredando pé, nádegas, do sofá e aí não carpe, sobrará
então para quem? ao Pedrinho que nunca se dispôs a trabalho nenhum e agora anda
sumido; a ela e ela capina agora o capim crescido, a cada enxadada arrancando
touceira alevantam aqueles incríveis mosquitinhos a zumbir na orelha da gente e
aí para num descanso e para avaliar o quanto capinou e assim filosofa. A
filosofia matuta tem pernas curtas: por que uma árvore tão grande, por que tem
lugar dando enchente arrasadora e aqui essa terra seca ano todo, por que – e
aqui se fixa a filósofa Te – por que a gente fede tanto!
Ora, na medida em que trabalha, como
lavradora como antes entre os seus anos atrás, sua escorrem-lhe do brotar gotas
quase riachos acres pegajosos na pele que é o suor, no caso a incomodando e
então filosofa um pouco na forma de pensar as recordações. Como é que nos
acostumamos com o próprio cheiro, e deve é cheirar mal como o cheiro ruim da
Margarida... Ah a Margarida, os conhecidos a chamam Marga o que dando a
trocadilhar num amarga o solteirismo enrugado, ela exalando suada um cheiro
horroroso, quase maior que o do compadre Chico que se mudou de Venda nunca mais
soubemos daquela gente amiga, Te não suportava o fedor do homem, puxava a
comadre a conversarem na cozinha sob pretexto de precisar umas falas de mulher,
não era... A Margarida e a dona Maria vizinha que também se foi, esta a
queixar-se sempre não poder controlar o cheiro mau, tendo portanto consciência
do problema, fazer o quê! Nada. Ninguém pode controlar isso. E a solteirona
Margarida até hoje se aplica mil pomadas e cremes e muita água de cheiro para
tapar o sol com a peneira, coitada. Os homens? Deus me livre, o João exijo, antes
de se grudar no sofá, exijo tirar a roupa do trabalho tomar banho pôr outra
limpa e aí sim ouvir aquelas besteiradas de futebol, agora anda preocupado
porque seu Palmeiras perdendo. Se descuido um pouco, oi ele sentado sujo suado
e cheirando mal, que o cheiro de corpo dele é forte impregna toda a casa e quem
é que irá depois tirar o fedor que fica no afundado do sofá onde dorme
sentado!? Nem o mato ele quer tirar e me sobra mais essa tarefa.
O João nos primeiros anos de casado
chegava no lar com um pouco mais de disposição. No entanto dentro do
de-sagradável costume em deixar para outro dia não fazendo as coisas que todo
homem faz quando na casa; João, eu falava, aliás nem um nem outro fosse a
manter a tradição dos que se amam no começo a se tratarem benzinho meu amor
essas coisas: nada, nem um nem outro cônjuge a se falar como namorados numa
poesia. Ele: Te... Ela: João... Daí falava chamava quase intimava quando o
casal já assentado maduro velho no casamento, a fêmea da espécie cobra exige e o
macho da espécie ou abaixa a cabeça e vai obedecer fazendo o que ela ‘mandou’
ou diz como ele a responder “depois eu faço, Te” e não fazendo coisa alguma.
Ora, tem casos nos quais o macho sem espécie dá uns tabefes sobretudo bêbado na
coitada e daí o hábito não exige mais nada dele, não sendo esta terrível opção
a opção do esposo da Tereza. “Depois...” como no caso da cadeira desmunhecando,
meses Te a lhe cobrar uns pregos e o martelo; no início de casados ele mesmo
por iniciativa: martelo num quebrado, arrumava a lasca saída da cerca, arrumava
isso ou aquilo; depois? “depois...”
Prossegue, o sol já alto, derruba o
matagal até chegar o final do dia; limpa a área, respira, cansada, parece-lhe
então que existe inclusive mais ar, mais vento com certeza e aí... bem aí tendo
à espera os outros serviços num trabalho constante e eterno, os afazeres domésticos
rotineiros e sem fim, e com lástima.
Enquanto o desmatamento ou só limpeza
a se sentir bem com a tarefa concluída, enquanto isso relembra sua família,
todos parentes na roça. O velho tendo um sítio com algum café milho e arroz na
baixada do riacho, coisas assim mas insuficiente para manutenção de tantas
bocas se bem com muitos braços – aos poucos, como os de Tereza, com o tempo os
braços indo embora nos casamentos e com os manos fugindo à capital longínqua
para tentar melhorar a vida. Assim deixou pelo João os seus mas levando para
Venda Grossa aquele sentimento e a ilusão ter deixado um paraíso, sem cair num
inferno mesmo porque apreciando seu lar. Porém sempre, falando ou pensando, a
pensar talvez com exagero no seu berço e na sua gente. Tudo de bom num
contraste com que dando errado em a nova vida – fora melhor na propriedadezinha
familial; não aceitou completamente até agora, já um pouco madura quase idosa,
a vida nova já velha em
Venda. Criticando às vezes acerbamente o clima a seca as dificuldades
e inclusive a gente vendense; numa oposição à tão querida pátria deixada entre
familiares... Estes não mais viu, fora o passamento materno no qual fora, foram
juntos mulher e marido, fora chorar o sepultamento da mãe em Catanduva. Com exceção
dessa triste oportunidade a rever os seus não mais os encontrou, ficando
“plantada” dizia Te, plantada em Venda Grossa. Igualmente
se queixando por além disso não sair mais de casa, como uma prisioneira. No
início iam ambos cônjuges à missa, nenhuma diversão mais havendo no lugar, a
igreja do padre José única forma a encontros sociais. Depois, até aos domingos
e dias santos (os feriados eram coisa apenas do calendário, trabalhando os habitantes)
mesmo aí não saía do lar a mulher; João vez que outra numa pescaria longe ou
indo discutir futebol com amigos ou mesmo batendo uma bolinha com fregueses do
armazém no dia de descanso. Te analisando sentindo se não um descaso ao menos uma
espécie de prisão domiciliar.
Nesse ínterim, ou seja enquanto a
desbastar o capim amargoso teimoso a abranger todo o quintal, uma nova vizinha
gritou-lhe um olá. Nova entre os distantes ou gatos pingados moradores, mais
havendo lotes com mato e abandono de terreno que gente nas imediações, essa
vindo recente ser sua vizinha, a vizinha, certa dona Maria incerta, desse tipo
com o qual ficamos de prontidão e com orelhas de pé num alerta, essa lhe atirou
um bom-dia já devendo ser boa-tarde passando bem do meio do dia e isto algo
imperdoável e fundamental no costume caboclo, não se cumprimenta em boa-noite
sendo tardezinha. “Bom-dia Donatê” e daí espichou a conversa por cima da pobre
enxadeira no seu afazer. Te um tanto preocupada, não pela interrupção, pela ameaça...
Maria um bocado atrevida intrometida, dessa gente especula que deseja não se
sabendo com qual objetivo e sendo Te boa pessimista a imaginar opinar ao pior
caminho... Espichando a conversa para direções desagradáveis como por exemplo
quem era o fulano que veio na visita terça-feira, quanto ganha seu marido, onde
a senhora encontrou tal pano que veste, a mulher que mudou daqui uma porcalhona
etc. etc. etc.. Em guarda Te
sincopando abreviando fugindo da resposta e – lógico é sempre assim afinal o
padre dizia necessário ter respeito e tolerância – e terminando ela à outra com um sorriso ou
numa promessa para não ser cumprida de visita à residência ali encostada num
qualquer dia. Visto ser dessa forma as relações mundanas e de vizinhança. Uf!
se falou (ora, para quem iria dizer, sozinha:) e entrou em casa o fogão a
vassoura o arroz a escolher.
Já atiçando o fogo vagaroso pensa,
repensa? pensa em comparação aquela à outra Maria, a Maria velha, Lia como se
referiam a ela, a velha vizinha que se fora, nada entrona nada especula, antes
um ser humilde e confiável, amiga, a velha nunca fizera tantas perguntas a saber
coisas íntimas da gente e temos as até inconfessáveis que a nova Maria
desejando saber num verdadeiro inquérito policial... Lia apanhava daquele abusado
esposo dela, sofria a pobre, o homem bêbado também malhando os filhos. Ah,
tinha um filho dela que me roubava mamão mas a vizinha sem culpa nisso,
quietinha, nada de viver olhando e se metendo na casa da gente. Essa novata...
ai nem quero pensar e a janta anda atrasada por causa de carpir o mato...
Cap.6°
Quem o fulano
que veio em visita na terça-feira? o Compadre. O compadre não era compadre, bem
um compadre do João do armazém, onde se encontravam todas semanas por anos a
fio. Nenhum dos dois a batizar filho do outro, apenas mais um apelido desses
que campeavam comumente em
Venda Grossa. Ou por outra, o Compadre tentou sim crismar o
Pedrinho do João, o batismo ocorrera por Inês, a comadre Inês, numa visita
rápida do esposo dela, decerto Giovanni numa licença no seu mundanismo e aí
aparecendo e a esposa a aproveitar e assim virando ele compadre ela comadre de
Te, o que foi uma premiação porque qualquer pobretão se eleva a receber a
amizade da família mais rica do município. Ora, como é hábito católico,
necessário confirmar a crença religiosa no crismar; porém o patrão no armazém
se prestou a essa aproximação antes de outro homem; de maneira que Compadre
teve de se contentar somente com o apelido, aliás como era conhecido até pelos
desconhecidos. Esse Compadre foi quem apareceu naquela terça na casa do amigo –
o que deu muito trabalho à Donatê explicar para a vizinha entrona; visto como
pôr na cabeça dos que não conhecem alguém que é alguém que a gente conhece?
Bem, mas Compadre, velho conhecido da
família João Te e Pedro, coisa de muitíssimos anos; Compadre chegou a tomar o
garotinho no colo. Então agora relembram esse fato e outros na visita de quase
uma lamparina cheia se esgotando em horas a conversarem e tomar café ao cigarro
dos homens. Já Te não conseguia mais deixar de não demonstrar sono, com aquela
piscação involuntária dos seus olhinhos (Te com olhos pequenos embora corpo
grande e alto); nisso a gente teima provar que ainda cedo para ir embora
enquanto as lembranças teimam que não, e o assunto dá corda a outros e mais
assuntos. Por final se despediram e o visitante amigo saiu quase no trote, o
cavalo querendo negar fogo, decerto cansado a esperar e pelo seu dia de trabalho
já à noite.
Quando o Pedrinho menininho
engraçadinho, a mãe o levava talvez para exibir sua criança aos fregueses do
pai no armazém, o João ficando todo orgulhoso na sua vaidade. Com muita razão
visto haver perdido antes dezena de outros filhotes, saindo eles de anjinhos ao
cemitério – o cemitério que a prefeitura organizara aos sepultamentos e que
possuía coveiro e outro funcionário, o cemitério num terreno logo após a capela
do padre José – e assim o Pedro sendo aos pais, não só por sua beleza e graça,
um prêmio de consolação, prêmio esse vindo graças às preces e promessas de Te
junto à Mãe Santíssima. Mostravam e mais mostravam o menino para quem passasse
pela venda principal de Venda. O Compadre então se entusiasmava elogiando o
amigo, o Compadre tão apreciador de crianças, embora ele mesmo já tivesse na
fazendola não distante da urbezinha um punhado delas.
O Pedrinho cresceu virou Pedro. Em
menino, mi-mado um pouco sendo o que escapara do alfange da morte, em garoto
deu muito trabalho sobretudo à mãe zelosa e preo-cupada mormente nos dias de
enfermidades; enquanto o geni-tor ocupado dia todo no armazém e só chegando tarde
ao lar, a ouvir queixas ou preocupações da mulher. Por esse tempo ainda não
adquirira o rádio nem havia conseguido o sofá que por pouco não o eternizaria
no seu afundado com as nádegas do homem e no sono a seguir. Por vezes Te
precisando mais tarde desligar a voz do radinho a falar para um homem roncando...
Cresceu, ficou traquinas, fugiu da
escola e depois do serviço. Primeiro tomava, forçado, umas aulas com senhora
gorda e quase tão solteirona quanto Margarida, esta já recebera alguns
desaforos do moleque... A professora, improvisada, pois ainda ela também nas
primeiras letras, dona Tomásia, submeteu o Pedrinho às primeiras reguadas – suficiente
para ajudá-lo ter razão a fugir e não mais retornar à residência da moça, velha
passada. A mãe dele não insistiu e o João só tomou conhecimento do abandono mês
depois, ralhou um pouco “desejava que você fosse um dia doutor...” o doutor
ficou solto pelas ruas de Venda, nem parava no lar. Depois o prefeito conseguira
a instalação pelo governo estadual de um grupo escolar – aí retornou o tormento
ao doutorzinho... Ainda assim não concluindo o curso que ia até ao quarto ano,
isto o máximo que se podia pleitear dentro de Venda Grossa. Maiorzinho, deixou
também a nova escola no terceiro ano, debalde os pedidos e quase imposição do
pai e a insistência e lamentações da mãe; caiu na rua de novo, num ímpeto de liberdade,
dessas que não aceitam conselhos; e assim cresceu mais ficando um rapazote
voluntarioso. Um dia enfrentou numa forma quase de igual para igual as ordens
paternas, a mãe já não sendo mesmo respeitada. Te apenas sabia lastimar falar
falar sem forças diante do rebelde. Aliás falava sim mas às paredes e a uma que
outra vizinha a querer se justificar – porque Pedro não ouvia quando ouvindo e
a mais das vezes fugia com amigos por aí. Foi nessa ocasião aparecer Domingos,
duma família desestruturada e mui pichada, que morou um ano em Venda Grossa e depois
partiu. Travou-se sólida amizade, o que seria distinta afeição, não fossem as
estripulias do bando, formara-se um agrupamento entre adolescentes, chefiado
por Domingos, a quem nenhum morador respeitável aceitava; enfim as famílias de
bem deploravam o fato da má companhia aos seus rebentos. Entretanto Pedro como
que se colara ao outro, o que deu muita discussão em casa. Te se descabelava
chorava lamentava lembrava o sofrimento por que passara perdendo antes os irmãozinhos
dele e depois a luta para criá-lo; Pedro fizera nascer uma espécie de couraça
para ouvir e imediato esquecer a voz da mãe; por vezes ela ainda a falar e
lamentar e o rapaz a sorrir qual um cafajeste. Foi nesse ponto sair de casa;
primeiro se alongando um pouco e não aparecendo uma noite ou outra, para depois
semana mês, agora mais de ano nada se sabendo dele na casa de João, onde este
só vindo ao seu bendito sofá. Claro o choro o lamentar o sofrer, mais de Tereza
que do pai do rapaz, visto o homem ocupar-se todo o dia com os problemas no
empório.
Havia mais um drama além do da cultura
formal, sempre precária não apenas em Venda; sim outro conflito tão quanto
problemático e quase dramático foi o do trabalho ao menino. Não era grande demais,
embora já alcançando a estatura paterna – quer dizer que ficando meio palmo a menos
que a altura da mãe... A propósito, deixando ser menino para ser quase homem
feito, porém no lar ambos genitores o tratando e se referindo a ele como ‘menino’,
o que deixava o rapaz contrariado e enraivecido. Enfim tendo tamanho e idade
(não maturidade, esta uma ideia mais exigente que a simples contagem
cronológica) tendendo a ser considerado adulto e no ponto de constituir família
dar bons exemplos ou só se engrenar como cidadão decente – contudo não trabalhava,
muito menos trabalhar com firmeza... trabalhando esporadicamente e mais tratando
de tarefas extras, bicos como se dizia, entretanto sem continuidade e sem se firmar;
enfim sem profissão reconhecida. Não conseguia serviço apesar das interferências
do pai no sentido de encaixá-lo num emprego e assim a permanecer numa prática
quase simbólica; além de tudo não havia ofertas à colocação de jovens no mercado,
nos quais a sociedade não costuma depositar muita confiança; e como angariar
confiança sem deixar que se ganhe experiência! Embora esforços paternos, nada
efetivo conseguindo pois numa cidade pequena a questão é maior que nas grandes,
e mesmo os chefes de família pouco obtém numa urbe de mercado tão restrito. Em
suma fora preciso que João quase implorasse uma oportunidade ao filho junto aos
mil amigos compadres conhecidos e os fregueses do armazém logicamente;
inclusive experimentaram o jovem na mesma venda de João, logo arranjou desculpa
e deixou a oportunidade escapar. Nalguns casos conseguia algo, uns dias um mês
no serviço; no entanto talvez em razão do boato a difamá-lo nos lugares, logo
perdendo a colocação ou só conseguia a mesma a título precário, além ser sempre
muito mal pago. Ora, tudo isso pretexto, não causa verdadeira e determinante
para se manter no posto, visto os que são firmes no que fazem perdurarem; o
pretexto servindo ao rapaz para deixar a tarefa. Seria tipo do indivíduo dito
de pavio curto? não, não se firmava mostrando responsabilidade, aquela que faz
do homem um cidadão. Preferia a liberdade, uma que fosse nada vigiada, sem
peias enfim. O que impossível num aglomeradinho urbano mui pequeno; e o mundo
tão grande...
Anos e anos assim. Assim, algum tempo
após a mudança de Domingos à cidade grande, também pequena e não acanhada como
Venda, assim Pedro fugiu sumiu.
Cap.7°
Te anda deveras
preocupada no lar; deveras e debalde pois quase sempre não temos humanos acesso
a toda verdade num problema, ou, pior, muitos são os problemas que nos atingem
e nos fixamos num deles e ainda assim nos perdemos em conjeturas, dificultando
a solução daquele que devêramos tentar solução. Anda ela assim, visto não
sabermos claramente o que nos atinge e por isso apenas conjeturamos – quase a
procurar fugir da ocorrência por vias nebulosas... Dessa maneira se encontra à
beira do fogão caipira. Existia já melhores formas de cozinhar, sem arder os
olhos tossir fumaça e cinza, embora no inverno, estando ela no verão (nada
referente à primavera da existência e temendo o inverno que inferna a vida dos
idosos, ela então nos seus quarenta e poucos quase cinquenta) sim embora no inverno
o fogão caipira dê o aquecimento ao ambiente compensando o trabalhão que dá. Te
se preocupa. Pensando no menino andejo desaparecido? na enfermidade da comadre,
indo a galope – e isso saltando aos olhos dos mais íntimos, ela por extensão –
a galope as horas a levar aquele coração bendito ao túmulo? no João, o qual não
muda a postura anos, parecendo o homem sem horizonte? noutros mais dramas que
vive a pessoa do povo? sim mas focada agora num draminha, claro frente a essa
frente de sofrimentos que a atinge, um draminho corriqueiro e nisso descaracterizando
como drama: a marmita do marido.
Parece à primeira abordagem ser um
ridículo confirma-do. Parece o ser humano a tentar se descartar dos grandes
tormentos se apegando ao quase insignificante, este com mérito de nos distrair
daquilo que não podemos resolver. Contudo a marmita joanina supera nesse
momento para a dona de casa consciente todos outros, mormente nessa manhã em
que o bendito fogão... Na casa da comadre Inês isso não ocorrendo, a mansão a
receber o que de mais moderno no mercado, um fogão que surgiu na época a gás
nas cidades grandes, um com tubos e tambores de aço transportáveis com gás
liquefeito, me custaria se diz Te o olho da cara e nessa coisa então o pobre
ficaria cego; cega quase porque a lenha verde não pegando direito fogo ou
fumaçando toda a cozinha, logo hoje ela pensa, pensa que pensa entretanto diz
alto a ninguém, a ela mesma. Hoje, nesse dia o esposo acordara tarde ao
serviço, saíra às carreiras e agora já quase oito horas e o bendito fogo não
firma não há fogaréu para fazer a comida e ainda dar tempo em levá-la na
marmita, um caldeirãozinho com arroz, feijão, farinha e... não sabia mais o que
pôr na vasilha, porque a boca do seu homem voraz. A boca a fome a marmita a
hora fora de hora, ora, tudo engolindo os dramas enormes, maiores que a
marmita.
Enquanto estala a lenha, a brecha de
fogo se alevanta e a fumaça, a qual já por anos num juntar contínuo a grudar lá
no teto gorduroso em picomã (um dia, dia todo gastarei tirar isso e as teias; e
não é que possa cair restos e até aranha na frigideira a fritar linguiça... ah,
linguiça!) enquanto estrala pipocando a lenha no virar brasa vem-lhe uma saída
ao impasse: a linguiça! Hoje, se fala agora mais contente menos preocupada por
essa solução ou descoberta, hoje boto no caldeirão dele arroz, que virou quase
papa cozinhei demais porém até chegar no armazém seca um pouco; o feijão, ele
não gosta dos queimados de alho que por vezes perduram na tona do caldo; e
ainda precisa ser caldo grosso; a farinha de mandioca torrada e, lógico, hoje
vai linguiça, uf!
Noutros dias o mesmo problema e apela
dentro do gosto do parceiro de sofrimento e uma que outra alegria, apelando ao
bife ao picadinho de carne e batata ou mesmo mandioca. Mas João sai cedo, mais
cedo ela de pé ao preparo da marmita dele e o café é lógico; ainda o homem vai
mastigando engrena sua magrela, o povo vendense usa esse apelido à bicicleta às
vezes, engrena pedala sua se esfalfa quase e por fim chega à frente da venda
principal de Venda; já então no trabalho, pois não tendo tempo sequer guardar a
marmita e um que outro objeto que traz de casa: já tem gente louquinha para
pedir; uns trazem a lista de compras a tremular qual bandeira ao vento. Claro,
tem primeiro o bom-dia e o sorriso do João e do comprador visto quase sempre um
freguês antigo e aí tendo certa intimidade e gozações comuns em forma de brincadeira;
o ser humano é uma criança a brincar sempre, embora a teima a persistência da
contagem cronológica. Sim, tem vez por outra freguês carrancudo, um dia
apareceu um sem educação e brigado com o mundo.
Uma vez nesta semana não ocorrendo
alegria comum na chegada de freguês amigo nem graça nem nada. Assim chega Maria
– o João, não para o dono aos colegas em serviço, usa a alcunha Maria Preta,
longe dela ou se ofenderia na ofensa decerto a moça já uma senhora vivida,
apesar da graça que irradia ela – a Maria da casa da comadre Inês. Maria é o
tipo que se fala pau para toda obra, agora na função da compra do que faltando
na mansão, porque o grosso e mais caro das necessidades vindo de fora
certamente de Rio Preto, numa entrega especial do comerciante de lá à casa de
Inês: quase ninguém mais nem o prefeito com ganho tão alto a poder comprar longe
de Venda. Ela chega quieta, constrangida talvez, o comum sendo sorrir e mesmo
brincar com João. Pede isto pede aquilo examina criteriosamente a mercadoria,
rejeita o feijão carunchado ou com muita pedra no meio dos grãos, a carne-seca
meio seca de tanto cheirar se não fede! aí estragada; examina outras coisas
menores a adquirir, umas levará nas mãos em sacolas ou embrulhos que o balconista
empacota a gozá-la enquanto serve – aos pés de chinelo acondiciona até nas
folhas de jornal, estas restos da leitura diária do patrão; à casa de Inês isso
pegaria mal e daí se espera mais e se esmera como experimentado comerciante
pondo nos invólucros decentes; ainda boa parte dessa compra nas miudezas terá
que ser entregue à compradora no palacete; quer dizer ultimamente Gertrudes se
colocando no lugar da patroa nisso e então um horror ao empregado que levará a
compra porque a mulher minucia tudo examina tudo e reclama de tudo. Ao determinar
como chefe ao entregador, pensa lembra lamenta não ser seu Pedrinho nesse
trabalho porém que fazer se não soube segurar a vaga e ainda envergonhou diante
do patrão o pai.
Agora Maria mostra tristeza ou
contrariedade, talvez, ao chegar ao estabelecimento comercial. João desce da
bicicleta mas já lendo na fisionomia da moça um estado negativo. Enquanto a
tarefa de pesagem disto ou daquilo nos artigos pedidos por ela e ela a examinar
os mesmos, Maria resume numa crônica rápida quase um romance, o romance dramático
e trágico inclusive nessa degringolada na existência da patroa. Inês definha,
antes sofre e lamenta pouco, quem sabe apenas nas impaciências da enfermeira
entretanto não lamenta demais, porém nestes dias já chega urrar pelas dores que
os medicamentos não podem mais amenizar neutralizando...
João medita nisso e sofre de sua parte
esse sofrimento da comadre, ali transportada pela servidora amiga.
Esse dia foi de certa forma bem
negativo a si.
Cap.8°
Logo depois que
o esposo narrou em segunda mão ou se se quiser em segunda via as vias de fatos
na casa da comadre, Te enfeitou-se inclusive acrescendo água de cheiro aplicada
a contrabalançar o cheiro de alho cebola no dia a dia, enfeitou-se para
Gertrudes... O palacete de Giovanni onde vive Inês a sua morte, porque está dia
após dia a espaçar mais suas forças – esse palacete é algo extraordinário em Venda Grossa , visto ter
vista ampla do segundo andar, são dois pavimentos; e isto é o esdrúxulo aos
matutos passantes pelas imediações. De lá do alto os que veem veem os casebres,
antes o empório a prefeitura a câmara mais próximo e mais lá longe, que dista
pouco, a igrejinha do padre José. E aí sim, vendo as quase taperas no
aglomerado. As residências menos pobres e nisto se pondo imponentes e ricas
estão no meio aos pobretões. Vê assim Gertrudes quase naquele minarete. É um
ser frio duro calculista metálico – um amontoado de carnes, secas qual seu esqueleto,
um amontoado a sonar metais rígidos e sem sentimentos, sem coração para o gosto
matuto, o matuto que ela deplora. Gertrudes se transformou em chefe geral na
mansão, chefe até da chefa patroa amiga ou só ‘amiga’, a milionária Inês de
quem ela cuida à risca na função de enfermeira. A doente anda mal, bem faz
agora Te visitar a amiga, amiga de fato por anos, anos terríveis com seus
anjinhos descartados do mundo dos vivos amparada pela comadre (comadre somente
após vingar o único de João, o Pedrinho). Chega perfumada ou malcheirosa
segundo a chefia da casa, é anunciada mas já sabendo por via do marido quem dá
agora as cartas, a Gertrudes, portanto se arruma naquelas roupas discutíveis de
matuta realmente para a mandona, não para comadre Inês enferma. As outras
funcionárias riem amizade sendo como é Te amiga-conhecida, logo a entregam sem
mais delongas íntimas à mulher secarrona torcendo a cara às colegas.
A senhora... – encena desconhecimento
da comadre vi-sitante a alta funcionária alta da comadre doente. A visita diz
ser amiga da enferma e vir visitá-la. Gertrudes ameaça falsa etiqueta a dizer
inspirar cuidados a patroa e as visitas não serem recomendáveis nem recomendadas
segundo o doutor Ulisses da cidade de... Aí Te perde a paciência e penetra, tal
qual íntima que é, da sala aos aposentos de Inês, como o fizera por anos; bem
como a comadre rica com seu coração de santa a conferir presença de amigos,
entrava antes no lar dos compadres na periferia. Está já no abrigo solitário de
Inês, Gertrudes atrás dela a tentar recomendações e cuidados, que a patroa dispensa
mais com brados das mãos que de boca fraca; a empregada qualificada em chefe
por direito por idade ou por imposição se rende, sai, deixa ambas amigas nas
suas afetuosidades.
Comadre, você até me parece bem –
mente Tereza – eu andava com saudade (aqui não mente) vim aqui... Aí despen-cam
como antes a se contarem as coisas que sempre apreciaram dizer; agora com um
reparo triste não como antigamente se falavam. Inês é hoje um simulacro daquela
fortaleza dos velhos tempos, a então confortar sua comadre pobre porém digna; o
sofrimento dignifica a pobreza honrada e, por que não dizer: igualmente a
riqueza honesta. Assim não obstante a situação melindrosa da proprietária do
palacete, falam falam falam sem parar o que o tempo parara e não disseram elas,
pondo em dia os assuntos. Claro, claríssimo, Inês sem força bastante a tanto,
tanto uma qual a outra entendendo as limitações. Quase hora depois, reaparece
Gertrudes a expulsar educada e mansamente agora dona Te, sob alegação dos comprimidos,
da agulha, do descanso de sua paciente, o que todas compreendendo.
Enquanto a parola amiga, conversaram
muito sobre o sumiço do afilhado da ricaça; lembraram o João que, embora
pacífico e de boa vontade, se perdendo na falta de iniciativa; enquanto de sua
parte não conseguiu Inês deixar de pichar Giovanni... Falaram de pratos e
receitas (ora, quem, não podendo sequer ingerir papinhas, no lembrar a outra
ligada ao prosaico arroz e feijão as iguarias que vira preparar no estrangeiro!)
Falaram e muito das amizades comuns, deram-se em trocas amigas notícias dos
conhecidos; nisto Te lembrou a nova vizinha Maria entrona à beça e desconhecida
de Inês. Lamentavelmente para os remorsos da esposa de João, esta pôs muita
coisa de enfermidades de si mesma e dos conhecidos, o que terá influído mal no
mau estado da outra.
Já se cansavam do tanto se cansar
contar esmiuçar acontecimentos vividos ou só vívidos mas desconhecidos da parte
rica, pobre então e mesmo miserável se acabando e se apagando sua vela...
Daí chega Gertrudes... Curioso, ambas
frente à frente altas ossudas magras, grosseiras as duas mulheres uma por maldade
contida outra por ignorância mas inocente. Alega Te à comadre os compromissos
domésticos, sai, chora escondida na porta de sair e chora muito mais no seu lar
depois, sabendo ter sido seu último contato com uma santa criatura.
Cap.9°
¿ O que vê do minarete da mansão a alta funcionária a trazer
num cortado incontido as subalternas como a cozinheira Joana a Maria e uma nova
faxineira, as empregadas agora não param semana no trabalho; e mesmo os
trabalhadores nada machos pra valer e assustados com o mando e os desmandos de
Gertrudes... o que vê e veem esporádicas visitas que saem à janela da varanda ?
Venda Grossa esparramada em casebres –
atrás do palácio inclusive outros casebres vendenses, envergonhados quem sabe
na sua miséria de construção mambembe de tábuas e cobertas apenas de vez em
quando não de sapé, o dicionário teima culto mais no sapê enquanto os míseros
teimam no agudo na sua pronúncia crônica. À frente vê-se o casario arruinado,
meio nebuloso mas não do tempo enublado pois o sol é daqueles de mostrar na sua
quentura até imagens trêmulas a nos forçar as vistas piscar firmar ver por fim
objetos homens montaria arreadas ou soltas no estradão, que as autoridades
municipais e os habitantes insistem ser a Avenida Central. Ainda se vê o resto
da urbe a perder-se dos olhos lá longe. Enublado sim da poeira fina que entra
até nos poros e que Gertrudes deplora... Bem como nesse mal ela deplora os
matutos – provavelmente mais que todos matutos aquela atrevida Te que se diz
comadre da patroa!
A mulherzinha – diz a pensar diminuir
a outra, pois de fato grandalhona ossuda e da estatura dos machos mais altos
entre aqueles capiaus medianos e pequenos e por que não re-conhecer: dois ou
três centímetros maior que ela mesma, insiste a pensar Gertrudes – essa
mulherinha é o atrevimento em
pessoa. Aposto que sequer sabe o alfabeto a mundana ignorante;
além do cheiro horroroso do seu perfume de água de cheiro vencido e de não
encobrir seu hálito de cebola e frituras. A impertinente pareceu se imaginar a
dona da mansão...
Teceu mais alguns elogios ácidos e
torna à paisagem, tristonha a seu ver, a paisagem que vê pelos olhos azuis e
azuis escuros quando mais indignada.
Venda, vendo a venda de João no
primeiro plano, Venda é um grosso de feiura, perdida na terra seca na seca
poeira no vento seco enjoado e mais impertinente que a impertinência da mulherinha,
esse vento a fustigar os caboclos morenos. O casario é a pobreza se não
desnecessária e atrevida à paz, se não isso uma pobreza entravada na miséria e
na sem-gracice do ambiente. O vegetal então é o que pode brotar conservar teimar
existir num meio exageradamente inóspito e desagradável (aqui bem a opinião da
enfermeira distraída a observar aquilo...) A vegetação é descolorida por sem
cor que a defina, sovando o verde puro com um verde apagado praguejado queimado
ao sol; escassa e baixa, apenas capim num capinzal com um que outro coqueiro velho
teimoso a se mostrar; e trechos de plantação útil, não produzindo quase nada,
nada a justificar o preço, alto, do solo e a envaidecer orgulhar sitiantes. De
tempo em tempo no espaço da paisagem se nota capões de mato: são troncos
retorcidos enfezados baixos bárbaros a chegar ferir a natureza...
De longe, longe não há em Venda, de
alguma distância vêm produtorzinhos trazer ao mercado grosseiro de Venda Grossa
seus produtos: mandioca milho e carne. Essa gentalha (aqui insiste no pensar
Gertrudes) essa me parece onça ou ou-tro animal bravio e que se alimenta só de
carne! Trazem es-quartejados cabritos porcos e de vez em quando bois.
Instala-ram outro dia um açougue (mão de obra porca às carnes de porco e vaca,
deplora ainda a chefe da mansão) sendo um tal Mané o oficial dessa vendinha de
fim de semana. Havendo lavradores a ir oferecer carnes sangrentas de porta em
porta, numa visão de sujeira plena; sem grandes vantagens pois a população não
tem dinheiro compra a fiado e não paga ou não compra. Isto é um lugar de caloteiros.
Aí se alembra das ‘colegas’
servidoras... então desanda a pichá-las, já normalmente de voz declarada as
diminuindo e inclusive xingando, visto a mulherona ter aprendido a linguagem da
terra para melhor saber ofender quem ofender.
Sai por fim da varanda, entra
propriamente na casa no momento em que um veículo, um caminhão vazio, corre numa
louca disparada, deixando atrás de si o pó e pulverizando toda área central com
poeira avermelhada seca de sílica miúda que se agrada no marcar próximo roupas
das pessoas e cegá-las também momentaneamente, marcando eternamente fachadas e
telhados das moradias.
Cap.10°
Te pensa se
autocriticando se inculpando a inabilidade por haver falado em lembrança das
amizades enfermas e mais insistindo nos próprios achaques velhos no corpo
maduro, quando precisando isso sim respeitar, quem sabe amenizar, as dores da
comadre Inês, à beira da cova como tudo a indicar. Aí chora, não se contém não
se envergonha não se peja, estando agora só perfazendo o inacabável serviço de
lavar trens de cozinha enxaguá-los guardar tudo criteriosamente mas também
automaticamente. A tristeza é flagrante nela e daí, num estado de
autodestruição quase consumado, põe outras melhores ou inferiores
infelicitações, como a de o esposo haver dentro das rusgas conjugais saído de
casa de cara fechada pro seu lado...
Do seu lado, à parte seu veículo
escapando corrente a todo momento, também ele sofre. Aqui o drama da gente de
mãos limpas e sem ferramentas ao arranjo rápido, lá vêm graxas e sujeiras
outras; e então diz alto a espantar quem porventura lhe cruzando a estrada
improvisando rua com nome dum político desconhecido e tudo o mais, menos a
placa indicativa, e aí grita: burro! se ‘autoelogiando’ esquecimento do
embornal com chave de fenda chave de boca alicate essas coisas, coisas que
esquecemos dependuradas na estronca do quarto de despejo... então olha para
toda parte ver se vê se vem alguém, alguém pudesse ofender-se ser titulado
burro e aí encrencas a um sujeito benquisto. Agora um novo problema além estar
atrasado e a mulher a olhá-lo torto... – chegar assim sujo de graxa ao empório!
Vai ver, ia ver, os fregueses na porta exatamente a esperá-lo.
Arranja a corrente, se limpa no mais
ou menos enegre-cendo o lenço que Te lhe dera branco limpo passado dobrado de
acordo com seus habituais cuidados feminis.
Se põe – antes de mais adiante ter de
recolocar a corren- teimosa e frouxa escapando outra vez – se põe a pensar em
Te nestes dias. Acabrunhada após a visita à comadre quase ex-, indignada com
Gertrudes, penalizada com a situação da criadagem, criadagem não da patroa: a
da nova mestra no palacete. E têm suas dores, as quais já quase não comunica ao
marido, surdo ou sem humanidade quiçá sem religião. Daí en-contrando a razão ou
apenas pretexto de briga, pegar-lhe-ia no pé o porquê de não irem mais ambos
ver (isto é ouvir) as prédicas do padre José, que todos têm por santo. Tem mais
no pensar de João resfolegando suando em bicas e a pedalar na bicicleta,
enferma ela hoje. Uma coisa é certo num errado de as mulheres (aqui se pondo
machista ou por costume ou para não estragar a festa dos outros homens que
assim acham:) elas conversarem muito – e isto no seu caso um contrassenso levando
em conta a mudez da esposa e seu estado quase solitário na prisão doméstica –
falam demais e demais particularmente nas doenças! puxa, quase dizendo a si
mesmo porém alto a envergonhar qualquer ser equilibrado, puxa vida só em
remédios em enfermidades delas e de cada uma e ainda outra agravantezinha que
são os filhos; daí contam recontam; ah e metem o pau nos homens, às vezes
descaradamente perto do seu próprio esposo! A minha quase não sendo assim
porque vive sozinha, ela reclama em termos de estar “socada nesta casa!” Se
condói João por instante e torna: filhos não, lamentou lamentei igual a perda
do punhado de meninos que perdemos e então vindo o Pedrinho, que era gracinha
de garoto e que agora sumiu... A Te não expõe às outras quando estas aparecem
em nosso lar sobre os filhos e inclusive tenta esconder aos de fora as más
tendências do rapaz e sua fuga, a qual escamoteia socialmente correto como “viagem”,
sem conseguir dizer para onde... Contudo a consorte aprecia também falar e
falar sobre crianças e doenças: chás simpatias médicos, não médicos não porque
no lugar põe a botica e o Zé da Farmácia, safado como todos vereadores do
município.
Cap.11°
A escorrer
suor, sempre atrasado, quase sempre o João chega tarde ao trabalho, ainda faz
antes de entrar propriamente dito uma varredura de olhos, tentando captar a presença
(inde-sejável) do patrão, nenhum empregado deseja que lhe chamem a atenção pelo
atraso que conscientemente sabe haver incorrido infringindo as normas da hora
na hora... ora bolas, nem ele muito menos ele meio chefe ali e achando necessário
dar bom exemplo. Observa sujo de graxa não haver fiscalização porque decerto
seu Dito, compadre Dito, quem sabe ainda na cama com seus achaques de homem
velho... daí, só daí, conversa rápido num dedinho de prosa com fregueses à espera,
a um deles justifica quase o atraso na corrente da bicicleta Philips inglesa que o deixou algumas
vezes na estrada. E comenta: antes era bem pior pra mim, sabia que eu vinha lá
de casa a pé! diz como qualquer vendense a esse freguês vendense “diapé”.
Chegava suado cansado acabado já e sendo ainda o início de minha jornada aqui
na venda. Imediato e ainda conversando com o outro mas pondo objetos fora do
lugar no lugar apropriado; varrendo a área e naturalmente sequer sentindo o
cheiro característico de uma casa de secos & molhados antes fechada agora
reaberta, cheiro de mortadela salame alho cebola a custo contido seu exalar,
sequer a sentir isso já acostumado anos; sim varrendo e já diz prometendo ao freguês
ali no ver o trabalho quase preliminar do balconista: espere, já já peso sua
carne-seca.
Bem mais tarde aparece, ainda de
olhinhos a fechar no impacto da claridade excessiva lamentando as dores da velhice,
o compadre Dito. Interessante que embora haver batizado... batizado não: crismado
o Pedro do João; ambos raramente se tratando compadre – na loja no serviço João
é João ao chefe, enquanto que o patrão dele é para si ora Senhor Benedito perto
dum vendedor-viajante ou desconhecido outro; e logo vira no mais comum
acontecer seu Dito, dito assim perto dos fregueses de toda hora e próximo da
gente e diante da gente da família do patrão. Seu Dito chega sonolento abrindo
a boca, abre a boca a dizer que não dormiu noite inteira (o sol ri as nove
horas disso) e lastima os achaques, para não contrariar o hábito dos idosos...
O esposo da Tereza agora chegando e a
encontrar no empório seus problemas rotineiros, ouve paciente o dono da loja,
contudo foge do dono da loja numa forma instantânea momentânea numa velocidade
só explicável com a explicação do pensamento e chega de chofre no seu próprio
lar, no lar ela pensa – curiosamente pensa nele, a sair enraivecido de
pá-virada no falar costumeiro da mulher – pensa nele pensava então na outra e
chegou, no auge da indignação e até esquecendo o sofrimento da comadre, nesse
ponto mais crítico de sua indignação pensava nela e se deu conta a falar alto:
“essa Gertrudes é uma desaforada!” se imagina a dona da casa e a casa é a
mansão de uma santa, não dum lúcifer de saia, retro satanás! onde será que ouvi
assim... ah deve ser na missa do padre José e o João fugiu da igreja não me
leva mais nem na semana santa nem para a comemoração de Santa Luzia... hoje
saiu brabo não sei por quê. Saberia decerto a magrela, a bicicleta Philips do
marido. Foi assim quando João deixa o corpo falador reclamante do compadre se
apresentando como patrão e logo aparecendo perante sua mulher choramingas a lamentar
seus dramas porém firme na vassoura... nisto grita alto um carro frenando na
porta do armazém, atirando sem qualquer exigência educada poeira em nuvem de
cegar e cheiro forte de gasolina de pneu e... ah bem pior: cheiro de gente!
Por essa razão se interrompe o
diálogo; seria diálogo com tantas vozes! a de João a do Patrão a de Te a de
Gertrudes, esta quem sabe a seu costume no fazer um muxoxo por desagrado, a
chefa da mansão deplora aqueles capiaus e sua Venda Grossa.
Não tem conversa, ou por outra: param
todos dando lugar a muita conversa. Desce da carroceria do caminhão mil peões e
saltam da boleia o chofer gritão e mais gente, parece que uma senhora matuta e
seu matutinho de colo. Sacolas fraldas chupetas choros cheiros, a gente roceira
ou por extensão cidadã mas rural nos costumes, com costumes que se não vê...
ora, não é possível ver: a rotina proibe ver o que ver e mais o que se sente
que é o cheiro da gente. É um cheiro a matar não apenas civilizada gente como
Gertrudes, como qualquer gente qualquer. O hábito com falta do banho quando
banho só nos sábados por exemplo. O cheiro das roupas e das coisas em si
impreganando vindo da carne do vício da sudação da gente. Todavia a própria
gente não ‘vê’, ah essa rotina!
João serve. Procura escolhe mostra
concorda pesa em-brulha sorri dá o troco ou lança tremido na pendura que se
pronuncia ‘pindura’, dá inclusive a mão num cumprimento comezinho, despede o
freguês, quem sabe até não prometa algo como visita impossível (claro, e o
sofá?) Contudo não anda presente no presente, alheio ao alheio e alheio ele mesmo
– pensa vive critica, lamenta talvez sua relação na loja e mais fora dela com o
compadre e ao mesmo tempo seu chefe; perigosamente pois quem lhe dá arrimo paga
salário dá valor no valor que o empregado tem; o que os anos seguidos a já
contar dezenas provam por a+b.
Doutro lado o velho Benedito, tido por
esquisito per-nóstico orgulhoso (por ser rico!? mas riqueza é o quê...) tido assim
pela acanhada sociedade vendense; o que pensará de João ali à sua frente já se
desdobrando rápida e eficientemente nas tarefas ligadas ao balcão do empório, a
loja que é o tesouro de sua casa seu sangue sua família.
É um sujeito confiável o João. Desde
rapazinho serve como um experiente e agora anos a acumular a sabedoria que as
lides comerciais exigem. Se – ah que possibilidade medonha, se fala baixinho
por dentro seu Dito – se faltar, não um dia como outro dia ficou fora em casa
de molho com gripe e aqui deu-se a confusão. Se faltar deixando o emprego...
uma vez um safado propôs levá-lo de Venda para Rio Preto e felizmente a comadre
Te não aceitou a transferência, a menos que fosse na cidade grande mais perto
do sítio do pai dela. Se pedir-me as contas... será com certeza o caos, ainda
mais que me sinto perto da cova; que fariam os meninos (forma íntima e carinhosa
da gente se referir aos herdeiros, mesmo adultos e até passados na idade: ainda
‘meninos’.) Não quero, diz a si mesmo aquela ruína que é o velhote baixo magro
arcado e de andar medido e trôpego, não desejo sequer imaginar esse desastre...
Sabe-se não ter havido o desastre, a
família tocou para frente o negócio; talvez não bem dentro da linha do antigo
controle do velho pai; não terá superado o fundador com mais abertura visão e
efetivado o progresso na empresa? Ainda nisto com ajuda inestimável do
balconista de confiança.
A freguesia quase exigindo a presença
do também pas-sado ou meio maduro João, João da Tereza.
Cap.12°
Te, Te do João
o João lá na venda, Donatê trata dos afazeres domésticos o fogão a vassoura as
criações, a ‘bita’ prenhe outra vez; lá no empório o rapaz a brincar meio intimidado
com gente sem intimidade pois o Zelão, pequeno embora, velho torto quieto, do
tipo quase mudo só falando o necessário o menos que necessário, que não se
entende direito falado pelas metades sobre um pedido ou a dizer boa-noite
“banoite” que fala quando e diz alguma coisa, a levar depois pra sua casa longe
fora de Venda, num sítio da família; e o João, todos e o João, já acendendo
lampiões logo viria a luz elétrica o prefeito trouxera o gerador faltando técnico
e dados técnicos ao funcionamento, de maneira a contarem apenas com o lampião,
o qual aceita bem a conversa e a fala dos fregueses, mormente amolentados ou
disparados com aguardente que os balconistas desejando ir embora servem. Então
o compadre do compadre Benedito tenta uma graçola qualquer a aproximar um pouco
o mudo Zelão, cita a cabrita. Sabe seu Zelão que nunca mamei na mãe? fui filho
de cabra... O outro não dá azo à brincadeira, tendo decerto meio surdo ouvido a
provocaçãozinha e daí impera, se não brabo que é o característico dos sérios ou
assim a se apresentar, diz ao João: me dá as compras, vou indo. O empregado ri
contrafeito, num rir-e-chorar ao mesmo tempo, serve o freguês e sinaliza aos outros
quase seus subalternos se livrarem logo de miúdo bebum, do tipo difícil de se
convencer, a gente pensa haver entendido e ser atendido: não, tornam a repetir
e repetir a mesmíssima estória. Enquanto os demais colegas despacham o último bêbado
– têm os que os amigos levam pra casa receber insultos ou lamentações da esposa
e não é o caso, outro caso – enquanto, vai guardando apetrechos de uso e
fechando trancando portas, seu Dito morre de medo de ladrões, os de galinha e
roupa no varal têm muitos não desses: dos perigosos que lê no jornal Estadão,
antes o periódico era chamado “Província de São Paulo”. Desses, teme esses.
Entrega as chaves ao compadre-patrão, coloca na despedida ainda uns lembretes
que se esquecem durante a jornada fazer, ou um recado ali deixado, tudo ao
compadre Dito (lá fora as vozes dos colegas lutam para lembrar o ébrio teimoso
ir-se:) entrega a loja, sai rumo à periferia perto, longe de Te...
Ultimamente andam os esposos mais
sérios, menos co-municativos entre si, ele sai volta ainda havendo algo negativo
no ar e no lar. Então se escarrapacha no sofá, aquele sofá que toma como peça
enorme meia sala e Te não tem força bastante a fim de arrastá-lo no dia da
faxina; nesse sofá. Enquanto ela, ao lume da lamparina ou do lampiãozinho,
borda ou costura ou ‘crocheta’, aqui dizendo “meu croché”. Porém mudos. O
radinho não, disparado alto seja na viola seja na propaganda, que ele afirma se
ainda não dormiu sentado ser “reclame”. Tem o da pílula do doutor Ross, a qual
não sabe pra que serve e assim mesmo imita desafinado o João essa uma quando no
empório – em casa não, parecem os cônjuges agora como a meninada na brincadeira
da vaca amarela: quem falar primeiro come...
Durante a jornada no trabalho ele
tentou uma gozação sobre isso com a freguesia – não leva lá muito jeito na
graça, sem talento a provocar rir; pretendeu também narrar encompridar a cabra;
na casa quando eram mais soltos ele contava recontava à Tereza...
Mas Te anda nesse sol do meio-dia, às
treze horas quase, a tratar a bita, enquanto lembra o filho. O Pedrinho rejeitava
seus seios, precisaram por instrução do Zé da Botica (hoje Zé da Farmácia,
ladino na câmara municipal) necessitaram adquirir uma cabrita já de filhotes
para o leite do menino; ou perderiam igualmente esse. A cabrita forneceu anos o
sadio alimento não só ao garoto, aos pais, o pai mesmo Te gozava ser um verdadeiro
bezerro. Isto apenas lembrança dos tempos em que os bichos falavam... Agora
somente recordação, o esposo na venda no trabalho, ela a pastar sua cabrita
amarrada. Uma corda que o paciente animal estica a encontrar mais verdes e
tenros vegetais. Solta, presa mesmo no quintal embora as lascas faltando na
cerca e toca à Te o conserto porque o João diria depois faço, sentado na sala
naquela gritaria futebolística; solto, o bicho põe o beiço em tudo, nada fica
inteiro e vivo após o repasto. Te deplora a poda de suas flores e hortaliças;
portanto a cabrita amarrada, muda de área, vai procurar terrenos baldios que é
o que mais existe no município, a fim de alimentá-la.
De manhã é uma graça, a mulher levanta
cedinho, antes mesmo do João se levantar e depois sair e além de tudo é
pre-ciso deixar-lhe fervido o leite agora ainda não tirado da cabra; aquece
água na caneca, lava o ubre de sua bita, após espreme as coisas dela, quer
dizer da outra, o líquido branco e já cheiroso, este vai se depositando na
vasilha embaixo nessa coleta. Nos últimos tempos a fêmea caprina experiente
andou aplicando leves coices na mulher por extensão mas na vasilha, a derramar
o leite; aí começa a fazer tudo de novo ou seja limpar espremer juntar numa
colheita o líquido e por causa do novo trabalho a dona fica irritada; deu-lhe
uns trancos, a cabrita ou entendeu ou temeu, se aquietando. Deixa um pouco aos
cabritinhos, duas saltitantes criaturas, o que uma concessão e tanto do ser
humano... Ferve o leite, mistura ao
café, João quer forte com pouco açúcar e a mulher sabe a medida; quanto a ela
aprecia fraco e doce; não como o doce de arder a garganta pelo café da nova
Maria, a vizinha xereta para quem foi obrigada pagar a visita que não pôde
evitar e aí se lembra daqueles olhinhos perscrutadores e as indagações fora de
propósito da irreverente; então vai lá bem uns quinze minutos como pagamento e
sofre a ofensa da oferta, engole ao menos quente de queimar beiços a infusão
doce doce ai! se diz se lembra se lamenta, o João chega na cozinha a piscar ainda
os olhos um pouco empapuçados e avança para os lados da caneca; o pão, pão de
casa, Te faz num forno caipira com brasa, falam ser dos melhores em Venda, ela
se envaidece nessa verdade; assim seu homem come com gosto, às vezes apressadamente
por ordem do despertador com hora adiantada no atraso usual do chefe da casa;
entretanto na hora de picar em pedacinhos o pão e pô-lo na caneca para sua
sopinha matinal, ele mesmo exige ter o trabalho não ela, questão de idiossincrasia
do homem, ou da casa do homem visto ser possível que a residência tenha lá sua
opinião e seus sentimentos, contra todo o resto do universo. O certo é comer
aquilo com muitíssimo gosto e – isto é mais certo ainda – e sair correndo de
bicicleta ao empório.
Cap.13°
A poeira densa
em Venda apagou o sol, debalde o sol olhava de olhos vermelhos aquele
amarelo-rubro de mil partículas de sílica destroçada expostas e mil e uma
insignificâncias perfazendo um todo; não se via nada, tudo todos envoltos na
espeça fechada névoa seca brava fustigante de poeira. O armazém fechara
amedrontado suas portas, as portas chocalhavam ferozes ou ferozes os ventos os
grânulos os tufos ao bater na tábua dura das portas. Gritavam os moradores da
vila, sobretudo mulheres e suas crias, estas a enlouquecê-las num pensar o fim
do mundo lá fora; dentro da loja, em terror pessoas se juntavam alarmadas
atrapalhadas no não saber que fazer – fregueses contavam causos de outros
ventos de outros vendavais de outras procelas de outros desastres, crendo
vencer o próprio medo ou para aumentar o medo dos circunstantes já apavorados.
O dono não ditava ordens mas falava muito, contrário e incomum ao seu quase
mutismo frente os fregueses; e sobrando muito daquele pouco, podendo se avolumar
o estrago se estrago, a sobrar sim muito para João, o qual mostrou ali certa
iniciativa, mormente a acalmar seu pessoal. Curioso, de mal com ela ou meio
cortado nas relações com a esposa, embora isso no momento pensando com medo no
medo que ela pudesse estar sentindo sozinha na periferia. Mas não. O desastre
não se confirmou porque a onda de medo e de pavor não chegando ao lar deles,
fustigou sim porém a demorar menos que o previsto no imprevisto pessimista da
gente, tendo o grosso do poder dos ventos a agir somente numa pequena faixa da
cidade.
Por onde a onda bravia passando
entretanto ficou o es-trago enorme, no entanto as perdas se contabilizam
segundo o pouco que se possui e nenhuma vida ceifada se não um que outro esfolão
sem monta em alguém.
O céu asserenou, permitiu que até a
respiração ofe-gante ansiada dos mais fracos fosse normalizada.
Embora a ventania braba, não fora mais
que apenas ventania, um sopro barulhento e quase manso. O aviso duma tempestade
arrasadora e prometedora, dum verdadeiro desastre meteorológico um cataclisma,
assustou e preparou a periferia ao pior – e não existindo nada pior que o medo.
Na casa de João, a Te ora, rezava então pelo filho perdido, pensava nele a
sofrer seu coração materno, desligada do mundo e até duma provável tempestade,
em vista o calor abafado o ar pesado o vento atrasado a prometer muito aos
viventes; isso Te desconhecendo no quarto e na frente do oratório e sequer
percebendo, surda, a janela a porta num bater de leve primeiro e depois
insistentemente e por fim a fazer barulho forte, um barulho pensando poder chocalhar
o mundo intimidar a gente no mundo – foi quando sua ‘bita’ a avisou...
Uma cabra tenha ou não cabritinhos
saltitantes mas agora a se esticar temerosos na mãe na espera de defesa, uma cabra
é uma estação meteorológica ambulante no movimento do todo. Percebe com
antecedência extraordinária a proximidade do perigo e, em perigo, grita berra a
valer de assustar o mundo. Acorda todos moradores de uma área restrita e exporta
depois a uma bem maior, em cadeia formada com outros bichos, sobretudo a
canzoada despertada amedrontada ou só ferida nos ouvidos. O Peri destampou a
ladrar avisar por certo ou apenas temente. Mas a cabrita berrou seu mé,
imediato retesou a esticar e com pretensão de até arrebentar a corda, e acorda
nesse momento a dona, Donatê sai, deixa o filho na lembrança que nunca se apaga,
só adormece, desperta agora corre fecha como pode as tampas das portas e
janelas a gritarem no batido de quebrar inclusive e com certeza a barulhar;
corre então ao quintal defender a bita, ou se livrar dos berros daquela
garganta afiada, puxa a ponta de cá, lá quase a se enforcar a mãe caprina; puxa
puxa amarra a “doida”, Te assim a tratá-la, prende a corda na casinha do cachorro,
mais quente mais convincente ao ser inocente e para as duas criinhas, também
ali agora o dono da casa, Peri abana a cauda à mãe, o cachorro tão apegado e
amoroso deve pensar que a mulher seja sua genitora... Enquanto o porco na ceva
reclama não se sabendo se da ameaça de chuva se por mais comida; as galinhas se
encolhem se grudam aos cantos e uma que outra se prende aos galhos e travessas;
anteriormente elas haviam se preparado extraindo um óleo do próprio corpo a
untar penas para se defender das gotas que cairiam não caíram. Em volta da casa
de Te os vizinhos igual a vociferar temer lastimar quase primeiro a lástima que
pronunciariam depois; enfim todos a se defender como podendo; é visto não ser a
hora atinente ao bate-papo.
Não obstante, o furacão sequer chegou
a vendaval por onde passando, talvez concessão a oferecer um vento forte, fortíssimo
reclama o medo humano. Isto na periferia, onde as mulheres mais piedosas
apelaram muito a convencer nas suas invocações e preces gritadas a Santa
Bárbara. Entretanto na área central de Venda e quem sabe ainda mais na venda,
as coisas foram mais duras e mais fortes as ondas bravias do vento, a assustar
mesmo o João, tido por controlado e harmonizado pelos de fora. A gente de fora
não sabe a falta de sol dentro duma pessoa que se vê e que abusivamente dizemos
conhecer; assim como o homem comum afirma conhecer uma cidade tendo visto
apenas a rodoviária ou a praça central. Venda Grossa não tendo uma praça digna
desse nome, apesar de a gente do lugar conhecê-la bem. João nem a si
conhecendo. O que pode ser dito sem erro, talvez com exagero, do restante dos
seus irmãos na humanidade.
Porque o balconista por essa época não
andava bem das pernas... Isto dizer popular a garantir que algo não funciona a
contento no relógio do corpo. De fato sentia-se mal. É curioso quando alguém
aborda outro, que este sempre possa responder mentindo ou se enganando. Pois se
disser andar bem, há qualquer coisa que se não diz às pessoas mas que sabe doer
ou estar em mal funcionamento ou, pior, ao contrário destampa a contar no
tim-tim por tim-tim as mil dores mil sofrimentos. Em ambos casos mente ou engana
ou ainda se engana, o relógio humano não é perfeito.
Contudo e mesmo não se dando fácil a
lamentar comentar exagerar o íntimo e mais nas dores físicas e no que como macho
da espécie vivia a criticar as mulheres por terem tais fraquezas (quer dizer,
lamentar seus ais) contudo ia bem mal João. Nos últimos meses engordara um
pouco... pouco satisfatório isto porque estufara e mais o ventre, a ponto receber
gozações dos fregueses a afirmar seu exagero na cerveja; bebida conseguia
comprar com desconto no trabalho; descontos também noutras mercadorias; não bem
a preço de custo, o compadre Dito não fazendo concessões... Estufava sim mas
isso quase senão no todo ruim ou funcionando mal – o coração avisando o pior.
Sentia ora o lerdear ou o cansaço nesse órgão, ora o que chamavam em Venda e
não só na venda batedeira, ou seja uma disritmia a disparar um pouco e desregular
a pulsação; a ponto de sentir meia vertigem, um certo desequilíbrio; enfim
preocupante. Tudo começou – ah nós nunca conscientizamos direito e exato o
quando, quando mesmo teve início aquele transtorno aquele sintoma... vem o
sintoma já o carro andando mal, por azar. João um dia teve lá o lembrete ou
aviso da natureza e depois contou por alto ou terá mesmo exagerado a narração à
esposa, não para impressioná-la decerto e assim mesmo a espantou ficando desde
então prevenida e a fazer como faz uma esposa ao seu homem: passou a pegar-lhe
no pé – não faça isso não faça aquilo cuidado etc.; a irritá-lo, ficava furioso
com as admoestações. Aliás é próprio do ser humano se pensar puro perfeito e
desnecessitar cuidados alheios. Mas tudo (no início, esclareçamos bem) tudo partiu
da escada. As casas de secos e molhados a vender variado estoque de bebidas
ferramentas defumados conservas alimentos secos, perecíveis embora, e até
panos. Tecidos enrolados com suas quinas a aparecer nas prateleiras. Justamente
aquele vermelho impressionante que a mulher pediu-exigiu ao seu marido freguês
na venda, aquele lá de cima nas partes extremas e aí o freguês indica ao
balconista descer-lhe ao exame de sua companheira. O João arrasta engancha a
escada móvel e se move sobe chega aponta tira a peça mostra lá de cima ao amigo
lá embaixo encostado no balcão. Sim, olha a esposa, ela faz concordar de cabeça
meio acanhada, sim é esse pano. Desce entrega examinam, não: ela quer o outro.
Ora, decisões importam pouco nisto; o que pesa é o estado ruim do empregado,
ainda meio chefe entre os colegas por aceitação tácita de compadre Dito, dito
já o proprietário do estabelecimento comercial. No alto, quase no último lance
da escada, sente-se mal João: certa moleza, um anuviado na vista, as coisas lá
embaixo a rodar um pouco, certo desequilíbrio, momentâneo sim porém
preocupante. De resto, mesmo inseguro o servidor, ele toma o pano em mercadoria
vistosa, depois desce lento mostra entrega e decepcionado leva de volta a subir
novamente sem força agora a escada, a tomar outra qualquer peça a mando do
freguês, freguesa. Ele inseguro, preocupado; preocupado consigo mesmo, com seu
equilíbrio e até com sintomas desagradáveis, pontadas fisgadas coisas assim, as
quais podendo ser verdadeiras e reais, ou só dentro da cabeça a imaginá-las nos
músculos nos nervos nos ossos e até na cabeça. O dia está estragado.
Nesse dia chegou, embora meio ateu ou
apartado do meio religioso, pensou ir desabafar junto ao padre Germano...
pensou não foi.
Tempo depois, revelando quase sem
querer sua fraqueza, o próprio compadre intima seu balconista ir conversar com
o Zé da Farmácia, ele continuava a titular o farmacêutico como Zé da Botica;
foi, engoliu pós amargos e líquidos, todos preparados na botica, engoliu meio
forçado pela esposa, ou para que ela parasse sua cantilena sobre a saúde
dele...
Curioso João naquele dia do vendaval,
que o povo ape-lidou tufão, naquele entremeio às conversas descontroladas dentro
do empório assustado, o homem entretanto ponderado punha exatamente a
possibilidade de com todos morrer ali, ele antes que outrem por continuar a
sentir os mesmos sinais, os sinais na escada! De maneira que ao chegar de volta
pra casa, quase nem deixou que Te lhe despejasse os desaforos da natureza, que
havia martirizado o lar, nem os berros e ladrações que a atingiram na tarde –
João não escondeu dela seu estado, ele mesmo teve a iniciativa a despejar na
companheira sua tarde na loja, a escada as dores o medo...
Cap.14°
Senhor Benedito
Silva com mais alguns sobrenomes a sobrar nobrezas, compadre Dito, compadre de
João e seu chefe, mas também João um chefete junto à rapaziada a serviço na
venda em Venda Grossa
– se bem que nunca João um chefe nomeado, mais um aceito no costume aceito por
anos, ali a-tendendo desde jovem até a idade de chegar o esposo de Te a ficar
um pouco barrigudo “olhe a cerveja, João”, na palavra dos especialistas
fregueses – Benedito, proprietário daquilo tudo e dizem que falaram a garantir
haver ainda muitos cruzeiros dele escondidos nos bancos em Rio Preto e São Paulo, o
Dito não era de muita conversa no meio do povo, fechado, mudo. A garantir a
respeitabilidade dum empresário bem-sucedido! enfim de pouco falar. Ou por
outra: bem conversador e a gente a dizer dele “um boa conversa” pois é assim
que nosso egocentrismo reage quando só alguém fala e alguém outro apenas ouve
ou o povo em torno a escutar boquiaberto, então saímos da reunião a pensar ser
boa conversa o ouvinte, quando devêramos garantir ser de boas orelhas... Em
suma o velho dono do empório, quieto diante do gentio e tagarela frente subalternos
quando a dar-lhes ordem, e mais falador ainda perante amigos. Seu Dito da
venda, como o conheciam os meninos freguesinhos, um homem de poucos amigos, desses
amigos que pensamos íntimos, até descobrirmos serem tão só conhecidos; ele
diante do próximo (dele) apreciava citar chavões e sobretudo discutir política.
Vez por outra punha, punha não: mandava um dos empregados lhe pôr a cadeira
fora na calçada e aí... a cada passante reconhecidamente passivo, despejando
sua filosofia. Baixo, não gritava como alguns descontrolados de garganta
molhada na pinga ou só por natureza falando já alto em casa e na rua ou na
venda do Dito, esta que era de fato mais armazém do João.
Se achando o comerciante abastado um
quadro do PSD, olhava com simpatia os udenistas, detestando a corja do PTB,
esta da esquerda ou só fisiocráticos por baixo com traje petebista por cima.
Enfim, se não tivesse alguém como o proprietário da venda de Venda consciência
nem status de político dentro desses
cânones e aqui seguindo as mesmas afirmativas feitas e defendidas nas linhas do
jornal, leitor assíduo ou fanatizado da “Província de São Paulo” antes e após
do “Estadão”, daí não prestando. Ah, e dentro ainda desse lema no qual acreditava
e expunha, havia uma outra questão fechada: a desconfiança e ojeriza mesmo aos
comunistas, ou assim parecendo. Oh como o ser comum inclusive os que se pensam
incomuns (e/ou superiores à gentalha) como picha fácil. Por exemplo, Dito
pichava bem Domingos comunista e por extensão Pedro, quando longe do compadre
João naturalmente e nisto antes de sujar o filho olhava se o compadre não próximo;
ora quem incauto ferir o produto encostado no produtor...
Tudo pra si vindo ou da esquerda
sabida ou da desco-nhecida presumida, assim por mais incógnita parecesse – era
o mal o perigo. Tudo entre pessedista, com certa tolerância aos da UDN – era o bem
a democracia a liberdade; e que esta não precisasse sequer ser vigiada... mesmo
porque para que vigiar se é o bem! Ideias do patrão.
Na última eleição, eis no poder
Chiquinho do PTB... Dito não economizava desde então críticas ferinas ao prefeito.
Ora, inimizade formada, visto um político viver exposto e os de Benedito
caiam-lhe por cima como vespas, vespas? marimbondos. Pelas mesmas razões não
apreciando o Zé da Botica; chegou, não obstante, a enviar o compadre João adoentado
uma vez, não havendo em Venda outra farmácia, ao Zé da Farmácia; porém
advertindo o empregado que tratassem exclusivamente dos remédios, não de política,
pois...
Não apenas de política se ocupando o
grupo, bem entendido: grupo masculino de Benedito nas conversas no pas-seio
público calçado, quase o único cimentado na urbe descalça não só o leito
carroçável descalço no geral. Discutiam outros assuntos os amigos a passar e
ali fazendo ponto junto ao empresário: havendo a tratar mais coisas, sobretudo
aqueles apimentados apimentando a moral alheia.
Neso (seria Genésio?) tendo muito guardado desse tipo na bagagem e
portanto contribuindo bastante no grupinho, grupo dos machos; outros
participantes contando menos um pouco porém dispostos a contribuir na parola
amiga ali ajuntada quase que fortuitamente a passar as horas; eram parolas
machas moventes, moventes? sim pois nem sempre os mesmíssimos colaboradores,
daquelas em que a pessoa fala alto pra ser normal mas daí ou passa próximo
mulheres ou orelhas masculinas não confiáveis, quer dizer não sendo daquele
grupelho fechado e então se abaixa o tom o som, o bom naquele mal... Dito
lembra por qualquer referência a senhora Inês: Inês freguesa rica, estando,
conforme Maria vindo semana passada à venda, mui doente. Alguns arriscam as
moléstias conhecidas e mais eficientes, sem acertar. Ela, afirma o velho comerciante,
está com doença ruim... Se calam, ou temerosos contrair a doença ou temerosos a
se comprometer, porque Inês é quase uma lenda na região e por importante, não
qualquer uma. Passam mulheres e homens ‘comprometidos’ e já longe eles, ali perto
os companheiros ajuntados desabam a falar das vendenses com moral nada ilibada,
picham fulana beltrana não se esquecem de siclana; riem-se delas devendo ser
deles mesmos. Agora, dona Inês é inatingível, de alta moral, não se dirigem graçolas
por respeito. E o tal de Joãovani, lembra Neso de língua afiada e só aquieta
quando Benedito a falar. Assim se refere ao esposo da senhora todo-poderosa, o
sr.Giovanni. Todos, cada um, dando sua bicada na carniça e apostando sempre no
mais malcheiroso da vida do italiano, seria realmente italiano? Neso pronuncia
também “intalianu”. Mas tudo dito por não dito ao menos não provável, caso
queira ser o primeiro a expressar opinião o Dito. Calam-se. Fala que o sujeito
não é flor de se cheirar e com muita culpa no cartório pois se afunda nesse
mundo, parecendo fugitivo... Vai além, afirma saber de fonte digna ser
mulherengo, ter uma ou mais de uma em cada cidade e certa amante (eles já logo
picham a pobre com o pior adjetivo na praça... e o Dito prossegue:) essa zinha
afunda Giovanni visto falarem estar hoje em dia o ricaço pobre e falido. Lembra
ter ouvido da própria Inês que o esposo sequer traz mais sua contribuição às
despesas no palacete, que ela teve inclusive de cortar a ajuda que dava aos
pobres da igreja do padre José; e ainda pior: a mulher obrigada ultimamente a
dispensar várias criadas; somente as antigas servidoras permanecendo. Chegam
por aí a afiançar, diz ainda o chefe daquele quase bando falador, que a senhora
teve de cortar parte do pagamento de Gertrudes...
Gertrudes lembrada, desencam-na
rebaixam-na, em ra-zão da falta de atenção, de fato desdém, da enfermeira para
com a gente da terra (incluídos alguns dos opinantes ali...) Ninguém, sequer o
dono do empório que é tão importante na história de Venda Grossa – ninguém
corajoso para colocar tal opinião diante da moça... solteirona sim porém moça.
Uns inventam que seja meio machona; talvez não tanto longe da verdade, pelo
menos no momento de passar ordens aos subalternos. Além de ela amedrontar um
pouco os matutos, os quais ela detesta e às vezes mostra isso ostensivamente.
Quem sabe se não terá pensado assim Te
naquela visita tão desagradável que fizera à comadre Inês, desagradável
le-vando em conta conflitos com a enfermeira...
Cap.15°
Agora Te anda
mais calma, vê as plantas para se enganar, para enganar ainda mais sua tristeza
quiçá a solidão... mas como verteu lágrimas comprimidas longamente guardadas a
estourar seu coração! Pelo filho sim, se isso é a rotina nos sentimentos maternos!
Agora olha a fugir da outra: a Tereza mais tristonha que a outra menos infeliz,
agora. Olha observando o beija-flor a flor a cor de suas plantas – mil latinhas
floridas ou apenas de folhas verdes; as demais firmes no solo regadas sempre e
o mais das vezes neste tempo da seca... Seca também toda Venda Grossa a perder
de vista, os matos morrendo as queimadas vicejando a enublar os olhos a arder
os olhos a tremer na quentura e na secura a vegetação seja na estrada que leva
o João a bicicleta os outros, que a levou naquele dia e isso é o que lhe
desperta recordações tão pungentes. Tanto que agorinha mesmo na sua casa de periferia
e vendo o estradão que chamam rua batizaram rua puseram placa de rua mas
continua estrada gasta poeirenta e descalça; que leva sim o marido ao centro
urbano e sua adorada venda, onde trabalha desde garoto e é agora um velho tanto
quanto ela... tanto que olhando ora flores ora a rua, Te se lembra e
lembrando-se mexe de novo suas feridas, lancinando de novo essas feridas.
Fôra fóra do lar um pouco por umas horinhas prolon-gadas num dia, atrás
duns aviamentos para as costuras (ai! anteriormente exibira os panos
incontáveis vezes à comadre... será que torno a chorar!) Primeiro, ainda se
abanando se enxugando do suor e do trecho que ele faz todos dias apenas domingo
que não, ela naquele dia também marchando e já chegou cansada na venda;
primeiro na venda e depois foi procurar noutras lojas menos importantes da
cidade as linhas as cores os apetrechos por que se deslocara. Aí deparou-se com
o ajuntamento dos homens e o compadre Benedito (ela nunca abusaria chamá-lo no
meio ou não do público por compadre Dito; o João sim). Comadre, o compadre João
foi fazer uma entreguinha na mansão, hoje o vagabundo do Zé não apareceu
trabalhar e o compadre no lugar do safado. Entra um pouco, disse ao lado dos
amigos quietos de boca um pouco enquanto o chefe a se dirigir à comadre;
entretanto não mudos de olhos, Te sentiu-se nua, envergonhada, constrangida, se
vendo o que vendo aqueles brutos; decerto, pensou rápido, a fim de após ela se
ir ficarem comentando falando criticando gozando a vida alheia, a dela em particular.
Então gagueja qualquer coisa e Benedito completa: a senhora entra na loja,
conversa um pouquitito com Marina; a filha dele ainda com uns dez anos; e o que
conversar em mais de dez minutos com uma garotinha... Se a mulher do compadre
ali, aí bem: o assunto esticar-se-ia mas... Nisso se alembrando o que falavam
quando Dito não era ainda viúvo: ele assassinara a esposa de pancadas estando
grávida e então perdeu mulher e filhinha, as quais não resistiram. Claro,
ninguém a tocar num assunto tão sigiloso e incômodo quanto monstruoso. E daí terem
João e Te apenas compadre, este crismara o Pedro com ajuda duma prima, viúvo.
Portanto ela nunca fora comadre da outra. Pior, Tereza a ‘conhecia’ por vê-la
somente uma vez.
De fato, o caboclo diz sempre isto:
dito e feito. Sim, entrou a mulher no empório, já se dispuseram analisá-la de
alto a baixo – baixo, inaudível até mesmo dentro daquele conselho de maus
conselhos da moral de Venda – particularizaram suas partes: ossuda e alta,
‘gritaram’ rindo “girafa”, giganta do pigmeu, o que exagero pois João quase da
estatura dela e apenas um pouco barrigudo dando impressão desfavorável como baixo;
enfim Te a eles uma bela feiura. Alguém, piormente sendo o compadre, a dizer
rindo “coitado do João” e outrem complementa “o João é um monstro barrigudo e
ela um bacalhau” (riram a valer:) mas Deus fez o diabo acompanhou. Gente comum
aprecia deveras os ditados em voga.
Te ficou o suficiente a se aborrecer,
indagou coisinhas à garota e permaneceu ali como algo fora do lugar, ora no lugar
que lhe ofereceram, uma simples cadeira de pau, ora a olhá-los o que leram os
empregados como fiscalização; e pior sendo objeto de observação também daqueles
machos sem compostura ou somente envergonhados, porque o matuto mesmo se
civilizando um pouco no pesar cebola e batata e falando errado a acertar o peso
ou o embrulho da mercadoria, em si vergonhoso diante duma dama estranha.
Estranha? apenas de poucas palavras; somente se dirigiu a um dos colegas do
esposo por lembrar-se haver se encontrado com a mulher dele e dois ou três
filhos na missa; ah a missa, e o João nunca mais a levou. Permaneceu em tal situação
incômoda até que pouca eternidade depois retorna o marido; conversa escolhe
embrulha comenta algo ele com os outros, marca na sua própria conta a descontar
no pagamento, vai além nisso: exibe a anotação aos colegas numa comprovação
para nenhuma consciência ficar totalmente imune.
Te se despede dos homens, dá a mão aos
mais próximos dela como é hábito, ainda constrangida, antes disso beija
desajeitada flexionando a coluna, alta como uma coluna, oscula de leve a
menina; por fim sai indo a pesquisar no mercado acanhado e fraco da urbezinha
com aparêncica de vilarejo. Retorna ao lar, retorna e com retorno à lembrança
sofrida.
Muito chorara a perda irreparável de
Inês; aliás muita gente assim porém ela das íntimas da ricaça, se bem que mal
aparecendo nos últimos tempos na casa da outra, Te quase não indo ao palacete,
afugentada com a presença hostil e o mandonismo de Gertrudes. Contudo a ligação
não terminara, antes se reforçara. Doutro lado Inês não podendo mais se
deslocar como o fizera por anos à periferia, onde se consolavam ambas mulheres
das suas mazelas. Muito chorara a perda, agora longe de João que a criticara
vezes incontáveis por entender isso como uma fraqueza. “Te, morreu morreu,
chorar a vida inteira pra quê?” Agora só, acompanhada dos animais que lhe tomavam
horas aos cuidados, compensado pelas alegrias nesse contato e trabalho também,
agora relembra e despeja os sentimentos. Têm pessoas que não conseguem fácil
chorar fácil, como é o comum dos seres; aí se comprimem se deprimem no depósito
sem compensação de sofrimentos fracassos e problemas outros. Um dia uma vez num
dado momento ou explodem – e seria um desastre... – ou abrem de vez as comportas,
inundam, como Donatê agora o lugar em que se encontra, como na janela do quarto
onde curte sua solidão...
A rigor foi num crescendo a coisa,
desnecessário o pre-
texto a causa
sendo tão contundente e aflorada por aquilo que o companheiro tachava fraqueza.
Foi num crescendo, as lem-branças as gotas ‘inapercebidas’ as correntes já a
lavar um pouco o coração opresso e por fim havia riacho rio mar, dilúvio na
fase dos soluços, a ponto de a senhora sequer conseguir parar. Parou, parou sob
algum pretexto; iria inundar o planeta!
Recordou-se dos momentos em que ambas
participaram, a alegria franca da outra mas também as lágrimas que não escondia,
porque isso não se esconde de amigos e mais quando tão próximos como era Te. As
estórias os fatos interrelacionados se não compartilhados. Enfim foram dias
anos de convivência e amizade profundas. Nessa longa amizade delas contavam-se
confessavam-se expunham-se agruras e dados que uma e outra a levar no cofre
fechado a sete chaves para o túmulo... Infelizmente, diz o pensamento de Te ao
seu próprio pensamento, infelizmente a comadre foi primeiro.
Pensava exatamente nesse ponto quando
a Maria... não a servidora cheia de graça da comadre morta mas a também morena
(moreno, aquele negócio de não querer ferir de frente o negro...) quando Maria
nova, a vizinha nova já meses velha no pedaço, a chamou gritando lá da cerca; desejava
um qualquer favor ou um empréstimo decerto supondo um dia pagar porém se
esquecendo não devolvendo ou não devolvendo inclusive a vasilha da outra, açúcar
arroz em falta com sobra na casa de vizinhos. Te responde e espera um bocado
atender a entrona Maria, a aguardar secar lágrimas recentes ainda teimosas e
que o avental ou a barra do vestido se negava a esconder.
Cap.16°
Então a nova
velha grita para Te... ora, pra que berrar já tão perto a vizinha, ainda mais
descoberto olhos da outra por quase encostadas tête-à-tête o semblante do choro que se não esconde ao arguto que
nos lê a fisionomia. Mas a vizinha Maria deixou por ora comentar o estado
emocional visível em Donatê – a pedir o que pedir. O arroz lá na cozinha
descobri agora no instante de afogar, o alho a cebola já a queimar... sabe que
ponho no meio uma rodela de tomate a colorir enganar o pessoal lá de casa!?
estava, fui logo ver no estoque, estava ele embolorado e com bicho (Te a
corrige pois nem quando estamos pra cima suportamos provocações... pra baixo ainda
por cima Te e aí bica:) bicho não, dona Maria, caruncho. Caruncho se corrige a
mulata candidatando-se a morena. Então, a senhora pode me emprestar duas
medidas? (aí na certeza já ofereceu a canequinha de medir).
Te
escolhe na despensa um arroz que o marido trouxe do armazém, um refugo do
compadre (e os fregueses iriam comprar isso? leva para a comadre fazer o que
puder aproveitar – cobro a preço de custo, confirmou a sovinice do proprietário).
Iria dar emprestado e ainda não ter devolvida a caneca um arroz escolhido e
caro em pesar no pindura do João? não com certeza. Entregou o alimento à pressa
da vizinha. Qual pressa, a de queimar virar carvão a panela no fogo!?
Bem,
a vizinha tomou à vizinha não mais que uma hora, das magras, a conversar.
Normalmente o fato seria lamentado grandemente por Te, porque muita gente toma
o tempo da gente frequente para a gente lamentar a perda (eu não poderia estar
nessa hora a fazer coisas mais úteis como levar pastar a bita!) Não lamentou a
si mesma: a conversa quase fora desabafo. Visto andar magoada com toda a vida,
devendo afirmar de fato com a existência sofrida, enfim com os últimos meses
bem pesados. Ora,
a hora se prolongou espichando, Maria não teve piedade das orelhas da
vizinha... ou teve pois a distraiu um bocado de suas agruras sentimentais, a
troco de vender uma Venda inteira, qual jornal marrom de boca aberta. Sintetizou
tudinho sabido de Venda Grossa, inclusive o que Te sabendo e mais muito mais da
periferia.
Tem ali na esquerda, pra lá da outra
casa a dona Maria... A senhora pensa que toda Maria seja confiável e de alta
moral? capaz, tem muita sem-vergonha e essa é a Maria Intaliana, um problema
para nossa vila. Grita dia inteiro com os capetinhas dela, todos feiosos de
cara vermelha esfolada e arteiros; berra até com o italiano dela, dizem quando
bêbado bate nela mas quando sóbrio um cordeiro e aí ela é quem bate no homem.
Isso já vi com estes olhos que a terra há de comer, credo! Tem ali encostado a
Jovina, negrinha safada, eu também escura porém branca na moral ela uma praga
entretanto falam que vai mudar daqui pro sítio onde moram os parentes, o marido,
marido coisa alguma, amásio, sumiu, não aguentou a cachorra. Tem a, tem o,
tem... Parou, dá licença Donatê, o almoço (“armôço” disse como qualquer
vendense que se preze) o Zé vem hoje mais cedo comer e tem os meninos de escola.
Infelizmente
para o tempo e à pressa de Maria nova ve-lha resolveu ela narrar a vida escolar
dos meninos seus, notas injustiças da administração e o descaso no qual o grupo
escolar de Venda se encontra; um dado quase desnecessário à vizinha Te visto
não ter filhos para comparação e interesse, teve um dia mas Deus os levou,
vingando apenas Pedro, o qual em criança lhe dava horrores de preocupação e
trazia mil problemas, mais fugindo da escola que trazendo questões miúdas da
escola ao lar. Depois fugiu de vez. Entretanto ela não quis mexer a sangrar
mais a ferida contando à vizinha linguaruda.
Te retorna. Donde? de Maria e
curiosamente desafo-gada, agora sem precisar pôr caraminholas na cabeça ou
tirá-las qual peça de roupa ou objeto de decoração que limpamos lustramos e de volta
pomos ou na gaveta interna do guarda-roupa com a praga da barata atrás, mais
ainda na cômoda incômoda pesada para onde se põe de volta o objeto, que seja um
bibelô de louça de arte discutível ou em crítica ao bom gosto. O capiau matuta
a beleza diverso do civilizado refinado gozado também, visto seu gosto não ser
do gosto dum vendense de periferia por exemplo. Retorna aos afazeres. Naquela
hora se pergunta: puxa o que é que eu estava fazendo! ah... o porco, o porco
quase cevado indo a banha já a lhe partir a pele, o porco grita a lhe relembrar
deveres para com ele e sua fome, a fome que vai e volta sempre.
Despeja a lavagem ao interessado, num
cocho de tronco cavado e o porco porco se lambuza esganado. Ela sorri da porcaria,
o bicho alevanta o focinho e olha sem lhe perguntar intenções nem comentar o
sabor daquilo: Te mistura abóbora, mandioca e restos de comida humana da janta;
agora o João anda sem fome e assim deixa tudo no prato, não adiantando
pegar-lhe no pé estar doente, o que daria briga e já vive o homem enfunado, não
quer conversa. Enquanto ela apesar de tudo ainda tendo que aturar um latido
tamanho, porque o cachorro ou não se dá com o porco, os porcos tendo entre eles
outros não de engorda também manhosos e irritados temendo o cão; ou que este
seja de amizade com todos porcos.
Cap.17°
Te não aguenta
explode com o barulho do Peri. E o Peri não merece uma página! Não sai de perto
da ama, ela dá-lhe uns gritos, ele encardido ladra ainda e aí, bem, Tereza lhe
mostra o chinelo arma poderosa e se cala se afasta vai beber água na lata das
galinhas, bebe até cansar decerto a língua e então se deita numa espécie de
missão cumprida.
No
dia em que a esposa do João foi às linhas aos avia-mentos de sua costura,
parecia um festival caótico dos bichos; mais dos cães em Venda. Já ao chegar no
empório, aquele a-juntamento de espécimes da espécie Homo sapiens chefiados pelo compadre Benedito na porta, a deixá-la
constrangida; e daí arreparou no cão de guarda dos homens, o Guerreiro, pensou Guerreiro
era outro cachorro, ali sentado no rabo a aguardar certamente ordens deles para
atacar o povo passando, a assustar senhoras e menininhos – e mais ela, Te ficou
de prontidão e nada ocorrendo. Pois bem, já quase a entrar após troca de
palavras com o compadre; aquele negócio do esposo haver ido entregar mercadoria
à comadre Inês, quer dizer ouvir desaforos de Gertrudes; já quase nesse ponto,
quando descobre a companhia de Peri, feito cachorrinho atrás da gente. Que
fazer. Provocação escândalo gritando o vira-lata! não, fez de conta estar
sozinha, sozinha entrou na loja, enquanto o bicho dela se estranhava com o
animal do compadre.
Horas,
tarde inteira ocupada a andar pela urbe, pois não é lícito uma senhora apenas
comprar coisinhas nas poucas lojas do centro e não cumprimentar dar a mão falar
desnecessários necessários com moradores conhecidos. Em tudo, em todos momentos
teve o Peri xeretando atrás de si, ora sorrindo com o rabo ora a cauda entre as
pernas diante alguma coisa perigosa e daí atenção negativa. E os desentendimentos
entre cães dos outros! um ladrar sem tamanho por onde Te andou; e andou muito.
Além da chatice na questão, ainda o temor da senhora no caso ser mordida na
briga canina, atacada; e aí não se sabendo direito se ataque à mulher se ao cão
dela por seus pares. Por fim tornou à periferia e já em casa rezou um sermão ao
seu animalzinho enrabichado.
O centro urbano de Venda Grossa não
tendo carroci-nha, quase nenhuma cidade inexpressiva no país tem. O povo fala
carrocinha. Uma carroça adaptada ao mister, um funcionário da prefeitura, um
laço, uma chibata prevenida, e a caça aos vadios da espécie e irmãos de Peri;
este por sinal do tipo bem vira-lata lambido pelos curtos garganta forte língua
comprida. Dessa forma a limpeza, por lei geralmente, a limpeza nas cidades. Ali
não possuindo carrocinha, Venda sem recursos financeiros diante da pobreza e da
inadimplência a quitar impostos e taxas e portanto sem a terrível ameaça aos
cães e aos cidadãos adoradores de animais, sobretudo os cidadãozinhos a ficarem
livres desse perigo.
A canzoada perdida solta a campear nas
ruas descalças secas empoeiradas; além de sem nenhuma iminência de um carro
atropelar cachorro; gente, houve um caso na história do município, o qual
provocou comentários falatórios por meses, decerto por falta de notícias a
realimentar novas criadas notícias. Terá havido acidente envolvendo cavalo
cavalgado por cavaleiro ébrio vitimando cão dorminhoco no leito da avenidona;
nunca se pegaria um gato, cachorro.
Quanto aos nomes dos bichos, num lugar
como exemplo a casa de Te, na qual até galinhas e porcos com apelidos e a dona
conversando de igual para igual com os animais de criação, numa defesa talvez
por sua solidão – os nomes variadíssimos e bem particulares. Nem Peri sabendo o
porquê do seu, batizado pelo João por causa duma estorinha que furtivamente
lera na venda (sem entender satisfatoriamente porém achando assim mesmo graça,
entremeio atender freguês e pesar pedaços de fumo na balança gasta do empório).
Os outros moradores quem sabe atribuindo os nomes semelhantemente. Nada na
região havendo de cachorro com pulseirinha e visita a veterinários. Venda
Grossa nunca se rendeu totalmente à civilização; decerto por se render ao
fracasso da civilização...
Contudo alguns cães tiveram bem
marcado seu apelido na história do povo vendense, como o caso do Guerreiro; e
isto se deveu com certeza pela importância do amo dele, o sr.Benedito dono da
principal venda de Venda. Dos seus tem-pos de jovem aventureiro caçador, a sair
com amigos para a selva do lugar. Não obstante longe ser mata virgem intrincada
ali por volta: Venda antes ser Grossa e zona urbana ter prefeitura e câmara e
piormente taxação com falação e corrupção, isto segundo pagantes ou mal
pagadores, o município nunca teve floresta, porque lugar de campo seco pobre na
sua vegetação, oposto à terra de mata de cultura. E portanto a caça devendo
certamente haver ocorrido longe. Perto ficou a fama do Guerreiro como caçador
emérito, não de raposas nobres mas de onças veados pacas tatus passarinhos.
Seja lá como for, ele deu azo a que o Dito e seus colegas da época ou forjassem
ou contassem histórias verdadeiras; as quais vararam dezenas de anos até à
morte, morte do proprietário do armazém de João.
Isto posto, quando Te com medo do Guerreiro,
não devendo ser o mesmo caçador de onça, visto a onça numa das estórias de
caçador haver comido o primeiro da série; Guerreiros outros o Dito possuiu, com
mesmo nome em homenagem ao grande herói.
Aqui se encerraria a página do Peri e
seus companheiros que se dentavam abanavam os rabos e numa linha homogênea de
manifestação uivavam, o uivo herdado dizem más línguas do lobo selvagem. Também
a questão de, ausente do lar o dono, o cachorro uivar fino alto irritante
irritando a vizinhança. Às vezes com o amo ali dormindo e o povo nesse caso
avisa que avisa o bicho a casa da passagem da morte, o povo avisa e se benze no
aviso. Aqui se encerraria; entretanto houve de importante nuns anos atrás a
cadela Cecy (o pobre nunca acertava a duvidar se com y se com i, o que
desinteressante a ela, fêmea analfabeta). Pois bem, seu dono se gabava da
inteligência e mais da disciplina do seu animal: Zezico, o dono, punha um
bilhete na boca da cadela a indicar que tipo de vianda queria; pondo junto uma
nota de vinte cruzeiros e dizia ordenando que levasse à casa do Ju, o qual
mexendo com matança de gado, diziam ser roubado e aqui não interessa, interessa
Cecy. Nesse tempo ainda não aberto na urbe o açougue porco do porco açougueiro
(crítica de Gertrudes). Ju tomava o papel, quem sabe mal redigido, e o dinheiro
do focinho da vira-lata; após enrolava a encomenda num papel de jornal quase
sempre cedido daquele usado lido por seu Dito da venda; junto com a carne o
troco; ou fazia o pior: registrava a mais no pindura, em Venda é pindura que se
fala e não pendura, na conta enfim do freguês. Cecy transportava a encomenda
direitinho, não comia a encomenda no caminho; até pelo contrário se dispondo a
rosnar braba caso outro cão interviesse a cheirar a carne dela, do amo dela. Um
dia, uma noite, um inimigo de Zezico atirou no quintal bola de carne com pó de
vidro; matou a cadela; e fez o dono sair de garrucha a procurar o criminoso,
nunca o encontrando...
Cap.18°
Menina você não
apareceu mais! diz o padre Germano encontrando numa das ruas Te, naquele dia
das linhas do com-padre do Guerreiro dos homens a comentar conspurcando toda
população feminina na venda principal de Venda. Pois padre José... engasgou no
susto a esposa do João, perdida naquele achado reencontrando o pároco sem
esperar; e que mais dizer? não sabia. Contou após como foi sua ‘fuga’ da igreja
da missa do convívio e olhe a já fazer anos! Costurou ideias em resposta aos
cabelos branquíssimos do santo, todos o tendo por um santo homem, ela inclusive;
claro ter de se não mentir esconder algumas verdades como a de João mostrar má
vontade e haver fugido ele antes que ela dos ofícios da religião – quanto a
ela, não visitava diário seu altar em oração aos santos interferir na volta do
filho! – não deixara o culto, fora sim o marido... Conversaram como bons irmãos,
o santo e a pecadora, se despediram: ele indo à venda, ela voltando da venda; e
o encontro interessante; por não ter havido o encontro antes, numa cidade um
cuspe de pequena numa comparação com as grandes urbes entende-se. Mas tem nesse
quase desencontro algo curioso. Acontece que o sacerdote respeitável respeitado
não era bem Germano como Tereza constrangida quase o tratara... Era o padre
José, organizador e incentivador orientador no seu templo, pouco mais que capela
do meio rural e de vila, anos lutando a erguer primeiro e após moldá-la fazê-la
de fato um prédio religioso, uma igreja sem pretender os colossos europeus. A
propósito padre José indo exatamente à procura da venda de Benedito, ou a
cobrar dízimos então escassos na pobreza da população ou a pedir ajuda direcionada
ao aumento da torre que faltava à igreja propriamente. A dúvida ocorrendo com
alguma razão, visto o povo da rua confundir anos os padres, um padre noutro...
José nascera José num parto de gêmeos
idênticos com Germano, este nome em homenagem ao avô paterno; aquele usando o
nome do avô materno, fisicamente ambos iguais, houvesse na gente o igual.
Catolicíssimos, os pais encaminharam os gêmeos à ordem e esta nomeou os irmãos
no mundo a evangelizar. José enviado a Venda Grossa após seminário e formatura,
ou seja recebendo as ordens sacerdotais, Venda que era um ajuntamento pobre de
casas e gente porém prometendo (e não cumprindo...) virar cidade mesmo. O mano
foi para outra localidade. No entanto quisera o destino que fosse uns poucos
dias viver no arremedo de paróquia de José. O povo ficou um pouco atrapalhado e
confundia Germano chamando José e lhe tomando as bênçãos; inclusive beijava as
mãos de Germano pensando fazê-lo às idênticas mãos de José. Se foi o mano,
permaneceu a dirigir a capela José. Permaneceu a confusão em Venda.
Assim não é de espantar que Te
aceitasse o abraço de José e beijasse o anel de ‘Germano’. Dessa forma também
agiu – sem oscular os dedos do outro e nunca o faria – agiu o João em vários
encontros pelas ruas da urbe, quando de entrega de compras... Parece também que
só o velho Benedito distinguira os gêmeos e nesse caso ao dirigir-se ao religioso
‘grafava’ na voz o nome correto, José, ele inclusive usava dizer “meu bom Don José”
– ou é que tendo sorte de acertar o nome e os demais o azar a confundir os
nomes.
Todavia ainda assim, na entrega a
serviço do empório o esposo de Te, no encontro o João ficou muito embaraçado
não apenas nisso, mas por andar chateado com o patrão: o compadre o enviava
entregar pacotes, julgando o compadre submisso sem o que fazer lá na loja ou a
economizar nas suas costas. O empregado se indagava nestes termos, pois Dito demitira
o entregador e não repusera ninguém na função, pondo o peso nos ombros do João
– sem lhe aumentar no aumento de tarefa o salário; aumentar! parecia desejar
diminuir proventos, alegando a crise. A coisa passou e o compadre do compadre
ficou mesmo no acúmulo de trabalho e com o mesmíssimo percebimento. Em quem
depois no lar atirava o sentimento negativo na renda estagnada? na inflação no
patrão sim, sobretudo na esposa. Assim logo adviera, a superar as discussões
conjugais, o mutismo conjugal...
Outro morador a cunfundir o padre, o
padre não procurava confundir nenhum fiel, apenas sorria compassivo, outro que
o fazia frequente e pondo após no pensamento a culpa nos seus avançados na
idade, esse era Tonho Defunteiro. Parecendo que os moradores a fazer de
propósito a confusão do seu apelido em razão dele confundir Germano-José, porque
mexendo com madeiras a servir a comunidade, funcionava realmente como
carpinteiro: portas janelas bancos, enfim serviços se não artísticos com madeira
ao menos toscos aos desgastes ou necessidades de Venda. Porque muitos o tratando
Tonho Carpinteiro, outros – e não a convir todos o caminho da cova e daí o
caixão e nisso por que não defunteiro!? coisa da gente – outros alcunhando o
profissional meio amador apenas Defunteiro.
Enfim Tonho fazia de tudo com madeira.
Ora, a gente rica se havendo alguém assim fora Inês o Dito da venda o prefeito
uns poucos entre vereadores e aqui bem discutível... mas os com posses mandavam
trazer de Catanduva as urnas aos funerais dos seus. E a pobreza! a pobreza encomendava
ao Tonho o caixão, feito decerto a pregos embora os entendidos dizendo e elogiando
a obra-prima no mister. Com um senão desagradável, ou a agradar o desagrado da
crítica Gertrudes ou somente para confirmar o hábito: pagavam ao profissional
em meses em anos em esquecimento ou até diziam-lhe na cara “seu Tonho nóis num
tem dinhêro pra pagá” (nessa linguagem popular autêntica do povo de pés no
chão). Ora, feito o caixão, enterrado o morto, como exigir devolução da
mercadoria por falta de pagamento!? Defunteiro já acostumado (ou anestesiado)
sorria ao invés de chorar, mesmo porque semelhando os outros do lugar, ele um
pobre trabalhador, possuindo a penca de filhos para manter em casa; entretanto
não chorava, quem sabe não pedisse no lugar dos cruzeiros um franguinho um
leitãozinho a fim de quitar a urna feita às pressas e até às vezes nas horas
roubadas ao descanso noturno (ou iria deixar cheirar o morto do outro?)
Perdoava. Interessante nisso tudo era o costume dele já medindo as pessoas possivelmente
futuras defuntas, nos encontros com vivos, seu olhar de profissional então
observando altura compleição para adiantar um pouco a posterior feitura da urna
quase sob medida... Enfim, perdoava o devedor, este de vez em quando a remunerar
o Tonho com aves frutas ou mesmo um “Deus te pague” comum na gente simples.
Cap.19°
Outro vendense
importante ao João e que apreciava trocar nomes era o Tião Padeiro, aqui
concorrente aos pães de casa feitos pelas donas de casa e melhormente por Te do
João. Ou porque a única padaria de Venda Grossa e assim mesmo vindo ao mundo a
panificadora nos últimos anos, antigamente preciso fora trazer o pão de padeiro
da cidade grande e aí nem por sonho comê-lo quentinho; agora tendo a padaria do
Tião, situada ali quadras poucas do empório. Ou porque o hábito mandava
secularmente não confiar nas coisas compradas longe. Ou ainda por gosto a mudar
de gosto – o certo é que não deu errado o negócio do padeiro. Logo diria aos
amigos estar dando lucro, um dia se jactanciou a dizer “estou desmanchando
quatro sacos de farinha!” decerto linguagem padeira mas a pretender falar andar
fazendo muito pão e vendendo, logicamente. Prosperou e logo também cairia no
marasmo de todo comércio da urbe, ensombrecendo até o visual. Visual? ora, nunca
a padaria com dísticos garrafais chamativos aos fregueses, talvez mais fazendo
propaganda o cheiro do pão assando no forno, o qual Gertrudes na mansão
criticava pela falta de higiene, não só no forno mas na padaria como um todo e
inclusive o próprio padeiro, ora a fazer troco com cédulas grudentas malcheirosas
de arder narinas ora em imediato pôr a mão na massa, literalmente; decerto,
dizia a gerente como dona do palacete de Inês, decerto sequer lavando as mãos
após uso no sanitário também, para depois enrolar pãezinhos... O que não
fugindo demasiadamente da verdade. A propósito, a gente do povo a apelidar (se
houvesse não havia sanitário público: nos apertos pedia-se favor a qualquer moradia
para usar o particular, ou sendo homem, macho, a descaradamente fazer xixi nos
muros quando muro...) o povo dizia o sanitário ser mictório, uns ao escrever
rabiscavam até ‘miquitorio’ desconhecendo proparoxítona e mesmo o acento.
Entretanto o Tião ganhou sim algum dinheiro com seu negócio, aquele negócio já
dito de quem tem um olho na terra dos cegos.
Aqui a padaria o pão a fome no pão se
liga ao esposo de Tereza, mais ainda à sua marmita.
O caso da marmita é bem sintomático e
até simbólico no desarranjo em que se encontrava a vida conjugal naquela periferia...
A marmita era um improviso de
caldeirãozinho bem amassado pelo uso, uso no acondicionamento e transporte do
almoço do chefe de família, empregado do compadre Dito na venda; o alimento que
a mulher preparava pondo no invólucro amassado para o marido, indo batendo
sacolejando socando quase furando ao se chocar com os ferros do quadro da bicicleta
Philips inglesa dele – sem encontrar outro meio para não atritar a vasilha;
porém ele nunca achou, ficando sempre na promessa (agora a si mesmo e não à
esposa:) amanhã vou pôr um suporte por cima do para-lama na traseira do meu veículo;
não cumpria, continuava prendendo amarrando a marmita no quadro a trililicar
barulhinhos chatos no encosto com os ferros à dança no gingar da bicicleta na
estrada, esta imitando rua, a fugir borboleteante dos buracos... Aliás a crítica
mais feroz quiçá contundente que o homem do povo faz em todas cidades do país é
a propósito dos buracos; nalgumas de prefeitos preguiçosos, o buraco maior come
o buraco menor – não sendo o caso de Venda, plana seca sem chuva até à
agricultura pobre do município pobre e aí não se vai exigir enxurrada a cavar
buracão e este engolindo buraquinho; havendo sim buracos a quase tragar a
bicicleta do balconista e dessa forma forçando o ciclista desviar balangando
sua marmita de alumínio bem gasto.
Te se levanta cedinho prepará-la, ou o
esposo sai cor-rendo na última hora feito louco – e agora com o ventre
pro-nunciado, um ridículo e tanto – desembesta sem comida na estrada rumo ao
trabalho, distando uns dois quilômetros e aí ou ela, não a marmita nem a
magrela mas a magra Te, ela em ter que levar “diapé”, lamenta, lá nas lonjuras
do centro ou alega incômodos feminis ou gripe para enganar a preguiça ou o cansaço,
a fim de não levar o almoço. E aqui um desastre: o João sem marmita tira tiras
de carne-seca na venda e come cruas com pão do Tião, ou manjuba mil vezes
salgada crua tanto quanto a carne fria dura velha, lambida adrede por insetos
decerto, e novamente a compor no sanduíche com o pão de padeiro do padeiro...Raramente
opta pela mortadela, o que é curioso visto o caboclo gostar muito. Ou ainda
desanda a comer doces como balas e bolachas e outros confeitos. Não é então um
desastre! Sim, agora mormente levando em consideração o estado de saúde do
homem. Então se desdobra contra toda sorte de azar Te, a preparar o que
preparar à marmita do esposo. Ora, iria ficar viúva antes do tempo... Exato,
porque um regime com tais sanduíches improvisados e porcariada (o apelido que
ela dá aos confeitos de bar) seria morte certa, o errado é o certo portanto.
A marmita, no caldeirão indo o feijão
– mil vezes azedando saindo quente e esquecido com o arroz a ‘mistura’ como a
linguiça frita! e o demais abafado estragando... – o feijão engrossadinho com
pele de porco bem temperado; o arroz para João reclamar em papa ou seco e duro,
duro de engolir; abobrinha afogada e a carne cozida quiçá a lembrada linguiça.
Sobremesa? o matuto troca todo gosto civilizado por café, mesmo frio fraco
inclusive o azedo de trasanteontem. Não, Te capricha no cardápio do seu homem,
mais agora por doentinho, capricha na escolha no acondicionamento na higiene no
envio; não pode todavia contra a conta da natureza, a qual muda de tempo e
estraga o alimento; além não poder nada com o desmanzelo do consorte: iria ela
ir a tomar conta com seus cuidados da refeição dele!? assim como, como controlá-lo
na cerveja...
Ora, tirando os exageros e absurdos,
ficam a marmita e o conteúdo da marmita.
Ela, Te, quase lacra o caldeirão.
Inventaram o improviso duma tampa doutro caldeirão ou panela, que a senhora
chama caçarola e enrola no dizer; ou maior ou menor que a boca da marmita e
neste caso necessário vedar bem com um pano limpo fino esburacado no uso mas
lavado e até passado (o João critica gozando a mulher dele perto de amigos, a emprestar
mais graça à graça, de que ela passa a ferro em brasa inclusive meias e a cueca
dele do tipo que o povo apelida samba-canção; não diria o sutiã dela). O pano impede
que moscas xeretem a comida, sobretudo no tempo do calor, sendo calor sempre em
Venda mesmo no inverno seco. Tudinho para prender a tampa – ainda assim a
teimosa tampa da marmita grita barulhinho na trepidação da rua, estrada
poeirenta com esse nome e nome registrado dum político de família vaidosa.
Contudo, balançando e friccionando com os ferros da bicicleta, todavia chega ao
destino final de matar a fome, meio pouca nestes dias do João balconista.
Inventaram, isto mérito da criatividade da parte masculina da casa, criaram um
elástico de borracha preta de câmara de ar, esticado entrelaçado cruzado amarrado
amarrando a fim prender suficiente a tampa teimosa. Desse jeito a vedação e a
garantia de, caso o buraco enfrente a magrela do esposo da magra e caia no chão
sujo da estrada: que não se perca a comida ao menos. O acidente ocorrendo mais
de três vezes numa década, o que percentual insignificante, indo bem presa a
marmita do João.
Uma coisa ficou provada nisso tudo: o
almoço vai chei-roso, Te carrega no alho na cebola na salsa na cebolinha e nuns
toques de pimenta ao gosto do homem. A tanto provocar inveja e água na boca nos
colegas da loja.
Cap.20°
Um dia o João
mastiga já acabando sua marmita escondido no fundo do serviço, quando aparece
pelas costas falando e falando a seu jeito espevitado o compadre Dito. Não diz
o frequente “não cortando sua palavra” e daí imediato corta ex-põe o que expor
sem sequer pensar haver prejudicado outrem, o comum no homem comum. Não diz e
mesmo logo percebe o outro a mastigar e exalar do seu caldeirão o tempero do arroz
do feijão, faz o reparo em concessão como pessoa educada e observa: ocê,
compadre, não... sim pode acabar primeiro o almoço e depois do almoço vai me
visitar aquele sem-vergonha (sem-vergonha é o prefeito do PTB, fosse do PSD ou
da UDN, assim mesmo nisso teria queixa:) diga ao sem-vergonha politiqueiro que
os ladrõezinhos seus funcionários me lançaram a mais na taxa de iluminação – eu
tenho lá alguma coisa que ver se o motor quebrou! – e na taxa de propaganda...
Se não diminuir na cobrança, eu mando raspar aí na frente na testa do empório o
chamarisco dos fregueses, tiro ‘Casa Silva...’ não, isso não pode porém mando
riscar lixar da parede ‘secos & molhados’, não, também não: passo tinta preta
por cima da azul já meio apagada apagando o anúncio que faço em termos de ‘a
primeira venda de Venda Grossa’. Isso. Isso decerto vai demovê-lo no roubo,
aplacará a fome de imposto daquela canalha na prefeitura; ah um dia a gente põe
gente nossa, os bons do PSD; não acha, João?
Claro, qual empregado a discordar
mesmo achando lin-do o dístico no rosto mais precisamente em cima do rosto na
testona do prédio e que é uma beleza de escrita.
Por causa disso chega no balcão de
atendimento do executivo o rapaz submisso e comportado com aparência de chefe,
a cumprir ordem do chefe. Loguinho Dito tossiria além do costume, faleceria,
sem trazer o drama que Inês deixou na mansão; porém com movimentação semelhante
e depois um túmulo para enfeitar o cemitério municipal, não um da altura
artística de sua freguesa de tantos anos mas igualmente uma tumba notória e de
respeito; ao menos sobressaindo diante das covas pobres cruzes cansadas e velhas,
num mostrar os montes de terra acima dos sete palmos.
Assim chega João na sede da
prefeitura. Felizmente o prefeito fora da urbe, sem precisar dar as mordidas da
oposição do compadre que ele representava ali.
Enquanto ali permaneceu, ficou minutos
incontáveis a observar o trabalho burocrático na acanhada repartição – uns
poucos machos da espécie e uma senhora simpática perdida já a beleza, gorducha
e lenta, lenta inclusive no olhar e de nome Joana, freguesa do seu balcão e portanto
bem sua conhecida; esposa de alguém do partido a causar inveja talvez nos perdedores
da oposição no último processo eleitoral. Essa Joana ‘tec-tecava’ em grãos de
milho na máquina de escrever, que o João um pouco longe leu com dificuldade Remington, observação que estacou após o
sorriso da mulher pra si. Esta chegou-se ao balcão atendê-lo, a fim de não
resolver o problema do sr.Benedito da Silva e pedir voltar outro dia por isto
ou por aquilo, no hábito de justificar as coisas. O empregado agradece,
pergunta da gente da família dela, ela descamba a contar do seu mais novo, por
tempo corrido espichado e sem pressa alguma; só no fim da explanação se alembra
querer saber da Tereza e infelizmente também se recordando indagar o paradeiro
do Pedrinho, o qual fora seu colega no grupo escolar.
Foi na tarefa de representar o patrão
que o balconista tomou de fato conhecimento da existência da máquina de
es-crever, nunca havia visto aquilo. Dias após, Dito trouxe uma usada a ser
usada na sua contabilidade particular. Em geral João por anos notava curioso o chefe a
fazer anotações com caneta de molhar no tinteiro, num cursivo que no conjunto
lhe parecendo bonito. Um dia exagerou na subserviência a dar ao outro sem que
este pedisse o mata-borrão para enxugar as letras úmidas no livro-caixa do
estabelecimento. A novidade da máquina entretanto calou mais fundo no
meia-idade João.
Guardou na memória até o som produzido
pela Joana na prefeitura, ferindo as teclas da máquina negra. Tanto assim que
se prometeu algum dia dar uma ao filho...
Em casa, ao narrar as peripécias e o
movimento das horas, lembrou a Te sobre os funcionários lá na prefeitura. E completou
mais este absurdo. Te, um dia compro máquina de escrever ao nosso garoto... O
que disparou as lágrimas da senhora; o Pedro sumira já ano e pouco, “e muito”
retificou-lhe o coração. Por isso ambos pais ficaram constrangidos, sem mais ter
o que dizer.
Cap.21°
Toda vez que
uma novidade é novidade num vilarejo os curiosos aparecem. Foi o caso da
máquina Olivetti usada que o Dito
trouxe pôs em cima do balcão da venda, não achando melhor lugar; aliás pior não
melhor pois o teclado a lhe ficar muito acima para cansar o indicador no
trabalhoso exercício de encontrar a letra certa, que para ele sendo todas
letras ao encargo de um só dedo, visto ficar demais alta: ou ele demonstrava
sua perícia a atrair moleques na saída da escola passando por ali mas ficando o
chefão de pé (aqui não cabe ‘diapé’) ou se sentava vendo a bruta lá em cima do
balcão. Enfim tornou-se uma distração e tanto aos moleques aos fregueses aos
admiradores aos próprios empregados ali por volta olhando quando o patrão não
lhes olhando... João ficou pasmado, de água na boca. Esta uma expressão mui
usada na região nessa época. Todos pretendendo desejando ao menos experimentar
o gosto daquela geringonça, uma espécie de caixote negro de ferro tendo um rolo
de borracha horizontal, o qual ao chegar na extremidade na linha do papel fazia
plim, quase igual faria depois a máquina de registrar dinheiro no caixa e que o
patrão não veria, nessa altura enterrado e cultuado como bom puro justo santo...
o que do pensamento do povo simples acendendo velas e levando coroas em finados. Mais para
diante o patrão subtraiu a novidade removendo-a para os fundos perto de seus
livros, os quais eram revistos pelo contador lá de Catanduva onde a escrita oficial.
Isto mais próprio do escritório, embora no balcão da venda chamasse mais
atenção e por outro lado Dito precisando dar ao curioso explicações
desnecessárias, desnecessárias a um homem impaciente nervoso quase neurótico.
Além da curiosidade nisso, havia
sempre ajuntamento de pessoas no empório, seja a comprar (não afirmado pagar...)
seja a simplesmente bater-papo sob ação do álcool.
Uma razão para a passadinha e parada na
frente e dentro da venda, o correio. Ali se acostumaram a procurar e entregar
cartas, comprar selos para a correspondência, nos quais se lambia muito bem
para grudar no envelope, ambos também vendidos nesse correio de improviso.
Eventualmente mesmo o João, curto de letras, acabava se apiedando de matutos
mais cegos na escrita. Então o interessado ditava e no balcão já de mãos trêmulas
o empregado feria a gramática feria o papel com mensagens aos parentes do
freguês, à mãe à namorada ou para o compadre, quase sempre distando no Nordeste
pois grande parte dos viventes ali nordestinos migrados ao sul do país. Dito
inclusive encomendou ao Defunteiro um estrado, uma espécie de prateleira com
gavetinhas toscas e grosseiras, para depositar guardar a correspondência dos
seus fregueses; no entanto o marceneiro executou o serviço com esmero e
capricho; nessas coisas não deixava esse profissional em buscar perfeição. A
última missiva que chegou à venda e quase chegou a ser depositada na tal prateleira
desse improviso de agência dos correios, foi uma endereçada ao proprietário, vindo
postada da capital e deixaria o destinatário irritadíssimo; entretanto Benedito
falecera no dia anterior, num acesso de tosse; os familiares não franquearam a
íntegra da notícia contida no interior da correspondência...
O empório no seu azul berrante já meio
apagado a con-vidar o público como sendo a “Primeira venda de Venda Grossa”,
atraía ao centro gente por ser quase agência postal mas também por outras
razões – a razão de oferta de caninha implícita, claro – outras como possuir um
potente rádio, estivesse ou não ligada a eletricidade, o que só ocorrendo à
noite, dia inteiro inclusive o rádio com pilha de mil horas gritava suas
músicas e propagandas e portanto atração especial, porém virando depois carne
de vaca; esta expressão contestando aquilo considerado especial e a dizer na
voz do povo – será a voz do povo mesmo a voz de Deus! – esse povo da rua desejando
falar de algo muito comum; o que contrassenso popular porque a carne de vaca sempre
cara só variando na falta dela a ficar de cara a caríssima. Semelhante caberia
ser carne de vaca o rádio visto cada vez mais os vendenses comprarem receptores
hertzianos na grande cidade e trazê-los ao seu município; o próprio João
possuindo um com pilhas minúsculas; tais pilhas e seus radinhos causaram no
início um furor e muitos capiaus andavam pelas poeiras das ruas com aquilo
ligado, geralmente alto, a engolir em horas poucas a carga da bateria. O João
ouvia diário o seu a aperrear Te, não apenas na baboseira futebolística não:
não apreciava ela música e detestava rádio; tanto assim que o pobrezinho tendo
que ficar calado desligado chateado decerto na ausência do balconista, balconista
estando no seu trabalho; onde Te afirmava aos mais próximos que o marido era
explorado; quer dizer: trabalhava de mais e recebia de menos. Ah, e descontando
nela por não falar não conversar com ela, emburrado qual menino; ou a falar sim
no entanto nervosamente e às vezes soltando nas costas da infeliz alguma grosseria;
certa vez chegou a xingá-la, não a fim de que chorasse como protesto e chorou
assim mesmo até o chefe da casa ir-se ao ganha-pão.
Lá no serviço através da voz quase
sempre rouquenha do rádio na fome de pilha, aí quando já engolira umas quinhentas
horas das mil; mas através do verbo do receptor, precisamente às oito horas da
noite iniciava a Hora do Brasil, vinda em cadeia nacional desde o Rio de
Janeiro; depois a partir das dezenove indo até às vinte começou a Voz do
Brasil, não mais a ditar os conselhos da ditadura Vargas e igualmente com
mensagens governamentais – para os matutos não entenderem nem se interessarem:
o que os prendendo eram as músicas populares, não o falatório político seco
duro burro estúpido obrigatório porém. Não obstante, Dito ouvia sempre e com
interesse o horário do governo, por vezes a comentar com seus empregados, eles
sendo ótimos ouvidos e orelhas obrigatórias à boca patronal...
O povo sem ter o que fazer de útil –
ou estaria se ocu-pando com a utilidade das coisas – esse ficava por ali, ou no
empório ou nas imediações de dia e de noite. O rádio deixava ser distração.
Enfim a venda o centro de Venda e do
povo do lugar. Outro dado atraente e equivalentemente obrigatório, foi ela ser
espécie de rodoviária.
Não possuía essa importante
benfeitoria a urbe, embora as pessoas interessadas, entre elas o dono do
estabelecimento comercial pelas vantagens que disso adviria, elas fincaram um
poste de madeira de metro e meio em frente à porta de madeira do boteco, à
guisa de ponto de ônibus. Aí paravam as jardineiras como apelidavam, e não eram
jardineiras porque já veículos fechados e com janelinhas ao passageiro abanar
com a mão e olhar a paisagem correndo lá fora, os ônibus começavam ao fim da
existência terrena do sr.Benedito da Silva a fazer linha regular ligando Venda
Grossa ao mundo; uma só viagem um só horário, claro sem a precisão britânica é
visto... Mera passagem pela sede do município a levar gente trazer gente de
Catanduva. O Dito mandou, a caracterizar melhor o ponto rodoviário, mandou pôr
uma placa metálica redonda pintada e com a inscrição “Ônibus” mas... Bem, os
meninos do grupo escolar não davam sossego atirando pedras nela, uma vez
acertando no erro do sem querer uma senhora doutro lado do ponto, agachada no
estilo caboclo e a esperar condução... Atiravam objetos e no fim já apostando
quem dava maior soco na placa, provocando um som oco e gozado (na opinião
moleca). Até que o proprietário da loja mandou arrancá-la, deixando somente a
trave sem cabeça plantada ali na calçadinha, a única cimentada na cidade. Assim
se findaram as broncas do chefe e a grita impaciente dos empregados e usuários
viajantes contra a meninada, irresponsável como se admite; porque garoto só
estando um é santo mas em grupo o inferno.
Um dia, tarde quase noite no horário
de viagem e à es-pera da condução, aparece Margarida com maletas não malas, a
indicar portanto brevidade, enfim com maletas e um pessoal seu parente na
despedida. Contudo ela voltou à sua terra. Nesse dia maldosas línguas
anunciaram, baixinho, para as orelhas amigas: a solteirona vai a Catanduva arranjar
marido... Outro gozador: o coveiro. Todavia como foi dito, tornou a Venda
faleceu em Venda e dormiu na necrópole de Venda.
Cap.22°
João fuma quase
acende um noutro cigarro, em não perder o vício arraigado a lhe deixar
semelhando o cheiro do compadre Dito, este com um hálito um bafo um sopro de tabaco
que o fumante não sente mais; fuma sentado como a descansar não descansa
propriamente pois aguardando um freguês eventual que possa entrar na loja, em
plena crise nacional e a atingir Venda Grossa e o boteco. Então pensa, se é que
se possa parar de pensar, a avaliar todas mudanças que lhe ocorreram – para
pior lembra o anjo mau, o bom interfere: não tanto se há males que vêm para bem
e isto ditado em voga – enfim a pensar no que mudou com a transferência do
compadre Dito para uma vida melhor, outro pensamento popular. O que se alterou
e trouxe profundas modificações até concorde com outra sentença popular que
dita o mundo ter virado de cabeça pra baixo. Na sua pobre existência sim...
Pensa enquanto vê Marina a implicar com a mocinha novata filha do Defunteiro,
ela a manejar inexperiente a caixa registradora que reflete dos metais o sol
entrando ali; observa assim como a viu chamar a atenção doutro colega... e logo
não sobraria para si! Olha vê observa critica conclui num pessimismo, que não
lhe é frequente por mais tendente a brincalhão, sente a nova patroa não ter psicologia
no trato com seu pessoal, anos ali a ajudar Dito a ficar mais rico mais notório
mais influente e estendida a influência inclusive na direção partidária do PSD
e assim poder criticar com mais base a oposição no poder. Até no último
instante de existência ainda o patrão contra e vendo o absurdo do a favor ao
prefeito. Ah parece que foi ontem a crise e morte dele e já marcada pelo padre
José inclusive a missa de ano...
Observa aquela patroa nova (velha,
essa outra Margarida em Venda, criticam os sábios da vila) olha Marina e lembra
coisas que não adiantando dizer agora a ela, um ser fechadão e sem respeito com
seus empregados – os outros filhos do compadre mais abertos, um deles mesmo
loquaz e amigo; porém ela!?
Marina? ah carreguei-a no colo, uma
gracinha e o fazia por apreciar nenês, não por ser filha do patrão, ainda não
meu compadre. Num pulo vê Compadre a carinhar também igual ao compadre Dito seu
único menino vivo, falava o Compadre no garoto como sendo seu, com muito afeto;
quis mesmo crismá-lo para virar compadre de verdade, o Dito chegou primeiro
e... foi um tempo bom e é bom de se lembrar, a família unida: ele Te o menino;
depois o Pedro arranjou encrencas e mais tarde uma desavença maior com a mãe:
Tereza ficou a chorar aquele sumiço. Marina? era um amor de criaturinha e aos
cinco anos ainda sua amigona. Após se fechando foi tomando jeito de estranha,
até ficar-lhe uma estranha e hoje em dia uma estranha perigosa. Diziam más
línguas ela magoada com o pai no triste episódio da morte da mãe e da irmãzinha.
Enfim talvez virando inimiga do velho na família e assim tudo que se ligasse ao
genitor, os amigos do pai por exemplo, todos eram agora seus adversários...
João herdou a má vontade da filha por
causa do pai? Não tem muito cabimento, afirma-lhe a consciência, se nunca a
ofendi... Quem sabe se... ah não encontra razões só pretextos mal explicados e
isto é próprio do ser humano. O fato é que passou ser mal visto mal posto pela
patroa, que agora não lhe cabe no colo (sorriu triste à brincadeira; terá o
João mudado seu semblante por fora, que é aquilo que não explicamos a ninguém;
por dentro dialogava sua tristeza... ) Pior nisso tudo a reviravolta.
Agora o patrão na pessoa da filha mais
velha, uma virago comentavam adversários políticos do chefe maldosamente e pela
fraqueza – não franqueza, fraqueza mesmo da língua deles... hoje o patrão
destronou da chefia o antigo servidor, por anos uma espécie de chefete entre os
colegas, por mando do costume por mando do tempo de serviço por mando da experiência,
tacitamente o compadre aceitando os colegas acatando e os fregueses apreciando.
Mas eis que o Dito falece – uns a dizer haver abusado nos seus dotes machos,
pois na calada da noite anterior estivera com prostituta vinda especialmente da
cidade grande à sua conta; ninguém provara entretanto já tornou ao empório
tossindo desesperado e desesperado findou-se. Morto, viva Marina a encabeçar a família,
talvez por seu tino empresarial e sua liderança nata e daí a reviravolta para
Te.
Para Te? a enxurrada da crise que
atingia o país mas re-fletindo bem em Venda Grossa , toda ela passava pelo João e o
marido a levar extravasar talvez abusar quem sabe e a arrebentar em casa: dum
lado o mutismo dias e doutro as discussões frequentes; a falta real de
cruzeiros às despesas dignas, visto a esposa não ser gastadora como a crítica
de muitos consortes sobre suas consortes, aqui sem sorte no trocadilho. Te
recebia os restos da batalha do dia na guerra em que se tornaram os bastidores
do empório sob nova direção.
O rapaz, agora um senhor de meia-idade
inveterado fu-mante e apreciador de cerveja que então lhe pesava mais no seu
pindura na firma, o rapaz desceu a simples balconista, sem quaisquer vantagens.
Vantagens! corria à boca pequena, ou havendo uma sórdida conversa de oposição
nas intriguinhas no empório – corria que pudesse João ser despachado. Como não
se conhecia suficientemente em Venda a lei e as indenizações, diminuindo o
impacto numa demissão, isto um autêntico desastre. Como fariam...
Como fariam?
Cap.23°
São reflexos
das duas extremidades agora que ambos cônjuges experimentam nessa altura da
existência, João e Te com certa idade, não idosos propriamente mas a passar da
meia-idade convencional – reflexos da crise a enfrentar em duas frentes: no lar
o ambiente minado pela falta de recursos; na outra, sem grandes recursos entretanto
a crescer um pouco, não ex-pressivamente mas aumentar e sentir certo progresso,
o muni-cípio de Venda Grossa.
Venda
passara com o tempo se não a ter prestígio político a ter pelo menos presença,
deixando ser mero vilarejo. Já surgiam reformas; havia algumas choças imitando
residências ou abandonadas ou desmanchando, porém outras sofriam re-formas – e
o que mais sintomático na melhora: umas poucas (o muito aos pequenos...) umas
residências eram erguidas. Chegavam vez por outra caminhões a trazer tijolos,
os blocos não existiam na região só tijolos tradicionais; ou vindo com outros
materiais de construção como a cal o cimento a areia o ferro etc.. E aparecendo
gente específica ao trabalho e não apenas improvisados pedreiros da vila; estes
aproveitando-se a mão de obra barata, dentro da lei de oferta e procura, porque
Venda estagnada anos tinha de sobra serventes e pessoal que enfrenta tudo. De
maneira que tais condições levaram a um movimento desusado, o que trouxe também
aumento da população. Por anos a fio os jovens vendenses migraram à cidade
grande à procura de emprego, sua terra nada oferecendo; agora a urbe aproveita
os braços e cresce. A periferia já crescera ao longo dos anos com taperas, a
casa de Te uma exceção, pois embora de madeira, resistente e razoavelmente bem
feita; ainda assim a senhora se queixava com razão não haver no imóvel reforma
alguma, o marido empurrando com a barriga “amanhã”, “um dia eu...” Ela parara então
de reclamar, ou iria realimentar a discussão conjugal!
A parte central se não crescendo a
olhos vistos, tomava um aspecto de cidade mesmo. As ruas, inclusive a Avenida
Central, continuavam relegadas e descalças poeirentas lamacentas conforme a estação.
Contudo é verdade que experimentava belas transformações, oferecendo outro visual.
Possuía seu grupo escolar, posto
policial, centro de saúde aos enfermos, uma representação bancária embora limitada,
Venda nunca seria um centro bancário; e o posto de combustível, com sua pouco
movimentada bomba de gasolina. Durante a fase de guerra, a Segunda Mundial,
chegavam tambores de combustível mas nos últimos meses era mesmo um posto de
serviço quase nos moldes atuais, recebendo para abastecer os cheirosos caminhões-tanque,
a encher o reservatório ali enterrado. Além doutros préstimos conexos como a
borracharia; e nisto contribuindo com um fato negativo ao ferir os sentimentos
da população, pois quase sem notícias para discutir a vila e eis que um trabalhador
nessa borracharia montava a marreta uma roda num pneumático e ao socar o aro
este soltou-se e atingiu o maxilar do infeliz! Levado às pressas no possível ao
hospital fora de Venda sofreu uns dias e faleceu, na agonia dos expectadores e
dos que ficaram sabendo desse episódio triste, o qual meses a seguir foi do noticiário
local. O posto de serviço fornecia aos poucos veículos particulares e também
servindo como oficina mecânica mas sendo sobretudo fornecedor oficial da
prefeitura, o que dando sempre conflitos e conversas a esquentar as discussões
no legislativo municipal. Enfim a política de pernas curtas e boca longa, tendo
também ela origem nos serviços desse posto.
Quanto ao posto de saúde, andava
enfermo como toda saúde pública, exceção feita a um que outro município no país.
Neste assunto, espichar é como diz o ditado ‘chover no molhado’ e não chegando
a coisa alguma; os anos do futuro mostrariam alguma melhora e alteração na
qualidade porém se mantendo os comuns vícios quase eternos. Sim, chover no molhado...
Em Venda além do mais, a falta crônica de médico e o péssimo atendimento; o
atendimento enfim era a mesma coisa, semelhando as outras cidades pobres.
Talvez poder-se-ia ressaltar a ineficácia no funcionalismo público ali atendendo,
desatendendo, nisto ainda com raras exceções os bons funcionários, o que afetando
não só a doença da saúde, todo funcionalismo. Parece que o homem de boa
vontade, sem citar aqui apadrinhados políticos da situação ou da oposição, que
ele ao tomar o primeiro cafezinho oficialmente como servidor, experimenta já o
gosto do desserviço. Secular? milenar?
Em todo caso a população reclamava
muito não ter clí-nico presente e apenas funcionários ausentes no balcão, embora
conterrâneos e conhecidos desde a primeira arte como criança. Claro haver
muitos dignos; o povo picha aqueles apenas ‘funcionários’...
Já o posto policial, um serviço de
atendimento à população contado como o mais velho entre os benefícios públicos,
não teve somente inoperantes servidores como o soldado Dionísio, mais a serviço
da chacota dos linguarudos; nem contou só com a petulância e a empáfia vaidosa
do cabo Geraldo se imaginando delegado. Pelo contrário houve constante troca de
quadros; inclusive um caso no cargo de delegado, escolhido como é praxe por um
civil doutorado, esse não suportou o paradeiro da vila, onde só se enfrentava
bebuns ou a registrar boletins de briga conjugal e dois ou três homicídios,
embora roubos a fartar... em toda história: pouco a tanto anel de formatura.
Ah, também a política dominante no estado construiu decente cadeia de alvenaria
com grades de ferro; mandou plantar até uma árvore e ajeitar um jardim pequeno
moderno na frente; quase virou ponto turístico, na curiosidade despertada. Em
suma, não trabalhou exageradamente o posto de polícia de Venda Grossa.
Disso
tudo Tereza do João tomou conhecimento. Como raramente saía do lar – aquela
velha queixa da mulher andar socada na casa – como assim, quase não foi testemunha
do surto de progresso de sua terra. Quer dizer, vinda de fora, conquistada pelo
namorado João, balconista do sr. Benedito; de fora realmente mas cidadã vendense,
pagadora de taxas à prefeitura e a ter depositado no solo santo do cemitério
vários seus filhos, escapando apenas o Pedro que sumiu.
Cap.24°
O “istrator” ia
vinha ia outra vez passando cortando passando aparando passando voltando
aplanando a terra seca dura e, solta, poeirenta pelos já quase seis meses sem
chuva, com toda consequência disso à população de Venda Grossa, mormente ao
posto de saúde do município cheio de mães com seus filhinhos na procura de
ajuda na respiração difícil; o trator que os garotos xeretando dificultando o
labor dos funcionários da prefeitura executar na terraplanagem; e aqueles pequenos
cidadãos vendenses diziam gritavam não sabendo tão somente pensar uns aos
outrinhos “ói u istrator!” – uma patrola que o estado havia transferido ao
governo do município, funcionando embora sempre com falta de óleo cru por falta
de verba no executivo (aquela velha eterna questãozinha chata na burocracia: a
câmara põe emperros da oposição sob liderança do Zé da Farmácia contra a
situação no executivo vetando parte da verba orçamentária atingindo gastos com
o trator, o que diziam opositores o prefeito ele usando a máquina para mostrar
serviço a fim de obter votos futuros...) Agora a escavar o solo deixando a
estrada do João rua com jeito de rua; e aí sobe um cheiro acre de terra
embrutecida mexida ferida e agora civilizada plana boa para a bicicleta dele
rolar rumo ao serviço na venda, não obstante a ameaça nessa hora a inoportuna
demissão... Pensa repensa sem solução plausível à encrenca na qual se encontra sua
família; pensa repensa também Tereza, a Tereza do João ela vendo a meninada que
em vez de estar na escola com os outros estão na escola da rua, é uma rua
agora, ela vê quase da janela da cozinha com os trens de cozinha a se atritar
escorregar cair barulhar, maior barulho no zunido do motor do trator, o
instrutor ali um empregado improvisado como técnico mostrando onde passar ao
tratorista improvisado igualmente pois é chofer no carro do prefeito que o PTB
mantém com votos na mesa do executivo e ali a molecada atrapalhando – então comenta
antes ralha pirralhos, comenta o que seria de trágico se um deles embaixo da
roda da máquina... nem o capeta pode com menino! – pensa pensa pensa a mulher
do João no João e quando não, noutro drama familiar: o filho. Onde estará o que
estará fazendo no que estará encrencando e por aí vai fica a senhora quase que
automaticamente no fazer seu trabalho doméstico na rotina do lar, com aquela
exceção barulhenta de menino-trator-menino e ânsia nas irresoluções pela
situação da casa no perigo terrível, terrível e sem coração é aquela Marina...
Ah e não pode semelhante se livrar da tristeza profunda que lhe atinge o
sentimento, antes com a iminência da comadre Inês perigando; e depois, tão
recente o falecimento dela... daí chora, chora como uma criança a velha, mas a
gente não volta por idoso a ser criança no verter fácil suas lágrimas! Chora às
vezes sem chorar, chorar no sentido exterior a contento do exterior com a
vizinhança de olhos arregalados vendo a gente sofrer... A pobre minha melhor
amiga, melhor não: única confidente (e aí Te despenca, não sabendo se chorando
pela perda de Inês se por si mesma desfalcada de um ombro amigo, pois nada espera
nisso do João:) o João no empório por enquanto... agora irá na estrada virando
rua, se bem um mal porque rua sem gente, sem gente nas casas sem casas à gente,
quantas vezes Te preocupada com o esposo na saúde abalada e se cai da bicicleta
nas vertigens constantes e estando nesse ermo que chamamos rua, uns dois
quilômetros separando o centro urbano da periferia deles quase subúrbio quase
rural no município de Venda! quem o socorreria não tendo sequer vizinho
desconhecido (numa cidade pequena não existem mesmo desconhecidos, o que não
conforta nem convence uma boa tristeza e o pessimismo dessa mulher avantajada
na idade na estatura na ossatura na magreza e quiçá na fraqueza...) O esposo
não pensa nisso, pensa emprego quando muito e no próximo próximo a si no balcão
da loja, a conversar a falar coisas pertinentes ao trabalho ou coisas fúteis a
se jogar fora, abobrinhas borrachas, ah esse povo criador do nada nas coisas.
Trabalha.
Trabalha na venda, enquanto ela
decerto presa socada no lar, se lamenta, decerto não sabe o que falam e falam
como Venda Grossa mudou. João fala e fuma e mais fuma e atira o toco e fala e
critica e brinca e goza a seu jeito com fregueses amigos de anos, alguns também
inveterados fumantes; a um deles corta pesa apresenta registra no pindura (pra
Marina reclamar o tamanho da dívida) acresce na conta o pedaço de fumo em nome
do freguês, o freguês a imediato fumar experimentar o fumo de corda como dizem
e não de papel no maço como ele e era assim também compadre Dito, o patrão
pedia sempre na passagem do caixeiro-viajante o fumo goiano, o mais procurado
que o mineiro na casa, nos secos & nos molhados; e agora o viciado examina
na palha de milho o picado de fumo já aceso o cigarro aspirado tossido o veneno
no ar e bafeja e completa: este é dos melhores! diz realmente “dus mió” ao João
sorrir complacente e amigo e assim o balconista se distrai no dia, ah como
seria triste só pensar tristezas! Em casa a tristeza do cismar dela.
Te critica sempre a fumaceira do
homem, lembra entre-tanto que a mãe dela fumava até mais que o pai, e chora na
lembrança desses finados queridos; o pai ela nem foi ver sepultar, soube muito
depois por carta dum mano, a genitora sim foi logo chorá-la. Está hoje no vão
do pessimismo, nem a novidade do trator ali perto a consola nem a desvia da
necessidade mórbida de sofrer; nem isso a distrai nem os meninos berrando, ela
sem meninos eles de anjinhos lá no cemitério e o único menino sumiu – tudo
colabora ao seu estado hoje...
Hoje o João tem demais distração,
inclusive um compadre chegado do sítio contou-lhe piada; mas tem mais: houve
briga ali na frente, os pinguços discutem se pegam se ofendem se desmandam,
‘mandam’ vir o cabo, chega sem viatura não tem viatura, aparece a polícia
fardada armada até aos dentes nos seus penduricalhos de revólveres cassetetes
algemas o ‘delegado’ com seu praça, abordam os encrenqueiros, todos ali na
assistência, os moleques de olhos arregalados por algo suculento a discutir no
recreio da escola; os outros bebuns os empregados da patroa de cara fechada
vendo; o João inclusive se distrai ora sorrindo ora indignado – é o público naquele
espetáculo a estufar os brios dos policiais. Consumatum est. Mas não se acaba, o posto policial tem ainda de
registrar o boletim para a ocorrência se despejar no meio da burocracia e
decerto se perder; e depois solta os homens, os quais se entendem e vão pedir
um trago outro no balcão da venda. Tem mais ainda, pois a pobre Venda é rica em
ladrões de cavalo de galinha de roupa deixada no varal, Te tem horror esquecer
as suas peças balangando ao vento presas no fio enferrujado e comenta com as
vizinhas, só evita aquela entrona Maria que foi nova velha agora e ameaça se
mudar.
Ela vê a rua com feição finalmente de
rua mesmo, uma via pública alinhada pra gente pra automóveis ou pra jipes e pra
bicicletas como a do esposo dela, vê porém faz um não meneando a cabeça para e
pensa volta a sofrer seus dramas realimentando dramas, agora não chora demora
apenas nas coisas que faz sozinha, ralha o Peri por correr atrás da choca
alvoroçada; corre nos seus passos lerdões ela mesma ao cocho, despeja a lavagem
àquele manhoso chorão; tem a panela no fogo no fogão e ainda tem a bita a
pastar, venderam os cabritinhos para virar assado no Natal mas a cabra precisa
se alimentar, a seca braba de meio ano comeu as plantas os matos as ervas tenras
próximas e... ih que raiva, desprendeu-se um lençol caiu molhado do varal,
precisará tomar a roupa e daí lavá-la de novo e de novo estender prender à secagem;
e tem ainda a comida. Puxa, quanto a fazer no quefazer nessa laborterapia com
receita bem caipira!
Tem dia, noite, a tentar conciliar o
sono – e aquele ron-cador no leito conjugal não a deixa – quer dormir fugir do
cansaço em excesso, não ver mais as preocupações dessa existência sofrida e aí,
aí sim não vê mesmo e dorme. Mas sobrecarregada sonha, Donatê sonha demais e
mais sonhava quando jovem; sonha sempre coisas ruins, pior nisso que o João
sequer lhe ouve as “bobageiras” ele afiança tudo não passar de criações bobas e
nos últimos meses nem isso: não quer conversa com a esposa. Para quem então narrará
seus sonhos e em meio deles os pesadelos? à nova já velha? não confia também
nas outras vizinhas ali perto e são tão poucas essas a entrar desabafar, antes
havia a comadre Inês, a comadre... E além do mais há coisa que mesmo sendo
sonho não pode relatar para gente de fora: por várias e muitíssimas noites tem
sonhado com o esposo sentado dormindo sob a gritaria de gol no sofá, daí se
esfria ela, no sonho, se esfria apalpa o homem e o companheiro não dorme e daí
ela chora mais um drama, drama novo velho como o mundo que é a viuvez... Nem o
João ouviria desperto a bobageira dela, nem podendo contar o pesadelo à vítima,
mais vítima ela. Tem dia na noite ser assim. Nas últimas noites ocorrendo
sempre o sonho-pesadelo.
Então acorda no quefazer, já fazendo.
Está puxando fora do caixão do poço a água para depositá-la e derramar como
sempre primeiro no próprio caixão e indo cair num plaft lá no fundo do poço
água na água; e depois fora do balde no balde para levar ao pote na cozinha.
Deixa de vez dormir sonhar triste com
a realidade do seu dia, batente sem patrão a patroa sendo apenas a consciência
– seria diverso fosse o João, sujeito à tríade batente-salário-patrão;
acresceria ameaça do desemprego... e o que fariam dois velhos (agora se põe e
joga nesse fogo apagando o marido:) quem e onde arranjar o sustento numa pobre
vila como Venda? se fosse lá no sítio do pai – ela mordisca a realidade com o
passado já inexistente todos os seus mortos, só os meninos seus manos perdidos
na capital, a si também mortos... – lá na roça ninguém morreria de fome, muito
menos nós idosos (aqui evoca um costume secular na gente deste país, que
consiste em respeitar alimentar seus matusaléns e enterrá-los com dignidade
mesmo sendo pobretões:) ah se fosse lá aqui e ontem hoje – que farão agora!?
Que fariam se...
João põe, descartando minutos o
emprego e a ocupação na sua labuta ali no seu hoje, põe essa terrível ameaça sobre
os seus... os seus! ora, somos eu e a Te, o menino sumiu não se pode contar com
o filho – ou pior ainda com aumento nas despesas da família sem emprego: não poderia
aparecer esse filho no lar de repente numa fuga dos seus fracassos, haja vista
a amizade e o interesse nos maus elementos! vixe se a Te soubesse nisso metade
do que sei, o que me contaram o que descobri do nosso Pedro... Não, nunca
saberá ou fico viúvo. Mas como nos arranjaremos depois, com a moléstia já me
comendo por dentro e por fora essa patroa no armazém? Não é bom nem pensar.
Não obstante e embora a ferocidade da
nova patroa, Marina a perpetrar sub-repticiamente mudanças pra melhor no
estabelecimento comercial herdado. Ameaçando e pior cumprindo ameaças, já
cortou gente servidora... porém empreendeu transformações válidas: educou sua
gente na higiene, por exemplo. Antes e se pode reconhecer em toda Venda e sobretudo
entre os machos da espécie, eles sem quaisquer cuidados. Usavam, ou
“desapertavam” no dizer caipira, urinar e imediato a fazer o que fazer, sem
limpeza. Não! diz Marina: exijo que lavem as mãos, pôs sabonete pôs uma toalha
que logo andava suja, pôs uma pia perto do mictório, este realmente um sanitário
mambembe e chulo existente não só ali mas ali por toda Venda Grossa, a privada
de buraco, a latrina malcheirosa... Ali pertinho pra se limparem. Ou se fosse
ao contrário, o que teria ela mesma aprendido no colégio onde a oposição
paterna lhe enfiara pelas goelas sem voto!
Na questão da possibilidade a ser
mandado embora não quer no momento pensar o homem.
Não pensa, salva-lhe dona Tianinha.
Tianinha sorri com boca murcha estica encolhe as rugas do rosto, parece uma velha
índia a cabocla. Porém dá-lhe lição e tanto: com o dobro de sua idade sustenta
a família dos filhos, os filhos ou fugidos ou doentes ou desempregados ou
mortos, a lhe deixar a herança dos netos para dar de comer; ainda compra roupa
a eles e compra material a alguns deles que a caixa-escolar não tem para
oferecer. Sim, não paga aluguel da tapera onde residem nem impostos aos
famintos da prefeitura, sem ser da oposição e sequer vota com seu analfabetismo
e sua ignorância. Contudo para sustento faz seus doces e sai como agora
vendê-los numa cesta grande e pesada à sua pouca força; faz troco usando ainda
os dizeres mil-réis aos cruzeiros; trata a moeda que guarda numa socolinha
suja, os doces limpos limpa, a moeda de cruzeiro a si “destão”, dez tostões.
Agradece o freguês, o freguês João da venda agora no meio aos fregueses da loja
na porta do empório é um freguês dela. Agradece, vai oferecer paçoquinha e
cocada noutras portas noutras ruas, estas que não passam de carreadores sem
placa com nome dum figurão.
Mais outros o tiram da enrascada dos
maus pensamen-tos, o padre por exemplo. Vem José de cabeça branca mas lú-cido
convidá-lo e aos colegas ali no empório à quermesse, para o fundo assistencial
da igreja. Deixa-lhe um santinho, sem saber se é devoto de São Pedro, imediato
e por intuição o ‘fiel’ leva a mão na cintura no molho de chaves que o deixa
mais pesado dum lado que doutro mas João sequer percebe o que fez; por dentro o
balconista não tem mais crença alguma, se teve alguma um dia; entretanto
agradece o pároco amigo igual os companheiros na venda.
Em casa, na casa de João, Te não
sofisma a tristeza sem solução nessa altura de sua contagem cronológica, não
tão rica porém rica, mas se encontra sem forças, nem tanto a física mais por
perda da coragem, estando longe da mulher jovem de antigamente quando se casou
com um jovem, então pouco mais velho que ela, entretanto um sujeito sem maiores
expectativas que não o dia a dia o trabalho e distrações curtas e chãs; o que à
moça roceira e dependente dos pais já era uma conquista; quem sabe os seus não
aguardassem netos sobrinhos e vida não luxuosa porém independente, sobretudo vivendo
na zona urbana; os parentes desconheceram sempre Venda Grossa, uma cunhada de
João apenas ela do sangue de Te a vir numa visita e assim mesmo na morte do
quinto falecidinho; que ideia poderia compor num estágio desse tipo!
Naquela tarde, no crepúsculo meio
apagado pois até o sol se negando a despedir-se dignamente, o pensamento mesmo
ele a pensar um fim sem luz – o próprio dia fora apagado cinza poeirento e mais
poeirento na via de ligação de Venda com sua periferia em vista o remexer da
máquina de terraplanagem no serviço na rota reta do serviço de João da Tereza
rumo à Marina; nessa altura já sem atrair como ontem os meninos azucrinando o
funcionário da prefeitura raiar-lhes os abusos. Então a envelhecida senhora,
sentada numa cadeira tosca fora da casa na casa dela lia... Isto chega a ser
inusitado nela; Tereza envelhece todavia é troncuda magra sem estar esquelética,
alta ainda a ultrapassar a altura do marido, o qual se ela encolhera encolhera
também ele, sem desejar manter a diferença a menor e os centímetros... Ela não
é uma intelectual mas roceira urbanizada, uma ‘urbanoide’ ainda a falar no jeito
rural, sem chocar os circunstantes também eles da mesma origem, não do mesmo
lugar de origem, e assim sequer notam a fala. Enfim mera doméstica, cansada;
sendo esdrúxulo por ter ao colo, não é bem colo mas nas coxas cobertas por
vestido caseiro longo, um novo nunca em uso e talvez superado pela moda por
fora de moda, tem a senhora nas coxas a cartilha religiosa ou breviário ou
livreto de catecismo, um volume trazido ainda de sua gente na sua roça, não
obra ofertada na igreja do padre José, este ainda a sair na época do seminário.
Essa, esse. Pôs uns óculos que o João encomendara fora a trazer do longe para
ela as letras mais perto; tenta ler e ainda as letras não param quietas para a
mulher soletrar, descansa já descansando o físico do trabalho doméstico na cadeira,
descansa retorna insiste desiste por fim: deixa de vez o estudo vai ver suas
coisas mais palpáveis e que mesmo cega sem óculos encontra para fazer iluminada
pela rotina, fazer ou refazer, acabar a janta por exemplo e tem a roupa seca
empilhada noutra cadeira a passar, toma brasas do fogo por baixo da chapa de
ferro no fogão, então enche o ferro espera um pouco o aquecimento e se põe no
trabalho, houvesse deixado o trabalho.
Outra coisa sente haver mudado nela
nesse entardecer na existência; e isto equivalente na parte macha da família:
está mais lenta, não conta demais a dor as juntas os ossos as doenças
corriqueiras, sente que o movimento é agora comparando com tempo da chegada em
mudança para Venda Grossa bem mais lento. O João semelhante – além das
desgraças que o atingem seja na loja seja no corpo físico – ele também em tudo
nada faz rapidamente; aqui uma desculpa e tanto para não consertar a cadeira ou
fechar o buraco pela lasca escapada de cerca onde fogem galinhas a perigar
desentendimento com vizinhas, mormente aquelas que não vão com a cara da gente
e na contrapartida a ser o mesmo a gente não se simpatiza com elas. De fato o
homem anda moleirão. Não: mais lerdo e por lerdo sem vontade pra fazer
coisinhas no lar. Ultimamente vem “pregado”, assim seu dizer ao chegar do trabalho;
liga o radinho por hábito nada mais, nada mais interessa; daí se escarrapacha
no sofá, não comenta não reclama e pior: não fala; com ela não fala, como lhe
fosse inimiga a companheira de tantos anos. Em verdade seria mentira dela dissesse
desejar manter com o esposo um longo papo. Quer saber, se pergunta e se
responde: não falo com ele ele não fala comigo, não falo com ninguém mais. Aí
se lembra outra vez do filho... será que semelhando o antigo costume materno,
não intercederia junto a essa pasmaceira na qual se tornou seu lar, será que,
presente o rebento, a mãe não faria mil indagações ao Pedro se viesse a se
tornar um filho pródigo! Ouvira Te a palestra sobre o filho pródigo quando João
a levava à missa, ah quantos anos não via não ouvia as prédicas! Pensa e
enquanto, trabalha.
Ainda tenta manter a cômoda limpa,
limpa também ou-tros móveis da casa e inventou agora de ir na conversa da Maria
Velha ex-nova vizinha, a qual lhe passou um antídoto ao medo das baratas:
barata em casa! capaz, diz Maria, espirro ‘flit’. O João lhe trouxe da venda a
bomba de veneno e o inseticida fedorento. Daí põe sem medo, só com pouquinho temor,
as mãos a afastar tal cômoda de peso incômodo. Limpa mas não tenta mais
arredá-la da parede, não por causa de barata por causa da idade as dores a
falta de coragem a coragem empalidece tudo empalidece, ela reconhecendo, como
pálido o fim do dia escuro e já nem mais é hora de sol, a noite entrante, a
noite em seu dia. Está nisso quando chega a arrastar a bicicleta o marido...
Igualzinho a companheira, lento
cansado e pior a piorar o ânimo na casa – traz um semblante carregado dolorido
cin-zento, um aspecto de final dos tempos. Isso não anima Te, a qual aparece na
sala à chegada do homem, vai tomando rumo ao quarto, onde ela sempre nesse
último ano é mais ela mesma, decerto mais confiante na solidão e na desilusão.
Todavia o consorte extrai do bolso traseiro, inclusive a lhe cair o lenço, um
envelope comum; ela já quase a penetrar o aposento conjugal quando se vira vê a
carta na mão do esposo.
Foi com esperança, a qual nunca se
apaga num coração de mãe, que voltou ao sofá pegando a correspondência trazida
lá do empório, desse correio de Venda Grossa. Entrou no quarto, finalmente, com
a missiva supostamente do filho sumido, o coração num bater forte e disparado.
Será que haveriam raios solares a
salvar uma tarde tris-tonha...
Cap.25°
Naquele dia a
mansão de Inês foi um rebuliço, o inusual no ferir a rotina num entra e sai
nervoso levantando curiosidade nos curiosos e suspeitas nos levianos de Venda
Grossa. Os de fora olhavam para ver, visto muito frequente fazendo não ver para
constatar o que não precisa ser divulgado. Ou não... Os da casa sabendo
perfeitamente haver agravado a crise da senhora, quase todos aflitos e
ciciando, os mais religiosos ou por outra os que tendo fé se apegando nessa fé
a rezar contritos e não a fim de apenas mostrar.
Antes houvera no dia anterior um
choque desnecessário, não fossem desnecessários e até evitáveis os conflitos; o
que redundaria na demissão sumária da vítima pela patroa – não a senhora Inês
mas sua preposta, Gertrudes. A empregada nova (sempre havia outra nova, ninguém
aturando as rabugices e exigências da chefa) essa jovem e inexperiente criatura,
no arrumar limpar o quarto da enfermeira da senhora, tendo quebrado
inadvertidamente um objeto sem grande valor, ganho valor inestimável então,
como pretexto à irritação da solteirona fazendo as vezes de proprietária do
palacete. Praticara mais erros (os quais não passavam de meros enganos):
Gertrudes a flagrara também com um livro seu aberto... Ora, a criada analfabeta
e se letrada somente o seria na língua pátria, mesmo assim não sabendo alemão.
No entanto foi acusada pela tentativa frustrada chegando na hora do crime a
dona do quarto! Ali mesmo fora demitida saiu chorando da mansão, sumiu como
outras tantas novas então velhas entre servidoras.
De maneira que o ambiente não era dos
melhores no palacete; e agora, na crise que seria a última de Inês, pioraria
consideravelmente, por tocar a saúde da senhora.
O entra e sai aumentou e decerto
ampliou-se no mundo dos curiosos. Gertrudes determinara – enquanto ela mesma
cuidava com mais afinco de Inês agonizante – que fossem buscar o doutor
Ulisses, tarefa do pessoal masculino, o chofer saiu imediato no automóvel da
família, quase o único novo e de marca em Venda, os dos outros moradores
inclusive o do prefeito eram bem usados; além de ainda não haver ambulância no
município, o que antigo pedido à burocracia da política estadual. Sempre a
tônica de os núcleos menos importantes demorar a serem atendidos. O motorista
se deslocou rápido, rápido e cedo veio o médico, chegou tarde... Inês falecera
minutos antes.
Daí, quer dizer havendo tal estado,
foi que o movimento na residência mais importante do lugar mostrava anormalidade
a aguçar curiosos. Mil coisas se falou, mil e tantas foi preciso inventar;
contudo algo verdadeiro e que as horas provariam a sobejo, sobretudo quando do
aparecimento do clínico, o qual já visitava a enferma anos e agora a chegar
como que a dar um ultimato. Claro isto abuso de linguagem. Daí concluiu-se
imediato pelo agravamento do estado da paciente; embora dias antes algumas
servidoras dessem indevidamente com a língua nos dentes, extrapolando e mais ferindo
ordem terminante de Gertrudes, que ameaçava mandar embora quem noticiasse algo
do interior da casa e mormente a propósito da senhora; mas principalmente da
nova senhora, a própria Gertrudes, isto seria crime de lesa-majestade. Outro
dado na semana foi a presença de padre José; uns até chegaram a inventar ser à
extrema-unção... Interessante, na hora fatal não deu tempo chamá-lo, pegos
todos quase de surpresa absurda.
Não obstante, podendo parecer abusiva
ou doutro lado até relapsa no cumprimento de sua função, a enfermeira era séria
e cumpridora à risca de suas obrigações; levava os atos do seu trabalho ao
máximo do que se exige. Era também ciosa de sua altura profissional e de sua
posição dentro do universo doméstico; também consciente de sua posição
cultural. Em que não precisando abusar, visto os outros servidores, homens e
mulheres cada qual na sua função (ela tendo praticamente um cargo não mera
função como enfermeira classificada diplomada) – todos inferiores analfabetos
ou semiletrados; verdade que embora e apesar do rigor a que eram submetidos,
cumpriam não por medo mas honestamente a tarefa respectiva.
Enfim a situação na importante casa de
Inês mostrando lamentável crise, não seria de estranhar que a levasse ao óbito;
e a despeito disso o homem comum a rodear o palacete frequente seria pego
desprevenido, não apenas por informes insuficientes filtrados desde o hábito da
casa; mas porque à gente simples ou simplória inocente até prova em contrário é
sempre o inusitado o passamento de alguém, sobretudo alguém importante. Basta
dizer que no dia posterior as autoridades locais desejavam velar a grande dama
na câmara municipal, o que custou muito blá-blá-blá político; pleiteava o próprio
prefeito a sala acanhada do executivo. No entanto ambas casas oficiais mui
pobres diante do fausto no palacete da morta. Optar-se-ia então por ele; isto
é: Gertrudes determinou assim. Diriam indagando os que falam e falam às vezes
indevidamente, por que motivo a última palavra não foi a de Giovanni... O dono
de tanta riqueza chegou quase na hora do enterro da esposa; aliás foi
necessário aguardar o milionário, então numa viagem, para que fossem
oficializadas as exéquias. A enfermeira cuidou de tudo, em tudo tomou decisões,
inquestionáveis.
Mas a crise teve outros desdobramentos
e alguns lances terríveis, antes e após o desenlace; mais à enfermeira que aos
subalternos: Gertrudes só podia contar em determinadas horas consigo mesma, não
podendo ceder a outrem e sequer dividir o peso das decisões – aqui mostrando
determinação e até algumas mazelas próprias do foro íntimo, como num momento
não ter certeza absoluta sobre algo ou com dúvida haver ministrado errado o
remédio certo; e nisto as doses corretas. Era Gertrudes irascível e consciente
de sua autoridade, porém honesta; não conseguiria dormir, caso pudesse haver
dado algo que piorasse o estado da enferma a levando à morte. Não! A mulherona
criteriosa. Enfim, de confiança na casa e aos parentes de Inês.
Agora, quando a tomar uma decisão ou
expor uma resolução, mesmo prejudicando outrem e mesmo com prejuízo de suas
próprias vantagens – fazia, enérgica, cumprir. Daí o medo e inclusive horror
terror pavor sentido por subalternos. Também um ser frio, duro, não usando
meias palavras. Pior nisso tudo era não angariar qualquer amizade. Não
cultivava camaradagem; igualmente não podendo confidenciar o que mais lhe doesse
no íntimo. Em suma, Gertrudes uma pessoa solitária na multidão... na
coletividadezinha da mansão e inacessível também ao povo inculto de Venda
Grossa.
A enfermeira fez o que à sua altura no
transe. Contudo Inês faleceu e falecendo trouxe alguns problemas sérios à gente
a si ligada, alguns inexplicáveis; inexplicáveis aos olhos comuns, também à
compreensão das autoridades municipais e amigos chegados da família como João e
Tereza, compadres. Pedro não apareceria ao funeral da madrinha que tanto se preocupara
com ele, sumira e continuava sumido. Mas esse não foi o único embaraço nem a
única confusão ligados ao infausto acontecimento, isto em virtude a velha
senhora ser demais importante na região, além ser cidadã e maior proprietária
de Venda.
O corpo autorizado por Ulisses e por
ordem de Gertrudes foi transladado à cidade grande, pois a urbe pobre não possuía
se não velório pobre a pobres, que as mais das vezes velam os seus na sua
própria residência no costume caboclo; o velório municipal era acanhado, não
serviria aos poderosos; além do problema do tratamento do cadáver por uma empresa
do ramo, não havendo serviço funerário adequado. Então chegou de fora um carro
funerário, negro, para levar a senhora; com muito respeito e cuidado conseguindo-se
pô-la num caixão especial. Inês, baixinha e estando magra como sua alta comadre
Te, nos últimos meses de sofrimento estufara; no momento da morte, ao exagero,
fosse em função dos remédios caros e pesados, fosse por causa da moléstia
incurável, fosse por outra razão, avolumara de tal sorte, a ponto seu leito ter
sofrido alteração para conformar a doente... Assim pereceu numa quinta-feira e
já na sexta levada à funerária noutra cidade para receber o serviço de
embalsamamento e o preparo ao velório, estabelecido para a sua própria mansão,
espaçosa, embora os votos da câmara e da prefeitura.
Todavia ocorreram mais problemas,
ainda no quesito funerária. Não se sabendo bem como, isso decerto ilegal ou ferindo
as normas, mas Gertrudes arranjou ordens oficiais, in-clusive do Dr.Ulisses –
para ‘fiscalizar’ o trabalho dos profis-sionais junto ao tratamento do cadáver
da patroa... Depois, bem depois, certamente a consciência exigindo ou na falta
de confidente adequada, acabou relatando (e o fez no tim-tim por tim-tim
minuciando cada fase) escolhendo os ouvidos de Maria, a graciosa e eficiente
subalterna. Descreveu – ou terá desabafado? – descreveu o que resumido nestas
linhas: a defunta enorme, inchada, estufada em não caber no caixão, foi pressionada
por um gigante grosseiro funcionário, o qual empurrou com toda força o peito da
mulher, este cedeu afundou subiu imediato um cheiro nauseante, mesmo à forte e
experiente Gertrudes, habituada a lidar no meio hospitalar e ver cenas tão
chocantes; aplicou-se líquidos adequados, neutralizando o fedor enjoativo;
após, umas jovens fizeram a maquiagem do corpo: limparam tingiram aplicaram
substâncias e cremes devidos, usaram pente, enfim fizeram da velha nova nova velha,
outra velha, uma idosa rejuvenescida e bela, o quanto possível. No contar, no
ouvir, Maria debulhou-se nas lágrimas sentidas, a narradora permaneceu séria,
constrangida decerto.
Novamente o carro fúnebre, agora de
volta.
No velório, até com permissão da gente
pobre visitar aquela autoridade de alta moral e caridosa, no velório luxuoso as
velas iluminavam mostrando Inês remoçada. Várias pessoas do povo a comentar
“como era bonita!” e o costumeiro dizer “ah, parece que está dormindo”.
Inês, embora o inconformismo choroso
da comadre Tereza, a comadre Inês estava dormindo.
Cap.26°
A situação no
palacete de Inês alterou-se consideravelmente após o passamento e imediato
quase o passamento dela para a história de Venda Grossa; estimando aqui dizer
que a história não se preocupa demais com seus personagens, mesmo as figuras
básicas, com tais personagens enquanto vivos. O espólio tornou-se também espólio
do município e as discussões sobre direitos deveres créditos débitos e débitos
fiscais taxações embromações quiçá corrupções se prolongaram anos. Imediato, ou
seja os primeiros dias após o passamento, foram igualmente as discussões mas
tudo podendo sintetizar-se no impacto do acontecimento.
Giovanni, detentor legal herdeiro ou
mais que simples herdeiro, não ficou para assistir a conversa curta dos moradores
curiosos nas primeiras semanas, nem a longa dos políticos demais interessados
nos ganhos (ler-se votos) oficiais oficiosos e particulares. O presumível
proprietário de tudo, inclusive dos débitos fiscais... – esse não ficou pra
ver. Deixou um lugar-tenente preposto a fim de representá-lo, certo advogado
com sobrenome desses embrulhados para se ler, piormente entender, mas de
prenome nacional José Francisco, que além do mais a falar acaboclado igualzinho
os da terra e da região; contudo um ser formalista e quase cerimonioso.
Despachou oficialmente indenizando a
todo-poderosa Gertrudes; pediu-exigiu que se calasse no que vira e via, para
não ter que mais ver... Por via de dúvidas fê-la desocupar o beco (isto
expressão usadíssima nessas bandas: que fosse de vez embora...) As pobres e
ignorantes servidoras dali da urbe mesmo, essas dispensadas com um agradinho
financeiro; elas então a engrossar a estatística do desemprego; o pessoal masculino
tendo a mesma sorte, ou falta de sorte, um só entre os homens, o motorista da
mansão, apenas esse criou algum caso e foi levar pedidos e depois rogos com
sabor de imploração à burocracia na justiça do trabalho na mais próxima cidade
grande, Venda somente grossa no seu nome contudo sem recursos de ordem oficial
e de ordem administrativa. Poucos meses após esses transtornos na vila, menos
de ano, o advogado também deixou se não o cargo a cidade.
Assim não virou esquecimento o palácio
de Inês em Venda mas ao menos nestas linhas, a se findarem.
Disso tudo restou ainda um fausto, dos
menos luxuosos e exigentes, que foi a sepultura de Inês: bem superior a ‘moradia
eterna’ no dizer comum, superior às covas rasas de sete palmos a ocupar o
cemitério municipal; algo incomum com uma estátua religiosa de anjo – o que
negando a simplicidade da senhora; incomum sim e objeto de visita aos que pensam
tudo haver acabado, continuando na imagem exterior o maravilhoso... A comadre
Tereza foi depositar sua flor no túmulo da comadre mas não ficou apenas nisso:
chorou muito a sangrar o coração.
Te andou chorosa dias quase mês, aqui
já a irritar João, embora este sentisse a falta da comadre assim como ainda sentindo
a do filho sumido – numa viagem dizia Tereza para outrem, não viagem do tipo da
de Giovanni – viagem falava aos vendenses conhecidos, uma já sem solução ou
sequer esclarecimento corriqueiro.
Continuava a rotina sua rotina,
aguardando ou não a rotina os tempos e tempos amém.
A loja, cada vez mais movimentada, os
penduras, diziam “pindura” cresciam e crescia mais ainda o dinheiro na caixa registradora
metálica, com sua manivela e a fazer o plim sonante em cada operação no manuseio
por uma empregada trabalhando só na máquina a receber pagar dar troco, essa
caixa fazia valer seu sininho na entrada e saída de moedas e notas (por vezes
malcheirosas de arder narinas, sobretudo as de um e dois cruzeiros, mil vezes
usadas passadas gastadas rasgadas coladas certamente pela freguesia) os plins
iam num crescer aumentar o volume da conta familiar nos bancos fora de Venda.
Ultimamente fora criado um posto bancário oficial ligado ao governo do país, a
pagamentos e serviço de cheques de pouca monta. Isto pretendendo afirmar que a
principal venda de Venda Grossa crescia nos lucros e se firmava. Tudinho dentro
do aumento da população da urbe, onde até algumas residências de alvenaria
recentes apareciam na área central; a periferia continuava periferia.
Na periferia o sofá ia bem... João a
chegar cansado, estafado, talvez adoentado um pouco, bastante pois exagerada-mente
aumentara inclusive sua responsabilidade lá no arma-zém. Os herdeiros exigiam
muito, o salário não exigia nada quase além da rotina: o custo de vida e a
inflação lhe engolindo ganhos, os reajustes lerdos e de pernas curtas. Assim havendo
um descompasso entre ganho, a renda exígua, e a sobrecarga de tarefas ao rapaz
(isto força de expressão num senhor maduro...) Ora, também válidas as afirmativas
de dinheiro curto trabalho muito à população restante de Venda. A par disso, a
saúde dele claudicava, batedeiras incômodas os ais da existência, a ponto do
chefe de família precisar reclamar lamentar com a chefe do lar, a Te se
prestando muito a esse precioso mister. Ouvia ouvia ela no retorno do
companheiro à tardezinha ou mesmo de noite quando o acúmulo nas vendas no
período de safra e portanto sobrecarga no serviço. Embora persistisse o
terrível mutismo no casal – agora o marido abordava Te para suas queixas,
aquele negócio que o levara a procurar às instâncias do patrão o Zé da Farmácia;
e queixar-se logo ele que não era de abrir a boca, não sendo a falar de
futebol; inclusive seu Palmeiras andava não andando, sem vencer seguidos campeonatos,
o Corinthians melhor na tabela e daí as gozações do fregueses, o que o
chateava, aparecendo em casa irritadiço. No geral ainda na sua volta à periferia
se deixando ficar quase prostrado no sofá, no seu buraco no sofá; mas sequer
ouvindo bem o rádio. Claro, na loja desejando ou não, escutava o rádio
barulhento à freguesia.
Assim, cansadíssimo, chegou um dia já
noite entrando ele e se escarrapachando no sofá, nem sequer tirando sapatos; o
comum era atirá-los de qualquer jeito no chão da sala, calçar chinelos, falavam
chinelas em Venda. A
seguir se sentando desajeitadamente, se ajeitando a acomodar-se como possível
ou como exigindo o corpo no seu querido sofá. Te? a ela um oi do costume, não
pronunciado, ela ao vê-lo e após indo ao quarto do casal.
No quarto – onde a cômoda o
guarda-roupa malas e papéis, documentos qual escritório improvisado, o improviso
tão ao gosto brasileiro – no quarto se pôs a examinar um envelope, por sinal
trazido do serviço por João; primeiro pensou ser do filho; já quase desistira
receber notícias dele, mas às mães o quase diz o possível... desse filho único
entre a série morta de crianças, pensou num relance poder saber agora a viagem;
disparara o coração materno no tomar o envelope nas mãos. O esposo trouxera a
missiva, a venda tornara-se nos últimos meses espécie de agência postal, toda
correspondência ao município, da urbe ou da roça, deixada no armazém e os
empregados a ficar responsáveis pela entrega ao destinatário no balcão, além de
venderem selos e receber cartas para envio fora; no caso aqui, o meio-chefe
destronado, pois o João agora com os filhos do compadre Dito, por instâncias de
Marina, eles haviam-no rebaixado à condição dos outros, nivelando o empregado
aos colegas – quem dava e determinava então as tarefas sendo Marina, a mais
velha do velho – no caso dele ele mesmo recolhendo suas cartas e claro as levando
pra Te. Assim o dito envelope.
Não era carta de Pedro à mãe, porém de
Domingos para o filho dela.
Te guarda aquilo, meio confusa e mui
curiosa; não por ser mulher, que o macho acusa de extrema curiosidade, apenas
por ser curiosa. A seguir foi ajeitar objetos, guardar peças de roupa passadas
anteriormente. No entanto não suportou abriu trêmula o envelope. Antes não tivesse
cedido à curiosidade...
Domingos, em letra irregular mas
firme, dizia uns des-propósitos. Quer dizer, sua pouca leitura acusava serem
des-propósitos e havendo na missiva do amigo do filho ao filho uns anuviados
demais nebulosos ao seu entendimento, à com-preensão dum ser comum e ao mesmo
tempo de moral con-servadora e tradicionalista. Releu vezes sem conta, sem se
es-clarecer a contento, sobretudo em certas passagens – ainda prejudicada nas
palavras escritas embromadas escondidas riscadas borradas quase de propósito a
descartar e descontar, fazer vingar o espanto na cabeça de supostas mães
obtusas tanto quanto curiosas e teimosas. Em resumo havia uma parte comprometedora
ao seu Pedrinho tão esperado, o qual não escrevia nunca e agora enviando por
intermédio doutrem notícias (ah e que notícias!)
Não esperou a senhora mais adivinhar
os rabiscos de Domingos ao filho. Levantou-se da cama onde decifrava os
hieroglifos e se dirigiu à sala ao sofá ao marido, compartilhar com ele sua
dor. João – ela disse de pé no seu costumeiro abordar o marido – João, escute e
me ajude neste trecho da carta que Domingos escreveu ao nosso Pedro; sequer
aguardou que o esposo a condenasse admoestasse pela invasão da correspondência
alheia e já começou gaguejante na leitura ao companheiro lá embaixo sentado no
sofá:
“Meu querido Pedro, você é a melhor
fêmea que eu já...” e engasgou nas lágrimas dum choro quase gritado; que o
esposo não ouviu, dormindo... Ela o examinou reexaminou, farejando e flagrando
uma nova tragédia, então gritou mais alto, suficiente para todas vizinhas novas
e velhas ouvirem, berrou:
Você não dorme, está frio!
Marília agosto 2012
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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