segunda-feira, 30 de março de 2020

Entardecer sem Sol


0138(postado no Blog Livros Inéditos)









                            Entardecer sem Sol

                                          (romance)

                                        Moacir Capelini


















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“Toda solidão cresce de acordo com o quadrado da
distância em que se nutre e propaga, e dessa forma
o mundo deixa, cada vez mais, de tentar penetrá-la.” 
Emil Ludwig







Cap.1° 

Naquela manhã que poderia ser radiante e iluminada mas não era, era acabrunhada a manhã como fora quase tétrica terrível ao menos a semana de chuvisco nuvem chumbo e apreensão – quase assim também ela; a dona de casa Tereza, grafado com zê visto ser da linguagem da época e que abreviavam preguiçosos ou por costume Te, sequer pondo o chapéu do circunflexo como determina a lei da língua obrigatório nas oxítonas; ela nem por sombra de dúvidas tendo essa preocupação nem drama no redigir, não passara das primeiras letras inclusive; mal dando a soletrar no livro de catecismo, uma cartilha borrada suja pelo uso desuso no tempo na família. Além do mais o tempo escuro e dizem mesmo fazer mal desgastar a vista ler as letrinhas, os títulos e subtítulos sim, não as pequenas que dançavam não paravam quietas na leitura. Em todo caso trabalhava, trabalhadeira. O João, mesmo o João ao qual precisando frequente perdoar nas rusgas domésticas, mesmo ele reconhecendo essa verdade. Trabalhava com afinco no infindável, visto serviço de casa nunca terminar, a gente está preparando o almoço já pensando que fazer na janta – nunca termina todos sabem. Curioso é Te não perceber o desgaste no gasto de suas energias no momento do quefazer, só noite adiantada sentindo certo cansaço, na hora que as pernas ansiam e os pés exigem cama; aí num rápido levantamento da jornada é que avaliava. Nesta hora não. Anda limpando a cômoda onde as gavetas repletas de roupas ou velhas sem uso ou de uso esporádico ou a aguardar as peças o trabalho minucioso do remendo – e do tempo por que não dizer, a gente relega pra depois coisas pequenas tendo a primeira labuta mais exigente. Assim atulhando no móvel roupas da casa; algumas, se não todas, com um cheiro que nos traz ardor nas narinas pelos meses acondicionadas sufocadas presas no móvel antigo. Antigo? que é antigo num tempo em si doutros tempos. O fato é que Te esfrega aquilo, na sua superfície envernizada, o que dá um certo grudinho nos dedos nesse contato por causa do ar úmido, realmente envernizada a madeira chegando a lustrar. Tira poeira acumulada, remove encosta pra lá objetos (esses que o lar nunca acha onde pôr, põe em cima da cômoda, além é claro daqueles postos como enfeites) agora remove-os para poder ter espaço na limpeza; tira tapetinhos – este nome indevido porém semelha de fato tapete – umas toalhas minúsculas como base ao objeto feitas de tricô trabalhado com paciência amor e arte pela mãe dela sogra tolerante do João, até que se davam bem e não aquela chatice das brigas constantes entre sogra e genro, a mãe que a Mãe Santíssima a tivesse, devendo estar numa vida melhor lá no céu, que é como o homem comum pensa, pensa Te a remover e examinar se não encardida a pecinha a basear objetos, a peça mais para decoração e enfeite – ora, não poderia estar suja? e se tivesse filhos pequenos mexilões ainda por cima nesse por baixo não ocorreria mexer remexer indagar ou até levando a arte da avó para brincar no quintal sujando, se bem um mal que basta o pano de linhas trabalhadas nos dedinhos de menino já a sujar marcando. Daí toca para a mãe das crianças o lavar passar engomar com ferro quente nas brasas e amido de arroz a endurecer direito o paninho. Então o repor na mesa lustrosa da cômoda e por cima o objeto pesando – ou por que não! a quebrar tendo menino deixado cair no solo. Um dia, mas isso nunca acontecera na casa, foi narrado por vizinha, aquela dona Carmen faladeira, então quebraram, esconderam os cacos para não apanhar; outro então dos seus capetas fez melhor o pior: colou a parte quebrada enfeando o inteiro. Não isso não viu no seu lar, pobre sim, não de abuso e molecagem... Limpa lustra assopra detritos quase, quase cheira, o que absurdo, quase cheira a superfície de cima da cômoda.
          Enquanto, pensa...
          Por onde andará agora o filho?
          Já um rapaz maduro. Abusando um pouco, estendendo a ideia não poderia afirmá-lo ‘tio’ pois se uma solteirona velhona bonachona como a Margarida, a Margarida deveria ser avó se houvesse casado, passada enrugada embora não irritante como o comum acontecer; se Margarida ficou pra titia, titio meu Pedro. Ah o menino sabe o que faz; não posso dizer trabalhador como o pai, não posso afirmar estudado, não chegaria a doutor, fugiu cedo da escola em Venda Grossa mas enfim trabalha por aí entretanto não para no serviço ou pede a conta ou mandam ele embora, hoje nem isso por desempregado; deve nestas horas andar cheirando os amigos, sobretudo aquele Domingos, um sujeito que não me inspira confiança, nem o João indo com a cara do amigo de nosso filho. Onde poderá estar o nosso menino nestas horas... Aí Te despenca a pensar os anos passados, corre, embaraçada confusa insegura, corre ao tempo no qual nascera o rapazinho. Uh que horror de existência levava. Cada gravidez era um novo tormento; por fim paria morrendo o nascituro; ou ainda mais frequente era abortar. Teria Te ao seu redor não fosse isso bem uns vinte filhos – e que algazarra entre os seus, os seus reunidos noras genros netos... Nada ficou, ficou  só aquele sentimento de fracasso, debalde pediu auxílio aos santos devota mais de Santa Luzia, queimou mil velas e nada! Até que a Mãe Santíssima me ouviu e vingou meu Pedrinho! Oh que felicidade. Enfim já andava estragada por dentro inclusive nunca mais daí por diante engravidei.
          Nisso revê cada ano cada mês até, o coração materno pode abrigar isso tudo e mais; revê o passado os lances as pessoas a si unidas, revê com aflição e sofrimento de novo velhas enfermidades por que passara e mais as ligadas ao herdeiro, a sofrer de novo as mesmas dores... Um dia o filho único ia morrendo, não fosse um médico de passagem por Venda Grossa que o curou e mais ainda a fé que atraíu Santa Luzia a cuidar na devolução da vida ao menino! Nesse ponto Te em lágrimas, o coração quer-lhe passar pela boca afora. Revê a luta para manter vivo e forte o garoto, nisso lembra o marido também pronto ao que desse e viesse a defender o fedelhinho. Uma vez teve de largar o balcão do armazém a fugir pra casa e levar em prantos o garoto à botica, único recurso que Venda Grossa dispondo. Felizmente e com ajuda divina sarou. Fez promessa e desde esse triste momento o oratório no canto da sala, onde Te podendo mais se concentrar e se valer da fé. Ao relembrar essa difícil época a senhora quase que automaticamente encontra-se a olhar num agradecimento para o altar improvisado com santinhos de barro imagens qual fotografias em estampas e velas a queimar fumaçar cheirar exalar toda casa. Onde agora Pedro!
          Mas o que estou fazendo aqui lá tanto ao trabalho, che-guei nesta sala sem ver... Torna ao quarto acanhado onde a cômoda para tratar.
          Agora examina se a limpeza a contento, no trato ao móvel antigo não terá com a barriga num desajeito empurrado aquele monstrengo pesado a encostar na parede também de madeira. No vão, isso é certo, ajuntam-se elas, mais as cascudas fedorentas, têm as marronzinhas menores e mais ágeis que é só ver Te já preparam voo e é sem dúvida precisar ela gritar berrar até e claro não estando amolentados os joelhos correr. Quando aqui no lar aquele palerma do esposo é possível que venha em socorro: espanta as baratas, mata em plaft plaft algumas mais lerdas na parede ou no chão usando o chinelo da companheira; para esse mister pode contar com João; de resto é esperar que sente a traseira no sofá – um que ele comprou usado dum colega da firma, embora usado grande num tomar todo espaço na sala pequena porém confortável, e já tendo um cheiro ruim como que pegajoso no olfato pelo tempo nos dias úmidos; e aí não tem como, não sendo pelo grito da barata, acaba o marido dormindo no sofá, antes ter que acordá-lo para ir pra cama de vez. Agora, caso elas inventem e intentem surgir, não há remédio pois está sozinha no lar... Olha.
          Olha desconfiada, toma engancha dedos com cuidado a extremidade no móvel quase rente à parede de tábuas, fecha pálpebras em não ver o que não deseja realmente ver, puxa arreda pra cá a cômoda e se alivia um pouco. Continua a limpar cuidar dos objetos adredemente postos a cima do móvel, examina melhor na possibilidade em não estar nas posições corretas cada um deles e as toalhinhas de crochê (ela fala “croché”) e daí vai tomar uma peça das gavetas entre as seis três de cada banda; tenta puxa esforça não desprende a gaveta, esta não se move pela umidade do tempo dias a inchar a madeira e aí se esforça sua escorrega enfim a mão agora depois as duas mãos – tudo emperrado. Não tem jeito, aguardará chegar a força bruta masculina para mover a gaveta a fim de tirar a peça de roupa; aproveitaria remendar a dita cuja mas... Desiste. Limpa com pano molhado e outro seco após o restante dessa mobília, quase um dinossauro no tempo por fora de tempo e ainda é o tempo antigo visto muitíssimas residências terem desse tipo no mobiliário pobre, somente o sofá é móvel novo no sentido ser da moda recente pois o resto na casa da senhora são as peças pesadas maciças como sempre se usou desde os tempos imemoriais. Limpo agora e agora toma da vassoura já gasta já cansada já mui usada para tirar o grosso no quarto conjugal. Varre por baixo da cômoda, da cama do casal, tenta com insucesso por baixo do criado-mudo, arrasta por fim o movelzinho cheirando a cigarro do esposo, aliás João tendo impregnado a si até o cheiro do tabaco e na sua respiração é ofegante como afogado, ela encontra mil tocos escondidos debaixo. Após, com pano de chão limpa o chão. Porém fá-lo quase igual autômato visto pensar pensar pensar insistentemente seu estado sua existência e a existência de tantos problemas, os quais preenchem o viver do homem comum; ela uma fêmea dessa espécie nada em extinção. Pensa, quase fala.
          Fala sim, o ser comum distraído fala alto seu pensamento; volta e meia é tomado de surpresa e por que não dizer de escândalo e imediatamente de vergonha – olha pra lá pra cá – então sorri ao constatar Te ela andar sozinha. Onde o menino; pula no pensar ao marido e se diz, ah esse meu João não tem ambição alguma, não se importa de ficar parado no tempo e no mesmo lugar: de moço solteiro vivia atrás do balcão pesando arroz e fubá e até hoje já velho calvo uns fios brancos restantes ainda no mesmíssimo emprego no mesmíssimo armazém em Venda Grossa... o patrão dele morreu, a família toca o negócio e o esposo lhe parece plantado na casa de secos & molhados, sem futuro. Só faz trabalhar trabalhar trabalhar e descansar do serviço no sofá, uma pescaria de vez em quando com aqueles pinguços safados, fumar, ouvir o rádio, agora tem um de pilhinhas antes era só o do empório, daqueles grandalhões e uma pilha de mil horas a durar umas seiscentas a iludir os fregueses de lá. Fica ali plantado, não conversa, ouve alguma dupla caipira e o futebol, uma coisa sem graça nenhuma; e dorme... Não me dá atenção. Assim, com quem vou falar? O menino deve estar com sua canalha, não me simpatizo nem um pouco com esse tal Domingos. E as vizinhas...
          De vez em quando um dedo de prosa na vizinhança todavia conto realmente é com a comadre Inês.
          Pobrinha dela, anda não apenas adoentada: a enfermidade é das perigosas. Anos nos falamos, minha única e verdadeira confidente, agora...
          Te continua como espécie de máquina a varrer limpar afastar cadeiras remexer cantos no entanto pensando longe, lá fora o Peri ladra não se sabe o quê; não entra dentro de casa, Te não permite, inclusive bate nele se preciso impor respeito. Quando o menino menino, outro cachorro entrava e sujava o lar, era Peri igualmente morreu e o Pedro chorou bastante. De resto ela fica só em casa.
          Trata-se de certa mulherona, dessas troncudas e altas, os ossos na magreza a saltar e tem um andar desengonçado, bom ótimo às vizinhas gozarem para se elevar na beleza própria; contudo a gente de fora reconhece dona Te corajosa e trabalhadeira. A conversa-fiada afiança que ela é grosseira bruta e que inclusive bate no pobre João, o que invento desnecessário para quem não tenha melhor no lugar, apenas sabendo ver defeitos não as qualidades de outrem. No entanto é benquista, embora secarrona aos desejos das comadres vazias no bairro.
          O bairro? é um reduto da periferia de Venda Grossa, esta lugarejo com prefeito e câmara é certo mas falto de tudo; mesmo de tamanho, se dizendo uma urbe grande e não passa de cidadezinha acanhada, ainda por cima nesse por baixo descalça poeirenta na seca e barrenta nas águas, lugar onde viceja à guisa de palácio uma casa ordinária que é sede do executivo; a câmara onde pomposos blá-blá-blás políticos também uma residência comum, embora ambas de alvenaria rachada suja sem pintura ou com tinta envelhecida, tendo alguns tijolos deslocados aparecendo. E ainda tem o município meia dúzia ou pouco mais de outros prédios quase sempre de tábuas, fora a casa da ricaça dona Inês e o armazém onde João trabalha e é querido, este um edifício de tijolos com pintura azul meio berrante e com letras garrafais anunciando seu negócio aos possíveis forasteiros, a gente do lugar encontra de olhos fechados a venda mais importante de Venda. À noite, agora bem entendido, antes eram lampiões lamparinas escuros, agora o lume das lâmpadas elétricas e o barulho tá-tá-tá do motor dísel que o prefeito, um ladrãozinho conforme a oposição, motor que ele adquiriu com superfaturamento e corrupção dizem os do contra, enfim para fornecer luz ao lugar. Até às vinte e duas horas é uma Venda brilhante alegre meninos a correr e brincar gritar, adultos a sentenciar verdades nas suas mentiras de causos; e depois dessa hora é o pretume o escuro o silêncio o sono o sonho, quiçá algum pesadelo.
          Dona Te e Seu João, eventualmente o garoto, nesse viver em Venda Grossa.







Cap.2°  

Em casa da comadre, a comadre Inês, não andava o ambiente às mil maravilhas, embora alguém desconhecido pudesse imaginar o contrário, seria o contrário. Era o local da dor e do sofrimento, muito embora vendo e julgando pela empregada Maria, a imaginar agora o contrário do contrário... Porque ela com um sorriso sempre pronto anunciado por aqueles dentes mui brancos que os negros mostram no ferir o escuro de pele; e os olhos duas jabuticabas nos globos branquíssimos provocando o mesmo efeito. Maria ou anunciava a visita ou trabalhava com afinco e até ao exagero, a escorrer-lhe gotas em quase riacho no rosto gracioso. Uma outra empregada apenas lavadeira e tendo a serviço certa velha cozinheira e ainda outra servidora meio rabugenta, a enfermeira, sem contar o pessoal masculino de serviço – todas entre as mulheres destoando do pendor da jovem Maria; jovem sim mas já mãe abandonada e a dar duro na sobrevivência dos seus. Tudo isso a favor do bem-estar dessa patroa.
          Dona Inês tendo um verdadeiro palácio das mil e uma noites naquela urbe pobre e sem expressão econômica; apesar ser um palacete não demais opulento e de arquitetura até sóbria nas linhas; contudo a melhor residência e o melhor prédio de Venda Grossa por fina. Fina no trato na presença no respeito que os moradores ofertavam à família da senhora rica. Talvez milionária em vista a pobreza do lugar e a maioria esmagadora de casebres, mesmo perante casas melhorzinhas e quase sempre de tábuas. Um pouco a questão de na terra de cegos o rei quem um olho. O olho aparecia se oferecendo aos forasteiros, porquanto os vendenses já acostumados porém percebendo assim mesmo o belo na área de Inês; essa mansão se mostrando logo no centro urbano, ainda mais que os edifícios da prefeitura e da câmara. Não obstante a moradora era comedida e educada, moralmente um ser elevado e por essa razão o palacete aparecendo ao menos por fora modesto e sem extremos de luxo. Dentro do casarão todavia sem luxo também mas uma excelência no trato na limpeza no respeito e até na graça. Além do ambiente quase fraterno; considerando aqui o hábito secular de se guardar posições sociais e a hierarquia, o patrão o submisso o estranho o visitante.
          Claro nisto tudo não haver exagero – nunca fora de ex-tremos a proprietária – mais agora quando as visitas mais fla-grantes e mais frequentes são os médicos, estes vindo de fora porque Venda Grossa ainda sem recursos nem tendo hospital nem coisa alguma; o prefeito sem respaldo político pleiteava agora um posto de saúde junto ao governo estadual, até aí sem sucesso. A proprietária daquela riqueza vivia como epitetava comadre Te “a pobrezinha da comadre” vivia na miséria em questão de saúde. Isso posto é necessário convir nos rios e rios de dinheiro (milhões de cruzeiros imaginavam conterrâneos da ricaça) eram quantidades astronômicas no gasto com a velha ainda moça, nascida pouco antes que sua comadre pobre. Aliás a comadre bem-nascida batizara na igreja do padre José, mais capela melhorada que templo vetusto, batizara o Pedrinho da outra amiga.
          Raramente Te fazia visita à comadre rica; antigamente, quer dizer poucos anos atrás, aparecia mais; vez por outra Inês igualmente passando sem qualquer afetação mas por sim-ples amizade na casa de comadre Te, inclusive trocava umas palavras quase formais com o compadre, não estivesse o homem ouvindo no sofá o jogo ou no sofá sentado dormindo. Contudo essas passagens da ricaça visava a amizade e mesmo pela intimidade com a mulher dele. Nalgumas ocasiões a estada se prolongava horas, horas de consolo e sadia troca de ideias e sentimentos, talvez desabafos. Claro virem à baila dores desentendimentos sofrimentos de ambas. Inês não apenas compreendendo Tereza fazia a parte da consulente, como dever de amigas de fato. O mérito disto, ser uma caridade sem esforço.
          Não podiam se furtar ambas, cada qual no seu depoi-mento franco, não podiam deixar remexer suas respectivas fe-ridas – que são lembranças que se conta à boca pequena, proi-bidas às orelhas dos de fora, estes quase sempre torpes e a de-sejar destrinchar meandros sangrentos e futilidades morais, no sentido miúdo e aberrante, com o fim de alimentar conversa de baixaria e maldade entre a gentalha. Não. Eram conversas construtivas e – isto necessário embora – nas quais se punham os estragos a que todos somos sujeitos no viver na relação social, sobretudo na sociedade mais e mais corrompida no ponto em que os anos avançam na tecnologia porém quase retrograda no aspecto moral. Não se pretende nesta altura moralismo, visto por mais se recuando no tempo ainda não se alente a pureza proposta por idealistas e poetas. Isto a afirmar que também as duas senhoras amigas não poderiam fugir dos deslizes, seja daqueles entre os seus e nem se fale os da vizinhança e mais ainda os de Venda Grossa como um todo.
          Ora, Te lamentava não poder convencer o esposo a mudar sua configuração; ainda mais agora praticamente não se falando os esposos, como no contrário é bom a um casal que se ama. Lamentava as estripulias do afilhado de Inês. Este um caso quase à parte e nunca umas poucas pobres linhas a contentar olhos e ouvidos curiosos rapidamente. No entanto elas sabiam a profundidade dos dramas ligados a Pedro; isto é, nem todos... e sabendo, o diálogo ficava no habitual ‘um pingo é letra’ como diz a expressão popular.
          Da parte de comadre Inês ainda pior.
          O quê! seria pior ter montanhas de cruzeiros, talvez montes e montes de dólares? Ocorre de muitíssimos problemas da tragicomédia humana embora muita vez envolvendo dinheiro tem pouco nos cifrões e muito na inabilidade na in-compreensão no orgulho na vaidade e se liga a mais aspectos; quem sabe tudo isso não pudesse dissolver-se numa pitada de caridade... Os personagens dos dramas a mais das vezes olhando o próprio umbigo apenas, sequer notam a necessidade e a possível solução. Assim o mundo a se pôr como o caos. Não bastavam montanhas: para Inês era preciso mais por exigir não uma riqueza e a propriedade acima de qualquer suspeita porém seu matrimônio em crise, o que já refletindo anos na saúde física da bela milionária; somente comadre Te conhecendo a fundo. Bela? isto discutível, pois a beleza é uma predisposição dos olhos que veem. Nisto ainda outra vertente que é ambas se acharem bonitas; e aqui a dúvida entre os seres que se relacionam pela confusão entre a ideia de beleza e simpatia.
          Enfim nada que o sol ainda não mostrou na vivência de amigos. Em suma se apreciavam se aceitavam se compreendiam e se confidenciavam. Enquanto o mundo a rodar e a rotina a campear solta naquela e noutras sociedades.
          Todavia a existência de Inês tendo profundos abalos, lances morais terríveis e marcantes; tudo escondido das demais pessoas conviventes. Que sabia a coletividade de Venda sobre o martírio por que passava a senhora importante na urbe? Quase nada. Então o povo põe no lugar do que não conhece seus inventos e criações imaginosas; às vezes uma insignificante porção da realidade é pinçada a alimentar rodinhas da gente que ri fácil que chora fácil mas que mais facilmente deturpa. E assim nunca seriamente se apura a verdade.
          Sabia-se por alto o senhor Giovanni ser o proprietário do melhor imóvel e de algumas casas e terrenos em Venda Grossa; ter riqueza noutras praças, talvez com passagens ao exterior. Alguns o tinham por um bem-sucedido vendedor, viajante, a representar no país uma empresa de porte internacional. Outros mais desocupados a divulgar poderes secretos no italiano, fosse mesmo peninsular; ou quem sabe, não sabiam, falavam, quem sabe um ladrão de alta categoria; daí raramente aparecer no lugarejo e quase sempre o fazia na boca da noite sem se mostrar ao povo no sol claro. De fato comprovado e visto não existindo nada e ninguém a poder garantir. Nenhuma pessoa a pedir esclarecimentos à grande senhora; apesar de algumas investidas tímidas no pessoal servidor, o qual chegando ser nisso um túmulo...
          Agora pioravam as coisas, as coisas de se conhecer a fundo os atos alheios, porque a verdade mais flagrante nos dias era a situação da saúde, precária, da senhora Inês, esposa daquele gringo esquisito, mais visitante que morador de Venda Grossa...
          Comadre, diz para Te Inês numa passagem pela casa da outra, então já mostrando os sintomas ostensivos da enfermi-dade que riscaria a pobre do mapa dos vivos porém ainda forte no riso sofrido e franco e também com voz firme – comadre Te, Giovanni acaba com minha vida... Creia, descobri com uma parenta daquelas íntimas visto ter uma porção respeitável de gente do sangue que não me respeita e sequer tem compaixão nas coisas de meu casamento com esse homem abusado, acredite termos descoberto mais três amantes dele. Um verdadeiro mulherengo. Ah saiba mais ainda: na proporção em que consegue aumentar seu harém distribuído aqui no país e até no exterior – diminui a oferta na casa. (Choro, se enxuga, recebe a mão de Te num carinho desajeitado porém todo coração). No mês passado inclusive não pude colaborar com a obra do padre José: não tinha como, pois devo fazer primeiro frente aos gastos no lar; o lar consome e até esbanja... A enfermeira Gertrudes por exemplo é um sumidouro nas finanças; as outras servidoras mais modestas e até morro de pena da Maria com sua filharada a quase passar fome... Agora Giovanni me nega o básico na contribuição – se não me ama, não me respeita também, ao menos não sonegue numerário essencial ao andamento do lar. E tenho o gasto astronômico na botica, hoje é farmácia que se diz e o Zé Boticário que só pensa nos votos terá que mudar o próprio nome para Zé da Farmácia; ele fica a discutir na câmara e sua farmácia vazia é um paradeiro tal qual Venda Grossa e portanto não encontro lá os medicamentos necessários: tudo tem que vir das cidades grandes a alto custo! Enquanto isso meu esposo... acho que sequer pode ser chamado seu compadre. A propósito, como anda nosso Pedrinho?
          A conversa segue horas. Desviam o assunto focando no afilhado, o que servia e serve à lamentação da mãe. Não chegam a grandes conclusões. Falam mais um pouco e no momento em que o compadre chega na sua bicicleta elas param, Inês torna ao lar, se beijam antes. Ambas ficam como que confortadas, desatoladas ou desentulhadas se se pode afirmar nesses termos os acúmulos dos problemas que carregam, sem que a sociedade frívola saiba, e menos ainda profundamente.








Cap.3° 

Uma coisa é certa nesse errado, que é existir um topônimo tão esdrúxulo quanto Venda Grossa; o que não trazendo tantos transtornos visto a urbe não passar de um cuspe e com população ínfima; a dizer o insignificante no concerto mundial, isto tomando a fala de uns poucos críticos desse lugarejo, decerto mais viajados e experientes, saindo para ver novos horizontes e não a ficar chocando encolhidos apalermados na vidinha rotineira de Venda. Parece – e não é preciso grandes esforços e sabedorias a deduzir o óbvio da dedução – parece, antes de virar Venda Grossa, o estradão ali conter dois armazéns de secos & molhados ou venda, onde não pode faltar cachaça, dois botecos um acanhado outro menos acanhado, o que suficiente aos cavaleiros de passagem a se munir e satisfazer necessidades. O primeiro, menor, num domingo recebeu Zé Valentão, sujeito forte e mais forte armado de garrucha e aguardente; os fregueses beberam mais falaram mais exageraram mais seus causos, a ponto de um freguês valentinho qualquer temê-lo e num descuido do maior atirar no copo na boca de rompantes e bravatas, estourando o copo o beiço o cérebro do fortalhão. O crime não teve como sempre testemunhas porque à chegada dos polícias vindos de cidade longe, longe os que assistiram... O proprietário mambembe abandonou o botequim e se mudou, pois desde então ninguém ia mais beber lá, temendo o fantasma valentão e bravateiro e dessa forma faliu o dono. Restou o outro boteco, a venda grossa. Grossa tomada por grande assim como concerto grosso ou homem grosso, quer dizer volumoso. A grosso modo narram assim a estória os antigos moradores da vila, por terem ouvido falar, tais contadores reunidos em quaisquer pontos ou na pracinha abandonada sem verde, na falta de espaço de convívio e de assuntos mais sérios. Contudo o nome pegou em vista perdurar a maior e depois a única venda para abastecer essa área isolada na região. A venda, surgindo casas nas imediações e transformando o aglomerado num município, essa venda foi para diante e é hoje justamente o principal empório, onde João trabalha anos para dar sustento ao seu lar, lar este em que dona Tereza se queixa da solidão. Esse contar, com seus acréscimos próprios de moradores com pouco quefazer, esse contar se perpetuou e seria histórico houvessem os anais escritos, escritos são apenas as coisas de leis e decretos no blá-blá-blá da câmara ou nas taxações indevidas exageradas absurdas do executivo; acrescidos no débito de os textos serem errados mal grafados ferindo o padrão culto. Demais, só o narrar na oralidade do povo miúdo.
          Em todo caso, aí início da existência de Venda Grossa.
          Contudo o que é a cidade?
          No mapa figura não mais que um ponto fora do traçado ferroviário da araraquarense, não mui distante de Catanduva e Rio Preto, locais onde os menos faltos de recursos a procurar recursos como os de saúde por exemplo e os legais; porque os miseráveis sempre não podem se deslocar e têm que se virar com chás caseiros. Venda Grossa surgiu da necessidade política, vivendo às expensas também de favores políticos da política dominante na província anos; daí a pouca expressividade do prefeito, tido por explorador pela oposição na câmara onde seu partido é minoritário. O Zé da Botica já firmado como Zé da Farmácia é quase a única voz do executivo no legislativo; e ouve em razão disso insultos no balcão de remédios, dirigidos ao “ladrãozinho”, sua excelência o prefeito. Assim mesmo não deixa de fornecer pílulas pós vidros de remédios com letrinhas miúdas, afronta aos míopes e analfabetos fregueses, não deixa não de atender os ofensores, o que é próprio dos bons comerciantes. Além do mais o farmacêutico, farmacêutico-prático não se exigiria formado, ele é o único ‘médico’ nessa urbe. O prefeito tenta anos instalação de um posto de saúde, mesmo considerando que já na época a saúde andava doente e hoje mais agravado o estado, tenta um posto junto ao governador. O posto policial havia conseguido noutra gestão, o posto que é um destacamento militar em cuja direção encontra-se o cabo Geraldo, o qual se pensa general com funções de mando como delegado de polícia.
          Tratada friamente, quer dizer com olhos sérios e secos da ciência e dos estudiosos, Venda é um amontoadinho de ca-sebres – já visto haver uma residência enorme aos pequenos, um verdadeiro palacete nas mãos da família da senhora Inês; a prefeitura a câmara e uma que outra de alvenaria, o restante casas pobres de tábua e casebres, primos das favelas atuais; fora uma que outra edificação menos ruim – isto curiosamente na periferia de Venda Grossa, quase fora do perímetro urbano; e o comum se não o normal nas cidades bem definidas é serem suas respectivas periferias a pobreza relegada pelas autoridades. Em Venda a periferia é inclusive melhor posicionada que o centro (teoricamente rico ou mais bem cuidado, às vezes cartão de visitas) porque ela se confunde com o meio rural; não no sentido do estado miserável em que se encontram hoje os poucos caboclos roceiros, sendo já na época expulsos pelo latifúndio a viver mais mal do que vivendo no roçado a morar na cidade sem infraestrutura. Portanto Venda um caso à parte na generalidade. João e Tereza mesmo, com moradia velha mas sólida na periferia. Enfim a periferia sem as benesses da urbe moderna como água encanada tratamento de esgoto luz elétrica coleta de lixo calçamento, de boa estrutura embora de casas pobres.
          A cidade tomada na sua parte central e o bairro por volta, este pobre de fato e mais que a urbe como um todo, embora a afirmação de algumas casas sólidas sem riqueza notável; a cidade não vai no momento em que vivem os personagens citados além de uma rua, pomposamente chamada Avenida Central, com outras em torno, quase que apenas rodeando a capela do padre José, mas sem demarcação: com nomes formais, espécie de títulos a engrandecer a verdade de famílias locais ou até de pessoas desconhecidas e a agradar os políticos do estado ou da federação, ou mesmo com nomes históricos igualmente desconhecidos da população. Em suma usa-se nomenclatura oficial nas vias públicas que não se sabem ruas, são mais carreadores e trilhos de passagem a cruzar o casario pobre se não miserável.
          Tem nisso mais agravantes. A região é seca, o estradão, agora Avenida Central, ela numa extremidade a levar ao nada do mato e noutra ao nada do desconhecido (os vendenses ou grossenses se se quiser pensam ser rumo das cidades grandes onde o poder maior que do prefeito; e indicam assim aos que porventura passam por ali). O estradão é caminho de ida ou vinda de roceiros eventuais viventes ou passantes que param a comprar bens em Venda Grossa ou a irem para municípios maiores. Entretanto Venda é área geográfica mui seca; no tempo das águas o barreiro a lama o escorrego a dificultar montarias e quase inviabilizando a possibilidade dos raros veículos motorizados a surgir. E na seca, que vige em quase todo ano, é a seca a poeira a sujeira constantes; tanto que a cor das moradias é a do pó amarelado tendente à vermelhidão. Ano todo desse jeito, a ponto de quase ninguém reclamar assim como não reclama de sua própria pele ou da vestimenta simples um caboclo pobre.
          Agora, animais (bem entendido, os menos inteligentes) tendo muito. Amarram-se os mesmos nas poucas árvores teimosas que o homem permitiu viver; e em tocos fincados às vezes com argolas e ganchos a fim de segurar cavalos ou muares. Bicho de pequeno porte existe bastante; aqui nem lembradas as pequenices como piolho pernilongo formiga. Grandes é claro em volta da urbe ter o gado bovino nas fazendas. O gado vacum foi ao longo dos anos tomando o lugar da gente miúda que trabalhava a terra ou vivia como caipira, o gado de propriedade da gente rica a residir nas cidades grandes e inclusive na capital. O boi a vaca criados e a economia gira na região em torno desse ganho, o qual não gera emprego. De maneira que as finanças vendenses provindo disso e do quase nada mais, a urbe não dispondo de indústria e nem tendo setor de serviço (hoje mui valorizado nas cidades dignas desse nome). A economia tão somente baseia-se no comércio, fraco e dependente de crises e possíveis picos positivos em alguma colheita, trazida por fornecedores sem estrura para levar seus produtos à cidade grande.
          Assim também afetada a circulação de veículos – não animais, visto haver muito barulho de cascos no chão de terra da Avenida – e a presença enfim de carros é quase raridade. Vêm caminhõezinhos, que à população da época são gigantescos, carros para entregar mercadorias sobretudo na venda em que João atende no balcão. Claro havendo o automóvel da prefeitura à disposição do chefe do executivo e um que outro de vereadores menos pobres; um deles é carro oficial da câmara. A prefeitura conta com certo caminhão para levar trabalhadores mal pagos a consertar uma que outra ponte por exemplo. Aliás não há muita ponte, os riachos são distantes e a água à população vem de poços comuns, sempre fundos pois a região praticamente não recebe chuva e não tem rio. Sem água encanada, havendo certa caixa d’água fornecedora a abastecer os meios oficiais e à população restante numa crise com seca das bravas.
          Em iluminação pública, Venda Grossa era a escuridão total; daí a compra do motor-gerador, o que trouxe muitíssimo bate-boca mormente na câmara onde os ‘salvadores da pátria’ não se entendiam... A propósito, sempre que envolve dinheiro, todos lugares assim, daí a discussão enorme. Em Venda custou muita desavença mas até que os postes e umas lâmpadas fracas aclararam a noite, havendo mesmo festa do populacho por essa novidade; o clarão até às vinte e duas horas bem entendido; hora na qual se desliga a parafernália e o vendense ou acende a lamparina ou vai dormir ou brigar com o cônjuge, porque isto e tanto quanto no resto do mundo é igualmente conquista da gente de Venda...
          A população é no geral cabocla, meio escura de pele, mesmo Inês Te e os principais do lugar são desse tipo étnico; quase sem exagero se pode afirmar que o único habitante branco ariano caucásico ‘puro’ é a enfermeira Gertrudes, uma que tem sobrenome que ninguém inclusive a patroa consegue pronunciar, dado o excesso de consoantes, o brasileiro é mais vocálico, ao menos no pronunciar e entender. Só ela, embora fale bem a língua cabocla vendense; isto é: sabe falar bem o errado da população em que inserida. No entanto secarrona demais, demais orgulhosa do seu saber no métier como profissional da saúde. Inclusive a se dirigir à paciente sua patroa usando o linguajar médico, o que assusta um pouco os matutos da casa e de fora. Nas outras residências e nas poucas casas comerciais e também muito visto na missa e encontros religiosos, o povo é o caboclo queimado de pele e de linguagem característica dessa gente em qualquer local que viva. Na população poderia ainda citar, mesmo sem qualquer destaque, as pessoas folclóricas que todo município oferece ao mundo.
          Alguns são mais notórios, porém fica isso para outro capítulo.


Cap.4° 

Quase Te pode ser uma figura desse tipo, o folclórico... se não agora, agora que mulher madura magérrima fazendo algum contraste com o esposo igualmente maduro barrigudo sentado no sofá, ela sempre de pé; mas antes disso quando se casaram, ele então mediano na estatura e fino de corpo, ela alta já sendo mais alta que ele e ainda por cima em baixo punha sapatos de saltos: o povo a dizer no pichamento um par tão esdrúxulo indo à missa. Nunca se falou nesses termos na frente do casal; o próprio casal descobriu o ridículo; aliás a perda do hábito de saírem juntos, não abraçados e a se beijar e se roçando, isso desatualizou-se não se cristalizando nas incoerências das relações; assim ele se voltou inteiro ao trabalho no armazém, ela às prendas exclusivamente domésticas. No entanto a perdurar o constraste, não a pichação pública.
          Tal situação, quem sabe hilariante, mesmo porque o povo da rua aprecia rir, a situação foi de meses apenas, enquanto Tereza novidade em Venda Grossa, João já da terra... Eles levavam a efeito o idílio, idílio este com suas reservas e descontos, numa trama (quem sabe aqui o termo indevido) só inteligível aos corações enamorados não aos de fora. A conquista, este outro indevido, a conquista da jovem pelo jovem caixeiro atendente no armazém mais importante de Venda – foi trabalhosa ao rapaz. Ia, foi, meses a cavalo, um animal emprestado pelo seu patrão que o estimava; indo na direção dum sítio nas imediações de Catanduva, deixava a montaria em casa de um conhecido, tomava ônibus no estradão empoeirado que vinha da capital rumo à cidade grande (numa comparação com Venda, mero cuspe no mapa) descia antes de chegar à urbe e andava a pé (pronunciavam todos “diapé”) chegando noite à amada; tendo saído domingo manhãzinho. Pernoitava no sogro, futuro sogro, conversava amenidades que ao homem comum é de extremo valor, conversava ele mais com o sogro que realmente com a namorada, uma que viera a conhecer e se interessar num baile acompanhada do mano mais velho e amigas; tendo o moço trânsito livre também com os futuros cunhados. Quase que apenas via, revia, a moça dentro dos costumes da época. Será que isso não aguçando ainda mais o interesse nos jovens!? Enfim comia bebia com a família dela o João e na segunda-feira madrugada punha os pés no caminho de volta; mesmo porque numa casa de secos & molhados quase na roça, o movimento exige mais no sábado e na segunda aos balconistas. Os cavalos saem do boteco carregados e ainda mais as carroças a levar as compras para o meio rural. A rigor Venda era um aglomerado sem expressão e pertencente à roça. Nessas condições o dono sentindo alívio quando do retorno desapeando da montaria o empregado. Aliás não era João apenas benquisto pelo empregador e pela freguesia mas um elemento necessário. O rapaz conhecendo tudinho dos problemas no empório e inclusive um pouco na escrituração particular do estabelecimento e sendo respeitado pela experiência de anos seguidos no balcão; um quase chefe entre os outros servidores da casa comercial. Valorizado pelo trato, o empregado com certo tino e habilidade, sem falar ser demais simpático e ter muitos amigos nesse grupo social. Assim possível avaliar a deferência do velho patrão concedendo não só o veículo mas mais muito mais cedendo parte da segunda-feira para que ele chegasse a Te. Um alívio portanto. Descia do cavalo desatrelava o animal e se punha já a tentar auxiliar no restinho do exigente dia de trabalho. As mais das vezes chegando já noite da segunda e assim não tendo remédio. Nunca como razão da falta a loja descontara um centavo sequer do moço. Verdade que a compensar decerto, o ganho mensal era irrisório, de poucos cruzeiros. Por final, se é que exista final para algum problema se não o de uma situação apenas; resumindo sentiu alívio o velho quando seu funcionário casou-se lá no sítio do sogro com Tereza, em cerimoniais na outra cidade; e a trouxe sem quaisquer luxos de lua de mel para Venda. Assim o empório se livrou dos apertos no intenso movimento de fim de semana, onde João dava conta do recado. Inclusive, embora de mãos habitualmente fechadas, o chefe dele passou ao sujeito ao mesmo tempo sorridente e espantado algumas notas de cruzeiros, das grandes, como presente nupcial.
          Foram residir na mesma casa onde residem até hoje; primeiro alugada, depois o senhorio se foi de Venda e negociou com o inquilino o imóvel por valor quase simbólico e dessa maneira virando proprietário o casal. Isto não é de espantar ninguém, porque à época terrenos e casas de tábua valendo pouco, num município isolado da civilização e parado no tempo. O que podendo causar espécie seria haver alguns cidadãos com propriedade de valor, um que outro entre os políticos e a família da senhora Inês.
          Outro elemento mais ou menos folclórico em Venda foi o soldado Dionísio, um que amava Baco e já exalava álcool quase por natureza. Logo o trocaram por novo praça. Dionísio era só barriga e lentidão; como exercer suas funções policiais quando o cabo exigindo pressa e tirocínio... Todo mundo o gozava e falava gracinhas pelo tipo – nunca diante do homem é lógico.
          Houve também por muitos anos o Lico; sabe-se lá e ninguém sabendo seu nome numa terra em que a maioria com apelido. Lico marcou época por andar constantemente ébrio e a falar mole os desconexos. Um dado o caracterizava, que era o de gargalhar despropósitos, inclusive não estando com aguardente no bucho, isto quase impossível visto sempre alguém ofertando bebida nos parcos bares, inclusive no armazém de João. Popular, gargalhava gritado e nervosamente o neurótico ser. A tanto que acabou no xadrez improvisado quando da instalação do posto policial numa residência alugada. O cioso cabo Geraldo o deteve gargalhando na rua, pensou baderneiro, e desocupado ele mesmo ou para mostrar serviço no trabalho como chefe de polícia, engaiolou Lico. Primeiro fez-lhe um tiroteio de perguntas, nesse dia o pobre não havendo bebido por não ter achado nenhuma oferta e vivia sem tostão sequer a comprar ao menos uma dose, não obstante gargalhando sem parar; o cabo mandou Dionísio dar-lhe umas lambadas, tarefa para qual não levava jeito mas enfim cumpriu a ordem superior; quanto mais batia mais gargalhava o Lico. Acabou atirado no quartinho que haviam adaptado como cela sem grade porém com porta e cadeado. Continuou a rir nervosamente, não deixando o delegado dormir e decerto também a vizinhança incomodada; quanto ao praça barrigudo, ele roncava de dar gosto. Na madrugada vieram o prefeito o padre e mais alguns amigos em comissão para defesa do prisioneiro: “senhor cabo, diz o padre, Lico é um pobre diabo, um inofensivo ser, um quase demente, seu riso não é descaramento.” Assim Lico tornou à liberdade na prisão de sua demência.
          Um dia o povo gozador tomou outro ser folclórico para chamar atenção na cidade. Casou o mesmo, a mesma pois sendo a Maria Touca, com o Lico. Claro, só na brincadeira.
          Ela era chatoquinha, quase uma anã deformada, sempre tendo um gorro vermelho listrado na cabeça de poucos pen-samentos e menos sentenças. A meninada não a deixando em paz nas suas andanças como pedinte. “Maria Tôca” gritavam moleques atrás dela; a velhota enrugada a falar embrulhado respondia com resmungos e disparates e mais ainda xingando, tinha demais a boca suja; por vezes atirava pedra nos garotos que a atormentavam. Quando comunicaram seu casamento à interessada, esta quase enlouqueceu de raiva.
          O marido morreu antes que a esposa, faleceu de bebe-deira, e sem saber do matrimônio...
          Venda Grossa não marcou presença por seus poucos habitantes folclóricos, sim por ela mesma ser a folclórica nos seus costumes quase a desconhecer os hábitos da civilização.







Cap.5°

Dona Te – algumas pessoas e sobretudo meninos os quais não sabem o porquê dos nomes, quem sabe a atender o costume em Venda Grossa a abreviar criar assentar divulgar apelidos, já emendando para Donatê, aqui pondo sim o chapeuzi-nho do circunflexo e a respeitar oxítonas – Dona Te agora, de enxada na mão a reforçar calos, agora filosofa. Derruba a ma-taria em que se transformou o quintal, mesmo porque se não for ela, ele não arredando pé, nádegas, do sofá e aí não carpe, sobrará então para quem? ao Pedrinho que nunca se dispôs a trabalho nenhum e agora anda sumido; a ela e ela capina agora o capim crescido, a cada enxadada arrancando touceira alevantam aqueles incríveis mosquitinhos a zumbir na orelha da gente e aí para num descanso e para avaliar o quanto capinou e assim filosofa. A filosofia matuta tem pernas curtas: por que uma árvore tão grande, por que tem lugar dando enchente arrasadora e aqui essa terra seca ano todo, por que – e aqui se fixa a filósofa Te – por que a gente fede tanto!
          Ora, na medida em que trabalha, como lavradora como antes entre os seus anos atrás, sua escorrem-lhe do brotar gotas quase riachos acres pegajosos na pele que é o suor, no caso a incomodando e então filosofa um pouco na forma de pensar as recordações. Como é que nos acostumamos com o próprio cheiro, e deve é cheirar mal como o cheiro ruim da Margarida... Ah a Margarida, os conhecidos a chamam Marga o que dando a trocadilhar num amarga o solteirismo enrugado, ela exalando suada um cheiro horroroso, quase maior que o do compadre Chico que se mudou de Venda nunca mais soubemos daquela gente amiga, Te não suportava o fedor do homem, puxava a comadre a conversarem na cozinha sob pretexto de precisar umas falas de mulher, não era... A Margarida e a dona Maria vizinha que também se foi, esta a queixar-se sempre não poder controlar o cheiro mau, tendo portanto consciência do problema, fazer o quê! Nada. Ninguém pode controlar isso. E a solteirona Margarida até hoje se aplica mil pomadas e cremes e muita água de cheiro para tapar o sol com a peneira, coitada. Os homens? Deus me livre, o João exijo, antes de se grudar no sofá, exijo tirar a roupa do trabalho tomar banho pôr outra limpa e aí sim ouvir aquelas besteiradas de futebol, agora anda preocupado porque seu Palmeiras perdendo. Se descuido um pouco, oi ele sentado sujo suado e cheirando mal, que o cheiro de corpo dele é forte impregna toda a casa e quem é que irá depois tirar o fedor que fica no afundado do sofá onde dorme sentado!? Nem o mato ele quer tirar e me sobra mais essa tarefa.
          O João nos primeiros anos de casado chegava no lar com um pouco mais de disposição. No entanto dentro do de-sagradável costume em deixar para outro dia não fazendo as coisas que todo homem faz quando na casa; João, eu falava, aliás nem um nem outro fosse a manter a tradição dos que se amam no começo a se tratarem benzinho meu amor essas coisas: nada, nem um nem outro cônjuge a se falar como namorados numa poesia. Ele: Te... Ela: João... Daí falava chamava quase intimava quando o casal já assentado maduro velho no casamento, a fêmea da espécie cobra exige e o macho da espécie ou abaixa a cabeça e vai obedecer fazendo o que ela ‘mandou’ ou diz como ele a responder “depois eu faço, Te” e não fazendo coisa alguma. Ora, tem casos nos quais o macho sem espécie dá uns tabefes sobretudo bêbado na coitada e daí o hábito não exige mais nada dele, não sendo esta terrível opção a opção do esposo da Tereza. “Depois...” como no caso da cadeira desmunhecando, meses Te a lhe cobrar uns pregos e o martelo; no início de casados ele mesmo por iniciativa: martelo num quebrado, arrumava a lasca saída da cerca, arrumava isso ou aquilo; depois? “depois...”
          Prossegue, o sol já alto, derruba o matagal até chegar o final do dia; limpa a área, respira, cansada, parece-lhe então que existe inclusive mais ar, mais vento com certeza e aí... bem aí tendo à espera os outros serviços num trabalho constante e eterno, os afazeres domésticos rotineiros e sem fim, e com lástima.
          Enquanto o desmatamento ou só limpeza a se sentir bem com a tarefa concluída, enquanto isso relembra sua família, todos parentes na roça. O velho tendo um sítio com algum café milho e arroz na baixada do riacho, coisas assim mas insuficiente para manutenção de tantas bocas se bem com muitos braços – aos poucos, como os de Tereza, com o tempo os braços indo embora nos casamentos e com os manos fugindo à capital longínqua para tentar melhorar a vida. Assim deixou pelo João os seus mas levando para Venda Grossa aquele sentimento e a ilusão ter deixado um paraíso, sem cair num inferno mesmo porque apreciando seu lar. Porém sempre, falando ou pensando, a pensar talvez com exagero no seu berço e na sua gente. Tudo de bom num contraste com que dando errado em a nova vida – fora melhor na propriedadezinha familial; não aceitou completamente até agora, já um pouco madura quase idosa, a vida nova já velha em Venda. Criticando às vezes acerbamente o clima a seca as dificuldades e inclusive a gente vendense; numa oposição à tão querida pátria deixada entre familiares... Estes não mais viu, fora o passamento materno no qual fora, foram juntos mulher e marido, fora chorar o sepultamento da mãe em Catanduva. Com exceção dessa triste oportunidade a rever os seus não mais os encontrou, ficando “plantada” dizia Te, plantada em Venda Grossa. Igualmente se queixando por além disso não sair mais de casa, como uma prisioneira. No início iam ambos cônjuges à missa, nenhuma diversão mais havendo no lugar, a igreja do padre José única forma a encontros sociais. Depois, até aos domingos e dias santos (os feriados eram coisa apenas do calendário, trabalhando os habitantes) mesmo aí não saía do lar a mulher; João vez que outra numa pescaria longe ou indo discutir futebol com amigos ou mesmo batendo uma bolinha com fregueses do armazém no dia de descanso. Te analisando sentindo se não um descaso ao menos uma espécie de prisão domiciliar.
          Nesse ínterim, ou seja enquanto a desbastar o capim amargoso teimoso a abranger todo o quintal, uma nova vizinha gritou-lhe um olá. Nova entre os distantes ou gatos pingados moradores, mais havendo lotes com mato e abandono de terreno que gente nas imediações, essa vindo recente ser sua vizinha, a vizinha, certa dona Maria incerta, desse tipo com o qual ficamos de prontidão e com orelhas de pé num alerta, essa lhe atirou um bom-dia já devendo ser boa-tarde passando bem do meio do dia e isto algo imperdoável e fundamental no costume caboclo, não se cumprimenta em boa-noite sendo tardezinha. “Bom-dia Donatê” e daí espichou a conversa por cima da pobre enxadeira no seu afazer. Te um tanto preocupada, não pela interrupção, pela ameaça... Maria um bocado atrevida intrometida, dessa gente especula que deseja não se sabendo com qual objetivo e sendo Te boa pessimista a imaginar opinar ao pior caminho... Espichando a conversa para direções desagradáveis como por exemplo quem era o fulano que veio na visita terça-feira, quanto ganha seu marido, onde a senhora encontrou tal pano que veste, a mulher que mudou daqui uma porcalhona etc. etc. etc.. Em guarda Te sincopando abreviando fugindo da resposta e – lógico é sempre assim afinal o padre dizia necessário ter respeito e tolerância –  e terminando ela à outra com um sorriso ou numa promessa para não ser cumprida de visita à residência ali encostada num qualquer dia. Visto ser dessa forma as relações mundanas e de vizinhança. Uf! se falou (ora, para quem iria dizer, sozinha:) e entrou em casa o fogão a vassoura o arroz a escolher.
          Já atiçando o fogo vagaroso pensa, repensa? pensa em comparação aquela à outra Maria, a Maria velha, Lia como se referiam a ela, a velha vizinha que se fora, nada entrona nada especula, antes um ser humilde e confiável, amiga, a velha nunca fizera tantas perguntas a saber coisas íntimas da gente e temos as até inconfessáveis que a nova Maria desejando saber num verdadeiro inquérito policial... Lia apanhava daquele abusado esposo dela, sofria a pobre, o homem bêbado também malhando os filhos. Ah, tinha um filho dela que me roubava mamão mas a vizinha sem culpa nisso, quietinha, nada de viver olhando e se metendo na casa da gente. Essa novata... ai nem quero pensar e a janta anda atrasada por causa de carpir o mato...







Cap.6°  

Quem o fulano que veio em visita na terça-feira? o Compadre. O compadre não era compadre, bem um compadre do João do armazém, onde se encontravam todas semanas por anos a fio. Nenhum dos dois a batizar filho do outro, apenas mais um apelido desses que campeavam comumente em Venda Grossa. Ou por outra, o Compadre tentou sim crismar o Pedrinho do João, o batismo ocorrera por Inês, a comadre Inês, numa visita rápida do esposo dela, decerto Giovanni numa licença no seu mundanismo e aí aparecendo e a esposa a aproveitar e assim virando ele compadre ela comadre de Te, o que foi uma premiação porque qualquer pobretão se eleva a receber a amizade da família mais rica do município. Ora, como é hábito católico, necessário confirmar a crença religiosa no crismar; porém o patrão no armazém se prestou a essa aproximação antes de outro homem; de maneira que Compadre teve de se contentar somente com o apelido, aliás como era conhecido até pelos desconhecidos. Esse Compadre foi quem apareceu naquela terça na casa do amigo – o que deu muito trabalho à Donatê explicar para a vizinha entrona; visto como pôr na cabeça dos que não conhecem alguém que é alguém que a gente conhece?
          Bem, mas Compadre, velho conhecido da família João Te e Pedro, coisa de muitíssimos anos; Compadre chegou a tomar o garotinho no colo. Então agora relembram esse fato e outros na visita de quase uma lamparina cheia se esgotando em horas a conversarem e tomar café ao cigarro dos homens. Já Te não conseguia mais deixar de não demonstrar sono, com aquela piscação involuntária dos seus olhinhos (Te com olhos pequenos embora corpo grande e alto); nisso a gente teima provar que ainda cedo para ir embora enquanto as lembranças teimam que não, e o assunto dá corda a outros e mais assuntos. Por final se despediram e o visitante amigo saiu quase no trote, o cavalo querendo negar fogo, decerto cansado a esperar e pelo seu dia de trabalho já à noite.
          Quando o Pedrinho menininho engraçadinho, a mãe o levava talvez para exibir sua criança aos fregueses do pai no armazém, o João ficando todo orgulhoso na sua vaidade. Com muita razão visto haver perdido antes dezena de outros filhotes, saindo eles de anjinhos ao cemitério – o cemitério que a prefeitura organizara aos sepultamentos e que possuía coveiro e outro funcionário, o cemitério num terreno logo após a capela do padre José – e assim o Pedro sendo aos pais, não só por sua beleza e graça, um prêmio de consolação, prêmio esse vindo graças às preces e promessas de Te junto à Mãe Santíssima. Mostravam e mais mostravam o menino para quem passasse pela venda principal de Venda. O Compadre então se entusiasmava elogiando o amigo, o Compadre tão apreciador de crianças, embora ele mesmo já tivesse na fazendola não distante da urbezinha um punhado delas.
          O Pedrinho cresceu virou Pedro. Em menino, mi-mado um pouco sendo o que escapara do alfange da morte, em garoto deu muito trabalho sobretudo à mãe zelosa e preo-cupada mormente nos dias de enfermidades; enquanto o geni-tor ocupado dia todo no armazém e só chegando tarde ao lar, a ouvir queixas ou preocupações da mulher. Por esse tempo ainda não adquirira o rádio nem havia conseguido o sofá que por pouco não o eternizaria no seu afundado com as nádegas do homem e no sono a seguir. Por vezes Te precisando mais tarde desligar a voz do radinho a falar para um homem roncando...
          Cresceu, ficou traquinas, fugiu da escola e depois do serviço. Primeiro tomava, forçado, umas aulas com senhora gorda e quase tão solteirona quanto Margarida, esta já recebera alguns desaforos do moleque... A professora, improvisada, pois ainda ela também nas primeiras letras, dona Tomásia, submeteu o Pedrinho às primeiras reguadas – suficiente para ajudá-lo ter razão a fugir e não mais retornar à residência da moça, velha passada. A mãe dele não insistiu e o João só tomou conhecimento do abandono mês depois, ralhou um pouco “desejava que você fosse um dia doutor...” o doutor ficou solto pelas ruas de Venda, nem parava no lar. Depois o prefeito conseguira a instalação pelo governo estadual de um grupo escolar – aí retornou o tormento ao doutorzinho... Ainda assim não concluindo o curso que ia até ao quarto ano, isto o máximo que se podia pleitear dentro de Venda Grossa. Maiorzinho, deixou também a nova escola no terceiro ano, debalde os pedidos e quase imposição do pai e a insistência e lamentações da mãe; caiu na rua de novo, num ímpeto de liberdade, dessas que não aceitam conselhos; e assim cresceu mais ficando um rapazote voluntarioso. Um dia enfrentou numa forma quase de igual para igual as ordens paternas, a mãe já não sendo mesmo respeitada. Te apenas sabia lastimar falar falar sem forças diante do rebelde. Aliás falava sim mas às paredes e a uma que outra vizinha a querer se justificar – porque Pedro não ouvia quando ouvindo e a mais das vezes fugia com amigos por aí. Foi nessa ocasião aparecer Domingos, duma família desestruturada e mui pichada, que morou um ano em Venda Grossa e depois partiu. Travou-se sólida amizade, o que seria distinta afeição, não fossem as estripulias do bando, formara-se um agrupamento entre adolescentes, chefiado por Domingos, a quem nenhum morador respeitável aceitava; enfim as famílias de bem deploravam o fato da má companhia aos seus rebentos. Entretanto Pedro como que se colara ao outro, o que deu muita discussão em casa. Te se descabelava chorava lamentava lembrava o sofrimento por que passara perdendo antes os irmãozinhos dele e depois a luta para criá-lo; Pedro fizera nascer uma espécie de couraça para ouvir e imediato esquecer a voz da mãe; por vezes ela ainda a falar e lamentar e o rapaz a sorrir qual um cafajeste. Foi nesse ponto sair de casa; primeiro se alongando um pouco e não aparecendo uma noite ou outra, para depois semana mês, agora mais de ano nada se sabendo dele na casa de João, onde este só vindo ao seu bendito sofá. Claro o choro o lamentar o sofrer, mais de Tereza que do pai do rapaz, visto o homem ocupar-se todo o dia com os problemas no empório.
          Havia mais um drama além do da cultura formal, sempre precária não apenas em Venda; sim outro conflito tão quanto problemático e quase dramático foi o do trabalho ao menino. Não era grande demais, embora já alcançando a estatura paterna – quer dizer que ficando meio palmo a menos que a altura da mãe... A propósito, deixando ser menino para ser quase homem feito, porém no lar ambos genitores o tratando e se referindo a ele como ‘menino’, o que deixava o rapaz contrariado e enraivecido. Enfim tendo tamanho e idade (não maturidade, esta uma ideia mais exigente que a simples contagem cronológica) tendendo a ser considerado adulto e no ponto de constituir família dar bons exemplos ou só se engrenar como cidadão decente – contudo não trabalhava, muito menos trabalhar com firmeza... trabalhando esporadicamente e mais tratando de tarefas extras, bicos como se dizia, entretanto sem continuidade e sem se firmar; enfim sem profissão reconhecida. Não conseguia serviço apesar das interferências do pai no sentido de encaixá-lo num emprego e assim a permanecer numa prática quase simbólica; além de tudo não havia ofertas à colocação de jovens no mercado, nos quais a sociedade não costuma depositar muita confiança; e como angariar confiança sem deixar que se ganhe experiência! Embora esforços paternos, nada efetivo conseguindo pois numa cidade pequena a questão é maior que nas grandes, e mesmo os chefes de família pouco obtém numa urbe de mercado tão restrito. Em suma fora preciso que João quase implorasse uma oportunidade ao filho junto aos mil amigos compadres conhecidos e os fregueses do armazém logicamente; inclusive experimentaram o jovem na mesma venda de João, logo arranjou desculpa e deixou a oportunidade escapar. Nalguns casos conseguia algo, uns dias um mês no serviço; no entanto talvez em razão do boato a difamá-lo nos lugares, logo perdendo a colocação ou só conseguia a mesma a título precário, além ser sempre muito mal pago. Ora, tudo isso pretexto, não causa verdadeira e determinante para se manter no posto, visto os que são firmes no que fazem perdurarem; o pretexto servindo ao rapaz para deixar a tarefa. Seria tipo do indivíduo dito de pavio curto? não, não se firmava mostrando responsabilidade, aquela que faz do homem um cidadão. Preferia a liberdade, uma que fosse nada vigiada, sem peias enfim. O que impossível num aglomeradinho urbano mui pequeno; e o mundo tão grande...
          Anos e anos assim. Assim, algum tempo após a mudança de Domingos à cidade grande, também pequena e não acanhada como Venda, assim Pedro fugiu sumiu.







Cap.7°

Te anda deveras preocupada no lar; deveras e debalde pois quase sempre não temos humanos acesso a toda verdade num problema, ou, pior, muitos são os problemas que nos atingem e nos fixamos num deles e ainda assim nos perdemos em conjeturas, dificultando a solução daquele que devêramos tentar solução. Anda ela assim, visto não sabermos claramente o que nos atinge e por isso apenas conjeturamos – quase a procurar fugir da ocorrência por vias nebulosas... Dessa maneira se encontra à beira do fogão caipira. Existia já melhores formas de cozinhar, sem arder os olhos tossir fumaça e cinza, embora no inverno, estando ela no verão (nada referente à primavera da existência e temendo o inverno que inferna a vida dos idosos, ela então nos seus quarenta e poucos quase cinquenta) sim embora no inverno o fogão caipira dê o aquecimento ao ambiente compensando o trabalhão que dá. Te se preocupa. Pensando no menino andejo desaparecido? na enfermidade da comadre, indo a galope – e isso saltando aos olhos dos mais íntimos, ela por extensão – a galope as horas a levar aquele coração bendito ao túmulo? no João, o qual não muda a postura anos, parecendo o homem sem horizonte? noutros mais dramas que vive a pessoa do povo? sim mas focada agora num draminha, claro frente a essa frente de sofrimentos que a atinge, um draminho corriqueiro e nisso descaracterizando como drama: a marmita do marido.
          Parece à primeira abordagem ser um ridículo confirma-do. Parece o ser humano a tentar se descartar dos grandes tormentos se apegando ao quase insignificante, este com mérito de nos distrair daquilo que não podemos resolver. Contudo a marmita joanina supera nesse momento para a dona de casa consciente todos outros, mormente nessa manhã em que o bendito fogão... Na casa da comadre Inês isso não ocorrendo, a mansão a receber o que de mais moderno no mercado, um fogão que surgiu na época a gás nas cidades grandes, um com tubos e tambores de aço transportáveis com gás liquefeito, me custaria se diz Te o olho da cara e nessa coisa então o pobre ficaria cego; cega quase porque a lenha verde não pegando direito fogo ou fumaçando toda a cozinha, logo hoje ela pensa, pensa que pensa entretanto diz alto a ninguém, a ela mesma. Hoje, nesse dia o esposo acordara tarde ao serviço, saíra às carreiras e agora já quase oito horas e o bendito fogo não firma não há fogaréu para fazer a comida e ainda dar tempo em levá-la na marmita, um caldeirãozinho com arroz, feijão, farinha e... não sabia mais o que pôr na vasilha, porque a boca do seu homem voraz. A boca a fome a marmita a hora fora de hora, ora, tudo engolindo os dramas enormes, maiores que a marmita.
          Enquanto estala a lenha, a brecha de fogo se alevanta e a fumaça, a qual já por anos num juntar contínuo a grudar lá no teto gorduroso em picomã (um dia, dia todo gastarei tirar isso e as teias; e não é que possa cair restos e até aranha na frigideira a fritar linguiça... ah, linguiça!) enquanto estrala pipocando a lenha no virar brasa vem-lhe uma saída ao impasse: a linguiça! Hoje, se fala agora mais contente menos preocupada por essa solução ou descoberta, hoje boto no caldeirão dele arroz, que virou quase papa cozinhei demais porém até chegar no armazém seca um pouco; o feijão, ele não gosta dos queimados de alho que por vezes perduram na tona do caldo; e ainda precisa ser caldo grosso; a farinha de mandioca torrada e, lógico, hoje vai linguiça, uf!
          Noutros dias o mesmo problema e apela dentro do gosto do parceiro de sofrimento e uma que outra alegria, apelando ao bife ao picadinho de carne e batata ou mesmo mandioca. Mas João sai cedo, mais cedo ela de pé ao preparo da marmita dele e o café é lógico; ainda o homem vai mastigando engrena sua magrela, o povo vendense usa esse apelido à bicicleta às vezes, engrena pedala sua se esfalfa quase e por fim chega à frente da venda principal de Venda; já então no trabalho, pois não tendo tempo sequer guardar a marmita e um que outro objeto que traz de casa: já tem gente louquinha para pedir; uns trazem a lista de compras a tremular qual bandeira ao vento. Claro, tem primeiro o bom-dia e o sorriso do João e do comprador visto quase sempre um freguês antigo e aí tendo certa intimidade e gozações comuns em forma de brincadeira; o ser humano é uma criança a brincar sempre, embora a teima a persistência da contagem cronológica. Sim, tem vez por outra freguês carrancudo, um dia apareceu um sem educação e brigado com o mundo.
          Uma vez nesta semana não ocorrendo alegria comum na chegada de freguês amigo nem graça nem nada. Assim chega Maria – o João, não para o dono aos colegas em serviço, usa a alcunha Maria Preta, longe dela ou se ofenderia na ofensa decerto a moça já uma senhora vivida, apesar da graça que irradia ela – a Maria da casa da comadre Inês. Maria é o tipo que se fala pau para toda obra, agora na função da compra do que faltando na mansão, porque o grosso e mais caro das necessidades vindo de fora certamente de Rio Preto, numa entrega especial do comerciante de lá à casa de Inês: quase ninguém mais nem o prefeito com ganho tão alto a poder comprar longe de Venda. Ela chega quieta, constrangida talvez, o comum sendo sorrir e mesmo brincar com João. Pede isto pede aquilo examina criteriosamente a mercadoria, rejeita o feijão carunchado ou com muita pedra no meio dos grãos, a carne-seca meio seca de tanto cheirar se não fede! aí estragada; examina outras coisas menores a adquirir, umas levará nas mãos em sacolas ou embrulhos que o balconista empacota a gozá-la enquanto serve – aos pés de chinelo acondiciona até nas folhas de jornal, estas restos da leitura diária do patrão; à casa de Inês isso pegaria mal e daí se espera mais e se esmera como experimentado comerciante pondo nos invólucros decentes; ainda boa parte dessa compra nas miudezas terá que ser entregue à compradora no palacete; quer dizer ultimamente Gertrudes se colocando no lugar da patroa nisso e então um horror ao empregado que levará a compra porque a mulher minucia tudo examina tudo e reclama de tudo. Ao determinar como chefe ao entregador, pensa lembra lamenta não ser seu Pedrinho nesse trabalho porém que fazer se não soube segurar a vaga e ainda envergonhou diante do patrão o pai.
          Agora Maria mostra tristeza ou contrariedade, talvez, ao chegar ao estabelecimento comercial. João desce da bicicleta mas já lendo na fisionomia da moça um estado negativo. Enquanto a tarefa de pesagem disto ou daquilo nos artigos pedidos por ela e ela a examinar os mesmos, Maria resume numa crônica rápida quase um romance, o romance dramático e trágico inclusive nessa degringolada na existência da patroa. Inês definha, antes sofre e lamenta pouco, quem sabe apenas nas impaciências da enfermeira entretanto não lamenta demais, porém nestes dias já chega urrar pelas dores que os medicamentos não podem mais amenizar neutralizando...
          João medita nisso e sofre de sua parte esse sofrimento da comadre, ali transportada pela servidora amiga.
          Esse dia foi de certa forma bem negativo a si.








Cap.8°  

Logo depois que o esposo narrou em segunda mão ou se se quiser em segunda via as vias de fatos na casa da comadre, Te enfeitou-se inclusive acrescendo água de cheiro aplicada a contrabalançar o cheiro de alho cebola no dia a dia, enfeitou-se para Gertrudes... O palacete de Giovanni onde vive Inês a sua morte, porque está dia após dia a espaçar mais suas forças – esse palacete é algo extraordinário em Venda Grossa, visto ter vista ampla do segundo andar, são dois pavimentos; e isto é o esdrúxulo aos matutos passantes pelas imediações. De lá do alto os que veem veem os casebres, antes o empório a prefeitura a câmara mais próximo e mais lá longe, que dista pouco, a igrejinha do padre José. E aí sim, vendo as quase taperas no aglomerado. As residências menos pobres e nisto se pondo imponentes e ricas estão no meio aos pobretões. Vê assim Gertrudes quase naquele minarete. É um ser frio duro calculista metálico – um amontoado de carnes, secas qual seu esqueleto, um amontoado a sonar metais rígidos e sem sentimentos, sem coração para o gosto matuto, o matuto que ela deplora. Gertrudes se transformou em chefe geral na mansão, chefe até da chefa patroa amiga ou só ‘amiga’, a milionária Inês de quem ela cuida à risca na função de enfermeira. A doente anda mal, bem faz agora Te visitar a amiga, amiga de fato por anos, anos terríveis com seus anjinhos descartados do mundo dos vivos amparada pela comadre (comadre somente após vingar o único de João, o Pedrinho). Chega perfumada ou malcheirosa segundo a chefia da casa, é anunciada mas já sabendo por via do marido quem dá agora as cartas, a Gertrudes, portanto se arruma naquelas roupas discutíveis de matuta realmente para a mandona, não para comadre Inês enferma. As outras funcionárias riem amizade sendo como é Te amiga-conhecida, logo a entregam sem mais delongas íntimas à mulher secarrona torcendo a cara às colegas.
          A senhora... – encena desconhecimento da comadre vi-sitante a alta funcionária alta da comadre doente. A visita diz ser amiga da enferma e vir visitá-la. Gertrudes ameaça falsa etiqueta a dizer inspirar cuidados a patroa e as visitas não serem recomendáveis nem recomendadas segundo o doutor Ulisses da cidade de... Aí Te perde a paciência e penetra, tal qual íntima que é, da sala aos aposentos de Inês, como o fizera por anos; bem como a comadre rica com seu coração de santa a conferir presença de amigos, entrava antes no lar dos compadres na periferia. Está já no abrigo solitário de Inês, Gertrudes atrás dela a tentar recomendações e cuidados, que a patroa dispensa mais com brados das mãos que de boca fraca; a empregada qualificada em chefe por direito por idade ou por imposição se rende, sai, deixa ambas amigas nas suas afetuosidades.
          Comadre, você até me parece bem – mente Tereza – eu andava com saudade (aqui não mente) vim aqui... Aí despen-cam como antes a se contarem as coisas que sempre apreciaram dizer; agora com um reparo triste não como antigamente se falavam. Inês é hoje um simulacro daquela fortaleza dos velhos tempos, a então confortar sua comadre pobre porém digna; o sofrimento dignifica a pobreza honrada e, por que não dizer: igualmente a riqueza honesta. Assim não obstante a situação melindrosa da proprietária do palacete, falam falam falam sem parar o que o tempo parara e não disseram elas, pondo em dia os assuntos. Claro, claríssimo, Inês sem força bastante a tanto, tanto uma qual a outra entendendo as limitações. Quase hora depois, reaparece Gertrudes a expulsar educada e mansamente agora dona Te, sob alegação dos comprimidos, da agulha, do descanso de sua paciente, o que todas compreendendo.
          Enquanto a parola amiga, conversaram muito sobre o sumiço do afilhado da ricaça; lembraram o João que, embora pacífico e de boa vontade, se perdendo na falta de iniciativa; enquanto de sua parte não conseguiu Inês deixar de pichar Giovanni... Falaram de pratos e receitas (ora, quem, não podendo sequer ingerir papinhas, no lembrar a outra ligada ao prosaico arroz e feijão as iguarias que vira preparar no estrangeiro!) Falaram e muito das amizades comuns, deram-se em trocas amigas notícias dos conhecidos; nisto Te lembrou a nova vizinha Maria entrona à beça e desconhecida de Inês. Lamentavelmente para os remorsos da esposa de João, esta pôs muita coisa de enfermidades de si mesma e dos conhecidos, o que terá influído mal no mau estado da outra.
          Já se cansavam do tanto se cansar contar esmiuçar acontecimentos vividos ou só vívidos mas desconhecidos da parte rica, pobre então e mesmo miserável se acabando e se apagando sua vela...
          Daí chega Gertrudes... Curioso, ambas frente à frente altas ossudas magras, grosseiras as duas mulheres uma por maldade contida outra por ignorância mas inocente. Alega Te à comadre os compromissos domésticos, sai, chora escondida na porta de sair e chora muito mais no seu lar depois, sabendo ter sido seu último contato com uma santa criatura.





Cap.9°   

¿ O que vê do minarete da mansão a alta funcionária a trazer num cortado incontido as subalternas como a cozinheira Joana a Maria e uma nova faxineira, as empregadas agora não param semana no trabalho; e mesmo os trabalhadores nada machos pra valer e assustados com o mando e os desmandos de Gertrudes... o que vê e veem esporádicas visitas que saem à janela da varanda ?
          Venda Grossa esparramada em casebres – atrás do palácio inclusive outros casebres vendenses, envergonhados quem sabe na sua miséria de construção mambembe de tábuas e cobertas apenas de vez em quando não de sapé, o dicionário teima culto mais no sapê enquanto os míseros teimam no agudo na sua pronúncia crônica. À frente vê-se o casario arruinado, meio nebuloso mas não do tempo enublado pois o sol é daqueles de mostrar na sua quentura até imagens trêmulas a nos forçar as vistas piscar firmar ver por fim objetos homens montaria arreadas ou soltas no estradão, que as autoridades municipais e os habitantes insistem ser a Avenida Central. Ainda se vê o resto da urbe a perder-se dos olhos lá longe. Enublado sim da poeira fina que entra até nos poros e que Gertrudes deplora... Bem como nesse mal ela deplora os matutos – provavelmente mais que todos matutos aquela atrevida Te que se diz comadre da patroa!
          A mulherzinha – diz a pensar diminuir a outra, pois de fato grandalhona ossuda e da estatura dos machos mais altos entre aqueles capiaus medianos e pequenos e por que não re-conhecer: dois ou três centímetros maior que ela mesma, insiste a pensar Gertrudes – essa mulherinha é o atrevimento em pessoa. Aposto que sequer sabe o alfabeto a mundana ignorante; além do cheiro horroroso do seu perfume de água de cheiro vencido e de não encobrir seu hálito de cebola e frituras. A impertinente pareceu se imaginar a dona da mansão...
          Teceu mais alguns elogios ácidos e torna à paisagem, tristonha a seu ver, a paisagem que vê pelos olhos azuis e azuis escuros quando mais indignada.
          Venda, vendo a venda de João no primeiro plano, Venda é um grosso de feiura, perdida na terra seca na seca poeira no vento seco enjoado e mais impertinente que a impertinência da mulherinha, esse vento a fustigar os caboclos morenos. O casario é a pobreza se não desnecessária e atrevida à paz, se não isso uma pobreza entravada na miséria e na sem-gracice do ambiente. O vegetal então é o que pode brotar conservar teimar existir num meio exageradamente inóspito e desagradável (aqui bem a opinião da enfermeira distraída a observar aquilo...) A vegetação é descolorida por sem cor que a defina, sovando o verde puro com um verde apagado praguejado queimado ao sol; escassa e baixa, apenas capim num capinzal com um que outro coqueiro velho teimoso a se mostrar; e trechos de plantação útil, não produzindo quase nada, nada a justificar o preço, alto, do solo e a envaidecer orgulhar sitiantes. De tempo em tempo no espaço da paisagem se nota capões de mato: são troncos retorcidos enfezados baixos bárbaros a chegar ferir a natureza...
          De longe, longe não há em Venda, de alguma distância vêm produtorzinhos trazer ao mercado grosseiro de Venda Grossa seus produtos: mandioca milho e carne. Essa gentalha (aqui insiste no pensar Gertrudes) essa me parece onça ou ou-tro animal bravio e que se alimenta só de carne! Trazem es-quartejados cabritos porcos e de vez em quando bois. Instala-ram outro dia um açougue (mão de obra porca às carnes de porco e vaca, deplora ainda a chefe da mansão) sendo um tal Mané o oficial dessa vendinha de fim de semana. Havendo lavradores a ir oferecer carnes sangrentas de porta em porta, numa visão de sujeira plena; sem grandes vantagens pois a população não tem dinheiro compra a fiado e não paga ou não compra. Isto é um lugar de caloteiros.
          Aí se alembra das ‘colegas’ servidoras... então desanda a pichá-las, já normalmente de voz declarada as diminuindo e inclusive xingando, visto a mulherona ter aprendido a linguagem da terra para melhor saber ofender quem ofender.
          Sai por fim da varanda, entra propriamente na casa no momento em que um veículo, um caminhão vazio, corre numa louca disparada, deixando atrás de si o pó e pulverizando toda área central com poeira avermelhada seca de sílica miúda que se agrada no marcar próximo roupas das pessoas e cegá-las também momentaneamente, marcando eternamente fachadas e telhados das moradias.







Cap.10° 

Te pensa se autocriticando se inculpando a inabilidade por haver falado em lembrança das amizades enfermas e mais insistindo nos próprios achaques velhos no corpo maduro, quando precisando isso sim respeitar, quem sabe amenizar, as dores da comadre Inês, à beira da cova como tudo a indicar. Aí chora, não se contém não se envergonha não se peja, estando agora só perfazendo o inacabável serviço de lavar trens de cozinha enxaguá-los guardar tudo criteriosamente mas também automaticamente. A tristeza é flagrante nela e daí, num estado de autodestruição quase consumado, põe outras melhores ou inferiores infelicitações, como a de o esposo haver dentro das rusgas conjugais saído de casa de cara fechada pro seu lado...
          Do seu lado, à parte seu veículo escapando corrente a todo momento, também ele sofre. Aqui o drama da gente de mãos limpas e sem ferramentas ao arranjo rápido, lá vêm graxas e sujeiras outras; e então diz alto a espantar quem porventura lhe cruzando a estrada improvisando rua com nome dum político desconhecido e tudo o mais, menos a placa indicativa, e aí grita: burro! se ‘autoelogiando’ esquecimento do embornal com chave de fenda chave de boca alicate essas coisas, coisas que esquecemos dependuradas na estronca do quarto de despejo... então olha para toda parte ver se vê se vem alguém, alguém pudesse ofender-se ser titulado burro e aí encrencas a um sujeito benquisto. Agora um novo problema além estar atrasado e a mulher a olhá-lo torto... – chegar assim sujo de graxa ao empório! Vai ver, ia ver, os fregueses na porta exatamente a esperá-lo.
          Arranja a corrente, se limpa no mais ou menos enegre-cendo o lenço que Te lhe dera branco limpo passado dobrado de acordo com seus habituais cuidados feminis.
          Se põe – antes de mais adiante ter de recolocar a corren- teimosa e frouxa escapando outra vez – se põe a pensar em Te nestes dias. Acabrunhada após a visita à comadre quase ex-, indignada com Gertrudes, penalizada com a situação da criadagem, criadagem não da patroa: a da nova mestra no palacete. E têm suas dores, as quais já quase não comunica ao marido, surdo ou sem humanidade quiçá sem religião. Daí en-contrando a razão ou apenas pretexto de briga, pegar-lhe-ia no pé o porquê de não irem mais ambos ver (isto é ouvir) as prédicas do padre José, que todos têm por santo. Tem mais no pensar de João resfolegando suando em bicas e a pedalar na bicicleta, enferma ela hoje. Uma coisa é certo num errado de as mulheres (aqui se pondo machista ou por costume ou para não estragar a festa dos outros homens que assim acham:) elas conversarem muito – e isto no seu caso um contrassenso levando em conta a mudez da esposa e seu estado quase solitário na prisão doméstica – falam demais e demais particularmente nas doenças! puxa, quase dizendo a si mesmo porém alto a envergonhar qualquer ser equilibrado, puxa vida só em remédios em enfermidades delas e de cada uma e ainda outra agravantezinha que são os filhos; daí contam recontam; ah e metem o pau nos homens, às vezes descaradamente perto do seu próprio esposo! A minha quase não sendo assim porque vive sozinha, ela reclama em termos de estar “socada nesta casa!” Se condói João por instante e torna: filhos não, lamentou lamentei igual a perda do punhado de meninos que perdemos e então vindo o Pedrinho, que era gracinha de garoto e que agora sumiu... A Te não expõe às outras quando estas aparecem em nosso lar sobre os filhos e inclusive tenta esconder aos de fora as más tendências do rapaz e sua fuga, a qual escamoteia socialmente correto como “viagem”, sem conseguir dizer para onde... Contudo a consorte aprecia também falar e falar sobre crianças e doenças: chás simpatias médicos, não médicos não porque no lugar põe a botica e o Zé da Farmácia, safado como todos vereadores do município.

Cap.11° 

A escorrer suor, sempre atrasado, quase sempre o João chega tarde ao trabalho, ainda faz antes de entrar propriamente dito uma varredura de olhos, tentando captar a presença (inde-sejável) do patrão, nenhum empregado deseja que lhe chamem a atenção pelo atraso que conscientemente sabe haver incorrido infringindo as normas da hora na hora... ora bolas, nem ele muito menos ele meio chefe ali e achando necessário dar bom exemplo. Observa sujo de graxa não haver fiscalização porque decerto seu Dito, compadre Dito, quem sabe ainda na cama com seus achaques de homem velho... daí, só daí, conversa rápido num dedinho de prosa com fregueses à espera, a um deles justifica quase o atraso na corrente da bicicleta Philips inglesa que o deixou algumas vezes na estrada. E comenta: antes era bem pior pra mim, sabia que eu vinha lá de casa a pé! diz como qualquer vendense a esse freguês vendense “diapé”. Chegava suado cansado acabado já e sendo ainda o início de minha jornada aqui na venda. Imediato e ainda conversando com o outro mas pondo objetos fora do lugar no lugar apropriado; varrendo a área e naturalmente sequer sentindo o cheiro característico de uma casa de secos & molhados antes fechada agora reaberta, cheiro de mortadela salame alho cebola a custo contido seu exalar, sequer a sentir isso já acostumado anos; sim varrendo e já diz prometendo ao freguês ali no ver o trabalho quase preliminar do balconista: espere, já já peso sua carne-seca.
          Bem mais tarde aparece, ainda de olhinhos a fechar no impacto da claridade excessiva lamentando as dores da velhice, o compadre Dito. Interessante que embora haver batizado... batizado não: crismado o Pedro do João; ambos raramente se tratando compadre – na loja no serviço João é João ao chefe, enquanto que o patrão dele é para si ora Senhor Benedito perto dum vendedor-viajante ou desconhecido outro; e logo vira no mais comum acontecer seu Dito, dito assim perto dos fregueses de toda hora e próximo da gente e diante da gente da família do patrão. Seu Dito chega sonolento abrindo a boca, abre a boca a dizer que não dormiu noite inteira (o sol ri as nove horas disso) e lastima os achaques, para não contrariar o hábito dos idosos...
          O esposo da Tereza agora chegando e a encontrar no empório seus problemas rotineiros, ouve paciente o dono da loja, contudo foge do dono da loja numa forma instantânea momentânea numa velocidade só explicável com a explicação do pensamento e chega de chofre no seu próprio lar, no lar ela pensa – curiosamente pensa nele, a sair enraivecido de pá-virada no falar costumeiro da mulher – pensa nele pensava então na outra e chegou, no auge da indignação e até esquecendo o sofrimento da comadre, nesse ponto mais crítico de sua indignação pensava nela e se deu conta a falar alto: “essa Gertrudes é uma desaforada!” se imagina a dona da casa e a casa é a mansão de uma santa, não dum lúcifer de saia, retro satanás! onde será que ouvi assim... ah deve ser na missa do padre José e o João fugiu da igreja não me leva mais nem na semana santa nem para a comemoração de Santa Luzia... hoje saiu brabo não sei por quê. Saberia decerto a magrela, a bicicleta Philips do marido. Foi assim quando João deixa o corpo falador reclamante do compadre se apresentando como patrão e logo aparecendo perante sua mulher choramingas a lamentar seus dramas porém firme na vassoura... nisto grita alto um carro frenando na porta do armazém, atirando sem qualquer exigência educada poeira em nuvem de cegar e cheiro forte de gasolina de pneu e... ah bem pior: cheiro de gente!
          Por essa razão se interrompe o diálogo; seria diálogo com tantas vozes! a de João a do Patrão a de Te a de Gertrudes, esta quem sabe a seu costume no fazer um muxoxo por desagrado, a chefa da mansão deplora aqueles capiaus e sua Venda Grossa.
          Não tem conversa, ou por outra: param todos dando lugar a muita conversa. Desce da carroceria do caminhão mil peões e saltam da boleia o chofer gritão e mais gente, parece que uma senhora matuta e seu matutinho de colo. Sacolas fraldas chupetas choros cheiros, a gente roceira ou por extensão cidadã mas rural nos costumes, com costumes que se não vê... ora, não é possível ver: a rotina proibe ver o que ver e mais o que se sente que é o cheiro da gente. É um cheiro a matar não apenas civilizada gente como Gertrudes, como qualquer gente qualquer. O hábito com falta do banho quando banho só nos sábados por exemplo. O cheiro das roupas e das coisas em si impreganando vindo da carne do vício da sudação da gente. Todavia a própria gente não ‘vê’, ah essa rotina!
          João serve. Procura escolhe mostra concorda pesa em-brulha sorri dá o troco ou lança tremido na pendura que se pronuncia ‘pindura’, dá inclusive a mão num cumprimento comezinho, despede o freguês, quem sabe até não prometa algo como visita impossível (claro, e o sofá?) Contudo não anda presente no presente, alheio ao alheio e alheio ele mesmo – pensa vive critica, lamenta talvez sua relação na loja e mais fora dela com o compadre e ao mesmo tempo seu chefe; perigosamente pois quem lhe dá arrimo paga salário dá valor no valor que o empregado tem; o que os anos seguidos a já contar dezenas provam por a+b.
          Doutro lado o velho Benedito, tido por esquisito per-nóstico orgulhoso (por ser rico!? mas riqueza é o quê...) tido assim pela acanhada sociedade vendense; o que pensará de João ali à sua frente já se desdobrando rápida e eficientemente nas tarefas ligadas ao balcão do empório, a loja que é o tesouro de sua casa seu sangue sua família.
          É um sujeito confiável o João. Desde rapazinho serve como um experiente e agora anos a acumular a sabedoria que as lides comerciais exigem. Se – ah que possibilidade medonha, se fala baixinho por dentro seu Dito – se faltar, não um dia como outro dia ficou fora em casa de molho com gripe e aqui deu-se a confusão. Se faltar deixando o emprego... uma vez um safado propôs levá-lo de Venda para Rio Preto e felizmente a comadre Te não aceitou a transferência, a menos que fosse na cidade grande mais perto do sítio do pai dela. Se pedir-me as contas... será com certeza o caos, ainda mais que me sinto perto da cova; que fariam os meninos (forma íntima e carinhosa da gente se referir aos herdeiros, mesmo adultos e até passados na idade: ainda ‘meninos’.) Não quero, diz a si mesmo aquela ruína que é o velhote baixo magro arcado e de andar medido e trôpego, não desejo sequer imaginar esse desastre...
          Sabe-se não ter havido o desastre, a família tocou para frente o negócio; talvez não bem dentro da linha do antigo controle do velho pai; não terá superado o fundador com mais abertura visão e efetivado o progresso na empresa? Ainda nisto com ajuda inestimável do balconista de confiança.
          A freguesia quase exigindo a presença do também pas-sado ou meio maduro João, João da Tereza.
Cap.12° 

Te, Te do João o João lá na venda, Donatê trata dos afazeres domésticos o fogão a vassoura as criações, a ‘bita’ prenhe outra vez; lá no empório o rapaz a brincar meio intimidado com gente sem intimidade pois o Zelão, pequeno embora, velho torto quieto, do tipo quase mudo só falando o necessário o menos que necessário, que não se entende direito falado pelas metades sobre um pedido ou a dizer boa-noite “banoite” que fala quando e diz alguma coisa, a levar depois pra sua casa longe fora de Venda, num sítio da família; e o João, todos e o João, já acendendo lampiões logo viria a luz elétrica o prefeito trouxera o gerador faltando técnico e dados técnicos ao funcionamento, de maneira a contarem apenas com o lampião, o qual aceita bem a conversa e a fala dos fregueses, mormente amolentados ou disparados com aguardente que os balconistas desejando ir embora servem. Então o compadre do compadre Benedito tenta uma graçola qualquer a aproximar um pouco o mudo Zelão, cita a cabrita. Sabe seu Zelão que nunca mamei na mãe? fui filho de cabra... O outro não dá azo à brincadeira, tendo decerto meio surdo ouvido a provocaçãozinha e daí impera, se não brabo que é o característico dos sérios ou assim a se apresentar, diz ao João: me dá as compras, vou indo. O empregado ri contrafeito, num rir-e-chorar ao mesmo tempo, serve o freguês e sinaliza aos outros quase seus subalternos se livrarem logo de miúdo bebum, do tipo difícil de se convencer, a gente pensa haver entendido e ser atendido: não, tornam a repetir e repetir a mesmíssima estória. Enquanto os demais colegas despacham o último bêbado – têm os que os amigos levam pra casa receber insultos ou lamentações da esposa e não é o caso, outro caso – enquanto, vai guardando apetrechos de uso e fechando trancando portas, seu Dito morre de medo de ladrões, os de galinha e roupa no varal têm muitos não desses: dos perigosos que lê no jornal Estadão, antes o periódico era chamado “Província de São Paulo”. Desses, teme esses. Entrega as chaves ao compadre-patrão, coloca na despedida ainda uns lembretes que se esquecem durante a jornada fazer, ou um recado ali deixado, tudo ao compadre Dito (lá fora as vozes dos colegas lutam para lembrar o ébrio teimoso ir-se:) entrega a loja, sai rumo à periferia perto, longe de Te...
          Ultimamente andam os esposos mais sérios, menos co-municativos entre si, ele sai volta ainda havendo algo negativo no ar e no lar. Então se escarrapacha no sofá, aquele sofá que toma como peça enorme meia sala e Te não tem força bastante a fim de arrastá-lo no dia da faxina; nesse sofá. Enquanto ela, ao lume da lamparina ou do lampiãozinho, borda ou costura ou ‘crocheta’, aqui dizendo “meu croché”. Porém mudos. O radinho não, disparado alto seja na viola seja na propaganda, que ele afirma se ainda não dormiu sentado ser “reclame”. Tem o da pílula do doutor Ross, a qual não sabe pra que serve e assim mesmo imita desafinado o João essa uma quando no empório – em casa não, parecem os cônjuges agora como a meninada na brincadeira da vaca amarela: quem falar primeiro come...
          Durante a jornada no trabalho ele tentou uma gozação sobre isso com a freguesia – não leva lá muito jeito na graça, sem talento a provocar rir; pretendeu também narrar encompridar a cabra; na casa quando eram mais soltos ele contava recontava à Tereza...
          Mas Te anda nesse sol do meio-dia, às treze horas quase, a tratar a bita, enquanto lembra o filho. O Pedrinho rejeitava seus seios, precisaram por instrução do Zé da Botica (hoje Zé da Farmácia, ladino na câmara municipal) necessitaram adquirir uma cabrita já de filhotes para o leite do menino; ou perderiam igualmente esse. A cabrita forneceu anos o sadio alimento não só ao garoto, aos pais, o pai mesmo Te gozava ser um verdadeiro bezerro. Isto apenas lembrança dos tempos em que os bichos falavam... Agora somente recordação, o esposo na venda no trabalho, ela a pastar sua cabrita amarrada. Uma corda que o paciente animal estica a encontrar mais verdes e tenros vegetais. Solta, presa mesmo no quintal embora as lascas faltando na cerca e toca à Te o conserto porque o João diria depois faço, sentado na sala naquela gritaria futebolística; solto, o bicho põe o beiço em tudo, nada fica inteiro e vivo após o repasto. Te deplora a poda de suas flores e hortaliças; portanto a cabrita amarrada, muda de área, vai procurar terrenos baldios que é o que mais existe no município, a fim de alimentá-la.
          De manhã é uma graça, a mulher levanta cedinho, antes mesmo do João se levantar e depois sair e além de tudo é pre-ciso deixar-lhe fervido o leite agora ainda não tirado da cabra; aquece água na caneca, lava o ubre de sua bita, após espreme as coisas dela, quer dizer da outra, o líquido branco e já cheiroso, este vai se depositando na vasilha embaixo nessa coleta. Nos últimos tempos a fêmea caprina experiente andou aplicando leves coices na mulher por extensão mas na vasilha, a derramar o leite; aí começa a fazer tudo de novo ou seja limpar espremer juntar numa colheita o líquido e por causa do novo trabalho a dona fica irritada; deu-lhe uns trancos, a cabrita ou entendeu ou temeu, se aquietando. Deixa um pouco aos cabritinhos, duas saltitantes criaturas, o que uma concessão e tanto do ser humano...  Ferve o leite, mistura ao café, João quer forte com pouco açúcar e a mulher sabe a medida; quanto a ela aprecia fraco e doce; não como o doce de arder a garganta pelo café da nova Maria, a vizinha xereta para quem foi obrigada pagar a visita que não pôde evitar e aí se lembra daqueles olhinhos perscrutadores e as indagações fora de propósito da irreverente; então vai lá bem uns quinze minutos como pagamento e sofre a ofensa da oferta, engole ao menos quente de queimar beiços a infusão doce doce ai! se diz se lembra se lamenta, o João chega na cozinha a piscar ainda os olhos um pouco empapuçados e avança para os lados da caneca; o pão, pão de casa, Te faz num forno caipira com brasa, falam ser dos melhores em Venda, ela se envaidece nessa verdade; assim seu homem come com gosto, às vezes apressadamente por ordem do despertador com hora adiantada no atraso usual do chefe da casa; entretanto na hora de picar em pedacinhos o pão e pô-lo na caneca para sua sopinha matinal, ele mesmo exige ter o trabalho não ela, questão de idiossincrasia do homem, ou da casa do homem visto ser possível que a residência tenha lá sua opinião e seus sentimentos, contra todo o resto do universo. O certo é comer aquilo com muitíssimo gosto e – isto é mais certo ainda – e sair correndo de bicicleta ao empório.









Cap.13° 

A poeira densa em Venda apagou o sol, debalde o sol olhava de olhos vermelhos aquele amarelo-rubro de mil partículas de sílica destroçada expostas e mil e uma insignificâncias perfazendo um todo; não se via nada, tudo todos envoltos na espeça fechada névoa seca brava fustigante de poeira. O armazém fechara amedrontado suas portas, as portas chocalhavam ferozes ou ferozes os ventos os grânulos os tufos ao bater na tábua dura das portas. Gritavam os moradores da vila, sobretudo mulheres e suas crias, estas a enlouquecê-las num pensar o fim do mundo lá fora; dentro da loja, em terror pessoas se juntavam alarmadas atrapalhadas no não saber que fazer – fregueses contavam causos de outros ventos de outros vendavais de outras procelas de outros desastres, crendo vencer o próprio medo ou para aumentar o medo dos circunstantes já apavorados. O dono não ditava ordens mas falava muito, contrário e incomum ao seu quase mutismo frente os fregueses; e sobrando muito daquele pouco, podendo se avolumar o estrago se estrago, a sobrar sim muito para João, o qual mostrou ali certa iniciativa, mormente a acalmar seu pessoal. Curioso, de mal com ela ou meio cortado nas relações com a esposa, embora isso no momento pensando com medo no medo que ela pudesse estar sentindo sozinha na periferia. Mas não. O desastre não se confirmou porque a onda de medo e de pavor não chegando ao lar deles, fustigou sim porém a demorar menos que o previsto no imprevisto pessimista da gente, tendo o grosso do poder dos ventos a agir somente numa pequena faixa da cidade.
          Por onde a onda bravia passando entretanto ficou o es-trago enorme, no entanto as perdas se contabilizam segundo o pouco que se possui e nenhuma vida ceifada se não um que outro esfolão sem monta em alguém.
          O céu asserenou, permitiu que até a respiração ofe-gante ansiada dos mais fracos fosse normalizada.
          Embora a ventania braba, não fora mais que apenas ventania, um sopro barulhento e quase manso. O aviso duma tempestade arrasadora e prometedora, dum verdadeiro desastre meteorológico um cataclisma, assustou e preparou a periferia ao pior – e não existindo nada pior que o medo. Na casa de João, a Te ora, rezava então pelo filho perdido, pensava nele a sofrer seu coração materno, desligada do mundo e até duma provável tempestade, em vista o calor abafado o ar pesado o vento atrasado a prometer muito aos viventes; isso Te desconhecendo no quarto e na frente do oratório e sequer percebendo, surda, a janela a porta num bater de leve primeiro e depois insistentemente e por fim a fazer barulho forte, um barulho pensando poder chocalhar o mundo intimidar a gente no mundo – foi quando sua ‘bita’ a avisou...
          Uma cabra tenha ou não cabritinhos saltitantes mas agora a se esticar temerosos na mãe na espera de defesa, uma cabra é uma estação meteorológica ambulante no movimento do todo. Percebe com antecedência extraordinária a proximidade do perigo e, em perigo, grita berra a valer de assustar o mundo. Acorda todos moradores de uma área restrita e exporta depois a uma bem maior, em cadeia formada com outros bichos, sobretudo a canzoada despertada amedrontada ou só ferida nos ouvidos. O Peri destampou a ladrar avisar por certo ou apenas temente. Mas a cabrita berrou seu mé, imediato retesou a esticar e com pretensão de até arrebentar a corda, e acorda nesse momento a dona, Donatê sai, deixa o filho na lembrança que nunca se apaga, só adormece, desperta agora corre fecha como pode as tampas das portas e janelas a gritarem no batido de quebrar inclusive e com certeza a barulhar; corre então ao quintal defender a bita, ou se livrar dos berros daquela garganta afiada, puxa a ponta de cá, lá quase a se enforcar a mãe caprina; puxa puxa amarra a “doida”, Te assim a tratá-la, prende a corda na casinha do cachorro, mais quente mais convincente ao ser inocente e para as duas criinhas, também ali agora o dono da casa, Peri abana a cauda à mãe, o cachorro tão apegado e amoroso deve pensar que a mulher seja sua genitora... Enquanto o porco na ceva reclama não se sabendo se da ameaça de chuva se por mais comida; as galinhas se encolhem se grudam aos cantos e uma que outra se prende aos galhos e travessas; anteriormente elas haviam se preparado extraindo um óleo do próprio corpo a untar penas para se defender das gotas que cairiam não caíram. Em volta da casa de Te os vizinhos igual a vociferar temer lastimar quase primeiro a lástima que pronunciariam depois; enfim todos a se defender como podendo; é visto não ser a hora atinente ao bate-papo.
          Não obstante, o furacão sequer chegou a vendaval por onde passando, talvez concessão a oferecer um vento forte, fortíssimo reclama o medo humano. Isto na periferia, onde as mulheres mais piedosas apelaram muito a convencer nas suas invocações e preces gritadas a Santa Bárbara. Entretanto na área central de Venda e quem sabe ainda mais na venda, as coisas foram mais duras e mais fortes as ondas bravias do vento, a assustar mesmo o João, tido por controlado e harmonizado pelos de fora. A gente de fora não sabe a falta de sol dentro duma pessoa que se vê e que abusivamente dizemos conhecer; assim como o homem comum afirma conhecer uma cidade tendo visto apenas a rodoviária ou a praça central. Venda Grossa não tendo uma praça digna desse nome, apesar de a gente do lugar conhecê-la bem. João nem a si conhecendo. O que pode ser dito sem erro, talvez com exagero, do restante dos seus irmãos na humanidade.
          Porque o balconista por essa época não andava bem das pernas... Isto dizer popular a garantir que algo não funciona a contento no relógio do corpo. De fato sentia-se mal. É curioso quando alguém aborda outro, que este sempre possa responder mentindo ou se enganando. Pois se disser andar bem, há qualquer coisa que se não diz às pessoas mas que sabe doer ou estar em mal funcionamento ou, pior, ao contrário destampa a contar no tim-tim por tim-tim as mil dores mil sofrimentos. Em ambos casos mente ou engana ou ainda se engana, o relógio humano não é perfeito.
          Contudo e mesmo não se dando fácil a lamentar comentar exagerar o íntimo e mais nas dores físicas e no que como macho da espécie vivia a criticar as mulheres por terem tais fraquezas (quer dizer, lamentar seus ais) contudo ia bem mal João. Nos últimos meses engordara um pouco... pouco satisfatório isto porque estufara e mais o ventre, a ponto receber gozações dos fregueses a afirmar seu exagero na cerveja; bebida conseguia comprar com desconto no trabalho; descontos também noutras mercadorias; não bem a preço de custo, o compadre Dito não fazendo concessões... Estufava sim mas isso quase senão no todo ruim ou funcionando mal – o coração avisando o pior. Sentia ora o lerdear ou o cansaço nesse órgão, ora o que chamavam em Venda e não só na venda batedeira, ou seja uma disritmia a disparar um pouco e desregular a pulsação; a ponto de sentir meia vertigem, um certo desequilíbrio; enfim preocupante. Tudo começou – ah nós nunca conscientizamos direito e exato o quando, quando mesmo teve início aquele transtorno aquele sintoma... vem o sintoma já o carro andando mal, por azar. João um dia teve lá o lembrete ou aviso da natureza e depois contou por alto ou terá mesmo exagerado a narração à esposa, não para impressioná-la decerto e assim mesmo a espantou ficando desde então prevenida e a fazer como faz uma esposa ao seu homem: passou a pegar-lhe no pé – não faça isso não faça aquilo cuidado etc.; a irritá-lo, ficava furioso com as admoestações. Aliás é próprio do ser humano se pensar puro perfeito e desnecessitar cuidados alheios. Mas tudo (no início, esclareçamos bem) tudo partiu da escada. As casas de secos e molhados a vender variado estoque de bebidas ferramentas defumados conservas alimentos secos, perecíveis embora, e até panos. Tecidos enrolados com suas quinas a aparecer nas prateleiras. Justamente aquele vermelho impressionante que a mulher pediu-exigiu ao seu marido freguês na venda, aquele lá de cima nas partes extremas e aí o freguês indica ao balconista descer-lhe ao exame de sua companheira. O João arrasta engancha a escada móvel e se move sobe chega aponta tira a peça mostra lá de cima ao amigo lá embaixo encostado no balcão. Sim, olha a esposa, ela faz concordar de cabeça meio acanhada, sim é esse pano. Desce entrega examinam, não: ela quer o outro. Ora, decisões importam pouco nisto; o que pesa é o estado ruim do empregado, ainda meio chefe entre os colegas por aceitação tácita de compadre Dito, dito já o proprietário do estabelecimento comercial. No alto, quase no último lance da escada, sente-se mal João: certa moleza, um anuviado na vista, as coisas lá embaixo a rodar um pouco, certo desequilíbrio, momentâneo sim porém preocupante. De resto, mesmo inseguro o servidor, ele toma o pano em mercadoria vistosa, depois desce lento mostra entrega e decepcionado leva de volta a subir novamente sem força agora a escada, a tomar outra qualquer peça a mando do freguês, freguesa. Ele inseguro, preocupado; preocupado consigo mesmo, com seu equilíbrio e até com sintomas desagradáveis, pontadas fisgadas coisas assim, as quais podendo ser verdadeiras e reais, ou só dentro da cabeça a imaginá-las nos músculos nos nervos nos ossos e até na cabeça. O dia está estragado.
          Nesse dia chegou, embora meio ateu ou apartado do meio religioso, pensou ir desabafar junto ao padre Germano... pensou não foi.
          Tempo depois, revelando quase sem querer sua fraqueza, o próprio compadre intima seu balconista ir conversar com o Zé da Farmácia, ele continuava a titular o farmacêutico como Zé da Botica; foi, engoliu pós amargos e líquidos, todos preparados na botica, engoliu meio forçado pela esposa, ou para que ela parasse sua cantilena sobre a saúde dele...
          Curioso João naquele dia do vendaval, que o povo ape-lidou tufão, naquele entremeio às conversas descontroladas dentro do empório assustado, o homem entretanto ponderado punha exatamente a possibilidade de com todos morrer ali, ele antes que outrem por continuar a sentir os mesmos sinais, os sinais na escada! De maneira que ao chegar de volta pra casa, quase nem deixou que Te lhe despejasse os desaforos da natureza, que havia martirizado o lar, nem os berros e ladrações que a atingiram na tarde – João não escondeu dela seu estado, ele mesmo teve a iniciativa a despejar na companheira sua tarde na loja, a escada as dores o medo...




Cap.14° 

Senhor Benedito Silva com mais alguns sobrenomes a sobrar nobrezas, compadre Dito, compadre de João e seu chefe, mas também João um chefete junto à rapaziada a serviço na venda em Venda Grossa – se bem que nunca João um chefe nomeado, mais um aceito no costume aceito por anos, ali a-tendendo desde jovem até a idade de chegar o esposo de Te a ficar um pouco barrigudo “olhe a cerveja, João”, na palavra dos especialistas fregueses – Benedito, proprietário daquilo tudo e dizem que falaram a garantir haver ainda muitos cruzeiros dele escondidos nos bancos em Rio Preto e São Paulo, o Dito não era de muita conversa no meio do povo, fechado, mudo. A garantir a respeitabilidade dum empresário bem-sucedido! enfim de pouco falar. Ou por outra: bem conversador e a gente a dizer dele “um boa conversa” pois é assim que nosso egocentrismo reage quando só alguém fala e alguém outro apenas ouve ou o povo em torno a escutar boquiaberto, então saímos da reunião a pensar ser boa conversa o ouvinte, quando devêramos garantir ser de boas orelhas... Em suma o velho dono do empório, quieto diante do gentio e tagarela frente subalternos quando a dar-lhes ordem, e mais falador ainda perante amigos. Seu Dito da venda, como o conheciam os meninos freguesinhos, um homem de poucos amigos, desses amigos que pensamos íntimos, até descobrirmos serem tão só conhecidos; ele diante do próximo (dele) apreciava citar chavões e sobretudo discutir política. Vez por outra punha, punha não: mandava um dos empregados lhe pôr a cadeira fora na calçada e aí... a cada passante reconhecidamente passivo, despejando sua filosofia. Baixo, não gritava como alguns descontrolados de garganta molhada na pinga ou só por natureza falando já alto em casa e na rua ou na venda do Dito, esta que era de fato mais armazém do João.
          Se achando o comerciante abastado um quadro do PSD, olhava com simpatia os udenistas, detestando a corja do PTB, esta da esquerda ou só fisiocráticos por baixo com traje petebista por cima. Enfim, se não tivesse alguém como o proprietário da venda de Venda consciência nem status de político dentro desses cânones e aqui seguindo as mesmas afirmativas feitas e defendidas nas linhas do jornal, leitor assíduo ou fanatizado da “Província de São Paulo” antes e após do “Estadão”, daí não prestando. Ah, e dentro ainda desse lema no qual acreditava e expunha, havia uma outra questão fechada: a desconfiança e ojeriza mesmo aos comunistas, ou assim parecendo. Oh como o ser comum inclusive os que se pensam incomuns (e/ou superiores à gentalha) como picha fácil. Por exemplo, Dito pichava bem Domingos comunista e por extensão Pedro, quando longe do compadre João naturalmente e nisto antes de sujar o filho olhava se o compadre não próximo; ora quem incauto ferir o produto encostado no produtor...
          Tudo pra si vindo ou da esquerda sabida ou da desco-nhecida presumida, assim por mais incógnita parecesse – era o mal o perigo. Tudo entre pessedista, com certa tolerância aos da UDN – era o bem a democracia a liberdade; e que esta não precisasse sequer ser vigiada... mesmo porque para que vigiar se é o bem! Ideias do patrão.
          Na última eleição, eis no poder Chiquinho do PTB... Dito não economizava desde então críticas ferinas ao prefeito. Ora, inimizade formada, visto um político viver exposto e os de Benedito caiam-lhe por cima como vespas, vespas? marimbondos. Pelas mesmas razões não apreciando o Zé da Botica; chegou, não obstante, a enviar o compadre João adoentado uma vez, não havendo em Venda outra farmácia, ao Zé da Farmácia; porém advertindo o empregado que tratassem exclusivamente dos remédios, não de política, pois...
          Não apenas de política se ocupando o grupo, bem entendido: grupo masculino de Benedito nas conversas no pas-seio público calçado, quase o único cimentado na urbe descalça não só o leito carroçável descalço no geral. Discutiam outros assuntos os amigos a passar e ali fazendo ponto junto ao empresário: havendo a tratar mais coisas, sobretudo aqueles apimentados apimentando a moral alheia.  Neso (seria Genésio?) tendo muito guardado desse tipo na bagagem e portanto contribuindo bastante no grupinho, grupo dos machos; outros participantes contando menos um pouco porém dispostos a contribuir na parola amiga ali ajuntada quase que fortuitamente a passar as horas; eram parolas machas moventes, moventes? sim pois nem sempre os mesmíssimos colaboradores, daquelas em que a pessoa fala alto pra ser normal mas daí ou passa próximo mulheres ou orelhas masculinas não confiáveis, quer dizer não sendo daquele grupelho fechado e então se abaixa o tom o som, o bom naquele mal... Dito lembra por qualquer referência a senhora Inês: Inês freguesa rica, estando, conforme Maria vindo semana passada à venda, mui doente. Alguns arriscam as moléstias conhecidas e mais eficientes, sem acertar. Ela, afirma o velho comerciante, está com doença ruim... Se calam, ou temerosos contrair a doença ou temerosos a se comprometer, porque Inês é quase uma lenda na região e por importante, não qualquer uma. Passam mulheres e homens ‘comprometidos’ e já longe eles, ali perto os companheiros ajuntados desabam a falar das vendenses com moral nada ilibada, picham fulana beltrana não se esquecem de siclana; riem-se delas devendo ser deles mesmos. Agora, dona Inês é inatingível, de alta moral, não se dirigem graçolas por respeito. E o tal de Joãovani, lembra Neso de língua afiada e só aquieta quando Benedito a falar. Assim se refere ao esposo da senhora todo-poderosa, o sr.Giovanni. Todos, cada um, dando sua bicada na carniça e apostando sempre no mais malcheiroso da vida do italiano, seria realmente italiano? Neso pronuncia também “intalianu”. Mas tudo dito por não dito ao menos não provável, caso queira ser o primeiro a expressar opinião o Dito. Calam-se. Fala que o sujeito não é flor de se cheirar e com muita culpa no cartório pois se afunda nesse mundo, parecendo fugitivo... Vai além, afirma saber de fonte digna ser mulherengo, ter uma ou mais de uma em cada cidade e certa amante (eles já logo picham a pobre com o pior adjetivo na praça... e o Dito prossegue:) essa zinha afunda Giovanni visto falarem estar hoje em dia o ricaço pobre e falido. Lembra ter ouvido da própria Inês que o esposo sequer traz mais sua contribuição às despesas no palacete, que ela teve inclusive de cortar a ajuda que dava aos pobres da igreja do padre José; e ainda pior: a mulher obrigada ultimamente a dispensar várias criadas; somente as antigas servidoras permanecendo. Chegam por aí a afiançar, diz ainda o chefe daquele quase bando falador, que a senhora teve de cortar parte do pagamento de Gertrudes...
          Gertrudes lembrada, desencam-na rebaixam-na, em ra-zão da falta de atenção, de fato desdém, da enfermeira para com a gente da terra (incluídos alguns dos opinantes ali...) Ninguém, sequer o dono do empório que é tão importante na história de Venda Grossa – ninguém corajoso para colocar tal opinião diante da moça... solteirona sim porém moça. Uns inventam que seja meio machona; talvez não tanto longe da verdade, pelo menos no momento de passar ordens aos subalternos. Além de ela amedrontar um pouco os matutos, os quais ela detesta e às vezes mostra isso ostensivamente.
          Quem sabe se não terá pensado assim Te naquela visita tão desagradável que fizera à comadre Inês, desagradável le-vando em conta conflitos com a enfermeira...







Cap.15°

Agora Te anda mais calma, vê as plantas para se enganar, para enganar ainda mais sua tristeza quiçá a solidão... mas como verteu lágrimas comprimidas longamente guardadas a estourar seu coração! Pelo filho sim, se isso é a rotina nos sentimentos maternos! Agora olha a fugir da outra: a Tereza mais tristonha que a outra menos infeliz, agora. Olha observando o beija-flor a flor a cor de suas plantas – mil latinhas floridas ou apenas de folhas verdes; as demais firmes no solo regadas sempre e o mais das vezes neste tempo da seca... Seca também toda Venda Grossa a perder de vista, os matos morrendo as queimadas vicejando a enublar os olhos a arder os olhos a tremer na quentura e na secura a vegetação seja na estrada que leva o João a bicicleta os outros, que a levou naquele dia e isso é o que lhe desperta recordações tão pungentes. Tanto que agorinha mesmo na sua casa de periferia e vendo o estradão que chamam rua batizaram rua puseram placa de rua mas continua estrada gasta poeirenta e descalça; que leva sim o marido ao centro urbano e sua adorada venda, onde trabalha desde garoto e é agora um velho tanto quanto ela... tanto que olhando ora flores ora a rua, Te se lembra e lembrando-se mexe de novo suas feridas, lancinando de novo essas feridas.
          Fôra fóra do lar um pouco por umas horinhas prolon-gadas num dia, atrás duns aviamentos para as costuras (ai! anteriormente exibira os panos incontáveis vezes à comadre... será que torno a chorar!) Primeiro, ainda se abanando se enxugando do suor e do trecho que ele faz todos dias apenas domingo que não, ela naquele dia também marchando e já chegou cansada na venda; primeiro na venda e depois foi procurar noutras lojas menos importantes da cidade as linhas as cores os apetrechos por que se deslocara. Aí deparou-se com o ajuntamento dos homens e o compadre Benedito (ela nunca abusaria chamá-lo no meio ou não do público por compadre Dito; o João sim). Comadre, o compadre João foi fazer uma entreguinha na mansão, hoje o vagabundo do Zé não apareceu trabalhar e o compadre no lugar do safado. Entra um pouco, disse ao lado dos amigos quietos de boca um pouco enquanto o chefe a se dirigir à comadre; entretanto não mudos de olhos, Te sentiu-se nua, envergonhada, constrangida, se vendo o que vendo aqueles brutos; decerto, pensou rápido, a fim de após ela se ir ficarem comentando falando criticando gozando a vida alheia, a dela em particular. Então gagueja qualquer coisa e Benedito completa: a senhora entra na loja, conversa um pouquitito com Marina; a filha dele ainda com uns dez anos; e o que conversar em mais de dez minutos com uma garotinha... Se a mulher do compadre ali, aí bem: o assunto esticar-se-ia mas... Nisso se alembrando o que falavam quando Dito não era ainda viúvo: ele assassinara a esposa de pancadas estando grávida e então perdeu mulher e filhinha, as quais não resistiram. Claro, ninguém a tocar num assunto tão sigiloso e incômodo quanto monstruoso. E daí terem João e Te apenas compadre, este crismara o Pedro com ajuda duma prima, viúvo. Portanto ela nunca fora comadre da outra. Pior, Tereza a ‘conhecia’ por vê-la somente uma vez.
          De fato, o caboclo diz sempre isto: dito e feito. Sim, entrou a mulher no empório, já se dispuseram analisá-la de alto a baixo – baixo, inaudível até mesmo dentro daquele conselho de maus conselhos da moral de Venda – particularizaram suas partes: ossuda e alta, ‘gritaram’ rindo “girafa”, giganta do pigmeu, o que exagero pois João quase da estatura dela e apenas um pouco barrigudo dando impressão desfavorável como baixo; enfim Te a eles uma bela feiura. Alguém, piormente sendo o compadre, a dizer rindo “coitado do João” e outrem complementa “o João é um monstro barrigudo e ela um bacalhau” (riram a valer:) mas Deus fez o diabo acompanhou. Gente comum aprecia deveras os ditados em voga.
          Te ficou o suficiente a se aborrecer, indagou coisinhas à garota e permaneceu ali como algo fora do lugar, ora no lugar que lhe ofereceram, uma simples cadeira de pau, ora a olhá-los o que leram os empregados como fiscalização; e pior sendo objeto de observação também daqueles machos sem compostura ou somente envergonhados, porque o matuto mesmo se civilizando um pouco no pesar cebola e batata e falando errado a acertar o peso ou o embrulho da mercadoria, em si vergonhoso diante duma dama estranha. Estranha? apenas de poucas palavras; somente se dirigiu a um dos colegas do esposo por lembrar-se haver se encontrado com a mulher dele e dois ou três filhos na missa; ah a missa, e o João nunca mais a levou. Permaneceu em tal situação incômoda até que pouca eternidade depois retorna o marido; conversa escolhe embrulha comenta algo ele com os outros, marca na sua própria conta a descontar no pagamento, vai além nisso: exibe a anotação aos colegas numa comprovação para nenhuma consciência ficar totalmente imune.
          Te se despede dos homens, dá a mão aos mais próximos dela como é hábito, ainda constrangida, antes disso beija desajeitada flexionando a coluna, alta como uma coluna, oscula de leve a menina; por fim sai indo a pesquisar no mercado acanhado e fraco da urbezinha com aparêncica de vilarejo. Retorna ao lar, retorna e com retorno à lembrança sofrida.
          Muito chorara a perda irreparável de Inês; aliás muita gente assim porém ela das íntimas da ricaça, se bem que mal aparecendo nos últimos tempos na casa da outra, Te quase não indo ao palacete, afugentada com a presença hostil e o mandonismo de Gertrudes. Contudo a ligação não terminara, antes se reforçara. Doutro lado Inês não podendo mais se deslocar como o fizera por anos à periferia, onde se consolavam ambas mulheres das suas mazelas. Muito chorara a perda, agora longe de João que a criticara vezes incontáveis por entender isso como uma fraqueza. “Te, morreu morreu, chorar a vida inteira pra quê?” Agora só, acompanhada dos animais que lhe tomavam horas aos cuidados, compensado pelas alegrias nesse contato e trabalho também, agora relembra e despeja os sentimentos. Têm pessoas que não conseguem fácil chorar fácil, como é o comum dos seres; aí se comprimem se deprimem no depósito sem compensação de sofrimentos fracassos e problemas outros. Um dia uma vez num dado momento ou explodem – e seria um desastre... – ou abrem de vez as comportas, inundam, como Donatê agora o lugar em que se encontra, como na janela do quarto onde curte sua solidão...
          A rigor foi num crescendo a coisa, desnecessário o pre-
texto a causa sendo tão contundente e aflorada por aquilo que o companheiro tachava fraqueza. Foi num crescendo, as lem-branças as gotas ‘inapercebidas’ as correntes já a lavar um pouco o coração opresso e por fim havia riacho rio mar, dilúvio na fase dos soluços, a ponto de a senhora sequer conseguir parar. Parou, parou sob algum pretexto; iria inundar o planeta!
          Recordou-se dos momentos em que ambas participaram, a alegria franca da outra mas também as lágrimas que não escondia, porque isso não se esconde de amigos e mais quando tão próximos como era Te. As estórias os fatos interrelacionados se não compartilhados. Enfim foram dias anos de convivência e amizade profundas. Nessa longa amizade delas contavam-se confessavam-se expunham-se agruras e dados que uma e outra a levar no cofre fechado a sete chaves para o túmulo... Infelizmente, diz o pensamento de Te ao seu próprio pensamento, infelizmente a comadre foi primeiro.
          Pensava exatamente nesse ponto quando a Maria... não a servidora cheia de graça da comadre morta mas a também morena (moreno, aquele negócio de não querer ferir de frente o negro...) quando Maria nova, a vizinha nova já meses velha no pedaço, a chamou gritando lá da cerca; desejava um qualquer favor ou um empréstimo decerto supondo um dia pagar porém se esquecendo não devolvendo ou não devolvendo inclusive a vasilha da outra, açúcar arroz em falta com sobra na casa de vizinhos. Te responde e espera um bocado atender a entrona Maria, a aguardar secar lágrimas recentes ainda teimosas e que o avental ou a barra do vestido se negava a esconder.





 

Cap.16° 

Então a nova velha grita para Te... ora, pra que berrar já tão perto a vizinha, ainda mais descoberto olhos da outra por quase encostadas tête-à-tête o semblante do choro que se não esconde ao arguto que nos lê a fisionomia. Mas a vizinha Maria deixou por ora comentar o estado emocional visível em Donatê – a pedir o que pedir. O arroz lá na cozinha descobri agora no instante de afogar, o alho a cebola já a queimar... sabe que ponho no meio uma rodela de tomate a colorir enganar o pessoal lá de casa!? estava, fui logo ver no estoque, estava ele embolorado e com bicho (Te a corrige pois nem quando estamos pra cima suportamos provocações... pra baixo ainda por cima Te e aí bica:) bicho não, dona Maria, caruncho. Caruncho se corrige a mulata candidatando-se a morena. Então, a senhora pode me emprestar duas medidas? (aí na certeza já ofereceu a canequinha de medir).                                                                                  
          Te escolhe na despensa um arroz que o marido trouxe do armazém, um refugo do compadre (e os fregueses iriam comprar isso? leva para a comadre fazer o que puder aproveitar – cobro a preço de custo, confirmou a sovinice do proprietário). Iria dar emprestado e ainda não ter devolvida a caneca um arroz escolhido e caro em pesar no pindura do João? não com certeza. Entregou o alimento à pressa da vizinha. Qual pressa, a de queimar virar carvão a panela no fogo!? 
          Bem, a vizinha tomou à vizinha não mais que uma hora, das magras, a conversar. Normalmente o fato seria lamentado grandemente por Te, porque muita gente toma o tempo da gente frequente para a gente lamentar a perda (eu não poderia estar nessa hora a fazer coisas mais úteis como levar pastar a bita!) Não lamentou a si mesma: a conversa quase fora desabafo. Visto andar magoada com toda a vida, devendo afirmar de fato com a existência sofrida, enfim com os últimos meses bem pesados.                                              Ora, a hora se prolongou espichando, Maria não teve piedade das orelhas da vizinha... ou teve pois a distraiu um bocado de suas agruras sentimentais, a troco de vender uma Venda inteira, qual jornal marrom de boca aberta. Sintetizou tudinho sabido de Venda Grossa, inclusive o que Te sabendo e mais muito mais da periferia.
          Tem ali na esquerda, pra lá da outra casa a dona Maria... A senhora pensa que toda Maria seja confiável e de alta moral? capaz, tem muita sem-vergonha e essa é a Maria Intaliana, um problema para nossa vila. Grita dia inteiro com os capetinhas dela, todos feiosos de cara vermelha esfolada e arteiros; berra até com o italiano dela, dizem quando bêbado bate nela mas quando sóbrio um cordeiro e aí ela é quem bate no homem. Isso já vi com estes olhos que a terra há de comer, credo! Tem ali encostado a Jovina, negrinha safada, eu também escura porém branca na moral ela uma praga entretanto falam que vai mudar daqui pro sítio onde moram os parentes, o marido, marido coisa alguma, amásio, sumiu, não aguentou a cachorra. Tem a, tem o, tem... Parou, dá licença Donatê, o almoço (“armôço” disse como qualquer vendense que se preze) o Zé vem hoje mais cedo comer e tem os meninos de escola.
          Infelizmente para o tempo e à pressa de Maria nova ve-lha resolveu ela narrar a vida escolar dos meninos seus, notas injustiças da administração e o descaso no qual o grupo escolar de Venda se encontra; um dado quase desnecessário à vizinha Te visto não ter filhos para comparação e interesse, teve um dia mas Deus os levou, vingando apenas Pedro, o qual em criança lhe dava horrores de preocupação e trazia mil problemas, mais fugindo da escola que trazendo questões miúdas da escola ao lar. Depois fugiu de vez. Entretanto ela não quis mexer a sangrar mais a ferida contando à vizinha linguaruda.
          Te retorna. Donde? de Maria e curiosamente desafo-gada, agora sem precisar pôr caraminholas na cabeça ou tirá-las qual peça de roupa ou objeto de decoração que limpamos lustramos e de volta pomos ou na gaveta interna do guarda-roupa com a praga da barata atrás, mais ainda na cômoda incômoda pesada para onde se põe de volta o objeto, que seja um bibelô de louça de arte discutível ou em crítica ao bom gosto. O capiau matuta a beleza diverso do civilizado refinado gozado também, visto seu gosto não ser do gosto dum vendense de periferia por exemplo. Retorna aos afazeres. Naquela hora se pergunta: puxa o que é que eu estava fazendo! ah... o porco, o porco quase cevado indo a banha já a lhe partir a pele, o porco grita a lhe relembrar deveres para com ele e sua fome, a fome que vai e volta sempre.
          Despeja a lavagem ao interessado, num cocho de tronco cavado e o porco porco se lambuza esganado. Ela sorri da porcaria, o bicho alevanta o focinho e olha sem lhe perguntar intenções nem comentar o sabor daquilo: Te mistura abóbora, mandioca e restos de comida humana da janta; agora o João anda sem fome e assim deixa tudo no prato, não adiantando pegar-lhe no pé estar doente, o que daria briga e já vive o homem enfunado, não quer conversa. Enquanto ela apesar de tudo ainda tendo que aturar um latido tamanho, porque o cachorro ou não se dá com o porco, os porcos tendo entre eles outros não de engorda também manhosos e irritados temendo o cão; ou que este seja de amizade com todos porcos.







Cap.17° 

Te não aguenta explode com o barulho do Peri. E o Peri não merece uma página! Não sai de perto da ama, ela dá-lhe uns gritos, ele encardido ladra ainda e aí, bem, Tereza lhe mostra o chinelo arma poderosa e se cala se afasta vai beber água na lata das galinhas, bebe até cansar decerto a língua e então se deita numa espécie de missão cumprida.         
          No dia em que a esposa do João foi às linhas aos avia-mentos de sua costura, parecia um festival caótico dos bichos; mais dos cães em Venda. Já ao chegar no empório, aquele a-juntamento de espécimes da espécie Homo sapiens chefiados pelo compadre Benedito na porta, a deixá-la constrangida; e daí arreparou no cão de guarda dos homens, o Guerreiro, pensou Guerreiro era outro cachorro, ali sentado no rabo a aguardar certamente ordens deles para atacar o povo passando, a assustar senhoras e menininhos – e mais ela, Te ficou de prontidão e nada ocorrendo. Pois bem, já quase a entrar após troca de palavras com o compadre; aquele negócio do esposo haver ido entregar mercadoria à comadre Inês, quer dizer ouvir desaforos de Gertrudes; já quase nesse ponto, quando descobre a companhia de Peri, feito cachorrinho atrás da gente. Que fazer. Provocação escândalo gritando o vira-lata! não, fez de conta estar sozinha, sozinha entrou na loja, enquanto o bicho dela se estranhava com o animal do compadre.
          Horas, tarde inteira ocupada a andar pela urbe, pois não é lícito uma senhora apenas comprar coisinhas nas poucas lojas do centro e não cumprimentar dar a mão falar desnecessários necessários com moradores conhecidos. Em tudo, em todos momentos teve o Peri xeretando atrás de si, ora sorrindo com o rabo ora a cauda entre as pernas diante alguma coisa perigosa e daí atenção negativa. E os desentendimentos entre cães dos outros! um ladrar sem tamanho por onde Te andou; e andou muito. Além da chatice na questão, ainda o temor da senhora no caso ser mordida na briga canina, atacada; e aí não se sabendo direito se ataque à mulher se ao cão dela por seus pares. Por fim tornou à periferia e já em casa rezou um sermão ao seu animalzinho enrabichado.
          O centro urbano de Venda Grossa não tendo carroci-nha, quase nenhuma cidade inexpressiva no país tem. O povo fala carrocinha. Uma carroça adaptada ao mister, um funcionário da prefeitura, um laço, uma chibata prevenida, e a caça aos vadios da espécie e irmãos de Peri; este por sinal do tipo bem vira-lata lambido pelos curtos garganta forte língua comprida. Dessa forma a limpeza, por lei geralmente, a limpeza nas cidades. Ali não possuindo carrocinha, Venda sem recursos financeiros diante da pobreza e da inadimplência a quitar impostos e taxas e portanto sem a terrível ameaça aos cães e aos cidadãos adoradores de animais, sobretudo os cidadãozinhos a ficarem livres desse perigo.
          A canzoada perdida solta a campear nas ruas descalças secas empoeiradas; além de sem nenhuma iminência de um carro atropelar cachorro; gente, houve um caso na história do município, o qual provocou comentários falatórios por meses, decerto por falta de notícias a realimentar novas criadas notícias. Terá havido acidente envolvendo cavalo cavalgado por cavaleiro ébrio vitimando cão dorminhoco no leito da avenidona; nunca se pegaria um gato, cachorro.
          Quanto aos nomes dos bichos, num lugar como exemplo a casa de Te, na qual até galinhas e porcos com apelidos e a dona conversando de igual para igual com os animais de criação, numa defesa talvez por sua solidão – os nomes variadíssimos e bem particulares. Nem Peri sabendo o porquê do seu, batizado pelo João por causa duma estorinha que furtivamente lera na venda (sem entender satisfatoriamente porém achando assim mesmo graça, entremeio atender freguês e pesar pedaços de fumo na balança gasta do empório). Os outros moradores quem sabe atribuindo os nomes semelhantemente. Nada na região havendo de cachorro com pulseirinha e visita a veterinários. Venda Grossa nunca se rendeu totalmente à civilização; decerto por se render ao fracasso da civilização...
          Contudo alguns cães tiveram bem marcado seu apelido na história do povo vendense, como o caso do Guerreiro; e isto se deveu com certeza pela importância do amo dele, o sr.Benedito dono da principal venda de Venda. Dos seus tem-pos de jovem aventureiro caçador, a sair com amigos para a selva do lugar. Não obstante longe ser mata virgem intrincada ali por volta: Venda antes ser Grossa e zona urbana ter prefeitura e câmara e piormente taxação com falação e corrupção, isto segundo pagantes ou mal pagadores, o município nunca teve floresta, porque lugar de campo seco pobre na sua vegetação, oposto à terra de mata de cultura. E portanto a caça devendo certamente haver ocorrido longe. Perto ficou a fama do Guerreiro como caçador emérito, não de raposas nobres mas de onças veados pacas tatus passarinhos. Seja lá como for, ele deu azo a que o Dito e seus colegas da época ou forjassem ou contassem histórias verdadeiras; as quais vararam dezenas de anos até à morte, morte do proprietário do armazém de João.
          Isto posto, quando Te com medo do Guerreiro, não devendo ser o mesmo caçador de onça, visto a onça numa das estórias de caçador haver comido o primeiro da série; Guerreiros outros o Dito possuiu, com mesmo nome em homenagem ao grande herói.
          Aqui se encerraria a página do Peri e seus companheiros que se dentavam abanavam os rabos e numa linha homogênea de manifestação uivavam, o uivo herdado dizem más línguas do lobo selvagem. Também a questão de, ausente do lar o dono, o cachorro uivar fino alto irritante irritando a vizinhança. Às vezes com o amo ali dormindo e o povo nesse caso avisa que avisa o bicho a casa da passagem da morte, o povo avisa e se benze no aviso. Aqui se encerraria; entretanto houve de importante nuns anos atrás a cadela Cecy (o pobre nunca acertava a duvidar se com y se com i, o que desinteressante a ela, fêmea analfabeta). Pois bem, seu dono se gabava da inteligência e mais da disciplina do seu animal: Zezico, o dono, punha um bilhete na boca da cadela a indicar que tipo de vianda queria; pondo junto uma nota de vinte cruzeiros e dizia ordenando que levasse à casa do Ju, o qual mexendo com matança de gado, diziam ser roubado e aqui não interessa, interessa Cecy. Nesse tempo ainda não aberto na urbe o açougue porco do porco açougueiro (crítica de Gertrudes). Ju tomava o papel, quem sabe mal redigido, e o dinheiro do focinho da vira-lata; após enrolava a encomenda num papel de jornal quase sempre cedido daquele usado lido por seu Dito da venda; junto com a carne o troco; ou fazia o pior: registrava a mais no pindura, em Venda é pindura que se fala e não pendura, na conta enfim do freguês. Cecy transportava a encomenda direitinho, não comia a encomenda no caminho; até pelo contrário se dispondo a rosnar braba caso outro cão interviesse a cheirar a carne dela, do amo dela. Um dia, uma noite, um inimigo de Zezico atirou no quintal bola de carne com pó de vidro; matou a cadela; e fez o dono sair de garrucha a procurar o criminoso, nunca o encontrando...







Cap.18° 

Menina você não apareceu mais! diz o padre Germano encontrando numa das ruas Te, naquele dia das linhas do com-padre do Guerreiro dos homens a comentar conspurcando toda população feminina na venda principal de Venda. Pois padre José... engasgou no susto a esposa do João, perdida naquele achado reencontrando o pároco sem esperar; e que mais dizer? não sabia. Contou após como foi sua ‘fuga’ da igreja da missa do convívio e olhe a já fazer anos! Costurou ideias em resposta aos cabelos branquíssimos do santo, todos o tendo por um santo homem, ela inclusive; claro ter de se não mentir esconder algumas verdades como a de João mostrar má vontade e haver fugido ele antes que ela dos ofícios da religião – quanto a ela, não visitava diário seu altar em oração aos santos interferir na volta do filho! – não deixara o culto, fora sim o marido... Conversaram como bons irmãos, o santo e a pecadora, se despediram: ele indo à venda, ela voltando da venda; e o encontro interessante; por não ter havido o encontro antes, numa cidade um cuspe de pequena numa comparação com as grandes urbes entende-se. Mas tem nesse quase desencontro algo curioso. Acontece que o sacerdote respeitável respeitado não era bem Germano como Tereza constrangida quase o tratara... Era o padre José, organizador e incentivador orientador no seu templo, pouco mais que capela do meio rural e de vila, anos lutando a erguer primeiro e após moldá-la fazê-la de fato um prédio religioso, uma igreja sem pretender os colossos europeus. A propósito padre José indo exatamente à procura da venda de Benedito, ou a cobrar dízimos então escassos na pobreza da população ou a pedir ajuda direcionada ao aumento da torre que faltava à igreja propriamente. A dúvida ocorrendo com alguma razão, visto o povo da rua confundir anos os padres, um padre noutro...
          José nascera José num parto de gêmeos idênticos com Germano, este nome em homenagem ao avô paterno; aquele usando o nome do avô materno, fisicamente ambos iguais, houvesse na gente o igual. Catolicíssimos, os pais encaminharam os gêmeos à ordem e esta nomeou os irmãos no mundo a evangelizar. José enviado a Venda Grossa após seminário e formatura, ou seja recebendo as ordens sacerdotais, Venda que era um ajuntamento pobre de casas e gente porém prometendo (e não cumprindo...) virar cidade mesmo. O mano foi para outra localidade. No entanto quisera o destino que fosse uns poucos dias viver no arremedo de paróquia de José. O povo ficou um pouco atrapalhado e confundia Germano chamando José e lhe tomando as bênçãos; inclusive beijava as mãos de Germano pensando fazê-lo às idênticas mãos de José. Se foi o mano, permaneceu a dirigir a capela José. Permaneceu a confusão em Venda.
          Assim não é de espantar que Te aceitasse o abraço de José e beijasse o anel de ‘Germano’. Dessa forma também agiu – sem oscular os dedos do outro e nunca o faria – agiu o João em vários encontros pelas ruas da urbe, quando de entrega de compras... Parece também que só o velho Benedito distinguira os gêmeos e nesse caso ao dirigir-se ao religioso ‘grafava’ na voz o nome correto, José, ele inclusive usava dizer “meu bom Don José” – ou é que tendo sorte de acertar o nome e os demais o azar a confundir os nomes.
          Todavia ainda assim, na entrega a serviço do empório o esposo de Te, no encontro o João ficou muito embaraçado não apenas nisso, mas por andar chateado com o patrão: o compadre o enviava entregar pacotes, julgando o compadre submisso sem o que fazer lá na loja ou a economizar nas suas costas. O empregado se indagava nestes termos, pois Dito demitira o entregador e não repusera ninguém na função, pondo o peso nos ombros do João – sem lhe aumentar no aumento de tarefa o salário; aumentar! parecia desejar diminuir proventos, alegando a crise. A coisa passou e o compadre do compadre ficou mesmo no acúmulo de trabalho e com o mesmíssimo percebimento. Em quem depois no lar atirava o sentimento negativo na renda estagnada? na inflação no patrão sim, sobretudo na esposa. Assim logo adviera, a superar as discussões conjugais, o mutismo conjugal...
          Outro morador a cunfundir o padre, o padre não procurava confundir nenhum fiel, apenas sorria compassivo, outro que o fazia frequente e pondo após no pensamento a culpa nos seus avançados na idade, esse era Tonho Defunteiro. Parecendo que os moradores a fazer de propósito a confusão do seu apelido em razão dele confundir Germano-José, porque mexendo com madeiras a servir a comunidade, funcionava realmente como carpinteiro: portas janelas bancos, enfim serviços se não artísticos com madeira ao menos toscos aos desgastes ou necessidades de Venda. Porque muitos o tratando Tonho Carpinteiro, outros – e não a convir todos o caminho da cova e daí o caixão e nisso por que não defunteiro!? coisa da gente – outros alcunhando o profissional meio amador apenas Defunteiro.
          Enfim Tonho fazia de tudo com madeira. Ora, a gente rica se havendo alguém assim fora Inês o Dito da venda o prefeito uns poucos entre vereadores e aqui bem discutível... mas os com posses mandavam trazer de Catanduva as urnas aos funerais dos seus. E a pobreza! a pobreza encomendava ao Tonho o caixão, feito decerto a pregos embora os entendidos dizendo e elogiando a obra-prima no mister. Com um senão desagradável, ou a agradar o desagrado da crítica Gertrudes ou somente para confirmar o hábito: pagavam ao profissional em meses em anos em esquecimento ou até diziam-lhe na cara “seu Tonho nóis num tem dinhêro pra pagá” (nessa linguagem popular autêntica do povo de pés no chão). Ora, feito o caixão, enterrado o morto, como exigir devolução da mercadoria por falta de pagamento!? Defunteiro já acostumado (ou anestesiado) sorria ao invés de chorar, mesmo porque semelhando os outros do lugar, ele um pobre trabalhador, possuindo a penca de filhos para manter em casa; entretanto não chorava, quem sabe não pedisse no lugar dos cruzeiros um franguinho um leitãozinho a fim de quitar a urna feita às pressas e até às vezes nas horas roubadas ao descanso noturno (ou iria deixar cheirar o morto do outro?) Perdoava. Interessante nisso tudo era o costume dele já medindo as pessoas possivelmente futuras defuntas, nos encontros com vivos, seu olhar de profissional então observando altura compleição para adiantar um pouco a posterior feitura da urna quase sob medida... Enfim, perdoava o devedor, este de vez em quando a remunerar o Tonho com aves frutas ou mesmo um “Deus te pague” comum na gente simples.







Cap.19° 

Outro vendense importante ao João e que apreciava trocar nomes era o Tião Padeiro, aqui concorrente aos pães de casa feitos pelas donas de casa e melhormente por Te do João. Ou porque a única padaria de Venda Grossa e assim mesmo vindo ao mundo a panificadora nos últimos anos, antigamente preciso fora trazer o pão de padeiro da cidade grande e aí nem por sonho comê-lo quentinho; agora tendo a padaria do Tião, situada ali quadras poucas do empório. Ou porque o hábito mandava secularmente não confiar nas coisas compradas longe. Ou ainda por gosto a mudar de gosto – o certo é que não deu errado o negócio do padeiro. Logo diria aos amigos estar dando lucro, um dia se jactanciou a dizer “estou desmanchando quatro sacos de farinha!” decerto linguagem padeira mas a pretender falar andar fazendo muito pão e vendendo, logicamente. Prosperou e logo também cairia no marasmo de todo comércio da urbe, ensombrecendo até o visual. Visual? ora, nunca a padaria com dísticos garrafais chamativos aos fregueses, talvez mais fazendo propaganda o cheiro do pão assando no forno, o qual Gertrudes na mansão criticava pela falta de higiene, não só no forno mas na padaria como um todo e inclusive o próprio padeiro, ora a fazer troco com cédulas grudentas malcheirosas de arder narinas ora em imediato pôr a mão na massa, literalmente; decerto, dizia a gerente como dona do palacete de Inês, decerto sequer lavando as mãos após uso no sanitário também, para depois enrolar pãezinhos... O que não fugindo demasiadamente da verdade. A propósito, a gente do povo a apelidar (se houvesse não havia sanitário público: nos apertos pedia-se favor a qualquer moradia para usar o particular, ou sendo homem, macho, a descaradamente fazer xixi nos muros quando muro...) o povo dizia o sanitário ser mictório, uns ao escrever rabiscavam até ‘miquitorio’ desconhecendo proparoxítona e mesmo o acento. Entretanto o Tião ganhou sim algum dinheiro com seu negócio, aquele negócio já dito de quem tem um olho na terra dos cegos.
          Aqui a padaria o pão a fome no pão se liga ao esposo de Tereza, mais ainda à sua marmita.
          O caso da marmita é bem sintomático e até simbólico no desarranjo em que se encontrava a vida conjugal naquela periferia...
          A marmita era um improviso de caldeirãozinho bem amassado pelo uso, uso no acondicionamento e transporte do almoço do chefe de família, empregado do compadre Dito na venda; o alimento que a mulher preparava pondo no invólucro amassado para o marido, indo batendo sacolejando socando quase furando ao se chocar com os ferros do quadro da bicicleta Philips inglesa dele – sem encontrar outro meio para não atritar a vasilha; porém ele nunca achou, ficando sempre na promessa (agora a si mesmo e não à esposa:) amanhã vou pôr um suporte por cima do para-lama na traseira do meu veículo; não cumpria, continuava prendendo amarrando a marmita no quadro a trililicar barulhinhos chatos no encosto com os ferros à dança no gingar da bicicleta na estrada, esta imitando rua, a fugir borboleteante dos buracos... Aliás a crítica mais feroz quiçá contundente que o homem do povo faz em todas cidades do país é a propósito dos buracos; nalgumas de prefeitos preguiçosos, o buraco maior come o buraco menor – não sendo o caso de Venda, plana seca sem chuva até à agricultura pobre do município pobre e aí não se vai exigir enxurrada a cavar buracão e este engolindo buraquinho; havendo sim buracos a quase tragar a bicicleta do balconista e dessa forma forçando o ciclista desviar balangando sua marmita de alumínio bem gasto.
          Te se levanta cedinho prepará-la, ou o esposo sai cor-rendo na última hora feito louco – e agora com o ventre pro-nunciado, um ridículo e tanto – desembesta sem comida na estrada rumo ao trabalho, distando uns dois quilômetros e aí ou ela, não a marmita nem a magrela mas a magra Te, ela em ter que levar “diapé”, lamenta, lá nas lonjuras do centro ou alega incômodos feminis ou gripe para enganar a preguiça ou o cansaço, a fim de não levar o almoço. E aqui um desastre: o João sem marmita tira tiras de carne-seca na venda e come cruas com pão do Tião, ou manjuba mil vezes salgada crua tanto quanto a carne fria dura velha, lambida adrede por insetos decerto, e novamente a compor no sanduíche com o pão de padeiro do padeiro...Raramente opta pela mortadela, o que é curioso visto o caboclo gostar muito. Ou ainda desanda a comer doces como balas e bolachas e outros confeitos. Não é então um desastre! Sim, agora mormente levando em consideração o estado de saúde do homem. Então se desdobra contra toda sorte de azar Te, a preparar o que preparar à marmita do esposo. Ora, iria ficar viúva antes do tempo... Exato, porque um regime com tais sanduíches improvisados e porcariada (o apelido que ela dá aos confeitos de bar) seria morte certa, o errado é o certo portanto.
          A marmita, no caldeirão indo o feijão – mil vezes azedando saindo quente e esquecido com o arroz a ‘mistura’ como a linguiça frita! e o demais abafado estragando... – o feijão engrossadinho com pele de porco bem temperado; o arroz para João reclamar em papa ou seco e duro, duro de engolir; abobrinha afogada e a carne cozida quiçá a lembrada linguiça. Sobremesa? o matuto troca todo gosto civilizado por café, mesmo frio fraco inclusive o azedo de trasanteontem. Não, Te capricha no cardápio do seu homem, mais agora por doentinho, capricha na escolha no acondicionamento na higiene no envio; não pode todavia contra a conta da natureza, a qual muda de tempo e estraga o alimento; além não poder nada com o desmanzelo do consorte: iria ela ir a tomar conta com seus cuidados da refeição dele!? assim como, como controlá-lo na cerveja...
          Ora, tirando os exageros e absurdos, ficam a marmita e o conteúdo da marmita.
          Ela, Te, quase lacra o caldeirão. Inventaram o improviso duma tampa doutro caldeirão ou panela, que a senhora chama caçarola e enrola no dizer; ou maior ou menor que a boca da marmita e neste caso necessário vedar bem com um pano limpo fino esburacado no uso mas lavado e até passado (o João critica gozando a mulher dele perto de amigos, a emprestar mais graça à graça, de que ela passa a ferro em brasa inclusive meias e a cueca dele do tipo que o povo apelida samba-canção; não diria o sutiã dela). O pano impede que moscas xeretem a comida, sobretudo no tempo do calor, sendo calor sempre em Venda mesmo no inverno seco. Tudinho para prender a tampa – ainda assim a teimosa tampa da marmita grita barulhinho na trepidação da rua, estrada poeirenta com esse nome e nome registrado dum político de família vaidosa. Contudo, balançando e friccionando com os ferros da bicicleta, todavia chega ao destino final de matar a fome, meio pouca nestes dias do João balconista. Inventaram, isto mérito da criatividade da parte masculina da casa, criaram um elástico de borracha preta de câmara de ar, esticado entrelaçado cruzado amarrado amarrando a fim prender suficiente a tampa teimosa. Desse jeito a vedação e a garantia de, caso o buraco enfrente a magrela do esposo da magra e caia no chão sujo da estrada: que não se perca a comida ao menos. O acidente ocorrendo mais de três vezes numa década, o que percentual insignificante, indo bem presa a marmita do João.
          Uma coisa ficou provada nisso tudo: o almoço vai chei-roso, Te carrega no alho na cebola na salsa na cebolinha e nuns toques de pimenta ao gosto do homem. A tanto provocar inveja e água na boca nos colegas da loja.


Cap.20°   

Um dia o João mastiga já acabando sua marmita escondido no fundo do serviço, quando aparece pelas costas falando e falando a seu jeito espevitado o compadre Dito. Não diz o frequente “não cortando sua palavra” e daí imediato corta ex-põe o que expor sem sequer pensar haver prejudicado outrem, o comum no homem comum. Não diz e mesmo logo percebe o outro a mastigar e exalar do seu caldeirão o tempero do arroz do feijão, faz o reparo em concessão como pessoa educada e observa: ocê, compadre, não... sim pode acabar primeiro o almoço e depois do almoço vai me visitar aquele sem-vergonha (sem-vergonha é o prefeito do PTB, fosse do PSD ou da UDN, assim mesmo nisso teria queixa:) diga ao sem-vergonha politiqueiro que os ladrõezinhos seus funcionários me lançaram a mais na taxa de iluminação – eu tenho lá alguma coisa que ver se o motor quebrou! – e na taxa de propaganda... Se não diminuir na cobrança, eu mando raspar aí na frente na testa do empório o chamarisco dos fregueses, tiro ‘Casa Silva...’ não, isso não pode porém mando riscar lixar da parede ‘secos & molhados’, não, também não: passo tinta preta por cima da azul já meio apagada apagando o anúncio que faço em termos de ‘a primeira venda de Venda Grossa’. Isso. Isso decerto vai demovê-lo no roubo, aplacará a fome de imposto daquela canalha na prefeitura; ah um dia a gente põe gente nossa, os bons do PSD; não acha, João?
          Claro, qual empregado a discordar mesmo achando lin-do o dístico no rosto mais precisamente em cima do rosto na testona do prédio e que é uma beleza de escrita.
          Por causa disso chega no balcão de atendimento do executivo o rapaz submisso e comportado com aparência de chefe, a cumprir ordem do chefe. Loguinho Dito tossiria além do costume, faleceria, sem trazer o drama que Inês deixou na mansão; porém com movimentação semelhante e depois um túmulo para enfeitar o cemitério municipal, não um da altura artística de sua freguesa de tantos anos mas igualmente uma tumba notória e de respeito; ao menos sobressaindo diante das covas pobres cruzes cansadas e velhas, num mostrar os montes de terra acima dos sete palmos.
          Assim chega João na sede da prefeitura. Felizmente o prefeito fora da urbe, sem precisar dar as mordidas da oposição do compadre que ele representava ali.
          Enquanto ali permaneceu, ficou minutos incontáveis a observar o trabalho burocrático na acanhada repartição – uns poucos machos da espécie e uma senhora simpática perdida já a beleza, gorducha e lenta, lenta inclusive no olhar e de nome Joana, freguesa do seu balcão e portanto bem sua conhecida; esposa de alguém do partido a causar inveja talvez nos perdedores da oposição no último processo eleitoral. Essa Joana ‘tec-tecava’ em grãos de milho na máquina de escrever, que o João um pouco longe leu com dificuldade Remington, observação que estacou após o sorriso da mulher pra si. Esta chegou-se ao balcão atendê-lo, a fim de não resolver o problema do sr.Benedito da Silva e pedir voltar outro dia por isto ou por aquilo, no hábito de justificar as coisas. O empregado agradece, pergunta da gente da família dela, ela descamba a contar do seu mais novo, por tempo corrido espichado e sem pressa alguma; só no fim da explanação se alembra querer saber da Tereza e infelizmente também se recordando indagar o paradeiro do Pedrinho, o qual fora seu colega no grupo escolar.
          Foi na tarefa de representar o patrão que o balconista tomou de fato conhecimento da existência da máquina de es-crever, nunca havia visto aquilo. Dias após, Dito trouxe uma usada a ser usada na sua contabilidade particular. Em geral João por anos notava curioso o chefe a fazer anotações com caneta de molhar no tinteiro, num cursivo que no conjunto lhe parecendo bonito. Um dia exagerou na subserviência a dar ao outro sem que este pedisse o mata-borrão para enxugar as letras úmidas no livro-caixa do estabelecimento. A novidade da máquina entretanto calou mais fundo no meia-idade João.
          Guardou na memória até o som produzido pela Joana na prefeitura, ferindo as teclas da máquina negra. Tanto assim que se prometeu algum dia dar uma ao filho...
          Em casa, ao narrar as peripécias e o movimento das horas, lembrou a Te sobre os funcionários lá na prefeitura. E completou mais este absurdo. Te, um dia compro máquina de escrever ao nosso garoto... O que disparou as lágrimas da senhora; o Pedro sumira já ano e pouco, “e muito” retificou-lhe o coração. Por isso ambos pais ficaram constrangidos, sem mais ter o que dizer.







Cap.21° 

Toda vez que uma novidade é novidade num vilarejo os curiosos aparecem. Foi o caso da máquina Olivetti usada que o Dito trouxe pôs em cima do balcão da venda, não achando melhor lugar; aliás pior não melhor pois o teclado a lhe ficar muito acima para cansar o indicador no trabalhoso exercício de encontrar a letra certa, que para ele sendo todas letras ao encargo de um só dedo, visto ficar demais alta: ou ele demonstrava sua perícia a atrair moleques na saída da escola passando por ali mas ficando o chefão de pé (aqui não cabe ‘diapé’) ou se sentava vendo a bruta lá em cima do balcão. Enfim tornou-se uma distração e tanto aos moleques aos fregueses aos admiradores aos próprios empregados ali por volta olhando quando o patrão não lhes olhando... João ficou pasmado, de água na boca. Esta uma expressão mui usada na região nessa época. Todos pretendendo desejando ao menos experimentar o gosto daquela geringonça, uma espécie de caixote negro de ferro tendo um rolo de borracha horizontal, o qual ao chegar na extremidade na linha do papel fazia plim, quase igual faria depois a máquina de registrar dinheiro no caixa e que o patrão não veria, nessa altura enterrado e cultuado como bom puro justo santo... o que do pensamento do povo simples acendendo velas e levando coroas em finados. Mais para diante o patrão subtraiu a novidade removendo-a para os fundos perto de seus livros, os quais eram revistos pelo contador lá de Catanduva onde a escrita oficial. Isto mais próprio do escritório, embora no balcão da venda chamasse mais atenção e por outro lado Dito precisando dar ao curioso explicações desnecessárias, desnecessárias a um homem impaciente nervoso quase neurótico.
          Além da curiosidade nisso, havia sempre ajuntamento de pessoas no empório, seja a comprar (não afirmado pagar...) seja a simplesmente bater-papo sob ação do álcool.
          Uma razão para a passadinha e parada na frente e dentro da venda, o correio. Ali se acostumaram a procurar e entregar cartas, comprar selos para a correspondência, nos quais se lambia muito bem para grudar no envelope, ambos também vendidos nesse correio de improviso. Eventualmente mesmo o João, curto de letras, acabava se apiedando de matutos mais cegos na escrita. Então o interessado ditava e no balcão já de mãos trêmulas o empregado feria a gramática feria o papel com mensagens aos parentes do freguês, à mãe à namorada ou para o compadre, quase sempre distando no Nordeste pois grande parte dos viventes ali nordestinos migrados ao sul do país. Dito inclusive encomendou ao Defunteiro um estrado, uma espécie de prateleira com gavetinhas toscas e grosseiras, para depositar guardar a correspondência dos seus fregueses; no entanto o marceneiro executou o serviço com esmero e capricho; nessas coisas não deixava esse profissional em buscar perfeição. A última missiva que chegou à venda e quase chegou a ser depositada na tal prateleira desse improviso de agência dos correios, foi uma endereçada ao proprietário, vindo postada da capital e deixaria o destinatário irritadíssimo; entretanto Benedito falecera no dia anterior, num acesso de tosse; os familiares não franquearam a íntegra da notícia contida no interior da correspondência...
          O empório no seu azul berrante já meio apagado a con-vidar o público como sendo a “Primeira venda de Venda Grossa”, atraía ao centro gente por ser quase agência postal mas também por outras razões – a razão de oferta de caninha implícita, claro – outras como possuir um potente rádio, estivesse ou não ligada a eletricidade, o que só ocorrendo à noite, dia inteiro inclusive o rádio com pilha de mil horas gritava suas músicas e propagandas e portanto atração especial, porém virando depois carne de vaca; esta expressão contestando aquilo considerado especial e a dizer na voz do povo – será a voz do povo mesmo a voz de Deus! – esse povo da rua desejando falar de algo muito comum; o que contrassenso popular porque a carne de vaca sempre cara só variando na falta dela a ficar de cara a caríssima. Semelhante caberia ser carne de vaca o rádio visto cada vez mais os vendenses comprarem receptores hertzianos na grande cidade e trazê-los ao seu município; o próprio João possuindo um com pilhas minúsculas; tais pilhas e seus radinhos causaram no início um furor e muitos capiaus andavam pelas poeiras das ruas com aquilo ligado, geralmente alto, a engolir em horas poucas a carga da bateria. O João ouvia diário o seu a aperrear Te, não apenas na baboseira futebolística não: não apreciava ela música e detestava rádio; tanto assim que o pobrezinho tendo que ficar calado desligado chateado decerto na ausência do balconista, balconista estando no seu trabalho; onde Te afirmava aos mais próximos que o marido era explorado; quer dizer: trabalhava de mais e recebia de menos. Ah, e descontando nela por não falar não conversar com ela, emburrado qual menino; ou a falar sim no entanto nervosamente e às vezes soltando nas costas da infeliz alguma grosseria; certa vez chegou a xingá-la, não a fim de que chorasse como protesto e chorou assim mesmo até o chefe da casa ir-se ao ganha-pão.
          Lá no serviço através da voz quase sempre rouquenha do rádio na fome de pilha, aí quando já engolira umas quinhentas horas das mil; mas através do verbo do receptor, precisamente às oito horas da noite iniciava a Hora do Brasil, vinda em cadeia nacional desde o Rio de Janeiro; depois a partir das dezenove indo até às vinte começou a Voz do Brasil, não mais a ditar os conselhos da ditadura Vargas e igualmente com mensagens governamentais – para os matutos não entenderem nem se interessarem: o que os prendendo eram as músicas populares, não o falatório político seco duro burro estúpido obrigatório porém. Não obstante, Dito ouvia sempre e com interesse o horário do governo, por vezes a comentar com seus empregados, eles sendo ótimos ouvidos e orelhas obrigatórias à boca patronal...
          O povo sem ter o que fazer de útil – ou estaria se ocu-pando com a utilidade das coisas – esse ficava por ali, ou no empório ou nas imediações de dia e de noite. O rádio deixava ser distração.
          Enfim a venda o centro de Venda e do povo do lugar. Outro dado atraente e equivalentemente obrigatório, foi ela ser espécie de rodoviária.
          Não possuía essa importante benfeitoria a urbe, embora as pessoas interessadas, entre elas o dono do estabelecimento comercial pelas vantagens que disso adviria, elas fincaram um poste de madeira de metro e meio em frente à porta de madeira do boteco, à guisa de ponto de ônibus. Aí paravam as jardineiras como apelidavam, e não eram jardineiras porque já veículos fechados e com janelinhas ao passageiro abanar com a mão e olhar a paisagem correndo lá fora, os ônibus começavam ao fim da existência terrena do sr.Benedito da Silva a fazer linha regular ligando Venda Grossa ao mundo; uma só viagem um só horário, claro sem a precisão britânica é visto... Mera passagem pela sede do município a levar gente trazer gente de Catanduva. O Dito mandou, a caracterizar melhor o ponto rodoviário, mandou pôr uma placa metálica redonda pintada e com a inscrição “Ônibus” mas... Bem, os meninos do grupo escolar não davam sossego atirando pedras nela, uma vez acertando no erro do sem querer uma senhora doutro lado do ponto, agachada no estilo caboclo e a esperar condução... Atiravam objetos e no fim já apostando quem dava maior soco na placa, provocando um som oco e gozado (na opinião moleca). Até que o proprietário da loja mandou arrancá-la, deixando somente a trave sem cabeça plantada ali na calçadinha, a única cimentada na cidade. Assim se findaram as broncas do chefe e a grita impaciente dos empregados e usuários viajantes contra a meninada, irresponsável como se admite; porque garoto só estando um é santo mas em grupo o inferno.
          Um dia, tarde quase noite no horário de viagem e à es-pera da condução, aparece Margarida com maletas não malas, a indicar portanto brevidade, enfim com maletas e um pessoal seu parente na despedida. Contudo ela voltou à sua terra. Nesse dia maldosas línguas anunciaram, baixinho, para as orelhas amigas: a solteirona vai a Catanduva arranjar marido... Outro gozador: o coveiro. Todavia como foi dito, tornou a Venda faleceu em Venda e dormiu na necrópole de Venda.







Cap.22° 

João fuma quase acende um noutro cigarro, em não perder o vício arraigado a lhe deixar semelhando o cheiro do compadre Dito, este com um hálito um bafo um sopro de tabaco que o fumante não sente mais; fuma sentado como a descansar não descansa propriamente pois aguardando um freguês eventual que possa entrar na loja, em plena crise nacional e a atingir Venda Grossa e o boteco. Então pensa, se é que se possa parar de pensar, a avaliar todas mudanças que lhe ocorreram – para pior lembra o anjo mau, o bom interfere: não tanto se há males que vêm para bem e isto ditado em voga – enfim a pensar no que mudou com a transferência do compadre Dito para uma vida melhor, outro pensamento popular. O que se alterou e trouxe profundas modificações até concorde com outra sentença popular que dita o mundo ter virado de cabeça pra baixo. Na sua pobre existência sim... Pensa enquanto vê Marina a implicar com a mocinha novata filha do Defunteiro, ela a manejar inexperiente a caixa registradora que reflete dos metais o sol entrando ali; observa assim como a viu chamar a atenção doutro colega... e logo não sobraria para si! Olha vê observa critica conclui num pessimismo, que não lhe é frequente por mais tendente a brincalhão, sente a nova patroa não ter psicologia no trato com seu pessoal, anos ali a ajudar Dito a ficar mais rico mais notório mais influente e estendida a influência inclusive na direção partidária do PSD e assim poder criticar com mais base a oposição no poder. Até no último instante de existência ainda o patrão contra e vendo o absurdo do a favor ao prefeito. Ah parece que foi ontem a crise e morte dele e já marcada pelo padre José inclusive a missa de ano...
          Observa aquela patroa nova (velha, essa outra Margarida em Venda, criticam os sábios da vila) olha Marina e lembra coisas que não adiantando dizer agora a ela, um ser fechadão e sem respeito com seus empregados – os outros filhos do compadre mais abertos, um deles mesmo loquaz e amigo; porém ela!?
          Marina? ah carreguei-a no colo, uma gracinha e o fazia por apreciar nenês, não por ser filha do patrão, ainda não meu compadre. Num pulo vê Compadre a carinhar também igual ao compadre Dito seu único menino vivo, falava o Compadre no garoto como sendo seu, com muito afeto; quis mesmo crismá-lo para virar compadre de verdade, o Dito chegou primeiro e... foi um tempo bom e é bom de se lembrar, a família unida: ele Te o menino; depois o Pedro arranjou encrencas e mais tarde uma desavença maior com a mãe: Tereza ficou a chorar aquele sumiço. Marina? era um amor de criaturinha e aos cinco anos ainda sua amigona. Após se fechando foi tomando jeito de estranha, até ficar-lhe uma estranha e hoje em dia uma estranha perigosa. Diziam más línguas ela magoada com o pai no triste episódio da morte da mãe e da irmãzinha. Enfim talvez virando inimiga do velho na família e assim tudo que se ligasse ao genitor, os amigos do pai por exemplo, todos eram agora seus adversários...
          João herdou a má vontade da filha por causa do pai? Não tem muito cabimento, afirma-lhe a consciência, se nunca a ofendi... Quem sabe se... ah não encontra razões só pretextos mal explicados e isto é próprio do ser humano. O fato é que passou ser mal visto mal posto pela patroa, que agora não lhe cabe no colo (sorriu triste à brincadeira; terá o João mudado seu semblante por fora, que é aquilo que não explicamos a ninguém; por dentro dialogava sua tristeza... ) Pior nisso tudo a reviravolta.
          Agora o patrão na pessoa da filha mais velha, uma virago comentavam adversários políticos do chefe maldosamente e pela fraqueza – não franqueza, fraqueza mesmo da língua deles... hoje o patrão destronou da chefia o antigo servidor, por anos uma espécie de chefete entre os colegas, por mando do costume por mando do tempo de serviço por mando da experiência, tacitamente o compadre aceitando os colegas acatando e os fregueses apreciando. Mas eis que o Dito falece – uns a dizer haver abusado nos seus dotes machos, pois na calada da noite anterior estivera com prostituta vinda especialmente da cidade grande à sua conta; ninguém provara entretanto já tornou ao empório tossindo desesperado e desesperado findou-se. Morto, viva Marina a encabeçar a família, talvez por seu tino empresarial e sua liderança nata e daí a reviravolta para Te.
          Para Te? a enxurrada da crise que atingia o país mas re-fletindo bem em Venda Grossa, toda ela passava pelo João e o marido a levar extravasar talvez abusar quem sabe e a arrebentar em casa: dum lado o mutismo dias e doutro as discussões frequentes; a falta real de cruzeiros às despesas dignas, visto a esposa não ser gastadora como a crítica de muitos consortes sobre suas consortes, aqui sem sorte no trocadilho. Te recebia os restos da batalha do dia na guerra em que se tornaram os bastidores do empório sob nova direção.
          O rapaz, agora um senhor de meia-idade inveterado fu-mante e apreciador de cerveja que então lhe pesava mais no seu pindura na firma, o rapaz desceu a simples balconista, sem quaisquer vantagens. Vantagens! corria à boca pequena, ou havendo uma sórdida conversa de oposição nas intriguinhas no empório – corria que pudesse João ser despachado. Como não se conhecia suficientemente em Venda a lei e as indenizações, diminuindo o impacto numa demissão, isto um autêntico desastre. Como fariam...
          Como fariam?





Cap.23° 

São reflexos das duas extremidades agora que ambos cônjuges experimentam nessa altura da existência, João e Te com certa idade, não idosos propriamente mas a passar da meia-idade convencional – reflexos da crise a enfrentar em duas frentes: no lar o ambiente minado pela falta de recursos; na outra, sem grandes recursos entretanto a crescer um pouco, não ex-pressivamente mas aumentar e sentir certo progresso, o muni-cípio de Venda Grossa.
          Venda passara com o tempo se não a ter prestígio político a ter pelo menos presença, deixando ser mero vilarejo. Já surgiam reformas; havia algumas choças imitando residências ou abandonadas ou desmanchando, porém outras sofriam re-formas – e o que mais sintomático na melhora: umas poucas (o muito aos pequenos...) umas residências eram erguidas. Chegavam vez por outra caminhões a trazer tijolos, os blocos não existiam na região só tijolos tradicionais; ou vindo com outros materiais de construção como a cal o cimento a areia o ferro etc.. E aparecendo gente específica ao trabalho e não apenas improvisados pedreiros da vila; estes aproveitando-se a mão de obra barata, dentro da lei de oferta e procura, porque Venda estagnada anos tinha de sobra serventes e pessoal que enfrenta tudo. De maneira que tais condições levaram a um movimento desusado, o que trouxe também aumento da população. Por anos a fio os jovens vendenses migraram à cidade grande à procura de emprego, sua terra nada oferecendo; agora a urbe aproveita os braços e cresce. A periferia já crescera ao longo dos anos com taperas, a casa de Te uma exceção, pois embora de madeira, resistente e razoavelmente bem feita; ainda assim a senhora se queixava com razão não haver no imóvel reforma alguma, o marido empurrando com a barriga “amanhã”, “um dia eu...” Ela parara então de reclamar, ou iria realimentar a discussão conjugal!
          A parte central se não crescendo a olhos vistos, tomava um aspecto de cidade mesmo. As ruas, inclusive a Avenida Central, continuavam relegadas e descalças poeirentas lamacentas conforme a estação. Contudo é verdade que experimentava belas transformações, oferecendo outro visual.
          Possuía seu grupo escolar, posto policial, centro de saúde aos enfermos, uma representação bancária embora limitada, Venda nunca seria um centro bancário; e o posto de combustível, com sua pouco movimentada bomba de gasolina. Durante a fase de guerra, a Segunda Mundial, chegavam tambores de combustível mas nos últimos meses era mesmo um posto de serviço quase nos moldes atuais, recebendo para abastecer os cheirosos caminhões-tanque, a encher o reservatório ali enterrado. Além doutros préstimos conexos como a borracharia; e nisto contribuindo com um fato negativo ao ferir os sentimentos da população, pois quase sem notícias para discutir a vila e eis que um trabalhador nessa borracharia montava a marreta uma roda num pneumático e ao socar o aro este soltou-se e atingiu o maxilar do infeliz! Levado às pressas no possível ao hospital fora de Venda sofreu uns dias e faleceu, na agonia dos expectadores e dos que ficaram sabendo desse episódio triste, o qual meses a seguir foi do noticiário local. O posto de serviço fornecia aos poucos veículos particulares e também servindo como oficina mecânica mas sendo sobretudo fornecedor oficial da prefeitura, o que dando sempre conflitos e conversas a esquentar as discussões no legislativo municipal. Enfim a política de pernas curtas e boca longa, tendo também ela origem nos serviços desse posto.
          Quanto ao posto de saúde, andava enfermo como toda saúde pública, exceção feita a um que outro município no país. Neste assunto, espichar é como diz o ditado ‘chover no molhado’ e não chegando a coisa alguma; os anos do futuro mostrariam alguma melhora e alteração na qualidade porém se mantendo os comuns vícios quase eternos. Sim, chover no molhado... Em Venda além do mais, a falta crônica de médico e o péssimo atendimento; o atendimento enfim era a mesma coisa, semelhando as outras cidades pobres. Talvez poder-se-ia ressaltar a ineficácia no funcionalismo público ali atendendo, desatendendo, nisto ainda com raras exceções os bons funcionários, o que afetando não só a doença da saúde, todo funcionalismo. Parece que o homem de boa vontade, sem citar aqui apadrinhados políticos da situação ou da oposição, que ele ao tomar o primeiro cafezinho oficialmente como servidor, experimenta já o gosto do desserviço. Secular? milenar?
          Em todo caso a população reclamava muito não ter clí-nico presente e apenas funcionários ausentes no balcão, embora conterrâneos e conhecidos desde a primeira arte como criança. Claro haver muitos dignos; o povo picha aqueles apenas ‘funcionários’...
          Já o posto policial, um serviço de atendimento à população contado como o mais velho entre os benefícios públicos, não teve somente inoperantes servidores como o soldado Dionísio, mais a serviço da chacota dos linguarudos; nem contou só com a petulância e a empáfia vaidosa do cabo Geraldo se imaginando delegado. Pelo contrário houve constante troca de quadros; inclusive um caso no cargo de delegado, escolhido como é praxe por um civil doutorado, esse não suportou o paradeiro da vila, onde só se enfrentava bebuns ou a registrar boletins de briga conjugal e dois ou três homicídios, embora roubos a fartar... em toda história: pouco a tanto anel de formatura. Ah, também a política dominante no estado construiu decente cadeia de alvenaria com grades de ferro; mandou plantar até uma árvore e ajeitar um jardim pequeno moderno na frente; quase virou ponto turístico, na curiosidade despertada. Em suma, não trabalhou exageradamente o posto de polícia de Venda Grossa.
          Disso tudo Tereza do João tomou conhecimento. Como raramente saía do lar – aquela velha queixa da mulher andar socada na casa – como assim, quase não foi testemunha do surto de progresso de sua terra. Quer dizer, vinda de fora, conquistada pelo namorado João, balconista do sr. Benedito; de fora realmente mas cidadã vendense, pagadora de taxas à prefeitura e a ter depositado no solo santo do cemitério vários seus filhos, escapando apenas o Pedro que sumiu.







Cap.24° 

O “istrator” ia vinha ia outra vez passando cortando passando aparando passando voltando aplanando a terra seca dura e, solta, poeirenta pelos já quase seis meses sem chuva, com toda consequência disso à população de Venda Grossa, mormente ao posto de saúde do município cheio de mães com seus filhinhos na procura de ajuda na respiração difícil; o trator que os garotos xeretando dificultando o labor dos funcionários da prefeitura executar na terraplanagem; e aqueles pequenos cidadãos vendenses diziam gritavam não sabendo tão somente pensar uns aos outrinhos “ói u istrator!” – uma patrola que o estado havia transferido ao governo do município, funcionando embora sempre com falta de óleo cru por falta de verba no executivo (aquela velha eterna questãozinha chata na burocracia: a câmara põe emperros da oposição sob liderança do Zé da Farmácia contra a situação no executivo vetando parte da verba orçamentária atingindo gastos com o trator, o que diziam opositores o prefeito ele usando a máquina para mostrar serviço a fim de obter votos futuros...) Agora a escavar o solo deixando a estrada do João rua com jeito de rua; e aí sobe um cheiro acre de terra embrutecida mexida ferida e agora civilizada plana boa para a bicicleta dele rolar rumo ao serviço na venda, não obstante a ameaça nessa hora a inoportuna demissão... Pensa repensa sem solução plausível à encrenca na qual se encontra sua família; pensa repensa também Tereza, a Tereza do João ela vendo a meninada que em vez de estar na escola com os outros estão na escola da rua, é uma rua agora, ela vê quase da janela da cozinha com os trens de cozinha a se atritar escorregar cair barulhar, maior barulho no zunido do motor do trator, o instrutor ali um empregado improvisado como técnico mostrando onde passar ao tratorista improvisado igualmente pois é chofer no carro do prefeito que o PTB mantém com votos na mesa do executivo e ali a molecada atrapalhando – então comenta antes ralha pirralhos, comenta o que seria de trágico se um deles embaixo da roda da máquina... nem o capeta pode com menino! – pensa pensa pensa a mulher do João no João e quando não, noutro drama familiar: o filho. Onde estará o que estará fazendo no que estará encrencando e por aí vai fica a senhora quase que automaticamente no fazer seu trabalho doméstico na rotina do lar, com aquela exceção barulhenta de menino-trator-menino e ânsia nas irresoluções pela situação da casa no perigo terrível, terrível e sem coração é aquela Marina... Ah e não pode semelhante se livrar da tristeza profunda que lhe atinge o sentimento, antes com a iminência da comadre Inês perigando; e depois, tão recente o falecimento dela... daí chora, chora como uma criança a velha, mas a gente não volta por idoso a ser criança no verter fácil suas lágrimas! Chora às vezes sem chorar, chorar no sentido exterior a contento do exterior com a vizinhança de olhos arregalados vendo a gente sofrer... A pobre minha melhor amiga, melhor não: única confidente (e aí Te despenca, não sabendo se chorando pela perda de Inês se por si mesma desfalcada de um ombro amigo, pois nada espera nisso do João:) o João no empório por enquanto... agora irá na estrada virando rua, se bem um mal porque rua sem gente, sem gente nas casas sem casas à gente, quantas vezes Te preocupada com o esposo na saúde abalada e se cai da bicicleta nas vertigens constantes e estando nesse ermo que chamamos rua, uns dois quilômetros separando o centro urbano da periferia deles quase subúrbio quase rural no município de Venda! quem o socorreria não tendo sequer vizinho desconhecido (numa cidade pequena não existem mesmo desconhecidos, o que não conforta nem convence uma boa tristeza e o pessimismo dessa mulher avantajada na idade na estatura na ossatura na magreza e quiçá na fraqueza...) O esposo não pensa nisso, pensa emprego quando muito e no próximo próximo a si no balcão da loja, a conversar a falar coisas pertinentes ao trabalho ou coisas fúteis a se jogar fora, abobrinhas borrachas, ah esse povo criador do nada nas coisas. Trabalha.
          Trabalha na venda, enquanto ela decerto presa socada no lar, se lamenta, decerto não sabe o que falam e falam como Venda Grossa mudou. João fala e fuma e mais fuma e atira o toco e fala e critica e brinca e goza a seu jeito com fregueses amigos de anos, alguns também inveterados fumantes; a um deles corta pesa apresenta registra no pindura (pra Marina reclamar o tamanho da dívida) acresce na conta o pedaço de fumo em nome do freguês, o freguês a imediato fumar experimentar o fumo de corda como dizem e não de papel no maço como ele e era assim também compadre Dito, o patrão pedia sempre na passagem do caixeiro-viajante o fumo goiano, o mais procurado que o mineiro na casa, nos secos & nos molhados; e agora o viciado examina na palha de milho o picado de fumo já aceso o cigarro aspirado tossido o veneno no ar e bafeja e completa: este é dos melhores! diz realmente “dus mió” ao João sorrir complacente e amigo e assim o balconista se distrai no dia, ah como seria triste só pensar tristezas! Em casa a tristeza do cismar dela.
          Te critica sempre a fumaceira do homem, lembra entre-tanto que a mãe dela fumava até mais que o pai, e chora na lembrança desses finados queridos; o pai ela nem foi ver sepultar, soube muito depois por carta dum mano, a genitora sim foi logo chorá-la. Está hoje no vão do pessimismo, nem a novidade do trator ali perto a consola nem a desvia da necessidade mórbida de sofrer; nem isso a distrai nem os meninos berrando, ela sem meninos eles de anjinhos lá no cemitério e o único menino sumiu – tudo colabora ao seu estado hoje...
          Hoje o João tem demais distração, inclusive um compadre chegado do sítio contou-lhe piada; mas tem mais: houve briga ali na frente, os pinguços discutem se pegam se ofendem se desmandam, ‘mandam’ vir o cabo, chega sem viatura não tem viatura, aparece a polícia fardada armada até aos dentes nos seus penduricalhos de revólveres cassetetes algemas o ‘delegado’ com seu praça, abordam os encrenqueiros, todos ali na assistência, os moleques de olhos arregalados por algo suculento a discutir no recreio da escola; os outros bebuns os empregados da patroa de cara fechada vendo; o João inclusive se distrai ora sorrindo ora indignado – é o público naquele espetáculo a estufar os brios dos policiais. Consumatum est. Mas não se acaba, o posto policial tem ainda de registrar o boletim para a ocorrência se despejar no meio da burocracia e decerto se perder; e depois solta os homens, os quais se entendem e vão pedir um trago outro no balcão da venda. Tem mais ainda, pois a pobre Venda é rica em ladrões de cavalo de galinha de roupa deixada no varal, Te tem horror esquecer as suas peças balangando ao vento presas no fio enferrujado e comenta com as vizinhas, só evita aquela entrona Maria que foi nova velha agora e ameaça se mudar.
          Ela vê a rua com feição finalmente de rua mesmo, uma via pública alinhada pra gente pra automóveis ou pra jipes e pra bicicletas como a do esposo dela, vê porém faz um não meneando a cabeça para e pensa volta a sofrer seus dramas realimentando dramas, agora não chora demora apenas nas coisas que faz sozinha, ralha o Peri por correr atrás da choca alvoroçada; corre nos seus passos lerdões ela mesma ao cocho, despeja a lavagem àquele manhoso chorão; tem a panela no fogo no fogão e ainda tem a bita a pastar, venderam os cabritinhos para virar assado no Natal mas a cabra precisa se alimentar, a seca braba de meio ano comeu as plantas os matos as ervas tenras próximas e... ih que raiva, desprendeu-se um lençol caiu molhado do varal, precisará tomar a roupa e daí lavá-la de novo e de novo estender prender à secagem; e tem ainda a comida. Puxa, quanto a fazer no quefazer nessa laborterapia com receita bem caipira!
          Tem dia, noite, a tentar conciliar o sono – e aquele ron-cador no leito conjugal não a deixa – quer dormir fugir do cansaço em excesso, não ver mais as preocupações dessa existência sofrida e aí, aí sim não vê mesmo e dorme. Mas sobrecarregada sonha, Donatê sonha demais e mais sonhava quando jovem; sonha sempre coisas ruins, pior nisso que o João sequer lhe ouve as “bobageiras” ele afiança tudo não passar de criações bobas e nos últimos meses nem isso: não quer conversa com a esposa. Para quem então narrará seus sonhos e em meio deles os pesadelos? à nova já velha? não confia também nas outras vizinhas ali perto e são tão poucas essas a entrar desabafar, antes havia a comadre Inês, a comadre... E além do mais há coisa que mesmo sendo sonho não pode relatar para gente de fora: por várias e muitíssimas noites tem sonhado com o esposo sentado dormindo sob a gritaria de gol no sofá, daí se esfria ela, no sonho, se esfria apalpa o homem e o companheiro não dorme e daí ela chora mais um drama, drama novo velho como o mundo que é a viuvez... Nem o João ouviria desperto a bobageira dela, nem podendo contar o pesadelo à vítima, mais vítima ela. Tem dia na noite ser assim. Nas últimas noites ocorrendo sempre o sonho-pesadelo.
          Então acorda no quefazer, já fazendo. Está puxando fora do caixão do poço a água para depositá-la e derramar como sempre primeiro no próprio caixão e indo cair num plaft lá no fundo do poço água na água; e depois fora do balde no balde para levar ao pote na cozinha.
          Deixa de vez dormir sonhar triste com a realidade do seu dia, batente sem patrão a patroa sendo apenas a consciência – seria diverso fosse o João, sujeito à tríade batente-salário-patrão; acresceria ameaça do desemprego... e o que fariam dois velhos (agora se põe e joga nesse fogo apagando o marido:) quem e onde arranjar o sustento numa pobre vila como Venda? se fosse lá no sítio do pai – ela mordisca a realidade com o passado já inexistente todos os seus mortos, só os meninos seus manos perdidos na capital, a si também mortos... – lá na roça ninguém morreria de fome, muito menos nós idosos (aqui evoca um costume secular na gente deste país, que consiste em respeitar alimentar seus matusaléns e enterrá-los com dignidade mesmo sendo pobretões:) ah se fosse lá aqui e ontem hoje – que farão agora!?
          Que fariam se...
          João põe, descartando minutos o emprego e a ocupação na sua labuta ali no seu hoje, põe essa terrível ameaça sobre os seus... os seus! ora, somos eu e a Te, o menino sumiu não se pode contar com o filho – ou pior ainda com aumento nas despesas da família sem emprego: não poderia aparecer esse filho no lar de repente numa fuga dos seus fracassos, haja vista a amizade e o interesse nos maus elementos! vixe se a Te soubesse nisso metade do que sei, o que me contaram o que descobri do nosso Pedro... Não, nunca saberá ou fico viúvo. Mas como nos arranjaremos depois, com a moléstia já me comendo por dentro e por fora essa patroa no armazém? Não é bom nem pensar.
          Não obstante e embora a ferocidade da nova patroa, Marina a perpetrar sub-repticiamente mudanças pra melhor no estabelecimento comercial herdado. Ameaçando e pior cumprindo ameaças, já cortou gente servidora... porém empreendeu transformações válidas: educou sua gente na higiene, por exemplo. Antes e se pode reconhecer em toda Venda e sobretudo entre os machos da espécie, eles sem quaisquer cuidados. Usavam, ou “desapertavam” no dizer caipira, urinar e imediato a fazer o que fazer, sem limpeza. Não! diz Marina: exijo que lavem as mãos, pôs sabonete pôs uma toalha que logo andava suja, pôs uma pia perto do mictório, este realmente um sanitário mambembe e chulo existente não só ali mas ali por toda Venda Grossa, a privada de buraco, a latrina malcheirosa... Ali pertinho pra se limparem. Ou se fosse ao contrário, o que teria ela mesma aprendido no colégio onde a oposição paterna lhe enfiara pelas goelas sem voto!
          Na questão da possibilidade a ser mandado embora não quer no momento pensar o homem.
          Não pensa, salva-lhe dona Tianinha. Tianinha sorri com boca murcha estica encolhe as rugas do rosto, parece uma velha índia a cabocla. Porém dá-lhe lição e tanto: com o dobro de sua idade sustenta a família dos filhos, os filhos ou fugidos ou doentes ou desempregados ou mortos, a lhe deixar a herança dos netos para dar de comer; ainda compra roupa a eles e compra material a alguns deles que a caixa-escolar não tem para oferecer. Sim, não paga aluguel da tapera onde residem nem impostos aos famintos da prefeitura, sem ser da oposição e sequer vota com seu analfabetismo e sua ignorância. Contudo para sustento faz seus doces e sai como agora vendê-los numa cesta grande e pesada à sua pouca força; faz troco usando ainda os dizeres mil-réis aos cruzeiros; trata a moeda que guarda numa socolinha suja, os doces limpos limpa, a moeda de cruzeiro a si “destão”, dez tostões. Agradece o freguês, o freguês João da venda agora no meio aos fregueses da loja na porta do empório é um freguês dela. Agradece, vai oferecer paçoquinha e cocada noutras portas noutras ruas, estas que não passam de carreadores sem placa com nome dum figurão.
          Mais outros o tiram da enrascada dos maus pensamen-tos, o padre por exemplo. Vem José de cabeça branca mas lú-cido convidá-lo e aos colegas ali no empório à quermesse, para o fundo assistencial da igreja. Deixa-lhe um santinho, sem saber se é devoto de São Pedro, imediato e por intuição o ‘fiel’ leva a mão na cintura no molho de chaves que o deixa mais pesado dum lado que doutro mas João sequer percebe o que fez; por dentro o balconista não tem mais crença alguma, se teve alguma um dia; entretanto agradece o pároco amigo igual os companheiros na venda.
          Em casa, na casa de João, Te não sofisma a tristeza sem solução nessa altura de sua contagem cronológica, não tão rica porém rica, mas se encontra sem forças, nem tanto a física mais por perda da coragem, estando longe da mulher jovem de antigamente quando se casou com um jovem, então pouco mais velho que ela, entretanto um sujeito sem maiores expectativas que não o dia a dia o trabalho e distrações curtas e chãs; o que à moça roceira e dependente dos pais já era uma conquista; quem sabe os seus não aguardassem netos sobrinhos e vida não luxuosa porém independente, sobretudo vivendo na zona urbana; os parentes desconheceram sempre Venda Grossa, uma cunhada de João apenas ela do sangue de Te a vir numa visita e assim mesmo na morte do quinto falecidinho; que ideia poderia compor num estágio desse tipo!
          Naquela tarde, no crepúsculo meio apagado pois até o sol se negando a despedir-se dignamente, o pensamento mesmo ele a pensar um fim sem luz – o próprio dia fora apagado cinza poeirento e mais poeirento na via de ligação de Venda com sua periferia em vista o remexer da máquina de terraplanagem no serviço na rota reta do serviço de João da Tereza rumo à Marina; nessa altura já sem atrair como ontem os meninos azucrinando o funcionário da prefeitura raiar-lhes os abusos. Então a envelhecida senhora, sentada numa cadeira tosca fora da casa na casa dela lia... Isto chega a ser inusitado nela; Tereza envelhece todavia é troncuda magra sem estar esquelética, alta ainda a ultrapassar a altura do marido, o qual se ela encolhera encolhera também ele, sem desejar manter a diferença a menor e os centímetros... Ela não é uma intelectual mas roceira urbanizada, uma ‘urbanoide’ ainda a falar no jeito rural, sem chocar os circunstantes também eles da mesma origem, não do mesmo lugar de origem, e assim sequer notam a fala. Enfim mera doméstica, cansada; sendo esdrúxulo por ter ao colo, não é bem colo mas nas coxas cobertas por vestido caseiro longo, um novo nunca em uso e talvez superado pela moda por fora de moda, tem a senhora nas coxas a cartilha religiosa ou breviário ou livreto de catecismo, um volume trazido ainda de sua gente na sua roça, não obra ofertada na igreja do padre José, este ainda a sair na época do seminário. Essa, esse. Pôs uns óculos que o João encomendara fora a trazer do longe para ela as letras mais perto; tenta ler e ainda as letras não param quietas para a mulher soletrar, descansa já descansando o físico do trabalho doméstico na cadeira, descansa retorna insiste desiste por fim: deixa de vez o estudo vai ver suas coisas mais palpáveis e que mesmo cega sem óculos encontra para fazer iluminada pela rotina, fazer ou refazer, acabar a janta por exemplo e tem a roupa seca empilhada noutra cadeira a passar, toma brasas do fogo por baixo da chapa de ferro no fogão, então enche o ferro espera um pouco o aquecimento e se põe no trabalho, houvesse deixado o trabalho.
          Outra coisa sente haver mudado nela nesse entardecer na existência; e isto equivalente na parte macha da família: está mais lenta, não conta demais a dor as juntas os ossos as doenças corriqueiras, sente que o movimento é agora comparando com tempo da chegada em mudança para Venda Grossa bem mais lento. O João semelhante – além das desgraças que o atingem seja na loja seja no corpo físico – ele também em tudo nada faz rapidamente; aqui uma desculpa e tanto para não consertar a cadeira ou fechar o buraco pela lasca escapada de cerca onde fogem galinhas a perigar desentendimento com vizinhas, mormente aquelas que não vão com a cara da gente e na contrapartida a ser o mesmo a gente não se simpatiza com elas. De fato o homem anda moleirão. Não: mais lerdo e por lerdo sem vontade pra fazer coisinhas no lar. Ultimamente vem “pregado”, assim seu dizer ao chegar do trabalho; liga o radinho por hábito nada mais, nada mais interessa; daí se escarrapacha no sofá, não comenta não reclama e pior: não fala; com ela não fala, como lhe fosse inimiga a companheira de tantos anos. Em verdade seria mentira dela dissesse desejar manter com o esposo um longo papo. Quer saber, se pergunta e se responde: não falo com ele ele não fala comigo, não falo com ninguém mais. Aí se lembra outra vez do filho... será que semelhando o antigo costume materno, não intercederia junto a essa pasmaceira na qual se tornou seu lar, será que, presente o rebento, a mãe não faria mil indagações ao Pedro se viesse a se tornar um filho pródigo! Ouvira Te a palestra sobre o filho pródigo quando João a levava à missa, ah quantos anos não via não ouvia as prédicas! Pensa e enquanto, trabalha.
          Ainda tenta manter a cômoda limpa, limpa também ou-tros móveis da casa e inventou agora de ir na conversa da Maria Velha ex-nova vizinha, a qual lhe passou um antídoto ao medo das baratas: barata em casa! capaz, diz Maria, espirro ‘flit’. O João lhe trouxe da venda a bomba de veneno e o inseticida fedorento. Daí põe sem medo, só com pouquinho temor, as mãos a afastar tal cômoda de peso incômodo. Limpa mas não tenta mais arredá-la da parede, não por causa de barata por causa da idade as dores a falta de coragem a coragem empalidece tudo empalidece, ela reconhecendo, como pálido o fim do dia escuro e já nem mais é hora de sol, a noite entrante, a noite em seu dia. Está nisso quando chega a arrastar a bicicleta o marido...
          Igualzinho a companheira, lento cansado e pior a piorar o ânimo na casa – traz um semblante carregado dolorido cin-zento, um aspecto de final dos tempos. Isso não anima Te, a qual aparece na sala à chegada do homem, vai tomando rumo ao quarto, onde ela sempre nesse último ano é mais ela mesma, decerto mais confiante na solidão e na desilusão. Todavia o consorte extrai do bolso traseiro, inclusive a lhe cair o lenço, um envelope comum; ela já quase a penetrar o aposento conjugal quando se vira vê a carta na mão do esposo.
          Foi com esperança, a qual nunca se apaga num coração de mãe, que voltou ao sofá pegando a correspondência trazida lá do empório, desse correio de Venda Grossa. Entrou no quarto, finalmente, com a missiva supostamente do filho sumido, o coração num bater forte e disparado.
          Será que haveriam raios solares a salvar uma tarde tris-tonha...




Cap.25° 

Naquele dia a mansão de Inês foi um rebuliço, o inusual no ferir a rotina num entra e sai nervoso levantando curiosidade nos curiosos e suspeitas nos levianos de Venda Grossa. Os de fora olhavam para ver, visto muito frequente fazendo não ver para constatar o que não precisa ser divulgado. Ou não... Os da casa sabendo perfeitamente haver agravado a crise da senhora, quase todos aflitos e ciciando, os mais religiosos ou por outra os que tendo fé se apegando nessa fé a rezar contritos e não a fim de apenas mostrar.
          Antes houvera no dia anterior um choque desnecessário, não fossem desnecessários e até evitáveis os conflitos; o que redundaria na demissão sumária da vítima pela patroa – não a senhora Inês mas sua preposta, Gertrudes. A empregada nova (sempre havia outra nova, ninguém aturando as rabugices e exigências da chefa) essa jovem e inexperiente criatura, no arrumar limpar o quarto da enfermeira da senhora, tendo quebrado inadvertidamente um objeto sem grande valor, ganho valor inestimável então, como pretexto à irritação da solteirona fazendo as vezes de proprietária do palacete. Praticara mais erros (os quais não passavam de meros enganos): Gertrudes a flagrara também com um livro seu aberto... Ora, a criada analfabeta e se letrada somente o seria na língua pátria, mesmo assim não sabendo alemão. No entanto foi acusada pela tentativa frustrada chegando na hora do crime a dona do quarto! Ali mesmo fora demitida saiu chorando da mansão, sumiu como outras tantas novas então velhas entre servidoras.
          De maneira que o ambiente não era dos melhores no palacete; e agora, na crise que seria a última de Inês, pioraria consideravelmente, por tocar a saúde da senhora.
          O entra e sai aumentou e decerto ampliou-se no mundo dos curiosos. Gertrudes determinara – enquanto ela mesma cuidava com mais afinco de Inês agonizante – que fossem buscar o doutor Ulisses, tarefa do pessoal masculino, o chofer saiu imediato no automóvel da família, quase o único novo e de marca em Venda, os dos outros moradores inclusive o do prefeito eram bem usados; além de ainda não haver ambulância no município, o que antigo pedido à burocracia da política estadual. Sempre a tônica de os núcleos menos importantes demorar a serem atendidos. O motorista se deslocou rápido, rápido e cedo veio o médico, chegou tarde... Inês falecera minutos antes.
          Daí, quer dizer havendo tal estado, foi que o movimento na residência mais importante do lugar mostrava anormalidade a aguçar curiosos. Mil coisas se falou, mil e tantas foi preciso inventar; contudo algo verdadeiro e que as horas provariam a sobejo, sobretudo quando do aparecimento do clínico, o qual já visitava a enferma anos e agora a chegar como que a dar um ultimato. Claro isto abuso de linguagem. Daí concluiu-se imediato pelo agravamento do estado da paciente; embora dias antes algumas servidoras dessem indevidamente com a língua nos dentes, extrapolando e mais ferindo ordem terminante de Gertrudes, que ameaçava mandar embora quem noticiasse algo do interior da casa e mormente a propósito da senhora; mas principalmente da nova senhora, a própria Gertrudes, isto seria crime de lesa-majestade. Outro dado na semana foi a presença de padre José; uns até chegaram a inventar ser à extrema-unção... Interessante, na hora fatal não deu tempo chamá-lo, pegos todos quase de surpresa absurda.
          Não obstante, podendo parecer abusiva ou doutro lado até relapsa no cumprimento de sua função, a enfermeira era séria e cumpridora à risca de suas obrigações; levava os atos do seu trabalho ao máximo do que se exige. Era também ciosa de sua altura profissional e de sua posição dentro do universo doméstico; também consciente de sua posição cultural. Em que não precisando abusar, visto os outros servidores, homens e mulheres cada qual na sua função (ela tendo praticamente um cargo não mera função como enfermeira classificada diplomada) – todos inferiores analfabetos ou semiletrados; verdade que embora e apesar do rigor a que eram submetidos, cumpriam não por medo mas honestamente a tarefa respectiva.
          Enfim a situação na importante casa de Inês mostrando lamentável crise, não seria de estranhar que a levasse ao óbito; e a despeito disso o homem comum a rodear o palacete frequente seria pego desprevenido, não apenas por informes insuficientes filtrados desde o hábito da casa; mas porque à gente simples ou simplória inocente até prova em contrário é sempre o inusitado o passamento de alguém, sobretudo alguém importante. Basta dizer que no dia posterior as autoridades locais desejavam velar a grande dama na câmara municipal, o que custou muito blá-blá-blá político; pleiteava o próprio prefeito a sala acanhada do executivo. No entanto ambas casas oficiais mui pobres diante do fausto no palacete da morta. Optar-se-ia então por ele; isto é: Gertrudes determinou assim. Diriam indagando os que falam e falam às vezes indevidamente, por que motivo a última palavra não foi a de Giovanni... O dono de tanta riqueza chegou quase na hora do enterro da esposa; aliás foi necessário aguardar o milionário, então numa viagem, para que fossem oficializadas as exéquias. A enfermeira cuidou de tudo, em tudo tomou decisões, inquestionáveis.
          Mas a crise teve outros desdobramentos e alguns lances terríveis, antes e após o desenlace; mais à enfermeira que aos subalternos: Gertrudes só podia contar em determinadas horas consigo mesma, não podendo ceder a outrem e sequer dividir o peso das decisões – aqui mostrando determinação e até algumas mazelas próprias do foro íntimo, como num momento não ter certeza absoluta sobre algo ou com dúvida haver ministrado errado o remédio certo; e nisto as doses corretas. Era Gertrudes irascível e consciente de sua autoridade, porém honesta; não conseguiria dormir, caso pudesse haver dado algo que piorasse o estado da enferma a levando à morte. Não! A mulherona criteriosa. Enfim, de confiança na casa e aos parentes de Inês.
          Agora, quando a tomar uma decisão ou expor uma resolução, mesmo prejudicando outrem e mesmo com prejuízo de suas próprias vantagens – fazia, enérgica, cumprir. Daí o medo e inclusive horror terror pavor sentido por subalternos. Também um ser frio, duro, não usando meias palavras. Pior nisso tudo era não angariar qualquer amizade. Não cultivava camaradagem; igualmente não podendo confidenciar o que mais lhe doesse no íntimo. Em suma, Gertrudes uma pessoa solitária na multidão... na coletividadezinha da mansão e inacessível também ao povo inculto de Venda Grossa.
          A enfermeira fez o que à sua altura no transe. Contudo Inês faleceu e falecendo trouxe alguns problemas sérios à gente a si ligada, alguns inexplicáveis; inexplicáveis aos olhos comuns, também à compreensão das autoridades municipais e amigos chegados da família como João e Tereza, compadres. Pedro não apareceria ao funeral da madrinha que tanto se preocupara com ele, sumira e continuava sumido. Mas esse não foi o único embaraço nem a única confusão ligados ao infausto acontecimento, isto em virtude a velha senhora ser demais importante na região, além ser cidadã e maior proprietária de Venda.
          O corpo autorizado por Ulisses e por ordem de Gertrudes foi transladado à cidade grande, pois a urbe pobre não possuía se não velório pobre a pobres, que as mais das vezes velam os seus na sua própria residência no costume caboclo; o velório municipal era acanhado, não serviria aos poderosos; além do problema do tratamento do cadáver por uma empresa do ramo, não havendo serviço funerário adequado. Então chegou de fora um carro funerário, negro, para levar a senhora; com muito respeito e cuidado conseguindo-se pô-la num caixão especial. Inês, baixinha e estando magra como sua alta comadre Te, nos últimos meses de sofrimento estufara; no momento da morte, ao exagero, fosse em função dos remédios caros e pesados, fosse por causa da moléstia incurável, fosse por outra razão, avolumara de tal sorte, a ponto seu leito ter sofrido alteração para conformar a doente... Assim pereceu numa quinta-feira e já na sexta levada à funerária noutra cidade para receber o serviço de embalsamamento e o preparo ao velório, estabelecido para a sua própria mansão, espaçosa, embora os votos da câmara e da prefeitura.
          Todavia ocorreram mais problemas, ainda no quesito funerária. Não se sabendo bem como, isso decerto ilegal ou ferindo as normas, mas Gertrudes arranjou ordens oficiais, in-clusive do Dr.Ulisses – para ‘fiscalizar’ o trabalho dos profis-sionais junto ao tratamento do cadáver da patroa... Depois, bem depois, certamente a consciência exigindo ou na falta de confidente adequada, acabou relatando (e o fez no tim-tim por tim-tim minuciando cada fase) escolhendo os ouvidos de Maria, a graciosa e eficiente subalterna. Descreveu – ou terá desabafado? – descreveu o que resumido nestas linhas: a defunta enorme, inchada, estufada em não caber no caixão, foi pressionada por um gigante grosseiro funcionário, o qual empurrou com toda força o peito da mulher, este cedeu afundou subiu imediato um cheiro nauseante, mesmo à forte e experiente Gertrudes, habituada a lidar no meio hospitalar e ver cenas tão chocantes; aplicou-se líquidos adequados, neutralizando o fedor enjoativo; após, umas jovens fizeram a maquiagem do corpo: limparam tingiram aplicaram substâncias e cremes devidos, usaram pente, enfim fizeram da velha nova nova velha, outra velha, uma idosa rejuvenescida e bela, o quanto possível. No contar, no ouvir, Maria debulhou-se nas lágrimas sentidas, a narradora permaneceu séria, constrangida decerto.
          Novamente o carro fúnebre, agora de volta.
          No velório, até com permissão da gente pobre visitar aquela autoridade de alta moral e caridosa, no velório luxuoso as velas iluminavam mostrando Inês remoçada. Várias pessoas do povo a comentar “como era bonita!” e o costumeiro dizer “ah, parece que está dormindo”.
          Inês, embora o inconformismo choroso da comadre Tereza, a comadre Inês estava dormindo.






Cap.26° 

A situação no palacete de Inês alterou-se consideravelmente após o passamento e imediato quase o passamento dela para a história de Venda Grossa; estimando aqui dizer que a história não se preocupa demais com seus personagens, mesmo as figuras básicas, com tais personagens enquanto vivos. O espólio tornou-se também espólio do município e as discussões sobre direitos deveres créditos débitos e débitos fiscais taxações embromações quiçá corrupções se prolongaram anos. Imediato, ou seja os primeiros dias após o passamento, foram igualmente as discussões mas tudo podendo sintetizar-se no impacto do acontecimento.
          Giovanni, detentor legal herdeiro ou mais que simples herdeiro, não ficou para assistir a conversa curta dos moradores curiosos nas primeiras semanas, nem a longa dos políticos demais interessados nos ganhos (ler-se votos) oficiais oficiosos e particulares. O presumível proprietário de tudo, inclusive dos débitos fiscais... – esse não ficou pra ver. Deixou um lugar-tenente preposto a fim de representá-lo, certo advogado com sobrenome desses embrulhados para se ler, piormente entender, mas de prenome nacional José Francisco, que além do mais a falar acaboclado igualzinho os da terra e da região; contudo um ser formalista e quase cerimonioso.
          Despachou oficialmente indenizando a todo-poderosa Gertrudes; pediu-exigiu que se calasse no que vira e via, para não ter que mais ver... Por via de dúvidas fê-la desocupar o beco (isto expressão usadíssima nessas bandas: que fosse de vez embora...) As pobres e ignorantes servidoras dali da urbe mesmo, essas dispensadas com um agradinho financeiro; elas então a engrossar a estatística do desemprego; o pessoal masculino tendo a mesma sorte, ou falta de sorte, um só entre os homens, o motorista da mansão, apenas esse criou algum caso e foi levar pedidos e depois rogos com sabor de imploração à burocracia na justiça do trabalho na mais próxima cidade grande, Venda somente grossa no seu nome contudo sem recursos de ordem oficial e de ordem administrativa. Poucos meses após esses transtornos na vila, menos de ano, o advogado também deixou se não o cargo a cidade.
          Assim não virou esquecimento o palácio de Inês em Venda mas ao menos nestas linhas, a se findarem.
          Disso tudo restou ainda um fausto, dos menos luxuosos e exigentes, que foi a sepultura de Inês: bem superior a ‘moradia eterna’ no dizer comum, superior às covas rasas de sete palmos a ocupar o cemitério municipal; algo incomum com uma estátua religiosa de anjo – o que negando a simplicidade da senhora; incomum sim e objeto de visita aos que pensam tudo haver acabado, continuando na imagem exterior o maravilhoso... A comadre Tereza foi depositar sua flor no túmulo da comadre mas não ficou apenas nisso: chorou muito a sangrar o coração.
          Te andou chorosa dias quase mês, aqui já a irritar João, embora este sentisse a falta da comadre assim como ainda sentindo a do filho sumido – numa viagem dizia Tereza para outrem, não viagem do tipo da de Giovanni – viagem falava aos vendenses conhecidos, uma já sem solução ou sequer esclarecimento corriqueiro.
          Continuava a rotina sua rotina, aguardando ou não a rotina os tempos e tempos amém.
          A loja, cada vez mais movimentada, os penduras, diziam “pindura” cresciam e crescia mais ainda o dinheiro na caixa registradora metálica, com sua manivela e a fazer o plim sonante em cada operação no manuseio por uma empregada trabalhando só na máquina a receber pagar dar troco, essa caixa fazia valer seu sininho na entrada e saída de moedas e notas (por vezes malcheirosas de arder narinas, sobretudo as de um e dois cruzeiros, mil vezes usadas passadas gastadas rasgadas coladas certamente pela freguesia) os plins iam num crescer aumentar o volume da conta familiar nos bancos fora de Venda. Ultimamente fora criado um posto bancário oficial ligado ao governo do país, a pagamentos e serviço de cheques de pouca monta. Isto pretendendo afirmar que a principal venda de Venda Grossa crescia nos lucros e se firmava. Tudinho dentro do aumento da população da urbe, onde até algumas residências de alvenaria recentes apareciam na área central; a periferia continuava periferia.
          Na periferia o sofá ia bem... João a chegar cansado, estafado, talvez adoentado um pouco, bastante pois exagerada-mente aumentara inclusive sua responsabilidade lá no arma-zém. Os herdeiros exigiam muito, o salário não exigia nada quase além da rotina: o custo de vida e a inflação lhe engolindo ganhos, os reajustes lerdos e de pernas curtas. Assim havendo um descompasso entre ganho, a renda exígua, e a sobrecarga de tarefas ao rapaz (isto força de expressão num senhor maduro...) Ora, também válidas as afirmativas de dinheiro curto trabalho muito à população restante de Venda. A par disso, a saúde dele claudicava, batedeiras incômodas os ais da existência, a ponto do chefe de família precisar reclamar lamentar com a chefe do lar, a Te se prestando muito a esse precioso mister. Ouvia ouvia ela no retorno do companheiro à tardezinha ou mesmo de noite quando o acúmulo nas vendas no período de safra e portanto sobrecarga no serviço. Embora persistisse o terrível mutismo no casal – agora o marido abordava Te para suas queixas, aquele negócio que o levara a procurar às instâncias do patrão o Zé da Farmácia; e queixar-se logo ele que não era de abrir a boca, não sendo a falar de futebol; inclusive seu Palmeiras andava não andando, sem vencer seguidos campeonatos, o Corinthians melhor na tabela e daí as gozações do fregueses, o que o chateava, aparecendo em casa irritadiço. No geral ainda na sua volta à periferia se deixando ficar quase prostrado no sofá, no seu buraco no sofá; mas sequer ouvindo bem o rádio. Claro, na loja desejando ou não, escutava o rádio barulhento à freguesia.
          Assim, cansadíssimo, chegou um dia já noite entrando ele e se escarrapachando no sofá, nem sequer tirando sapatos; o comum era atirá-los de qualquer jeito no chão da sala, calçar chinelos, falavam chinelas em Venda. A seguir se sentando desajeitadamente, se ajeitando a acomodar-se como possível ou como exigindo o corpo no seu querido sofá. Te? a ela um oi do costume, não pronunciado, ela ao vê-lo e após indo ao quarto do casal.
          No quarto – onde a cômoda o guarda-roupa malas e papéis, documentos qual escritório improvisado, o improviso tão ao gosto brasileiro – no quarto se pôs a examinar um envelope, por sinal trazido do serviço por João; primeiro pensou ser do filho; já quase desistira receber notícias dele, mas às mães o quase diz o possível... desse filho único entre a série morta de crianças, pensou num relance poder saber agora a viagem; disparara o coração materno no tomar o envelope nas mãos. O esposo trouxera a missiva, a venda tornara-se nos últimos meses espécie de agência postal, toda correspondência ao município, da urbe ou da roça, deixada no armazém e os empregados a ficar responsáveis pela entrega ao destinatário no balcão, além de venderem selos e receber cartas para envio fora; no caso aqui, o meio-chefe destronado, pois o João agora com os filhos do compadre Dito, por instâncias de Marina, eles haviam-no rebaixado à condição dos outros, nivelando o empregado aos colegas – quem dava e determinava então as tarefas sendo Marina, a mais velha do velho – no caso dele ele mesmo recolhendo suas cartas e claro as levando pra Te. Assim o dito envelope.
          Não era carta de Pedro à mãe, porém de Domingos para o filho dela.
          Te guarda aquilo, meio confusa e mui curiosa; não por ser mulher, que o macho acusa de extrema curiosidade, apenas por ser curiosa. A seguir foi ajeitar objetos, guardar peças de roupa passadas anteriormente. No entanto não suportou abriu trêmula o envelope. Antes não tivesse cedido à curiosidade...
          Domingos, em letra irregular mas firme, dizia uns des-propósitos. Quer dizer, sua pouca leitura acusava serem des-propósitos e havendo na missiva do amigo do filho ao filho uns anuviados demais nebulosos ao seu entendimento, à com-preensão dum ser comum e ao mesmo tempo de moral con-servadora e tradicionalista. Releu vezes sem conta, sem se es-clarecer a contento, sobretudo em certas passagens – ainda prejudicada nas palavras escritas embromadas escondidas riscadas borradas quase de propósito a descartar e descontar, fazer vingar o espanto na cabeça de supostas mães obtusas tanto quanto curiosas e teimosas. Em resumo havia uma parte comprometedora ao seu Pedrinho tão esperado, o qual não escrevia nunca e agora enviando por intermédio doutrem notícias (ah e que notícias!)
          Não esperou a senhora mais adivinhar os rabiscos de Domingos ao filho. Levantou-se da cama onde decifrava os hieroglifos e se dirigiu à sala ao sofá ao marido, compartilhar com ele sua dor. João – ela disse de pé no seu costumeiro abordar o marido – João, escute e me ajude neste trecho da carta que Domingos escreveu ao nosso Pedro; sequer aguardou que o esposo a condenasse admoestasse pela invasão da correspondência alheia e já começou gaguejante na leitura ao companheiro lá embaixo sentado no sofá:
          “Meu querido Pedro, você é a melhor fêmea que eu já...” e engasgou nas lágrimas dum choro quase gritado; que o esposo não ouviu, dormindo... Ela o examinou reexaminou, farejando e flagrando uma nova tragédia, então gritou mais alto, suficiente para todas vizinhas novas e velhas ouvirem, berrou:
          Você não dorme, está frio! 
                    
 Marília agosto 2012















































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:













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