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Mil e Um Contos
Moacir Capelini
moacircapelini@gmail.com
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“A casa do homem é
sua fortaleza e o seu presídio.”
Hernani Donato
“Um
pintor pode destruir a obra-prima que ele mesmo criou,
um
tufão consegue arrasar uma casa no alto da montanha,
mas ninguém evita que fiquem os escombros.”
Lígia
Junqueira
Índice
1°
- Estória Curta de São Véio, página 5
2°
- Chifrudo Chifrando Chifrado, pág. 7
3°
- A Comunicação, pág. 13
4°
- Sem Saída, pág. 17
5°
- Extrato da Agenda do Rei, pág. 19
6°
- Um Crime Passional, pág. 22
7°
- Diagnóstico & Tratamento, pág. 25
8°
- O Vice do Presidente, pág. 28
9°
- Encrenca Direita da Esquerda, pág. 30
10°
- Os ‘Grilos’, pag. 33
11°
- Sistemática no Trato com Gêmeos, pág. 34
12°
- Família Nada Por Acaso, pag. 39
13°
- Xeretude, pág. 44
14°
- Um Rapto? pág. 48
15°
- O Boneco, pág. 51
16°
- Porre dos Grandes, pág. 53
17°
- O Bem do Mal, pág. 56
18°
- Neutrálogo, pág. 59
19°
- Sentimental, pág. 63
20°
- Em Desafino, pág. 66
21°
- Um Delito, pág. 69
22°
- O Caixeiro-Viajante, pág. 73
23°
- Às Armas, pág. 75
24°
- A Centopeia, pág. 77
25°
- Potranca, pág. 78
26°
- Questão de Sogra, pág. 80
27°-
O Terceiro Caso, pág. 83
28°
- Latifundices, pág. 84
29°
- Trastes em Reunião
Familial , pág. 86
30°
- Os Pardais, pág. 88
31°
- Desconversa, pág. 97
32°
- O Porteiro, pág. 99
33°
- João Mimoso, pág. 102
34°
- Como Distribuir Herança, pág. 105
35°
- Diálogos Vizinhos, pág. 107
36°
- Guloseima, pág. 110
37°
- Temporaneidade, pág. 112
38°
- Mais Uma de Harém, pág. 115
39°
- Pescaria de Arromba, pág. 118
40°
- No Paraíso, pág. 122
41°
- A Conquista de Júpiter, pág. 127
42°
-Como Foi que Uma Fêmea Ensinou ao Macho
Nova Posição, pág.130
43°
- Fia de Mãe, pág. 132
44°
- Um Jogo, pág. 134
45°
- Conchavo na Cúpula, pág. 135
46°
- Estória Nova, pág. 138
47°
- Análise do Homem que Matou Seu João da Benedita, pág. 141
48°
- A Casa Vazia, pág. 144
49°
- Linduras, pág. 145
50°
- A Porta, esta de saída – página 147
1° - Estória Curta de São Véio
Fosse
hoje ontem, ontem estória escrever-se-ia com agá, parece, fosse hoje, uma festa
mais solene mais moderna, com direito até ao uso do velório municipal e tudo o
mais. Ontem. Naquele tempo o velho Véio
já bem passado, fora enxadeiro de mão cheia, batera um pouco quando ébrio na
mulher, encrencara com vizinhos por porcaria de porco ou cavalo ou outra porcaria
mas não agora naquele ontem, às portas da morte; fenômeno mui temido então.
E
a coisa se deu rápido. O Véio caiu, tibum, todos correram assustados gritaria
choro lamentação e o não tem jeito. Chamaram benzedores curandeiros e demais
entendidos nessas ignorâncias, sem solução.
Arrumaram o cadáver bonitinho, antes
deram banho no corpo, os homens corajosos da fazenda não tiveram medo mas
temor, sobrando a lavação do corpo às mulheres, embora toda vida o Véio tivesse
sido vergonhoso diante de fêmeas, esse negócio de tirar a roupa ou fazer xixi
perto delas. Agora lavam limpam arranjam vestem o defunto põem terno emprestado
(claro não se pensando cobrar devolução) mesmo improvisam gravata e o nó da
coisa foi fazer o nó, nem os machos do mato sabendo. Bonitinho. Mesa daquelas
pesadonas no centro da sala de chão batido de terra. Caixão.
A estória do caixão, isso para homem
macho pra valer. Trouxeram da cidade um lindo de morrer, forrrado em roxo, uma
beleza; e deu trabalho na cacunda do cavalo que era mula andadeira, porque
caixão é o tipo de coisa desajeitada.
Velório. Flores íxe! rosas dálias.
Velas, bem cheirosas. E causos; como passar a noite sem café cachaça e piadas,
mas fizeram algum negócio trocaram porcos galinhas falaram também sobre colheita
e preços.
Visitas. Veio ao Véio toda imediação
inclusive os desconhecidos.
Os parentes contaram; contaram as
comadres. Foi de repente, morte morrida, essas coisas que se diz; houve quem
ouve falar ter sido como passarinho, decerto excetuando pardais – eles nestes
tempos parecem numa guerra a gritar brigar e fazer cocô na gente aqui em baixo
lá de cima. Um anjo, um santo o Véio.
No velório, inclusive antes do
velório, já repartiram o pouco entre muitos: a varinha de pesca, o Peri ninguém
queria por resmungão e muita pulga além de enjoado pra comer; alguma roupa
menos usada; os botinões quase novos o Véio andava de alpargatas quando parara
de trabalhar; leituras não tinha, analfabeto, assim mesmo herdaram dele um
almanaque de farmácia e um livro de São Cipriano que o padre dizia sempre para
não ler e os matutos obedeciam ‘analfabetizados’.
Ia nessa toada, quase no bota-fora do
Véio à cidade dos pés juntos; haviam cantado suas ladainhas, incomodados com o
cachorro, passa Peri! o besta enrolado debaixo da mesa que estava debaixo do
caixão do Véio. Cantaram contaram voltaram a contar as coisas. Faziam já
antecipando a reza de despedida do morto, pois não tem estória com defunto
cheirando mal apodrecendo antes de chegar ao cemitério na vila! rezavam os
finais sendo que o padre não quisera vir naquelas lonjuras mas havia uma
comadre entendida nas coisas do céu, estando os convidados a mais de mil salve-rainhas e credos e tudo o mais ali por
roda vigiando o Véio, o Véio urrou qualquer coisa.
Não deu pra saber o que foi, todos
espavoriram a correr a gritar a chorar, aí de medo ou terror!
O Véio sentou-se no caixão, trabalho
medonho desatar o pano de segurar o queixo, arrancar a gravata de matar mortos,
enforcá-los: sentou-se, esfregou os olhos, olhou por volta, viu velas pensou
saravá, esticou o pescoço para ver em baixo se assegurando na beira do caixão roxo,
viu o Peri alegre feliz fazendo festa.
Peri, nego véio, ocê taí!
Os outros? correndo até amanhã.
Marília agosto
2004
2° - Chifrudo Chifrando Chifrado
Vida restou Vida
Maria e José
José Maria
Maria José
Maria deu no pé
José sofreu Maria
Maria outro Zé!
Restou chifre é?
Era Maria
É José.
José e Maria
Figuras da Vida
Num horrível belo dia, aquele, José
coçou a fronte fronteira à frente na outra extremidade da nuca de fazer em
pressão buraco no travesseiro ferindo a fronha já passada com cheiro a misturar
suor e cabelo. Mas não encontrou coisa alguma, coisa alguma havia para haver
depois noutro belo dia horrível, este sim mais horrível, isto sendo licença
poética ou abuso de linguagem, pois ¡haverá mais horrível se horrível se
basta! Embora, não se modificavam as coisas, as
coisas iam crescendo haviam iniciado num belo dia, que não tinha ou teria sol
por ser madrugada, fator decisivo para existir insônia, ninguém insonia a sol
quente. Nem ele, o Zé, que na pia batismal recebeu o lindo nome de José Maria e
que era uma gracinha, fez buf, assim como dito, quando a aguinha salgada do
padre rolou inadvertidamente da testinha ainda não enrugada para os olhos, e
chorou após (o que não é azíago, o povo gosta quando chora no batismo diz que
dá sorte, tem futuro:) o futuro se iniciava ao Zezinho Maria, todos riram o
padre até o padre sisudo a mãe o pai o casal padrinho e um que outro
circunstante, sequer notaram os presentes o riso do sacristão e o do coroinha
porque era domingo de missas e chegavam muitos barulhando para rezas mas se riram
também. Ela não.
Maria José, Mariinha aos de brinquedo,
ela não ria, em-burrada, porém isso mais tarde, antes não se ria pelo castigo que
mamãe impiedosa lhe dava no canto por... já se esquecia porque nos esquecemos
das causas preferindo ficar nas consequências e a consequência mais
contemplável era fugir sempre dos outros, arredia, outros que fossem as meninas
e os meninos, o Zezinho entre os outros ou quem sabe por mais feio que outrem,
briguento e birrento; ainda por cima é bom mulher com mulher, faca sem ponta...
e homem com os moleques, moleque de fato inferna a vida da gente.
Gente revira gente o mundo um
turbilhão encontro de-sencontro o liquidificador social cheio de imprevisto,
então imprevisto.
Imprevisto aquele coçar, por comum
coçar. Não naquele lugar. Não, noutro lugar, na fronte. Bem naquele lugarzinho
em ponta, o Zé Maria tendo duas pontas, a testa alta chata nada inclinada como
os pensadores, os quais não têm cabelo a atrapalhar pensamentos; chata alta
vertical não inclinada, mas não ‘coçante’ por natureza. Agora coçava e isso irritando
um pouco, mexendo até com sua hora de insoniar direito, coçou outra vez.
Virou-se de lado para o outro lado, voltou-se ao lado anterior, projetou a
testa ao teto lá em cima, em baixo sofria por não conciliação, se revirou pra
lá e pra cá, meteu as fuças na fronha, pressionou o travesseiro de espuma de
borracha cheirando suor e velhice do uso e cansaço, o nariz empurrando o buraco
do travesseiro em vez da nuca que era o lugar da nuca. Voltou à posição
original, nada original na atitude, atitude de todos que não dormem e aguardam
o sol pressionar o botão do fiat lux
a se levantar fazer ginástica metódico e outras mais coisas de grande
sem-importância. Aí que se deu o constatar a coceira aumentando.
Não aumentava a coceira, o pomo de
coçar.
No primeiro dia, já fazia dias, sentiu
não mais que um caroço. No segundo, que não era segundo mas a segunda vez que
notava o notado, viu com o tato haver aumentado. Nada que possa atormentar, a
menos que seja por configuração ser atormentada a pessoa, o José Maria sendo.
Buscou debalde José a Maria: sua parte da parte dela encontrava-se vaga. ¡E
isto não é o causador da insônia! é, respondeu-se, só. Tinha um mundo diante de
si, o silêncio dos pernilongos a rua vazia o escuro da noite, apenas ouvia seu
próprio respirar um pouco fungado e a paz que o silêncio costuma trazer,
poderia conciliar o sono retomar o sono olhos fechados, mas não com a falta
dela... buscava desesperado inclusive cada barulho que vinha da noite nos veículos
apressados que passavam e sumiam, no entanto ela não voltava pra casa e a noite
mergulhava noutro silêncio dando mãos às mãos doutro silêncio anterior, prolongando
o sofrer o revirar na cama o insoniar. E o coçar, coçou coçou coçou irritando a
protuberância, tornou a virar pra lá voltou pra cá, mudou o travesseiro de
lugar, para o lugar dela, a Maria José, mas a Maria não estava estava o José, o
Zé retornou à posição de ficar na melhor posição. Aí fez o que fez, que é o que
fazem todos, todos os que insoniam: remexer, fazer xixi, tomar café, acender
ver hora apagar a luz, olhar a fresta ver se fresta de sol a noite se negando a
responder – coisas assim e assim mais outras coisas que são tudo e nada e que
contrabalançam o dormir, ressonar, roncar até. E não roncava, roncava o temor
da coceira e o crescer dela...
Crescia. Um crescer crescente aparente
temente aumento aumentando a olhos vistos, vistos nas apalpadelas cada noite,
noite que passa, passa que corre, corre que foge, foge a Maria, José se
desespera cresce o ‘tume’ entumece o coçar já vê, mesmo a cabeça coberta pra
não ver, a testa teste a dormir a insoniar outra vez. Passava – não queria e
por não querer passava roçava de leve de leve sentindo o aumento da protuberância
quase em ver, a marcador de compasso, a medidor de ciência; e agora era a
realidade, a realidade não prescinde da medida e nunca realmente ‘era’ “é”. Então se assusta. Pensa. Planeja. Não
coça pra não coçar, coça pra não achar, acha que aumentou. Ela alevanta, dias
após dias, alevanta bem; suspende o coto o lençol a esconder uma insônia,
alevanta noite após noite no dia seguinte o chapéu, o José Maria passara usá-lo
não a defender os cabelos ralos dos raios incidentes do câncer e dessas
bobagens médicas mas a esconder mesmo a indesejável, pior se desejável, protuberância,
exuberância na vistosidade a empurrar pra cima e as coisas pra baixo, o dono da
coisa. Virando coisas, pois iniciou o coçar também na esquerda bem às direitas
a dar harmonia e equilíbrio naquele desequilíbrio horroroso, o Zé achando
horroroso, com razão.
Agora todos olhavam para o Sr.José
Maria ¡mas não é um bem ser notado! qual, era porventura político nas vésperas de
eleição... cruzavam e se voltavam para o ladão do homenzinho, ele a se
esconder. Até possível: atrás dos tijolos em pilha, atrás da parede, atrás do
carro estacionado, atrás das pessoas desconhecidas, mesmo porque todos somos
desconhecidos embora amigos ou conhecidos – contudo tudo não adiantando: o Zé
andava na berlinda da vida tendo à amostra dois cotós, um pequeno promissor
ameaçador outro já grandinho adulto quase... ah contudo havia muito caminhar à
madureza.
Todos iam vinham passavam, somente ela
não retorna-va. Olhava para todas Marias possíveis e as Marias em ver José , melhor no pior
os espetos na testa de José. Ele se voltava envergonhado, tímido, medroso mesmo
e fugia também ele para dentro de si a curtir seu sonho seu sono seu insoniar
bastante.
Muito era o penar à medida que
cresciam as medidas do sentir e aí chamou, não debalde mas com sucesso, interpelou
o espelho. O espelho costuma ser pródigo frio absoluto, nada caritativo, e sem
meias palavras. Riu-se do Zé, o Zé enrugado a cara séria preocupada, riu-se
mais dos cotos, o grandinho, o pequeno a vicejar na outra extremidade do
grande; riu-se ele, chorou José. Implacável, mostrou ao homem fazendo careta de
exclamação um par de chifres pequenos de grande presença; havia uma ponta
ainda, que horror esse ‘ainda’ pensou José, ainda em promessa, enquanto a outra
já forte e voluntariosa como retorta. Soluçou alto o dono do chifre, numa
expressão de horror animosidade e aversão; imediato a expressão de... não de aceitação, porque isto ainda mais horroroso,
mas daquela de não tem jeito...
Nessa altura do tempo, era tempo de
guardar-se dos curiosos. Não falar a ninguém, sequer à Maria José, menos a ela,
ela não voltava; ele a chorar seus sentimentos num sentimento puro, que o sofrer
depura as impetuosidades e as imperfeições. Nada obstante vivia só, parado na
sua casa, temeroso em
mostrar-se. Aliás para que mostrar-se não sendo candidato a
cargo político ou a miss, ah tinha
graça... Mas embora com todo resguardo e quarentena ‘eles’ se impunham assim
mesmo: eles cresciam adoidados.
Já atrapalhavam no dormir, que ao Zé
era o insoniar. Enroscavam na fronha, furavam a fronha, espetavam o travesseiro,
às vezes segurando nos ares o travesseiro a irritar o José Maria. Enroscavam na
guarda da cama, tinindo seu duro no duro dos canos de ferro da guarda da
cabeceira da cama e provocando uns sons desagradáveis. Enroscavam nas roupas de
dormir para o Zé insoniar, furando até outros furos menores da camisa, mas não
furavam nem se enroscavam nas camisas de sair porque o proprietário daquele
sofrer não andava mais pondo roupa bonita para desenfeá-lo no ir à rua: comprava
agora por telefone, o maldito telefone de pagar chamada a cobrar. Enroscava o
próprio José a galharia, por último nasciam protuberânciazinhas nos ossos dos
chifres, a embelezar tais chifres e assim enroscando melhor nesse pior...
O pior melhorou um dia. Resolveu coser
uma roupa com trapos achados num móvel para a finalidade de enxugar o chão, a
fim de vestir condignamente a galharia; e se não ficou bonitinho, ao menos
prático, não enroscando tanto nem retendo o José no caminho, o pobre não
possuía mesmo mais caminho. E assim melhorando é que piorava porque nem sombra
da Maria, a qual, caso viesse, já não viria, tendo razão agora para fugir e
deixá-lo solitário no seu insoniar.
Entretanto, num certo dia, que era
noite, não insoniava, sonhava!? dormia?! houve o inusitado então. Porque
afastou o quanto pôde, podendo pouco, os galhos já potentes já adultos já
mandões já imperantes, afastou-os um pouco, pouco que fosse e sentou-se na cama
do lado que era o lado da Maria José, fugindo ela quem sabe às suas liberdades,
e se perguntou indagando pela dita bendita Maria José; o pensamento como
resposta: cara, ocê é virgem e solteiro ¿por que pensar nas encrencas
femininas, se melhor drama mesmo é este adorno aqui em cima, próprio dos alces?
Marília março
2004
3° - A
Comunicação
Quem porventura possua telefone pode
comprovar esta verdade. Num repente, quando o sono da noite toma nosso ser, ou
no momento em que a paz caseira invade devagarinho nosso espírito; ou quando
não estamos pensando nele especificamente, o telefone aparece para sacudir-nos
num susto, como um trem que nos afronta na passagem de nível. E aí os possíveis
méritos das comunicações podem ir por água abaixo.
Foi assim com o Sr. José.
Note-se bem: ele não andava dormindo,
nem em paz com a família, depois é claro de um bate-boca com Dona Filomena. Não
obstante quase caiu do sofá relaxante onde curtia um desarmamento do humor
lendo futebol, no momento do primeiro trinar. Bom, é necessário não esquecer as
crianças, tadinhas, numa correria na disputa de quem atenderia primeiro, com
duas decepções mais velhas e uma garotinha mais nova a dizer com voz de vampe
“alô!” papai mamãe aflitos, pensando “será tia Joana...” ou “pode o meu velho
ter piorado...” Entretanto não era.
--É pra você, pai – disse a
vampezinha.
Atendeu, trêmulo; sempre tremia por
qualquer coisa, e agora estava justificada uma tremura em grande estilo.
--Sim é o José que está falando...
Quem é que está no aparelho? o que foi? meu Deus!
Apenas a segunda pergunta foi
realmente respondida por alguém muito afoito ou equivalentemente nervoso. Dizia
que Dona Tiquinha havia morrido! E todos esperando o velho que ia e voltava ao
hospital, ela fortona embora queixosa... mas que desgraça.
Indagaram ao José quando a vovó
morrera, de quê; lá-grimas de todos, mesmo do José, embora comum homem não
chorar. Dona Filomena perdoou o esposo diante da situação fúnebre, e até
conversou com o companheiro, quebrando o gelo demorado e a incomunicabilidade.
Quem foi que ligou, contando a infelicidade? quis saber Dona Filó. Como iria saber,
respondeu a pobre vítima. Uma pessoa conhecida da família, diante do desespero
dos membros; já imaginara a dor lá em Minas? Vai ver que ninguém entre os
nossos tivera a coragem para telefonar; daí pediram a alguma alma bondosa fazer
essa caridade pra nós. Todavia que interessava isso, se agora mamãe estava
morta!?
Todos atarantados, ficaram chateados
um tempão, após o desabafo do choro. Porém a morte é irremediável; urgia se organizar
à longa viagem para ver a defunta pela última vez. Filó mesmo tivera a ideia e
a iniciativa, o filho de Tiquinha se encontrava arrasado. Decidiram.
Banco, malas, contas; recomendações à
vizinhança, portas trancadas; o táxi e as passagens.
Viajaram. Foi um tormento, um vendaval
d’alma. Todos se perguntavam como e por que, mas ninguém, mesmo o Sr.José que
atendera o telefone, tinha condições de falar e dar informações melhores e além
do que sabiam. O resto eram as conjeturas. E remorsos.
O remorso comeu gostoso corações.
Infelizmente José apenas se lembrava do mau uso que fizera da condição de filho;
e os bons momentos fugiam apavorados dos quadros maldosos do filho da senhora
Tica; a nora dela, ah um pouquinho dura sempre com a sogra, porém emotiva
demais, desatou a chorar e isso atraiu a atenção dos passageiros e a compreensão
do marido a consolá-la. Porém ela não tendo tanto peso na consciência,
costumava, isso sim, perdoar-se com facilidade. As filhas, todas três soluçavam
baixinho ao lembrar-se da vovó. Ainda mês passado a viram nas férias, forte e
alegrona (apesar do vovô não andar bom); a fotografia da memória mostrava a
velha morta fazendo pão de queijo e biscoitos gostosos. Não podia ser; mas
podia sim, telefone não tem o costume de mentir interurbanamente, com preços
tão altos a bolsos frágeis. O Sr.José não chorava mais, só tendo olhos
vermelhos, houvera esgotado as lágrimas, e nem por isso andava menos triste.
Encabulado, fazia passar no cineminha da cabeça as cenas com a bondade de sua
mãe. Agora se lembrava da surra de varinha que levara da velha então jovem
senhora, na sua meninice; perdoou à mãe e se reconheceu uma peste. Numa autocomiseração,
ele se ofendia por ter sido mau à mamãe! Aproveitou o momento para agradecê-la
pelos bons atos maternos, os quais cresceram espantosamente no pensamento do
filho Zezo. Tadinha, tão prestimosa, se desfazendo para alegrar a ele e aos manos;
se anulando em tudo: a moela deixava ao Chico, a coxa à Joaninha, o peito e
todos os melhores pedaços do frango era dos outros, ficava ela com o pé. Agora morta! Por que, indagava José, por que
não somos eternos! Por que ocorre uma surpresa dessas; o velho caindo os
pedaços, ela fortona ia primeiro? seria o coração? do coração que é morrer “de
repente” diz o povo. Quem sabe um desses desastres de trânsito; teria ido à
farmácia comprar medicamentos ao seu velhote, veio um desgraçado aloólatra e
tolheu a pobre no passeio público; que monstro! não, quem foi que falou desastre?
ela nem saía de casa, somente para ficar cuidando do velho esposo, a mártir.
Sim, podia ser que houvesse um câncer misterioso, ela não dada a contar coisas
suas, se fazendo sempre de mártir... Por que será o câncer tem levado tanta
gente conhecida! bem pior quando é com os nossos familiares. Maldito, maldito!
(deu um soco no banco da frente, assustando o passageiro vizinho e a esposa ao
lado). Respondeu não estar louco, apenas um bocadinho chateado. Podia também ser
por qualquer operação urgente e mal sucedida como apendicite aguda ou pedra nos
rins; decerto não examinaram bem o coração fraco da mãe, mataram-na como se faz
a um porco, aqueles açougueiros dos diabos! iria protestar, acionaria a
justiça, contrataria o Dr.Boanerges. Bobagens, respondeu-se, nenhum advogado
devolveria a vida à sua velhinha. Diabos! Suspirou como que vencido e,
imediato, ficando aliviado.
Chegaram.
Ao encontrar velhos amigos e gente da
família perto da casa, desandaram a chorar o choro represado, choro sem
qualquer vergonha. Os outros familiares é que não entenderam bem. Aí ficaram
indagando ao José à Dona Filomena e mesmo às crianças “quando” “quem”, enquanto
Dona Tiquinha abraçava e beijava com carinho a mais nova, rodeada pelas outras
netas, comovida.
Ribeirão Preto março 1980
4° - Sem Saída
Não poderia explicar como lá entrei,
ou me entraram. Estava naquela gaiola infecta. Senti-me passarinho. Os olhos
eram penetrantes, próprios dos felinos... Bonita.
Bonita, embora fera. No outro lado eu,
esta coisa aqui. Um cheiro acre de xixi muitas vezes dormido, misturado a restos
de ração apodrecida; badulaques atirados por meninos de rua e visitantes mal
comportados. A fera desconfiada ou assombrada diante daquela comida cheirosa,
que eu representava... mostrava ânsia e disposição de saciar-se; preparou um
ataque, mostrou os sabres inscrustrados na bocarra; vi sua língua de metro;
senti mesmo o limo grudento por onde meu pobre corpo escorregaria... Soltou finalmente
um urro, de dor de raiva de alegria... Na sua extrema a conquista, eu; na minha
ponta via o conquistador; desejei que fosse conquistadora, machista por
educação, mudei-lhe o sexo, como desconto na nota fiscal. Urrou. Aviso do fim!?
Não tive tempo de verificar, grudei-me às barras de ferro, minhas próprias
unhas rasgaram as palmas das mãos; misturei sangue e ferrugem. Já tendo as
calças sujas, acrescentava apenas mais um cheiro ao ambiente. Desejei que as barras
fossem mais enferrujadas e mais finas; eram menos podres e grossas. Imaginei
que houvesse uma força extraordinária desconhecida em meu pobre ser; num
relance, no entanto, entrevi meus bíceps miudinhos, de não meter medo a ninguém.
Não pude ver meu rosto, mas devia ser branco qual cera. Forcei as barras. Porém
a fera forçara a mesma ferragem antes, sem resultado; desisti.
Veio de meu lado, fui para o seu.
Trocamos de lugar infinitamente, como alguém no tabuleiro de damas, com duas
peças empatadas. Às vezes eu parecia o caçador, mas era a caça. Podia inclusive
estar imaginando aquilo, pensei; mas a gaiola de ferro era verdadeira, o felino
palpavelmente negro, lindo, eu o via, não andava no mundo do faz de conta... Tornou
a urrar. Senti-me ainda mais fraco; o suor umidecera toda a roupa, um cheiro de
corpo exalava de mim (o bicho sequer se importaria, se melindraria com esses senões...)
Armou um pulo, agachando-se. Não mais quis trocar de lugar, desgostara decerto
daquele brinquedo, suponho.
Olhei, covardemente, para fora. Não
via alma; não ouvia corpo. Cansara gritar em vão, parece que não tendo mais
voz. Ninguém iria salvar-me! Por quanto tempo meu ser aguentaria a situação?
Daí imaginei, numa vingança, estar
engolindo o bichão; começando pelas patas da frente, jogaria as unhas arcadas para
fora das barras de ferro, para não furar minhas tripas. Cruas mesmo! Arrancaria
os pelos negros brilhantes. Guardaria os olhos penetrantes num vidro com
solução, a título de troféu. A barrigada deixaria às moscas, ao chão pegajoso e
nojento, misturada aos dejetos. Tomaria da fera os ossos, o fêmur, cada costela,
jogá-los-ia por entre as ferragens, um por um. Não, não poderia estragar a
pele; poria um tapete na sala, contaria a estória dela aos convivas; mil e uma
vezes pisotearia nela! Fiz “grrr” e cara mais medonha possível. O animal urrou
como resposta. E fugi para o lado do portão da gaiola. Quem o teria fechado!
Urrou outra vez meu inimigo; abaixou-se para ataque final...
Então acho que chorei por dentro.
Havia engolido a língua fazia tempo, ou todo o aparelho fonador, sei lá. Não
tinha cura meu mal. Impulsionou as patas traseiras a pular contra mim. Eu
fungava desesperado; parecia não haver mesmo saída para este mortal. Quem sabe
uma. Acordei.
Marília janeiro
1978
5° - Extrato da Agenda do Rei
Ah se... Felizmente, quem sabe se não
infelizmente, eu não sei mesmo conjugar no condicional e meus verbos apenas
emprego no sentido indicativo, preferindo conjugá-los no presente. O passado se
foi, não sei sequer se foi, estando por demais ligado ao dia de hoje; o futuro
sempre me espanta, e frequentemente me espanta por não entendê-lo. Não obstante
ando registrando numa brochura meus garranchos de semial-fabetizado, um caderno
que tem por dístico na capa o lema “Futuro se Existir”, o que me parece de um
gosto escatológico à toda prova.
“Segunda-feira, 23, segunda é de
preguiça, nada se faz. Sequer registro algo, por preguiça. Não se trabalha no
dia de preguiça.
“Terça-feira, 24, dia azíago dizem, na
minha pátria te-mos o cuidado em não cair no vinte e quatro, o veado, bicho mui
malfalado. Melhor, por isso, guardar como dia santo ou ponto facultativo, é bom
nem sair na rua. Pronto.
“Quarta-feira, 25 – meu primeiro dia
mesmo como rei deste país fajuto; dá inclusive para esquecer a lealdade e o
pa-triotismo. O que devemos fazer no primeiro dia num serviço qualquer? nada.
Apenas observar para aprender. Por isso nada também registrarei a fim de
lembrar o quefazer na minha agenda de ocupadíssimo chefe de Estado.
“Quinta-feira, 26: vamos ao trabalho,
embora já esteja literalmente cansado, pois é quase fim de semana. A nação pode
esperar? urge trabalho. E se o Rei, eu, não trabalhar, como exigir que a população
trabalhe e o país cresça! Vamos nos mexer. Que temos para hoje, Secretário? Eu
havia preferido uma secretária linda escolhida após concurso desses de miss e tudo o mais; minha assessoria
vetou o pedido (portanto quem manda num país é o assessor, o Rei é o segundão) vetou
sob pretexto de que mulher bonita não deixa a gente trabalhar só ficamos
olhando para ela, o que com pesar reconheci sábio. O Secretário me informa a Dívida
Externa, a Interna fica aqui em casa mesmo na família o pessoal vai rolando fazendo
cambalachos mais e lá fora ninguém fica sabendo, apesar os satélites olheiros
que apagam até nossas mais lindas estrelas no firmamento. A Dívida. Está
grande, enorme, insaldável. Fala que o Fundo Monetário Internacional virá loguinho
nos dar fórmulas e ditar o que direitinho devemos fazer para eliminá-la de
nossa Agenda Real; e já me adiantam as vozes aqui no palácio que tais fórmulas
consistem em apertar o cinto do povão, matar mais alguns poucos milhões de fome
e ficar devendo apenas ao próprio Fundo. Parece uma solução bonita. Agora, eu,
o Rei, sou um homem simples e vou propor o pagamento por apagamento. Vou dizer
ao Congresso (será que tem congresso? é, deve ter sim, ouvi dizer que tem um,
mas os meninos recebendo em dia jetons salários aposentadorias e demais benefícios,
esses garotos ficam quietinhos e não dão trabalho ao Rei) vou dizer-lhe: proibo
pura e simplesmente o pagamento da Dívida Externa do Reino! Alegarei que ela
vem desde o tempo da República, antes mesmo, desde o tempo que a nação era uma
colônia, não me cabendo a culpa, fui escolhido dia destes, não fiz dívida
alguma. A rigor reconheço que quando nasci nasci endividado, na barriga da
mamãe um filho do país já é um devedor...
Porém como desde que me conheço por gente não pus nenhum pontinho no
cômputo da dívida nacional, nego-me pagar minha parte e estendo aos outros
patrícios o mesmo direito. Por essa razão direi que proíbo pagar a Dívida
Externa. E se o legislativo exigir que o governo do qual sou soberano eleito
pague a mesma, então viro ditador e exijo não pagar! Eles, deputados e
senadores, temerão ao Rei, entregarão todo o poder nas minhas mãos, viro sim
ditador. Portanto dá no mesmo, pois como ditador legal e vitalício não vou
realmente deixar pagar a Dívida Externa. Enfim, se é para registrar na agenda,
se esse é um trabalho importante de um rei, registro lembrar pagar a Dívida
Externa do País. Agora chega de trabalho nesta quinta. Vou dormir.”
“Sexta-feira, 27. O que registrar na
agenda do Rei neste dia? Já se vê, sexta-feira é dia para descansar, preparando-se
para o fim de semana que se aproxima. Além do mais, minha terra estará
discutindo a dívida, se paga se não paga, em suma os argumentos do Rei, eu. Não
sobrará tempo para mais nada. Antigamente nem disso se ocupavam no meu país,
mas somente da questão eleiçoeira do entra governo sai governo, eleição essas
coisas. Como isso são águas passadas e águas passadas não movem moinhos, não se
fala mais, existe um Rei, eu, e só voltarão a se ocupar da questão política
após minha morte (se eu não deixar descendente). Por enquanto ficarão os
habitantes distraídos a discutir a dívida. Serve para discussão diária, já que
acabaram o futebol e a eleição; e a violência que era papo a todos os minutos
foi proibida, só ficando a violência camuflada na fome, a qual apenas mata
pobres; todavia a nação é rica em pobres e não tem perigo de acabar a sinecura
dos meninões do congresso e a distração da imprensa consentida. É, acho que não
vou registrar nada na Agenda do Rei. Devo lembrar alguma coisa? pergunto ao
assessor. Manda me falar que eu, o Rei, esqueça. Vamos esquecer esta semana
trabalhosa; talvez na semana que vem tenhamos algo para registro.”
Assinado, Sua Alteza Real. Palácio do Governo.
Ribeirão Preto novembro
1987
6° - Um Crime Passional
Podia ser ela mesma. “Quem matou o
amante?” A evi-dência era para ela mesma. Aí vieram os policiais e investigadores.
Quando alguém propunha já sua prisão e a bela chorava impressionada, chegaram
os comerciais.
A família ali submetida iniciou seu
falar, pois se manti-nha até o momento vidrada na tevê. Cada qual pretendeu dar
sua contribuição ao intrincado problema. “Acho que não é ela, tão bonita e bem
posta...” opinou a jovem cabeluda; riu-se o mano; o nenê fez glu, quem sabe não
soubesse o matador... Mamãe achava que pudesse ser o marido dela, não seu esposo,
mas o da bela da estória; acontece, argumentou, que o fulano mostrava cedo seus
dentes... Papai votou no filho da bela, sujeitinho atrevido e briguento. Tinha
um amigo na sala, com direito a escolha. Sorriu olhou a todos, fixou-se na cabeluda
desviou do pai dela, talvez concordasse com alguém entre os votantes ou
elegesse a irmã do irmão, filho da bela amante. Todavia se foram os comerciais.
A polícia quis prender. Aí surgiu um
policial corrupto, ofereceu ajuda, aceitaria alguns bilhões da bela, em troca
do silêncio. Fez uma porção de coisas, ia fazer mais, os comerciais não
permitiram.
“Acredito ser o patife, o matador do
pobrezinho aman-te”, atacou a jovem cabeluda, mudando o pensar. “Foi a
boni-tona”, defendeu o mano da cabeluda ao funcionário da cor-rupção. Uns
concordaram consigo, outros com a de fios longos. Ameaçou-se até calor e
encrenca entre os torcedores... Havia indignação, quando os comerciais cederam
o tempo, cansados.
O patife, quase réu confesso,
encontrou-se com o mari-do chifrado envenenado injuriado ofendido disposto
inclusive... Novos comerciais. As bocas tapadas se abriram.
“Agora penso mesmo ser o marido”,
gritou o marido da mãe; a filha da mãe discordou, a mudar outra vez a opinião.
“Garanto que é o fio-da-p. do chantagista!” berrou o filho da mãe, da santa mãe
dele, mais velho ele na escala cronológica familial. Quase brigaram, havia
muitos réus para um só crime. Até se esqueceram da causa do crime. Aí os
comerciais cansaram de faturar, mostraram a bela.
Sorria enigmaticamente, foi voltou
tornou a ir, funcio-nou o carro; os detetives mostraram zelo e exemplos,
analisa-vam provas a sobejo. Sobrava expectativa, os comerciais abri-ram as
torneiras represadas.
“Basta gente, não há dúvida: o ‘p.’
cansou-se da bela, quis chantagear o marido delinha, a amante cortou-lhe a goela!”
Ninguém pretendeu concordar com o rapaz. Papai se passara ao time de mamãe, a
filha cabeluda já torcia, pelo menos, pró-papai. Os outros estavam indecisos.
Andavam esquentados; alguém propôs limonada. Não deu tempo, os comerciais
devolveram a bela.
Ela chorava, soluçava baixinho. Todos
na família tinham pena, o convidado amigo também, mas não podiam falar, ninguém
permitia interrupção nem comentário. Os comerciais interromperam o enredo,
mostraram cigarros ao sucesso e dentifrícios
refrescantes.
“Está
bem claro, foi...” os outros não concordaram com a dos cabelos compridos, antes
mesmo dela apresentar o novo assassino de sua preferência. Cada qual pretendeu
marcar o seu gol próprio, mamãe trouxe limonada, molhou a chupeta do nenê, a
dormir e fora da acalorada discussão. Acordou o caçulinha, ia fazer glub-glub,
os comerciais devolveram a moça.
Voltou a chorar, prenderam todos os
suspeitos, ela a primeirona da lista, tadinha. Aí a família e o agregado não se
aguentaram, sequer lembrando-se que não haviam retornado os comerciais ainda...
Temendo uma derrota para o telespectador, os comerciais manobraram
interrompendo as cenas. Na sala virou briga, a discussão era grande, imensa.
“Não há dúvida”, sentenciou papai.
Havia. Todos dis-cordavam prendiam puniam o seu assassino mais amado. No
entanto os comerciais, de língua de fora, calaram-se, religando o filme policial.
O esposo, não o esposo que era vítima
da televisão e seus comerciais, mas o esposo vítima chifrado e envergonhado,
nem tanto, esse, mostrou à linda amante, bem na horinha em que os ‘tiras’ iam
apanhar a todos, mostrou à bela criatura algo macabro: certa mão humana!
decepadinha da silva. Será que desejava a vítima transformar-se num verdugo e
enlouquecer a assassina!? Gritou. Não a bela amante, porém a jovem cabeluda: “é
ela” e repetiu várias vezes mais a reforçar o achado. Foi a mocinha fulminada
pelo indevido com a arma de muitos olhares a si apontados, pelo sacrilégio.
Calou-se. Olharam a expressão aterrorizada da bela amante. O público olhador
não podia opinar ainda. Felizmente nesse instante os comerciais blasfemaram aos
ouvidos, e por isso retomou a família o entrevero.
A coisa esquentava, quando os
comerciais, condoídos, devolveram, cansados, o filme em sua parte final. Todos
para-ram. A luz também parou. Os apreciadores de televisão e co-merciais, de
belas assassinos e chifrudos, todos aguardavam ansiosos a eletricidade. Nisso o
bebê gritou “glub-glub”, que poderia ser o assassino a vítima ou o escuro na
sala. E tendo lá sua razão.
Ribeirão Preto julho
1984
7° - Diagnóstico
& Tratamento
Ele, ela ou qualquer coisa, ele a
ficar mais simples o tra-tamento, tratamento de linguagem, ele entrou no consultório,
achou bela a gostosura sorrindo na mesinha, deu a ela-bela o nome, e aqui não
vai ao caso, caso nome dissesse algo a explicar as coisas das coisas;
belinha-elinha introduziu o Sr.Ele na sala clínica.
Cumprimentou o causídico da medicina
com nomes de enroscante pronunciar, só reteve o primeiro deles ou seja
Dr.Charlatão. Esgoelou, segundo a praxe; o esculápio anotou seus ilegíveis na
ficha no seguir a praxe; balançou a cabeça muito a dar boa impressão científica
ao colóquio. Por fim sentenciou, talvez já a pensar sursis ou a pena de morte, antes disto consultou ao fone interno se
a belezura arrecadara o fundo pró-família, família Charlatão é óbvio; daí sim
ele sentenciou:
Amigo, o senhor sofre de um mal bem
definido, cujo rigor científico se codifica como ‘burguesismo consumista’.
Olhou, desconsolada, a vítima,
freguesa, cliente, paciente ou qualquer parecido, ela olhou para o médico. Isso
é grave, Doutor!?
Bem, meu caro, não se preocupe tanto,
o mundo ainda não acabou; muitas ou apenas algumas vezes retornará a este forum
de debates ‘microorganísticos’, com saldáveis e saudáveis contribuições charlatanescas;
o fim não me parece ‘tão’ próximo. Pro futuro esclarecerei melhor, na melhor da
pior das hipóteses extrairemos a partícula ‘tão’, desnecessária à maioria dos
mortais.
O freguês relaxou, descansou
expectativas, quase sorriu a gargalhar escondido ou só calado. Feliz, até
feliz.
Completou o seguidor (não exagerado)
de Hipócrates: Não se preocupe, este seu mal atinge bilhões, mais da metade na
população terrena, a maioria; e a maioria costuma ter razão, é princípio
democrático inclusive nos regimes concentrados e ditatoriais. Portanto não está
só – bem acompanhado no mal!
É grave... digo, meu caro Doutor,
terei ainda muitos anos de vida?!
Muitos muitos anos mesmo (pensou meses
abreviou o pensar a dias para acertar a verdade dos minutos).
Mas é grave?
Não, não se assuste com o agudo, é
estado crônico (pensou de novo: muito pior...)
Deu-lhe a receita, que o homem
tremulou qual bandeira, leu releu, levantou olhos: não conseguia alfabetizar os
garranchos. O profissional tomou-lhe o papel e anunciou ele mesmo em altas
vozes, julgando o freguês cliente paciente ou coisa desse jaez surdo.
Tomar carrão último tipo, todos os
dias.
Antes de me deitar? interferiu a
vítima.
Antes de se deitar. Segundo
medicamento – televisão, esta de hora em hora.
Dormindo também, Doutor (cortou o
portador da sín-drome do burguesismo consumista).
Dormindo
sim, mas deixa ligada baixinho a relaxar nos programas eróticos. Ah, isto me
esquecia – diz o Dr.Charlatão – é necessário trocar o pijama e os lençóis
diário, pôr ferver as roupas íntimas e secar ao sol, pra não contaminar os
tecidos da outra madrugada com novos e salutares erotismos televisivos. Entendeu?
Fez de cabeça que sim. Aí lembrou-se.
E se não passar a dor?
Não tem dor, não me disse doer; esse
estado não é sequer pressentido pelo físico e só elimina o psiquismo, não dói.
Mas se não passar?
Droga! (pensou Charlatão: que burro!)
Drogue-se. Em quaisquer esquinas existindo fornecedores. Qualquer uma, ora:
todas de uma vez se achar melhor e o bolso aguentar.
Se...
Não se preocupe. Tome os medicamentos
como mandei. Havendo qualquer alteração me comunique.
Deu o telefone. No entanto safado ou
gozador ofertou o da polícia.
Marília abril
2005
8° - O Vice do
Presidente
Andava
fazia tempo a esperar e tive sorte, chegou o homem. Afável mas determinado; e
paciente, ouviu-me até ao fim. Disse-lhe ao que vinha, vinha no intuito de
traçar um esboço do que presenciava nas ruas de meu bairro, ou seja a melhora
considerável na atitude de nossos adolescentes, uns a dizer aborrecentes outros
indecentes mesmo. Não sendo a minha opinião, a minha muito pelo contrário. Pensei
haver dado o recadinho, quando me pediu licença, afável e educado como falei; se
foi, eu ainda necessitando completar meu dizer.
Nisso entrou na sala onde me
encontrava a aguardar, outro alto funcionário. Não senhor, disse o homem, ele
não é o presidente, eu sou o Presidente desta Entidade. Declinou nome prenome
sobrenome e seus cargos e encargos e títulos, os subtítulos de seus auxiliares,
ele o Chefe, não dissera? Disse eu minha razão a estar no escritório. Contei a
coisa, repeti em nova forma na formalidade usual e admitida. Ou seja, os
adolescentes, sim os aborrecentes indecentes até, sim senhor e coisa e tal, tal
meu recado mas... deixou-me o Presidente a cuidar decerto de questões conexas,
que não eram certamente de minha conta.
Substituiu o Presidente um outro, a se
sentar na giratória cadeira, ouviu-me, mas antes, e antes de ficar ‘nhec-nhecando’
na giratória sua importância, antes sim declarou-se Presidente; eu: mas o
outro... O outro! ora, subalterno, subalterno superior apenas aos subalternos;
o Presidente sou eu, ele afirmou. Declinou nome títulos etc. etc., agradeci ao
Doutor, iniciei meu relato, ou para que ali me encontrando. Os adolescentes, comecei...
e não terminei – logo me deixou, tendo, cerimonioso, pedido escusas, um caso de
diretoria, de nível, necessitando presença dele, Presidente. Voltaria logo.
Logo descobri que seu logo demoraria
mais que o cos-tumeiro logo dos outros mortais. Felizmente, aí me assustei:
veio o Presidente, o Presidente em
pessoa. O anterior? riu-se, um diretorzinho inexpressivo.
Poder-me-ia abrir consigo, era o Presidente, mostrou títulos e honrarias, me pondo
embaixo, quase envergonhado, felizmente perdera eu a vaidade e o orgulho e não
me considerei diminuído. Iniciei a peroração, causa de minha presença. Desejava
expor à alta autoridade, o Presidente daquela entidade, a transformação por que
passavam os adolescentes (ele interrompeu, educadamente, a acrescer: dizem aborrecentes
e alguns a pichá-los como indecentes; no que concordei plenamente). Falei
também de minha alegria ao ver os moços modificados, no bom sentido, graças
àquela Entidade Filantrópica dando a eles seu amparo; insisti haver-me
felicitado a poder comunicar o assunto para tão alto cargo, como o do Presidente.
Agradeci mas fomos interrompidos por alguém, o Presidente me rogou desculpas,
porém havia um ‘confidencial’ a ser visto junto à Diretoria. Saiu.
Olhei pra lá pra cá...
Já arcava já me levantava, quando
adentrou um homen-zarrão, o qual sentou-se na giratória do Presidente,
olhou-me, e antes que se dissesse o Chefe o Dono ou qualquer coisa assim, tomei
a iniciativa:
Muito bem, o senhor, já sei, o senhor
é o Presidente.
Ele apenas meneando negativo, vozeirou
– sou o Na-morado do Presidente.
Marília junho
2005
9° - Encrenca Direita da Esquerda
À mão direita tem uma roseira, a outra
voz das crianças a responder: que dá flor na primavera. Não dá, não dá mais;
não tem, a meninada agora dança e rebola motivos sem motivos, piormente estrangeiros,
não tem roda não tem cantiga de roda. Mas não tinha mesmo rosa e isto não é uma
crônica como parece querer virar. Tinha a mão direita.
Contudo pinta o absurdo nisto desde
já; pintaria, porém ainda não existente na época o absurdo, não por não haver
mas por não haver sido criada a palavra absurdo. Ou seria com certeza. Porque a
direita se desentendia fácil rápido curto e grossamente com a esquerda.
Desde ‘tantadinha’ assim não se
bicavam. Ou por outra (veja-se o absurdo também da linguagem a afirmar para
negar) elas se bicavam, bicavam a sangrar. Por quê? ora, por razões de criança,
as quais o adulto pensa, sem razão, que sejam desarrazoadas. E razão sem razão
é o que mais de absurdidade existe. Existia, portanto se atingiam em briguinhas
infantis, ah que gracinha, briguinhas do tipo assim “mamãe falou que não é para
nenhuma xereta pegar minha boneca”, a esquerda respondendo à altura. Isto
porque não tem maior adversária nem maior encrenqueira que a esquerda. O mundo
inteiro comprova isso, nisto tendo razão agora a direita. Por outro lado cabe à
direita eliminar os contrários em cárceres e torturazinhas, ai ai ai que
gracinha; e agora neste nisto agora a esquerda mui com razão.
Mas eis que conseguiram, sem se
trucidar nem se assas-sinar não obstante invejas e intrigas da oposição, tendo embora
rivalidade por amar demais a mãe e disputá-la no carinho; sim, conseguiram
sobreviver e passar da infância à adolescência! e isto é conquista notável: não
fosse antes do absurdo aparecer; daí ganhariam o prêmio do Guinness Book por essa razão. Como havia, ou ao contrário não havia
ainda o absurdo – então não receberam o prêmio, com direito a show televisivo e tudo. Também, houvesse
o ganho, não se entenderiam a direita e a esquerda, a mais dizer e dizer-se é
meu é meu.
Coisas de mão.
Agora mãos adolescentes. Ih... Claro,
as bocas das mãos trabalharam na fase, a contento... houve mesmo lindos chutes,
não a gol mas a atingir com o pé a rival, à qual a direita berrava dedando ser
a esquerda, esta a direita. Mamãe interferia, ora dando razão à esquerda mas
quase sempre à direita (segundo o dizer ou pensar ou pesar da esquerda, não
suportando parcialidades maternas; aquele negócio do falar: ah, cê tá é do lado
dela hein!) A velha interferia mas não é mais como era em meninas, a mão da mãe
correndo solta na bunda ora da mão direita ora na traseira da mão esquerda; e
nos casos de dúvidas de amor e do quem foi que fez, fazia justiça esquentando a
bunda da mão direita e a bunda da mão esquerda, tudo ao mesmo tempo; não se
sabendo de que maneira a mãe conseguia ao mesmo tempo isso, decerto com ajuda
do absurdo.
É bom não indagar se, de tanto
aparecer de vez em quando o absurdo, se o absurdo não seria o pai, aí admitindo
também o vizinho da mãe ou o primeiro ou o segundo namorado da mãe; não se
chegando à conclusão se o absurdo respondia pela paternidade da mão direita se
da mão esquerda, mesmo porque gêmeas fraternas. Não, isto já absurdo, tanto quanto
a roseira não existente a poder dar flor na primavera. Isto absurdo.
Portanto, a retomar esta fuga do
absurdo, elas brigavam sim, ou seja as manas esquerda e direita, sem se trucidarem,
é visto, em plena adolescência; a velha, que a esquerda irreverente dizia à
direita “véia”, a mãe
interferia apenas falando ou numa boa chantagem materna a chorar; não ficava
bem mais esquentar bundinhas, aí belas e sensatas ou sensíveis nádegas prometedoras.
Claro, nenhuma genitora de coragem para bater em moçoilas. Falava
falava, elas? se riam. Aí não brigavam, a velha virando ou a oposição delas ou
somente o bode expiatório, seria melhormente dizer cabrita expiatória, a
oposição levando as pobres a ser vítimas, tadinhas.
Todavia, eis que termina a fase. Uf!
Não terminaria, lógico (ou se pensava
o absurdo?) não acabando o desentender delas, embora já casadoiras criaturas.
Pois que mesmo no altar, dando um susto no pároco no mo-mento do “estão casados
até que a morte os separe”, mesmo aí nesse instante sagrado a direita berrou à
mana – “sua ladrona, o braço é meu!” A esquerda, amante de absurdos: “não, sua
cadela, o braço é meu marido!” Mamãe chorou absurdamente envergonhada. Batesse
na bunda, ainda assim seria absurdo.
Marília julho
2005
10° - Os ‘Grilos’
De repente se olhou num autoexame a
encontrar o que não achar. Para que achar por que achar, onde? Era o todo; e
nem por isso existia. Não, mas existia, sim. Claro. Até se ob-servava no seu
todo. Todo dia, dia todo. Ao se levantar ao se olhar e não se ver; o que via? um
homem. Isso não diz tudo do todo. Aí fazendo o que pedia, exigia, a educação.
Ela sim existente com certeza. Escovava se alimentava vestia-se saía andava
circulava fazia o fazer, voltava; alimentava-se a se deitar, antes fazia, ou
fazia na cama proibido pela educação feito mãe professora, não: madrasta. Para
viver, o viver o dormir o descansar o viver como um todo. Mas a cada viver do
viver o morrer. Morria em si a se ver, se notar, se tocar, enojado. Daí
cortava-se, quem não! e se curava; mas eis perceber o sangue a lhe derramar da
ferida! não temia esvair-se-lhe a vida embora o sangue a vida, apenas sentindo
nojo – isso, sentia nojo daquela ‘rubrez’ salgada a endurecer e pretejar. Um
horror. O horror se prolongava em cada ranhura ou em cada demora no sarar secar
arrancar indevidamente casca a sangrar outra vez; e por fim secar e cicatrizar.
Escarros, mucosas outras das ventas, da boca, e dos orifícios menos dignos ou
‘escondíveis’... ah as mucosas. Alimpava, meio constrangido e de longe possível,
sem poder não fazê-lo com as próprias mãos! ai! Atirava por fim no não tem fim
o papel a higienizar a sujeira, já abandonara o lenço contaminável e repelente.
O cesto crescia, alimentado; o lixo se alimentava crescido. Então aguardava impaciente
o lixeiro no seu trabalho, a lamentar ele o cheiro ruim. Ali, lá, lá iam
detritos de seus detritos imprestáveis. Vez que outra se assustava a
espantar-se no pensar que seus restos iriam sujar outrem, ah pobres catadores
pobres, miseráveis e famintos! O carro-lixeiro se ia, sumindo na curva; e lamentava
os funcionários no correr em volta, a tomar os invólucros contaminados, decerto
contaminados! e entre eles o seu; então vinha o sentimento de culpa por sua
culpa, o volume sujo a sujar por extensão o mundo! Entrava em casa a se descontaminar.
Mas, antes, se sujava ainda mais no limpar a garganta – o escarro o ranho o
sarro – a sujar o lavatório no banheiro, o vaso; aí piorou. Havia pior?
pegou-se a observar a suja cama solitária, os lençóis com manchas espermáticas
da mucosa mal usada bem seca e já não mais a cheirar, cheirava-se a se cheirar,
sujo... Sujo ou limpo, contaminado: se achava achando-se contaminado. Lavava,
limpava secava aplicava álcool perfume desinfetante e, e ainda cheirava; achava
cheirar; deixava a educação, aquela madrasta, gritava pra si: não cheirava,
fedia. Isso mesmo, fedendo igual... igual a quê? não tinha igual nem semelhante
nem parecença que se aproximasse. Por isso se banhava e se enxugava e, por via
das dúvidas, via as vias em condutos das mucosas... aí se estremecendo. Então
ocorreu uma descoberta fantástica à pobre criatura – a pele, sua pele na
sudação, malcheirava, impressionava! Contudo não se escalpelou, nem arregaçou
pele e pelos no avesso do avesso do avesso. Avesso somente pensou avesso.
Marília julho
2005
11° - Sistemática no Trato com Gêmeos
Dementadozinho era criatura normal.
Desde pequeno tendo reações se não normais comuns. Papa, papo, bem entendido:
bá-bá-bá que diz toda criança; xixi em hora certa toda hora, mamãe Louca (nome
dado pela vizinha intrigante) mamãe se escabelando a gritar não poder com a
pilha de fraldas; papai, quando papai ficava a olhar a cria, não se escabelava
por já ser calvo, assim mesmo a reclamar por trocar ‘retrocar’ a fralda
desajeitadamente, porque homem não leva jeito para essas coisas. Cocô,
Dementadozinho fazia normal o cocô, defecando malcheiroso e aí brigavam: Mamãe
que não sabia o que o porcalhão comera; papai Maluco (nome que se atribui haver
sido registrado em cartório, ou só intriga da sua oposição conjugal e a
vizinhança atribuindo o dito nome aos possíveis amantes da oposição, sim
amantes pois na época namorado era quem namorava noivava casava em consentimento
familiar; portanto amantes, mas aqui intriga da oposição vizinha contra a pobre
oposição Louca à oposição configurada como sendo Maluco). Maluco não suportava
o cheiro do filho, não: das fezes dele e atirava a culpa na esposa. O filhote
foi crescendo normal.
Até que surgiu o mano a atrapalhar.
Mas não se prometeu gêmeo. Como pode...
Aguardemos o desenrolar desta estória,
um conto, o qual composto na formulação de um autor íntegro e comum, para não
afirmar-se ‘normal’; o dito conto tachado ele, ou pichado – e ficaria bem a
adjetivação – pichado como sendo contolouco. Prossigamos na explicação
dementadazinha, a qual não foi sequer iniciada. Seguinte.
De fato apareceu no cenário
Lunatiquinho, que era uma gracinha. Dementadozinho ficou com ciuminhos do maninho:
agora tendo que dividir fraldas penico berço com o talzinho; e pior – dividir
por dois os dois pais (pera lá, um pai e a mãe, não pensemos besteiras com
namorados e amantes); aqui uma questão chata: ele era péssimo, embora normal,
péssimo em matemática, somava bem como todo egoísta mas errava na de subtração
e na conta de vezes no ‘vai um’; na de dividir errava feio na operação. Paremos
um pouco, errava mas sem má-fé, porque errava por ruindade mesmo Dementadozinho.
Bem. Mal avista seu mano mais novo, Lunatiquinho, já se posiciona em guarda,
que é o choro, o choro é a defesa dos fracos ou roubados no carinho, conforme
sua ‘autoversão’. Dementadozinho sentiu ciumeira!
Pera lá II. Que negócio é esse, não
eram eles gêmeos! explicar essa trapaça.
O Autor adora ser chamado trapaceiro,
dá assim um charme. Mas não suporta pensarem os outros que o seja de fato. Isso
não. Em razão da coisa, noutro período explico.
Seguinte, este II. Eram sim gêmeos. Vai
alguém admitir que por gêmeos forçosamente nasçam (e credo em cruz se
tri-gêmeos tetragêmeos!) nasçam ao mesmo tempo, embora diminuindo a culpa por
ser a parturiente a Sra. Louca, dos doidos tudo se permitindo!? Eram, além
disso gêmeos fraternos e Dementadozinho vindo ao planeta (depois diria numa
intriga se referindo ao maninho: “veio a furo”) enfim o Dementadozinho nasceu
primeiro ‘xixou’ primeiro defecou primeiro chorou primeiro, aí papai, ou
papai-presuntivo, não aguentava e ainda por cima dizendo em intriga da oposição
que o mesmo chorava fácil igual a mãe. Chorou primeiro, tudo primeiro. Lunatiquinho
em segundo, nasceu depois. Mas aqui entra nova encrenca neste conto encrencado
ou encrenqueiro como um contolouco, segundo a autoria.
Acontece (negando-se o Autor em pôr
‘seguinte-III’) acontece que demorou ocorrer a segunda fase do mesmo parto,
donde proveio Lunatiquinho. O Autor, tomando a literatura médica e consultando
obras consagradas, admite menos de hora. Contudo os personagens não aceitaram o
alvitre. De-mentadozinho diminuiu para minutos e segundos. Lunatiqui-nho a
afirmar ser dias, anos até. Esta possibilidade sendo pos-sibilidade, visto o
irmão Dementadozinho conseguir fazer mi-sérias a quase endoidar mamãe Louca e
papai Maluco, claro está que extenso aos amantes, os quais não eram ainda ‘namorados’
de mamãe, porque o semantismo vicejou agora e a estória ou contolouco se passa
faz tempão. Não se requeira precisão temporal, pois crê-se o Autor igualmente
normal e aos doidos tudo se perdoa. ‘Somenizemos’ esta questão porque: que
importa a um louco se ele está com doença terminal ou sentenciado com sentença
de Primeiro Mundo a pena de morte, que importa, se ele não sabe disso! Não o
Autor, veja-se bem, os figurantes primeiro e segundo não sabiam. Eram normais,
apenas a brigar em oposição, como se falou dizendo que o outro viera atrapalhar
e por isso nascera logo, poderia demorar mais um século; o segundo a dizer que
os pais estavam do lado do mano “tudo é para ele!” isto vociferava.
Mas aqui cabem o término dessa briga e
o término da estória. Acabemos primeiro com a briga, semelhantemente a
Dementadozinho que veio primeiro, e depois a estória, igual-mente Lunatiquinho
que veio depois a azucrinar a querida mamã dita Louca pela oposição vizinha e o
papá Maluco. Sim, primeiro os primeiros, o que já foi feito antes deste
parágrafo (a briga deles); após, o fim do contolouco.
Dementadozinho ficava colocado sempre à esquerda,
o que mostra sua tendência... Lunatiquinho à direita, sempre, desde que veio ao
mundo pela parteira Senhora Pirada, esta que servira Dona Louca no primeiro
filho também. Como o primeiro veio primeiro, foi operado primeiro; ficando meio
cego primeiro e revendo pouco também primeiro. Aí foi a vez da cirurgia em
Lunatiquinho, vendo pouco em segundo lugar, revendo segundo claramente, e
sarando igualmente em segundo, por último. Mas o tratamento ‘desencegador’ continuou,
ou não continuava ou não adiantava o atraso. Em razão disso era mister os
colírios reparadores. Ocorrendo um desastrezinho (tudo que afetasse um era desastre
pra si e motivo de despique do outro, fosse primeiro ou fosse segundo, a inverter
papéis: intrigazinhas ciumeirazinhas dos desafetos). O desatre: Lunatiquinho
pegou conjuntivite! Em vista disso a vista recebendo colírios curativos; e
cuidados especiais de Mamãe Louca, de papai Maluco não: já era mais recente e
aí tinha um ‘namorado’ novinho da silva não estando nem aí com o filho dos
outros, apenas olhando para aquela gostosura de Louca. Enfim, tratamento, onde
apareceu flagrante os ciúmes de Dementadozinho.
Dementadozinho: Vocês só pingam
colírio nesse hipo-critinha. Tudo pra ele! eu? às traças.
Assim foi que, a acabar de vez esta
atrapalheira como prometido, assim tomaram (leia-se mamãe Louca tomou) dum
colírio chamado no métier clínico
como ‘lágrima artificial’, coisa inócua e nada além de água como aquela que o
‘namorado’ de Mamãe põe na bateria do carro, enfim água esterilizada. Tomou a
lágrima, espirrou uma gota nele, isto é: no primeiro filho reclamante, e o
mesmo ficou todo feliz e empafioso por estar igualmente doentinho. Não chegando
a olhar num desabafo ao desafeto, aquele safado, por estar com o líquido ainda
umedecendo o cristalino. Ah essas crianças e suas diferenças.
Marília julho
2005
12° - Família Nada Por Acaso
Numa das vezes em que o destino errou,
achou por acaso ele a ela. Ele Sr.Orgulho, ela Dona Vaidade. Jovens, impetuosos,
cheios de sonhos, estes cheios por sua vez de enganos e mesmo do viver real. Bem.
Namoro noivado casamento, após: alguns desentendimentos e acertos; e uma porção
de desacertos no entendimento. Enfim os dois formando um casal para o ‘até que
a morte os separe’. Aliás dona Morte é experiente e eficiente na sua profissão
ou missão; o que equivale a dizer que embora as oposições na luta de vida e
morte, nesses momentos em que os vizinhos não sabem se melhor interferir ou
chamar a polícia ou alertar os parentes ou só ficar olhando pela fresta o
bate-boca e os tabefes, os gritos e as ofensas – e aí silenciando mas a falar
entre si à boca pequena. Neste ponto surgiu Dona Morte e pôs fria e calculadamente
fim na peleja.
Todavia antes disso é como se costuma
dizer: foi bom enquanto a eternidade durou.
Orgulho, ciente de suas forças, se
dizendo mesmo uma fortaleza, tinha por costume não dar os braços a torcer – acaso
já no ocaso, ainda a se mostrar o bom. O suprassumo do saber, da energia
física, da inteligência, um tipo acima de suspeita e da crítica comum. Alto
louro dolicocéfalo olhos azuis, não se cansava ser poderoso.
Vaidade não; sim, uma fêmea morena
baixa sensual... e parideira. Vivia, viveu enquanto viveu, aquela questãozinha
da eficiência da Morte, vivia a se enfeitar a se embelezar a se ‘cosmetizar’; o
espelho ah o espelho! os apetrechos cosméticos; dietas e controle. Contudo era
o físico a contar, o dela dizendo ela ser o mais belo, em que coincidia com a
opinião do marido. Recebeu dele mil elogios no estágio do namoro; no comecinho
de casados, “meu bem” daqui “meu amor” dali, essas coisas. Depois, foi o
depois, cheiinho ele de vaidade a elevá-la, Vaidade a mais bela, a puxar a
brasa para sua sardinha: a beleza da mulher exalçava seu poder e seu próprio
ego. Com respeito a esta lembrança, Orgulho teve um irmão, Sr.Egoismo, o qual
pretendeu a pretendente Vaidade, ganha por Orgulho e agora já casados podendo
brigar com segurança e maestria e é disto que se falava ficando para trás a
fase do “amoreco” até à outra fase, como disse o sacerdote: “que a morte os
separe”. Ela, Vaidade, era... era... ah, parideira.
Sim porém vaidosa. Ele também vaidoso
mas vaidoso do seu poderio. Nesse poderio incluindo uma numerosa prole que
tiveram; entretanto o nome familial foi de linhagem materna, muito pouco macho
a um machão como Orgulho, senhor Orgulho, o qual se forrou do título Doutor,
parecendo viver num país em que todos são doutores, mesmo sem saber o que é uma
tese que dirá a defendê-la. Ele se jactava ser o Doutor Orgulho. Talvez pudesse
ter orgulho ao fazer tanto filho em Vaidade, dita mui parideira. O verbo fazer
aqui ‘caipiramente’ conjugado. Vaidade não pensava nesses termos, talvez nem
pensasse. Quem sabe lhe bastando ao orgulho ou tão só à vaidade dar o nome de
família aos seus. Ela mesma fora senhorita Vai, quando vivia com seus
genitores, a velha o velho Dade. Não importa. Importa que foram inúmeros os
filhos; e é disso que se vai tratar agora, encerrando isto.
O primogênito foi Maldade, Dade vindo
da linhagem materna como foi dito. Sujeitinho de maus bofes, nunca perdeu hora
a prejudicar os manos, seja no faz de conta, seja na conta em fazer as contas,
a tapear um e todos. Se os pequenos brigavam? quem sabe a resposta não faz a pergunta.
O segundo foi Impunidade, um que nunca
se cansava de abusar. Chegou a enfrentar os outros, e apanhou é claro, dentro
daquele negócio de os grandes baterem nos mais novos, toda família numerosa tem
disso. Uma das razões: tinha um amigo íntimo, íntima: a Corrupção, vizinha e
deles aparentada. Impunidade era assinzinho com a Corrupção (dizem, inclusive,
que se casaram posteriormente ou só se amasiaram).
O terceiro foi aquele a quem Teresa
deu a mão. Não, o terceiro, Falsidade, traiu antes e depois do casório, ah
pobre Teresa. Por fim negou pensão aos netos de Orgulho, negou o nome Dade aos
filhos. No decorrer da vida se enroscou feriu prejudicou aos manos, à
vizinhança e até à mãe, a qual disto não teve vaidade a alardear; sabem todos
como são as genitoras a esconder as feiuras dos filhos.
Depois vieram – e foram tantos, a se
deixar enumeração por serem demais – vieram: Ambiguidade Intempestividade
Irritabilidade Inconformidade Arbitrariedade Inatividade Impetuosidade
Futilidade Permissividade Temeridade e Inconstitucionalidade, este parecendo a
Orgulho não ser de sua lavra, mesmo Vaidade tinha certas dúvidas... não
obstante foi de grande valia na ordem de menos-valia familiar a sugerir a todos
de casa chutar a lei e a ordem. Quanto aos anteriores dessa tribo, Intempestividade
era corajoso de mais e com inteligência de menos. Embora tenha ajudado bem nas
brigas caseiras, menino adora desentender-se. Irritabilidade vivia indisposto,
não se contasse consigo. Inconformidade era o filho difícil o mano difícil –
sendo aquele tipo do contra; se se passassem para seu lado, se negava para ser
contra. Difícil. Arbitrariedade era garota mas nada feminina: fazia como
achasse devido, doesse a quem doesse. Também difícil na família. Inatividade
era uma ilha nessa bagunça infantil, mais parecendo circo: nada dizia nada
fazia, Maria, isto: “Maria vai com as outras”. Impetuosidade era bem Orgulho,
puxara ao pai. Acusado como incestuoso por Vaidade. Briguento à beça. Aliás toda
prole de briga. Futilidade não dizia coisa com coisa, nada sobrando no seu
falar, se bem a mãe a carinhasse mais que aos outros. Permissividade dava
trabalho aos pais: tudo fazia fazia tudo como se se negasse moralmente falando.
Um horror, horror na opinião do seu sangue. Temeridade só possuindo o atributo
da coragem, que não chega a ser atributo.
Contudo apareceram no crescimento da
prole elementos também curiosos, mas estranhos aos outros que já ocupavam as
primeiras cadeiras; eram bem diversos dessa turma da pesada que acabou ser
relacionada. Citam-se a Humildade a Responsabilidade a Igualdade a
Espontaneidade a Honestidade a Praticidade a Sociabilidade a Precariedade e,
barbaridade: a Barbaridade, esta demais grosseira, a falar alto baixo calão, a
envergonhar este último agrupamento de filhos; os outros da leva anterior até a
apreciar a desbocada maninha. Vaidade lhe batia na boca! parece que não, a mãe
ocupadíssima nos cosméticos em ver vestidos novos ou adorando o espelho; enquanto
isso o Doutor, a apascentar suas ovelhas-amantes, depois conhecidas como
namoradas, ocupado demais para se incomodar com a educação das crianças.
Houve sim mais filhos e inclusive o
último rol quase não vingando, ou natimortos ou abortados, a cumprir a vaidade
de Orgulho, Doutor Orgulho, ou ao orgulho de Vaidade, desejosa conservar o corpo,
preservando a beleza; que não fosse muita após tanto parto; a preservar a
beleza ao esposo, ou que fosse preservá-la ao menos para o amiguinho (que posteriormente
seria ‘namorado’) um tal de Ciúmes, atrevida criatura, na opinião macha do
esposo de Vaidade. Mas estes irmãozinhos dos outros irmãos vieram pela ordem:
Humildade não vingou, não deixaram e nem o pobre se entendia, ora se pensando
simplório ora soando falso no seu meio; entretanto isto não importa: morreu de
meses apenas. Responsabilidade tentou pôr ordem à casa; fracassou; quem
aguentaria tanto orgulho e vaidade entre os manos! Igualdade também lutou em
vão, em descrédito; o mesmo ocorrendo com Espontaneidade, o qual não media a
extensão das atitudes e morreu cedo. Honestidade não vicejou, sequer apareceu;
num dado tempo a família teve vergonha dela, era uma garota feia ou
inexpressiva. Praticidade ora estava deste lado, ou se encontrava com os afoitos
da barra pesada; em tal grupo chegou a apanhar (claro, correu a pedir consolo
materno; nem pôde falar com a mãe, chorar no colinho: a Velha, agora já velhota
Vaidade, a Velha andava a fazer a toalete). Sociabilidade só apreciava Intimidade,
maninha morta com um mês de vida; era mais pelo exterior dos seus e mais ainda
pelo restante meio urbano, nos atos solenes deste e nas festas; aqui puxando ao
sangue materno, pois Vaidade via com bons olhos a menina Sociabilidade. Quanto
à Precariedade, foi um dos abortos clandestinos, quando Vaidade garantia ser a
‘dona’ do seu corpo e portanto fazia o que bem entendesse dele, inclusive
assassinar um indefeso filhote, no caso filha... Orgulho em anuência com a
esposa.
Mas, ah o mas... Mas chegou um certo
dia, foice afiada, Dona Morte – eficiente fria calculista, sem quaisquer
luxinhos e sem quaisquer impedimentos – chegou. Depois enxugou secou as gotas
vermelhas num pano à disposição.
¡¿Não
obstante, não haverá um meio menos constran-gedor e menos violento para
acabar-se com o orgulho e a vai-dade; ou com este contãozinho!? Marília agosto
2005
13° - Xeretude
Realmente não sei por que fui dar o
nome Xeretude a ele; por causa de uma bichinha-louca com o nome conhecida? por
ser xereta? por essas razões, já que o sujeito vivia a xeretar a cheirar tudo,
envergonhando a gente. A gente amiga a dizer-me pondo panos quentes: é um
macaquinho, macaco é assim mesmo, ninguém leva a mal. Bem. Ficaram o apelido e
o dono do nome, a me trazerem atrapalhadas. Aí faço de conta zangar-me, fecho a
cara assim; me olha, faz trejeitos, quase me sorri. Dá para aguentar!
Outro dia não pude. Quer dizer, não
fiz espalhafato não dei espetáculo pelo espetáculo dele mas fiquei foi aporrinhado...
Fomos ao correio, lá que pago as
contas e ponho carta. Ia só, não convenci Xeretude, enrabichado atrás da gente.
Tomei a senha, D-491, inclusive guardei o meu número na cabeça até hoje,
sentamo-nos a esperar. Ele em meus ombros, eu tranquilo (não a dizer isso, ou
disparava o mono, só a pensar: hoje ele não apronta, me falei, está bonzinho).
Começou a demorar, já se coçava mexia pra lá pra cá, um pouco desengonçado; mas
tudo bem. Tudo mal, porque vagaram uns assentos ao nosso lado, ocuparam-nos
três pessoas estranhas, todos são estranhos a mim nesta terra. Eram uma jovem
universitária novinha e faladeira; a mãe dela, desse tipo encontradiço hoje em
dia, com a filha encostada nela; e ao lado da mãe o ‘namorado’ desta, um
garotão mais parecendo irmão da filha que o machão cheio de machuras como
antanho. Conversa banal: futilidades domésticas, referências a conhecidos, lamento
pela bateria do celular se esgotando, coisas desse gênero. Eu, mudo. Claro, não
converso com os íntimos, iria entabular ligação com o trio desconhecido! Ele também
mudo, o macaco Xeretude.
Aqui entra uma questãozinha que dará
‘pano pras man-gas’, no dito popular. Uns, se não todo mundo, dizem que macaco
não fala, macaquinho quase um sagui como Xeretude menos fala mais mudo que os outros.
Concordo. Discordo no caso. Pode que todos não percebam, eu comprovo já comprovei
mil vezes que fala. E até matraca! preciso frequente tapar-lhe a boca, ou
passar vergonha...
Porque Xeretude não tem travas na
língua. Imediato me cutucou, indicou a bela garota ao meu lado. Olhei feio para
seu lado, sem precisar fazer força pois o próprio macaco me chama feioso. Quis
dizer tão só puxei-lhe as orelhas, isto na linguagem figurada como a dizer:
você se comporta, estamos em público, num banco popular aguardando nossa chamada
ao guichê, olhe que já chamaram o n°401, faltando somente uns setenta ou
oitenta que estão na frente. Não compreendeu o idioma fisionômico. Desceu dos
meus ombros para minha coxa direita, me olhou gozado (tudo nele é engraçado, a
gente quer ficar com raiva, ri-se). Pus o dedo indicador em meus lábios e
assoprei um psiu inaudível; claro, não escutou: botou a boca no trombone...
Que menina bonita essa. Concordei. Mas
parece bobi-nha. Eu: cala a boca. Coçou-se. Aí o trio, não: só a mãe e a filha,
o rapaz era enfeite mudo, aí elas dispararam o disparo de Xeretude a contar uma
estória. Sim, contaram e ele a xeretar indagando coisas. Bem entendido, não a
elas mas a mim, como se eu soubesse das coisas, igualmente interessado estava
em a narrativa delas, mais ou menos assim:
Filha, você viu o fim da estória?
Não, mãe, qual estória.
Ah deixa pra lá, pensei que ouvisse
visto parecer tão in-teressada...
(A moça não mostrou interesse; embora,
a mãe, que se-melhava mãe do amásio, não se conformou com a indiferença da
jovem e fez uma síntese do caso, despertando minha curio-sidade e mais a do
macaco. Tento pô-la textualmente:)
“Era um homem que namorava uma garota,
casaram e foram morar no mato. Ela ficava no lar ele na roça a trabalhar. Mas o
serviço encurtou, acabando; não podiam viver mais no lugar. Daí o esposo falou
à companheira: mulher, vou trabalhar fora; você fica olhando nossa casa até eu
voltar; seja fiel; adeus. Mudou-se longe, trabalhou durante vinte anos e nunca
pedia receber pagamento, solicitando que o patrão guardasse o dinheiro. Um dia
procurou o dono da fazenda e quis acertar as contas, voltar à esposa. O patrão
deu-lhe quatro conselhos: l° não encurte o caminho; 2° não seja curioso; 3° não
perca a cabeça; e 4° coma este pão em casa; deu-lhe um pão. Logo na estrada um
automóvel quis dar carona, ele não aceitou; na primeira venda o botequineiro
lhe disse do assassino que oferecia carona e matava a vítima. Ele: ah, ‘não
encurtar o caminho!’ Mais para diante tomou hotel, ouviu à noite uma gritaria,
foi tentado ver o que era mas não saiu do quarto; pela manhã o hoteleiro contou
do louco a dar tiros, matando cinco! lembrou-se então: ‘não seja curioso’. Aí
chegou no lar. A mulher beijava um homem alto no rosto e se despedia do mesmo.
Ele ficou furioso, iniciou a fazer plano de matar a traidora e o amante!
contudo asserenou, se lembrando do terceiro conselho: ‘não perca a cabeça’. Noutro
dia, em casa, repreendeu a esposa, como é que me traiu! Ela: você me deixou
grávida e aquele homem é nosso filho! Então partiu o pão como mandava o quarto
conselho do patrão: havia dentro uma barra de ouro! E se abraçaram e foram
muito felizes para todo o sempre.”
A mãe à filha, agora interessada – e é
um caso verídico, pois contado pelo João de Deus.
Abalancei a cabeça, não sei se negando
a afirmativa se pela santa ingenuidade; mostrei a senha ao Xeretude, chama-vam
o quatrocentos e oitenta e lá vai fumaça, quase o nosso e já falando sozinho,
porque o bisbilhoteiro estava a comentar alto a estória da moça-velha para sua
filha moça-menina, pior: comentava sobre a vida moral dos três vizinhos de
banco. Eu... não sabendo se me levantava se ficava sentado tampando a boca atrevida
do macaco ou sumia num buraquinho que inventara para emergências como aquela
com a qual me deparando então...
Vou tratar rápido alguns indevidos
(isto é, tudo e todas coisas que dizia o xereta).
Começou por me indagar: não tá vendo
que ela não tem aliança! então a filha é de outro casamento, casamento!? essa
gente não casa, se amiga e se esconde dentro da palavra ‘namorado’... Eu: cala
essa boca! Ele: mas o rapazinho parece mais filho dela. Eu, não é de sua conta.
Durante a narração – mas que sujeito
burro, deixar uma gostosura daquela vinte anos sozinha! e ainda não queria chifre.
E o caso do patrão guardando o dinheiro do pobre de espírito, dá para aceitar?
Eu: fica quieto, Xeretude, isso é estorieta, a senhora ao lado pode inventar o
quanto quiser... Ué, interferiu o macaquinho, ela disse que é de um tal João de
Deus; por isso é verdadeira? e se fosse João do Diabo seria fatalmente mentira!
Não sei, olho replicando ao metido, volte aos meus ombros ou... Isso é estória
da Carochinha, me repreendeu como se eu fosse o culpado do crime. Eu: animalzinho
atrevido e de boca solta, estão certos os que dizem que símios não falam;
felizmente ninguém percebeu sua conversa atravessada, ou eu teria que sair
daqui a correr envergonhado e aí... Não me deixou acabar o pensamento. Pera lá,
meu caro, como símio não fala se o homem é um macaco que fala, besteira mas
fala!?
Não tive argumento, deixei o lugar de
espera; e já cha-mavam o n° 490. Puxei o brutinho para fora do recinto, a lhe passar
um sabão em regra, falei falei e mais falei.
Ele? me olhou com aquela carinha
engraçada, fez trejei-tos, piscou, me olhou de frente, quase me caindo dos
ombros e me tapando a visão. Não aguentei, gargalhando enquanto andávamos entre
o povo.
Marília agosto
2005
14° - Um Rapto?
Um sequestro talvez, rapto perfeito.
Perfeito é tudo a-quilo que monstramos escondendo o que é possível. Era
pos-sível até não se descobrisse, não o roubo, mas que ele houvesse perpetrado
o desvio. A rigor havia funcionado antes, antes que alguém soubesse já estaria
longe, às vezes mesmo passado a peça à frente, por um bom preço ou apenas
compensando os esforços... Também, qual o tesouro conquistado sem esforços? Sequer
tinha conhecimento do destino das jovens que haviam passado por suas mãos. Por
tudo o que fizera se considerava esperto e bem-sucedido. Agora era apenas mais
um caso.
Induziu a garota loira a acompanhá-lo
ao paraíso. Ela ficara temerosa no início, mas não tinha muito a defender, sua
pobre vida era um verdadeiro inferno particular, exploração e desesperança –
optou pelo paraíso do sujeito, foi atrás do seu sorriso folgazão e de sua
capacidade a imantar as pessoas. Que teria a perder? raciocínio dela. Na pior
das hipóteses, pensou ele, algo, pouco que fosse, ganharia. Trabalhou a jovem,
prometera a ela passeios paisagens riquezas, ele falou vir de família rica e
poderosa do sul. A menina aceitou, fugiu com o príncipe encantado, levando umas
poucas peças íntimas e a bolsa quase vazia.
No primeiro local de hospedaria
entregou-se ao homem; e perdeu seus documentos, os quais o espertalhão atirou
no primeiro rio encontrado, culpando pelo roubo os empregados do hotel. Ficava
assim mais fácil dominar a presa e levá-la mansamente até o chefe, sujeito que
o abonaria com alguns dólares, ficando livre a procurar novas jovens. Esse o
plano.
Até aí nunca pensara no destino das
infelizes que sedu-zia, mesmo sabendo ser fornecedor de lupanares estrangeiros.
Tinha a certeza da impunidade nos atos praticados. Sua cons-ciência se calava,
envergonhada, o sono era solto; a bebida ro-lava livre. Reputava ter uma boa
vida. Encrencas tivera pou-quíssimas, ainda assim o chefe conseguia tirá-lo
delas pela in-fluência política e por ser o rapaz ótimo agenciador. Agora andava
um pouco sem sorte.
É que o chefão tardava a voltar de uma
de suas viagens ao exterior, onde fora encaminhar mercadoria. O rapaz precisava
esperar na cidade grande.
Era ótima oportunidade a uma autêntica
lua de mel. Sandrinha o acompanhava a todos os recantos e participava do seu
dia a dia, mesmo de alguns contratempos. Mostrava-se solícito para com a
pequena; a presa já acreditava nele e ofertava carinho e compreensão.
Contou-lhe a moça as misérias que resumiam sua vida, abriu-lhe o coração. Do
seu lado o conquistador escondeu o que pôde, inventou uma família milionária
mas caiu na realidade várias vezes, mostrando fraquezas; inventou o que era
possível. Ela chegou às lágrimas com pena do sofrer do companheiro, pois a
loura tinha sensibilidade, sendo muito emotiva. Fazia de tudo para agradá-lo.
Os dias passavam, Míster Xis não
voltando. O dinheiro a ficar demais curto...
“Meu tio está demorando...” disse
aguardar o tio, que lhes traria mais dólares enviados por seu pai, para poderem
gozar a vida, então a Europa, viagens mil. Ela mostrava entender. Ele se
preocupava e esperava entregar ao gringo a peça e se mandar por aí como era seu
costume. O chefe tardava mais; mais uma semana! Ficou meio ranzinza com a moça,
a diversão diminuíra, o imprevisto azucrinava o ser, dava-lhe certa
apreensão... Mas os amantes se perdoam, ela acalmou seu conquistador com afeto
e humildade. Gostava já do homem, sequer desejando voltar ao seu inferno;
preferia o paraíso dele. Ele se preocupando mais. Logo passou a se remexer na
cama, a procurar em desespero o sono. Aí descobriu estar sentindo algo muito
estranho por aquela mulher.
Míster X ficou ainda mais uma semana,
ultrapassou mais de mês a data marcada aos seus negócios com o esperto captor e
grande fornecedor de garotas para o rendoso comércio. O dinheiro do casal praticamente inexistia. Andava
feia a situação. O hotel já olhava desconfiado àquele maridinho da loira, os
funcionários não demonstravam tanta gentileza como antes... Sandra exigia muito
pouco, quase nada, mas estava igualmente apreensiva. O tio do noivo não
chegava, havia dito que seu tio deveria procurá-los dia treze... fazia tempão.
O rapaz se desculpava, não mostrando o quão lhe fervia a cabeça. O que teria
realmente acontecido, o gringo nunca falhara.
Mais alguns penosos dias. O gerente
chamara o hóspede no escritório, ela ficou ansiosa e aguardando sua volta ao
quarto. Ele conseguiu enrolar o gerente e foi franco com Sandra. Ela o amava,
sabia disso, perdoou a mentira pregada pelo namorado ao hotel. Conviveram mais,
como era necessário. Daí apareceu o gringo.
Chamou aquele arregimentador de suas
riquezas, con-versou com ele a portas fechadas, deu-lhe algumas notas ante-cipadamente
e recebeu a promessa de levar Sandra ao seu en-dereço no outro dia.
O jovem comprou à amante algumas
coisinhas, ganhou dela mil beijos, percebeu os enjoos anunciando que seria em
breve pai; pensou noite toda. E fugiu com aquela mãezinha antes do sol nascer.
Do hotel e do gringo. O amor, quem sabe a paixão, o amor também remove montanhas.
Ribeirão Preto julho
1994
15° - O Boneco
Maria
dormindo, portanto não escutando... Dorme a sono solto. Ele, o esposo, também
mas a roncar de leve. Aí tilinta o fone lá na sala.
Corre para atender. Correr aqui
empregado mais lento possível; se levantou, tomou o maço, o cigarro seu companheiro
de viagem o tabaco não branqueando cabelos ele sim, e foi chep-chep arrastando
os chinelos, cansado o aparelho a gritar. Alô.
Não, disse, retificou, sim, o Pedro
está aqui, quer falar com ele? a dormir como um anjo, vejo meu filho pela
fresta da porta semiaberta. E a bola no chão. Contou que o menino treina dia
inteiro basquete na parede de casa, pôs pra ele uma argola e é pum-pum-pum de
cedo até noite, vixe rapaz! não dá sossego a bateção; cansado foi cedo tá ali...
e os vizinhos já devem estar... Ah sim, não tem de quê.
Voltou ao quarto, ia voltando acendeu
um cigarro, dei-xava o isqueiro no bolso do pijama de prontidão, cigarrinho nos
dedos em vê, até amarelecidos de tanto fumaçar nicotina. E se deitou de pito
aceso, a esposa ralharia se queimasse outra vez o travesseiro e pelos tocos
jogados no vaso sanitário, as cinzas. Mas não chegou sequer a dormir nem a
queimar, tilintou de novo.
Alô, ah você novamente, que foi!
Contou o outro lado do fio o menino no
Shopping Center, antes ligara para
ter certeza na dúvida ser, diziam, insistiam, ser Pedrinho, a briga, o crânio
esmigalhado, como veria noutro dia ou depois da madrugada, os jornalistas tavam
farejando fotografando os ângulos, e então sairia no jornal; ambos apreciando
ver sangue, os periódicos já a viver de sangue... não dói muito choca pouco
quando não é da gente... Mas se o Pedro dorme, ah que descanso, haviam me contado,
disse a extremidade do fio. Conversaram, a repetir o repetir apenas ao tempo dum
cigarro, desligaram.
Chegou até à porta, olhou a bola,
olhou o garoto na mesmíssima posição na cama... sequer notando a janela aberta,
abanou a cabeça, encostou de leve a porta para não acordar o seu único
herdeiro, vai que outro celerado invente intente na madrugada ligar...
Tornou ao dormitório do casal, novo
cigarro a se con-sumir no vício velho; fumaça pra si e para a esposa a dormir como
fosse boneco igual ao doutro quarto; o fumo servindo também a espantar os
horríveis pernilongos a sugar a senhora enquanto o bate-papo telefônico...
Tentou retorno ao sono, um galo de
plantão insoniava distante, perto os cães ladravam, o barulho irritante fazendo
decerto o caminho inverso do filho e entrando pela janela es-cancarada; pensou
no menino, ah essa juventude e suas energias! Se ajeitou no colchão, apagou por
via das dúvidas o cigarro já em bituca a queimar os dedos e o travesseiro, acariciou
a mulher a ressonar na paz, buscou o sono que é o esconder sofrimento ou
preparar-se ao sofrimento...
Marília janeiro
2006
16° - Porre dos Grandes
Parece
que bebeu um pouco demais, passou da conta. Aliás depois de um copo, e era caneca
ou jarra, após os primeiro segundo terceiro e vai aí por diante não se conta.
Ao menos ele não contou, sequer tendo consciência desperta a se afundar na
matemática. A rigor analfabeto de pai e mãe, não se ocuparia dos números,
embora contasse saber haver exagerado na bebida.
Naquele dia, desconhecendo o dia, o
engenho de cana estava à disposição; talvez bebesse o engenho todo e pronto.
Alguém, seria o Compadre Zé? alguém acrescera algum con-dimento à aguardente,
que fosse um mal-feito bem-feito; sem precisar discutir razões, com bêbado não
se discute; ou então dispara nele o repetir repetir, bem ao gosto dos surdos...
Aqui volto ao hoje e ao meu mundo onde
escolhi para ouvir-me um surdo de estimação, para continuar minhas lindas
estórias – esta por exemplo, que envolve bebuns.
Bebeu engoliu entrou no escuro do
sonho ou do sono ou do dia no dia em que perdeu o juízo, tivesse antes tido algum.
O que bebe sem medida, embora se dizendo bebedor social, já demonstra ter
pouco. O fato é que bebeu a contento; depois engoliu sem tento; marcou o tento
no dormir num sono cavalar.
Despertou, coçou olhos de não ver, viu
o que via sempre: a gente do engenho. Todos falavam andavam faziam suas coisas;
sorriu ao Compadre. “Compadre, pensa que estou embriagado! pois sei até que
hoje é dia 14 de dezembro, o ano se vai hein; ontem foi 13, dia de Santa
Luzia”. Contou da santa, a mãe fizera promessa por causa dos olhos dele quando
remelava em garoto; ele teria de pagar a promesa? Ouviu ou pensou escutar o Compadre,
os outros por volta. Tossiu um pouco, soluçou um pouco, arrotou um pouco, um
pouco anuviado. Para provar seu equilíbrio ficou de pé, embora o mundo rodasse
um pouco. Um pouco falou, se lembrou um pouco; disse pouco: “hoje é 14 de
dezembro de 1640” .
Mostrou o engenho ali em volta, ou seria ele a estar dentro do engenho de
açúcar, onde aquela aguardente deliciosa!?
Mas empacotou. Dormiu sonhou acordou.
Coçou-se, esfregou lacrimejantes olhos, ainda sentia-se ébrio; contudo tomaria,
deixassem, um engenho inteirinho, especialmente da-quela aguardente gostosa. Aí
coçou-se de novo, se espreguiçou, vistoriou o ambiente.
Mas onde o Compadre, ah, olhe lá o
Compadre. Entre-tanto não avistava o engenho... Via olhava pra lá pra cá como
num susto, a custo via. Via um fordeco 1929 novinho, cheirando agência
cheirando a navio cheirando a estrangeiro. Não se assustou. Ou por outra:
assustou-se por não se assustar. Com o que via, percebia o todo! Já se pôs no
trabalho junto das outras pessoas e se lembrando bem dos outros amigos, notava
inclusive o Compadre Zé a Maria sua madrinha, outros mais; todos no convívio e
trabalho. Um pouco zonzo, admitia, zonzo mas ainda sóbrio se dispondo a ajudar
na carga do caminhãozinho, que a ele e a todos presentes um caminhão enorme.
Carregaram, funcionaram o veículo, coube-lhe dar manivela a fazer girar o motor
do carro. Partiram, a carga de algodão a balançar desde aquelas alturas, ele
ainda bêbado um pouco, a olhar os fardos na carrosseria, olhava de soslaio o
chofer. Este a lhe narrar o terrível caso de um fazendeiro duma fazenda
suicidando-se por dívida; ninguém, falou, ninguém quer mais plantar café, o
algodão salva um pouco neste 1931. Ele: dezembro de 31? 14, não é? Era,
concordou o chofer. Pararam. O pneu obrigou o descanso. Tocou-lhe ajudar tirar
remendar encher repor a roda. Prosseguiram e logo se amolentou amolentou-se...
dormiu.
Ah mas que aguardente boa aquela do
engenho!
Abriu os olhinhos apertados com alguma
dificuldade, esfregou a vista, examinou a paisagem e se espantou; só aí se
espantou de verdade.
Estavam à sua frente e ao seu redor a
gente conhecida e os amigos, viu Zé viu Maria, havendo até um Pedro, moleque
arteiro a aprontar; tinha o Lulu, aliás foi ele quem numa latição infernal o acordou.
Riram dele, não para ele.
Zé, ocê bebeu demais, cara!
Respondeu estar lúcido, tranquilo,
corajoso para o trabalho, para tocar a vida.
Riram de novo. Ele:
Querem uma prova do meu equilíbrio? E
imediato completou – hoje é dia 14 de dezembro; me lembro bem disso, ontem foi
Santa Luzia, a mãe fez promessa, por meus olhos que a terra há de comer! Quando
chuva, tempestade, fazia reza brava pra Santa Bárbara, a gente miúda ia correndo
para debaixo da mesa, por via das dúvidas. Alembro bem disso. Aquilo que vejo
lá em cima, pensam que penso ser urubu!? é avião. Hoje é 14 de dezembro...
Riram outra vez e o ajudaram: de 2005.
De 2005?! e ficou a repetir 2005,
2005...
Marília janeiro 2006
17° - O Bem do Mal
Dona
Margarida, se é possível lembrar. Em mocinha possuía uns olhos lindos, desses
esverdeados, olhos verdes tentadores... Nariz afilado, boca de anjo, uns
cabelos anelados a cair assim para a frente de um jeito engraçado e todo seu,
bonitos cabelos. Mesmo o rosto agradava no conjunto. O conjunto é que não
agradava. Em conclusão, todos os traços e detalhes bonitos, alguns lindos
inclusive, numa garota feia. Dona Zizica cansou falar que Margarida não casava,
não acharia doido. E se enganou.
O pai do menino Chen, filho da
Margarida, era um chinês. Completava a mulher; e talvez na China ou na Coreia –
a gente nunca sabe donde vêm esses tipos – talvez lá fosse bonito. Não fazia o
gosto da senhora Zizica é claro; dentro dos padrões nacionais de beleza,
parecia um bruxo! Diziam as más línguas (então Dona Zizica já enterrada, quadra
15 túmulo 62) as outras línguas viperinas afirmavam o chinês ser mau ou de
caráter duvidoso, capaz assim de sadismo até às últimas consequências...
Entretanto não foi o esposo de
Margarida quem castigou ao Mariano Alasão; mas somente o filho do marido dela.
Consta nas crônicas de tais línguas e na de Zizica quando viva, que o jovem
Mariano, um tipaço atlético, fizera mal à menina Margarida. Se fosse um mal
desses de casar no delegado tudo bem. Pois que Alasão andava longe ser
corajoso: era só bonitão e um pouco rico; mas ultimamente já nada possuía,
gasto o tesouro nas farras com as garotas e a beleza dele com a lixa do tempo.
Bem, o rapagão fez mal denegrindo a integridade moral da jovem nuns falatórios
vãos; embirrou com ela, com a feiura artística com que a natureza a modelara; e
perseguiu a pobre Margarida nas gozações picantes no meio de homens e mulheres.
Um dia chegou a falar em público que a moçoila ia continuar moça, mesmo quando
chegasse a velha enrugada... Ela chorou horrores, tadinha. Que não correria
perigo de ataque macho por feiura indecente. Coisas assim de arrasar personalidade.
Pior ainda: a Margarida feiota se apaixonou pelo algoz, desejando acrescentar
Alasão ao Silva do pai dela. Repudiada e gozada, jurou por isso e por mais o
que as línguas faladeiras disseram, jurou vingança ao Mariano, moço mui prendado
e benquisto na sociedade e pelas outras mulheres; sim porque Margarida também
era mulher, embora corcunda e ter uma perna auxiliada por muleta. Isso que
disse, a feia jurou vingança.
Chen, nome dado como homenagem ao pai,
Chen herdara de sua defunta mãezinha a feiura; e a feiura do paizinho também. E
com certeza todo o caráter do esposo da Margarida; como não será preciso muito
esforço para provar.
Indagou ao velho Mariano se conhecia
um senhor Ala-são e onde morava. Alasão sequer se escondeu de Chen; não o
conhecia. Não conhecia nenhum chinês ou coreano ou laociano ou qualquer coisa
assim. E se apresentou ao jovem oriental, rapaz de boas maneiras. Disse o
estranho trazer-lhe documentos importantes de herança, falou estar ali como advogado,
a organizar a vida do velho Alasão, naquele momento arruinado não só nas finanças
estando mais para pangaré em vias de mortadela, que para fogoso corcel.
Nos aposentos dos fundos no Hotel
Modelo ambos entraram, um ressabiado e outro todo maneiroso a exibir fina
educação, meticuloso no fazer e no dizer. Ofertou o advogado ao Sr.Alasão um
chá quente para entabular negociações supostamente longas.
Aos poucos o velho Mariano abriu os
olhos e viu o jo-vem sorrindo para si. Estava numa poltrona simples, mas não
conseguia sentir o conforto do sentar; não se lembrava o por-quê de estar ali.
Foi preciso que o outro reavivasse sua memória, dizer-lhe por exemplo que o chá
continha tóxico manipulado no Oriente; e que agora teria de ouvi-lo sem poder
falar, e quando pudesse falar não poderia falar mais... Alasão entendeu num relance,
quis esbofeteá-lo: não era mais o dono de seus nervos! Então Chen iniciou o suplício,
pois que ainda não começara... Era um chinesinho dos bem pequenos e horrendo na
aparência, embora sorrisos; Mariano um brutamontes, porém não mais podendo
sorrir.
Aproveitou-se o chinês para aclareá-lo
na memória de velho indefeso. Rememorou a existência da mãe e os percalços vividos
por Margarida, sobejamente conhecidos de Alasão. Contou sobre o pai. Falou de
sua missão, ele o Chen. E prosseguiu na vingança materna. O contar já era
terrível vingança, mas não se satisfez. Fê-lo beber muita água e chá adocicado;
fê-lo engolir mel de abelhas. Aí aguardou sorrindo, um sorriso de não acabar
até acabar o dia. A seguir amarrou as coisas de Alasão através de barbantes
encerados; inutilizou aquele instrumental já de há muito inútil, paralisando
sua última função. Aguardou as reações do velho, por horas infindáveis; sempre
com sorrisos. No fim do segundo dia, em que Alasão ia tendo de volta o controle de seus
nervos, nesse momento, soltou de umas caixas milhões de formigas por cima do
homem.
O senhor Mariano Alasão ainda pôde ver
os animais minusculinhos correrem gulosos para o mel; enquanto ele via ansiando
o urinol ali na frente em
desuso. Então ganhou o último lindo sorriso do filho da feia
Margarida.
Ribeirão Preto dezembro
1979
18° - Neutrálogo
Sabe
meu caro, foi assim que entendi; assim nascem as coisas como os nomes.
Acompanhe meu raciocínio pra ver como raciocino: existe o monólogo, quando você
mesmo que está me ouvindo, quando fala com seus botões, uma forma graciosa para
não andarem por aí falando que eu, você no caso, caso concorde com o outro que
sou eu, que você fala sozinho. Já pensou: xilindró manicômio choque (ai o
choque!) e drogas e mais drogas para você ficar bonzinho, quer dizer, quieto a
fim de não perturbar os outros. Monólogo. Tá acompanhando meu pensar, a clareza
do meu raciocínio? Bem, existe o diálogo quando alguém fala a outro alguém e
alguém, outro alguém, responde ao primeiro, concordando discordando ou faz de
conta aceitando. Di é dois no grego. Não, não sei grego. Mas você também não
sabe, empatamos. Inclusive poderia eu afirmar as maiores besteiras dizendo ser
grego e você engoliria. Vê bem sou correto e honesto, longe a querer tapeá-lo.
Mesmo porque estaria me tapeando a mim mesmo; não é assim. Entendamo-nos: tem o
monólogo tem o diálogo e por extensão terá o triálogo quando são três fregueses
falando, não disse falando ao mesmo tempo, o que redundaria na balbúrdia ou
ajuntamento de lavadeiras. Tem, suponho deva ter, tetrálogo quando quatro e daí
por diante. Só que... pera lá, está acompanhando meu pensamento? Monólogo
diálogo triálogo tetrálogo etc., isto quer dizer em latim ‘e outras coisas’.
Como vê sou versado no latim, na Vulgata bem entendido, não desejo me passar
por purista. Xô santidade, xô perfeição. Veja bem, aliás ‘veja bem’ está bem em
uso em abuso também, mas veja bem: e nosso caso? Foi o caso de optar e optei
por neutrálogo. Quer explicação. Ai que horror! e pensar que moro nesse sujeito
obtuso, obtuso digo para não ofender nossos irmãos muares. Voltemos ao
neutrálogo. Seria, e é o caso: o caso em que estejamos neutros. Não poderia
dizer que ninguém fale, caracterizando o mudo, aí um diálogo de mudos: o
mudinho primeiro fala; o mudão segundo responde, não corresponde e briga com o
primeiro mudo. Não dá, pois são mudos. Em nosso caso casa a questão. Se não
vejamos, eu, o seu espírito (que pode ser chamado alma por estar encarnado em
você) fala, falo; não obstante não posso falar sem sua boca. Entendeu? Ah meu
Deus, como meu corpo, o soma, é a soma de tanta burrice! não entendeu patavina.
Desisto. Não desisto, eu é quem sou o teimoso; você é apenas um burro; mais: um
xucro. Queira me desculpar, sou positivo, falo o que penso. Bem. Quero falar preciso
falar, não posso falar – sou um espírito. Necessito músculos nervos expressão e
microfone para expressar-me: sua boca. Isto é, quando falo você fala; do
contrário não tenho meios para dizer o que penso. Pensou nisso? Pois bem, mexo
lá com meus pausinhos no seu cérebro, comando desde ele nervos e músculos e
você boqueja. Viu? Viu quer dizer “entendeu?” Com você meu pobre amigo tem que
ser tudinho literal, não compreende sequer uma figura. Ah! Pois bem, se falo é
você quem expressa, exterioriza; doutro lado você não é capaz de expressar-se
sem meu comando, ou se torna mudo, inócuo inodoro insosso e demais faltas, ah
pobrezinho! Portanto aí, a meu ver, está caracterizada a situação de
neutralidade, por isso neutrálogo – de um lado um sujeito que não é sujeito sem
o corpo; doutro um montão de carne de gosto muito discutível e que só fala se
determino; nenhum é algo sem o outro; não são duas pessoas que se falam e
debatem (geralmente bobagens e mundanices). São dois seres em um, um neutralizando
e equilibrando o outro. Daí neutrálogo.
Pronto. Fui claro? Que horror, não me
entendeu. Devo baixar o nível. Meu caro, sabe duma coisa interessante? você tem
uma porção de necessidades, algumas até admissíveis, mas outras... francamente,
não passa da altura do bruto; o leão o cavalo o cachorro. E me põe em cada situação.
Outro dia quase fomos ao xilindró! Bonito, eu um espírito se não de escol ao
menos inteligente sensível bonzinho (serei mesmo! é chato discutir uma questão
dessa) eu um espírito vivo atento, teimoso sim mas quem não tem defeito! eu
espírito correto preso no xadrez por culpa de quem? de você. Não se retraia e
não fuja por uma das suas costumeiras fugas para o sol a chuva o barulho... não
me convence não! Não fosse minha argumentação dobrar primeiro o escrivão depois
o delegado... Contudo sei de suas necessidades. Não posso todavia admitir
estupro, mesmo que a garota seja a Andreia... Não posso admitir roubo, apropriação
indébita é indébito. Não posso admitir calúnia falso testemunho e não posso
admitir sequer os seus nomes feios, é palavrão, ofensa meu amigo. Olhe bem pra
mim aqui dentrão: se eu o deixasse livre... Não quero nem pensar, pensar já me
dá na barriga um friozinho!
Mas concordo, você tem lá suas
necessidades. A fome o sono isso não se discute. Porém nesse passo vêm outras e
outras e outras, ambicioso hein! se o deixasse fazer e desfazer: simplesmente
seria o caos.
E olhe meu sominha de estimação eu, eu
o seu espírito talvez não de estimação demais, eu compreendo suas tendên-cias,
bem como compreendo as minhas deficiências. Tanto assim que sou vivo, gostaria
de criar mais voar mais realizar mais. Mas eis que o observo e o reconheço cansado.
Pernas bambas pele flácida músculos exangues. Que trapo meu caro, que trapo!
Ora, veja bem (olhe eu a repetir
expressão popular com sabor erudito!) se fosse aceitar todas suas
inclinações... encur-temos a coisa: estaria barrigudo, feio, mais feio digo,
entrevado no hospital como indigente, ou metido na cadeia. Poderia acrescer
mais, porém envergonharia o amigo perante toda nossa sociedade.
Bem. Paremos por agora. Você liga sua
campainha aqui dentro de mim para avisar querer dormir. Está no seu direito,
consinto. Mesmo porque enquanto meu pobre amigo descansa posso fugir um pouco
pelos sonhos. Porque ninguém é de ferro. Eu não sou de ferro. Relaxe. Boa noite.
Marília fevereiro
2002
19° - Sentimental
Foi
um barulho altamente civilizado, quase inaudível, que serviu para a constatação
de sua presença naquela casa. Não era mansão. Também não descendo à categoria
de choupana miserável. Não obstante tudo valorizado, o que mostra o apego dos
moradores. De qualquer forma, ele fazia crer estar presente, ele, sua senhoria.
O esposo daquela dona daquele lar, doce lar, acordou.
Nem precisava, não estava mesmo dormindo.
Ou por outra: tinha o sono leve. O deslize do visitante não convidado
despertou-o de vez. A senhora dormia e ameaçava quem sabe o roncar; levantou-se
pé ante pé para não acordá-la (ou não o deixaria dormir mais, fosse continuar
ele tentando dormir; agora não iria conciliar de jeito nenhum). Desceu todo ouvidos
a escadinha ao pavimento térreo a flagrar qualquer coisa diferente, como por
exemplo gato-ladrão. Encontrou foi um ladrão-gato surpreendido e surpreso.
Aliás, os dois homens ali, agora frente a frente, se mostravam surpresos.
O que o senhor está fazendo aqui! Quer
dizer, falou o óbvio; nessas ocasiões não estaremos poetando ou filosofando
frases de efeito; nem consultamos a lógica; mesmo porque não teria lógica;
usamos isso sim a linguagem inusitada: o que vem pela boca a gente assopra. Foi
assim com o esposo da senhora da residência visitada no madrugadão. “Que é que
o senhor está fazendo aqui !?”
Gaguejou uma resposta o pobre
profissional como fosse amador na arte de afanar. Mas vendo o espanto ainda maior
que o dele estampado naquela fisionomia meio dormida do esposo da proprietária,
teve força e frieza para se firmar e responder à altura. Somente depois iria se
monstrar engolido pelos sentimentalismos. Respondeu que ia passando na rua e percebeu
uma luz fraca na cozinha; estava faminto, resolveu entrar, entrou como pôde, a
dialogar e quem sabe implorar aos moradores algo de comer.
Foi suficiente para amolecer o marido
da senhora, àquela altura sonhando com os anjos. Aproveitou a oportunidade a
pregar naquelas mãos leves uma correçãozinha: fez-lhe discurso moralista em
grande estilo. Afinal de contas não era pela educação e pelo ensinamento que a
humanidade iria melhorar? Agora a vez do ladrão não confesso amolecer. A cena
chegava a ser pungente.
Entretanto acordou daquele devaneio
que o proprietário do seu local de trabalho lhe proporcionava. Porque estava
ali à frente dos dois homens um amontoado de objetos de valor, fruto de horas
de serviço de um profissional. Por isso entraram num acordo e passaram a
examinar o que o gatuno relacionara para levar embora, pedindo o esposo que o
outro não falasse alto, não para não amedrontar a mulher, mas a fim de não
tirá-la do aconchego angélico. No que concordou a civilizada criatura, essa
criatura dos barulhos civilizados suficientes a chamarem a si atenção do
sonâmbulo esposo da senhora nos braços dos anjos, já então roncando feio; o
sujeito aceitou o alvitre, passando a somente ciciar.
Por que – falou o dono também ciciando
– o senhor quer levar esse bracelete? (decerto não iria comê-lo, pensou o dono
da proprietária da casa). O ladrão explicou-se como pôde. O esposo argumentou a
estima da cara-metade, fez o pobre faminto abaixar a cabeça. E esse relógio de
ouro? insistiu o proprietário. E as notas verdes de dólares? Indagou por fim de
outros tantos e tantos objetos preciosos à amiga dos anjos. O profissional
amante do alheio ficou embaraçado, não sabia o que dizer. Piorou a situação
quando aquele marido acordado daquela esposa dormindo passou a demonstrar o
valor moral de cada objeto. Um broche incrustado oferta à senhora pela mãe às
portas do túmulo! o porta-retratos lembrança do quinto aniversário de
casamento! O anel de formatura, a jovem então recebendo comovida! A correntinha
valiosa recordação do sogro falecido mês passado! e tantas e tantas mais
exclamações, que não serviriam certamente para matar a fome do afanador. A
ponto de caírem lágrimas de ambos: no pregador esposo da dos anjos e no profissional
pego com a boca na botija.
Havia também o expediente ao
companheiro da senhora aspirante à beatitude a acordá-la (assim até o imprevisível
ficaria imprevisível, argumentaria em conclusão, se precisasse...) Antes disso
o ladrão aceitou apenas um pedaço de pizza
e um lenço branco a secar os olhos. E se foi. Afinal tinha fome e se encontrava
saciado.
Quanto ao esposo da senhora feliz com
os anjos, esse teve que virar a mulher noutra posição; ou seu ronco iria até
impedi-lo assistir o segundo capítulo do sonho dela.
Ribeirão Preto outubro
1994
20° - Em
Desafino
Olhava
ao infindável do horizonte, com os muros e de-mais atrapalhações intercedendo;
insensíveis às poesias e filo-sofias e também às loucuras. Foi então que
esbarrou não em muros mas nas atrapalhações aos montes, enquanto a natureza
exalava a quem precisasse se beneficiar um hálito quente. Parece que o mundo ia
desabar; mas não ia, apenas ameaçava chover para acabar com o mormaço e o calor
terríveis. Os insetos se alvoroçavam, contudo sequer eram notados, maior
parecia o horizonte infindável. Porém eis que surgem certas erradas atrapalhações.
Entrou mansinho vagaroso inocente
ingênuo sem maiores pretensões que matar a fome que o matava. Andava faminto
esquálido esquelético mísero – esbanjando magreza e sub-nutrições. Quase não
tinha força a... que diria, cantar? quase nem para voar. Não obstante voava,
entrou voando, guardara toda sobra de energia faltante a imprimir velocidade pra
bater asas intermitentemente a fim de manter-se no ar e manter-se. Penetrou
aquele ambiente cálido e aconchegante.
Era do sexo feminino, mas isto apenas
um senão. Sequer possuía nome, irrisório aos pernilongos. Antenas, bico (ai!)
pernas longas parecença com molas, asas extremamente ágeis, um corpo feminino
esquálido esquelético mísero magérrimo. Entrou sem pretensão mas com alguma
estabelecida: saciar a sede de sangue! Engordar sua magreza mas, antes bem
antes, como objetivo básico, alimentar suas oveiras a povoar o planeta com
lindíssimos bebês. Mister muito nobre à pobre mãe porém não solitária. Uma nuvem
de pernilongos penetrava o ambiente, também guiada por suas antenas localizadas
na emissão de gás carbônico de apenas um ser humano.
A concorrência seria grande, enorme, todavia
sobrava comida a todos, pois a presa era bem nutrida, bastante para dezenas
centenas milhares da espécie. Todos entraram famintos esqueléticos esquálidos
míseros, esbanjando fomes. Ela igualmente, não mais não menos.
Ficaram a postos. Cada qual subdividiu
o território do seu descanso ao enquanto... uns na parede outros nos cantos e
mais e mais por debaixo de todos móveis e esconderijos mil, enquanto isso...
A refeição fechou a janela, não
fugindo ao infindável do horizonte, nem por filosofia poesia ou loucura –
apenas te-mendo intrusos cantantes. Sacrificou alguns, fosse pela música fosse
pelo desafino nas notas musicais. Ou tão só a poder dormir tranquilo. Ela ficou
quietinha. Talvez tenha arregalado os olhos de susto, mas quem sabe esta
afirmativa soe apenas como licença poética...
A igreja na praça deu onze badaladas
indicando a hora de ir à cama para os comportadinhos. A comida se deitou
co-meçou a guerra!
O alimento virava de cá tornava pra lá
virava se cobria se descobria a afastar o calor, se esticava se encolhia girava
a cabeça punha o travesseiro por baixo depois cobria com ele a cabeça, puxava o
lençol retirava o mesmo de si, acendia a luz outra vez, ia fazer xixi voltava.
Repetia a dose quase que já mecanicamente como houvesse aprendido a lição.
Elinha esquálida faminta esbanjando magrezas e necessidades estava ali no seu
posto à espreita. Os outros já se serviam, o que provocava todo o movimentar
daquela gostosura de refeição. Porém ela era um ser tímido e não foi
sacrificada antes do tempo como alguns das centenas entre seus companheiros. A
comida se irritava. Dava palmadas, xingava daquele nome, se enrolava se
desenrolava. Finalmente acendeu a luz. Ela ficou a olhar acompanhando aquele
depósito de sangue se levantar outra vez (vai fazer xixi de novo! Não.) Ajeitou
a cadeira na escrivaninha pôs na posição o seu quebra-luz, tomou um livro e ficou
olhando as letras esperando o sono. Doze badaladas, as doze das vinte e quatro
horas!
Luz acesa perturbante, ela achava
perturbar, a comida lia, não muito tranquila, vez por outra sacrificava mais
soldados passantes famintos esquálidos esqueléticos daquele exército aguardando
estrategicamente nova escuridão. O homem limpava a mão do sangue do seu sangue
misturado a asinhas e perninhas, voltava (satisfeito?) à leitura esperando o
sono chegar. Num momento se levantou. Deitou-se. Repetiu o rolar no hálito
morno da natureza. Levantou-se.
Abriu
a janela: entrou a brisa, saíram alguns pernilongos entraram soldados na
substituição aos que tombaram à sanha assassina da apetitosa refeição rica em
glóbulos vermelhos. Tornou a fechá-la. Reacendeu a luz, manchou a parede com
seu sangue já em transformação no bucho faminto do inseto! matando assim um que
outro pernilongo. Acalmou o ambiente, apagou a luz ao ninho, dormir como um
justo. Ela aguardava cansada esquelética e mais faminta ainda sua vez.
Ressonou, a refeição parecia num êxtase, talvez sonhasse com os anjos. Ela
sonhava encher sua barriguinha.
Desceu até o alimento dorminhoco.
Escolheu o lugar, tinha lá suas preferências por direito inalienável de magreza,
sugou. Saciou-se e aos ovos. Foi descansar. Muitos soldados descansavam já
fraternalmente nas paredes do teto nos cantos, prenhes e felizes. Hora de
dormir ao batalhão. Ela não podia sair tão cedo; nem os outros.
O alimento daquele curioso banquete
esquecera as jane-las fechadas, não havia frestas à disposição. Ela e seus irmãos
teriam de aguardar o sol. Oito horas já os raios alaranjados invadiam o palco
de batalha, o homem abriu a jaula para ver o dia, os soldados foram descansar
lá fora. Alguns ainda chegaram a ser alcançados por um tabefe manchado de sangue,
muitos ganharam a liberdade. Foram cantar noutra freguesia, em desafino que
fosse. Ela voou lerdamente de cheia, aproveitou dar uma cheiradinha como
agradecimento àquela comidona. Saía gordinha e estufada, em pôr seus ovos ou
pra voar rumo à interrogação, que todos sabem é próximo às poesias e filosofias
mas longe bem longe das loucuras.
Ribeirão Preto outubro
1994
21° - Um Delito
Pensando
bem não fora ele o praticante de ato terrível e condenável, ou fora; depois se
acostumou com a ideia e conviveu com a infelicidade acabando por não achar
assim tão condenável: desceu a escala para tão só ‘condenável’; condenável,
sujeito a restrições ao vocábulo. No início entretanto sofreu barbaridade.
A consciência não deixava por menos.
Verdade que ninguém conhecido conhecia o crime ele sabia e já lhe bastava a
instalar seu inferno particular para consumo próprio. Passava na multidão, com
a multidão, convivendo com a multidão e a multidão desconhecia seu drama.
Depois desandou a trabalhar o vocábulo ‘crime’ para o descaracterizar, pelo menos
desejando diminuir a intensidade de suas garras. Pôs a lógica desse absurdo que
faz o matar uma pessoa ser crime, matar muitas ser heroísmo. Matara um, unzinho
só, deveria ser menos culpado! Puxa, de repente estava já se autocondenando e colocando
como impiedoso assassino! doeu, sofreu horrores.
Acabou de molho. Acusou a gripe para
efeito externo. Internamente sentia medo até de andar na rua e ser apontado...
mas apontado por quem! por que motivo? Fez infindáveis questionamentos mas não
conseguiu respostas infindáveis, menos as convincentes e convencionais. E por
seu azar vivia num planeta literalmente convencional.
Desejou por longos dias, mais longas
noites que longos dias, estar vivendo no berço do mundo, aquela delícia que devia
ser estar mastigando um fêmur humano cru e sangrento e nada ter que justificar
à justiça... Depois deu um pulinho de milênio e parou estatelado no tempo romano,
descobrindo necessitar ser analfabeto, o que não precisa de muito esforço, para
não ter que ler sentenças contra ele; mas aí sentiu um sustinho, pois não
poderia igualmente se defender contra abuso dos que soubessem e portanto estivessem
com a lei. Não, isso não: fugiu novamente, agora para a Idade Média, ótima para
impunidades (imaginou). Todavia lembrou-se das labaredas, temeu estar do lado
oposto aos religiosos e virar churrasco, inclusive se arrepiou! Melhor mesmo tornar
aos desmandos de sua época (e com isso estivera quase a se esquecer do seu
crime...) curtir suas misérias e envolvimentos.
Mais semana pondo na balança o sim e o
não sem se decidir que fazer, se é que houvesse algo para fazer. Mas ‘algo’ o
quê? Tinha lido sobre um facínora que fugira impune na Bélgica e que após doze
anos, acusado pela consciência impenitente, resolvera entregar-se às
autoridades, as quais tiveram de procurar o esqueleto da vítima para condenar a
vitima da consciência! Isso é patológico, não tem cabimento, pensou; pensou
meio alto, temeu que ouvissem os berros de sua mente, olhou para todos os lados
a verificar estar sozinho.
Mais outra semana. Agora tendo mais
problema a somar ao da consciência: a dívida. A dívida aumentava, ela apenas
diminui ou permanece a gente trabalhando. Porém com cabeça a fervilhar e o
corpo escondido (mas escondido de quê?) na sua casa, não ia ao trabalho. Acabou
despedido. O senhorio queria receber o atrasado. O governo queria quitação de
água luz telefone (mesmo desligado para ninguém ficar perguntando por sua
vida); e tinha IPTU Imposto de Renda e mil e um outros impostos e taxas.
Entretanto sem trabalhar... E como trabalhar se para tanto é mister sair à rua;
e sair à via pública era ficar exposto a mil olhos! Andava na encruzilhada da
existência querendo perder o endereço para ninguém encontrá-lo! Bem dramático.
Mais uma semana. Veio aos poucos a
convalescença. Um dia iria sarar, tinha uma voz lá no fundo da consciência que
dizia isso; da mesma consciência que tanto o fustigara e o fustigava.
Entenda-se. Não se entende. Não é para entender; ele igualmente não se
entendia.
Mais nova semana, o fiat lux! Resolveu em definitivo resolver
a questão: não conviver mais com o crime, mesmo o crime estando nele. Iria, e
foi, procurar a polícia e se entregar. Outra vez patético e dramático. Absurdo
quem sabe, o comum dos mortais fugiria, ele suficientemente ‘ingenoide’ e
legalista iria se expor por conta própria na boca do dragão!
Ficou vários dias tentando convencer
as autoridades ser um criminoso; do ordenança passando pelo funcionário civil
até chegar ao doutor delegado foram dois ou três dias; teve de fazer requerimentos
com a mão trêmula, preencher fichas, assinar documentos, pedindo punição – ah
burocracia. E tem gente besta que fala que a burocracia é apenas entrave
social! Aqui ela aparece como defensora do cidadão ao pôr entraves a uma não
consumação de possível injustiça. Se fosse injustiça, é claro. Falou com o
doutor, tremendo pelo cerimonial e pela braveza estampada na fisionomia da
autoridade-mor. Contou gaguejando tudinho. Tudinho aqui quer dizer umas poucas
coisas, ele mesmo não sabia tudo, supunha apenas conhecer tudo.
Foram muitos dias trancafiado por
medida de segurança, tendo que conviver com pessoas de moral bem discutível;
abusou do direito do desconforto. Até que o último carinho burocrático destinou
um cabo e dois soldados numa viatura a ir buscar provas do seu crime e
configurar culpa (advogado júri sentença condenação e consumação do sofrimento
era previsto para bem depois; a burocracia é séria na arte da azucrinação). Andaram
queimando bons litros de combustível do Estado, houve escrituração do boletim
de ocorrência e de mil formulários oficiais. Não obstante tudo nada encontraram
para ser prova cabal do delito.
O criminoso em lágrimas insistia quase
implorava. A polícia achou melhor, “por enquanto” comunicou seu doutor, melhor
levá-lo a uma repartição para descansar; depois procu-rariam o cadáver e a arma
do crime. Aceitou, até sorriu como agradecimento. Chegaram. Não precisaram
sequer usar camisa de força. Entrou feliz então, parecia um santo. Oh São Criminoso,
ajudai-nos, amém!
Ribeirão Preto outubro
1994
22° - O
Caixeiro-Viajante
Agora parara a chuva e o sol queria, sem
poder quase, queria fazer o levantamento do que sobrara de tanto água despejada.
As pessoas circulavam lá fora num vaivém qual formigas desorientadas mais
desorganizadas que as formigas, muitas iam aos seus afazeres nas lojas outras fugiam
pra casa a descansar seu cansaço rever os seus, vários levavam suas compras e
guloseimas aos pequenos e mistura para ajudar a descer o arroz e o feijão. Os
carros também estavam alegres mas ainda rolavam de limpador funcionando e na lataria
aqueles fios como riozinhos ou somente gotículas procurando escorrer não
contrariando a lei da gravidade. Alguns vendedores berravam alguma coisa porque
sempre tem vendedores de qualquer coisa, e compradores, mesmo com o
guarda-chuva ou então sem o guarda-chuva e as crianças apareciam, brotavam
quase, puladinho, de todos os lados, imprevistamente de todos os lados. As
janelas abriam-se de par como olhos nas casas e nas casas de comércio, bem como
no Hotel Central e também no Hotel Avenida. Os fregueses, notados pelo gerente
não sendo mais que o proprietário preferindo falar “nossos clientes” os fregueses
entravam ao almoço outros saiam do almoço, palitando ainda dentes cariados e
não mui brancos, aí experimentando o sabor da satisfação, havia igualmente alguns
de cenho carregado. Estava só.
Aliás dificilmente estamos
acompanhados, às vezes sim mas sós na multidão, insetos humanos imprevistos em
todas as previsões do planeta; mas só, sentado numa cadeira comum; na guarda
doutra cadeira, no conjunto da mesa, o chapéu de feltro a cavalo dependurado
cheirando suor azedo velho amanhecido dias; no assento a pasta marrom um pouco
lanhada do uso, a alça mais acima e meio aberta no fecho lustroso do abre e
fecha a passar o mostruário e o talão de pedidos, ora magro no tempo das vacas
magras quando pouco se vende e muito se conversa com o comprador da loja, quase
sempre o dono. Falar na chuva, falar do excesso “ai meu Deus”, da falta, da
influência na saída de mercadoria em estoque e daí o costumeiro “nós não estamos
comprando”, que faz quem sabe diminuir as fomes deste mundo... Fumou outro
cigarro aceso no anterior, não é bom fumar antes da refeição, o doutor diz que
não é bom pitar, mas isso é outro negócio; antes da refeição diminui o apetite
mas faz esquecer um pouco o pouco pedido anotado, vem a moça. Ela não se veste
a caráter mas anda limpa, cheira um cheirinho lá no fundo debaixo do avental,
despertando a fome... De comer arroz com feijão? anda enjoado do rotineiro. Não
jovem, Maria? não, entrada não quero, com o calor apesar do tempo chuvoso não
vai sopa. Além do mais sopa de hotel de vila lembra os restos da janta, muito
obrigado, que venha logo as travessas. Vem. Vem arroz vem feijão, um pouco passado
devem ter deixado ferver demais grudando no fundo do caldeirão, que horror! vem
salada de alface e tomate os temperos estão nos vidrinhos em frente, vem picado
de carne de vaca, será boi! Vem tudo na mistura com batatinha inglesa ou
holandesa de origem nacional, ah ainda bem que hoje não é dobradinha lembrando
aquelas melecas malcheirosas das tripas pouco lavadas, ainda bem. Peixe? Caboclo
não come peixe, se comesse serviriam pra gente um com gosto duvidoso, nascendo
suposições melancólicas para a tarde e a noite no quarto cheirando a mofo ou a
naftalina, peixe não tem: é arroz feijão picadinho e salada frugal, tudo sem
nome, nomes são o enfeite do nada. Ah sim, depois, depois da devolução da
metade da comida, depois tem a sobremesa. Num hotel certo dia veio doce de
leite bem mineiro. Mas quando muito vem, vem sempre, Romeu e Julieta: goiabada
ou marmelada num talho fino transparente e o Romeuzinho que é um naco de
queijo. Mas o comum, comum mesmo, é o cafezinho. Todos ao café, a toalha da
mesa encardida e de riscado ou florzinha estando quase invariavelmente borrada
por manchas de café, possuindo um que outro grão seco grudado de arroz, o
pessoal se descuida mesmo: todos têm pressa, uns chegando acenando aos
conhe-cidos e se sentando, enquanto outros se levantam e abanam com a mão
desocupada, a outra segurando o chapéu, num cumprimento a alguns amigos
aguardando sua refeição. Não mais. A chuva parou os raios chegaram iluminando a
via pública, é mister tirar, se a sorte ajudar, uns ‘pedidecos’ por aí.
Trabalhar, fazer malas, comprar passagem, outra praça; rotina como arroz e
feijão; ah e romeu, julieta, café, moça bonita pra se ver. É, parou de vez o
chuvisco.
Marília janeiro
2002
23° - Às Armas!
Dona
Fofura chegou armada, não era amada? Bem. Aflita, espumava, verrumaria fosse
preciso. Cutucou (não sabia, com vara curta, espetando abelhas irritando
onças...) cutucou outra vez ver se saía pretexto, pois causa não existindo por
ter demais, demais ficou em
guarda. A bem da mentira uma verdade: brilhava o metal da
arma. Bufou. Não contente insultou com alfinetes.
Aí a outra saiu da toca.
Um entrevero! Luta desigual?
Desigual. A vítima, Fofura se
considerava ela a ofendida, Elona se preparou (e acionou gatilho? apertou com
punho o punho da espada? dedo no botão a ‘cocegar’ a bomba atômica? não:) se
preparou a conversar. A conversa. Ainda não inventaram batalha mais
contundente, a arrasar, a conquistar, para o bem da guerra. A chegar à paz, que
é o choro, por fora quando o opositor é tagarela, por dentro quando frágil ou
mudo.
Fofura não perdeu tempo: espinafrou a
outra, petitica assim. Atirou com calibre 38, 44 e não sei que mais e se existe
devendo existir: errou; felizmente errou acertando o mastro (do navio? não) do
puxadinho coberto com telhonas de amianto que é cancerígeno mas ninguém tem
paciência de esperar quer matar na hora e Fofura era desta ‘livre escolha’ – aí
estragou o corte mostrando-se na pior das hipóteses ser má espadachim (será que
existe espadachina a ‘femear’ o vocábulo!) Não a bomba não.
¿Acionar
dispositivo atômico redunda em fim da guerra, eliminando os derrotados?
sim, aleluia irmão! mas também os vencedores e é por isso que se
prolonga a batalha campal (leia-se lingual) no orbe.
Não. Não, que não era boba Fofura.
Falou falou ofendeu arrasou a mãe, não se sabendo como certa mãezinha tão
pequena tenha gerado um Fofurão tão grande. Só falou ofendeu e arrasou e a
genitora ficou muda no canto dela. Então, louros, cantando de galo, vitoriosa,
se foi.
Foi para sua casa, para seu tanque,
lavar a sua roupa. A suja não, lavou a sujeira com a mãe na casa da mãe. E
venceu.
Guardou armas, foi então virar Santa
de seus filhos.
Marília janeiro
2003
24° - A Centopeia
Parecia
que parecia... sim a julgar por que nos tomam os outros que nos tomam. Não
obstante dava razão pra quem tendo razão, pelo esdrúxulo da situação. Andava
por este mundo nas minhas mil e uma pernas e os condizentes mil e um pés, patas
na concessão aos puristas ainda existentes, andava livre solto pacificado ou na
paz, que é a situação em que não precisamos a paz por já sentirmos em nós a
harmonia e o concerto. Agora era o semáforo, este que distava muito das origens
helênicas e escancarava vermelho verde e amarelo, o amarelo nunca visto ouvido
bem. As conduções conduzidas pelos condutores, loucas, os homens eram então
pelo concerto e pela harmonia, enquanto que elas matavam, podendo. As gentes
cruzavam e se entrecruzavam, dando preferência ao vermelho, daí correr com temência
que as conduções loucas lhes assassinassem. Os guardas apitavam nervosos seus
neuróticos grilos. Não era mais que o caos, apenas o caos. Em razão desse caos,
sequer percebendo as gentes no ir e vir no caos meus cento e tantos pés, patas
puristas, antes das patas as pernas; e antes das pernas ou patas os pés as
garras; e minha cara de poucos amigos sem ter um ao menos mas tão só aparente,
pois que o coração ainda maior que o mundo a nos cercar, todos nós: guardas
apitos gritos roncos roucos rancorosos ou apenas irados dos motores a caotizar
um trânsito na urbe pequena se imaginando megalópole, então parei. Parei. Ri.
Olhei. Vi-me a enroscar no semáforo, a espantar o grilo engolindo medroso o
apito, os outros, a saber: as conduções destemerosas, os motoristas
harmoniosos, os barulhos silenciosos nas reticências, quiçá enganchados nas
exclamações; os outros olharam-se, atônitos ou desinteressados ou somente a
passar no atraso aos lares, cansados por megalópole de um dia inteiro. Me
olhavam. E nada faziam, se ‘fazer’ for ainda falar esbravejar gritar berrar,
para, finalmente, chorar. Nesse ponto do imponderável no concreto do imaginário
alguém (podendo ser um policial, um chofer no ‘um por todos todos por um’, um
veículo em nome de todas latas plásticos fios poluições; ou tão só um barulho a
ensurdecer boca cerrada e ouvido mouco) – nesse ponto um, ou descobriu o
esdrúxulo, ou nada vendo, tomou a iniciativa de apontar a roupa nova do velho
rei. Não fiquei para ver o que se ver: me desenrosquei do poste luminoso, não
esperando o verde a passar em frente rumo ao futuro, a deixar todos presentes
no passado. Não devo ter esperado. Me liguei antes no ‘atenção’. Por sinal um
sinal descorado que vive a atrapalhar, creio, os daltônicos. Aí ‘minhoquei’
desligando as mil patas, meus pés impuros, endireitei meu comprimento no corpanzil,
qual uma jamanta interminaaável.
Marília outubro
2005
25° - Potranca
Tudo
veio em razão da cria. O barulho era infernal, as crianças... ah Deus nos
livre, o mulherame falando falando di-zem que elas falam falando menos apenas
em fevereiro, naquele agora o berreiro acontecia na cozinha havendo fora da
cozinha os acertos de fumaça cinza cheiro de carne e mandioca, ih muita
mandioca, tinha menino comendo antes da hora com boca aberta assoprando a
quentura na língua de dentro pra fora e todos riam; amigos compadres e vizinhos
todos riam. Frio pra tamanho mas a caninha esquentando bem a goela e a conversa
macha não parava, a égua branca tava a dar cria. Falavam da colheita da chuva
da falta muita e pouco preço, faziam as contas por conta da potranquinha a
nascer e tudo o mais. Quando menos se esperava, morreu a mãe descadeirada e o
prejuízo foi grande!
Antes venderam a potranca amansaram a
eguinha sela-ram a bicha puseram a pobre no arado e na carroça, rasparam o pelo
bonito com a raspadeira, tudo bom pra se ver, soltaram o animalzinho no pasto e
os meninos não deixavam a infeliz em paz nem as moscas e necessitava curar a
ferida. Mas não precisou. Morreu.
Agora o êxodo chutou a família no
agora da periferia urbana e a carne cheira ‘fumaceia’ e as mulheres tramelam lá
dentrão as coisas delas, eles compram vendem todos carros, tem uma jamanta que
só não sabe falar: liga o computador de bordo e a bicha bufa assopra e carrega
aquele mundão parecença com linguiça e tem mais. Mais por conta da loteria, discutem
a loteria e seus milionários prêmios, viram arquimilionários, temem os ladrões,
corja safada que cheira a riqueza lá longe e vem perto da gente e a polícia não
faz nada, a fumaça alevanta cheira o churrasco, a cerveja tá acabando os causos
vêm vão. Ameaçam, executam, gastam a rodo o dinheiro da sorte grande, contam
milhões, se admiram se entregam imprudentes a comprar. Um adquire, um depois
doutro, um carro novo para cada dia da semana; e se troca como de roupa um novo
por novo veículo. Citam marcas, põem defeitos levantam qualidades. Figurões da
burguesia.
A periferia apita, sua miséria grita,
acorda sua desdita, o desemprego vomita, o subemprego no emprego a título precário
se agita, a pobreza conta as contas pra pagar. Não se ganha mais, correu ontem.
Ah mas se...
Marília maio
2003
26° - Questão de Sogra
Qualquer
genro que se preze entende do entender da mãe de sua esposa. Não entendi bem eu
o do personagem, um personagem que inventei a inventar a estória, a qual se
baseia nos fatos concretos, mentirosos até prova contrária.
O personagem, um matusalém de belos
fios brancos na calva incompleta, me contraria. Veja, diz o personagem matraca,
pois bem falante e mesmo abusado o senhor idoso (expressão semântica educada
desejosa de não ferir melindres; eu cá pra mim pensando, com muita
irreverência: o pé na cova iminente a afirmar as besteiras aí embaixo) – veja
se não tenho razão; e iria eu contrariar meu contrário nevando idade... Veja
lá. Casei-me uma só vez e ainda assim sob condição: procurei mil a encontrar
uma que não tivesse mãe – desejava esposa, não sogra; achei a bela, órfã, casei-me
com ela. Na igreja, bonitinho, flores, festas. Nunca tive sogra a atrapalhar
nossas brigas conjugais!
E meus semelhantes! observe os
desentendimentos ocasionados aos outros por suas respectivas sogras. Pior.
Aí não aguentei – ou exigia
esclarecimentos, porque não pode haver vida a dois com três, a velha a xeretar
na casa, isso me confundindo por ser já o ‘pior’; ou matava o personagem para
não ter problemas, que fossem tão só literários. Pode, disse, disse eu ao
matusalém, pode haver pior!?
Aguarde a minha conclusão do
pensamento; ela é o pior desse pior. Daí coçou a careca, quase a arrancar um
dos três fios branquinhos, e reencetou a argumentação.
Veja bem (eu nesse ponto a imaginar: o
sujeito deve ser intelectual e universitário, usando tal expressão viciosa; no
en-tanto não me meti na coisa, ou não acabava ele a besteira a se-guir) veja,
tem pior nisso no caso em que o marido possa ter mais de uma sogra.
?!?
Sim senhor, mais de uma ao mesmo
tempo; não é casar divorciar recasar redivorciar re-recasar, pois assim seria
suportar uma sogra a cada uma das burradas feitas; não – ao mesmo tempo mais de
uma sogra a dar palpite na casa. Vou além. Imagine haver lido um dia que
Salomão teve 300 mulheres, portanto 300 sogras! Dizem ainda que suas
lamentações nos livros sagrados vieram por não poder mais dormir com as 300
belas, aí o pessimismo próprio da velhice, velhice dele note bem (relembrei o
intelectual o universitário, olhei o velho) note bem, a dele, eu sou muito
macho, um dos poucos machos a sobrar do tempo que imperava o machismo; que foi
a época dos ainda existentes governo parlamento justiça, tudo em favor do homem,
a mulher apedrejada, lapidada por traí-lo; tudinho já ultrapassado nesta altura
da civilização.
Não se espante por minha lembrança de
Salomão, um rei sábio como sabemos. Isso porque dos tempos bíblicos até a pouco
os homens ricos possuíam várias esposas, nunca tre-zentas como a garanhão judeu
mas assim mesmo muitas esposas e concubinas. E, aqui o desastre: – muitas
sogras!
Já
imaginou (imaginei eu o a pedidos do personagem matusalêmico) já pensou na
velharada dando palpite na casa do genro e mesmo ao genro! Você (ele arremedou
voz de mulher, sem grande habilidade aliás:) você não quis dormir esta noite
com minha filha, seu sem-vergonha, apenas pra ficar com a esposa n° 999! E
outras coisiquitas: falta mais um sofá na sala; seu filho da 594ª esposa bateu
no meu netinho; sua n° 302 tem um amante (eu logo a repreenderia assim, se
fosse comigo a queixa: amante, vírgula: ‘namorado’ como é na linguagem atual)
você não pagou o ipeteú e vieram cobrar na porta, a envergonhar minha filha! é
para isso que a desposou? Ainda muitas outras, outras muitas chatices que as
sogras lembram nos esquecimentos do genro.
Comigo não é assim... ah tem mais um
senãozinho. Se-guinte. Você imagine ter sete sogras ao mesmo tempo. Escla-reço melhor. Sabe perfeitamente que ao
homem a natureza reservou cerca de sete mulheres, já tenho uma falo então das
seis restantes. Pense bem, seis esposas, seis sogras. Eu teria portanto de aguentá-las
ou procurar mais seis órfãs. Pense no desastre que me atingiria!
Comigo
não! insistiu o personagem, olhando-me esquisito como se eu fosse aliado ou
culpado desse estado de coisas. Uma só vez casei-me. Teria apenas uma sogra; e,
melhor, nenhuma por haver escolhido noiva órfã de mãe. Não tenho do que me queixar.
Até recompenso minha esposa com presentes pelo fato de não me trazer para casa
a mãe dela.
Eu: esse pacote nas suas mãos é o
presente?
Ele: não, isto é para outro personagem
amigo que você criou outro dia. Os presentes à consorte são outros. Agora neste
ano por exemplo dei-lhe um namorado novo, o anterior desejava mandar de galo na
casa, parecendo sogra. No meu lar mando eu, sou macho pra valer. Parece ter já
falado sobre; falei isso?
Ai! Sequer me restando alternativa,
encerro o conto, ou teria que matar o personagem, embora o respeito devido aos
idosos. Ora, morto o personagem, morto o conto. Daria tudo no mesmo.
Marília dezembro
2005
27° - O Terceiro Caso
“Eu chamo Dito”. Cheguei aqui tempão, tempão
agora sem serviço, serviço só assim como o senhor me vê chegando nessa
bicicleta, ela faz nhec-nhec por falta de graxa, aí é mesmo relaxo, a mulher
faz barulheira danada pelo relaxo, fala fala sem parar, já me fui pro trabalho,
trabalha ela com a língua, agora mesmo deixei a megera rosnando lá em casa tomei
a magrela aqui e fugi de casa, dela, deve estar ainda me falando eu aquizão
empurrando esta porcaria o pneu furou e preciso chegar até oito, marquei sete
com o pedreiro, me deu lugar de servente que o sobrinho dele adoeceu e estou no
lugar, uns dias, nem falei pra ela ou me pede a grana, e como faço pra pagar a
pinga no ‘pindura’ e ainda preciso levar qualquer coisinha pra filha, uma graça
de menina, não contei pro senhor que está já na segunda série, lá no grupo
perto de casa, disse já que mudei da Vila e moro no Jardim, sim desde que
voltei com a mulher, me fala me grita me cobra, eu desempregado, agora tem o Zé
Pedreiro e ele me deixou ficar no lugar do parente a carregar massa, nem pude
fazer marmita tenho de comer no bar da esquina, ainda tem um lá não é, ela se
me visse pôr arroz feijão e abobrinha ia perguntar e depois cobrar o que nem
ganhei e nem sobraria pra pagar a cachaça que tomei e devo tomar, ninguém é de
ferro, o sol está brabo desde cedo, deixa eu ir indo que preciso empurrar esta
droga até o trabalho e no almoço conserto a bicha, a megera deve estar lá em
casa me falando me pichando vagabundo e lavando roupa pra fora para a garota
comer e nós todos, isso confidencio ao senhor que é amigo, ela é braba, têm os
caras que batem, eu não bato na mulher, tem os que batem e apanham também, mas
não é o meu caso, falei que sou trabalhador, o senhor me conhece, não, o meu é
o terceiro caso: só apanho, ou fujo, digo ao senhor mas não conta pros outros,
estou fugindo para o serviço e fugindo mais dela, ela desconfia que nem desconfia
que eu esteja longe com a magrela; melhor a lata de massa a enxada o sol, que
ela, o terceiro caso como falei aqui pro senhor e “eu chamo Dito” o pedreiro,
das coisas não sabe, sabe só que sou o Dito, entendeu?
Marília abril
2002
28° - Latifundices
Raspou
goela, olhou em volta, uma dúzia a plateia não mais. Tenho saudade, disse,
coçou queixo pôs tirou pôs o chapéu, pigarreou, assentiram sem que houvessem
dito. Saudade muita saudade, insistiu. Os outros concordaram, é praxe o quem
cala consente. Tinha pra mais de mil cabeças... Arregalaram olhos, um deles de
cócoras outro encostado na parede gente já nasce cansada; alguém pitava baforando
todos na fumaça, um magro com sestros nervosos chamavam “Tremelique”, outro
ainda só mascava fumo sem dente baba a escorrer. Ele não, empertigado, tirou de
novo o chapelão: Tinha muita coisa. Terra ah, um não acabar... Tossiram na
turba. Completou: tudo que vocês imaginarem eu tinha, era só verde... Se ajeitaram,
mais dois se acocoraram. Verde que sumia de vista, uma lindeza! Um moreno espirrou
esperou o “saúde” se limpou num lenço duvidoso. Lindeza. Vejam, eu tinha: carrapicho,
pé-de-galinha, amargoso, grama braba e é claro, tiririca. Ouviu-se um mugido e
um ladrar ao longe. Tiririca alqueires de tiririca ninguém nunca colheu tanto!
Crianças correram por entremeio adultos gritaram riram choraram brigaram. Alqueires...
e a criação! Mais garotos brigavam agora, ninguém se entendia, os grandes
ouviam: Animais! mais de mil: carrapatos, piolhos, bicho-de-pé. Ai perguntaram
“como é isso!” Repetiu bicho-de-pé (coçou o dedão do pé tirou a botina um pouco
cheirosa no provar). Tinha besouro (pronunciou “bizôrro” mas entendiam bem).
Tinha marimbondo. Tinha abelha porém mel nunca encontramos mas havia. Chegou
uma mulherinha, feia de espantar mas tem um ditado assim: em terra de cego quem
tem um olho é rei, rainha, riu para o matuto. Continuou: mel não dava mas
havia, tinha vaga-lume, tinha barata (aí a mulher feia fugiu horrorizada).
Tinha mosquito, tinha pernilongo, tinha varejeira. Tinha insetos todos do
mundo. Os moleques voltaram e uns se escondiam nos cantos outros até atrás da
gente grande, todos mais ou menos na estatura, ele sim era grande alto gordo e
disse no vozeirão grosso lamentando: muita criação, muita terra, muita gente
morrendo nelas, até cemitério nós tínhamos (a concordância não concordava nele,
dizia “nóis tinha”). Sim, insistiu, cemitério. Se benzeram tossiram pigarrearam
resmungaram baixinho. Terra, isso, terra! criação! até floresta com onça e dinossauro,
tudo meu! Se olharam espantados acenderam cachimbos cigarros de palha, alguém
fez sinal a outro alguém. Tudo meu, mas pra quê. Veio o governo veio o juiz veio
o delegado; tomaram tudinho. Eu? “Tô aqui”, ele disse.
Marília
abril 2002
29° - Trastes em Reunião Familial
Todos
falavam ao mesmo tempo alguns se calavam até compreensivelmente e um que outro
gato pingado por mudez quem sabe. E como ocorre sempre, sempre alguém a dominar
o ambiente. Ela. Apaga a luz do banheiro, não sei quem esqueceu a pia pingando,
o de plantão a fechar torneira, apagar, esbanjamento não é apenas
desnecessário: fere bolsos. Outro contava piadas, as mesmas ou só mudando de
manoel a joaquim o personagem, as mesmas ano passado passados anos também.
Criança isso tinha bastante gritava brincava enredava brigava bastante a dedar
com categoria. Ela olhava falava até mandava, lembrando velhos tempos, as
crianças agora na sem-gracice, ela rindo aos netos emprestados sobrinhos e
apensos, menino atrai menino em razão direta das distâncias, parque infantil,
socorro! E cruzavam até se escondendo em meio às pernas da gente. Ela pequena.
Miúda. Tinha o Tim. Os outros, uns capetas. Esse aí, o Chico, o Chico riu um
risinho tipo não estou aqui, esse aí? o Capeta. Contou o ‘capetismo’. Ele,
disse ela, com o Pedro... Todos param quando o assunto são as chaves, o Pedro
cutucou a esposa e se avermelhou. Ela contou desse malasartes, ah as artes.
Mamãe, tadinha que o Céu a tenha, ficava louca com esse aí (mostrou para se
avermelhar de novo mas o parente não cutucou agora) esse? nem o Diabo podia. Um
dia, vão ouvindo, ouviam, fez não sei o que diferente do não sei quê que fazia
diário, você aprontava, meneou a cabeça que sim, aprontava a valer; então todos
correram e ele dizia não ter sido ele, o que a rotina provava contrário. Aí
Mamãe, que Jesus a tenha, pegou o ‘magriça’, era magrelinha, prendeu-o nos
joelhos e lá vai bater, bunda pra cima cabeça presa nos joelhos maternos e bem,
essa coisa aí (a coisa nem se avermelhava mais) deu certa mordida na Mãe,
tadinha, ela abriu as pernas, o Capeta saiu correndo a lamber aquele gostinho
de mãe, se perdendo no mundo! três dias sem voltar pra nós, não foi, Pedro! Só
o Tim. Esse era um santo. Contou da Nina. Sempre atrás dos moleques fazendo o
que não devia. Nina sorriu contrafeita. Se perdiam nos pastos... Tinha o Tim.
Esse não. O Nico era o Maria vai com outros; olhou desenxavido a mana miudinha
mandoninha. Quem entrou com os pés sujos! nenhuma criança a se defender. Bem,
disse ela. O Primo João, lembram do João! Riram. Ia no vizinho, vizinha da Tia
Zulmira, se rasgava na cerca trazia mamão. Depois apanhava, por que não comer o
do nosso pé! Tia Zulmira, tadinha que a Paz seja, o João com o Pedro... O Pedro
falou à mulher chamar o filho ver quem andava brigando. E das Meninas, eu era
boazinha, sempre com Mamãe, os ares celestes a envolvam! mas os moleques de
nossa casa... Deus me livre! Tinha o Tim. Só escapava o Tim. Serviram bolos,
cerveja aos desavergonhados, bolos a adultos e crianças, as que não brigavam lá
fora. Continuou. O Nico, o Primo, a Joaninha, nem se fale, e o Pedro, esse
aí... esse estava agora no banheiro fazendo não sei quê. Já contei deles no
Parque e na Casa Paroquial! Já, responderam. Contou outra vez, vez outra riram,
voltou o Pedro, rindo também sem saber de quê. Tinha o Tim. Esse era um anjo.
Ah, esse aí, o Pedro, estripou ele, tadinho do Tim, com a faca de Mamãe, Deus a
levou, com faca! – saiu a palha saiu algodão. Pois cortou-lhe a cabeça jogou na
privada de buraco. Chorei, ela disse que chorou. O Pedro riu como os outros,
mas andava constrangido convidou a esposa e o Capetinha brigão a irem embora.
Marília maio
2002
30° - Os Pardais
Acordou.
Não acordou, acordou dormindo, que é esse estágio da madrugada (mas o que é bem
a madrugada!) quando temos consciência despertos porém na dormência gostosa precisamos
deixar a coberta e, aí sim, enfrentar os domadores da vida: o imposto o
compromisso a dor a necessidade, enfim nos confessaremos por que não fiquei na
cama. Acordou com o barulho, infernal, do despertador. Tinha um barato de um e
noventa e nove? não desse, os passarinhos. E gritavam, devia continuar a chuva
o frio o cheiro de mofo, nada convidativos; mas aos pardais, numa briga imensa
dos floreios amorosos na cumeeira, isso não importava, importava o gritar e
eles o faziam, acordando até surdos. Não era surdo, normal. Que é mesmo normal!
Remexeu revirou retardou quanto pôde, é humano aos humanos fugir dos entraves e
cobranças do dia, se bem que não houvessem argumentos para a fome que nascia e
a dor de barriga a qual já morria de insatisfação. Remexeu novamente para outro
lado. Gritaram avisando hora, assim decidiu-se: ora, não iria ficar vegetando
dia todo já claro diziam os pardais, apenas por conta da aposentadoria recente.
Abriu enfim olhos pra ver o claro deles, não era ainda claro para si. Fechou,
rolou, puxou cobertores, fungou, fingiu dormir e não acreditou. Chega, vagabundo,
se falou e não se defendeu: abriu definitivamente o dia. Mas não tinha dia,
tudo escuro ainda decerto alarme falso do seu despertador de penas. O estômago
a barriga estavam era do lado dos passarinhos. Agora chega mesmo. Arregalou.
Ainda assim não percebeu o porquê da
alegria dos par-dais, eles que pareciam extasiados barulhentamente extasiados
na sua alegria. Tinha mais mais nesse menos ausente claro: o povo principiava a
rolar pisar o asfalto, uns comentavam outros só andavam teimando silêncio e macambúzios
à maneira chata de adulto, mas as crianças tagarelavam chutando latas e pedras
em direção da escola onde iam gulosamente às aulas. Portanto não alarme falso
dos seus pássaros, era hora da hora... Por que motivo então andava escuro e
fechado o mundo! Arregalou mais. Estava cego.
Sequer naquele amanhecer percebia,
muito menos adivinhava, o drama que iria viver. Fora de expectativa pensar no
sofrimento dos conhecidos que vira perder a visão. Agora era sua dura vez na
experiência dolorida. Chorou, não se diga que fosse tão insensível e não
precisasse ter pena de si mesmo, gente. Gente é assim. Mas chorar a quem! Já se
acostumava, fosse isso realmente possível, já se acostumava a viver só. Só não
sabia viver só e cego. Entretanto, pensou pensou, as lamentações mundanas
jamais conseguiram mudar o planeta; ao menos melhorá-lo. Era enfrentar,
sozinho, aquele novo drama. Pensou drama, porém logo viu, viu sentindo, que os
dramas não resolvem drama, criam mais drama. Levantou-se.
Acostumara a economizar energia, era
um fruto do apagão no país, conseguia fazer sempre tudo no escuro: se levantava,
fazia, lavava mãos, desinfetava, voltava à coberta sem gastar o interruptor,
daqueles que ficam alumiando reflexo no escuro após apagada a luz, mas isso
agora não tinha mais importância. Importância apenas pelas experiências adquiridas
economizando e não fazendo lume.
Apalpou daqui apalpou dali, a se
acostumar com o novo costume de sua noite interminável (interminável! fez ui
por susto e temor). Chegou ao banheiro arrastando seus chinelos. Olhou o armário
da pia, seu espelho quase sempre espirrado de pasta dental e outras sujidades
de limpeza e do fazer a barba; mas agora também não importava mais: não via o
espelho que o via. Voltou chec-chec se arrastando ao quarto, abriu vidros do
vitrô a entrar ar, iniciou a ginástica matinal. Flexões alongamentos essas
coisas, até ao exercício respiratório, o que fez bem. Não sentiu nenhuma
diferença de quando enxergava; de olhos fechados fazia o que abertos com a
mesma precisão. Ainda mais que a boca contava direitinho cada movimento. Só não
cantou baixinho, habitualmente era um cantar pensando e não expresso. Mas cantar a alegria em perder a vista! Daí
foi para a cozinha.
Ligou seu fogão, fez a sopa. Fervia
leite, punha açúcar e café solúvel, pedacinhos de queijo, pão especial – uma
sopinha especial de gostosa. Ele conversava sempre consigo mesmo e achava
deliciosa; não se discute gostos. Arrotou, não precisava olhar ver se alguém a
pedir desculpa pela má educação, nunca existia ninguém a lhe perturbar a liberdade,
menos agora que não via, mais agora, não precisando ter vergonha de sua
sem-vergonhice. Voltou ao quarto.
Trocou de roupa, deixou a malcheirosa
de dormir pôs a cheirosa do cabide. Preferiu – por que um cego não deva ter
preferência! – preferiu a camisa vermelha, do tipo cheguei, inadequada a senhor
idoso. Por que velho? Não chegava aos cinquenta e se achava em forma, pensava em forma. Optou pela
berrante que a tanto escolheu bem sabendo o lugar; e se vestiu, chegou até ao
estágio das meias, separou de lado a furadinha para outro dia, aquele era dia
de comemorar. Pera lá, comemorar cegueira! Falou um nome feio, baixinho a ninguém
ouvir, têm os nomões têm os medianos têm os ‘tantadinhas’ que não ferem nenhuma
pessoa mesmo em público, educado optou por esta última possibilidade no reino
dos desnecessários. Não deixava ser comemoração, ao menos sendo um certo
estrilo em revolta.
Revolta? mas por que razão. Sempre
aceitara o inevitá-vel, se adaptando ao não tem jeito. Como revoltar-se agora.
Aí calçou-se. Por costume executava cada fase até ao fazer laços nos cadarços
sem ver. Interessante como as pessoas fazem tanto e não pensam que estejam
executando as coisas. Às vezes até saem obras de arte. Não, obra-prima é outra
coisa. Que estava ocorrendo – fugia a si e de si mesmo para não constatar
cegueira! Ridículo. Resolveu enfrentar a situação dum cego sendo um
consumadamente cego. Já chorara já pensara já pesara prós e contras, não se
revoltaria.
Contudo optou por forma interessante,
curiosa ao me-nos, de viver a sua noite noite e dia. Era sim não contar a
nin-guém haver virado cego. Isso.
Não obstante sua vida solitária dava
muito pouco crédito à opção, pois que não falava mesmo com ninguém. Não seria
preciso divulgar...
Saiu pisando duro, machão, ao seu
quefazer nada preci-sando realizar; o que constava ser tentar resolver da
melhor maneira seus problemas do dia a dia, que são igualmente os dramas
alheios. Podia mesmo contar passos se quisesse, não precisava, sempre pôde ir
onde ir de olhos cerrados antes de estarem cerrados. Viveu sempre pensando
imaginando criando estórias e personagens. Então falou-se durante o trajeto –
nada perco, mas perco sim: não poderei mais ver de fato as garotas bonitas que
me alumiavam a vida! Começou a pensar nas conhecidas a bela da padaria a caixa
graciosa do supermercado a menina loira da lotérica, puxa que desastre! No
entanto não estava ali para brigar com a sorte, a viver tão somente. Continuou
a caminhada. Decerto alguns conhecidos por quem passava, só um falou-lhe o
bom-dia reconhecendo na voz o barrigudo da imobiliária, decerto outros passaram
por ele, imaginaram que tivesse ficado orgulhoso ou cego. Estava mesmo cego de
verdade, verdade entretanto que ninguém soubesse.
Comprou aqui ali, suou pacotes e
sacolas. Voltou como nada houvesse, havendo só peso embrulho e cheiro de fruta.
Ainda ouviu ladrares constatando serem os mesmos seus amigos cães, amigos que
nos acordam noitona por verem gatos no amor. Percebeu o arrepiado de rabo
grosso e latido em ardência. ‘Viu’ o vira-lata pequeno do quarenta e quatro,
riu-se da sua cauda pelo meio. Desviou como fazia sempre do portão do feroz
enorme preto, de que raça seria? nunca fora um conhecedor. ‘Ufou’ cansado,
abriu seu portãozinho, ‘tafuiou’ (gostava gastar termos chãos e agora como prêmio
tinha direito a usar) tafuiou no lar; depositou suas coisas nas coisas suas, encheu
a geladeira, guardou no quartinho alimentos não perseguidos por bichos miúdos
(pera lá, se indagou, tem alguém!) aí descansou no cadeirão da sala. Apenas a
descansar.
De agora por diante não poderia ler
refestelado no cadeirão perto do telefone. Lamentou, pessimista. Mas posso
falar, é só digitar, disse otimista a si mesmo.
Alô respondeu a amiga. Não, decidiu
não contar a ela. Mesmo porque é um amigo! até onde um ser é amigo, um amigo
pode não passar de um conhecido. Um conhecido pode ser nosso caro desconhecido.
Será que o mundo não é apenas a gente cercada por pessoas que tão só nos vê!?
ele não poderia mais valer-se dessa faculdade. Ora... Liguei, disse, a saber como
tem passado etc. e tal. Tal foi a alegria do outro telefone, ela contou rezou o
padre-nosso dela num tim-tim por tim-tim, e decerto não falou tudo, nunca
expomos tudinho que vai na mente; na melhor das hipóteses vomitamos o que temos
no cérebro, só um pouquinho o de dentro do coração. O caso dele era diverso:
não tinha coração. Estava lesionado no seu ser, não sentia saudade ao modo da
pessoa comum, não conseguia chorar para gasto externo, não arrancaria cabelos
no desespero (não possuía realmente bastante fios, só uns compridões e negros
já tentando nevar). Não tinha sentimentos como os sentimentos humanos. Às vezes
se perguntava se era mesmo gente; ou máquina, como se olha o homem saxão, medido
frio calculista, latino ele. Ela não. Não se fez de rogada, narrou tudo que
vivera desde seu último encontro; encontrou até um lembrete da última visita:
está lembrado o azul da flor no jardinzinho? estava. Precisa vê-la agora, venha.
Mostrarei meus quadros também. Prometeu. É fácil a promessa.
Desligou cansado. Orelhas doloridas,
tinha umas estrias e protuberâncias na orelha direita que enroscavam, inclusive
o som do telefone poderia machucar a machucada cartilagem. Desligou espreguiçou-se.
Não era segunda, terça-feira, mas poderia daí em diante alegar devoção ao santo
da preguiça para evitar visitas e relaxar naquele momento. Aproveitou para
fazer projetos.
Como fazer as coisas sem que se
notasse sua noite a pleno sol. Sentia o calor dos raios lá fora e devia estar
belíssimo o dia, ah como somos os filhos do sol! Entretanto não se entregaria,
resolveu sair à luta. Faço assim e assado. E no banco! Tinha outros draminhas
do homem comum para aquele homem comum cego resolver. Os ‘como’ da vida para
que a vida seja rica como rica é a vida. Resolvo o banco, experimento e pronto.
Ouvirei meus discos eruditos, ouvirei ladrar, o grito da criançada, as palmas
dos vendedores; aguentarei mesmo o tró-ló-ló dos evangélicos lendo a Bíblia e
guardarei suas mensagens no bolso, até agradecerei educadamente, não com respostas
sincopadas e sem lhes dar atenção como sempre fiz. Bem, apenas são planos.
A teoria costuma na prática ser outra.
Chegou ao banco com ajuda do hábito e dos ouvidos e também ajudado pelo
guarda-chuva, objeto ótimo a despistar um bastão de cego. Passou o cartão
magnético digitou a senha, pediu à garota es-tagiária para ler o saldo no papel
por haver ‘esquecido’ seus óculos (óculos, olhe uma boa pedida, adquiro uns
escuros a ‘evitar’ excessos solares...) leu, obrigado; digitou o dinheiro recolheu
as notas no caixa eletrônico, ah etapa vencida! Comprou não sei quezinho,
tornou ao refúgio inviolável (não é assim que diz a Constituição? não dava mais
para lê-la, mas brasileiro não a consulta mesmo, mesmo com bons olhos). Respondeu
aos cumprimentos vizinhos, foi às suas coisas: fazer comida varrer a casa, ah
tinha graça limpar se com vista normal não varria e os parentes femininos
grilavam com ele, não, mas fez a boia, cheirava bem, comeu bem, com direito até
à sobremesa. E assim a rotina de uma vida. Uma vida.
Já estava cansado dessa vida, da vida
da vida de cego. Tropeções encontrões empurrões errões! ah quanto fora dava;
dava raiva. Recebia visitas, as esporádicas e as costumeiras fe-lizmente espaçadas
dos parentes. A ninguém contou sua fra-queza. Olhou a todos, falou com todos
não viu mas ouviu bem mostrando normalidade, o que pouco interessa pra quem nos
visita, porque o homem quer falar de si e nunca vê realmente outrem; bastava a
ele ser presença e orelhas, os outros falavam recriminavam fofocavam ofendiam
defendiam detalhavam e raro indagavam. Foi rolando. Mas cansado da vida ouvida
sem vista; ah como lamentava por dentro não poder mais viajar, cortar cabeças
com sua máquina fotográfica, trazer as vistas para as vistas dos conhecidos e
para seu arquivo nos álbuns! Enfim, é suportar as deficiências e os limites que
a existência nos oferece. Todavia, pensando e vivendo assim mas cansado. Mais
de ano empurrando com a barriga! Havia ainda um senão, se não o maior dos
problemas: a fêmea. Precisava uma a encher seus dias, precisava antes de
precisar, quando via ouvia falava ou calava, agora não enxergava. Mas sentia...
Fugiu à sua dor, foi jardinar.
Vasculhava vasculhava remexia e sentia
o cheiro da terra a fragrância das plantas, devia ter alguma flor aberta. A
flor chegou. Oi. O cego levantou-se como visse, oi respondeu. Gosta de jardim?
Fez com a cabeça. Eu passo todos dias aqui, sua casa é linda. Obrigado. Essa
flor abriu hoje? Ah, essa vermelha é ibisco; mas eu tenho outras. Ela falou que
estava vendo e estava mesmo, ele que não e mostrou que sim. Ela se convidou a
entrar: sabe, o calor, uma sede, pode me dar um copo... Entraram, ele na frente
ao conhecido onde era mestre, ela atrás curiosa. Conversaram, ela perguntou se
apreciava seu vestido, respondeu gostar da cor mas não saberia descrevê-lo,
homem você sabe não sabe dessas coisas. Ela desculpou com riso lindo que ele
não pôde ver mas adivinhou. Falaram mais, mostrou sua solidão e coisinhas mil
de um sem-ninguém, ninguém disse a ela que o macho a desejava, nem ela pensou decerto
que concordasse com ele. Mas se entenderam muito bem nas coisas que Adão havia
aprendido com Eva quando dona Maçã os enxotou do Paraíso. Logo estavam
formalizando. E de fato. Andava formalizada uma união! Somente ficavam dois poréns.
Primeiro, teve coragem a lhe dizer que
não via mas a-mava a mulher. E provou isso a sobejo. Segundo, que a cama era
muito estreita para dois. Tiveram que adquirir uma de casal, ela aproveitou
também para exigir uma penteadeira a pôr mil coisiquitas feminis e o espelho
para ela, ao menos ela, ver uma bela fêmea da espécie.
Assim foi que o ceguinho provou
precisar de uns olhos verdes, se bem não vira viravam azuis quando nervosa; e
ga-nhou um par eficiente para ver o mundo, pois mulher vê muito mais que homem,
mesmo o macho não sendo totalmente cego.
Ah, sim, esquecia. Não precisou mais
guarda-chuva para esconder a bengala de cego, tinha desde aí os braços da
esposa a ampará-lo.
Acaba agora a estória cega. Ou não
mais acaba.
Marília setembro
2002
31° - Desconversa
Agora,
Maria, agora parou, mas não se sabe pode reco-meçar... Acho que sim. Sim boa
forma para dizer o não das incertezas. E tinha o menino, um bichozinho que se enrosca
nas pernas da mãe, olha envergonhado o que lá em cimão estão a dizer elas. Sim
acho. Agora é mais forte, estará o ‘Véio’
com raiva! Dona Júlia: com raiva e
decerto pode quebrar a máquina de escrever, olhe que pressa! Claudete – tem
razão, parece que vai pegar o trem... Não tem mais trem Claudete. Pegar
condução eu quis falar, agorinha parou de escrever. Quem, diz Maria, quem pode
falar que é escrever, não pode só estar experimentando! É, concordaram. Sai da
minha perna Zita, vai brincar pra lá, criança só na barra. Parou outra vez, eu
não disse? Acho, fala outra, acho que escreve. O quê, respondem a perguntar.
Minha opinião: um bilhete. Ora Zefa, que bobagem, ah depois conto da briga no
vizinho, bobagem, não pode ser bilhete se faz um ano que bate à máquina... Mais
de ano, mulher, dois que moro aqui, tinha já o Véio. Mais de três, gente. Então
é carta. Carta! se admiraram... Carta para quem e é bem longa. Para a namorada?
Riram. Bicaram: mas já caiu, perdeu na rua, a galinha comeu. E riam-se mais, a
bobagem costuma alimentar a bobagem a qual vira besteira de respeito e ganha
foro de verdade. Verdade, Maria. Verdade. A gente pensa carta! aí a resposta
etc. tal, mas o correio só vem de vez em quando. É, acharam. Eu, fala Claudete
arregalando olhos, eu perguntei ao carteiro, assim como quem não quer nada; respondeu,
lá no trezentos e um só conta: telefone ipeteú e mais cobranças. Deu o serviço
a troco duns trocados como boas-festas, um amor o carteiro. Zefa se intromete –
tão querendo mudar esse carteiro para outro bairro... Ih recomeçou. Já sei,
descobriu outra entre as mulheres: estava limpando as letrinhas. Meu primo
tinha uma e limpava toda hora, os dedos sujando a roupa depois, e não sai mais
a graxa. Vixe, lamentaram. Voltam Zitinha Joaquinzinho Betinha um inferno,
menino gruda não deixa a gente conversar! Está batendo devagar agora, reclama
Joana. Param a escutar, só a meninada barulha, criança é assim: grupinho aqui,
muda pra lá some volta se reúne grita, grita sempre, ninguém no almoço aí a
gente grita eles. Recomeça, o Véio recomeça. Mas não pode ser. Ana acha que é
poeta. Qual nada, bicam: poeta tem cabelão e bigode, é bonito e novo. Véio. Não
pode, Maria supõe que escreva contos. De réis? Maria explica o que seja, que
pensa ser conto. Enfim estória. Mas aí se arregalam temores – então um perigo
no pedaço! imagine-se o Véio contando da gente, ninguém mais com sossego... e
se inventar... Todas: temos de tomar providência! Joana conhece uma prima que
sabe duma autoridade. Outras palpitam, não chegam a acordo. O Véio sai, calando
línguas, as quais se viram a outros alvos, riem-se delas mesmas, brincam
adultas de língua imitando a musculatura e o vigor dos filhos, agora ‘pandemoniando’
bem. Cumprimentam o vizinho, o Véio sorri enquanto varre a frente. Falam à boca
pequena: o homem vive sozinho! mexem com ele de novo, ele acaba volta para
casa, um quilão assim de incógnitas lá dentro. E loguinho recomeça o ‘tectecar’.
Elas: não falam se olham não aguentam e falam. Voltam a supor. Aninha, acredito
que faça novela. É mexer marimbondo: contam a das seis a das sete a das oito a
das nove e aí tem que pôr menino na cama o esposo quer beijinho ela vai ofertar
ele já dormindo; o acordar amanhã, trabalhar, deixá-la contar o Véio. Véio teimoso,
diz Maria. Não para. Acho que é romance, ninguém me tira da cabeça: ro-man-ce!
Olham admiradas, leem o romance, discutem por que motivo o safado desse Véio
matou a mocinha! tão jovem. Ana, conta pra gente daquele romance que sua irmã
leu. Conta contam catam o contar, o menino vem contar a injustiça contra ele aí
chora reclama e a mãe resmunga mas volta ao grupo. Parou. Esse Véio decerto almoça,
que será que come! parou para almoçar. Mas ele retoma cinco minutos depois,
porque tem direito a fazer, é gente. Elas gente. Falam supõem intrigam gozam
apontam. Está agora escrevendo uma crônica, Maria tem de explicar o que é
crônica, tem crônica ignorância, não sabe, costura o não-saber; o público,
medíocre, aceita, retoma os ditos, o dito que fica por não dito e ninguém
precisa se comprometer. Mas que tem dente de coelho... ah isso tem, concordam.
Ele discorda, continua na sua máquina a ‘loucurar’ o que nem será de sua
própria conta. Ele ‘tectica’ sem parar, mas pode não passar dum bilhete,
comprido é verdade mas bilhete. Não acham? Maria Joana Claudete que sim que não
as demais. Apenas concordam na loucura. Porque a loucura é in-teligível.
Marília janeiro
2003
32° - O Porteiro
O
homem aqui enfiado nestas linhas era o comum do ser, era sim mas com a
agravante não de possuir ilusões porém de não sabê-las ilusões; um tipo
insosso, sem idade sem tamanho sem pretensões, não sendo as miúdas e próximas,
sem sexo ou quase sem. Apesar dos pesares teimava em viver. Vivia o trabalho.
Cumpria a rotina.
A rotina é que era, se não má,
adversa. Embora, apenas desconfiava ser adversa ou inimiga escondida atrás da certeza
da dúvida.
Chegava ao prédio, que a ele era o
“predião”, na firma, ao emprego, nas horas certas, saía, voltava pra casa nas
horas incertas pelos acertos e necessidades do chefe.
Não somente o patrão o retendo após o
expediente e após perder o ônibus para o subúrbio. Também os outros colegas se
aproveitavam do ‘caxiismo’ desse funcionário. Ele, se não dizia pensava ser
igual ao patrono do exército, no cumprimento das funções. Não sabendo ter
ideal, cumpria o ideal assim mesmo: sem indagação sem lamentação sem ilusão,
isto já dito. Fazia e pronto; pronto ao retorno ao lar onde vivia com a velha
mãe, mais velha que ele, isso é muito lógico.
O pior, havendo o pior, o pior sendo
realmente as horas de trabalho. Assim porque todos, quase todos pois a secretária
bonita não, todos indistintamente querendo tirar-lhe uma ‘casquinha’; isto a
dizer que no terreiro a ave mais fraca se mediocriza mais na medida em que as
outras por volta desejam afiar o bico e bicam até por distração... o que ao demais
é muito comum entre os seres humanos comuns.
--Oi Zé. Não conheciam bem o
sobrenome, não sabiam sequer o sobrenome; se tendo casa dramas e necessidades.
Apenas ser Zé e andar feito relógio na portaria a registrar entradas e saídas
dos outros, a fornecer uma que outra informação da empresa. Nisso às vezes
escapando do seu pensar uma expressão banal “tá frio” ou “que calor”. Impensável
para os funcionários não haver balcão relógio e Zé. Num igual chuva vento dia.
--Oh Zeca-gol... Não sabiam seu time e
sequer se torcia mas surgiu qualquer referência ao futebol, negativavam o
po-bre, cacofonizavam o funcionário, trocadilhavam o mequetrefe na busca
primeiro do gozo fácil depois a apreciar sua feição constrangida e no sofrimento.
Nesses negativos apenas havia um
positivo: a passagem da secretária da gerência, a qual somente lhe sorria, não
ofendendo o porteiro. Mas a mulher fora demitida.
Demais, era o demais.
Zé-pereba, Zé-fuinha, Zé-besta,
Zé-merda, Zé-bigode; remexia o bigodinho franzia a cara sorria desconsolado aos
gozadores; retomava os apontamentos; só não atendia o telefone por gago mas era
corpo presente na quase guarita de entrada, firme no posto. Anotava
interminavelmente, eternamente. Um dia o chefe do chefe do chefe do chefe quis
ver a anotação: determinou, ou a gozá-lo ou a agravá-lo, refazer calhamaços.
Não chorou na frente do superior.
Fez
refez corrigiu passou a limpo, gastou quase a ponta da língua umidecendo a
borracha de apagar, antes gastara o lápis, gastara o couro cabeludo a se coçar
nervoso nas reformulações.
Enquanto, atendeu ouviu e sobretudo se
pôs como bode expiatório nas gozações dos colegas outros de passagem por seu posto
na entrada do edifício.
Não ruminava não lamentava não ofendia
não brigava, quase já nem lutava, a chorar manso e escondido.
Um dia, a cumprir a rotina, talvez
menos inclinado a ela ou mais nervoso sob as cinzas nas aparências, em volta
com provocação inocente do menos gozador dentre os funcionários, neste enterrou
várias vezes a faca de osso ou plástico, dessas de abrir e aparar papel e
livros novos, se fosse acostumado à leitura e só lendo as ordens de serviço,
dessas. Abriu a carne mole do outro nuns sulcos profundos.
Seguranças chamados, serviço de saúde
depois, depois ainda ambulância hospital necrotério.
Enquanto não chegava a polícia
comentavam nas rodi-nhas a olhar em sua direção: “só por causa duma caneta!”
ou-tros mais criavam outras ‘causas’, quiçá inventando novas consequências além
da cadeia e do sofrimento dos familiares do morto.
Marília dezembro
2005
33° - João
Mimoso
Levantou-se.
Bocejou, fez o que deveria puxou a des-carga, se enxugou. Estaria despenteado,
numa cara de sono? olhou o espelho. Não precisava ser de cristal e adornado, suntuoso
ou luxuoso. Para se ver basta, ou não basta! basta um espelhinho retangular
desses comprados nos antigos bazares de miudezas. O vidro já trazia alguns
senões pela umidade dos anos e alguns salpicos de gotas recentes; enxugou-se
com a ponta da toalha de rosto. O rosto, notou o rosto. Que rosto...
Aí se iniciou um drama. Onde ele João,
poderia ser o Dr.João, apenas Sr.João, onde havia ido parar. Teria partido com
os seus familiares nas férias! era possível. Impossível: no-tava, via-se em
frente do vidro e do aço no espelho! Mas que diabo, não era positivamente ele.
Ele não era ele; era outro. Então lembrou-se da estorieta do sujeito que tivera
o rosto sujo a carvão enquanto dormia e se espantara ao ver-se de manhã. João
não se espantava pelo negro carvão, se admirando só de não ser João... O que
teriam feito do João que estava ali e ali não encontrava. Olhou de novo no
retângulo de vidro, não viu João: somente um animal. Sim, gente também é animal,
quem sabe mais ainda que os irracionais. Parecia cara do irracional. Esfregou
os olhos, olhos sempre costumam pregar peças, enxugou as lágrimas na toalha
cheirando a sabão desejando sol a corar, percebeu que ela pedia urgente outro
pano limpo mas isso não importava; tinha importância, fosse verdadeiro, o não
ser mais João! Tornou a olhar-se: via nitidamente um burro. Não deu tempo de se
espantar outra vez, pensava já no Mimoso. Nas suas andanças de garoto vivia
azucrinando ao animal com pedra e chibata, chamava o bicho de “mula burra”
abusava dele atrelado à carroça, a de puxar barro; tinha mais condescendência
com o cavalo da fazenda; a Mimoso era só paulada. Não se apiedava também dos
cães dos pássaros das lagartixas. Todavia apreciava infernizar mais ao burro.
Agora era o burro.
Começou – fato consumado – a se
examinar melhor. Os pelos esbranquiçados e ralos no focinho, a beiçorra mole e
meio babenta, que horror. Achava um horror. Mau gosto também na dentuça,
aqueles dentões amarelentos com riscos escuros, a baba a escorrer, sentiu nojo
de si mesmo. Mas que teriam feito de sua dentadura postiça com pontinhos de
ouro na frente... ai, dentões horrendos bons isso sim para crocar milho (ouviu,
ouviu-se o croque-croque-croque das sementes mastigadas) dentões ótimos para capim
(sentiu o cheiro das folhas tenras misturadas à sua saliva) dentões bons para
morder o cabresto. Assustou-se de novo: e se viesse a ser machucado pelo metal
entrante do cabresto! Espichou o focinho, quase tocou o frio do vidro bafejando
a imagem a se ver melhor. Não apresentava sinais de machucaduras e se aliviou
um pouco. Não. Assim não dava, melhor afastar-se, fugir dali, quem sabe fugir
de Mimoso para aterrizar em João – pensou se afastando devagar. Porém a
realidade ali estava gritante, era um burro velho! Olhos...
Olhou as duas órbitas grandalhonas,
teve que ver pri-meiro a da esquerda para depois perceber a direita, não
acos-tumado com a posição dos seus novos globos de burro velho. Ficou meio
pasmado: eram olhares límpidos pacíficos mansos serenos puros bons, retos. Era seu ganho nessa perda. Quem sabe não
houvera encontrado o ótimo na pureza! Debalde João procurara trabalhar-se ao
longo dos anos para ser melhor e falhara todos os dias; quase todos segundos.
Não teria chegado seu momento da paz ambicionada, absoluta! Era Mimoso, poderia
então ser mais facilmente puro. Daí se transportou para um terreno baldio, o
capim era fresco e novo, por volta os moleques soltavam bombas juninas gritavam
nomes feios atiravam-se pedras, nessa gula humana para ser gente grande e
brigar desfeitear invejar negar, guerrear; pequenas e grandes guerras: sangue
destruição poderio traições decepções, arremessões de viver. Ele entretanto olhava
pacífico seu almoço nos verdes prados. Não há paz mais completa a um ser como a
imagem de um muar pastando tranquilo.
Sim. Têm as moscas, têm as
machucaduras, têm as pe-dras, têm as fustigações do proprietário cobrador.
Contudo trabalhara vida inteira, era digno trabalhar – no que modificaria sua
pobre rica vida! em nada. Última forma (pensou) agora ele teria de aguentar os
desmandos da gente! Indignou-se.
Que é isso que estão querendo
fazer-me, indagou. Sou letrado, andei por escolas e até universidades, ainda
mais na escola da existência, com algumas menções vermelhas é verdade, mas
também com as azuis e o diploma de cidadão. Todavia que lhe adiantava ser
letrado; que seria melhor: um ‘burro’ letrado ou um letrado burro. Não tinha
escolha. Por isso voltou para o espelho.
Olhou-se admirado, examinou aquele
focinho comprido e peludo, de um pelo esbranquiçado por velhice, ao menos fosse
burrinho mimoso, era Mimoso se lembrou... E as orelhonas, pontudas e enormes! puxa
que feiura. Nunca fora lindo, mas agora era um Mimoso medonho, a troca não
chegara a ser mais vantajosa. Fizeram barulho lá fora, carros rolando, sirenes,
gritos humanos ininteligíveis, a vida morna da gente normal numa segunda-feira
normal, ou comum? então olhou-se novamente por seu espelho...
Tornou ver Mimoso, um Mimoso
desenxavido. Quis voltar para a cama, esconder debaixo das cobertas sua vergonha.
No entanto, se lembrou, burro dorme de pé...
Marília agosto
2001
34° - Como Distribuir Herança
Era
um indivíduo conservador. Conservador no seu ser e nos costumes que vinham de
umas sete gerações. Aí casou-se conforme estabeleciam os conformes, antes
aceitou a imposição do conservadorismo aceitando receber vultosa herança;
coisas que ocorriam há mais de sete anos aos herdeiros únicos de sete gerações.
Num certo dia não é que tenha aderido
aos novos cos-tumes mas ocorreu separar-se da cara-metade (questões conjugais
ou inconjugais) a cara-metade ficando com metade e o filho, a cara do vizinho,
conforme a vizinhança.
Então, desquitado legalmente, rico com
mais de sete fazendas mais de sete casas e mais de sete terrenos por mais de
sete vilas, então olhou para outra mulher bela e pura (há mais de sete anos
havia mais de sete no mundo). Daí casaram-se. Não é bem ‘casaram-se’ pois as
leis exigiam a desquitado consórcio noutras leis de outros países. Viveram bem.
Mal se separaram, as leis os advogados e os costumes comeram a se fartar metade
da riqueza.
Ainda assim Setino – que se chamava na
pia batismal Setembrino mas descobrira que o seu mês de nascimento não era o
sétimo, ou apenas para despistar o setembro ficou Setino – ainda assim
milionário, apesar dos pesares. Então se dispôs a um novo casório na igreja
verde, verde não era ainda a cor do divórcio, em discussão na época. Sete anos
bem, sete mal. Mal percebeu, deixara a mulher, a mulher o deixara antes para
não ser deixada. Mas levou metade da fortuna e os sete filhos do casal, todos
semelhando as caras de sete vizinhos, isto dito por intriga da oposição
vizinha.
Apesar dos advogados juízes e
costumes, ainda permanecia rico, não um ricaço mas bem, conforme o conceito social.
Tanto assim que tal beleza macha atraiu certa bela e pura, pura embora maculada
por um casamento desfeito e sete amasiamentos posteriores. Uniram-se, felizes.
Infeliz ficou Setino, diz a vizinhança que chorou mesmo, infeliz na separação.
Aí vêm advogado lei etc.. Portanto separação e divisão. A ‘ex’ herdou metade, o
herdeiro de sete gerações ficando com a outra metade, metade sem filhos, filhos
que a fêmea da espécie levou com ela para a vizinhança ‘linguarar’ a
paternidade vizinha dos machos da espécie por volta na vizinhança.
Possuía Setino nessa altura não mais
sete fazendas nem sete terrenos e sequer os sete casebres nas sete vilas,
diziam intrigas serem sete as vilas, sem qualquer comprovação. Controlando uma
sétima parte ainda da fortuna herdada das sete gerações. Mesmo assim rico aos
pobres na miséria de sete desempregos por mais de sete anos pesando nos
costumes. Tanto que foi escolhido por certa mulher bela para que a escolhesse
por esposa. Na ocasião já existindo divórcio legal por mais de sete anos – poderia
portanto regularizar até os sete casamentos, passados e futuros. ‘Desregularizou’
o matrimônio, perdeu o filho, falavam ser a cara do vizinho do sete ou do
setenta e sete, e ainda por cima no por baixo perdeu a esposa. Perdeu ao juiz à
lei ao advogado. Ganhou a liberdade.
Liberdade são sete anos de solidão.
Aí a herança de sete gerações reduzida
a uma bicicleta e sete desempregos; aí Setino sentiu-se atraído por uma bela.
Menos de sete anos após se desentenderam pelo desentendimento de quase sete
anos. A lei, não tendo lei nem advogado nas pequenas causas – a lei do mais
forte imperou. Deixou-lhe uma roda da bicicleta e sequer Setino lutou pela
paternidade do herdeiro que não era sua cara. Nem para reaver a consorte já
‘namorada’ do vizinho. Mas também não precisando mais lutar pela herança.
Recebeu-a em sete palmos, na quadra sete.
Marília maio
2006
35° - Diálogos
Vizinhos
Era
capaz até de alguém desavisado pensar em exagero no esse; mas não, era e é
ainda com esse, se bem que das letras pequenas, átonas para não chamar atenção
da atenção. Isto porque o diálogo merece algum trato além do corriqueiro analisar
das coisas. Quando alguém conversa com outrem geralmente já falou ou fala ao
mesmo tempo que com tal outrem consigo mesmo, baixinho silencioso no além do
aquém, às vezes exagera mais e grita mais ainda, gritasse, estivesse a gritar
lá dentro fechado hermeticamente a 7 chaves, poria aqui e agora 8 para trancar
melhor. Outrem (a pessoa com quem se dialoga) devera fazer agir pensar gritar(!)
do mesmo jeito com seu outrem, antes ou ao mesmo tempo do diálogo a se ferir. Portanto
antes e ao mesmo tempo à mesma hora ao mesmo instante se falando um, o outro se
falando, e ambos num diálogo formal e visível audível para a vizinhança
observar. Mas este trato na diagologia (ciência agoríssima criada) o trato não
fica nisso não. Não, tem mais. Ora, as pessoas ‘veem’ o diálogo que é o se
mexer as bocas.
Mas esta coisa, diz quem diz ao ver o
visto e o analisado aí em cima, esta
coisa é uma loucura!
Certo este errado.
Falemos assim do diálogo vizinho, este
sim no singular a pluralizar o absurdo. Ele e ela. Ela é bela amarela em
sequela ela? ele não sabe, prestando atenção bem mais na voz dela, doce
agradável se bem um pouco enjoadinha e soando num falsete. Ele? se é belo
amarelo não se sabendo e menos nas sequelas disto, haja vista não haver
‘sequelo’ no vocabulário oficial, se houvesse seria não feio, medonho.
Olá, bom-dia, ôi, ah, uh, ih, abana-se
vizinhamente amiga a mão, uma, não, e o cacófato? certa mão graciosa delicada
até no singelo ato de esticar a roupa no varal ali doutro lado sendo graciosa
delicada e bonitinha, a mãozinha feminininha.
Olá, bom-dia, ôi, ah, uh, ih que
gostosa! Como vai?
Vou pras minhas coisas. E se pensa
coisas. Escutou que ela não tem mais contato com homem, homem uma espécie
terrível cobradora exploradora e exportadora de sementes ao deus-dará, não se
livrou de dois partos dos doloridos e os meninos dando agora um trabalhão
tamanho, não quer nem pensar diz a bela para outra senhora de sua confiança ali
atrás do muro às orelhas xeretas escutarem se disponíveis. Não quero mais contato
e pronto. Mas refuta a outra: ele não irá se desesperar trair viajar procurar
fêmea! Num tô nem aí, responde castamente. Mas, retoma a chata em conversa com
a bela, assim você decreta a falência do lar, logo ele ficará com a filial
e...e a matriz!? Responde categórica e peremptoriamente também a matriz da
filial: a matriz funcionará, ou melhor: não funcionará mais, funcionará pro forma. Aí se desconversam, falam
outras bobagens feminis, os machos sem espécie imaginam ser bobagens desnecessárias
as bobagens feminis e além do mais o vento ventava uivava barulhando todo o
escutar.
Olá, bom-dia vizinho...
Olá, bom-dia vizinha bela gostosa vai
indo pras suas coisas por aí?
O
senhor (não têm ambos a intimidade do você e menos a de ‘ocê’) o senhor não tem
nada...
Obrigado pelos informes, mas não
cortando a palavra, ocê continua a negar fogo!
...com isso, isto sendo de meu foro
íntimo e de minha conta.
Mas, oh minha gostosura, não anda
disponível tendo havendo estas orelhas abanado escutas e...
Falei que não é da conta de ninguém,
ninguém inclui vizinho, e ademais são horrendamente feias.
O quê?
As cartilagens de abanarem aí, ora!
10:05h, o ônibus circular já se foi,
quer carona, o carro funciona bem, inclusive vou pra cidade e...
Ora bolas. O senhor é um atrevido.
Dedá-lo-ei ao meu distintíssimo esposo.
Faminto também?
Distinto e faminto, mas não dei ao
vizinho tanta liber-dade nem admito abusos; contarei ao cônjuge e...
E antes dará uma voltinha comigo, após
ele ir inspecio-nar a filial?
Que atrevimento. É surdo?
Ahn?
Perguntei se é surdo, pois não falei
não desejar contato com homem nunca mais! ou sua orelha anda absorta ou
escu-tando torto?
Ahn? ah, aceita! vou funcionar o
carro, deixo a vassoura aqui na rua mesmo, que importam as folhas; num instante
tomo as chaves funciono o automóvel, vamos passear.
É surdo!
Ahn. Olá, bom-dia, ôi, uh, ih me
esqueci de perguntar à bela vizinha se... ora, se foi; ora...
Ela lá lonjão: 10:06h.. E abanou
simpatia com a mãozi-nha.
Marília junho
2006
36° - Guloseima
De
repente o indivíduo havia já passado a entrada da vendinha, voltou por de
repente lembrar-se do prometido ao filho. Acabara o serviço, vinha arreado do
trabalho a ansiar o banho o descanso junto aos seus. Mas lembrou-se do prometido
doce, um com várias cores mui apreciado por criança; aliás tudo o que for de
açúcar menino gosta, mas daquele em especial; e não é que andava esquecendo.
Entrou no bar, cumprimentou um abanou
a outro, tinha gente sentada garrafa de pé cadeira de lado vazia e muita ocupada.
As mesinhas sujas, algumas grudando e com cinza de cigarro, uma tendo o
revestimento marcado queimado com tocos semiacesos agora apagados. Fumaça
cheiro de bebida conversa muita baixa e alta. Alguém se descontrolava na harmonia
que exige o decoro e a educação. Entrou no bar, enfim já estando no recinto.
Participava dos assuntos, que no final
das contas não sendo possível lembrar sobre o quê. Sobretudo após mais uma e
outra mais doses. Quando viu já não via, via papagaiado com muita nebulosidade
misturada à fumaça também dos cigarros alheios. O interessante é que a
nebulosidade e a fumaça afogaram igualmente as horas – não tinha mais hora.
Horas depois estava no chão. Quer dizer, não saíra do chão mas o chão é que não
andava mais firme a se mexer como que a se coçar.
Por fim os amigos ajudaram, embora não
os ouvisse. Dessa forma conseguiu ele chegar em casa, ao que se propusera, ao
tão desejado banho e para o tão ansiado descanso entre os seus.
Com muito jeito foi depositado na cama
meio de través, a fim de melhor bafejar e urinar no colchão. Assim dormiu, não
já estivesse desacordado, quase que imediato.
Sequer escutou lá longe uma voz
distante e fina de garoto a cobrar sua guloseima. E ainda ganhou bastante em
não ouvir os resmungos da consorte; por sinal bem sem sorte.
Marília junho
2006
37° - Temporaneidade
Há
tempo inclusive para fora de tempo. Sentia-me as-sim, assim que tomara
conhecimento de meu conhecimento. Deixara o tédio antes que o tédio comesse o
tédio que me co-mia. Não comia não dormia não vivia. Não. Mas eis que houve um
basta, desses bastas que não falam ou se falam não se ouve. Tomando a condução,
nem vi que abarrotada suados uns outros indiferentes; eu indiferente, como que
bastando que não haja. Cheguei. Onde? não indaguei sequer à relva. Era um campo
imenso, perdido nos achados em seus imensos; via não tão longe a montanha,
verde também, ali numa vista de olhos; a minha relva se acabando no precipício
medeando o meu ser o meu solo e o solo em cume da montanha. Não ventava não
ouvia não sentia apenas vendo. Escarrapachei-me no chão, me estendi ao
deus-dará sem lenço sem compromisso, que aliás não existe no fim da idade, não
seja que a tacanhice e a burrice exijam e não era meu caso. Meu caso era caso
mas caso não pensado. O que mais desejava, se desejasse embora, o que mais o
menos a pensar e temer nem se fale. Mas não me encontrava só; a solidão só existe
na cabeça de quem a porte; os outros viviam ou conviviam com todos, sem molestar
minha solidão como um bem, sem me fazer mal, por existirmos todos e todos a
coexistir. Alguns também se espraiavam por volta, a deixar não obstante em
volta a paz. Isso: todos unidos pela paz; se não a conquistada a vivida no
momento. Mas que é momento instante tempo. Um dado da paz é a ausência do
relógio; é o fugir sem pensar fugir mas fugir sequer pensando no compromisso.
Se existia o mundo com sua poluição e sua violência (ah a violência!) no seu
ser e nas imposições? decerto que sim esse não. Daí estiquei-me a relaxar para
ver se não o todo o próximo: o verde a calma a montanha desde a planície quiçá
um planalto de calmaria. E via, via sim. Via mais, a gente a chegar e a chegar.
Embora, obstinado no não temer mas apenas viver, embora tal não me envolvi,
reforçando-me no ver a natureza a macronatureza que se oferecia a todos. Então
ela se aproximou. Terá deixado quem sabe abandonado a gente ou sua gente ou
mesmo o todo para ver a se chegar à parte! não indaguei. Sequer conversei,
sugado pela paz, pois a grande paz se avolumava no todo e na parte. Eu era a
parte, ou uma parte da parte no todo. Ela, após olhar-me sujo talvez dos ciscos
e da sujeira limpa de mato, ela deitou-se a meu lado como fora um
compromisso-sem-compromisso e demais liberdades às quais se não se prende,
antes sente que se deseja. Sorri sorriu sorrimos? não sei. Sei tão só que se
iniciava meu começo de minha continuação ao fim que não pedira e que já se
impunha a se bastar... O tempo... mas que é o tempo!? Curioso não sabermos o tempo.
De minha parte sendo a parte, não sabendo da parte dela, sentia-me fora do
tempo e o que mais viesse sendo temporão ou mesmo o absoluto do absurdo. Mas
que viria a ser o absurdo? Não sabia não queria saber, sabendo a relva o campo
a montanha a natureza o ar a paz a ausência do não-ser. Talvez tenha ela assim
igualmente pensado e mais sentido. Chegou-se mais ainda. Ainda mais estreitamos
nossos corredores e fizemos só um espaço. E nos entendemos de olhar de sentir
de pensar! certamente de pensar. Nos observamos melhor e quando vi, a beijava,
sem saber como depois pedir as desculpas que a educação da gente possa exigir.
Ela sorriu como resposta; até agradeceu de voz. Aí nos entendemos. Nos entendemos
de não lamentar nossa idade, eu tendo vinte mais e mais idade que a idade dela,
nem de falar o sobejo por saber repetição de sobejos. Mas aí o tempo fechou seu
calendário, sequer despedi-me daquele outro ser, manso belo atrativo; cada um a
fugir no seu mundo que é o mundo do mundo, cheio pleno mesmo de poluição e de
outros problemas e sobretudo de violência... Violência! a violência a me
perseguir. Peguei-me na solidão, agora a solidão era mais profunda e, se
medida, sem medida. A infelicidade. Oh a infelicidade. E a conformação da
inconformação; só desmanchada quando ela bateu em minha porta, chamou-me com
sua voz macia aveludada atraente no ganho da perda que se fizera; e já não mais
era. Beijamo-nos, nos acordamos e permanecemos nos plenos e planos que então
fizemos. Um dia, já a imaginar a paz sem fim, eis que adoece a então minha
consorte-companheira! foi uma reviravolta no ninho que construíramos; mas não
mais que semelhante um enganar a mãe por doença. Rimos à pixotada nos nossos enganos;
por que somente os jovens podem se enganar? Assim se iniciou a continuação, que
propunha a continuação da felicidade; sim porque aquilo era a felicidade sem
qualquer contradita. Voltamos à relva ao campo à natureza à vista da montanha à
paz. Era a paz. Daí encontramos no caminho a violência... A violência
perseguia-me, me perseguindo antes na solidão, durante em espreita na paz e no
retorno à solidão! Apenas uma bala perdida nos descaminhos do caminho acabou
com duas felicidades, uma bem acabada prometendo e outrinha prometendo e não
acabada. Velório flores vazios cheios mundanos e solidão concreta. Eles, ela e a
minha promessa, ficaram entre cruzes, mortos, eu morto a seguir a cruz. E deve
ser aí, aí nesse ponto, que enlaçam sem se quererem a felicidade e a violência.
Em nenhum caso a paz. Não deve ser a paz, em que pesem o tempo o em-tempo e o
fora-de-tempo.
Marília julho
2006
38° - Mais Uma de Harém
Buscou
o ponto mais alto do mundo. A si parecia o mais alto. Tinha ao menos mais de
metro e meio; e de lá observava qual atalaia o horizonte que se perdia. Perdia-se
no pensar. Pensava no ilimitado e aí se parecendo a muitos com os quais não se
queria parecer. Experimentou a aragem matinal, o sol nascente surgira apenas e
se perdia em nebulosidade.
E atirava para o Sultão pálidos raios coloridos; ou, antes, seu
multicor é que refletia a cara do sol, este sim um tanto medroso, se escondendo
atrás de uma que outra nuvem transparente. Estaria quem sabe o grande astro
temeroso pelo poder do enorme sultão!
Talvez.
Talvez não chegasse a tanto. Tanto que
o macho corajoso olhou do seu pico a avistar seus domínios e a colorir seu
ambiente e o sol não chegou notar. Vingou-se o Sultão: cantou uma ária de
grande beleza, de enorme penetração, de aceitação universal; e se sentiu o rei
do universo. O mandão do maior espaço contínuo.
Talvez.
Talvez não chegasse a tanto. Tanto que
o macho teve lá suas dúvidas. Verdade que amanhecera disposto, como disposto
estivera toda madrugada; ao menos atento no cantar a horas certas a acertar a
hora do mundo. Contudo havia um quê de amargura não definida e lá algumas
persistentes dúvidas.
Talvez um talvez.
Com respeito ao respeito do seu
harém?!
Talvez.
Não. Não tinha dúvida cantar de galo
naquele terreiro. No momento em que os raios solares davam de cheio nas suas
penas azuis, dando realce maior às azuis-escuras mas embele-zando as
azuis-claras também: se considerava o macho mais macho do planeta e o mais belo
senhor. Senhor. Elas cacarejavam felicidade ali espalhadas; e também as de
crias novas prenhes de cuidados mas a ninhada alegre: ele se considerava o
herói conquistador, lídimo proprietário onde um cucurucu dos menos expressivos
já era um tique de mando e respeito. Não. Não cabiam dúvidas. Olhou. Viu seu
harém.
Talvez.
Viu o harém. Suas fêmeas, belas, bem
dispostas, ciscavam ciscavam cantarolavam felicidade. Os meninos aprendiam consigo
mesmos a ciscar, ora ciscando em falso patinando ou gastando unhas no solo seco
mas alegres. Seria entre eles surgir as mais belas frangas, quem sabe, pois os
machos, pretensas concorrências, iam à panela. Sorriu. Cacarejou a gorda
carijó, então de penas embotadas, boa para canja. Que importava, não atraía.
Por outro lado sobravam promessas, belas promessas nas jovens que haviam sido postas
no meio e que fugiam espavoridas das matronas da tribo. Ele, o Sultão? sorria
matreiro... Para mostrar seu estado de alma subiu outra vez no morro, a lhe
parecer agora mais alto: e cantou mais principescamente! todos olharam – suas inúmeras fêmeas, belíssimas
criaturas, e os filhos, uns invejosos, concorrência ainda a medo, outros mais
sem saber sequer candidatos a molho pardo ou ao espeto virando na mostra da
lanchonete a ficar tontos e cheirando a churrasco. Ele? o Sultão do pedaço.
Desceu.
Talvez. Talvez devesse descer ainda
mais aos escondidos lá pelas cercas no quem sabe. A consagrar limites do harém
ou até mesmo a insultar o desavergonhado vizinho que esbanjava ‘curucucar’
provocando atenção no seu serralho. Subiu num não sei que firme e firme cantou
sua ária macha predileta, a alcançar de um lado suas galinhas e doutro em
xingamento ao inimigo.
Talvez, apenas talvez atingiu o outro
sultão, um sultão-zinho de meia-tigela, o qual feriu o ar com seu despreparado
cantar neófito. Ele respondeu outra vez pisando forte o bico no mais alto tom e
se vingou machezas por cima das fêmeas que estavam nas imediações. Mas havia
outra dúvida...
Talvez outra ainda mais séria. Andava
um pouco rouco e as meninas não acorriam com muita disposição ao seu cha-mado.
Precisava mais com frequência ciscar e engambelá-las fingindo grande
descoberta, fosse certa minhoca ou insetos gordos para atrair a ingenuidade das
esposas. E aí... Bem, era necessário perpetuar a espécie. Todavia passava por
uma outra dúvida.
Talvez não tão profunda. É que muitas
de suas penosas ficavam de sobreaviso, como se o Sultão não passasse dum
gaviãozinho predador. Fugiam ou não se dispunham em ver se ver minhocas ou
insetos na descoberta sultônica. Mas a pior.
Talvez fosse a pior dúvida do Sultão:
havia um rapazote se candidatando a sultão! Dera-lhe aquela canseira; depois
cantara efetivo sua mais escolhida ária. Não obstante necessitava cantar até
nas horas não sendo hora por ser hora do frangão... E outra, pudesse haver
pior.
Talvez mais flagrante: o concorrente
corria dele menos, mais e mais ouvido pelas fêmeas do grande Sultão, encantadas.
E por cima, nesse por baixo, ameaçava o pretendente cantar sua própria ária no
ponto mais alto do terreiro. Foi aí que surgiu a oportunidade de maior
intensidade no mundo do talvez.
Talvez por impensável ao Sultão. É que
circulava nas aparências a aparência duma festa humana, casamento ou coisa que
o valha. Ele velhote rouco desprestigiado; e tinha como ameaça uma panela de
pressão a esquentar...
Talvez devesse mostrar gabarito e
mando a desfazer dúvidas. Subiu no posto ao ponto mais alto do mundo e cantou.
Cantou e engasgou, talvez.
Marília
janeiro 2003
39° - Pescaria de Arromba
Isso
eu digo para quem conheça o assunto, aos mestres na arte. Estaria falando grego
aos desconhecedores. Digamos haja uma verdadeira confraria; eu falo a
iniciados; porque conheço de peixe. Toda minha gente conhece.
Minha turma talvez não saiba saborear
suficientemente os frutos da água; mas sabe, que eu sei e não discuto, sabe é
pescar; isso realmente sabemos.
Sexta-feira dia treze estávamos
reunidos outra vez para mais uma de nossas viagens. Além do Tonho, do João, do
Pedro (nosso azarão definido) do Antônio Preto, também chamamos a compor nosso
exército o Sakamoto (dizem, os nipônicos são os melhores na arte da pesca) e um
fulano apelidado Belinho, com grande probabilidade de nem ele conhecer seu
próprio nome. Nenhuma pessoa mais. Somente os seis. Minto, estava esquecendo
somar o pescador mais importante, eu. Sete homens portanto. Não se venha com a
gasta conversa da conta de mentiroso, pois é mentira. Sete.
Nossa turma se reune três ou quatro
vezes por ano a exercitar sua arte; como aconteceu na sexta-feira dia treze.
Nesse grupo não temos mais que dois solteiros: o Pedro, o qual nunca achou par
e eu, celibatário empedernido. Dos casados somente o Tonho e o João necessitam
dessas viagens de recreio a fugir da fúria conjugal (as más línguas trituram
suas excelentíssimas esposas). Porque os outros membros são de uniões mansas e
puras. Todos os afiliados da nossa confraria pesqueira têm crianças, inclusive
nosso Pedro, tão azarado que o juiz o obrigou pagar pensão à prole. Eu, um caso
à parte, não devendo confessar herdeiros...
Na sexta-feira treze alguns estavam
constrangidos por deixar os seus e seus compromissos. No entanto a maior parte
fazia coro alegre pelo tão esperado acontecimento: uma pescaria é o maior
acontecimento a um pescador cônscio.
Nosso preparo ao dia treze foi
notável. Chegamos a planejar, como nunca ocorrera, o percurso as etapas e até
os possíveis problemas da viagem de férias. Alguns aficionados tiveram pela
pescaria atritos no emprego, um – o Pedro nosso Malasartes – chegou a ser despedido.
Enfim apararam-se todas arestas contornaram-se problemas. Eis-nos a caminho.
Aliás não sem grandes encrencas. A
caminhonete dirigi-da pelo Pedro Azarão quebrou-se; posteriormente consertada
numa oficina na beira de estrada; depois acabou sem combustível pelo tanque
furado. Probleminhas.
Íamos em três veículos. Além do
calhambeque do Malasartes, o meu cansado fusca e também um caminhão alugado
pelo Antônio Preto, o qual levava a maior parte da tralha – geladeira, comida,
farmácia, ferramentas, encerados, fogareiro, gás etc. e mais etc., necessários
a uma empresa como nosso comboio. E é claro varas anzóis espinhéis samburás e
miudezinhas úteis quase sempre inúteis. Um aparato medonho e respeitável, de
estourar os pneus.
Com toda essa parafernália preparamos
nossa viagem. Para tanto usamos uma ensebada lista de outras pescarias, a qual
foi guardada como relíquia pelo João, indivíduo minucioso e organizado. Como
sói acontecer a todas as viagens desse tipo, nos esquecemos de alguma coisa
importante. Dia treze, a sexta-feira, nos esquecemos de anzóis para jaú, fato
até sem importância dado que não existem jaús por onde temos pescado; além do
mais foi esquecido igualmente convidar um tal de Francisquinho, o qual
deveríamos chamar por saber mais mentira que o costumeiro no métier, promessa da viagem anterior para
a próxima que seria em treze sexta-feira, que também virou passado. Ah, nos esquecemos
igualmente dos remédios contra picada de serpentes, mas tivemos sorte de não
encontrar cobras.
Em nosso preparo ainda obedecemos
instruções dos cozinheiros, não só na escolha dos alimentos e conservas mas até
no cardápio e mesmo no tamanho e quantidade das panelas e utensílios; sendo o
Antônio Preto um desses cozinheiros; e o mestre-cuca registrador destes fatos o
segundo ‘queimador de latas’ a dar palpites, mui desaprovados por pescadores e
não pescadores.
Em nossa organização um capítulo à
parte foi o das be-bidas, nas quais todos, mesmo os convidados e novatos deram
opinião e até lições... O caminhão (um antigo International KB-7) quase não
podia com tanta carga líquida, onde a caninha teve um papel fundamental!
Curiosamente o Sakamoto não levou saquê e portanto não destoou de nós outros
membros efetivos.
Ah, andava esquecendo falar sobre os
repelentes; a nin-guém é dado ficar impune na beira do rio, infestado de
perni-longos. Se bem que mais usamos óleo de comer e nos valemos de pneus
velhos, incinerados noite inteira a exalar cheiro e fumaça contra esses
desafinados cantores... Mas levamos também os repelentes vendidos na farmácia
(o japonês tinha, tem ainda, uma na Praça da Matriz; o que facilitou a tarefa).
Enfim no dia treze estávamos para o
que desse e viesse. Todos com alegria imensa, algazarra mesmo, aguentamos bem
um dia inteiro no asfalto quente pela estrada na direção de Mato Grosso; depois
entramos realmente em Mato
Grosso do Sul, pernoitando em Três Lagoas ; depois ainda
nos embrenhamos dias e dias pelas estradinhas poeirentas rumo ao Rio
Inhanduí-Guaçú, local em que acentamos praça. Enfim chegamos ao ponto
combinado; ou seja as três conduções de exímios pescadores se encontraram.
No dia quinze tínhamos já condições a
pescar ou a iniciar nossas atividades; não tínhamos era condições físicas para
tanto – o cansaço a ânsia pela maior pesca que realizaríamos e um acidente com
o Pedro (escorregou se esfolou bem) – forçou o grupo ao descanso. Noutro dia e
por mais de semana executamos nosso planejamento pesqueiro de alto gabarito.
Quer dizer, não executamos
inteiramente o plano. Po-rém nos dispusemos totalmente às nossas lides. Comemos
bastante, que o apetite ‘enormiza-se’ ao hálito da mata e do rio. Tratamos de
nossos afazeres incontornáveis como o preparo da boia e a arrumação do
alojamento. Mas sobretudo bebemos pra valer, somente um colega tomou um pileque
dos bons. E, é claro, pescamos; pescar era nosso principal mister. Linhadas
redes anzóis até experimentamos pescar à moda índia, sem falar das técnicas
modernas; entraram em jogo molinetes carretilhas etc. e tal. Enfim o que mais
fizemos nesse tempo na beira da água, além de beber muito comer bastante e
contar lorotas – o que mais realmente foi pescar. Gastamos muito tempo,
gastamos nossas economias (alguns dos nossos empenharam salários na empreitada)
tudo com o objetivo de pescar. Nos deslocamos de nossos afazeres, fugimos de
todos nossos dramas e até deixamos alguns compromissos pelo compromisso da
pescaria.
Pois bem. Sete homens fortalhões e
grandalhões, pescadores por definição, por esforço de muitíssimos dias empregados
– apenas conseguimos pegar um lambari. Todavia perdemos muitos outros peixes.
Talvez pela chuva ou a falta dela, ou pelo dia treze, que todos sabem é o do
azar.
Ribeirão Preto dezembro
1994
40° - No Paraíso
Para
chegar ao céu ter-se-ia que sofrer nas profundas! Essa questão eu punha em pós
permear pensativo partes no percurso na pista pobre poeirenta da estrada. Era o
chão inóspito a poeira a secura o sol escaldante, a ausência de uma só árvore
para aliviar o cansaço de horas; horas? nos parece a eternidade quando vencidos
quase nas forças. Outra da mesma coisa: haveria necessariamente preâmbulo para
contento dum esforço!
Bem. Era um preâmbulo o inferno por
que passara (ou ainda ardia no fogo eterno...) Fora indicado a ocupar um cargo
qualquer, quem sabe de chefia a atrair ciúme e ódio mal difarçados; um qualquer
sim pois à distância toda posição se desfaz. Quando cheguei à sala indicada
pelos que me indicaram, cheguei quase sem ser notado. Mas havia de fato um
mal-estar entre meus iguais por semelhança. Uns conversavam pouco e baixo,
outros nem a isso se entregando, dispersos ou juntos como que longe do
ambiente. Estavam em greve não sei por que e isso me atingia sendo eu novato.
Sequer achava como sentar-me entre os semelhantes tidos por iguais, me diferençando
acintosamente; indiferença; isso, indiferentes ao meu sofrer à timidez dos primeiros
momentos. Deveria – pensei mais tarde já na estrada da entrada para a saída –
deveria ter-me dirigido antes ao diretor do estabelecimento, não obstante a
paralisação e a má vontade dos funcionários, mais funcionários que homens
ocupados a se desocupar. Mas não fi-lo, ou por não saber dever fazer ou por
acúmulo de gente a aguardar o atendimento da chefia. Ora... custar-me-ia certamente
menos aborrecimentos. Então andavam de cá pra lá de lá pra cá, nem me ofertavam
cadeira. Sabe-se bem como o sentir quando sentir se não aversão indiferença. Ou
é que não me enxergavam! é possível. Desisti.
Não desisti da colocação, haja vista o
desemprego que grassava em redor, mas deixei de lado naquele momento as
investidas para granjear depois a amizade, ao menos a aceitação sem ofensa.
Constrangedor enfim. Por fim decidi deixar o ambiente, noutra oportunidade
deveria ter melhor sorte, noutro dia por exemplo. Pus o pé na estrada.
Mas havia outros percalços a passar.
Novo na região, sabia tão somente a direção da cidade, donde partiria depois de
volta ao meu lar distante também, a dita cidade distante menos distante.
Perguntei, após vistoriar a paisagem próxima, o caminho. Mas por todos lugares
em que estive igualmente a indiferença: todos perdidos nas suas coisas
‘desvendo’ outrem, por azar meu o outrem sendo eu. Ninguém a me informar
direito; ou pior: dando errado ou vagamente os dados. De maneira que cheguei a
imaginar-me o objeto certo dum incerto complô. Porém me salvei, pensei estar
salvo, salvo sim no meu orgulho. Disse a mim mesmo claramente: você pode encontrar
muito bem o caminho com seu senso de direção; é seguir sua vista.
A vista mostrava a vista, ao longe
carros a se deslocar na estrada principal, pequenos na distância, mas concretos
no movimento. Era alcançar esse objetivo para depois o objetivo da urbe estranha.
De fato ela estranha, estranha toda
região em torno, so-bretudo nas imediações onde me deslocava no meu andar lento
mas cadenciado.
Pé na estrada. Aqui entro no caminho,
deixo o caminho preambular e adentro mesmo o do paraíso.
Andava horas, horas! que são horas,
pedaços inconsis-tentes da eternidade!? Cansado, sedento, suarento, o sol a pino,
ambiente arrasador num deserto, pó cor-de-terra e hálito de poeira. Ainda por
cima, devendo sê-lo por baixo, carregava um volume desajeitado, pois toda carga
é desajeito a sobrar nas nossas necessidades. Cada grama do volume era talvez
um quilo a me afundar os pés na areia quente e seca do solo. Pesávamos chumbo,
eu e minha carga necessária ou desnecessária. Olhava à frente para ver o ganho
de trás; olhava e via o longe mais perto, os veículos a passar a ranger seus
motores na via almejada, aquela a chegar quem sabe na estrada estranha da
cidade estranha a tornar posteriormente ao lar ao leito ao meu ambiente.
Esfalfava-me, me entregava!? sei lá.
Talvez não supor-tasse mais horas, horas! minutos segundos talvez. Nisso ela parou.
Era um automóvel sujo da poeira, senti
inclusive o cheiro do combustível e ouvi o frear. Gritou-me. Cheguei perto.
Convidou-me.
Mas havia um drama aqui dentro.
Preciso carona? me respondia sim, mas orgulhoso dizendo que não: facilmente
chegaria à autoestrada e à via de salvação. Ela convidou-me...
Entre. Levo o amigo ao paraíso.
Como crer. Porém crer sair deixar
fugir daquele sofrimento – o cansaço o suor o lugar estranho que me cercava;
isso não seria um bom alvitre! Entrei no carro.
Sorriu-me a bela. Era a mulher mais
bonita que toda minha solidão havia flagrado. Repetiu me levar ao paraíso, aceitei
o convite, subi no veículo, fechei a porta, se deslocou manso de início veloz a
seguir e sumimos naquela paisagem.
Esclareceu a jovem que me perdera,
sobejo isso pra mim; que tomara a direção oposta, pois a estrada oficial fazendo
uma curva e eu a pensar indo ao leste viajara para o sul, perdera meu norte; o
que uma verdade, anuí. Chegamos.
Era uma fazenda de imensas terras. Sem
vegetação. Es-tranhei. A gente era uma gente estranha quieta ou silenciosa, a
montanha andava ausente, parecia certa mansão perdida entre a paisagem
desértica, sequer iluminada do sol. Achei esquisito. Ela entretanto desarmou
meu temor.
Você... gostei de você. Será meu
companheiro nestes tempos, enquanto viver no paraíso... Quis estrilar, pedir escla-recimento,
me tapou a boca: experimentei muitos homens na vida, nunca me deram a alegria
da maternidade! Espero nosso filho, amo-o como meu par e genitor da criança.
Por isso ofereci e oferto o paraíso, ao seu bom viver. Logo me apresentou à peonada,
ao chefe dos trabalhadores como sendo eu o novo ‘patrão’. Se alegraram os
servidores, meio desconsoladamente; enquanto o chefe tentou sorrir-me
subserviências. Ainda estava mudo pelo inusitado, quando a companheira me
enlaçou empurrando me puxando aos nossos aposentos, a fim de gozar o paraíso.
Sim foram momentos paradisíacos,
segundo a compre-ensão humana. Quase me sentia inteiramente feliz. A mulher
bela, dócil, amor integral; logo a criança, a inocência e a alegria infantil a
pular em nossa volta. Por... Horas? que são as horas na eternidade!
Um dia, após tanta eternidade,
estávamos no limiar do desconhecimento. Era linha a separar, dum lado a falta
de sol alegrada pelo sorriso da companheira e o matracar do filhinho; e doutro
o mormaço o escuro o desconhecido além da área do paraíso – quando ambos, a
esposa o menino, ultrapassaram a barreira pra lá me deixando pra cá, embora me
convidando ansiada ela que também eu mergulhasse a linha. Nessa altura...
Vi a mulher se desfigurar; igualmente
o garoto. Ela se ransformava da bela na velha numa decomposição! seus cabelos
se eriçavam, seus olhos vermelhidão, suas ventas a verter fogo fumaça força!
horrorosa no desfazer. Nossa criança se agarrando à mãe, também a se desfazer
horrendamente. Se apagaram no nada.
Nada
obstante, eu me encontrando na estrada na poeira no suor no cansaço na beira do
caminho – em pleno deserto, entre quem sabe as profundas e as profundas do
paraíso.
Marília maio
2006
41° - A Conquista de Júpiter
Calculadamente
ou não, não tem importância neste momento, o fato é que o jovem e grande país,
por ser grande ou apenas por ser jovem – pretendeu conquistar o maior entre os
planetas do sistema solar. Podia bem contentar-se com a Lua ou com uma das luas
de Júpiter. Entretanto seus técnicos optaram por Júpiter inteirinho! A bem da
verdade ou tão só a esclarecer, se optasse Lua terrena seria de péssima escolha;
como alguém desejar casar-se com uma pequena não virgem no tempo do Império.
Isto porque a Lua já havia sido visitada por astronautas americanos em 1969,
sendo que os ianques fincaram a bandeira dos Estados Unidos, e mostraram o
feito na imagem de tevê. Enfim era nação jovem e grande, com pretensão a
tornar-se potência, mais que isso: grande potência! Essa não poderia aceitar
conquistar algo aquém de suas grandiosidades. Donde Júpiter o escolhido.
Diante do que foi exposto, feriu-se
uma discussão acelerada por todos meios mundanos sob o tema: Amorfasil conquista
Júpiter!
Conversa acalorada, a participação
da imprensa sempre comprometida, entrevistas nas emissoras de rádio pra ver a
tendência do povo, o blá-blá-blá dos politiqueiros em discursos intermináveis,
bem como a burocracia carimbando e assinando papéis concernentes, empresas
contratadas pagando dividendos ao capital estrangeiro pelos royalties verificando as possibilidades
técnicas e financeiras, os militares estudando os lucros logísticos da missão,
tudinho amparado na informática, a qual acionou todos os computadores
nacionais, tomando emprestado ainda (e pagando dentro da dívida externa, que
era então a moeda corrente dos países pobres) os dados estrangeiros, sem deixar
mesmo de contar com os satélites espiões alienígenas; e ainda sobressaindo-se
envio de estudiosos às escolas de outras nações, as quais forneceram algum
curso astronáutico e muitos diplomas siderais a preço módico. O Grande Estado a
viver a missão a Júpiter! Quase deixou o amorfo para formalizar a conquista.
Dir-se-ia sem medo de errar da importante participação popular – a gente se
preocupava vivia sonhava Júpiter, como fosse possível aos mais de cem milhões
acompanhar dentro do foguete a Missão. Via-se a todo momento o povão de radinho
de pilha japonês ouvindo o noticiário de Júpiter. Ou a gente do povo vendo nos
bares ou nas praças nuns telões ou que fosse a dona de casa e a família
assistindo novelas televisivas e vendo ‘edições extraordinárias’ sobre Júpiter.
Na escola os programas foram mudados em função de Júpiter. Os centros de saúde
deixaram sarampo varíola sífilis ou aids para cuidarem a preparar o homem da
rua a suportar viagem para Júpiter. O dinheiro, que uma enquete anti-inflacionista
propunha se mudasse para dólar de uma vez e deixasse de meios termos, esse
dinheiro nacional, a população sempre sem dinheiro, passou a chamar-se
Jupiteriano, tendo a efígie do planeta Júpiter com uma bandeira plantada
tremulante de Amorfasil! Um plano de alfabetização – havia cerca de cinquenta
milhões de fregueses ao plano – estabelecia aprender a leitura partindo da
palavra Júpiter, usando-se chaves como ‘conquista’ ‘missão’ ‘grande potência’.
Todo mundo entusiasmado. Nas províncias os tiros de guerra em guerra marchavam
no estilo jupiteriano. A hora, agora não era hora mas super-hora, muito maior
porque baseada nos movimentos de Júpiter, influía na produção: fábricas
fazendas repartições tudo se media pela medida de Júpiter. E quem sabe se não
se estivesse produzindo mais! A diversão, fossem jogos shows preleções filmes apresentações, tudo agora em ter conotações
jupiterianas e portanto sendo mais belo. As vitrines desde as de brinquedo às
de moda eram amostragens de produtos de influência do grande planeta. Os governos
se sucediam nos blá-blá-blás cultos e ocultos sobre como conquistar Júpiter, de
que forma seria a forma da bandeira a afixar na superfície do longínquo
dependente do Sol, então dependente de Amorfasil. 'Burrocracias', computadores,
cursos, discursos, apologias, despesas, postos, impostos a aumentar. Um povo
feliz um governo feliz um país feliz jovem grande forte conquistador! Júpiter à
espreita.
Não existe nada mais poderoso que
uma vitória.
A vitória de Amorfasil na
conquista de Júpiter. Sua bandeira tremulando, para dar ao planeta o recado de
grande potência interespacial.
Havia entretanto um senão. É que
as comissões e sub-comissões para estabelecer a Missão a Júpiter nunca chegavam
a acordo, sequer a dar base ao mais simples voo de aeroplano, que se dizer a observatórios
foguetes e logísticas. Nunca chegavam.
Ribeirão Preto novembro
1987
42° - Como foi
que uma Fêmea Ensinou ao Macho
Nova Posição
Não que seja mérito meu descobrir tal fato;
porque não foi este escriba quem tenha inventado uma nova posição... o que os
homens pensam ser papel da mulher, eu também penso, somente ela tem aquele
jeitinho todo feminino para ensinar aos homens o que os homens deveriam já
saber fazer mas realmente não sabem.
Chamava-se Joana. Mas isto é um
senão, poderia se chamar Doroteia ou Maria, dava no mesmo. Chamou seu João,
“seu” pra mim, para ela apenas João porque eram íntimos; aliás ver-se-á ao
longo desta curta narrativa eivada da melhor prolixidade, ver-se-á portanto que
eram íntimos, íntimos até demais, fazendo coisas que você, leitor, poderá
condenar...
Enfim chamou o pobre homem (pobre
no sentido ser ingênuo em tantas coisas, em coisas de amor por exemplo) assim estreitou-o
nas malhas do seu encanto... (perdão, leitor, não vou pôr mais reticências
porque qualquer ledor mediano tem obrigação de adivinhar o que os mequetrefes
da literatura põem no papel, mesmo findando sem findar o pensamento por um
ponto final). Ele? veio, foi a ela, como que um patinho, aqui nesta estória o
pato João, todavia sendo gente, você entende. Aí se chegou a ela, apreciou-a
deveras, o que não era para menos; ela um desses femeões que nos fazem parar na
rua ou pelo menos virar o rosto na sua direção, indo para frente mas cheirando
seu corpaço feminil que se cruzou conosco indo no sentido contrário; o que não
é ainda um mérito meu, os outros homens também olham gulosamente para Joana.
Desse tipo, um ‘tipaço’, convenhamos! Mas voltemos ao pobre João, aqui eu me
esquecendo dele, ele quem aprendeu uma nova posição, uma posição que só as
mulheres conhecem e ensinam aos homens de bom grado e com muito prazer... muito
prazer mesmo. Então, o homem veio a ela:
-- Oh Dona Joana, a senhora me
chamou? Ela res-pondeu que sim. É claro pensar-se que bem próximo no futuro,
digamos uns dez minutos mais tarde após o chamamento dela, eles já não se
tratassem por “senhora” e “senhor”. Quer dizer, ela o chamou de imediato:
“João, vem cá um instante” e ele veio sem cerimônia, feito um cachorrinho
abanando o rabo (cauda mesmo usam os mais civilizados, eu sou apenas um escrevinhador
chão, não me propus a ser um gentleman,
voltemos ao rabo do João, um João bem brasileiro; explico-me: tem uma vizinha
aqui na rua Cuiabá, do 444, eu estou no 436, ela pôs no seu cão o nome pomposo
de ‘John’, que a família grita a todo momento “Jôu” num belo inglês, quem sabe
se não para ofender o João vizinho dos fundos, não o João do rabo caidinho, se
admite, pela Joana, a gostosa; voltemos ao rabo que é a cauda de nosso João:)
-- Vou ensinar a você uma coisa... –
silenciou Joana ao João todo enrubescido, falando ela baixinho ao grandalhão
rapaz. Abanou felicíssimo o representante macho da espécie Homo sapiens, já devidamente erectus
e sabido, embora sem saber tudo sobre posições que somente as damas
experientes, mui bien experimentadas,
sabem – abriu a ela todo ouvido, mesmo porque havia tomado um banho e limpo bem
as orelhas grandes, que não ficavam mal ao tamanhão do seu corpo. Corpo
franzino belo frágil forte no seu feminismo joanesco, ela, a Joana, falou e
mais falou, como uma professora: ensinou a ele no portão de sua casa, ela que
estava só, seu marido tendo saído trabalhar... mas depois disso atraiu a pobre
vítima que pretendia ser mesmo vítima, seu íntimo gritava na consciência lá
dentrão como seria ótimo ser possuído por uma bela tão bela possuindo ele a
moça, no entanto isso ele não falou a ela, ela foi quem o chamou ao portão
depois o levou para dentro sob o pretexto de pedir-lhe um favor. “João, um momento,
preciso de um favor seu, você pode vir comigo ao fundo aqui de casa
(ordenou-lhe) e depois eu ensino a você uma posição diferente...” quase engoliu
a língua o homenzarrão, estivesse ele falando, ela é quem falava, ele apenas
assentiu com a cabeça e entraram para dentro.
Depois que João fez o favor à
Joana, ela como prometera ensinar ensinou a ele como abrir o envelope de
imposto de renda, sem rasgar o papel interno, sabendo-se como os caixas bancários
são exigentes. Porque os homens grandes geralmente são desajeitados, as
mulheres pequenas frágeis lindas como era o caso de Joana costumam ter um
jeitinho especial para abrir cartas. Enquanto eu que andava até aqui escrevinhando
esta estória, fiquei de tal maneira chateado com o estúpido sujeito, que não terá
aprendido nadinha em a nova forma ou posição para abrir um documento, que
resolvo mesmo encerrá-la. Pronto. Ponto.
Ribeirão Preto junho
1987
43° - Fia de Mãe!
Acorda
Vizinho... acorda vagabundo. O vento parou a madrugada seca, seca a quem
passeia. Ele não passeia, ela se recompõe. Ele bate escandalosão portãozinho
acorda os outros ferrados no sono funciona o carro sai vai vira some aparece o
outro. Entra na casa entra no quarto entra nela, ela funga sua, abençoa? Chora,
a menina soluça noutro quarto, grita a mãe a mãe grita com ela, pára para voltar chorar, não
impede mas quebra a poesia da cama; o outro não pensa assim, quer povoar o
mundo, ela esbraveja a filhinha ele é o vencedor, vencedor não põe tais
questões e se basta e sai no vento que recomeça, bate o portão agora é sua vez
a ofender a rua, pé na estrada; chega a moto, o outro não vê o outro, entra
possui, importante ao gênero possuir, ela funga responde amor, a filhinha
choraminga enerva exige, ela grita debaixo mas ele é o general na batalha, a
garotinha grita chorosa a mãe, a mãe se escapa vai vê-la, prometer chinelo, o
filho crescido fecha olhos fingindo dormir acordado na experiência, mas a irmã
abre a boca; acalma a cama de novo, recebe assopra carinha, ele se considera o
proprietário do mundo, sai pra rua beber a madrugada voltar à esposa, ela se limpa
e xinga a filhinha; não completara a higiene o outro desencontrou da moto entra
no lar entra na alcova entra nela constrangida, agita briga sua funga bebe
aspira sorri finge: nova vitória da espécie positiva, a menina negativa o
choro, a mãe corrige grita promete, completam; sai ao vento na noite querendo
dia, alguém já esperando – os cães a cadela a mulher bela jovem mãe, manhosa a
pequena; vai, cobre, impõe o dormir, o mais velho se faz no sono, experimentado;
volta aos braços avassaladores, agora é ela não a filhota quem grita, range
absorve beija impõe apanha, o macho se limpa rápido e volta à via pública: funciona
um carro, o carro morre, xinga, batera o portão agora bate o veículo, o veículo
pega, vai rateando sobe a esquina foge à família lá longe, fica a calma no pedaço,
ela se limpa briga com a mais nova chorona olha em alerta o mais velho
ressonando, volta à cama dormir, colchão também serve para descansar... mas
outro entra à sorrelfa invade, invade agita bombeia enche se satisfaz e ruma a
seu rumo ignorado ela suspira, aspira aquela mistura macha feita de cheiros e líquidos
com milhões minúsculos de exigências e primazias; e quem sabe goste. Parecia
descansar relaxar dormir, o galo avisando a hora. Desce o escuro na
consciência, apaga antes apagada a luz e espera amanhecer. Acorda a chorona,
põe o filho pronto à escola, leva a pequena à babá, perdida a primeira condução
tenta o segundo horário de ônibus a enganar o patrão na loja; deixa a filha se
esgoelando antes, antes ralha com ela não havendo chantagem que funcione, e
sobe no coletivo e vira e some. Sem desaparecer. A babá dá lá seus petelecos na
zinha, ela agora não chora mas soluça baixo educada. O povo na rua passa cruza
grita compra vende chama e não sabe de nada. Mas ninguém sempre nunca sabe de
fato alguma coisa.
Marília setembro
2002
44° - Um Jogo
Fumaça
cigarro cinza mesa queimada cartas ensebadas e marcadas toques olhares sinais
pontapés – o truco condicio-nando as mentes de caras surpresas e gaiatas. Lume
de quero-sene atirando poluição às narinas, formando aquele grude in-cômodo;
cheiro de café lá na cozinha. Um galo gritando longe outro respondendo perto, o
vento penitente assoprando o calor da madrugada, o Leão assustado latindo sem
parar. Os gritos.
Gritos na casa pobre, as crianças
sonhando com brinquedos e guloseimas, as mulheres fazendo pipoca e café. O tio
entre homens é quem mais berra. Vencer no grito, o lema da jogatina da malícia.
-- Truco seis, papudo!
Tudo bem no jogo caipira, no
milho estalado na co-zinha. Bagunça de festa sem criança, esta já dormindo
desde o bafejo da meia-noite.
-- Dá o pé, lôro...
Sinalzinho safado, um lance de
malandragem no jogo ladrão onde o roubo é mérito. Piscar à esquerda: “tenho o
zape” o quatro de paus escondido; soar o nariz: “vou cantar”, linguagem dos
olhos, expressão, a mímica a serviço da trapaça.
-- Deu espadilha; passa Leão,
vai peidar pra lá!
Os outros reclamando, o Beto o
Pereba o Tião a torcida inteira em volta da mesa.
-- Pode cortar as cartas,
ladrão.
Elogio.
Muitos comentários gozações desencontros brigas rivalidades, ladrão por
elogio. Pés no chão, sapatões caboclos. Nenhum lera “La Art
Del Truco”, de Borges.
São Paulo abril
1978
45° - Conchavo na Cúpula
Naquela
tarde era cedo. Muito cedo por sinal a grandes empreitadas; isto porque o
partido da gente ganhava, ganharia com certeza a eleição. E de fato ganhou mas
não levou: os da outra agremiação, esses, eles fizeram sujeira, investiram na
baixaria; não apenas desejando enganar o zé-povinho, visto honestos e íntegros
querendo somente o poder. O fato é que na contagem dos votos os mortos não
decidiram mas aconteceu dos vivos, vivos, somarem mais de uma vez na votação.
Que não tenha sido bem assim, assim mesmo não ganharam nem ganhamos, ganhamos
só no empate, que é quando os nossos não ultrapassam a maioria com maioria,
quer dizer: o absoluto. Os juízes não quiseram ouvir o bate-boca formado nem
leram decerto a papelama de nossa defesa, que era ataque; indeferiram e tivemos
de prosseguir em campanha, para derrotar de vez a canalhada. Por isso houve o
segundo turno ao aperfeiçoamento da arte do desaforo e a coisa pegou feio.
Semelhante o partido deles, os sem-vergonha sem escrúpulo, pois num visar os
fins (a eleição) por quaisquer meios – semelhante, nós decidimos buscar apoio
político junto a outros pequenos derrotados, pagando os mesmos com favores às
custas das burras oficiais, sempre rechonchudas e mais rechonchudas estão agora
com o auxílio dos sem nenhuma vergonha e sem nenhum escrúpulo que ficaram no
poder a enricar as burras aumentando impostos e taxas sobre a população. Não obstante
essa decisão a receber os pequenos fracassados e ainda ter de pagar
posteriormente com a receita das burras de governo, não obstante vários
correligionários nossos não aceitaram quase a soma nessa subtração. Enfim, como
todo voto multiplica as chances de ganho, selaram esses correligionários um
acordo com tais politicoides. Em resumo, celebramos na alta cúpula dos nossos o
acordo. Apesar da ca-pitulação dos aliados ao princípio democrático dos nossos,
houve muita ruminação e falatório na discussão interna. Uns perguntavam se o
compadre tal, tal não era o que roubara antigamente gado... se entre os
apócrifos não havia os que contratavam jagunços para impor propriedade na propriedade
alhei-a... se não era um deles o coronel que fora flagrado estuprando a menina
da empregada... se não tinha pelo menos dois que se apossaram de bens públicos
quando prefeitos... se não havia muito corrupto entre esses ‘adeptos’ novos
velhas raposas e tudo o mais. Mas nossos maiores não sabem até agora contas de
menos e de dividir, só aprenderam em criança na escola as de somar e
multiplicar. Disseram aos membros do partido presentes que o coronel se
emendara só bagunçando atualmente com as mulheres de vida fácil; que os
ex-prefeitos não foram condenados nunca, nunca houve prova, inclusive ajudando
os mesmos a paróquia; que as propriedades apropriadas, antes eram roubadas e
griladas valendo o princípio do ‘ladrão que rouba ladrão mais de cem anos perdoado’;
que os demais, semelhando mesmo abusos políticos e econômicos do forte contra o
fraco, mas se ponderando que no partido da oposição – os sem-vergonha e sem escrúpulo,
quase ganhando de nós dando empate técnico e novo turno – se ponderando assim
com eles ou seja: serem mais ladrões e corruptos ainda, santificando santificados
os novos apoiadores de nossa causa santa. Por fim houve realmente o segundo
turno. Os juízes, certamente corruptos, impugnaram tudo. Dessa forma agora os
nossos a precisar fazer no futuro mais campanha, gastar a língua e os palanques,
arranjar ainda mais apoios mais sólidos – a impedir que o partido deles chegue
ao poder numa nova luta e vença na votação. Isso contando que os juízes, talvez
aconchavados com eles, não impugnem outra vez o pleito ou chamem outro ditador
para democratizar.
Marília outubro
2006
46° - Estória Nova
Põe
Tonho, põe um trago para o amigo aqui, outro pra mim. Essa vida é um buraco,
amigo. Eu amava a mulher, sabe que se chamava Júlia? Então. Aí ela arranjou um
veadinho e fugiu com ele... eu tomei uma e depois outra... Levou o caçula e o
do meio, me deixou só o aleijado, tadinho. Aí tomei outra, porque só bebia
socialmente. Depois internei ele. Ele? é o aleijadinho. Não podia trabalhar e
cuidar de menino. Aí o patrão me mandou embora. Trabalho sim, só biscates, o Tonho
é testemunha, não é Tonho? até comecei a beber. Mas não deixo a bebida me
beber. Não deixo mesmo.
Põe uma dose ao amigo. É... isso.
João, o amigo João. Essa vida é um buraco, não é? é João? Amava a esposa, sabe
que era Júlia? Loira assim. Então um veadinho me levou ela e duas crianças. Vai
escutando, essa é pinga da boa. Só ficou pra mim o aleijadinho. Aí internei
ele, ou não trabalhava direito, mas não sei quem intrigou e fui despedido. Foi
então que entrei na bebida. Hoje bebi um pouco, mas não deixo ela tomar conta
de mim, não é Tonho?
Põe um traguinho aqui para o... ah
é Antônio... seu xará aqui Tonho. É da boa não é; eu apostava bastante na Júlia,
amásia mas era como esposa. Aí fugiu de mim. Sabe Antônio, fugiu com um
veadinho todo perfumado... ainda levou minha pequena que era tudo pra mim e o
do meio, deixou um com a perna estragada. Que eu podia fazer, internei ele para
ganhar o pão. O bandido me mandou embora e fui bebendo bebendo... mas não deixo
a pinga me beber. E faço de vez em quando um servicinho, o Tonho sabe.
Põe um trago ao José, é José? Olhe,
é um buraco... eu amava mesmo minha mulher, nunca pulei a cerca. Obrigado. Nunca.
Aí ela se mandou com um sujeito assim assim, ainda me levou dois filhos, só
deixando um aleijado que ela não gostava. Precisei internar ele para trabalhar.
Homem, aconteceu o pior: fui despedido. Me danei, comecei a beber. Daí parava
agora em cada bar.
Põe Tonho uma ao João, é João não é
mesmo? Bem, vou contar minha história, não sabe como sofri. Um buraco... não, a
vida. Sofri. Ela foi embora de casa, se chamava Júlia. Rapaz, um mulherão! Não
senhor, fugiu. E me levou a pequenininha até chorei; e o do meio. Deixou um
pobrezinho, o mais velho, todo torto. Que fiz? Pus ele num hospital ia ver de
vez em quando e fui trabalhar. Aí o patrão... pego uma coisinha aqui outra ali,
fui até servente de pedreiro. Mas bebia tudo que ganhava.
Põe cachaça ao amigo. Chico? Ah,
apresento-lhe o To-nho. Sabe que vivo sozinho! Minha bela loira fugiu com um besta.
Filhos? ela levou dois me deixou um com defeito. Que que eu ia fazer, internei
o garoto e fui trabalhar. Um belo dia me despediram. Passei a beber, quase me
perdi. Não é Tonho?
Põe sim uma a este amigo. Amigo,
não sabe mas fui injustiçado: eu adorava a Júlia, o Tonho conheceu a Júlia. Então,
deu no pé com outro e me deixou um só dos três, um menino de muleta. Não lhe
conto, amigão, internei o filho e ia trabalhar todos dias. Então os homens me
mandaram embora. Um buraco, a vida. Nem lhe conto: passei a beber. Bebia de dia
e de noite. Um dia pousei no xadrez!
Põe aqui uma ao Sílvio, não é
Sílvio seu nome? É das boas. Não queira saber meu amigo, um dia a esposa, não
era bem esposa, era como esposa... um dia me deixou. Levou com ela e o ladrão
dela as crianças. Chorei. Só deixou um menino aleijado. Foi duro. Aí internei o
rapazinho e fui trabalhar. O patrão era bruto e briguento, me mandou embora por
coisa de nada. Passei a beber sem parar. É mentira, Tonho?
Põe daquela a este amigão. É
Antônio também. Não? Ah, Zé, pensei... saiba que eu vivia bem com a Júlia. A
Júlia era esplendorosa. Mas um dia se cansou de mim e fugiu com um veado. Me
levando os dois pequenos e só deixou um de muleta, tadinho. Aí, que podia
fazer, não é? internei ele para poder trabalhar. Uma vez o homem estava brabo e
me despediu. A vida, um buraco. Eu? Fiquei virolando até que caí na caninha,
depois fui em cana...
Põe da outra a ele; pra mim
também. Oi Tonho, bota no ‘pindura’... amigo, sabe que já fui casado com lar e
tudo! Uma filharada bonita, o Tonho conheceu todos. Aí a Júlia se foi com um
besta perfumado, fiquei chupando no dedo... e ainda precisava cuidar do mais
velho todo enrolado das pernas. Pus o menino numa entidade de ajuda e fui
trabalhar. O sacana me despediu, fiquei sem nada, entrei na cachaça. Mas nunca
deixei aguardente mandar em mim.
Põe um copo ao Luís. Um pra mim
também. Chega pra cá, o bar é amigo. Sabe que fui casado? Olhe, um loiraço
daqueles! não é Tonho? Então, aí me roubaram a Júlia, um cara meio
desmunhecado. Me levaram as crianças, vai escutando. Só ficou um aleijado, o
mais velho. Daí foi que pus o rapaz num orfanato e fui trabalhar no pesado.
Houve umas intrigas e me mandaram passear. Um biscatinho aqui outro ali,
desandei a beber. Mas nunca perdi o controle.
Põe aqui ao amigo... ah faz favor,
Tonho, depois de tantos anos... sabe que fui casado um dia? Um dia a Júlia fugiu...e...
não senhor nunca bati nela só duas vezes. Foi com o amante, me levou os dois menores
e eu fiquei com o doentinho primogênito. Não tinha outra saída, pus a criança
num hospital e fui trabalhar. Chorei sim, chorei como agora... aí entrei na
bebida. Essa a minha história. Você é o primeiro a saber. Tome mais uma...
Põe, Tonho. Juro que pago depois.
Marília março
2003
47° - Análise do Homem que Matou Seu João
da Benedita
Contava
nessa época, um pouco antes se não depois, cinquenta e oito anos, talvez
cinquenta e nove. Era dum branco queimado pelo sol inclemente, dentões saltados
para fora do conjunto, a boca murcha apesar dos dentões, e um queixo brigando
entre o pronunciamento e a falta de uma das bandas. Os olhos esbugalhados.
Você está entendendo como era o
Sr.João?
Enganou-se, a descrição é valida para
a Benedita, senhora um tanto regateira, olhar revoltado, quem sabe se em
virtude da feiura... Seu João é que – diziam as más línguas e as boas – era um
tipaço: moreno branqueado, olhinho furta-cor da cor do dia do dia, brejeiro
debaixo do chapéu de palha. Pois bem, pois mal, morreu. Sumiu. Por mais investigação
de policiais com falta de serviço, que o mundo criminoso andava naqueles dias
magrinho, permitindo à imprensa marrom ter de inventar estórias sangrentas e
mostrar mulheres peladas; não acharam. Daí entrou o homem que deu um sumiço no
pobre fulano que aguentava a Benedita, casado com a bruxa no padre ou só amigado,
para dona Cota ter ainda mais um pecado a confessar, pobrezinha.
Ele. Trabalhava de bandido com as
lavadeiras de Vila Virgínia. Sim, nada dizia pra quem não tinha coragem suficiente
a perguntar. Mesmo porque o homem não dava oportunidade, ganhando concursos e
mais concursos de mutismo, eterno por sempre existir porém concurso novo
àquelas senhoras ocupadas no sem-fazer diário. E consta... não consta, deixa
pra lá.
Diziam as línguas viperinas que cambeteava,
puxava um pouco, bem aos mais exagerados, os homens desocupados também davam
palpites sem pedir mas elas pediam. Que os sapatos eram os mesmos, as calças
eram as mesmas, as camisas eram as mesmas duas, a riscadinha e a cor-de-b...
falta um pouco de arrojo para dizer descaradamente os estrumes escondidos dentro
da gente; entretanto isso não tem importância. Mudo, acreditavam. Ou se falasse
só deveria saber o “batarde” do meio dia, e às vezes ainda não era meio-dia; e
o “banoite” escuro já; e apenas tendo coragem para dizê-lo à Maria José e a uma
velha tão velhinha que se falava por aí ter perdido o nome. A elas duas. Mudo.
Ao sair para o trabalho quem sabe se esses tipos trabalham... ao voltar do
trabalho ou de qualquer coisa que ninguém tem nada ver com os outros. Magrinho,
ossudo, alto, assoando o narigão num lenço cansado e sujo por ser sempre
amarelo com lista azul na extremidade. Estava comprovado por dona Ondina, pela
vizinha dela, por seu Pedro e pela mulherona bonita dele, o que não merecia nem
a preta da esquina; todos concordavam o sujeito não trocar seu lenço por mais
de ano! Devia estar duro então, melento, malcheiroso. Ia.
Voltava. A pé a fim de economizar ou a
dar prejuízo à empresa de ônibus, ninguém tendo nadinha com isso. Voltava.
Dentro dos mesmos padrões de comportamento estranho, enfiado na roupa sovada,
sovando os sapatões no cimento da calçadinha; com a agravante de tropeçar
sempre na mesma pedra frente à casa da senhora Filó, e consequentemente fazendo
os mesmos gestos. Para depois fugir dentro da casa dele. E depois abri-la.
Somente para fazer sinal ao vendedor
que não queria comprar, ou tomar o talão de luz ou água, pôr alimento à
sa-mambaia triste da varanda. Aí o sujeito sumia outra vez e de vez. Debalde
todas todos reclamando dum barulhinho qualquer, dum arrastar coisas indevidas
devidamente; ou cheiro das frituras queimadas, quem sabe se nem comesse o homem
e por isso magruço e ressecado!? Nem do farfalhar barulho no esfrega-roupa, mas
também não precisava mesmo por não trocá-la visto todos fiscalizando; talvez a
fazer experiências de cheiro, para ver como muda o bodum humano, sem comunicar para
quem interessado, isto é, a vizinhança da Vila Virgínia. Irritava.
Ah se irritava... Chateava a todos com
tanta necessidade em saber coisas mais, e nem o menos frugal do simplório era
possível saber-se. Que não contava o homem. Se contasse seriam coisas com
certeza tristes, macambúzio sempre andava, a puxar os pernões e a arrastar a
esquerda. Nem menos; mais munheca, a economizar até o circular! Aí dona Cotinha
mandou o menino do meio seguir o sujeito, mas a multidão engoliu-o e tapeou o
moleque. Todos da rua e da Vila exigindo explicações a tanta trapaça mal
contada, indignando aos vivos, que parecia morto embora andante e mudo; a fazer
suas coisas escondido na casa, sem dar ares dos seus ou que fosse só no mundo.
Ia voltava desaparecia ao público olhador. Vai daí que sumiu o João da
Benedita, tocando à mulher do seu João partir de mala a fim de procurar o seu
homem.
Dizem que este foi assassinado e houve
aviso na polícia sem ter o que fazer. Os indivíduos supuseram então que alguém,
por mudo, tivesse lá suas culpas no cartório. Até que se provasse o contrário.
Ribeirão Preto julho
1980
48° - A Casa Vazia
Dona
Maria não mais é Dona Maria, agora que é agora de hoje; ontem o drama... Até o
velório parecendo longínquo igual miragem ou sonho do pesadelo, quando se não
pode acordar. Embora o calor amigo de conhecidos e parentes, a dor. E as flores
tentando balsamizar o sofrimento, com mentiras e verdades forçadas. Contudo
precisava suportar. Agora os dias iam ficando na esteira do tempo, do tempo sem
volta e da volta sem tempo. Não obstante andava só. Tudo a improvisar soluções...
Pior que isso: a casa crescera, o espaço se alargara em não cabendo
paradoxalmente uma viúva tão pequena tão pobre tão só, tão só. Abriu no ranger
portas e janelas e o vento veio curioso e irreverente mexer com seus pertences;
os cômodos devolveram a ele um cheiro de casa fechada e triste. Ela prometera,
a quem? a si mesma, que seria forte, tendo a vida pela frente; porém não
cumpriu a palavra empenhada – chorou quase sem lágrimas o seu passado ali
presente. Visitou cada compartimento cada objeto cada pertence cada lembrança
que se não pega mas fere. Agora ainda agora, agora noite, uma noite não
aceitando as luzes. E aí mergulhou no passado no futuro no presente, a poder
sumir de si mesma, a sumir em si mesma. Nem podendo mais ser Dona Maria do Seu
Zé, com tanto espaço e tanto vazio.
Marília dezembro
2006
49° - Linduras
Era
na Avenida Central. Difícil saber por que Central pois as outras vias guardavam
nomes de políticos e de gente da terra, pioneiros, satisfazendo todas vaidades.
Tinha porém a Rua da Igreja a qual ninguém sabia ao certo o nome oficial, e
ficava, lógico, junto à Igreja, mais capela que igreja e eternamente em construção. Os moradores
se cruzavam se entendiam e se desentendiam, mas todos precisavam passar pela
Avenida Central, ou porque igualmente perto da pracinha da Igreja ou por ser a
das casas mais importantes e dispor do comercinho na urbe. Tinha a família do
Coronel com saída para a Central (podendo também sair nos fundos do quintalão
na rua de baixo, a que olhava melhor os horrores da plebe). Cadeiras fora na
frente, daquelas toscas, e o Coronel sentava-se ao contrário, apoiando-se à guarda
o barrigão ficando a cavalo nela, apreciando os passantes; e uns toletes de
árvore imitando bancos, onde parentes ficavam descansando a preguiça e tirando
um dedinho de prosa. Quando o pai e os amigos não destrinchavam a política
local ou não contavam baixo altas piadas escabrosas, então era vez das filhas.
Mas tanto o partido dos velhos quanto o clube das moças não viam as flores
selvagens plantadas à moda cabocla na praça em frente, viam antes a gente. Comentavam
a gente riam da gente temia mesmo a gente ou tão só observavam a gente indo
contra o sol a favor do sol ou tomando sol, quando não chuvisco e daí apenas se
via da porta talhada no outro século suja como a janela da casa pintados de cor
da terra porta janela parede que é não ter cor a cor por baixo. E poeira quando
seco pra andar. E cheiro, cavalos e éguas despejando e estrumando o chão seco
com líquido ácido, não as pessoas: estas só estercavam atrás da Igreja nas
noites de apuro. A cada passante, ou que fosse num grupo, as jovenzinhas
entrelaçadas com braços e os rapazes juntos separados ou separados somente em
desfile – todos recebiam quase sempre um cumprimento ou sorriso amigo; e
comentários nem sempre airosos da cadeira ou da porta; vez por outra passava um
adulto só ou só um velho com sua bengala ou guarda-chuva imitando a bengala,
então se cumprimentavam simultaneamente com direito até a um “chega mais” dito da
plateia; quando não era a gente grande, era a gente moça pisoteada massacrada
pichada pelas línguas. Estas quase sempre tendo um dizer em conotação maldosa;
as jovenzitas às vezes sua moral, eram qualificadas fisicamente como feias
todas, até as belas mostravam àquele público olhador algo de feiura exposta: os
olhos tortos, o nariz grande demais, as pernas arcadas e, isto sendo mais do
ver das filhas do Coronel: as vestes. Criticavam a cor o feitio o desengonço. E
riam. As fêmeas das fêmeas, os machos das fêmeas; elas olhando as roupas das
fêmeas, eles desejando os corpos das roupas. Concordando o clube das moças com
o partido dos homens no rir. Malicioso e até hipócrita. Se se pudesse inverter,
vendo-se os que viam, ver-se-iam moças com velhas no ponto de titias; e homens
gastos nada castos chefiados por um barrigudo medonho, necessitado de outros
oitenta anos para aprender ver pensar pesar saber calar, saber calar e perdoar.
Para ter direito a descansar, apenas descansar na cadeira da Avenida Central.
Marília fevereiro
2002
50° - A
Porta, esta de saída
Levantou-se o Zé, demorou um pouco,
muito pensou, quase voltando ao leito, por fim decidiu-se e se levantou
defi-nitivo (palavrinha bem marota, pois não existe o definitivo aos
antropoides qual o Zé). Fez o que fez o Zé. Zé nos parecendo nome inventado,
garanto haver conhecido se não mil e um, sete. Fez o que fez.
Piscou, esfregou olhos com as costas
das mãos, a mão direita, um sujeito direito meu personagem. Ginástica, ai daqui
ai de lá. Xixi escova espalhafato um nominho – não garanti nenhuma santidade;
daí normal haver dito um ‘merdinha’ de nada pra não comprometer um pensamento
que se possa ter sobre sua angelitude. Se enxugou na toalha cansada, trocou-a
por outra mais limpa, se enxugou definitivo (não tem, garanto não existir;
tanto assim que noutro dia ou noutra semana teve que pôr nova toalha limpa
enxuta e passada; não passada, passada é dose: não passava a ferro a roupa de
uso íntimo). Saiu do banheiro, claro a porta aberta, a porta?
Não. A porta da casa não conseguia ele
abrir.
Fala-se aqui a do banheiro,
arreganhada, daí não se abre: passa-se.
Assim mergulhou nos pensamentos em
plena refeição matinal na cozinha; voltou ao quarto. Ainda pensava lá suas
coisas. Nem se viu no ato de vestir para sair; claríssimo se vestir, não iria
dar escândalo, além de tudo era um vergonhoso, tímido, praia de nudismo! nem pensar,
pensava noutras coisas, coisas do ganha-pão. Para tanto o sair.
Aqui entra um entrave novo, ao menos
inusitado para o Zé, o qual reafirmo não ser nome inventado. Porque precisava
sair? Precisava, mas não reside nisto o inusitado.
Não conseguia era abrir a porta!
Nesta altura dos des-fato... ah não
tem? tem: inventei, assim como o Zé meu personagem, criei ‘des-fato’. Nesta altura
me gritam: que ele pegue a chave, use a maçaneta, e os mais afoitos: uns chutes
na porta, que a arrombe. Ora, quanta violência, meu Deus.
Afirmo. Fez exatamente isso – chutou.
Mas chutou a de saída do quarto para a sala, somente ela, por engripada e a raspar
no piso, riscando o piso frio, aí quente na fricção. Contudo não é essa a
porta, é esta.
Esta porta na saída da sala para fora
de casa, a tratar de que tratar, negócios por exemplo, o trabalho, o patrão
pegando no pé do Zé, a ofertar quem sabe um desemprego no subemprego, fartos
nas faltas do país.
Esta. E esta ele não consegue abrir.
Lá vêm os palpites. Empurrar com os
ombros, usar outra vez a chave, chocalhar o molho de chaves, procurar a chave
certa; e agora vale, visto como não ter fechadura e chave uma porta que dá ao
exterior abundando ladrões!
Pensou em tudo o Zé. A rigor não sei
se teve rigor. Noutras palavras, experimentou de tudo a abrir a porta (para sair,
admite-se, já se encontrava dentro de casa, na sala para sair; portanto não a
entrar). Experimentou sim de tudo, o que a inteligência punha à sua disposição.
Não pode que outra pessoa desse uma ‘dica’, uma ideia não ocorrida ao Zé! Porém
se encontrava só, vestido a caráter como manda a educação e a moral, mas
sozinho. Então deveria com seus recursos abrir a porta e sair, que adianta
abrir, conseguir abrir, a porta e não sair; fechar outra vez! bolas.
O Zé meu personagem quer sair, se não
de casa sair deste amontoado de contos (quantos? uns cinquenta?) contos
ingênuos, escritos em várias cidades e em épocas diversas – ou iria ficar cozinhando
o galo!? Sair enfim. Mas eis que não pode abrir a porta de saída, insisto.
Tentou de tudo, até pensando coisar deletando tanto tê numa só frase. Ah, boa
ideia: deletaria a chave a maçaneta e a porta, por que não a saída?
Nada disso. Quer o Zé apenas sair de
casa. Para sair necessita abrir sua porta que dá para a rua e escapulir-se. Já
lhe ocorrendo talvez sair pela janela mesmo, aí a dar escândalo realmente;
pensou a vizinhança e transeuntes curiosos ao vê-lo espirrar de casa pela
janela!! Impensável. Tanto que nem pensou sério nesse alvitre. Saímos é pela
porta de saída, como entramos pela mesma porta, agora na versão de entrada.
Não estarão julgando o Zé um louco!
porque isto é um conto-de-saída, final; portanto não é um contolouco. Tem
vá-rios nesta obra, este não é louco nem o personagem.
O Zé pensa em tudo possível, consulta
o mandãozinho do relógio no pulso esquerdo, destro mas canhoto no pôr a hora.
Tem de sair. Pensa emprego subemprego desemprego e não pode abrir a porta para
sair.
Aí, aqui o inusitado deste inusitado,
aí ocorre um certo estalinho de Vieira nele. Seu besta (se autoelogia) seu
burro, feche a porta primeiro!
Sorriu. Fechou sua porta. Daí abriu a porta.
Sorriu de novo. Saiu. Assim acaba o livro “Mil e Um Contos”, ou do contrário,
não o Zé, me tranco, eu me fecho na loucura.
Marília novembro
2011
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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