sábado, 28 de março de 2020

Mil e Um Contos


0132( postar no Blog Livros Inéditos)












                                   Mil e Um Contos

                                              Moacir Capelini




















moacircapelini@gmail.com


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                                    “A casa do homem é sua fortaleza e o seu presídio.”
                                                                                                                       Hernani Donato

                                                          
                                                           “Um pintor pode destruir a obra-prima que ele mesmo criou,
                                                             um tufão consegue arrasar uma casa no alto da montanha,
                                                             mas ninguém evita que fiquem os escombros.”
                                                                                                                          Lígia Junqueira



Índice
1° - Estória Curta de São Véio, página 5
2° - Chifrudo Chifrando Chifrado, pág. 7
3° - A Comunicação, pág. 13
4° - Sem Saída, pág. 17
5° - Extrato da Agenda do Rei, pág. 19
6° - Um Crime Passional, pág. 22
7° - Diagnóstico & Tratamento, pág. 25
8° - O Vice do Presidente, pág. 28
9° - Encrenca Direita da Esquerda, pág. 30
10° - Os ‘Grilos’, pag. 33
11° - Sistemática no Trato com Gêmeos, pág. 34
12° - Família Nada Por Acaso, pag. 39
13° - Xeretude, pág. 44
14° - Um Rapto? pág. 48
15° - O Boneco, pág. 51
16° - Porre dos Grandes, pág. 53
17° - O Bem do Mal, pág. 56
18° - Neutrálogo, pág. 59
19° - Sentimental, pág. 63
20° - Em Desafino, pág. 66
21° - Um Delito, pág. 69
22° - O Caixeiro-Viajante, pág. 73
23° - Às Armas, pág. 75
24° - A Centopeia, pág. 77
25° - Potranca, pág. 78
26° - Questão de Sogra, pág. 80
27°- O Terceiro Caso, pág. 83
28° - Latifundices, pág. 84
29° - Trastes em Reunião Familial, pág. 86
30° - Os Pardais, pág. 88
31° - Desconversa, pág. 97
32° - O Porteiro, pág. 99
33° - João Mimoso, pág. 102
34° - Como Distribuir Herança, pág. 105
35° - Diálogos Vizinhos, pág. 107
36° - Guloseima, pág. 110
37° - Temporaneidade, pág. 112
38° - Mais Uma de Harém, pág. 115
39° - Pescaria de Arromba, pág. 118
40° - No Paraíso, pág. 122
41° - A Conquista de Júpiter, pág. 127
42° -Como Foi que Uma Fêmea Ensinou ao Macho
        Nova Posição, pág.130
43° - Fia de Mãe, pág. 132
44° - Um Jogo, pág. 134
45° - Conchavo na Cúpula, pág. 135
46° - Estória Nova, pág. 138
47° - Análise do Homem que Matou Seu João da Benedita, pág. 141
48° - A Casa Vazia, pág. 144
49° - Linduras, pág. 145
50° - A Porta, esta de saída – página 147









- Estória Curta de São Véio          
         
          Fosse hoje ontem, ontem estória escrever-se-ia com agá, parece, fosse hoje, uma festa mais solene mais moderna, com direito até ao uso do velório municipal e tudo o mais. Ontem. Naquele tempo o velho Véio já bem passado, fora enxadeiro de mão cheia, batera um pouco quando ébrio na mulher, encrencara com vizinhos por porcaria de porco ou cavalo ou outra porcaria mas não agora naquele ontem, às portas da morte; fenômeno mui temido então.
          E a coisa se deu rápido. O Véio caiu, tibum, todos correram assustados gritaria choro lamentação e o não tem jeito. Chamaram benzedores curandeiros e demais entendidos nessas ignorâncias, sem solução.
          Arrumaram o cadáver bonitinho, antes deram banho no corpo, os homens corajosos da fazenda não tiveram medo mas temor, sobrando a lavação do corpo às mulheres, embora toda vida o Véio tivesse sido vergonhoso diante de fêmeas, esse negócio de tirar a roupa ou fazer xixi perto delas. Agora lavam limpam arranjam vestem o defunto põem terno emprestado (claro não se pensando cobrar devolução) mesmo improvisam gravata e o nó da coisa foi fazer o nó, nem os machos do mato sabendo. Bonitinho. Mesa daquelas pesadonas no centro da sala de chão batido de terra. Caixão.
          A estória do caixão, isso para homem macho pra valer. Trouxeram da cidade um lindo de morrer, forrrado em roxo, uma beleza; e deu trabalho na cacunda do cavalo que era mula andadeira, porque caixão é o tipo de coisa desajeitada.
          Velório. Flores íxe! rosas dálias. Velas, bem cheirosas. E causos; como passar a noite sem café cachaça e piadas, mas fizeram algum negócio trocaram porcos galinhas falaram também sobre colheita e preços.
          Visitas. Veio ao Véio toda imediação inclusive os desconhecidos.
          Os parentes contaram; contaram as comadres. Foi de repente, morte morrida, essas coisas que se diz; houve quem ouve falar ter sido como passarinho, decerto excetuando pardais – eles nestes tempos parecem numa guerra a gritar brigar e fazer cocô na gente aqui em baixo lá de cima. Um anjo, um santo o Véio.
          No velório, inclusive antes do velório, já repartiram o pouco entre muitos: a varinha de pesca, o Peri ninguém queria por resmungão e muita pulga além de enjoado pra comer; alguma roupa menos usada; os botinões quase novos o Véio andava de alpargatas quando parara de trabalhar; leituras não tinha, analfabeto, assim mesmo herdaram dele um almanaque de farmácia e um livro de São Cipriano que o padre dizia sempre para não ler e os matutos obedeciam ‘analfabetizados’.
          Ia nessa toada, quase no bota-fora do Véio à cidade dos pés juntos; haviam cantado suas ladainhas, incomodados com o cachorro, passa Peri! o besta enrolado debaixo da mesa que estava debaixo do caixão do Véio. Cantaram contaram voltaram a contar as coisas. Faziam já antecipando a reza de despedida do morto, pois não tem estória com defunto cheirando mal apodrecendo antes de chegar ao cemitério na vila! rezavam os finais sendo que o padre não quisera vir naquelas lonjuras mas havia uma comadre entendida nas coisas do céu, estando os convidados a mais de mil  salve-rainhas e credos e tudo o mais ali por roda vigiando o Véio, o Véio urrou qualquer coisa.
          Não deu pra saber o que foi, todos espavoriram a correr a gritar a chorar, aí de medo ou terror!
          O Véio sentou-se no caixão, trabalho medonho desatar o pano de segurar o queixo, arrancar a gravata de matar mortos, enforcá-los: sentou-se, esfregou os olhos, olhou por volta, viu velas pensou saravá, esticou o pescoço para ver em baixo se assegurando na beira do caixão roxo, viu o Peri alegre feliz fazendo festa.
          Peri, nego véio, ocê taí!
          Os outros? correndo até amanhã.
Marília   agosto  2004                                             



- Chifrudo Chifrando Chifrado         

                                                                                      Vida restou Vida
                                                                                       Maria e José
                                                                                       José Maria
                                                                                       Maria José
                                                                                       Maria deu no pé
                                                                                       José sofreu Maria
                                                                                       Maria outro Zé!
                                                                                       Restou chifre é?
                                                                                       Era Maria
                                                                                       É José.
                                                                                       José e Maria
                                                                                       Figuras da Vida


            Num horrível belo dia, aquele, José coçou a fronte fronteira à frente na outra extremidade da nuca de fazer em pressão buraco no travesseiro ferindo a fronha já passada com cheiro a misturar suor e cabelo. Mas não encontrou coisa alguma, coisa alguma havia para haver depois noutro belo dia horrível, este sim mais horrível, isto sendo licença poética ou abuso de linguagem, pois  ¡haverá mais horrível se horrível se basta!  Embora, não se modificavam as coisas, as coisas iam crescendo haviam iniciado num belo dia, que não tinha ou teria sol por ser madrugada, fator decisivo para existir insônia, ninguém insonia a sol quente. Nem ele, o Zé, que na pia batismal recebeu o lindo nome de José Maria e que era uma gracinha, fez buf, assim como dito, quando a aguinha salgada do padre rolou inadvertidamente da testinha ainda não enrugada para os olhos, e chorou após (o que não é azíago, o povo gosta quando chora no batismo diz que dá sorte, tem futuro:) o futuro se iniciava ao Zezinho Maria, todos riram o padre até o padre sisudo a mãe o pai o casal padrinho e um que outro circunstante, sequer notaram os presentes o riso do sacristão e o do coroinha porque era domingo de missas e chegavam muitos barulhando para rezas mas se riram também. Ela não.
          Maria José, Mariinha aos de brinquedo, ela não ria, em-burrada, porém isso mais tarde, antes não se ria pelo castigo que mamãe impiedosa lhe dava no canto por... já se esquecia porque nos esquecemos das causas preferindo ficar nas consequências e a consequência mais contemplável era fugir sempre dos outros, arredia, outros que fossem as meninas e os meninos, o Zezinho entre os outros ou quem sabe por mais feio que outrem, briguento e birrento; ainda por cima é bom mulher com mulher, faca sem ponta... e homem com os moleques, moleque de fato inferna a vida da gente.
          Gente revira gente o mundo um turbilhão encontro de-sencontro o liquidificador social cheio de imprevisto, então imprevisto.
          Imprevisto aquele coçar, por comum coçar. Não naquele lugar. Não, noutro lugar, na fronte. Bem naquele lugarzinho em ponta, o Zé Maria tendo duas pontas, a testa alta chata nada inclinada como os pensadores, os quais não têm cabelo a atrapalhar pensamentos; chata alta vertical não inclinada, mas não ‘coçante’ por natureza. Agora coçava e isso irritando um pouco, mexendo até com sua hora de insoniar direito, coçou outra vez. Virou-se de lado para o outro lado, voltou-se ao lado anterior, projetou a testa ao teto lá em cima, em baixo sofria por não conciliação, se revirou pra lá e pra cá, meteu as fuças na fronha, pressionou o travesseiro de espuma de borracha cheirando suor e velhice do uso e cansaço, o nariz empurrando o buraco do travesseiro em vez da nuca que era o lugar da nuca. Voltou à posição original, nada original na atitude, atitude de todos que não dormem e aguardam o sol pressionar o botão do fiat lux a se levantar fazer ginástica metódico e outras mais coisas de grande sem-importância. Aí que se deu o constatar a coceira aumentando.
          Não aumentava a coceira, o pomo de coçar.
          No primeiro dia, já fazia dias, sentiu não mais que um caroço. No segundo, que não era segundo mas a segunda vez que notava o notado, viu com o tato haver aumentado. Nada que possa atormentar, a menos que seja por configuração ser atormentada a pessoa, o José Maria sendo. Buscou debalde José a Maria: sua parte da parte dela encontrava-se vaga.  ¡E isto não é o causador da insônia!  é, respondeu-se, só. Tinha um mundo diante de si, o silêncio dos pernilongos a rua vazia o escuro da noite, apenas ouvia seu próprio respirar um pouco fungado e a paz que o silêncio costuma trazer, poderia conciliar o sono retomar o sono olhos fechados, mas não com a falta dela... buscava desesperado inclusive cada barulho que vinha da noite nos veículos apressados que passavam e sumiam, no entanto ela não voltava pra casa e a noite mergulhava noutro silêncio dando mãos às mãos doutro silêncio anterior, prolongando o sofrer o revirar na cama o insoniar. E o coçar, coçou coçou coçou irritando a protuberância, tornou a virar pra lá voltou pra cá, mudou o travesseiro de lugar, para o lugar dela, a Maria José, mas a Maria não estava estava o José, o Zé retornou à posição de ficar na melhor posição. Aí fez o que fez, que é o que fazem todos, todos os que insoniam: remexer, fazer xixi, tomar café, acender ver hora apagar a luz, olhar a fresta ver se fresta de sol a noite se negando a responder – coisas assim e assim mais outras coisas que são tudo e nada e que contrabalançam o dormir, ressonar, roncar até. E não roncava, roncava o temor da coceira e o crescer dela...
          Crescia. Um crescer crescente aparente temente aumento aumentando a olhos vistos, vistos nas apalpadelas cada noite, noite que passa, passa que corre, corre que foge, foge a Maria, José se desespera cresce o ‘tume’ entumece o coçar já vê, mesmo a cabeça coberta pra não ver, a testa teste a dormir a insoniar outra vez. Passava – não queria e por não querer passava roçava de leve de leve sentindo o aumento da protuberância quase em ver, a marcador de compasso, a medidor de ciência; e agora era a realidade, a realidade não prescinde da medida e nunca realmente ‘era’  “é”. Então se assusta. Pensa. Planeja. Não coça pra não coçar, coça pra não achar, acha que aumentou. Ela alevanta, dias após dias, alevanta bem; suspende o coto o lençol a esconder uma insônia, alevanta noite após noite no dia seguinte o chapéu, o José Maria passara usá-lo não a defender os cabelos ralos dos raios incidentes do câncer e dessas bobagens médicas mas a esconder mesmo a indesejável, pior se desejável, protuberância, exuberância na vistosidade a empurrar pra cima e as coisas pra baixo, o dono da coisa. Virando coisas, pois iniciou o coçar também na esquerda bem às direitas a dar harmonia e equilíbrio naquele desequilíbrio horroroso, o Zé achando horroroso, com razão.
          Agora todos olhavam para o Sr.José Maria  ¡mas não é um bem ser notado!  qual, era porventura político nas vésperas de eleição... cruzavam e se voltavam para o ladão do homenzinho, ele a se esconder. Até possível: atrás dos tijolos em pilha, atrás da parede, atrás do carro estacionado, atrás das pessoas desconhecidas, mesmo porque todos somos desconhecidos embora amigos ou conhecidos – contudo tudo não adiantando: o Zé andava na berlinda da vida tendo à amostra dois cotós, um pequeno promissor ameaçador outro já grandinho adulto quase... ah contudo havia muito caminhar à madureza.
          Todos iam vinham passavam, somente ela não retorna-va. Olhava para todas Marias possíveis e as Marias em ver José, melhor no pior os espetos na testa de José. Ele se voltava envergonhado, tímido, medroso mesmo e fugia também ele para dentro de si a curtir seu sonho seu sono seu insoniar bastante.
          Muito era o penar à medida que cresciam as medidas do sentir e aí chamou, não debalde mas com sucesso, interpelou o espelho. O espelho costuma ser pródigo frio absoluto, nada caritativo, e sem meias palavras. Riu-se do Zé, o Zé enrugado a cara séria preocupada, riu-se mais dos cotos, o grandinho, o pequeno a vicejar na outra extremidade do grande; riu-se ele, chorou José. Implacável, mostrou ao homem fazendo careta de exclamação um par de chifres pequenos de grande presença; havia uma ponta ainda, que horror esse ‘ainda’ pensou José, ainda em promessa, enquanto a outra já forte e voluntariosa como retorta. Soluçou alto o dono do chifre, numa expressão de horror animosidade e aversão; imediato a expressão de...  não de aceitação, porque isto ainda mais horroroso, mas daquela de não tem jeito...
          Nessa altura do tempo, era tempo de guardar-se dos curiosos. Não falar a ninguém, sequer à Maria José, menos a ela, ela não voltava; ele a chorar seus sentimentos num sentimento puro, que o sofrer depura as impetuosidades e as imperfeições. Nada obstante vivia só, parado na sua casa, temeroso em mostrar-se. Aliás para que mostrar-se não sendo candidato a cargo político ou a miss, ah tinha graça... Mas embora com todo resguardo e quarentena ‘eles’ se impunham assim mesmo: eles cresciam adoidados.
          Já atrapalhavam no dormir, que ao Zé era o insoniar. Enroscavam na fronha, furavam a fronha, espetavam o travesseiro, às vezes segurando nos ares o travesseiro a irritar o José Maria. Enroscavam na guarda da cama, tinindo seu duro no duro dos canos de ferro da guarda da cabeceira da cama e provocando uns sons desagradáveis. Enroscavam nas roupas de dormir para o Zé insoniar, furando até outros furos menores da camisa, mas não furavam nem se enroscavam nas camisas de sair porque o proprietário daquele sofrer não andava mais pondo roupa bonita para desenfeá-lo no ir à rua: comprava agora por telefone, o maldito telefone de pagar chamada a cobrar. Enroscava o próprio José a galharia, por último nasciam protuberânciazinhas nos ossos dos chifres, a embelezar tais chifres e assim enroscando melhor nesse pior...
          O pior melhorou um dia. Resolveu coser uma roupa com trapos achados num móvel para a finalidade de enxugar o chão, a fim de vestir condignamente a galharia; e se não ficou bonitinho, ao menos prático, não enroscando tanto nem retendo o José no caminho, o pobre não possuía mesmo mais caminho. E assim melhorando é que piorava porque nem sombra da Maria, a qual, caso viesse, já não viria, tendo razão agora para fugir e deixá-lo solitário no seu  insoniar.
          Entretanto, num certo dia, que era noite, não insoniava, sonhava!? dormia?! houve o inusitado então. Porque afastou o quanto pôde, podendo pouco, os galhos já potentes já adultos já mandões já imperantes, afastou-os um pouco, pouco que fosse e sentou-se na cama do lado que era o lado da Maria José, fugindo ela quem sabe às suas liberdades, e se perguntou indagando pela dita bendita Maria José; o pensamento como resposta: cara, ocê é virgem e solteiro  ¿por que pensar nas encrencas femininas, se melhor drama mesmo é este adorno aqui em cima, próprio dos alces?
Marília   março  2004                         



3° -  A Comunicação

          Quem porventura possua telefone pode comprovar esta verdade. Num repente, quando o sono da noite toma nosso ser, ou no momento em que a paz caseira invade devagarinho nosso espírito; ou quando não estamos pensando nele especificamente, o telefone aparece para sacudir-nos num susto, como um trem que nos afronta na passagem de nível. E aí os possíveis méritos das comunicações podem ir por água abaixo.
          Foi assim com o Sr. José.
          Note-se bem: ele não andava dormindo, nem em paz com a família, depois é claro de um bate-boca com Dona Filomena. Não obstante quase caiu do sofá relaxante onde curtia um desarmamento do humor lendo futebol, no momento do primeiro trinar. Bom, é necessário não esquecer as crianças, tadinhas, numa correria na disputa de quem atenderia primeiro, com duas decepções mais velhas e uma garotinha mais nova a dizer com voz de vampe “alô!” papai mamãe aflitos, pensando “será tia Joana...” ou “pode o meu velho ter piorado...” Entretanto não era.
          --É pra você, pai – disse a vampezinha.
          Atendeu, trêmulo; sempre tremia por qualquer coisa, e agora estava justificada uma tremura em grande estilo.
          --Sim é o José que está falando... Quem é que está no aparelho? o que foi? meu Deus!
          Apenas a segunda pergunta foi realmente respondida por alguém muito afoito ou equivalentemente nervoso. Dizia que Dona Tiquinha havia morrido! E todos esperando o velho que ia e voltava ao hospital, ela fortona embora queixosa... mas que desgraça.
          Indagaram ao José quando a vovó morrera, de quê; lá-grimas de todos, mesmo do José, embora comum homem não chorar. Dona Filomena perdoou o esposo diante da situação fúnebre, e até conversou com o companheiro, quebrando o gelo demorado e a incomunicabilidade. Quem foi que ligou, contando a infelicidade? quis saber Dona Filó. Como iria saber, respondeu a pobre vítima. Uma pessoa conhecida da família, diante do desespero dos membros; já imaginara a dor lá em Minas? Vai ver que ninguém entre os nossos tivera a coragem para telefonar; daí pediram a alguma alma bondosa fazer essa caridade pra nós. Todavia que interessava isso, se agora mamãe estava morta!?
          Todos atarantados, ficaram chateados um tempão, após o desabafo do choro. Porém a morte é irremediável; urgia se organizar à longa viagem para ver a defunta pela última vez. Filó mesmo tivera a ideia e a iniciativa, o filho de Tiquinha se encontrava arrasado. Decidiram.
          Banco, malas, contas; recomendações à vizinhança, portas trancadas; o táxi e as passagens.
          Viajaram. Foi um tormento, um vendaval d’alma. Todos se perguntavam como e por que, mas ninguém, mesmo o Sr.José que atendera o telefone, tinha condições de falar e dar informações melhores e além do que sabiam. O resto eram as conjeturas. E remorsos.
          O remorso comeu gostoso corações. Infelizmente José apenas se lembrava do mau uso que fizera da condição de filho; e os bons momentos fugiam apavorados dos quadros maldosos do filho da senhora Tica; a nora dela, ah um pouquinho dura sempre com a sogra, porém emotiva demais, desatou a chorar e isso atraiu a atenção dos passageiros e a compreensão do marido a consolá-la. Porém ela não tendo tanto peso na consciência, costumava, isso sim, perdoar-se com facilidade. As filhas, todas três soluçavam baixinho ao lembrar-se da vovó. Ainda mês passado a viram nas férias, forte e alegrona (apesar do vovô não andar bom); a fotografia da memória mostrava a velha morta fazendo pão de queijo e biscoitos gostosos. Não podia ser; mas podia sim, telefone não tem o costume de mentir interurbanamente, com preços tão altos a bolsos frágeis. O Sr.José não chorava mais, só tendo olhos vermelhos, houvera esgotado as lágrimas, e nem por isso andava menos triste. Encabulado, fazia passar no cineminha da cabeça as cenas com a bondade de sua mãe. Agora se lembrava da surra de varinha que levara da velha então jovem senhora, na sua meninice; perdoou à mãe e se reconheceu uma peste. Numa autocomiseração, ele se ofendia por ter sido mau à mamãe! Aproveitou o momento para agradecê-la pelos bons atos maternos, os quais cresceram espantosamente no pensamento do filho Zezo. Tadinha, tão prestimosa, se desfazendo para alegrar a ele e aos manos; se anulando em tudo: a moela deixava ao Chico, a coxa à Joaninha, o peito e todos os melhores pedaços do frango era dos outros, ficava ela com o pé.  Agora morta! Por que, indagava José, por que não somos eternos! Por que ocorre uma surpresa dessas; o velho caindo os pedaços, ela fortona ia primeiro? seria o coração? do coração que é morrer “de repente” diz o povo. Quem sabe um desses desastres de trânsito; teria ido à farmácia comprar medicamentos ao seu velhote, veio um desgraçado aloólatra e tolheu a pobre no passeio público; que monstro! não, quem foi que falou desastre? ela nem saía de casa, somente para ficar cuidando do velho esposo, a mártir. Sim, podia ser que houvesse um câncer misterioso, ela não dada a contar coisas suas, se fazendo sempre de mártir... Por que será o câncer tem levado tanta gente conhecida! bem pior quando é com os nossos familiares. Maldito, maldito! (deu um soco no banco da frente, assustando o passageiro vizinho e a esposa ao lado). Respondeu não estar louco, apenas um bocadinho chateado. Podia também ser por qualquer operação urgente e mal sucedida como apendicite aguda ou pedra nos rins; decerto não examinaram bem o coração fraco da mãe, mataram-na como se faz a um porco, aqueles açougueiros dos diabos! iria protestar, acionaria a justiça, contrataria o Dr.Boanerges. Bobagens, respondeu-se, nenhum advogado devolveria a vida à sua velhinha. Diabos! Suspirou como que vencido e, imediato, ficando aliviado.
          Chegaram.
          Ao encontrar velhos amigos e gente da família perto da casa, desandaram a chorar o choro represado, choro sem qualquer vergonha. Os outros familiares é que não entenderam bem. Aí ficaram indagando ao José à Dona Filomena e mesmo às crianças “quando” “quem”, enquanto Dona Tiquinha abraçava e beijava com carinho a mais nova, rodeada pelas outras netas, comovida.
Ribeirão Preto   março 1980                



- Sem Saída          

          Não poderia explicar como lá entrei, ou me entraram. Estava naquela gaiola infecta. Senti-me passarinho. Os olhos eram penetrantes, próprios dos felinos... Bonita.
          Bonita, embora fera. No outro lado eu, esta coisa aqui. Um cheiro acre de xixi muitas vezes dormido, misturado a restos de ração apodrecida; badulaques atirados por meninos de rua e visitantes mal comportados. A fera desconfiada ou assombrada diante daquela comida cheirosa, que eu representava... mostrava ânsia e disposição de saciar-se; preparou um ataque, mostrou os sabres inscrustrados na bocarra; vi sua língua de metro; senti mesmo o limo grudento por onde meu pobre corpo escorregaria... Soltou finalmente um urro, de dor de raiva de alegria... Na sua extrema a conquista, eu; na minha ponta via o conquistador; desejei que fosse conquistadora, machista por educação, mudei-lhe o sexo, como desconto na nota fiscal. Urrou. Aviso do fim!? Não tive tempo de verificar, grudei-me às barras de ferro, minhas próprias unhas rasgaram as palmas das mãos; misturei sangue e ferrugem. Já tendo as calças sujas, acrescentava apenas mais um cheiro ao ambiente. Desejei que as barras fossem mais enferrujadas e mais finas; eram menos podres e grossas. Imaginei que houvesse uma força extraordinária desconhecida em meu pobre ser; num relance, no entanto, entrevi meus bíceps miudinhos, de não meter medo a ninguém. Não pude ver meu rosto, mas devia ser branco qual cera. Forcei as barras. Porém a fera forçara a mesma ferragem antes, sem resultado; desisti.
          Veio de meu lado, fui para o seu. Trocamos de lugar infinitamente, como alguém no tabuleiro de damas, com duas peças empatadas. Às vezes eu parecia o caçador, mas era a caça. Podia inclusive estar imaginando aquilo, pensei; mas a gaiola de ferro era verdadeira, o felino palpavelmente negro, lindo, eu o via, não andava no mundo do faz de conta... Tornou a urrar. Senti-me ainda mais fraco; o suor umidecera toda a roupa, um cheiro de corpo exalava de mim (o bicho sequer se importaria, se melindraria com esses senões...) Armou um pulo, agachando-se. Não mais quis trocar de lugar, desgostara decerto daquele brinquedo, suponho.
          Olhei, covardemente, para fora. Não via alma; não ouvia corpo. Cansara gritar em vão, parece que não tendo mais voz. Ninguém iria salvar-me! Por quanto tempo meu ser aguentaria a situação?
          Daí imaginei, numa vingança, estar engolindo o bichão; começando pelas patas da frente, jogaria as unhas arcadas para fora das barras de ferro, para não furar minhas tripas. Cruas mesmo! Arrancaria os pelos negros brilhantes. Guardaria os olhos penetrantes num vidro com solução, a título de troféu. A barrigada deixaria às moscas, ao chão pegajoso e nojento, misturada aos dejetos. Tomaria da fera os ossos, o fêmur, cada costela, jogá-los-ia por entre as ferragens, um por um. Não, não poderia estragar a pele; poria um tapete na sala, contaria a estória dela aos convivas; mil e uma vezes pisotearia nela! Fiz “grrr” e cara mais medonha possível. O animal urrou como resposta. E fugi para o lado do portão da gaiola. Quem o teria fechado! Urrou outra vez meu inimigo; abaixou-se para ataque final...
          Então acho que chorei por dentro. Havia engolido a língua fazia tempo, ou todo o aparelho fonador, sei lá. Não tinha cura meu mal. Impulsionou as patas traseiras a pular contra mim. Eu fungava desesperado; parecia não haver mesmo saída para este mortal. Quem sabe uma. Acordei.
Marília   janeiro  1978



- Extrato da Agenda do Rei          

          Ah se... Felizmente, quem sabe se não infelizmente, eu não sei mesmo conjugar no condicional e meus verbos apenas emprego no sentido indicativo, preferindo conjugá-los no presente. O passado se foi, não sei sequer se foi, estando por demais ligado ao dia de hoje; o futuro sempre me espanta, e frequentemente me espanta por não entendê-lo. Não obstante ando registrando numa brochura meus garranchos de semial-fabetizado, um caderno que tem por dístico na capa o lema “Futuro se Existir”, o que me parece de um gosto escatológico à toda prova.
          “Segunda-feira, 23, segunda é de preguiça, nada se faz. Sequer registro algo, por preguiça. Não se trabalha no dia de preguiça.
          “Terça-feira, 24, dia azíago dizem, na minha pátria te-mos o cuidado em não cair no vinte e quatro, o veado, bicho mui malfalado. Melhor, por isso, guardar como dia santo ou ponto facultativo, é bom nem sair na rua. Pronto.
          “Quarta-feira, 25 – meu primeiro dia mesmo como rei deste país fajuto; dá inclusive para esquecer a lealdade e o pa-triotismo. O que devemos fazer no primeiro dia num serviço qualquer? nada. Apenas observar para aprender. Por isso nada também registrarei a fim de lembrar o quefazer na minha agenda de ocupadíssimo chefe de Estado.
          “Quinta-feira, 26: vamos ao trabalho, embora já esteja literalmente cansado, pois é quase fim de semana. A nação pode esperar? urge trabalho. E se o Rei, eu, não trabalhar, como exigir que a população trabalhe e o país cresça! Vamos nos mexer. Que temos para hoje, Secretário? Eu havia preferido uma secretária linda escolhida após concurso desses de miss e tudo o mais; minha assessoria vetou o pedido (portanto quem manda num país é o assessor, o Rei é o segundão) vetou sob pretexto de que mulher bonita não deixa a gente trabalhar só ficamos olhando para ela, o que com pesar reconheci sábio. O Secretário me informa a Dívida Externa, a Interna fica aqui em casa mesmo na família o pessoal vai rolando fazendo cambalachos mais e lá fora ninguém fica sabendo, apesar os satélites olheiros que apagam até nossas mais lindas estrelas no firmamento. A Dívida. Está grande, enorme, insaldável. Fala que o Fundo Monetário Internacional virá loguinho nos dar fórmulas e ditar o que direitinho devemos fazer para eliminá-la de nossa Agenda Real; e já me adiantam as vozes aqui no palácio que tais fórmulas consistem em apertar o cinto do povão, matar mais alguns poucos milhões de fome e ficar devendo apenas ao próprio Fundo. Parece uma solução bonita. Agora, eu, o Rei, sou um homem simples e vou propor o pagamento por apagamento. Vou dizer ao Congresso (será que tem congresso? é, deve ter sim, ouvi dizer que tem um, mas os meninos recebendo em dia jetons salários aposentadorias e demais benefícios, esses garotos ficam quietinhos e não dão trabalho ao Rei) vou dizer-lhe: proibo pura e simplesmente o pagamento da Dívida Externa do Reino! Alegarei que ela vem desde o tempo da República, antes mesmo, desde o tempo que a nação era uma colônia, não me cabendo a culpa, fui escolhido dia destes, não fiz dívida alguma. A rigor reconheço que quando nasci nasci endividado, na barriga da mamãe um filho do país já é um devedor...  Porém como desde que me conheço por gente não pus nenhum pontinho no cômputo da dívida nacional, nego-me pagar minha parte e estendo aos outros patrícios o mesmo direito. Por essa razão direi que proíbo pagar a Dívida Externa. E se o legislativo exigir que o governo do qual sou soberano eleito pague a mesma, então viro ditador e exijo não pagar! Eles, deputados e senadores, temerão ao Rei, entregarão todo o poder nas minhas mãos, viro sim ditador. Portanto dá no mesmo, pois como ditador legal e vitalício não vou realmente deixar pagar a Dívida Externa. Enfim, se é para registrar na agenda, se esse é um trabalho importante de um rei, registro lembrar pagar a Dívida Externa do País. Agora chega de trabalho nesta quinta. Vou dormir.”
          “Sexta-feira, 27. O que registrar na agenda do Rei neste dia? Já se vê, sexta-feira é dia para descansar, preparando-se para o fim de semana que se aproxima. Além do mais, minha terra estará discutindo a dívida, se paga se não paga, em suma os argumentos do Rei, eu. Não sobrará tempo para mais nada. Antigamente nem disso se ocupavam no meu país, mas somente da questão eleiçoeira do entra governo sai governo, eleição essas coisas. Como isso são águas passadas e águas passadas não movem moinhos, não se fala mais, existe um Rei, eu, e só voltarão a se ocupar da questão política após minha morte (se eu não deixar descendente). Por enquanto ficarão os habitantes distraídos a discutir a dívida. Serve para discussão diária, já que acabaram o futebol e a eleição; e a violência que era papo a todos os minutos foi proibida, só ficando a violência camuflada na fome, a qual apenas mata pobres; todavia a nação é rica em pobres e não tem perigo de acabar a sinecura dos meninões do congresso e a distração da imprensa consentida. É, acho que não vou registrar nada na Agenda do Rei. Devo lembrar alguma coisa? pergunto ao assessor. Manda me falar que eu, o Rei, esqueça. Vamos esquecer esta semana trabalhosa; talvez na semana que vem tenhamos algo para registro.”
          Assinado, Sua Alteza Real. Palácio do Governo.
Ribeirão Preto   novembro  1987



- Um Crime Passional                  

          Podia ser ela mesma. “Quem matou o amante?” A evi-dência era para ela mesma. Aí vieram os policiais e investigadores. Quando alguém propunha já sua prisão e a bela chorava impressionada, chegaram os comerciais.
          A família ali submetida iniciou seu falar, pois se manti-nha até o momento vidrada na tevê. Cada qual pretendeu dar sua contribuição ao intrincado problema. “Acho que não é ela, tão bonita e bem posta...” opinou a jovem cabeluda; riu-se o mano; o nenê fez glu, quem sabe não soubesse o matador... Mamãe achava que pudesse ser o marido dela, não seu esposo, mas o da bela da estória; acontece, argumentou, que o fulano mostrava cedo seus dentes... Papai votou no filho da bela, sujeitinho atrevido e briguento. Tinha um amigo na sala, com direito a escolha. Sorriu olhou a todos, fixou-se na cabeluda desviou do pai dela, talvez concordasse com alguém entre os votantes ou elegesse a irmã do irmão, filho da bela amante. Todavia se foram os comerciais.
          A polícia quis prender. Aí surgiu um policial corrupto, ofereceu ajuda, aceitaria alguns bilhões da bela, em troca do silêncio. Fez uma porção de coisas, ia fazer mais, os comerciais não permitiram.
          “Acredito ser o patife, o matador do pobrezinho aman-te”, atacou a jovem cabeluda, mudando o pensar. “Foi a boni-tona”, defendeu o mano da cabeluda ao funcionário da cor-rupção. Uns concordaram consigo, outros com a de fios longos. Ameaçou-se até calor e encrenca entre os torcedores... Havia indignação, quando os comerciais cederam o tempo, cansados.
          O patife, quase réu confesso, encontrou-se com o mari-do chifrado envenenado injuriado ofendido disposto inclusive... Novos comerciais. As bocas tapadas se abriram.
          “Agora penso mesmo ser o marido”, gritou o marido da mãe; a filha da mãe discordou, a mudar outra vez a opinião. “Garanto que é o fio-da-p. do chantagista!” berrou o filho da mãe, da santa mãe dele, mais velho ele na escala cronológica familial. Quase brigaram, havia muitos réus para um só crime. Até se esqueceram da causa do crime. Aí os comerciais cansaram de faturar, mostraram a bela.
          Sorria enigmaticamente, foi voltou tornou a ir, funcio-nou o carro; os detetives mostraram zelo e exemplos, analisa-vam provas a sobejo. Sobrava expectativa, os comerciais abri-ram as torneiras represadas.
          “Basta gente, não há dúvida: o ‘p.’ cansou-se da bela, quis chantagear o marido delinha, a amante cortou-lhe a goela!” Ninguém pretendeu concordar com o rapaz. Papai se passara ao time de mamãe, a filha cabeluda já torcia, pelo menos, pró-papai. Os outros estavam indecisos. Andavam esquentados; alguém propôs limonada. Não deu tempo, os comerciais devolveram a bela.
          Ela chorava, soluçava baixinho. Todos na família tinham pena, o convidado amigo também, mas não podiam falar, ninguém permitia interrupção nem comentário. Os comerciais interromperam o enredo, mostraram cigarros ao sucesso e dentifrícios  refrescantes.
          “Está bem claro, foi...” os outros não concordaram com a dos cabelos compridos, antes mesmo dela apresentar o novo assassino de sua preferência. Cada qual pretendeu marcar o seu gol próprio, mamãe trouxe limonada, molhou a chupeta do nenê, a dormir e fora da acalorada discussão. Acordou o caçulinha, ia fazer glub-glub, os comerciais devolveram a moça.
          Voltou a chorar, prenderam todos os suspeitos, ela a primeirona da lista, tadinha. Aí a família e o agregado não se aguentaram, sequer lembrando-se que não haviam retornado os comerciais ainda... Temendo uma derrota para o telespectador, os comerciais manobraram interrompendo as cenas. Na sala virou briga, a discussão era grande, imensa.
          “Não há dúvida”, sentenciou papai. Havia. Todos dis-cordavam prendiam puniam o seu assassino mais amado. No entanto os comerciais, de língua de fora, calaram-se, religando o filme policial.
          O esposo, não o esposo que era vítima da televisão e seus comerciais, mas o esposo vítima chifrado e envergonhado, nem tanto, esse, mostrou à linda amante, bem na horinha em que os ‘tiras’ iam apanhar a todos, mostrou à bela criatura algo macabro: certa mão humana! decepadinha da silva. Será que desejava a vítima transformar-se num verdugo e enlouquecer a assassina!? Gritou. Não a bela amante, porém a jovem cabeluda: “é ela” e repetiu várias vezes mais a reforçar o achado. Foi a mocinha fulminada pelo indevido com a arma de muitos olhares a si apontados, pelo sacrilégio. Calou-se. Olharam a expressão aterrorizada da bela amante. O público olhador não podia opinar ainda. Felizmente nesse instante os comerciais blasfemaram aos ouvidos, e por isso retomou a família o entrevero.
          A coisa esquentava, quando os comerciais, condoídos, devolveram, cansados, o filme em sua parte final. Todos para-ram. A luz também parou. Os apreciadores de televisão e co-merciais, de belas assassinos e chifrudos, todos aguardavam ansiosos a eletricidade. Nisso o bebê gritou “glub-glub”, que poderia ser o assassino a vítima ou o escuro na sala. E tendo lá sua razão.
Ribeirão Preto   julho  1984



  - Diagnóstico & Tratamento       

          Ele, ela ou qualquer coisa, ele a ficar mais simples o tra-tamento, tratamento de linguagem, ele entrou no consultório, achou bela a gostosura sorrindo na mesinha, deu a ela-bela o nome, e aqui não vai ao caso, caso nome dissesse algo a explicar as coisas das coisas; belinha-elinha introduziu o Sr.Ele na sala clínica.
          Cumprimentou o causídico da medicina com nomes de enroscante pronunciar, só reteve o primeiro deles ou seja Dr.Charlatão. Esgoelou, segundo a praxe; o esculápio anotou seus ilegíveis na ficha no seguir a praxe; balançou a cabeça muito a dar boa impressão científica ao colóquio. Por fim sentenciou, talvez já a pensar sursis ou a pena de morte, antes disto consultou ao fone interno se a belezura arrecadara o fundo pró-família, família Charlatão é óbvio; daí sim ele sentenciou:
          Amigo, o senhor sofre de um mal bem definido, cujo rigor científico se codifica como ‘burguesismo consumista’.
          Olhou, desconsolada, a vítima, freguesa, cliente, paciente ou qualquer parecido, ela olhou para o médico. Isso é grave, Doutor!?
          Bem, meu caro, não se preocupe tanto, o mundo ainda não acabou; muitas ou apenas algumas vezes retornará a este forum de debates ‘microorganísticos’, com saldáveis e saudáveis contribuições charlatanescas; o fim não me parece ‘tão’ próximo. Pro futuro esclarecerei melhor, na melhor da pior das hipóteses extrairemos a partícula ‘tão’, desnecessária à maioria dos mortais.
          O freguês relaxou, descansou expectativas, quase sorriu a gargalhar escondido ou só calado. Feliz, até feliz.
          Completou o seguidor (não exagerado) de Hipócrates: Não se preocupe, este seu mal atinge bilhões, mais da metade na população terrena, a maioria; e a maioria costuma ter razão, é princípio democrático inclusive nos regimes concentrados e ditatoriais. Portanto não está só – bem acompanhado no mal!
          É grave... digo, meu caro Doutor, terei ainda muitos anos de vida?!
          Muitos muitos anos mesmo (pensou meses abreviou o pensar a dias para acertar a verdade dos minutos).
          Mas é grave?
          Não, não se assuste com o agudo, é estado crônico (pensou de novo: muito pior...)
          Deu-lhe a receita, que o homem tremulou qual bandeira, leu releu, levantou olhos: não conseguia alfabetizar os garranchos. O profissional tomou-lhe o papel e anunciou ele mesmo em altas vozes, julgando o freguês cliente paciente ou coisa desse jaez surdo.
          Tomar carrão último tipo, todos os dias.
          Antes de me deitar? interferiu a vítima.
          Antes de se deitar. Segundo medicamento – televisão, esta de hora em hora.
          Dormindo também, Doutor (cortou o portador da sín-drome do burguesismo consumista).
          Dormindo sim, mas deixa ligada baixinho a relaxar nos programas eróticos. Ah, isto me esquecia – diz o Dr.Charlatão – é necessário trocar o pijama e os lençóis diário, pôr ferver as roupas íntimas e secar ao sol, pra não contaminar os tecidos da outra madrugada com novos e salutares erotismos televisivos. Entendeu?
          Fez de cabeça que sim. Aí lembrou-se.
          E se não passar a dor?
          Não tem dor, não me disse doer; esse estado não é sequer pressentido pelo físico e só elimina o psiquismo, não dói.
          Mas se não passar?
          Droga! (pensou Charlatão: que burro!) Drogue-se. Em quaisquer esquinas existindo fornecedores. Qualquer uma, ora: todas de uma vez se achar melhor e o bolso aguentar.
          Se...
          Não se preocupe. Tome os medicamentos como mandei. Havendo qualquer alteração me comunique.
          Deu o telefone. No entanto safado ou gozador ofertou o da polícia.
Marília   abril  2005



8° -  O Vice do Presidente      

          Andava fazia tempo a esperar e tive sorte, chegou o homem. Afável mas determinado; e paciente, ouviu-me até ao fim. Disse-lhe ao que vinha, vinha no intuito de traçar um esboço do que presenciava nas ruas de meu bairro, ou seja a melhora considerável na atitude de nossos adolescentes, uns a dizer aborrecentes outros indecentes mesmo. Não sendo a minha opinião, a minha muito pelo contrário. Pensei haver dado o recadinho, quando me pediu licença, afável e educado como falei; se foi, eu ainda necessitando completar meu dizer.
          Nisso entrou na sala onde me encontrava a aguardar, outro alto funcionário. Não senhor, disse o homem, ele não é o presidente, eu sou o Presidente desta Entidade. Declinou nome prenome sobrenome e seus cargos e encargos e títulos, os subtítulos de seus auxiliares, ele o Chefe, não dissera? Disse eu minha razão a estar no escritório. Contei a coisa, repeti em nova forma na formalidade usual e admitida. Ou seja, os adolescentes, sim os aborrecentes indecentes até, sim senhor e coisa e tal, tal meu recado mas... deixou-me o Presidente a cuidar decerto de questões conexas, que não eram certamente de minha conta.
          Substituiu o Presidente um outro, a se sentar na giratória cadeira, ouviu-me, mas antes, e antes de ficar ‘nhec-nhecando’ na giratória sua importância, antes sim declarou-se Presidente; eu: mas o outro... O outro! ora, subalterno, subalterno superior apenas aos subalternos; o Presidente sou eu, ele afirmou. Declinou nome títulos etc. etc., agradeci ao Doutor, iniciei meu relato, ou para que ali me encontrando. Os adolescentes, comecei... e não terminei – logo me deixou, tendo, cerimonioso, pedido escusas, um caso de diretoria, de nível, necessitando presença dele, Presidente. Voltaria logo.
          Logo descobri que seu logo demoraria mais que o cos-tumeiro logo dos outros mortais. Felizmente, aí me assustei: veio o Presidente, o Presidente em pessoa. O anterior? riu-se, um diretorzinho inexpressivo. Poder-me-ia abrir consigo, era o Presidente, mostrou títulos e honrarias, me pondo embaixo, quase envergonhado, felizmente perdera eu a vaidade e o orgulho e não me considerei diminuído. Iniciei a peroração, causa de minha presença. Desejava expor à alta autoridade, o Presidente daquela entidade, a transformação por que passavam os adolescentes (ele interrompeu, educadamente, a acrescer: dizem aborrecentes e alguns a pichá-los como indecentes; no que concordei plenamente). Falei também de minha alegria ao ver os moços modificados, no bom sentido, graças àquela Entidade Filantrópica dando a eles seu amparo; insisti haver-me felicitado a poder comunicar o assunto para tão alto cargo, como o do Presidente. Agradeci mas fomos interrompidos por alguém, o Presidente me rogou desculpas, porém havia um ‘confidencial’ a ser visto junto à Diretoria. Saiu.
          Olhei pra lá pra cá...
          Já arcava já me levantava, quando adentrou um homen-zarrão, o qual sentou-se na giratória do Presidente, olhou-me, e antes que se dissesse o Chefe o Dono ou qualquer coisa assim, tomei a iniciativa:
          Muito bem, o senhor, já sei, o senhor é o Presidente.
          Ele apenas meneando negativo, vozeirou – sou o Na-morado do Presidente.
Marília   junho  2005



9° - Encrenca Direita da Esquerda    

          À mão direita tem uma roseira, a outra voz das crianças a responder: que dá flor na primavera. Não dá, não dá mais; não tem, a meninada agora dança e rebola motivos sem motivos, piormente estrangeiros, não tem roda não tem cantiga de roda. Mas não tinha mesmo rosa e isto não é uma crônica como parece querer virar. Tinha a mão direita.
          Contudo pinta o absurdo nisto desde já; pintaria, porém ainda não existente na época o absurdo, não por não haver mas por não haver sido criada a palavra absurdo. Ou seria com certeza. Porque a direita se desentendia fácil rápido curto e grossamente com a esquerda.
          Desde ‘tantadinha’ assim não se bicavam. Ou por outra (veja-se o absurdo também da linguagem a afirmar para negar) elas se bicavam, bicavam a sangrar. Por quê? ora, por razões de criança, as quais o adulto pensa, sem razão, que sejam desarrazoadas. E razão sem razão é o que mais de absurdidade existe. Existia, portanto se atingiam em briguinhas infantis, ah que gracinha, briguinhas do tipo assim “mamãe falou que não é para nenhuma xereta pegar minha boneca”, a esquerda respondendo à altura. Isto porque não tem maior adversária nem maior encrenqueira que a esquerda. O mundo inteiro comprova isso, nisto tendo razão agora a direita. Por outro lado cabe à direita eliminar os contrários em cárceres e torturazinhas, ai ai ai que gracinha; e agora neste nisto agora a esquerda mui com razão.
          Mas eis que conseguiram, sem se trucidar nem se assas-sinar não obstante invejas e intrigas da oposição, tendo embora rivalidade por amar demais a mãe e disputá-la no carinho; sim, conseguiram sobreviver e passar da infância à adolescência! e isto é conquista notável: não fosse antes do absurdo aparecer; daí ganhariam o prêmio do Guinness Book por essa razão. Como havia, ou ao contrário não havia ainda o absurdo – então não receberam o prêmio, com direito a show televisivo e tudo. Também, houvesse o ganho, não se entenderiam a direita e a esquerda, a mais dizer e dizer-se é meu é meu.
          Coisas de mão.
          Agora mãos adolescentes. Ih... Claro, as bocas das mãos trabalharam na fase, a contento... houve mesmo lindos chutes, não a gol mas a atingir com o pé a rival, à qual a direita berrava dedando ser a esquerda, esta a direita. Mamãe interferia, ora dando razão à esquerda mas quase sempre à direita (segundo o dizer ou pensar ou pesar da esquerda, não suportando parcialidades maternas; aquele negócio do falar: ah, cê tá é do lado dela hein!) A velha interferia mas não é mais como era em meninas, a mão da mãe correndo solta na bunda ora da mão direita ora na traseira da mão esquerda; e nos casos de dúvidas de amor e do quem foi que fez, fazia justiça esquentando a bunda da mão direita e a bunda da mão esquerda, tudo ao mesmo tempo; não se sabendo de que maneira a mãe conseguia ao mesmo tempo isso, decerto com ajuda do absurdo.
          É bom não indagar se, de tanto aparecer de vez em quando o absurdo, se o absurdo não seria o pai, aí admitindo também o vizinho da mãe ou o primeiro ou o segundo namorado da mãe; não se chegando à conclusão se o absurdo respondia pela paternidade da mão direita se da mão esquerda, mesmo porque gêmeas fraternas. Não, isto já absurdo, tanto quanto a roseira não existente a poder dar flor na primavera. Isto absurdo.
          Portanto, a retomar esta fuga do absurdo, elas brigavam sim, ou seja as manas esquerda e direita, sem se trucidarem, é visto, em plena adolescência; a velha, que a esquerda irreverente dizia à direita “véia”, a mãe interferia apenas falando ou numa boa chantagem materna a chorar; não ficava bem mais esquentar bundinhas, aí belas e sensatas ou sensíveis nádegas prometedoras. Claro, nenhuma genitora de coragem para bater em moçoilas. Falava falava, elas? se riam. Aí não brigavam, a velha virando ou a oposição delas ou somente o bode expiatório, seria melhormente dizer cabrita expiatória, a oposição levando as pobres a ser vítimas, tadinhas.
          Todavia, eis que termina a fase. Uf!
          Não terminaria, lógico (ou se pensava o absurdo?) não acabando o desentender delas, embora já casadoiras criaturas. Pois que mesmo no altar, dando um susto no pároco no mo-mento do “estão casados até que a morte os separe”, mesmo aí nesse instante sagrado a direita berrou à mana – “sua ladrona, o braço é meu!” A esquerda, amante de absurdos: “não, sua cadela, o braço é meu marido!” Mamãe chorou absurdamente envergonhada. Batesse na bunda, ainda assim seria absurdo.
Marília    julho  2005




10° -  Os ‘Grilos’  

          De repente se olhou num autoexame a encontrar o que não achar. Para que achar por que achar, onde? Era o todo; e nem por isso existia. Não, mas existia, sim. Claro. Até se ob-servava no seu todo. Todo dia, dia todo. Ao se levantar ao se olhar e não se ver; o que via? um homem. Isso não diz tudo do todo. Aí fazendo o que pedia, exigia, a educação. Ela sim existente com certeza. Escovava se alimentava vestia-se saía andava circulava fazia o fazer, voltava; alimentava-se a se deitar, antes fazia, ou fazia na cama proibido pela educação feito mãe professora, não: madrasta. Para viver, o viver o dormir o descansar o viver como um todo. Mas a cada viver do viver o morrer. Morria em si a se ver, se notar, se tocar, enojado. Daí cortava-se, quem não! e se curava; mas eis perceber o sangue a lhe derramar da ferida! não temia esvair-se-lhe a vida embora o sangue a vida, apenas sentindo nojo – isso, sentia nojo daquela ‘rubrez’ salgada a endurecer e pretejar. Um horror. O horror se prolongava em cada ranhura ou em cada demora no sarar secar arrancar indevidamente casca a sangrar outra vez; e por fim secar e cicatrizar. Escarros, mucosas outras das ventas, da boca, e dos orifícios menos dignos ou ‘escondíveis’... ah as mucosas. Alimpava, meio constrangido e de longe possível, sem poder não fazê-lo com as próprias mãos! ai! Atirava por fim no não tem fim o papel a higienizar a sujeira, já abandonara o lenço contaminável e repelente. O cesto crescia, alimentado; o lixo se alimentava crescido. Então aguardava impaciente o lixeiro no seu trabalho, a lamentar ele o cheiro ruim. Ali, lá, lá iam detritos de seus detritos imprestáveis. Vez que outra se assustava a espantar-se no pensar que seus restos iriam sujar outrem, ah pobres catadores pobres, miseráveis e famintos! O carro-lixeiro se ia, sumindo na curva; e lamentava os funcionários no correr em volta, a tomar os invólucros contaminados, decerto contaminados! e entre eles o seu; então vinha o sentimento de culpa por sua culpa, o volume sujo a sujar por extensão o mundo! Entrava em casa a se descontaminar. Mas, antes, se sujava ainda mais no limpar a garganta – o escarro o ranho o sarro – a sujar o lavatório no banheiro, o vaso; aí piorou. Havia pior? pegou-se a observar a suja cama solitária, os lençóis com manchas espermáticas da mucosa mal usada bem seca e já não mais a cheirar, cheirava-se a se cheirar, sujo... Sujo ou limpo, contaminado: se achava achando-se contaminado. Lavava, limpava secava aplicava álcool perfume desinfetante e, e ainda cheirava; achava cheirar; deixava a educação, aquela madrasta, gritava pra si: não cheirava, fedia. Isso mesmo, fedendo igual... igual a quê? não tinha igual nem semelhante nem parecença que se aproximasse. Por isso se banhava e se enxugava e, por via das dúvidas, via as vias em condutos das mucosas... aí se estremecendo. Então ocorreu uma descoberta fantástica à pobre criatura – a pele, sua pele na sudação, malcheirava, impressionava! Contudo não se escalpelou, nem arregaçou pele e pelos no avesso do avesso do avesso. Avesso somente pensou avesso.        
Marília   julho  2005                                                                  



11° - Sistemática no Trato com Gêmeos

          Dementadozinho era criatura normal. Desde pequeno tendo reações se não normais comuns. Papa, papo, bem entendido: bá-bá-bá que diz toda criança; xixi em hora certa toda hora, mamãe Louca (nome dado pela vizinha intrigante) mamãe se escabelando a gritar não poder com a pilha de fraldas; papai, quando papai ficava a olhar a cria, não se escabelava por já ser calvo, assim mesmo a reclamar por trocar ‘retrocar’ a fralda desajeitadamente, porque homem não leva jeito para essas coisas. Cocô, Dementadozinho fazia normal o cocô, defecando malcheiroso e aí brigavam: Mamãe que não sabia o que o porcalhão comera; papai Maluco (nome que se atribui haver sido registrado em cartório, ou só intriga da sua oposição conjugal e a vizinhança atribuindo o dito nome aos possíveis amantes da oposição, sim amantes pois na época namorado era quem namorava noivava casava em consentimento familiar; portanto amantes, mas aqui intriga da oposição vizinha contra a pobre oposição Louca à oposição configurada como sendo Maluco). Maluco não suportava o cheiro do filho, não: das fezes dele e atirava a culpa na esposa. O filhote foi crescendo normal.
          Até que surgiu o mano a atrapalhar.
          Mas não se prometeu gêmeo. Como pode...
          Aguardemos o desenrolar desta estória, um conto, o qual composto na formulação de um autor íntegro e comum, para não afirmar-se ‘normal’; o dito conto tachado ele, ou pichado – e ficaria bem a adjetivação – pichado como sendo contolouco. Prossigamos na explicação dementadazinha, a qual não foi sequer iniciada. Seguinte.
          De fato apareceu no cenário Lunatiquinho, que era uma gracinha. Dementadozinho ficou com ciuminhos do maninho: agora tendo que dividir fraldas penico berço com o talzinho; e pior – dividir por dois os dois pais (pera lá, um pai e a mãe, não pensemos besteiras com namorados e amantes); aqui uma questão chata: ele era péssimo, embora normal, péssimo em matemática, somava bem como todo egoísta mas errava na de subtração e na conta de vezes no ‘vai um’; na de dividir errava feio na operação. Paremos um pouco, errava mas sem má-fé, porque errava por ruindade mesmo Dementadozinho. Bem. Mal avista seu mano mais novo, Lunatiquinho, já se posiciona em guarda, que é o choro, o choro é a defesa dos fracos ou roubados no carinho, conforme sua ‘autoversão’. Dementadozinho sentiu ciumeira!
          Pera lá II. Que negócio é esse, não eram eles gêmeos! explicar essa trapaça.
          O Autor adora ser chamado trapaceiro, dá assim um charme. Mas não suporta pensarem os outros que o seja de fato. Isso não. Em razão da coisa, noutro período explico.
          Seguinte, este II. Eram sim gêmeos. Vai alguém admitir que por gêmeos forçosamente nasçam (e credo em cruz se tri-gêmeos tetragêmeos!) nasçam ao mesmo tempo, embora diminuindo a culpa por ser a parturiente a Sra. Louca, dos doidos tudo se permitindo!? Eram, além disso gêmeos fraternos e Dementadozinho vindo ao planeta (depois diria numa intriga se referindo ao maninho: “veio a furo”) enfim o Dementadozinho nasceu primeiro ‘xixou’ primeiro defecou primeiro chorou primeiro, aí papai, ou papai-presuntivo, não aguentava e ainda por cima dizendo em intriga da oposição que o mesmo chorava fácil igual a mãe. Chorou primeiro, tudo primeiro. Lunatiquinho em segundo, nasceu depois. Mas aqui entra nova encrenca neste conto encrencado ou encrenqueiro como um contolouco, segundo a autoria.
          Acontece (negando-se o Autor em pôr ‘seguinte-III’) acontece que demorou ocorrer a segunda fase do mesmo parto, donde proveio Lunatiquinho. O Autor, tomando a literatura médica e consultando obras consagradas, admite menos de hora. Contudo os personagens não aceitaram o alvitre. De-mentadozinho diminuiu para minutos e segundos. Lunatiqui-nho a afirmar ser dias, anos até. Esta possibilidade sendo pos-sibilidade, visto o irmão Dementadozinho conseguir fazer mi-sérias a quase endoidar mamãe Louca e papai Maluco, claro está que extenso aos amantes, os quais não eram ainda ‘namorados’ de mamãe, porque o semantismo vicejou agora e a estória ou contolouco se passa faz tempão. Não se requeira precisão temporal, pois crê-se o Autor igualmente normal e aos doidos tudo se perdoa. ‘Somenizemos’ esta questão porque: que importa a um louco se ele está com doença terminal ou sentenciado com sentença de Primeiro Mundo a pena de morte, que importa, se ele não sabe disso! Não o Autor, veja-se bem, os figurantes primeiro e segundo não sabiam. Eram normais, apenas a brigar em oposição, como se falou dizendo que o outro viera atrapalhar e por isso nascera logo, poderia demorar mais um século; o segundo a dizer que os pais estavam do lado do mano “tudo é para ele!” isto vociferava.
          Mas aqui cabem o término dessa briga e o término da estória. Acabemos primeiro com a briga, semelhantemente a Dementadozinho que veio primeiro, e depois a estória, igual-mente Lunatiquinho que veio depois a azucrinar a querida mamã dita Louca pela oposição vizinha e o papá Maluco. Sim, primeiro os primeiros, o que já foi feito antes deste parágrafo (a briga deles); após, o fim do contolouco.
             Dementadozinho ficava colocado sempre à esquerda, o que mostra sua tendência... Lunatiquinho à direita, sempre, desde que veio ao mundo pela parteira Senhora Pirada, esta que servira Dona Louca no primeiro filho também. Como o primeiro veio primeiro, foi operado primeiro; ficando meio cego primeiro e revendo pouco também primeiro. Aí foi a vez da cirurgia em Lunatiquinho, vendo pouco em segundo lugar, revendo segundo claramente, e sarando igualmente em segundo, por último. Mas o tratamento ‘desencegador’ continuou, ou não continuava ou não adiantava o atraso. Em razão disso era mister os colírios reparadores. Ocorrendo um desastrezinho (tudo que afetasse um era desastre pra si e motivo de despique do outro, fosse primeiro ou fosse segundo, a inverter papéis: intrigazinhas ciumeirazinhas dos desafetos). O desatre: Lunatiquinho pegou conjuntivite! Em vista disso a vista recebendo colírios curativos; e cuidados especiais de Mamãe Louca, de papai Maluco não: já era mais recente e aí tinha um ‘namorado’ novinho da silva não estando nem aí com o filho dos outros, apenas olhando para aquela gostosura de Louca. Enfim, tratamento, onde apareceu flagrante os ciúmes de Dementadozinho.
          Dementadozinho: Vocês só pingam colírio nesse hipo-critinha. Tudo pra ele! eu? às traças.
          Assim foi que, a acabar de vez esta atrapalheira como prometido, assim tomaram (leia-se mamãe Louca tomou) dum colírio chamado no métier clínico como ‘lágrima artificial’, coisa inócua e nada além de água como aquela que o ‘namorado’ de Mamãe põe na bateria do carro, enfim água esterilizada. Tomou a lágrima, espirrou uma gota nele, isto é: no primeiro filho reclamante, e o mesmo ficou todo feliz e empafioso por estar igualmente doentinho. Não chegando a olhar num desabafo ao desafeto, aquele safado, por estar com o líquido ainda umedecendo o cristalino. Ah essas crianças e suas diferenças.
Marília   julho  2005



12° - Família Nada Por Acaso

          Numa das vezes em que o destino errou, achou por acaso ele a ela. Ele Sr.Orgulho, ela Dona Vaidade. Jovens, impetuosos, cheios de sonhos, estes cheios por sua vez de enganos e mesmo do viver real. Bem. Namoro noivado casamento, após: alguns desentendimentos e acertos; e uma porção de desacertos no entendimento. Enfim os dois formando um casal para o ‘até que a morte os separe’. Aliás dona Morte é experiente e eficiente na sua profissão ou missão; o que equivale a dizer que embora as oposições na luta de vida e morte, nesses momentos em que os vizinhos não sabem se melhor interferir ou chamar a polícia ou alertar os parentes ou só ficar olhando pela fresta o bate-boca e os tabefes, os gritos e as ofensas – e aí silenciando mas a falar entre si à boca pequena. Neste ponto surgiu Dona Morte e pôs fria e calculadamente fim na peleja.
          Todavia antes disso é como se costuma dizer: foi bom enquanto a eternidade durou.
          Orgulho, ciente de suas forças, se dizendo mesmo uma fortaleza, tinha por costume não dar os braços a torcer – acaso já no ocaso, ainda a se mostrar o bom. O suprassumo do saber, da energia física, da inteligência, um tipo acima de suspeita e da crítica comum. Alto louro dolicocéfalo olhos azuis, não se cansava ser poderoso.
          Vaidade não; sim, uma fêmea morena baixa sensual... e parideira. Vivia, viveu enquanto viveu, aquela questãozinha da eficiência da Morte, vivia a se enfeitar a se embelezar a se ‘cosmetizar’; o espelho ah o espelho! os apetrechos cosméticos; dietas e controle. Contudo era o físico a contar, o dela dizendo ela ser o mais belo, em que coincidia com a opinião do marido. Recebeu dele mil elogios no estágio do namoro; no comecinho de casados, “meu bem” daqui “meu amor” dali, essas coisas. Depois, foi o depois, cheiinho ele de vaidade a elevá-la, Vaidade a mais bela, a puxar a brasa para sua sardinha: a beleza da mulher exalçava seu poder e seu próprio ego. Com respeito a esta lembrança, Orgulho teve um irmão, Sr.Egoismo, o qual pretendeu a pretendente Vaidade, ganha por Orgulho e agora já casados podendo brigar com segurança e maestria e é disto que se falava ficando para trás a fase do “amoreco” até à outra fase, como disse o sacerdote: “que a morte os separe”. Ela, Vaidade, era... era... ah, parideira.
          Sim porém vaidosa. Ele também vaidoso mas vaidoso do seu poderio. Nesse poderio incluindo uma numerosa prole que tiveram; entretanto o nome familial foi de linhagem materna, muito pouco macho a um machão como Orgulho, senhor Orgulho, o qual se forrou do título Doutor, parecendo viver num país em que todos são doutores, mesmo sem saber o que é uma tese que dirá a defendê-la. Ele se jactava ser o Doutor Orgulho. Talvez pudesse ter orgulho ao fazer tanto filho em Vaidade, dita mui parideira. O verbo fazer aqui ‘caipiramente’ conjugado. Vaidade não pensava nesses termos, talvez nem pensasse. Quem sabe lhe bastando ao orgulho ou tão só à vaidade dar o nome de família aos seus. Ela mesma fora senhorita Vai, quando vivia com seus genitores, a velha o velho Dade. Não importa. Importa que foram inúmeros os filhos; e é disso que se vai tratar agora, encerrando isto.
          O primogênito foi Maldade, Dade vindo da linhagem materna como foi dito. Sujeitinho de maus bofes, nunca perdeu hora a prejudicar os manos, seja no faz de conta, seja na conta em fazer as contas, a tapear um e todos. Se os pequenos brigavam? quem sabe a resposta não faz a pergunta.
          O segundo foi Impunidade, um que nunca se cansava de abusar. Chegou a enfrentar os outros, e apanhou é claro, dentro daquele negócio de os grandes baterem nos mais novos, toda família numerosa tem disso. Uma das razões: tinha um amigo íntimo, íntima: a Corrupção, vizinha e deles aparentada. Impunidade era assinzinho com a Corrupção (dizem, inclusive, que se casaram posteriormente ou só se amasiaram).
          O terceiro foi aquele a quem Teresa deu a mão. Não, o terceiro, Falsidade, traiu antes e depois do casório, ah pobre Teresa. Por fim negou pensão aos netos de Orgulho, negou o nome Dade aos filhos. No decorrer da vida se enroscou feriu prejudicou aos manos, à vizinhança e até à mãe, a qual disto não teve vaidade a alardear; sabem todos como são as genitoras a esconder as feiuras dos filhos.
          Depois vieram – e foram tantos, a se deixar enumeração por serem demais – vieram: Ambiguidade Intempestividade Irritabilidade Inconformidade Arbitrariedade Inatividade Impetuosidade Futilidade Permissividade Temeridade e Inconstitucionalidade, este parecendo a Orgulho não ser de sua lavra, mesmo Vaidade tinha certas dúvidas... não obstante foi de grande valia na ordem de menos-valia familiar a sugerir a todos de casa chutar a lei e a ordem. Quanto aos anteriores dessa tribo, Intempestividade era corajoso de mais e com inteligência de menos. Embora tenha ajudado bem nas brigas caseiras, menino adora desentender-se. Irritabilidade vivia indisposto, não se contasse consigo. Inconformidade era o filho difícil o mano difícil – sendo aquele tipo do contra; se se passassem para seu lado, se negava para ser contra. Difícil. Arbitrariedade era garota mas nada feminina: fazia como achasse devido, doesse a quem doesse. Também difícil na família. Inatividade era uma ilha nessa bagunça infantil, mais parecendo circo: nada dizia nada fazia, Maria, isto: “Maria vai com as outras”. Impetuosidade era bem Orgulho, puxara ao pai. Acusado como incestuoso por Vaidade. Briguento à beça. Aliás toda prole de briga. Futilidade não dizia coisa com coisa, nada sobrando no seu falar, se bem a mãe a carinhasse mais que aos outros. Permissividade dava trabalho aos pais: tudo fazia fazia tudo como se se negasse moralmente falando. Um horror, horror na opinião do seu sangue. Temeridade só possuindo o atributo da coragem, que não chega a ser atributo.
          Contudo apareceram no crescimento da prole elementos também curiosos, mas estranhos aos outros que já ocupavam as primeiras cadeiras; eram bem diversos dessa turma da pesada que acabou ser relacionada. Citam-se a Humildade a Responsabilidade a Igualdade a Espontaneidade a Honestidade a Praticidade a Sociabilidade a Precariedade e, barbaridade: a Barbaridade, esta demais grosseira, a falar alto baixo calão, a envergonhar este último agrupamento de filhos; os outros da leva anterior até a apreciar a desbocada maninha. Vaidade lhe batia na boca! parece que não, a mãe ocupadíssima nos cosméticos em ver vestidos novos ou adorando o espelho; enquanto isso o Doutor, a apascentar suas ovelhas-amantes, depois conhecidas como namoradas, ocupado demais para se incomodar com a educação das crianças.
          Houve sim mais filhos e inclusive o último rol quase não vingando, ou natimortos ou abortados, a cumprir a vaidade de Orgulho, Doutor Orgulho, ou ao orgulho de Vaidade, desejosa conservar o corpo, preservando a beleza; que não fosse muita após tanto parto; a preservar a beleza ao esposo, ou que fosse preservá-la ao menos para o amiguinho (que posteriormente seria ‘namorado’) um tal de Ciúmes, atrevida criatura, na opinião macha do esposo de Vaidade. Mas estes irmãozinhos dos outros irmãos vieram pela ordem: Humildade não vingou, não deixaram e nem o pobre se entendia, ora se pensando simplório ora soando falso no seu meio; entretanto isto não importa: morreu de meses apenas. Responsabilidade tentou pôr ordem à casa; fracassou; quem aguentaria tanto orgulho e vaidade entre os manos! Igualdade também lutou em vão, em descrédito; o mesmo ocorrendo com Espontaneidade, o qual não media a extensão das atitudes e morreu cedo. Honestidade não vicejou, sequer apareceu; num dado tempo a família teve vergonha dela, era uma garota feia ou inexpressiva. Praticidade ora estava deste lado, ou se encontrava com os afoitos da barra pesada; em tal grupo chegou a apanhar (claro, correu a pedir consolo materno; nem pôde falar com a mãe, chorar no colinho: a Velha, agora já velhota Vaidade, a Velha andava a fazer a toalete). Sociabilidade só apreciava Intimidade, maninha morta com um mês de vida; era mais pelo exterior dos seus e mais ainda pelo restante meio urbano, nos atos solenes deste e nas festas; aqui puxando ao sangue materno, pois Vaidade via com bons olhos a menina Sociabilidade. Quanto à Precariedade, foi um dos abortos clandestinos, quando Vaidade garantia ser a ‘dona’ do seu corpo e portanto fazia o que bem entendesse dele, inclusive assassinar um indefeso filhote, no caso filha... Orgulho em anuência com a esposa.
          Mas, ah o mas... Mas chegou um certo dia, foice afiada, Dona Morte – eficiente fria calculista, sem quaisquer luxinhos e sem quaisquer impedimentos – chegou. Depois enxugou secou as gotas vermelhas num pano à disposição.
          ¡¿Não obstante, não haverá um meio menos constran-gedor e menos violento para acabar-se com o orgulho e a vai-dade; ou com este contãozinho!?      Marília   agosto  2005
13° -  Xeretude

          Realmente não sei por que fui dar o nome Xeretude a ele; por causa de uma bichinha-louca com o nome conhecida? por ser xereta? por essas razões, já que o sujeito vivia a xeretar a cheirar tudo, envergonhando a gente. A gente amiga a dizer-me pondo panos quentes: é um macaquinho, macaco é assim mesmo, ninguém leva a mal. Bem. Ficaram o apelido e o dono do nome, a me trazerem atrapalhadas. Aí faço de conta zangar-me, fecho a cara assim; me olha, faz trejeitos, quase me sorri. Dá para aguentar!
          Outro dia não pude. Quer dizer, não fiz espalhafato não dei espetáculo pelo espetáculo dele mas fiquei foi aporrinhado...
          Fomos ao correio, lá que pago as contas e ponho carta. Ia só, não convenci Xeretude, enrabichado atrás da gente. Tomei a senha, D-491, inclusive guardei o meu número na cabeça até hoje, sentamo-nos a esperar. Ele em meus ombros, eu tranquilo (não a dizer isso, ou disparava o mono, só a pensar: hoje ele não apronta, me falei, está bonzinho). Começou a demorar, já se coçava mexia pra lá pra cá, um pouco desengonçado; mas tudo bem. Tudo mal, porque vagaram uns assentos ao nosso lado, ocuparam-nos três pessoas estranhas, todos são estranhos a mim nesta terra. Eram uma jovem universitária novinha e faladeira; a mãe dela, desse tipo encontradiço hoje em dia, com a filha encostada nela; e ao lado da mãe o ‘namorado’ desta, um garotão mais parecendo irmão da filha que o machão cheio de machuras como antanho. Conversa banal: futilidades domésticas, referências a conhecidos, lamento pela bateria do celular se esgotando, coisas desse gênero. Eu, mudo. Claro, não converso com os íntimos, iria entabular ligação com o trio desconhecido! Ele também mudo, o macaco Xeretude.
          Aqui entra uma questãozinha que dará ‘pano pras man-gas’, no dito popular. Uns, se não todo mundo, dizem que macaco não fala, macaquinho quase um sagui como Xeretude menos fala mais mudo que os outros. Concordo. Discordo no caso. Pode que todos não percebam, eu comprovo já comprovei mil vezes que fala. E até matraca! preciso frequente tapar-lhe a boca, ou passar vergonha...
          Porque Xeretude não tem travas na língua. Imediato me cutucou, indicou a bela garota ao meu lado. Olhei feio para seu lado, sem precisar fazer força pois o próprio macaco me chama feioso. Quis dizer tão só puxei-lhe as orelhas, isto na linguagem figurada como a dizer: você se comporta, estamos em público, num banco popular aguardando nossa chamada ao guichê, olhe que já chamaram o n°401, faltando somente uns setenta ou oitenta que estão na frente. Não compreendeu o idioma fisionômico. Desceu dos meus ombros para minha coxa direita, me olhou gozado (tudo nele é engraçado, a gente quer ficar com raiva, ri-se). Pus o dedo indicador em meus lábios e assoprei um psiu inaudível; claro, não escutou: botou a boca no trombone...
          Que menina bonita essa. Concordei. Mas parece bobi-nha. Eu: cala a boca. Coçou-se. Aí o trio, não: só a mãe e a filha, o rapaz era enfeite mudo, aí elas dispararam o disparo de Xeretude a contar uma estória. Sim, contaram e ele a xeretar indagando coisas. Bem entendido, não a elas mas a mim, como se eu soubesse das coisas, igualmente interessado estava em a narrativa delas, mais ou menos assim:
          Filha, você viu o fim da estória?
          Não, mãe, qual estória.
          Ah deixa pra lá, pensei que ouvisse visto parecer tão in-teressada...
          (A moça não mostrou interesse; embora, a mãe, que se-melhava mãe do amásio, não se conformou com a indiferença da jovem e fez uma síntese do caso, despertando minha curio-sidade e mais a do macaco. Tento pô-la textualmente:)
          “Era um homem que namorava uma garota, casaram e foram morar no mato. Ela ficava no lar ele na roça a trabalhar. Mas o serviço encurtou, acabando; não podiam viver mais no lugar. Daí o esposo falou à companheira: mulher, vou trabalhar fora; você fica olhando nossa casa até eu voltar; seja fiel; adeus. Mudou-se longe, trabalhou durante vinte anos e nunca pedia receber pagamento, solicitando que o patrão guardasse o dinheiro. Um dia procurou o dono da fazenda e quis acertar as contas, voltar à esposa. O patrão deu-lhe quatro conselhos: l° não encurte o caminho; 2° não seja curioso; 3° não perca a cabeça; e 4° coma este pão em casa; deu-lhe um pão. Logo na estrada um automóvel quis dar carona, ele não aceitou; na primeira venda o botequineiro lhe disse do assassino que oferecia carona e matava a vítima. Ele: ah, ‘não encurtar o caminho!’ Mais para diante tomou hotel, ouviu à noite uma gritaria, foi tentado ver o que era mas não saiu do quarto; pela manhã o hoteleiro contou do louco a dar tiros, matando cinco! lembrou-se então: ‘não seja curioso’. Aí chegou no lar. A mulher beijava um homem alto no rosto e se despedia do mesmo. Ele ficou furioso, iniciou a fazer plano de matar a traidora e o amante! contudo asserenou, se lembrando do terceiro conselho: ‘não perca a cabeça’. Noutro dia, em casa, repreendeu a esposa, como é que me traiu! Ela: você me deixou grávida e aquele homem é nosso filho! Então partiu o pão como mandava o quarto conselho do patrão: havia dentro uma barra de ouro! E se abraçaram e foram muito felizes para todo o sempre.”
          A mãe à filha, agora interessada – e é um caso verídico, pois contado pelo João de Deus.
          Abalancei a cabeça, não sei se negando a afirmativa se pela santa ingenuidade; mostrei a senha ao Xeretude, chama-vam o quatrocentos e oitenta e lá vai fumaça, quase o nosso e já falando sozinho, porque o bisbilhoteiro estava a comentar alto a estória da moça-velha para sua filha moça-menina, pior: comentava sobre a vida moral dos três vizinhos de banco. Eu... não sabendo se me levantava se ficava sentado tampando a boca atrevida do macaco ou sumia num buraquinho que inventara para emergências como aquela com a qual me deparando então...
          Vou tratar rápido alguns indevidos (isto é, tudo e todas coisas que dizia o xereta).
          Começou por me indagar: não tá vendo que ela não tem aliança! então a filha é de outro casamento, casamento!? essa gente não casa, se amiga e se esconde dentro da palavra ‘namorado’... Eu: cala essa boca! Ele: mas o rapazinho parece mais filho dela. Eu, não é de sua conta.
          Durante a narração – mas que sujeito burro, deixar uma gostosura daquela vinte anos sozinha! e ainda não queria chifre. E o caso do patrão guardando o dinheiro do pobre de espírito, dá para aceitar? Eu: fica quieto, Xeretude, isso é estorieta, a senhora ao lado pode inventar o quanto quiser... Ué, interferiu o macaquinho, ela disse que é de um tal João de Deus; por isso é verdadeira? e se fosse João do Diabo seria fatalmente mentira! Não sei, olho replicando ao metido, volte aos meus ombros ou... Isso é estória da Carochinha, me repreendeu como se eu fosse o culpado do crime. Eu: animalzinho atrevido e de boca solta, estão certos os que dizem que símios não falam; felizmente ninguém percebeu sua conversa atravessada, ou eu teria que sair daqui a correr envergonhado e aí... Não me deixou acabar o pensamento. Pera lá, meu caro, como símio não fala se o homem é um macaco que fala, besteira mas fala!?
          Não tive argumento, deixei o lugar de espera; e já cha-mavam o n° 490. Puxei o brutinho para fora do recinto, a lhe passar um sabão em regra, falei falei e mais falei.
          Ele? me olhou com aquela carinha engraçada, fez trejei-tos, piscou, me olhou de frente, quase me caindo dos ombros e me tapando a visão. Não aguentei, gargalhando enquanto andávamos entre o povo.         
 Marília   agosto  2005



14° - Um Rapto?

          Um sequestro talvez, rapto perfeito. Perfeito é tudo a-quilo que monstramos escondendo o que é possível. Era pos-sível até não se descobrisse, não o roubo, mas que ele houvesse perpetrado o desvio. A rigor havia funcionado antes, antes que alguém soubesse já estaria longe, às vezes mesmo passado a peça à frente, por um bom preço ou apenas compensando os esforços... Também, qual o tesouro conquistado sem esforços? Sequer tinha conhecimento do destino das jovens que haviam passado por suas mãos. Por tudo o que fizera se considerava esperto e bem-sucedido. Agora era apenas mais um caso.
          Induziu a garota loira a acompanhá-lo ao paraíso. Ela ficara temerosa no início, mas não tinha muito a defender, sua pobre vida era um verdadeiro inferno particular, exploração e desesperança – optou pelo paraíso do sujeito, foi atrás do seu sorriso folgazão e de sua capacidade a imantar as pessoas. Que teria a perder? raciocínio dela. Na pior das hipóteses, pensou ele, algo, pouco que fosse, ganharia. Trabalhou a jovem, prometera a ela passeios paisagens riquezas, ele falou vir de família rica e poderosa do sul. A menina aceitou, fugiu com o príncipe encantado, levando umas poucas peças íntimas e a bolsa quase vazia.
          No primeiro local de hospedaria entregou-se ao homem; e perdeu seus documentos, os quais o espertalhão atirou no primeiro rio encontrado, culpando pelo roubo os empregados do hotel. Ficava assim mais fácil dominar a presa e levá-la mansamente até o chefe, sujeito que o abonaria com alguns dólares, ficando livre a procurar novas jovens. Esse o plano.
          Até aí nunca pensara no destino das infelizes que sedu-zia, mesmo sabendo ser fornecedor de lupanares estrangeiros. Tinha a certeza da impunidade nos atos praticados. Sua cons-ciência se calava, envergonhada, o sono era solto; a bebida ro-lava livre. Reputava ter uma boa vida. Encrencas tivera pou-quíssimas, ainda assim o chefe conseguia tirá-lo delas pela in-fluência política e por ser o rapaz ótimo agenciador. Agora andava um pouco sem sorte.
          É que o chefão tardava a voltar de uma de suas viagens ao exterior, onde fora encaminhar mercadoria. O rapaz precisava esperar na cidade grande.
          Era ótima oportunidade a uma autêntica lua de mel. Sandrinha o acompanhava a todos os recantos e participava do seu dia a dia, mesmo de alguns contratempos. Mostrava-se solícito para com a pequena; a presa já acreditava nele e ofertava carinho e compreensão. Contou-lhe a moça as misérias que resumiam sua vida, abriu-lhe o coração. Do seu lado o conquistador escondeu o que pôde, inventou uma família milionária mas caiu na realidade várias vezes, mostrando fraquezas; inventou o que era possível. Ela chegou às lágrimas com pena do sofrer do companheiro, pois a loura tinha sensibilidade, sendo muito emotiva. Fazia de tudo para agradá-lo.
          Os dias passavam, Míster Xis não voltando. O dinheiro a ficar demais curto...
          “Meu tio está demorando...” disse aguardar o tio, que lhes traria mais dólares enviados por seu pai, para poderem gozar a vida, então a Europa, viagens mil. Ela mostrava entender. Ele se preocupava e esperava entregar ao gringo a peça e se mandar por aí como era seu costume. O chefe tardava mais; mais uma semana! Ficou meio ranzinza com a moça, a diversão diminuíra, o imprevisto azucrinava o ser, dava-lhe certa apreensão... Mas os amantes se perdoam, ela acalmou seu conquistador com afeto e humildade. Gostava já do homem, sequer desejando voltar ao seu inferno; preferia o paraíso dele. Ele se preocupando mais. Logo passou a se remexer na cama, a procurar em desespero o sono. Aí descobriu estar sentindo algo muito estranho por aquela mulher.
          Míster X ficou ainda mais uma semana, ultrapassou mais de mês a data marcada aos seus negócios com o esperto captor e grande fornecedor de garotas para o rendoso comércio.  O dinheiro do casal praticamente inexistia. Andava feia a situação. O hotel já olhava desconfiado àquele maridinho da loira, os funcionários não demonstravam tanta gentileza como antes... Sandra exigia muito pouco, quase nada, mas estava igualmente apreensiva. O tio do noivo não chegava, havia dito que seu tio deveria procurá-los dia treze... fazia tempão. O rapaz se desculpava, não mostrando o quão lhe fervia a cabeça. O que teria realmente acontecido, o gringo nunca falhara.
          Mais alguns penosos dias. O gerente chamara o hóspede no escritório, ela ficou ansiosa e aguardando sua volta ao quarto. Ele conseguiu enrolar o gerente e foi franco com Sandra. Ela o amava, sabia disso, perdoou a mentira pregada pelo namorado ao hotel. Conviveram mais, como era necessário. Daí apareceu o gringo.
          Chamou aquele arregimentador de suas riquezas, con-versou com ele a portas fechadas, deu-lhe algumas notas ante-cipadamente e recebeu a promessa de levar Sandra ao seu en-dereço no outro dia.
          O jovem comprou à amante algumas coisinhas, ganhou dela mil beijos, percebeu os enjoos anunciando que seria em breve pai; pensou noite toda. E fugiu com aquela mãezinha antes do sol nascer. Do hotel e do gringo. O amor, quem sabe a paixão, o amor também remove montanhas.
Ribeirão Preto   julho  1994



15° -   O Boneco
         
          Maria dormindo, portanto não escutando... Dorme a sono solto. Ele, o esposo, também mas a roncar de leve. Aí tilinta o fone lá na sala.
          Corre para atender. Correr aqui empregado mais lento possível; se levantou, tomou o maço, o cigarro seu companheiro de viagem o tabaco não branqueando cabelos ele sim, e foi chep-chep arrastando os chinelos, cansado o aparelho a gritar. Alô.
          Não, disse, retificou, sim, o Pedro está aqui, quer falar com ele? a dormir como um anjo, vejo meu filho pela fresta da porta semiaberta. E a bola no chão. Contou que o menino treina dia inteiro basquete na parede de casa, pôs pra ele uma argola e é pum-pum-pum de cedo até noite, vixe rapaz! não dá sossego a bateção; cansado foi cedo tá ali... e os vizinhos já devem estar... Ah sim, não tem de quê.
          Voltou ao quarto, ia voltando acendeu um cigarro, dei-xava o isqueiro no bolso do pijama de prontidão, cigarrinho nos dedos em vê, até amarelecidos de tanto fumaçar nicotina. E se deitou de pito aceso, a esposa ralharia se queimasse outra vez o travesseiro e pelos tocos jogados no vaso sanitário, as cinzas. Mas não chegou sequer a dormir nem a queimar, tilintou de novo.
          Alô, ah você novamente, que foi!
          Contou o outro lado do fio o menino no Shopping Center, antes ligara para ter certeza na dúvida ser, diziam, insistiam, ser Pedrinho, a briga, o crânio esmigalhado, como veria noutro dia ou depois da madrugada, os jornalistas tavam farejando fotografando os ângulos, e então sairia no jornal; ambos apreciando ver sangue, os periódicos já a viver de sangue... não dói muito choca pouco quando não é da gente... Mas se o Pedro dorme, ah que descanso, haviam me contado, disse a extremidade do fio. Conversaram, a repetir o repetir apenas ao tempo dum cigarro, desligaram.
          Chegou até à porta, olhou a bola, olhou o garoto na mesmíssima posição na cama... sequer notando a janela aberta, abanou a cabeça, encostou de leve a porta para não acordar o seu único herdeiro, vai que outro celerado invente intente na madrugada ligar...
          Tornou ao dormitório do casal, novo cigarro a se con-sumir no vício velho; fumaça pra si e para a esposa a dormir como fosse boneco igual ao doutro quarto; o fumo servindo também a espantar os horríveis pernilongos a sugar a senhora enquanto o bate-papo telefônico...
          Tentou retorno ao sono, um galo de plantão insoniava distante, perto os cães ladravam, o barulho irritante fazendo decerto o caminho inverso do filho e entrando pela janela es-cancarada; pensou no menino, ah essa juventude e suas energias! Se ajeitou no colchão, apagou por via das dúvidas o cigarro já em bituca a queimar os dedos e o travesseiro, acariciou a mulher a ressonar na paz, buscou o sono que é o esconder sofrimento ou preparar-se ao sofrimento...
Marília   janeiro  2006



16° - Porre dos Grandes
         
          Parece que bebeu um pouco demais, passou da conta. Aliás depois de um copo, e era caneca ou jarra, após os primeiro segundo terceiro e vai aí por diante não se conta. Ao menos ele não contou, sequer tendo consciência desperta a se afundar na matemática. A rigor analfabeto de pai e mãe, não se ocuparia dos números, embora contasse saber haver exagerado na bebida.
          Naquele dia, desconhecendo o dia, o engenho de cana estava à disposição; talvez bebesse o engenho todo e pronto. Alguém, seria o Compadre Zé? alguém acrescera algum con-dimento à aguardente, que fosse um mal-feito bem-feito; sem precisar discutir razões, com bêbado não se discute; ou então dispara nele o repetir repetir, bem ao gosto dos surdos...
          Aqui volto ao hoje e ao meu mundo onde escolhi para ouvir-me um surdo de estimação, para continuar minhas lindas estórias – esta por exemplo, que envolve bebuns.
          Bebeu engoliu entrou no escuro do sonho ou do sono ou do dia no dia em que perdeu o juízo, tivesse antes tido algum. O que bebe sem medida, embora se dizendo bebedor social, já demonstra ter pouco. O fato é que bebeu a contento; depois engoliu sem tento; marcou o tento no dormir num sono cavalar.
          Despertou, coçou olhos de não ver, viu o que via sempre: a gente do engenho. Todos falavam andavam faziam suas coisas; sorriu ao Compadre. “Compadre, pensa que estou embriagado! pois sei até que hoje é dia 14 de dezembro, o ano se vai hein; ontem foi 13, dia de Santa Luzia”. Contou da santa, a mãe fizera promessa por causa dos olhos dele quando remelava em garoto; ele teria de pagar a promesa? Ouviu ou pensou escutar o Compadre, os outros por volta. Tossiu um pouco, soluçou um pouco, arrotou um pouco, um pouco anuviado. Para provar seu equilíbrio ficou de pé, embora o mundo rodasse um pouco. Um pouco falou, se lembrou um pouco; disse pouco: “hoje é 14 de dezembro de 1640”. Mostrou o engenho ali em volta, ou seria ele a estar dentro do engenho de açúcar, onde aquela aguardente deliciosa!?
          Mas empacotou. Dormiu sonhou acordou. Coçou-se, esfregou lacrimejantes olhos, ainda sentia-se ébrio; contudo tomaria, deixassem, um engenho inteirinho, especialmente da-quela aguardente gostosa. Aí coçou-se de novo, se espreguiçou, vistoriou o ambiente.
          Mas onde o Compadre, ah, olhe lá o Compadre. Entre-tanto não avistava o engenho... Via olhava pra lá pra cá como num susto, a custo via. Via um fordeco 1929 novinho, cheirando agência cheirando a navio cheirando a estrangeiro. Não se assustou. Ou por outra: assustou-se por não se assustar. Com o que via, percebia o todo! Já se pôs no trabalho junto das outras pessoas e se lembrando bem dos outros amigos, notava inclusive o Compadre Zé a Maria sua madrinha, outros mais; todos no convívio e trabalho. Um pouco zonzo, admitia, zonzo mas ainda sóbrio se dispondo a ajudar na carga do caminhãozinho, que a ele e a todos presentes um caminhão enorme. Carregaram, funcionaram o veículo, coube-lhe dar manivela a fazer girar o motor do carro. Partiram, a carga de algodão a balançar desde aquelas alturas, ele ainda bêbado um pouco, a olhar os fardos na carrosseria, olhava de soslaio o chofer. Este a lhe narrar o terrível caso de um fazendeiro duma fazenda suicidando-se por dívida; ninguém, falou, ninguém quer mais plantar café, o algodão salva um pouco neste 1931. Ele: dezembro de 31? 14, não é? Era, concordou o chofer. Pararam. O pneu obrigou o descanso. Tocou-lhe ajudar tirar remendar encher repor a roda. Prosseguiram e logo se amolentou amolentou-se... dormiu.
          Ah mas que aguardente boa aquela do engenho!
          Abriu os olhinhos apertados com alguma dificuldade, esfregou a vista, examinou a paisagem e se espantou; só aí se espantou de verdade.
          Estavam à sua frente e ao seu redor a gente conhecida e os amigos, viu Zé viu Maria, havendo até um Pedro, moleque arteiro a aprontar; tinha o Lulu, aliás foi ele quem numa latição infernal o acordou. Riram dele, não para ele.
          Zé, ocê bebeu demais, cara!
          Respondeu estar lúcido, tranquilo, corajoso para o trabalho, para tocar a vida.
          Riram de novo. Ele:
          Querem uma prova do meu equilíbrio? E imediato completou – hoje é dia 14 de dezembro; me lembro bem disso, ontem foi Santa Luzia, a mãe fez promessa, por meus olhos que a terra há de comer! Quando chuva, tempestade, fazia reza brava pra Santa Bárbara, a gente miúda ia correndo para debaixo da mesa, por via das dúvidas. Alembro bem disso. Aquilo que vejo lá em cima, pensam que penso ser urubu!? é avião. Hoje é 14 de dezembro...
          Riram outra vez e o ajudaram: de 2005.
          De 2005?! e ficou a repetir 2005, 2005...        
 Marília   janeiro 2006



17° - O Bem do Mal
         
          Dona Margarida, se é possível lembrar. Em mocinha possuía uns olhos lindos, desses esverdeados, olhos verdes tentadores... Nariz afilado, boca de anjo, uns cabelos anelados a cair assim para a frente de um jeito engraçado e todo seu, bonitos cabelos. Mesmo o rosto agradava no conjunto. O conjunto é que não agradava. Em conclusão, todos os traços e detalhes bonitos, alguns lindos inclusive, numa garota feia. Dona Zizica cansou falar que Margarida não casava, não acharia doido. E se enganou.
          O pai do menino Chen, filho da Margarida, era um chinês. Completava a mulher; e talvez na China ou na Coreia – a gente nunca sabe donde vêm esses tipos – talvez lá fosse bonito. Não fazia o gosto da senhora Zizica é claro; dentro dos padrões nacionais de beleza, parecia um bruxo! Diziam as más línguas (então Dona Zizica já enterrada, quadra 15 túmulo 62) as outras línguas viperinas afirmavam o chinês ser mau ou de caráter duvidoso, capaz assim de sadismo até às últimas consequências...
          Entretanto não foi o esposo de Margarida quem castigou ao Mariano Alasão; mas somente o filho do marido dela. Consta nas crônicas de tais línguas e na de Zizica quando viva, que o jovem Mariano, um tipaço atlético, fizera mal à menina Margarida. Se fosse um mal desses de casar no delegado tudo bem. Pois que Alasão andava longe ser corajoso: era só bonitão e um pouco rico; mas ultimamente já nada possuía, gasto o tesouro nas farras com as garotas e a beleza dele com a lixa do tempo. Bem, o rapagão fez mal denegrindo a integridade moral da jovem nuns falatórios vãos; embirrou com ela, com a feiura artística com que a natureza a modelara; e perseguiu a pobre Margarida nas gozações picantes no meio de homens e mulheres. Um dia chegou a falar em público que a moçoila ia continuar moça, mesmo quando chegasse a velha enrugada... Ela chorou horrores, tadinha. Que não correria perigo de ataque macho por feiura indecente. Coisas assim de arrasar personalidade. Pior ainda: a Margarida feiota se apaixonou pelo algoz, desejando acrescentar Alasão ao Silva do pai dela. Repudiada e gozada, jurou por isso e por mais o que as línguas faladeiras disseram, jurou vingança ao Mariano, moço mui prendado e benquisto na sociedade e pelas outras mulheres; sim porque Margarida também era mulher, embora corcunda e ter uma perna auxiliada por muleta. Isso que disse, a feia jurou vingança.
          Chen, nome dado como homenagem ao pai, Chen herdara de sua defunta mãezinha a feiura; e a feiura do paizinho também. E com certeza todo o caráter do esposo da Margarida; como não será preciso muito esforço para provar.
          Indagou ao velho Mariano se conhecia um senhor Ala-são e onde morava. Alasão sequer se escondeu de Chen; não o conhecia. Não conhecia nenhum chinês ou coreano ou laociano ou qualquer coisa assim. E se apresentou ao jovem oriental, rapaz de boas maneiras. Disse o estranho trazer-lhe documentos importantes de herança, falou estar ali como advogado, a organizar a vida do velho Alasão, naquele momento arruinado não só nas finanças estando mais para pangaré em vias de mortadela, que para fogoso corcel.
          Nos aposentos dos fundos no Hotel Modelo ambos entraram, um ressabiado e outro todo maneiroso a exibir fina educação, meticuloso no fazer e no dizer. Ofertou o advogado ao Sr.Alasão um chá quente para entabular negociações supostamente longas.
          Aos poucos o velho Mariano abriu os olhos e viu o jo-vem sorrindo para si. Estava numa poltrona simples, mas não conseguia sentir o conforto do sentar; não se lembrava o por-quê de estar ali. Foi preciso que o outro reavivasse sua memória, dizer-lhe por exemplo que o chá continha tóxico manipulado no Oriente; e que agora teria de ouvi-lo sem poder falar, e quando pudesse falar não poderia falar mais... Alasão entendeu num relance, quis esbofeteá-lo: não era mais o dono de seus nervos! Então Chen iniciou o suplício, pois que ainda não começara... Era um chinesinho dos bem pequenos e horrendo na aparência, embora sorrisos; Mariano um brutamontes, porém não mais podendo sorrir.
          Aproveitou-se o chinês para aclareá-lo na memória de velho indefeso. Rememorou a existência da mãe e os percalços vividos por Margarida, sobejamente conhecidos de Alasão. Contou sobre o pai. Falou de sua missão, ele o Chen. E prosseguiu na vingança materna. O contar já era terrível vingança, mas não se satisfez. Fê-lo beber muita água e chá adocicado; fê-lo engolir mel de abelhas. Aí aguardou sorrindo, um sorriso de não acabar até acabar o dia. A seguir amarrou as coisas de Alasão através de barbantes encerados; inutilizou aquele instrumental já de há muito inútil, paralisando sua última função. Aguardou as reações do velho, por horas infindáveis; sempre com sorrisos. No fim do segundo dia, em que Alasão ia tendo de volta o controle de seus nervos, nesse momento, soltou de umas caixas milhões de formigas por cima do homem.
          O senhor Mariano Alasão ainda pôde ver os animais minusculinhos correrem gulosos para o mel; enquanto ele via ansiando o urinol ali na frente em desuso. Então ganhou o último lindo sorriso do filho da feia Margarida.
Ribeirão Preto    dezembro  1979



18° - Neutrálogo
         
          Sabe meu caro, foi assim que entendi; assim nascem as coisas como os nomes. Acompanhe meu raciocínio pra ver como raciocino: existe o monólogo, quando você mesmo que está me ouvindo, quando fala com seus botões, uma forma graciosa para não andarem por aí falando que eu, você no caso, caso concorde com o outro que sou eu, que você fala sozinho. Já pensou: xilindró manicômio choque (ai o choque!) e drogas e mais drogas para você ficar bonzinho, quer dizer, quieto a fim de não perturbar os outros. Monólogo. Tá acompanhando meu pensar, a clareza do meu raciocínio? Bem, existe o diálogo quando alguém fala a outro alguém e alguém, outro alguém, responde ao primeiro, concordando discordando ou faz de conta aceitando. Di é dois no grego. Não, não sei grego. Mas você também não sabe, empatamos. Inclusive poderia eu afirmar as maiores besteiras dizendo ser grego e você engoliria. Vê bem sou correto e honesto, longe a querer tapeá-lo. Mesmo porque estaria me tapeando a mim mesmo; não é assim. Entendamo-nos: tem o monólogo tem o diálogo e por extensão terá o triálogo quando são três fregueses falando, não disse falando ao mesmo tempo, o que redundaria na balbúrdia ou ajuntamento de lavadeiras. Tem, suponho deva ter, tetrálogo quando quatro e daí por diante. Só que... pera lá, está acompanhando meu pensamento? Monólogo diálogo triálogo tetrálogo etc., isto quer dizer em latim ‘e outras coisas’. Como vê sou versado no latim, na Vulgata bem entendido, não desejo me passar por purista. Xô santidade, xô perfeição. Veja bem, aliás ‘veja bem’ está bem em uso em abuso também, mas veja bem: e nosso caso? Foi o caso de optar e optei por neutrálogo. Quer explicação. Ai que horror! e pensar que moro nesse sujeito obtuso, obtuso digo para não ofender nossos irmãos muares. Voltemos ao neutrálogo. Seria, e é o caso: o caso em que estejamos neutros. Não poderia dizer que ninguém fale, caracterizando o mudo, aí um diálogo de mudos: o mudinho primeiro fala; o mudão segundo responde, não corresponde e briga com o primeiro mudo. Não dá, pois são mudos. Em nosso caso casa a questão. Se não vejamos, eu, o seu espírito (que pode ser chamado alma por estar encarnado em você) fala, falo; não obstante não posso falar sem sua boca. Entendeu? Ah meu Deus, como meu corpo, o soma, é a soma de tanta burrice! não entendeu patavina. Desisto. Não desisto, eu é quem sou o teimoso; você é apenas um burro; mais: um xucro. Queira me desculpar, sou positivo, falo o que penso. Bem. Quero falar preciso falar, não posso falar – sou um espírito. Necessito músculos nervos expressão e microfone para expressar-me: sua boca. Isto é, quando falo você fala; do contrário não tenho meios para dizer o que penso. Pensou nisso? Pois bem, mexo lá com meus pausinhos no seu cérebro, comando desde ele nervos e músculos e você boqueja. Viu? Viu quer dizer “entendeu?” Com você meu pobre amigo tem que ser tudinho literal, não compreende sequer uma figura. Ah! Pois bem, se falo é você quem expressa, exterioriza; doutro lado você não é capaz de expressar-se sem meu comando, ou se torna mudo, inócuo inodoro insosso e demais faltas, ah pobrezinho! Portanto aí, a meu ver, está caracterizada a situação de neutralidade, por isso neutrálogo – de um lado um sujeito que não é sujeito sem o corpo; doutro um montão de carne de gosto muito discutível e que só fala se determino; nenhum é algo sem o outro; não são duas pessoas que se falam e debatem (geralmente bobagens e mundanices). São dois seres em um, um neutralizando e equilibrando o outro. Daí neutrálogo.
          Pronto. Fui claro? Que horror, não me entendeu. Devo baixar o nível. Meu caro, sabe duma coisa interessante? você tem uma porção de necessidades, algumas até admissíveis, mas outras... francamente, não passa da altura do bruto; o leão o cavalo o cachorro. E me põe em cada situação. Outro dia quase fomos ao xilindró! Bonito, eu um espírito se não de escol ao menos inteligente sensível bonzinho (serei mesmo! é chato discutir uma questão dessa) eu um espírito vivo atento, teimoso sim mas quem não tem defeito! eu espírito correto preso no xadrez por culpa de quem? de você. Não se retraia e não fuja por uma das suas costumeiras fugas para o sol a chuva o barulho... não me convence não! Não fosse minha argumentação dobrar primeiro o escrivão depois o delegado... Contudo sei de suas necessidades. Não posso todavia admitir estupro, mesmo que a garota seja a Andreia... Não posso admitir roubo, apropriação indébita é indébito. Não posso admitir calúnia falso testemunho e não posso admitir sequer os seus nomes feios, é palavrão, ofensa meu amigo. Olhe bem pra mim aqui dentrão: se eu o deixasse livre... Não quero nem pensar, pensar já me dá na barriga um friozinho!
          Mas concordo, você tem lá suas necessidades. A fome o sono isso não se discute. Porém nesse passo vêm outras e outras e outras, ambicioso hein! se o deixasse fazer e desfazer: simplesmente seria o caos.
          E olhe meu sominha de estimação eu, eu o seu espírito talvez não de estimação demais, eu compreendo suas tendên-cias, bem como compreendo as minhas deficiências. Tanto assim que sou vivo, gostaria de criar mais voar mais realizar mais. Mas eis que o observo e o reconheço cansado. Pernas bambas pele flácida músculos exangues. Que trapo meu caro, que trapo!
          Ora, veja bem (olhe eu a repetir expressão popular com sabor erudito!) se fosse aceitar todas suas inclinações... encur-temos a coisa: estaria barrigudo, feio, mais feio digo, entrevado no hospital como indigente, ou metido na cadeia. Poderia acrescer mais, porém envergonharia o amigo perante toda nossa sociedade.
          Bem. Paremos por agora. Você liga sua campainha aqui dentro de mim para avisar querer dormir. Está no seu direito, consinto. Mesmo porque enquanto meu pobre amigo descansa posso fugir um pouco pelos sonhos. Porque ninguém é de ferro. Eu não sou de ferro. Relaxe. Boa noite.
 Marília   fevereiro  2002



19° - Sentimental
         
          Foi um barulho altamente civilizado, quase inaudível, que serviu para a constatação de sua presença naquela casa. Não era mansão. Também não descendo à categoria de choupana miserável. Não obstante tudo valorizado, o que mostra o apego dos moradores. De qualquer forma, ele fazia crer estar presente, ele, sua senhoria. O esposo daquela dona daquele lar, doce lar, acordou.
          Nem precisava, não estava mesmo dormindo. Ou por outra: tinha o sono leve. O deslize do visitante não convidado despertou-o de vez. A senhora dormia e ameaçava quem sabe o roncar; levantou-se pé ante pé para não acordá-la (ou não o deixaria dormir mais, fosse continuar ele tentando dormir; agora não iria conciliar de jeito nenhum). Desceu todo ouvidos a escadinha ao pavimento térreo a flagrar qualquer coisa diferente, como por exemplo gato-ladrão. Encontrou foi um ladrão-gato surpreendido e surpreso. Aliás, os dois homens ali, agora frente a frente, se mostravam surpresos.
          O que o senhor está fazendo aqui! Quer dizer, falou o óbvio; nessas ocasiões não estaremos poetando ou filosofando frases de efeito; nem consultamos a lógica; mesmo porque não teria lógica; usamos isso sim a linguagem inusitada: o que vem pela boca a gente assopra. Foi assim com o esposo da senhora da residência visitada no madrugadão. “Que é que o senhor está fazendo aqui !?”
          Gaguejou uma resposta o pobre profissional como fosse amador na arte de afanar. Mas vendo o espanto ainda maior que o dele estampado naquela fisionomia meio dormida do esposo da proprietária, teve força e frieza para se firmar e responder à altura. Somente depois iria se monstrar engolido pelos sentimentalismos. Respondeu que ia passando na rua e percebeu uma luz fraca na cozinha; estava faminto, resolveu entrar, entrou como pôde, a dialogar e quem sabe implorar aos moradores algo de comer.
          Foi suficiente para amolecer o marido da senhora, àquela altura sonhando com os anjos. Aproveitou a oportunidade a pregar naquelas mãos leves uma correçãozinha: fez-lhe discurso moralista em grande estilo. Afinal de contas não era pela educação e pelo ensinamento que a humanidade iria melhorar? Agora a vez do ladrão não confesso amolecer. A cena chegava a ser pungente.
          Entretanto acordou daquele devaneio que o proprietário do seu local de trabalho lhe proporcionava. Porque estava ali à frente dos dois homens um amontoado de objetos de valor, fruto de horas de serviço de um profissional. Por isso entraram num acordo e passaram a examinar o que o gatuno relacionara para levar embora, pedindo o esposo que o outro não falasse alto, não para não amedrontar a mulher, mas a fim de não tirá-la do aconchego angélico. No que concordou a civilizada criatura, essa criatura dos barulhos civilizados suficientes a chamarem a si atenção do sonâmbulo esposo da senhora nos braços dos anjos, já então roncando feio; o sujeito aceitou o alvitre, passando a somente ciciar.
          Por que – falou o dono também ciciando – o senhor quer levar esse bracelete? (decerto não iria comê-lo, pensou o dono da proprietária da casa). O ladrão explicou-se como pôde. O esposo argumentou a estima da cara-metade, fez o pobre faminto abaixar a cabeça. E esse relógio de ouro? insistiu o proprietário. E as notas verdes de dólares? Indagou por fim de outros tantos e tantos objetos preciosos à amiga dos anjos. O profissional amante do alheio ficou embaraçado, não sabia o que dizer. Piorou a situação quando aquele marido acordado daquela esposa dormindo passou a demonstrar o valor moral de cada objeto. Um broche incrustado oferta à senhora pela mãe às portas do túmulo! o porta-retratos lembrança do quinto aniversário de casamento! O anel de formatura, a jovem então recebendo comovida! A correntinha valiosa recordação do sogro falecido mês passado! e tantas e tantas mais exclamações, que não serviriam certamente para matar a fome do afanador. A ponto de caírem lágrimas de ambos: no pregador esposo da dos anjos e no profissional pego com a boca na botija.
          Havia também o expediente ao companheiro da senhora aspirante à beatitude a acordá-la (assim até o imprevisível ficaria imprevisível, argumentaria em conclusão, se precisasse...) Antes disso o ladrão aceitou apenas um pedaço de pizza e um lenço branco a secar os olhos. E se foi. Afinal tinha fome e se encontrava saciado.
          Quanto ao esposo da senhora feliz com os anjos, esse teve que virar a mulher noutra posição; ou seu ronco iria até impedi-lo assistir o segundo capítulo do sonho dela.
Ribeirão Preto   outubro  1994 
20° - Em Desafino
         
          Olhava ao infindável do horizonte, com os muros e de-mais atrapalhações intercedendo; insensíveis às poesias e filo-sofias e também às loucuras. Foi então que esbarrou não em muros mas nas atrapalhações aos montes, enquanto a natureza exalava a quem precisasse se beneficiar um hálito quente. Parece que o mundo ia desabar; mas não ia, apenas ameaçava chover para acabar com o mormaço e o calor terríveis. Os insetos se alvoroçavam, contudo sequer eram notados, maior parecia o horizonte infindável. Porém eis que surgem certas erradas atrapalhações.
          Entrou mansinho vagaroso inocente ingênuo sem maiores pretensões que matar a fome que o matava. Andava faminto esquálido esquelético mísero – esbanjando magreza e sub-nutrições. Quase não tinha força a... que diria, cantar? quase nem para voar. Não obstante voava, entrou voando, guardara toda sobra de energia faltante a imprimir velocidade pra bater asas intermitentemente a fim de manter-se no ar e manter-se. Penetrou aquele ambiente cálido e aconchegante.
          Era do sexo feminino, mas isto apenas um senão. Sequer possuía nome, irrisório aos pernilongos. Antenas, bico (ai!) pernas longas parecença com molas, asas extremamente ágeis, um corpo feminino esquálido esquelético mísero magérrimo. Entrou sem pretensão mas com alguma estabelecida: saciar a sede de sangue! Engordar sua magreza mas, antes bem antes, como objetivo básico, alimentar suas oveiras a povoar o planeta com lindíssimos bebês. Mister muito nobre à pobre mãe porém não solitária. Uma nuvem de pernilongos penetrava o ambiente, também guiada por suas antenas localizadas na emissão de gás carbônico de apenas um ser humano.
           A concorrência seria grande, enorme, todavia sobrava comida a todos, pois a presa era bem nutrida, bastante para dezenas centenas milhares da espécie. Todos entraram famintos esqueléticos esquálidos míseros, esbanjando fomes. Ela igualmente, não mais não menos.
          Ficaram a postos. Cada qual subdividiu o território do seu descanso ao enquanto... uns na parede outros nos cantos e mais e mais por debaixo de todos móveis e esconderijos mil, enquanto isso...
          A refeição fechou a janela, não fugindo ao infindável do horizonte, nem por filosofia poesia ou loucura – apenas te-mendo intrusos cantantes. Sacrificou alguns, fosse pela música fosse pelo desafino nas notas musicais. Ou tão só a poder dormir tranquilo. Ela ficou quietinha. Talvez tenha arregalado os olhos de susto, mas quem sabe esta afirmativa soe apenas como licença poética...
          A igreja na praça deu onze badaladas indicando a hora de ir à cama para os comportadinhos. A comida se deitou co-meçou a guerra!
          O alimento virava de cá tornava pra lá virava se cobria se descobria a afastar o calor, se esticava se encolhia girava a cabeça punha o travesseiro por baixo depois cobria com ele a cabeça, puxava o lençol retirava o mesmo de si, acendia a luz outra vez, ia fazer xixi voltava. Repetia a dose quase que já mecanicamente como houvesse aprendido a lição. Elinha esquálida faminta esbanjando magrezas e necessidades estava ali no seu posto à espreita. Os outros já se serviam, o que provocava todo o movimentar daquela gostosura de refeição. Porém ela era um ser tímido e não foi sacrificada antes do tempo como alguns das centenas entre seus companheiros. A comida se irritava. Dava palmadas, xingava daquele nome, se enrolava se desenrolava. Finalmente acendeu a luz. Ela ficou a olhar acompanhando aquele depósito de sangue se levantar outra vez (vai fazer xixi de novo! Não.) Ajeitou a cadeira na escrivaninha pôs na posição o seu quebra-luz, tomou um livro e ficou olhando as letras esperando o sono. Doze badaladas, as doze das vinte e quatro horas!
          Luz acesa perturbante, ela achava perturbar, a comida lia, não muito tranquila, vez por outra sacrificava mais soldados passantes famintos esquálidos esqueléticos daquele exército aguardando estrategicamente nova escuridão. O homem limpava a mão do sangue do seu sangue misturado a asinhas e perninhas, voltava (satisfeito?) à leitura esperando o sono chegar. Num momento se levantou. Deitou-se. Repetiu o rolar no hálito morno da natureza. Levantou-se.
          Abriu a janela: entrou a brisa, saíram alguns pernilongos entraram soldados na substituição aos que tombaram à sanha assassina da apetitosa refeição rica em glóbulos vermelhos. Tornou a fechá-la. Reacendeu a luz, manchou a parede com seu sangue já em transformação no bucho faminto do inseto! matando assim um que outro pernilongo. Acalmou o ambiente, apagou a luz ao ninho, dormir como um justo. Ela aguardava cansada esquelética e mais faminta ainda sua vez. Ressonou, a refeição parecia num êxtase, talvez sonhasse com os anjos. Ela sonhava encher sua barriguinha.
          Desceu até o alimento dorminhoco. Escolheu o lugar, tinha lá suas preferências por direito inalienável de magreza, sugou. Saciou-se e aos ovos. Foi descansar. Muitos soldados descansavam já fraternalmente nas paredes do teto nos cantos, prenhes e felizes. Hora de dormir ao batalhão. Ela não podia sair tão cedo; nem os outros.
          O alimento daquele curioso banquete esquecera as jane-las fechadas, não havia frestas à disposição. Ela e seus irmãos teriam de aguardar o sol. Oito horas já os raios alaranjados invadiam o palco de batalha, o homem abriu a jaula para ver o dia, os soldados foram descansar lá fora. Alguns ainda chegaram a ser alcançados por um tabefe manchado de sangue, muitos ganharam a liberdade. Foram cantar noutra freguesia, em desafino que fosse. Ela voou lerdamente de cheia, aproveitou dar uma cheiradinha como agradecimento àquela comidona. Saía gordinha e estufada, em pôr seus ovos ou pra voar rumo à interrogação, que todos sabem é próximo às poesias e filosofias mas longe bem longe das loucuras.
Ribeirão Preto    outubro  1994



21° - Um Delito
         
          Pensando bem não fora ele o praticante de ato terrível e condenável, ou fora; depois se acostumou com a ideia e conviveu com a infelicidade acabando por não achar assim tão condenável: desceu a escala para tão só ‘condenável’; condenável, sujeito a restrições ao vocábulo. No início entretanto sofreu barbaridade.
          A consciência não deixava por menos. Verdade que ninguém conhecido conhecia o crime ele sabia e já lhe bastava a instalar seu inferno particular para consumo próprio. Passava na multidão, com a multidão, convivendo com a multidão e a multidão desconhecia seu drama. Depois desandou a trabalhar o vocábulo ‘crime’ para o descaracterizar, pelo menos desejando diminuir a intensidade de suas garras. Pôs a lógica desse absurdo que faz o matar uma pessoa ser crime, matar muitas ser heroísmo. Matara um, unzinho só, deveria ser menos culpado! Puxa, de repente estava já se autocondenando e colocando como impiedoso assassino! doeu, sofreu horrores.
          Acabou de molho. Acusou a gripe para efeito externo. Internamente sentia medo até de andar na rua e ser apontado... mas apontado por quem! por que motivo? Fez infindáveis questionamentos mas não conseguiu respostas infindáveis, menos as convincentes e convencionais. E por seu azar vivia num planeta literalmente convencional.
          Desejou por longos dias, mais longas noites que longos dias, estar vivendo no berço do mundo, aquela delícia que devia ser estar mastigando um fêmur humano cru e sangrento e nada ter que justificar à justiça... Depois deu um pulinho de milênio e parou estatelado no tempo romano, descobrindo necessitar ser analfabeto, o que não precisa de muito esforço, para não ter que ler sentenças contra ele; mas aí sentiu um sustinho, pois não poderia igualmente se defender contra abuso dos que soubessem e portanto estivessem com a lei. Não, isso não: fugiu novamente, agora para a Idade Média, ótima para impunidades (imaginou). Todavia lembrou-se das labaredas, temeu estar do lado oposto aos religiosos e virar churrasco, inclusive se arrepiou! Melhor mesmo tornar aos desmandos de sua época (e com isso estivera quase a se esquecer do seu crime...) curtir suas misérias e envolvimentos.
          Mais semana pondo na balança o sim e o não sem se decidir que fazer, se é que houvesse algo para fazer. Mas ‘algo’ o quê? Tinha lido sobre um facínora que fugira impune na Bélgica e que após doze anos, acusado pela consciência impenitente, resolvera entregar-se às autoridades, as quais tiveram de procurar o esqueleto da vítima para condenar a vitima da consciência! Isso é patológico, não tem cabimento, pensou; pensou meio alto, temeu que ouvissem os berros de sua mente, olhou para todos os lados a verificar estar sozinho.
          Mais outra semana. Agora tendo mais problema a somar ao da consciência: a dívida. A dívida aumentava, ela apenas diminui ou permanece a gente trabalhando. Porém com cabeça a fervilhar e o corpo escondido (mas escondido de quê?) na sua casa, não ia ao trabalho. Acabou despedido. O senhorio queria receber o atrasado. O governo queria quitação de água luz telefone (mesmo desligado para ninguém ficar perguntando por sua vida); e tinha IPTU Imposto de Renda e mil e um outros impostos e taxas. Entretanto sem trabalhar... E como trabalhar se para tanto é mister sair à rua; e sair à via pública era ficar exposto a mil olhos! Andava na encruzilhada da existência querendo perder o endereço para ninguém encontrá-lo! Bem dramático.
          Mais uma semana. Veio aos poucos a convalescença. Um dia iria sarar, tinha uma voz lá no fundo da consciência que dizia isso; da mesma consciência que tanto o fustigara e o fustigava. Entenda-se. Não se entende. Não é para entender; ele igualmente não se entendia.
          Mais nova semana, o fiat lux! Resolveu em definitivo resolver a questão: não conviver mais com o crime, mesmo o crime estando nele. Iria, e foi, procurar a polícia e se entregar. Outra vez patético e dramático. Absurdo quem sabe, o comum dos mortais fugiria, ele suficientemente ‘ingenoide’ e legalista iria se expor por conta própria na boca do dragão!
          Ficou vários dias tentando convencer as autoridades ser um criminoso; do ordenança passando pelo funcionário civil até chegar ao doutor delegado foram dois ou três dias; teve de fazer requerimentos com a mão trêmula, preencher fichas, assinar documentos, pedindo punição – ah burocracia. E tem gente besta que fala que a burocracia é apenas entrave social! Aqui ela aparece como defensora do cidadão ao pôr entraves a uma não consumação de possível injustiça. Se fosse injustiça, é claro. Falou com o doutor, tremendo pelo cerimonial e pela braveza estampada na fisionomia da autoridade-mor. Contou gaguejando tudinho. Tudinho aqui quer dizer umas poucas coisas, ele mesmo não sabia tudo, supunha apenas conhecer tudo.
          Foram muitos dias trancafiado por medida de segurança, tendo que conviver com pessoas de moral bem discutível; abusou do direito do desconforto. Até que o último carinho burocrático destinou um cabo e dois soldados numa viatura a ir buscar provas do seu crime e configurar culpa (advogado júri sentença condenação e consumação do sofrimento era previsto para bem depois; a burocracia é séria na arte da azucrinação). Andaram queimando bons litros de combustível do Estado, houve escrituração do boletim de ocorrência e de mil formulários oficiais. Não obstante tudo nada encontraram para ser prova cabal do delito.
          O criminoso em lágrimas insistia quase implorava. A polícia achou melhor, “por enquanto” comunicou seu doutor, melhor levá-lo a uma repartição para descansar; depois procu-rariam o cadáver e a arma do crime. Aceitou, até sorriu como agradecimento. Chegaram. Não precisaram sequer usar camisa de força. Entrou feliz então, parecia um santo. Oh São Criminoso, ajudai-nos, amém!
 Ribeirão Preto   outubro  1994



22° - O Caixeiro-Viajante

          Agora parara a chuva e o sol queria, sem poder quase, queria fazer o levantamento do que sobrara de tanto água despejada. As pessoas circulavam lá fora num vaivém qual formigas desorientadas mais desorganizadas que as formigas, muitas iam aos seus afazeres nas lojas outras fugiam pra casa a descansar seu cansaço rever os seus, vários levavam suas compras e guloseimas aos pequenos e mistura para ajudar a descer o arroz e o feijão. Os carros também estavam alegres mas ainda rolavam de limpador funcionando e na lataria aqueles fios como riozinhos ou somente gotículas procurando escorrer não contrariando a lei da gravidade. Alguns vendedores berravam alguma coisa porque sempre tem vendedores de qualquer coisa, e compradores, mesmo com o guarda-chuva ou então sem o guarda-chuva e as crianças apareciam, brotavam quase, puladinho, de todos os lados, imprevistamente de todos os lados. As janelas abriam-se de par como olhos nas casas e nas casas de comércio, bem como no Hotel Central e também no Hotel Avenida. Os fregueses, notados pelo gerente não sendo mais que o proprietário preferindo falar “nossos clientes” os fregueses entravam ao almoço outros saiam do almoço, palitando ainda dentes cariados e não mui brancos, aí experimentando o sabor da satisfação, havia igualmente alguns de cenho carregado. Estava só.
          Aliás dificilmente estamos acompanhados, às vezes sim mas sós na multidão, insetos humanos imprevistos em todas as previsões do planeta; mas só, sentado numa cadeira comum; na guarda doutra cadeira, no conjunto da mesa, o chapéu de feltro a cavalo dependurado cheirando suor azedo velho amanhecido dias; no assento a pasta marrom um pouco lanhada do uso, a alça mais acima e meio aberta no fecho lustroso do abre e fecha a passar o mostruário e o talão de pedidos, ora magro no tempo das vacas magras quando pouco se vende e muito se conversa com o comprador da loja, quase sempre o dono. Falar na chuva, falar do excesso “ai meu Deus”, da falta, da influência na saída de mercadoria em estoque e daí o costumeiro “nós não estamos comprando”, que faz quem sabe diminuir as fomes deste mundo... Fumou outro cigarro aceso no anterior, não é bom fumar antes da refeição, o doutor diz que não é bom pitar, mas isso é outro negócio; antes da refeição diminui o apetite mas faz esquecer um pouco o pouco pedido anotado, vem a moça. Ela não se veste a caráter mas anda limpa, cheira um cheirinho lá no fundo debaixo do avental, despertando a fome... De comer arroz com feijão? anda enjoado do rotineiro. Não jovem, Maria? não, entrada não quero, com o calor apesar do tempo chuvoso não vai sopa. Além do mais sopa de hotel de vila lembra os restos da janta, muito obrigado, que venha logo as travessas. Vem. Vem arroz vem feijão, um pouco passado devem ter deixado ferver demais grudando no fundo do caldeirão, que horror! vem salada de alface e tomate os temperos estão nos vidrinhos em frente, vem picado de carne de vaca, será boi! Vem tudo na mistura com batatinha inglesa ou holandesa de origem nacional, ah ainda bem que hoje não é dobradinha lembrando aquelas melecas malcheirosas das tripas pouco lavadas, ainda bem. Peixe? Caboclo não come peixe, se comesse serviriam pra gente um com gosto duvidoso, nascendo suposições melancólicas para a tarde e a noite no quarto cheirando a mofo ou a naftalina, peixe não tem: é arroz feijão picadinho e salada frugal, tudo sem nome, nomes são o enfeite do nada. Ah sim, depois, depois da devolução da metade da comida, depois tem a sobremesa. Num hotel certo dia veio doce de leite bem mineiro. Mas quando muito vem, vem sempre, Romeu e Julieta: goiabada ou marmelada num talho fino transparente e o Romeuzinho que é um naco de queijo. Mas o comum, comum mesmo, é o cafezinho. Todos ao café, a toalha da mesa encardida e de riscado ou florzinha estando quase invariavelmente borrada por manchas de café, possuindo um que outro grão seco grudado de arroz, o pessoal se descuida mesmo: todos têm pressa, uns chegando acenando aos conhe-cidos e se sentando, enquanto outros se levantam e abanam com a mão desocupada, a outra segurando o chapéu, num cumprimento a alguns amigos aguardando sua refeição. Não mais. A chuva parou os raios chegaram iluminando a via pública, é mister tirar, se a sorte ajudar, uns ‘pedidecos’ por aí. Trabalhar, fazer malas, comprar passagem, outra praça; rotina como arroz e feijão; ah e romeu, julieta, café, moça bonita pra se ver. É, parou de vez o chuvisco.
 Marília   janeiro  2002



23° - Às Armas!
         
          Dona Fofura chegou armada, não era amada? Bem. Aflita, espumava, verrumaria fosse preciso. Cutucou (não sabia, com vara curta, espetando abelhas irritando onças...) cutucou outra vez ver se saía pretexto, pois causa não existindo por ter demais, demais ficou em guarda. A bem da mentira uma verdade: brilhava o metal da arma. Bufou. Não contente insultou com alfinetes.
          Aí a outra saiu da toca.
          Um entrevero! Luta desigual?
          Desigual. A vítima, Fofura se considerava ela a ofendida, Elona se preparou (e acionou gatilho? apertou com punho o punho da espada? dedo no botão a ‘cocegar’ a bomba atômica? não:) se preparou a conversar. A conversa. Ainda não inventaram batalha mais contundente, a arrasar, a conquistar, para o bem da guerra. A chegar à paz, que é o choro, por fora quando o opositor é tagarela, por dentro quando frágil ou mudo.
          Fofura não perdeu tempo: espinafrou a outra, petitica assim. Atirou com calibre 38, 44 e não sei que mais e se existe devendo existir: errou; felizmente errou acertando o mastro (do navio? não) do puxadinho coberto com telhonas de amianto que é cancerígeno mas ninguém tem paciência de esperar quer matar na hora e Fofura era desta ‘livre escolha’ – aí estragou o corte mostrando-se na pior das hipóteses ser má espadachim (será que existe espadachina a ‘femear’ o vocábulo!) Não a bomba não.
          ¿Acionar dispositivo atômico redunda em fim da guerra, eliminando os derrotados?  sim, aleluia irmão! mas também os vencedores e é por isso que se prolonga a batalha campal (leia-se lingual) no orbe.
          Não. Não, que não era boba Fofura. Falou falou ofendeu arrasou a mãe, não se sabendo como certa mãezinha tão pequena tenha gerado um Fofurão tão grande. Só falou ofendeu e arrasou e a genitora ficou muda no canto dela. Então, louros, cantando de galo, vitoriosa, se foi.
          Foi para sua casa, para seu tanque, lavar a sua roupa. A suja não, lavou a sujeira com a mãe na casa da mãe. E venceu.
          Guardou armas, foi então virar Santa de seus filhos.
  Marília   janeiro  2003
24° - A Centopeia
         
          Parecia que parecia... sim a julgar por que nos tomam os outros que nos tomam. Não obstante dava razão pra quem tendo razão, pelo esdrúxulo da situação. Andava por este mundo nas minhas mil e uma pernas e os condizentes mil e um pés, patas na concessão aos puristas ainda existentes, andava livre solto pacificado ou na paz, que é a situação em que não precisamos a paz por já sentirmos em nós a harmonia e o concerto. Agora era o semáforo, este que distava muito das origens helênicas e escancarava vermelho verde e amarelo, o amarelo nunca visto ouvido bem. As conduções conduzidas pelos condutores, loucas, os homens eram então pelo concerto e pela harmonia, enquanto que elas matavam, podendo. As gentes cruzavam e se entrecruzavam, dando preferência ao vermelho, daí correr com temência que as conduções loucas lhes assassinassem. Os guardas apitavam nervosos seus neuróticos grilos. Não era mais que o caos, apenas o caos. Em razão desse caos, sequer percebendo as gentes no ir e vir no caos meus cento e tantos pés, patas puristas, antes das patas as pernas; e antes das pernas ou patas os pés as garras; e minha cara de poucos amigos sem ter um ao menos mas tão só aparente, pois que o coração ainda maior que o mundo a nos cercar, todos nós: guardas apitos gritos roncos roucos rancorosos ou apenas irados dos motores a caotizar um trânsito na urbe pequena se imaginando megalópole, então parei. Parei. Ri. Olhei. Vi-me a enroscar no semáforo, a espantar o grilo engolindo medroso o apito, os outros, a saber: as conduções destemerosas, os motoristas harmoniosos, os barulhos silenciosos nas reticências, quiçá enganchados nas exclamações; os outros olharam-se, atônitos ou desinteressados ou somente a passar no atraso aos lares, cansados por megalópole de um dia inteiro. Me olhavam. E nada faziam, se ‘fazer’ for ainda falar esbravejar gritar berrar, para, finalmente, chorar. Nesse ponto do imponderável no concreto do imaginário alguém (podendo ser um policial, um chofer no ‘um por todos todos por um’, um veículo em nome de todas latas plásticos fios poluições; ou tão só um barulho a ensurdecer boca cerrada e ouvido mouco) – nesse ponto um, ou descobriu o esdrúxulo, ou nada vendo, tomou a iniciativa de apontar a roupa nova do velho rei. Não fiquei para ver o que se ver: me desenrosquei do poste luminoso, não esperando o verde a passar em frente rumo ao futuro, a deixar todos presentes no passado. Não devo ter esperado. Me liguei antes no ‘atenção’. Por sinal um sinal descorado que vive a atrapalhar, creio, os daltônicos. Aí ‘minhoquei’ desligando as mil patas, meus pés impuros, endireitei meu comprimento no corpanzil, qual uma jamanta interminaaável.
 Marília   outubro  2005



25° - Potranca
         
          Tudo veio em razão da cria. O barulho era infernal, as crianças... ah Deus nos livre, o mulherame falando falando di-zem que elas falam falando menos apenas em fevereiro, naquele agora o berreiro acontecia na cozinha havendo fora da cozinha os acertos de fumaça cinza cheiro de carne e mandioca, ih muita mandioca, tinha menino comendo antes da hora com boca aberta assoprando a quentura na língua de dentro pra fora e todos riam; amigos compadres e vizinhos todos riam. Frio pra tamanho mas a caninha esquentando bem a goela e a conversa macha não parava, a égua branca tava a dar cria. Falavam da colheita da chuva da falta muita e pouco preço, faziam as contas por conta da potranquinha a nascer e tudo o mais. Quando menos se esperava, morreu a mãe descadeirada e o prejuízo foi grande!
          Antes venderam a potranca amansaram a eguinha sela-ram a bicha puseram a pobre no arado e na carroça, rasparam o pelo bonito com a raspadeira, tudo bom pra se ver, soltaram o animalzinho no pasto e os meninos não deixavam a infeliz em paz nem as moscas e necessitava curar a ferida. Mas não precisou. Morreu.
          Agora o êxodo chutou a família no agora da periferia urbana e a carne cheira ‘fumaceia’ e as mulheres tramelam lá dentrão as coisas delas, eles compram vendem todos carros, tem uma jamanta que só não sabe falar: liga o computador de bordo e a bicha bufa assopra e carrega aquele mundão parecença com linguiça e tem mais. Mais por conta da loteria, discutem a loteria e seus milionários prêmios, viram arquimilionários, temem os ladrões, corja safada que cheira a riqueza lá longe e vem perto da gente e a polícia não faz nada, a fumaça alevanta cheira o churrasco, a cerveja tá acabando os causos vêm vão. Ameaçam, executam, gastam a rodo o dinheiro da sorte grande, contam milhões, se admiram se entregam imprudentes a comprar. Um adquire, um depois doutro, um carro novo para cada dia da semana; e se troca como de roupa um novo por novo veículo. Citam marcas, põem defeitos levantam qualidades. Figurões da burguesia.
          A periferia apita, sua miséria grita, acorda sua desdita, o desemprego vomita, o subemprego no emprego a título precário se agita, a pobreza conta as contas pra pagar. Não se ganha mais, correu ontem.
           Ah mas se...
 Marília   maio  2003



26° - Questão de Sogra
         
          Qualquer genro que se preze entende do entender da mãe de sua esposa. Não entendi bem eu o do personagem, um personagem que inventei a inventar a estória, a qual se baseia nos fatos concretos, mentirosos até prova contrária.
          O personagem, um matusalém de belos fios brancos na calva incompleta, me contraria. Veja, diz o personagem matraca, pois bem falante e mesmo abusado o senhor idoso (expressão semântica educada desejosa de não ferir melindres; eu cá pra mim pensando, com muita irreverência: o pé na cova iminente a afirmar as besteiras aí embaixo) – veja se não tenho razão; e iria eu contrariar meu contrário nevando idade... Veja lá. Casei-me uma só vez e ainda assim sob condição: procurei mil a encontrar uma que não tivesse mãe – desejava esposa, não sogra; achei a bela, órfã, casei-me com ela. Na igreja, bonitinho, flores, festas. Nunca tive sogra a atrapalhar nossas brigas conjugais!
          E meus semelhantes! observe os desentendimentos ocasionados aos outros por suas respectivas sogras. Pior.
          Aí não aguentei – ou exigia esclarecimentos, porque não pode haver vida a dois com três, a velha a xeretar na casa, isso me confundindo por ser já o ‘pior’; ou matava o personagem para não ter problemas, que fossem tão só literários. Pode, disse, disse eu ao matusalém, pode haver pior!?
          Aguarde a minha conclusão do pensamento; ela é o pior desse pior. Daí coçou a careca, quase a arrancar um dos três fios branquinhos, e reencetou a argumentação.
          Veja bem (eu nesse ponto a imaginar: o sujeito deve ser intelectual e universitário, usando tal expressão viciosa; no en-tanto não me meti na coisa, ou não acabava ele a besteira a se-guir) veja, tem pior nisso no caso em que o marido possa ter mais de uma sogra.
          ?!?
          Sim senhor, mais de uma ao mesmo tempo; não é casar divorciar recasar redivorciar re-recasar, pois assim seria suportar uma sogra a cada uma das burradas feitas; não – ao mesmo tempo mais de uma sogra a dar palpite na casa. Vou além. Imagine haver lido um dia que Salomão teve 300 mulheres, portanto 300 sogras! Dizem ainda que suas lamentações nos livros sagrados vieram por não poder mais dormir com as 300 belas, aí o pessimismo próprio da velhice, velhice dele note bem (relembrei o intelectual o universitário, olhei o velho) note bem, a dele, eu sou muito macho, um dos poucos machos a sobrar do tempo que imperava o machismo; que foi a época dos ainda existentes governo parlamento justiça, tudo em favor do homem, a mulher apedrejada, lapidada por traí-lo; tudinho já ultrapassado nesta altura da civilização.
          Não se espante por minha lembrança de Salomão, um rei sábio como sabemos. Isso porque dos tempos bíblicos até a pouco os homens ricos possuíam várias esposas, nunca tre-zentas como a garanhão judeu mas assim mesmo muitas esposas e concubinas. E, aqui o desastre: – muitas sogras!
          Já imaginou (imaginei eu o a pedidos do personagem matusalêmico) já pensou na velharada dando palpite na casa do genro e mesmo ao genro! Você (ele arremedou voz de mulher, sem grande habilidade aliás:) você não quis dormir esta noite com minha filha, seu sem-vergonha, apenas pra ficar com a esposa n° 999! E outras coisiquitas: falta mais um sofá na sala; seu filho da 594ª esposa bateu no meu netinho; sua n° 302 tem um amante (eu logo a repreenderia assim, se fosse comigo a queixa: amante, vírgula: ‘namorado’ como é na linguagem atual) você não pagou o ipeteú e vieram cobrar na porta, a envergonhar minha filha! é para isso que a desposou? Ainda muitas outras, outras muitas chatices que as sogras lembram nos esquecimentos do genro.
          Comigo não é assim... ah tem mais um senãozinho. Se-guinte. Você imagine ter sete sogras ao mesmo tempo.  Escla-reço melhor. Sabe perfeitamente que ao homem a natureza reservou cerca de sete mulheres, já tenho uma falo então das seis restantes. Pense bem, seis esposas, seis sogras. Eu teria portanto de aguentá-las ou procurar mais seis órfãs. Pense no desastre que me atingiria!
          Comigo não! insistiu o personagem, olhando-me esquisito como se eu fosse aliado ou culpado desse estado de coisas. Uma só vez casei-me. Teria apenas uma sogra; e, melhor, nenhuma por haver escolhido noiva órfã de mãe. Não tenho do que me queixar. Até recompenso minha esposa com presentes pelo fato de não me trazer para casa a mãe dela.
          Eu: esse pacote nas suas mãos é o presente?
          Ele: não, isto é para outro personagem amigo que você criou outro dia. Os presentes à consorte são outros. Agora neste ano por exemplo dei-lhe um namorado novo, o anterior desejava mandar de galo na casa, parecendo sogra. No meu lar mando eu, sou macho pra valer. Parece ter já falado sobre; falei isso?
          Ai! Sequer me restando alternativa, encerro o conto, ou teria que matar o personagem, embora o respeito devido aos idosos. Ora, morto o personagem, morto o conto. Daria tudo no mesmo.
 Marília   dezembro  2005



27° - O Terceiro Caso   
         
           “Eu chamo Dito”. Cheguei aqui tempão, tempão agora sem serviço, serviço só assim como o senhor me vê chegando nessa bicicleta, ela faz nhec-nhec por falta de graxa, aí é mesmo relaxo, a mulher faz barulheira danada pelo relaxo, fala fala sem parar, já me fui pro trabalho, trabalha ela com a língua, agora mesmo deixei a megera rosnando lá em casa tomei a magrela aqui e fugi de casa, dela, deve estar ainda me falando eu aquizão empurrando esta porcaria o pneu furou e preciso chegar até oito, marquei sete com o pedreiro, me deu lugar de servente que o sobrinho dele adoeceu e estou no lugar, uns dias, nem falei pra ela ou me pede a grana, e como faço pra pagar a pinga no ‘pindura’ e ainda preciso levar qualquer coisinha pra filha, uma graça de menina, não contei pro senhor que está já na segunda série, lá no grupo perto de casa, disse já que mudei da Vila e moro no Jardim, sim desde que voltei com a mulher, me fala me grita me cobra, eu desempregado, agora tem o Zé Pedreiro e ele me deixou ficar no lugar do parente a carregar massa, nem pude fazer marmita tenho de comer no bar da esquina, ainda tem um lá não é, ela se me visse pôr arroz feijão e abobrinha ia perguntar e depois cobrar o que nem ganhei e nem sobraria pra pagar a cachaça que tomei e devo tomar, ninguém é de ferro, o sol está brabo desde cedo, deixa eu ir indo que preciso empurrar esta droga até o trabalho e no almoço conserto a bicha, a megera deve estar lá em casa me falando me pichando vagabundo e lavando roupa pra fora para a garota comer e nós todos, isso confidencio ao senhor que é amigo, ela é braba, têm os caras que batem, eu não bato na mulher, tem os que batem e apanham também, mas não é o meu caso, falei que sou trabalhador, o senhor me conhece, não, o meu é o terceiro caso: só apanho, ou fujo, digo ao senhor mas não conta pros outros, estou fugindo para o serviço e fugindo mais dela, ela desconfia que nem desconfia que eu esteja longe com a magrela; melhor a lata de massa a enxada o sol, que ela, o terceiro caso como falei aqui pro senhor e “eu chamo Dito” o pedreiro, das coisas não sabe, sabe só que sou o Dito, entendeu?
 Marília   abril  2002



28° - Latifundices
         
          Raspou goela, olhou em volta, uma dúzia a plateia não mais. Tenho saudade, disse, coçou queixo pôs tirou pôs o chapéu, pigarreou, assentiram sem que houvessem dito. Saudade muita saudade, insistiu. Os outros concordaram, é praxe o quem cala consente. Tinha pra mais de mil cabeças... Arregalaram olhos, um deles de cócoras outro encostado na parede gente já nasce cansada; alguém pitava baforando todos na fumaça, um magro com sestros nervosos chamavam “Tremelique”, outro ainda só mascava fumo sem dente baba a escorrer. Ele não, empertigado, tirou de novo o chapelão: Tinha muita coisa. Terra ah, um não acabar... Tossiram na turba. Completou: tudo que vocês imaginarem eu tinha, era só verde... Se ajeitaram, mais dois se acocoraram. Verde que sumia de vista, uma lindeza! Um moreno espirrou esperou o “saúde” se limpou num lenço duvidoso. Lindeza. Vejam, eu tinha: carrapicho, pé-de-galinha, amargoso, grama braba e é claro, tiririca. Ouviu-se um mugido e um ladrar ao longe. Tiririca alqueires de tiririca ninguém nunca colheu tanto! Crianças correram por entremeio adultos gritaram riram choraram brigaram. Alqueires... e a criação! Mais garotos brigavam agora, ninguém se entendia, os grandes ouviam: Animais! mais de mil: carrapatos, piolhos, bicho-de-pé. Ai perguntaram “como é isso!” Repetiu bicho-de-pé (coçou o dedão do pé tirou a botina um pouco cheirosa no provar). Tinha besouro (pronunciou “bizôrro” mas entendiam bem). Tinha marimbondo. Tinha abelha porém mel nunca encontramos mas havia. Chegou uma mulherinha, feia de espantar mas tem um ditado assim: em terra de cego quem tem um olho é rei, rainha, riu para o matuto. Continuou: mel não dava mas havia, tinha vaga-lume, tinha barata (aí a mulher feia fugiu horrorizada). Tinha mosquito, tinha pernilongo, tinha varejeira. Tinha insetos todos do mundo. Os moleques voltaram e uns se escondiam nos cantos outros até atrás da gente grande, todos mais ou menos na estatura, ele sim era grande alto gordo e disse no vozeirão grosso lamentando: muita criação, muita terra, muita gente morrendo nelas, até cemitério nós tínhamos (a concordância não concordava nele, dizia “nóis tinha”). Sim, insistiu, cemitério. Se benzeram tossiram pigarrearam resmungaram baixinho. Terra, isso, terra! criação! até floresta com onça e dinossauro, tudo meu! Se olharam espantados acenderam cachimbos cigarros de palha, alguém fez sinal a outro alguém. Tudo meu, mas pra quê. Veio o governo veio o juiz veio o delegado; tomaram tudinho. Eu? “Tô aqui”, ele disse.                  
 Marília   abril  2002



29° - Trastes em Reunião Familial
         
          Todos falavam ao mesmo tempo alguns se calavam até compreensivelmente e um que outro gato pingado por mudez quem sabe. E como ocorre sempre, sempre alguém a dominar o ambiente. Ela. Apaga a luz do banheiro, não sei quem esqueceu a pia pingando, o de plantão a fechar torneira, apagar, esbanjamento não é apenas desnecessário: fere bolsos. Outro contava piadas, as mesmas ou só mudando de manoel a joaquim o personagem, as mesmas ano passado passados anos também. Criança isso tinha bastante gritava brincava enredava brigava bastante a dedar com categoria. Ela olhava falava até mandava, lembrando velhos tempos, as crianças agora na sem-gracice, ela rindo aos netos emprestados sobrinhos e apensos, menino atrai menino em razão direta das distâncias, parque infantil, socorro! E cruzavam até se escondendo em meio às pernas da gente. Ela pequena. Miúda. Tinha o Tim. Os outros, uns capetas. Esse aí, o Chico, o Chico riu um risinho tipo não estou aqui, esse aí? o Capeta. Contou o ‘capetismo’. Ele, disse ela, com o Pedro... Todos param quando o assunto são as chaves, o Pedro cutucou a esposa e se avermelhou. Ela contou desse malasartes, ah as artes. Mamãe, tadinha que o Céu a tenha, ficava louca com esse aí (mostrou para se avermelhar de novo mas o parente não cutucou agora) esse? nem o Diabo podia. Um dia, vão ouvindo, ouviam, fez não sei o que diferente do não sei quê que fazia diário, você aprontava, meneou a cabeça que sim, aprontava a valer; então todos correram e ele dizia não ter sido ele, o que a rotina provava contrário. Aí Mamãe, que Jesus a tenha, pegou o ‘magriça’, era magrelinha, prendeu-o nos joelhos e lá vai bater, bunda pra cima cabeça presa nos joelhos maternos e bem, essa coisa aí (a coisa nem se avermelhava mais) deu certa mordida na Mãe, tadinha, ela abriu as pernas, o Capeta saiu correndo a lamber aquele gostinho de mãe, se perdendo no mundo! três dias sem voltar pra nós, não foi, Pedro! Só o Tim. Esse era um santo. Contou da Nina. Sempre atrás dos moleques fazendo o que não devia. Nina sorriu contrafeita. Se perdiam nos pastos... Tinha o Tim. Esse não. O Nico era o Maria vai com outros; olhou desenxavido a mana miudinha mandoninha. Quem entrou com os pés sujos! nenhuma criança a se defender. Bem, disse ela. O Primo João, lembram do João! Riram. Ia no vizinho, vizinha da Tia Zulmira, se rasgava na cerca trazia mamão. Depois apanhava, por que não comer o do nosso pé! Tia Zulmira, tadinha que a Paz seja, o João com o Pedro... O Pedro falou à mulher chamar o filho ver quem andava brigando. E das Meninas, eu era boazinha, sempre com Mamãe, os ares celestes a envolvam! mas os moleques de nossa casa... Deus me livre! Tinha o Tim. Só escapava o Tim. Serviram bolos, cerveja aos desavergonhados, bolos a adultos e crianças, as que não brigavam lá fora. Continuou. O Nico, o Primo, a Joaninha, nem se fale, e o Pedro, esse aí... esse estava agora no banheiro fazendo não sei quê. Já contei deles no Parque e na Casa Paroquial! Já, responderam. Contou outra vez, vez outra riram, voltou o Pedro, rindo também sem saber de quê. Tinha o Tim. Esse era um anjo. Ah, esse aí, o Pedro, estripou ele, tadinho do Tim, com a faca de Mamãe, Deus a levou, com faca! – saiu a palha saiu algodão. Pois cortou-lhe a cabeça jogou na privada de buraco. Chorei, ela disse que chorou. O Pedro riu como os outros, mas andava constrangido convidou a esposa e o Capetinha brigão a irem embora.
Marília   maio  2002



30° - Os Pardais
         
          Acordou. Não acordou, acordou dormindo, que é esse estágio da madrugada (mas o que é bem a madrugada!) quando temos consciência despertos porém na dormência gostosa precisamos deixar a coberta e, aí sim, enfrentar os domadores da vida: o imposto o compromisso a dor a necessidade, enfim nos confessaremos por que não fiquei na cama. Acordou com o barulho, infernal, do despertador. Tinha um barato de um e noventa e nove? não desse, os passarinhos. E gritavam, devia continuar a chuva o frio o cheiro de mofo, nada convidativos; mas aos pardais, numa briga imensa dos floreios amorosos na cumeeira, isso não importava, importava o gritar e eles o faziam, acordando até surdos. Não era surdo, normal. Que é mesmo normal! Remexeu revirou retardou quanto pôde, é humano aos humanos fugir dos entraves e cobranças do dia, se bem que não houvessem argumentos para a fome que nascia e a dor de barriga a qual já morria de insatisfação. Remexeu novamente para outro lado. Gritaram avisando hora, assim decidiu-se: ora, não iria ficar vegetando dia todo já claro diziam os pardais, apenas por conta da aposentadoria recente. Abriu enfim olhos pra ver o claro deles, não era ainda claro para si. Fechou, rolou, puxou cobertores, fungou, fingiu dormir e não acreditou. Chega, vagabundo, se falou e não se defendeu: abriu definitivamente o dia. Mas não tinha dia, tudo escuro ainda decerto alarme falso do seu despertador de penas. O estômago a barriga estavam era do lado dos passarinhos. Agora chega mesmo. Arregalou.
          Ainda assim não percebeu o porquê da alegria dos par-dais, eles que pareciam extasiados barulhentamente extasiados na sua alegria. Tinha mais mais nesse menos ausente claro: o povo principiava a rolar pisar o asfalto, uns comentavam outros só andavam teimando silêncio e macambúzios à maneira chata de adulto, mas as crianças tagarelavam chutando latas e pedras em direção da escola onde iam gulosamente às aulas. Portanto não alarme falso dos seus pássaros, era hora da hora... Por que motivo então andava escuro e fechado o mundo! Arregalou mais. Estava cego.
          Sequer naquele amanhecer percebia, muito menos adivinhava, o drama que iria viver. Fora de expectativa pensar no sofrimento dos conhecidos que vira perder a visão. Agora era sua dura vez na experiência dolorida. Chorou, não se diga que fosse tão insensível e não precisasse ter pena de si mesmo, gente. Gente é assim. Mas chorar a quem! Já se acostumava, fosse isso realmente possível, já se acostumava a viver só. Só não sabia viver só e cego. Entretanto, pensou pensou, as lamentações mundanas jamais conseguiram mudar o planeta; ao menos melhorá-lo. Era enfrentar, sozinho, aquele novo drama. Pensou drama, porém logo viu, viu sentindo, que os dramas não resolvem drama, criam mais drama. Levantou-se.
          Acostumara a economizar energia, era um fruto do apagão no país, conseguia fazer sempre tudo no escuro: se levantava, fazia, lavava mãos, desinfetava, voltava à coberta sem gastar o interruptor, daqueles que ficam alumiando reflexo no escuro após apagada a luz, mas isso agora não tinha mais importância. Importância apenas pelas experiências adquiridas economizando e não fazendo lume.
          Apalpou daqui apalpou dali, a se acostumar com o novo costume de sua noite interminável (interminável! fez ui por susto e temor). Chegou ao banheiro arrastando seus chinelos. Olhou o armário da pia, seu espelho quase sempre espirrado de pasta dental e outras sujidades de limpeza e do fazer a barba; mas agora também não importava mais: não via o espelho que o via. Voltou chec-chec se arrastando ao quarto, abriu vidros do vitrô a entrar ar, iniciou a ginástica matinal. Flexões alongamentos essas coisas, até ao exercício respiratório, o que fez bem. Não sentiu nenhuma diferença de quando enxergava; de olhos fechados fazia o que abertos com a mesma precisão. Ainda mais que a boca contava direitinho cada movimento. Só não cantou baixinho, habitualmente era um cantar pensando e não expresso.  Mas cantar a alegria em perder a vista! Daí foi para a cozinha.
          Ligou seu fogão, fez a sopa. Fervia leite, punha açúcar e café solúvel, pedacinhos de queijo, pão especial – uma sopinha especial de gostosa. Ele conversava sempre consigo mesmo e achava deliciosa; não se discute gostos. Arrotou, não precisava olhar ver se alguém a pedir desculpa pela má educação, nunca existia ninguém a lhe perturbar a liberdade, menos agora que não via, mais agora, não precisando ter vergonha de sua sem-vergonhice. Voltou ao quarto.
          Trocou de roupa, deixou a malcheirosa de dormir pôs a cheirosa do cabide. Preferiu – por que um cego não deva ter preferência! – preferiu a camisa vermelha, do tipo cheguei, inadequada a senhor idoso. Por que velho? Não chegava aos cinquenta e se achava em forma, pensava em forma. Optou pela berrante que a tanto escolheu bem sabendo o lugar; e se vestiu, chegou até ao estágio das meias, separou de lado a furadinha para outro dia, aquele era dia de comemorar. Pera lá, comemorar cegueira! Falou um nome feio, baixinho a ninguém ouvir, têm os nomões têm os medianos têm os ‘tantadinhas’ que não ferem nenhuma pessoa mesmo em público, educado optou por esta última possibilidade no reino dos desnecessários. Não deixava ser comemoração, ao menos sendo um certo estrilo em revolta.
          Revolta? mas por que razão. Sempre aceitara o inevitá-vel, se adaptando ao não tem jeito. Como revoltar-se agora. Aí calçou-se. Por costume executava cada fase até ao fazer laços nos cadarços sem ver. Interessante como as pessoas fazem tanto e não pensam que estejam executando as coisas. Às vezes até saem obras de arte. Não, obra-prima é outra coisa. Que estava ocorrendo – fugia a si e de si mesmo para não constatar cegueira! Ridículo. Resolveu enfrentar a situação dum cego sendo um consumadamente cego. Já chorara já pensara já pesara prós e contras, não se revoltaria.
          Contudo optou por forma interessante, curiosa ao me-nos, de viver a sua noite noite e dia. Era sim não contar a nin-guém haver virado cego. Isso.
          Não obstante sua vida solitária dava muito pouco crédito à opção, pois que não falava mesmo com ninguém. Não seria preciso divulgar...
          Saiu pisando duro, machão, ao seu quefazer nada preci-sando realizar; o que constava ser tentar resolver da melhor maneira seus problemas do dia a dia, que são igualmente os dramas alheios. Podia mesmo contar passos se quisesse, não precisava, sempre pôde ir onde ir de olhos cerrados antes de estarem cerrados. Viveu sempre pensando imaginando criando estórias e personagens. Então falou-se durante o trajeto – nada perco, mas perco sim: não poderei mais ver de fato as garotas bonitas que me alumiavam a vida! Começou a pensar nas conhecidas a bela da padaria a caixa graciosa do supermercado a menina loira da lotérica, puxa que desastre! No entanto não estava ali para brigar com a sorte, a viver tão somente. Continuou a caminhada. Decerto alguns conhecidos por quem passava, só um falou-lhe o bom-dia reconhecendo na voz o barrigudo da imobiliária, decerto outros passaram por ele, imaginaram que tivesse ficado orgulhoso ou cego. Estava mesmo cego de verdade, verdade entretanto que ninguém soubesse.
          Comprou aqui ali, suou pacotes e sacolas. Voltou como nada houvesse, havendo só peso embrulho e cheiro de fruta. Ainda ouviu ladrares constatando serem os mesmos seus amigos cães, amigos que nos acordam noitona por verem gatos no amor. Percebeu o arrepiado de rabo grosso e latido em ardência. ‘Viu’ o vira-lata pequeno do quarenta e quatro, riu-se da sua cauda pelo meio. Desviou como fazia sempre do portão do feroz enorme preto, de que raça seria? nunca fora um conhecedor. ‘Ufou’ cansado, abriu seu portãozinho, ‘tafuiou’ (gostava gastar termos chãos e agora como prêmio tinha direito a usar) tafuiou no lar; depositou suas coisas nas coisas suas, encheu a geladeira, guardou no quartinho alimentos não perseguidos por bichos miúdos (pera lá, se indagou, tem alguém!) aí descansou no cadeirão da sala. Apenas a descansar.
          De agora por diante não poderia ler refestelado no cadeirão perto do telefone. Lamentou, pessimista. Mas posso falar, é só digitar, disse otimista a si mesmo.
          Alô respondeu a amiga. Não, decidiu não contar a ela. Mesmo porque é um amigo! até onde um ser é amigo, um amigo pode não passar de um conhecido. Um conhecido pode ser nosso caro desconhecido. Será que o mundo não é apenas a gente cercada por pessoas que tão só nos vê!? ele não poderia mais valer-se dessa faculdade. Ora... Liguei, disse, a saber como tem passado etc. e tal. Tal foi a alegria do outro telefone, ela contou rezou o padre-nosso dela num tim-tim por tim-tim, e decerto não falou tudo, nunca expomos tudinho que vai na mente; na melhor das hipóteses vomitamos o que temos no cérebro, só um pouquinho o de dentro do coração. O caso dele era diverso: não tinha coração. Estava lesionado no seu ser, não sentia saudade ao modo da pessoa comum, não conseguia chorar para gasto externo, não arrancaria cabelos no desespero (não possuía realmente bastante fios, só uns compridões e negros já tentando nevar). Não tinha sentimentos como os sentimentos humanos. Às vezes se perguntava se era mesmo gente; ou máquina, como se olha o homem saxão, medido frio calculista, latino ele. Ela não. Não se fez de rogada, narrou tudo que vivera desde seu último encontro; encontrou até um lembrete da última visita: está lembrado o azul da flor no jardinzinho? estava. Precisa vê-la agora, venha. Mostrarei meus quadros também. Prometeu. É fácil a promessa.
          Desligou cansado. Orelhas doloridas, tinha umas estrias e protuberâncias na orelha direita que enroscavam, inclusive o som do telefone poderia machucar a machucada cartilagem. Desligou espreguiçou-se. Não era segunda, terça-feira, mas poderia daí em diante alegar devoção ao santo da preguiça para evitar visitas e relaxar naquele momento. Aproveitou para fazer projetos.
          Como fazer as coisas sem que se notasse sua noite a pleno sol. Sentia o calor dos raios lá fora e devia estar belíssimo o dia, ah como somos os filhos do sol! Entretanto não se entregaria, resolveu sair à luta. Faço assim e assado. E no banco! Tinha outros draminhas do homem comum para aquele homem comum cego resolver. Os ‘como’ da vida para que a vida seja rica como rica é a vida. Resolvo o banco, experimento e pronto. Ouvirei meus discos eruditos, ouvirei ladrar, o grito da criançada, as palmas dos vendedores; aguentarei mesmo o tró-ló-ló dos evangélicos lendo a Bíblia e guardarei suas mensagens no bolso, até agradecerei educadamente, não com respostas sincopadas e sem lhes dar atenção como sempre fiz. Bem, apenas são planos.
          A teoria costuma na prática ser outra. Chegou ao banco com ajuda do hábito e dos ouvidos e também ajudado pelo guarda-chuva, objeto ótimo a despistar um bastão de cego. Passou o cartão magnético digitou a senha, pediu à garota es-tagiária para ler o saldo no papel por haver ‘esquecido’ seus óculos (óculos, olhe uma boa pedida, adquiro uns escuros a ‘evitar’ excessos solares...) leu, obrigado; digitou o dinheiro recolheu as notas no caixa eletrônico, ah etapa vencida! Comprou não sei quezinho, tornou ao refúgio inviolável (não é assim que diz a Constituição? não dava mais para lê-la, mas brasileiro não a consulta mesmo, mesmo com bons olhos). Respondeu aos cumprimentos vizinhos, foi às suas coisas: fazer comida varrer a casa, ah tinha graça limpar se com vista normal não varria e os parentes femininos grilavam com ele, não, mas fez a boia, cheirava bem, comeu bem, com direito até à sobremesa. E assim a rotina de uma vida. Uma vida.          
          Já estava cansado dessa vida, da vida da vida de cego. Tropeções encontrões empurrões errões! ah quanto fora dava; dava raiva. Recebia visitas, as esporádicas e as costumeiras fe-lizmente espaçadas dos parentes. A ninguém contou sua fra-queza. Olhou a todos, falou com todos não viu mas ouviu bem mostrando normalidade, o que pouco interessa pra quem nos visita, porque o homem quer falar de si e nunca vê realmente outrem; bastava a ele ser presença e orelhas, os outros falavam recriminavam fofocavam ofendiam defendiam detalhavam e raro indagavam. Foi rolando. Mas cansado da vida ouvida sem vista; ah como lamentava por dentro não poder mais viajar, cortar cabeças com sua máquina fotográfica, trazer as vistas para as vistas dos conhecidos e para seu arquivo nos álbuns! Enfim, é suportar as deficiências e os limites que a existência nos oferece. Todavia, pensando e vivendo assim mas cansado. Mais de ano empurrando com a barriga! Havia ainda um senão, se não o maior dos problemas: a fêmea. Precisava uma a encher seus dias, precisava antes de precisar, quando via ouvia falava ou calava, agora não enxergava. Mas sentia... Fugiu à sua dor, foi jardinar.
          Vasculhava vasculhava remexia e sentia o cheiro da terra a fragrância das plantas, devia ter alguma flor aberta. A flor chegou. Oi. O cego levantou-se como visse, oi respondeu. Gosta de jardim? Fez com a cabeça. Eu passo todos dias aqui, sua casa é linda. Obrigado. Essa flor abriu hoje? Ah, essa vermelha é ibisco; mas eu tenho outras. Ela falou que estava vendo e estava mesmo, ele que não e mostrou que sim. Ela se convidou a entrar: sabe, o calor, uma sede, pode me dar um copo... Entraram, ele na frente ao conhecido onde era mestre, ela atrás curiosa. Conversaram, ela perguntou se apreciava seu vestido, respondeu gostar da cor mas não saberia descrevê-lo, homem você sabe não sabe dessas coisas. Ela desculpou com riso lindo que ele não pôde ver mas adivinhou. Falaram mais, mostrou sua solidão e coisinhas mil de um sem-ninguém, ninguém disse a ela que o macho a desejava, nem ela pensou decerto que concordasse com ele. Mas se entenderam muito bem nas coisas que Adão havia aprendido com Eva quando dona Maçã os enxotou do Paraíso. Logo estavam formalizando. E de fato. Andava formalizada uma união! Somente ficavam dois poréns.
          Primeiro, teve coragem a lhe dizer que não via mas a-mava a mulher. E provou isso a sobejo. Segundo, que a cama era muito estreita para dois. Tiveram que adquirir uma de casal, ela aproveitou também para exigir uma penteadeira a pôr mil coisiquitas feminis e o espelho para ela, ao menos ela, ver uma bela fêmea da espécie.
          Assim foi que o ceguinho provou precisar de uns olhos verdes, se bem não vira viravam azuis quando nervosa; e ga-nhou um par eficiente para ver o mundo, pois mulher vê muito mais que homem, mesmo o macho não sendo totalmente cego.
          Ah, sim, esquecia. Não precisou mais guarda-chuva para esconder a bengala de cego, tinha desde aí os braços da esposa a ampará-lo.
          Acaba agora a estória cega. Ou não mais acaba.
  Marília   setembro  2002




31° - Desconversa
         
          Agora, Maria, agora parou, mas não se sabe pode reco-meçar... Acho que sim. Sim boa forma para dizer o não das incertezas. E tinha o menino, um bichozinho que se enrosca nas pernas da mãe, olha envergonhado o que lá em cimão estão a dizer elas. Sim acho. Agora é mais forte, estará o ‘Véio’ com raiva!  Dona Júlia: com raiva e decerto pode quebrar a máquina de escrever, olhe que pressa! Claudete – tem razão, parece que vai pegar o trem... Não tem mais trem Claudete. Pegar condução eu quis falar, agorinha parou de escrever. Quem, diz Maria, quem pode falar que é escrever, não pode só estar experimentando! É, concordaram. Sai da minha perna Zita, vai brincar pra lá, criança só na barra. Parou outra vez, eu não disse? Acho, fala outra, acho que escreve. O quê, respondem a perguntar. Minha opinião: um bilhete. Ora Zefa, que bobagem, ah depois conto da briga no vizinho, bobagem, não pode ser bilhete se faz um ano que bate à máquina... Mais de ano, mulher, dois que moro aqui, tinha já o Véio. Mais de três, gente. Então é carta. Carta! se admiraram... Carta para quem e é bem longa. Para a namorada? Riram. Bicaram: mas já caiu, perdeu na rua, a galinha comeu. E riam-se mais, a bobagem costuma alimentar a bobagem a qual vira besteira de respeito e ganha foro de verdade. Verdade, Maria. Verdade. A gente pensa carta! aí a resposta etc. tal, mas o correio só vem de vez em quando. É, acharam. Eu, fala Claudete arregalando olhos, eu perguntei ao carteiro, assim como quem não quer nada; respondeu, lá no trezentos e um só conta: telefone ipeteú e mais cobranças. Deu o serviço a troco duns trocados como boas-festas, um amor o carteiro. Zefa se intromete – tão querendo mudar esse carteiro para outro bairro... Ih recomeçou. Já sei, descobriu outra entre as mulheres: estava limpando as letrinhas. Meu primo tinha uma e limpava toda hora, os dedos sujando a roupa depois, e não sai mais a graxa. Vixe, lamentaram. Voltam Zitinha Joaquinzinho Betinha um inferno, menino gruda não deixa a gente conversar! Está batendo devagar agora, reclama Joana. Param a escutar, só a meninada barulha, criança é assim: grupinho aqui, muda pra lá some volta se reúne grita, grita sempre, ninguém no almoço aí a gente grita eles. Recomeça, o Véio recomeça. Mas não pode ser. Ana acha que é poeta. Qual nada, bicam: poeta tem cabelão e bigode, é bonito e novo. Véio. Não pode, Maria supõe que escreva contos. De réis? Maria explica o que seja, que pensa ser conto. Enfim estória. Mas aí se arregalam temores – então um perigo no pedaço! imagine-se o Véio contando da gente, ninguém mais com sossego... e se inventar... Todas: temos de tomar providência! Joana conhece uma prima que sabe duma autoridade. Outras palpitam, não chegam a acordo. O Véio sai, calando línguas, as quais se viram a outros alvos, riem-se delas mesmas, brincam adultas de língua imitando a musculatura e o vigor dos filhos, agora ‘pandemoniando’ bem. Cumprimentam o vizinho, o Véio sorri enquanto varre a frente. Falam à boca pequena: o homem vive sozinho! mexem com ele de novo, ele acaba volta para casa, um quilão assim de incógnitas lá dentro. E loguinho recomeça o ‘tectecar’. Elas: não falam se olham não aguentam e falam. Voltam a supor. Aninha, acredito que faça novela. É mexer marimbondo: contam a das seis a das sete a das oito a das nove e aí tem que pôr menino na cama o esposo quer beijinho ela vai ofertar ele já dormindo; o acordar amanhã, trabalhar, deixá-la contar o Véio. Véio teimoso, diz Maria. Não para. Acho que é romance, ninguém me tira da cabeça: ro-man-ce! Olham admiradas, leem o romance, discutem por que motivo o safado desse Véio matou a mocinha! tão jovem. Ana, conta pra gente daquele romance que sua irmã leu. Conta contam catam o contar, o menino vem contar a injustiça contra ele aí chora reclama e a mãe resmunga mas volta ao grupo. Parou. Esse Véio decerto almoça, que será que come! parou para almoçar. Mas ele retoma cinco minutos depois, porque tem direito a fazer, é gente. Elas gente. Falam supõem intrigam gozam apontam. Está agora escrevendo uma crônica, Maria tem de explicar o que é crônica, tem crônica ignorância, não sabe, costura o não-saber; o público, medíocre, aceita, retoma os ditos, o dito que fica por não dito e ninguém precisa se comprometer. Mas que tem dente de coelho... ah isso tem, concordam. Ele discorda, continua na sua máquina a ‘loucurar’ o que nem será de sua própria conta. Ele ‘tectica’ sem parar, mas pode não passar dum bilhete, comprido é verdade mas bilhete. Não acham? Maria Joana Claudete que sim que não as demais. Apenas concordam na loucura. Porque a loucura é in-teligível.
Marília   janeiro  2003


32° - O Porteiro
         
          O homem aqui enfiado nestas linhas era o comum do ser, era sim mas com a agravante não de possuir ilusões porém de não sabê-las ilusões; um tipo insosso, sem idade sem tamanho sem pretensões, não sendo as miúdas e próximas, sem sexo ou quase sem. Apesar dos pesares teimava em viver. Vivia o trabalho. Cumpria a rotina.
          A rotina é que era, se não má, adversa. Embora, apenas desconfiava ser adversa ou inimiga escondida atrás da certeza da dúvida.
          Chegava ao prédio, que a ele era o “predião”, na firma, ao emprego, nas horas certas, saía, voltava pra casa nas horas incertas pelos acertos e necessidades do chefe.
          Não somente o patrão o retendo após o expediente e após perder o ônibus para o subúrbio. Também os outros colegas se aproveitavam do ‘caxiismo’ desse funcionário. Ele, se não dizia pensava ser igual ao patrono do exército, no cumprimento das funções. Não sabendo ter ideal, cumpria o ideal assim mesmo: sem indagação sem lamentação sem ilusão, isto já dito. Fazia e pronto; pronto ao retorno ao lar onde vivia com a velha mãe, mais velha que ele, isso é muito lógico.
          O pior, havendo o pior, o pior sendo realmente as horas de trabalho. Assim porque todos, quase todos pois a secretária bonita não, todos indistintamente querendo tirar-lhe uma ‘casquinha’; isto a dizer que no terreiro a ave mais fraca se mediocriza mais na medida em que as outras por volta desejam afiar o bico e bicam até por distração... o que ao demais é muito comum entre os seres humanos comuns.
          --Oi Zé. Não conheciam bem o sobrenome, não sabiam sequer o sobrenome; se tendo casa dramas e necessidades. Apenas ser Zé e andar feito relógio na portaria a registrar entradas e saídas dos outros, a fornecer uma que outra informação da empresa. Nisso às vezes escapando do seu pensar uma expressão banal “tá frio” ou “que calor”. Impensável para os funcionários não haver balcão relógio e Zé. Num igual chuva vento dia.
          --Oh Zeca-gol... Não sabiam seu time e sequer se torcia mas surgiu qualquer referência ao futebol, negativavam o po-bre, cacofonizavam o funcionário, trocadilhavam o mequetrefe na busca primeiro do gozo fácil depois a apreciar sua feição constrangida e no sofrimento.
          Nesses negativos apenas havia um positivo: a passagem da secretária da gerência, a qual somente lhe sorria, não ofendendo o porteiro. Mas a mulher fora demitida.
          Demais, era o demais.
          Zé-pereba, Zé-fuinha, Zé-besta, Zé-merda, Zé-bigode; remexia o bigodinho franzia a cara sorria desconsolado aos gozadores; retomava os apontamentos; só não atendia o telefone por gago mas era corpo presente na quase guarita de entrada, firme no posto. Anotava interminavelmente, eternamente. Um dia o chefe do chefe do chefe do chefe quis ver a anotação: determinou, ou a gozá-lo ou a agravá-lo, refazer calhamaços. Não chorou na frente do superior.
          Fez refez corrigiu passou a limpo, gastou quase a ponta da língua umidecendo a borracha de apagar, antes gastara o lápis, gastara o couro cabeludo a se coçar nervoso nas reformulações.
          Enquanto, atendeu ouviu e sobretudo se pôs como bode expiatório nas gozações dos colegas outros de passagem por seu posto na entrada do edifício.
          Não ruminava não lamentava não ofendia não brigava, quase já nem lutava, a chorar manso e escondido.
          Um dia, a cumprir a rotina, talvez menos inclinado a ela ou mais nervoso sob as cinzas nas aparências, em volta com provocação inocente do menos gozador dentre os funcionários, neste enterrou várias vezes a faca de osso ou plástico, dessas de abrir e aparar papel e livros novos, se fosse acostumado à leitura e só lendo as ordens de serviço, dessas. Abriu a carne mole do outro nuns sulcos profundos.
          Seguranças chamados, serviço de saúde depois, depois ainda ambulância hospital necrotério.
          Enquanto não chegava a polícia comentavam nas rodi-nhas a olhar em sua direção: “só por causa duma caneta!” ou-tros mais criavam outras ‘causas’, quiçá inventando novas consequências além da cadeia e do sofrimento dos familiares do morto.
Marília   dezembro  2005



33° -  João Mimoso
         
          Levantou-se. Bocejou, fez o que deveria puxou a des-carga, se enxugou. Estaria despenteado, numa cara de sono? olhou o espelho. Não precisava ser de cristal e adornado, suntuoso ou luxuoso. Para se ver basta, ou não basta! basta um espelhinho retangular desses comprados nos antigos bazares de miudezas. O vidro já trazia alguns senões pela umidade dos anos e alguns salpicos de gotas recentes; enxugou-se com a ponta da toalha de rosto. O rosto, notou o rosto. Que rosto...
          Aí se iniciou um drama. Onde ele João, poderia ser o Dr.João, apenas Sr.João, onde havia ido parar. Teria partido com os seus familiares nas férias! era possível. Impossível: no-tava, via-se em frente do vidro e do aço no espelho! Mas que diabo, não era positivamente ele. Ele não era ele; era outro. Então lembrou-se da estorieta do sujeito que tivera o rosto sujo a carvão enquanto dormia e se espantara ao ver-se de manhã. João não se espantava pelo negro carvão, se admirando só de não ser João... O que teriam feito do João que estava ali e ali não encontrava. Olhou de novo no retângulo de vidro, não viu João: somente um animal. Sim, gente também é animal, quem sabe mais ainda que os irracionais. Parecia cara do irracional. Esfregou os olhos, olhos sempre costumam pregar peças, enxugou as lágrimas na toalha cheirando a sabão desejando sol a corar, percebeu que ela pedia urgente outro pano limpo mas isso não importava; tinha importância, fosse verdadeiro, o não ser mais João! Tornou a olhar-se: via nitidamente um burro. Não deu tempo de se espantar outra vez, pensava já no Mimoso. Nas suas andanças de garoto vivia azucrinando ao animal com pedra e chibata, chamava o bicho de “mula burra” abusava dele atrelado à carroça, a de puxar barro; tinha mais condescendência com o cavalo da fazenda; a Mimoso era só paulada. Não se apiedava também dos cães dos pássaros das lagartixas. Todavia apreciava infernizar mais ao burro. Agora era o burro.
          Começou – fato consumado – a se examinar melhor. Os pelos esbranquiçados e ralos no focinho, a beiçorra mole e meio babenta, que horror. Achava um horror. Mau gosto também na dentuça, aqueles dentões amarelentos com riscos escuros, a baba a escorrer, sentiu nojo de si mesmo. Mas que teriam feito de sua dentadura postiça com pontinhos de ouro na frente... ai, dentões horrendos bons isso sim para crocar milho (ouviu, ouviu-se o croque-croque-croque das sementes mastigadas) dentões ótimos para capim (sentiu o cheiro das folhas tenras misturadas à sua saliva) dentões bons para morder o cabresto. Assustou-se de novo: e se viesse a ser machucado pelo metal entrante do cabresto! Espichou o focinho, quase tocou o frio do vidro bafejando a imagem a se ver melhor. Não apresentava sinais de machucaduras e se aliviou um pouco. Não. Assim não dava, melhor afastar-se, fugir dali, quem sabe fugir de Mimoso para aterrizar em João – pensou se afastando devagar. Porém a realidade ali estava gritante, era um burro velho! Olhos...
          Olhou as duas órbitas grandalhonas, teve que ver pri-meiro a da esquerda para depois perceber a direita, não acos-tumado com a posição dos seus novos globos de burro velho. Ficou meio pasmado: eram olhares límpidos pacíficos mansos serenos puros bons, retos.  Era seu ganho nessa perda. Quem sabe não houvera encontrado o ótimo na pureza! Debalde João procurara trabalhar-se ao longo dos anos para ser melhor e falhara todos os dias; quase todos segundos. Não teria chegado seu momento da paz ambicionada, absoluta! Era Mimoso, poderia então ser mais facilmente puro. Daí se transportou para um terreno baldio, o capim era fresco e novo, por volta os moleques soltavam bombas juninas gritavam nomes feios atiravam-se pedras, nessa gula humana para ser gente grande e brigar desfeitear invejar negar, guerrear; pequenas e grandes guerras: sangue destruição poderio traições decepções, arremessões de viver. Ele entretanto olhava pacífico seu almoço nos verdes prados. Não há paz mais completa a um ser como a imagem de um muar pastando tranquilo.
          Sim. Têm as moscas, têm as machucaduras, têm as pe-dras, têm as fustigações do proprietário cobrador. Contudo trabalhara vida inteira, era digno trabalhar – no que modificaria sua pobre rica vida! em nada. Última forma (pensou) agora ele teria de aguentar os desmandos da gente! Indignou-se.
          Que é isso que estão querendo fazer-me, indagou. Sou letrado, andei por escolas e até universidades, ainda mais na escola da existência, com algumas menções vermelhas é verdade, mas também com as azuis e o diploma de cidadão. Todavia que lhe adiantava ser letrado; que seria melhor: um ‘burro’ letrado ou um letrado burro. Não tinha escolha. Por isso voltou para o espelho.
          Olhou-se admirado, examinou aquele focinho comprido e peludo, de um pelo esbranquiçado por velhice, ao menos fosse burrinho mimoso, era Mimoso se lembrou... E as orelhonas, pontudas e enormes! puxa que feiura. Nunca fora lindo, mas agora era um Mimoso medonho, a troca não chegara a ser mais vantajosa. Fizeram barulho lá fora, carros rolando, sirenes, gritos humanos ininteligíveis, a vida morna da gente normal numa segunda-feira normal, ou comum? então olhou-se novamente por seu espelho...
          Tornou ver Mimoso, um Mimoso desenxavido. Quis voltar para a cama, esconder debaixo das cobertas sua vergonha. No entanto, se lembrou, burro dorme de pé...
 Marília   agosto  2001



34° - Como Distribuir Herança
         
          Era um indivíduo conservador. Conservador no seu ser e nos costumes que vinham de umas sete gerações. Aí casou-se conforme estabeleciam os conformes, antes aceitou a imposição do conservadorismo aceitando receber vultosa herança; coisas que ocorriam há mais de sete anos aos herdeiros únicos de sete gerações.
          Num certo dia não é que tenha aderido aos novos cos-tumes mas ocorreu separar-se da cara-metade (questões conjugais ou inconjugais) a cara-metade ficando com metade e o filho, a cara do vizinho, conforme a vizinhança.
          Então, desquitado legalmente, rico com mais de sete fazendas mais de sete casas e mais de sete terrenos por mais de sete vilas, então olhou para outra mulher bela e pura (há mais de sete anos havia mais de sete no mundo). Daí casaram-se. Não é bem ‘casaram-se’ pois as leis exigiam a desquitado consórcio noutras leis de outros países. Viveram bem. Mal se separaram, as leis os advogados e os costumes comeram a se fartar metade da riqueza.
          Ainda assim Setino – que se chamava na pia batismal Setembrino mas descobrira que o seu mês de nascimento não era o sétimo, ou apenas para despistar o setembro ficou Setino – ainda assim milionário, apesar dos pesares. Então se dispôs a um novo casório na igreja verde, verde não era ainda a cor do divórcio, em discussão na época. Sete anos bem, sete mal. Mal percebeu, deixara a mulher, a mulher o deixara antes para não ser deixada. Mas levou metade da fortuna e os sete filhos do casal, todos semelhando as caras de sete vizinhos, isto dito por intriga da oposição vizinha.
          Apesar dos advogados juízes e costumes, ainda permanecia rico, não um ricaço mas bem, conforme o conceito social. Tanto assim que tal beleza macha atraiu certa bela e pura, pura embora maculada por um casamento desfeito e sete amasiamentos posteriores. Uniram-se, felizes. Infeliz ficou Setino, diz a vizinhança que chorou mesmo, infeliz na separação. Aí vêm advogado lei etc.. Portanto separação e divisão. A ‘ex’ herdou metade, o herdeiro de sete gerações ficando com a outra metade, metade sem filhos, filhos que a fêmea da espécie levou com ela para a vizinhança ‘linguarar’ a paternidade vizinha dos machos da espécie por volta na vizinhança.
          Possuía Setino nessa altura não mais sete fazendas nem sete terrenos e sequer os sete casebres nas sete vilas, diziam intrigas serem sete as vilas, sem qualquer comprovação. Controlando uma sétima parte ainda da fortuna herdada das sete gerações. Mesmo assim rico aos pobres na miséria de sete desempregos por mais de sete anos pesando nos costumes. Tanto que foi escolhido por certa mulher bela para que a escolhesse por esposa. Na ocasião já existindo divórcio legal por mais de sete anos – poderia portanto regularizar até os sete casamentos, passados e futuros. ‘Desregularizou’ o matrimônio, perdeu o filho, falavam ser a cara do vizinho do sete ou do setenta e sete, e ainda por cima no por baixo perdeu a esposa. Perdeu ao juiz à lei ao advogado. Ganhou a liberdade.
          Liberdade são sete anos de solidão.
          Aí a herança de sete gerações reduzida a uma bicicleta e sete desempregos; aí Setino sentiu-se atraído por uma bela. Menos de sete anos após se desentenderam pelo desentendimento de quase sete anos. A lei, não tendo lei nem advogado nas pequenas causas – a lei do mais forte imperou. Deixou-lhe uma roda da bicicleta e sequer Setino lutou pela paternidade do herdeiro que não era sua cara. Nem para reaver a consorte já ‘namorada’ do vizinho. Mas também não precisando mais lutar pela herança. Recebeu-a em sete palmos, na quadra sete.
Marília   maio  2006



35° -  Diálogos Vizinhos
         
          Era capaz até de alguém desavisado pensar em exagero no esse; mas não, era e é ainda com esse, se bem que das letras pequenas, átonas para não chamar atenção da atenção. Isto porque o diálogo merece algum trato além do corriqueiro analisar das coisas. Quando alguém conversa com outrem geralmente já falou ou fala ao mesmo tempo que com tal outrem consigo mesmo, baixinho silencioso no além do aquém, às vezes exagera mais e grita mais ainda, gritasse, estivesse a gritar lá dentro fechado hermeticamente a 7 chaves, poria aqui e agora 8 para trancar melhor. Outrem (a pessoa com quem se dialoga) devera fazer agir pensar gritar(!) do mesmo jeito com seu outrem, antes ou ao mesmo tempo do diálogo a se ferir. Portanto antes e ao mesmo tempo à mesma hora ao mesmo instante se falando um, o outro se falando, e ambos num diálogo formal e visível audível para a vizinhança observar. Mas este trato na diagologia (ciência agoríssima criada) o trato não fica nisso não. Não, tem mais. Ora, as pessoas ‘veem’ o diálogo que é o se mexer as bocas.
          Mas esta coisa, diz quem diz ao ver o visto e o analisado aí em cima,  esta coisa é uma loucura!
          Certo este errado.
          Falemos assim do diálogo vizinho, este sim no singular a pluralizar o absurdo. Ele e ela. Ela é bela amarela em sequela ela? ele não sabe, prestando atenção bem mais na voz dela, doce agradável se bem um pouco enjoadinha e soando num falsete. Ele? se é belo amarelo não se sabendo e menos nas sequelas disto, haja vista não haver ‘sequelo’ no vocabulário oficial, se houvesse seria não feio, medonho.
          Olá, bom-dia, ôi, ah, uh, ih, abana-se vizinhamente amiga a mão, uma, não, e o cacófato? certa mão graciosa delicada até no singelo ato de esticar a roupa no varal ali doutro lado sendo graciosa delicada e bonitinha, a mãozinha feminininha.
          Olá, bom-dia, ôi, ah, uh, ih que gostosa! Como vai?
          Vou pras minhas coisas. E se pensa coisas. Escutou que ela não tem mais contato com homem, homem uma espécie terrível cobradora exploradora e exportadora de sementes ao deus-dará, não se livrou de dois partos dos doloridos e os meninos dando agora um trabalhão tamanho, não quer nem pensar diz a bela para outra senhora de sua confiança ali atrás do muro às orelhas xeretas escutarem se disponíveis. Não quero mais contato e pronto. Mas refuta a outra: ele não irá se desesperar trair viajar procurar fêmea! Num tô nem aí, responde castamente. Mas, retoma a chata em conversa com a bela, assim você decreta a falência do lar, logo ele ficará com a filial e...e a matriz!? Responde categórica e peremptoriamente também a matriz da filial: a matriz funcionará, ou melhor: não funcionará mais, funcionará pro forma. Aí se desconversam, falam outras bobagens feminis, os machos sem espécie imaginam ser bobagens desnecessárias as bobagens feminis e além do mais o vento ventava uivava barulhando todo o escutar.
          Olá, bom-dia vizinho...
          Olá, bom-dia vizinha bela gostosa vai indo pras suas coisas por aí?
          O senhor (não têm ambos a intimidade do você e menos a de ‘ocê’) o senhor não tem nada...
          Obrigado pelos informes, mas não cortando a palavra, ocê continua a negar fogo!
          ...com isso, isto sendo de meu foro íntimo e de minha conta.
          Mas, oh minha gostosura, não anda disponível tendo havendo estas orelhas abanado escutas e...
          Falei que não é da conta de ninguém, ninguém inclui vizinho, e ademais são horrendamente feias.
          O quê?
          As cartilagens de abanarem aí, ora!
          10:05h, o ônibus circular já se foi, quer carona, o carro funciona bem, inclusive vou pra cidade e...
          Ora bolas. O senhor é um atrevido. Dedá-lo-ei ao meu distintíssimo esposo.
          Faminto também?
          Distinto e faminto, mas não dei ao vizinho tanta liber-dade nem admito abusos; contarei ao cônjuge e...
          E antes dará uma voltinha comigo, após ele ir inspecio-nar a filial?
          Que atrevimento. É surdo?
          Ahn?
          Perguntei se é surdo, pois não falei não desejar contato com homem nunca mais! ou sua orelha anda absorta ou escu-tando torto?
          Ahn? ah, aceita! vou funcionar o carro, deixo a vassoura aqui na rua mesmo, que importam as folhas; num instante tomo as chaves funciono o automóvel, vamos passear.
          É surdo!
          Ahn. Olá, bom-dia, ôi, uh, ih me esqueci de perguntar à bela vizinha se... ora, se foi; ora...
          Ela lá lonjão: 10:06h.. E abanou simpatia com a mãozi-nha.
 Marília   junho  2006



36° -  Guloseima 
         
          De repente o indivíduo havia já passado a entrada da vendinha, voltou por de repente lembrar-se do prometido ao filho. Acabara o serviço, vinha arreado do trabalho a ansiar o banho o descanso junto aos seus. Mas lembrou-se do prometido doce, um com várias cores mui apreciado por criança; aliás tudo o que for de açúcar menino gosta, mas daquele em especial; e não é que andava esquecendo.
          Entrou no bar, cumprimentou um abanou a outro, tinha gente sentada garrafa de pé cadeira de lado vazia e muita ocupada. As mesinhas sujas, algumas grudando e com cinza de cigarro, uma tendo o revestimento marcado queimado com tocos semiacesos agora apagados. Fumaça cheiro de bebida conversa muita baixa e alta. Alguém se descontrolava na harmonia que exige o decoro e a educação. Entrou no bar, enfim já estando no recinto.
          Participava dos assuntos, que no final das contas não sendo possível lembrar sobre o quê. Sobretudo após mais uma e outra mais doses. Quando viu já não via, via papagaiado com muita nebulosidade misturada à fumaça também dos cigarros alheios. O interessante é que a nebulosidade e a fumaça afogaram igualmente as horas – não tinha mais hora. Horas depois estava no chão. Quer dizer, não saíra do chão mas o chão é que não andava mais firme a se mexer como que a se coçar.
          Por fim os amigos ajudaram, embora não os ouvisse. Dessa forma conseguiu ele chegar em casa, ao que se propusera, ao tão desejado banho e para o tão ansiado descanso entre os seus.
          Com muito jeito foi depositado na cama meio de través, a fim de melhor bafejar e urinar no colchão. Assim dormiu, não já estivesse desacordado, quase que imediato.
          Sequer escutou lá longe uma voz distante e fina de garoto a cobrar sua guloseima. E ainda ganhou bastante em não ouvir os resmungos da consorte; por sinal bem sem sorte.
 Marília   junho  2006



37° - Temporaneidade
         
          Há tempo inclusive para fora de tempo. Sentia-me as-sim, assim que tomara conhecimento de meu conhecimento. Deixara o tédio antes que o tédio comesse o tédio que me co-mia. Não comia não dormia não vivia. Não. Mas eis que houve um basta, desses bastas que não falam ou se falam não se ouve. Tomando a condução, nem vi que abarrotada suados uns outros indiferentes; eu indiferente, como que bastando que não haja. Cheguei. Onde? não indaguei sequer à relva. Era um campo imenso, perdido nos achados em seus imensos; via não tão longe a montanha, verde também, ali numa vista de olhos; a minha relva se acabando no precipício medeando o meu ser o meu solo e o solo em cume da montanha. Não ventava não ouvia não sentia apenas vendo. Escarrapachei-me no chão, me estendi ao deus-dará sem lenço sem compromisso, que aliás não existe no fim da idade, não seja que a tacanhice e a burrice exijam e não era meu caso. Meu caso era caso mas caso não pensado. O que mais desejava, se desejasse embora, o que mais o menos a pensar e temer nem se fale. Mas não me encontrava só; a solidão só existe na cabeça de quem a porte; os outros viviam ou conviviam com todos, sem molestar minha solidão como um bem, sem me fazer mal, por existirmos todos e todos a coexistir. Alguns também se espraiavam por volta, a deixar não obstante em volta a paz. Isso: todos unidos pela paz; se não a conquistada a vivida no momento. Mas que é momento instante tempo. Um dado da paz é a ausência do relógio; é o fugir sem pensar fugir mas fugir sequer pensando no compromisso. Se existia o mundo com sua poluição e sua violência (ah a violência!) no seu ser e nas imposições? decerto que sim esse não. Daí estiquei-me a relaxar para ver se não o todo o próximo: o verde a calma a montanha desde a planície quiçá um planalto de calmaria. E via, via sim. Via mais, a gente a chegar e a chegar. Embora, obstinado no não temer mas apenas viver, embora tal não me envolvi, reforçando-me no ver a natureza a macronatureza que se oferecia a todos. Então ela se aproximou. Terá deixado quem sabe abandonado a gente ou sua gente ou mesmo o todo para ver a se chegar à parte! não indaguei. Sequer conversei, sugado pela paz, pois a grande paz se avolumava no todo e na parte. Eu era a parte, ou uma parte da parte no todo. Ela, após olhar-me sujo talvez dos ciscos e da sujeira limpa de mato, ela deitou-se a meu lado como fora um compromisso-sem-compromisso e demais liberdades às quais se não se prende, antes sente que se deseja. Sorri sorriu sorrimos? não sei. Sei tão só que se iniciava meu começo de minha continuação ao fim que não pedira e que já se impunha a se bastar... O tempo... mas que é o tempo!? Curioso não sabermos o tempo. De minha parte sendo a parte, não sabendo da parte dela, sentia-me fora do tempo e o que mais viesse sendo temporão ou mesmo o absoluto do absurdo. Mas que viria a ser o absurdo? Não sabia não queria saber, sabendo a relva o campo a montanha a natureza o ar a paz a ausência do não-ser. Talvez tenha ela assim igualmente pensado e mais sentido. Chegou-se mais ainda. Ainda mais estreitamos nossos corredores e fizemos só um espaço. E nos entendemos de olhar de sentir de pensar! certamente de pensar. Nos observamos melhor e quando vi, a beijava, sem saber como depois pedir as desculpas que a educação da gente possa exigir. Ela sorriu como resposta; até agradeceu de voz. Aí nos entendemos. Nos entendemos de não lamentar nossa idade, eu tendo vinte mais e mais idade que a idade dela, nem de falar o sobejo por saber repetição de sobejos. Mas aí o tempo fechou seu calendário, sequer despedi-me daquele outro ser, manso belo atrativo; cada um a fugir no seu mundo que é o mundo do mundo, cheio pleno mesmo de poluição e de outros problemas e sobretudo de violência... Violência! a violência a me perseguir. Peguei-me na solidão, agora a solidão era mais profunda e, se medida, sem medida. A infelicidade. Oh a infelicidade. E a conformação da inconformação; só desmanchada quando ela bateu em minha porta, chamou-me com sua voz macia aveludada atraente no ganho da perda que se fizera; e já não mais era. Beijamo-nos, nos acordamos e permanecemos nos plenos e planos que então fizemos. Um dia, já a imaginar a paz sem fim, eis que adoece a então minha consorte-companheira! foi uma reviravolta no ninho que construíramos; mas não mais que semelhante um enganar a mãe por doença. Rimos à pixotada nos nossos enganos; por que somente os jovens podem se enganar? Assim se iniciou a continuação, que propunha a continuação da felicidade; sim porque aquilo era a felicidade sem qualquer contradita. Voltamos à relva ao campo à natureza à vista da montanha à paz. Era a paz. Daí encontramos no caminho a violência... A violência perseguia-me, me perseguindo antes na solidão, durante em espreita na paz e no retorno à solidão! Apenas uma bala perdida nos descaminhos do caminho acabou com duas felicidades, uma bem acabada prometendo e outrinha prometendo e não acabada. Velório flores vazios cheios mundanos e solidão concreta. Eles, ela e a minha promessa, ficaram entre cruzes, mortos, eu morto a seguir a cruz. E deve ser aí, aí nesse ponto, que enlaçam sem se quererem a felicidade e a violência. Em nenhum caso a paz. Não deve ser a paz, em que pesem o tempo o em-tempo e o fora-de-tempo.
 Marília   julho  2006



38° - Mais Uma de Harém                         
         
          Buscou o ponto mais alto do mundo. A si parecia o mais alto. Tinha ao menos mais de metro e meio; e de lá observava qual atalaia o horizonte que se perdia. Perdia-se no pensar. Pensava no ilimitado e aí se parecendo a muitos com os quais não se queria parecer. Experimentou a aragem matinal, o sol nascente surgira apenas e se perdia em nebulosidade. E atirava para o Sultão pálidos raios coloridos; ou, antes, seu multicor é que refletia a cara do sol, este sim um tanto medroso, se escondendo atrás de uma que outra nuvem transparente. Estaria quem sabe o grande astro temeroso pelo poder do enorme sultão!
          Talvez.
          Talvez não chegasse a tanto. Tanto que o macho corajoso olhou do seu pico a avistar seus domínios e a colorir seu ambiente e o sol não chegou notar. Vingou-se o Sultão: cantou uma ária de grande beleza, de enorme penetração, de aceitação universal; e se sentiu o rei do universo. O mandão do maior espaço contínuo.
          Talvez.
          Talvez não chegasse a tanto. Tanto que o macho teve lá suas dúvidas. Verdade que amanhecera disposto, como disposto estivera toda madrugada; ao menos atento no cantar a horas certas a acertar a hora do mundo. Contudo havia um quê de amargura não definida e lá algumas persistentes dúvidas.
          Talvez um talvez.
          Com respeito ao respeito do seu harém?!
          Talvez.
          Não. Não tinha dúvida cantar de galo naquele terreiro. No momento em que os raios solares davam de cheio nas suas penas azuis, dando realce maior às azuis-escuras mas embele-zando as azuis-claras também: se considerava o macho mais macho do planeta e o mais belo senhor. Senhor. Elas cacarejavam felicidade ali espalhadas; e também as de crias novas prenhes de cuidados mas a ninhada alegre: ele se considerava o herói conquistador, lídimo proprietário onde um cucurucu dos menos expressivos já era um tique de mando e respeito. Não. Não cabiam dúvidas. Olhou. Viu seu harém.
          Talvez.
          Viu o harém. Suas fêmeas, belas, bem dispostas, ciscavam ciscavam cantarolavam felicidade. Os meninos aprendiam consigo mesmos a ciscar, ora ciscando em falso patinando ou gastando unhas no solo seco mas alegres. Seria entre eles surgir as mais belas frangas, quem sabe, pois os machos, pretensas concorrências, iam à panela. Sorriu. Cacarejou a gorda carijó, então de penas embotadas, boa para canja. Que importava, não atraía. Por outro lado sobravam promessas, belas promessas nas jovens que haviam sido postas no meio e que fugiam espavoridas das matronas da tribo. Ele, o Sultão? sorria matreiro... Para mostrar seu estado de alma subiu outra vez no morro, a lhe parecer agora mais alto: e cantou mais principescamente!  todos olharam – suas inúmeras fêmeas, belíssimas criaturas, e os filhos, uns invejosos, concorrência ainda a medo, outros mais sem saber sequer candidatos a molho pardo ou ao espeto virando na mostra da lanchonete a ficar tontos e cheirando a churrasco. Ele? o Sultão do pedaço. Desceu.
          Talvez. Talvez devesse descer ainda mais aos escondidos lá pelas cercas no quem sabe. A consagrar limites do harém ou até mesmo a insultar o desavergonhado vizinho que esbanjava ‘curucucar’ provocando atenção no seu serralho. Subiu num não sei que firme e firme cantou sua ária macha predileta, a alcançar de um lado suas galinhas e doutro em xingamento ao inimigo.
          Talvez, apenas talvez atingiu o outro sultão, um sultão-zinho de meia-tigela, o qual feriu o ar com seu despreparado cantar neófito. Ele respondeu outra vez pisando forte o bico no mais alto tom e se vingou machezas por cima das fêmeas que estavam nas imediações. Mas havia outra dúvida...
          Talvez outra ainda mais séria. Andava um pouco rouco e as meninas não acorriam com muita disposição ao seu cha-mado. Precisava mais com frequência ciscar e engambelá-las fingindo grande descoberta, fosse certa minhoca ou insetos gordos para atrair a ingenuidade das esposas. E aí... Bem, era necessário perpetuar a espécie. Todavia passava por uma outra dúvida.
          Talvez não tão profunda. É que muitas de suas penosas ficavam de sobreaviso, como se o Sultão não passasse dum gaviãozinho predador. Fugiam ou não se dispunham em ver se ver minhocas ou insetos na descoberta sultônica. Mas a pior.
          Talvez fosse a pior dúvida do Sultão: havia um rapazote se candidatando a sultão! Dera-lhe aquela canseira; depois cantara efetivo sua mais escolhida ária. Não obstante necessitava cantar até nas horas não sendo hora por ser hora do frangão... E outra, pudesse haver pior.
          Talvez mais flagrante: o concorrente corria dele menos, mais e mais ouvido pelas fêmeas do grande Sultão, encantadas. E por cima, nesse por baixo, ameaçava o pretendente cantar sua própria ária no ponto mais alto do terreiro. Foi aí que surgiu a oportunidade de maior intensidade no mundo do talvez.
          Talvez por impensável ao Sultão. É que circulava nas aparências a aparência duma festa humana, casamento ou coisa que o valha. Ele velhote rouco desprestigiado; e tinha como ameaça uma panela de pressão a esquentar...
          Talvez devesse mostrar gabarito e mando a desfazer dúvidas. Subiu no posto ao ponto mais alto do mundo e cantou. Cantou e engasgou, talvez.
 Marília   janeiro  2003



39° - Pescaria de Arromba
         
          Isso eu digo para quem conheça o assunto, aos mestres na arte. Estaria falando grego aos desconhecedores. Digamos haja uma verdadeira confraria; eu falo a iniciados; porque conheço de peixe. Toda minha gente conhece.
          Minha turma talvez não saiba saborear suficientemente os frutos da água; mas sabe, que eu sei e não discuto, sabe é pescar; isso realmente sabemos.
          Sexta-feira dia treze estávamos reunidos outra vez para mais uma de nossas viagens. Além do Tonho, do João, do Pedro (nosso azarão definido) do Antônio Preto, também chamamos a compor nosso exército o Sakamoto (dizem, os nipônicos são os melhores na arte da pesca) e um fulano apelidado Belinho, com grande probabilidade de nem ele conhecer seu próprio nome. Nenhuma pessoa mais. Somente os seis. Minto, estava esquecendo somar o pescador mais importante, eu. Sete homens portanto. Não se venha com a gasta conversa da conta de mentiroso, pois é mentira. Sete.
          Nossa turma se reune três ou quatro vezes por ano a exercitar sua arte; como aconteceu na sexta-feira dia treze. Nesse grupo não temos mais que dois solteiros: o Pedro, o qual nunca achou par e eu, celibatário empedernido. Dos casados somente o Tonho e o João necessitam dessas viagens de recreio a fugir da fúria conjugal (as más línguas trituram suas excelentíssimas esposas). Porque os outros membros são de uniões mansas e puras. Todos os afiliados da nossa confraria pesqueira têm crianças, inclusive nosso Pedro, tão azarado que o juiz o obrigou pagar pensão à prole. Eu, um caso à parte, não devendo confessar herdeiros...
          Na sexta-feira treze alguns estavam constrangidos por deixar os seus e seus compromissos. No entanto a maior parte fazia coro alegre pelo tão esperado acontecimento: uma pescaria é o maior acontecimento a um pescador cônscio.
          Nosso preparo ao dia treze foi notável. Chegamos a planejar, como nunca ocorrera, o percurso as etapas e até os possíveis problemas da viagem de férias. Alguns aficionados tiveram pela pescaria atritos no emprego, um – o Pedro nosso Malasartes – chegou a ser despedido. Enfim apararam-se todas arestas contornaram-se problemas. Eis-nos a caminho.
          Aliás não sem grandes encrencas. A caminhonete dirigi-da pelo Pedro Azarão quebrou-se; posteriormente consertada numa oficina na beira de estrada; depois acabou sem combustível pelo tanque furado. Probleminhas.
          Íamos em três veículos. Além do calhambeque do Malasartes, o meu cansado fusca e também um caminhão alugado pelo Antônio Preto, o qual levava a maior parte da tralha – geladeira, comida, farmácia, ferramentas, encerados, fogareiro, gás etc. e mais etc., necessários a uma empresa como nosso comboio. E é claro varas anzóis espinhéis samburás e miudezinhas úteis quase sempre inúteis. Um aparato medonho e respeitável, de estourar os pneus.
          Com toda essa parafernália preparamos nossa viagem. Para tanto usamos uma ensebada lista de outras pescarias, a qual foi guardada como relíquia pelo João, indivíduo minucioso e organizado. Como sói acontecer a todas as viagens desse tipo, nos esquecemos de alguma coisa importante. Dia treze, a sexta-feira, nos esquecemos de anzóis para jaú, fato até sem importância dado que não existem jaús por onde temos pescado; além do mais foi esquecido igualmente convidar um tal de Francisquinho, o qual deveríamos chamar por saber mais mentira que o costumeiro no métier, promessa da viagem anterior para a próxima que seria em treze sexta-feira, que também virou passado. Ah, nos esquecemos igualmente dos remédios contra picada de serpentes, mas tivemos sorte de não encontrar cobras.
          Em nosso preparo ainda obedecemos instruções dos cozinheiros, não só na escolha dos alimentos e conservas mas até no cardápio e mesmo no tamanho e quantidade das panelas e utensílios; sendo o Antônio Preto um desses cozinheiros; e o mestre-cuca registrador destes fatos o segundo ‘queimador de latas’ a dar palpites, mui desaprovados por pescadores e não pescadores.
          Em nossa organização um capítulo à parte foi o das be-bidas, nas quais todos, mesmo os convidados e novatos deram opinião e até lições... O caminhão (um antigo International KB-7) quase não podia com tanta carga líquida, onde a caninha teve um papel fundamental! Curiosamente o Sakamoto não levou saquê e portanto não destoou de nós outros membros efetivos.
          Ah, andava esquecendo falar sobre os repelentes; a nin-guém é dado ficar impune na beira do rio, infestado de perni-longos. Se bem que mais usamos óleo de comer e nos valemos de pneus velhos, incinerados noite inteira a exalar cheiro e fumaça contra esses desafinados cantores... Mas levamos também os repelentes vendidos na farmácia (o japonês tinha, tem ainda, uma na Praça da Matriz; o que facilitou a tarefa).
          Enfim no dia treze estávamos para o que desse e viesse. Todos com alegria imensa, algazarra mesmo, aguentamos bem um dia inteiro no asfalto quente pela estrada na direção de Mato Grosso; depois entramos realmente em Mato Grosso do Sul, pernoitando em Três Lagoas; depois ainda nos embrenhamos dias e dias pelas estradinhas poeirentas rumo ao Rio Inhanduí-Guaçú, local em que acentamos praça. Enfim chegamos ao ponto combinado; ou seja as três conduções de exímios pescadores se encontraram.
          No dia quinze tínhamos já condições a pescar ou a iniciar nossas atividades; não tínhamos era condições físicas para tanto – o cansaço a ânsia pela maior pesca que realizaríamos e um acidente com o Pedro (escorregou se esfolou bem) – forçou o grupo ao descanso. Noutro dia e por mais de semana executamos nosso planejamento pesqueiro de alto gabarito.
          Quer dizer, não executamos inteiramente o plano. Po-rém nos dispusemos totalmente às nossas lides. Comemos bastante, que o apetite ‘enormiza-se’ ao hálito da mata e do rio. Tratamos de nossos afazeres incontornáveis como o preparo da boia e a arrumação do alojamento. Mas sobretudo bebemos pra valer, somente um colega tomou um pileque dos bons. E, é claro, pescamos; pescar era nosso principal mister. Linhadas redes anzóis até experimentamos pescar à moda índia, sem falar das técnicas modernas; entraram em jogo molinetes carretilhas etc. e tal. Enfim o que mais fizemos nesse tempo na beira da água, além de beber muito comer bastante e contar lorotas – o que mais realmente foi pescar. Gastamos muito tempo, gastamos nossas economias (alguns dos nossos empenharam salários na empreitada) tudo com o objetivo de pescar. Nos deslocamos de nossos afazeres, fugimos de todos nossos dramas e até deixamos alguns compromissos pelo compromisso da pescaria.
          Pois bem. Sete homens fortalhões e grandalhões, pescadores por definição, por esforço de muitíssimos dias empregados – apenas conseguimos pegar um lambari. Todavia perdemos muitos outros peixes. Talvez pela chuva ou a falta dela, ou pelo dia treze, que todos sabem é o do azar.
 Ribeirão Preto   dezembro  1994



40° - No Paraíso
         
          Para chegar ao céu ter-se-ia que sofrer nas profundas! Essa questão eu punha em pós permear pensativo partes no percurso na pista pobre poeirenta da estrada. Era o chão inóspito a poeira a secura o sol escaldante, a ausência de uma só árvore para aliviar o cansaço de horas; horas? nos parece a eternidade quando vencidos quase nas forças. Outra da mesma coisa: haveria necessariamente preâmbulo para contento dum esforço!
          Bem. Era um preâmbulo o inferno por que passara (ou ainda ardia no fogo eterno...) Fora indicado a ocupar um cargo qualquer, quem sabe de chefia a atrair ciúme e ódio mal difarçados; um qualquer sim pois à distância toda posição se desfaz. Quando cheguei à sala indicada pelos que me indicaram, cheguei quase sem ser notado. Mas havia de fato um mal-estar entre meus iguais por semelhança. Uns conversavam pouco e baixo, outros nem a isso se entregando, dispersos ou juntos como que longe do ambiente. Estavam em greve não sei por que e isso me atingia sendo eu novato. Sequer achava como sentar-me entre os semelhantes tidos por iguais, me diferençando acintosamente; indiferença; isso, indiferentes ao meu sofrer à timidez dos primeiros momentos. Deveria – pensei mais tarde já na estrada da entrada para a saída – deveria ter-me dirigido antes ao diretor do estabelecimento, não obstante a paralisação e a má vontade dos funcionários, mais funcionários que homens ocupados a se desocupar. Mas não fi-lo, ou por não saber dever fazer ou por acúmulo de gente a aguardar o atendimento da chefia. Ora... custar-me-ia certamente menos aborrecimentos. Então andavam de cá pra lá de lá pra cá, nem me ofertavam cadeira. Sabe-se bem como o sentir quando sentir se não aversão indiferença. Ou é que não me enxergavam! é possível. Desisti.
          Não desisti da colocação, haja vista o desemprego que grassava em redor, mas deixei de lado naquele momento as investidas para granjear depois a amizade, ao menos a aceitação sem ofensa. Constrangedor enfim. Por fim decidi deixar o ambiente, noutra oportunidade deveria ter melhor sorte, noutro dia por exemplo. Pus o pé na estrada.
          Mas havia outros percalços a passar. Novo na região, sabia tão somente a direção da cidade, donde partiria depois de volta ao meu lar distante também, a dita cidade distante menos distante. Perguntei, após vistoriar a paisagem próxima, o caminho. Mas por todos lugares em que estive igualmente a indiferença: todos perdidos nas suas coisas ‘desvendo’ outrem, por azar meu o outrem sendo eu. Ninguém a me informar direito; ou pior: dando errado ou vagamente os dados. De maneira que cheguei a imaginar-me o objeto certo dum incerto complô. Porém me salvei, pensei estar salvo, salvo sim no meu orgulho. Disse a mim mesmo claramente: você pode encontrar muito bem o caminho com seu senso de direção; é seguir sua vista.
          A vista mostrava a vista, ao longe carros a se deslocar na estrada principal, pequenos na distância, mas concretos no movimento. Era alcançar esse objetivo para depois o objetivo da urbe estranha.
          De fato ela estranha, estranha toda região em torno, so-bretudo nas imediações onde me deslocava no meu andar lento mas cadenciado.
          Pé na estrada. Aqui entro no caminho, deixo o caminho preambular e adentro mesmo o do paraíso.
          Andava horas, horas! que são horas, pedaços inconsis-tentes da eternidade!? Cansado, sedento, suarento, o sol a pino, ambiente arrasador num deserto, pó cor-de-terra e hálito de poeira. Ainda por cima, devendo sê-lo por baixo, carregava um volume desajeitado, pois toda carga é desajeito a sobrar nas nossas necessidades. Cada grama do volume era talvez um quilo a me afundar os pés na areia quente e seca do solo. Pesávamos chumbo, eu e minha carga necessária ou desnecessária. Olhava à frente para ver o ganho de trás; olhava e via o longe mais perto, os veículos a passar a ranger seus motores na via almejada, aquela a chegar quem sabe na estrada estranha da cidade estranha a tornar posteriormente ao lar ao leito ao meu ambiente.
          Esfalfava-me, me entregava!? sei lá. Talvez não supor-tasse mais horas, horas! minutos segundos talvez. Nisso ela parou.
          Era um automóvel sujo da poeira, senti inclusive o cheiro do combustível e ouvi o frear. Gritou-me. Cheguei perto. Convidou-me.
          Mas havia um drama aqui dentro. Preciso carona? me respondia sim, mas orgulhoso dizendo que não: facilmente chegaria à autoestrada e à via de salvação. Ela convidou-me...
          Entre. Levo o amigo ao paraíso.
          Como crer. Porém crer sair deixar fugir daquele sofrimento – o cansaço o suor o lugar estranho que me cercava; isso não seria um bom alvitre! Entrei no carro.
          Sorriu-me a bela. Era a mulher mais bonita que toda minha solidão havia flagrado. Repetiu me levar ao paraíso, aceitei o convite, subi no veículo, fechei a porta, se deslocou manso de início veloz a seguir e sumimos naquela paisagem.
          Esclareceu a jovem que me perdera, sobejo isso pra mim; que tomara a direção oposta, pois a estrada oficial fazendo uma curva e eu a pensar indo ao leste viajara para o sul, perdera meu norte; o que uma verdade, anuí. Chegamos.
          Era uma fazenda de imensas terras. Sem vegetação. Es-tranhei. A gente era uma gente estranha quieta ou silenciosa, a montanha andava ausente, parecia certa mansão perdida entre a paisagem desértica, sequer iluminada do sol. Achei esquisito. Ela entretanto desarmou meu temor.
          Você... gostei de você. Será meu companheiro nestes tempos, enquanto viver no paraíso... Quis estrilar, pedir escla-recimento, me tapou a boca: experimentei muitos homens na vida, nunca me deram a alegria da maternidade! Espero nosso filho, amo-o como meu par e genitor da criança. Por isso ofereci e oferto o paraíso, ao seu bom viver. Logo me apresentou à peonada, ao chefe dos trabalhadores como sendo eu o novo ‘patrão’. Se alegraram os servidores, meio desconsoladamente; enquanto o chefe tentou sorrir-me subserviências. Ainda estava mudo pelo inusitado, quando a companheira me enlaçou empurrando me puxando aos nossos aposentos, a fim de gozar o paraíso.
          Sim foram momentos paradisíacos, segundo a compre-ensão humana. Quase me sentia inteiramente feliz. A mulher bela, dócil, amor integral; logo a criança, a inocência e a alegria infantil a pular em nossa volta. Por... Horas? que são as horas na eternidade!
          Um dia, após tanta eternidade, estávamos no limiar do desconhecimento. Era linha a separar, dum lado a falta de sol alegrada pelo sorriso da companheira e o matracar do filhinho; e doutro o mormaço o escuro o desconhecido além da área do paraíso – quando ambos, a esposa o menino, ultrapassaram a barreira pra lá me deixando pra cá, embora me convidando ansiada ela que também eu mergulhasse a linha. Nessa altura...
          Vi a mulher se desfigurar; igualmente o garoto. Ela se ransformava da bela na velha numa decomposição! seus cabelos se eriçavam, seus olhos vermelhidão, suas ventas a verter fogo fumaça força! horrorosa no desfazer. Nossa criança se agarrando à mãe, também a se desfazer horrendamente. Se apagaram no nada.
          Nada obstante, eu me encontrando na estrada na poeira no suor no cansaço na beira do caminho – em pleno deserto, entre quem sabe as profundas e as profundas do paraíso.
Marília   maio  2006



41° - A Conquista de Júpiter
         
          Calculadamente ou não, não tem importância neste momento, o fato é que o jovem e grande país, por ser grande ou apenas por ser jovem – pretendeu conquistar o maior entre os planetas do sistema solar. Podia bem contentar-se com a Lua ou com uma das luas de Júpiter. Entretanto seus técnicos optaram por Júpiter inteirinho! A bem da verdade ou tão só a esclarecer, se optasse Lua terrena seria de péssima escolha; como alguém desejar casar-se com uma pequena não virgem no tempo do Império. Isto porque a Lua já havia sido visitada por astronautas americanos em 1969, sendo que os ianques fincaram a bandeira dos Estados Unidos, e mostraram o feito na imagem de tevê. Enfim era nação jovem e grande, com pretensão a tornar-se potência, mais que isso: grande potência! Essa não poderia aceitar conquistar algo aquém de suas grandiosidades. Donde Júpiter o escolhido.
             Diante do que foi exposto, feriu-se uma discussão acelerada por todos meios mundanos sob o tema: Amorfasil conquista Júpiter!
             Conversa acalorada, a participação da imprensa sempre comprometida, entrevistas nas emissoras de rádio pra ver a tendência do povo, o blá-blá-blá dos politiqueiros em discursos intermináveis, bem como a burocracia carimbando e assinando papéis concernentes, empresas contratadas pagando dividendos ao capital estrangeiro pelos royalties verificando as possibilidades técnicas e financeiras, os militares estudando os lucros logísticos da missão, tudinho amparado na informática, a qual acionou todos os computadores nacionais, tomando emprestado ainda (e pagando dentro da dívida externa, que era então a moeda corrente dos países pobres) os dados estrangeiros, sem deixar mesmo de contar com os satélites espiões alienígenas; e ainda sobressaindo-se envio de estudiosos às escolas de outras nações, as quais forneceram algum curso astronáutico e muitos diplomas siderais a preço módico. O Grande Estado a viver a missão a Júpiter! Quase deixou o amorfo para formalizar a conquista. Dir-se-ia sem medo de errar da importante participação popular – a gente se preocupava vivia sonhava Júpiter, como fosse possível aos mais de cem milhões acompanhar dentro do foguete a Missão. Via-se a todo momento o povão de radinho de pilha japonês ouvindo o noticiário de Júpiter. Ou a gente do povo vendo nos bares ou nas praças nuns telões ou que fosse a dona de casa e a família assistindo novelas televisivas e vendo ‘edições extraordinárias’ sobre Júpiter. Na escola os programas foram mudados em função de Júpiter. Os centros de saúde deixaram sarampo varíola sífilis ou aids para cuidarem a preparar o homem da rua a suportar viagem para Júpiter. O dinheiro, que uma enquete anti-inflacionista propunha se mudasse para dólar de uma vez e deixasse de meios termos, esse dinheiro nacional, a população sempre sem dinheiro, passou a chamar-se Jupiteriano, tendo a efígie do planeta Júpiter com uma bandeira plantada tremulante de Amorfasil! Um plano de alfabetização – havia cerca de cinquenta milhões de fregueses ao plano – estabelecia aprender a leitura partindo da palavra Júpiter, usando-se chaves como ‘conquista’ ‘missão’ ‘grande potência’. Todo mundo entusiasmado. Nas províncias os tiros de guerra em guerra marchavam no estilo jupiteriano. A hora, agora não era hora mas super-hora, muito maior porque baseada nos movimentos de Júpiter, influía na produção: fábricas fazendas repartições tudo se media pela medida de Júpiter. E quem sabe se não se estivesse produzindo mais! A diversão, fossem jogos shows preleções filmes apresentações, tudo agora em ter conotações jupiterianas e portanto sendo mais belo. As vitrines desde as de brinquedo às de moda eram amostragens de produtos de influência do grande planeta. Os governos se sucediam nos blá-blá-blás cultos e ocultos sobre como conquistar Júpiter, de que forma seria a forma da bandeira a afixar na superfície do longínquo dependente do Sol, então dependente de Amorfasil. 'Burrocracias', computadores, cursos, discursos, apologias, despesas, postos, impostos a aumentar. Um povo feliz um governo feliz um país feliz jovem grande forte conquistador! Júpiter à espreita.
            Não existe nada mais poderoso que uma vitória.
             A vitória de Amorfasil na conquista de Júpiter. Sua bandeira tremulando, para dar ao planeta o recado de grande potência interespacial.
             Havia entretanto um senão. É que as comissões e sub-comissões para estabelecer a Missão a Júpiter nunca chegavam a acordo, sequer a dar base ao mais simples voo de aeroplano, que se dizer a observatórios foguetes e logísticas. Nunca chegavam.
 Ribeirão Preto   novembro  1987

42° -  Como foi que uma Fêmea Ensinou ao Macho
 Nova Posição
            
           Não que seja mérito meu descobrir tal fato; porque não foi este escriba quem tenha inventado uma nova posição... o que os homens pensam ser papel da mulher, eu também penso, somente ela tem aquele jeitinho todo feminino para ensinar aos homens o que os homens deveriam já saber fazer mas realmente não sabem.
              Chamava-se Joana. Mas isto é um senão, poderia se chamar Doroteia ou Maria, dava no mesmo. Chamou seu João, “seu” pra mim, para ela apenas João porque eram íntimos; aliás ver-se-á ao longo desta curta narrativa eivada da melhor prolixidade, ver-se-á portanto que eram íntimos, íntimos até demais, fazendo coisas que você, leitor, poderá condenar...
              Enfim chamou o pobre homem (pobre no sentido ser ingênuo em tantas coisas, em coisas de amor por exemplo) assim estreitou-o nas malhas do seu encanto... (perdão, leitor, não vou pôr mais reticências porque qualquer ledor mediano tem obrigação de adivinhar o que os mequetrefes da literatura põem no papel, mesmo findando sem findar o pensamento por um ponto final). Ele? veio, foi a ela, como que um patinho, aqui nesta estória o pato João, todavia sendo gente, você entende. Aí se chegou a ela, apreciou-a deveras, o que não era para menos; ela um desses femeões que nos fazem parar na rua ou pelo menos virar o rosto na sua direção, indo para frente mas cheirando seu corpaço feminil que se cruzou conosco indo no sentido contrário; o que não é ainda um mérito meu, os outros homens também olham gulosamente para Joana. Desse tipo, um ‘tipaço’, convenhamos! Mas voltemos ao pobre João, aqui eu me esquecendo dele, ele quem aprendeu uma nova posição, uma posição que só as mulheres conhecem e ensinam aos homens de bom grado e com muito prazer... muito prazer mesmo. Então, o homem veio a ela:
             -- Oh Dona Joana, a senhora me chamou? Ela res-pondeu que sim. É claro pensar-se que bem próximo no futuro, digamos uns dez minutos mais tarde após o chamamento dela, eles já não se tratassem por “senhora” e “senhor”. Quer dizer, ela o chamou de imediato: “João, vem cá um instante” e ele veio sem cerimônia, feito um cachorrinho abanando o rabo (cauda mesmo usam os mais civilizados, eu sou apenas um escrevinhador chão, não me propus a ser um gentleman, voltemos ao rabo do João, um João bem brasileiro; explico-me: tem uma vizinha aqui na rua Cuiabá, do 444, eu estou no 436, ela pôs no seu cão o nome pomposo de ‘John’, que a família grita a todo momento “Jôu” num belo inglês, quem sabe se não para ofender o João vizinho dos fundos, não o João do rabo caidinho, se admite, pela Joana, a gostosa; voltemos ao rabo que é a cauda de nosso João:)
           -- Vou ensinar a você uma coisa... – silenciou Joana ao João todo enrubescido, falando ela baixinho ao grandalhão rapaz. Abanou felicíssimo o representante macho da espécie Homo sapiens, já devidamente erectus e sabido, embora sem saber tudo sobre posições que somente as damas experientes, mui bien experimentadas, sabem – abriu a ela todo ouvido, mesmo porque havia tomado um banho e limpo bem as orelhas grandes, que não ficavam mal ao tamanhão do seu corpo. Corpo franzino belo frágil forte no seu feminismo joanesco, ela, a Joana, falou e mais falou, como uma professora: ensinou a ele no portão de sua casa, ela que estava só, seu marido tendo saído trabalhar... mas depois disso atraiu a pobre vítima que pretendia ser mesmo vítima, seu íntimo gritava na consciência lá dentrão como seria ótimo ser possuído por uma bela tão bela possuindo ele a moça, no entanto isso ele não falou a ela, ela foi quem o chamou ao portão depois o levou para dentro sob o pretexto de pedir-lhe um favor. “João, um momento, preciso de um favor seu, você pode vir comigo ao fundo aqui de casa (ordenou-lhe) e depois eu ensino a você uma posição diferente...” quase engoliu a língua o homenzarrão, estivesse ele falando, ela é quem falava, ele apenas assentiu com a cabeça e entraram para dentro.
            Depois que João fez o favor à Joana, ela como prometera ensinar ensinou a ele como abrir o envelope de imposto de renda, sem rasgar o papel interno, sabendo-se como os caixas bancários são exigentes. Porque os homens grandes geralmente são desajeitados, as mulheres pequenas frágeis lindas como era o caso de Joana costumam ter um jeitinho especial para abrir cartas. Enquanto eu que andava até aqui escrevinhando esta estória, fiquei de tal maneira chateado com o estúpido sujeito, que não terá aprendido nadinha em a nova forma ou posição para abrir um documento, que resolvo mesmo encerrá-la. Pronto. Ponto.
Ribeirão Preto   junho  1987



43° - Fia de Mãe!
         
          Acorda Vizinho... acorda vagabundo. O vento parou a madrugada seca, seca a quem passeia. Ele não passeia, ela se recompõe. Ele bate escandalosão portãozinho acorda os outros ferrados no sono funciona o carro sai vai vira some aparece o outro. Entra na casa entra no quarto entra nela, ela funga sua, abençoa? Chora, a menina soluça noutro quarto, grita a mãe a mãe grita com ela, pára para voltar chorar, não impede mas quebra a poesia da cama; o outro não pensa assim, quer povoar o mundo, ela esbraveja a filhinha ele é o vencedor, vencedor não põe tais questões e se basta e sai no vento que recomeça, bate o portão agora é sua vez a ofender a rua, pé na estrada; chega a moto, o outro não vê o outro, entra possui, importante ao gênero possuir, ela funga responde amor, a filhinha choraminga enerva exige, ela grita debaixo mas ele é o general na batalha, a garotinha grita chorosa a mãe, a mãe se escapa vai vê-la, prometer chinelo, o filho crescido fecha olhos fingindo dormir acordado na experiência, mas a irmã abre a boca; acalma a cama de novo, recebe assopra carinha, ele se considera o proprietário do mundo, sai pra rua beber a madrugada voltar à esposa, ela se limpa e xinga a filhinha; não completara a higiene o outro desencontrou da moto entra no lar entra na alcova entra nela constrangida, agita briga sua funga bebe aspira sorri finge: nova vitória da espécie positiva, a menina negativa o choro, a mãe corrige grita promete, completam; sai ao vento na noite querendo dia, alguém já esperando – os cães a cadela a mulher bela jovem mãe, manhosa a pequena; vai, cobre, impõe o dormir, o mais velho se faz no sono, experimentado; volta aos braços avassaladores, agora é ela não a filhota quem grita, range absorve beija impõe apanha, o macho se limpa rápido e volta à via pública: funciona um carro, o carro morre, xinga, batera o portão agora bate o veículo, o veículo pega, vai rateando sobe a esquina foge à família lá longe, fica a calma no pedaço, ela se limpa briga com a mais nova chorona olha em alerta o mais velho ressonando, volta à cama dormir, colchão também serve para descansar... mas outro entra à sorrelfa invade, invade agita bombeia enche se satisfaz e ruma a seu rumo ignorado ela suspira, aspira aquela mistura macha feita de cheiros e líquidos com milhões minúsculos de exigências e primazias; e quem sabe goste. Parecia descansar relaxar dormir, o galo avisando a hora. Desce o escuro na consciência, apaga antes apagada a luz e espera amanhecer. Acorda a chorona, põe o filho pronto à escola, leva a pequena à babá, perdida a primeira condução tenta o segundo horário de ônibus a enganar o patrão na loja; deixa a filha se esgoelando antes, antes ralha com ela não havendo chantagem que funcione, e sobe no coletivo e vira e some. Sem desaparecer. A babá dá lá seus petelecos na zinha, ela agora não chora mas soluça baixo educada. O povo na rua passa cruza grita compra vende chama e não sabe de nada. Mas ninguém sempre nunca sabe de fato alguma coisa.
Marília   setembro  2002



44° - Um Jogo
         
          Fumaça cigarro cinza mesa queimada cartas ensebadas e marcadas toques olhares sinais pontapés – o truco condicio-nando as mentes de caras surpresas e gaiatas. Lume de quero-sene atirando poluição às narinas, formando aquele grude in-cômodo; cheiro de café lá na cozinha. Um galo gritando longe outro respondendo perto, o vento penitente assoprando o calor da madrugada, o Leão assustado latindo sem parar. Os gritos.
          Gritos na casa pobre, as crianças sonhando com brinquedos e guloseimas, as mulheres fazendo pipoca e café. O tio entre homens é quem mais berra. Vencer no grito, o lema da jogatina da malícia.
              -- Truco seis, papudo!
               Tudo bem no jogo caipira, no milho estalado na co-zinha. Bagunça de festa sem criança, esta já dormindo desde o bafejo da meia-noite.
               -- Dá o pé, lôro...
               Sinalzinho safado, um lance de malandragem no jogo ladrão onde o roubo é mérito. Piscar à esquerda: “tenho o zape” o quatro de paus escondido; soar o nariz: “vou cantar”, linguagem dos olhos, expressão, a mímica a serviço da trapaça.
               -- Deu espadilha; passa Leão, vai peidar pra lá!
               Os outros reclamando, o Beto o Pereba o Tião a torcida inteira em volta da mesa.
               -- Pode cortar as cartas, ladrão.
                Elogio.
                Muitos comentários gozações desencontros brigas rivalidades, ladrão por elogio. Pés no chão, sapatões caboclos. Nenhum lera “La Art  Del Truco”, de Borges.
São Paulo   abril  1978



45° - Conchavo na Cúpula
         
          Naquela tarde era cedo. Muito cedo por sinal a grandes empreitadas; isto porque o partido da gente ganhava, ganharia com certeza a eleição. E de fato ganhou mas não levou: os da outra agremiação, esses, eles fizeram sujeira, investiram na baixaria; não apenas desejando enganar o zé-povinho, visto honestos e íntegros querendo somente o poder. O fato é que na contagem dos votos os mortos não decidiram mas aconteceu dos vivos, vivos, somarem mais de uma vez na votação. Que não tenha sido bem assim, assim mesmo não ganharam nem ganhamos, ganhamos só no empate, que é quando os nossos não ultrapassam a maioria com maioria, quer dizer: o absoluto. Os juízes não quiseram ouvir o bate-boca formado nem leram decerto a papelama de nossa defesa, que era ataque; indeferiram e tivemos de prosseguir em campanha, para derrotar de vez a canalhada. Por isso houve o segundo turno ao aperfeiçoamento da arte do desaforo e a coisa pegou feio. Semelhante o partido deles, os sem-vergonha sem escrúpulo, pois num visar os fins (a eleição) por quaisquer meios – semelhante, nós decidimos buscar apoio político junto a outros pequenos derrotados, pagando os mesmos com favores às custas das burras oficiais, sempre rechonchudas e mais rechonchudas estão agora com o auxílio dos sem nenhuma vergonha e sem nenhum escrúpulo que ficaram no poder a enricar as burras aumentando impostos e taxas sobre a população. Não obstante essa decisão a receber os pequenos fracassados e ainda ter de pagar posteriormente com a receita das burras de governo, não obstante vários correligionários nossos não aceitaram quase a soma nessa subtração. Enfim, como todo voto multiplica as chances de ganho, selaram esses correligionários um acordo com tais politicoides. Em resumo, celebramos na alta cúpula dos nossos o acordo. Apesar da ca-pitulação dos aliados ao princípio democrático dos nossos, houve muita ruminação e falatório na discussão interna. Uns perguntavam se o compadre tal, tal não era o que roubara antigamente gado... se entre os apócrifos não havia os que contratavam jagunços para impor propriedade na propriedade alhei-a... se não era um deles o coronel que fora flagrado estuprando a menina da empregada... se não tinha pelo menos dois que se apossaram de bens públicos quando prefeitos... se não havia muito corrupto entre esses ‘adeptos’ novos velhas raposas e tudo o mais. Mas nossos maiores não sabem até agora contas de menos e de dividir, só aprenderam em criança na escola as de somar e multiplicar. Disseram aos membros do partido presentes que o coronel se emendara só bagunçando atualmente com as mulheres de vida fácil; que os ex-prefeitos não foram condenados nunca, nunca houve prova, inclusive ajudando os mesmos a paróquia; que as propriedades apropriadas, antes eram roubadas e griladas valendo o princípio do ‘ladrão que rouba ladrão mais de cem anos perdoado’; que os demais, semelhando mesmo abusos políticos e econômicos do forte contra o fraco, mas se ponderando que no partido da oposição – os sem-vergonha e sem escrúpulo, quase ganhando de nós dando empate técnico e novo turno – se ponderando assim com eles ou seja: serem mais ladrões e corruptos ainda, santificando santificados os novos apoiadores de nossa causa santa. Por fim houve realmente o segundo turno. Os juízes, certamente corruptos, impugnaram tudo. Dessa forma agora os nossos a precisar fazer no futuro mais campanha, gastar a língua e os palanques, arranjar ainda mais apoios mais sólidos – a impedir que o partido deles chegue ao poder numa nova luta e vença na votação. Isso contando que os juízes, talvez aconchavados com eles, não impugnem outra vez o pleito ou chamem outro ditador para democratizar.
Marília   outubro  2006



46° - Estória Nova
          
          Põe Tonho, põe um trago para o amigo aqui, outro pra mim. Essa vida é um buraco, amigo. Eu amava a mulher, sabe que se chamava Júlia? Então. Aí ela arranjou um veadinho e fugiu com ele... eu tomei uma e depois outra... Levou o caçula e o do meio, me deixou só o aleijado, tadinho. Aí tomei outra, porque só bebia socialmente. Depois internei ele. Ele? é o aleijadinho. Não podia trabalhar e cuidar de menino. Aí o patrão me mandou embora. Trabalho sim, só biscates, o Tonho é testemunha, não é Tonho? até comecei a beber. Mas não deixo a bebida me beber. Não deixo mesmo.
            Põe uma dose ao amigo. É... isso. João, o amigo João. Essa vida é um buraco, não é? é João? Amava a esposa, sabe que era Júlia? Loira assim. Então um veadinho me levou ela e duas crianças. Vai escutando, essa é pinga da boa. Só ficou pra mim o aleijadinho. Aí internei ele, ou não trabalhava direito, mas não sei quem intrigou e fui despedido. Foi então que entrei na bebida. Hoje bebi um pouco, mas não deixo ela tomar conta de mim, não é Tonho?
            Põe um traguinho aqui para o... ah é Antônio... seu xará aqui Tonho. É da boa não é; eu apostava bastante na Júlia, amásia mas era como esposa. Aí fugiu de mim. Sabe Antônio, fugiu com um veadinho todo perfumado... ainda levou minha pequena que era tudo pra mim e o do meio, deixou um com a perna estragada. Que eu podia fazer, internei ele para ganhar o pão. O bandido me mandou embora e fui bebendo bebendo... mas não deixo a pinga me beber. E faço de vez em quando um servicinho, o Tonho sabe.
           Põe um trago ao José, é José? Olhe, é um buraco... eu amava mesmo minha mulher, nunca pulei a cerca. Obrigado. Nunca. Aí ela se mandou com um sujeito assim assim, ainda me levou dois filhos, só deixando um aleijado que ela não gostava. Precisei internar ele para trabalhar. Homem, aconteceu o pior: fui despedido. Me danei, comecei a beber. Daí parava agora em cada bar.
           Põe Tonho uma ao João, é João não é mesmo? Bem, vou contar minha história, não sabe como sofri. Um buraco... não, a vida. Sofri. Ela foi embora de casa, se chamava Júlia. Rapaz, um mulherão! Não senhor, fugiu. E me levou a pequenininha até chorei; e o do meio. Deixou um pobrezinho, o mais velho, todo torto. Que fiz? Pus ele num hospital ia ver de vez em quando e fui trabalhar. Aí o patrão... pego uma coisinha aqui outra ali, fui até servente de pedreiro. Mas bebia tudo que ganhava.
           Põe cachaça ao amigo. Chico? Ah, apresento-lhe o To-nho. Sabe que vivo sozinho! Minha bela loira fugiu com um besta. Filhos? ela levou dois me deixou um com defeito. Que que eu ia fazer, internei o garoto e fui trabalhar. Um belo dia me despediram. Passei a beber, quase me perdi. Não é Tonho?
            Põe sim uma a este amigo. Amigo, não sabe mas fui injustiçado: eu adorava a Júlia, o Tonho conheceu a Júlia. Então, deu no pé com outro e me deixou um só dos três, um menino de muleta. Não lhe conto, amigão, internei o filho e ia trabalhar todos dias. Então os homens me mandaram embora. Um buraco, a vida. Nem lhe conto: passei a beber. Bebia de dia e de noite. Um dia pousei no xadrez!
            Põe aqui uma ao Sílvio, não é Sílvio seu nome? É das boas. Não queira saber meu amigo, um dia a esposa, não era bem esposa, era como esposa... um dia me deixou. Levou com ela e o ladrão dela as crianças. Chorei. Só deixou um menino aleijado. Foi duro. Aí internei o rapazinho e fui trabalhar. O patrão era bruto e briguento, me mandou embora por coisa de nada. Passei a beber sem parar. É mentira, Tonho?
              Põe daquela a este amigão. É Antônio também. Não? Ah, Zé, pensei... saiba que eu vivia bem com a Júlia. A Júlia era esplendorosa. Mas um dia se cansou de mim e fugiu com um veado. Me levando os dois pequenos e só deixou um de muleta, tadinho. Aí, que podia fazer, não é? internei ele para poder trabalhar. Uma vez o homem estava brabo e me despediu. A vida, um buraco. Eu? Fiquei virolando até que caí na caninha, depois fui em cana...
             Põe da outra a ele; pra mim também. Oi Tonho, bota no ‘pindura’... amigo, sabe que já fui casado com lar e tudo! Uma filharada bonita, o Tonho conheceu todos. Aí a Júlia se foi com um besta perfumado, fiquei chupando no dedo... e ainda precisava cuidar do mais velho todo enrolado das pernas. Pus o menino numa entidade de ajuda e fui trabalhar. O sacana me despediu, fiquei sem nada, entrei na cachaça. Mas nunca deixei aguardente mandar em mim.
             Põe um copo ao Luís. Um pra mim também. Chega pra cá, o bar é amigo. Sabe que fui casado? Olhe, um loiraço daqueles! não é Tonho? Então, aí me roubaram a Júlia, um cara meio desmunhecado. Me levaram as crianças, vai escutando. Só ficou um aleijado, o mais velho. Daí foi que pus o rapaz num orfanato e fui trabalhar no pesado. Houve umas intrigas e me mandaram passear. Um biscatinho aqui outro ali, desandei a beber. Mas nunca perdi o controle.
            Põe aqui ao amigo... ah faz favor, Tonho, depois de tantos anos... sabe que fui casado um dia? Um dia a Júlia fugiu...e... não senhor nunca bati nela só duas vezes. Foi com o amante, me levou os dois menores e eu fiquei com o doentinho primogênito. Não tinha outra saída, pus a criança num hospital e fui trabalhar. Chorei sim, chorei como agora... aí entrei na bebida. Essa a minha história. Você é o primeiro a saber. Tome mais uma...
           Põe, Tonho. Juro que pago depois.
Marília   março  2003



47° - Análise do Homem que Matou Seu João
 da Benedita
         
          Contava nessa época, um pouco antes se não depois, cinquenta e oito anos, talvez cinquenta e nove. Era dum branco queimado pelo sol inclemente, dentões saltados para fora do conjunto, a boca murcha apesar dos dentões, e um queixo brigando entre o pronunciamento e a falta de uma das bandas. Os olhos esbugalhados.
          Você está entendendo como era o Sr.João?
          Enganou-se, a descrição é valida para a Benedita, senhora um tanto regateira, olhar revoltado, quem sabe se em virtude da feiura... Seu João é que – diziam as más línguas e as boas – era um tipaço: moreno branqueado, olhinho furta-cor da cor do dia do dia, brejeiro debaixo do chapéu de palha. Pois bem, pois mal, morreu. Sumiu. Por mais investigação de policiais com falta de serviço, que o mundo criminoso andava naqueles dias magrinho, permitindo à imprensa marrom ter de inventar estórias sangrentas e mostrar mulheres peladas; não acharam. Daí entrou o homem que deu um sumiço no pobre fulano que aguentava a Benedita, casado com a bruxa no padre ou só amigado, para dona Cota ter ainda mais um pecado a confessar, pobrezinha.
          Ele. Trabalhava de bandido com as lavadeiras de Vila Virgínia. Sim, nada dizia pra quem não tinha coragem suficiente a perguntar. Mesmo porque o homem não dava oportunidade, ganhando concursos e mais concursos de mutismo, eterno por sempre existir porém concurso novo àquelas senhoras ocupadas no sem-fazer diário. E consta... não consta, deixa pra lá.
          Diziam as línguas viperinas que cambeteava, puxava um pouco, bem aos mais exagerados, os homens desocupados também davam palpites sem pedir mas elas pediam. Que os sapatos eram os mesmos, as calças eram as mesmas, as camisas eram as mesmas duas, a riscadinha e a cor-de-b... falta um pouco de arrojo para dizer descaradamente os estrumes escondidos dentro da gente; entretanto isso não tem importância. Mudo, acreditavam. Ou se falasse só deveria saber o “batarde” do meio dia, e às vezes ainda não era meio-dia; e o “banoite” escuro já; e apenas tendo coragem para dizê-lo à Maria José e a uma velha tão velhinha que se falava por aí ter perdido o nome. A elas duas. Mudo. Ao sair para o trabalho quem sabe se esses tipos trabalham... ao voltar do trabalho ou de qualquer coisa que ninguém tem nada ver com os outros. Magrinho, ossudo, alto, assoando o narigão num lenço cansado e sujo por ser sempre amarelo com lista azul na extremidade. Estava comprovado por dona Ondina, pela vizinha dela, por seu Pedro e pela mulherona bonita dele, o que não merecia nem a preta da esquina; todos concordavam o sujeito não trocar seu lenço por mais de ano! Devia estar duro então, melento, malcheiroso. Ia.
          Voltava. A pé a fim de economizar ou a dar prejuízo à empresa de ônibus, ninguém tendo nadinha com isso. Voltava. Dentro dos mesmos padrões de comportamento estranho, enfiado na roupa sovada, sovando os sapatões no cimento da calçadinha; com a agravante de tropeçar sempre na mesma pedra frente à casa da senhora Filó, e consequentemente fazendo os mesmos gestos. Para depois fugir dentro da casa dele. E depois abri-la.
          Somente para fazer sinal ao vendedor que não queria comprar, ou tomar o talão de luz ou água, pôr alimento à sa-mambaia triste da varanda. Aí o sujeito sumia outra vez e de vez. Debalde todas todos reclamando dum barulhinho qualquer, dum arrastar coisas indevidas devidamente; ou cheiro das frituras queimadas, quem sabe se nem comesse o homem e por isso magruço e ressecado!? Nem do farfalhar barulho no esfrega-roupa, mas também não precisava mesmo por não trocá-la visto todos fiscalizando; talvez a fazer experiências de cheiro, para ver como muda o bodum humano, sem comunicar para quem interessado, isto é, a vizinhança da Vila Virgínia. Irritava.
          Ah se irritava... Chateava a todos com tanta necessidade em saber coisas mais, e nem o menos frugal do simplório era possível saber-se. Que não contava o homem. Se contasse seriam coisas com certeza tristes, macambúzio sempre andava, a puxar os pernões e a arrastar a esquerda. Nem menos; mais munheca, a economizar até o circular! Aí dona Cotinha mandou o menino do meio seguir o sujeito, mas a multidão engoliu-o e tapeou o moleque. Todos da rua e da Vila exigindo explicações a tanta trapaça mal contada, indignando aos vivos, que parecia morto embora andante e mudo; a fazer suas coisas escondido na casa, sem dar ares dos seus ou que fosse só no mundo. Ia voltava desaparecia ao público olhador. Vai daí que sumiu o João da Benedita, tocando à mulher do seu João partir de mala a fim de procurar o seu homem.
          Dizem que este foi assassinado e houve aviso na polícia sem ter o que fazer. Os indivíduos supuseram então que alguém, por mudo, tivesse lá suas culpas no cartório. Até que se provasse o contrário.
Ribeirão Preto   julho  1980



48° - A Casa Vazia
         
          Dona Maria não mais é Dona Maria, agora que é agora de hoje; ontem o drama... Até o velório parecendo longínquo igual miragem ou sonho do pesadelo, quando se não pode acordar. Embora o calor amigo de conhecidos e parentes, a dor. E as flores tentando balsamizar o sofrimento, com mentiras e verdades forçadas. Contudo precisava suportar. Agora os dias iam ficando na esteira do tempo, do tempo sem volta e da volta sem tempo. Não obstante andava só. Tudo a improvisar soluções... Pior que isso: a casa crescera, o espaço se alargara em não cabendo paradoxalmente uma viúva tão pequena tão pobre tão só, tão só. Abriu no ranger portas e janelas e o vento veio curioso e irreverente mexer com seus pertences; os cômodos devolveram a ele um cheiro de casa fechada e triste. Ela prometera, a quem? a si mesma, que seria forte, tendo a vida pela frente; porém não cumpriu a palavra empenhada – chorou quase sem lágrimas o seu passado ali presente. Visitou cada compartimento cada objeto cada pertence cada lembrança que se não pega mas fere. Agora ainda agora, agora noite, uma noite não aceitando as luzes. E aí mergulhou no passado no futuro no presente, a poder sumir de si mesma, a sumir em si mesma. Nem podendo mais ser Dona Maria do Seu Zé, com tanto espaço e tanto vazio.
Marília   dezembro  2006



49°  - Linduras
           
          Era na Avenida Central. Difícil saber por que Central pois as outras vias guardavam nomes de políticos e de gente da terra, pioneiros, satisfazendo todas vaidades. Tinha porém a Rua da Igreja a qual ninguém sabia ao certo o nome oficial, e ficava, lógico, junto à Igreja, mais capela que igreja e eternamente em construção. Os moradores se cruzavam se entendiam e se desentendiam, mas todos precisavam passar pela Avenida Central, ou porque igualmente perto da pracinha da Igreja ou por ser a das casas mais importantes e dispor do comercinho na urbe. Tinha a família do Coronel com saída para a Central (podendo também sair nos fundos do quintalão na rua de baixo, a que olhava melhor os horrores da plebe). Cadeiras fora na frente, daquelas toscas, e o Coronel sentava-se ao contrário, apoiando-se à guarda o barrigão ficando a cavalo nela, apreciando os passantes; e uns toletes de árvore imitando bancos, onde parentes ficavam descansando a preguiça e tirando um dedinho de prosa. Quando o pai e os amigos não destrinchavam a política local ou não contavam baixo altas piadas escabrosas, então era vez das filhas. Mas tanto o partido dos velhos quanto o clube das moças não viam as flores selvagens plantadas à moda cabocla na praça em frente, viam antes a gente. Comentavam a gente riam da gente temia mesmo a gente ou tão só observavam a gente indo contra o sol a favor do sol ou tomando sol, quando não chuvisco e daí apenas se via da porta talhada no outro século suja como a janela da casa pintados de cor da terra porta janela parede que é não ter cor a cor por baixo. E poeira quando seco pra andar. E cheiro, cavalos e éguas despejando e estrumando o chão seco com líquido ácido, não as pessoas: estas só estercavam atrás da Igreja nas noites de apuro. A cada passante, ou que fosse num grupo, as jovenzinhas entrelaçadas com braços e os rapazes juntos separados ou separados somente em desfile – todos recebiam quase sempre um cumprimento ou sorriso amigo; e comentários nem sempre airosos da cadeira ou da porta; vez por outra passava um adulto só ou só um velho com sua bengala ou guarda-chuva imitando a bengala, então se cumprimentavam simultaneamente com direito até a um “chega mais” dito da plateia; quando não era a gente grande, era a gente moça pisoteada massacrada pichada pelas línguas. Estas quase sempre tendo um dizer em conotação maldosa; as jovenzitas às vezes sua moral, eram qualificadas fisicamente como feias todas, até as belas mostravam àquele público olhador algo de feiura exposta: os olhos tortos, o nariz grande demais, as pernas arcadas e, isto sendo mais do ver das filhas do Coronel: as vestes. Criticavam a cor o feitio o desengonço. E riam. As fêmeas das fêmeas, os machos das fêmeas; elas olhando as roupas das fêmeas, eles desejando os corpos das roupas. Concordando o clube das moças com o partido dos homens no rir. Malicioso e até hipócrita. Se se pudesse inverter, vendo-se os que viam, ver-se-iam moças com velhas no ponto de titias; e homens gastos nada castos chefiados por um barrigudo medonho, necessitado de outros oitenta anos para aprender ver pensar pesar saber calar, saber calar e perdoar. Para ter direito a descansar, apenas descansar na cadeira da Avenida Central.
Marília   fevereiro  2002



50° -  A Porta, esta de saída    

          Levantou-se o Zé, demorou um pouco, muito pensou, quase voltando ao leito, por fim decidiu-se e se levantou defi-nitivo (palavrinha bem marota, pois não existe o definitivo aos antropoides qual o Zé). Fez o que fez o Zé. Zé nos parecendo nome inventado, garanto haver conhecido se não mil e um, sete. Fez o que fez.
          Piscou, esfregou olhos com as costas das mãos, a mão direita, um sujeito direito meu personagem. Ginástica, ai daqui ai de lá. Xixi escova espalhafato um nominho – não garanti nenhuma santidade; daí normal haver dito um ‘merdinha’ de nada pra não comprometer um pensamento que se possa ter sobre sua angelitude. Se enxugou na toalha cansada, trocou-a por outra mais limpa, se enxugou definitivo (não tem, garanto não existir; tanto assim que noutro dia ou noutra semana teve que pôr nova toalha limpa enxuta e passada; não passada, passada é dose: não passava a ferro a roupa de uso íntimo). Saiu do banheiro, claro a porta aberta, a porta?
          Não. A porta da casa não conseguia ele abrir.
          Fala-se aqui a do banheiro, arreganhada, daí não se abre: passa-se.
          Assim mergulhou nos pensamentos em plena refeição matinal na cozinha; voltou ao quarto. Ainda pensava lá suas coisas. Nem se viu no ato de vestir para sair; claríssimo se vestir, não iria dar escândalo, além de tudo era um vergonhoso, tímido, praia de nudismo! nem pensar, pensava noutras coisas, coisas do ganha-pão. Para tanto o sair.
          Aqui entra um entrave novo, ao menos inusitado para o Zé, o qual reafirmo não ser nome inventado. Porque precisava sair? Precisava, mas não reside nisto o inusitado.
          Não conseguia era abrir a porta!
          Nesta altura dos des-fato... ah não tem? tem: inventei, assim como o Zé meu personagem, criei ‘des-fato’. Nesta altura me gritam: que ele pegue a chave, use a maçaneta, e os mais afoitos: uns chutes na porta, que a arrombe. Ora, quanta violência, meu Deus.
          Afirmo. Fez exatamente isso – chutou. Mas chutou a de saída do quarto para a sala, somente ela, por engripada e a raspar no piso, riscando o piso frio, aí quente na fricção. Contudo não é essa a porta, é esta.
          Esta porta na saída da sala para fora de casa, a tratar de que tratar, negócios por exemplo, o trabalho, o patrão pegando no pé do Zé, a ofertar quem sabe um desemprego no subemprego, fartos nas faltas do país.
          Esta. E esta ele não consegue abrir.
          Lá vêm os palpites. Empurrar com os ombros, usar outra vez a chave, chocalhar o molho de chaves, procurar a chave certa; e agora vale, visto como não ter fechadura e chave uma porta que dá ao exterior abundando ladrões!
          Pensou em tudo o Zé. A rigor não sei se teve rigor. Noutras palavras, experimentou de tudo a abrir a porta (para sair, admite-se, já se encontrava dentro de casa, na sala para sair; portanto não a entrar). Experimentou sim de tudo, o que a inteligência punha à sua disposição. Não pode que outra pessoa desse uma ‘dica’, uma ideia não ocorrida ao Zé! Porém se encontrava só, vestido a caráter como manda a educação e a moral, mas sozinho. Então deveria com seus recursos abrir a porta e sair, que adianta abrir, conseguir abrir, a porta e não sair; fechar outra vez! bolas.
          O Zé meu personagem quer sair, se não de casa sair deste amontoado de contos (quantos? uns cinquenta?) contos ingênuos, escritos em várias cidades e em épocas diversas – ou iria ficar cozinhando o galo!? Sair enfim. Mas eis que não pode abrir a porta de saída, insisto. Tentou de tudo, até pensando coisar deletando tanto tê numa só frase. Ah, boa ideia: deletaria a chave a maçaneta e a porta, por que não a saída?
          Nada disso. Quer o Zé apenas sair de casa. Para sair necessita abrir sua porta que dá para a rua e escapulir-se. Já lhe ocorrendo talvez sair pela janela mesmo, aí a dar escândalo realmente; pensou a vizinhança e transeuntes curiosos ao vê-lo espirrar de casa pela janela!! Impensável. Tanto que nem pensou sério nesse alvitre. Saímos é pela porta de saída, como entramos pela mesma porta, agora na versão de entrada.
          Não estarão julgando o Zé um louco! porque isto é um conto-de-saída, final; portanto não é um contolouco. Tem vá-rios nesta obra, este não é louco nem o personagem.
          O Zé pensa em tudo possível, consulta o mandãozinho do relógio no pulso esquerdo, destro mas canhoto no pôr a hora. Tem de sair. Pensa emprego subemprego desemprego e não pode abrir a porta para sair.
          Aí, aqui o inusitado deste inusitado, aí ocorre um certo estalinho de Vieira nele. Seu besta (se autoelogia) seu burro, feche a porta primeiro!
           Sorriu. Fechou sua porta. Daí abriu a porta. Sorriu de novo. Saiu. Assim acaba o livro “Mil e Um Contos”, ou do contrário, não o Zé, me tranco, eu me fecho na loucura.
Marília  novembro  2011
































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:




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