0133(postagem
no Blog Livros Inéditos)
A Chuva e Outras
Estórias
(contos)
Moacir
Capelini
moacircapelini@gmail.com
capa:
data de
publicação:
tiragem:
gráfica:
“Precisamos ser indulgentes
com os que erraram – e mais
indulgentes ainda com
os que não tiveram a coragem de errar.”
Lêdo Ivo
-
- -
“Defeitos se diluem na calda doce das longas
paciências.”
Antonio Callado
Índice:
1.A Chuva,
página 5
2.O Coronel e o
Povo Inventador, pág. 7
3.A Solidão,
pág. 10
4.Carta à
Posteridade, pág. 14
5.Os Secos os
Tímidos os Molhados, pág. 19
6.A Boca
Falante, pág. 24
7.As Mãos, pág.
29
8.Banal, pág.
32
9.Palanque,
pág. 35
10.O
Testamento, pág. 38
11.Leitura
Absorta, pág. 42
12.Um Conto Bem
Comportado, pág. 48
13.Pamonte,
pág. 51
14.Férias da
Loucura, pág. 60
15.Uma
Comprovação, pág. 64
16.Inimiga
Pública Número Um, pág. 66
17.Descartabilidade
em Cena, pág. 70
18.Briga em
Família, pág. 74
19.Granduras
Negativas, pág. 78
20.Ex-Conto,
pág. 81
21.Sequestro do
Rei, pág. 84
22.O Caso dos
10 Negrinhos, pág. 92
23.Revisita,
pág. 96
24.Amélia de
Nossos Dias, pág. 102
25.Como Foi que
Matei Minha Sogra, pág. 106
26.Segunda e
Meia Tentativa, pág. 112
27.Covinha,
Estria, Cicatriz Não! pág. 117
28.O Frio, pág.
120
29.Tempos de
Economia, pág. 122
30.Um Sono
Adverso a Todos Acontecimentos, pág. 126
31.O Diário do
Dr.Gunnardsson, pág. 130
32.Instinto
Indistinto, pág. 136
33.Descrição do
Crime Perfeito, pág. 139
34.Um
Personagem Crítico, pág. 144
35.Notas de Meu
Falecimento, pág. 149
36.Casamento
Dentro dos Conformes, pág. 153
37.O Sujeito do
Raio X, pág. 156
38.Diálogo em
Silêncio, pág. 162
39.O Filme
Trágico, pág. 166
40.A Voz do
Silêncio, pág. 171
41.Violência
das Menos Violenta, pág. 176
42.O Fim, um
nunca-terminar, pág. 179
1° A Chuva
Fugira jovem do impacto velho, velho
igual o mundo, do rosto do velho, macilento lento no seu não ser ou já sendo –
aqueles olhos velhos mortos na pele em cera anunciando o escatológico do
sem-volta... Mais ainda, então se lembrava ofegante, mais que o ser fúnebre que
um dia vira deitado cadavérico cadáver entre flores, flores a guardar um cheiro
que não devia mas era nauseabundo no meio suas quatro velhas quatro velas ou
mais de quatro a exalar também odor a dor o choro a lágrima e a ausência de
paz, visto a paz não podendo ser representada num velório – e se perguntou: a
paz não seria melhor sentida na imagem simples dum cavalo a pastar tranquilo e
inocente no terreno baldio! nunca a se ligar a cemitério a festa fúnebre ao
choro. O velório era pobre, rico em tristezas e lamentações. Então fugira.
Então fugia... quem sabe sem poder, sem ter forças a poder, fraca. Fraca
trêmula criatura a pisar descalça naquele chão ensopado a escorrer semelhante
mil corregozinhos a enxurrada num acúmulo de mil gotas das lágrimas, agora do
céu, as quais não se estancavam; lentas antes e agora indo num crescente de
pancadas miúdas a engrossar riachos em rios em mares quem sabe não sabia,
apenas a correr fugindo sem pensar e sem ter certeza pra onde. No entanto
devera ter vigor na promessa que era sua pouca idade e com muita beleza
decerto; ansiava até não mais correr no frio molhado pelo tempo... molhada
vencida!? A criatura tendo as vestes a esfriar também molhadas, a chuva nunca
satisfeita a lavar o tecido que fora belo e próprio ao talhe de um corpo
atrativo certamente aos homens com os quais convivera, mas agora... Grudava-se
o pano na pele magra do corpo, no movimento do corpo inclusive. Enquanto isso,
a chuva caía impiedosa e marcava aquela vida que fugia da morte e do morto como
das flores das lágrimas das velas das velhas carpideiras e no fugir em corrida
louca ou desesperada, nessa hora sendo vencida no cansaço que nem o escorregar
na lama impedia, agora não mais que andando a passos lentos e a sequer marcar o
solo, tendo o tempo talvez desejado apagar pegadas e esconder que vivera jovem
a jovem; nesse momento com o corpo num pesar as suas toneladas e se exaurindo,
a movimentar não mais que nuns passos trôpegos e ao barulho das lágrimas mansas
das nuvens na sua intermitência de choro; e havia não mui longe outro barulho
mais nervoso dos trovões que anunciavam distar pouco se não o fim dos tempos ao
menos o fim daquela vida já sem interesse na existência, em que pesem as boas e
teimosas lembranças das alegrias que se tinham ido... Escurecia mais, mais
fosse possível com a chuva aumentando outra vez; somente a perceber vultos das
coisas no clarão do relâmpago ou o dos raios porque se acumulando ainda as
cargas... E no claro que então se fez, a natureza oferecendo o resto do que
fora uma experiência em promessa naquela silhueta no perfil de uma pessoa
desamparada e sem norte na noite do dia na semelhança diluviosa; era certa
imagem de contornos feminis a se chocar contra a luz nos estardalhaços sonantes
a amedrontar todo o universo. Contudo ela já não tendo medo, entregue!? e força
para ir para frente, sem forças embora porém caminhando ainda, porque ainda não
fora o alvo do clarão da luz em estrondo... que não chegou de todo a ouvir,
deixando o narrar da catástrofe e dos estragos materiais e o levantamento de
vítimas e prejuízos àqueles que lhe foram antes conviventes, ou não participantes.
Marília abril
2011
2° O Coronel e o Povo
Inventador
Tudo que se tem, passadas a peneira e
a peneira do tempo, é a invencionice do povão e as verdades, pois sabe-se o
povo é ‘inventador’ . O Coronel berrava ainda mamadeira, a qual naqueles idos
era tão só o peito da mãe de leite, geralmente escrava ou criada sem direito
nos direitos trabalhistas, estes hoje muito em voga.
Então já era o povo o povo inventador.
O pai dele, do Coronel não do povo,
sendo o Coronel José, assim de velho, mijando, de pé, no pé, trêmulo, bengala, ainda
mui mandão machão pra valer. Cansado viuvar escolheu uma donzela entre as mais
bonitas caboclas e se casou com a jovem, sem lua de mel não existindo dessas
frescuras na roça; mas vivendo feliz até a felicidade gerar um Coronelzinho, exato
aquele a berrar mamadeira de peito emprestado.
Contudo o Coronel não era de apenas
mandar, mais de fazer, era sim, mandava em todo mundo. Porém fazia mais ainda
se deslocando para esses mundões a engravidar excelentemente a fortuna; agora a
dele a da jovem esposa e principalmente a do filho já meio Coronel com espora e
penas, frangote. Só depois viria o Coronel berrar mamadeira não nascera; aquele
filho tratado antes era o irmão do filho que ainda não berrava e não precisando
mamadeira por não haver nascido.
O povo que fala, o povo é inventador.
Com as saídas constantes do Coronel
José a aumentar o patrimônio, como por exemplo aumentar as terras a bem dele da
mulher jovem bela e do filho frangote de penas e esporas, com isso ficava a
esposa tomando conta da propriedade e o filho, este para tomar conta da esposa
do pai para que ela tomasse conta da fazenda. A rigor o contrário: ela que tomava
conta delinho já esporando. Dava banho, banho de canequinha e bacia aquela
molhadeira no chão no tempo não havendo chuveiro mesmo aos ricos, pois isto
frescura urbana.
O povo, que é inventador, que fala.
Fala que exagerava a virgem, o Coronel
bastantinho velho de bengala e fazendo xixi a tremer no próprio pé; a donzela
exagerava no banho dele, esporinha, às vezes precisava ficar nua a lavar o
nuzinho para não molhar o vestido, daqueles rodados até ao pé como convinha à
moral. Depois enxugava o filho do Coronel e o protegia na cama para não ficar
tremendo ele, mas de frio, não como tremer o pai de bengala.
Ela protegia assim o frangote, diz o
povo inventador.
Aí voltava o Coronel, já aumentado o
patrimônio. O patrimônio foi aumentado ainda mais quando a virgem anunciou a
gravidez ao Coronel, ela não mais donzela, se é que o povo inventador não
inventou.
Uma felicidade geral da nação a vinda
do primogênito dela (o Coronel já tendo o seu; empenado e de espora) deles,
rezava o registro de batismo trazido pelo Padre João vindo dizer missa na
capela da fazenda.
Agora,
na época, o povo inventador dizia que o Coronelzinho a berrar peito emprestado
da mamadeira era filho do filho;
encurtando, o irmão era pai pra
ser também irmão do irmão cheio de dedos a berrar mamadeira, todos – a mãe o
filho do filho que era filho da mãe e o pai do filho que era filho do pai –
todos devendo obediência ao garanhão Coronel, o que saía outra e outras vezes a
ampliar o patrimônio da família.
Isso conforme o povo inventador.
Que inventou que a bengala foi também
posta no caixão do Coronel José, sem precisar agora mijar de pé no pé; nem
aumentar o patrimônio, já enorme, com reclamações à boca pequena dos
ex-fazendeiros nas imediações. Da silva já mortinho da silva.
Mas o povo é inventador.
Aí, diz ele, ficaram os três. A
madrasta, o órfão empenando esporas e o órfãozinho da mamadeira, a depois
herdar não a mamadeira.
A mãe adotiva das penas e esporas,
muito jovem e bela, mãe biológica do herdeiro, apreciava muito ouvir missa e o
Padre João em dizê-la. O
pai do irmão, já mais empenado, saiu de esporas a aumentar o patrimônio,
enciumado. Sem que ninguém pudesse contar como tomara banho pelas mãos madrastas,
pois à criada de bons olhos o antigo Coronel havia cortado sua língua. Assim
voltou pra casa o filho do pai que o povo inventador dizia que era o pai do
filho, voltou mais enciumado e – sendo sua vez a cortar – cortou ao padre não a
língua própria a dizer missa e talvez por dizer mais que missa à Madrasta.
Dessa forma, caso não haja exagero no povo inventador, dessa forma ficou mais
tranquilo a viajar aumentando o patrimônio.
Enquanto o filho do irmão crescia com
tanta mamadeira, o irmão do filho pai do filho gastava o patrimônio da família
com bebidas farras e mulheres, visto não ter preferência apenas por madrastas e
já sabia tomar banho de canequinha por conta própria não molhando mais o chão.
Somente não aprendera a tomar conta de si mesmo.
Diz isso e mais o povo inventador.
Também que não sabendo tomar conta
(agora nem o Padre João sabendo tomar conta da mãe do filho a berrar mamadeira)
não sabendo a conta, tomaram o governo e os outros fazendeiros, conta do patrimônio. Nem o irmão do filho nem
o pai do filho e muito menos a mãe o padre e o Coronel já nessa altura não
berrando mamadeira – puderam evitar que matassem o primogênito, não da
madrasta, o primogênito do antigo Coronel sabedor a fazer xixi no pé. Mataram-no
por aí nas farras.
Deixando o órfão de pai outra vez
órfão de pai. Deixando sim elinho, agora adulto sem berrar mamadeira só berrando
os ladrões que lhe roubaram o patrimônio. Embora um Coronel.
Diz assim. Ora, o povo é inventador.
Marília julho
2004
3° A Solidão
Ninguém queira
mais que dominar o coração.
Conquista
vitória alegria projeção?
Quem
pode ser mais, mais que um na multidão!
Desde
os tempos dos tempos que tempo faz o Universo se equilibra, equilibra o Sol no
equilíbrio, se desequilibra ele no definhar, por milênios que são segundos dos
tempos. Vênus assinzinho pareou nestes dias entre nós e o Sol, a dar show de grandeza na insignificância da
‘desaparecença’. E julgamos nosso Planeta extremamente volumoso... pouco mais
que Vênus. E a Estrela que nos ilumina, enorme nessa comparação, não passa ela
de quase invisível na sua insignificância medida em anos-luz; a tanto que no
lonjão dos maiores sóis já desaparecidos e que nos oferecem hoje seu lume
ainda, dessas lonjuras anos-luz, impossível a nossos termos terrenos perceber
sequer a existência do Sol, o qual também morrerá.
Parece que o Sol, qual ilumina vida a
tantas vidas, parece também ele a sofrer a solidão. Como o insignificante ser
humano, como quaisquer outros seres, estes sem ilusões; pois nós temos de sobra
ilusão. Não obstante, a rigor, na análise seca e sem sabor dos números e das
coisas, não obstante cada um é um. É só.
▀ Figuro, para defender a tese, um
personagem; o qual não é melhor nem mais provável que o provável incerto e criado
ou existente. Vivo ou ‘vivo’, por mais ‘vivo’ no mal sentido – ainda assim só
possui de seu a ilusão, a imagem, até a figura do ser. Mas não é de fato.
Estas tergiversações foram escritas
para mostrar a inconsistência, inconsistência inclusive na linguagem. A linguagem
também desfigura o ser; foge do ser ou o afugenta. A linguagem é o arremedo do
ser. Contudo o ser pensa e sabe existir. Como existe! esta a questão.
Não pretendo resolver a questão.
Apenas figurar o personagem; aos poucos e nas oportunidades flagrantes quero
tratar a questão. Existe? Como? Quais seus conflitos para ser; e sobretudo aqui
defender a ideia da solidão humana; se não em todos – e só podemos falar em
nosso nome – em mim.
Figuro João; Zé Tonho Pedro e o mais;
e Joana Zefa Tonica Pedrina e o mais mais feminino possível, lindo de morrer;
depois a lógica da criança, linda pra viver.
▀ Pobre
do João.
Apesar, rico à beça. Saúde mocidade
amizades créditos e crédito no débito: só deve quem merece crédito. Na ocasião,
que é no século passado, não tinham criado o SPC porém existia cheque
protestado a todo gosto. Não em nome de João. Naturalmente já haviam posto na
circulação os meios corruptores, sem atingir, por atingir por tabela, o João. O
João era na época, prosseguindo até o cemitério antes o velório com flores e
piadas, antes ainda a hospitalização, entremeio a morte e o choro, este ilusão
do sentir, provado pelo esquecimento das pessoas ‘ficantes’, era enfim na época
um ótimo pequeno-burguês, louquinho a viver de expedientes. O que dava a sustentar
os seus e a satisfazer suas ilusões mundanas: cinema, livro, churrasco, viagens
curtas.
■
Porém a mundanice passa.
A ilusão das coisas passa.
Sobra muito João, após o muito passar.
■
Cinquentão
o João, bom, bobalhão? ilusão, ilusão de conquista. Tem casa, tem fuga – fugiu
da cidade grande desumana, transforma o homem em número coisifica as coisas,
violenta o pensar. Enfim não era vida a vida, João pensa nos termos de família:
iria estragar os seus! Foi para a cidade-grande numa fuga, da
cidade-grande-maior para a cidade-grande-menor e aí complicou. Perdeu a perda.
Primeiro brigou briguento; depois ficou sem mulher; depois do depois sem os
filhos, filhos escorrem como água entre dedos; e além do mais não existe
propriedade de prole. Realmente o que não existe é a propriedade. Neste caso o
João pesou pensou assim: os defuntos me dão o confirmar, pois nem a terra do
cemitério é deles, ela que os tem. A propriedade é pra deixar à propriedade dos
outros que ficam, os quais por sua vez não a têm, terão que deixá-la aos
vermes. Portanto a propriedade é ilusão.
Contudo, quer dizer, apesar dessa
conversa-fiada toda, trocando em miúdos o João encontrava-se sozinho.
Ora bolas, que desse a volta por cima
recomeçasse. Nem todos sós são capazes de recomeçar – ou seja: retomar a
ilusão. Porque isto se consuma, pensam, numa nova ilusão (ou nova desilusão).
Era enfim ótimo a ‘pessimismar’.
Um dia (ora, qual dia...) aí estava a
procurar outras ilusões, iludido fosse encontrá-las no casório, nas vias
públicas, entremeio o povão adoidado a comprar ir e vir se encontrar
desencontrar-se esbarrando no mais – ao João no menos na sua ‘otimismação’.
Cansou. Deixou casas ruas gentes esbarrões confusões ilusões de sua ilusão.
Chorou.
O João está perdido no meio da
multidão, o movimento aloucado do comprar do ver do festivo ao sol e às cores;
e chora. Amarga suas lágrimas, as quais grávidas do seu sofrer interno vão à
luz brilhar nos raios festivos, igual à criancinha e era um velho, não sabendo
ser já velho!
Mas que ridículo! um velhote a chorar
no centro de sua cidade-grande-pequena. Que fazer?
Enxugar a água vertida dos olhos
cansados...
■ Agora o João se muda para nova
cidade-grande-menor-que-a-pequena. E é grande. Se pensa grande na pequena.
Anda vê corre observa pergunta
responde planeja. Todavia afunda.
Está em plena vitória da ilusão, a
ilusão que é uma linda tapeação do existir.
Aí anda vê não corre não observa não
indaga, responde com má vontade. Não planeja. Resiste pra não afundar mais.
Submerge, nada ao nada. Não tem ilusão, tivesse.
Despoja-se.
Acerca-se, se acerca de si. Então
responde. Há sim a multidão.
O João está só, ilha coalhada de
multidão por todos lados. Já pode otimismar; mas só consegue pessimismar.
Marília junho
2004
4° Carta à Posteridade
Meu caro Leitor, não pense Você ter
vindo ao planeta Terra a turismo. Veio em missão, se menos ruizinho como
pagamento; e a sofrer depurando-se caso ruizinho mesmo. Nesta apaixonante opção
vou ajudá-lo (a quitar sua patifaria nos milênios que antecedem este! não:)
ajudá-lo um pouquinho que seja a sofrer. Começo nem entrando no mérito do seu
demérito, ou seja: não vasculharei o emaranhado de seus erros e fracassos,
muito menos por minha curiosidade mais por minha incapacidade em saber. Contribuirei
à limpeza de suas faltas escrevendo esta Carta. Lê-la, uma ótima expiação.
Siga-me no que devo dizer-lhe.
Pode, antes de mais nada, olhar lá
fora. Verá o que vejo – a chuva às escâncaras. Promessa dos vários serviços de
meteorologia, conforme todas as emissoras de TV ontem à noite. As quais diziam
mostravam afiançavam demarcavam provavam a pés juntas que faria hoje nesta
região do Planeta um solão de rachar; inaugurando por fim a estação do frio e
da seca. Chove pra ninguém botar defeito, corisca trovoa barulha barulhando os
filetes de água a vir lá de cima. ¡Creio me permita pôr ponto de
exclamação invertido a anteceder a frase a qual concluirei com admiração por
conta própria; e o ponto de exclamação sendo a configurar minha estranheza (que
faço sua também se lhe ficar adequado e for do seu agrado) sim minha estranheza
minha indignação – até pensando entrar eu com uma reclamação no Procon contra
os sistemas televisivos que afirmam pra negar as coisas do tempo, isso fazendo
tempo! ! Viu que reforcei pondo mais
um sinal de exclamação a confirmar o que falei.
Mas que mesmo falei?
Ah sim, o tempo com tempo às avessas
do previsto na telinha: sol, chove.
O que foi mais que disse até neste
ponto? Tudo não importa, importa seu ‘des-sofrer’ ou melhorzinho: abater com o
sofrimento na leitura desta Carta um pouco do excesso de velocidade que Você
cometeu nas outras reencarnações milênios até aqui fazendo besteiras. Agora estamos
entendidos?
Sim. Não. Não aceitei seu
entendimento, veja bem, não aceitei. Antes devo dizer que está escancarada uma
chuva impressionante como falei, aqui. Aí, onde Você está lendo no mesmo
instante esta Carta à Posteridade, que Você, Leitor, representa, pode tão só
andar um sol de arrebentar o solo... Pode eu digo e pode que esteja chovendo a
cântaros como aqui; não pode? E pode que Você, cioso do conhecimento e do
absoluto (como deve ter sido cioso e absoluto quando pecou por estes últimos
três milênios e tempos e tempos antes dos três últimos) pode sim que Você haja
olhado a tevê e a tevê prometido chuva e mais chuva e Você de boca aberta vendo
o solão que tá aí, pra ninguém botar também defeito. Não é? Estará com raiva – ipsis litteris com raiva – por haver
comprado um morcegão, que é um guarda-chuva, contra chuva prometida na TV
acreditando como eu no sol que prometera ela e veio a chuva, a Você sol de
queimar. Não é mesmo? Ah...
Este ‘ah’ do outro período serve ao
seguinte: e se nós trocássemos – Você vem pra cá com seu morcego aberto na
minha chuva braba; eu vou para aí gozar o solão prometido ‘praqui’ pela
televisão. Não é uma boa? pois que enganaríamos (aqui nosso conspirar) a TV o
Procon e, isto o melhor ainda: tapearíamos a nós mesmos! Façamos então este acordo.
De acordo? Acordo com quê! Sugiro
leia, releia, esta Carta até neste ponto em que está da leitura a saber aquilo
que se propõe, melhor direi – eu proponho. Você tão só anda lendo a Carta a
economizar no gasto com o gasto no tempo a fim de pagar suas dívidas, que
presumo grandinhas. Estará lembrado que, lendo-me, abate um pouco sofrendo
bastante menos no todo para que veio sofrer. Nisto proponho acordo ou assentimento.
Prossigamos?
Onde paramos? Oh não chegamos parar –
acuso o Leitor a tentar me confundir embananar-me na arte da escrita. Vou de
novo ao Procon, agora contra seus ardis e artimanhas mais. Retiro o que disse
do que falei por não ter dito, dito agora! Mas...
Contudo não quero comprar briga;
desejo antes de mais nada ajudá-lo abater suas faltas na coleção que trouxe de
faltas milenares fazendo faltas provocando impedimento ferindo os adversários
xingando, baixo pra não ganhar cartão amarelo primeiro cartão vermelho depois, xingando
a pobrezinha mãe do juiz da partida e – isto o pior: não marcando gol! Perneta,
acuso Você, Leitor, como perneta consumado no campeonato da Vida. Ainda bem que
existo.
Sim. Não fosse eu, a fazê-lo sofrer um
pouco muito nesta leitura de Carta a si dirigida, como representante da Posteridade;
não fosse eu, seu pagamento a perder de vista andaria lá pelas alturas e
sabe-se lá a que montante chegariam os juros!
Não. Não precisa agradecer. Ou não
seria eu digno de ajudá-lo, escrevendo a si a Carta, para ajudá-lo sim no abatimento
de suas insignificantes faltas.
Não. Convenhamos: uma coleção razoável
de faltas; a que num futuro imprevisível, o futuro tem dessas gracinhas em ser
imprevisível, num futuro enfim a dita Coleção venha a ser leiloada, dando um
lucro supimpa à Casa Cristhie ou Southey sei lá e isso não importa – o
pagador de penas abatidas na leitura da Carta, esta Carta à Posteridade, o
pagador já não estará nem aqui pra saber reclamar talvez, talvez indo reclamar
ao Procon que houver na época (leia-se ‘futuro imprevisível’) reclamar justa,
ou injustamente, contra os leiloeiros.
Isto posto, vou almoçar primeiro, ou
não sai o resto da Carta a Você, Você ficando impossibilitado de abater partezinha
do sofrer que teria a sofrer pagando dívidas, ó seu safado e mal pagador!
Isto posto, prossigamos. O
prosseguimento se dando em virtude eu ter comido engolido deglutido meu caldo
com sólidos nadando no prato entre as expressões ‘almoço primeiro’ e ‘isto
posto’, o segundo ‘isto posto’ desta singela Carta ao Leitor, Você, agora –
prossigamos agora.
Antesinho vou reler ou me esqueço do
esquecimento da lembrança do que escrevi, se é que não me sumiu; Você,
interessado no abater pecados que vêm valorosamente colecionando nestes últimos
milênios dos milênios, já consciente; pois anteriormente não pensava mais que
uma barata (credo! que nojo!) sim, caso não haja sumido com as linhas que
redigi nesta Carta a Você, exatinho a ajudá-lo pagar num sofrimento lendo pra
não ter que sofrer doutra forma (mesmo porque não se livra em pagar, olho por
olho, o olho que furou antes dos milênios incontáveis). Entendido. Desejo eu
auxiliá-lo! Vou então reler.
Reli. Me revoltei, jogando com revolta
pecando no pagar depois mas não sendo da conta do Leitor pois interessa ao seu
egoísmo abater a própria não a minha dívida. Todavia me revoltei ou me indignei
ao menos pelo fato seguinte: já camelei um bocado, sofri pacas escrevendo a lhe
encher o saco para ajudá-lo a diminuir a dívida que Você, Leitor, provocou e me
deparo com a situação a ser agora esclarecida.
Dois pontos ¿me dá licença em fazer a la espanhola meu ponto de interrogação
plantar bananeira; sim, quando a pergunta é longa melhor preparar o Leitor, no
caso um individado querendo pagar suas penas sofrendo bastante a diminuir com a
‘sofrência’ na leitura desta Carta, a dívida enorme que contraiu milênios
passados noutras fracassadas reencarnações. Aí me peguei eu, euzinho da silva,
eu mesmo pagando minhas dívidas escrevendo isto. Pode uma coisa dessas? (aqui o
ponto de interrogação normal na língua gráfica portuguesa bem brasileira).
Que devo fazer agora: desistir de
ajudar o Leitor pagar a sua... Ou descobrir que, pagando eu a minha, escrevendo
– descobrir de verdade dever, eu dever, ter enfim mais faltas mais milênios ainda.
Que as suas os seus, Leitor...
Marília junho
2004
5° Os Secos os Tímidos os
Molhados
Aquele menino do início da década de
quarenta não sabia a continuação do tempo nem entendendo dos quarenta sequer de
números. Aliás, sem abusar da verdade, desconhecendo também não apenas todos
algarismos mas as letras todas. Não obstante a timidez doentia quase aceita nos
padrões duma criança pobre, não obstante sentia uma atração pelos escritos que
observava, inclusive pelo dístico na fronte do armazém do tio. Letras
garrafais, letras miúdas no diário de escrituração ali presente naquela
contabilidadezinha mambembe, a qual sendo paixão do tio; o sobrinho apenas
assistente ali; não o assistente que ajuda e por vezes escreve em anotações que
depois ninguém a conseguir decifrar, pois o tio tendo queda à ordem e com boa
caligrafia grafava bonito, aos olhos do pequeno letra bonita. Contudo era
assistente por ver e observar aquele trabalho belo e mesmo fascinante. Opinião
infantil.
Então ele chegara muitas vezes de
passagem flagrando tais registros, agora não: andava de castigo... É que os
seus haviam saído, o pai na labuta nem se pensava na sua presença; a mãe
decerto em compras talvez nas coisas do enxoval do irmão que viria e daí aquela
barriga imensa, embora desconhecesse na sua idade esses enigmas e havendo os
tabus na família. Ou que ela pela gravidez houvesse ido ao médico, entre os
pouquíssimos na urbe nascente; de maneira que o menino se encontrava no centro
urbano onde se supõe a riqueza o luxo e todo bem-estar que as classes
favorecidas desfrutam e apesar disso vicejava a pobreza remediada no local, o
pobre pobre mesmo quase miserável naquela frente paulista da época, essa
pobreza afugentada ou na periferia ou nas imediações do município de ruas
descalças e muito vento e muita poeira e muito barro. Mas por que de castigo.
Ninguém estabelecera punição. Esta
viera dos excessos na timidez e pela ausência dos seus, o garoto longe de casa,
embora numa cidade pequena só haja perto; enfim não estava no seu domicílio
porém na casa de comércio do tio, os tios residindo nos fundos do empório de
secos e molhados, o empório o comum nesse tempo. Vivia um pouco nos choramingos,
mais por dentro que por fora, fora a secura a ferocidade e inospitalidade do
ambiente, isto em razão da fama de inflexibilidade no parente; era preciso ser
forte e obedecer as instruções maternas: não faça isso e aquilo na casa dos
outros, obedeça sua tia e essas coisas que se diz a amedrontar educandos; a tia
um pouco secarrona e de cara fechada no entanto boa senhora. “Vossa mãe já vem
logo” dizia à aflição do rapazinho. O tio ainda mais fechado desejando ser
visto por chefe honrado poderoso forte macho, como o rigor do tempo exigia.
Enfim a corda, a parte mais fraca, estava em mãos trêmulas da criança. De
maneira que nem precisando o não mexa ali, não ponha a mão aqui, se fizer isto
ou aquilo contarei à sua mãe, a tia pronunciando “vossa” numa linguagem também
esta desconhecida ao menos não a usual. Aliás mamãe recomendara ao casal
parente muito palmadas e cintadas na traseira, o que todo mundo na época e
lugar achando correto...
Com tais ameaços e o exíguo cabedal de
conhecimento e de coragem, próprio dos tímidos e mais às crianças desse jeito
educadas, assim o moleque não faria mesmo artes, fosse arteiro e moleque de
rua, sendo somente menino um pouco contido e caipirinha como o apostrofavam.
Vestia calças curtas desbotadas, era
sardento semelhante muitos descendentes de italianos; não tinha suspensórios
daqueles de elástico mui comuns e sim tiras de pano à guisa de alças. Usava
para sair de casa sandálias feitas rudemente e sem qualquer acabamento
artístico, montadas com restos de pneumáticos, mais baratos – o que distinguindo
sua condição pois os outros a passeio usando sapatos fechados às vezes
lustrados de couro. Enfim tudo ajudando negativamente na sua timidez.
A tia nas suas lides domésticas,
parece que havia um priminho ainda não falante e de chupeta; pouco lhe dando
atenção. O tio lá na sua altura, esquisito, de cenho carregado diante dele e a
fazer pose ou só provar sua posição enquanto a falar menos brabo com seus
fregueses ali barulhando perto; o tio olhando mais em soslaio àquele pingo
magro pobre de gente. Assim mesmo aproveitava enquanto a tomar qualquer coisa
na escrivaninha onde o castigo e nisso a olhá-lo ralhar consigo ou abertamente
a proibir mexer sobretudo na documentação que apinhava a mesa. Enquanto isso o
menino ouvia os fregueses do tio no estabelecimento falarem, a falar falar
falar, primeiro firme depois grosso gosmento e mole. De longe o garoto escutava
aquele barulhar desde seu silêncio, aumentado pelas horas em vigília no
castigo, ali ao lado da escrivaninha, constrangido e na ânsia com a demora da
mãe.
No entanto o que mais feriu sua
curiosidade e até seu sonhar como diante de imagem sagrada – foi a
escrivaninha, que os tios tanto um quanto a outra pronunciando “iscrivania”,
sem qualquer importância o desastre ortográfico ao visitante. O móvel é que o
fascinava de fato, não os papéis os cadernos e livros e mesmo objetos
desconhecidos como o mata-borrão a caneta de pau com pena metálica que vira o
tio usar, aquele negócio de molhar a ponta no tinteiro cheiroso preto e depois
espichar a letra na folha, o que poderia ser em grego ou não entretanto grego
aos seus olhos analfabetos, tudo interessante curioso pra si; aliás nunca fora
a uma escola, quase nem aos ricaços havendo vaga. Dessa forma ficou no seu
‘matar tempo’ no tempo observando e mesmo catalogando na imaginação os objetos
em cima esparramados. A rigor na ordem classificados e esparramados e também em
ordem, seguros com grampos de mola usados lustrosos; ou prendidos por pesos,
não apenas contra o vento, a urbe era vítima de ventanias frequentes, ali
naquele entremeio na casa dos tios e a casa de secos & molhados não ventava
ou somente o suficiente a depositar detritos que se depositavam por cima de todos
objetos e folhas com letra tremida uniforme e com certa beleza pelo secarrão
tio.
As horas mostraram ao garoto as
letrinhas que ele desconhecia mas também mil novidades, novidades para aquele
mundinho desconhecido andante e tímido.
Percebeu o móvel grandalhão, enorme à
sua ‘pequenura’ de gente; sua feitura nunca vista (o menino roceiro sequer
havia visto por dentro uma casa urbana nem os lares ricos, ricos pra si). Era
como certa mesa descomunal, tendo uma cobertura de peças cilíndricas de
madeira, acoplados e móveis, a qual em puxando sobre, fechava a dita mesa; e
pressionada para cima descobrindo a mesa. Isso foi uma descoberta e tanto a
ele. Embaixo os quatro pés e entremeio quatro gavetas com seus puxadores, tudo
de madeira lustrosa envernizada e cheirosa a lhe arder as narinas. Em cima da
mesa, no plano horizontal, a mesa propriamente onde objetos e mil objetinhos,
uma riqueza ao conhecimento de um bom ignorante, embora ainda criança e criança
sempre uma promessa sobretudo a dominar tais conhecimentos. O que não só permitiu
ocupação de tempo, ocupação como por exemplo não ter que pensar em mamãe nem
estar num ambiente se não feroz ao menos hostil e contrário às fantasias que os
seres experimentam. No entanto o que não apenas permitindo a distração mas a
revirar sua curiosidade de aprendiz foram os cinzeiros. O tio possuindo vários,
fumante inveterado quase sempre baforando o tabaco por toda passagem ora a
gritar a tia ora a pegar suas coisas ali, anotar por exemplo. Dois cinzeiros entretanto
atraíram mais: uma vaca como que desmanchada e prensada de metal brilhante em
cujo bojo dormiam tocos de cigarro e cinzas; igual ou semelhantemente no
segundo, que era fisicamente um pneu. O menino não suportando a atração: tomou
o objeto, inclusive derrubando cinzas e tocos nos papéis do tio, se não ato
corajoso pelo menos atrevido nos esquecimentos da ordem e das ordens recebidas;
que facilmente umas nádegas possam aceitar como consequência talvez e não como
correção; porém ao instinto e às tendências das crianças quem sabe não sejam
intoleráveis... O menino manuseou cheirou a borracha de verdade, experimentou o
cinzeiro colocado de pé como deve um pneu que se preze ficar – aí já sonhando
como fosse mesmo um carro, daqueles fordecos antigos não antigos na época
apenas velhos. Daí correu varou estradas cruzou ruas fonfonou nas esquinas
cavalos carroças carroceiros e até...
Ah, aí voltou o parente a deixar ser
babá de bebuns para pilhar o mexilão.
Ainda gastava suas forças e seu poder
no falatório, o qual aprecia antecipar surras homéricas e outrinhas torturas;
quando acordou o menino, no exato momento em que abalroava uma indevida
‘ramona’ ou carroça ou dupla de éguas ou mesmo no frear a tempo na passagem
duma tropa ou boiada pela avenida, ouvia inclusive os sons do gado os gritos do
boiadeiro... Nisso olhou aterrorizado para cima constatando um parente brabo
cobrador de voz fanhosa grave e de olhar feroz a observar indignado o choferinho
afoito...
Aí fez beiço, extravasou sentimento,
chorou abertamente. E será que mamãe não voltava!
Marília fevereiro
2010
6° A Boca Falante
Muito boa essa. Como poderia uma boca
não falante! boca foi feita a falar; a beijar a fazer biquinho e beicinho e até
para uso de rogar praga; não só para falar falando normalmente. Não se assustar
portanto; portanto assustar-se convenientemente pois temos um exemplo flagrante
de boca que não fala! A minha não fala. Contudo sou apenas ouvidos e a minha
boca serve para decoração, mera decoração. O que me categoriza a falar dessa
Boca Falante do título; sabe-se a sobejo que os contrários se entendem por
desentender. Assim nasce o direito de crítica e nos autoeducamos. Decerto não
acha certo a assertiva; mas garanto – porque somos contrários. É isso.
Era isso. Ela andava ali atrás no
banco de trás do ônibus andando. Melhormente correndo; até pensava que estivesse
dopado com ‘arrebite’ (eles chamam arrebite os troços que tomam para só
cochilarem ao volante e não dormir) não o coletivo, é visto, o chauffer do veículo. Tanto assim me segurava
naquelas guardinhas do lado postas a apoiar cotovelos; grudava ferozmente os
dedos crispados, tanto tanto que precisava fazia tempo fazer xixi, mesmo
levando em conta os solavancos da traseira, a ponto tal que por vezes a gente
erra o buraco e ‘fedora’ o líquido no chão – precisava premente urinar porém
não saía da poltrona, segurandinho nas guardas para apoiar cotovelos. Um pouco
assustado. Um pouco muito sem confiança no motorista ouvindo lá na cabine som
em ‘caipirês’ ao lado seu volante. Isso.
No entanto não deixava de ouvi-la;
seria em função do temor à corrida do veículo! O fato é que não podendo
livrar-me escutar a Boca Falante, que supus chamar-se Dona Maria e não devendo
estar no erro demasiado: 90% das mulheres são marias; as mulheres do povo. Ah
me esqueci, hoje não tem mais Maria, hoje são nomes estrangeiros de artistas
que se usa, a minha Maria podia sê-lo, pois da velha geração. Vamos para
frente. Não deixava de ouvi-la, contudo ela não me falava, falava a uma
senhorita sentenciada a seu lado. Talvez alma gêmea aqui do ouvidor, não falei
que sou apenas ouvidos? Ela, a senhorita, respondia “sim” “como” “ahn” essas
coisas que dizemos quando nada falamos, para que outros nos metralhem seus
dramas e aventuras. Ela, a Dona Maria, tomava por consentimento o assentimento
e continuava a fustigar a outra, a nós também por tabela; a saber: o
todo-ouvidos aqui e a garota sentada no banco ao meu lado e que lia, não me dando
oportunidade concluir se gostava ou não da leitura por não rir não chorar não
mostrar expressão alguma (e como pode tal! alguém que não manifeste o que lê; não
importa agora, agora só Maria). Falava falava, vez por outra tomando fôlego
porque ninguém terá língua de ferro, respirava, continuava a falar. Assim
desfiou seu ser seu não ser.
Os filhos, felizmente contei bem meia
dúzia deles; e se fosse uma dúzia como o antigamente do antigamente em que
surgira aquela ninhada! Isso porque Maria falou cada coisinha de um por um: o
nascer, o crescer, vacina, disciplina, namoro como se demorou no namoro!
casamento à moda de antes com noivado pedido cerimônia e casório no padre e no
cartório (não entrou nas indisposições conjugais ou por não saber mesmo ou
mesmo para escondê-las, na boa política de família) e da gravidez, o
abortozinho pela queda da filhinha da filha, neta portanto; ih os netinhos!
Enfileirou. Não se esqueceu dos dramas dos seus: estudos, nos quais ressaltou
os feitos do primogênito, as notas obtidas, os cursos, as amizades – ah que
horror! Eu me horrorizo com santidades e perfeições, quase interferi indagando
coisas à Maria. Não o fiz; fiz bem, tem um ditado que fala: o feitiço vira
contra o feiticeiro (ela poderia se voltar para meus excelentes ouvidos
deixando os da companheira dela...) Portanto fiz bem.
Bem postas estas considerações, não me
arrisquei não, continuei a ouvir Maria. Melhor dito ‘continuamos’ mas a
companheira, a minha companheira ao lado, não me autorizou o dissesse, visto
embicada na leitura talvez nem ouvisse sequer minha respiração ofegante, que
dirá o gritar de Maria.
Sim porque ela falava, sem parar
falava, num tom alto em voz monótona e incidente. Pobres orelhas! pobres
orelhas minhas a escutar tantos feitos duma família perfeita. Ah interessante:
agora me lembro um dado positivo da senhora – ela falava matracava sobre todos,
inclusive deu uma bicadinha no esposo a dizer que aceitara o encargo dado pelo
fazendeiro para olhar-lhe as terras, podendo plantar uma roça; essa bicadinha;
no entanto não falou sobre sua própria pessoa, ela a Maria, seus feitos! não é
espantoso e estapafúrdio! Acho estapafúrdio porque o que mais se fala quando se
fala no mundo é a respeito de si mesmo; existe um egocentrismo, quando não
abertamente egoísmo. A Maria falava nos filhos nos amigos dos filhos nos
adversários dos filhos nos parentes dos filhos, um por um dos filhos, e mais
detidamente ainda na sua fixação sentimental: o primogênito. E tome informes e
tome dramas e tome vitoriazinhas dos familiares! Minhas infelizes orelhas já
andavam amortecidas tadinhas, ela Dona Amélia continuava a falar a falar a
falar sem tréguas.
Como foi que disse? Sim era Maria,
continuava Maria. É que resolveu uma vez, ela falou que resolveu, fazer uma
limpeza em regra na casa das filhas e na casa da nora que ela adorava como
filha; ainda por cima deixou tudo pronto – comida e roupa, roupa lavada passada
dobrada guardada cheirada e cheirosa – para quando o pessoal voltasse da Festa
de São (que diabo! não me lembro o Santo). Eu pensando ouvessem matado a última
das amélias do planeta, tava aí uma de plantão a Maria como Amélia, a mulher de
verdade, todos sabem.
Assim a senhora atrás de mim
fustigando a companheira de viagem me fustigava também na sua limpeza nos
trecos familiais. Tomou as roupas peça por peça dobradas num baú e numa cômoda
daquelas antigonas de madeira maciça. “Ela faz – ela disse – faz conjuntinhos
que só vendo!” Ora, aí está uma de minhas fraquezas humanas: não sei descrever
roupas. Mas ela descreveu as mesmas tim-tim por tim-tim, a misturar tudo no meu
pobre cérebro: tamanho tipo largura contextura peso tecido padrão e mais uns
negócios que não sei bem se é crochê ou tricô. Mesmo eu conhecesse o artigo,
após horas ouvindo o falar... fatalmente me perderia nesse continente, onde
reconheço não sou forte. Entremeio Maria interpôs preços custos gastos, um dos
conjuntinhos saíra por quatrocentos e cinquenta reais. É muito? é pouco?
desconheço. Desconheço seus recursos financeiros e também desconheço os lances
de sua aposentadoria.
Oh a santa aposentadoria!
Sim porque iniciou o contar – para
minha inteira alegria – as coisas os meandros os dados os documentos comprobatórios
para a sua e antes a do velho, seu esposo (nisto como fiquei apavorado ao
ocorrer-me que pudesse quando ela jovem bela haver-se casado comigo,
francamente morri de medo! e depois me senti encantado não ter caído na
armadilha de padres e juízes). Todavia me alegrei a pensar que estivesse aí o
início do fim da matracação dessa Maria, porque sabemos a aposentadoria é o
fim, perto do fim do fim que é o falecer. Por isso me alegrei. A bem da verdade
indevidamente. Sim, ela aí mais se entusiasmou...
Pensa que fiquei a ouvir a Maria
Aposentada?
Foi nessa altura que arranjei um
pretexto à jovem que lia do meu lado (quem sabe a fugir da Maria!) porque é
chato deixar alguém, parecença com repúdio, é má educação acho. Por isso meu
pretexto foi o sol de nossa banda queimando queimante e abrasante. Fui-me para
outro lado no ônibus que não mais corria voava, bem longe de todas marias, mesmo
aquelas travestidas de amélias, que são, falam por aí, mulheres que nos dão
grandes saudades.
Marília fevereiro
2002
7° As Mãos
Nunca me ocorrera tal situação. E
confesso não ter queda para açougueiro... Nem me ocorrera igualmente um castigo
daquele, pior que o dente por dente. Seu Noninho era bem disso; e mais talvez!
A carne estava vermelha, meio descolorida, o sangue escorria ressecado já,
preto e duro, em filamentos de dor. Nem mais nem menos.
Quando cheguei do litoral sequer de
longe imaginava, ao receber os coices no sertão, realmente não pensava que
viesse a ser pior; mesmo para o então sofrido operário que me sentia. As mesas
de madeira, toscas e velhas do uso, indiferentes às postas de carne e às
origens dela (o pasto ou a mina...) ficavam à altura dos raspadores e
cortadores. O Zeca era o mais decidido entre os cortadores. Empurrando a
barriga contra a mesa, cortava e esfolava o inerte. De tudo subia um cheiro de
caça fresca e açougue, como no litoral... Minhas entranhas enjoavam, parecendo
fora eu a matéria ali trabalhada, e não a do Chico Preto, a caça e o boi destrinchados.
Mineirinho, trigueiro e espantado,
baixo e sumido, era o mais pronto às ordens de seu Noninho. Um brilho esquisito
no seu olhar, mostrava haver entendido e se dispunha às palavras do chefe.
Noninho gostava do rapaz. Acho que éramos diferentes, bem diferentes, pois as
mesmas expressões do algoz me gelavam; tremia, e a pele do morto às vezes
escapava de onde eu a segurava... Na verdade aquilo dava em mim uma repugnância
incontrolável.
A faca de Mineirinho era a mesma
tomada na véspera ao Chico Preto. O mulato ficara de posse dela como sendo o
butim de uma guerra. Sua raiva e as pequenas rusgas com o Preto datavam de
muitos meses, anos quem sabe! era seu desafeto declarado; os desaforos de parte
a parte mostravam haver mesmo uma guerra surda. Mineirinho o vitorioso... (todavia
eu me perguntava, até quando?) e Chico o vencido; vencido e comido! Zeca,
enfunado e quietão, o “boca de túmulo” falavam dele; trabalhando no silêncio,
sem parar, percebendo pela vista a vontade do chefão; sem parar sem parar...
Parecia múmia, um ‘franquestein’ ligeiro. Sua faca também trabalhando com o
mesmo ímpeto da de Mineirinho, porém com mais decisão. Era aquela faca de corte
abaulado, gasta nos talhos do açougue; ele, silencioso, quem repartia a carne
do gado trazida por Noninho ao pessoal. Já andava acostumado no serviço.
Silencioso. A memória me lembrava também da morte da cadelinha Cutia, magricela
e vira-lata, estimação daquele negro-aça Zeca. Chorava como se fosse sua filha.
Fiquei inclusive constrangido na ocasião. Será que o Zeca intimamente chorasse
o Chico Preto! A pele era empurrada calculadamente pela faca gasta do homem; eu
esticando-a do outro lado; a mão sebosa grudenta e trêmula. Havia uma terceira
faca no trabalho. Não era bem faca, um punhalzinho rombudo. Estava na mesa mais
baixa. De vez em quando olhava nela com uma interrogação e olhava a seu Noninho
com outra. Eu numa tremedeira danada... Enquanto observando o pobre Chico.
Escorria um suor azedo gotejante em vários rostos, gotas jovens a escorrer e
cheirando a suor muitas vezes dormido, suplantando as das minhas axilas a
funcionar mais que minha tremedeira... Um caos catingoso. Espiava o infeliz
rapaz: barriga aberta, emasculado, súplica no olhar de morto!
Aqueles braços que mandaram pôr no
saco, com suas mãos rijas e nodosas, aquelas mesmas no domingo... Que terror
devia aparentar, que tristeza realmente eu sentia! Foi quando Noninho
gritou-me, espumando e cuspindo:
--Zé de Pedra! – mobilizei-me,
atarantado, e joguei as peças macabras no recipiente de estopa. Lembrei-me
então ainda continuar sendo eu mesmo, e vivo...
--Zé de Pedra! – Voltei de meu delírio
e do mundo sonhado, ali a realidade sendo incrível. O riso maldoso do Mineirinho
me comendo por inteiro; a faca alevantada, como fosse agora a minha vez. O
olhar displicente do Zeca, boca fechada, dente escondido (aliás não me lembro
ter visto algum dia os dentes do homem, não sorria). O olhar me tomava todo. A
voz fanhosa e estridente, a expressão neurótica daquele nosso chefe:
--Zé de Pedra! – vibrava no meu último
fio de cabelo, até. Proibido sonhar. Era segurar de novo, esticado, aquele
couro preto sangrento...
Braços e mãos, mãos de trabalhador. O
silêncio de trinta anos de frustrações, de quedas no cavalo da vida, talvez...
O silêncio nos lábios roxos do negro, o Chico-olho-de-vaca, submisso. Silêncio
nos lábios, mãos expressivas de trabalhador; mãos que escondiam revolta e ânsia,
inexpressões pela boca rude. Mãos calosas, de tantos e tantos anos cavando ingloriamente
a riqueza para Noninho se fartar; agora atiradas num saco de estopa, duras
crispadas inertes. Quantos outros pares teriam sido ali também atirados!
Quantos ainda seriam sacrificados? Aí gelei-me!
--Zé de Pedra! – A pele esticada
sebosa do Chico, calos nos dedos... Até no domingo ainda o trabalho insano.
Chico, eu, os outros. O cavar a terra seca.
Noninho de olho, crucifixo na
correntinha, Taurus na cintura, o jep-jep dos instrumentos na terra dura.
Quinze ou vinte infelizes, prisioneiros silenciosos a curtir sua fome e seu
desengano, para satisfazer a Noninho; voz fanhosa e forte, mão direita
encostada ao revólver, intimativa e maldita. Zico, Beltrão, Zeca, os outros.
Chico Preto tossindo, mão no ventre, arcado de vez em quando. Pimpa volta
e meia assoprando contra o negro. Eu mal podendo com a picareta, fraquinho e
desajeitado.
--Zé de Pedra! – a picareta baixava e
subia, jepjepjep. Mineirinho, Pedro, os outros. Noninho de olho, a xingar a mãe
da gente; jepjep. Lampião fedendo a querosene, a noite ao meio dia, o jepjep
incessante, a tosse do Chico. Mais outro meio-dia e mais outro ainda. Domingo.
O açougue de carne ensanguentada; as moscas chatas e curiosas no voar lambetas.
Sangue preto, um filamento a escorrer duro. Suor.
Fim do delírio horroroso, o choque
daquele grito que me chegava a fanhar:
--Zé de Pedra! Zé de Pedra, sua besta,
jogue esses troços no saco; venha logo, que vamos abrir a barrigada do ‘tisiu’,
para encontrar o ouro engolido!
Marília janeiro
1968
8° Banal
De uma conversa sem importância – é
provável que fosse sem importância – conversinha de corredor, nasceu o
desfecho. Ele era cientista importante e bem visto nos meios universitários, em
vias de se aposentar; porém fora de seu círculo não existia. Digamos, ficava a
uma distância sideral do mais medíocre ator de telenovela. Já Seu João não
pensava na insignificância ou na posição invejável do colega; colega sim,
porque era servente-porteiro-contínuo, lotado na mesma repartição; e também velho,
não tão idoso como aparentava o cientista. Não obstante, lamentava-se muito
mais e o fazia num dedinho de prosa com o Doutor Simata, no café que lhe trazia
três vezes por dia. Uma vez respondeu-lhe o gênio, quando o colega a lamentar:
--Gostaria eu Sr.João, mesmo assim, de
estar na sua pele. Já imaginou o drama que um intelectual tem com o fisco a
universidade a pesquisa os artigos todo o mundo da ciência enfim!
Não imaginava. Só entendia de ganhar
pouco, brigar com os vizinhos, doenças. Daí o imprevisto na conversa com o
cientista – ah como são malucos esses crânios! – quando ele propôs ao João
trocar de lugar por um ano; sendo ambos velhos e viúvos; pois não se pareciam
um pouco? além do mais tirariam as férias regulamentares e voltariam ao
trabalho, cada um na vida do outro; espécie de troca de pele de carneiro que um
ser traz consigo. Seu João sequer precisou pensar, por não acostumado a pensar;
enquanto o cientista já havia pensado ao formular a proposta, se houvesse pensado.
E assim se fez realidade essa urdida
trama. Cada qual representando seu novo papel. Afinal, todos não somos palhaços
no palco da vida? ainda que fazendo chorar.
Ano novo vida nova. Tapinhas nas
costas dos companheiros. A rotina, o aguentar o tranco. O novo Seu João voltou
ao trabalho assinando ponto na faxina. Nos primeiros dias cansou-se de
descansar a mente, e cansou de cansar os músculos; teve de suportar mexericos,
a ranzinzisse do chefe caolho, as determinações das portarias interpretadas
como convinha à repartição, tão grave para si, meticuloso e amante da verdade
ao pé da letra. Apesar de tudo, livrara-se temporariamente do fisco e da
universidade, com artigos pesquisas e o mundo da ciência; livrara-se para descansar
por um ano. Enquanto isso observava o novo Doutor Simata, o qual era
acompanhado pelos jornais, e nos breves, cada vez mais breves, momentos de
eventuais cafezinhos.
O Doutor Simata agora andava muito
expansivo, dando entrevistas e escrevendo muito. E mal. Dizia-se mesmo que
devia ter sofrido qualquer abalo nervoso no seu afastamento da vida científica,
nas últimas férias; que voltara transtornado... Apesar de tudo o mais, sempre
respeitado; tinha suas asneiras comentadas em notas de rodapé, geralmente
começando por “conf. Simata, P., op. cit. pág. trezentas e qualquer coisa”. Nas
conferências, como naquela da ‘União e Amparo à Ciência e Afins’, vinha lá a
opinião simática de nula ciência engordada de afins e etc.. Adorava ‘etc.’.
Quase seu prestígio crescera. Comprou anéis, botou diplomas e certificados
internacionais ornamentando a sala de visitas. Acabou dando vexame com uma
prostituta num pulgueiro do centro da capital. Foi assim. E os jornais sabiam
disso.
Já o faxineiro João sequer progredira
com a vassoura. Inclusive era gozado pelos colegas, possuindo cada vez mais
menos admiradores. Mortificava-se observando um “asno” como pensava (somente
pensava, se falasse se detrataria) por falar tanta bobagem em seu nome. Esse o
drama novo para o antigo Doutor. No serviço não passava de um funcionário
comum, não sendo notado sequer por si mesmo. Deixara ser lunático, passara a
louco contumaz. Apesar disso era aceito, visto não interferir na vida das
outras pessoas – porque não existindo na repartição ninguém inferior a Seu
João! Tanto assim que dizia um colega pândego: “o João não fede nem cheira”. Não
aguentou a vidinha, o dia a dia por demais simples; e muito menos as posições
do ‘Doutor’, o qual agora olhava ‘Seu João’ lá embaixo e não queria saber de destrocar
os papéis; inclusive se convencera mesmo ser Doutor Simata; não admitindo
perceber o ridículo a que se expunha. Um dia Seu João pulou no fosso do
elevador. Disseram os colegas ser por causa de o almoxarife negar entregar-lhe
vassoura nova. Talvez fosse por isso. Os jornais não comentaram, sequer
souberam.
O “Diário Oficial”, meses após, fez
constar a vacância de mais um cargo de servente-contínuo-porteiro, por morte de
João Tudinho Certo. Mas ninguém lê “Diário Oficial”, em não ser fanáticos
desinteressados de quase tudo.
São Paulo abril
1978
9° Palanque
Era uma festa em Vendagrande, grande
ajuntamento, enorme. Os moradores, meia dúzia de capiaus, quase todos já na
cama ou no que se convenciona chamar cama; ou sonolentos nos bancos improvisados
na frente das casas, alguns sentados nos calcanhares em cômica posição
repassando causos sem grandes pretensões, só a matar o tempo que mata o sono e
ao mesmo tempo emprenha o sono com sonhos. Mas dava para ouvir ainda assim o
barulho da festa.
Não era bem uma festa. Política não é
festa, é festa de seriedade a engajar matutos e conseguir votos. Tinha o padre
magrinho, o boticário e os meninos de rua, muitos moleques, pra lá de quinze,
dezoito, de todos tamanhos: aqueles querendo falar grosso falando fino e os que
falavam mascado de chupeta e mesmo os que não falavam ainda, havendo é claro o
grupo do meio fazendo balbúrdia, dessas nunca dantes vistas na vila; as meninas
não, arrumavam a cozinha da janta ou preparavam a boia dos grandes para o outro
dia. Um que outro adulto curioso desejando saber de política ou talvez para
desaprender melhor. Ah, havia um fardado. O orador dominava a gritar mais
forte; e não desperdiçara seu dinheiro pois o já-ganhou das vozes desafinadas
era suficiente a superar causos e sonos reparadores. Sentia-se o dono do pedaço
e aparecia vistoso no palanque, mais improvisado ainda que seu discurso, bem
mais. Era um sujeito sem idade, sem cultura exagerada, bom por seu verbo
ofensivo, corajoso na língua e se imaginava um doutor. Não importava, aliás nem
ele se via pior nem via o público sua figura, não importando estivesse de
chinelos gastos e portando uma barriga proeminente, mesmo que a pança fosse
empecilho pra ver o que debaixo dela; nem a importar a camisa meio aberta meio
ensebada, cheirando natural, ou seja: acrescido o suor, fazendo um todo de
homem comum, pouco mais que a arraia-miúda ali a gritar belissimamente seu nome
num já-ganhou infernal. E havia nesse ajuntamento um violeiro dedilhando sua
arma de atração, cantando afinado coisas da terra, pra descansar a goela do
doutor já-eleito. Um que outro distribuía santinho com a imagem do doutor
quando jovem à maioria analfabeta e para a minoria semialfabetizada, quase
sempre necessitando ainda tirar o título eleitoral. Contudo o orador não se
importava. Importava era fazer Vendagrande sair de vez do paradeiro.
“É preciso tirá Vendagrande do
buraco!” Todos parabenizavam os buracos. “O prefeito é um ladrão!” Viva o ladrão...
não, morra o ladrão do povo, fora com ele. “Falta de tudo neste lugar” e
enumerou fábricas palácios asfaltos veículos, todos ‘vivacionados’
histericamente pelo público. “Vô construí um hospital, fazê igreja nova...” O
pároco quase sozinho berrou viva o doutor, os garotos completaram os urros.
“Darei a este querido povo uma ponte!” Disseram baixinho não haver rio no
município. “E o córgo? Não tem importância, darei um rio, mais de um, desviarei
o Amazonas, o rio Nilo, para Vendagrande!” Apoiado apoiado, todas vozes a uníssono
apoiaram, desafinaram porém apoiaram em grande estilo e com emoção. O orador
suava, tomou mais alguma coisa que lhe trouxeram e prosseguiu prometendo suas
promessas. O negócio esfriou depois um pouquinho; a esquentar criticou a
câmara, o prefeito seu bode expiatório preferencial e o partido do prefeito;
falou da carestia; falou das podridões sociais, acusou prostitutas e adúlteros,
‘corruptou’ novamente a corja do prefeito, mostrou lama flagrante e pôs tudo na
conta da política situacionista. Aí se defendeu pondo todo ataque recebido
noutras eleições anteriores como intriga da oposição. O seu governo seria a
pureza o progresso: “Vejam como mandei já fazer duas, duas eu falei, duas casas
em Vendagrande!” E completou: “Quando eleito farei muitas mais, até uma cadeia
grande digna da grandeza de Vendagrande”(o que fez arregalar o meganha de
plantão ali plantado junto aos meninos). Todos concordaram arreganharam
gritaram urraram de alegria. “Farei estradas, Vendagrande crescerá: a capital
irá tremer diante de Vendagrande... exigirei depois a transferência da sede do
país pra cá!” Seguiu-se um delírio da massa.
Tocaram mais um bocado a viola, os
assuntos se acabavam e o político se repetia; os garotos bocejavam, iam para a
mamãe, o padre andava cansado, o boticário não abrira a boca durante o comício
mas abria a bocarra saudoso da cama; a reunião se esvasiava, mesmo o doutor
precisando guardar força para o resto da campanha. E além do mais o prefeito,
alertado pelo rábula da delegacia, mandara desligar o gerador de eletricidade,
por intriga da oposição decerto. Assim o ajuntamento eleitoreiro se findou com
as pessoas se dispersando se tateando no escuro desta vida rica em causos. Não só em
Vendagrande.
Guarantã agosto
2001
10° O Testamento
Meu nome é Zé da Silva; era, caso
fique melhor a você que está lendo este documento. Já foi Almeida, Souza, conforme
as paragens por onde andei.
Resolvi registrar as informações que
se seguem a fim de evitar briga entre herdeiros, porque os tenho plantados por
este mundo de meu Deus, sendo muita a terra e muitos os filhos meus...
Tomei a intenção de escrever sobre
meus bens porque sei que vou morrer. Amanhã; isso mesmo, amanhã. Explico o
porquê: o Zé Canoeiro. Foi ele o deus a determinar o meu final! Justamente
quando eu mais precisava da existência; já esquecia ser o viúvo da bela Maria
que me deu sete meninos e uma garota e prometia mais muito mais! exatamente no
momento em que a comadre Joaquina anda caidinha por mim e poderíamos presentear
o planeta com mais seis ou sete habitantes. Mas Canoeiro decidiu.
Ninguém resiste aos avanços do Coronel
Zé, que já foi quando pobre até canoeiro. Ele tem muitas mortes nas costas,
seus jagunços matam por distração, por não ter nada que fazer, que dirá quando
o Coronel manda! E o homem virou meu inimigo, olhou feio para meu lado,
resmungou qualquer coisa, cochichou nos ouvidos do Zé Bota, o chefe dos bandoleiros,
e me indicou à sua gente fazendo careta e cuspindo no chão. Minha condenação
está lançada. Como é praxe nestes matos, condenado o réu é defunto no outro dia
– concluí amanhã ser meu enterro. Não adianta fugir, ninguém nunca fugiu, todos
estão mortos enterrados num pé de árvore qualquer. Quem me dera escolher a
laranjeira da biquinha, todavia essas concessões o Canoeiro não faz: se souber
meu desejo jogará meu pobre cadáver aos cachorros e aos porcos e não me
enterrará debaixo da árvore.
Já não tenho esperanças. Considerou-me
esse deus cobrador candidato a defunto, por coisinhas. Por ter olhado para sua
filha Julieta, por ter vendido a ele uns porcos doentes (ele não pagou-me e não
perdoou também) por haver posto menos espigas nos jacás e roubado no carro de
milho, e finalmente por ter eliminado o Bastião, seu empregado burro e
ganancioso, no que até deveria me agradecer. Não. Olhou-me feroz combinou com o
traste do Bota cuspiu na minha lembrança. Estou desgraçado no mundo.
Por tudo resolvi esclarecer o que
deixo; para que a filharada e parentes não briguem muito pelo pouco que passo
aos vivos, porque estarei decididamente morto amanhã.
Vou descrever minha herança e a quem
determino beneficiário dos meus bens.
A Comadre Joaquina deixo a quem mais
esperto. O qual terá direito a criar a filharada que o Compadre Tonico deixou
para ela.
As terras, as que os olhos alcançam a
sumir de vista e que o governo deseja tomar por impostos nunca pagos, as quais
os vizinhos já tomaram por gosto de avançar – deixo a todo mundo que por ela se
interesse; e por carrapicho, e por tiririca, e por capoeira braba e pobre.
Todavia sei que o Coronel administrará o sítio sem cobrar nada e quando muito
aceitará expulsar dela minha família.
As três vacas parideiras deixo pras
meninas – para todas as filhas, as que conheço e as que apenas conheci suas
mães – porque elas irão sustentar meus netos com o leite. Naturalmente o
Canoeiro está em primeiro lugar na posse, mas se não quiser, fica mesmo para
minhas filhas conhecidas e para as desconhecidas.
A cabrita marrom, ficará ao meu filho
mais velho, filho segundo da minha primeira esposa, a única casada comigo no
padre e no cartório; porque ele sempre cuidou da bita com paciência; e
inclusive as línguas desocupadas acusam a pobre ser sua amante eu não sabendo a
verdade. Mentira não é que o João leva a bita para comer os capins do Coronel
Zé Canoeiro todos os dias. E lhe dá água no riacho da fazenda do meu carrasco.
Justo fique ele, o primogênito, com a cabra, se o cabra safado do Canoeiro não
puser antes as mãos nela.
Os porcos ficarão os seis (os outros
morreram com a porca preta) para meus seis filhos depois do primeiro. São
pequenos magros fracos esfomeados, os porcos e os filhos, porém já servem para
um assado. Esses o Canoeiro não vai querer, porque já passei a peste através
dos meus suínos aos porcos dele. Só se ele quiser para vender a outro
fazendeiro inimigo. Parece herança garantida.
Os pilões vou deixar aos filhos meus
com a comadre Antônia e outros que fizemos eu e a mulher do Zé do Mato; o pilão
grande para os da Comadre Antônia que vêm sempre socar aqui em casa; e o
pequeno aos meus filhos, os que têm sobrenome do Mato, porque eles já possuem
um outro pilão, embora velho e rachado.
Os trens de cozinha vou dar por
herança à molecada miúda, os filhos esparramados usando vários sobrenomes de
compadres enganados. São tantos que não poderei indicar por nome; não conheço a
maioria. Porém quando após meu enterro – certamente depois de amanhã ou mesmo
amanhã – aparecerem crianças reclamando o pai, podem ser entregues. Que há
muitos trecos, chego a perder a conta, perdi a conta também quantos os meninos
que botei no mundo por vias escusas. Só tem um senão: a canequinha de esmalte
verde, a que tem um descascado na banda esquerda (a bela Maria quem derrubou e
me deu esse prejuízo; até andaram falando que foi por causa da surra que lhe
apliquei por deixar lascar minha caneca, por isso teria morrido; não concordo,
foi por outra surra). Essa caneca é de estimação. Confesso que é meu dodói, é
nela que faço sopinha de pão com leite e café. E só a deixo aos herdeiros
porque defunto não come sopinha de manhã e amanhã serei defunto. Ela vou deixar
a um amigo de todas as pingas, o Chico da Porteira; o qual merece esse prêmio
porque sempre me ajudou pôr pra correr todos os maridos enganados de minhas
comadres, mães de muitos herdeiros meus.
Tem as redes para dormir. Estas, bem
como os trecos de cozinha, os bancos de três pés, varas e anzóis e demais tralhas
de pesca, não interessarão ao meu algoz; ele apenas tomará a bugiganga para
queimar, visto apreciar ver fogaréu dos bons! Portanto creio não se interessará
e poderá ir tranquilamente aos meus herdeiros que não nomeei por andar esquecido.
Bastará reclamar a herança, para entrar logo em posse.
Por fim há o Totó, cão raquítico e
desanimado. Teria os gatos, o cachorro esparramou com todos, quando tinha
coragem. Agora vou deixá-lo como herança para a sarna e suas pulgas mais
chegadas. As galinhas não deixo nenhuma, bem entendido, as minhas, já as
comemos, até as doentes, nos dias de crise; as que estão no terreiro eu as
roubei: que voltem agora aos legítimos donos, e em especial ao Compadre Coronel
Zé Canoeiro, de quem mais tirei. Talvez seja por isso que resolveu me amarelar
os pés...
E que seja feita a minha vontade,
exposta neste testamento, se o Zé Canoeiro permitir.
Ribeirão Preto outubro
1985
11° Leitura Absorta
Estava
a fazer bem uns três dias; dias azíagos? ao menos escuros do chuvisco, o
chove-não-chove misturado a muito tédio, tédio que nem as dívidas despertas nem
as doenças, dos outros bem entendido, nem elas esperavam se chocar com uma
alegria inesperada. Aliás não existem alegrias que não sejam inesperadas a um
bom, ótimo, temperamento sombrio. Tudo isso não mudava sua precária realidade.
Inclusive a realidade andava por demais fugidia, escorregadia, deslizante, se
não pelos dados, pelos olhos; e também pelos ouvidos; tato não, não percebia
nem se sentia no cadeirão, estava porém estático no cadeirão, desses cadeirões
de esticar a espinha dolorida mandona de todos os ais. Nem ao menos se sentia.
Sentia cheiro e não cheirava nadinha no momento: lia. Lia tão somente.
Apesar disso não se beneficiava da
leitura. Sentia-se espécie de geleia ou algo assim... assim como
‘desmanchante’, informal, informal empregado como sendo sem forma; sim é
verdade que estivesse formalizado qual boneco de pau – duro estático ‘imexível’
no cadeirão. A cabeça funcionava a mil. A cabeça não, não fossem os olhos perdidos
na distância, não a cabeça, ela era paradona também, apenas ‘mexente’ os olhos
e tendo um que outro tremor nas sobrancelhas e nos cílios, estes como fossem
limpadores de para-brisa dos olhos. Absorto. Isso, exatinho: absorto.
Abriu pela décima vez, se bem que não
desse conta contar as vezes, abriu na infeliz página onze. Infeliz por quê; por
que um mero papel cheirando a tinta de impressão recente deveria estar infeliz,
estivesse feliz o papel estaria automaticamente feliz. Ele andava num dia
azíago chocho escuro quase macabro. Macabro é um tanto macabro, a leitura era
leve. E pesada assim mesmo. Invariavelmente não se toma na biblioteca pública
um maçudo daquele! Sim, dos que nos dão dor nos braços pelo peso – já que medo
do tamanho um bom leitor não tenha, ele bom leitor; mas que peso enorme! Se fosse
livreiro, editor, faria do calhamaço bem uns três volumes. Não cansaria. Que
política governaria a edição num só de tanta besteira duma vez! Voltou à página
onze (e aí completaria a dúzia finalmente?)
Retomou o ler. Umas dez linhas. Não
acabou o capítulo, fechou a obra. Então ocorreu uma miserinha: existem mil
fatos insólitos surpreendendo a gente quando a gente não ‘está’ para ler.
Caiu-lhe o marcador. E agora, naquela hora, e agora como achar onde parara! Que
bobagem.
Tomou no piso o marcador de papelão
ilustrado com propaganda doutro autor. Não retomou a leitura porém. Deixou
juntos obra e marcador, este temporariamente desempregado, na mesinha ao lado.
Bebeu outro copo de água. Voltou à
sala, ao cadeirão com livro e marcador, tudo vigiado pelo telefone.
Sentou-se qual boneco. Pediu
inspiração aos céus, suspirou, folheou algumas páginas na releitura, achou a
página onze; olhou de viés o marcador desatencioso depositado na mesa do
telefone, retomou a leitura. Mais umas linhas, umas vinte, vinte e uma, até ao
ponto em que sempre nos parece ter sido vencido antes... Se perguntou se já
havia lido respondendo que sim e que não, releu o trecho em questão constatando
já haver sim estudado... antes de parar na dúvida o relido naquele momento; ou
terá sido antes do antes? Ah que perda de tempo. Retomou por via de dúvidas a
página onze e recomeçou. Parou pouco depois, olhou de soslaio ao marcador porque
a lógica sempre manda atirar-se a culpa em alguém. Arreganhou
novamente as páginas, mudou um pouco o cadeirão da posição em que estava, teve
cuidado ver se não descuidado ferindo os pés o piso esmaltado pago com o olho
da cara, virou o livro a melhor receber a luz de fora e... não leu coisa
alguma:
O telefone trinou chateações, não
atendeu porém se chateou, puxou o fone a pô-lo imediato no gancho, abriu de
novo o livro, pôs o marcador no seu lugar, quer dizer: na mesinha do telefone,
olhou a página onze, o telefone gritou-lhe outra vez, desaforado, a atenção.
Rosnou. Fechou a coisa, antes pôs o
marcador de propaganda de outra obra a marcar a página onze da obra. Atendeu o
engano, “não tem de quê” rosnou outra coisa. Se ajeitou no seu cadeirão de pau,
retomou a leitura.
Não retomou propriamente, pois a
ninguém é dado o direito de ler sem se ajeitar bem, num cadeirão de madeira
envernizada a corrigir direito as colunas tortas. Por isso empurrou as nádegas
mais para o fundo até encontrar encosto na tabuinha sextavada, corrigiu
posturas, esticou desesticou os pés antes cruzados e se pôs a ler, não, a
reler.
Página onze, embaixo, o telefone
tocou, “é hoje” disse, deixou tocar até ao cansaço, parou, iniciou a página onze,
não, disse a si mesmo, mesmo porque era solitário a quem iria falar! não, não é
no começo, estava embaixo, era quase à página doze, disso me lembro bem.
Todavia não foi longe demais.
Longe estava era claro do fim,
encontrava-se ainda na onze, iria à 792ª página; mas um leitor decente nunca
faz tais perguntas: lê. Só lê.
Não com um barulho que os infernos
vomitavam por ali! era o vizinho segredando rock
da pesada, era na rua a molecada num desentendimento no entender: todos gritam
todos falam ninguém com razão todos! Ora, não respeitam a leitura dos outros?
Onde anda a civilização a liberdade a democracia o mundo ocidental... Não
importa. Importa. Importa tantinho. Ah, brigar a gente com o planeta! Retomou o
livro.
Tentou retomar.
Página onze. Embaixo, no último
parágrafo, constatou. Se acertou no cadeirão. Gol! gritaram.
Ah como era bom no tempo em que falava
palavrão... Não fica bem um senhor benquisto a xingar menino por um gol. Além
do mais criança é assim: todos se reunem num lugar, digamos na frente de sua
janela, gritam brigam brincam debocham e de repente não mais que de repente
quase não se percebe, percebe-se a molecada a azucrinar lá longe outrem fazendo
exibição da garganta na gritaria a estragar certamente a leitura de outro alguém,
não: ninguém é tão besta a tomar um livrão de 792 páginas para ler... Pensou
retomar. Onde estava? ah sim.
Página onze. Releu para não deformar o
todo; um bom leitor não pode ter preguiça de reler uma parte a compor o todo
que é o livro. Releu pacientemente. No entanto...
Ao virar para a décima segunda foi
tomado por uma sugestão banal. Uma sentença, quiçá uma palavra, empurrou o
leitor à praia da Ponta Preta. Estava imediato no Nordeste, marulhando com o
mar e se perdia entre a gente tomava sorvete perdia os chinelos e achava o
livro... Voltou ao livro. Outro livro, agora lia (será que lia! quanta dúvida,
desembarcou no seu eu externo, se remexeu e acordou no cadeirão) sim lia a
página onze. Droga, parecia que era na doze. Releu a onze...
Aí não saiu ainda da página, algo
suscitou dúvida. Quase teria razão no pensar quem teria razão: errado o autor,
errado o tradutor, por essa razão obra poética não tomava mais na Circulante,
sobretudo poesia estrangeira: os tradutores deformam o autor! pior, recriam o
texto, então não é mais o original que se lê; além do mais como traduzir
sentimentos! Reabriu o livro na página onze, felizmente havia prendido o dedinho
entre as folhas à guisa de marcador, abriu na onze, ou melhor, prosseguiu nela,
ia prosseguir mas se indagou de novo: e aquele errinho? podia ser do autor,
como do tradutor, ou da impressão, por que não se submetem os volumes a mais
revisões? Epa, a culpa seria do revisor! Ah conversa-fiada, o erro podia bem
ser do leitor, ele.
Coçou o queixo, sinal de insatisfação
ou apenas tique nervoso do leitor desocupado. Voltou à onze.
Releu a ‘releitura’ e embasbacou no
erro outra vez. Mudou a interpretação em cima disso como fosse apenas ‘engano’;
ora, engano não é erro é deslize não intencional. Assim afugentou o drama e não
solucionou sua luta, sim já então uma batalha a leitura! Antes de perder a
guerra perdeu só a paciência, fez muxoxo ao seu marcador de livro e prosseguiu.
Prosseguiu tentando ler. Aí chegou a
esposa. Sim era solteirão e intelectual, só não suportava rock metálico e grito de garotos; a esposa do vizinho do outro
lado.
Todos sabem que sexta-feira, era
sexta, é dia de casais brigarem. E sábado e domingo e segunda e terça e quarta,
quinta não é possível saber. Empurrou bravo e grosseiro o cadeirão, o qual deve
ter ficado com cara de pau caso haja entendido a afronta, fechou o livro, quase
lhe escapando o marcador rebeldezinho de papelão com propaganda, sempre tem
reclame de obras da editora, pôs marcador e livro debaixo do telefone então
mudo, na mesinha. E saiu esbaforido. Entretanto não deve ter ido à cozinha para
ler.
Marília janeiro
2002
12° Um Conto Bem Comportado
Acho que devo fazer primeiramente uma
crônica a falar no conto, quem sabe não seja esta a única verdade, caracterizando
a bendita crônica. Porque meu personagem, o personagem do conto, não é bem
comportado: apenas o conto é comportado; risco o ‘bem’ para não comprometer,
assim mesmo ele não é comportado. Insisto, o personagem não é bem nem
comportado; ao contrário: chão. Pior – existe pior! – pior sim, ele é rebelde,
chão e rebelde.
Ora, pode caber-me culpa? devo ser
inculpado, ah mea culpa; devo sê-lo
sim ao imaginar a verdade da crônica, inclusive do conto.
Culpado seria tendo em vista o fato do
escriba precisar manter a língua padrão? porém claríssimo não pelos desaforos
da ignorância alheia.
Pera lá, sua besta quadrada, fala não
fala grita não grita berra o Chico.
Não é Francisco, Senhor Francisco? a
propósito, o Sr. terá um sobrenome...
Claro, seu burro, todos têm sobrenome
a atrapalhar as cobranças quando vem o cobrador, aquele fia-da-p..
(Tapo
meus ouvidos, desconverso a perguntar:)
O seu sobrenome Sr.Francisco... está
bem, aceito o amigo ‘Chico’, Chico de
quê?
Amigo só se fô das suas nêga.
(Engulo a seco, sorrio amizades
compreensões confraternizações e educações).
O meu é Cuia. Pra num confundí purque
tem o Chico da Véia, tem o
Chico Lubisomi, tem o Chico do Bigode, tem o Chico Lôco, tem o Chico da
Isquina, tem o Chico du Zé... aliás o Zé
é outro cachorro sem-vergonha...
(Conta do Zé, da senhora sua esposa a
esposa do Sr.José bem entendido, suja a pobre até ao ambiente de prostíbulo;
desligo meu conduto auditivo pra não ferir-me; religo o desligo a continuar a
conversa, onde o personagem Chico fala desbragadamente).
A muié, diz o Chico Cuia, a muié discutiu
com aquela vizinha...
Ah, digo interessado no meu
desinteresse de uma possível cena vergonhosa e da mais pura baixaria, ele continua.
Cê sabe o nome dela? é Nadir. Aquela
vaca andô com ciumeira da minha mais ‘véia’, vai escutanu.
Sim.
Falô, fala o Chico, falô pra rua
inteira que a menina andava paquerando o marido...
‘Paquerando’?
Num sabe o inguinorante! a minha fia
tava querendo dormí com o vagabundão dela...
O esposo da Senhora Nadir?
Claro. O cara é galinha e...
‘Galinha” galinha que eu saiba é a
fêmea do galo.
É modo de falá, seu besta. E ainda qué
dá uma de doutor e num sabe isso! deixa pra lá. O puto queria levá ela pra cama
e vive comendo todo mundo e dicerto num comi a própria muié, é feia que nem o
pecado, e aí mostra bom gosto nem eu queria uma gorducha daquela, ainda dimais
faladeira.
A galinha?
Quar ‘galinha’! tô falano da muié do
galinha, o fiadaputa que queria papá minha fia mais véia, sortera e virge.
Você, Chico Cuia, então...
Eu? Xinguei ela, levei o trabuco na
porta da casa. Pensa que o galinha quis saí pra fora! Quar, nem ele nem quis a
gorda dele.
Você voltou para sua residência e se
acalmou... Ora, fez bem: violência gera violência; quem sabe não daria cemitério
e polícia! Você fez muito bem.
Ih... num sabe nem metade. Vortei sim.
Nunca mais falei com eles; nem deixei os meus pequeno brincá com os capeta
deles.
Os capetas...
Os moleque lá aí da esquina onde
morava o galinha, porque os filho é tudo uns diabu.
Um momento Sr.Chico, eles se mudaram?
Você diz ‘morava’; suponho que tenha sido um bem, aí param de vez com as
discussões.
Vamu ponhá os pingo nos ‘i’. Só ele,
ela taí, nóis num olha pra cara da disgraçada mais continua morando na esquina
com os capetinha. Só o galinha fugiu.
Então sua família ficou aliviada,
visto não ter situação mais constrangedora do que alguém a desejar conquistar
uma filha da gente, ainda por cima um homem casado e com filhos... está bem –
os capetas.
Acertô e errô.
Não entendo bem Sr. Chico Cuia,
realmente não posso entender.
Acertô dizenu qui nóis gostô que o
sem-vergonha se foi; errô que o sem-vergonha queria conquistá a mais-véia, que
era virge e boa.
?!
Errô porque o puto fugiu com ela e
deixô a gorducha cum os capeta. Aí nóis teve de engolí que tinha razão.
Você...
Eu? ia procurá até no inferno e ia
matá os dois; a minha muié escondeu o trabuco.
Marília novembro
2004
13° Pamonte
Poderia
dizer uma ilha humana e indecifrável; era o que era. Nem sempre fora assim o
homem. As grandes caçadas... nunca apreciou de mais a pesca; porém naquele
mataréu inóspito... Ora, ninguém se livra de suas origens indígenas; pescava
lá, assim assim; cuidar da lavoura, bom machadeiro, jovem. Faz bem tempo.
O quadro posteriormente mostrava um
velho teimoso empinado mancando, fazendo “hum-hum”, imitando mais o leão
enervado que o homem enraivecido; “hum-hum” de negação a tudo a todos: comidas
atitudes gentes inimigos e conhecidos; os amigos fugiram? Barrigona deste
tamanhão, as calças farfalhando à antiga, largas e presas pela cinta de bater
nos moleques; aposentada, substituída pelo “hum-hum”. Plect plect andando por
aí, arrastando a ‘rendição’; ah! foi pior nos anos trinta, aquela bolotona
forçando o escroto, intumescendo a roupa, chamando a atenção da molecada
irreverente: “ói, rapais, a malona do Seu Pamonte!” A resposta vinha imediata,
tão grosseira quanto a observação, com a diferença dela partir de um velho
experiente embora também grosso nas maneiras. Um ir e vir constante,
insatisfeito, exibindo o ventre volumoso – o ir contra o vir interminável, a
buscar uma paz perdida; nunca conseguida nos oitenta janeiros (ou dezembros?)
Vender fumo, mascar fumo. Um caboclo
não engole chicletes: cospe a saliva de fumo, amarelenta, em jatos contínuos,
molhando a calçada. Um que outro escarro, amigo da friagem, limpando a
garganta; aquela tossinha seca, impertinente, amiga de todos os velhos,
democrática. Era um velho.
Velho e relaxado. Ótimo no relaxo;
mistura de ‘deixa pra lá’ e ‘não tem jeito’. Mostrar o relaxo aos que não conseguiam
ver o relaxo. Sentado na frente da casa comercial abandonada, escorando o mundo
no portal a cair; olhando os passantes, os pingados conhecidos interessados a mexer
com ele: “tá rico hoje, hein Monte!”
--Vem cá, Zé.
Oferecia bilhetes de loteria, dizia do
bicho de ontem, perguntava um negócio concluído, qualquer coisa. Dedo de prosa
assinzinho; para dizer existir, sentir-se existente. Atraía nessa reserva
humana os assuntos políticos. Por isso é que a visita ou a passagem de Seu
Benedito muito esperada. Velhinho politiqueiro como Pamonte, integralista e
conhecedor das tramas da raposa da vida; Pamonte também adorava política.
--Dito, viu as inegibilidades?
Vira, não deixava passar nada. Lograra
até derrames cerebrais, para não perder fatos da política de sua época. Dava
aulas a meia dúzia de ouvidos dispostos a aturá-lo. Os de Pamonte, por exemplo.
Barrigona a esperar passantes
folgados. Ou ir caçá-los. A turnê diária, voltinhas obrigatórias, com paradas
também obrigatórias. Uma anedota picante com o Baiano; saber um caso amoroso lá
com o Bozó; apreciava deveras o amor; um tanto fugaz e sem conteúdo, machista
ao exagero, mas amor. Amor e ligações sentimentais com mulheres jovens de todos
os níveis; porém amor. Casos para envergonhar os parentes e elevá-lo perante
seu grupo. Amor.
--Sabe da Linguiça?
Ninguém sabia, andava fugindo do
velho, de todos. Mania de botar apelido nas amantes; também, todos ali na
cidadezinha possuíam apelidos. Como é que uma menina daquela conseguia aguentar
um velhote ranheta e acabado como o Pamonte! ninguém podendo responder. E não
dava para suportá-lo, diziam as más línguas, mesmo no sábado, após o
tira-sujeira semanal. Os de casa, as meninas, sabiam que depois das três horas
era “quentar a água do pai”; deixar a latinha de esparramar o líquido, o sabão,
a toalha, a roupa; sábado era dia de roupa limpa: “quedê a tuáia?” sempre
achando algo errado, completava com “hum-hum”, resmungão. Ir limpo visitar a
Linguiça, lá no Barreiro, de mulheres de vida fácil, não tanto assim. Lá.
Segunda-feira, dia de preguiça.
Recomeçar as andanças, vender os seus bilhetes.
--Oh Chico, vem cá mineiro brabo:
compra aqui um ‘numrinho’, sô.
Vender bilhete, contar causo, discutir
política e mulher. Mulherengo entre os mulherengos e crentes na sorte grande. Muito
assunto para discutir e comentar entre os iguais. Certas crendices e simpatias.
Andava naqueles tempos de desintegração com um medo infernal do diabo. Sonhar
com Belzebu, perder o sono. Tudo era assunto, então virava notícia.
--Oh Zezito, chega aqui, menino –
tenho o macaco. Hoje é que vai dá macaco...
Não dava, vendia ao Zezito a loteria.
Não tinha fama de sortudo, nunca vendera a grande sorte; por isso desprezava os
outros vendedores. “O Zezão não presta!” Ninguém prestava ao homem; talvez nem
ele próprio; não tinha ainda pensado nisso.
Não havia pensado viver duas vidas
também. Contudo era presa do passado, que brotava enxerido no presente lá dele.
Umas lembranças teimosas... um que outro ato de heroísmo discutível, com
arremedos de valentia regada a cachaça, deduzidos na conta bancária da memória
a lista presumivelmente grande de atos que se não confessam... Um brotar azedo,
a bem da verdade. Para enfear qualquer árvore genealógica. Não contar nem aos
parentes, mesmo sendo íntimos; segredo de Estado! coisas assim para levar ao
túmulo, já tão próximo. Um primo lá das bandas de Minas, chegando até
encontrá-lo, achando o parente perdido de anos antigos, e a trazer na bagagem
delicadas notícias, guardadas a sete chaves. O Tião era mesmo linguarudo... Ruminar
aquilo, tudo aquilo; sintetizar em “hum-hum”. O passado perseguindo feroz, perseguindo
um parente nada brilhante.
Sua memória tinha igualmente um
passado em dois níveis. Um era o nebuloso da origem, segredo dele – para saciar
o túmulo; o outro era o segundo passado, para ser segredo também da família; um
segredo descoberto, com as testemunhas a se decompor junto com Pamonte. O
segundo passado, intrometendo-se no presente daquele tempo, era um passado
cheio de sadismo, brigas, rivalidades, maldades miúdas, misturadas aos gozos da
posição na época das vacas gordas. Tirania de marido pulador de cerca, machista
inveterado, suprimindo a esposa, tornando-a serva submissa; batendo nela em
público, aplicando-lhe punições por suas próprias derrotas, as dele, Pamonte; a
cachaça dando coragem de surrar, sem o porquê, aos filhos também, bater em
todos, democraticamente, fazer-se grande; prestar conta à própria consciência;
muito fácil a quem não a tenha. “Joaninha! (gritava) vai pô água aos porcos”.
Ia, a mulher era obediente, temia a vara, o castigo na filharada, dez ou doze
teimosos a viver; ia; aguentava outros gritos, muitos outros gritos, engolia
todas as ordens, boa escrava do grande senhor; senhor sentado na varanda, a
distribuir ordens e pauladas a tantos quantos; a correia do ventilador para não
ferir a cinta preta de segurar as suas calças. Todas as famílias à antiga
possuíam um símbolo de punição, guardadora da ordem familial e do respeito ao
pai sagrado; o cabo de rodinho na casa
do Nico; a cinta de couro de vaca na família do Reboão; na de Pamonte era a
correia do ventilador, usada provinda do radiador dum carro de amigo.
Lembranças incômodas. Dar de chicote nos trabalhadores vagabundos, um tiro de
garrucha nos rebeldes – joias do passado não tão recente. Perseguição e choques
nos jagunços, tudo manipulado pelo grande e severo líder político que era o
velho então novo. Tudo brotava para infernar aquele presente de queixas, a
incompreensão do público ao Pamonte. Lembranças lembranças.
--Oi Tonhão, o que vai hoje?
Nem sempre vendia os números
lotéricos; entretanto pagava os bilhetes encravados; afundava mais a família, a
si mesmo. Ir à rodoviária enganar matutos, esquecer o passado morto. Morto
vivo. Lembranças atrozes, machucantes da paz, que é propriedade dos idosos. Um
amigo das noites mulherengas, bebidas para todos, por conta dos bens dos
filhos, da propriedade que a esposa comprara vendendo doces na rua; a jogatina
desenfreada, a vertigem das cartas, tomando a si e aos amigos, enquanto o Sol
já expulsava de novo a Lua. Curtir as perdas na mulher “vagabunda”, nos filhos
“arteiros” – desconfiar de todos, fazer “hum-hum” às coisas erradas, pedir
ajuda à correia de ventilador... depois de curado pela cama dos justos, mostrar
os pequenos aos amigos, elevar a inteligência deles, suas glórias no grupo
escolar; pedir bênção ao vigário, beber com o sacerdote o ‘vinho de padre’,
falar de política, da festa de Santo Antônio; a vida. As cartas para se
distrair, ganhar e perder; a família para desconto; um carinho que outro,
desajeitado, aos seus caçulas, muito mais aos cães.
Muitos cães. Bom caçador. Os cães.
Cada qual com sua história, contada e recontada em toda oportunidade. “O
Guerreiro bom de caça”, contava as proezas, vivia as proezas; os cachorros
bem-amados não podiam contá-las, é claro, e já haviam desaparecido. Repetir
muitas vezes, masoquistamente, a morte do “Coivara”, cachorro anteiro, atacado
por onça, que foi preciso matar pra não sofrer, numa eutanásia cabocla;
feria-se constante expondo o mesmo caso. O do perdigueiro “Duque”, o do
“Lembrado”; não podia esquecer-se dos fiéis amigos. “Joaninha! vai fazê cumida
prus cachorru”. Ia. Tratava bem deles; de todas as criações o Pamonte; mandava
tratar. Um lado curioso desse homem: amor aos cães, fel às pessoas. Fundaria a
Sociedade Protetora dos Animais, se já não estivesse criada. Aos filhos as
sobras do carinho, brutal, brincadeira de torcer os braços das crianças, de
fazer cócegas nelas até caírem moles no chão. O que sobrava do Guerreiro do
Coivara do Duque – “êita minha cachorrada boa!”
--Vai lá Negão, hoje dá cachorro.
Não dava, o bilheteiro era pé-frio,
nem lhe deixava muito lucro a loteria. Contudo ele não ligando mais para os
lucros; já conseguira os seus nos anos das vacas gordas; embora para sua prole
sempre fosse o tempo das vacas magras e muita luta. Preferia lembrar-se das
caçadas, de seus companheiros nos trilhos da floresta. O Ditinho, o Pereira.
Tava lá um baiano bom, o Zé Pereira. Magrinho, ágil e beberrão, foi quem o
ensinou a beber; então o discípulo superou ao mestre... O Pereira, depois ficou
velho, acabado, “um véio
tonto” dizia o Monte; virou sogro dele, forneceu a filha para servir ela como
saco de pancadas, para treinar nela; caçava bonito, companheirão; submisso,
fazia de tudo ao amigo; fez até a filha para o genro; fez uma porção de outras
e muita bagunça. A velha dona Maria é que não queria entregar a moça; porém
Pamonte venceu. Sempre vencia. Era mesmo querido na família do Pereira; embora
a velha não fosse com a cara dele; moço distinto, lia, ensinava a cartilha para
os futuros cunhados; o velho era amigão, caçavam juntos, bebiam juntos; um era
baiano o outro mineiro, o que vinha dar no mesmo, que mineiro tido por baiano
cansado, parando a meio do caminho de São Paulo; coisas dos paulistas que
gozavam neles assim; não se importavam; caçavam bebiam. Pamonte casou-se com a
jovem Joana Pereira; entretanto precisou conseguir essa vitória dando bebedeira
no sogro e ameaçando com a garrucha, para a sogra amolecer, cabocla dura!
depois foi matando lentamente a esposa, fazendo ela parideira, primeiro, depois
dando-lhe pisas de relho na coitada envergonhando a infeliz e aos filhos; o mal
de Chagas matou-a primeiro que o Pamonte a matasse; aí foi uma derrota. Viúvo.
Uma grande amiga do Pamonte, antes da
viuvez, foi a crise. Grande mesmo. Primeiramente substituiu na sua casa o tempo
das vacas gordas, com arroz de primeira esbanjamento riqueza liderança política
com afilhados e tudo; no lugar ficou o tempo das vacas magras em que viveu a
família das lembranças antigas e comeu angu de fubá simples com pé de porco,
roendo a amargura da fome e do desprestígio. Mas ele se vingava disso tudo:
batia na Joaninha e nos filhos dela; e dizia todo mundo não prestar, resmungava
“hum-hum”. Agora era lembrar disso, vomitar ontem pro agora.
Era cismar, forma de também viver.
Olhar o dia acabar e observar o movimento da cidade que ele ajudou a construir,
a que ele acompanhou desde o engatinhar, lembrar dela, a cidade que começava a
se esquecer dele... E fora o primeiro de seus prefeitos! Agora... Olhar a
noite; a luz fraca e trêmula dos postes, escutar até às vinte e uma horas o
motorzinho gerando claridade, as mariposas nos postes, os brinquedos de roda
próprios da juventude, um que outro peão a cavalo, o convite para dormir; e o
leito sozinho de viúvo.
No outro dia, recomeçar o não fazer,
que era dia de fazer, o ramerrão, o ordinário da vidinha pacata, cinzas de
antigas brasas. Olhar tratores agrícolas passantes, o lixeiro removendo
estrumes dos animais, o combustível da roça. Viver um pouco mais nos sábados e
segundas, os dias sagrados das compras caboclas, o lugarejo febricitante; ir à
rodoviária com ideia de passar a loteria. Vivia na cidadezinha, vibrava com
ela, era de lá por adoção, não mais retornara a Minas. Não precisava sair de
lá, o mundo vinha até ele no ‘Estadão’; engolia sofrendo gastando a língua na
leitura de um quilo de jornal, se grudar ao acontecer político, achar antigos
líderes peessedistas ou heróis mineiros; fungar para ler, suar e gastar a
língua no encontro cultural, interromper a notícia para vender bilhetes ou
fumo, o dedinho de prosa, para gritar com os filhos, chamar o cachorro – viver,
na sua concepção. Tossir, temeroso de voltar-lhe a tuberculose traiçoeira e
assassina, tossir, tornar à leitura. Dar uma ordem pra não ser cumprida, outra
vez a leitura, sofrer a leitura. Um gosto aos nomes gregos; batizou a filharada
grega: Aristóteles, Aspásia, Hipócrates; confundir os capiaus e mostrar
erudição, criar novos apelidos na cidade: um Pelópidas tornou-se Pelota, um
Hipólito virou Lito, e assim por diante, enriquecendo o folclore, esculhambando
os helênicos. Um narigão medonho e avermelhado, criticando a ignorância
cabocla; barrigudo Sancho sem burrico sem Don Quixote, amante dos gregos e dos
moinhos passados... fazendo “hum-hum” aos filhos rebeldes e respondões, às refeições
que preparavam as filhas.
--Lito, vai buscá meu chapéu.
Ia debaixo do chapéu vender bilhete,
exercitar o físico nas caminhadas pela cidade, ele fortão ainda. Senhor de costumes
indesmancháveis: tomar água com limão galego na comida, mascar fumo, ler
jornal, comentar, politicar, vender bilhetes, procurar a Linguiça, contar
anedotas sujas. A família vivendo também, criticando, ridicularizando ao
Pamonte, engolindo sua rotina: deixar a porta aberta encostada de noitão ao
velho, a janela arreganhada para a lua xeretar no quarto, regar as “plantas do
pai”; ele não chupava frutas, entretanto amando as árvores como aos cachorros.
Andando ia pela cidade. Como andara
pela vida; borboleteante; a semear papos na vila, semeando gente pela vida.
Muitos herdeiros sem herança; os filhos bastardos espalhados por toda região;
porque havia mulher por toda região... E os da “patroa” que cuidavam dele,
agora abandonavam Pamonte, deixando o velho para a cachaça, sua companheira
paciente.
É a história de um político mascador
de fumo do agrado das linguiças desta vida, viúvo esquecido e desprezado pelos
parentes, aquele que suscitava fascínios nos filhos mais submissos, os que não
podiam se desprender de Pamonte, de seus “hum-huns”; o poder judiciário tomando
a propriedade dele, a afundar aquela ilha humana curiosa, inundando a ilha nas
águas barrentas da miséria do mundo.
São Paulo junho
1978
14° Férias da Loucura
Eu te falo procê... disse, diz o
sujeitão estufado o quanto possa, engolindo tudo pela frente até concordâncias
discordantes; aliás o brasileiro comum não concorda com o português e com o
português comum; haja vista a anedota; e daí a discordância nestes dias sobre o
acordo ortográfico unindo e simplificando na complexidade todos que falam a
língua, aqui importada, importadíssima. Todavia ele não pensa nisso, não pensa,
pensa a loucura querendo fugir agora da loucura da capital ao interior
sossegado. E continua ele, ela não aprecia mato, “mato me mata”, não gosta, te
digo que não, eu gosto. Também não combinamos noutras coisinhas. A Maria ocê
sabe é magricela; e cultiva as magrezas. Acredita que nas férias passadas levou
pra selva, a de Peripipoca ou peri amendoim já esqueci, lá onde macacos e
papagaios, levou uns plastiquinhos – eu gozo sou gozador gozo nela ao dizer
“tuperére” ela fala certinho num patriótico inglês, versada no grego demótico
latim sânscrito essas coisas arrevesadas e vive a viver enrolando a língua com
os outros; eu não, pra mim é tuperére, tem uns tupererinhos que são umas
gracinhas semelhando brinquedo; e tem os tupererões assim de grande a caber mil
comidas toneladas de gostosuras, caberia num um boi dos volumosos dentro, isto
outra de nossas diferenças. Sim mas não dizem “vive la différence”? Ela é por
alimento vegetal vegetariana à beça, põe tudo que é capim dentro dos
plastiquinhos, os tupererinhos como falei; fecha, antes tira o ar pra não
estragar o chuchu a batata a beterraba a verdura, aí fecha bem, enrola nuns
papeisinhos depois nuns paninhos bordados, põe tudo numa cesta e daí sim sai,
não às compras porém ao mato comigo. Eu não, te digo procê, não: ingiro carne.
Todas carnes, não estando na fase de carniça é muito claro; como traço rasgo
mordo mastigo chupo os ossos, jogo os ossos pros cachorros brigarem entre si ou
deixo no chão – é engraçadinho as formigas em roda do osso, têm umas que são
parecidas comigo e adoram carne, carnívoras; pobrezinhas, não sobra nada a elas
devorarem dos tupererinhos da Maria, aqueles restos sem graça. Bem, isto uma
outra diferença no casal.
Então, tava ti falando procê, nós
fomos de férias a fugir daqui dessa loucura de cidade infernada com seu
trânsito louco com sua violência doida. Piramos pra selva.
Arrumamos o carro, dirigimos as rodas
de pneus novos e... ah realmente assisti e fui no assento ao lado pois quem faz
tudo é a magrelinha, até choferar é ela e o faz bem. Tanto que me desligo da
loucura da estrada em fugindo da loucura da capital: durmo (a oposição diz “o
Zé ronca!” deve ser intriga) durmo, quando acordo ói nós já na floresta.
Tomamos um chalé, eu paguei a conta,
digamos a verdade; ela o carro o combustível a oficina a manutenção a comida;
fiz a concessão pagar o abrigo.
Agora tamos na imensidão de mataria,
tem árvores tem cipós tem carreadores tem grilo e o grilo do temor dos bichos...
A Maria anda agarradinha em mim, medrosa, vai que... Eu não, sou tarzã valente
um brutamontes com um bucho destamanhão cheiinho de carne: como o frigorífico
como o matadouro como o pasto; mastigo, bem não, sim mais ou menos, das trinta
e três mastigadas estabelecidas pela ciência abro-fecho a bocarra umas sete
vezes, sete é de mentiroso dez com certeza. Engulo, arroto, assopro, ‘pufo’.
Ela: sem-educação. Rio-me, beijo a ofensa, a ofensa se ri; continuamos a
trilha. Eu fotografo tudo até tudinho com tê sem tê que vejo. Clico aqui clico
acolá. Ela olha. De repente, de repente em casa não custa muito, acontece toda
hora: me dá fome, agora no mato fome que não mata de tanta fome. Como as
reservas, conservas também; ela sorri abana abalançando a cabeça linda. Me
imita, ou iria ficar apreciando um porco comer um boi! ela amavelmente me
apelida porco nesses momentos. Me imita, tira da cesta mil tupererinhos, tem um
rosinha que mais aprecia, onde chuchu batata capim na conserva. Tira come
delicadamente sem sujar as mãos, as mãos! os dedos afilados; assim mesmo se
limpa, limpa. Guarda, enrola as vasilhas plásticas nuns papéis virginalmente
brancos, após enrola nos panos de prato decorados com florinhas menininhas
gatinhas coisinhas. Guardinha na cestona. Eu arroto a porca a vaca a cabra;
gargalho. Retomamos a trilha o cheiro o hálito do natural do puro longe da
loucura. Suamos até, ‘fédo’ catingo; ela abalança outra vez a cabeça, espirra
esprei no sovaco, guarda afinal as coisas, prosseguimos. Observando comendo
clicando guardando, eu guardo recolhendo tudo que seja tranqueirinha, ela diz
nestes termos; enfim tudo que achar bonito e engraçado ou só curioso: folha
ramo pedra e o que a câmera guardou pra revelação posterior, já na loucura na
volta infelizmente...
Assim dias. Noite descanso as banhas,
ela que fala e fala no peso de toneladas, ou descanso das latinhas de cerveja
que a oposição condena; ela a ler. Leva pro mato bibliotecas e mais bibliotecas
pra estudar, enquanto durmo. É outrinha das nossas différences.
Assim dias e noites, noites e dias e
semanas mês quase. Até aquele santo dia.
Num ti falei procê? Ela é levinha,
tanto que antes eu vivia por cima; agora após tanta vaca e tantos frigoríficos
e tantos matadouros e tanto dormir, durmo por baixo; ou então achatá-la-ia!
Magricela só a Maria como ninguém, mesmo os vegetarianos outros. Porém ágil
esperta viva; e bela, vamos lá. Eu pachorrento mas vidrado numa trilha no mato.
Medo de papagaio e macacos? ela acha gracioso a graça deles rindo deles. Embora
sempre na vigília; já dizia um conservador que o preço da liberdade é a
constante vigilância. Da liberdade e da vida...
Eu na frente no carreador estreito
entre barrancos e buracos nas montanhas escorregadias, nos espaços selváticos
planos. Ela atrás, colada ao meu corpanzil... vai que... Bem. Aí pelas tantas,
o sol se fora, a sombra a noite o medo a chegar – rugiram! Se fiquei com medo?
eu? num ti falei procê que sou valentão! Pois corremos demais do dinossauro, eu
na disparada, a máquina de prender a visão dinossáurica caída por aí, os
tupererinhos e a cesta não se sabendo onde; e ela grudadinha no meu gangote lá
encimão a cavalo no porco... Até ontem.
Até amanhã.
Marília março
2009
15° Uma Comprovação
“De burrice”, completa um sujeito
apressado. Mas assim não se comprovaria a tenacidade a paciência – “a mediocridade”,
torna o da pressa. Com a vantagem de não haver acompanhado a desvantagem da
inocência. Aqui estou agora eu como juiz! o que não é tão absurdo numa terra em
que todos são técnicos de futebol ou salvadores políticos da pátria. Insisto,
inocência.
Inocência com certeza do menino
Quinzinho. E se não fosse inocente seria moleque, moleque de rua. Esclareço não
haver rua; na vila não tinha rua, porque no interior, aí pelo extremado sertão,
é um amontoamento de casas pobres todas a olhar para a igreja, todos os espaços
são rua e não tem rua. Elinho encontrou certa moeda de cinquenta centavos (naquele
tempo a vida bancária não havia aperfeiçoado a forma ‘cincoenta’) daquelas
amarelinhas e reluzentes. Imediato pôs o tesouro a refletir o sol, sorriu
sorvetes e doces; porém foi mostrá-la antes ao pároco, maior autoridade naquele
fundão sem alfabeto. Afinal precisava acalmar a consciência, na época ainda
brotando para a vida, para depois acusar a vida, ou ficaria melhor dizer...
“Onde encontrou este dinheiro, meu
filho?” falou o padre, arrastando um ‘italieiro’ (italiano misturado com brasileiro).
Pensou como os cofres da Virgem poderiam ser reforçados, porém foi vencido por
aqueles olhinhos inocentes desejosos de sorvetes e doces, muito embora fosse
razoável tesouro amarelado, por demais tesouro para pouco Joaquim... Venceu a
inocência: tinha achado, ninguém reclamara, que ficasse com o garoto. Todavia
recomendou disciplina e contenção; e comunicar à velha Maria, a avó.
Assim começou a odisseia do menino
Quinzinho, que se prolongou na luta do jovem Joaquim; e um dia se completou,
houvesse algo completo no planeta, na pessoa do velho Quim.
Muitos enganos, quando acertou, andava
outra vez enganado.
Ao encontrar o dinheiro; “níquel” como
diziam da moeda de ferro amarela; e que muitos entre os grandes falavam “cobre”
– o menino Quinzinho pensava ter achado ouro. Tudo que reluzisse era ouro; ou
prata se fosse branco; alumínio e folha nova de flandres eram portanto prata. Aquela
era ouro.
Aí cresceu, virou gente, mão de obra,
contribuinte, consumidor, finalmente freguês na ‘Pharmacia’ do seu Zé Boticário.
Durante o curso desse curso na escola
da vida, quase promovido nos percalços da sorte a cliente ou paciente do
hospital lá lonjão na cidade e quase terminal na funerária – o Sr. Joaquim
praticamente se isolou numa espécie de ilha, a Vila não era mais que mero oásis
num deserto sem alfabeto; se isolou. O que, diga-se de passagem, foi bom para
não ter contato com a consciência civilizada e a impertinência social. Enfim,
para encurtar esta estória amalucada, o seu Joaquim viveu cresceu casou se
reproduziu brigou com a mulher pagou bebeu dormiu, viveu. Embora, conservou seu
tesouro. Ouro à parte, já descobrira não ser ouro, no entanto dinheiro e
dinheiro não se joga, guarda-se, o velhote Quim ainda guardava até outro dia a
moedazinha de cinquenta. Uma garantia. Pensava em garantir o futuro; já não
tinha futuro, só bengala. Ela continuava, cansada de tanto colchão, defendida
numa latinha enferrujada, espécie de cofre forte ou banco na atualidade.
Latinha carinhada sempre que a necessidade exigia, ou a tentação, ou somente a
saudade do tempo em que era o jovem Quinzinho. Contudo a realidade ali estava
para remover as nuvens da inocência e a fumaça ardida da velhice: o tesouro foi
por várias vezes desentesourado pelo monstro desconhecido, ou tão só invisível,
da inflação! O monstro trabalhou por milhões e milhões de vezes, estourou
orçamentos e máquinas calculadoras, deixou a efígie do presidente Getúlio menos
amarela, mais desbotada.
Se quisesse. Não, se pudesse. Não
ainda, se a indigência aceitasse. Não não, se o alfabeto permitisse – chegaria
o velho Quim, encarquilhado gasto e cansado, a uma comprovação válida: dinheiro
nacional!?... Mas a inocência não deixando levar a tanto.
Ribeirão Preto junho
1994
16° A Inimiga Pública
Número Um
Agora parece que ponho os pingos nos
ii; ao menos me conformo, não, rebelde, não me conformo, entendo somente.
Entendo que Ela também possui seus ais, pois, tadinha (incrível tenha eu pena
dela assim, e tenho) tadinha: encontra-se acorrentada a mim. Rumo às gales! sei
lá.
Antes, antes do agora, não.
Pelo contrário. Chibatava eu minha
Inimiga (só em pensamento) enquanto Ela me chibatava deixando vergões de fato,
não apenas no pensamento como eu contra a Inimiga Pública Número Um, a minha em particular. Pois
que me chibatava com azorragues contundentes, com dores e ranger, num bater-me
contínuo; ou meramente a cobrar a cobrar a cobrar, me pegando no pé a Carrasca.
Por isso a elegi, por maioria absoluta, pior: por unanimidade, nem um votinho
contra a Contra! por isso a elegi Minha Inimiga Número Um.
Ranheta (perdão ó Inimiga, um dia
dirigir-me-ei a Vocezona com xingo mais ameno, quem sabe educado). Ranheta,
cobradora, presente no meu ausente de fugir da briga ou do flagrante explícito
– Você nunca me deixou em
paz. Este nunca é tão absoluto que suponho já me azucrinasse
quando eu comportadinho na barriga materna. Comportadinho em termos, tanto
assim que dizem matei a genitora quando me deu a luz no momento imediato para
dar-me à luz.
Órfão, não me desamparou minuto
sequer: cuidava de mim a cada instante. Mas eis o que descobri dela – para ter
a quem azucrinar! Eu ali em cima a tratá-la ‘coitadinha’! É, não me corrijo da
Santa, a Santa é a ingenuidade.
Contudo eis-me aqui, ainda vivo a
poder fazer muxoxo a fim de irritar Minha Inimiga.
Não é uma contradição da vida!
Agora – agora que estamos às raias da
morte ambos, visto a descubrir atrelada aos meus desmandos, aos percalços do
dia a dia, a nós virando noite – agora relembro uns fatozinhos a autenticar o
meu sofrer tendo à minha sola a Inimiga.
Uma vez, seja lá como for, poria a
culpa na cachaça ou no vendeiro, aquele malandro que acrescia na minha conta a
conta dos outros bebuns, nesse dia discuti com o Zé, outro Zé não iria
desentender comigo mesmo antes o faria com Elona; discuti com o adversário e
num ato impensado assassinei-o com a garrafa! Ela quis antes dar-me lições de
santidade, que eu raciocinei como hipocrisia – a induzir-me a apenas socá-lo e
fugir da briga (Ela: honrosamente; Eu: covardemente). Quando a consumar o ato
ainda ouvia seu gritar contra mim, não me dando sequer tempo a berrar para Ela:
tá do lado dele! Bem. Mal fiz, decerto acharam; preso no flagrante e acabei
confessando nas grades até o que não havia feito. O advogado me tirou da
enrascada. O advogado amigo, a Inimiga não mexeu palha... Não só não fez nada,
tudo sim a me cobrar. Quase me vi por isso eu como o Inimigo Público Número Um
dos outros. Saí.
Todavia nos mínimos outros casos, mil
e um outros melhor diria a ‘enear’ o infinito, sempre Ela a me cobrar a me lembrar
quase a me justiçar! Um roubinho de nada, seria furtinho? pergunto depois ao
advogado amigo – unzinho assim, Ela a me pegar no pé. Por exemplo deste
exemplo: mudava o selo de preço, é etiqueta? sei lá; mudava punha o caro no barato
o barato no caro pagava o barato e levava o caro, presumivelmente por caro o
melhor em qualidade, tapeava a mocinha no caixa, tapeava o comerciante, ladrão
a meu ver e ladrão que rouba ladrão não são cem anos! Bem. Mal a seu (Dela) pensamento.
Chegava em casa a alegrar os meninos com coisas de primeira do Primeiro Mundo e
Elona ainda a conceituar como roubo uma afanaçãozinha, a lembrar-me e a me
cobrar.
Cobrava posturas. Eu? gritava-lhe, era
eu então a gritar – são todos hipócritas os da sociedade. Tratamento educação
vizinhança. E até, pasme-se, até no simples ato de ofertar esmolas. Ela: cê dá
pra aparecer (assinzinho comigo nas intimidades). Eu: sou um santo, ajudo os
necessitados. Ela: precisa mostrar-se, se fazer ‘bonzinho’! Eu: não respondia,
iria entrar na dela? Ou brigava.
A gente vivia a brigar. Tanto assim
que a intitulei Inimiga Pública Número Um. A discutir. E, curioso! se Ela não
se manifestasse, eu ficava jururu perdido que nem barata no meio das galinhas.
Não sabendo que fazer. Era num ‘uf’ que ouvia outra vez a Inimiga a me cobrar
qualquer. Aí – é mesmo gozado – aí eu abalançava pra cima e pra baixo a cabeça
ou dizia em alto e bom som: Você tem toda razão, Minha Amiga. Ela? a cachorra
sem-vergonha, sorrindo maldosamente ao pegar-me no deslize. Pois a considerava Inimiga.
Noutro episódio que me lembro, decerto
Ela se esquece, matreira – noutro foi o caso do namoro com a Zefa.
Como me pegou no pé, quem sabe se não
inventou o caso da jovem para ter recursos a me pôr na parede... Acabei desposando
a moça. Antes fiz tudo que ela não queria (ou queria?! sei lá, entenda-se as
mulheres!) prejudiquei a ex-namorada em tudo possível, quase me casei com uma
louca; fi-la minha ex-noiva.
A Inimiga? a Inimiga ora de meu lado,
pra ser contra mim; ora do lado dela, a ter depois uma esposa a pegar no pé do
marido, eu. Sempre contra mim.
Depois a filharada, as encrencas no
lar. Ela sempre a favor dela em briga com ‘o’ cara-metade, eu. Vida toda. E
quando tudo asserenava já, fustigou-me a deixar a família, me perder por esse
mundão.
Aí me cobrando culpa pelo resto da
vida...
Com tudo exposto, resta alguma dúvida
estar ao lado, sempre ao lado, de Minha Inimiga Número Um!? Não obstante
entendo seu proceder. Quem sabe se Eu no lugar Dela não seria ainda mais ferino
e cobrador que a Inimiga. Possível. Por isso olho a Consciência e faço um
descontozinho. Inimiga talvez amiga.
Marília março
2005
17° Descartabilidade em
Cena
Via o que via, via vendo se vendo no
possível do ver. Não era um sábio, sábio de coração talvez decerto um homem
comum; até comum entre outros roceiros; não era, era visto, não era um
beletrista ou técnico de grande conhecimento e apenas conhecendo seu métier, desse tipo de homem mui
encontradiço que ‘sabe’ tanto porém fica abobeado no meio às discussões da
sabença daquilo que por aí se sabe, soubessem. Não punha tais quesitos na
discussão: em discussão pra si somente o caso de se ver e não ver... ou ver
demais! Olhou.
Via o que via. Vendo vendo-se deitado
pranchado prostrado encorpado o corpo na terra suja, na umidade flagrante entre
insetos enxeridos esvoaçantes esvoaçando cercando um homem caído, ele. Via-se
como caíra, caíra e pronto; já é muito saber para quem não sabe. Olhou, agora
‘reolhou’ mil vezes mais a constatar a si mesmo: um homem mediano, pobre nas
vestes (pobre no saber sabia-se também limitado) os pertences de quem quase não
tem tem o pouco e já sendo sobra na pobreza geral; esses pertences como o
chapéu rolado ali próximo, o canivete que lembrava estar no bolso de níquel de
não pôr moedas e no uso quando em uso a esticar a palha (eles diziam no seu
meio “páia”) um pedaço de rolo de fumo no bolso largo traseiro onde o lenço sem
lenço, noutro uns trocados em moeda de papel seboso pobres como o pobre no todo
e... ah certamente de valor mais nada, mais nada; tudo o que possuía, não
possuía agora o mais importante a pobres a ricos à toda gente: a vida! ele
pensando nesse momento a vida, sendo parte da vida realmente a existência. A
vida! Será que morri?
Olhou pela enésima e última vez o seu
ser, material, sentiu pena da pena que sempre teve de nada ter. Na verdade
sentiu uma tristeza naquela alegria da descoberta do seu corpo caído e inerte
no solo sujo. Mesmo porque lembrava-se como não houvesse morrido, será que
morri se reperguntou? como não se tivesse soltado daquele monte de carnes os
músculos o esqueleto a nervatura e tudo o mais; e das vestes não miseráveis
molambentas repugnantes quem sabe mas pobres. Parece, parecia que agorinha ainda
andando à procura da paz. E aqui simbolizando o homem a sociedade humana como
um todo e individualmente procurando a paz; quiçá fazendo a guerra à paz. Não
pensava nestes termos e sim nos termos em que se via vendo-se a si antes de
andar parado mudo morto, morto! Olhou.
Olhou até com pesar a pesar o que fora
já não era. Pensou enfeixando num átimo seu mundo na sua vida pregressa nesse
mundo que agora via. Teve pena, se não apenas agradecimento pelo que via pelo
que fora já não era, tinha consciência já não ser. Esses braços... O esquerdo
tendo uma cicatriz, a cicatriz empurrou seu pensamento àquele e a outros
desastres da existência.
Da cicatriz da mão do dedo da unha
lanhada e um pouco suja por baixo por cima fosca gasta feia bela na prova do
trabalho – nenhum dia se pensara vagabundo e aproveitador. Da cicatriz e do
conjunto da mão direita partiu como que obrigado pela recordação à lembrança
dos seus. Ela presente nas tarefas e nas tarefas de amor e apego à sua gente.
Ora, se lembrou solteirão: nunca conseguira graças à timidez doentia fazer
sequer a corte às mulheres (e não seria – agora tendo certeza ou deixaria ainda
nova uma viúva do defunto novo ainda – não seria um ganho! ah mas quanto
desejara quanto necessitara uma companheira!) Depois a parentela foi morrendo,
quase colecionou velórios caixões enterros; e pior: o sofrer e o desgaste não
aqueles que acompanham, os que antecedem essas perdas. Enfim andava só; sabia nos
últimos tempos doente desanimado desconsolado, num ótimo ao acabar. Contudo nem
percebeu o perceber.
Agora era tarde para lamentar: encontrava-se
escarrapachado no chão. Talvez sequer cheirasse bem, haja vista a mosca a
esvoaçar... Prestou ainda mais atenção àquela carcaça então imprestável.
Tinha uma das pernas meio flexionada,
semelhando a querer andar ou sustentar como o fizera em cinquenta e tantos anos
um corpo miúdo mas pesado; inertes ambos corpo e perna. Num pé um sapato quase
estourando no inchaço do músculo humano pressionando o couro de vaca. Longe ali
perto o outro sapato do par e outro pé descalço donde subiam mil insetos. Aspirou,
masoquista, o cheiro e só então percebeu que o hábito em se sentir não deixara
computar a fragrância nauseabunda... Da região do púbis notava manchas do que
fora urinado quem sabe seco, decerto a lembrar amônia. O ventre não era seu
ventre, magro e magro por dentro no costume de ingerir pouco e menos que o
suficiente. Teve pena mais uma vez de si mesmo por essa desdita de sua condição
social; agora estufado; olhou sem observar bem, com asco com lástima, que a
pele da barriga crescera assustadoramente e mais nesse menos: havia noção exata
de rachaduras... e mais exalações e mais moscas. Nisso notou outro ser.
Chegou um cão, magro como os
maltrapilhos humanoides; ele aproximou-se, cheirou aquilo, aquilo sendo ele e
ele sentiu repugnância pela repugnância que o cachorro mostrou; o animal a
seguir afastou-se, ladrando um ganido uivado fúnebre ou próximo do medonho.
Ah fazia pena, ou mais que isso
causava impacto negativo, seu rosto. Não conseguiu se reconhecer naquilo
inchado. Não obstante tendo certeza naquela máscara, ela que nem mostrava o
sofrer, suas rugas precoces sua barba de semanas seu nariz seco suas
sobrancelhas disformes, enfim um rosto menos que cara mais que caveira, tudo
transformado, horrendamente modificado; um monstro, isso mesmo, pensou, um
mostro! E fazia pena também o tórax fino agora grosso no estufo. A camisa
simples de pano riscado então irreconhecível; duvidou: teria realmente usado
aqueles trapos de tecido roto? Felizmente, se consolou, não deve estar exalando
o cheiro do suor azedo curtido de gente que nunca se lava nunca podendo vestir
novo ou usado limpo talhe. Infelizmente o fedor cadavérico a isso tudo
suplantava... Estando nessas elucubrações, chegaram naquele deserto com
arbustos ressequidos e também mortos vivos seres...
Desceu um, outro, mais e mais,
tingindo o ambiente de negro e de penas àquela pena humana ou resto dela. Não
imaginava como que sem alardes avisos amostras e tudo o mais urubus
conseguissem saber e descobrir onde tão pobre alimento.
Debalde tocou as aves de rapina:
nenhuma se mexia aos seus insultos. Chutou nervoso aquele abuso – parece que
mais se entusiasmaram com o banquete que se oferecia, ele mesmo.
Foi um terror pra si. Sobretudo
quando, sem os costumeiros hurras e vivas e sem os discursos aos convivas, eles
iniciaram festa em meio aos pulinhos desengonçados a desmontar o cadáver.
Via-se como que numa terra surrealista ou de loucura consumada, via um e após
outro outros a bicar seu olho. Dizem que o fazem a fim de apagar a vista e
escapar às pragas da vítima, todavia isso decerto lenda caipira do tempo no
qual fumava sua palha, vivo; morto, o desastre em ver extrair os dois globos...
Sentiu como se fosse com ele o estrago; e de fato era consigo! Aí, sem olhos,
tudo embaralhou escureceu pra si. Entretanto continuou a ouvir a algazarra dos
urubus, famintos, alegres, felizes.
E ninguém ali para ajudá-lo a espantar
os algozes.
Marília março
2009
18° Briga em Família
Andava por aqueles tempos de crise o
sofá meio sonolento, fosse que algum dia estivesse desperto e agitado – quando
imaginei curtir meu quilo, após farto jantar (arroz, feijão, abobrinha) o
jantar da dona Ana, me espreguiçando como sói acontecer a um bom cristão. Ainda
não havia dormido ou acordado totalmente, quando me surpreendi com um tremendo
bate-boca... antes disso – pois não há pior entrevero que seja sem o preâmbulo,
e me pareceu dos melhores – dominava o silêncio a paz a extática mesmo. Por
exagero diria dominar naquele recinto o grande aparelho de tevê (desligado
creio) imenso na opinião da própria Televisão. Foi nesse descuido do não-fazer
que teve início uma pequena indisposição, na qual observei ela erguer as
antenas, como alguém aguardando a cobra que possa surgir em qualquer lugar em
qualquer hora e por qualquer motivo, ou mesmo sem motivo... o que não seria
para menos, pois adentrava garboso o aparelho de rádio! A fim de pô-lo no seu
devido lugar, um radinho de pilhas, japonês, decerto. Isso um senão no contexto.
Entrava o vozeirão que passou a ofender a sala (‘ofender’ verbo posto nesta
narrativa não menos por dona Televisão, por razões óbvias...) Mas perdi-me nas
afirmativas iniciais da luta (não armada, é claro, ou já teria fugido qual
foguete corajoso, não podendo contar nesta crônica) não pensava que fosse luta,
imaginei apenas inocente troca de desaforos. Entretanto percebi ser realmente
um desentendimento conjugal; e deveria, se tivesse um pouco de decoro e não
tenho vergonha na cara, me ausentar delicadamente diplomaticamente sem magoar
os briguentos, porque uma coisa feia é meter-se na briga de casal (então indaga
o leitor enxerido: como haveriam estas mal traçadas linhas! concordo). Nesta
questão existe a atenuante a meu favor por estar metido nela, chegara antes da
coisa ficar preta ao sofá, como falei. Bem entendido: desconheço a opinião de
Senhora Tevê sobre minha presença na sala, ela sim se encontrava de fato antes
de mim ali; ele chegou depois, esbravejou gritando, parecia tomado pelos espíritos
maus, dos quais tenho não medo porém medo em acreditar que existam. A bem da
verdade esclareço que só percebi as bravatas quando já eram bravatas. Então um
falava outro gritava ambos se desentendiam, tive de me remexer no sofá como a
dizer: “sim, roupa suja se lava em casa, mas tem gente de fora (eu) aqui,
respeitemos as normas da boa educação!” Não disse nada. Suponho, agora
quilômetros daqueles tempos de crise, não tivesse coragem a repreendê-los.
Pensando melhor, melhor diria que não me fiz acordar pra não ocasionar embaraço
aos contendores. Chega de tró-ló-ló, melhor falar da briga familial: “Você é
minha perdição!” bradou numa voz alta e rouca o radinho, ao que Dona Radinho da
Silva rebateu “qual perdição? pode alguém perdido no éter levar a esposa a se
portar melhor!” Aliás usou tal vozeirão também a senhora, que mais me pareceu
virago que doce tonalidade feminina, doadora de amor. Essa minha opinião e
achei devesse sair do fogo cruzado entre marido e mulher. “Que atrevimento!” comentou o Radinho. Ela
desfilou uma coleção carnavalesca de impropérios, a qual não registro para não
ofender o decoro público e por lembrar minha pobre mãezinha me batendo e me
tapando a boca suja pelos nomes feios que eu sabia dizer na rua, até sangrar-me
a dentuça. Fiquei surpreso: Dona Televisão sabia ainda mais xingamentos!
ofertou xingos ao consorte a mancheias... A ponto de ele aproximar-se ainda
mais da cara-metade, quase lhe quebrando a cara! Nessa altura imaginei os
vizinhos curiosos por volta da residência, a olhar os lados daquela briga
horrenda, medonha, porém não estavam, quem sabe se não por viverem acostumados
às discórdias ou por comum saberem apenas desentendimento (quando comum, a
gente se cansa ou não dá o devido valor aos arranca-rabos) eu é que pensava
talvez numa guerra... Os contendores continuaram a gritar inglês cantar inglês
a fazerem propaganda em nossa língua. Sendo que tão só uma ou outra criança
brigava nas redondezas e criança não se interessa por discórdia conjugal, só as
comadres; estas eram os vizinhos curiosos de que falei os quais como se vê não
andavam então interessados. Voltemos ao Sr. Rádio da Silva e à sua ilustre
esposa Senhora Televisão da Silva, em luta, em quase luta corporal. Ele já cansado,
o que mostrava seu falar rouco e falho; ela a xingar limpamente no alto e bom
som. Eu não podia fugir, só fingir: estava entre as linhas de tiro, quisesse
não quisesse teria de ficar narrando; não, observando. Só agora me animei a
contar. Mais meia hora talvez de ofensas e não aguentariam eles, pensei.
Errado. Ela continuaria a ofendê-lo, ele andava a cada segundo mais para mudo,
pobrezinho. Entretanto o desentendimento conjugal teve uma certa mudança de
rumo. Foi quando entraram os filhotes. E filho tem um peso adequado no coração
dos pais. O Toca-Discos entrou chorando ao ver a mãe esbravejar alto e o pai
engasgado alto. Quase, pois mostrava só indignação, parecia mudo, estava mudo,
sequer o seu prato rodava não dava pra se indignar; mas presença é presença,
conta. Logo chegou meio atropelado um Três-em-Um de baixa qualidade, o que não
surpreendia porque toda a família até aquele instante, a julgar pelo nível da
conversa, estava muito mais para gentalha que para a nobreza... Chegou gritou
inglês parou no momento em que percebeu a briga dos genitores. Tinha também no
grupo das crianças um ‘Walkmen’ (ou
nome parecido, ando surdo) com feição dopada, olhando sem ver e falou, se
falou, para si próprio o que não se ouviu. Chegando igualmente uma Calculadora
Barata, como alguém que entra à contramão na família, todavia registrada como
Silva no cartório civil e tudo o mais. Mais não se podia dizer, apenas que a
presença da prole chocou os contendores, os quais se calaram, ele por estar já
sem fôlego; ela por ter gastado todinho o fôlego ou guardando o fôlego para
depois que os meninos retornassem à brincadeira e ‘brigadeira’ lá fora. Tão
somente a mãe falou a eles: “Vão comprar doce no boteco, meus filhos”, enquanto
o pai, ele já tendo visto tal filme antes, tossiu tomou uns trocados sem o que
dizer, entregou o numerário um a um aos pequerruchos em partes iguais para não
dar briga (coisa muito feia) deu mesmo uns tapinhas de amor na traseira da
Calculadora, sorrindo maliciosamente. Os petizes saíram. Saímos. Eu me
aproveitando da situação, pra não ver a situação num possível segundo tempo.
Ribeirão Preto janeiro
1993
19° Granduras Negativas
Era um grande escritor, imenso. Tanto
que não cabia num planeta tão pequeno, insignificante. Este tanto tonto das
voltas, que as voltas davam em torno de si mesmo, outros mundos decerto parados
no firmamento. O céu do escritor entretanto virando um inferno quando se dava
ao luxo de escrever descrever a realidade na sua ficção. Pois os outros sempre
se intrometem nas coisas que a gente faz quando faz e quando não faz. A vizinha
por exemplo.
Não que não fosse boa. Até boazuda,
mas ia lá poder com um ‘firinfinfim’ do seu bico a assobiar! De dia e de noite,
dormindo não, é claro, no escuro escondida nas cobertas; apenas seu homem a
ouvir os seus “achei” que dizia a espirrar. De manhã de tarde toda hora num
subiinho fino e gritado. Não dava. “Num dá” dizia ao seu pensamento pensando
nela; e aí não estaria a pecar!
Não punha nestes termos: nos termos de
atrapalhar-lhe a escrita.
Não parava a vizinha. Parava um pouco,
retomava.
Não era só. Havia barulhos os de casa
os do galo os da cachorrada os dos vendedores os dos ledores de sorte – não
tinha sorte para escrever; e escrevia grandão volumoso volumosos escritos,
ranços quem sabe. Tudo em maior, não cabendo sequer no planetinha planetoide a
virar e virar louco, louco a virar por volta das sideralidades mais.
Não sabia o que fazer para fazer. E
certamente seria romanção, quiçá novelinhona ou contão do melhor vigário houvesse
e aí sendo um papa na envergadura e no volume.
Não, bilhete não. Costumava no caso do
bilhetinho redigir desfeitear muito o açougueiro porco pelo porco posto no
lugar de vaca; dir-se-ia porém um drama não só por ele fazer a ofensa num
cursivo horroroso, preferindo então passar
direto o recado, porque ao menos a falar dentro do padrão de linguagem culta; embora
chegando a atropelar a reforma ortográfica que se fazia, uma de apenas dois por
cento, visto ser também ela um mundinho bobo a virolar em torno de si mesma até
ficar tonta, mais tonta.
Não era só a vizinha portanto, não era
só os de casa, não era só a atrapalhação de palmas e latidos a dificultar se
não inviabilizar a feitura da ‘escritona’.
Não.
Não só isso, isso tudo e tudo o mais,
menos percebido por ser o seu trabalho de lavratura na escritura íntima, ou interna
somente.
Não se dava bem com o mal. O mal! a caneta.
Não bem a caneta – ela igualmente sim
nesse não – mas a pena.
Não havendo nesse tempo
caneta-tinteiro. Caneta-tinteiro? nem caneta, mui menos computador e
‘notebúque’ que atropelaram a conservadora máquina-de-escrever a ‘tectar’
barulhinhos enjoativos na direção da vizinha boa e disparar na pobre boa vixe
como boa; e ela em contrapartida a disparar seus assovios fininhos com intenção
de recordar os hinos religiosos de sua igreja.
Não havia, havia somente pena de ganso
de pato de avestruz? de gavião? de urubu! já sendo isto demais, o importante
era ser pena, e tinta.
Não existia tinta seca ou até líquida
e só a preta. Como faria um escritor daquele porte a pichar vermelho os
inimigos do bem... bem, crê-se, descreveria com preto mesmo e quando oposição
grandona semelhando ele, escritorzão enorme em não caber no asteroidezinho, daí
não rabiscava preto só negro que é um preto de doer a vista.
Não tinha jeito melhor. Nisso escrevia
com pena, molhava sua ponta chanfrada na tinta no tinteiro grosseiro matreiro
(pois bastante um encosto e virava, virava então rio lago mar oceano na mesa de
escrever loucuras!) Molhava a pena e rabiscava no caderno também grosseiro
interesseiro em parecer belo ou ao menos culto limpo civilizado apesar brochura;
visto os pais e avós da brochura terem sido lousas ou pedras ou areia no chão e
a pena somente o dedo indicador quando não machucado.
Não mais que isso. O suficiente.
Não escrevia, não obstante. Ora, por
que escrever se era tão grande e o planeta tão pequeno não cabendo as ‘granduras’
que escreveria. Não escreveria, vai que... ia que, escrevendo, derrubasse o
tinteiro caneta pena e estes negrejassem tais objetos e a mesa de trabalho a
dar trabalho à feiosa criada de quarto, no caso ‘criada de escriptorio’ e ainda
por cima, ou por baixo, a patroa surgisse de surpresa e visse o estrago deixado
pela sujeira!
Não.
Não e nem se posicionando como
escritor, menos escritorzão, enorme a ultrapassar a pequenice dum planetoide
minúsculo merecedor de tão só um bilhete. Optou a ser comerciante, comerciante de
ir à loja ganhar o pão para cobrir as esbanjos da casa; antes olhou pela janela
aqueles assobios singulares nunca dantes escutados por qualquer mortal.
Não, sim, olhou primeiro se a patroa
não olhava.
Não olhava.
Marília janeiro
2009
20° Ex-Conto
Existia num país encantado um clube
associação ou qualquer parecença assim, assim assim cheio de realidades, estas
por sua vez cheias de idealismo e utopia; matérias-primas com que se erige o
edifício da verdade, daquelas verdadeiras. Isto tudo não é tudo, entretanto a
explicar só podendo ser encantada a nação que tenha por escopo o nada existente.
O resto era o resto, ou seja a
confusão.
Não havia confusão – todos a se
entender a se irmanar nos iguais da associação ou qualquer parecença com clube.
Mesmo porque não se entendiam era com a restante oposição da confusão, à qual
batiam o pé pegavam no pé a pô-la com pé na estrada, em fuga desesperada
confusional. Eram, a se crer nas recíprocas pichações: os muito pelo contrário
das coisas.
Isto visto tido dito crido (credo em
cruz aqui tanta feiura vocálica) isto tão só o despropósito de um preâmbulo para
um continho de merda (cruz-credo, agora moral).
O vigário. Digamos num melhor
vernáculo: a estória.
Por ordem do presidente, Sr.
ex-Sempre, por sua ordem democratizaram a união, nunca havia mas apenas a reunião,
com os mesmos propósitos alcançados, ou seja convocação e presença.
Nessa reunião, ex-reunião a bendizer o
dizer bem, ex-Sempre deu a palavra à ex-Esposa, a qual, claro haver maldito seu
ex-Marido; a qual falou apenas uns minutinhos dos pequenos – dez milhões deles.
Aí a vez (pois uma instituição democrática, onde todos têm direito a expor seu
expor: só o direito à ação que não, esta virando dever; podiam sim falar à
vontade e não lhes faltavam vontade somente emprego:) aí a vez do ex-Empregado,
o qual lamentou muito, por saber não chegar a velho e velho é quem lamenta o
que os outros fazem por não haver feito; então lamentou lamentou por mais de
minuto, hora. Cansou. Cassou-lhe a vez a vez do ex-Juiz, este a defender-se
segundo a lei tal capítulo tal, tal versículo não, sim do ex-Evangélico mais tarde,
agora a do ex-Juiz, ele apenas corrupto mas não na cadeia. Nela sim havendo
ex-Libertos libertinos ou futuros ex-Presidiários. Feita a colocação juridicamente
correta, embora não perfeitamente correta; aí ex-Sempre chamou o
ex-Comerciante, que fora macho agora ex-Macho e nessa condição ele pregou-lhe
do lado esquerdo, o do coração ou ex-coração, a medalha de honra de ex-Rico e
só posteriormente, após as maquinais palmas de praxe, só então condecorado como
ex-Cidadão. Nisso infiltrou-se entre os iguais dessemelhantes um ex-Favelado,
antes tendo sido ex-Roceiro com estágio na função de pedreiro pegando bicos a
sobreviver na periferia, depois ex-Pedreiro nesse antes. Ex-Sempre não
conseguindo ordem nesse indevido apelou ao ex-Professor, o qual pouco fez por
ser convalescente, era ex-Doente, tornado apenas pretenso ex-Saudável. O presidente
conseguiu algum resultado, mau no meio bom, com o ex-Capitalista, elemento
também ocupante da função de ex-Político, perdera no voto os cargos porém não
tendo perdido o jogo de cintura: distribuiu (embora falsificado) dinheiro como
presente aos presentes, ah a força desaglutinante do vil metal! Acalmado o
plenário, ex-Sempre declinou o apelido dum ex-Vizinho (nunca se soube de quem)
com certeza ex-Moleque e, segundo as más línguas ex-Vagabundo e ex-Bebum, de
qualquer forma subindo ao palco com um copo na mão. Falou, falaram à boca
pequena, dispensado, ambos ex-Sempre e ex-Vizinho, se deixassem a sorrir. Desse
momento se aproveitou um ex-Tagarela. Pelo quanto discursou terá exagerado, não
nos dias seguidos a falar, a afirmar-se ex-Mudo e amigo dos olhares dum
ex-Cego. Enfim todos já a abrir a boca lembrando cama quando surgiu a pedir vez
um ex-Namorado, sem dúvida ex-Amante quando havia macho, o eufemismo trocando a
‘eleganciar’ o dizer no dito ex-Namorado, que se apresentou com a fêmea da
espécie: a ex-Namorada, cada um em sua mais que dezena na função ‘ex’; ambos
representantes do plenário a estar ululantemente abarrotado de ex-Namorados
ex-Amasiados ex-‘Maritalizados’, portanto dignos representantes dos representados,
estes todos contados por milhão na véspera numa parada gay, na principal avenida da principal cidade da principal nação;
os quais no pleno plenário, pleonasticamente correto, não vaiavam todos apenas
vaiando os ‘muito pelo contrário das coisas’; inclusive o folclore ambulante
gritava slogans de ordem como ‘viva’
e outras mortes. Cansado, exaurido, ex-Sempre daria a palavra ao ex-Vivo se
fosse ex-Morto, não era, nem compareceu: a tal reunião não se dava na necrópole
municipal mas no centro urbano. Aí teve de encerrar, como encerro este longo
período gramatical de bom ou quem sabe de ótimo conto, do vigário.
Não obstante reunião falação confusão
‘cansação’ e exaustão, deu-se o fim.
Em pôr final como ponto, dou a palavra
ao ex-Sem Destino, destinado a nada. Nada existe!?
Marília maio
2005
21° Sequestro do Rei
I – Poderia,
posso dizer a você que não era qualquer um nesse tempo... qual tempo? ora,
quando rei. Isto é, não era ainda quando – como nós agora indo por este
estradão sem fim agora, você ao seu e eu ao meu destino, que será mesmo destino?
o nosso sem destino enfim, perdidos creio... – falo quando não era ainda rei
para ser posteriormente rei. O rei dum império só meu, de mais ninguém. Digo a
você; você ouve! Olhei, virou-se, mais de cabeça, olhou-me, rosnou apenas
rosnou, prosseguimos, prossegui.
Então marchava num estradão assim como
este, ermo, não me lembra para onde mas decerto sem destino como agora nós
dois; donde? da civilização, da violência, da insegurança, até do cansaço da
existência; um perfeito velho imperfeito. Lembro, então sonhava com o absurdo
que constava não exigir mais que uma varinha um anzol um lambari como fora um
menino e não de fato um velhote – o velho sabemos o destroço duma vida, não
entremos nas dores ou não saímos das dores. O fato é que me perdia perdido por
lá. Explico: tal qual perdemos cachorrinhos de nossa cadela, eu me perdia a mim
mesmo sem saber onde depositar o cachorrinho, eu mesmo. Cansado. Esfalfado.
Prostrado. Não prostrado não, andava, andava imaginando e criando barrancos
para descansar meu cansaço. Diria em tédio porém bastam alguns quilometrinhos e
lá se vai o tédio e assim renovamos nosso sonho, onde possa ter sonho. Realmente
cansado, as pernas já dando passos curtos, assim encurtando a destreza.
Foi nesse ponto ela aparecer.
Chamá-la-ei primeira, referência à
rainha-mor, digna dum rei, quiçá dum príncipe, este que é versão mais jovem e potente
de um rei. O rei, eu, claro.
Passou, olhou, frenou, afastou de
volta o carro onde minhas pernas na beira da estrada me levara devagarinho como
afirmei por cansaço. Parou, antes raspou inclusive os pneus na frenagem da ré
quase brusca, a deixar marcas do escorrego e imediato a parada na areia no pó
vermelho daquele caminho tosco de caboclos passarem com botinas ou descalços.
Você, disse a rainha bela apetitosa ao
rei, eu; você vai para onde, quer carona! fez indagação ao mesmo tempo encavalando
ambas perguntas; e aí já imperou na sua costumeira, posteriormente saberia
habitual, forma de mandar – sobe aqui. Nisso abrindo a porta da direita dum jeep ainda a fumegar poeira sujeira e cheiro
de motor quente e combustível exalante. Subi. Não cheguei indagar onde minha prisão...
Creia-me, andava a me prender, como se
prende passarinho na gaiola aberta com chamarisco duns grãos de milho na
portinhola... Entrei no gaiolão. Ela a sorrir sua vitória. Olhei desconhecendo
meu sucumbir e minha derrota.
Viajamos horas socos cacos areia
poeira outra vez poeira e mais cansaço, dormi. Acordei entre elas...
II – Naquele
trajeto, curto? longo? insondável? distraído com o perfume da mulher a meu lado
no volante dum cabrito pulante que é uma condução rural em todo seu esplendor –
naquele caminhar não poderia estar sonhando o sonho, mais a grudar-me medroso à
realidade dos solavancos e dos zigue-zagues da condutora bela; achei-a bela ou
seria por meus anos a seco longe do contato feminino; e nestas condições a exagerar
na visão... Naquele trajeto pincei afirmativas dela, mescladas de lamentos pelo
descaso das autoridades na conservação do trecho acidentado, lamento pelo
abandono da estrada vicinal, mais própria a cavalos da população roceira, que
para a passagem de um veículo importado que faz as delícias da classe abastada
e do consumismo da burguesia. Não distante demais da partida a rainha me dava
informes por alto do ambiente que encontraríamos no êxito da viagem.
Não se preocupava a pedir-me
informações nem a se dispor saber quem eu era. Em outras palavras, não
pretendeu conhecer minhas origens, minha capacidade física e meu estado mental;
a existência que levara até aquele momento. Em suma pouco ou nada lhe
importando que eu pudesse ser um consumado patife quiçá um criminoso um
fugitivo da lei; enfim podendo ser um perigoso representante da bandidagem que
assola o país nestes tempos, naqueles, pois conto o antes do sequestro.
Sequestro! Sim andava sendo roubado e
não sabia; roubado integralmente em corpo e alma por aquela fada que cheirava a
mulher, a mulher que anos vivia longe de mim.
Tudo isso mesmo a considerar ser no
dito momento já um homem envelhecido, a branquear os poucos fios que me cobriam
a cabeça; e tendo uma barba enorme, não propriamente embranquecendo e sim quase
toda branca, indício comum da velhice macha...
Não, não via não percebia isso, ou
sequer se importando com o homem em descenso, vendo decerto ela apenas o homem,
não os anos do homem...
Mais tarde consideraria, analisando o
todo, que a rainha também andava muitíssimo tempo sem homem; e nesse caso eu
não deixando ser algo de valor, mesmo sem valor na minha opinião.
Bem, viajamos por horas, saímos da
estrada principal, entramos nas particulares, quase carreadores e picadas, nada
estrada costumeira de trato, mesmo sem comparar-se o anterior estradão
maltratado pelo poder público, este cioso da percepção de impostos e taxas.
Viajamos; chegamos.
III – Como acha
deva ser a chegada de um rei. (Rosnou-me o companheiro qualquer coisa
ininteligível...) Exatamente assim, uma chegada triunfal: digna da minha
dignidade. Aliás não colaborei muito com o cerimonial, pois acordara naquela horinha,
a da chegada; ainda a esfregar olhos ou pela monotonia das lamentações da
rainha a cambiar nervosa as marchas, a impedir impactos vezes sem conta
apertando o pedal do freio; ou é que dormira de cansaço, a relembrar aqui o
esfalfamento na quilometragem de meus passos, quando o jipe houvera me alcançado.
Seja como for foi no desembarque nosso
um triunfo próprio dum rei. As moças me rodearam me examinaram me apalparam,
ver certamente que o rei não fosse quimera e que agora – escute bem isso – que
agora elas possuíam um rei inteirinho pra si.
Muito bem, não pense que exagero,
aliás em nada costumo exagerar: conto a realidade, a minha realidade como um
ser real, um monarca!
Quanto às moças como afiancei, eram
mesmo jovens. Depois concluí jovens sim porém mais que isso, umas jovens carentes...
A rainha? Ela se dizendo jovem também;
as outras não podiam desdizer isso na sua frente, à boca pequena me confessaram
ser uma tia. Na época as famílias assim denominando as filhas a sobrarem no
mercado do matrimônio. Claro, nunca eu falei a ela nestes termos. Mais ainda,
aceitei acatei suas ordens, estas ordens eram as de que fosse a rainha ali. Que
fosse a minha esposa favorita, no meio de tantas beldades. Quer dizer, eu, se
me dessem o direito à escolha votaria na mais nova delas, pouco mais que
menina. As outras cinco eram jovens não tanto quanto a menina nem tão bela quanto
a belinha; entretanto novas de fato. Especialmente em comparação com a monarca.
Todavia há algo que deve ser revelado.
Todas seis, mesmo aquela menina-moça, se mostravam rainhas, como a primeira
rainha; defendiam nos instantes comigo ser a rainha do lugar. Isto guardei para
continuar sendo não para cada uma em particular mas a todas o seu rei.
Autêntica política e diplomacia dum monarca; um rei precisa ter muito jogo de
cintura, a fim de receber os bens da posição.
De maneira que por muitos meses fui
rei a elas todas e assim recebi delas e muito mais da rainha-mor, não só o tratamento
real todavia as vantagens do cargo.
Ora, a pensar meu estágio anterior de
quase andarilho perdido numa estrada de movimento interestadual embora descalça
e esburacada e ainda rica em poeira; a pensar nisso e na minha situação de
miséria pela falta de fêmea por anos na solidão! a pensar assim, não ganhara
apenas o título de supremo mandatário, recebia as benesses de todo um reino!
IV – A vida no
meu reino, a minha estada nessa propriedade foi curiosa, se analisarmos a
formalizar como deva ser tratado um monarca, um monarca do meu porte visto me
achar entre os melhores reis do planeta. Porque as meninas exageraram e eis o
meu susto num espanto profundo quando tomo consciência do tratamento. Pois
creia: virei brinquedinho delas! Ora
quais, as rainhas famintas de homem, de homem não com ‘o’ maiúsculo, com agá
dos grandalhões e que é a marca dos grandes homens. Diria a acertar melhor a
frase e soná-la bela, ela a frase não a princesa não a rainha não todas
rainhas, embora todas belas; ora eu ia dizendo homem grande; não cabendo grande
por eu ser um ser de estatura mediana – isto desconto por já um velhote (na
época válido ainda) e a prova é eu haver sido encontrado pela rainha-mor
andando numa cadência militar in
acelerado marcha! Acelerado seria um pouquinho abuso porque estafado estourado
no meu cansaço até a pedir barranco... Um velhote eu dizia; e assim devera ter encolhido
um pouco como todos idosos, os quais não crescem mais igual um jovem e inclusive
diminuem na altura. No entanto era um grande homem, um grande rei. E nestas condições,
virar brinquedo das fêmeas folgadas da espécie... ah é dose; era dose primeiro
a envaidecer e após uma dose de enraivecer, ao menos para indignar leões!
Contudo extrapolavam as rainhas, as
seis, as cinco isto porque a rainha-mor, forte na sua fortaleza de titia, esta
só na seriedade não brincava com seu amor, eu; séria, apenas exigia cobrava
impunha mandava no seu homem, eu. Diria que as seis me tomavam para tão só
divertir-se. Uma noite inteira, estendida pelo dia a fora dentro de seus
aposentos, eu entregue para uma delas então; noutra para outra, noutra para outra
ainda e assim por diante... Vou apelidá-las tomando o abecedário para facilitar
o abuso; eu era abusado pelas jovens; não sendo virgem convenhamos porque
desfrutava já as ‘delícias’ da velhice; abusado por ‘a’ por ‘b’ a seguir por
‘c’ depois ‘d’ ‘e’ e ‘f’ – todas a brincarem comigo no seu leito na sua vez.
Neste ponto você indagaria, indagaria
e não o faz pois só grunhe e nada fala, você me perguntaria se a rainha-mor não
deveria ser ‘a’, aqui sim um A grande enorme na sua maiusculação, haja esta
palavra que os preguiçosos dicionários não se dispõem registrar, porque ela
séria e mandona, com ela nada de brincadeiras – inclusive puxava orelhas das
outras princesas tornadas rainhas na sua noite de brincar com seu brinquedinho
macho, eu. Acontece que se não dispunha a aceitar-se uma das rainhas: era,
afirmava provava por a+b ser ela mesma a rainha única, o resto a submissão. No
entanto as demais é que se subdividiam por conta própria em rainhas de ‘a’ até
‘f’.
Olhe meu caro colega de caminhada,
elas me fizeram de gato e sapato. Não tem esse ditado? Então, abusaram dias e meses
de mim!
Não diria pobrezinho de mim. Eu
aceitando o abuso. No começo até estimulava e me dispunha me entregava a elas.
Depois... um dia senti-me abusado, qual o brinquedo esfrangalhado mordido
despedaçado, em suma virado trapo.
Muito enfraquecido andava, tanto que
não mais andava. Daí por diante fui como um boneco de pano enchido de estopa e
algodão, um boneco frágil atirado no entulho, no lixo para reciclagem. Ou no
abandono e/ou esquecimento.
V – As
consequências? Bem, a bem dizer diria que o abandono e o esquecimento foram as
mais expressivas e o que mais tocou minha dor. As próximas e quase imediatas entretanto
foram o que marcou-me mais profundamente.
Imagine você que eu na minha provecta
idade com direito a mil netos – isto abuso de figura – a esperar netos recebi
filhos, oito filhos! Completo agora este absurdo num absurdo mais bem
configurado: oito criancinhas duma vez!!
Não não me olhe torto, conto direito;
direito direto honesto.
A rainha-mor, séria, mandona e a fazer
de todas outras apenas rainhas naquela ilha isolada cercada de mistério por
todos lados – essa na sua alta autoridade, pariu gêmeos um menino uma garota,
umas gracinhas e poderia dizer tendo a fuça do pai, eu. As outras rainhas, as
que abusaram do genitor de seus filhos, essas outras não tiveram tal direito e
deram à luz um só bebê cada uma, porém acharam cada qual o seu a mais bela
criança... Todas indistintamente vendo meus traços nos traços de sua cria. O
que confortou e alegrou meu coração. Uma só, efe, mais apressada, “ganhou nenê”
como falava e falava o restante da população no sétimo mês; as demais esperaram
o apito final do árbitro para gemer e pôr no mundo meus filhos, três meninos e
duas meninas; enquanto o da apressadinha não podendo a apressadinha precisar o
sexo...
Um dia, um ano após tais
enriquecimentos na população do globo, fui conhecer minha prole. Vi de longe, o
harém já com outros doadores; por sinal jovens e feios.
Então sim, conscientizei o abandono e
o esquecimento.
VI – Aí está o
porquê do seu companheiro ser seu companheiro neste estradão sem destino.
Entretanto você não me deu até agora
sua opinião. Que seja mesmo o veredicto...
O outro grunhiu brabo e acresceu em
boa mas violenta linguagem: assassinei até hoje muitos médicos dentistas filósofos
políticos e apenas para variar, um homem comum. Vai ser a primeira vez que
esgano um rei...
Marília setembro 2010
22° O Caso dos 10 Negrinhos
Se
ouvisse, se atencioso, se visse não apenas olhando, se, em última análise, não
dormisse de olhos abertos – diria com certeza, a acusar-me plagiário, que
narrasse este tró-ló-ló (neste ponto me insurjo, berro: “lindas estórias!”) que
narrasse enfim a outro trouxa. Felizmente dorme. Posso contar os 10 Negrinhos, ir além: onze
ou vinte, sem ferir Agatha e sem ferir surdos hajam.
Conto o conto; eram – iremos ver à
frente que foram mortos um a um impiedosamente, aí de fato ‘eram’ – eram 10
lindos cães negros, desses peludos, pelados alguns e outros brancos (ué, brancos
pretos! deixa pra lá deslizes, pois todo narrador perfeito tem seu escorrego
vez que outra) belos, belos sim mas com um gogó pra lá de forte cada um deles;
e com uma capacidade a repetir – isto a me lembrar repetindo repetindo aos
surdos deste planeta cheio de leitores – sim uma capacidade em potencial e
efetiva no exercício de suas funções de ladrar repetidamente, a nos fazer
lamentar e a seguir inclusive chorar, não se chorando só à noite, noite santa
ao dormir aí não se dorme, durma-se de fato com um barulho desses...
E assim não dá, dirão.
Bem dito e idem o pensamento do maître ou gerente ou mesmo do
proprietário do restaurante que a gente frequenta; mais talvez o do cozinheiro
espécie de chef, que era certa cozinheira
gorda que ficara pra titia, mui enrustida e nervosa: qualquer coisa, pronto já
vinha de faca. Cortava espedaçava, dando aos mequetrefes daquela cozinha quente
fumaçante e cheirosa (das frituras ‘coziduras’ assaduras podendo ser a cozinha
malcheirosa então). Daí passava a senhora as iguarias à portinhola que dava
para o refeitório, deixava nela; vindo a seguir os garçons sorridentes,
sorridentes por conta da gorjeta, tinha sempre uns chatos que não davam.
Menu, bem francês abrasileirado:
arroz, feijão, mistura, cafezinho ou goiabada ou marmelada de chuchu sem agrotóxico
e queijo. Em síntese – arroz e feijão, mistura qualquer, sobremesa ‘romeu e
julieta’ ou só cafezinho, os fumantes optando por este alvitre a fazer boca de
pito. Um pito sim.
Isso que foi dito. Um pito no
restaurante fino (era pouco mais que um corredor espaçoso de limpeza
discutível, fica impregnado o cheirinho de comida, a gente entra e já sente).
Pito no item mistura. Alface e abobrinha, tudo bem. Na carne, ah! tenham a
santa paciência. Paciência em decálogo:
2ªfeira – comi restos domingueiros,
arroz etc., a novidade por conta da carne afogada. Diziam por aí que um cachorro
preto fora colhido por um veículo.
3ªfeira – feijão meio azedo, tinha
também feijão queimado passado com caldo a espumar. Espumar melhor à carne.
Ficava assim ó presa nos dentes. Falaram noutro negrinho peludo que não latia
mais nem roubava coisas do lixo; claro, nem espalhando mais lixo.
4ªfeira – tinha pressa, engoli pelos
olhos e o nariz, que expressãozinha mais idiota, nem vi, os outros fregueses reclamaram
da carne, não parecia de vaca. Enfim notaram a falta daquele branquinho pelado,
o qual entrava xeretar o pé da gente.
5ªfeira – comi sem pressa alguma.
Descobri uma pata de cachorro no feijão; não a pata inteira só um artelhinho.
Teimou o garçom ser de porco. Bem, perdeu a gorjeta.
6ªfeira – dispensei arroz e feijão,
aquele negócio de os grãos estarem parecendo secos sem cozinhar enroscando na
garganta, comi abobrinha a carne (espumante um pouco só) e comi com prazer a
julieta; não seria besta a comer o romeu. Sorriu o homem de bordo naquela
viagem, de sexta repito.
Sábado – não se trabalha, come-se
entretanto: petiscos, sanduíches; nenhuma carne. Já enfarado no deglutir
proteína.
Domingo – não se trabalha, dever-se-ia
igualmente não comer. Em meu quarto solitário umas vitaminas, umas frutas e
cama; e jogo, o time da gente perde, dorme a gente outra vez a esquecer, ao
menos a descansar; ora, não é o dia do descanso!
2ªfeira – torno ao restaurante
comprido parecendo linguiça, como é que aproveitam tal espaço e falam em termos
de restaurante! Bem, por falar na linguiça, ah não é do tempo em que os
cachorros eram ingênuos a se deixarem amarrar com linguiça, poxa. Bom, pedi
linguiça; arroz feijão alface e linguiça, tomei café a abrir o apetite por
tabaco. Mas ela não parecia de jeito nenhum linguiça, um preto morrera,
estivera a feder na rua estufado, não ladrava mais sem parar; parou, falaram,
na panela dela a bela braba; contudo não cri.
3ªfeira – tinha um peludo a ladrar a
cada freguês que entrasse. Claríssimo, a carne era bem assada e de boi, porco
neste calor medonho! Não quis sobremesa. Ia andando lerdo na volta, percebi uns
ossos caninos na lata de lixo...
4ªfeira – pedi arroz; veio feijão
carne abobrinha e ganhei ao pagar no caixa cafezinho, sorri à moça, filha
bonita do proprietário ou do gerente ou do maître,
não poderia ser do garçom... poderia sim. Sorri e me assustei após, o cãozinho
que sempre desejava morder minhas calças ou depois a sorrir-me levantando uma
das patas traseiras, esse já era – jazia velado por moscas, nos fundos vi a
arma do crime tendo sido um pau a sangrar (sujo de sangue, leia-se).
5ªfeira – fui imprudente, não a pedir
romeu e julieta com feijão e arroz: “me dê, matei de pronome, me dê cachorro na
mistura...” reticenciei a acabar com eles. Vieram todos: o outro garçom, o maître, o gerente, o dono, a cozinheira
assim de braba – queriam me atirar lá fora. Fugi rindo como um cafajeste. Não
chamei a polícia.
6ªfeira – mudei de restaurant. Só passei no antigo, não a
pegar o guarda-chuva esquecido, não; nem a me despedir do garçom. A despedir-me
do décimo Negrinho restante. Não o vi, vi um marrom novo a abanar sua cauda no
pedaço; na cozinha desossavam algo que me disseram ser carneiro. Haveria
carneiro ensopado.
Impediram-me de participar daquele
ágape, cheio decerto de regabofes em forma de café.
Porém saiba o surdo a me olhar fixo
tentando entender – nem o maître nem
a cozinheira braba conseguiriam me arrastar para dentro a fim de comer
carneiro.
Marília janeiro
2006
23° Revisita
Quando estamos a visitar um ponto, a
casa da gente mesmo, em verdade estaremos realmente revisitando porque antes
quando morando era apenas uma visita na própria casa, visto ninguém ser dono do
que pensa e diz possuir, a propriedade sendo uma profanação chã e até roubo
tirando da natureza os produtos todos dessa natureza.
Ao pensar residir ocupamos tão só por
um tempo o tempo das coisas. Contudo morara e visitava sua vivenda aquele homem
que punha estas questões destas traçadas linhas mal traçadas; pensou a rabiscar
no caderno de sua mente o homem que pensava.
Chegava a passos largos lentos,
todavia marciais supunha, sem fazer apesar disso alardes na condução do seu
ser. Chegava à casa, que antes fora lar, concordava assim com seu pensar
lembrando haver ficado solitário nos últimos anos em que passara na residência,
então sombria. Quando a deixara. Voltava agora voltando a tornar – curiosamente
– não cansado mas curioso.
Dessa forma subiu pela escada como
rampa leve nos passos curtos mas seguros o caminho entre o portão de entrada o
gramado do jardim em ambos lados e a porta propriamente dita da dita casa.
Ringiu, pensou ringir? assoprar poeira? espantar velhices? ringiram os dois
lances do portal, o portal arreganhou a boca da casa, aspirou ele aquele passado
nos mofos, relembrando os velhos tempos como novos permanentemente jovens
tempos na última estada. Chegou inclusive a examinar em rabo-de-olhos os sinais
que teria agora perpetrado sulcando o chão rico no pó dos anos; não se assustou
por não ver a marcação; prosseguiu agora ao interior daquele museu doméstico
prenhe de recordações e de objetos com recordações. Entrou caminhou venceu logrou
adentrar os recantos nos passos sempre firmes. Quase ereto o corpo, embora em
si as marcas desses anos afora agora em vendo o interior doméstico. Arcou por
vezes a examinar a baixela os móveis pequenos, olhou o tamanho dos grandes,
pesquisou tim-tim por tim-tim o que já de sobra sabendo a saber se mãos apócrifas
as bem as mal intencionadas a desvirtuar uma residência a si distinta. Viu,
aqui não reviu viu, viu o trabalho perene lento morno atento das aranhas a
cruzar mil vezes fios a compor desenhos curiosos, engraçados? curiosos como
malha de pescador a enredar seus peixes-insetos neles, nos fios quase invisíveis.
Em todo canto uma saudade em todo canto a poeira o tempo os anos... Olhou cada
compartimento, mesmo os da sordidez obrigatória e malcheirosa então somente com
hálitos do pó da velhice e do abandono; cada um cada corredor cada caminho
dentro daquele caminho de sofrer e de se alegrar também quando morador.
Espantosamente ninguém tocara em nada de seus objetos sagrados.
Examinou seu dormitório de cultivar a
insônia examinou os pertences que lhe pertenciam. A cama de casal também
abandonada, abandonada anteriormente já dum lado do colchão, viu reviu o doutro
lado o qual suportara seu corpo pesado afundando anos manco, a manquear a moral
duma cama. O lençol os panos a coberta os travesseiros, um marcado por suas
lágrimas escondidas e o pó impregnado nelas a manchar o tecido branco então
bege na cor da cor do tempo que não passava quando passava; o outro intacto
quem sabe ainda a ‘fragranciar’ o cheiro dela, que aspirara ele sem resultado
nos últimos meses... A roupa de dormir da companheira, intacta também, remexida
no desespero do ódio quiçá porém serena agora depositada nesses anos com todos
vestígios do uso do abuso, então parado para as lágrimas de ver de não ver de
sentir de sonhar de sofrer. O pente no toucador vazio e demais intactos objetos
do obrigatório manuseio na vaidade dita feminina e igualmente a exalar sua
presença e o perfume forte leve do tempo de espera sem volta; tornava aí em examinando
toda uma vida a dois, solitária! não quis sofrer mais.
Voltou-se aos objetos pessoais,
pessoais dele, espalhados, uns a cair outros já no chão do assoalho implorando
auxílio talvez aos que haviam permanecido por cima do seu criado-mudo, no
momento realmente mudo e entregue à poeira do tempo qual pertence de museu – ah
estava mesmo num museu em visita, revisitando sua casa.
Caminhou na direção do monstro que era
o guarda-roupa encorpado do tipo dos tipos imemoriais da família de antanho, o
armário que gemia na abertura; ele gemeu rondando nos gonzinhos do seu tamanhão
e se arreganhou para a visita que não era bem visita: a dona da casa. Vasculhou
o interior do móvel imóvel, examinou a ‘intactude’ do vestuário, mesmo as peças
de maior frequência no uso ali prontas ao uso e reuso, seria preciso espantar o
pó bater o pó ‘atchinhar’ o pó até se se quisesse reexperimentar vestir.
Sorriu. Sorriu na alegria de sua tristeza pelo abandono e nisto se agradou que
não tenha nenhuma delas agradado a ninguém e ao contrário maculada estaria
aquela virgindade do tempo; puxa quanto tempo. Passou a mão no pó depositado
embaixo do encima das vestes dependuradas quase como enforcadas nos cabides,
reviu o cabide azul preferido agora desbastado do tempo cobrante descolorido
dos anos e quebradiço por ser de plástico, os outros cabides de madeira (e não
estariam carunchados dos cupins devoradores! num átimo olhou o chão do chão do
armário e não viu serragem daqueles dentes afiados e assim sossegou um pouco);
passou a seguir o dedo no pó e só viu o pó e não o dedo. No chão de dentro
ainda guardava uns papéis de suas criações amalucadas e mal-educadas e eles
também intactos, os rasgados onde rasgados, os dobrados onde dobrados, todos
empilhados ordenados registrados e imediato guardados agora ainda guardados,
intactos intactos. Fechou o intacto móvel um ‘mobilão’ e notou não mais
aplicarem no seu exterior óleo de peroba para conservação; mas que fazer,
justificou, se abandonado seu colossal ármario, este a presenciar sempre aquele
quarto adaptado de solteiro! Não quis chorar a outra parte dele onde vestidos e
peças íntimas de sua íntima quando íntima. E perceberia sua fragrância
conhecida e ‘ene-vezes’ sentida... Não é lícito sofrer o sofrimento, ‘ressofrer’.
Assim mesmo verteu alguma coisa escondida que saíra do coração e não das
pálpebras.
Seguindo se fixou noutros cômodos.
Igual alguém que revê alguém e conta como não soubesse alguém o que alguém
passou no comum do viver. Conversou com trecos de cozinha com objetos de sala,
foi além no rever analisar desbloquear examinar melhor os atulhos nos entulhos
do quartinho de despejos, onde se sufocavam porcarias destroços e restos empilhados
ou somente atirados ao léu na área. Aspirou sua poeira envelhecida, seu cheiro
de compartimento fechado não a sete chaves, fechado e comprimido. Examinou como
um dono faz, sem perguntar nem pedir licença a outrem: pegando olhando mudando
de lugar não achando bem, ou só pensando assim fazer por bem. Bem. Outra vez
deixou disparar as gotas contidas; oh que é isso, se condenou, que é isso
chorar pedaços de pau imprestáveis e ferramentas já enferrujadas sem uso!
Fechou, fechou até violentamente, a porta do quartinho e foi observar qual num
passeio seu quintal. Puxa vida, fechei a porta de minha oficina esquecendo o
regador lá dentro: poderia aproveitar molhar um pouco as plantas moribundas a
revivê-las pois deve nesse período ter faltado água no tempo da seca, sendo já
o tempo das águas. Abalançou a cabeça pela besteira e foi, alegre, rever as
plantas.
Reviu com prazer infinito seus pés dos
pés que plantara vigiara cuidara regara limpara colhera até algumas frutas, agora
adultas árvores. A mangueira então vetusta colorida de frutas ao sol e no
soalho de sua sombra a alimentar a terra e os insetos voejantes e os
apalermados; os pássaros gritavam o crepúsculo próximo, uns a bicar gulosos o
fruto da fruteira que plantara e zelara e se locupletou de alegria também como
as aves. A goiabeira ficara mais velha mais grande mais bela e também o chão, o
seu chão forrado e nele fedia frutas podres e vicejavam filhotes da erva que se
empinavam crescendo à copa da mãe. O coqueiro ainda esplendoroso mas a visitar,
e não seria igualmente uma revisita! a olhar lá em cima curioso o céu; e sem
coco... Não haveria no pedaço inescrupulosos vizinhos a furtar suas frutas!
chegou-se a verificar no muro – rachado pendendo esburacado galgado decerto
pelo pensamento do mal. De repente se pegou no próprio pé: por que motivo não
deixar que outrem igualzinho aos insetos e pássaros se apossassem do bem se
tudo não nos pertence nem antes nem durante nem depois nem nunca, pertence apenas
à natureza e ao Criador da natureza!? Poderia, ele sozinho, um solitário numa
revisita, consumir toda aquela fartura. Claro que não. O restante do quintalão
agora era um gramado... como explicar mexerem sem sua expressa ordem na ordem
da propriedade se área onde habitualmente plantava umas covas de feijão outras
de mandioca ao consumo e um que outro pedacinho deixando para hortaliças
caboclas como o cheiro-verde, ora ora, a cor tem cheiro, ah não se explicava
nem explicaria as bobagens que homem comum fala. Deixar tudo no mato! a grama
que não semeara poderia ser bela fosse aparada, aí lembrou sua tesoura sua
máquina de aparelhar encostadas anos no quartinho; não se esqueceu da principal
afronta: quem teria semeado grama braba no seu quintal!? Estava nisso quando ouviu
palmas.
Chegou espavorido suando da
precipitação a atender: ninguém ao portão de saída...
Então se conscientizou que o portão
era de fato de saída na sua residência. Fechou com cuidado e educação, a evitar
barulhos e alardes. Fê-lo atento mas atentou aí haver intempestivo trespassado
como sombra pela mureta em atendendo possível visita, ou seriam vendedores ou
religiosos aos quais sentira sempre certa aversão. Quando viu, já havia
perpassado qual fumaça e transparência o muro de alvenaria. Daí se espantou.
Não se assustara tanto não vendo ninguém bater palmas. Agora se perdia no
pensamento ao tentar explicar esse fenômeno atrapalhado.
Quando se deu de si não viu mais
sequer seu museu nem estando na sua rua deserta. E não andava, não andara.
Marília março
2009
24° Amélia de Nossos Dias
Se,
observemos a condicional, se o surdo não fosse surdo, e não sendo surdo a
ouvir-me no contar; aí teria decerto o escriba nova encrenca; a encrenca da
teimosia. Vamos dizer que eu dissesse Amália;
ele: Amélia; faria mais a atrapalhar o menos, indagando se não Maria, único
personagem feminino, a qual um dia falei ser linda de morrer. O cachorro então
desandaria ele a ladrar nervoso pensando que estivéssemos em discussão. Acertando
mas existem duas formas opostas e contraditórias na contradição da palavra
‘discussão’, uma positiva na qual as partes se entendem se elevam se
compreendem para compreender e chegar às consequências também positivas; outra
é sabidamente mui empregada na rua e mais ainda dentro do lar, que é a briga,
quando não declarada, ao menos nesse menos há o desentender. É pensando neste
alvitre que o cachorro pelado com apenas meia dúzia de fios na cor indefinível
e necessariamente abrigo de pulgas se pôs a ladrar brabo vendo pensando
discussão. Ora, dir-me-ão, cachorro não pensa e respondo: quem não pensa é
galinha, cão é inteligente, tanto assim que a Maria mostra a vassoura e nada
mais precisa fazer, quando muito larga a bela um sorriso de satisfação; mostre
a mulher a vassoura ou faça um discurso filosófico de não ter fim, veja se a
galinha entende. O cachorro... ih, chega. É Amália ou Amélia? Uma palavra
corruptela da outra, por força do tempo e da geografia, os quais praticam a
gracinha de engolir letras e até nomes. E pra que nome! Advogo que nome não faz
a ideia, somos nós que fazemos a ideia e a vestimos com o nome. Por isso este
trabalho assenta-se em quatro indicações apenas: o Zé a Maria o Pedro o Lulu.
Cada vez tem aos seres postos uma formulação diversa. O cerne, a ideia central,
permanece, independe do nome, que é, repito, a vestimenta.
Deixemos as teorias. Partamos à Maria.
Fico com Amélia (antes defendia, sem caráter que sou, defendia ‘Amália’,
podendo ser até Anália). Amélia que era a mulher de verdade. Aqui o poeta a
filosofar sua música não diz que era boa por haver perdido a mulher; estivesse
a senhora viva ali ao seu lado – bem, não deixaria o poeta sonhar, teria de ir
pagar contas ou ouvi-la contar um nhe-nhe-nhem da vizinha, aquela... ah deixa
pra lá também isso.
Amélia já era, diria um espécime da
espécie urbanoide, crendo estar atualizado e se pondo ‘pra frentex’ por usar
gírias e dizeres chulos. Já era. Tudo não existe mais, inclusive minha
gostosura que lava passa troca beija chora varre bebe grita ama, vive – e
atrapalha vez que outra mas não reclama! Pombas, isto é muito bom demais para
ter existido!
Existido? portanto não existe mais...
Afirmo, contrariando a surdez que
possa existir e existe e aí não escuta, não ouvindo não dá discussão – afirmo que existe.
Bati palmas; bati outra vez; rebati.
Só nesse ponto descubro a campainha, pressiono o botãozinho, não tem cachorro a
residência, do contrário estaria a infernar o bairro latindo lá dentro contra
invasores. Me engano, aparece o senhor, surdo, não o surdo que se repete em
cada estória das estórias já escritas pela vida afora, tanto assim que deveria
maiuscular seu esse virando a quinta personagem, o escriba teria ele um ‘e-zão’
tornar-se-ia o sexto, ainda bem não ser o sétimo, aí tudo mentira, xô mentira
detesto mentirosos; aparece o senhor usado velho fraco feio miúdo lerdo cego,
meio cego, aperta assim os olhos para me ver e – pasmo minha pasmaceira: tem um
cachorro daqueles petiticos semelhando ratinhos, tem-no ao colo. Para, olha, vê
um escriba destamanhão ou é que ele e o cão pequenos mesmo; vê, pergunta que
desejo, cumprimentamo-nos; entro “a casa é sua”, ele sorri.
Estou sentado no sofá, de frente para
a tevê, ela mente pra mim desabridamente mente, sete vezes sem parar; ele na
poltrona ao lado a conversar comigo, a lambisgoinha feito biscoito aos pés do
velhote, a olhar de vez em quando pro amo, a aspirar seu cheiro agradável (para
ela, bem entendido) no aguardo de ordens: “devo atacar esse monstro de óculos
perguntando intimidades... ou então aguento firme sem mordê-lo a troco de um
naco de carne e um osso de borracha com gosto de nada?!”
O velhotinho sorri malandragens ou
bonomia à cadela mais camondonguinho que de fato cachorro, olha ele pra mim e
retoma.
Sim, Amélia não. Saiu faz tempo, foi
ver nossa filha mais velha que nos presenteou com nosso décimo neto. Aí conta o
parto sofrido a fórceps, os fracassos anteriores da mais velha; os nove
primeiros netinhos um já é moço deste tamanho; narra os casamentos
descasamentos amasiamentos e eleva os ‘namorados’ das filhas; então faço feio
interrompo a interrupção apreguntando “e a Maria?”
Ah, Amélia que é mulher de verdade.
Minha esposa; insiste, azucrinante, ser casado com Amélia no padre e no cartório,
casado uma única vez e espera que a morte os separe juntando as partes no céu a
viver juntinhos como antes no castelo de abrantes. Indago, por quê?
Amélia levanta cedo, na hora que o
pardal dá o primeiro grito; faz o que faz, é limpa, faz almoço já pensando
janta, lava passa guarda varre encera lustra perfuma, ajeita todos bibelozinhos
nunca quebrou nenhum só aquele da vaca e do menininho pelado e chorou pelo
desastre tadinha; olha os filhos ‘sobrantes’, os netos ‘chegantes’ e ainda
conversa com a vizinha a saber os podres pois este bairro é fofoqueiro pra
danar. Tem mais, bedélho?
Tem. Me coça o dedão, me escolhe as peças a vestir, coça as costas, minhas
costas, vê se a balança não me desatende (neste caso muda o regime alimentar a
meu proveito); pergunta de meu intestino; ministra os remédios, cobra o correto
na receita médica, vê vencimento de cada um, joga na lata os vencidos e corre a
repor na farmácia; separa o lixo – papel vidro plástico alumínio – põe o lixo
na rua, ‘gorjeteia’ os passantes; tolera ouvindo religiosos e sorri a eles.
Ainda vê novela, apenas chora na das seis que é mais lacrimejante que a das
nove. E sobretudo cuida do esposo, eu, um rei um deus pra si! em tudo, cama
mesa e banho. Atualmente sai comigo na rua servindo de muleta a me fazer fazer
o meu cuperzinho.
Agora? me intrometo outra vez.
Agora foi ver a filha o neto recente.
Ia desandar a contar ‘renarrar’ tudinho da prole, dos ‘namorados’ da prole, e
as ‘prolinhas’ que gracinhas; e da Amélia como a mulher de verdade na mentira
do poeta, quando pedi água!
Água?
Amélia, traga já água à visita, doutor escriba da silva, “seu criado” não foi
assim que me disse? Aí confirmei.
Ah, meu caro amigo, melhor tomar água
na padaria da esquina, a Amélia não se encontra presente. E saiba duma coisa,
ela não irá portanto me coçar agora porém estou com certa coceira braba entre o
dedão e o dedo médio do pé, sim artelhos; será bicho-de-pé?!
Marília fevereiro
2006
25° Como Foi que Matei
Minha Sogra
--Dá
licença seu Doutor, se me permite uma observação, o sr.funcionário falou, deve
ter escrito aí na máquina dele, o que não fiz, fiz inclusive o que não falei,
ele não escreveu... E não é tanto assim; quer dizer, é menos, talvez seja até
mais. Posso começar do início, aí explico tudinho; posso? Vou falar devagar
para facilitar o trabalho do moço:
Seu Roberto me contratou para a
construção dele. E... a sogra? chego na sogra já-já-zinho. Como dizia o homem
me deu o serviço porque sou bom pedreiro e faço bem as coisas da profissão, não
precisa planta nem nada – não adiantaria mesmo ter planta da prefeitura pois
não sei ler – de mais a mais não tinha planta, era um pouco às escondidas a
construção. É muito claro eu nada ter com isso, só trabalhava. Nem dava
palpite. Ah, ela dava! não Senhor Doutor: a sogra não, a dona Bete. Dona Bete é
uma vareta andante falante implicante palpiteira como só ela pode ser; a sogra
o Sr. viu é gorda forte e bocuda, era bocuda, o Sr. tem razão... A sogra não entra
aqui agora. Posso continuar? Então, nesse ponto chegou dona Bete.
“Pode vir aqui, seu Joaquim?”
Fui. Muitas vezes ela chamou dessa
maneira – e fui.
Isto daqui, disse a moça (tem dois
filhos, moleques de rua, barbaridade, uns capetas! mas é nova ainda) não quero
com a porta pra lá. O sr. não mexe até eu falar ao Roberto que é pra modificar.
Aí perdi o dia de serviço, porque era cedinho. Chegou o homem de noite, eu com
uma fome tamanha ela só me deu pão com café eu tinha de jantar, fiquei esperando
esperando; chegou. Acabou falando sim sim quando ela dizia “sim” não não quando
ela queria que fosse “não”.
No outro dia comecei donde ia começar.
Fiz a parede. Sozinho, tudo sozinho, não arranjava servente, esse pessoal quer
ganhar mais que a gente, falta a três por dois e acaba o oficial fazendo mesmo
sozinho o trabalho. Preferi nem arranjar ajudante. De noite estava prontinho
para reboque, ela queria que falasse ‘reboco’. Ela chegou das compras, nervosa,
deu bronca nos seus capetinhas a empregada não podia com os pragas, descarregou
em mim. Seu Joaquim !
que é isso, a parede está torta, vou esperar o Roberto e falar, o senhor
precisa corrigir... Respondi pra mulher, não a sogra não Senhor Doutor, a
patroa dona Bete, falei pra ela que não precisava contar ao marido: eu refazia
a parede no outro dia (o que adiantava falar ao homem, se falando pra mim o que
a esposa mandava!) Cedinho, tive de ir pro serviço mais cedo, derrubei tudo,
tudo refiz, perdi outro dia de trabalho. Tudo bem, ossos do ofício. Sim senhor,
vou falar mais devagar pro senhor bater na sua máquina. Posso agora continuar?
No outro dia refiz a dita parede. Foi
pior. Ela estava feroz (não Senhor Delegado, a sogra não, dona Bete); a molecada
tinha brigado na rua, ela brigado com as vizinhas mães das outras crianças por
causa da briga dos meninos. Entrou gritando comigo, como se fosse eu um mequetrefe.
Aliás acho que sou isso mesmo, me ofendi, não tinha culpa; além do mais a areia
era grossa demais, pedi material fino para acabamento, seu Roberto comprou
grossa, eu andava nervoso com meu serviço ela se meteu no meu serviço (não
Senhor Doutor, a sogra não, a mulher do seu Roberto). Que eu tinha assentado o
tijolo com a marca pra cima, que tinha derrubado muita massa no chão, a sujeira
aqueles grudes inevitáveis eu limpava sempre antes de ir embora para ver meus
bacuris e a Maria. Não Senhor Doutor Delegado, Maria é a mulher com quem me
ajuntei, a sogra se chama Filomena. Pois é, como eu dizia ao Senhor a dona Bete
andava nervosa e descarregou tudo em mim; a massa a sujeira. Nem respondi, eu
igualmente estava nervoso... não Doutor, não foi aí que fiz aquilo na sogra,
naquela hora me encontrava nervoso todavia murchei, fiquei quietinho, limpei
tudo, fui embora. Na outra manhã nem bem havia chegado à obra, ela correu pra
mim, a dizer que o marido estava brabo, a parede havia caído! e os garotos só
tinham encostado nela... Pus a mão na cabeça.
Pensa o Senhor Doutor que briguei?
nada disso, sou é pacífico pra danar: limpei, tirei o material, meio dia de
trabalho, e comecei a levantar outra vez a parede. Ela não me deu sossego:
matracou dia inteiro sobre o desastre; não contente trouxe a vizinhança (sim
Senhor Doutor, já estava de bem com as mulheres). Conspiraram, tramaram, vieram
em peso vizinhas e respectivos filhos para ver a parede no chão, o besta aqui a
limpar e a refazê-la; ah que desmoralização! Parecia eu ser o inimigo de todos.
Olhe, o Sr.Dr. vai desculpar pelo que direi, mas tive vontade de massacrar
todinha aquela assistência, por conta de minha vergonha, esfaquear apedrejar todos
por causa de meu orgulho ferido. Nesse ponto ela gritou comigo... não Senhor
Delegado, a sogra não, dona Filó andava filando a boia lá na minha casa, falo é
na dona Bete, a patroa. Isso, ela gritou comigo que não estava direito, que ia
mais de semana eu ainda na parede do meio, e o resto iria um ano!? Não
respondi, sou educado. Se respondesse falaria não tratar com mulheres
linguarudas somente com o patrão que me pagaria ou não... Todavia não fiz coisa
alguma, sequer abri a boca. Trabalhei até mais tarde na obra para refazer o
malfeito, sim, estava malfeito porém os capetas da mulher não eram flores que
se cheirassem e muito que bem poderiam ter derrubado meu caprichado serviço de
pedreiro por um dia inteirinho. Fiquei pensando talvez largar tudo, iria catar
papel na rua em vez de trabalhar me embarrear me esfolar me cansar na obra e
ainda ouvir a vareta falante irritante ela a falar falar falar. Não, Senhor
Doutor, a sogra não, dona Bete que falava sem parar e azucrinava minha vida.
Daí vieram o... sim senhor, vou falar mais devagarinho para que o senhor possa
datilografar minha confissão. Daí foi a vez do andaime.
Um mês já, estava me desgastando no
serviço, sem andaime. Ela implicou por eu estragar suas cadeiras estragadas,
que eu pegara no quartinho de despejos pra servir de andaime. Ela urrou. Não,
Senhor Doutor Delegado, a sogra descansava na minha casa filando boia, a dona
Bete quem se enfureceu. Que fiz? resolvi fazer andaime para acabar as partes de
cima, a parede andava já ao teto. E tapava a boca da megera, devolveria as
drogas das cadeiras estragadas dela. Fiz o andaime com tábuas; todavia não
montei direito a trempe, ou que a madeira fosse fraca podre: desmontou, caí, a
caixa de massa se espalhou no chão da mulher! Larguei tudo.
Voltei no outro dia, não tinha bebido
quase nada no boteco do João. Ela daí recebeu-me com pedras! não Senhor Doutor,
a dona Bete. Reclamou da sujeira dos estragos da perda do material etc., só não
falou que eu caíra me esfolando, viu os esparadrapos nem ligou; problema meu,
deve ter pensado. Naquele dia trabalhei com raiva. Até de noitão, quando chegou
seu Roberto. Arresolvi criar coragem e falar, pedir uns trocados por conta. Nem
se fale, Doutor, ela entrou no meio de nossa conversa, Senhor Doutor Delegado,
a sogra não, a mulher do seu Roberto! Falou encheu o marido, que era perigoso dar
adiantado a “essa gentinha”, ouvi bem o cochicho alto da vareta, que era dona
Bete, ao banana do esposo; eu virara gentinha. Além do mais fizera quase duas
paredes e rebocara uma delas, caíra parte do reboco (não me responsabilizo pela
coisa, pedi areia fina, veio grossa, precisava peneirar tudo!) Enfim tinha
serviço pronto a apresentar, justo seria um adiantamento. Entretanto a mulher
engrossou comigo: que o marido nada pagasse enquanto a obra não estivesse
pronta. Me pichou falando do andaime malfeito e despencado, a parede tombada, a
sujeira... Sempre punha a sujeira que eu fazia, como pudesse eu usar colher e
massa e ainda deixar limpeza, ora bolas! Seu Roberto foi legal comigo, pagou
parte do combinado. Contudo a senhora dele ficou braba e enfunada pro meu lado.
Não, Senhor Delegado, a sogra estava em casa dando maus conselhos à filha; falo
é sobre dona Bete: não conversava mais comigo, enfezada que nem mula. Achei foi
bom.
Sabe por que achei bom? não tinha mais
que responder às suas tolas perguntas, ela não perguntava nada mais dia inteiro;
assim pude trabalhar sossegado. Sossegado não é bem assim. Sim, o senhor tem
razão, estou falando muito depressinha, vou devagar de agora em diante, para
não errar sua escrita. De fato dona Bete não me perguntava, porém infernava meu
serviço dando indiretas... Que fulana desgraçada! (com perdão da palavra). Não
Senhor Doutor, a sogra não, a esposa do seu Roberto que falo. Me infernou até
noitinha. Quando chegou o marido.
Ele chegou, eu havia acabado a parede,
andava tudo lisinho e bonito, na minha opinião. Ela foi encontrá-lo. Chorou
lastimou argumentou entortou o pobre. Ele me comunicou o veredicto da mulher
(ela não falava mais diretamente comigo): “a Bete não quer mais a parede da
esquerda; nós resolvemos desmanchar tudo e vamos fazer de atravessado”. O que
eu respondi?
Saí correndo, feito moleque, doidinho
da silva. Pulei o portão xingando por dentro, ganhei a rua, cheguei no botequim
do João, enchi a cara. Sabe, Senhor Doutor Delegado, quem encontrei no meu lar?
Não, Senhor Doutor, a dona Bete nem sabia onde é que eu morava. Encontrei
mastigando na porta a sogra! Dona Filomena mastigava uma carne de porco assada
em meu fogão, ainda por cima de boca aberta, feito uma porca. O que fiz então?
dei-lhe uma pisa, bati pra valer na velha. Não foi pra matar a bicha, mas os
praças que o Senhor, Doutor Delegado, enviou lá, não creram.
Ribeirão Preto agosto
1985
26° Segunda e Meia
Tentativa
Esse título acima para os íntimos. Aos
de fora, ou seja os que pagam e chamam ao governo ladrão, xingam ladrão ao juiz
no campo e mexem com a senhora mãe do juiz, aqueles vivendo em ver se chove a
reclamar do calor não se conformando com o frio sempre inesperado e a observar
se a vizinha trai o esposo, no padre, com o namorado – aos que enfim não estão
naquele por dentro convencionado, a gente que é gente de fora; para essa gente
o título completo é meio longuinho a desanimar leituras desde o início.
Seguinte: Segunda Tentativa e Mais Meia
Tentativa, Frustrada, Comprovar-se-á, de Acerto nos Desacertos na Vida
Conjugal, e Será Possível Saber-se Que Pretendemos a Permanência do Casamento
Mas Não Tendo Jeito o Jeito É ou Manter Infeliz a Infeliz Ligação Desamorosa ou
Chutar a Oposição, Tentativa Aquela (a Meia) das Tentativas de Acerto-e-Erro da
Natureza no Laboratório do Ser. E, convenhamos, a promessa é longa demais para
um pobre e despretensioso título de um conto, melhor diria um contão. Em
verdade desta virtude descoberta, vamos à estória que é minha história, minha
confidente sabe a sobejo. Ah mas antes uma retificação que não é retificação,
tão só esclarecimento: eu me cansei ver apenas que possa existir Primeira
Segunda e Terceira, em geral é Terceira, por exemplo o Terceiro foi aquele pra
quem Teresa deu a mão, não tem isso nas cantigas de rodas! No meu caso do caso
em questão quis chocar confrontrar o mesmismo e optei por ‘Segunda e Meia’ veja
bem, bem adequado, ver-se-á a tempo e lugar que a Terceira tentativa não foi
completa, ‘frustrada’ como pus no título por inteiro. Chega. Continuemos.
Antes, comecemos de uma vez.
Tudo começou no começo. No início ia
tudo bem sem desconfiar do tudo mal e havia aquela meleca de nubentes a
chanhinha aquele nhe-nhe-nhem dos recém-casados, cheiinho de meu benzinho meu
amor meu querido querida e coisa e tal, tal não ocorreu; no meu, nosso, caso
não ocorreu. O meio de grosseria em que fui criado não dava azo a frescurinhas;
assim mesmo ocorreu. Não o nhe-nhe-nhem dito e não feito, não. Ocorreu a
gravidez, pois onde se encontram um jovem impetuoso e uma jovem impetuosa em
tantas e tantas noites em comum... de dia a gente trabalhava e já brigava,
então vieram o primeiro o segundo o terceiro (aqui não cabendo segundo e meio);
e não parou na praxe, veio o quarto, no quinto a mulher estrilou deu briga
séria parecendo interminável, o que é abuso de linguagem, o fim não tem fim; aí
encerramos a fábrica, ela exigiu o basta, antes chorou bastante e abortou, assim
lacrou as trompas, pôs a boca no trombone contra minhas ‘machuras’
irresponsáveis. Fomos desde aí tenteando a vida, a vida a dois permanecendo,
como todos sabem, sabe mais ainda Minha Confidente, não sabe!?
Foi nesse ponto que parei a pensar e a
conversar com minha consorte sem sorte deveria ser; paramos a analisar nosso
caso, claro que enquanto os meninos fora dentro da escola ou dentro da rua nas
brincadeiras e brigas inconsequentes (os adultos são mais consequentes nas
dentadas). Ficamos os dois cônjuges na distração de discutir sem discutir, quer
dizer: sem brigar um pouquinho e daí pus a questão que eu tinha na cachola.
Maria, eu falei falava ‘Maria’ não tinha nunca meu bem meu amor querida, acho
que disse isso não disse? Maria, veja que nosso caso tem solução: pelo andar da
carruagem vamos até ao fim (o qual costuma ser velório cemitério e missa de
corpo presente a de ano e o que ficou vivo visto não se irem unidos aos vermes
cadavéricos, aquele que ficou vivo recebe condolências e chora e lamenta
saudades “ele, ela, era tão bom, ou boa”, o que é uma boa) vamos sim até ao
fim. A Maria concordou de cabeça. Então prossegui. Veja o caso do amigo (pra
mim amigo é um conhecido próximo, os outros são conhecidos distantes portanto
desconhecidos) o amigo Bolacha. Aí ela desencantou: é Bolacha da Silva.
Concordei. O Bolacha e a Maria (diria eu a boazuda de propriedade do Bolacha!
aí era proposta de briga na certa, fiquei tão somente no ‘Maria’) os dois vivem
uma lua de mel com coisinhas de namorados até ontem. Se amam! interferiu a
Maria, a minha Maria não a Maria do Bolacha, o Bolacha que é professor de grupo
escolar e a boneca ficando em casa a ouvir novela porque não tinham televisão
na época ou não ouviria: veria; e fofocando com as fofoqueiras do pedaço.
Concordei com o amor deles mas disse à esposa, já meio estufada ‘enfeiotando’: tem
muito excesso de nhe-nhe-nhem, não dura. Dito e feito – a Maria do Bolacha anos
depois e ainda a tratar o desafeto ‘meu bem’ queria ir à vida noturna e o
Bolacha da Maria desejando dormir cedo e além disso bebia muito, bebia antes só
guaraná. Então a Maria deixou o lar com o Bolacha dentro, para criar os dois
filhotes. Maria, falei, Maria o Bolacha me disse haver chorado feito criança a
fuga da Maria com o açougueiro, Maria! vê se pode um homão daquele... Pergunto,
perguntei à Maria, a minha – valeu a pena o nhe-nhe-nhem!?
É a Primeira Tentativa que trato neste
trato. Frustrada também, descasados; ah outro dia o Bolacha veio aqui em casa e
a Maria, a minha Maria, comentou comigo depois, tadinho enrugou e tá mais besta
que antes. Concordei.
Noutro dia, dias após, paramos a
conversar, aproveitando uma excursão dos filhos, coisa promovida pela comunidade
da Igreja com nosso beneplácito; e aí ficamos a sós e em vez das costumeiras
brigas, achamos por bem conversar sobre nós. Pus a Segunda Tentativa, por nós
ambos conhecida, o caso da Doca. A Doca é amiga, mais da mulher e comigo
ficamos no ‘oi’, converso é com o Zélio, sujeito quietão. Só aparentemente
quietão, fez com a esposa três filhos, a menininha é uma lindura. Pois bem,
falei à Maria, veja Maria as melecas do relacionamento deles. ‘Benzim’ de cá
‘amoreco’ de lá, dois namoradinhos as crianças não mais crianças o garoto mais
velho já para casar (e errar como o pai!) e o casal num namoro de jovenzinhos
na eterna lua de mel, não é assim? A Maria: “era”. Certo, Maria – era, desfizeram
a ‘fizeração’, a Doca começou a trabalhar, “trabalhar pra fora” corrigiu-me a
Maria, à Maria mulher trabalha mais dentro que fora do lar e no caso da Doca
fora e dentro num acúmulo, porque o moleirão não mexe palha só a bunda no sofá
vendo tevê, tadinha (opinião gorda de minha esposa). Certo, respondi desse errado,
certo. Aí ela começou a ficar nos barzinhos com as colegas e ‘os’ colegas,
achou o Zélio palermão e deu-lhe um pontapé, permanecendo ela com os três
filhos, o bobo pagando pensão aos meninos. No dia que a Doca resolveu
enxotá-lo, disse ao Zélio nestes termos – “não quero mais você, meu bem” – não
foi Maria? Foi, respostou a Maria. Aí perguntei: adiantou alguma coisa o
nhe-nhe-nhem de namorados...A Maria se calou. Eu olhei maroto à Minha
Confidente assistindo nossa conversa.
Agora digo à Minha Confidente sobre a
Terceira Tentativa, como falei antes Segunda-e-Meia ou somente Meia, isto
porque veremos não se completar a tentativa em chegar numa autêntica Terceira;
a Confidente faz de cabeça que sim e resmunga: por que não procura um
Confidente, ora não é homem com homem mulher com mulher, faca sem ponta, galinha
sem pé e outras besteiras falávamos quando pequenos! É, aceitei, e aí você
deveria procurar Um Confidente. Provisoriamente fico com ela, Minha Confidente.
Conto pra ela:
A Tentativa minha consta nisso. Olho a
Maria vejo a Maria chata enrugada gorda ‘balofando’ lentidões e mais – tem
mais? pergunta a Confidente – tem mais, respondo: a Maria resmunga, nada que
faço acha certo tudo que faz acho errado. Porém temos vivido. Agora, vai
assuntando, agora tenho um plano que dará certo. A prole já se vira, não
precisa mais de nós, só o Artur não dá certo, esse tenho de sustentar pelo
resto da existência em nome dos netos que me deu, mas vamos lá, estão todos
independentes os filhos. Estamos eu e a Maria. Pretendo começar tratar a Maria
‘benzinha’ ‘meu amorzinho’ ‘luzinha da minha vida’ e coisas desse jaez. Não
poderá ocorrer que ela ache um açougueiro vesgo ou encontre um barzinho
noturno, me liberando!
A Confidente sorri às minhas orelhas,
sugere outra vez que busque Um Confidente, confidente de meu sexo, eu respondo
que não tenho mais sexo, afinal as jovens lindas não me querem eu não quero as
velhas horrendas e aí pra que sexo!? Enfim concordo com A Confidente para não
magoá-la. Quando vejo fui guiado ao Espelho. Ele me olha atônito, se racha,
parte-se nuns trincos, olho em retorno embaciado Meu Confidente novo,
enferrujando, grito pela Consciência... ela me dá de lonjão tchauzinho, a
safada.
Marília março
2004
27° Covinha, Estria,
Cicatriz Não!
Meu
velho sogro tinha um dizer engraçado na sua mineirice numa sentença
extravasada; não me lembra textualmente a frase, o sentido era de que só tendo
certeza ser do seu sangue azul o filho de sua filha, do filho restava apenas
uma esperança, pois a nora poderia bem (mal) haver traído seu homem. E para um
machista a ideia era gravíssima! não tinha eu na minha indigência cultural
argumentos para acabar também com a lealdade de sua filha ou filhas; hoje os
jornais mostram muitos casos de troca de bebê em maternidade: e mesmo a dita
lealdade da filha dele, onde a certeza da herança genética? Portanto a um homem
e até à própria mãe não resta sequer um consolo... Porém não sei por que motivo
venho com essas relembranças bobas, visto o José – um José como outros tantos
bilhões de criaturas as quais não tenho possibilidade de conhecer – o José não
ser mais do que um ser que não passa de uma criação literária para quem não
tenha nada de útil para fazer. Simplesmente ele não existe. E pretendo agora
provar.
Lá
pelos seus oitenta e tantos, que haviam sido janeiros promissores ou talvez
chuvosos mas que agora eram apenas dezembros encharcados com dores como sói
acontecer ao idoso comum beirando os noventa, José da Silva, então apenas
José-Ninguém num asilo, não exageradamente resmungão como os outros velhinhos,
ele se gabava ser filho do pai. Até aí nada extraordinário, mesmo porque todos
somos filhos dos pais, ainda que desconheçamos a paternidade. Contudo José era
enfático peremptório e absoluto a endeusar o seu velho, logicamente bem mais
velho que ele, dizendo o mesmo não haver deixado grandes coisas materiais,
dinheiro ou propriedade ou grandíssimas heranças: o espelho mostrava a cova os
olhos a pontinha na orelha e umas tantas estrias desde criança, estigmas
herdados do velho João da Silva! Hoje nesse ontem em que o ingrato espelho
exibia pés-de-galinha e enrugamentos mais próprios do gasto homem na sua feiura
(o idoso é feio, só a bondade pode negar isso; é e ponto final ou ponto e
vírgula a continuar a narrativa:) enfim na feiura de todos os dias – conseguindo
o nobre José da Silva ver ainda por cima desses abaixos da vida humana as
características joaninas. Ficava, ficara sempre desde menino quando começara a se
descobrir um membro do clã fidalgo Silva, da Silva para ser mais completo,
ficava absorto vendo o quanto parecia o papai... Não exageremos que não
apreciasse mamãe: todo filho gosta da mulher que lhe deu o ser; todavia não era
um êxtase pleno pela mãe, queria ser a cópia do pai. Alguns irmãozinhos se
pareciam mais com o Sr.João, outros de parecença mais com dona Joaquina da
Silva. Ele fora entretanto premiado na semelhança com o doador do cromossomo XY
e se tornara por isso mais alegre e orgulhoso. Agorinha ainda o amigo (ou
inimigo) mostrava a cara do seu defunto pai e ele empurrava pra lá e pra cá as
rugas vendo sobrar os traços paternos no seu eu periférico. Um dia descobrira
ter a mesma voz do Sr.João e para tanto fora preciso crescer e engrossar o som
a constatar mais essa vitória na briga eterna de quem é mais inteligente o
homem ou a mulher em que constava ser o macho, a seu capacitado modo de ver.
Por toda a existência mostrara essa parecença agradável com seu genitor nas
conversas entre amigos parentes e conhecidos desconhecidos; bem entendido que o
parente sempre vive fazendo desagradáveis comparações e concluindo que
fulaninho se parece mais com o pai ou com a mãe, com vovô com a bisavó – os
retratos familiares vêm como provas indiscutíveis, muito discutíveis. Votava a
parentela nele na parecença com a falecida genitora, que Deus a tivesse.
Contudo ele, o José, José da Silva, que nunca ficava feliz por ser Zé e
deplorava apelidos, não dizia nada porque nada se pode provar nesse métier só não gostando: era pela parecença
paterna, numa reafirmação do cromossomo XY com negação sub-reptícia do
cromossomo XX. Por essa razão juntara ao cabedal da experiência o próprio
espelho para comprovar a proximidade genética mais com seu velho que com a mamãe.
Era um ‘paizista’ inveterado; os ouvidos de outrem a aguentá-lo... Fustigara
mesmo tais ouvidos até quando caixeiro-viajante pelos lados das Minas Gerais e
nem se fale os dos vizinhos; e os parentes já sabiam que não sabiam, ele apenas
sabia ser mais do pai que da mãe! Que possuía realmente semelhanças paternas
não se discutindo: estavam lá na garatuja do horroroso José da Silva as
covinhas do velho João, bem nas bochechas; a cor dos olhos joaninos; a pontinha
na orelha esquerda como na esquerda do falecido João da Silva que Deus o
tivesse nos céus. Embora feio como todos os velhos, que opiniões contrárias
hajam, José não se constrangia ser também feio e até medonho – desde que
parecido com papai. A cicatriz não, essa resultado de uma briga na juventude,
em que apanhara bem mas que batera no adversário e ganhara a marca no peito
onde entrara o punhal, águas passadas águas passadas, nada tendo que ver com a
herança legada por João da Silva, na falta de bens materiais para deixar à
prole, tadinho do velho João. O fato é que estava ali um sósia (dizia sua vaidade)
um perfeito sósia do papai. Já falara tanto aos seus amigos no asilo, repetira
até à saciedade, todos sabiam como fora João, por José, nova versão do pai. Até
que...
Até que ficou sabendo dumas cartas de
família num desses baús de antanho, aí se esclarecia que à época da gravidez do
futuro Zezinho o Sr. João se afundara nas matarias do sertão anos a fio,
ficando os negócios da família numerosa ao encargo do irmão mais novo de João,
muitíssimo parecido com o mano velho e que se engraçara demasiado pela matrona
Joaquina. Em voga na época certa música popular tendo verso assim: “as cartas
não mentem jamais”. José virou macambúzio, não fossem os velhos no geral macambúzios.
Marília agosto
1997
28° O Frio
Desde esta coberta por baixo do
cobertor por baixo ele do cobertorzão, aquecentes, estou espichado na cama que
anda numa quietude e não range como é o comum ranger; no frio parece que as
molas os ferros se desentendem se ofendem se medem e rompem no grito do atrito,
bendito, isso, bendito pois é a hora da hora de descansar dormir insoniar quem
sabe mas para na inação, a receber a ‘quentitude’. Ah, que bom, que frio está a
fazer lá fora e mesmo fora das cobertas e ainda tem a colcha que me isola da
cobertura e do lençol que abraça o colchão como todo em cima do estrado
ringidor da cama. Agora a bem da verdade não ouço o ringir não ouço nada tudo
vem de fora. Parece que os pardais acordaram mais cedo ou que eu esteja mais
tarde na cama sem compromisso... E está frio de verdade, os técnicos previram o
fim do mundo ao mundo gelado no passar da noite, a noite de ontem que esfriava
rápido e o dia de hoje, passando pela gélida madrugada enfeitada de segredos e
silêncios. Previram os meteorologistas, ou somente a aparecer na televisão, que
seria frio com gelo quiçá neve e vê se tem graça nevar no trópico. Contudo têm
lá suas varas de condão a falar, defendem magníficas teses para mostrar o calor
o vento a tempestade o tufão e os terremotos; de vez em quando acertam, na
modesta proporção de um para mil e ‘um’ sendo demais. Bem. Mal me acobertei bem
dormi, sem ficar a pensar nas coisas atmosféricas, quentinho quentinho e
quietinho para não chamar a companhia da insônia e assim dormi. Dormi até que
meus amiguinhos pardais me despertassem pra ver a réstia de sol que se filtra
desde a janela a janela onde pus dois pedacinhos de madeira para que não
ficasse a bater ‘bang-bangando’ meus ouvidos e espantando o sono quiçá
sugerindo a insônia. Aí dormi acordei agora. Vejo-me espichado, coberto, os
pés, puxa os pés descobertos! embora de meia a aquecê-los mas de fora... não
poderia não dormir por causa disso!? todavia acordei com eles a gritar a
gritar, os pássaros briguentos, esse negócio ter a paz dos passarinhos é um
engodo: brigam derrubam inclusive os ovos, se pegam com os desafetos e por
vezes até aos magotes. Aí prefiro a borboleta, que ziguezagueia sem se odiar se
bicar se barulhar acordando pobres mortais, eu. Eu estou espichado pés pra fora
debaixo das cobertas e não sinto qualquer friagem. Vai ver esfriou mais
‘geadou’ gelou nevou e não vi; que bom não sofrer esse horror! Bem, e as crianças.
Ouço-nas a passar a correr a gritar feito os pardais; rolam seus carrinhos ou
levam o material escolar nas costas mesmo, e conversam animadas e isso não
representa a geleira prevista pela mentira da verdade meteorológica. Ao menos
para não destruir a alegria menina. Os carros, escuto seu rolar, ouço os
motores as marchas em mudança aceleração – e não parecem escorregar na neve!
Imaginaria, só imaginaria, esquis a esfregar o gelo aí na rua. Somente ouço a
gente a passar o pássaro a gritar suas coisas, sinto mesmo o cheiro da erva a
ferir-me alegrias aos raios solares, vejo a fresta a brincar na minha parede
com as sombras dos galhos da árvore da frente num carnaval que observo diário
quando o compromisso não me faz levantar mais cedo. Agora, o pardal a minha
coberta a cama imóvel e... pera lá, eu também imóvel. Assim, como fazer a fazer
minha ginástica matinal! Examino-me bem, mal me distingo no todo, o todo é o
mesmo de sempre, embora tenha me esquecido com pés pra fora (e não terão se
congelado! pois não os sinto, vejo). Vejo a cobertura, uma coberta em cima da
outra, em baixo meu corpo resguardado do frio de muitos graus baixos
previstos... Espichado porém vejo; como vejo se vejo minhas pálpebras cerradas!
Como poderei ver ouvir sentir se... ah os pardais a gritar a brigar outra vez
mas não haviam parado, paro a ouvi-los e não me ouço, será que me ouço!?
Marília maio
2004
29° Tempos de Economia
Já
se iam as lembranças da época de ouro quando as vantagens subiam nas vantagens,
os poderes públicos se estabilizavam na corrupção honesta, quando enfim todos
pagavam e não precisavam pagar para ver por ver a miúdo o progresso e a
evolução do mundo, no teto com teto a passar o teto os preços a subirem subirem
subirem. Não. Existia agora uma sociedade enxugada e econômica.
Seu Zé da Silva era executivo, “inzecutivo”
como apreciava dizer. Não saía mais nervoso de casa ao serviço apavorando
apavorado com questões do trabalho, que agora era mesmo trabalho não enganação
e frescura. Atendeu dona Maria, a digna esposa, na hora de sair, nem soltou
nome feio costumeiro antanho, o homem perdera a capacidade da neurotização; até
as clínicas psiquiátricas psicopatas aos psicopatas haviam desaparecido por
falta de freguês havendo um que outro cliente. Atendeu. Antes de sair ao escritório
lá no centro lonjão foi tirar água a mando da consorte (nessa época o vocábulo
concordava com a situação). Caso a cara-metade exigisse, pedindo, partiria a
lenha, já teria inclusive segurado o cabo do machado a rachá-la (claro não se
referir à cara-metade; antes, no tempo progressista, seria bem possível a
confusão e o crime e o ‘beó’ e a polícia e os encardidos advogados em defesa
alegando insanidades e tudo o mais; agora ali referindo-se apenas à ‘lenha’ mesmo).
Atendeu. Encontra-se lá rolando o sarilho do poço, a observar paciente a alça a
rolar, também, ao contrário, soltando toda a corda do rolo, fazendo aquele
barulhinho chato ‘totoc-totoc’ sem deixar o Zé nervoso: o tempo e as coisinhas
perderam capacidade a irritar o ser humano; e, depois, de volta, sobe o balde
cheio de água (o homem tendo a pedido da ordem esponsal não deixado
anteriomente descer o balde com força pra não remexer sujando a água lá
embaixo, a gente olhando lá e vendo quase não vendo a tona a brincar com a luz
aqui de cima; pois poderia sujar a água e aí o líquido se embarreando e, na
volta totoc-totoc ao contrário, trazendo água suja e nesse ponto poderia temer
sim o Zé o estrilo da cara-metade). Agora Seu Zé da Silva enrola o rolo do
sarilho do poço com a corda rodando a alça, a manivela, daquele cilindro de
pau, fazendo então uma força tamanha visto o balde cheio; já pensando, que não
era bobo, noutro dia pôr um balde menor menos pesado no lugar do grandão,
tonelada quando cheio até à borda d’água. E aí, suado, fedendo porque não se
usava então mais desodorante a gente fedia égua outra vez, que o desodorante
curara o fedor e deixara pelos tempos imemoriais a gente cheirando perfume enganoso
de gente; suado sim, limpou com lenço as gotas, puxou pra cima do caixão do
poço o balde, tendo o cuidado não deixar cair restos do líquido de volta ao
fundo do poço mas, que fazer, sempre escapa algo e lá embaixão fazendo
chiáp-chiáp da água caindo na água, a tona ficando outra vez a brincar com
raios solares descuidados vindos descendo desde a boca do caixão do poço. O Zé
olha a vitória.
A água no balde, a ser posta numa
vasilha menor e esta transportada à cozinha de Maria, nada impaciente porque então
as mulheres tinham mais paciência com os maridos mesmo eles sendo uns bolhas
como o Seu Zé da Silva; em resumo, o líquido transportado no lombo zézico desde
o poço até à casa. Uma vitória na economia. Eram os tempos de economia, a água
escassa, cara, provocando no planeta guerras infindáveis pela posse, ou
ir-se-ia beber petróleo desaparecido nas jazidas! não, sim economizar água era
a ordem do dia e aos bolsos vazios por preço alto e mesmo proibitivo. Aí o fato
do executivo Zé da Silva antes de ir ao serviço procurar trabalho a se esfalfar
esfalfava-se tirando água do poço e satisfazia a esposa para que depois, depois
dos meninos a roncar, ela daí o satisfizesse.
A luz também, ou por falta de água
geradora ou por não ter petróleo ou que as usinas nucleares sem combustível, a
luz também pela hora da morte pra viver.
O amigo do Seu Zé da Silva, Cumpádi
Chico, igualmente inzecutivo numa grande multinacional, se esfalfava também ele
para inventar meios a economizar energia elétrica, por ordem dos tempos de
economia.
Na casa de Cumpádi o comum eram
quartos escuros, somente claro o cômodo em uso. Uso mesmo a evitar ingratidões e até
sentenças condenatórias do relógio de luz, o qual andava louquinho pra girar
girar e girar a mando da multinacional do serviço de energia. Uso substituído
pelo uso de vela. Mais contava no Cumpádi e os seus o toco de vela. Verdade que
as gotículas queimavam os dedos da gente ao derreter as bordas superiores pelo
pavio a queimar; e vez que outra caindo resquícios no chão encerado e a consorte
do Cumpádi, nesse ponto ela sem sorte, a Cumádi reclamando a sujeira dos seus.
Contudo iluminava. Sim iluminava intercaladamente (por causa do vento não
deixando o lume em paz, tadinho) iluminava todo o compartimento, uma economia
danada.
Melhor, e o Cumpádi falava por
influência multinacional “mió” melhor o Cumpádi Zefirino, Zeferino inventara a
lamparina a óleo, óleo vegetal, que embora em sua casa gastasse combustível,
iluminava bastante e não queimava os dedos dos filhos e da mulher dele, não
obstante a gente ficando com cheiro na mão do cheiro do combustível.
Ele, o Cumpádi Chico, não, mantinha a
vela, economizando nisso e economizando nas unidades, porque usavam os tocos de
vela quase até estar apagando o fogo na aguinha do sebo derretendo. Economia em
tempo de muita demanda pouca oferta. A luz. Banho então... A Cumádi esquentava
pouca água, punha na baciona ou despejava de canequinha água morna por cima do
menino, menino sempre acha um jeito de espalhar fora molhando o chão, este o
único problema dela. Mas também economia.
E assim se economizava então por todas
casas nos Jardins ou bairros outros da gente bem.
Seu
Zé da Silva agora já não rachou lenha, já guarneceu tambores de água potável
pondo também no pote para filtrar; feito o trabalho doméstico que lhe compete a
mando da consorte, parte ele ao trabalho a trabalhar duro como executivo na
multinacional de preferência. Desamarra as rédeas do carrão importado, que por
economia dos tempos de economia não é nem importado, sobe ao lombo do cavalo
garboso que já raspou com raspadeira e catou os carrapatos que os anus não
conseguiram comer todos sempre sobrando alguns; está na sela lustrosa da
montaria lustrosa, olha os seus, dá no pé.
Ah, antes disso pregara um beijinho na
cara-metade na metade esquerda da cara que ela dera a beijar. Mesmo porque isso
não andava racionado pelas economias dos tempos de economia.
Marília junho
2004
30° Um Sono Adverso a Todos
Acontecimentos
Estou,
mas não tenho tanta convicção assim, estou diante de um sexagenário obtuso ou
quem sabe desatencioso, com certeza desligado por desligando-se do planeta. Com
a pretensão a contar sua vida? Sim, pretensão. Tento modestamente uma viagem ao
desconhecido pelo conhecido; o qual preciso reconhecer, é muito pouco. Agora,
no agora, cochila, dorme.
Em berço esplendido. Talvez. Não posso
exigir mais que isso. Não ouve sequer o ronco, o ronco dele próprio ouviria
decerto, não ronca, o ronco do motor da marca Mercedes do coletivo, embora bem na frente
naquele banquinho na entrada do veículo, bem ao lado da quentura da máquina a
qual supera bem o calor ambiente. Os outros passageiros suam em bicas; mas
abusiva a palavra, outros sim passageiros: pagam passagem viram a catraca
brigam com o cobrador nas questões de tronco, o cobrador sempre não tem
defendendo-se ser a primeira volta na linha; ele não é passageiro, só na
linguagem figurada pode assim ser chamado, mostrará ao sair do ônibus o
documento de idoso e quando muito agradecerá a boa vontade do motorista por
este cumprir seu dever quando tantos descumprem. E descerá. Por ora não, ronca
ou não ronca, dorme a sono solto para os passantes rirem dele ou se incomodarem
no estorvo: pés escarrapachados enquanto o comando cerebral passeia o infinito,
os sapatos ultrapassam o gradil e perturbam passageiros a deslizarem pelo
corredor levando crianças sacolas ou tão só seus corpos limpos e perfumados a
tentar não se encostar, no atropelo do veículo lotado, aos cheiros acres de
outros corpos cansados por um dia de trabalho duro, a buscarem com pressa a
passagem no aperto da gente e no espremido da roleta na catraca. Ele não está
nem aí, falam olhares maliciosos ou apenas lamentadores e cai pra lá quando o
coletivo tomba pra lá ou se aboleta molemente pra cá se o chofer achar por bem
ou o trânsito determinar que seja pra cá; tem a historia dos buracos e dos vãos
na rua e nos cruzamentos, estes abaulados quanto possível, havendo socos
trepidações e solavancos pra baixo pra cima e novamente pra baixo, ele dorme
tranquilo: foge viaja ‘infinitiza’ a consciência e dorme, mas não ronca, ronca
talvez porém ronca ainda mais o motor explodindo na fricção de virabrequim
pistões combustível sob comando do pé direito no acelerador... O chofer buzina,
não com o pé com a mão na haste, para lembrar outro condutor desatencioso na
rua, em todas vias às vias da loucura: gritos fom-fons aceleramentos roncos
estrondos e os solavancos e ah! tem os xingamentos – entretanto ele é a paz. A
paz conquistada? Em menino a paz da inocência, na velhice seja por demais a
inocência, quem sabe a paz do cansaço! porque difícil saber da paz merecida. E
que é paz! Não dá tempo para pensar e filosofar pois de repente, o quanto é
possível um repentino, descubro uma pequena surpresa e me surpreendo embora
ninguém a perceba: o velhote não terá passado seu ponto! Não falo sobre o ponto
no ponto em que se encontra de poder já ser velado indo para Avenida Saudade,
não: do ponto de ônibus a descer. Assim me preocupo não com a despreocupação
dos outros dentro do veículo: com os dramas do senhor idoso, me preocupo com a
sua companheira, deveria falar mais concretamente uma esposa (naquele tempo era
tempo de casamento e padre, não tinha essa sem-vergonhice de agora) uma esposa
velhinha, mesmo sendo três anos menos que o esposo e velha de cabelos brancos,
ele quase não tem fios claros escorrendo neve na calva, ela cabelos brancos do
sofrer, que a fêmea envelhece mais por mais sofrer que o macho: a filharada os
partos as doenças e então envelhece antes do que seu companheiro. Ele dorme,
ela trabalha, ainda agora os netinhos mas os filhos maduros igualmente causam
dores nas suas dores de velha e também põe ela minhocas e mais minhocas a minar
sua mente ainda mais e por cima aguardando seu esposo que o padre lhe concedeu,
velhaco sim, quem pode com o homem! diz ela à vizinha também de fios alvos,
quem pode com ele? Ele dorme. Dorme a sono solto; e se o condutor do coletivo tivesse
ele próprio menos que pensar além de pensar na mãe dos pequenos nas dívidas e
no salário insuficiente, se o condutor pudesse ao menos acordá-lo, com buzinaço
por exemplo ou uma bem educada freada, ainda salvaria o infeliz senhor,
evitando o mesmo a discutir depois com ela, sua cara-metade, discutir aqui
posto apenas a amenizar lamentações e as críticas da velhinha lá em casa
aguardando o seu homem de olhos inchados, críticas não abusivas, porque
convenhamos ônibus não é lugar de dormir. Agora dorme ronca sonha se esborracha
no assento da frente, atrapalhando a passagem do transeunte louquinho a
contentar o cobrador na catraca fazendo emburrado seu trabalho de ouvir
passageiros no troco e a dar informações da rua desconhecida a desconhecido
cidadão pagante e acordado. Não, ele dorme. Não verá seu ponto! quase falo
nesses termos ao homem do volante: e que me dirá o motorista de retorno? que
precisa é evitar trombadas, abalroamentos e cumprir horário, que os passageiros
e os que a lei manda levar de graça devem mesmo dar o sinal de parar, e descer;
ou que tão somente sigam no primeiro sono até o Terminal e aí voltem depois
outra vez na direção da periferia para descer nos seus respectivos pontos... Eu
me preocupo com a preocupação dele? Não, a dela, em esperar seu velho e as
compras a mistura para o almoço deles, a saber ele ela e os netinhos, então
brincando na terra e brigando democraticamente; dele não, que dorme sono sonho
numa fuga de velhinhas e de seus próprios fracassos correndo ao infinito do
desconhecido, o conhecido é só o roncar; agora cai de lado do lado da janela
bate a calva contra o vidro, marca o vidro com suor e sujeira acumulada, mas
não acorda; e se aguenta, não aguento. Muita impassibilidade para minha
paciência pouco paciente; cutuco o sujeito como sem querer, acordo o dorminhoco,
desculpo-me não em não saber se sabe passado o seu ponto: a fim de poder
descobrir sua história, todos temos nossas respectivas histórias, a indagar-lhe
o como da vida. O velho arregala olhos lacrimosos, olha por volta a descobrir
em que planeta desceu e nada fala, nem me perdoa havê-lo acordado. Que diria?
Talvez mudo. Avermelho-me, desço da condução, aceno sorrisos ao chofer.
Marília janeiro 2002
31° O Diário do Doutor
Gunnardsson
O
sol caía sobre a Terra mais uma vez, como o fazia já por milhares de anos. Seus
raios branqueavam as paredes do laboratório, clareavam as páginas desbotadas e
envelhecidas daquele manual com os rascunhos do sábio. Mãos incautas, talvez,
curiosas certamente, passavam-nas, trêmulas e apressadas. Qual o instrumento e
que maquinações terão a capacidade para anular a curiosidade humana!
Lia-se que após o ano três mil a
efervecência sociopolítica tinha se intensificado, uma grande guerra eliminara
contradições tacanhas e bobas, a humanidade se libertara para baixo, nos
desejos e poderes; os homens ficaram mais sujeitos à razão pura que ao
sentimento; mas com tudo isso certa minoria inteligente coordenava as ações
humanas. Porém, essas afirmativas já não chocavam a pessoa que lia, porque todo
mundo sabia a contento sobre os acontecimentos. O que reteve o leitor no exame
das páginas envelhecidas foram as minúcias narradas pelo depoente – o Doutor
Gunnardsson – com respeito ao controle físico e mental do ser humano, ou seja
do homem inteligente, porque o indivíduo comum, esse apenas se distinguia da
formiga ou da abelha pelo tamanho, obediente cego às ordens ditadas por aquela
minoria privilegiada (o Doutor fazendo parte dela). Fixou-se num trecho mais
interessante, e sua leitura custou-lhe horas. Dizia:
“No dia imediato, um 14 de fevereiro,
eliminei o Doutor Doondto, meu chefe; eu deixava ser um auxiliar importante,
para ser o controlador da máquina infernal, e por extensão, do mundo.
Lamentavelmente para mim, o cérebro do chefe ficou completamente danificado e
não pude aproveitá-lo convenientemente; sei o quanto isso me custou, muitas
vezes precisei daquela mente consagrada e tive de me valer sozinho num lugar no
qual não confiava em ninguém.
Meus cabelos eram aloirados então, nada tendo do branco que
me algodoa agora.
“Primeiramente, exercitei três de meus
auxiliares no manejo do instrumental controlador, tarefa dificílima e complicada.
Não saberia neste momento fabricar uma perfeição daquelas, nem poderia montar
as melindrosas peças, se estivessem as mesmas espalhadas; contudo tenho (pelo
menos tinha na época) segurança absoluta na manobra do maquinismo, conhecendo
centímetro por centímetro o alcance das alavancas, lendo o visor e distinguindo
todos os pontos e suas variações; poderia estar mesmo cego e apertaria os
botões exatos na compressão absoluta. Para quem não viu o engenho (poucas
pessoas realmente puderam vê-lo) a máquina feita pelo execrável Doutor Doondto,
esclareço em pouquíssimas palavras constar dum certo instrumental aparentemente
mediano como as lavadoras e secadoras de roupa que os sub-homens usavam há uns
cem anos atrás; e digo ainda estar acoplada a um computador desses comuns
usados numa das antigas empresas industriais, pouco mais sofisticado; era sim
qual uma lavadora de roupa, com a diferença a mudar de cor mesmo externamente
no momento da ‘alquinagem’, ou seja na hora da cabeça em experiência reviver.
Demais, fios e retortas de vidro especial e dum certo material que o meu
ex-chefe nunca revelou a ninguém; teria o combustível dito propriedades
atômicas definidas, contudo nunca pude comprovar sua natureza; ninguém pôde.
Também havia uma tampa de borracha para evitar trepidação e barulho; ela
gastou-se, eu a substituí por outra também com o mesmo objetivo. O som do
aparelho sendo quase imperceptível, só dando um ‘bip’ agudo no momento da
alquinagem, quando se desligava automaticamente; ficando desde aí – eternamente
se fosse preciso – muda e acendendo de forma intermitente duas luzinhas, uma vermelho
viva, outra roxo médio; desde os tempos iniciais das experiências até hoje
guardo bem esse quadro nas luzes apagando e acendendo... acho inclusive isso
ter alterado minha personalidade fundamentalmente; por essa razão no
laboratório todos me tomam por louco e acreditam nos meus poderes. Quanto aos
auxiliares, são formados e consagrados pelas maiores e melhores cortes antigas
e se distinguiram como os mais brilhantes cientistas nas suas universidades,
nos três dos quatro pontos de ultraeducação no globo. Um deles participou da
fracassada expedição a Marte; outro conseguiu vencer a pressão dos oceanos,
trazendo em uma caixa de vidro especial algumas gramas de lugmitita, substância
combustível de nossa máquina, para as primeiras experiências de meu odiento
chefe, e foi a base para ele compor a substância final para funcionar a
aparelhagem, substância essa que admiti desconhecer. O terceiro auxiliar tendo
a capacidade extraordinária a dizer quase tudo que a expressão humana criou,
através de cinco palavras; talvez seja ainda mais inteligente que seus colegas.
Eu os domino através de um poder condutor, que me valeu mesmo suplantar ao meu
chefe e eliminá-lo de vez; se bem que tenha ficado o resíduo da temência e
inclusive certo ódio nos auxiliares por mim, desconfiança com certeza.
“Nossa primeira experiência em comum
foi parcialmente vitoriosa: matamos três leais servidores daqui do laboratório,
os quais sabiam muita coisa e procuravam sair de nossa influência; não lhes
darei os nomes, pois homem que se submete não merece distinção; assim como meus
auxiliares também, que os chamo pelos números Dois Três e Quatro. Nesse tempo
eu era Um. Meu chefe fez-me o sinal em convenção, passei-os aos outros Dois
Três Quatro e Cinco; ligamos os intrumentos e os servidores começaram a falar;
um chegou a reclamar de todos pela traição. Teria sido bem sucedida a
experiência se no outro dia as cabeças dos infelizes não começassem a cheirar
mal e a decompor-se. Doondto, que pulava de alegria, quase chorou, quando
tivemos de atirar aquelas cabeças falantes e fedorentas no poço incinerador onde
os restos dos corpos haviam sido eliminados. Ficamos vários dias trancados numa
espécie de oficina-laboratório, meu chefe e eu (ele não podia contar com os
outros homens, somente confiava em mim) e foi então que aperfeiçoou a substância
final, diminuindo duas gramas de um material preto nunca revelado, mesmo a mim
cientista de confiança... Partimos assim para a segunda experiência, essa
totalmente vitoriosa: a cabeça do grande Seis, uma figura apagada, sujeito que
nos trazia notícias do mundo de fora e não merecia mais a confiança do chefe;
mas ficou famoso por ser a primeira cabeça que deu certo; falou falou falou,
somente bobagens como qualquer mortal comum, e foi atirada ao forno-poço, não
interessava a Doondto. Chegamos à experiência definitiva: a cabeça do grande
sábio Diúnvos. Não foi difícil aos nossos agentes capturá-lo e matá-lo. Sua
parte superior viajou três longas horas porém compensou, porque o homem reviveu
estava lúcido. Muito nos ajudou Diúnvos com seus conselhos de sabedoria
ilimitada; chegou mesmo nos perdoar o assassínio, em nome da ciência. Viveu dez
anos esse cérebro privilegiado, até que Dois derrubou o experimento do pedestal
inadvertidamente. Essa perda, entretanto, não foi tão séria como se possa
imaginar: nesse momento tínhamos duzentas e uma cabeças sábias em nossos
pedestais! Quase toda a inteligência terrena andava por nós controlada.
“Infelizmente faltavam pedestais para
nosso fichário vivo e não se podia completar; a substância preta, a que já me
referi, em falta e o Dr.Doondto precisava obtê-la e temendo deixar-me a chefia
das operações no Centro Cerebral, cabedal se ficar melhor a expressão; temendo
com certa razão... Também precisaríamos raptar Mironski, o velhinho que estava
no Polo Norte numa experiência interessante, e mais uns oito ou nove sábios
ainda não sob nosso controle. O outro problema é que essas criaturas viviam
desconfiadas com o Centro Mundial de Inteligência, o temível CMI dos
intelectuais dirigentes; mesmo desconhecendo o que fazíamos concretamente nos
laboratórios ligados ao Centro Cerebral de Doondto. Alguns desses cientistas
inclusive se escondiam. Muitas vezes tivemos de torturar a cabeça de Batira,
sábia de cabelos negros compridos, torturá-la com os Raios-M, para obter dela a
localização de seus colegas. Neste particular contamos muito com o sábio
Ditros, por apavorado com as lides da tortura junto às cabeças; o covarde Ditros.
“Em dado momento coisas estranhas
começaram a acontecer; mais precisamente desde maio último. Um dia no DI, o
Depósito de Inteligência, surpreendi as notáveis cabeças se comunicando,
tentativa a sabotar nossa obra... Acho que conseguiram, pois nos obrigaram a
desligar a Unidade de Pulsação. Isso foi um desastre. Especialmente para mim,
já que faltou posteriormente combustível e eu havia matado o chefe Doondto
possuidor dos segredos. Não consegui contornar a situação e tudo começou a
perder-se. Dimitri falava pausadamente como era seu feitio – na tal discussão
das cabeças – e concluía sempre com uma fórmula ‘Zy-Pi’; os outros respondiam e
o fanhoso Dr.Birkas soltava mesmo gritinhos moderados; Baclos e Raidell,
sumidades na Física, davam suas opiniões e repetiam o terrível Zy-Pi. Entendi
ser uma comunicação de valores e interpelei a Bentam, cientista com um defeito
grave: ser tagarela. Esse ofendeu-me dizendo que eu não teria a coragem para
desligar a Unidade Pulsativa, a qual fornecia substâncias básicas àquelas cabeças
sem corpo; assim atingiu os meus brios; determinei a Dois que desligasse a
unidade, fiz-lhe sinais, imperceptíveis às cabeças, que o fizesse por cinco
minutos apenas; o submisso cavalheiro obedeceu-me. Daí não houve jeito para
estabelecer novamente a reação. Acho que também fui traído por Três, o meu
auxiliar que não falava; sim deve ter sido ele quem elevou a temperatura do
Modulador de Repetição e Registro. Daí estourou o aparelho quando me
aproximava. Estaria diante de um complô? Não sei ao certo o que me aconteceu,
porém encontro-me sozinho na imensa área do laboratório. Estou muito ferido e
suponho não poder chegar em lugar de recurso. Mesmo os guardas fugiram. Estou
agora no deserto.”
Não se encontravam completas as
anotações. Nem foi achado Gunnardsson. De uma sala comprida vinha um cheiro de
podridão; nela umas cabeças sem corpo, com expressão de torpor, agonia, terror,
morte!
São Paulo junho
1977
32° Instinto Indistinto
Naquele
norte naquela noite naquele dia naquela semana daquela viagem não aguentou.
Pensou não haver aguentado, quem sabe se não exagerando a desconhecer suas
forças... Não, isto não é exato, sabia bem, muito bem conhecer suas fraquezas,
sobretudo algumas específicas, embora o avançado da hora. Ora bolas, por que se
considerar um vencido pelo adiantado nesse atrasado que é o entardecer na vida!
Não pretendia responder. Não queria
responder. Não saberia responder decerto.
O certo nesse talvez errado é que ele não
dormia; aí levantou-se, se limpou escovou dentes molhou aquele rosto enrugado,
tendo gritado ao espelho haver exagero dele, dele espelho. Se enxugou e desceu
do modesto quarto de hotel modesto até a portaria modesta, onde como costume
costumava a madrugada não manter o porteiro – ou a dormir ou em ver as meninas
lá embaixo, no que faz bem um jovem. Ele igualmente sem mulher mas não jovem,
lamentou. Também desceu ao bar, local mui propício à fumaça ao álcool e à solidão
entremeio a multidão; mas no recinto multidão de apenas uns gatos pingados
nessa altura.
Sentou-se numa banqueta a querer
vender a ideia dum contumaz frequentador, desejando no entanto esconder a timidez;
timidez doentia que lhe pesava anos, toda uma vida já longa. Serviram-lhe uma
bebida.
Bebericava aos goles a matar o tempo
ou somente por prudência, isso próprio dos desavisados ou só desacostumados –
quando notou aquela fêmea na mesa solitária, ambas mulher e mesa solitárias.
Ficou a observá-la, uma garrafa quase de observação.
Tinha frascos vazios, copos vazios e
um só cheio, o qual a jovem cansada ser jovem amadurecendo no cansaço da vida esvaziava
e esvaziava célere...
Condoeu-se da pobre; imaginou mil
catástrofes atrás de cada copo e de cada garrafa, ou a esvoaçar-se nos muitos cigarros
em toco. Sentiu
também a solidão dela; quem sabe uma solidão mais experiente que a sua... Ora,
quanto caberia dentro da imaginação dum homem cansado de insoniar e perdido
naquela parte do mundo daquela noite naquele dia que era madrugada já no
avanço!?
Aí o garçom levou para ela novo copo e
nova bebida.
Não suportou não intrometer-se na vida
alheia, se vida. “Rapaz, disse, basta, não vê que a está destruindo!”
Achegou-se à dona; ela olhou pros seus lados para vê-lo, não podendo na
embriaguez passada.
Aqui entra um defensor do esdrúxulo
exército de salvação na humanidade.
A custo, a repetir e repetir,
conseguiu convencê-la parar; ao menos parar enquanto salivava contra o álcool,
o álcool que o desacostume o fazia também ‘amoleirado’. Enfim a estranha pôde
ver seu benfeitor ou salvador por um instante; desandou a chorar, arcada já na
base da mesinha daquele antro depravado (pensou o salvador de inocentes,
depravado). Entretanto não entendia o homem. As horas demonstraram ser ele a
ela um gringo, a falar enrolado àquela cabeça graciosa bem etílica.
Em verdade ela sim gringa, sequer a
compreender aquele macho da espécie cansado, quem sabe se não igualmente a espécie
cansada...
Acabou por levá-la para longe do bar
naquele escurão do avançado da noite ou do escuro na incompreensão de ambos.
Também a custo depositou no lugar devido o fardo belo (aos solitários toda mulher
é bela e apetitosa). O lugar, um hotel cheio de estrelas a envergonhar o
modesto seu quarto lá longe na solidão tão perto. Um ascensorista ajudou o
salvador no seu mister junto aos chapeusinhos vermelhos. Pô-la na cama luxuosa
do aposento enfeitado. Dispôs-se a sair, pisando nos ovos para silenciar os
passos. Porém no ato de encostar a porta de saída o anjo berrou na sua língua
avessa um socorro (ou seria um pedido de permanência?)
Velou horas aquele corpo belo, belo
apesar da prostração alcoólica e do relaxo absoluto. Acordou, ruminou ininteligíveis
na sua ‘gringuesa’, alertando o homem. Amparou a mulher, deu-lhe banho frio.
Despertou de um lado seu próprio instinto, doutro a pena pela penúria dela.
A penúria sorriu, convidou-o com
gestos a dormir. O sol os pegou pela fresta. A bela olhou ao parceiro,
vociferou sua estranheza, chegando a expulsá-lo.
Partiu o homem, envergonhado diante os
luxos nos corredores estrelados. Rumou à modéstia do seu modesto hotel. Pagou,
sumiu no mundo, ao seu mundo.
Anos, muitos anos para se conhecer
dentro do seu desconhecimento, pois sempre somos desconhecidos a nós mesmos.
Ficara a lembrança, a se juntar às
outras lembranças doutros desconhecimentos conhecidos. Um dia chegou-lhe alguém
no lar pobre de cidade pequena, longe da lembrança poética (ora, haverá poesia
nos encontros que são os desencontros da vida!)
Um dia chegou certa incerta
menina-moça a desejar saber a paternidade. Os meandros a destrinchar causas e intrincados
de endereços e identificações – mas tudo são os perdidos também nos meandros. A
jovenzinha, então na orfandade, ofertou ao pai uma lágrima estrangeira. As
lágrimas vêm da linguagem do coração, independem da linguagem falada e
desentendida dos lábios.
Marília março
2006
33° Descrição do Crime
Perfeito
No
que me concerne consta não ser contra, contra sim o contra, daí sendo a favor;
assim o contra torna-se favorável à tese contrária. Estou, suponho, sendo
claro. Claro, porque terei ser claro límpido e sereno na análise que vou agora
fazer de um crime, o que entitulei “o crime perfeito”. Embora digam as más
línguas não existir, encontrei um exemplar belíssimo em provar por a+b; aqui
dando por equivalência o direito ao direito a divergir e portanto ser contra
meu contra posto nesta narrativa no provar existência de um crime perfeito, não
obstante inexistir crimes perfeitos na face da Terra.
Deixemos de tró-ló-ló e partamos ao
crime. Vejamos seus elementos nas condições a serem expostas.
Sabe-se que assassinaram uma Geni.
Primeiro aspecto da questão é que o primeiro registro fora Jenny, não como está
grafado. As corruptelas foram uma a uma matando o nome, criando outro nome. Até
poderíamos afirmar neste pedaço que a jovem já era defunta antes daquele
fatídico clique. Bem, não entremos no como foi perpetrado o crime, assunto
doutro departamento, Departamento de Investigação. Nesta parte da parte a que
pertencemos no Departamento interessa a descrição pura e simples, técnica, do
crime. Melhormente: a fotografia, seca absoluta concreta ‘machucante’ mesmo, da
própria fotografia. E querem melhor forma para provar um crime que uma peça
fotográfica!
Tem no quadro horizontal retangular à
esquerda uma jovem encalhada. Esclareçamos: passada dos trinta, sem a
possibilidade contrair núpcias por vias legais com direito a cartório padre ou
até mesmo com auxílio preciso do delegado policial. Fica bem esta expressão,
pois isto é uma descrição de crime flagrante constatado num filme estático. Ela
está de olhos arregalados, diríamos assustada. Alguém afoito colocaria neste
ponto: vendo o assassino! Voltemos à descrição.
A jovem titia, vestido de bolinhas;
não se podendo dar cores por ser o material em branco e preto, o que é um bem a
bem da arte fotográfica profissional. Sapatinhos delicados (um talvez neste ponto:
o fotógrafo, presumivelmente o assassino, que não deve entrar nesta análise, só
o crime, enfim o fotógrafo nesta particularidade fica provado ser amador, visto
haver cortado um dos pés da moça) ela tem sapatinho delicado. Uma blusinha
de... Chega, não sei descrever roupa de mulher; e de homem para equiparação de
incompetência. Após a mulher jovem bela e encalhada como solteira nos
documentos de identificação, cuja identidade desconhecemos, vemos um outro ser,
homem este, outro jovem, aí pelos seus noventa e tantos anos na data
desconhecida da foto mas que supomos facilmente tenha sido um jovem setenta
anos antes; está enrugado cambaio destroçado (porém não é o momento nem o
móvel, antes dizer ‘peça’ chave do crime, está aqui descrito por se encontrar
no centro). Veste-se como autêntico dândi do século dezenove e forçosamente
como capiau da nossa roça nesta época; nisto admite-se seja material
fotográfico da primeira década do século vinte e um, haja visto o papel de
cópia com dizeres e siglas ajustados aos computadores atuais. Que mais sobre o
matuto? Que é meão peão, ladrão? bobão? Não sabemos, deixemos aos peritos tais
averigüações (ainda existe trema,
não assassinaram o trema? tremamos!) esta a vítima, vítima tão só do
‘segurador’ de câmera (Kodak ou uma japonesa em uso) pois afirmamos não ser a
vítima principal, esta que será verdadeiramente a próxima desta análise de crime
à perfeição. Portanto deixêmo-lo.
A vítima do crime, a Geni.
No retângulo, após o sofá batido gasto
velho e barato, tadinho, após igualmente o tapete esfarrapado sustentando uma
certa mesinha de centro com vidro trincado e poeira, muita poeira em torno do
cinzeiro atulhado de tocos e cinzas (fumaça não parece aparecer na foto) após
tais objetos usadíssimos e ordinários encontra-se a vítima na extremidade direita,
que seria a esquerda, é esquerda sim de frente ao fotógrafo; insistimos na
presunção ser ele o criminoso; fugitivo?
não se falou nestes termos, todavia positivo, porque a polícia desconhece
a autoria do crime – ou não seria um crime perfeito – aqui se trata de um
autêntico e talvez caso único de crime ao estágio mais perfeito nessa ciência
ou arte de matar um ser; não são os três, vejam bem, não são os três, embora
também eles vítimas (ou testemunhas, vítimas-testemunhas!) não são todos os
três: releva-se tão somente a pobre Geni!
Partamos finalmente à Geni. Importa
pouco (pera lá, importa sim, que diabo, não temos também coração! temos)
importa quase nada que o assassino tenha tido o interesse a matá-la e nem vem
ao caso o motivo do crime: está simplesmente apagada no mundo dos vivos. Não
obstante se encontra (na foto, bem entendido) se encontra de pé, qual vareta de
árvore ainda não despencada no matagal da floresta humana! Jovem também? jovem.
Bela também? pera lá, que é beleza? nova sim, não à cerca de setenta anos atrás
como o esposo, seria o velhote capiau seu esposo, tudo indicando que sim; não, não
isso mas aí por uns quarenta anos para trás poder-se-ia dizê-la jovem e talvez
bela, dependendo do conceito de beleza, ainda não suficientemente discutido.
Veste-se à moda cabocla: chita desgrenhamento de cabelos fita em laços; e a
expressão é de tristeza quiçá terror! o que não é nadinha extraordinário se
tratando dum crime onde ela é a peça fundamental, mesmo sendo um crime
perfeito, a perfeição não está acostumada a esconder imperfeições, as rugas por
exemplo. Como estaria... estaria coisa alguma, está mesmo, o cadáver!
Dona Geni, não nos aproveitemos a
poetizar “a flor da juventude por nome Jennyfer” não, Dona já basta. Dona Geni
encontra-se cortada à metade longitudinalmente! Então houve tortura! Não cabe
aqui responder, respondam os peritos: já falamos é assunto pericial. Com o quê?
nisto se presume... Bem, está com meio corpo inerte (como poderia ser defunta
sem sê-lo!) e inteiro: metade da boca, metade do sorriso (sorriso não, mais
parece grito de desespero) metade do nariz, metade não: existe um pedacinho da
fossa nasal esquerda não escondido pela objetiva, lembrando outra vez que a
Geni bem como as outras pessoas estão olhando para o fotógrafo amador, outra
prova do amadorismo o cortar-lhe parte do nariz, portanto se invertendo o lado
porque é uma fotografia documental de um crime, o crime perfeito. O braço
direito da mesma está como que a se levantar (para impedir o ataque fulminante
do seu assassino!? talvez, e isso já é interpretação, continuemos a nossa
descrição das peças:)
Bem, vejamos agora as partes
inferiores da assassinada criatura, o que levará a obter afirmativas. Estaria
para andar, alçar voo, fugir do facínora?! a foto esconde exatamente isso, o
fotógrafo cortou um dos pés dela também! Por determinação e estabeler
melhormente um crime perfeito? não sabemos mas poderemos investigar junto ao
Departamento de Investigação nos Crimes Contra a Pessoa Humana. As linhas do
corpo, que talvez tenham sido desafiadoramente atraentes aos garanhões de uns
quarenta anos para trás, tais linhas são também enganosas como a própria beleza
corporal: a chita encobre o cerne de tanta gostosura. Nada obstante Geni é
feia, como feio é todo velho, ela está passada e já não atrai, como pode ter
atraído antanho. Permanece de pé. Mesmo morta.
E poderia ser diferente? não poderia,
é uma foto, o artista a flagrou por metade, o restante nem o laboratório pôde
precisar. Agora, defunta, cadáver, morta e ainda de pé! aí reside a perfeição,
não apenas por não se descobrir o assassino, embora fácil saber-se torturador e
haver cortado a infeliz ao meio; perfeito no corte. Quanto ao fato – isso é um
fato provável e mesmo comprovável – anda mortinha da silva. E todos os outros
dois elementos da fotografia. Ou pensavam que fotografia não é uma coisa morta!
não existe mais morte maior que foto: é papel, é líquido de emulsão química, é
virtual também, nadinha viva. Porém há um senão que salta aos olhos: não apenas
ela, a Geni, foi assassinada, houve um assassinato tríplico. Perfeito.
Perfeito? perfeitamente, obrigado a
todos.
Marília agosto
2002
34° Um Personagem Crítico
Um
dia – fazia muitos dias – fora na quinta-feira, não, na sexta, ou foi na quarta
manhãzinho, talvez até chovesse... não, não pode ter sido quarta, é na terça
que choveu, na quarta só fazia frio – não tem importância, o José de Tal, tal o
nome do ‘para-gente’ (já já o leitor fica sabendo o porquê de minha crítica
ferina ao bestalhão) o José de Tal sai-me com esta: “O que vossa senhoria tem
que ver com isso?” Até nesse dito ponto havia eu elogiado muitíssimo a
criatura, dado seu alto valor (eu é quem pensava assim) e sua primorosa educação.
Ah, esclareço, na indagação “O que vossa senhoria tem que ver com isso?” parece
parecer uma pergunta de um ser educado e cheio de mesura e cerimônia no
tratamento; Não. Aqui era ironia pura. Quase desmontei.
Na ocasião eu falava mais ou menos isto (quer
dizer, aqui tem menos e pouquíssimo mais, porque ando sobremaneira esquecido,
precisando recondicionar a memória):
“Em plena ocasião do Império, na
cidade do Rio, nasceu um lindo menino da família nobre Tal e Tal e Coisa, um
robusto pimpolho, por sinal primogênito, mais ainda, unigênito, dos Condes e
Barões de Santa Qualquer Coisa, ligados inclusive às casas reinantes portuguesa
e espanhola; recebendo o mesmo na pia batismal o genuíno nome de José.” E daí
por diante. Enchi um calhamaço com elogios ao crescimento do garoto; fi-lo belíssimo
adolescente; completei sua educação em altas esferas e mandei-o doutorar-se em
Coimbra e Bolonha; a seguir entreguei-o a uma sensualíssima jovem a iniciá-lo
na sociedade parisiense; promovi o personagem a personagem política entremeio
às Relações Exteriores do Governo Imperial; dei-lhe de mãos beijadas cargos e
poder...
Preparava-me a consultar o Aurelião na
procura de vocábulos mais substanciosos a fim de elevar ainda mais tão belo
ser, quando me veio com desaforos! E desandou. Dei-lhe, vencido, a palavra, ou
melhor, não me deixou sequer mais abrir a boca: chutou-me os argumentos, me
ofendeu a moral, arrasou-me com observações grosseiras, tadinho de mim! Iniciou
sua guerra com a frase, a qual repetirei paciente ao paciente leitor, suscitada
por mera observaçãozinha que fiz nestes termos – “a orelha do belo rapaz é que
destoava um pouco” nem pus reticências para não provocá-lo, porém...
--O que vossa senhoria tem que ver com
isso? me perguntou a criatura. Imediato, sequer deixando-me responder como
defesa, alinhavou certa metralha de argumentos em ataque, um palavrório
insensato quase sem vírgula sem ponto sem ponto e vírgula, cheio de
exclamações, ora ou outra com interrogações mas sem direito a resposta... Vou
repetir tim-tim por tim-tim o diálogo, melhor dizer monólogo em voz alta e
gritada mesmo (por fim a criatura José de Tal andava rouquenha e arfante como
houvesse enfrentado numa justa injusta um adversário, eu, o qual andava já a
espernear se esvaindo em sangue, vermelho, o dele é que era azul nobre, o meu é
vermelho realmente, que fazer!) (Ah, tem mais, não vou grafar com o sinal
característico do diálogo, não só porque não houve diálogo, só a criatura falando,
quer dizer, a berrar; também porque os parágrafos aconteceram apenas para
descanso de José, Dom José, melhor falar, e não a fim de indicar que alguém
estaria contando. Assim economizamos um pouco de tinta; não se esquecer que o
personagem é do fim do Império; portanto devemos a bem da verdade usar pena de
pato ou ganso no escrever; daí eu falar na economia de tinta, hoje esbanja-se
horrores tintas e cores). Agora chega de tró-ló-lós; terei de repetir a dita
frase prometida de Dom José de Tal; e então daqui por diante respeitarei o
trato, deixando que apenas ele fale; na verdade o fulano não me deixou vez
realmente. Vamos lá.
O que vossa senhoria tem que ver com
isso? ele indagou...
Como se eu, falou Dom José de Tal e
Tal e Coisa, reconhecidamente um sangue azul, de alta linhagem, pudesse ter a
enfear-me orelhas destoantes! Pode uma coisa dessas! e as suas? ora bolas, isso
são orelhas ou feijões orelha de padre colhidos num solo ruim... parece até que
foram feitas por Belzebu a dentadas, quá-quá-quá... E seus cabelos, pera lá,
quais cabelos, você não os têm, tem sim uma calva brilhante, calva não: a gente
do povo é careca, ca-re-ca, gostou? economia de pentes? E seu nariz! grego porventura? semelha certa linha sinuosa
inclinada para baixo terminando por uma ponta vermelha, um tomate! linha essa
conluindo em secreção na escorreção nojenta, oh velho! se tivesse bigodes, ah
que troço nojento também, quando come leite com farinha de milho (anos, não
enjoou ainda?) se tivesse bigodes... imaginou os fragmentos fermentando pelo
mau uso na limpeza. Quer mais? os seus olhos não têm cor; já viu olhos sem cor?
nunca vi. Além do mais existe quase sempre uma remelinha pelas noites indormidas;
não se envergonha disso, suponho. E a barba do ‘tectequeador’ aí nessa
Olivetti... você não faz mais o trabalho de raspar a cara? fazia todos os dias,
não tem princípio? ah, deve ser por haver-se aposentado, agora ninguém precisa
mais vê-lo (sorte das outras pessoas o seu esconder-se hein!) então você fica
aí encolhido dentro desse casulo que é sua casa, os pelos crescem, raspam a
fronha ao dormir, enroscam; não tem mais mulher para ralhar consigo pela
péssima aparência, ui-ui-ui. E o cheiro... da barba não, do corpo hum... não
tomou banho hoje? ah sim, espera a noite chegar para se limpar pra dormir como
um anjo... Anjo? Deus me livre de sua angelitude, oh fariseu. Quanto à roupa,
barbaridade! não está vendo o sovaco a aparecer; só tem um mérito: deixar o
buraco na camisa como respiradouro para não feder tanto as axilas... mesmo
assim, sai de perto gente! e os pezinhos? que gracinha que belezinha, com
chinelos de dedo gastos sujos grudentos, fazendo escorregar a planta dos pés
patinando suor e poeira! Não tem pejo em andar por aí, até no centro urbano,
com esses chinelos de borracha? Dá até raiva mesmo essa gentalha, a gentinha do
povo sem respeito social. Gravatas! ah deixa pra lá... Olha, oh criador de...
(nem completarei porque tenho vergonha na cara, não profiro palavrão). Por que
não se espelha no dândi que sou, veja como ando, ando como um gentleman, cavalheiro perfeito. Se algum
dia formos ambos flagrados juntos, virarei o rosto a demonstrar que não o
conheço nem sequer o vi alguma vez! xô satanás! Feio. Bobo. Estúpido. Burro.
Zé-povinho. Abotoe essas calças, aperte a cinta (deve-se falar cinto, oh tonto)
‘enfranfunhe’ (aliás o verbo não existe, inventorzinho de palavras...)
enfranfunhe melhor a frente na braguilha e não deixe sobra lá atrás na
‘poupança’; acerte os vincos, limpe um pouco, ao menos, a sujidade, esses
pelinhos presos ao tecido das calças; ainda bem que não usa cores claras ou
pareceria melhor o pior das sujeiras... Vejamos agora a camisa; só tem essa?
Acho a mesma de um mau gosto à toda prova. Contudo a cor verde é demais,
verde-cheguei, como andar com uma extravagência dessa? eu não vestiria uma
coisa assim de jeito algum. Pior que a vestimenta de cima, estapafúrdia, só
mesmo suas cuecas furadas, bah! Não não, não faça menção a defender-se, tenho o
direito sobre quem feriu as belas orelhas minhas: feri-lo com os buracos das
roupas brancas! Brancas eu disse? qual o quê: encardidas de um branco muito
antigo realmente; e furadas como falei e provo. Meias? você as guarda para quê?
não usa, quando usa (verdade, veja como o defendo, verdade não estarem furadas)
usa meias apenas para ir ao banco tirar o que os juros pagaram na poupança
mensal, parecença com usurário, não mais não menos. Agora chega de falar no ser
medonho que o catador de milho na máquina de escrever me representa; um
monstrengo mal vestido. Mas falemos agora na (e da) sua literatura de fundo de
quintal, ‘maluqueira’ como você mesmo reconhece. Vamos falar dela... socorro!
Não suportei os desaforos desferidos:
descriei José de Tal, sequer deixei-o completar o pedido de socorro, tapei sua
boca no último ‘o’, pois socorro bem gritado tem que ter vários ‘os’.
Imediatamente arranquei a lauda do rolo da máquina, logo ela iria avisar “tim”
pelo sininho no final do papel, como toda Olivetti de alta linhagem – esta sim
tem linhagem, digo como vingança e clamo por todos, em nome de todos os criadores
de josés desta vida – fazendo então aquele barulho do rolo girando com
ferocidade, a minha ferocidade; amarrotei o papel, fiz do sulfite uma bola mal
acabada, atirei-a, despeitado, no cesto ao lado do vaso sanitário, juntinho com
restos de higiênico bem usado. Que os cheiros característicos sejam leves ao
José ao Tal e às Coisas!
Marília maio
1996
35° Notas de Meu
Falecimento
Para
início de conversa, conversa-fiada deixemos de lado, partamos duma dada data,
não sendo preciso nos perdermos. Então procuro a data, o dia certo, porque se
temos dia certo para nascer devemos ter igualmente o do falecimento. Aí
vasculho a gavetona da escrivaninha, onde guardo os badulaques. Encontro os
badulaques: colchetes agulhas percevejos de metal dinheiro velho fedido
guardado e dinheiro em moeda que não vale mais, mais vale numa exposição das
antigas; tem caixinha ‘petitica’ assim com mil menores coisas que me são
lembranças das lembranças; um canivete quebrado para que serve o que mais não
serve, como sou bobo, jogo fora ou não? Não, se está na gaveta grandona nas
entranhas dela na qual se guarda lembranças guardo então como lembrança embora
não me lembre por que devo tal objeto manter (e poderia mandar consertá-lo mas
para que gastar!) Tem, vamos ver, uns troços de ferro outros de plástico – pera
lá, que devo estar procurando? ah, prossigo, talvez, procurando, encontre, não
o que procuro porém que me esqueço que procuro. Aí tem um relógio parado que
não serve para coisa alguma, talvez como recordação daquilo ou de alguém esquecido;
limpo sua poeira, o pozinho no vidro de plástico do mostrador, engraçado
falta-lhe o ponteiro vermelho de segundos, ah que diacho onde soube que era
vermelho! deixa pra lá. Tem mais aos fundos da gavetona uns outros trecos
esquisitos: um não sei quê de ferro, ao menos descubro que é pesado e grande,
pequeno suficiente a caber no fundo da gavetona. Empurro pra lá, encontro uma
chapa de madeira, o que me dá um trabalhão danado, pois não sei o tamanho exato
(saber pra quê?) tomo adoidado o desiderato saber achar uma régua, vasculho por
aí e vitória! – achei uma régua gasta, falta, apagada, a numeração e os
risquinhos equivalentes ao cinco e ao seis (centímetros ou polegadas!) o que
pouco importa a placa é mais, está visto, mais grande (que horror a expressão,
se fosse meu filho batia na boca corrigindo: maior, repita: ma-i-or). Bom.
Meço, dá dez por onze virgula três, sem que eu saiba bem se dez centímetros ou
onze virgula três polegadas, isso não tem importância porque não sei sequer a
que serve a madeira. Jogar fora a desentulhar a gavetona! boa ideia, no entanto
me parecendo ideia péssima porque é prensada com grânulos imprestáveis de
madeira colados sabe-se lá com cola decerto venenosa, não reciclável, ofendendo
o meio ambiente, sou cidadão correto e não sujo, sujo só a gavetona deixando a
placa no lugar em que a encontrei e valeu ter limpado a mesma com pano porque a
poeira faz mal. Prossigamos nessa busca, já me esquecendo o objeto central da
pesquisa. Tem mais? xi, tem muito mais, a gaveta parece coração materno cabe de
um tudo. Melhor fechar a gavetona, visto poder até entrar bicho nela. Tem mais
duas, não: tem três gavetinhas se bem-mal uma não possa abrir não tendo a
orelha de puxar. A gente se vira, brasileiro é criativo pra burro e acharei
meio de abrir a terceira que por sinal é a do meio e devera ser não a terceira,
a segunda. Inicio a faina. Na primeira encontro talvez o que procurava,
encontro papéis, me parece vagamente ser o que procuro ligado a papéis e na
grandona só havia uma capa de caderno com uma porção de bonequinhos garatujados
a roubar o tempo para quem o tenha de montão. Nessa primeira descubro, vixe, é
muito papel. Resmas dele. Em branco, virgem, virgem? sei lá, conto centenas
milhares sem nada escrito. Está escrito aqui na cabeça: papel em branco não
serve pra nada. Serve. Serve para escrever aqui com meus garranchos e usarei
lápis, lápis não, quebro sempre a ponta e me sujo com o grafite em vista ficar
afinando toda hora e me lavando imediato; com esferográfica, decidirei depois
se preta azul verde vermelha violeta outra cor, as que tenho são essas e mais depois
‘mais-zão’ verei na papelaria, a da moça bonita, se tem outra cor, aí brinco
com a menina: cor de burro quando foge, somente para vê-la me mostrar os ferrinhos
de endireitar mais a beleza dela, coisa de dentistas. Ah pode ser escrito na Olivetti,
Olivetti 88 que está aqui ao lado precisando fita nova, preto vermelho peço
sempre e ela me mostra de novo o aparelho nos dentes mas será que se arreganha
pra mim por amor ou interesse comercial, que diacho ela não é a dona, dona sim
de meu coração... Melhor fechar esta primeirinha, pois que fazer com papel em
branco! nada. Aviãozinho? não sou moleque. Nada, não devo perder tempo perdendo
tempo no pensar o que fazer, tenho é que procurar. Contudo... tento a do meio.
Constato: não abre mesmo. Depois abro, com jeito abrirá. Terceira gavetinha.
Puxa, que horror de ‘badulaquinhas’ dentro – se for medir, só medir, os
tamanhos, pesar pesinhos pesões consistências dos mil e um trequinhos da gaveta
terei o resto de meus dias a medir, somente a medir! pô, que trabalhão. Espera
lá, se é pro restante dos meus pobres ricos dias... procuro, portanto, é obvio,
elementar, lógico e justo pensar que seja algo em torno disso! é isso: ando querendo
saber dado concreto escrito de quando morri. Então, ah que ‘burraldo’, para que
vasculhei uma gavetinha inteira de folhas brancas virgens belissimamente
enxofradas e alcalinas, suficiente pra não ter nada para escrever tudo – então não poderia estar nisso o dado da data
do adeus desiderato do Degas disto dito. Perdinha de tempo. A terceira também
‘obviodóbvio’ que não tem porque tem, tem só objetinhos miúdos de todos
tamanhos e nenhum papel. Portanto deduzo a dita cuja data estar na do meio.
Isso. Agora estou de volta, paguei a um arrombador amador o olho da cara, para
abrir-me a gavetinha do meio emperrada e sem orelha a puxar pra fora e
descobrir o que dentro; bem duas horas o pobre rico (graças ao pagamento pelo
serviço caro) tentando abrir abriu e ainda lascou-me parte da gaveta esse
amadorzão. Fosse menos burro, eu menos tonto, chamava um profissional da área e
abria nuns dois segundos que um é bastante pouco: chamaria um ladrão de galinha
em falta agora no mercado porque o país tem e muito dos grandes: e o
ladrãozinho gastava dois segundos e me cobraria metade, um terço, do que me
roubou o honesto amador. Isso não importa, a gente aprende apanhando.
Arreganhada a do meio! tem? tem. Cadernos, apontamentos esparsos, folhas
amarelecidas de antanho coisas mil, mil anotações, um tesouro. Devo começar
minha pesquisa! devo, porém me esqueço sobre o quê... ah sim a data de minha
morte. Só que tem um problema: não vi barata alguma, ovinho tem já velho gasto
decerto as baratinhas morreram de fome, tadinhas, barata não existe. Agora
cheiro, ai, dói o nariz, arde. Como mexer na papelama a encontrar uma possível
data! E tem algo mais: vou confiar nela se ando desmemoriado e descrente não
crendo, e exista, seja válida! Porque posso aleatoriamente ter posto um número.
E achar mais outras datas e, aí, morrer de raiva ou dúvida. No final não
sabendo em que dia começou minha velhice, que é morte viva. Fecho a terceira
também. Somente para não pensar nisso. Fecharei sim a terceira mas não caio
mais na armadilha: trarei um de galinha a fim de trancá-la barato.
Marília dezembro
2002
36° Casamento Dentro dos
Conformes
Poderia
parecer intromissão de bedelho indevido na seara alheia... Mas não era, era
sim; para que rodeios? Verdade que o escriba nada tem com o caso, caso se lhe
indague, pois vivemos sempre fugindo a testemunhos, todos já viram uma
reportagem televisiva onde ninguém viu quem matou – quase sempre responde o
vizinho assustado “não moro aqui” ou “escutei só os tiros”, ajudando somente a dizer
ter ouvido seis outro diria nove, ficando o repórter na mesma situação anterior
à matéria, acrescendo o profissional comentários também profissionais a encher
o tempo e floreios mais. Mais não digo, sou apenas o escriba cumprindo meu
dever, nada vi. Me contaram que o Zezinho se casou, o filho do Zé, Sr.José de
Tal, mui bem classificado funcionário numa repartição pública da cidade. O Sr.,
Dr. pela Faculdade de Ciências Econômicas e assim conhecido no seu setor
funcional, com chefia e demais atrapalhações que a burocracia determina,
determinou que o casório se fizesse do Zezinho, na intimidade o filho é seu ‘Zezinho’
querido, com direito a alguns abusos permitidos aos primogênitos. Apenas que o
pai desconhecia até onde iam tais abusos.
Foi então que Dona Filomena, digna sua
esposa (quer dizer, mulher do Doutor) numa conversa com vizinhas descobriu para
depois contar ao marido José que a Joaninha da Dona Maria andava assim, ó, com
a barriga! imagine como essa juventude não tem responsabilidade. E cuidado,
disse a senhora. Vai ver que a mãe não deu orientação à filha, tão ocupada com
os cabelereiros e as reuniões sociais e de caridade. Vai ver foi isso. Cresceu
cresceu cresceu aquele ventre, dava até gosto de se ver. Quando dava pra se
ver, notou Dona Maria e falou no leito conjugal também ao seu esposo que a
Joaninha... Ah foi um deus nos acuda. Sobrando assim conversa de ‘homem para
homem’. Dessa maneira que o Doutor José, completando a sapiência, soube pelo
vizinho da quadra de cima que a sua filha de treze aninhos ia ganhar bebê,
coisa de menina sem boneca para brincar. Riu educadamente pelo drama narrado por
um vizinho aflito e pleno de vergonha. Ora, disse de amigo para amigo, o mundo
não vai acabar por isso, ocorre nas melhores famílias. Quem será o pai! decerto
o namorado, perguntou Doutor José. O vizinho confirmou ao pai do Zezinho que a
filha depois de apertos e pressões lhe contou ser do namorado sim. Do
Zezinho... Quase engoliu o cigarro o Doutor José, virou José num relâmpago e
num relance alcançou todo o drama... dele mesmo! Dessa forma os dois patriarcas
resolveram imediato o casamento, acabando assim este capítulo segundo ou terceiro.
Terceiro ou quarto. Agora papai conta
à Dona Filomena o resultado de sua conversa de homem para homem e o acordo a
que chegaram, suficiente para calar todas as línguas viperinas; e quem sabe se
não o suficiente também para iniciar o Zezinho na responsabilidade! Daí vem a
quinta parte da estória:
Papaizão vai conversar de homem para
homem, porque embora com quatorze anos incompletos o filho um homem, pai de seu
neto (até se entusiasmou com o primeiro netinho!) enfim conversa de papaizão e
papaizinho. O papaizão procura o papai estreante para uma conversa informal,
tão formal havia sido até aí. Zezinho recua em ‘despalavra’, quer mostrar ao
pai a carteirinha escolar cheia de vermelhos e anotações desagradáveis, finalmente
começa a entender do que se trata e trata de fugir para o quintal além da
piscina... Papaizão se desloca atrás do papaizinho, este foge para cima, se
enrosca rápido qual macaco se resguardando do predador, na direção vertical,
está agora na forquilha mais inacessível da goiabeira! salvo afinal. O Doutor
pede depois implora e após berra mesmo ao pai do seu neto enquanto o pai deste
olha lá de cima desconfiado pelo abrandamento no patriarca José lá embaixão.
Desce ainda meio desconfiado e finalmente selam um acordo. Sexto.
Sexto: casamento contra todas as
línguas com juiz padre e a lei como manda a lei. Último capítulo.
Dona Filomena gosta de crianças,
aprecia os primeiros netos, vindos de braços dados quando se esperava apenas um
netinho indevido. Mas agora ela não aguenta mais, diz ao maridão descalçando as
meias cansado e quase queimando o lençol branco novinho com a ponta do cigarro
distraído e fedorento, que ela (e ele igualmente, enfatiza a senhora ao seu senhor)
não mais tem sossego, acabou a intimidade a paz conquistada por dezenas de anos
no matrimônio tradicional – agora chega (gritou inclusive, pondo mesmo ponto de
exclamação) é preciso um basta nisso tudo; ela gosta, adora realmente os gêmeos
e a garota que nasceu outro dia, esses jovens casais só pensam que a vida é
fazer nenê e ver televisão? a bagunça aqui na mansão os choques entre mamãs
etc. e tal. Assim o Doutor José resolveu pagar o aluguel de uma casa para o
Zezinho e sua família, mesmo sendo só até à formatura dele, aquele maluco
irresponsável, se é que realmente haverá formatura e emprego. Porque Papaizão e
Mamãezona merecem respirar. Ah se merecem!
Marília setembro
1997
37° O Sujeito do Raio X
Toda
vez que falamos num dado sujeito logo nos vem à cabeça um homem. Bem. Mal
pensando um sujeito pode ser uma senhora respeitável e até bela ainda por cima.
Mas não aqui. Aqui está um sujeito com toda a sua conformação masculina, se bem
que neste caso é um caso a se pensar – ele não brigaria não bateria não se
ofenderia em afirmação para se afirmar como homem, com agá maiúsculo e tudo o
mais. Se fosse mulher ou que fosse homem e não se pensasse macho, contudo o
sexo não lhe eliminaria seu defeito mais grave ou se quisermos sua virtude mais
ostensiva. Defeito ou virtude têm traços de nascença sobre os quais não temos
que reclamar ou nos envaidecer, nem ao menos podemos protestar: é aceitar e
pronto. Era seu caso. Possuía uma visão extraordinária. Digamos, para início,
que via mais longe que você, e quilômetros mais ainda que eu (desnecessário
neste ponto dizer que sou cego, pois não acreditarei, porque com uma lente razoável
vejo outros estando perto, quase razoavelmente). Ele mais. ‘Ene-vezes’ mais que
nós. Poderíamos afirmar que via por todos os maiores enxergadores da paróquia e
quiçá do reino! Categorizemos: parecença com raio X. Como o raio já fora
descoberto pelos alemães então podemos falar nesses termos: tinha visão de raio
X. De vez em quando a gente o pegava sorrindo...
Os maldosos logo completariam
maliciosamente enquanto os ingênuos e os bondosos de todos os matizes afirmariam
ser o sorriso o riso de constatação, de aceitação, ou coisa que o valha.
Conheci uma jovem lenta sorrindo a tudo; depois me disse que via nos outros as
coisas gozadas que praticavam. Ele não, nunca falou assim, apenas sorria. Todos
os dias de nossa convivência. Anos sorrindo. Também mostrava-se triste e mesmo
indignado por vezes. O comum do ser foi entretanto o sorrir.
Até que uma vez, mostrando uma faceta
que eu ainda desconhecia embora observasse o rapaz anos a fio, obtive a
terrível revelação, sobre a qual me reservo o direito a me calar, cedo somente
ao lápis a confissão e o que me narrou o camarada, aqui estando eu resguardado
pelo inédito pelo segredo e até pela incapacidade de outrem averiguar; o indivíduo
faleceu ano passado. Vamos apenas chamá-lo neste escrito João.
João José Antônio Sebastião Benedito
são cobertas que abrigam qualquer pessoa e todas as idades; as feiuras as belezuras;
as atitudes; os crimes; e a vergonha. Ninguém pode se chamar João absoluto e
único, embora qualquer João possa se chamar Ninguém. Por isso vou indicá-lo
somente como João. Além do mais será bem difícil encontrá-lo no poço público
depois dos sete anos regulamentares da decomposição no cemitério municipal,
permitindo-me dizer coisas sobre o sujeito sem as corriqueiras comprovações e
os processos...
Prometo não contar muito sobre o
‘causo’ a fim de não chatear. Só o suficiente a caracterizá-lo, alguns exemplos
mais comprobativos os quais não ofendam veleidades dos leitores. Ora, não poderia,
quisesse, narrar tudo, poderíamos ficar no meio termo do muito dele com o pouco
do escrevinhador, o que é bastante.
Um dia, tendo viajado para nossa
cidade (forma de expressão, não passa de aldeia) tomei João pelo braço para vermos
um desfile de modas. Aliás fui infeliz a escolher um tal evento, porque
desconheço o assunto e não poderia descrever um milésimo de roupa e enfeite.
Meu objetivo era mostrar ao amigo (eu usava indiscriminamente esta palavra,
abusava dela; quem sabe devesse chamá-lo “conhecido”; a quem poderemos de fato
designar amigo?!) era enfim objetivo mostrar-lhe as jovens que iriam se
apresentar em público, o que sempre é um acontecimento de enorme importância.
Ele também da província, de outra província, saberia decerto avaliar meu gosto
provinciano. Em suma nós gostamos de levar as visitas ver a cachoeira a praça a
igreja essas coisas; e é claro os bailes e demais ajuntamentos sociais; visita
costuma apreciar divertimentos e nós moradores também. Assim o desfile achei de
grande interesse a ele. Entramos no salão do Tênis Clube.
Percebi um João risonho logo de
início. Julguei fosse contentamento. Mais tarde interpretaria noutras situações
semelhantes um sorriso-pesquisa, ou sorriso-descoberta. Todavia pensei que
fosse pela beleza de nossas damas e me estufei por orgulho e vaidade. No
entanto ele não andava vendo as flores femininas. Naquela passarela, após cada
instante do evento, me passaria o que estava percebendo e por que sorrindo,
pois sorria tanto... Fomos nos deslocando no meio do pessoal.
“Aquela louraça...” Marilu, informei
apressado eu, “aquela Marilu tem o osso ilíaco torto.” Arregalei os olhos,
imaginara fosse comentar os seios da moça seu porte, quem sabe a vestimenta; não
osso ilíaco, o qual minha cansada ignorância não sabia o que fosse; ainda não
sabe, deveria ter ido ao Aurélio. Não tem importância agora. “A moreninha da
esquerda...” a Janice, acho que é Janice, é ao menos que eu saiba prima daquela
encostada no pilar com o namorado e ... “Não importa se é Janice ou Joana, ela
tem uma costela trincada, a terceira da esquerda de baixo pra cima, está
vendo?” Não estava vendo coisa alguma, aliás não via também as vestes dela,
homem olha a mulher que está dentro do vestido, embora possa ser belo e bem
talhado e um chamarisco para outras mulheres; admito seja, e que diabo, o
sujeito andava observando a costela! Imaginei estar brincando comigo. Vimos a
marcha das debutantes (suponho seja debutante visto não conhecer os termos
técnicos da moda) o desfile propriamente, enfim foi desinteressante pra mim
embora supusesse interessante ao meu convidado; por isso indaguei baixinho
sobre o assunto a ele. Ele respondeu-me que o achava apenas curioso; para ele a
reunião social em questão era mesmo até rica porque encontrara muitos desvios
nunca vistos por ele e isso atraía... Pedi esclarecimento. Falávamos então à
boca pequena, não ficava bem dar vexame. É que, disse João, aquelas beldades
pareciam desmunhecando, chocalhando a ossada, pareciam desengonçadas...
Admirei-me profundamente, não via nada, daí encarei-o abismado. Então me
esclareceu: “veja essas magricelas se deslocando num joguete balançando as suas
cadeiras ...” Olhei e não vi. “Agora a magrela de lá torceu a bacia pra cá e levantou
a tíbia dez centímetros pra cima, acha isso lindo, Chico!?” Fiquei azucrinado
bestificado arranhado arreganhado, pô, nem sabia chamar-me Francisco... acho
que ainda não sei todos sabem que não sou (aí me veio à cabeça: seria Assis ou
Xavier?) isso é um senão; indignado me esqueci até o nhec-nhec desengonçado que
o sujeito via que eu não percebia. Engoli seco, ele sequer notou minha palidez
(ou terei ficado vermelho?) nem meu constrangimento. Imediato iniciou o contar
como estava vendo outro grupo de jovens que havia passado em nossa frente.
“Veja – disse João – o buraco do olho direito na caveira da menina
baixa...” (ui!!! pensei) “ ... a
baixinha... então, é menor que a loca direita e mais profunda também... não
concorda!” Com o que, se não via coisa alguma; nisso remexi-me esfreguei minha
cegueira virei-me, perturbado, com vergonha da vergonha possível dos outros
assistentes, entristecido mesmo com meu convidado. Ele não percebeu minha
atrapalhação.
Com muita diplomacia empurrei João do
Raio X ao bar (será cantina ou lanchonete que eles chamam? não importa, queria
esconder as ofensas do camarada, eu andava envergonhado no lugar dele, sei lá).
No bar nos encostamos ao balcão, aí esbarrando com a alegria dos outros, éramos
estrangeiros; eu era da terra entretanto os tímidos são expatriados na sua
própria cidade – em resumo estávamos longe da bagunça ou da espontaneidade dos
sócios do clube e me alegrei: João não teria oportunidade fazer comentários em
voz alta, pois um grosseiro e podia comprometer-me com o que falasse a propósito
dos esqueletos bamboleantes das garotas. Porém ele não mostrava aflição o
quanto eu me desesperando na festa. Bebemos nosso álcool num silêncio relativo,
eu já bastante aliviado. No entanto não durou esse estado. “Sabe Chico (outra
vez Chico, pensei com raiva) sabe o que estou vendo aí nesse montão de ossos
vestido de barman?” Não tive coragem de intercalar meu formal
‘não sei’; assim o sujeito completou: “ele tem duas vértebras trincadas também,
o tornozelo esquerdo é mais grosso, parecendo haver quebrado e posteriormente
mal soldado e pior...” Tapei-lhe a boca enquanto o moço do bar se aproximou do
seu lado no balcão de boca aberta e expressão indignada, eu temendo e prevendo
trocas de sopapos e gritos mais – tentei disfarçar pagando a conta enquanto
puxava o João na direitura da entrada, para nós saída... não deu. Deu uma
gargalhada e mostrou com o indicador um pobre funcionário então conosco cara a
cara: “Esse aí tem uma coisa engraçadíssima – o homem não possui sequer um dente,
a dentadura postiça está folgada e ele a lambe no vão com a língua!” Era
desesperante para minha doentia ‘medorreia’, não sabendo o que fazer, se
apanhar junto com meu amigo se puxá-lo ao lado de fora. Aí chegou um segurança
deste tamanho e assim ficou fácil empurrar meu convidado, naquela hora mais
desconvidado que outra coisa. Saímos.
Não eram ainda vinte e duas horas; não
participaríamos da outra metade da festa de modas. Optamos pela praça pela
igreja, a cachoeira não por ser longe e noite. Ele sugeriu as meninas da vida.
Enfim lá é lugar próprio da bagunça e não muito longe do hotel do nosso homem;
por isso aceitei.
Aí... bem, não desejo ofender os bons
costumes; não contarei todas asneiras que ele disse; uma loucura. Eu também
andava muito bêbado, talvez mais que o amigo. Sei que o João do Raio X analisou
as profundezas das meretrizes, gritou e ofendeu – aos bebuns tudo se perdoa.
Nem tudo. Acabamos no xilindró. Ele economizou aquele dia sua diária no Hotel
da Estação. Noutro sumiu. Eu igualmente sumi, mudei-me, envergonhado, para a
capital. Ora para que relembrar essas coisas, se fiquei sabendo mais tarde que
o João fora logo depois aplicar raio X no cemitério! Cruz-credo.
Marília agosto
2001
38° Diálogo em Silêncio
--
Ai que vento frio...
A água está quente. Não, o tempo está
tão frio; tanto que o líquido nos parece quente. Dá na mesma, tudo é impressão
e só vale para quem estiver sentindo. A roupa, essa não sente, que lhe importa?
Ainda tem o almoço a fazer, quando ainda arrotamos o café da manhã. A casa para
limpar. As compras. Os meninos estão dormindo. Silêncio! A quem? como sou tolo,
ninguém se importará com meus afazeres, talvez com o frio que nos atinge a
todos humanos. E certamente aos animais tidos irracionais. Estou só nesta vila,
todos dormem seu merecido domingo, no que fazem bem. Nós velhos não podemos nos
dar a tal luxo, os anos nos acordam, o tempo nos provoca aquele mal-estar:
pronto, estamos fora da cama. Os outros dormem. Nem tão só, o Lulu se levantou
do seu abrigo improvisado e vem para cá, rindo pra mim com a cauda.
-- Ai que vento frio... Bom-dia. Que
frio...
Estou lavando a roupa dos meninos. As
minhas também. Loguinho a vassoura. O arroz e a carne, a de preço nas nuvens.
Antes mesmo as compras. Igualmente muito cansaço pelo serviço, a semana foi
dose. Que você acha?
-- Faz frio, está esquentando...
É. Pra mim já esquentou, estou
esfregando a roupa, criança suja muito hein!
-- Prefiro a vida de cachorro, embora
possa lhe parecer vida de cachorro...
Hummm.
--Vou me espreguiçar, descansar um
pouquinho, cuidado para não espirrar essa água gelada aí do tanque...
Não está tão fria. Eu imaginava fosse
uma impressão mesmo: o tempo anda frio, mais que a torneira. Logo, a água estará
quente.
-- Bobagem de gente. Prefiro
deitar-me, e se não me fizer barulho nem me oferecer pisão, um bom sono. E também
sonho.
Com o que sonham os cães?
-- Ora, que ignorância! Com ossos,
com fêmeas cheirosas, com o vendedor de gás “olhe o gás!” cada tipo burro hein?
com o sorveteiro, vou ladrar para ele, ele já se acostumou, latirei assim mesmo
porque me acostumei igualmente. Puxa, ninguém com medo de mim...
Claro, você é um polenta, parece
cachorro de pelúcia para garoto brincar. Não lhe tiraram outro dia a coleira?
Vá pra lá seu ‘guardião’ de meia tigela.
-- Pô, não se tem sossego! Vocês são
assim, põem minhocas na cabeça, prestações aluguéis briguinhas fúteis com a
mulher e com os vizinhos – nós somos quem paga? e nem dão comida direito, ou
nos ofertam apenas restos: a situação de meu colega da frente, viu? é pele e
ossos. Assim que devemos ser tratados?
Pera lá, oh mequetrefe de vira-latas
elevado a Lulu, não lhe dou mingau de fubá com carne todos os dias?
-- Não falo de mim. Estou num paraíso.
Sem exageros, é claro. A boia de ontem, Deus me livre! ora, pensa que sou cachorro!
O quê?
-- Sim, sou. Porém não deve exagerar.
Ademais tem o frio que passei hoje, esta noitinha...
Não lhe pus jornal por cima do tapete!
-- Não se exalte por pouco. Pôs. O
vento levou o papel embora. Quanto ao tapete, é pano frio pra burro. Se eu
fosse um gato estava quentinho dentro de casa; é ou não é?
Quer andar... cachorro burro, quer
andar pelos telhados comer ratos virar esticado um tambor?
--- E você quer virar cão? Mas pensando
bem... bem que
não é mal ser mau guardião desta tapera com arremedos de mansão. Descanso,
comidinha (de vez em quando azeda...) carinho dos garotos e da vizinhança; o
diabo é que gentinha cresce vira gente grande. Melhor entretanto que ficar lavando
essas coisas bobas, veja suas mãos enrugadas com tanta umidade. E a luta
diária. Todos os dias se vai esbaforido correndo para o ônibus. Para mim o
‘incômodo’ é mais cômodo: vejo o coletivo, volto para casa a descansar; depois
de urinar por aí e bater um papinho ou correr de um amigo enfezado. De noite,
olha ele aí de novo! Fazer comida para sua ninhada para o outro dia, lavar o
que sobrou do dia anterior. Além de nos trazer maus bofes pelos maus negócios
ou pelos negócios mal entendidos, sei lá. Prefiro ser um guardião: dormir
ladrar fazer festa.
Para que mija você em todos os lugares,
postes por exemplo?
-- Nem me ouviu o sujeito, parou na
urina; já fala mesmo sozinho ‘minhocando’ seus problemas; sequer ouve a gente...
gente, bolas, isso é expressão de gente. Parece sonhar. Ou antes, deve é estar
num constante pesadelo.
Para que mija por todos os lugares, sabendo
todo o caminho de voltar?
-- Está bem, urino por costume. Porque
fica bem aos outros cães urinar marcando o lugar por onde se passou. Para ficar
bem com meus pares, ora.
Por que razão fazer as coisas tão
somente a dar satisfações à cachorrada, à plebe vira-lata!
-- Ai que horror, tenho que dar
explicação de tudo que faço, urinar por exemplo. Quanta limitação humana! Faço
as coisas para me sentir eu mesmo. A responder uma indagação safada que trago
dentro de mim, de antes de me chamar Lulu. Preciso ter trabalho a procurar
explicação para todos meus atos? Não vê que dá trabalho. E à toa. Não é à toa
que vocês são filósofos ou poetas ou loucos, o que dá no mesmo. Prefiro
realmente outra coisa: coçar carrapatos, arrancar carrapichos; melhor mesmo
rolar e sujar-me.
Xô, nojento!
-- Ué, virei galinha? que nada, dá uma
coceirinha gostosa. Não, carrapicho irrita.
Por que você vive rolando por aí nessa
terra vermelha, seu bestalhão.
-- Sabia que iria apelar, afinal de
contas daí somente sai mesmo besteira. Gente não tem o que falar, fala
besteira.
Olha aqui, seu derrubador de lixos...
--Não
precisa nem acabar de falar. Já
me falou muito hoje, esquentou seu frio com a língua. Não queria acordar as
crianças. Queria? E agora: a roupa... e tem o almoço (meu almoço também, não se
esqueça) e tem arroz e a carne, arrumar a casa; não falte às compras. Amanhã,
tem amanhã que é uma segunda-feira de preguiça, bom pra descansar. Dá licença,
vou me espreguiçar, aguardar a refeição.
Ribeirão Preto agosto
1987
39° O Filme Trágico
Acho que o sujeito era doido. Talvez
não chegasse a tanto, mas ainda tenho lá minhas dúvidas. Éramos seis ouvintes,
ou menos, pois nunca temos certeza alguém estar nos ouvindo autenticamente
quando falamos. O Chico, por exemplo, parecia desligado, o Zé concentrado
ensimesmado, o Antônio andava longe; e daí por diante. Fiquei com pena. Prestei
atenção o quanto pude, entretanto não pude demais. O sujeito tagarelava brotava
vomitava seu sonho. Quem sabe fosse apenas sonho ou coisa assim.
--A jovem, madura aí com uns trinta,
balzaquiana, entrou no banheiro, fazer coisas que não nos diz respeito, visto
nunca sabermos ao certo o que as mulheres fazem e tanto fazem lá... No banheiro
– falou o sujeito ‘magrote’.
--Você viu isso? – perguntei me
candidatando a ser ouvinte dele.
--Não, cara... – retornou o moço – é
um filme. Encostou a porta, sumiu naquela escuridão. Imediato, focaliza-se o bandido:
senhor quarentão, uns vincos no rosto, testa prolongada, lábios grossos,
encapotado, botõezões, mão no bolso direito, donde se deduz ser destro. Já sei
que você vai dizer que não existe a forma ‘botõezões’; existe sim, acabei de inventar,
ainda com mais de um til no vocábulo. Pois é; retira uma chave yale; trancafia o femeão...
--Mulher dele? – eu quis saber.
--Ora, não seja apressado, lamentou o
magro. Retoma o fio – atirou pela fresta da porta, por baixo, uma cápsula, a
qual deitou fumaça venenosa, supõe-se. Ela percebe; porém nada se ouve; só a
tentativa de abrir a porta, um desespero... e a moça caindo caindo caindo, não
se sabe se definitivo, depois inerte!
Então... – não me deixou completar;
completa o amigo contador:
--O fulano? fugiu no melhor dos
estilos, como cabe aos patifes. Mãos nos bolsos, surrupiando-se no corredor à
meia luz. A jovem, bonitona por sinal... eu escolheria como atriz a... não,
deixemos isso agora; ela pereceu, no começo da fita; nada de romantismos, meu
amigo, de salvá-la casando o mulheraço com um lindão; mesmo porque eu ponho
agora a ideia: que é ser justo? e bonito? Deixa pra lá. Pereceu, e a prova está
a se mostrar curiosos, latinamente curiosos, por toda parte, a olharem pelos
vitrôs, a comporem nos grupos estórias em torno da vítima; um que outro choro
ou lamentação – bem entendido, somente os sinais disso, já que o filme só tem
sons no segundo plano; os personagens principais não dizem nada! Concluindo o
drama com a cena da saída de um policial civil, abanando negativamente a
cabeça, médicos legistas e auxiliares entrando e saindo apressados do santo
mictório. Daí...
--Tem fogo, Bolacha? Não tinha, nem
cigarros, que é a segunda fase para quem tem o vício e se esquece do objeto do
tal vício em casa, quem sabe se não de propósito? Assim o Antônio entrou no
filme. O narrador, nervoso, tentando se livrar da enxerida criatura nos
misteres da sétima arte, deu-lhe fósforos e cigarros; e respondeu o “não tem de
quê” tendo, percebi na sua fisionomia. Apesar disso retomou a sua longa conversa:
--Faz-se neste ponto um corte,
vendo-se um auto fugindo na disparada, paisagem com animais, o gado – vaca é
mesmo um bicho burro e indiferente, não se importa com dramas humanos – berros
aqui e ali, árvores, um resto que sobrou ao desmatamento. O carro some após uma
poeira tosca. A plateia não saberá bem o porquê, no entanto que tenha
paciência, para sabê-lo depois. Então vêm lá cenas terríveis: a prisão de um
‘zebedeu’ qualquer, mestiço sem eira nem beira, a polícia mostrando-lhe a chave
do banheiro do lindo cadáver e tudo o mais; pancadas, interrogatório (o
interrogatório é sempre posterior nestes casos, para com os fracos...) depois o
júri, o juiz, os guardas e os advogados; tudo à distância, sem voz, em não ser
os sons do bater na mesa, o tec-tec na máquina de escrever, sinetas, a voz abafada
dum público com muita expectativa; culminando no... (o Chico não o deixou
culminar).
--Bolacha, ói lá a boa que lhe falei,
a Glorinha... comeria um vagão de merda por ela...
Olhei. Quem tem olhos não é para ver?
O sujeito magrinho também olhou, desconcertado. Puxou-me gulosamente pelo braço
e então despejou:
--Saiba, o júri impaciente o público
impaciente o réu impaciente. Culmina com outro aspecto trágico, a cena termina
com o mulato chorando (ouve-se ao longe, fraco, soluços) as mãos na cabeça, no
gesto do consumatum est. É trágico,
não acha isso trágico?
--É – concordei inteligentemente.
--Trágico! Depois um meganha fechando
as portas da cela ao colored
descabelado. Não, descabelado em carapinha não fica bem. Pô-lo com trajes no
desalinho, pronto. Um meneio negando a situação. Corte aqui. Ah! ocorreu-me
agora uma linda ideia: o título poderia ser “A Chave”, visto volta e meia
alguém estar fechando algo, como o mictório, o carro sumindo na porteira tosca
de fazenda, o juiz encerrando a sessão, o carcereiro trancando bem a cela. Ou
melhor seria “A Porta”?
--Hum? – indaguei ‘desperguntando’, a
prestar atenção mais num ônibus explodindo com tanta menina bonita a sair da
aula...
--Concordo, Bolacha, você é um gênio:
“A Porta”, obrigado pelo título do filme.
--Ah... – assenti. Dispunha a deixar o
grupo, a indagar o que o João andava lendo, quando o sujeito magricela me segurou
pela traseira de meu surrado paletó. Aí completou a ofensa.
--Não lhe contei o melhor do filme.
(Parei, liguei nele o dial do cérebro,
limpei com o limpador de para-brisas os ouvidos, derrotado. Ele então retoma, impassível:)
--Daí, oh Bolacha, o meu vilão
ressurge, dignificado, limpo, lindo, ativo. O público acompanhará as cenas em demonstração
dessa atividade – sem som na primeira pessoa; e o dito vilão endeusado,
passando ordens, faixas com dizeres ‘vote em fulano’, impondo veredictos nas
assembleias políticas e empresariais; e ao lado, suas aventuras amorosas, suas
vitórias no sexo; com uma que outra cena de violência. Vocês (imaginou que os
outros ali na roda estivessem ouvindo por verem) vocês sabem que o povo ama
violência adora violência; filme sem esse condimento não tem bilheteria. Os
safados no planeta sabem igualmente dessa verdade, o ‘pão e circo’ dos romano,
não é mesmo?
Era, respondi; já estávamos nuns
quatro e os outros nem responderam. O rapaz não se deu por vencido, por isso grudou-me:
--Onde paramos? creio que na
trajetória de maré favorável ao vilão, não é assim? Remorsos? vemo-lo olhando
fortuitamente um túmulo, com sobrenome seu. Nada mais. Outra esposa, mais rica,
e muitas amantes lindas. Metido em cassinos, em tóxicos – tudo percebido
levemente pela plateia; note bem: tudo na forma indireta; daí os sons abafados
e distantes. Nesse ponto...
Foi novamente interrompido pelo Chico.
Pedia a tradução de algo para o inglês, começando a nos falar assim: “não
interrompendo a conversa” e interrompeu. Queria algo inglês, satisfiz-lhe: não
sabia eu de algo e muito menos em inglês, língua que detesto. Servia o francês?
Não servia. Daí lamentei, imitando no jeito a pronúncia do Manoel Português; quando
ia lamentar mais, o falante sujeito magriça não me permitiu:
--Escuta cá – retomou, gozando meu
lusismo atrapalhado – escuta cá, seu gajo desatencioso, as cenas que seguem, as
quais são a coroação da grande montagem que planejo...
Foi então que explodi de vez:
--Que planeja! – falei – não está
narrando filme assistido? vai ainda montar isso? com que dinheiro? nesta terra?
para qual público? quem entenderia? visa lucros? que doido se porá no trabalho
da fita? já pensou na distribuição de filmes nacionais... na propaganda, em...
– não pude completar o que dizia; o rapaz deu-me por resposta:
--XYZ,
734.
Suponho estivesse maluco. Não, ele. Ia
confirmar, porém o magricela já virava a esquina do corredor, tomava o pátio, sumia
na vida.
São Paulo junho
1978
40° Voz do Silêncio
Quem cala, consente. Opinião aceita,
filosofia popular. Nunca a frase foi tão adequada, como ao desafortunado João
Xinfrim. Talvez.
Acabou no hospital sem haver pedido.
Ora, isso não se pede mesmo. Acordou embaralhado, ouvindo mais zumbidos que
sons humanos; cheiro de éter, instrumentos cirúrgicos. Positivamente, ocorrera
consigo um acidente. Não se lembrava onde e quando, até quanto. Irremediável,
porém, que a vítima fosse ele próprio; não restava dúvida: as coisas iam aclareando
e uma dorzinha chata, não sabia onde, aumentava e se localizando quem sabe nos
braços ou noutras partes. Sim, era ele, custava crer, mas era ele.
Na medida em que o tempo passava, as
visitas – como visita é enxerida! – elas contavam entre si os problemas do
desastre, deixavam transparecer veladamente as proporções do problema, os
pormenores do trânsito, papéis burocráticos, opinião do médico, possibilidades
da vítima – ele enfaixado ali e imobilizado – as possibilidades dela ser salva,
algumas lágrimas dos mais íntimos...
Tudo isso sendo um drama. Porém
importava saber que acontecera com ele mesmo, pois sempre tentara sentir o
sofrimento alheio, a atenção lhe fugia, engolida pelas emoções do dia a dia.
Agora o caso era outro. Ele o outro; o caso estava bem mais próximo de si.
Tudo isso já um drama a pensar.
Entretanto nada podia comparar-se à
tortura de não falar. Não poder falar! Logo ele que papagaiava o existente e o
inexistente... Apelidado João Tagarela. Não se importava com o apelido;
importar-se com a opinião dos amigos, que na pior das hipóteses são um público
paciente? nunca. Que falassem (a bem da verdade, exagerados com algum
fundamento; visto ele matracar bem). Que falassem. Falar não dói, não é? Doía
muito a ferida, estaria quebrado? Como fora o acidente? Ia perguntar, estavam
todos ali, quase todos – o malandro do Pedro não viera; quando sarasse cobraria
a ausência. Era só perguntar. Havia um porém, porém doído: não podia falar!
Nada se comparando à tortura de não falar, nada. Decerto uma pancada qualquer,
não se lembrava, teria atingido o cérebro na região ligada ao aparelho fonador;
quem sabe se não houvessem rompido as cordas vocais! O pescoço doía que era uma
miséria; devia ser no pescoço a localização das cordas. E se perdesse a voz
para todo o sempre! Ameaçou um berro contra o presságio horrível, não pôde.
Sentiu como se lhe tivessem tapado a boca, faltou-lhe respiração, a Carmen veio
com um algodão molhado umedecer seus lábios, ele próprio umedeceu os olhos. De
jeito nenhum tinham fechado sua boca de tagarelar, sentia bem os lábios coçados
pelo bigode, o de recolher resíduos no prato de leite com farinha, um “coador
de mosquitos” ah o Pedro tinha cada uma... Sentiu dores: voltou para o trapo em
que virara sua carcaça.
O Antônio. Entrou no quarto, pisando
de leve, o Antônio da Neca, bom sujeito; olhou para o amigo num rabo de olhos;
o indivíduo recebeu cochicho das outras visitas. Parece que estava malzinho.
Quis falar de novo, perguntar todos os porquês do mundo, não pôde, se lembrou
não poder. Daí lhe ocorreu ideia brilhante: escreveria num papel qualquer tudo
o que quisesse, pediria que lhe contassem como é que ele, tão falante e
saudável, virara número na estatística hospitalar. Inclusive ameaçou fazê-lo.
Recebeu por resposta imediata uma dor aguda mal localizada. O braço direito
andava totalmente incontrolável. Teria perdido o braço? Aí já seria demais. Ia
normalmente à igreja, tomava lá umas cervejinhas com o pároco Don Francisco,
ajudava os pobres; nunca Deus iria lhe tomar a língua e os dedos ao mesmo
tempo. Não precisava se apavorar, disse à barriga (provavelmente não tinha botões,
enfaixado qual múmia egípcia). Tudo se arranjando. Era emérito otimista, se bem
que houvesse tropeçado nas pedras da vida várias vezes e rolado no precipício
da vergonha. Continuava, contudo, otimista inveterado. Não poderia perder dois
trunfos básicos. Além do mais era gente, e que ninguém ouvisse – ninguém
poderia mesmo ouvir sua consciência – ele se considerava o João mais
inteligente do planeta. Deveria ter outra forma de comunicação pra dizer o que
sentia aos curiosos e íntimos que chegavam ao leito, olhavam atarantados e
balançavam a cabeça em
desânimo. Como o homem é um ser curioso! Morreriam bilhões,
90% da população mundial, se acabassem com a instituição da curiosidade. Ele
também curioso; com muito mais razão que as visitas, porque a matéria-prima
daquela reunião convocada às pressas. Deveria ter outra forma para se
comunicar.
Havia mais um problemazinho: a bexiga
estava cheia, dando pra notar. Atemorizou-se. O capeta soprou-lhe que... Ih,
isso já era demais. Nessa hora recolheu-se no João Otimista. Agarrou-se,
medroso, à necessidade da comunicação.
Foi quando o Zé encostou-se ao pé da
cama, quase sentado aos seus calcanhares. Palhaço! Pensou espetá-lo com o dedão
afiado, bem no bumbum lá dele. Seria fenomenal. Fenomenal maneira de
comunicação! todavia não deu. Apenas sentiu uma dor horrível e lancinante
naquilo que deveria ser o pé esquerdo. Quando melhorasse, aí sim, daria
pontapés em todos os palhaços, ah se daria. Pensou virar-se, as costas ardiam e
se aqueciam formidavelmente. Não deu. Tinha de aguentar. Olhou os amigos que se
iam. A bexiga veio com más lembranças outra vez, expulsou a bexiga... então agarrou-se
ao último amigo a deixar aquele inferno.
Agora ali só a esposa, dona Cota
gordona assim, a olhar chorosa para ele. As crianças... deduzia que hospital
não é lugar para elas. Gostaria vê-las! Será que sabiam? perguntou à mulher,
com os olhos; ela analfabeta em
olhares. Que fazer? Então sentou-se a cara-metade; cansada da
vigília? teve pena da pena que a senhora tinha dele. Podia vê-la parcialmente,
ele imóvel como um pau. Recebeu na quietude – seria noite? – visitas
desagradáveis no pensamento. Não a dor, ele a dor, prolongamento da dor, amigo
da tortura física. Lembrou-se a companheira um tanto esquecida. Teria pago o
imposto de renda? o aluguel? haveria comunicado seu Juvêncio o patrão? ranzinza
sim o chefe, porém deveria compreender, não iria mandá-lo embora por uma
quebradurinha de nada... Será que era grave!? Começou a ter mais dores, por
todos os lados, um inferno de dores; todas. Quis gritar. Não deu. Doeu mais. E
se dona Cota houvesse esquecido de guardar suas besteiras? escrevia suas
bobices, parecia até doença, não podia se livrar de escrever – e escondia as
bobagens; e se os meninos inventassem de fazer aviõezinhos com seus contos! No
instante se martirizou gostosamente. E se algum curioso tivesse chegado às suas
besteiras e depois andasse falando por aí! bem, se morresse não importava nada
nem o ridículo; ele seria um defunto comportadinho, os vivos que se afomentem...
(disse para si mesmo paracadáver no lugar dum nome feio, herança do tempo de moleque)
Fugiu gulosamente à infância, quebrou, requebrou a todas as vidraças, xingou
dona Filomena de novo, roubou e escondeu cachos de bananas; daí fugiu das dores
no velho imprestável feito múmia gastando a fortuna da família ao bem do
hospital do Dr.Olímpio. No entanto as dores agarraram-no, depuseram o João no
leito cheirando a remédio e desinfetante. Daí a mulherona levantou-se.
De repente, sem explicação aceitável,
depositou as gorduras por cima do coitado. Doeu tudo mais. Ia gritar que estava
machucando. Lembrou-se não poder; sentiu-se cana em moenda... A dor
cresceu além do suportável. Por essa razão deu aquele berro apavorante.
Acordou.
São Paulo dezembro
1978
41° Violência das Menos
Violentas
O
camarada era normal; os adversários, sobretudo os adversários teimosos, não
concordando a dizê-lo comum. Não obstante preparava-se para a vida, se educando
e observando gente ao redor, a melhor estar preparado. Diante do exposto entrou
em mil escolas de artes marciais, antes fazia aqueles exercícios físicos sem
ordem contra a barriga e a moleza. Mas não era suficiente – a vida é uma barra
pesada, dizia. Por isso optar pelas escolas de educação física, aprimoramento
muscular e ginástica controlada. Experimentou boxe jiu-jítsu ‘takaendô’ essas
coisas; experimentou karaokê... não, karaokê não é luta marcial; sim, também
violência que é o pão nosso dos nossos dias: é violência de língua, mormente o
sujeito sendo desafinado, era bem o caso do sujeito. Contudo ninguém vence de
língua inimigos, ainda mais os inimigos fortalhões, ele fracalhãozinho, desse
tipo que faz tudo que mamãe mandar sendo ela supermãe. Ah, uma nota de rodapé
aqui entremeio, ou a gente esquece: antes de entrar na escola de artes marciais
especializada no karaokê, fez o indivíduo um estagiozinho com as lavadeiras –
daí se postou na margem dum rio ainda pouco poluído a observar e aprender enfim
com as mulheres. Bem, aprendeu sim a conversar com as mestras e precisou apartar
algumas delas por briga e desentendimento enquanto falavam sem parar, estando
as mesmas a orientar o educando. Nada obstante trocou o falatório das
lavadeiras pelo karaokê dito, mui mais moderno e quase tão inoperante quanto a
yoga, esta por sem palavra não daria nenhum resultado a prepará-lo à vida; quer
dizer: enfrentar no ringue do viver todos os sólidos inimigos.
Preparado, foi de encontro aos
problemas (leia-se: procurou enfim o inimigo).
Entrou no supermercado ou shopping center ou coisa que o valha,
onde existem à escolha inimigos – ele, fortalhãozinho da mamãe, escolheria é
lógico o mais forte dentre inimigos, a fim de engrandecer e melhor
caracterizar, valorizando mais sua vitória. Logo a avistou...
Pera lá, não seria a concordância ‘o’
referindo-se no caso ao grande inimigo!
Não. Esse errado tá certo. Certa
mulher.. um femeão, daqueles que obrigam a fechar o comércio à passagem; que
matam os machos sem espécie de qualquer espécie só no passarem na rua; enfim
uma de beleza fenomenal! Essa.
Os adversários se pressentiram, se
olharam, se mediram, apalparam suas armas... De um lado um homem com ‘o’
maiúsculo no dizer de mamãe; doutro o adversário, ou seja a mulher mais bonita
do planeta. Tremeram... quer dizer, ele se gelou e após retesou musculaturas; ela?
ela mais interessada na gôndola de cosméticos ou na de chocolates, pra ver se
havia algum diet ou um que não
tivesse ainda experimentado, que fosse chocolate cheiinho de açúcares e
gorduras e favoráveis aos colesteróis. Em suma ela fez de conta não ter visto o
adversário, aquele versado nas artes marciais com cursos e PhD ‘maismente’ de
karaokê (lembrando aqui mais uma vez a terrível arma da língua).
O juiz – talvez sócio do supermercado
ou tão só versado nos conhecimentos marciais e com ampla ficha no boxe – o juiz
fez soar o gongo; apresentou a seguir os contendores. Dum lado a montanha de
músculos, homem comum tido por normal entre os amigos. Doutro Afrodite sem
tirar nem pôr.
Deu
a ordem de início à luta.
Experimentaram-se
os contendores, ficaram se observando, ela parada imperante, ele a andar por
volta dela com pulinhos nada machos a examinar-lhe quem sabe os pontos fracos.
De repente...
De repente a mulherona aplicou-lhe um
belisco, aquelas unhas esmaltadas. Saltou de lado seu adversário. Porém se
descuidou um pouco: lascou no homem uma ‘seiada’ de mão cheia; cambaleou, ele
cambaleou. Ia indo a contendora mais além quando...
O juiz interveio – não admito golpes
baixos!
Retomaram. Mostrou as pernas subiu às
coxas. Ele babou. Ela puxou mais pra cima a saia... o adversário ‘karaokento’ e
com PhD já estava a pedir clemência, enquanto o povo apupava.
O povo, uma criancinha a chorar, as
outras mulheres discutiam preços comparavam folhetos de propaganda e os esposos
consultavam a carteira o cartão de crédito; os carrinhos se enchiam a fazer
crescer as contas e as balofices.
O
juiz determinou a continuação da pugna.
Ele, o do karaokê, quis dirigir
graçolas; ela deu tremenda ‘faceada’ nele, mostrou um palminho lindo lindo, com
olhos verdes batom do colorido visto na tevê e uma boquinha enorme na espessura
da graça. O adversário rolou, ia cair, beijar o chão, grudou-se nas cordas do
ringue.
Ela sorriu ele chorou o juiz
interferiu. Fez sinal de continuidade, tinha pressa, mandou até desligar o
gongo para ser apenas luta de um assalto e acabar logo com o sofrimento do perdedor.
A fêmea sem espécie mostrou os pés
miúdos, piscou num conluio desonesto e então o bruto...
O bruto escarrapachou-se na lona!
Sua senhoria tendeu a contar até 10,
começando pelo último número, a pressa relembrada, ia levantar o braço da
vencedora, o sujeito comum cujos amigos o tinham por normal puxou a barra das
calças do árbitro e assoprou: num tem um jeitinho brasileiro para dar empate!?
A autoridade olhou o fulano a sangrar no solo, vistas roxas empapuçadas, e
olhou igualmente para o adversário (a bem da concordância pra concordar, a
vencedora). Nisso o (a) adversário (a) berrou:
Aqui não tem homem pra mim!
Tomou um espelhinho com borda
redondinha na bolsinha tirada duma bolsona, relampejou aquela joia e concluiu
lá dentro dela mesma ter muitíssima razão.
Marília março
2007
42° O Fim, um
nunca-terminar
É preciso convir não fosse o vizinho
desprovido de razão, aqui se considerando o absoluto nas coisas. A dúvida em
vista ser tão categórico e pichar de burrice quase todos – a si, tirando a si
mesmo da afirmação – todos ou seja o restante bilhões no planeta: pessoas
burras. Assim Lunático da Silva nos considerava, humanos, uma corja de pouca
inteligência ou de muita ingenuidade, credora da crença criada, plantada decerto.
Em exemplo uma ‘burralda’ jovem burra imaginando o fim talvez do mundo, uma
aguinha qualquer, inexpressiva, e alguns trovões e raios; isso o fim! ora o
final não existe. Aliás, insiste Lulu, pouco ou nada se pode afiançar, o acabar
por exemplo.
Era um senhor irreverente à beça e
quase podendo afirmarmos descrente; com certeza descrente nas crenças que temos
por séculos.
Se eu não nasci? óbvio que sim; se
acabarei, óbvio que não. Não tem fim. Mesmo estas linhas, tidas por final de um
punhado de bobagens, não são o término dum livro dum povo dum ‘burrismo’ geral
amplo e irrestrito: tudo prossegue, apesar poder não existir mais a
participação delas, por sinal uns garranchos de mau gosto não menos que a medonha
linguagem... E nos sorriu no estágio superior à nossa inferior qualidade
técnica e estilística. Daí foi que fizemos um buraquinho e assim nos escondemos
envergonhados nele.
Primeiro perguntam se nasci; depois,
se sou Irreverente. Por parte de pai devo deveria ser. Papai não sei quem foi
nem a mãe sabendo. Também Lulu não sou, ora bolas. Nome de cachorro, tem o Lulu
da boa do 44, ela grita o cão burro dia inteiro. Sou Lunático da Silva, Silva
materno e provavelmente Irreverente por parte da parte macha do casal. Depois
descobriram um coleguinha meu que seria um meio-irmão... e papai brigou saiu
fugiu – entretanto não acabou. Nem minha tragédia então se acabara, a mãe veio
depois a saber (e pior eu igualmente soube) que me trocaram na maternidade;
coisa rara pois virou modismo só hoje em dia: eram as parteiras em casa no
trabalho na época. Lulu não, só admito o da boa...
Com tais observações retomamos não a
acidez de Lunático, demonstrada por toda e qualquer abordagem – mas sua tese do
nada ter fim.
Os burros imaginam que tudo tenha
começo meio e fim. Ora não existe fim, portanto nem começo, tido como início
pela inteligência discutível dessa corja que nos cerca. Não tem início. Início
de quê? Tudo é continuação no planeta, o planeta mesmo e os outros vieram dum
estouro esmigalhando o todo numas partículas bem minúsculas, a considerar o
macrocosmo o universo e então...
Deus! Não me interrompam mais, apesar
vamos lá. Não existe; pelo simples fato de existir o antes e o depois de antes.
Outro fato considerável e afim é o de que os povos inventaram mil deuses, um
para cada necessidade humana, burros afirmo reafirmando. Sim porque o que
existindo antes de haver Deus... Olhou-nos desafiador. Tudo e o nada, inclusive
o deus de vocês, se foi criando no autocontato das partes, a dar-nos ideia de
existência, consagrada pelos tempos e tempos amém. Prova! querem mais provas? O
que não vejo o que não sinto o que não sei – pura e simplesmente não existe e
daí para que início ou fim não tendo meio. Entenderam? oh participantes da
tropa de muares.
A mulher? a minha, essa gordona
estufada e lamentadora, burra; prefiro a boa do 44, o vira-lata eu entregaria à
carrocinha pra fazer sabão ficando somente com a boa no lugar da... fiquemos de
bico calado agora que a megera chata vem saber se tomei o remédio; é tão ou
mais burra que o resto, sequer ela nasceu num início e pior: não acabará...
porém calemo-nos um instante.
Mas como o fim! não tem. As coisas os
seres tudo não somem, apenas se transformam e se desfiguram, não desaparecem
nas partes que os compõem; até com possibilidade de melhorar depois a
apresentação e o intrínseco da qualidade que exorna a imagem. Todavia não
acabam.
Daí ela chegou num chep-chep
arrastando chinelos, fungando balofices, e com isso se acabou. Se não o mundo
que não tem fim ao menos a conversa.
Marília abril
2011
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica,
Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso Gráfica,
Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
Nenhum comentário :
Postar um comentário