sábado, 28 de março de 2020

A Chuva e Outras Estórias


0133(postagem no Blog Livros Inéditos)











                      A Chuva e Outras Estórias
                                            (contos)

                                      Moacir Capelini

















moacircapelini@gmail.com



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“Precisamos  ser  indulgentes  com  os  que  erraram – e mais
indulgentes ainda com os que não tiveram a coragem de errar.”        
 Lêdo Ivo
- - -
Defeitos se diluem na calda doce das longas paciências.”      
 Antonio Callado






Índice:

1.A Chuva, página 5
2.O Coronel e o Povo Inventador, pág. 7
3.A Solidão, pág. 10
4.Carta à Posteridade, pág. 14
5.Os Secos os Tímidos os Molhados, pág. 19
6.A Boca Falante, pág. 24
7.As Mãos, pág. 29
8.Banal, pág. 32
9.Palanque, pág. 35
10.O Testamento, pág. 38
11.Leitura Absorta, pág. 42
12.Um Conto Bem Comportado, pág. 48
13.Pamonte, pág. 51
14.Férias da Loucura, pág. 60 
15.Uma Comprovação, pág. 64
16.Inimiga Pública Número Um, pág. 66
17.Descartabilidade em Cena, pág. 70
18.Briga em Família, pág. 74
19.Granduras Negativas, pág. 78
20.Ex-Conto, pág. 81
21.Sequestro do Rei, pág. 84 
22.O Caso dos 10 Negrinhos, pág. 92
23.Revisita, pág. 96
24.Amélia de Nossos Dias, pág. 102
25.Como Foi que Matei Minha Sogra, pág. 106
26.Segunda e Meia Tentativa, pág. 112
27.Covinha, Estria, Cicatriz Não! pág. 117
28.O Frio, pág. 120
29.Tempos de Economia, pág. 122
30.Um Sono Adverso a Todos Acontecimentos, pág. 126
31.O Diário do Dr.Gunnardsson, pág. 130
32.Instinto Indistinto, pág. 136
33.Descrição do Crime Perfeito, pág. 139
34.Um Personagem Crítico, pág. 144
35.Notas de Meu Falecimento, pág. 149
36.Casamento Dentro dos Conformes, pág. 153
37.O Sujeito do Raio X, pág. 156
38.Diálogo em Silêncio, pág. 162
39.O Filme Trágico, pág. 166
40.A Voz do Silêncio, pág. 171
41.Violência das Menos Violenta, pág. 176
42.O Fim, um nunca-terminar, pág. 179







  A Chuva

          Fugira jovem do impacto velho, velho igual o mundo, do rosto do velho, macilento lento no seu não ser ou já sendo – aqueles olhos velhos mortos na pele em cera anunciando o escatológico do sem-volta... Mais ainda, então se lembrava ofegante, mais que o ser fúnebre que um dia vira deitado cadavérico cadáver entre flores, flores a guardar um cheiro que não devia mas era nauseabundo no meio suas quatro velhas quatro velas ou mais de quatro a exalar também odor a dor o choro a lágrima e a ausência de paz, visto a paz não podendo ser representada num velório – e se perguntou: a paz não seria melhor sentida na imagem simples dum cavalo a pastar tranquilo e inocente no terreno baldio! nunca a se ligar a cemitério a festa fúnebre ao choro. O velório era pobre, rico em tristezas e lamentações. Então fugira. Então fugia... quem sabe sem poder, sem ter forças a poder, fraca. Fraca trêmula criatura a pisar descalça naquele chão ensopado a escorrer semelhante mil corregozinhos a enxurrada num acúmulo de mil gotas das lágrimas, agora do céu, as quais não se estancavam; lentas antes e agora indo num crescente de pancadas miúdas a engrossar riachos em rios em mares quem sabe não sabia, apenas a correr fugindo sem pensar e sem ter certeza pra onde. No entanto devera ter vigor na promessa que era sua pouca idade e com muita beleza decerto; ansiava até não mais correr no frio molhado pelo tempo... molhada vencida!? A criatura tendo as vestes a esfriar também molhadas, a chuva nunca satisfeita a lavar o tecido que fora belo e próprio ao talhe de um corpo atrativo certamente aos homens com os quais convivera, mas agora... Grudava-se o pano na pele magra do corpo, no movimento do corpo inclusive. Enquanto isso, a chuva caía impiedosa e marcava aquela vida que fugia da morte e do morto como das flores das lágrimas das velas das velhas carpideiras e no fugir em corrida louca ou desesperada, nessa hora sendo vencida no cansaço que nem o escorregar na lama impedia, agora não mais que andando a passos lentos e a sequer marcar o solo, tendo o tempo talvez desejado apagar pegadas e esconder que vivera jovem a jovem; nesse momento com o corpo num pesar as suas toneladas e se exaurindo, a movimentar não mais que nuns passos trôpegos e ao barulho das lágrimas mansas das nuvens na sua intermitência de choro; e havia não mui longe outro barulho mais nervoso dos trovões que anunciavam distar pouco se não o fim dos tempos ao menos o fim daquela vida já sem interesse na existência, em que pesem as boas e teimosas lembranças das alegrias que se tinham ido... Escurecia mais, mais fosse possível com a chuva aumentando outra vez; somente a perceber vultos das coisas no clarão do relâmpago ou o dos raios porque se acumulando ainda as cargas... E no claro que então se fez, a natureza oferecendo o resto do que fora uma experiência em promessa naquela silhueta no perfil de uma pessoa desamparada e sem norte na noite do dia na semelhança diluviosa; era certa imagem de contornos feminis a se chocar contra a luz nos estardalhaços sonantes a amedrontar todo o universo. Contudo ela já não tendo medo, entregue!? e força para ir para frente, sem forças embora porém caminhando ainda, porque ainda não fora o alvo do clarão da luz em estrondo... que não chegou de todo a ouvir, deixando o narrar da catástrofe e dos estragos materiais e o levantamento de vítimas e prejuízos àqueles que lhe foram antes conviventes, ou não participantes.
Marília   abril  2011

O Coronel e o Povo Inventador              

          Tudo que se tem, passadas a peneira e a peneira do tempo, é a invencionice do povão e as verdades, pois sabe-se o povo é ‘inventador’ . O Coronel berrava ainda mamadeira, a qual naqueles idos era tão só o peito da mãe de leite, geralmente escrava ou criada sem direito nos direitos trabalhistas, estes hoje muito em voga.
          Então já era o povo o povo inventador.
          O pai dele, do Coronel não do povo, sendo o Coronel José, assim de velho, mijando, de pé, no pé, trêmulo, bengala, ainda mui mandão machão pra valer. Cansado viuvar escolheu uma donzela entre as mais bonitas caboclas e se casou com a jovem, sem lua de mel não existindo dessas frescuras na roça; mas vivendo feliz até a felicidade gerar um Coronelzinho, exato aquele a berrar mamadeira de peito emprestado.
          Contudo o Coronel não era de apenas mandar, mais de fazer, era sim, mandava em todo mundo. Porém fazia mais ainda se deslocando para esses mundões a engravidar excelentemente a fortuna; agora a dele a da jovem esposa e principalmente a do filho já meio Coronel com espora e penas, frangote. Só depois viria o Coronel berrar mamadeira não nascera; aquele filho tratado antes era o irmão do filho que ainda não berrava e não precisando mamadeira por não haver nascido.
          O povo que fala, o povo é inventador.
          Com as saídas constantes do Coronel José a aumentar o patrimônio, como por exemplo aumentar as terras a bem dele da mulher jovem bela e do filho frangote de penas e esporas, com isso ficava a esposa tomando conta da propriedade e o filho, este para tomar conta da esposa do pai para que ela tomasse conta da fazenda. A rigor o contrário: ela que tomava conta delinho já esporando. Dava banho, banho de canequinha e bacia aquela molhadeira no chão no tempo não havendo chuveiro mesmo aos ricos, pois isto frescura urbana.
          O povo, que é inventador, que fala.
          Fala que exagerava a virgem, o Coronel bastantinho velho de bengala e fazendo xixi a tremer no próprio pé; a donzela exagerava no banho dele, esporinha, às vezes precisava ficar nua a lavar o nuzinho para não molhar o vestido, daqueles rodados até ao pé como convinha à moral. Depois enxugava o filho do Coronel e o protegia na cama para não ficar tremendo ele, mas de frio, não como tremer o pai de bengala.
          Ela protegia assim o frangote, diz o povo inventador.
          Aí voltava o Coronel, já aumentado o patrimônio. O patrimônio foi aumentado ainda mais quando a virgem anunciou a gravidez ao Coronel, ela não mais donzela, se é que o povo inventador não inventou.
          Uma felicidade geral da nação a vinda do primogênito dela (o Coronel já tendo o seu; empenado e de espora) deles, rezava o registro de batismo trazido pelo Padre João vindo dizer missa na capela da fazenda.
          Agora, na época, o povo inventador dizia que o Coronelzinho a berrar peito emprestado da mamadeira era filho do filho;  encurtando,  o irmão era pai pra ser também irmão do irmão cheio de dedos a berrar mamadeira, todos – a mãe o filho do filho que era filho da mãe e o pai do filho que era filho do pai – todos devendo obediência ao garanhão Coronel, o que saía outra e outras vezes a ampliar o patrimônio da família.
          Isso conforme o povo inventador.
          Que inventou que a bengala foi também posta no caixão do Coronel José, sem precisar agora mijar de pé no pé; nem aumentar o patrimônio, já enorme, com reclamações à boca pequena dos ex-fazendeiros nas imediações. Da silva já mortinho da silva.
          Mas o povo é inventador.
          Aí, diz ele, ficaram os três. A madrasta, o órfão empenando esporas e o órfãozinho da mamadeira, a depois herdar não a mamadeira.
          A mãe adotiva das penas e esporas, muito jovem e bela, mãe biológica do herdeiro, apreciava muito ouvir missa e o Padre João em dizê-la. O pai do irmão, já mais empenado, saiu de esporas a aumentar o patrimônio, enciumado. Sem que ninguém pudesse contar como tomara banho pelas mãos madrastas, pois à criada de bons olhos o antigo Coronel havia cortado sua língua. Assim voltou pra casa o filho do pai que o povo inventador dizia que era o pai do filho, voltou mais enciumado e – sendo sua vez a cortar – cortou ao padre não a língua própria a dizer missa e talvez por dizer mais que missa à Madrasta. Dessa forma, caso não haja exagero no povo inventador, dessa forma ficou mais tranquilo a viajar aumentando o patrimônio.
          Enquanto o filho do irmão crescia com tanta mamadeira, o irmão do filho pai do filho gastava o patrimônio da família com bebidas farras e mulheres, visto não ter preferência apenas por madrastas e já sabia tomar banho de canequinha por conta própria não molhando mais o chão. Somente não aprendera a tomar conta de si mesmo.
          Diz isso e mais o povo inventador.
          Também que não sabendo tomar conta (agora nem o Padre João sabendo tomar conta da mãe do filho a berrar mamadeira) não sabendo a conta, tomaram o governo e os outros fazendeiros,  conta do patrimônio. Nem o irmão do filho nem o pai do filho e muito menos a mãe o padre e o Coronel já nessa altura não berrando mamadeira – puderam evitar que matassem o primogênito, não da madrasta, o primogênito do antigo Coronel sabedor a fazer xixi no pé. Mataram-no por aí nas farras.
          Deixando o órfão de pai outra vez órfão de pai. Deixando sim elinho, agora adulto sem berrar mamadeira só berrando os ladrões que lhe roubaram o patrimônio. Embora um Coronel.
          Diz assim. Ora, o povo é inventador.
 Marília    julho  2004                       



A Solidão

                                             Ninguém queira mais que dominar o coração.
                                            Conquista vitória alegria projeção?
                                            Quem pode ser mais, mais que um na multidão!
         
          Desde os tempos dos tempos que tempo faz o Universo se equilibra, equilibra o Sol no equilíbrio, se desequilibra ele no definhar, por milênios que são segundos dos tempos. Vênus assinzinho pareou nestes dias entre nós e o Sol, a dar show de grandeza na insignificância da ‘desaparecença’. E julgamos nosso Planeta extremamente volumoso... pouco mais que Vênus. E a Estrela que nos ilumina, enorme nessa comparação, não passa ela de quase invisível na sua insignificância medida em anos-luz; a tanto que no lonjão dos maiores sóis já desaparecidos e que nos oferecem hoje seu lume ainda, dessas lonjuras anos-luz, impossível a nossos termos terrenos perceber sequer a existência do Sol, o qual também morrerá.
          Parece que o Sol, qual ilumina vida a tantas vidas, parece também ele a sofrer a solidão. Como o insignificante ser humano, como quaisquer outros seres, estes sem ilusões; pois nós temos de sobra ilusão. Não obstante, a rigor, na análise seca e sem sabor dos números e das coisas, não obstante cada um é um. É só.
         
       Figuro, para defender a tese, um personagem; o qual não é melhor nem mais provável que o provável incerto e criado ou existente. Vivo ou ‘vivo’, por mais ‘vivo’ no mal sentido – ainda assim só possui de seu a ilusão, a imagem, até a figura do ser. Mas não é de fato.
          Estas tergiversações foram escritas para mostrar a inconsistência, inconsistência inclusive na linguagem. A linguagem também desfigura o ser; foge do ser ou o afugenta. A linguagem é o arremedo do ser. Contudo o ser pensa e sabe existir. Como existe! esta a questão.
          Não pretendo resolver a questão. Apenas figurar o personagem; aos poucos e nas oportunidades flagrantes quero tratar a questão. Existe? Como? Quais seus conflitos para ser; e sobretudo aqui defender a ideia da solidão humana; se não em todos – e só podemos falar em nosso nome – em mim.
          Figuro João; Zé Tonho Pedro e o mais; e Joana Zefa Tonica Pedrina e o mais mais feminino possível, lindo de morrer; depois a lógica da criança, linda pra viver. 

       Pobre do João.
          Apesar, rico à beça. Saúde mocidade amizades créditos e crédito no débito: só deve quem merece crédito. Na ocasião, que é no século passado, não tinham criado o SPC porém existia cheque protestado a todo gosto. Não em nome de João. Naturalmente já haviam posto na circulação os meios corruptores, sem atingir, por atingir por tabela, o João. O João era na época, prosseguindo até o cemitério antes o velório com flores e piadas, antes ainda a hospitalização, entremeio a morte e o choro, este ilusão do sentir, provado pelo esquecimento das pessoas ‘ficantes’, era enfim na época um ótimo pequeno-burguês, louquinho a viver de expedientes. O que dava a sustentar os seus e a satisfazer suas ilusões mundanas: cinema, livro, churrasco, viagens curtas.

         
           Porém a mundanice passa.
          A ilusão das coisas passa.
          Sobra muito João, após o muito passar.

         
          Cinquentão o João, bom, bobalhão? ilusão, ilusão de conquista. Tem casa, tem fuga – fugiu da cidade grande desumana, transforma o homem em número coisifica as coisas, violenta o pensar. Enfim não era vida a vida, João pensa nos termos de família: iria estragar os seus! Foi para a cidade-grande numa fuga, da cidade-grande-maior para a cidade-grande-menor e aí complicou. Perdeu a perda. Primeiro brigou briguento; depois ficou sem mulher; depois do depois sem os filhos, filhos escorrem como água entre dedos; e além do mais não existe propriedade de prole. Realmente o que não existe é a propriedade. Neste caso o João pesou pensou assim: os defuntos me dão o confirmar, pois nem a terra do cemitério é deles, ela que os tem. A propriedade é pra deixar à propriedade dos outros que ficam, os quais por sua vez não a têm, terão que deixá-la aos vermes. Portanto a propriedade é ilusão.
          Contudo, quer dizer, apesar dessa conversa-fiada toda, trocando em miúdos o João encontrava-se sozinho.
          Ora bolas, que desse a volta por cima recomeçasse. Nem todos sós são capazes de recomeçar – ou seja: retomar a ilusão. Porque isto se consuma, pensam, numa nova ilusão (ou nova desilusão). Era enfim ótimo a ‘pessimismar’.
          Um dia (ora, qual dia...) aí estava a procurar outras ilusões, iludido fosse encontrá-las no casório, nas vias públicas, entremeio o povão adoidado a comprar ir e vir se encontrar desencontrar-se esbarrando no mais – ao João no menos na sua ‘otimismação’. Cansou. Deixou casas ruas gentes esbarrões confusões ilusões de sua ilusão. Chorou.
          O João está perdido no meio da multidão, o movimento aloucado do comprar do ver do festivo ao sol e às cores; e chora. Amarga suas lágrimas, as quais grávidas do seu sofrer interno vão à luz brilhar nos raios festivos, igual à criancinha e era um velho, não sabendo ser já velho!
          Mas que ridículo! um velhote a chorar no centro de sua cidade-grande-pequena. Que fazer?
          Enxugar a água vertida dos olhos cansados...

     Agora o João se muda para nova cidade-grande-menor-que-a-pequena. E é grande. Se pensa grande na pequena.
          Anda vê corre observa pergunta responde planeja. Todavia afunda.
          Está em plena vitória da ilusão, a ilusão que é uma linda tapeação do existir.
          Aí anda vê não corre não observa não indaga, responde com má vontade. Não planeja. Resiste pra não afundar mais. Submerge, nada ao nada. Não tem ilusão, tivesse.
          Despoja-se.
          Acerca-se, se acerca de si. Então responde. Há sim a multidão.
          O João está só, ilha coalhada de multidão por todos lados. Já pode otimismar; mas só consegue pessimismar.
Marília   junho  2004
                                                          
         


Carta à Posteridade                

          Meu caro Leitor, não pense Você ter vindo ao planeta Terra a turismo. Veio em missão, se menos ruizinho como pagamento; e a sofrer depurando-se caso ruizinho mesmo. Nesta apaixonante opção vou ajudá-lo (a quitar sua patifaria nos milênios que antecedem este! não:) ajudá-lo um pouquinho que seja a sofrer. Começo nem entrando no mérito do seu demérito, ou seja: não vasculharei o emaranhado de seus erros e fracassos, muito menos por minha curiosidade mais por minha incapacidade em saber. Contribuirei à limpeza de suas faltas escrevendo esta Carta. Lê-la, uma ótima expiação. Siga-me no que devo dizer-lhe.
          Pode, antes de mais nada, olhar lá fora. Verá o que vejo – a chuva às escâncaras. Promessa dos vários serviços de meteorologia, conforme todas as emissoras de TV ontem à noite. As quais diziam mostravam afiançavam demarcavam provavam a pés juntas que faria hoje nesta região do Planeta um solão de rachar; inaugurando por fim a estação do frio e da seca. Chove pra ninguém botar defeito, corisca trovoa barulha barulhando os filetes de água a vir lá de cima.  ¡Creio me permita pôr ponto de exclamação invertido a anteceder a frase a qual concluirei com admiração por conta própria; e o ponto de exclamação sendo a configurar minha estranheza (que faço sua também se lhe ficar adequado e for do seu agrado) sim minha estranheza minha indignação – até pensando entrar eu com uma reclamação no Procon contra os sistemas televisivos que afirmam pra negar as coisas do tempo, isso fazendo tempo! ! Viu que reforcei pondo mais um sinal de exclamação a confirmar o que falei.
          Mas que mesmo falei?
          Ah sim, o tempo com tempo às avessas do previsto na telinha: sol, chove.
          O que foi mais que disse até neste ponto? Tudo não importa, importa seu ‘des-sofrer’ ou melhorzinho: abater com o sofrimento na leitura desta Carta um pouco do excesso de velocidade que Você cometeu nas outras reencarnações milênios até aqui fazendo besteiras. Agora estamos entendidos?
          Sim. Não. Não aceitei seu entendimento, veja bem, não aceitei. Antes devo dizer que está escancarada uma chuva impressionante como falei, aqui. Aí, onde Você está lendo no mesmo instante esta Carta à Posteridade, que Você, Leitor, representa, pode tão só andar um sol de arrebentar o solo... Pode eu digo e pode que esteja chovendo a cântaros como aqui; não pode? E pode que Você, cioso do conhecimento e do absoluto (como deve ter sido cioso e absoluto quando pecou por estes últimos três milênios e tempos e tempos antes dos três últimos) pode sim que Você haja olhado a tevê e a tevê prometido chuva e mais chuva e Você de boca aberta vendo o solão que tá aí, pra ninguém botar também defeito. Não é? Estará com raiva – ipsis litteris com raiva – por haver comprado um morcegão, que é um guarda-chuva, contra chuva prometida na TV acreditando como eu no sol que prometera ela e veio a chuva, a Você sol de queimar. Não é mesmo? Ah...
          Este ‘ah’ do outro período serve ao seguinte: e se nós trocássemos – Você vem pra cá com seu morcego aberto na minha chuva braba; eu vou para aí gozar o solão prometido ‘praqui’ pela televisão. Não é uma boa? pois que enganaríamos (aqui nosso conspirar) a TV o Procon e, isto o melhor ainda: tapearíamos a nós mesmos! Façamos então este acordo.
          De acordo? Acordo com quê! Sugiro leia, releia, esta Carta até neste ponto em que está da leitura a saber aquilo que se propõe, melhor direi – eu proponho. Você tão só anda lendo a Carta a economizar no gasto com o gasto no tempo a fim de pagar suas dívidas, que presumo grandinhas. Estará lembrado que, lendo-me, abate um pouco sofrendo bastante menos no todo para que veio sofrer. Nisto proponho acordo ou assentimento. Prossigamos?
          Onde paramos? Oh não chegamos parar – acuso o Leitor a tentar me confundir embananar-me na arte da escrita. Vou de novo ao Procon, agora contra seus ardis e artimanhas mais. Retiro o que disse do que falei por não ter dito, dito agora! Mas...
          Contudo não quero comprar briga; desejo antes de mais nada ajudá-lo abater suas faltas na coleção que trouxe de faltas milenares fazendo faltas provocando impedimento ferindo os adversários xingando, baixo pra não ganhar cartão amarelo primeiro cartão vermelho depois, xingando a pobrezinha mãe do juiz da partida e – isto o pior: não marcando gol! Perneta, acuso Você, Leitor, como perneta consumado no campeonato da Vida. Ainda bem que existo.
          Sim. Não fosse eu, a fazê-lo sofrer um pouco muito nesta leitura de Carta a si dirigida, como representante da Posteridade; não fosse eu, seu pagamento a perder de vista andaria lá pelas alturas e sabe-se lá a que montante chegariam os juros!
          Não. Não precisa agradecer. Ou não seria eu digno de ajudá-lo, escrevendo a si a Carta, para ajudá-lo sim no abatimento de suas insignificantes faltas.
          Não. Convenhamos: uma coleção razoável de faltas; a que num futuro imprevisível, o futuro tem dessas gracinhas em ser imprevisível, num futuro enfim a dita Coleção venha a ser leiloada, dando um lucro supimpa à Casa Cristhie ou Southey sei lá e isso não importa – o pagador de penas abatidas na leitura da Carta, esta Carta à Posteridade, o pagador já não estará nem aqui pra saber reclamar talvez, talvez indo reclamar ao Procon que houver na época (leia-se ‘futuro imprevisível’) reclamar justa, ou injustamente, contra os leiloeiros.
          Isto posto, vou almoçar primeiro, ou não sai o resto da Carta a Você, Você ficando impossibilitado de abater partezinha do sofrer que teria a sofrer pagando dívidas, ó seu safado e mal pagador!
          Isto posto, prossigamos. O prosseguimento se dando em virtude eu ter comido engolido deglutido meu caldo com sólidos nadando no prato entre as expressões ‘almoço primeiro’ e ‘isto posto’, o segundo ‘isto posto’ desta singela Carta ao Leitor, Você, agora – prossigamos agora.
          Antesinho vou reler ou me esqueço do esquecimento da lembrança do que escrevi, se é que não me sumiu; Você, interessado no abater pecados que vêm valorosamente colecionando nestes últimos milênios dos milênios, já consciente; pois anteriormente não pensava mais que uma barata (credo! que nojo!) sim, caso não haja sumido com as linhas que redigi nesta Carta a Você, exatinho a ajudá-lo pagar num sofrimento lendo pra não ter que sofrer doutra forma (mesmo porque não se livra em pagar, olho por olho, o olho que furou antes dos milênios incontáveis). Entendido. Desejo eu auxiliá-lo! Vou então reler.
          Reli. Me revoltei, jogando com revolta pecando no pagar depois mas não sendo da conta do Leitor pois interessa ao seu egoísmo abater a própria não a minha dívida. Todavia me revoltei ou me indignei ao menos pelo fato seguinte: já camelei um bocado, sofri pacas escrevendo a lhe encher o saco para ajudá-lo a diminuir a dívida que Você, Leitor, provocou e me deparo com a situação a ser agora esclarecida.
          Dois pontos ¿me dá licença em fazer a la espanhola meu ponto de interrogação plantar bananeira; sim, quando a pergunta é longa melhor preparar o Leitor, no caso um individado querendo pagar suas penas sofrendo bastante a diminuir com a ‘sofrência’ na leitura desta Carta, a dívida enorme que contraiu milênios passados noutras fracassadas reencarnações. Aí me peguei eu, euzinho da silva, eu mesmo pagando minhas dívidas escrevendo isto. Pode uma coisa dessas? (aqui o ponto de interrogação normal na língua gráfica portuguesa bem brasileira).
          Que devo fazer agora: desistir de ajudar o Leitor pagar a sua... Ou descobrir que, pagando eu a minha, escrevendo – descobrir de verdade dever, eu dever, ter enfim mais faltas mais milênios ainda. Que as suas os seus, Leitor...
Marília   junho  2004                         

Os Secos os Tímidos os Molhados

          Aquele menino do início da década de quarenta não sabia a continuação do tempo nem entendendo dos quarenta sequer de números. Aliás, sem abusar da verdade, desconhecendo também não apenas todos algarismos mas as letras todas. Não obstante a timidez doentia quase aceita nos padrões duma criança pobre, não obstante sentia uma atração pelos escritos que observava, inclusive pelo dístico na fronte do armazém do tio. Letras garrafais, letras miúdas no diário de escrituração ali presente naquela contabilidadezinha mambembe, a qual sendo paixão do tio; o sobrinho apenas assistente ali; não o assistente que ajuda e por vezes escreve em anotações que depois ninguém a conseguir decifrar, pois o tio tendo queda à ordem e com boa caligrafia grafava bonito, aos olhos do pequeno letra bonita. Contudo era assistente por ver e observar aquele trabalho belo e mesmo fascinante. Opinião infantil.
          Então ele chegara muitas vezes de passagem flagrando tais registros, agora não: andava de castigo... É que os seus haviam saído, o pai na labuta nem se pensava na sua presença; a mãe decerto em compras talvez nas coisas do enxoval do irmão que viria e daí aquela barriga imensa, embora desconhecesse na sua idade esses enigmas e havendo os tabus na família. Ou que ela pela gravidez houvesse ido ao médico, entre os pouquíssimos na urbe nascente; de maneira que o menino se encontrava no centro urbano onde se supõe a riqueza o luxo e todo bem-estar que as classes favorecidas desfrutam e apesar disso vicejava a pobreza remediada no local, o pobre pobre mesmo quase miserável naquela frente paulista da época, essa pobreza afugentada ou na periferia ou nas imediações do município de ruas descalças e muito vento e muita poeira e muito barro. Mas por que de castigo.
          Ninguém estabelecera punição. Esta viera dos excessos na timidez e pela ausência dos seus, o garoto longe de casa, embora numa cidade pequena só haja perto; enfim não estava no seu domicílio porém na casa de comércio do tio, os tios residindo nos fundos do empório de secos e molhados, o empório o comum nesse tempo. Vivia um pouco nos choramingos, mais por dentro que por fora, fora a secura a ferocidade e inospitalidade do ambiente, isto em razão da fama de inflexibilidade no parente; era preciso ser forte e obedecer as instruções maternas: não faça isso e aquilo na casa dos outros, obedeça sua tia e essas coisas que se diz a amedrontar educandos; a tia um pouco secarrona e de cara fechada no entanto boa senhora. “Vossa mãe já vem logo” dizia à aflição do rapazinho. O tio ainda mais fechado desejando ser visto por chefe honrado poderoso forte macho, como o rigor do tempo exigia. Enfim a corda, a parte mais fraca, estava em mãos trêmulas da criança. De maneira que nem precisando o não mexa ali, não ponha a mão aqui, se fizer isto ou aquilo contarei à sua mãe, a tia pronunciando “vossa” numa linguagem também esta desconhecida ao menos não a usual. Aliás mamãe recomendara ao casal parente muito palmadas e cintadas na traseira, o que todo mundo na época e lugar achando correto...
          Com tais ameaços e o exíguo cabedal de conhecimento e de coragem, próprio dos tímidos e mais às crianças desse jeito educadas, assim o moleque não faria mesmo artes, fosse arteiro e moleque de rua, sendo somente menino um pouco contido e caipirinha como o apostrofavam.
          Vestia calças curtas desbotadas, era sardento semelhante muitos descendentes de italianos; não tinha suspensórios daqueles de elástico mui comuns e sim tiras de pano à guisa de alças. Usava para sair de casa sandálias feitas rudemente e sem qualquer acabamento artístico, montadas com restos de pneumáticos, mais baratos – o que distinguindo sua condição pois os outros a passeio usando sapatos fechados às vezes lustrados de couro. Enfim tudo ajudando negativamente na sua timidez.
          A tia nas suas lides domésticas, parece que havia um priminho ainda não falante e de chupeta; pouco lhe dando atenção. O tio lá na sua altura, esquisito, de cenho carregado diante dele e a fazer pose ou só provar sua posição enquanto a falar menos brabo com seus fregueses ali barulhando perto; o tio olhando mais em soslaio àquele pingo magro pobre de gente. Assim mesmo aproveitava enquanto a tomar qualquer coisa na escrivaninha onde o castigo e nisso a olhá-lo ralhar consigo ou abertamente a proibir mexer sobretudo na documentação que apinhava a mesa. Enquanto isso o menino ouvia os fregueses do tio no estabelecimento falarem, a falar falar falar, primeiro firme depois grosso gosmento e mole. De longe o garoto escutava aquele barulhar desde seu silêncio, aumentado pelas horas em vigília no castigo, ali ao lado da escrivaninha, constrangido e na ânsia com a demora da mãe.
          No entanto o que mais feriu sua curiosidade e até seu sonhar como diante de imagem sagrada – foi a escrivaninha, que os tios tanto um quanto a outra pronunciando “iscrivania”, sem qualquer importância o desastre ortográfico ao visitante. O móvel é que o fascinava de fato, não os papéis os cadernos e livros e mesmo objetos desconhecidos como o mata-borrão a caneta de pau com pena metálica que vira o tio usar, aquele negócio de molhar a ponta no tinteiro cheiroso preto e depois espichar a letra na folha, o que poderia ser em grego ou não entretanto grego aos seus olhos analfabetos, tudo interessante curioso pra si; aliás nunca fora a uma escola, quase nem aos ricaços havendo vaga. Dessa forma ficou no seu ‘matar tempo’ no tempo observando e mesmo catalogando na imaginação os objetos em cima esparramados. A rigor na ordem classificados e esparramados e também em ordem, seguros com grampos de mola usados lustrosos; ou prendidos por pesos, não apenas contra o vento, a urbe era vítima de ventanias frequentes, ali naquele entremeio na casa dos tios e a casa de secos & molhados não ventava ou somente o suficiente a depositar detritos que se depositavam por cima de todos objetos e folhas com letra tremida uniforme e com certa beleza pelo secarrão tio.
          As horas mostraram ao garoto as letrinhas que ele desconhecia mas também mil novidades, novidades para aquele mundinho desconhecido andante e tímido.
          Percebeu o móvel grandalhão, enorme à sua ‘pequenura’ de gente; sua feitura nunca vista (o menino roceiro sequer havia visto por dentro uma casa urbana nem os lares ricos, ricos pra si). Era como certa mesa descomunal, tendo uma cobertura de peças cilíndricas de madeira, acoplados e móveis, a qual em puxando sobre, fechava a dita mesa; e pressionada para cima descobrindo a mesa. Isso foi uma descoberta e tanto a ele. Embaixo os quatro pés e entremeio quatro gavetas com seus puxadores, tudo de madeira lustrosa envernizada e cheirosa a lhe arder as narinas. Em cima da mesa, no plano horizontal, a mesa propriamente onde objetos e mil objetinhos, uma riqueza ao conhecimento de um bom ignorante, embora ainda criança e criança sempre uma promessa sobretudo a dominar tais conhecimentos. O que não só permitiu ocupação de tempo, ocupação como por exemplo não ter que pensar em mamãe nem estar num ambiente se não feroz ao menos hostil e contrário às fantasias que os seres experimentam. No entanto o que não apenas permitindo a distração mas a revirar sua curiosidade de aprendiz foram os cinzeiros. O tio possuindo vários, fumante inveterado quase sempre baforando o tabaco por toda passagem ora a gritar a tia ora a pegar suas coisas ali, anotar por exemplo. Dois cinzeiros entretanto atraíram mais: uma vaca como que desmanchada e prensada de metal brilhante em cujo bojo dormiam tocos de cigarro e cinzas; igual ou semelhantemente no segundo, que era fisicamente um pneu. O menino não suportando a atração: tomou o objeto, inclusive derrubando cinzas e tocos nos papéis do tio, se não ato corajoso pelo menos atrevido nos esquecimentos da ordem e das ordens recebidas; que facilmente umas nádegas possam aceitar como consequência talvez e não como correção; porém ao instinto e às tendências das crianças quem sabe não sejam intoleráveis... O menino manuseou cheirou a borracha de verdade, experimentou o cinzeiro colocado de pé como deve um pneu que se preze ficar – aí já sonhando como fosse mesmo um carro, daqueles fordecos antigos não antigos na época apenas velhos. Daí correu varou estradas cruzou ruas fonfonou nas esquinas cavalos carroças carroceiros e até...
          Ah, aí voltou o parente a deixar ser babá de bebuns para pilhar o mexilão.
          Ainda gastava suas forças e seu poder no falatório, o qual aprecia antecipar surras homéricas e outrinhas torturas; quando acordou o menino, no exato momento em que abalroava uma indevida ‘ramona’ ou carroça ou dupla de éguas ou mesmo no frear a tempo na passagem duma tropa ou boiada pela avenida, ouvia inclusive os sons do gado os gritos do boiadeiro... Nisso olhou aterrorizado para cima constatando um parente brabo cobrador de voz fanhosa grave e de olhar feroz a observar indignado o choferinho afoito...
          Aí fez beiço, extravasou sentimento, chorou abertamente. E será que mamãe não voltava!
Marília   fevereiro  2010




A Boca Falante               

          Muito boa essa. Como poderia uma boca não falante! boca foi feita a falar; a beijar a fazer biquinho e beicinho e até para uso de rogar praga; não só para falar falando normalmente. Não se assustar portanto; portanto assustar-se convenientemente pois temos um exemplo flagrante de boca que não fala! A minha não fala. Contudo sou apenas ouvidos e a minha boca serve para decoração, mera decoração. O que me categoriza a falar dessa Boca Falante do título; sabe-se a sobejo que os contrários se entendem por desentender. Assim nasce o direito de crítica e nos autoeducamos. Decerto não acha certo a assertiva; mas garanto – porque somos contrários. É isso.
          Era isso. Ela andava ali atrás no banco de trás do ônibus andando. Melhormente correndo; até pensava que estivesse dopado com ‘arrebite’ (eles chamam arrebite os troços que tomam para só cochilarem ao volante e não dormir) não o coletivo, é visto, o chauffer do veículo. Tanto assim me segurava naquelas guardinhas do lado postas a apoiar cotovelos; grudava ferozmente os dedos crispados, tanto tanto que precisava fazia tempo fazer xixi, mesmo levando em conta os solavancos da traseira, a ponto tal que por vezes a gente erra o buraco e ‘fedora’ o líquido no chão – precisava premente urinar porém não saía da poltrona, segurandinho nas guardas para apoiar cotovelos. Um pouco assustado. Um pouco muito sem confiança no motorista ouvindo lá na cabine som em ‘caipirês’ ao lado seu volante. Isso.
          No entanto não deixava de ouvi-la; seria em função do temor à corrida do veículo! O fato é que não podendo livrar-me escutar a Boca Falante, que supus chamar-se Dona Maria e não devendo estar no erro demasiado: 90% das mulheres são marias; as mulheres do povo. Ah me esqueci, hoje não tem mais Maria, hoje são nomes estrangeiros de artistas que se usa, a minha Maria podia sê-lo, pois da velha geração. Vamos para frente. Não deixava de ouvi-la, contudo ela não me falava, falava a uma senhorita sentenciada a seu lado. Talvez alma gêmea aqui do ouvidor, não falei que sou apenas ouvidos? Ela, a senhorita, respondia “sim” “como” “ahn” essas coisas que dizemos quando nada falamos, para que outros nos metralhem seus dramas e aventuras. Ela, a Dona Maria, tomava por consentimento o assentimento e continuava a fustigar a outra, a nós também por tabela; a saber: o todo-ouvidos aqui e a garota sentada no banco ao meu lado e que lia, não me dando oportunidade concluir se gostava ou não da leitura por não rir não chorar não mostrar expressão alguma (e como pode tal! alguém que não manifeste o que lê; não importa agora, agora só Maria). Falava falava, vez por outra tomando fôlego porque ninguém terá língua de ferro, respirava, continuava a falar. Assim desfiou seu ser seu não ser.
          Os filhos, felizmente contei bem meia dúzia deles; e se fosse uma dúzia como o antigamente do antigamente em que surgira aquela ninhada! Isso porque Maria falou cada coisinha de um por um: o nascer, o crescer, vacina, disciplina, namoro como se demorou no namoro! casamento à moda de antes com noivado pedido cerimônia e casório no padre e no cartório (não entrou nas indisposições conjugais ou por não saber mesmo ou mesmo para escondê-las, na boa política de família) e da gravidez, o abortozinho pela queda da filhinha da filha, neta portanto; ih os netinhos! Enfileirou. Não se esqueceu dos dramas dos seus: estudos, nos quais ressaltou os feitos do primogênito, as notas obtidas, os cursos, as amizades – ah que horror! Eu me horrorizo com santidades e perfeições, quase interferi indagando coisas à Maria. Não o fiz; fiz bem, tem um ditado que fala: o feitiço vira contra o feiticeiro (ela poderia se voltar para meus excelentes ouvidos deixando os da companheira dela...) Portanto fiz bem.
          Bem postas estas considerações, não me arrisquei não, continuei a ouvir Maria. Melhor dito ‘continuamos’ mas a companheira, a minha companheira ao lado, não me autorizou o dissesse, visto embicada na leitura talvez nem ouvisse sequer minha respiração ofegante, que dirá o gritar de Maria.
          Sim porque ela falava, sem parar falava, num tom alto em voz monótona e incidente. Pobres orelhas! pobres orelhas minhas a escutar tantos feitos duma família perfeita. Ah interessante: agora me lembro um dado positivo da senhora – ela falava matracava sobre todos, inclusive deu uma bicadinha no esposo a dizer que aceitara o encargo dado pelo fazendeiro para olhar-lhe as terras, podendo plantar uma roça; essa bicadinha; no entanto não falou sobre sua própria pessoa, ela a Maria, seus feitos! não é espantoso e estapafúrdio! Acho estapafúrdio porque o que mais se fala quando se fala no mundo é a respeito de si mesmo; existe um egocentrismo, quando não abertamente egoísmo. A Maria falava nos filhos nos amigos dos filhos nos adversários dos filhos nos parentes dos filhos, um por um dos filhos, e mais detidamente ainda na sua fixação sentimental: o primogênito. E tome informes e tome dramas e tome vitoriazinhas dos familiares! Minhas infelizes orelhas já andavam amortecidas tadinhas, ela Dona Amélia continuava a falar a falar a falar sem tréguas.
          Como foi que disse? Sim era Maria, continuava Maria. É que resolveu uma vez, ela falou que resolveu, fazer uma limpeza em regra na casa das filhas e na casa da nora que ela adorava como filha; ainda por cima deixou tudo pronto – comida e roupa, roupa lavada passada dobrada guardada cheirada e cheirosa – para quando o pessoal voltasse da Festa de São (que diabo! não me lembro o Santo). Eu pensando ouvessem matado a última das amélias do planeta, tava aí uma de plantão a Maria como Amélia, a mulher de verdade, todos sabem.
          Assim a senhora atrás de mim fustigando a companheira de viagem me fustigava também na sua limpeza nos trecos familiais. Tomou as roupas peça por peça dobradas num baú e numa cômoda daquelas antigonas de madeira maciça. “Ela faz – ela disse – faz conjuntinhos que só vendo!” Ora, aí está uma de minhas fraquezas humanas: não sei descrever roupas. Mas ela descreveu as mesmas tim-tim por tim-tim, a misturar tudo no meu pobre cérebro: tamanho tipo largura contextura peso tecido padrão e mais uns negócios que não sei bem se é crochê ou tricô. Mesmo eu conhecesse o artigo, após horas ouvindo o falar... fatalmente me perderia nesse continente, onde reconheço não sou forte. Entremeio Maria interpôs preços custos gastos, um dos conjuntinhos saíra por quatrocentos e cinquenta reais. É muito? é pouco? desconheço. Desconheço seus recursos financeiros e também desconheço os lances de sua aposentadoria.
          Oh a santa aposentadoria!
          Sim porque iniciou o contar – para minha inteira alegria – as coisas os meandros os dados os documentos comprobatórios para a sua e antes a do velho, seu esposo (nisto como fiquei apavorado ao ocorrer-me que pudesse quando ela jovem bela haver-se casado comigo, francamente morri de medo! e depois me senti encantado não ter caído na armadilha de padres e juízes). Todavia me alegrei a pensar que estivesse aí o início do fim da matracação dessa Maria, porque sabemos a aposentadoria é o fim, perto do fim do fim que é o falecer. Por isso me alegrei. A bem da verdade indevidamente. Sim, ela aí mais se entusiasmou...
          Pensa que fiquei a ouvir a Maria Aposentada?
          Foi nessa altura que arranjei um pretexto à jovem que lia do meu lado (quem sabe a fugir da Maria!) porque é chato deixar alguém, parecença com repúdio, é má educação acho. Por isso meu pretexto foi o sol de nossa banda queimando queimante e abrasante. Fui-me para outro lado no ônibus que não mais corria voava, bem longe de todas marias, mesmo aquelas travestidas de amélias, que são, falam por aí, mulheres que nos dão grandes saudades.
Marília   fevereiro  2002                      





As Mãos                           

          Nunca me ocorrera tal situação. E confesso não ter queda para açougueiro... Nem me ocorrera igualmente um castigo daquele, pior que o dente por dente. Seu Noninho era bem disso; e mais talvez! A carne estava vermelha, meio descolorida, o sangue escorria ressecado já, preto e duro, em filamentos de dor. Nem mais nem menos.
          Quando cheguei do litoral sequer de longe imaginava, ao receber os coices no sertão, realmente não pensava que viesse a ser pior; mesmo para o então sofrido operário que me sentia. As mesas de madeira, toscas e velhas do uso, indiferentes às postas de carne e às origens dela (o pasto ou a mina...) ficavam à altura dos raspadores e cortadores. O Zeca era o mais decidido entre os cortadores. Empurrando a barriga contra a mesa, cortava e esfolava o inerte. De tudo subia um cheiro de caça fresca e açougue, como no litoral... Minhas entranhas enjoavam, parecendo fora eu a matéria ali trabalhada, e não a do Chico Preto, a caça e o boi destrinchados.
          Mineirinho, trigueiro e espantado, baixo e sumido, era o mais pronto às ordens de seu Noninho. Um brilho esquisito no seu olhar, mostrava haver entendido e se dispunha às palavras do chefe. Noninho gostava do rapaz. Acho que éramos diferentes, bem diferentes, pois as mesmas expressões do algoz me gelavam; tremia, e a pele do morto às vezes escapava de onde eu a segurava... Na verdade aquilo dava em mim uma repugnância incontrolável.
          A faca de Mineirinho era a mesma tomada na véspera ao Chico Preto. O mulato ficara de posse dela como sendo o butim de uma guerra. Sua raiva e as pequenas rusgas com o Preto datavam de muitos meses, anos quem sabe! era seu desafeto declarado; os desaforos de parte a parte mostravam haver mesmo uma guerra surda. Mineirinho o vitorioso... (todavia eu me perguntava, até quando?) e Chico o vencido; vencido e comido! Zeca, enfunado e quietão, o “boca de túmulo” falavam dele; trabalhando no silêncio, sem parar, percebendo pela vista a vontade do chefão; sem parar sem parar... Parecia múmia, um ‘franquestein’ ligeiro. Sua faca também trabalhando com o mesmo ímpeto da de Mineirinho, porém com mais decisão. Era aquela faca de corte abaulado, gasta nos talhos do açougue; ele, silencioso, quem repartia a carne do gado trazida por Noninho ao pessoal. Já andava acostumado no serviço. Silencioso. A memória me lembrava também da morte da cadelinha Cutia, magricela e vira-lata, estimação daquele negro-aça Zeca. Chorava como se fosse sua filha. Fiquei inclusive constrangido na ocasião. Será que o Zeca intimamente chorasse o Chico Preto! A pele era empurrada calculadamente pela faca gasta do homem; eu esticando-a do outro lado; a mão sebosa grudenta e trêmula. Havia uma terceira faca no trabalho. Não era bem faca, um punhalzinho rombudo. Estava na mesa mais baixa. De vez em quando olhava nela com uma interrogação e olhava a seu Noninho com outra. Eu numa tremedeira danada... Enquanto observando o pobre Chico. Escorria um suor azedo gotejante em vários rostos, gotas jovens a escorrer e cheirando a suor muitas vezes dormido, suplantando as das minhas axilas a funcionar mais que minha tremedeira... Um caos catingoso. Espiava o infeliz rapaz: barriga aberta, emasculado, súplica no olhar de morto!
          Aqueles braços que mandaram pôr no saco, com suas mãos rijas e nodosas, aquelas mesmas no domingo... Que terror devia aparentar, que tristeza realmente eu sentia! Foi quando Noninho gritou-me, espumando e cuspindo:
          --Zé de Pedra! – mobilizei-me, atarantado, e joguei as peças macabras no recipiente de estopa. Lembrei-me então ainda continuar sendo eu mesmo, e vivo...
          --Zé de Pedra! – Voltei de meu delírio e do mundo sonhado, ali a realidade sendo incrível. O riso maldoso do Mineirinho me comendo por inteiro; a faca alevantada, como fosse agora a minha vez. O olhar displicente do Zeca, boca fechada, dente escondido (aliás não me lembro ter visto algum dia os dentes do homem, não sorria). O olhar me tomava todo. A voz fanhosa e estridente, a expressão neurótica daquele nosso chefe:
          --Zé de Pedra! – vibrava no meu último fio de cabelo, até. Proibido sonhar. Era segurar de novo, esticado, aquele couro preto sangrento...
          Braços e mãos, mãos de trabalhador. O silêncio de trinta anos de frustrações, de quedas no cavalo da vida, talvez... O silêncio nos lábios roxos do negro, o Chico-olho-de-vaca, submisso. Silêncio nos lábios, mãos expressivas de trabalhador; mãos que escondiam revolta e ânsia, inexpressões pela boca rude. Mãos calosas, de tantos e tantos anos cavando ingloriamente a riqueza para Noninho se fartar; agora atiradas num saco de estopa, duras crispadas inertes. Quantos outros pares teriam sido ali também atirados! Quantos ainda seriam sacrificados? Aí gelei-me!
          --Zé de Pedra! – A pele esticada sebosa do Chico, calos nos dedos... Até no domingo ainda o trabalho insano. Chico, eu, os outros. O cavar a terra seca.
          Noninho de olho, crucifixo na correntinha, Taurus na cintura, o jep-jep dos instrumentos na terra dura. Quinze ou vinte infelizes, prisioneiros silenciosos a curtir sua fome e seu desengano, para satisfazer a Noninho; voz fanhosa e forte, mão direita encostada ao revólver, intimativa e maldita. Zico, Beltrão, Zeca, os outros. Chico Preto tossindo, mão no ventre, arcado de vez em quando. Pimpa volta e meia assoprando contra o negro. Eu mal podendo com a picareta, fraquinho e desajeitado.
          --Zé de Pedra! – a picareta baixava e subia, jepjepjep. Mineirinho, Pedro, os outros. Noninho de olho, a xingar a mãe da gente; jepjep. Lampião fedendo a querosene, a noite ao meio dia, o jepjep incessante, a tosse do Chico. Mais outro meio-dia e mais outro ainda. Domingo. O açougue de carne ensanguentada; as moscas chatas e curiosas no voar lambetas. Sangue preto, um filamento a escorrer duro. Suor.
          Fim do delírio horroroso, o choque daquele grito que me chegava a fanhar:
          --Zé de Pedra! Zé de Pedra, sua besta, jogue esses troços no saco; venha logo, que vamos abrir a barrigada do ‘tisiu’, para encontrar o ouro engolido!
Marília   janeiro  1968                        




Banal             

          De uma conversa sem importância – é provável que fosse sem importância – conversinha de corredor, nasceu o desfecho. Ele era cientista importante e bem visto nos meios universitários, em vias de se aposentar; porém fora de seu círculo não existia. Digamos, ficava a uma distância sideral do mais medíocre ator de telenovela. Já Seu João não pensava na insignificância ou na posição invejável do colega; colega sim, porque era servente-porteiro-contínuo, lotado na mesma repartição; e também velho, não tão idoso como aparentava o cientista. Não obstante, lamentava-se muito mais e o fazia num dedinho de prosa com o Doutor Simata, no café que lhe trazia três vezes por dia. Uma vez respondeu-lhe o gênio, quando o colega a lamentar:
          --Gostaria eu Sr.João, mesmo assim, de estar na sua pele. Já imaginou o drama que um intelectual tem com o fisco a universidade a pesquisa os artigos todo o mundo da ciência enfim!
          Não imaginava. Só entendia de ganhar pouco, brigar com os vizinhos, doenças. Daí o imprevisto na conversa com o cientista – ah como são malucos esses crânios! – quando ele propôs ao João trocar de lugar por um ano; sendo ambos velhos e viúvos; pois não se pareciam um pouco? além do mais tirariam as férias regulamentares e voltariam ao trabalho, cada um na vida do outro; espécie de troca de pele de carneiro que um ser traz consigo. Seu João sequer precisou pensar, por não acostumado a pensar; enquanto o cientista já havia pensado ao formular a proposta, se houvesse pensado.
          E assim se fez realidade essa urdida trama. Cada qual representando seu novo papel. Afinal, todos não somos palhaços no palco da vida? ainda que fazendo chorar.
          Ano novo vida nova. Tapinhas nas costas dos companheiros. A rotina, o aguentar o tranco. O novo Seu João voltou ao trabalho assinando ponto na faxina. Nos primeiros dias cansou-se de descansar a mente, e cansou de cansar os músculos; teve de suportar mexericos, a ranzinzisse do chefe caolho, as determinações das portarias interpretadas como convinha à repartição, tão grave para si, meticuloso e amante da verdade ao pé da letra. Apesar de tudo, livrara-se temporariamente do fisco e da universidade, com artigos pesquisas e o mundo da ciência; livrara-se para descansar por um ano. Enquanto isso observava o novo Doutor Simata, o qual era acompanhado pelos jornais, e nos breves, cada vez mais breves, momentos de eventuais cafezinhos.
          O Doutor Simata agora andava muito expansivo, dando entrevistas e escrevendo muito. E mal. Dizia-se mesmo que devia ter sofrido qualquer abalo nervoso no seu afastamento da vida científica, nas últimas férias; que voltara transtornado... Apesar de tudo o mais, sempre respeitado; tinha suas asneiras comentadas em notas de rodapé, geralmente começando por “conf. Simata, P., op. cit. pág. trezentas e qualquer coisa”. Nas conferências, como naquela da ‘União e Amparo à Ciência e Afins’, vinha lá a opinião simática de nula ciência engordada de afins e etc.. Adorava ‘etc.’. Quase seu prestígio crescera. Comprou anéis, botou diplomas e certificados internacionais ornamentando a sala de visitas. Acabou dando vexame com uma prostituta num pulgueiro do centro da capital. Foi assim. E os jornais sabiam disso.
          Já o faxineiro João sequer progredira com a vassoura. Inclusive era gozado pelos colegas, possuindo cada vez mais menos admiradores. Mortificava-se observando um “asno” como pensava (somente pensava, se falasse se detrataria) por falar tanta bobagem em seu nome. Esse o drama novo para o antigo Doutor. No serviço não passava de um funcionário comum, não sendo notado sequer por si mesmo. Deixara ser lunático, passara a louco contumaz. Apesar disso era aceito, visto não interferir na vida das outras pessoas – porque não existindo na repartição ninguém inferior a Seu João! Tanto assim que dizia um colega pândego: “o João não fede nem cheira”. Não aguentou a vidinha, o dia a dia por demais simples; e muito menos as posições do ‘Doutor’, o qual agora olhava ‘Seu João’ lá embaixo e não queria saber de destrocar os papéis; inclusive se convencera mesmo ser Doutor Simata; não admitindo perceber o ridículo a que se expunha. Um dia Seu João pulou no fosso do elevador. Disseram os colegas ser por causa de o almoxarife negar entregar-lhe vassoura nova. Talvez fosse por isso. Os jornais não comentaram, sequer souberam.
          O “Diário Oficial”, meses após, fez constar a vacância de mais um cargo de servente-contínuo-porteiro, por morte de João Tudinho Certo. Mas ninguém lê “Diário Oficial”, em não ser fanáticos desinteressados de quase tudo.
São Paulo   abril  1978




Palanque

          Era uma festa em Vendagrande, grande ajuntamento, enorme. Os moradores, meia dúzia de capiaus, quase todos já na cama ou no que se convenciona chamar cama; ou sonolentos nos bancos improvisados na frente das casas, alguns sentados nos calcanhares em cômica posição repassando causos sem grandes pretensões, só a matar o tempo que mata o sono e ao mesmo tempo emprenha o sono com sonhos. Mas dava para ouvir ainda assim o barulho da festa.
          Não era bem uma festa. Política não é festa, é festa de seriedade a engajar matutos e conseguir votos. Tinha o padre magrinho, o boticário e os meninos de rua, muitos moleques, pra lá de quinze, dezoito, de todos tamanhos: aqueles querendo falar grosso falando fino e os que falavam mascado de chupeta e mesmo os que não falavam ainda, havendo é claro o grupo do meio fazendo balbúrdia, dessas nunca dantes vistas na vila; as meninas não, arrumavam a cozinha da janta ou preparavam a boia dos grandes para o outro dia. Um que outro adulto curioso desejando saber de política ou talvez para desaprender melhor. Ah, havia um fardado. O orador dominava a gritar mais forte; e não desperdiçara seu dinheiro pois o já-ganhou das vozes desafinadas era suficiente a superar causos e sonos reparadores. Sentia-se o dono do pedaço e aparecia vistoso no palanque, mais improvisado ainda que seu discurso, bem mais. Era um sujeito sem idade, sem cultura exagerada, bom por seu verbo ofensivo, corajoso na língua e se imaginava um doutor. Não importava, aliás nem ele se via pior nem via o público sua figura, não importando estivesse de chinelos gastos e portando uma barriga proeminente, mesmo que a pança fosse empecilho pra ver o que debaixo dela; nem a importar a camisa meio aberta meio ensebada, cheirando natural, ou seja: acrescido o suor, fazendo um todo de homem comum, pouco mais que a arraia-miúda ali a gritar belissimamente seu nome num já-ganhou infernal. E havia nesse ajuntamento um violeiro dedilhando sua arma de atração, cantando afinado coisas da terra, pra descansar a goela do doutor já-eleito. Um que outro distribuía santinho com a imagem do doutor quando jovem à maioria analfabeta e para a minoria semialfabetizada, quase sempre necessitando ainda tirar o título eleitoral. Contudo o orador não se importava. Importava era fazer Vendagrande sair de vez do paradeiro.
          “É preciso tirá Vendagrande do buraco!” Todos parabenizavam os buracos. “O prefeito é um ladrão!” Viva o ladrão... não, morra o ladrão do povo, fora com ele. “Falta de tudo neste lugar” e enumerou fábricas palácios asfaltos veículos, todos ‘vivacionados’ histericamente pelo público. “Vô construí um hospital, fazê igreja nova...” O pároco quase sozinho berrou viva o doutor, os garotos completaram os urros. “Darei a este querido povo uma ponte!” Disseram baixinho não haver rio no município. “E o córgo? Não tem importância, darei um rio, mais de um, desviarei o Amazonas, o rio Nilo, para Vendagrande!” Apoiado apoiado, todas vozes a uníssono apoiaram, desafinaram porém apoiaram em grande estilo e com emoção. O orador suava, tomou mais alguma coisa que lhe trouxeram e prosseguiu prometendo suas promessas. O negócio esfriou depois um pouquinho; a esquentar criticou a câmara, o prefeito seu bode expiatório preferencial e o partido do prefeito; falou da carestia; falou das podridões sociais, acusou prostitutas e adúlteros, ‘corruptou’ novamente a corja do prefeito, mostrou lama flagrante e pôs tudo na conta da política situacionista. Aí se defendeu pondo todo ataque recebido noutras eleições anteriores como intriga da oposição. O seu governo seria a pureza o progresso: “Vejam como mandei já fazer duas, duas eu falei, duas casas em Vendagrande!” E completou: “Quando eleito farei muitas mais, até uma cadeia grande digna da grandeza de Vendagrande”(o que fez arregalar o meganha de plantão ali plantado junto aos meninos). Todos concordaram arreganharam gritaram urraram de alegria. “Farei estradas, Vendagrande crescerá: a capital irá tremer diante de Vendagrande... exigirei depois a transferência da sede do país pra cá!” Seguiu-se um delírio da massa.
          Tocaram mais um bocado a viola, os assuntos se acabavam e o político se repetia; os garotos bocejavam, iam para a mamãe, o padre andava cansado, o boticário não abrira a boca durante o comício mas abria a bocarra saudoso da cama; a reunião se esvasiava, mesmo o doutor precisando guardar força para o resto da campanha. E além do mais o prefeito, alertado pelo rábula da delegacia, mandara desligar o gerador de eletricidade, por intriga da oposição decerto. Assim o ajuntamento eleitoreiro se findou com as pessoas se dispersando se tateando no escuro desta vida rica em causos. Não só em Vendagrande.
 Guarantã   agosto  2001




10° O Testamento              

          Meu nome é Zé da Silva; era, caso fique melhor a você que está lendo este documento. Já foi Almeida, Souza, conforme as paragens por onde andei.
          Resolvi registrar as informações que se seguem a fim de evitar briga entre herdeiros, porque os tenho plantados por este mundo de meu Deus, sendo muita a terra e muitos os filhos meus...
          Tomei a intenção de escrever sobre meus bens porque sei que vou morrer. Amanhã; isso mesmo, amanhã. Explico o porquê: o Zé Canoeiro. Foi ele o deus a determinar o meu final! Justamente quando eu mais precisava da existência; já esquecia ser o viúvo da bela Maria que me deu sete meninos e uma garota e prometia mais muito mais! exatamente no momento em que a comadre Joaquina anda caidinha por mim e poderíamos presentear o planeta com mais seis ou sete habitantes. Mas Canoeiro decidiu.
          Ninguém resiste aos avanços do Coronel Zé, que já foi quando pobre até canoeiro. Ele tem muitas mortes nas costas, seus jagunços matam por distração, por não ter nada que fazer, que dirá quando o Coronel manda! E o homem virou meu inimigo, olhou feio para meu lado, resmungou qualquer coisa, cochichou nos ouvidos do Zé Bota, o chefe dos bandoleiros, e me indicou à sua gente fazendo careta e cuspindo no chão. Minha condenação está lançada. Como é praxe nestes matos, condenado o réu é defunto no outro dia – concluí amanhã ser meu enterro. Não adianta fugir, ninguém nunca fugiu, todos estão mortos enterrados num pé de árvore qualquer. Quem me dera escolher a laranjeira da biquinha, todavia essas concessões o Canoeiro não faz: se souber meu desejo jogará meu pobre cadáver aos cachorros e aos porcos e não me enterrará debaixo da árvore.
          Já não tenho esperanças. Considerou-me esse deus cobrador candidato a defunto, por coisinhas. Por ter olhado para sua filha Julieta, por ter vendido a ele uns porcos doentes (ele não pagou-me e não perdoou também) por haver posto menos espigas nos jacás e roubado no carro de milho, e finalmente por ter eliminado o Bastião, seu empregado burro e ganancioso, no que até deveria me agradecer. Não. Olhou-me feroz combinou com o traste do Bota cuspiu na minha lembrança. Estou desgraçado no mundo.
          Por tudo resolvi esclarecer o que deixo; para que a filharada e parentes não briguem muito pelo pouco que passo aos vivos, porque estarei decididamente morto amanhã.
          Vou descrever minha herança e a quem determino beneficiário dos meus bens.
          A Comadre Joaquina deixo a quem mais esperto. O qual terá direito a criar a filharada que o Compadre Tonico deixou para ela.
          As terras, as que os olhos alcançam a sumir de vista e que o governo deseja tomar por impostos nunca pagos, as quais os vizinhos já tomaram por gosto de avançar – deixo a todo mundo que por ela se interesse; e por carrapicho, e por tiririca, e por capoeira braba e pobre. Todavia sei que o Coronel administrará o sítio sem cobrar nada e quando muito aceitará expulsar dela minha família.
          As três vacas parideiras deixo pras meninas – para todas as filhas, as que conheço e as que apenas conheci suas mães – porque elas irão sustentar meus netos com o leite. Naturalmente o Canoeiro está em primeiro lugar na posse, mas se não quiser, fica mesmo para minhas filhas conhecidas e para as desconhecidas.
          A cabrita marrom, ficará ao meu filho mais velho, filho segundo da minha primeira esposa, a única casada comigo no padre e no cartório; porque ele sempre cuidou da bita com paciência; e inclusive as línguas desocupadas acusam a pobre ser sua amante eu não sabendo a verdade. Mentira não é que o João leva a bita para comer os capins do Coronel Zé Canoeiro todos os dias. E lhe dá água no riacho da fazenda do meu carrasco. Justo fique ele, o primogênito, com a cabra, se o cabra safado do Canoeiro não puser antes as mãos nela.
          Os porcos ficarão os seis (os outros morreram com a porca preta) para meus seis filhos depois do primeiro. São pequenos magros fracos esfomeados, os porcos e os filhos, porém já servem para um assado. Esses o Canoeiro não vai querer, porque já passei a peste através dos meus suínos aos porcos dele. Só se ele quiser para vender a outro fazendeiro inimigo. Parece herança garantida.
          Os pilões vou deixar aos filhos meus com a comadre Antônia e outros que fizemos eu e a mulher do Zé do Mato; o pilão grande para os da Comadre Antônia que vêm sempre socar aqui em casa; e o pequeno aos meus filhos, os que têm sobrenome do Mato, porque eles já possuem um outro pilão, embora velho e rachado.
          Os trens de cozinha vou dar por herança à molecada miúda, os filhos esparramados usando vários sobrenomes de compadres enganados. São tantos que não poderei indicar por nome; não conheço a maioria. Porém quando após meu enterro – certamente depois de amanhã ou mesmo amanhã – aparecerem crianças reclamando o pai, podem ser entregues. Que há muitos trecos, chego a perder a conta, perdi a conta também quantos os meninos que botei no mundo por vias escusas. Só tem um senão: a canequinha de esmalte verde, a que tem um descascado na banda esquerda (a bela Maria quem derrubou e me deu esse prejuízo; até andaram falando que foi por causa da surra que lhe apliquei por deixar lascar minha caneca, por isso teria morrido; não concordo, foi por outra surra). Essa caneca é de estimação. Confesso que é meu dodói, é nela que faço sopinha de pão com leite e café. E só a deixo aos herdeiros porque defunto não come sopinha de manhã e amanhã serei defunto. Ela vou deixar a um amigo de todas as pingas, o Chico da Porteira; o qual merece esse prêmio porque sempre me ajudou pôr pra correr todos os maridos enganados de minhas comadres, mães de muitos herdeiros meus.
          Tem as redes para dormir. Estas, bem como os trecos de cozinha, os bancos de três pés, varas e anzóis e demais tralhas de pesca, não interessarão ao meu algoz; ele apenas tomará a bugiganga para queimar, visto apreciar ver fogaréu dos bons! Portanto creio não se interessará e poderá ir tranquilamente aos meus herdeiros que não nomeei por andar esquecido. Bastará reclamar a herança, para entrar logo em posse.
          Por fim há o Totó, cão raquítico e desanimado. Teria os gatos, o cachorro esparramou com todos, quando tinha coragem. Agora vou deixá-lo como herança para a sarna e suas pulgas mais chegadas. As galinhas não deixo nenhuma, bem entendido, as minhas, já as comemos, até as doentes, nos dias de crise; as que estão no terreiro eu as roubei: que voltem agora aos legítimos donos, e em especial ao Compadre Coronel Zé Canoeiro, de quem mais tirei. Talvez seja por isso que resolveu me amarelar os pés...
          E que seja feita a minha vontade, exposta neste testamento, se o Zé Canoeiro permitir.
Ribeirão Preto   outubro  1985




11°  Leitura Absorta

          Estava a fazer bem uns três dias; dias azíagos? ao menos escuros do chuvisco, o chove-não-chove misturado a muito tédio, tédio que nem as dívidas despertas nem as doenças, dos outros bem entendido, nem elas esperavam se chocar com uma alegria inesperada. Aliás não existem alegrias que não sejam inesperadas a um bom, ótimo, temperamento sombrio. Tudo isso não mudava sua precária realidade. Inclusive a realidade andava por demais fugidia, escorregadia, deslizante, se não pelos dados, pelos olhos; e também pelos ouvidos; tato não, não percebia nem se sentia no cadeirão, estava porém estático no cadeirão, desses cadeirões de esticar a espinha dolorida mandona de todos os ais. Nem ao menos se sentia. Sentia cheiro e não cheirava nadinha no momento: lia. Lia tão somente.
          Apesar disso não se beneficiava da leitura. Sentia-se espécie de geleia ou algo assim... assim como ‘desmanchante’, informal, informal empregado como sendo sem forma; sim é verdade que estivesse formalizado qual boneco de pau – duro estático ‘imexível’ no cadeirão. A cabeça funcionava a mil. A cabeça não, não fossem os olhos perdidos na distância, não a cabeça, ela era paradona também, apenas ‘mexente’ os olhos e tendo um que outro tremor nas sobrancelhas e nos cílios, estes como fossem limpadores de para-brisa dos olhos. Absorto. Isso, exatinho: absorto.
          Abriu pela décima vez, se bem que não desse conta contar as vezes, abriu na infeliz página onze. Infeliz por quê; por que um mero papel cheirando a tinta de impressão recente deveria estar infeliz, estivesse feliz o papel estaria automaticamente feliz. Ele andava num dia azíago chocho escuro quase macabro. Macabro é um tanto macabro, a leitura era leve. E pesada assim mesmo. Invariavelmente não se toma na biblioteca pública um maçudo daquele! Sim, dos que nos dão dor nos braços pelo peso – já que medo do tamanho um bom leitor não tenha, ele bom leitor; mas que peso enorme! Se fosse livreiro, editor, faria do calhamaço bem uns três volumes. Não cansaria. Que política governaria a edição num só de tanta besteira duma vez! Voltou à página onze (e aí completaria a dúzia finalmente?)
          Retomou o ler. Umas dez linhas. Não acabou o capítulo, fechou a obra. Então ocorreu uma miserinha: existem mil fatos insólitos surpreendendo a gente quando a gente não ‘está’ para ler. Caiu-lhe o marcador. E agora, naquela hora, e agora como achar onde parara! Que bobagem.
          Tomou no piso o marcador de papelão ilustrado com propaganda doutro autor. Não retomou a leitura porém. Deixou juntos obra e marcador, este temporariamente desempregado, na mesinha ao lado.
          Bebeu outro copo de água. Voltou à sala, ao cadeirão com livro e marcador, tudo vigiado pelo telefone.
          Sentou-se qual boneco. Pediu inspiração aos céus, suspirou, folheou algumas páginas na releitura, achou a página onze; olhou de viés o marcador desatencioso depositado na mesa do telefone, retomou a leitura. Mais umas linhas, umas vinte, vinte e uma, até ao ponto em que sempre nos parece ter sido vencido antes... Se perguntou se já havia lido respondendo que sim e que não, releu o trecho em questão constatando já haver sim estudado... antes de parar na dúvida o relido naquele momento; ou terá sido antes do antes? Ah que perda de tempo. Retomou por via de dúvidas a página onze e recomeçou. Parou pouco depois, olhou de soslaio ao marcador porque a lógica sempre manda atirar-se a culpa em alguém. Arreganhou novamente as páginas, mudou um pouco o cadeirão da posição em que estava, teve cuidado ver se não descuidado ferindo os pés o piso esmaltado pago com o olho da cara, virou o livro a melhor receber a luz de fora e... não leu coisa alguma:
          O telefone trinou chateações, não atendeu porém se chateou, puxou o fone a pô-lo imediato no gancho, abriu de novo o livro, pôs o marcador no seu lugar, quer dizer: na mesinha do telefone, olhou a página onze, o telefone gritou-lhe outra vez, desaforado, a atenção.
          Rosnou. Fechou a coisa, antes pôs o marcador de propaganda de outra obra a marcar a página onze da obra. Atendeu o engano, “não tem de quê” rosnou outra coisa. Se ajeitou no seu cadeirão de pau, retomou a leitura.
          Não retomou propriamente, pois a ninguém é dado o direito de ler sem se ajeitar bem, num cadeirão de madeira envernizada a corrigir direito as colunas tortas. Por isso empurrou as nádegas mais para o fundo até encontrar encosto na tabuinha sextavada, corrigiu posturas, esticou desesticou os pés antes cruzados e se pôs a ler, não, a reler.
          Página onze, embaixo, o telefone tocou, “é hoje” disse, deixou tocar até ao cansaço, parou, iniciou a página onze, não, disse a si mesmo, mesmo porque era solitário a quem iria falar! não, não é no começo, estava embaixo, era quase à página doze, disso me lembro bem. Todavia não foi longe demais.
          Longe estava era claro do fim, encontrava-se ainda na onze, iria à 792ª página; mas um leitor decente nunca faz tais perguntas: lê. Só lê.
          Não com um barulho que os infernos vomitavam por ali! era o vizinho segredando rock da pesada, era na rua a molecada num desentendimento no entender: todos gritam todos falam ninguém com razão todos! Ora, não respeitam a leitura dos outros? Onde anda a civilização a liberdade a democracia o mundo ocidental... Não importa. Importa. Importa tantinho. Ah, brigar a gente com o planeta! Retomou o livro.
          Tentou retomar.
          Página onze. Embaixo, no último parágrafo, constatou. Se acertou no cadeirão. Gol! gritaram.
          Ah como era bom no tempo em que falava palavrão... Não fica bem um senhor benquisto a xingar menino por um gol. Além do mais criança é assim: todos se reunem num lugar, digamos na frente de sua janela, gritam brigam brincam debocham e de repente não mais que de repente quase não se percebe, percebe-se a molecada a azucrinar lá longe outrem fazendo exibição da garganta na gritaria a estragar certamente a leitura de outro alguém, não: ninguém é tão besta a tomar um livrão de 792 páginas para ler... Pensou retomar. Onde estava?  ah sim.
          Página onze. Releu para não deformar o todo; um bom leitor não pode ter preguiça de reler uma parte a compor o todo que é o livro. Releu pacientemente. No entanto...
          Ao virar para a décima segunda foi tomado por uma sugestão banal. Uma sentença, quiçá uma palavra, empurrou o leitor à praia da Ponta Preta. Estava imediato no Nordeste, marulhando com o mar e se perdia entre a gente tomava sorvete perdia os chinelos e achava o livro... Voltou ao livro. Outro livro, agora lia (será que lia! quanta dúvida, desembarcou no seu eu externo, se remexeu e acordou no cadeirão) sim lia a página onze. Droga, parecia que era na doze. Releu a onze...
          Aí não saiu ainda da página, algo suscitou dúvida. Quase teria razão no pensar quem teria razão: errado o autor, errado o tradutor, por essa razão obra poética não tomava mais na Circulante, sobretudo poesia estrangeira: os tradutores deformam o autor! pior, recriam o texto, então não é mais o original que se lê; além do mais como traduzir sentimentos! Reabriu o livro na página onze, felizmente havia prendido o dedinho entre as folhas à guisa de marcador, abriu na onze, ou melhor, prosseguiu nela, ia prosseguir mas se indagou de novo: e aquele errinho? podia ser do autor, como do tradutor, ou da impressão, por que não se submetem os volumes a mais revisões? Epa, a culpa seria do revisor! Ah conversa-fiada, o erro podia bem ser do leitor, ele.
          Coçou o queixo, sinal de insatisfação ou apenas tique nervoso do leitor desocupado. Voltou à onze.
          Releu a ‘releitura’ e embasbacou no erro outra vez. Mudou a interpretação em cima disso como fosse apenas ‘engano’; ora, engano não é erro é deslize não intencional. Assim afugentou o drama e não solucionou sua luta, sim já então uma batalha a leitura! Antes de perder a guerra perdeu só a paciência, fez muxoxo ao seu marcador de livro e prosseguiu.
          Prosseguiu tentando ler. Aí chegou a esposa. Sim era solteirão e intelectual, só não suportava rock metálico e grito de garotos; a esposa do vizinho do outro lado.
          Todos sabem que sexta-feira, era sexta, é dia de casais brigarem. E sábado e domingo e segunda e terça e quarta, quinta não é possível saber. Empurrou bravo e grosseiro o cadeirão, o qual deve ter ficado com cara de pau caso haja entendido a afronta, fechou o livro, quase lhe escapando o marcador rebeldezinho de papelão com propaganda, sempre tem reclame de obras da editora, pôs marcador e livro debaixo do telefone então mudo, na mesinha. E saiu esbaforido. Entretanto não deve ter ido à cozinha para ler.
Marília   janeiro  2002







12° Um Conto Bem Comportado  

          Acho que devo fazer primeiramente uma crônica a falar no conto, quem sabe não seja esta a única verdade, caracterizando a bendita crônica. Porque meu personagem, o personagem do conto, não é bem comportado: apenas o conto é comportado; risco o ‘bem’ para não comprometer, assim mesmo ele não é comportado. Insisto, o personagem não é bem nem comportado; ao contrário: chão. Pior – existe pior! – pior sim, ele é rebelde, chão e rebelde.
          Ora, pode caber-me culpa? devo ser inculpado, ah mea culpa; devo sê-lo sim ao imaginar a verdade da crônica, inclusive do conto.
          Culpado seria tendo em vista o fato do escriba precisar manter a língua padrão? porém claríssimo não pelos desaforos da ignorância alheia.
          Pera lá, sua besta quadrada, fala não fala grita não grita berra o Chico. 
          Não é Francisco, Senhor Francisco? a propósito, o Sr. terá um sobrenome...
          Claro, seu burro, todos têm sobrenome a atrapalhar as cobranças quando vem o cobrador, aquele fia-da-p..
          (Tapo meus ouvidos, desconverso a perguntar:)
          O seu sobrenome Sr.Francisco... está bem, aceito o amigo  ‘Chico’, Chico de quê?
          Amigo só se fô das suas nêga.
          (Engulo a seco, sorrio amizades compreensões confraternizações e educações).
          O meu é Cuia. Pra num confundí purque tem o Chico da Véia, tem o Chico Lubisomi, tem o Chico do Bigode, tem o Chico Lôco, tem o Chico da Isquina, tem o Chico du Zé... aliás o Zé  é outro cachorro sem-vergonha...
          (Conta do Zé, da senhora sua esposa a esposa do Sr.José bem entendido, suja a pobre até ao ambiente de prostíbulo; desligo meu conduto auditivo pra não ferir-me; religo o desligo a continuar a conversa, onde o personagem Chico fala desbragadamente).
          A muié, diz o Chico Cuia, a muié discutiu com aquela vizinha...
          Ah, digo interessado no meu desinteresse de uma possível cena vergonhosa e da mais pura baixaria, ele continua.
          Cê sabe o nome dela? é Nadir. Aquela vaca andô com ciumeira da minha mais ‘véia’, vai escutanu.
          Sim.
          Falô, fala o Chico, falô pra rua inteira que a menina andava paquerando o marido...
          ‘Paquerando’?
          Num sabe o inguinorante! a minha fia tava querendo dormí com o vagabundão dela...
          O esposo da Senhora Nadir?
          Claro. O cara é galinha e...
          ‘Galinha” galinha que eu saiba é a fêmea do galo.
          É modo de falá, seu besta. E ainda qué dá uma de doutor e num sabe isso! deixa pra lá. O puto queria levá ela pra cama e vive comendo todo mundo e dicerto num comi a própria muié, é feia que nem o pecado, e aí mostra bom gosto nem eu queria uma gorducha daquela, ainda dimais faladeira.
          A galinha?
          Quar ‘galinha’! tô falano da muié do galinha, o fiadaputa que queria papá minha fia mais véia, sortera e virge.
          Você, Chico Cuia, então...
          Eu? Xinguei ela, levei o trabuco na porta da casa. Pensa que o galinha quis saí pra fora! Quar, nem ele nem quis a gorda dele.
          Você voltou para sua residência e se acalmou... Ora, fez bem: violência gera violência; quem sabe não daria cemitério e polícia! Você fez muito bem.
          Ih... num sabe nem metade. Vortei sim. Nunca mais falei com eles; nem deixei os meus pequeno brincá com os capeta deles.
          Os capetas...
          Os moleque lá aí da esquina onde morava o galinha, porque os filho é tudo uns diabu.
          Um momento Sr.Chico, eles se mudaram? Você diz ‘morava’; suponho que tenha sido um bem, aí param de vez com as discussões.
          Vamu ponhá os pingo nos ‘i’. Só ele, ela taí, nóis num olha pra cara da disgraçada mais continua morando na esquina com os capetinha. Só o galinha fugiu.
          Então sua família ficou aliviada, visto não ter situação mais constrangedora do que alguém a desejar conquistar uma filha da gente, ainda por cima um homem casado e com filhos... está bem – os capetas.
          Acertô e errô.
          Não entendo bem Sr. Chico Cuia, realmente não posso entender.
          Acertô dizenu qui nóis gostô que o sem-vergonha se foi; errô que o sem-vergonha queria conquistá a mais-véia, que era virge e boa.
          ?!
          Errô porque o puto fugiu com ela e deixô a gorducha cum os capeta. Aí nóis teve de engolí que tinha razão.
          Você...
          Eu? ia procurá até no inferno e ia matá os dois; a minha muié escondeu o trabuco.
Marília   novembro  2004                    




13° Pamonte               

          Poderia dizer uma ilha humana e indecifrável; era o que era. Nem sempre fora assim o homem. As grandes caçadas... nunca apreciou de mais a pesca; porém naquele mataréu inóspito... Ora, ninguém se livra de suas origens indígenas; pescava lá, assim assim; cuidar da lavoura, bom machadeiro, jovem. Faz bem tempo.
          O quadro posteriormente mostrava um velho teimoso empinado mancando, fazendo “hum-hum”, imitando mais o leão enervado que o homem enraivecido; “hum-hum” de negação a tudo a todos: comidas atitudes gentes inimigos e conhecidos; os amigos fugiram? Barrigona deste tamanhão, as calças farfalhando à antiga, largas e presas pela cinta de bater nos moleques; aposentada, substituída pelo “hum-hum”. Plect plect andando por aí, arrastando a ‘rendição’; ah! foi pior nos anos trinta, aquela bolotona forçando o escroto, intumescendo a roupa, chamando a atenção da molecada irreverente: “ói, rapais, a malona do Seu Pamonte!” A resposta vinha imediata, tão grosseira quanto a observação, com a diferença dela partir de um velho experiente embora também grosso nas maneiras. Um ir e vir constante, insatisfeito, exibindo o ventre volumoso – o ir contra o vir interminável, a buscar uma paz perdida; nunca conseguida nos oitenta janeiros (ou dezembros?)
          Vender fumo, mascar fumo. Um caboclo não engole chicletes: cospe a saliva de fumo, amarelenta, em jatos contínuos, molhando a calçada. Um que outro escarro, amigo da friagem, limpando a garganta; aquela tossinha seca, impertinente, amiga de todos os velhos, democrática. Era um velho.
          Velho e relaxado. Ótimo no relaxo; mistura de ‘deixa pra lá’ e ‘não tem jeito’. Mostrar o relaxo aos que não conseguiam ver o relaxo. Sentado na frente da casa comercial abandonada, escorando o mundo no portal a cair; olhando os passantes, os pingados conhecidos interessados a mexer com ele: “tá rico hoje, hein Monte!”
          --Vem cá, Zé.
          Oferecia bilhetes de loteria, dizia do bicho de ontem, perguntava um negócio concluído, qualquer coisa. Dedo de prosa assinzinho; para dizer existir, sentir-se existente. Atraía nessa reserva humana os assuntos políticos. Por isso é que a visita ou a passagem de Seu Benedito muito esperada. Velhinho politiqueiro como Pamonte, integralista e conhecedor das tramas da raposa da vida; Pamonte também adorava política.
          --Dito, viu as inegibilidades?
          Vira, não deixava passar nada. Lograra até derrames cerebrais, para não perder fatos da política de sua época. Dava aulas a meia dúzia de ouvidos dispostos a aturá-lo. Os de Pamonte, por exemplo.
          Barrigona a esperar passantes folgados. Ou ir caçá-los. A turnê diária, voltinhas obrigatórias, com paradas também obrigatórias. Uma anedota picante com o Baiano; saber um caso amoroso lá com o Bozó; apreciava deveras o amor; um tanto fugaz e sem conteúdo, machista ao exagero, mas amor. Amor e ligações sentimentais com mulheres jovens de todos os níveis; porém amor. Casos para envergonhar os parentes e elevá-lo perante seu grupo. Amor.
          --Sabe da Linguiça?
          Ninguém sabia, andava fugindo do velho, de todos. Mania de botar apelido nas amantes; também, todos ali na cidadezinha possuíam apelidos. Como é que uma menina daquela conseguia aguentar um velhote ranheta e acabado como o Pamonte! ninguém podendo responder. E não dava para suportá-lo, diziam as más línguas, mesmo no sábado, após o tira-sujeira semanal. Os de casa, as meninas, sabiam que depois das três horas era “quentar a água do pai”; deixar a latinha de esparramar o líquido, o sabão, a toalha, a roupa; sábado era dia de roupa limpa: “quedê a tuáia?” sempre achando algo errado, completava com “hum-hum”, resmungão. Ir limpo visitar a Linguiça, lá no Barreiro, de mulheres de vida fácil, não tanto assim. Lá.
          Segunda-feira, dia de preguiça. Recomeçar as andanças, vender os seus bilhetes.
          --Oh Chico, vem cá mineiro brabo: compra aqui um ‘numrinho’, sô.
          Vender bilhete, contar causo, discutir política e mulher. Mulherengo entre os mulherengos e crentes na sorte grande. Muito assunto para discutir e comentar entre os iguais. Certas crendices e simpatias. Andava naqueles tempos de desintegração com um medo infernal do diabo. Sonhar com Belzebu, perder o sono. Tudo era assunto, então virava notícia.
          --Oh Zezito, chega aqui, menino – tenho o macaco. Hoje é que vai dá macaco...
          Não dava, vendia ao Zezito a loteria. Não tinha fama de sortudo, nunca vendera a grande sorte; por isso desprezava os outros vendedores. “O Zezão não presta!” Ninguém prestava ao homem; talvez nem ele próprio; não tinha ainda pensado nisso.
          Não havia pensado viver duas vidas também. Contudo era presa do passado, que brotava enxerido no presente lá dele. Umas lembranças teimosas... um que outro ato de heroísmo discutível, com arremedos de valentia regada a cachaça, deduzidos na conta bancária da memória a lista presumivelmente grande de atos que se não confessam... Um brotar azedo, a bem da verdade. Para enfear qualquer árvore genealógica. Não contar nem aos parentes, mesmo sendo íntimos; segredo de Estado! coisas assim para levar ao túmulo, já tão próximo. Um primo lá das bandas de Minas, chegando até encontrá-lo, achando o parente perdido de anos antigos, e a trazer na bagagem delicadas notícias, guardadas a sete chaves. O Tião era mesmo linguarudo... Ruminar aquilo, tudo aquilo; sintetizar em “hum-hum”. O passado perseguindo feroz, perseguindo um parente nada brilhante.
          Sua memória tinha igualmente um passado em dois níveis. Um era o nebuloso da origem, segredo dele – para saciar o túmulo; o outro era o segundo passado, para ser segredo também da família; um segredo descoberto, com as testemunhas a se decompor junto com Pamonte. O segundo passado, intrometendo-se no presente daquele tempo, era um passado cheio de sadismo, brigas, rivalidades, maldades miúdas, misturadas aos gozos da posição na época das vacas gordas. Tirania de marido pulador de cerca, machista inveterado, suprimindo a esposa, tornando-a serva submissa; batendo nela em público, aplicando-lhe punições por suas próprias derrotas, as dele, Pamonte; a cachaça dando coragem de surrar, sem o porquê, aos filhos também, bater em todos, democraticamente, fazer-se grande; prestar conta à própria consciência; muito fácil a quem não a tenha. “Joaninha! (gritava) vai pô água aos porcos”. Ia, a mulher era obediente, temia a vara, o castigo na filharada, dez ou doze teimosos a viver; ia; aguentava outros gritos, muitos outros gritos, engolia todas as ordens, boa escrava do grande senhor; senhor sentado na varanda, a distribuir ordens e pauladas a tantos quantos; a correia do ventilador para não ferir a cinta preta de segurar as suas calças. Todas as famílias à antiga possuíam um símbolo de punição, guardadora da ordem familial e do respeito ao pai sagrado; o  cabo de rodinho na casa do Nico; a cinta de couro de vaca na família do Reboão; na de Pamonte era a correia do ventilador, usada provinda do radiador dum carro de amigo. Lembranças incômodas. Dar de chicote nos trabalhadores vagabundos, um tiro de garrucha nos rebeldes – joias do passado não tão recente. Perseguição e choques nos jagunços, tudo manipulado pelo grande e severo líder político que era o velho então novo. Tudo brotava para infernar aquele presente de queixas, a incompreensão do público ao Pamonte. Lembranças lembranças.
          --Oi Tonhão, o que vai hoje?
          Nem sempre vendia os números lotéricos; entretanto pagava os bilhetes encravados; afundava mais a família, a si mesmo. Ir à rodoviária enganar matutos, esquecer o passado morto. Morto vivo. Lembranças atrozes, machucantes da paz, que é propriedade dos idosos. Um amigo das noites mulherengas, bebidas para todos, por conta dos bens dos filhos, da propriedade que a esposa comprara vendendo doces na rua; a jogatina desenfreada, a vertigem das cartas, tomando a si e aos amigos, enquanto o Sol já expulsava de novo a Lua. Curtir as perdas na mulher “vagabunda”, nos filhos “arteiros” – desconfiar de todos, fazer “hum-hum” às coisas erradas, pedir ajuda à correia de ventilador... depois de curado pela cama dos justos, mostrar os pequenos aos amigos, elevar a inteligência deles, suas glórias no grupo escolar; pedir bênção ao vigário, beber com o sacerdote o ‘vinho de padre’, falar de política, da festa de Santo Antônio; a vida. As cartas para se distrair, ganhar e perder; a família para desconto; um carinho que outro, desajeitado, aos seus caçulas, muito mais aos cães.
          Muitos cães. Bom caçador. Os cães. Cada qual com sua história, contada e recontada em toda oportunidade. “O Guerreiro bom de caça”, contava as proezas, vivia as proezas; os cachorros bem-amados não podiam contá-las, é claro, e já haviam desaparecido. Repetir muitas vezes, masoquistamente, a morte do “Coivara”, cachorro anteiro, atacado por onça, que foi preciso matar pra não sofrer, numa eutanásia cabocla; feria-se constante expondo o mesmo caso. O do perdigueiro “Duque”, o do “Lembrado”; não podia esquecer-se dos fiéis amigos. “Joaninha! vai fazê cumida prus cachorru”. Ia. Tratava bem deles; de todas as criações o Pamonte; mandava tratar. Um lado curioso desse homem: amor aos cães, fel às pessoas. Fundaria a Sociedade Protetora dos Animais, se já não estivesse criada. Aos filhos as sobras do carinho, brutal, brincadeira de torcer os braços das crianças, de fazer cócegas nelas até caírem moles no chão. O que sobrava do Guerreiro do Coivara do Duque – “êita minha cachorrada boa!”
          --Vai lá Negão, hoje dá cachorro.
          Não dava, o bilheteiro era pé-frio, nem lhe deixava muito lucro a loteria. Contudo ele não ligando mais para os lucros; já conseguira os seus nos anos das vacas gordas; embora para sua prole sempre fosse o tempo das vacas magras e muita luta. Preferia lembrar-se das caçadas, de seus companheiros nos trilhos da floresta. O Ditinho, o Pereira. Tava lá um baiano bom, o Zé Pereira. Magrinho, ágil e beberrão, foi quem o ensinou a beber; então o discípulo superou ao mestre... O Pereira, depois ficou velho, acabado, “um véio tonto” dizia o Monte; virou sogro dele, forneceu a filha para servir ela como saco de pancadas, para treinar nela; caçava bonito, companheirão; submisso, fazia de tudo ao amigo; fez até a filha para o genro; fez uma porção de outras e muita bagunça. A velha dona Maria é que não queria entregar a moça; porém Pamonte venceu. Sempre vencia. Era mesmo querido na família do Pereira; embora a velha não fosse com a cara dele; moço distinto, lia, ensinava a cartilha para os futuros cunhados; o velho era amigão, caçavam juntos, bebiam juntos; um era baiano o outro mineiro, o que vinha dar no mesmo, que mineiro tido por baiano cansado, parando a meio do caminho de São Paulo; coisas dos paulistas que gozavam neles assim; não se importavam; caçavam bebiam. Pamonte casou-se com a jovem Joana Pereira; entretanto precisou conseguir essa vitória dando bebedeira no sogro e ameaçando com a garrucha, para a sogra amolecer, cabocla dura! depois foi matando lentamente a esposa, fazendo ela parideira, primeiro, depois dando-lhe pisas de relho na coitada envergonhando a infeliz e aos filhos; o mal de Chagas matou-a primeiro que o Pamonte a matasse; aí foi uma derrota. Viúvo.
          Uma grande amiga do Pamonte, antes da viuvez, foi a crise. Grande mesmo. Primeiramente substituiu na sua casa o tempo das vacas gordas, com arroz de primeira esbanjamento riqueza liderança política com afilhados e tudo; no lugar ficou o tempo das vacas magras em que viveu a família das lembranças antigas e comeu angu de fubá simples com pé de porco, roendo a amargura da fome e do desprestígio. Mas ele se vingava disso tudo: batia na Joaninha e nos filhos dela; e dizia todo mundo não prestar, resmungava “hum-hum”. Agora era lembrar disso, vomitar ontem pro agora.
          Era cismar, forma de também viver. Olhar o dia acabar e observar o movimento da cidade que ele ajudou a construir, a que ele acompanhou desde o engatinhar, lembrar dela, a cidade que começava a se esquecer dele... E fora o primeiro de seus prefeitos! Agora... Olhar a noite; a luz fraca e trêmula dos postes, escutar até às vinte e uma horas o motorzinho gerando claridade, as mariposas nos postes, os brinquedos de roda próprios da juventude, um que outro peão a cavalo, o convite para dormir; e o leito sozinho de viúvo.
          No outro dia, recomeçar o não fazer, que era dia de fazer, o ramerrão, o ordinário da vidinha pacata, cinzas de antigas brasas. Olhar tratores agrícolas passantes, o lixeiro removendo estrumes dos animais, o combustível da roça. Viver um pouco mais nos sábados e segundas, os dias sagrados das compras caboclas, o lugarejo febricitante; ir à rodoviária com ideia de passar a loteria. Vivia na cidadezinha, vibrava com ela, era de lá por adoção, não mais retornara a Minas. Não precisava sair de lá, o mundo vinha até ele no ‘Estadão’; engolia sofrendo gastando a língua na leitura de um quilo de jornal, se grudar ao acontecer político, achar antigos líderes peessedistas ou heróis mineiros; fungar para ler, suar e gastar a língua no encontro cultural, interromper a notícia para vender bilhetes ou fumo, o dedinho de prosa, para gritar com os filhos, chamar o cachorro – viver, na sua concepção. Tossir, temeroso de voltar-lhe a tuberculose traiçoeira e assassina, tossir, tornar à leitura. Dar uma ordem pra não ser cumprida, outra vez a leitura, sofrer a leitura. Um gosto aos nomes gregos; batizou a filharada grega: Aristóteles, Aspásia, Hipócrates; confundir os capiaus e mostrar erudição, criar novos apelidos na cidade: um Pelópidas tornou-se Pelota, um Hipólito virou Lito, e assim por diante, enriquecendo o folclore, esculhambando os helênicos. Um narigão medonho e avermelhado, criticando a ignorância cabocla; barrigudo Sancho sem burrico sem Don Quixote, amante dos gregos e dos moinhos passados... fazendo “hum-hum” aos filhos rebeldes e respondões, às refeições que preparavam as filhas.
          --Lito, vai buscá meu chapéu.
          Ia debaixo do chapéu vender bilhete, exercitar o físico nas caminhadas pela cidade, ele fortão ainda. Senhor de costumes indesmancháveis: tomar água com limão galego na comida, mascar fumo, ler jornal, comentar, politicar, vender bilhetes, procurar a Linguiça, contar anedotas sujas. A família vivendo também, criticando, ridicularizando ao Pamonte, engolindo sua rotina: deixar a porta aberta encostada de noitão ao velho, a janela arreganhada para a lua xeretar no quarto, regar as “plantas do pai”; ele não chupava frutas, entretanto amando as árvores como aos cachorros.
          Andando ia pela cidade. Como andara pela vida; borboleteante; a semear papos na vila, semeando gente pela vida. Muitos herdeiros sem herança; os filhos bastardos espalhados por toda região; porque havia mulher por toda região... E os da “patroa” que cuidavam dele, agora abandonavam Pamonte, deixando o velho para a cachaça, sua companheira paciente.
          É a história de um político mascador de fumo do agrado das linguiças desta vida, viúvo esquecido e desprezado pelos parentes, aquele que suscitava fascínios nos filhos mais submissos, os que não podiam se desprender de Pamonte, de seus “hum-huns”; o poder judiciário tomando a propriedade dele, a afundar aquela ilha humana curiosa, inundando a ilha nas águas barrentas da miséria do mundo.
São Paulo   junho  1978




14° Férias da Loucura

          Eu te falo procê... disse, diz o sujeitão estufado o quanto possa, engolindo tudo pela frente até concordâncias discordantes; aliás o brasileiro comum não concorda com o português e com o português comum; haja vista a anedota; e daí a discordância nestes dias sobre o acordo ortográfico unindo e simplificando na complexidade todos que falam a língua, aqui importada, importadíssima. Todavia ele não pensa nisso, não pensa, pensa a loucura querendo fugir agora da loucura da capital ao interior sossegado. E continua ele, ela não aprecia mato, “mato me mata”, não gosta, te digo que não, eu gosto. Também não combinamos noutras coisinhas. A Maria ocê sabe é magricela; e cultiva as magrezas. Acredita que nas férias passadas levou pra selva, a de Peripipoca ou peri amendoim já esqueci, lá onde macacos e papagaios, levou uns plastiquinhos – eu gozo sou gozador gozo nela ao dizer “tuperére” ela fala certinho num patriótico inglês, versada no grego demótico latim sânscrito essas coisas arrevesadas e vive a viver enrolando a língua com os outros; eu não, pra mim é tuperére, tem uns tupererinhos que são umas gracinhas semelhando brinquedo; e tem os tupererões assim de grande a caber mil comidas toneladas de gostosuras, caberia num um boi dos volumosos dentro, isto outra de nossas diferenças. Sim mas não dizem “vive la différence”? Ela é por alimento vegetal vegetariana à beça, põe tudo que é capim dentro dos plastiquinhos, os tupererinhos como falei; fecha, antes tira o ar pra não estragar o chuchu a batata a beterraba a verdura, aí fecha bem, enrola nuns papeisinhos depois nuns paninhos bordados, põe tudo numa cesta e daí sim sai, não às compras porém ao mato comigo. Eu não, te digo procê, não: ingiro carne. Todas carnes, não estando na fase de carniça é muito claro; como traço rasgo mordo mastigo chupo os ossos, jogo os ossos pros cachorros brigarem entre si ou deixo no chão – é engraçadinho as formigas em roda do osso, têm umas que são parecidas comigo e adoram carne, carnívoras; pobrezinhas, não sobra nada a elas devorarem dos tupererinhos da Maria, aqueles restos sem graça. Bem, isto uma outra diferença no casal.
          Então, tava ti falando procê, nós fomos de férias a fugir daqui dessa loucura de cidade infernada com seu trânsito louco com sua violência doida. Piramos pra selva.
          Arrumamos o carro, dirigimos as rodas de pneus novos e... ah realmente assisti e fui no assento ao lado pois quem faz tudo é a magrelinha, até choferar é ela e o faz bem. Tanto que me desligo da loucura da estrada em fugindo da loucura da capital: durmo (a oposição diz “o Zé ronca!” deve ser intriga) durmo, quando acordo ói nós já na floresta.
          Tomamos um chalé, eu paguei a conta, digamos a verdade; ela o carro o combustível a oficina a manutenção a comida; fiz a concessão pagar o abrigo.
          Agora tamos na imensidão de mataria, tem árvores tem cipós tem carreadores tem grilo e o grilo do temor dos bichos... A Maria anda agarradinha em mim, medrosa, vai que... Eu não, sou tarzã valente um brutamontes com um bucho destamanhão cheiinho de carne: como o frigorífico como o matadouro como o pasto; mastigo, bem não, sim mais ou menos, das trinta e três mastigadas estabelecidas pela ciência abro-fecho a bocarra umas sete vezes, sete é de mentiroso dez com certeza. Engulo, arroto, assopro, ‘pufo’. Ela: sem-educação. Rio-me, beijo a ofensa, a ofensa se ri; continuamos a trilha. Eu fotografo tudo até tudinho com tê sem tê que vejo. Clico aqui clico acolá. Ela olha. De repente, de repente em casa não custa muito, acontece toda hora: me dá fome, agora no mato fome que não mata de tanta fome. Como as reservas, conservas também; ela sorri abana abalançando a cabeça linda. Me imita, ou iria ficar apreciando um porco comer um boi! ela amavelmente me apelida porco nesses momentos. Me imita, tira da cesta mil tupererinhos, tem um rosinha que mais aprecia, onde chuchu batata capim na conserva. Tira come delicadamente sem sujar as mãos, as mãos! os dedos afilados; assim mesmo se limpa, limpa. Guarda, enrola as vasilhas plásticas nuns papéis virginalmente brancos, após enrola nos panos de prato decorados com florinhas menininhas gatinhas coisinhas. Guardinha na cestona. Eu arroto a porca a vaca a cabra; gargalho. Retomamos a trilha o cheiro o hálito do natural do puro longe da loucura. Suamos até, ‘fédo’ catingo; ela abalança outra vez a cabeça, espirra esprei no sovaco, guarda afinal as coisas, prosseguimos. Observando comendo clicando guardando, eu guardo recolhendo tudo que seja tranqueirinha, ela diz nestes termos; enfim tudo que achar bonito e engraçado ou só curioso: folha ramo pedra e o que a câmera guardou pra revelação posterior, já na loucura na volta infelizmente...
          Assim dias. Noite descanso as banhas, ela que fala e fala no peso de toneladas, ou descanso das latinhas de cerveja que a oposição condena; ela a ler. Leva pro mato bibliotecas e mais bibliotecas pra estudar, enquanto durmo. É outrinha das nossas différences.
          Assim dias e noites, noites e dias e semanas mês quase. Até aquele santo dia.
          Num ti falei procê? Ela é levinha, tanto que antes eu vivia por cima; agora após tanta vaca e tantos frigoríficos e tantos matadouros e tanto dormir, durmo por baixo; ou então achatá-la-ia! Magricela só a Maria como ninguém, mesmo os vegetarianos outros. Porém ágil esperta viva; e bela, vamos lá. Eu pachorrento mas vidrado numa trilha no mato. Medo de papagaio e macacos? ela acha gracioso a graça deles rindo deles. Embora sempre na vigília; já dizia um conservador que o preço da liberdade é a constante vigilância. Da liberdade e da vida...
          Eu na frente no carreador estreito entre barrancos e buracos nas montanhas escorregadias, nos espaços selváticos planos. Ela atrás, colada ao meu corpanzil... vai que... Bem. Aí pelas tantas, o sol se fora, a sombra a noite o medo a chegar – rugiram! Se fiquei com medo? eu? num ti falei procê que sou valentão! Pois corremos demais do dinossauro, eu na disparada, a máquina de prender a visão dinossáurica caída por aí, os tupererinhos e a cesta não se sabendo onde; e ela grudadinha no meu gangote lá encimão a cavalo no porco... Até ontem.
          Até amanhã.
Marília   março  2009








15° Uma Comprovação               

          “De burrice”, completa um sujeito apressado. Mas assim não se comprovaria a tenacidade a paciência – “a mediocridade”, torna o da pressa. Com a vantagem de não haver acompanhado a desvantagem da inocência. Aqui estou agora eu como juiz! o que não é tão absurdo numa terra em que todos são técnicos de futebol ou salvadores políticos da pátria. Insisto, inocência.
          Inocência com certeza do menino Quinzinho. E se não fosse inocente seria moleque, moleque de rua. Esclareço não haver rua; na vila não tinha rua, porque no interior, aí pelo extremado sertão, é um amontoamento de casas pobres todas a olhar para a igreja, todos os espaços são rua e não tem rua. Elinho encontrou certa moeda de cinquenta centavos (naquele tempo a vida bancária não havia aperfeiçoado a forma ‘cincoenta’) daquelas amarelinhas e reluzentes. Imediato pôs o tesouro a refletir o sol, sorriu sorvetes e doces; porém foi mostrá-la antes ao pároco, maior autoridade naquele fundão sem alfabeto. Afinal precisava acalmar a consciência, na época ainda brotando para a vida, para depois acusar a vida, ou ficaria melhor dizer...
          “Onde encontrou este dinheiro, meu filho?” falou o padre, arrastando um ‘italieiro’ (italiano misturado com brasileiro). Pensou como os cofres da Virgem poderiam ser reforçados, porém foi vencido por aqueles olhinhos inocentes desejosos de sorvetes e doces, muito embora fosse razoável tesouro amarelado, por demais tesouro para pouco Joaquim... Venceu a inocência: tinha achado, ninguém reclamara, que ficasse com o garoto. Todavia recomendou disciplina e contenção; e comunicar à velha Maria, a avó.
          Assim começou a odisseia do menino Quinzinho, que se prolongou na luta do jovem Joaquim; e um dia se completou, houvesse algo completo no planeta, na pessoa do velho Quim.
          Muitos enganos, quando acertou, andava outra vez enganado.
          Ao encontrar o dinheiro; “níquel” como diziam da moeda de ferro amarela; e que muitos entre os grandes falavam “cobre” – o menino Quinzinho pensava ter achado ouro. Tudo que reluzisse era ouro; ou prata se fosse branco; alumínio e folha nova de flandres eram portanto prata. Aquela era ouro.
          Aí cresceu, virou gente, mão de obra, contribuinte, consumidor, finalmente freguês na ‘Pharmacia’ do seu Zé Boticário.
          Durante o curso desse curso na escola da vida, quase promovido nos percalços da sorte a cliente ou paciente do hospital lá lonjão na cidade e quase terminal na funerária – o Sr. Joaquim praticamente se isolou numa espécie de ilha, a Vila não era mais que mero oásis num deserto sem alfabeto; se isolou. O que, diga-se de passagem, foi bom para não ter contato com a consciência civilizada e a impertinência social. Enfim, para encurtar esta estória amalucada, o seu Joaquim viveu cresceu casou se reproduziu brigou com a mulher pagou bebeu dormiu, viveu. Embora, conservou seu tesouro. Ouro à parte, já descobrira não ser ouro, no entanto dinheiro e dinheiro não se joga, guarda-se, o velhote Quim ainda guardava até outro dia a moedazinha de cinquenta. Uma garantia. Pensava em garantir o futuro; já não tinha futuro, só bengala. Ela continuava, cansada de tanto colchão, defendida numa latinha enferrujada, espécie de cofre forte ou banco na atualidade. Latinha carinhada sempre que a necessidade exigia, ou a tentação, ou somente a saudade do tempo em que era o jovem Quinzinho. Contudo a realidade ali estava para remover as nuvens da inocência e a fumaça ardida da velhice: o tesouro foi por várias vezes desentesourado pelo monstro desconhecido, ou tão só invisível, da inflação! O monstro trabalhou por milhões e milhões de vezes, estourou orçamentos e máquinas calculadoras, deixou a efígie do presidente Getúlio menos amarela, mais desbotada.
          Se quisesse. Não, se pudesse. Não ainda, se a indigência aceitasse. Não não, se o alfabeto permitisse – chegaria o velho Quim, encarquilhado gasto e cansado, a uma comprovação válida: dinheiro nacional!?... Mas a inocência não deixando levar a tanto.
Ribeirão Preto   junho  1994




16° A Inimiga Pública Número Um
         
          Agora parece que ponho os pingos nos ii; ao menos me conformo, não, rebelde, não me conformo, entendo somente. Entendo que Ela também possui seus ais, pois, tadinha (incrível tenha eu pena dela assim, e tenho) tadinha: encontra-se acorrentada a mim. Rumo às gales! sei lá.
          Antes, antes do agora, não.
          Pelo contrário. Chibatava eu minha Inimiga (só em pensamento) enquanto Ela me chibatava deixando vergões de fato, não apenas no pensamento como eu contra a Inimiga Pública Número Um, a minha em particular. Pois que me chibatava com azorragues contundentes, com dores e ranger, num bater-me contínuo; ou meramente a cobrar a cobrar a cobrar, me pegando no pé a Carrasca. Por isso a elegi, por maioria absoluta, pior: por unanimidade, nem um votinho contra a Contra! por isso a elegi Minha Inimiga Número Um.
          Ranheta (perdão ó Inimiga, um dia dirigir-me-ei a Vocezona com xingo mais ameno, quem sabe educado). Ranheta, cobradora, presente no meu ausente de fugir da briga ou do flagrante explícito – Você nunca me deixou em paz. Este nunca é tão absoluto que suponho já me azucrinasse quando eu comportadinho na barriga materna. Comportadinho em termos, tanto assim que dizem matei a genitora quando me deu a luz no momento imediato para dar-me à luz.
          Órfão, não me desamparou minuto sequer: cuidava de mim a cada instante. Mas eis o que descobri dela – para ter a quem azucrinar! Eu ali em cima a tratá-la ‘coitadinha’! É, não me corrijo da Santa, a Santa é a ingenuidade.
          Contudo eis-me aqui, ainda vivo a poder fazer muxoxo a fim de irritar Minha Inimiga.
          Não é uma contradição da vida!
          Agora – agora que estamos às raias da morte ambos, visto a descubrir atrelada aos meus desmandos, aos percalços do dia a dia, a nós virando noite – agora relembro uns fatozinhos a autenticar o meu sofrer tendo à minha sola a Inimiga.
          Uma vez, seja lá como for, poria a culpa na cachaça ou no vendeiro, aquele malandro que acrescia na minha conta a conta dos outros bebuns, nesse dia discuti com o Zé, outro Zé não iria desentender comigo mesmo antes o faria com Elona; discuti com o adversário e num ato impensado assassinei-o com a garrafa! Ela quis antes dar-me lições de santidade, que eu raciocinei como hipocrisia – a induzir-me a apenas socá-lo e fugir da briga (Ela: honrosamente; Eu: covardemente). Quando a consumar o ato ainda ouvia seu gritar contra mim, não me dando sequer tempo a berrar para Ela: tá do lado dele! Bem. Mal fiz, decerto acharam; preso no flagrante e acabei confessando nas grades até o que não havia feito. O advogado me tirou da enrascada. O advogado amigo, a Inimiga não mexeu palha... Não só não fez nada, tudo sim a me cobrar. Quase me vi por isso eu como o Inimigo Público Número Um dos outros. Saí.
          Todavia nos mínimos outros casos, mil e um outros melhor diria a ‘enear’ o infinito, sempre Ela a me cobrar a me lembrar quase a me justiçar! Um roubinho de nada, seria furtinho? pergunto depois ao advogado amigo – unzinho assim, Ela a me pegar no pé. Por exemplo deste exemplo: mudava o selo de preço, é etiqueta? sei lá; mudava punha o caro no barato o barato no caro pagava o barato e levava o caro, presumivelmente por caro o melhor em qualidade, tapeava a mocinha no caixa, tapeava o comerciante, ladrão a meu ver e ladrão que rouba ladrão não são cem anos! Bem. Mal a seu (Dela) pensamento. Chegava em casa a alegrar os meninos com coisas de primeira do Primeiro Mundo e Elona ainda a conceituar como roubo uma afanaçãozinha, a lembrar-me e a me cobrar.
          Cobrava posturas. Eu? gritava-lhe, era eu então a gritar – são todos hipócritas os da sociedade. Tratamento educação vizinhança. E até, pasme-se, até no simples ato de ofertar esmolas. Ela: cê dá pra aparecer (assinzinho comigo nas intimidades). Eu: sou um santo, ajudo os necessitados. Ela: precisa mostrar-se, se fazer ‘bonzinho’! Eu: não respondia, iria entrar na dela? Ou brigava.
          A gente vivia a brigar. Tanto assim que a intitulei Inimiga Pública Número Um. A discutir. E, curioso! se Ela não se manifestasse, eu ficava jururu perdido que nem barata no meio das galinhas. Não sabendo que fazer. Era num ‘uf’ que ouvia outra vez a Inimiga a me cobrar qualquer. Aí – é mesmo gozado – aí eu abalançava pra cima e pra baixo a cabeça ou dizia em alto e bom som: Você tem toda razão, Minha Amiga. Ela? a cachorra sem-vergonha, sorrindo maldosamente ao pegar-me no deslize. Pois a considerava Inimiga.
          Noutro episódio que me lembro, decerto Ela se esquece, matreira – noutro foi o caso do namoro com a Zefa.
          Como me pegou no pé, quem sabe se não inventou o caso da jovem para ter recursos a me pôr na parede... Acabei desposando a moça. Antes fiz tudo que ela não queria (ou queria?! sei lá, entenda-se as mulheres!) prejudiquei a ex-namorada em tudo possível, quase me casei com uma louca; fi-la minha ex-noiva.
          A Inimiga? a Inimiga ora de meu lado, pra ser contra mim; ora do lado dela, a ter depois uma esposa a pegar no pé do marido, eu. Sempre contra mim.
          Depois a filharada, as encrencas no lar. Ela sempre a favor dela em briga com ‘o’ cara-metade, eu. Vida toda. E quando tudo asserenava já, fustigou-me a deixar a família, me perder por esse mundão.
          Aí me cobrando culpa pelo resto da vida...
          Com tudo exposto, resta alguma dúvida estar ao lado, sempre ao lado, de Minha Inimiga Número Um!? Não obstante entendo seu proceder. Quem sabe se Eu no lugar Dela não seria ainda mais ferino e cobrador que a Inimiga. Possível. Por isso olho a Consciência e faço um descontozinho. Inimiga talvez amiga.
Marília   março  2005     

17° Descartabilidade em Cena

          Via o que via, via vendo se vendo no possível do ver. Não era um sábio, sábio de coração talvez decerto um homem comum; até comum entre outros roceiros; não era, era visto, não era um beletrista ou técnico de grande conhecimento e apenas conhecendo seu métier, desse tipo de homem mui encontradiço que ‘sabe’ tanto porém fica abobeado no meio às discussões da sabença daquilo que por aí se sabe, soubessem. Não punha tais quesitos na discussão: em discussão pra si somente o caso de se ver e não ver... ou ver demais! Olhou.
          Via o que via. Vendo vendo-se deitado pranchado prostrado encorpado o corpo na terra suja, na umidade flagrante entre insetos enxeridos esvoaçantes esvoaçando cercando um homem caído, ele. Via-se como caíra, caíra e pronto; já é muito saber para quem não sabe. Olhou, agora ‘reolhou’ mil vezes mais a constatar a si mesmo: um homem mediano, pobre nas vestes (pobre no saber sabia-se também limitado) os pertences de quem quase não tem tem o pouco e já sendo sobra na pobreza geral; esses pertences como o chapéu rolado ali próximo, o canivete que lembrava estar no bolso de níquel de não pôr moedas e no uso quando em uso a esticar a palha (eles diziam no seu meio “páia”) um pedaço de rolo de fumo no bolso largo traseiro onde o lenço sem lenço, noutro uns trocados em moeda de papel seboso pobres como o pobre no todo e... ah certamente de valor mais nada, mais nada; tudo o que possuía, não possuía agora o mais importante a pobres a ricos à toda gente: a vida! ele pensando nesse momento a vida, sendo parte da vida realmente a existência. A vida! Será que morri?
          Olhou pela enésima e última vez o seu ser, material, sentiu pena da pena que sempre teve de nada ter. Na verdade sentiu uma tristeza naquela alegria da descoberta do seu corpo caído e inerte no solo sujo. Mesmo porque lembrava-se como não houvesse morrido, será que morri se reperguntou? como não se tivesse soltado daquele monte de carnes os músculos o esqueleto a nervatura e tudo o mais; e das vestes não miseráveis molambentas repugnantes quem sabe mas pobres. Parece, parecia que agorinha ainda andando à procura da paz. E aqui simbolizando o homem a sociedade humana como um todo e individualmente procurando a paz; quiçá fazendo a guerra à paz. Não pensava nestes termos e sim nos termos em que se via vendo-se a si antes de andar parado mudo morto, morto! Olhou.
          Olhou até com pesar a pesar o que fora já não era. Pensou enfeixando num átimo seu mundo na sua vida pregressa nesse mundo que agora via. Teve pena, se não apenas agradecimento pelo que via pelo que fora já não era, tinha consciência já não ser. Esses braços... O esquerdo tendo uma cicatriz, a cicatriz empurrou seu pensamento àquele e a outros desastres da existência.
          Da cicatriz da mão do dedo da unha lanhada e um pouco suja por baixo por cima fosca gasta feia bela na prova do trabalho – nenhum dia se pensara vagabundo e aproveitador. Da cicatriz e do conjunto da mão direita partiu como que obrigado pela recordação à lembrança dos seus. Ela presente nas tarefas e nas tarefas de amor e apego à sua gente. Ora, se lembrou solteirão: nunca conseguira graças à timidez doentia fazer sequer a corte às mulheres (e não seria – agora tendo certeza ou deixaria ainda nova uma viúva do defunto novo ainda – não seria um ganho! ah mas quanto desejara quanto necessitara uma companheira!) Depois a parentela foi morrendo, quase colecionou velórios caixões enterros; e pior: o sofrer e o desgaste não aqueles que acompanham, os que antecedem essas perdas. Enfim andava só; sabia nos últimos tempos doente desanimado desconsolado, num ótimo ao acabar. Contudo nem percebeu o perceber.
          Agora era tarde para lamentar: encontrava-se escarrapachado no chão. Talvez sequer cheirasse bem, haja vista a mosca a esvoaçar... Prestou ainda mais atenção àquela carcaça então imprestável.
          Tinha uma das pernas meio flexionada, semelhando a querer andar ou sustentar como o fizera em cinquenta e tantos anos um corpo miúdo mas pesado; inertes ambos corpo e perna. Num pé um sapato quase estourando no inchaço do músculo humano pressionando o couro de vaca. Longe ali perto o outro sapato do par e outro pé descalço donde subiam mil insetos. Aspirou, masoquista, o cheiro e só então percebeu que o hábito em se sentir não deixara computar a fragrância nauseabunda... Da região do púbis notava manchas do que fora urinado quem sabe seco, decerto a lembrar amônia. O ventre não era seu ventre, magro e magro por dentro no costume de ingerir pouco e menos que o suficiente. Teve pena mais uma vez de si mesmo por essa desdita de sua condição social; agora estufado; olhou sem observar bem, com asco com lástima, que a pele da barriga crescera assustadoramente e mais nesse menos: havia noção exata de rachaduras... e mais exalações e mais moscas. Nisso notou outro ser.
          Chegou um cão, magro como os maltrapilhos humanoides; ele aproximou-se, cheirou aquilo, aquilo sendo ele e ele sentiu repugnância pela repugnância que o cachorro mostrou; o animal a seguir afastou-se, ladrando um ganido uivado fúnebre ou próximo do medonho.
          Ah fazia pena, ou mais que isso causava impacto negativo, seu rosto. Não conseguiu se reconhecer naquilo inchado. Não obstante tendo certeza naquela máscara, ela que nem mostrava o sofrer, suas rugas precoces sua barba de semanas seu nariz seco suas sobrancelhas disformes, enfim um rosto menos que cara mais que caveira, tudo transformado, horrendamente modificado; um monstro, isso mesmo, pensou, um mostro! E fazia pena também o tórax fino agora grosso no estufo. A camisa simples de pano riscado então irreconhecível; duvidou: teria realmente usado aqueles trapos de tecido roto? Felizmente, se consolou, não deve estar exalando o cheiro do suor azedo curtido de gente que nunca se lava nunca podendo vestir novo ou usado limpo talhe. Infelizmente o fedor cadavérico a isso tudo suplantava... Estando nessas elucubrações, chegaram naquele deserto com arbustos ressequidos e também mortos vivos seres...
          Desceu um, outro, mais e mais, tingindo o ambiente de negro e de penas àquela pena humana ou resto dela. Não imaginava como que sem alardes avisos amostras e tudo o mais urubus conseguissem saber e descobrir onde tão pobre alimento.
          Debalde tocou as aves de rapina: nenhuma se mexia aos seus insultos. Chutou nervoso aquele abuso – parece que mais se entusiasmaram com o banquete que se oferecia, ele mesmo.
          Foi um terror pra si. Sobretudo quando, sem os costumeiros hurras e vivas e sem os discursos aos convivas, eles iniciaram festa em meio aos pulinhos desengonçados a desmontar o cadáver. Via-se como que numa terra surrealista ou de loucura consumada, via um e após outro outros a bicar seu olho. Dizem que o fazem a fim de apagar a vista e escapar às pragas da vítima, todavia isso decerto lenda caipira do tempo no qual fumava sua palha, vivo; morto, o desastre em ver extrair os dois globos... Sentiu como se fosse com ele o estrago; e de fato era consigo! Aí, sem olhos, tudo embaralhou escureceu pra si. Entretanto continuou a ouvir a algazarra dos urubus, famintos, alegres, felizes.
          E ninguém ali para ajudá-lo a espantar os algozes.
Marília   março  2009




18° Briga em Família        

          Andava por aqueles tempos de crise o sofá meio sonolento, fosse que algum dia estivesse desperto e agitado – quando imaginei curtir meu quilo, após farto jantar (arroz, feijão, abobrinha) o jantar da dona Ana, me espreguiçando como sói acontecer a um bom cristão. Ainda não havia dormido ou acordado totalmente, quando me surpreendi com um tremendo bate-boca... antes disso – pois não há pior entrevero que seja sem o preâmbulo, e me pareceu dos melhores – dominava o silêncio a paz a extática mesmo. Por exagero diria dominar naquele recinto o grande aparelho de tevê (desligado creio) imenso na opinião da própria Televisão. Foi nesse descuido do não-fazer que teve início uma pequena indisposição, na qual observei ela erguer as antenas, como alguém aguardando a cobra que possa surgir em qualquer lugar em qualquer hora e por qualquer motivo, ou mesmo sem motivo... o que não seria para menos, pois adentrava garboso o aparelho de rádio! A fim de pô-lo no seu devido lugar, um radinho de pilhas, japonês, decerto. Isso um senão no contexto. Entrava o vozeirão que passou a ofender a sala (‘ofender’ verbo posto nesta narrativa não menos por dona Televisão, por razões óbvias...) Mas perdi-me nas afirmativas iniciais da luta (não armada, é claro, ou já teria fugido qual foguete corajoso, não podendo contar nesta crônica) não pensava que fosse luta, imaginei apenas inocente troca de desaforos. Entretanto percebi ser realmente um desentendimento conjugal; e deveria, se tivesse um pouco de decoro e não tenho vergonha na cara, me ausentar delicadamente diplomaticamente sem magoar os briguentos, porque uma coisa feia é meter-se na briga de casal (então indaga o leitor enxerido: como haveriam estas mal traçadas linhas! concordo). Nesta questão existe a atenuante a meu favor por estar metido nela, chegara antes da coisa ficar preta ao sofá, como falei. Bem entendido: desconheço a opinião de Senhora Tevê sobre minha presença na sala, ela sim se encontrava de fato antes de mim ali; ele chegou depois, esbravejou gritando, parecia tomado pelos espíritos maus, dos quais tenho não medo porém medo em acreditar que existam. A bem da verdade esclareço que só percebi as bravatas quando já eram bravatas. Então um falava outro gritava ambos se desentendiam, tive de me remexer no sofá como a dizer: “sim, roupa suja se lava em casa, mas tem gente de fora (eu) aqui, respeitemos as normas da boa educação!” Não disse nada. Suponho, agora quilômetros daqueles tempos de crise, não tivesse coragem a repreendê-los. Pensando melhor, melhor diria que não me fiz acordar pra não ocasionar embaraço aos contendores. Chega de tró-ló-ló, melhor falar da briga familial: “Você é minha perdição!” bradou numa voz alta e rouca o radinho, ao que Dona Radinho da Silva rebateu “qual perdição? pode alguém perdido no éter levar a esposa a se portar melhor!” Aliás usou tal vozeirão também a senhora, que mais me pareceu virago que doce tonalidade feminina, doadora de amor. Essa minha opinião e achei devesse sair do fogo cruzado entre marido e mulher.  “Que atrevimento!” comentou o Radinho. Ela desfilou uma coleção carnavalesca de impropérios, a qual não registro para não ofender o decoro público e por lembrar minha pobre mãezinha me batendo e me tapando a boca suja pelos nomes feios que eu sabia dizer na rua, até sangrar-me a dentuça. Fiquei surpreso: Dona Televisão sabia ainda mais xingamentos! ofertou xingos ao consorte a mancheias... A ponto de ele aproximar-se ainda mais da cara-metade, quase lhe quebrando a cara! Nessa altura imaginei os vizinhos curiosos por volta da residência, a olhar os lados daquela briga horrenda, medonha, porém não estavam, quem sabe se não por viverem acostumados às discórdias ou por comum saberem apenas desentendimento (quando comum, a gente se cansa ou não dá o devido valor aos arranca-rabos) eu é que pensava talvez numa guerra... Os contendores continuaram a gritar inglês cantar inglês a fazerem propaganda em nossa língua. Sendo que tão só uma ou outra criança brigava nas redondezas e criança não se interessa por discórdia conjugal, só as comadres; estas eram os vizinhos curiosos de que falei os quais como se vê não andavam então interessados. Voltemos ao Sr. Rádio da Silva e à sua ilustre esposa Senhora Televisão da Silva, em luta, em quase luta corporal. Ele já cansado, o que mostrava seu falar rouco e falho; ela a xingar limpamente no alto e bom som. Eu não podia fugir, só fingir: estava entre as linhas de tiro, quisesse não quisesse teria de ficar narrando; não, observando. Só agora me animei a contar. Mais meia hora talvez de ofensas e não aguentariam eles, pensei. Errado. Ela continuaria a ofendê-lo, ele andava a cada segundo mais para mudo, pobrezinho. Entretanto o desentendimento conjugal teve uma certa mudança de rumo. Foi quando entraram os filhotes. E filho tem um peso adequado no coração dos pais. O Toca-Discos entrou chorando ao ver a mãe esbravejar alto e o pai engasgado alto. Quase, pois mostrava só indignação, parecia mudo, estava mudo, sequer o seu prato rodava não dava pra se indignar; mas presença é presença, conta. Logo chegou meio atropelado um Três-em-Um de baixa qualidade, o que não surpreendia porque toda a família até aquele instante, a julgar pelo nível da conversa, estava muito mais para gentalha que para a nobreza... Chegou gritou inglês parou no momento em que percebeu a briga dos genitores. Tinha também no grupo das crianças um ‘Walkmen’ (ou nome parecido, ando surdo) com feição dopada, olhando sem ver e falou, se falou, para si próprio o que não se ouviu. Chegando igualmente uma Calculadora Barata, como alguém que entra à contramão na família, todavia registrada como Silva no cartório civil e tudo o mais. Mais não se podia dizer, apenas que a presença da prole chocou os contendores, os quais se calaram, ele por estar já sem fôlego; ela por ter gastado todinho o fôlego ou guardando o fôlego para depois que os meninos retornassem à brincadeira e ‘brigadeira’ lá fora. Tão somente a mãe falou a eles: “Vão comprar doce no boteco, meus filhos”, enquanto o pai, ele já tendo visto tal filme antes, tossiu tomou uns trocados sem o que dizer, entregou o numerário um a um aos pequerruchos em partes iguais para não dar briga (coisa muito feia) deu mesmo uns tapinhas de amor na traseira da Calculadora, sorrindo maliciosamente. Os petizes saíram. Saímos. Eu me aproveitando da situação, pra não ver a situação num possível segundo tempo.
Ribeirão Preto   janeiro  1993




19° Granduras Negativas

          Era um grande escritor, imenso. Tanto que não cabia num planeta tão pequeno, insignificante. Este tanto tonto das voltas, que as voltas davam em torno de si mesmo, outros mundos decerto parados no firmamento. O céu do escritor entretanto virando um inferno quando se dava ao luxo de escrever descrever a realidade na sua ficção. Pois os outros sempre se intrometem nas coisas que a gente faz quando faz e quando não faz. A vizinha por exemplo.
          Não que não fosse boa. Até boazuda, mas ia lá poder com um ‘firinfinfim’ do seu bico a assobiar! De dia e de noite, dormindo não, é claro, no escuro escondida nas cobertas; apenas seu homem a ouvir os seus “achei” que dizia a espirrar. De manhã de tarde toda hora num subiinho fino e gritado. Não dava. “Num dá” dizia ao seu pensamento pensando nela; e aí não estaria a pecar!
          Não punha nestes termos: nos termos de atrapalhar-lhe a escrita.
          Não parava a vizinha. Parava um pouco, retomava.
          Não era só. Havia barulhos os de casa os do galo os da cachorrada os dos vendedores os dos ledores de sorte – não tinha sorte para escrever; e escrevia grandão volumoso volumosos escritos, ranços quem sabe. Tudo em maior, não cabendo sequer no planetinha planetoide a virar e virar louco, louco a virar por volta das sideralidades mais.
          Não sabia o que fazer para fazer. E certamente seria romanção, quiçá novelinhona ou contão do melhor vigário houvesse e aí sendo um papa na envergadura e no volume.
          Não, bilhete não. Costumava no caso do bilhetinho redigir desfeitear muito o açougueiro porco pelo porco posto no lugar de vaca; dir-se-ia porém um drama não só por ele fazer a ofensa num cursivo horroroso, preferindo então  passar direto o recado, porque ao menos a falar dentro do padrão de linguagem culta; embora chegando a atropelar a reforma ortográfica que se fazia, uma de apenas dois por cento, visto ser também ela um mundinho bobo a virolar em torno de si mesma até ficar tonta, mais tonta.
          Não era só a vizinha portanto, não era só os de casa, não era só a atrapalhação de palmas e latidos a dificultar se não inviabilizar a feitura da ‘escritona’.
          Não.
          Não só isso, isso tudo e tudo o mais, menos percebido por ser o seu trabalho de lavratura na escritura íntima, ou interna somente.
          Não se dava bem com o mal. O mal! a caneta.
          Não bem a caneta – ela igualmente sim nesse não – mas a pena.
          Não havendo nesse tempo caneta-tinteiro. Caneta-tinteiro? nem caneta, mui menos computador e ‘notebúque’ que atropelaram a conservadora máquina-de-escrever a ‘tectar’ barulhinhos enjoativos na direção da vizinha boa e disparar na pobre boa vixe como boa; e ela em contrapartida a disparar seus assovios fininhos com intenção de recordar os hinos religiosos de sua igreja.
          Não havia, havia somente pena de ganso de pato de avestruz? de gavião? de urubu! já sendo isto demais, o importante era ser pena, e tinta.
          Não existia tinta seca ou até líquida e só a preta. Como faria um escritor daquele porte a pichar vermelho os inimigos do bem... bem, crê-se, descreveria com preto mesmo e quando oposição grandona semelhando ele, escritorzão enorme em não caber no asteroidezinho, daí não rabiscava preto só negro que é um preto de doer a vista.
          Não tinha jeito melhor. Nisso escrevia com pena, molhava sua ponta chanfrada na tinta no tinteiro grosseiro matreiro (pois bastante um encosto e virava, virava então rio lago mar oceano na mesa de escrever loucuras!) Molhava a pena e rabiscava no caderno também grosseiro interesseiro em parecer belo ou ao menos culto limpo civilizado apesar brochura; visto os pais e avós da brochura terem sido lousas ou pedras ou areia no chão e a pena somente o dedo indicador quando não machucado.
          Não mais que isso. O suficiente.
          Não escrevia, não obstante. Ora, por que escrever se era tão grande e o planeta tão pequeno não cabendo as ‘granduras’ que escreveria. Não escreveria, vai que... ia que, escrevendo, derrubasse o tinteiro caneta pena e estes negrejassem tais objetos e a mesa de trabalho a dar trabalho à feiosa criada de quarto, no caso ‘criada de escriptorio’ e ainda por cima, ou por baixo, a patroa surgisse de surpresa e visse o estrago deixado pela sujeira!
          Não.
          Não e nem se posicionando como escritor, menos escritorzão, enorme a ultrapassar a pequenice dum planetoide minúsculo merecedor de tão só um bilhete. Optou a ser comerciante, comerciante de ir à loja ganhar o pão para cobrir as esbanjos da casa; antes olhou pela janela aqueles assobios singulares nunca dantes escutados por qualquer mortal.
          Não, sim, olhou primeiro se a patroa não olhava.
          Não olhava.
Marília   janeiro  2009




20° Ex-Conto                        

          Existia num país encantado um clube associação ou qualquer parecença assim, assim assim cheio de realidades, estas por sua vez cheias de idealismo e utopia; matérias-primas com que se erige o edifício da verdade, daquelas verdadeiras. Isto tudo não é tudo, entretanto a explicar só podendo ser encantada a nação que tenha por escopo o nada existente.
          O resto era o resto, ou seja a confusão.
          Não havia confusão – todos a se entender a se irmanar nos iguais da associação ou qualquer parecença com clube. Mesmo porque não se entendiam era com a restante oposição da confusão, à qual batiam o pé pegavam no pé a pô-la com pé na estrada, em fuga desesperada confusional. Eram, a se crer nas recíprocas pichações: os muito pelo contrário das coisas.
          Isto visto tido dito crido (credo em cruz aqui tanta feiura vocálica) isto tão só o despropósito de um preâmbulo para um continho de merda (cruz-credo, agora moral).
          O vigário. Digamos num melhor vernáculo: a estória.
          Por ordem do presidente, Sr. ex-Sempre, por sua ordem democratizaram a união, nunca havia mas apenas a reunião, com os mesmos propósitos alcançados, ou seja convocação e presença.
          Nessa reunião, ex-reunião a bendizer o dizer bem, ex-Sempre deu a palavra à ex-Esposa, a qual, claro haver maldito seu ex-Marido; a qual falou apenas uns minutinhos dos pequenos – dez milhões deles. Aí a vez (pois uma instituição democrática, onde todos têm direito a expor seu expor: só o direito à ação que não, esta virando dever; podiam sim falar à vontade e não lhes faltavam vontade somente emprego:) aí a vez do ex-Empregado, o qual lamentou muito, por saber não chegar a velho e velho é quem lamenta o que os outros fazem por não haver feito; então lamentou lamentou por mais de minuto, hora. Cansou. Cassou-lhe a vez a vez do ex-Juiz, este a defender-se segundo a lei tal capítulo tal, tal versículo não, sim do ex-Evangélico mais tarde, agora a do ex-Juiz, ele apenas corrupto mas não na cadeia. Nela sim havendo ex-Libertos libertinos ou futuros ex-Presidiários. Feita a colocação juridicamente correta, embora não perfeitamente correta; aí ex-Sempre chamou o ex-Comerciante, que fora macho agora ex-Macho e nessa condição ele pregou-lhe do lado esquerdo, o do coração ou ex-coração, a medalha de honra de ex-Rico e só posteriormente, após as maquinais palmas de praxe, só então condecorado como ex-Cidadão. Nisso infiltrou-se entre os iguais dessemelhantes um ex-Favelado, antes tendo sido ex-Roceiro com estágio na função de pedreiro pegando bicos a sobreviver na periferia, depois ex-Pedreiro nesse antes. Ex-Sempre não conseguindo ordem nesse indevido apelou ao ex-Professor, o qual pouco fez por ser convalescente, era ex-Doente, tornado apenas pretenso ex-Saudável. O presidente conseguiu algum resultado, mau no meio bom, com o ex-Capitalista, elemento também ocupante da função de ex-Político, perdera no voto os cargos porém não tendo perdido o jogo de cintura: distribuiu (embora falsificado) dinheiro como presente aos presentes, ah a força desaglutinante do vil metal! Acalmado o plenário, ex-Sempre declinou o apelido dum ex-Vizinho (nunca se soube de quem) com certeza ex-Moleque e, segundo as más línguas ex-Vagabundo e ex-Bebum, de qualquer forma subindo ao palco com um copo na mão. Falou, falaram à boca pequena, dispensado, ambos ex-Sempre e ex-Vizinho, se deixassem a sorrir. Desse momento se aproveitou um ex-Tagarela. Pelo quanto discursou terá exagerado, não nos dias seguidos a falar, a afirmar-se ex-Mudo e amigo dos olhares dum ex-Cego. Enfim todos já a abrir a boca lembrando cama quando surgiu a pedir vez um ex-Namorado, sem dúvida ex-Amante quando havia macho, o eufemismo trocando a ‘eleganciar’ o dizer no dito ex-Namorado, que se apresentou com a fêmea da espécie: a ex-Namorada, cada um em sua mais que dezena na função ‘ex’; ambos representantes do plenário a estar ululantemente abarrotado de ex-Namorados ex-Amasiados ex-‘Maritalizados’, portanto dignos representantes dos representados, estes todos contados por milhão na véspera numa parada gay, na principal avenida da principal cidade da principal nação; os quais no pleno plenário, pleonasticamente correto, não vaiavam todos apenas vaiando os ‘muito pelo contrário das coisas’; inclusive o folclore ambulante gritava slogans de ordem como ‘viva’ e outras mortes. Cansado, exaurido, ex-Sempre daria a palavra ao ex-Vivo se fosse ex-Morto, não era, nem compareceu: a tal reunião não se dava na necrópole municipal mas no centro urbano. Aí teve de encerrar, como encerro este longo período gramatical de bom ou quem sabe de ótimo conto, do vigário.
          Não obstante reunião falação confusão ‘cansação’ e exaustão, deu-se o fim.
          Em pôr final como ponto, dou a palavra ao ex-Sem Destino, destinado a nada. Nada existe!?
Marília   maio  2005




21° Sequestro do Rei

I – Poderia, posso dizer a você que não era qualquer um nesse tempo... qual tempo? ora, quando rei. Isto é, não era ainda quando – como nós agora indo por este estradão sem fim agora, você ao seu e eu ao meu destino, que será mesmo destino? o nosso sem destino enfim, perdidos creio... – falo quando não era ainda rei para ser posteriormente rei. O rei dum império só meu, de mais ninguém. Digo a você; você ouve! Olhei, virou-se, mais de cabeça, olhou-me, rosnou apenas rosnou, prosseguimos, prossegui.
          Então marchava num estradão assim como este, ermo, não me lembra para onde mas decerto sem destino como agora nós dois; donde? da civilização, da violência, da insegurança, até do cansaço da existência; um perfeito velho imperfeito. Lembro, então sonhava com o absurdo que constava não exigir mais que uma varinha um anzol um lambari como fora um menino e não de fato um velhote – o velho sabemos o destroço duma vida, não entremos nas dores ou não saímos das dores. O fato é que me perdia perdido por lá. Explico: tal qual perdemos cachorrinhos de nossa cadela, eu me perdia a mim mesmo sem saber onde depositar o cachorrinho, eu mesmo. Cansado. Esfalfado. Prostrado. Não prostrado não, andava, andava imaginando e criando barrancos para descansar meu cansaço. Diria em tédio porém bastam alguns quilometrinhos e lá se vai o tédio e assim renovamos nosso sonho, onde possa ter sonho. Realmente cansado, as pernas já dando passos curtos, assim encurtando a destreza.
          Foi nesse ponto ela aparecer.
          Chamá-la-ei primeira, referência à rainha-mor, digna dum rei, quiçá dum príncipe, este que é versão mais jovem e potente de um rei. O rei, eu, claro.
          Passou, olhou, frenou, afastou de volta o carro onde minhas pernas na beira da estrada me levara devagarinho como afirmei por cansaço. Parou, antes raspou inclusive os pneus na frenagem da ré quase brusca, a deixar marcas do escorrego e imediato a parada na areia no pó vermelho daquele caminho tosco de caboclos passarem com botinas ou descalços.
          Você, disse a rainha bela apetitosa ao rei, eu; você vai para onde, quer carona! fez indagação ao mesmo tempo encavalando ambas perguntas; e aí já imperou na sua costumeira, posteriormente saberia habitual, forma de mandar – sobe aqui. Nisso abrindo a porta da direita dum jeep ainda a fumegar poeira sujeira e cheiro de motor quente e combustível exalante. Subi. Não cheguei indagar onde minha prisão...
          Creia-me, andava a me prender, como se prende passarinho na gaiola aberta com chamarisco duns grãos de milho na portinhola... Entrei no gaiolão. Ela a sorrir sua vitória. Olhei desconhecendo meu sucumbir e minha derrota.
          Viajamos horas socos cacos areia poeira outra vez poeira e mais cansaço, dormi. Acordei entre elas...

II – Naquele trajeto, curto? longo? insondável? distraído com o perfume da mulher a meu lado no volante dum cabrito pulante que é uma condução rural em todo seu esplendor – naquele caminhar não poderia estar sonhando o sonho, mais a grudar-me medroso à realidade dos solavancos e dos zigue-zagues da condutora bela; achei-a bela ou seria por meus anos a seco longe do contato feminino; e nestas condições a exagerar na visão... Naquele trajeto pincei afirmativas dela, mescladas de lamentos pelo descaso das autoridades na conservação do trecho acidentado, lamento pelo abandono da estrada vicinal, mais própria a cavalos da população roceira, que para a passagem de um veículo importado que faz as delícias da classe abastada e do consumismo da burguesia. Não distante demais da partida a rainha me dava informes por alto do ambiente que encontraríamos no êxito da viagem.
          Não se preocupava a pedir-me informações nem a se dispor saber quem eu era. Em outras palavras, não pretendeu conhecer minhas origens, minha capacidade física e meu estado mental; a existência que levara até aquele momento. Em suma pouco ou nada lhe importando que eu pudesse ser um consumado patife quiçá um criminoso um fugitivo da lei; enfim podendo ser um perigoso representante da bandidagem que assola o país nestes tempos, naqueles, pois conto o antes do sequestro.
          Sequestro! Sim andava sendo roubado e não sabia; roubado integralmente em corpo e alma por aquela fada que cheirava a mulher, a mulher que anos vivia longe de mim.
          Tudo isso mesmo a considerar ser no dito momento já um homem envelhecido, a branquear os poucos fios que me cobriam a cabeça; e tendo uma barba enorme, não propriamente embranquecendo e sim quase toda branca, indício comum da velhice macha...
          Não, não via não percebia isso, ou sequer se importando com o homem em descenso, vendo decerto ela apenas o homem, não os anos do homem...
          Mais tarde consideraria, analisando o todo, que a rainha também andava muitíssimo tempo sem homem; e nesse caso eu não deixando ser algo de valor, mesmo sem valor na minha opinião.
          Bem, viajamos por horas, saímos da estrada principal, entramos nas particulares, quase carreadores e picadas, nada estrada costumeira de trato, mesmo sem comparar-se o anterior estradão maltratado pelo poder público, este cioso da percepção de impostos e taxas.
          Viajamos; chegamos.

III – Como acha deva ser a chegada de um rei. (Rosnou-me o companheiro qualquer coisa ininteligível...) Exatamente assim, uma chegada triunfal: digna da minha dignidade. Aliás não colaborei muito com o cerimonial, pois acordara naquela horinha, a da chegada; ainda a esfregar olhos ou pela monotonia das lamentações da rainha a cambiar nervosa as marchas, a impedir impactos vezes sem conta apertando o pedal do freio; ou é que dormira de cansaço, a relembrar aqui o esfalfamento na quilometragem de meus passos, quando o jipe houvera me alcançado.
          Seja como for foi no desembarque nosso um triunfo próprio dum rei. As moças me rodearam me examinaram me apalparam, ver certamente que o rei não fosse quimera e que agora – escute bem isso – que agora elas possuíam um rei inteirinho pra si.
          Muito bem, não pense que exagero, aliás em nada costumo exagerar: conto a realidade, a minha realidade como um ser real, um monarca!
          Quanto às moças como afiancei, eram mesmo jovens. Depois concluí jovens sim porém mais que isso, umas jovens carentes...
          A rainha? Ela se dizendo jovem também; as outras não podiam desdizer isso na sua frente, à boca pequena me confessaram ser uma tia. Na época as famílias assim denominando as filhas a sobrarem no mercado do matrimônio. Claro, nunca eu falei a ela nestes termos. Mais ainda, aceitei acatei suas ordens, estas ordens eram as de que fosse a rainha ali. Que fosse a minha esposa favorita, no meio de tantas beldades. Quer dizer, eu, se me dessem o direito à escolha votaria na mais nova delas, pouco mais que menina. As outras cinco eram jovens não tanto quanto a menina nem tão bela quanto a belinha; entretanto novas de fato. Especialmente em comparação com a monarca.
          Todavia há algo que deve ser revelado. Todas seis, mesmo aquela menina-moça, se mostravam rainhas, como a primeira rainha; defendiam nos instantes comigo ser a rainha do lugar. Isto guardei para continuar sendo não para cada uma em particular mas a todas o seu rei. Autêntica política e diplomacia dum monarca; um rei precisa ter muito jogo de cintura, a fim de receber os bens da posição.
          De maneira que por muitos meses fui rei a elas todas e assim recebi delas e muito mais da rainha-mor, não só o tratamento real todavia as vantagens do cargo.
          Ora, a pensar meu estágio anterior de quase andarilho perdido numa estrada de movimento interestadual embora descalça e esburacada e ainda rica em poeira; a pensar nisso e na minha situação de miséria pela falta de fêmea por anos na solidão! a pensar assim, não ganhara apenas o título de supremo mandatário, recebia as benesses de todo um reino!

IV – A vida no meu reino, a minha estada nessa propriedade foi curiosa, se analisarmos a formalizar como deva ser tratado um monarca, um monarca do meu porte visto me achar entre os melhores reis do planeta. Porque as meninas exageraram e eis o meu susto num espanto profundo quando tomo consciência do tratamento. Pois creia: virei brinquedinho delas!  Ora quais, as rainhas famintas de homem, de homem não com ‘o’ maiúsculo, com agá dos grandalhões e que é a marca dos grandes homens. Diria a acertar melhor a frase e soná-la bela, ela a frase não a princesa não a rainha não todas rainhas, embora todas belas; ora eu ia dizendo homem grande; não cabendo grande por eu ser um ser de estatura mediana – isto desconto por já um velhote (na época válido ainda) e a prova é eu haver sido encontrado pela rainha-mor andando numa cadência militar in acelerado marcha! Acelerado seria um pouquinho abuso porque estafado estourado no meu cansaço até a pedir barranco... Um velhote eu dizia; e assim devera ter encolhido um pouco como todos idosos, os quais não crescem mais igual um jovem e inclusive diminuem na altura. No entanto era um grande homem, um grande rei. E nestas condições, virar brinquedo das fêmeas folgadas da espécie... ah é dose; era dose primeiro a envaidecer e após uma dose de enraivecer, ao menos para indignar leões!
          Contudo extrapolavam as rainhas, as seis, as cinco isto porque a rainha-mor, forte na sua fortaleza de titia, esta só na seriedade não brincava com seu amor, eu; séria, apenas exigia cobrava impunha mandava no seu homem, eu. Diria que as seis me tomavam para tão só divertir-se. Uma noite inteira, estendida pelo dia a fora dentro de seus aposentos, eu entregue para uma delas então; noutra para outra, noutra para outra ainda e assim por diante... Vou apelidá-las tomando o abecedário para facilitar o abuso; eu era abusado pelas jovens; não sendo virgem convenhamos porque desfrutava já as ‘delícias’ da velhice; abusado por ‘a’ por ‘b’ a seguir por ‘c’ depois ‘d’ ‘e’ e ‘f’ – todas a brincarem comigo no seu leito na sua vez.
          Neste ponto você indagaria, indagaria e não o faz pois só grunhe e nada fala, você me perguntaria se a rainha-mor não deveria ser ‘a’, aqui sim um A grande enorme na sua maiusculação, haja esta palavra que os preguiçosos dicionários não se dispõem registrar, porque ela séria e mandona, com ela nada de brincadeiras – inclusive puxava orelhas das outras princesas tornadas rainhas na sua noite de brincar com seu brinquedinho macho, eu. Acontece que se não dispunha a aceitar-se uma das rainhas: era, afirmava provava por a+b ser ela mesma a rainha única, o resto a submissão. No entanto as demais é que se subdividiam por conta própria em rainhas de ‘a’ até ‘f’.
          Olhe meu caro colega de caminhada, elas me fizeram de gato e sapato. Não tem esse ditado? Então, abusaram dias e meses de mim!
          Não diria pobrezinho de mim. Eu aceitando o abuso. No começo até estimulava e me dispunha me entregava a elas. Depois... um dia senti-me abusado, qual o brinquedo esfrangalhado mordido despedaçado, em suma virado trapo.
          Muito enfraquecido andava, tanto que não mais andava. Daí por diante fui como um boneco de pano enchido de estopa e algodão, um boneco frágil atirado no entulho, no lixo para reciclagem. Ou no abandono e/ou esquecimento.

V – As consequências? Bem, a bem dizer diria que o abandono e o esquecimento foram as mais expressivas e o que mais tocou minha dor. As próximas e quase imediatas entretanto foram o que marcou-me mais profundamente.
          Imagine você que eu na minha provecta idade com direito a mil netos – isto abuso de figura – a esperar netos recebi filhos, oito filhos! Completo agora este absurdo num absurdo mais bem configurado: oito criancinhas duma vez!!
          Não não me olhe torto, conto direito; direito direto honesto.
          A rainha-mor, séria, mandona e a fazer de todas outras apenas rainhas naquela ilha isolada cercada de mistério por todos lados – essa na sua alta autoridade, pariu gêmeos um menino uma garota, umas gracinhas e poderia dizer tendo a fuça do pai, eu. As outras rainhas, as que abusaram do genitor de seus filhos, essas outras não tiveram tal direito e deram à luz um só bebê cada uma, porém acharam cada qual o seu a mais bela criança... Todas indistintamente vendo meus traços nos traços de sua cria. O que confortou e alegrou meu coração. Uma só, efe, mais apressada, “ganhou nenê” como falava e falava o restante da população no sétimo mês; as demais esperaram o apito final do árbitro para gemer e pôr no mundo meus filhos, três meninos e duas meninas; enquanto o da apressadinha não podendo a apressadinha precisar o sexo...
          Um dia, um ano após tais enriquecimentos na população do globo, fui conhecer minha prole. Vi de longe, o harém já com outros doadores; por sinal jovens e feios.
          Então sim, conscientizei o abandono e o esquecimento.

VI – Aí está o porquê do seu companheiro ser seu companheiro neste estradão sem destino.
          Entretanto você não me deu até agora sua opinião. Que seja mesmo o veredicto...
          O outro grunhiu brabo e acresceu em boa mas violenta linguagem: assassinei até hoje muitos médicos dentistas filósofos políticos e apenas para variar, um homem comum. Vai ser a primeira vez que esgano um rei...
Marília  setembro 2010




22° O Caso dos 10 Negrinhos
         
          Se ouvisse, se atencioso, se visse não apenas olhando, se, em última análise, não dormisse de olhos abertos – diria com certeza, a acusar-me plagiário, que narrasse este tró-ló-ló (neste ponto me insurjo, berro: “lindas estórias!”) que narrasse enfim a outro trouxa. Felizmente dorme.  Posso contar os 10 Negrinhos, ir além: onze ou vinte, sem ferir Agatha e sem ferir surdos hajam.
          Conto o conto; eram – iremos ver à frente que foram mortos um a um impiedosamente, aí de fato ‘eram’ – eram 10 lindos cães negros, desses peludos, pelados alguns e outros brancos (ué, brancos pretos! deixa pra lá deslizes, pois todo narrador perfeito tem seu escorrego vez que outra) belos, belos sim mas com um gogó pra lá de forte cada um deles; e com uma capacidade a repetir – isto a me lembrar repetindo repetindo aos surdos deste planeta cheio de leitores – sim uma capacidade em potencial e efetiva no exercício de suas funções de ladrar repetidamente, a nos fazer lamentar e a seguir inclusive chorar, não se chorando só à noite, noite santa ao dormir aí não se dorme, durma-se de fato com um barulho desses...
          E assim não dá, dirão.
          Bem dito e idem o pensamento do maître ou gerente ou mesmo do proprietário do restaurante que a gente frequenta; mais talvez o do cozinheiro espécie de chef, que era certa cozinheira gorda que ficara pra titia, mui enrustida e nervosa: qualquer coisa, pronto já vinha de faca. Cortava espedaçava, dando aos mequetrefes daquela cozinha quente fumaçante e cheirosa (das frituras ‘coziduras’ assaduras podendo ser a cozinha malcheirosa então). Daí passava a senhora as iguarias à portinhola que dava para o refeitório, deixava nela; vindo a seguir os garçons sorridentes, sorridentes por conta da gorjeta, tinha sempre uns chatos que não davam.
          Menu, bem francês abrasileirado: arroz, feijão, mistura, cafezinho ou goiabada ou marmelada de chuchu sem agrotóxico e queijo. Em síntese – arroz e feijão, mistura qualquer, sobremesa ‘romeu e julieta’ ou só cafezinho, os fumantes optando por este alvitre a fazer boca de pito. Um pito sim.
          Isso que foi dito. Um pito no restaurante fino (era pouco mais que um corredor espaçoso de limpeza discutível, fica impregnado o cheirinho de comida, a gente entra e já sente). Pito no item mistura. Alface e abobrinha, tudo bem. Na carne, ah! tenham a santa paciência. Paciência em decálogo:
          2ªfeira – comi restos domingueiros, arroz etc., a novidade por conta da carne afogada. Diziam por aí que um cachorro preto fora colhido por um veículo.
          3ªfeira – feijão meio azedo, tinha também feijão queimado passado com caldo a espumar. Espumar melhor à carne. Ficava assim ó presa nos dentes. Falaram noutro negrinho peludo que não latia mais nem roubava coisas do lixo; claro, nem espalhando mais lixo.
          4ªfeira – tinha pressa, engoli pelos olhos e o nariz, que expressãozinha mais idiota, nem vi, os outros fregueses reclamaram da carne, não parecia de vaca. Enfim notaram a falta daquele branquinho pelado, o qual entrava xeretar o pé da gente.
          5ªfeira – comi sem pressa alguma. Descobri uma pata de cachorro no feijão; não a pata inteira só um artelhinho. Teimou o garçom ser de porco. Bem, perdeu a gorjeta.
          6ªfeira – dispensei arroz e feijão, aquele negócio de os grãos estarem parecendo secos sem cozinhar enroscando na garganta, comi abobrinha a carne (espumante um pouco só) e comi com prazer a julieta; não seria besta a comer o romeu. Sorriu o homem de bordo naquela viagem, de sexta repito.
          Sábado – não se trabalha, come-se entretanto: petiscos, sanduíches; nenhuma carne. Já enfarado no deglutir proteína.
          Domingo – não se trabalha, dever-se-ia igualmente não comer. Em meu quarto solitário umas vitaminas, umas frutas e cama; e jogo, o time da gente perde, dorme a gente outra vez a esquecer, ao menos a descansar; ora, não é o dia do descanso!
          2ªfeira – torno ao restaurante comprido parecendo linguiça, como é que aproveitam tal espaço e falam em termos de restaurante! Bem, por falar na linguiça, ah não é do tempo em que os cachorros eram ingênuos a se deixarem amarrar com linguiça, poxa. Bom, pedi linguiça; arroz feijão alface e linguiça, tomei café a abrir o apetite por tabaco. Mas ela não parecia de jeito nenhum linguiça, um preto morrera, estivera a feder na rua estufado, não ladrava mais sem parar; parou, falaram, na panela dela a bela braba; contudo não cri.
          3ªfeira – tinha um peludo a ladrar a cada freguês que entrasse. Claríssimo, a carne era bem assada e de boi, porco neste calor medonho! Não quis sobremesa. Ia andando lerdo na volta, percebi uns ossos caninos na lata de lixo...
          4ªfeira – pedi arroz; veio feijão carne abobrinha e ganhei ao pagar no caixa cafezinho, sorri à moça, filha bonita do proprietário ou do gerente ou do maître, não poderia ser do garçom... poderia sim. Sorri e me assustei após, o cãozinho que sempre desejava morder minhas calças ou depois a sorrir-me levantando uma das patas traseiras, esse já era – jazia velado por moscas, nos fundos vi a arma do crime tendo sido um pau a sangrar (sujo de sangue, leia-se).
          5ªfeira – fui imprudente, não a pedir romeu e julieta com feijão e arroz: “me dê, matei de pronome, me dê cachorro na mistura...” reticenciei a acabar com eles. Vieram todos: o outro garçom, o maître, o gerente, o dono, a cozinheira assim de braba – queriam me atirar lá fora. Fugi rindo como um cafajeste. Não chamei a polícia.
          6ªfeira – mudei de restaurant. Só passei no antigo, não a pegar o guarda-chuva esquecido, não; nem a me despedir do garçom. A despedir-me do décimo Negrinho restante. Não o vi, vi um marrom novo a abanar sua cauda no pedaço; na cozinha desossavam algo que me disseram ser carneiro. Haveria carneiro ensopado.
          Impediram-me de participar daquele ágape, cheio decerto de regabofes em forma de café.
          Porém saiba o surdo a me olhar fixo tentando entender – nem o maître nem a cozinheira braba conseguiriam me arrastar para dentro a fim de comer carneiro.
Marília   janeiro  2006




23° Revisita

          Quando estamos a visitar um ponto, a casa da gente mesmo, em verdade estaremos realmente revisitando porque antes quando morando era apenas uma visita na própria casa, visto ninguém ser dono do que pensa e diz possuir, a propriedade sendo uma profanação chã e até roubo tirando da natureza os produtos todos dessa natureza.
          Ao pensar residir ocupamos tão só por um tempo o tempo das coisas. Contudo morara e visitava sua vivenda aquele homem que punha estas questões destas traçadas linhas mal traçadas; pensou a rabiscar no caderno de sua mente o homem que pensava.
          Chegava a passos largos lentos, todavia marciais supunha, sem fazer apesar disso alardes na condução do seu ser. Chegava à casa, que antes fora lar, concordava assim com seu pensar lembrando haver ficado solitário nos últimos anos em que passara na residência, então sombria. Quando a deixara. Voltava agora voltando a tornar – curiosamente – não cansado mas curioso.
          Dessa forma subiu pela escada como rampa leve nos passos curtos mas seguros o caminho entre o portão de entrada o gramado do jardim em ambos lados e a porta propriamente dita da dita casa. Ringiu, pensou ringir? assoprar poeira? espantar velhices? ringiram os dois lances do portal, o portal arreganhou a boca da casa, aspirou ele aquele passado nos mofos, relembrando os velhos tempos como novos permanentemente jovens tempos na última estada. Chegou inclusive a examinar em rabo-de-olhos os sinais que teria agora perpetrado sulcando o chão rico no pó dos anos; não se assustou por não ver a marcação; prosseguiu agora ao interior daquele museu doméstico prenhe de recordações e de objetos com recordações. Entrou caminhou venceu logrou adentrar os recantos nos passos sempre firmes. Quase ereto o corpo, embora em si as marcas desses anos afora agora em vendo o interior doméstico. Arcou por vezes a examinar a baixela os móveis pequenos, olhou o tamanho dos grandes, pesquisou tim-tim por tim-tim o que já de sobra sabendo a saber se mãos apócrifas as bem as mal intencionadas a desvirtuar uma residência a si distinta. Viu, aqui não reviu viu, viu o trabalho perene lento morno atento das aranhas a cruzar mil vezes fios a compor desenhos curiosos, engraçados? curiosos como malha de pescador a enredar seus peixes-insetos neles, nos fios quase invisíveis. Em todo canto uma saudade em todo canto a poeira o tempo os anos... Olhou cada compartimento, mesmo os da sordidez obrigatória e malcheirosa então somente com hálitos do pó da velhice e do abandono; cada um cada corredor cada caminho dentro daquele caminho de sofrer e de se alegrar também quando morador. Espantosamente ninguém tocara em nada de seus objetos sagrados.
          Examinou seu dormitório de cultivar a insônia examinou os pertences que lhe pertenciam. A cama de casal também abandonada, abandonada anteriormente já dum lado do colchão, viu reviu o doutro lado o qual suportara seu corpo pesado afundando anos manco, a manquear a moral duma cama. O lençol os panos a coberta os travesseiros, um marcado por suas lágrimas escondidas e o pó impregnado nelas a manchar o tecido branco então bege na cor da cor do tempo que não passava quando passava; o outro intacto quem sabe ainda a ‘fragranciar’ o cheiro dela, que aspirara ele sem resultado nos últimos meses... A roupa de dormir da companheira, intacta também, remexida no desespero do ódio quiçá porém serena agora depositada nesses anos com todos vestígios do uso do abuso, então parado para as lágrimas de ver de não ver de sentir de sonhar de sofrer. O pente no toucador vazio e demais intactos objetos do obrigatório manuseio na vaidade dita feminina e igualmente a exalar sua presença e o perfume forte leve do tempo de espera sem volta; tornava aí em examinando toda uma vida a dois, solitária! não quis sofrer mais.
          Voltou-se aos objetos pessoais, pessoais dele, espalhados, uns a cair outros já no chão do assoalho implorando auxílio talvez aos que haviam permanecido por cima do seu criado-mudo, no momento realmente mudo e entregue à poeira do tempo qual pertence de museu – ah estava mesmo num museu em visita, revisitando sua casa.
          Caminhou na direção do monstro que era o guarda-roupa encorpado do tipo dos tipos imemoriais da família de antanho, o armário que gemia na abertura; ele gemeu rondando nos gonzinhos do seu tamanhão e se arreganhou para a visita que não era bem visita: a dona da casa. Vasculhou o interior do móvel imóvel, examinou a ‘intactude’ do vestuário, mesmo as peças de maior frequência no uso ali prontas ao uso e reuso, seria preciso espantar o pó bater o pó ‘atchinhar’ o pó até se se quisesse reexperimentar vestir. Sorriu. Sorriu na alegria de sua tristeza pelo abandono e nisto se agradou que não tenha nenhuma delas agradado a ninguém e ao contrário maculada estaria aquela virgindade do tempo; puxa quanto tempo. Passou a mão no pó depositado embaixo do encima das vestes dependuradas quase como enforcadas nos cabides, reviu o cabide azul preferido agora desbastado do tempo cobrante descolorido dos anos e quebradiço por ser de plástico, os outros cabides de madeira (e não estariam carunchados dos cupins devoradores! num átimo olhou o chão do chão do armário e não viu serragem daqueles dentes afiados e assim sossegou um pouco); passou a seguir o dedo no pó e só viu o pó e não o dedo. No chão de dentro ainda guardava uns papéis de suas criações amalucadas e mal-educadas e eles também intactos, os rasgados onde rasgados, os dobrados onde dobrados, todos empilhados ordenados registrados e imediato guardados agora ainda guardados, intactos intactos. Fechou o intacto móvel um ‘mobilão’ e notou não mais aplicarem no seu exterior óleo de peroba para conservação; mas que fazer, justificou, se abandonado seu colossal ármario, este a presenciar sempre aquele quarto adaptado de solteiro! Não quis chorar a outra parte dele onde vestidos e peças íntimas de sua íntima quando íntima. E perceberia sua fragrância conhecida e ‘ene-vezes’ sentida... Não é lícito sofrer o sofrimento, ‘ressofrer’. Assim mesmo verteu alguma coisa escondida que saíra do coração e não das pálpebras.
          Seguindo se fixou noutros cômodos. Igual alguém que revê alguém e conta como não soubesse alguém o que alguém passou no comum do viver. Conversou com trecos de cozinha com objetos de sala, foi além no rever analisar desbloquear examinar melhor os atulhos nos entulhos do quartinho de despejos, onde se sufocavam porcarias destroços e restos empilhados ou somente atirados ao léu na área. Aspirou sua poeira envelhecida, seu cheiro de compartimento fechado não a sete chaves, fechado e comprimido. Examinou como um dono faz, sem perguntar nem pedir licença a outrem: pegando olhando mudando de lugar não achando bem, ou só pensando assim fazer por bem. Bem. Outra vez deixou disparar as gotas contidas; oh que é isso, se condenou, que é isso chorar pedaços de pau imprestáveis e ferramentas já enferrujadas sem uso! Fechou, fechou até violentamente, a porta do quartinho e foi observar qual num passeio seu quintal. Puxa vida, fechei a porta de minha oficina esquecendo o regador lá dentro: poderia aproveitar molhar um pouco as plantas moribundas a revivê-las pois deve nesse período ter faltado água no tempo da seca, sendo já o tempo das águas. Abalançou a cabeça pela besteira e foi, alegre, rever as plantas.
          Reviu com prazer infinito seus pés dos pés que plantara vigiara cuidara regara limpara colhera até algumas frutas, agora adultas árvores. A mangueira então vetusta colorida de frutas ao sol e no soalho de sua sombra a alimentar a terra e os insetos voejantes e os apalermados; os pássaros gritavam o crepúsculo próximo, uns a bicar gulosos o fruto da fruteira que plantara e zelara e se locupletou de alegria também como as aves. A goiabeira ficara mais velha mais grande mais bela e também o chão, o seu chão forrado e nele fedia frutas podres e vicejavam filhotes da erva que se empinavam crescendo à copa da mãe. O coqueiro ainda esplendoroso mas a visitar, e não seria igualmente uma revisita! a olhar lá em cima curioso o céu; e sem coco... Não haveria no pedaço inescrupulosos vizinhos a furtar suas frutas! chegou-se a verificar no muro – rachado pendendo esburacado galgado decerto pelo pensamento do mal. De repente se pegou no próprio pé: por que motivo não deixar que outrem igualzinho aos insetos e pássaros se apossassem do bem se tudo não nos pertence nem antes nem durante nem depois nem nunca, pertence apenas à natureza e ao Criador da natureza!? Poderia, ele sozinho, um solitário numa revisita, consumir toda aquela fartura. Claro que não. O restante do quintalão agora era um gramado... como explicar mexerem sem sua expressa ordem na ordem da propriedade se área onde habitualmente plantava umas covas de feijão outras de mandioca ao consumo e um que outro pedacinho deixando para hortaliças caboclas como o cheiro-verde, ora ora, a cor tem cheiro, ah não se explicava nem explicaria as bobagens que homem comum fala. Deixar tudo no mato! a grama que não semeara poderia ser bela fosse aparada, aí lembrou sua tesoura sua máquina de aparelhar encostadas anos no quartinho; não se esqueceu da principal afronta: quem teria semeado grama braba no seu quintal!? Estava nisso quando ouviu palmas.
          Chegou espavorido suando da precipitação a atender: ninguém ao portão de saída...
          Então se conscientizou que o portão era de fato de saída na sua residência. Fechou com cuidado e educação, a evitar barulhos e alardes. Fê-lo atento mas atentou aí haver intempestivo trespassado como sombra pela mureta em atendendo possível visita, ou seriam vendedores ou religiosos aos quais sentira sempre certa aversão. Quando viu, já havia perpassado qual fumaça e transparência o muro de alvenaria. Daí se espantou. Não se assustara tanto não vendo ninguém bater palmas. Agora se perdia no pensamento ao tentar explicar esse fenômeno atrapalhado.
          Quando se deu de si não viu mais sequer seu museu nem estando na sua rua deserta. E não andava, não andara.
Marília   março  2009




24° Amélia de Nossos Dias
         
          Se, observemos a condicional, se o surdo não fosse surdo, e não sendo surdo a ouvir-me no contar; aí teria decerto o escriba nova encrenca; a encrenca da teimosia.  Vamos dizer que eu dissesse Amália; ele: Amélia; faria mais a atrapalhar o menos, indagando se não Maria, único personagem feminino, a qual um dia falei ser linda de morrer. O cachorro então desandaria ele a ladrar nervoso pensando que estivéssemos em discussão. Acertando mas existem duas formas opostas e contraditórias na contradição da palavra ‘discussão’, uma positiva na qual as partes se entendem se elevam se compreendem para compreender e chegar às consequências também positivas; outra é sabidamente mui empregada na rua e mais ainda dentro do lar, que é a briga, quando não declarada, ao menos nesse menos há o desentender. É pensando neste alvitre que o cachorro pelado com apenas meia dúzia de fios na cor indefinível e necessariamente abrigo de pulgas se pôs a ladrar brabo vendo pensando discussão. Ora, dir-me-ão, cachorro não pensa e respondo: quem não pensa é galinha, cão é inteligente, tanto assim que a Maria mostra a vassoura e nada mais precisa fazer, quando muito larga a bela um sorriso de satisfação; mostre a mulher a vassoura ou faça um discurso filosófico de não ter fim, veja se a galinha entende. O cachorro... ih, chega. É Amália ou Amélia? Uma palavra corruptela da outra, por força do tempo e da geografia, os quais praticam a gracinha de engolir letras e até nomes. E pra que nome! Advogo que nome não faz a ideia, somos nós que fazemos a ideia e a vestimos com o nome. Por isso este trabalho assenta-se em quatro indicações apenas: o Zé a Maria o Pedro o Lulu. Cada vez tem aos seres postos uma formulação diversa. O cerne, a ideia central, permanece, independe do nome, que é, repito, a vestimenta.
          Deixemos as teorias. Partamos à Maria. Fico com Amélia (antes defendia, sem caráter que sou, defendia ‘Amália’, podendo ser até Anália). Amélia que era a mulher de verdade. Aqui o poeta a filosofar sua música não diz que era boa por haver perdido a mulher; estivesse a senhora viva ali ao seu lado – bem, não deixaria o poeta sonhar, teria de ir pagar contas ou ouvi-la contar um nhe-nhe-nhem da vizinha, aquela... ah deixa pra lá também isso.
          Amélia já era, diria um espécime da espécie urbanoide, crendo estar atualizado e se pondo ‘pra frentex’ por usar gírias e dizeres chulos. Já era. Tudo não existe mais, inclusive minha gostosura que lava passa troca beija chora varre bebe grita ama, vive – e atrapalha vez que outra mas não reclama! Pombas, isto é muito bom demais para ter existido!
          Existido? portanto não existe mais...
          Afirmo, contrariando a surdez que possa existir e existe e aí não escuta, não ouvindo não dá discussão –  afirmo que existe.
          Bati palmas; bati outra vez; rebati. Só nesse ponto descubro a campainha, pressiono o botãozinho, não tem cachorro a residência, do contrário estaria a infernar o bairro latindo lá dentro contra invasores. Me engano, aparece o senhor, surdo, não o surdo que se repete em cada estória das estórias já escritas pela vida afora, tanto assim que deveria maiuscular seu esse virando a quinta personagem, o escriba teria ele um ‘e-zão’ tornar-se-ia o sexto, ainda bem não ser o sétimo, aí tudo mentira, xô mentira detesto mentirosos; aparece o senhor usado velho fraco feio miúdo lerdo cego, meio cego, aperta assim os olhos para me ver e – pasmo minha pasmaceira: tem um cachorro daqueles petiticos semelhando ratinhos, tem-no ao colo. Para, olha, vê um escriba destamanhão ou é que ele e o cão pequenos mesmo; vê, pergunta que desejo, cumprimentamo-nos; entro “a casa é sua”, ele sorri.
          Estou sentado no sofá, de frente para a tevê, ela mente pra mim desabridamente mente, sete vezes sem parar; ele na poltrona ao lado a conversar comigo, a lambisgoinha feito biscoito aos pés do velhote, a olhar de vez em quando pro amo, a aspirar seu cheiro agradável (para ela, bem entendido) no aguardo de ordens: “devo atacar esse monstro de óculos perguntando intimidades... ou então aguento firme sem mordê-lo a troco de um naco de carne e um osso de borracha com gosto de nada?!”
          O velhotinho sorri malandragens ou bonomia à cadela mais camondonguinho que de fato cachorro, olha ele pra mim e retoma.
          Sim, Amélia não. Saiu faz tempo, foi ver nossa filha mais velha que nos presenteou com nosso décimo neto. Aí conta o parto sofrido a fórceps, os fracassos anteriores da mais velha; os nove primeiros netinhos um já é moço deste tamanho; narra os casamentos descasamentos amasiamentos e eleva os ‘namorados’ das filhas; então faço feio interrompo a interrupção apreguntando “e a Maria?”
          Ah, Amélia que é mulher de verdade. Minha esposa; insiste, azucrinante, ser casado com Amélia no padre e no cartório, casado uma única vez e espera que a morte os separe juntando as partes no céu a viver juntinhos como antes no castelo de abrantes. Indago, por quê?
          Amélia levanta cedo, na hora que o pardal dá o primeiro grito; faz o que faz, é limpa, faz almoço já pensando janta, lava passa guarda varre encera lustra perfuma, ajeita todos bibelozinhos nunca quebrou nenhum só aquele da vaca e do menininho pelado e chorou pelo desastre tadinha; olha os filhos ‘sobrantes’, os netos ‘chegantes’ e ainda conversa com a vizinha a saber os podres pois este bairro é fofoqueiro pra danar. Tem mais, bedélho? Tem. Me coça o dedão, me escolhe as peças a vestir, coça as costas, minhas costas, vê se a balança não me desatende (neste caso muda o regime alimentar a meu proveito); pergunta de meu intestino; ministra os remédios, cobra o correto na receita médica, vê vencimento de cada um, joga na lata os vencidos e corre a repor na farmácia; separa o lixo – papel vidro plástico alumínio – põe o lixo na rua, ‘gorjeteia’ os passantes; tolera ouvindo religiosos e sorri a eles. Ainda vê novela, apenas chora na das seis que é mais lacrimejante que a das nove. E sobretudo cuida do esposo, eu, um rei um deus pra si! em tudo, cama mesa e banho. Atualmente sai comigo na rua servindo de muleta a me fazer fazer o meu cuperzinho.
          Agora? me intrometo outra vez.
          Agora foi ver a filha o neto recente. Ia desandar a contar ‘renarrar’ tudinho da prole, dos ‘namorados’ da prole, e as ‘prolinhas’ que gracinhas; e da Amélia como a mulher de verdade na mentira do poeta, quando pedi água!
          Água? Amélia, traga já água à visita, doutor escriba da silva, “seu criado” não foi assim que me disse? Aí confirmei.
          Ah, meu caro amigo, melhor tomar água na padaria da esquina, a Amélia não se encontra presente. E saiba duma coisa, ela não irá portanto me coçar agora porém estou com certa coceira braba entre o dedão e o dedo médio do pé, sim artelhos; será bicho-de-pé?!
Marília   fevereiro  2006




25° Como Foi que Matei Minha Sogra
         
          --Dá licença seu Doutor, se me permite uma observação, o sr.funcionário falou, deve ter escrito aí na máquina dele, o que não fiz, fiz inclusive o que não falei, ele não escreveu... E não é tanto assim; quer dizer, é menos, talvez seja até mais. Posso começar do início, aí explico tudinho; posso? Vou falar devagar para facilitar o trabalho do moço:
          Seu Roberto me contratou para a construção dele. E... a sogra? chego na sogra já-já-zinho. Como dizia o homem me deu o serviço porque sou bom pedreiro e faço bem as coisas da profissão, não precisa planta nem nada – não adiantaria mesmo ter planta da prefeitura pois não sei ler – de mais a mais não tinha planta, era um pouco às escondidas a construção. É muito claro eu nada ter com isso, só trabalhava. Nem dava palpite. Ah, ela dava! não Senhor Doutor: a sogra não, a dona Bete. Dona Bete é uma vareta andante falante implicante palpiteira como só ela pode ser; a sogra o Sr. viu é gorda forte e bocuda, era bocuda, o Sr. tem razão... A sogra não entra aqui agora. Posso continuar? Então, nesse ponto chegou dona Bete.
          “Pode vir aqui, seu Joaquim?”
          Fui. Muitas vezes ela chamou dessa maneira – e fui.
          Isto daqui, disse a moça (tem dois filhos, moleques de rua, barbaridade, uns capetas! mas é nova ainda) não quero com a porta pra lá. O sr. não mexe até eu falar ao Roberto que é pra modificar. Aí perdi o dia de serviço, porque era cedinho. Chegou o homem de noite, eu com uma fome tamanha ela só me deu pão com café eu tinha de jantar, fiquei esperando esperando; chegou. Acabou falando sim sim quando ela dizia “sim” não não quando ela queria que fosse “não”.
          No outro dia comecei donde ia começar. Fiz a parede. Sozinho, tudo sozinho, não arranjava servente, esse pessoal quer ganhar mais que a gente, falta a três por dois e acaba o oficial fazendo mesmo sozinho o trabalho. Preferi nem arranjar ajudante. De noite estava prontinho para reboque, ela queria que falasse ‘reboco’. Ela chegou das compras, nervosa, deu bronca nos seus capetinhas a empregada não podia com os pragas, descarregou em mim. Seu Joaquim! que é isso, a parede está torta, vou esperar o Roberto e falar, o senhor precisa corrigir... Respondi pra mulher, não a sogra não Senhor Doutor, a patroa dona Bete, falei pra ela que não precisava contar ao marido: eu refazia a parede no outro dia (o que adiantava falar ao homem, se falando pra mim o que a esposa mandava!) Cedinho, tive de ir pro serviço mais cedo, derrubei tudo, tudo refiz, perdi outro dia de trabalho. Tudo bem, ossos do ofício. Sim senhor, vou falar mais devagar pro senhor bater na sua máquina. Posso agora continuar?
          No outro dia refiz a dita parede. Foi pior. Ela estava feroz (não Senhor Delegado, a sogra não, dona Bete); a molecada tinha brigado na rua, ela brigado com as vizinhas mães das outras crianças por causa da briga dos meninos. Entrou gritando comigo, como se fosse eu um mequetrefe. Aliás acho que sou isso mesmo, me ofendi, não tinha culpa; além do mais a areia era grossa demais, pedi material fino para acabamento, seu Roberto comprou grossa, eu andava nervoso com meu serviço ela se meteu no meu serviço (não Senhor Doutor, a sogra não, a mulher do seu Roberto). Que eu tinha assentado o tijolo com a marca pra cima, que tinha derrubado muita massa no chão, a sujeira aqueles grudes inevitáveis eu limpava sempre antes de ir embora para ver meus bacuris e a Maria. Não Senhor Doutor Delegado, Maria é a mulher com quem me ajuntei, a sogra se chama Filomena. Pois é, como eu dizia ao Senhor a dona Bete andava nervosa e descarregou tudo em mim; a massa a sujeira. Nem respondi, eu igualmente estava nervoso... não Doutor, não foi aí que fiz aquilo na sogra, naquela hora me encontrava nervoso todavia murchei, fiquei quietinho, limpei tudo, fui embora. Na outra manhã nem bem havia chegado à obra, ela correu pra mim, a dizer que o marido estava brabo, a parede havia caído! e os garotos só tinham encostado nela... Pus a mão na cabeça.
          Pensa o Senhor Doutor que briguei? nada disso, sou é pacífico pra danar: limpei, tirei o material, meio dia de trabalho, e comecei a levantar outra vez a parede. Ela não me deu sossego: matracou dia inteiro sobre o desastre; não contente trouxe a vizinhança (sim Senhor Doutor, já estava de bem com as mulheres). Conspiraram, tramaram, vieram em peso vizinhas e respectivos filhos para ver a parede no chão, o besta aqui a limpar e a refazê-la; ah que desmoralização! Parecia eu ser o inimigo de todos. Olhe, o Sr.Dr. vai desculpar pelo que direi, mas tive vontade de massacrar todinha aquela assistência, por conta de minha vergonha, esfaquear apedrejar todos por causa de meu orgulho ferido. Nesse ponto ela gritou comigo... não Senhor Delegado, a sogra não, dona Filó andava filando a boia lá na minha casa, falo é na dona Bete, a patroa. Isso, ela gritou comigo que não estava direito, que ia mais de semana eu ainda na parede do meio, e o resto iria um ano!? Não respondi, sou educado. Se respondesse falaria não tratar com mulheres linguarudas somente com o patrão que me pagaria ou não... Todavia não fiz coisa alguma, sequer abri a boca. Trabalhei até mais tarde na obra para refazer o malfeito, sim, estava malfeito porém os capetas da mulher não eram flores que se cheirassem e muito que bem poderiam ter derrubado meu caprichado serviço de pedreiro por um dia inteirinho. Fiquei pensando talvez largar tudo, iria catar papel na rua em vez de trabalhar me embarrear me esfolar me cansar na obra e ainda ouvir a vareta falante irritante ela a falar falar falar. Não, Senhor Doutor, a sogra não, dona Bete que falava sem parar e azucrinava minha vida. Daí vieram o... sim senhor, vou falar mais devagarinho para que o senhor possa datilografar minha confissão. Daí foi a vez do andaime.
          Um mês já, estava me desgastando no serviço, sem andaime. Ela implicou por eu estragar suas cadeiras estragadas, que eu pegara no quartinho de despejos pra servir de andaime. Ela urrou. Não, Senhor Doutor Delegado, a sogra descansava na minha casa filando boia, a dona Bete quem se enfureceu. Que fiz? resolvi fazer andaime para acabar as partes de cima, a parede andava já ao teto. E tapava a boca da megera, devolveria as drogas das cadeiras estragadas dela. Fiz o andaime com tábuas; todavia não montei direito a trempe, ou que a madeira fosse fraca podre: desmontou, caí, a caixa de massa se espalhou no chão da mulher! Larguei tudo.
          Voltei no outro dia, não tinha bebido quase nada no boteco do João. Ela daí recebeu-me com pedras! não Senhor Doutor, a dona Bete. Reclamou da sujeira dos estragos da perda do material etc., só não falou que eu caíra me esfolando, viu os esparadrapos nem ligou; problema meu, deve ter pensado. Naquele dia trabalhei com raiva. Até de noitão, quando chegou seu Roberto. Arresolvi criar coragem e falar, pedir uns trocados por conta. Nem se fale, Doutor, ela entrou no meio de nossa conversa, Senhor Doutor Delegado, a sogra não, a mulher do seu Roberto! Falou encheu o marido, que era perigoso dar adiantado a “essa gentinha”, ouvi bem o cochicho alto da vareta, que era dona Bete, ao banana do esposo; eu virara gentinha. Além do mais fizera quase duas paredes e rebocara uma delas, caíra parte do reboco (não me responsabilizo pela coisa, pedi areia fina, veio grossa, precisava peneirar tudo!) Enfim tinha serviço pronto a apresentar, justo seria um adiantamento. Entretanto a mulher engrossou comigo: que o marido nada pagasse enquanto a obra não estivesse pronta. Me pichou falando do andaime malfeito e despencado, a parede tombada, a sujeira... Sempre punha a sujeira que eu fazia, como pudesse eu usar colher e massa e ainda deixar limpeza, ora bolas! Seu Roberto foi legal comigo, pagou parte do combinado. Contudo a senhora dele ficou braba e enfunada pro meu lado. Não, Senhor Delegado, a sogra estava em casa dando maus conselhos à filha; falo é sobre dona Bete: não conversava mais comigo, enfezada que nem mula. Achei foi bom.
          Sabe por que achei bom? não tinha mais que responder às suas tolas perguntas, ela não perguntava nada mais dia inteiro; assim pude trabalhar sossegado. Sossegado não é bem assim. Sim, o senhor tem razão, estou falando muito depressinha, vou devagar de agora em diante, para não errar sua escrita. De fato dona Bete não me perguntava, porém infernava meu serviço dando indiretas... Que fulana desgraçada! (com perdão da palavra). Não Senhor Doutor, a sogra não, a esposa do seu Roberto que falo. Me infernou até noitinha. Quando chegou o marido.
          Ele chegou, eu havia acabado a parede, andava tudo lisinho e bonito, na minha opinião. Ela foi encontrá-lo. Chorou lastimou argumentou entortou o pobre. Ele me comunicou o veredicto da mulher (ela não falava mais diretamente comigo): “a Bete não quer mais a parede da esquerda; nós resolvemos desmanchar tudo e vamos fazer de atravessado”. O que eu respondi?
          Saí correndo, feito moleque, doidinho da silva. Pulei o portão xingando por dentro, ganhei a rua, cheguei no botequim do João, enchi a cara. Sabe, Senhor Doutor Delegado, quem encontrei no meu lar? Não, Senhor Doutor, a dona Bete nem sabia onde é que eu morava. Encontrei mastigando na porta a sogra! Dona Filomena mastigava uma carne de porco assada em meu fogão, ainda por cima de boca aberta, feito uma porca. O que fiz então? dei-lhe uma pisa, bati pra valer na velha. Não foi pra matar a bicha, mas os praças que o Senhor, Doutor Delegado, enviou lá, não creram.
Ribeirão Preto   agosto  1985





26° Segunda e Meia Tentativa

          Esse título acima para os íntimos. Aos de fora, ou seja os que pagam e chamam ao governo ladrão, xingam ladrão ao juiz no campo e mexem com a senhora mãe do juiz, aqueles vivendo em ver se chove a reclamar do calor não se conformando com o frio sempre inesperado e a observar se a vizinha trai o esposo, no padre, com o namorado – aos que enfim não estão naquele por dentro convencionado, a gente que é gente de fora; para essa gente o título completo é meio longuinho a desanimar leituras desde o início. Seguinte:  Segunda Tentativa e Mais Meia Tentativa, Frustrada, Comprovar-se-á, de Acerto nos Desacertos na Vida Conjugal, e Será Possível Saber-se Que Pretendemos a Permanência do Casamento Mas Não Tendo Jeito o Jeito É ou Manter Infeliz a Infeliz Ligação Desamorosa ou Chutar a Oposição, Tentativa Aquela (a Meia) das Tentativas de Acerto-e-Erro da Natureza no Laboratório do Ser. E, convenhamos, a promessa é longa demais para um pobre e despretensioso título de um conto, melhor diria um contão. Em verdade desta virtude descoberta, vamos à estória que é minha história, minha confidente sabe a sobejo. Ah mas antes uma retificação que não é retificação, tão só esclarecimento: eu me cansei ver apenas que possa existir Primeira Segunda e Terceira, em geral é Terceira, por exemplo o Terceiro foi aquele pra quem Teresa deu a mão, não tem isso nas cantigas de rodas! No meu caso do caso em questão quis chocar confrontrar o mesmismo e optei por ‘Segunda e Meia’ veja bem, bem adequado, ver-se-á a tempo e lugar que a Terceira tentativa não foi completa, ‘frustrada’ como pus no título por inteiro. Chega. Continuemos. Antes, comecemos de uma vez.
          Tudo começou no começo. No início ia tudo bem sem desconfiar do tudo mal e havia aquela meleca de nubentes a chanhinha aquele nhe-nhe-nhem dos recém-casados, cheiinho de meu benzinho meu amor meu querido querida e coisa e tal, tal não ocorreu; no meu, nosso, caso não ocorreu. O meio de grosseria em que fui criado não dava azo a frescurinhas; assim mesmo ocorreu. Não o nhe-nhe-nhem dito e não feito, não. Ocorreu a gravidez, pois onde se encontram um jovem impetuoso e uma jovem impetuosa em tantas e tantas noites em comum... de dia a gente trabalhava e já brigava, então vieram o primeiro o segundo o terceiro (aqui não cabendo segundo e meio); e não parou na praxe, veio o quarto, no quinto a mulher estrilou deu briga séria parecendo interminável, o que é abuso de linguagem, o fim não tem fim; aí encerramos a fábrica, ela exigiu o basta, antes chorou bastante e abortou, assim lacrou as trompas, pôs a boca no trombone contra minhas ‘machuras’ irresponsáveis. Fomos desde aí tenteando a vida, a vida a dois permanecendo, como todos sabem, sabe mais ainda Minha Confidente, não sabe!?
          Foi nesse ponto que parei a pensar e a conversar com minha consorte sem sorte deveria ser; paramos a analisar nosso caso, claro que enquanto os meninos fora dentro da escola ou dentro da rua nas brincadeiras e brigas inconsequentes (os adultos são mais consequentes nas dentadas). Ficamos os dois cônjuges na distração de discutir sem discutir, quer dizer: sem brigar um pouquinho e daí pus a questão que eu tinha na cachola. Maria, eu falei falava ‘Maria’ não tinha nunca meu bem meu amor querida, acho que disse isso não disse? Maria, veja que nosso caso tem solução: pelo andar da carruagem vamos até ao fim (o qual costuma ser velório cemitério e missa de corpo presente a de ano e o que ficou vivo visto não se irem unidos aos vermes cadavéricos, aquele que ficou vivo recebe condolências e chora e lamenta saudades “ele, ela, era tão bom, ou boa”, o que é uma boa) vamos sim até ao fim. A Maria concordou de cabeça. Então prossegui. Veja o caso do amigo (pra mim amigo é um conhecido próximo, os outros são conhecidos distantes portanto desconhecidos) o amigo Bolacha. Aí ela desencantou: é Bolacha da Silva. Concordei. O Bolacha e a Maria (diria eu a boazuda de propriedade do Bolacha! aí era proposta de briga na certa, fiquei tão somente no ‘Maria’) os dois vivem uma lua de mel com coisinhas de namorados até ontem. Se amam! interferiu a Maria, a minha Maria não a Maria do Bolacha, o Bolacha que é professor de grupo escolar e a boneca ficando em casa a ouvir novela porque não tinham televisão na época ou não ouviria: veria; e fofocando com as fofoqueiras do pedaço. Concordei com o amor deles mas disse à esposa, já meio estufada ‘enfeiotando’: tem muito excesso de nhe-nhe-nhem, não dura. Dito e feito – a Maria do Bolacha anos depois e ainda a tratar o desafeto ‘meu bem’ queria ir à vida noturna e o Bolacha da Maria desejando dormir cedo e além disso bebia muito, bebia antes só guaraná. Então a Maria deixou o lar com o Bolacha dentro, para criar os dois filhotes. Maria, falei, Maria o Bolacha me disse haver chorado feito criança a fuga da Maria com o açougueiro, Maria! vê se pode um homão daquele... Pergunto, perguntei à Maria, a minha – valeu a pena o nhe-nhe-nhem!?
          É a Primeira Tentativa que trato neste trato. Frustrada também, descasados; ah outro dia o Bolacha veio aqui em casa e a Maria, a minha Maria, comentou comigo depois, tadinho enrugou e tá mais besta que antes. Concordei.
          Noutro dia, dias após, paramos a conversar, aproveitando uma excursão dos filhos, coisa promovida pela comunidade da Igreja com nosso beneplácito; e aí ficamos a sós e em vez das costumeiras brigas, achamos por bem conversar sobre nós. Pus a Segunda Tentativa, por nós ambos conhecida, o caso da Doca. A Doca é amiga, mais da mulher e comigo ficamos no ‘oi’, converso é com o Zélio, sujeito quietão. Só aparentemente quietão, fez com a esposa três filhos, a menininha é uma lindura. Pois bem, falei à Maria, veja Maria as melecas do relacionamento deles. ‘Benzim’ de cá ‘amoreco’ de lá, dois namoradinhos as crianças não mais crianças o garoto mais velho já para casar (e errar como o pai!) e o casal num namoro de jovenzinhos na eterna lua de mel, não é assim? A Maria: “era”. Certo, Maria – era, desfizeram a ‘fizeração’, a Doca começou a trabalhar, “trabalhar pra fora” corrigiu-me a Maria, à Maria mulher trabalha mais dentro que fora do lar e no caso da Doca fora e dentro num acúmulo, porque o moleirão não mexe palha só a bunda no sofá vendo tevê, tadinha (opinião gorda de minha esposa). Certo, respondi desse errado, certo. Aí ela começou a ficar nos barzinhos com as colegas e ‘os’ colegas, achou o Zélio palermão e deu-lhe um pontapé, permanecendo ela com os três filhos, o bobo pagando pensão aos meninos. No dia que a Doca resolveu enxotá-lo, disse ao Zélio nestes termos – “não quero mais você, meu bem” – não foi Maria? Foi, respostou a Maria. Aí perguntei: adiantou alguma coisa o nhe-nhe-nhem de namorados...A Maria se calou. Eu olhei maroto à Minha Confidente assistindo nossa conversa.
          Agora digo à Minha Confidente sobre a Terceira Tentativa, como falei antes Segunda-e-Meia ou somente Meia, isto porque veremos não se completar a tentativa em chegar numa autêntica Terceira; a Confidente faz de cabeça que sim e resmunga: por que não procura um Confidente, ora não é homem com homem mulher com mulher, faca sem ponta, galinha sem pé e outras besteiras falávamos quando pequenos! É, aceitei, e aí você deveria procurar Um Confidente. Provisoriamente fico com ela, Minha Confidente. Conto pra ela:
          A Tentativa minha consta nisso. Olho a Maria vejo a Maria chata enrugada gorda ‘balofando’ lentidões e mais – tem mais? pergunta a Confidente – tem mais, respondo: a Maria resmunga, nada que faço acha certo tudo que faz acho errado. Porém temos vivido. Agora, vai assuntando, agora tenho um plano que dará certo. A prole já se vira, não precisa mais de nós, só o Artur não dá certo, esse tenho de sustentar pelo resto da existência em nome dos netos que me deu, mas vamos lá, estão todos independentes os filhos. Estamos eu e a Maria. Pretendo começar tratar a Maria ‘benzinha’ ‘meu amorzinho’ ‘luzinha da minha vida’ e coisas desse jaez. Não poderá ocorrer que ela ache um açougueiro vesgo ou encontre um barzinho noturno, me liberando!
          A Confidente sorri às minhas orelhas, sugere outra vez que busque Um Confidente, confidente de meu sexo, eu respondo que não tenho mais sexo, afinal as jovens lindas não me querem eu não quero as velhas horrendas e aí pra que sexo!? Enfim concordo com A Confidente para não magoá-la. Quando vejo fui guiado ao Espelho. Ele me olha atônito, se racha, parte-se nuns trincos, olho em retorno embaciado Meu Confidente novo, enferrujando, grito pela Consciência... ela me dá de lonjão tchauzinho, a safada.
Marília   março  2004




27° Covinha, Estria, Cicatriz Não!
         
          Meu velho sogro tinha um dizer engraçado na sua mineirice numa sentença extravasada; não me lembra textualmente a frase, o sentido era de que só tendo certeza ser do seu sangue azul o filho de sua filha, do filho restava apenas uma esperança, pois a nora poderia bem (mal) haver traído seu homem. E para um machista a ideia era gravíssima! não tinha eu na minha indigência cultural argumentos para acabar também com a lealdade de sua filha ou filhas; hoje os jornais mostram muitos casos de troca de bebê em maternidade: e mesmo a dita lealdade da filha dele, onde a certeza da herança genética? Portanto a um homem e até à própria mãe não resta sequer um consolo... Porém não sei por que motivo venho com essas relembranças bobas, visto o José – um José como outros tantos bilhões de criaturas as quais não tenho possibilidade de conhecer – o José não ser mais do que um ser que não passa de uma criação literária para quem não tenha nada de útil para fazer. Simplesmente ele não existe. E pretendo agora provar.
          Lá pelos seus oitenta e tantos, que haviam sido janeiros promissores ou talvez chuvosos mas que agora eram apenas dezembros encharcados com dores como sói acontecer ao idoso comum beirando os noventa, José da Silva, então apenas José-Ninguém num asilo, não exageradamente resmungão como os outros velhinhos, ele se gabava ser filho do pai. Até aí nada extraordinário, mesmo porque todos somos filhos dos pais, ainda que desconheçamos a paternidade. Contudo José era enfático peremptório e absoluto a endeusar o seu velho, logicamente bem mais velho que ele, dizendo o mesmo não haver deixado grandes coisas materiais, dinheiro ou propriedade ou grandíssimas heranças: o espelho mostrava a cova os olhos a pontinha na orelha e umas tantas estrias desde criança, estigmas herdados do velho João da Silva! Hoje nesse ontem em que o ingrato espelho exibia pés-de-galinha e enrugamentos mais próprios do gasto homem na sua feiura (o idoso é feio, só a bondade pode negar isso; é e ponto final ou ponto e vírgula a continuar a narrativa:) enfim na feiura de todos os dias – conseguindo o nobre José da Silva ver ainda por cima desses abaixos da vida humana as características joaninas. Ficava, ficara sempre desde menino quando começara a se descobrir um membro do clã fidalgo Silva, da Silva para ser mais completo, ficava absorto vendo o quanto parecia o papai... Não exageremos que não apreciasse mamãe: todo filho gosta da mulher que lhe deu o ser; todavia não era um êxtase pleno pela mãe, queria ser a cópia do pai. Alguns irmãozinhos se pareciam mais com o Sr.João, outros de parecença mais com dona Joaquina da Silva. Ele fora entretanto premiado na semelhança com o doador do cromossomo XY e se tornara por isso mais alegre e orgulhoso. Agorinha ainda o amigo (ou inimigo) mostrava a cara do seu defunto pai e ele empurrava pra lá e pra cá as rugas vendo sobrar os traços paternos no seu eu periférico. Um dia descobrira ter a mesma voz do Sr.João e para tanto fora preciso crescer e engrossar o som a constatar mais essa vitória na briga eterna de quem é mais inteligente o homem ou a mulher em que constava ser o macho, a seu capacitado modo de ver. Por toda a existência mostrara essa parecença agradável com seu genitor nas conversas entre amigos parentes e conhecidos desconhecidos; bem entendido que o parente sempre vive fazendo desagradáveis comparações e concluindo que fulaninho se parece mais com o pai ou com a mãe, com vovô com a bisavó – os retratos familiares vêm como provas indiscutíveis, muito discutíveis. Votava a parentela nele na parecença com a falecida genitora, que Deus a tivesse. Contudo ele, o José, José da Silva, que nunca ficava feliz por ser Zé e deplorava apelidos, não dizia nada porque nada se pode provar nesse métier só não gostando: era pela parecença paterna, numa reafirmação do cromossomo XY com negação sub-reptícia do cromossomo XX. Por essa razão juntara ao cabedal da experiência o próprio espelho para comprovar a proximidade genética mais com seu velho que com a mamãe. Era um ‘paizista’ inveterado; os ouvidos de outrem a aguentá-lo... Fustigara mesmo tais ouvidos até quando caixeiro-viajante pelos lados das Minas Gerais e nem se fale os dos vizinhos; e os parentes já sabiam que não sabiam, ele apenas sabia ser mais do pai que da mãe! Que possuía realmente semelhanças paternas não se discutindo: estavam lá na garatuja do horroroso José da Silva as covinhas do velho João, bem nas bochechas; a cor dos olhos joaninos; a pontinha na orelha esquerda como na esquerda do falecido João da Silva que Deus o tivesse nos céus. Embora feio como todos os velhos, que opiniões contrárias hajam, José não se constrangia ser também feio e até medonho – desde que parecido com papai. A cicatriz não, essa resultado de uma briga na juventude, em que apanhara bem mas que batera no adversário e ganhara a marca no peito onde entrara o punhal, águas passadas águas passadas, nada tendo que ver com a herança legada por João da Silva, na falta de bens materiais para deixar à prole, tadinho do velho João. O fato é que estava ali um sósia (dizia sua vaidade) um perfeito sósia do papai. Já falara tanto aos seus amigos no asilo, repetira até à saciedade, todos sabiam como fora João, por José, nova versão do pai. Até que...
          Até que ficou sabendo dumas cartas de família num desses baús de antanho, aí se esclarecia que à época da gravidez do futuro Zezinho o Sr. João se afundara nas matarias do sertão anos a fio, ficando os negócios da família numerosa ao encargo do irmão mais novo de João, muitíssimo parecido com o mano velho e que se engraçara demasiado pela matrona Joaquina. Em voga na época certa música popular tendo verso assim: “as cartas não mentem jamais”. José virou macambúzio, não fossem os velhos no geral macambúzios.      
Marília   agosto  1997




28° O Frio

          Desde esta coberta por baixo do cobertor por baixo ele do cobertorzão, aquecentes, estou espichado na cama que anda numa quietude e não range como é o comum ranger; no frio parece que as molas os ferros se desentendem se ofendem se medem e rompem no grito do atrito, bendito, isso, bendito pois é a hora da hora de descansar dormir insoniar quem sabe mas para na inação, a receber a ‘quentitude’. Ah, que bom, que frio está a fazer lá fora e mesmo fora das cobertas e ainda tem a colcha que me isola da cobertura e do lençol que abraça o colchão como todo em cima do estrado ringidor da cama. Agora a bem da verdade não ouço o ringir não ouço nada tudo vem de fora. Parece que os pardais acordaram mais cedo ou que eu esteja mais tarde na cama sem compromisso... E está frio de verdade, os técnicos previram o fim do mundo ao mundo gelado no passar da noite, a noite de ontem que esfriava rápido e o dia de hoje, passando pela gélida madrugada enfeitada de segredos e silêncios. Previram os meteorologistas, ou somente a aparecer na televisão, que seria frio com gelo quiçá neve e vê se tem graça nevar no trópico. Contudo têm lá suas varas de condão a falar, defendem magníficas teses para mostrar o calor o vento a tempestade o tufão e os terremotos; de vez em quando acertam, na modesta proporção de um para mil e ‘um’ sendo demais. Bem. Mal me acobertei bem dormi, sem ficar a pensar nas coisas atmosféricas, quentinho quentinho e quietinho para não chamar a companhia da insônia e assim dormi. Dormi até que meus amiguinhos pardais me despertassem pra ver a réstia de sol que se filtra desde a janela a janela onde pus dois pedacinhos de madeira para que não ficasse a bater ‘bang-bangando’ meus ouvidos e espantando o sono quiçá sugerindo a insônia. Aí dormi acordei agora. Vejo-me espichado, coberto, os pés, puxa os pés descobertos! embora de meia a aquecê-los mas de fora... não poderia não dormir por causa disso!? todavia acordei com eles a gritar a gritar, os pássaros briguentos, esse negócio ter a paz dos passarinhos é um engodo: brigam derrubam inclusive os ovos, se pegam com os desafetos e por vezes até aos magotes. Aí prefiro a borboleta, que ziguezagueia sem se odiar se bicar se barulhar acordando pobres mortais, eu. Eu estou espichado pés pra fora debaixo das cobertas e não sinto qualquer friagem. Vai ver esfriou mais ‘geadou’ gelou nevou e não vi; que bom não sofrer esse horror! Bem, e as crianças. Ouço-nas a passar a correr a gritar feito os pardais; rolam seus carrinhos ou levam o material escolar nas costas mesmo, e conversam animadas e isso não representa a geleira prevista pela mentira da verdade meteorológica. Ao menos para não destruir a alegria menina. Os carros, escuto seu rolar, ouço os motores as marchas em mudança aceleração – e não parecem escorregar na neve! Imaginaria, só imaginaria, esquis a esfregar o gelo aí na rua. Somente ouço a gente a passar o pássaro a gritar suas coisas, sinto mesmo o cheiro da erva a ferir-me alegrias aos raios solares, vejo a fresta a brincar na minha parede com as sombras dos galhos da árvore da frente num carnaval que observo diário quando o compromisso não me faz levantar mais cedo. Agora, o pardal a minha coberta a cama imóvel e... pera lá, eu também imóvel. Assim, como fazer a fazer minha ginástica matinal! Examino-me bem, mal me distingo no todo, o todo é o mesmo de sempre, embora tenha me esquecido com pés pra fora (e não terão se congelado! pois não os sinto, vejo). Vejo a cobertura, uma coberta em cima da outra, em baixo meu corpo resguardado do frio de muitos graus baixos previstos... Espichado porém vejo; como vejo se vejo minhas pálpebras cerradas! Como poderei ver ouvir sentir se... ah os pardais a gritar a brigar outra vez mas não haviam parado, paro a ouvi-los e não me ouço, será que me ouço!?
Marília   maio  2004




29° Tempos de Economia

          Já se iam as lembranças da época de ouro quando as vantagens subiam nas vantagens, os poderes públicos se estabilizavam na corrupção honesta, quando enfim todos pagavam e não precisavam pagar para ver por ver a miúdo o progresso e a evolução do mundo, no teto com teto a passar o teto os preços a subirem subirem subirem. Não. Existia agora uma sociedade enxugada e econômica.
          Seu Zé da Silva era executivo, “inzecutivo” como apreciava dizer. Não saía mais nervoso de casa ao serviço apavorando apavorado com questões do trabalho, que agora era mesmo trabalho não enganação e frescura. Atendeu dona Maria, a digna esposa, na hora de sair, nem soltou nome feio costumeiro antanho, o homem perdera a capacidade da neurotização; até as clínicas psiquiátricas psicopatas aos psicopatas haviam desaparecido por falta de freguês havendo um que outro cliente. Atendeu. Antes de sair ao escritório lá no centro lonjão foi tirar água a mando da consorte (nessa época o vocábulo concordava com a situação). Caso a cara-metade exigisse, pedindo, partiria a lenha, já teria inclusive segurado o cabo do machado a rachá-la (claro não se referir à cara-metade; antes, no tempo progressista, seria bem possível a confusão e o crime e o ‘beó’ e a polícia e os encardidos advogados em defesa alegando insanidades e tudo o mais; agora ali referindo-se apenas à ‘lenha’ mesmo). Atendeu. Encontra-se lá rolando o sarilho do poço, a observar paciente a alça a rolar, também, ao contrário, soltando toda a corda do rolo, fazendo aquele barulhinho chato ‘totoc-totoc’ sem deixar o Zé nervoso: o tempo e as coisinhas perderam capacidade a irritar o ser humano; e, depois, de volta, sobe o balde cheio de água (o homem tendo a pedido da ordem esponsal não deixado anteriomente descer o balde com força pra não remexer sujando a água lá embaixo, a gente olhando lá e vendo quase não vendo a tona a brincar com a luz aqui de cima; pois poderia sujar a água e aí o líquido se embarreando e, na volta totoc-totoc ao contrário, trazendo água suja e nesse ponto poderia temer sim o Zé o estrilo da cara-metade). Agora Seu Zé da Silva enrola o rolo do sarilho do poço com a corda rodando a alça, a manivela, daquele cilindro de pau, fazendo então uma força tamanha visto o balde cheio; já pensando, que não era bobo, noutro dia pôr um balde menor menos pesado no lugar do grandão, tonelada quando cheio até à borda d’água. E aí, suado, fedendo porque não se usava então mais desodorante a gente fedia égua outra vez, que o desodorante curara o fedor e deixara pelos tempos imemoriais a gente cheirando perfume enganoso de gente; suado sim, limpou com lenço as gotas, puxou pra cima do caixão do poço o balde, tendo o cuidado não deixar cair restos do líquido de volta ao fundo do poço mas, que fazer, sempre escapa algo e lá embaixão fazendo chiáp-chiáp da água caindo na água, a tona ficando outra vez a brincar com raios solares descuidados vindos descendo desde a boca do caixão do poço. O Zé olha a vitória.
          A água no balde, a ser posta numa vasilha menor e esta transportada à cozinha de Maria, nada impaciente porque então as mulheres tinham mais paciência com os maridos mesmo eles sendo uns bolhas como o Seu Zé da Silva; em resumo, o líquido transportado no lombo zézico desde o poço até à casa. Uma vitória na economia. Eram os tempos de economia, a água escassa, cara, provocando no planeta guerras infindáveis pela posse, ou ir-se-ia beber petróleo desaparecido nas jazidas! não, sim economizar água era a ordem do dia e aos bolsos vazios por preço alto e mesmo proibitivo. Aí o fato do executivo Zé da Silva antes de ir ao serviço procurar trabalho a se esfalfar esfalfava-se tirando água do poço e satisfazia a esposa para que depois, depois dos meninos a roncar, ela daí o satisfizesse.
          A luz também, ou por falta de água geradora ou por não ter petróleo ou que as usinas nucleares sem combustível, a luz também pela hora da morte pra viver.
          O amigo do Seu Zé da Silva, Cumpádi Chico, igualmente inzecutivo numa grande multinacional, se esfalfava também ele para inventar meios a economizar energia elétrica, por ordem dos tempos de economia.
          Na casa de Cumpádi o comum eram quartos escuros, somente claro o cômodo em uso. Uso mesmo a evitar ingratidões e até sentenças condenatórias do relógio de luz, o qual andava louquinho pra girar girar e girar a mando da multinacional do serviço de energia. Uso substituído pelo uso de vela. Mais contava no Cumpádi e os seus o toco de vela. Verdade que as gotículas queimavam os dedos da gente ao derreter as bordas superiores pelo pavio a queimar; e vez que outra caindo resquícios no chão encerado e a consorte do Cumpádi, nesse ponto ela sem sorte, a Cumádi reclamando a sujeira dos seus. Contudo iluminava. Sim iluminava intercaladamente (por causa do vento não deixando o lume em paz, tadinho) iluminava todo o compartimento, uma economia danada.
          Melhor, e o Cumpádi falava por influência multinacional “mió” melhor o Cumpádi Zefirino, Zeferino inventara a lamparina a óleo, óleo vegetal, que embora em sua casa gastasse combustível, iluminava bastante e não queimava os dedos dos filhos e da mulher dele, não obstante a gente ficando com cheiro na mão do cheiro do combustível.
          Ele, o Cumpádi Chico, não, mantinha a vela, economizando nisso e economizando nas unidades, porque usavam os tocos de vela quase até estar apagando o fogo na aguinha do sebo derretendo. Economia em tempo de muita demanda pouca oferta. A luz. Banho então... A Cumádi esquentava pouca água, punha na baciona ou despejava de canequinha água morna por cima do menino, menino sempre acha um jeito de espalhar fora molhando o chão, este o único problema dela. Mas também economia.
          E assim se economizava então por todas casas nos Jardins ou bairros outros da gente bem.
          Seu Zé da Silva agora já não rachou lenha, já guarneceu tambores de água potável pondo também no pote para filtrar; feito o trabalho doméstico que lhe compete a mando da consorte, parte ele ao trabalho a trabalhar duro como executivo na multinacional de preferência. Desamarra as rédeas do carrão importado, que por economia dos tempos de economia não é nem importado, sobe ao lombo do cavalo garboso que já raspou com raspadeira e catou os carrapatos que os anus não conseguiram comer todos sempre sobrando alguns; está na sela lustrosa da montaria lustrosa, olha os seus, dá no pé.
          Ah, antes disso pregara um beijinho na cara-metade na metade esquerda da cara que ela dera a beijar. Mesmo porque isso não andava racionado pelas economias dos tempos de economia.
Marília   junho  2004                                                                                




30° Um Sono Adverso a Todos Acontecimentos
         
          Estou, mas não tenho tanta convicção assim, estou diante de um sexagenário obtuso ou quem sabe desatencioso, com certeza desligado por desligando-se do planeta. Com a pretensão a contar sua vida? Sim, pretensão. Tento modestamente uma viagem ao desconhecido pelo conhecido; o qual preciso reconhecer, é muito pouco. Agora, no agora, cochila, dorme.
          Em berço esplendido. Talvez. Não posso exigir mais que isso. Não ouve sequer o ronco, o ronco dele próprio ouviria decerto, não ronca, o ronco do motor da marca  Mercedes do coletivo, embora bem na frente naquele banquinho na entrada do veículo, bem ao lado da quentura da máquina a qual supera bem o calor ambiente. Os outros passageiros suam em bicas; mas abusiva a palavra, outros sim passageiros: pagam passagem viram a catraca brigam com o cobrador nas questões de tronco, o cobrador sempre não tem defendendo-se ser a primeira volta na linha; ele não é passageiro, só na linguagem figurada pode assim ser chamado, mostrará ao sair do ônibus o documento de idoso e quando muito agradecerá a boa vontade do motorista por este cumprir seu dever quando tantos descumprem. E descerá. Por ora não, ronca ou não ronca, dorme a sono solto para os passantes rirem dele ou se incomodarem no estorvo: pés escarrapachados enquanto o comando cerebral passeia o infinito, os sapatos ultrapassam o gradil e perturbam passageiros a deslizarem pelo corredor levando crianças sacolas ou tão só seus corpos limpos e perfumados a tentar não se encostar, no atropelo do veículo lotado, aos cheiros acres de outros corpos cansados por um dia de trabalho duro, a buscarem com pressa a passagem no aperto da gente e no espremido da roleta na catraca. Ele não está nem aí, falam olhares maliciosos ou apenas lamentadores e cai pra lá quando o coletivo tomba pra lá ou se aboleta molemente pra cá se o chofer achar por bem ou o trânsito determinar que seja pra cá; tem a historia dos buracos e dos vãos na rua e nos cruzamentos, estes abaulados quanto possível, havendo socos trepidações e solavancos pra baixo pra cima e novamente pra baixo, ele dorme tranquilo: foge viaja ‘infinitiza’ a consciência e dorme, mas não ronca, ronca talvez porém ronca ainda mais o motor explodindo na fricção de virabrequim pistões combustível sob comando do pé direito no acelerador... O chofer buzina, não com o pé com a mão na haste, para lembrar outro condutor desatencioso na rua, em todas vias às vias da loucura: gritos fom-fons aceleramentos roncos estrondos e os solavancos e ah! tem os xingamentos – entretanto ele é a paz. A paz conquistada? Em menino a paz da inocência, na velhice seja por demais a inocência, quem sabe a paz do cansaço! porque difícil saber da paz merecida. E que é paz! Não dá tempo para pensar e filosofar pois de repente, o quanto é possível um repentino, descubro uma pequena surpresa e me surpreendo embora ninguém a perceba: o velhote não terá passado seu ponto! Não falo sobre o ponto no ponto em que se encontra de poder já ser velado indo para Avenida Saudade, não: do ponto de ônibus a descer. Assim me preocupo não com a despreocupação dos outros dentro do veículo: com os dramas do senhor idoso, me preocupo com a sua companheira, deveria falar mais concretamente uma esposa (naquele tempo era tempo de casamento e padre, não tinha essa sem-vergonhice de agora) uma esposa velhinha, mesmo sendo três anos menos que o esposo e velha de cabelos brancos, ele quase não tem fios claros escorrendo neve na calva, ela cabelos brancos do sofrer, que a fêmea envelhece mais por mais sofrer que o macho: a filharada os partos as doenças e então envelhece antes do que seu companheiro. Ele dorme, ela trabalha, ainda agora os netinhos mas os filhos maduros igualmente causam dores nas suas dores de velha e também põe ela minhocas e mais minhocas a minar sua mente ainda mais e por cima aguardando seu esposo que o padre lhe concedeu, velhaco sim, quem pode com o homem! diz ela à vizinha também de fios alvos, quem pode com ele? Ele dorme. Dorme a sono solto; e se o condutor do coletivo tivesse ele próprio menos que pensar além de pensar na mãe dos pequenos nas dívidas e no salário insuficiente, se o condutor pudesse ao menos acordá-lo, com buzinaço por exemplo ou uma bem educada freada, ainda salvaria o infeliz senhor, evitando o mesmo a discutir depois com ela, sua cara-metade, discutir aqui posto apenas a amenizar lamentações e as críticas da velhinha lá em casa aguardando o seu homem de olhos inchados, críticas não abusivas, porque convenhamos ônibus não é lugar de dormir. Agora dorme ronca sonha se esborracha no assento da frente, atrapalhando a passagem do transeunte louquinho a contentar o cobrador na catraca fazendo emburrado seu trabalho de ouvir passageiros no troco e a dar informações da rua desconhecida a desconhecido cidadão pagante e acordado. Não, ele dorme. Não verá seu ponto! quase falo nesses termos ao homem do volante: e que me dirá o motorista de retorno? que precisa é evitar trombadas, abalroamentos e cumprir horário, que os passageiros e os que a lei manda levar de graça devem mesmo dar o sinal de parar, e descer; ou que tão somente sigam no primeiro sono até o Terminal e aí voltem depois outra vez na direção da periferia para descer nos seus respectivos pontos... Eu me preocupo com a preocupação dele? Não, a dela, em esperar seu velho e as compras a mistura para o almoço deles, a saber ele ela e os netinhos, então brincando na terra e brigando democraticamente; dele não, que dorme sono sonho numa fuga de velhinhas e de seus próprios fracassos correndo ao infinito do desconhecido, o conhecido é só o roncar; agora cai de lado do lado da janela bate a calva contra o vidro, marca o vidro com suor e sujeira acumulada, mas não acorda; e se aguenta, não aguento. Muita impassibilidade para minha paciência pouco paciente; cutuco o sujeito como sem querer, acordo o dorminhoco, desculpo-me não em não saber se sabe passado o seu ponto: a fim de poder descobrir sua história, todos temos nossas respectivas histórias, a indagar-lhe o como da vida. O velho arregala olhos lacrimosos, olha por volta a descobrir em que planeta desceu e nada fala, nem me perdoa havê-lo acordado. Que diria? Talvez mudo. Avermelho-me, desço da condução, aceno sorrisos ao chofer.
Marília   janeiro 2002




31° O Diário do Doutor Gunnardsson
         
          O sol caía sobre a Terra mais uma vez, como o fazia já por milhares de anos. Seus raios branqueavam as paredes do laboratório, clareavam as páginas desbotadas e envelhecidas daquele manual com os rascunhos do sábio. Mãos incautas, talvez, curiosas certamente, passavam-nas, trêmulas e apressadas. Qual o instrumento e que maquinações terão a capacidade para anular a curiosidade humana!
          Lia-se que após o ano três mil a efervecência sociopolítica tinha se intensificado, uma grande guerra eliminara contradições tacanhas e bobas, a humanidade se libertara para baixo, nos desejos e poderes; os homens ficaram mais sujeitos à razão pura que ao sentimento; mas com tudo isso certa minoria inteligente coordenava as ações humanas. Porém, essas afirmativas já não chocavam a pessoa que lia, porque todo mundo sabia a contento sobre os acontecimentos. O que reteve o leitor no exame das páginas envelhecidas foram as minúcias narradas pelo depoente – o Doutor Gunnardsson – com respeito ao controle físico e mental do ser humano, ou seja do homem inteligente, porque o indivíduo comum, esse apenas se distinguia da formiga ou da abelha pelo tamanho, obediente cego às ordens ditadas por aquela minoria privilegiada (o Doutor fazendo parte dela). Fixou-se num trecho mais interessante, e sua leitura custou-lhe horas. Dizia:
          “No dia imediato, um 14 de fevereiro, eliminei o Doutor Doondto, meu chefe; eu deixava ser um auxiliar importante, para ser o controlador da máquina infernal, e por extensão, do mundo. Lamentavelmente para mim, o cérebro do chefe ficou completamente danificado e não pude aproveitá-lo convenientemente; sei o quanto isso me custou, muitas vezes precisei daquela mente consagrada e tive de me valer sozinho num lugar no qual não confiava em ninguém. Meus cabelos eram aloirados então, nada tendo do branco que me algodoa agora.
          “Primeiramente, exercitei três de meus auxiliares no manejo do instrumental controlador, tarefa dificílima e complicada. Não saberia neste momento fabricar uma perfeição daquelas, nem poderia montar as melindrosas peças, se estivessem as mesmas espalhadas; contudo tenho (pelo menos tinha na época) segurança absoluta na manobra do maquinismo, conhecendo centímetro por centímetro o alcance das alavancas, lendo o visor e distinguindo todos os pontos e suas variações; poderia estar mesmo cego e apertaria os botões exatos na compressão absoluta. Para quem não viu o engenho (poucas pessoas realmente puderam vê-lo) a máquina feita pelo execrável Doutor Doondto, esclareço em pouquíssimas palavras constar dum certo instrumental aparentemente mediano como as lavadoras e secadoras de roupa que os sub-homens usavam há uns cem anos atrás; e digo ainda estar acoplada a um computador desses comuns usados numa das antigas empresas industriais, pouco mais sofisticado; era sim qual uma lavadora de roupa, com a diferença a mudar de cor mesmo externamente no momento da ‘alquinagem’, ou seja na hora da cabeça em experiência reviver. Demais, fios e retortas de vidro especial e dum certo material que o meu ex-chefe nunca revelou a ninguém; teria o combustível dito propriedades atômicas definidas, contudo nunca pude comprovar sua natureza; ninguém pôde. Também havia uma tampa de borracha para evitar trepidação e barulho; ela gastou-se, eu a substituí por outra também com o mesmo objetivo. O som do aparelho sendo quase imperceptível, só dando um ‘bip’ agudo no momento da alquinagem, quando se desligava automaticamente; ficando desde aí – eternamente se fosse preciso – muda e acendendo de forma intermitente duas luzinhas, uma vermelho viva, outra roxo médio; desde os tempos iniciais das experiências até hoje guardo bem esse quadro nas luzes apagando e acendendo... acho inclusive isso ter alterado minha personalidade fundamentalmente; por essa razão no laboratório todos me tomam por louco e acreditam nos meus poderes. Quanto aos auxiliares, são formados e consagrados pelas maiores e melhores cortes antigas e se distinguiram como os mais brilhantes cientistas nas suas universidades, nos três dos quatro pontos de ultraeducação no globo. Um deles participou da fracassada expedição a Marte; outro conseguiu vencer a pressão dos oceanos, trazendo em uma caixa de vidro especial algumas gramas de lugmitita, substância combustível de nossa máquina, para as primeiras experiências de meu odiento chefe, e foi a base para ele compor a substância final para funcionar a aparelhagem, substância essa que admiti desconhecer. O terceiro auxiliar tendo a capacidade extraordinária a dizer quase tudo que a expressão humana criou, através de cinco palavras; talvez seja ainda mais inteligente que seus colegas. Eu os domino através de um poder condutor, que me valeu mesmo suplantar ao meu chefe e eliminá-lo de vez; se bem que tenha ficado o resíduo da temência e inclusive certo ódio nos auxiliares por mim, desconfiança com certeza.
          “Nossa primeira experiência em comum foi parcialmente vitoriosa: matamos três leais servidores daqui do laboratório, os quais sabiam muita coisa e procuravam sair de nossa influência; não lhes darei os nomes, pois homem que se submete não merece distinção; assim como meus auxiliares também, que os chamo pelos números Dois Três e Quatro. Nesse tempo eu era Um. Meu chefe fez-me o sinal em convenção, passei-os aos outros Dois Três Quatro e Cinco; ligamos os intrumentos e os servidores começaram a falar; um chegou a reclamar de todos pela traição. Teria sido bem sucedida a experiência se no outro dia as cabeças dos infelizes não começassem a cheirar mal e a decompor-se. Doondto, que pulava de alegria, quase chorou, quando tivemos de atirar aquelas cabeças falantes e fedorentas no poço incinerador onde os restos dos corpos haviam sido eliminados. Ficamos vários dias trancados numa espécie de oficina-laboratório, meu chefe e eu (ele não podia contar com os outros homens, somente confiava em mim) e foi então que aperfeiçoou a substância final, diminuindo duas gramas de um material preto nunca revelado, mesmo a mim cientista de confiança... Partimos assim para a segunda experiência, essa totalmente vitoriosa: a cabeça do grande Seis, uma figura apagada, sujeito que nos trazia notícias do mundo de fora e não merecia mais a confiança do chefe; mas ficou famoso por ser a primeira cabeça que deu certo; falou falou falou, somente bobagens como qualquer mortal comum, e foi atirada ao forno-poço, não interessava a Doondto. Chegamos à experiência definitiva: a cabeça do grande sábio Diúnvos. Não foi difícil aos nossos agentes capturá-lo e matá-lo. Sua parte superior viajou três longas horas porém compensou, porque o homem reviveu estava lúcido. Muito nos ajudou Diúnvos com seus conselhos de sabedoria ilimitada; chegou mesmo nos perdoar o assassínio, em nome da ciência. Viveu dez anos esse cérebro privilegiado, até que Dois derrubou o experimento do pedestal inadvertidamente. Essa perda, entretanto, não foi tão séria como se possa imaginar: nesse momento tínhamos duzentas e uma cabeças sábias em nossos pedestais! Quase toda a inteligência terrena andava por nós controlada.
          “Infelizmente faltavam pedestais para nosso fichário vivo e não se podia completar; a substância preta, a que já me referi, em falta e o Dr.Doondto precisava obtê-la e temendo deixar-me a chefia das operações no Centro Cerebral, cabedal se ficar melhor a expressão; temendo com certa razão... Também precisaríamos raptar Mironski, o velhinho que estava no Polo Norte numa experiência interessante, e mais uns oito ou nove sábios ainda não sob nosso controle. O outro problema é que essas criaturas viviam desconfiadas com o Centro Mundial de Inteligência, o temível CMI dos intelectuais dirigentes; mesmo desconhecendo o que fazíamos concretamente nos laboratórios ligados ao Centro Cerebral de Doondto. Alguns desses cientistas inclusive se escondiam. Muitas vezes tivemos de torturar a cabeça de Batira, sábia de cabelos negros compridos, torturá-la com os Raios-M, para obter dela a localização de seus colegas. Neste particular contamos muito com o sábio Ditros, por apavorado com as lides da tortura junto às cabeças; o covarde Ditros.
          “Em dado momento coisas estranhas começaram a acontecer; mais precisamente desde maio último. Um dia no DI, o Depósito de Inteligência, surpreendi as notáveis cabeças se comunicando, tentativa a sabotar nossa obra... Acho que conseguiram, pois nos obrigaram a desligar a Unidade de Pulsação. Isso foi um desastre. Especialmente para mim, já que faltou posteriormente combustível e eu havia matado o chefe Doondto possuidor dos segredos. Não consegui contornar a situação e tudo começou a perder-se. Dimitri falava pausadamente como era seu feitio – na tal discussão das cabeças – e concluía sempre com uma fórmula ‘Zy-Pi’; os outros respondiam e o fanhoso Dr.Birkas soltava mesmo gritinhos moderados; Baclos e Raidell, sumidades na Física, davam suas opiniões e repetiam o terrível Zy-Pi. Entendi ser uma comunicação de valores e interpelei a Bentam, cientista com um defeito grave: ser tagarela. Esse ofendeu-me dizendo que eu não teria a coragem para desligar a Unidade Pulsativa, a qual fornecia substâncias básicas àquelas cabeças sem corpo; assim atingiu os meus brios; determinei a Dois que desligasse a unidade, fiz-lhe sinais, imperceptíveis às cabeças, que o fizesse por cinco minutos apenas; o submisso cavalheiro obedeceu-me. Daí não houve jeito para estabelecer novamente a reação. Acho que também fui traído por Três, o meu auxiliar que não falava; sim deve ter sido ele quem elevou a temperatura do Modulador de Repetição e Registro. Daí estourou o aparelho quando me aproximava. Estaria diante de um complô? Não sei ao certo o que me aconteceu, porém encontro-me sozinho na imensa área do laboratório. Estou muito ferido e suponho não poder chegar em lugar de recurso. Mesmo os guardas fugiram. Estou agora no deserto.”
          Não se encontravam completas as anotações. Nem foi achado Gunnardsson. De uma sala comprida vinha um cheiro de podridão; nela umas cabeças sem corpo, com expressão de torpor, agonia, terror, morte!
 São Paulo   junho  1977




32° Instinto Indistinto
         
          Naquele norte naquela noite naquele dia naquela semana daquela viagem não aguentou. Pensou não haver aguentado, quem sabe se não exagerando a desconhecer suas forças... Não, isto não é exato, sabia bem, muito bem conhecer suas fraquezas, sobretudo algumas específicas, embora o avançado da hora. Ora bolas, por que se considerar um vencido pelo adiantado nesse atrasado que é o entardecer na vida!
          Não pretendia responder. Não queria responder. Não saberia responder decerto.
          O certo nesse talvez errado é que ele não dormia; aí levantou-se, se limpou escovou dentes molhou aquele rosto enrugado, tendo gritado ao espelho haver exagero dele, dele espelho. Se enxugou e desceu do modesto quarto de hotel modesto até a portaria modesta, onde como costume costumava a madrugada não manter o porteiro – ou a dormir ou em ver as meninas lá embaixo, no que faz bem um jovem. Ele igualmente sem mulher mas não jovem, lamentou. Também desceu ao bar, local mui propício à fumaça ao álcool e à solidão entremeio a multidão; mas no recinto multidão de apenas uns gatos pingados nessa altura.
          Sentou-se numa banqueta a querer vender a ideia dum contumaz frequentador, desejando no entanto esconder a timidez; timidez doentia que lhe pesava anos, toda uma vida já longa. Serviram-lhe uma bebida.
          Bebericava aos goles a matar o tempo ou somente por prudência, isso próprio dos desavisados ou só desacostumados – quando notou aquela fêmea na mesa solitária, ambas mulher e mesa solitárias. Ficou a observá-la, uma garrafa quase de observação.
          Tinha frascos vazios, copos vazios e um só cheio, o qual a jovem cansada ser jovem amadurecendo no cansaço da vida esvaziava e esvaziava célere...
          Condoeu-se da pobre; imaginou mil catástrofes atrás de cada copo e de cada garrafa, ou a esvoaçar-se nos muitos cigarros em toco. Sentiu também a solidão dela; quem sabe uma solidão mais experiente que a sua... Ora, quanto caberia dentro da imaginação dum homem cansado de insoniar e perdido naquela parte do mundo daquela noite naquele dia que era madrugada já no avanço!?
          Aí o garçom levou para ela novo copo e nova bebida.
          Não suportou não intrometer-se na vida alheia, se vida. “Rapaz, disse, basta, não vê que a está destruindo!” Achegou-se à dona; ela olhou pros seus lados para vê-lo, não podendo na embriaguez passada.
          Aqui entra um defensor do esdrúxulo exército de salvação na humanidade.
          A custo, a repetir e repetir, conseguiu convencê-la parar; ao menos parar enquanto salivava contra o álcool, o álcool que o desacostume o fazia também ‘amoleirado’. Enfim a estranha pôde ver seu benfeitor ou salvador por um instante; desandou a chorar, arcada já na base da mesinha daquele antro depravado (pensou o salvador de inocentes, depravado). Entretanto não entendia o homem. As horas demonstraram ser ele a ela um gringo, a falar enrolado àquela cabeça graciosa bem etílica.
          Em verdade ela sim gringa, sequer a compreender aquele macho da espécie cansado, quem sabe se não igualmente a espécie cansada...
          Acabou por levá-la para longe do bar naquele escurão do avançado da noite ou do escuro na incompreensão de ambos. Também a custo depositou no lugar devido o fardo belo (aos solitários toda mulher é bela e apetitosa). O lugar, um hotel cheio de estrelas a envergonhar o modesto seu quarto lá longe na solidão tão perto. Um ascensorista ajudou o salvador no seu mister junto aos chapeusinhos vermelhos. Pô-la na cama luxuosa do aposento enfeitado. Dispôs-se a sair, pisando nos ovos para silenciar os passos. Porém no ato de encostar a porta de saída o anjo berrou na sua língua avessa um socorro (ou seria um pedido de permanência?)
          Velou horas aquele corpo belo, belo apesar da prostração alcoólica e do relaxo absoluto. Acordou, ruminou ininteligíveis na sua ‘gringuesa’, alertando o homem. Amparou a mulher, deu-lhe banho frio. Despertou de um lado seu próprio instinto, doutro a pena pela penúria dela.
          A penúria sorriu, convidou-o com gestos a dormir. O sol os pegou pela fresta. A bela olhou ao parceiro, vociferou sua estranheza, chegando a expulsá-lo.
          Partiu o homem, envergonhado diante os luxos nos corredores estrelados. Rumou à modéstia do seu modesto hotel. Pagou, sumiu no mundo, ao seu mundo.
          Anos, muitos anos para se conhecer dentro do seu desconhecimento, pois sempre somos desconhecidos a nós mesmos.
          Ficara a lembrança, a se juntar às outras lembranças doutros desconhecimentos conhecidos. Um dia chegou-lhe alguém no lar pobre de cidade pequena, longe da lembrança poética (ora, haverá poesia nos encontros que são os desencontros da vida!)
          Um dia chegou certa incerta menina-moça a desejar saber a paternidade. Os meandros a destrinchar causas e intrincados de endereços e identificações – mas tudo são os perdidos também nos meandros. A jovenzinha, então na orfandade, ofertou ao pai uma lágrima estrangeira. As lágrimas vêm da linguagem do coração, independem da linguagem falada e desentendida dos lábios.
 Marília   março  2006




33° Descrição do Crime Perfeito
         
          No que me concerne consta não ser contra, contra sim o contra, daí sendo a favor; assim o contra torna-se favorável à tese contrária. Estou, suponho, sendo claro. Claro, porque terei ser claro límpido e sereno na análise que vou agora fazer de um crime, o que entitulei “o crime perfeito”. Embora digam as más línguas não existir, encontrei um exemplar belíssimo em provar por a+b; aqui dando por equivalência o direito ao direito a divergir e portanto ser contra meu contra posto nesta narrativa no provar existência de um crime perfeito, não obstante inexistir crimes perfeitos na face da Terra.
          Deixemos de tró-ló-ló e partamos ao crime. Vejamos seus elementos nas condições a serem expostas.
          Sabe-se que assassinaram uma Geni. Primeiro aspecto da questão é que o primeiro registro fora Jenny, não como está grafado. As corruptelas foram uma a uma matando o nome, criando outro nome. Até poderíamos afirmar neste pedaço que a jovem já era defunta antes daquele fatídico clique. Bem, não entremos no como foi perpetrado o crime, assunto doutro departamento, Departamento de Investigação. Nesta parte da parte a que pertencemos no Departamento interessa a descrição pura e simples, técnica, do crime. Melhormente: a fotografia, seca absoluta concreta ‘machucante’ mesmo, da própria fotografia. E querem melhor forma para provar um crime que uma peça fotográfica!
          Tem no quadro horizontal retangular à esquerda uma jovem encalhada. Esclareçamos: passada dos trinta, sem a possibilidade contrair núpcias por vias legais com direito a cartório padre ou até mesmo com auxílio preciso do delegado policial. Fica bem esta expressão, pois isto é uma descrição de crime flagrante constatado num filme estático. Ela está de olhos arregalados, diríamos assustada. Alguém afoito colocaria neste ponto: vendo o assassino! Voltemos à descrição.
          A jovem titia, vestido de bolinhas; não se podendo dar cores por ser o material em branco e preto, o que é um bem a bem da arte fotográfica profissional. Sapatinhos delicados (um talvez neste ponto: o fotógrafo, presumivelmente o assassino, que não deve entrar nesta análise, só o crime, enfim o fotógrafo nesta particularidade fica provado ser amador, visto haver cortado um dos pés da moça) ela tem sapatinho delicado. Uma blusinha de... Chega, não sei descrever roupa de mulher; e de homem para equiparação de incompetência. Após a mulher jovem bela e encalhada como solteira nos documentos de identificação, cuja identidade desconhecemos, vemos um outro ser, homem este, outro jovem, aí pelos seus noventa e tantos anos na data desconhecida da foto mas que supomos facilmente tenha sido um jovem setenta anos antes; está enrugado cambaio destroçado (porém não é o momento nem o móvel, antes dizer ‘peça’ chave do crime, está aqui descrito por se encontrar no centro). Veste-se como autêntico dândi do século dezenove e forçosamente como capiau da nossa roça nesta época; nisto admite-se seja material fotográfico da primeira década do século vinte e um, haja visto o papel de cópia com dizeres e siglas ajustados aos computadores atuais. Que mais sobre o matuto? Que é meão peão, ladrão? bobão? Não sabemos, deixemos aos peritos tais averigüações (ainda existe trema, não assassinaram o trema? tremamos!) esta a vítima, vítima tão só do ‘segurador’ de câmera (Kodak ou uma japonesa em uso) pois afirmamos não ser a vítima principal, esta que será verdadeiramente a próxima desta análise de crime à perfeição. Portanto deixêmo-lo.
          A vítima do crime, a Geni.
          No retângulo, após o sofá batido gasto velho e barato, tadinho, após igualmente o tapete esfarrapado sustentando uma certa mesinha de centro com vidro trincado e poeira, muita poeira em torno do cinzeiro atulhado de tocos e cinzas (fumaça não parece aparecer na foto) após tais objetos usadíssimos e ordinários encontra-se a vítima na extremidade direita, que seria a esquerda, é esquerda sim de frente ao fotógrafo; insistimos na presunção ser ele o criminoso; fugitivo?  não se falou nestes termos, todavia positivo, porque a polícia desconhece a autoria do crime – ou não seria um crime perfeito – aqui se trata de um autêntico e talvez caso único de crime ao estágio mais perfeito nessa ciência ou arte de matar um ser; não são os três, vejam bem, não são os três, embora também eles vítimas (ou testemunhas, vítimas-testemunhas!) não são todos os três: releva-se tão somente a pobre Geni!
          Partamos finalmente à Geni. Importa pouco (pera lá, importa sim, que diabo, não temos também coração! temos) importa quase nada que o assassino tenha tido o interesse a matá-la e nem vem ao caso o motivo do crime: está simplesmente apagada no mundo dos vivos. Não obstante se encontra (na foto, bem entendido) se encontra de pé, qual vareta de árvore ainda não despencada no matagal da floresta humana! Jovem também? jovem. Bela também? pera lá, que é beleza? nova sim, não à cerca de setenta anos atrás como o esposo, seria o velhote capiau seu esposo, tudo indicando que sim; não, não isso mas aí por uns quarenta anos para trás poder-se-ia dizê-la jovem e talvez bela, dependendo do conceito de beleza, ainda não suficientemente discutido. Veste-se à moda cabocla: chita desgrenhamento de cabelos fita em laços; e a expressão é de tristeza quiçá terror! o que não é nadinha extraordinário se tratando dum crime onde ela é a peça fundamental, mesmo sendo um crime perfeito, a perfeição não está acostumada a esconder imperfeições, as rugas por exemplo. Como estaria... estaria coisa alguma, está mesmo, o cadáver!
          Dona Geni, não nos aproveitemos a poetizar “a flor da juventude por nome Jennyfer” não, Dona já basta. Dona Geni encontra-se cortada à metade longitudinalmente! Então houve tortura! Não cabe aqui responder, respondam os peritos: já falamos é assunto pericial. Com o quê? nisto se presume... Bem, está com meio corpo inerte (como poderia ser defunta sem sê-lo!) e inteiro: metade da boca, metade do sorriso (sorriso não, mais parece grito de desespero) metade do nariz, metade não: existe um pedacinho da fossa nasal esquerda não escondido pela objetiva, lembrando outra vez que a Geni bem como as outras pessoas estão olhando para o fotógrafo amador, outra prova do amadorismo o cortar-lhe parte do nariz, portanto se invertendo o lado porque é uma fotografia documental de um crime, o crime perfeito. O braço direito da mesma está como que a se levantar (para impedir o ataque fulminante do seu assassino!? talvez, e isso já é interpretação, continuemos a nossa descrição das peças:)
          Bem, vejamos agora as partes inferiores da assassinada criatura, o que levará a obter afirmativas. Estaria para andar, alçar voo, fugir do facínora?! a foto esconde exatamente isso, o fotógrafo cortou um dos pés dela também! Por determinação e estabeler melhormente um crime perfeito? não sabemos mas poderemos investigar junto ao Departamento de Investigação nos Crimes Contra a Pessoa Humana. As linhas do corpo, que talvez tenham sido desafiadoramente atraentes aos garanhões de uns quarenta anos para trás, tais linhas são também enganosas como a própria beleza corporal: a chita encobre o cerne de tanta gostosura. Nada obstante Geni é feia, como feio é todo velho, ela está passada e já não atrai, como pode ter atraído antanho. Permanece de pé. Mesmo morta.
          E poderia ser diferente? não poderia, é uma foto, o artista a flagrou por metade, o restante nem o laboratório pôde precisar. Agora, defunta, cadáver, morta e ainda de pé! aí reside a perfeição, não apenas por não se descobrir o assassino, embora fácil saber-se torturador e haver cortado a infeliz ao meio; perfeito no corte. Quanto ao fato – isso é um fato provável e mesmo comprovável – anda mortinha da silva. E todos os outros dois elementos da fotografia. Ou pensavam que fotografia não é uma coisa morta! não existe mais morte maior que foto: é papel, é líquido de emulsão química, é virtual também, nadinha viva. Porém há um senão que salta aos olhos: não apenas ela, a Geni, foi assassinada, houve um assassinato tríplico. Perfeito.
          Perfeito? perfeitamente, obrigado a todos.
Marília   agosto  2002




34° Um Personagem Crítico
         
          Um dia – fazia muitos dias – fora na quinta-feira, não, na sexta, ou foi na quarta manhãzinho, talvez até chovesse... não, não pode ter sido quarta, é na terça que choveu, na quarta só fazia frio – não tem importância, o José de Tal, tal o nome do ‘para-gente’ (já já o leitor fica sabendo o porquê de minha crítica ferina ao bestalhão) o José de Tal sai-me com esta: “O que vossa senhoria tem que ver com isso?” Até nesse dito ponto havia eu elogiado muitíssimo a criatura, dado seu alto valor (eu é quem pensava assim) e sua primorosa educação. Ah, esclareço, na indagação “O que vossa senhoria tem que ver com isso?” parece parecer uma pergunta de um ser educado e cheio de mesura e cerimônia no tratamento; Não. Aqui era ironia pura. Quase desmontei.
           Na ocasião eu falava mais ou menos isto (quer dizer, aqui tem menos e pouquíssimo mais, porque ando sobremaneira esquecido, precisando recondicionar a memória):
          “Em plena ocasião do Império, na cidade do Rio, nasceu um lindo menino da família nobre Tal e Tal e Coisa, um robusto pimpolho, por sinal primogênito, mais ainda, unigênito, dos Condes e Barões de Santa Qualquer Coisa, ligados inclusive às casas reinantes portuguesa e espanhola; recebendo o mesmo na pia batismal o genuíno nome de José.” E daí por diante. Enchi um calhamaço com elogios ao crescimento do garoto; fi-lo belíssimo adolescente; completei sua educação em altas esferas e mandei-o doutorar-se em Coimbra e Bolonha; a seguir entreguei-o a uma sensualíssima jovem a iniciá-lo na sociedade parisiense; promovi o personagem a personagem política entremeio às Relações Exteriores do Governo Imperial; dei-lhe de mãos beijadas cargos e poder...
          Preparava-me a consultar o Aurelião na procura de vocábulos mais substanciosos a fim de elevar ainda mais tão belo ser, quando me veio com desaforos! E desandou. Dei-lhe, vencido, a palavra, ou melhor, não me deixou sequer mais abrir a boca: chutou-me os argumentos, me ofendeu a moral, arrasou-me com observações grosseiras, tadinho de mim! Iniciou sua guerra com a frase, a qual repetirei paciente ao paciente leitor, suscitada por mera observaçãozinha que fiz nestes termos – “a orelha do belo rapaz é que destoava um pouco” nem pus reticências para não provocá-lo, porém...
          --O que vossa senhoria tem que ver com isso? me perguntou a criatura. Imediato, sequer deixando-me responder como defesa, alinhavou certa metralha de argumentos em ataque, um palavrório insensato quase sem vírgula sem ponto sem ponto e vírgula, cheio de exclamações, ora ou outra com interrogações mas sem direito a resposta... Vou repetir tim-tim por tim-tim o diálogo, melhor dizer monólogo em voz alta e gritada mesmo (por fim a criatura José de Tal andava rouquenha e arfante como houvesse enfrentado numa justa injusta um adversário, eu, o qual andava já a espernear se esvaindo em sangue, vermelho, o dele é que era azul nobre, o meu é vermelho realmente, que fazer!) (Ah, tem mais, não vou grafar com o sinal característico do diálogo, não só porque não houve diálogo, só a criatura falando, quer dizer, a berrar; também porque os parágrafos aconteceram apenas para descanso de José, Dom José, melhor falar, e não a fim de indicar que alguém estaria contando. Assim economizamos um pouco de tinta; não se esquecer que o personagem é do fim do Império; portanto devemos a bem da verdade usar pena de pato ou ganso no escrever; daí eu falar na economia de tinta, hoje esbanja-se horrores tintas e cores). Agora chega de tró-ló-lós; terei de repetir a dita frase prometida de Dom José de Tal; e então daqui por diante respeitarei o trato, deixando que apenas ele fale; na verdade o fulano não me deixou vez realmente. Vamos lá.
          O que vossa senhoria tem que ver com isso? ele indagou...
          Como se eu, falou Dom José de Tal e Tal e Coisa, reconhecidamente um sangue azul, de alta linhagem, pudesse ter a enfear-me orelhas destoantes! Pode uma coisa dessas! e as suas? ora bolas, isso são orelhas ou feijões orelha de padre colhidos num solo ruim... parece até que foram feitas por Belzebu a dentadas, quá-quá-quá... E seus cabelos, pera lá, quais cabelos, você não os têm, tem sim uma calva brilhante, calva não: a gente do povo é careca, ca-re-ca, gostou? economia de pentes? E seu nariz!  grego porventura? semelha certa linha sinuosa inclinada para baixo terminando por uma ponta vermelha, um tomate! linha essa conluindo em secreção na escorreção nojenta, oh velho! se tivesse bigodes, ah que troço nojento também, quando come leite com farinha de milho (anos, não enjoou ainda?) se tivesse bigodes... imaginou os fragmentos fermentando pelo mau uso na limpeza. Quer mais? os seus olhos não têm cor; já viu olhos sem cor? nunca vi. Além do mais existe quase sempre uma remelinha pelas noites indormidas; não se envergonha disso, suponho. E a barba do ‘tectequeador’ aí nessa Olivetti... você não faz mais o trabalho de raspar a cara? fazia todos os dias, não tem princípio? ah, deve ser por haver-se aposentado, agora ninguém precisa mais vê-lo (sorte das outras pessoas o seu esconder-se hein!) então você fica aí encolhido dentro desse casulo que é sua casa, os pelos crescem, raspam a fronha ao dormir, enroscam; não tem mais mulher para ralhar consigo pela péssima aparência, ui-ui-ui. E o cheiro... da barba não, do corpo hum... não tomou banho hoje? ah sim, espera a noite chegar para se limpar pra dormir como um anjo... Anjo? Deus me livre de sua angelitude, oh fariseu. Quanto à roupa, barbaridade! não está vendo o sovaco a aparecer; só tem um mérito: deixar o buraco na camisa como respiradouro para não feder tanto as axilas... mesmo assim, sai de perto gente! e os pezinhos? que gracinha que belezinha, com chinelos de dedo gastos sujos grudentos, fazendo escorregar a planta dos pés patinando suor e poeira! Não tem pejo em andar por aí, até no centro urbano, com esses chinelos de borracha? Dá até raiva mesmo essa gentalha, a gentinha do povo sem respeito social. Gravatas! ah deixa pra lá... Olha, oh criador de... (nem completarei porque tenho vergonha na cara, não profiro palavrão). Por que não se espelha no dândi que sou, veja como ando, ando como um gentleman, cavalheiro perfeito. Se algum dia formos ambos flagrados juntos, virarei o rosto a demonstrar que não o conheço nem sequer o vi alguma vez! xô satanás! Feio. Bobo. Estúpido. Burro. Zé-povinho. Abotoe essas calças, aperte a cinta (deve-se falar cinto, oh tonto) ‘enfranfunhe’ (aliás o verbo não existe, inventorzinho de palavras...) enfranfunhe melhor a frente na braguilha e não deixe sobra lá atrás na ‘poupança’; acerte os vincos, limpe um pouco, ao menos, a sujidade, esses pelinhos presos ao tecido das calças; ainda bem que não usa cores claras ou pareceria melhor o pior das sujeiras... Vejamos agora a camisa; só tem essa? Acho a mesma de um mau gosto à toda prova. Contudo a cor verde é demais, verde-cheguei, como andar com uma extravagência dessa? eu não vestiria uma coisa assim de jeito algum. Pior que a vestimenta de cima, estapafúrdia, só mesmo suas cuecas furadas, bah! Não não, não faça menção a defender-se, tenho o direito sobre quem feriu as belas orelhas minhas: feri-lo com os buracos das roupas brancas! Brancas eu disse? qual o quê: encardidas de um branco muito antigo realmente; e furadas como falei e provo. Meias? você as guarda para quê? não usa, quando usa (verdade, veja como o defendo, verdade não estarem furadas) usa meias apenas para ir ao banco tirar o que os juros pagaram na poupança mensal, parecença com usurário, não mais não menos. Agora chega de falar no ser medonho que o catador de milho na máquina de escrever me representa; um monstrengo mal vestido. Mas falemos agora na (e da) sua literatura de fundo de quintal, ‘maluqueira’ como você mesmo reconhece. Vamos falar dela... socorro!
          Não suportei os desaforos desferidos: descriei José de Tal, sequer deixei-o completar o pedido de socorro, tapei sua boca no último ‘o’, pois socorro bem gritado tem que ter vários ‘os’. Imediatamente arranquei a lauda do rolo da máquina, logo ela iria avisar “tim” pelo sininho no final do papel, como toda Olivetti de alta linhagem – esta sim tem linhagem, digo como vingança e clamo por todos, em nome de todos os criadores de josés desta vida – fazendo então aquele barulho do rolo girando com ferocidade, a minha ferocidade; amarrotei o papel, fiz do sulfite uma bola mal acabada, atirei-a, despeitado, no cesto ao lado do vaso sanitário, juntinho com restos de higiênico bem usado. Que os cheiros característicos sejam leves ao José ao Tal e às Coisas!
 Marília   maio  1996




35° Notas de Meu Falecimento
         
          Para início de conversa, conversa-fiada deixemos de lado, partamos duma dada data, não sendo preciso nos perdermos. Então procuro a data, o dia certo, porque se temos dia certo para nascer devemos ter igualmente o do falecimento. Aí vasculho a gavetona da escrivaninha, onde guardo os badulaques. Encontro os badulaques: colchetes agulhas percevejos de metal dinheiro velho fedido guardado e dinheiro em moeda que não vale mais, mais vale numa exposição das antigas; tem caixinha ‘petitica’ assim com mil menores coisas que me são lembranças das lembranças; um canivete quebrado para que serve o que mais não serve, como sou bobo, jogo fora ou não? Não, se está na gaveta grandona nas entranhas dela na qual se guarda lembranças guardo então como lembrança embora não me lembre por que devo tal objeto manter (e poderia mandar consertá-lo mas para que gastar!) Tem, vamos ver, uns troços de ferro outros de plástico – pera lá, que devo estar procurando? ah, prossigo, talvez, procurando, encontre, não o que procuro porém que me esqueço que procuro. Aí tem um relógio parado que não serve para coisa alguma, talvez como recordação daquilo ou de alguém esquecido; limpo sua poeira, o pozinho no vidro de plástico do mostrador, engraçado falta-lhe o ponteiro vermelho de segundos, ah que diacho onde soube que era vermelho! deixa pra lá. Tem mais aos fundos da gavetona uns outros trecos esquisitos: um não sei quê de ferro, ao menos descubro que é pesado e grande, pequeno suficiente a caber no fundo da gavetona. Empurro pra lá, encontro uma chapa de madeira, o que me dá um trabalhão danado, pois não sei o tamanho exato (saber pra quê?) tomo adoidado o desiderato saber achar uma régua, vasculho por aí e vitória! – achei uma régua gasta, falta, apagada, a numeração e os risquinhos equivalentes ao cinco e ao seis (centímetros ou polegadas!) o que pouco importa a placa é mais, está visto, mais grande (que horror a expressão, se fosse meu filho batia na boca corrigindo: maior, repita: ma-i-or). Bom. Meço, dá dez por onze virgula três, sem que eu saiba bem se dez centímetros ou onze virgula três polegadas, isso não tem importância porque não sei sequer a que serve a madeira. Jogar fora a desentulhar a gavetona! boa ideia, no entanto me parecendo ideia péssima porque é prensada com grânulos imprestáveis de madeira colados sabe-se lá com cola decerto venenosa, não reciclável, ofendendo o meio ambiente, sou cidadão correto e não sujo, sujo só a gavetona deixando a placa no lugar em que a encontrei e valeu ter limpado a mesma com pano porque a poeira faz mal. Prossigamos nessa busca, já me esquecendo o objeto central da pesquisa. Tem mais? xi, tem muito mais, a gaveta parece coração materno cabe de um tudo. Melhor fechar a gavetona, visto poder até entrar bicho nela. Tem mais duas, não: tem três gavetinhas se bem-mal uma não possa abrir não tendo a orelha de puxar. A gente se vira, brasileiro é criativo pra burro e acharei meio de abrir a terceira que por sinal é a do meio e devera ser não a terceira, a segunda. Inicio a faina. Na primeira encontro talvez o que procurava, encontro papéis, me parece vagamente ser o que procuro ligado a papéis e na grandona só havia uma capa de caderno com uma porção de bonequinhos garatujados a roubar o tempo para quem o tenha de montão. Nessa primeira descubro, vixe, é muito papel. Resmas dele. Em branco, virgem, virgem? sei lá, conto centenas milhares sem nada escrito. Está escrito aqui na cabeça: papel em branco não serve pra nada. Serve. Serve para escrever aqui com meus garranchos e usarei lápis, lápis não, quebro sempre a ponta e me sujo com o grafite em vista ficar afinando toda hora e me lavando imediato; com esferográfica, decidirei depois se preta azul verde vermelha violeta outra cor, as que tenho são essas e mais depois ‘mais-zão’ verei na papelaria, a da moça bonita, se tem outra cor, aí brinco com a menina: cor de burro quando foge, somente para vê-la me mostrar os ferrinhos de endireitar mais a beleza dela, coisa de dentistas. Ah pode ser escrito na Olivetti, Olivetti 88 que está aqui ao lado precisando fita nova, preto vermelho peço sempre e ela me mostra de novo o aparelho nos dentes mas será que se arreganha pra mim por amor ou interesse comercial, que diacho ela não é a dona, dona sim de meu coração... Melhor fechar esta primeirinha, pois que fazer com papel em branco! nada. Aviãozinho? não sou moleque. Nada, não devo perder tempo perdendo tempo no pensar o que fazer, tenho é que procurar. Contudo... tento a do meio. Constato: não abre mesmo. Depois abro, com jeito abrirá. Terceira gavetinha. Puxa, que horror de ‘badulaquinhas’ dentro – se for medir, só medir, os tamanhos, pesar pesinhos pesões consistências dos mil e um trequinhos da gaveta terei o resto de meus dias a medir, somente a medir! pô, que trabalhão. Espera lá, se é pro restante dos meus pobres ricos dias... procuro, portanto, é obvio, elementar, lógico e justo pensar que seja algo em torno disso! é isso: ando querendo saber dado concreto escrito de quando morri. Então, ah que ‘burraldo’, para que vasculhei uma gavetinha inteira de folhas brancas virgens belissimamente enxofradas e alcalinas, suficiente pra não ter nada para escrever tudo –  então não poderia estar nisso o dado da data do adeus desiderato do Degas disto dito. Perdinha de tempo. A terceira também ‘obviodóbvio’ que não tem porque tem, tem só objetinhos miúdos de todos tamanhos e nenhum papel. Portanto deduzo a dita cuja data estar na do meio. Isso. Agora estou de volta, paguei a um arrombador amador o olho da cara, para abrir-me a gavetinha do meio emperrada e sem orelha a puxar pra fora e descobrir o que dentro; bem duas horas o pobre rico (graças ao pagamento pelo serviço caro) tentando abrir abriu e ainda lascou-me parte da gaveta esse amadorzão. Fosse menos burro, eu menos tonto, chamava um profissional da área e abria nuns dois segundos que um é bastante pouco: chamaria um ladrão de galinha em falta agora no mercado porque o país tem e muito dos grandes: e o ladrãozinho gastava dois segundos e me cobraria metade, um terço, do que me roubou o honesto amador. Isso não importa, a gente aprende apanhando. Arreganhada a do meio! tem? tem. Cadernos, apontamentos esparsos, folhas amarelecidas de antanho coisas mil, mil anotações, um tesouro. Devo começar minha pesquisa! devo, porém me esqueço sobre o quê... ah sim a data de minha morte. Só que tem um problema: não vi barata alguma, ovinho tem já velho gasto decerto as baratinhas morreram de fome, tadinhas, barata não existe. Agora cheiro, ai, dói o nariz, arde. Como mexer na papelama a encontrar uma possível data! E tem algo mais: vou confiar nela se ando desmemoriado e descrente não crendo, e exista, seja válida! Porque posso aleatoriamente ter posto um número. E achar mais outras datas e, aí, morrer de raiva ou dúvida. No final não sabendo em que dia começou minha velhice, que é morte viva. Fecho a terceira também. Somente para não pensar nisso. Fecharei sim a terceira mas não caio mais na armadilha: trarei um de galinha a fim de trancá-la barato.
Marília   dezembro  2002




36° Casamento Dentro dos Conformes
         
          Poderia parecer intromissão de bedelho indevido na seara alheia... Mas não era, era sim; para que rodeios? Verdade que o escriba nada tem com o caso, caso se lhe indague, pois vivemos sempre fugindo a testemunhos, todos já viram uma reportagem televisiva onde ninguém viu quem matou – quase sempre responde o vizinho assustado “não moro aqui” ou “escutei só os tiros”, ajudando somente a dizer ter ouvido seis outro diria nove, ficando o repórter na mesma situação anterior à matéria, acrescendo o profissional comentários também profissionais a encher o tempo e floreios mais. Mais não digo, sou apenas o escriba cumprindo meu dever, nada vi. Me contaram que o Zezinho se casou, o filho do Zé, Sr.José de Tal, mui bem classificado funcionário numa repartição pública da cidade. O Sr., Dr. pela Faculdade de Ciências Econômicas e assim conhecido no seu setor funcional, com chefia e demais atrapalhações que a burocracia determina, determinou que o casório se fizesse do Zezinho, na intimidade o filho é seu ‘Zezinho’ querido, com direito a alguns abusos permitidos aos primogênitos. Apenas que o pai desconhecia até onde iam tais abusos.
          Foi então que Dona Filomena, digna sua esposa (quer dizer, mulher do Doutor) numa conversa com vizinhas descobriu para depois contar ao marido José que a Joaninha da Dona Maria andava assim, ó, com a barriga! imagine como essa juventude não tem responsabilidade. E cuidado, disse a senhora. Vai ver que a mãe não deu orientação à filha, tão ocupada com os cabelereiros e as reuniões sociais e de caridade. Vai ver foi isso. Cresceu cresceu cresceu aquele ventre, dava até gosto de se ver. Quando dava pra se ver, notou Dona Maria e falou no leito conjugal também ao seu esposo que a Joaninha... Ah foi um deus nos acuda. Sobrando assim conversa de ‘homem para homem’. Dessa maneira que o Doutor José, completando a sapiência, soube pelo vizinho da quadra de cima que a sua filha de treze aninhos ia ganhar bebê, coisa de menina sem boneca para brincar. Riu educadamente pelo drama narrado por um vizinho aflito e pleno de vergonha. Ora, disse de amigo para amigo, o mundo não vai acabar por isso, ocorre nas melhores famílias. Quem será o pai! decerto o namorado, perguntou Doutor José. O vizinho confirmou ao pai do Zezinho que a filha depois de apertos e pressões lhe contou ser do namorado sim. Do Zezinho... Quase engoliu o cigarro o Doutor José, virou José num relâmpago e num relance alcançou todo o drama... dele mesmo! Dessa forma os dois patriarcas resolveram imediato o casamento, acabando assim este capítulo segundo ou terceiro.
          Terceiro ou quarto. Agora papai conta à Dona Filomena o resultado de sua conversa de homem para homem e o acordo a que chegaram, suficiente para calar todas as línguas viperinas; e quem sabe se não o suficiente também para iniciar o Zezinho na responsabilidade! Daí vem a quinta parte da estória:
          Papaizão vai conversar de homem para homem, porque embora com quatorze anos incompletos o filho um homem, pai de seu neto (até se entusiasmou com o primeiro netinho!) enfim conversa de papaizão e papaizinho. O papaizão procura o papai estreante para uma conversa informal, tão formal havia sido até aí. Zezinho recua em ‘despalavra’, quer mostrar ao pai a carteirinha escolar cheia de vermelhos e anotações desagradáveis, finalmente começa a entender do que se trata e trata de fugir para o quintal além da piscina... Papaizão se desloca atrás do papaizinho, este foge para cima, se enrosca rápido qual macaco se resguardando do predador, na direção vertical, está agora na forquilha mais inacessível da goiabeira! salvo afinal. O Doutor pede depois implora e após berra mesmo ao pai do seu neto enquanto o pai deste olha lá de cima desconfiado pelo abrandamento no patriarca José lá embaixão. Desce ainda meio desconfiado e finalmente selam um acordo. Sexto.
          Sexto: casamento contra todas as línguas com juiz padre e a lei como manda a lei. Último capítulo.
          Dona Filomena gosta de crianças, aprecia os primeiros netos, vindos de braços dados quando se esperava apenas um netinho indevido. Mas agora ela não aguenta mais, diz ao maridão descalçando as meias cansado e quase queimando o lençol branco novinho com a ponta do cigarro distraído e fedorento, que ela (e ele igualmente, enfatiza a senhora ao seu senhor) não mais tem sossego, acabou a intimidade a paz conquistada por dezenas de anos no matrimônio tradicional – agora chega (gritou inclusive, pondo mesmo ponto de exclamação) é preciso um basta nisso tudo; ela gosta, adora realmente os gêmeos e a garota que nasceu outro dia, esses jovens casais só pensam que a vida é fazer nenê e ver televisão? a bagunça aqui na mansão os choques entre mamãs etc. e tal. Assim o Doutor José resolveu pagar o aluguel de uma casa para o Zezinho e sua família, mesmo sendo só até à formatura dele, aquele maluco irresponsável, se é que realmente haverá formatura e emprego. Porque Papaizão e Mamãezona merecem respirar. Ah se merecem!
Marília   setembro  1997




37° O Sujeito do Raio X
         
          Toda vez que falamos num dado sujeito logo nos vem à cabeça um homem. Bem. Mal pensando um sujeito pode ser uma senhora respeitável e até bela ainda por cima. Mas não aqui. Aqui está um sujeito com toda a sua conformação masculina, se bem que neste caso é um caso a se pensar – ele não brigaria não bateria não se ofenderia em afirmação para se afirmar como homem, com agá maiúsculo e tudo o mais. Se fosse mulher ou que fosse homem e não se pensasse macho, contudo o sexo não lhe eliminaria seu defeito mais grave ou se quisermos sua virtude mais ostensiva. Defeito ou virtude têm traços de nascença sobre os quais não temos que reclamar ou nos envaidecer, nem ao menos podemos protestar: é aceitar e pronto. Era seu caso. Possuía uma visão extraordinária. Digamos, para início, que via mais longe que você, e quilômetros mais ainda que eu (desnecessário neste ponto dizer que sou cego, pois não acreditarei, porque com uma lente razoável vejo outros estando perto, quase razoavelmente). Ele mais. ‘Ene-vezes’ mais que nós. Poderíamos afirmar que via por todos os maiores enxergadores da paróquia e quiçá do reino! Categorizemos: parecença com raio X. Como o raio já fora descoberto pelos alemães então podemos falar nesses termos: tinha visão de raio X. De vez em quando a gente o pegava sorrindo...
          Os maldosos logo completariam maliciosamente enquanto os ingênuos e os bondosos de todos os matizes afirmariam ser o sorriso o riso de constatação, de aceitação, ou coisa que o valha. Conheci uma jovem lenta sorrindo a tudo; depois me disse que via nos outros as coisas gozadas que praticavam. Ele não, nunca falou assim, apenas sorria. Todos os dias de nossa convivência. Anos sorrindo. Também mostrava-se triste e mesmo indignado por vezes. O comum do ser foi entretanto o sorrir.
          Até que uma vez, mostrando uma faceta que eu ainda desconhecia embora observasse o rapaz anos a fio, obtive a terrível revelação, sobre a qual me reservo o direito a me calar, cedo somente ao lápis a confissão e o que me narrou o camarada, aqui estando eu resguardado pelo inédito pelo segredo e até pela incapacidade de outrem averiguar; o indivíduo faleceu ano passado. Vamos apenas chamá-lo neste escrito João.
          João José Antônio Sebastião Benedito são cobertas que abrigam qualquer pessoa e todas as idades; as feiuras as belezuras; as atitudes; os crimes; e a vergonha. Ninguém pode se chamar João absoluto e único, embora qualquer João possa se chamar Ninguém. Por isso vou indicá-lo somente como João. Além do mais será bem difícil encontrá-lo no poço público depois dos sete anos regulamentares da decomposição no cemitério municipal, permitindo-me dizer coisas sobre o sujeito sem as corriqueiras comprovações e os processos...
          Prometo não contar muito sobre o ‘causo’ a fim de não chatear. Só o suficiente a caracterizá-lo, alguns exemplos mais comprobativos os quais não ofendam veleidades dos leitores. Ora, não poderia, quisesse, narrar tudo, poderíamos ficar no meio termo do muito dele com o pouco do escrevinhador, o que é bastante.
          Um dia, tendo viajado para nossa cidade (forma de expressão, não passa de aldeia) tomei João pelo braço para vermos um desfile de modas. Aliás fui infeliz a escolher um tal evento, porque desconheço o assunto e não poderia descrever um milésimo de roupa e enfeite. Meu objetivo era mostrar ao amigo (eu usava indiscriminamente esta palavra, abusava dela; quem sabe devesse chamá-lo “conhecido”; a quem poderemos de fato designar amigo?!) era enfim objetivo mostrar-lhe as jovens que iriam se apresentar em público, o que sempre é um acontecimento de enorme importância. Ele também da província, de outra província, saberia decerto avaliar meu gosto provinciano. Em suma nós gostamos de levar as visitas ver a cachoeira a praça a igreja essas coisas; e é claro os bailes e demais ajuntamentos sociais; visita costuma apreciar divertimentos e nós moradores também. Assim o desfile achei de grande interesse a ele. Entramos no salão do Tênis Clube.
          Percebi um João risonho logo de início. Julguei fosse contentamento. Mais tarde interpretaria noutras situações semelhantes um sorriso-pesquisa, ou sorriso-descoberta. Todavia pensei que fosse pela beleza de nossas damas e me estufei por orgulho e vaidade. No entanto ele não andava vendo as flores femininas. Naquela passarela, após cada instante do evento, me passaria o que estava percebendo e por que sorrindo, pois sorria tanto... Fomos nos deslocando no meio do pessoal.
          “Aquela louraça...” Marilu, informei apressado eu, “aquela Marilu tem o osso ilíaco torto.” Arregalei os olhos, imaginara fosse comentar os seios da moça seu porte, quem sabe a vestimenta; não osso ilíaco, o qual minha cansada ignorância não sabia o que fosse; ainda não sabe, deveria ter ido ao Aurélio. Não tem importância agora. “A moreninha da esquerda...” a Janice, acho que é Janice, é ao menos que eu saiba prima daquela encostada no pilar com o namorado e ... “Não importa se é Janice ou Joana, ela tem uma costela trincada, a terceira da esquerda de baixo pra cima, está vendo?” Não estava vendo coisa alguma, aliás não via também as vestes dela, homem olha a mulher que está dentro do vestido, embora possa ser belo e bem talhado e um chamarisco para outras mulheres; admito seja, e que diabo, o sujeito andava observando a costela! Imaginei estar brincando comigo. Vimos a marcha das debutantes (suponho seja debutante visto não conhecer os termos técnicos da moda) o desfile propriamente, enfim foi desinteressante pra mim embora supusesse interessante ao meu convidado; por isso indaguei baixinho sobre o assunto a ele. Ele respondeu-me que o achava apenas curioso; para ele a reunião social em questão era mesmo até rica porque encontrara muitos desvios nunca vistos por ele e isso atraía... Pedi esclarecimento. Falávamos então à boca pequena, não ficava bem dar vexame. É que, disse João, aquelas beldades pareciam desmunhecando, chocalhando a ossada, pareciam desengonçadas... Admirei-me profundamente, não via nada, daí encarei-o abismado. Então me esclareceu: “veja essas magricelas se deslocando num joguete balançando as suas cadeiras ...” Olhei e não vi. “Agora a magrela de lá torceu a bacia pra cá e levantou a tíbia dez centímetros pra cima, acha isso lindo, Chico!?” Fiquei azucrinado bestificado arranhado arreganhado, pô, nem sabia chamar-me Francisco... acho que ainda não sei todos sabem que não sou (aí me veio à cabeça: seria Assis ou Xavier?) isso é um senão; indignado me esqueci até o nhec-nhec desengonçado que o sujeito via que eu não percebia. Engoli seco, ele sequer notou minha palidez (ou terei ficado vermelho?) nem meu constrangimento. Imediato iniciou o contar como estava vendo outro grupo de jovens que havia passado em nossa frente. “Veja – disse João – o buraco do olho direito na caveira da menina baixa...”  (ui!!! pensei) “ ... a baixinha... então, é menor que a loca direita e mais profunda também... não concorda!” Com o que, se não via coisa alguma; nisso remexi-me esfreguei minha cegueira virei-me, perturbado, com vergonha da vergonha possível dos outros assistentes, entristecido mesmo com meu convidado. Ele não percebeu minha atrapalhação.
          Com muita diplomacia empurrei João do Raio X ao bar (será cantina ou lanchonete que eles chamam? não importa, queria esconder as ofensas do camarada, eu andava envergonhado no lugar dele, sei lá). No bar nos encostamos ao balcão, aí esbarrando com a alegria dos outros, éramos estrangeiros; eu era da terra entretanto os tímidos são expatriados na sua própria cidade – em resumo estávamos longe da bagunça ou da espontaneidade dos sócios do clube e me alegrei: João não teria oportunidade fazer comentários em voz alta, pois um grosseiro e podia comprometer-me com o que falasse a propósito dos esqueletos bamboleantes das garotas. Porém ele não mostrava aflição o quanto eu me desesperando na festa. Bebemos nosso álcool num silêncio relativo, eu já bastante aliviado. No entanto não durou esse estado. “Sabe Chico (outra vez Chico, pensei com raiva) sabe o que estou vendo aí nesse montão de ossos vestido de barman?”  Não tive coragem de intercalar meu formal ‘não sei’; assim o sujeito completou: “ele tem duas vértebras trincadas também, o tornozelo esquerdo é mais grosso, parecendo haver quebrado e posteriormente mal soldado e pior...” Tapei-lhe a boca enquanto o moço do bar se aproximou do seu lado no balcão de boca aberta e expressão indignada, eu temendo e prevendo trocas de sopapos e gritos mais – tentei disfarçar pagando a conta enquanto puxava o João na direitura da entrada, para nós saída... não deu. Deu uma gargalhada e mostrou com o indicador um pobre funcionário então conosco cara a cara: “Esse aí tem uma coisa engraçadíssima – o homem não possui sequer um dente, a dentadura postiça está folgada e ele a lambe no vão com a língua!” Era desesperante para minha doentia ‘medorreia’, não sabendo o que fazer, se apanhar junto com meu amigo se puxá-lo ao lado de fora. Aí chegou um segurança deste tamanho e assim ficou fácil empurrar meu convidado, naquela hora mais desconvidado que outra coisa. Saímos.
          Não eram ainda vinte e duas horas; não participaríamos da outra metade da festa de modas. Optamos pela praça pela igreja, a cachoeira não por ser longe e noite. Ele sugeriu as meninas da vida. Enfim lá é lugar próprio da bagunça e não muito longe do hotel do nosso homem; por isso aceitei.
          Aí... bem, não desejo ofender os bons costumes; não contarei todas asneiras que ele disse; uma loucura. Eu também andava muito bêbado, talvez mais que o amigo. Sei que o João do Raio X analisou as profundezas das meretrizes, gritou e ofendeu – aos bebuns tudo se perdoa. Nem tudo. Acabamos no xilindró. Ele economizou aquele dia sua diária no Hotel da Estação. Noutro sumiu. Eu igualmente sumi, mudei-me, envergonhado, para a capital. Ora para que relembrar essas coisas, se fiquei sabendo mais tarde que o João fora logo depois aplicar raio X no cemitério! Cruz-credo.
Marília   agosto  2001




38° Diálogo em Silêncio
         
          -- Ai que vento frio...
          A água está quente. Não, o tempo está tão frio; tanto que o líquido nos parece quente. Dá na mesma, tudo é impressão e só vale para quem estiver sentindo. A roupa, essa não sente, que lhe importa? Ainda tem o almoço a fazer, quando ainda arrotamos o café da manhã. A casa para limpar. As compras. Os meninos estão dormindo. Silêncio! A quem? como sou tolo, ninguém se importará com meus afazeres, talvez com o frio que nos atinge a todos humanos. E certamente aos animais tidos irracionais. Estou só nesta vila, todos dormem seu merecido domingo, no que fazem bem. Nós velhos não podemos nos dar a tal luxo, os anos nos acordam, o tempo nos provoca aquele mal-estar: pronto, estamos fora da cama. Os outros dormem. Nem tão só, o Lulu se levantou do seu abrigo improvisado e vem para cá, rindo pra mim com a cauda.
          -- Ai que vento frio... Bom-dia. Que frio...
          Estou lavando a roupa dos meninos. As minhas também. Loguinho a vassoura. O arroz e a carne, a de preço nas nuvens. Antes mesmo as compras. Igualmente muito cansaço pelo serviço, a semana foi dose. Que você acha?
          -- Faz frio, está esquentando...
          É. Pra mim já esquentou, estou esfregando a roupa, criança suja muito hein!
          -- Prefiro a vida de cachorro, embora possa lhe parecer vida de cachorro...
          Hummm.
          --Vou me espreguiçar, descansar um pouquinho, cuidado para não espirrar essa água gelada aí do tanque...
          Não está tão fria. Eu imaginava fosse uma impressão mesmo: o tempo anda frio, mais que a torneira. Logo, a água estará quente.
          -- Bobagem de gente. Prefiro deitar-me, e se não me fizer barulho nem me oferecer pisão, um bom sono. E também sonho.
          Com o que sonham os cães?
          -- Ora, que ignorância! Com ossos, com fêmeas cheirosas, com o vendedor de gás “olhe o gás!” cada tipo burro hein? com o sorveteiro, vou ladrar para ele, ele já se acostumou, latirei assim mesmo porque me acostumei igualmente. Puxa, ninguém com medo de mim...
         Claro, você é um polenta, parece cachorro de pelúcia para garoto brincar. Não lhe tiraram outro dia a coleira? Vá pra lá seu ‘guardião’ de meia tigela.
         -- Pô, não se tem sossego! Vocês são assim, põem minhocas na cabeça, prestações aluguéis briguinhas fúteis com a mulher e com os vizinhos – nós somos quem paga? e nem dão comida direito, ou nos ofertam apenas restos: a situação de meu colega da frente, viu? é pele e ossos. Assim que devemos ser tratados?
         Pera lá, oh mequetrefe de vira-latas elevado a Lulu, não lhe dou mingau de fubá com carne todos os dias?
         -- Não falo de mim. Estou num paraíso. Sem exageros, é claro. A boia de ontem, Deus me livre! ora, pensa que sou cachorro!
         O quê?
         -- Sim, sou. Porém não deve exagerar. Ademais tem o frio que passei hoje, esta noitinha...
         Não lhe pus jornal por cima do tapete!
         -- Não se exalte por pouco. Pôs. O vento levou o papel embora. Quanto ao tapete, é pano frio pra burro. Se eu fosse um gato estava quentinho dentro de casa; é ou não é?
        Quer andar... cachorro burro, quer andar pelos telhados comer ratos virar esticado um tambor?
        --- E você quer virar cão? Mas pensando bem...  bem  que  não é mal ser mau guardião desta tapera com arremedos de mansão. Descanso, comidinha (de vez em quando azeda...) carinho dos garotos e da vizinhança; o diabo é que gentinha cresce vira gente grande. Melhor entretanto que ficar lavando essas coisas bobas, veja suas mãos enrugadas com tanta umidade. E a luta diária. Todos os dias se vai esbaforido correndo para o ônibus. Para mim o ‘incômodo’ é mais cômodo: vejo o coletivo, volto para casa a descansar; depois de urinar por aí e bater um papinho ou correr de um amigo enfezado. De noite, olha ele aí de novo! Fazer comida para sua ninhada para o outro dia, lavar o que sobrou do dia anterior. Além de nos trazer maus bofes pelos maus negócios ou pelos negócios mal entendidos, sei lá. Prefiro ser um guardião: dormir ladrar fazer festa.
         Para que mija você em todos os lugares, postes por exemplo?
         -- Nem me ouviu o sujeito, parou na urina; já fala mesmo sozinho ‘minhocando’ seus problemas; sequer ouve a gente... gente, bolas, isso é expressão de gente. Parece sonhar. Ou antes, deve é estar num constante pesadelo.
         Para que mija por todos os lugares, sabendo todo o caminho de voltar?
         -- Está bem, urino por costume. Porque fica bem aos outros cães urinar marcando o lugar por onde se passou. Para ficar bem com meus pares, ora.
         Por que razão fazer as coisas tão somente a dar satisfações à cachorrada, à plebe vira-lata!
        -- Ai que horror, tenho que dar explicação de tudo que faço, urinar por exemplo. Quanta limitação humana! Faço as coisas para me sentir eu mesmo. A responder uma indagação safada que trago dentro de mim, de antes de me chamar Lulu. Preciso ter trabalho a procurar explicação para todos meus atos? Não vê que dá trabalho. E à toa. Não é à toa que vocês são filósofos ou poetas ou loucos, o que dá no mesmo. Prefiro realmente outra coisa: coçar carrapatos, arrancar carrapichos; melhor mesmo rolar e sujar-me.
        Xô, nojento!
       -- Ué, virei galinha? que nada, dá uma coceirinha gostosa. Não, carrapicho irrita.
       Por que você vive rolando por aí nessa terra vermelha, seu bestalhão.
       -- Sabia que iria apelar, afinal de contas daí somente sai mesmo besteira. Gente não tem o que falar, fala besteira.
        Olha aqui, seu derrubador de lixos...
        --Não  precisa  nem acabar de falar. Já me falou muito hoje, esquentou seu frio com a língua. Não queria acordar as crianças. Queria? E agora: a roupa... e tem o almoço (meu almoço também, não se esqueça) e tem arroz e a carne, arrumar a casa; não falte às compras. Amanhã, tem amanhã que é uma segunda-feira de preguiça, bom pra descansar. Dá licença, vou me espreguiçar, aguardar a refeição.
Ribeirão Preto   agosto  1987




39° O Filme Trágico

          Acho que o sujeito era doido. Talvez não chegasse a tanto, mas ainda tenho lá minhas dúvidas. Éramos seis ouvintes, ou menos, pois nunca temos certeza alguém estar nos ouvindo autenticamente quando falamos. O Chico, por exemplo, parecia desligado, o Zé concentrado ensimesmado, o Antônio andava longe; e daí por diante. Fiquei com pena. Prestei atenção o quanto pude, entretanto não pude demais. O sujeito tagarelava brotava vomitava seu sonho. Quem sabe fosse apenas sonho ou coisa assim.
          --A jovem, madura aí com uns trinta, balzaquiana, entrou no banheiro, fazer coisas que não nos diz respeito, visto nunca sabermos ao certo o que as mulheres fazem e tanto fazem lá... No banheiro – falou o sujeito ‘magrote’.
          --Você viu isso? – perguntei me candidatando a ser ouvinte dele.
          --Não, cara... – retornou o moço – é um filme. Encostou a porta, sumiu naquela escuridão. Imediato, focaliza-se o bandido: senhor quarentão, uns vincos no rosto, testa prolongada, lábios grossos, encapotado, botõezões, mão no bolso direito, donde se deduz ser destro. Já sei que você vai dizer que não existe a forma ‘botõezões’; existe sim, acabei de inventar, ainda com mais de um til no vocábulo. Pois é; retira uma chave yale; trancafia o femeão...
          --Mulher dele? – eu quis saber.
          --Ora, não seja apressado, lamentou o magro. Retoma o fio – atirou pela fresta da porta, por baixo, uma cápsula, a qual deitou fumaça venenosa, supõe-se. Ela percebe; porém nada se ouve; só a tentativa de abrir a porta, um desespero... e a moça caindo caindo caindo, não se sabe se definitivo, depois inerte!
          Então... – não me deixou completar; completa o amigo contador:
          --O fulano? fugiu no melhor dos estilos, como cabe aos patifes. Mãos nos bolsos, surrupiando-se no corredor à meia luz. A jovem, bonitona por sinal... eu escolheria como atriz a... não, deixemos isso agora; ela pereceu, no começo da fita; nada de romantismos, meu amigo, de salvá-la casando o mulheraço com um lindão; mesmo porque eu ponho agora a ideia: que é ser justo? e bonito? Deixa pra lá. Pereceu, e a prova está a se mostrar curiosos, latinamente curiosos, por toda parte, a olharem pelos vitrôs, a comporem nos grupos estórias em torno da vítima; um que outro choro ou lamentação – bem entendido, somente os sinais disso, já que o filme só tem sons no segundo plano; os personagens principais não dizem nada! Concluindo o drama com a cena da saída de um policial civil, abanando negativamente a cabeça, médicos legistas e auxiliares entrando e saindo apressados do santo mictório. Daí...
          --Tem fogo, Bolacha? Não tinha, nem cigarros, que é a segunda fase para quem tem o vício e se esquece do objeto do tal vício em casa, quem sabe se não de propósito? Assim o Antônio entrou no filme. O narrador, nervoso, tentando se livrar da enxerida criatura nos misteres da sétima arte, deu-lhe fósforos e cigarros; e respondeu o “não tem de quê” tendo, percebi na sua fisionomia. Apesar disso retomou a sua longa conversa:
          --Faz-se neste ponto um corte, vendo-se um auto fugindo na disparada, paisagem com animais, o gado – vaca é mesmo um bicho burro e indiferente, não se importa com dramas humanos – berros aqui e ali, árvores, um resto que sobrou ao desmatamento. O carro some após uma poeira tosca. A plateia não saberá bem o porquê, no entanto que tenha paciência, para sabê-lo depois. Então vêm lá cenas terríveis: a prisão de um ‘zebedeu’ qualquer, mestiço sem eira nem beira, a polícia mostrando-lhe a chave do banheiro do lindo cadáver e tudo o mais; pancadas, interrogatório (o interrogatório é sempre posterior nestes casos, para com os fracos...) depois o júri, o juiz, os guardas e os advogados; tudo à distância, sem voz, em não ser os sons do bater na mesa, o tec-tec na máquina de escrever, sinetas, a voz abafada dum público com muita expectativa; culminando no... (o Chico não o deixou culminar).
          --Bolacha, ói lá a boa que lhe falei, a Glorinha... comeria um vagão de merda por ela...
          Olhei. Quem tem olhos não é para ver? O sujeito magrinho também olhou, desconcertado. Puxou-me gulosamente pelo braço e então despejou:
          --Saiba, o júri impaciente o público impaciente o réu impaciente. Culmina com outro aspecto trágico, a cena termina com o mulato chorando (ouve-se ao longe, fraco, soluços) as mãos na cabeça, no gesto do consumatum est. É trágico, não acha isso trágico?
          --É – concordei inteligentemente.
          --Trágico! Depois um meganha fechando as portas da cela ao colored descabelado. Não, descabelado em carapinha não fica bem. Pô-lo com trajes no desalinho, pronto. Um meneio negando a situação. Corte aqui. Ah! ocorreu-me agora uma linda ideia: o título poderia ser “A Chave”, visto volta e meia alguém estar fechando algo, como o mictório, o carro sumindo na porteira tosca de fazenda, o juiz encerrando a sessão, o carcereiro trancando bem a cela. Ou melhor seria “A Porta”?
          --Hum? – indaguei ‘desperguntando’, a prestar atenção mais num ônibus explodindo com tanta menina bonita a sair da aula...
          --Concordo, Bolacha, você é um gênio: “A Porta”, obrigado pelo título do filme.
          --Ah... – assenti. Dispunha a deixar o grupo, a indagar o que o João andava lendo, quando o sujeito magricela me segurou pela traseira de meu surrado paletó. Aí completou a ofensa.
          --Não lhe contei o melhor do filme.
          (Parei, liguei nele o dial do cérebro, limpei com o limpador de para-brisas os ouvidos, derrotado. Ele então retoma, impassível:)
          --Daí, oh Bolacha, o meu vilão ressurge, dignificado, limpo, lindo, ativo. O público acompanhará as cenas em demonstração dessa atividade – sem som na primeira pessoa; e o dito vilão endeusado, passando ordens, faixas com dizeres ‘vote em fulano’, impondo veredictos nas assembleias políticas e empresariais; e ao lado, suas aventuras amorosas, suas vitórias no sexo; com uma que outra cena de violência. Vocês (imaginou que os outros ali na roda estivessem ouvindo por verem) vocês sabem que o povo ama violência adora violência; filme sem esse condimento não tem bilheteria. Os safados no planeta sabem igualmente dessa verdade, o ‘pão e circo’ dos romano, não é mesmo?
          Era, respondi; já estávamos nuns quatro e os outros nem responderam. O rapaz não se deu por vencido, por isso grudou-me:
          --Onde paramos? creio que na trajetória de maré favorável ao vilão, não é assim? Remorsos? vemo-lo olhando fortuitamente um túmulo, com sobrenome seu. Nada mais. Outra esposa, mais rica, e muitas amantes lindas. Metido em cassinos, em tóxicos – tudo percebido levemente pela plateia; note bem: tudo na forma indireta; daí os sons abafados e distantes. Nesse ponto...
          Foi novamente interrompido pelo Chico. Pedia a tradução de algo para o inglês, começando a nos falar assim: “não interrompendo a conversa” e interrompeu. Queria algo inglês, satisfiz-lhe: não sabia eu de algo e muito menos em inglês, língua que detesto. Servia o francês? Não servia. Daí lamentei, imitando no jeito a pronúncia do Manoel Português; quando ia lamentar mais, o falante sujeito magriça não me permitiu:
          --Escuta cá – retomou, gozando meu lusismo atrapalhado – escuta cá, seu gajo desatencioso, as cenas que seguem, as quais são a coroação da grande montagem que planejo...
          Foi então que explodi de vez:
          --Que planeja! – falei – não está narrando filme assistido? vai ainda montar isso? com que dinheiro? nesta terra? para qual público? quem entenderia? visa lucros? que doido se porá no trabalho da fita? já pensou na distribuição de filmes nacionais... na propaganda, em... – não pude completar o que dizia; o rapaz deu-me por resposta:
          --XYZ,  734.
          Suponho estivesse maluco. Não, ele. Ia confirmar, porém o magricela já virava a esquina do corredor, tomava o pátio, sumia na vida.
São Paulo   junho  1978




40° Voz do Silêncio 

          Quem cala, consente. Opinião aceita, filosofia popular. Nunca a frase foi tão adequada, como ao desafortunado João Xinfrim. Talvez.
          Acabou no hospital sem haver pedido. Ora, isso não se pede mesmo. Acordou embaralhado, ouvindo mais zumbidos que sons humanos; cheiro de éter, instrumentos cirúrgicos. Positivamente, ocorrera consigo um acidente. Não se lembrava onde e quando, até quanto. Irremediável, porém, que a vítima fosse ele próprio; não restava dúvida: as coisas iam aclareando e uma dorzinha chata, não sabia onde, aumentava e se localizando quem sabe nos braços ou noutras partes. Sim, era ele, custava crer, mas era ele.
          Na medida em que o tempo passava, as visitas – como visita é enxerida! – elas contavam entre si os problemas do desastre, deixavam transparecer veladamente as proporções do problema, os pormenores do trânsito, papéis burocráticos, opinião do médico, possibilidades da vítima – ele enfaixado ali e imobilizado – as possibilidades dela ser salva, algumas lágrimas dos mais íntimos...
          Tudo isso sendo um drama. Porém importava saber que acontecera com ele mesmo, pois sempre tentara sentir o sofrimento alheio, a atenção lhe fugia, engolida pelas emoções do dia a dia. Agora o caso era outro. Ele o outro; o caso estava bem mais próximo de si.
          Tudo isso já um drama a pensar.
          Entretanto nada podia comparar-se à tortura de não falar. Não poder falar! Logo ele que papagaiava o existente e o inexistente... Apelidado João Tagarela. Não se importava com o apelido; importar-se com a opinião dos amigos, que na pior das hipóteses são um público paciente? nunca. Que falassem (a bem da verdade, exagerados com algum fundamento; visto ele matracar bem). Que falassem. Falar não dói, não é? Doía muito a ferida, estaria quebrado? Como fora o acidente? Ia perguntar, estavam todos ali, quase todos – o malandro do Pedro não viera; quando sarasse cobraria a ausência. Era só perguntar. Havia um porém, porém doído: não podia falar! Nada se comparando à tortura de não falar, nada. Decerto uma pancada qualquer, não se lembrava, teria atingido o cérebro na região ligada ao aparelho fonador; quem sabe se não houvessem rompido as cordas vocais! O pescoço doía que era uma miséria; devia ser no pescoço a localização das cordas. E se perdesse a voz para todo o sempre! Ameaçou um berro contra o presságio horrível, não pôde. Sentiu como se lhe tivessem tapado a boca, faltou-lhe respiração, a Carmen veio com um algodão molhado umedecer seus lábios, ele próprio umedeceu os olhos. De jeito nenhum tinham fechado sua boca de tagarelar, sentia bem os lábios coçados pelo bigode, o de recolher resíduos no prato de leite com farinha, um “coador de mosquitos” ah o Pedro tinha cada uma... Sentiu dores: voltou para o trapo em que virara sua carcaça.
          O Antônio. Entrou no quarto, pisando de leve, o Antônio da Neca, bom sujeito; olhou para o amigo num rabo de olhos; o indivíduo recebeu cochicho das outras visitas. Parece que estava malzinho. Quis falar de novo, perguntar todos os porquês do mundo, não pôde, se lembrou não poder. Daí lhe ocorreu ideia brilhante: escreveria num papel qualquer tudo o que quisesse, pediria que lhe contassem como é que ele, tão falante e saudável, virara número na estatística hospitalar. Inclusive ameaçou fazê-lo. Recebeu por resposta imediata uma dor aguda mal localizada. O braço direito andava totalmente incontrolável. Teria perdido o braço? Aí já seria demais. Ia normalmente à igreja, tomava lá umas cervejinhas com o pároco Don Francisco, ajudava os pobres; nunca Deus iria lhe tomar a língua e os dedos ao mesmo tempo. Não precisava se apavorar, disse à barriga (provavelmente não tinha botões, enfaixado qual múmia egípcia). Tudo se arranjando. Era emérito otimista, se bem que houvesse tropeçado nas pedras da vida várias vezes e rolado no precipício da vergonha. Continuava, contudo, otimista inveterado. Não poderia perder dois trunfos básicos. Além do mais era gente, e que ninguém ouvisse – ninguém poderia mesmo ouvir sua consciência – ele se considerava o João mais inteligente do planeta. Deveria ter outra forma de comunicação pra dizer o que sentia aos curiosos e íntimos que chegavam ao leito, olhavam atarantados e balançavam a cabeça em desânimo. Como o homem é um ser curioso! Morreriam bilhões, 90% da população mundial, se acabassem com a instituição da curiosidade. Ele também curioso; com muito mais razão que as visitas, porque a matéria-prima daquela reunião convocada às pressas. Deveria ter outra forma para se comunicar.
          Havia mais um problemazinho: a bexiga estava cheia, dando pra notar. Atemorizou-se. O capeta soprou-lhe que... Ih, isso já era demais. Nessa hora recolheu-se no João Otimista. Agarrou-se, medroso, à necessidade da comunicação.
          Foi quando o Zé encostou-se ao pé da cama, quase sentado aos seus calcanhares. Palhaço! Pensou espetá-lo com o dedão afiado, bem no bumbum lá dele. Seria fenomenal. Fenomenal maneira de comunicação! todavia não deu. Apenas sentiu uma dor horrível e lancinante naquilo que deveria ser o pé esquerdo. Quando melhorasse, aí sim, daria pontapés em todos os palhaços, ah se daria. Pensou virar-se, as costas ardiam e se aqueciam formidavelmente. Não deu. Tinha de aguentar. Olhou os amigos que se iam. A bexiga veio com más lembranças outra vez, expulsou a bexiga... então agarrou-se ao último amigo a deixar aquele inferno.
          Agora ali só a esposa, dona Cota gordona assim, a olhar chorosa para ele. As crianças... deduzia que hospital não é lugar para elas. Gostaria vê-las! Será que sabiam? perguntou à mulher, com os olhos; ela analfabeta em olhares. Que fazer? Então sentou-se a cara-metade; cansada da vigília? teve pena da pena que a senhora tinha dele. Podia vê-la parcialmente, ele imóvel como um pau. Recebeu na quietude – seria noite? – visitas desagradáveis no pensamento. Não a dor, ele a dor, prolongamento da dor, amigo da tortura física. Lembrou-se a companheira um tanto esquecida. Teria pago o imposto de renda? o aluguel? haveria comunicado seu Juvêncio o patrão? ranzinza sim o chefe, porém deveria compreender, não iria mandá-lo embora por uma quebradurinha de nada... Será que era grave!? Começou a ter mais dores, por todos os lados, um inferno de dores; todas. Quis gritar. Não deu. Doeu mais. E se dona Cota houvesse esquecido de guardar suas besteiras? escrevia suas bobices, parecia até doença, não podia se livrar de escrever – e escondia as bobagens; e se os meninos inventassem de fazer aviõezinhos com seus contos! No instante se martirizou gostosamente. E se algum curioso tivesse chegado às suas besteiras e depois andasse falando por aí! bem, se morresse não importava nada nem o ridículo; ele seria um defunto comportadinho, os vivos que se afomentem... (disse para si mesmo paracadáver no lugar dum nome feio, herança do tempo de moleque) Fugiu gulosamente à infância, quebrou, requebrou a todas as vidraças, xingou dona Filomena de novo, roubou e escondeu cachos de bananas; daí fugiu das dores no velho imprestável feito múmia gastando a fortuna da família ao bem do hospital do Dr.Olímpio. No entanto as dores agarraram-no, depuseram o João no leito cheirando a remédio e desinfetante. Daí a mulherona levantou-se.
          De repente, sem explicação aceitável, depositou as gorduras por cima do coitado. Doeu tudo mais. Ia gritar que estava machucando. Lembrou-se não poder; sentiu-se cana em moenda... A dor cresceu além do suportável. Por essa razão deu aquele berro apavorante. Acordou.
São Paulo   dezembro  1978


41° Violência das Menos Violentas
         
          O camarada era normal; os adversários, sobretudo os adversários teimosos, não concordando a dizê-lo comum. Não obstante preparava-se para a vida, se educando e observando gente ao redor, a melhor estar preparado. Diante do exposto entrou em mil escolas de artes marciais, antes fazia aqueles exercícios físicos sem ordem contra a barriga e a moleza. Mas não era suficiente – a vida é uma barra pesada, dizia. Por isso optar pelas escolas de educação física, aprimoramento muscular e ginástica controlada. Experimentou boxe jiu-jítsu ‘takaendô’ essas coisas; experimentou karaokê... não, karaokê não é luta marcial; sim, também violência que é o pão nosso dos nossos dias: é violência de língua, mormente o sujeito sendo desafinado, era bem o caso do sujeito. Contudo ninguém vence de língua inimigos, ainda mais os inimigos fortalhões, ele fracalhãozinho, desse tipo que faz tudo que mamãe mandar sendo ela supermãe. Ah, uma nota de rodapé aqui entremeio, ou a gente esquece: antes de entrar na escola de artes marciais especializada no karaokê, fez o indivíduo um estagiozinho com as lavadeiras – daí se postou na margem dum rio ainda pouco poluído a observar e aprender enfim com as mulheres. Bem, aprendeu sim a conversar com as mestras e precisou apartar algumas delas por briga e desentendimento enquanto falavam sem parar, estando as mesmas a orientar o educando. Nada obstante trocou o falatório das lavadeiras pelo karaokê dito, mui mais moderno e quase tão inoperante quanto a yoga, esta por sem palavra não daria nenhum resultado a prepará-lo à vida; quer dizer: enfrentar no ringue do viver todos os sólidos inimigos.
          Preparado, foi de encontro aos problemas (leia-se: procurou enfim o inimigo).
          Entrou no supermercado ou shopping center ou coisa que o valha, onde existem à escolha inimigos – ele, fortalhãozinho da mamãe, escolheria é lógico o mais forte dentre inimigos, a fim de engrandecer e melhor caracterizar, valorizando mais sua vitória. Logo a avistou...
          Pera lá, não seria a concordância ‘o’ referindo-se no caso ao grande inimigo!
          Não. Esse errado tá certo. Certa mulher.. um femeão, daqueles que obrigam a fechar o comércio à passagem; que matam os machos sem espécie de qualquer espécie só no passarem na rua; enfim uma de beleza fenomenal! Essa.
          Os adversários se pressentiram, se olharam, se mediram, apalparam suas armas... De um lado um homem com ‘o’ maiúsculo no dizer de mamãe; doutro o adversário, ou seja a mulher mais bonita do planeta. Tremeram... quer dizer, ele se gelou e após retesou musculaturas; ela? ela mais interessada na gôndola de cosméticos ou na de chocolates, pra ver se havia algum diet ou um que não tivesse ainda experimentado, que fosse chocolate cheiinho de açúcares e gorduras e favoráveis aos colesteróis. Em suma ela fez de conta não ter visto o adversário, aquele versado nas artes marciais com cursos e PhD ‘maismente’ de karaokê (lembrando aqui mais uma vez a terrível arma da língua).
          O juiz – talvez sócio do supermercado ou tão só versado nos conhecimentos marciais e com ampla ficha no boxe – o juiz fez soar o gongo; apresentou a seguir os contendores. Dum lado a montanha de músculos, homem comum tido por normal entre os amigos. Doutro Afrodite sem tirar nem pôr.
          Deu a ordem de início à luta.
          Experimentaram-se os contendores, ficaram se observando, ela parada imperante, ele a andar por volta dela com pulinhos nada machos a examinar-lhe quem sabe os pontos fracos. De repente...
          De repente a mulherona aplicou-lhe um belisco, aquelas unhas esmaltadas. Saltou de lado seu adversário. Porém se descuidou um pouco: lascou no homem uma ‘seiada’ de mão cheia; cambaleou, ele cambaleou. Ia indo a contendora mais além quando...
          O juiz interveio – não admito golpes baixos!
          Retomaram. Mostrou as pernas subiu às coxas. Ele babou. Ela puxou mais pra cima a saia... o adversário ‘karaokento’ e com PhD já estava a pedir clemência, enquanto o povo apupava.
          O povo, uma criancinha a chorar, as outras mulheres discutiam preços comparavam folhetos de propaganda e os esposos consultavam a carteira o cartão de crédito; os carrinhos se enchiam a fazer crescer as contas e as balofices.
          O juiz determinou a continuação da pugna.
          Ele, o do karaokê, quis dirigir graçolas; ela deu tremenda ‘faceada’ nele, mostrou um palminho lindo lindo, com olhos verdes batom do colorido visto na tevê e uma boquinha enorme na espessura da graça. O adversário rolou, ia cair, beijar o chão, grudou-se nas cordas do ringue.
          Ela sorriu ele chorou o juiz interferiu. Fez sinal de continuidade, tinha pressa, mandou até desligar o gongo para ser apenas luta de um assalto e acabar logo com o sofrimento do perdedor.
          A fêmea sem espécie mostrou os pés miúdos, piscou num conluio desonesto e então o bruto...
          O bruto escarrapachou-se na lona!
          Sua senhoria tendeu a contar até 10, começando pelo último número, a pressa relembrada, ia levantar o braço da vencedora, o sujeito comum cujos amigos o tinham por normal puxou a barra das calças do árbitro e assoprou: num tem um jeitinho brasileiro para dar empate!? A autoridade olhou o fulano a sangrar no solo, vistas roxas empapuçadas, e olhou igualmente para o adversário (a bem da concordância pra concordar, a vencedora). Nisso o (a) adversário (a) berrou:
          Aqui não tem homem pra mim!
          Tomou um espelhinho com borda redondinha na bolsinha tirada duma bolsona, relampejou aquela joia e concluiu lá dentro dela mesma ter muitíssima razão.
Marília   março  2007




42° O Fim, um nunca-terminar

          É preciso convir não fosse o vizinho desprovido de razão, aqui se considerando o absoluto nas coisas. A dúvida em vista ser tão categórico e pichar de burrice quase todos – a si, tirando a si mesmo da afirmação – todos ou seja o restante bilhões no planeta: pessoas burras. Assim Lunático da Silva nos considerava, humanos, uma corja de pouca inteligência ou de muita ingenuidade, credora da crença criada, plantada decerto. Em exemplo uma ‘burralda’ jovem burra imaginando o fim talvez do mundo, uma aguinha qualquer, inexpressiva, e alguns trovões e raios; isso o fim! ora o final não existe. Aliás, insiste Lulu, pouco ou nada se pode afiançar, o acabar por exemplo.
          Era um senhor irreverente à beça e quase podendo afirmarmos descrente; com certeza descrente nas crenças que temos por séculos.
          Se eu não nasci? óbvio que sim; se acabarei, óbvio que não. Não tem fim. Mesmo estas linhas, tidas por final de um punhado de bobagens, não são o término dum livro dum povo dum ‘burrismo’ geral amplo e irrestrito: tudo prossegue, apesar poder não existir mais a participação delas, por sinal uns garranchos de mau gosto não menos que a medonha linguagem... E nos sorriu no estágio superior à nossa inferior qualidade técnica e estilística. Daí foi que fizemos um buraquinho e assim nos escondemos envergonhados nele.
          Primeiro perguntam se nasci; depois, se sou Irreverente. Por parte de pai devo deveria ser. Papai não sei quem foi nem a mãe sabendo. Também Lulu não sou, ora bolas. Nome de cachorro, tem o Lulu da boa do 44, ela grita o cão burro dia inteiro. Sou Lunático da Silva, Silva materno e provavelmente Irreverente por parte da parte macha do casal. Depois descobriram um coleguinha meu que seria um meio-irmão... e papai brigou saiu fugiu – entretanto não acabou. Nem minha tragédia então se acabara, a mãe veio depois a saber (e pior eu igualmente soube) que me trocaram na maternidade; coisa rara pois virou modismo só hoje em dia: eram as parteiras em casa no trabalho na época. Lulu não, só admito o da boa...
          Com tais observações retomamos não a acidez de Lunático, demonstrada por toda e qualquer abordagem – mas sua tese do nada ter fim.
          Os burros imaginam que tudo tenha começo meio e fim. Ora não existe fim, portanto nem começo, tido como início pela inteligência discutível dessa corja que nos cerca. Não tem início. Início de quê? Tudo é continuação no planeta, o planeta mesmo e os outros vieram dum estouro esmigalhando o todo numas partículas bem minúsculas, a considerar o macrocosmo o universo e então...
          Deus! Não me interrompam mais, apesar vamos lá. Não existe; pelo simples fato de existir o antes e o depois de antes. Outro fato considerável e afim é o de que os povos inventaram mil deuses, um para cada necessidade humana, burros afirmo reafirmando. Sim porque o que existindo antes de haver Deus... Olhou-nos desafiador. Tudo e o nada, inclusive o deus de vocês, se foi criando no autocontato das partes, a dar-nos ideia de existência, consagrada pelos tempos e tempos amém. Prova! querem mais provas? O que não vejo o que não sinto o que não sei – pura e simplesmente não existe e daí para que início ou fim não tendo meio. Entenderam? oh participantes da tropa de muares.
          A mulher? a minha, essa gordona estufada e lamentadora, burra; prefiro a boa do 44, o vira-lata eu entregaria à carrocinha pra fazer sabão ficando somente com a boa no lugar da... fiquemos de bico calado agora que a megera chata vem saber se tomei o remédio; é tão ou mais burra que o resto, sequer ela nasceu num início e pior: não acabará... porém calemo-nos um instante.
          Mas como o fim! não tem. As coisas os seres tudo não somem, apenas se transformam e se desfiguram, não desaparecem nas partes que os compõem; até com possibilidade de melhorar depois a apresentação e o intrínseco da qualidade que exorna a imagem. Todavia não acabam.
          Daí ela chegou num chep-chep arrastando chinelos, fungando balofices, e com isso se acabou. Se não o mundo que não tem fim ao menos a conversa.
Marília   abril  2011





































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



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