0134(a ser posto no Blog Livros
Inéditos)
Contos sem Autor
Moacir
Capelini
moacircapelini@gmail.com
capa:
data de publicação:
tiragem:
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Contos
sem Autor...
“Chama-se
autor o personagem criado pela obra.”
Lêdo Ivo
Índice
1. Coisas de Pai,
página 5
2.
As Mãos e o Limite, pág. 7
3. Leilão de Gado, pág. 13
4. Era e/ou Não Era, pág. 15
5. O Morto, pág. 18
6.
Turismo, pág. 21
8.
Adultério, pág. 29
9.
Desencontro Inesperado, pág. 32
10.
Altar em Baixa, pág. 36
11.
Criatura em Diabrura, pág. 39
12.
Um Tiro pela Culatra, pág. 42
13. Siesta, pág. 45
14.
O Cadáver, pág. 57
16.
Diário de Uma Suicida em Fase de Publicação, pág. 64
17.
O Burro que Falava, pág. 68
18.
Missão Possível ao Impossível, pág. 70
19.
Diálogo Intemporal, ou de Todos os Tempos, pág. 74
20. Cerimônia de Desindireitar, pág. 76
21. Teoria dos Extremos,
pág. 80
22. Questão de
Idiossincrasia, pág. 85
23.
No Estádio de Futebol, pág. 87
24. Um Caso Matraca,
pág. 90
25. Volta e Revolta, pág. 96
26. Como Foi Que Dormi
no Poleiro, pág. 100
27.
Assassinato da Lua, pág. 105
28. Confissões Íntimas,
pág. 107
30.
Minhas Últimas Férias, pág. 114
31. Pondo os Pingos nos
ii do Normal, pág. 117
32.
Caboclando Surrealismo, pág. 120
33. Casamento&
Divórcio S.A., pág. 123
34. Jura Eterna, pág. 126
35. Um Final Trazendo
Questão Vernácula, pág. 128
1° - Coisas
de Pai
Pai não, mãe, mamãe andava braba
ninguém sabia por quê. Ah talvez por não ter aula; no entanto um tanto simples
o argumento, não dispensaram a genitora da aula, a aula era para os dois
filhos. Felizes, os meninos felizes também na vizinhança feliz, já começava a
pintar gente, gentinha assim deste tamanho. A água cheiinha de detergente sabor
limão se esparramava, ela, a mãe, gritando a vassoura, só a pequena pouco mais
que andava corria pronta no puxador tropeçou no cabo da vassoura caída caiu,
chorou limpou ouviu berro materno, correu outra vez tropeçou agora no pacote de
sabão em pó, pó molhado ai meu Deus! Mamãe nervosa, decerto pelas aulas. Aí
chegou Pedrinho depois o Ziza, as meninas foram se agrupando em torno das
coisas delas, poucas das aulas desocupadas ocupadas elas com suas mães; os
machinhos – só os machos tagarelavam sem saber não devessem pois homem fala
menos que mulher, ainda desconheciam a verdade. Você é o pai disse o pai da
casa, na casa manda controla determina o menino e não canta de galo no terreiro
dos coleguinhas. As garotas também agem assim. Assim estabaleceu “você é o
pai”. Mudou de ideia, sou o Pai. Agora o pai com P maiúsculo, ele nas primeiras
letras dizia pê grande; pê de Paulinho, um paulinho inventado, embora de
verdade com estopa e pano rasgado a barrigada saindo, o pê do paulinho era dos
pequenos como o esse de sabão. Sou eu. Você é filho. O filho aceitou, tem gente
submissa desde a infância do adulto para ser pessoa grande mandada; e os que
têm liderança embirram titicam e teimam na casa e depois no serviço adulto.
Os
outros, poucos, muitos à algazarra, aceitaram o regulamento, ajudaram
esparramaram as coisas, mamãe coçando impaciente a cabeça fazendo muxoxo
descontando na pequena e ajudando a garotinha ajuntar sabão quase pó de mingau mas
não gritou, adulto é o que existe de mais sensato, bem mais que minhoca adulta
ou minhoca menina.
Pai!
Papai
havia tornado, remexia no quartinho de bagunça, quem sabe a atiçar mamãe,
respondeu. Não é você, obtemperou o filho do pai, o qual já não estava ouvindo
mesmo e procurava não sei quê, o qual tem por costume nunca ser encontrado por
baixo e às vezes até por cima na casa da gente.
Você
morreu...
Você
morreu, intimou intimidando um deles. Eu matei você. Quis chorar o defunto,
coçou o cadáver, remexeu o corpo bonito de anjinho e se fez de morto.
Socorro!
Que foi meu filho! veio mamãe
assustada. Ara, mãe! Voltou lá dentro ao seu esfrega-esfrega e derrubou qualquer,
pôs a culpa na auxiliarzinha a qual chorou com talento e depois foi carinhada.
Os moleques já se desentendiam no entendimento do faz de conta que ia virando a
conta de fazer a verdade, aí resolveram mudar de brinquedo; tinha um emburrado
ninguém implorou que ficasse ficou na brincadeira para não constranger os
coleguinhas. O Pai não era mais pai, ‘titico’ assim, nem o Filho filho, que era
grandalhão, nem os outros agora experimentando carro faltando rodas ou rodas faltando
carro. Era para mudar, o que sempre até entre crianças supõe para melhor. Experimentavam
porém andava chato; acabaram por brigar, um inclusive usou o expediente trazido
da escola que a gente grande fala ser palavrão com tapa na boca.
Como
não havia conserto para concerto e harmonia, Mamãe, ainda nervosa, mais
nervosa, a titiquinha dizia “nomosa”, interferiu na jogada, intentou parar o
jogo mostrar cartão vermelho e expulsar de campo. Apelou por fim à escola, o
que se aprende lá, agora sem precisar apanhar na boca caso o filhote estivesse
‘nomoso’. Mamãe. Papai não, este já se fora também ‘nomoso’ pro trabalho dele,
quem sabe para a secretária.
Marília setembro 2002
2° - As
Mãos e o Limite
Debalde
Aasverus busca o limite do infinito no infinito. O infinito muda de lugar,
corre se afasta desloca-se muda outra vez e cansa, até cansa. Mas não encontra
o limite porque está atrelado ao infinito, que é infinito por definição. Mostra
mede calcula imagina. Não pode ir além do imaginar; no entanto pode ver a
paisagem fresca e suave como que inatacada e inalterada quem sabe se não por
milênios... ela é simples é verde é saudável é cheiro de mato é som de vento é
cricrilar de insetos. Porém o horizonte está longe, já foi o aqui – entretanto
se mudou, mudou com Aasverus – agora está lá esperando mudar-se para o país do
aqui e depois transmudar-se ao país do lá de longe. Assim não será alcançado,
assim pensa Aasverus. Aponta um ponto no limite do limite, deve ser o limite,
uma sombra a tremer; o que está distante sempre treme e até cintila, as estrelas
não cintilam? Elas olham pacientes, milhões de vezes pacientes, hiperbólicas e
belas, quem sabe se não a mesma sombra que ele vê... o indicador a pensar o que
será, será uma árvore um outro ser humano ou ser irracional, quem sabe quem
pode saber, talvez... segue.
Segue seu caminho, houvessem os
caminhos, por entre objetos plantados pela natureza, de muitas naturezas: fluidos
sólidos e indescritíveis – tudo é indescritível à ignorância; tudo é, por outro
lado, sabido. Sorri. Triste sorrir. Depois sorri pela flor que vê. Esbanja vida
cor e cheiro, perfuma sua mão que a toca e perfuma o ambiente. Assim aspira. Expira.
Anda, anda.
Anda na busca do horizonte seu
limite sem limite. E se prende em conjeturas. Pensa que pudesse ter alguém para
contar a beleza a diversidade escancarada e para mostrar, não tem; pensa não
ter: existem a borboleta se perdendo borboleteando e qualquer outro voador
insignificante a embelezar as vistas, mas não são ninguém. As águas num fio a
escorrer por aqui para ali fervilham vida, mas não há ninguém. O ar saturado de
seres invisíveis e microscópicos também existe; mas não se vê, portanto não
existe, não existe ninguém! Só.
Só. Mal acompanhado? Acompanhado
pelos raios de sol; aquecedor inclemente vivificador incansável o sol semeia
nascimentos e esperanças. Projeta esperança na direção dos limites do
horizonte. Ele já se mudara outra vez, sequer Aasverus percebeu haver andado
tanto... já nova paisagem, sim nova vista a focar no fotômetro da memória. Bela.
Bela evocação de novas plantas,
vegetais enfolhados ofertando vida a outros seres perecíveis. E some em manto
até o horizonte, talvez além do limite dele. Outro, outros vultos, já a sombra
não é mais que uma pedra, fora dos cânones da geometria porém na forma de
pedra, granito ou qualquer coisa, enfim novo começo para o caminhar sem fim.
Fim, começo, começo do fim, fim
do começo? Não sabia; por que razão teria de saber, entretanto queria saber
Aasverus já cansado.
Cansado? Não estava cansado. Andara toda
uma vida, dezenas e dezenas de anos, muitas luas fosse indígena, muitos sóis,
para de noite brincar com as estrelas cintilando hiperbólicas por milhões de
milhões, não estava cansado.
Cansado? Talvez o planeta é quem
estivesse cansado. Todavia não dava mostra encontrar-se no fim. Não obstante
girava adoidado antes do limite do tempo em torno do mesmo Sol, igual a Marte
igual a Netuno ou Júpiter. Cansado talvez pela insignificância de Aasverus,
igualmente girando na busca do limite do horizonte, ainda longe, ou quem sabe
perto! Do seu limite... dobrando dobrou a coluna cansada quase dura enrijada
pelos anos, a apanhar um raminho; depois a brincar com ele, que respondia
ressumando um perfume amargo e suave, tornou a caminhar antes que o calor de
Hélio cedesse à friagem da namorada Lua. Andou compassado firme e paciente
até... a busca do limite.
O limite era a sombra, nova
sombra doutro ser, sombra fugidia pálida cada vez mais pálida no sol se pondo.
Caminhava, até que ela deixasse ser sombra para ser sombra toda a paisagem; ou
que aguardasse a lua, fosse crescente ou na melhor da sorte cheia! O vento,
fora antes brisa agora era vento, vento sem medo de virar ciclone, no entanto
frio e cadenciado.
Cadenciava os passos, pisando a
noite o vento o solo a erva exalando cheiro característico do pisar; cadenciava
os passos por entre chiado e cricrilar dos seres que a cegueira da noite
nega-se mostrar. No entanto para lá, para lá na direção do limite do horizonte.
Parou, necessariamente antes do limite teimoso a se mudar constante, parou um
pouco a sondar sua área, desconhecida porém sua. Onde estaria seguro? Sequer
podendo imaginar que tipo de seres teria por companheiros naquele descanso
escuro, as pedras, sim as pedras em sua defesa. Recostou.
Recostou-se cansado ou só para
aguardar os raios vivificantes do sol a retomar a viagem. Apalpou o quarto de
dormir na casa pródiga da natureza. O conforto necessário, somente o necessário.
O necessário e o suficiente para esticar aquele conjunto de ossos de peles de
pelos de sangue, quatrilhões (ou ‘n’-lhões) de células e moléculas e átomos e
infinitesimais partículas da natureza agregadas formando um homem. Ou só uma
casa. Sim, imaginou ser apenas uma casa, uma construção de dezenas e dezenas de
anos – a morada do seu espírito imortal, Aasverus admitia ser um espírito em
passagem curta no planeta Terra. Agora Terra molhada.
Molhada primeiro pela garoa
fininha que emudeceu o cricrilar depois engrossando apagou a poeira de vez e respingou
naquela máquina intrincada de ossos e de sangue, de vida, descansando sua
noite. E também molhava a lua, desligava a luz da lua, quem sabe (o que
sabemos!) não viesse orvalhar também a luz do sol... chuva água pingo goteira a
escorrer seu descanso, hora de colocar as ideias em dia, noite para
santificá-las. Orou. Curto, simples, o coração falando no agradecimento ao
Criador por ainda estar vivo, aguardando o outro dia.
Dia que não chega, a noite em
vigília encompridando as horas. Viveu. Reviveu seu pensar, seu viver; os
vegetais ali, ali os animais insignificantes e os de grande porte (então se
assustou num repente da possibilidade no perigo, sendo um repente mero
instante, voltou a si) estariam os animais imaginando a vida passada
igualmente? Não, por certo; por isso que era gente. Gente a rosnar pensamentos
desde as mãos (pegou-se gesticulando sozinho, e estava mesmo sozinho pensava
andar sozinho tinha a certeza não estar sozinho era um espírito e haviam os
outros por volta com a cabeça o tronco as mãos) ah as mãos, quanto não
fizeram!... quanta coisa indevida se lamentou; mas quanta coisa reta, quanto
elas endireitaram ou tentaram endireitar, se consolou. Era apenas menino.
Era criança. E já lhe falavam no
deserto. Voltou rápido à sua chuva às suas pedras ao quarto que a natureza lhe
oferecera a dormir para não dormir: ali também era deserto, puxa, um deserto!
Não o deserto de areia de sede de calor estafante, contudo igualmente deserto.
Voltou rapidinho à meninice, parou ainda cansado do cansaço pelo correr, parou
o coração batendo a querer estourar veias, entumescidas. Estava de novo menino.
Era gente em flor. Pensou nos
seus, seus parentes seus próximos seus adultos; e no velho. Não se cansava
nunca, até morrer ainda não se cansara a dar-lhe orientação. Falava manso,
rouco, baixo, mas não se cansava. Voltou-se aos momentos em que era tão somente
o aprendiz da vida, de tudo, tudo ouvindo nem sempre entendendo. Pensou sobre
tudinho num instante, lembrou-se de tudo de quase tudo que ouvira como lição e
conselhos; no entanto fora a mão que o levara aos recônditos de seu próprio
ser, a ouvir o homem falando ao menino – leve, diplomático, sério às vezes como
exigia o momento e a oportunidade. E mostrava, sem mostrar, o exemplo dos
próprios atos a ele um garoto então. “As mãos, filho, são o pensamento
materializado da vontade”. Tudo se fazia com as mãos; mais de quatro partes das
cinco que a humanidade fizera, graças às mãos. Elas permitiram que a
inteligência criasse e efetivava a criação. Benditas as mãos! Entretanto era
necessário reconhecer que outras tantas quartas partes igualmente elas que
haviam colaborado fazendo o mal! Lembrava exemplos, gostava dos antigos árabes
cortando as mãos que redundassem nos crimes. “Não abuse filho meu, não abuse
das mãos.” Voltou molhado.
Voltou, acordou do não dormir, a
chuva banhava suas mãos, brincou com elas, sorriu delas enrugadas na sua volta
ao quarto de dormir na hospedaria do deserto. Tudo deveria estar úmido pelas
lágrimas alegres e lentas do tempo. Somente podia apalpar os objetos em volta,
não podia atingir toda a paisagem na escuridão da lua com janelas fechadas.
Porém imaginou que tudo estivesse molhado. Com sorte observou clarões frágeis
da madrugada. Não dormira; no entanto sonhara ainda assim. E agora a natureza
ofertava relampejos de luz. Era se preparar.
Preparava-se para outro caminhar.
Retomar o embate. As mãos, as mãos que o levaram ao tempo de menino, as mãos
iriam agora com certeza ajudá-lo e mantê-lo; elas que o sustinham por dezenas e
dezenas de anos – elas o auxiliariam a se levantar para andar rumo ao limite do
horizonte.
Ribeirão Preto maio 1994
3° - Leilão de Gado
Tempo em que os bichos falavam. Já não
falavam tanto quanto seus futuros irmãos humanos falariam. Mas falavam. Na
época o boi não seria mais burro que o burro; era tão ou menos que ele. O
papagaio não falava exagerado como hoje; o macaco se preocupava menos com as
momices de agora e mais com o que faria depois que desse origem ao Homo erectus e posteriormente ao Sapiens com suas brincadeiras
evolutivas. E daí por diante.
Diante
do pai, um touro de olhos arregalados pela surpresa, andava o filho com ares
bovinos de boa vontade de submissão ou de temor. O negócio já realizado, não
tinha mais remédio.
--Esse
é o reprodutor que você comprou no leilão, filhote... O ‘boisotinho’ assentiu
apreensivo; e aproveitando as reticências paternas tentou valorizar sua aquisição;
pretendeu mostrar dotes da compra, o touro velho experiente não só resmungou:
--Estou
preocupadíssimo, acho que jogou dinheiro fora como da outra vez. Da outra, num
gesto excêntrico de algumas toneladas de alfafa, trouxe para a fazenda um lote
de mulheres desclassificadas – meretrizes, adúlteras, solteironas empedernidas,
ladras e assassinas; quase todas portadoras de doenças venéreas... E prosseguiu
o velho:
--Sabe,
meu filhinho, naquele outro leilão você atirou pela janela metade de minha
alfafa do banco! Adquiriu no martelo fêmeas em fim de carreira por mulheres
leiteiras. Um prejuizão sem tamanho! O jovem balançou a cabeça reprovando a
reprovação paterna; não tinha ainda seus cornos, os quais mal e mal apontavam –
a idade das maluqueiras.
--Esse
reprodutor é muito bom, papai! Irá apagar a lembrança das leiteiras, pode crer.
Além do mais foi uma pechincha: arrematei-o por dois carros de capim (valia com
certeza uma tulha de milho!)
Com
tal diálogo eles se deslocaram a um ponto da varanda. O mais velho ruminava
suas lembranças: vira pela tevê seu herdeiro gritando mais e mais capim para
vencer concorrentes a comprar aquele espécime desbotado enrugado machucado e
barrigudo da espécie humana; desligara a televisão porém não pôde impedir o
desastre. Agora era examinar de mais perto o exemplar de homem. Chegaram ainda
mais próximo para ver melhor; observaram as cordas que prendiam o animal. O
senhor touro coçava os chifres, desesperado; o jovem sorria de prazer em vista
de tal achado.
O
achado, vaidoso, começou a sorrir, para valorizar-se e agradar ao bezerro que
agora era seu amo. Fez trejeitos, se voltou, mostrou os bíceps (por sinal
emurchecidos) fez enfim mil micagens, lembrando um preocupado macaco ancestral;
falou, rosnou, quase chorou emotivo, medonho; fingiu-se boxeador e por pouco
não caiu temendo o imaginário oponente. Não alegrou ao dono da fazenda e deixou
temeroso o filho do dono. Por fim, derrotado, o touro idoso fez expressão de
não tem jeito misturado com consumatum
est aceitando o prejuízo para não criar caso com seu primogênito bezerro,
nessa hora também decepcionado. Brigar com esse doidivanas! – pensou o touro,
já não basta eu haver chamado a mãe dele de vaca e mandando a porcaria embora
com aquele projeto de touro parecendo boi! – não pretendia brigar mais,
aumentando a carência afetiva do garoto. Sorriu amarelo e no final disse:
--Bem,
está concluída a coisa, você jogou fora montanha de capim com esse
“reprodutor”, aspou áspero e amargo o velho. Vamos finalmente detalhar os
valores dele.
--Sim,
pai, concordo. Você vai indicando, eu anoto para a contabilidade da fazenda.
Pai:
cabelos? filho: não possui, ah me deram um desconto por causa disso. Pai: a
cara horrenda, é assim mesmo ou está chorando? Filho: sabe que eu nem percebi
na hora... Pai: a musculatura, onde? Filho: ah deve ter murchado na viagem.
Pai: é monstruosamente barrigudo. Filho: sei; deve ser a água que dei a ele no
riacho poluído... Pai: hum, como cheira mal! Filho: nesse ponto você tem razão.
Pai: agilidade... Filho: isso não consigo escrever; e se nós exigirmos demais
dele, o prejuízo será maior... Pai: (coçou nervoso outra vez o corno direito
entortado). Filho: não anoto mais nada? Pai: se arrematou esta coisa por
reprodutor, onde estão as coisas dele... Filho: quanto aos testículos ele os
perdeu decerto na cerca; o restante da genitália... podemos aguardar o inverno,
pois até a água mole fica dura. Paizinho, você está bem? olhe, aceito ficar um
ano sem mesada.
Marília agosto
2001
4° - Era e/ou Não
Era
Um fixou o olho no olho da rua. Claro,
força de expressão. Viu? Não ‘tá’ vendo! Não o carro, a mulher. Ainda não? Tá
vindo pra cá; mudou de direção, anda no meio da rua, gente tem dessas
‘carrices’, pensa ser automóvel, todo mundo se perde no meio e não no meio-fio
e melhor andasse na calçada. Um formigueiro. Gente é formiga com dois pés,
engraçado até: um pra lá outro vem e um terceiro cruza, negaceia mais, volta,
põe a mão na cabeça, ninguém mais usa chapéu sobra a cachola pra pensar. Em que
se pensa? Pensa que pensa. Anda vai volta para evita exita tromba segue;
destino. Formigueiro. Aquela. Aquele? Aquele. Quem sabe; sabe quem... Aposto macho;
aposto fêmea diz outro. Dia treze, sexta; ir à lotérica. Deve ser. Pode ser.
Viu? São dois. Claro, um par no meio do formigueiro. Aposto fêmea. Pera lá, o
que é a fêmea humana! Diria com propriedade cabelos longos seios andar estudado
trejeitos delicadeza vestido perfume olhar submisso ou safadamente calculado.
Após o macho. Em que consiste um macho da espécie Homo sapiens? Ombros
largos e fortes, um bazar de músculos num indivíduo alto, no alto da cabeça de
buldogue uns cabelos eriçados ou alguns fios dizendo adeus; calças compridas e
algum relaxo para ficar de bem com a vida. E têm os seres que não são macho ou
fêmeo, muito pelo contrário mas não tem importância. Importa sim é que existam.
No geral basta ao formigueiro que tais seres existam. Pronto. Não, pronto não,
não está resolvida a questão: macho ou fêmea, insiste um. Posto noutros termos:
macha ou fêmeo? Ou não tem lá grande importância. Tem. Que seja por mera
curiosidade, apostaria fêmea. Vem andandinho ao lado, no meio da via pública,
do seu macho. Não. Pode-se, afirma o outro, pode-se bem ultrapassar os limites,
seria apenas um vizinho ou um conhecido encontrado ao acaso que é o acaso
urbano. Balança os braços, o que completa o andar lerdo (ah isso faz igualmente
seu homem). Ameaçam virar à esquerda, estamos à sua esquerda, olhamo-nos com
nossas interrogações todavia ao bom entendedor meio olhar basta, não é assim?
Agora o casal, melhor pôr casal entre aspas, decide, se é que quando estamos
nos espichando pelas vias da cidade decidimos ou confabulamos e mesmo
planejamos para decidir ir à esquerda ou à direita – em geral somos baratas
tontas dando encontrões no centro. Eles iam à esquerda, apenas ameaçaram
fazê-lo, já estão indo para frente, reto, e continuam no meio da rua, ninguém
mais respeita veículos, quase o ciclista esbarra borboleteante no homem, será
homem? ele balança a cabeça quase feia, não sabemos reclamando do abuso
ciclístico se conversando com ela. Ela, pensamos seja ela, sorri mais para si
que para seu consorte. Com sorte afirmaríamos ser ao menos amante, nome hoje
desvirtuado pelo modismo com o vocábulo ‘namorado’. Não importa, o imposto de
renda dá os mesmos direitos nos descontos conjugais, isto é: quase nenhum; não
sendo no caso da declaração em separado... ah deixa pra lá. Ela. Tem seu quê de
beleza. Também não importa. E sorri bonito. Importa pouco. Olha num trejeito os
passantes (um enxerido diria estar ela vendo o rapaz que passou, outro que
olhando a moça cheirosa cruzando com o par). Tem ombros estreitos, os seios sumidos
na camiseta xadrez com... (não, é preciso saber descrever roupa e os
escrevinhadores tiveram zero na matéria). Olham-se. Ele, pensamos realmente
seja ele, tem a camiseta estourada pelos músculos e é vermelha, embora a cor
não dite sexo. É vermelha com certeza. As calças são jeans fêmeas e machas, as vestes de hoje não definem. Vez por outra
o par se estreita se toca se olha (se ama?) se endireita se separa se volta
para frente, segue, desconsiderando o tráfego e não se importando com as normas
de trânsito automotivo; ou terá descoberto que o ser humano é o rei da criação!
Prossegue, faz séculos de segundos que desfila à frente do visor de crítica; decerto
não pensa nisso, pois matraca sem parar. Ela (então já passaram) volta-se no
ver o que ver ou não se sabe o que; ela? Ele é tentado por imitação certamente
a também olhar o não se sabe o que mas com visão macha porque o modo de perceber
feminino é diferente do... Ele? Qual é ele, ou é ele que é ela? ou nenhum seja
nem ele nem ela, que horror! Não ocorreria que tais pessoas do espetáculo no
meio da via municipal não tivessem... Vejamos bem, e nós que estamos olhando o
vaivém, que seremos? Não, isso é por demais embaraçoso. Se olham um e outro.
Não tá vendo?
Marília julho 2001
5° - O Morto
Positivamente, a sociedade é louca.
Pelo menos os exemplos demonstram podridão... O Zefinho... deixa pra lá.
O
Zefinho nos comunicou outro dia, entre absorto (que é seu normal) e anormal
(que é seu comum estado) – haver morrido. Protestamos. Rimos. A expressão do
farmacêutico fez-nos porém de risos amarelos e posteriormente de faces sérias;
olhando um fulano que não brinca em serviço, magrinho cor de cera e meio
apressado, tido honesto... Como duvidar?
Fez
a poção, atendeu o menino, injetou drogas para melhorar a droga da velhota,
provocou o plim-plim na registradora. Retomou o assunto; como era seu costume
não homogeneizar, mas heterogeneizar. Por exemplo, a fisgada no lambari com
pomadas; o guardar o peixe no samburá de mistura com penicilina e comprimidos
de gripe. Retomou a morte, com vivacidade.
--Quando
eu morri, no último dia sete de outubro, comecei a... (foi interrompido por uma
garota).
Atendeu
a “boa”, como a adjetivou o Guilherme, voltou, não chegou a recomeçar, foi
ouvir a queixa sussurrada dum homem idoso nosso conhecido. Só escutamos Zefinho
dizer alto “isso não pode, na sua idade”, o que nos deixou curiosos. Fora o seguidor
da bengala, ganhamos nosso interlocutor, o morto.
--No
dia sete – disse o das panaceias – quando me dirigia ao Retirão, no táxi do
Pedro Bica... vocês conhecem o Pedro? (negativo). Aquele gorducho, barriga
deste tamanho, moreno... moreno coisa alguma, mulato mesmo. (Balançamos a cabeça,
desconhecendo). É esse. Ia correndo a trinta por hora, quando muito;
praticamente andando; parou, entrar à esquerda... Buuumm! (assustou-nos a
onomatopeia imitando o choque de veículos; parecia um siciliano num momento de
grande esplendor; depois fechou os braços envergonhado, enquanto nós olhávamos
querendo arrancar dele o restante do fato; nisso chegou um freguês; freguesa, a
bem da verdade.)
Perdemos
nosso defunto por minutos. Ele vendia um purgante à jovem, com muita
recomendação, o que a deixava corada. O Guilherme Pornográfico olhava a moça
mas via a fêmea. Tornou ao grupo-todo-ouvidos o nosso amigo.
--Dizia
faz pouco a vocês que sou aquele que mataram na terça-feira, dia sete...
Precisavam ver a quantidade de carros engavetados, o número de vítimas, coisa
assim de fazer delirar os médicos e os hospitais; suficiente para qualquer
vendedor de remédios comprar automóvel novo; não falo do farmacêutico
verdadeiro, daquele que não vende ‘potato de nitrássio’ por nitrato de
potássio; farmacêutico verdadeiro. Olhem aqui (olhamos) sou farmacêutico, vocês
me conhecem, sabem que não sou de autoelogios. Ora, tornemos ao desastre: eu
andava no banco de trás, como se sabe; veio um Mustang e buuum! quebrou-nos... O Guilherme me viu engessado até
aqui em cima, não é? (era, assentiu). Fiquei feito coluna de cimento, encaixotado;
com a diferença demorar para secar por quatro longos meses! Então...
Não
houve ‘então’. Certa menininha suja da felicidade pelas brincadeiras entrou
espevitada a berrar uma qualquer coisa como “seu Zefinho, mamãe pediu um vidro
de acetona e três...” medicamentos ou drogas dos quais elinha esquecera o nome.
De novo esteve conosco, ainda rindo da atrapalhação da menina. Ele a rir, mesmo
tão sisudo.
--Após
esse acidente horrível – vejam as cicatrizes nas pernas (mostrou-nos uns
cambitos peludos e finos, da beleza própria do homem; aliás, poucos objetos são
tão belos quanto umas pernas masculinas sob calças arregaçadas... e Zefinho mostrava
talento). São as mostras do desastre que mudaria totalmente minha vida;
inclusive a da família! (Desfiou, impiedoso, mazelas por que passou em
consequência dessa grande tragédia).
Num
momento ameaçou-nos enveredar por outro caminho ainda mais distante, fugindo ao
caso, contando outro de imposto de renda; entretanto Bolão da Silva, até
naquela hora inexplicavelmente mudo, não se conteve:
--Zefinho,
e seu falecimento? homem de Deus!
--Mesmo
do Diabo, se quiser – emendou o da farmácia. Ora bolas, foi um colega meu lá do
sul que andou falando eu ter morrido nesse acidente, naquele sadio princípio do
‘quem conta um conto aumenta um ponto’, matando-me no dia sete... Olhem no
calendário ver se minto! Bolão: deixe de só pensar em comer; não vê que estou
vivo?
Apareceu
uma cliente, esposa do Zé Magriça, gorda como a Rainha de Momo, pediu não sei o
que num vidro médio. Foi atendê-la.
São Paulo março 1978
6° - Turismo
Olhem esta árvore com orelha-de-pau
(ele dizia “óia” e “árvi” e “orêia”) olharam. Era um espécime comum no campo,
olharam talvez soubessem não estar diante dum guia de primeira linha, um mestre
diplomado; porém não se podiam queixar: também não eram turistas de primeira;
quem sabe de Primeiro Mundo mas de segunda pois apenas tinham como
característica os dólares em
profusão. Viram aquele homem decerto típico do lugar, ele em
si já objeto turístico. Não falava inglês para estrangeiros, falava grego, caso
conhecessem a expressão, desconheciam. Observaram o homúnculo trajado a rigor,
antes que à árvore, já haviam visto mil e uma quando a jardineira enguiçou na
subida, se aproveitando o grupo para melhorar sua cultura. Falou em torno da
árvore aos olhos arregalados. Tinha chapéu de palha, o que não o distinguia dos
de fora: muitos haviam adquirido chapéus da região na venda da estrada,
deixando os capiaus deslumbrados com o dinheiro nunca visto; e perplexos com o
desprendimento turístico por não esperar troco, fato que muito agradou Seu Zé
da Venda. Haviam feito também inúmeras fotos, “óiem” esta vaca malhada, despejaram
cliques por atacado no traseiro vacum naquela hora a fazer o de fazer após um
pasto inteiro engolido. Vestia, é claro não ser a vaca nem o turista, vestia
camisa xadrez um lenço vermelho no pescoço; gente de cidade que tenha visto
umas vezes festa junina pensa que o caipira vive sorrido ingenuidades, mesmo
com fome, tendo camisa enxadrezada e lenço berrante. Sorria de vez em quando a
olhar suas próprias calças jeans improvisadas com alguns remendos, o que
ficando bem a matuto, calça e remendo urbano para gente da roça; e a botina,
essa andava caprichada: o comum que hoje se adquire na loja de material de
construção, todavia tinha o mérito de ringir, santificando a caracterização.
Tirou um pouco o chapéu para limpar o suor, o que fez alguns estrangeiros imitá-lo,
mostrou outra árvore, um arbusto, todos viram, olharam ao menos, o vegetal;
agora estavam numa vila do interior que acharam pitoresca; aliás andavam há
muito no interior, semanas já. Aí encontravam-se na pracinha bucólica mansa
pacata verde e bela do vilarejo e havia muito para ver, quase nada. A
jardineira com as malas e lembranças compradas estava ali pertinho, o João
Chofer a tomar conta. Vejam, disse o guia, os bancos deste jardim (ainda não
tinha acabado dar a ordem, já despejaram flash e cliques a mancheia na
direção dum banco de madeira carcomido com sujidades de folhas decompostas e
poeira). Mostrou gramas e flores, mostrou gente típica, meros caboclos curiosos
no ver curiosos estrangeiros de armas fotográficas na mão: espocaram as luzes
por cima da gente miúda assustada desdentada arregalada olhadora. Olhem, gritou
o língua daquela invasão, olhem a igreja! Olharam na direção do dedo sábio
depois nos lados da igreja, pouco mais que capela de fazenda. Viram, uns fotografaram
o prédio ao longe, houvesse longe numa cidade assinzinha, depois acompanharam o
guia na direção do monumento religioso. Perto tomaram mais poses, edifícios
estão sempre fazendo pose à posteridade, não como a gente ou gente criança que
é o inusitado a cada instante para uma objetiva fotográfica. Clicaram e se
clicaram; visto quererem também aparecer na foto, gente é tão interessante que
frequente sai mais que prédio histórico, assim como igualmente apreciam os
turistas marcar a canivete objetos históricos sua bela passagem seu belo nome
seu belo instante à posteridade. Estavam eles vestidos a caráter também: shorts,
camisas berrantes, tênis nos pés, câmeras a tiracolo e olhar ingênuo ou
bestificado. Ah, nesse grupo havia autêntica salada de frutas, não eram só
americanos: chineses sorridentes e japoneses (que a gente da gente não sabia
quando um quando outro) suecos, franceses etc., não demais et coetera apenas
o suficiente; duas solteironas inglesas magras e altas; e americanos é claro.
Todos a caráter enrolando a língua; todos falavam inglês, alguns apenas
imaginavam falar mas se entendiam. Após mostrar janelas bichadas, o sino no
blem-blem, a entrada de grossos portais e o que de se ver por dentro com
máquinas fotográficas xeretando e o padre irritado, saiu com os seus de volta à
pracinha. Aí o guia resolvendo fazer uma demonstração artística ao seu grupo,
para melhor marcar a viagem. Pediu a um desafinado morador tocar certa moda na
viola velha e ele próprio se exibiu numa catira batendo os pés. Não foi um
espetáculo grandioso, porém os estrangeiros gostaram bateram palmas e os pés,
alguns arremedaram o guia engrolando a letra da música e tiraram isso sim
montão de fotos, um inclusive filmou o show, os chineses não pararam de
rir ao seu modo que é seu modo de gargalhar, os americanos de aplaudir,
enquanto as inglesas riram fleumaticamente. Suado e a fungar muito, o guia terminou
a audição mostrando a jardineira, “óiem” disse; todos entenderam, já eram doutores
no ‘caipirês’ e se foram aos seus lugares nos bancos atulhados, alguns mesmo
com anseios a ir tomar cachaça nalguma venda. O guiazinho sendo o último a
subir no veículo, ainda zonzo.
Marília novembro
2001
7° - A Jovem Nua
Aquele matusalém bem além do aquém
falava e mais falava, seu todo parecendo fraco sua parte no todo sugerindo
fragilidade mas sua boca uma fortaleza e a língua sólida. Falava sem parar; a
plateia, inicialmente uns gatos pingados porém a crescer a avolumar-se, acompanhando
a graça do sol; este já bem alto a atingir a pele dos ouvintes. Crentes?
curiosos? ou só no passatempo que medeia um afazer e outro, não falavam,
falavam sim à boca pequena quase na linguagem dos sinais ou na dos olhares: o
matusalém a falar ele por todos e respondendo suas indagações contidas na
mudez.
Dizia
mais ou menos assim, que nos tempos idos, quem sabe imemoriais na imprecisão
das distâncias, o ser humano vestia-se. Isto ocasionando um ‘oh’ geral em indignação
admiração ou tão somente descrença velada. A descrença velada é aquela que se não
manifesta ostensivamente porém existe nos lábios cerrados nos olhares matreiros
dos irreverentes nos silêncios dos que não querem ou não podem se manifestar. O
ser humano vestia-se, insistiu.
Roupa
para quê? É curioso que o desuso apaga a necessidade: para cobrir-se, ora.
Cobrir-se ou para satisfazer a vaidade nas aparências...
Hoje
não temos isso. Nem aparências nem vaidades nem necessidades. Todavia tínhamos:
e nos vestíamos segundo a posse; posse é outro item que mandou na humanidade
por milênios. Não vou entrar nessa questão; fiquemos nesta palestra informal a
tratar as vestes.
Noto
certa descrença nos presentes. Contudo afirmo que todos se vestiam. A roupa era
imposta desde criancinha ao ser. Claro, nascíamos como estamos nestes tempos,
nus; depois vinham cueiros fraldas, panos enfim para cobrir a nudez do nascituro.
Talvez no museu comunitário haja entre as peças e raridades tais paninhos que
se usava nas crianças. Posteriormente substituíram tecidos de fibras por
plásticos e papéis – tudo descartável.
Crescendo
o ser, impunham os costumes mais e mais vestimentas. Até ao tempo adulto, de
acordo com a idade da pessoa. E do sexo. Eram dois os sexos consagrados; havia
o terceiro, não benquisto, que não trajava diferentemente dos outros; ou
melhor: o do terceiro que optasse pelo primeiro sexo vestia-se igual ao
primeiro; aquele que escolhesse o segundo sexo, ou parecer-se com o segundo,
punha roupa do segundo. Assim por diante. Agora, o que desejo falar mesmo é
cada sexo se cobrir com vestes do seu próprio sexo. A fêmea do homem punha
vestidos saias, essas coisas...
A
jovem bela, embora um pouco gorda para o gosto dos homens por ali, a jovem
abriu a boca num espanto e ficou a imaginar o como esse como!? fez mais,
pensou-se com saia rodada a dançar uma valsa, rodou pra cá, remexeu pra lá –
causando risota nos próximos e a atenção daquele orador matusalém.
Vejo
que meus jovens entenderam como se vestiam antanho as mulheres... uma bela
moça. Ocorre aqui um senão. Por baixo do vestido usavam tais mulheres os
sutiãs, alguns sensuais a cobrir voluptuosidades. Hoje raras usam-nos, e tão só
a segurar abusos da natureza; pois nossas irmãs são livres e conservam os seios
apenas aos filhos que geram. Aliás os seus, refiro-me à jovem cheia de corpo,
os seus são mesmo belíssimos.
Ela
sorriu agradecimentos.
Um
representante macho da espécie, magro fino feio, olhou na direção do
agradecimento e do engrandecimento feminino a sorrir. Tinha ao seu lado uma
bicicleta e ainda coçava como que a agradar por ofensas recebidas suas nádegas,
por as mesmas cansadas a esfregar-se no selim, machucando também o escroto. O
dito representante voltou-se como os outros ao ancião.
Mais
para diante no tempo as nossas fêmeas passaram a andar de calças compridas qual
homens, abandonando os tais vestidos, usando-os eventualmente nas festas a
caráter. Então daí em diante mulheres e homens não se distinguiam...
A
plateia, bem mais que gatos pingados iniciais, a plateia se mexeu, soltou uns
sons e zum-zuns para mostrar se não contrariedade incompreensão. O matusalém
retomou o discurso.
Não
se distinguiam em termos, em termos de roupa quero dizer: todos iguais ou ao
menos semelhantes. Apenas a conformação corporal diversa. O homem seco fino
tábua às vezes esquelético; a mulher cheia delineada nos riscos de belo
desenho. Além do trejeito, da delicadeza, do gesto feminil.
O
senhor aí fez uma cara engraçada a esboçar talvez uma não conformação quando
falei sobre gestos e delicadezas. O da bicicleta se pensou observado, imaginou
ser o centro do universo, se coçou de novo. O palestrante: notem que isso num homem,
nos tempos e tempos imemoriais amém, isso atira o macho da espécie na espécie
que tratamos como sendo o terceiro sexo, nem pra lá nem pra cá muito pelo contrário...
Todos
riram, a moça e outros mais, um rapazinho fez um muxoxo em desagrado porém não
disse coisa alguma. A plateia atenta. O matusalém.
Acho
que devo ainda falar na questão da roupagem de frio. Não sabem o que seja frio, o frio foi com a roupa desinventado
pelo descostume. Bem, como definir frio
– um estado de encolhimento do soma humano pela contração das células, em
contrário do aumento e relaxamento das ditas células no calor. Isto igualmente
não existindo mais no planeta por desuso no mundo. Entretanto existira nos idos
tempos. E no frio cobria-se todo o ser, deixando somente o rosto livre, não se
vendo a gente propriamente, só a roupa, grossa e volumosa, da gente. Parece-me
que dependendo da latitude mais frio ou menos frio, desconheço essa verdade, se
verdade, não sendo hoje nossa verdade.
O
povo se olhou ou descrente ou a desentender o entendido. O orador.
Bem
meus caros, roupa, super-roupa no frio do tempo, leve quase tela nas vestes no
calor.
Olharam-se
esquisitamente a se interrogar de vistas. O homem.
Não
sabem o que foi o calor, percebo. Não importa, não sei igualmente. Sei que
usaram homem e mulher vestes finas ou parciais a cobrir o que descobrir; sei.
Mas neste ponto me perguntariam, se não fossem como até aqui configurados
mudos, indagariam, com lógica: se era para ter parcialmente, por que não como
estamos agora – pelados!
A
turma alvoroçou-se, se mexeu, quem sabe não pelo que disse o matusalém além
além a quem ouvindo. É que chegava certa viatura.
Um
graduado se desenroscou com dificuldade do assento, suas nádegas a se grudar e
se desgrudar devagarinho do banco, um macacão gorducho forte grande; e um
mequetrefe, pudesse mequetrefe fardado sem roupa, o soldado deixou o volante do
carro a ajudar o superior sair, foram ambos cenho fechado na direção da plateia
abismada ainda com as afirmativas matusalêmicas.
Que
anda ocorrendo neste ajuntamento, berrou delicadamente a autoridade, tendo as
insígnias policiais numa corrente a enfeitar o pescoço. Veja isso! imperou ao
mequetrefe. O soldado magrela, penduricalhos a balançar murchos, mãos magras finas
ágeis à cintura, a coçar o revólver preso no coldre, este num cinto de couro.
Chegou-se
à plateia, o matusalém falou nada saber do ocorrido, a assistência a se
dispersar sem grande susto – o susto a veste o calor o frio todos desinventados
pelo desuso – sem qualquer espanto a plateia foi deixando ser plateia, a moça
nua estava nua sozinha agora, os outros nus se haviam ido, o soldadinho magrela
nu do coldre pra baixo e pra cima voltou ao veículo policial com o brutamontes,
nu mas defendido pelas vestes da gordura; antes o mequetrefe olhou guloso
aquelas suntuosidades da jovem, sorriu matreiro, voltou-se à oficialidade,
funcionou o jipe, até esqueceu ligada a sirene.
Marília setembro 2006
8° - Adultério
Não é por isso que
esperava... sabendo-se que o homem depende em tudo da mulher, até para ser
infiel à mulher. Esperava o ônibus. Inexplicavelmente deixara passar um e
aguardava outro coletivo. João. Não há maiores méritos em se chamar João; nem
deméritos. Poder-se-ia falar que desejando uma carona. Para que não se pense
mal, carona feminina. Isso justificava não ter entrado no coletivo número 685,
meio vazio. Paradoxalmente, olhava a curva da reitoria, onde costumando surgir
sua condução, quase sempre apinhada, os pingentes humanos semelhando a enfeites
do monstrengo enferrujado e de cor vermelha. Ninguém no ponto ficaria surpreso
pela sua carona, todos eram estudantes; o que se subentende caronistas por
hábito...
João
entretanto ia além da idade daqueles jovens. O pior da situação é acreditar ele
mesmo na carona feminina. Dócil como as mulheres de antanho, bela como todas as
virgens, ingênua como requer a índole autêntica das moças, apaixonada exclusivamente
por ele (sem se declarar) só por ele... Chegou a sentir sua fragrância,
distinguiu-lhe o cheiro artificial, com que as mulheres se empetecam julgando
atrair o macho, semelhante o mel atrai um inseto bobo; aí distinguiu
sorrateiramente o cheiro de fêmea, que elas pensam esconder... Insensivelmente
levou a mão esquerda ao bolso. Um sorriso de pena até, da jovem solitária e
enamorada...
Esperou.
Ela teria tido alguma prova? Uma conversinha chocha sobre bolos ou qualquer
coisa assim que agrada as meninas? ou mesmo o carro enguiçado! assustou-se. Ah
as dificuldades que têm os estrangeiros nessas circunstâncias... a amada sendo
gringa e loura. De qualquer forma andava atrasada.
Imediato
houve dois imprevistos: o 685 apareceu com sua garatuja na curva; e se lembrou
casado!
Subiu
por último no ônibus, viver até os instantes derradeiros a espera; não deixou
de olhar mais uma vez o fim da rua, onde apareceria a gringa. Quase caiu da
porta traseira. O banco macio e sujo ofereceu-lhe conforto e realidade. Queria
combater a imagem da esposa morena e da família, mas as bacadas secas do
coletivo punham-no ao chão da vida concreta. E lhe trouxeram um terrível
sentimento de culpa. Aos poucos, avassalador: ouvia a lamentação da mulher, se martirizando
por causa do ingrato “você, João, até você!”
fugiu dela, procurou refúgio nas crianças, beijou todas três como desculpa,
elas corresponderam, e logo se pegaram nas briguinhas e assim João escondeu-se
no lavatório, livre dos infortúnios todos; porém não se livrou de si mesmo...
Saiu de casa meio nervoso, tendo passado por dona Doroteia emburrada... Quis
dirigir-se à esposa, não teve coragem e nem argumentos. Saiu enfim da residência,
buscar na rua a distração antitormento, fumar outro cigarrinho ou só acendê-lo.
Andou,
que o andar faz bem. Pensou, pesou, tornou a sofrer. Fugiu para mais longe,
pela vida pregressa. Viveu outra vez sua juventude. Havia sempre uma apaixonada
infalível à sua disposição, sempre bonita, sempre loura; e ele durão, agarrado
à macheza a seu modo, no aguardar que a amante criatura não fosse apenas
querenciada, mas viesse a ele de joelhos, a implorar-lhe carinho; embora ele
sempre pobre e forte e bonitão (pelo menos seria essa a opinião da infeliz); chegava
num carro luxuoso, desses que só os ricos concebem, a fim de propor-lhe deixar
um pouco o machismo e concedesse à pobre rica um beijo – e o etc.,
imediatamente, violentamente! Todavia João se lembrou que isso não passava de
ajuste da personalidade incerta, uma fuga do real duro e chão, da sem-gracice
pequeno-burguesa, limitada e sem horizonte... Ajustamento diário, que ocorrera
em muitos momentos de sua vidinha; com o grande valor de evitar a catástrofe
psicológica, a qual provavelmente engole os fregueses dos manicômios e sustenta
o safadismo da psiquiatria nos consultórios famosos. Mantinha-se vivo! Durante
a vida púbere e adolescente viveu com o artifício, amigo ajustador; entretanto
escravizou-se: virou mania, enlevo indispensável dos momentos críticos e sobretudo
para conciliar o sono... Na infância rezava os seus três padres-nossos e uma
ave-maria, ao dormir para dormir, espécie de autorização ao sono; senha que a
censura do seu subconsciente exigia para abrir as comportas do mundo de lá; a
adolescência mudou a senha – com moça loura, rica, bonita – para a viagem ao
sonho... então o mundo ganhava um ateu; ajustado na personalidade.
--Boa
tarde, seu João. Está surdo!
--Ah,
boa tarde...
Sentiu
certo prazer, misturado à tristeza, ao voltar à vida anterior, solteiro e
livre; mesmo para sonhar. Foi um brotar vulcânico de agradáveis lavas, um beber
lama do melhor néctar. E condicionava o seu ser íntimo. Um pouco do que nos
ficou de quando éramos macacos; uma árvore nos atrai deveras e queremos
galgá-la, enfim agarrar a liberdade animalesca e autêntica...
O
marido da senhora Doroteia tomou consciência momentânea, é verdade, desse roubo
da realidade. Enrubesceu. Ninguém soube por quê. Voltou após uma freada brusca
do 685, motorista novato decerto, ocasionando dezenas de “ei” “ui” “ai” nos
passageiros, em João. Desceu.
Desceu
do 685. Ele também era número, lembrou os números do documentos. O barulho dos
carros e dos vendedores tomou conta de tudo. A vida passa; ao redor anda-se,
fala-se, vive-se; e não se toma conhecimento da tormenta individual. De relance
sentiu isso; nesse instante foi engolido pelo turbilhão, perdeu-se nas buzinas,
tornou-se poluição.
São Paulo novembro 1977
9° - Desencontro Inesperado
Talvez
um chover no molhado, o inesperado já sendo desencontro; contudo esta filigrana
não diminuindo o susto (terá mesmo se assustado!) o susto dele.
Ia
por aí, flanando olhando curioso; resolveu transferir essa responsabilidade ao
cemitério. A rigor não resolveu, entrou no estilo maria vai com as outras pelo
frontal de entrada – mas entrada somente aos defuntos pois deveria a entrada
chamar-se saída, isto um senão do somenos.
Estava
por ali sapeando por ser gente, gente óbvio. Pensando e falando como gente do
lugar. Aliás sempre não se distinguiu pela vida a fora cultuando a língua do
lugar, importada. No geral nascemos já imposta a linguagem; depois vivemos e
não pensamos mais na distorção, o bebê fala bá-bá-bá com categoria e depois
grandinho be-a-bá sem pensar; e finalmente nos fins dos tempos viramos defuntos
e aí a língua vira pra terra não a terra a ser dita pela língua. Isto outro senão
de ótimo somenos.
Andava por
ali acolá pra
lá pra cá bestando inteligentemente
a se distrair. Se bem distração no cemitério seja dose a matar inclusive morto.
Não discutamos gostos.
Foi
quando se deparou com um túmulo grandioso esplendoroso com anjos ardorosos na
sua secura de pedra e cimento; contudo numa riqueza magnífica. E leu: Famíla
Coronélica! Entrou na capela, visitou inscrições nas gavetas – Dr. Fulano,
descanse em Paz! Sra.Dona Siclana –
morreu como viveu, um exemplo! Coronel Doutor Beltrano, que Deus o tenha! E
ainda muitíssimos outros dísticos resumindo vidas exemplares, escolas à
posteridade. Afoito fútil ou descuidado, abalançou a cabeça; saindo à rua quase
trombando com uma jovem a passar, quase a mexer com ela; não ficaria bem num
cemitério ficaria?
Andou
mais pelo mais, a olhar interessado. Agora pensando pensando. Puxa vida, se
falou, mesmo pessoas do porte dos coronéis morrem! Alembrava-se bem dessa
Família. Inclusive os seus admiravam tanto aquelas riquezas e mesmo alguma
bondade.
Mais
andou. Reviu outras capelas outros anjos e cantos de pedra, releu expressões
cheiinhas de “aqui jaz” “descanse na santa paz” e equivalentes. Quando viu, não
viu.
Viu-se
na área pobre dos pobres. Eram tumbas de cruzes, cruzes! tinha sem cruz
inclusive; eram montículos de terra; via-se lá longe o poço aos que,
desocupando por ordem da lei o campo santo, possuíam lugar garantido junto
outros ossos e esqueletos com sem vir a ser e em não ter importância com a sem
identificação – nivelados os seres que já não o são e pensavam que eram quando
pensavam. Ele pensou dessa forma que eram.
Observou
andar o silêncio entre os montículos o poço os túmulos ricos com estátuas
esplendorosas, andava sim o silêncio não andante. Um que outro movimento de
pessoas vivas a visitar igualmente sem compromisso os mortos; o sol o vento o
cheiro. Ainda pairava o fedor de velas de sebo a queimar algures; ainda havendo
flores e coroas, as flores muitas mortas aos mortos, as coroas sempre mortas a
vivificar os de fato não mais vivos...
Prosseguiu
nas observações, até sorriu ao fazer tais observações. O mundo, pensou, se
nivela por baixo. A necrópole quase morta, os vivos lá fora a trabalhar e
pensar; não sabem que os pobres se desintegram se desviram. E também os ricos,
veja-se o caso do Coronel: não é mais Coronel, ossos bem guardados por Anjos
Esplendorosos no cimento de primeira. Sorriu tristezas.
Olhou
por volta. A parte pobretona daquele rico cemitério, a saudade e mais o
esquecimento, quedavam no silêncio. Mesmo porque as visitas... eram poucas como a bela jovem da qual sentira a
fragrância perfumada até, até ela uma esporádica visitante.
Pensou.
Isso tudo mudaria a posição dos falecidos, mesmo pobres em vida e a ser
atirados no poço comunitário na morte!? Não.
Continuou
suas andanças sem compromisso; passou inclusive por cima de túmulos achatados
entre si apertadinhos, nem se sabendo a ruela em divisa! Aí se chocou; porque
não desejava pisar por cima de cadáveres por baixo da superfície sete palmos!
Pediu, mentalmente, desculpa aos mortos pisoteados (sempre temera esse negócio
de ‘alma doutro mundo’, ficava bem uma desculpinha). Não precisaria assim pedir
aos mortos ricos entre túmulos com Anjos e Santos, ruas com divisas calçadas e
tudo o mais, eles no fausto.
Agora,
naquele agora, andava sim sem compromisso, repita-se. Saía dos pobres
paupérrimos miseráveis até, de longe vendo a cidade rica dos mortos, passando
pela pequena-burguesia dos falecidos. Eram carneiras, eram lajes feias com
nomes. Quiçá também fotos dos vivos agora mortos. Flores coroas pinturas descoradas,
reparações apressadas; separações cimentadas entre si. Ficou então a pensar aquilo,
andando entremeio, ao acaso.
Leu
nomes. Os nomes nem sempre dizem nomes mas podem lembrar passados, muitos são
de fato desconhecidos a um curioso. Leu dísticos, quase sempre de fundo
religioso na crença dos vivos para os mortos. Leu fotos, amarelecidas muitas,
muitas no mostrar sorrisos nas tristezas.
Seriam
verdadeiras as expressões que os fotógrafos vivos deram aos seus mortos!
Foi
então se assustar. Viu, reviu, chegou mesmo a se agachar para examinar melhor,
analisou o retângulo de arte, até ao ponto em que se esfriou: não sabia, o João
morrera! puxa, o João. E encontra-se enterrado aqui, meu Deus! por isso nunca
mais me deparei com ele; ninguém me avisou... era bom mecânico, ótimo marido,
pai amigo. De que terá ele perecido... a foto...
Aí
esquadrinhou o celuloide do filme. Notou diferenças curiosas como rugas sem
rugas, o nariz torto, a orelhona em abano. Puxa vida, disse, embelezaram o João vivo
quando morto! Sorriu mesmo da graça. Daí melhor se assustou, prestes a chorar.
Não
pensara nisso. Era ele o João.
Marília junho 2004
10° - Altar
em Baixa
O Zé não. Não quer saber disso,
quietarrão, fica de orelha em pé, não podendo ter os cabelos em pé, calvo –
foge de casamento. Mesmo com a Maria, a Maria presente noutras Marias. O Pedro
Malasartes não se vê, decerto nas artes a brincar por aí. Nem o Lulu. Ladraria
barbaridades então estragando as bodas, ninguém de sã consciência a trazer
cachorro para brigar com outros cachorros e ficar a roçar as pernas dos convidados. Ah convidado, convidado tem de montão. Têm os só de passagem a salvar aparência pra não ferir os
parentes dos casadoiros; outros vêm mesmo, tem gente que não perde festas.
Come-se e se bebe, se embebedam alguns (ai que feiura!) Tem cachaça,
sempre tem; refrescos mas faz frio; água aos montes e o pessoal bebe bebe.
Bolachinhas, uma que outra e as crianças querem guloseimas. E se conversa.
Os causos de costume, entre o costume de se entrever; comum o reencontro
nessas horas. Conversam, banalidades amenidades oportunidades a fugir da situação,
e têm os que aproveitam aos negócios, ou não haveria economia sustentável; uma
que outra pessoa apenas no diz que diz e inclusive, por que não haveria!
inclusive no falar mal dos outros. Gente é isso.
A
festa animada?
O comum é a noiva esperar o retardatário. Ou ao contrário. Neste é o
noivo quem espera, não se sabendo se impaciente. Isto ocorrendo até às bênçãos
esponsais pelo padre. Acabaram por levar o noivo, para-casado, à noiva, ela sim
a esperar de braços abertos; ou de boca aberta? Ele aguarda então quieto. A
rigor, chato, sem-graça dirão, a rigor nem sorri aos convidados (logo a
pensar-se ser por causa do atraso dela, visto já visto ter sido levado o homem
até aos braços da noiva, então noiva, para-casada).
Traja o comum, o preto comum, a gravata comum, se bem que antes não
usando esse objeto-penduricalho, a dizer sempre “gravata? querem me enforcar!”
Sim, era gozador, agora boca fechada, como é mesmo que se diz... “é um túmulo!”
oh que lembrança tétrica e de mau gosto.
Em volta do noivo as flores. Tem de todas, todas cores, todos tamanhos,
todos modelos ou marcas, ou como será que diria um botânico? Não importa.
A gente, indócil. Aguarda o casamento, o cerimonial,
porém não se extravasa; absurdo se extravasasse. Um vem olha, outro olha
vai, se cruzam, conversam; não falam alto, privilégio apenas dos mal-educados;
sem atingir isto as crianças: meninos não têm peias na língua; às vezes indagando
coisas melindrosas a envergonhar os adultos.
Contudo vão, solenes, não se vê gracinhas, decerto os engraçadinhos
beberam cachaça além do limite... e não podem ajudar o acompanhamento do noivo
à noiva, o que devendo ser o contrário, não tem disso de o pai da noiva entregar ao noivo a moça virgem!?
ver-se-á que ela era mesmo virgem, ao menos até receber de braços abertos o macho, de boca aberta melhor dizer.
Chegam
à noiva.
Início (e fim? talvez) inicia-se a solenidade no altar improvisado,
melhor se ocorresse no templo, lá o sacerdote a caráter, quem sabe havendo a
Noite de Verão aqui inverno sem sonho, de Mendelssohn, e não como
escolha o Réquiem de Mozart. Bem, neste o padre vestido como qualquer
mortal e é mesmo mortal e com uns paramentos miúdos a dar apenas honra e
respeito à solenidade matrimonial. Os participantes, que no cortejo ainda
falavam, desrespeitosos, suas coisas mundanas, eles se afastam um pouco e por
fim se calam a ouvir o pároco.
O
padre:
--Estamos, meus irmãos, reunidos neste cerimonial a perpetrar a vontade
de Deus, para unir no sagrado matrimônio o Sr.Caco Defunto da Silva e a
Senhorita Sepultura Cemitério (no cartório no dia anterior já se estabelecera
que ela passaria a chamar-se Sepultura Cemitério da Silva, mas isto senão; o
padre:) para, diz o religioso, viverem por todo o sempre, até que a Morte os
separe etc. etc. e tal. O homem solenizado, cansado no repetir e repetir ao
público sempre ausente, cansado o homem preferiu proferir “etc. etc. e tal” o
que vem a compreender o tudo de nada.
--Senhor Caco Defunto da Silva, aceita... As indagações costumeiras,
diria “não”! estando de boca cerrada e quem cala... diz o ditado; repete a dose
à donzela Sepultura, ela não responde, embora de boca escancarada e aí o óbvio:
receberia sim de braços abertos o noivo, esposo desde então.
Nesse momento solene da cerimônia nupcial o pai da moça, deixando ser
moça, pobrezinha, o pai dela Sr.Cemitério encontra-se quietarrão, calado, mudo.
A mãe da noiva (necessário dizer que os pais do noivo não compareceram, órfão
já o nubente) a mãe olha e abarca o todo do cerimonial e do frio terrível que
faz então; vê a entrega do Caco à Cova, esta de braços abertos, não: bocarra
aberta, a engolir o amado. O coveiro toma da pá, os participantes da festa
atiram então pedra no noivo, a lapidá-lo! não, engano: terra, as três porções
de praxe; aí sim a pá, o fecho.
A mãe dela, deles agora, se não de todos os presentes ali não se precisando
os ausentes, de todos enfim, ela, Dona
Vida, então estabelece, fria, lógica, implacável quem sabe – estabelece a Morte.
A
Vida está Morta.
Marília janeiro 2006
11° - Criatura em Diabrura
Um dia exagerou um bocado o
Escrevinhador. Não que desejasse existir como Autor, já exagero; não. Criou um
personagem o qual se tornou Personagem.
Até
aqui bem. Mal. Pois não era um qualquer um, embora o autor o chamasse (para
incitá-lo?) “Mequetrefe da Silva, seu criado”. Berrou. Entraram em acordo, um
aceitando um personagem de monta, outro suportando ser apenas personagem, sem
títulos honoríficos. A apaziguar ânimos levou o escrevedor o personagem para
ver seus trabalhos; aqui se entendendo: as coisas que o escrevedor fizera.
Bem,
aí complicou – era para descomplicar a coisa – complicou a situação. Já
fechando a gaveta da escrivaninha onde a sete chaves trancava os pertences,
quando o Personagem quis contar quantos contos crônica e coisas criadas ou
construídas enfim coisas, coisa de sua idiossincrasia. Como à boa política de
amizade não fica bem negar, negou somente a gavetona, franqueando os outros
esconderijos. E claro, o autor foi executar suas altas funções: xixi cocô comer
lavar prato e cuidar da roupa; ah varrer também. Quando voltou ia indo longe a
análise personágica... Vira o todo, examinava agora a parte. Sorriu.
O
Personagem sorriu (não amarelo, matreiro...) sorriu ao rabiscador. Imediato
desandou a dar palpites, a indagar coisas, a questionar acertos, pôr colher
torta naqueles erros; chegou a sugerir abusos da imaginação do moço escritor,
passadinho de anos e lutas; no que não exagerava o Personagem, apenas a constatar
um fato.
A
seguir exigiu (observe-se o verbo!) exigiu que o autor se sentasse na cadeira
lustrosa, corrigindo posturas e fazendo o mesmo trabalhar. Na realidade, não
pretendendo sujar mais a água suja e deixar assentar a poeira; pôs-se o autor
na condição de secretário do Personagem: este ditava ele anotava sua escrita
tremida e irregular. Começando exatamente nesse ponto sua via-sacra...
Exigia
cor da esferográfica (tinha preferência por certa marca de caneta); quando a
lápis fazia afinar a ponta e depois assoprava como fosse sem querer o pozinho
na cara enrugada do autor; reclamava a sujeira impregnada na borracha de apagar;
corrigia a técnica de limpá-la, fê-lo lavar o pequeno e mole objeto e, limpo,
‘mandou’ guardar a borracha para não sujar outra vez! ah vai ser chato assim no
inferno, enfim abusos. O autorzinho aguentou. Se enroscou no papel: ora era
sulfite pesado demais, ora insuficiente no tamanho, pois não estaria nos
padrões admitidos; pegou no pé do autor: “essa folha está fedendo a enxofre!”
Começaram o passar a limpo.
Isso,
começaram. Os dois numa simbiose, parecia o Personagem o personagem das “Mil e
Uma Noites”, aquele que grudou-se na cacunda do sujeito bondoso, não cabe aqui
narrar Sherazade. Em cada erro ou tão só deslize do autor fazia pôr asteriscos
ou número em sinal para depois fazer-se observações explicativas embaixo como
nota de rodapé; sendo que algumas inclusive prejudicavam a clareza do texto.
Por fim andava tudinho a limpo, pronto para datilografia. O tal autor-escrevedor
lembrou a fome e suas altas funções. O Personagem atendeu: não tinha ele fome
(é claro, já viu personagem comer!) e também fugindo assim das altas funções do ‘letrador’.
Um
foi fazer quefazer; outro ficou revendo textos e resmungando, era bem resmungão
o Personagem.
Voltou
arrotando educadamente o autor, o que não percebeu o Personagem tão absorto ou
concentrado. Mas aí começou um novo round...
Não
desejava que fosse datilografado na Olivetti, aceitava somente Remington-12;
depois anuiu a contragosto. Seis dias gastando dedos, o minguinho tadinho fraquinho
franguinho pintinho naquelas mãos gritava e chorava, pobre do mindinho do
autor; pois a língua exagera demais no uso das letras ‘a’ e ‘s’, exatamente a
infernizar o mindinho esquerdo. Pronto, prontinho da silva.
Pronto
o meio... Começou a pegar no pé do escritor outra vez: errara demais, abusara
no apagar no remontar letras no falhar teclas (às vezes as hastes dos tipos se
enganchavam precisando desenroscar as mesmas e sujando dedos, do homem é visto,
o Personagem mostrando asco...) ah feiura! azucrinou o pobre, o pobre criador
de personagens. Assim não daria, tinha inclusive vergonha a figurar num texto
tão rasurado. Era preciso, gritou, ter vergonha na cara, na cara dele despejou
a desdita! O homem riu usando um risinho amarelo a esbanjar constrangimento e
abaixou a cabeça; porém o autor nesse momento não perguntou “o que devo fazer
então!”
Não
indagou propriamente, apenas olhando indagativo para o outro.
O
Personagem rabugentamente adivinhou: compre um computador, disse num zombar.
Arregalou
olhos o autor-mixuruca, ia falar, ele corrigiu a tempo completando: e uma
impressora. Nada de porcaria. O escrevinhador não respondeu, não sabia responder
no entanto pensou, baixinho, temendo descoberta: “que sarna de criatura!” A
Criatura fez-se de desentendida entendido entendera o pensamento e deu um
xeque-mate: compre um micro, faça um curso de informática e...
Antes
de encher as reticências o Personagem, antes que o carrapato misto de chupim
sanguessuga e político corrupto ao mesmo tempo tivesse tempo a impor-lhe
digitação correção impressão ou lhe arrebatasse o mouse ou até resolvesse navegar na internet curiosidades a
penalizar sua conta telefônica – antes disso o escrevinhador, tão pouco apto a
criar personagem, tomou a folha inicial: rasgou picotou pisou em cima dos
pedaços, atirou tudo no cesto de papel higiênico, naquela hora exalando cheiro
medonho.
Marília julho 2002
12° - Um Tiro pela Culatra
Dona Chiquinha. Na sociedade Senhora
Peixoto, Francisca Alves Almeida Peixoto, Peixoto por parte dele. De nome e
tal. Não fosse um descuido, houve o descuido, coisas em que não se deve meter,
meteu-se um garoto na vida dela, quando viu brotou... Grávida! estava realmente
grávida, embora ainda bela jovem uma vida toda pela frente criança dando
palpites, espera! dar satisfação às vizinhas às comadres enfrentar a alta
sociedade de barrigão, bah! e espera, espera de nove meses regulamentares. Pelo
menos não se deu à indignidade do aborto. Opinião do escriba sr.Restus, dela
não se sabe. Novembro, belo mês pra nascer gente, tem gente que nasce noutro
mês, ia atrapalhar agora as festas de fim de ano e mais ainda possíveis
viagens, não era mais possível.
Abriu
um berreiro o menino lá pelas dez da noite. Com ajuda do Doutor Genésio, ótimo
parteiro e melhor cirurgião cesariano. Estava livre. Ela é que estava livre. Julgou-se
livre. Mas havia um amor escondido a pedir o nenê, coisa de mãe. Imaginava o
filho já doutor, Doutor Genésio Alves Peixoto, homenagem franca ao parteiro
amigo e criterioso. A enfermeira Maria veio trazer-lhe a realidade, indagando
se queria ver o bebê. É belo? é forte? é grande? é sadio? queria saber tudo ao
mesmo tempo. Não. Ela disse que não, soube dizer à mãe que não era tudo aquilo,
menos que aquilo, falou com olhos molhados também... Havia um defeito de
fabricação as pernas os bracinhos o rosto! Não queria vê-lo, queria é chorar,
chorar todo seu drama, ensimesmar-se na sua tristeza, expulsou Maria.
Entretanto era preciso dar uma solução: como apresentar a coisa à sociedade?
Pôs na balança sua condição sua beleza suas vantagens, e agora tudo andava se
perdendo por entrada em cena de um verdadeiro monstro!
Foi
então surgir um negócio. Neste mundo perdido costumamos fazer negócios, sempre
que possível vantajosos. Não importava que houvesse perda, que alguém perdesse...
Pediu à enfermeira uma conversinha franca, com direito a segredos comerciais,
afinal proporia à funcionária algo confidencial envolvendo muito dinheiro...
Sim, disse a moça, tinha uma parturiente, duas inclusive só que uma era negra e
não servia outra branca como Dona Francisca, um pouco cansada e desgastada por
pobreza e até bela. Também menino, bem configurado, inteiro e tudo o mais.
Valia toda a fortuna que Chiquinha lhe propunha, valia sim. Fizeram o negócio.
Assim,
dona Teresa joão-ninguém levou um monstro nos braços para casa e mesmo se
espantou houverem levado a elinha simples e pobrinha de táxi para o lar
assustando seu Antônio, o marido.
O
tempo passou. Ah como passou!
Dona
Teresa da estirpe dos joões-ninguém criara com amor aquilo que era um trapo
humano, julgando ser o filho de suas entranhas. Sofrera, é claro. Somente não
podia avaliar o quanto; ficara mais feia, não mais pobre; tornara-se mesmo mais
rica em filho, pois tivera mais um além do monstrinho, somando dois a mais
alguns anteriores, fora os cachorros e gatos que também participavam do
banquete diário porque qualquer pobre é capaz de cuidar de muitos filhos e
muitos animais, todos sabem disso e todos veem isso. Agora ele o monstro era um
moço, moço não, um homem feito. Brilhante nos estudos, conseguiu um emprego
apesar dos defeitos de nascença. Estudava inclusive para ser doutor, um dia a
chegar lá, pensavam.
Apareceu
então na porta da sala pobre de sofá gasto uma senhora meia-idade. Ah, a
senhora é que era enfermeira? que bom, aposentada! Conversa vai conversa vem
entrou no assunto. Fazia um tempão precisava falar à dona Teresa... Não, Deus
me livre e guarde, nunca havia pensado conquistar o esposo de Teresa, os
presentes que dava ao monstrinho e mesmo a cadeira de rodas foram ofertados com
o coração, para o menino realmente. Embaraçoso, dizia, embaraçoso: tinha de
contar um segredo para ela, por isso se achegou... Narrou, quase matando dona
Teresa de susto, e teve coragem de narrar. Lavou a alma, tirou a sujeira lá de
dentro, disse tudo à senhora. Lembrava-se da D.Chiquinha? o filho de Teresa
tinha tudo que um ser humano precisa, era rico e pensava ser filho dos Peixoto.
Dona Teresa chorou, era muito para ela. Curiosidade tinha em ver seu filho,
porém não queria trocar não, amava o monstrinho, seria um Doutor Monstrinho,
era já superior à toda gente conhecida, superior em inteligência em moral em carinho;
ela amava-o como filho pensando ser seu, amava-o agora por amá-lo. Contou mais
Maria: recebera fortuna para trocar e se calar no crime que praticaram. Gastara,
perdera tudo. Estava ali a mando da consciência, cobradora, terrível,
encarniçada: poderia merecer perdão!
Mas
quem – amando gatos cachorros crianças e até monstros – não saberia esquecer?
Ribeirão Preto maio 1991
13° - Siesta
Não
faz muito tempo minha viagem a Cuernavaca, ou faz. A impressão, entretanto,
sugere-me estar ainda em seu meio, o coração pulsando forte e rápido, como a
querer se arrojar para fora do peito... E não é de medo, não é também por
misticismo, porque eu não sou crente. Trata-se de uma sensação indescritível; talvez
apenas por causa de minha velha irritação diante da vagabundagem por definição.
Explico-me: não tolero ver alguém, mesmo que seja esse alguém eu próprio, a
nada fazer, a fugir do quefazer. Digamos eu ser abusivamente exigente. Todos
sabem dessa minha falha de caráter; o não perdoar ociosos. Imaginem, portanto,
como foi a reação que tive ao conviver com “los cornitos”.
Cheguei
lá num dia trinta de junho, fim de semestre, dez dias antes ter que efetuar o
pagamento do aluguel de casa; guardei bem esse senão, pois pretendia ficar tão
somente uns cinco ou seis dias a tempo de voltar para pagar meu senhorio, não
infringindo a lei; sou legalista, todos sabem. Porém...
Cheguei
dia trinta tardezinha, para os habitantes era sempre cedo. Nem tanto, eram umas
três e quinze, o sol arrebentando mamonas, se bem que lá não tenha visto um pé
sequer do vegetal. Calor calor de matar, suor a escorrer por entre indevidos,
molhando a minha roupa fedorenta; não sabia feder mais o cavaleiro, eu, ou a
cavalgadura, um cavalo velho e pisado emprestado pelo compadre João; isto
entretanto é um senãozinho, vamos ao senãozão. A lógica, não apenas em vilarejo
com foros de cidade perdido na Hispano-América, mas a lógica em qualquer lugar
possível do mundo era procurar uma hospedaria, menos para dormir – não achava
que fosse hora de sono – mais para um banho vestimenta limpa, enfim para virar
gente decente. Aí começaram os sustos. Vou dizendo logo sobre a expectativa do
susto, porque levei susto a todo momento, aquele sendo o primeiro da série! Não
tinha hospedaria... Digamos que não houvessem cinco estrelas, uma bastaria à
minha pequenez de viajante; no entanto sequer existia hotel ou pensão, uma casa
de boa vontade a fornecer descanso (e banho, gritou-me a consciência despertando,
quase envolvida no clima de Cuernavaca); não existia. Ou por outra, existiria,
talvez, bastando que pedisse informes a um transeunte qualquer, na cidade pequena
todos sabem onde ficam as coisas. Todavia não encontrei transeuntes disponíveis;
e não encontrei transeuntes! Que seja aqui o segundo da série de sustos. Ninguém
andando por lá. Vi, entretanto, um senhor barrigudo (dali em diante saberia
somente da existência de barrigudos, o ventre estufado por todos os cantos; e
isto seria o terceiro susto; deixarei de numerar os sustos que levei, ou
incomodaria deveras a matemática, tal o exagero de sustos); o homem,
meia-idade, fechava a porta do seu estabelecimento comercial. Corri esbaforido
para o vivente, buenas tardes, assoprei num mau espanhol; meneou
simpático a cabeça, despejei-lhe meu drama do banho do cansaço pela viagem, da
estalagem. Respondeu-me sonolento: “não lhe posso informar, está na hora da siesta”;
e fechou-me a porta na cara, sem contudo eu o considerar sem educação. Todavia
tomei o quarto susto (ó, perdão, havia prometido não enumerar sustos). Voltei-me
para a margem oposta da rua, vamos supor que fosse aquilo rua, a busca de outra
porta aberta. Não achei.
Vi
no entanto um senhor de costas, entrando por um corredor, corri até o mesmo,
pedir-lhe a informação. Virou-se, já no fundo do corredorzinho encardido.
Parou, coçou o queixo, esfregou os olhos avermelhados. “Não, senhor, não sei;
não sabe que agora é a hora da siesta?” Sumiu engolido pelo corredor.
Não desisti. Não podia desistir. Andei.
Andei
andei, deparei-me com um garoto. Segurei-o, visto correr desandando para não
sei onde, pus minhas dúvidas, pedi informações. “Pensão? que é isso? não sei, mamãe
não quer-me longe de casa na hora da siesta”, escapuliu, sumiu na esquina.
Porém nesse instante percebi uma jovem senhora, recolhendo umas peças num varal.
“Não devo falar com estranhos... e é a siesta, além do mais”; bateu-me a
porta! Daí aproximei-me de um senhor idoso, atrás de uma bengala torta; fui
conversando consigo, ou por outra, fui-lhe pondo meus dramas, pedindo informes
da vila, atrás de si, pois o velho não parou, apenas assoprou algo como “nada
sei, agora, só depois da siesta”, desisti do velhinho. Nisso notei certa
pessoa pela janela entreaberta, fiz-lhe chegar minhas súplicas, já eram súplicas;
“o que o senhor está fazendo na rua, se é hora da siesta?!” foi o que
respondeu. Mais perguntei, não obtive resposta. Deixei o local, vencido.
Vencido,
cansado, desanimado, fui na direção duma praça, um largo com alguns bancos
velhos e abandonados; onde deixara meu veículo. Este entretanto andava longe de
meus problemas, ingeria suculento capim, crescido na rua descalça. Foi quando,
à falta de melhores sustos, tive um definitivo: encontrei um sujeito sentado,
como que a me esperar. Parei frente à criatura. Cumprimentei-a, constrangido,
esperando me repelisse em nome de todas as siestas que houvessem. Tomei
então novo susto. Ele ajeitou a barrigona (de muitas cervejas, pensei
maldosamente) numa cinta usada, raspou a garganta; e sorriu-me.
--Eu
sei que é hora da siesta – disse o morador – contudo o amigo requer
descanso, banho, e sua montaria também o repasto. Vou levá-lo a uma ótima
hospedaria. Sente-se um pouco, a descansar, antes de mais nada; a caminho irei
mostrando minha querida Cuernavaca.
Tive
ímpetos inclusive de abraçá-lo, beijá-lo. Não o fiz. Apresentei-me, ofereceu-me
também sua mão direita, disse ser Juan.
Diria,
por mera maldade, Juan ser tagarela; quase não me deixou falar desde
aquele momento; parecia mesmo que me adivinhava o pensamento, poupando-me nas
perguntas de praxe. Mentalmente agradeci-lhe a solicitude e boa vontade; isso me
parecia uma compensação pelo descaso até aí apresentado pelos cuernavaquitos, “cuernitos”
corrigiu-me Juan, mui apressado a ser justo.
--Nós
nos chamamos cuernitos; se não está certo dentro de sua gramática e da
lógica da linguagem, é pelo menos um simpático conjunto de sons, que usamos
para nos distinguirmos dos estranhos, os quais lá uma vez na vida e outra na
morte nos aparecem. Nosso povoado, insistiu Juan, é tão velho quanto o
mundo, as gerações que se sucedem preferem ser “los cuernitos” (carregou
meu informante) e isso vem desde os índios; como o mais, somos todos sem
distinção descendentes dos nativos; minto, houve um doutor gringo, morto por
uma febre que nossos lagos lhe ofertaram... e também um delegado de polícia que
aportou por estas bandas, europeu de nome, o qual o avô de Paquito,
quando jovem, esfaqueou num dia de bebedeira. Ah, sim, vieram muitos
castelhanos também, eles semeando a valer filhos e a língua de Espanha e se
foram; restam deles todos ossos de três no cemitério, um sendo padre; os outros
estrangeiros como falei partiram. Posso esclarecer ao amigo: não suportaram Cuernavaca!
nome devendo ter dois cês no ca mas pode deixar um só. Há uns quarenta
anos, caso alguém me falasse nestes termos, matá-lo-ia. Hoje, como vê, regenerei-me...
Fiz
“hummm” de aquiescência ou de susto contido. A fugir das possíveis nuvens,
indaguei de quem era o palácio... um que víamos na praça. Não se fez de rogado Juan.
Nisso levantou-se falando.
O
palácio foi de d.Segundo, homem austero; um político desta localidade. Faleceu
faz tempão; está enterrado perto de minha residência, a qual irei em breve
oferecer (quis pôr a colher torta no meio do discurso de Juan; indagaria
se não tinha medo a morar perto do cemitério com d.Segundo; achei porém exagero
na intimidade; me perdi em mim mesmo nestas conjeturas; quando acordei, Juan
concluía sobre a mansão:) agora, disse meu cicerone, o palácio está abandonado.
O povo simplório acredita que esteja assombrado; ora, garanto-lhe que don
Segundo vive no cemitério e não aqui.
“Sim”,
concordei. Já andávamos, devagar, no entanto andávamos; devagar na linguagem de
meu cansaço; Juan ia lento, palrador; pudera! com aquele ventre...
--Para
lá – mostrou o homem – além da árvore
copada com flores amarelas, morei um dia... Ah, tenho saudades.
Ao lado de meu casebre, eu era pobre nesse tempo, residia a encantadora Manita.
Quando penso nisso, tenho vontade voltar aos velhos anos, mas quem pode contra
o tempo? (assenti; prosseguiu). Ela era bela; hoje está um pouco acabada, nem a
beleza resiste ao tempo. Assim mesmo é bonitona, simpática. Não fosse o
adiantado da hora, é hora da siesta como sabe – nós iríamos vê-la; está
dormindo. Também ela nunca se casou. Já nesse tempo gostava de mim. Não se
espante, moço, eu não era gorducho como agora, porém espigado ágil trabalhador;
e pobre, ainda mais pobre então. Ela era rica; o pai. Um dia o velhote deu-lhe
uma surra (minha Manita nunca me contou, foram os outros; ainda mais que
apanhara por minha causa!) Indignei-me, fui tirar satisfação, antes tivesse
roubado a moça, pronto; não, fui tirar satisfação com o pai dela. O homem me
recebeu de garrucha em punho; apontou-me... Agora posso dizer-lhe que tive
medo; na horinha resolvi correr, encontrava-me desarmado... Foi quando me mudei
para onde resido agora, longe, como saberá. Daqui pode bem ver minha casa, lá
por detrás do primeiro morro, onde se nota o muro do cemitério, perto portanto
de d.Segundo, como falara antes.
Limpou
meu companheiro um suor que escorria da testa, com as costas da mão esquerda,
peluda e gordinha. Achei certa graça na postura. Nada falei, não abusaria da hospitalidade.
Retomamos o andar lento dele, aflito meu. Retomou o matracar. Falava com
facilidade e era de boa vontade.
Aqui,
mostrou, mora um personagem curioso: d.Fernão. Espécie de mandachuva no
povoado. Embora comerciante, nada nada honesto, discursa brilhantemente, convence
o populacho. Será, creio, escolhido chefe oficial da comunidade neste ano. Uma
forma de prefeito. Substituirá o haciendado d.Pedro, assassinado faz
três meses, morador agora pertinho de d.Segundo, no túmulo quarenta e seis.
Sopraram por aí que fora d.Fernão quem o mandou matar; ninguém provou nada; eu
vi quem o liquidou, andei falando a todos que não culpassem o comerciante, o
qual nada tendo que ver na coisa, ninguém me ouviu. A bem da verdade, moço, don
Fernão gostou imensamente do desaparecimento do rival; não só ele, muita gente
apreciou: o fazendeiro era odiado por questões políticas. Estou garantindo,
pode me acreditar: nunca sequer conversei com nenhum dos dois, apenas observo
sempre os outros falarem; e vi com meus olhos o assassinato; o matador
chamava-se Pedro, também, gente de fora, como o senhor. Daí o fato dos
habitantes temerem estranhos na vila. Cuide-se, homem!
Assustei-me
pela ameaça. Não achei por bem demonstrar o temor. Antes, e para desviá-lo do
embaraço que me atingia, antes mostrei uma qualquer coisa, a pretexto de saber
(o que desejava era mais um banho e comer algo). Que tal comermos uma
coisiquita, falei, antes de chegarmos à hospedaria?
--Garanto-lhe,
meu amigo, lá não sentirá jamais fome. E o descanso é garantido. Temos tempo
bastante, insistiu Juan. Além do mais, homem, o que comeria agora,
quando todos estão em siesta!
“Ahn”
respondi para dizer presente. Ele prosseguiu, imperturbável, como se não me ouvisse.
--Ademais,
é costume em Cuernavaca deixar estranhos passarem fome durante a siesta.
Ninguém faz nada neste tempo, até à boca da noite, quando acorda o povoado.
Melhor chegar antes da siesta, ou vir à vila depois da siesta. Aí
sim, encontra a todos solícitos; e comerá, e dormirá, se quiser. Homens, mulheres,
crianças, velhos, moços, válidos e desválidos; todos os profissionais e
artífices; sãos e doentes – todos fazem a siesta neste momento. Por isso
estou levando o amigo para a hospedaria, a única garantida. Irá convir comigo,
então: ela é silenciosa, respeitosa mesmo. Hum... olhe quem está a vir em nossa
direção: o Pablito!
Olhei
interessado, sentia a ausência de todos, me incomodava estar apenas com Juan,
muito embora o senhor barrigudo fosse mui amigo e prestativo. Para meu gosto,
entretanto, falava demais, enquanto que de minha parte preferiria banho e cama;
torcendo por andarmos mais rápido; meu companheiro sequer tinha pressa. Sorriu
à passagem do amigo Pablito.
--Mano,
como vai? desde meus velhos tempos, quando fui tirar satisfação com o pai de
minha garota, não o via! que agradável encontro. (Parou, como escutando o
outro; depois respondeu Juan:) Exatamente, está fazendo esta semana
trinta anos! Viu como Manita ainda é bela! Ia levar aqui o amigo,
chegado recente a Cuernavaca, para vê-la, porém está na siesta meu amor.
E que me diz de d.Segundo? (Ficou novamente a ouvir, franziu a testa, balançou
a cabeça e completou:) Acho que você tem toda razão. Agora queira dar-me
licença, vamos indo, meu acompanhante anda cansado pela viagem, nesta hora é a siesta,
ninguém para lhe oferecer um banho e descanso. Vou levá-lo à minha casa. Depois
você passa por lá, para conversarmos um pouco. Depois da siesta. Olhou-me.
--Parece
assustado, meu caro.
“Sim”,
respondi-lhe. Entretanto não tive coragem a dizer que era por observá-lo falar
sozinho, pois eu não vira nenhum Pablito. Ele me adivinhou o pensamento,
creio.
--Pablito?
ora, passou tão depressa, nem lhe apresentei o rapaz convenientemente. Quando
for lá em casa, você estará também comigo, conhecerá que excelente pessoa é.
Gostará dele. Mas vamos andando, deve estar cansado, não é mesmo?
Concordei.
Todavia o assentimento não eliminava meu temor. Devia, supus, Juan estar
meio louco ou variando. Quem sabe, imaginei, ele fosse o único acordado durante
a siesta em virtude da demência! visto os outros dormirem, a cidade era
uma imensa siesta. Portas janelas portões fechados; observei inclusive
não ouvir latidos; estariam quem sabe os cães numa siesta? quanto aos
gatos, vivem o estado normal na siesta sempre. Entretanto algo pôs-me em
consciência, nas minhas ruminações; é que passáramos tão encostados a uma casa,
dessas que se limitam com a calçadinha de rua, embora lá não houvessem passeios
públicos e todos deveriam andar realmente no meio da rua; eu dizia que
passávamos tão perto de um quarto, dando a ouvir o roncar de um morador cuernito.
Um verdadeiro serrote roncador! cutuquei meu informante, esquecido de que
pudesse estar louco varrido; ele me olhou sorrindo, também havia notado o
dorminhoco roncante. Aí segredou-me:
--Buenaventura.
Sabe o que faz antes da siesta? respondi não saber; sabe o que fará
depois da siesta? fiz com a cabeça não saber também. É muito simples:
dorme. (Arregalei-me todo, num susto menos incisivo que os anteriores). De vez
em quando acorda, pra fazer o que deve, vai ao banheiro, fuma, bebe um vinho escondido
de sua velha; e isso não dura mais que cinco minutos, se tanto; de resto ele
gasta o tempo a dormir. Agora, é claro, é a siesta. (Piscou-me ao fazer
a confidência; depois continuou andando; eu o segui).
Abanou
a mão a alguém, não vi por descuido decerto a pessoa. Depois prosseguimos nossa
caminhada. Eu desejando que fosse mais curto o trajeto, os pés com bolhas me
ardiam. Foi quando me lembrei de meu pobre cavalo. Falei disso ao meu
anfitrião.
--Que
é isso, companheiro – disse Juan – na hospedaria não precisa cavalo.
Aliás, montarias não entram na minha casa! (Pareceu-me indignado pela minha
lembrança; e continuou:) além do mais, em Cuernavaca ninguém roubará seu animal,
não há por aqui o profissional lembrado por todo planeta como ladrão de cavalo.
O último deles, um tal de Rodolfo, ficou na cadeia bem uns três meses; e agora
não necessita cavalos: mora na minha casa, onde é muito feliz. Cavalos? ninguém
neste lugar usa montaria, todos fazem o que devem a pé; para cargas têm os
burricos e mulas. Sossegue quanto ao cavalo; a propósito, como se chama ele?
“Formoso”,
respondi. Andamos mais, parecia-me não chegar nunca. Perguntei se estava ainda
longe.
--Longe?
não há longe aqui em
Cuernavaca. Se um fulano cuspir e for feliz, alcança o
extremo da vila com a cusparada. (Não achei muita graça na piada de Juan,
sorri por educação; suponho que não acharia graça de nada, queria água e água
para banhar-me, cama limpa e decente para esticar-me; que fosse lá na casa de
meu amigo palrador, embora estivesse acostumado com hotel de pelo menos duas
estrelas; sempre sentira ser o hotel minha casa numa viagem; acordei para Juan;
ele continuava uma dissertação àcerca de não sei o quê:) e nisto – falou –
tenho lá minhas dúvidas e minhas razões. Agora, don Boanerges, esse que mora aí
nessa casa branca, é muito mentiroso. Em cinco minutos de conversa com o homem,
você já saberia disso sem que eu lhe contasse; daí eu dizer que tenho razão.
Não vou provar agora, agora está na siesta. Olhe lá (indicou um casebre
em ruínas, olhei) a casita vermelha do pobre Júlio Romero. Agorinha ele está no
quarto; posso até lhe afiançar: dormindo de bruços, vejo sempre o velhote a
dormir assim, fazendo a siesta. Se fosse após a siesta, iríamos
conversar um pouco com meu amigo. Sim, é meu amigo desde uns quarenta anos; eu
já era mocinho de namoro quando ele não passava de uma criança; assim mesmo nós
nos dávamos bem. Foi ele quem me levou o primeiro recado de Manita...
Ah, por que fui lembrar-me agora dela! Era linda... (Interrompi deseducadamente
Juan, temeroso que contasse recontasse o frustrado namoro, a briga com o
pai dela e imediata mudança do jovem Juan para a atual residência, local
para onde nos dirigíamos; e para despistar mostrei a ele algo na direção do poente).
--Lá?
ora bolas, é o sol que está a se pôr, nunca tinha visto! Estamos no fim da
cidade, como o sol encontra-se no fim, se pondo no horizonte! (Estava muito
emocionado, percebi). Note que já andamos toda a rua da igreja, Cuernavaca só
tem duas ruas, a outra é inexpressiva. Esta é importante porque tem a igreja,
mais capela que igreja; onde don Fabiano vem dizer missas todos os meses; um
santo, ele é um verdadeiro santo, assisto a todas as missas que reza. A próxima
será domingo que vem, você constatará; nesse dia de missa todos estarão na
igreja, inclusive d.Segundo, d.Pedro, Rodolfo e mais uns companheiros meus, que
irei apresentar-lhe. Um dia aconteceu uma coisa terrível no ofício religioso;
como todos sabem, sento-me na primeira fileira, quase embaixo do púlpito, para
ouvir melhor a pregação de don Fabiano; deixo o lugar ao lado, onde vem se
acomodar minha Manita; pois é, em certa missa ocorreu um terrível engano
– um grandalhão chamado Mendonza, sequer me notou, sentando-se por cima
de mim! olhei horrorizado à Manita; ela entretanto via fixo o padre, eu
espirrei-me dali como pude, envergonhado. Depois disso, saíram todos do templo,
Mendonza acompanhou minha amada e... pasme, meu caro! foi fazer com ela
a siesta! Permaneci dois meses sem querer vê-la. De sua parte, ela me
ignorava, por mais que eu gritasse. Em razão disso ando macambúzio; e inclusive
parei de falar (nesse ponto levei meu maior susto entre os sustos, até naquele
momento: se Juan estava sem falar pelo ciúme, o que aconteceria pra cima
de mim, caso passasse a lembrança da perda de sua Manita! Assim conjeturava,
quando o homem me parou:)
--Espere
aí, a cidade se acabou, já estamos na área de minha residência atual. Olhe para
trás, observe o quanto andamos, veja Cuernavaca, que linda!
Meneei
a cabeça num sim, hipocritamente, porque achei o povoado feio, inexpressivo; além
de não ter conhecido seus habitantes, em não ser por referência daquele tagarela.
O que mais ouvira então foi a palavra siesta. Donde ajuntei comigo
mesmo: ali só existiam dorminhocos, ociosos; restava apenas Juan naquele
mundo dos vivos dorminhocos, mortos se formos mais cáusticos. Olhei ao meu
amigo condutor. Parecia ter-me adivinhado o pensamento.
--Sim
meu caro, viventes mortos, para a vida mortos, porque não fazem outra coisa se
não dormir. Sua vida é uma siesta. Felizmente eu estando aqui na cidade,
de plantão, para mostrar as belezas de Cuernavaca. Um dia você conhecerá também
a beleza de Manita. Isso acontecerá depois; e conhecerá don Segundo e
don Pedro e todos os outros, que moramos nesta serena hospedaria. Como falei
anteriormente, d.Segundo reside encostado de minha casa: a dele é quarenta e
cinco; a minha, Alameda da Saudade, o número está pregado na cruz; frente ao
quarenta e cinco.
Ribeirão Preto
maio 1986
14° - O Cadáver
De
repente se pegou numa situação nunca antes experimentada, numa sensação má, a
consciência culposa quiçá culpada. E ninguém pode com a consciência; até a
consciência não se pode vencer a si mesma, em não ser se autodestruindo.
Fazia
seu trabalho normal, comum ao menos, a se embeber na atividade, a atenção absorvida
no barulhinho chato da ventoinha do computador, quando apareceu, vivo, vivo é
claro ou não seria morto após seu repente tirando a vida dum ser! Aí ssustou-se,
a fugir da compenetração na qual se encontrava; e no susto, num átimo no
impensar – fizera o serviço! Desconhecia realmente que tivesse tanta força:
derrubara violentamente o ladrão, pensou na rapidez própria do pensamento ser
um ladrão; ladrão é que entra na casa alheia à sorrelfa; teria sido flagrado; e
não se fica a perguntar as intenções, não indagou de fato: agiu. Agora, naquele
então, jaz o corpo estendido no chão de sua sala de trabalho!
Que
fazer!? Não queria parar seu fazer na máquina burra e obediente, não tinha mais
escolha, puxou o plugue, cobriu o micro, ainda enfiou no apressamento os papéis
semiprontos na gaveta, a olhar com desconfiança ora a janela ora a porta ora os
sons dos ouvidos, ora o morto, mais no morto se fixava num abestalhar de
espírito. Tem momentos que não sabe o ser humano como agir, o que fazer; é o
inusitado, de longe perdendo o ato para as experiências mais comezinhas, em sua
irresolução.
Que
fazer!? qual atitude tomar na situação esdrúxula, durante noite alta.
Apurou
ouvidos, ouvidos apenas os cri-cris, toda gente dormia.
Aí
começou seu drama.
Noite
insônia rolamento na cama solitária.
Primeiro
tentou escamotear, ao menos a diminuir o mau impacto. Era preciso descartar o
crime; não, o crime era o crime, impossível deletar o crime como se apaga no
computador um documento indesejável a se ignorar ou seja ele comprometedor...
Depois pensou melhor para não ter de ficar pensando e remoendo, como sabia a
sobejo ficaria a curtir naquela indigitada noite. Pensou sumir com o corpo.
Raciocínio simples, ao criminoso – onde não tem a prova do crime não existe
crime. Havia sim, ninguém tiraria de si, ruminaria muito ainda até acalmar a
sua consciência cobradora; sabia de sobra que era desse jeito.
Mãos
à obra.
Pesou
acontecimentos no cineminha da mente, pesava-lhe o ato de morte, o cadáver ali
às suas vistas pra não deixar esquecer. Cumpria esconder o crime, única forma à
sociedade exterminar o crime. Empurrou o morto pra lá, olhou escutou espreitou
em volta, puxou depois mais pra cá. Calculou demais alvitres: como escondê-lo
na geladeira; inclusive evitando comprometimento por odores... O refrigerador
já cheirava maçã e outros alimentos, além do cheiro ‘natural’ pela falta de
limpeza mais assídua; e ficar ainda por cima nesse por baixo com exalações
cadavéricas! E se abrissem a porta da geladeira... não, essa hipótese não tendo
cabimento pois ninguém visita na madrugada silenciosa. Além do mais já não encontrava
a chave do cadeado fazia tempo a fim de abrir a casa para visita possível e
portanto não abriria mesmo a nenhuma pessoa. Imediato pensou como surrupiá-lo
da visão noutros lugares, arrastou devagar móveis, removeu objetos – não sabia
esconder, só matar! (assustou-se ao pensamento). Por final achou um vão,
empurrou o destroço nele, cobriu às possíveis e indesejáveis vistas doutrem.
Deitou-se.
Não a dormir, a rolar a calcular uma forma ideal pra desfazer-se daquilo,
melhor seria realmente não ter matado! A insoniar, a ouvir os barulhos dos
retardatários passantes na rua e a se preocupar e temer envolvimentos... Assim
foi aquela noite, cujas cobertas o sol da manhã retirou.
Levantou-se
para ver, rever, a prova do crime escondida onde a escondera. Daí levou um
susto maior: desaparecera o morto!
Depois
tomava sua refeição matinal como fora máquina automática; se pegou a passar
manteiga na mesa não na fatia de pão; ingeriu café sequer sem prestar atenção
no sabor – só fixava o pensamento no morto e no desaparecimento do morto.
Debalde argumentava no seu interior em se falando o absurdo que é o
desaparecimento de cadáveres, incomum ou impossível. Ruminou mais, mais se cuidando
com a boca a fim de não se trair com voz alta. Olhava a desconfiar de tudo
agora.
Agora
tendo não apenas um problema: a morte provocada por suas mãos (olhou as mesmas
com vergonha) e a questão do sumiço da prova da morte.
Todavia
isto não era um bem! imaginou-se frente autoridades “confesse, haver matado!” e
seu advogado “não existe prova contra meu cliente: onde o cadáver?”
Acordou
para o hoje do agora. Sentia-se na opressão e no crime, mesmo tendo
desaparecido o morto. Olhou entretanto pela grade. Lá fora um que outro a
passar, enquanto que do lado de cá era a prisão o tolhimento das liberdades.
Deu-lhe uma sensação de pequenez, sentindo-se como qualquer prisioneiro no
mundo, embora a ausência do objeto do crime; porque não existe melhor gradil que
uma consciência pesada!
Aí acordou também para o instante, no
instante mesmo em que o serralheiro chegou a sorrir para cortar os ferros do
cadeado, anulado este com chave perdida. Não teve coragem bastante a dizer ao
profissional que houvera morto o morto, livrando-se também de seus gritinhos
irritantes na orelha e a lhe sugar o sangue; nem a dizer para ele como desaparecera
o cadaverzinho, quem sabe se não desmontado pelas formigas e levado em partes
ao formigueiro. Sorriu ao libertador com serra de aço. Num alívio, óbvio.
Marília outubro
2004
15° - Mi Pátria Amada
Amado Persona Non Grata:
Sei
perfeitamente como se sente nos últimos tempos, tempos ásperos como nos velhos
tempos... por estar agora na relação dos filhos ilegítimos da nação que você
adotou para que ela o adotasse. Outrossim saiba, em nenhum lugar é lugar para
clandestinos. Somente os amigos íntimos teriam condições para julgar o que meu
ilustre companheiro passa neste momento incrível; não insuperável, alerta meu
patriotismo ao patriotismo seu perdido no estrangeiro; mas incrível momento, à
primeira vista, por que passa nossa pátria e por que geme nosso sofrido povo!
Imagino o que sofre o irmão aí, desconhecendo
tudo o que acontece nesta praça de guerra.
Isso,
querido Persona – nossa Amada Pátria virou praça de guerra. Seu cheiro é o
cheiro da pólvora. Sua cor a cor do sangue. Sua fala é o mesmo que a fala do
ai-ai nas dores.
A rigor, ela se tornou ilegal. Tão clandestina no destino do planeta
quanto você, filho perdido na ilegalidade estrangeira. Virou matéria jornalística
de primeira página à classe rica dos ricos países, para quem nos tornamos motivo
de sátira. As nossas dores suplantaram as bombas do Oriente Médio e também as
intrigas mundiais, que costumeiramente são para os jornalistas desesperados no
sábado sem notícia o ganha-pão. Pois bem, ultrapassamos mesmo nossa expectativa
em sermos importantes no mundo, embora sendo apenas um porto de exportação de
bois magros ou de qualquer vegetal, que nosso povo não come por pobreza e vende
ao mundo rico esbanjador. Hoje exportamos notícias, fatos de primeira página! viramos
de uma hora para outra importantes e lembrados.
Mal
lembrados, a bem dizer.
Então – enquanto o enxofre a sangria a dor nas ruas – lembram os jornais
registrar nossa pobre história rica em acontecimentos semelhantes aos de hoje,
na ‘revolução’ do dia, elevando o herói de plantão. Dizem que o General Rodriguez
tomou as rédeas e jurou a constituição, despachando o General Moreno para
outras plagas, livrando o país da ditadura para tirar o povo da fome do
analfabetismo e do desemprego. Num átimo iremos à plenitude democrática, estouraremos
a estatística no PIB na renda per capita no emprego farto, zerando a
mortalidade e a doença! – tudo citado
por fontes limpas dos novos governantes. E inclusive no usar a fala oficial, os
periódicos querem satirizar nossa Pátria Amada.
Então, repito, historiam os fatos contando como foi a fase Moreno.
Arrasam-no, destroem seu povo ingênuo, chafurdam por cima das nossas leis,
cospem inclusive na religião da gente! Não querem informar, querem sujar.
E sujam nossos irmãos na pessoa de Moreno. Conspurcam seu nome dizendo
que legitimou um regime com um golpe ilegítimo, prendendo o presidente General
Castro.
Castro fora um monstro. Quem lê os órgãos da grande imprensa, opta pela
configuração de Castro-monstro. Aí resumem a vida no tempo do generalíssimo
Castro, uma sub-vida; Castro, para essas fontes, mereceu o desprestígio mundial,
pois tomara violentamente o poder num governo legalmente constituído: o do presidente
Ramires.
O
General-Presidente Dom José Ramires havia sido eleito, após séries de
falcatruas, praticando ele próprio muitas atrapalhadas políticas, quando sofreu
o golpe de Castro; um golpe merecido, já que extraíra o dinheiro e a dignidade
do povo, desde a longíqua ‘revolução’ de primeiro de abril, que propagaram como
sendo em 31 de março, quando o General Ramires depôs o General Barrientos.
Assim a imprensa mundial fabricante da Verdade chega à fase brilhante de
Barrientos, deposto e morto pelas tropas de Dom Ramires. Juan Barrientos foi um
santo para a santa imprensa: nada fez de mal em um ano e três meses governando:
igualmente nada fez de bem. Um presidente ‘nadista’. Mesmo assim acabou no
calabouço de Barrientos antes da tortura e morte. Com justiça, afirmam os
articulistas, em vista haver feito o mesmo ao saudoso General Villiegas.
Dom Pero Villiegas, chegara ao poder quase analfabeto num país descalço.
Latifundiário (marca registrada de todos os antecessores apontados, comentam as
agências noticiosas; e de todos os sucessores) pretendeu fazer de nossa terra a
terra de um só dono, imensa fazenda de gado; e tornar nosso povo o servo da
gleba. Tendo conseguido. Ainda estaria no poder, não fosse aparecer Barrientos.
Mas o século também se acabara. Justo se acabasse um país-latifúndio;
ou, antes, se acabasse o latifundiário-mor. O General Villiegas envolvera o
General mandante da época – Dom Pedro Ibarra, que ao perder a posição de mando
não foi assassinado, fugiu a tempo. Como afugentara ou eliminara o antecessor
General Peres; o qual promovera revolução contra Dom Fernandes, igualmente
General. E foi dessa forma com os generais Padilha, Romero, Bienvenido e muitos
outros mais desconhecidos pela História e
até pela Grande Imprensa, antes
durante e depois em que o nosso povo
andava descalço e faminto.
Não sei se você, amigo Persona Non Grata, concorda, não comigo (os
amigos costumam por costume acatar e não atacar amigos) porém com os jornais
dos países ricos pra quem enriquecemos mais com nossa fome nossa ingenuidade e
com distrações sãs a ofertar a Pátria Amada como praça de guerra na fumaça
fedorenta o vermelho a manchar ruas ao som dos gritos das vítimas. Toda uma
nação vítima, aberta à curiosidade; quem sabe se não objeto de apostas nos
clubes grã-finos, objeto de escárnio geral.
Gostaria nesta hora de poder indagar-lhe
diretamente. Entretanto, você clandestino, somente contando com essa grande
imprensa; eu clandestino em nossa pátria amada, escondido ouvindo tiros e
gritos na praça, torcendo que venha um general (por que não o General Dom
Ricardo Salvador?) a salvar-nos da sanha do General Rodrigues... Além do mais
estou faminto descalço desempregado, a morrer de sub-renda per capita. Amigo, que venham a nós os generais salvadores!
Ribeirão Preto fevereiro
1989
16° - Diário de
uma Suicida em
Fase de Publicação
Acho que nunca serei mais confidente. Vou deixar minha profissão, pedir
aposentadoria, ficar depois nas praças como pessoa velha comportadinha. Direi
já o porquê desta inabalável decisão. A Joana.
Sim.
Não uma Joana qualquer, porém minha amiga Joana; o que é diferente.
Acredite não acredite, se quiser, elegeu-me confidente delinha pro que
desse e viesse; faz mais de ano. Porque antes eu era tão somente igual outra
pessoa, dessas que temos de aguentar e conviver pra conviver. Um belo dia
(força de expressão, chovia a cântaros, semelhante hoje) me vomitou seus
poréns, deu liberdade a seus uis; e confesso, agora sou eu que confesso:
passou-me a depressão dela; não me largou mais.
Então
– sem querer fugir, fugir é covardia, pensar fugir de um drama como o que ela
vivia – então mudei-me de Santos, onde
estava gozando as férias, ela também
em férias; fui a São Paulo, ela também; depois pra Campinas, ela igualmente; ainda
mais tarde vim pra cá, ela não, ficou em Campinas, sem morar. Quer dizer, tinha
residência cep e telefone lá, mas ficou daí por diante virolando por aí, onde
houvesse rodoviária aeroporto táxi. Juntou o desquite os filhos atrapalhados da
cabeça cada um de um pai diferente e ainda outrinho no orfanato, adicionou as
dúvidas e dívidas sacanas, abandonou emprego fugaz pelo desemprego constante e
certo – aí fugiu, fugiu ela, não eu.
Pensa que foi nesse ponto que deixou-me em paz? Negativo. Foi nesse dito
ponto que me nomeou ministro plenipotenciário de suas dores, ministra, se ficar
mais sonante. O correio então passou a fofoqueiro oficial, num leva e traz infernado.
Dia nove, oito após minha vinda para estas bandas, chegou a primeira
carta. Passou por sobre todos meus problemas e sapecou um ultimato: “Estou em apuros. Não tolero a
situação, mato-me!” Realmente não pôs exclamação, porém foi a única mentirinha
que tem nessa frase, acrescentei agora para dar mais expressão e também
esclareço hoje para não passar por indivíduo mentiroso. Apavorei-me, perdi o
sono, quis ir ao seu encontro, salvar chapeuzinho vermelho dos lobos dessa
vida. A correspondência era incompleta no espaço destinado ao remetente e o
carimbo marcava Rio de Janeiro, muito pouco para encontrar a criatura. Fiquei
no aguardo da comunicação policial (o que li de jornais sangrentos naqueles
tempos!) curti a expectativa de coisas ruins. Elas não chegaram. Chegaram
informes noutra carta dela.
Começava: “Achei meu suicídio um pouco prematuro, adiei sine die, aguentei firme não aguento é o
Rio. Aguarde notícias”. E despejou-me depois tudo o que eu já sabia, mas como
se não soubesse.
Outra missiva era de Teresópolis. Contava de sua alegria no ambiente
novo, o que me alegrou por minha vez. Deixou uma pontinha (como faz todo ótimo
pessimista e especialista no assunto) um quezinho triste. Logo chegou
telegrama. Dizia: “Sofro muito, adeus para sempre.” Imagine só minha aflição.
Recriminei-me, seria também um dos culpados, toda gente é culpada, me respondi.
E sofri gostoso. Era sábado.
“2º-feira
– estou deprimida, nada me convence, quis
matar-me aqui nesta Salvador, no apartamento imundo. Abri o gás e... estava
indo, ficando zonza, não aguentei o cheiro: fechei o registro abri as janelas;
ficou uma dorzinha triste na cabeça”, disse. E aproveitou a contar
suas tristezas, falou-me de novo sobre tudo que a fazia sofrer, como se eu não
soubesse.
Não
respondi de pronto. Depois resolvi não responder de uma vez; não queria minhas
respostas a Joana, pois nunca encontrava a moça quarentona no mesmo endereço,
as cartas voltavam. Portanto minha atitude era receber suas comunicações e
sofrer enquanto.
Chegou o correio. “Quinta-feira, dia quinze, resolvi – dizia a amante do
acabar – resolvi dar cabo da porcaria de minha vida. Optei pelo mar. Nem tirei
a roupa, fui entrando entrando entrando a água subindo batendo na barriga;
quando chegou ao pescoço deu medo terrível; já pensou as águas salgadas
atirando meu cadáver e meu esqueleto na praia?! Os peixes tendo comido meus
olhos verdes!! Desandei a nadar e a fugir espavorida. Estou escrevendo a você.”
Não se esquecia dizer que a vida não prestava, contou-me o mil vezes sabido, os
episódios que sempre a faziam infeliz, como já afirmei demasiadamente neste
relato, e que era de meu conhecimento nos detalhes.
Depois
recebi mais.
Depois
ainda recebi carta de Porto Alegre Natal Montevidéu Sete-Quedas e Cuiabá. Em
cada uma narrava ter tentado o suicídio. Ora a “navalha rombuda” ou a “corda
velha malcheirosa” ou então era “o vento gélido sibilante do último andar” ou
mesmo “a tontura em cima do despenhadeiro” e havia mais outros pretextos para
não se matar. Não se esquecia nunca de falar, de contar tudinho o que se
passara na sua pobre existência, seus dramas meus conhecidos, me vomitando a
porcariada que ia no íntimo dela e dos episódios passados entre os canibais da
sociedade; assuntos conhecidíssimos, impiedosamente relembrados nas missivas.
Vieram
mil outras que não cheguei abrir. Enjoado, supus, ou cansado.
Ora,
cansei-me da Joana.
Tanto é que não mais desejo ouvi-la. Resolvi também não me aposentar
simplesmente como herói confidente (heroína, se soar bem) como vinha afirmando.
Praticarei de meu lado o suicídio! Antes que pare a chuva e eu me arrependa.
Ribeirão Preto
janeiro 1982
17° - O
Burro que Falava
Parece
mentira para enganar a verdade, ao menos para distorcê-la, que tenha ele
nascido na Fazenda Baixadão. Em geral vindo ou com a manada ou isolado e neste
caso já grandinho desmamado e valorizado, porque esses animais irracionais
chegam ao destino, no caso o Baixadão, adultos se se quiser, vencida a fase
chucra, dispensando oferecer coices. Disto não se sabe; sabe-se estar no pasto,
a se desviar dos carrapatos e carrapichos, dos sanguessugas voantes ou não; ter
muita fome e – isto é flagrante desrespeito aos cânones e direitos
internacionais pelos tempos e tempos amém – e falando. Claro, não se dirigia
então aos humanos, desumanos nas suas chibatas no exigir muito peso e muito
trabalho, em troca da ração pouca, minguada quase sempre. Aos outros burros. Falava
aos porcos e às galinhas, quando longe do galo certamente, falava mesmo aos
cavalos: ninguém entendendo. Aí, seja pelas circunstâncias seja pelas
necessidades fisiológicas, aí procurou a burra, só havendo a do Estado no
estado em que se encontrava: vazia, vazada e estourada por causa da corrupção
política. Não achando a burra, valeu-se da mula. Mula é estéril, não dá
herdeiros! ora, o que mais se pensa é como deixar, mesmo sem ter o que deixar,
deixar herança. Oh pobre planeta, a ficar sem burrinhos! Bem, ‘conversou’ a
égua, por mais viável. Daí não foi feliz – a esposa era esposa de todo cavalo
que aparecesse, necessitado. Ah cadela! gritou-lhe. Então se deparou com o
inusitado: falava!
Falar
vem do pensar, primeiro. Pensava pensava nas coisas da existência;
vida ingrata, lamentou. Pensava pensava, ‘minhocando’ suas coisas, coisas do
mundo e até as ligadas a outros seres e outros mundos. Imaginou superar – o
pasto o carrapato o carrapicho o relho? – superar sim tudo e superar-se em tudo. Loguinho já
estava a deixar a pobreza o desemprego, a miserabilidade inclusive; que tal
emigrar ao Primeiro Mundo! cassinos, dólares muitos dólares, naturalizar-se-ia
para virar estrangeiro ou viveria mesmo ilegalmente e incógnita. Aqui não posso
ficar, disse por saber falar, ou não diria. Aqui não. Pensou carrapatos carrapichos
cochos carroças coisas, qual! não. Falar neste país, discursar, ser eleito por
trouxas frouxos, votos... nem pensar; pensar (aqui sem poder falar, óbvio)
pensar nas propinas mensalões mensalinhos, quem sabe presidência da câmara ou
do partido governista e demais corrupções. Ou tentaria o empresariado... ah boa
opção, mas e a baixa no câmbio a enfraquecer exportação? não. Seu negócio era a
experimentação, exportação que fosse de si mesmo. Por essa razão ensimesmou-se,
enquanto a coçar carrapatos carrapichos e coisas. Ensimesmado pensou numa oportuna
opção.
Passou
a andar, pensar primeiro depois a falar por esse mundo. Foi entrevistar, a ser
entrevistado pelos doutores; doutor, um tipo ‘carne de vaca’, igual a milho
quando não andava ainda o milho nas mãos multinacionais; como a ração; neste
ponto sentiu repugnância, pois não existe artifício mais artificial e fajuto
que ração. Ficou no milho caipira, embora um imaginário milho para poder
existir.
Andou
mais pensou mais pesou mais, falou menos.
Já
se cansava de salivar. Só encontrando vaidades enganos artifícios tapeações,
teatro. Pegou-se idoso.
Idoso é um
jeito eufêmico de envelhecer: Terceira Idade, Idade Dourada... e mais outras
inverdades e banalidades. Coisa pra não se lembrar que dirá falar.
Constatou
andar velho, esse o fato.
Entrou
– gasto no pasto! carrapicho! carrapato! – penetrou no portal do asilo, casa de
repouso, ‘eufemismou’ barato pra ser igual aos semelhantes tentando ser
diferente. Falou, porque falava, falou ao que viera para a atendente. Moça passada,
solteirona, cheia de coisas, por haver atingido a coisa. Ouviu-lhe o falar, ou
exigir!? Ouviu e respondeu como orientação algo do tipo chibata carrapato e
pasto. A seguir indicou o lugar dos irracionais.
Ele:
eu falo. Portanto exijo tratamento sábio.
Ela:
o lugar dos sábios... mostrou os poetas os filósofos os políticos, todos loucos
que falam, e demais corrupções.
- - -
Não houve mais conversa, que é o
arremedo do diálogo. Preferiu acalmar o muito falar, de tanto que houvera falado.
A vegetação crescera já, a fome sim nele diminuíra, desaparecera. Para pensar,
a calar, a melhor forma de falar.
Marília setembro 2005
18° - Missão Possível ao Impossível
Trinta
de julho. Faz dias estou de mala e cuia em São Gigante , vila, que
os gigantenses chamam cidade. Escrevo porque hoje é data especial aqui – a
festa do padroeiro São Gigante, do qual a aldeia emprestou o nome.
Dá
impressão que eu esteja neste lugar morando.
Contudo resido e não moro. Tomo para correspondência a casa da senhora
Tonha, que o vulgo pensa ser hotel, imaginando bem umas cinco estrelas das mais
corpulentas. Pra mim sinto-me num prostíbulo... Aqui vai um esclarecimento; é
que registrei esse vocábulo forte e impuro porque em primeiro lugar os gigantenses
não sabem ler, não preciso temê-los; em segundo, em razão de o desconhecerem,
caso soubessem o alfabeto; terceiro lugar por maldadezinha que trago dentro de
meu ser; não cheguei dizer que fosse santo: sou apenas visitante; forçado,
diga-se de passagem, pois estou aqui com obrigações burocráticas.
A
população da coisa, quer dizer São Gigante, é monstruosamente representada
pelos números. Ou seja: imensamente grande como São Paulo e Rio que as pessoas
ouviram falar e não conhecem; ou como Nova York ou Bombaim que não sabem
existir; imensamente grande para a gentalha que nasceu aqui; e imensamente
insignificante para mim que sou viajado no país e nas estranjas. Trocando
miúdos, conto uns mil habitantes! Entretanto dão a isto o nome de município.
Até a estatística, ciência estatisticamente mentirosa, não contou a gente;
creio que por preguiça, a qual se impregna como a chuva em qualquer indivíduo
que apareça por estas bandas.
De
fato, a chuva quando não cai de manhã, a goteira convidando a esquecer
percevejos da pensão de Tonha; cai de tarde; e varia no horário, caindo ao meio
dia – invariavelmente todos os santos dias! daí se impregna molha mina bicha os
ossos da gente. Os compromissos – fossem aqui respeitados mas pelo menos a
marcação dos mesmos – se assinalam ‘antes’ ‘depois’ da chuva; e se concretizam
molhados pela chuva teimosa ou medrosa sempre horrorosa! Entretanto isso é o
comum na faixa litorânea, eu sei; não obstante chateio-me como vítima dessa
natureza inóspita. Talvez mais por falta de conforto.
Aliás
neste lugarejo a civilização, mesmo seu dejeto, o consumismo, não penetrou nem
de armas (fora o radinho, quase querido como fetiche ou religião). Dir-se-ia
uma paz desarmada. Bem a propósito só temos aqui armas brancas, o corriqueiro punhal,
por exemplo, que não sai da cintura dos homens (a picar fumo, dizem os mesmos...)
Não
se contam punhais nem seus proprietários nem seus cavalos, o veículo local.
Como falei, a estatística nunca entrou por estas bandas. Eu ando justamente
encarregado pela alta burocracia do país a inocular esse veneno nestas veias aguadas
de chuva. Enquanto não acabo de convencer os gigantenses da santidade de meu
mister, observo a vida que levam ao contato com os outros seres, todos molhados
pela chuva lenta e paciente, quiçá teimosa.
Passo,
portanto, a relatar um que outro caso nas relações gigantenses, mais a título
de observação, quem sabe se não a aprimorar meus estudos morais e
psicológicos... Notei por exemplo que o casamento é aqui de certa forma instituição
falida; não que deseje esquecer que na civilização ele está apodrecendo, neste
fim de mundo entretanto ele é sem valor; ou pelo menos desnecessário. Às vezes
ele acontece para dar o que fazer ao padre, quase que a única autoridade
respeitada, tivessem respeito por alguma. Eu chamaria isto de reino da
desmoralização. Uma senhora respeitável por nome Mariona casou-se uma vez aos
treze anos e não se casou com os outros maridos que teve; e nunca registrou
igualmente os filhos. Dona Cida não se impressionou sequer por estar sua filha
de catorze anos grávida. Indaguei: não irá acionar a justiça exigir reparo,
casamento dela com o safado, uma pensão? Respondeu “não”. Não terá entendido,
ou nem se importado. Tia Zefa, professora do Grupo Escolar São Gigante, essa me
aparece a dar aulas de barrigona de fora e sutiã! Falei com ela como Don
Quixote ao moinho, se não tinha vergonha, não pensava no bom mau exemplo aos
guris? riu-se na minha cara. Comentei, “não está mais aqui quem falou” lavei
como Pilatos as mãos. Essa professorinha tem cinco filhos cada um de pai
diverso e nunca se casou; espera o sexto filho. O prefeito Seu Zé – falaram
baixo de medo que eu tivesse vergonha ou temesse autoridade – ele, Seu Zé
Maneco, tem três esposas e uma cambada de meninos. O pior foi um caboclo, mistura
lusa africana e índia, muito comum nestas plagas, o dito fulano me procurou
propondo ‘sociedade’ e a me explicar as coisas ao meu desentendimento,
ofertando umas duas filhas dele em troca de um favor meu, de falar ao delegado
sobre antigos roubos de galinhas e cabritas. Achei demais. Argumentei com as
conquistas da civilização os dados estatísticos a alta moral; toquei no básico
falando sobre minha esposa e as filhas bem casadas que deixei no Rio de
Janeiro. Insistiu na ‘sociedade’; resisti com meus argumentos religiosos e tal.
Noutro dia trouxe uma das mercadorias de uns quatorze anos talvez quinze. Eu
andava só, fazendo bem uns dois meses no colchão da Tonha, sem contar os
percevejos; e o capiau a me propor essas imoralidades e safadezas que chamou
“sociedade”. Contudo cedi àqueles sorrisos femininos dos quinze anos...
Foi assim que falei pela primeira vez
ao Dr.Delegado, moço de fino trato; depois argumentei com o Sr.Cabo, em favor
de meu segundo sogro. Inventei na estatística.
Ribeirão Preto dezembro
1986
19° - Diálogo
Intemporal, ou de Todos os Tempos
Ela
pensa que sabe, não sabe; nem sabe que não sabe.
Elinha sim, sabe o que deseja. Não deseja. Ou por outra, deseja tanto
que não sabe o que melhor querer. Não obstante, ou seja por isso ou por não
conscientizar isso – chora.
Não,
não chora, ou será que chanha é manha, e manha é choro?
Jacira!
Jaciiirá... Ói a nenê, Jacira.
Nenê: olha, curiosa. Não vê Jacira nenhuma, quem será Jacira! não
importa, importa ela saber esse som significar uma coisa boa. A mãe da mãe ou a
filha da filha da mãe, por exemplo. Ou a vizinha ou a titia ou a filha da
companheira da vizinha. Ou a boneca; é, pode ser a boneca. A boneca parou,
parece uma bonequinha e os outros nenês quando se enfrentam devem pensar que
bebê é uma boneca que grita e bate na fuça da gente, no caso gentinha ou
aspirante a gente. Mas não pode ser a boneca, a boneca anda prostrada, tadinha,
no chão! Contudo poderá muito o gritar, e elinha sabendo melhor berrar fino;
podendo ser por causa de haver caído ao solo o brinquedo. Não. Brinquedo não
fala, e no faz de conta fala, na linguagem delinha fala, às vezes não fala e
elinha fala algo a ela e ela cai no chão. Para que entender isto se isso tudo é
o choro!
Jacira!
Jaciiira, a Jacira vem vindo? ah Jacira, ocê vai pegá a nenê?
Para outra vez a pequetita. Olha. Olha outra vez, agora desconsolada,
não sabe ainda menear a cabecinha pra lá pra cá negando. Assim mesmo fica desapontada.
E estrila.
Calma,
nenê... só falta mais uma pecinha; já lavo torço estendo e aí... (não chegou a
dizer o comum “te pego” ou “pego a bebê”).
Buá.
Calma,
menina... ah, olhe o passarinho!
Que será ‘passarinho’, au-au já sabe e Jacira de sobra.
Segundo
tempo ou terceiro ou quarto ou... do chorar. Gritar. Berrar; berrar
esperneando. Parou, quer dizer, interrompeu, molhou fraldas, o carrinho de
prisão, o chão, a boneca respingada. Quinto tempo: buá!
Calma,
menina... Vovó já já acaba, troca tudo, dá papá (quase disse mamá porém, velha,
os seios...)
Silêncio. Aguardo. Sexto tempo.
Marília setembro
2005
20° - Cerimônia de Desindireitar
Nascição
do Aparecimento. Antes do antanho de antigamente mas não tão antes que não pudesse ser
um pouquinho depois, nasceu; que então e já então a furo não se vinha, vinha-se
de mulher. O Pitecantropo veio de mulher, de homem em ajudinha e todos
inclusive mamãe pensando que ele punha as coisas lá dentro inchava e desabafava
um chorãozinho começando a gritar antes e depois de aprender chorar e mamar,
pensando que essa monstruosidadezinha fosse ‘made in man’ e ‘for man’ e o posteriori
provando por A+B que não, que sim sendo homem-e-mulher na forma consagrada nos
costumes H+M=f, esta última representação refere-se ao filho, filha 50% mais um
porque as beldades superam as feiuras nos cinquenta por cento mais um, sim mais
de um mente a estatística. Nasceu. Na pia batismal recebendo o lindo nome de
Pitecantropo.
Acrescimento da Surgição. Cresceu. Já havia nascido mesmo, não tinha jeito. Além do mais mamava
adoidado. Sim. Inclusive pelos penduricalhos a tribo descobriu ser do sexo
masculino, isto um senão do sim. Cresceu. Cresceu mais adoidado ainda, além do
que se possa esperar, na época nem condição havia ao ‘possa esperar’ pois tudo
não se esperava não fosse a onça o leão o relâmpago a fome. Ah a fome... uma
sem tamanho por não caber no tamanho e cresceu ainda mais. A fome sim, mais
mais o homem, filhote do homem. Virou homem. Homem daqueles lá nas alturas, com
uma ressalva especial – foi além dos homens e mais tarde além das alturas!
Pitecantropo era Gigante.
Não um gigantezinho mambembe a gozar tataus
pixotes e normais no baile. Não. Um Gigante. A tanto crescer, de repente (de
repente é recurso literário mui usado, também pelos mágicos; aqui usado sem
intenção de abusar. Pitecantropo é quem abusou e se agigantou desmesurando
ainda mais que o de repente:) de repente ói ele lá em cimão na tribo, ói a
tribo lá em baixinho!
Relacionação para Computador Grifar. O relacionamento desde então, quer dizer – do nascimento que deixou
mamãe imprestável para dar mais cria e espantada a tribo por um ‘oh’ maior que
o nenê-gigante; o relacionamento foi normal, isto é, não haviam inventado ainda
o normal por isso foi o comum do ser: brincadeiras brigas com dentadas mas sem
xingamentos não só por não saberem falar porém de medo; ah temeram desde cedo
Pitecantropo quando dava lá seu tapinha de carinho matando uma criancinha sem
querer, e nesse caso ninguém deseja brigar com elãozinho, só brincar e com
muito medo cuidado distância. Todavia foi sim o normal. Em normal nada se
acrescenta ou desvira normal a comum outra vez.
Essa emocionante descrição da relacionação
foi assim até chegar a juventude.
Não se põe aqui quantos foram os irmãos que
Pitecantropo comeu lambeu o caldinho quando mal passado ou triturou gostoso
quando bem passado, não se falou aqui que os ‘antropofagasse’ crus, seria de um
mau gosto medonho; nem se espantem espantosos, porque todos assim faziam
naquele comei-vos uns aos outros quando necessário faltando caça na tribo. Bem
entendido: ninguém sequer pretendeu comer Pitecantropo assado bem ou mal
passado, por razões óbvias. Porém se não o ‘se’ condicional do óbvio, daria
para a tribo unida fraternalmente mastigá-lo uma semana, de tão grande estava o
homem!
Portanto relação normal.
Que
se Entendendo por Normal. O normal do comum,
ora. Os pequenos liliputianos, assinzinhos petiticos (ah é hoje: estouro o
micro em seu corajoso trabalho de grifar-me os errados, a máquina grifou
petitico!) eles todos, tadinhos, querem ser amigos de Pitecantropo e sobretudo
as fêmeas da espécie, espécie humana com espantação. Elas faziam de tudo para
ser dele. Interessante as pessoas depois, milênios depois, vão querer tudo pra
si, serem as maiores proprietárias por egoísmo bem desenvolvido; então não: as
mulheres querem e até se dentizam entre si e concordam depois serem todas dele
(êita gostosura de tempo que não volta mais!) Ele, o Pitecantropo, aceitou; os
outros homens, pequenos sim ainda homens, decerto não gostaram, com medinho a
dizer, visto já não serem burros naquele tempo. Elas... elas eram belas, tagarelas,
quase antes de inventarem as palavras a conversa por extensão já eram tagarelas
e aí a possibilidade de o vocabulário ter sido inventado pela parte feminina da
tribo. É possível isto! é. Elas o queriam, caminhavam por aí e diziam suspirando
“ah meu macaco marido!” Mas...
Mas
Entonce a Guerra! Não se pense que os homens unidos jamais serão vencidos a
vencer em revolta dum levante contra Pitecantropo. Não. Guerra mesmo entre
aldeias: disputa de terra, de mulher (que bicho terrível, sempre no meio!)
enfim disputa de qualquer coisa – nunca houve razão para a guerra. A razão
precisa ser inventada pretextando uma inventação dos mais espertos egoístas. E
na briga internacional universal geral emocional entre as partes, as partes
tinham o Sujeitão para seu escudo. Um Escudo-Gigante. Isso desde os tempos dos
tempos até o fim dos tempos que ainda não se conhece todinho agora, agora
vivendo os fins dos tempos. Até no até que enfim.
Até
Que Enfim. Encontramos agora, no agora daquele tempo, talvez
um pouco antes, depois porém de a
estatística medir (a mentir) o imponderável das coisas, agora encontramos
estabilizado o Pitecantropo. Enormão mas estabilizado. Portanto sem nada para
fazer e nada fazer.
Estava parado sentado duro,
óbvio. De tanto ficar sentado. No
sentar-se certinho que nele era certão.
Aprendeu o cientificamente correto: espinha
acompanhando o espaldar (claro a cadeira já inventada pôxa!) pés levemente
abertos, pernonas flexionadas na posição ideal, braços ao longo do apoio do
cadeirão, cabeça olhando para frente no sentido ver-se o que se não vê: a linha
plana horizontal fixa imaginária feito a linha de Capricórnio teimosa passando
em cima da capital paulista se poluindo decerto e ela não estando nem aí. Enfim
assim.
Está nesse momento, pobrezinho ou é
pobrezão? está duro, durrérimo como um pau; pior, só pode confrontar com a
dureza da pedra, a qual se encontra fora da gente até hoje.
Duro.
É duro! É mole. E aí!?
Bem. Duro de tanto sentar-se na posição certa
tem de chamar os ortopedistas a desindireitar, implorar aos psiquiatras a
convencê-lo haver melhorado um pouquinho que seu pessimismo grita só um
pouquito e o seu santo otimista grita já um pouquinhinho; poucão no seu caso
gigante superlativo demais abusante.
Assim vai por aí. Parado.
Levado por toda aldeia, os da tribo o
reverenciam como um rei um mago um deus. Estátua Dura.
É duro. A dura situação pitecantrópica!
Aí, deu-se o pior: o trabalho médico o
tornou um homem. Comum. Já perdida noção do normal.
E o normal do comum é trabalhar ganhar a
vida disputar a vida a fim de morrer na vida.
Também, o que faria – ficar crescendo
crescendo crescendo, já não havia condição neste, em ter que procurar outro
planeta; e não havendo mais lugar no ônibus da NASA...
Pobrinho (agora já pode ser pobrezinho).
Marília setembro
2003
21° - A Teoria dos Extremos
Encontrei...
não, o Zebebum me encontrou, eu não ia, ia ao supermercado comportadinho e tudo
o mais, me encontrou convidando-me a ir fazer-lhe companhia, isto é: vê-lo
nadar na piscina etílica como sempre, onde sabe de costas de arranco de
borboleta e até conhece o nado popular que em moleque chamávamos ‘cachorrinho’
com direito a beber muita água suja, ele ‘água que passarinho não bebe’ a
caninha a cachaça a aguardente. Assenti. Fomos. Sentamo-nos no salão acanhado
do Bar Sétimo Céu. Olhou-me sóbrio, ainda, sóbrio embora empapuçadas aquelas
bolotas avermelhadas; ainda sóbrio.
Cara,
peça o que desejar, disse.
Pensei,
claro, quem pagará serei eu. Pedi uma limonada, comportado decente correto.
Ele... pinga; pinga com limão, não era de exagerar, assoprou-me. E comentou:
O
ambiente aqui é muito bom, ótimo. Boa gente, boa bebida, boa companhia
(olhou-me amigo) boa conversa, boa teoria, boa...
Pera
lá Zé, que teoria?
Não
conhece? minha teoria extrema dos extremos. Seguinte. Tudo desemboca e se acaba
nas duas extremidades do conhecimento. Vejamos noite-dia; claro-escuro;
frio-calor tudo no extremo, nas pontas.
?!
Vai entender.
(Entendia enquanto isso e mais um trago mais um copo, eu tão só bebericava
refresco de limão contra o calor) Vai sim vai compreender já já. Olhe (olhei
sem ver) olhe aqui até nas ideias os extremados; tanto assim que se começa do
nada vai-se ao tudo, noutra extremidade. Na religião. Ih nem se fale na religião.
Religião?
Sim,
veja.. vai mais uma bebida? Outra.. tá bem, limonada pro amigo, pra mim já
sabe, daquela. Vamos à religião, a seu pedido. Veja começamos por Adão, vem Eva
e aí tudo.
Tudo!?
Tudo,
meu chapa, um rolo. Porém Adão e Eva o começo a extremidade inferior. Na outra
extremidade o Apocalipse acabando com tudo que o casal fez. Não é assim?
Concordei,
grande conhecedor de sabedorias das ignorâncias. (Entremeio meio tonto de
cachaça, ele, eu um desbrônquio no pomar chocalhando-se o limoeiro e abrindo o
saco plástico de açúcar, gosto com pouco doce todo mundo me conhece o comedimento).
Como
dizia, dizia Zé, sóbrio, candidato efetivo a Zebebum, dizia a Você que veio o
primeiro no extremo, Adão, tá na Bíblia (confirmei sem nunca ter lido a Bíblia)
tá lá. Aí arrancaram sua costela, fizeram uma certa dona boa, mas tudo bem,
normal. Estavam no Paraíso. Sabe como é o Paraíso?
Não
sei, nunca estive lá.
É um
Paraíso. Adão passeava pra lá pra cá, agora com a namorada dele.
Namorada!
Que
namorada, vai pensar que era amante traindo o marido, qual! companheira e
casada com ele no padre no cartório.
No
cartório!
Não
me interrompa ou esquecerei, beba sua cachaça quieto, está bem: a limonada.
Passeavam de mãos dadas vendo as flores as frutas as águas a natureza enfim. E
iriam ficar a vida toda nessa boa, boa pras negas dele, pra mim uma chateação
(eu me benzi com medo) pra mim gostei mais quando veio a cobra.
Tinha
cobra?
Cobram,
mas aqui é tudo barato, gente nossa, a branquinha é de primeira e a limonada
deve estar... ah sim, cobra, serpente eu digo. Aí ela ofereceu uma fruta, maçã
importada, dessas que só tem cheiro por fora e fofura por dentro e o besta,
tchã-tchã-tchã. Comeram foram expulsos, deixaram a casa devendo aluguel, se
perderam na floresta densa, perderam o Paraíso!
Aí
termina a primeira extremidade?
Aí.
E começam outras coisas.
Não
é o Apocalipse?
Ainda
não, rapaz. Tome mais limonada, ôi, me traga mais daquela delícia dos deuses e
refresco às minhas orelhas.
(As
orelhas andavam grogues já, elas viam anuviadas o Zebebum engolir seu álcool;
além delas terem a bexiga ó pra estourar, levantei-me fui à ‘casinha’ nós
meninos no grupo escolar falávamos ‘casinha’ o mictório. Cheguei empurrei a
portinhola, antes olhei se não era das senhoras cansado de fazer feio e passar
vergonha, a catinga indicava ser mesmo masculina: higiênico usado fora do cesto
que era uma latinha, paredes com poesia chula e desenhos pornografados,
descarga a ser dada e vazando sem parar, pia quebrada e torneira pingando, era
sem dúvida dos homens e tentei urinar mas não saía, não saía também o cheiro,
desisti e no desespero de causa me dirigi aos fundos do Bar Sétimo Céu, havia
lá umas pilhas de tijolos. Olhei, educado, para as imediações aí mijei nos
tijolos. Enquanto, como bom oleiro pois oleiro não sabe passar perto de tijolo
sem examiná-lo pegá-lo, notei dois mal queimados quatro trincados e numa saudade
que dá na gente apanhei dois exemplares e bati um contra o outro a verificar
qualidade do barro, coisa mesmo de oleiro em nós impregnada e aí senti haver
cumprido minha missão, não a de oleiro saudoso, a de haver esvasiado meu
reservatório fazendo coisas feias e mais uma vez olhei de soslaio para ver não
ver gente sobretudo gente do sexo feminino alguma Eva por ali perdida a me
envergonhar e só envergonhei-me por deixar hamônia como cheiro, fedendo o
ambiente, tornei ao ambiente do Zebebum lá no salão acanhado do Bar. Voltei,
nem notou que houvesse saído continuou a falar:)
Então,
disse, ela...
Quem?
Ora
ela, a Eva. Ela se assustou com a cobra.
A cobra! Você
já falou sobre a maçã.
Não, seu burro, está bêbado, seu
ouvido tá bebum; ela se assustou com a cobra dele! eles nunca haviam pensado naquilo.
Aí engravidou, veio um mundão de molequinhos e menininhas, os primeiros foram o
Abel e o Caim. Abel matou Caim ou (aí tinha um vira-lata em nossos pés, ele o
pisou e o bicho: “caim caim caim” a sair correndo e o Zé:) Caim, você tem
razão, o Caim que matou o mano. Aí...
(O Zebebum já falava bem enrolado, quase
caindo por cima de sua aguardente, quase no ponto ser levado pra casa, eu quase
pagando a conta de minha limonada tanto me doíam os dentes roídos pelos ácidos
e paguei também a caninha dele, o que me valeria contabilizar na conta dos
lucros & perdas na escrita; ainda se lembrou da Teoria).
Tem o outro extremo. Com rajadas de
ventos tempestades tufões terremotos ranger de dentes, tá na Bíblia, é o
Apocalipse, você nunca leu a Bíblia?
Nunca li a Bíblia, Zebebum.
Ora,
o que adiantava eu dizer o que dizia, já ele dormindo. Também estávamos sendo
expulsos do Paraíso, o Sétimo Céu; arrastei-o pra fora; e um bêbado pesa por
dez sóbrios! Acontece ser então eu novo e forte, pu-lo, será que tem
‘pu-lo’! pu-lo nas costas igual o homem
da propaganda do óleo de fígado de bacalhau e levei-o para a mulher dele, Dona
Maria, a qual nem me percebeu a caridade: andava também num porre.
Marília março
2004
22° - Questão de Idiossincrasia
Um sujeito um tanto chato e outro,
também chato. O primeiro havia descrito certo fulano de nome João, entremeio às
interrupções do segundo chato, não sei se o mais se o menos. Chamá-los-ei
Primeiro e Segundo, só de raiva.
--Mas
amigo Primeiro, o senhor me diz algo desse João e creio saber dele como conheço
a mim mesmo. Imagine que me encontrei...
--Sim,
porém me esqueci de contar que o João tem uma cicatriz, um negócio de facada,
não sei.
--Exato,
vi a cicatriz também, medonha... e...
--Espere
um pouco, Segundo; é barbeiro, uma espécie de barbeiro barbeiro, pois que é
ruim na profissão. Me contaram que João...
--Já
sei, a amásia é uma tal de Joana, loiraça assim...
--Que
bobagem, sr.Segundo, o sujeito, que eu saiba, não tem mulher alguma, é
inclusive...
--Não
disse que seja machão – interrompeu novamente o amigo Segundo.
E
insistiu saber isto e aquilo mais do tal. Havia a estória de um primo,
negro-aça etc. etc. ao que Primeiro redarguiu já um tanto desgastado e nervoso:
--Desconheço
o primo, garanto que o João tem uma perna mais curta; outro dia, segunda-feira,
ele foi a pé ao...
--Ferreira,
Bairro do Ferreira, não é? É esse mesmo. Arranjou uma encrenca danada. Dizem
até que a polícia...
--Ora
bolas, Segundo, o João é pessoa distinta, de grande nome no seio em que vive,
nunca arranjou problema nenhum. Queira me desculpar, porém o senhor se engana.
O
outro tornou-se vermelho, mais vermelho ainda, parecendo que ia avançar; não
avançou, apenas acrescentou com uma certa classe:
--Longe
disso estar enganado, meu caro; sei de cada uma do João... Concordo consigo ter
feito bom nome em seu meio, porém a podridão come é por baixo! Garanto-lhe
Sr.Primeiro, você não o conhece suficientemente; cuidado com possíveis empréstimos
a dinheiro ao safado... é capaz de tudo.
Nessa
altura os dois, Primeiro e Segundo, já haviam caminhado quilômetros sem o
perceber e encontravam-se em estado de exaltação extrema, vulcões a explodir.
Rouco, Primeiro tornou à carga:
--Não
me diga, amigo, falar do João Martins da Silva.
--Exato,
esse o nome.
--O
que dá tanta certeza ao senhor?
--Ora,
Primeiro, fiz o Tiro de Guerra com o João; eu era o soldado 141 ele o 24,
coitado, amigos íntimos; então separamo-nos por causa dessas trapaças do homem,
que o senhor nega, ou desconhece...
--Está
me chamando de ignorante!
--Nunca
o picharia dessa forma, Sr. Primeiro, que o respeito. Suponho tão só um mal
entendido seu, julgando grande sujeito o João, entretanto...
--Coloquemos
um ponto final a isto, caro Segundo. Agora pergunto-lhe para esclarecer melhor:
se ele serviu o governo consigo terá sua idade, não é?
--É
muito claro.
--Vivia
em 1940, não é assim?
--Está
dito Sr.Primeiro.
--Ora,
não é o mesmo que descrevi. Meu João morreu em 1939, quando iniciava a Guerra
Mundial.
--A
memória falhou, Primeiro, queria dizer 1936, na Espanha, durante a Guerra Civil
– argumentou bem Segundo.
--Ainda
está cometendo engano Sr.Segundo: era medroso e nada de patriotismos, fugiu
para Portugal em 35!
--Tenha
paciência, eu não disse, Sr.Primeiro, que...
Porém
o companheiro não o deixou terminar e concluiu ele mesmo desta forma:
--Basta.
Para mim o senhor ficou é maluco. O João Martins da Silva não viveu em 39 nem
35; está vivendo agora, neste dito instante, quando acabo de criá-lo para uma
estória a ser publicada no jornal “Vanguarda”.
--!?
São Paulo maio 1977
23° - No Estádio de Futebol
Uma
gritaria. Uma gritaria eu sei. Sei por ver, ver os atletas a se mexer. Gritaria
da torcida é claro entretanto mais por parte deles, os jogadores, enfim um
falatório sem conta; antigamente não era mais ou menos assim, era mais ou menos
assim um pouco menos, havia disciplina e muita crítica dos críticos e apenas
era dado o direito a berrar de fato à torcida; na época nem havia a organizada
uniformizada ‘violentizada’. A esposa, com jeitinho, se dava ao luxo acompanhar
o seu homem, embora não apetecesse às mulheres, algumas lamentando: o que acham
esses bobocas de graça a correr atrás de bola; outra: e a brigarem! Era. É ainda.
Como integrante não das uniformizadas mas ao menos da torcida dou agora meu
testemunho.
A
rigor não me encontro nas arquibancadas, menos nas numeradas reduto dos ricos;
sequer nas gerais: na rua.
Isso,
na rua, o jogo ocorre na via pública, não sabendo este membro da torcida por
que chamam ‘pelada’. Vejo olho observo, e eventualmente torço. Nem poderia ser
diverso – pois me encontro na frente de minha casa a disputa é em frente. Tem menino de
todo tamanho toda sujeira toda garganta.
Eles
gritam bem, à perfeição; e não se entendem para quando crescerem se desentenderem
com gabarito.
Puseram
dois tijolos de cada lado, num espaço medido no ‘mais ou menômetro’; que são
duas metades roubadas como se rouba fruta, igualmente menino não tem essas
moralidades de não se apropriar do bem dos outros por mal; terão afanado numa
construção aí perto ou achado no terreno baldio ali, que é um tesouro e tem outros
cacarecos como preciosidades; tomaram os cacos de tijolos, puseram um sobre o
outro em dois montes e isso virou o gol, imitando traves de madeira e até
sonham decerto que atrás exista uma rede de barbante para segurar bola a passar
virando ‘frango’ que o ‘frangueiro’ a ser pichado antes será gozado por isso
depois, talvez motivo à briga, é rede de faz de conta e portanto pra eles já
existe.
A
bola é bola, não é bola de meia; alguém ganhou de papai noel quando existia
papai noel e neve no país com rena e trenó; não importa. Importa estarem
jogando gritando como necessário e o problema só ocorreu quando a dividir as
turmas. Precisavam 22 atletas, tinha 12 apenas, ainda assim requesitando uma
‘tantadinha’ de moleque emprestado da mamadeira pra fazer número e correr com
as perninhas pra não alcançar nunca a bola e assim dois times de seis. Correm.
Ninguém
para, nem a bola. A bola por causa da gritaria, não da torcida que sou eu
apenas vendo e anotando, no parar um pouco indo às compras de casa, a gritaria
dos próprios jogadores e esses gritos devem ter assustado a bola, a bola rola
vai foge se esconde donde pronde foi, foi alojar-se num quintal, por baixo da
árvore, quietinha quietinha. Um corajoso a encontra, já pulou o muro do vizinho
antes bateu palmas e imediato entrou à sorrelfa no domicílio alheio tomou a
fujona devolveu aos gritos dos colegas; aí se recriminam a pontaria. Continuam.
A torcida apupa xinga aposta lamenta explode noutro xingo e não xinga a mãe
dele, não tem juiz; houvesse seria outro garoto aprendendo a ser parcial quando
grande.
A
torcida dum homem só.
Olho
e consulto meu cronômetro a pilha ver se é hora e acho que passou da hora de ir
às compras porém desejo ver se ao menos acertam um gol; na outra extremidade do
campo igualmente fizeram outra trave com tijolo real em cacos e uma rede de faz
de conta mas nem neste gol há gol: a bola não entra. A torcida lamenta os
pernetas me atrasando as compras – não acertam o gol, a bola a marcar o ponto.
A esfera de borracha pulandinho vai entrar, param.
Lá
vem outro automóvel!
Recomeçam,
‘desgritam’ o grito do ‘olha o carro’ gritam o passe. Passam por cima de pés
pisam ferem bravejam xingam daquilo que aprenderam no pátio e na classe da
escola com os colegas. Enfim se desentendem bem, se aparam, discutem outra vez,
ninguém tendo culpa – retomam. Caminham suados, olhinhos arregalados, bocas ó
deste tamanho, a borracha passando por entre pernas a deixar penas.
Com
pena do goleiro, um branquelinho quase a chorar, venci. Venci no ver o gol; o
relógio me determina o caminhar ao supermercado, a patroa já no portão a menear
desconsolada sem dizer decerto e a pensar: o velho parece moleque vendo o jogo;
e a mistura para o almoço!
A
torcida também se volta à esposa, dá um sorriso amarelo à mulher (mentalmente a
chama ‘cartola’ para se vingar) e parte às compras; ao longe ainda percebe os
briguentos se desentendendo. Quem sabe por outro frango ou porque algum adulto
invejoso determinou desfazer todo o campo de futebol.
Porque
adulto sabe suficientemente desmanchar um prazer menino.
Marília agosto 2004
24° - Um Caso
Matraca
Fiquei
grilado, andava absorto parado. Parara tão só a descansar, não me davam
descanso as coisas da vida, uma vida. Decidira-me não perguntar nada a ninguém,
que me pichassem egocêntrico, isto pouco me incomodava nada alteraria o girar
do planeta não mudando as coisas.
Aí,
ai! aí que se dirigiu a mim. Deveria, eu deveria, ter posto uma placa uma faixa
ou coisa assim, assim escrevesse que fosse na camiseta, atrás da camiseta ‘não
desejo conversar com ninguém!’ Não, melhor houvesse posto apenas ‘não’ mais
fácil de ler, um não daqueles grandões em chamarisco, para dispersar convites a
matracar fiado, que o homem da rua só diz besteira e isso não me importa. Se
bem nesse mal um não nada diria, melhor
mesmo uma faixa (se coubesse todo um discurso e isso fora de cogitação):
leriam, não amolar-me-iam, mas isto já não apreciei pela colocação pronominal.
Porém o fato era, é, que ela se dirigiu e não posso condená-la no mister, a
placa a faixa o qualquer ‘não’ não estava no lugar para que lesse me deixasse
em paz (o que é paz!) lesse sim porém ocorre o seguinte.
Saberia
ler! não se desse que fosse analfabeta; daí pra que faixa e ditos, no caso não
ditos?
Ler,
digamos...
Contudo
falar...
Você.
Olhei pra lá, insistiu, Você aí, então o negócio era de fato comigo, como a
pobre adivinharia que eu não quisesse, quisesse permanecer mudo. Bem entendido,
não sou mudo, muito menos surdo, para não ouvir tagarelas por esse mundão. Não.
Você!
Eu?
Claro, é burro é surdo é da desconversa ao menos!
Respondi
que não, sem saber direito a qual sim
antepor meu não, o sim bastantinho
naquela boca a matracar solto, espera lá: onde anda a boca...
Olhei.
Agora não olhei pra lá, restava dúvida que fosse dirigido pro meu lado e meu
ser as indagações!? não. O não aqui é afirmativa.
Tornei
olhar pra ver se via o que não via, via – pasmemos! – via uma caneta.
Bem.
Todos veem canetas, toda hora sempre. Isso é o bastante a comprovar um concreto
no mundo da lógica. Não uma que fala!
Firmei
meu ser, infirmei o ponto donde o som a voz o conteúdo modulado (devo
esclarecer – a dicção a frequência os decibéis adequados dando ideia da
perfeição, descartam-se antecipadamente fanhas e taquaras rachadas comuns) e confirmei.
Poderia duvidar de mim mesmo! Poderia de outros, do mundo inteiro, não de minha
constatação e de minha então certeza.
É
comigo? insisti, podendo que não fosse era.
Bem.
Eu disse. Que deseja, essas coisas essas tolices vazias que usamos nos diálogos
mundanos.
Não desejo,
você (aí pôs meu santo nome, aquele que o padre na pia batismal salgou e gritei
dizem até abri a boca no mundo já descrendo quem sabe de religião ainda nenê)
você quem deseja.
Sabe
meu nome! Como sabe, quem disse, não tenho culpa, os outros fazem as coisas
e...
Calma.
Sei. Sei mais. Falar, por exemplo.
Eu:
onde já se viu caneta falar!
Acabou
de tomar conhecimento.
É. Acabei mas
não creio, só acredito vendo, provando por A+B e... ah é verdade. Queira me
desculpar.
Está errado a
colocação pronominal.
Está certo.
Que deseja.
Outra vez? já
disse, é surdo é burro – você, não eu.
Está certo.
Olhei pra cá olhei pra lá, vai que... Está certo. Posso perguntar alguma coisa?
À vontade,
estou à sua disposição.
Bem. Como
pode você falar, sendo uma caneta; já revirei tudo em volta e não encontro
sequer um ventriloquinho...
Entendo, diz
a caneta. Porque não tem ventríloquo.
Então?!
Então é que
falo e falo com você, a você. Entendeu?
É, parece que
sim.
Por que a
dúvida.
Ora... é
que... bem... não sei.
Sei eu; homem
é um ser lógico, um computador melhorado, que trava menos que um computador e
não grifa em verde não sabendo bem a língua, a língua que devera dominar; nem
grifa em vermelho para azular de raiva o digitador e azucrinar incautos.
Acertei?
Parece.
Parece?
Tá bem. Você
fala. Não é vantagem, aprendi antes de você, aliás vejo daqui uma esferográfica
comum, azul, plástica, acabando sua carga (acabei com ela, pô, andava já
nervoso e continuaria intrigado). Ela? sorriu matreira. Continuou a tagarelar
eu cheio de falta de vontade a conversar, sobretudo fiadamente.
Acabou de
‘besteirar’ minhocas na cachola?
Chula também
e aguardo seu baixo calão, de gente assim, digo caneta assim, se espera de tudo.
Olhe o
pronome...
Vá para o
inferno, diacho.
Não me
atinge, falou a cilíndrica personagem de plástico eu querendo ver sua marca e
não chegava perto a dar-lhe corda e me rebaixar, pois sou orgulhoso etc. e tal.
Contudo...
Sim falei,
contudo o quê?
Contudo tem
lá sua dúvida se falo; falo.
Ouço,
respondi brabo curto grosso, restava chutar-lhe as coisas, coisa que caneta não
tem, eu inventaria as coisas a dar um pontapé certeiro como ponto final.
Afinal, disse
a matraca, afinal donde possa duvidar que esteja eu falando, uma
pobre caneta esferográfica
em fim de carreira, veja aqui no
meu dentrão se esgota minha carga útil azul, tadinha de mim!
Não apela e
agora é a minha vez: o pronome!
Ela: pronome,
não é pronome é burro ai! pronome, gramática, academia, erudição, não enchem a
barriga.
Eu: cala sua boca.
“Cale-se” devemos dizer.
Tá bom:
cale-se. Sou o Rei do Planeta, quiçá do Universo, superior à toda ‘coisa’,
gente é mais que qualquer.
Que lindo!
Eu, eu me
interessei grandemente: sempre me chamaram vaidoso, vendo nisso apenas intriga
da oposição; devo ser belo mesmo, as meninas... (a caneta cortou-me a frase a empáfia
a noite de meu sonho:)
Pera lá, sua besta humana, o ‘lindo’ que disse,
você, fisicamente, é um susto ao se levantar de manhã após noite indormida sob
peso dos janeiros, no seu caso dezembros; no entanto referia-me à ideia, o
pleno em besteira, ‘Majestade’... Deu para entender!
Deu, não deu.
Não deu
porque “canetas não falam”, é isso que deseja afirmar o ‘Rei’ do Planeta quiçá
do Universo.
Tirou a
palavra de minha boca, respondi.
Certo esse
errado. Mas você, representante da espécie Homo sapiens, você não
assistiu no cinema quando moleque o burro falante?
Ora bolas,
isso é filme, ficção, montagem, sua...
Tonta quer
dizer.
Tonta quis
dizer. Fosse ainda assim um animal, burro não é burro, poderia um que fosse até
haver desenvolvido a sua mente.
Mente. Mente
descaradamente. Não crê.
Não creio,
pode crer, não acredito.
Não precisa
acreditar, basta ver ouvir sentir uma Caneta, eu, falando. Não basta?
Basta. Basta!
Oh língua de trapos. Vou...
Vai! Vai o
quê.
Vou. Agora
não, vem gente, deixa passar.
(Passou)
Pronto,
estamos a sós, me cutucou a matraca tagarelante inanimada quer mais animada!
Certo, falei
emburrado.
Vai...
Vou (antes
fazer o que se deve devo fazer, antes, pensei examiná-la melhor, observar nela
uns menos por exemplo; se não andava falhando no escrever, tem umas que a gente
aperta tanto por não soltar direito a tinta até rasgar a folha; podia? podia;
tem caneta soltando gotas de tinta sobretudo ao fim da vida que era seu caso ou
no calor, aí borrando as coisas. Apenas nessa descoberta estaria já vingado.
Prossegui:) vou pôr você (ela me cortou “pô-la”) certo, vou pô-la derreter.
Contei
a ela estar cidadão-meio-ambiente-correto, separo agora papel vidro metal e
plástico.
Pô-la-ei,
gostou agora!? pô-la-ei no saco de plásticos e vai pra reciclagem, ajudar
catadores de lixo empregados no desemprego. Aí ‘te’ levam a derreter e... cadê!
Por isso decerto não me criticou o
pronome.
Marília outubro
2003
25° - Volta e Revolta
É verdade que não tem jeito, jeito fica
sendo, continua sendo, sendo a gente como a gente é, pensava nestes termos; pra
não pensar que pensava e o que pensava. Então empurrou com a barriga.
Claríssimo, força de expressão a dizer deixa pra lá, encobrir o pó por baixo do
tapete. Tinha também um grande aliado.
Não existe maior e mais
confiável amigo que o labor.
Arrumou-se
às pressas, o serviço que é o ganha-pão do homem, fez aquele homem, ainda um
homem em seu pensamento, sair correndo; como o fazia diário sem contudo se acostumar,
não com o patrão cobrador e estando ele no seu direito mas consigo mesmo: não
sabendo o que fazia por não dar tempo no correr todo tempo – arranjar as coisas
dos meninos preparar isto ou aquilo, olhar o relógio pela terceira vez e ir-se.
Todos dias. Todos dias propondo um plano certo pra mudar.
Agora sai às carreiras.
Volta, menos às carreiras cansado de se
cansar já antevendo o cansar doméstico.
A coisa andava acumulada ao Zé. Acumulando o
trabalho no trabalho com o trabalho no trabalho de casa. Não podendo queixar-se
neste, saía-se a contento nas prendas domésticas; na verdade as três crianças
exigindo pouco, mais sendo a preocupação paterna que outra coisa. Aquela coisa
de família pobre: o pequeno ajuda, às vezes desajudando, os menos grandes e os
grandes fazendo brigando entre si as coisas, quebrando louças e copos varrendo
por cima, até papai chegar, além de esquentar o almoço e o velho, ele mesmo se
achando velho, o velho se preocupando nos desdobramentos e artes no fogão –
ótimo para seu pessimismo.
Agora é o ontem daquele dia, dia de muito
trabalho no trabalho que se foi no trabalho do trabalho no lar, ajeita isto
prepara a janta arruma grita o moleque ainda o telefone não para, para o
serviço atende o engano a cobrar, cobra de si mais agilidade a se cansar para
ao menos descansar no sono...
O sono não vem, vem o frio. O frio aliás não
se foi embora. Treme-se se encapota, aí os cuidados com as crianças, menino não
para nem dormindo e se cobre se recobre se descobre; levanta-se e se deita com
frio numa andação pra ver os filhos; o galo. O galo anuncia parar de dormir, ainda
não deu pra dormir o sono rebelde; a noite insone o peso da vida, a solidão tem
o peso do mundo e o mundo são muitas noites, estas o prolongamento do sofrer no
dia; ainda bem que existe a laborterapia, devendo antes agradecer ao patrão
cobrador, não se chocar com os colegas e com as coisas no emprego. Na hora a
gente não pensa.
Pensa o Zé. Agora é ontem daquele dia e o
dia é a tarde daquele dia. Naquele dia fez suas coisas, procurou nem pensar nas
coisas. As coisas dela estavam a ‘campainhar’ sua lembrança, e sumir num quem
sabe no lenço ou nas costas das mãos rolando molhado, ah homem não chora... E
ela...
Ela com razão me deixando, deixa Zé que os
miolos pensem, ou estoura o coração.
Tampa a panela grita o menino acode o telefone paga a conta ralha o
cachorro, este volta compreensivo rindo sem graça de rabo e com amor puro.
Abana a cabeça, o Zé abana a cabeça. Retoma o não pensar só pensar nas prendas
domésticas para não ter que dizer a outrem o que não pode não deve não quer
dizer e não diz, rumina.
E sofre. Agora sofre na cama.
A cama ringe, ele ouve carros a passar na
madrugada, será madrugada! Os sons lhe devolvem os sons anteriores: a esposa não
chega, nunca chega, chega se não ébria a cheirar suas cervejas, sequer
indagando se passou a febre do menorzinho, chega se despe se veste se
esborracha ao seu lado, virada de lado e o Zé é só o Zé, uma solidão na multidão
porém o ser é a solidão do egocentrismo e nenhum ajuntamento consegue dissolver
o drama e nem conhece o drama, assim o Zé pensa ou pensa que pensa. Volta
imediato à solidão do agora ao som do carro a passar a sentir o frio do seu
frio de vida, a solidão é fria contundente ferina arrasante cobradora também e
está só. Mas...
Achou ter sido um milagre; ou apenas um
instante de instante de sono o sonho enganando a realidade da solidão! ela de
volta!
Entrou. Deixou o veículo funcionando à porta
um pouco; bateu a porta no seu estilo, rangeu o portão de ferro cansado na
velhice de ferrugem; a seguir bateu de leve à porta da sala; bateu-lhe ao
coração se levantou apressado desconfiado despreparado ansiado ao menos a abrir para a ex-esposa. Era
agora certa Maria sem chave sem intimidade sem vivência na volta ao lar
abandonado... Teceu, ele teceu em seus miolos algum drama que ela tivesse, ou
quem sabe saudosa não dele repudiado entretanto dos filhos, não sabia. Abriu.
Entrou. Penetrou como fora sua a casa já não
sentindo sua o que fora seu... Ruminou um qualquer em solilóquio. Queixou-se
do frio, disse, por fim, não suportar aquela outra casa, disse assim sim com
todas letras, ele procurando não entender de pronto. Dentro do Zé...
Ainda sangrava o desastre do abandono, ainda
feria fundo as causas do desastre que se pensava sem volta e o ser humano
sempre pensa que não tem volta ou vira o jogo e engole a necessidade engole sua
incapacidade a vencer problemas e engolindo sua ingenuidade quem sabe a pureza
na ignorância da sabedoria – a pensar que se pode começar vida nova Adão-e-Eva
Eva-e-Adão, e o Paraíso. Pisoteando os infernos. Acordou. Olhou.
Viu uma fêmea linda da espécie, deitada no
sofá que fora seu, encolhida a caber na cama improvisada; voltou para sua cama,
ainda quente da friagem de sua solidão. E se cobriu e rolou e se ajeitou pra
não dormir melhor a noite gelada, aquecida pelo seu pensar febricitante.
Pensava pesava pensava mais e ainda, sem mais conclusões que as conclusões da
vida que não se conclui. Rolou de novo cobriu se descobriu, e se levantou, ah
que vontade enlaçá-la beijá-la perdoá-la até, mesmo que não houvesse pedido.
Parou no meio do início da porta do quarto; voltou; deitou-se outra vez, se
levantou de novo. Aí tomou umas cobertas, quem sabe se não ainda com o cheiro
dela, quem sabe se não com seu calor acumulado em dezena de anos e estando
guardadas como relíquia ou butim da batalha (ou da guerra!?) perdida. Tomou os
cobertores, avançou para a sala ao sofá improvisando leito, depositou o fardo
naquele fardo que tanto amara e ainda queria e sofreria por ele nos anos que
viriam e sobreviriam.
E se mexeu. Se ajeitou. O Zé puxou algumas
rebarbas das cobertas naquele corpo belo da mãe de seus filhos.
E
ficou a olhar tal símbolo de sua realidade. Só a olhar, nem via mais o frio.
Marília setembro
2004
26° - Como
Foi Que Dormi no Poleiro
Nós aqui na roça dizemos realmente pulêro;
se nas estranjas ‘poleiro’ ou ‘puleiro’ deixo aos gramáticos a resolver, mesmo
porque nada fazem e aí têm a existir uma ótima razãozinha. O fato é que dormi
sim no pulêro. Sem que isso possa chocar ninguém mesmo as chocas, pois sou uma
galinha. Talvez melhor fosse discutir como é que parava grudada no pau num dia
em que noite toda a chover, as melecas das outras de cima batizando meu leito,
a ficar liso pra danar e aí não parava no dormir: não dormi noite inteira; caí
uma vez até escorregando e, no chão, olhava sem ver naqueles escuros; um barulho
de bater e mais bater asas; o homem acordou veio ver, e não via, ver se era
ladrão de galinha, um espécime que vai frequente para a cadeia porque os que
roubam de colarinho e gravata dormem tranquilos no apartamento com seu luxo;
mas não era, era eu caindo do pulêro e olhava o escurão sem achar a minha cama
que o amo fez atravessando de improviso certa vara numa árvore em que dormíamos
e nessa noite escorreguei bonito tibum no chão; enquanto que o homem também não
via, por via das dúvidas deu um tiro de sal ou de chumbo o qual fez barulhão
assustando meu susto e assustando as outras aves – não viu viu sombra e só o
sol consegue destruir a sombra nenhum homem.
Aí naquela noite daquele dia virou dia
mesmo, sol insetos no voar, minhocas a brotar no chão molhado – uma festa para
nós! um correr e mais correr atrás das comidas voadoras. Depois melhorou. A
mulher nos jogou um punhado de milho – a dizer ti ti ti pra nós, que acorríamos
felizes: propondo a felicidade, o que faz em todo planeta a felicidade é tão só
o alimento! No meio ao milho havia restos de comida humana como arroz e outras
coisas. Tinha um papo semidestruído duma de nós, nós partimos à disputa no
butim; aí uma franguinha entojada, dessas que têm sempre entalado algo na garganta
e ficam dia todo “croc-croc”, a entojada se apropriou do tesouro; e corria pra
lá voltava pra cá, o séquito faminto atrás dela e a pobre sem sossego; até
conseguirem todas estraçalhar a bicadas o alimento, sobretudo a disputar o
milho de dentro do papo, visto o milho atirado pela senhora já se ter acabado,
fazendo agora alegria das tontas a cantar suas árias. Eu não.
Olhava
bicava olhava. A turma a se dispersar, o galo, arrotando ‘sultanices’, cráu
de cá cráu de lá o fominha; e depois a cucurucar vitórias, isso porque
o nosso galo é demais machão.
Olhava. Pra não ver. Pensava (ao menos a
destruir a tese segundo a qual galinha não pensa). Pensava naquele dia, que era
certa manhã de sol a avisar possíveis retardatárias ainda no pulêro, somente as
doentes e as velhas corocas dignas de pena a coçar desanimadas as penas; só
elas. Nós andávamos corríamos bicávamos cacarejávamos espreitávamos a porta da
mulher do homem se abrir. E se abriu, ah a chuva de milho! uma beleza. Titití.
E foi então que nos reunimos naquele congresso para vida e expectativa,
inclusive as moleironas adoentadas e velhotas chegaram chegando capengas a
pleitear uns grãos. Aí deu-se um imprevisto, o qual era mui frequente ocorrer:
o Tiquinho. O Tiquinho veio pequenininho uma gracinha e foi apelidado Tiquinho
por petitiquinho mas cresceu se agigantou mesmo, antes passava a brincar
cheirar xeretar por nosso debaixo agora passamos por debaixo dele, se bom de
veneta inclusive subimos nas suas ancas para ver melhor as alturas do mundo,
coisa apenas dada ao galo o qual vê lá de cima em nos apascentar. Cresceu, continuando
Tiquinho, tornou-se gigante o cachorro e permanece molecão. Nesse momento
daquele dia, nós reunidas a discutir nossos grãos de milho esparramados no
solo, ele, o Tiquinho, resolveu quem sabe irritado com seus carrapatos e
piolhos, arresolveu investir na massa! e só foi pena voando, gritaria pra
valer, pernas para que te quero. Espalhamos nós igual milho ao
léu, ele atrás de todas, me escondi debaixo dum de cima qualquer; porém as
outras fugiram espavoridas e o besta grudou logo o galo, mais moleirão e cheio
de machuras e gorduras e lentidões. Levou nosso homem nos dentes sorrindo a
cauda com o inimigo a se estremecer na boca. Daí, ah bem feito, apanhou da senhora e saiu ele
num correr a esconder-se por baixo da cama dos meninos, seu esconderijo predileto;
nosso não: levamos chineladas quando entramos na casa, sobretudo se defecarmos
na cozinha ou indo ‘curiosar’ o que possa ter na panela em cima do fogão. Assim
ele ficou horas observando de lá embaixo e nos deu algum sossego.
Olhava, no pensamento, veja bem, academizo o
dizer, olhava. Para ver o terreiro. O terreiro é um mundo; um que se basta. Lá
tem de tudo: milho, latinha de goiabada com restos do Tiquinho, água na lata,
tem umas bobas que em vez de beber na bica lá embaixo preferem tomar água na
lata do cachorro; então entram dentro, virando um barro líquido; e vez que
outra se equilibrando na borda da latinha desequilibram o todo e tombam a
vasilha esparramam o conteúdo. Resultado, d.Maria vem armada com vassoura bate
nelas, aproveita a varrer as imediações e repor água limpa para o cão. Olho,
assunto o assunto olho e não me meto.
Olhava a coisa. Via no meu dentrão outras
coisas. Enquanto isso Cucurucu cucurucava bonito, as colegas, eu mesma até por
que não dizer, elas se reuniam em torno daquele canto de sereia no caso o galo,
o galo aproveitando-se: cráu! Assim depois elas a cacarejar felizes e depois ainda
a procurar fazer ou já feitos a procurar os ninhos para pôr seus ovos.
Olhava a me lembrar. Me lembrando da minha
primeira vez; não do ‘cráu’, nem sei quantas vezes o insaciável Cucurucu...
isso não – a primeira vez que botei. Dona Maria me pegou distraída, jogara uns
restos eu já pensando em privilégios e primazias... enganou-me, prendeu-me as
asas, enganou-me, aí eu temendo a sorte da sem sorte na panela; apalpou-me a traseira,
eu constrangida no meio de meu povo (era minha primeira vez, veja bem academizo
de novo) e disse à garota mais velha “esta franga já tem ovo”. Até me virei pra
lá, envergonhada. Fui posta no chão, me chocalhei a voltar ao meu natural, comi
o resto que as outras engoliam e despistei o quanto pude. Procurei depois um
canto longe dos outros, do Tiquinho lambeta e enxerido por exemplo, pra pôr meu
primeiro. Depois disso não parei mais.
Olhava aqui dentro ver lá fora. Naquele dia,
um outro dia, acharam meu ninho. Eu me preparava a botar mil e um, imaginava
filharada a piar, quando me seguiram me acharam o recanto! Roubaram-me os
pintos nos ovos; nunca mais me deram sossego: botava, roubavam. Um dia foi o
Tiquinho a me comer os ovos (e apanhou o malandro aí gostei).
Olhava de novo para lembrar um lance
curioso. O menininho mais novo da família recolheu a feira, levou inclusive
para casa meu indez, que deixavam a me enganar e não me enganar errando o
ninho. Levou o ovo choco, quebrou o indez inadvertidamente na cozinha... e
espalhou o cheiro de podridão, apanhando da mãe como o Tiquinho naquele dia; e
chorou fez um berreiro. Eu? eu gargalhei mesmo numa vingança pelo roubo que
faziam diário, vendo o episódio do ovo choco. Puseram outro no lugar, botei
botei botei.
Olhava agora aquele triste dia. Triste sim,
traíram-me com milho enganador, me prenderam, me mataram esticando meu pescoço!
Fiquei a acompanhar a tarefa, demais entristecida. A água a ferver amolecendo
minhas penas, o arrancá-las contando causos e se rindo (gente é isso, gente!)
me deixaram nuzinha da silva e ainda me passaram ao fogo vivo tostando tocos de
penas sobradas; o bestalhão do Tiquinho xeretando por volta a me cheirar, que
raiva! Me esquartejaram me temperaram me afogaram me cozinharam em nome... ah,
em nome da boa vizinhança. Uns parentes então chegaram de imprevisto, na roça
não dá para ir ao açougue alizinho comprar bifes, pegam a sacrificar a primeira
penosa ao alcance, no caso eu! tadinha de mim.
Olhava o depois aqui dentro de minha alma a
chorar. Festejaram conversaram riram se embebedaram com cachaça de nosso amo,
me arrotaram. E, ah que infâmia e que horror – peguei um dos garotos a me comer
a coxa esquerda... Pior: chamou o Tiquinho, encostou meu osso no focinho do tinhoso;
atiçou atirou longe o dito osso, o indecente correu achou, roeu roeu roeu-me
quebrou-me em partes; ainda por cima por baixo me enterrou o osso a se prevenir
esconder tesouros para ter-me outro dia por entre grãos de areia nos dentes, se
é que algum cachorro não me chegasse ao esconderijo antes! Pode uma coisa
dessas, pode!?!
Marília outubro 2004
27°
- Assassinato da Lua
Um
dia – falou a outrem uma voz ansiosa por orelhas, as minhas por exemplo mas só
contando com a direita – um dia que já se perde no tempo, mataram a esposa
dele, uma delas visto ter um harém, logo a favorita, uma carijó bonita de se
ver; então fizeram a pobrezinha porque chegaram de repente visitas, afogada
ensopada assada ou ao molho pardo não mudando a situação – o fato é o galo,
pobrezinho, ficar viúvo apenas não ficando totalmente desamparado porque o
serralho era pleno de minhocas bichinhos e tendo milho vez por outra e assim se
sustentavam as outras esposas, muitas, e tinha franguinho franguinha pro futuro
e pintinhos a encher ouvidos de papai, que só de raiva mágoa tristeza
certamente cocoricou alto num cucurucu de despedida da morta.
Mas
e a Lua. Não se fala da Lua.
Mudo:
‘na’ Lua, não apreciando depreciar os outros sobretudo fêmeas.
Macho.
O Sol é muito macho, um macho e tanto – vibra vivifica vivos. Não recompõe a
carijó, tadinho do galo, ah como é duro ser um varão procriador! O Sol perdeu,
isso também é duro, mais duro, é mole! duro pra valer, quem já viveu esse
morrer sabe bem, bem se diz este dito. Tadinho (diria “palminhas pra ele”!)
tadinho do Sol.
Contemos
a viuvez.
Era
uma vez uma sociedade se dizendo cristã piedosa civilizada e equilibrada, a
cultivar os costumes e a moral. Íntegra, batuta, matuta, matutava as conquistas
ocidentais da tecnologia e cansada do acanhamento e da timidez em que vivia, se
é que vivia. As instituições eram sólidas impensadas imovíveis. Um dia, um que
já se perde no tempo, chegaram de repente visitas.
Oferece-se
o melhor quarto, a melhor cama, o melhor caroço do colchão de palha, a melhor
iguaria, digamos a galinha carijó, tadinho do galo o gogó assim de cucurucar a
perda ao molho pardo da viuvez. E é claro as crianças foram dormir no chão de
terra batida, felizmente no infelizmente era seca e apenas havia barata e
outros apreciadores de calor e sujeira; esses meninos ganharam decerto com as
visitas os restos do banquete das visitas, isto um senão. Se não vejamos os costumes
se alterando pela alteração.
Mudaram.
Primeiro mataram a carijó, tadinho dele. Depois e ao mesmo tempo mataram outras
rotinas em pôr outras rotinas no lugar, tadinho do Sol. Porque resolveram os civilizadores
civilizados matarem nada menos que a Lua.
E se
pergunta: e os poetas!
Então
os jovens se casavam, antes namoravam, furtavam furtivos furtos com os lábios,
um que outro não, a média do todo, naquele tempo não assim que se chamava porém
sendo assim o pleno. Bem. E ao casar, com padre compadres e amigos e parentes,
visto os parentes andarem sempre xeretando proximidades e a palpitar
palpitantes novidades pra valer e mais se sobrar algum podrinho; e arroz na
saída da igreja, e véu e grinalda (parece que se fazia assim também para velório
na sala e enterro no cemitério da prefeitura antes se benzendo de corpo
presente alma ausente). E aí tchã-tchã-tchã... a Lua!
Ah
os românticos, mataram os poetas mas é outra estória não cabe em contolouco.
A
Lua... tinha sim o amargor do fel às vezes e até com devolução aceita por São
Machão protetor dos homens da época, devolução da mercadoria por não intacta. O
comum, não do proceder, do viver, não era assim, era o mel. O príncipe encantado
levava ao colo, quando endinheirado na viagem de núpcias quando desendinheirado
só ao colo: despejava o doce fardo na cama, olhava pelas frestas se não havia
olhos na fresta vindos de fora pela tal fresta podendo ser o buraco da
fechadura da porta e até...
A
população crescia.
Ainda
cresce.
E
agora, Sr.Sol!
Tem
sim a lua de mel, pra focalizar a tevê dar e ter ibope, marcha nupcial de Mendelssohn,
flores essas coisas, mas a Lua já vem de muitos ‘namoros’ e casamentos, o casal
ela no terceiro ele o conquistador adepto de São Machão protetor assassinado no
seu quarto ou quinto, se bonzinho ainda no segundo.
Ora,
pode existir hímen que suporte tanto defloramento, tanto mel!
Ah
pobre! do viúvo? do galo? do sol? Do Leitor, viúvo, ou pior, enganado.
Marília outubro 2003
28° - Confissões Íntimas
Ah
meu caro... nem quero dizer, quero até quero, acho que não posso. Posso, devo,
afinal você é meu amigo; não exagero; deve ser o único a quem poderia falar
nisso. Olhe, não é bem como dizem: ele a expulsou do lar!
Ah
meu caro amigo, lembro-me foi numa terça como hoje dia vinte e um, já havia
pago contas e tudo o mais; restavam as contas da casa. Essas não conseguia
saldar. Ia empurrando com a barriga, apenas a empurrar. Foram anos (sabe o que
é sofrer anos!) anos sim vendo tentando evitar desenlace, sofrendo um convívio
cada vez mais difícil de quebrar. Imaginou um nó feito, apertado longos anos,
cimentado no tempo, difícil seria desenrolar! era isso, temia, temia por mim
mesmo, não queria sofrer o desenlace e sofria por ter, ou melhor, por não ter
coragem no desenlace. Paradoxal? é, paradoxal. Alguns amigos, não digo íntimos
como falo de você, não, alguns; diria melhor: conhecidos (a gente pensa ter
amigos, tem conhecidos os quais se dão à pachorra de palpitar sobre a gente,
pessoas que dizem: Beltrano? ah é assim é assado; especialistas na espécie humana
– não conhecem o homem). Não você, você é íntimo, posso contar com você, posso
contar a você, tendo retorno da compreensão. E do perdão. Do perdão?
Ah
meu caro, será que os outros possam perdoar-me! Diante da evidência e diante a
incompreensão da gente a gente fica a pensar o contrário. Me ponho no lugar da
sociedade, a sociedade comportada e de bons costumes. Um sujeito leva a
companheira de todas as horas, mais da madrugada (ela me azucrinava ainda mais
madrugadão, não deixava dormir...) leva essa santa, falei santa (sim, logo diriam
eu um belzebu ela uma santa, sei que é esse o comportamento apressado dos
outros que garantem nos conhecer e, privados do viver no dia a dia, melhor
diria: na madrugada a madrugada – massacram tacham rotulam adjetivam um
infeliz, que infelizmente sou eu, você compreende; voltemos à ‘santa’:) leva a
santinha embora de casa! Porventura, má ventura, não será monstruoso?!
Ah
meu caríssimo, mesmo eu julgaria monstruoso. Acho que sim. Teria míster belzebu
esquecido os méritos da santa, indagarão perplexos. Porque é inegável fosse
mãe. Mãe já diz tudo comprova tudo perdoa tudo. A sociedade é severa mesmo em
se tratando de suas fêmeas, todavia perdoa a mãe; embora possa ter a mesma
‘pulado a cerca’ como se diz. Mãe. Ela, a santa, era mãe de verdade. Verdade
que não se deva exagerar neste ponto, exigir demasiado; dentro dos padrões da
espécie foi mãe. Aí é que ponho um obstáculo.
Ah
meu caro amigo. É problemático, ao menos melindroso falar nisso. Contudo devo
esclarecer. Todos anos, anos a fio, engravidava. Acho até que voltava madrugada
a fora com um filho dentro da barriga! E eu? como ficava nisso... já pensou na
minha dignidade. É preciso neste ponto pôr a questão da infidelidade. Será
infidelidade quando a gente sabe tudo? não será infidelidade apenas quando somos
inocentes? sei lá. Além do mais deveria por acaso povoar o planeta! mais bem
dito, povoar ela. Ela dando à luz, eu pagando a conta, como fornecedor de alimento.
Piormente: dando de comer aos filhos dos outros; constrangedor.
Ah
meu caro amigo, amigo de verdade; dos outros sim! Sabe aquela estorieta da mulher
do tintureiro com filhotes de todas as cores e até um de olhos puxados, sabe?
guardadas as proporções eu me sentia tintureiro. A sociedade, mais ainda os
vizinhos, compreenderia meu drama? Creio que não. Eu, manhãzinha, o sol a
embelezar o céu, as caras alegres ou pensativas dos passantes na rua, eu apenas
eu sofrendo envergonhado... tinha após anos nessa situação uma vergonha, sentia
indignação, isso todos os dias. Todos os dias dizia pra mim, aos meus pacientes
botões: seu palhaço, hoje não, você não tem coragem, amanhã manda ela embora. A
coragem aumentava e me dizia veemente: manda ela e também os filhos, os quais
não são seus filhos. Engraçado, a gente é gozada e besta mesmo no sofrer, posto
lembrar Gibran: “os filhos não são seus filhos, são filhos da Vida”. Exato, da
vida sim, e de sangue também não eram meus! Ficava bravo, esperneava xingava
mentalmente. Da boca pra fora, este cordeirinho.
Ah
meu caro, você pode avaliar este cordeiro seu amigo. Pode. A coisa crescia. A
mim me parecendo uma panela de pressão cheia prestes a estourar, por anos de
injustiça... não acha flagrante injustiça? E tem mais. A você devo dizer que
havia mais coisas. Deixa pra lá. Basta saber que ela andava em farra nas
madrugadas. Voltava emprenhada e feliz, tão feliz que dormia até tarde noutro
dia, dia inteiro às vezes; enquanto eu curtia o meu leito só, solitário na
madrugada; de dia ela a dormir enquanto eu a preparar comidinha aos filhos dela
com outros!
Ah
meu caríssimo, meu caríssimo; dos outros. Me arresponda: podia continuar a
situação? nem precisa responder. No entanto faltava coragem a dar o passo
definitivo. Deixava para outra oportunidade. Como que esperando, não a esperança
em solucionar uma questão insolúvel, de anos. Não isso, esperançoso de no dia
imediato ter a devida coragem para expulsá-la, definitivamente.
Ah
meu caro, enfim você compreende que não dava mais. Até que por fim chegou o meu
dia D, o dia vinte e um, terça-feira como afirmei. Não aguardei o sol embelezar
a manhã. Liguei o fusca, não o azul, havia já vendido a um tonto por causa do
câmbio e a marcha a escapar. O branco, branco não, sou péssimo pra cor, dizem
que é beje-claro. Não importa. Liguei o bicho, aqueci o motor, tomei a santa,
santinha do pau oco convenhamos, ela ainda sonolenta pela madrugada e assim
partimos.
Ah
meu caro amigo, imprescindível amigo, partimos e, confesso-lhe, doeu-me o
coração... compreende, eu a amava apesar dos pesares. Ela? sequer
desconfiando... Ainda por cima, por cima coisa alguma, no estado em que me
encontrava deveria falar “por baixo”, pois é, ainda aconteceu de o carro,
aquele pangaré montão de ferro velho – enguiçar! Imagine eu a empurrar o fusca
na via pública, a santa olhando o bestalhão gemendo empurrando correndo a
entrar no auto e aproveitar o embalo pegar no tranco, ela olhando
inocentemente. Foi bom, fiquei com mais raiva. Deixei-a perto dos predinhos
longe de casa. Ela apenas miou desconfiada. Não olhei para trás: fugi pra casa.
Ah
meu caro... não tive razão?
Marília
setembro 2001
29° - A
Parada
As ruas fervilhavam, mais ainda a
praça. Gente se assemelha bem à formiga. Imaginar a igreja imponente não sendo
mais que um resto de guloseimas atirado ao acaso por uma criança despreocupada
ao chão infecto, que em torno do bocado as formigas façam sua farrinha, se
desencontrando de antenas ligadas, a abocanhar impertinentes o doce, a carregar
e mais carregar porções do alimento para onde se leva; dezenas centenas
milhares de formigas. Dezenas centenas milhares de pessoas a olhar gulosamente
para a igreja, que fosse um casamento e não era, era tão somente o centro da
parada, o padre prestes a abençoar os militares e os grandes da terra, ou nada
tendo que ver; o povo curioso num vaivém, querendo sair na fotografia e estar
bem colocado, mas povo é mesmo curioso. Ele também. Difícil aceitar porém era
parcela do povo; agora, mais difícil se encaixar como povão; quem sabe por
nobreza de alma!
E se se ajeitasse um tanto em
expectativa, indócil. Parece que a farda desmerecia o ser, por grande. Não
ficava bem ao seu porte um erro do alfaiate descuidado. O espelho o confortou
um pouco do exagero, pôs os pingos nos ii. Virou à esquerda, consultou o
perfil, sobrava um tanto na barriga pronunciada; pôs-se à direita; examinou com
rabo de olhos as costas fugidias à claridade, gostou-não-gostou; tentou ver a
roupa às costas de novo, viu sem querer o uniforme a escorrer pelo ventre: é,
não ficava bem a um general a barriga saliente. Ou ficava, todos que sabia nos
altos escalões chegando primeiro suas barrigonas, depois os militares. Não
havia tanta certeza nisso, não tinha importância. Ah, tinha. Preferiu lustrar
os botões meio luminosos. Virou-se revirou-se brilhando os metais. Porém mais
impressionou a cor do tecido. Ele próprio achou-se lindo, antes dos outros
acharem. Dir-se-ia nunca tivesse sido general; para dizer a verdade. Nunca
atingira esse escalão, no entanto já imaginava um dia poder desfilar marechal.
Ocorre que não existe muitos marechais, entretanto não há limites aos sonhos
nem paradeiro às ambições humanas. Era humano, embora fardado. Cuidou que
cheirasse bem; usara desodorante e se perfumara levemente, porque os soldados
não precisam impressionar pelo cheiro, antes pelo denodo, por serem fortes! Se
lembrou general, e ainda que general, um soldado. Lembrava-se do tempo de recruta,
suado, obedecendo, apenas obedecendo, a frase na cabeça “obedecer é tão honroso
quanto mandar”, não podia discordar, era proibido; não se lembrava quem dissera
tudo isso, todavia já ansiava mandar. Agora punha a farda de general!
Revirava-se frente ao espelho, escolhia fachos de luz, o esverdeado de sua
roupa a fulgurar na luminosidade. Lembrou-se dos sapatos, até aí calçava
chinelos de borracha ainda úmidos pelo banho e precisava se pentear rápido,
ouvia lá fora o rufar barulhento da banda marcial; imaginava o povaréu indo e
vindo, realmente ia e vinha sem parar em torno da igreja e da banda, o
Sr.Prefeito e outros grandes chegando. Portanto precisava arrumar-se depressa.
Enfim apareceu o lacaio a ajudá-lo.
Pediu opinião ao velho o que achando
da farda nova, nunca havia sido general. Ouviu as ponderadas observações do criado,
foi outra vez ao espelho enorme; ajeitou-se, fez-se limpar nos galões, a
endireitar amarrotões; quis blasfemar contra o alfaiate, lembrou-se pôr os
calçados, auxiliado pelo outro homem, andou pra lá e pra cá, corrigiu o porte,
não era fácil ser general, nunca fora general, o que pensaria disso lá na rua o
formigueiro na parada! Pediu exigiu quase opinião do outro, chegou-se à janela
para ver seu público; nunca houvera sido realmente um general, não era o único
general todavia pois os outros andavam acostumados à posição, tremia um pouco
no temor pela berlinda e pela exigência social, sem poder confessar, não ficava
bem confessar; entretanto ansiava aparecer, mostrar patentes, a farda vistosa,
a posição de mando, gentalha quase chorando no beija-mão, povo indócil. Pediu
as pílulas antes do desfile na praça a agradar os grandalhões políticos e a dar
ciência ao povo animado, sob o tacão militar, o rufar dos tambores. Parece que
tremia, insistiu nas pílulas. E o pente a ajeitar fios fugidios e
embranquecendo. Isso tudo não desmerecia um general. No entanto era a primeira
vez general em público.
Daí bateram à porta.
Abriu-se. Outro general? não. O Pedro Cachaça sairia de mulher mesmo,
vestido vermelho berrante da Sebastiana. Gozou a farda do amigo e o ridículo do
corte, também culpou o alfaiate; aconteceu a gargalhada. Mas o carnaval
igualmente é gargalhada.
Saíram a enfrentar o público
exigente e animado.
O povo esperava indócil, formiga
andeja e alegre, brincalhona. Porém esse mundo é mesmo um carnaval.
Ribeirão Preto maio
1980
30° - Minhas Últimas Férias
É
conhecida por muita gente minha vida abastada, ao menos sem os sacrifícios
comuns. Não obstante me enfarava já o ser;
tédio, cansaço, certamente cansaço. Os íntimos a brincar: cansado por
nada fazer! A inatividade também cansa. Mas deixemos isso de lado; queria
férias, sair da rotina, fugir do ambiente. Um direito que assiste a todas pessoas,
mesmo aos que não têm compromissos e vínculos empregatícios. Foi assim. Planejei,
juntei minha riqueza, dispus a administração temporária dela e me dispus a
viajar. Dois meses após me transportava para os caminhos do mundo, cujo fim
sabemos ser a interrogação.
No
primeiro mês já revirara boa parte do globo sem precisar calcular o futuro a
gozar o presente.
Contudo
não gozei, não fiz plenamente uso dos direitos que me dava o direito. Isto
porque não andava sozinho embora longe daqui. Tive por isso que pagar um alto
custo, o qual foi muito além do desassossego e do incômodo. Cheguei às raias da
complicação no seu sentido perfeito. Então nada mais podia fazer sem consultar
meus companheiros. E aqui fica consignado não bastar ter dinheiro tempo vontade
e disposição para sair de férias. Conta e muito a opinião dos acompanhantes.
Ora,
devo dar uma pequena ideia de tais transtornos e o farei analisando os que
estavam comigo.
O
primeiro a tratar é o usurário. Levei-o comigo pois seria justo deixá-lo a
comer meu capital em casa, sem nada fazer! Ele constantemente me lembrou os
compromissos as dívidas os juros; fez empréstimos, cobrou-me outros, com juro,
juro sobre juro. Não me deu minuto de sossego. Não conseguiu seu objetivo
maior, que era enlouquecer-me. Não obstante sua azucrinação, voltei vivo –
velho acabado arruinado sim porém vivo!
Levei
comigo o Paquito. Poderia ficar sem seu ladrar! Foi uma dificuldade imensa
tomar emprestado à vizinha da frente, a meninada dela chorou. Então me
comprometi a tratá-lo condignamente. Foi comigo os apetrechos ao mister como
ração e vasilhas próprias. Depois dei-lhe banho cacei os carrapatos dele,
penteei seus pelos. Enfim serviço nota 10. Poderia ficar tanto tempo longe do
seu ladrar a minha insônia! Por isso foi o Paquito, o qual além de querer
atacar os passantes nos passeios que fizemos nada mais acho digno de lembrete.
Assim não precisei dormir por não me deixar, latindo noite inteira.
Fiz-me
acompanhar da molecada que me grita dia todo na minha frente. Foram com eles
suas bolas suas pedras e seus xingamentos, sem faltar nem aquele, sobretudo
aquele. E durante meu descanso merecido brigaram a valer, se desentenderam e
mesmo chegando à via de fatos. Não pude
me queixar das queixas que tinha antes das férias, levei os meninos que me
provocavam as mesmas.
Carreguei
também a me infernar totalmente a família vizinha do lado. Ela tem por
princípio e característica se agredir moral e fisicamente, entra ano sai ano
estão seus membros em pé de guerra, sempre prontos a agir; não importando seja
meio-dia meia-noite, noite e dia berram impropérios. Poderia eu, nas férias,
ficar sem ouvi-los! Deu-me trabalho medonho: alojamento passagem restaurante
polícia. Cumpri meu dever. Os circunstantes é que não entenderam a intenção,
reclamaram chamaram as autoridades. Além do mais tocou-me apartar, sobretudo
quando apareceram armas brancas (não costumo interferir nas da língua). Também
precisei ouvir os briguentos no seu afã mais perto dos meus ouvidos, porque no
dia a dia ouço um pouco mais distante. Assim tive madrugadas excelentes a recordar
os prêmios que me ofertaram, e são rotina no meu pedaço.
Antes
de sair de férias pensei levar todos meus parentes e conhecidos, mormente os
que vivem os maiores dramas conjugais e extraconjugais. Todavia era preciso
praticamente levar a população do país comigo; o que todos reconhecem
inadmissível. Nada obstante me comprometi, ouvindo os pedidos do meu coração, a
levar uma fita gravada contendo as lamúrias queixas e dores deles. Artifício
mui útil, visto poder diário nas férias ter presente o passado para augurar
garantia de futuro.
Bem.
Fui. Voltei. Voltamos a retomar o ramerrão a brincar de viver. No entanto não
teria nessa volta das férias o meu eu inteiro, se aceitasse o alvitre delas,
Elas desejosas a me acompanhar por esse mundo afora.
Falo
de minhas dores. Aí não tive escolha, nem fiz convite, nem alardeei propósito
em tê-las por companhia no meu período de férias.
Bateram
pé, foram: me grudaram me atanazaram. Inclusive criaram choques aos outros que
andavam comigo. O usurário queria cobrar juros a ouvi-las; o Paquito pretendeu
latir mais; os moleques não me compreendiam as dores; a família vizinha... nem
falo. Pior, bem pior que tudo isso foram as investidas dos ‘ais’ parentes,
contra meus ‘uis’.
Um
dia me vingo. Faço-me passar por pobre, até por miserável, saio noutras
oportunidades na calada da noite, curto as férias solitariamente.
Marília janeiro 2004
31° - Pondo
Pingos nos ‘ii’ do Normal
Era desse jeito que pensava Lulu, Lu
aos íntimos todos bem mortos e melhormente enterrados, Luiz, dessa forma com zê
e sem acento por ser antigão, no registro, sendo um dos primeiros na região em
ter o nome registrado no cartório; ele então que no futuro estaria computado
mentirosamente pela estatística do censo. Mas assim é preciso, era preciso, túmulo
13 quadra 13 alameda 13, é preciso no caso pôr os pingos. Isso porque o comum,
de tanto se dar e se dar mal: por que tem o comum que ser normal. O que é
normal! Ninguém a responder.
Respondeu
uma vizinha, dessas indignadas com o fato de um homem, homem: expressão verbal
da imposição dos tempos e das gentes; homem, não estando escrito ‘macho’, ela
não punha as coisas dessa forma... punha sim e até pensava que fosse. Dizia,
insatisfeita com os botões dela e pondo a boca no trombone – como um homem a
viver sozinho solitário separado longe da civilização ocidental democrática e
cristã admitida por todo o sempre! Em que se enganava; veremos. Ela se enganava
redondamente pois mulher gosta de se enganar a enganar melhor os outros
viventes e as aparências; ela, a vizinha bela jovem forte impetuosa sensual (ah
acabou o estoque na adjetivação, que pena!) ela, indignada, porquanto na casa,
casa dela do homem dela das crianças dela e da cachorra dela, na casa temia
terrivelmente baratas e elinhas, elonas as cascudas, e elinhas, perguntou, não
trariam medo ao pobre... Até que um dia foi ver de perto.
Chegou
devagarinho, vai que houvesse mesmo e voassem na sua cara, que aliás o espelho
achava linda, mesmo sem retoques de pintura. Bateu abriu cumprimentou sem
esperar autorização só para ver de perto o crime, a solidão é um crime
inafiançável não geral mas restrito. Viu.
Luiz
Lulu Lu tomava na mesa o café matinal. Do levantamento feminino ressalta outra
coisa, além das sujeiras, donde a conclusão “homem é tudo porco”, das sujeiras
a mancheias entretanto em mesa limpa, talvez a grudar um pouco, limpa aparentemente;
a xícara de florzinha, seria efeminado o machão! o leite na xícara e nos
bigodes do homem, o pão, a maior parte virada massa emoliente e disforme ou informe
a boiar na xícara, com uma partezinha na mão direita do bruto; e farelinhos ou
migalhas de pão besuntadas com manteiga, pelo vasilhame ao lado via não ser
margarina feita de sebos dos restos industriais porém manteiga mesmo de gente,
da vaca, do leite gordo dela na fazenda. Enfim tudo espalhado na tal mesa,
inclusive talheres sujos notou, espalhados ao deus-dará. O dito dito a sorrir,
então amarelo desascostumado com visitas e piormente melhor uma boa daquela
esbanjando linduras cheiros e curiosidades; a sorrir e nem por isso parou o que
não estava fazendo (isto é, não era possível acreditar naquilo que via o
sujeito fazer): dava de mamá à filhinha querida. Não será isto pungente! ou
infinito ou... ora não existindo palavras certas para demonstrar a poesia do instante.
Ela (a vizinha) parou, pasmada!
Quer
mais um pouco de migalha cheia de açúcar, querida!? Empurrou a porção mais
perto da barata, nem criança sendo pois aparentava experiência chegando parando
andando lerdeando a aproximar na oferta humana (o Lu ainda humano apesar do pasmo
da bela).
Insistiu
insistiu e a barata comeu, envergonhada ou só constrangida, isto em razão da presença
estranha no lar. Comeu, sorriu ao solitário, aqui provando por a+b não solitário
havendo mil e uma na mesa no chão na parede e aquelinha a comer na boca como se
fosse mamadeira já afirmado. Tudinho não percebido de pronto pela amiga do
amigo espelho mesmo sem pintura ela, a amiga vendo tudo na casa do Lulu ou do
vizinho Sr.Luiz.
Ele
se virou daí à visita na porta da cozinha, só então se lembrando a propor
educadamente entrar sentar ver tevê no sofá, sabe-se lá que mais inventaria
posto ela bela ele sozinho não obstante elas e necessitado. Porém a vizinha não
prestou atenção nos quesitos sociais do ‘solitário’ vizinho.
Havia
naquele ponto descoberto as baratas no voar na residência, aí decerto não
aceitaria entrar fazer sala e fazer o levantamento restante da solidão no
estado normal. Fez mais.
Não
fez, ficou petrificada. Apenas depois sapateou gritou berrou correu num barulhão
de espantar o bairro.
Quanto
ao Lulu, meneou desconsolado a cabeça pros lado da barata, coçou o bigode
prateado, olhou a pedir explicação à baratinha, esta a lamber porção adocicada,
gulosamente, a chupá-la como fosse mamadeira. Uma gracinha.
Marília
fevereiro 2006
32° - Caboclando Surrealismo
Era
no tempo do café, ainda não era bem hora do café; não tem mais café, na terra
virou terra de pasto mato carrapicho com pragas mais pragas. A praga do homem
também deu no pé a pé ‘de a pé’ como se falava ou no lombo do burro e nas carroças
ou então, quem sabe, num caminhão daqueles grandalhões que eram não mais que
pés de bode e portanto petiticos – sendo assim por expulsão da roça ou a
cumprir as leis do êxodo rural para inverter a ordem, porque era proporção de
dois cidadãos para oito roceiros, ficando agora oito dos caipiras-urbanos para
menos de dois matutos-agrários (alguns bastante esclarecidos pelas novelas das
sete das oito das nove e um eroticozinho após essas verdades televisivas
contemporâneas). Ainda não era hora do café porque era no tempo do café.
Nem
haviam tido tempo a inventar os insólitos desta vida, tão só os sustos quando
chegava um ‘fío’ a mais em casa não dando para evitar porque a Maria era parideira
pra danar.
Então
a ‘famiagem’ se juntava ao redor dum pé de café mais ‘saiúdo’ e a ‘muié’
depositava a comida, e não passava de oito e meia da manhã já o ‘armoço’, por
volta o cheiro de terra sangrada na carpina porque haviam, com enxada bem inclinada
afiada ajeitada a jeito, limpado agorinha os matos e as formigas não andavam
gostando e grilinhos e borboletinhas se alvoroçavam as moscas enxeridas elas
mesmo já estavam voando indóceis nas imediações – todos sentados um que outro
acocorado os meninos sem responsabilidade a puxar o ‘guatambú’ da madeira lisa
no cabo e por isso de pé ou pulando porque garoto parece que tem
bicho-carpinteiro e a gente precisa ralhar toda hora; e assim se destampa a
tampa levanta o cheiro atrai a gente atrai quem não deva que são os mosquitinhos
zumbidores que desejam cair de toda forma na meleca do caldeirão com o alimento
e aí se não se fechar...
E se
conversa. A conversa matuta e intimidades de família algumas muitas queixas
lamentos e coisas gozadas, nisso sendo bem brasileiros porque o povo de modo
geral adora pôr defunto à mesa e violências no almoço e dispensa as nunca
sabidas contraindicações.
O
homem, por ser homem e macho chefe da família, rosna resmunga o gosto por gosto
ou costume; vezes que outra elogia o quiabo em baba ou frango cheiroso.
Muié,
diz ele, tem muita proteína mas falta carboidratos ainda na almoço.
Pus,
Zé, pus.
Horror,
muié! pus na comida.
Não
homi, quis falá “ponhei”.
Ah...
Mas faltando as vitaminas A, D e E, B12 tem demais até.
Ué...
– se espanta a fêmea, futura matrona, ‘otimismando’ alcançar um dia intrigas
como a comadre Zefa.
Aí
se mastiga o arroz o feijão a abobrinha, bem temperados, um filho reclama “tem
féculas e fibras em exagero no feijão” outro lembra o amido no arroz e a garota
mais velha, boa na enxada põe muito macho pra trás, ela mostra repugnância pela
mosca nadando no molho de frango; a Mãe:
Cala
a boca Chica, fiz o melhor (fala mesmo “mió”) frango índio que sua irmã pegou
pra mim com ajuda do Peri, esse latidor sem vergonha. Não reclama não. O pai:
Vocês
só vivem falando à toa. Um dia proíbo comer carne no lar e aqui na roça – virarão
vegetarianos. A mãe:
Vou
pôr todos a praticar exercício de ioga, para sentirem o universo! O menino do
meio entre os quase mais do meio:
Não
quero. Vou ser lutador de caratê.
Cala
essa boca! – rebate o paisão, macho pra valer pergunte à muié – cala; e não me
fale com a boca cheia ou entupo sua boca com um soco seco.
Vamos
(mamãe diz “vamu”) parar com essa discussão, melhor se tivessem rezado pra
comer do que discutir no comer. Não vai coisa alguma exercitar caratê. Fará vestibular
graduação pós e depois o doutoramento, este no exterior, prefiro Oxford,
seu pai opta por Harward e eu não sei se é com ‘v’ ou ‘w’, essa letra
alemoa, e...
Aí
entrou o Peri na conversa, não se sabe pelo gritar da conversa se interessado
no osso que o mais novo dos mais velhos roía e ameaçava jogá-lo no chão a
misturar com a sujeira da terra ou foi porque sentisse a chegada de gente estranha
no pedaço.
Porém
não era de fora, apenas o fiscal da fazenda para ver o eito se andava limpo pra
não prejudicar a produção cafeeira.
Seu
Chico... aceita uma ‘guarápa’? (sendo assim apelidado o cafezinho feio fraco
frio e doce das doçuras de inclusive arder o gogó.)
E aí
tomaram, valendo de sobremesa à família e aperitivo ao fiscal. Tramelando, os
pequenos a olharem aquelas ‘granduras’ de gente lá em cima, falando sim as
coisas de colheita, que diziam “coiêta”, e preços. E dívidas; no que inclusive
o de colo já estava enrolado com mais de mil dólares por causa da dívida
externa do país e por ter vindo à luz pela Maria Parideira nascendo
brasileirinho.
Marília janeiro 2004
33° - Casamento
& Divórcio S.A.
Bem
anônimo casamento hoje em dia (digo, falo outra vez, repito... repetirei:)
Bem anônimo o casamento hoje em dia, a desaparecer por fraquezas; e por
contágio, o vocábulo. Ou estarão ‘semantizando’ o vocábulo, ‘semantizado’ já o
matrimônio, aquele antigo do aceita (antecipado e formalisticamente o “sim”,
quem diria “não”: não compareceria a dispensar o vexame; depois o vexame e o
constrangimento dos convidados em ter de explicar o caloteiro, aqui podendo ser
caloteira também; e o fujão, nisto sendo macho pra valer mas só o vocábulo, não
o casório formal) aceita dona fulana etc. e tal como legítima esposa e após a
se fazer o contrário do contrário e ela é claro antecipadamente a dizer sim
como foi afirmado ali em
cima. Pelo sim pelo não, não vai ao caso caso se pergunte,
afirma-se: casaram, antes amasiaram
‘ficaram’ ‘namoraram’ e depois, bem depois, contraíram núpcias, ah que lindo.
Festa, anúncio, convite de praxe, vestido de noiva, arroz na saída do templo ou
na do cartório. Acontece que aconteceu de o padre não haver aceito aquilo, a
‘moça’ já antes divorciada... e a se defender pôs a culpa na Igreja, gaguejou,
pôs depois a culpa no Papa – enfim não casaram no templo e o arroz se atirou no
cartório civil e pronto. Ora, chega de tró-ló-lós bobos. Ambos se casaram e se
puseram na lua de mel.
É neste ponto o início da estória.
Seguinte. Antes do seguinte necessário saber que a empresa Casamento
& Divórcio S.A. se desfez, ficou tão somente Matrimônio & Cia. Ltda.,
bem limitada por sinal; o agrupamento pró-Divórcio foi compor nova firma ou
resolveu se transladar para outra estória, esta aqui considerada pela oposição
desistente mui maluca. Retomemos o seguinte.
Seguinte. Partiram em lua, estrada asfaltada, com sem-número de buracos
federais, portanto oficial; um tanque, um e meio, de combustível queimado;
chegaram. Fizeram o que deviam (os nubentes, não: os esposos) o que precisavam
fazer, o que souberam fazer. Sem briga, pois se amavam. O desentendimento ficou
por conta das outras pessoas, os jovens esposos inocentes e ingênuos, se não puros, não tiveram a iniciativa; nem
erraram, erraram apenas levando os pais...
Papai ficou com vergonha, ou só constrangido, loguinho arranjou
companheiros para umas cartas e certa pescaria, dessas que a mulher não perdoa,
a mulher do pai da noiva. Ele só deu palpite na viagem, não dando azo a que os
jovens pombinhos se beijassem (e já podiam, de aliança e tudo). Ela, a sogra
dele, ela se meteu no meio a ensinar a filha nas coisas (todas coisas) e a esposinha
se queixou com o maridinho, este nada conseguindo fazer; não: muxoxo fez.
Enfim, o rapaz, que até aos atos solenes era solteiro, não sabia as coisas mas
acertou bem as coisas; não se acertou de fato com a sogra, quase esta mandando
o genro dormir no sofá, ou que fosse pescar com o sogro, “aquele sem-vergonha”.
Como o dito popular sempre garantiu: no fim tudo deu certo.
Em certo ponto. Pouco antes ou pouco depois mas no enquanto – que se
leia beijinhos abracinhos carinhosinhos – precisou o macho da espécie, caro a
Eva, telefonar à mamãe. “Alô, mamãe, a senhora tá passando bem!?” Não tava
disse que tava a acalmar seu pimpolho. Aproveitou a sogra dela a rogar coisas
ao filho, pôr panos quentes nos possíveis encontros antes que virassem
desencontros, lembrá-lo: pegou seu boné? e o guarda-chuva; toma isso toma
aquilo (aquilo sendo comprimidos xaropes e pílulas, claro que não anticoncepcionais)
falou do vencimento dos remédios e do vencimento das contas e da possibilidade
haver ladrão na casa dos nubentes, ou já esposos, abandonada ao deus-dará.
Se deu certo a união? bem, quer dizer, parte da empresa fugira da
Sociedade Anônima antes do incêndio; parece que na lua deu sim. Com um senão, o
senão de haverem os jovens casadinhos voltado antes do previsto, a aproveitar a
carona no carro de papai ‘aquele sem-vergonha’, mamãe emburrada por suas
razões; ou por outras razões...
Marília janeiro 2006
34° - Jura Eterna
Vou
lhe dizer uma verdade, dessas verdades verdadeiras, sem contradita, sem dúvida.
Confesso meu princípio mais importante; tão importante que vale uma vida, minha
vida: o da lealdade. Saiba e saiba quem vir interessar – nunca traí. Não é algo
positivo em nossa situação?
Gostaria provar o que afirmo.
Em 1958 ou 59, não estou bem certo, andei
de namoro com a Norinha. Durante aquele ano e até meados do outro a Nora quase
virou nora de minha falecida mãe, na época uma senhora bem posta. Jurei à
Norinha lealdade e amor, tendo cumprido a palavra fielmente. Um dia se engraçou
doutro rapaz e me deixou. Aí vinguei-me, era vingativo do tipo olho por olho,
me engracei na Cátia.
Jurei amor e fidelidade a ela; não me
deu tempo em pagar a promessa. Só porque pus na resposta a certa missiva dela
Cátia com ‘K’ como era moda na cidade, me deu o fora impiedosamente.
Então me enamorei da amiga dela, a
Joana, só pra fazer pirraça à Cátia. Cheguei a imaginar-me de braços com a
Joana em pleno jardim da Praça da Matriz, a Cátia se roendo com dor de
cotovelo. Jurei à namorada amor profundo, que eu não sentia muito, era força de
expressão de jovem atraído por aqueles cachos aloirados. Passeamos duas ou três
vezes juntos, fazendo eu questão de me mostrar à ingrata Cátia. Não chegamos à
quarta vez – ela me deixou por um viajante de laboratório. Fiquei grilado, mordido,
ofendido no meu amor próprio, era brioso e tinha vaidade. Então mudei de vila.
Fui para a cidade grande esquecer todos os meus infortúnios.
Caí nos braços do infortúnio feito
mulher! a Maria Aparecida, a Cidinha, me arrasou, primeiro com sua formosura,
me levando a jurar amor eterno! depois com sua perfídia; e finalmente com
invencionices gratuitas, dizendo que me descobrira mulherengo. Fez a cabeça de
todo o bairro contra seu próprio namorado (já me pensava noivo). Fiquei sujo
para todas as jovens. Depois ela me declarou impróprio para menores de dezoito
anos, ela andava aí pelos dezessete. Tive de fugir da área como renegado. Não
sendo essa a única injustiça sofrida no meu viver.
Loguinho fui acusado de pai da criança.
É que em novo endereço, uma pensão barata, agora no centro da capital, me
apaixonei pela Jacira, belíssima loira. Jurei aos seus olhos verdes um amor
profundo nunca igualado. Não sabia de sua gravidez; quando soube eu ‘desjurei’ o profundo amor, pulei fora do barco. E fugi com certa amiga intima
dela.
Inclusive cheguei a viver bem com a
Joana, outra Joana, era segunda. Jurei casamento. Não pude cumprir; essa jura
não valeu, pois ela não era mais moça. Na minha juventude isso contava demais.
Tal injustiça contra minha lealdade de
rapaz fogoso, interpretei como um balde de água fria, gelada, para meus ânimos.
Entrei num pessimismo medonho. Desacreditei de todas as mulheres. Aproveitei-me
para cair na farra. Dia e noite, noite e dia envolvido com mulheres de vida
fácil. Dezenas delas. Jurei dezenas de vezes amor a cada uma. Não sei se
acreditaram. Era o tipo do amor enquanto durasse como falava o poeta. Com
algumas delas não ficava sequer uma semana. Até que um dia encontrei a Joana.
Não reencontrei, essa Joana era outra,
a terceira, mas valia pelas outras Joanas ou não. Por sua meiguice, os seus carinhos,
mesmo sua beleza sem igual, sua argumentação – fui como aspirado por ela desde
a zona do meretrício para o paraíso.
A Joana, uma santa! Aceitou-me, embora desacreditado, me tornou homem de novo.
Jurei-lhe amor destemido e desmedido, prometi
montanhas mares o céu. Ela piamente creu. Casou-se comigo.
Deixei o emprego, para me dedicar
melhor à melhor das Joanas deste
pobre planeta. Ela ia ao trabalho e me deixava feliz; voltava da empresa e me
tornava mais feliz ainda. Foi assim por três meses. Aí deixou-me infeliz:
faleceu de repente. Chorei.
Quem me levantou da mesa dos bares e me
requisitou à bebida foi a Toninha, um anjo. Jurei amor infinito àquela fêmea
tão especial; me apaixonei pela morena. Porém um dia, semana passada, me
fizeram a caveira (veja, não se pode confiar em ninguém!) – ela acreditou nos
outros, me pôs na rua.
Sabe, hoje em dia nenhuma pessoa quer
saber da lealdade. Mesmo sendo um princípio de homem de princípio. Ora, não é
algo positivo pra nossa situação?
Se me crê, e juro pela minha honra –
jurarei a você um eterno sentimento de amor!
Que me responde?
Ribeirão Preto dezembro
1994
35° - Um Final Trazendo
Questão Vernácula
De repente liguei o ‘desconfiômetro’ e me deparei com o inusitado.
Estava, não sabia como chegara a estar, num beco sem saída; porque não sou
versado em botânica nem nas ciências naturais e me encontrava perdido na mata!
Põe mata aí, uma selva sem fim, um panorama sem panorama, quer dizer, uma
árvore, bela que fosse, à minha frente,
e depois outra e mais outra outras; e muito espinho, ai, intrincado de ramos
galhos folhas flores e insetos esvoaçando... não chegava quase a sentir a
fragrância pura do natural, sentia era medo, isso mesmo – medo, dos medos
enormes me tornando pequeníssimo, insignificante. Verdade é que não sendo a
primeira vez a sentir medo; era com certeza a primeira vez que sentia tanto
medo! O que não dava para espantar, pois me veio uma impressão terrível, que é
aquela de imaginar ter de constatar existência de animais ferozes, de grande
porte, não falo em dinossauros, mas daqueles ainda vivos nas matas de vários
continentes e não domados e menos ainda domesticados. Que fossem pequenos, para
mim no momento da insignificância só poderiam parecer enormes, porque o medo
aumenta e exagera o sofrer. Era assim.
Não obstante a todos os medos do planeta, não me apareceu qualquer
animal feroz de grande porte e nem pensei – deveria ter pensado, é lógico, não
era eu lógico naquela perdição – não pensei nas cobras se arrastando pelos meus
pés... Estou lembrando inclusive não haver, por ilogismo também, pensado a
recorrer aos amigos da expedição da qual me desprendi com a certeza ter certeza
conhecer a selva e não a conhecia coisa alguma, o que ficou provado a sobejo.
Não pensei em ninguém, apenas eu existia no meio daquele medo sem medo de
cobras e temente a animais inimigos da civilização (eu representava a
civilização naqueles longíquos do recuado sem televisão sem governo e sem propaganda).
Realmente a mata não precisava, eu menos ainda que a mata, de animais ferozes.
Isto porque existia ali um exemplar nada raro de outro animal, hoje eu sei mais
feroz: o homem! Exatamente assim – tinha diante de minha ilustre embora
esfarrapada e sangrenta pessoa, nada mais
nada menos que um ser humano... Onde o exagero de minhas palavras! ora ora, um
desconhecido é sempre ao homem experimentado um ser perigoso.
Logo ‘U’ (chamá-lo-ei “U”, que foi o som que emitiu ao agarrar-me após
meu tropeção final; posto não saber até hoje como se chamava) loguinho U me
conduziu sem muita delicadeza civilizatória à sua aldeia, distante uns belos
quilômetros porém ainda em plena selva. Fui como que arrastado; e quando
empacotei no chão (e ainda não estava pensando nas cobras e bichos rasteiros)
lembro haver-me tomado como a um porco morto nas costas, levando-me por trilhos
num sobe e desce intermináveis até à clareira no centro da vila rústica. U me jogou no chão, cansado talvez de
transportar-me os mais de oitenta quilos... Não fugi, sequer me aguentaria de
pé. Então apareceram examinar a presa, eu, mil curiosos, velhos moças crianças
e alguns corajosos guerreiros truculentos, estes me empurravam com os pés e me
chuchavam para ver-me a reação,
constatando eu estar vivo. Andava sim na pior.
A presa encontrava-se realmente na pior das situações. Arreada acossada
acovardada, pobrinho de mim!
Todavia
fora um engano meu. Fui tratado condignamente após o vexame por que passei.
Então removeram-me para uma ‘uteizinha’ improvisada, me esfregaram cheiros e
substâncias picantes, adormeci...
Acordei outro. Era outro homem, já era homem de novo: forte corajoso
impávido (exagerei um pouquinho, para mostrar serviço, cheguei a levantar o
rosto orgulhoso e bonito, gritava a vaidade – belo!) Daí por diante observei a
curiosidade humana igualmente representada naquelas lonjuras e primitivismos.
Era gente que vinha gente que ia, todos me observando e mesmo fazendo
comentários mais, sobre aquele representante belíssimo da civilização ariana
dolicocéfala vendo azul decerto a vida com aqueles olhões cor de céu e de
bochechas gordinhas estufadas e vermelhas. Examinavam brincavam entre si,
falavam eu não entendia mas falavam,
num vocabulário curto e sincopado. Foi daí que me resignei, que é forma calma
da vaidade, ao ser bem observado por fêmeas da espécie embora de outra raça.
Porque eram as mulheres agora que me alisavam até e me vigiavam me achando belo
(opinião minha da opinião delas, é claro). Assim foi o rolar dos dias.
Rolavam horas, semanas a me recuperar, com a ajuda dos amigos e parentes
de U, então desaparecido, acreditando eu estivesse ele à caça de outros belos
arianos dolicocéfalos, porque certamente eles também imaginavam que onde existe
um boi pode ter uma boiada perdida igualmente na floresta intrincada de
fragrâncias insetos e cobras. Suponho não haver nem U e nem outros guerreiros
encontrado o restante de minha expedição perdida nos trópicos bravios. De
maneira que eu passei, eu somente, a representar toda uma raça bela forte
dolicocéfala de olhos azuis, não obstante naquele momento sem qualquer cerveja
no bucho.
A barriga crescia. Não estava grávido não, crescia porque não se
cansavam de trazer e mais trazer alimentos apetitosos para o ilustre visitante,
eu. No início demorou que me acostumasse com vegetais desconhecidos e os animais
assados sem sal. A verdade é que passaram a me atrair o apetite os cheiros das
comidas presenteadas pelas garotas, elas que me traziam as guloseimas para que eu engordasse (e estavam de fato conseguindo
ao longo dos dias nada nada tristonhos...)
e sequer pude agradecer o mestre-cuca lá da aldeia.
Nem mestre-cuca vi; nem fui digno (penso não ter sido digno) para ser
apresentado ao chefe local. O que não me desagradou coisa alguma, pois não aprecio
governo, apesar de ali não haver imposto de renda. No entanto sobravam atenções
dos outros moradores da terra de U.
Muito cedo fui admitido ao convívio
total daquela gente, tendo inclusive
passeado e visitado muitas choças; fiz camaradagem sobretudo com as crianças,
elas são todas iguais vestidas ou despidas, este era o caso. Eu também, me despojaram
de meus despojos da civilização ocidental: atirei ao lixo o lixo de minhas
roupas esfrangalhadas pelos galhos e espinhos da selva – estava nuzinho nuzinho,
como os outros; verdade é que me distinguia pela pele pelo crânio pelos olhos e
pela pança, quase não podia mais ver os pés, a barriga cheia das gostosuras que
me davam...
Inclusive mulheres! fui contemplado com uma jovem – que embora não fizesse meu gênero e me tornasse infeliz se um
dia houvesse de apresentá-la à sociedade burguesa, fazia pelo menos ótima
presença ali. Nunca soube seu nome, não consegui nem tentei falar a língua
primitiva e não entendia patavina dos gracejos que me dirigiam, por problemas
vernáculos, ou apenas semânticos; enfim não os entendia. Entendia a mulher: um
homem e uma mulher se entendem na cama, mesmo sem cama, ali eram redes e esteiras.
Depois de tanto apreço, sobretudo com os presentes que me davam (mulher é o
maior presente a um homem em qualquer idade e qualquer ponto geográfico) fiquei
pensando no meu filho, quando viesse à luz, ter aqueles costumes rudes de um
pitecantropo; sofri gostoso. No entanto não queria sofrer, desejava alegrias
sem fim, aquela irmãzinha de U ou de
um outro guerreiro me dava tal alegria. Acabei ficando inclusive popular.
Isso mesmo, era conhecido por todos, amado por toda gente. Opinião
minha, talvez por causa de minha vaidade dolicocéfala, sei lá. O tempo passou.
Dias,
meses até. Até que enfim vieram as festas; sempre gostei muito de festa.
Não festas regadas a chope com música eletrônica. Festança da grande:
muita gente, rebuliço, dança, guerreiros solenes observando, creio haver visto
U ou um seu semelhante a me observar observar... Eu era o principal ali, estava
na berlinda. Outros convidados doutras tribos
amigas igualmente primitivas chegavam, chegaram ali olhando-me muitíssimo curiosos.
Olhavam-me todos. Merecia bebida, me enuviava já. Quase não via mais os
gases do centro a subir dum panelão imenso a ferver no meio das festividades,
das alegrias e das gritarias infernais... Quando alguns valentões ante o
sorriso de minha companheira me pegaram e me despojaram do último requinte da
civilização, uma cueca azul desbotada (que eu guardava como relíquia desde que
foram ao lixo minhas vestes; agora usada por mim como enfeite de festa). Assim
ficava eu como os deuses me passaram à cegonha e me entregaram à minha querida
mãezinha lá nas montanhas frias da Europa. Era o momento solene para mostrar
minha força, esperneei berrei, fechei os olhos azuis postos na frente de meu
crânio dolicocéfalo, eu não entendia nada de sua língua nem os aborígenes da
minha; mas via-me chegar mais e mais perto do panelão e de suas águas ferventes...
Então acordei. Que não sou besta.
Ribeirão Preto julho 1994
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília, 2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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