domingo, 29 de março de 2020

Contos sem Autor


0134(a ser posto no Blog Livros Inéditos)










                              Contos sem Autor

                                      Moacir Capelini




















moacircapelini@gmail.com


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Contos sem Autor...
                                  “Chama-se autor o personagem criado pela obra.”
                                                                                                                   Lêdo Ivo




Índice
1. Coisas de Pai, página 5
2. As Mãos e o Limite, pág. 7
3. Leilão de Gado, pág. 13
4. Era e/ou Não Era, pág. 15
5. O Morto, pág. 18 
6. Turismo, pág. 21
7. A Jovem Nua, pág. 24
8. Adultério, pág. 29 
9. Desencontro Inesperado, pág. 32
10. Altar em Baixa, pág. 36
11. Criatura em Diabrura, pág. 39
12. Um Tiro pela Culatra, pág. 42
13. Siesta, pág. 45
14. O Cadáver, pág. 57
15. Mi Pátria Amada, pág. 61
16. Diário de Uma Suicida em Fase de Publicação, pág. 64
17. O Burro que Falava, pág. 68
18. Missão Possível ao Impossível, pág. 70
19. Diálogo Intemporal, ou de Todos os Tempos, pág. 74
20. Cerimônia de Desindireitar, pág. 76
21. Teoria dos Extremos, pág. 80
22. Questão de Idiossincrasia, pág. 85 
23. No Estádio de Futebol, pág. 87
24. Um Caso Matraca, pág. 90
25. Volta e Revolta, pág. 96
26. Como Foi Que Dormi no Poleiro, pág. 100
27. Assassinato da Lua, pág. 105
28. Confissões Íntimas, pág. 107
29. A Parada, pág. 111
30. Minhas Últimas Férias, pág. 114
31. Pondo os Pingos nos ii do Normal, pág. 117
32. Caboclando Surrealismo, pág. 120
33. Casamento& Divórcio S.A., pág. 123
34. Jura Eterna, pág. 126
35. Um Final Trazendo Questão Vernácula, pág. 128
























- Coisas de Pai
         
          Pai não, mãe, mamãe andava braba ninguém sabia por quê. Ah talvez por não ter aula; no entanto um tanto simples o argumento, não dispensaram a genitora da aula, a aula era para os dois filhos. Felizes, os meninos felizes também na vizinhança feliz, já começava a pintar gente, gentinha assim deste tamanho. A água cheiinha de detergente sabor limão se esparramava, ela, a mãe, gritando a vassoura, só a pequena pouco mais que andava corria pronta no puxador tropeçou no cabo da vassoura caída caiu, chorou limpou ouviu berro materno, correu outra vez tropeçou agora no pacote de sabão em pó, pó molhado ai meu Deus! Mamãe nervosa, decerto pelas aulas. Aí chegou Pedrinho depois o Ziza, as meninas foram se agrupando em torno das coisas delas, poucas das aulas desocupadas ocupadas elas com suas mães; os machinhos – só os machos tagarelavam sem saber não devessem pois homem fala menos que mulher, ainda desconheciam a verdade. Você é o pai disse o pai da casa, na casa manda controla determina o menino e não canta de galo no terreiro dos coleguinhas. As garotas também agem assim. Assim estabaleceu “você é o pai”. Mudou de ideia, sou o Pai. Agora o pai com P maiúsculo, ele nas primeiras letras dizia pê grande; pê de Paulinho, um paulinho inventado, embora de verdade com estopa e pano rasgado a barrigada saindo, o pê do paulinho era dos pequenos como o esse de sabão. Sou eu. Você é filho. O filho aceitou, tem gente submissa desde a infância do adulto para ser pessoa grande mandada; e os que têm liderança embirram titicam e teimam na casa e depois no serviço adulto.
          Os outros, poucos, muitos à algazarra, aceitaram o regulamento, ajudaram esparramaram as coisas, mamãe coçando impaciente a cabeça fazendo muxoxo descontando na pequena e ajudando a garotinha ajuntar sabão quase pó de mingau mas não gritou, adulto é o que existe de mais sensato, bem mais que minhoca adulta ou minhoca menina.
          Pai!
          Papai havia tornado, remexia no quartinho de bagunça, quem sabe a atiçar mamãe, respondeu. Não é você, obtemperou o filho do pai, o qual já não estava ouvindo mesmo e procurava não sei quê, o qual tem por costume nunca ser encontrado por baixo e às vezes até por cima na casa da gente.
          Você morreu...
          Você morreu, intimou intimidando um deles. Eu matei você. Quis chorar o defunto, coçou o cadáver, remexeu o corpo bonito de anjinho e se fez de morto.  
          Socorro!
          Que foi meu filho! veio mamãe assustada. Ara, mãe! Voltou lá dentro ao seu esfrega-esfrega e derrubou qualquer, pôs a culpa na auxiliarzinha a qual chorou com talento e depois foi carinhada. Os moleques já se desentendiam no entendimento do faz de conta que ia virando a conta de fazer a verdade, aí resolveram mudar de brinquedo; tinha um emburrado ninguém implorou que ficasse ficou na brincadeira para não constranger os coleguinhas. O Pai não era mais pai, ‘titico’ assim, nem o Filho filho, que era grandalhão, nem os outros agora experimentando carro faltando rodas ou rodas faltando carro. Era para mudar, o que sempre até entre crianças supõe para melhor. Experimentavam porém andava chato; acabaram por brigar, um inclusive usou o expediente trazido da escola que a gente grande fala ser palavrão com tapa na boca.
          Como não havia conserto para concerto e harmonia, Mamãe, ainda nervosa, mais nervosa, a titiquinha dizia “nomosa”, interferiu na jogada, intentou parar o jogo mostrar cartão vermelho e expulsar de campo. Apelou por fim à escola, o que se aprende lá, agora sem precisar apanhar na boca caso o filhote estivesse ‘nomoso’. Mamãe. Papai não, este já se fora também ‘nomoso’ pro trabalho dele, quem sabe para a secretária.
Marília   setembro  2002




- As Mãos e o Limite
           
        Debalde Aasverus busca o limite do infinito no infinito. O infinito muda de lugar, corre se afasta desloca-se muda outra vez e cansa, até cansa. Mas não encontra o limite porque está atrelado ao infinito, que é infinito por definição. Mostra mede calcula imagina. Não pode ir além do imaginar; no entanto pode ver a paisagem fresca e suave como que inatacada e inalterada quem sabe se não por milênios... ela é simples é verde é saudável é cheiro de mato é som de vento é cricrilar de insetos. Porém o horizonte está longe, já foi o aqui – entretanto se mudou, mudou com Aasverus – agora está lá esperando mudar-se para o país do aqui e depois transmudar-se ao país do lá de longe. Assim não será alcançado, assim pensa Aasverus. Aponta um ponto no limite do limite, deve ser o limite, uma sombra a tremer; o que está distante sempre treme e até cintila, as estrelas não cintilam? Elas olham pacientes, milhões de vezes pacientes, hiperbólicas e belas, quem sabe se não a mesma sombra que ele vê... o indicador a pensar o que será, será uma árvore um outro ser humano ou ser irracional, quem sabe quem pode saber, talvez... segue.
            Segue seu caminho, houvessem os caminhos, por entre objetos plantados pela natureza, de muitas naturezas: fluidos sólidos e indescritíveis – tudo é indescritível à ignorância; tudo é, por outro lado, sabido. Sorri. Triste sorrir. Depois sorri pela flor que vê. Esbanja vida cor e cheiro, perfuma sua mão que a toca e perfuma o ambiente. Assim aspira. Expira. Anda, anda.
            Anda na busca do horizonte seu limite sem limite. E se prende em conjeturas. Pensa que pudesse ter alguém para contar a beleza a diversidade escancarada e para mostrar, não tem; pensa não ter: existem a borboleta se perdendo borboleteando e qualquer outro voador insignificante a embelezar as vistas, mas não são ninguém. As águas num fio a escorrer por aqui para ali fervilham vida, mas não há ninguém. O ar saturado de seres invisíveis e microscópicos também existe; mas não se vê, portanto não existe, não existe ninguém! Só.
             Só. Mal acompanhado? Acompanhado pelos raios de sol; aquecedor inclemente vivificador incansável o sol semeia nascimentos e esperanças. Projeta esperança na direção dos limites do horizonte. Ele já se mudara outra vez, sequer Aasverus percebeu haver andado tanto... já nova paisagem, sim nova vista a focar no fotômetro da memória. Bela.
              Bela evocação de novas plantas, vegetais enfolhados ofertando vida a outros seres perecíveis. E some em manto até o horizonte, talvez além do limite dele. Outro, outros vultos, já a sombra não é mais que uma pedra, fora dos cânones da geometria porém na forma de pedra, granito ou qualquer coisa, enfim novo começo para o caminhar sem fim.
              Fim, começo, começo do fim, fim do começo? Não sabia; por que razão teria de saber, entretanto queria saber Aasverus já cansado.
              Cansado? Não estava cansado. Andara toda uma vida, dezenas e dezenas de anos, muitas luas fosse indígena, muitos sóis, para de noite brincar com as estrelas cintilando hiperbólicas por milhões de milhões, não estava cansado.
              Cansado? Talvez o planeta é quem estivesse cansado. Todavia não dava mostra encontrar-se no fim. Não obstante girava adoidado antes do limite do tempo em torno do mesmo Sol, igual a Marte igual a Netuno ou Júpiter. Cansado talvez pela insignificância de Aasverus, igualmente girando na busca do limite do horizonte, ainda longe, ou quem sabe perto! Do seu limite... dobrando dobrou a coluna cansada quase dura enrijada pelos anos, a apanhar um raminho; depois a brincar com ele, que respondia ressumando um perfume amargo e suave, tornou a caminhar antes que o calor de Hélio cedesse à friagem da namorada Lua. Andou compassado firme e paciente até... a busca do limite.
              O limite era a sombra, nova sombra doutro ser, sombra fugidia pálida cada vez mais pálida no sol se pondo. Caminhava, até que ela deixasse ser sombra para ser sombra toda a paisagem; ou que aguardasse a lua, fosse crescente ou na melhor da sorte cheia! O vento, fora antes brisa agora era vento, vento sem medo de virar ciclone, no entanto frio e cadenciado.
              Cadenciava os passos, pisando a noite o vento o solo a erva exalando cheiro característico do pisar; cadenciava os passos por entre chiado e cricrilar dos seres que a cegueira da noite nega-se mostrar. No entanto para lá, para lá na direção do limite do horizonte. Parou, necessariamente antes do limite teimoso a se mudar constante, parou um pouco a sondar sua área, desconhecida porém sua. Onde estaria seguro? Sequer podendo imaginar que tipo de seres teria por companheiros naquele descanso escuro, as pedras, sim as pedras em sua defesa. Recostou.
              Recostou-se cansado ou só para aguardar os raios vivificantes do sol a retomar a viagem. Apalpou o quarto de dormir na casa pródiga da natureza. O conforto necessário, somente o necessário. O necessário e o suficiente para esticar aquele conjunto de ossos de peles de pelos de sangue, quatrilhões (ou ‘n’-lhões) de células e moléculas e átomos e infinitesimais partículas da natureza agregadas formando um homem. Ou só uma casa. Sim, imaginou ser apenas uma casa, uma construção de dezenas e dezenas de anos – a morada do seu espírito imortal, Aasverus admitia ser um espírito em passagem curta no planeta Terra. Agora Terra molhada.
             Molhada primeiro pela garoa fininha que emudeceu o cricrilar depois engrossando apagou a poeira de vez e respingou naquela máquina intrincada de ossos e de sangue, de vida, descansando sua noite. E também molhava a lua, desligava a luz da lua, quem sabe (o que sabemos!) não viesse orvalhar também a luz do sol... chuva água pingo goteira a escorrer seu descanso, hora de colocar as ideias em dia, noite para santificá-las. Orou. Curto, simples, o coração falando no agradecimento ao Criador por ainda estar vivo, aguardando o outro dia.
            Dia que não chega, a noite em vigília encompridando as horas. Viveu. Reviveu seu pensar, seu viver; os vegetais ali, ali os animais insignificantes e os de grande porte (então se assustou num repente da possibilidade no perigo, sendo um repente mero instante, voltou a si) estariam os animais imaginando a vida passada igualmente? Não, por certo; por isso que era gente. Gente a rosnar pensamentos desde as mãos (pegou-se gesticulando sozinho, e estava mesmo sozinho pensava andar sozinho tinha a certeza não estar sozinho era um espírito e haviam os outros por volta com a cabeça o tronco as mãos) ah as mãos, quanto não fizeram!... quanta coisa indevida se lamentou; mas quanta coisa reta, quanto elas endireitaram ou tentaram endireitar, se consolou. Era apenas menino.
          Era criança. E já lhe falavam no deserto. Voltou rápido à sua chuva às suas pedras ao quarto que a natureza lhe oferecera a dormir para não dormir: ali também era deserto, puxa, um deserto! Não o deserto de areia de sede de calor estafante, contudo igualmente deserto. Voltou rapidinho à meninice, parou ainda cansado do cansaço pelo correr, parou o coração batendo a querer estourar veias, entumescidas. Estava de novo menino.
          Era gente em flor. Pensou nos seus, seus parentes seus próximos seus adultos; e no velho. Não se cansava nunca, até morrer ainda não se cansara a dar-lhe orientação. Falava manso, rouco, baixo, mas não se cansava. Voltou-se aos momentos em que era tão somente o aprendiz da vida, de tudo, tudo ouvindo nem sempre entendendo. Pensou sobre tudinho num instante, lembrou-se de tudo de quase tudo que ouvira como lição e conselhos; no entanto fora a mão que o levara aos recônditos de seu próprio ser, a ouvir o homem falando ao menino – leve, diplomático, sério às vezes como exigia o momento e a oportunidade. E mostrava, sem mostrar, o exemplo dos próprios atos a ele um garoto então. “As mãos, filho, são o pensamento materializado da vontade”. Tudo se fazia com as mãos; mais de quatro partes das cinco que a humanidade fizera, graças às mãos. Elas permitiram que a inteligência criasse e efetivava a criação. Benditas as mãos! Entretanto era necessário reconhecer que outras tantas quartas partes igualmente elas que haviam colaborado fazendo o mal! Lembrava exemplos, gostava dos antigos árabes cortando as mãos que redundassem nos crimes. “Não abuse filho meu, não abuse das mãos.” Voltou molhado.
             Voltou, acordou do não dormir, a chuva banhava suas mãos, brincou com elas, sorriu delas enrugadas na sua volta ao quarto de dormir na hospedaria do deserto. Tudo deveria estar úmido pelas lágrimas alegres e lentas do tempo. Somente podia apalpar os objetos em volta, não podia atingir toda a paisagem na escuridão da lua com janelas fechadas. Porém imaginou que tudo estivesse molhado. Com sorte observou clarões frágeis da madrugada. Não dormira; no entanto sonhara ainda assim. E agora a natureza ofertava relampejos de luz. Era se preparar.
             Preparava-se para outro caminhar. Retomar o embate. As mãos, as mãos que o levaram ao tempo de menino, as mãos iriam agora com certeza ajudá-lo e mantê-lo; elas que o sustinham por dezenas e dezenas de anos – elas o auxiliariam a se levantar para andar rumo ao limite do horizonte.
Ribeirão Preto   maio  1994




- Leilão de Gado
         
          Tempo em que os bichos falavam. Já não falavam tanto quanto seus futuros irmãos humanos falariam. Mas falavam. Na época o boi não seria mais burro que o burro; era tão ou menos que ele. O papagaio não falava exagerado como hoje; o macaco se preocupava menos com as momices de agora e mais com o que faria depois que desse origem ao Homo erectus e posteriormente ao Sapiens com suas brincadeiras evolutivas. E daí por diante.
          Diante do pai, um touro de olhos arregalados pela surpresa, andava o filho com ares bovinos de boa vontade de submissão ou de temor. O negócio já realizado, não tinha mais remédio.
          --Esse é o reprodutor que você comprou no leilão, filhote... O ‘boisotinho’ assentiu apreensivo; e aproveitando as reticências paternas tentou valorizar sua aquisição; pretendeu mostrar dotes da compra, o touro velho experiente não só resmungou:
          --Estou preocupadíssimo, acho que jogou dinheiro fora como da outra vez. Da outra, num gesto excêntrico de algumas toneladas de alfafa, trouxe para a fazenda um lote de mulheres desclassificadas – meretrizes, adúlteras, solteironas empedernidas, ladras e assassinas; quase todas portadoras de doenças venéreas... E prosseguiu o velho:
          --Sabe, meu filhinho, naquele outro leilão você atirou pela janela metade de minha alfafa do banco! Adquiriu no martelo fêmeas em fim de carreira por mulheres leiteiras. Um prejuizão sem tamanho! O jovem balançou a cabeça reprovando a reprovação paterna; não tinha ainda seus cornos, os quais mal e mal apontavam – a idade das maluqueiras.
          --Esse reprodutor é muito bom, papai! Irá apagar a lembrança das leiteiras, pode crer. Além do mais foi uma pechincha: arrematei-o por dois carros de capim (valia com certeza uma tulha de milho!)
          Com tal diálogo eles se deslocaram a um ponto da varanda. O mais velho ruminava suas lembranças: vira pela tevê seu herdeiro gritando mais e mais capim para vencer concorrentes a comprar aquele espécime desbotado enrugado machucado e barrigudo da espécie humana; desligara a televisão porém não pôde impedir o desastre. Agora era examinar de mais perto o exemplar de homem. Chegaram ainda mais próximo para ver melhor; observaram as cordas que prendiam o animal. O senhor touro coçava os chifres, desesperado; o jovem sorria de prazer em vista de tal achado.
          O achado, vaidoso, começou a sorrir, para valorizar-se e agradar ao bezerro que agora era seu amo. Fez trejeitos, se voltou, mostrou os bíceps (por sinal emurchecidos) fez enfim mil micagens, lembrando um preocupado macaco ancestral; falou, rosnou, quase chorou emotivo, medonho; fingiu-se boxeador e por pouco não caiu temendo o imaginário oponente. Não alegrou ao dono da fazenda e deixou temeroso o filho do dono. Por fim, derrotado, o touro idoso fez expressão de não tem jeito misturado com consumatum est aceitando o prejuízo para não criar caso com seu primogênito bezerro, nessa hora também decepcionado. Brigar com esse doidivanas! – pensou o touro, já não basta eu haver chamado a mãe dele de vaca e mandando a porcaria embora com aquele projeto de touro parecendo boi! – não pretendia brigar mais, aumentando a carência afetiva do garoto. Sorriu amarelo e no final disse:
          --Bem, está concluída a coisa, você jogou fora montanha de capim com esse “reprodutor”, aspou áspero e amargo o velho. Vamos finalmente detalhar os valores dele.
          --Sim, pai, concordo. Você vai indicando, eu anoto para a contabilidade da fazenda.
          Pai: cabelos? filho: não possui, ah me deram um desconto por causa disso. Pai: a cara horrenda, é assim mesmo ou está chorando? Filho: sabe que eu nem percebi na hora... Pai: a musculatura, onde? Filho: ah deve ter murchado na viagem. Pai: é monstruosamente barrigudo. Filho: sei; deve ser a água que dei a ele no riacho poluído... Pai: hum, como cheira mal! Filho: nesse ponto você tem razão. Pai: agilidade... Filho: isso não consigo escrever; e se nós exigirmos demais dele, o prejuízo será maior... Pai: (coçou nervoso outra vez o corno direito entortado). Filho: não anoto mais nada? Pai: se arrematou esta coisa por reprodutor, onde estão as coisas dele... Filho: quanto aos testículos ele os perdeu decerto na cerca; o restante da genitália... podemos aguardar o inverno, pois até a água mole fica dura. Paizinho, você está bem? olhe, aceito ficar um ano sem mesada.
Marília   agosto  2001




- Era e/ou Não Era
         
          Um fixou o olho no olho da rua. Claro, força de expressão. Viu? Não ‘tá’ vendo! Não o carro, a mulher. Ainda não? Tá vindo pra cá; mudou de direção, anda no meio da rua, gente tem dessas ‘carrices’, pensa ser automóvel, todo mundo se perde no meio e não no meio-fio e melhor andasse na calçada. Um formigueiro. Gente é formiga com dois pés, engraçado até: um pra lá outro vem e um terceiro cruza, negaceia mais, volta, põe a mão na cabeça, ninguém mais usa chapéu sobra a cachola pra pensar. Em que se pensa? Pensa que pensa. Anda vai volta para evita exita tromba segue; destino. Formigueiro. Aquela. Aquele? Aquele. Quem sabe; sabe quem... Aposto macho; aposto fêmea diz outro. Dia treze, sexta; ir à lotérica. Deve ser. Pode ser. Viu? São dois. Claro, um par no meio do formigueiro. Aposto fêmea. Pera lá, o que é a fêmea humana! Diria com propriedade cabelos longos seios andar estudado trejeitos delicadeza vestido perfume olhar submisso ou safadamente calculado. Após o macho. Em que consiste um macho da espécie Homo sapiens? Ombros largos e fortes, um bazar de músculos num indivíduo alto, no alto da cabeça de buldogue uns cabelos eriçados ou alguns fios dizendo adeus; calças compridas e algum relaxo para ficar de bem com a vida. E têm os seres que não são macho ou fêmeo, muito pelo contrário mas não tem importância. Importa sim é que existam. No geral basta ao formigueiro que tais seres existam. Pronto. Não, pronto não, não está resolvida a questão: macho ou fêmea, insiste um. Posto noutros termos: macha ou fêmeo? Ou não tem lá grande importância. Tem. Que seja por mera curiosidade, apostaria fêmea. Vem andandinho ao lado, no meio da via pública, do seu macho. Não. Pode-se, afirma o outro, pode-se bem ultrapassar os limites, seria apenas um vizinho ou um conhecido encontrado ao acaso que é o acaso urbano. Balança os braços, o que completa o andar lerdo (ah isso faz igualmente seu homem). Ameaçam virar à esquerda, estamos à sua esquerda, olhamo-nos com nossas interrogações todavia ao bom entendedor meio olhar basta, não é assim? Agora o casal, melhor pôr casal entre aspas, decide, se é que quando estamos nos espichando pelas vias da cidade decidimos ou confabulamos e mesmo planejamos para decidir ir à esquerda ou à direita – em geral somos baratas tontas dando encontrões no centro. Eles iam à esquerda, apenas ameaçaram fazê-lo, já estão indo para frente, reto, e continuam no meio da rua, ninguém mais respeita veículos, quase o ciclista esbarra borboleteante no homem, será homem? ele balança a cabeça quase feia, não sabemos reclamando do abuso ciclístico se conversando com ela. Ela, pensamos seja ela, sorri mais para si que para seu consorte. Com sorte afirmaríamos ser ao menos amante, nome hoje desvirtuado pelo modismo com o vocábulo ‘namorado’. Não importa, o imposto de renda dá os mesmos direitos nos descontos conjugais, isto é: quase nenhum; não sendo no caso da declaração em separado... ah deixa pra lá. Ela. Tem seu quê de beleza. Também não importa. E sorri bonito. Importa pouco. Olha num trejeito os passantes (um enxerido diria estar ela vendo o rapaz que passou, outro que olhando a moça cheirosa cruzando com o par). Tem ombros estreitos, os seios sumidos na camiseta xadrez com... (não, é preciso saber descrever roupa e os escrevinhadores tiveram zero na matéria). Olham-se. Ele, pensamos realmente seja ele, tem a camiseta estourada pelos músculos e é vermelha, embora a cor não dite sexo. É vermelha com certeza. As calças são jeans fêmeas e machas, as vestes de hoje não definem. Vez por outra o par se estreita se toca se olha (se ama?) se endireita se separa se volta para frente, segue, desconsiderando o tráfego e não se importando com as normas de trânsito automotivo; ou terá descoberto que o ser humano é o rei da criação! Prossegue, faz séculos de segundos que desfila à frente do visor de crítica; decerto não pensa nisso, pois matraca sem parar. Ela (então já passaram) volta-se no ver o que ver ou não se sabe o que; ela? Ele é tentado por imitação certamente a também olhar o não se sabe o que mas com visão macha porque o modo de perceber feminino é diferente do... Ele? Qual é ele, ou é ele que é ela? ou nenhum seja nem ele nem ela, que horror! Não ocorreria que tais pessoas do espetáculo no meio da via municipal não tivessem... Vejamos bem, e nós que estamos olhando o vaivém, que seremos? Não, isso é por demais embaraçoso. Se olham um e outro. Não tá vendo?
Marília   julho  2001

 

 



- O Morto

         
          Positivamente, a sociedade é louca. Pelo menos os exemplos demonstram podridão... O Zefinho... deixa pra lá.
          O Zefinho nos comunicou outro dia, entre absorto (que é seu normal) e anormal (que é seu comum estado) – haver morrido. Protestamos. Rimos. A expressão do farmacêutico fez-nos porém de risos amarelos e posteriormente de faces sérias; olhando um fulano que não brinca em serviço, magrinho cor de cera e meio apressado, tido honesto... Como duvidar?
          Fez a poção, atendeu o menino, injetou drogas para melhorar a droga da velhota, provocou o plim-plim na registradora. Retomou o assunto; como era seu costume não homogeneizar, mas heterogeneizar. Por exemplo, a fisgada no lambari com pomadas; o guardar o peixe no samburá de mistura com penicilina e comprimidos de gripe. Retomou a morte, com vivacidade.
          --Quando eu morri, no último dia sete de outubro, comecei a... (foi interrompido por uma garota).
          Atendeu a “boa”, como a adjetivou o Guilherme, voltou, não chegou a recomeçar, foi ouvir a queixa sussurrada dum homem idoso nosso conhecido. Só escutamos Zefinho dizer alto “isso não pode, na sua idade”, o que nos deixou curiosos. Fora o seguidor da bengala, ganhamos nosso interlocutor, o morto.
          --No dia sete – disse o das panaceias – quando me dirigia ao Retirão, no táxi do Pedro Bica... vocês conhecem o Pedro? (negativo). Aquele gorducho, barriga deste tamanho, moreno... moreno coisa alguma, mulato mesmo. (Balançamos a cabeça, desconhecendo). É esse. Ia correndo a trinta por hora, quando muito; praticamente andando; parou, entrar à esquerda... Buuumm! (assustou-nos a onomatopeia imitando o choque de veículos; parecia um siciliano num momento de grande esplendor; depois fechou os braços envergonhado, enquanto nós olhávamos querendo arrancar dele o restante do fato; nisso chegou um freguês; freguesa, a bem da verdade.)
          Perdemos nosso defunto por minutos. Ele vendia um purgante à jovem, com muita recomendação, o que a deixava corada. O Guilherme Pornográfico olhava a moça mas via a fêmea. Tornou ao grupo-todo-ouvidos o nosso amigo.
          --Dizia faz pouco a vocês que sou aquele que mataram na terça-feira, dia sete... Precisavam ver a quantidade de carros engavetados, o número de vítimas, coisa assim de fazer delirar os médicos e os hospitais; suficiente para qualquer vendedor de remédios comprar automóvel novo; não falo do farmacêutico verdadeiro, daquele que não vende ‘potato de nitrássio’ por nitrato de potássio; farmacêutico verdadeiro. Olhem aqui (olhamos) sou farmacêutico, vocês me conhecem, sabem que não sou de autoelogios. Ora, tornemos ao desastre: eu andava no banco de trás, como se sabe; veio um Mustang e buuum! quebrou-nos... O Guilherme me viu engessado até aqui em cima, não é? (era, assentiu). Fiquei feito coluna de cimento, encaixotado; com a diferença demorar para secar por quatro longos meses! Então...
          Não houve ‘então’. Certa menininha suja da felicidade pelas brincadeiras entrou espevitada a berrar uma qualquer coisa como “seu Zefinho, mamãe pediu um vidro de acetona e três...” medicamentos ou drogas dos quais elinha esquecera o nome. De novo esteve conosco, ainda rindo da atrapalhação da menina. Ele a rir, mesmo tão sisudo.
          --Após esse acidente horrível – vejam as cicatrizes nas pernas (mostrou-nos uns cambitos peludos e finos, da beleza própria do homem; aliás, poucos objetos são tão belos quanto umas pernas masculinas sob calças arregaçadas... e Zefinho mostrava talento). São as mostras do desastre que mudaria totalmente minha vida; inclusive a da família! (Desfiou, impiedoso, mazelas por que passou em consequência dessa grande tragédia).
          Num momento ameaçou-nos enveredar por outro caminho ainda mais distante, fugindo ao caso, contando outro de imposto de renda; entretanto Bolão da Silva, até naquela hora inexplicavelmente mudo, não se conteve:
          --Zefinho, e seu falecimento? homem de Deus!
          --Mesmo do Diabo, se quiser – emendou o da farmácia. Ora bolas, foi um colega meu lá do sul que andou falando eu ter morrido nesse acidente, naquele sadio princípio do ‘quem conta um conto aumenta um ponto’, matando-me no dia sete... Olhem no calendário ver se minto! Bolão: deixe de só pensar em comer; não vê que estou vivo?
          Apareceu uma cliente, esposa do Zé Magriça, gorda como a Rainha de Momo, pediu não sei o que num vidro médio. Foi atendê-la.
São Paulo   março  1978

 



- Turismo                  


          Olhem esta árvore com orelha-de-pau (ele dizia “óia” e “árvi” e “orêia”) olharam. Era um espécime comum no campo, olharam talvez soubessem não estar diante dum guia de primeira linha, um mestre diplomado; porém não se podiam queixar: também não eram turistas de primeira; quem sabe de Primeiro Mundo mas de segunda pois apenas tinham como característica os dólares em profusão. Viram aquele homem decerto típico do lugar, ele em si já objeto turístico. Não falava inglês para estrangeiros, falava grego, caso conhecessem a expressão, desconheciam. Observaram o homúnculo trajado a rigor, antes que à árvore, já haviam visto mil e uma quando a jardineira enguiçou na subida, se aproveitando o grupo para melhorar sua cultura. Falou em torno da árvore aos olhos arregalados. Tinha chapéu de palha, o que não o distinguia dos de fora: muitos haviam adquirido chapéus da região na venda da estrada, deixando os capiaus deslumbrados com o dinheiro nunca visto; e perplexos com o desprendimento turístico por não esperar troco, fato que muito agradou Seu Zé da Venda. Haviam feito também inúmeras fotos, “óiem” esta vaca malhada, despejaram cliques por atacado no traseiro vacum naquela hora a fazer o de fazer após um pasto inteiro engolido. Vestia, é claro não ser a vaca nem o turista, vestia camisa xadrez um lenço vermelho no pescoço; gente de cidade que tenha visto umas vezes festa junina pensa que o caipira vive sorrido ingenuidades, mesmo com fome, tendo camisa enxadrezada e lenço berrante. Sorria de vez em quando a olhar suas próprias calças jeans improvisadas com alguns remendos, o que ficando bem a matuto, calça e remendo urbano para gente da roça; e a botina, essa andava caprichada: o comum que hoje se adquire na loja de material de construção, todavia tinha o mérito de ringir, santificando a caracterização. Tirou um pouco o chapéu para limpar o suor, o que fez alguns estrangeiros imitá-lo, mostrou outra árvore, um arbusto, todos viram, olharam ao menos, o vegetal; agora estavam numa vila do interior que acharam pitoresca; aliás andavam há muito no interior, semanas já. Aí encontravam-se na pracinha bucólica mansa pacata verde e bela do vilarejo e havia muito para ver, quase nada. A jardineira com as malas e lembranças compradas estava ali pertinho, o João Chofer a tomar conta. Vejam, disse o guia, os bancos deste jardim (ainda não tinha acabado dar a ordem, já despejaram flash e cliques a mancheia na direção dum banco de madeira carcomido com sujidades de folhas decompostas e poeira). Mostrou gramas e flores, mostrou gente típica, meros caboclos curiosos no ver curiosos estrangeiros de armas fotográficas na mão: espocaram as luzes por cima da gente miúda assustada desdentada arregalada olhadora. Olhem, gritou o língua daquela invasão, olhem a igreja! Olharam na direção do dedo sábio depois nos lados da igreja, pouco mais que capela de fazenda. Viram, uns fotografaram o prédio ao longe, houvesse longe numa cidade assinzinha, depois acompanharam o guia na direção do monumento religioso. Perto tomaram mais poses, edifícios estão sempre fazendo pose à posteridade, não como a gente ou gente criança que é o inusitado a cada instante para uma objetiva fotográfica. Clicaram e se clicaram; visto quererem também aparecer na foto, gente é tão interessante que frequente sai mais que prédio histórico, assim como igualmente apreciam os turistas marcar a canivete objetos históricos sua bela passagem seu belo nome seu belo instante à posteridade. Estavam eles vestidos a caráter também: shorts, camisas berrantes, tênis nos pés, câmeras a tiracolo e olhar ingênuo ou bestificado. Ah, nesse grupo havia autêntica salada de frutas, não eram só americanos: chineses sorridentes e japoneses (que a gente da gente não sabia quando um quando outro) suecos, franceses etc., não demais et coetera apenas o suficiente; duas solteironas inglesas magras e altas; e americanos é claro. Todos a caráter enrolando a língua; todos falavam inglês, alguns apenas imaginavam falar mas se entendiam. Após mostrar janelas bichadas, o sino no blem-blem, a entrada de grossos portais e o que de se ver por dentro com máquinas fotográficas xeretando e o padre irritado, saiu com os seus de volta à pracinha. Aí o guia resolvendo fazer uma demonstração artística ao seu grupo, para melhor marcar a viagem. Pediu a um desafinado morador tocar certa moda na viola velha e ele próprio se exibiu numa catira batendo os pés. Não foi um espetáculo grandioso, porém os estrangeiros gostaram bateram palmas e os pés, alguns arremedaram o guia engrolando a letra da música e tiraram isso sim montão de fotos, um inclusive filmou o show, os chineses não pararam de rir ao seu modo que é seu modo de gargalhar, os americanos de aplaudir, enquanto as inglesas riram fleumaticamente. Suado e a fungar muito, o guia terminou a audição mostrando a jardineira, “óiem” disse; todos entenderam, já eram doutores no ‘caipirês’ e se foram aos seus lugares nos bancos atulhados, alguns mesmo com anseios a ir tomar cachaça nalguma venda. O guiazinho sendo o último a subir no veículo, ainda zonzo.
Marília   novembro  2001




-  A Jovem Nua 
         
          Aquele matusalém bem além do aquém falava e mais falava, seu todo parecendo fraco sua parte no todo sugerindo fragilidade mas sua boca uma fortaleza e a língua sólida. Falava sem parar; a plateia, inicialmente uns gatos pingados porém a crescer a avolumar-se, acompanhando a graça do sol; este já bem alto a atingir a pele dos ouvintes. Crentes? curiosos? ou só no passatempo que medeia um afazer e outro, não falavam, falavam sim à boca pequena quase na linguagem dos sinais ou na dos olhares: o matusalém a falar ele por todos e respondendo suas indagações contidas na mudez.
          Dizia mais ou menos assim, que nos tempos idos, quem sabe imemoriais na imprecisão das distâncias, o ser humano vestia-se. Isto ocasionando um ‘oh’ geral em indignação admiração ou tão somente descrença velada. A descrença velada é aquela que se não manifesta ostensivamente porém existe nos lábios cerrados nos olhares matreiros dos irreverentes nos silêncios dos que não querem ou não podem se manifestar. O ser humano vestia-se, insistiu.
          Roupa para quê? É curioso que o desuso apaga a necessidade: para cobrir-se, ora. Cobrir-se ou para satisfazer a vaidade nas aparências...
          Hoje não temos isso. Nem aparências nem vaidades nem necessidades. Todavia tínhamos: e nos vestíamos segundo a posse; posse é outro item que mandou na humanidade por milênios. Não vou entrar nessa questão; fiquemos nesta palestra informal a tratar as vestes.
          Noto certa descrença nos presentes. Contudo afirmo que todos se vestiam. A roupa era imposta desde criancinha ao ser. Claro, nascíamos como estamos nestes tempos, nus; depois vinham cueiros fraldas, panos enfim para cobrir a nudez do nascituro. Talvez no museu comunitário haja entre as peças e raridades tais paninhos que se usava nas crianças. Posteriormente substituíram tecidos de fibras por plásticos e papéis – tudo descartável.
          Crescendo o ser, impunham os costumes mais e mais vestimentas. Até ao tempo adulto, de acordo com a idade da pessoa. E do sexo. Eram dois os sexos consagrados; havia o terceiro, não benquisto, que não trajava diferentemente dos outros; ou melhor: o do terceiro que optasse pelo primeiro sexo vestia-se igual ao primeiro; aquele que escolhesse o segundo sexo, ou parecer-se com o segundo, punha roupa do segundo. Assim por diante. Agora, o que desejo falar mesmo é cada sexo se cobrir com vestes do seu próprio sexo. A fêmea do homem punha vestidos saias, essas coisas...
          A jovem bela, embora um pouco gorda para o gosto dos homens por ali, a jovem abriu a boca num espanto e ficou a imaginar o como esse como!? fez mais, pensou-se com saia rodada a dançar uma valsa, rodou pra cá, remexeu pra lá – causando risota nos próximos e a atenção daquele orador matusalém.
          Vejo que meus jovens entenderam como se vestiam antanho as mulheres... uma bela moça. Ocorre aqui um senão. Por baixo do vestido usavam tais mulheres os sutiãs, alguns sensuais a cobrir voluptuosidades. Hoje raras usam-nos, e tão só a segurar abusos da natureza; pois nossas irmãs são livres e conservam os seios apenas aos filhos que geram. Aliás os seus, refiro-me à jovem cheia de corpo, os seus são mesmo belíssimos.
          Ela sorriu agradecimentos.
          Um representante macho da espécie, magro fino feio, olhou na direção do agradecimento e do engrandecimento feminino a sorrir. Tinha ao seu lado uma bicicleta e ainda coçava como que a agradar por ofensas recebidas suas nádegas, por as mesmas cansadas a esfregar-se no selim, machucando também o escroto. O dito representante voltou-se como os outros ao ancião.
          Mais para diante no tempo as nossas fêmeas passaram a andar de calças compridas qual homens, abandonando os tais vestidos, usando-os eventualmente nas festas a caráter. Então daí em diante mulheres e homens não se distinguiam...
          A plateia, bem mais que gatos pingados iniciais, a plateia se mexeu, soltou uns sons e zum-zuns para mostrar se não contrariedade incompreensão. O matusalém retomou o discurso.
          Não se distinguiam em termos, em termos de roupa quero dizer: todos iguais ou ao menos semelhantes. Apenas a conformação corporal diversa. O homem seco fino tábua às vezes esquelético; a mulher cheia delineada nos riscos de belo desenho. Além do trejeito, da delicadeza, do gesto feminil.
          O senhor aí fez uma cara engraçada a esboçar talvez uma não conformação quando falei sobre gestos e delicadezas. O da bicicleta se pensou observado, imaginou ser o centro do universo, se coçou de novo. O palestrante: notem que isso num homem, nos tempos e tempos imemoriais amém, isso atira o macho da espécie na espécie que tratamos como sendo o terceiro sexo, nem pra lá nem pra cá muito pelo contrário...
          Todos riram, a moça e outros mais, um rapazinho fez um muxoxo em desagrado porém não disse coisa alguma. A plateia atenta. O matusalém.
          Acho que devo ainda falar na questão da roupagem de frio. Não sabem o que seja frio, o frio foi com a roupa desinventado pelo descostume. Bem, como definir frio – um estado de encolhimento do soma humano pela contração das células, em contrário do aumento e relaxamento das ditas células no calor. Isto igualmente não existindo mais no planeta por desuso no mundo. Entretanto existira nos idos tempos. E no frio cobria-se todo o ser, deixando somente o rosto livre, não se vendo a gente propriamente, só a roupa, grossa e volumosa, da gente. Parece-me que dependendo da latitude mais frio ou menos frio, desconheço essa verdade, se verdade, não sendo hoje nossa verdade.
          O povo se olhou ou descrente ou a desentender o entendido. O orador.
          Bem meus caros, roupa, super-roupa no frio do tempo, leve quase tela nas vestes no calor.
          Olharam-se esquisitamente a se interrogar de vistas. O homem.
          Não sabem o que foi o calor, percebo. Não importa, não sei igualmente. Sei que usaram homem e mulher vestes finas ou parciais a cobrir o que descobrir; sei. Mas neste ponto me perguntariam, se não fossem como até aqui configurados mudos, indagariam, com lógica: se era para ter parcialmente, por que não como estamos agora – pelados!
          A turma alvoroçou-se, se mexeu, quem sabe não pelo que disse o matusalém além além a quem ouvindo. É que chegava certa viatura.
          Um graduado se desenroscou com dificuldade do assento, suas nádegas a se grudar e se desgrudar devagarinho do banco, um macacão gorducho forte grande; e um mequetrefe, pudesse mequetrefe fardado sem roupa, o soldado deixou o volante do carro a ajudar o superior sair, foram ambos cenho fechado na direção da plateia abismada ainda com as afirmativas matusalêmicas.
          Que anda ocorrendo neste ajuntamento, berrou delicadamente a autoridade, tendo as insígnias policiais numa corrente a enfeitar o pescoço. Veja isso! imperou ao mequetrefe. O soldado magrela, penduricalhos a balançar murchos, mãos magras finas ágeis à cintura, a coçar o revólver preso no coldre, este num cinto de couro.
          Chegou-se à plateia, o matusalém falou nada saber do ocorrido, a assistência a se dispersar sem grande susto – o susto a veste o calor o frio todos desinventados pelo desuso – sem qualquer espanto a plateia foi deixando ser plateia, a moça nua estava nua sozinha agora, os outros nus se haviam ido, o soldadinho magrela nu do coldre pra baixo e pra cima voltou ao veículo policial com o brutamontes, nu mas defendido pelas vestes da gordura; antes o mequetrefe olhou guloso aquelas suntuosidades da jovem, sorriu matreiro, voltou-se à oficialidade, funcionou o jipe, até esqueceu ligada a sirene.
Marília   setembro  2006
- Adultério
                                                

          Não é por isso que esperava... sabendo-se que o homem depende em tudo da mulher, até para ser infiel à mulher. Esperava o ônibus. Inexplicavelmente deixara passar um e aguardava outro coletivo. João. Não há maiores méritos em se chamar João; nem deméritos. Poder-se-ia falar que desejando uma carona. Para que não se pense mal, carona feminina. Isso justificava não ter entrado no coletivo número 685, meio vazio. Paradoxalmente, olhava a curva da reitoria, onde costumando surgir sua condução, quase sempre apinhada, os pingentes humanos semelhando a enfeites do monstrengo enferrujado e de cor vermelha. Ninguém no ponto ficaria surpreso pela sua carona, todos eram estudantes; o que se subentende caronistas por hábito...

          João entretanto ia além da idade daqueles jovens. O pior da situação é acreditar ele mesmo na carona feminina. Dócil como as mulheres de antanho, bela como todas as virgens, ingênua como requer a índole autêntica das moças, apaixonada exclusivamente por ele (sem se declarar) só por ele... Chegou a sentir sua fragrância, distinguiu-lhe o cheiro artificial, com que as mulheres se empetecam julgando atrair o macho, semelhante o mel atrai um inseto bobo; aí distinguiu sorrateiramente o cheiro de fêmea, que elas pensam esconder... Insensivelmente levou a mão esquerda ao bolso. Um sorriso de pena até, da jovem solitária e enamorada...
          Esperou. Ela teria tido alguma prova? Uma conversinha chocha sobre bolos ou qualquer coisa assim que agrada as meninas? ou mesmo o carro enguiçado! assustou-se. Ah as dificuldades que têm os estrangeiros nessas circunstâncias... a amada sendo gringa e loura. De qualquer forma andava atrasada.
          Imediato houve dois imprevistos: o 685 apareceu com sua garatuja na curva; e se lembrou casado!
          Subiu por último no ônibus, viver até os instantes derradeiros a espera; não deixou de olhar mais uma vez o fim da rua, onde apareceria a gringa. Quase caiu da porta traseira. O banco macio e sujo ofereceu-lhe conforto e realidade. Queria combater a imagem da esposa morena e da família, mas as bacadas secas do coletivo punham-no ao chão da vida concreta. E lhe trouxeram um terrível sentimento de culpa. Aos poucos, avassalador: ouvia a lamentação da mulher, se martirizando por causa do ingrato “você, João, até você!”  fugiu dela, procurou refúgio nas crianças, beijou todas três como desculpa, elas corresponderam, e logo se pegaram nas briguinhas e assim João escondeu-se no lavatório, livre dos infortúnios todos; porém não se livrou de si mesmo... Saiu de casa meio nervoso, tendo passado por dona Doroteia emburrada... Quis dirigir-se à esposa, não teve coragem e nem argumentos. Saiu enfim da residência, buscar na rua a distração antitormento, fumar outro cigarrinho ou só acendê-lo.
          Andou, que o andar faz bem. Pensou, pesou, tornou a sofrer. Fugiu para mais longe, pela vida pregressa. Viveu outra vez sua juventude. Havia sempre uma apaixonada infalível à sua disposição, sempre bonita, sempre loura; e ele durão, agarrado à macheza a seu modo, no aguardar que a amante criatura não fosse apenas querenciada, mas viesse a ele de joelhos, a implorar-lhe carinho; embora ele sempre pobre e forte e bonitão (pelo menos seria essa a opinião da infeliz); chegava num carro luxuoso, desses que só os ricos concebem, a fim de propor-lhe deixar um pouco o machismo e concedesse à pobre rica um beijo – e o etc., imediatamente, violentamente! Todavia João se lembrou que isso não passava de ajuste da personalidade incerta, uma fuga do real duro e chão, da sem-gracice pequeno-burguesa, limitada e sem horizonte... Ajustamento diário, que ocorrera em muitos momentos de sua vidinha; com o grande valor de evitar a catástrofe psicológica, a qual provavelmente engole os fregueses dos manicômios e sustenta o safadismo da psiquiatria nos consultórios famosos. Mantinha-se vivo! Durante a vida púbere e adolescente viveu com o artifício, amigo ajustador; entretanto escravizou-se: virou mania, enlevo indispensável dos momentos críticos e sobretudo para conciliar o sono... Na infância rezava os seus três padres-nossos e uma ave-maria, ao dormir para dormir, espécie de autorização ao sono; senha que a censura do seu subconsciente exigia para abrir as comportas do mundo de lá; a adolescência mudou a senha – com moça loura, rica, bonita – para a viagem ao sonho... então o mundo ganhava um ateu; ajustado na personalidade.
          --Boa tarde, seu João. Está surdo!
          --Ah, boa tarde...
          Sentiu certo prazer, misturado à tristeza, ao voltar à vida anterior, solteiro e livre; mesmo para sonhar. Foi um brotar vulcânico de agradáveis lavas, um beber lama do melhor néctar. E condicionava o seu ser íntimo. Um pouco do que nos ficou de quando éramos macacos; uma árvore nos atrai deveras e queremos galgá-la, enfim agarrar a liberdade animalesca e autêntica...
          O marido da senhora Doroteia tomou consciência momentânea, é verdade, desse roubo da realidade. Enrubesceu. Ninguém soube por quê. Voltou após uma freada brusca do 685, motorista novato decerto, ocasionando dezenas de “ei” “ui” “ai” nos passageiros, em João. Desceu.
          Desceu do 685. Ele também era número, lembrou os números do documentos. O barulho dos carros e dos vendedores tomou conta de tudo. A vida passa; ao redor anda-se, fala-se, vive-se; e não se toma conhecimento da tormenta individual. De relance sentiu isso; nesse instante foi engolido pelo turbilhão, perdeu-se nas buzinas, tornou-se poluição.
São Paulo   novembro  1977



- Desencontro Inesperado           

          Talvez um chover no molhado, o inesperado já sendo desencontro; contudo esta filigrana não diminuindo o susto (terá mesmo se assustado!) o susto dele.
          Ia por aí, flanando olhando curioso; resolveu transferir essa responsabilidade ao cemitério. A rigor não resolveu, entrou no estilo maria vai com as outras pelo frontal de entrada – mas entrada somente aos defuntos pois deveria a entrada chamar-se saída, isto um senão do somenos.
          Estava por ali sapeando por ser gente, gente óbvio. Pensando e falando como gente do lugar. Aliás sempre não se distinguiu pela vida a fora cultuando a língua do lugar, importada. No geral nascemos já imposta a linguagem; depois vivemos e não pensamos mais na distorção, o bebê fala bá-bá-bá com categoria e depois grandinho be-a-bá sem pensar; e finalmente nos fins dos tempos viramos defuntos e aí a língua vira pra terra não a terra a ser dita pela língua. Isto outro senão de ótimo somenos.
          Andava  por  ali  acolá  pra    pra cá bestando inteligentemente a se distrair. Se bem distração no cemitério seja dose a matar inclusive morto. Não discutamos gostos.
          Foi quando se deparou com um túmulo grandioso esplendoroso com anjos ardorosos na sua secura de pedra e cimento; contudo numa riqueza magnífica. E leu: Famíla Coronélica! Entrou na capela, visitou inscrições nas gavetas – Dr. Fulano, descanse em Paz!  Sra.Dona Siclana – morreu como viveu, um exemplo! Coronel Doutor Beltrano, que Deus o tenha! E ainda muitíssimos outros dísticos resumindo vidas exemplares, escolas à posteridade. Afoito fútil ou descuidado, abalançou a cabeça; saindo à rua quase trombando com uma jovem a passar, quase a mexer com ela; não ficaria bem num cemitério ficaria?
          Andou mais pelo mais, a olhar interessado. Agora pensando pensando. Puxa vida, se falou, mesmo pessoas do porte dos coronéis morrem! Alembrava-se bem dessa Família. Inclusive os seus admiravam tanto aquelas riquezas e mesmo alguma bondade.
          Mais andou. Reviu outras capelas outros anjos e cantos de pedra, releu expressões cheiinhas de “aqui jaz” “descanse na santa paz” e equivalentes. Quando viu, não viu.
          Viu-se na área pobre dos pobres. Eram tumbas de cruzes, cruzes! tinha sem cruz inclusive; eram montículos de terra; via-se lá longe o poço aos que, desocupando por ordem da lei o campo santo, possuíam lugar garantido junto outros ossos e esqueletos com sem vir a ser e em não ter importância com a sem identificação – nivelados os seres que já não o são e pensavam que eram quando pensavam. Ele pensou dessa forma que eram.
          Observou andar o silêncio entre os montículos o poço os túmulos ricos com estátuas esplendorosas, andava sim o silêncio não andante. Um que outro movimento de pessoas vivas a visitar igualmente sem compromisso os mortos; o sol o vento o cheiro. Ainda pairava o fedor de velas de sebo a queimar algures; ainda havendo flores e coroas, as flores muitas mortas aos mortos, as coroas sempre mortas a vivificar os de fato não mais vivos...
          Prosseguiu nas observações, até sorriu ao fazer tais observações. O mundo, pensou, se nivela por baixo. A necrópole quase morta, os vivos lá fora a trabalhar e pensar; não sabem que os pobres se desintegram se desviram. E também os ricos, veja-se o caso do Coronel: não é mais Coronel, ossos bem guardados por Anjos Esplendorosos no cimento de primeira. Sorriu tristezas.
          Olhou por volta. A parte pobretona daquele rico cemitério, a saudade e mais o esquecimento, quedavam no silêncio. Mesmo porque as visitas... eram  poucas como a bela jovem da qual sentira a fragrância perfumada até, até ela uma esporádica visitante.
          Pensou. Isso tudo mudaria a posição dos falecidos, mesmo pobres em vida e a ser atirados no poço comunitário na morte!? Não.
          Continuou suas andanças sem compromisso; passou inclusive por cima de túmulos achatados entre si apertadinhos, nem se sabendo a ruela em divisa! Aí se chocou; porque não desejava pisar por cima de cadáveres por baixo da superfície sete palmos! Pediu, mentalmente, desculpa aos mortos pisoteados (sempre temera esse negócio de ‘alma doutro mundo’, ficava bem uma desculpinha). Não precisaria assim pedir aos mortos ricos entre túmulos com Anjos e Santos, ruas com divisas calçadas e tudo o mais, eles no fausto.
          Agora, naquele agora, andava sim sem compromisso, repita-se. Saía dos pobres paupérrimos miseráveis até, de longe vendo a cidade rica dos mortos, passando pela pequena-burguesia dos falecidos. Eram carneiras, eram lajes feias com nomes. Quiçá também fotos dos vivos agora mortos. Flores coroas pinturas descoradas, reparações apressadas; separações cimentadas entre si. Ficou então a pensar aquilo, andando entremeio, ao acaso.
          Leu nomes. Os nomes nem sempre dizem nomes mas podem lembrar passados, muitos são de fato desconhecidos a um curioso. Leu dísticos, quase sempre de fundo religioso na crença dos vivos para os mortos. Leu fotos, amarelecidas muitas, muitas no mostrar sorrisos nas tristezas.
          Seriam verdadeiras as expressões que os fotógrafos vivos deram aos seus mortos!
          Foi então se assustar. Viu, reviu, chegou mesmo a se agachar para examinar melhor, analisou o retângulo de arte, até ao ponto em que se esfriou: não sabia, o João morrera! puxa, o João. E encontra-se enterrado aqui, meu Deus! por isso nunca mais me deparei com ele; ninguém me avisou... era bom mecânico, ótimo marido, pai amigo. De que terá ele perecido... a foto...
          Aí esquadrinhou o celuloide do filme. Notou diferenças curiosas como rugas sem rugas, o nariz torto, a orelhona em abano. Puxa vida, disse, embelezaram o João vivo quando morto! Sorriu mesmo da graça. Daí melhor se assustou, prestes a chorar.
          Não pensara nisso. Era ele o João.     
 Marília    junho  2004
10° - Altar em Baixa
         
          O Zé não. Não quer saber disso, quietarrão, fica de orelha em pé, não podendo ter os cabelos em pé, calvo – foge de casamento. Mesmo com a Maria, a Maria presente noutras Marias. O Pedro Malasartes não se vê, decerto nas artes a brincar por aí. Nem o Lulu. Ladraria barbaridades então estragando as bodas, ninguém de sã consciência a trazer cachorro para brigar com outros cachorros e ficar a roçar as pernas dos convidados. Ah convidado, convidado tem de montão. Têm os só de passagem a salvar aparência pra não ferir os parentes dos casadoiros; outros vêm mesmo, tem gente que não perde festas.
          Come-se e se bebe, se embebedam alguns (ai que feiura!) Tem cachaça, sempre tem; refrescos mas faz frio; água aos montes e o pessoal bebe bebe. Bolachinhas, uma que outra e as crianças querem guloseimas. E se conversa.
          Os causos de costume, entre o costume de se entrever; comum o reencontro nessas horas. Conversam, banalidades amenidades oportunidades a fugir da situação, e têm os que aproveitam aos negócios, ou não haveria economia sustentável; uma que outra pessoa apenas no diz que diz e inclusive, por que não haveria! inclusive no falar mal dos outros. Gente é isso.
          A festa animada?
          O comum é a noiva esperar o retardatário. Ou ao contrário. Neste é o noivo quem espera, não se sabendo se impaciente. Isto ocorrendo até às bênçãos esponsais pelo padre. Acabaram por levar o noivo, para-casado, à noiva, ela sim a esperar de braços abertos; ou de boca aberta? Ele aguarda então quieto. A rigor, chato, sem-graça dirão, a rigor nem sorri aos convidados (logo a pensar-se ser por causa do atraso dela, visto já visto ter sido levado o homem até aos braços da noiva, então noiva, para-casada).
          Traja o comum, o preto comum, a gravata comum, se bem que antes não usando esse objeto-penduricalho, a dizer sempre “gravata? querem me enforcar!” Sim, era gozador, agora boca fechada, como é mesmo que se diz... “é um túmulo!” oh que lembrança tétrica e de mau gosto.
          Em volta do noivo as flores. Tem de todas, todas cores, todos tamanhos, todos modelos ou marcas, ou como será que diria um botânico? Não importa.
          A gente,  indócil.  Aguarda o casamento,  o cerimonial,  porém não se extravasa; absurdo se extravasasse. Um vem olha, outro olha vai, se cruzam, conversam; não falam alto, privilégio apenas dos mal-educados; sem atingir isto as crianças: meninos não têm peias na língua; às vezes indagando coisas melindrosas a envergonhar os adultos.
          Contudo vão, solenes, não se vê gracinhas, decerto os engraçadinhos beberam cachaça além do limite... e não podem ajudar o acompanhamento do noivo à noiva, o que devendo ser o contrário, não tem disso de o pai da noiva entregar ao noivo a moça virgem!? ver-se-á que ela era mesmo virgem, ao menos até receber de braços abertos o macho, de boca aberta melhor dizer.
          Chegam à noiva.
          Início (e fim? talvez) inicia-se a solenidade no altar improvisado, melhor se ocorresse no templo, lá o sacerdote a caráter, quem sabe havendo a Noite de Verão aqui inverno sem sonho, de Mendelssohn, e não como escolha o Réquiem de Mozart. Bem, neste o padre vestido como qualquer mortal e é mesmo mortal e com uns paramentos miúdos a dar apenas honra e respeito à solenidade matrimonial. Os participantes, que no cortejo ainda falavam, desrespeitosos, suas coisas mundanas, eles se afastam um pouco e por fim se calam a ouvir o pároco.
          O padre:
          --Estamos, meus irmãos, reunidos neste cerimonial a perpetrar a vontade de Deus, para unir no sagrado matrimônio o Sr.Caco Defunto da Silva e a Senhorita Sepultura Cemitério (no cartório no dia anterior já se estabelecera que ela passaria a chamar-se Sepultura Cemitério da Silva, mas isto senão; o padre:) para, diz o religioso, viverem por todo o sempre, até que a Morte os separe etc. etc. e tal. O homem solenizado, cansado no repetir e repetir ao público sempre ausente, cansado o homem preferiu proferir “etc. etc. e tal” o que vem a compreender o tudo de nada.
          --Senhor Caco Defunto da Silva, aceita... As indagações costumeiras, diria “não”! estando de boca cerrada e quem cala... diz o ditado; repete a dose à donzela Sepultura, ela não responde, embora de boca escancarada e aí o óbvio: receberia sim de braços abertos o noivo, esposo desde então.
          Nesse momento solene da cerimônia nupcial o pai da moça, deixando ser moça, pobrezinha, o pai dela Sr.Cemitério encontra-se quietarrão, calado, mudo. A mãe da noiva (necessário dizer que os pais do noivo não compareceram, órfão já o nubente) a mãe olha e abarca o todo do cerimonial e do frio terrível que faz então; vê a entrega do Caco à Cova, esta de braços abertos, não: bocarra aberta, a engolir o amado. O coveiro toma da pá, os participantes da festa atiram então pedra no noivo, a lapidá-lo! não, engano: terra, as três porções de praxe; aí sim a pá, o fecho.
          A mãe dela, deles agora, se não de todos os presentes ali não se precisando os ausentes, de todos enfim, ela, Dona Vida, então estabelece, fria, lógica, implacável quem sabe – estabelece a Morte.
          A Vida está Morta.  
Marília   janeiro  2006   




11° - Criatura em Diabrura
         
          Um dia exagerou um bocado o Escrevinhador. Não que desejasse existir como Autor, já exagero; não. Criou um personagem o qual se tornou Personagem.
          Até aqui bem. Mal. Pois não era um qualquer um, embora o autor o chamasse (para incitá-lo?) “Mequetrefe da Silva, seu criado”. Berrou. Entraram em acordo, um aceitando um personagem de monta, outro suportando ser apenas personagem, sem títulos honoríficos. A apaziguar ânimos levou o escrevedor o personagem para ver seus trabalhos; aqui se entendendo: as coisas que o escrevedor fizera.
          Bem, aí complicou – era para descomplicar a coisa – complicou a situação. Já fechando a gaveta da escrivaninha onde a sete chaves trancava os pertences, quando o Personagem quis contar quantos contos crônica e coisas criadas ou construídas enfim coisas, coisa de sua idiossincrasia. Como à boa política de amizade não fica bem negar, negou somente a gavetona, franqueando os outros esconderijos. E claro, o autor foi executar suas altas funções: xixi cocô comer lavar prato e cuidar da roupa; ah varrer também. Quando voltou ia indo longe a análise personágica... Vira o todo, examinava agora a parte. Sorriu.
          O Personagem sorriu (não amarelo, matreiro...) sorriu ao rabiscador. Imediato desandou a dar palpites, a indagar coisas, a questionar acertos, pôr colher torta naqueles erros; chegou a sugerir abusos da imaginação do moço escritor, passadinho de anos e lutas; no que não exagerava o Personagem, apenas a constatar um fato.
          A seguir exigiu (observe-se o verbo!) exigiu que o autor se sentasse na cadeira lustrosa, corrigindo posturas e fazendo o mesmo trabalhar. Na realidade, não pretendendo sujar mais a água suja e deixar assentar a poeira; pôs-se o autor na condição de secretário do Personagem: este ditava ele anotava sua escrita tremida e irregular. Começando exatamente nesse ponto sua via-sacra...
          Exigia cor da esferográfica (tinha preferência por certa marca de caneta); quando a lápis fazia afinar a ponta e depois assoprava como fosse sem querer o pozinho na cara enrugada do autor; reclamava a sujeira impregnada na borracha de apagar; corrigia a técnica de limpá-la, fê-lo lavar o pequeno e mole objeto e, limpo, ‘mandou’ guardar a borracha para não sujar outra vez! ah vai ser chato assim no inferno, enfim abusos. O autorzinho aguentou. Se enroscou no papel: ora era sulfite pesado demais, ora insuficiente no tamanho, pois não estaria nos padrões admitidos; pegou no pé do autor: “essa folha está fedendo a enxofre!” Começaram o passar a limpo.
          Isso, começaram. Os dois numa simbiose, parecia o Personagem o personagem das “Mil e Uma Noites”, aquele que grudou-se na cacunda do sujeito bondoso, não cabe aqui narrar Sherazade. Em cada erro ou tão só deslize do autor fazia pôr asteriscos ou número em sinal para depois fazer-se observações explicativas embaixo como nota de rodapé; sendo que algumas inclusive prejudicavam a clareza do texto. Por fim andava tudinho a limpo, pronto para datilografia. O tal autor-escrevedor lembrou a fome e suas altas funções. O Personagem atendeu: não tinha ele fome (é claro, já viu personagem comer!) e também fugindo assim  das altas funções do ‘letrador’.
          Um foi fazer quefazer; outro ficou revendo textos e resmungando, era bem resmungão o Personagem.
          Voltou arrotando educadamente o autor, o que não percebeu o Personagem tão absorto ou concentrado. Mas aí começou um novo round...
          Não desejava que fosse datilografado na Olivetti, aceitava somente Remington-12; depois anuiu a contragosto. Seis dias gastando dedos, o minguinho tadinho fraquinho franguinho pintinho naquelas mãos gritava e chorava, pobre do mindinho do autor; pois a língua exagera demais no uso das letras ‘a’ e ‘s’, exatamente a infernizar o mindinho esquerdo. Pronto, prontinho da silva.
          Pronto o meio... Começou a pegar no pé do escritor outra vez: errara demais, abusara no apagar no remontar letras no falhar teclas (às vezes as hastes dos tipos se enganchavam precisando desenroscar as mesmas e sujando dedos, do homem é visto, o Personagem mostrando asco...) ah feiura! azucrinou o pobre, o pobre criador de personagens. Assim não daria, tinha inclusive vergonha a figurar num texto tão rasurado. Era preciso, gritou, ter vergonha na cara, na cara dele despejou a desdita! O homem riu usando um risinho amarelo a esbanjar constrangimento e abaixou a cabeça; porém o autor nesse momento não perguntou “o que devo fazer então!”
          Não indagou propriamente, apenas olhando indagativo para o outro.
          O Personagem rabugentamente adivinhou: compre um computador, disse num zombar.
          Arregalou olhos o autor-mixuruca, ia falar, ele corrigiu a tempo completando: e uma impressora. Nada de porcaria. O escrevinhador não respondeu, não sabia responder no entanto pensou, baixinho, temendo descoberta: “que sarna de criatura!” A Criatura fez-se de desentendida entendido entendera o pensamento e deu um xeque-mate: compre um micro, faça um curso de informática e...
          Antes de encher as reticências o Personagem, antes que o carrapato misto de chupim sanguessuga e político corrupto ao mesmo tempo tivesse tempo a impor-lhe digitação correção impressão ou lhe arrebatasse o mouse ou até resolvesse navegar na internet curiosidades a penalizar sua conta telefônica – antes disso o escrevinhador, tão pouco apto a criar personagem, tomou a folha inicial: rasgou picotou pisou em cima dos pedaços, atirou tudo no cesto de papel higiênico, naquela hora exalando cheiro medonho.
Marília   julho  2002




12° - Um Tiro pela Culatra
         
          Dona Chiquinha. Na sociedade Senhora Peixoto, Francisca Alves Almeida Peixoto, Peixoto por parte dele. De nome e tal. Não fosse um descuido, houve o descuido, coisas em que não se deve meter, meteu-se um garoto na vida dela, quando viu brotou... Grávida! estava realmente grávida, embora ainda bela jovem uma vida toda pela frente criança dando palpites, espera! dar satisfação às vizinhas às comadres enfrentar a alta sociedade de barrigão, bah! e espera, espera de nove meses regulamentares. Pelo menos não se deu à indignidade do aborto. Opinião do escriba sr.Restus, dela não se sabe. Novembro, belo mês pra nascer gente, tem gente que nasce noutro mês, ia atrapalhar agora as festas de fim de ano e mais ainda possíveis viagens, não era mais possível.
          Abriu um berreiro o menino lá pelas dez da noite. Com ajuda do Doutor Genésio, ótimo parteiro e melhor cirurgião cesariano. Estava livre. Ela é que estava livre. Julgou-se livre. Mas havia um amor escondido a pedir o nenê, coisa de mãe. Imaginava o filho já doutor, Doutor Genésio Alves Peixoto, homenagem franca ao parteiro amigo e criterioso. A enfermeira Maria veio trazer-lhe a realidade, indagando se queria ver o bebê. É belo? é forte? é grande? é sadio? queria saber tudo ao mesmo tempo. Não. Ela disse que não, soube dizer à mãe que não era tudo aquilo, menos que aquilo, falou com olhos molhados também... Havia um defeito de fabricação as pernas os bracinhos o rosto! Não queria vê-lo, queria é chorar, chorar todo seu drama, ensimesmar-se na sua tristeza, expulsou Maria. Entretanto era preciso dar uma solução: como apresentar a coisa à sociedade? Pôs na balança sua condição sua beleza suas vantagens, e agora tudo andava se perdendo por entrada em cena de um verdadeiro monstro!
          Foi então surgir um negócio. Neste mundo perdido costumamos fazer negócios, sempre que possível vantajosos. Não importava que houvesse perda, que alguém perdesse... Pediu à enfermeira uma conversinha franca, com direito a segredos comerciais, afinal proporia à funcionária algo confidencial envolvendo muito dinheiro... Sim, disse a moça, tinha uma parturiente, duas inclusive só que uma era negra e não servia outra branca como Dona Francisca, um pouco cansada e desgastada por pobreza e até bela. Também menino, bem configurado, inteiro e tudo o mais. Valia toda a fortuna que Chiquinha lhe propunha, valia sim. Fizeram o negócio.
          Assim, dona Teresa joão-ninguém levou um monstro nos braços para casa e mesmo se espantou houverem levado a elinha simples e pobrinha de táxi para o lar assustando seu Antônio, o marido.
          O tempo passou. Ah como passou!
          Dona Teresa da estirpe dos joões-ninguém criara com amor aquilo que era um trapo humano, julgando ser o filho de suas entranhas. Sofrera, é claro. Somente não podia avaliar o quanto; ficara mais feia, não mais pobre; tornara-se mesmo mais rica em filho, pois tivera mais um além do monstrinho, somando dois a mais alguns anteriores, fora os cachorros e gatos que também participavam do banquete diário porque qualquer pobre é capaz de cuidar de muitos filhos e muitos animais, todos sabem disso e todos veem isso. Agora ele o monstro era um moço, moço não, um homem feito. Brilhante nos estudos, conseguiu um emprego apesar dos defeitos de nascença. Estudava inclusive para ser doutor, um dia a chegar lá, pensavam.
          Apareceu então na porta da sala pobre de sofá gasto uma senhora meia-idade. Ah, a senhora é que era enfermeira? que bom, aposentada! Conversa vai conversa vem entrou no assunto. Fazia um tempão precisava falar à dona Teresa... Não, Deus me livre e guarde, nunca havia pensado conquistar o esposo de Teresa, os presentes que dava ao monstrinho e mesmo a cadeira de rodas foram ofertados com o coração, para o menino realmente. Embaraçoso, dizia, embaraçoso: tinha de contar um segredo para ela, por isso se achegou... Narrou, quase matando dona Teresa de susto, e teve coragem de narrar. Lavou a alma, tirou a sujeira lá de dentro, disse tudo à senhora. Lembrava-se da D.Chiquinha? o filho de Teresa tinha tudo que um ser humano precisa, era rico e pensava ser filho dos Peixoto. Dona Teresa chorou, era muito para ela. Curiosidade tinha em ver seu filho, porém não queria trocar não, amava o monstrinho, seria um Doutor Monstrinho, era já superior à toda gente conhecida, superior em inteligência em moral em carinho; ela amava-o como filho pensando ser seu, amava-o agora por amá-lo. Contou mais Maria: recebera fortuna para trocar e se calar no crime que praticaram. Gastara, perdera tudo. Estava ali a mando da consciência, cobradora, terrível, encarniçada: poderia merecer perdão!
          Mas quem – amando gatos cachorros crianças e até monstros – não saberia esquecer?
Ribeirão Preto   maio  1991




13° - Siesta         

          Não faz muito tempo minha viagem a Cuernavaca, ou faz. A impressão, entretanto, sugere-me estar ainda em seu meio, o coração pulsando forte e rápido, como a querer se arrojar para fora do peito... E não é de medo, não é também por misticismo, porque eu não sou crente. Trata-se de uma sensação indescritível; talvez apenas por causa de minha velha irritação diante da vagabundagem por definição. Explico-me: não tolero ver alguém, mesmo que seja esse alguém eu próprio, a nada fazer, a fugir do quefazer. Digamos eu ser abusivamente exigente. Todos sabem dessa minha falha de caráter; o não perdoar ociosos. Imaginem, portanto, como foi a reação que tive ao conviver com “los cornitos”.
          Cheguei lá num dia trinta de junho, fim de semestre, dez dias antes ter que efetuar o pagamento do aluguel de casa; guardei bem esse senão, pois pretendia ficar tão somente uns cinco ou seis dias a tempo de voltar para pagar meu senhorio, não infringindo a lei; sou legalista, todos sabem. Porém...
          Cheguei dia trinta tardezinha, para os habitantes era sempre cedo. Nem tanto, eram umas três e quinze, o sol arrebentando mamonas, se bem que lá não tenha visto um pé sequer do vegetal. Calor calor de matar, suor a escorrer por entre indevidos, molhando a minha roupa fedorenta; não sabia feder mais o cavaleiro, eu, ou a cavalgadura, um cavalo velho e pisado emprestado pelo compadre João; isto entretanto é um senãozinho, vamos ao senãozão. A lógica, não apenas em vilarejo com foros de cidade perdido na Hispano-América, mas a lógica em qualquer lugar possível do mundo era procurar uma hospedaria, menos para dormir – não achava que fosse hora de sono – mais para um banho vestimenta limpa, enfim para virar gente decente. Aí começaram os sustos. Vou dizendo logo sobre a expectativa do susto, porque levei susto a todo momento, aquele sendo o primeiro da série! Não tinha hospedaria... Digamos que não houvessem cinco estrelas, uma bastaria à minha pequenez de viajante; no entanto sequer existia hotel ou pensão, uma casa de boa vontade a fornecer descanso (e banho, gritou-me a consciência despertando, quase envolvida no clima de Cuernavaca); não existia. Ou por outra, existiria, talvez, bastando que pedisse informes a um transeunte qualquer, na cidade pequena todos sabem onde ficam as coisas. Todavia não encontrei transeuntes disponíveis; e não encontrei transeuntes! Que seja aqui o segundo da série de sustos. Ninguém andando por lá. Vi, entretanto, um senhor barrigudo (dali em diante saberia somente da existência de barrigudos, o ventre estufado por todos os cantos; e isto seria o terceiro susto; deixarei de numerar os sustos que levei, ou incomodaria deveras a matemática, tal o exagero de sustos); o homem, meia-idade, fechava a porta do seu estabelecimento comercial. Corri esbaforido para o vivente, buenas tardes, assoprei num mau espanhol; meneou simpático a cabeça, despejei-lhe meu drama do banho do cansaço pela viagem, da estalagem. Respondeu-me sonolento: “não lhe posso informar, está na hora da siesta”; e fechou-me a porta na cara, sem contudo eu o considerar sem educação. Todavia tomei o quarto susto (ó, perdão, havia prometido não enumerar sustos). Voltei-me para a margem oposta da rua, vamos supor que fosse aquilo rua, a busca de outra porta aberta. Não achei.
          Vi no entanto um senhor de costas, entrando por um corredor, corri até o mesmo, pedir-lhe a informação. Virou-se, já no fundo do corredorzinho encardido. Parou, coçou o queixo, esfregou os olhos avermelhados. “Não, senhor, não sei; não sabe que agora é a hora da siesta?” Sumiu engolido pelo corredor. Não desisti. Não podia desistir. Andei.
          Andei andei, deparei-me com um garoto. Segurei-o, visto correr desandando para não sei onde, pus minhas dúvidas, pedi informações. “Pensão? que é isso? não sei, mamãe não quer-me longe de casa na hora da siesta”, escapuliu, sumiu na esquina. Porém nesse instante percebi uma jovem senhora, recolhendo umas peças num varal. “Não devo falar com estranhos... e é a siesta, além do mais”; bateu-me a porta! Daí aproximei-me de um senhor idoso, atrás de uma bengala torta; fui conversando consigo, ou por outra, fui-lhe pondo meus dramas, pedindo informes da vila, atrás de si, pois o velho não parou, apenas assoprou algo como “nada sei, agora, só depois da siesta”, desisti do velhinho. Nisso notei certa pessoa pela janela entreaberta, fiz-lhe chegar minhas súplicas, já eram súplicas; “o que o senhor está fazendo na rua, se é hora da siesta?!” foi o que respondeu. Mais perguntei, não obtive resposta. Deixei o local, vencido.
          Vencido, cansado, desanimado, fui na direção duma praça, um largo com alguns bancos velhos e abandonados; onde deixara meu veículo. Este entretanto andava longe de meus problemas, ingeria suculento capim, crescido na rua descalça. Foi quando, à falta de melhores sustos, tive um definitivo: encontrei um sujeito sentado, como que a me esperar. Parei frente à criatura. Cumprimentei-a, constrangido, esperando me repelisse em nome de todas as siestas que houvessem. Tomei então novo susto. Ele ajeitou a barrigona (de muitas cervejas, pensei maldosamente) numa cinta usada, raspou a garganta; e sorriu-me.
          --Eu sei que é hora da siesta – disse o morador – contudo o amigo requer descanso, banho, e sua montaria também o repasto. Vou levá-lo a uma ótima hospedaria. Sente-se um pouco, a descansar, antes de mais nada; a caminho irei mostrando minha querida Cuernavaca.
          Tive ímpetos inclusive de abraçá-lo, beijá-lo. Não o fiz. Apresentei-me, ofereceu-me também sua mão direita, disse ser Juan.
          Diria, por mera maldade, Juan ser tagarela; quase não me deixou falar desde aquele momento; parecia mesmo que me adivinhava o pensamento, poupando-me nas perguntas de praxe. Mentalmente agradeci-lhe a solicitude e boa vontade; isso me parecia uma compensação pelo descaso até aí apresentado pelos cuernavaquitos, “cuernitos” corrigiu-me Juan, mui apressado a ser justo.
          --Nós nos chamamos cuernitos; se não está certo dentro de sua gramática e da lógica da linguagem, é pelo menos um simpático conjunto de sons, que usamos para nos distinguirmos dos estranhos, os quais lá uma vez na vida e outra na morte nos aparecem. Nosso povoado, insistiu Juan, é tão velho quanto o mundo, as gerações que se sucedem preferem ser “los cuernitos” (carregou meu informante) e isso vem desde os índios; como o mais, somos todos sem distinção descendentes dos nativos; minto, houve um doutor gringo, morto por uma febre que nossos lagos lhe ofertaram... e também um delegado de polícia que aportou por estas bandas, europeu de nome, o qual o avô de Paquito, quando jovem, esfaqueou num dia de bebedeira. Ah, sim, vieram muitos castelhanos também, eles semeando a valer filhos e a língua de Espanha e se foram; restam deles todos ossos de três no cemitério, um sendo padre; os outros estrangeiros como falei partiram. Posso esclarecer ao amigo: não suportaram Cuernavaca! nome devendo ter dois cês no ca mas pode deixar um só. Há uns quarenta anos, caso alguém me falasse nestes termos, matá-lo-ia. Hoje, como vê, regenerei-me...
          Fiz “hummm” de aquiescência ou de susto contido. A fugir das possíveis nuvens, indaguei de quem era o palácio... um que víamos na praça. Não se fez de rogado Juan. Nisso levantou-se falando.
          O palácio foi de d.Segundo, homem austero; um político desta localidade. Faleceu faz tempão; está enterrado perto de minha residência, a qual irei em breve oferecer (quis pôr a colher torta no meio do discurso de Juan; indagaria se não tinha medo a morar perto do cemitério com d.Segundo; achei porém exagero na intimidade; me perdi em mim mesmo nestas conjeturas; quando acordei, Juan concluía sobre a mansão:) agora, disse meu cicerone, o palácio está abandonado. O povo simplório acredita que esteja assombrado; ora, garanto-lhe que don Segundo vive no cemitério e não aqui.
          “Sim”, concordei. Já andávamos, devagar, no entanto andávamos; devagar na linguagem de meu cansaço; Juan ia lento, palrador; pudera! com aquele ventre...
          --Para lá – mostrou o homem – além  da  árvore  copada  com  flores amarelas, morei um dia... Ah, tenho saudades. Ao lado de meu casebre, eu era pobre nesse tempo, residia a encantadora Manita. Quando penso nisso, tenho vontade voltar aos velhos anos, mas quem pode contra o tempo? (assenti; prosseguiu). Ela era bela; hoje está um pouco acabada, nem a beleza resiste ao tempo. Assim mesmo é bonitona, simpática. Não fosse o adiantado da hora, é hora da siesta como sabe – nós iríamos vê-la; está dormindo. Também ela nunca se casou. Já nesse tempo gostava de mim. Não se espante, moço, eu não era gorducho como agora, porém espigado ágil trabalhador; e pobre, ainda mais pobre então. Ela era rica; o pai. Um dia o velhote deu-lhe uma surra (minha Manita nunca me contou, foram os outros; ainda mais que apanhara por minha causa!) Indignei-me, fui tirar satisfação, antes tivesse roubado a moça, pronto; não, fui tirar satisfação com o pai dela. O homem me recebeu de garrucha em punho; apontou-me... Agora posso dizer-lhe que tive medo; na horinha resolvi correr, encontrava-me desarmado... Foi quando me mudei para onde resido agora, longe, como saberá. Daqui pode bem ver minha casa, lá por detrás do primeiro morro, onde se nota o muro do cemitério, perto portanto de d.Segundo, como falara antes.
          Limpou meu companheiro um suor que escorria da testa, com as costas da mão esquerda, peluda e gordinha. Achei certa graça na postura. Nada falei, não abusaria da hospitalidade. Retomamos o andar lento dele, aflito meu. Retomou o matracar. Falava com facilidade e era de boa vontade.
          Aqui, mostrou, mora um personagem curioso: d.Fernão. Espécie de mandachuva no povoado. Embora comerciante, nada nada honesto, discursa brilhantemente, convence o populacho. Será, creio, escolhido chefe oficial da comunidade neste ano. Uma forma de prefeito. Substituirá o haciendado d.Pedro, assassinado faz três meses, morador agora pertinho de d.Segundo, no túmulo quarenta e seis. Sopraram por aí que fora d.Fernão quem o mandou matar; ninguém provou nada; eu vi quem o liquidou, andei falando a todos que não culpassem o comerciante, o qual nada tendo que ver na coisa, ninguém me ouviu. A bem da verdade, moço, don Fernão gostou imensamente do desaparecimento do rival; não só ele, muita gente apreciou: o fazendeiro era odiado por questões políticas. Estou garantindo, pode me acreditar: nunca sequer conversei com nenhum dos dois, apenas observo sempre os outros falarem; e vi com meus olhos o assassinato; o matador chamava-se Pedro, também, gente de fora, como o senhor. Daí o fato dos habitantes temerem estranhos na vila. Cuide-se, homem!
          Assustei-me pela ameaça. Não achei por bem demonstrar o temor. Antes, e para desviá-lo do embaraço que me atingia, antes mostrei uma qualquer coisa, a pretexto de saber (o que desejava era mais um banho e comer algo). Que tal comermos uma coisiquita, falei, antes de chegarmos à hospedaria?
          --Garanto-lhe, meu amigo, lá não sentirá jamais fome. E o descanso é garantido. Temos tempo bastante, insistiu Juan. Além do mais, homem, o que comeria agora, quando todos estão em siesta!
          “Ahn” respondi para dizer presente. Ele prosseguiu, imperturbável, como se não me ouvisse.
          --Ademais, é costume em Cuernavaca deixar estranhos passarem fome durante a siesta. Ninguém faz nada neste tempo, até à boca da noite, quando acorda o povoado. Melhor chegar antes da siesta, ou vir à vila depois da siesta. Aí sim, encontra a todos solícitos; e comerá, e dormirá, se quiser. Homens, mulheres, crianças, velhos, moços, válidos e desválidos; todos os profissionais e artífices; sãos e doentes – todos fazem a siesta neste momento. Por isso estou levando o amigo para a hospedaria, a única garantida. Irá convir comigo, então: ela é silenciosa, respeitosa mesmo. Hum... olhe quem está a vir em nossa direção: o Pablito!
          Olhei interessado, sentia a ausência de todos, me incomodava estar apenas com Juan, muito embora o senhor barrigudo fosse mui amigo e prestativo. Para meu gosto, entretanto, falava demais, enquanto que de minha parte preferiria banho e cama; torcendo por andarmos mais rápido; meu companheiro sequer tinha pressa. Sorriu à passagem do amigo Pablito.
          --Mano, como vai? desde meus velhos tempos, quando fui tirar satisfação com o pai de minha garota, não o via! que agradável encontro. (Parou, como escutando o outro; depois respondeu Juan:) Exatamente, está fazendo esta semana trinta anos! Viu como Manita ainda é bela! Ia levar aqui o amigo, chegado recente a Cuernavaca, para vê-la, porém está na siesta meu amor. E que me diz de d.Segundo? (Ficou novamente a ouvir, franziu a testa, balançou a cabeça e completou:) Acho que você tem toda razão. Agora queira dar-me licença, vamos indo, meu acompanhante anda cansado pela viagem, nesta hora é a siesta, ninguém para lhe oferecer um banho e descanso. Vou levá-lo à minha casa. Depois você passa por lá, para conversarmos um pouco. Depois da siesta. Olhou-me.
          --Parece assustado, meu caro.
          “Sim”, respondi-lhe. Entretanto não tive coragem a dizer que era por observá-lo falar sozinho, pois eu não vira nenhum Pablito. Ele me adivinhou o pensamento, creio.
          --Pablito? ora, passou tão depressa, nem lhe apresentei o rapaz convenientemente. Quando for lá em casa, você estará também comigo, conhecerá que excelente pessoa é. Gostará dele. Mas vamos andando, deve estar cansado, não é mesmo?
          Concordei. Todavia o assentimento não eliminava meu temor. Devia, supus, Juan estar meio louco ou variando. Quem sabe, imaginei, ele fosse o único acordado durante a siesta em virtude da demência! visto os outros dormirem, a cidade era uma imensa siesta. Portas janelas portões fechados; observei inclusive não ouvir latidos; estariam quem sabe os cães numa siesta? quanto aos gatos, vivem o estado normal na siesta sempre. Entretanto algo pôs-me em consciência, nas minhas ruminações; é que passáramos tão encostados a uma casa, dessas que se limitam com a calçadinha de rua, embora lá não houvessem passeios públicos e todos deveriam andar realmente no meio da rua; eu dizia que passávamos tão perto de um quarto, dando a ouvir o roncar de um morador cuernito. Um verdadeiro serrote roncador! cutuquei meu informante, esquecido de que pudesse estar louco varrido; ele me olhou sorrindo, também havia notado o dorminhoco roncante. Aí segredou-me:
          --Buenaventura. Sabe o que faz antes da siesta? respondi não saber; sabe o que fará depois da siesta? fiz com a cabeça não saber também. É muito simples: dorme. (Arregalei-me todo, num susto menos incisivo que os anteriores). De vez em quando acorda, pra fazer o que deve, vai ao banheiro, fuma, bebe um vinho escondido de sua velha; e isso não dura mais que cinco minutos, se tanto; de resto ele gasta o tempo a dormir. Agora, é claro, é a siesta. (Piscou-me ao fazer a confidência; depois continuou andando; eu o segui).
          Abanou a mão a alguém, não vi por descuido decerto a pessoa. Depois prosseguimos nossa caminhada. Eu desejando que fosse mais curto o trajeto, os pés com bolhas me ardiam. Foi quando me lembrei de meu pobre cavalo. Falei disso ao meu anfitrião.
          --Que é isso, companheiro – disse Juan – na hospedaria não precisa cavalo. Aliás, montarias não entram na minha casa! (Pareceu-me indignado pela minha lembrança; e continuou:) além do mais, em Cuernavaca ninguém roubará seu animal, não há por aqui o profissional lembrado por todo planeta como ladrão de cavalo. O último deles, um tal de Rodolfo, ficou na cadeia bem uns três meses; e agora não necessita cavalos: mora na minha casa, onde é muito feliz. Cavalos? ninguém neste lugar usa montaria, todos fazem o que devem a pé; para cargas têm os burricos e mulas. Sossegue quanto ao cavalo; a propósito, como se chama ele?
          “Formoso”, respondi. Andamos mais, parecia-me não chegar nunca. Perguntei se estava ainda longe.
          --Longe? não há longe aqui em Cuernavaca. Se um fulano cuspir e for feliz, alcança o extremo da vila com a cusparada. (Não achei muita graça na piada de Juan, sorri por educação; suponho que não acharia graça de nada, queria água e água para banhar-me, cama limpa e decente para esticar-me; que fosse lá na casa de meu amigo palrador, embora estivesse acostumado com hotel de pelo menos duas estrelas; sempre sentira ser o hotel minha casa numa viagem; acordei para Juan; ele continuava uma dissertação àcerca de não sei o quê:) e nisto – falou – tenho lá minhas dúvidas e minhas razões. Agora, don Boanerges, esse que mora aí nessa casa branca, é muito mentiroso. Em cinco minutos de conversa com o homem, você já saberia disso sem que eu lhe contasse; daí eu dizer que tenho razão. Não vou provar agora, agora está na siesta. Olhe lá (indicou um casebre em ruínas, olhei) a casita vermelha do pobre Júlio Romero. Agorinha ele está no quarto; posso até lhe afiançar: dormindo de bruços, vejo sempre o velhote a dormir assim, fazendo a siesta. Se fosse após a siesta, iríamos conversar um pouco com meu amigo. Sim, é meu amigo desde uns quarenta anos; eu já era mocinho de namoro quando ele não passava de uma criança; assim mesmo nós nos dávamos bem. Foi ele quem me levou o primeiro recado de Manita... Ah, por que fui lembrar-me agora dela! Era linda... (Interrompi deseducadamente Juan, temeroso que contasse recontasse o frustrado namoro, a briga com o pai dela e imediata mudança do jovem Juan para a atual residência, local para onde nos dirigíamos; e para despistar mostrei a ele algo na direção do poente).
          --Lá? ora bolas, é o sol que está a se pôr, nunca tinha visto! Estamos no fim da cidade, como o sol encontra-se no fim, se pondo no horizonte! (Estava muito emocionado, percebi). Note que já andamos toda a rua da igreja, Cuernavaca só tem duas ruas, a outra é inexpressiva. Esta é importante porque tem a igreja, mais capela que igreja; onde don Fabiano vem dizer missas todos os meses; um santo, ele é um verdadeiro santo, assisto a todas as missas que reza. A próxima será domingo que vem, você constatará; nesse dia de missa todos estarão na igreja, inclusive d.Segundo, d.Pedro, Rodolfo e mais uns companheiros meus, que irei apresentar-lhe. Um dia aconteceu uma coisa terrível no ofício religioso; como todos sabem, sento-me na primeira fileira, quase embaixo do púlpito, para ouvir melhor a pregação de don Fabiano; deixo o lugar ao lado, onde vem se acomodar minha Manita; pois é, em certa missa ocorreu um terrível engano – um grandalhão chamado Mendonza, sequer me notou, sentando-se por cima de mim! olhei horrorizado à Manita; ela entretanto via fixo o padre, eu espirrei-me dali como pude, envergonhado. Depois disso, saíram todos do templo, Mendonza acompanhou minha amada e... pasme, meu caro! foi fazer com ela a siesta! Permaneci dois meses sem querer vê-la. De sua parte, ela me ignorava, por mais que eu gritasse. Em razão disso ando macambúzio; e inclusive parei de falar (nesse ponto levei meu maior susto entre os sustos, até naquele momento: se Juan estava sem falar pelo ciúme, o que aconteceria pra cima de mim, caso passasse a lembrança da perda de sua Manita! Assim conjeturava, quando o homem me parou:)
          --Espere aí, a cidade se acabou, já estamos na área de minha residência atual. Olhe para trás, observe o quanto andamos, veja Cuernavaca, que linda!
          Meneei a cabeça num sim, hipocritamente, porque achei o povoado feio, inexpressivo; além de não ter conhecido seus habitantes, em não ser por referência daquele tagarela. O que mais ouvira então foi a palavra siesta. Donde ajuntei comigo mesmo: ali só existiam dorminhocos, ociosos; restava apenas Juan naquele mundo dos vivos dorminhocos, mortos se formos mais cáusticos. Olhei ao meu amigo condutor. Parecia ter-me adivinhado o pensamento.
          --Sim meu caro, viventes mortos, para a vida mortos, porque não fazem outra coisa se não dormir. Sua vida é uma siesta. Felizmente eu estando aqui na cidade, de plantão, para mostrar as belezas de Cuernavaca. Um dia você conhecerá também a beleza de Manita. Isso acontecerá depois; e conhecerá don Segundo e don Pedro e todos os outros, que moramos nesta serena hospedaria. Como falei anteriormente, d.Segundo reside encostado de minha casa: a dele é quarenta e cinco; a minha, Alameda da Saudade, o número está pregado na cruz; frente ao quarenta e cinco.
Ribeirão Preto   maio  1986                                                        




14° - O Cadáver            

          De repente se pegou numa situação nunca antes experimentada, numa sensação má, a consciência culposa quiçá culpada. E ninguém pode com a consciência; até a consciência não se pode vencer a si mesma, em não ser se autodestruindo.
          Fazia seu trabalho normal, comum ao menos, a se embeber na atividade, a atenção absorvida no barulhinho chato da ventoinha do computador, quando apareceu, vivo, vivo é claro ou não seria morto após seu repente tirando a vida dum ser! Aí ssustou-se, a fugir da compenetração na qual se encontrava; e no susto, num átimo no impensar – fizera o serviço! Desconhecia realmente que tivesse tanta força: derrubara violentamente o ladrão, pensou na rapidez própria do pensamento ser um ladrão; ladrão é que entra na casa alheia à sorrelfa; teria sido flagrado; e não se fica a perguntar as intenções, não indagou de fato: agiu. Agora, naquele então, jaz o corpo estendido no chão de sua sala de trabalho!
          Que fazer!? Não queria parar seu fazer na máquina burra e obediente, não tinha mais escolha, puxou o plugue, cobriu o micro, ainda enfiou no apressamento os papéis semiprontos na gaveta, a olhar com desconfiança ora a janela ora a porta ora os sons dos ouvidos, ora o morto, mais no morto se fixava num abestalhar de espírito. Tem momentos que não sabe o ser humano como agir, o que fazer; é o inusitado, de longe perdendo o ato para as experiências mais comezinhas, em sua irresolução.
          Que fazer!? qual atitude tomar na situação esdrúxula, durante noite alta.
          Apurou ouvidos, ouvidos apenas os cri-cris, toda gente dormia.
          Aí começou seu drama.
          Noite insônia rolamento na cama solitária.
          Primeiro tentou escamotear, ao menos a diminuir o mau impacto. Era preciso descartar o crime; não, o crime era o crime, impossível deletar o crime como se apaga no computador um documento indesejável a se ignorar ou seja ele comprometedor... Depois pensou melhor para não ter de ficar pensando e remoendo, como sabia a sobejo ficaria a curtir naquela indigitada noite. Pensou sumir com o corpo. Raciocínio simples, ao criminoso – onde não tem a prova do crime não existe crime. Havia sim, ninguém tiraria de si, ruminaria muito ainda até acalmar a sua consciência cobradora; sabia de sobra que era desse jeito.
          Mãos à obra.
          Pesou acontecimentos no cineminha da mente, pesava-lhe o ato de morte, o cadáver ali às suas vistas pra não deixar esquecer. Cumpria esconder o crime, única forma à sociedade exterminar o crime. Empurrou o morto pra lá, olhou escutou espreitou em volta, puxou depois mais pra cá. Calculou demais alvitres: como escondê-lo na geladeira; inclusive evitando comprometimento por odores... O refrigerador já cheirava maçã e outros alimentos, além do cheiro ‘natural’ pela falta de limpeza mais assídua; e ficar ainda por cima nesse por baixo com exalações cadavéricas! E se abrissem a porta da geladeira... não, essa hipótese não tendo cabimento pois ninguém visita na madrugada silenciosa. Além do mais já não encontrava a chave do cadeado fazia tempo a fim de abrir a casa para visita possível e portanto não abriria mesmo a nenhuma pessoa. Imediato pensou como surrupiá-lo da visão noutros lugares, arrastou devagar móveis, removeu objetos – não sabia esconder, só matar! (assustou-se ao pensamento). Por final achou um vão, empurrou o destroço nele, cobriu às possíveis e indesejáveis vistas doutrem.
          Deitou-se. Não a dormir, a rolar a calcular uma forma ideal pra desfazer-se daquilo, melhor seria realmente não ter matado! A insoniar, a ouvir os barulhos dos retardatários passantes na rua e a se preocupar e temer envolvimentos... Assim foi aquela noite, cujas cobertas o sol da manhã retirou.
          Levantou-se para ver, rever, a prova do crime escondida onde a escondera. Daí levou um susto maior: desaparecera o morto!
          Depois tomava sua refeição matinal como fora máquina automática; se pegou a passar manteiga na mesa não na fatia de pão; ingeriu café sequer sem prestar atenção no sabor – só fixava o pensamento no morto e no desaparecimento do morto. Debalde argumentava no seu interior em se falando o absurdo que é o desaparecimento de cadáveres, incomum ou impossível. Ruminou mais, mais se cuidando com a boca a fim de não se trair com voz alta. Olhava a desconfiar de tudo agora.
          Agora tendo não apenas um problema: a morte provocada por suas mãos (olhou as mesmas com vergonha) e a questão do sumiço da prova da morte.
          Todavia isto não era um bem! imaginou-se frente autoridades “confesse, haver matado!” e seu advogado “não existe prova contra meu cliente: onde o cadáver?”
          Acordou para o hoje do agora. Sentia-se na opressão e no crime, mesmo tendo desaparecido o morto. Olhou entretanto pela grade. Lá fora um que outro a passar, enquanto que do lado de cá era a prisão o tolhimento das liberdades. Deu-lhe uma sensação de pequenez, sentindo-se como qualquer prisioneiro no mundo, embora a ausência do objeto do crime; porque não existe melhor gradil que uma consciência pesada!
          Aí acordou também para o instante, no instante mesmo em que o serralheiro chegou a sorrir para cortar os ferros do cadeado, anulado este com chave perdida. Não teve coragem bastante a dizer ao profissional que houvera morto o morto, livrando-se também de seus gritinhos irritantes na orelha e a lhe sugar o sangue; nem a dizer para ele como desaparecera o cadaverzinho, quem sabe se não desmontado pelas formigas e levado em partes ao formigueiro. Sorriu ao libertador com serra de aço. Num alívio, óbvio.
Marília   outubro  2004


15° - Mi Pátria Amada  

Amado Persona Non Grata:
Sei perfeitamente como se sente nos últimos tempos, tempos ásperos como nos velhos tempos... por estar agora na relação dos filhos ilegítimos da nação que você adotou para que ela o adotasse. Outrossim saiba, em nenhum lugar é lugar para clandestinos. Somente os amigos íntimos teriam condições para julgar o que meu ilustre companheiro passa neste momento incrível; não insuperável, alerta meu patriotismo ao patriotismo seu perdido no estrangeiro; mas incrível momento, à primeira vista, por que passa nossa pátria e por que geme nosso sofrido povo! Imagino o que sofre o irmão aí, desconhecendo tudo o que acontece nesta praça de guerra.
          Isso, querido Persona – nossa Amada Pátria virou praça de guerra. Seu cheiro é o cheiro da pólvora. Sua cor a cor do sangue. Sua fala é o mesmo que a fala do ai-ai nas dores.
          A rigor, ela se tornou ilegal. Tão clandestina no destino do planeta quanto você, filho perdido na ilegalidade estrangeira. Virou matéria jornalística de primeira página à classe rica dos ricos países, para quem nos tornamos motivo de sátira. As nossas dores suplantaram as bombas do Oriente Médio e também as intrigas mundiais, que costumeiramente são para os jornalistas desesperados no sábado sem notícia o ganha-pão. Pois bem, ultrapassamos mesmo nossa expectativa em sermos importantes no mundo, embora sendo apenas um porto de exportação de bois magros ou de qualquer vegetal, que nosso povo não come por pobreza e vende ao mundo rico esbanjador. Hoje exportamos notícias, fatos de primeira página! viramos de uma hora para outra importantes e lembrados.
          Mal lembrados, a bem dizer.
          Então – enquanto o enxofre a sangria a dor nas ruas – lembram os jornais registrar nossa pobre história rica em acontecimentos semelhantes aos de hoje, na ‘revolução’ do dia, elevando o herói de plantão. Dizem que o General Rodriguez tomou as rédeas e jurou a constituição, despachando o General Moreno para outras plagas, livrando o país da ditadura para tirar o povo da fome do analfabetismo e do desemprego. Num átimo iremos à plenitude democrática, estouraremos a estatística no PIB na renda per capita no emprego farto, zerando a mortalidade e a doença! – tudo citado por fontes limpas dos novos governantes. E inclusive no usar a fala oficial, os periódicos querem satirizar nossa Pátria Amada.
          Então, repito, historiam os fatos contando como foi a fase Moreno. Arrasam-no, destroem seu povo ingênuo, chafurdam por cima das nossas leis, cospem inclusive na religião da gente! Não querem informar, querem sujar.
          E sujam nossos irmãos na pessoa de Moreno. Conspurcam seu nome dizendo que legitimou um regime com um golpe ilegítimo, prendendo o presidente General Castro.
          Castro fora um monstro. Quem lê os órgãos da grande imprensa, opta pela configuração de Castro-monstro. Aí resumem a vida no tempo do generalíssimo Castro, uma sub-vida; Castro, para essas fontes, mereceu o desprestígio mundial, pois tomara violentamente o poder num governo legalmente constituído: o do presidente Ramires.
          O General-Presidente Dom José Ramires havia sido eleito, após séries de falcatruas, praticando ele próprio muitas atrapalhadas políticas, quando sofreu o golpe de Castro; um golpe merecido, já que extraíra o dinheiro e a dignidade do povo, desde a longíqua ‘revolução’ de primeiro de abril, que propagaram como sendo em 31 de março, quando o General Ramires depôs o General Barrientos.
          Assim a imprensa mundial fabricante da Verdade chega à fase brilhante de Barrientos, deposto e morto pelas tropas de Dom Ramires. Juan Barrientos foi um santo para a santa imprensa: nada fez de mal em um ano e três meses governando: igualmente nada fez de bem. Um presidente ‘nadista’. Mesmo assim acabou no calabouço de Barrientos antes da tortura e morte. Com justiça, afirmam os articulistas, em vista haver feito o mesmo ao saudoso General Villiegas.
          Dom Pero Villiegas, chegara ao poder quase analfabeto num país descalço. Latifundiário (marca registrada de todos os antecessores apontados, comentam as agências noticiosas; e de todos os sucessores) pretendeu fazer de nossa terra a terra de um só dono, imensa fazenda de gado; e tornar nosso povo o servo da gleba. Tendo conseguido. Ainda estaria no poder, não fosse aparecer Barrientos.
          Mas o século também se acabara. Justo se acabasse um país-latifúndio; ou, antes, se acabasse o latifundiário-mor. O General Villiegas envolvera o General mandante da época – Dom Pedro Ibarra, que ao perder a posição de mando não foi assassinado, fugiu a tempo. Como afugentara ou eliminara o antecessor General Peres; o qual promovera revolução contra Dom Fernandes, igualmente General. E foi dessa forma com os generais Padilha, Romero, Bienvenido e muitos outros mais desconhecidos pela História e até pela Grande Imprensa, antes durante e depois em que o nosso povo andava descalço e faminto.
          Não sei se você, amigo Persona Non Grata, concorda, não comigo (os amigos costumam por costume acatar e não atacar amigos) porém com os jornais dos países ricos pra quem enriquecemos mais com nossa fome nossa ingenuidade e com distrações sãs a ofertar a Pátria Amada como praça de guerra na fumaça fedorenta o vermelho a manchar ruas ao som dos gritos das vítimas. Toda uma nação vítima, aberta à curiosidade; quem sabe se não objeto de apostas nos clubes grã-finos, objeto de escárnio geral.
          Gostaria nesta hora de poder indagar-lhe diretamente. Entretanto, você clandestino, somente contando com essa grande imprensa; eu clandestino em nossa pátria amada, escondido ouvindo tiros e gritos na praça, torcendo que venha um general (por que não o General Dom Ricardo Salvador?) a salvar-nos da sanha do General Rodrigues... Além do mais estou faminto descalço desempregado, a morrer de sub-renda per capita. Amigo, que venham a nós os generais salvadores!
Ribeirão Preto   fevereiro  1989




16° - Diário  de  uma  Suicida  em  Fase  de  Publicação
         
          Acho que nunca serei mais confidente. Vou deixar minha profissão, pedir aposentadoria, ficar depois nas praças como pessoa velha comportadinha. Direi já o porquê desta inabalável decisão. A Joana.
          Sim. Não uma Joana qualquer, porém minha amiga Joana; o que é diferente.
          Acredite não acredite, se quiser, elegeu-me confidente delinha pro que desse e viesse; faz mais de ano. Porque antes eu era tão somente igual outra pessoa, dessas que temos de aguentar e conviver pra conviver. Um belo dia (força de expressão, chovia a cântaros, semelhante hoje) me vomitou seus poréns, deu liberdade a seus uis; e confesso, agora sou eu que confesso: passou-me a depressão dela; não me largou mais.
          Então – sem querer fugir, fugir é covardia, pensar fugir de um drama como o que ela vivia – então mudei-me de Santos, onde estava gozando as férias, ela também em férias; fui a São Paulo, ela também; depois pra Campinas, ela igualmente; ainda mais tarde vim pra cá, ela não, ficou em Campinas, sem morar. Quer dizer, tinha residência cep e telefone lá, mas ficou daí por diante virolando por aí, onde houvesse rodoviária aeroporto táxi. Juntou o desquite os filhos atrapalhados da cabeça cada um de um pai diferente e ainda outrinho no orfanato, adicionou as dúvidas e dívidas sacanas, abandonou emprego fugaz pelo desemprego constante e certo – aí fugiu, fugiu ela, não eu.
          Pensa que foi nesse ponto que deixou-me em paz? Negativo. Foi nesse dito ponto que me nomeou ministro plenipotenciário de suas dores, ministra, se ficar mais sonante. O correio então passou a fofoqueiro oficial, num leva e traz infernado.
          Dia nove, oito após minha vinda para estas bandas, chegou a primeira carta. Passou por sobre todos meus problemas e sapecou um ultimato: “Estou em apuros. Não tolero a situação, mato-me!” Realmente não pôs exclamação, porém foi a única mentirinha que tem nessa frase, acrescentei agora para dar mais expressão e também esclareço hoje para não passar por indivíduo mentiroso. Apavorei-me, perdi o sono, quis ir ao seu encontro, salvar chapeuzinho vermelho dos lobos dessa vida. A correspondência era incompleta no espaço destinado ao remetente e o carimbo marcava Rio de Janeiro, muito pouco para encontrar a criatura. Fiquei no aguardo da comunicação policial (o que li de jornais sangrentos naqueles tempos!) curti a expectativa de coisas ruins. Elas não chegaram. Chegaram informes noutra carta dela.
          Começava: “Achei meu suicídio um pouco prematuro, adiei sine die, aguentei firme não aguento é o Rio. Aguarde notícias”. E despejou-me depois tudo o que eu já sabia, mas como se não soubesse.
          Outra missiva era de Teresópolis. Contava de sua alegria no ambiente novo, o que me alegrou por minha vez. Deixou uma pontinha (como faz todo ótimo pessimista e especialista no assunto) um quezinho triste. Logo chegou telegrama. Dizia: “Sofro muito, adeus para sempre.” Imagine só minha aflição.
          Recriminei-me, seria também um dos culpados, toda gente é culpada, me respondi. E sofri gostoso. Era sábado.
          “2º-feira – estou deprimida, nada me convence, quis matar-me aqui nesta Salvador, no apartamento imundo. Abri o gás e... estava indo, ficando zonza, não aguentei o cheiro: fechei o registro abri as janelas; ficou uma dorzinha triste na cabeça”, disse. E aproveitou a contar suas tristezas, falou-me de novo sobre tudo que a fazia sofrer, como se eu não soubesse.
          Não respondi de pronto. Depois resolvi não responder de uma vez; não queria minhas respostas a Joana, pois nunca encontrava a moça quarentona no mesmo endereço, as cartas voltavam. Portanto minha atitude era receber suas comunicações e sofrer enquanto.
          Chegou o correio. “Quinta-feira, dia quinze, resolvi – dizia a amante do acabar – resolvi dar cabo da porcaria de minha vida. Optei pelo mar. Nem tirei a roupa, fui entrando entrando entrando a água subindo batendo na barriga; quando chegou ao pescoço deu medo terrível; já pensou as águas salgadas atirando meu cadáver e meu esqueleto na praia?! Os peixes tendo comido meus olhos verdes!! Desandei a nadar e a fugir espavorida. Estou escrevendo a você.” Não se esquecia dizer que a vida não prestava, contou-me o mil vezes sabido, os episódios que sempre a faziam infeliz, como já afirmei demasiadamente neste relato, e que era de meu conhecimento nos detalhes.
          Depois recebi mais.
          Depois ainda recebi carta de Porto Alegre Natal Montevidéu Sete-Quedas e Cuiabá. Em cada uma narrava ter tentado o suicídio. Ora a “navalha rombuda” ou a “corda velha malcheirosa” ou então era “o vento gélido sibilante do último andar” ou mesmo “a tontura em cima do despenhadeiro” e havia mais outros pretextos para não se matar. Não se esquecia nunca de falar, de contar tudinho o que se passara na sua pobre existência, seus dramas meus conhecidos, me vomitando a porcariada que ia no íntimo dela e dos episódios passados entre os canibais da sociedade; assuntos conhecidíssimos, impiedosamente relembrados nas missivas.
          Vieram mil outras que não cheguei abrir. Enjoado, supus, ou cansado.
          Ora, cansei-me da Joana.
          Tanto é que não mais desejo ouvi-la. Resolvi também não me aposentar simplesmente como herói confidente (heroína, se soar bem) como vinha afirmando. Praticarei de meu lado o suicídio! Antes que pare a chuva e eu me arrependa.
Ribeirão Preto   janeiro  1982



17° - O Burro que Falava

          Parece mentira para enganar a verdade, ao menos para distorcê-la, que tenha ele nascido na Fazenda Baixadão. Em geral vindo ou com a manada ou isolado e neste caso já grandinho desmamado e valorizado, porque esses animais irracionais chegam ao destino, no caso o Baixadão, adultos se se quiser, vencida a fase chucra, dispensando oferecer coices. Disto não se sabe; sabe-se estar no pasto, a se desviar dos carrapatos e carrapichos, dos sanguessugas voantes ou não; ter muita fome e – isto é flagrante desrespeito aos cânones e direitos internacionais pelos tempos e tempos amém – e falando. Claro, não se dirigia então aos humanos, desumanos nas suas chibatas no exigir muito peso e muito trabalho, em troca da ração pouca, minguada quase sempre. Aos outros burros. Falava aos porcos e às galinhas, quando longe do galo certamente, falava mesmo aos cavalos: ninguém entendendo. Aí, seja pelas circunstâncias seja pelas necessidades fisiológicas, aí procurou a burra, só havendo a do Estado no estado em que se encontrava: vazia, vazada e estourada por causa da corrupção política. Não achando a burra, valeu-se da mula. Mula é estéril, não dá herdeiros! ora, o que mais se pensa é como deixar, mesmo sem ter o que deixar, deixar herança. Oh pobre planeta, a ficar sem burrinhos! Bem, ‘conversou’ a égua, por mais viável. Daí não foi feliz – a esposa era esposa de todo cavalo que aparecesse, necessitado. Ah cadela! gritou-lhe. Então se deparou com o inusitado: falava!
          Falar vem do pensar,  primeiro.  Pensava pensava nas coisas da existência; vida ingrata, lamentou. Pensava pensava, ‘minhocando’ suas coisas, coisas do mundo e até as ligadas a outros seres e outros mundos. Imaginou superar – o pasto o carrapato o carrapicho o relho? – superar sim tudo e superar-se em tudo. Loguinho já estava a deixar a pobreza o desemprego, a miserabilidade inclusive; que tal emigrar ao Primeiro Mundo! cassinos, dólares muitos dólares, naturalizar-se-ia para virar estrangeiro ou viveria mesmo ilegalmente e incógnita. Aqui não posso ficar, disse por saber falar, ou não diria. Aqui não. Pensou carrapatos carrapichos cochos carroças coisas, qual! não. Falar neste país, discursar, ser eleito por trouxas frouxos, votos... nem pensar; pensar (aqui sem poder falar, óbvio) pensar nas propinas mensalões mensalinhos, quem sabe presidência da câmara ou do partido governista e demais corrupções. Ou tentaria o empresariado... ah boa opção, mas e a baixa no câmbio a enfraquecer exportação? não. Seu negócio era a experimentação, exportação que fosse de si mesmo. Por essa razão ensimesmou-se, enquanto a coçar carrapatos carrapichos e coisas. Ensimesmado pensou numa oportuna opção.
          Passou a andar, pensar primeiro depois a falar por esse mundo. Foi entrevistar, a ser entrevistado pelos doutores; doutor, um tipo ‘carne de vaca’, igual a milho quando não andava ainda o milho nas mãos multinacionais; como a ração; neste ponto sentiu repugnância, pois não existe artifício mais artificial e fajuto que ração. Ficou no milho caipira, embora um imaginário milho para poder existir.
          Andou mais pensou mais pesou mais, falou menos.
          Já se cansava de salivar. Só encontrando vaidades enganos artifícios tapeações, teatro. Pegou-se idoso.
Idoso é um jeito eufêmico de envelhecer: Terceira Idade, Idade Dourada... e mais outras inverdades e banalidades. Coisa pra não se lembrar que dirá falar.
          Constatou andar velho, esse o fato.
          Entrou – gasto no pasto! carrapicho! carrapato! – penetrou no portal do asilo, casa de repouso, ‘eufemismou’ barato pra ser igual aos semelhantes tentando ser diferente. Falou, porque falava, falou ao que viera para a atendente. Moça passada, solteirona, cheia de coisas, por haver atingido a coisa. Ouviu-lhe o falar, ou exigir!? Ouviu e respondeu como orientação algo do tipo chibata carrapato e pasto. A seguir indicou o lugar dos irracionais.
          Ele: eu falo. Portanto exijo tratamento sábio.
          Ela: o lugar dos sábios... mostrou os poetas os filósofos os políticos, todos loucos que falam, e demais corrupções.
- - -             
          Não houve mais conversa, que é o arremedo do diálogo. Preferiu acalmar o muito falar, de tanto que houvera falado. A vegetação crescera já, a fome sim nele diminuíra, desaparecera. Para pensar, a calar, a melhor forma de falar.
Marília   setembro  2005

 

 



18° - Missão Possível ao Impossível


          Trinta de julho. Faz dias estou de mala e cuia em São Gigante, vila, que os gigantenses chamam cidade. Escrevo porque hoje é data especial aqui – a festa do padroeiro São Gigante, do qual a aldeia emprestou o nome.
          Dá impressão que eu esteja neste lugar morando.  Contudo resido e não moro. Tomo para correspondência a casa da senhora Tonha, que o vulgo pensa ser hotel, imaginando bem umas cinco estrelas das mais corpulentas. Pra mim sinto-me num prostíbulo... Aqui vai um esclarecimento; é que registrei esse vocábulo forte e impuro porque em primeiro lugar os gigantenses não sabem ler, não preciso temê-los; em segundo, em razão de o desconhecerem, caso soubessem o alfabeto; terceiro lugar por maldadezinha que trago dentro de meu ser; não cheguei dizer que fosse santo: sou apenas visitante; forçado, diga-se de passagem, pois estou aqui com obrigações burocráticas.
          A população da coisa, quer dizer São Gigante, é monstruosamente representada pelos números. Ou seja: imensamente grande como São Paulo e Rio que as pessoas ouviram falar e não conhecem; ou como Nova York ou Bombaim que não sabem existir; imensamente grande para a gentalha que nasceu aqui; e imensamente insignificante para mim que sou viajado no país e nas estranjas. Trocando miúdos, conto uns mil habitantes! Entretanto dão a isto o nome de município. Até a estatística, ciência estatisticamente mentirosa, não contou a gente; creio que por preguiça, a qual se impregna como a chuva em qualquer indivíduo que apareça por estas bandas.
          De fato, a chuva quando não cai de manhã, a goteira convidando a esquecer percevejos da pensão de Tonha; cai de tarde; e varia no horário, caindo ao meio dia – invariavelmente todos os santos dias! daí se impregna molha mina bicha os ossos da gente. Os compromissos – fossem aqui respeitados mas pelo menos a marcação dos mesmos – se assinalam ‘antes’ ‘depois’ da chuva; e se concretizam molhados pela chuva teimosa ou medrosa sempre horrorosa! Entretanto isso é o comum na faixa litorânea, eu sei; não obstante chateio-me como vítima dessa natureza inóspita. Talvez mais por falta de conforto.
          Em São Gigante não temos água de torneira; só a bica a lata de querosene; e a água da chuva é claro; nem luz elétrica; não há aquecedores chuveiros quentes e menos banheiras; na contrapartida livrei-me da televisão. Somente como ‘conquista da civilização’ um radinho japonês de pilhas trazido por algum turco safado, o qual fica ligado dia inteiro, sintonizando emissora de fora com música estrangeira; neste ponto o objeto de tortura encontra-se rouco fanhoso e demonstra cansaço; antevejo com alegria que as pilhas estejam ao fim e logo ficarei numa paz, mas seu proprietário certo caboclo miserável tornar-se-á bem triste, creio.
          Aliás neste lugarejo a civilização, mesmo seu dejeto, o consumismo, não penetrou nem de armas (fora o radinho, quase querido como fetiche ou religião). Dir-se-ia uma paz desarmada. Bem a propósito só temos aqui armas brancas, o corriqueiro punhal, por exemplo, que não sai da cintura dos homens (a picar fumo, dizem os mesmos...)
          Não se contam punhais nem seus proprietários nem seus cavalos, o veículo local. Como falei, a estatística nunca entrou por estas bandas. Eu ando justamente encarregado pela alta burocracia do país a inocular esse veneno nestas veias aguadas de chuva. Enquanto não acabo de convencer os gigantenses da santidade de meu mister, observo a vida que levam ao contato com os outros seres, todos molhados pela chuva lenta e paciente, quiçá teimosa.
          Passo, portanto, a relatar um que outro caso nas relações gigantenses, mais a título de observação, quem sabe se não a aprimorar meus estudos morais e psicológicos... Notei por exemplo que o casamento é aqui de certa forma instituição falida; não que deseje esquecer que na civilização ele está apodrecendo, neste fim de mundo entretanto ele é sem valor; ou pelo menos desnecessário. Às vezes ele acontece para dar o que fazer ao padre, quase que a única autoridade respeitada, tivessem respeito por alguma. Eu chamaria isto de reino da desmoralização. Uma senhora respeitável por nome Mariona casou-se uma vez aos treze anos e não se casou com os outros maridos que teve; e nunca registrou igualmente os filhos. Dona Cida não se impressionou sequer por estar sua filha de catorze anos grávida. Indaguei: não irá acionar a justiça exigir reparo, casamento dela com o safado, uma pensão? Respondeu “não”. Não terá entendido, ou nem se importado. Tia Zefa, professora do Grupo Escolar São Gigante, essa me aparece a dar aulas de barrigona de fora e sutiã! Falei com ela como Don Quixote ao moinho, se não tinha vergonha, não pensava no bom mau exemplo aos guris? riu-se na minha cara. Comentei, “não está mais aqui quem falou” lavei como Pilatos as mãos. Essa professorinha tem cinco filhos cada um de pai diverso e nunca se casou; espera o sexto filho. O prefeito Seu Zé – falaram baixo de medo que eu tivesse vergonha ou temesse autoridade – ele, Seu Zé Maneco, tem três esposas e uma cambada de meninos. O pior foi um caboclo, mistura lusa africana e índia, muito comum nestas plagas, o dito fulano me procurou propondo ‘sociedade’ e a me explicar as coisas ao meu desentendimento, ofertando umas duas filhas dele em troca de um favor meu, de falar ao delegado sobre antigos roubos de galinhas e cabritas. Achei demais. Argumentei com as conquistas da civilização os dados estatísticos a alta moral; toquei no básico falando sobre minha esposa e as filhas bem casadas que deixei no Rio de Janeiro. Insistiu na ‘sociedade’; resisti com meus argumentos religiosos e tal. Noutro dia trouxe uma das mercadorias de uns quatorze anos talvez quinze. Eu andava só, fazendo bem uns dois meses no colchão da Tonha, sem contar os percevejos; e o capiau a me propor essas imoralidades e safadezas que chamou “sociedade”. Contudo cedi àqueles sorrisos femininos dos quinze anos...
          Foi assim que falei pela primeira vez ao Dr.Delegado, moço de fino trato; depois argumentei com o Sr.Cabo, em favor de meu segundo sogro. Inventei na estatística.
Ribeirão Preto    dezembro  1986





19° - Diálogo Intemporal, ou de Todos os Tempos

          Ela pensa que sabe, não sabe; nem sabe que não sabe.
          Elinha sim, sabe o que deseja. Não deseja. Ou por outra, deseja tanto que não sabe o que melhor querer. Não obstante, ou seja por isso ou por não conscientizar isso – chora.
          Não, não chora, ou será que chanha é manha, e manha é choro?
          Jacira! Jaciiirá... Ói a nenê, Jacira.
          Nenê: olha, curiosa. Não vê Jacira nenhuma, quem será Jacira! não importa, importa ela saber esse som significar uma coisa boa. A mãe da mãe ou a filha da filha da mãe, por exemplo. Ou a vizinha ou a titia ou a filha da companheira da vizinha. Ou a boneca; é, pode ser a boneca. A boneca parou, parece uma bonequinha e os outros nenês quando se enfrentam devem pensar que bebê é uma boneca que grita e bate na fuça da gente, no caso gentinha ou aspirante a gente. Mas não pode ser a boneca, a boneca anda prostrada, tadinha, no chão! Contudo poderá muito o gritar, e elinha sabendo melhor berrar fino; podendo ser por causa de haver caído ao solo o brinquedo. Não. Brinquedo não fala, e no faz de conta fala, na linguagem delinha fala, às vezes não fala e elinha fala algo a ela e ela cai no chão. Para que entender isto se isso tudo é o choro!
          Jacira! Jaciiira, a Jacira vem vindo? ah Jacira, ocê vai pegá a nenê?
          Para outra vez a pequetita. Olha. Olha outra vez, agora desconsolada, não sabe ainda menear a cabecinha pra lá pra cá negando. Assim mesmo fica desapontada. E estrila.
          Calma, nenê... só falta mais uma pecinha; já lavo torço estendo e aí... (não chegou a dizer o comum “te pego” ou “pego a bebê”).
          Buá.
          Calma, menina... ah, olhe o passarinho!
          Que será ‘passarinho’, au-au já sabe e Jacira de sobra.
          Segundo tempo ou terceiro ou quarto ou... do chorar. Gritar. Berrar; berrar esperneando. Parou, quer dizer, interrompeu, molhou fraldas, o carrinho de prisão, o chão, a boneca respingada. Quinto tempo: buá!
          Calma, menina... Vovó já já acaba, troca tudo, dá papá (quase disse mamá porém, velha, os seios...)
          Silêncio. Aguardo. Sexto tempo.
Marília   setembro  2005







20° -  Cerimônia de Desindireitar 
          Nascição do Aparecimento. Antes do antanho de antigamente mas não tão antes que não pudesse ser um pouquinho depois, nasceu; que então e já então a furo não se vinha, vinha-se de mulher. O Pitecantropo veio de mulher, de homem em ajudinha e todos inclusive mamãe pensando que ele punha as coisas lá dentro inchava e desabafava um chorãozinho começando a gritar antes e depois de aprender chorar e mamar, pensando que essa monstruosidadezinha fosse ‘made in man’ e ‘for man’ e o posteriori provando por A+B que não, que sim sendo homem-e-mulher na forma consagrada nos costumes H+M=f, esta última representação refere-se ao filho, filha 50% mais um porque as beldades superam as feiuras nos cinquenta por cento mais um, sim mais de um mente a estatística. Nasceu. Na pia batismal recebendo o lindo nome de Pitecantropo.

          Acrescimento da Surgição. Cresceu. Já havia nascido mesmo, não tinha jeito. Além do mais mamava adoidado. Sim. Inclusive pelos penduricalhos a tribo descobriu ser do sexo masculino, isto um senão do sim. Cresceu. Cresceu mais adoidado ainda, além do que se possa esperar, na época nem condição havia ao ‘possa esperar’ pois tudo não se esperava não fosse a onça o leão o relâmpago a fome. Ah a fome... uma sem tamanho por não caber no tamanho e cresceu ainda mais. A fome sim, mais mais o homem, filhote do homem. Virou homem. Homem daqueles lá nas alturas, com uma ressalva especial – foi além dos homens e mais tarde além das alturas!
    Pitecantropo era Gigante.
    Não um gigantezinho mambembe a gozar tataus pixotes e normais no baile. Não. Um Gigante. A tanto crescer, de repente (de repente é recurso literário mui usado, também pelos mágicos; aqui usado sem intenção de abusar. Pitecantropo é quem abusou e se agigantou desmesurando ainda mais que o de repente:) de repente ói ele lá em cimão na tribo, ói a tribo lá em baixinho!

          Relacionação para Computador Grifar. O relacionamento desde então, quer dizer – do nascimento que deixou mamãe imprestável para dar mais cria e espantada a tribo por um ‘oh’ maior que o nenê-gigante; o relacionamento foi normal, isto é, não haviam inventado ainda o normal por isso foi o comum do ser: brincadeiras brigas com dentadas mas sem xingamentos não só por não saberem falar porém de medo; ah temeram desde cedo Pitecantropo quando dava lá seu tapinha de carinho matando uma criancinha sem querer, e nesse caso ninguém deseja brigar com elãozinho, só brincar e com muito medo cuidado distância. Todavia foi sim o normal. Em normal nada se acrescenta ou desvira normal a comum outra vez.
    Essa emocionante descrição da relacionação foi assim até chegar a juventude.
    Não se põe aqui quantos foram os irmãos que Pitecantropo comeu lambeu o caldinho quando mal passado ou triturou gostoso quando bem passado, não se falou aqui que os ‘antropofagasse’ crus, seria de um mau gosto medonho; nem se espantem espantosos, porque todos assim faziam naquele comei-vos uns aos outros quando necessário faltando caça na tribo. Bem entendido: ninguém sequer pretendeu comer Pitecantropo assado bem ou mal passado, por razões óbvias. Porém se não o ‘se’ condicional do óbvio, daria para a tribo unida fraternalmente mastigá-lo uma semana, de tão grande estava o homem!
    Portanto relação normal.

          Que se Entendendo por Normal. O normal do comum, ora. Os pequenos liliputianos, assinzinhos petiticos (ah é hoje: estouro o micro em seu corajoso trabalho de grifar-me os errados, a máquina grifou petitico!) eles todos, tadinhos, querem ser amigos de Pitecantropo e sobretudo as fêmeas da espécie, espécie humana com espantação. Elas faziam de tudo para ser dele. Interessante as pessoas depois, milênios depois, vão querer tudo pra si, serem as maiores proprietárias por egoísmo bem desenvolvido; então não: as mulheres querem e até se dentizam entre si e concordam depois serem todas dele (êita gostosura de tempo que não volta mais!) Ele, o Pitecantropo, aceitou; os outros homens, pequenos sim ainda homens, decerto não gostaram, com medinho a dizer, visto já não serem burros naquele tempo. Elas... elas eram belas, tagarelas, quase antes de inventarem as palavras a conversa por extensão já eram tagarelas e aí a possibilidade de o vocabulário ter sido inventado pela parte feminina da tribo. É possível isto! é. Elas o queriam, caminhavam por aí e diziam suspirando “ah meu macaco marido!” Mas...

          Mas Entonce a Guerra! Não se pense que os homens unidos jamais serão vencidos a vencer em revolta dum levante contra Pitecantropo. Não. Guerra mesmo entre aldeias: disputa de terra, de mulher (que bicho terrível, sempre no meio!) enfim disputa de qualquer coisa – nunca houve razão para a guerra. A razão precisa ser inventada pretextando uma inventação dos mais espertos egoístas. E na briga internacional universal geral emocional entre as partes, as partes tinham o Sujeitão para seu escudo. Um Escudo-Gigante. Isso desde os tempos dos tempos até o fim dos tempos que ainda não se conhece todinho agora, agora vivendo os fins dos tempos. Até no até que enfim.

          Até Que Enfim. Encontramos agora, no agora daquele tempo, talvez um pouco antes,  depois porém de a estatística medir (a mentir) o imponderável das coisas, agora encontramos estabilizado o Pitecantropo. Enormão mas estabilizado. Portanto sem nada para fazer e nada fazer.
    Estava parado sentado duro, óbvio. De tanto ficar sentado.  No sentar-se certinho que nele era certão.
    Aprendeu o cientificamente correto: espinha acompanhando o espaldar (claro a cadeira já inventada pôxa!) pés levemente abertos, pernonas flexionadas na posição ideal, braços ao longo do apoio do cadeirão, cabeça olhando para frente no sentido ver-se o que se não vê: a linha plana horizontal fixa imaginária feito a linha de Capricórnio teimosa passando em cima da capital paulista se poluindo decerto e ela não estando nem aí. Enfim assim.
    Está nesse momento, pobrezinho ou é pobrezão? está duro, durrérimo como um pau; pior, só pode confrontar com a dureza da pedra, a qual se encontra fora da gente até hoje.
    Duro.

É duro! É mole. E aí!?
    Bem. Duro de tanto sentar-se na posição certa tem de chamar os ortopedistas a desindireitar, implorar aos psiquiatras a convencê-lo haver melhorado um pouquinho que seu pessimismo grita só um pouquito e o seu santo otimista grita já um pouquinhinho; poucão no seu caso gigante superlativo demais abusante.
    Assim vai por aí. Parado.
    Levado por toda aldeia, os da tribo o reverenciam como um rei um mago um deus. Estátua Dura.
    É duro. A dura situação pitecantrópica!
    Aí, deu-se o pior: o trabalho médico o tornou um homem. Comum. Já perdida noção do normal.
    E o normal do comum é trabalhar ganhar a vida disputar a vida a fim de morrer na vida.
    Também, o que faria – ficar crescendo crescendo crescendo, já não havia condição neste, em ter que procurar outro planeta; e não havendo mais lugar no ônibus da NASA...
    Pobrinho (agora já pode ser pobrezinho).
Marília   setembro  2003  



21° - A Teoria dos Extremos  

          Encontrei... não, o Zebebum me encontrou, eu não ia, ia ao supermercado comportadinho e tudo o mais, me encontrou convidando-me a ir fazer-lhe companhia, isto é: vê-lo nadar na piscina etílica como sempre, onde sabe de costas de arranco de borboleta e até conhece o nado popular que em moleque chamávamos ‘cachorrinho’ com direito a beber muita água suja, ele ‘água que passarinho não bebe’ a caninha a cachaça a aguardente. Assenti. Fomos. Sentamo-nos no salão acanhado do Bar Sétimo Céu. Olhou-me sóbrio, ainda, sóbrio embora empapuçadas aquelas bolotas avermelhadas; ainda sóbrio.
          Cara, peça o que desejar, disse.
          Pensei, claro, quem pagará serei eu. Pedi uma limonada, comportado decente correto. Ele... pinga; pinga com limão, não era de exagerar, assoprou-me. E comentou:
          O ambiente aqui é muito bom, ótimo. Boa gente, boa bebida, boa companhia (olhou-me amigo) boa conversa, boa teoria, boa...
          Pera lá Zé, que teoria?
          Não conhece? minha teoria extrema dos extremos. Seguinte. Tudo desemboca e se acaba nas duas extremidades do conhecimento. Vejamos noite-dia; claro-escuro; frio-calor tudo no extremo, nas pontas.
          ?!
Vai entender. (Entendia enquanto isso e mais um trago mais um copo, eu tão só bebericava refresco de limão contra o calor) Vai sim vai compreender já já. Olhe (olhei sem ver) olhe aqui até nas ideias os extremados; tanto assim que se começa do nada vai-se ao tudo, noutra extremidade. Na religião. Ih nem se fale na religião.
          Religião?
          Sim, veja.. vai mais uma bebida? Outra.. tá bem, limonada pro amigo, pra mim já sabe, daquela. Vamos à religião, a seu pedido. Veja começamos por Adão, vem Eva e aí tudo.
          Tudo!?
          Tudo, meu chapa, um rolo. Porém Adão e Eva o começo a extremidade inferior. Na outra extremidade o Apocalipse acabando com tudo que o casal fez. Não é assim?
          Concordei, grande conhecedor de sabedorias das ignorâncias. (Entremeio meio tonto de cachaça, ele, eu um desbrônquio no pomar chocalhando-se o limoeiro e abrindo o saco plástico de açúcar, gosto com pouco doce todo mundo me conhece o comedimento).
          Como dizia, dizia Zé, sóbrio, candidato efetivo a Zebebum, dizia a Você que veio o primeiro no extremo, Adão, tá na Bíblia (confirmei sem nunca ter lido a Bíblia) tá lá. Aí arrancaram sua costela, fizeram uma certa dona boa, mas tudo bem, normal. Estavam no Paraíso. Sabe como é o Paraíso?     
          Não sei, nunca estive lá.
          É um Paraíso. Adão passeava pra lá pra cá, agora com a namorada dele.
          Namorada!
          Que namorada, vai pensar que era amante traindo o marido, qual! companheira e casada com ele no padre no cartório.
          No cartório!
          Não me interrompa ou esquecerei, beba sua cachaça quieto, está bem: a limonada. Passeavam de mãos dadas vendo as flores as frutas as águas a natureza enfim. E iriam ficar a vida toda nessa boa, boa pras negas dele, pra mim uma chateação (eu me benzi com medo) pra mim gostei mais quando veio a cobra.
          Tinha cobra?
          Cobram, mas aqui é tudo barato, gente nossa, a branquinha é de primeira e a limonada deve estar... ah sim, cobra, serpente eu digo. Aí ela ofereceu uma fruta, maçã importada, dessas que só tem cheiro por fora e fofura por dentro e o besta, tchã-tchã-tchã. Comeram foram expulsos, deixaram a casa devendo aluguel, se perderam na floresta densa, perderam o Paraíso!
          Aí termina a primeira extremidade?
          Aí. E começam outras coisas.
          Não é o Apocalipse?
          Ainda não, rapaz. Tome mais limonada, ôi, me traga mais daquela delícia dos deuses e refresco às minhas orelhas.
          (As orelhas andavam grogues já, elas viam anuviadas o Zebebum engolir seu álcool; além delas terem a bexiga ó pra estourar, levantei-me fui à ‘casinha’ nós meninos no grupo escolar falávamos ‘casinha’ o mictório. Cheguei empurrei a portinhola, antes olhei se não era das senhoras cansado de fazer feio e passar vergonha, a catinga indicava ser mesmo masculina: higiênico usado fora do cesto que era uma latinha, paredes com poesia chula e desenhos pornografados, descarga a ser dada e vazando sem parar, pia quebrada e torneira pingando, era sem dúvida dos homens e tentei urinar mas não saía, não saía também o cheiro, desisti e no desespero de causa me dirigi aos fundos do Bar Sétimo Céu, havia lá umas pilhas de tijolos. Olhei, educado, para as imediações aí mijei nos tijolos. Enquanto, como bom oleiro pois oleiro não sabe passar perto de tijolo sem examiná-lo pegá-lo, notei dois mal queimados quatro trincados e numa saudade que dá na gente apanhei dois exemplares e bati um contra o outro a verificar qualidade do barro, coisa mesmo de oleiro em nós impregnada e aí senti haver cumprido minha missão, não a de oleiro saudoso, a de haver esvasiado meu reservatório fazendo coisas feias e mais uma vez olhei de soslaio para ver não ver gente sobretudo gente do sexo feminino alguma Eva por ali perdida a me envergonhar e só envergonhei-me por deixar hamônia como cheiro, fedendo o ambiente, tornei ao ambiente do Zebebum lá no salão acanhado do Bar. Voltei, nem notou que houvesse saído continuou a falar:)
          Então, disse, ela...
          Quem?
          Ora ela, a Eva. Ela se assustou com a cobra.
A cobra! Você já falou sobre a maçã.
          Não, seu burro, está bêbado, seu ouvido tá bebum; ela se assustou com a cobra dele! eles nunca haviam pensado naquilo. Aí engravidou, veio um mundão de molequinhos e menininhas, os primeiros foram o Abel e o Caim. Abel matou Caim ou (aí tinha um vira-lata em nossos pés, ele o pisou e o bicho: “caim caim caim” a sair correndo e o Zé:) Caim, você tem razão, o Caim que matou o mano. Aí...
          (O Zebebum já falava bem enrolado, quase caindo por cima de sua aguardente, quase no ponto ser levado pra casa, eu quase pagando a conta de minha limonada tanto me doíam os dentes roídos pelos ácidos e paguei também a caninha dele, o que me valeria contabilizar na conta dos lucros & perdas na escrita; ainda se lembrou da Teoria).
          Tem o outro extremo. Com rajadas de ventos tempestades tufões terremotos ranger de dentes, tá na Bíblia, é o Apocalipse, você nunca leu a Bíblia?
          Nunca li a Bíblia, Zebebum.
          Ora, o que adiantava eu dizer o que dizia, já ele dormindo. Também estávamos sendo expulsos do Paraíso, o Sétimo Céu; arrastei-o pra fora; e um bêbado pesa por dez sóbrios! Acontece ser então eu novo e forte, pu-lo, será que tem ‘pu-lo’!  pu-lo nas costas igual o homem da propaganda do óleo de fígado de bacalhau e levei-o para a mulher dele, Dona Maria, a qual nem me percebeu a caridade: andava também num porre.
Marília   março  2004

22° - Questão de Idiossincrasia

                             

          Um sujeito um tanto chato e outro, também chato. O primeiro havia descrito certo fulano de nome João, entremeio às interrupções do segundo chato, não sei se o mais se o menos. Chamá-los-ei Primeiro e Segundo, só de raiva.
          --Mas amigo Primeiro, o senhor me diz algo desse João e creio saber dele como conheço a mim mesmo. Imagine que me encontrei...
          --Sim, porém me esqueci de contar que o João tem uma cicatriz, um negócio de facada, não sei.
          --Exato, vi a cicatriz também, medonha... e...
          --Espere um pouco, Segundo; é barbeiro, uma espécie de barbeiro barbeiro, pois que é ruim na profissão. Me contaram que João...
          --Já sei, a amásia é uma tal de Joana, loiraça assim...
          --Que bobagem, sr.Segundo, o sujeito, que eu saiba, não tem mulher alguma, é inclusive...
          --Não disse que seja machão – interrompeu novamente o amigo Segundo.
          E insistiu saber isto e aquilo mais do tal. Havia a estória de um primo, negro-aça etc. etc. ao que Primeiro redarguiu já um tanto desgastado e nervoso:
          --Desconheço o primo, garanto que o João tem uma perna mais curta; outro dia, segunda-feira, ele foi a pé ao...
          --Ferreira, Bairro do Ferreira, não é? É esse mesmo. Arranjou uma encrenca danada. Dizem até que a polícia...
          --Ora bolas, Segundo, o João é pessoa distinta, de grande nome no seio em que vive, nunca arranjou problema nenhum. Queira me desculpar, porém o senhor se engana.
          O outro tornou-se vermelho, mais vermelho ainda, parecendo que ia avançar; não avançou, apenas acrescentou com uma certa classe:
          --Longe disso estar enganado, meu caro; sei de cada uma do João... Concordo consigo ter feito bom nome em seu meio, porém a podridão come é por baixo! Garanto-lhe Sr.Primeiro, você não o conhece suficientemente; cuidado com possíveis empréstimos a dinheiro ao safado... é capaz de tudo.
          Nessa altura os dois, Primeiro e Segundo, já haviam caminhado quilômetros sem o perceber e encontravam-se em estado de exaltação extrema, vulcões a explodir. Rouco, Primeiro tornou à carga:
          --Não me diga, amigo, falar do João Martins da Silva.
          --Exato, esse o nome.
          --O que dá tanta certeza ao senhor?
          --Ora, Primeiro, fiz o Tiro de Guerra com o João; eu era o soldado 141 ele o 24, coitado, amigos íntimos; então separamo-nos por causa dessas trapaças do homem, que o senhor nega, ou desconhece...
          --Está me chamando de ignorante!
          --Nunca o picharia dessa forma, Sr. Primeiro, que o respeito. Suponho tão só um mal entendido seu, julgando grande sujeito o João, entretanto...
          --Coloquemos um ponto final a isto, caro Segundo. Agora pergunto-lhe para esclarecer melhor: se ele serviu o governo consigo terá sua idade, não é?
          --É muito claro.
          --Vivia em 1940, não é assim?
          --Está dito Sr.Primeiro.
          --Ora, não é o mesmo que descrevi. Meu João morreu em 1939, quando iniciava a Guerra Mundial.
          --A memória falhou, Primeiro, queria dizer 1936, na Espanha, durante a Guerra Civil – argumentou bem Segundo.
          --Ainda está cometendo engano Sr.Segundo: era medroso e nada de patriotismos, fugiu para Portugal em 35!
          --Tenha paciência, eu não disse, Sr.Primeiro, que...
          Porém o companheiro não o deixou terminar e concluiu ele mesmo desta forma:
          --Basta. Para mim o senhor ficou é maluco. O João Martins da Silva não viveu em 39 nem 35; está vivendo agora, neste dito instante, quando acabo de criá-lo para uma estória a ser publicada no jornal “Vanguarda”.
          --!?   
São Paulo   maio  1977  




23° - No Estádio de Futebol
                             
          Uma gritaria. Uma gritaria eu sei. Sei por ver, ver os atletas a se mexer. Gritaria da torcida é claro entretanto mais por parte deles, os jogadores, enfim um falatório sem conta; antigamente não era mais ou menos assim, era mais ou menos assim um pouco menos, havia disciplina e muita crítica dos críticos e apenas era dado o direito a berrar de fato à torcida; na época nem havia a organizada uniformizada ‘violentizada’. A esposa, com jeitinho, se dava ao luxo acompanhar o seu homem, embora não apetecesse às mulheres, algumas lamentando: o que acham esses bobocas de graça a correr atrás de bola; outra: e a brigarem! Era. É ainda. Como integrante não das uniformizadas mas ao menos da torcida dou agora meu testemunho.
          A rigor não me encontro nas arquibancadas, menos nas numeradas reduto dos ricos; sequer nas gerais: na rua.
          Isso, na rua, o jogo ocorre na via pública, não sabendo este membro da torcida por que chamam ‘pelada’. Vejo olho observo, e eventualmente torço. Nem poderia ser diverso – pois me encontro na frente de minha casa a disputa é em frente. Tem menino de todo tamanho toda sujeira toda garganta.
          Eles gritam bem, à perfeição; e não se entendem para quando crescerem se desentenderem com gabarito.
          Puseram dois tijolos de cada lado, num espaço medido no ‘mais ou menômetro’; que são duas metades roubadas como se rouba fruta, igualmente menino não tem essas moralidades de não se apropriar do bem dos outros por mal; terão afanado numa construção aí perto ou achado no terreno baldio ali, que é um tesouro e tem outros cacarecos como preciosidades; tomaram os cacos de tijolos, puseram um sobre o outro em dois montes e isso virou o gol, imitando traves de madeira e até sonham decerto que atrás exista uma rede de barbante para segurar bola a passar virando ‘frango’ que o ‘frangueiro’ a ser pichado antes será gozado por isso depois, talvez motivo à briga, é rede de faz de conta e portanto pra eles já existe.
          A bola é bola, não é bola de meia; alguém ganhou de papai noel quando existia papai noel e neve no país com rena e trenó; não importa. Importa estarem jogando gritando como necessário e o problema só ocorreu quando a dividir as turmas. Precisavam 22 atletas, tinha 12 apenas, ainda assim requesitando uma ‘tantadinha’ de moleque emprestado da mamadeira pra fazer número e correr com as perninhas pra não alcançar nunca a bola e assim dois times de seis. Correm.
          Ninguém para, nem a bola. A bola por causa da gritaria, não da torcida que sou eu apenas vendo e anotando, no parar um pouco indo às compras de casa, a gritaria dos próprios jogadores e esses gritos devem ter assustado a bola, a bola rola vai foge se esconde donde pronde foi, foi alojar-se num quintal, por baixo da árvore, quietinha quietinha. Um corajoso a encontra, já pulou o muro do vizinho antes bateu palmas e imediato entrou à sorrelfa no domicílio alheio tomou a fujona devolveu aos gritos dos colegas; aí se recriminam a pontaria. Continuam. A torcida apupa xinga aposta lamenta explode noutro xingo e não xinga a mãe dele, não tem juiz; houvesse seria outro garoto aprendendo a ser parcial quando grande.
          A torcida dum homem só.
          Olho e consulto meu cronômetro a pilha ver se é hora e acho que passou da hora de ir às compras porém desejo ver se ao menos acertam um gol; na outra extremidade do campo igualmente fizeram outra trave com tijolo real em cacos e uma rede de faz de conta mas nem neste gol há gol: a bola não entra. A torcida lamenta os pernetas me atrasando as compras – não acertam o gol, a bola a marcar o ponto. A esfera de borracha pulandinho vai entrar, param.
          Lá vem outro automóvel!
          Recomeçam, ‘desgritam’ o grito do ‘olha o carro’ gritam o passe. Passam por cima de pés pisam ferem bravejam xingam daquilo que aprenderam no pátio e na classe da escola com os colegas. Enfim se desentendem bem, se aparam, discutem outra vez, ninguém tendo culpa – retomam. Caminham suados, olhinhos arregalados, bocas ó deste tamanho, a borracha passando por entre pernas a deixar penas.
          Com pena do goleiro, um branquelinho quase a chorar, venci. Venci no ver o gol; o relógio me determina o caminhar ao supermercado, a patroa já no portão a menear desconsolada sem dizer decerto e a pensar: o velho parece moleque vendo o jogo; e a mistura para o almoço!
          A torcida também se volta à esposa, dá um sorriso amarelo à mulher (mentalmente a chama ‘cartola’ para se vingar) e parte às compras; ao longe ainda percebe os briguentos se desentendendo. Quem sabe por outro frango ou porque algum adulto invejoso determinou desfazer todo o campo de futebol.
          Porque adulto sabe suficientemente desmanchar um prazer menino.
 Marília   agosto  2004                       




24° - Um Caso Matraca          

          Fiquei grilado, andava absorto parado. Parara tão só a descansar, não me davam descanso as coisas da vida, uma vida. Decidira-me não perguntar nada a ninguém, que me pichassem egocêntrico, isto pouco me incomodava nada alteraria o girar do planeta não mudando as coisas.
          Aí, ai! aí que se dirigiu a mim. Deveria, eu deveria, ter posto uma placa uma faixa ou coisa assim, assim escrevesse que fosse na camiseta, atrás da camiseta ‘não desejo conversar com ninguém!’ Não, melhor houvesse posto apenas ‘não’ mais fácil de ler, um não daqueles grandões em chamarisco, para dispersar convites a matracar fiado, que o homem da rua só diz besteira e isso não me importa. Se bem nesse mal um não nada diria, melhor mesmo uma faixa (se coubesse todo um discurso e isso fora de cogitação): leriam, não amolar-me-iam, mas isto já não apreciei pela colocação pronominal. Porém o fato era, é, que ela se dirigiu e não posso condená-la no mister, a placa a faixa o qualquer ‘não’ não estava no lugar para que lesse me deixasse em paz (o que é paz!) lesse sim porém ocorre o seguinte.
          Saberia ler! não se desse que fosse analfabeta; daí pra que faixa e ditos, no caso não ditos?
          Ler, digamos...
          Contudo falar...
          Você. Olhei pra lá, insistiu, Você aí, então o negócio era de fato comigo, como a pobre adivinharia que eu não quisesse, quisesse permanecer mudo. Bem entendido, não sou mudo, muito menos surdo, para não ouvir tagarelas por esse mundão. Não. Você!
          Eu? Claro, é burro é surdo é da desconversa ao menos!
          Respondi que não, sem saber direito a qual sim antepor meu não, o sim bastantinho naquela boca a matracar solto, espera lá: onde anda a boca...
          Olhei. Agora não olhei pra lá, restava dúvida que fosse dirigido pro meu lado e meu ser as indagações!? não. O não aqui é afirmativa.
          Tornei olhar pra ver se via o que não via, via – pasmemos! – via uma caneta.
          Bem. Todos veem canetas, toda hora sempre. Isso é o bastante a comprovar um concreto no mundo da lógica. Não uma que fala!
          Firmei meu ser, infirmei o ponto donde o som a voz o conteúdo modulado (devo esclarecer – a dicção a frequência os decibéis adequados dando ideia da perfeição, descartam-se antecipadamente fanhas e taquaras rachadas comuns) e confirmei. Poderia duvidar de mim mesmo! Poderia de outros, do mundo inteiro, não de minha constatação e de minha então certeza.
          É comigo? insisti, podendo que não fosse era.
          Bem. Eu disse. Que deseja, essas coisas essas tolices vazias que usamos nos diálogos mundanos.
Não desejo, você (aí pôs meu santo nome, aquele que o padre na pia batismal salgou e gritei dizem até abri a boca no mundo já descrendo quem sabe de religião ainda nenê) você quem deseja.
          Sabe meu nome! Como sabe, quem disse, não tenho culpa, os outros fazem as coisas e...
          Calma. Sei. Sei mais. Falar, por exemplo.
          Eu: onde já se viu caneta falar!
          Acabou de tomar conhecimento.
É. Acabei mas não creio, só acredito vendo, provando por A+B e... ah é verdade. Queira me desculpar.
Está errado a colocação pronominal.
Está certo. Que deseja.
Outra vez? já disse, é surdo é burro – você, não eu.
Está certo. Olhei pra cá olhei pra lá, vai que... Está certo. Posso perguntar alguma coisa?
À vontade, estou à sua disposição.
Bem. Como pode você falar, sendo uma caneta; já revirei tudo em volta e não encontro sequer um ventriloquinho...
Entendo, diz a caneta. Porque não tem ventríloquo.
Então?!
Então é que falo e falo com você, a você. Entendeu?
É, parece que sim.
Por que a dúvida.
Ora... é que... bem... não sei.
Sei eu; homem é um ser lógico, um computador melhorado, que trava menos que um computador e não grifa em verde não sabendo bem a língua, a língua que devera dominar; nem grifa em vermelho para azular de raiva o digitador e azucrinar incautos. Acertei?
Parece.
Parece?
Tá bem. Você fala. Não é vantagem, aprendi antes de você, aliás vejo daqui uma esferográfica comum, azul, plástica, acabando sua carga (acabei com ela, pô, andava já nervoso e continuaria intrigado). Ela? sorriu matreira. Continuou a tagarelar eu cheio de falta de vontade a conversar, sobretudo fiadamente.
Acabou de ‘besteirar’ minhocas na cachola?
Chula também e aguardo seu baixo calão, de gente assim, digo caneta assim, se espera de tudo.
Olhe o pronome...
Vá para o inferno, diacho.
Não me atinge, falou a cilíndrica personagem de plástico eu querendo ver sua marca e não chegava perto a dar-lhe corda e me rebaixar, pois sou orgulhoso etc. e tal.
Contudo...
Sim falei, contudo o quê?
Contudo tem lá sua dúvida se falo; falo.
Ouço, respondi brabo curto grosso, restava chutar-lhe as coisas, coisa que caneta não tem, eu inventaria as coisas a dar um pontapé certeiro como ponto final.
Afinal, disse a matraca, afinal donde possa duvidar que esteja eu falando,  uma  pobre  caneta  esferográfica  em  fim de carreira, veja aqui no meu dentrão se esgota minha carga útil azul, tadinha de mim!
Não apela e agora é a minha vez: o pronome!
Ela: pronome, não é pronome é burro ai! pronome, gramática, academia, erudição, não enchem a barriga.
Eu: cala sua boca.
“Cale-se”  devemos dizer.
Tá bom: cale-se. Sou o Rei do Planeta, quiçá do Universo, superior à toda ‘coisa’, gente é mais que qualquer.
Que lindo!
Eu, eu me interessei grandemente: sempre me chamaram vaidoso, vendo nisso apenas intriga da oposição; devo ser belo mesmo, as meninas... (a caneta cortou-me a frase a empáfia a noite de meu sonho:)
Pera lá, sua besta humana, o ‘lindo’ que disse, você, fisicamente, é um susto ao se levantar de manhã após noite indormida sob peso dos janeiros, no seu caso dezembros; no entanto referia-me à ideia, o pleno em besteira, ‘Majestade’... Deu para entender!
Deu, não deu.
Não deu porque “canetas não falam”, é isso que deseja afirmar o ‘Rei’ do Planeta quiçá do Universo.
Tirou a palavra de minha boca, respondi.
Certo esse errado. Mas você, representante da espécie Homo sapiens, você não assistiu no cinema quando moleque o burro falante?
Ora bolas, isso é filme, ficção, montagem, sua...
Tonta quer dizer.
Tonta quis dizer. Fosse ainda assim um animal, burro não é burro, poderia um que fosse até haver desenvolvido a sua mente.
Mente. Mente descaradamente. Não crê.
Não creio, pode crer, não acredito.
Não precisa acreditar, basta ver ouvir sentir uma Caneta, eu, falando. Não basta?
Basta. Basta! Oh língua de trapos. Vou...
Vai! Vai o quê.
Vou. Agora não, vem gente, deixa passar.
(Passou)
Pronto, estamos a sós, me cutucou a matraca tagarelante inanimada quer mais animada!
Certo, falei emburrado.
Vai...
Vou (antes fazer o que se deve devo fazer, antes, pensei examiná-la melhor, observar nela uns menos por exemplo; se não andava falhando no escrever, tem umas que a gente aperta tanto por não soltar direito a tinta até rasgar a folha; podia? podia; tem caneta soltando gotas de tinta sobretudo ao fim da vida que era seu caso ou no calor, aí borrando as coisas. Apenas nessa descoberta estaria já vingado. Prossegui:) vou pôr você (ela me cortou “pô-la”) certo, vou pô-la derreter.
          Contei a ela estar cidadão-meio-ambiente-correto, separo agora papel vidro metal e plástico.
          Pô-la-ei, gostou agora!? pô-la-ei no saco de plásticos e vai pra reciclagem, ajudar catadores de lixo empregados no desemprego. Aí ‘te’ levam a derreter e... cadê!
          Por isso decerto não me criticou o pronome.
Marília   outubro  2003                                          

25° - Volta e Revolta               

    É verdade que não tem jeito, jeito fica sendo, continua sendo, sendo a gente como a gente é, pensava nestes termos; pra não pensar que pensava e o que pensava. Então empurrou com a barriga. Claríssimo, força de expressão a dizer deixa pra lá, encobrir o pó por baixo do tapete. Tinha também um grande aliado.
    Não existe maior e mais confiável amigo que o labor.
    Arrumou-se às pressas, o serviço que é o ganha-pão do homem, fez aquele homem, ainda um homem em seu pensamento, sair correndo; como o fazia diário sem contudo se acostumar, não com o patrão cobrador e estando ele no seu direito mas consigo mesmo: não sabendo o que fazia por não dar tempo no correr todo tempo – arranjar as coisas dos meninos preparar isto ou aquilo, olhar o relógio pela terceira vez e ir-se. Todos dias. Todos dias propondo um plano certo pra mudar.
    Agora sai às carreiras.
    Volta, menos às carreiras cansado de se cansar já antevendo o cansar doméstico.
    A coisa andava acumulada ao Zé. Acumulando o trabalho no trabalho com o trabalho no trabalho de casa. Não podendo queixar-se neste, saía-se a contento nas prendas domésticas; na verdade as três crianças exigindo pouco, mais sendo a preocupação paterna que outra coisa. Aquela coisa de família pobre: o pequeno ajuda, às vezes desajudando, os menos grandes e os grandes fazendo brigando entre si as coisas, quebrando louças e copos varrendo por cima, até papai chegar, além de esquentar o almoço e o velho, ele mesmo se achando velho, o velho se preocupando nos desdobramentos e artes no fogão – ótimo para seu pessimismo.
    Agora é o ontem daquele dia, dia de muito trabalho no trabalho que se foi no trabalho do trabalho no lar, ajeita isto prepara a janta arruma grita o moleque ainda o telefone não para, para o serviço atende o engano a cobrar, cobra de si mais agilidade a se cansar para ao menos descansar no sono...
    O sono não vem, vem o frio. O frio aliás não se foi embora. Treme-se se encapota, aí os cuidados com as crianças, menino não para nem dormindo e se cobre se recobre se descobre; levanta-se e se deita com frio numa andação pra ver os filhos; o galo. O galo anuncia parar de dormir, ainda não deu pra dormir o sono rebelde; a noite insone o peso da vida, a solidão tem o peso do mundo e o mundo são muitas noites, estas o prolongamento do sofrer no dia; ainda bem que existe a laborterapia, devendo antes agradecer ao patrão cobrador, não se chocar com os colegas e com as coisas no emprego. Na hora a gente não pensa.
    Pensa o Zé. Agora é ontem daquele dia e o dia é a tarde daquele dia. Naquele dia fez suas coisas, procurou nem pensar nas coisas. As coisas dela estavam a ‘campainhar’ sua lembrança, e sumir num quem sabe no lenço ou nas costas das mãos rolando molhado, ah homem não chora... E ela...
    Ela com razão me deixando, deixa Zé que os miolos pensem, ou estoura o coração.  Tampa a panela grita o menino acode o telefone paga a conta ralha o cachorro, este volta compreensivo rindo sem graça de rabo e com amor puro. Abana a cabeça, o Zé abana a cabeça. Retoma o não pensar só pensar nas prendas domésticas para não ter que dizer a outrem o que não pode não deve não quer dizer e não diz, rumina.
    E sofre. Agora sofre na cama.
    A cama ringe, ele ouve carros a passar na madrugada, será madrugada! Os sons lhe devolvem os sons anteriores: a esposa não chega, nunca chega, chega se não ébria a cheirar suas cervejas, sequer indagando se passou a febre do menorzinho, chega se despe se veste se esborracha ao seu lado, virada de lado e o Zé é só o Zé, uma solidão na multidão porém o ser é a solidão do egocentrismo e nenhum ajuntamento consegue dissolver o drama e nem conhece o drama, assim o Zé pensa ou pensa que pensa. Volta imediato à solidão do agora ao som do carro a passar a sentir o frio do seu frio de vida, a solidão é fria contundente ferina arrasante cobradora também e está só. Mas...
    Achou ter sido um milagre; ou apenas um instante de instante de sono o sonho enganando a realidade da solidão! ela de volta!
    Entrou. Deixou o veículo funcionando à porta um pouco; bateu a porta no seu estilo, rangeu o portão de ferro cansado na velhice de ferrugem; a seguir bateu de leve à porta da sala; bateu-lhe ao coração se levantou apressado desconfiado despreparado  ansiado ao menos a abrir para a ex-esposa. Era agora certa Maria sem chave sem intimidade sem vivência na volta ao lar abandonado... Teceu, ele teceu em seus miolos algum drama que ela tivesse, ou quem sabe saudosa não dele repudiado entretanto dos filhos, não sabia. Abriu.
    Entrou. Penetrou como fora sua a casa já não sentindo sua o que fora seu... Ruminou um qualquer em solilóquio. Queixou-se do frio, disse, por fim, não suportar aquela outra casa, disse assim sim com todas letras, ele procurando não entender de pronto. Dentro do Zé...
    Ainda sangrava o desastre do abandono, ainda feria fundo as causas do desastre que se pensava sem volta e o ser humano sempre pensa que não tem volta ou vira o jogo e engole a necessidade engole sua incapacidade a vencer problemas e engolindo sua ingenuidade quem sabe a pureza na ignorância da sabedoria – a pensar que se pode começar vida nova Adão-e-Eva Eva-e-Adão, e o Paraíso. Pisoteando os infernos. Acordou. Olhou.
    Viu uma fêmea linda da espécie, deitada no sofá que fora seu, encolhida a caber na cama improvisada; voltou para sua cama, ainda quente da friagem de sua solidão. E se cobriu e rolou e se ajeitou pra não dormir melhor a noite gelada, aquecida pelo seu pensar febricitante. Pensava pesava pensava mais e ainda, sem mais conclusões que as conclusões da vida que não se conclui. Rolou de novo cobriu se descobriu, e se levantou, ah que vontade enlaçá-la beijá-la perdoá-la até, mesmo que não houvesse pedido. Parou no meio do início da porta do quarto; voltou; deitou-se outra vez, se levantou de novo. Aí tomou umas cobertas, quem sabe se não ainda com o cheiro dela, quem sabe se não com seu calor acumulado em dezena de anos e estando guardadas como relíquia ou butim da batalha (ou da guerra!?) perdida. Tomou os cobertores, avançou para a sala ao sofá improvisando leito, depositou o fardo naquele fardo que tanto amara e ainda queria e sofreria por ele nos anos que viriam e sobreviriam.
    E se mexeu. Se ajeitou. O Zé puxou algumas rebarbas das cobertas naquele corpo belo da mãe de seus filhos.
    E ficou a olhar tal símbolo de sua realidade. Só a olhar, nem via mais o frio.
Marília   setembro  2004                     

26° - Como Foi Que Dormi no Poleiro

    Nós aqui na roça dizemos realmente pulêro; se nas estranjas ‘poleiro’ ou ‘puleiro’ deixo aos gramáticos a resolver, mesmo porque nada fazem e aí têm a existir uma ótima razãozinha. O fato é que dormi sim no pulêro. Sem que isso possa chocar ninguém mesmo as chocas, pois sou uma galinha. Talvez melhor fosse discutir como é que parava grudada no pau num dia em que noite toda a chover, as melecas das outras de cima batizando meu leito, a ficar liso pra danar e aí não parava no dormir: não dormi noite inteira; caí uma vez até escorregando e, no chão, olhava sem ver naqueles escuros; um barulho de bater e mais bater asas; o homem acordou veio ver, e não via, ver se era ladrão de galinha, um espécime que vai frequente para a cadeia porque os que roubam de colarinho e gravata dormem tranquilos no apartamento com seu luxo; mas não era, era eu caindo do pulêro e olhava o escurão sem achar a minha cama que o amo fez atravessando de improviso certa vara numa árvore em que dormíamos e nessa noite escorreguei bonito tibum no chão; enquanto que o homem também não via, por via das dúvidas deu um tiro de sal ou de chumbo o qual fez barulhão assustando meu susto e assustando as outras aves – não viu viu sombra e só o sol consegue destruir a sombra nenhum homem.
    Aí naquela noite daquele dia virou dia mesmo, sol insetos no voar, minhocas a brotar no chão molhado – uma festa para nós! um correr e mais correr atrás das comidas voadoras. Depois melhorou. A mulher nos jogou um punhado de milho – a dizer ti ti ti pra nós, que acorríamos felizes: propondo a felicidade, o que faz em todo planeta a felicidade é tão só o alimento! No meio ao milho havia restos de comida humana como arroz e outras coisas. Tinha um papo semidestruído duma de nós, nós partimos à disputa no butim; aí uma franguinha entojada, dessas que têm sempre entalado algo na garganta e ficam dia todo “croc-croc”, a entojada se apropriou do tesouro; e corria pra lá voltava pra cá, o séquito faminto atrás dela e a pobre sem sossego; até conseguirem todas estraçalhar a bicadas o alimento, sobretudo a disputar o milho de dentro do papo, visto o milho atirado pela senhora já se ter acabado, fazendo agora alegria das tontas a cantar suas árias. Eu não.
    Olhava bicava olhava. A turma a se dispersar, o galo, arrotando ‘sultanices’, cráu de cá cráu de lá o fominha; e depois a cucurucar vitórias, isso porque o nosso galo é demais machão.
    Olhava. Pra não ver. Pensava (ao menos a destruir a tese segundo a qual galinha não pensa). Pensava naquele dia, que era certa manhã de sol a avisar possíveis retardatárias ainda no pulêro, somente as doentes e as velhas corocas dignas de pena a coçar desanimadas as penas; só elas. Nós andávamos corríamos bicávamos cacarejávamos espreitávamos a porta da mulher do homem se abrir. E se abriu, ah a chuva de milho! uma beleza. Titití. E foi então que nos reunimos naquele congresso para vida e expectativa, inclusive as moleironas adoentadas e velhotas chegaram chegando capengas a pleitear uns grãos. Aí deu-se um imprevisto, o qual era mui frequente ocorrer: o Tiquinho. O Tiquinho veio pequenininho uma gracinha e foi apelidado Tiquinho por petitiquinho mas cresceu se agigantou mesmo, antes passava a brincar cheirar xeretar por nosso debaixo agora passamos por debaixo dele, se bom de veneta inclusive subimos nas suas ancas para ver melhor as alturas do mundo, coisa apenas dada ao galo o qual vê lá de cima em nos apascentar. Cresceu, continuando Tiquinho, tornou-se gigante o cachorro e permanece molecão. Nesse momento daquele dia, nós reunidas a discutir nossos grãos de milho esparramados no solo, ele, o Tiquinho, resolveu quem sabe irritado com seus carrapatos e piolhos, arresolveu investir na massa! e só foi pena voando, gritaria pra valer, pernas para que te quero. Espalhamos nós igual milho ao léu, ele atrás de todas, me escondi debaixo dum de cima qualquer; porém as outras fugiram espavoridas e o besta grudou logo o galo, mais moleirão e cheio de machuras e gorduras e lentidões. Levou nosso homem nos dentes sorrindo a cauda com o inimigo a se estremecer na boca. Daí,  ah bem feito, apanhou da senhora e saiu ele num correr a esconder-se por baixo da cama dos meninos, seu esconderijo predileto; nosso não: levamos chineladas quando entramos na casa, sobretudo se defecarmos na cozinha ou indo ‘curiosar’ o que possa ter na panela em cima do fogão. Assim ele ficou horas observando de lá embaixo e nos deu algum sossego.
    Olhava, no pensamento, veja bem, academizo o dizer, olhava. Para ver o terreiro. O terreiro é um mundo; um que se basta. Lá tem de tudo: milho, latinha de goiabada com restos do Tiquinho, água na lata, tem umas bobas que em vez de beber na bica lá embaixo preferem tomar água na lata do cachorro; então entram dentro, virando um barro líquido; e vez que outra se equilibrando na borda da latinha desequilibram o todo e tombam a vasilha esparramam o conteúdo. Resultado, d.Maria vem armada com vassoura bate nelas, aproveita a varrer as imediações e repor água limpa para o cão. Olho, assunto o assunto olho e não me meto.
    Olhava a coisa. Via no meu dentrão outras coisas. Enquanto isso Cucurucu cucurucava bonito, as colegas, eu mesma até por que não dizer, elas se reuniam em torno daquele canto de sereia no caso o galo, o galo aproveitando-se: cráu! Assim depois elas a cacarejar felizes e depois ainda a procurar fazer ou já feitos a procurar os ninhos para pôr seus ovos.
    Olhava a me lembrar. Me lembrando da minha primeira vez; não do ‘cráu’, nem sei quantas vezes o insaciável Cucurucu... isso não – a primeira vez que botei. Dona Maria me pegou distraída, jogara uns restos eu já pensando em privilégios e primazias... enganou-me, prendeu-me as asas, enganou-me, aí eu temendo a sorte da sem sorte na panela; apalpou-me a traseira, eu constrangida no meio de meu povo (era minha primeira vez, veja bem academizo de novo) e disse à garota mais velha “esta franga já tem ovo”. Até me virei pra lá, envergonhada. Fui posta no chão, me chocalhei a voltar ao meu natural, comi o resto que as outras engoliam e despistei o quanto pude. Procurei depois um canto longe dos outros, do Tiquinho lambeta e enxerido por exemplo, pra pôr meu primeiro. Depois disso não parei mais.
    Olhava aqui dentro ver lá fora. Naquele dia, um outro dia, acharam meu ninho. Eu me preparava a botar mil e um, imaginava filharada a piar, quando me seguiram me acharam o recanto! Roubaram-me os pintos nos ovos; nunca mais me deram sossego: botava, roubavam. Um dia foi o Tiquinho a me comer os ovos (e apanhou o malandro aí gostei).
    Olhava de novo para lembrar um lance curioso. O menininho mais novo da família recolheu a feira, levou inclusive para casa meu indez, que deixavam a me enganar e não me enganar errando o ninho. Levou o ovo choco, quebrou o indez inadvertidamente na cozinha... e espalhou o cheiro de podridão, apanhando da mãe como o Tiquinho naquele dia; e chorou fez um berreiro. Eu? eu gargalhei mesmo numa vingança pelo roubo que faziam diário, vendo o episódio do ovo choco. Puseram outro no lugar, botei botei botei.
    Olhava agora aquele triste dia. Triste sim, traíram-me com milho enganador, me prenderam, me mataram esticando meu pescoço! Fiquei a acompanhar a tarefa, demais entristecida. A água a ferver amolecendo minhas penas, o arrancá-las contando causos e se rindo (gente é isso, gente!) me deixaram nuzinha da silva e ainda me passaram ao fogo vivo tostando tocos de penas sobradas; o bestalhão do Tiquinho xeretando por volta a me cheirar, que raiva! Me esquartejaram me temperaram me afogaram me cozinharam em nome... ah, em nome da boa vizinhança. Uns parentes então chegaram de imprevisto, na roça não dá para ir ao açougue alizinho comprar bifes, pegam a sacrificar a primeira penosa ao alcance, no caso eu! tadinha de mim.
    Olhava o depois aqui dentro de minha alma a chorar. Festejaram conversaram riram se embebedaram com cachaça de nosso amo, me arrotaram. E, ah que infâmia e que horror – peguei um dos garotos a me comer a coxa esquerda... Pior: chamou o Tiquinho, encostou meu osso no focinho do tinhoso; atiçou atirou longe o dito osso, o indecente correu achou, roeu roeu roeu-me quebrou-me em partes; ainda por cima por baixo me enterrou o osso a se prevenir esconder tesouros para ter-me outro dia por entre grãos de areia nos dentes, se é que algum cachorro não me chegasse ao esconderijo antes! Pode uma coisa dessas, pode!?!
Marília   outubro  2004




27° - Assassinato da Lua        

          Um dia – falou a outrem uma voz ansiosa por orelhas, as minhas por exemplo mas só contando com a direita – um dia que já se perde no tempo, mataram a esposa dele, uma delas visto ter um harém, logo a favorita, uma carijó bonita de se ver; então fizeram a pobrezinha porque chegaram de repente visitas, afogada ensopada assada ou ao molho pardo não mudando a situação – o fato é o galo, pobrezinho, ficar viúvo apenas não ficando totalmente desamparado porque o serralho era pleno de minhocas bichinhos e tendo milho vez por outra e assim se sustentavam as outras esposas, muitas, e tinha franguinho franguinha pro futuro e pintinhos a encher ouvidos de papai, que só de raiva mágoa tristeza certamente cocoricou alto num cucurucu de despedida da morta.
          Mas e a Lua. Não se fala da Lua.
          Mudo: ‘na’ Lua, não apreciando depreciar os outros sobretudo fêmeas.
          Macho. O Sol é muito macho, um macho e tanto – vibra vivifica vivos. Não recompõe a carijó, tadinho do galo, ah como é duro ser um varão procriador! O Sol perdeu, isso também é duro, mais duro, é mole! duro pra valer, quem já viveu esse morrer sabe bem, bem se diz este dito. Tadinho (diria “palminhas pra ele”!) tadinho do Sol.
          Contemos a viuvez.
          Era uma vez uma sociedade se dizendo cristã piedosa civilizada e equilibrada, a cultivar os costumes e a moral. Íntegra, batuta, matuta, matutava as conquistas ocidentais da tecnologia e cansada do acanhamento e da timidez em que vivia, se é que vivia. As instituições eram sólidas impensadas imovíveis. Um dia, um que já se perde no tempo, chegaram de repente visitas.
          Oferece-se o melhor quarto, a melhor cama, o melhor caroço do colchão de palha, a melhor iguaria, digamos a galinha carijó, tadinho do galo o gogó assim de cucurucar a perda ao molho pardo da viuvez. E é claro as crianças foram dormir no chão de terra batida, felizmente no infelizmente era seca e apenas havia barata e outros apreciadores de calor e sujeira; esses meninos ganharam decerto com as visitas os restos do banquete das visitas, isto um senão. Se não vejamos os costumes se alterando pela alteração.
          Mudaram. Primeiro mataram a carijó, tadinho dele. Depois e ao mesmo tempo mataram outras rotinas em pôr outras rotinas no lugar, tadinho do Sol. Porque resolveram os civilizadores civilizados matarem nada menos que a Lua.
          E se pergunta: e os poetas!
          Então os jovens se casavam, antes namoravam, furtavam furtivos furtos com os lábios, um que outro não, a média do todo, naquele tempo não assim que se chamava porém sendo assim o pleno. Bem. E ao casar, com padre compadres e amigos e parentes, visto os parentes andarem sempre xeretando proximidades e a palpitar palpitantes novidades pra valer e mais se sobrar algum podrinho; e arroz na saída da igreja, e véu e grinalda (parece que se fazia assim também para velório na sala e enterro no cemitério da prefeitura antes se benzendo de corpo presente alma ausente). E aí tchã-tchã-tchã... a Lua!  
          Ah os românticos, mataram os poetas mas é outra estória não cabe em contolouco.
          A Lua... tinha sim o amargor do fel às vezes e até com devolução aceita por São Machão protetor dos homens da época, devolução da mercadoria por não intacta. O comum, não do proceder, do viver, não era assim, era o mel. O príncipe encantado levava ao colo, quando endinheirado na viagem de núpcias quando desendinheirado só ao colo: despejava o doce fardo na cama, olhava pelas frestas se não havia olhos na fresta vindos de fora pela tal fresta podendo ser o buraco da fechadura da porta e até...
          A população crescia.
          Ainda cresce.
          E agora, Sr.Sol!
          Tem sim a lua de mel, pra focalizar a tevê dar e ter ibope, marcha nupcial de Mendelssohn, flores essas coisas, mas a Lua já vem de muitos ‘namoros’ e casamentos, o casal ela no terceiro ele o conquistador adepto de São Machão protetor assassinado no seu quarto ou quinto, se bonzinho ainda no segundo.
          Ora, pode existir hímen que suporte tanto defloramento, tanto mel!
          Ah pobre! do viúvo? do galo? do sol? Do Leitor, viúvo, ou pior, enganado.
Marília   outubro  2003




28° - Confissões Íntimas                  

          Ah meu caro... nem quero dizer, quero até quero, acho que não posso. Posso, devo, afinal você é meu amigo; não exagero; deve ser o único a quem poderia falar nisso. Olhe, não é bem como dizem: ele a expulsou do lar!
          Ah meu caro amigo, lembro-me foi numa terça como hoje dia vinte e um, já havia pago contas e tudo o mais; restavam as contas da casa. Essas não conseguia saldar. Ia empurrando com a barriga, apenas a empurrar. Foram anos (sabe o que é sofrer anos!) anos sim vendo tentando evitar desenlace, sofrendo um convívio cada vez mais difícil de quebrar. Imaginou um nó feito, apertado longos anos, cimentado no tempo, difícil seria desenrolar! era isso, temia, temia por mim mesmo, não queria sofrer o desenlace e sofria por ter, ou melhor, por não ter coragem no desenlace. Paradoxal? é, paradoxal. Alguns amigos, não digo íntimos como falo de você, não, alguns; diria melhor: conhecidos (a gente pensa ter amigos, tem conhecidos os quais se dão à pachorra de palpitar sobre a gente, pessoas que dizem: Beltrano? ah é assim é assado; especialistas na espécie humana – não conhecem o homem). Não você, você é íntimo, posso contar com você, posso contar a você, tendo retorno da compreensão. E do perdão. Do perdão?
          Ah meu caro, será que os outros possam perdoar-me! Diante da evidência e diante a incompreensão da gente a gente fica a pensar o contrário. Me ponho no lugar da sociedade, a sociedade comportada e de bons costumes. Um sujeito leva a companheira de todas as horas, mais da madrugada (ela me azucrinava ainda mais madrugadão, não deixava dormir...) leva essa santa, falei santa (sim, logo diriam eu um belzebu ela uma santa, sei que é esse o comportamento apressado dos outros que garantem nos conhecer e, privados do viver no dia a dia, melhor diria: na madrugada a madrugada – massacram tacham rotulam adjetivam um infeliz, que infelizmente sou eu, você compreende; voltemos à ‘santa’:) leva a santinha embora de casa! Porventura, má ventura, não será monstruoso?!
          Ah meu caríssimo, mesmo eu julgaria monstruoso. Acho que sim. Teria míster belzebu esquecido os méritos da santa, indagarão perplexos. Porque é inegável fosse mãe. Mãe já diz tudo comprova tudo perdoa tudo. A sociedade é severa mesmo em se tratando de suas fêmeas, todavia perdoa a mãe; embora possa ter a mesma ‘pulado a cerca’ como se diz. Mãe. Ela, a santa, era mãe de verdade. Verdade que não se deva exagerar neste ponto, exigir demasiado; dentro dos padrões da espécie foi mãe.  Aí é que ponho um obstáculo.
          Ah meu caro amigo. É problemático, ao menos melindroso falar nisso. Contudo devo esclarecer. Todos anos, anos a fio, engravidava. Acho até que voltava madrugada a fora com um filho dentro da barriga! E eu? como ficava nisso... já pensou na minha dignidade. É preciso neste ponto pôr a questão da infidelidade. Será infidelidade quando a gente sabe tudo? não será infidelidade apenas quando somos inocentes? sei lá. Além do mais deveria por acaso povoar o planeta! mais bem dito, povoar ela. Ela dando à luz, eu pagando a conta, como fornecedor de alimento. Piormente: dando de comer aos filhos dos outros; constrangedor.
          Ah meu caro amigo, amigo de verdade; dos outros sim! Sabe aquela estorieta da mulher do tintureiro com filhotes de todas as cores e até um de olhos puxados, sabe? guardadas as proporções eu me sentia tintureiro. A sociedade, mais ainda os vizinhos, compreenderia meu drama? Creio que não. Eu, manhãzinha, o sol a embelezar o céu, as caras alegres ou pensativas dos passantes na rua, eu apenas eu sofrendo envergonhado... tinha após anos nessa situação uma vergonha, sentia indignação, isso todos os dias. Todos os dias dizia pra mim, aos meus pacientes botões: seu palhaço, hoje não, você não tem coragem, amanhã manda ela embora. A coragem aumentava e me dizia veemente: manda ela e também os filhos, os quais não são seus filhos. Engraçado, a gente é gozada e besta mesmo no sofrer, posto lembrar Gibran: “os filhos não são seus filhos, são filhos da Vida”. Exato, da vida sim, e de sangue também não eram meus! Ficava bravo, esperneava xingava mentalmente. Da boca pra fora, este cordeirinho.
          Ah meu caro, você pode avaliar este cordeiro seu amigo. Pode. A coisa crescia. A mim me parecendo uma panela de pressão cheia prestes a estourar, por anos de injustiça... não acha flagrante injustiça? E tem mais. A você devo dizer que havia mais coisas. Deixa pra lá. Basta saber que ela andava em farra nas madrugadas. Voltava emprenhada e feliz, tão feliz que dormia até tarde noutro dia, dia inteiro às vezes; enquanto eu curtia o meu leito só, solitário na madrugada; de dia ela a dormir enquanto eu a preparar comidinha aos filhos dela com outros!
          Ah meu caríssimo, meu caríssimo; dos outros. Me arresponda: podia continuar a situação? nem precisa responder. No entanto faltava coragem a dar o passo definitivo. Deixava para outra oportunidade. Como que esperando, não a esperança em solucionar uma questão insolúvel, de anos. Não isso, esperançoso de no dia imediato ter a devida coragem para expulsá-la, definitivamente.
          Ah meu caro, enfim você compreende que não dava mais. Até que por fim chegou o meu dia D, o dia vinte e um, terça-feira como afirmei. Não aguardei o sol embelezar a manhã. Liguei o fusca, não o azul, havia já vendido a um tonto por causa do câmbio e a marcha a escapar. O branco, branco não, sou péssimo pra cor, dizem que é beje-claro. Não importa. Liguei o bicho, aqueci o motor, tomei a santa, santinha do pau oco convenhamos, ela ainda sonolenta pela madrugada e assim partimos.
          Ah meu caro amigo, imprescindível amigo, partimos e, confesso-lhe, doeu-me o coração... compreende, eu a amava apesar dos pesares. Ela? sequer desconfiando... Ainda por cima, por cima coisa alguma, no estado em que me encontrava deveria falar “por baixo”, pois é, ainda aconteceu de o carro, aquele pangaré montão de ferro velho – enguiçar! Imagine eu a empurrar o fusca na via pública, a santa olhando o bestalhão gemendo empurrando correndo a entrar no auto e aproveitar o embalo pegar no tranco, ela olhando inocentemente. Foi bom, fiquei com mais raiva. Deixei-a perto dos predinhos longe de casa. Ela apenas miou desconfiada. Não olhei para trás: fugi pra casa.
          Ah meu caro... não tive razão?        
Marília   setembro  2001                                         




29° - A Parada

           As ruas fervilhavam, mais ainda a praça. Gente se assemelha bem à formiga. Imaginar a igreja imponente não sendo mais que um resto de guloseimas atirado ao acaso por uma criança despreocupada ao chão infecto, que em torno do bocado as formigas façam sua farrinha, se desencontrando de antenas ligadas, a abocanhar impertinentes o doce, a carregar e mais carregar porções do alimento para onde se leva; dezenas centenas milhares de formigas. Dezenas centenas milhares de pessoas a olhar gulosamente para a igreja, que fosse um casamento e não era, era tão somente o centro da parada, o padre prestes a abençoar os militares e os grandes da terra, ou nada tendo que ver; o povo curioso num vaivém, querendo sair na fotografia e estar bem colocado, mas povo é mesmo curioso. Ele também. Difícil aceitar porém era parcela do povo; agora, mais difícil se encaixar como povão; quem sabe por nobreza de alma!
           E se se ajeitasse um tanto em expectativa, indócil. Parece que a farda desmerecia o ser, por grande. Não ficava bem ao seu porte um erro do alfaiate descuidado. O espelho o confortou um pouco do exagero, pôs os pingos nos ii. Virou à esquerda, consultou o perfil, sobrava um tanto na barriga pronunciada; pôs-se à direita; examinou com rabo de olhos as costas fugidias à claridade, gostou-não-gostou; tentou ver a roupa às costas de novo, viu sem querer o uniforme a escorrer pelo ventre: é, não ficava bem a um general a barriga saliente. Ou ficava, todos que sabia nos altos escalões chegando primeiro suas barrigonas, depois os militares. Não havia tanta certeza nisso, não tinha importância. Ah, tinha. Preferiu lustrar os botões meio luminosos. Virou-se revirou-se brilhando os metais. Porém mais impressionou a cor do tecido. Ele próprio achou-se lindo, antes dos outros acharem. Dir-se-ia nunca tivesse sido general; para dizer a verdade. Nunca atingira esse escalão, no entanto já imaginava um dia poder desfilar marechal. Ocorre que não existe muitos marechais, entretanto não há limites aos sonhos nem paradeiro às ambições humanas. Era humano, embora fardado. Cuidou que cheirasse bem; usara desodorante e se perfumara levemente, porque os soldados não precisam impressionar pelo cheiro, antes pelo denodo, por serem fortes! Se lembrou general, e ainda que general, um soldado. Lembrava-se do tempo de recruta, suado, obedecendo, apenas obedecendo, a frase na cabeça “obedecer é tão honroso quanto mandar”, não podia discordar, era proibido; não se lembrava quem dissera tudo isso, todavia já ansiava mandar. Agora punha a farda de general! Revirava-se frente ao espelho, escolhia fachos de luz, o esverdeado de sua roupa a fulgurar na luminosidade. Lembrou-se dos sapatos, até aí calçava chinelos de borracha ainda úmidos pelo banho e precisava se pentear rápido, ouvia lá fora o rufar barulhento da banda marcial; imaginava o povaréu indo e vindo, realmente ia e vinha sem parar em torno da igreja e da banda, o Sr.Prefeito e outros grandes chegando. Portanto precisava arrumar-se depressa. Enfim apareceu o lacaio a ajudá-lo.        
           Pediu opinião ao velho o que achando da farda nova, nunca havia sido general. Ouviu as ponderadas observações do criado, foi outra vez ao espelho enorme; ajeitou-se, fez-se limpar nos galões, a endireitar amarrotões; quis blasfemar contra o alfaiate, lembrou-se pôr os calçados, auxiliado pelo outro homem, andou pra lá e pra cá, corrigiu o porte, não era fácil ser general, nunca fora general, o que pensaria disso lá na rua o formigueiro na parada! Pediu exigiu quase opinião do outro, chegou-se à janela para ver seu público; nunca houvera sido realmente um general, não era o único general todavia pois os outros andavam acostumados à posição, tremia um pouco no temor pela berlinda e pela exigência social, sem poder confessar, não ficava bem confessar; entretanto ansiava aparecer, mostrar patentes, a farda vistosa, a posição de mando, gentalha quase chorando no beija-mão, povo indócil. Pediu as pílulas antes do desfile na praça a agradar os grandalhões políticos e a dar ciência ao povo animado, sob o tacão militar, o rufar dos tambores. Parece que tremia, insistiu nas pílulas. E o pente a ajeitar fios fugidios e embranquecendo. Isso tudo não desmerecia um general. No entanto era a primeira vez general em público. Daí bateram à porta.
           Abriu-se. Outro general? não. O Pedro Cachaça sairia de mulher mesmo, vestido vermelho berrante da Sebastiana. Gozou a farda do amigo e o ridículo do corte, também culpou o alfaiate; aconteceu a gargalhada. Mas o carnaval igualmente é gargalhada.
           Saíram a enfrentar o público exigente e animado.
           O povo esperava indócil, formiga andeja e alegre, brincalhona. Porém esse mundo é mesmo um carnaval.
Ribeirão Preto   maio  1980




30° - Minhas Últimas Férias  

          É conhecida por muita gente minha vida abastada, ao menos sem os sacrifícios comuns. Não obstante me enfarava já o ser;  tédio, cansaço, certamente cansaço. Os íntimos a brincar: cansado por nada fazer! A inatividade também cansa. Mas deixemos isso de lado; queria férias, sair da rotina, fugir do ambiente. Um direito que assiste a todas pessoas, mesmo aos que não têm compromissos e vínculos empregatícios. Foi assim. Planejei, juntei minha riqueza, dispus a administração temporária dela e me dispus a viajar. Dois meses após me transportava para os caminhos do mundo, cujo fim sabemos ser a interrogação.
          No primeiro mês já revirara boa parte do globo sem precisar calcular o futuro a gozar o presente.
          Contudo não gozei, não fiz plenamente uso dos direitos que me dava o direito. Isto porque não andava sozinho embora longe daqui. Tive por isso que pagar um alto custo, o qual foi muito além do desassossego e do incômodo. Cheguei às raias da complicação no seu sentido perfeito. Então nada mais podia fazer sem consultar meus companheiros. E aqui fica consignado não bastar ter dinheiro tempo vontade e disposição para sair de férias. Conta e muito a opinião dos acompanhantes.
          Ora, devo dar uma pequena ideia de tais transtornos e o farei analisando os que estavam comigo.
          O primeiro a tratar é o usurário. Levei-o comigo pois seria justo deixá-lo a comer meu capital em casa, sem nada fazer! Ele constantemente me lembrou os compromissos as dívidas os juros; fez empréstimos, cobrou-me outros, com juro, juro sobre juro. Não me deu minuto de sossego. Não conseguiu seu objetivo maior, que era enlouquecer-me. Não obstante sua azucrinação, voltei vivo – velho acabado arruinado sim porém vivo!
          Levei comigo o Paquito. Poderia ficar sem seu ladrar! Foi uma dificuldade imensa tomar emprestado à vizinha da frente, a meninada dela chorou. Então me comprometi a tratá-lo condignamente. Foi comigo os apetrechos ao mister como ração e vasilhas próprias. Depois dei-lhe banho cacei os carrapatos dele, penteei seus pelos. Enfim serviço nota 10. Poderia ficar tanto tempo longe do seu ladrar a minha insônia! Por isso foi o Paquito, o qual além de querer atacar os passantes nos passeios que fizemos nada mais acho digno de lembrete. Assim não precisei dormir por não me deixar, latindo noite inteira.
          Fiz-me acompanhar da molecada que me grita dia todo na minha frente. Foram com eles suas bolas suas pedras e seus xingamentos, sem faltar nem aquele, sobretudo aquele. E durante meu descanso merecido brigaram a valer, se desentenderam e mesmo chegando à via de fatos.  Não pude me queixar das queixas que tinha antes das férias, levei os meninos que me provocavam as mesmas.
          Carreguei também a me infernar totalmente a família vizinha do lado. Ela tem por princípio e característica se agredir moral e fisicamente, entra ano sai ano estão seus membros em pé de guerra, sempre prontos a agir; não importando seja meio-dia meia-noite, noite e dia berram impropérios. Poderia eu, nas férias, ficar sem ouvi-los! Deu-me trabalho medonho: alojamento passagem restaurante polícia. Cumpri meu dever. Os circunstantes é que não entenderam a intenção, reclamaram chamaram as autoridades. Além do mais tocou-me apartar, sobretudo quando apareceram armas brancas (não costumo interferir nas da língua). Também precisei ouvir os briguentos no seu afã mais perto dos meus ouvidos, porque no dia a dia ouço um pouco mais distante. Assim tive madrugadas excelentes a recordar os prêmios que me ofertaram, e são rotina no meu pedaço.
          Antes de sair de férias pensei levar todos meus parentes e conhecidos, mormente os que vivem os maiores dramas conjugais e extraconjugais. Todavia era preciso praticamente levar a população do país comigo; o que todos reconhecem inadmissível. Nada obstante me comprometi, ouvindo os pedidos do meu coração, a levar uma fita gravada contendo as lamúrias queixas e dores deles. Artifício mui útil, visto poder diário nas férias ter presente o passado para augurar garantia de futuro.
          Bem. Fui. Voltei. Voltamos a retomar o ramerrão a brincar de viver. No entanto não teria nessa volta das férias o meu eu inteiro, se aceitasse o alvitre delas, Elas desejosas a me acompanhar por esse mundo afora.
          Falo de minhas dores. Aí não tive escolha, nem fiz convite, nem alardeei propósito em tê-las por companhia no meu período de férias.
          Bateram pé, foram: me grudaram me atanazaram. Inclusive criaram choques aos outros que andavam comigo. O usurário queria cobrar juros a ouvi-las; o Paquito pretendeu latir mais; os moleques não me compreendiam as dores; a família vizinha... nem falo. Pior, bem pior que tudo isso foram as investidas dos ‘ais’ parentes, contra meus ‘uis’.
          Um dia me vingo. Faço-me passar por pobre, até por miserável, saio noutras oportunidades na calada da noite, curto as férias solitariamente.
Marília   janeiro  2004    




31° - Pondo Pingos nos ‘ii’ do Normal
         
          Era desse jeito que pensava Lulu, Lu aos íntimos todos bem mortos e melhormente enterrados, Luiz, dessa forma com zê e sem acento por ser antigão, no registro, sendo um dos primeiros na região em ter o nome registrado no cartório; ele então que no futuro estaria computado mentirosamente pela estatística do censo. Mas assim é preciso, era preciso, túmulo 13 quadra 13 alameda 13, é preciso no caso pôr os pingos. Isso porque o comum, de tanto se dar e se dar mal: por que tem o comum que ser normal. O que é normal! Ninguém a responder.
          Respondeu uma vizinha, dessas indignadas com o fato de um homem, homem: expressão verbal da imposição dos tempos e das gentes; homem, não estando escrito ‘macho’, ela não punha as coisas dessa forma... punha sim e até pensava que fosse. Dizia, insatisfeita com os botões dela e pondo a boca no trombone – como um homem a viver sozinho solitário separado longe da civilização ocidental democrática e cristã admitida por todo o sempre! Em que se enganava; veremos. Ela se enganava redondamente pois mulher gosta de se enganar a enganar melhor os outros viventes e as aparências; ela, a vizinha bela jovem forte impetuosa sensual (ah acabou o estoque na adjetivação, que pena!) ela, indignada, porquanto na casa, casa dela do homem dela das crianças dela e da cachorra dela, na casa temia terrivelmente baratas e elinhas, elonas as cascudas, e elinhas, perguntou, não trariam medo ao pobre... Até que um dia foi ver de perto.
          Chegou devagarinho, vai que houvesse mesmo e voassem na sua cara, que aliás o espelho achava linda, mesmo sem retoques de pintura. Bateu abriu cumprimentou sem esperar autorização só para ver de perto o crime, a solidão é um crime inafiançável não geral mas restrito. Viu.
          Luiz Lulu Lu tomava na mesa o café matinal. Do levantamento feminino ressalta outra coisa, além das sujeiras, donde a conclusão “homem é tudo porco”, das sujeiras a mancheias entretanto em mesa limpa, talvez a grudar um pouco, limpa aparentemente; a xícara de florzinha, seria efeminado o machão! o leite na xícara e nos bigodes do homem, o pão, a maior parte virada massa emoliente e disforme ou informe a boiar na xícara, com uma partezinha na mão direita do bruto; e farelinhos ou migalhas de pão besuntadas com manteiga, pelo vasilhame ao lado via não ser margarina feita de sebos dos restos industriais porém manteiga mesmo de gente, da vaca, do leite gordo dela na fazenda. Enfim tudo espalhado na tal mesa, inclusive talheres sujos notou, espalhados ao deus-dará. O dito dito a sorrir, então amarelo desascostumado com visitas e piormente melhor uma boa daquela esbanjando linduras cheiros e curiosidades; a sorrir e nem por isso parou o que não estava fazendo (isto é, não era possível acreditar naquilo que via o sujeito fazer): dava de mamá à filhinha querida. Não será isto pungente! ou infinito ou... ora não existindo palavras certas para demonstrar a poesia do instante. Ela (a vizinha) parou, pasmada!
          Quer mais um pouco de migalha cheia de açúcar, querida!? Empurrou a porção mais perto da barata, nem criança sendo pois aparentava experiência chegando parando andando lerdeando a aproximar na oferta humana (o Lu ainda humano apesar do pasmo da bela).
          Insistiu insistiu e a barata comeu, envergonhada ou só constrangida, isto em razão da presença estranha no lar. Comeu, sorriu ao solitário, aqui provando por a+b não solitário havendo mil e uma na mesa no chão na parede e aquelinha a comer na boca como se fosse mamadeira já afirmado. Tudinho não percebido de pronto pela amiga do amigo espelho mesmo sem pintura ela, a amiga vendo tudo na casa do Lulu ou do vizinho Sr.Luiz.
          Ele se virou daí à visita na porta da cozinha, só então se lembrando a propor educadamente entrar sentar ver tevê no sofá, sabe-se lá que mais inventaria posto ela bela ele sozinho não obstante elas e necessitado. Porém a vizinha não prestou atenção nos quesitos sociais do ‘solitário’ vizinho.
          Havia naquele ponto descoberto as baratas no voar na residência, aí decerto não aceitaria entrar fazer sala e fazer o levantamento restante da solidão no estado normal. Fez mais.
          Não fez, ficou petrificada. Apenas depois sapateou gritou berrou correu num barulhão de espantar o bairro.
          Quanto ao Lulu, meneou desconsolado a cabeça pros lado da barata, coçou o bigode prateado, olhou a pedir explicação à baratinha, esta a lamber porção adocicada, gulosamente, a chupá-la como fosse mamadeira. Uma gracinha.
Marília   fevereiro  2006




32° -  Caboclando Surrealismo  

          Era no tempo do café, ainda não era bem hora do café; não tem mais café, na terra virou terra de pasto mato carrapicho com pragas mais pragas. A praga do homem também deu no pé a pé ‘de a pé’ como se falava ou no lombo do burro e nas carroças ou então, quem sabe, num caminhão daqueles grandalhões que eram não mais que pés de bode e portanto petiticos – sendo assim por expulsão da roça ou a cumprir as leis do êxodo rural para inverter a ordem, porque era proporção de dois cidadãos para oito roceiros, ficando agora oito dos caipiras-urbanos para menos de dois matutos-agrários (alguns bastante esclarecidos pelas novelas das sete das oito das nove e um eroticozinho após essas verdades televisivas contemporâneas). Ainda não era hora do café porque era no tempo do café.
          Nem haviam tido tempo a inventar os insólitos desta vida, tão só os sustos quando chegava um ‘fío’ a mais em casa não dando para evitar porque a Maria era parideira pra danar.
          Então a ‘famiagem’ se juntava ao redor dum pé de café mais ‘saiúdo’ e a ‘muié’ depositava a comida, e não passava de oito e meia da manhã já o ‘armoço’, por volta o cheiro de terra sangrada na carpina porque haviam, com enxada bem inclinada afiada ajeitada a jeito, limpado agorinha os matos e as formigas não andavam gostando e grilinhos e borboletinhas se alvoroçavam as moscas enxeridas elas mesmo já estavam voando indóceis nas imediações – todos sentados um que outro acocorado os meninos sem responsabilidade a puxar o ‘guatambú’ da madeira lisa no cabo e por isso de pé ou pulando porque garoto parece que tem bicho-carpinteiro e a gente precisa ralhar toda hora; e assim se destampa a tampa levanta o cheiro atrai a gente atrai quem não deva que são os mosquitinhos zumbidores que desejam cair de toda forma na meleca do caldeirão com o alimento e aí se não se fechar...
          E se conversa. A conversa matuta e intimidades de família algumas muitas queixas lamentos e coisas gozadas, nisso sendo bem brasileiros porque o povo de modo geral adora pôr defunto à mesa e violências no almoço e dispensa as nunca sabidas contraindicações.
          O homem, por ser homem e macho chefe da família, rosna resmunga o gosto por gosto ou costume; vezes que outra elogia o quiabo em baba ou frango cheiroso.
          Muié, diz ele, tem muita proteína mas falta carboidratos ainda na almoço.
          Pus, Zé, pus.
          Horror, muié! pus na comida.
          Não homi, quis falá “ponhei”.
          Ah... Mas faltando as vitaminas A, D e E, B12 tem demais até.
          Ué... – se espanta a fêmea, futura matrona, ‘otimismando’ alcançar um dia intrigas como a comadre Zefa.
          Aí se mastiga o arroz o feijão a abobrinha, bem temperados, um filho reclama “tem féculas e fibras em exagero no feijão” outro lembra o amido no arroz e a garota mais velha, boa na enxada põe muito macho pra trás, ela mostra repugnância pela mosca nadando no molho de frango; a Mãe:
          Cala a boca Chica, fiz o melhor (fala mesmo “mió”) frango índio que sua irmã pegou pra mim com ajuda do Peri, esse latidor sem vergonha. Não reclama não. O pai:
          Vocês só vivem falando à toa. Um dia proíbo comer carne no lar e aqui na roça – virarão vegetarianos. A mãe:
          Vou pôr todos a praticar exercício de ioga, para sentirem o universo! O menino do meio entre os quase mais do meio:
          Não quero. Vou ser lutador de caratê.
          Cala essa boca! – rebate o paisão, macho pra valer pergunte à muié – cala; e não me fale com a boca cheia ou entupo sua boca com um soco seco.
          Vamos (mamãe diz “vamu”) parar com essa discussão, melhor se tivessem rezado pra comer do que discutir no comer. Não vai coisa alguma exercitar caratê. Fará vestibular graduação pós e depois o doutoramento, este no exterior, prefiro Oxford, seu pai opta por Harward e eu não sei se é com ‘v’ ou ‘w’, essa letra alemoa, e...
          Aí entrou o Peri na conversa, não se sabe pelo gritar da conversa se interessado no osso que o mais novo dos mais velhos roía e ameaçava jogá-lo no chão a misturar com a sujeira da terra ou foi porque sentisse a chegada de gente estranha no pedaço.
          Porém não era de fora, apenas o fiscal da fazenda para ver o eito se andava limpo pra não prejudicar a produção cafeeira.
          Seu Chico... aceita uma ‘guarápa’? (sendo assim apelidado o cafezinho feio fraco frio e doce das doçuras de inclusive arder o gogó.)
          E aí tomaram, valendo de sobremesa à família e aperitivo ao fiscal. Tramelando, os pequenos a olharem aquelas ‘granduras’ de gente lá em cima, falando sim as coisas de colheita, que diziam “coiêta”, e preços. E dívidas; no que inclusive o de colo já estava enrolado com mais de mil dólares por causa da dívida externa do país e por ter vindo à luz pela Maria Parideira nascendo brasileirinho.
Marília   janeiro  2004




33° - Casamento & Divórcio S.A.
         
          Bem anônimo casamento hoje em dia (digo, falo outra vez, repito... repetirei:)
          Bem anônimo o casamento hoje em dia, a desaparecer por fraquezas; e por contágio, o vocábulo. Ou estarão ‘semantizando’ o vocábulo, ‘semantizado’ já o matrimônio, aquele antigo do aceita (antecipado e formalisticamente o “sim”, quem diria “não”: não compareceria a dispensar o vexame; depois o vexame e o constrangimento dos convidados em ter de explicar o caloteiro, aqui podendo ser caloteira também; e o fujão, nisto sendo macho pra valer mas só o vocábulo, não o casório formal) aceita dona fulana etc. e tal como legítima esposa e após a se fazer o contrário do contrário e ela é claro antecipadamente a dizer sim como foi afirmado ali em cima. Pelo sim pelo não, não vai ao caso caso se pergunte, afirma-se: casaram, antes amasiaram ‘ficaram’ ‘namoraram’ e depois, bem depois, contraíram núpcias, ah que lindo. Festa, anúncio, convite de praxe, vestido de noiva, arroz na saída do templo ou na do cartório. Acontece que aconteceu de o padre não haver aceito aquilo, a ‘moça’ já antes divorciada... e a se defender pôs a culpa na Igreja, gaguejou, pôs depois a culpa no Papa – enfim não casaram no templo e o arroz se atirou no cartório civil e pronto. Ora, chega de tró-ló-lós bobos. Ambos se casaram e se puseram na lua de mel.
          É neste ponto o início da estória.
          Seguinte. Antes do seguinte necessário saber que a empresa Casamento & Divórcio S.A. se desfez, ficou tão somente Matrimônio & Cia. Ltda., bem limitada por sinal; o agrupamento pró-Divórcio foi compor nova firma ou resolveu se transladar para outra estória, esta aqui considerada pela oposição desistente mui maluca. Retomemos o seguinte.
          Seguinte. Partiram em lua, estrada asfaltada, com sem-número de buracos federais, portanto oficial; um tanque, um e meio, de combustível queimado; chegaram. Fizeram o que deviam (os nubentes, não: os esposos) o que precisavam fazer, o que souberam fazer. Sem briga, pois se amavam. O desentendimento ficou por conta das outras pessoas, os jovens esposos inocentes e ingênuos, se não puros, não tiveram a iniciativa; nem erraram, erraram apenas levando os pais...
          Papai ficou com vergonha, ou só constrangido, loguinho arranjou companheiros para umas cartas e certa pescaria, dessas que a mulher não perdoa, a mulher do pai da noiva. Ele só deu palpite na viagem, não dando azo a que os jovens pombinhos se beijassem (e já podiam, de aliança e tudo). Ela, a sogra dele, ela se meteu no meio a ensinar a filha nas coisas (todas coisas) e a esposinha se queixou com o maridinho, este nada conseguindo fazer; não: muxoxo fez. Enfim, o rapaz, que até aos atos solenes era solteiro, não sabia as coisas mas acertou bem as coisas; não se acertou de fato com a sogra, quase esta mandando o genro dormir no sofá, ou que fosse pescar com o sogro, “aquele sem-vergonha”. Como o dito popular sempre garantiu: no fim tudo deu certo.
          Em certo ponto. Pouco antes ou pouco depois mas no enquanto – que se leia beijinhos abracinhos carinhosinhos – precisou o macho da espécie, caro a Eva, telefonar à mamãe. “Alô, mamãe, a senhora tá passando bem!?” Não tava disse que tava a acalmar seu pimpolho. Aproveitou a sogra dela a rogar coisas ao filho, pôr panos quentes nos possíveis encontros antes que virassem desencontros, lembrá-lo: pegou seu boné? e o guarda-chuva; toma isso toma aquilo (aquilo sendo comprimidos xaropes e pílulas, claro que não anticoncepcionais) falou do vencimento dos remédios e do vencimento das contas e da possibilidade haver ladrão na casa dos nubentes, ou já esposos, abandonada ao deus-dará.
          Se deu certo a união? bem, quer dizer, parte da empresa fugira da Sociedade Anônima antes do incêndio; parece que na lua deu sim. Com um senão, o senão de haverem os jovens casadinhos voltado antes do previsto, a aproveitar a carona no carro de papai ‘aquele sem-vergonha’, mamãe emburrada por suas razões; ou por outras razões...
Marília   janeiro  2006

34° - Jura Eterna
         
          Vou lhe dizer uma verdade, dessas verdades verdadeiras, sem contradita, sem dúvida. Confesso meu princípio mais importante; tão importante que vale uma vida, minha vida: o da lealdade. Saiba e saiba quem vir interessar – nunca traí. Não é algo positivo em nossa situação?
          Gostaria provar o que afirmo.
          Em 1958 ou 59, não estou bem certo, andei de namoro com a Norinha. Durante aquele ano e até meados do outro a Nora quase virou nora de minha falecida mãe, na época uma senhora bem posta. Jurei à Norinha lealdade e amor, tendo cumprido a palavra fielmente. Um dia se engraçou doutro rapaz e me deixou. Aí vinguei-me, era vingativo do tipo olho por olho, me engracei na Cátia.
          Jurei amor e fidelidade a ela; não me deu tempo em pagar a promessa. Só porque pus na resposta a certa missiva dela Cátia com ‘K’ como era moda na cidade, me deu o fora impiedosamente.
          Então me enamorei da amiga dela, a Joana, só pra fazer pirraça à Cátia. Cheguei a imaginar-me de braços com a Joana em pleno jardim da Praça da Matriz, a Cátia se roendo com dor de cotovelo. Jurei à namorada amor profundo, que eu não sentia muito, era força de expressão de jovem atraído por aqueles cachos aloirados. Passeamos duas ou três vezes juntos, fazendo eu questão de me mostrar à ingrata Cátia. Não chegamos à quarta vez – ela me deixou por um viajante de laboratório. Fiquei grilado, mordido, ofendido no meu amor próprio, era brioso e tinha vaidade. Então mudei de vila. Fui para a cidade grande esquecer todos os meus infortúnios.
          Caí nos braços do infortúnio feito mulher! a Maria Aparecida, a Cidinha, me arrasou, primeiro com sua formosura, me levando a jurar amor eterno! depois com sua perfídia; e finalmente com invencionices gratuitas, dizendo que me descobrira mulherengo. Fez a cabeça de todo o bairro contra seu próprio namorado (já me pensava noivo). Fiquei sujo para todas as jovens. Depois ela me declarou impróprio para menores de dezoito anos, ela andava aí pelos dezessete. Tive de fugir da área como renegado. Não sendo essa a única injustiça sofrida no meu viver.
          Loguinho fui acusado de pai da criança. É que em novo endereço, uma pensão barata, agora no centro da capital, me apaixonei pela Jacira, belíssima loira. Jurei aos seus olhos verdes um amor profundo nunca igualado. Não sabia de sua gravidez; quando soube eu ‘desjurei’ o profundo amor, pulei fora do barco. E fugi com certa amiga intima dela.
          Inclusive cheguei a viver bem com a Joana, outra Joana, era segunda. Jurei casamento. Não pude cumprir; essa jura não valeu, pois ela não era mais moça. Na minha juventude isso contava demais.
          Tal injustiça contra minha lealdade de rapaz fogoso, interpretei como um balde de água fria, gelada, para meus ânimos. Entrei num pessimismo medonho. Desacreditei de todas as mulheres. Aproveitei-me para cair na farra. Dia e noite, noite e dia envolvido com mulheres de vida fácil. Dezenas delas. Jurei dezenas de vezes amor a cada uma. Não sei se acreditaram. Era o tipo do amor enquanto durasse como falava o poeta. Com algumas delas não ficava sequer uma semana. Até que um dia encontrei a Joana.
          Não reencontrei, essa Joana era outra, a terceira, mas valia pelas outras Joanas ou não. Por sua meiguice, os seus carinhos, mesmo sua beleza sem igual, sua argumentação – fui como aspirado por ela desde a zona do meretrício para o paraíso. A Joana, uma santa! Aceitou-me, embora desacreditado, me tornou homem de novo. Jurei-lhe amor destemido e desmedido, prometi  montanhas mares o céu. Ela piamente creu. Casou-se comigo.
          Deixei o emprego, para me dedicar melhor à melhor das Joanas deste pobre planeta. Ela ia ao trabalho e me deixava feliz; voltava da empresa e me tornava mais feliz ainda. Foi assim por três meses. Aí deixou-me infeliz: faleceu de repente. Chorei.
          Quem me levantou da mesa dos bares e me requisitou à bebida foi a Toninha, um anjo. Jurei amor infinito àquela fêmea tão especial; me apaixonei pela morena. Porém um dia, semana passada, me fizeram a caveira (veja, não se pode confiar em ninguém!) – ela acreditou nos outros, me pôs na rua.
          Sabe, hoje em dia nenhuma pessoa quer saber da lealdade. Mesmo sendo um princípio de homem de princípio. Ora, não é algo positivo pra nossa situação?
          Se me crê, e juro pela minha honra – jurarei a você um eterno sentimento de amor!
          Que me responde?
 Ribeirão Preto   dezembro  1994

 

 

 

 

35° - Um Final Trazendo Questão Vernácula     


          De repente liguei o ‘desconfiômetro’ e me deparei com o inusitado. Estava, não sabia como chegara a estar, num beco sem saída; porque não sou versado em botânica nem nas ciências naturais e me encontrava perdido na mata! Põe mata aí, uma selva sem fim, um panorama sem panorama, quer dizer, uma árvore, bela que fosse, à minha frente, e depois outra e mais outra outras; e muito espinho, ai, intrincado de ramos galhos folhas flores e insetos esvoaçando... não chegava quase a sentir a fragrância pura do natural, sentia era medo, isso mesmo – medo, dos medos enormes me tornando pequeníssimo, insignificante. Verdade é que não sendo a primeira vez a sentir medo; era com certeza a primeira vez que sentia tanto medo! O que não dava para espantar, pois me veio uma impressão terrível, que é aquela de imaginar ter de constatar existência de animais ferozes, de grande porte, não falo em dinossauros, mas daqueles ainda vivos nas matas de vários continentes e não domados e menos ainda domesticados. Que fossem pequenos, para mim no momento da insignificância só poderiam parecer enormes, porque o medo aumenta e exagera o sofrer. Era assim.
          Não obstante a todos os medos do planeta, não me apareceu qualquer animal feroz de grande porte e nem pensei – deveria ter pensado, é lógico, não era eu lógico naquela perdição – não pensei nas cobras se arrastando pelos meus pés... Estou lembrando inclusive não haver, por ilogismo também, pensado a recorrer aos amigos da expedição da qual me desprendi com a certeza ter certeza conhecer a selva e não a conhecia coisa alguma, o que ficou provado a sobejo. Não pensei em ninguém, apenas eu existia no meio daquele medo sem medo de cobras e temente a animais inimigos da civilização (eu representava a civilização naqueles longíquos do recuado sem televisão sem governo e sem propaganda). Realmente a mata não precisava, eu menos ainda que a mata, de animais ferozes. Isto porque existia ali um exemplar nada raro de outro animal, hoje eu sei mais feroz: o homem! Exatamente assim – tinha diante de minha ilustre embora esfarrapada e sangrenta pessoa, nada mais nada menos que um ser humano... Onde o exagero de minhas palavras! ora ora, um desconhecido é sempre ao homem experimentado um ser perigoso.
          Logo ‘U’ (chamá-lo-ei “U”, que foi o som que emitiu ao agarrar-me após meu tropeção final; posto não saber até hoje como se chamava) loguinho U me conduziu sem muita delicadeza civilizatória à sua aldeia, distante uns belos quilômetros porém ainda em plena selva. Fui como que arrastado; e quando empacotei no chão (e ainda não estava pensando nas cobras e bichos rasteiros) lembro haver-me tomado como a um porco morto nas costas, levando-me por trilhos num sobe e desce intermináveis até à clareira no centro da vila rústica. U me jogou no chão, cansado talvez de transportar-me os mais de oitenta quilos... Não fugi, sequer me aguentaria de pé. Então apareceram examinar a presa, eu, mil curiosos, velhos moças crianças e alguns corajosos guerreiros truculentos, estes me empurravam com os pés e me chuchavam para ver-me a reação, constatando eu estar vivo. Andava sim na pior.
          A presa encontrava-se realmente na pior das situações. Arreada acossada acovardada, pobrinho de mim!
          Todavia fora um engano meu. Fui tratado condignamente após o vexame por que passei. Então removeram-me para uma ‘uteizinha’ improvisada, me esfregaram cheiros e substâncias picantes, adormeci...
          Acordei outro. Era outro homem, já era homem de novo: forte corajoso impávido (exagerei um pouquinho, para mostrar serviço, cheguei a levantar o rosto orgulhoso e bonito, gritava a vaidade – belo!) Daí por diante observei a curiosidade humana igualmente representada naquelas lonjuras e primitivismos. Era gente que vinha gente que ia, todos me observando e mesmo fazendo comentários mais, sobre aquele representante belíssimo da civilização ariana dolicocéfala vendo azul decerto a vida com aqueles olhões cor de céu e de bochechas gordinhas estufadas e vermelhas. Examinavam brincavam entre si, falavam eu não entendia mas falavam, num vocabulário curto e sincopado. Foi daí que me resignei, que é forma calma da vaidade, ao ser bem observado por fêmeas da espécie embora de outra raça. Porque eram as mulheres agora que me alisavam até e me vigiavam me achando belo (opinião minha da opinião delas, é claro). Assim foi o rolar dos dias.
          Rolavam horas, semanas a me recuperar, com a ajuda dos amigos e parentes de U, então desaparecido, acreditando eu estivesse ele à caça de outros belos arianos dolicocéfalos, porque certamente eles também imaginavam que onde existe um boi pode ter uma boiada perdida igualmente na floresta intrincada de fragrâncias insetos e cobras. Suponho não haver nem U e nem outros guerreiros encontrado o restante de minha expedição perdida nos trópicos bravios. De maneira que eu passei, eu somente, a representar toda uma raça bela forte dolicocéfala de olhos azuis, não obstante naquele momento sem qualquer cerveja no bucho.
          A barriga crescia. Não estava grávido não, crescia porque não se cansavam de trazer e mais trazer alimentos apetitosos para o ilustre visitante, eu. No início demorou que me acostumasse com vegetais desconhecidos e os animais assados sem sal. A verdade é que passaram a me atrair o apetite os cheiros das comidas presenteadas pelas garotas, elas que me traziam as guloseimas para que eu engordasse (e estavam de fato conseguindo ao longo dos dias nada nada tristonhos...) e sequer pude agradecer o mestre-cuca lá da aldeia.
          Nem mestre-cuca vi; nem fui digno (penso não ter sido digno) para ser apresentado ao chefe local. O que não me desagradou coisa alguma, pois não aprecio governo, apesar de ali não haver imposto de renda. No entanto sobravam atenções dos outros moradores da terra de U.
          Muito cedo fui admitido ao convívio total daquela gente, tendo inclusive passeado e visitado muitas choças; fiz camaradagem sobretudo com as crianças, elas são todas iguais vestidas ou despidas, este era o caso. Eu também, me despojaram de meus despojos da civilização ocidental: atirei ao lixo o lixo de minhas roupas esfrangalhadas pelos galhos e espinhos da selva – estava nuzinho nuzinho, como os outros; verdade é que me distinguia pela pele pelo crânio pelos olhos e pela pança, quase não podia mais ver os pés, a barriga cheia das gostosuras que me davam...
          Inclusive mulheres! fui contemplado com uma jovem – que embora não fizesse meu gênero e me tornasse infeliz se um dia houvesse de apresentá-la à sociedade burguesa, fazia pelo menos ótima presença ali. Nunca soube seu nome, não consegui nem tentei falar a língua primitiva e não entendia patavina dos gracejos que me dirigiam, por problemas vernáculos, ou apenas semânticos; enfim não os entendia. Entendia a mulher: um homem e uma mulher se entendem na cama, mesmo sem cama, ali eram redes e esteiras. Depois de tanto apreço, sobretudo com os presentes que me davam (mulher é o maior presente a um homem em qualquer idade e qualquer ponto geográfico) fiquei pensando no meu filho, quando viesse à luz, ter aqueles costumes rudes de um pitecantropo; sofri gostoso. No entanto não queria sofrer, desejava alegrias sem fim, aquela irmãzinha de U ou de um outro guerreiro me dava tal alegria. Acabei ficando inclusive popular.
          Isso mesmo, era conhecido por todos, amado por toda gente. Opinião minha, talvez por causa de minha vaidade dolicocéfala, sei lá. O tempo passou.
          Dias, meses até. Até que enfim vieram as festas; sempre gostei muito de festa.
          Não festas regadas a chope com música eletrônica. Festança da grande: muita gente, rebuliço, dança, guerreiros solenes observando, creio haver visto U ou um seu semelhante a me observar observar... Eu era o principal ali, estava na berlinda. Outros convidados doutras tribos amigas igualmente primitivas chegavam, chegaram ali olhando-me muitíssimo curiosos.
          Olhavam-me todos. Merecia bebida, me enuviava já. Quase não via mais os gases do centro a subir dum panelão imenso a ferver no meio das festividades, das alegrias e das gritarias infernais... Quando alguns valentões ante o sorriso de minha companheira me pegaram e me despojaram do último requinte da civilização, uma cueca azul desbotada (que eu guardava como relíquia desde que foram ao lixo minhas vestes; agora usada por mim como enfeite de festa). Assim ficava eu como os deuses me passaram à cegonha e me entregaram à minha querida mãezinha lá nas montanhas frias da Europa. Era o momento solene para mostrar minha força, esperneei berrei, fechei os olhos azuis postos na frente de meu crânio dolicocéfalo, eu não entendia nada de sua língua nem os aborígenes da minha; mas via-me chegar mais e mais perto do panelão e de suas águas ferventes... Então acordei. Que não sou besta.
Ribeirão Preto   julho  1994































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:




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