quarta-feira, 25 de março de 2020

Insônia Coloquial


0119(postar no Blog Livros Inéditos)










                          Insônia Coloquial
         
                                      (romance)
           
                                        Moacir Capelini















moacircapelini@gmail.com


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“Para conservar o desejo é preciso
 não mentir, não pedir e não saber.”
  João do Rio
-  -  -
“A vida é maior que a arte. E a
 felicidade também.”
 Luiz Fernando Emediato  







Esta obra em linguagem coloquial entreguei ao coração; o coração – bem mais que a razão, esta cheia de críticas e lógicas – ele sabe o que fazer o como fazer para que fazer até onde fazer; e, se lhe der na veneta, quando parar de fazer. Arco-me, obedeço.
Ela ofereço aos meus duzentos e tantos mil conterrâneos.












































1° - Introdução da Conclusão
         
          Dona Maria não, seu Zé. Seu Zé apenas dorminhocava curtindo o que pra si insônia; rola pra lá vira pra cá, de braços de bruços soluços isso, isso não; revira cola rola o rolo, estica encolhe acende outro joga a bituca no chão, tenta mesmo acertar no escuro o cinzeiro; ela sempre a reclamar, ele a insistir no insiste apaga acende apaga reacende fuma traga sonha, ah aí sonha gostoso que nem taí, tava; tenta dormir, ela não deixa, ela dona Maria? ela. A roncar altão também gostoso; vai ver acordará depois e dirá que ‘sofrera’ ter sofrido o ronco dele; seu Zé? seu Zé. Seu Zé anda perdidinho da silva no seu afundado – por que seria que houvessem posto caroço no seu lado do colchão! e daí quem a dormir... – perdidinho no afundado do colchão barato, de crina de égua? de palha de milho e terão esquecido logo um sabugo inteiro, pô; de capim? pois dizem que inventaram o de molas de nhec-nhecar bem e pro futuro nesse passado inventariam o futuro fofo macio sem nhec-nhec dos de mola por de borracha mas não este: seu Zé teima em não dormir quase engolido por seu buraco, seu por ter sua forma corporal miúda esguia e meio arcada ótimo aos velhos, o buraco dela, ele pensa, o dela não: o buraco afundado no colchão do seu lado, o dela muito maior de grande e de tantada – dona Maria, diz a oposição nas vizinhanças, não na sua frente veja bem não na frente, a oposição linguaruda a falar citando-a como “um bucho” outra que um colchão amarrado pelo meio com duas tetas assim ó de grandonas; não seu Zé não, não pensa assim, pensa menos grande, grandejando só o afundado no lado esquerdo, e não seria o direito; se a cama não tem frente nem fundo! tem, tem sim, a guarda da frente quebrou mas não importa para móvel velho a um casal velho, o velho sonha porém a sonhar acordado: sonha e dirá depois “véia, como posso ter sonho!” ela corrige com pingos nos ii “pesadelo” sim pesadelo, pronto, como você quiser, mas  como poderia eu pesadelar se passei a noite todinha bem desperto!?
          Dona Maria olha, sem graça, o cinzeiro cheio, o cheio o cheiro de tabaco que não mais sente, de tanto aspirar aquilo diário daquele ‘porco’; olha vê porcaria de respingos de cinzas derramadas desde a borda do cinzeiro de louça velha dormida no tempo desde o tempo do tempo de casados de novo e iíche! faz é tempo, anos... Após lhe pega no pé em virtude duma desvirtude barata e mesmo nojenta: Véio! diz a Véia, ocê tá agora jogando, além do chão do cinzeiro do criado-mudo sem falar de tanta cinza – além de tudo a atirar bituca no penico! minha santa quem pode com esse porco caduco?
          Ele olha sem graça. Não tem de fato graça alguma, é nojento, no-jen-to, tá ouvindo? tava.
          Agora nuntava; tava sonhando. Não, pensando, alem-brando – iria ficar feito bobalhão a escutar a esposa roncar! negaria sim a pés juntos pela manhã porém escutava noite todinha o serrote da velha a enxotar sua noite, a noite não também, o sono da noite. E aí recorre ao expediente de pensar, tornar passado, vomitá-lo ao presente; enquanto ela a dormir o sono dos justos, o infame do galo vizinho a avisar outra vez sua insônia e um que outro notívago a circular nas imediações, bêbado decerto bêbado, ele é que não bebia mais. Ah, bebia mas pouquinho, um gole aqui outro trago lá, a fim de encompridar a conversa ou morreria o assunto porque: como encher o vazio da vida dum homem comum? o Zé um ser da rua, desses a pulular por todas esquinas do planeta.
          Pensava lembrava matutava lá suas coisas.
2° - Longe da Guerra
           
          Aqui não se tomando a Guerra mas a guerra em paz, que é a paz caseira nos tão belos bate-bocas a encantar quaisquer poetas ou um escriba desocupado, o escriba aqui. O que de fato ocorrendo é estar a Guerra longe de menino. Está bem, moleque de rua, nisto a redundar gostoso. Sim porque o ato de escrever a escriba desocupado é mais o de criar (não do nada, nada não existe; não existe nestes rabiscos também a necessidade a versar um tratado de História, quem sabe sim uma tratança de Literatura; são estas linhas enfim linhas literárias... com cabimento? com) e o ato de criar é um prêmio à chatice do comum, mesmo em se tratando dum Zé, o Zé da Maria, sendo que pela idade e/ou desgaste coloquiarei por ‘Seu Zé’ e ‘Dona Maria’, ainda meninos... ai ai ai! quase mato-me de susto, pois a Maria ainda não viera pagar seus pecados no orbe sofrido, como magistralmente dizia Dona Chica, usada esta expressão respeitosamente por morta, vai lá me venha puxar os pés em noite de meia insônia, não da insônia completa de Seu Zé. Dizia, retifico, portanto, Dona Chica a bem dizer Senhora Francisca. Sim a Maria não nascera ainda, o Zé sim, um capeta de uns cinco ou seis anos, após os dois primeiros quando todos o achavam uma gracinha (aí deu no que deu, vide 1° - Introdução da Conclusão).
          Concluindo a continuação, anda o escriba a tentar dizer que a Guerra não existiu? não, sim. Sim a Primeira do tempo do avô e a Segunda existiram, tanto que esta sacrificou mais de 50 milhões de pessoas e aí não dá para ignorar a Guerra. Mas foi por 1945 tão só o garoto tomar conhecimento da Guerra, com o pesar mundial. Viveu, observou filas do açúcar ou as filas da requisição para gasolina; até participou antes comendo pão de fubá e não de trigo e depois levando uns metais sobrantes à escola como a professora dona Alice pedira – na ocasião diziam ser para fabricar um avião, o Araraquara, como ajuda patriótica de guerra. Isto entretanto não toca muito um menino, o qual só pensa mesmo nas suas artes, por não pensar, só pensa e fala brinquedos. A ele, aos outros colegas também, não existia por existir só mui longe. Enfim a geografia dum rapazinho não vai muito além das quadras da cidade, a qual pode ser apenas vila com prefeito e câmara municipal. Era caso da sua.
          Marília engatinhava na época; era junção de três ou quatro frentes urbanas depois da chegada da Estrada Paulista com seus trilhos e o movimento da caboclada na animação pela vinda constante de aventureiros. Em suma esse o seu ponto de referência. Não sabendo como existiam as coisas nem donde vinham – a ignorância do homem comum quase sempre dispensa pedigris e a documentação das árvores genealógicas, quando muito se conta em família os avós, próximos ainda e quase sempre também conviventes da casa – não sabendo, sabia o Zezinho somente que moravam os familiares na Vila Barbosa, uma das tais frentes de loteamento citadas. Sabia residir na Rua Dirceu, por conotação poética das Minas donde veio o nome também da cidade em formação (isto ele desconhecia); portanto sabendo a rua não sabendo direito o número da casa. Aliás na vila não havendo quase numeração nem pavimentação água encanada luz elétrica a muitas residências. Apenas demarcada como rua, entre buracos de enxurrada a se fazer de guias; passeio público? isso apenas no centro, ali periferia pobre. Todos eram pobres, embora trabalhadores e quem sabe esperançosos.
          Enfim ao garoto nada disso interessando, interessando a brincadeira, que é com que se ocupam as crianças. Sim, mas vírgula. Seu pai, igualmente José, tinha por hábito completar frases explicatórias com a expressão “vírgula”, quer dizer – paremos aqui, aqui tem mais alguma coisa do antes dito. De fato, paremos: as crianças também trabalhavam, verdade que a seu modo pois qual o inocente a crer na preocupação laborista dum menino!  no entanto andava em voga o ditado ‘trabalho de criança é pouco; mas quem o desperdiça é louco’. Mais ou menos assim. Isto quer dizer que a riqueza (ou pobreza pouca) da gente pobre estava no número de filhos. É ainda um tempo de mulheres parideiras, de homens machões e/ou valentões. Dona Chica (que se entenda Senhora Francisca, aquele negócio do puxar os pés...) dona Chica antes lembrada teve além da Maria, a qual por muito tempo fora uma gostosura e não roncava espantando o sono do Seu Zé, além da Maria teve sim mais um punhado de filhotes. A própria mãe do Zezinho tendo outro punhado, ele quase o caçula na prole. Portanto milionários os genitores do casal em questão (até prova contrária...) Bem, concluindo o pensamento, Zezinho também trabalhava, os grandes a dizer maldosamente ‘trabalhava’. Será questão semântica ?
          Em verdade a cobrir todas possíveis mentiras ele mais apreciava, como veremos, as brincadeiras. Ora, está aí porque não poderia se interessar pela II Guerra lá lonjão aqui tão próximo um jogo de pique-e-salva junto dos molecões, no que o moleirãozinho do Zé apanhava pra burro... Não deseja o escriba, por outro lado, que passemos para o lado da Guerra. Muito pelo contrário das coisas.


3° - Corte Abrupto
         
          Estamos no Século 21, como que num passe de mágica  e me pergunto por que um pobre escriba não poderá pleitear operar mágicas tapeando leitores desprevenidos! – sim no passe como num em que os pirralhos brigam, forma nada amena na brincadeira durando mais de cinco minutos, brigam desesperadamente entre si. Trata-se duns burgueses aí ao lado, meus vizinhos adoram festas, não obstante a agonia de minha insônia, o vidro a fechar a janela não resolveu, a janela fechada não resolveu, o travesseiro espremendo minhas orelhas de abano não resolveu; resolveu então o escriba escutar melhor a briguinha infantil. Insisto ouvir insistem não segredar: gritam. Uminho chora agora afora, resigno-me a me penalizar e tentar entender. Não entendo. Os outros meninos também não compreendem e discutem teimam insistem, insiste o pequeno: bate o pé abre a boca avisa o mundo inteiro berra ainda mais mas não adianta – os adultos estão noutro cômodo cômodos num falatório maluco e gritam também, não para ensinar os petizes decerto, só para gritar; gozam riem gargalham mesmo e não escutam. O pequeno corre a eles pedir ajuda contra tanta injustiça recebida na jaula das crianças na área de serviço. Puxa a mão da mãe, ela olha descontente e já desolha olhando o que um amigo fala a despicar noutrem uma gozação; riem mais, derrubam não sei quê, continuam a barulhar (e barulho de gente grande é grande e mais barulho, tem barulho fino tem barulho grosso; uma velha mãe-de-todos barulha rouco, que é uma tonalidade agora inventada; continuam no fuá:) ninguém escuta aqueles berrinhos de primeira infância, uma gracinha! Desiste o cidadãozinho e volta ao convívio dos seus no mundo que tem seu tamanho, isto embora uns crescidinhos; ao tornar, os outros já se divertem (e brigam) noutro brinquedo; o pequenino chega e grita: “mamãe falô pra você me dá a coisinha, se não...”  impera um pouco e logo esquecido. Se conscientiza, entra em a nova brincadeira, já nesta altura com algunzinho conflito e... e coisa alguma. Este tró-ló-ló somente para encaixar a indagação: os meninos não-burgueses de antanho não reagem exatamente assim? Por antanho o escriba entende alguns poucos anos atrás, míseros decênios no conjunto do tempo imemorial, em retorno à época da Segunda Guerra Mundial, aquela que os pequenos da Vila Barbosa só iriam estudar mais tarde na escola, estudar para não levarem vermelho no boletim.



4° - Novo Corte, a Voltar à Época
         
          O Zé, um da penca de comadre Tonica, Antônia no cartório, o Zé está firme e concentrado na brincadeira, séria, mas concentrado como um adulto a finalizar um ato no trabalho o patrão de olho no possível deslize do operário, o que fatal, fatal sendo uma operação de fusão siderúrgica por exemplo. Concentrado no ato de: ou ‘chimbo’ (isto linguagem técnica no jogo de bolinha de vidro, na região chamada ‘búrica’ o heroizinho e seus amigos abusando ‘burca’) ou chimbo a búrica dele – e se, diacho, não acertar e ainda por cima o João me roubar um palmo na ‘biroca’! (biroca, o buraco feito no chão onde a encaixar a bolinha quase transparente de vidro). Não, decido acertar sua burca verde, mais próxima: é tiro e queda... e aí... Aí dona Toninha grita o filho, desmancha a concentração a brincadeira a hora agá a alegria e mais que houver na riqueza do mundo encantado e maravilhoso de menino, que é o que a gente grande apelida por felicidade. Porque a mulherona, pequena e miúda só grande para frente, aquela barrigona grávida de dar gosto desgosto com sua irritabilidade na vida e o nervosismo que a gente pobre sente quando faltam as coisas; o diabo do moleque largou o cilindro de torrar café e tá ali de quatro com o perdido de comadre Flor, nada flor a se cheirar mãe e filhos tem um até que é ladrãozinho e ainda o vagabundo do pai das crianças, ah dizem, pensa Toninha, dizem que o mais novo não é dele mas ninguém tem nada com isso; só não quero esse Joãozinho dando maus exemplos ao meu, e o fiadaputinha gosta do João, vivem grudados, agora de quatro jogando com o outro búrica e eu até gosto porque ‘rapela’ o amigo, ganha dele todas (dona Tonica usa agora do linguajar dos pequenos, rapelar é um verbo que a gente do povo inventou para dizer que um ‘limpa’ depenando os bens do contendor outro, no caso o Zé leva sempre vantagem em tudo como bom brasileiro). “Zezinho, Zeziiiinho, seu cachorro” ocê largou o torrador e só pensa na brincadeira. Assim a dupla desfaz-se, o outro pega as coisas rápido e desconfiado, temendo sempre a mãe do Zé, sai constrangido a limpar as mãos dos grânulos de areia, fá-lo com palmas e após na roupa (que me importa, vê Antônia, que suje a roupa pra aquela suja lavar...) se preocupa com o seu, pois o Zezinho faz igual ao colega, esfrega a mão suja de terra na calça, calça curta como todo moleque usa na época; faz mais no menos: esfrega também com as mesmas mãos sujas os olhos limpos, semilimpos porque remelentos; e aí extrai mucosas ressecadas deixando no lugar grãos de areia, pisca, pisca de novo e só então responde num já-vô desconsolado e irremediável. Nisso andando de má vontade lerdeando na direção ou dos chinelos da mãe ou somente da bronca, andando sim para o trabalho chato, sempre é chato, sempre foi sempre decerto será a um garoto a troca duma brincadeira séria por um serviço, mesmo que seja trabalhar brincando. Olha ficando mais longe a área onde se divertiam seriamente com búrica, vai que me esqueci alguma misturada na terra! Como nada brilha, brilha o vidro no reflexo do sol da manhã, fraco mas incidente – como não brilha, aí não se esqueceu. Se alembra da mãe impaciente ao vê-lo vir chegando para o trabalho de ficar rolando rolando um cilindro metálico usadíssimo e por isso empretejado e já furando, virando-o sem parar aos grãos de café aquecerem por igual e chegar ao ponto e... ah se não se queimam? passam do ponto, vão além do torrar, a sair fumaça, assustando o moleque, acordado de repente de seus sonhos numa brincadeira de faz de conta a fugir da chatice e... ah então o irremediável: o boquejar materno, uns croques na cabeça e xingamento até à última geração – tudo contra o menininho desatencioso e imprudente, estragando uma torragem, o café no preço em que está! e... ah, não ainda não ocorreu o desastre, o Zé se encontra a caminho do cadafalso, ainda lamentando deixar e desmanchar aquele brinquedo tão sadio, exatamente na horinha que eu ia estraçalhar arrebentar fazer virar cacos de vidro numa festa por cima da búrica do João e ela me chama me grita me ameaça mas desta vez não deixarei queimar, só porque outro dia jogava pedra longe ao Rex buscar e me esqueci do torrador e queimou apanhei e... Tá surdo, seu fiadap. (se xinga dona Antônia) quando é que vai ter responsabilidade; quando a bunda gastar?! diz mamãe de armas em punho; a língua e a mão. Zezinho se resigna, senta ao lado da peça de torrar café, toma a manivela longa apoiada nuns tijolos deitados e a ponta do cilindro também escorada noutros tijolos; e gira e gira e gira, gira sem parar (enquanto, olhares maternos ameaçantes) e a mulher aproveita, ajeita a lenha, arde um pouco por verde entre as achas secas, ajeita remexe assopra, a labaredinha se alevanta, ela se alevanta também, dá instruções e emboca na cozinha lá dentro a cuidar de suas coisas. Fora no quintal o Zé vira o monstrengo, tenta fazer certo e disciplinado, olha o Rex já ali a sorrir de cauda, a cauda limpando o chão onde sentado – fica no aguardo de ordens; o doninho sorri igualmente, pega um pau em brasa e o atira longe e antes que o incêndio se inicie o vira-lata abocanha temeroso a parte não fumegante pra levá-la de volta ao dono... Nisso ouvem “Ziiinho” de alguém a propor quem sabe um bom negócio a brincarem sério de qualquer coisa. O Zé dessorri e berra chateado – “num possso, tô torrando café!” A mãe olha da janela espandongada e quase a cair da parede da cozinha, semiarreganhada, olha o filho se o filho não se despregou do trabalho, apenas se desprendeu daquela chatice e escuta o que o colega propõe (e é sempre coisa vantajosa pra si). O sol olha atinge brilha ilumina muitíssimo as sombras do rapazinho e a fumaça nos seus olhos de moleque.



5° - O Torrador o Moinho
         
          Se o escriba andasse mais desocupado que as desocupações anteriores, poderia até descrever um Zé cuja profissão sendo a de torrador de café, a revirar, contente, quanto exagero! a revirar sim a manivela do cilindro; a poupar tempo dela, a mãe, dona Tonica não tem tempo: lava bate torce escorre mais um pouco enxágua a roupa, a roupa dependurando no varal de arame farpado a enferrujar e furar o tecido, mas e o vento brabo que desprega a roupa de Donana, a enjoadinha... além de lavar, o porco, o porquinho chuta bola atira melecas na roupa limpa, a gente relimpa relava reenxuga resseca e por fim dependura outra vez; de fato além tem a casa a comida a criança (tem essa agora no bucho e não se sabe que dará; tem as outras a bagunçar, o Zezinho mais que as outras, um dia pego de cabo de reio e dou em todos umas lambadas) tem, tem sim e tem a velha a ruminar lá dentro de casa... O Zé já vai gritar a mãe pra ver se no ponto, o ponto do café (aí ela chocalhará, do torrador sairá fumaça e aquele cheirinho atraente, inclusive o Rex gostando e por via das dúvidas a ficar o cão em guarda); vai gritar se ela não vem logo ver e se não... não terá culpa se passar do ponto, o povo na casa reclamando do gosto de café queimado e tudo o mais – e enquanto, escuta a avó lá dentrão, ela a resmungar, fala embrulhado meio italiano e a gente não compreende; meio brasileiro (não falaria o português ninguém sabe na família e nas imediações sequer sabendo que o português é a língua mater importada, mais usando realmente o falar do povão); mesmo assim ninguém entende a embrulheira da nonna e a nora não aprecia: além das mil coisas de casa para cuidar, ainda olhar pela velha sogra fazendo xixi e a defecar igual criancinha; então a criancinha no ventre chuta incomodada certamente as aperturas no útero ou é apenas necessidade a mudar de posição e a pobre, a pobre da Toninha, que leva! Camadre, não te falo, fala, é vida!? Daí corre ver o torrador que o moleque revira, desvira: arranjou um jeito de não só fazer o rolo rolar do ocidente para o oriente, inverte e acha gozado – tudo pra moleque vira brincadeira, o Rex olha interessado e abana a cauda porém não entende. Chega olha toma a geringonça das mãos do Zé, chacoalha no movimento vaivém, o café chia fumaceia o ambiente, fumaceia quando ela abre a portinhola do torrador pra ver se a cor dos grãos é boa, daí fumaceia numa fumaceira por cima do garoto já requentado avermelhado embora moreno do sol; nisso deixa a mãe e corre tomar água pela secura de torrar e se torrar ao fogo do café e do sol – mas não chega nem à gamela d’água, Toninha grita o perigo dar estupor ou coisa assim pela mudança brusca de temperatura. O resultado é uma criança de uns dez anos, feia, embora todos meninos sejam a beleza suprema humana, chateada pela sede e não satisfação na sede. Contudo não exerce a profissão de torrador de café, é mais uma tarefa doméstica em que o Zé é pego à força; se não força física, força da língua materna, feroz e convincente (leia-se chinelo cinta relho). Faz, de má vontade, boa vontade para com a brincadeira, tem sempre unzinho à espera num convite para associação nos brinquedos, só um gritinho em início, é o estímulo inicial do colega, porque depois brotam meninos de todos cantos – criança tem ímã, ou a brincadeira o tem. O Joãozinho convida, fala, olha se a mãe encardida do outro não por perto e aí insiste ao brinquedo (derrubar uma caixa de abelhas por exemplo). Toninha cria caso, arranja mais afazer, chata, chatérrima, a qualquer hora. De manhã é quase certo um errado, opinião zézica, no moer café. O que ele torrou? qualquer café. Toma uma porção de grãos, põe no moinho de marca ‘Mimoso’ que o lar dispõe, põe em cima do moinho, em baixo a vasilhinha com pó vai se enchendo conforme o menino dá volta com a manivela (quando a alça da manivela está no alto quase não alcança com as mãos, até alcançar o ponto baixo perfazendo o círculo imaginário a virar o cilindro dentado dentro do moinho) dá a volta e o pó cospe na dita vasilha; aí o Zé muda de posição a vasilha para igualar o pó e não ficar de um só lado: o cheiro sobe apetitoso, envolve a casa; mais ainda quando coado o líquido a levantar o hálito para o mundo, um cafezinho negro forte doce; noutras casas no geral preferem fraco e mais doce ainda, o costume no lar do Zezinho manda o forte. Ele engole em goles, mastiga de boca aberta feito porco (a mãe estrila) a ‘fêta’ de pão de casa alumiando de manteiga, o café molha a boca molha a pasta molha a goela, queima a goela, antes disso a língua da gente “tá apressado, seu peste!” pra brincar e bater perna não é? é; não responde sequer mas é. Trabalha o Zezinho no encargo também de moer o café para dona Antônia; porém ainda assim ela reclama: Zé, aperta o parafuso de trás do moinho; não percebe como tá grosso o pó! tudo precisa mandar esse praga fazer... Entretanto já fala sozinha a mãe, a nonna também fala sozinha mas não sabe disso, ela sabe: cadê o moleque? Já surrupiou-se, fugiu como água entre os dedos da mão, já longe nas capoeiras com a meninada.



6° - Mamãe ‘Mandou’
         
          O escriba, inocente criatura, crente nas igualdades e semelhanças das gentes, o escriba propôs no Cap.3° que as crianças se desentendem burguesa e operariamente. O Zé, um garoto mandãozinho, encontra-se entre os seus, perto dos seus longe dos seus, este último ‘seus’ referindo-se aos familiares, especialmente mamãe afundada invadida inundada tomada pelas tarefas culinárias e outras chatices domésticas, tanto que sequer percebe ela a fuga do penúltimo filho bagunçando na rua Dirceu, numa algazarra de ofender a educação vizinha, sensível. Só ele quer ter direitos, não obtendo anuência total, vence no grito. Nem assim a mãe ouve ouvindo antes o indevido nhe-nhe-nhem da nonna mais-menos e mais-mais seu íntimo prenhe de problemas. Mais para diante estendem luz elétrica no pedaço, algumas residências já possuindo o benefício; e com luz exigirá, manhosa, que o esposo compre um rádio para sintonizar a PRI-2, Rádio Club de Marília, uma das Coligadas, fala o ‘espíquer’ e acrescenta ser a emissora a voz da ‘Cidade Menina’ e aí virão músicas no alto volume, mesmo porque, pergunta o escriba desejando decerto estragar este parágrafo loooongo: “quantos decibéis possui a ignorância?” Ela, Toninha, não responderá, não reponderia agora afundada nas tarefas, faz de conta não escutar (e não escuta de fato) a rabugem da sogra, vai ver se mijou outra vez; escutando apenas a vassoura gasta num chep-chep no chão, a varrer sujeiras e ajuntar badulaques esparramados dos filhos, ouvindo isto sim as panelas, tem uma caçarola barulhenta a tremer blublus de águas a ferver e essa ela escuta, ‘escuta’ mais ainda o cheiro, o feijão estaria queimando! e desperta aos demais serviços; serviços demais, os caseiros, esses nunca se acabam: está preparando o almoço, o marido grita se a boia tá pronta; no almoço já pensa o que fazer na janta; e sobram lanches à tarde; é indefectível a coisa, parecendo relógio – duas horas as crianças querendo café, é hora do café manhê? café pão leite; leite é escasso, dado somente aos menores, vai até comprar uma cabrita por isso, leite de vaca é difícil de conseguir numa cidade nova e... e com isso não para não vê que o Zé capitaneia a molecada na rua: falam gritam chutam se ofendem se atraem badernam e por fim entendem-se (até que os adultos, exímios desmancha-prazeres, até gritarem eles, incomodados pela gritaria menina – o fim da brincadeira; quase sempre gritam um serviço desses chatos a um dos pobres ricos em felicidade; dona Tonha, como aprecia falar o João referindo-se à mãe do colega, ela grita e manda o Zé levar a roupa lavada e passada à patroa; ainda faz mil recomendações ao pequeno; aí acabou mesmo a brincadeira:) Vai logo, seu cachorro! Agora é a felicidade, os grandes afundados nas responsabilidades e elinhos podem gritar o quanto. Se desentendem bem também. Às tantas alguém quer ter mais razão, ou nos pontos “foi gol” não foi, e aquela hora e depois eu... não chegam a se ferir fisicamente só de boca. Daí um, o Zé por exemplo, traz mamãe para dentro do brinquedo – “mamãe mandou ocê me dá a coisinha” etc. e tal; no entanto o Zezinho nem os outros têm tais delicadezas e dizem tão só minha mãe, ou o Zé grita a Tonica: “manhê” ou ainda “manheeê!” se a coisa aperta mais e a exigência for maior. De resto não se ofendem, antes se unem contra abusos adultos. Ele impera, embora um pixote de seus oito anos. Pera lá, que negócio é esse, não tinha 10 anos agora a pouco noutro capítulo!  Certo esse errado, as lembranças do Zé da Maria à Maria do Zé desdizer e chamar o esposo caduco, essas lembranças são vindas na cabeça do homem nos seus zigue-zagues, de acordo com a memória. Às vezes entre um pitar um cigarro e outro ou outro ainda já se vê menor ou maior nessas pequenuras. Ela? a Maria, não concorda. Além do mais picha o marido, até o arremeda gozado pela maneira dele falar na pronúncia encaipirada. A gente de sua região arredonda o erre quase a dar nó na língua, seja o Zé na cama da Maria, vendo aquele mulherão a roncar, seja o Zé de “ah que saudade eu tenho da aurora de minha vida”, a infância querida de 8 anos não mais, menos quem sabe. E aí o pai lhe dera a primeira bola, uma bola daquelas inteiriças de borracha puladeira? daquelas que se atira para iludir bebês? não, uma de gente: ganhara uma bola de capotão. A tripinha de borracha num canudo a sair fora da vestimenta de couro, os pedaços de couro remendados qual ovo partido ou carapaça de tartaruga; aí pelo canudo a gente assopra com a boca ou leva na bicicletaria pra encher, tinha a bicicletaria do Orlando na rua Maranhão que alugava bicicletas e deixando encher a bola; cheia a câmara, se jogava, marcava gol ou saía fora do gol, apenas uns tijolos como demarcação de trave e campo. Por cima da saída do canudinho um barbante de couro a amarrar e cerrar o fecho. Uma de capotão assim, número dois, não era petitica número um não mas também não era três e nem quatro, número quatro já das grandonas para jogo no campo do São Bento, tinha o Lindolfo oh que goleiro! voava na bola mas eu nunca pude entrar no estádio, só uma vez que meu pai me levou e criança não pagava. Daí me deu aquele tesouro, nós jogamos em três de cada lado e o meu time ia ganhar, chutei e o carro passou por cima dela... mordeu, estripou a bola, estourou a câmara de ar... chorei. Então, desde então, a gente enchia de palha e papel o capotão e jogava e chutava e ganhava, vez que outra roubava um pouco. Até a mãe gritar. Acabou-se o que era doce. Os moleques se entreolhavam, partiam às suas casas, desenxavidos. Se fossem burguesinhos, talvez a mesma situação, talvez um pouco menos sujos, talvez... não acha, Maria? não acha, nem ouviu, ronca ressona forte gostoso a invejar minha insônia.




7° - A Conquista da Maria
         
          Veja ilustre cidadão que olha vê sente me reprova quem sabe, veja como é atrapalhada a língua. Quem conquista quem. A Maria perfazendo mais um de seus avanços, ou ela sendo tomada por um desses garanhões à solta no mercado, digamos um Zé. O Zé contudo vê a esposa a dormir, ela depois negará, dizendo talvez haver passado a noite em claro, o Zé fumando no escuro mesmo. Tanto assim que nem arresponde a senhora à dúvida do homem, estaria mais sujo o burguês que o trabalhador ora em discussão no campo improvisado na rua de futebol! Ela a cara-metade estando deitada de lado, e desse lado não ronca, ronca sim roncando menos. Vê certa mulherona gorda forte braba, quando desperta, braba a lhe pegar no pé, não quer cinza não quer jogando umas cartas com um amigo, não quer... ah, ainda assim gosta dela, ela era tão engraçadinha, ele não falou nesses termos, não falou. Dona Chica trouxe a nenê para a amiga Antônia conhecer. Ele adentrou o ambiente espevitadamente como sempre, entrou a dizer suas coisinhas, o adulto comumente pensando as insignificâncias infantis; “mãe...” disse, principiou a falar o Zezinho e não completou: encontravam-se na casa aqueles estranhos, a mulher e o nenezinho da mulher e ainda outra menina grande ‘sem sal nem açúcar’ talvez muda e sorridente. Aliás todo mundo sorria, o pequeno de uns sete anos não sorriu e emudeceu sem saber que falar que fazer e saber se pôr, mesmo no seu lar, envergonhado, ia inclusive fugir em meia-volta, volver, correr na disparada aos colegas à farra na rua mas foi contido por ordem materna. “O Zezinho adora nenê!...” (nem o interessado a saber disso). Forçou o moleque a pegar no colo aquela coisa mole enrolada num tubo de pano e com uma carinha enrugada a cheirar talco e perfume de ofender narinas. Olhou de novo a sem-gracinha e já segurando com as mãos limpas (Tonica fê-lo ir limpar-se bem para tomar o fardinho) então a vê-la mais simpática. Era um ‘troço’ molengato e frágil demais, entregou-a de volta quase imediato; só não fugiu às carreiras por olhares ferozes maternos a contê-lo. Ficou. Sorriu constrangido, ficou a ouvir tagarelice adulta, pior: feminina, sem atrativo algum. Elas falavam comparavam (aí soube que fora ele uma criancinha linda na opinião da mãe, magrelinho e nascido prematuramente; contou as correrias ao Dr.Pérsio; o molequinho não aceitando seu peito, as dificuldades para amamentá-lo:) foram mais longe as mulheres, desandaram a narrar gravidez passada e todas dificuldades primeiras; as parteiras-cegonhas “esse aí? foi a Dona Nena” quase perdi essa porcaria e então... fugiu, não fugindo, fugindo sim na mente, as conversas se embaralhando. Até que mamãe pergunta à amiga o nominho; é Maria do Rosário, por causa da avó dela. Era sua Maria ali a dormir como justa. Voltou-se de novo a observar a esposa. De repente, um repente ficando no mesmo lugar tragando e soltando fumaça pelo nariz, de repente ói a Maria moça bonita, ah que gostosura você me pareceu... Daí seu irmão mais velho embirrou comigo, não foi? foi eu digo. Seu pai até que gostou de nosso namoro, sua mãe não: criou caso, desandou a falar que eu fora um capeta e briguento, inventou que eu quase jogara você no chão aquele dia no dia em que ela levou você-zinha pra minha mãe, pequetita assim; mentira, não deixei cair a nenê, lembro como fosse hoje a sua cara enrugada e tive medo que me molhasse – todos dizem sobre descontrole na criança de colo... e depois ficou grande, não é Maria? A Maria virou gorda e braba pros lados da gente porém eu gosto. Se irrita com meu vício do tabaco e não me deixa tomar umas biritas no bar; assim mesmo gosto dela, apesar de ralhando comigo sempre e roncar e negar o ronco. São muitos anos de convívio. Olho esse tamanhão de mulher aí dormindo e me enterneço. Oh o cigarro apagou.



8° - Encontro com a Morte
         
          Eu te falo procê, Maria, te falo que me chocou sobre-maneira o caso... qual? o caso do Véio, o Véio novo ainda e aconteceu aquilo com ele. Fiquei profundamente chocado, foram dias e dias a pensar, a rapaziada comentando como foi como não foi, foi triste. Naquele tempo eu já era mocinho, não: rapazote duns treze anos, nem pensava em você... pensava sim, via a menina desgraciosa... quer dizer, já prometia e depois ficou uma gostosura, até casei com você, você sabe mas o Véio não. Ele tinha menos de nove anos, brincava com a gente e tudo o mais, embora esquisitinho, a testa um pouco enrugada para uma criança que era – isto é, eu não via assim, agora que alembro a feição dele o jeito dele – vivia quase sem falar, quase não ria como nós nos brinquedos. A gente sabia ser meio abandonado, dona Carmen nunca em casa e quando em casa a tratar o pobre com casca e tudo, o pai tinha abandonado a cria e os meninos viviam ao deus-dará como podiam viver, só ele parecendo mais sensível. Um dia, vai escutando aí, um dia ele pulou na beira do Buracão, ali do lado do rio Barbosinha, se despedaçou lá embaixo! Os outros moleques que falaram isso, a mãe não me deixou ir ver os pedaços. Fez que nem o seu tio, Maria... aquele um que se jogou no Buracão por causa da namorada, ela iria ser sua tia e casou depois com o sargento da polícia, não lembra disso, Maria? eu senti demais e foi a coisa mais triste que tive naquele tempo, fora os casos de meus irmãos que saíram de anjinhos, isso foi antes de eu nascer nem cheguei ver, a mãe contava para a comadre dela e a gente soube; e ainda chorava a falta. Será, Maria, será que o Véio foi pro céu? o povo que acha que morre tem o céu ou o inferno e eu fiquei a pensar no destino dele, acredito que se chamava Antônio e tendo esse apelido por ser enrugado e com feição enraivecida. Pois olha o que falo: o padre não quis aceitar o corpo do infeliz para missa de corpo presente por ter se matado, uma criança ainda, Maria, uma criança! O padre Damião da Igreja Santo Antônio. Nós todos participamos da construção da Igreja; quer dizer: vimos fazer, a vida inteira fazendo o prédio. A gente ia lá só brincar nos tijolos do padre, punha um após outro, de pé, depois o primeiro menino empurrava um tijolo o tijolo caindo em cima do outro tijolo e assim por diante até o último e todos nós acompanhávamos o movimento – os soldadinhos a gente dizia. Uma farra. O padre estrilava, o sacristão dava de cima, corríamos deles. Tá ouvindo?



9° - Olho para que te Quero
         
          Não disse a você, Maria, quase haver ficado cego, não agora nestes tempos com meia cegueira nesta cama – em pequeno. Era no tempo da Guerra, nós a rataiada de Seu José e Dona Antônia não sabendo de guerra alguma, nem percebíamos sequer a guerra em casa, o pai discutia... não, a mãe discutia com ele num falatório de não acabar. Nem isso. Era no começo da Guerra, eu pequenininho igual nosso neto mais novo; ranheta e briguento mas também forte, inclusive nem ficava doente com frequência. Um dia fiquei. Me lembro não havia ganho sequer o primeiro suspensório, a mãe me fazia umas tiras de pano a fim de segurar as calças; pequeno enfim. Então adoeci não sei do que e sarei não sei quando nem como; mas o pior foi a temporada de dor-d’olhos; isso afetando todos irmãos; era só remelas e choradeira, a mãe ficava louca a cuidar da filharada e ainda ter de cuidar do resto do serviço da casa, a nonna não morava com a gente e o avô havia morrido; aí ela veio mas não ficou ruim das vistas, apenas não enxergava bem por olho fraco ou desgastado, falavam na tracoma. Nós pequenos ficamos doentes. Me lembro os olhos tapados, sequer mais saíamos cedo pra rua, porém era noutra casa e não a da rua Dirceu, esta que depois virou Coronel José Brás não sei por quê. Antes. De noite era bom por ver nublada a lamparina, o lume brincando com a gente e mudando de cor toda hora, até o caldo endurecer e tapar de vez o olho. Então todos pra cama e quase nem escuro ainda. De manhã um terror, Maria, um terror, você já teve dor-d’olho meu bem!? puxa se falasse assim e a Maria acordada não roncando aí ao lado, até se assustaria porque não uso desse recurso, não uso chanhinhas de delicadeza; ainda bem dormindo pois trato a mulher por mulher (daí não gosta: “serei alguma mulherzinha àtoa por acaso?” ela fala) ou trato Maria mesmo. Na farmácia, na rua Coronel Galdino havendo uma, não: duas; eles deram pra nós colírio. Os grandes e pequenos, todos nós, os grandinhos se punham as gotas e não choravam ao se levantar; eu o mais chorão da prole a exigir cuidados da pobre; e tinha um porém grave, vai escutando Maria, tinha: a mãe que me pingava o remédio e mais um senãozinho – tendo o Zé certo medo no ver a hora de pingar o colírio. Então a mãe me ensinou: fecha o olho, eu pingo as gotas, eram duas em cada olho doente e inchado, e depois você, eu, abre e a água do remédio entra para curar, aí arregala bem, ouviu? Tinha escutado e sempre fazia assim. Fazia assim e mais – eu mesmo buscando o vidro para a mãe me pingar. Aqui entra o grave da coisa. O colírio vinha numa caixa, igual esta de meu cigarro, já sei o que você vai dizer... um dia paro de fumar. Na caixa, na época os cigarros tendo caixa mais fina e larga que esta, o meu pai fumava da marca Fulgor, da Sudan, a Sudan ficava na avenida, o velho fumava muito também e não deixava nenhum de nós, os já viciados, fumarem na frente dele, eu logo iria pitar escondido ainda menininho puro, embora chorão. Como falava, fui buscar o vidro, a gente havia jogado fora a caixa do remédio e nem precisando do papelão porque ninguém sabia ler, quase nem a mãe; jogamos. Aí teve um problema: a gente punha o colírio na estronca... Em Marília as casas pobres e muitas das ricas eram de madeira, de tijolo só as residências ricaças; tinha a travessa onde pregadas as tábuas,  havia as mata-juntas, espécie de filetes de madeira a tapar as frestas entre uma peça e outra, a nossa não tendo; assim as tábuas empenavam, entrando um vento frio danado! Era o lugar ideal das baratas: um criame fedorento e a mãe se gelava de medo delas! Pois é, nas travessas a família depositava objetos vários, serviam de armário e suporte. Aí púnhamos igualmente os vidros e caixas de remédio; o tal colírio também, também – aqui o drama – pusemos, não sei quem foi, o Creosote ou coisa assim, usado na dor de dente que dava muito na família... Eu, um pequerrucho espevitado e inocente, eu fui pegar na estronca no lugar de costume meu colírio pra mãe pingar e tomei o Creosote; ela nem percebeu a diferença e plim: me pingou as gotas no olho esquerdo... Felizmente estava com ele fechado de temor e o veneno atingiu só as pálpebras, provocando queimadura – o grito foi enorme a dor lancinante, a acordar a Vila inteira! A mãe ficou apavorada a berrar e chorar desesperada, lendo o vidro imediato após a consumação do ato de pingar colírio e viu ser o veneno. O pai levantou-se na correria, o pobre havia chegado meia-noite em casa, o caminhão se quebrara, vindo tarde com a carga de lenha, nem se deitara direito levantou a correr pelos gritos. Foi um corre-corre sem tamanho. O caminhão não queria funcionar, fomos devagar pela carga pesada (o pai era muito trabalhador e para sustentar tanta boca de menino pegava qualquer serviço como buscar areia de estrada por exemplo; agora a lenha:) fomos até a Farmácia União, na rua 9 de Julho, perto da Avenida Sampaio Vidal, o caminhão pulando nos paralelepípedos do centro, único lugar calçado na cidade. Lá o pai acordou o Otavinho Andreolli e o Damião, jovens que dormiam no fundo da farmácia; não existia pronto-socorro nesse tempo e os rapazes foram a salvação de meu olho! fizeram lavagem, aplicaram pomadas e por fim encaminharam ao médico; não sei qual, acho que foi o Dr.Gelás. Ah, Maria, nem te falo: foram dias e meses no tratamento e tempo de horror. Não o horror dos olhos fechados com gaze, o da prisão domiciliar, sem sair sem ver os moleques pra fazer nossas artes... Não tem, eu digo, não tem pior cadeia que um quarto de garoto. Não tem.





10° - O Planeta Gritou em Casa
         
          Era uma sexta-feira, Maria, frio e vento, vento de apagar até o cigarro do pai o meu não pois ainda sequer fumava escondido, num falei procê Maria que o velho nunca aceitava filho a fumar na sua frente! Era frio e noitinha já, já a gente tava jantando e ia se recolher, a mãe braba por causa daquele barrigão, minha irmã Tereza que ia nascer e assim eu deixaria ser caçulinha. Os caçulas têm certos privilégios, não tem Maria? o nosso último não teve muito, voltemos ao caso: o caso é que eu perderia o colo que já não tinha mesmo, a mãe ia dar à luz elinha e aí o mundo inteiro gritou em casa, vai escutando. Não pense que a Terezinha nasceu (nasceria depois, um mês depois) e por ter nascido esgoelasse o quateirão inteiro; não. Foi outra novidade, escuta aí Maria; a gente brigava mais mole, nós pequenos brigávamos bastante até a mãe perder a paciência e mandar pra cama não aguentando nossas picuinhas; brigava pouco e lentamente de tanto sono, a dormir com as galinhas, estas já tempão no poleiro, uns paus que o pai pôs na mamoneira para elas subirem e dormir, sabe que ave gosta de dormir trepada? então. Então nesse momento o velho chegou com o presente, um presente que deveria ter-lhe custado o olho da cara, muitas viagens de areia de estrada e de tijolo a fim de juntar ganho e comprar o presente à mãe, mãe nossa, a dele tava ruminando em italiano no quartinho dos fundos. Chegou, bateu a porta do pé de bode, pra nós este um caminhãozão, e até nos depertou um pouco. Entrou trazendo nas costas o rádio! A luz, os fios, tinham sido ligados naquela semana gelada mas não tinha ainda rádio que nem a vizinha comadre da mãe; agora chegava aquele presentão de madeira, um caixote com um visor de vidro e uns botões para a gente depois tomar uns tapas da mãe na mão de tanto mexer nos tais e mudar de propaganda que nós chamávamos reclame – mudava de uma emissora para outra, voltava na anterior até brigar entre nós na disputa do receptor. Bem. A mãe quase caiu de susto à chegada do presente; o esposo prometia prometia, antes prometera um rádio de pilha de mil horas quando não tinha eletricidade no lar; e nunca pôde ter dinheiro para tanto; agora tava lá o bichão falador, o velho ligou na PRI-2 e o locutor desandou a falar e depois cantou a música e depois ainda o reclame do Phimatosan, que eu pensava fosse algo de comer e era remédio; assim repetia como música a música do Phimatosan aos moleques no brinquedo. Aliás não cantava, assoviava porque estava aprendendo a assobiar naqueles tempos, inclusive irritando a mãe com minhas cantorias, ela pedindo-mandando que eu parasse, parava olhava sem-graça e quando via tava outra vez assobiando. O rádio mudou a rotina em casa. Todos os dias, dia todo a falação na sala, não deixava no começo nem a gente brigar direito porque todos de ouvidos a escutar a gritaria no rádio; o rádio obrigava nós pequenos a discutir as coisas que dizia a cantar as coisas que cantava e até os reclames que propagava. A mãe então, então quase deu cria de contentamento e exatamente ela quem deixava alto o vozeirão do homem que falava as coisas, coisas da Guerra por exemplo, que despertavam muito interesse no pai e nos manos maiores e nós pequenos não sabíamos bem o que era, era coisa ruim lá longe, que também não sabíamos onde era, era com certeza coisa errada isso sabendo. Nas músicas a mãe a campeã a deixar alto de tremer o pano debaixo do rádio (a mãe arrumou lavou engomou passou um tecido de florzinhas a agradar os pés do rádio e o pano descia balançando as fraldas, acho que de tão alto o som; os tais decibéis dos desocupados escribas). Nisto que digo, digo não ser nenhum exagero porque cada casa na Vila Barbosa onde instalavam um receptor de rádio todo mundo, cada qual por seu lado a defender decerto sua mais valia, todo mundo deixava bem alto a voz do rádio. E novela! A mãe desembestou a escutar e seguir e comentar com as vizinhas os capítulos. Eu não, não tinha paciência a tanto; tanto assim, dormia. Mesmo porque só podíamos pegar novelas de noite nas ondas curtas e o tempo atingia os diálogos sumindo e voltando no rádio não dando pra ouvir bem. Os grandes sim, melhor entendiam enquanto os pequenos dormiam antes de dormir no quarto. De dia a barulheira nas ondas longas. Depois? ah depois, Maria, depois virou “carne de vaca”; não sei por que esta expressão mas queria dizer coisa banal, assim como “café pequeno”, isto é: sem grande importância. De fato, não enjoou porém o rádio nos devolveu logo às nossas artes e gritarias na rua. Rotina. Rotina como esta minha insônia.



11° - A Casa Vai à Guerra
         
          Não disse ter uns sete anos na época! ora qual época, a do fim da Guerra; mas não sabia, menino vê as coisas e não precisa bem o que ocorrendo. Um fato me lembro melhor porque marcou, Maria, aquilo que disse dos meus olhos. A mãe ficou impressionada, fez até promessa para Santa Luzia, a santa das vistas, pela salvação na minha quase cegueira, como narrei antes. Deveria eternamente ir à igreja no dia de Santa Luzia, parece que 13 de agosto, não ando certo nisso. Fui, fui uns anos, empurrado, depois larguei mão. Hoje penso assim: se a mãe queria fazer promessa e penitência, por que não fez ela o sacrifício e não eu que sequer sabia quem a tal milagreira! que subisse a escada da igreja de joelhos ela mesma; não seria um bom pagamento? Me contaram que tem os que sobem de joelhos a igreja da Penha no Rio, naquelas alturonas; a igreja Santo Antônio tem uma escadinha mansa e não escadaria de mil saltos; não seria uma boa pedida? Pior fez uma tia, a tia Cida. Meu priminho caiu quebrou o braço: fê-lo como promessa deixar os cabelos compridos, a ser gozado como mulherzinha o pobre. No tempo dos machões não tinha vergonha maior; até que meu pagamento foi leve; assim mesmo dei os canos na santa. Já sei, você me chamará como sempre irreverente. Sou. Você tá dormindo e escapo dessa vez... Era a Guerra? era, eu não sabia, moleque não sabe as coisas. Não obstante saiba que participei dela também. De fato, comia pão de fubá, não tinha trigo, tudo era importado, não tendo dinheiro no país também porque tudinho ia ao esforço de guerra. Moleque é que não observa mas era assim, chegaram a plantar trigo aqui por perto e não dava muito pelo calor, aí plantavam mamona parece que para fazer óleo lubrificante aos aviões de guerra, sei lá; tem outra coisa, andaram usando sumo de casca de laranja também nesse tempo, ouvia contar e não sei direito, não passava de um garoto com uns sete aninhos pois nasci em 38 (deram a data errada 1939 quando nos casamos, né Maria...) e a Guerra acabou em 1945. Foram anos duros havendo fila para tudo: sal açúcar farinha – tudo racionado. O pai então, ele ficava na fila de madrugada na Prefeitura, era na rua São Luís, permanecendo na escadaria lá aguardando requisição para vinte litros de gasolina a fim de poder funcionar o caminhão e ir fazer carretos pra ganhar o sustento nosso. Um sofrimento. Depois inventaram o gasogênio, não sei quando, sei que a gente via os automóveis com dois tubos grandes de pé atrás – um fedor danado. Uma coisa observara até bem, pois existe coisa que moleque vê outras na frente dos olhos da gente e a gente não enxerga. Isso eu prestei atenção: o fato de antes deixarem na rua carros ligados funcionando, pela gasolina barata; depois, com a Guerra, todos procuravam economizar, desligavam o motor; aí experimentaram o gasogênio (a funcionar com madeira ou carvão para produzir dentro gás carbônico, acho que é assim) meu pai não pôs tubos no nosso caminhão. Outra coisa ligada ao sacrifício de guerra foi a falta de açúcar. O racionamento podia quem sabe ser burlado pela gente da cidade, digamos houvesse corrupção nisso, não garanto não soube de nenhum caso; o pessoal daqui poderia ficar ao menos nas filas do açúcar, como nas de outros gêneros escassos. Porém e a gente da zona rural! Aliás o povo da cidadezinha era resultado ou da fuga do campo ou da vinda de aventureiros, quase sempre estes com estágio na roça, daqui ou doutras regiões. Inclusive me lembro que a mãe e outros conhecidos semelhantemente, falavam igual os roceiros; a mãe, o pai não pois mais italianado e usava construções verbais gozadas – por exemplo “antes sêsse assim” e não ‘fosse’; dizia se você “ísse” nalgum lugar, coisa de italianos grosseiros. Ela, a mãe, falava muito “pra mórde” à feição caipira da época, não só ela, em muita gente eu notava essa fala. É nesse meio que me criei, Maria, por isso a dificuldade que sinto na língua, e você me corrige e me goza. Tá bom. Contudo eu falava do caso do açúcar e a crise de guerra. Então. Um dia nós, a família toda, a Terezinha não nascera, tava na barriga ainda, fomos visitar uns compadres dos velhos, na roça, um sítio nas bandas do Rio do Peixe. Chegamos, os meninos nos comunicamos fizemos farra e os grandes na casa a conversar. Chegou a hora do café. O café entre brasileiros serve para chegada e despedida, às vezes pra esticar um papo. Na despedida, eu tava com fome, pois moleque come bastante e inclusive exageradamente, sobretudo sendo tarde e a comida iria bem... bem, serviram uns bolinhos, com dificuldade, uns de fubá pela farinha de trigo racionada e o bendito café. Pobres, roceiros, sem possibilidade a conseguir açúcar na cidade, se bem que Marília quase vila e não urbe; então, aí a comadre fez café adoçado com garapa em vez pôr açúcar... O gosto medonho me fez envergonhar os meus: falei da ruindade daquilo na cara de todo mundo. Um menino é uma criatura honesta, não tem a hipocrisia, ou educação (isto sim um semantismo mais hipócrita que a hipocrisia, acho eu). Falei na lata, quer dizer: alto e bom som... Se me puxaram as orelhas? não sei, não alembro, decerto envergonhei meus pais. A inocência envergonha a experiência.



12° - Piolho e Lombriga Vêm a Passeio
         
          Um dia recebemos visita em casa, deve ter sido após meus 7 ou 8 anos talvez mais tarde, uma visita inesperada. Ninguém esperava o piolho, ele veio graças à escola; nós não esperávamos embora a piolheira na vizinhança, quiçá na Vila toda, porque a gente apenas sabe o que dói quando dói. A questão da escola me custou algum aborrecimento, por preferir brincar e a liberdade; muitos aborrecimentos aos meus pais. O pai andava pra todo canto à procura de lugar para mim e aos filhos mais novos, a Terezinha ainda nenê não tendo o problema; os mais velhos ou aprendendo por aí ou já haviam passado pelos dramas; tinha inclusive os manos casados, os quais precisavam lutar por suas respectivas famílias (não entro nisso para não prolongar o papo e esquecer de contar sobre meu tempo de menino, prossigo:) Quando foi para me arranjar escola o pai consultou os conhecidos e entendidos no assunto. Havia um italiano velho que dizia ao meu velho mais ou menos assim: Giuseppe, escola produz? não produz só gasta; por isso pra quê escola; deixa o menino trabalhar nalgum servicinho e aí aprende na escola da vida. Meu pai não se convenceu disso, andou a achar vaga. Cidade pequena e em formação, sem recursos – nunca conseguiu estabelecimento regular de ensino pra mim. Um dia me puseram no Primeiro Grupo, na avenida Pedro de Toledo, avenida coisa alguma pois só terra e buraco na rua. Ali fiquei três dias no lugar de um menino que havia desistido por doente; logo retornou e perdi a oportunidade. Me lembro a chateação por ficar sentado feito estátua com medo na carteira, a fazer cobrinhas, e a tentar desenhar meu nome, não acertava o jota, ora subia acima da linha ora pra baixo, sempre tremido; e quebrava toda hora a ponta do lápis, um que a mãe me dera; ficava mordendo a ponta de cima do lápis e chupando como fazia com a fralda da camisa nas brincadeiras; ah e furava muito a folha da brochura, a professora olhando contrariada pro meu lado, os colegas de classe já sabiam escrever direito... Lembro também que havia uns copinhos embutidos nas carteiras, um servente vinha com um vidrão encher os tinteirinhos; mas eu não usava tinta só os outros. E a dor de barriga e o xixi! uma tristeza. O pior sendo ter mesmo de ficar sentado como estátua de pedra, logo um sujeitinho acostumado a correr e a fazer artes no meu bairro longe; longe sim: a Vila Barbosa ficava de um lado e o Grupo Escolar doutra banda tomando a linha de trem como referência; da escola ouvia o apito da locomotiva – era longe pra mim. Até que veio meu presente esperado: o moleque sarou voltou, voltei pra casa para brincar! Engano meu, meu pai arranjou logo a Escolinha da Dona Tomásia, uma instituição particular e precária, onde aprendi rabiscar alguma coisa e custou ao pai muitos carretos de tijolos e areia como pagamento daquela minha outra tortura. Agora, fugir da escola nunca ocorreu pois era vigiado, não sendo eu flor que se cheirasse... estava mais para baderneirozinho que para intelectual. O curioso disto, sabe Maria, é que a gente fica adulto e quer empurrar nossos filhos pra mesma sala de tortura. Como garoto achava a vida escolar – e outras mais obrigações também – achava isso tudo uma tortura sem tamanho de grande. Um bem ou um mal, moleque só vê o mal, a escola nos forneceu um visitante: trouxemos pra casa o piolho! Deve ter sido meus manos maiores antes de mim os introdutores dessa praga, contribuí com algumas lêndeas ao ‘aprisco’ doméstico... Como foi como não foi não discuto; discuto aqui a nova tortura da higienização. A mãe abria as pernas, prendia nelas a gente com os joelhos, claro antes haver posto uma toalha ou lençol forrando – aí começava a colheita com pente fino; dava croques na cabeça, passava e mais passava o pente até ferir – tudo necessário porque nós não parávamos no lugar, além de resmungar falar reclamar chorar; e calar e ‘aceitar’! Antes ainda o preparo: passava ela vinagre, coisa que a sabedoria popular ensinou; ou inclusive querosene de lamparina e de matar percevejos (dava na época muito nos buracos e rachaduras de nossas camas). Depois é que passava pente e esfregava e lavava, sem qualquer delicadeza; acho até que a mãe era bem grosseira, um pouco abrutalhada, se bem que eu sendo uma peste não colaborando na limpeza da cabeça; cabeça? não apreciava sequer tomar banho, fato a ocorrer nos sábados em casa. A outra questão séria foi a lombriga. Num tempo nós pequenos estávamos infestados de bichos, o de pé por exemplo, bichos os mais variados. Um dia ouvi minha mãe a lamentar com a vizinha-comadre as suas desditas, sobretudo me pichando por suas dores. Segundo ela eu era uma praguinha e fazia tudo errado; não parava em casa, participava das artes com a molecada. Parecia ter razão a mãe. A questão da lombriga nos apareceu uma vez quando eu defecava no fundo do quintal. Comadre, o Zezinho veio para eu pagar meus pecados. Acredite, com esse tamanhão ainda não entra na privada! Eu aqui ouvindo o discurso enraivecido da mãe e pensando no medo a cair no buraco, era daquelas latrinas fedorentas, só depois veio o esgoto na rua Dirceu; enquanto, quando ia fazer as necessidades entrava deixando a porta do sanitário precário aberta... só o Rex ficava ali de plantão me vigiando. Um dia, não: foram várias vezes assim, uma dor de barriga tamanha (dessas que não se convence e não mudam de opinião...) daí me fez correr ao fundo do quintal, debaixo da mangueira; agachei e fiz o serviço. O Rex como guarda ao lado, as galinhas me rodeando, curiosas e esperançosas, no aguardo que me levantasse, nem me limpasse como se deve, mesmo porque moleque tem sempre muita pressa, a pressa inimiga da perfeição e que a brincadeira exige; aí, meio sujo meio andando ia a puxar a calça pra cima, a me desviar donde pudesse ser visto pela mãe e a fugir pra rua, enquanto o cachorro me seguindo feliz, o Rex era tão bagunceiro quanto o doninho. Depois a mãe tocava xingava as galinhas descaradas e porcas a bicar a porcaria do porcaria que eu era. Então me chamava, gritava o filho, o filho fazendo de conta não ser consigo ou estar meio ‘surdo’. Num posso com esse moleque, Comadre, num posso, é o capeta feito gente. Imagina que o praga suja debaixo da mangueira e... Certo dia, errado, eu fazia minha descarga pela intemperança, comilão e descontrolado que o Zezinho era; nisso eis um desastre – aí não fugindo pra rua, antes gritei apavorado apavorando a mãe – fizera cocô de tripa! imaginei haver posto pra fora a barrigada e desandei no choro. Chegou a mãe ainda trazendo um trem de cozinha que usava nem prestou atenção estar com uma panela na mão, correndo a me socorrer. “Mãe, a tripa!” Era uma lombriga a sair na defecação. Foi daí descobrirmos nosso lar numa infestação. O pai foi conversar, contar nossa situação na farmácia, procurando o “farmacista” ele falava assim como a italianada, além de não pôr certo o pronome na frase, e aqui semelhante aos outros caboclos da cidade, não punha certo o pronome na terceira ou segunda pessoas, não concordava, concorda comigo Maria... a Maria dorme, não ronca mas dorme. Aí, né Maria, procurou o farmacêutico Otávio e este orientou deu remédio, o pai trouxe para casa, a mãe leu como pôde as bulas e começou nosso inferno: tomar Panvermina, engolir bolinhas esverdeadas, arrotar remédio, defecar bichos sem conta e ainda ficar sem comer e presos! Quer mais!? Para moleque basta esse martírio. Felizmente saramos e por meses tivemos de aguentar sapatos, que horror! Alguns de nós perdíamos o calçado na casa doutros meninos ou saíamos descalços outra vez, até nova contaminação. Sabe, não gosto de alembrar tais pedaços, não gosto.





13° - Mecanismo da Insônia
         
          Andei pensando que a insônia, tal como a recebo noite após noite, existe pura e simplesmente porque o homem não segue as fases da regra da natureza, a qual estabelece que deva relaxar dormir sonhar acordar. Então sonha desperto e não pode justapor o sono para sonhar dormindo; inverte: acorda, não-dorme, e acorda oniricamente, crê dormir e já não mais dorme. Aqui estramos nos dramas – o cão ladrador, o telefone vizinho o vizinho não atende ou a viajar, o bebum a resmungar arrotar desacertar a casa por volta da casa da gente, o guarda-noturno com seu mau gosto no apitar ali, o galo com seu despertador certo no desacerto do povo; e mais-zinho como o grilo nos cri-cris permanentes quiçá eternos e o tique-taque do relógio que não nos entende, entendemos de pô-lo escondido na gaveta do armário e por via das dúvidas num pano enrolamo-lo mas abafados o ‘tic’ atrás do ‘tac’ os tais fogem correm e vêm bolir nossas orelhas sonolentas; ah apenas sonolentas porque insoniamos! daí levantamo-nos a fazer xixi ou a tomar liquidinho pra melhor insoniar após... É assim que acontece, Maria; aí você embodocada no seu buracão e eu no meu buraco de colchão cultivando lembranças nesta memória preguiçosa e, por que não dizer: traidora. A memória de um Zezinho arteiro e bagunceiro. Acredita você, de vez em quando algum dos manos velhos a me gozar na frente dos outros: “ué, o Zezinho veio visitar nossa casa!” Eu sorria amarelo, será que cor tem sorriso? Nessas tais andanças um dia exagerei. Andava pela rua Coronel Galdino, depois batizaram a rua como Barão de Bananal e depois ainda tornou a ser Coronel; pois é, ali andando longe de casa, embora perto umas três quadras, ali achei uma nota de vinte! Tavam trocando o sistema para cruzeiro mas o mil-réis valia. Vinte mil réis era dinheiro à beça, dando pra encher uma carroça de alimentos. Uma japonesa velha nas imediações, aqui sempre teve colônia nipônica enorme, muito a cidade deve a ela como por exemplo a plantação algodoeira, sobretudo no Vale do Rio do Peixe, que na época era branquinho de pés de algodão; pois bem, a tal japonesa enrolou a língua com outros sobre o dinheiro no chão, não esperei o final da conversa a qual não compreendia e dei um chute a empurrar para frente a nota apanhei-a e fugi. Depois? ah depois passei dias e dias comprando doce, e pior: comendo e me lambuzando gulosamente com chocolate. Nem quero lembrar – quase morri com dor de barriga e de enjoos. Então, foi num de tais dias eu ficar meio alongado de casa qual gato selvagem. E os manos gozando. O Zezinho a levar uma surra? Na verdade nunca contei o malfeito a ninguém; como explicaria os poréns... Curiosamente meu chocolate “Sonho de Valsa” agorinha voltou nesta insônia a adoçar o galo decerto.



14° - No Tempo do Frio
         
          Era como hoje dia 31 de maio, inverno antecipado porque o frio de fato ainda engatinhava. Você, Maria, não havendo nascido, ou por outra: não viera ao mundo de sofrimento da gente grande, eu pequeno também e sábio nas coisas do mundo. Quer dizer, era um garoto bobinho mas já conhecia certas dificuldades, ou por passar por elas ou a escutar os adultos – sempre fui xereta e ficava ouvindo quando não era para tal, então escorraçado de perto; isto porque quando deveria estar presente, ausente na rua; moleque enfim – e escutando, sabia muito. Doutro lado você nos cueiros e nas mamadeiras, dona Chica tendo pouco leite a ofertar, não é isso Maria? Bem. Fazia lá em casa um friozão. E olhe, descobri que ninguém precisa entender de meteorologia para sentir frio. Posteriormente cheguei a uma outra conclusão, agora, agora nestes nossos tempos difíceis e na minha velhice e fragilidade. Sim, concluí que é preciso ser idoso para melhor sentir o frio! e deplorá-lo; sobretudo nas insônias. Verdade que eu fugia do banho no inverno, mesmo no calor sujo suado cansado dormia como chegava da rua. Se a mãe não cobrando limpeza? cobrava porém atende um atende outra criança na filharada e a nenê Tereza ficava com todo o tempo dela pra si: nós pequenos-grandes evitávamos as chateações, a do banho por exemplo. Primeiro eram as bacias, depois pusemos chuveiro de lata (e o berros da mãe a que a gente economizasse água, o poço sendo fundo etc. e tal) depois encanaram água da rua na rua Dirceu e melhorou: tomei na primeira semana banho de cantar horas; e após entrei na rotina de fugir do chuveiro. Isso no calor; porque no frio... sempre achei qualquer coisa como valentia tomar banho no inverno rigoroso em casa pobre cheia de frestas, onde o vento dá de goleada. Aliás nunca achei nenhum masoquista desejando passar frio debaixo das gotas do chuveiro; deve haver. Agora tem chuveiro elétrico e até banheiras quentes aos ricos, os pobres não mudamos demais, creio. Era 31 de maio, e o inverno viria mais brabo que o deste ano, Maria. Lembro que me embarreara sujara e rasgara as vestes, na cerca? sei lá, dera enfim prejuízo à família; tinha mais um menos: roubara com os moleques bananas num quintal da rua debaixo, a rua Sete de Setembro, e o homem viera reclamar em casa, a mãe sozinha o pai no mato com o caminhão, ela ficara brava comigo; aí cheguei meio medroso por causa da consciência, do malfeito; cheguei mansinho escondidinho fugidinho pro quarto dos meninos, sem janta sem nada e já noitona. Ela me percebeu entrar me gritou me fez um discurso (eu mansamente santamente a dizer “num fui eu!” sempre neguei baderna a pés juntos; e acresci à defesa “então tudo que os moleques fazem sou eu!” e era, pois chefiava tinha as ideias de bem fazer malfeito – não convenci:) você vai agora mesmo tomar banho, sim tá frio e se gelado melhor! vai, se limpa e logo na cama, sem comer; e tem mais, disse, acordarei você pra apanhar na bunda quando seu pai chegar... Aí sorri por dentro fazendo cara triste por fora, matreiro que era: nunca o velho me relou as mãos; a mãe sim, muitíssimas vezes e curiosamente nessa vez não me bateu. Talvez porque a Terezinha me salvasse com seu choro e febre de nenê. Foi daí sentir o maior frio deste mundo, Maria. Lembra, ah ocê não lembra disso, vocês logo se mudaram de perto – sua família parecia de circo, não parando em lugar nenhum; logo mudaram. Pois bem, nossa casa era de madeira, como quase todas na Vila, as poucas residências que haviam eram de tábuas; no caso da nossa eram tábuas velhas ressecadas empenadas, frestas e rachaduras por todo lado, a gente punha então papel e pano pra vedar mas o vento entrando como fosse o dono! e esfriava gelava no friozão que fazia no corpo da gente. Eu na beira da bacia, sem coragem de me molhar, a tremer e a tremer sem parar; lavei-me com a pressa possível, o frio gelara já a água posta quente, virando morna e fria mesmo no final do banho. Saí me enxugando e vestindo meus trapos o mais rápido que podia e pulei na cama, no escuro ainda por cima, debalde o grito dum mano pelo meu corpo frio na sua quentura acomodada na coberta. Dormi enrolado nos panos e nos irmãos: nem vi o pai chegar nem vi o vento que já chegara antes e queria derrubar a casa. O vento era o outro inimigo público potencial ali presente nesse frio. E como ventava! Não, continua a ventar sempre nesta nossa terra, não é? Como sabemos ela é cercada por Buracões como chamamos os itambés; a cidade ficando num espigão sujeito e facilitando a ventania, boa no verão e terrível no tempo do frio esfriando ainda mais o frio. Era esse vento que me atingia na rua Dirceu e até me ajudou a dormir como um justo, Maria. Qualquer hora conto como foi depois quando nos mudamos à Ventania, o Bairro Ventania, vocês haviam então ido morar na Vila Palmital, antes Fazenda Palmital, não é assim. Somente que ainda não namorava você...



15° - Lamentações Maternas
         
          Dona Tonica, comadre Toninha para a Comadre, anda quase a chorar à confidente mais próxima, pois tem para contar as mágoas uma irmã de sangue perto na cidade mas longe muito nos sentimentos, sobrando ali sua vizinha a escutá-la para ter também a confidente sua confidente, haja vista trocarem seus ais; ora, confidenciar é mais ouvir, o homem comum apenas sabe com maestria falar. A gente deveria ser muda, a ter direito depois a falar; porém o mundo não é assim; assim a mãe do Zé, esposa de seu Zé do Caminhão, expõe à senhora grisalha e usadíssima pela vida suas angústias; ou com a outra a trocá-las... O Zé, Comadre, ninguém pode com o Zé, o Zezinho alizinho mudinho ressabiado. Esse aí? nem o capeta, comadre. Fui pôr as roupas de molho, ensaboar esfregar a outra da Donana, deixei o praga olhando a menina; pensa que ficou de plantão cinco minutos no berço! qual, fugiu, escapuliu, eu pensando que estivesse a nenê em boas mãos... só quando elinha berrou descobri o embusteiro sem responsabilidade. E ainda por cima chutou bola no cachorro da dona Diná, aquela latição, depois virá reclamenta decerto; num posso com ele, comadre! Aliás aqui em casa nenhum dos moleques quer olhar a garota, as meninas grandinhas já trabalhando pra fora, quem sobra se não essa porcaria! (a porcaria olha constrangida...) e não me saia hoje de casa, do contrário vai ver com seu pai depois (sorri amarelo a mãe à comadre; e se entendem). Vou contar mais uma dessa peste, diz a mãe do filho, outro dia foi levar a roupa à enjoadinha Dona Joana; levou também a trempe dele com ele, uns garotões terríveis, só quer más companhias o Zé; então: derrubou a trouxa na rua, tive de cobrar menos da patroa, fazer um desconto, e ói se não perder a freguesa! Recebeu e gastou uma parte com doces para a molecada e me trouxe o resto, com a cara mais santa do mundo. Depois descobri a mentira. Bato bato, a senhora não escuta todos os dias? bato, ponho de castigo, e o cara lavada... O ‘cara lavada’ estando longe, ouve os meninos enquanto a mãe tramela mais algumas horinhas com a outra e corre ao serviço atrasado, dar de mamá à gulosinha, a comadre também nas suas lides. Eu escapava de novo, Maria. Aposto como, se vocês morassem ainda nesse tempo perto de nós, arranjaria um meio de encrencar a sua com minha mãe... E isso seria uma guerra, maior que a Guerra, seria maior o bate-boca das duas, porque dona Chica era igualmente linguaruda, não era, Maria; me desculpe, Maria.


16° - Um Capítulo pra Não Ler
         
          Agora, Maria, vou contar umas e outras do peralta que me sai; são coisas feias, peço até que feche os olhos (ora bolas, como dormiria com eles arregalados... cada bobagem dizemos!) feche melhor ainda os ouvidos pra não escutar as atrapalhadas que fazia seu esposo, disse ‘fazia’, quando moleque. Outras coisas você sabe e viu de sobra quando éramos vizinhos. Tinha fama de arteiro, por muito praticar atrapalhadas. Não sei o que passava por minha cabeça, pois perpetrava meus planos sozinho, executando a safadeza sempre com ajuda dos meninos; sozinho sim sendo quase anjo ou faltando pouco; digamos que individualmente era tímido e inclusive vergonhoso: junto no bando virava chefe da bagunça e quase não poderia de sã consciência pôr a culpa do malfeito noutro moleque. Agora, certas coisas fazia só e também acompanhado, aqui mal acompanhado, se quisermos ser mais justos no julgar. É exatamente onde quero chegar, Maria: nas coisas que se não falam e sabemos existir. Moleque não é bicho do capeta, como dizem? porque existem atos praticados dos que não se pode creditar-debitar aos santos. Um dia... cê me acha prolixo? bem, Maria, creio andar temeroso no entrar nas minhas sujeiras, sujeiras mesmo levando em conta ser na época uma inocente criatura. Boa hora a discutir até onde somos inocentes e que é inocência numa pessoa, mas voltemos ao problema. Ocorreu nesses tempos que nos reunimos, a turma baguceira quase toda, nos reunimos no meu quintal, debaixo da mangueira copada, sol alto, calor, as galinhas olhando curiosas como sempre e o Rex a fazer gracinhas aos meus amigos. Pois bem: resolvemos levar a efeito uma sessão de porcaria. Você costuma dizer nas suas lamentações que “homem é tudo porco”, palavras suas, Maria. Pois homem, sobretudo na sua apresentação moleca, é sujo por dentro também; é na melhor desse pior ‘falópico’: só pensa ‘naquilo’, não digo o que vem a ser ‘aquilo’. Prefiro pôr o pingo – não diz o ditado que para quem souber ler um pingo é letra? Ora, fizemos uma sessão de masturbação, explícita, e nos esquecemos o perigo que corríamos por ter a mãe a procurar-me para levar a roupa ou ir dar um recado, que são trabalhos miúdos e bem adequados a garoto. Então aconteceu... Ela nos pegou no flagrante e... bem, foi uma correria, até o doninho do Rex se esqueceu não poder fugir para sua casa por já estar no seu quintal! Foi o dia em que mais apanhei (após meu retorno ao lar; no caso voltei espreitando o pedaço; inclusive chamei um irmão para sondar o ambiente:) não foi a única feiura praticada porque noutros dias já fizera e faria coisas piores. Uma vez atirando pedra num menino sangrei-o, apanhei de varinha até sangrar também; e a família teve ainda de pagar a farmácia e ouvir desaforos. A mãe tinha razão a meu respeito – não era flor que se cheirasse. Isto repito sempre e sempre usando as palavras dela. Você me conheceu já um pouco melhor, não foi assim, Maria?



17° - Saudade da Saudade
         
          Parece que vou falar uma bobagem, Maria, mas creio honestamente não fosse mau garoto; poderia dizer noutras palavras: praticava safadezas inocentes... E o pior disso é ter saudades disso. O que vem a ser saudade. Suponho não estar afirmando nenhuma coisa original – a saudade é lembrança agradável e sentimental de si mesmo; temos saudade de nós mesmos e quando lembramos alguém e dizemos “ah que saudade de fulano” temos mais apego ao que nós fomos vivendo com fulano. No meu caso um garoto estabanado arteiro mas bom; bom? pelo menos inocente fazendo o que fazia junto aos outros meninos. Porém fazendo artes só possíveis ao capeta! que seja e aí se revela a saudade que sinto. Não é gozado isso, Maria? Não haja então graça, lembrança apenas. Agora vou falar algo que a chocará, meu bem... ela dorme e não se espantando com o ‘meu bem’ do seu bem, eu. Algo assim pelo menos estranho no pensar comum – sinto saudade da saudade que não sinto mais, ou não expresso mais. Seguinte. Saiba que tenho falta inclusive de nossas brigas. Quer dizer, você ficava falando matracando meus erros, se erros, e eu fugia deixava você sozinha e indo ao boteco. Aí a gente se desentendia por isso também. É isto uma saudade recente. De meu lado não apreciava algumas coisas suas; e, pior: caindo na besteira por dizer a besteira, o melhor sendo calar-me (que é uma forma belíssima e concreta de dizer o que dizer sem abrir a boca; você lembra como você se irritava e lamuriava pelo meu ser; quantas vezes ouvi-a falar assim  “esse homem fala com os olhos e o risinho maldoso, sem abrir a boca!” Algumas vezes eu estourava:) estourava também como quando você cortou e tingiu os cabelos! Não aguentei, disse umas verdades a você e você chorou, perdão Maria! chorou e se sentiu a mulher mais infeliz do planeta, tive de me distrair no botequim e fumar mil cigarros para fugir então de mim mesmo. Ora, me voltou da cabeleireira pra casa parecendo homem com seus cabelos rentes! eu iria dormir com um homem... pensa bem. Interessante haver guardado suas tranças; por que guardá-las se as cortou!?  Bem. Depois me acostumei, não me acostumando nunca de fato; noutras ocasiões pintou os cabelos mudou os cabelos penteou os cabelos e... e permaneceu você mesma! Por que razão as pessoas não se aceitam, eu em nosso caso teria de aceitá-la como não era? Essas minhocas punha na cabeça, sem resolver. E olhe, Maria, eu sempre fui encucado desde molequinho. É bem verdade que havia uns troços que não podendo explicar ficava a me indagar – a mãe não esclarecia, antes mandando a gente calar a boca; o pai não explicava; nem os outros adultos; e os manos mais velhos eram novos para sabedorias, a meu ver, eles não conversavam com os pequenos, em não ser a papagaiada comum numa casa e nada na profundidade. A quem me dirigir quando minhas dúvidas ‘profundas’, se os vizinhos me achavam um capeta irresponsável e com irresponsáveis não se fala sério (decerto pensavam assim, assim eu pensava). Então indo despejar minha ignorância junto aos outros ignorantes: os colegas de brinquedo. Tinha sido assim no caso do Véio, aquele menino que se matara. Agora acontece nos meus sete ou oito anos um assassinato! Como explicar, como entender uma novidade, triste embora mas novidade, novidade esta que interferia inclusive nos nossos diálogos na brincadeira. O homem comum fala acrescenta enriquece essas pobrezas sem pesar palavras; ou diz quase que só a falar, sentir-se; eu um homem comum na forma criança e igualmente as outras crianças: não tínhamos explicação em nosso mundinho da rua. O fato simplesmente foi – era noitinha cedo ainda, eu voltara a pouco das andanças, comera pelos ‘olhos e pelo nariz’, esta uma expressão popular nessa época a dizer pressa; praticara já o ‘pécarimão’ isto é, molhar rápido a cara os pés as mãos para dormir; não tinha ainda rádio e se houvesse a mãe mandaria a gente pra cama a fim de não atrapalhar a audição da novela. Nesse momento ouvimos uns gritos lancinantes na rua 24 de Dezembro quase no cruzar da Dirceu, portanto pertinho de nossa casa. Esses gritos cessaram num repente, sem sabermos o que ocorrendo. Nada mais e aí a mãe saiu para saber com a vizinha por curiosidade; esclareceu-se um pouco e já nos mandou pra cama, a evitar chocar-nos certamente, eu não sei. O que digo agora é com base no que soube posteriormente, juntando cacos do quebra-cabeça. Mais ou menos assim: o açougueiro que residia ali embaixo na rua Sete descobriu que a esposa o traía; simulou viagem, a mulher fora acompanhá-lo no embarque na Estação de Trem, aguardara a saída da composição e se foi ao encontro do amante na casa deles na Sete de Setembro como falei; ora, o marido pulou do carro já em movimento, seguiu a esposa, aguardou o encontro e fez o flagrante: com a faca de desossar de uso no açougue (na Coronel Galdino, onde minha mãe me mandava comprar carne de vaca); entrou no lar, o amante pulou a janela, a esposa saiu correndo pra rua, subia a 24 e quase na Dirceu foi alcançada deu os últimos gritos com a faca do esposo-traído nas costas. Noutro dia fui xeretar a sangreira que o chão sugara. O júri inocentou o assassino por afronta à honra; logo estava novamente trabalhando no açougue, nunca mais a mãe me deixou ir lá, passamos a comprar não sei aonde, esqueci agora. É isso, Maria. Caso me perguntasse se tenho saudade do fato, curiosamente responderia positivo... sim da lembrança de mim mesmo, um molequinho arteiro e inocente. Um que desconhecia os horrores que a gente grande planeja executa lamenta vive, ou não vive! Não é uma boa saudade?



18° - Lembranças sem Saudades
         
          Acho que daria agora ótima oportunidade a você pegar no meu pé, Maria. Pois vou falar numas lembrancinhas curiosas, delas não tenho saudade, a gente não tratava do assunto a pouco? Falarei sobre meu desgosto – logo, saudades pra quê... – o desgosto e a irritação por certos cheiros. Veja bem como são as coisas, isto é tão marcante na minha personalidade que ofendeu o Zezinho arteiro, horror da vizinhança comportada; e ofende ainda hoje o Zé, o Zé da Maria, um que os de fora chamam Seu Zé da... como dizem respeitosos, Dona Maria. Isto não sabendo eu se por hipocrisia da educação, visto ter gente que picha longe nossos defeitos; outro dia mesmo, quer dizer anos atrás, outro dia ouvi algo assim: “lá perto da casa da Véia”, a ‘Véia’ era  você, Maria, ainda nova e bonita, eu achando na época. Partamos aos cheiros desagradáveis, ou me desagrado esquecendo o que deva dizer, ultimamente esqueço quase até meu nome... Falei sobre o casario de Marília, não foi? disse das residências de tábuas, a minha, a sua onde morou perto da Dirceu e você não lembra. Tudo de tábuas, podia andar dia inteiro pela pequena cidade no tempo da Guerra – acharia sempre madeira. Alguns moradores eram cuidadosos e de bom gosto: pintavam as tábuas inclusive com tinta a óleo, mais demorado a descolorir; havia, isso lembro bem, uma casa de dois andares de madeira na rua Amazonas, e depois desmancharam – hoje derrubam as de tábuas e re-constroem a casa em alvenaria. Enfim algumas eram obra de arte a embelezar o meio urbano. A maioria caindo pedaços, apodrecendo e, isto o meu melhor pior: oferecendo casa na casa às baratas. Na minha fervia, não se podendo remover uma travessa ou uma tábua para trocá-la por nova peça: era só barata que saía; no calor num voar, a provocar terror e grito da mãe e, por extensão, temor nas crianças da mãe; eu um pouquitito corajoso nisso, era quem deveria remexer nas velharias de nossa casa, a mãe não punha a mão com medo. Oh o cheiro, o grudinho que os insetos deixavam... e deixam ainda pois é da natureza delas; enfim por onde passassem, a deixar cheiro impregnado. E este cheiro não gosto até hoje; tenho um nojo doentio! Outro cheiro me alarmava, irritando em garoto e hoje em velho. Trata-se do odor de pólvora; de tudo a conter na fórmula enxofre. O curioso pra mim nesse problema é o fato de parecer que ao povo repugna o enxofre (que está presente em nós e em quase tudo que usamos neste mundo). Repugna tanto que a crendice afirma ser prova da presença do diabo o cheiro de enxofre. Agora chegamos ao pomo da questão: como um menino arteiro faria não fazendo bagunça de São João, as fogueiras e as bombas, buscapés e coisas desse jaez, ótimos à festa e bom pra moleque molequear assustando outrem etc. e tal. Tal o questionamento. Pois o Zezinho evitava objetos de estouro. Não obstante soltava com os demais os rojões; não, isto proibido aos pequenos os quais apenas ficavam na plateia a torcer e a vibrar. Quer dizer, não ficava eu sem atirar alguns traques ou bombinhas comprados com dinheiro surrupiado na entrega da roupa lavada por Toninha. Com um senão engraçado e/ou ridículo: lavava mil vezes as mãos após, e após cheirava recheirava relavava e ainda havia pólvora nos poros do Zé. De maneira que junho, o mês das bombas e festividades juninas, não sendo o mais agradável ao capetinha que fui. Vê Maria como pus o verbo ir: fui.



19° - Lembrança do Esquecimento
         
          A mãe tá na cerca de balaústres de pau, Maria, a minha mãe; que foi amiga da sua quando seu nascimento entretanto se indispôs com ela não sei por quê. Tá lá na cerca vizinha com a vizinha confidente e comadre. Fala suas coisas, espreito. Logo a conversa muda e cai outra vez nos filhos, assunto obrigatório entre mães, trocam suas dores, contam as dores delinhos, espreito. Eis que se inicia o falar no falar nas minhas artes, invento não sei quê e fujo aos meninos em farra ou não em farra porém bastando um ou dois deles para atrair os demais, aí sim na farra pra valer. Comadre (começa a mãe me ofender e não posso realmente defender-me) comadre tive dez filhos, fora os que perdi ao nascer e antes; pois o Zé dá mais trabalho que os dez juntos! um atentado, comadre, nunca vi coisa dessa natureza (o que prova, hoje penso assim, prova que a pessoa comum não observa as pessoas outras igualmente comuns; porque nas dezenas de anos seguintes ouvi doutras mães exatamente o mesmo dito da mãe!) Contudo não deveria ser fácil tratar das crianças, um arteiro, outro chorando mamadeira, outros mais brigando entre si ou a andar pelo mundo afora, causando preocupação na pobre mulher. O mundo era e é assim. Achava graça na sua desgraça nesse tempo nas questiúnculas domésticas; chama a atenção dum, grita outro, outro ainda vindo reclamar exigir punição a alguém seu desafeto; enfim a mixórdia. Descontrolava a mãe, desandava a chamar um ou outro filho e, aí, enroscava: declinava quase toda a patota para acertar o nome certo, ou a punir o faltoso ou a passar um encargo. O meu nome era demais lembrado porque arruaceiro, estando sempre na berlinda. Deve ser por isso haver sido premiado: apanhava todos os dias; às vezes sem culpa, ou sem culpa a meus olhos. Depois, caso descobrissem o responsável pela encrenca, e eu inocente na coisa: não voltava atrás a mulher, achando quem sabe ter punido algo que eu faria no dia subsequente, portanto a descompensar. Então se revelava orgulhosa e inatingível. Este um dos dramas comuns ao homem comum. Talvez não veja assim, talvez nem pense assim o homem da rua; eu vendo assim. Bem, só uma ou outra vez pude receber seus carinhos de mãe; quase sempre por estar enfermo e então as mães pobres enriquecem de adulações o pequeno. Estarei sendo injusto? Outra questão que lembro na escola doméstica é estar ela na época mui pouco preparada a passar à prole bons modos. Claro que isto não válido às famílias todas, todas pobres como nós; e não só na Vila Barbosa. Quero dizer que ouvia constantemente impropérios em casa, e assistia aos famosos entreveros conjugais; sabia por ver em muitas casas o pai batendo na mãe na frente dos filhos; isto não acontecendo no meu lar, nunca a mãe foi agredida (fisicamente, bem entendido). Ouvia impropérios, a mãe não medindo o sopro das palavras, nervosa, e se encontrava sempre afogada no serviço demais e portanto nervosa sempre; ou seria neurótica, sei lá. O pai não sabia falar manso e baixo, embora um homem bom e melhor que a esposa aos filhos; todavia é aquele negócio: o homem não fica em casa, a mulher no constante contato com a filharada paga o pato; isto um ditado nesse tempo a dizer a sobrecarga e o pagamento exagerado duma dívida. Ele usava blasfemar quase sempre em italiano, conforme seu berço: porco cane, porco ladro e às vezes mais nervoso porco Dio, neste ponto a mãe entendendo o abuso dele o chamava atenção por estar deseducando os meninos; ora, ela fazia o mesmo xingando também. Coisas rasteiras da miséria humana. Enfim o pai ofendia em italiano e sabia em português os nomes feios mais comuns. Dificilmente, entretanto, conscientemente feria um de nós; quase que dirigia o insulto a um ser invisível impegável inexistente. Isto sendo próprio dos homens da plebe. Mas na casa era a barulheira, ninguém a falar baixo, mesmo quando em se tratando coisas boas. O pai a perder a paciência com a criançada barulhenta e não se entendendo: “parece, dizia, a rota da Calábria!” Era bem isso. Agora, outra questão, esta atingindo também você e as outras mulheres conhecidas (não me chame machista, nisto não cabendo a pecha...) a minha mãe a nonna as manas e nossas filhas, quem sabe mais ainda outras fêmeas da espécie... É o seguinte, ouvi mil vezes a mãe nos perguntar se estava quente ou frio o tempo. Ora, como disse ouvi também de outras mulheres; não será uma característica de vocês! Não sei, francamente não sei. Ponho a blusa o capote o manteau?  ou o vestido isto ou aquilo. Ainda as manas arriscavam dar palpite. Palpite eu não dava, dei algum alguma vez a você, Maria? nesta questão específica, digo.



20° - Filosofia de Beira de Estrada 
         
          Eu falo a você, Maria, a coisa tá muito dura hoje em dia; dia desses – quando ainda não entrevado ia bater-papo por aí e você não apreciava... – o João, não é aquele João de minha infância não, outro, você o tratava “Pinguço” e não aceitava nossa amizade, pois o João não consegue emprego, emprego! nem sequer uma tarefa pra fazer e viver dignamente; e me diz: “seu Zé, sou novo pra pedir esmola, sou velho quando peço vaga; vou então morrer de fome!” Agora tá muito duro arranjar colocação. Quando eu criança não via isso: todos trabalhavam e quem não, era de fato vagabundo, vagabundo sempre existiu no mundo. Não ter o que fazer na época seria vergonhoso. E agora? Em casa todos trabalhavam, até nós que não trabalhávamos, até nóis-zinhos, Maria. Fazendo toda miudeza de tarefas como recados, compras, levar roupa, trazer roupa suja pra mãe; varrer... ah isto não gostava de jeito nenhum. Acho que nunca cheguei a terminar uma varredura, completamente nunca: largava no meio as coisas, coisas outras pelo caminho, fugia pra rua. Depois a reclamação dela, com razão e exagero porque vivia a limpar pôr no lugar trocar de lugar os trens. Não quero açular sua irritação, Maria, mas não é você igualzinha à mãe? eu atiro tocos no chão, verdade que faço um esforço imenso a acertar o cinzeiro e o penico, erro, sujo, limpa. Você varre passa pano lustra assopra guarda repõe bronqueia comigo; aí me emendo um pouco, tento, atiro acerto erro jogo no chão e sujo de novo o soalho. Em menino não me preocupava com limpezas materiais, nem com as morais: os homens se matavam na Guerra e eu num tava nem aí lá. Além do mais sequer cuidando de meu corpo; só depois de raspanças maternas, cobranças falatórios e ameaças, só então indo ao banho. Me lembro que na casa a gente usava sabonete Lever, eu deixando ele pequenininho de tanto me perfumar na espuma, cantava – sempre fui cantador e gritão a espantar a casa, sobretudo quando a nenê dormia e eu a acordava tomando bronca da mãe pelo meu vozeirão e por ser estabanado; às vezes no banheiro cantava minhas bobagens, inventava as letras na hora, do tipo ‘sem pé nem cabeça’, por cima das músicas em voga. Horas no banho, como horas ou minutos dos compridos no escovar dentes com Pasta Gessy, de uso no lar. Não é um contrassenso e contradição, Maria? porque afirmei fugir frequente da água e viver emporcalhado. As duas coisas certas... Como?  exagerando no cravo e na ferradura, a gastar rios e pagávamos água encanada à Prefeitura, o pai pagava a mãe ralhava eu gastava; ou vice-versa e dá no mesmo porque a ordem das palavras não muda a feiura do meu ato. Ora realmente saía limpo, gasto mesmo de tanto esfregar a pele queimada de sol agora lavada; ora não entrava no banheiro sequer a lavar as mãos, que dirá o corpo. A mãe: “o Zé parece gato” por temer água ela dizia. Ia sim ao chuveiro porém ia à força. Além de tudo o mais raciocinava na questão da limpeza mais ou menos assim: se suja se lava, suja-se lava-se, e torna a fazer e refazer. Que adianta limpar – o corpo o quintal a casa a rua – que adianta se sujamos outra vez, vez outra a retirar as sujidades! Ou numa nova modalidade contra as sujeiras, pensava que deveríamos deixar acumular restos e apenas quando bastante sujo, então limparíamos tudo de uma só vez, economizando tempo e gasto de energia... Não seria melhor ao mundo o mundo virar um entulho? Pensando bem até que eu tinha ideia razoável (sem convencer os meus:) em vista de o Planeta ser o que há de mais sujo no Universo. Maria, ocê deve ter razão “homem? é tudo porco!” Ela tá dormindo agora...


21° - Sonhando? Insoniando?
         
          O Zé, seu José aos de fora, dentro Zé aos íntimos, o Zé tá se revirando na cama – diz isso o escriba desocupado cada vez mais desocupado e desocupado não produz, como diria o velho italiano: escrever produz!? Não se responde ou se envergonham os escribas. Se vira revira volta à posição anterior, quase do buraco dele sai cai vai ao buraco dela (e ela, a Maria? a Maria:) ela assustar-se-ia, acordando antes de se assustar para assustar-se com o caduco; diria, dissesse: Véio, caduco, tranqueira, não basta não dormir, quer me indormir também! e ele a dar troco de corrigendas anteriores – “indormir não, insoniar” e ela, “sim, tá bom, insoniar” mas não diz não fala coisa alguma a mulher, ainda permanecendo na posição de lado, a posição em que ronca sim, ronca pouquinho. O Zé olha, invejoso do sono da companheira e imediato pensa: ah como seria bom dormir o sono dos justos! entretanto esta insônia, quem pode com ela? e o galo e o grilo e o cão e o capeta do despertador – pedi à Maria trancá-lo no armário, vedar bem seu tique infernal e o taque a me rachar os tímpanos primeiro depois os miolos; ela prestou-me o favor outro dia, sem solução alguma porque os bandidos ‘tic’ e ‘tac’ escaparam do armário e vêm me avisar seus avisos... porém avisar de quê? de que estou acordado!? Contudo agora piorou meu insoniar. Já não posso sequer entre uma tentativa e outra ao sono na insônia me levantar. Ir ao banheiro por exemplo. Em criança tinha medo de cair no buraco fedorento da privada de buraco e não ia, mijava na cerca ou no chão fazendo cobrinhas (tudo a um menino vira brinquedo) ou a apostar com os outros moleques quem fazia mais longe, às vezes para vencer o jogo bebendo água exageradamente só para ter mais líquido e mijar mais alguns centímetros que o adversário; ganhava a aposta. Ou brincávamos de fazer desenhos na areia com o xixi. Era gostoso mas sempre, desconfiados, olhávamos toda hora se a mãe não surgia; e a ralhar dispersando os artistas... Agora? é agora. Este entravamento, as pernas, ah minhas pernas de correr, bater às vezes nalgum fracalhote e fugir dos moleques maiores; fugir correr galgar cercas pular cercas cair de pé; numa certa ocasião não caí bem, caí sim e deu uma dorzinha nas virilhas, deve ter sido por isso que mais tarde estourou a hérnia, esta bolotona do lado direito. Outra vez, naquele dia que fui ver o São Bento no estádio e ele perdeu, o juiz roubou um pênalti aos de fora, houve briga e inclusive tiros – saí com a turba em disparada: quando vi, vi que estava doutro lado do campo, galgara o muro alto caíra de pé, já com dor nas virilhas! Agora? agora é agora: aguente velho, eu me digo, não se lamente a ela, a Maria dorme o dos justos. Tadinha da mulher, se encheu de tanta lamentação do marido. Não posso mais ir urinar, uso o penico, puxo arrasto por vezes derrubo respingos fétidos a feder o chão que a Maria limpa; é uma criatura limpíssima e me dá a pecha de porco, seria porcalhão por urinar! arrasto um pouco a peça, viro-me como podendo e despejo no penico. Sim, jogo algum toco de cigarro na água pútrida e cheirando a amoníaco; entretanto fazer o quê: o cinzeiro cheio. Outro dia piorei um pouquinho, queimando o travesseiro com a bituca ainda acesa. Não sei como isso foi acontecer, prestei atenção tive cuidado ao atirá-la aqui debaixo onde o urinol. A fumaça me traiu, a bandida. A Maria me cobrou, braba. Agora dorme, não ronca.


22° - Velho  no  Contar  Menino  e  a  Intromissão                     Desocupada  do  Escriba  Desocupado

          Então, seria saudade da saudade da saudade o que sinto, Maria? Porque desejo falar agora sobre o tempo da fartura, que é uma saudade não minha mas dos velhos no meu tempo de garoto; do que ouvia contar, portanto também da vivência do Zezinho. Entretanto ocorre um imprevisto, mulher. Não consigo, por mais sopre o sopro da voz pela força da força que tenho lá dentrão, não consigo. Dissesse isso já ouviria seu troco: “Véio, num falei procê não fumar desembestado sem parar! pois é o cigarro o pigarro e a rouquidão pelo tabaco...” E eu poderia de sã consciência retrucar, sem mentir, essa verdade da Maria? Não, não poderia. Contudo tô rouco, quase afônico ou afônico de fato e quase mudo, enfim rouco! e dá uma coisa assim esquisita na gente a gente não poder falar, falar mexer a boca pros lados do buraco dela, em verdade o buraco que forma no colchão do lado da companheira; não sai a voz sai o vento do sopro, tô rouco! Aí então o escriba desocupado estando por acaso desocupado se ocupa a salvar esse pobre personagem Zé que a educação exige tratar Seu Zé, Seu Zé da Dona Maria? ele, ela elona grandona gordona ou só estufadona, um ‘colchão amarrado pelo meio’, oh quanta maldade vizinha! elona estando na posição mais correta, quer dizer: na posição em se deitando de lado, correto no falar zézico para não roncar, roncar sim porém não mais mas menos roncar – a ouvir o companheiro fumar e mais fumar e segundo a oposição afônico do escarro do catarro do cigarro. Daí como ouvi-lo? Aparece portanto o escriba desocupado a dar mãozinha ao pobre Zé e diz o escriba: cê não pode falar, pense; pense apenas e transmitirei pra ela. Enquanto afonia serei sua boca. O tempo da fartura? Dizem os velhos, uns acocorados na posição costumeira do caboclo, outros de pé, tem um seu João da Zefa velhinho velhinho e este sentado numa cadeira tosca a ouvir e a narrar também suas patacoadas. Naquele tempo... ah a fartura, tinha de tudo, tudo plantado, todo mundo a plantar verdura fruta a valer – todos possuindo, não havia fome como hoje! (Todos concordam a verdade que é sua mentira; iriam falar ser mentira sua verdade?) Hoje tem muita fome, naquele tempo... Hoje? o Zezinho olha ver se vê um calendário para achar hoje; tinha um na sala de casa, os de casa diziam folhinha, a mãe a gritar vendo o dia, dia de pagar a conta? a conta. Não tinha na rua onde a velharada a invectivar a fome pondo no lugar a não-fome antiga, o moleque de olhos arregalados; os velhos continuando a arenga, cada qual a somar à soma seu causo; citavam os domicílios, quase sempre roceiros ou os da vila agrária onde todos tendo aquele maná eterno, nada faltando; faltando sim dinheiro, os mil-réis aos ricos, os meninos e muitos pais nunca vendo cédulas não sendo moedinhas de cobre de níquel de prata de ouro, no entanto comida? com fartura! pagar as coisas com gêneros. Ninguém cobrava nada de ninguém, todos ofertando do quintal tudo a todos... Ah que tempo bom hein compadre, ai que tempo! Todavia o Zé se olha e se vê em meio à molecada xeretando adultos e nadinha também falta a ela, menino não se prende não só não se prendendo à Guerra, mas não tem preocupação com mais nada além do brinquedo. Quer dizer, a mãe grita seu nome, vai ver é a roupa ou qualquer chateação ou abominação da incompreensão. Aí eu fugia com meus colegas e a voz dela ia abaixando abaixando até virar vozinha e sumir na cabeça. Estaria ajuntando material para ser depois saudosista? é possível que sim. Estamos nisso, nisso o seu Zé quer interromper o narrar, falar por conta e não consegue, rouco “pareço aqueles franguinhos com pigarro”. Daí a gente atira espalha milho ou comida estragada que ficou na chapa no fogão (e vai ver foi o Zezinho a deixar a tampa meio aberta a caçarola destampada:) e então a barata, cruz-credo! passou lambeu e a gente tem agora de jogar fora “ti ti ti” gri-tamos às galinhas, elas correm vem curiosas famintas disputam entre si lugar a poder mais comer aquelas coisas e aqui tem o franguinho que é pintinho e se pensa galinho a olhar pros lados da choca, a choca dá-lhe bicadas pra não esquecer mais ser menos abusado e ele, coitado, engasga; engasga antes por doença ou com alimento enroscado (digamos uma tripa doutro galináceo agora morto e virado alimento às aves na festança) e tenta, engasgado, e pia rouco mais ou menos como as galinhas de angola no seu tô-fraco tô-fraco, elas falam assim, ele assim. Ou sendo engasgo com milho na esganadice e agora no meio do seu meio os outros a bicar disputar comer grãos e arroz azedo velho estragado lambido por baratas, comem todos como gulosos. Ele, franguinho com pigarro, quase não pode, pode pouco comer com o engasgo, quase nem podendo igualmente falar na sua voz rouca, rouco. Semelhando o Zé, o velho Zé da Maria, agora! E como o Zé superar com seu som-sem-som grosso fanhoso rouco, rouco o ronco da Maria! perdão pela ‘sem-educaçãozice’, repito Senhora Dona Maria do Rosário, a do buracão no colchão, fala o escriba e retoma o contar do Zé pelo pensamento do Zé. Fui sim, reconheço, fui triste, com muita alegria; e a mãe a dizer: “esse moleque é triste, comadre, ninguém pode com ele”. Contava então da manga, a gente com tanta manga a cair no quintal fedorando o chão debaixo de nossa mangueira de manga rosa, mas não: o brutinho querendo manga espada pula a cerca, pior ainda – arranca o balaústre pra passar melhor ao quintal do vizinho, aquele encrenqueiro, comadre, mais essa, comadre – tem sim cachorro lá porém cachorro é irmão de moleque, abana o rabo pro Zé, será capaz de roubar manga com ele, ajuda o Zé a mexer nas coisas dos outros e envergonhar o pai dele, o Zé vai dar uma tunda na bunda do Zé quando voltar da olaria, hoje tá puxando tijolo lá da Conquista pra cidade na construção de um tal de Granito ou Granítico nem sei bem. Hoje, comadre, o Zé apanha, agora após o malfeito sumiu; quando voltar... Eu, Maria, conta pra ela o escriba desocupado conta: eu já nessa altura com a turma da figurinha; e quase nem precisando roubar pra ganhar, pois modéstia às favas era bom pra valer no jogo a bafo e no de parede! Dava um bote certeiro no monte de figurinhas ‘seladas’ isto é postas uma em cima doutra, dava bote com a mão direita côncava fazendo uma espécie de vento e sucção ao mesmo tempo: virava todas de cara pra cima, ria pros moleques e embolsava as figurinhas ganhas, ensebadas de tanto passar de mão em mão. As figurinhas? no tempo, por todos tempos sempre houve as de jogadores de futebol, a gente comprava vindo nas balas – com que dinheiro? ora, da roupa da mãe e além disso descobrira o tesouro: a mãe punha as economias na gaveta do criado-mudo na cabeceira da cama dela e do pai, eu não tirava tudo não, deixava um pouco para ela não desconfiar – e tinha na época da Guerra as figurinhas chamadas “Asas da Vitória” que a gente colecionava jogava ganhava roubava no jogo e estavam num chocolate retangular do tamanho da figurinha. Um dia, no Bar do Kangiro na rua 9 de Julho, um moleque roubou uma caixa de chocolates, jogava fora na rua o doce e só tirava as figurinhas, quem sabe não estivesse atrás da figurinha carimbada! essa com mais valor e tendo moleque que até vendia. Nós não, nós os meninos da minha rua, mas trocávamos as repetidas no álbum ou jogávamos numa disputa em qualquer sombra ou no sol arrebentando e jogávamos com muita gritaria, às vezes com intervenção das mães, visto chegarmos inclusive à briga de tapa e de ficar-de-mal. Aí, quando o jogo andava mais animado e gostoso, ói a mãe chamar a gente pra ajudar lá na casa. Um dia estava assim no bate-boca com os garotos, o bolso já cheio de tanto ganhar deles – a mãe estragou mais uma vez. Não obstante sequer era para limpar o quintal com a vassoura nem pra olhar a mana nenê, era para tomar banho a fim de ir ao barbeiro. O pai já em casa, o caminhão descansando, era sábado, ia fazer a barba, todo sábado sendo assim. Me levaria cortar o cabelo. No Piola lá na Avenida; o Piola era o barbeiro de confiança e amigo do pai. Eu ficava vendo revista, vendo pois não sabia ler, enquanto raspavam a cara do pai; após punha o Piola uma tábua nos braços da cadeira-de-barbeiro, eu sentava vestido nos panos brancos do homem e vai tric-tric-tar a tesoura e o nhec-nhecar da máquina manual de aparar os fios, vezes sem conta ela mordia puxava o meu cabelo e eu me irritava me mexia gritando. O barbeiro gritava também me gozando: “ué ocê num é homem!” Não era, que me importando? Me importando mais por chatear-me o pichar meu time; o Piola como toda a colônia italiana na região sendo palmeirense, “parmerista” dizia meu velho, o qual não era pelo Palestra Itália mas sampaulino, eu também; acontece que meu time andava ruim, em 42 e 43 fora campeão mas em 1944 andava mal das pernas e aí eu tinha de aguentar as gozações. Por fim chorava pelo amor ao São Paulo F.C.. O pai pagava, íamos embora, eu de volta ao seio da mãe – que não me deixaria ir badernar com a molecada. Cheguei em casa, numa ‘cara lambida’ como dizia a mãe sempre ao me ver de cabelos aparados quase careca me deixavam no salão de barbeiro; curiosamente sequer me notou, fazendo as coisas dela. O rádio barulhava nervoso a gritar “pílulas de vida do Doutor Ross” e desandou numa cantoria louca.
23° - Continuação do Contar do Velho do Menino     do Intromisso do Escriba Desocupado
         
          Um dia fui deixar um recado à mulher sobre não sei quê e ela quando voltei do bar, irritada por minhas biritas inocentes, me soltou os cachorros “Véio, ocê queria furar o papel?!” Eu não entendi, esperando explosão pela minha inocência no boteco, não: mostrou o bilhete que eu fizera, o lápis quase furara a folha, tão pesada minha mão. Senti um alívio e me perguntei – oh que negócio é esse de a Maria nem dizer nada da pinga nem do cigarro e investe num pobre bilhete com mal traçadas linhas! Então me alembrei Dona Alice me pegando no pé por... não, aqui me engano pois D.Alice do Primeiro Grupo Escolar onde fiquei uns três dias somente; quis falar Dona Tomásia, mulherona até mais estufada que a esposa aí deitada no seu buraco, foi a professora que me ensinou a ler e a escrever os meus garranchos, claríssimo não haver ensinado a garranchar mas isto arte do aluninho; ensinou-me a escrever – não para fazer mal feito o bem feito do bilhete porém para a vida – não obstante ralhava comigo toda hora igual a mãe; a mestra não aceitava que eu apertasse muito o lápis no papel; só uma vez furei a brochura, no geral além da sujeira pela mão suja ficava tão marcada a folha do caderno que se dizia podendo um cego ler-me pelo tato a passar os dedos na dita folha; e acho que era verdade o ensinamento, porque ainda hoje não me eduquei nesse sentido. Então, assim a Maria me deu bronca danada por causa do bilhete, ganhei uma não-raspança etílica e tabacosa, se é que me expresso a contento. Outra vez, isso toda noite quase, a Maria me chamando atenção pelo contar de meu contar: “parece disco quebrado repetindo repetindo, não vê que foi sonho!” E eu – mas como, Velha, como poderia estar sonhando se andava insoniando!? Vamos deduzir disto dito redito que não me queria bem então a esposa... até hoje me olha me cuida e... ah um dia peguei-a desabafando com a vizinha, a mesma que por trás pichava minha Maria como sendo um colchão amarrado no meio e duas tetonas assim, essa tal; daí desabafava igualzinho a mãe ao menino. Dizia bem a seu feitio “Deus me livre e guarde se ele (eu) faltasse; porque fuma demais e tosse sem parar, a dar medo na gente; o que seria de mim, dona Zefa!” Eu? eu fiquei todo inchado de orgulho ou de vaidade por ser gostoso pra minha velha, esta aí no afundado de colchão dela. Curioso, da mãe não tenho tanta lembrança carinhosa. Porém lembro sim o que fazia de bom. De mal é mais fácil lembrar; e também das outras passagens no equilíbrio entre o mal e o bem, como o pai falava sempre “num fede nem cheira”. Quanto a beber já não corria risco de cirrose... a Maria aí, essa não me deixava beber a dizer que um dia a barriga estouraria e tudo o mais. Nisso não parecendo a mãe, o pai nem podendo tomar uns tragos por fígado doente. Mas tenho outras recordações interessantes da mãe. Notava o costume dela no passar roupa, era demais trabalhadeira e não parava. Aqueles ferrões de brasa, esperava toda vida esquentar, às vezes aquecendo demais então passava na base do ferro vela pra não grudar e queimar a roupa. Entretanto muito pouco permanecia o Zezinho vendo a mãe, corria logo aos brinquedos ou a brigar com os manos menores; com os grandes não, e com a molecada raramente me desentendendo. Também nas horas vagas e não sobravam por excesso de trabalho, a mãe ainda costurava. Primeiro naquelas máquinas manuais e cosia mais à mão ainda, a remendar nossos remendos ou a reaproveitar roupas usadas pela escadinha: a filharada dela; de um que não mais servindo pelo crescimento, passava – e aí consertava a veste – passava a outro filho menor; não se perdia nada, nada se podendo perder aos pobres. Depois o pai comprou-lhe máquina usada Singer ou Pfaff ou qualquer coisa assim; de maneira que agora costurando com ajuda dos pés e a correia pra virar lá em cima a máquina. Sairia uma obra de arte? isto não sei por que moleque olha e não vê, vê tanto quanto vendo a Guerra. Ainda assim eu brincava na geringonça de pedais pra baixo e pra cima quase no solo, como fosse um carrinho; levava umas palmadas merecidas; e chorava, fui sempre o mais chorão da prole, ela dizia eu concordava, por dentro, por fora a soluçar igual vítima. Enfim era mulher trabalhadeira. Por vezes serzindo um rasgo e ao mesmo tempo escutando novela no rádio, sempre altão; quem sabe a superar o altão maior da gritaria adulta e criança dentro de casa! Outra coisa tenho na memória, que me lembro e lembrei à Maria e ela balançando a cabeça: “outra vez, Véio!” outra que me alembro da mãe era sua referência constante a uma irmã, minha tia, defunta: contou recontou muito mas nunca soube direito o nome da morta, pois referia-se sempre em termos de a “Finada”, semelhando o resto da gente do povo que assim se manifesta; e igual à gente também endeusando a morta – a ‘Finada’ virando santa e tudo o mais. Talvez sendo um bem nós não nos lembrarmos das patifarias dos antepassados. Falava sim dos mortos e vivos seus parentes, a mãe dela por exemplo; a Finada era quase obrigatório nas suas conversas no lar. Certo dia achei graça quando afirmou para a vizinha-comadre: “a Finada viva era...” Enquanto isso o Zezinho já sumira na rua, ‘finado’ e ‘acabado’. Mas isto já é um acabado de pensamento.

 24° - Exortação Escriba à Traquinagem Menina
         
          Tenho um escriba àtoa, não se ofenda, por favor, dou um sentido benigno ao menos manso ao seu atoa pra falar desocupado; pois que a esposa, elona aí do lado a roncar e quase nem mais escuto, estarei além de afônico a caminhar para a surdez! sei lá, elona também àtoa; aqui não por ela haver desistido ser velha rezadeira como me saía últimamente e estando agora mais para ateia, daí pensar-se mal dessa minha cara-metade pichá-la ‘atoa’; e nisso me ofenderia. Preciso afirmá-la atoa somente no caminho sem caminho a dormir dormir roncar roncar, roncando quase nadinha de lado. Pois é, é também atoa como o escriba: ambos não produzem, palavra peninsular daquele velhote o qual propunha ao pai não me mandar à Tomásia. Contudo o tró-ló-ló para dizer que devo usar ainda sua boca, devo? posso? a falar o que falar para elona; e me dá uma agonia não poder diretamente contar. Contar o quê? ora, minhas trapalhadas de menino arteiro, ‘triste’ no depoimento materno. Sabe perfeitamente como a gente comum gosta de dinheiro, gosta? adora e isto fá-la nunca ateia porque o dinheiro é seu deus, bem menos que a elite essa classe alta e favorecida, esse extrato rico e minúsculo da população não é pelo deus como a pobre, ele é o deus, se acha deus por ter o deus-dinheiro. Chega de prolixar filosofia barata sim mas não, convenhamos, sem sentido. Partamos às minhas inocentes traquinagens. Aqui envolvendo o deus. Um dia peguei-a em flagrante (e ela pegar-me-ia posteriormente num flagrante também e me bateria de varinha ou de cinta nas pernas e na bunda, claro armei depois um berreiro de atrair a vizinha-comadre, “que foi! comadre”). Não me refiro à Maria aí a roncar e dirá ela eu o roncador amanhã cedinho, não a Maria; e acha que a Maria chegando ao ponto de bater-me por inocentes contravenções! Sim, tem mulher que bate no marido, na rua de baixo tinha um caso, na Dirceu homem era homem... Falava da mãe. Ói eu ‘oiando’ (a gente lá era inimiga do grupo consonantal ‘lh’ como outros matutos) olhando o quê? a mãe fazer bem feito um mal feito: tirando moedas às escondidas dos outros no quarto, tirando-as do cofre. Explico. Nós tínhamos um cofre-forte equivalendo aos inexpugnáveis a ladrões de casa rica – um cofrinho de barro, grosso, rústico, vermelho, descascado, lustrado pelo uso; com uma fenda apenas e suficiente a passar para dentro a moeda economizada, às vezes menor que os destões (ou seja: dez tostões ou próximo a isso) e a dificultar sua saída (eu me perguntando já grandinho: e posteriormente quando enchesse não teriam de quebrar mesmo a retirar a fortuna do cofre! aliás eu faria depois exatamente a arte mas sem saber o porquê:) O caso da mãe era um ‘roubinho’ santo para comprar umas coisas em falta no lar, um vendedor esperava na rua com sua carroça de ambulante a freguesa aflita. Bem. Olhei. Vi. Gostei. Experimentei a fim ter numerário para comprar doces e agradar os meus amigos, sempre fui prodiguinho com eles e isso decerto por ser escorraçado no lar e me faltando lá um pouco de carinho sobrando varinha. Importa que não mais me apertava, faltando dinheiro, com o tesouro familiar sito na gaveta do criado-mudo. Aprendi a usar uma faca fina dos trens de cozinha da mãe, uma feita sob encomenda e ajeitada entrando na fenda do cofre, chocalhando um pouco para acordar as moedas a dormir lá dentro. Digamos: chocalhava num plá-plá o cofre de ponta-cabeça e lá no escuro do cofre o dinheiro roncava com vontade de sair, tomar ar, vir aos meus bolsos quase sempre sujos furados e com figurinhas carimbadas, não: só uma vez consegui uma carimbada, valiosa, a dar-me prestígio junto aos colegas e a mostrei para eles vaidosamente como um butim de guerra; ah a Guerra onde se matava e se morria, eu só na brincadeira. Então chocalhava, extraía o tesouro, reguardava o cofre em cima de um móvel (desconheço o nome da peça, sei grandona e altona para minha pequenura dos sete anos ou menos:) guardava e dava no pé, afoito como qualquer menino, uma vez esbarrando na mãe e quase derrubei a mamadeira da Terezinha na corrida – a mãe a falar e me gritar a intempestividade e eu já longe nem ouvindo, rico sim com duas ou três moedas tiradas do dito cofre. Certo dia, aí um desastre consumado: extraí um destão, não cheguei ao segundo, derrubei inadvertidamente o cofre pesado com tesouro, espalhando tesouro por todo o quarto da mãe, certa moeda atingiu fazendo ‘tlim’ o penico debaixo da cama por fora, entenda-se, e os cacos fracos da fortaleza se misturaram às moedas inteiras, todos esparramados a barulhar o chão. Encurto o curso do futuro imediato daquele presente no passado na Vila Barbosa: o ladrãozinho apanhou de cinta, a cinta do pai pelas mãos da mãe, a cinta grossa e dolorida por dura. Um mês de castigo, o qual abreviei bastantinho numa semana apenas, fugindo. “Comadre, num posso com essa cria!” Não podia mesmo a pobre mãe.



25° - Uma Seriedade na Brincadeira
         
          Agora num tô no brinquedo, sujo, remendado quem sabe, ao lado de mil moleques a ter razão, isto porque aprendemos desde pequenos (e tem sempre um que espichou além dos outros meninos, quer falar fino fala grosso, quer impor falar grosso fala fino e às vezes até apanha dum pixote no grupo) sim aprendemos em criança sempre a ter razão, este ‘sempre’ proposital neste pensamento – transmita desocupado escriba a ela, ela não costuma aceitar e me bronqueia... porém diga a ela assim mesmo. Todos querem ter razão, ninguém tem razão, o gargantudo aqui achava sempre andar certo na brincadeira. Agora está silencioso – vê olha intimidado sem intimidade com aquelas coisas! Aquelas coisas? o banco, a balbúrdia que uma casa bancária em plena...  ah parece-me ser uma segunda-feira braba, e a moleque só pensando na brincadeira veja bem: a ele não existem segundas. Fui com o pai – decerto para comprar sapato não alembro bem; e aí passamos no banco, ele e o filho com ele – fomos à Avenida Sampaio Vidal , já haviam empedrado a Avenida com paralelepípedos e o banco e os outros bancos também estando nessa área. O pai trajando a roupa costumeira, sujo até, a mãe só conseguiu que ele limpasse a fuça e as mãos, ia a qualquer lugar sem reserva e sem vergonha por ser conscientemente um trabalhador honesto; mas suado, eu achava a catingar um pouco as suas sudações. Bem, entramos, seria Banco Bandeirantes ou Brasileiro de Descontos depois Bradesco, este nascera na cidade mesmo ao tempo do Coronel Galdino. Enfim entramos, eu vergonhoso por ver tanta gente, acabei de pé num canto os bancos de madeira já tomados, a esperá-lo. Foi conversar com o Tatá, um sujeito popular simpático baixinho e sorridente e que mais para diante virou prefeito, enfim o Tatá amigo do pai, o pai fizera carretos ao homem, que me pareceu espécie de gerente daquilo tudo; mas andava lá em conversa certamente de dinheiro, o deus dos pobres dos ricos e do país quem sabe do mundo. Demorou o suficiente na gerência a assustar a impaciência dum moleque e depois saiu do compromisso e me chamou a ir fazer o que fazer. Enquanto, espreitei aquelas doiduras. A gentarada a se espalhar nas filas quilométricas de alguns passos, a gente na expectativa e numas conversas abafadas, sussurradas! em suma a se espalhar no salão, nunca o Zezinho havia flagrado tão grande espaço apertado por todos os lados com paredes altonas. Havia um balcão de madeira onde podia ver com o nariz se tanto ou a ficar nas pontas dos pés curiosos; e avisos e cartazes pregados por todo o meio. No balcão doutro lado funcionários; muitos em gravata e achei aquela vestimenta bonita, não conseguindo me imaginar a espernear qual fosse um dependurado na forca, a forca que também desconhecia apenas vendo uma na matinê do Cine São Luís na rua Nove. Via o movimento da gente, a conversa baixa da mesma. Um funcionário advertiu alto um molecão por estar nervoso e impaciente, batendo a ficha metálica numerada de sua vez ao atendimento no balcão, a fazer um barulho como batistaquinha irritante, mesmo pra mim um moleque de rua acostumado à baderna da periferia na Dirceu. Parou o bruto da civilização endinheirada, saiu sem graça e se sentou aguardando a chamada num dos dois caixas; estes assinzinho de papéis de carimbos de almofadas de canetas-tinteiro e de notas – puxa, nunca havia flagrado tanto dinheiro; imaginei não coubessem as rodinhas de metal e os papéis novinhos no cofre que eu ainda não tinha descuidado derrubado espalhado apanhado de cinta por causa. Estava nisso, sério, quando o pai me acordou me chamando ao mundo, o mundo de fora de dentro do banco. Encontrava-se de boa cara, decerto conseguira sei lá se empréstimo se receber o tijolo que levara a construir a residência do alto funcionário. Daí saímos ao fora de fora. Era isso. É isso.
26° - Vitória da Guerra Sobre o Menino
         
          De repente me vestem me calçam, e como incomodam meus sapatos! botinas de arranhar os pés e irritar os miolos, me fazem bonito. Eu me achando um horror de beleza, a ficar envaidecido perante os outros moleques descalços na poeira da Dirceu; para tanto fui mostrar-me com trajes elegantes, os quais não passavam de calças curtas novas consertadas dumas de meus irmãos mais crescidos; uma camisa acho que vermelha porém não sei descrever; e um chapéu – não um chapéu do tipo que os caboclos exibiam a esperar condução na rua Coronel Galdino com suas matulas e compras da cidade indo de volta para a roça nos sábados e nas segundas, não desses chapelões com abas largas: um capacete de fibra, comprado para a ocasião; qual ocasião? Já contei isso ‘ene vezes’ à Maria, conto uminha vez ao escriba por desocupado, que reconte à minha esposa (e receba no meu lugar sua bronca; até vejo antecipadamente ela a dizer-lhe desaforos: “Véio caduco, a repetir e...”) Na ocasião sequer ouvia novela mas acompanhava sim no rádio o programa do Nhô Totico a imitar escola a professora de voz grossa e os alunos burrinhos, achando então graça e me agradando mais o reclame do Capacete Ramenzoni “o capacete ideal que me protege do sol e da chuva que me fazem tanto mal” dizia, eu redizia aos meninos na roda de brincadeira, geralmente assobiando por dificuldade sempre em ter a letra na cabeça. Pois era desse capacete (bem a gosto da Guerra já que os soldados tinham capacetes e é aqui que entramos na tal ocasião:) capacetes andavam em voga e isso pareceu-me o fino do luxo. Posteriormente, nos primeiros dias, não tirava o chapéu sequer dentro de casa, ou só após o discurso da mãe, a qual me ameaçava continuando a usá-lo sem parar, ameaçava sim usá-lo como urinol, um absurdo que eu cria e temia, sorria o mais amarelo possível e guardava então a cobertura em nosso quarto de irmãos briguentos; ainda assim temendo que o capacete se mudasse à cabeça dum mano desafeto mais afoito. Foi nessa dita ocasião o comprarem o dito cujo para completar com as botinas a apresentação daquele dândi duns sete aninhos. De repente ói eu na Avenida; não: na rua 9 de Julho quase na Avenida, ficamos bem na frente da Farmácia União, de costas para ela e de frente sim ao Bar Central, o do Kangiro. Pra quê? ora, àquela festividade: a Segunda Guerra vinha visitar Marília, trazer seus Pracinhas aos conterrâneos, mostrar medalhas e condecorações por atos no Velho Mundo, que eu desconhecia onde fosse. Isso. Valeu o aperto e as bolhas nos pés? Uma festa com banda hinos militares “por mais terras eu percorra, não permita Deus que eu morra sem que volte para lá!” dizia a marcha, outra “Avante, Camarada!” e eu e a meninada toda repetimos tais canções de guerra pelos dias subsequentes, com ótimas desafinações. Agora, não me lembra se imitamos marchando, à feição criança ou macaca, as marchas guerreiras a desfilar. Sequer sabíamos, embora o pai getulista, que a pátria então dirigida por ditadura e fora forçada a enviar os Pracinhas para combater ditaduras lá longe mais violentas que a de Vargas. Não lembro nenhuma referência nisto pelos adultos à minha volta. Descontando aqui que menino não presta atenção no que deve mas apenas no que não deveria enxeridar. Pois bem, a cidade todinha (isto decerto um absurdo só não maior que o absurdo estatístico; este acusando mais de 80 mil habitantes, aqui a descontar o fato de o município ter uns 20% apenas na zona urbana; mesmo levando em conta tais absurdos, abuso maior seria toda cidade estar amontoada à espera para ver de volta seus heróis. Não iremos a outro absurdo, este mais concreto, a crer que um Zezinho tenha o cálculo e o absoluto dos números na cabeça de lua... coberta com Capacete Ramenzoni:) enfim a comunidade todinha apinhada a escorregar nos paralelepípedos cheios de pontas e desiguais da rua Nove; todo mundo a se empurrar, a fechar as frestas sobrantes possíveis a uns olhinhos numa alturinha lá embaixo – pra ver o desfile, as bandeirolas as fitas verde-amarelas patrióticas. Ora, descontando esses menos, o Zé viu entre buracos oportunos os uniformes, quis ver mais, escorreu como se escorre por baixo do pano no circo e se entra pra ver o elefante e o palhaço. Porém mais ouviu que viu; e que ver quem não sabe – se é necessário saber para distinguir! “Olhem lá o Cabo Marcílio!” viu por entre pernas adultas, por entre frufrus de saias, por entre sombras e panos um cortejo e muitos uniformes, armas a brilhar. Ah, sim, não agradável: tomou um pisão de excelente ai e ficou com marcas no lustrado da botina; e isto ainda mais marcante a um garoto que é o cheiro, cheiro da pólvora e do petróleo entre fuzis e sabres e carros-de-combate e a bandeira, esta a tremular indiferente. Pois ventava; não sendo em virtude à festa mas porque a região inteira na crista dos Buracões é passível do deslocamento bravo das massas de ar. Contudo valeu, ou pelo material recolhido às conversas meninas ou pela dor nos pés. Em casa o primeiro ato do Zé, e me recordo como hoje, foi atirar longe o calçado e sair mesmo bonitinho e luxento a se sujar na rua com os outros de experiência semelhante ou a estourar de vaidade exibindo-se aos que não viram. Nas lembranças ligadas a esse período heroico e patriótico, ficou também ao Zezinho o aparato na escola da Tomásia, onde se perfilava e os outros alunos para ver a bandeira hasteada a cantar o Hino Nacional; que de resto semelhante em todas escolas na época da Guerra e da Ditadura, porque as ditaduras têm na exarcerbação da ordem a ordem de ser patriota, ao menino futuro cidadão. Ainda assim desafinávamos impatrioticamente. Nós as crianças preferindo bem mais correr sujos na rua sem patriotadas porém com mais liberdade.



27° -  A Gorda do Magro
         
          Era um pequeno pequeno, desocupado escriba, isto pode e deve transmitir à minha senhora, à elona aí ao lado; pequeno ainda duns cinco anos e então me levaram ao cinema pela primeira vez, acho que ao São Luís (na rua Nove e não na rua São Luís) por parecer que o Cine Marília ainda em construção; fomos à matinê; os franceses mandavam na língua e os americanos na arte cinematográfica, pelo menos aqui assim. Nós matutos só mandávamos na interpretação da língua e do cine deles e dessa forma no vocabulário nem matinal nem vesperal queríamos, a usar ‘o’ matinê à tarde. Interessa agora tão só a fita, sequer a companhia a meu lado, esta tendo certeza não ser os meus pais porque o pai trabalhava inclusive nos domingos e no sacrilégio pichado pelos parentes por trabalhando igualmente em dias santos; e também não a genitora porque a mãe ficava prisioneira de si mesma pondo a culpa na filharada e nas tarefas domésticas que a prendiam (ora, como outros encontram um minuto ao seu próprio ser! isto indaguei mais tarde imberbe adolescente aborrecente e irreverente:) portanto não os pais, creio a companhia a me levar ter sido um de meus irmãos mais velhos. Todavia o que interessa mesmo – o filme. Via o seriado sim, pra depois sair na rua com os meus bagunceiros a imitar o xerife, a falar com os outros numa embrulheira inventada imitação dos mocinhos e bandidos, num bangue-bangue de arrepiar, a que chamávamos em onomatopeia gringa ‘camã’; muitos eram os convites “vamos brincá de camã?” que aceitávamos alegres a matar e morrer de mentirinha sem qualquer verdadona com a Guerra. Pra mim funcionou mais a comédia, não podendo ler legendas por rápidas e por analfabeto; nela as fitas de o Gordo e o Magro, em voga por dezenas de anos. Vê-las comecei creio aos cinco e depois prossegui assistindo anos seguidos, usando moedas que o pai me dava ao ingresso à bala (doce) e à pipoca para ver balas zunirem e atrapalhadas do Gordo sobre o Magro (este seria pelo estado atual meu preferido...) e ria a valer, todos a gargalhar! Ria tanto que outros assistentes se riam de meu riso solto e escandaloso; então se perguntavam como podia um gurizinho entender as cenas sem acompanhar as letras. Contudo, isso o que peço aos desocupados passarem à Maria, não acostumada com o estado afônico do esposo; não nisto! Nisto o quê? o que irei contar a medo e com o pensamento silencioso, quase afônico também no pensamento, ou a mulher explode e aí o escriba e o desocupado saberão com quantos paus se faz uma canoa e falam ser com um só. Isto é o seguinte: um dia passamos, o casal, perto duns conhecidos, realmente desconhecidos pois o ser humano é sempre um desconhecido, e ouvi uma afrontazinha velada, a torcer eu que ela não tivesse escutado. Bem, os maldosos pensaram alto nestes termos: “olhe o gordão da magrela”, ainda puseram reticências a melhor ferir-nos. Referiam-se ironicamente à Gorda e ao Magro aqui, aqui a relembrar as fitas do Gordo e o Magro, que fizeram época não só na minha época. Entretanto devo agora concordar com os maledicentes porque a companheira aí no seu buraco força num peso pra baixo bem o pobre colchão, que foi novo quando nossos filhos formaram uma vaquinha, assim se dizia à coleta de meios; e compraram um de molas, agora velho aos dois velhos. De fato ela ficou gordona, grandona, parecendo até haver crescido, absurdo; eu encurtado na magreza, outro absurdo; não aqui não tem absurdo: encolho encarquilho-me na velhice na tosse do tabaco. Isto sim pode dizer a ela sem receio. Pode sem receio, mesmo porque anda seca mas só nos sentimentos talvez por sofrer e balofar; não obstante apenas azeda e ralha comigo porém nunca o faria ao escriba desocupado... Anda sim seca e descrente, não parece a mesma velha rezadeira como tive oportunidade falar. Vivia nas missas da paróquia e nos terços do bairro e, pior, queria me empurrar ateu pras suas rezas. Daí ocorreu um desastre: soube duns sacerdotes beberrões bem conhecidos na cidade e se deparou com um “padre sem-vergonha”, palavras dela. Então parou e quase secou, inversamente estufando roncando, roncando menos de lado como está agora.



28° - Outra Visão do Planeta ou Foi o Mundo
       que Cresceu!
         
          Diga pra ela diga, o absurdo dum presente que ganhei, escriba desocupado, ou me sobrará contar direto após me soltarem o gogó... Do presente nesse passado quando o Zezinho era futuro. Não daqueles de aniversário com bolo e velinhas, isso nunca houve em casa, quando muito a mãe me dava um beijo, recontava o natalício anterior (quase sempre alembrando alguma arte praticada). Enfim não havia festa, festa apenas porque a mãe resolvia preparar algo que a gente apreciasse, um mano do meio adorando geleia de morango, morango coisa rara na cidade; outros com outros gostos; o Zezinho louco por batatas fritas e aí ganhando como presente não precisar comer arroz e feijão e batata como ‘mistura’ e ainda sendo pequena porção a contar mais o volume de arroz com feijão no prato; não! nesse dia ingerindo a esganadice apenas comer batata frita sem admoestação. De resto mistura ao Zé menino era carne. “Comadre, esse moleque parece onça; dá verdura não come, dá batata não come só frita; ainda separa os pretinhos de queimado no prato... não quer nada, só carne!” Não desse tipo de presente o presente a que me refiro, mas o crescimento do mundo, o qual ganhei numa tarde; o pai me trouxe uns óculos, porque Dona Tomásia dizia que eu não enxergava nem o caderno, que dirá a pauta e menos as letras. Eu seria... ela se expressou assim diante de meu pai, o velho ficando até inchado de orgulho se orgulhava tanto dos filhos pra si o suprassumo da sabedoria era cada um de nós; pois é, ficou vaidoso quando a mestra disse “o Zezinho até que não é muito burro...” quer dizer minha burrice era satisfatória. Completou a professora gordona como agora é a patroa aí deitada – entretanto o rapazinho não enxerga bem e por isso não aprende. Se o senhor não levá-lo ao oculista nem sairá do primeiro ano! O pai arregalou os olhos então e noutro dia o caminhãozinho ficou descansando na rua Dirceu, coisa ótima aos meus colegas que adoravam esvasiar os pneumáticos dele e brincar embaixo da carroceria. Então folgou forçadamente o pai para me levar no médico, parece que o Dr. Gelás não lembro bem. Fiz os exames, temeroso, chorei pra não perder o costume e voltamos à nossa casa. O pai foi nesse resto de jornada trabalhar eu brincar, antes fiz umas coisinhas que a mãe mandou. Noutro dia ou foi ainda depois tardinha me aparece o pai com meus óculos, umas lentes quase dessas que a gente vê nos outros os outros lá longe e os olhinhos petiticos assim a dar enjoo na gente. Pesadas, do tipo de fazer calo no nariz e pesar também machucando as suas hastes de enganchar atrás da orelha. Enfim um troço incômodo, para não se esquecer jamais. Bem. Logo seria a novela, o rádio tocava as músicas da mãe (se aproximava o carnaval e o aparelho gritava escancarado e escandaloso; aí teve ela de abaixar o volume ou ninguém se entendia sobre meu inesperado presente...) era portanto quase noite e fui ‘comer pelos olhos e pelo nariz’ a cumprir o ditado e me deitar sonhar, nessa época desconhecia a insônia só o sonho sabendo, a sonhar com a armação e as lentes novas. De maneira que só no dia imediato não fui brincar por não saber andar direito com aquelas lunetas no nariz; fui sim, fui mostrar e o fiz com grandeza os meus óculos à criançada, ouvir dela gozações e até a inveja de alguns moleques. Isso, isto é, os óculos, me deu uma outra visão do universo no universo de meu ser de menino. Passei notar tudo grande, tudo via monstruosamente volumoso no mundo. Teria estufado o planeta! ou era que eu me tornara um ser poderoso como os heróis que via na matinê, vencedor de mil batalhas! Contudo não era bem isso: começava aí meu tormento. Porque não há pior a um moleque que se suja descalço a correr por aí, agora tolhido medido controlado por um instrumento quebrável partível com ameaça de surra pelo prejuízo que iríamos ter. Foi um pôr tirar repor tormentoso aquela geringonça de tortura. Tomar limpar sujar limpar lavar guardar derrubar quebrar apanhar (os cacos!?) e apanhar na bunda. Em fases distintas e quase disciplinadas a um desordeirinho contumaz, foi um limpa perde acha usa derruba quebra e a guerra, não a Guerra a guerra: a luta o falatório familial, ofensas mil até recompor finanças para adquirir nova tortura. Mas, dirão, por que o moleque não atirou aquilo naquilo; naquilo leia-se a privada de buraco, não tendo mais agora esta na casa, era agora a ‘privada patente’, falavam assim do esgoto encanado do sanitário oficial. Jogasse no mato, desse ao Rex pra mastigar... bem que o cachorro ficou meio arisco por ver o amozinho mascarado com lentes. Nada disso era mais possível ao Zé: tirasse aqueles vidros embaciados de sujeira suor e lágrimas: já não veria o mundo, ou é que o mundo encolhera! Absurdo. O tormento daquele presente prolongou-se num ad aeternum apenas até hoje nesta cama a comportar um idoso inveterado fumante...



29° - Onde se Discute Validade dum Reserva que     Não Marca...
         
          Estou contentíssimo com meu descontentamento, meu caro escriba meu caro desocupado, mui contente com sua boca – só saliva sem sal; pior: sem conteúdo para cima da Maria. Contentíssimo e ao mesmo tempo aflito em pôr, repor, revestir a camiseta do time e defender apesar de possíveis vaias as cores do meu clube; que meu substituto, à feição de todos reservas incompetentes, que enfim ele receba cascas de banana latinhas de cerveja pedras e ainda tome aquele nome dirigido à sua digníssima genitora, isto por não haver sequer atingido a trave que dirá marcado gol! Peguei pesado? perdão mas o escriba não dá no couro... E além do mais sinto-me bem, já fumo outro já ansio quem sabe dar um pulinho no boteco, bater aquele papo com os amigos entre um e outro copo e... ah não posso, é verdade, não posso deixar minha cama, entrevado, fico no meu buraco no colchão, observo o dela, da Maria? da Maria; e devo eu mesmo contar de agora por diante como jogador titular nessa partida (aliás é a continuação da disputa, não é o começo não é o fim...) Contudo, agradeço, agradeça por sua vez as vaias da assistência na geral e nas arquibancadas; entre, saindo, você no túnel e suma em suma. Isto porque parece me desengasgo, embora convalescente e ainda o pigarro no escarro do cigarro (ela diria: sim, pelo cigarro!) estando qual o franguinho engasgado mas piando menos descontinuamente. É isso. Retomo portanto o lembrar, e a falar através de meu próprio bico, à Maria. Coisas que vi que vivi em menino, sua família tendo se mudado da Vila Barbosa e aí você não sabe, sabe por mim agora; do tempo que se seguiu não preciso narrar em vista nos contatarmos e o termos vivido juntos; não foi assim Maria? Pois bem. Dessa maneira vou lhe contar o lixo. Não era como agora alternada a coleta nem a sacola, os pobres cães precisando furar o plástico para almoçar. O Rex mesmo ele poder-se-ia orgulhar a poder então derrubar as latas entornar espalhar os restos e banquetear-se; donde veio a pecha de vira-lata aos seus congêneres concidadãos caninos... O Rex era autêntico cão de pobre; tinha sim galinha pra correr atrás e se divertir; podia visitar os ninhos – havia uma ex-donzela conquistada pelo galo, aquele que cucurucava às seis horas acordando suas fêmeas e a gente por volta, a mãe a dizê-lo descontrolado e maluco trabalhando noite toda a cantar na madrugada; eu não escutava coisa alguma dormia o sono dos justos; não senhora, não insoniava não roncava não fumava ainda e ainda não bebia: só dormia e sonhava a correr dum molecão japonês, o Yoshio, que se mudara ali perto e me ameaçava bater apenas porque eu havia jogado pedra na vidraça da casa dele errara acertara a japonesa; tem razão, Maria, não sonhava mas sim pesadelava. Retomemos a coisa, a ex-donzela se pusera pôr ovos e a escondê-los atrás da bananeira do vizinho (o encrenquento) o Rex encontrou o tal depósito de ovos, o focinho a lustrar, a língua a lamber o nariz e aí... – e aí a mãe descobriu a malandragem, castigou o malandro, deu-lhe uns tabefes, fez o pobre esfregar a fuça na terra misturada com clara e gema; tive de interferir, implorar o perdão ao Rex, chorando, eu a chorar e depois por isso levei uns trancos e gritos dela, saí de fininho. Mas por que este trololozão! a dizer que o Rex tendo brincadeira, restos de alimento humano ressecado e com formiga, água na latinha (aqui entra um senão: a mãe dizia “o fia... e aí se xingava, esse capeta não põe nem água ao cachorro; aqui é assim: pegam animais pela rua e na hora de tratar sobra a quem? pra mãe!”) e tendo ainda ovo nos ninhos; então, para que o bruto precisando derrubar a lata do lixo vizinho a encontrar carniça!? As latas de lixo eram postas sempre a fedorar na rua, usando-se as latas de óleo vazias cheias de porcariada a cachorro remexer. Alguém perto punha no mourão da cerca, não havendo muro de tijolo na casa de tábua, era cerca de balaústre, visto o muro de tijolo sido inventado pra pôr coisas em cima (uma vizinha, cabocla como nós, dizia “in-riba”). A mãe usava lata de folha de flandres como quase todos no bairro, uns punham nuns caixotes de madeira o seu lixo, a mãe numa de óleo de vinte litros e isso me ajudando na alfabetização, pois as letrinhas que Dona Tomásia me ensinava e que brigavam com as linhas da pauta eu as soletrava, lia, relia, labial e sonantemente, vendo a lata de lixo no chão, ótimo aos rex desta vida soltos a tombar e espalhar e fedorar na Dirceu. Se havia muito cão vadio? vixe! se tinha e tinha sim a carroça, isto dando um capítulo especial; contudo em resumo, eram carroças mesmo, vinha um serviçal impiedoso, laçava o pobre, embora os choros meninos por perto, grudava o brutinho e atirava na gaiola da carrocinha! ah, diziam que depois fazendo sabão com os prisioneiros! puxa fazer sabão com meu Rex! Eu sei que na ameaça da passagem da carrocinha por nossos lados os próprios meninos se avisavam do perigo: era um esconder e amarrar cachorros; o Rex ficava uivando suas tristezas, quando devera era gargalhar a vida poupada; coisas de cachorro. De maneira que eu lia as latas derrubadas ou de pé no chão e isso ajudou-me. Lia também, às vezes precisando acompanhar a deslocação do veículo, a carroça de lixo onde eu lia gaguejando “Prefeitura etc. e tal” e assim recebendo noções de cidadania e política, embora molequinho. Como agora dia sim dia não? não, em todos dias. A gente já sabendo que vinha a carroça, o Rex e seus amigos avisavam infernavam as famílias, quem sabe a repreender os vizinhos que porventura houvessem esquecido pôr seu lixo; latiam incomodando certamente os animais atrelados; ou não incomodados devendo ter já os ouvidos moucos dos abusos dos vira-latas por todas as ruas; a se provar que o mariliense não comia cachorro, só porco vaca galinha e mil outras omnivorices, isto estou inventando agora caso não exista o vocábulo; com certeza não comia cachorro, talvez fizesse churrasco de gato. Os lixeiros chegavam gritavam recolhiam latas batiam-nas na caçamba da carroça, soltavam depois o que podiam do lixo não preso no fundo, deixando o resto do resto grudado no recipiente a feder com as latas atiradas a esmo no chão; tinha um funcionário amigo e educado a gritar: “D.Maria, eis sua porcaria!” e depositava com respeito a lata próximo ao portão dela; por vezes na área restrita duma vizinha encrenqueira, esta sempre a ter consciência de sua propriedade na propriedade municipal; e isto quem sabe pra haver depois bate-boca, não havendo outras causas anteriores como um filho respondão e briguento; as crianças brigam, fazem os pais brigarem e depois brincam entre si enquanto os adultos boquejam. Nisto eu era um prato cheio às vizinhas da mãe, para a mãe mostrar às escondidas a língua para as outras. Aí eu apanhando ou ficava de castigo; no entanto fugia para brincar na Dirceu. Além do mais o lixeiro deixava sua catinga ao passar e depois de passar ali na frente. Já no centro urbano se limpava e se fazia a coleta mais civilizadamente e vou contar porque vi muito. Um dia estava enrabichado ao pai, o pai ia ao Kangiro tomar cafezinho e contatar serviço como por exemplo arranjar quem precisando areia de estrada; eu ali a mastigar meus doces, quando observei a carrocinha de lixo. Mais ou menos assim: o funcionário, um velho negro, ia varrendo a via pública, ajuntava o lixo que o vento espalhava na 9 de Julho na guia entre o paralelepípedo e a calçadinha, colhia os restos com pazinha e vassoura, colocava numa lata de uns vinte litros aberta – já o burro inteligente dava três ou quatro passos donde estando estacionado, parava e o homem punha nas costas da carroça, batia a desprender teimosos restos no fundo da dita lata; a seguir dizia qualquer na linguagem carroceira como “eia!” por exemplo, o outro entendia andava, lento e sem grande entusiasmo para mais três ou quatro passos à frente; estacionando a carrocinha azul desbotada com legenda da prefeitura (eu lia me aproveitando da oportunidade de alfabetização, mui ‘aplicado’ que era...) Contudo o lixeiro nada dizendo, a falar parar, ao colega de trabalho: o inteligente a estacionar sem mando a condução. Aí, mais adiante, se repetia a dose. A rua Nove brilhava então ao sol, limpa. Aliás uma característica, a orgulhar nós bairristas, uma desse tempo e pelos anos dos tempos seguintes à cidade era a limpeza. Embora descontando a poeira e os voos de matéria solta em razão da ventania. Vento é outra característica de antes do homem povoar a região, durante o povoamento; e com certeza após nosso desaparecimento em vista do mal uso e do abuso da Humanidade sobre o Planeta – o vento em Marília é bem característico; isto por causa da topografia, os Buracões que nos rodeiam e à urbe. Sorri eu decerto àquela brincadeira da limpeza que se fazia na zona central. Porque a moleque qualquer seriedade cai na brincadeira, qual um carnaval inacabável. Contudo o garoto cresce e... e encurtemos: será que a Maria ouviu bem! Antes de me responder, acresço um adendo. Seguinte, na questão em que digo a repetição da dose, na limpeza de rua, notei que a dupla parou, o homem esbravejou como um calabrês, embora como disse velho negro, o outro defecou, o que comum numa terra e num tempo de cavalos amarrados nas portas dos bares e a sujeira condizente; então o burro ou égua sei lá, ele despejou suas fezes irreverentemente; o homem falou mais umas boas com os braços (pois na distância não poderia ouvir o Zezinho:) o animal-de-quatro num tava nem lá; daí o outro se abaixou, recolheu o monte do colega de trabalho, derrubou o monte na carroça; e se foram, terá desfeiteado o burro? Que acha, Maria. Puxa, agora é a Maria que num tá nem aí.


30° - Carnaval da Vida
         
          Quem sabe Maria não esteja seu caduco companheiro a abusar afirmativas, mas creio ser – não só a da criança irresponsável e feliz, ela como um todo – sim creio ser a vida uma ilusão. Tá certo, não sou original e que ganha uma pessoa sendo original! são palavras soltas no mundo, também elas uma ilusão auditiva a tentar apenas embelezar as feiuras ou o suportável do concreto. Não entendeu nadinha? é por roncar, não: roncar suavemente deitada de lado em seu afundado de nosso colchão. Porém o que desejando mesmo passar é que fui na meninice um carnavalesco. Bem, a tratar de carnaval preciso se faça um adendozinho explicativo: carnaval de fato só o do Rio, quem sabe o de Salvador ou o do Recife, no restante do país e sobretudo nas pequenas cidades ele não passa de arremedo; quem sabe um folguedo sem grandes exigências; assim o da jovem urbe tida por ‘Cidade Menina’. De fato fui um carnavalesco mas não devo exagerar; entretanto o ser humano é em si exagerado nas apreciações e nas medidas que usa para apreciar o que vê. Vi o carnaval. No meu tempo não sambei como pudesse imaginar no entanto pulei como toda gente na Avenida. Ou melhor a ser exato: assisti com os meus o corso carnavalesco as folganças as máscaras os cantos, as marchinhas que nos ficavam na cabeça tempo e que o rádio nos martelava repetindo ao lado de seus anúncios dos produtos e lojas do comércio local. Cordões, lança-perfumes, confetes, serpentinas; e até ouvia ao passar na frente o barulho nos salões – o dos Alfaiates mais popular e os clubes da elite rica. Na rua a rua era do homem da rua; a pular gritar cantar gozar; eu e os meninos de nosso bairro arremedávamos o que ouvíamos na noite anterior. A Jardineira? a Jardineira, por que tão triste? alegre, e isso se repetindo anos incrustado na cultura nossa. A propósito, Maria, cantei algumas vezes procê a Jardineira e recebi admoestação: “Você não tem ouvido!” e eu: como ouvido, ouvido na boca? Enfim os nossos contratempos conjugais. Voltemos ao carnaval. Eu via os foliões e me divertia, porém moleque se diverte fácil, participa se arrojando no chão a colher serpentina e bugigangas mais. Vendo o desfile dos ‘carrões’ na Avenida, que era a de mais movimento; num correr atrás dos veículos e do cortejo, não obstante adversão da mãe, a esbarrar em fantasiados; estava num lugar onde todos têm vez e alegria, onde a ilusão e o esquecimento da responsabilidade quiçá da falta do básico no lar; enfim estando entre os que se esquecem de tudo ser ilusão. Mas garoto não precisando esquecer, pois vive a ilusão. Digamos que seria uma brincadeira dos grandes aceitando a brincadeira menina. Contudo, isto é só um registro, o registro da folia. Então voltávamos pra casa, a nenê dormia no colo da mãe, a mãe ao lado do pai a andarem numa cadência sem disciplina, os sonolentos ou eufóricos filhotes por perto. Os meus irmãos adultos um ou outro com a gente ou indo às suas moradias. Todos a comentar ou rir ou criticar este que outro folião; e também os deslizes e até mesmo tragédias sabidas; um apaixonado na Avenida esfaqueara o rival que teimava conquistar-lhe a esposa. Minha mãe fala baixinho, cuidando que orelhas zézicas não a xeretar, fala ao Seu Zé do Caminhão, o “intaliano” diziam vizinhos. Todavia o carnaval não é bem o oposto à tragédia; ou é a tragédia do homem comum nesse alegrar! Não sei, você sabe, Maria?



31° - Capítulo pra Não Ouvir    
         
          Não sabe, Maria? Não deve agora também escutar... Poderá escutar inclusive meus roncos que não produzo; você me afirmando ouvi-los, vira-se pra lá e ressona, ressona noite inteira. Entretanto insonio e ouço seu ‘ressonar’, embora menos alto que de ventre para cima... Em que ficamos! não importa, importando no momento que ressone alto para não me escutar. Era menino, arteiro, fugia para essa imensa cidadezinha, a me perder pelos bairros que nasciam – ninguém me segurava, muito menos a lamentação da mãe. Um dia exagerei no exagero, fui bagunçar indevidos lugares. Teria meus onze ou doze anos e me pensava homem, me punha homem, do tipo machão pra valer, me engrandecia perante a molecada pequena e uns grandotinhos. Creia que fui parar no meretrício! feche mais suas orelhas ou se envergonhará de minha vergonha. Seguinte. Andei, sozinho, pela Rua Bonfim e imediações, escarafunchei a Coroados e a Rodrigues Alves; perambulei horas sem fim, do sol após o almoço até antes da janta – o que uma eternidade a menino e maior eternidade à mãe: comadre, que faço, aquela peste do Zinho sumiu faz tempo, só vi ele no café, tinha o café pra torrar, nem o Rex notei e... Lamentava preocupada a pobre dona Antônia. Quanto ao Rex fora atrás de mim e se envolvera com outros vira-latas os quais acompanhavam certa cadela cheirosa, um carro, me falaram, um carro o pegou. Chorei dias sua falta; a mana caçula armou um berreiro sem tamanho quando comunicamos o desaparecimento do amigo. Então nem sabendo eu sobre o infausto acontecimento e batia perna por aí. Segundo meus informantes mais experientes no meu bairro, a rua Bonfim era o paraíso; e a natureza em cobrança confirmava isso; mas eu tremia. Realmente, apesar ser um capeta não passava dum garoto tímido e vergonhoso; fora de seu meio sentia-se estrangeiro e nem abrindo a boca. A mãe, “o Zé é um bocó” não o meu marido, o Zé é inclusive falador demais quando nervoso com a gente, o Zezinho é um moleirão, arteiro encapetado porém saiu da bagunça não fala nem forçando a envergonhar por caipira; a Dona Tomásia disse que... Eu perdido naquele achado. Achado não, pois planejara em conjunto com a molecada um passeio de conquista; no entanto meus soldados não apareceram no local de batalha; agora o general marcha no seu vigor. Caminha pra lá, olha, volta pra cá, vê, titubeia, anda, para, olha; se interessa pelo pouco movimento, desconhecendo que a boemia apreciando mais a noite e noite a menino é pra dormir sonhar; insoniar se se estiver nesta cama e a fumaça do cigarro não atrapalhar a visão. Bati horas pernas os pés na poeira daquele antro, agora de mulheres dormindo ou a lavar suas roupas nos quintais nas casas de madeira e a estendê-las aos curiosos verem. Ele por exemplo. Aí leu, meio aos solavancos leu: Boite Guarany, num itálico grande e vistoso. Ora, desconhecia o ipsilone, era estranho no ambiente e não sabia o que vinha a ser boate; contudo qualquer coisa lhe inspirava ser coisa boa; ou algo excelente guardado em segredo. Além do mais num prédio de alvenaria pintado recente! Isso um acontecimento num meio urbano de madeira. Resolveu ter coragem, a coragem permitisse; a curiosidade auxiliou um pouco, penetrou no pórtico por escadinha mansa, a porta fechada mas a qualquer menino não existe uma fresta? digamos a da fechadura... Olhou; apareceu ao lado no corredor uma senhora volumosa pintada nos beiços, quem sabe de terceira ou quinta categoria, sorrindo impiedosamente: “o que quer aqui, moleque!” não respondeu, foi se afastando em marcha a ré se pegou na rua e desandou na corrida. Não treinava para a São Silvestre, que engatinhava na época e teria seu herói no Dermânio Lima, um moço moreno que trabalhava no cinema. Não, queria chegar rápido à rua Dirceu. Voltou, não levou surra por crescidinho, ouviu umas boas em casa e não pôde explicar a ausência nem sequer o desaparecimento do Rex. Noutro dia, na roda amiga, bravatava à patota 99% de conquistas amorosas e um-porcentinho de verdade, a verdade que estivera em carne e osso na rua Bonfim mal afamada da moral tacanha vigente. Não escutou, Maria? não, sim fez bem.



32° -  Vendo, Pensando
         
          Tô ficando um velho ranzinza. Debalde a mulher me chama caduco, eu pensando andar bem equilibrado. O buraco cresce. Crescia, fala-pensa o Zé. Um dia, uma noite me descobri no fundo e reclamei com a Maria. O buraco dela, não: o buraco onde ronca e diz não roncar dormir, esse é enorme pelo volume do corpo dela. Tem uma vizinha, tinha pois se mudou daqui, ela pichava a Maria como “saco de gordura amarrado pelo meio”, ah meu Deus se a Maria ouvisse...  a Maria, quando nervosa, fala horas no meu ouvido, sem parar. Todavia verdadeiro sim que é inchadona e grande; e aí afunda com o peso, o seu. O meu tá grande, tava. Aí as crianças, a gente trata os meninos ‘crianças’ mas são adultos e casados, deram-nos inclusive netos lindos, tem um pequenino grudado aqui no vô. Então os meninos perceberam meu afundado no colchão, me deram bronca por fumar muito e compraram depois outro colchão para nós, este de molas; agora já meu corpo miúdo de velho magricela está cavando um buraco novo. A mulher gostou da troca e mais por eles me chamarem a atenção pelo abuso no vício. Quer dizer: inverteu-se a questão, eu quem corrigia os filhos antes... não, a Maria falava e pegava no pé deles por causa do fumo. Agora a vez deles e fico quieto. E se soubessem que são alguns de seus filhotes que me trazem às escondidas o cigarro... A Maria, a Maria é como santa: faz de conta não saber da malandragem dos netos, quem sabe condoída pelo esposo. Os tocos no urinol não perdoa, não gosta e briga comigo. Neste momento dorme de lado, de barriga para cima ela ronca assustadoramente, assustador à minha insônia.



33° - A Coragem do Temor
         
          Um dia estava a aprender música, Maria. Quem diria não é? a rigor Dona Tomásia ensaiava com a classe uns solfejos para musiquinhas educativas. Porém digo doutra forma: passei frente à casa da professora, ressabiado um pouco, um pouco curioso, não: bastante, ali embaixo na rua Sete de Setembro onde morava; encantei-me com o som do seu piano, nunca vira um, só violão sanfona e pandeiro, enfim xeretava apenas, apreensivo. Isto porque li labialmente a placa no portão dela ‘cachorro bravo!’ não, o ladrar grosso já avisando suficiente uma fera; tão só porque temia a mestra, devendo temer mais meus pecados nas bagunças na aula; temia a senhora, uma verdadeira ‘titia’ como pichávamos as solteironas. Braba, enérgica ao menos, eu tendo medo; contudo não deveria ficar demais temeroso, pois não houvera levado até à época nada além de uma reguada, como resposta de meu desentendimento com os colegas: atirara um lápis num, acontecera imediato uma guerrinha de borrachas e cadernos com xingação entre os alunos, xingos chãos e nadinha educados, enfim baixo calão no estilo em que eu era mestre... A régua quase quebrou-se na minha cabeça, não mais que isso. No entanto temia e tremia diante dela. Devera isto sim tremer com a mãe; a mãe realmente a falar sempre e sempre bater. Um dia abusou por meus abusos, vai escutando Maria, me trancou no quarto, nem virou a chave e sequer precisou fechar a porta... fez pior: escondeu minhas calças e não podia sair de lá! Foi longe a coisa, até eu bolar uma fuga decente – tomei uma dum mano, ficou enorme em mim, fugi como um pássaro à liberdade ou libertinagem na rua. Depois retornei apanhei dormi, dormi sem janta. Uma fera aquele dia a mãe. Bem, se tinha razão? excesso de trabalho mil coisas domésticas e quem sabe rusga com o pai. Se mais braba que você? ela ganhava de 10-a-1 docê, pois eu um só pra você e ela tendo dez filhos; chegou a mandar um dos casados certa vez calar a boca. Encrencava com nosso pai também. Ele nervoso, falava às vezes altão e manso (nunca me bateu, Maria, nunca; enquanto que ela...) Relembro o velho na sua posição de pensar, pensar as coisas dele pois cheio de trabalho e compromisso; a posição de bule? acho que sim, escorava a mão direita espalmada na cintura, na cinta dura que a mãe arrancara uma vez duma calça dele em uso e me batera... por quê? sei lá, quem sabe o muito pode esquecer o pouco; o pouco nisto seria o porquê da surra e me lembro o conjunto, no conjunto apanhava pra valer dela. Suponho que em virtude dessa desvirtude impunha mesmo ao marido; será que o pai a temia!? Outro costume dele era, distraidamente, ficar unhando com o indicador o outro indicador; aliás herdei isso dele e você já cansou de me chamar atenção, não é assim Maria?



34° - Discussão da Discussão
         
          Maria, quero pôr agora em avaliação um drama recente bem nosso – meu seu dos familiares dos conhecidos e mesmo dos desconhecidos, inclusive os próximos distantes que não sabem esse câncer da convivência – nosso drama e de todos provavelmente; que é a relação homem-mulher, ou a ser feliz nestes tempos modernos mulher primeiro homem após. Você se lembra como me azucrinava me pegava no pé pelos meus amigos! “bebuns” dizia, tá bom, bebuns; digo amantes da bebida ou inocentes beberrões a falar abobrinhas e borrachas enquanto a aguardente não fazendo efeito ou exatamente por causa do efeito da cachaça ou mesmo aquele copo de cerveja ofertado por alguém mentirando não ter álcool ser inclusive diurética (você: “água da mina é mais diurética, seu bobo!” bobo eu:) e por diurética e mansa a cerveja a provocar a verdade nos embrulhos do pensar. Por eles, inocentes bebedores a beber para soltar a língua presa e para ter o que falar, preencher o vazio que é o vazio da existência ao ser comum. Todavia longe dessa verdade, me bronqueava. Quantas e quantas vezes não nos desentendemos pela verdade dessa mentira! Bem, estávamos sem sabê-lo a praticar a lição da vida que manda – e os séculos confirmam a sobejo – manda sim haver homem, ser forte grande poderoso sábio (ui!) e tudo o mais; e doutro lado a mulher ser frágil pequeno de meia-sola na sabedoria da cultura e a sobrar nos itens beleza e sensibilidade, já que seu oposto macho é feio grosso e indelicado (no estilo ‘deixe que eu chuto!’) Sem tocar no terreno pantanoso da infidelidade, nisso o macho apontando a mulher a mulher apontando o macho. Isto tudo em princípio e no princípio. Porque o revés e o avesso da moeda; ou melhor dito: no declínio da relação e da existência (poria ‘vida’ a vida mais ampla pois vai além da vida, falando isso o escriba desocupado, nem quero lembrá-lo mas agora com razão; e aí reafirmo no declínio da existência:) exato no declínio... é o que vemos, Maria. Isto me lembra o pai, a mãe, mais a mãe. As reuniões familiais eram indisciplinadas como o viver do homem comum que éramos, o Zezinho portanto menino comum com menos de dez anos. Todos falavam, e a bom italiano todos ao mesmo tempo, falavam discutiam brincavam entre si, se mexiam e relembravam as coisas. Tinha um reclame no rádio, não falei que a gente repetia inclusive propagandas do rádio? ela dizia mais ou menos isto: tome Vinho Reconstituinte Silva Araújo, para a vida. Nossa caçula Teresa nos sai com esta: “manhê, a senhora não vai me dá ruja-rarruja contra vida!?” todos a rir e depois a contar reproduzir a pequena e a recontar na roda de família. Observe o tratamento, hoje nossos netinhos vêm (oh, não poderia dizer à oposição que vêm me trazer escondido cigarro...) eles vêm e dizem pra mim: Vô, você etc. e tal. Naquele tempo à mãe, “senhora”, ao pai “senhor”, como respeito. Ou temor do tabefe na boca por desrespeito. Recontavam isso e causos sabidos; quando não fosse não haver gente de fora aparentada ou só amiga ajudando, a contar seus casos. Era assim. Assim também o desentender, pois o casal brigava... Como nós? quem sabe mais. Eu em roda, de repente fugia ao chamado do ímã, porque na rua meu coração; e no coração dos meninos outros, vizinhos ou não já que aparecia garoto que nunca se vira, virando amigo; para logo depois ser esquecido na fugacidade, como é a lembrança de menino. Contudo o pai, apesar de doentio e sempre nervoso e até irascível pelos negócios embrulhados e a crise, apesar era quase sempre alegre e brincalhão; a mãe descaraterizava um pouco a espontaneidade do velho caminhoneiro, mas assim mesmo entrava com gosto nas gozações no lar; no serviço então se destravava, nas poucas vezes que o acompanhei no caminhão via sua facilidade a tratar, embora grosseiro, os subalternos: brincava falando com os empregados, meros ajudantes nos serviços. Só um lhe encrencou a vida, levando-o à justiça do trabalho e quase o empurrou à falência, sendo seu negócio uma empresa incipiente. Porém brincava e notei inventar nas brincadeiras palavras que condissessem à situação vivida na tarefa. Acho que a irmãzinha puxara a ele nesse mister de inventar vocábulos segundo o som que precisando reproduzir; e eu também herdei um pouco esse talento ou defeito, você, Maria, acha defeito vive a me corrigir. Todavia lembro a casa no tempo de pequeno apenas a colocar o seguinte: a mulher é mais homem que seu congênere-oposição, que é o macho da espécie Homo sapiens. Porque vive sua fase bela e frágil e depois cresce em todos sentidos, agiganta-se inclusive, e vira o homem do homem. Explico. Submete o ser fragilzinho a que nos tornamos nós ex-homens, velhos obedientes à ex-mulher mais mulher e mais ainda homem pela sua força moral; ou seria tenacidade teimosia, tirania?! O velho se submete qual menino. Aí vocês (as fêmeas da espécie) tripudiam, quem sabe não sendo assim palavra tão incisiva forte e abusiva... Tripudiam sobre nós os vencidos. Tadinhos de nós! Nunca prestou atenção nos casais idosos: só ela fala, exige; ele quieto murcho obediente. Sim, não apanha na bunda como o Zezinho, agora um Zé respeitável com direito a Seu Zé e tudo o mais... não é dessa forma, mulher... lembra que “te carreguei no colo, menina, cantei pra ti dormindo”? diz o poeta, confirmo, não confirmo a versão de Chica, a finada, de que eu a derrubara naquela visita criancinha, Maria. E por que será que ela se desentendeu com Dona Antônia minha mãe quando moravam perto? Nós não sabemos. Posteriormente vi você crescer, de feiinha a bonitinha, frágil criatura e delicado ser, passando de bela a gostosura – num foi, Maria!? – e então precisei inclusive disputá-la brigar com os outros rapazes e enfrentar seu irmão e mais Dona Chica que ainda pensava eu fosse o Zezinho terrível, a mãe a lamentar nem o capeta podendo! Venci, tomei-a, casamo-nos, efetuei a posse... ah, Maria, eis outra inverdade: quem ‘come’ quem!? Eu mandava, abusava? percebeu, ainda a amo meu bem... Mas eis que o destino – você acreditava no destino, não é? acho que  depois dos desentendimentos religiosos não crê nele, ou crê! – todavia ei-lo a me ferir, me derrubou o destino neste colchão, me deu o tempo para afundar no meu lado, insoniar insoniar insoniar; e ouvi-la roncar. Você me dá o troco da fase de mandonismo macho: mandona cobradora, me adverte os tocos no chão por não acertar no cinzeiro, olhe como cheio o cinzeiro! olhe; e erro acertando no penico, ou no solo e me grita; e limpa e limpa e limpa e remove e fala e rumina e resmunga. Agora, Maria, uma coisa vou dizer-lhe daquele dia de nossa discussão. Realmente os meus amigos não vêm me visitar, como aliás ocorre com familiares também; e isto devido... devo falar? falo: eles a temem. Medo que você saia com eles nas costas. Peguei baixo consigo? perdão.

35° - Alvo Certo
         
          Poderia atingi-lo, vendo o papagaio alto belo todo remelexos lá em cimão (a vizinha diria “in-ribão”) poderia atingir não atingindo; ruim de pontaria, oh minha cara cara-metade. Porque, modéstia às favas, digo numa intensa e imensa originalidade, porque de fato era bom na infância em tudo; na arte de praticar artes nem se fale, diziam o Zezinho um capeta. Noutras coisas também. Contudo, não tendo pontaria. Certa vez experimentei uma espingardinha pica-pau e o chumbo se espalhou não tirando a vida da pomba (da paz?) pois uma arma de meia-tigela doméstica e artesanal. Nem isso! Com pedra era mais certeiro, mas de estilingue... Deus me livre. Então fizera estilingue, isto sabia, fizera com pedaço de câmara de ar bem flexível e elástica, não das borrachas de agora sintéticas e secas; tomei um pedaço de couro da botina do pai; pensava em desuso e a jogar fora imprestável, cortei a parte de cima, porém só de um pé não estraguei o outro; além do mais tinha um tecido de elastiquinhos decerto a facilitar a introdução do pé ao calçar; enfim daquelas botinas de roceiros. Infelizmente apenas andava encostada porém de uso e aí apanhei bem pelo mal feito... De maneira que tomei a borracha em tiras uma tira de couro, aí entrando no couro como me prometia a mãe pelas minhas atrapalhadas; e por último um pedaço de pau mais precisamente uma forquilha de goiabeira, nisto não vindo paulada por cima do Zé porque a árvore pródiga e rica de forquilhas; é lógico não ter dito à mãe que preferi a forquilha da goiabeira do vizinho, aquele do Peri, Peri o cachorro dele que me abanava o rabo e brincava com o Rex, só o vizinho sendo brabo; preferindo então a dele e não a árvore de nosso quintal – se soubesse ela me esganaria, cansada de bater-boca com a mulher do vizinho, mãe do João meu colega na bagunça; elinho que minha progenitora dizia não ser filho do pai, o nosso vizinho. Por fim pronto meu estilingue fui à caça; eu que não sabia montar papagaio: ora por muita cola, a gente usava às vezes uma planta chamada café-de-bugre tendo umas bolotinhas boas de grude; ou usava arroz cozido pra fixar o papel de seda na taquara; e ainda por baixo a subir o papagaio gastava o carretel da mãe costurar “comadre, mimpresta sua linha, o capeta do Zé surrupiou meu carretel e...” Não obstante meu papagaio não subia; corria corria corria pra pegar vento, não se elevava e às vezes ficava bonito; os dos meninos subindo bonitinho, um dizem virou águia e fugiu nas alturas ou tornou-se balão de São João que a mãe não me deixava soltar: só via os dos outros. No caso do meu papagaio foi diferente, não ganhou altura, antes enroscando no fio de eletricidade a ficar balangando balangando e eu frustrado. Então tomei da arma e me vinguei – atirei uma bolinha, a gente fazia de barro punha a secar ou usando pedregulho da rua Dirceu mesmo; atirei com o estilingue no papagaio do Yoshio e o furei; não queria... queria, desejando acertar mas a pontaria ruim sabendo de antemão errar, acertei; corri do japonesinho por dois dias, dois dias na espreita em casa para ver se não via o desafeto nipônico e que falava engraçado e me dando medo. Até a mãe estranhou o comportamento: “ocê não vai hoje bagunçar!” torrei café varri o quintal dei milho às galinhas para desencanto do Rex, o Rex iria morrer uns meses depois nem eu nem ele sabendo. Aí acertei sem querer e atirei mil vezes, mil e uma, nos passarinhos que desciam no quintal só os espantando – nunca matei ou sequer feri um deles! Mais tarde muito mais tarde quando mocinho no Tiro de Guerra 227 também vindo a ser ruim de pontaria, quando no estande armado no pasto da Fazenda Bonfim entre sadias fezes de boi; servindo de gozação chefiada pelo Sargento e também para os colegas atiradores. Menino, pedra na caixa de abelha e na casa dos outros, sempre não sendo eu para versão oficial, acertava bastante o erro... Agora, naquele agora, minha cara cara-metade a me roncar aí ao lado, naquele dia foi um horror: fazia como alvo o frango carijó da mãe, o dodói da mãe, tudo era para ele; e, me espantei num sábado ela tomando seu frango, já meio descadeirado por meu estilingue, tomou-o, puxou-lhe o pescoço e ele ficou fricotando se esperneando a assustar as outras aves e o Rex, quase no limiar de sua morte debaixo dum carro, o cão ficou a ladrar a novidade. Sim, me espantei porque ela fê-lo ensopado assado cozido, nunca eu saberia dizer nas coisas culinárias. E o comeu como não fosse seu preferido, gostava do pescoço, cada um em casa com sua parte de preferência, eu as coxas do frango. O curioso disto é a mãe sempre deixar as porções melhores supostamente mais gostosas aos filhos enquanto ela tomava qualquer resto da família, o pé por exemplo e agora mastigava valentemente o pescoço do carijó. Naquele dia entretanto apontei a praticar alvo e quem sabe (eu não sabia) virar um soldado na Guerra que findava na Europa, o Zezinho com desconhecimento total só pensando na brincadeira. Por exemplo a brincadeira de acertar o frango carijó de estimação de Antônia. Acertando parcialmente a estimação dela com ajuda do cachorro de minha estimação. E apanhando por isso. Sim, um capeta!




36° - Errado Alvo Errado
         
          Naquela noite, Maria, ocê tendo razão de sobra... ouvi quietinho temendo inclusive resmungar, pelo absurdo do meu sem querer. Lembra, né, você trouxe um copo com água ao quarto para dormir, quer dizer: dormir mas acordando com sede, eu não sabia, juro pela alma da mãe... então juro pela alma da Dona Chica minha pranteada sogra-oposição (ela nunca me aceitou e me tornando um esposo correto me vendo um capeta ainda; tem nada não, juro assim mesmo por sua alma). Então, o copo seu, eu um inocente marido pensando na sua gentileza de companheira: pus a dentadura dormir nessa água enquanto insoniando! aí ouvi, xi, como ouvi, mas dou-lhe razão por aquela noite. Noite da minha noite na lembrança de meu dia na juventude, não: meninice, andava lembrando enquanto seu ruminar o jogo de bilboquê; um brinquedo e outra invenção decerto dos franceses nos empurrando com a língua os modos e as modas. Não obstante gostamos, o Zezinho gostava, e a trempe de rua do Zezinho – a jogar a disputar naquela complicação de acertar o buraco da peça torneada em madeira com um pino de pau atado num cordonê (isto francês também). Aqui duas coisas a esclarecer. O modismo que hoje é imposto, disse imposto, pelos meios de comunicação ao povo a televisão a mais mandona, que impõem até que se fale ‘pipa’ em vez de ‘papagaio’ como dizíamos na época e não lhes interessando agora o bilboquet. Não, não tinha tevê tinha rádio só e o moleque ia pra se divertir na rua; na rua aparecia o costume ou moda que fosse. A gente dizia: agora é tempo de búrica, agora é tempo de papagaio, agora é tempo de figurinha, agora tempo do bilboquê (eu pronunciando “biblioquê”) não sabendo donde vinha, qual origem, o que despertava o jogo e qual mola propulsora (quem sabe lá dentro do coração ou do miolo) a disparar o que todos faziam imitando todos. Enfim se comprava o bilboquê, nós pequenos, inclusive a ‘febre’ atingia os adultos também e mesmo a mãe! nós pequenos usávamos as latinhas de massa de tomate hoje se usa dizer extrato e não massa, as quais abertas, furadas no meio, o barbante com nó para não ultrapassar o furo numa extremidade a extremidade outra enrolada num pauzinho (um dia o Rex mastigou o meu!) e aí fácil acertar encaixar o pau na boca escancarada da latinha: e ganhar! oh queria sempre ganhar, ganhar nem que fosse no grito, dos outros meninos. Entrávamos sem saber na onda, no jogo em voga e, curiosamente, parávamos de jogar, antes praticando todos dias todas horas sem sabermos também o porquê disso. A gente não pensa. A maior parte daquilo que fazemos fazemos sem pensar; ou nunca faríamos ou não mais fazendo. Gente não é de fato um bicho bobo!? O segundo aspecto da coisa toda, minha cara-metade, é que os bilboquês comprados eram no tempo quase somente encomendados ou feitos a pedido, fora os nossinhos improvisados de lata. Havia onde hoje a Central dos Correios a serraria do Casadei; e junto uma oficina, o marceneiro fazia esculpia melhor dizer no seu torno os brinquedos, não sei quanto custavam – menino não pensa nisso como também na Segunda Guerra: só na brincadeira; talvez pensando fossem os bilboquês como o maná caídos do céu, o resto preocupação adulta! como à gente grande o se preocupar com finanças e políticas públicas. Ora, até que aceitável a ideia pois não me preocupando sequer com banho roupa e limpeza corriqueiros... A mãe me pegava no pé, exigia, a fim de o Zé trocar as peças vestidas, às vezes camisa e calça (não usava menino cuequinha ou seria ainda pior a sujidade e o cheiro...) então falava braba: “Zinho ocê num vai tirá o baxêro!” Não sei donde extraíra a palavra mas é verdade que parecia mentira: porque a roupa ao tirá-la e atirá-la num canto indisciplinada e relaxadamente ficava quase de pé, como que engomada ou como feita de gesso, pela sujeira dormida... Não acha, Maria, não acha realmente que melhorei meu padrão de higiene apesar dos tocos de cigarro e esbarrar de vez em quando no urinol e respingar no chão!?



37° - Depoimentos Cucurucáveis
         
          Fiz uma escolha se não inusitada curiosa, a do Galo Cucurucu, às minhas transmissões. Isto porque olho observo a Maria o ronco da Maria que diminui a olhos vistos e me parecendo cansada; não diria abusivamente e de má vontade. Digo que – a descansar a orelha da cara-metade apenas metade vendo dela por estar de lado a roncar menos e quase já não ouço digo – digo haver encontrado o Galo num descuido da insônia que se alimenta de meu ser nestes dias no declínio do ser, o meu ser. Sim. Não, não foi durante o escuro da noite, a noite de insoniar, este escurão a me atormentar, foi depois a lamentar a escuridão. Sim, agora sim, cucurucava suas coisas ao planeta distraído (eu perguntaria: distraído na Guerra!) e cucurucando pude vê-lo contatá-lo, lógico ser numa fresta que o dia me oferecendo desde esta cama este colchão este afundado no colchão em meu lado, o lado da Maria mais fundo visto ser grandona, balofona? balofona, não o Galo. O Galo numa parlamentação com os seus. Desde garoto via conversas tais, ouvia naquele tempo só ouvia não entendia agora sou mais experiente e versado além de no vernáculo coloquialista bairrista versado já na linguagem cucurucu; decerto tanto ver ouvir galináceos. Então o galo, embora da raça índio e portanto bravio, o do vizinho, só não tendo sossego a cantar machuras pelo Peri às vezes pelo Rex quando ia comigo inocentemente roubar goiabas no vizinho as de meu quintal com bicho; daí cantava entoando lindas árias (creio não fosse apenas a opinião do Zezinho mas das fêmeas da espécie, não as da espécie Homo sapiens:) e cantava e falava, falava grosso por vezes a insultar o nosso. João e Zé menino punham-nos a se bicarem e até apostávamos, nisso eu perdendo porque o meu era meio bicha, um termo em voga hoje; se não veadinho meio frouxo e perdia sangrando. Uma tarde inclusive perdeu de novo e perdeu a vida, a mãe me bateu por instigar nosso macho e teve de gastar muita lenha a cozinhá-lo (não havendo panela de pressão, inventada posteriormente a amolecer galo velho, suponho) ou iríamos perder jogar fora carne existindo falta de mistura para engolir com o arroz e com feijão! a mãe me chamava onça devoradora de carnes; sabendo que onça não come batata frita como o Zé apreciava. Outros galos e galos outros vi conheci e os mesmos chamavam as galinhas como fosse que houvesse achado um bichinho mais gostoso e as bobas acreditavam vinham ver e aí pimba! a família crescia com ovos galados... Os ninhos... alguns escondidos não tão escondidos que o Rex não encontrasse, os ninhos se enchiam e o terreiro se enchia, uma graça os pintinhos a piar por volta da choca – a mais das vezes sonsas e mansas – resguardados tais filhotinhos por ela; um dia fui perto duma e ela correu comigo quis me bicar agredir, larguei a valentia perdi até o estilingue; depois passei a atirar pedra na choca só feri um pinto, a mãe chegou, a minha... O galo só curiosando aquele bípede humano e suas mulheres, as fêmeas dele. Porém nunca conversei direto com um galo como o faço agora; agora vi-o pela fresta desde este colchão e o Galo cantou. Subiu no muro do vizinho, um vizinho que tem aves e não cachorro ladrador e o bruto cucuruca noite toda a acompanhar minha insônia, suplanta o ronco da esposa, a minha, apenas ouço. De dia outro dia, como falei, vi-o e propus contar-lhe meus ais e lembranças de moleque, ou seja moleque arteiro, o Zezinho que daria depois Seu Zé, Seu Zé de Maria. Assim comecei, só para iniciar a minha noite ao dia do Galo, falei: Vê que não tem claridade não tem sol não tem dia não tem jardim não tem flor não tem colibri não tem criança não tem sorriso, por isso não tem nada. Só tem recordação. Contudo, tudo bem. Vou narrar minhas peraltices; se quiser saber mais, uma hora pergunte à Maria quando acordar, ela negará a pés juntos haver dormido por causa do meu ronco feito serrote em trabalho na madeira dura; talvez não imaginando a minha insônia. Releve, ouça pois a esposa que tem um pouco do muito que lhe passei. Vou daqui por diante contar então algo, o algo a mais.



38° - A Ventania
         
          Havia prometido à consorte aqui sem sorte dormindo a meu lado; sem sorte por não escutar esta joia literária com que pago certa promessa feita antes agora; agora ao Galo; ou seja o como saiu-se o Zé o Zezinho quando a família se transferiu mudando-se da rua Dirceu para o Bairro Ventania. A Ventania dista uns sete ou oito quilômetros da periferia urbana mariliense e teve, eu penso, a pretensão de virar patrimônio e cidade; não passou dum boteco do tipo casa de ‘secos & molhados’, certa máquina de benefício de arroz e café, um campo de futebol e a escolinha, esta em que me fixarei mais. Hoje a cidade engoliu a pretensão e suas casas e ainda foi mais além, a cidade numa fome de crescimento populacional e expansão econômica. Na época da Guerra era trecho de mata, cafezais com arrozeiros plantados nas ‘ruas’ de café, e lá diante a zona urbana. Aí pelas barrancas a despencar no Buracão (sempre os Buracões a rodear a urbe na crista da ‘serra’, serra não sendo no rigor científico, isto não interessando aos matutos e menos a nós matutinhos de pés no chão:) daí nas barrancas ali perto a olaria da Fazenda Conquista pra onde (o Zezinho expressar-se-ia “pradindonde” e dizia também “nionde?” mui criativo; criador antes de casos e encrencas e depois de vocábulos como herança paterna já disse repito:) para onde nos mudamos; enfim a crise que não nos segurou no perímetro urbano. Daí me mudaram da Tomásia que me alfabetizara à Dona Santa, uma santa tendo em vista aguentar o Zezinho; o Zezinho a desencantou levando bomba – isto forma da época a dizer reprovação; um tanto curioso o fato a um sujeitinho que sequer pensava nas bombas da Segunda Guerra... Enquanto cursava a Escola Mista da Ventania bagunçava a contento. Um dia levou a meninada a mexer com o mico do João Leiteiro, esse o nome do proprietário do único boteco. Aproveitou a hora do recreio e no lanche atiram lanches e pedras no macaquinho do homem, então ocupado com desocupados a tomar pinga e a abobrar as coisas. O mono se irritou; inclusive gente se irrita quando por semanas nas mesmas horas no mesmo lugar as mesmas crianças atiram as mesmas pedras e xingam daquele nome a mesma macaca mãe delinho! inclusive gente se irrita assim; e assim arrebentando a corda que o atava à laranjeira e avançou! todos corajosos e covardes correram... o patrão veio ver, o macaquinho enraivecido pulou no seu pescoço a se vingar dos filhotes de gente: daí Seu João atirou-o no chão e o matou! Trágico? também verdadeiro. O Zezinho disse à mestra não ter sido ele e ninguém provou coisa alguma. Depois, sem quem insultar, levou os seus a brincar nos montes fétidos de palha de arroz na Máquina de Beneficiar. Este pormenor ocorreu depois da Guerra e o Zé ainda não sabendo o fim, sabendo tão só por lembrar inúmeras vezes em que na cidade brincava também nos restos dos estabelecimentos de benefício de café e arroz e nas montanhas de pó de serra das serrarias nas várias Marílias que existiam, como Barbosa Alto Cafezal São Miguel e Marília propriamente dita. Contudo apenas uma vez ele pôs fogo num monte, tendo ido procurar toquinhos de madeira a virá-los carrinhos ou coisa assim; isto acontecendo ainda na rua Dirceu; na montanha de pó da fábrica de móveis do Simplício. Um fogaréu, um fumaceiro de fazer gosto, de bunda a arder e de choro e apreguntação da gente: quem teria começado o fogo... e todos a pensar nos moleques é claro (leia-se no moleque Zezinho Capeta) sem que se pudesse provar. Porque tem um dito, já havia então o mesmo, de que o dono do malfeito nunca aparece... Não apareceu. Uma coisa era certa e continua a ser: na Ventania hoje um dos bairros da cidade, nela ventava venta horrores, qual o Morro e os Ventos e os Uivantes possam existir. Como isto passagem em ultrapassagem nos anos do Seu Zé que fora Zezinho, voltemos, caro Galo, voltemos ao nosso Zé Menino da rua Dirceu, um louquinho por Guerra...

39° - Minhocas por Atacado
         
          Vou te encher os ouvidos agora, meu Gargantudo. Ontem, ou não foi ontem trasanteontem ou antes ou depois, a um velho não tem depois só antes se se lembrar lembro; ontem observava seu cantar. Havia brigado com as galinhas suas fêmeas – e por que razão tão só os homens se desentendam com suas respectivas mulheres investidas de oposições consumadas! creio ser direito também dos galináceos essa conquista – e brigando resolveu puni-las voando ao pico do muro do vizinho do seu vizinho, este o outro meu vizinho, e vi-o se erguer no dito muro bater asas ploc-ploc-ploc e a seguir cantar cucurucar belíssima ária na ópera da vida, a deixá-las, pobrezinhas (eu penso pobrezinhas sem estar do lado delas, veja claro) deixando as penosas com pena delas mesmas, abandonadas. Daí formulei este plano, plano que pleno executo agora a lhe narrar meus atrapalhões na rua Dirceu e nas outras ruas da Cidade Menina ao tempo da Guerra: a Guerra que num tava nem aí com a guerra do Galo com as galinhas, do povo miúdo e menos com a do miudinho de nome Zé. Seguinte. Um dia o menino descobriu uma verdade na sua mentira (o faz de conta) imaginou-se rei ou lacaio herói com certeza a voar, pôs uma certa capa de super, na verdade um saco de estopa encardido com um barbante a amarrá-la no seu pescoço, pleno e desejoso de heroísmo e então saiu voar por aí, de fato só pulando, pulou pra cima no galho da tangerineira, todos dizem pé de mexirica, não sendo tempo das frutas maduras, tomou algumas quase ‘de vez’, ácidas de chorar; a ele uma delícia do mel do Olimpo, onde seria o Olimpo!? não importando se tava no filme é porque era e pronto. Voou raso nas suas alturas e quase caiu do galho – aliás tinha uma expressão popular assim e nunca parou a pensar nisso o Zezinho, um moleque de seus oito ou nove anos quase, mas não se machucando nem quebrando braço perna porém somente se esfolando um pouco, um sanguinho para não berrar um chorão contumaz. Pronto. Chupou aqueles limões e voltou, ainda trajado a caráter no caráter de herói um super-qualquer, entrou em casa meio assustado e a mãe: “menino que arte ocê fez agora!” negação. Nada, mãe. E ela: nós não temos (disse com boa concordância, a ser necessário nisso o escriba desocupado contando o contar do Véio ao Galo, disse “nóis num tem”) não temos pé de mexirica no quintal... tá bom, mãe, o Joãozinho me deu uma só e eu comi... Tá mal contada a estória... Tá bom, tamém a senhora nunca acredita na gente! (chorou, esfregou, limpou olhos e completou:) eu e o Rex e o Peri e o João roubamos tangerina no quintal do pai dele. Pai! disse gritado a mãe; aí se arrependeu ter levantado uma questão que menino não deve sequer desconfiar ou dá com a língua nos dentes... Assim perdoou o filho pelo deslize dele por causa do deslize dela mesma; contudo passou um servicinho em punição e ainda falou a despistar constrangimento “passa, Rex, vai deitá.” O Zé, inocente assim, assim conjeturou alto –  como descobriu! e a mãe: pelo cheiro, capetinha, pelo cheiro do sumo. Ah que grande descoberta. Tem mais, Galo. Um dia, um dia? muitíssimas vezes vi o ‘homem de canudinho’ passar ali. Ele vinha no seu cavalo – se era mula coiceira se burro velho cansado se égua andadeira com sono não sei moleque não distingue as coisas e não importa aqui – importa o homem no cavalo; parava, batia palmas, e o fazia frente a outros domicílios além do nosso e além da Dirceu. Chegava a mãe ou outra vizinha e a molecada curiosa, até as meninas a arrumar cozinha ajudando as mães ou escondidas dos capetas machos, até elas iam ver, curiosas. Então o homem falava o que falar à mãe, rouco surdo lá dentro da barriga dele enfim não mais que num sopro de voz, dizia suas coisas que a mãe entendia, dava restos de nossos restos do almoço ou coisas outras, agradecia o homem indo embora. Depois as mulheres conversavam entre elas daí a gente sabendo: moço apaixonado desenganado atraiçoado tomou veneno, não morreu, destruiu entranhas e lhes puseram um canudo a sair da traqueia, onde despejando líquidos alimentícios; a cavalo no seu cavalo velho, velho também o cavaleiro de expressão sofrida. Ríamos daquilo. Enquanto a comunicação adulta, chuchávamos a barriga da montaria, chutávamos as patas dela com os pés de jogar bola na rua; enfim uns anjos... Quanto a cavalo, era o que mais tendo na vila nova se pensando cidade com prefeito e câmara, mais extensão da roça. Nos bares de então, nos armazéns conhecidos como casas de secos & molhados, nas residências de madeira, enfim por todos lugares lugar havendo como trave para amarrar rédeas; e nisso consequente fedentina das fezes de animais em plena rua; não obstante o cruzar lento dos pés de bode a via pública era pública às mulas e éguas dos lavradores; quiçá as de moradores urbanos; não sendo raro haver animais soltos no leito carroçável; havendo no bairro isso sim muitos cidadãos cujo negócio eram os animais: compra troca aluguel e... ah! já existindo como velho  o mundo – os ladrões de cavalo (uma atividade superada hoje pela da corrupção e da ladroeira de vulto entre a politicalha que nos dita a verdade das leis...) Enfim animais e meninos a valer, a gente grande a trabalhar a fazer as coisas para engrandecer o centro urbano que viraria depois polo regional no Estado. É isso, Galo. Eu, o Zezinho por aí alongado “gato alongado” diziam os meus. A fazer artes. Uma vez fiz, tentei apenas, pois nem sempre era feliz nessas infelicidades; tentei mover a chave dos trilhos do trem perto da Estação. Levei minha turma, a brincadeira era quem mais na arte de conseguir retezar levantar e mudar a chave, para transferir a composição quando passasse para outro caminho (e este daria num armazém e não na Estação Ferroviária, ainda no tempo da bitola estreita, depois instalariam a larga:) Conseguimos mover a chave, com união, a união que faz a força! através de vários braços meninos mas... ih que sem-gracice: apareceram funcionários guardas sei lá, dedados que fomos por passantes incomodados certamente, apareceram e tivemos de correr, depois a nos contar a nós mesmos o malfeito e o ‘pernas para que te quero’. Um capeta? Depois, ah após fomos com uns níqueis poucos alugar bicicleta na oficina do Orlando, um negro bom e paciente com aqueles anjinhos encapetados. Havia na época duas marcas de bicicletas – a Hércules e a Phillips inglesas – outras marcas raro na cidade. As da bicicletaria na esquina das ruas Maranhão e Carlos Gomes eram dessas e bem usadas, andáveis. Caía, eu não dava no couro nisso em contrário dos meus amigos; aqui não sendo chefe, antes gozado por moleirão. Todavia isto arte mansa ao Zé. Dali fui pra casa almoçar e/ou ouvir a mãe, almoçar a janta. Fugi. A pensar só e junto aos moleques outros, formulamos um plano à boca de noite e pior: executamos. Havia nas imediações da Dirceu, acho pela rua 15 de Novembro, um senhor idoso com quintal cheio de gaiolas; vi-as sempre dependuradas nas árvores dele, aquela cantoria de canários. Que fiz, fizemos... pulamos a cerca, abrimos todas, só uma não deu, perto da casa, todas à liberdade dos passarinhos; aí fugimos nós também. Estaria o Zezinho de consciência e sentimentos nobres a favor da liberdade!? qual o quê. Arte arte. Um capetinha falo, meu Cucurucu.
40° - Minhocas II
         
          Meu caro, continuo no minhocar, enquanto no canto seu canto a atrapalhar acordar minha insônia; e daí conto. Andava ao deus-dará perdido pelas ruas da cidade no centro da cidade nas imediações da Avenida, mais precisamente atrás da Estação, no cruzamento ferroviário com a rua Paraná, eu desconhecendo esse nome. Explico: tentara entrar indo na linha férrea e adentrando a Estação mas os guardas, ciosos criteriosos, não permitindo capetismo, embora (não soubessem) eu longe de casa lá na Dirceu e ainda a mãe com as mãos na cabeça enchendo a cabeça do pai o meu sumiço e lamentando com a vizinha-comadre sua desdita: vale por dez filhos! no trabalho que me dá, agora sumiu! Eu longe nos trilhos ao oposto onde não existindo funcionários exigentes e tão chatos. Andei, pulava de dormento em dormento, extraía pedregulhos, de entremeio atirava entremeio às margens da estrada de ferro e cantava: sempre fui desafinado apesar de ótimo gritão, sem saber letras inventava as minhas letras por cima das canções em voga, no carnaval as de carnaval; cantava pulava andava rumo norte da cidade, sem norte porque a menino o norte é não ter norte, não tem direção; a direção é a direção dos ventos, andava andando. Quando me deparei com a surpresa, se bem que para garoto ignorante tudo possa ser surpreendente. De fato estava no fim do perímetro urbano ainda não demarcado ou tão só desconhecido pelo homem comum: a Vila São Miguel; tinha uma igreja  e viu muita terra, o arenito da região; a qual em porções e montes, aí a curiosidade surpreendente: um trator em movimento! Diziam ele e os colegas “istrator”; um amarelo cheio de gringuesas escritas. Loguinho um punhado de moleques ali vendo a coisa, não os seus vizinhos mas os desconhecidos sempre conhecidos porque criança dispensa apresentações e formalidades. Adorou até a poluição cheirosa da queima de óleo cru, raro na cidade pois só sentia o hálito ou bafo da gasolina, sobretudo ao passar frente aos pouquíssimos postos de serviço. Então se lembrando numa associação de ideias haver ido com o pai abastecer na Avenida um dia no Posto Texaco do Miguel Granito, não recordando a data. Contudo o que agradou foi o movimento qual formiga da formiga de aço com aquelas rodonas de borracha a fazer caminhos com sinais e marcas lindas na terra pisada e cheirando... a quê? a terra remexida, ora. Ia pra lá voltava tornava retornava despejava acelerava sua lerdeza e encantava o público, ele (decerto aos outros meninos também). Nisso se pegou no relógio da paciência que nos meninos vive parado, se pegou nas horas que não sabia, quem sabe se não eternas! Acordou com o grito do chofer (seria chofer o funcionário dirigindo o istrator, como o pai conduzia o caminhão!? daí se lembrou do genitor: as autoridades andavam exigindo que o motorista usasse boné como característica profissional. Curioso, o homem do trator não usando nada na cabeça; nesse ponto o homem:) menino! quer morrer, diabo! Saiu sem graça, assentou mais horas sua graça num montículo de solo removido novo cheiroso – e ficou a olhar olhar, apaixonado. Voltei, eu voltei, Galo, tornei à minha casa já escurecendo. Ainda parei na frente a contar bravatando minhas bravatas aos moleques na Dirceu. Disse, empafioso, haver dado com a cara num ninho de istratores, dos grandões amarelões, exagerei nos pneus e mais: fiz cena arremedando o tratorista a me implorar sair do caminho! eu, o Zezinho, não quis prosa e o homem, chateado, teve de cavar com os garfos e garras da maquinona noutra área ali perto. Enfim me cansei disso, disse daquilo, e assim voltava pra casa. Em casa imaginei apanhar mais que de costume (experiente) apanhar de rodinho, a mãe ameaçava fazendo tempo um dia bater com o cabo do rodo de puxar entulho, bem mais duro que a cinta dura do pai. E se ela, pensei, cumprir a promessa agora... cheguei murcho, anjo, fazendo cara de piedade e febril; até me assustei: ela me abraçou chorando e rindo ao mesmo tempo o filho pródigo, pela longa espera e espera de um sinistro a atingir aquele amor de criatura, eu! Inventei algumas coisas concernentes na hora, comi com fome e esganadice e dormi o sono dos justos. Claro não haver roncado (suponho) e nem insoniado. Passou. Todavia o desfecho aeronáutico foi bem mais triste que o ferroviário. Ocorreu, oh Gargantudo Cantor, ocorreu dias após. Então fui, mas fui ‘de a pé’, como a gente dizia quando não montado, fui ao campo de aviação ver o que aquilo, aquilo só via no alto pois aeroplano do tipo teco-teco apenas vendo no céu singrando o mar das nuvens; nunca havia olhado de perto, no tête-à-tête como se diz. Mais tarde, isto eu já adolescendo, o pai fez uma surpresa pra nós os caçulas, eu e a pequerrucha Tereza. Levou-nos escondido da mãe (ah se soubesse ela, primeiro não deixaria, ou quem sabe com medo das alturas morresse do coração, a mãe tendo horror de escuro buraco e céu sem fim – por isso apavorava-se. Daí fomos surrupiados de sua presença...) Ele combinou com um amigo entrosado na aviação pra quem fornecia tijolos uma carona de uns minutos num aviãozinho. Não havia os de grande porte, também pequenos assim mesmo eram grandes perto dos nossos. Entramos subimos passamos por cima de nosso bairro, eu senti algum friozinho na barriga e me espantei positivamente com a topografia lá embaixo, o Buracão, vi nossa minúscula Dirceu e quis até ver meus amigos, quiçá dar-lhes com a mão, inocentemente; mesmo um capeta pode ser um inocente de vez em quando. Porém voltemos à minha escapulida para ver o Campo cara a cara. Cheguei, cansado, sujo igual qualquer moleque sem preocupação com etiquetas e sociedade, cheguei entrei como fora o dono daquilo; até ser expulso e sair correndo sem graça. Fiquei horas nas imediações apreciando e comentando com um Zé que inventei (facilmente imaginava outrem pra contar vantagem ou quem sabe para ensinar; pois o outro costumava ser burro; mais tarde, já mocinho, o outro seria uma linda loira apaixonada por mim, quem mandava eu ser tão belo forte e charmoso! agora não: o outro um menino com quem conversava:) Conversamos horas sem fim, com fim quando o sol se escondeu e nenhum teco-teco mais se aventurava com coragem pra pôr a cara fora do hangar; fora? longe disso – todos se recolhiam de suas andanças pelo paraíso que eu imaginava, e a deixar um cheirinho gostoso de fino combustível que haviam deglutido. Voltei. Entretanto agora o desastre. A mãe uma fera, me destratou, decerto o dia tendo sido difícil para si e com encrencas conjugais, moleque não faz indagações: executa suas artes. Apanhei. Acalmado o ambiente; e diante de promessas (de meu lado a regeneração; da parte dela mais terríveis: o cabo do rodinho, esconder as calças, fazer tomar banho de bacia na rua diante de meus subordinados, tinha mais uma tortura vez por outra lembrada em ameaça que era vestir-me de menina o que um terror a um machistinha – enfim coisas ótimas para uma noite de pesadelos); diante das promessas me aquietei e fui dormir; não dormi, insoniei!? não, arregalado mas aí caindo numa armadilha, semelhando o caçador que arma esquece e pisa... falei à mãe estar profundamente adoecido, inventei dores por todos cantos a espantá-la! inventei dor maior que a dor na bunda, seu lugar preferido para bater com vara, a fim de pesar sua consciência numa vingancinha inocente. Pesou sim, chorou, pediu desculpas (isto um horror e uma tortura enorme aos orgulhosos) e então dormi com seus carinhos. Contudo não parando nisso o meu castigo. Foi pior. Nos dois dias subsequentes fiquei ‘de molho’, doentinho, sem sair, sem fazer os serviços chatos que me dava e isto um prêmio; mas ficar preso!! e comer papinha e tomar caldinhos engolir chás da panaceia cabocla... ai que horror. Fez benzimentos e simpatias e rezas bravas; foi além: tudo sob orientação da tia Nena; a tia era irmã do pai, a única parenta do lado dele com quem se entendia a mãe, pois mais se mordiam as fêmeas aparentadas; aqui lembrando de passagem Lobato ao dizer que as moças se beijam por não poderem se morder; e nem sei se tinha razão. Na minha razão só via desarrazoados na tia – era quem levava a efeito as benzeduras; lembro haver tomado um prato com água, medir-me com linha de costura, cortar aos pedaços a linha, pôr na água e algumas embebidas se mexerem se encolherem, a assustar a assistência, assistência veladora leia-se a mãe a comadre e a maninha. Pensei: tô perdido! O pai a comentar baixo com a mãe “ocêis ficam ‘cuculando’ o menino...” parecendo isso coisa da gíria italiana pra dizer demais agradado. Enfim tava no inferno do paraíso, prisão domiciliar vigiada. Enquanto isso os garotos a gritar gostoso na rua... poderia ter algum castigo maior! O único agrado era não ver Dona Tomásia por dois dias em tratamento e um terceiro para observação. Aliás o castigo atingiu ao Rex também: ficou me pajeando dentro de casa, não mais que isso, a coçar suas pulgas. Veja, Galo, que eu era de fritar bolinhos, isto um dizer da época, não sabendo o significado então e não sabendo ainda hoje. Noutra vez, isto não necessariamente vindo por fugir de casa, então fui ‘curado’ no lar. Trata-se duns esfolões tendo caído da mangueira, visto só viver empoleirado. Eu disse aos meninos depois do tratamento mais ou menos isto: “rapais, caí isbandaiêi o joêio!” Sangue, aí chorei gritei tinha medaço ver se esvair a vida saindo o sangue; berrei. A mãe acudiu, passou mercúrio cromo e daí que gritei mais parecendo um torturado a faca, esperneei corajosamente e tive de ficar um dia todo ‘de molho’ outra vez. Noutro saí pulando como saci e a mãe não pôde me segurar. Logo tendo terra nos ferimentos por esquecer a tragédia e me regalar com o jogo de búrica; rapelei uns, perdi doutros, desta vez feliz perdendo no ganho da rua. Pode agora cucurucar à vontade que já acabei. Isso por enquanto.



41° - Compressor Contra um Galo
         
          Imagine que horror, não me deixaram dormir – ainda perguntei em colher torta se não querendo dizer insoniar, artigo no qual sou mestre – não senhor (até se indignou...) não senhor, dormir mesmo, antes não me deixaram sequer cucurucar às dezoito horas! falou-me Cucurucu, bem chateado. No meio do diálogo mostrou-se reticente, ou melhor do pior: não me ouvia de fato a indagação; daí me lembrei contar ao Galo o tio Nico. O negócio é que presenciei seu drama nesta boca de noite última, o do pobre galo. Todos dias, quer dizer tardes, sobe voando ao topo do muro do vizinho de meu vizinho, não sendo eu, que por sinal observo na fresta desde a cama o brutinho a cantar. Sobe pra cantar, avisar-intimar seu harém a dormir; os machos de todo universo imaginam que elas, as beldades e aqui de penas, que elas não saibam dormir por conta própria ou por lhes faltar relógio a saber, ele, o Cucurucu, ele se pondo como despertador às avessas os despertadores servem para avisar a gente a hora de se levantar; às vezes a gente insonia pelo toc-toc do tique-taque deles, e tem de escondê-los no armário, ainda assim... enrolá-los num pano para amortecer seu martelar próprio de ligar a insônia, mesmo desse jeito e ainda os despertadores incomodam. Não, o Galo inverteu então a coisa e desperta o bico pra avisar as galinhas a hora da hora a dormir. Estava nisso, disse, quer dizer: a tentar despertar, aprontava o papo, batera asas e... e não conseguindo. O caso: o vizinho do vizinho, aquele aos fundos onde o púlpito galináceo de fazer a preleção ao Universo e cantar o canto ao Universo numa despedida sonora ao dia – eram 18 horas e nunseiquantos – esse tal vizinho de maus bofes ou egocêntrico a só pensar nas suas coisas e não nas coisas inadiáveis do Galo vizinho, então ligando o dito vizinho o compressor para pintar não sei o quê, que não é de minha conta e de nenhum Zé perdido insoniando neste planeta: pronto, o barulhão encostado a assustar o pobre avisador de suas mulheres no seu harém desejando as pobres o sono, não o sono sono tendo mas dormir. Como, indaga o penudo com um rabo assim de grande e de cor furta-cor (que seria ‘furtacor’ seria uma cor roubada e portanto sem cor? nunca soube desde Zezinho até Seu Zé; Seu Zé da Dona Maria aí ao lado da gente? isso mesmo, Seu Zé). Como? não dando para expor a ária! pois o compressor comprimindo a voz da ária da ópera da ave-macha que é o Galo, o Galo às suas fêmeas... Que fez? não disse, o Zé viu e uma imagem, dizem, fala por mil palavras. Fez que se abaixou, encolheu-se e dormiu, não insoniou, tenho certeza nesta afirmativa, mestre no assunto. Aí não morreu, dormiu, ‘sleepou’ não morreu; morreu meu Rex. Ah, Galo, como foi duro perdê-lo na disputa com dona Morte. Então ia o Zezinho brincar, em vez ter o seu finado cachorro, com o cachorro do João, o Joãozinho o menino filho (a mãe falava que não era) filho do vizinho encrenquento da mãe. Para tanto pulando a cerca de balaústre ao lado do lado de lá. A mãe: “Zinho, seu cachorro sem-vergonha, cê pula e um dia fica espetado no pau da cerca!” Eu, garoto prudente ou medroso na imprudência, deixei de pular a cerca, arrancava sarrafos da cerca e passava pra lá ou a roubar frutas dos vizinhos ou a brincar com o Peri – o João na escola de tarde eu indo à Tomásia cedo sobrava o cachorro pra conversar – o Peri a ladrar até mosquitos. Bem. Mal comecei a mãe encheu a cabeça do pai, ói o pai de martelo a repregar a cerca. Me forçando a desprender outra vez o balaústre, eu não tinha sossego! Aí o cachorro passava atrás de mim cheirando tangerina (eu, o cachorro não) para nosso quintal, levantava a perninha, mijava na lata de flores da mãe, o cachorro não eu; eu apanhava e ficava de castigo. No castigo ainda aprontando a empurrar a Tereza caçulinha; choro grito palmada e gritos meus. Comadre, tenho uma cruz a carregar, tenho um capeta na casa! e... ah ia esquecendo de contar o tio Nico. O tio Nico vinha de vez em quando na casa da gente, de preferência quando o irmão estivesse, a cunhada espantava um pouco o ânimo do velho; velho embora mais novo ou menos velho que o pai, o pai do Zezinho, Galo. Aliás a mãe espantava qualquer visita pretensiosa aparentada, com a língua... Tolerando um que outro dos seus e os do pai pichados quando nos entreveros conjugais, daqueles em que o pai fugia também pra rua, ao bar do Kanjiro ou fugindo ao trabalho; ou mesmo para a oficina do Nishimura porque o caminhãozinho dava então muito trabalho e gasto mecânico, além ser beberrão de gasolina (grave em vista do racionamento de Guerra que era também brabo, precisava requisição da prefeitura a conseguir combustível). De maneira que a língua era feroz e pujante, a da mãe, enquanto as mãos dela eram fortes ágeis corajosas nas minhas pernas e na bunda da gente. Bom, o tio: o tio Nico não flor que se cheirasse, com vida moral nada recomendável conforme a oposição; e tinha o defeito da surdez. Isto me trazendo o Galo naquela hora em que tardava a responder-me o compressor dele. Surdo igual uma porta! Por que será que a porta... a minha quando podia sair ao bar voltar à matracação da Maria, rangendo um pouco e se ela, a esposa, nervosa, batia o bater da porta na cara da gente e assim, se falava, a porta podendo também ouvir não sendo surda. Assim parece-me invencionice a expressão ‘surdo como porta’; não importa, eu achava ele bem surdo. Os de casa falavam falavam e ele não escutando, olhava inocente pro nosso lado. Não ouvia sobretudo quando a lhe lembrar uma dívida por dinheirinho tomado à pobreza do pai, o pai constrangido na cobrança e a mãe exigindo pagamento e inclusive cobrando na frente do tio. O tio Nico? num tava nem aí lá, segundo ela, e conversava sobre outras coisas outros interesses, dele, como nada houvesse sido dito. Dito pelo não dito; o pai: o Nico é surdo, a mãe: o patife só escuta o que interessando a si... Mas conversava com os sobrinhos, sem grandes entusiasmos e quase nada amoroso, porém como se diz “o normal”. Vez que outra rateava a orelha e não ouvia. Uma vez a casa narrava as coisas, cansava no contar, e ele não se cansando em não escutar. Daí alguém pôs uma questão que lhe dava grande vantagem e ganho e imediato respondeu aceitar... fez mais, se entusiasmou, percebendo brilhantemente os interlocutores; todos peninsularmente a calabresar ao mesmo tempo suas invectivas. Ainda mais, sorriu, gargalhou às piadas, brincou com as crianças, assustou o Zezinho. Acho que o tio era nervoso, porque o via sempre a piscar rápido e incansavelmente. O tio, Galo, o tio.



42° - Pão de Tantada
         
          Agora, meu Galo, galo do vizinho o qual me fornece pela fresta ele e suas galinhas, têm umas cocorocando decerto a ajeitar ninho botar, a vizinha-comadre da mãe falava enjoadinho “pôor ovos”; agora desejo pôr eu pôr a questão culinária antes e depois, quer dizer: in-Zezinho e no Zé da Maria que tratam Seu Zé, respeitosamente. Seguinte. Invertamos contemos o depois, depois se o Galo quiser indague à Maria aqui ao meu lado após acordando ela você cucurucando no escuro de minha insônia; indague pra ver como não menti sou pela verdade verdadeira. Verdade se diga não era quando era o seu Zé um grande cozinheiro (disse ‘era’ em virtude desta desvirtude por ficar preso à cama no meu afundado de colchão hoje; prossigamos:) um grande cozinheiro não, pois me falava a esposa sempre eu ser ‘queimador de lata’, mentira de sua verdade ao menos exagero porque só deixei a panela queimar uma vez, por estando a matracar eu com um de meus amigos, não no boteco, aqui em casa; os meus amigos que a oposição pichava ‘bebuns’. Somente essa vez mas é sério sim que não fosse bom na cozinha, reconheço. No pão foi diverso, diversas vezes fiz pão, errei errei queimei deixei cru acertei também. Vou-lhe passar a fórmula, a Maria diz receita, ela sim queimava seus bolos e chorava por isso; eu estragava farinha ovos etc. e não chorava, ocê sabe que homem não chora, não é? Um dia a mulher foi conversar com as vizinhas, igual a mãe a mãe tendo de ir à cerca matracar “falar mal dos outros” o pai dizia a poder ter no tempo do Zezinho matéria para brigar correta e conjugalmente. Onde eu tava? ah sim... um dia ela saíra e aproveitei a ausência da patroa para experimentar nova receita de pão, receita essa criada por minha larga experiência e vivência culinárias, de erros e acerto como falei. Se quiser poderá anotar, tirando base por mim digo a você, porque não guardo direito nesta altura sequer nomes que dirá fórmulas. Anote pra não esquecer. O Pão de Tantada, o título é da Maria a fim de gozar o marido; o que me interessando mesmo o pão propriamente dito. Vamos aos ingredientes: ovos sal açúcar farinha de trigo, é claro leite que pode ser semileite porque os brutos põem mais água que leite e usam o leite pra fazer manteiga etc. e isto não importa agora; ah sim, gordura de porco e óleo, de soja não serve deixa cheiro: de milho. Forma (antigamente ‘fôrma’  era com chapéu pra não confundir com ‘fórma’, a forma do corpo por exemplo; aí os estudiosos que num tavam nem aí com a ardição dos outros tiraram o chapéu, não aos outros; e a confusão agora; aqui fôrma pro pão assar; vamos em frente:) enfim a fôrma a seu bel prazer, pequena grande média, e comer o pão como desejar. Como fazer? seguinte: tome uma panelona, baciazinha não, vai que a Maria apregunte: Zé, se ocê fez na bacia de amassar pão lavar prato lavar a cara e seu nariz nojento – “num como do seu pão!” vê que nhe-nhe-nhem ela me saiu? escolha então a panelona, ponha leite, uma tantada de leite no ideal do mais ou menos, digamos meio litro. Aqueça. Se muito quente estraga se frio não cresce demora estraga. Aí pôr (guardo a voz-inha da vizinha da mãe “pôor”, que chata!) pôr duas colheres de açúcar uma de sal, tudo mais ou menos conforme a miopia o astigmatismo a catarata a cegueira enfim; duas colheres de gordura e se grudar na colher bata na borda da panela a desgrudar e se duvidar ainda muito desse pouco coloque mais uma colherada de lambuja e fim de papo; duas ou três colheres de sopa (veja bem, é dessas grandonas de boa gulodice nada das pequenas de sobremesa e piormente das de chá) duas ou três de óleo de lata ou de plástico, não importa se pet, o que vale é o conteúdo; ah ver se vencido a gente nunca olha isso; três ovos, se pequenos desses cansados, quer dizer: de galinha de granja velha já na linha de abate, velha a poedeira, e aí pequenos – então põe logo quatro. Aliás em matéria de ovos e galinhas você, meu Galo, um mestre não preciso explicar muito. Ponha o fermento e irá ter uma dúvida cruel como são todas dúvidas: duas colheres bem cheias e se perder a contagem põe então uma tantada, igual o título do pão, que dará certo o errado – crescerá. Farinha põe meio quilo e vai pondo esfarelado por cima enquanto amassa a massa; até endurecer; e nisso chega a um quilo ou mais de farinha asperjada no bolo do pão. Se duro, é uma tristeza: porá mais óleo mais leite mais água, água no leite tipo água-branca. Se mole é fácil: pega mais farinha ou fubá, caso faltando a de trigo, e nunca iria pedir emprestado na vizinha, a gente tem vergonha e ainda ela podendo dedar a gente à Maria; a Maria empresta sempre, dá e toma, o que uma deixa pra se queixar do meu cigarro e da tosse e da minha ranzinzice à vizinha. Não aconselho o alvitre. Vire-se e pronto. Pronta a massa coloque tudo nessa fôrma, ou formas menores à sua vontade. Crie, criar é criar a vida. Aqui o pão. Enforne. Espera de uns quinze minutos, se a paciência não tolerar hora a crescer. Olhe de vez em quando se cresceu estufou, acenda o forno e... nisto recomendo aos esquecidos, eu por exemplo, você não: tem hora certa e cucuruca exato. Recomendo ficar olhando quarenta minutos mais ou menos pra não queimar como aconteceu outra vez. Espere esfriar. Se deu certo conte para ela, inchado de orgulho e vaidade. Se não, não; não fale nadinha quando a Maria voltar, atire ao Rex, ah meu Rex morreu! ou às galinhas. Veja bem, quando era moleque a mãe perdia conta ficava por conta chorava; e/ou nós comíamos o pão pesando chumbo pra não perder; ou isto, frequente, quando a barata lambia o pão e daí jogando no terreiro, numa festa aos galináceos, os quais não ligam para essas sujidadezinhas limpas por barata, comem até a barata se necessário; comem a valer. Não é assim, Galo? No tempo do Zezinho o enjoadinho a mãe dizia, nesse tempo fazendo ela seu pão. Aliás uma época, não sendo por causa da Guerra, antes pela guerra em casa e outros descontroles – a mãe vivia nervosa. E aí errava acertava errava. Fazia arroz, virando papa, a gente reclamando; deixava duro de doer a goela, a gente reclamando. “O Zinho, Comadre, o Zinho enjoadinho...” eu queria o fundo da panela a raspa que ficava grudada; depois reclamava ter passado do ponto a comida e não queria mais deixava no prato, deixava pro Rex deixava pras galinhas brigarem. A mãe bronqueando comigo. Certa vez perdeu o controle, antes deu-me tabefe na boca reclamona e ajuntou: “esse fresco nojento cachorro e chato!” Chorei pela ofensa mais que pelo tapa. Agora não sei como se portava, não sei realmente como fazia, quando ela fazia pão. Saía em geral gostoso, eu e o Rex comíamos com prazer, eu repartindo com ele, café ele não queria mas pão molhado no leite comia esganadamente e ainda abanava delícias de rabo a me indagar: “não tem mais, irmão?” acho que me imaginava irmãozinhão dele, ambos a correr de nossa mãe braba. De fato não sei como fazia: não era só a Guerra que não percebia direito, era também o que perto de meus olhos de menino. Entretanto como assava o pão lembro, vai escutando, Galo. O pai fizera bem feito, por caprichoso nas coisas que fazia, fizera um forno à moda caipira no fundo do quintal da Dirceu; de tijolos. Ela punha brasa dentro, esperando aquecer, limpava varria com vassoura de mato, forrava com folha de bananeira o chão do forno e enfornava as bolotas de pão por cima das folhas. Tinha sempre de fazer bolotas miúdas a que chamávamos “pombinhas”, para nós pequenos; uma via crucis para a mãe aguentar-nos sobretudo ao Zezinho sempre aflito afoito antes pedindo para que fizesse a pombinha depois querendo comê-la quente (a mãe: “oh sarna, quente dá dor de barriga!”) acabava fazendo para nós e por fim tirando pãezões e pombinhas a queimar-lhe as mãos; quem sabe a se livrar do moleque pidoncho, eu. Daí comíamos com graça e gulodice, pensando fosse pão de brinquedo, visto a garoto tudo virar brincadeira. A brincadeira saiu-me caro certa vez, apanhei apanhei até correr da fera. Por pouca coisa, a me sentir vítima e não poder botar a culpa em ninguém no flagrante. O seguinte. Achei um rato morto, desses camondongos com que brincava o Rex que o arrastava (suponho fosse restos da caça do gato da vizinha, não sei bem) que ele arrastava como brincadeira e nisto nós dois nos dávamos bem; brincava e rosnava quando a galinha querendo bicar o rato morto. Tomei dele, enrolei o cadaverzinho numa folha de bananeira igual a mãe ao pão, aí depositei-o no forno e quase queimei os dedos por quentura; antes reabri a portinhola do forno (ela punha uma lata rebatida como tampa, após uma tampa de pau; e escorava tudo pondo um tijolo a segurar a tampa ou tampas e numa escora um cabo de pá; portanto fechava bem:) reabri, depositando o rato, refechei a trempe, e aguardei meu assado. Imagine a loucura depois da mãe a querer fazer-me engolir o rato morto assado! Se apanhei? já disse. Ah tem mais uma coisinha, Galo: naquele dia estava estragada a fornada inteira de pão! ninguém quis comer pão com hálito de rato. Ela perdeu o controle! Sorte do terreiro, até o Rex não se incomodando pela concorrência do Peri do Joãozinho meu colega e nem pela das galinhas. Contudo a festa mesmo foi da galinhada, Galo. Após tal episódio, esfriou um pouco o ânimo da mãe a fazer pão. Sobrou para mim. Todas manhãs me pondo fora da cama para ir à Padaria Expressa, na rua Coronel Galdino, comprar pãezinhos. Aliás tenho gratas lembranças nisso, nisso levando um que outro moleque da rua a me ajudar no trabalho; menino nunca sabe fazer nada sem companhia, quiçá testemunha de artes... Voltava comendo os mais torrados, e vez que outra, tal qual rato numa despensa, provando a ponta de quase todos. A consequência disso era a briga com a mãe quando chegava em casa. Uma vez dei um pãozão ao Rex sempre enrabichado comigo. Não sei o que inventando para justificar a falta. Noutra vez, isto pior ainda, fora (agora na Padaria Royal encostada do Mercado Municipal na rua Nove, mais longe portanto:) fora comprar pão, vi uns doces e os adquiri, esqueci o pão, voltei comendo uma bomba. Voltei, apanhei, chorei, não poderia justificar com meu famoso “num fui eu”, tornei à Padaria, agora indo à Expressa depressa, mais perto do longe de casa, enquanto os manos ainda reclamando minha demora e a fome deles. Tinha nessa época um porém cheio de poréns: a falta de trigo levava à venda limitada de pães, ainda assim mistos de farinha e fubá, pesados os pães. De qualquer forma, entrei de novo na fila do pão, conseguindo adquirir alguns e corri pra casa. Enfim fui, o capeta foi, demorou na compra, fez ainda mais das suas; no retorno encontrou a mãe fritando bolinhos em lugar do pão tardio a aplacar a fome dos filhos. Galo, só fiquei de castigo até a hora do almoço; fugi antes da hora à rua. Pode!?



43° - Sem Nome com Notícia
         
          Eu espero que você guarde uma certa discrição nisto que direi; ou seja tão só cuidadoso em não se referir à coisa, na hipótese de perguntar se verdadeiro à Maria, caríssimo Galo. Isto porque negará... O fato é que quando saíamos, o Zé e a esposa, ela ficando mais ou menos constrangida nos primeiros tempos de casados; eu constrangido mesmo porque mais alta que eu. Eu magrinho, agora magérrimo, ela gorda, não apreciando a apreciação mas robustinha e com idade virou robustona balofona, taí pra ver ao meu lado neste colchão... No tempo não podia pôr salto, se embonecava todinha, pós e melecas dos cremes, vaidosa – mas sapato com salto alto, alto lá ela pensava; eu quem deveria pôr salto e ainda não ultrapassaria sua altura. Não é constrangedor então, Galo! se todos olhando ao casal esdrúxulo? suponho, não sou os outros para provar. Coisas de humanos, você não tem esse drama junto a seu harém. Por essa época a Maria ganhara duma parenta um lulu, nesse tempo era chique ter cãozinho lulu, um que era só pelos semelhando taturana... e os ricos tinham canzarrões policiais a olhar suas mansões (isto abusinho, pois casas bonitas e mais encorpadas que as pobretonas e de madeira igualmente). O resto eram os vira-latas, sem raça alguma, como falei do Rex; ah se o Rex vivo espantaria suas mulheres, Galo, ele gostava bem dessa brincadeira de correr atrás. Quanto ao Lulu, a Maria levava o bicho com a gente onde a gente fosse, parecendo nosso filho; e filhos só tivemos muito tempo depois. O Lulu morreu, levou no médico de cachorro, o veterinário, se foi, a consorte chorou semana; sabia ser sentimental!? Prossigamos. Não, não contava nada especial, apenas lembrei o salto da Maria. Isso não é ridículo? Agora, ridículo realmente eu próprio, eu proprinho Zé Capeta da mãe... O seguinte, caro Curucucu, acredita que eu tinha raiva do espelho, a gente falava em casa “ispêio”, mais gostoso a pronunciar. Pois é, tinha raiva porque ele me mostrando uma cara-de-lua um rosto sardento, levantava o capacete pra ver melhorada a apresentação e nada: o bruto continuava a me enfeiar (os estudiosos da língua querem que a gente fale “enfear” acho feio, teimo enfeiar:) Um dia a mãe perguntou a um dos manos “quem foi que trincou o ‘ispêião’ do guarda-roupa!” ninguém aparecia, surgiu a Tereza, criança não sabe mentir e menos dissimular – me dedou. Não esperei o falatório, fugi pra rua... Deixei a família com a Nonna. A Nonna tava cada vez mais aluada nem dava pra conversar com ela, eu menos pois achando que não falava coisa com coisa e aliás ela assim mesmo tendo carinho aos netos, a pequena seu dodói, mas também não sabia direito o que dizendo a avó. A mãe não tinha paciência e demais atarefada; não obstante era quem trocava de roupa arrumava os trapos da velha, tratava da higiene dela; e brigava também com a sogra, já entendendo seu italiano arrevesado. Eu pouco ouvia, ouvindo seu repetir, quase sempre já fugindo de sua companhia. A mãe, apesar dos pesares, respondia e dialogava. “Quedê a mulher que mataram?” qual mulher, mãe (a mãe tratava a sogra mãe) e se já morreu como é que pode estar... interferia a mãe, minha mãe. Quanto a mim, achava inclusive graça e não ficando até o fim pra ver as duas. Uma vez piorou nos seus achaques de anos, o pai contratou um automóvel de praça, hoje falamos táxi, um com ponto na Avenida, e a levou no médico, dali pra Santa Casa. Não retornou, foi pra Avenida Saudade e logo me esqueci dela, Galo, só de vez em quando me alembro todavia isso creio não pode lhe interessar, não conto, ah sim já contei. Vou falar de assunto mais atraente: nossa mudança pra Ventania. Não digo que me pareço à Nonna, a repetir e repetir: contei a Ventania sim não a mudança como foi. Foi interessante. Mudança a moleque é o que há de mais divertido, uma brincadeira na qual a gente apura o butim de guerra nos restos que sobram, reave coisinhas esquecidas e explica doutoralmente aos colegas ali em volta a ajudar nosso desajudar aos grandes. Os adultos se apavoram se irritam se desentendem, dão ordens e contraordens, blasfemam conversam arrastam isto empurram aquilo e a gente nem pode ficar perto, ou leva culpa ou leva safanão. Contudo menino ajuda um pouco nas pequenuras que puder carregar. O pai encostou o caminhão na rua Dirceu, abrimos o portão mais porteira tosca e sem arte, começamos a transportar as coisas de dentro para a carroceria, o pai ficou em cima a dar ordem o que trazer como ajeitar. Logo o conflito, porque nós pequenos queríamos salvar brinquedos e badulaques inexpressivos à ótica adulta; desejávamos pôr coisinhas na frente e no lugar de móveis velhos gastos e feios, feios decerto e decerto não percebíamos. A mãe volta e meia ali a dar palpites, a discutir num bom exemplo com o velho. A nonna já morta, o contrário sendo pior porque teriam mais tranqueiras e velharias para pesar no carro. Assim mesmo o pai deu três viagens para levar tudo. Aí latinhas, tranqueirinhas, enfim o tudo nada podendo deixar. Até ao ponto da limpeza final da casa: “varre bem lava direito, ou o que vão pensar de nós... de nós! todos porão a culpa na porca da mulher...” A mãe com razão, a sociedade é cobradora por cima de suas fêmeas, era é até hoje. Pra nós meninos não. Não tínhamos mais o cachorro pra latir a novidade, as galinhas dentro dos engradados, as crianças ali xeretando ou esperando o milagre das ordens adultas. Houve um senão terrível à mãe, o pai só não gostando do cheiro delas: as baratas. Não sei como havia tantas! nas frestas, debaixo, atrás, em cima dos móveis remexidos. E no rádio da mãe decibelar altão e de mentir novelas de amor! desse saiu tonelada, tinha um criadouro no alto-falante; não entendo o que elas viam no papelão-de-conversa do aparelho... Será, Galo, será que também gostavam da Jardineira? Oh Jardineira, por que estás tão triste!? Nós pequenos alegres pela grande novidade. A dose se repetiu na Olaria perto da Ventania – a casa nova velha suja barateada. Chegamos, terminava uma etapa da mudança. Enfim mudança de pobre não é mais que transporte de trapos traças trastes e troços. A mãe, em vista disso, chiou pra valer. Ela era irritadiça. O Zezinho irritante e se irritava com a irritação materna. Puxa, que salamaleque de ideias próximas expus, não é isso Galo? E tem algum sentido, vai observando meu contar pra ver o meu ver. Eu me irritava com ela num dado momento, eu já grandinho e moleque de rua, se é que não é pleonasmo porque moleque já diz um caretinha a badernar na rua; sim, então notava quando lavando roupa por exemplo: chep-chep e batia uma peça noutra a provocar um som oco surdo irritante, já falei isso, estabanada e sem classe (como exigiria um molecão grosseiro que a genitora tivesse educação; não tínhamos berço e portanto delicadezas) não tinha mesmo ao remover um objeto, um balde uma bacia os utensílios de cozinha – tudo jogado no estilo ‘deixa que eu chuto!’ Nada, nadíssimo feminino. Embora grosseirismos, certa mulher bela; e creio nisso o pai ainda vendo mais beleza que os outros; suponho que a amava, ao menos sendo bem paciente na sua impaciência ao tratar com a esposa. Já sei qual indagação poria você, Galo, nesta altura: como que um menino explora a grossura materna, suas mãos ágeis fáceis prontas à bunda do filhote arteiro... Como! se reconhece o valor dela e até a beleza. Respondo com outra estapafurdice: os colegas com nossas encrencas e brigas consumadas faziam o que garotos sempre creio fizeram, faziam como digo, e o farão enquanto o mundo for mundo; ou seja – ofendiam o desafeto ofendendo a mãe do desafeto! filho disto filho daquilo? sim e mais: diziam, inventavam numa gozação, o que e o como ferir o outro, o Zezinho no meu caso. Então partia na hora à briga à luta à violência aos socos, nisto sendo bom, ruim no papagaio e por cair da bicicleta não conseguindo equilibrá-la. Eu pichava a mãe rosnando após apanhar dela aos meus semelhantes, mais iguais que parecidos... e ao mesmo tempo no contrário a defendia com unhas e dentes da ofensa doutrem. Você chamaria a isso amor! eu acho que não. Pelo menos é um contrassenso flagrante; só explicado por ser gente e por gente, galináceo certamente não compreendendo. Todavia convenhamos a mãe muitas vezes com razão a me pegar no pé: “Zezinho, tira o dedo do nariz, porco! tá limpando o salão pra festa?” eu sorrisos amarelos saía de perto. Envergonhado? Ué, menino tem vergonha na cara. Enquanto isso ocorria, mil vezes escorria... ah nem quero lembrar os meus resfriados: a mãe me pegava no pé também apenas por sujeirinhas, pois que o Zé deixava o macarrão a descer das fossas nasais e vezes sem conta a passar a mão e até o braço feitos lenços, prateando a pele pela mucosa endurecida. A mãe, à feição de minha Maria dormindo aqui ao lado, ela a concluir apressada: “moleque? tudo porco.” Ao mesmo tempo que isso acontecia, acontecia a Guerra, findava a Guerra e não sabíamos. A Ditadura no país agia deslocando os burocratas (como nossos prefeitos) e infringindo a própria lei igual toda ditadura: a Ditadura punha pospunha repunha compunha dispunha, impunha e o povo engolia; nós pequenos já crescendinhos não entendíamos nem o cenário mundial nem o nacional nem mesmo o nosso da cidade nascente crescente, a dita com slogan Cidade Menina. Ao par disso, além do brincar brigar brincar, nós noutras diversões sem conotação bélica. Sim, íamos por aí em nossas artes e ensaiávamos novas atividades. Teria uns nove ou dez anos quando iniciei participação no rádio. Uai, diria você, fosse um galo mineiro, o Zezinho então virando artista! Devagar com o andor. Não. Não mesmo, pois vergonha nas coisas me sobrava; contudo comecei a frequentar programas de auditório, os de calouros por exemplo; e aqui caro Cucurucu nada do caso de apresentar-se para ganhar um pão doce ofertado pela padaria xis como observava vendo os concorrentes, o Zé apenas na pele de ‘macaca de auditório’. Enfim programas em espetáculo (hoje se diz show) participando na PRI-2, na rua Paes Leme esquina com Avenida, encostada à Ford, esta num edifício de quatro pavimentos, o mais alto da urbe, orgulho aos de então. Ali gritava berrava com os outros batia palmas como a gurizada, aos sons dos cantores e o regional do violonista Prof.Lignelli. Não tinha dito conhecer violão sanfona e pandeiro? piano vira só ouvindo a mestra Tomásia. Ah, lembrei agora dessa época: havia umas japonesinhas a cantar (em japonês) e tocando violino. Entretanto o violão do Regional me atraía mais; e assim gritávamos sem educação e com entusiasmo no auditório. Certo dia ao sair da emissora, descia a escadaria e saindo dei de cara com o tio, aquele surdo, e me lembrei houvéramos gozado o parente na nossa casa por falar “sicurite” se referindo a ‘circuito’ elétrico, o que o Zezinho não sabia o que fosse até mais tarde quando mexendo no rádio da mãe levou belo choque. No confronto com o tio Nico agora, fiquei pasmo e meio envergonhado e aí só o cumprimentei; fi-lo no costume de então, talvez exagerando na dose por contumaz irreverente: beijei sua mão tal qual fazendo quando ia à igreja na Av.Santo Antônio, o padre José meu xará a me estender o anel e a me ofertar algum santinho. Aliás o capeta louco por santo, colecionando mas já fugindo da igreja da cartilha da catequese da primeira comunhão, irreverente como disse. Do tio fugi apressado, ou envergonhado pelas outras pessoas haverem me flagrado na posição grave a um futuro ateu... fugi, talvez para almoçar no domingo em casa onde saindo tarde a bóia a engolir a janta, talvez para ficar depois livre com os moleques na Dirceu. Houve poucos anos antes disso um fato – não sei se risível se curioso apenas ou quem sabe inocente – um fato interessante ocorreu comigo; o caso da Lili. A Lili era lulu, uma luluzinha preto e branco, nossa cadela antes de ganharmos o Rex da tia da mãe. Eu, um meninico crente ou bobo, desconhecia donde vinham os cachorrinhos, nunca pensara nisso, inclusive como o processo nos nenês-gente, falavam na cegonha eu descria o abuso e sem condição para explicar nascimentos, um tabu por esse tempo. Peguei minha Lili engatada a um cachorro horroroso, chegava assustado de minhas andanças pois sempre ninguém me segurando. Flagrei aquilo, tomei dum pau e desci a lenha no meio do casal, ainda a gritar “tão levando embora minha cachorra!” A mãe e outros grandes interferindo a acabar com aquela sem-vergonhice, aquela cachorrice. O garanhão canino fugiu a ganir e recuperei a cadela. Tempos depois ela deu à luz lindos bebês; pra posteriormente a mãe dar a um que outro vizinho as crias, sem consulta prévia à cachorra nem ao dono da cachorra, o que me deixou contrariado e triste. Este um episódio da extremidade mais inocente do Zezinho; outro fato marcou-me, da extremidade consciente ou mais velha do garoto: o pai adquiriu um fogão a gás na Loja do Biava, a qual nunca soube o Zé onde. Chegou o fogão, presente paterno aos pedidos maternos. Até essa época funcionava o caipira, de lenha e brasa, ótimo companheiro do frio nosso; apreciava muito a chapa de ferro do mesmo, onde punha nacos de polenta tostar, ou assava entre cinzas batata, enfim coisas corriqueiras na roça, a gente na rua Dirceu (aqui já nos primeiros anos do Pós-Guerra). Algumas famílias usavam como combustível não a lenha mas o pó-de-serra, o povo tendo ali ao lado a Fábrica de Móveis do Simplício facilitando; usavam serragem numa lata de óleo ou de querosene vazia, em que socava-se o tal pó, deixando um buraco embaixo onde o fogo infiltrava lentamente ao resto de serragem; subindo a quentura na vasilha, quase sempre para ferver roupa, a ficar mais barato pois a serragem ofertada pelas várias serrarias. Em casa não nos valíamos desse expediente sendo fervida no fogão mesmo. Aí a fumaça o pretume, o picumã grudado ao teto, se impregnando com a gordura do serviço geral da cozinha; a mãe limpava lavava passava vassoura nas paredes e no teto mas qual! não tinha solução. A tarefa de olhar as borbulhas na lata de ferver roupa era minha, sem meu consentimento e com imposição da mãe. Ah a mãe... ficou feliz e entusiasmada com o novo fogão, que a loja desembarcara na frente de casa (o pai fizera segredo; fazia muita vez assim sendo uma forma brincalhona a gozar a família; segredo a fim de assustar-agradar a esposa, ela não havia de jeito nenhum feito segredo de seus pedidos-cobranças ao esposo). Chegou a gritar, próximo ao delírio, e isto explica um pouco que o quase nada possa ser muito a alegrar um pobre. No começo ela gastou uma caixa de fósforos para acender reacender o fogão. Depois acostumou-se, caímos na rotina; semelhante às famílias aderindo à novidade. A novidade chegou um pouco a me segurar, oh Galo, por um dia em casa. Depois debandei para minha turma de bagunças na via pública. Na rua continuavam as brincadeiras, deveria contar de meus colegas nisso, os que marcaram as arruaças, vou ficar somente no Yoshio. Não, acho, meu Cucurucu, não devo ressaltar o marrudo colega; me deterei a contar um pouco a situação da colônia nipônica nesse entremeio Guerra e Fim da Guerra, que embora desconhecendo como garoto percebia em volta os comentários... Digamos que o homem da rua fale mais que deva, invente ou reconte a seu modo os fatos escutados ou que veja mesmo com os olhos que a terra haverá de comer, tão ao gosto caipira esse dito. O que de 1944 a 46 sofreram alemães japoneses e italianos, estes menos por seu poder de integração à sociedade local (seja no Brasil na Argentina ou em qualquer parte da Terra, os italianos quase sempre viram patriotas da pátria na qual vivem; era assim a colônia italiana na Cidade Menina; prossigamos:) enfim como sofreu o Eixo nas garras da boca do povo... Claro que o Yoshio, aqui a simbolizar meninos estrangeiros e ele não estrangeiro porque nascendo na roça aqui perto... é claro que nos momentos de briga apelássemos e o fustigasse, embora sem argumentos sérios contra sua pobre família e o povo dela. Soubemos que um seu tio, o Miyaghi ou qualquer nome assim, que esse tio praticara haraquiri, eu não entendendo bem o que fosse nem o nome como escrito; isto ocorrera anunciada a derrota de Tóquio. Porém fizeram, soubemos e os adultos comentavam, fizeram sim barbaridades e praticaram torturas e mais ainda a tortura do vexame a que submetidos os submetidos imigrantes. Contudo, não cabe narrar porque os olhos do Zezinho não viam, só vendo a brincadeira. Moleque não se prende a coisas sérias, sobretudo tristes e medonhas. Não iria aceitar nem condenar: um garoto simplesmente não vê e se vê de orelha distorce ou inventa; a ser no futuro o homem comum... Todavia devo ainda tratar dos nipônicos com os quais convivi, Zezinho, em vista de a região ser região povoada por muitos desses asiáticos, aos quais devemos a introdução o plantio de fibras e o desenvolvimento do polo algodoeiro – o Vale do Rio do Peixe onde estamos era todinho branco de algodão; dava gosto vê-lo de cima da Serra da Formosa ao sul de Marília. A convivência nos trouxe inúmeros amigos de olhinhos puxados, muitos mais patriotas da urbe que os brasileiros vindos doutras regiões pra cá. Um que outro fanático, como o citado suicida, existia; e as famílias eram mais fechadas, tímidas, de pouco falar (em português, ou ‘brajirêro’?) e muito falar na sua língua, sendo corriqueiro ver seus membros em roda a enrolar língua; outros tantos eram pacíficos conviventes, conhecidos e amigos da gente. O comércio de frutas por exemplo, as quitandas como chamávamos: tudo era de japonês. Um cidadão da época e depois disso não poderia admitir entrar numa quitanda que não fosse oriental! Também ressalto o palavreado na mistura sendo o comum. Lembro seu Yoshiaki que me dizia “este é iti miro” um mil-réis ou um cruzeiro custava portanto a fruta que andava comprando no seu estabelecimento. Guardo até o cheiro do todo, frutas etc. naquele ambiente. Entre moleques aprendíamos a contar em japonês: iti ni san si go rô e vai por aí; ensaiávamos aprender algum xingado estrangeiro, quase sem sucesso, visto o costume nipônico creio não comportar nossas aberrações de boca suja... Será que tenho agora, agora Seu Zé, Seu Zé da Maria? esse – terei agora razão, Galo!? Disse as quitandas, havia também os empórios e vendas, raramente de japoneses; e o que tendo mais eram as casas de secos-&-molhados. Porém estou neste instante cansadíssimo, o gogó seco, paro. Ou não paro mais, amigo Cucurucu.



44° - O Ladrão de Galinhas
         
          Galo, Sr.Cucurucu, amigo paciente de meus sopros a afastar esta insônia teimosa, deve estar você cansado a ouvir-me as lamentações; tal qual se cansou a Maria aqui ao meu lado em seu lado no afundado seu de nosso colchão, a roncar... não, estou exagerando Galinho, pois não escuto há tempo os roncos dela, dela que irá, desperta, negar o ronco. Perdoo a esposa, antecipadamente perdoo. E perdoo a você também pelas horas que, atento, me ouviu e por isso se cansando. Contudo – sem quaisquer conotações nublantes, veja bem – contudo vou falar das sombras da morte. Não será boa pedida a um... a dois cansados: você a ouvir eu a narrar!? Porque vou tratar desde agora da avenida Rio Branco. Primeiro irei calçá-la, calcetá-la, não havendo à época da Guerra no início e nem no fim da Guerra pavimentação asfáltica por estas bandas. Embora central essa via tardou receber paralelepípedos em toda sua extensão. Em segundo lugar, irei matá-la (é possível matar uma rua! não sei, Galo, sei não). Como? Aguarde, não seja avexado nisso, cucuruque antes da afoiteza seu cantar, cuide igualmente do seu rebanho seu harém, galinhas indóceis; elas nunca se dão bem se bicam se intrigam se desentendem por suas coisas (ou pela falta de coisas; a Maria me fala vez que outra que o vizinho não põe água esquece a sede delas e não espalha o maná de milho vindo do altão além da tela na qual se encontram aprisionadas... ela quem diz ser o homem altão e a vizinha baixinha chatinha sem-gracinha quem sabe somente por intriga da Maria como oposição); tudo nada vejo; vejo a fresta festa única pra mim porque só vendo o Galo e ouvindo o matracar da galinhada; aí penso se não estaria na hora do Galo, hein Galo! na hora do sultão dar no seu harém um basta. Vamos então primeiro revestir, e isto um incômodo linguístico no vocábulo insuficiente pois como revestir estando a Rio Branco ainda descalça! descalça de pé no chão, o chão de arenito facilmente a decompor, a chuva o vento o descaso humano o excesso no uso com abuso e pronto: ei-la aos buracos. Cada época das chuvas buracos novos o arenito carreado pela enxurrada ao Vale do Peixe... portanto a matéria dos buraquinhos ao Buracão lá embaixo; enfim o trabalho erosivo. Posta a coisa assim não houve ‘revestimento’ porém não achei melhor ao pior, fica o revestir como dito onde dito. Chegavam nos caminhões da Prefeitura as pedras, dava gosto observar ouvir os servidores descarregando atirando as pedras no chão e depois por cima das pedras no chão outras pedras mais (inclusive com aplauso dos moleques vendo) os paralelepípedos a brilhar no solo no sol da manhã. A assistência preparada para aplaudir, talvez apupar vaiar xingar e... paremos, estamos numa rua e não no campo pelo artilheiro pelo gol pelo juiz, a mãe do árbitro. Despejam na margem, na margem também os moleques a xeretar como assistência, o Zezinho o mais falante. Têm os cachorros o Rex o Peri e outros lambetas a se dentar se preciso for, tem moleque vindo de todas ruas nas imediações à via pública em calçamento. O pai mais tarde iria ser contratado a fornecer areia de estrada, aquela que a chuva lavava e levava depositando e atrapalhando o tráfego e então o caminhãozinho do pai a removê-la para as construções e ao calcetamento; iria inclusive transportar do Pátio da Estação as pedras trazidas para a cidade pelo trem às suas ruas. Agora não, estamos no início do trabalho e o Zé era Zezinho, arteiro sim mas pixote de uns sete anos. Olha conversa com os outros garotos, se contam o que fazem os trabalhadores ali ocupados como se fossem eles os trabalhadores e não os estorvadores e palpiteiros. Limparam aplainaram o terreno, espalham areia ao nivelamento do leito; então ali os profissionais-artistas chefiados pelo Sr.Manoel Calceteiro põem os paralelepípedos pesados: ajeitam trocam emparelham mudam acertam abaúlam ligeiramente no meio ideal e deixam inclinação nas bordas onde futuramente escorrerá a enxurrada. O metro, depois a quadra e após o quilômetro quem sabe, está pronto! A avenida Rio Branco branca clara de luminosidade pelo riso do sol o qual antes iluminara o dia dos trabalhadores a conversa menina e o ladrar dos seus vira-latas; o Zezinho coça amorosamente o Rex enquanto fala explica as bobagens ao João e o cachorro adora o carinho e esse chamego do amo-irmãozinho tão cheiroso tanto assim o segue onde for (leia-se a quaisquer artes...) Contudo a Rio Branco, que dará no fim à Avenida ou dela partindo, creio, Galo, creio mais nesta versão – a Rio Branco é uma seta qual flecha enviada... à Avenida da Saudade, ao Cemitério que a margeia e lhe dando nome; ou seria em contrário a Necrópole Municipal ofertando o batismo à Av.Saudade!? Não sei, Cucurucu; você sabe? A nova, nova? a velha renovada Rio Branco funcionando qual prancha no navio em alto mar na descarga por ordem do comandante de seus resíduos, enrolados igual caixão funerário... rumo à Saudade. Mas eis o momento de encontrar a chave dum problema que se arrastava na minha ignorância de moleque, meu Galo. A chave a fechar a morte! ora, a morte não se fecha fecha sim a gente na ‘caixa a prego’. Não. Explico. Andava sentado o Zezinho no ver os trabalhadores a matracar e ao mesmo tempo assentar paralelepípedos, sobretudo quando de olho o chefe Manoel, um português sisudo embora risonho pras crianças. A gente olhava, quando, doutro lado da avenida em calçamento, passa o tio Nico – “ói seu tio lá”, gritou baixinho o João – era de fato ele e aí, decerto por associação de ideias ou imagens talvez apenas algum som semelhante por volta, eu não explico isso, não sabendo: então me lembrei das discussões do tio com os nossos em casa. A mãe tinha uma raiva dessas que se não esconde debaixo do tapete (que aliás não possuindo o lar) raiva sim e mais ainda da tia Aninha mulher dele, e deles e dos parentes do pai por extensão. Foi me alembrar dum comentário infeliz da tia: “a Tonha gosta tanto de brigar com o Zé que quando o Zé fora daí briga com ela mesma!” A mãe, como o Zezinho escutara, ouviu, engoliu e engoliu na mente a outra. Não chegou a dizer no seu feitio mandão: “Zé vamimbora”, o pai a mãe nós todos em nossa casa na Dirceu... Então – isto não falei ao colega e ao seu Peri – então é por isso que o tio surdo; não, por isso que a mãe não suportava o cunhado. Felizmente o tio não me percebeu sequer ali na assistência a instigar o Rex que ladrava desaforado. Daí veio o seu Mané e me gritou o grito do cão. Porém não arredamos pé, antes ficamos apreciando o espetáculo do movimento de colocação do pavimento. Certa vez, isto dito à Maria num comentário à audição do Galo; já findava a insônia da noite a começar a insônia do outro dia clareando, os outros galos cantavam recantava a alvorada e o Galo a recitar sua ária também, falei ao Galo mais ou menos nestes termos:  As aves avisam o óbvio: que são seis horas, que o dia vem, que vai a insônia aos insones, que o sol chega trazendo a sonolência e os desaforos diários aos desavisados. O Galo insiste insiste insiste e o insone, desperto, rabuja: ói aqui, oh Gargantudo – tenho uma panela de pressão... Desde esse incidente notei o Galo Ouvidor sumir. A Maria disse no seu costumeiro modo a retrucar falando assim: ocê tá caduco, Véio, faz tempo que não tem galo nem galinha no vizinho a vizinha aquela metidinha e... Eu: e a fresta, Maria! a fresta? bobalhão, taí, olha, vê se vê, não vê, não tem, tem seu cigarro fedorento essa fumaceira e...  me jogue os tocos no cinzeiro – atirando sempre no chão, no penico, outro dia me queimou o travesseiro; qualquer hora me põe fogo no colchão e na casa seu... seu... seu incendiário! (eu, Zé Incendiário). Olhei. Puxa e não é que roubaram mesmo o galinheiro que estava no fundo do quintal vizinho... Hoje tem meias cuecas dólares mensalões corruptos a valer e roubos de monta, apossamentos de altocoturno; e puseram o ladrão de galinhas dos tempos antigos, um gentil afanador do pouco, a correr! mas terá antes levado as galinhas. Não poderiam ter feito diferente: trocarem o Sultão, deixarem o Harém a cocorocar, enfim um Cucurucu por um Curucucu, trocando seis por meia dúzia – pronto, teria orelhas pra me ouvir o lembrar o Zezinho e as artes do capeta do Zezinho. Não: roubaram todos galináceos. Que coisa feia, horroroso pôr na clausura um pobre ladrão de galinhas. Isso não é fora de tempo? Agora, para quem narrar, antes de narrar insoniar neste colchão e concomitantemente ouvir o ronco da cara-metade...



45° - A Insônia o Sol a Insônia
         
          Desejaria que alguém me explicasse direitinho como é que o Chico encontra-se aqui a meu lado... A mulher corria com eles, eles? meus amigos, a gente batia aquele papão, cada um narrando suas peripécias, tinha um que acabava sempre a chorar e babar, dando pesar na gente, nada podia consolá-lo. Tinha outro, o Zelão, eu Zequinha à turma no boteco, o Zelão saía carregado, um pouco mais fraco que nós. Tinha os outros, esses em presença mais esporádica, quase tão conhecidos como os desconhecidos na rua a cruzar seus passos com outros desconhecidos ou apenas indiferentes. E tinha o Chico, esse, este, amigo de todas horas. Entretanto a Maria não querendo prosa a me fustigar e fustigar para eu largá-los, não: largar o botequim e por último me prometendo cortar a conta no bar (realmente pedir aos nossos filhos cortá-la). Para ela eles uma cambada de bebedores contumazes, “os bebuns” como falava a me ferir. Foi um deus nos acuda a luta que travamos, por fim deixei de beber, quase não bebia antes mais conversava com os amigos ela não crendo; deixei e depois este inferno de ficar preso aqui na alcova na cama na chatice na insônia, a insônia que me engole a vida. A vida. É a vida que levo. Daí passei a ouvir seus roncos, quer dizer: afinei as orelhas e aí sim ouvi bem os roncos da Maria. Eu não ronco, a oposição a dizer com veemência até “você ronca igual serrote, Zé!” não me deixando dormir, ela dormir. Daí contava tudo à vizinha, ia voltava trocando as coisas delas: a Maria levava bolo trazia doce; trazia balangando uma receita de não sei quê levava torta direita que fazia, eu provando sim só um pedaciquito, não mais. Ia e falavam, contavam de mim do fumo da bebida, então ela a mentir ou exagerar a verdade; lembrava do fumaceiro e do ronco, ronco do seu velho. Ora... depois piorou a piora – fiquei nisto pranchado, qual ficarei disciplinadamente na mesa e no caixão. Não isso ainda, as dores as comichões e a falta da falta de antes quando me sentia gente ao andar por aí livre. Bem, daí passou este nunca-passar, fumo só, atiro apenas tocos no chão, queimo, ela diz-me incendiário e isto não é verídico, é mais intriga da oposição porque queimei duas vezes não mais o travesseiro e o colchão não queimei, somente o lençol visto não consciente a dormir, aliás dormitava fiscalizado pela insônia... Esta insônia rebelde. Não explico, entretanto, a sua presença no recinto aqui sentado nessa cadeira tosca e dura, dura como a vida; me olha, me escuta pacientemente e mesmo sorri pra mim; coisa rara a este Zé que foi Zezinho em criança e agora sendo Seu Zé, Seu Zé da Maria? esse Zé. Você o mais amigo entre os amigos, eles mais colegas de mesa de bar e prolongamento do copo que realmente meus amigos; você não, Chico: sempre atencioso a ouvir-me a reclamação do mandonismo da patroa; além do mais me compreendia; agora aqui. Sabe que ninguém mais apareceu!? certo, errado que a Maria escorrace com todos; não leve a mal, é que... Todavia não consigo explicar como pode ter varado o cerco dela... veja, está deitadona de lado – saiba dum pormenor e intimidade de meu lar: ela ronca pavorosamente de barriga pra cima; de lado como está ronca sim mas pouco, quase delicadamente, agora nem está roncando; inclusive gostaria que roncasse um pouquinho mesmo, eu precisando provar ao amigo Chico. Chico esteja à vontade; entende não é? não posso oferecer um trago, ela não deixa, porém cigarro tendo pra nós dois, que os netos trazem escondido dessa aí... Contudo não posso explicar a presença, mas deixa pra lá. Aproveito a contar umas lembranças que tenho aqui na cachola e no coração. Outra coisa que me confunde é o fato de estarmos no claro do dia... A insônia apreciando mais a noite; nem queira saber como rolo me amolo me esfolo quase neste colchão a cheirar um pouco xixi, a gente não segura mais quando vê não dá tempo; você tá assim igualmente espero... É dia, sim é dia com certeza pois vejo o claro neste escuro do quarto, a Maria não quer que se abra a janela diz que me resfrio e não sei o que mais; é dia ouço teimosos sons, mais teimosos ainda quem sabe que minha insônia a extrapolar a noite e vigente no claro no sol no som. Escuto os sons: a vizinha, não aquela uma nem aquela comadre da mãe sequer aquela comadre da Maria, a vizinha despojada de adereços de pichações vãs, é a vizinha que esguicha água sobeja dessa que falta no planeta para espantar a poeira e o lixo; e ainda fala, matraca com outra ouço; ouço mais os carros na disparada, agorinha passou uma jamanta dessas de envergonhar o caminhãozinho Ford 37 do pai; passou sim ela e demorou quase um dia a rodar suas mil rodinhas que são pneuzões destamanho e aí, aí que fiquei sabendo ser caminhão-de-quilômetro; disparam também automóveis qual seta como a Rio Branco certamente ao Cemitério da Saudade a correr doidos, doidos os choferes que viraram motoristas e condutores talvez aviadores nos voos rasos, doidos os homens não os carros, tadinhas das máquinas de fazer doidos; passam moleques, puxa como o Orbe tem meninos, não acabará o mundo por falta de gente! apesar dos abusos da gente nas guerras, ah a Guerra que sacrificou mais de cinquenta milhões de seres e o Zezinho num tava nem lá, lá naquele tempo com os meninos, ainda xingava o Yoshio e corria do Yoshio à barra da saia da mãe, a mãe também desconhecendo a Guerra na guerra ela no lar, “passa Rex vai deitá” falava; falam os garotos aí fora gritam o papagaio lá em cima aqui em baixo a tevê manda eles falarem “pipa” e eles obedecem; obedecem e xingam também, no entanto o Zezinho tendo pra si esse defeito até grande e a Maria xinga o xingo meu, a Maria, essa que tá de lado... não, falo a mãe que o povo chamava dona Antônia e o pai gritava se pronta a boia: “Tonha, tá pronto?” a mãe xingava de novo, atarefada e nervosa e... onde é que eu tava? brigado, Chico – no dia de minha noite na noite de minha insônia na claridade solar. Obrigado mesmo, me ajudou bem. Isso. E tem cachorro e gato, decerto fugindo do cão isso não sei; e agora tem galo e galinha aí no quintal do vizinho altão a patroa a dizer que a chatinha vizinha mata os pobres sem água e será que não têm eles dinheiro para comprar milho às criações! eu arrespondo: Maria, ocê num tem nada com isso. Ela? sabe que outro dia, nervosa (andava nervosa, coisa de mulher, acho que não se dá com uma e com as outras também, especialmente com uma de nossas noras – eu tenho culpa disso?! me falou para minha fala:) cala a boca, pô! Calei-me, murcho, coisa nesta coisa afundada no colchão. Tem sim o barulho dos galináceos e o barulho do passar na rua bichos vários, cachorro então! acho que se unem aos ladrares da noite da madrugada da insônia e se ligam à latição no sol claro... Tem um que me inferna porém não digo ser o Paquito, neurótico a me enervar ladrando loucamente; de raiva não direi seu nome. Tem razão, Chico, já disse, tá dito. Sei que é dia porque não tem mais grilo, grilo de cricrilar? não, grilo do apito do guarda-noturno a avisar seus ladrões a se esconder na noite, noite não é mais  sim dia. E tem gente, homens mulheres e indefinidos, a passar a conversar suas conversas, alguns discutem; discutir aqui no sentido pernicioso e vicioso da discussão: briga mesmo. Aí gritam, ouço. Ouço inclusive, não: sobretudo, o som do som, hoje se chama a todo barulho ampliado em rádio e toca-disco (que não é mais toca-disco:) e televisão e a tudo se dá o nome de som. Som maior quem sabe que a decibelização altona ignorante da mãe no radinho de caixotão que o pai lhe deu, certamente a aplacar a ira da fera, tadinho do pai, do pai do Zezi-nho, Chico. Ouço de fato o mundo e o mundo tá desperto no sol alto suponho e a insônia me persegue e persegue o dia e persegue o mundo. Me persegue. Percebe, amigo!



46° - Recordando as Coisas: o Prêmio
         
          De tudo que você conhece, sendo aquilo que repeti repeti e repeti segundo a oposição aí deitada, vou pôr agora algo nunca sabido, mesmo pela Maria – ela dorme pensa não roncar ronca dirá que não esse sim mas hoje até que não – digo antes disso, ao amigo Chico, a me sorrir no cadeirão duro nesta cabeceira de insoniar, digo-lhe haver vencido, vencido? sei lá, ao menos queimado as etapas passadas ou seja: contei as coisas para a Maria; de tanto falar fiquei rouco e afônico daí narrei ao desocupado escriba então desocupado e me falhou ou distorceu a interpretação (pior, me deu outra interpretação que não era a minha interpretação todavia deixa estar deixa pra lá, já passou); depois ao Galo, o Galo avis rara neste mundo em que imperava como rei a cucurucar estertorando ao mundo lá do alto do muro, via-o por esta fresta numa festa pra mim, esta fresta aqui, o Galo com o mérito ter além do bico de cantar as orelhas potentes de me ouvir! isto penso básico ao planeta. Curiosamente não as tendo em abano como as minhas entretanto ouvindo pacientemente. Mas, ah a trama do destino caro Chico... me afanaram o Galo; ainda me sobrando por isso falatório. A Maria caiu por cima do esposo por não haver percebido o sumiço dele! Como perceber se a fresta pequena estreita insuficiente. Ela não quer nem saber. Contudo o tudo dito me roubaram as orelhas que eram o sultão e seu harém, roubando inclusive o harém: não ouço mais as galinhas cocorocar, tinha uma se assustando fácil fácil ao botar o ovo no ninho, lembro aqui lá a vizinha da mãe a corrigir-me zezinhamente incorreto: “é pôor ovos, Zé” eu sorria amarelo, que mulherinha fresca nojenta cachorra e chata; deixa mais isso pra lá! Não explica esse imbróglio o sumiço do Galo o qual virou um galo qualquer de qualquer panela de pressão, não é assim o cozimento de galo velho duro; e hoje em dia não mais cucuruca o pobre. Dizem os entendidos, meu caro amigo, dizem haverem trocado um Cucurucu por outro, este Curucucu. Enfim troca-se o governante e a merda ao povo perdura, perdurando por exemplo a taxação mais alta do globo. O amigo queira perdoar seu amigo pelo nome feio bonito expressado, existem outros ainda mais feios; merda é um xinguinho manso que uso, essinho aceitável socialmente falando; deixa também isso pra lá. O fato é ser mais uma etapa vencida, ou queimada como retifiquei antes. Daí veio este novo período, surgiu o Chico e o Chico me sorri, disponha da gente, amigão, pinga não tenho pois a velha aí... cigarro como lhe falei, os netinhos, tem um que é lindo lindo, eles me trazem por baixo do pano uns maços e a Maria nem vê, penso que não talvez disfarce com pena da gente; Chico, essa mulher tem muitos bons sentimentos, somente não aprecia bebuns... Porém desejo mesmo falar-lhe sobre algo proposto, ou seja o maior prêmio que eu recebi in-Zezinho: o ganho é o seguinte. O pai era bom pra mim, pra nós todos, só que ‘cuculava’ muito a pequena Tereza me dando uma ciumeira sem tamanho mas bom. A mãe me sapecava por daqui uma palha, este um dito caipira da época, a época da Guerra. Bem. Um dia, outro dia, ele me dera a direção do carro e fora o moleque fazendo zigue-zague na estrada, os ajudantes do pai a gargalhar o doninho barbeiro, quer dizer errando e não vendo errado no volante; isso. O pai não, ficara se não temeroso circunspecto apreensivo ou tenso por minhas bobagens. Um dia que já era outro dia depois daquele dia, ói eu, Chico, ói eu com doze aninhos tão só, choferando o caminhão a descer a Serra da Formosa, não cheguei à Serra da Torre, esta menos inclinada e tendo uma torre esculpida pela natureza, não é essa: a tortuosa e perigosa da Formosa! Desci com o caminhão e depois queria ainda subi-la de volta com o carro cheio de lenha! vê como eu era temerário! o pai não deixou, mostrando ele prudência. A Guerra terminara, somente perdurando seus reflexos na economia e na política (deposição de Vargas) e sobretudo na tecnologia; então os reflexos se iniciavam nesse momento e o Zezinho ainda num tava nem aí lá nesse dito instante: apenas vivia seu instante e recebia extasiado entusiasmado abobalhado até aquele presente do pai, e nem era aniversário meu nem coisa alguma, era de outrem, sempre tem alguém fazendo anos, parece que o Yoshio ou o Joãozinho não o meu natalício – era presente por presente, o que tem mais valor. Olhava as curvas do caminho serpenteando a Serra, a engoli-la com meu caminhãozão, na primeira marcha, vez que outra pé direito no breque, me proibira o velho usar o direito (aí torto) no acelerador, que eu quase não alcançava... o pai havia improvisado uns travesseiros de pena como calço nas almofadas do veículo nas minhas costas e por baixo no banco na bunda (uma vez falaram nádegas pra nós e não entendíamos, só a chulice das coisas). De maneira que lá vai o Zezinho Rei imperando o Universo no ver pelo parabrisa sempre sujo e vesgo a paisagem lá embaixo que o carro engole engole e nunca vomita mas aspira inclusive e atrai para prender na retina! Via a montanha vencida, via agora perto o branco do algodão a sumir no Vale. Cheguei ao fim do motorismo, pisei o pedal, freei ou frenei a coisa, a máquina atendeu, brecou rápido ríspido nervosa, a tanto de arrastar pneus, inclusive paramos meio de esguelha pelo fato do breque pegar mais de um lado que doutro. Os homens na carroceria vazia (apenas com os dois auxiliares) desceram... um se benzendo outro rindo a gargalhar a tolice do medroso ou pela valentia do garoto Zé, um que dava aula de condução de veículo, olhando o rosto do pai já descontraído, já feliz por minha felicidade, a felicidade do prêmio que me dera, Chico.



47° - Limpeza da Sujeira 
         
          Agora... ué ocê tá dormindo! bebeu um pouco a mais? Puxa, tô bem arrumado: ocê dorme, a Maria ronca e dorme, o escriba desocupado some dorme decerto, o Galo dorme ou é que foi tomado por Sultão e trocado pela Corrupção: esta nem dorme no país – até o Chico me abandona a dormir!! Não importa, continuo a falar ao dorminhoco. Além do mais não existe essa coisa da aprendizagem se fazer melhor quando a gente no sono? Prossigo. É verdade que nos dias de hoje me chamam porcalhão em vista das bitucas a sobrar debaixo da cama... No entanto, Amigo, veja como progredi desde Zezinho a Seu Zé. Acredita que fugia dos banhos? a mãe a me cobrar; isto já falei insisto apenas na verdade; o absurdo não me tornando o menino mais sujo do planeta, mas deixava sim a desejar em matéria de higiene. Mesmo quando na rua Dirceu passava um vendedor de guloseima e eu visitando o quarto da mãe para extrair moedas do cofre forte quebrado involuntariamente por mim, repito o sem-querer do querer; que fosse o vendedor de quebra-queixo, o sorveteiro com seu sorvete de palito; muitas vezes com o doce na mão comprado e, afoito, já correndo e correndo de volta me esquecia pagar o homem. Sem nenhum cuidado higiênico era o garoto, lambuzando as mãos... e, ah também recordo umas canas que roubávamos num quintal quase sem cerca, a cerca que nunca segura moleques: chupava a cana, no dente forte sem faca; um dia ganhei do pai um canivete de cinco mil-réis ou cinco cruzeiros nem sei mais; então descascava me cortando vez que outra sim descascava, escorria nos braços o melaço, ficando a grudar; ainda grudava mais a sujar com terra os escorridos do mel. Pior disso, não me lavava a contento quando me lavando; a mãe gritava comigo a relavar no ‘pé cara e mão’ mal lavado, naquela cerimônia da ‘limpeza’ ao dormir. Só me assustava de fato quando ela me lembrando: “ocê vai deitá melado pra barata ti lambê!” aí, com dose tão forte de realidade, me levantava e limpava o mal limpo, que me esquecera... Enfim ia por aí levando o grude do quebra-queixo, o qual ficara mascando nas partezinhas de coco e esticando o açúcar puxa-puxa como brincadeira, às vezes grudando parte na parede, dando um pouco ao João outra porçãozinha ao Rex, que não apreciava doces. Sujo, um exemplar em exemplo. O Rex meu ponto de referência nas farras além de repartir com ele alimentos ou só atirando pau pra vê-lo correr. Gritava com o vira-lata, não para sustá-lo nas investidas aos passantes, a encorajá-lo e mais para instigá-lo a fim de flagrar as pessoas e outros animais a fugir (achava engraçadíssimo); atiçava o bicho nos cavalos soltos e para brigar com outros cachorros – uma gritaria medonha, minha e dos cães, a irritar vizinhos; claro que não assustando os moleques vizinhos, anjos tanto quanto eu; batia palmas nas incitações, um inferno no bairro. Porém sempre sujo às vistas alheias, quem sabe a sujeira como característica. Quanto ao picolé ele escorria pra mão escorrendo também pelo gelado meu nariz, o nariz de meter o bedelho na conversa adulta e ser ralhado, escorraçado. Um capeta o Zezinho. Um dia se preocuparam com minha civilidade e higiene: o pai me comprou um lenço branco (branco estava na loja... depois se tornou encardido beje) comprou um e me passou outro que não usava mais (meio branco apesar da soda que a mãe punha e pedrinhas de anil a fim de mostrar limpeza); nisto um desastrinho: não tirava mais os lenços dos bolsos, quer dizer: tirava para soar as melecas e limpar até o chão de sentar pra jogar búrica; quis falar o Zé usando sem parar, deu pra entender? Enfim o moleque fazia o melhor no pior, ou seja limpava assoava limpava sujava a contento e guardava. Por fim a coisa parecendo engomada ou dura por cola. Eram uns panos da limpeza sujos. Depois os perdi ou os releguei a secundário ou é que me esquecia levar à rua e à escola. Dona Tomásia bem que ajudava a mãe me corrigindo me cobrando sempre limpeza “Zezinho, que coisa feia limpar o nariz no braço!” Todos olhavam pra minha carteira, eu um aluno envergonhado... envergonhado? menino não tem disso, esquece loguinho reprimendas. Noutro momento ói eu a aprender outras limpezas! estou no ver o pai fazendo a barba. Toma a navalha, esfrega a lâmina pra lá pra cá num porrete, eu a abrir a boca interessado no afiar o objeto; acaba experimenta o fio, olha o espelho espalha sabão em espuma; espuma raspa e se corta e daí es-puma de raiva, grita (consigo mesmo ou atinge um ser invisível como seu feitio, então retoma o raspar:) grita outra vez nomes feios, o Zezinho conhece os mais sujos e expressivos em italiano e em caipirês, sorri por dentro fora se fecha no interesse que desperta a atividade paterna. O homem se limpa, lava a cara, faz careta não para ficar feio, feio já, a mãe bonita; faz careta sim no álcool aplicado para desinfetar a face, examina os ‘bifes’ que a desajeitada navalha provocou. Finalmente estanca o sangue na toalha, assopra como pode o rosto, me olha: “ocê num vai me pô a mão nisto aqui!” impera mostrando a navalha. Fecha o instrumento engraçadamente, eu achando uma brincadeira e tanto, fecha a arma de vez, me olha, reolha, pensa (decerto põe prós e contras, soma meus dividendos subtraídos e:) repensa e finalmente guarda no altão, bem altão ao pequeno malasartes... Limpo está o velho, de cara limpa; e o Zezinho sonha um dia ter barba de metro até ao umbigo e bigodes espetados pra cima como o do Fumanchu que viu no matinê e será que não tem mais fita do Gordo e o Magro? No cinema ia, quando ia, ou não ia, a mãe: “sujo assim não vai, vai envergonhar a gente!!” Mas já que estamos falando na falta de limpeza... lembro uma passagem interessante, uma não: várias vezes agimos assim, eu e o Rex. Chico, a Maria não quer nem que eu cite o fato e se enoja, ainda bem a dormir ela, não ronca; sim, nem eu. Eu via sempre o trabalho do Rex a lutar contra os mosquitinhos; igual estes, vê como andam (voam) eles e nos azucrinam? entram na orelha da gente e dão gritinhos zunidinhos irritantes, entram, querem penetrar e se deixarmos entram mesmo os bestas em nossas narinas e até na boca; sentam na comida na borda do prato – a Maria me traz aquelas horríveis sopas mais papinha que sopa, em vista eu derramar na cama nessa tremura danada, ela que diz isso como intriga quem sabe, porém tomo cuidado: não adianta, os mosquitinhos caem no líquido nadam morrem! desses. Desses eram os que eu via o Rex a se irritar. Daí investia, tentava, e conseguindo por vezes, certeiro, tentava pegá-los na caça em pleno ar: ploft e pronto. Depois? engolia e sorria de cauda. Eu me esborrachava de rir e nos entendíamos. No entanto uma vez, longe do Rex, eu não iria dar vexame diante do amigo como testemunha... pois tentei, fracassei, sorri com nojo – havia tentado abocanhar igual o cachorro um atrevidinho; e por azar uma das tentativas foi coroada de êxito... Saiba Chico, que sabor horroroso tem mosca! Nunca falei isso a ninguém, sequer ao Rex. Minto, contei à Maria e ela ficou com repugnância da repugnância que senti e cuspiu cuspiu... me proibindo tornar à nojeira. E você meu Chico ainda dormindo?



48° -  Insônia,  guerrinha (ah que gracinha!) e                   Guerra
         
          Ai que descuido da minha insônia, quase sonolentei quase modorrei quase desmaiei quase apaguei quase dormi cansado acumulado andava no sono no sonho no pesadelo e... Sou o escriba desocupado, desocupado no ver o que ver, vejo que a Maria dorme o desocupado dorme o Galo dorme (ou será aquele negócio da panela de pressão, do harém, da corrupção?) o Chico dorme o Zé dorme, todos dormem ou não dormem negam mas roncam e... Pera aí, pesadelo sonho sono na insônia que seja, passei, Zezinho, passei pela Avenida Brasil, avenida!? qual o quê! como é o conceito urbanístico de avenida; pra mim não passa ela de rua e ainda por cima ou por baixo sei lá, ainda rua bem estreita; claro sem ser do estreitume de cidade antiga onde só burros e carroças a passar; neste século que é o futuro do século passado, neste século sim moderno, tem avião no ar (que mau gosto: só aeroplano teco-teco e ainda lá em cimão, a vizinha comadrinha chatinha da mãe dizia “inribão”, vai poder com esses capiaus expulsos da roça e acampados nas nossas vizinhanças civilizadas! partamos ao chão da rua ao trânsito pesado:) de avião não importa e carrões a entupir o tráfego! o do pai era um caminhãozinho 1937, já expliquei isso; e na Guerra havendo mais novos ou menos velhos, mesmo porque a frota mundial era então bélica, tudo girava em torno dEla todopoderosa, tudinho no esforço de guerra para a Grande Guerra; não sobrando veículos novos ao mercado interiorano. Contudo circulavam carros na ‘Avenida’ Brasil ali perto da Estação Ferroviária. Na margem esquerda a colônia de casas dos ferroviários, ou dos mais conscientes e/ou conceituados funcionários; suas casas e seus jardins e ainda muitas árvores – bem bucólica a cena. Lembro que do outro lado da rua havia e ainda há carreira de prédios baixos e pesados, construções sem preocupação com beleza mas funcionais, de tijolos, isto um acontecimento num meio urbano de madeira a engolir floresta em volta e ainda a ter boca de mil serrarias a todo vapor! Nos tais prédios surgia o estabelecimento do Sasazaki. É aqui que se inicia – oh dorminhocas e sonolentas criaturas, roncadoras teimosas e sem pena dum pobre insoniador... – é aqui início da guerra. Da Guerra? qual, a guerrinha entre dois meninos. Acho que posso, amigos a dormir, acho poder marcar inclusive a hora exata do início delinha, ou seja 4:30h. da madrugada. Isto porque um dia, uma noite me levantei quando ainda andava não vegetando neste afundado de colchão, acendi a luz, quer dizer apertei o comutador na parede do quarto, ela bronqueou, não a luz nem a parede: a Maria já a reclamar “me acordando e...” calma meu bem (arrisquei a expressão tentando impedir tragédia e insultos) quero ver de uma vez por todas a hora na qual esse infeliz canta, imagine se o galo chorasse choraria toda a população tal descontrole e não: ele canta, embeleza “me acorda!” gritou a esposa me cortando a poesia, sim acorda a gente feito despertador; despertador nas mãos olhei à vista embaciada de tanto insoniar, constatei – o galo canta às 4:30h.. Ela? resmungou. Guardei o despertador, ele tiquetaqueou anos, me entrevei e pedi à consorte guardá-lo no armário (guardar é verbo manso nesse caso, foi mesmo um aprisionar) enfim esconder o bate-estaca do seu som de me manter insoniando. A Maria me fez sim o favorzinho, prendeu o infame transgressor; o monstro ainda assim a barulhar; pedi para enrolá-lo num pano de poucos poros a amortecer tiques e taques mais nesse menos e ela me fez o favor, por ser boazinha, era boazinha a mulher; aí eu disse “Maria, não consigo afugentar a insônia”... completou-me ela meu discurso assim “vá para o inferno, Véio!” e ainda resmungou não sei quê e quando vi não vi – ela roncava; de lado ronca sim mas mais menos. Daí... pera lá, e a guerrinha. Ah sim, a dita 4:30h. foi o momento da insônia em que lembrei da guerrinha. Tava o Zezinho descalço a pisar naquelas pedras frias, escorregadias no chuvisco e não chovia só machucava os pés, a mãe dizia “a lancha num entra nu sapato” estava ele na Av.Brasil, falei que não aceito avenida sim rua? deixa pra lá. Então, perdera a aula, ia pra Tomásia quando viu tava no oposto da escola e ali perto da Estação, bem frente aos Armazéns do trem, onde tinha uma porta de aço semienrolada alevantada de uma fabriqueta de plantadeiras de semente, daquelas que eu vi num dia no cafezal a fazer totoc-totoc os caboclos plantando arroz na rua de café, dessas e o homem nipônico ali estabelecido com seus empregados fizeram mil e uma delas. Tinha um caixote de sucatinhas de ferro, cheio, na calçada, e o Zé a olhar cobiçoso aquele tesouro, um operário chamou atenção do garoto, garoto adora espalhar as coisas e desajudar adultos ocupados.  Ele olha as coisas quando notou ouviu-viu uma briga de moleques. Não se entendiam. Parece-me entrando aqui figurinhas carimbadas que não sei quem tomou de não sei quem outro e já estavam em vias de fato. Brigavam boquejando e andando ao mesmo tempo, andando os olhos do Zezinho curioso atrás dos heróis. Até perdeu não sabendo onde os sapatos, aqueles que a mãe comprara para ele ver Dona Tomásia bonitinho e de uniforme limpo e passado; descalço portanto. Pisava nas pontas e saliências do paralelepípedo sem notar, tanto notar prestando atenção apenas no entrevero dos outros. Chegaram à rua Paraná, subiram, atravessaram a linha de ferro, ainda brigando e a assistência torcendo, ela agora enorme o Zé o mais xereta no grupo. Um dos contendores era engraxate, preto magro falante corajoso até; trazia dependurado a caixa de engraxar com seus apetrechos dentro como graxa tinta escova pano para lustrar calçado e outras coisinhas da profissão, tudo chocalhando dentro do invólucro. Em cima da tal caixa o porta-pé de pau a assentar sapatos é lógico. Assim poder-se-ia dizer que o negrinho tendo o pé nas costas. O outro branco e também sujo, o que não sujava os olhos zézicos por natural. Foram além – eles briguentos e os meninos da torcida – além da linha, sempre andando e discutindo alto suas coisas, ótimos nomes feios e palavras ferinas; e dessa forma pararam já na Avenida Sampaio Vidal, na frente do Cine Marília, parece que em construção ainda. Contudo o Zé observou de relance quase as placas do outro lado na porta do cinema a anunciar os filmes num giz vistoso, não tinha do Gordo e Magro só uns com nomes em inglês, ele não sabendo sequer o português direito. Daí a dupla resolveu acabar a guerrinha, esta linda de se ver e em oposição à Guerra que se acabara lá lonjão, o Zé só tava ali na roda de discussão. De fato resolveram nos tapas findar de vez. Esfolões, sangue, xingamento à beça. E fim de papo, acabou-se a estória? quem sabe. Sabe-se que o japonês industrioso e tenaz aumentou seu negócio, a empresa virou posteriormente grande e diversificada, hoje de nível internacional, a satisfazer nossa bairrista vaidade. Enquanto que a Guerra, essa acabou, dizem os livros didáticos. Os que o Zezinho ainda não sabia ler, meus caros dorminhocos e roncadores. E negadores.



49° - Da Necessidade Desta Narrativa
         
          Acordou, dormia, madornava, enganado na dormência alcoólica? ou só me enganava, ouvia... prazer, Amigo, prazer neste retorno de suas orelhas me ouvindo o contar. Temi sua vista cerrada, por causa da semelhança com um dia. Um dia acordei, então a insônia não tinha vez na minha vez, acordei às 5:30h (sei disso, vistoriei o barulhento despertador num conluio com o pinguim de louça que tava em cima da geladeira, coisas da mulher; e é claro não estivesse ainda a curtir o entrevamento nem o buraco neste colchão; sei porque andava urinando no banheiro e isto faz tempo agora apenas disponho do penico; nesse dito momento ocorreu o negócio!) acordara, fazia o que fazia enquanto essa aí a dormir e até roncar; nisso me espantei num cocorocó danado, não, não era cocorocó manso no quintal do vizinho, era mais grito de galinha, berrava ela, e, imediato, a infernação da cadela que mora doutro lado, junto com a vizinha, não a vizinha chatinha que a Maria a pichá-la disse matar de fome todo o galinheiro, não essa: a outra. Esta havia prometido esganar o Galo, o galo que me ouviria mais tarde as coisas de minha infância. Gritava a penosa, gritava a cadela, dela outra vizinha. Concluí, apressado, como todo homem comum: a vizinha cumpriu seu desiderato! especialmente o argumento se tornando mais sério na medida em que a agonizante ave parando de gritar; eu imaginando o Galo, as minhas futuras orelhas de ouvir as artes do Zezinho. Quase chorei, não chorei homem não chora dizia o pai a mãe balançando a cabeça a sorrir; quase; cutuquei a esposa a contar as verdades. Era mentira. Engano ao menos, visto que loguinho o Galo bateu asas entortou desentortou gozado o pescoço fazendo voltinha e imediato cucurucou no seu estilo, no seu horário ou não pois tardou um pouquinho decerto tendo igualmente escutado o pedido de socorro, um SOS piado, de uma do harém; aí constatou não ser do seu, quem sabe uma galinha comprada pela vizinha dita e redita na feira arrematada por cinco mil-réis no final da feira da quinta-feira, tendo a pobre ido a seguir para a panela. Isto nunca comprovei. A Maria: “me deixa dormir, pô!” e eu na batata, imediato: “roncar para eu ter insônia!” não ouviu, redormiu, re-roncou. Todo este papo a dizer simplesmente ao Chico que preciso contar umas coisinhas na vidinha do Zezinho, um capetinha convenhamos. Esse roubo que ocorreu mais tarde me lembra outro antes do mais tarde, não de galinha e muito menos das galinhas do harém do Galo a quem narraria posteriormente capetismos mais; não também das galinhas de Antônia, aquela a viver exigir que o Zé pusesse água no recipiente delas, em que tomavam o líquido e o Rex também, a deixar sua própria vasilha, e o fazia com a língua eu achando uma graça e pelo espantar as aves ariscas nesse momento, elas que eram as legítimas donas de sua bacia velha como bebedouro. A mãe sendo ciosa de suas criações, tinha inclusive uma cabrita do tempo em que não achava leite fácil na cidade nascente-crescente e as crianças, eu e a nenê, precisavam alimento. Tinha outros animais. Enfim nada de roubo de galinha, muito menos por ladra (a gente é que pensa apenas existir macho roubando, mulher não) e não ladrão macho pra valer com direito adquirido por machura e consagração no tempo de séculos amém. Galinha não: gasolina. Se me perguntar se isso grave direi gravíssimo. Pois alembre a Guerra o racionamento de gêneros e bens, de filas para comprar pão de fubá amarelão duro pesado e as crianças não queriam: a mãe precisava fritar bolinhos pra nós mastigarmos de boca aberta igual porco; filas de sal de açúcar e de gasolina! O pai ficava horas e desde madrugada a conseguir dos funcionários municipais uma requisição para dar comida ao caminhão e ganhar a comida da família com esse combustível. Se era difícil e sacrificado, então imagine o desbrônquio nas finanças de casa se um ladrão afanasse o precioso líquido! Foi exato o que deu-se... O pai se levantou madrugada, não sei se insoniava se roncava se brigava com a mulher, não: sim brigava e como! a mãe daí não parando mais de falar, boquejando ainda após o velho haver fugido da esposa e já lonjão no caminhãozinho. Levantou-se como faço (fazia quando fazia, agora estendido nesta cama...) como faço sempre a mijar e mais para fumar, a mãe pegando no pé dele como a Maria no meu pela mesma razão. Ah, e quando acabava o cigarro: o pai saía desesperado na madrugada a fim de achar um boteco aberto que lhe vendesse o veneno (este o vocábulo preferido da mãe a xingá-lo). Levantou-se e imediato sentiu o cheiro forte e provocante da gasolina! No instante pensou haver esquecido qualquer coisa aberta ou ligada, ou que fosse o Nishimura havendo na oficina apertado mal uma porca um parafuso ou... ora, tava lá aquele cheiro penetrante anunciante, por sinal nesse tempo a gasolina exalava mais forte que hoje. Só daí se lembrou esquecer-se poder ser um ladrão. Era o caso! Saiu de mansinho, pisando nos ovos diz o caipira, abriu cuidadosamente a porta no escuro e flagrou o delito: um cidadão deitado debaixo do carro, uma lata recipiente, a torneira aberta embaixo do tanque de combustível e o cheiro forte. Foi frio o pai: “o que ocê, Chico, tá fazendo?” O Chico, um amigo do pai (e quem tem um amigo desse teor não é melhor ter diretamente um inimigo!) um vizinho nosso, não se tratando docê Chico, que é meu amigo desde quando no boteco nós... deixa pra lá. O Chico: “Zé... é que... eu tava passando, tava sem gasolina no meu tanque... num quis pedí imprestado e ainda acordá ocê e Dona Antônia...” O pai não acreditou, não era tão inocente. Ao contrário rasgou o verbo em cima do vizinho e nem precisou contar o malfeito benfeito dele à mãe – ela já ali de camisola, o Zezinho atrás dela xeretando a novidade; e se a Toninha sabendo, aí espalhado o insucesso do vizinho por todo o bairro. O pai xingou o homem, este saiu envergonhado, deixou até a lata debaixo do veículo. Assim perdi um de meus colegas, o Francisquinho do seu Chico, a família não suportou três dias a falação na rua Dirceu e se mudou. Depois fui com o Rex ver se tinham esquecido qualquer tesouro na casa pela mudança apressada. Apenas tinha um vaso de flor, seco, e dentro da casa cheiro de poeira e barata e mais sujeira imprestável mesmo a um lambeta como era o Zé. Nós dois ficamos decepcionados não havendo tesouro algum como butim de guerra, mudança de pobre é sempre uma guerra mal sucedida. Mais eu, o cachorro pensando que o Zé viera atiçá-lo à brincadeira ladrou a gosto, desgosto da vizinhança.



50° - Fatos & Fatos
         
          Fatos, Chico, fotos não. Porém me azucrinou o modo como a esposa tratando o amigo uma vez que veio aqui o Zelão, ocê lembra do Zelão; ela, irreverentemente, o chamou “pinguço” eu então rosnando ela ainda me pisando braba: “pinguço mesmo, do seu naipe”, nosso amigo não ouvindo por caco cheio, todavia eu me ofendendo. Já disse que a Maria conhece vocês todos, nós, eu no meio, todos por bebuns. Mas brigar com a Maria, discutir esbravejar querer ter razão é falta de razão: é perder a parada. A mãe era pior; quer dizer, era melhor nesse pior, falava dia inteiro em cima do pai. Quando brigavam manso... entenda Amigo, brigar manso é não dar porrada, é falar desaforos discutir dar o troco baixo, educadamente, polidamente, civilizadamente (cristãmente?) e isto raro nos gritos em casa. Quando assim acontecia eu virava juiz deles, veja bem: juiz constrangido. Ocê não acha fío que seu pai... A Tonha exagerou na dose hoje hein... e eu? tadinho do Zezinho, concordava com quem estivesse falando. Até que um dos contendores resolvesse, como amparo aos seus deslizes e a cimentar sua tese, me pôr no meio, lembrar uma de minhas mil travessuras e aí o árbitro entrando pelo túnel, embora as vaias, e saía doutro lado do estádio na rua Dirceu. Ali os iguais bem mais semelhantes, arteiros tanto quanto e sujos e dispostos a um joguinho – a búrica o pião a figurinha ou a conversar contando a matinê, momento em que imitávamos os diálogos (as letrinhas a gente não conseguia acompanhar nem se as mesmas parassem cansadas de tanto passar correndo embaixo da cena na fita, não conseguia também por analfabeta – o João no segundo ano o Yoshio grandalhão no quarto da escola e o resto da turma como eu, xucro e cego nas letras); todos virando ao mesmo tempo mocinhos bandidos e plateia, rindo, gargalhando, esquecendo o pega-fogo doméstico, uma guerra. A Guerra? nem os coleguinhas sabendo. Além de tudo o mais mudávamos de ponto de reunião de bagunça a ajudar caracterizar menino: menino não para, seu ajuntamento se desloca frequente e aí, quando se procura alguém (o adulto é especialista nesse desmanchar prazeres a chamar fulaninho para ir fazer qualquer, dar recado, comprar isso ou aquilo) quando procura não acha o interessado; isto um abuso de linguagem porque o moleque nunca estaria de fato interessado a deixar o brinquedo para a responsabilidade e a imposição... Não encontra o fulaninho, decerto a fazer arte. O Zezinho era sim arteiro, se não o mais entre arteiros; entretanto não maldoso. Vou repisar este aspecto para tentar mostrar que não era mau. Arteiro, não maldoso; dessa maldade adulta planejada estudada no rigor e visando ganho vaidade orgulho e levar vantagem em tudo – dessa não, não mesmo. Porém aqui guardadas as proporções poder-se-ia tachar o garoto mau. Seria assim no episódio da galinha, a galinha o harém o Galo a panela de pressão? nada disso, nem galinha mas franga. Um dia a mãe... ela que chamava ti-ti-ti com milho atirado e as bobas crendo na sua bondade vinham bicar sua porção e eis que grudava uma, a mais gordinha pesadinha fortinha sadiazinha, e aí não adiantando gritar cué-cué a mãe já torcendo o pescoço da pobre, a pobre imediato estrebuchando e espantando o terreiro todo, o galo o mais ofendido com a subtração. No almoço lá vinha frango ensopado ou afogado; nunca entendendo o Zé tais expressões na hora de mastigar a carne “comadre, este aqui é uma onça por carne!” eu. Bem. Não foi bem assim comigo na minha primeira experiência como el matador torturador ou apenas inexpressivo carrasco, graças a Deus. Não puxei o pescoço de ninguém nessa primeira e única vez na ocupação de matar galinha. A mãe falava sempre ao pai (o pai tinha disso de deixar pra depois outro dia outra semana ano que vem essas coisas; e a velha ainda nova já esperando o deixa pra lá dele; ainda assim falava ao marido:) sobretudo quando o pai vindo beber café pra boca de pito e aí frequente tomando direto no bico do bule a mulher dando uma bronca por isso também; e ela falava ao pai dar um fim na franga torta, pois não iríamos comer uma doente, vai que pegue ‘pescoço entortado’ nas crianças! Leva ela e solta na estrada, faz isto faz aquilo – nada, o pai desconversava ou dizia sim, sim (pronunciava mesmo “si, si”) e isto era sua forma de concordar discordando sem precisar aguentar o falatório dela, ‘sim’ para dizer ‘não’ e saía pra suas coisas. “Comadre, o Zé me deixa falando como tonta sozinha, o fresco, e quando vejo escuto ele funcionando o caminhão!” Agora me manda pôr fim enfim ao fim da franga que grasnava rouco seu piado e piava virando a cara pra esquerda na contração do pescoço doente. Vai, disse, vai agora! me intimou. Só que eu não tinha coragem e é nisso que vejo a bondade que não via em menino, arteiro pra valer confesso. Arteiro sim, mau não; afirmo ao Chico. Olhei aquelas penas pretas com pena. Como matá-la... O Rex veio na ajuda quase que num passe de mágica; bolei imediato um plano, aticei o bicho no bicho, ou bicha por ser franguinha fraquinha miudinha doentinha encolhidinha parecendo sofrer frio. Ele ‘ferozmente’ avançou! todos penados a fugir, alguns chegaram voar pelas asas completas (a mãe cortava uma das asas, as pontas das penas das asas enfim, de um lado, pra não voarem ao quintal do vizinho encrenquento e ela: “esse vagabundo não é mesmo pai legítimo do João” aliás, menino, seu amigo é um perdido igual ao pai de contrabando; não quero mais ver você com ele, entendeu? Eu fazia que sim de cabeça a dizer não – semelhante ao pai). Todas aves na fuga por causa daquele monstro ladrador e que me lambia. Ela não, não fugiu, não tendo sequer coragem para tanto; tanto assim que o monstro especializado em correr atrás das galinhas chegou perto da franga apenas cheirando a vítima. Então resolvi obedecer à risca a ordem da mãe: vou matar a franguinha! daí gritei o João com quem não deveria ter amizade; conversamos, expus o problema, ele também sem coragem mas e a união não faz a força? Combinamos de os dois sermos os carrascos oficiais para executar a sentença. Grudei a cabeça da franga, ele o corpo da magricela criatura. Um, dois, três, já... cada um ficou com sua parte nas mãos e a ave ainda viva! Atirei enojado sangrando dedos a minha cabeça ao chão, o amigo o corpo dele com penas nas mãos... o tronco se empinou e começou a pular! Pulamos nós a cerca proibida, fomos recebidos pelo Peri já no quintal do colega; eu tinha lágrimas e sustos; o Joãozinho estava branco como cera, igual quando a gente é pega num flagrante a roubar frutas. Ora, isso não prova a desmaldade do Zezinho!? Olhe, nunca mais me meti a assassinar quaisquer vidas, até hoje virado Seu Zé. Saiba que é a Maria quem sacrifica galinha quando tem frango na janta. Ela é capaz de espetar para assar um cabrito a festejar o Natal, matando para o nascimento do Cristo! a meu ver um contrassenso e também me parece comum no homem comum. Essa aí, deitada de lado, afundada como eu em nosso colchão, essa aí. Muito bem. Contei à mãe como a execução do serviço... Contudo a mãe não confiava demais no filhote arteiro dela, o pai: “esse menino faz artes mas tem coração mole!” ela: “vai nessa, Zé!” não acreditava. Aí eu: “tudo de mal a senhora acha que sou eu quem fez...” e chorava pra provar a prova. Porém são fatos não fotos como falei, caro Amigo. Aliás quase não tínhamos fotografia no lar; minto, tinha sim uma caixa, um dia entrou barata e dona Antônia parou de mostrar as fotos aos parentes vindos à nossa casa. Os do lado dela guardava mostrava exibia simpatia bastante; os do lado de meu pai só mostrava quando mostrando as dos outros; espécie de remeximento de cofre e arquivo confidencial a caixa dita; no meio das fotografias várias outras coisas, também havendo algumas em exposição no quadro na parede como a do casamento dos dois e a foto da mãe da mãe, oval como costume antigamente. Entre essas fotos nas mais diferentes poses, como falei, havia documentos encostados ou guardados com outros pertences: certa mecha de cabelo de meu irmão mais velho criancinha; um sapatinho de nenê não sei de quem. Essas coisas. E as fotos é claro. Após as baratas a mãe não abria mais a caixa, me tocando fazer o sacrifício; daí levantava a tampa, sentindo o cheiro acre e de poeira anos depositada como farinha por sobre a tampa, uma com fresta suficiente a entrar digamos poeira e barata. Lá de vez em quando o Zezinho tomava uma das fotos e saía por aí para mostrar a alguém, só umas três vezes as perdeu. Apanhou. Tinha uma dum amigo do pai que fora à Guerra, eu não sabendo onde isso nem o que; então mostravam à visita: é esse o Finado. Não me interessando demais. Sobretudo se os grandes ao ver aquelas novidades antigas desembocavam a falar assuntos sem-graça para um pequeno, o Zé. Sumia pra rua.



51° - Uma Boa Ideia
         
          Não, Chico, talvez não seja boa ideia a ideia a tratar o assunto religioso cheio de melindres. Veja como piso ovos também. Veja a Véia aí a roncar, não está roncando mas espere um pouco pra ver, pra ouvir. Enquanto, arregalo nesta minha insônia, mais arregalada ela de olhos a me deixar desperto e esperto; enquanto isso, quero pôr uns parâmetros... você não entende! digo então comparação entre coisas, aqui religiosas. Daí o medo que mostro por ter medo a analisar questão demais controvertida. Ao menos posso afiançar meu desacordo com o acordo religioso, não discutido direto pelas partes no meu lar (não este deste quarto deste colchão neste afundado e a insônia, não: o lar da infância). O Zezinho notava certa desavença entre os pais nisto, isto decerto a me levar à irreverência, sabia que sou irreverente! a Maria aí inclusive sempre me pichou ateu em razão da irreverência. Pois bem, agora, depois de anos a observar, viu também umas patifarias dos padres que ela mais apreciava, eu não: sempre anticlerical e hoje mais ainda, ela. Após perceber esses problemas ficou igualmente com problema e deixou de ir à missa e de valorizar coisas ligadas aos ofícios religiosos. Saiba era carola quando moça e se tornou uma velha rezadeira; eu paguei o pato – não tem um dizer assim? eu pagava por a Maria pegar-me no pé cobrar posturas. De maneira que achei, nisso, bom envelhecermos. Em casa o Zezinho percebia o pai um pouco indiferente aos procedimentos sacros. Contudo um dia, eu estava no caminhão na cabina com ele, ele parou num cruzamento aguardando sua vez e tirou o chapéu, seu boné de motorista; cobrei explicação: “quando faço isso estou pensando em Deus, pedindo forças para aguentar a vida”. Foi pra mim uma lição que nunca mais esqueci até chegar a Seu Zé. Quer dizer que nos paramentos sacramentos santos esses negócios de representação não creio eu, não demonstrava crer ele; não cultuo nem pactuo com nada parecido. Irreverente. Ateu, dizia a consorte; dizia, hoje quase isso virando tabu aqui neste quarto neste colchão por cima do urinol e dos tocos de cigarro espalhados para ela ruminar o meu desajeito. Antes ocasionando conflito conjugal. O que não faltava entre o pai e a mãe era também o conflito... Se o velho agia como disse agorinha, doutro lado a mãe cultivava mais o medo às coisas não vistas nem pegáveis, se assim posso manifestar-me. Daí agir como agia quando na roda informal no lar e surgia nos causos que os parentes e amigos nos traziam a questão da alma penada e assombração; o pai balançando a cabeça quem sabe incrédulo, enquanto a mãe se benzendo. No cemitério, a gente segurando a alça do caixão de alguém, ela arisca, meio olhos arregalados, desconfiada, temerosa. Na sala em leitura, labial lenta rateante, a mãe sempre circunspecta, medrosa nas coisas lidas ditas tidas por profundas ou indecifráveis ao homem comum; se o teor enviasse a certas interpretações se não dúbias ao menos escondidas e indecifráveis, se confundia como é próprio aos ignorantes. Vamos dizer que ela temesse coisas como a estátua duma santa que punha em cima do móvel onde o cofre, ah o cofre que espatifei, deixa pra lá. Era Santa Luzia, aquela da promessa de meus olhos, já contei isso um dia procê no bar não foi? Tinha outra estátua na casa, doutro santo. Esse era eu quem temia; de noite passava ao largo, olhava parecia olhava também ele pra mim com aqueles olhões medonhos arregalados e a expressão de vítima, ao gosto católico. O Zezinho deplorava, mesmo sem entender. Ora, quem não entendia a Guerra lá lonjão onde se matava concretamente pessoas, como entender o que sugeriam aqueles olhos apavorantes! tinha medaço. Na missa, nas que o garoto fora algumas vezes, temia, ainda, as estátuas e não compreendendo o repetir e repetir a mesma reza. Não dava sentido. Portanto em matéria de religião achava mais concreto o Deus do boné que o concreto de concreto imitando gente com fisionomia de sofrimento. O que desejando o Zé era a alegria; ficava bem melhor e mais à vontade na rua com os moleques arteiros... Eu indagava a mim mesmo: é isso a cultura! o conhecimento religioso as rezas as ladainhas de minha mãe. Mas havia também o pensar dos outros com quem convivíamos influindo, a Comadre-Vizinha e as pessoas nas imediações, os parentes, vários deles irreverentes ou indiferentes, como seria depois Seu Zé, Seu Zé da Maria? esse Seu Zé. Cada visitante trazendo sua contribuição; o que demais é comum aos demais seres e isso é o pensar do mundo. Nessas contribuições, várias delas nós já as vivíamos, no cumprimento ao mando de Santa Ignorância: por exemplo pôr um sapo de barriga pra cima a fazer parar a chuva que não parava, melando a casa e dei-xando aquele cheiro irritante de mofo por tudo, a mãe a lamentar com as outras mulheres a não-secagem da roupa, a Terezinha sujando defecando todo minuto nas fraldas; ou o costume de guardar os dias da Quaresma (nem sequer sabendo o significado dela) e isto mais a mãe a exigir. O Zezinho era um moleque bocudo, vivia a cantar alto a gritar baixo suas besteiras: “num pode, Zé, Deus castiga!” Se castiga não é Deus, a definição não esclarece que para ser Deus é fundamental o absoluto o ótimo em tudo, como castigaria se castigo é a maldade planejada e executada! Lógico não ter esta lógica um garoto, percebia o absurdo da crença; e só não desatendia na hora frente a dona Antônia. Ou apanhava, ficava de castigo. Enfim também brotando naquela cabeça de louquinho a força da consciência. O Zé berrava seu canto sacrílego e recebia reprimendas castradoras. Aliás a mãe era bem castradora. Digo isso figuradamente, pare de rir, Amigo. Outra questão a essas relacionadas é o abuso no cultivar nossos mortos. A mãe se benzia cada vez a dirigir a fala à Finada, aquela mana morta; os mortos estavam mais vivos que quando vivos a si. Exagerava; assim todos os mortos estariam sendo abanados por anjos lacaios no céu de Toninha; teriam virado santos, puros, exemplos a nós todos pecadores. Extensivo aos mortos recentes da mãe, um tio meu conheci seus estragos morais, a fama de D.Juan pobretão com mil mulheres e mau pagador. Teria virado santo! me perguntei... E eu, seria pecador? De minha parte não me considerava a escória da humanidade só por roubar laranjas xingar o Yoshio (e correr dele) ou por ir inocentemente instigando os colegas a mexer na chave do trem apenas a verificar se mudava mesmo a composição de passageiros para o Armazém e não para a Estação. Brigava com os meninos, deixava a Tomásia se pensando vítima e se dando razão, tivesse um filho assim, e nisto melhor mesmo não haver contraído matrimônio com aquele safado (um dia ouvi a afirmativa dela, baixinho, a uma senhora íntima...) Contudo, minhas artes não poderiam me despachar ao fogo incontrolável do inferno; ora bolas, e não seria já inferno os entreveros do ‘intaliano do caminhão’ com dona Antônia, a mãe daquele capeta! Tinha no lar antídoto e símile das coisas infernais, bem mais objetivas que um fogo virtual... Quanto aos lembretes como o da Finada, a mãe era pródiga e rica na recordação, mercê de sua memória de elefante, dizem que este nunca esquece, será! Enfim dizia: “hoje faz tantos anos que fulano morreu”, amanhã é aniversário de beltrano, quinta-feira foi quando houve o batizado de siclana, e ia por aí; se apegando quase a cultuar a lembrança sobretudo dos mortos. Não só recordava as datas: discorria minúcias sobre a vida do morto, no sagrado e chato tim-tim por tim-tim. Por outro lado, o Zé ali espreitando nem lembrava seu próprio nome! A propósito, de tanto o chamarem Zé não se imaginava mais como José; um dia espantou-se por soletrar o registro de nascimento, o do cartório, parece que era a repartição na rua Mauá, pelo menos foi aí que o pai teve de ir para tirar a segunda via, pois o brutinho perdera a primeira provando aos moleques na rua não só ter documento de verdade (que o tornaria cidadão, isso não sabendo mesmo) não por ter porém por lê-lo aos soquinhos, graças à Tomásia. Perdeu tudo e levou uma surra de varinha nas pernas, antes teve de procurar o registro nos papéis esvoaçantes da rua Dirceu. Não somente lá ventando, toda a Cidade Menina era uma ventania, ainda hoje é assim; as fotos antigas, tiradas na Avenida por e-xemplo, mostram sempre que seguram os personagens da cena a barra da saia e o chapéu, a sombrinha o guarda-chuva decerto não aparecem na fotografia porque o vento levando pra longe... Um parente desse costumeiro tufão quem terá levado ao beleléu o documento certificando ser o Zezinho filho do Zé. Não seria o vento um aspecto e espectro religioso também de nossos concidadãos, pergunto ao Chico. Porque eu não sei.



52° - Indignação. Barata?
         
          Neste fim de existência ando preocupado com o futuro, não o meu que só possuo passado e me desvencilho do presente. Em outras palavras temo o futuro vendo o presente dos que nos cercam, caro Amigo. Não obstante ri. Sempre a rir minha orelha. Olho vejo sinto creio você ser mais condescendente ou a aceitar a situação... pois está sempre sorrindo dormindo bebendo vendo olhando, não se manifesta. Quanto a mim, indignado. As coisas que sei, sei por ouvir, a gente vê, a mãe ouvia, ouvia altão a estourar orelhas ouvia seu rádio, eu também apenas ouço mas a gente de hoje vê na tevê; a propósito não tenho televisão aqui, tem a Maria neste momento a dormir de lado; antes via eu com a esposa a porcariada, preferindo mais futebol e jornal ela show e a tapeação novelística; entrevado não vou à sala mais – não vendo eu, ouço tevê como a mãe ouvia rádio. Esclareço que a mulher tá meio surda e me acusa ‘orelha de pau’ ela; de maneira que arreganha naqueles decibéis da altura do Himalaia a boca do aparelho; o aparelho me traz então essa nojeira que o mundo vive pensa engole e realimenta, que são os programas de hoje em dia. Me chame quanto quiser saudosista. Digo, retomando a ‘maldade’ do Zezinho, digo que agora piorou, as crianças vendo isso e se transformarão naquilo que aquilo sugere. Explico melhor. Ouvi entrevista duns garotinhos, suponho de classe média, os quais estarão um dia no governo que dirigirá (imporá!) o povo. Ah, a Maria sequer terá escutado cega da orelha e visto, entretanto nada comentou, ou apenas desenxavida por perder o interesse neste seu companheiro, sei lá. Não comentou. Falava um entrevistadinho sobre sua alegria ao assassinar prostitutas no vídeo-game, matar de mentirinha, uma gracinha veja bem. O noticiário contava nesta semana duns badalados atores da Rede Impositora, que sabe já a sexta do planeta, não é Amigo? tais artistas jogaram de seu carrão uma prostituta, decerto a praticar as belezas virtuais vistas e no caso deles encenadas na tevê; mais alguns grupos ricos no esporte seu favorito nos nossos dias que consta a espancar prostitutas e travestis foram eles presos e os papaizinhos contrataram ótimos advogados para não deixarem que a exceção se fizesse enganando a regra. Violências corrupções à vontade, é o ganha-pão televisivo. A polícia corrupta prende o bandido-herói, a justiça-bandida solta o herói-bandido preso. Pergunto: a contribuir com a economia do país! sim, porque teríamos a satisfazer a bandidagem crescente que erguer mil e uma prisões, pagar a despesa de hotelaria dela e acertar a equação harmonizar a sociedade decente, decente até prova em contrário. Mas a justiça se alavanca na lei débil e falha e então solta por alguns milhares de dólares-na-cueca o herói, a ser elevado pelo holofote de televisão. Enquanto na cadeia, o herói manda via celular outros candidatos a heróis matar policiais e extorquir a gente de bem, às vezes ‘gente bem’. No que ficamos? Não devo sentir-me indignado por sentir! Ora, dorme não ri. Saudosismos à parte parto à infância, cercada de Guerra por todos os lados, assim mesmo ilha inocente. Por fazer artes do ‘arco da velha’ se diz, deixaria de sê-lo. Não será essa infinitamente menor maldade que esta de hoje? pois olhe, veja, dorme não ri, vê ao menos? suponho que sim desde este afundado neste colchão, proponho olhe como o Zezinho tentava ser bom, dessas bondades do homem comum, filhote de homem comum ele – tentava a bondade indo à igreja Santo Antônio. Ia com os moleques ao catecismo, subiam a Av.Santo Antônio, cruzavam a rua Coronel Galdino e na esquina viam a Casa Rádio, chegavam a sentir o cheiro da casa de secos & molhados, então os supermercados de hoje; viam ali na Coronel a Casa Grassi assim também cheirosa... pra quê e por quê? já fazendo planos para o retorno; donde? da igreja ué. Aqui recebiam santinhos, o santinho do Zé que diziam ser o capeta em pessoa, esse santo ganhava gravuras no cartão que eram os tais santinhos abençoados; assim a coleção aumentava (ou ganhando do Padre José ou roubando destões do cofre da mãe a comprar santinhos). Enfim faziam planos, conversavam assentavam o como e o que fazer. A missa a escola a doutrinação a cartilha o aprendizado e a volta. Na volta paravam, o Zé dava as coordenadas e dirigia a ação: romper a treliça de pau do depósito da Casa Rádio, alcançar com mãos abençoadas pela Igreja o saco de açúcar mascavo, amarelão escuro pedrado, espantar as formigas concorrentes e encher em conchas mãozadas a lambuzar imediato fuças de falar besteira comentar o Gordo e o Magro de cantar a Jardineira de responder à mãe pra mãe dizer “cala a boca, sem-vergonha!” de pedir outro santinho ao padre de segurar a cartilha no catecismo e na Tomásia – essas fuças melhormente lambuzadas e sorrindo. Em cima olhinhos inocentes para ver bandalheiras alheias e ver se não tavam vendo (não tavam:) por via das dúvidas dar no pé depressa rumo à rua Dirceu; antes a atravessar a Coronel a Rio Branco e olhar pra lá pra cá se não vindo um carrão pé de bode ou carroça louca de burros mansos; porém nunca olhavam os moleques, já esquecidos da doutrinação religiosa e a conversar suas coisas. Ah que coisa! derrubei grude de açúcar na camisa, a mãe...



53° - Andando ao Deus-dará
         
          Ao deus-dará andava em seus desandos o moleque Zé, a Vizinha-Comadre: essa minha vizinha Comadre Tonha, ela batizou o meu caçula, pois a infeliz tem um verdadeiro capeta na sua casa... é coisa mandada; não para, virola por aí, conhece a Vila Barbosa conhece a cidade na ponta da mão, mais que o rádio. Isso dizendo a vizinha para outra vizinha sobre mim e a falar “mais que o rádio” o que é mais que falar – pois em cada residência na época havendo então um rádio a barulhar, cantando e contando sim da Guerra mas mais ainda das coisas da urbe; quase sempre altão, igual ao rádio da mãe. Parecia febre de rádio, parecia moda no meio urbano. A Comadre queria dizer da maldade do Zé? pensavam assim os que pensavam? Ora, o ignorante costuma impor a outrem sua sabedoria nas coisas que pensa saber. Eu aqui no país da velhice não sei, sei que não existe impunidade aos velhos; que o diga meu rolar neste colchão e aqui à Maria estendo entendo a Maria também nos seus ais; agora dorme e ronca; não ronca neste momento. Andava por aí sim o menino Zé, feito cachorro solto (ou doido! era agosto mês de cachorro louco; e tendo de plantão a carrocinha). Em casa a mãe a gritar até ficando rouca, moleque arteiro todo bairro sabe o nome no repetir e repetir; além de se divulgar fácil suas peraltices; e, por que também não dizer: atribuir-lhe qualquer malfeito inexplicável com autor desconhecido, o que é conhecido a sobejo pelos abusos da língua. Que fosse também azarão. Isto porque nem sempre dando certo o errado. Um dia, ainda nos nove ou dez anos, e após conhecer o choque ao qual o tio Nico chamava sicurite (aquele negócio de fuçar no miolo do rádio, o Zé tomando uma descarga boa para assustar incautos...) então resolveu trazer o Rex para fazer uma experiência; segurou uma das patas dianteiras e a encostou no buraco de eletricidade, aquele com dois furos parecendo focinho de porco, a peça lhe parecendo engraçada. O cachorro não achou graça, pelo contrário deu um ganido tão logo o curto circuito! A mãe veio correndo ver a questão... nem precisando dar lambadas no malfeitor; ocorreu de o cientista haver levado igualmente choque por descalço e segurando sem proteção a pata da cobaia... Inicialmente desandou a esmo mas não sozinho. Arranjando um novo amigo – com que facilidade menino se comunica com outro; não existe desconhecido a moleque – logo após espreitar a chegada da mudança na casa nova velha, velha onde morara o Francisquinho do seu Chico, o que deslizara a roubar gasolina do pai e a mãe espalhando a novidade na rua Dirceu, tornando insustentável a permanência deles. Logo constatou entre os novatos dois garotos e tinha mais um punhado de outras crianças; um tímido ao que o Zé tachou caipira e o segundo bem falante a virar num passe de mágica amigo. Pois este o novo companheiro a se contar lorotas e verdades, a treinar no magistério contando os podres dos da rua. Um xará do Zé e nos poucos meses residindo perto passou a responder por Xará simplesmente, com muitíssima intimidade. Então a dupla de Zés vai brincando andando vendo atrapalhando por aí e nisso se pegam com sede a beber água; diria tomar água houvesse copo e etiqueta, um elemento perdido na população e ainda menino do povo, esse bebe igual os animais outros e mata a sede (temporariamente) igual os bichos. Com as mãos, fazendo eles vasilha com a mão em concha, ou direto na fonte. Estão os garotos no bebedouro dos cavalos... Um que durante anos funcionou qual chafariz na rua Mauá, no final dela quase ao seu encontro com a Avenida, dali escutando o apito do trem na Estação e o falatório dos passageiros, os sons dos engates desengates do carros. Beberam. O fundamental é beber, a água se oferece aos animais seja de quatro ou os bípedes. Quase mataram além da sede o calor, se lavaram ao gosto dos simples; perto uma carroça a esperar vez, o carroceiro tendo o reio descansando às costas e a fazer meneios de negatividade à brincadeira e à espera com o avanço dos moleques. Brincaram mais um pouco, brincadeira é também olhar, também bedelhar para quem sabe topar descobrir um malfeito à disposição. Se alimentaram os Zés do que se pode, um furtinho inocente de coisas, algumas moedas numa compra qualquer, ‘qualquer’ é quase sempre doces e se valendo de possíveis ofertas dalgum bondoso coração. Essas coisas não depõem contra meninos nem eles se preocupam com nada, com almoço por exemplo; ou então, caso exija o estômago, se volta pra casa, tarde, a comer esganado e ouvindo a mãe reclamar... Prosseguiram. Prosseguiram horas. Mexer com burros por aí; ver tropas a atravessar a cidade, na periferia da cidade, enfim tudo que satisfaça a vista; um cincerro barulhento por exemplo na ‘madrinha’, esta um burro mais comportado no comboio de muares; ou é a boiada a passar deixar na terra plastras malcheirosas; ou a participar doutra qualquer distração a ocupá-los. Meninos. Pedras. Pedras atiradas, correr delas. Ficar de plantão às surpresas, andando andando ao deus-dará. De repente, houvesse de repente e houvesse mais ainda de repente a criança – os xarás estão no Barbosinha; já noutro dia o Zé estaria perdido noutra extremidade do município a ‘pescar proibido’ na Represa Cascata. Naquele dia continuaram andando andando a esmo e já desceram a serra, estão às margens do riacho Barbosa, um dos afluentes do Rio do Peixe; vasculham remexem procuram, nunca sabem o que procuram: procuram; atiram paus e pedras na água, entram nela, revolvem-na, resolvem após se molhar despir-se e por fim encontram uma porção mais funda, dessas que a mente imagina as funduras do mar! e se perdem no mar, batem mãos e pés onde não dando pé e nadam no estilo cachorrinho; o cachorrinho do Zé acompanhou a dupla por duas ou três quadras e retornara aos gritos de Antônia; os garotos agora batem vara na tona; ora, não tinham vara de pesca porém minhocas de sobra no brejo ali e dessa forma não puderam pescar o maior peixe, assim como os grandes costumam dizer haver escapado exatamente os grandalhões; eles nem os pequenos peixes. Pulam n’água se atiram água gritam suas bobagens. Por fim estão cansados; não tão cansados que não possam se masturbar; acham normal esse comum. Sobem a serra que não passa duma subida íngreme e a pino, cheia de voltas a enrolar o caminho e pedras e areias vindas do arenito decomposto. A subida cansa e ainda no altiplano lá em cima haverão alguns quilômetros a vencer na derrota da alegria na volta pra casa. A quem sabe ouvir ruminação dos adultos e quem sabe mais numa certeza: terem que justificar; a justificação é a amiga siamesa da mentira... Estão, está o Zé na rua Dirceu. Debalde conta o seu dia ao Rex, este só abana entendimento e ladra não sei quê. O menino encontra-se desocupado – quer dizer, a mãe passara umas tarefas, fugira como possível ou fizera o feito malfeito ou apressado por cima a escamotear a preguiça; aí fugindo na pacatez de sua rua, a qual um dia rebatizariam Coronel José Brás. Olha, assunta, espreita, logo se distrai vê vendedores, chegam carrinhos e mil coisas a se oferecer. Lembra-se do leiteiro a contar à mãe: uma vez o frio tanto, ele derrubara espatifando o litro de leite num vidro grosso fresco gelado, gelados os dedos amortecidos! Chegava a carroça de entrega, essa da pasteurização recém inaugurada; outras tantas de roceiros a trazer vender entregar aos fregueses o leite; e será comadre que não põem esses ladrões água! claro, comadre, nem ferve direito, não sobe na fervura; “olhe, o mundo tá perdido!” Passavam o vendedor de quebra-queixo e outros mais com seus apitos, de longe ouvidos alegres de menino e tristes de mãe a escutar... Tinha um japonês velhinho, a gente quase não entendia o que falando, falando lá as coisas dele; vendia brinquedos toscos por ele fabricados artesanalmente: uns caminhõezinhos e um negócio de rodinhas a disparar rodas horizontais como borboletas, tudo em madeira leve e delicada, porém esdruxulamente pintados de cores berrantes, sobretudo na ‘cor maravilha’, de muita apreciação aos olhos meninos. E a mãe? a mãe comprando, antes a pechinchar como fosse uma guloseima cara; por fim cedendo... ah o Zezinho, “o Zezinho é uma sarna, Comadre!” O apito do vendedor é que lembrou-lhe a infância... o que é infância a um garoto! pra si o tempo mais recuado dos primeiros anos, então em ver longe e se supondo grande o pequeno Zé. O apito que ganhara do pai a azucrinar a paciência da mãe, num fiií sem parar... depois a gaitinha, dessas de cinco mil-réis, sabe? nem ele sabendo quanto, ou daquela de destão quem sabe também, não sabendo dinheiro: e tome fut-fut e o fon-fon gritado fino nos ouvidos do lar, ah lar doce lar... Sorriu. Talvez não da lembrança, mais pelo sorrir fácil de menino. De repente, mas este um outro de repente, estão no Cemitério... É claro que não mais no agosto de ventania e de cachorro danado; nem noutro mês, no mês de novembro; pois não é novembro o correto aos passeios à Saudade! Não se assuste, amigo Chico, se lembro túmulos alamedas capelas cruzes, cruz-credo! e mais: fossas, poço de osso já sem dono; e vala e vela e sete palmos e coveiros maquinalmente fazendo seu trabalho no trabalho da terra completar o complemento. Bem, acho que você... ué cadê você? sumiu? dormiu? bebeu demais ou só encostou os olhos pendendo a cabeça a seu jeito e isto via tanto no botequim... mas não: desapareceu; ou por eu ameaçar falar no assunto proibido, esse de mortos e sepulturas e círios e flores e odores e dores; ou por se cansar ouvir-me; ou... E você, quem? Sou o escriba desocupado ocupado agora a esclarecer seu buraco no afundado do colchão nessa cama por cima de bitucas ao assoalho esparramadas – fala sozinho! parece velho, velho caduco não lembra o dizer da Maria! O Chico... Qual? Na cadeira tosca à minha cabeceira a me escutar e... Qual cadeira, se não tem nenhuma no quarto. A Maria me pôs uma de pau, os sarrafos pregados no assento, um dia queimei, ela disse que eu queimara que iniciara com meus descuidos um incêndio na casa: um Zé Incendiário! no entanto apenas esqueci um toco aceso, toco não: um cigarro destamanho aceso e ele foi queimando queimando encolhendo e marcou um dos sarrafos, somente isso, isso estando longe de queimar o planeta como a oposição sugeriu... Não explica também o sumiço do meu amigo Chico, nem do Galo, nem da Maria, a Maria tá aqui, de lado, dorme sonha ronca... agora agorinha mesmo não tá roncando mas ronca, me desperta a insônia que em vão desejo esconder quiçá esquecer e não me esqueço e torna e importuna e me come o ser... nem me deixa narrar o Zé quando Zezinho, um Zezinho do tempo da Guerra, sendo que ele nem tava lá pra Guerra só a brincar e fazer artes. Não, não é bem asssim; até pelo contrário a insônia é minha amiga e me ajuda alembrar, dispara o contar. Quer ver uma coisa? estamos no Cemitério da Saudade, que fica na Avenida da Saudade é claro. A Necrópole Municipal, no futuro a Cidade Menina quando moça ou já velhota igual a Véia aí, então possuindo um mais novo, de particulares, uma empresa que enterrará nossos mortos e os cobrirá com um jardim. Ao tempo era o Municipal, com muito terreno e poucos cadáveres. A coisa se configura ao Zezinho como passeio. Não se assuste nem se espante igual o outro bebum, pois falarei sobre passeio, passeio é brincadeira de gente grande, porém levando consigo a arraia-miúda a gritar ou a chorar, a fazer manha. O Zezinho tá passeando, inclusive num tando sujo como na rua, a mãe exigindo limpeza em respeito aos mortos, de quem tinha um temor colossal. Pôs o melhor que tendo no lar, traje decente, a Terezinha uma verdadeira boneca e fazendo trejeitos pelo vestidinho novo e a novidade do lugar. O Zé não, já tarimbado todo ano indo com os seus visitar as tumbas, decepcionado nos primeiros tempos por não ver os falecidos, agora já entendendo estarem esqueletos não mais; e as almas deles no céu e isto de alma e de bruma e de invisível não dando pra ver embora o padre falando; porém os corpos se decompondo “a terra há de comer” diz o matuto e tem razão nisso. Entretanto como seria lá embaixão (e que horror se eu estivesse preso... não quer pensar ou terá com certeza sonho no sono ou pesadelo, isso caso não estivesse a veia da véia da insônia se abrindo, o Zezinho desconhecendo). Anda, vê a gente. Uns rezam outros cantam tristes outros mais choram e tem os que choram o choro dos outros; ladainhas, velas a feder numa fumaça e a se desfazer igual os homenageados, velas em gotas a escorrer até à pedra fria do túmulo e ao chão pobre do pobre distribuindo sua pobreza aos vermes! Tem os que oferecem guloseimas aos mortos; o Zé pilha uns orientais com velinhas ajuntadas coloridas a queimar para oferta; outros depositam frutas. Logo percebe um cacho de bananas maior que sua fome naquele adiantado de hora... isso redundou no dia três subsequente certa dor de barriga e consciência pesada; e perturbação noturna no quem sabe o defunto numa cobrança de suas bananas nanicas e a lhe sorrir choros! Anda, desanda noutras arruaças: e estando só! se estivesse acompanhado não seria um deus nos acuda... Debalde Toninha chama grita o filho no meio ao povaréu, o pai puxa o freio da mãe, ela olha em volta e se envergonha ou da ‘sem-educaçãozice’ ou pela lembrança do local sagrado; continua a se deslocar a família, a procurar a sepultura da Nonna, contam a nonna, as coisas boas da nonna, a Nonna falava “futibola” os filhos indo jogar no campo da fazenda; depois visitam a Finada e os outros túmulos em lembrança e Tonha chora e reza e acende velas e põe flores nos tumulinhos de seus anjinhos, aqueles que não chegaram a irmãos do Zé. Na Av. Rio Branco e na paralela Coronel Galdino quantas e quantas vezes o Zezinho não viu passar cortejos dos anjinhos! e doutros maiores e defuntos adultos; lembrou o do Coronel Galdino de Almeida, um querido pioneiro e fundador, o féretro num cortejo que não acabava mais na Rio Branco: a fila de carros, o carro funerário à frente puxando o cordão de veículos e toda a cidade na despedida, não sei quantos a chorar a abanar e sofrer a perda! Andavam a enterrar a memória viva de Marília. Passam enterros. O povo para à margem descobrindo-se no tirar o chapéu que todos usam; depois os familiares a pôr luto. O pai pôs no passamento da Nonna durante um tempo camisa preta por injunção da mãe, a mãe tingiu com corante Guarany de tubinho os vestidos dela todos ficando negros; e isto se repetindo após cada funeral! Tinha gente, sobretudo os machos, o macho é sempre mais irreverente, essa em pôr apenas uma tira fina preta na manga da camisa. Um dia não sei quem recebeu uma carta com tarja negra anunciando o falecimento de não sei quem outro aparentado. Os Correios avisavam as lágrimas. E o ambiente em casa! o Zezinho Bocudo a gritar a parar a chatear-se por não poder cantar a Jardineira por culpa do nojo: não é nojo guardar luto respeito e silêncio ao morto!? Contudo o Cemitério fervilha de vida em visita à morte. O quadro, não fosse a tristeza e compunção a contrição, um quadro próprio ao desfile social. Os passeios só diferem pelas causas que lhes dão causas. Agora é o feriado de Finados e a família do Zé não trabalha, nem o pai que é Zé e que trabalha mesmo nos dias santos e domingos de descanso; a mãe trabalha todos os dias na prisão domiciliar e reclama estar preparando almoço já pensa na janta; e as crianças trabalham de brincar ou imitam o serviço brincando; se num serviço, ainda inventam e intentam brincadeira. O Zé não respeita os Finados e sai fazer artes na rua. Antes estão na Necrópole, constrangidos quem sabe, compungidos talvez, mas vale à pena observar o movimento. Tinha um homem, seu Alexandre, que era pequeno miúdo magro e vinha da periferia trabalhar no cemitério, sobretudo nos inícios de novembro, muitos visitam tumbas no Dia de Todos os Santos, o capeta Zé não: só no dia dois. Seu Alexandre Bonequeiro a serviço e não a passeio: pega com meninos contratados caixas de coroas, coroas costume comum em novembro, a recolher os papelões das caixas no chão atiradas, a fim de imprensar molhados e fazer com fôrmas de ferro bonecas para as freguesinhas pobres. Depois as pintava, mais rebuscava do que a produzir obra de arte. Agora o Zé nota o trabalho engraçado, acha gozado, do chefe risonho e seus moleques a empilhar as ditas caixas. Olha vê as ruelas dos mortos, o mundo de túmulos e dísticos – já lê um pouco por auxílio da Tomásia: fulano nascido em tanto falecido em tanto de tanto de mil e novecentos e tanto, saudade da família. Alguns querem deixar um verdadeiro levantamento histórico escrito na tumba; outros se esmeram na riqueza dos caracteres e as letras brilham ao sol da tarde, o sol também morrendo ao dia. O Zé lê, de soquinhos lê, vez que outra entende noutros momentos lê e não compreende. Se enfileiram tumbas santinhos velas flores cheiros festa chuva, o chuvisco vem de imprevisto tal o calor e o mormaço próprios da época de verão. Amaina a quentura, as hordas da gente se despede caminha lento ele nas alamedas mais ricas que estão próximas do portão de saída, onde dormem os ossos dos ricaços e suas famílias a coroar a riqueza constroem capelas, mais palácios, onde uma estátua enorme carrega uma cruz quase maior que ela, para mostrar sua pujança ao povo devoto ou somente pobre; os mármores brilham aqui, lá longe os pobretões os miseráveis se contentam com túmulos em ruína ou descoloridos ou mesmo apenas com o peso da terra... Os portões já se fecham, os funcionários aflitos com a hora o ponto a alegria possível ou a tristeza aguentável de seus domicílios, pode que haja uma Tonha ou certa Maria para aguardá-los nervosas e cheias de problemas que são só draminhas da vida que a vida acumula e deposita para as horas nem sempre certas. Os visitantes não sabem disso e lerdeiam os passos, a mãe grita o Zezinho, faz o Zé procurar o filho entremeio os mortos e o que estaria aprontando... e daí merecendo um sermão quiçá uns tapas na bunda. “Comadre, me deu uma canseira!” só o Zezinho valendo por dez filhos na correria no meio do povão; sumindo. E o Chico sumiu!?



54° - Intervenção Inoportuna do
       Escriba Desocupado
         
          Queria, queria não, ainda quero narrar a você dois acontecimentos interessantes que... Pera lá Zé Matraca: a quem fala? Ué... Ué coisa alguma, fala gasta a língua a boca, a boca de pitar esse cigarro fedorento, a boca pra boca de pito, o cafezinho magro frio azedando já, o cafezinho da Maria. Fala sem parar. Falou a ela, ah pobre senhora! falou um dia com direito a dia e noite ao escriba desocupado; falou ao Galo e à sua panela de pressão, deu inclusive um olá para a corrupção que é entidade santa neste país de alta civilização e potência e coisa e tal, um país onde o presidente fez ontem discurso no Nordeste e disse abertamente à tevê que isto é “merda”, expressãozinha linda esta e que o Zé usa e abusa se pensando grande. Falou posteriormente ao Chico, ofertou, quiçá comprando o bebum, ofertou aguardente para ter direito a contar-lhe suas coisas. Dorme esse amigo, sentado num cadeirão inexistente em sua cabeceira onde queima com a bituca a toalhinha de crochê (ou será tricô, não sei tanto quanto o Zé) a toalhinha que a Maria pôs no criado-mudo como enfeite, tão prendada e limpa sua consorte. Daí dormiu o amigo, o amigo sumiu de vez. Ora, ainda ocê a querer, disse “queria”, insiste ainda querer narrar as coisas... Em que ficamos? Uai, ué, diria se eu fosse mineiro sou caboclo paulista interiorano estando mais “pra mode” e pra moda de viola, embora entoando bem a Jardineira no carnaval quando andava e não como estou pregado neste pardieiro cercado com pontas de cigarro e um penico (por sinal a dar sinal cheirando!) Uai, então narro procê mesmo. Num tá agora desocupado, ou tá só escriba! Tô. Tá. Manda bala, Zé, Zé fío do Zé Intaliano num consórcio com Dona Tonha, a da língua... e que língua. Finjo não haver escutado a afronta e essa invenção desnecessária para ofender a mãe: quando pequeno numa oportunidade semelhante pegava o moleque ofensor pelos colarinhos, chocalhava o bruto, fazia o bruto pedir perdão ao ofender-me ofendendo a mãe e aí... ora, corria do Yoshio por ser um japonesão briguento e taludo e sabia karaokê jiu-jítsu essas coisas marciais; meus gritos e a mãe me socorria, a Finada Mãe – e será bom lembrar também que ela me sapecava pelas artes!? Enfim perdoo você, morto meu Galo, sumido meu Chico; e a dormir, e roncar o curioso é não andar roncando, a dormir a cara-metade na metade do seu lado da cama. Falo a você, desocupado de orelhas. Desejo lembrar algo que serve para defesa da tese da bondade menina do Zé – vivem imputando o mal nos seus atos; seria o Zezinho um vândalo um monstro, esquecendo o que de bom fez. Lá pelas tantas encontro na parede de meu quarto, meu e dos manos ainda na casa, pois iam se casando (ou não: inauguravam o sadio tempo de hoje em que o sujeito casa descasa recasa com casa sem casa, com desquite e depois no agora divórcio graças ao Senador Carneiro, que Deus o tenha e... e voltemos ao que o Zé falava e já num lembro:) ah sim, falava o Zezinho haver entrado no quarto a espantar baratas – será que barata insonia como eu? Na parede pregada com um prego já enferrujado uma foto a ressaltar uma repintura em caiação; nunca o pai teve dinheiro para pintar a casa como manda o figurino. A mãe falava falava, um dia o homem passando umas brochas molhadas de cal na madeira, os bichos não apreciando e a fugir medrosos; o cheiro forte da cal, aí a gente ia dormir no quarto do casal ou na sala ainda não pintada. Pois é, na parede de meu lado e acima da cama havendo uma fotografia, a mãe mandou até pôr num quadro, atrás um papelão que estufava pelo calor e a umidade e donde novamente insetos escondidos saíam desesperados, se o Zezinho a xeretar vendo como estava por baixo a parede, e é claro marcado a parte sem tomar ar mais clara com poeira e inseto já dito (a mãe não limpava ali, vai que barata...) Então, a foto arreganhava ao universo o Zezinho recebendo a Primeira Comunhão! Isto não é um fator a demonstrar querer tornar-se bom, quiçá puro e santo! Nisso a oposição contraventora vê também contravenção? Não, decerto. É neste ponto que desejo chegar: a bondade zezinha ele elevado a menino inocente. Olhava o Cristo pintado na tela do fotógrafo nipônico; seria o Shighero? num lembro mais. Olhava, dando um trabalhão não saber como engolir a hóstia que o Cristo investido como padre ofertava ao neófito. O neofitinho não sabendo se vê a tela se a cara do japonês falando “olha o passarinho!” e sua máquina gozada, e como seria que ela se abrindo e espocando a coisa a gente entrava lá naquele buraquinho e ainda no escuro a luz de repente cegante estando era na cara da pessoa. Não sabia. O outro fato alembrado que alembrei é o da presença do Chiquinho, o Francisquinho do seu Chico amigo do pai, o Chico que apreciava ficar debaixo do caminhãozinho de tanque aberto e pra não perder gasolina usando uma lata a recolhê-la. Esse garoto logo foi embora e me deixou com o Rex a procurar esquecidos na sujeira da mudança deles. Mas por que me lembrar do colega? porque o Francisquinho tendo o ‘parafuso de centro quebrado’ e isto encontrei pouquíssimo  noutras pessoas de minhas relações. Quanto por cento representariam os fora de centro! arrisco uns 5% sem vergonha de mentir usando a estatística, em si mentirosa a meu ver. Não entendeu? Se não, por desocupado. Explico. Quando a gente andava a trabalho, digo ao desocupado que a ocupação dum moleque é fazer artes e vez que outra dar um recado levar alguma coisa, por exemplo a roupa que a mãe lavara. Então íamos a par na calçadinha quase inexistente ou no leito da rua descalça com poeira e buracos da Cidade Menina e aí notava eu que o Francisco se encostava a mim. Andávamos mais, quase me abalroava que nem um pé de bode que vimos um dia que se estreitou a outro e ambos bateram se esfolaram para-lamas e os choferes ambos também ‘sem’ culpa discutiram e isto não importa agora. Mais um pouco andando, ói o Chiquinho a se esfregar com a esquerda na minha direita, eu à sua esquerda; outra vez vez outra e assim outros encontrões dele em mim. Separava-me, empurrava com toda civilidade permitida aos brutos o menino – ele de novo a se encostar! pô, pensei, que diacho o sujeito tá fazendo, parece desequilibrado e caindo em cima no lado da gente, pô! Ocorre o colega nem a perceber o feito que fazia no seu andar bêbado-não-estando-bêbado. Seria, hoje penso retomando a coisa, seria desarmonização, desequilíbrio, pressão baixa, labirinto atrapalhado, vertigem ainda a virar vertigem! Seja como for, um dia o caminhãozinho do pai, o pai alegre por haver conseguido uma requisição de gasolina no racionamento de guerra na Guerra, o pai se espantou com o equilíbrio do Ford-37 dele e aí ficou triste. O Nishimura teria esquecido algo, algo errado na mecânica, nossa tendência nos desarranjos nossos ou sobre nós é pôr sempre a culpa nas costas das outras pessoas, no caso o japonês da oficina. Não. Nada disso: o parafuso de centro se partira, desarmonizou o carro aí ele andando meio de lado, a roda traseira direita puxava endireitada pra fora enquanto que a roda da frente a puxar na linha certa sob ação do volante do pai; dando um trabalho à direção por pressionar toda hora para uma banda. Um dia todo assim, dois, três até que o pai voltou com o veículo à oficina, na Av. Carlos Gomes (outra que eu não aceitava fosse avenida mas rua embora menos estreita que a Brasil). O carro sarou, o pai só perdeu um dia de serviço no arranjo do desarranjo e reclamou bastante, sem ter ficado no lar aguentando a mãe a falar, preferiu permanecer na oficina acompanhando a coloção da peça as graxas e as sujeiras. Eu tava ali xeretando e apreguntando as coisas aos mecânicos, me sujando pra ouvir depois a mãe pela roupa “esse, Comadre... me estragou a camisa, ninguém tira mais a graxa!” Ficamos bem, eu limpo, no mais ou menos, o caminhão sarado, o Francisquinho não, deve ter ido se encostar noutro moleque por parafuso fora de centro noutro lugar; dizem que se mudaram pra Fazenda Santa Antonieta, à saída de Lins.



55° - Dia com Direito a tão só um Desastre
         
          Era o império da paz na rua Dirceu, tudo concorria à vitória estrondosa dela e à derrota fragorosa do infortúnio. O pai passava uns dias sem dores, pois sofria seus achaques; a mãe, esta então no regalo da vida: a pequena falara as bobaginhas primeiras dessas de se repetir por toda uma geração; o Zinho quietinho tentando soletrar a cartilha no quarto; os outros filhos, tirando os que se apagam na distância com seus filhos e aí a gente nem mais pensa, pensa sim o coração materno é cheio de pensar; os casados mais próximos viriam ao bate-papo à noite; ela mesma, Tonha, feliz porque havia desabafado conversado com a Comadre (dessas conversas quilométricas de pôr pra fora os funestos e até chegaram a dar risada para desopilar o fígado, a comadre-vizinha adorava piadas sujas quando Seu Tomás fora do lar, elas na cerca entre as casas) e na conversa haviam combinado de acabar de vez a novela Direito de Nascer que não mais acabava, não sabendo se a Rádio Nacional do Rio aceitaria a ordem; enfim combinaram as comadres a dar um basta e certo esculacho no senhor do Funchal ou qualquer parecido, salvar a Maria Helena, tadinha, e promover o Dr.Alberto Limonta a doutor já sendo doutor; e coisas desse jaez. Ah, e a rua tava calma, o bairro calmo, claro o Zezinho lendo a Tomásia, comportado; ainda mais o quintal sossegado com as galinhas de papo cheio e não era hora do galo cantar e nem que inventasse cucurucar o faria, feliz também ele e aí não importunaria a paz estabelecida, fosse que fosse armistício apenas. Verdade que se dizia que lonjão a coisa tava feia: a Guerra num tava nem lá com a paz urdia os seus mortos; os aviões e navios bélicos em movimento; as armas a postos, sobretudo a da língua que mais matava e continuaria, acabando a Guerra, a matar. Os representantes das trevas ajeitavam o como derrubar a bomba atômica nos japoneses e ainda se formavam as superpotências que se confrontariam mais tarde a bravatar destruir o planeta sessenta vezes cada uma, exageradas; de maneira que funcionavam então só as bombas convencionais a matar pouco com muito barulho. Em resumo, não sendo pelo racionamento de guerra, a anti-paz beligerante não chegava à Vila Barbosa, onde o Rex ladrava muito perturbando o sono do gato da vizinha mas nesse dito dia do sossego nem o cachorro latira demais, ressonando feito um bodoque ou rosca debaixo da mangueira. Era portanto o império da paz! Quando o Zé acordou cansado da briga com as letras, elas não paravam quietas; e assim não tem cristão que leia! mais uns dias e o pai por inferência da Tomásia compraria óculos ao filho perder na rua, não agora, agora era a paz. Resolveu ir à rua e o fez no seu estilo a correr, inicialmente andando dentro de casa e começou ativar os passos ao passar na cozinha. Então esbarrou na baciona dos trens que a mãe pusera a escorrer após tanto trabalho esfregar sabão remover gorduras e pretumes teimosos do tempo bem mais teimoso, tanto assim que a doméstica descansava cansada da labuta e inclusive sonhando em ver a cara do orgulhoso senhor Del Funcho na hora da novela que o rádio iria apresentar altão (o bocudo só sabia falar altão de tremer a toalhinha embaixo dele) e ainda o diabo das ondas curtas ora a sumir o som ora a fanhosar uél-uél a voz daquele velho duro e inquebrantável diante da filha. Enfim ela e a comadre já haviam estabelecido o último capítulo daquele sofrimento num tró-ló-ló de anos e o fazendeiro que falava brabo até de boca fechada sequer poderia por ser último capítulo estrilar! Daí ouviu a bacia ao chão, o tropéu da correria do filho à rua e... as pernas amoleceram à pobre dona de casa; não obstante chegou à cozinha: os utensílios todos ao esparramo, a tigela e outras louças muitas com muitos cacos, os de folha de flandres amassados decerto – tudo por um esbarrãozinho de nada dum afoitozinho contumaz! Estava reinaugurada a outra metade do dia de paz, o qual durara apenas até às dez ou onze horas e aí... Bem, foi disparada a temporada de pessimismo, que iria muito além do meio-dia e do dia; o resto sendo a soma das horas erradas que em resultado dava pessimismo; próprio aos pessimistas. Assim o comum voltou ao normal, caro às criaturas desocupadas, meu caro desocupado. Chorou Toninha e não pôde descontar no causador de tormentas pois o Zezinho, avaliando os estragos a partir do barulho e não sendo tão corajoso, ficou amoitado num quintal longe, nem voltando ao almoço ao jantar só noitinha, tornando à sorrelfa, antes verificando o terreno que pisaria se manso... Quanto à mãe, falou noutra manhã à confidente, altão como requer segredos, disse haver insoniado (o Zé teria por herança dela essa capacidade!) contou mais ter ficado pensando noite inteira nos filhos nada pródigos, aqueles a desaparecer no mundo com suas famílias; ela nada podendo fazer sequer rever netos. Tinha um deles (os filhos) nem escrevendo nem dando endereço. Esse problema a ligar as duas mulheres, ou seja a mãe e a minha Maria, aqui ao lado: nós temos entra ano sai ano tal drama, não vendo nossos herdeiros; não quero entrar no drama. Quantas vezes não discutimos isso, eu e a Maria... Não falei que não se dá com as noras? Mas, pera lá, isto não é bem a paz, nem um dia de paz, o meu na infância só durou meio, e com horas furtadas...


56° - A Interpretação
         
          Escribinha de meia-tigela, veja que mesmo eu xingando tenho jogo de cintura educação gabarito civilidade na civilização, não iria eu chamá-lo ‘merda’ simplesmente, uso carinho a ofender – escribinha, achei por bem pôr uma interpretação em minha interpretação. Não me refiro ao roncar da Maria, curiosamente faz mais de hora não ronca; nem ao sumiço do Galo e/ou do Chico, me sobrando a rapa da desocupação, meu caro escriba desocupado (prossigamos:) Refiro-me à interpretação da Cidade. Desde que ela era Cidade Menina depois Moça, Velha agora como sou velho e velha a consorte, aqui trocadilhando a dizê-la sem sorte tendo por companheiro um fumante inveterado, a atirar bitucas no chão, nisto concordando com a Maria e a mãe sempre a dizer “homem é tudo porco!” Pensava, a rever os capítulos anteriores, que ela nos aparece como que uma cruz: a Av.Sampaio Vidal, tendo simplificado para efeito literário tão só Avenida – o povo tem razão, quem tiraria a razão do povo, quem teria coragem a fazê-lo! O povo fala “Avenida”  e o resto do povo repete e entende já como sendo a Sampaio Vidal, isto como homenagem a Bento de Abreu fundador da urbe, o qual deu-lhe o nome para vingar o necessário ‘M’ que a série abecedária exigia na extensão da linha de ferro; a última estação do trem fora Lácio, após a de Marília batizada viria o ene de Nóbrega. Enfim essa a Avenida. Cruzando a mesma, mais no menos: nascendo na Avenida a Av.Rio Branco, também avenida bem caracterizada por larga e posteriormente com jardim separando as duas pistas de trânsito, quase uma alameda, bela. Ambas formam a espinha urbana, a Avenida os braços abertos, qual os do Cristo no Rio, a receber do leste, estamos no oeste paulista, os pioneiros, se quiser os aventureiros. Os quais a enriquecer a cidade enriquecer-se-iam. A cabeça urbana ficaria por conta do atual edifício do Executivo! onde a majestosa Prefeitura, que abriga o Legislativo onde se blablava e se blabla os blablás à vontade... para não fugir à regra dos legislativos do país – e por que motivo tentarmos ser a exceção!?  Ainda mais ponho outro dado: a dita cabeça na época zézica não era a Prefeitura mas a Estação de trem, o trem dava as cartas na região. Ah o trem... em todos países o trem costuma matar o homem, aquele que cruza a linha inadvertidamente ou que resolve jogar-se debaixo dos carris. Pois no Brasil deu-se hoje o contrário: foi o homem quem matou o trem! Mas deixemos isso agora, agora continuando esta interpretação, vamos aos pés da terra. A Rio Branco são nossos pés... Pera lá, tem uma coisinha, ela é uma só embora com duas pistas. Diremos então que ou igual nenê que à época da Guerra era enfaixado semelhando múmia egípcia; e portanto dois pés juntos espremidos. Ou então com um só pé, pois não poderia ser Marília uma sereia como diz a mitologia de todos os tempos. Mas eis o suja-cara, o Destino! se creio? não creio a Maria acredita, aguarda mesmo que o destino me cure da tendência à bebida, nisto venceu; e parar de fumar, fumo até sem ver, acendo um no outro cigarro para mostrar a língua ao Destino. Eis então o drama: a Av. Rio Branco já disse ser a prancha ao mar aos vermes (a imitar ou simbolizar tubarões?) para a saída de todos nós in-descarte, os mortos! Enfim no fim a Rio Branco leva à Saudade. Em todo caso, por que não possa ocorrer conosco marilienses o nascer viver e morrer! Meu caro, paro, ou não paro; paro e peço não interpretar a minha interpretação como mera poesia sem filosofia porém com esbanjo de loucura. Façamos um tratinho: retiro a ofensa inicial em troca de um seu aceite me considerando normal. Ou comum?



57° - Conta-Gotas e Pingos de Chuva
         
          Cai molha cheira desconforta azucrina até, por sem parar; dessas compassadas teimosas chuvas, mas não mais que chuvisqueiro; a seca braba no inverno quente e seco e a população fustigada pelos ventos transformando em ventania a Cidade Menina – agora descansa da secura no tempo tanto a cidade quanto o menino, o menino Zé a limpar narinas, a mãe lhe chama atenção pelo dedo nas fossas nasais da fuça; descansa no quarto dos moleques, lá as frestas nas tábuas arreganhadas investem também seu frio e repõem as baratas nos seus esconderijos, antes a secura agora a umidade nascente e que perdurará eternamente; embora o poeta a dizer que não há mal que sempre dure, a casa não sabe poesia: é chã é chão. E caem despreocupadas as gotas, num toc-toc monótono nas bicas das telhas daquela prisão domiciliar, sem indulto quem sabe. Não sabem. Brigam as crianças, o Zé não tolera presídios prefere a via pública onde badernar; os outros, a pequena chora, os manos grandes entre os grandes conversam suas coisas de mocinhos, em conversas nas quais o Zé não sendo admitido. Nisso a salvação, talvez não apenas ao dia, sem dúvida a aporrinhar completamente a mãe até ao desespero – chegam familiares! Decerto não querem ser prisioneiros nos seus respectivos lares, os adultos não iriam pôr a cara na chuva o serviço a gente faz noutro dia; e as crianças se sufocam dentro de casa e então a endoidecer mamãe; daí a opção ser ‘pagar’ a visita doutro dia ao Zé e à Tonha. As cunhadas não se beijam (aqui é figurado) se beijam à chegada (ah o Lobato deve ter razão...) a mãe está contrariada, não fossem as encrencas antes e sempre existentes a mandar moleque calar a boca e nem o serviço da gente me deixa fazer, tá pensando que o mundo é só gritaria! Mais contrariada agora pela visita “imagine, Comadre, com uma chuvarada daquela e...” – especialmente por deplorar o tio Nico, sempre se fazendo de besta e surdo; e a chatinha a cucular os filhos dela. Se juntam primos, se desentendem como devem, a pequena grita grita e chora, sobra ao Zé, o Zé filho do Zé, porque faça errado ou certo o certo: é errado e acaba levando uns petelecos; claro haver dito o dito em costume: num fui eu foi o primo Antônio. A mãe não bate de verdade, iria dar surra na frente dos outros! fica o dito por não dito; os menos pequenos se julgando homens enfrentam a chuva não obstante as reprimendas maternas – deixam o quarto para as crianças brigarem liberalmente democraticamente e cuidarem de sua guerrinha. A Guerra, é lógico ia bem obrigado; a cidade esperneava suas faltas em virtude da Guerra não a família naquele momento. A família presente conversava e inclusive se contando os errados dos outros, parentes ou não porém ausentes. Riam até. O Zezinho corre, largando os seus, para ver a novidade a curiosar ouvir. O Zé conta as questões do serviço, põe a questão da necessidade em pôr o caminhãozinho no trabalho e doutro lado a burocracia a impedir tal objetivo; o Nico conta suas coisas, dá palpite, a tia-esposa acorre à necessidade de ela dar palpite no palpite do marido; conta dos filhos e das vizinhas. Enfim se desentendem a contento e somente se acertam a falar nas dores físicas. Prato cheio: todos querem enfeitá-lo com o melhor do seu pior. Contudo os machos da espécie se cansam e desandam a falar outra vez em negócios e política, desinteressante àquelas fêmeas da espécie, que fogem à cozinha dizem uns baixinhos não demais silenciosos, menos silenciosos que a chuva – pinga pinga gotera qual filtro incansável e se não enche, acalma o aguaceiro lá fora. Dentro o pai critica o prefeito João Neves Camargo, lembra o interventor Ademar, quer mesmo atingir a Prefeitura como um todo, desconhece a burocracia, apenas sofre vítima da burocracia; tudo redunda nas corrupçõezinhas baratas e a dificuldade a arranjar combustível. Nessa altura a Guerra já insistia em comer o trigo dos pobres roubando o trigo a dá-lo para seus soldados, aqueles ainda vivos... Os dois filhos da Nonna não entram nos pormenores que a ignorância veta mas assim mesmo falando, ou seria re-falando em virtude da desvirtude a repassar o que ouviam nas ruas da urbe!? O tio não rebate, antes concorda com o mano no que o mano diz, costumeiramente concordino nas coisas a lhe trazer vantagem (aí ouvindo perfeitamente...) O Zezinho foge daquelas besteiras – a um menino pra quê perder tempo com coisas que não desembocam no brincar? fugiu. Volta à sua cela, não tem mais ninguém todos debandaram à cozinha. Vai tomar também seu café e ouvir a conversa delas. Tomar cafezinho com bolo, o garoto Zé despedaça o bolo na caneca, usa sempre a mesma vasilha todos dias e agora mexe a meleca come com a boca aberta igual a mãe pra mãe fazer pra lá pra cá a cabeça negando aquela incivilidade e falta de educação. Depois, depoizinho num particular com o marido em segredo não tão segredo que não possam perceber as orelhas do filho, depois diz: “a atrevida trouxe bolo para se mostrar... e tinha só fubá e porçãozica assim de farinha”; o Zé Intaliano põe ele seus panos quentes “Tonha, num podem comprá farinha como eu num tenho gasolina”. Coisas da Guerra na guerra surda familial! Agora comem amistosamente; a mãe diz com a Terezinha no colo “esta cavalona veio me avisar outro dia da novela...” o noticiário que se falavam muito da Guerra ao pouco saber, antecipando o capítulo no rádio: mãe já tá na hora do “Potroço” disse... riram ambas matronas e as criinhas riram em volta por imitação, quase só o Zé sabendo querer dizer a mana “Repórter Esso”, o primeiro a dar as últimas repetia diário na boca da noite o locutor. Inclusive a nenezona riu de sua própria graça; continuou não entendendo. Assistiram nessa noite todos à novela, comportados, os grandes no interesse, já os pequenos no sono. A Tereza dormiu e sequer ficou para a despedida e beijo da tia, aquela muitíssimo entojada na opinião da mãe. A minha Maria aqui também segue a novela, outra novela, vê a novela de televisão, caro desocupado. Agora dorme ela.



58° - Interrogações de Menino
         
          Tem coisas que não é lícito saber; ou seria que fosse um dedinho de prosa da ignorância, douta e inocente criatura. Ou por outra: menino só se põe a saber as coisas quando não mais existem as coisas; que seja pela velheira e mesmo a insônia da velheira; então a esclarecer-se, quando não mais hora de conhecer... Digamos que as desocupações escribas tardam igualmente a entender; daí optar à explicação. Certas expressões ditas quando ditas devem ser reditas amanhã que o ontem não entendeu ditas as ditas. Na enrolação da Nonna, a contar e mais contar na mistura engraçada seu italiano, ainda mais num dialeto que muitos italianos também não compreendem, enfim na mistura do seu falar com nosso idioma – eu ficava nisso tudo a desejar nos entendimendos. A Nonna falava quando falava (estamos ao pé de seu túmulo numa visita aos Finados e me lembro agora nesse ontem:) falava “futibola”; depois não mais falava e então realmente não falava porque a gente é a consciência daquilo que fala. No finzinho já não falava italiano caboclês nem mesmo a embrulhada que os nenês dizem, visto me sustentar na afirmativa de que um velho se torna criancinha outra vez. Nas duas extremidades da existência não entendemos as extremidades, apenas nos rimos dos sons das extremidades. Anos depois acreditei querer dizer a velha futebol. Seus filhos iam ao jogo; seu filho, meu pai, apreciava futebol, não jogava mas assistia às partidas e uma vez me levou ao campo do São Bento. A mãe não gostava disso, irritava-se quando o rádio alto na transmissão esportiva, não pelo altão do rádio, pelo jogo altão... Ela referia-se muito ao “inradiador”, eu pensando quisesse falar o radiador furado do caminhãozinho, o pai precisando trocar água, pôr água várias vezes numa viagem na estrada; ou esquentava fervia o líquido no radiador, um dia a tampa voou longe e deu um estouro assustante; além do mais temia que ao colocar água fria trincasse o bloco do motor (nunca entendi de mecânica pra ver se tendo razão). Não era nada disso: a mãe se referia ao locutor de rádio, o espíquer como diziam, a narrar os lances da peleja ou a falha moral do árbitro, sempre errado na visão da imprensa; quanto à mãe, não a minha, a mãe do juiz isso não era com a Rádio Clube mas com a torcida, e a torcida não melhorou na ferocidade desde Zezinho a Seu Zé, Seu Zé da Maria. O pai ligava na transmissão radiofônica porém ocorria um fato engraçado: embora aceso no temperamento, comparativamente à mãe, ele parecia de coração mais mole e ficando nervoso e desligava o rádio quando o adversário marcava o segundo gol e nosso time não parecia reagir; se entregava numa espécie de consumatum est. O que válido ao São Paulo F.C., nossa equipe na capital, quando ouvíamos a transmissão de lá. O Zezinho ficava ao lado dele, dando palpite ao pai e ao locutor. Palpitava também junto à mãe, aí com medo pois logo zupt a mão dela zunindo na orelha. A atingir uns onze ou doze anos já não apanhava dela, do pai nunca apanhei; a mãe achando-me grandalhão, e era uma porqueirinha, devendo ter vergonha na cara. Não tinha... Ao par disso continuava anos o casal a brigar. Um dia me espantei pelo inusitado, por ver ambos abraçados, a mãe até ameaçando umas chanhinhas femininas. Bem, depois notei sua barriga crescer e vieram os episódios do parto de minha irmã, me tomando o colo que nunca tive. Não havia reparado que os bebês vêm assim... Nesse tempo ouvi à beça palavras misteriosas as quais não soube o que eram; nem me interessaram demais; o Zezinho andava meio avoado e só pensava na bagunça da rua. Tanto assim que quase como num passe de mágica me pego vendo a Terezinha moça casadoura. Novamente vi o João, aquele Joãozinho que fora meu colega de tantas artes, o dono do Peri. O João desposou a mana. Não conseguiu a simpatia da mãe. E nisso se parecendo a mãe com minha Maria, esta não se dando com noras e aceitando um só genro. Voltemos ao Zezinho enquanto Zezinho. Não entendia nesse tempo também tudo que o pai falava; mesmo porque já afirmei que ele igualmente inventava termos aos sons que desejava transmitir. Agora um fato não posso negar; não apreciava meu genitor contando anedota. Não tinha capacidade para tal, ela requer arte, inclusive arte interpretativa para fazer rir. Porém o pai enfeitava tanto, dava tais voltas a chegar ao fim da coisa que a coisa perdia o sentido. Não contava ele estórias sujas. A mãe interferia no narrar do velho e ele: “conta então ocê”. Ela perdia a graça ou falava a seu modo. Enfim eram lorotas conhecidíssimas, o Zezinho rindo a saber antecipadamente o final e os outros em volta rindo por respeito ao narrador. Uma vez, ausente a mãe, apresentou uma cabeluda, como exceção à sua regra, e aceitou-me a presença (estourei de orgulho e vaidade me sentindo adulto com uns oito anos!) Entre nós meninos na rua não contávamos piadas mas estórias sem pé nem cabeça que inventávamos. É preciso lembrar que nosso grupo criança era macho e vez que outra o narrador virava espécie de herói muito-homem. Não é entretanto surpreendente que se tratasse duma espécie de ‘clube do Bolinha’, o qual sempre existiu, creio, no mundo. Na roda das meninas também nós não nos metíamos “mulher com mulher, faca sem ponta galinha sem pé” era mais ou menos isso que elas falavam nas indiretas, diretamente aos moleques. Voltávamos à nossa turma, quem sabe de meninos sujos e fedorentos. Não, isto abuso: criança não cheira mal como adultos, por seu interior ainda não desenvolvido nas glândulas decerto; é mais uma sujeira externa, flagrante e olhável (não disse notável, menino não se vê). Quanto ao cheiro adulto, é sujeira interna, que brota e agride! E os bichos? os bichos, achava o Rex limpo; não sabendo a opinião dos outros circunstantes, criança só vê amor e amor não tem sujeira! Não obstante uma vez meu cachorro ficou infestado, ou exageradamente bichento. A mãe, sem paciência no acúmulo de tarefas e nada paciente comigo, cuidando lavando limpando penteando o cachorro. Piolho carrapato carrapicho; eu levava o pobre a bagunçar nos pastos em volta da cidade, a atiçá-lo nos cavalos, que são animais limpos, e então voltava com os caroços de carrapicho grudados no pelo. Ela tirava um por um; igual fazia com os filhos nas pragas que trazíamos da escola. Depois amarrava o cão a secar e ele dormitava enquanto o aminho arteiro na rua. Quanto à Maria aqui ao lado, nunca teve tais cuidados; comigo sim não posso me queixar. Queixar realmente posso por ela contar coisas à vizinha. Havia uma vizinha, dona Laura “D.Laura, acredita que o Zé tá caducando!” conta reconta as coisas, trouxe outro dia um bebum do bar pra narrar suas besteiras; antes disso me contou toda meninice, narra toda vida a mesma coisa! depois ainda trouxe um escriba desocupado aluado atrapalhado, um que inventou pra inventar ele mesmo! Inventou um cachorro, deu até nome ao pobre: Rex; Rex foi um cão de quando menino. Caducando, Dona Laura, a senhora vê se pode uma coisa dessa! Enquanto ela fala e a outra escuta, lembro da Guerra, pois estamos em plena guerrinha na casa, a Guerra que o Zezinho não sabia existir lá lonjão, com seus vivos mortos e fazendo seus mortos vivos nos tratados didáticos. Todavia, voltemos ao desentendimento de vocábulos e aí torno ao papagaio; hoje falam por ordem dos meios de comunicação “pipa” uns usando ‘o’ outros ‘a’ e assim o infeliz papagaio perdeu até o sexo! Se hoje alguém pronunciar “papagaio” os Zezinhos de agora é quem ficarão na dúvida. O brinquedo entretanto permanece o mesmo, nestes tempos fabricado em série por microempresas, na época do Zezinho a gente camelava (porém gostosamente) pra fazer e montar o papagaio. Eu não dava no couro nisso, os meus pouco subiam, subiam e enroscavam. Um dia enrosquei um no fio de luz na rua Dirceu, onde fazia pouco tempo haviam posto eletricidade; e enrosquei o brinquedo lá no altão; fiz o que fazem na lógica as crianças: uma vara comprida, bati e bati cutuquei puxei e o inevitável – o circuito o faiscar o choque o barulho o espanto o grito a mãe! a mãe veio correndo, apavorada, a salvar sua cria, sempre nervosa e medrosa ela nas coisas desse tipo, veio a chorar o perigo! Passou o perigo, acalmou, não acalmou: ofertou-me um sermão sem preocupações vernáculas mas de grande entonação e veemência oratória; e após deu-me umas bordoadas pelo malfeito. Fiquei sem fazer, tentar fazer, meses papagaio. Isto me levando a outra comparação ligada à Maria tramelante à Laura. Afirmo que uma pessoa para poder de fato dizer “não devo ler um tal livro”, ela precisa antes de mais nada lê-lo inteirinho; aí sim descobre a porcaria e poderá ter razão na afirmativa. Agora aproveitando-me do assunto livro, a Maria me pôs anos livros religiosos quase me forçando a lê-los; depois ela mesma não os lia; então raramente pegava um a consultar. Entretanto não estava interessado em ler para saber não dever ler... Isto posto levo o exemplo ao exemplo do papagaio e do choque no fio: como poderia saber o Zé que nunca mais devendo levantá-lo ao fio elétrico? Bem, noutra brincadeira era mais acertador; o caso do cirquinho. Durante meses também nos demos à montagem de circo, nos moldes dos circos que volta e meia se instalavam na cidade. Simples rodelas ou cercados de panos e trapos, que nós moleques levantávamos no fundo de meu quintal, debaixo da mangueira, sempre ao ladrado do Rex. A montagem demorada. Eu, um palhaço em potencial nunca me punha como artista, era mais o arranjador, o empreendedor e mandão; nem o Joãozinho igualmente tímido desejando aparecer. Os outros meninos eram mais sociáveis e soltos e macaqueavam melhor. A assistência eu convidava ou a cobrar uns palitos de fósforos como entrada ou de graça, pois já na ocasião ninguém podendo viver sem público; mesmo as garotas vinham ver. Um dia o Zé, um Zé doutra rua, se pôs em micagens e deboches e a dizer palavrões insinuando ‘porcaria’, coisas de sexo nesse tempo. Então as meninas fugiram e não voltaram mais ao espetáculo; que demais eram inventados quase que na hora, numa espécie repentista. Pintávamos os ‘artistas’, cantávamos as músicas da época, ao nosso jeito. E o pior é que a plateia achava graça dessa sem-gracice. Entretanto nisso não me distinguia, era o que eu mesmo tachava nos outros um caipirinha. Ainda com respeito às palavras que não conhecia, certa vez ouvi um bebum, não era o Chico é claro; ele a dizer algo que achei lindo. Aliás distorcia muito os sons que escutava; por exemplo tinha uma canção mais ou menos assim “lá vai o canoeiro, remando, etc.” eu entendia ‘defecando’ e cantava no baixo calão a palavra me achando um poeta um cantor brioso, sem temer andar ferindo a educação e a moral: seria um moleque de orelha de pau! Agora no episódio do bêbado, achei uma graça a palavra dita. Comecei a repeti-la, a imitar os trejeitos moles do pinguço, inclusive no palco do cirquinho (as meninas já debandadas e a plateia sendo os mais íntimos e grosseiros meninos) todavia ninguém percebeu o alcance. Na rua repetia o vocábulo chulo, meus amigos aprenderam logo e repetiram também. Fui fazê-lo em casa, o pai escutou, conferenciou com a mãe, me chamou no quarto longe da mana, me deu uns berros! Nunca fiquei sabendo o significado; e hoje, velho, esqueci inclusive a palavra completamente. Este um de meus dramas nestes tempos: às vezes estou conversando com a Maria e falha a memória, não lembro o vocábulo só a ideia do vocábulo. Ela? balança a cabeça. Em verdade o drama é igualmente da consorte, porque também se esquece dalgumas palavras. E o Zé deve então ficar quieto por isso? engolir a crítica da Maria. A Maria: “a finada minha sogra era boa... mas de boca suja...” quantas vezes quer ela atingir-me e lembra a sogra; sim é verdadeira a crítica; o pai a Maria não conheceu ou só o viu um dia quando morou perto de nós; quanto à mãe, a esposa pega no pé mais no pé da mãe, quando irritada comigo. Culpa de meus cigarros? Na questão dos nomes indecifráveis ao Zezinho, estou recordando o salão do Piola. O pai se cortava demais com a navalha, mudou pra gilete e não se acostumou. Daí passou a ir nos sábados fazer a barba (nunca entendi o porquê de ‘fazer’ se feita e grande; a do pai enorme e dura e assim punha ele culpa na fortaleza dos fios, quando devera pôr a culpa na sua pele fraca; daí a sangria e os ‘bifes’ que tirava a xingar o espelho; foi então optar pelo barbeiro:) no barbeiro ouvia o garoto palavras difícil de entender. Falava-se muito em futebol, me azucrinando a gozar meu time; e política e sobre mulher – vezes sem conta me faziam ficar longe ao contar suas coisas, me aguçando a curiosidade. Ah, pensava o Zezinho, que mundo é o mundo dos grandes! O pai não participando e nem falava alto no salão, eu estando a ‘ler’ as revistas aguardando vez e matutando naquelas palavras. Por que as palavras escondem as palavras! Nunca pude responder, nunca pude entender e a interrogação feriu o espaço dos decênios; e envelheceu.



59° - Estória Pra Boi Dormir
         
          Isto uma estória? não, estorinhazinha das pequenas dum grande drama que se pensa mundial quiçá universal. Por isso advirto deixar de fora quantos Zés e Marias houverem, inclusive não aceitando existir Guerra, a Guerra nos meados do Século XX, dessas de massacrar em genocídios de limpeza racial parte do Orbe, esse Orbe sofrido. Nem se tolerando aqui, lá na estorinhazinha, Rex Bob Peri Lulu ou outros cães quaisquer. Nem moleques arteiros, sequer mães faladeiras e vizinhas enredeiras, sejam ou não comadres. E, se acontece a estória, terá de acontecer no Século XXI, portanto ela futurista; diria melhor para acertar a discordância na concordância: futuristinhazinha; aí virando uma gracinha. Advertindo ainda ser a coisa no estilo faz de conta, a fugir da verdade (xô, verdade!) a verdade comprometedora; mesmo porque se dá o enredo no País de Brincadeira. A dita cuja pretende ser um descanso às orelhas ouvintes das insônias coloquiais. Vai escutando escriba desocupado. Era uma vez (veja bem, bem dentro do esquema de Vovós Lobos Botas e Adormecidas) era uma vez um país sério. A oposição internacional negava, nega... mudemos o tratamento aos inocentes pensarem estar acontecendo, a dar material para humoristas e argumento à oposição, esta interna e alternante; quer dizer, por vezes é situação malhada pela oposição, depois vira oposição a malhar a situação – tudo por conta do povo. No País de Brincadeira todos falam em nome do povo. O povo na eleição, o povo eleito, o povo defendido, o povo desempregado, o povo desesperado, o povo enganado, o povo trabalhador, o povo pagador, nisto lembrando pagar o povo as taxas mais altas do planeta, sem que os governantes corruptos corruptores mostrem essa verdade nesta mentira de faz de conta; aliás cada povo tem o governo que merece dizem os críticos; e levemos em conta que o povo (devo pôr povo com pê-zão?) esse dito povo é também corrupto na maioria; sem ferir sua santidade e inocência digo que ele da própria não diz, diz da corrupção alta, as de alto coturno, a corrupção entre os políticos e politicoides à margem dos grandes nomes. Contudo uma análise mais serena mostra a enganação popular nas coisinhas miúdas: o zé-povinho (ah, proibido Zé, desviremos em João: o joão-povinho, pronto:) o joão-ninguém quer levar vantagem em tudo inclusive num fatinho familiarzinho a um garotinho “filhinho, diga que num tô aqui ao safado no portão” ou diz o genitor:  vai comprá meu cigarro; ou: não admito que filho meu fale nome feio no lar... e o garoto desavisado: “merda” pode? Merda pode, até porque o presidente do reino, Ula Gula, usa isso no discurso na televisão aos famintos tantos e portanto é santo. Não conte pra sua mãe que eu deixei xingar, pois isto seria corrupção em troca de me trazer depressa o cigarro; ah e fale àquele ladrão no boteco pra pôr no ‘pindura’ (pensa não diz: num vô pagá mesmo!) e vai logo, seu fiadap. (lembra a esposa não casada com ele no cartório nem no padre, por sinal ambas instituições corrompidas também; tudo minado, tá tudo dominado agora dizem traficantes e usuários); vai correndo, pô! O pai nervoso, não é pra menos mais e mais desemprego, politicagem, bandalheira, roubalheira. O presidente do Reino de Brinquedo foi oposição, chefe dela – então apenas Ula, um síndico de nove dedos; agora situação gulosa e corrupta segundo a oposição atual e em razão disso acresce Gula a soar melhor internacionalmente; o presidente fala grosso à vibração do seu cigarro e pelo álcool exagerado (isto pecha da oposição externa a deixar ofendidas a oposição interna patriótica e mais a situação patriótica). Fala, dá ordens, bravata; ofende a lei e fica acima da lei, dentro da lei. No País tudo se enquadra na lei para burlá-la. Assim a justiça se ampara na lei a fim de acobertar corporativismo; o legislativo faz o mesmo fazendo a lei para suas necessidades e votar autoaumento salarial e vetar aumento do mínimo ao zé-digo-joão-povinho; e sobretudo a mascarar a corrupção-mor. Esta sim dá ibope (isto um neologismo inventado a forçar o povinho a dar resposta enquadrada no pensar da cúpula) dá ibope para a tevê ganhar o pão. Ah, sim, tem outro ganha-pão mais eficiente que é o futebol. Todos querem ganhar torcer ganhar vendendo atletas e ficar no topo da fama e da exposição graças ao esporte. Os políticos embarcam nessa, inclusive Ula Gula veste camisa do time em evidência, enquanto põe boné de invasores de terra; enfim um reformista sui generis. Todo mundo quer sair na primeira página, mormente os grandes corruptos! E o povo do País dos Brinquedos, merece tal? sim. O povo vota. Verdade que meses depois já esqueceu em quem votou, só lembrando malhar sua evidência corrupta ou no preparo à nova eleição e/ou reeleição eternamente enquanto dure, lembra o poeta. O povo sendo semelhante, manso, para com o marido-traído, desde os anos trinta, isto do século passado (a lembrar neste ponto o futurismo e estarmos no Século 21). Contudo, bastam estas linhas sobre a cúpula, ou cópula. Voltemos ao povo. Voz do povo voz de Deus recorda o ditado. Santifiquemos portanto a estorinhazinha de faz de conta. O povo tem mazelas profundas, só não analisa profundamente, vê o periférico, a tona turva e remosa. De repente um veículo desses importadões abalroa outro por sinal um calhambeque; descem dos carros esses dignos representantes do povo, discutem se xingam se ameaçam se socam: o mais forte novo a levar vantagem em tudo quiçá drogado com as facilidades que as mais altas camadas sociais oferecem a todos os seus – isto é uma civilização democrática liberal cristã ocidental não custa lembrar – e com tais méritos chama a ajudá-lo outro amigo forte novo treinado quem sabe nas artes marciais; aí investem ambos no oponente, um velhote de 67 anos trêmulo e bastante burro a enfrentar os tarzãs. O massacre quase lhe custa a vida, tá na UTI perdeu uma orelha tem a cara deformada. Material vivo à viva imprensa, comprometida (não se sabe com quem e o quê). A imprensa mostra isso ao povo estarrecido. Qual estarrecido, dopado nas verdades das mentiras e no faz de conta, tem agora algo a comentar na rua “ocê viu na tevê ontem, comadre!” que horror responde a comadre. Bem. A televisão holofota o criminoso, curiosamente dedado por uma testemunha aparecendo ao repórter e se mostrando, pois o comum é o testemunho fugir esconder-se no “não vi coisa alguma” ou a falar mas cobrir o rosto temendo a bandidagem solta (não referência aos Grandes Corruptos os quais escondem mensalões na cueca cheia de dólares; a propósito, a moeda corrente no país é o imperial, pretendem os teóricos patriotas que um dia a nação impere quando potência; agora é trocar no câmbio favorável os dólares corruptos por imperiais; e nisto um bem-lembrado é que o povo diz “um imperial”  “dois imperial” e isto é discordância e não corrupção; voltemos à corrupçãozinha do povo ela uma gracinha:) Bem, o criminoso se mostra, faz até pose, vai que uma das namoradas, a palavra amante foi corrompida agora se usa ‘namorada’, vai que esteja assistindo a rede, esta que impera por deter muitos imperiais e/ou dólares. Vai pra cadeia? fica na cadeia? não, sai pra rua a responder em liberdade, em função da lei. Até porque a vítima velha não morreu; o que in positivo diminuiria a despesa na estourada Previdência – não morreu o idoso e apenas há entre os familiares da vítima indignação flagrante (o povo dopado pela droga da corrupção esqueceu os veículos amassados a discussão e o flagrante; não, o flagrante não, não houve flagrante porque a polícia num tava nem aí a preencher o beó, por isso a lei boazinha dá salvo conduto ao criminoso de porte atlético). Assim se esquece mais um episódio dos dramas do país de faz de conta, perdido em era uma vez... Isto fato pra acabar a estorinha, ou vira estória ou verdade. É mentira?



60° - Retorno da Maria e o Segredo de Estado
         
          Espero, caro escriba desocupado, espero sim que suas orelhas hajam descansado na sua desocupação nesses momentos da estorinhazinha que ofertei. Nela pretendi mostrar que a corrupçãozinha difusa e quase despercebida na sociedade, essa existe dentro do povo desde o povo do Zezinho até ao povo no tempo de Seu Zé. Voltemos deste hoje da estória ao ontem zézico, cheio de embrulhos e embrulheiras – admitido que o menino fosse de fato um capeta, até prova em contrário, podendo ser inocente e puro como todo menino. Numa segunda-feira apareceu a tia Aninha, sem o tio Nico veja bem ou não poderia haver in totum o que ambas mulheres falaram... falaram, se contaram e aí como entrara saíra a tia, depressa, tendo algumas lágrimas (loguinho a mãe pensando e pior comentando: “lágrimas de crocodilo... essa entojada”:) a mãe comentou altão nesses momentos em que pensamos falar baixo ao pensamento comportado e educado da gente mas numa traição escapam uns indevidos altões, sem berrar embora altões; aí agradecendo aos deuses não havermos no descuido proferido o baixo calão caro à intimidade. O Zezinho ali a desejar colher, lambeta, aquela quintessência da mente materna; e ela: suma daqui, seu palhaço, ninguém tá falando com você! Sorrisos, amarelos; assobiei qualquer a despistar como a dizer “tão conversando comigo? repita por favor, não ouvi bem...” Fiz de conta procurar a atiradeira; ainda não havia encontrado meu costumeiro estilingue quando... não, achei-o porém estava com uma da tiras de borracha escapada, a gente prendia com barbantinhos de borracha dos restos da câmara; e não sei como se soltara se perdera um barbantinho e assim a forquilha apenas prendia uma das tiras. Procurava a borrachinha e ao mesmo tempo procurava um bode expiatório pra fazer bem feito esse malfeito de imputar quem a afanar-me a presilha (e agora como atirar pedras numa caixa de abelhas com a atiradeira manca!) e esse bode poderia ser a bita: já olhava feio a mana e a Terezinha decerto negaria. Nisso ouvi um berro a rigor, a mãe me indagando esperar o quê. Saí sem graça, entretanto não fui longe. Isto porque a vizinha nova apareceu. Era uma ‘sujeita’, esta palavra preferida da mãe a rebaixar mulher bisbilhoteira. Dona Maria, nada ver com a minha, a minha na época pouco mais que bebê tateante nos escuros da vida; Dona Maria se mudara à casa do Francisquinho do seu Chico Gasolina; era vizinha novata no pedaço; inclusive a mãe pichava a família por cigana, uma gente que muda todo mês; depois pichou a residência também por não parar nela ninguém como ‘casa assombrada’, não sabendo o Zezinho se verdadeira a afirmativa, mesmo partindo dum poço de sabedoria como a genitora; e por via das dúvidas deixei de xeretar tentando revirar os escombros cada vez que se mudava de lá uma família. D.Maria ficou suas poucas semanas após a entrevista com a mãe e se mudou também; mudou-se na calada da noite e daí o senhorio veio ver os estragos e a reclamar o não pagamento do aluguel. Contudo, isto não vai em conta nesse episódio que narrarei, o da visita da mulher à nossa casa... Começo falando como deplorava a mãe as bisbilhotices; não aceitando indevidas visitas no nosso lar. Ocorria de a mãe e a Comadre-Vizinha, quando Seu Tomás não presente, de ambas passar em revista os acontecimentos do bairro, mormente aquilo que pudesse estar temperado e mais ainda apimentado. Eu a xeretar ali nas imediações não estando a serviço na rua, é claro. Apreciava eu o fato de apreciarem conversar ambas vizinhas – porém na cerca, a mãe com o hábito inclusive pôr o pé esquerdo na travessa inferior do balaústre e encostar o joelho no sarrafo vertical, o chinelo esquerdo portanto descansando no chão; sempre vira assim. A boca a falar os segredos menos altão que a novela, aquele desaforado do Senhor do Funchal; porém alto, não para que eu ouvisse e muito pelo contrário; até me escorraçava, alto o suficiente ao Zé escutar. Sim, boquejavam horas as coisas, trocavam sofrimentos, trocavam notícias qual fossem o “Correio de Marília” que elas não liam, antes sendo elas as matracas não escritas mas faladas. Conversavam sim porém se confiavam, diziam podres, inclusive pichou a mãe tia Aninha com ‘belas’ tintas e também uma outra safada da rua Sete, abaixo da Dirceu. Apesar de tais liberalidades nas liberdades comadres – nunca admitiria que uma desconhecida trespassasse os umbrais solenes e santos de sua casa pobre no entanto limpa para trazer um dizem que disseram, a troco dum manjar (feito lá sabe-se com que mãos limpas, Comadre!) A fim de quê? ora bolas, desejando ‘comprar’ saber segredos da vizinhança, as comadres, “Comadre, até da Comadre!” E querendo ver as nossas coisas, as intimidades do meu lar... Ah a senhora tem rádio, aquela bacia... gostei do quadro é sua vó? arrespondi: a Finada Mãe e o Finado Pai. Daí me obrigou a contar tudinho. E este xereta aqui... sorri, saí. Então Dona Maria Bisbilhoteira chegou, chegou a tremer o seus pudins, não pense mal caríssimo escriba, não me referindo às suas gorduras: os meninos não veem essas coisas nem pelancas nem o vestido novo e se for uma beldade, já adolescendo nas cobiças aí por uns onze anos ou doze, então veria as coisas que se não deve ver e menos falar. Não, o Zé viu ser gorducha não mais. Chegou, ofertou o doce, disse o tradicional e costumeiro “não repare” dona... dona... dona... Antônia, respondeu quase não a tempo de guardar as unhas a mãe enraivecida, Antônia (não iria dizer Tonha Toninha seu criado, não aqui também discordância não só na não-aceitação de capacho; enfim não gostou a mãe:) sou Antônia e a senhora é... “Dona Maria” completou a entrona. Me aproximei, quem sabe a interpor-me como árbitro, árbitro-escutante... Sabe, Antônia (aqui abaixou a voz, olhou por volta D.Maria; enquanto a mãe fez um muxoxo num sestro de repugnância só conhecido nosso em casa: deplorava tratamentos íntimos por alienígenas, qual a mãe vendo a outra, xereta:) sabe que tenho uma vizinha, a do 345, que é um tipo... como diria! ah, acho que é ‘bstituta’, acho não: todos falam dela e... e a mãe me olhou me comeu de olhos examinou o xereta e me mandou ‘pirar’, este um verbo que na sua boca querendo dizer mais ou menos isto: some de minha frente, já, ou ti dou uma bofetada! Como entendedor da linguagem ‘um pingo é letra’ me safei. Antes, observei o público feminino feroz à minha presença: a gorducha a mãe e a Tereza, a qual andava andando bem já e bem mais falando umas coisinhas engraçadas; observei o perigo e saí quase a correr! ‘quase’ aqui a esclarecer, pois a ficar ouvindo os tesouros que elas falavam, em segredo, o qual, livre da presença macha, virou voz normal e inclusive altona, altona especialmente na parte da mãe: às vezes falamos alto, mais alto que o normal, a dizer “nada que falo compromete” não tenho culpa no cartório. Fiquei coçando a orelha, que seria aquilo dito; e não teria qualquer ligação com minhas ‘conquistas’ na rua Bonfim... mesmo porque a Maria Bisbilhoteira afirmou claramente a ‘bstituta’ ir com frequência à Boate Guarany. A mãe descartou logo a intrusa, prometeu (na saída da mulher, aí na minha frente, e me perguntou se estivera ouvindo ali perto; respondi jurei neguei a pés juntos:) prometeu pagar a visita. Não o fez. A vizinha fugiu logo com seus trecos, um caminhão encostou de noite na frente da casa. Mais um dado às conversas com a comadre e vizinha. Nesse dia, o da visita, fui sub-repticiamente expulso de casa. Fiquei próximo da casa, brincando com o que ocorresse; ocorreu-me fazer ar; enfim tomei meu espelhinho redondo que ganhara do pai: menor que a mão, na frente o vidro de me ver e atrás um papelão encapado com um celofane e cheio de fotografias miúdas dos jogadores do São Paulo, meus ídolos. Esse objeto nunca o perdi nunca deixei na mão de colegas, com ciúmes e apego; coisa rara em mim, um sujeitinho relaxado. Então fazia de maneira que os raios solares refletissem onde desejava; vez que outra tentando pela incidência da luz queimar material seco; um dia consegui acender uma bituca de cigarro achada na rua; suguei aquilo e me senti adulto: era só moleque arteiro. Como o desastre feminino desabou sobre mim, acusado de xeretar o que D.Maria e D.Antônia se contando – então fugi pra mais longe. Na Dirceu não, fui pra rua Sete de Setembro, lá punha a prefeitura o esgoto. Fiquei com o cachorro e outros amigos no ver o trabalho. Primeiro as montanhas de terra cavada, as valas compridas parecendo os trabalhadores aqueles coveiros que vi na Saudade. Depois a colocação das manilhas de cerâmica, manilhões de muitas polegadas, isto desconhecendo meus centímetros; uma ligada a outra enfileiradas e embutidas na vala, esta sim comum e não a corpos humanos. Antes disso achei interessante, não sabendo a opinião do cãozinho, o Bob foi um como que desses cães perdidos em mudança para quem a gente dá comida e se pensam nosso, o Rex havia morrido quando fui peregrinar na rua Bonfim... Não sei o que pensava mas os moleques outros gostaram, comentamos; achei interessante e engraçado mesmo como faziam para grudar um noutro tubo: enrolavam uma corda fina na volta da boca, juntavam ambas manilhas soldando com piche. Ah o piche! uns caldeirões com o líquido preto a fumegar, a lenha embaixo a queimar e fumaçar o caldeirão e sobretudo exalação do cheiro. O cheiro tenho comigo até agora, agora Seu Zé, Seu Zé da Maria; essa aí que me ronca e me acorda e mantém minha insônia! Não obstante, desocupado escriba, não obstante agradeço minha insônia por ter-me dado sempre oportunidade a narrar minha infância. Do contrário, como é que fá-lo-ia!? Ora, onde você? não o vejo; sumiu ou ter-se-á ocupado em escriba... Será possível que tenha sido mais uma vez logrado... Primeiro a esposa me ouvia, calou seus ouvidos; depois o Galo, oh que saudade sinto do Galo e ia exatamente dizer-lhe, me esqueci no contar antes, dizer que tive a pachorra de somar sua cucurucada: nove vezes seguidas às seis horas da manhã; não, 5h:50’ pra ser preciso. Pois eu não sabia quantas e agora sei, sei e com a panela de pressão! perdi o Galo; após perdi também o Chico, quem sabe um dia nos encontremos como nos velhos tempos no boteco e aí possa esclarecer o amigo para esclarecer-me o sumiço. Agora tão só devo afirmar que desapareceu o Chico. E após o após passei fatos ao escriba desocupado, não sabendo em que estrela se escondeu, sumiu! Que faço. De minha insônia não faço, nada posso – ela é superior às minhas forças. Para quem narrar, se todas pessoas necessitam público; vou além: sem público não existimos. Aí relembro, me acordo no sono no sonho no pesadelo? no ronco da Maria. Maria Maria, perdoe-me: vou narrar, sim, deixemos de lado o tim-tim por tim-tim porém fiquemos no essencial, que ainda não contei a você, meu bem (você não aprecia a expressão contudo é o tratamento mais de acordo com meu coração, o coração costuma ter razão ainda mais que a própria razão). Ou por outras palavras – narro daqui por diante para você aquilo que ainda não houvera dito. Saiba, Maria, saiba existir um sem-numerinho de fatos que toda nossa vida a dois desconhece; sobretudo após a mudança de sua família da Vila Barbosa. Sua gente fugiu de minha gente. E nisto preguei uma peça na Finada Dona Chica: a sua mãe o que desejava era nunca ter o Zezinho Capeta como genro... Fui atrás de você, conquistei-a, levei-a para nossa casa, você se lembra de nossa primeira residência! pobre entretanto um ninho de amor. Ah, isso não preciso contar, sabe mais que eu. Se contasse, recontasse, pichar-me-ia à Dona Lúcia: o Zé tá caducando! Não, tô insoniando, Maria.



61° - O Informante
         
          Chovia barbaridade naquela tarde-noite na manhã de minha vida, cara Maria. Barbaridade e suponho hoje que fosse verão ou qualquer coisa parecida; no Brasil do Sudeste o mais comum é ser sempre verão ou tempo sujeito a chuva, o caboclo fala tempo da seca e tempo das águas, não sabe termos técnicos europeus. Não importa, importa que chovia, chovia sem parar; aqui exagerando como bom capiau acrescendo tudo de tudo, pois não para de vez em quando a corrente! para, para e retoma o chuvisqueiro. Então, como brincar chovendo. Diria o Zezinho como trabalhar? não. Daí o que fazer: brigar com os de casa, enlouquecer a mãe já ela não a saber o que faça. Foi nesse ponto crítico alguém apelar naquele quarto bolorento, a cheirar não apenas barata e precisando nova caiação ou pintura, mais limpeza de pintura a esconder essa vergonha; foi então que passamos em revista a cultura disponível no lar. Contou-se lorotas, os grandes seus causos, os pais a falar negócios e negócios pendentes nos desentendimentos do casal, pois sempre nas oportunidades sobram essas desoportunidades. Bem, tratamos das leituras. Eu não aguentava mais a Cartilha Sodré, a professora Dona Tomásia me passara há muito da lição da Pata, pata-pa nada-na; ora já lera e relera todinha e agora a fim de não ver a chuva, ler outra vez! Tinha uns almanaques, a gente ganhava todo ano na farmácia, às vezes indo de farmácia em farmácia pedindo e a cada dez sempre conseguindo um; tinha o do Phimatosan tinha o do homem com um peixe nas costas – não lembro bem você deve lembrar melhor isso, Maria – enfim tínhamos leitura à beça para nos ilustrar. Os manos mais velhos às vezes com paciência a ler alto para a Terezinha e para nós nos nossos ouvidos de olhos lerdos ouvirmos. Comentávamos. Tinha um missal ou cartilha religiosa da mãe para ela levar na igreja e nas novenas, isto não interessando ao Zé, filho, nem ao Zé, pai. Enfim tínhamos cultura a mancheias e das grandes ofertadas, porém moleque prefere jogos. Saquinhos pedrinhas figurinhas, não era tempo de figurinha; houve adivinhações e até cantações; eu um pouco desafinado confesso; ainda hoje a Maria me azucrina “Véio, ocê desafina até na Jardineira” tá bom. Agora, o que nos salvou do dilúvio lá fora foram mesmo os jogos de cartas. O baralho do pai tava grossão e ensebado, a mãe falara que o tio Nico marcara cartas pra tia Ana saber qual jogar e ainda que o tio teria sumido com uma, parece que o rei de copas; nunca comprovei. Apesar do baralho do velho em meio do barulho nosso e de andar cansado e ensebado o baralho da casa, no entanto como nos divertimos! O pai e os outros adultos gostavam de Escopa ou Bisca, jogos que eu não entendia bem. Quando só homens numa visita ao lar partiam ao Truco, havia um primo do pai, barulhento e bravateiro, e esse gritava inchando as ventas e o gogó “seis, papudo, ladrão” e demais mimos das ofensas brincalhonas. Só uma vez brigaram de fato, aí o tio Nico bebera demais e isso destampou seus ouvidos e mais a boca. Enfim a mãe ficou orgulhosa por ter no arsenal mais argumentos, pois os parentes dela não faziam arruaças na casa dos outros nem nos seus respectivos lares. Costumava cultuar seus ‘deuses’ a mãe; um dia o Zezinho descobriu uns podres e feiuras morais num irmão dela e levou um tabefe na boca por comentar. Aos pequenos tinha por exemplo o jogo do Mico, o mico mais um enganozinho ou tapeação com cartas marcadas, o menino quase já nem tendo a surpresa a ficar com a carta sem par ou feito bobo. Enfim o que desejávamos se não sermos enganados na brincadeira e não vermos a chuva... Contudo o aguaceiro amainou parou de vez, apenas chuviscando a garoa a bruma e depois um sol moloide veio ver a rua, não se via a Dirceu no final e no começo dela, só pertinho, onde as ‘aleluias’; assim conhecíamos os insetos voejantes a tremelicar asas, as aleluias a cair seus cupins no chão molhado, decerto para alegria do terreiro o galo e seu harém a caçar. Na rua a bruma já sumindo, nós a molecada correndo a inventar nossos inventos e os improvisos da surpresa; quando menos ao menos contávamos as coisas que vivêramos na prisão domiciliar úmida nessa verdadeira noite-e-dia-e-noite ao tormento adulto. Nisso surgiu um homem na via pública. A gente quando vê não vê donde, vêm sempre os desconhecidos da interrogação; ou que menino não faça perguntas, embora seja o ser que mais levante intempestivamente questões. Enfim eis um senhor bem vestido (me lembro um primo ao qual a tia mãe dele perguntando na volta da rua se vira fulano com que roupa estava de que cor isto ou aquilo; o Zezinho via gente e não via roupa quase nem a que ele mesmo vestia; esse cidadão estava bem vestido, não saberia dizer como:) apenas sentíamos o cavalheiro não ser do nosso meio, onde moleques e adultos singelos e inclusive sujos de barro da rua descalça. Desceu o sujeito dum automóvel preto lustroso, desses de impressionar menino e a cheirar gasolina graxa e freio gasto, embora não houvesse frenado bruscamente. “Garoto, pode me informar onde a Fazenda Bonfim?” Mil respostas de mil bocas crianças ouviu o forasteiro cheirando a cheiro de baile rico. Não sabia bem para onde voltar-se, dada a coalhada de meninos todos a querer ser úteis. Acabou meneando a cabeça onde um chapéu distinto e sorrindo para nós. Se eu conhecia? puxa e como, se indo frequente lá nos pastos por volta a pegar fezes secas de vaca ou de cavalo para atirá-las como pedra ao Rex buscar; ou atiçando o pobre amigo contra os animais ali dolentes, na vida mansa e rica em grama e capim. Conhecia e muito. Uma vez fomos a molecada assistir a um jogo no campo da Fazenda, muito pontapé e bicões e frangos, oh infeliz goleiro doutra fazenda (Santa Clara? não lembro agora). No final deu briga por um penalty mal marcado bem cobrado e decisivo. Não sei quem brigou com quem quem apanhou quem o culpado quem correu; o juiz flagrantemente cobrado e objeto de chacotas e vaias; não obstante ninguém lhe xingou a mãe nem bateu no homem: era fiscal na Fazenda...  Em virtude dessas desvirtudes conhecia sim onde; onde e o que não sabendo o Zezinho! a mãe: esse capeta foge sempre e já conhece o Brasil inteiro (claro, exagero, pois conhecendo só palmo a palmo Marília). Conhecia sim e expliquei mostrei magistralmente o caminho para chegar à Bonfim, donde lógico iniciava a rua Bonfim e bem longe do meretrício... Acontece que a meia dúzia de meninos também a saber a sobejo; e todos a ensinar ao mesmo tempo o estranho. Um de nós: o senhor vai pra lá, lá pra longe, quebra a primeira, não a primeira não: a segunda esquina, aí anda mais dois quarteirões e vira e desce pra baixo e anda mais três ruas e dá de cara na porteira da Fazenda e... ai! chega, o homem já dessabendo a contento. Um moleque queria ir no carro, um fordeco último tipo quando a Guerra deixava fazer último tipo a cheirar agência para a agência vender, pois os ferros e tudo o mais iam para ser destroçado nos campos de batalha; queria o garoto servir diretamente como guia. Olhei aquele imenso barulho desencontrado de tantos mestres-cicerones a falar todos juntos, parecendo italianos da Calábria, não eram: tinha um negro também Zé como eu e o Yoshio que era nissei portanto não todos italianos, querendo ajudar um pobre rico desconhecido a atravessar a Dirceu, caminhar uns trezentos ou quatrocentos metros para encontrar o portão da Fazenda. Balancei a cabeça como a dizer: quanta ignorância (eu falava então “ingnorança”) quanta pois basta falar: moço percorra quatro centeninhas de metros, vire à esquerda e dará de frente com a porteira e... e só vi o carrão sumir lá longe, escutando ali os comentários dos defensores de meia-tigela do conhecimento a querer ter mais razão que a razão. No fim, Maria, sabe o que fiz? não fiz, ri.
62° - Cabeça Sem Tronco e Membros
         
          A cabeça tão somente, Maria. Tá lembrada como interpretei o mapa de nossa urbe? A Avenida os braços abertos; a Av.Rio Branco as pernas a nos chutar à Saudade, ficarmos na saudade e virarmos saudade... quem há-de! quem morto a merecer bom pensamento, quem terá recordação boa dos que ficaram... A Cabeça a Prefeitura depois; não na época difícil da Guerra, difícil toneladas aos adultos, ao menino apenas umas gramas na rua e pronta a felicidade, ah a felicidade! mas a felicidade seria flagrar a então Cabeça, esta a plasmar o tronco urbano e a movimentar seus braços e pernas – ela qual cérebro donde partindo todo o ser do ser: a Cabeça a Estação de Trem! Você lembra como fora a instalação dos trilhos, a inauguração da estaçãozinha, os moradores em festa, os moradores e os aventureiros chegantes a movimentar tudo como sendo o todo no planeta! Não, não lembra; não pode, não nascera, não entendia. Sim. Eu não cheguei igualmente ver isso, me contaram, pois também viria ao mundo posteriormente no lar do Zé Intaliano, o qual adquiriria um fordeco a sustentar tanta boca; no lar dele e Dona Antônia, uma que o Zezinho quase a deixar maluca por suas artes. Uma delas, das artes, me lembro agora, Maria, foi certa pesca que realizei perto da casa, as madeiras da casa de pé com frestas para a gente receber o frio da noite e onde o vento que inventou a Cidade Menina investia brabo a estalar as tábuas e ripas. A pescaria. O Rex, já lhe falei sobre meu cachorro? ele morreu atropelado. O Rex ficou comportadinho naquele dia de pescar: não ladrou; até parecendo estar igualmente ao Zé interessado e na expectativa que alevantasse o maior peixe do sistema solar, uma baleia que é mamífero; um tubarão que lembra os grandes corruptos desconhecidos do menino (a propósito inclusive contei uma estorinhazinha pra boi dormir cheia de corrupção; voltemos ao peixe:) um peixão ou um lambari a pratear no reflexo daquela manhã havendo chovido e os raios solares sendo a cor da felicidade. Seria um peixe enorme? não. Não certamente porém não afirmo, porque como imaginar a imaginação canina! decerto pensava assim aguardando o amo de vara linha anzol e isca no anzol à espera como todo paciente pescador. Antes disso fora o Zezinho pescar na Represa Cascata, proibido sim e daí? fora vezes ao rio Pombo, ao Barbosinha e chegou mesmo às barrancas do Rio do Peixe que era a si um mar quiçá oceano. Enfim um expert no assunto, um pescador nato e experimentado, não obstante sem a característica de beber na beira da água fumar para espantar pernilongos e contar mentira (por exemplo um dia haver tirado fora o maior peixe do hemisfério ou haver perdido exatamente o mesmo, o mesmo sendo ainda maior que na fase real deste imaginário caso fosse fisgado); digamos houvesse sim pescado uns tambiús que a verdade enxerida afirme serem tambiuzinhos assim, daqueles que nos infernam a roubar a isca; e seria que a minhoca, tadinha dela, não sentiria as mil mordidas daqueles mosquitinhos de peixes! Isso a verdade, sobrando portanto pouco ao Zé mentir, ser completamente um pescador. O Rex desconhecia isso com certeza; e torcia qual torcedor uniformizado pelo seu ídolo, um Zé de vara em punho, vara e anzol grudado na ponta da linha na vara, realmente a linha sendo um cordonê que o pai usara quando na pesca da traíra no brejo entre taboas e aí falam que as sem-vergonhas toravam nos dentes a minhoca ou carne da isca e o anzol, cortavam o cordonê e então o Zé do Caminhãozinho abanava a cabeça, fumava outro cigarro, comentando o feito com o companheiro pescador e repunha os apetrechos na vara; depois, falam, aprendeu a encastuar o anzol com arame, um arame contra todas bocarras potentes qual as de tubarões da traíra. Não. O Zezinho ansiava sim os grandes espécimes mas se contentava bem com o pratear de lambaris. Prudente ou imprudente (e impudente! não, menino não tem más intenções, é um anjo até prova em contrário e portanto não impudente) prudente apenas, aguardando sob olhares do Rex alevantar um lambari de médio porte. Ele, o cão, sentado gozado nas patas traseiras, a deixar tão só o rabo solto na areia a conversar alegrias com o Zé. O Zé assegurando a vara de pescar, a linha esticada (mesmo estando o ventinho ardido e dizem que vento e barulho espantam peixes...) no fim da linha um anzolão, não isso mas anzol de tambiú daqueles anzóis azuis; e a isca é claro (ou qual estúpido peixe a grudar no anzol nu!) A isca sendo um grão de milho. Aqui entramos na pescaria enfim. Esperou esperou, quem diria o afoito e estabanado garoto que derruba uma bacia cheiinha de louças e trecos; que corre a tentar desenroscar papagaio da árvore; que se espirra rápido para não levar surra do Yoshio ou da mãe, a mãe do Zé; este que não tem nada que faça com paciência, quem diria agora ser paciente! espera, aguarda como na margem do riacho o peixe, decerto sonhando enquanto não belisca o trouxa n’água... Ocorrendo o Zé de arma em punho não no rio porém no quintal de casa, encostado da casa de tábuas, até ouvindo dona Tonha cantarolando num bom humor pra nenê escutar como fazem as mães para distrair crianças enquanto labutam (e ela o fazia sem diplomacias baratas: um utensílio bater barulhar noutro e o filho-pescador escutando ali perto:) suspende a vara a linha o anzol para ver se não emergiu à tona!? qual o quê. O Zé pesca galinha em bom terreiro... o milho espalhado elas comem com o galo e os pintinhos, os pobres não conseguem aquele milhão enorme engolir de biquinhos e bicam assim mesmo quem sabe para aprender. E há alvoroço e todas comem, comem tudo e vão ciscar outras coisas entre mangas podres debaixo da árvore ou conversar entre elas (o que será que falam as penosas, sabe-se lá). Tudo? quase tudo mas têm alguns grânulos e, pior, nesse melhor, pior tem o grão espetado no anzol do pescador! O Zé tá atento. Atenção: esboroada a missão? ninguém, ninguenzinho a bicar aquilo que ele impulsionando a vara a linha o anzol a mexer chamariscando o dito milho todavia ninguém! Aí vem uma tola. Olha, entorta um pouco a cabeça para ver melhor, vê um cachorro de cara engraçada sentado junto dum moleque nada pior da melhor da gente, a gente que existe naquele mundinho cercado de balaústres de pau por todos lados – daí percebe a comida. Papo cheio sim mas comida ainda é como sempre foi e será: comida; aproxima-se da parafernália. Examina desde perto, bica bica até que engole o grão, quase a matar na expectativa o filhote de homem e o adulto de cachorro. Engole, engole, atrapalha sim aquele barbante desajeitado a prender o milho, e engole. Engole até ao meio e enrosca. O pescador experiente puxa, a vara retesa a linha fisga o peixe! O peixe berra, não: não berraria, cacarejaria? não também não sendo ao pôr ovo no ninho alegre a alegrar o terreiro nem vendo um possível gavião a rondar, a felicidade é cega; igual o amor. Então grita. De dor de desespero de prisão de tolhimento mas possivelmente por causa mesmo da dor. Faz um banzé: dum lado o menino feliz com a sorte, inclusive o Rex agora despenca a ladrar o acontecimento; doutro a ave presa a espernear estertorar a gritar rouco o universo, a espantar o galo seu homem, o terreiro, o bairro de Vila Barbosa; na pior definição a espantar dona Toninha. Larga os trens que lavava corre ao fundo do quintal, flagra aquele crime, certamente crime pensando o cucurucu da cocorocó a espernear, a ser arrastada pela dupla pescadora. Aí... Pera lá, isso não é a Cabeça é a dor de cabeça! De fato, o Zé ficou preso no quarto, apanhou antes; o Rex levou um tranco sem culpa (só olhava, sequer dera palpite); a choca... não ir-se-ia comer galinha com febre na janta e tiveram de perder enterrá-la pra não cheirar mal, mesmo porque iria a piedade cristã da mãe permitir a infeliz ficar sofrendo o engasgo de anzol! não por certo; errado que tenham salvado o anzol à próxima pescaria do pai – foi tudo pro buraco apodrecer com o lixo entulhado. O Zé, contrariado, quem se pôs de coveiro e ainda ruminava “tudo eu nesta casa!” E a proposta Cabeça!? Ora, Maria, lembrei a pesca a galinha o Rex e tudinho porque me haviam prometido levar à Estação Ferroviária, não me lembro por que razão; o pai e um mano foram, eu de castigo não fui. Fui noutra vez, o que demorou meses, e... chega.



3° - Cabeça II
         
          Prometi a você, Maria, a Cabeça de nossa cidade, só mostrei a dor de cabeça que o Zezinho teve; antes teve mais a mãe nas pescarias do filho. Prossigo a narrar, tentando recordar a infância, quem sabe se não resgatar acontecimentos esquecidos. Dentro do princípio quem não tem o antes não precisa o depois. Justifico a atitude a lembrar aqui que os milênios escondem mil fatos do dia a dia, irrecuperáveis, seja pela memória insuficiente seja por não haver testemunha – em nosso caso somos ambos testemunhas da nossa vivência no tempo da Guerra. Você menos, eu mais mais velho. Agora valho-me de suas orelhas potentes, oh companheira... Maria, curioso iria dizer como costumo por costume lembrar seu ronco, o ressonar forte e barulhento num ferir o silêncio de minha insônia, passa noite vem vai noite, você negaria decerto; um roncar bem característico, muito de ventre para cima e pouco como está aí no seu lado: de lado. Não, não posso inventar, pois a verdade é que não ronca neste instante. Ouve contudo, ouça. Fomos naquele dia para a plataforma da Estação da Paulista, naquele? noutro dia pois naquele fiquei de castigo, me sentindo mui injustiçado pela mãe; só, abandonado, e desejando tanto ir ver o movimento, sequer sabendo a causa do passeio, não bem um passeio e menino não pensa nessa questão: quer ir e pronto. Não propriamente abandonado como disse, seria uma injustiça também ao amigo, porque o Rex permaneceu longe enquanto a cara da mãe dizia horrores, sabe que cachorro consegue fazer a leitura da fisionomia humana! e assim loguinho estava a meu lado, dormiu sonhou roncou, não roncou demonstrou andar sonhando pois inclusive ladrou dormindo como que num pesadelo, à minha gargalhada; aí acordou de vez, cumprimentou-me com o rabo e ficamo-nos pajeando no castigo materno imposto. Não obstante preferindo eu a companhia do pai e do mano; se tivesse ido a maninha com meu velho, aí teria tido inclusive ciúmes pelos agrados do pai à nenê. Todavia noutra oportunidade, meses depois, fui ver com meus próprios olhos o movimento; o pai apenas a contatar o chefe da estação a lhe vender uns tijolos e tratar dumas viagens de areia para a costrução que o homem faria e fez na rua 4 de Abril. Me lembrei do vaivém da gente e, confinado no quarto por ordem materna, lembrei-me certa viagem que a família realizara a São Paulo. Então éramos quatro: o mano acima de mim, ainda moleque de calças curtas, a mãe e o pai e, claro, eu; a Terezinha não viera ao mundo eu sendo o caçula. Caçula embora sem os festejos e tolerâncias próprios aos mais novos; parece que fui desde o ventre indesejado (teria havido inspiração ou adivinhação o Zezinho vir demais arteiro!) Era na época um garotinho sentindo-se rejeitado pela mãe e mais amigo do pai; quase de colo sem colo... Não sei as razões da viagem que fizemos, parecendo alguma encrenca dos parentes da capital. Por isso vou me limitar falar o que nebulosamente alembro. O trem balança muito, corria demais (devia ser pouco porque em bitola estreita e as limitações técnicas que eu não via) e mais ainda correndo quando nós pegamos a bitola larga após Bauru ou Itirapina não sei. Em Bauru fizemos baldeação; lembro bem a correria a obter lugar sentado no outro trem: o pai desceu rápido na frente de nós, depositou a mala daquelas enormes de fibra e pesadonas, depositou-a pela janelinha do carro de passageiros; voltou correndo o tempo escasso em nos ajudar com as matulas, mais à mãe pois eu não prestando porque iniciava andar e o mano grande pequeno ainda; embarcamos, logo o trem apitou, pra mim era uma festa; indagava tudo de tudo (deveria falar embrulhado e só os meus compreendendo) o pai explicava como doutor, a mãe de má vontade; suponho não sei, deveria ter me esclarecido sobre isso antes agora ela finada, creio estivesse sofrendo perda de alguém e por isso indisposta às alegrias meninas. Na viagem apareciam vendedores anunciando gozado e cantado guloseimas e revistas que os passageiros adquiriam, os meus não compravam pelo dinheiro curto, nem mesmo a coxinha cheirosa que meus olhos gulosos pediam tive; a mãe fez à feição cabocla uns frangos com farofa a nos lambuzarmos a contento... me bateu na mão após eu melecar o banco duro de pau do vizinho da frente e acabar a limpeza na roupa; chorei, e educadinho não armei o berreiro que fazia no meu ambiente da rua Dirceu; aliás havíamos recente mudado pra lá não sei donde. Outro problema é que desejava fazer xixi toda hora, o pai já chateado a me levar ao passeio do mictório no fim do carro. Uma sujeira bem razoável, pois a Companhia era certa nos horários na ordem e na limpeza mas não demais na higiene dos sanitários (mais tarde seria o trem vendido ou tomado pelo Governo e aí sim aconteceria o ótimo em sujeira e desordem e abandono e finalmente a bancarrota ferroviária). Sentia a fedentina, a qual não ofende demais olfatos de passageiros da segunda classe decerto; eu apreciava até o lavatório com o espelho; olhei o espelho: ele mostrou contrariado um molequinho com cara de lua e sardento; ao fim sorriu-me, ou à impaciência paterna. Isso mil vez fiz, fizemos. Ah que delícia ver e escutar o tontonc-tontonc das rodas com a porta aberta e a bater! fechavam pelo vento frio e o cheiro da fricção do ferro de rodas e trilhos; outro passageiro vindo doutro vagão reabria, ela batendo batendo. Pra mim? um encanto. Lembro também o túnel não sei onde: gritei de temor, o escuro a fuligem os carvões soltos nos pegaram na surpresa: invadiram a janela em visita indiscreta. Aí, bons brasileiros, o ladrão já entrado e sujado as coisas e mesmo indo embora, aí sim fechamos a janela, veio após o sol da manhã fria linda a relampejar a paisagem com seus reflexos... é preciso ser poeta para beber poesia!? Passáramos noite toda viajando, horas de indormir aos adultos cansados de repetir histórias e estórias mais causos como passatempo; eu e o mano dormimos nossos respectivos cansaços, Maria. Não roncamos nem insoniamos... Entretanto as imagens dessa longínqua viagem sumiram quase de meu depósito lá dentrão da mente, só ficando relampejos; os relampejos de saudades. Um lembrete que me marcou no trem foi o pai comer toda hora (seria por nervosismo?) a mãe se irritava com o pobre. Aliás em casa sempre foi assim: o velho se levantava à noite pra fumar e lambiscar; voltava mastigando para a cama, vezes sem conta ouvia a mãe reclamar dele por isso. Estamos enfim na plataforma agora; uma parte dela é de tijolos ou cimento, entremeio pedrisco – por toda área da ferrovia sobram os pedriscos as pedras britadas para segurar trilhos e os ditos trilhos, os quais servem aos improvisos de serviço como postes e vigas de sustentação e o caminho de ferro naturalmente – enquanto a gente a andar (aflita? surpresa? ignorante? ou fora de si a se deslocar qual autômatos?) a gente a andar num vai e vem incessante, encontrões, enroscos de malas, preocupações (com ladrões? sei lá) olhares pra lá pra cá, gritar com meninos, os curiosos no ver os curiosos e coisas outras; “moleque, saia da beirada, vai cair!” ah pobres adultos. Mas também alegrias gozações reatamentos gente a se rever e a se conhecer; e ou a se temer! Olhava aquilo que me parecia o Carnaval na Avenida, sem máscaras ostensivas e com máscaras embutidas nas expressões. Movimento. O pai conversava com o ‘freguês’, não inaugurada a temporada de ‘clientes’ pela linguagem; um freguês bom pagador, havia mil outros maus, o pai sempre desorganizado na escrituração sendo inclusive semialfabetizado e confiando desde o nascimento nas outras pessoas – assim tomava prejuízos enormes; a mãe chiava, às vezes brigavam por isso; o pai não se emendava; agora o freguês era o Chefe, “um grande amigo” dizia o pai, todo mundo pra a si amigo; a mãe alerta, para ela o resto da humanidade sendo a maldade; fora seus parentes. O Zezinho olhava o movimento da gente e aguardava o pai, se deliciando. Contaria depois tudo o que vira ao Rex, o Rex então um cachorrinho bobo e novo mas já falando na sua língua e conversando bem a usar o rabo; no entanto se houvesse trazido, levado, o cachorro à Estação, não deixá-lo-iam entrar. Os guardas eram severos. Mesmo as pessoas não penetrando a plataforma sem bilhete ou senha comprada ou só autorizada para passar as portinholas de embarque. Tanto assim que o Zezinho ficou vendo somente pelas frestas e por último meteu a cabeça num vão a fim de presenciar melhor aquela loucura gostosa. Chegou o trem! A composição bela e comprida, o corre-corre, o entra e desce, uns conferem passagens, outros ficam no final do carro em pé, dentro o atulhamento da gente; tem gente a olhar curiosamente os curiosos lá fora; as moças olham sem mostrar estar vendo os homens; os rapazes olham flertam dizem gracinhas, todos riem – a juventude tem riso fácil. Naturalmente supor que muitos desses jovens iriam no decorrer da viagem ficar indo e voltando dentro do comboio, a passar dum ao outro carro ou se fazendo de trapezistas; ou a cada estaçãozinha o descer ver subir re-subir no trem, a se mostrar ou apenas por bicho-carpinteiro... O Zé ainda não prestara atenção nisso, só posteriormente outras viagens ensiná-lo-iam. Assim os novos, os velhos e os adultos válidos conferem suas bagagens depositam malas no bagageiro apertado em cima, ajeitam as malas e trouxas no chão duma segunda-classe; os de primeira estão curiosos também, a olhar para fora os capiaus indóceis. Ao par do movimento da gente a locomotiva quentona descansa; bufa vez por outra um soluço e fumaça; os empregados acoplam desde a caixa d’água ali perto e a propósito certa mangueira enorme e cheia de polegadas, acoplam-na na boca da locomotiva nervosa e esquentada; bebe, bebe ela sem parar a caixa toda! toda? talvez, pensa o garoto; destravam o emboco no desemboco. Ela se aquieta, saciada. Sobe no ambiente um cheiro de brasa e atrito das rodas de aço no freio que fora acionado na chegada. O barulho da gente encampa encobre encoberta a ruminação da máquina; sobretudo o grito dos servidores a manobrar apetrechos daquela parafernália incompreensível. Enquanto, o Zé observa e atenta pro telégrafo, que nem vê e não sabe a que serve mas bem barulhento e teimoso no seu morsear em tec-tec-tec tinindo sem parar e a gente não entende mesmo entendendo. Por fim o Chefe trila seu aviso, o Maquinista responde seu apito na locomotiva; repetem ambos seu repetir e se compreendem; então a máquina bufa sopra suja espirra escorrega patina atrita, atrita o ferro no ferro – e parte; e puxa; e vai vagarosamente seu ir, aumenta o bufo, corre o lentar e velocita o movimento e os carros acompanham, acorrentados, passivos, a composição assemelhando gomos de linguiça magra d’olhinhos mil enfileirados, donde mãos partintes abanando às mãos ficantes, as quais vão se tornando pequenas e se minusculam ainda mais; enquanto os a ficar-sumir também ficam a sumir aos que se vão. Quem na plataforma lá longe ainda vê a lanterna de olhos rubros a piscar no último carro além da porteira... No trem a locomotiva aquentada pelo Foguista suado a atuchar toletes de pau naquela boca vermelha e faminta, a locomotiva obedece ao Maquinista vitorioso, e assim a composição atravessa a cancela fechada a mil olhos interessados ou aflitos ao vê-la sorrir ou se compenetrar. Ele, o Maquinista, se circunspecta, puxa o barbante do sino e grita uma canção de mando e de ganho na batalha da hora da viagem do dia da vida. A vida também por um fim e fio na Guerra que os europeus se pensando mundo barulham lá lonjão a consumir alimentos e economias e a mandar a conta por via dos racionamentos às beiradas do mundo, à Cidade Menina por exemplo. E então o pai vem sorrindo o negócio positivado e chama o Zezinho. O Zezinho não escuta de pronto, ainda a escutar lá longe meio perto o apito após o sininho avisando a rua 9 de Julho que o Rei atravessando e acionando em tim-tim-tim a passagem no cruzamento de nível. Agora ouve o barulho do silêncio que ficou na plataforma vazia, nem mesmo os carregadores a circular então, nem malas, existindo apenas uma que outra bagagem para despacho tardio; o telégrafo ainda conversa sua conversa de morse e ninguém sabe. Saímos ao pátio atrás da Estação, Cabeça da Urbe jovem; no pátio permanecem ainda uns fordecos a ajeitar passageiros retardatários e carroças, muitas carroças com cargas para o comércio da cidade. Fim do passeio, Maria. Veja com quanto pouco se faz a felicidade dum menino!



64° - O Pescoço Entalado
         
          Nem bem houvera passado a lanterna vermelha, ela sendo carregada pelo último vagão do trem, outro trem no sentido contrário a passar bloquear a passagem na passagem de nível, a assoprar seu sopro num vento sofrido na cancela da rua 9 de Julho, viu Maria? Você conheceu bem a rua Nove, seus paralelepípedos alumientos ao sol, hoje encapados por cima com asfalto negro; os paralelepípedos lisos e escorregadios no chuvisco teimoso; ela corta e divide a cidade em paralelo à Av.Rio Branco, esta que simbolizei o fim do fim ou ao fim a nos despejar no Cemitério Municipal; falei ser os pés, não foi? a Avenida os braços qual Cristo carioca; e a Cabeça já disse. Pois a Cabeça se liga ao corpo pelo Pescoço que é a Nove. Naquele ponto que vai da cancela ferroviária até a Avenida temos o gogó da urbe. E isso me lembrando o frango ou franga que numa ajuda do João matamos e depois renasceu nos pulos a envergonhar os carrascos executores da sentença do juiz-mãe; mais lembrando ainda um pinto; não, elevemo-lo à condição púbere, já empenando olhando malícias e concupiscências pras frangas ao olho torto do galo pai de todos no terreiro. Ele, tadinho, entortou o pescoço, entalado em não sei quê; não isto, lembro bem que a vizinha mulher do vizinho encrenquento, aquele um que a mãe dizia à Comadre não ser o pai legítimo do João – ela matara certa galinha, atirara as pacueras da morta no terreiro, o Peri trouxe a carniça pro nosso quintal, o cão pensando ser o quintal dele também e eu irmão dele ou qualquer coisa assim, encheu seu papo sobrou papo da morta ave; então a festa no terreiro: puxa pra cá bica de lá numa concorrência sem tamanho entre os galináceos, mesmo porque na moral deles não tem esse negócio de antropofagia igual os antropos nossos irmãos cheios de nhe-nhe-nhem; e daí as galinhas a comer a sobra duma irmã já fedendo na decomposição. Nisso entra o pinto. Onde? ora, entra no caso. Ele conseguiu ficar com a maior parte do cordão do papo sobrante e até que a galinha poderia vir a ser uma belezura e servir-lhe de namorada quiçá esposa, a vizinha briguenta esposa do marido briguento matou a pobre; a pobre é disputada, o pinto engole toda a tripa dela até chegar ao papo ainda com alguns restos putrefatos os quais a galera empenada aproveitou bicou engoliu. Todavia, a fatalidade ou o destino! entalou a coisa no pescoço do pinto, pintão quase frango futuro galo. Suga chupa aspira, após tenta assoprar aquilo, aquilo engasga no meio do pescoço pelado do franguinho, era desses de pescoço sem pena. Em casa ninguém queria comer o pescoço de ave assim, o pescoço por pelado em vida rejeitado da ave morta, coisas da crença caipira decerto e eu não sei. Tá assim a coisa, entalada. E agora? Ele ficou fazendo frot-frot engasgado com aquela pelota na sua goela. Não teve jeito, adoeceu morreu. A mãe me fez enterrá-lo, pois quem comeria no almoço um frango ainda pinto e por cima no pra baixo doente! Pois é, naquele dia, um dos poucos nos que pude acompanhar o pai na cabina do caminhãozinho com areia de estrada até ao pescoço (da carroceria) pesado atrasado cansado a ir descarregar lá embaixo pra baixo da Igreja São Bento; nesse dia ficamos entalados, presos, no pescoço em pleno gogó do Pescoço, que é a rua Nove de Julho! Isso ocorrendo frequente, Maria, você não alembra, as mulheres permaneciam mais retidas nas suas casas, você morando na Vila Palmital na época, Dona Chica... não, deixe sua mãe descansando porque finada igual a minha. Então, desconhece você o drama de quem precisando usar tão importante via de acesso à Cidade. O trem passava parava voltava engatava desengatava, empurrava a máquina-locomotiva mais outro vagão a acoplar noutra composição: um estrondo tamanho, às vezes como que de eco, um choque noutro e noutro, um vagão bater a trombar a se engatar qual minha cadela Lili de quando o Zezinho inocente! Ora, num tavam nem aí lá os empregados manobristas – o relógio de bolso do pai cansava as perninhas e as pernonas zonzas de tanto rodar na rodela do mostrador e... nada! a porteira não se abria. Alguns intolerantes ou apressados motoristas a buzinar; e as buzinas em cascata a piar num barulho ensurdecedor; no entanto os manobristas nuntavam nem aí, só lá mexendo suas coisas, apitando avisos entre eles. Vinha um empregado, aguardava a aproximação do carro: punha rápido um pino, um pregão de ferro no buraco a prender dois vagões. E daí por diante. Fora nós nos irritávamos, todos no aguardo a cancela abrir-se; dez, vinte minutos, meia hora de eternidade ou mais eternidade ainda a azucrinar os carros parados – a fila a crescer a crescer pra baixo da porteira e da linha e pra cima a chegar lá na ponta passando na Farmácia União e no Bar do Kangiro, chegando à Avenida! Eles? nem olhavam a rua coalhada de irritação e pragas (já as centenas de anos antes haviam ensinado bem a xingar, o pai ruminava e vez por outra a dizer “mamma mia!”:) e se movimentava a gente no volante dos carros, contava causos a passar o tempo ou numa conversa o mais amena possível para distrair os ponteiros; e se movimentavam as carroças, pois havia demais veículos pequenos, o caminhão do pai sendo enorme perto da carrocinha a se mexer, realmente quem se mexendo os burros e cavalos atrelados; eles batiam cascos nas pedras incomodados e nervosos; e arrastavam as carroças por se coçar pelos encardidos mosquitinhos atraídos com o odor no suor animal. Os funcionários na deles, a fazer seu trabalho de empurra puxa engata solta apita grita e a turba lá na rua indócil. No caminhãozinho o pai grilava nervoso. O motor, os motores enfim, desligados para economizar gasolina, a Guerra bebia a rodo o combustível e ainda nos mandava a conta na forma de racionamento como falei. Numa hora de quase explosão explodiu o pai, ao ver aquela minhoca de carros no congestionamento do trânsito: “isto parece São Paulo!” O homem exclamou assim na forma vaidosa, pois o pai foi toda a vida bairrista: amava Marília onde não nascera mas nascendo aqui seus filhos; era uma explosão de glória inclusive, na comparação da cidadezinha com a megalópole. Era assim o pai, Maria, era assim também o drama de trânsito na parte central da cidade, com o bloqueamento da Nove de Julho e semelhante na rua Paraná noutro extremo da área ferroviária; entre as duas vias havendo além da Estação propriamente dita os Armazéns Ferroviários cobertos de folhas de zinco. Era assim entalado o Pescoço, minha cara esposa.



65° - 4 de Abril!
         
          Eu queria que me ajudasse agora na lembrança duma coisa importante à Cidade. Queria saber, pois não me alembro bem, se havendo em 4 de Abril desfile na Avenida.... Durante todo nosso tempo de casados sempre você me auxiliando nas coisas que me esqueço – sei perfeitamente me dedar à vizinha os esquecimentos e mais a repetição de minha língua destravada como sendo caduquice, não é assim! Não responde, dorme, não ronca agora mas ronca sempre e me desperta a insônia – sempre sempre me auxiliou, desejo saber então se havia; em 7 de Setembro sim, parece que em 9 de Julho teve inclusive o mariliense Nelson Spielman lutando e morrendo na revolução e parecendo que havia desfile comemorativo. Contudo não recordo se também no Quatro de Abril, que dá nome à Rua 4 de Abril naturalmente; porque essa a data de aniversário da urbe. Você dizia ser em 28, eu que em 1929 a instalação do município. Enfim uma data histórica, era e é feriado mesmo. Me lembro que Dona Tomásia fechava a escola nesse dia, a gente apreciando muito, sem saber o porquê; era descanso de aulas e tarefas chatas da escola e isso basta a um menino. A rua engrossava, dia inteiro a meninada à solta, só não melhor que as férias, quando a gente esquecia inclusive haver professora e esquecia o aprendido também. Rédeas soltas, a mãe infernada pela gritaria; e artes as mais escabrosas e criativas. Foi num feriado desses que fui virolar com os garotos no parque de diversões. Circos e parques eram distração esperada e a que mais aparecendo na região. Demos uma passada antes a xeretar ver as jardineiras na Rodoviária. A Rodoviária ficava na rua Espírito Santo na esquina com Carlos Gomes, atrás da Estação de Trem. Um prédio em triângulo com entrada para os ônibus de então, apinhados de caboclos e japoneses plantadores de algodão ou de amoreiras para a seda; a seda foi fator importante na época, havia inclusive Fiações várias pelo município. Quanto à Rodoviária suponho ter sido a primeira erguida no Brasil e nós tínhamos orgulho por isso. A fronte dela dando para a Av.Carlos Gomes o dístico indicativo, que eu lia com dificuldade. Dentro um entra e sai nos bazares nos bares nos balcões das poucas empresas (o que sabia era que os passageiros eram cobrados na própria jardineira); malas, trouxas, pacotes, conversa muita conversa. Animação e curiosidade e mais curiosidade ainda aos meninos. Depois, quem sabe se não horas depois porque moleque não tem hora marcada, depois fomos ao parque instalado na rua Maranhão, pertinho da Avenida. O movimento, o alto-falante a berrar. O interessante nisso foi que o Zezinho se encantou com a Guaraciaba, uma artista representando num teatro mambembe ao ar livre num canto do parque; e se encantou também com a música de fundo, nada popularesca como é o comum ser; tratava-se do “Bolero” de Ravel, que o garoto Zé apenas soube na idade de Seu Zé. Fiquei a assoviar a melodia, repetitiva e magistralmente repetida no jogo de sons – encantado nos acordes e na moça: no meu sonho de moleque empenando a artista grudava-se à memória numa simbiose com a impressão sonora. No entanto o mais curioso no passeio foi não se ligar o Zé a brinquedos e brincadeiras de garoto, próprio a um parque de diversões, mas nas de gente grande. Pois Maria, foi a primeira vez tentar, com ajuda dos colegas, ganhar com os trocados que tirara da gaveta da mãe (já quebrara o cofre fazia tempo:) ganhar com tais moedas jogando no tiro ao alvo! Mais tarde iria no Tiro de Guerra nunca acertar; esse mesmo Tiro que anteriormente fora conhecido por Linha de Tiro e estava bem mais perto da Guerra que o de meu tempo de rapaz. Quis dizer que nunca acertaria o alvo com o fuzil do Tiro. Agora no parque bolei uma forma de acertar: mandei (veja o verbo é proposital, o Zezinho empenando era mais ou menos chefe do grupo; para safadezas!) mandei o João ir por trás do pano e cutucar os maços de cigarro como fora derrubados pela minha espingarda na hora do tiro. Os maços de pé caíam no pano embaixo! O empregado do parque ficou impressionado com a pontaria do menino... não descobriu a sem-vergonhice. Saímos a fumar aquilo, cigarros baratos do tipo ‘arrebenta peito’, fomos fumaçar nas proximidades; uma dúzia de garotos, alguns já fumantes eventuais outros até viciados. Eu como planejante da tramoia não podia negar fogo: fumei e me embebedei no tabaco, amoleci no exagero, tive enjoos, vomitei as tripas; em casa a mãe me cheirou e deu bronca! Maria, ocê pensa que aprendi!? Sabe que não aprendi visto ser agora a sua tristeza a cheirar fumo e derrubar tocos e cinzas no chão (você quem fala isso...) A verdade entretanto é mais funda: durante anos não pude ver cigarro na frente, já me vinham todas aquelas horas passando mal na rua e a me envergonhar perante meus amigos. Depois, mocinho, não sabia onde pôr a mão direita; punha no bolso, tirava. Aí surgiu a oportunidade a usá-la socialmente aceito: a segurar em ‘vê’ o cigarro a queimar! É assim que você me conheceu. Entretanto não deixei a bebida, Maria! Ora, não me responde.



66° - A guerrinha vai à Guerra
         
          Naqueles tempos os meus não iam bem das pernas, Maria. O pai nervoso, a crise, em casa a guerrinha particular conjugal e ativa; as crianças querendo alimento; os maiores até meu irmão mais próximo também saíra do lar e os outros casados ou fugidos, ninguém dava notícia. A mãe irritada, informes só os que lhe chegavam da rua: as minhas atrapalhadas. Fizéramos uma guerra entre nós, num inglês bem falado dos falados no cinema, que inventávamos para igualmente não entender mas nos entendíamos, nós bandidos e mocinhos, eu sempre mocinho em minha molecagem; e aí destampamos a matar índios e o entrevero custou caro... nos pegamos de verdade na mentira do faz de conta; pedras socos sangue e fuga, os mais pixotes a correr, cheguei com a língua de fora no lar e imediato disse não ter culpa, mesmo antes da mãe perguntar o que acontecera. Virou uma fera e aí eu não podia fugir como costume para rua. Além do mais havendo certas pendências: um dia afanara um peixe na Peixaria Sakae na Coronel Galdino e esfregara o mesmo na roupa dum amigo, o inimigo contou à sua mãe, esta fez queixa à mãe (queria que a minha lavasse o cheiro da roupa de seu anjinho) bateram boca, apanhei. Outra coisa é que eu vira o irmão dum vizinho fazendo jogo do bicho na rua São Luís, falei ao colega na Dirceu e vieram contar pra mãe a mentira dessa verdade. A mãe ficou indignada, cobrou de mim, gritou, chorou pra conseguir mais um fundinho de verdade e daí eu quem chorou. Ora, mesmo ela jogava, depositando uma fezinha no macaco, só dava vaca e burro, a Comadre narrava seus sonhos e ela tornava pôr uns mil-réis no macaco. Agora sou culpado por minha língua, fico preso no fundo do quintal com o Rex. Fiz mais artes, pequenas e grandes, outra vez recebi a roupa na entrega e gastei o dinheiro com os meninos. “Comadre, num venço lavar roupa pro Zé gastá cum os cupinchas dele!” eu abaixava a cabeça. Outra questão era de fundo religioso: a mãe desandou nas procissões da igreja e queria o Zezinho marchando contrito; eu preferia a quermesse do padre, bem mais divertido. Nem nisso nos entendíamos. O caminhãozinho só dava oficina. O pai tentou uma olaria na Fazenda Conquista, foi quando fui pra Ventania; o lucro era mínimo. Antes encostou o caminhão e foi ser motorista na Destilaria Basta, na Vila São Miguel, saía na madrugada voltava noite entregando bebida. Tentativas frustradas. Pois com toda essa crise, decorrente da Guerra e da falta de sorte creio, com tudo isso meus pais faziam planos nos seus sonhos a me pôr na Academia. Não é de seu tempo na Vila Barbosa, Maria, mas chamavam Academia ao ginásio Dr. Magalhães que nascia então na rua 7 de Setembro na esquina com a Avenida e se avolumou no prestígio virando posteriormente uma faculdade. No tempo quase nem grupo escolar havendo para todas crianças na urbe em crescimento. Contudo, veja se não eram apenas sonhos deles, visto eu mal conseguir soletrar na escolinha da Tomásia; depois na escola da Ventania ainda levaria bomba, não passava de ano. A crise era mais concreta e realista: nunca fui à Academia, só passava perto e assim mesmo à procura de razões pra fazer artes, as que nunca têm razões. Continuava a virolar por aí. No centro, na Avenida, tinha a Brasserie, lugar de pessoas bem vestidas e da sociedade; pois não é que entrei lá a xeretar, nem meus pobres tostões tendo e ainda sujo e descalço; não fui propriamente escorraçado, fugi com vergonha nas minhas vergonhas, até moleque tem dignidade. Foi lá entre cervejas e chopes notar pela primeira vez um telefone, o homem no balcão falava na geringonça, coisa distante aos pobretões da época. Noutro dia estava eu na Casa Montolar vendo secos & molhados e lavradores, o Zé apenas xeretando sem ter o que fazer; o estabelecimento ficava naquela curva da rua Duque de Caxias, em frente ao Guaraná Gatti. Tenho outros lembretes de minhas andanças. Quero tão só dizer que embora a crise por que passávamos e os dramas vividos no lar, eu não ajudava desajudando por não ganhar nada, não trabalhar sequer entregando certo a roupa da mãe e só vivia a rodar pelos recantos da cidade como um perdido. Na rua Dirceu continuava a imperar peraltices e a ouvir coisas. Certa ocasião escutei uma vizinha nossa falar quase nada veladamente a outra sobre a mãe e sua Comadre-Vizinha “aquelas duas é a dupla caipira Língua e Longa” riram, ri, achei uma graça danada, contei pra mãe, levei um tabefe. Quer dizer, em lugar de auxiliar a casa punha mais lenha na fogueira o Zezinho. Enquanto isso o pai lutava bravamente. Para ter ideia sobre esse homem que você não conheceu, Maria, a mim também só conheceria de fato rapaz e o pai morto já (não poderia falar que você o tivesse visto naquele dia que Dona Chica foi nos mostrar a Maria-Nenê e depois a dizer que a derrubara não é assim? Digo você não o conheceu, quase nem à mãe, a minha). Vou lhe contar duma vez em que me levou no caminhãozinho buscar lenha. Aqui cabe uma lembrança da capacidade do velho a perdoar, me perdoara... eu havia arrancado a ‘bananinha’ do carro, bananinha? era o sinaleiro de avisar no trânsito se indo à direita se à esquerda, existe hoje em todos veículos mas no tempo o caminhão tendo o sinalizador na ponta da cabina e na forma e parecência sim com banana o povo falava bananinha... pois então, arranquei uma pra ver o que tinha dentro, dentro a luzinha por sinal já queimada. Meu velho descobriu me ameaçou bater e mandou pôr outra: ou seria multado pelos grilos, grilos! eram os guardas de trânsito na época. Voltemos à viagem de lenha. Nesse dia noite na volta o carro quebrou; fora as encrencas de motor e eletricidade também estourou o pneu; pôs sobressalente, o mesmo estourou com o peso da carga. Ele com o ajudante, eu desajudava só olhando e dando palpite reclamando pela fome; eles tiraram a roda, o pai extraiu a câmara de ar e remendou-a com remendo de borracha e tubo de cola cheirosa e volátil, primeiro limpou raspou a superfície e após pôs remendo, prensou com um peso, esperou secar, repôs a câmara no pneu e o pneu na roda e vai o bombar com bomba manual até cansar suar. Repuseram a roda, abaixaram e tiraram o macaco (por que será que davam tal nome? perguntei, o pai nervoso apenas disse “vai brincar pra lá”). Subimos no carro, partimos, viajamos apreensivos e com cuidado para não ter que refazer as coisas, chegamos em casa noitona, o Zezinho já dormindo entre o pai e o ajudante, ambos cansados e a feder seus suores. O menino Zé parece que não pensava nos dramas por que os pais passavam. Esse estado perdurou, Maria, perdurou quase até meu tempo de rapaz, após a Guerra. Do meu tempo de rapaz não conto, daí por diante você me conhece até mais do que eu mesmo; conto um pouquinho dessa fase em que o Zé deixava ser Zezinho virando militar – ah quem diria! – lembrarei um só fato, por ser desconhecido, porque nunca falei nem a você sobre nem aos nossos filhos. Trata-se duma guerrinha nossa, particular, nossa na caserna. Realmente nunca fui militar de Primeira Categoria; então os jovens daqui iam servir em Mato Grosso e até nisso entreguei armas como soldado de Segunda Categoria... Estávamos em julho, um friozão daqueles, aquele vento mariliense vindo dos Buracões que cercam a cidade: frio gelado, sobretudo às cinco horas da manhã; lá vai, cadenciado mãos a tiritar nos bolsos, o soldado do Tiro de Guerra 227, vai em direção à rua Sete de Setembro onde nossa sede, indo da baixada da rua Sergipe, agora a gente residia ali. Chegamos escuro ainda, conversávamos nossas coisas de rapazes tentando deixar ser meninos, cada soldado junto àquele outro mais afim consigo como é humano – aguardando nossos dois sargentos por-nos na ordem unida e fazer a chamada de seus comandados. Aí começou uma brincadeira, veja só: era uma brincadeira de gente grande, eu de pequena estatura e menor do que fora o finado pai, eu um soldado magro calçado nuns coturnos de bico quadrado, cravejados a fazer barulhão na simples passagem nos paralelepípedos urbanos; também um militar tímido, nada bagunceiro como tinha sido como Zezinho, o capeta da Vila Barbosa. Aliás estávamos no Tiro na Vila também. Pra mim o Tiro de Guerra era apenas nome, porque não disse que não acertava com o fuzil sequer o quadro onde o alvo! Enfim um soldadinho comportado, num canto costumeiro. Não obstante começara uma guerra de brincadeira, a Segunda Grande Guerra acabara e nós quase éramos soldados de mentirinha (claro não dizer isso frente ao nosso Sargento magricela e manso; tinha o Sargentão, assim chamávamos o barrigudo altão que nos berrava ordens e disciplina). De fato uma guerrinha em vista a brincadeira a qual tendo por bala buchas e por armas as mãos e as línguas. Gritávamos, arrancávamos buchas da bucheira da cerca de madeira que revestia quase todo nosso pátio, uma gritaria infernal, havíamos esquecido ser na propriedade a residência do Sargentão, sequer nos lembramos que o chefe pudesse estar ainda curtindo o frio com sua família, a rigor ele a bela senhora e uma cunhada feiota e que sorria muito aos jovens soldados... quem sabe se não dormindo nosso oficial, mas não pensamos nisso, brincamos de brigar numa algazarra medonha: as buchas agora voavam e se cruzavam machucadas e cheirando ao característico da bucha verde; berrávamos, ríamos a valer... Bem, uma bucha veio à cara da cunhada do chefão, naquele instante a abrir a porta da moradia deles e a sorrir ou a ter somente curiosidade ver a balbúrdia dos atiradores, uns sendo até bonitinhos na opinião da moça decerto. Foi atingida em cheio e entrou de novo na casa, bateu a porta... Dentro não soubemos o que houve e o que disse a jovem e o casal. Aí o Sargentão apareceu furioso e indignado... Todos num aguardo! Parou no centro do pátio, sorriu enigmático e maliciosamente. Brincou em voz alta; ‘elogiou’ a disciplina e sobretudo nossa energia, fez questão de ressaltar essa força da juventude. Acontece que a coisa e toda a baderna tendo origem definição e execução por parte dum grupinho da pesada, costumeiros baguncentos, semelhante ao Zezinho com os seus moleques; não obstante agora o Zé era um soldado quieto e até medroso, nem participou da guerra, ficando encolhido com outros igualmente tímidos; isto entretanto não foi posto: eu era um dos atiradores (não de bucha...) e me calei. “Muito bem” disse nosso superior hierárquico; e olhou a complacência do outro sargento. Nós, reforçou, hoje vamos fazer um exercicinho manso, bom a baderneiros... quer dizer: se não aparecerem os cabeças do movimento... (Aguardou o tempo para decerto delações; que não surgiram – éramos a compenetração e o silêncio que deve haver num corpo. Então:) então não aparecem os ‘heróis’. Muito bem, concordo com meus soldados, estão certos em não dedar companheiros. Todos pagarão: faremos um exercício a altura dos estragos e da vergonha que nossa guarnição deve ter diante de todo um bairro... bem como faremos depois uma vaquinha arrecadando fundos pra pagar a cerca do vizinho, a bucheira é do vizinho! seus... seus... (soltou um nome feio desses que falamos a tolher nossos filhos seguidos dum tapa na boca:) Assim partimos ao cadafalso de nossa mancha. Resumindo, fomos em marcha acelerada até perto de Vera Cruz, portanto mais de dez quilômetros, paramos à margem da estrada na direção da Capital; aí mandou deitarmos de barriga e rastejar quase hora; me lembro haver rasgado os braços da gandola verde e sangrado. Estávamos embarreados sujos cansados; e curiosamente rindo, rindo igual nossos oficiais. Então afrouxaram a ordem, tornamos a Marília e à nossa sede na rua Sete, mais ou menos andando ou nos arrastando. Ah, tivemos que fazer a limpeza do pátio antes de ir-nos. A ordem de “debandar!” foi dada com bem duas horas de atraso. Daí fui me lavar em casa, comer alguma coisa e ir ao trabalho. A mãe ficou penalizada por mim. Era aquele o seu Zezinho capeta! Esse acontecimento você desconhecendo, não é Maria? Maria ainda não me responde.





67° - Recordação da Recordação
         
          Naquele dia naquela noite a insônia adiantada nesse atraso, que é perder o sono não sonhar porém viver o pesadelo da insônia, o qual não só me desperta de vez, me consome o ser, naquele dia você estrilou, Maria... Lembra não lembra? por eu havê-la acordado – como a acordei se desperta me diz não conseguindo dormir pelos meus terríveis roncos! então não havia realmente eu ‘acordado’ você, concorda? Tudo advindo do fato de haver-me lembrado da Anderson Clayton. Não sabia no adiantado das horas muitas horas a pensar, e para quem perguntar com quem me esclarecer sobre o galpão dessa fábrica. Eu dizia ser na av.Tiradentes, na saída dela para Ocauçu que a gente falava Casa Grande, até me lembrando passar no Regulador, aquela curva onde o governo estocara e queimara café pra manter o preço em vez de distribuir café aos pobres que iniciavam Marília. Achava ser mesmo na Tiradentes, via quase o barracão alto refletindo a prata de sua cobertura de folha de zinco ao sol matinal; revendo no pensamento o mesmo estendido ao longo da linha de trem, saindo creio do campo do São Bento. Revia também a saída ou entrada e a fileira de caminhões carregados com semente de algodão; eles passavam derramando porções de sementes, inclusive me recordo bem disso: o menino Zezinho via sempre a brotar nas guias pés de algodão que vicejavam no acúmulo de poeira e umidade; mas o que contando de fato para mim o entra e sai dos veículos lotados (não saberia dizer se entravam com algodão e saíam com sementes do descaroço do algodão, garoto não sabe as coisas). Ah, outra questão, guardava também o cheiro exalado no benefício do caroço; faziam óleo e havendo outras fábricas nos primeiros dez anos do município, como a Sanbra; esta sendo escrito com ene antes do bê, a Tomásia nunca me esclareceu tal; e outras fábricas mais; depois usaram amendoim para óleo. Enfim tudo começou por eu não saber com segurança se o portão de entrada dos carros era na Tiradentes se na Vicente Ferreira que margeia o São Bento. Perguntei a você, você roncava, sim Maria: roncava com todas forças, quando de lado como agora ronca menos alto, agorinha num tá nem roncando, porém não me respondeu. Daí cutuquei-a para saber, acordou, acordou irritada comigo, seu companheiro entrevado no colchão e precisando lembrar o esquecimento. Você? ora, me deitou falatório, nervosa, “ocê tá caduco, Véio! me acordar por uma coisa dessa”. Olha, me deu o maior esparramo. Pior, não me respondeu não me esclareceu. Ao contrário, virou de lado e loguinho dormiu, redormiu. Não mais dormi, aliás não tava dormindo mesmo. Estou na minha insônia agora, por acaso recordo dessa recordação, ainda com a mesmíssima dúvida. Devo despertá-la outra vez! Contudo acho que era mesmo na Tiradentes, doutro lado do aterro altão da linha férrea. Sabe por que a conclusão? na mesma via pública era o Dioclécio, a Venda dele. A Clayton desmancharam depois, a Venda foi modificada apenas, tá ali pra constatar. Num dia o pai tava nervoso, aí não era pela falta de gasolina e o racionamento dos bens, a Guerra acabara e já se regularizando as faltas na sociedade. Sei lá o que houve, decerto briga com a mãe, a mãe ou deixava a comida meio gosmenta e demais cozida e ele chamava isso de “putcháca” ou só ficando caldo com uns sólidos a nadar na panela de sopa e então ele dizia “isto é beverão!” Era um dia assim. Aí me levou com ele fazer compra aos empregados, tinha arrendado uma olaria, aquele fato do Bairro Ventania, depois mudamos para esse mato; então ia pro trabalho e precisando levar as compras dos oleiros, ele um amigo do Diocleciano, estabelecido com Casa de Secos & Molhados exato na Tiradentes. Fiquei do lado de cá do balcão, enorme à minha pequenura, o pai também encostado e lendo a lista de pedidos dos trabalhadores, se desdobrando a ajuntar cada coisa em cima no balcão. Iam e vinham das prateleiras um balconista e o dono, conferiam, ticavam as listas e confrontavam as mercadorias: linguiça, tanto de banha, feijão, batata, mortadela, lata disso e daquilo – eu olhando interessado. No fim, e era fim de mês, o pai deveria pagar nossas contas, a da família e a das famílias oleiras, no fim me ofertou seu Dioclécio um doce, se não me engano goiabada e balas. Estourei de contentamento. Aí auxiliei com minha pouca força a carregar as despesas até ao caminhão e fomos pra olaria lá longe. Saímos da Venda na Tiradentes, vimos o galpão prateado enorme da fábrica de óleo, passamos pelo Regulador, já ao final da Tiradentes e nos afundamos nas curvas arenosas e poeirentas. Lembrando o fato, Maria, me lembrei igualmente haver esquecido isso: onde a Anderson, você não queria acordar pra me ajudar recordar! Que fiz na época? ora bolas, o que fazia sempre: acendi um cigarro, outro, atirei as pontas no cinzeiro, depois as bitucas caíram no chão pra você ralhar... reclamar inclusive de meu cheiro. Isto entendo bem, o Zezinho sentia o hálito ardido de tabaco do pai e tem hoje os dedos amarelados de segurar em vê o cigarro, igualzinho ele. Entendo mas não aprecio a crítica, Maria. Concorda? não me responde, não me responde...



68° – Conclusão da Introdução
         
          Vejo a noite, noite que passa, fica a lembrança do distante ontem presente, sem futuro. Qual o futuro dum velhote! apregunta seu Zé, o seu Zé da Maria, a Maria? a Maria do Zé ronca... Não, isto exagero da mente insana caduca a merecer sim um falatório sem parar horas, horas? noite toda, ocorrendo a falação dela quase sempre já dia com sol barulho movimento da gente lá fora a engolir problemas e inventar ilusões e não satisfazer ilusões para ter ainda mais problemas.  Ela fala critica prova por a+b a cinza o cinzeiro o chão o penico o fedor que nunca mais se desprende da madeira em tacos porosos, parecendo que os tacos tendo sede, mas sede de xixi dum velho! E as bitucas, varre o taco toca o toco, toca o esposo a atirar novas bitucas ao léu; nem vê, vê que insonia sua insônia enquanto dorme ela a roncar não deixando dormir o bruto. O Zé olha não mais espantado em seu espanto, e que ridículo um idoso a se assustar esgotados todos os sustos, olha, olha para o lado dela; agora ela, a Maria, não fala: – mas não fala há muito – não grita com ele, ele o porcalhão, “homem? tudo porco!” não grita – e não grita há muito – não reclama não diz estar cansada de ouvir suas bobagens, o falar falar e repetir repetir repetir imaginando que outrem não saiba das coisas – não mais reclama há muito – não vê, não balança negativamente a cabeça num ‘não tem jeito’ das coisas como costume, o costume da Maria – a Maria não vê não balança há muito – não dá sinal de irritação com seu Zé. Pior disto: não ronca a sua noite, a velar sua insônia em pesadelo interminável; não ronca no seu afundado de colchão ex-novo velho também de cansado com o peso dela. Não ronca, não respira, o Zé arregala olhinhos sempre apertados e sempre a lacrimejar enublando o dia a noite a vida. Não fala não grita não reclama não vê não balança, não vela a insônia do Zé. Não ronca mais e ele então estertora num esforço do grito: Maria, não me deixe, não se vá meu bem, Maria não me deixe!!

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Adendo Final

Você concluiu o personagem principal ser falho, também os outros personagens e todo o livro! Ser falho sim, insuficiente, pernóstico, inabrangente, parcial, briguento, violento, machista, viciado-vicioso, incapaz, burro para Tomásia com razão, capeta à mãe com razão. Extensivas essas ‘qualidades’ aos demais personagens; tudo insatisfatório, a obra ruim. Nisto Você fez sua parte, leu a coisa. O escriba desocupado afirma peremptório que para alguém ter a certeza que não deva ler um livro, precisa esse alguém simplesmente lê-lo, aí com segurança poderá sentenciar: “não devo ler!” mas já leu... então serve de consolo falar a um amigo “não leia” e o mesmo não crendo fará seu caminho para chegar ao veredicto. Bem. Mal terminou, paciência paciência. Por isso não me culpe, culpe antes meu coração, aquele que soltou as rédeas, mandou e manda, manda mais que ou quase igual a mãe e a Maria; caso não estivesse a Maria do Zé no Paraíso tendo os anjos a refrescar o afobamento dela abanando com penas de aves gigantescas ao velar sua pena, qual a crença da Maria, o escriba desocupado não crendo. Agora o coração manda parar. Arco-me, obedeço.

Marília   agosto  2007




































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



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