0123(postar
no Blog Livros Inéditos)
Na Esteira do Tempo
(romance)
Moacir
Capelini
moacircapelini@gmail.com
capa:
gráfica:
tiragem:
“Como poeta, quero que ouçam também o meu silêncio,
e não apenas
as minhas palavras.”
Lêdo Ivo
- - -
“Sempre resolvemos melhor o problema de outra
pessoa
que os
nossos próprios.”
Hervé Bazin
- - -
Leia estas minhas
páginas, diz o autor. Se não concluir que sou louco, está louco.
- - -
Capítulo
Primeiro
No início era o caos; depois continuou o caos; agora melhorou um pouco: é o caos.
Primeiras Palavras
Na esteira do tempo tudo vai
desaparecendo vai passando em velocidade estonteante cósmica incalculável impassível
impossível no ver medir em sumir no começo onde uma interrogação ou apenas
reticência, sumindo sumindo sumindo até nebulizar em tremedeira de vista de
vulto, um vulto somente mas existente em 'suminte' 'desaparecente', imperceptível então por não visível; não podemos
sequer medir calcular passos pés pesos pisos pós na sabedoria de nossa ignorância
na ignorância de nossa sabedoria... E isso seria o início? O fim, não tem fim
só começo: onde vemos acabar acabasse no horizonte doutra extremidade, sendo a
extremidade da anterior interrogação. Com uma interrogação. Posta como limite,
tão só como limite convencional e discutível contudo não se pode nem se deve
discutir e todavia se discute, embora apenas interrogação, que é sinal gráfico
também discutível e impreciso, vez que se possa com exclamar mais dizer mais
representar que à própria interrogação. Ela fica ficará no local em que a
pusermos e ainda não está, nunca estará, estando nos conformes de nossas respectivas
ignorâncias e sabedorias. Não obstante um ponto final, final! um a servir de
extremidade. A qual pode bem ser agora...
Isto
é isso que veremos em se tratando do andar do passar do perceber o tempo em passando.
Segundas Palavras, ou apenas
meias palavras, e não será exageradamente muito? A Caneta com 'Pedigrí'.
Apresentemos
a Caneta, não uma caneta ou certa caneta errada, a Caneta com história; ela
encarregada desta estória ou das estorietas sem Carochinha que serguir-se-ão.
Ela a se responsabilizar pelas besteiras, se besteiras, as dos capítulos seguintes.
Como
registrávamos, tem ela história. Em descrição sucinta não passa duma caneta
como quaisquer compradas na papelaria do bairro – cilíndrica transparente, em
transparência apenas a se ver se não acabou a tinta no tubinho dentro da
barriga dela, em não ser que esperemos acabar negando fogo a carga e sujar os
dedos com a borragem que marca sobretudo o indicador, esquerdo a quem canhoto e
o fura-bolos direito se o escrevente destro; aí a gente reclama da sujeira e por
fim da reserva de tinta da caneta, joga fora a mesma, compra outra na vendinha
e continua a escrever. Sim, não passa duma caneta comum, mas tem história.
No
começo o homem-macaco escrevia ou desenhava ou garatujava na areia; depois toma
o tição apagado frio preto carvão e rabisca nas paredes da caverna.
Posteriormente o carvão virou grafite no lápis. Deste foi um pulo (digamos um
de alguns séculos) até chegar na caneta. Porém a caneta antes deu lugar à pena
– de pavão de cisne ou da galinha comida no almoço – com a pena da ave se
escreveu belíssimos compêndios. Antes é claro haverem inventado o papel a
escrita o livro e antes do livro ainda a lousa a parede o chão. Na época precisando
molhar a ponta da pena na tinta, ah antes aconteceu a invenção da tinta,
decerto obra dos nativos de algum lugar. Antes. Depois usaram penas de metal,
as quais faziam belos sinais ideográficos e assim criaram a cartografia e a caligrafia
a dar emprego para artistas antigos. Então a caneta já com história, portanto Caneta.
A Caneta que ora engana os trouxas é
semelhante às outras baratinhas, baratas em vista à tecnologia atual e o uso do
plástico, surgindo assim a caneta esferográfica, anteriormente houve sua finada
mãe, dona Caneta-Tinteiro; a filha é esferoide e de plástico, já afirmado. Tudo
hoje se faz de plástico, enquanto houver petróleo no mundo. A Caneta é desse
jeito, esférica sextavada e com tampa. Quando cansada do trabalho, cobre-se na
ponta com uma tampa do mesmo material da mesma cor a fim de não secar o líquido
de sujar o dedo, aguardando assim novo e infindável capítulo ou novo curto
grosso feio ou engolível capítulo, infindável apenas o não terminar a série;
isto por ordem da chateação leitora, pretendendo a mesma acabar amassar jogar a
bola de papel esta pobre folha no lixo por um lado, doutro exigindo qual a Caneta
a continuação (se tal afirmativa não for mesmo produto de sonho ou de loucura...)
Esta a história, história da Caneta, em
rápidas palavras.
Todavia
tem ela sentimentos... É chata cobradora enxerida sim, e podendo chegar a
chorona ou só lamentadora.
Não
obstante lágrimas e lamentos, os capítulos da obra seguir-se-ão um após outro.
Terceiras Palavras – a proposta
As estórias
ou vivências deste livro ocorrem no século vinte e neste início de século aqui
na região de Marília e se sujeitam ao tempo e à geografia no costume na crença
no entendimento na maneira de ser, enfim estão dentro do quadro. Não inventamos
as estórias, tão só os nomes nelas e a linguagem; reafirmando: não as
inventamos... a Caneta não permitiu? É, não deixou; ela quase uma camisa de
força à nossa liberdade, que fazer? Não as inventamos contudo criâmo-las, iludindo
essa Caneta, convencida em sua vitória fácil ou por andar fragilmente vaidosa.
Não porém apresentaremos a coisa, se Ela nos permitir é muito claro, apresentaremos
os fatos. São acontecimentos vistos vividos narrados por outrem e deformados
pela gente, enfim vivências das quais tomamos conhecimento. Com um porenzinho a
ser ressaltado aqui: inventaremos os nomes, repitamos, os nomes de família por
exemplo, as indicações topográficas, e naturalmente como dito a linguagem em
vestimenta bruta, não podendo apresentar filigranas acadêmicas nem beleza
literária; ludibriamos
a língua padrão bonitinha certinha, usando criações bárbaras num coloquialismo
mais próximo do povo. Isto claríssimo a fugir da responsabilidade,
a responsabilidade que amedronta qualquer homem comum. Ou não, sim para
sobrecarregar a Caneta de costas largas; tal qual fazemos com o governo e com
nossos adversários que pululam em nossa volta. Tais vivências são de começos
dos meados do século passado, em preparo ou apenas conotados aos fatos do
início do século vinte e um, o qual não sabemos se chegará aos meados e que
possui já um começo. Versa sobre o homem em sua existência caipira e se urbanizando
desde 1930, até chegar ao urbanoide (portanto não inteirinho urbano, ou urbano
sim porém de integridade discutível); enfim
até esse urbanoide nos seus anseios de cidadania; e mesmo nos desejos
globalistas terceiro-mundistas semelhante ao homem doutras regiões do orbe. Um
tipo que se avantajou tecnologicamente falando sem ter avantajado demais em sua
moral, embora pregação cristã e não cristã visando moralizar a gente. Aqui
lembrando a violência nossa de todos dias nos dias que correm.
Essa
a proposta. Não é a da solução; e acaso terá a violência nos moldes que sabemos
solução!? Tão só desejamos apresentar os fatos. Se a Caneta não obstaculizar...
Capítulo Segundo
Nestes últimos milhares de anos, com suas horas
seus minutos e segundos – não existe começo, apenas recomeço.
Não havia caneta. Ou por outra, havia.
Havia sim mas quê isso interessa a um analfabeto! Nem lousa, no antigo tempo se
rabiscava na lousa nesse tempo; depois do tempo noutro tempo ou no mesmo tempo
ao mesmo tempo se ferindo folhas de brochura, um caderno simples rasgando o papel
de tanto apagar borrar sujar os meninos passavam a mão fechada o fundo dela no
fundo da folha, já de mãos sujas, depois com a borracha; no entanto a borracha
enganava a escrita desescritava o que a ponta grossa do lápis havendo garatujado;
mas eis que surge o professor bravo impertinente exigente, na roça um roceiro
quiçá letrado no mais ou menos e não muito embora sábio das sabências das
ignorâncias que invadiam o todo e todos quase e isso ocorrera na zona velha, de
Descalvado ou Porto Ferreira ou mais pra lá pra cá donde veio, veio o homem;
sem que aprendesse e aí culpando a cachola e não o desinteresse. Não havia nem
precisava haver caneta, por João analfabetinho de pai e mãe e de irmãos que
eram punhado, todos quase sem sobrenome todavia sem letras também no cem por
cento nesse zero. Era no entanto forte nos músculos nos machados nos tamanhos.
Agora cheirava a terra o mato o ar ouvia mil pios o cricrilar alizinho e
escutava temeroso a violência do bicho de mato na selva intrincada tudo cheirando
a fragrâncias e ele mesmo cheirava a suor azedo curtido dormido muitas vezes. A
gente se acostuma com o fedor próprio e dizem que as mulheres gostam e se não
gostam não importa, era valente daí tendo as mulheres de vida fácil não tendo
lá vida fácil na vida da vila porém agora longe bem longe elas e a vila; então
viravam não mais que uma fugaz lembrança, gritando na solidão do homem.
Era
um homem forte grande avantajado e sem medo. Quer dizer, quem não temendo a
onça!
João
Mateiro, matreiro intrépido contando com sua fortaleza andante, corajoso na
cabeça em cima da montanha de carnes rijas, Mateiro olha o trilho, eles lá e
aqui a pronunciar “tríu”, olha vê que não pode ver além. Além é a mataria, a selva
silenciosa a gritar a voz de fora das folhas dos pássaros dos insetos e o sol
não deixando escutar direito a onça, quem sabe ele a temer também penetrando
devagarinho em descuidos das sombras dos galhos; e a voz de dentro, terrível no
escutar as trombetas do pecado e as lembranças dos vivos longe perto os mortos.
Chocalha desarvorado aqueles incômodos e se pilha só. Só como veio ao mundo? o
tio falava assim mas João vestido com tecido e aqueles fedores curtidos que os
dias curtem e protegem o corpo cansado; a barbona cerrada. Cansava já de tanto
medir e cumprir ordens das desordens da gente rica lá na capital. Ele e os
outros.
O
coronel encomendara àquela raposa, um rábula, contratar peões, os peões dele,
para o Mateiro cuidar mandar, mandar em segunda categoria porque como mandar em
aventureiros bandidos! uma gente sem lei sem moral em não sendo aquela de temer
quando matando um bicho ou bicho-homem a fazer após o sinal da cruz, uma gente
desse tipo. Sim uns bandidos ele pensava, descartando um rapazote ainda menino
e pobre de espírito cheio de ingenuidades e sem maldade alguma e com muito
medo; apenas esse sabia obedecer e trabalhar; tinha por nome o seu nome João,
João Xará; enquanto os outros não aceitando resmunguentos e inclusive a brigar
em domingo de bebedeira; a exigir uns berros e mostra de arma de fumegar e
inclusive o facão de abrir trilhos cortar galhos e cipós e barriga se
necessário... Aí paravam. Na segunda-feira na semana o retomar da derrubada.
Agora olha o trilho não vê o fim, não vê o começo também daquele improviso de
estrada em zigues escondentes e zagues perdentes, ali lá sumindo. Para, para um
pouco, ouve a mata. Escuta longe um toc-toc infindável dos homens a abrir
caminho pra civilização viver matar a mata, matar quem sabe os mais lerdos preguiçosos
briguentos nas suas brigas...
Ouve
longe o matracar dos machados um que outro grito humano, se humano; ouve perto
ali perto o grito do vento a fustigar. A região é sujeita em julho e agosto,
agosto sobretudo, aos vendavais. Ele desconhece por novo ali naqueles sopros de
séculos e não sabe que o Vale do Rio do Peixe se entrega à sanha e façanha da
erosão decomposição transformação do arenito, a cavar molhando de chuva na
época de chuva buracos, mais tarde apelidariam Buracões no envolta; enquanto ano
todo todo o sempre o vento se encarregando deitar árvores e derrubá-las mesmo
pelas mãos da natureza e depois com os machados humanos a apressar a erosão por
desmatamentos desarvorados; ano todo, especialmente de julho a agosto em tufões
ou soprar contínuo a friagem. Sentia frio. Aí lembrou esquecer seus comandados,
pôs a foice no ombro, tornou cadente lento aos seus lá longe.
Perto
agora via os estragos deles na mata. Quase ex-mata na selva cheirando exalando
perfumes chãos penetrantes; em meio à conversa arrevesada dos homens, chamou
atenção em nunseiquezinho pra chamar atenção sobre si em ordens das ordens em
desordens do coronel ao grupo de engenheiros mambembes em trabalho de melhor
destruição e em primeira viagem. Cutucou blasfemando até de varas curtas
aquelas onças bravias selvagens violentas revoltadas. E quando vem o dinheiro?
Ninguém sabia.
Não
sabia melhor e mais ainda o menos o João, capataz capitaneando aquelas ferozes
feras, fora uns poucos fracos no abrir a boca. Fortes todos no desentender.
A
mata encurtava encurtou encolheu diminuiu; os espaços vazios se encheram de
nadas e de árvores mortas assassinadas espalhadas e de montes delas e de fogo e
de fumaça muita fumaça e de cinza. E sobretudo de conversa.
Tinha
o João que não falava, tinha o João que gritava mais que os gritos dos outros
gritos. A branquinha a custo chegada desde o alambique distante àquele próximo
aos próximos e a embebedar todos com fala e sem fala, desarvorados aloucados
mesmo na falta e na sobra, sobrando assim desentender por meses e mais naquele
próximo do perto. Daí alguém feriu alguém, alguém morreu, alguém fugiu, sobrou
alguém. Alguém curte o ódio por alguém, o chefe é sempre alguém em quem se não
confia nos abusos. Assim João Mateiro não voltou às suas negas de vida fácil na
vila, traído no escuro da noite dormindo. E o grupo acéfalo se desfez a bem do
coronel lá longe, que não queria pagar vagabundos não pretendia de fato pagar e
não mais precisando pagar, porque a defuntos e ausentes não se paga. Mas
acordou entretanto na hora do facão, dormiu para sempre crê-se; deixou Mateiro
o corpo espichado esguichando vida vermelha. Ele que falava também e muito, não
mais falava. Na agonia ainda percebeu reviu, já inerte, o assassino manso
abusado meses e xará. Viriam novas e novas outras turmas a trabalhar a viver a
desviver a brigar a se matar à mata morta virar fazendas lavouras de tamanho de
latifúndio e brotar aglomerado urbano com trem e o mundo de todo mundo.
Capítulo Terceiro
Quem engana, engana; um dia acorda, se enganou...
Gritava
dentro de si um malfeito, fosse ainda assim bem feito o malfeito, assim ainda
não tendo sossego. Mudou de João para José para Antônio, continuou Xará porque
apelido pega gruda mais que carrapicho na vida do homem comum perdido por aí.
Andou ao léu de foice enxada machado, a fugir mais longe dos pertos. Sempre
medroso e mais mudo que sempre; teve a sorte de constituir família e de casar
mal com certa mulher das raridades femininas no sertão bruto onde só mata e
machos, quase nem povoado, povoado sim de homens, alguns poucos não confiáveis
e encrenqueiros. Fez, imaginava como todo machão da época, fez muitos filhos na
barriga da companheira, ela sempre resmungona e briguenta, mandona até, ele
achando a consorte mandona, mandara inclusive no ato de casar quando foram
léguas onde um padre sem igreja disposto a uni-los. E a filharada foi vivendo
crescendo morrendo a acertar a estatística pobre rica em rebentos. O
primogênito, ela chorou tanto pelo amor e cuidados maternos, esse morreu cedo;
Xará não disse não pôde dizer porém sentiu alívio naquela morte do filho, antes
pranteado por febres e gritos; é que o menino tinha a expressão o olhar de Mateiro,
ele achava assim, uma vista de cobrança de ódio de vingança porém é claro tudo
isso bobagem pois se morreu, morreu e pronto... quer dizer, temia horrores sem
poder confessar segredos a outros e mais à esposa, temia almas doutro mundo,
sobretudo as penadas. De maneira que foi um alívio, desses alívios que a gente
conscientiza agradáveis no sentido de tirar pesos, nesse falecimento. Fez mais:
temeroso prometeu, nunca cumprindo, um dia trazer um padre a benzer o tumulinho
do filho, quem sabe a aproveitar abençoar também os outros meninos que a morte
ceifara. O tempo passou. Xará criou os seus, envelhotou suas tosses, ainda um
homem sem bens e a família pobre sem misérias, pois era um chefe trabalhador
mas havendo muitíssimas bocas. A companheira também velha, parecendo ainda mais
idosa que ele enrugada, em geral as parideiras com desgaste bem maior que seus
homens, embora ficando elas quase sempre viúvas; não se sabe como sofrem os
pesos do mundo e ainda fortes, mais fortes que os machos da espécie, um Xará
por exemplo; assim perdendo ganhando idade na aparência a pobre. Até que João
morreu, morreu como? no dizer do povo de morte morrida, a dele do coração e não
do escarro sem parar. Parou. Então havia o compadre, tinha os outros compadres
entretanto Cumpádi um só, gente de confiança, desses que apreguntam se o
compadre tá menos ruim do pulmão do coração e das pacueras e se melhorou da
piora ou se ela, a viúva, é agora viúva, todavia sem segundas intenções. O
Cumpádi era um horror de sabência de causos. Contou mil e um ao Xará, contou de
suas andanças nos sertões por aí afora nesse mundão. Uma vez, disse Cumpádi ao
compadre, abrindo eito e preparando terra ao café do coronel, uma vez acharam
bem uns dez esqueletos. Tinha um sentado numa pedra, decerto morreu de fome ou
doença nem a onça comeu, inteirinho, só sem sangue, quem sabe as formigas...
certeza que não foi bicho grande! e outros muitos outros esqueletos de cadáveres
perdidos na mata. Xará logo a pensar, não diria a se comprometer – e não tinha
um pranchado debaixo duma tapera tosca de galhos com um facão enterrado nas
carnes, ora que bobagem se apenas os ossos! Não disse, coçou coçou o queixo da
barba branca suja, tanto que a velha pegava sempre em seu pé a falar que o
marido um porcalhão, aliviado no dizer dela: “ômi? tudo porcu!” Cafezinho ao
Cumpádi às despedidas; noutro dia se despediu da vida na casa de pau a pique
pro cemitério da vila, o qual era bem menos cemitério e bem mais ajuntação de
covas cruzes flores murchas e entre sepulturas a do primogenitinho. Se foi em
velório simples choroso num enterro caboclo, findou-se de morte morrida foi dito,
e o morto contudo se enganava no engano também e no correr dos tempos do tempo.
Capítulo Quarto
As certezas para o
homem são sempre relativas e condicionais.
Dona Gena
A gente nunca tem muita certeza nas
coisas. Dona Gena não tinha. Não obstante em tudo punha sua perfeição por
hábito a julgar o imperfeito alheio, o do companheiro por exemplo, o João Xará,
o qual ela desconhecia donde viera, viera do norte o que muito vago e falava
meio cantado igualzinho os nordestinos que chegavam em bandos naquelas bandas
do sertão. Embora suas dúvidas e alguma coisa lá dentro que adverte a fêmea
humana no sexto sentido, aceitou-o para marido... a rigor marido, pois pôs na
cabeça do namorado desejoso de amigar apenas e sendo mal visto pelos seus, que
o melhor mesmo a fazer era fazer aliança sem amasiamentos. Fê-lo seguir seus
passos até um padre longe – perto só casas pingadas num ajuntamento urbano sem
capela e cercado de árvores por todo lado. Casaram, casaram com toda parafernália
exigida descartada um pouco na documentação, dado não haver um registro do
futuro chefe da casa, aquele que a emprenharia vezes sem conta, nem que fosse
isso apenas a ter argumentos eles para a briga conjugal e assim serem como os
outros casais conhecidos. Santificaram o enlace, sem festas em dinheiro curto e
antipatia dos parentes. Embora o afirmado tinha Gena lá suas próprias dúvidas.
Uma era terrível: Gena desconhecia o porquê de Gena.
Uma Caneta
Intempestiva
Lá pelas tantas nos defrontamos com
alguém rabugento perquiridor, desses de pegar no pé dos outros e virar fiscal
sem para o mister ser convidado. Diz-nos a Caneta, uma comum dessas de
cinquenta centavos no boteco, das sextavadas cilíndricas de plástico brilhante
lustroso na superfície e transparente para vermos o canudinho de tinta azul,
essa azul poderia ser verde preta roxa e será existir mais outras cores! ah
sim, a vermelha para rubrar nossas perfeições tornando perfeição em imperfeição
com rabiscos e riscos a marcar o errado, o errado no seu certo, veja-se bem. Ah,
tagarela a Caneta, que diabo de capítulos tem essa obra iniciante. Abrimos destamanho
a boca de admirar muda. Prossegue. Sim, o primeiro deles vai lá, foi posta a
proposta e é introdução, sendo passável; no segundo aparece um aventureiro sem pedigree
algum, um sujeito perdido na mata, mata pra lá mata pra cá e mata bichos e
ainda por cima por baixo é morto. Um personaginho como tem mil, mil e um, nos
romances e na vida nem se fale: pululam. Gritamos diante da ofensa com raiva
(ninguém aprecia ser criticado; sempre o fazem injustamente e aí a nossa
raiva:) pera lá Caneta assassina! interferimos. Você com sua ponta azul
enganosa visto a cor da esperança ser o verde e credo em cruz fosse vermelha...
com sua ponta grossa de borrar a brochura em seu papel que suga chupa o excesso
de tinta a impedir manchar-nos, com ela descreveu uma facãozada, seria faconada?
então, narrou o crime na boca da noite e... Daí a Caneta com certeza na dúvida
se pega tendo morto um vivo de nome sonante Mateiro, mais precisamente João
Mateiro, embora apenas um homem de aventuras um sem eira nem beira, os
aventureiros não valem tostão furado ninguém fica sabendo o desaparecimento
deles e portanto o crime não compromete; depois encontram o cadáver, não o
cadáver: o esqueleto. Se pilha ela, caneta, a ter cometido um crime! olha, desesperada
amedrontada atarantada, olha as mãos quem sabe ocêis tão supondo que eu seja o
quê. Tenho honra, pedigrí...
Retorno de
Gena
A velha, foi moça bela uma gostosura
na opinião certamente de Xará, a velha está velha, encarquilhada. E ainda não
sabe por que Gena! Mesmo porque a melhorar a confusão apelidaram Gena e Geninha
a duas filhas deles; e ainda desconhecendo. Não tinha a certidão de nascimento?
só a de batismo; a Caneta diria neste ponto: que lessem o documento. Todos defensores
do analfabetismo. Entretanto diziam ser por Eugênia, lembram a tia Eugênia
filha do Vô Clodomiro; outros a afirmar Efigênia e houve quem a garantir
Generosa, pois não havia na família uma comadre Generosa que morreu de tifo!
Nunca soube e que importância nisto se faleceu também? claro, ficaria Gena pra
semente. Enquanto viva matou o marido, um só marido visto várias mulheres na
região do Rio do Peixe haverem se casado ou ajuntado com outros homens, viúvas.
Ela não. Também a afirmativa é por força de expressão e linguagem figurada
porque cuidou de Xará até arcado velho imprestável e medroso no costume de
esconder segredos de origem. Criou a prole que dona morte não engoliu miúda em
caixõezinhos, fê-la gente de bem. Aqui entra o trabalho e formação de família;
todos enfim constituíram seus respectivos lares na terra nascente, na urbe nova
que se erguia; até Geninha e as outras nove mulheres que Xará fez na esposa;
essas filhas ajudaram no crescimento do lugar, visto em frentes de colonização
quase não ter fêmeas e elas demais requisitadas, casaram todas, inclusive uma
feiinha. Dos filhos, diziam “menino homem”, todos também casaram e recasaram,
com suas devidas brigas conjugais e havendo a língua parente a dar palpite. Todos
com exceção do Zezinho que nasceu retardado e cresceu abobalhado; esse assentou
praça em casa dos pais e foi o cuidado máximo de Gena, bastando dizer que nunca
apanhou da mãe, a qual desovava suas forças na traseira dos outros, encapetados
segundo Gena; assim os cuidados maternos ao deficiente até morrerem ambos, um
antes outro após semana, e acabar com o tronco de João Xará, aquele do qual não
se tem muita certeza em não ser que era manso, não muito de língua em família,
e que parecendo horroroso na apresentação.
Capítulo Quinto
Não há ilegalidade
para quem desconheça a lei.
Ficava
para trás a mata; não, sim ficava tão só na fraçãozinha que representa o
momento na esteira do tempo, lerda paciente no seu passar dentro do eterno.
Ficava de fato ao lado, por todos lados se vendo a mata, ainda densa cheirosa
em suas fragrâncias da vegetação natural e barulhenta nos seus silêncios com a
algazarra das aves dependuradas em cantigas de amor naquele inverno quase
primavera nos ventos de agosto. Também quase, quase ilha o ajuntado urbano
principiante se pensando quem sabe cidade entretanto povoado nascente em que
morria Xará, a deixar sua beldade aos outros homens mais que ele corajosos mais
falantes mais do mais do facão e do tiro a bravatar machuras; oh qual nada:
Gena era então igualmente um destroço no despojo do casal humano, com sua
ranhetice de velha por cima nesse por baixo sobre a prole, esta prole tão
difícil aos dois fazerem, não isso: dificil apenas o criá-la; tal prole a casar
por sua vez arranjar família e problemas para ela, agora viúva; se bem a
esclarecer que havia feito a nova geração também umas gracinhas de netos para
vovó e tinha os que, grandes, adultos mesmo, davam muitíssimo trabalho (ah não
tem o ditado em que filho criado é trabalho dobrado!) O casal matriz se
desfazia, a família se bipartia não sendo que se devesse falar polipartia
por muito fatiar-se; se partilhava com novas casas e novas amizades, ou tão
somente a somar acumular os ‘dizem que me contaram’ a fim de apimentar o viver.
Contudo a ‘cidade’ nascente crescia entumescia com o advento de novas levas
aventureiras.
Assim
chegam (ou se formam em conluio com os elementos da terra ou já viventes no
lugar, os quais haviam vindo de fora também) assim chegam mais famílias, vindo
mais muito mais homens solteiros sem compromisso, mas o que seria compromisso!
enfim chegam mais e mais famílias; aquela questão do homem vir primeiro
espreitar, lançar bases fazer negócios e, finalmente, trazer a mulher e as
crianças e aí fazerem em novo domicílio mais crianças ainda ao parque infantil
do mundo. Veio seu Zé. De quê. Às vezes o sobrenome sobrepuja o nome e os
europeus têm no sobrenome o nome da gente, ora o nome é o prenome apenas para
não confundir as pessoas (ou é que mais confunda...) Do contrário como seria certa
mãe a gritar na rua a dezena de partos já grandes e brincando por aí, perdidos
por aí, e ela a gritar o nome: quem acorreria ao chamado, todos tendo o mesmo
nome sendo o nome o sobrenome do freguês! O caboclo, e não apenas os das
frentes de colonização desordenada como é posto aqui e como é melhor e bom ao
brasileiro fazer; não apenas aí, em todo território chamamos gritamos quando
preciso nossos filhos pelo prenome José Francisco Antônio ou Zé Chico Tonho, melhormente
por diminutivo ou apelido. A caipirada adora apelido: Xará por exemplo. E assim
chegou seu Zé.
E
montou casa, antes lançou suas bases com ajuda de peões, seja no amansamento da
terra no amanhar a terra, seja no levantar a casa tosca, nisto aparecendo
decerto muito senão e se não o mutirão o auxílio eventual doutros aventureiros
nessa frente nova fresca ofertante de vida.
Sim,
a zona velha donde vem para a zona em desbravamento, ela nem sempre tão velha,
entretanto já acabada. O roceiro nacional por costume derruba a mata queima a
mata destrói a mata destrói o solo com fogo e mau uso dele e – não produzindo a
contento às vezes mais nada, quer dizer esgotado o antes rico pobre solo –
então deixa a zona improdutiva tida por zona velha: foge como pode à zona nova,
muita vez chamada curiosamente “zona da mata”, onde fará tudo de novo; a
trocá-la por outra mais nova menos cansada. Aqui na região era a era das vacas
gordas, expressão mui em voga, terra virgem, houvesse virgindade em se tratando
de terra na Terra, essa terra era demais fértil e produtiva à lavoura. Outro
componente, quiçá mais importante mesmo que o tratado neste espaço é outra
questão, seu Zé dizia “qüestã” isto um senãozinho e não vem ao caso; outro
componente a questão econômica, a crise mundial que desembocaria em 29 e 30,
desvalorizando a exportação e atingindo a lavoura num país essencialmente
agrícola; na medida em que os preços caíam e a procura diminuía, os produtores
mais fracos a fugir para outras áreas, de preferência as mais novas frentes,
como esta região; aí a razão de seu Zé vir para cá. Ele veio lavrador, enricou
depois lavrador; e foi morar com Xará no mesmo ajuntamento desordenado na
cidade dos mortos da cidade dos vivos que se formava então. Mais tarde. Antes
chega só, arregimenta contrata homens trabalhadores, aqueles bons no machado,
já quase não havendo mateiros por definição como fora Mateiro. Assenta as
coisas, fazem um improviso de casa, alevantam depois a residência de madeira,
uma característica da região aliás são as casas de madeira, a madeira em grande
oferta na área; posteriormente Zé traz os seus e aqui fabrica com ajudazinha da
senhora Zefa mais alguns filhos em família numerosa. Dizem as más línguas, sem
querer meter a Caneta no meio, dizem que o macho da casa teve outras mulheres
entre as comadres antes da comadre Zefa chegar e concomitantemente com Zefa.
Todavia é claro este escuro ser linguarismo, pois seu Zé foi um dos principais
e o primeiro a gritar pela necessidade a trazer padre além de grande
colaborador na feitura da primeira igreja, em ressalva capelinha de madeira.
Não
obstante não tratou ele seus desideratos com ordem e dentro da lei; não havia
lei. Ou por outra, havia. Quem não a conhece, seja ela escrita ou só norma
morna de aplicação curta esquecível no tempo, quem não a conhece se isenta em
cumpri-la aplicá-la. Bem o caso de zeu Zé. De todos então, agindo ao sabor das
necessidades dessa área geográfica.
Assim
os de Xará terão vizinhos, têm vizinhos novos.
Apesar
do dito vizinhança no lugar e na época (estamos nos avizinhando também de 1929
terrível à economia nacional e mundial); apesar disso, tais vizinhos moravam
distante, sem que a ‘cidade’ fosse grande, a população mais voltada à lavoura
fora que dentro, embora também a chamada zona urbana fosse ela agrícola. Assim
Gena conheceu Zefa, a poder depois viúva contar como deu-se o falecimento de
João Xará, sem precisar ir longe demais tudo perto. O que compreensível em
vista de não haver distante em lugarejo.
Digamos
por fim que o homem da cidade no final da década de vinte nessa nossa região
era portanto não mais que roceiro.
Capítulo Sexto
A amizade é a pior
das prisões, ela é inexpugnável. Você não pode se livrar de um amigo, de suas
imperfeições caso elas possam atingi-lo – é um amigo,
não pode mandar
embora, despedir, nunca há justa
causa nem lei que lhe permita livrar-se de um deles. Com inimigo é mais fácil,
é inimigo.
Quando José aportou na frente colonizadora sem porto com muita árvore e
quase ninguém vivo a viver como cidadão, em a nova e definitiva morada, a
morada sofria o vento cortante; ele vindo ver as terras, dessas que a gente
compra no escuro e sendo que suas poucas letras enxergavam com dificuldade os
pontos dúbios e as medidas mostradas, a gente tem sempre desconfiança diante de
advogados espertos – nesse quando José espirrou. Quer dizer mil e uma vezes
espirrara espirraria uma e outras mil ainda, sobretudo ao impacto da
ventosidade, a gente se acoberta sua demais se levanta e põe a cara pra fora já
recebendo a agressão da ventania e, não estando acostumado com esse tipo de
tempo, ele vindo possivelmente das cercanias de Brotas ou mesmo de lá, aqui
sofre a mudança na mudança que iniciava, então só; só é a maneira curiosa que
temos de falar mas sendo de fato a gente e os companheiros da gente,
assalariados ou não podendo ser agregados porém igualmente no lombo das
montarias. Depois a família toda se deslocaria, agora em carroções e mais
cavalos e mais burros de carga e mais ainda mulas que aguentam melhor o tranco
que os burros éguas cavalos, não obstante serem mais teimosas que eles. Daí a
chegar na comunidade nova cheia com sua meia dúzia de casas levantadas às
pressas entre a mataria, aportando com os seus, em definitivo dito; sendo bem
mais tarde a morar junto de compadre Xará nos pés-juntos. Ainda a chegar na
terra, daí espirrou espirrou em defesa seu organismo de homenzarrão forte alto
arcado branquelo queimado de sol como qualquer caboclo e não miúdo fino magro
baixo na estatura como qualquer caboclo. Espirrou e outra vez e outra vez mais
a avermelhar narigão, enxugá-lo engraçadamente com sopros chupares melares e
demais salamalequezinhos, além de esfregar-se num pano improvisando lenço, que
o povo curioso de chegantes viu e não se sabe o quê pensou e riu. Chega trata
contrata no costume do fio de barba seus homens, uns colhidos ali mesmo na zona
nova ainda a cheirar os cueiros da fragrância da mata, contrata os serviços de
medição derrubada queima limpeza a sujar o meio ambiente e a respirar como
cidade nascente. Começam executam trabalham acabam enfim a obra que nunca se
acaba, se mudam pra cá depoizinho. E aí começa a prisão das amizades.
Um dos primeiros a servir como amigo,
do tipo que a gente descobre em todo coração em todo lugar foi o Xará. E outros
de suas proximidades sentimentais, bastante à pouca exigência, maior exigência
a do trabalho pesado ao sol à sombra; outros amigos se foram acrescendo em soma
da necessidade e da boa vontade e da temeridade também, quase sempre puxados
atraídos pelas crianças entrelaçadas com crianças; as mães a contar suas coisas
a trocar coisas como receitas ou doces, os chefes a tratar na oportunidade
negócios. E o tempo a exigir concessões, aquelas concessões que se não admitem
aos inimigos ou adversários ou desconhecidos; mas que viram obrigação, mesmo a
de ouvir desaforos nos momentos inoportunos, quase sempre com o auxílio eficaz
do disseram que me falaram.
Aí os compadrios casamentos apegos e
também desavenças rompimentos, estes não perduram aos choros e sorrisos que o
tempo nos oferece.
João Xará, no falar quase em segredo
ao novato, Xará que mostrava o quanto sofrera nas origens na própria chegada,
sem lembrar nas conversas suas relações com Mateiro nem o descontrole com
demais colegas pioneiros, talvez apenas a ressaltar sua característica no
mutismo logo descoberto por José, Xará procurou o novo morador pelos seus
méritos no magistério; embora soubesse o povo que o homenzarrão fazia caixões
aos defuntos, mesmo porque alguém precisaria dar alojamento definitivo e cômodo
aos primeiros cadáveres da vila. Foi mais pelo magistério. Ou não era bem isso,
quase isso. Corria a fama de que fosse sábio, sabia um pouco soletrar sinais no
contrato de compra & venda de terra, o seu mesmo e os contratos dos
vizinhos, um negócio a tentar certamente virar fazendeiro rico em a nova
frente; apenas isso. Todavia tido por mestre, num quem sabe servir a lecionar
em suas poucas horas sobrantes aos sobrantes de Xará, sobrantes sim no trabalho
matreiro e imprevisível da senhora morte; os filhos precisavam aprender. Bem
dito: os filhos machos daquela espécie na época, pois às fêmeas não se dando
oportunidade por questão cultural decerto. Assim tratando também como negócio o
negócio das letras.
O Professor
Assim como a formiga saúva viaja
quilômetros nos seus metros a picar transportar o fragmento de folha do pé
longínquo de milho para seu buraco-palácio à rainha se engrandecer, embora nem
esta nem a operária transportadora sabendo que ao lado do palácio existe um pé
de milho vendendo saúde e grãos mais próximo que o quilometricamente distante –
assim o homem de então. Então? de sempre, enquanto houver sempre. Os homens da
época desconheciam a proximidade da crise mundial, a refletir na exportação e
na exportação de café, em consequência dessa linha não se vendendo café não se
colhendo, colhendo sim mas para quê! pra queimá-lo? Então a arraia-miúda de
plantadores se pôs no deslocamento abobalhado inclusive, não sabendo ela causas
a fugir de causas e consequências no deslocamento à zona da mata, em busca de
abrigo, quiçá de riqueza: miríade quimera sonho ideal. Não obstante e apesar da
crise a persegui-los inúmeros pioneiros foram bem sucedidos.
José, o Professor José Zé aos amigos e
à mulher tratada lá embaixo na escala social do tempo, José desconhecia o pé de
milho e buscara como outrem a frente de colonização e do viver satisfatório,
assim fazendo semelhante a todos com ‘visão’. Desconhecia também fosse um mestre,
virou à força das circunstâncias um letrado em Alto Cafezal , esse o
nome do aglomerado formante. Onde brotava sim o café na febre do café que se
queimaria em 1930 a
segurar preços aos cafeicultores latifundiários; onde vicejavam muitíssimos
cereais. Estes de fato ajudaram naquele fim o começo da região; e quase todas
casas se mantiveram, perduraram plantando colhendo comendo vendendo o produto
não cafeeiro.
Ao lado da atividade mantenedora e seu
trabalho e seu movimento e seu arremedo social – estava a atividade intelectual.
O professor mandava os seus acenderem a lamparina, que era a eletricidade da
época e da região, colocando o lume em ponto visível a ser visível o ambiente,
esparramava a meia dúzia de alunos temerosos e curiosos em volta da mesona
tosca de madeira pesada na sua sala; e o material didático, talvez a brochura
quem sabe se não a lousinha de escrever para que rabiscassem os sinais
parecidos com letras. Aí começa a sessão de tortura: o mestre roceiro brabo
exigente imperante, o aluno frágil medroso e vítima. A lição noturna do ABC ensinado
com auxílio generoso da palmatória por mãos calosas no diário do machado do
traçador do martelo da enxada do facão da foice, no tentar exigir do ‘educando’
a reprodução a decoração a compreensão, a compreensão? de tais letras ou
rabiscos garatujados delas. O grito a cobrança? Quem sabe, quem sabe.
O Professor conseguiu, não obstante,
transmitir, semelhante o semelhante noutros lugares doutros tempos nas mesmas
condições – algo que se parecia com escrita e leitura, as que seu limite
permitindo. Enroscava o mestre na tabuada do nove e na do quatro; embora, fez
seus pupilos decorarem; aprenderam!? é possível. Conseguiu decerto que virassem
também eles letrados na incipiência.
A escolinha não perdurou, apenas viveu
até à formalização da escola; a de seu Zé um exemplo somente. Entretanto na
lavoura seu sítio quase virou fazenda; e a família dele foi crescendo e se
cruzando com as ofertas humanas da ocasião. Até chegar ao ponto em que o chefe
da casa não morresse de morte morrida porém de outras misérias ricas no diagnóstico
da causa mortis na época. Bem, foi residir encostado de Xará, igualmente
sem número na tumba. Ora, o fim não é o fim!
Capítulo Sétimo
Quando um amigo fala
a gente crê em sua mentira como verdade; quando
um desconhecido, a
gente descrê na verdade crê na mentira. Ambos casos virando certezas.
Preambulinho
para conseguir não entender o capítulo
Seu Zé, pioneiro; João Xará mais
pioneiro que o pioneiro tendo aparecido por aqui ainda no tempo de João Mateiro,
claríssimo que não para eliminar o chefe e em seguida fugir de consciência
pesada ou só com temor, vai que alguém houvesse assistido e testemunhasse.
Ambos chegantes aos matos do Rio do Peixe viraram amigos. Amigos com um bem
entendido talvez incompreensível: não dispunham de intimidades, sem chegar
também ao cerimonial da gente educada vista em algum lugar não aquele, este;
porém amigos no sentido de estar sempre juntos, ou por força das circunstâncias
ou por afinidade. Até ao ponto dos respectivos nomes. Tanto assim que José e a
patroa a discutir o apelido de Xará; ela, a Zefa, parecença um pouco teimosa
embora em presença do chefe da casa (uns anos antes a esposa respeitava o companheiro
com a menção “senhor” e não ‘você’) a Zefa a bater o pé: Zé, dizia, o compadre
Xará é José, não vê que é seu xará; o Zé nem um pouco teimoso quando a roça
dando lucro ou nos momentos em que o povo fala “viu passarinho verde”, nesses
momentos não teimando e só acrescendo: Zefa, Seu Zé jamais teve ele dessas
intimidades de meu bem meu amor queridinha e outros nhe-nhe-nhens, Zefa: me
disseram que é João outros acham Antônio. Para de teimar, mulher, vai pôr água
na talha e tratar as galinhas; um dia pergunto ao compadre o nome dele e falo
procê; a propósito o compadre é bem munheca, pois batizou a Clarinha e num deu
nada a ela, nenhum presente só a mão pra beijar na bença (o homem do povo nunca
pronuncia bênção). Apesar dessas dúvidas, amigos; como veremos a seguir.
Continuação
do Prosseguimento
Quando naquele dia o compadre convidou
o compadre a visitar o sítio o compadre disse à comadre, comadre do outro,
aquele dia ser o mais feliz dos últimos tempos (mesmo porque Xará andava encrencado
com tantas encrencas dentro da família dele e dela, ou seria por causa dela?)
feliz sim, o que verdade na sem-gracice de Xará nas lides da cidade ainda não
bem cidade mas vila próspera, morando ele e ela na Vila Barbosa enquanto o
compadre noutra vila, o Alto Cafezal, longe à beça. Gena de imediato não aceitando
concordou depois embora mandona, e então instigou mesmo o companheiro à viagem
de bem uns dez quilômetros não fosse mais ao dito sítio ansioso em ser fazenda;
inclusive ela encomendou trazer-lhe de lá uns ovinhos e um galo, o dela, não
Xará é visto, o dela velho e as galinhas a fugir ao canto doutros quintais, arranjando
sempre briga das vizinhas com a gente. Fez mais o compadre Zé: mandou um servidor
com um cavalo e, puxando por uma corda, a mula velha manca um pouco e mansa
como veículo usado cansado ao velho. Xará um pouco velhote, ou é que o compadre
Zé fosse menos acabado que ele, aquelas safadas dores aquelas tosses teimosas
aquelas escarrações nojentas, para os outros nojentas. Se bem nesse mal sabermos
haver perecido de morte morrida nada tendo com os pulmões; ele não sabia então
disso, não poderia saber. Por essa razão (o passeio é claro) ficou alegre. E se
foi manhãzinho, matuto habitualmente acorda cedo seja ao seu trabalho, seja ao
trabalho em ajuda lá no roçado de outro.
Bom-dia, compadre. Se deram as mãos,
aperto é certo entre encontros no povo comum. E aí reataram a conversa. Amigos
estão sempre em prosseguimento de assunto, vez que outra a mulher interfere
interrompe ou é uma visita incômoda ou é um menino que brigou com outro menino,
a outra criança costumeiramente maldosa. Então, novo encontro reencontro
reencetamento das linhas da conversa. E a comadre? Quase sempre trazemos onde
vamos ‘lembranças’ recomendações dalguém, às vezes a pessoa chega na visita
pesando demais lembranças. E fulaninho e a cunhada já foram embora? Depois se
mostra o eito. Tem milho que a seca seca, tem o feijão saindo tenro aprumando
que é uma beleza; tem o baixadão onde o arrozal, na ocasião só mato seco e água
em lagoinhas pouca do rio a alagar na cheia e agora quase sumindo em lama dum
dia para outro, uma tristeza. E as criações. Um porco cevado já a rachar as
banhas, o corre-corre dos leitõezinhos, as galinhas ciscando na roça estragando
as plantas (aí se lembrou pra não esquecer Xará os ovos da mulher, do galo não
lembrou prontamente; tem hora que não é hora pra falar o lembrar e a gente tem
de deixar ao esquecimento do depois...) viu os passarinhos, um em cima dum
burro a coçar-lhe carrapatos.
Entraram nas caças, Zé não apreciando
vara de pescar, só Xará; todavia ambos loucos por uma espingarda, daquela de
encher de pólvora e socar e de espalhar chumbo parecença com tiro de canhão, ou
que supunham fosse. Capivara veado etc. e tal.
Tal a conversa sem parar, sem parar
contando o dono a trabalhar a gritar um moleque dum empregado; a empilhar ele
mesmo um vegetal fora do padrão, ou remexendo com a enxada a dar bom exemplo
aos subalternos. E a falar, falavam sem parar, riam de suas bobagens.
José achava ingenoide o compadre, meio
murcho na língua e ao mesmo tempo solto nela, sem profundidade. A dele não, era
séria e proveitosa. Contudo ambos a exagerar o contar, quem sabe não havendo
sonho e invento no cerne da verdade. Um sorria ao outro, outro sorria a um;
ora, sorriso não é mais que aquiescência velada educada; nunca uma concordância,
por mais pés juntos se jure, ou por Deus em bom momento para ser vão.
Entretanto não punham assim o problema.
Falaram também da escola, em casa de
José. Lá na cidade. Na roça o compadre via o acúmulo do quefazer, não era? não
daria pra lecionar no sítio quisesse. Espicharam para novos assuntos,
intermináveis assuntos, horas de assuntos, antes e depois do almoço, este um
pouco magro para a fome de Xará, embora a afiançar que a tosse lhe cortara o
apetite. Quanto ao dono da casa, a da cidade e a da roça, ele comeu por três
pelo tamanhão e com o desgaste no trabalho. Gente da roça come bem; a
brasileiro é ingerir quilos apenas. Arrotaram.
No quilo, quase chegando à tonelada
pelas coisas esquecidas do se lembrar, no quilo desandaram a se contar o que
chamamos patacoadas e causos; e não era de noite, a qual aprecia muito assombração.
Nisto saiu-se bem José a apontar valentões mortes perseguições e um esbanjamento
de casos sabidos, ou de sua terra trazidos ou da região, daí de conhecimento
também de Xará. Um sujeito pagara a fim de um jagunço amarelar os pés dum
adversário. Xará ficou pensativo, ou lembrativo? Enxotou como pôde Mateiro,
contou ele mesmo outros causos a fugir do incômodo e até se destramelou,
indignando o compadre.
No fim, claro, café abraços
recomendações à comadre Gena e a um vizinho perto daquele longe. Xará esqueceu
de pedir os ovos lembrou do galo carijó a alijar teimosos conquistadores lá da
Vila Barbosa. José comentou com um empregado, naturalmente já longinho a mula
do compadre: compadre Xará é um bom sujeito, quietarrão e manso porém... quando
abre a boca conta muita mentira. Decerto quisera dizer engano, os inimigos sim,
apenas os inimigos mentem... Nesse ponto olhou pros lados do Peri.
Peri era o vira-lata sarnento mui
chegado ao amo, nesse instante o cão ocupado engraçadamente em rodar em torno
de si mesmo atrás do próprio rabo e morder a pulga na cauda. Não é mesmo, Peri?
O cachorro sorriu sem graça, os homens gargalharam ninguém sabendo por quê.
Capítulo Oitavo
O homem não tem medo da mulher, tem de si mesmo por
causa da mulher, que a mulher venha a saber do temor.
Gena,
disse Xará no retorno, mas o compadre me saiu um grande queimador de campo...
A
Caneta nos atirou igualmente a pecha de queimadores de campo, maldosa em vista
desejarmos incluir no diálogo do casal aí em cima um beijinho dele nela, por
sua ausência um dia inteirinho longe de
casa no sítio vaidoso em ser fazenda quiçá latifúndio. Deletamos a beijoca do
homem, confessando realmente indevida, pois Gena no caso do beijo não pensaria
o macho sem espécie a esconder algum malfeitinho, por causa não do desacostume
porém do fato de nunca na existência havê-la tratado com tal frescurinha.
Aceitamos portanto a prudência da imprudente escrevinhadora azul de bico fino.
Prossigamos.
Nesse
dito momento, momento em que na chegança enxugamos do rosto o suor, aquele
ardidinho a escorrer na epiderme e tudo o mais; nesse momento em que costumamos
encaixar as curiosidades vistas a descartar constrangimentos, tidos havidos não
vencidos por Xará na sua vida morena de trabalhador e lutador entretanto sempre
a ter uma vergonha sem tamanho pelo tamanho moral da consorte, ele sem sorte
trocadilhamos agora; naquele momento de lembrar a bicheira dos bichos lá na
fazenda do compadre, a cabrita “prenha” ele denunciava assim a gravidez
habitualmente; nesse momento também a encaixar narrar dos homens do sítio suas desavenças
com o patrão e mais miudamente com suas companheiras, todos de enxada em punho;
nesse momento o telefone tocou.
Entenda-se,
isto um abuso equivalente à Caneta rabiscando azul e de repente no meio da
frase a tinta virar tinta vermelha! Não havia ainda na vila quase nem no estado
e no país telefone em não ser o de manivela nem manivela tendo o lar e
cruz-credo houvesse de orelhão com chamada a cobrar e a engolir primeiro fichas
e depois cartões custados ao olho da cara, e o dizemos a ser originais; não
havia e aqui apenas forma de dizer. Pra dizer que chegou gritando a assustar se
não a Vila Barbosa inteira o lar honesto de Xará versus Gena, chegou
naquele momento Geninha a chorar seus desesperos por briga conjugal,
desentendendo-se com o cônjuge, um que fora abençoado por um padre itinerante
em domingo de visita à missa, talvez vindo de Campos Novos Paulista ou de não
sei onde; então casando-os (o marmanjo e Geninha) legalmente e arranjando
preocupação para a sogra dele, não a da esposa a dela já nos pés juntos junto
com o primogênito dos sogros dele, um garoto que quando vivo tinha olhar feroz
pros lados paternos. Verdade que Geninha com um pouco de razão; quando menos
por ter marcas no corpo, isso para não fugir ao costume da época, a qual
mandava o macho corrigir sua fêmea educando-a com singelas pancadas;
sobrandinho aos filhotes estando mais exarcebados os ânimos e o homem macho pra
valer bebum. Contudo a perder o resto da razão que tivera a jovem senhora,
dodói de Gena, por conta da loucura deixar os filhos em casa à mercê da
aguardente do pai deles, ele afirmando a ter motivos que não eram; eram dele
sim, mesmo sem exames do DNA só conhecidos em nossos dias, nossos e da Caneta
interventora.
Enfim
uma choradeira no estilo.
Com
alarme falso, digamos nós de fora, os olhos de fora não costumam arder como os
dos íntimos. Isso porque – acalmada a pobre desventurada por mamãe, em tácito
consentimento de papai ao vê-las atarantado sem saber o quê fazer e como
interferir, justamente quando ia sorrir e passar as bicheiras do sítio para
Gena; a filha acalmada um pouco volveu aos braços de orfeu, ou morfeu! e o
encontrou a roncar nos braços da branquinha; enquanto as crianças num tavam nem
aí lá, a correr na rua que não era bem rua ou rua sim mas não demarcada,
andavam elas numa gritaria sem tamanho nos risos com os coleguinhas.
Ah,
o ébrio consorte da filha de Xará carregava o pesado nome de Chico da Zica.
Capítulo Nono
Você está numa
democracia e tem o direito de escolher seu representante para legislar contra
você.
Não chegava a tanto, a tanta
democraciice a reunião de famílias, aliás sem quaisquer conotações políticas,
sem consciência, o que não havendo mesmo entre os homens, machos pra valer e
tudo o mais, mulheres. Elas que haviam acorrido e inclusive sem nenhuma
formalidade, uma em casa da outra. Só para falar? fala a Intempestiva e
respondemos que isso denotando um quê-zinho machista nela, a Caneta se ofende a
dizer que... deixemos pra lá – elas. Comadre Zefa veio a um dedinho de prosa,
isto duraria a tarde inteira ou seja um dedo esticado avolumado em conversa;
veio à Gena. É claro que se perguntaram das dores, das dores da outra, das dos
parentes, das dos vizinhos – para tão somente falar das suas respectivas dores.
Bem. Todavia não fora para isso a visita. É que havia uma possibilidade a
enviar um representante local (elas sequer seriam consultadas à escolha escolha
houvesse...) um ou dois a fim de ir para não sabemos onde convencer o bispo, convencê-lo
sim a mandar para a Vila, Zefa teimava devesse ser Alto Cafezal, Gena teimava
por Barbosa; em suma enviar a Igreja pura e simplesmente um pároco definitivo a
estes lados. Ora, nem havendo paróquia ainda só um projeto de capela. Enfim
certa conversa havida em família que elas acharam por bem ir uma contar a
novidade à outra, do assunto que ventilaram no lar seus homens e que outros
machos e fêmeas válidos em língua passaram ao planeta não podendo ao universo.
Bem, mais uma vez, mal chegada a visita de Gena, as crianças já espalhadas a
brigar brincar brigar, gritar sempre, “comadre, vê o gritêro deles!” isso
enquanto os grandes e os menos pequenos em volta das mães a saberem novidades
quiçá a poder meter o bico indevido, por talvez direitos democráticos. Ah sim,
entre a pequenada havia os sãos desentendimentos e entendimentos na
brincadeira, tendo em vista haver sem existirem ainda os clubes de hoje, os
clubes do Bolinha e da Luluzinha; aí se desentendendo no diz que disseram os
grupelhos antagônicos; sobrando às mães, juízas in-fato.
Resumindo, reunião de famílias agora
com cabeças feminis, os machos longe graças a Deus, lembrariam de entremeio.
Então conversaram naquele domingo ensolarado suas coisas coisa e tal.
Na seção dores pôs – ainda a outra
falando e a gente democraticamente corta e quando muito diz “não cortando sua
palavra...” e corta – pôs logo Gena a questão dos pesadelos frequentes de Xará,
agitações constantes e aí, comadre, aí é que a gente não pode mesmo dormir!
então é preciso chacoalhar o homem pra despertar, e daí comadre é que se não dorme
mais; é vida! não é, comadre.
Contaram, massacraram adversárias e
vizinhas enxeridas de ambas vilas; puseram os podres dos parentes, e quase se
esqueceram de lembrar o motivo principal – o representante. O que desnecessário
pois logo se engajariam, já engajados, os moradores mais importantes ou mais
carolas lembrariam os irreverentes houvessem eles sido inventados na ocasião;
esses tais encontrar-se-iam loguinho recolhendo donativos a construir capela
pró igreja, custosa ainda que de madeira. E nisso se prendia bem seu Zé, com
altura na estatura e na liderança para discutir as questões religiosas; que
fossem apenas para afugentar a fama dele como mulherengo; ou fosse a coisa
somente falatório a terem argumentos os cônjuges no desentendimento do casal,
Zé & Zefa, esta se calando no entrevero num machista “cala a boca!” o que
mui democrático dizem tempos e tempos amém.
De maneira que ambas matronas
parideiras contaram ou recontaram aquilo do conhecimento e da amizade mútuos,
coisas de um tempo valendo mais de ano; amizade e inclusive compadrio, ou
comadrio não sabemos sabe quem sabe melhor a Caneta.
Entretanto esta deplorando isso tudo,
chão, gente, cheiro de povo (um general de sangue azul e mandão no fim do
século diria jocosamente preferir o cheiro de cavalo...) deplorando a conversa-fiada.
Saibam, tenho pedigrí. Desandou ela a contar de si mesma; aí a gente, nós do
povão, a gente foge pras coisas da gente, deixa outrem a falar às moscas.
Contudo lembrou-nos ter uma tia, Dona Caneta Tinteiro, uma nobre com bojo de
borracha; não borracha sintética sem elasticidade mas da natural; onde ficava a
tinta, “tinta azul!” grita a sobrinha cheiinha de pedigrí. A gente espremia o
depósito de borracha e o soltava para automáticamente sugar a tinta do tinteiro;
e depois disso no reservatório da Tia ficava o líquido; o líquido saindo
límpido puro belo à ponta da Tia-Caneta e ao papel, perfazendo uma escrita
padrão sim porém de grande beleza e talento; de arte, a arte caligráfica e...
Ah chega! dizemos enfarados, mais
presos às conquistas democráticas e popularescas; deixamo-la só, voltamos
nossas vistas às comadres; e nos espantamos pegos no diálogo delas:
O Santo era o capeta!
Pera lá, nós pensamos, que absurdo
isso. Aí apuramos nosso abano de orelha em concha bem escutante. Daí Zefa
prossegue a sua continuação.
O homem era terrível, era, é outra
coisa agora. Do vinho para água. Sim comadre, é aquele italianão que toda hora
tava batendo papo com o Zé, sabe que o Zé dá muito lado e então aparece sempre
gente de todo jeito lá em
casa. A Zefa pronunciava e toda caboclada também “intalianu”.
Pois é, era terrível, ele veio com nossa família da zona velha. É lá que
parecia o diabo feito gente. Bebia batia, dizem que matou a mulher de pancada e
nem foi preso nem nada. Depois o Santo casou com a Rita, a dona Rita da rua São
Luís sabe? a mulherinha destamanhinho pôs o bichão no caminho, virou carneirinho.
Falam, isso nunca vi, falam que bate nele. A verdade é que encheu também essa
de filhos e...
Nesse ponto Gena se intrometeu e
cobrou explicações mais detalhadas, importantes os pormenores para convencimento
e pra ninguém se convencer, oportunidade em que pôs sua colher na verdade da
comadre. “Isso me lembra meu genro, o Chico da Geninha”. Esse não entra na
reta. Quando sem cachaça no bucho trabalha vai ao terço e leva a mulher com as
crianças; bebe vira o capeta igualzinho: bate, espanta os meninos, fala
besteira, xinga a família da gente. Outro dia não acredita, comadre, a pobre
teve de correr aqui em casa, Xará tava chegando das terras do compadre. Foi
difícil convencer a Geninha voltar pra casa. Aquilo não tem conserto. Nem o casamento
deles acho que se aguenta... Também garanto uma coisa: é coisa de sangue.
De sangue como, comadre Gena?
Não sabe que veio da família da Zica...
é preciso dizer mais alguma coisa!
Iam continuar talvez em salvação do
planeta através de possantes lamentações, no entanto a hora adiantada em atraso
do tempo; além de haver ali nos pés da saia da visita um garoto de mal com os
desafetinhos, em choramingas no costumeiro vamimbora mãe.
Foram. Antes se beijaram.
Capítulo Décimo
Nenhum argumento é convincente para uma consciência
desperta e culpada.
Naquela
terça ou quarta ou quinta ou sexta, sábado com certeza não era era o sábado dia
dos homens se reunirem para talvez não folgar domingo se viessem ordens do
coronel na capital nos seus aconchegos – o interessante nisso é que ninguém
houvera visto nunca o coronel apenas seu dinheiro e o dinheiro tardava agora –
quem sabe as ordens que vinham, naquela terça ou outra feira, naquele dia
fungava na mata João Mateiro, a cortar um galho aqui separar um cipó acolá;
envolto no silêncio da manhã, cheiinho da algazarra das aves e dos piados
estranhos; ele aspirando o cheiro das árvores no vento antes morno lento fraco
lerdo preguiçoso depois num furacão de arrancar as coisas chocalhar as coisas a
ponto de se precisar segurar grudar em alguma coisa em não ser também sugado
soprado empurrado pelas ondas nervosas do vento de agosto na terra do vento; ele
poderia inclusive esperar uns anos e saber daí que o vento nessa área
geográfica então inóspita seria conhecida pela ventania ano todo todo agosto
com certeza e que se situava num espigão entre furnas imensas às quais os
moradores dariam o nome de Buracões, sendo que não concordariam nunca com os
plurais virando os itambés Buracão somente. No entanto sequer esperou...
Mateiro fungava suava marchava em direção do acampamento ou qualquer semelhante
onde sua gente, um punhado bravio de gente bem suspeita, pior que a onça que
devera rondar por ali, aí olhou de lado do lado de todos lados em volta
temeroso, sem razão de ser porque onça aprecia felinamente a noite no silêncio
só havendo silêncio agora com raios a custo filtrados desde copas das árvores
gigantes; silêncio e o som de seus pisados com os botinões pesados sulcando e
manchando o humo no solo, pisoteando ervas a lhe devolver o hálito delas em característica
do vegetal machucado. Até que chegou. Chegou, ainda brabava esbravejando a
gente, a gente que se não entendia, ajudada um pouco pela aguardente e em meio
à fumarada do fogão improvisado e a fumaceira dos cigarros, Xará o mais manso
entre aqueles celerados mas também com o hábito horrível de pitar sua palha
fedorenta, o chefe não fumando: tinha todos os vícios que lhe imputassem menos
o do tabaco; de resto Xará um bom sujeito, nunca respondia, quer dizer – não
questionava. Como todos trabalhadores, esse moreno miúdo derrubando serrando
amontoando troncos ao coronel se satisfazer. E não pagar!? Andava atrasando o
dinheiro e nisso se cobrava de Mateiro. Mateiro chegou à sorrelfa, quieto e em
espreita àquelas feras bêbadas e gritonas. Entrou na conversa, gritou ele mais
que os outros a dar bom mal exemplo e se impor. Impôs-se, aquietaram, dormiram
seu sono sua cachaça, embarcaram decerto no sonho, alguns roncaram feio outros
se apagaram qual mortos. Ele, Xará, quieto, manso, a pensar: não poriam a culpa
em Pexêra... Pexêra
um nortistinha falador e briguento, a viver sempre xingando por trás Mateiro,
representante da ordem e da desordem naquele paraíso cheio de infernos que se
apagavam ou amansavam com pinga; sempre o homem com uma peixeira na cintura,
sempre disposto a furar alguém a faca... Não imaginariam, não lhe poriam a culpa?
Entrou na área de João Mateiro seu xará, segurou bem o facão a brilhar levemente
no escuro da lua nova, fez o serviço, enfiou várias vezes a lâmina dura
naquelas molezas de carnes; e correu, correu adoidado pra longe dali, lembrou esquecer
a arma enterrada na chefia; nesse descuido tropeçou caiu, ainda pôde em relance
olhar olhares porventura desventurados a testemunhar aquilo, em ato de coragem
e aquilo de correr em ato de medo! Olhou muito em volta a voz do silêncio da
noite fria. Por fim fez esforço a se levantar... nisso dona Gena lhe grita:
“João, ômi de Deus, tá ti danu pesadelo de novo!” Chocalhou o companheiro para
acordar de vez. Ela dizia e os outros caipiras também “pisadêro”; contudo os
sons das palavras ainda não conseguiram mudar a opinião das dores.
Capítulo Décimo Primeiro
Todos temos o
direito em ser feios.
Tem coisas impagáveis, outras que se
pode pagar mesmo não sendo em igual moeda; outras ainda que se paga mas
impagáveis ou por esdrúxulo ou no ridículo e as pessoas poderiam rir-se disso
não veem assim. Assim elas se reencontraram, de fato inúmeras vezes o fizeram
não entretanto indo uma em casa da outra como agora Gena a devolver visita como
fora o pão “desculpe, comadre, deve ter ficado um pouquinho cru...” ou um doce
“num sei se ficou bom, as crianças comeram adoidadas” o caboclo nunca fala o
‘não’ sim ‘num’ nesses casos e ninguém arrepara. Se abraçaram se beijaram se
sorriram se trocaram assuntos, não a verrumar e ferir tão somente porém puseram
as coisas chãs às vezes mordiscadas e de gosto amargo como sói aos pessimistas,
no entanto o fizeram sorrindo também. Antes, não na hora, na agá, antes e depois
da hora ‘h’ uma, a da casa ainda na porta (alegre ou constrangida, vai saber
quais os dramas dum ser abordado em seu refúgio doméstico) a outra a examinar minuciosamente
aquelas ostentações de residência rica... ah mas por que rica. Rica ao pobre,
ao miserável então nem se fala pois tudo milionário em sua volta, ao pobre o
que não pobre ou de sua pequenura é grande, ou então vira gigantescamente
enorme no faustoso. Quase sendo o caso de Gena, acostumada com o pouco, o
simples do pouco, embora sem a porcaria a sujeira que investe em casa de muitos
por esses muitos nada terem, se bem a sujeira visite in-concreto muitos
ricos na sua moral no caráter e mesmo no relaxo com seus etc. e tal. Tal não
sendo, sendo isso sim uma cordial visita costumeira (sem ser habitual) visita
da sem-dinheiro a uma casa com sobras... Gena vistoriou tim-tim por tim-tim os
bens, vistosos afrontosos manhosos em mostra; as peças domésticas os móveis os
tapetes a decoração do lar, até a limpeza sobretudo a limpeza e o cheiro da
limpeza – que ora tem muito cheiro de arder inclusive ora não tem nenhum a ser
realmente limpeza. Ou esbanjo! quê seria um esbanjar?
Nisso Zefa deu mais uma oportunidadezinha
e tempo hábil à comadre examinar sem pejo seu luxo, a bem da verdade limitado
luxo, ao menos não desses luxos abusivos. Ou por outra, outra visita havendo,
menos visita e mais passagem rápida e sem quaisquer formalismos, essa visita em
casa antes a tomar informes com a dona – um sujeito mediano nunca nesses casos
se guardando bem o nome por desconhecidos e fugazes. Não houve apresentações e
Zefa o despediu para voltar atender sua comadre, ainda o homem a sair passando
na cerca balaustrada gritou ou disse altão como aprecia e não sabe doutra
maneira a gente da terra “ele foi de a pé? dona Zefa”. O povo comum fala assim.
Ela: “o Zé foi de a cavalo” a dizer assim como o povo. Emendando já à
visitante, em justificativa, o fulano queria o Zé, o Zé saiu cedinho, e
completou “aí eu peguei e fui fazê minhas coisas”. Coisas da forma popular de
dizer, as quais resistem às investidas da linguagem culta. Ninguém percebeu,
mesmo porque ninguém ouve quando fala e ninguém escuta o que falam; ou é que
não temos condição para avaliar o crime se crime.
Ainda Gena em espera a comer de olhos
o interior do palácio da outra quando a outra piormente à sua disposição. A
seguir as expressões costumeiras: os bons olhos ‘te’ vejam, oh quanta alegria
ou puxa! achava que nunca viria ver minha casa; e nesse momento embocaram no
veja isto, este é o quarto de... a sala para... etc. etc. sobejo saber. Muitas
horas de conversa? não o suficiente o suficiente sendo além do nunca, como é
bom às amizades que perduram com afinidades ou por proximidade nos sofrimentos
os quais alegram as pessoas comuns, elas comuns.
Em meio à conversa, na qual não se
bastam a vida dos filhos as dores febres vitorinhas deles, vêm as coisas outras
e em que tais coisas viram seres importantes quiçá animados: um objeto de
madeira ganha extraordinariamente vida, a ponto de tal objeto se mostrar
vaidoso à visita, a própria dona conta toda história da história dele e depois
a história; saem do compartimento e são arremeçadas vertiginosamente interessadas
nas outras peças ou bibelozinhos; só daí se dirigem a novos cômodos da mansão;
ou é que surge a gentinha a barulhar ao redor – enfim tudo ganha importância
alimentando realimentando a conversa. Em meio à conversa aparece o Santo. Não,
o mano dele de nome Berto.
Lembra, comadre Gena, do Santo? num é
o Santo, o Berto, o caçula deles, o irmão mais novo dos intalianos. Falei que
são xingadores e gritões, gritadores sim e “múntio inguinorante eles tudo”,
então: esses. Ele veio hoje aqui saiu indagorinha. Pois não é que o bruto anda
interessado na sua afilhada Clarinha... vê se pode. Nunca viu ele? é medonho!
descerto as sirigaitas gostam do intalianu... Aí desandaram a desancar as
feiuras alheias e oh como tem feio no planeta... Pintaram realçaram o realce e
extrapolaram e sorriram antes depois gargalharam, porque a gente não vê a gente
e não se vê gente. Ah apreciamos mais mesmo é ver a belas feiuras morais; o
Berto um prato cheio, desse de extravasar e não satisfazer ainda assim os
esganados. Não é comadre, disse a comadre à comadre chegante, não é que me saiu
o irmão pior que o irmão! Verdade entretanto se diga: o novo não bebe não bate
não dá espetáculo a todo mundo igual o Santo, num falei um capeta? O Berto faz
das suas escondido. Quer dizer, o Zé me fala as coisas dele, deles os homens, a
homarada perdida com as perdidas. (Falaram condenaram as misérias dele, interrompidas
volta e meia por menino, como ocorrera na visita anterior, ou seja Zefa indo à
Gena, agora Gena à Zefa; falaram doutros assuntos e até de risíveis amenidades,
dessas de encher a barriga pouco exigente do tempo:) eles, voltaram elas, eles
todos eles da família do Berto falam ‘báro’ e não barro ‘corente’ e não
corrente como nós, uma graça, engolem erres; diria a senhora rica,
conscientizada, isto que o caipira faz por hábito comer a três por dois letra
esse na concordância. Enfim falou Zefa à comadre o rabo do macaco dependurado
no galho vizinho do vizinho. Então gargalharam, mais Gena pois Zefa tendo um
jeito todo especial para dizer e pronunciar palavras em talento e graça. A
comadre segurando a barriga nas contrações das pacueras do tanto rir.
Comadre, observa Gena, Xará me contou
outro dia que viu esse Berto em frente da sede do PRP, num sei como esses
homens gostam tanto dessa porcaria de política; e de bola também; é só briga e
morte, se tiver eleição mesmo a gente tem de esconder dos tiros as crianças! É
certeza que o Xará viu, pois tava sentado numa cadeira pra fora da venda pertinho
da entrada do partido; mas não era assim como a senhora contou não: magrinho
altão meio arcado e segurando engraçado aquele
chapéu.
Desfizeram as dúvidas ambas senhoras.
Quanto à violência lembrada era assim nos primeiros tempos na região. Se
prepararam às despedidas, o tempo urgia os compromissos assolavam e era preciso
voltar. Antes disso Gena deu mais uma examinada fazendo-se expert no
assunto, como fosse fiscal a assinar um laudo conclusivo. Viu mil e uma coisas
antes no mal visto do bem visto e se disse baixinho lá dentro: as outras
exageraram no luxo aqui à minha frente; um simples lar sim com certa riqueza, a
envergonhar as nossas faltas em casa, porém longe (diria dos palácios dos
contos de fadas que nunca lera analfabeta!) bem longe mesmo dos ricaços que
contam por aí lá da capital; todavia uma coisa é certa: comadre Zefa tem a
feiosa empregada pra não trabalhar muito e não envelhecer e virar bonita e
ficando cada vez mais feia, mais feia que a criada; e essa criadinha parece um
bugio; quando a pensar assim Gena, a pobre aparece sorrindo à visita e mais à patroa...
Aí a visitante retoma no miolo sua observação:) vai ver até passam fome! Não se
convenceu nisso, nisto riu e foi flagrada pela comadre; no entanto saiu-se bem:
Nada não comadre Zefa, é que me
lembrei duma coisa: vem agora pra vila, não a Vila Barbosa não, pra nova onde dizem
que chegará o trem; pois vem um gringo morar lá. Tão fazendo inclusive um
casarão de tijolos, capricho de rico mesmo... Conseguiu ainda encaixar falarem
num tal de Pita ou Pito o gringo; no que corrigiu doutoralmente a outra ser
Píte, disse-lhe o marido assim.
Não obstante arregalou espanto. Quem
sabe a sonhar. Então se despediram, chãmente.
Capítulo Décimo Segundo
Amigo é um inimigo
que a gente ainda não lhe disse não concordar consigo.
Sabe duma coisa Zefa... o Zé não tendo
dessas frescurinhas de meu amor meu bem flor de meu jardim, e que seria tal
flor toda enrugada a desgastar, só poetas não enxergando; e velho o velho, já
velho sim, o velho José nunca ouvira estrelas nem vira poeta, não obstante professor
nos primeiros tempos do Cafezal; aliás uma das razões de rixa com o compadre
João, já sabendo o nome do hominho. Sabe? Zefa, pois o fia-da-p. (aí xingou a
falecida mãe do compadre) não é que num me pagou as aulas dos meninos! e olhe:
burros igual o pai; um dia dei uma reguada no mais novo e assim mesmo não
aprendeu a tabuada do sete, burrinho. Uh não importa, importa sim Zefa, importa
que o caloteiro não pagou as aulas; e ainda me trouxe da fazenda o galo, de
graça! nem galo a comadre Gena tem... Assim seu Zé desbancou a moral do compadre,
tido por amigo de anos, desde que chegaram na frente de colonização.
José não tinha meias palavras para
avaliar os outros. Zefa tendo já as orelhas ardidas pelas reclamações do
esposo. Quando os negócios indo mal, virava no lar um supertirano, tirano que
já era antes. Despencava a xingar e o fazia pesadamente: os nomes feios ficavam
horrendos, grandes como sua estatura e talvez mais corpulentos que sua magrura.
Ou a colheita ou os preços ou os pagadores mal-pagadores; ou era então os rabos
de saia... falavam por aí horrores por seus fatos e gastos ou cachorros e gatos
e aqui não se melhora a poesia e só afunda a moral do homenzarrão. Quais fatos
quais gastos, ora os com mulheres e nisto chegando boatos em casa, mas sem que
Zefa pudesse se defender; igualmente sem coragem a chamar atenção do consorte;
mesmo no caso da boca suja dele perto das crianças, digamos a esclarecer que
uma delas era casada e ainda ‘menina’ aos pais.
Tem mais, Zefa, berra o marido. Não é
só o cafajeste do seu compadre (quando a feri-la melhor, julgando no absurdo em
ser a sem-sorte, aqui trocadilhada a consorte, ela a culpada dos males na falta
de melhor bode expiatório em razão da falta de numerários ou por negócios
errados; quando a feri-la usava o artifício de pôr palavras ácidas sobre afetos
da mulher: a falecida mãe, a irmã dela, um sobrinho comilão, um mano gastador,
coisas assim; tais feridos da ferida nunca sendo seu sangue e sim ligados à
pobre, como o compadre Xará). Não é apenas seu compadre o desatolador; o genro
dele também, o Chico da Geninha filha do Xará, um bebum sem-vergonha: trata com
a gente um serviço, quer ganhar mundos e fundos e já receber antecipado pra
gastar em cachaça; na hora de trabalhar mesmo, capaz: não aparece; e olhe, a
mulherinha dele é malfalada todos sabem.
Ia por aí afora a amargura do compadre
Zé do compadre Xará.
Capítulo Décimo Terceiro
Em geral toda mãe tem sempre uns paninhos mornos
disponíveis a aquecer o gelado das falcatruas da cria.
Se
a Caneta tivesse filho achamos entenderia o entender melhor. As mães têm sempre
muito cuidado com seus meninos, são elas fãs de carteirinha deles; se preciso
xingar a mãe do juiz, caso este não contente o contento desses anjos a
emporcalhar o gramado com pedras a atirar sapatos e garrafas desde a torcida
uniformizada organizada, se possível fazer tal qual os holligans de educação
britânica... no caso tratado um trato na rua com traves de cacos de tijolos e
bola de meia. Mamãe não entende de bola, mas já é contra e a favor em favor de
seu pimpolho. Contudo os tempos são outros aqui, são os primeiros tempos, seja
dito a época dos começos da urbe até umas poucas décadas a seguir, neles as
crianças a correr descalças nas vias públicas também descalças empoeiradas e
com muito terreno baldio em volta, muitos capões de mato e mata à vista ou
terrenos vagos mas plantados com milho ou feijão quiçá havendo pomares em
arranjo caipira bom para roubar frutas, mesmo as que tenhamos em nossos
quintais dificilmente cercados por todos lados como ilha. Se esbaldam soltos na
rua a correr em brincadeira desde o secular pique e esconde-esconde e ainda
inventando mil outras atrapalhações e gritarias. Mamãe se empolga vez que outra
todavia quase sempre esgoela: o almoço na hora da janta, ou é que chama o garoto
para levar recado ou marmita na roça, pois quase todos adultos da cidade
labutando no roçado. A urbe nascente e crescente é talvez um prolongamento do
campo, ou este daquela. Não dá pra fugir desta ideia na colonização iniciante.
É a coisa assim.
E como vivem os pequenos. Uns
grandalhões outros pequenos em pequenos ou mesmo raquíticos ou apenas miúdos.
Todos, todos indistintamente sujos, a desesperar as pobres genitoras.
As mulheres trocam ideia sobre as
crianças, defendem-nas como podem; podem pouco naqueles filhotes indefensáveis
e incorrigíveis ou só angelicamente arteiros, apreciadores de lambadas: o velho
menos velho José Professor tinha a mão pesada macha de machucar; a Zefa leve
porém persistente no bater em traseirinhas e a senhora munida de forte língua,
nisto não destoando doutras mães, em maioria flagrante. A Gena não, sim batia;
e se inculpava no após e se desculpava no martirológio das justificativas,
porque adulto aprecia levar vantagem em tudo inclusive na desvantagem e isso é
próprio do homem comum; depois a pobre ficava a sofrer na consciência pesada; o
Xará, novo, foi cobrador batedor exagerador, segundo a oposição gênica; velho,
‘molóida’, segundo ainda a oposição, temendo a violência contra a prole. Assim
mesmo ambas genitoras a lembrar os mais saídos ou abusados filhos que elas
contariam ao pai deles quando voltassem da lavoura, às vezes com os mais
grandinhos e de enxada no ombro suados. O caso do João, velho o velho, não mais
indo com frequência trabalhar por aí, Xará nunca teve ganho fixo e suficiente;
no fim sobrava apenas à mulher corrigir os filhos. Já da parte do seu Zé, ele
era machão de dar de cinta, deixar de molho o moleque. Um dia bateu num casado,
um filho que virou inimigo do genitor, só visitando a mãe o pai a tratar de negócios
fora de casa na propriedadezinha sonhando ser um latifúndio.
Em pequeno e os outros pequenos na rua
em algazarra costumeira. Calças curtas, pouca roupa e pouca muda de roupa; o
pobre enfim. Válido para os meninos-homens, enquanto as meninas-mulheres a
trabalhar na cozinha ou até rachando lenha pras mães ou lavando roupa. Os
garotos na rua. Brincavam brigavam; os pais (as mães) se bicando, a tomar
partido, brigando elas mesmas às vezes pelas brigas delinhos; para quase
imediatamente as crianças fazerem as pazes a se desentender depois com mais
experiência. Enquanto isso acontecia os adultos embirrados emburrados pros
lados doutros pais. Gena tinha o péssimo costume de mostrar a língua ao desafeto.
Ah a língua humana.
E os adultos como se vestiam. Trajavam
a caráter como seus filhotes? Apenas a vestimenta comum, ele de chapéu sempre,
calças botinas cigarro; ela com vestido e por baixo a combinação, o vestido de
trabalho enfim, sandálias, uma que outra a fumar nesse vício masculino; a
maioria a usar sombrinha na moda da época portanto sem moda, moda que hoje
deveriam seguir, pois as sombrinhas e os chapéus descartados.
A residência rica de Zefa ou a casa
pobre de Gena, onde os maridos iam cantar de galo ou a beber ou a dormir seu
cansaço, as moradias eram simples, sem o luxo e sem o supérfluo que é já
supérfluo no consumismo atual. Nem por isso se deixava de viver. Ou mais: mais
viviam, por simples.
Nada disso afetando as crianças. Para
elas sempre e sempre é o brincar, ou no caso das famílias pobres o trabalho
antecipado e só brincando em horinhas roubadas às tarefas obrigatórias.
E se sujando para horror materno. Ah
menino ingrato e porco: mamãe deu-lhe a roupa de marinheiro, ótima para tirar
fotografia quando aparecer por aqui um profissional – me emporcalha o pano...
Assim. Quase assim. Ou não assim.
Questão de escolha.
Capítulo Décimo Quarto
Bastam três periquitos
para acordar um mundo.
Agosto vento solão brabo o pé de milho
a entortar inclinando ao impacto da natureza assoprada, o vento a fustigar a
areia a estrada a perna do homem em desandada pra casa segurando o chapéu de
palha, o botinão sulcando o solo de arenito decomposto a marcar a passagem
humana. Havia antes que o vento as desmanchasse mil e uma marcas, as pegadas
várias doutras pessoas até se poderia vê-las de volta, ele indo pra cidade que
aprumava a ser Marília, elas de retorno, uns passantes uma passante pobre um
pobrinho e uma pobrinha irmã a tentar acompanhar passos adultos com perninhas
curtas cansadas nos pulos e ¡o
que seriam passinhos comparados frente os passos do homem alto a cruzar com
eles em pernas e pés enormes, se os pequetitos a acompanhá-lo também! mas elas, as marcas, em sinal de volta e o
homenzarrão a varetar lá nas alturas sequer notando a gente nem respondendo o batarde
a passar de meio-dia; e também mais outros passantes igualmente indo da Serra
da Formosa (esta não chegando a ser serra nos moldes da linguagem científica, a
qual não interessa nem um pouquinho ao caboclo) indo sim no ‘pé dois’, diziam
desta maneira ou então ‘de a pé’ rumo à urbezinha já graciosa. Ia Seu Zé. Compadre
do compadre Xará, um que morreria brigado em morte morrida rápida instantânea a
qual não espera o discurso na visita a pedir quem sabe perdão: “Compadre me adiscurpa
aquele engano dos porcos, ocê não me deve nada, vá com Deus!” a gente num chega
a tempo... Porque seu Zé tornava do sítio e do roçado se falando fazenda e
pensando já latifúndio, a remoer o gasto com aquelas sem-vergonha, isto no
dizer de Zefa, os gastos enormes, os que não permitem investir mais... Contudo
voltando de a pé, sequer arreara a égua nova boa no trotar, indo no solão medonho
mesmo porque é pertinho sempre ao matuto o longe com pé na estrada. Ia abismado
tomado engrenado nas suas coisas: sequer vendo, vendo!? sequer escutando a
algazarra das maritacas afoitas nas árvores da mata e no voar bicar estragar
gritar nos pés de café a crescer e a florir depois produzir depois ainda a
colheita o secar no terreiro a pretejar melhor e melhor no melhor vender
aproveitar o preço. Elas não punham tais questões, ele. Zé não ouvia o casal
verde barulhento e ocorre que apenas dois papagaios inspirados capaz de
barulhar uma cidade inteira, a pequena Marília por exemplo, o mundo inteiro.
Não ouvia, ouvia o seu pensar.
Pensava, se via na lembrança no
cineminha que temos no cérebro, só pensando então naqueles carros...
Parara em frente da Agência Chevrolet,
não mais que uma casa de madeira no centro urbano, como de madeira todo esse
arremedo de civilização que agora abrangia Vila Barbosa o Alto Cafezal e se
autoengolira plantando residência de pau pra todo lado ao redor dos trilhos de
ferro e da Estação de Trem. Até fora ver a chegada do comboio parecença com
gomos de linguiça, lembrava bem o dístico de pano balançando ao vento e
estendido em cima dos trilhos: “Salve Paulista”; e a gentarada a grã-finagem do
lugar e autoridades mais na plataforma improvisada. Inclusive em meio à gente
esperando a locomotiva um automóvel formoso...
Ah o automóvel. Se via em frente da
Agência; ali três lindos carros em exposição na rua, a se oferecer aos
curiosos... Ele, seu Zé, por exemplo. Não parara mais de sonhar.
Num instante estão os seus, mesmo a
Zefa com o mais novo de colo, no carrão cheirando cheiro de agência e vindo...
oh não sabia bem sabendo vir de navio. Viu-se ao volante, imponente, a tornar
como agora do latifúndio com feijão arroz milho e fileiras de cafeeiros
plantados e prometendo, prometendo com um senão: temia apenas a friagem, o frio
noutros tempos de frio e a geada. Frenou buzinou acelerou tocou pra diante
acelerou mais ainda a roncar motor potente.
Desde então passou a observar melhor
nas vias públicas veículos como automóveis e caminhõezões que eram caminhõezinhos,
os fordecos e as ramonas em plena rua a exalar cheiro de combustível e fumaça,
uns carregados e roncando a chorar o peso. Notou inclusive no leito postes e
fios elétricos, a cidade se modernizava; e lâmpadas. Logo iria guardar a sete
chaves essas benesses civilizatórias em seu lar. Chegara mesmo a rosnar para os
seus familiares as dificuldades financeiras a tanto porém incluindo no gasto
futuro dinheiro a acolher os benefícios da eletricidade, chutando a lamparina e
o lampião. Logo rápido instante já se imaginava um ricaço com água quente
encanada servida em seu quarto de dormir e de fumar e de dormir outra vez o seu
cansaço.
Quando acordou, acordou. Suava em
bicas e se encontrava em frente à Casa
Rosa que era uma venda, lia a placa na parede de tábuas. Sorriu. Não vira a
estrada não vira a gente a passar no caminho não vira as vias da urbe não vira
estar quase na sua própria casa; apurou as orelhas: a Zefa gritava um menino
candidato a moleque arteiro.
E puxa! tinha era muito o quê fazer,
encontrar amigos, resolver negócios... com as meninas, disseram que ia chegar
leva nova naquela semana.
Capítulo Décimo Quinto
Psicologia. Todo bebum é bom, dá
a camisa do corpo e até metade do copo; não dá tudo, prefere beber sua parte
olhando o companheiro beber igualmente, em boa vontade.
As canetas de hoje em dia têm dificuldade
em aceitar que haja gente que fale sozinha. Pois bem, há gente que fala sozinha
no período em questão e aqui chamado primeiros tempos; existe certa pessoa bem
prática nesse deslize, deslize na opinião comum quiçá normal. Trata-se dum
irmão do irmão do Chico da Zica genro de Xará, tido por todos perdido, menos
mais pela sogra Gena e mais mais por Zefa a qual não perdoava fraquezas ou
apenas falhas humanas. Com certa razão em virtude do rapaz dar azo a tal
veredicto. Ah, um esclarecimentinho: a expressão ‘irmão do irmão’ em vista no escondido
haver a verdade seguinte e que é a de os filhotes de Zica, um bugiu diziam
elogios, esses taizinhos serem cada um de um pai e às vezes desconhecendo o
pai; não seria melhor dizer que o irmão de Chico fosse meio-irmão! fica dito.
Travava-se
a batalha do tempo no vicejamento das ditaduras no planeta e em exemplo que
seja mal exemplo também no país; aí por volta de 1937-38 o nosso governante queria
dar umas lições ditando democracia e impondo prefeitos nas cidades e por
extensão em Matília.
Reuniões livremente andavam proibidas, mesmo assim impossível
impedir uma rodada de cachaça no boteco e um dedo de esticada prosa, a prosa
solta com língua destravada pela aguardente, sabendo-se o vinho muito caro. É
nisto que entra o Zezico, zico por pequeno não podendo ser zezão por mediano e
José sendo no seu caso demais por respeitável. Era mano do mano genro de Gena,
esse genro que batia bêbado na Geninha empurrando a senhora com os filhos
pequenos em fuga à casa da mãe dela, alguma vez à casa da sogra a qual melhor
compreendia de entrevero cheirando a álcool. O filho Zezico – todos problemáticos
filhos da Zica malfalada e criadeira de casos, todos sabiam disso – o filho
tinha dois defeitos, além do terceiro que era ser solteirão isto grave com tantas
tias a sobrar, dois um o de ser o mais preto na família morena, supondo-se a
tinta por parte da mãe o pai falecido decerto menos escurinho que Zica pintada
no retinto; o outro defeito o de falar sozinho.
Entrava
na vendinha, mais casa de secos & molhados, característica da época,
entrava e daí todos olhando aguardando qualquer. O estabelecimento comercial de
‘secos & molhados’ a vender no balcão de madeira já lustroso já empoeirado
já limpo com pano úmido usado pelo vendeiro atrás de frente ao freguês, esse
negócio vendia linguiça salame mortadela pão bolacha ferramentas doces a dar
água na boca da petizada e é claro bebidas além dos panos e outras bugigangas
pequenas e grandes tudo vistoso; enfim lugar do abastecimento público, com
direito a muito fiado e listas das dívidas quitadas ou nunca pagas. No item
‘líquidos’, atração ao Zezico, neles a branquinha cheirosa e os tonéis de vinho
cheirosos; e os restantes ‘secos’ ou sólidos; no conjunto o cheiro próprio dum
armazém do tipo ia além com as portas fechadas, não se podendo esconder a
natureza desse tipo de comércio de então.
Então
chegava o rapaz, todos preparados. Porque aproveitador talvez, embora dissesse
não beber, o mano sim enxugava bem um copo depois as garrafas pra ter forças a
bater na cunhada dele; ele não, mesmo porque sem numerário, tomando algo apenas
se lhe oferecessem e isso raro ocorrer por contumaz pichado. Quando bebum
falava e falava pela rua sozinho; sóbrio ou no início das doses contava estórias;
algumas engraçadas inventadas, outras só no acaso criadas. Todas repetidas e
mais repetidas se a libação e em falta de equilíbrio propenso em ver cobras e
lagartos. Uma começava sempre assim: em 1932, na revolução, os ricaços querendo
impor poder no mundo em troca de constituição, que num sei o quê seja, tinha um
certo caipira e ele foi pego na estrada pelas tropas de São Paulo: você é o
quê? respondeu mineiro; apanhou. Mais pra diante preso por outras tropas: você
é o quê? respondeu, experiente, paulista ora! apanhou dos mineiros até dizer
chega. Mais adiante aparecem homens fardados, ele sobe na árvore, medroso.
Indagam lá embaixo: você é o quê? ele: “fruita”. Mais o narrador que a plateia
a rir, às vezes a gargalhar gosmento. Ninguém a lhe dar crédito mais nem a lhe
pagar trago; em não ser os desavisados forasteiros – nesse tempo apareciam
muitos para tentar a vida na frente colonizadora atrativa. Zezico um pouco
irreverente ou desbocado apenas, às vezes servia de jornal noticioso: “o velho
Xará, tibuf! caiu agorinha morto e...” seus comunicados eram bem onomatopaicos
e ainda teatralizava o contar. Isto nem sempre lhe valendo prêmio em oferta de
bebida. Saía do armazém ganhava a rua e ainda teimando em ver um público de
boas orelhas; quase sempre o tinha nos moleques.
Apesar
da ausência do público escutante sobrava o imaginário, este respeitoso paciente
com os de língua solta. E o público menino sempre ou para gozar o pobre ou em
aposta quem herdaria seu chapéu, ótimo objeto para brincadeiras.
Assim
prosseguia sua jornada o homenzinho quase folclórico pelos bairros da urbe nascente.
A
falar sozinho, não às canetas de hoje sim a tentar fazer crer certa Caneta com
pedigrí etc. e tal. Se é que ela, nobre de sangue azul, possa se meter com o zé
povinho.
Capítulo Décimo Sexto
Toda mulher é bela,
até prova em contrário.
Porém dona Zica não era. Era sem
sombra de dúvida a opinião da nora Geninha e das outras também, quase sempre
elas não casadas no padre só juntadas com os filhos da bugia. Geninha a dizer
assim à mãe para rirem, porque a maldade é engraçada. As comadres em volta da
casa dela igualmente não a tendo em bom apreço; apressadas talvez no julgamento.
A residência das outras vizinhas semelhando a dela em restolhos de tábuas ou
sobras das serrarias que desde o princípio foram montadas, sobretudo no Alto
Cafezal; e portanto com muita fresta nas paredes das mesmas, e muitas baratas e
nojeiras outras? Respondemos à Caneta que sim sendo fácil supor na pobreza que
imperava. Na miséria Zica, ela a viver de expedientes como lavar roupa de
patroas pobres; tudo isso para tratar dos pequenos, o Chico o primeiro a casar
e a lhe trazer para sustento os netos ou só para a sogra brigar com a nora pelo
filho e os filhos deles – coisas das relações humanas, sempre críticas no sadio
lema: na casa em que falta pão todos gritam ninguém tem razão, que é um ditado
popular. Assim.
Verdade que a senhora colaborava um
pouco a formar opinião dos conhecidos por ser bastante ranheta briguenta
metediça e cobradora; a afugentar os seus do seu tugúrio.
Se fosse residência, não era, moradia
tão pequena a de Zica, ao menos exígua para tantas bocas parentes, tal moradia
sendo entretanto enorme na área. Digamos que seu quintal a tomar todo um lote,
sem qualquer registro formal embora; o espaço rico em moita e mato com muito
cacareco atirado ao léu. Sujeira, dizia a oposição vizinha, sujeira realmente
mas nada a vizinhança em ter com isso, isto válido na época e após a época,
sobrando então para nós e à Caneta. Enquanto os quintais desse tempo sempre
grandes e quase sempre também plantados ocupados utilmente. Nesse ontem. Hoje
cada metro quadrado tendo construção de tamanho quilométrico na ocupação total
de espaço e se não couber toda ambição assentam-se blocos pra cima e mais àcima
ainda, visto o metro caríssimo; nos primeiros tempos marilienses não: a chegar
até ao desperdício. De fato o milho o feijão, enfim pequena agricultura nos quintais
e os pés de frutas eram o que mais se via. Entretanto no pedaço dela não, o
desleixo. Ou a faltar coragem, para não dizer por causa dum fator cultural
negativo atingindo os pobres, os de extrema pobreza. E por ser velha a velha?
também por isso, contudo não se sabendo direito sequer a idade dela: Zica não
tinha seu registro de nascimento (de casamento seria exigir demais) não tendo
igualmente nenhum papel oficial e sequer a ideia onde os inícios de seu
analfabetismo, julgando aqui desde já que os bebês não saibam as letras. Aí
morreu – não de morte morrida sim de morte sofrida, esta lenta e sádica ao
masoquismo dos negativistas; com muitas tosses escarros e ais, uns a temer a
tuberculose, moléstia que vingava bem desde fins do século anterior no mundo, a
tuberculose amiga da fome e da miséria; e doença característica dessa época na
colonização paulista. Cercada dos seus familiares por todos lados a dar adeus à
matriarca? nisto um quem sabe, e uma certeza sem hospital, que aliás eram
poucos e só aos muito ricos. Não entremos nessa dor; a sobrar a farmácia ainda
com ‘ph’ a que chamavam decerto botica. Zica e sua gente e os seus arredores se
valendo mesmo das panaceias habituais caboclas como uso de ervas e chás
caseiros. Isto outra questão na qual não entraremos e nem a Caneta com seu
pedigrí e erudição, por não conseguir sair mais...
Certo desafeto de Chico e do restante
da penca e de toda prole sofrida, aqui incluindo o bebum Zezico que não bebia –
todavia maior desafeto da matrona esquelética em que se transformara a senhora
– a dizer à guisa de espírito satírico, por sinal bem desenvolvido no povão,
que não findara ela de tuberculose mas de feiura... Ai que língua.
Falou nesses termos, quase a assustar
os tocos das ex-árvores da ex-floresta que existira naquilo que davam nome de
rua. O que nada diminuindo aquela periferia urbana, pois na rua São Luís, então
centro de Alto Cafezal ou noutra via também central e que seria veia básica de
Marília, a avenida Sampaio Vidal, nelas e noutras ainda se arrancavam tocos e
raízes para o futuro calçamento em paralelepípedos.
Capítulo Décimo Sétimo
Não será impossível esconder-se numa cidade pequena?
É verdade sim haver carros em
profusão, mentira tantos assim; havendo no entanto inclusive agência, a Agência
Chevrolet, portanto máquinas com motor a explosão nas ruas ainda acanhadas,
viaturas grandes e formosas para a época. Contudo o veículo por excelência
mesmo o cavalo. No começo dos começos muitos animais, embora menos mas
existindo ainda muitos exemplares no fim dos primeiros tempos; aqui o fim a
esbarrar com o início da Guerra, a Segunda Mundial. Cavalos de todas cores e
idades, de todas procedências, chegando em tropa; cavalos mesmo e cavalos que
não eram cavalos, como as éguas coiceiras e os muares: o burro trabalhador a
mula teimosa. Atrelados nas carroças com roda de arco de ferro e montarias a
plantar estrume no leito da via pública ou somente presos no cabresto e em
corda numa árvore ou num pau fincado para o mister em frente da venda enquanto
a compra a dose a prosa. Muita vez na companhia dos cães à espera também do
amo. De um modo geral todos eram cavaleiros nesse tempo, o Zezico mesmo caíra
um dia do lombo ou da sela pelos zigue-zagues da aguardente; todos a dirigir
cavalo como hoje todos a tirar carta, esta expressão a dizer que legalmente
podem dirigir bem ou mal o carrão.
Por ser o veículo por excelência a cavalgadura,
virou importante também o fornecedor do animal e igualmente o surrupiador dele
– o ladrão. De galinha e de roupa no varal quem sabe a fim de que o objeto não
tomasse sereno; isso existia bastante e sendo muito comum nas áreas pobres. O
ladrão de cavalo ficou demais valorizado, visto se falar muitíssimo nele e
dele. Importante na cidade em crescimento por ser ela voltada à lavoura que
vicejava em volta e ser também abrigo de famílias roceiras, mui comprometidas
com esse animal, o equino tão harmônico. De maneira que refletia em Alto Cafezal na Vila
e depois na urbe mariliense os feitos desses ladrões. Um tio do Chico da Zica
ficara famoso pelas tropas que ‘comprava’ e vendia na região; e famoso por
constantemente preso e constantemente fugindo de policiais, vivia fugindo; mui
raro ser visto na casa da irmã, sogra de Geninha; ou só fazendo sua visita na
calada da noite. Em suma os ladrões de cavalos viraram heróis negativos de
muita presença na localidade e em todo interior paulista.
Isto posto entende-se o grande
trabalho dos policiais da época a procurá-los e prendê-los, os polícias quase
sempre gente vinda do Nordeste e sem família nas proximidades; posteriormente
os servidores da segurança constituindo aqui família com lar e filhos. Nesta
altura já debandavam os famosos afanadores de cavalo alheio; tendo que se engajar
em tarefas mais de acordo com o tempo que viria, como por exemplo aplicar
outros golpes ou tratar do roubo de automóveis. Foi sumindo, até chegar esse
profissional a ser do folclore na região da alta paulista ou artigo de museu
lembrança e estória.
Contudo o que afirmamos, ainda antes
milênio e depois milênio: a condução realmente por excelência foram as pernas
os pés os passos as marcas no solo em verdadeiro carnaval ou algarravia para
registro da gente em todos caminhos, os sinais da humanidade. Sinais de pés
grandes como o do grandalhão Zé compadre de Xará, ou pequenos como o da miudeza
dos filhotes de Geninha. Na área que estamos seguindo, o vento, sempre o vento
e não só em agosto e na estação seca, o vento recolheu os sinais tampou os
sinais conduziu em fragmentos os sinais e atirou a poeira no Buracão; mas o
homem não percebeu...
Capítulo Décimo Oitavo
Para o comum da gente
A gente vira defunto
Para virar santo
Entretanto é defunto
Por não ser santo.
Nós,
nós dissemos ou apenas nos dissemos – aquele negócio da gente estar a falar
pensar dispensar descobrir a parede e todos sabendo não terem ouvidos as
paredes e aí nos pilhamos talvez a conversar com o sustancioso nada, tadinho de
nós – nós dissemos à Caneta: querida Caneta, nobre assim cheia de pedigrí,
querida, nos fins dos primeiros tempos Xará tava em maus lençóis. Diga-se em
passagem que a mulher punha lençóis limpos trocava sempre tratava bem seu homem
agora já não mais e a prole se acabava continuava só a prole que havia ele feito
naquela barriga parideira e ela falava a gozar que Xará num dava mais no couro,
isto uma verdade dolorida, e portanto dali em diante não teriam mais filhos –
nem ela querendo quisesse pular a cerca, completamente estourada ela e a cerca
e isto um absurdo por velha Gena e feia, a feiura (aqui protestamos também por
desejarem tirar o acento agudo de ‘feíúra’ deixando a pobre palavra ainda mais
feia!) sim a feiura defendendo sua honra – não teriam novos filhotes em suma. Tava em má
situação não por haver brigado com seu Zé, compadre Zé pai da Clarinha, aquelinha
que o embirrado Berto Intalianu tentava conquistar, Clara afilhada do velho
acabado enfim, em fim de carreira o Sr.João Xará; nesse tempo brigado com o
amigo pela porcaria daqueles porcos, o compadre comprara ao compadre, levara a
prenda vendera a partida comera parte dela com sua penca de filhos e a Gena comadre
faladeira em pondo fogo nas relações dos homens – então um a dizer pagou outro
a desdizer não pagou e isso, quer dizer o bate-boca, isso sim até à inimizade
às portas da morte, a morte boa de conversa a convencer compadre Zé em ver o
outro fechar os olhos fechar cruzando as mãos fechar o caixão, aqui nem ele
fabricando a urna como o fazia nos velhos tempos e outrem terá feito decerto; e
quem sabe José a chorar crocodilamente no quarto infecto com cheiro de morbidez
e elegia de poeta capiau. Em ver o outro sim, não chegando a tempo, o Xará se
foi com mais esta mágoa (tendo outras mais, mais miúdas e mais graúdas, na sua
coleção de dívidas na vida humana endividada). Tava em maus lençóis morrendo. A
Gena: João, a tosse João, tem um doutor médico agora em Alto Cafezal , num
precisa nem passar perto da casa do Compadre, e aí... Aí não ia. Sem
importância, reconhecemos, pois que se foi de morte morrida num tibuf! o qual
deu gosto em ver e a assustar os próximos.
Quase
bem antes ou apenas antes, quando a gente sequer pensa nos negativinhos dos
positivinhos-negativos em que a gente mente descaradamente e veementemente se
precisar: menino (aqui não era aquele primogênito que morreu olhando com ódio o
pai o pai a lembrar João Mateiro, impressionante como parecia o Mateiro!
poderia inclusive jurar que a Gena pulara a cerca com o chefe mandão na picada
do mato na mata desmatada ou a desmatar mas isso chegando ao absurdo tendo em
vista que o matara a facão anos antes de conhecer a esposa a qual o obrigara
passar vergonha na igreja para casar consigo no padre e o padre tinha também
uma cara de sem-vergonha e nisto o moço Xará se benzendo a temer igualmente a
vingança possível do padre depois morto; não, não era aquele menino era outro
filho:) menino, vai no portão dizer praquele sujeito que eu num tô: saí. Iria
dizer que o serviço tava fraco, não arranjava sequer um quintal pra carpinar e
daí sem dinheiro; não iria pagar o credor mesmo. Vai logo, trem! O trenzinho
correu transmitir a verdade da mentira do pai. Em família então, surgiam sempre
exemplos de mentirinhas santas; das que caso seja a amigos viram logo engano somente.
Agora no estertor, sem que soubesse, visto a morte morrida caipira não avisar
que vem vindo – a morte chega e pronto. Entretanto lá por dentro de sua velhice
as peças usadas as pacueras parece que iam ser postas pra fora pela boca de
falar mentirinhas inocentes que não prejudicam quem ouve só pouquinho e faz
estragos no fim da vida do ser, pensa o ser. Nesse ponto chega Cumpádi.
Compadre
Cumpádi fora amigo de todas as horas e andava longe fazia tempo em suas
andanças. Agora se contam as novidades. Quais? O Cumpádi sim tramelava, vez que
outra também à orelha da comadre Gena; ele quase só ouvindo, fraco. Pensava
dizer coisas, o som ingrato não fluindo. Xará pretendia transmitir as desgraças
tão agradáveis ao homem comum contar; diria do quanto compadre Zé lhe devendo
em favores e dinheiro e não pagava e por último nem se viam mais, brigados por
uma porcaria qualquer das que a gente nem se lembra mais direito quando lembra
as coisas e tudo o mais; queria transmitir ao Cumpádi viajador as outras coisas
da Vila Barbosa da Vila Alto Cafezal da vila nova que depois chamariam Marília,
ah Cumpádi, tem uma novidadinha e tanto: veio pra cá um gringo, um tal de
Píter, rico pra danar, tem casa grande como palácio de rei, tem fazenda que vai
até na barranca do Buracão e em baixo rumando para o Rio do Peixe até chegar ao
Rio Tibiriçá; esse gringo é pequenininho como eu porém ricaço e a gente num
entende o que fala, mas paga direitinho a gente, não é como o compadre Zé um
caloteiro e... (parou Xará o sopro por cansado no esforço); queria dizer ainda
do seu desentendimento com a patroa a patroa toda hora ali não podendo ele
falar não fosse baixo altos podres para a esposa não ouvir – não podia, por
saindo apenas soprinhos de voz. Contudo Cumpádi entendendo as coisas contava e
mais contava ele mesmo suas coisas às orelhas doentes do amigo. O amigo
desejante mais e mais ainda desabafar suas próprias coisas; enquanto Xará não
conseguia desabafar e devendo fazê-lo mais que o amigo por direito a enfermo as
coisas, as que o não deixavam dormir em paz, não o deixava dormir sequer, a se
revirar toda hora. Até que se destampou de vez e disse e falou e gritou e...
Cumpádi, eu matei Mateiro com o facão! dei nele vinte ou trinta faconadas, fiz
dele picadinho, pus a culpa em Pexêra e não sei se creram: dei eu no pé neste
mundo de Deus, o Diabo, o Diabo quer me pegar, Cumpádi!!! Berrou berrou berrou
a assustar um mundo, se limpou na consciência, pensou. Tomou consciência ninguém
haver escutado, sequer alizinho Cumpádi.
O
Cumpádi: compadre Xará, tenha calma, assim você morre. Aí chegou Gena e chorou
seu choro de viúva e não queria parar no desespero ou não conseguia aceitar
aquela perda. E os filhos, os que não haviam se dispersado pela vida, e os
vizinhos e todos ouviam as loas da mulher sobre a bondade que fora o homem, o
homem quando o povo imagina ter virado santo.
Capítulo Décimo Nono
A História: com
quantas mentiras se faz uma verdade!
As Mil e Uma Noites: Primeira Parte
A inserção presente
refere-se às Mil e Uma Noites, ah que saudade da bela Cherezade! Aqui apenas
como artifício para ligarmos os tempos primeiros, após os tempos primitivos de
Mateiro, ligar enfim os primeiros tempos à Segunda Guerra Mundial. Coisas de
literatos que, não obstante protestos veementes da Caneta, fazem a elisão
simbolizando as Noites como anos e séculos que se passaram. Pode! Pode.
- - -
O tempo não para, para no tempo
querendo se antecipar no tempo o erudito a fim de nos azucrinar no tempo que chamamos
hoje tirar o acento no ‘pára’ para confundir melhor e continuar em sua
igrejinha de clube fechado, enquanto o povão faz a língua escrita
analfabetizando errado o certo da língua falada, dizendo as coisas sem
concordar na concordância nem a concordar com o grupo hermético de iniciados na
língua padrão que detêm a cultura; ah querem tirar o hífen também, numa penada
só de assinatura e com auxílio da bravata política. O que mui pouco ou nada
atinge o povo, o qual não ‘sona’ o traço em sinal de separação. Este comentário
vem a propósito do tempo sólido concreto invisível que não para: lenta
matemática logicamente vai à frente sem cessar; sem correr igualmente; quem
disse em contrário que ele corre, que voa (isto já poesia gasta) que se desloca
loucamente apressado. Não. Porém anda, se constatando o passar na esteira os
‘aconteceres’ que acontecem, desde antes de João Mateiro, nos dramas de Xará a
assustar Gena, quando não com isso com os roncos em barulho igual serrote, ah
pobre viúva; claro ela, ele já morreu. Para frente nesse detrás aparecem outros
acontecimentos ligados a eles, sim ligados a eles e a seu Zé e à dona Zefa e
aos convivas da época – em seus descendentes. Estes agora a viverem na Guerra.
Os
herdeiros (de quê!) dos velhos pares em ótimos desentendimentos conjugais, eles
sabem e se não sabem a Guerra vivem-na assim mesmo no seu impacto e depois em
suas consequências, estas a ecoar até hoje. Isto porque não se atinge de
imediato 66 milhões de vítimas a troco de nada: o tempo cobra; se não
lerdamente como nos séculos anteriores, com a fogacidade de agora, cobra sim
mudanças. Ora, o ser humano pensa apenas em mudança tecnológica e o tempo exige
a transformação moral, para o bem é visto, ou iríamos retrogradar afundar
perder sumir...
Tomamos
neste espaço, apesar espernearmos contra a vontade da Caneta, tomamos uma
vertente de comparação chã; mas será possivelmente longa.
Nela
fiquemos no momento com esta Primeira Parte; a seguir um seu desdobrar.
Desdobrar da Primeira Parte
A
esteira não se detém, o tempo rola, vagaroso que seja, rola. Para num corte a
nos deparar com um dinossauro. Um dinossauro! Não, não é engano, às vezes vemos
uma lagartixa a perseguir um insetinho na parede, e como é que ela não cai do
teto perto da lâmpada acesa onde vicejam os alimentos... Não sabemos, sabemos
não ser lagartixa: dinossauro mesmo em carne e osso. O velhote Pedro.
Uns
a dizer que se deve pronunciar píter e o sobrenome então, ah Deus nos livre. O
sobrenome do cidadão, impronunciável; os gringos deveriam criar nomes de mais
simples sonância, ao menos com vogais bastante e menos consoantes, faláveis; não,
num tão nem aí eles lá.
Peter anda acabadinho ou é
mal-acabadinho, veio de longe ver um terreno com sabor de latifúndio em
herança, só ver. Viu examinou cheirou o ambiente e o ar, aquelas matas exuberantes;
nem pensou que houvessem Mateiros lá dentro e cachaças e encrencas, só árvores
lindas. Se apaixonou pelo lugar. O que não é possível imaginar do comportamento
estrangeiro: curioso como esses tipos esquisitos não se casam, menos ainda com
mulherinhas da terra, mais pra macacas gritadeiras que para europeias
belíssimas de grande cultura. Solteirão. Montou casa e: ah cruz-credo, uma de
alvenaria! isto outro dinossauro a sobrar no ambiente caboclo. Viveu até morrer
morreu logo, encontrado num quarto do palácio de tijolos em meio a casebres de
tábua. Os lacaios uniformizados? claro, alguns servidores apenas, proibidos a
participarem dos ‘dizem que me falaram’ e do contato com comadres curiosas.
Isso. Não somente isso. Ouvia-se do palacete certos sons, belos sim porém desconhecidos,
vindo da vitrola ou toca-discos do homenzinho, homenzinho realmente não sendo
maior que Xará; ¡ora, por quê
essas esdruxulices têm que ser uns grandalhões gigantões de olhos azuis e
cabeça dolicocéfala com ponta na nuca!
Pequeno, quieto, escondido? sabe-se lá; e apreciador de música sublime.
A elite hoje zomba dela na escolha do nome, zomba através de também sublimes discussões:
clássica, de concerto, erudita, elaborada, sinfônica, de câmara e coisas desse
jaez; aí não se entende, aprecia tais sons assim como o Míster qualquer-coisa.
Contudo morreu, sequer aguardando o fim da II Guerra e menos ainda esperou suas
fatais consequências.
Antes
pouquinho de falecer, na hora do desenlace mesmo, ouvia e o vento atrevido
levando a pérola aos porcos habitantes do em redor, ouvia a Cherezade, escrito
na capa do álbum “Scheherazade” de Rimsky-Korsakov, uma suíte da saga de As Mil
e Uma Noites. Decerto
os avós dele mais longe ou os pais próximos a ouvir nas vitrolas RCA de
manivela estes sons maravilhosos do fim do século dezenove; ele já em 78 ou
mesmo em 33 rotações por minuto no prato o disco. Inclusive o LP trazia
uma capa belíssima na sua arte então mui cultivada: uns riscos coloridos
mostrando um árabe voar em seu tapete mágico. Isto os porcos não podiam ver, só
escutando a pérola... Uma gravação da Royal
Philarmonic Orchestra, conductor Sargent. Antes do antes pusera como seu costume um disco de música lírica, certa
ópera que os mequetrefes do palácio sabiam ter de não barulhar nessa hora suas
coisas; tanto assim que sequer ouviram os acordes finais, não de Cherezade mas
da existência do amo.
Capítulo Vigésimo
Moleque é uma máquina incontrolável de berrar.
Segunda Parte das Mil e Uma Noites
Continuemos nosso belíssimo esforço em
nos livrar da Segunda Guerra e ir na direção do após Guerra...
Faz uma força
danada, imensa, a Aparecida na casinha em plena Ventania , a
ventania ciscando os olhos da gente, dela não, protegida na casinha; não
inteiramente protegida, protegida só pelas tábuas da latrina. Aqui
a personagem clarissimamente defecando numa privada da época tanto no meio
rural, é o caso, quanto no meio urbano. São construções de madeira com um
assoalho e um buraco nesse chão também de pau, donde sobem gases e o fedor das
fezes lá embaixo; também brotam nunca se sabendo como desse horrendo vão
baratas para horror das fêmeas da espécie gritarem. Muito mais tarde na cidade
de Marília a lei exigiu que embora as casas fossem de madeira as privadas
seriam obrigatoriamente de alvenaria. A roça onde está Aparecida não era atingida
pelo rigor da lei; quando muito tendo uma latrina mais ou menos decente; isto
porque o caboclo usa o mato mais com frequência, sobretudo o macho que é um
animal menos preocupado com as coisas morais... Enfim tudo era de madeira na
região; e no Bairro Ventania onde Aparecida; lá fora moleques gritam e apupam e assobiam e gozam a menina de uns dez ou doze
anos e por sinal neta herdeira de Xará. Seria por certo Aparecida da Silva,
sabe-se lá, lá é apenas Cida e fede muito, muito mais a casinha de tábuas
encimando a latrina comum, menos malcheirosa embora que a mente emporcalhada de
muitos seres terráqueos extra-terrenos; contudo sem culpa: um destemperinho por
ingestão gulosa de carne de porco, em casa, em casa dela na roça se procedeu à
matança da porca gorda estufada rachada nas suas banhas e aí os matutos parentes
a preparar chouriço com o sangue torresmo com a pele etc. e é claro a carne; a
esganadinha paga um aprendizado no mictório público escolar fedorento, a mestra
já cobrando a volta no recreio dos alunos à sala em pregação dos grandes
valores nacionais ofendidos pela Guerra, mas qual: a garota geme, geme também
na gritaria a torcida organizada a custo sugada pelas ordens da professora
solteirona dona Santa, nada em ver com o Santo Intalianu semelhantemente de família
peninsular e que durante a conflagração ficou em situação difícil por ser
torcedora do Eixo, enquanto seus familiares perseguidos em Marília; ela,
tadinha, cheia de ‘estufares’ nos peitos no mostrar patriotismo brasílico à
sala de garotos e garotas barulhentos; pudera! com um prato cheio: o prato
cheio, apesar de instâncias de Santa, não sai, sai depois envergonhada e entra
na sala e a meninada – quá quá quá. Abaixa a cabeça, olha a brochura, trêmula,
rabisca qualquer a dizer “estão falando comigo?” responderia a torcida “tamus
falando docê”.
Tem
o bairro uma história. Conta-se que a Ventania, à semelhança do Barbosa e do
Alto Cafezal engolidos por Marília, ela pretendia virar cidade. Os mais afoitos
ou sonhadores ou só apressados entre os moradores capiaus do lugar ‘grandiosavam’
um quem sabe a urbe portentosa; nunca passou em ter apenas a escolinha onde a
molecada não aprende demais porém se diverte à beça, ah tem um macaquinho do
João Leiteiro, o dono do único boteco na localidade, preso em corrente, o
macaco seja aqui esclarecido, ótimo para meninada no recreio da escola
azucrinar atirar pedra e casca de laranja ou qualquer outro resto do lanche e
assim infernizar o paraíso do mono; um dia arrebentou a corda quis esganar os
alunos de Santa. Tem portanto a escola a venda e um campo improvisado para
aperfeiçoamento da pelada (a Caneta desconhecendo se à época o futebol com esse
nome, isto senão, prossigamos:) e tem certa máquina de beneficiar arroz, não a
fim dos meninos escorregar no monte de cheiro ácido da palha de arroz, não:
para limpar arroz e café; muitos outros armazéns parecidos possui a região, a
Ventania tem essa máquina. Que mais? mais nada, ah sim uma dúzia de residentes
e a rua principal e única da futura cidade, a qual nem chegou à condição de patrimônio
nem de vila. Um belo dia, nisto já na terceira parte das Mil e Uma Noites,
nesse belo dia foi engolida por Marília em seus tentáculos rumo à Serra da Formosa
na zona sul e às nascentes do Rio do Peixe, a crescer quase em explosão. Para
permanecer ela também uma cidade pequena do interior, ou seria uma urbe de
médio porte?
Desdobrar da Segunda Parte das
Mil e Uma Noites
Nesta
segunda parte das Mil, artificiozinho para mostrar anos no tempo na Esteira
simbólica em passar desde a época da Guerra até à década de setenta – nesta nos
deparamos com milzinhos acontecimentos e um pior acaso: a Caneta dorme! Ora
praquê exclamação se todos dormimos acordamos fazemos besteiras e dormimos
outra vez, por que não Ela! Dorme após decerto elucubrações surrealistas
conforme traço de sua personalidade, nada demais enfim dormira? Sim um dormir com
pedigrí, mais proximamente sonolência estando em nós atenta; visto apenas as
cabeças ocas não se cansarem e dormirem de verdade, na mentira de verdade não pode
haver sangue azul a dormir de fato.
Esta
digressão tão só para entender o viver dos descendentes de Xará com seu facão
ou os de seu Zé Professor, pioneiros de uma região geográfica.
Então
Ela indaga assim de chofre nós pegos desprevenidos. Diz, não lhes parece um
tanto chocha e sem sustância diriam seus caboclos invasores da mata sagrada e
fundadores da urbe... ‘portentosa’ falaram! Não importa, importa que não
narraram na primeira parte deste texto maluco a história dos heróis...
Reconheçamos,
muito se poderia inserir no dia a dia da noite da gente, os sofrimentos as
conquistas os fracassos as esperanças e mil lances em que se engajaria a mesma
a fim de arremedar os disparates do planeta (quase a chegar à globalização
antecipando termos em voga hoje; e aí poríamos a defesa do meio ambiente e
antes o estrago do meio ambiente, por ser bonito e de acordo com o modismo
atual; então preocupação absurda – a ignorância é um absurdo que não se vê)
sim, a região estaria macaqueando o mundo para se pensar civilizada.
Não
obstante... Nada disso achamos correto: não estamos a rabiscar um tratado de História
porém tentando esboço numa obra literária; apegando-nos à gente tão somente
abrangente e insuficiente quiçá. Quisemos – não atingimos as exigências
canetais! paciência – quisemos tomar apenas o sintomático da vida na vida
inicial de Marília; a luta (inglória?) do ser da época dos primeiros tempos; o
que não difere da luta doutros seres humanos noutras partes do orbe. Somos, queiramos
ou não queiramos, somos todos pernas curtas e a ter muita imaginação e desejo e
esperança e queda. E o retomar.
Capítulo Vigésimo Primeiro
Chove a cântaros. O homem é um deusinho que já
conseguiu com tiros de chumbo fazer chover em algum lugar, mas não consegue
fazer parar a chuva nem a enchente. Descobriu ter havido remotamente água em
Marte; e irá pra lá um dia reclamar da falta de chuva.
Chove, chove sem parar, para um pouco
voltam as lágrimas do céu, o povo se encoruja se desencoraja encolhe recolhe o
ser nos seus cantos. O povo do galinheiro desenxavido, que se há de fazer diz
com maestria o galo, o qual João Xará antes de morrer (é claro, ora bolas)
havia trazido meio emprestado meio comprado e o compadre Zé Professor a gritar
precavido nos miolos “esse não me pagará, ponho nos lucros & perdas da
fazenda”, esta não mais que um sítio e sonhava um dia chegar a latifúndio;
comadre Zefa a rabujar – o Zé só fala em dinheiro no entanto gasta a rodos com
aquelas perdidas! o compadre Zé falando grosso e mais grosso ainda com o cigarro
na boca assoprado de lado, falando não ‘perda’ mas “perca”. No que acertara
nessa dúvida da certeza que as mentiras insuflam nas verdades – acabou por não
pagar Xará, viraram o bico por causa do galo carijó até à hora da hora da morte
morrida. O galo diz ao harém que se há de fazer! Com razão, suas companheiras –
nenhuma com aliança no padre quase se podendo falar sobre elas serem namoradas
como é o falar de agora sobre as amantes de antanho, elas. Elas estão
encolhidas ninguém conversa e deveria andar um barulhão, só a choca grita os
meninos eles todos a aprender a ciscar e ela berra a possibilidade do gavião
apreciador de pintinhos. Todas a escorrer água da chuva, antes haviam passado
um óleo defensor extraído da traseira nas penas e olham desconsoladas o terreiro
de terra molhada, nem o Peri a lhes dar carreirão, a menina Cida trouxe
agorinha uns restos de arroz que azedara e gente não come come a ave, fizeram
um estardalhaço a disputar a comida depois cessou tudo, tudo molhado agora. O
galo se espreguiça, que lhe importa que a vó da garota tenha dado à nora ele, o
galo, e mais meia dúzia de galinhas: Vicência, disse Gena, fica com essas
penosas pois na cidade tem uns vizinhos sem-vergonha que já comeram metade
delas e ainda roubam também roupa no varal da gente. Se olham se entrolham em
ver o que ver, depois da chuva, se é que a chuva pare, depois tem mil vermes a
brotar do solo e insetos voejantes, bons pratos, não agora, agora é o
molentamento a umidade os pingos as gotas e até um desânimo. Tem aí o carijó
pai de todos esposo de todas, todas galinhas a carijó a preta a branca a
vermelha a marrom a verde... a verde!? ué uai diriam se mineiros paulistas
nesse terreiro perto da cidade ou só do bairro Ventania que dista bem uns nove
quilômetros, tem verde? Tem, haviam os ‘galinhas verdes’ da direita cheia de
anauês dos bons. Ainda sobraram na cidade algumas, agora um pouco embaraçadas
pela Guerra: o Eixo perdeu, festeja a urbe seus mortos e vivos mutilados ou
apenas mutilados na cabeça. Tinha um cidadão, o Luís, que fora ver os estouros
na Europa como pracinha e voltou inteiro. De repente, em meio à conversa amena,
largava a presença na conversa e corria de olhos arregalados falando
desconexos; medalha em prêmio das bombas. Os filhos de Xará os de seu Zé os
netos dos avós foram inclusive assistir ao desfile de chegada a marcha dos
heróis vivos a subir em cadência a rua Nove de Julho e a entrar pela Avenida
Sampaio Vidal e... ah a chuvarada, o desânimo, o não ter o que fazer, ninguém,
nenhuma galinha avermelhada ou marrom ou a preta a sentir coragem sequer
aplacando a fome braba; porém o chuveiro quase se acalma para quase parar e
elas esquecem, porque galinha não pensa, pensa quem pensa, e assim veem longe
logo perto as aleluias a anunciar o fim da água e voam e tremelicam qual outros
insetos e assim as aves se arriscam a predar as presas esvoejantes e se
divertem e fisgam e derrubam e comem apressadas e contentes, até o galo que foi
de Gena e pertence agora à Cidinha sua neta.
Capítulo Vigésimo Segundo
No mundo em que vivemos, é quase impossível
safar-se à violência: ou somos vítimas da violência, ou presenciamos a
violência sobre outrem, ou sabemo-la existente, ou só a deploramos para ficar
na moda, ou piormente somos nós a violência em nossa ignorância.
Tinha a Cida, herdeira da nobreza do
sangue de Xará, bem quentinho já esfriado pelos vermes no cemitério de Marília,
o cemitério a enganar os outros fica na avenida da Saudade igual outras necrópoles
das outras não-metrópoles os quais sitos em suas Saudades
também; a jovem vinda através da filha dele Geninha da comadre Gena comadre da
comadre Zefa – ambas viúvas agora por volta de 1950; uma sendo mais viúva: Gena
herdou tão somente filhos filhas netos dívidas conhecidas impagáveis e as
desconhecidas não apresentadas perdoáveis, isto porque a gente entende a gente
com medo a ofender a gente morta; a outra viúva menos viúva tendo em vista ter
por herança além da residência umas terras doidinhas pra virar latifúndio mas havendo
“aquelas porcas”, isto em palavras textuais de Zefa, elas comido o dinheiro do
Zé; portanto a Zefa pouco mais que viúva pobre apenas menos viúva sem eira nem
beira mesmo porque, fala a comadre Zefa: o compadre Xará, que Deus o tenha,
nunca deu conforto aos seus e deixou a comadre na miséria e aí... ah, deixa pra
lá: em suma ficaram ambas viúvas. Cida por essa época, época em que teve de
faltar às aulas de mestra Santa pra não encarar os moleques debochados; ela
então sequer pensando em contrair mais tarde núpcias com o Berto Intalianu,
viúvo cheio de casas e outros bens, sabido a sobejo que as bonitas não escapam
de casar e nunca viram tias, mesmo a família protestando pelo absurdo duma
certa mulatinha graciosa ir parir filhos dum porco italiano velho; não: não
pensando ela. A Cida pensa nos porcos nas galinhas e até na tarefa de rachar
lenha ao fogão lavar roupa fazer o almoço enquanto a mãe e os manos na enxada.
Além do mais diminuindo a falta das faltas à escola por não ir com a cara da
professora Santa, a falar e falar puxando a brasa para a sardinha dos
italianos. Claro não ter maturidade visão cultura e idade para enxergar tudo
isso, vivendo na zona rural, apenas se irritando com o discurso da mulher, sem
perceber elinha quaisquer conotações de sentimentos patrióticos; a professora
sim, talvez parcial e medrosa pelos resquícios da Guerra. Então se ofendendo
facilmente na região os italianos e os japoneses; infinitamente menos os germânicos
por ser a colônia alemã insignificante, e ajudado pela incultura da população
no ofender ou deixar de ofender. Mais se trabalhava cuidando da premência
próxima que das coisas bélicas distantes. Contudo os cidadãos cujas pátrias
estavam congregadas no Eixo, esses sofreram muito gozações e fustigações. Na
classe da Escola da Ventania não havendo nipônicos ou seja os
descendentezinhos. Na urbe em crescimento e até calçada em paralelepípedos
brilhantes ao sol e escorregantes à chuva, na urbe entretanto os japoneses
passaram por dias negros. Um que outro caso mais flagrante e havendo comentários
da população, como o do Myaghi que seria da Shindo-Remei e se matara,
perdida a Guerra pelo Japão. Os demais habitantes de olhos puxados sem maior
envolvimento, vivendo a trabalhar ou no comércio local ou mais bem ainda na
lavoura – foram eles os introdutores do algodão e promotores da riqueza que
viveu Marília. O vale do Rio do Peixe era um branco só, visto de cima da Serra
da Formosa. O algodoal japonês, como mais tarde o cultivo da amora e assim o
trato no bicho-da-seda, tudo a se projetar na economia até do País. Surgiam
também várias fábricas de óleo pela oferta do caroço de algodão. Não obstante o
grande labor, semelhando os italianos os nipônicos foram atingidos na crise
bélica mundial. Agora passava a coisa, a Cidinha crescera virava dona Aparecida
do seu Berto, mudava-se a parir seus filhos, bisnetos do falecido João Xará,
mudava-se então à cidade, embora na periferia que era a Vila São Miguel, enfim
na cidade; o que uma conquista para uma roceira.
A
urbe, então chamada no modismo da moda dos slogans ‘Cidade Menina’ pra
que depois virasse “Capital da Alta Paulista” e depois ainda no tempo de hoje
ser “a Capital Nacional do Alimento”. Transformava-se. A urbe também se mudava:
deixando ser apenas roceira.
Capítulo Vigésimo Terceiro
Sou o destroço de um
casamento.
A
esteira, longe a esteira muito menos a esteira do tempo a entender o passar:
passa, somente passa com o tempo às suas costas como a esteira na fábrica de
venenos em garrafa a distrair os tolos e depois estufar os tolos tal qual um
filho briguento desentendido ou só ignorante de seu Zé, seu Zé aquele que
brigara com Xará, ambos não mais em entreveros e nos entreveros com ajudazinha
de Zefa dum lado doutro Gena exímias na língua não a apagar bombeiras o fogo
antes sim a alimentá-lo no desentendimento dos machos da espécie aqui sem
espécie; agora ambos em paz em paz!? em ‘paz’ no cemitério da Saudade, ali indo
na época em direção da Vila Miranda a qual perdeu até o nome após a Guerra ou
só depois da virada do milênio. A esteira passa, num a cavalo o tempo que não
para. Paremos apenas num corte (proposital, longe a Caneta e nós em querer parar
em stop o tempo).
Arlindo, feio na opinião de comadre
Gena, comadre de sua mãe, isto em estando ambas de cara virada por causa do
desentender dos esposos; Zefa inclusive a imaginar que Xará houvesse induzido
seu machão altão arcadão magrão sem espécie na conquista das mulheres perdidas
– o que não tendo qualquer fundamento pela timidez e bobalhice de João Xará,
bobalhice na opinião do desafeto e compadre e amigo, desde já sabendo-se de
antemão que um amigo, desses amigos pro que der e vier; um deles nunca leva o
galo carijó e muito menos os porcos que levou, levou e não pagou! nunca um
amigo faria tal. Longe disso, Xará vivo (claro, quem a pensar defuntos presando
a presa?) ele nunca mesmo andou com prostitutas; não por integridade moral, por
timidez que carregava nos ombros desde a ocasião do estripamento do seu chefe
na mataria e no desbravamento da mata; timidez doentia e temor flagrante (o
desafeto à esposa: Zefa, o hominho tem é medorreia; vai ver apanha até da
comadre, ‘sua’ linguaruda comadre). Portanto o chefe da casa e dono do latifúndio
da família caíra nas graças delas por graça, de graça, e não induzido por más
companhias. Numa dessas discussões sobrou ao filho Arlindo.
Arlindo, feioso não na forma no ver do
seu espelho (ele pronunciava como todo roceiro se pensando cidadão “ispêio”) feioso
segundo a oposição, Arlindo não crescera tanto quanto o pai, Zé era vareta ele
mediano a puxar os lados maternos e a ser gozado em família quando ainda de bem
como baixinho e então esganava o genitor no faz de conta. Era inteligente.
Brigado com o pai que apenas lhe dera um bofetão, já casado com aquela porcaria
(entenda-se: seu Zé não pisoteava apenas os alunos na tabuada, filho dos
outros, porém fazia justiça justiçando os próprios filhos, exagerando em não respeitar
um casado, este virou inimigo só visitando a mãe na ausência do ‘Véio’, apelido
a denegrir o pai). A porcaria logo deixou Arlindo; o feioso se engraçou duma
japonesa, uma jovem de família nipônica tradicional e conservadora, comerciante
na rua São Luís; foi aceito pela moça repudiado pelos da moça; bebeu um pouco
em exagero de sentimentos, fez outras atrapalhadas e por fim melhorou nas
finanças comprando e vendendo, num tino e dom pra negócio, nunca a fazer
acordos com o Veio, a si um trapaceiro e caloteiro (“num viu o que fez o Véio
com Xará! mãe”). Melhorou e contraiu núpcias com belíssima desafeto, ou que ele
horroroso e ela apenas bonita; aí no cartório que ficava na zona central da
urbe, numa casa de madeira, casou e até santificou também o matrimônio na
igreja de São Miguel. Não obstante seu Zé fora de cara amarrada, a conceder
apenas os sorrisos de praxe que a sociedade exige a um proprietário abastado
respeitável, fora por obrigação na exigência da assinatura paterna. Não se
falaram. Mais pra diante o filho retribuiu a mesura, antes disso negou-se a
pedir perdão ao moribundo; sim retribuiu o ato ‘cordial’ indo ao enterro de Zé
com roupa escura e continuou a usar camisa preta em luto como mandava a
hipocrisia, para deixá-la por uma fita negra no bolso da camisa verde que era
sua preferencial nos passeios. Nem por isso tendo sentimento e sofrimento. Sofrimento!
sentiu quase alegria, alívio ao menos, tal qual Xará enterrando o primogênito
que parecia o Mateiro a lhe cobrar e odiar. Arlindo foi quieto solene até,
embora não aceitasse tomar a alça do caixão naquela troca e disputa dos vivos
mostrando serviço a carregar os mortos. Alívio. E o fez a consolar a mãe viúva,
o povo a dizer, linguarudo, do interesse do filho nos bens do pai; uma
inverdade, pois Arlindo deixou que os manos e a genitora brigassem e
disputassem o espólio que as sem-vergonha houvessem deixado como herança aos
herdeiros do amante. Aqui ainda intriga da oposição.
Agora, aí uns aninhos após a Guerra, o
jovem Arlindo é um Arlindo precocemente envelhecido a chorar, literalmente
chorar, em frente de Zefa seu drama, a se lavar no regaço materno por seus
infortúnios. Perdera a esposa. Pior, perdera os filhos menores à ex-esposa, a
qual não lhe aguentou desaforos e maus tratos, tido o homem por violento;
acusado mesmo de abusos físicos, o que corriqueiro já nos primeiros tempos e
com certeza ainda no Pós-Guerra.
Não tem divórcio, não tem ele meios a
pleitear desquite e contratar advogado. Arruinado nas finanças num pulo errado
ao ganho com perdas significativas. E também a dividir os lucros com filiais
femininas tal qual o Veio. Claro, dá sua versão à mãe, molha seu vestido
caseiro com o sofrimento, pedindo anuência à fã de carteirinha na torcida
uniformizada. Ela o aceita, aceita inclusive o pródigo como seu pensionista
comensal e lhe dá ganho de causa; então se livrara da nora todavia tendo que
buscar de longe em longe os beijos dos netos. Dá-lhe apoio o coração materno.
Arlindo não desfrutou muito sua
mordomia na volta à família paterna-materna. Logo brigaria num bar, viraria
peça num auto do crime. E iria dormir em ‘paz’ com seu Zé e o compadre Xará.
Capítulo Vigésimo Quarto
A questão conjugal
se resume na garganta. Porque a vida a dois só se torna possível engolindo
sapos mutuamente. Isso explica a razão da pouca durabilidade do casamento
entre jovens – que têm a goela ainda
estreita. E dos velhos que a tem machucada ou defeituosa.
Arlindo,
“Arfeio” dizia de voz rouca Gena em confabulação e risotas quando com a filha
Geninha a falar bem mal dos conhecidos nunca realmente conhecidos porém desconhecidos
com nome e endereço; o Arlindo já tivera suas encrencas com o Chico da Zica, o
qual era mesmo Chico da Geninha aos seus familiares e especialmente aos sogros.
Tal qual com outro cunhado dela, a Geninha. Um Antônio. Esse cidadão, que por
sinal não sendo cidadão porque lavrador, meeiro a formar terras plantando café
– plantação das mudas em jacazinhos no solo, cuidados com elas, plantio
enquanto não crescem a contento cereais nas ruas de café e finalmente a
primeira colheita anos depois; deixando a seguir a lavoura formada ao
proprietário; e depois procurando novos lugares de trabalho a receber enquanto
metade do fruto – esse cidadão era um homem forte e corajoso, não só a
emprenhar a companheira mas na sua labuta com ferramentas roceiras como a
enxada. Chamado Antônio como seu tio que fora em vivo vivo nos negócios e
trapaças com cavalo sempre sem poder provar procedência, Antônio um homem
comum: trabalhador cumpridor das obrigações e mais ainda bravateiro. Falavam
dele ser “papudo”. Teve existência comum também e acabou acabando de morte
morrida certamente, com certeza semelhando a esposa ela partindo de repente num
tibuf indo ao cemitério e deixando os filhos aos compadres e familiares para
criar. Não obstante teve o casal seu idílio. Nisto mostramos sempre desconhecimento
ao ver imaginar possa um casal comum e desgastado no tempo e nas agruras da
vida haver passado por um idílio, o idílio que pensamos apenas bobaginha de
poetas; não, os casais têm seu momento de lirismo no começo. Teve seu idílio,
com ciúmes apegos e finalmente brigas conjugais – para ser o comum apenas.
Interessante, nos diz a Caneta observadora: a gente olhando a família pobre
velha nos desgastes da vivência, sequer supõe amor conquista e menos tiradas
poéticas a embelezar se não o todo os primeiros anos de união. (Então nos
olhamos, piscamos olhos entendidos nos fazendo desentendidos, pois havíamos
exatamente posto a questão nesses termos, sem que Ela de fato percebesse...)
No entanto vemos Toninho, nomeava o
filho assim dona Zica depois entuberculou a velha, findou e não mais chamou por
esse nome é lógico; o apelido entretanto ficou. Realmente Antônio viveu sua
fase de namoro sério, quase abusando do sentimentalismo; em equivalência com a
parte feminina do consórcio. Não importa os ‘dizem que me contaram’ dos
parentes as ruminaçõezinhas nem os disparates corriqueiros que envolvem os de
fora opinando sobre os de dentro ao pleitear casamento os jovens. Não.
Interessa aqui só os primeiros anos, ou meses de casados! Então ela, a bela
ainda a esperar o primeiro parto, então vivia numa ciumeira. A Maria engolindo
com os olhos, vez por outra comendo com a língua, a mulherada assim assim no pé
do seu consorte, unido a ela pelo pároco da igreja São Miguel, na Vila São
Miguel é claro. Um dia exagerou na dose de ciúme.
Antônio torna ao lar noitinha,
esfalfado, cheirando a suor azedo da labuta, quem sabe sonhando e pretendendo comunicar
o sonho à realidade, por sinal linda realidade pois Maria dando razão às
vizinhas em achá-la macaca horrorosa somente já meio velha, nova era bela e
atraente; mesmo com aquele barrigão na espera do nenê. Nisto todos apostando
ser hominho sobretudo Antônio na torcida ou menininha pra pôr vestidinho e
arrumar para graça da vida conforme Maria; e podendo que fossem gêmeos, não
sendo o caso. Ele retornava num burro de montaria, já velhote todavia andador,
retornando de suas lides numa lavoura dos lados da Serra de Dirceu, mas eis o
inusitado...
Maria cultivara as ciciações vizinhas,
crera no boato das comadres no falar gratuito e o recebe sem recebê-lo. Ora,
como possível. Fecha-lhe a porta, dá dois giros na chave de impedir ladrões a
penetrar nos lares honrados e temerosos. Ele bate ele chama ele clama por fim.
Lá dentro uma vozinha enxuga com o avental as lágrimas e lhe despeja
impropérios (sem usar calão, moça distinta). Lembra fulana e siclana; lembra ao
esposo coisinhas mil que as mulheres costumam guardar a sete chaves e ofertam
aos seus homens em momento oportuno; ela agindo assim num diálogo com a porta
no meio... E agora? se pergunta o homem, dormir no sofá: não tinham sofá apenas
móveis toscos e pobres; fugir à casa de mamãe, mamãe então já falecida!
Enfim precisou prometer convencer sua
bem-amada. Usou artifícios que usara quando simples enamorado de Maria. Usou
palavras melífluas necessárias a convencer quem realmente desejando ser
convencida. E entrou no lar, triunfalmente entrou; recebeu beijos e juras
eternas; as quais apenas se permitem que não durem muitos anos, isso após a
série comum de partos.
Posteriormente o casal, cansado dos
preâmbulos amorosos, vencido como todo par comuníssimo na rotina dos dias, dos
problemas e das poucas esperanças que têm os homens da rua, findou como todo casal.
Capítulo Vigésimo Quinto
Têm certas jovens
que desposam velhotes mais ricos que elas; e dizem nada desejarem do que é do
futuro marido, somente o marido.
Infelizmente para elas o resto do consorte
vem com ele ao altar; é onde elas se mostram sem sorte.
Tinha
na igreja de São Bento, padroeiro da cidade, um sacerdote gordo simpático e baixinho,
que falava alto o ítalo-brasileiro, um idioma mais próximo do italiano e do
latim talvez que do brasileiro falado nas ruas. Ele quem fez na cidade a união
do Berto Intalianu com a Cidinha, neta de Gena. Claro a cerimônia na urbe, mas
o festejo do casório também ocorreu na zona urbana; e isto foi tomado como
pouco conservador e fora do costume, o costume exigindo a festança em casa da
noiva, a noiva no caso a residir no Bairro Ventania, área roceira. Porém houve
certo acordo entre as famílias, os matutos herdeiros de Xará cedendo ao
dinheiro dos peninsulares. Isto parecendo abuso de linguagem pois o noivo também
brasileiro e nas conversas a falar direito o errado do povo, viciando como
qualquer caboclo da época; mais, porque dizia “caroça” em vez de carroça
arredondando o erre. Pouco importando: com o cerimonial do pároco a jovem
Aparecida virou mulher casada e até proprietária dos bens – casas sítios terrenos
dinheirinho no banco – do marido; com a pequena agravante de precisar paciência
na posse total visto quase ele se tornar viúvo também dela, era viúvo da
anterior esposa; por ser fortalhão embora idoso à juventude da moça.
Inventaram a festa. Improvisaram como
é ótimo ao povão; e aos ricaços também. Teve sanfona, a sanfona que tradicionalmente
atraiu descendentes de italianos, um povo sentimental e musical. Teve violão
etc., vinho gritaria gozações – o comum. Não obstante os de Xará vieram poucos,
muito constrangidos em mostrar sua caipirice. Coisa de traje de modo de
linguagem de abuso quem sabe. Um deles bebeu um pouco a mais que o hábito e deu
algum vexame. Do lado estrangeiro, se é que se possa assim afirmar, um ou outro
mais extrovertido que os extrovertidos da ‘raça’ tomando vinho no penico (não
usado, que se entenda) certo urinol que fora um dos presentes bizarros que o
casal recebeu. Sobrou na gritaria da festa o gritar dos meninos também, em
inteira confraternização e apanágio das crianças.
Contudo a festa é um dado se não
figurativo e certamente desnecessário aos espíritos práticos, ao menos passageiro;
dado que o povo reluta em deixar de lado e acontece apesar de crises
financeiras, bem maior ela ainda no após-Guerra. Não propomos assim o conserto
ao concerto do mundo.
A festividade passou, passou também a
fase dos comentários, o que se guardou como guardados foram as fotos onde se
sorri ao passarinho na hora de explodir o ploc – se guardou tudo, tudo recolhido
na memória de família a virar caso, ou causo para o matuto.
Começa o período de casados, os
ajeitamentos e cessões, as trocas constrangidas de carícias aos sem-jeito e daí
a rotina posterior. São dramas comuns, são filhos que vêm em série; e os
problemas ligados aos filhos, além das febrinhas. Aqui também entram desavenças
e os acordos na amizade com a prole anterior de Berto. Mais tarde a disputa da
herança, a herança que as mais das vezes é retalhada dividida subdividida e
virada nada. Isso é tudo, diriam os do norte no globo para a tela de cinema
aqui de baixo do equador.
A disputa corriqueira, ou quem leva
pra casa o butim da guerra pequena das famílias pequenas, não cabem nestas linhas.
Vamos tão só a lances mais marcantes ou que possam ser marcantes aos
acontecimentos nas várias partes destas Mil Noites-anos.
Como acontecia frequente nos bares nas
ruas nos lares da cidade, onde ajuntamento enfim, as pessoas ainda comentavam
não os horrores da Guerra não vista in loco mas a sentir suas
consequências após e concomitantemente à matança na Europa e na Ásia. Uma
questão o racionamento. Daí participantes das festividades nupciais de
Berto-e-Cida (no início assim, posteriormente quando a fêmea do casal pondo os
pés no chão da realidade, inverte-se a expressão: Cida-e-Berto) daí eles a
discutir, discutir aqui no sentido de se lembrar com muita memória e mais
bravata ainda, a tratar em suma dos problemas vividos pelas famílias do povo
mariliense. Racionavam as autoridades tudo em favor do financiamento bélico; em
nosso caso em favor das Forças Aliadas. No consumo de tudo: gasolina sal açúcar
farinha etc.. Estavam assim os moradores financiando a Guerra contra o Eixo;
para tanto o abusarem os teóricos de chavões e palavras de ordem. O homem do
povo a gritar as faltas a pagar a conta a corrupção solta ou a viver
comportadinha nas filas em padarias, como a Expressa na rua Coronel Galdino; ou
nas escadarias da Prefeitura a esperar requisição para compra controlada do
alimento e outros bens, sobretudo o combustível aos veículos. É disso que falavam
os convidados na festa de casamento que os de Berto Intalianu promoveram, com
muitos abusos nos comes e bebes, a festa numa das várias residências do homem,
mais precisamente numa encostada ao que chamavam Largo do Sapo nas proximidades
da igreja e do padre italiano. Alguém a reclamar o quanto madrugara nessa época
para conseguir meia dúzia de pãezinhos às suas crianças; ainda mais que eram
pães de fubá e não farinha de trigo racionada, duros e amarelos. Outro ainda a
lembrar veículos a gasogênio na impossibilidade em conseguir gasolina aos
motores. Tudo de tudo se falando, até do cheiro da fumaça desses carros.
Contaram casos, uns virando causos e até os narradores se entusiasmando e
bravatando as verdades como convém desse sofrimento nessa hora de alegria nas
bodas. Alguém lembrou-se do açúcar, então substituído por caldo de cana;
falaram do sabor, da aparência, do enjeitamento dos meninos; enfim os dramas em
maioria pequenos enormes em reflexo nos habitantes na fase de luta mundial.
Curioso nisso e também noutras
ocasiões haver a seguinte situação: num momento se esgotam assuntos, todos se
olham todos experimentam uma sensação de vazio ou de cansaço (seria a língua
esfalfada?) É quando aparece o elemento
quase surpresa, o qual dá seu toque – ou diz uma bobaginha ou lembra algo ou
chama pelo nome algum distraído. Assim desmancha o silêncio, fosse encanto, e a
expectativa. Gente é desse jeito.
Lembramos à Caneta tal situação. Ela:
não me venham com coisiquitas do homenzinho da rua, o qual só fala besteira, por
ser um ser oco.
‘Contra-argumentar’ com quê?
Capítulo Vigésimo Sexto
Gente é um produto
da Natureza com prazo de validade. Muitos de nós circulam com validade vencida.
Os
italianos andavam exaltados a esbravejar, parecendo briga e não era era seu
manifestar rotineiro – a assustar Cidinha Intaliana do Berto? essa, mas então
não demais assustada, acostumada com o volume da parola – esbravejavam agora os
familiares nos seus encontros amistosos nada amistosos; alguns, o Santo nos
costumeiros impropérios por exemplo e outros mais, mais gritando com o mano
Berto em casa de quem a Mamma vivia.
Agora a Nonna, chamavam-na
assim os pequenos de Aparecida, agora o marido berrava a mãe dele no banheiro:
caíra despida no banho a senhora, em desequilíbrio por sua validade
ultrapassada nos noventa; não funcionando nem a cabeça nem o físico dela. A
nora a torcer pelo ‘menos pior’ fora, dentro o filho a xingar a genitora
cansado, a lhe dar instruções para se erguer ou a ajudá-lo ajudá-la levantar o
corpo gordo estufado prostrado.
Num guento mais essa ‘véia’! esbraveja
o sujeito também passado nos anos. O homem vive da rotina vive na rotina, não
se acostuma com a rotina; sendo a rotina tão desgastante e, supõe o homem
comum, além do seu patamar de forças e paciências.
Isso no dia a dia no lar da neta do
velho Xará. À mãe por essas desgraças lamentava a filha; a filha de Gena engolindo
o drama sofria porém e o costume e a compreensão de não se poder mudar as
coisas! Ai ai ai a rotina.
Todavia aumentavam os dramas quando os
parentes em visita aos parentes, era o contar dos sofrimentos; sobretudo
aqueles que giravam em torno da Nonna. A Nonna perdera de vez o juízo, diziam,
fazia suas atrapalhadas, atrapalhadas constantes; agora mais amiudadamente num
crescendo...
Diziam também entre si, a disputar não
quem fica com o tesouro, qual o de sangue ficará com a herança desgastante...
Ninguém. Sobrou ao casal Cida e Berto cuidar da senhora inteiramente caduca. Na
verdade à nora, o filho saindo sempre a seus negócios. De maneira que Cida além
dos filhos os cuidados com a filha-sogra, ainda mais criancinha no esgotamento
de sua mente. Isto inteligível por causa dos momentos íntimos, a Nonna continua
a ser mulher apesar de não mais sê-lo, e aí precisando da nora nas relações feminis
e nos cuidados em excesso.
No entanto a situação ainda mais
apertava nos trabalhos de Aparecida: a velha pusera na cabeça não estar em sua
própria casa. Ora, Berto fizera um cômodo com banheiro à mãe, apenso ao seu
lar. De repente pusera na mente precisar tornar à casa em Marília. Mamma ,
gritava ‘delicadamente’ o filho, a senhora está na sua casa em Marília... Aceitava ,
daí cinco minutos já alardeava esbravejava cantarolava a mulher desejar o
retorno à Marília. Levem-na ao médico, diziam os de fora, fora é fácil realizar
façanhas, e o hospital, chamem a ambulância, dá chá disto ou daquilo – enfim os
palpites comuns. Contudo a situação se agravando. Um dia piorou na piora.
Dona Assunta resolveu de vez e não
apenas nos ameaços resmungados voltar pra casa. Num descuido dos adultos, menino
nisso não conta e sequer é ouvido quando avisa, num descuido fugiu a velha
senhora nos seus passinhos miúdos e arrastados. Fez mais, levou os trecos de
sua mudança. Tomou uma vassoura, uma caixa de papelão pra si seus documentos,
uma fronha onde pôs miudezas à guisa de saco de viagem, um pufe presente de
alguém ao seu natalício, enfim seus supostos pertences; ah sim e certa mesa
pequena, a qual entendeu na calada da noite passar pela janela estreita do
quartinho, não conseguindo e por sinal quebrando duas pernas da mesma; por fim
deixou-a largada num canto. Prosseguiu, iniciou no seu andarzinho e prosseguiu
definitivo na fuga, ganhou a rua a arrastar seus badulaques, num esdruxulismo e
ridículo flagrantes. A gente que passava
se surpreendendo ou quem sabe lamentando passava atrás de seus desideratos;
alguns dos passantes riam da cena. Até que uma vizinha notou se condoeu da
velhinha e foi convencê-la a tornar à casa do filho, “sua casa, dona Assunta,
volte!” Lembrou-lhe os perigos que corria nas conduções loucas a passar, o
problema dos bandidos nas imediações, argumentou como pôde.
Chegam as duas, a nova auxiliando a
velha com os apetrechos. Então o Berto, por sinal ainda a fazer sua higienização
matinal e não tomara sequer o café, este que desperta todos brasileiros dos
estratos mais baixos até os mais altos da população; então ele e a esposa e os
filhos a receber a viajante de seu mundo caduco à comum atividade dos seres
normais, ah que seria normal?
E que atividade! Necessário fora um congresso
daquela gente a discutir a questão naqueles recentes exageros. Foi um
esbravejar um vozeirar nos comentários por todo aquele dia; uns a repreender a
senhora, outros parentes a imaginar os possíveis desenlaces das coisas que
poderiam ter ocorrido; aqui neste ponto entrando o hospital a polícia, quiçá a
imprensa que existia então e que já possuindo grande fome de notícias picantes.
E choros, isso: a gente comum aprecia dores gritos gargalhar e choro. Sabido ainda
mais que os descendentes peninsulares têm melhor o choro fácil.
Capítulo Vigésimo Sétimo
Existe algo mais
grandioso que o riso de uma criancinha?
Chegou
aquele homem e ficou parado estátua no limiar da porta na residência
desconhecida tudo sendo a ele desconhecido, tomado preso por aquela presença
com dois olhinhos perscrutadores também presos àquela imensidão de gente. Ao
fundo, bem ao fundo, a dona Assunta falava no seu idioma italiano pra ninguém
fora os de dentro entender, ele não sabendo a língua embora marcado justamente
nos campos de luta na Itália; ela enrolava, curiosamente não pedindo a volta ao
seu país mas sim pedindo repetindo implorando o retorno a Marília, não adiantando
que os familiares, a Cida Intaliana do Berto por exemplo, dissessem alto e em
bom som estarem nas proximidades da igreja São Bento e portanto no coração de
Marília. Isto não ouvindo o sujeito frente à criancinha. Ele com uma retaguarda
terrivelmente dolorida na Guerra, elinha no ver a medalha na corrente ao
pescoço e a brilhar gozado naquela porção de homem moreno sem que soubesse
moreno. Moreno é um semantismo a tapear o medo em se expor e dizer direto preto
negro africano, uma forma que as pessoas da época inventaram pra se inventar.
Hoje aceitamos a situação sem resolver a problemática dela; sem aqui afirmarmos
também não haver preconceito, o qual a poeira da civilização sequer consegue
esconder debaixo do tapete de entrada ao palácio da sociedade; o próprio negro
mais e mais se afirma agora em maioria talvez o negro sem pejo sem conotações
que os subentendidos brancos desejam esconder; então admite-se e pronto. Na
época tratada havendo forte empecilho e a barragem aos ‘de cor’ sempre que
possível, não obstante já serem numerosos na população e congregar com outras
‘raças’ os provindos da sofrida África. Na pobreza tudo bem a aceitação ou
tolerância velada, entre os que se diziam ou supunham com posses a situação
diversa; aos de Berto por exemplo. Ora, a fim de molentar o ferimento o cidadão
claro alcunha ‘moreno’ ao preto para lhe diminuir a ofensa; os de cor têm
sempre, supomos, tal sensação... Agora, o adjetivo foi empregado aqui sem escamoteações:
Luís de fato moreno por queimado pelo sol, porém de ascendência portuguesa
branca, embora cabelos cacheados, longe do pixaim dos afro-brasileiros. Perdido
no achado.
Vivia sem norte sem horizonte, um
problema aos familiares, nunca chegando à caduquice da Nonna, ainda a enrolar
naquela hora do limiar do portal de entrada da residência Intaliana. Era tão só
um despojo de guerra da Guerra que ainda ecoava em estrondo na pobre cabeça.
Muita vez Luís deixara um diálogo a sair correndo espavorido e loucamente pela
via pública. Nesse momento encontrara acaso a saída da entrada e via a criança.
O garoto caçula, bisneto de Xará sem o saber sabendo apenas Geninha por
avó, andava parado a olhar aquela imensidão de homem, que não passava de pessoa
mediana magra assustada, então embevecida diante da maravilha do milagre da
natureza, que é uma gentinha a tentar ficar e permanecer sem cair de pé.
Olhavam-se e se não mediam, a sentir só o momento; nem elinha conscientizando
os barulhos rotineiros do lar por costume; nem elão embasbacado em ver a
figurinha de guri – tão longe ah tão astronomicamente distante dos horrores da
Guerra e só a observar desconhecidos pra conhecer. Olhando via lá em cimão uma
cara gozada na cabeça de cabelos enrolados olhos curiosos quem sabe mais
curiosos que os seuzinhos e se prendia mais que o mais num incisivo encapado em
ouro e na corrente com a medalha que brilhava ofuscando quase os raios
matinais. Havia
nesse tempo o hábito ou vaidade no uso de ouro na dentadura, mesmo na postiça a
imitar dente natural; o personagem em questão carrega um filete a alumiar.
Claríssimo que os ladrões de tumba desfizeram o costume com a eficiência do seu
trabalho... Enquanto Luís examinando bestificado aparvalhado a
promessa de existência de ser de esperança de alegria e de vida, morta a guerra
e a violência e o sofrimento que vem do ‘megassofrimento’ e apenas se apaga,
momentaneamente quiçá fosse eterno – apenas se apaga no lapso do sentir a
felicidade na felicidade feita criança. Nisso...
As mamães aparecem para estragar
desmanchar um profundo que desejara ser alegria e é com certeza amor dos
melhores que o mercado não vende.
A Cidinha, então já se ‘matronando’,
surge apavorada diante o perigo da cria ingênua; num relance lê o todo e relaxa;
diz antes alto “graças a Deus”, não fala haver recuperado o filhote são e salvo
das garras do mundo, da violência, do medo, da perversão, do incognoscível –
apenas sorri alívio.
A outra mãe é esposa tão somente.
Sofrida, Esperança, dona Esperança era uma senhora passada, nervosa não apenas
pelo neurotismo do consorte aqui a trocadilhar sem-sorte. Senhora alta
magérrima acabada na visão dos de fora, a manter o lar com trabalho no
magistério e tida por indesejável aos alunos, até sua voz fina num gutural de
arder orelhas a inclusive desprestigiá-la. No entanto uma angélica criatura a
levar seu homem nas costas desde que a Guerra o vomitara sãozinho por fora. A
correr atrás duma criança com medalha de honra no pescoço e a fugir do norte
que lhe fugira. Uf! disse a mulher, perdão senhora, este é meu esposo, não se
amofine: é um ser pacífico, louco sim por criança; nunca tivemos a nossa, dizem
que não posso engravidar... E travaram um rápido diálogo, dum lado a mãe no
colo o menino; doutro a mulher estéril, uma dos números da ignorância machista
na ocasião; hoje sabemos nós homens comuns que a infertilidade pesando não só
na fêmea da espécie, talvez mais ainda no garanhão descaracterizado que nela.
Não sabia. Não sabiam.
Capítulo Vigésimo Oitavo
Quando nós, os
velhos, não pudermos aguentar mais dar bons conselhos e maus exemplos aos
jovens, estaremos, é certo, no final da jornada.
Gente
de vida fácil não entende dessas coisas, diz a Zefa viúva do seu Zé, velhinha
velhinha sem idade com tanta idade, diz a contar à boca pequena – quer dizer
para alguns poucos filhos não brigados e alongados pela questão da herança e da
atrapalhação da herança – o fia da ‘p’ (aqui xinga a mãe do advogado) esse
comeu tudinho e... ah depois retoma a argumentação ou só lembrança a recordar
agora tão só aos netos. Tem um grandão menino desengonçado o Alberto, Betinho
embora agigantado puxando o avô; uns poucos netos sobrantes da guerra na
disputa dos bens; o Beto filho do falecido Arlindo, Arfeio na linguagem
doméstica desabrida da comadre Gena, aquela linguaruda, ele o que menos dá
palpite na reunião familial e sequer indaga as coisas: só ri envergonhado. As
meninas, uma delas é filha da filha mais nova da velha a qual teve seu alemão
em fuga deixando os cabelos loiros no ventre, as meninas todas de todos outros
filhos nesse aniversário da senhora falam apreguntam e mordiscam o dizer e
todas riem e chegam inclusive a gozar pelos disparates avoengos; Zefa falha nas
falhas e afirmativas sabidamente antes verdades. Aquelas de vida fácil – diz em
chavão de repetições vãs – essas vagabundas roubaram tudo que o José (comumente
a ela Zé mas a dar importância e vitimismo fala agora José) tudinho mesmo que o
José ganhou trabalhando suando na lavoura e ganhou até dando escola, sabiam que
foi o primeiro professor no Alto Cafezal!? Elas corrigem pra Marília, a velha
concorda discorda somente das safadas.
Realmente se refere às profissionais
do sexo como o povão diz “putas” e mil e um outros nomes depreciativos às
pobres. Em casa a repetir repetir repetir fala falando em termo das perdidas
das sem-vergonha a envergonhar a gente. Nunca admitiria fora de casa (não sendo
por andar quase entrevada e nem mais pôr a cara fora da porta no máximo indo ao
quintal. Não:) nunca mesmo aceitaria contar delas como o faz no tim-tim por
tim-tim no ato de xingá-las, mais às suas almas pois as meretrizes têm sempre
existência curta; nunca diria assim aos de fora dentro do lar em visita ou
àqueles de fora fora mesmo.
Contudo isso é um desentorpecimento,
uma fuga, quem sabe desabafo e justificativa ao seu estado de pouco mais que em penúria. Isto grave
a quem fora anos abastada ou apenas rica em meio à pobreza dos próximos seus
distantes.
Lamenta, atormenta as orelhas íntimas
acostumadas a dizer sempre a mesma coisa do mesmo.
Parece-nos que as viúvas dessa época,
época do pós-Guerra, eram senhoras desempregadas; empregadas antes no servir
válidas seus homens. Os quais a julgar pelos chavões religiosos (a Zefa mui
carola inclusive) a julgar por isso, estando nos céus.
Contaria esses dramas, o da perda das
terras quase todas penhoradas, contaria à comadre Gena, tendo o cuidado em não
referir-se às partes melindrosas ligadas ao finado da comadre, sobretudo na
questão da opinião que tinha seu Zé a respeito... Contudo Gena também fora há
poucos meses à cidade dos pés juntos. Juntos todos indo ao paraíso.
Capítulo Vigésimo Nono
Morrer é desintegrar
o todo que resta, após a parte desaparecendo à prestação.
Os
mortos estão vivos. Zefa foi – antes que ela mesma morresse na lerdeza própria
do seu ser e no entrevamento com a idade, e a Guerra acabava, cansada, exausta,
ela não sabendo a miséria mundial a pensar apenas na sua miséria como é bom ao
egocentrismo o qual dá preferência ao próprio sofrer – foi acompanhada do seu
buquê em visita ao esposo. Reviu sim os túmulos dos conhecidos e quase se esquecendo
tumbinhas do seu sangue; reviu o Xará, logo a comadre estaria a aguardar uma
flor também, depositou a do compadre, aproveitando a criticar o desleixo da
família dele: os vasos secos, quase nenhuma vela derretida, que é do gosto dos
cadáveres (aí se assustou um pouco: o compadre deveria ser não mais que ossos).
Fez esforço máximo em não recordar as desavenças dos chefes de família,
ex-chefes; não suportou porém o assédio na dúvida anos posta: não teria o
‘hominho’ induzido seu ‘homão’ a se perder com as perdidas daí perder ela às
outras as propriedades! Pôs rápido uma flor do buquê, nem se entregou à vingancinha
em destacar a mais feia das mais belas, pôs aleatoriamente uma qualquer e saiu
a pisar firme à casa do de sua casa. Andava lá imponente a tumba do seu homem!
‘Genuflexou’ orou chorou acendeu um maço todo a iluminar seu Zé. Seu Zé não
respondeu, caso tenha correspondido. Decerto abrindo orelhas, não podendo mais
se fazer ouvir nos berros que dava à consorte trocadilhada sem-sorte. Abriu
ouviu reviu forçosamente não conseguindo fechar a boca escancarada de Zefa nas
questões do seu matracar. Sabe Zé (Zefa em revide talvez da antiga maneira de tratar
ele ela, não o chamava num habitual nhe-nhe-nhem querido e meu amor: Zé pura e
simplesmente e nisto não importando, importando estar só no cemitério onde
apenas quem ouve não escuta; ainda mais com o vento a levar embora os sons)
sabe Zé, que não tenho mais com que viver; as vagabundas e os vagabundos, os
ladrões ficaram com tudo. O povo fala, gente é mesmo faladeira, fala que nossos
filhos jogaram tudinho fora com brigas e intrigas; penso em contrário: foram
eles e elas, eles a mando delas – num confio nos advogados, já desconfiava
quando você morando em casa – querem agora tirar a casa da gente; quem sabe
entregar a... (chorou desesperada Zefa). Quero dizer uma coisa chata procê, Zé.
O Pedro já brigara com o Arlindo, você também havia encrencado com eles e já
batera muito nos meninos; agora tem o pior: o Arlindo se envolveu num bar com a
gente desclassificada da Zica, num saiu nenhum deles decente tudo porcaria. Uns
falam que ele matou o outro, outros dizem que o outro matou nosso filho – os
meninos não querem me contar direito. Vai ver você saiba melhor que eu nisso;
me mostre o túmulo dele! É isso, Zé. Num dá pra ficar louca?
Zefa sai em passinhos, não vê, vê que
já estando no portão e vem vindo um cortejo com urna desconhecida e
acompanhantes desconhecidos na situação estranha. Anteriormente presenciara um
mortinho um caixãozinho um cortejinho no finzinho do cemiterião. Agora vê a
entrada na saída, aguarda, curiosa, passam, escapa ao portão ganha a rua
perde-se no todo rumo ao lar. Certamente demorando Zefa a retomar o conforto
que a rotina e o hábito dão às pessoas ainda vivas.
Não soletrou ao sair o dístico na
parede “retorna ao pó” ou “descanse em paz” porventura existente. Uma analfabeta
de pai e mãe, goza ainda e sempre o povo irreverente.
Capítulo Trigésimo
A sombra. Ela vinha de longe ali perto, seguia os
três sem que se visse; contudo seguia seguia os que seguiam: a menina entremeio
o casal a matracar as coisas. De relance elinha a viu, entreviu a se esconder
do sol matinal ou da própria sombra a sombra. A sombra não era a sombra mas
três sombras, a pequenina também de entremeio e a se chocar com as sombras
grandes, uma delas teimosa em ser grande só maior que a pequena. Aí viraram os
seis a esquina: de repente ela ao triplo se unificou e sumindo a brincar
correndinho atrás da gente à frente da gente. Então desapareceu com a gente,
desaparecendo os vultos as sombras o fim da rua a rua a vida o nada, tudo, o
silêncio, não estivessem já em silêncio.
Naquela
segunda-feira, era uma segunda-feira, eles pisavam o solo sagrado da urbe; pois
o trabalhador da lavoura aprecia bem da roça descansar cansar as pernas nas
compras das lojas abertas na cidade a esse fim, a fim de é lógico vender
comprar pagar ou desatrasar a dívida em momentos de crise, era ainda o tempo do
prolongamento da matança europeia que já passara também e deixara também outra
maior crise que as de rotina; isto o pensamento do lojista vendedor, o patrão,
não o do comprador eles apenas compradores. Estes, roceiros, imaginam adquirir
maravilhas, levar pra casa no caso em Avencas, menos que núcleo do distrito de
Avencas em direção do Paraná, vivendo mais na lavoura mesmo, porque os três
trabalhando numa fazenda, pretendiam maravilhas – mas a fêmea da espécie e de
nome Maria, talvez do Rosário talvez da Conceição, ela desejando alguma
quinquilharia à sua vaidade que a possibilitasse ficar mais bonita – maravilhas
como pão de padeiro, agora já de farinha de trigo, que fosse com alguma
corrupçãozinha e se pusesse na massa algum fubá ou farinha de mandioca mais
branca enganando melhor trouxas que amarelo do milho, tão branca a mandioca
quanto o trigo. O lavrador sempre valorizou demais o da urbe sendo embora o pão
de casa mais sustancioso. Tanto assim ser uma alegria à criançada roceira o ver
desembrulhar embrulhos, claro a expectativa do doce e demais confeitos,
sobretudo o pão a fazer terréque terréque nos dentes. Impossível voltarem ao
campo na cacunda do caminhão do seu Tonho sem pão.
Querendo o trio, querer aqui abusivo
pois a menina sem pensamento no pensamento adulto e sem querer: gentinha vai
volta faz (chora à vezes; às vezes apanha) e segue os pais. Pensamento dos
pais; queriam visitar dona Zica agonizante na tuberculose, rever alguns outros
familiares, rever sim mais a velha pra consolo de Maria filha dela; não
obstante precisou, precisaram aguentar as lamúrias do Chico da Geninha nas
faltas e falhas de Geninha e nas sobras da filharada, pois imaginem que a mulher
tá de bucho grande outra vez! (sempre o macho culpa a fêmea...) Sim, precisaram
suportar desafetos do sangue, não do sangue do João da Maria, da Maria do João.
No entanto, visto os parentes, o melhor era a compra do além que necessário, o
necessário adquirindo-se na venda em Avencas mesmo, não precisando viajar a
Marília. Em geral o lavrador se dá a esse luxo, o das compras, se dá ao
capricho nos sábados e nas segundas, era segunda-feira de preguiça na cidade.
Iam após andarem conversar bastante e
cansar muito mais em direção da rua Coronel Galdino. Esta uma de concentração
roceira: caminhões, tratores pouquíssimos o trabalho sendo mais na enxada
portanto manual, carroças, cavalos mulas burros amarrados em postes não havendo
mais como nos primeiros tempos aqueles fincados para prender animais, gente
muita gente famílias crianças a dar preocupação ou só a fazer algazarra – todos
a deglutir alguma guloseima, enfim um movimento geral. Isto ocorrendo também
noutra vertente, a rua São Luís. Iam para lá.
Foram chegaram; chegaram à cidade
cedinho antes do sol, tornavam quase no lusco-fusco do poente. Uma caneta, a
Caneta, notou o trio nada apressado.
Ele parolava grosso miúdo de corpo;
ela ‘belava’ seu cheiro, houvera comprado umas águas e esdruxulava os sentidos
do macho sem espécie quase, sobretudo a ferir seu olfato; ele: Maria, qual meu
bem coisa alguma, não são poetas os poetas sim lavradores com pés no chão; Maria,
que catinga! e se ria matreiro. Ela: hum... e dava tapinha de amor ou de temor
ele embora sendo pacífico no costume de então da surra macha pra valer nas
fêmeas da espécie. Manso. Isso, manso e trabalhador o João da Maria. Falavam
sem parar, destravada a língua sem o pejo da enxada. Só a garotinha não dando
palpite. Quer dizer, criança dá sim palpite, apregunta todo minuto, os adultos
é que não percebem só pensando nas coisas sérias e irrealizáveis ou somente
realizáveis parcialmente com muita interferência da realidade. Falava mostrava
gritava mostrava indagava mostrava gritava pegava um que outro nunseiquezinho,
porque menino encontra tesouros escondidos aberrantemente expostos no chão,
apenas vez que outra a mãe a arreliar “larga isso, porcaria!” a porcariazinha
deixando por outro tesouro logo mais o tesouro. E todos, todos mesmo, a aguardar
logo chegarem no cansaço no calor na modorra à sorveteria, deixar no piso as
matulas compradas, a esperar condução.
Muitos... não alguns somente alguns
roceiros, vindo indo de bicicleta, aquelas pesadonas inglesas da época em que
tudo se importava nas terras do Brasil. A maior parte das pessoas no lombo da
montaria ou nas carroças ou a esperar chegar o caminhão ou a jardineira; então
os ônibus fechados e grandes apareciam mais e mais. No caso a familiazinha em
aguardo de sr. Tonho. Nesta
figuramos uma de apenas três pessoas, um filho, coisa de rico, pobres; incomum,
pois geralmente a casa da gente do povo
tendo quatro ou cinco filhos; anteriormente eram numerosas as famílias pobres:
dez ou mais na prole.
Se foram. As sombras também, também a
poesia com os últimos raios de um sol preguiçoso. Ora, por quê não existirá
igualmente ao sol a segunda?
Capítulo Trigésimo Primeiro
Quando alguém ri para nosso lado não sabemos,
a rigor, se está rindo pra gente da
gente não viu a gente. Que faz a gente?
a gente sorri com educação.
Sacolejava
aquela bonita caçamba que é a carroceria do caminhão, de todos caminhões não
apenas o do Tonho; com as cargas dos matutos aboletados como podendo no
sacolejo: sacos e mais sacos sacolas e embrulhos pacotes mais a trililicar em
razão dos buracos lá embaixo por cima embaixo os pneus saltitando a rolar a
rodar sem parar – nem um que outro candidato à carona na beira do estradão o
chofer aceitando e inclusive gostando na pressa quem sabe em chegar e daí o pé:
pé no acelerador, firmeza no volante do carro parecência com trator de feio e
belo no choro do motor, o motorista impávido qual imperador general chefe sério
sem falar falando mais a seu lado as duas mulheres na cabina (ele irritado
com?) E o trio na ‘poli gente’ agrupada em família e os sem família: tem sempre
aqueles peões diarista que têm o chapéu por moradia, a flertar com as moças do
lugar (qual lugar inquire a Caneta Intempestiva da Silva, quaisquer
arrespondemos irritados por nossa vez com a intervenção indevida estragando o
ímpeto as linhas o estilo da gente, pô nós falamos “nóis fala” fala o caboclo;
eles ali em cima da carga também eles carga; qualquer lugar); não somente isso,
isto: o peão a comer onde pode, onde possa a educação doutrem oferecer, ou como
diziam o Santo e sua santa italianada “é
uns fila bóia”. Pode uma coisa dessa! O trio não pensa nesses termos, vive
nestes termos e quem vive não pensa que vive, tão só o crítico a rabujar compreender
gozar ridicularizar sorrir importância e não viver, pode? Vivem, ele a contar
algo a um conhecido apelidado amigo ou colega; ela não fala no momento, apenas
olha o perigo daqueles ventos na carga a soprar-lhe as vestes um vestido rodado
e mostrar as ‘intimias’ e aí se peja; elinha resmunga cansaço sono necessidade
em fazer xixi e quem sabe lá a cama, que é dura fofa quanto possa porém da
gente com o afundado da gente o quentinho da gente e o cheiro bom da gente, não
é doutora a doutorinha mas já sabe disso e resmunga. Os outros esparramados por
cima da carga, tem um que ri. Ri por rir ri do ver ri para contatar ou
constatar se encontrar vivo, nunca a gente sabe; sabe depois: é bobalhão e
pronto; ora, por que todo mundo tem que frequentar a elite na academia? João
arrisca um acho que vai chover ou tá quente ou como os outros em volta a desandar
em conversar de lavoura colheita preços e acima de tudo nas dores; não cola não
pega: sorri o que ri, ainda sorri não conseguiria gargalhar decerto. Todavia
João matraca com outros homens, vez por outra com as mulheres também aboletadas
segurando as criinhas ou os pacotes ou só mastigando de boca aberta
balas-doces, não dá pra encher mais vazios em não ser com os machos e se contam
as coisas, a coisa em Avencas tá difícil pelos preços a carestia e coisas
assim.
Avencas vem vindo correndo encontrá-los,
deve distar uns dez ou doze quilômetros, dos bem cheios, do Cemitério da Saudade,
o que não nos autoriza dizer que está além ou aquém da morte, inclusive se podendo
garantir ser após muita vida, isso é que é isto. O caminho que fazem os
passageiros – passageiros que não pagam ao Tonho passagem como o fazem na
jardineira e o diabo é ela ter horário enquanto as necessidades não têm e
exigir e assim vão vem voltam em cima do caminhão igualzinho carrapatos
grudados no couro do burro no pasto; sim os ‘passageiros’ o carro e o condutor
que é magricela e feio igual o pecado, dizem os da oposição não sendo
opiniãozinha da garota caçula do Tonho tão apegada ao pai – esse caminho que
perfazem desde o cemitério de Marília é qual seta voltada ao vizinho estado do
Paraná, este um lugar que os que viram viram foi terra roxa escura avermelhada
quase negra em tinta e Deus me livre na chuva no barro e a sujar eternamente a
roupa da gente, falam as herdeiras de Eva, ah a nossa é rosada, um arenito que
também se avermelha com mais vento e mais poeira, isto sendo ruim (o povo pronuncia
“rúim” não ruím) sendo sim ruim aos olhos da gente, a pequeninha
chora grita a poeira ruim e é bom sendo boa para a agricultura a gente pensa
pensa decerto o cafeeiro e o milho e o feijão ali em torno de Avencas
plantados. Tem outras pessoas ainda mais a falar.
Tem um preto magro ressequido até e
velho por teimosia da natureza decerto indo visitar não sabemos quem, é quem
diz às orelhas: pessoal, pensa logo na aposentadoria! fala de fato
“pisentaduria”. Trabalhou anos sem fim na Prefeitura. Antes matava saúva por
aí; explica como ia com uma carriola levando o fole e o veneno fedido, a
assoprar aquilo com fogo nos buracos da cidade, os buracos da formiga não o Buracão
em torno da urbe; lá diante cuspia subia a fumaça noutras e noutras saídas de
entradas das pragas. Oh fez isso anos com um colega ajudante, o colega morreu,
que Deus o tenha; ele? ali indo com a gente. Depois? depois trabalhou (disse
“trabaiêi”) como lixeiro: tinha uma carroça azul da Prefeitura e o burro velho
manso ensinado, imaginem que eu subia a rua Nove de Julho varrendo catando lixo
com a pá, bastava bater na caçamba com o cabo da vassoura pra ele já ir andando
potrofe potrofe mais quatro metros e parando o burro com sabedoria; era assim.
Assim narrou no mais ou menos das coisas para o auditório movente.
O pessoal ouvindo aquele contar vendo
a estrada a passar suas margens apressadas na paisagem lenta ansiosos de chegar
os chegantes e de os encontrar ela, a estrada. Ao longe ali perto o escurinho
quase da noite o sol se pondo de vez pra lá pra cá do patrimônio. E além do patrimônio
havia muito ainda para eles, o João da Maria pronunciava gozado não ‘muito’
porém “múntiu” por ser baiano; havendo sim muito aos três a caminhar ‘deapé’
ainda.
Capítulo Trigésimo Segundo
Observo haver mui
comumente a defesa, amiúde feroz com unhas e dentes (na língua) da mulher com
respeito ao seu homem. Fico, em maldade, ruminando que ela quer a exclusividade no macho a fim de poder brigar
sozinha sem concorrência com ele.
Trinara
o telefone do ponto de automóveis de corrida dependurado num poste na
Avenidona. A partida o funcionar o chispar o veículo; o chofer vai buscá-lo na
estação ferroviária e depois levá-lo à casa da velha dona Zefa. Essa ali, diz o
advogado engravatado perfumado ao condutor do táxi. Desce, tenta a campainha
desligada, tenta após umas palmas; abrem a ringir o portão, despede o carro com
um aceno desgostoso de mão; mais desgostoso o profissional a esperar que o
doutor voltasse e aí ganhar mais uma viagem. Funciona e assim parte o Nego.
Tinha um da Zica que dera certo,
pichada como foi toda sua prole. E deu errado. O Nego – fosse lá apelido ou
abreviatura, mas sem inutilizar suas qualidades visto todos terem algumas mesmo
sendo poucas, ou a reduzir seus defeitos, houvessem – o Nego aprumou na vida,
embora não havendo o passamento materno deixado qualquer herança pecuniária
dada a pobreza da família, levantou-se por conta própria; aprendeu a dirigir,
obteve carteira, em Marília falamos carta de motorista ou só carta, pôs-se como
chofer. Primeiro como empregado depois como endividado proprietário; pagou,
antes disso se casou nos conformes em festa acanhada e familiar apenas, o que
compreensível indo a morrer a moribunda velha Zica naqueles dias, como de fato
faleceu – não se festeja a morte em nosso Ocidente , acanhando mais ainda a reunião de
núpcias, tornando a mesma mais formalidade que outra coisa. O que importa é ter
desposado uma pobretona de Lácio (não obstante o nome a dar ideia de magnificência,
um distrito da urbe, apesar de possuir uma estação de trem; posteriormente
desativada). Em todo caso uniu-se à Margarida, fez nela três filhos, até a
matriz virar matrona, enfear; enfeiar diria a Caneta para não ficar feio; e
enfeiaram a seguir na discussão conjugal, daquelas discussões desmanchadoras de
lares, numa só coisa concordando o casal ou seja em pronunciar ambos desafetos
“discutição”. Ela vive com a gente numa discutição danada; ele sempre numa discutição
sem tamanho, chorava a fêmea da espécie, espécie de vítima. Ora se entendiam
pelo trio, mais pela ‘rapa do tacho’, petitica uma belezinha; ora cansados de
brigar paravam uns dias. No fim o fim. Ele, ela falando com razão decerto, ele
se desencaminhava no ponto. Não aqui a dizer estar no ponto, no de táxi.
Nego havia conseguido lugar no ponto
central de Marília, sito na Avenida Sampaio Vidal, esta espinha mestra da
cidade, onde o movimento era grande e fora enorme mesmo na crise de Guerra e
por isso se ganhava bem com o Ford 41, ano 1941, preto como quase todos táxis
(os quais não recebiam tal nome apenas automóveis de corrida, quer dizer de aluguel);
o carro do Nego não parava. Parava sim, entretanto mais na casa da Odete. A
quem não a conhecesse e todos na praça e com mais certeza os colegas pracistas
a conheciam; e piormente a esposa do Nego, a Odete era sua freguesa preferencial
na rua Bonfim... As reticências incomodam a dizer que na ocasião ali morando em
geral a vida fácil das mulheres, a Odete uma delas (quem sabe se não a mais
bonita ou cativante!) Aí a piora piorou pros lados da família do rapaz, por
sinal não tão novo como rapaz, a pintar um pouco a neve do tempo seus cabelos.
Logo somente fazia visita aos filhos, deixava algum dinheiro à esposa, vivendo
mais fazendo corrida à noite, o que todo conhecido interpretava como sendo a
residência da outra; a filial?
Por fim mudou-se de mala e cuia, isto
expressão válida na época e da lavra dos poetas populares, mudou-se à casa da
‘amiga’, nesse tempo com significado de amásia e amante – hoje podendo ser
apenas namorada – deixou os seus; e depois ainda se foram para a capital; levando
também o quarto filho dele e primeiro de Odete, um bastardinho segundo a oposição
oficial; a matriz?
Nunca mais tornou. Deixando que o
fisco tomasse na dívida ativa a propriedade onde morara na Vila Palmital; deixou
que os filhos, inclusive a caçulinha “dodói do papai” mordia em dizer a esposa
numa ciumeira até pelos filhos, deixou enfim que eles ficassem ao deus-dará. Ou
isso apenas opinião da desafeto consorte.
A Caneta: “já vi esse filme antes...”
O que é de uma originalidade
espetacular e daí concordamos em gênero e número, pra também sermos originais.
Todavia há certa agravante.
Seguinte. A esposa foi a maior defensora
do esposo, em todos os tempos da vida conjugal e mesmo desde o namoro. Aqui se
separa a linha de fuga, quando oficialmente passa a ter a senhora enfeiotada e
gasta sido provocada por uma Odete bonitinha e mais nova. Foi defensora a pés
juntos, de jurar às vizinhas, de viver referindo-se ao seu homem como homem santo.
Até prova em contrário.
Não que não existam santos e a viver
nos conformes; inclusive auxiliando a companheira a envelhecer envelhecendo
juntos. Garantido não ser o caso do Nego da mãe Zica.
Capítulo Trigésimo Terceiro
Numa sociedade como a brasileira que discrimina
negros mulheres e idosos, como revelou o
IBGE, o Serviço Público pratica
Justiça em relação ao Serviço Privado, pois não pergunta
cor sexo idade – faz injustiça a todos pagando por lei o mesmo baixo salário
com garantia legal.
A
gente ia de vez em quando ou no melhor da rotina todos dias à Prefeitura. Seja
feito o esclarecimento seguinte: Ela, não a prefeitura a Caneta, Ela indo só
pra olhar fiscalizar (mesmo porque nesse tempo as esferográficas azuis de plástico
ainda não inventadas, existindo porém a mãe ou avó dela tinteiro; oh quem pode
com quem não respeita o tempo nem vê a esteira do tempo!) ia tão só a xeretar
abelhar pilhar de fato a gente em flagrante desvio ou erro; e nós íamos trabalhar
como office boy na entrega das coisas como guias e outros documentos nas
repartições – a Coletoria, o Banco, a Delegacia de Polícia e viíge como a gente
menina moleque com medo das fardas! e também a dita Prefeitura – após a tornar
ao chefe na rua São Luís, mais especificamente o Escritório Cruzeiro; quer a
Caneta que nos lembremos do número do telefone a comprovar? pronto: 6186. Daqui
levávamos pilhas de livros nas costas rumo aos clientes mas a gente falando mesmo
fregueses. Bem. Numa dessas nos deparamos nesta ‘Capital da Alta Paulista’,
este o slogan em voga, nos deparamos, dissemos, com uma série de
trabalhadores a descansar.
Expliquemos isto, ou confundiremos
isso.
Havia então a fama do chamado barnabé,
o sujeito que quando muito carimbava papéis ou no desfastio tomava cafezinho
obrigatório à classe e... recebia altos salários se aposentando com proventos
nababescos. Claro ser uma pincelada da oposição, ou seja o trabalhador comum –
aquele do pesado do suor bastante e recebimento pouco – esse achando que os de
terno e gravata nada produzindo, igual o Preta.
O Preta provindo da ala branca, quase
caucásica se não dolicocéfala de olhos azuis, nada tendo com os seus, quer dizer:
os familiares morenos, pois o genitor de Preta, filho da Zica pretíssima, era
um pai sumido, esse pai austríaco ou alemão, desses tipos que vêm a passeio e
desaparecem como vieram. Porém deixam a semente. A semente virou vindo à luz
Preta, cresceu e desvirou gente da humanidade comum pra virar barnabé da
Prefeitura local. Esse neto da Zica passou a usar a farda de funcionário
público: o terno e a gravata. Fez mais: esmaltou as unhas tratou as unhas como
donzela – a produzir nisso horror e asco na gente de bem, dessas que na época,
além da Guerra já, dessas que viam com maus olhos mulheres que fumassem ou
dirigissem automóveis. Imediatamente pichadas. Pichado.
Contudo o Preta, supomos o nome haver
vindo do costume da avó dizer aos netos “vem cá minha pretinha” seria por isso?
contudo ele era do tipo que amanhecem na repartição e voltam pra casa noite e
ainda a se recriminar não haver feito tudo... portanto demais trabalhador honesto
e amigo. Amigo aqui tem uma extensão enorme, pois comum o comum ser tratado de
má vontade, ele tratando tratavelmente e inclusive a ofertar sorrisos na
entrega e devolução dos documentos de nosso métier; mais que isso:
sabendo, e, brincando amistosamente por isso, o nome de muitos boys; era
ele (atentemos ao tempo do verbo) desse tipo de perguntar da família da gente e
contar a última febre do seu mais novo garoto. Ou a lastimar ter que cobrar tão
alto imposto e ainda com uma agravante de não xingar a Prefeitura, sua patroa,
pelos baixos salários. Além do mais fazia amigos por seu gosto ao brincar,
respeitosamente, com o pessoal na fila; imitava na voz rouca os dizeres de
italianos e mais de japoneses, conhecendo inúmeras expressões; todo mundo quase
acabava rindo embora na espera.
Com isso ficou popular; ao menos entre
os meninos que tinham por hábito dar irritantes pancadinhas no balcão com as
fichas metálicas de ordem de chamada para entrega no guichê. Recebia o
documento, sorria ou dizia qualquer bobaginha e imediato se punha a carimbar e
escrever por cima de selos doutros documentos doutra gente. Gente. De fato mui
gente.
Gente morre. Engordara nos últimos
anos, estufara a barriga, a ponto de à toda hora ter de desapertar a cinta na
frente do freguês, nós. Nesta
região invertemos o significado às vezes: o cinto é objeto de uso feminino; a
‘cinta’ como posto aqui, para segurar as calças masculinas. Faleceu não de morte morrida (não sendo um matuto). A nos fazer verter
lágrimas.
Capítulo Trigésimo Quarto
É de muito bom falar
o se calar. É muito dizer não falar.
Um
dos de José – seu Zé Professor, que a terra lhe seja leve embora briguentão com
o compadre Xará briguentinho, ambos a dormir em paz na Saudade – um deles não
virou engraxate, engraxado. Não também que postulasse ser daqueles meninos de
rua nesse tempo com sua caixa às costas nela estando as escovas as latinhas de
graxa para sapato, não; positivo negativo ao pai: seu Zé (antes de morrer é
claro) não permitiria que um dos filhos saísse por aí, antes deixando-o no
cabresto do serviço na enxada, “pra ser um homem sério” dizia. Não. Virou homem
casou comprou sem ajuda da família do pai, então arruinada, um caminhão velho,
ao menos bem usado, ótimo à oficina e mais ao japonês proprietário dela. Usado,
mesmo porque no pós-Guerra não sendo fácil tirar um carro zero na agência.
Tinha a International na rua Nove, perto da linha do trem, a trazer sob
encomenda caminhões a quem se pusesse, com dinheiro volumoso, a esperar na
fila. Havia a agência Ford na Avenida e a Chevrolet que era duns turcos; optou
pela marca International, ainda assim um veículo gasto, não a esperar novo na
fila. Não foi portanto o caso do Mário. Dizem que o cartório registrara assim
ao garoto por influência da mãe: Zefa apreciava nomes italianos, seria
italiano? Daí seu Zé obedeceu a esposa, exatamente por apreciá-lo igualmente;
mas isto senão. Um senão que iria a engraxate... não, engraxado.
No exato momento em que alguma coisa
ocorre no planeta, nesse, Mário tentava remover a graxa preta pegajosa teimosa
difícil de arrancar dos poros da pele queimada de suas mãos, haja estopa, haja
gasolina cheirosa amarelenta a embeber o molho de estopa que o Shighero lhe
passara rindo do desajeitamento do freguês de sua oficina... Ele coça passa esfrega
e se diz “agora saiu” não saiu tudo das mãos, não desapareceu a meleca; com
agravante. Tenta outra, outras vezes, e ainda a mancha mancha e aparece; e
piormente o cheiro; a gente se acostuma, o Shighero num tava nem aí lá com o
cheiro, nem distinguindo mais a coisa, coisa normal no seu comum; o freguês se
metendo a seu auxiliar entretanto assopra a ardidura que fica do combustível
penetrado na epiderme. Com agravante. Além de o caminhão de fazer carretos em
fretes mal pagos quando pagos haver quebrado, apesar disso ficou novo, velho.
Usado e ótimo à oficina, voltando ao japonês com frequência de toda semana a
consertar e a conservar o ganha-pão do outro. Tem, pensa agora o Mário, uma agravante.
É que a Maria, debalde ele falando e demonstrando o carro na rua no meio fio da
via pública ali exposto então de volta pra casa, bonito e prontinho para sair
buscar tijolos numa olaria a fim de render alguns trocados pagar a prestação e
as despesas do lar inclusive a satisfazer os pedidos e os caprichos dela, a
esposa; embora isso a Maria indo pegar-lhe no pé pela sujeira (e falaria e
falaria e falaria sem parar!) pelas das mãos e os braços um risco negro na face
clara queimada requeimada no sol, não: pela da roupa. Sujara, desajeitado, sujara
as vestes; e a quem sobraria? indaga a mulher, cheia de problemas domésticos sobretudo
com os filhos; tinha um que saiu marrudinho igual o avô seu Zé, outrinho
briguento e arteiro e havia mais um punhado de meninas, nem sempre comportadas;
ainda a casa a comida, o bruto sequer viera almoçar e come de boca aberta
mastigando feio a janta – ela resmunga. Ainda não, sim depois quando encostasse
o caminhão, buzinasse a chamar a atenção dos moleques trepar no paralama do
veículo feito macacos na árvore.
Agora não, sim: pensa. Existe na
imaginação, sorri das reações da Maria, vê a mulher “fula da vida” falava
repetia assim o marido, quando longe da cara-metade (ora, por que não
satisfazermos a reforma ortográfica que irão nos impor por estes dias, a cortar
o hífen e portanto grafar carametade!) apenas sorria, o sorrir que é um
gargalhar nos imaginosos. O nipônico olha a cena, ri ele do outro, quase
dizendo “do quê ochê tá rindo?” não diz, nem conta a conta: lança a conta na
conta a pagar, um autêntico pindura fosse no boteco. E balança a cabeça de
cabelos espetados, não sabemos se concordando discordando ou muito pelo
contrário das coisas.
Capítulo Trigésimo Quinto
A soma de duas solidões (aqui aproveitando a oportunidade
em pôr 3, 4, 20 solidões) dá como resultado sempre menos de meio homem.
Acaso
todos não precisarão transpor esta abertura ao fim! lamenta muito rumina ou só
pensa indagando em frente ao campo-santo Xis. O xis da questão? Não saberia.
Põe isto quem sabe um camarada magro
moreno, não preto mas branco queimado requeimado herdado decerto dum consórcio
nada regular de duas famílias pioneiras – a de Xará chamado João matador de
Mateiros literalmente encerrados enterrados sem apelação ali lá no fundo na ala
dos pobres; e a de seu Zé que se meteu a professor e morreu quase falido, a
falência em herança à Zefa chorar e por isso, fosse latifundiário estaria na
ala milionária, também morador semelhante ao compadre na ala pobretona –
consórcio dito realmente nada regular. Isto em virtude duma desvirtude: a liberdade
não vigiada nos agrupamentos desendinheirados. Quer dizer, em explicação
nadinha fastidiosa entretanto longa, necessariamente longa e dentro do seguinte.
Seguinte
Os zebedeus, posto fossem num talvez
com certeza de origem na terra, na região, e portanto dos índios Kaigangues ou
Coroados, estes que parece apenas emprestando o nome a uma rua na zona oeste
(justamente ao lado da antiga zona do meretrício, sem querer, e deixar-nos-ia a
Caneta este trocadilhar e a tegiversação!) fossem enfim uns autênticos
kaigangues soltos na praça, ficaria entendido não terem nomes civilizados;
aliás esses zebedeus não têm nomes. Não!! todos temos, tem ele: José João
Antônio Francisco ou qualquer e por que não tomá-lo à novela das sete à das
oito à das nove, esta um pouco indecente, da televisão de nossos dias. Daí Xis,
não nos forcem ditar sobrenome. Xis vem da união dum óvulo solitário escondido
medroso em ser ovo e vai que porventura não seja o que determinou a
personalidade quieta e a mudez dele... possível; com um espermatozoide fogoso
andejo e provavelmente por isso não parando dentro da urbe mariliense (em
parecer ter bicho carpinteiro? não exageremos) a urbe já grande nos fins de
setenta. Pode ser por essas razões andarem unidos a solidão e o andarilhismo no
pobre! pode que possa. Ser ou não ser indaga o poeta-filósofo. Tal óvulo
provindo do descuido duma filha da filha de seu Zé Professor e o espertalhão
espermatozoide, originário do filho do filho de Xará, espermatozoide sabido
sapientíssimo (ou burríssimo) a nadar no nada da gosma, expulso e se unindo com
o óvulo... pô, lamenta ou se indigna Caneta: ele com ele! pô de novo. Ele óvulo
com ele espermatozoide, otiminhos pra virar ovo. E vingar se tornando Xis; um
Xizinho que era uma gracinha. Seu Zé estrilando a barriga da filha, a Zefa
pondo panos quentes na defesa (ou deixá-lo-ia expulsar a pobre grávida! não, é
claro). Ou da neta, não da filha, a neta que ele sequer conheceu, morto enterrado
calado na ala pobre perto do compadre Xará, no descanse em paz. Doutro lado o
neto safado do desafeto João Xará na sua, no não tenho nada com isso e partindo
por aí em novas aventuras a semear mais filhos como a chuva e a terra e o tudo
e o mundo. Não importa, importa aqui que veio ao planeta, então já sofrido nas
amarguras das guerras e da Guerra, a qual se tentava esquecer se lembrando.
Veio assim o começo de Xis e o fim deste seguinte.
Segundo
Seguinte
Encontra-se Xis frente ao portão da
Necrópole Municipal, sem nenhuma vontade a entrar... entrar? um medinho danado
até no olhar; entrar morar esquecer lembrar, mesmo sendo para ver mausoléus dos
ricos: aquelas estátuas e capelas o fausto o luxo o tudo o nada; menos ainda
para observar a ala pobre na ‘sem-nadice’ da cova a terra por cima por baixo um
esqueleto antes do jogar no poço, a miséria o nada. Não. E se encontra de
passagem. Não diz isso, isso e nada, não fala olha andeja andrajos... Não
andrajos, que gritaria faria armaria maria, a maria vai com outras de nome
Caneta com pedigrí – pelo fato de pormos andrajos no pobre homem pobre comum,
Xis é comum. Vestido, despido cadeia nele hospício: nossa sociedade é despida
porém séria e moralista. No II Milênio e na mesma cidade e inclusive antes
dessa data comeria seu almoço na sopa dos pobres da Igreja ou a dos Espíritas.
Ele se contenta em ganhar um prato aqui outro ali, pobretão. E dormir?
Realmente pobretões também dormem, encostam-se em qualquer lugar ou tomam lugar
no albergue noturno na rua Sargento Ananias ou sabemos lá, lá vamos nós também
saber! Ponto. Aí segue.
Deixamos no sol ardido, quente,
mortal, o mortal com aquelas minhocas na cabeça a cerca das coisas que sentiu
no cemitério. Indo agora em direção à outra extremidade de nossa urbe. Nunca
pensaríamos tivesse uma direção, não tem norte. Aliás encontra-se Xis em frente
da Fafi, a Faculdade de Filosofia erguida pelo Governo numa grande e antiga
fábrica desativada de seda, na zona leste, mais precisamente na Avenida Vicente
Ferreira.
Não vai entrar perquirir estudar
‘matar aula’ fazer greve estudantil cheia de ‘abaixo a ditadura’ (de 64, não
confundamos a coleção na História da Pátria) nem pensar pensando um dia ser
doutor ou quaisquer outras alturas. Não. Olha vê assunta, curioso. Ora,
precisamos encher o tempo do sem-tempo com portentoso nome Xis, sem questão,
daí olha os moços a entrar sair tagarelar; a ele dado quando muito sonhar, não
sonha, proibido à realidade sonhar, a realidade não ‘poetastreia’. Só imagina,
não mais que isso. A cidade tem cultura, faz até simpósios à nata da elite
cultural; tem já faculdades como por exemplo aquela de Ciências Econômicas.
O comércio então, ele se esparrama não
apenas nos empórios e casas de secos & molhados ou armazenzinhos por aí;
não: tem lojas vistosas e sua força no centro, em volta mesmo da concentração
bancária, a cidade se gaba em possuir um dos maiores centros do dinheiro; no
Edifício Marília inclusive, sendo ele o segundo ou terceiro entre os
arranha-céus erguidos na história urbana, o primeiro foi o Ouro Verde o qual
forçava Xis a olhar o alto dos seus sete andares a dar enjoos; no Marília
estando no térreo o Banco Bandeirantes. Xis olha o movimento o vaivém da gente,
mais ou menos apressada se pensando talvez paulistana sendo apenas paulista.
Olha, examina (fá-lo todos dias, diz a rotina) o comércio no varejo se despejar
na rua São Luís na confluência dela com a Nove ou a Prudente de Morais –
pacotes, gente, crianças, conhecidos (amigos! que é amigo?) estranhos, curiosos
ah como gente é curiosa... Se cansa de tanto cansar em ver e andar, anda mais e
mais.
Na Avenida nota o cartaz do Cine Marília.
Não vai à sessão, só havendo projeção à noite com casa cheia por ser popular;
tem o Cine São Luís na rua Nove de Julho mais antigo, entretanto não dispõe do
dinheiro ao ingresso, nunca assistiu a um filme, não veria a Chita não se
prenderia à Dalila (xô Sansão) não torceria pelo Tarzã – sem moeda sem nota nem
cipó nem selva nem ficando por isso a receber muito menos a violência da
civilização de Primeiro Mundo. Para na Brasserie. Claro não vai tomar aquele
chope, não deixá-lo-iam sequer entrar; olha, sorri (de quê? bobo) e prossegue.
Foge ao Aeroporto, volta assim à zona
leste. Aí ela iniciou seu fim... A zona? Não, a Caneta. Começa a falhar um pouco,
burra borra a mão da gente, a gente daí xinga, sim é feio xingar xingamos assim
mesmo. Pior nisso é borrar sujando vermelho! Não era azul? Azul, azul nem
vermelho se explicam. A Xis, Xis não indaga, mudo, surdo-mudo também não,
apenas um ser solitário. Os solitários igualmente podem ter amigos falar com
amigos ou só conhecidos periféricos: no fundo não têm ninguém. Em virtude disso
caminha pra lá pra cá onde pode, pode pouco, pra onde enfim o vento o empurra,
ao léu, e se encontra a observar os teco-tecos a rugir andar correr vencer
subir contra o vento, ou a descer. Sorri vendo um deles. Tem os aviões de
carreira, da Vasp? Vê os homenzinhos nas janelinhas saírem homens da portinhola
a descer na escada a ganhar a grama a sair a tomar seu táxi ou seu carrão
particular. Embebido em pleno movimento quase esbarra de fasto numa bicicleta
encostada na cerca em muro, a magrela dum outro pobretão com dinheiro ele sem.
Passa hora, horas engole o tempo, o tempo que nos engole. Ruma ao centro, o
centro da fome, a fome o xis da questão...
Se arrasta (ah imagem forte: anda ao
menos sem pressa) chega à frente da Igreja São Bento a escarrapachar-se talvez
no jardim ao lado; tem a Santo Antônio no outro extremo, longe e a fome perto.
Fareja seu ganha-pão que é somente o enche-barriga sempre mais ou menos vazia.
Um sanduíche ou uma fruta ofertados; depois sim o descanso merecido no jardim
público.
Mas apenas isso?
Com o que se ocupam os que se não
ocupam, mordisca a Caneta falhante moribunda. Andarilhos não se ocupam, em não
ser eventualmente, respondemos a fim de nos livrarmos da intrusa. Quase, com
isso, quase perdemos Xis.
Achamo-lo na Ailiram, Marília
soletrada em contrário, a favor do emprego a empresa, pois que essa fábrica
ocupa muitos operários e é um dos dados em referência na indústria da
região. Futuramente seria engolida por multinacional. Ele não aguarda que lhe
sobre uma oferta de confeitos; ou pensaria nesses termos, o que se pode saber
disso? Olha os trabalhadores, vê a gente a entrar no labor, o seu ele mesmo desconhece.
Cansa-se. Anda mais.
Volta. Torna à Av.Sampaio Vidal, será
dia quem sabe de algum desfile cívico. Mas não, é dia sim de trabalho. Em Sete
de Setembro se extasia no ver ouvir a marcha em cadência os estudantes meninos
e os soldados adultos no compasso e no estrondo dos tênis jovens e dos coturnos
militares na pedra brilhante ao sol ou no asfalto negro; as bandeiras o rufar,
a alegria mesmo, mesmo ele contente; que fosse no consolo em ter ocupação,
aquela em ver... Não
tem nada, tudo movimento normal ou comum do povo e dos veículos no seu
quefazer. Faz algo: caminha em meio ao desvio dos passantes temendo o
inesperado da violência miúda ou pelas suas vestes ou a fugir do seu odor quase
nauseabundo porque a miséria também cheira mal à civilização, caminha a admirar
mais adiante o Paço Municipal cartão de visita da urbe pela sua arquitetura
moderna e quiçá atrevida. Antes a Prefeitura na São Luís na esquina em frente
do Líder Hotel, este um ícone da cidade, quase peça rara de museu respeitável e
de valor à História. O
prédio do Líder, o qual pertenceu à pianista clássica Guiomar Novais, o
edifício em pé ainda em 2011... Esta crítica em virtude de no mesmo ano haverem
os sem-história, quem sabe com muito pedigrí igual à Caneta, eles derrubaram o
Hotel São Bento, o primeiro de alvenaria no perímetro urbano, pondo no lugar um
caixote sem arquitetura: sujando a História e a Memória marilienses. Achamos,
podemos dar palpite? achamos isso imperdoável! Enfim em
frente à Prefeitura velha onde os ancestrais se postavam em fila na escadaria
para obter requisição dentro do racionamento pela Guerra Mundial.
Contudo não vive a viver se extasiando
nas belezas do lugar, a rigor quase não percebe coisa alguma; porém em contrário
acumula alguns maus momentos. Um dia no desfastio ou por comida de mais
na rotina de menos, o frio de julho com água muita; por fim no aperto do
desaperto resolveu urinar; não o comum o incomum. Não achando local adequado, como
homem sem presas morais e guardando aparências, optou tijolo. Bem, havia certa
pilha em pilhas enfileiradas qual muro e aí desafogou a bexiga afogada; no
final vindo o alívio de hábito no mictório improvisado. Com certa agravante: a
mureta sendo o muro entre a Delegacia de Polícia e o prédio robusto do Forum.
Imediato notado apanhado preso encarcerado batido... Levou somente algumas
lambadas pela afronta e não passou mais que poucas horas na madrugada fria na
cela fria ao lado de colegas frios, ou apenas gozadores e indiferentes, visto
ser Xis um mequetrefe entre mequetrefes e portanto inofensivo; longe estando em
pleitear melhor situação no meio de presos comuns, ladrões e outros perigos à
ordem. Dormiu, se não ao relento como habitualmente ao menos com teto; e grade.
Saiu à rua rindo sem-graça aos de farda. Sequer encontraram para devolver-lhe
documentos e bens; sequer tendo a soltá-lo das chaves um causídico sem causa.
Direto ao ar puro, havendo recebido talvez um cafezinho magro quem sabe, um pão
magro sem manteiga.
Agora – decerto avisado ou avisando
nas imediações cães também vadios em ladração infernal; por que será atraírem
tanto tantos cachorros os andarilhos os bêbados os estranhos sempre estranhos
aos animais mais irracionais!? – agora anda nas proximidades do Estádio Municipal.
A assistir o São Bento apanhar empatar ganhar! Nem jogo havendo, apenas a
sapear por ali no quefazer. Depois do ‘compromisso’ passa em frente dos
escombros que outros indigentes apontam como tendo sido dum gringo louco, um
tal de Preta ou Píte ou coisa assim; e vão além os informantes aos passantes:
ninguém aceita dormir nas cercanias, geralmente se abancam em quaisquer vãos ao
descanso os sem-teto como Xis; entretanto ali não: fala-se em almas penadas;
seriam os fantasmas da ópera! Pelo sim pelo não...
Todavia não importa, importa andar,
que seja ao desfastio; ou a suar melhor, dormir o suor dormido sem espantar os
colegas de ‘trabalho’, pois são tanto quanto. Não importa a Xis, um indivíduo
que não entra em atrito com a gente desse mundo do submundo; antes foge sorrateiro
à ocorrência. Vai vivendo, diz.
Diz assim a um viandante estranho na
cidade. Estão observando o trem passar na passagem de nível da rua Nove de
Julho, a porteira fechada minutos eternos, os carros apressados nervosos
buzinam a tardança, animais nas carroças remanescentes doutra época a matracar
cascos no paralelepípedo ou a afundar na superfície asfáltica eles também
nervosos e se coçam e a gente conversa ‘desprofundidades’ um motorista ao outro
doutra janelinha dos veículos. Decerto a profundidade do homem comum como vai
chover ou tá quente e demais filosofias bárbaras. Xis não, não conversa, em não
ser esporadicamente, olha tão só as composições a se chocarem se engatarem nos
seus barulhos. Anteriormente ficava apreciando o comboio de passageiros. Se
tivesse relógio, nunca possuiu um, acertá-lo-ia com o trem, absolutamente às
17:20h.. Entretanto o de passageiros anda parando sumindo na crise e no jogo
político a favorecer empresas rodoviárias. Tanto assim que é possível dizer que
nos países europeus pode o trem matar o homem descuidado; aqui o descuido
deixando que o homem mate o trem... Não pensa nestes termos Xis, simplesmente não
pensa.
Observa aqui ali Marília, Marília tem
movimento enorme, sobretudo nos dias de pagamento (de salários e contas...) tem
indústrias de óleo volumosas como a Sanbra a Clayton a Matarazzo, as quais
seguindo os passos do trem... Tem inclusive ônibus da Circular para encurtar
sua ‘grandura’ ao povo acomodado. Tem Rodoviária tida por moderna já acanhada
que se ergueu onde havia um bosque donde partia o Rio do Pombo e que Xis
desconheceu. Ele entretanto, no seu parco entendimento e desnecessária
curiosidade, mui diverso de seus ancestrais também por ele desconhecidos ou não
lembrados apenas, ele não pensa nisso não sabe isso – é o homem da rua, cuja
façanha maior é a de conseguir mais de uma refeição no dia e ter onde pôr a
cabeça, que seja no travesseiro exalando o cheiro de outros pobretões
anteriormente de passagem no sem lugar. Xis somente vive seu dia para o seguinte.
SeguinteTerceiro
Um funcionário coça a cabeça, puxa
vida, diz, puxa mais um! e conta enquanto umas questões de família para o outro
nem perceber o lamento e lamenta agora o segundo o salário insuficiente; vão
por aí os comentários enquanto. Enquanto Xis aguarda sua vez sua cova sua
finalização, enquanto. Enquanto pensa pensou não pensaria não: talvez com várias
e muitas concessões na concessão da vida que é tão só a existência curta na
vida longa e ele desconhece; ah sim, que a terra seja a si leve mas ninguém diz
ninguém sabe ninguém se encontra presente no cortejo nem no cortejo fúnebre.
Que aqui, ali aí em frente escancarado à população do Planeta, inclusive a todo
mundo rico ou pobre; aqui entrada ao fim, o fim é o fim do começo: como se fala
por aí, como morre gente (não põe sinal de exclamação nunca pôs pois desconhece
tudo e isto porém se admira) como! Em contrapartida como nascem criancinhas,
pô! Tinha a parteira dona Maria, agora é a Gota de Leite e outras maternidades
a servir o servir; a parir uma população inteira. Todo dia morre gente, todo
dia nasce gente; são cordões e cordões em desfile que se esparramam no Globo
com necessidades com consumo com fome com fome de tudo, de todos básicos e
desnecessários no supérfluo e nos abusos – o homem desvairado. Até chegar aqui
lá ao pó, ao nada. Tudo todos. Então eles o chocalham por imprudência ou
necessidade da incapacidade no serviço enquanto matracam distantes do perto
suas coisas, quase mesmo furam quebrando as tábuas daquele invólucro que Xis
tanto viu ouviu ouvindo vivo não-vivo no desentendimento: “fulano foi à caixa a
pregos” dizem-lhe doutro, outro agora que fala sobre ele; se quebra parte-se
quase a madeira com terra a pesar quase também a ciscar-lhe olhos, e praquê
olhos de não enxergar... Põem um número, não poriam ‘aqui jaz um indigente, a
família os amigos etc. e tal’, só o número, o chefe deles fiscaliza o errado do
certo e a gente não mais gente, a gente é um número a mentir na estatística da
Estatística, que é uma ciência se não mentirosa com algarismos sem
credibilidade total. Para encerrar. O Capítulo e a Segunda Parte destas mil e
uma noites sem Cherezade e quem sabe a sobrar Xis ou tão somente uma solidão.
Capítulo Trigésimo
Sexto
A primeira reação do
ser humano diante da Verdade é a descrença; daí
a função vital da Literatura: ela mente e despeja a
Verdade. Então o homem crê.
Acabamos de sepultar um indigente sem
pedigrí e cujo sem-nome levou a letra Xis, decerto de quadra (ora, o quê sabemos
disso!) e a seguir o ‘x’ uns algarismos talvez a agradar na papelama do
escritório no Cemitério a burocracia.
Façamos
outro sepultamento (Ela diria, intempestiva como era: não é para acostumar e
seriar...) Façamos o dela. Depois.
Antes
um senão, quem sabe nada senão:
Maria
não aceitando Maria.
Não
nos importemos agora com estas ideias expostas e com aparência de retalhos numa
colcha pobretona de cobrir uma cama de quem tenha gosto artisticamente
discutível; ou somente por mero reaproveitamento de trapos. Não. Não nos importemos
porque isto é parte duma literatura; admitamos seja péssima literatura, ainda
assim literatura. Ela não trata da verdade escancarada, usa seus próprios retalhos
a fim de que quem tenha olhos para ver chegue à verdade. Todavia, calma.
Quando éramos
moleque – mamãe, indignada, a bronquear ter dado finíssima educação ao pimpolho
e portanto menino não menino de rua, arteiro e sem eira nem beira; o que
mentira, não sendo mentira em vista de mãe não mentir apenas se enganar, pois que
a opinião vizinha esbarrando contrária nisso pelas artes do capeta ou só nossas
inocências abusivas; dito o dito prossigamos moleque – quando, fizéramos o enterro
do pinto. O pinto morreu ou foi não ter aguentado a brincadeira de receber
pedradas; o pintinho menininho mortinho uma gracinha. Bem, bom enterrar para
não carniçar e aí convidamos os colegas da vizinhança ao sepultamento do pinto
mole, mole por não suportar pedras e sangrar. No estilo no cerimonial, mesmo
porque criança imita adultos no que vê quê façam. Caixão de caixa de sapato,
vela
ou imitação, flor, reza, choro até! O enterramento
no fundo do quintal, o monte de terra fresca a cobrir o cadáver contendo uma
cruz improvisada julgando o pinto cristão. Claro o terreiro todo assustado ou
curiosando, o galo carijó o mais corajoso por chefe do harém a chegar perto do
cortejo. Não escrevemos ‘aqui jaz um indigente sem pedigrí’ por analfabetismo porém tivemos intenção e a intenção vale mais que a ação.
Agora Ela sangrara, azul manchara de
tinta vermelha os dedos. Gritamos e nada; surda muda inativa morta! Enfeitamos
o enterramento com linda solenidade – inclusive fazendo discurso inflamado,
desses chatos de horas de bocejos de raivas, desses quilométricos salpicados de
boa entonação sim mas cheio de erros (não de ortografia por serem sons e não
escrito o discurso e mais para pornografia) erros como os de concordância,
quando não sabemos mais pela distância de metragem qual o sujeito; daí berramos
“gente” porque gente concorda com tudo e até com que não seja gente. Entusiasmados
e sentimentais, choramos, crocodilamos; a tanto ser preciso consolo. Ficamos
órfãos, nós e quem se disponha a ler-nos.
Todavia
isso tudo não ocorrendo aleatoriamente e sim dentro do tempo. O Milênio
impávido à frente ruge a marcha marcha o pé a pé na esteira do tempo puxando
ele mesmo a esteira do tempo, segue o caminho machão e lógico; olha a esposa,
dona Hora abaixa a cabeça e ouve o rugir macho puxando o comboio quase sequer
olhando atrás não lhe importando o passado, o futuro. Ela escuta o cala a boca
se é que falou, ele segue, segue ela atrás, olha atrás os filhos a filharada
Minutos e os mais tenros Segundos, passa-lhes raspança como recebera do macho
seu amo e amor e adverte a prole não desgrudar de sua saia, saia! diz da brincadeira
ah quem pode com um menino... saia e me
acompanhe acompanhe o Milênio em mil e uma noites e dias que são anos. Alguns
se não todos Minutos e Segundos não estão a brincar mas absortos a sonhar
poesia a seriar filosofia, que se não vê, vê-se eles pulandinho agora em fora
atrás de mamãe, mamãe atrás de papai, papai não para no tempo: é o tempo é o
dia é o homem é o pensamento do homem, é o sempre...
Enfim desaparecida a Caneta, ex-Caneta sem lhe adiantar
coisa alguma o pedigrí. Jogamo-la em consenso, ou seja as duas mãos e os dez
dedos a concordar, atiramo-la no saco plástico, o de recolher outros objetos
plásticos pois somos pela separação do lixo para não sujar o meio ambiente
reaproveitando matéria, alô povo do pevê. Não poderíamos então adquirir outra
caneta mesmo sem linhagem de rico ao preço de pobre! Sequer o fizemos,
pesarosos constrangidos decerto; lembrando também como somos cidadãos corretos,
primeiro sujando depois limpando o globo no pedacinho que nos toca; outro
alôzinho ao green peace.
Estávamos
exatamente nessa atividade benigna à limpeza pública, órfãos dito, borocoxôs,
quer dizer: não sabendo nem mais o que fazer, quando nos aparece Maria.
Maria
não aceitando Maria!
Pareceu-nos
uma adolescente espigadinha ativa magra. Apareceu-nos na porta vista do leito
hospitalar (haviam passado por cima quase nos deixando como Xis ou como a Caneta
mortos, estragadinhos; então, isto fazendo tempo, descansávamos nossos cacos e
trapos nas faixas e nos gessos em excelentes ais quando chegou:) olhou a todos
e se engraçou ou de nossa cama na enfermaria ou de nossos remendos. Sorriu.
Imediato achegou-se. Assustando-nos, ofertou um beijo e mais sorrisos
consoladores. Ganhou uma bolacha, nós aqui em Marília dizemos assim e não
biscoito. Aliás tomou o pacote na cabeceira da mesinha, retirou uma e indagou:
posso! Ah que voz de anjo, o anjo que despedaçara a dor que nos despedaçava...
Anuímos, saramos, saímos; a selar amizade que prossegue até hoje. A propósito,
que dia é hoje?
Nesta
segunda-feira temo-la a nos ajudar lembrar marcar e demarcar todas as coisas,
nas recordações que grafamos nestas linhas aqui.
Aqui comecemos pela filiação da filha,
queremos Maria como filha. Segundo sua informação vem elinha de João Xará e de
seu Zé Professor, melhormente herdeira do nada que deixaram aos filhos netos e
bisnetos (caso de Maria); herdeira mais ainda de Gena e Zefa, comadres desde os
primeiros tempos, desde mesmo a fase do pioneirismo mariliense; agora, como
nasceu e de quem nasceu não sabe não sabemos nós. Ou menos pior: descobrimos a
linhagem através do Diário. Às vezes a menina entitula Anuário e até Milenário
por registrando só um que outro fato dum que outro ano. Porém isto senãozinho
porque o que nos interessa são as páginas do caderno, um caderno cheio de
florinhas grudadas e tem colado um passarinho na capa recortado e retirado dum
livro da Biblioteca Pública, esta hoje ocupando área onde fora o Ginásio e
posteriormente a Escola Normal na Avenidona. Tais informes cremos
auxiliar-nos-ão daqui em diante por descanetizados.
Ah
sim, esquecíamos dum dadinho sobre elinha. Seguinte. Ela é aberta, quiçá
prafrentex como toda jovem, porém não aceita o próprio nome! não é absurdo?
Antigamente só dava nome no cartório Maria e José. Agora querem os das novelas;
fosse mineira a família criaria um nome curioso ou engraçado como hábito
centenário nas Gerais; não: mariliense e aqui seguimos a norma global afogando
os consagrados. Por isso não se registrando mais as marias, Maria a se
envergonhar pelo seu. Concordamos discordando.
Capítulo Trigésimo Sétimo
Quanto vale uma comadre? o íntimo é o consultório
sentimental do pobre; e do rico carentes. Às vezes derrapa-se no contumaz
falatório e na enfermidade do dizem que falaram
mas ressalta na comadre
o remédio equilibrando um pouco o ser.
Geninha
está velha. Enrugou porque o tempo medido em dezena pesa e faz uma diferença
enorme. Viúva resmungona, embora o Chico ainda vivo na morte por sua bebida,
desandado sumido; enviuvou sim doutro ajuntamento; a filharada de ambos lados
não se entenderam entenderam uns de casar mudar desaparecer ou só ficando
poucos em volta da velha; não para ouvir resmungos, mais coisas do coração. A
compensar o quase viver sozinha, embora mal acompanhada com os parcos recursos
que certos filhos lhe fornecem; então recebe mil outras senhoras, umas são da
paróquia de Santo Antônio outras só têm a religião como disfarce para estar bem
socialmente. Contudo conversam muito e amiudadas vezes. Sensata, ou com tal
fama, a Velha dá conselhos orienta as pessoas que a procuram. Um dia foi mais longe:
aprendeu as cartas. Não para roubar no arruaceiro truco ou na comportada escopa
de quinze a se distrair com algum neto de plantão; a fim de pura e simplesmente
ler o futuro dos outros, o dela desconhecendo. Alguns trocados, poucos e
inseguros. Isso requerendo certas disposições de espírito, ela sem o talento, logo
ou desmascarada ou a atender de graça as línguas amigas. Assim sua casa pobre se
enriqueceu nestes últimos tempos e virou verdadeiro consultório. Claro entre
presentes falar nos heróis e heroínas das novelas, ela sem televisão entretanto
vendo em casa vizinha; uma das consulentes, uma tal de Maria, velha como as
marias antigas e mais ainda que a Velha e sem a força moral o ímã de Geninha,
Maria vindo do tempo daquele radialista Júlio Louzada, o do programa ‘Pausa para Meditação’ com
grande audiência, através dos sons nos receptores de rádio, o rádio hoje sem
prestígio ou desbancado pela tevê e os meios informáticos de nossos dias. Ela
lembrava ou relembrava os casos narrados na programação da radiofonia carioca
ou então a recontar lances da novela ‘O Direito de Nascer’, também do rádio.
Depois discutiam. Os anos acresceram ou enriqueceram as estórias que trouxeram
por anos, quase virando novas e originais estórias, visto o brasileiro ser mui
criativo inventivo e acrescentativo... Um pouco aquela questão de quem conta um
conto aumentar um ponto. Ocorreu entretanto de um dia d.Maria Velha bater à
porta da Velha, incomum por andar sempre escancarada, dentro do princípio em que do lar pobre o
ladrão não leva nada em não ser susto; falam assim. Ali como hábito no entanto
sequer as crianças gritavam, gritavam sim mais distante; enfim era o inusitado
à senhora amiga, amigas embora se cortassem longe estando; perto aproximou-se
deu mais três pancadinhas em croque usando a quina da mão porém a Velha nem tossiu
sua tosse, menos lhe abriu a casa para convidá-la no costumeiro “vai entranu,
muié” como falava Geninha. Falava. Geninha andava parada fria retesa dura
morta.
Capítulo Trigésimo Oitavo
A ignorância é
apanágio de todos nós mas a burrice ostensiva é privilégio apenas de alguns.
A
Velha Geninha teimava em não se acabar acabada tristonha e já no fim
indiferente, não entendendo a gente e sua gente, esta como água a escapar-lhe
pelas mãos, as suas trêmulas como tremiam os anos os séculos o milênio; acabava
o milênio pra si, aos outros a demorar mais anos nas mil e nos dias. Teimava e
não foi de repente como ameaçara pensar d.Maria, a Velha a nova novinha em
folha a nos dar palpites nas horas roubadas – advertimos aqui o fato de nos
apropriar de seus bens; ou únicos bens: os das folhas do seu diário, mormente
as páginas pares, visto não usar o verso; seja por ajudar o lixão da
prefeitura, os funcionários não sabendo mais onde pôr entulho, pois o partido
verde e a oposição chia estufa grita; e assim Maria tomando 100% de um espaço e
tão só usando 50, os lados pares dissemos repetimos no desencargo de
consciência cidadã.
Outro senãozinho posto nestas linhas
em esclarecimento é que não aceitando Maria o nome Maria, aceita inventar um
outro que nos disse ter; quanto a isto reviramos toda papelama oficial não
descobrimos nada e então supondo invento – não dissemos tal à jovem: não se
deve brigar com amigos, para ter mais chumbo grosso aos inimigos. Disse-nos,
ainda cativantemente sorrindo, ser Maria Tereza, pusemos zê da zabumba
corrigiu-nos a ignorância com esse do sapo. Fez mais, uniu as inverdades
produzindo uma desmentira quentinha, a queimar-nos a língua que mostrávamos aos
desafetos em moleque, mamãe corrigindo também pra menino. Assim virou Maitê;
exigindo inclusive o chapeuzinho que a cúpula da cultura em simbiose com a
corrupção política desejosa em eliminar o agudo nos forçará democraticamente a
tirarmos o circunflexo; e a gente diria a ‘biduzar’ e a ser originais “quem
viver verá!” Bem, a dúvida
presente nesse passado próximo não se concretizou nas oxítonas, salvando Maitê.
Deixemos por agora o desacordo ortográfico em curso
e voltemos à velharia.
Geninha teimou morreu, assustou Maria
Velha. Isto já neste milênio, milênio conturbado. Tornemos ao Segundo Milênio,
ao final dele, a partir de 1970 e anos 80 em que a Velha velha sim e mais moça.
O mais é menos absoluto pra ser expressão; que o digam os ais e uis das
comadres a se reunir na residência de Geninha filha de Gena e avó de Maria,
Maitê corrigimos amigavelmente.
Enfim todos dias nos encontros, elas
no leva e traz; sem maldade diríamos a desafogar abusos, diríamos sim que
traziam doces bolos guloseimas (Geninha gulosa pra açúcar, sem ter balofado
demais nem sofrer diabetes, ou sofrendo só depois, isto afirmamos no milênio
atual) e levavam a mesma coisa ao contrário ou não ao contrário, o mesmo preparado
por outras mãos. E aí se justificavam erros ou enganos nas receitas e se auto-elogiavam.
Ah, não sabemos nisto como ficaria o hífen que a reforma quer tirar, de que
jeito escreveríamos a palavra: ‘autoelogiavam’? Quem viver verá no que dará.
Então trocavam receitas de bolos e bolos também e sobretudo conversa-fiada
fofoca invencionice e quejandos. Aproveitavam as frequentadoras, enquanto a
roupa de molho no tanque a amolecer a sujeira, pra tirar umas dúvidas no ‘disseram
que me falaram’ ou coisa assim; assim, vendo o vizinho da frente, um tal seu
João, ele a andar qual macaco como haviam assistido num circo que ora não mais
aparecia sem público gastante gasto; andava o pobre arcado e quase a arrastar
as pontas das mãos no solo, apoiando-se a uma bengala já lustrada no uso e no
sol quente; ele a passar cumprimentar na calçadinha oposta do buraco onde
deveria ter guia no entanto a prefeitura “aquela ladrona...” na voz de Geninha;
em suma o macacoide passou sumiu na esquina a se arrastar e a Maria Velha à
Velha: “comadre, dizem que o sujeito é incriado...” Pôs reticências a dar
margem a um suposto comentário da Velha. Esta não coçou a calva, cabeluda
embora branquinha, coçou a cabeça a pensar, um coçar ajuda o pensamento supomos.
Não respondeu naquela hora, naquele
dia, no outro, após consulta ao esfarrapado às suas poucas letras. De fato
gasto e faltando folha o dicionário do menino, o neto mais visitante mais
morante na casa avoenga. Ainda pôs a questão ao moço, este sorriu. Noutro dia
respondeu à Maria não saber, não se incriado o vizinho, não saber com certeza o
vocábulo incriado.
Acabaram-se as certezas nas dúvidas
das certezas. Quando Maria Velha tornou a fim de repor com mais profundidade o
problema, quem sabe desfazendo-se definitivamente as dúvidas para haver a
certeza final, bateu a terceira a quarta a quinta vez. A Velha não necessitando
mais nem as dúvidas nem as certezas...
Capítulo Trigésimo Nono
Gente é animal que
perde a hora e julga perder a hora; o animal tido por animal não perde não julga perder e faz a hora na hora que desejar.
Passava
passando a passos curtos lerdos cansados uma senhora bela, ao menos em perfil,
com um viés formando certa linha negra na pele branca queimada, ou era que
fossem os olhos piscantes da noite a ganhar o dia em cima do dia a morrer na
terça-feira comum, ela incomum decerto. Não obstante outrem já passara
apressado um homem por ela, ela a bela; passara não se cruzaram cruzando tão
somente os caminhos, quem sabe em descaminho a caminho do lar.
Assim se arrastava um ser prenhe de
prenhez nas oito vezes que dera à luz, fora as perdas ganho aos que não podem
auxiliar demais a população mundial crescer abortando vezes inúmeras dum só
homem, macho pra valer garanhão constatado no tanto produzir e mais em produzir
vexames à família se embebedando. Até que esse rebotalho, provindo do filho de
seu Zé, então mortinho em paz no lugar adequado a se prantear ou esquecer; e
seria o Arlindo que a comadre dizia viva a sorrir “Arfeio”. Podendo que fosse.
Esse filho do filho do seu Zé, por nome Geraldo os íntimos a dizê-lo Gerardão,
pequeno e se insignificando com mais e mais cachaça até, em suma, morrer? (não
de fato o fato em mostrar anjos a descansar no cemitério da Av.Saudade,
não – sim a fugir à responsabilidade,
deixar o trabalho à bela Edna cansada e os oito famintos). Contudo a mulher não
se entregou.
Agora, ontem, quando a passar lerda
com apenas os três últimos menores e resmungões a acompanhá-la, um delinhos
mais resmungão e sendo do tipo de gente, no caso gentinha, de gente a quem nada
tudo serve não servindo, a mãe somente cansada no ganha-pão. Mais nesse menos:
ansiando por novas encrencas... Nada em ver com o passante apressado
desconhecido de todos no pedaço pelo menos dela. Este mero figurante, certamente
com sua história seus dramas quiçá alegrias, porém desconhecidos no desconhecimento.
Nem ela interessada no estranho; terá notado!
Pensava unicamente nele. Fechara as
orelhas de escutar o que o triozinho a dizer reclamando a só ouvir no pensamento
a maviosa voz do pretendente pretendido. Aí aparecem as comadres, existem as
comadres às soltas soltas no mundo a falar o que devem e o que não.
Por exemplo. Dona Neusa, diríamos a
acertar melhor Neusona em vista do volume da gente evangélica que nos saiu a
vizinha. Talvez sim. Não que desejássemos ter a verdade. A verdade dela, a
segredar um pouco alto, mostra que a Edna, herdeira emérita (não da riqueza, a
Zefa mesmo gritara viva que os advogados e as prostitutas comeram uma fazenda,
o latifúndio, e até a casa: não e sim do sangue generoso do prolífico Professor
seu avô no sangue de seus oito filhotes) herdeira enfim do seu Zé por parte do
esposo pinguço; essa Edna tão cara à irmã Neusa, irmã evangélica entenda-se,
ela desaprendeu o perigo macho do seu bebum sem-sorte, a cair nos braços doutro
macho da espécie.
E aí nos apreguntamos enxeridos:
desejosa a bela a enfrentar mais oito partos e não sabemos quantos tantos abortos!
Aliás sequer precisávamos bedelhar a
vida alheia, aberta ao público por vozeirões em segredos nada de Estado da irmã
evangélica da beldade em
questão. Todos comentam gratuitamente, o povo não perdoa
essas coisas na moralidade e as fraquezas, sobretudo aquelas das fêmeas da espécie.
A
irmã: como, dona Cida, como que uma mulher casada, sim ele fugiu, o
sem-vergonha (acresceria se fosse nós ela que o macho da espécie é em geral sem
espécie, um irresponsável do tipo ‘num tô nem aí’ oh pobrezinhas das mulheres.
Não disse apenas terá pensado nestes termos a comadre faladeira:) ca-sa-da,
veja a senhora e ainda por cima nesse por baixo nossa irmã. Acredite d.Cida, a
Edna tá louquinha por novo homem... Vê se pode.
Pode, respondemos. A senhora ouvinte
decerto a condenar, visto ser fácil moldar a figura dos outros e difícil viver
os problemas e as ânsias incontroláveis das outras.
Nisso saímos a correr, nada
civilizado, para ver se víamos ainda a bela e sua tropa. Os quatro se
embaralhavam lá longe ao fim que deve ser o começo de nossa rua; se embaralhando
no escuro e na vista a fugirem de nossa vista.
Capítulo Quadragésimo
O horário de
verão vem aí. A
gente adianta o relógio
e vê que não adianta. Daí atrasa.
Ainda assim não adianta.
Naquele
tempo as coisas falavam, falavam os bichos e os passarinhos nem se fale, os
pássaros aos pássaros à gente às coisas, coisa pouca ou bastante, o papagaio ah
como falando o papagaio, o papagaio quem ensinou decerto gente a falar, ao
menos a xingar direito. O estranho nisso é que pedras casas árvores falassem e
ninguém a entender; embora gritassem em uníssono os barulhos do mundo; ih os
barulhos do mundo!
Isso contava o Velho, um remanescente
quem sabe dos primeiros tempos, dos tempos de Mateiro isso não, não conheceu
Mateiro apenas seu executor sem saber e ver sequer o facão assassino de João, o
Xará do morto vivo enquanto também durou sendo enterrado em morte morrida no
Cemitério do Alto Cafezal por Gena sua viúva. Contava não se entendia
entendendo assim que falasse em tão adiantado da hora atrasado ao apagar a velinha
do II para nosso Milênio. A gozarem o fato de que mais saísse vento que fala da
fala do homem ou ‘passa de homem’ enrugada estragada. Mais nessa tarefa os
netos velhos e os bisnetos novos já porém igualmente passados; sobretudo o gozo
mais gozo dos moleques em por hábito viverem com seus eletrônicos e a matar
velhinhas nos videogaimes deles pra ver quem mais ganha nessa perda.
Contava que em pleno Jardim Maria
Isabel e mesmo ao lado do santo – sendo devoto apressado morno lerdo do santo
São Bento – mais especificamente da igreja dele hoje catedral monumental e
bela; que enfim ouvira um diálogo, realmente um poliálogo porque todo mundo a
falar quase não deixando ouvir, só pra falar gritar impor; e esse diálogo a propósito
do despropósito (vejamos bem: o ‘Véio’
sendo contra o a favor, fervorosamente contra...) o do Horário de Verão.
Chegou o barbudo-presidente enrolador
bravateiro com seu séquito, de fato apenas um anunciador medieval vestido a
caráter como se fazia então: desenrolou o papiro e nele escrito goticamente a
lei exigindo adiantar uma hora a hora.
Doutro lado o lado de cá. O pardal
parou curioso de gritar todos parando de gritar, só ele em chefe a conduzir as
dúvidas às certezas com certeza. E disse: Maria (naquele tempo, tempo em que as
coisas e os irracionais falavam e até o homem mui pouco racional falava por bom
aluno do papagaio, o qual envergonhara um casal de namorados a dizer-lhes que
aprendessem blasfemar direito; naquele tempo se aceitando – e por que não Maria
a pardála! – se aceitando Maria, a desgostar nossa Maitê com chapeuzinho)
Maria, disse, vão mudar, antecipando, a hora numa hora. Maria respondeu com uma
baita interrogação. O macho da espécie Passer domesticus insiste. Vão
adiantar esse atraso em exatamente uma hora. Isto posto saiba e a quantos não
tomar conhecimento, que é o resto do mundo, que você tem de recolher as crianças
a piar mais cedo de tarde no ninho; levantar-se noutro dia mais cedo que o
costume, para todos acordarmos o preguiçoso sol... E fazermos todos o que todos
fazem uma hora antes: gritar comer gritar e defecar antes de dormir e aí
gritar. Dá, Maria, dá uma prova de sua capacidade em fazer as coisas hora certa
antes, antes que seja tarde e se vá embora essa autoridade – cuspa na cabeça
dele e se precisar suje a barba dele aí embaixão!
Daí o vovô guardou a viola no saco. De
saco cheio, pois os moleques, corrijamos pra meninos que é mais fino dizer,
pois que eles não davam bola não acreditando no matusalém, este a viver dois
milênios, se é que, a driblar o horário de verão, não ultrapassou os ponteiros
indo ao quarto, quarto de dormir tossir antes inanimar morrer? não, o IV Milênio.
Capítulo Quadragésimo Primeiro
Frase é um conjunto
de vocábulos com a medida suficiente para não se falar o que se quer dizer.
Está
mui claro que tenhamos escondidamente surrupiado a informação da Maitê, ciosa
em esconder por sua vez sua Maria do nome porque Maria em inglês. Sim , a parenta
da senhora Bete, bisneta do seu Zé morto vinda dum consórcio da mãe dela com o
filho vivo do morto Xará, desconhecendo a língua hoje franca e inserida nas
atividades comerciais e informáticas e mesmo nas da rua, ela da rua. Isto
porque Mary é Maria com certeza. A parenta da parenta agora da parenta dela
por parte do falecido ela sendo viúva, essa talzinha mudou pra Meire
nacionalizando sons. Então Bete vem com um papel amarelecido a tremular nas
mãos trêmulas cansadas a confirmar com o filho – velho fraco gasto esquecido
lembrado – o endereço da prima, prima aqui do homem filho único. Eis, então,
caso não houvéssemos nós igual Xará dado uma faconada na Caneta, Ela,
espevitada irascível, iria indignar-se: como, diria azul antes no fim rubrando
o papel, como pode isso se as famílias têm filhos adoidadamente e desconhecem
preservativos na tarefa de estourar a população do globo! Nós: não senhora, a
senhora dita com ajudazinha do falecido, que Deus o tenha, produziu apenas o
malucoide em questão, não mais. Acresceríamos mais um dado, que é o fato de
estarmos em pleno século vinte e um, um século por excelência e demais
esclarecido; porém a coisa mesmo se dando por causa das pacueras e entrâncias
femininas de Bete; ela parou a fábrica na primeira unidade, por sinal do sexo
masculino, após a medicina arrancado útero ovários trompas “comadre, fiquei
oca! só tenho casca...” disse à vizinha, esta apoveitando a narrar de suas
dores numas duas horinhas de conversa.
Isso tudo cai por terra tendo em vista
a Caneta desaparecido. Fica o lembrete. Ela, a Bete:
Fío, ocê não sabia o coronel. Pois não
é que achei entre cartas velhas perdidas achadas restos decerto da lambição das
baratas, aquelas nojentas etc. e tal – enfim achei o endereço certo aqui nesta
no remetente: Meire da Silva, rua Coronel João José, Vila Clementino, n° 49,
esqueceu o cep ah não tinha ainda cep naquele tempo. Então fío, é Coronel João
José.
Esqueceu a mãe indagar ao envelope a
cidade, ao menos o estado sabia ser Mato Grosso.
Não sabendo esse herdeiro, não do
Mateiro mas do executor dele, das ordens e do facão, não sabendo que ele mesmo
não soubesse qual o coronel da prima, nem se tivera algum dia dúvida na
certeza, a primeira costuma engolir a última. Não soube responder o quê.
Ruminou à ‘Véia’, “tá bom”, que na linguagem familiar querendo dizer ‘basta!’ e
virou ele as costas à genitora, ainda nervoso a assoprar o cisco possível no
jecrê do carburador do fusca ‘novo’ dele velho. Repetiu desgostoso: tá bom.
Capítulo Quadragésimo Segundo
A palavra é o maior adversário do significado da
palavra, por quase nunca satisfazê-lo em suas exigências filosóficas. Não
obstante ela varia de boca em boca pretendendo o absoluto do significado. Isso
força mais e mais a existência dos bilhões de mundos a se chocar na Terra. Em
outras palavras: a palavra, ao contrário do objetivo da palavra, dificulta o
entendimento do homem.
A palavra naquele tempo diversa daquele
tempo a palavra. Falavam os que falavam, mais importante falar sem precisar
ouvir. Tudo falava. Às vezes a fugir do falar, ou a se distanciar da voz
monótona da mulherona...
Ela falava.
O Velho
Ela falava (e não dizia nada! talvez
sim, não talvez) falava falando sempre no mesmo tom; o Velho ajuizado ou por
não sê-lo fugiu, fugia sempre da ocorrência da responsabilidade da existência,
sem poder fugir. Então, alfinetado irritado fugido de fato, fugia deixando o
corpo presente como presente ao falatório sem parar, de um som retilíneo sem
cruzamento sem elevação e sem abismo do fundo no inaudível entretanto ainda ela
a falar; naquele ponto em que a sonolência da gente faz a gente sumindo sumindo
sumir e ao longe cada vez mais longe embora vendo sem querer ver a boca abrinte
fechante os dentes a aparecer amarelentos com saudade certamente dos outros
dentes que se foram caindo arrancados para falar o sopro da fala que daí não
passando de vento, ainda aqui morno lento lerdo bronco errado... Fugiu, não
obstante também suas orelhas bem velhas, do tipo matusalém, a merecer a
monotonia. Será, nisto indagamos, será não pudesse alegar o senhor gasto
gastinho sem gosto alegar sim surdez, a surdez que beneficia nas drogas que se
não quer ouvir a beneficiar realmente os idosos! Porém aqui intromissão.
Voltemos ao Velho desaprovando a fala reta sem contraponto semelhando certos
cantos e cantores populares, válido para a ‘música’ dessa mulherona monótona.
Isto lembrança no esquecimento do
Velho. Velho tanto que inclusive poderíamos, pudéssemos, casá-lo (a gente do povo
adora casar os outros) consorciá-lo com a Caneta, morta extinta; ou com Maitê,
jovenzinha cheia de esperança (e desesperança constatamos nas suas folhas)
cheia de vida, bela, apetitosa... pera lá: tratamos as coisas dum velhote e
praquê apetites desnecessários – tudo desnecessidade. Não indagamos a nenhuma
delas por razões óbvias, ou seja a morta morta não casa e a viva nos xingaria
pelo despropósito.
Isto é lembrança dele. Ele achega-se
em suas andanças nas proximidades do Buracão, sabido a urbe cercada desde antes
ser urbe por itambés profundos e por lajes cavadas no tempo, o tempo a rolar na
esteira nos milhões de anos, estes anos aqueles de pobres doze meses e um
punhado bastante de horas minutos segundos. Lajes brilhantes a este sol da
manhã. Nessas condições – e quase no limiar duma parede natural e desgastada,
olha o outro lado do Buracão que enfeita Marília – nessas sente qual vertigem
atração imantação à beleza tosca absoluta grandiosa. Diz ¡oh, lamenta o infeliz mortal, por que
não sou um poeta, sendo apenas um filósofo quiçá um louco! Então recorda nessa absorção, nesse quase
sonho, o sonho da realidade, a realidade escandalosa que viveu. A que damos
amiúde o nome de recordação:
Encontra-se num botequim, uma venda do
tipo de ponto de abastecimento na beira da estrada quando estrada agora rua
urbanizada esburacada na periferia oeste indo à Vila Miranda, pertinho do
cemitério, ah como velho adora cemitério! Porém não está aí para o santo ofício
mas a observar estrangeiros. A gente sempre a se sentir estrangeira estando
fora do seu ambiente. Nesse antro ouve conversas moleirosas arrevesadas,
tilintar de copos e garrafas a se equilibrar nas mesas bambas; as mesas
balançam atrapalhando a visão sã... os tamboretes ou cadeiras cambaias de
boteco pobre com fregueses pobres ou pendurados na pindura rica onde o vendeiro
registra a seu bel prazer (ou necessidade) todavia sob olhares da patroa mandona
acabrunhada ou em reserva com os tipos de homens a beber (felizmente as
mulheres passando e mais passando os lances da esteira sem penetrar o
estabelecimento, elas não se expõem, em não ser as da zona do meretrício, ali
próximo do cemitério e do bar a zona mui visitada; parolam somente os machos
sem espécie). Ali, bem ali, estão uns seus conhecidos: o Chico da Zica, que
virou da Geninha, esta em quem treinava seus músculos seus muques seus murros;
o Gerardão que judiou bem da Edna bonitona, além de fazer uma fieira de filhos
no bucho dela; o Tonho a beber por causa dos ciúmes da Maria ou fora ela na
ciumeira dele! sabe-se lá, agora nem o homem sabendo mais, pois após várias
garrafas não se costuma lembrar sobretudo o porquê de embriagar-se... O Nego da
Odete, ou da mulher dele com o padre e o cartório e depois postulação ao mesmo
cartório para decerto o divórcio se é que não apenas houvesse desquite; enfim
estando no local a fim de engolir as tristezas através do copo, copázio melhor
dizer. E pra completar o quadro, Xis, Xis estando em todos lugares – por que
não no bar! – em todos, inclusive onde não existir espaço. A oferecer um trago?
certamente a receber um ou mais de presente, pois bebum tem o coração mole; tão
distante do coração da vendeira, de olho assim no seu homem. Esse, aí aponta o
chefe da casa dono da casa de secos & molhados, esse dá de graça pinga aos
vagabundos. Ele? sorri. Amarelo. O Velho também sorri mas sorri sem cor, esta
que é a ‘pigmência’ dos ausentes presentes no ver tão só.
Contudo constatamos que no barulho
geral e nos sons emitidos pode-se distinguir a música. Todo som é música, às
vezes discutível a discutir, às vezes não. Aqui o instrumental são vidros.
Alguns se espatifam no chão pobre pisado por pés pobres com chinelos botinas ou
descalços. Quanto aos cantores... desafinados enfraquecidos mais e mais tanto
quanto a oposição do pindura fortalecido e exposto meio escondido num prego
enferrujado atrás da porta guardado a sete chaves pela guarda, a vendeira
desconfiada. Os cantores nenhum lírico porém com muita dor de cotovelos.
Os cotovelos falam, o Velho escuta e
guarda pra si. Não guarda pra nós.
Ou fala ou escreve. Ela escreve,
Maitê; e o Velho relembra sua lembrança no Diário da jovem. As linhas anteriores
e outras, estas... bem, há uma folha surrupiada do Anuário e exageradamente
apelidado Milenário em que decerto há coisas constrangedoras porventura
condenatórias ou pelo menos não santas nem angelicais do anjo irriquieto que
detesta ser Maria. Seriam trechos comprometedores ¿seriam intimidades que mesmo a
intimidade se sente envergonhada nas suas vergonhas? Pelo sim ou pelo não, realmente fechamos educados
nossos olhos, os olhos de quem tenha orelhas de escutar... Fez mais o Velho
mais ainda nós, bisbilhoteiros à beça: escarafunchamos, remexemos o cesto;
farejamos papéis queimados destruídos e sem mais valor que o de poluir o
planeta na parte que toca para cada poluidor... Nada. Nada? é nada.
Capítulo Quadragésimo Terceiro
O amor como um todo
não é indivisível mas é inexplicável.
Notamos
nas páginas do absurdo o absurdo da irritação dela, de Maitê dita Maria anulada
Maria a pedidos; dela com respeito a ele. Diz isso textualmente entre as folhas
contendo as páginas de 31 a
43, ela numera ciosamente meticulosamente doentiamente organizadamente
organizada a ponto desorganizar a harmonia das pessoas atabalhoadas e, por
isso, indignadas, a Maitê numera enfim as páginas; vai daí termos percebido
haver a moça arrancado a de número 24, atrás a 25 em branco escrevendo somente
nas pares, interessando aqui a 24, sem quaisquer conotações de ordem moral esse
24, posto ser mulher, bela dizemos a propósito, e não macho da espécie bebum,
de maliciosa lembrança, pois que ‘24’ é o veado de má fama; aqui citando o jogo
do bicho mui difundida contravenção cujo maior expoente aqui sendo exatamente o
pai dela, um grande apostador-perdedor também viciado na loteria, nas loterias
todas da época. Irrita-se a bela com o horroroso velhote. Maitê ‘elogia’-o por
ser gagá e carcomido pelo tempo; daí a dizer asneiras que, garantindo o criminoso,
leu nas ditas páginas. Diz a garota mais ainda o menos que havia na folha
arrancada: nadinha havendo comprometedor. Tanto assim que a jovem fala haver
engolido o papel em
descuido. Ora , não fazemos nós seres humanos tanta bobagem
absortos! quando viu, viu a maçã, não a maçã da serpente aquela safada, viu a
fruta que devera comer e não a tataraeva dela. Convenceu? Não sabemos; sabemos
tão só haver xingado baixinho, educadamente, o Velho também baixinho em estatura
e de olhos altos e orelhas ainda mais altas.
Nelas, nas páginas das folhas ainda não
desprendidas do Diário maiteano; nelas têm umas referências às lembranças sobre
ele.
Por exemplo, encontra-se registrado,
recorda o Velho, que uma tal de Rita... apreguntamos nós agora intempestivamente
qual fôssemos a defunta Caneta, se essa a filha do comerciante da rua São Luís,
ela, ele, anuem que sim, e que isso nos importa. A Rita teve um caso de amor,
duradouro e eterno enquanto durou; com uma talzinha, talzinha por petitiquinha
a Clarinha. Investimos contra isso em dentes arreganhados qual o Peri diante
doutra gente estranha no pedaço, pera lá: cachorro é cachorro, gente é gente.
Sim mas ambos grupos falam e é isto que vale falar; de fato parecendo o Peri a
querer morder de forma ‘viralata’ (aproveitamos a insanidade desta referência a
reclamar da insanidade dos que desejam acabar com o hífen; e por raiva
eliminemos o troço do traço nesse vocábulo) ou seja o ‘viralata’ a rasgar
pernas das calças da gente. Ora, tendo pernas, o pé e o resto portanto boca e
portanto falante, rouco a falar ladrando. Ou o Peri investindo noutro cão, um
cão com pedigrí, desses de nomes estrangeiros a seguir as normas mornas da moda
da gente, assim um Zé vira Iusef ou Joseph, um João Xará vira Johannes
etc. e tal, tal a macaquice; daí estendamos essa conquista à cachorrada: um
Peri sem Cecy, nacional, morde valentemente um Dick um Bob – e
estamos conversados e vingados!
Bem, com tudo isso a Rita, sapatona
pra valer, amou com gosto e raça, macha pra valer também, conquistou um
sapatinho, uma sandalhinha delicada por nome Clarinha, ‘bença’ padrinho diria a
cumprimentar Xará chegando com sua madrinha Gena, ambos em paz no túmulo. O
caso lesbicou anos, até não a sociedade desaprovar se indignar expulsar o
demônio e coisas assim; assim doutra maneira: elinha se engraçou dum filho
bastardo do Santo Intaliano, o qual lhe encheria mais adequadamente a barriga
de intalianinhos umas gracinhas; dessa forma deixando seu ‘homem’ a falar
sozinha ou a tomar iniciativa de igualmente arranjar outra mulher amante ¿¡E por que não um homem, para por sua
vez encher-se elona machona sapatona de sandalhinhas o bucho que seriam umas
gracinhas?!
De uma, três: ou Maitê ou o Velho ou
ambos doidos.
Capítulo Quadragésimo Quarto
O homem não se
explica; somente se explica a explicação do homem. Porque somos levados a
procurar esclarecer todo enigma e precisamos, ao menos, não chegando a saber,
saber ao menos o como não sabemos.
Falou
e disse ele, ela a Maria a resmungar a caduquice dele, falou estar se lembrando
duma passagem por si só inexplicável. Ou louca e pronto. Haver visto
presenciado in loco dois personagens, ao menos curiosos pra se ver num
recinto absurdo; e absurdo pelo absurdo da fiscalização da vendeira. Enfim no
bar, aquele um.
Chegou arfando seu cheiro ardido, tem
gente que assusta pela fragrância flagrante. Sentou-se na cambaia cadeira, se acotovelou
na mesinha igualmente cambaia, vira-se ao vendeiro, pede mais uma não havendo
pedido primeiro a primeira mas isto senão; se não vejamos: desandou a
conversar. Com a garrafa? não nem com o copo, ambas peças a tagarelar seus
desajeitos tilintando. Não. Doutro lado, um pouco envergonhada ou somente
contrafeita pelo desuso no uso a Mamma. Não é Nonna? apreguntam
as folhas de Maria. Não e sim. Ao Santo ao Berto aos outros da série gringa
Intalianos não; e sim Mamma. Aos filhotes dos filhos e também filhos da
Aparecida que não apreciava o patriotismo de mestra Santa e aliás não apreciava
igualmente pela mesma razão o macho Santo seu cunhado – a tais filhotes, a eles
ela vó, ou Nonna. Todavia isto é uma pequena embromação que nós perpetramos em
momento de falta de ideias, as ideias que sobram nas partes anteriores a esta página.
Não será desconcertantemente absurdo a
Velha, que devera ela casar-se com o Velho e não a Caneta e ou a Maitê!
absurdidade andar num recanto do bar a beber, ou só ele ela bebericando vinho
falsificado e resmungando em italiano que o bom o puro o santo, o santo rubro
de sua Itália! Ora, não discutamos com a poesia e piormente com loucos.
Ele falava falava e falava, num dado
instante exagerou: chorou a cântaros, inundou o bar – a vendeira toma dum puxador
de banheiro, daqueles com borracha nas extremas, a puxar secar e secar mais bem
com um pano, a torcer o pano fedido úmido a escorrer as lágrimas do moloide,
pra depois reenxugar enxugando o chão outra vez. Nisso, quer dizer no choro
extremo a compungir a velhinha que era uma velhotona dessas de grande massa e
volume por muitas pizzas e macarronadas e polentas portanto sangrentas,
melentas; a deixá-la enfim constrangida e decerto imaginando: que direi ao pobre
a fim de consolá-lo! Nada, certos casos não têm solução, praquê daí gastar
nossas energias. Chorava chorando Arfeio, nunca seria certinho Arlindo nessas
condições. Chorava, ela também, por final, contagiada: o riso o choro o
sentimento pegam sugerem... de repente inclusive à dureza do coração da
Vendeira, ela a enxugar com avental de discutível limpeza e pureza seus olhos
também. Ele para. (Com licença, senhores da Reforma, dar-nos-ão uminha a fim de
pormos acento ainda em nosso ‘pára’?) ‘pára’ para tomar seu instrumento. Não é
um depravado não, dona Mamma, abra seus olhões de olhar o bebum; trata-se de uma clarineta ou um clarinete se
melhor ficar dizer e não importa: o homem não sabe a ária nem soprar naquilo.
Sopra assim mesmo, grita o ambiente com a fala da música; e não deveria ser um
contrabaixo a remoer a marcha fúnebre! não, sim o clarinete. Sopra, sona,
atinge, desafoga, para. Suspende a audição – o Velho não tem mais toda sua
desenvoltura como em menino porém ouve – suspende, enxuga restos a rolar na
face sofrida sofrível e ela, a Nonna, suspira alívios. Assim acaba o diálogo, a
conversa.
O Velho toma outra vez sua viola, uma
caipira, não é a da gamba nem a viola comportada de nossas orquestras sinfônicas
atuais não. Toma a viola, bota no saco e parte a outro confronto. Porque isso
que tava no Diário não é conversa, amena, e confronto mesmo. A Nonna se arrasta
fora dentro do seu eu, foge sem se perceber. Arfeio torna a ser Arlindo, bem
posto, cidadão decente; embora por dentrão ainda a arder a bofetada que seu
defunto pai Zé Professor vivo lhe dera, ou terá sido pelo tiro que lhe
acertaram na cara noutro dia noutro tempo noutro bar noutro capítulo não este.
Capítulo Quadragésimo Quinto
Em
silêncio
o
silêncio que ficou
ficou
o silêncio
da
saudade que chorou
a
gota
a
lágrima
o
dilúvio
que
murchou...
Num
belo dia ele voltou. Mas que expressão mais idiota! Chovia no rever a terra, a
terra que deixara por dezenas de anos; todos de cara fechada e/ou indiferentes,
não as crianças, estas a correr romper o cerco adulto gritar cair chorar
gritar; mas também os idosos a somente ver o mundo molhado corrido lerdo agora
na lama. Lama, isso, lama a estilhaçar a coragem ou a expectativa na fuga ao
barro ao escorrego a fugir a chegar no aconchego do lar ou a ir aos negócios.
Então pôs os pés ainda não molhados a ser encharcados no plof-plof oco dos
passos. E gritavam grilos nos seus grilos de trânsito e os carros apressados
também como possível ao engarrafamento e contra o talonário de multa; e a gente
nas ruas apinhadas a se cruzar: pacotes e guarda-chuvas; notou como sinal dos
tempos os tempos de hoje a mais passar rápido pensando iludir intocáveis
minutos e segundos na esteira; notou sim qualquer mudança comportamental.
Dessas que vemos sem ver e em que o retardo do raciocínio colhe filtra soma
subtrai e rearmoniza num resultado. Assim notou homens, decerto machos pra valer
igual a ele, homens de guarda-chuvas mas vários de sombrinhas coloridas; isto
absurdo e inadmissível dezenas anos atrás. No entanto a sobrar muitos seres de
capas ou improvisos de plástico em cobertura e mais ainda os sem nada, tudo o
que Deus nos premiou a sermos apenas nós mesmos com ajuntamento tão só de
tecidos grudados nos corpos e a água a escorrer pingar gotejando desde as
cabeças no chão já saturado de umidade, ou a escorrer na enxurrada. Nisto
percebeu um transgressorzinho com o secular barco de papel a se soltar na água
a se sujar dela e nela e a se enroscar mais alenzinho. Sorriu; pela primeira
vez sorriu sem precisar mostrar os dentes ao planeta, sorriu do pequeno num rir
desse tipo de alegrar e se satisfazer. O barco se encheu e afundou; enquanto o
proprietariozinho ou armador ou somente uma criança resmunguenta resmungou
chorosa e desalentada. Sorriu o quase forasteiro, sorriu na dor então; pra
sorrir do mundo e da gente do mundo. Contudo chegara.
Não seria re-chegara, por haver mil e
uma vezes feito o trajeto com a mesma conclusão na rodoviária de Marília. Não,
era já nova, a despertar o gozo e o orgulho dos mais patriotas desse
nacionalismo que se confunde com bairrismo. O pior nesse melhor era o se sentir
também patriota... Contudo chegara, a rever os seus ou sua urbe. Aí a
consciência despertando o coração, quase fê-lo chorar de alegria.
Terá visto o Velho! Ele era o Velho a
recordar, era ao mesmo tempo o velho que via o velho e o velho que era visto.
Assim virou o novo velho. E pensando e recordando e narrando para todos os fins
dos tempos.
Maitê ao percebê-lo abriu aquela boquinha
de beijar os jovens e vez que outra ou por desencargo de consciência ou por
hábito que o costume impõe às jovens também; preferindo é visto os machos da
espécie, que fossem os ‘sem’, para não despertar invejas. Daí registrar tudo em seu Diário ; o qual
folheamos em busca das reminiscências do Velho e encontramos... ah...
O Dinossauro
Claríssimo não fosse vir para rever a
tumba de Xará, menos pretensão para com a cova do compadre Zé. A rigor sequer
os netos cultivam a velharia de costume, não cultuam quase os pais que dirá os
avós. O que exigir então dum bisneto atarantado ao chegar na Rodoviária
parecendo ela um chapéu na sua arquitetura, a arquitetura milenarmente
discutível e discutida. A rever as gerações que se foram? não estando mais elas
porque se foram; a deixar em seu lugar o desconhecido... No entanto é verdade
sim haver passado frente ao passado nos escombros que na cidade observou;
inclusive notando o de quem sabe um que tenha sido certo palácio, área de presença
e fuga e depósito de escombros humanos ainda em movimento no escombro de
alvenaria, recanto de almas cansadas mortas e cansadas criaturas sem-teto sem
norte vivas sem vida a recobrar subvida no espírito do morto ali proprietário e
que se dizia antigamente ser Peter ou Píta ou coisa que o valha. Detalhemos que
não prestou atenção se nesse universo estreito e tão pequeno, entre entulhos e
matos e humanos um humano Xis, estando seu parente de sangue próximo como
próximo distante. Não a fartar-se porém viu e reviu outros escombros na cidade
sem memória. ¡Mas que lhe adiantaria
nesse atraso que gritasse qual o menino do brinquedo o brinquedo atolado na
lama, gritasse por sua vez por causa da derrubada de prédios históricos feitos
igualmente dinossauros no pensar banqueiro e demais emburguesamentos! A se lembrar por exemplo – servindo-se
comparativamente de imagem televisiva sobre a conservação de fachada medieval
que mesmo as bombas da Guerra temeram destruir em quarteirões inteiros na
Alemanha – a se lembrar enfim dos pouquíssimos dinossauros de tijolos sobrantes
dos primeiros tempos marilienses, a sanha financeira a deixá-los sem pedras nas
pedras sobre pedras...
Assim prossegue o pobre retornante a
rever sua terra natal, rememorizando cenas, com ajudazinha não intencional da
jovem bela (por que será a Carocha tenha que tê-la sempre bela quando não
belíssima! Freud explica) essa milenarista do diário, no registro em
letra vazada rasgada contida arrancada na página comprometedora.
Em ver por aí como por exemplo a
esposa do Nego, a talzinha senhora que deveria ter e não sabemos o nome; ela e
sua concorrente-desafeto-ladrona (a prefeitura? quê prefeitura coisa alguma,
que despropósito praticaria a Caneta não fosse Inês-morta a dizer tal; acaso
prefeitura tem dor de cotovelo ou marido roubado? prossigamos:) a esposa enfim num bate-papo informal quiçá
amigo (que vem a ser amigo e isso tudo não sendo novo despropósito? prossigamos-II)
em resumo, numa conversa própria de comadres sem ter o que fazer, com a
Odete. Decerto a indagar, não sabemos
bem, a pergutar do bastardinho já grandão adolescente aborrecente, se o filho
que o Nego lhe fez na barriga se parece com o genitor, se... ah, não é uma
loucura. O velho abalança os poucos fios brancos na calva a condenar, a se
condenar, inclusive, pela sua própria memória.
Todavia o curioso nisso é estarem
conversando se servindo ainda da cerca com balaústre de madeira tão comum nas
construções marilienses nos primeiros tempos e mesmo na fase em que a Guerra
era guerra. A esposa na posição de bule, os braços fazendo ângulo reto e as
mãos aos quadris. A outra... a outra noutra postura. O pior na coisa é andarem
olhando pra ver se enxergavam um funcionário as mulheres: o Preta carimba seus
papéis, alevanta vez que outra os olhões dos oculinhos e percebe a dupla de
comadres. Aí some; some a lembrança também, agora revendo Luís com medo e apavorado
pela Guerra, a narrar o temor a Xis, Xis sequer entendendo, entendendo apenas
que a dona na cerca possa dar-lhe um prato, a fome anda braba cobrante na
insistência à existência...
Ora, pensa o velho, o novo velho –
será que a Caneta não teria razão. Talvez sim, pois lhe parecendo o caos. Não,
sim: é o caos. Isto grave em se levando em conta que a cidade haja ganho vários
hospitais e perdido seus cinemas ao sonho, substituídos pelos cineminhas das
tevês e dos DVDs, a sobrar apenas um hospício. O caos, alijemos dúvidas,
permanece a certeza. Com este belo caos e a certeza, não duvidamos haver
concluído esta que foi a Terceira Parte da obra.
Capítulo
Quadragésimo Sexto
A um velho sempre se pode perguntar se está melhor,
e
já dentro do assunto...
O velho novo ou novo velho, o que
sabemos nós em matéria de loucura. O velho poderia, ainda pode certamente,
poderia sim dizer estar bem, bem aos olhos dos outros sem contudo poder afirmar
de consciência tranquila – e que atrapalhada e abuso de poder poder manter em
rédeas a consciência! sim porque existe situações tais da nossa vida ou apenas
nesta existência em que temos absoluta certeza, sem uminha dúvida a tisnar esse
céu, temos de que não nos encontramos realmente bem: harmonizados satisfeitos,
a paz. Ah a paz, que seria paz. Suspendamos por ora ou ad aeternum o
desastre nessa análise deste vocábulo abusivo compreendido na incompreensão.
Pois bem. Praquê? a suspensão para retomar o íntimo do velho.
O
velho encontra-se por dentro com milzinhas interrogações, eliminara o ponto
final – mesmo porque continuasse a abordagem chegaria à conclusão pouco
satisfatória não existir final no ponto: ele vira tão somente linha a concavar
o círculo da atmosfera terrestre e portanto deixando ser ponto para deixar
também ser final. Não esse. Porém um sentimento de vazio ou de nada. Bem,
sabemos o nada ser nada, aí o nada não existindo. Contudo realmente existia, o
velho existindo.
Poderia
responder a outrem estar bem; não poderia se responder de sã consciência estar.
Mas, indagamos enxeridos, dói alguma coisa? digamos aqueles esfolões não
sararam ainda; isto é, caira linda e ridiculamente escarrapachado no chão na
Avenidona movimentada, o que de mau gosto visto o perigo: um menino cai grita
berra estertora atrai uma população; daí se levanta, passa a mão para tirar
grânulos de terra sopra (alguém sopra e diz, tadinho, tem sempre um salva-vidas
de plantão geralmente uma senhora porque as mulheres sabem mais e melhor se
condoer enquanto as machuras ficam assustadas e sem coragem para erguer a
criaturinha, enfim tem sempre um hospitalzinho em guarda ao anjo:) ao idoso não
se presta presto atendimento. Ou por outra – há sempre também gente querendo
juntar os cacos do caco; e a se condoer; isto porque estamos no Brasil, terra
da solidariedade. O velhote diz envergonhado esquecendo mesmo a dor e bravata
andar inteiro para andar, anda maquitola faz mais: sorri em diálogo a dissipar
dúvidas; se esconde na esquina e chora com peninha de si mesmo. Foi assim,
assim indagamos, responde que em três meses de esparadrapos (aí desencanta desentorta
a língua gasta a boca e recita, a nós bem feito quem mandou apreguntar! recita
a receita e todos remédios tomados aplicados assentados no assento sem acento
pois o ânus intacto porém as nádegas... as de velho murchas magras com ossatura
exposta a aparecer furar doer portanto; recita o como na farmácia no médico no
hospital aí degringolando com a arma da língua a saúde pública doente, o como
foi na vizinhança etc. e tal, enfim o universo inteirinho preocupado com sua
dor pelo esfolão e... e nós nos reportamos à indagação inicial para reformular
a sentença: bem feito!) em suma narra tudo do esparadrapo até à última casquinha
já alegremente em prurido de coçar portanto mostrando andar sarando. Nós?
pensamos uf! É, e o dever de ofício...
Seus pulmões! Não diz coisa
alguma, prova tosse retosse retorce o corpo magro assim. Assim despenca a
narração: poderia ser um bilhete ou croniqueta mansa, não se contenta conta o
conto, enovela uma novela bastarda igual a das nove; vai mais além, romanceia e
declina do primeiro, faz antes introdução, ao último dos capítulos no contar,
nosso sofrer, sofreríamos mais e mais se de grandura, em tamanho, do “Guerra
& Paz”, ou de “Os Miseráveis”, não: um romancinho, uma obrinha dessas
encalhadas nas poeiras na estante da livraria (ex-livraria porque os livreiros
hoje vendem de tudo, como por exemplo comprimidos pra dor de cabeça, a dos outros
não as deles, e até livros, claríssimo que não os encalhados). E, milagre! sim milagres
acontecem: o velho pensa ser o romance de maior tiragem a vender como água
ou como produto de informática importado clandestinamente da China com
dístico indicatório made in USA. Ufamos de vez o fim, pensamos fim.
Contudo,
e o dever do ofício?
O
coração... arriscamos ariscos. Desatrela outra vez ou em continuação a boca
murcha. Conta a parada. Fugimos. Não, não é covardia é defesa autodefesa.
Vistoriamos o meio ambiente. Coisa alguma a pensar separar lixo ver abusos acusar
dedar prender tolher quem sabe abusos; aliás quem sabe a resposta não formula a
pergunta: apenas pra ver se vemos, a Caneta xô! a Maitê mui cheia de
nhe-nhe-nhem? não – pra ver se vemos alguma boa a passar. Passam mil e uminhas,
e que pedaços! Cansamos, até amar cansa; então passamos em revista a violência
do trânsito, tamos na Av. João Ramalho, ela como flecha ao sul disparada da
urbe, estamos exatamente na desembocadura e cruzamento com a rodovia que vem da
Capital, logradouros loucos nos movimentos incessantes de carros caros pobres
calhambeques a correr passar, infelizes motoristas sem culpa metidos nos
veículos, estes malucos! O curioso nisso é não presenciarmos sequer uma
ocorrência com polícia sirene ambulância e povo mais curioso que nós. Acordamos,
horas depois acordamos, ainda conta. Já narrou todo complexo das consequências
das coronárias mambembes; não satisfeito explica a de todos amigos de bom
coração. Pior: muitíssimos deles ganhos na espera nos ambulatórios e corredores
hospitalares nada hospitaleiros – se esquecendo das enfermeiras e tem sempre
aquelas boazinhas. Cansado, agora o doente ‘sarado’ cansado. Fazemos
deseducadamente sinal de uf! um sinal que o Santo Intaliano quando vivo fazia
xingando blasfemando “porca madonna”. Nós não, uf! Queremos dar por
terminada a entrevista, anotamos descuidados no caderninho numa letra
horripilante na opinião da Maria a Maria tendo uma letrinha feminina
arredondada caprichada delicada no impingi-la gostosamente no Diário. Queremos
ir embora.
Não permite nosso locutor
interlocutor ou só louco (é visto isto pensamento disto...) Prossegue.
Na semana
passada, diz-nos o velho a provar bem nos deixando mal ouvi-lo sem parar, quer
dizer falando sem parar paramos no descanso em ouvir ver as meninas e como
têm... Na semana que passou fui acometido... aí despeja neste nosso lixo o seu
das dores: a perna esquerda, o baço as pacueras o braço direito, logo o direito
fosse ao menos canhoto no ferir o papel e garranchar. Muito mais a sofrer ou
ponto de sofrer.
Aguentamos
estoicos firmes, antes desejando que Ela, a Caneta com pedigrí e mesmo a Maitê
de ouvidos novos pudessem nos render rendidos já; aguentamos firmes no propósito
não em escutá-lo mas no de acabar nosso sofrimento e fugir. Tudo para quê? para
que nos dissesse simplesmente que sua maior dor, a dor por não encontrar os que
procurava em Marília, sua terra de nascimento, não sabíamos? Dissemos que não
para agradá-lo e a cumprir a sina, a nossa. Bem feitinho, pois nos contou como
veio ao mundo num buracão. No Buracão! Não, ah que burrice: como nascer no
Buracão, sim se um indivíduo nasce no Vale do Rio do Peixe já no Buracão, não,
meu jovem (nos robustecemos em nossa vaidade) não, nasci na baixada que escorre
ao Buracão no seu flanco leste e... e aí ai que horror! narrou no tim-tim por
tim-tim tudinho, claro nas dores do parto haver inventado, porque como saber
isso um
nascituro e um velhote decrépito se lembrar porventura
sabendo. Nós engolimos.
Fizemos
menção em
deixá-lo. Segurou-nos no aperto de mão. Como nossa gente
adora dar os dedos aos dedos dos outros, mesmo em dedos de prosa. Ao menos
deixou-nos ir almoçar, com promessa de retorno.
Capítulo Quadragésimo
Sétimo
Quando alguém procura alguém amigo onde igualmente
residiu, procura alguém difícil de achar – a
si mesmo; e, às
vezes, não acha ninguém mais.
Inquestionavelmente
precisamos pôr um drama humano que precisávamos e o fizemos quando do
reencontro ou encontro novo com nosso velho. Valha-nos Deus! Retardamos quanto
possível o vexame ou só constrangimento ao inevitável, isto é o encontro do desencontro.
Inquestionável
aqui posta a coisa em termos filosóficos, não sendo poetas ou sendo apenas
celerados. Isto em virtude, que seria uma virtude? ao fato de tudo ser questionado.
Um filósofo depois de uns chopinhos na Brasserie ou cachaça no boteco na Vila
Miranda perto da necrópole municipal, após isso questiona tudo, literalmente
tudo. Porque tudo é questionável, mesmo o vocábulo questão; seu Zé quando
inspirado num discurso ou se pensando Cícero diante de assombrada gente do povo
nos primeiros tempos dizia realmente “qüestã” o que dava um charme
intelectual no Professor; embora tudo isso, morreu e foi à paz do túmulo
deixando órfãos os sem bens e os bens às sem-vergonha.
Em virtude desta desvirtude
pusemos a questão da dor que sentiu, disse haver sentido, o velho em visita, ou
revisita, à terra natal, havendo olhado tudo vistoriado tudo, tudo observado e
também a todos, todos revisitados, não encontrando, reencontrando, ninguém!
Na
verdade, e isto propusemos e falamos ao ar, isso por culpa da poluição quem
sabe, não chegou às suas orelhas: não creu. Na verdade quando vamos ver algo ou
rever seria melhormente posto, quando, desejamos de fato revermos talqualzinho
éramos; não somos mais. Não chegando a ser tragédia, pois da condição humana.
Não temos possibilidade a voltar na forma absoluta, em não ser virtualmente
criando ou criando na imaginação a imagem do que era quando éramos juntos com a
paisagem as coisas as gentes as situações. Aqui entra o bendito coração a
derramar sentimentos; e que culpa temos em ser latinos! os gringos veem
friamente a coisa como coisa, número algarismo sinal gráfico ou piormente
dígito informático a se juntar somar e virar o ser ou a imagem; não sendo embora
a situação em si; esta só é plasmada por nós pelos outros pelas coisas em que
vivemos e com que vivemos. É uma tese e portanto igualmente questionável tanto
quanto questão.
Ora,
defendemos e vendemos nosso sabonete, o comprador não redarguiu – chorou.
Consolamo-nos
em nosso pecado haver feito a criatura chorar: a lágrima lava o coração. Além
do fato de reconhecermos que velho é um animal que verte fácil no estado normal
e choraminga toda hora.
Contudo
voltou à carga, repôs o questionamento.
Andou
por mil vias públicas, examinou ambientes, parou frente residências, perpassou
um e mil caminhos: trilhos, seus ancestrais ligados ao Xará diziam graciosamente
“tríus” e também embelezavam o milharal com “míos” e outras coisas que a
rabugenta Caneta se negou rabiscar, teimamos alinhavou vermelho e apelou rubrar
as letras, enfim devem ter falado e pronunciado gozado se não gracioso também
outras palavras, ou quiçá deformado tudo, no estilo caboclo, e aqui nos questionamos:
não teriam os matutos a língua presa e a orelha mais dura que nós civilizados
deste III Milênio. Passemos. Em suma o revisitante na saudade rasgada se pôs no
ver inteira a cidade do seus sonhos e não encontrou a cidade: a mesma urbe
andava remodelada enriquecida nos seus prédios e logradouros, ganhara mil
flechas pavimentadas, com sinalização de solo e semáforos – sendo a mesma não
sendo mais ela; e piormente a população não existindo a mesmíssima! Não é uma
tragédia!!
Isso
nos custou o olho da cara. A quem apelar: à defunta antes azul e depois
vermelha e após isso a morte! à Maria apesar de tratando-a por Maitê pra fazer
média com a cartola alheia! Não. Gastando com táxi e ônibus circular por aí no
provar uma tese, a nossa tese de que as gerações se substituem, pra melhor?
(isto nova tese) e portanto a antiga não mais existindo nas condições que o
velhote menino moço deixaram. Ficam sempre para muitos a recordação ou a saudade.
Mas que é saudade. De quem a temos. Quisemos provar, inexperientes, termos
saudade de nós mesmos. Quando recordamos bem algo será sempre a descobrir-nos
no meio desse algo. Que não mais existe. Aí, neste ponto, aí achamos a solução
(e pagamos o preço alto da solução pagando carros de aluguel e/ou coletivos apinhados).
Olhou,
vistoriou, inclusive fotografou naquelas kodakinhas japonesas fabricadas na
China introduzidas em contrabando e adquiridas nos camelódromos ou lojas de ‘um
real e noventa e nove’.
Sim,
encontrou e fotografou as placas das ruas com registro aos seus de seu tempo,
vizinhos parentes e desconhecidos – tudo nas placas da vias públicas. Fizemos
mais.
Fizemos
uma visita ao cemitério, agora a cidade possui dois, um popular abrigando pobres
e ricos antigos e do seu tempo; chegou a ler os nomes enobrecidos pela antiguidade
(que é moderna no dizer da História); e o rico moderninho para ricaços
contemporâneos. Tudo a terra engole, faminta.
Pior.
Sim, pior, molhamos nossos lenços e até improvisamos um lençol, isto porque a
poesia costuma improvisar bem a realçar a pobreza da realidade sabemos; o dito
lençol apenas a estancar não porém a recolher os rios de lágrimas. Ah a
tragicomédia humana.
Contudo
o teimoso não se convenceu, mesmo vendo esqueletos debaixo de capelas, de
carneiras e de montículos miseráveis de terra em cova e cruz.
Permaneceu
pesaroso; monoideísta encasquetado. Donde deduzimos mais fácil fazer a Guerra e
a guerra à Guerra de milhões que alijar resquícios sentimentais no coração dum
único homem.
Capítulo Quadragésimo Oitavo
A terra
de um insatisfeito
é deixada quando
ele pensa na terra de canaã e
fala nela, maldizendo
a sua; emigra,
sofre, e, aí, sonha
com a terra de canaã, um local
idílico, donde veio ao mundo,
agora impedido de voltar pela geografia da idade.
Fosse por causa do vinho...
O vinho estardalhaçoso ou a molentar metade da família paroleira, à família não
brigar com a outra metade abusando também esta metade dos álcoois? Aquele vinho
como se diz in vino veritas mas a fazer de fato brotar
mentiras e intrigas? Não. Aquele que aprecia macarronada a qual era para
fumegar no prato do almoço, sim, o almoço quase virando janta de tão tardio e
aí se embaralha a vista, o nonno dorme, o netinho dorme com
ele, os outros proseiam meio caboclês meio piemontês se pensando italianos?
Ainda não. Sim, um copo apenas, apenas um desses de tomar água no filtro no
qual a gente põe um quarto de vinho no vidro e desaba desanda
ébrio sorriso moleza sono. Desse. Aí... deve ser nestas condições as condições
com as quais recebemos o velho, o novo velho cheio de camaradagem com a gente
visto nos dispormos não só a acompanhá-lo na visita à sua cidade, qual
cicerones indecisos no mostrar o que a visita sabendo de sobra e a nos
esclarecer: não se ensina o padre-nosso ao vigário se diz. De maneira que não
por isso a camaradagem dele, e em paga porque fomos ao seu bota-fora.
O Bota-fora
Na verdade, na verdade das verdadeiras,
acampanhamo-lo à Rodoviária tipo chapéu como a se fazer cerimônia com o chapéu
alheio, alheio aqui à ideia de pretensão em ciceronear também a ‘expulsão’ do
velho e mui menos ‘aparecer’ vaidosamente no embarque. Isso em vista sermos
apenas mais um entre marilienses a dar-lhe o apoio e o calor humanos próprio
dos que se dirigem à estação ficam sentados na espera e aproveitam a conversar
encher o tempo e olhar as malas e pacotes, pois em todos terminais do país
existem ladrões; ficando a observar o vaivém da gente passageira e/ou visitante
sendo despachada; vez que outra um dedinho de prosa com o fuginte a falar coisas
banais como da última vez que aqui viemos vimos foi muita gente, hoje o ônibus
não enche, enche esperar se não atrasará novamente; ou tão só tá quente deve
chover e outras sustâncias.
Na
verdade fomos acompanhantes na delegação enorme que o rodeava, quiçá o
paparicava o envaidecia (ou o chateava, o ‘Véio’ é pra lá de tímido, desse tipo
que não se abre e então a gente, aflita, tem de inventar coisa pra encher o
tempo o assunto e a hora, põe hora e eternidade nisso tudo).
Na
verdade seria um despropósito lembrar na comitiva a comitiva oficial, o senhor
prefeito o sub que é vice e suas respectivas esposas, oficiais também, os
cupinchas políticos puxas e repuxas mais e mais seguranças num gasto fenomenal
ao contribuinte o chefe não estando nem aí haja visto o exemplo da cúpula
sindical a ‘presidenciar’ esta nação. Não. Aqui o sim seria abuso, ninguém do
governo apareceu; ¿por não haver
o velho comunicado sequer sua presença nesse retorno a matar a saudade que o
matou não havendo achado os seus do seu tempo em não ser nas placas indicativas
e no cemitério? Por isso e porque
certamente só nós achamos o velho importante. Não exageremos aqui: mui outros
seres se interessaram e o acompanharam em comitiva a pô-lo fora de nosso perímetro.
Na
verdade havia nesse ajuntamento mil e um seres (aqui de maneira alguma
desejamos significar hora tempo ano século milênio porém a dizer muitíssimo;
aproveitando a concluir por estas linhas que a linguagem humana não é absoluta
e não tem enorme capacidade em descer ao mínimo detalhe e subir aos píncaros
numa abordagem; por isso fica a expressão ‘muitíssimo’ grafada antes). Não
aceitamos, em comum acordo com o forista velho e demais fiquistas da comitiva,
não aceitamos carrapato e bêbado a nos dar vexame mas em contrapartida havendo
mil desconhecidos mais de mil indiferentes pra lá de mil estranhos talvez conhecidos;
não vieram na despedida amigos, quem sabe a aguardarem uma análise mais profunda
do vocábulo ou quem sabe ainda mais a reforma ortográfica, vai que a palavra...
Doutro lado pululou pululando mil e um, ou admitamos, mil e dois insetos
voadores e microrganismos como os vírus e demais de menos insignificâncias
filtráveis. Infiltrados todos, absolutamente todos, na comitiva.
Na
verdade a tanto tantos acompanhantes pequenos ao velho, ele tímido por
definição, tanto e tão tímido que o diminuiríamos então numa ‘super’-timidez,
aqui a usar o jargão abusivamente abusado na linguagem da rua em nossos dias,
nossos pobres dias atuais.
Na
verdade isso dando um quê a mais para que igual num empurrão no limiar do
abismo o prisioneiro da educação e escravo da formalidade caras à civilização e
à cidadania – se dispusesse finalmente a embarcar (não numa barca, não sendo a
comitiva real no porto nem a chegar nem à despedida porém na rodoviária que é
chã solo material dura de roer e existente na coexistência pacífica das
relações humanas).
Na
verdade na verdade mesmo, aí sim acenou, sorriu delicadezas e, isto só nós percebemos,
talvez vendo também o fantasma da Caneta e as linhas do Diário de Maitê: tomou
dum lenço branquíssimo, desses lavados com o detergente em pó da propaganda
televisiva, chegou-o ao rosto. Pensamos lágrimas. A oposição decerto vendo o
escorrimento alérgico do narigão, o veio é narigudo, era ao menos.
Capítulo Quadragésimo Nono
O humano é quase sempre uma besta comilona.
A propósito do bota-fora do homem...
Botar fora para alguém soa
mal, parecença com pontapés suma-se nunca mais e coisas desse jaez. Mas não:
agora no ontem que fora hoje fora ameaços de harmonização da linguagem
desabrida que temos, nós temos, seja pra falar bem, mal falar desabridamente,
nisto é apenas despedida amigável. No entanto vamos ver certa notinha e um
recado para eles – os defensores da linguagem culta correta a pernosticar sabência
ou só erudição nestes dias com nova reforma ortográfica. Ora, bem perto temos
um ‘fôra’ dos antigos com chapéu de hábito e costume na ocasião, em simbiose
com um ‘fora’ de chutes e pontapés ditos. Passemos, vamos em frente que atrás
vem gente, isto um dizer dos primeiros tempos até chegar nos anos setenta, após
caindo em desuso ressucitamos a forma pra embelezar as feiuras das letras. Bem.
Nisso, quer dizer no bota-fora, o velho expulso do paraíso pela responsabilidade
os vencimentos inadiáveis e o trabalho lá na Capital aqui em Marília. Fomos
enfim levá-lo nesse embarque na Rodoviária Nova, mostramos o chapéu, ele,
ingênuo, imediato: rodoviária não tem chapéu, tem acento agudo. Daí disparou
sabedoria ou esbanjadoria a explicar que “toda palavra proparoxítona tem de
levar acento agudo ou circunflexo” (gozou-nos a incipiência e a brutalidade: o
seu chapeuzinho...) no caso em questão acento agudo já crônico. Não, sim
chapéu, falamos, a torre a vestimenta arquitetônica da bruta, aqui ele estrilou
de novo, decerto ainda sensibilizado pelo bota-fora ou antes o depois de ter
visitado anteriormente a sua urbe para matar saudade, matou
sim, porém levando então nova saudade da saudade que tivera dela e mais do seu
povo, o qual insistimos é outro, o ilustre procurou sua geração, solapada ou arredada
pela nova geração. A gente procura e não acha, achamos ser isso.
Após o Bota-fora
Então
ainda pensava naquele ônibus prateado ao sol da manhã riscando a estrada qual
seta rumo a São Paulo e se pôs a relembrar, inclusive o que não viu.
Viu
a Marguinha uma garota magrelinha a saltitar qual cabrito indo dar algum
recadinho. O trabalho da criança é pouco mas quem perde uma oportunidade dessa
é louco, diz o dito; dito e feito, a chispar, como toda e qualquer menina, a
menina a andar-correr ora escorando num pé dando saltinhos no mesmo pé ora se
sustendo noutro, quase esvoaçante de leveza e de pureza. Aí a dar o recado:
dona Vita, a mãe falô isso ou aquilo e pediu bicaborado e... Não menina, é
bicarbonato... e se pôs já de volta correndinho, fala à mãe aquilo ou isso de
novo pensando na coleguinha e na brincadeira nem ouve a ralhação da senhora
Maria; esta é outra não aquela Maria; mamãe fica a balançar balangando a cabeça
grisalha pela doidura, a doidivana ‘fôra’ (este ‘fôra’ dos antigões portanto
com chapéu) fora sua parenta, parenta dele, morreu, tadinha. Ora bem, dizem os
lusos, morreu sim o tempo de menina na esteira a passar. Depois?
Depois
cresceu, não engordou engordou só após o casório mais tarde, deixando ver
tendência a tanto, tanto assim que moçoila já mostra a intenção de comer o
mundo! traça tudinho que vê. D.Maria: ela come como lima nova. Era assim, comia
de tudo sobretudo doces gorduras massas e mais doces o qual por sua vez viram
gorduras e daí a jovem incha cresce estufa balofa até chegar ao spá de nossos
dias e às reduções de estômago de nossos dias e aos bombeiros de nossos dias em
ter que desmachar paredes pôr guindastes pra retirar as centenas da gorda com a
gorda junto ao hospital, onde morre em paz; aí vai sim em paz descansar com seu
Zé dona Zefa a comadre Gena e o safado João Xará, quem sabe perto de João
Mateiro de péssima lembrança.
Pois
bem, tudo isso pra falar uma coisiquinha de nada que é o fato da garota parenta
do velho revisitante após dezenas de anos ausente da cidade e que não a
encontrou e nem reviu sua gente, não mais ser essa garota: encontrou uma velha
balofando suas banhas.
Antes
mostrava uma ânsia uma tendência uma vertigem em ímã numa atração infugível ao
de ingerir mastigar engolir, uma curiosa necessidade que é a de comer. Por que
curiosa? sendo que todo mortal come e por isso morre, exagerando claro. Claro
sim pelo exagero apenas. Em adolescente já deixara o apelido incômodo de
magrela. Os desafetinhos sempre em prontidão: essa magrela! elinha: esse
gorducho! e vai por aí, ia por aí; aí encorpando ficou uma gostosura. Tanto
assim que imantou o Chico filho do seu Zé Professor, ele só marceneiro, bom
profissional, este esposo a torneá-la além das suas madeiras; oficial
marceneiro, inclusive montou oficina de móveis própria
na rua Coronel Galdino, esta via já nessa altura sem os seus roceiros a
movimentá-la, visto Marília haver deixado ser uma agrovila agrocidade e virar a
Capital da
Alta Paulista, inchavam os marilienses por isso, e posteriormente ficou Capital Nacional do Alimento, que é o slogan de agora. Dito isto, isto o Chico não conseguiu fazer:
fazia pilões, fazia torneados outros, não conseguiu ganhar a torneada-violonada
que se chamava Margarida. Margarida casou-se, ingrata, com outro. O outro não
conseguiu de sua parte fazer-lhe filhos (as intrigas afirmavam ser estéril a
fêmea do casal) conseguiu porém em escultura arredondá-la embelezá-la. Não
obstante enfeara, apreciamos mais a forma enfeiara mais bonito; bem,
prossigamos. Como a Marga não conseguia “ganhar nenê” diz assim o povo e é uma
burrice tamanha pois o casal tem de rebolar muito e esperar meses à fêmea dele
dar à luz e isto não é de jeito nenhum ganhar, supomos; entretanto deixa pra
lá. Lá pelas tantas ela se conscientiza no fato de
que todas ganham nenê não eu! (pensa) tadinha. E desanda a desandar desandando
a comer para compensar; daí ganha sim, sim peso, engorda estufa balofa feia e
horrorosamente. O marido, dizem as línguas, tem por aí um bastardo igual teve
um o Nego, ela não sabe o Nego não sabe o apócrifo do esposo, a última a saber!
não sabe, sabe sim e por isso come mais, mais ainda engorda.
O velho nem
quis sequer um colóquio com a parenta no estado em que se encontrava a parenta.
Ela que vimos quando a acompanhá-lo, ela a andar com dificuldade pachorrentamente
paquidermicamente, a pensar que todo peso do mundo anda em cima dela, a
pressioná-la e mais impressioná-la. Não se dispôs nosso velho bater aquele papinho e rever outros parentes que porventura a mesma
indicasse nem nada; cremos inclusive sentindo asco. Poderiam então recordar os
tesouros da memória da parentela. Não, não quis, quis apenas vê-la de longe.
Fez mal. Na semana seguinte faleceu Margarida. Não esperou mesmo um pouco mais
a somar mais uns quilinhos.
Nessa
altura já devera o visitante haver retomado lá na Capital suas responsabilidades.
Capítulo
Quinquagésimo
O casamento é um
contrato; como o contrato comercial os sócios se desentendem frequente e têm
semelhantemente a separação, que no primeiro caso se chama divórcio; em ambos
casos vem a disputa pelo fundo de negócio (na família são filho e propriedade)
e os ex-sócios terão de responder, em consequência, pelos desmandos dos tempos
de funcionamento da firma.
Olhamos curiosos, a curiosidade sendo
da definição humana, apenas curiosos em ver vimos na passagem de nosso circular
a Helena... Seria aquela europeia dos gregos candidata a deusa ou só mulher bela?
não. A Helena bisneta da Zefa vinda ao planeta pela forma de Clarinha mas
desconhecendo inclusive a existência da avó e mais a da bisavó; além disso nada
branca europeizante porém morena e mais puxando traços africanos paternos. Por
um certo incerto tempo vivera aqui perto, portanto nossa agradável vizinha, num
período de mil noites ou apenas horas, a curtir os dramas intrínsecos íntimos e
inabordáveis de sua família; aquela questãozinha de não se pôr a mão onde fogo...
e daí só num esforço o esforço no pinçarmos com anzol experiente as coisas a
vir à tona aos mais próximos dela, aos seus estranhos não; a nós outros, fora
os íntimos, sobrando a sobra ouvida, como por exemplo um desentendimento
explícito dela com o esposo, ou dele maismente correto com ela; mais ainda com
a amante do consorte; e sabido também encrenquinhas bem decibeladas pra ser suficientemente
ouvidas nas vozes dos filhos a coroar com o choro dela, Helena sofrida, essa do
sangue do seu Zé falecido, um que Deus o tenha.
Pois
bem, hoje é dia demarcatório nessas entranhas por nossa benfazeja curiosidade,
em exercício funcional desde a janela fechada do coletivo, e andava um calor
terrível a gente nunca sabendo o que na cabeça dos outros que não arreganham o
vidro para o ar a paisagem o mundo entrar pela janela. Olhamos assim mesmo, ela
se oferecia.
Talvez
esta uma imagem forte, porém não se encontra distorcida, pois que se oferecendo
ao público, entretanto apenas nós nos aproveitamos certamente da mesma.
Vimo-la
a regar o pó da rua acumulado, a sua rua lá embaixo no bairro próximo,
esguichando com sua borracha, ou apenas a se vingar da prefeitura, aquela
ladrona, haja visto o preço que se cobra por um mijinho na mangueira plástica e
nas torneiras a gotejar. Mais que isso e isto é o que interessa a ser
registrado para alegria do velho no Diário de Maitê: trazia no braço, o
direito, esticado e a segurá-la a mão belíssima delicadíssima da senhora, enfim
a prender bem uma criança. Sim um bebê, imitação de boneca de brincar de
casinha quando então dizia às coleguinhas submissas e as do segundo escalão na
brincadeira e também às priminhas “eu era a mãe” a pronunciar com aquela
vozinha enjoadinha naquelinha epoquinha, hojinho vovozinha ainda de vozinha
enjoada sem enfeiar sua beleza nata. O nenê marrom não tendo, deitado espichado,
mais que palmo e meio pranchado no braço avoengo, com certeza em nossa dúvida
não sabermos se falando ainda ou não os bababás que falamos em projeto de
gente, gentinha, e se berrando mil decibéis a alertar de sua presença o bairro;
indo portanto da mão segura ao final do antebraço da mulher, esta em mostrar
suas precauções e mais preocupações, sobejo para nossas descaradas orelhas e
olhos desde a janelinha sim mas também com olhares pregressos de anos a
vasculhar aquela intimidade fechada hermética em função como dum cofre bancário
em dia de domingo sem guarda. Vimos, contamos naquele rosto belo circunspecto
frestas e sulcos, os vincos entre as duas sobrancelhas, apertados qual
apertados na profundidade e na quantidade dos problemas da dama viúva de marido
vivo; e como vivo! em suma dos problemas outros sendo os mesmos de existência
anterior e desembocados nos filhos; tudo concentrado nas ranhuras de
preocupação entre as ditas sobrancelhas aparadas tão feminina e belamente;
ranhuras tais tantas que se não dando a contar, somar, somando as que só
advinhamos por saber pra ninguém saber. Na direita, noutra mão, noutro braço, e
no braço esquerdo com mão esquerda, a dama grega falsificada a apertar a ponta
da mangueira para que a borracha de plástico, espremida assim, feche a boca
mais de abrir a boca da taxação por aquela ladrona de prefeitura (e a gente
jura sempre nunca mais votar na reeleição: “é tudo ladrón” falava um vizinho de
nós ambos e de origem gringa). A seguir então ela olhou.
Olhou?
olhamos haver olhado ela, pra lá pra cá, quem sabe pra ver se via o pai filho dela
do netinho, ou a mãe, as noras seja por intriga da oposição ou a oposição
milenar do gosto em desgosto das duas partes, a nora a sogra ah a sogra... Ou
para ver se via nosso ônibus, não a nossa janela de ver voltada ao mundo, esse
mundo rico sim em hilaridade e na contrariedade e nas variedades mais.
Capítulo Quinquagésimo Primeiro
A economia mundial está doente. Sofre, antes
doutros males, de um câncer chamado inflação. Os médicos especialistas
diagnosticam receitam remédios desde que eles mesmos não passavam de pajés da
tribo ou conselheiros do rei, ‘infalíveis’ aos povos. Mas o câncer continua aí
forte quiçá invencível. Na Argentina houve faz pouco dose cavallar, no
Brasil atual temos manteiga. Os ministros ministram sentados no consultório
medicamentos que mais não passam de placebos. Os curandeiros de hoje receitam a
receita dos juros altos a conter o estado febril. Contudo nada basta à voraz
inflação. A inflação perdura. As gerações de esculápios se sucederão. Mas o
câncer é incurável; matará a economia, não morre. E isto infelizmente não é um
primeiro de abril.
Terá sido por uma imprevisão quem sabe; não
isto, levando em conta que o acaso não existe, não existindo o acaso o
inusitado cai por terra também, havendo só a possibilidade em não se haver
notado e previsto com certo grau de acerto o erro. Contudo eles se acharam, a
se considerar mais ainda que a ocorrência deu-se antes do depois, depois claramente
de o velho haver partido à casa dele em São Paulo , num embarque se não tumultuado um pouco
desorganizado, desorganizado talvez não tanto: tanto sim desabituado, em vista
de apenas de milênio em milênio os pobres se aventurarem à ventura da aventura
duma viagem em ônibus prateado a se deslocar na velocidade das estrelas, as
quais o homem comum vê no firmamento paradas estáticas a piscar seu sono. Terá
sido imprevisão. O fato é haverem se encontrado ambos velhos – seria o velho
novo com o novo velho! Bem pensado isso e nós ficamos então (estávamos a
acompanhá-lo nas suas andanças a reconhecer, conhecida, a urbe de nascimento; e
nisto o ‘lo’ se referindo ao velho novo, após embarcante à Capital) ficamos no
meio da gangorra...
Expliquemos
a gangorra, a qual pronunciava em pequeno, nunca alcançando ele grandes
estratosferas em altura mas a falar aqui menino, menininho e em menininho pronunciando
“gôgô” e não gangorra. Aquela haste de madeira com um tronco de atravessado no
meio, de maneira que as extremidades uma tá lá encimão o garotinho com medinho
e gritinho ou alegrinho extasiadinho enquanto a outra extrema do brinquedo tá
lá embaixo com a bunda no chão, aqui num problema danado por poder sem poder
evitar-se o soco o choque o baque o estrago e conseguintemente o de cima não
podendo ouvir o choro das nádegas do outro coleguinha de baixo na brincadeira.
Todos sabem todos veem nos parques infantis da prefeitura, aquela ladrona no
dizer da Helena com sua boneca esticada no braço direito. Então, estão ambos moleques
nas extremidades a repartir as dores e alegrias e quiçá a se xingarem, isto uma
verdade a mentira que os pais longe para não ouvir. E nós, enquanto, estamos
nos equilibrando com os pés cada um numa parte da tábua, lógico uma inclinada
pra baixo outra inclinada pra cima, ou atentos em não cair ou que seja atentos
a ouvir os meninos se culparem. Trava-se opulenta conversa e a gente no meio da
saraivada dos tiros sem poder participar, semelhante bobo falam, sem poder dar
palpite na prosa e não raro sem poder entender a gringuesa do que dizem os
falantes, falantinhos nisto. Os velhos...
Os
encontrantes ou reencontrantes firmes na sua conversa, cansados decerto ambos e
impetuosos a ganhar a parada na gincana do bate-papo – se falam se lembram se
indicam. E nós! nós ora olhamos pro lado de cá ora pro de lá, concordamos em
boa educação... quem somos a inteligenciar discordar!? concordamos em grau em
gênero e o mais houver, porém comportadinhos: só de cabeça pra não atrapalhar
no ringue essa disputa.
O
primeiro velho, diríamos o velho novo, aquele em meio à comitiva no bota-fora
na berlinda da comitiva expulsante do visitante, corrijamos revisitante. O
segundo o novo velho, não sabemos como se farejam se acham se entendem
desentendendo-se as pessoas no meio das pessoas em multidão, ainda mais que
passávamos por entre embrulhos pacotes compras de fim de ano no rebuliço da
gente a falar passar enroscar rosnar suas crias com choros gritos pedidos
manhas implorações exigências dos fedelhinhos aos bolsos apressados dos pais –
enfim o caos. Em meio aos caos... “você não é fulano!?” ou então “olhe quem
encontrei” e vai por aí, aí se abraçam se perguntam e daí se reperguntam, visto
um não escutar o outro já formulando nova indagação. O fato é o haverem se
encontrado se reencontrado no palheiro; no final não se conheciam; nada grave:
ninguém conhece ninguém sequer a mãe ao filho o filho à mãe, ninguém e a rigor
não nos conhecemos a nós próprios! Esta é a nosso ver a maior tragédia humana.
Porque sem se conhecer não se pode conhecer outrem. Daí um passo ao desamar o
outro como a si mesmo. Isto a cheirar abuso e loucura, a proposta é a contrária
ou o sentido oposto. Todavia se acharam no encontro e trombadas de suor que as
gentes dão nas gentes famintas de gastar o décimo terceiro ou o aumento imaginário
salarial no mundo de faz de conta da realidade plausível do caos. Era o caos.
E o
caos provocou a parada de nossas andanças então, exatamente na rua Prudente de
Morais na esquina desta com a São Luís e respectivos pacotaria e sacolagem.
Você... Se perguntaram se não ouviram convenientemente e após se feriram a
conversar. Lembra disto daquilo daquiloutro? de fulano de beltrano de siclano,
pela ordem: o caos aprecia a ordem dos costumes.
Tudo
ocorrendo em mote pela referência ao táxi, o velho novo resmunguento pela taxa
cobrada, o chofer decerto se enganando, ou de propósito ninguém a crer em
ninguém negativando as relações, se enganando na bandeira dois quando mil e uma
vez se cobra pela bandeira um, um para conferir... O que sem razão, todavia
exigir razão em idosos é sem razão. Além do mais o numerário ao carro saindo de
nossos bolsos; e também a passagem de ônibus urbano, embora mostrasse o
velhotão sua carteira de velho nós pagando a nossa passagem na catraca;
portanto sem razão o reclamar, isto nossa reclamação. A dele pela carestia em
tudo, a inflação desenfreada o aniquilamento do dinheiro. O outro ficou
eufórico diante do questionamento da carestia levantado, a carestia e a
inflação, doenças do sempre em todas economias, particularmente em a nossa
terceiro-mundista. Contaram e se lamentaram por ela minutos eternos. Entretanto
nos enroscamos mais no táxi, o qual gerou enorme e infindável blá-blá-blá. Os
de antigamente não eram tão exploradores. Se lembra quantos mil-réis uma
corrida do centro até à Fazenda Cascata? Lembra o ponto na Avenida (Sampaio
Vidal, esclarecemos, a espinha dorsal da urbe) era esse ponto o único
existente. Não. Sim. Talvez. Ah a força das palavras e os deslizes das palavras...
Seja como for concluíram pela existência dele por dezenas de anos. Tinha aqui,
mostrou um o outro concordando (aqui é a Prudente) um ponto de biribas, a gente
chamava aos carros miúdos Anglia e Austin ingleses de biribas, aí
ao lado das Pernambucanas. Lembra do Henrique Espanhol, do... citaram os
motoristas suas amantes suas graças suas desgraças suas intrigas e mais mais no
menos. Se fortaleceram afinando a língua, cansaram.
Nós?
ai que dor no pescoço.
Se
despediram, nos despedimos da via pública apinhada agitada cheiinha de
estranhos aos conhecidos. O pior neste melhor foi o velho novo, quem sabe na
ânsia de não perder a passagem o ônibus de volta à capital, o pior foi que ele
não sabia talvez nunca houvesse sabido o nome do novo velho...
Capítulo Quinquagésimo Segundo
Deus decretou-nos a pena de vida; o homem, querendo
superá-Lo, a pena de morte.
Chegou à espantosa
conclusão após indormir encasquetar teimar pensar repensar imaginar e, aí sim
concluir: andava mais velho; mais velho! isso não deveria assustar um sujeito
acostumado com os anos e o sofrer anos e o se alegrar anos e o engolir por anos
sapos, os sapos que a vida o fazendo engolir; a vida não: a existência da
qual não tendo bem a extensão e amplitude; a existência a si sofrida, lamentam
dessa forma os fracos porque a lamentação é o forte do fraco. Contudo se virou
revirou no lençol gasto e na coberta, a coberta daquele tipo ‘tomara que
amanheça’, os seus conterrâneos a usar a expressão engraçada ‘enxuga poço’ ele
a preferir ‘peleja’, mesmo porque ora tava ela cobrindo a cabeça de não ver
fantasmas no escuro, corajoso, ora nos pés descobrindo a cabeça horrorosa que o
espelho teimava mostrar e assim a peleja, a contenda, entre pés com frio
medonho em noites frias e a brasa à sardinha da cabeça... Essa cabeça que agora
tendo umas ideias malucas, não fossem malucas as outras partes de si. Assim se
foi espantando pelas minhocas seu Zé, as que teve naquela noite quase dia já, o
gritão penudo do vizinho a estertorar o bico para suas galinhas pularem do
poleiro e cantar e botar ou a fugir do gato, este dele mesmo e não do vizinho.
Minhocas do Zé Viúvo por vezes perigosas.
Entremeio
a elas punha a questão seguinte: se Deus nos decretou a pena de vida, por que
razão o homem com sua razão tem que decretar a pena de morte!
Isto
em virtude da desvirtude em ter tido inclusive sombrias ideias de suicídio
nessa noite, havendo também por anos a fio condenado o assassínio; ideias que
agora afugentava no limiar dos seus setenta e dois aniversários completados no
dia quinze próximo passado daquele presente em se remexendo na cama num
terrível desacordo e a lutar com a peleja então de furos respeitáveis: a
velhice não deve ser considerada apenas com respeito à gente, às coisas; as coisas
que a gente usa.
Se
velho igualmente como o velho novo e o novo velho de tão absurdas lembranças,
lembramos nós ao velho, o Zé Viúvo seria então na definição mais completa
houvesse mais no completo, seria um velho permanente ou eterno no enquanto
duração, pois já acostumado e até calejado a ser velho. Ser velho sim, não
viúvo. Tanto que se remexia sentindo necessidade da campanheira, se remexia a
mexer a cansada peleja cheirando o cheiro dele, que ela apreciara um dia, morta
não por cheirá-lo mas de morte morrida de repente, um falecimento que o Zé não
deseja mais lembrar lembrando assim mesmo a se torcer na cama; e aquele gritão
vagabundo e impiedoso a anunciar o dia a coberta a teimar a noite.
Entretanto
seu Zé – filho do filho de seu Zé, este na paz do campo santo com dona Zefa e
os compadres – ele minhocava lúgubres ideias até aí, como o negativo do
suicídio, em mistura com ideias outras positivas; tanto assim que fora semana
antes ver umas terras para comprar empregar um fundo morto, este morto sem se
matar porém parado a engordar as burras do banqueiro, uma classe que não precisamos
ajudar nem um pouquinho. E tal ideia mostra o quanto de esperança e crença ainda
naquela mente doida. Tinha mais outras a esdruxular o absurdo...
Quem
sabe não por isto o se remexer e não mais dormir (o galo, sempre o galo não o
gato o gato ainda a dormir no sofá deixando aqueles pelos grudados no pano, o
galo a gritar os acordes do raio do sol). A gente quando não tem o que pensar
pensa bobagem. O Zezinho, assim em referência-comparação ao avô seu Zé
Professor, ele viera ao mundo num descuido dos pais, vindo na brecha da
vertente intelectual da família. É sabido que seu Zé fora até mestre em letras
nos primeiros tempos da cidade, engasgava entretanto na tabuada a qual fazia
por ordem da palmatória os alunos burrinhos decorar, enfim um homem de cultura.
Pois bem, os filhos dele não foram mais que puxadores de enxada, nenhum com
tendência às letras. Um só optando por essa vertente, inclusive gozado nisso
por seu desafeto familial, o Arlindo ou Arfeio segundo a crítica comadre da
mãe. Não foi para diante; todavia quis os seus formados. Teve inclusive um
açougueiro. Outros filhos um tornou-se farmacêutico (o pai dizendo
“farmacista”) outro dentista, as meninas viraram professorinhas de abc, o
magistério então o teto feminino. Dos machos o genitor conseguiu mesmo um
médico, o qual estudou às expensas paternas em Curitiba (em Marília hoje temos
duas escolas médicas, na época nenhuma). Montou consultório na sua urbe, foi
cirurgião nos hospitais porém os colegas e piormente muitos pacientes o
chamavam “açougueiro”. O mano mais novo não deu nada; deu, deu trabalho ao pai
deles. Não obstante esse caçula, José, aqui Zé Viúvo ou Zé Neto por causa do
avô ou Velho eterno; tal caçulinha engrenou no comércio, quase enricando.
É em cima do pecúlio
ajuntado a duras penas que o Zé Viúvo trabalha sua esperança, a combater a
terrível ideia negativista originada pela solidão, e pela sovinice também (pois
onde se viu cheirar o cheiro da peleja velha usadíssima, dizemos e
completamos enxeridos: por que razão não gasta uns reais numa coberta nova!)
No
entanto palpites alienígenas não abalam um convicto pessimista como seu Zé. Por
fim levanta-se, faz o que faz, xinga o galo alisa o gato; embica na rotina,
nada intelectual.
Capítulo Quinquagésimo Terceiro
A janela é
o olho duma
casa pra ver o que não se deve; a casa devidamente
punida com a mudez da porta.
Nós temos o velho nós temos o velho
novo nós temos o novo velho nós temos agora e quem sabe se não sempre o velho
eterno enquanto durar; a fim de bagunçar estas linhas malucas.
Que
haja lembrança desaforada nesse eterno não espanta. Certamente a espantar os
intelectuais em plantão na família, sabido que Zé Viúvo aparecendo e se
eternizando desde a vertente intelectual. Isto uma boa ligação com o mano
desossador de vaca no açougue e mui bem visto pelos roceiros a procurar seu consultório.
Um dia, realmente certa noite, a novela das nove já pornografava um filme de
bangue-bangue quase às vinte e três horas, o açougueiro surge aos gritos em
frente à casa, ou mansão à pobreza da periferia, na zona central, aí nas imediações
da rua D.Pedro e... ah tem um senão, se não dois senões. Seguinte, em Marília
ninguém nunca soube nunca qual Pedro, seria o da independência, a decretar a
morte ao domínio luso; seria o filho II, primeiro na hierarquia dos ‘dons’? O povo
a conhece até hoje por D.Pedro e isso basta. O segundo entre senões é uma
questãozinha de engenharia e urbanismo, conquanto graciosa a cidade na distribuição
de suas vias: nós nunca sabemos aqui o que seja rua, a rua magra quase carreador
estreito do pobre capiau; nem avenida, fosse que fosse um boulevard pois
seria da largura da visão do rico aos seus carrões quiçá ‘limosines’ passarem.
Não sabemos, porque em exemplo as avenidas Pedro de Toledo e Nelson Spielman
são estreitas e magrinhas parecendo a Margarida antes do spá e falecimento,
magrelinha e acanhada. No entanto já dito, senões.
Maior
senão, avolumado até, o do Açougueiro a deixar seus periscópios de olhar os
navios das enfermidades nos pacientes ou sua machadinha de ferir a mesa tosca
do açougue e abrir barrigas – para simplesmente insultar o desafeto.
Pior
no pior um desafeto parente, não se sabendo se o mano dentista (claríssimo não
ser o Zé Viúvo, manso; outro:) seria então um cunhado casado no padre da igreja
Santo Antônio, o casamenteiro, com uma das manas professoras! Realmente não
sabemos, não sabemos tudo.
Chegou
no centro, ele também morando com a açougueira dele e os açougueirinhos umas
gracinhas quase na Avenidona, chegou já gritando, muito pouco médico mui pouco
intelectual e pensador. Feriu o quanto necessário conforme um lado o outro. A
família insultada assistindo a santa novela das nove ou mais, respondeu à
altura. Isto é: baixo para não se comprometer com a vizinhança civilizada, pois
estavam a findar o II Milênio e aí a gente deixara a barbárie séculos. Não
passou disso: se encaramujou lá dentro da mansão a escutar impropérios dignos
da periferia após o boteco e as faltas sem sobras. Gritou ofendeu e o
‘insultado’ (segundo a oposição o parente havia dado uma cantada inocente na
Açougueira do Açougueiro...) se dizendo vítima – ah como apreciamos ser
vítimas! – então essa vítima resolveu tomar satisfação e apelar qual fosse o
zebebum na venda antes do porre, após sai arrastado sabemos. Apelou, berrou
mais alto a chamar nas janelas os vizinhos curiosos em ver a paisagem noturna
clareada por postes e talvez as mariposas a rodopiar alucinadas bobeadas em
volta das lâmpadas públicas; berrou a chamar parar passantes em ida ao baile da
madrugada no sábado e atrair também a canzarra a xeretar por ali; então desaforou
não só vociferando: destruiu o automóvel no passeio ao passeio dos familiares e
ainda não limpado alisado perfumado guardado na garagem entre as flores do
jardim particular a embelezar os olhos do passeio público. Sim destruiu, literalmente
destruindo, e o fez em menos de meia hora, das pequenas e pouco duradouras –
deu pontapés e murros (notemos aqui o Açougueiro desarmado, um profissional
amadorando e portanto pacífico...) Foi além, tomou da pilha do vizinho do
desafeto um tijolo à construção do tal vizinho e atirou a bala no parabrisa do
veículo parente! Estardalhaçou o vidro e o ambiente nobre. Por fim ufou seus
suores e indignações e se foi, vitorioso. Ah Pirro...
Conta-se, a propósito desse
episódio e isto atiraríamos nós à Caneta se viva ou nas vivas linhas do Diário não o
fazendo por coragem a enfrentar o resto das linhas; conta-se que o carrão de
luxo quase virou sucata, arranjado, garibado se diz, passado à frente porque
gente não aprecia prejuízo: passa à frente esse atrás e guarda o lucro e
compra outro carro, no caso novo em folha, um Studebaker da
época em moda; em moda importado já havendo ‘nacionais’ de propriedade
alemã DKW e
Volkswagen. Nisso
tudo ganhando ainda demais a
família.
A
família discutiu muito, muito aprendeu na contenda dos familiares e na bravata
açougueira. Um ganho. O financeiro, ainda na família. Falavam que uma bastardinha,
portanto do sangue de seu Zé, os dois Zés o morto e o vivo viúvo; essa bastarda
uniu-se a um japonês, fato comum na terra nipônica mariliense; e tal japonês
foi quem na sua oficina desestragou o estrago açougueiro. O defunto carro teria
ficado novinho em folha, isto dizer de fins do milênio também. Após, passado a
casca do auto de luxo pra frente nesse pra trás do ver comum.
Contudo
não foi, foi apenas mais um pensar, não fora isso a única minhocagem na mente
viúva do Zé Viúvo naquela triste noite de insônia e galo a se lembrar suicida em potencial... Não.
Desandou na crise do limiar da velhice indormida insone
insana a pensar como envelhotara.
Puxa, gritou, sem
temer acordar do ronco a sua bela esposa de olhões assim e que lhe apreciara o
cheiro macho não pra valer; sem temeridade por haver a ‘jovem’ falecido, ele
velho até prova em contrário.
Então berrou espanto: puxa vida tô com
setenta e dois! De fato, estava.
Nos
subsequentes dias, pois depois após insônia o galo acordante cucurucou a
espantar o gato e o Zé se levantou e inclusive fez planos para ganhos nas
perdas financeiras, já dito e provado antes; nos dias seguintes minhocou outros
absurdos. Absurdo é tudo que fira a realidade do homem comum; e em que,
desperto, envergonhado, o homem comum tema publicar de língua – mesmo o homem
simples teme a vergonha. Quando muito, depoisão, sorri de si. E tamos conversado.
Chegou
enfim a uma conclusão fantástica a estourar a maquininha japonesa de pilhas com
dígitos gastos e bateriazinhas tipo lapiseiras também gastas. Digitou 72 anos,
multiplicou por 12 (meses do ano) tornou a multiplicar e mais multiplicar,
primeiro por 24 (horas) por 60 (minutos) e finalmente o resultado por 60
(segundos) a chegar à curiosa cifra de 7464900 e não sabemos quanto mais, mais
não sabia se embaralhou se perdeu nesse achado e não sorriu a conhecer quantos
os segundos de idade, gargalhou! com acresciminho “pô, como sou burro...” Era.
Era também uma eternidade insondável
naquelas Mil e Uma Noites em dias contados por segundo, segundo sua crença.
Capítulo Quinquagésimo Quarto
No lar humano quase sempre o macho é tão só o
visitante, às vezes fugaz e querendo também, estando ainda na sala de visita a
entrar no quarto, mandar no pedaço cantar de galo; a mulher é a verdadeira dona
da casa: recebe engorda carrega e dá cria à cria do casal; aí virando ela a mãe
e o homem da casa.
Apressados, teríamos outra
visão da visão, talvez também da parolagem em ótimo barulho nos vozeirões
machos pra valer e nas vozeirinhas umas gracinhas, de gritinhos em meio ao
falar fino e tilintar pratos talheres incomodados quem sabe com o cheiro da
comida, ainda a ser comida se comendo uma que outra das misturas deixadas pra
lá em farta ou frugal refeição. Eles tratam brasileiramente almoço e
caipiramente “armoço”, nisto arredondando umas voltinhas engraçadas no erre; a
chocar erres errados fortes bravos machucantes na garganta, supomos, do
paulistano, eles tão só paulistas. Uma algaravia no estilo. Qual?
O
galo era a galinha gorducha em ciranda pra lá pra cá nas saias; será isso as
tais ‘plissadas’! não sabemos; ou rodadas, espalhafatosas nas cores com uminha
só berrante: certa peça de cima vermelha de doer ferir machucar vistas fracas,
a roupa forte da senhora os olhos fracos nossos; disso não apreguntamos
entretanto à Caneta: os mortos não falam, falam que falam sim não sabemos
igualmente; ou à Maitê, que decerto se bandearia aos lados femininos e podia
que pudesse até gostar da tal vestimenta e das cores inclusive a berrantinha da
vestimentona. Dito o dito, não apelamos à oposição, ficamos com nossa abalizada
opinião, bom. Bom!? Bem; então prossigamos.
Com
toda razão, pois quem mandando ela cantar de galo nesse terreiro com aspectos
italianos, haja vista a barulheira (não apenas das crianças não...) porém um
lar mastigante matuto em meados desse fim de milênio, deste quase, quase chegando
a mil e novecentos e oitenta e qualquer mais. É o almoço; não o simples medido
regado frugal da semana, entretanto o domingueiro, daí barulhento e tardio;
embora, fumegava um que outro prato cansado na espera e frio ou esfriando já.
A
mulher dava as cartas. A rigor determinando inclusive as posições na mesa
pobre, dessas toscas maciças pesadonas de madeira não trabalhada – ora, não se
come arte, porém comida. Que é comida! Quanta ignorância, comida é comida,
enfim o que se come por costume da fome ou para não pensar e ver o costume.
O
costume nesta região, sabendo-se que o caboclo é apreciador da quantidade e não
observa qualidade, o costume é o hábito do arroz com feijão e a mistura durante
a semana de trabalho ou de procurar trabalho... ah o trabalho e/ou serviço ou
ocupação para não minhocar indevidos. Contudo nesse fim de milênio segundo
avança pari passu com a crise mundial o desemprego, diverso do III em
que há desemprego e o desespero do desemprego.
Não há
desespero nem desemprego propriamente nesses descendentes, decerto até prova em
contrário, descendentes dos pioneiros Xará e Professor, descansandinhos na paz
e
sequer a pensar nas encrencas e encrenqueiros que
seriam gerados e teriam por herdeiros... de quê? Quando é que vamos parar de
culpar outrem pelos nossos desmandos! Em geral, a nível planetário e humano,
sequer imaginamos as sementes que plantamos e menos pensando nas consequências,
visto o aqui-agora das coisas. Não obstante por quase duas gerações houve
interações e desinteligências entre eles, desde João que sacrificou um João
Mateiro e de seu Zé assinzinho pelas damas de vida fácil a irritar a viúva
dele; atos deles a refletir em filhos e netos e bisnetos agora. Piormente
havendo confrontos, felizmente também acordos, entre herdeiros ou só ‘herdeiros’
dos dois compadres. Às vezes só pruridos ou desconversas nas conversas como as
nesse domingueiro encontro...
Isto porque o homem comum desconhece outras interpretações da diversão.
Um que outro no anzol ou na caça mansa ou na conversa-fiada; uns desandando por
aí, um que outrinho na sessão de cinema ou no parque ou no circo, nas matinês,
de tarde e não na manhã francesa no Brasil. O comum do homem comum entretanto a
se achegar, quase sem outra escolha, a se achegar
aos seus no fim de semana. O almoço, agora com a tevê em branco e preto e logo
a colorida a ditar ordens. Todavia o costumeiro é mesmo a conversa a
mastigar. Não falhando nisso nesse domingo a turba dessa turma.
A
velha Domingas dá as cartas fala fino e mais fino ainda nervosa com as pestinhas
a se desentender, no entanto fala grosso nas ordens. Então o para é mesmo para,
para após continuarem a se beliscar se caretar e finalmente para retomarem a
briga doutro capítulo anterior, a dedação a delação nada virtual. Desafetos a
postos. Dominguinha neta mais velha da velha Zefa se dava inclusive com a mais
nova quando velha da velha Gena, amizades duradouras; uma com o Zé se casando
ou só amigando pra horror dos mais religiosos dos troncos em questão, galhos
podres (no III Milênio a podridão é sã, de tanto existir; isto outra conversa,
voltemos à conversa). Dona Domingas não pensa nesses termos talvez por domingo,
pensa agora domingo e armoço do domingo; não aquele que é semanal e dessa
chatice da gente tar fazendo o café, o coador furou vazou passou pó o cheiro
cheira a casa as casas vizinhas, ainda tem de acordar fulaninho beltranão não:
acordados só alfinetar sua gente a pular da cama, tem o frio o calor ou nada
somente sono; faz coa remexe o açúcar levanta mais fragrância boa de café – já
a pensar não no arroz e no feijão indefectíveis rotineiros, na mistura ah a
mistura... Faz café já pensando no que fazer pro almoço; no almoço o que fazer
com a sobra do almoço ao jantar, eles pronunciam “janta” a economizar erre
gozado desarestado e ninguém vê esse ouvir todos na região assim dizendo.
Entretanto,
não. Sim, é domingo.
Tem
o Zé. Paga as contas, briga com os outros de fora – por que será que os outros
são tão errados e só fazem as coisas (por exemplo roubar no peso no preço não
pagar pagar a menos e outras mais!) só fazendo pra irritar ou puxar briga? aí
esbraveja em casa; o Zé vem de João, João Xará e é xará do compadre do avô,
sequer sabendo em não ser nos Finados que o finado existiu. Vem dele mas não
sabe, não se interessa em
saber. Ela sabe mais do pedigrí envergonhado do companheiro e
pouco do dela, ela o corrige, pega no pé do macho dono da casa cheiinha de
meninos. Então se cala o dono, ficando no esbanjar e somente esbravejar por
dentro se alembrando dos “embrulhões’ (ele não concorda com a concordância e
fala “us imbrulhão”) pensa nos brutos porém não diz, promete cinta que é o
cinto nesta cidade, não pra não deixar o barrigão cheio de macarrão (ah sim
hoje é domingo olha pra Domingas de cara contrariada) não por isso: pra dar
umas lambadas nos moleques da casa; aliás tem uma cinta velha e gasta num prego
no quartinho de despejos, atrás da porta – inclusive pra bunda criança; aperta
a menos velha na barriga... não: desaperta, mastiga mais come mais mais vem a sonolência
ainda, aí dorme como um paxá, da Índia da Turquia? sabe-se lá. Enquanto a mulher
lava os trens, de cozinha bem entendido, o trem de passageiro só tem o de
carga, o de carga logo acabaria a deixar os matos cobrir do sol os trilhos.
Lava resmunga enxuga barulha guarda ou só põe a escorrer utensílios e vai tirar
uma prosinha com a comadre na cerca, cercada pela ninhada, a parte que não anda
a gritar e brigar e brincar e gritar melhor na rua, “cuidado menina” grita no
dedo de prosa. Por ser domingo.
No domingo se come
macarrão, um frango ao molho. Aí fica chamando a atenção: um por exigir arroz e
feijão, não vê que é domingo! não vê, criança não vê só pensa brincadeira, na
hora de ir dar um recado não quer ir tem de mandar gritar apelar à cinta...
Outro acha pouco o molho, outrinho quer mais ainda molho e se queixa quer mais
tomate no molho elinho diz grude, pode! alguém goza em “meleca”. Ou o bife,
sempre tem bife, tá duro dizem, engraçadinhos; ou salgado falta sal pimenta tá ardendo, é
impossível uma vida dessa! É. Tem que ter bife sempre, o Zé não dispensa na
mistura, eles falam mistura ao acompanhamento do arroz e do feijão todos dias;
ele quer inclusive com o macarrão no domingo, lamenta à comadre. E ouve um
lamento ainda maior da comadre pelos da comadre e se entendem.
As
crianças não. Não, sim são várias e até se dão. Todavia é difícil coordenar bem
mais de meia dúzia de meninos no lar, mais no domingo em almoço ou a comer os
restos na janta – ter que fazer janta, ela iria ser a escrava deles, mui menos
dele! Não e não. Elas, comadres, tagarelam, ah tem uns grandões, já já se
enturmando e não querendo palpites maternos; elas, as crianças, conversam
brigam fazem as pazes, enfim vivem como irmãos.
O
comum entre irmãos os choques. Alguns de fora criticam a dizer em gozação “brigam
igual irmãos”. Brigam sim e se querem como se fossem de sangue. Nesta família a
fábrica fechou após o primogênito, coisas das entranhas estragadas de Domingas,
nada a se fazer. Tudo: pegaram para criar a meninada órfã de compadres e
conhecidos. Parece o lar inclusive tinturaria: tem gente como roupa de toda
procedência e aparência; e gosto ou desgosto. Embora isso, se dão. Mastigam no
estilo, sem quaisquer estilos, como um pobre faz. Com a mão com a boca com
gosto; ou naquele gosto do estrilar.
Capítulo Quinquagésimo Quinto
Criança e cachorro agem da mesma forma quando a
acompanhar a gente grande em bate-papo distraída das pequenuras à volta: ora
estão na frente correndo, ora ficam para trás.
Aí ou apertam o pé ou choram e ladram desconsolados.
Maneco. Andava andando lento mole
arrastado quase, por mui cansado o homem. Bufava ao peso de uns anzóis, outros
tantos perdera perdendo no barranco na curva do riacho além um pouco do
quilômetro treze que dizem dá azar, pesando ainda as linhas leves um embornal
de pano barato e uma vara de pescar o outro bambu quebrou a ponta jogara no
mato – e tudo isso não sendo grande fardo, maior fardo o cansaço mesmo; mesmo
assim teimava teimando a se arrastar na estrada indo a Marília, subira os
zigue-zagues da Serra de Dirceu e isso já suficientemente pesando no peso de
suas costas e nos pés inchados, eles a fazer marcas na areia do arenito
decomposto rosado solto, tais marcas em sinal de sola grossa mas não
exageradamente só um pouco grande nos pés-44, o 44 por não encontrar seu número
ideal e daí tendo de encomendar no Bernardo da oficina de sapataria a fazer-lhe
um par de sapatos sob medida. Contudo não sendo sapatos porém botinas velhas,
dessas gostosonas com que nos acostumamos a ponto em desprezar os calçados
novos ainda na caixa de papelão. Marcava o solo a marcar presença na volta pela
estrada arenosa poeirenta quente na tarde mais quente para ele a pé, falava “de
a pé” como os conterrâneos outros. Outros passando por aí a cruzar vindo da
urbe carregando seus embrulhos sacolas pacotes, uns em mulas andadeiras ou burros
pisados, outros mais até de bicicleta, daquelas bicicletas que fazem zigue pra
cá você em esperteza vai pra lá a desviar fazem então zague pro seu lado e aí a
gente se encosta no cordão de terra que a enxurrada depositou na margem, bem
mais seguro; outros teimosos como o teimoso deapé entretanto a voltar da cidade
enquanto ele a tornar à cidade com matula magra de embornal murcho a chocalhar
ao vento morno, um embornal vazio e o Neco bem ‘sapateiro’, a ser gozado depois.
Na região nós falamos que um pescador – desses que contam suas bravatas e têm
de comprar na volta em peixaria algo para mostrar serviço – dizemos enfim que
não fisgar nenhum é voltar sapateiro. Todavia deixemos isto ao folclore
explicar, expliquemos apenas essa viagem de retorno.
Parou.
Parou após tantos “bundias”, era já hora de “batarde” com o solão a pino, o ar
a tremer gases subindo na quentura desde a menos quentura do chão; a sombra...
cortaram as árvores como mataram o trem; debalde se arriscava em tirar o
chapelão de palha, exato para tais pescarias de amador cansado da rotina urbana
e dispensado pelo patrão numa compensação de horinhas extras na loja da rua São
Luís onde trabalhava. Se fosse, não era dia de segunda, Dominga a gozar
esfolá-lo na covardia dele de corajoso pescador; não era, era meio de semana e
de serviço no trabalho. Fosse domingo ou segunda, quem sabe a mãe no tirar
melhor o pelo, quer dizer gozar no pobre grandão solteirão na mão. Ou seja, Manoel
não sabendo que chegaria a esse ponto, a esse vexame... jovem ainda, embora
corpulento se pensando inteligente e exímio no anzol. E trabalhador, dizia
vaidoso o pai, o pai-segundo porque o filho adotado mas admitindo os de Xará
como seus parentes e tudo o mais. Todavia não quer pensar nisso agora, agora pé
na estrada.
Isto
é, pretende andar ir quem sabe mais depressa a engolir tantos quilômetros, que
são quatro ou cinco pela frente apenas e que a moleza de corpo não quer deixar
por menos de oito... Pretende. Aí lhe dá uma dor esquisita neste lado e do lado
de lá, lá vai ele se espremer defecar. No entanto aqui um drama: onde! olha pra
todas direções; enfim desce as calças no cafezal que margeia a margem, não tem
árvores só arbustos de café. Assim mesmo a decência manda ter certos cuidados;
abusa deles e chega a olhar pra cima, vai que haja alguma aeronave, estamos
encostados ao campo de aviação, teco-teco a subir descer antes aquele zunido no
esquente do motor, dava até para ouvir, olhou o absurdo do absurdo flagrarem-lhe
o desaperto. Faz o que faz, limpa-se com folhas de cafeeiro e isto ainda mais
absurdo o outro seria ter à disposição banheiro público e rolo com florinhas;
não esperando tanto, no pagar tanto esforço. Por fim se veste com alívio, longe
esperar por água sabonete desinfecção e toalha ao gosto da cidade. No entanto...
Olhara
olhara, e fora visto! pensava ser o único adão naquele paraíso de mictório
cheio de erva e vento e nada, porém ele olhava sentado curioso aquela esquisitura
de homem...
Nesse
ponto que surgiu o cachorro.
Tem
cão perdido em mudança; têm os que nos dão de presente ou um presente roubado
dum lar desconhecido. Não, pobre não tem hábito nem cultura a comprar animais
em lojas ou de particulares a oferecer no natalício de alguém. Contudo é comum
haver cães e gatos na casa, quase sempre para agradar o filhinho. Os bichos
crescem e se sentem da família. Não era bem o caso.
Olhou
aquela montanha humana e se engraçou dela; fosse pelo cheiro, embora o Neco
fedesse bem os suores e humores, além do
mais havendo também suas fezes ali; o fato é que o cão gostou. Desde esse ponto
não mais deixando aquele dono de empréstimo ou apócrifo.
Seria
um descendente de Peri ou de um outro qualquer vira-lata dos compadres. Nunca
saberemos, nunca souberam sequer seu nome. O Maneco arriscou os conhecidos:
Rex, Lulu; apelou depois à moda de então e o chamou Bob e Dick porém
não respondeu ou não sabendo inglês, permanecendo sentado sobre o rabo a olhar
qual menino inocente lá encimão a cara gozada o bigode espetado o chapelão os
olhos arregalados do amo, seu novo amo. Não respondeu. Sequer dizendo donde
viera, se longe se perto, quem o dono, pra onde indo. Entretanto abanou
alegrias e fez mais que isso – seguiu o homem até à cidade e foi apresentado
aos seus, quer dizer os parentes do amo. Aí aproveitou a se dentar com os da
casa e da vizinhança, num forrobodó ladrado e gritado; depois a sair da batalha
ganindo e com o rabo entre as pernas, as patas. Era um cachorro lambido desses
sem graça sem cor sem raça e com muito bicho a lhe sugar o sangue; porém
espertinho e de boa vontade.
Seguiu
o dono por onde o dono indo por meses; quis inclusive entrar na loja, impedido;
daí ficou deitado nas imediações a aguardar seu chefe ou para receber algum
alimento e afagos do rapaz ou para ser seu guardião e defendê-lo contra os perigos.
Não mordia ninguém mas ladrava com coragem de assustar passantes.
Foi
tratado e tratado como amigo, devolvendo ao Neco a amizade que os cachorros
sabem oferecer. Depois caiu nos gostos da carrocinha da prefeitura; paga a
fiança, vacinado, lavado, penteado, logo foi atropelado e morto. Para que Manoel
chorasse e se sentisse mais só que antes daquela pescaria sem peixe.
Capítulo
Quinquagésimo Sexto
Favas Contadas
‘Véio’ em porre
morre
Véio corre
morre
Véio que
erre
morre
Véio que emperre
morre
Véio Novo ou
NovoVéio
Acerte ou erre
morre
Pré
Acabamento ou Apagamento
Passava passando na esteira o tempo no
tempo a se ver ou desver por necessidade em acertar a psicologia própria – em
geral tapamos os olhos para ver e para ouvir o que perceber sequer com o tato a
cheirar o que não fragranciamos, flagrante. Passava. Mas não viam, e não via também
vendo, só vivendo ou a se pensar vivo. Pesca-se limpa-se frita-se come-se e
quem sabe um cão sentado sobre o rabo possa ver melhor isso... O homem pode ser
a mulher o menino ou o ramerrão de todos; aqui abusando no absurdo de todos;
não pensava assim.
Ou
por outra, assim pensando Neco, um apócrifo em família talvez apócrifa aos
pioneiros. Olha por dentro a casa estranha – a rigor somos todos estranhos aos
estranhos – olha, aguarda atendimento das ordens ou do esperamento de outrem.
Era um lar comum. O proprietário, um tal de seu João ou seu Antônio ou seu
Benedito, respondia pelo apelido Batatinha, isto ninguém entre estranhos
sabendo bem, menos intimizar indagar saber, o chefe da casa enfiado nos fundos
tardava em remexendo badulaques e a burburinhar bastante entre os seus, uma
velha já carcomida em tosse braba e certo menino sem dúvida um neto ou igualmente
apócrifo como Neco; o chefe remexia remexendo e decerto não achando o que
achar, não sendo isto de nossa conta. Aproveitava o visitante a analisar, tão
só a passar o tempo e no dizer que tempo é dinheiro então se enriquecia a
examinar aquele todo naquela acanhada residência.
Agora
punha pingos nos ii comparava em não concluir coisa alguma, coisa alguma é
passível de conclusão definitiva, apenas satisfatória a fim de enganar minutos
que se eternizam nas horas no tempo. Agora só agora via os pontos aparentes
naquele velhotão engraçado (posteriormente, longe, poria o porquê dele ser
engraçado) semelhando demais ao bisavô ou trisavô a tataravozar nos traços
fisionômicos de João Xará o qual tinha em sua casa no meio a velharias dignas
de insetos e poeiras junto doutros documentos descartáveis quiçá com cheiro
ardido por acúmulo de séculos e milênios não entendidos por crianças quando
criança. Havia lá não aqui outras mais, mais ainda amarelecidas fotos.
Pois
não é igualzinho! se falou, até afastando a cadeira tosca de pau que lhe
ofereceram sentar esperar aquela eternidade alizinha; empurrou o móvel pra ver
melhor que o reflexo do vidro na foto não permitindo bem. Encontrava-se presa
na parede de tábua, certamente a construção um dinossauro das casas de madeira
teimoso em meio à modernidade do casario, estava ali perto o retrato emoldurado
preso numa tira no prego. Apresentava à visita um moço a mostrar machuras à jovem
quase menina a seu lado meio assustada pelo casório deles ou pelo espocar fotográfico,
ambos em pose à posteridade no oval da moldura grossa lustrosa e quase a
cheirar verniz de séculos... Era decerto um Xará ou sósia, visto que as fôrmas
das fórmas não têm em exagero no exagero da população do mundo.
Era decerto. E se parecia ao Xará deles em casa de Dominga e de seu pai Zé. Daí
foi só um pulinho de imaginação nesse puro comparar.
O
dono da casa com tais traços fisionômicos, embora tendo-se que esticar
pés-de-galinha e rugas mais a perceber adequadamente o rosto novo que tivera o
homem velho. Sorriu à lembrança. Nos fundos ainda teimavam falar baixinho as
coisas, as coisas teimavam por seu tempo se esconder nas tranqueiras de casa
velha porém necessárias a provar por a+b aos estranhos os estranhos terem razão
porque os estranhos não a tendo com frequência.
Olhou
outra vez e outra vez olhou. Curioso nisso é que Gena parecia agora sorrir;
sorrir de quê? pra quê? Firmou melhor examinar o casal. Será, se disse, será
que o matuto antigo usava gravata! e terno na roça... não, que bobagem: com certeza
só no matrimônio e a trajar ao pároco ou seria interferência e interpolação
artística no estúdio fotográfico sempre disposto a bonitar as feiuras... Estava
assim quando escutou o alarme falso do retorno da gente da casa à sala pobre:
entretanto as vozinhas se entrelaçavam grosso e fino lá longe e assim tornou
ver a foto. Demais parecido o parecido com o desaparecido lá no quarto de
despejos na sua procura e na sua paciência.
Sim.
Sem dúvida alguma o parentesco no parente novo apócrifo do velho, aquele a
burburinhar escarafunchar badulaques mais em menos, talvez irmão do velho, do
velho novo e do novo velho, mesmo do velho eterno permanente. Contudo este
abuso em abuso de cena desaparece, tem em sua frente não mais que foto antiga
escura grande ovaloide lustrosa e pesada, ah, pensou imediato, e não cairia da
parede a despregar de pregos enferrujados e quem sabe no trepidar e barulhar de
baratas (aí sentiu inclusive a sugestão do cheiro das cascudas voejantes e por
que será que apreciam tanto o papelão no fundo de quadros e aquele de amplificadores
de rádios antigões e... ah chega, se falou, chega de imaginar tolices). Assim
abandonando aquela vistoria fiscalizante nos retratos dos outros, para se fixar
noutros pormenores em ótimo passatempo. Percebeu embaixo uma estante feita a martelo
e sem qualquer gosto que não a utilidade; a dita com objetos e coisinhas, uma
estapafurdice pensou. Tinha flor e estatuetas, nenhuma de santo, em não ser
dependurado próximo à foto do casal um Santo Antônio, em figura que lembrava
mais uma vez o casamento do retrato ou apenas devoção da gente do lar. Havia no
móvel grosseiro mil bugiganguinhas desinteressantes em não sendo aos
cultivadores de tais quinquilharias. Notou haver a poeira acumulada que a
sujeira do tempo deposita teimosa nos cantos às escondidas do vento incidente e
frequente em Marília.
Encontrava-se
de pé parado em frente daquele conjunto a representar os séculos que se foram –
embora ali no vizinho a contemporaneidade avisando pela boca do som do rock metálico
e o bum-bum cadenciado a machucar em decibéis alucinados os bibelôs e a tremer
mesmo o retrato na parede de mata-juntas; isto enquanto cães, toda a população
canina do globo talvez, se solidarizando a ladrar e a se destroçar. Andava
assim quase a olhar absorto as coisas na sala, quando voltou o casal, não bem
casal pois a velha matusalêmica e o velho com certeza (essa a dúvida) o velho
apenas velho portanto novo. Sorriu à dupla, ou por educação ou por findar o que
supunha a longa espera. Momento em que teve que ouvir as justificativas do
homem-passa junto com o ruminar da mãe ou avó, tudo para concluir pelo negativo
de achados & perdidos... Foi nesse ínterim se inteirar do curioso hábito do
museu andante, o velho eterno, ele num vaivém no movimentar sua
dentadura-postiça, a desenroscá-la para encaixá-la outra vez, e o fez
incessante e irritantemente, na boca murcha, num hábito horroroso quiçá
nojento. Contudo o jovem se comportou como esperado duma visita rápida a quem
se pretende deixar imagem e impressão boas; o que mais uma das besteirinhas humanas.
Respondeu
o costumeiro “não tem importância” “não
tem de quê” e daí partiu numa espécie de viagem.
Oh
será que tudo a valer uma viagem! ou deletar-se-á a ilusão infrutífera...
Capítulo Quinquagésimo Sétimo
Ninguém recebe menos do que deve; nem mais do que
pode. Esse é o quadro da Justiça Divina. O resto é por conta da ignorância
humana.
Grafamos neste pedaço um personagem
forte, se não valente ao menos bravateiro conforme diz a oposição sempre
próxima a desver o visto. Que seja um impressionante ao seu companheiro de
banco. ¿Aquele dos proprietários
do luxo do esbanjo e mesmo nesse negativo positivando receber ajudazinha
oficial nas crises mundiais, levando seus dólares às ilhas fiscais com espumas
com praias com garotas com uísques importados? não, ¿nem
banco de jardim onde desocupados do tipo Xis em logradouro qual o da Praça
Maria Isabel por exemplo? não ainda, o do ônibus intermunicipal rumo a
São Paulo; os interioranos a se coçar a olhar pela janelinha, que é grandona
assim, para ver a correria da paisagem, morto o trem. Sim porque na terra onde
tudo em que se plantando dá, no dizer caminiano, plantaram o trem depois
assassinaram o trem, pondo em seu lugar veículos sobre roda de borracha e no
lugar do assento duro de pau a fofura do banco reclinável do ônibus; e este é
confortável pra valer e os passageiros desconfortáveis inconfiáveis ou apenas
chatos, igual este aqui a meu lado, pensa Mateiro.
O
companheiro do assento número um viajara até aí longe do companheiro, um de
aspecto nordestino em traje a mostrar o costume do norte; felizmente ou
infelizmente, pensa o velho a retornar do retorno, houvera ido (seria reído?) a
Marília sua pátria, estando agora ao retorno do retorno de volta à Capital,
onde não poderia orgulhar-se em ser um número nos milhões nem por ser nada
naquele tudo no todo caótico mas seu lar. Residindo na periferia violenta sul,
sendo mais a de leste dito pela intriga paulistana.
Viajava
longe por estar ainda perto no coração emotivo sua gente e sua terra. Debalde a
lembrar-se do bota-fora que se fizera na portentosa Rodoviária, não se esquecia
claro porém não se lembrando muito disso: rememorava mais as andanças na
querida urbe.
Foi
portanto quase de chofre ou num susto que seu espanto se apoderou de si ao
perceber aquele ‘baiano’ a seu lado, curioso agora em vê-lo medi-lo comê-lo
até, com os olhos, entre arregalados e espremidos no esforço de melhor
vistoriar; a espantar qualquer um, um pego desprevenido por exemplo. Ele, o
Velho.
Mediu
por sua vez o homem, robusto porém mediano na altura, ficava, comparou-se
também, ficando um pouco abaixo sua cabeça da cabeçorra. O passageiro com a tal
cabeça meio quadrada achatada gozada, mas nada nadinha falou sobre, sequer
assoprou sons. O velho não era de grandes arroubos e arrojos com estranhos.
Poderia mesmo afirmar que horas viajavam juntos sem perceber o trabalhador
grosseiro quiçá selvagem (e nesse pensamento e pressentimento temeu tremeu).
Não se trata aqui de discriminação, o velho também dessa origem, embora hoje
senhor bem posto no emprego, inclusive o paletó a gravata a fineza ao seu
interior de grosseria. Em contrapartida as vestes do sujeito ao lado iam ao relaxo,
parecendo haver recente desmatado meio mundo derrubado toda uma floresta a
machado, o machado apenas suposto quem entraria de ferramenta num coletivo
doido a chegar no seu destino! De maneira que pegou mal o bem visto; ou mal
visto pois que não passando de mero relance e uma vistoria com o fim de
estabelecer contato humano tão somente. Todavia não pretendendo de fonte limpa
e consciência desperta tal contato; era um tímido, ou apenas com experiência de
fracassos no mundo das relações. Uma coisa aprendera com os seus: a mãe
“menino, nunca se deve confiar em estranhos”. Sorriu. Agora sorriu de si pra
si, que terá pensado dele o baiano a fungar acintosamente no banco fofo
próximo! Mais uma vez sorriu no lembrar a genitora e as coisas que lhes
contaram em pequeno, permaneceu pequeno era adulto porém velho agora e se
lembrando. Recordava a narração sobre um seu avô, bisavô, o João Xará, o qual
se parecia ou pouquinho com o bisneto, não: este com aquele. Coisas da história
da família, onde o bicho-papão disputa com um casamento ou batizado doutro
familiar e tudo se mistura. O Xará, conforme parentes, fora trabalhador e
morrera pobre, embora honesto e bom; ainda segundo as mesmas fontes, tão
benignas para com os de sangue. O resto? a oposição o enredo a intriga barata e
até a desfaçatez da mentira induzindo às brigas dentro e mais fora da casa.
Nada que nenhum dos outros passageiros do ônibus não pudesse repetir com outra
linguagem. E isto é gente.
Por fim voltou-se ao companheiro da
poltrona número dois, o tal companheiro o fitava analisava quase media de fita
métrica ou com metro ou trena que usara em pôr distância na distância a fincar
marcos das siglas mal feitas com o nome das terras do coronel. Media o velho
abusivamente? maliciosamente? grosseiramente? Assustou-se este com a
sem-cerimônia do pitecantropo bronco, entretanto acalmou-se conhecendo sábio a
ignorância do homem do povo; não viu nisso maldade nem recebeu violência,
exatamente por observar anos a maneira do pobretão. Resolveu de sua parte
também examinar a peça humana ali tão próxima. Tinha olhos penetrantes, viu
qualquer de ira e de insatisfação no interior dos globos estranhos; percorreu a
vista naquela musculatura atrevida, a sua era a do enfermo do fraco do mole do
tímido nunca a poder enfrentar de igual para igual um herói na luta livre que
via no televisor gritão; a do homem bem constituída. O que impressionava mais
talvez não o conjunto de atlas mas seu fungar notoriamente estranho e
machucante. Quase guardou na mente anos o som sincopado, quase mesmo o som do
sopro, não o hálito do sujeito não sua fragrância isso não sentindo, o que
impróprio dos que tenham alergia e a viver limpar enxugar o nariz; se limpou.
Por que, se disse, por que não trocar ideias com o selvagem que tenho aqui? Não
teve porém a iniciativa, a iniciativa é o terror da timidez. Embora, o vizinho
desandou a perguntar coisas; pertinentes e comuns e as impertinentes, neste
caso é necessário munir-se de paciência, a paciência que é um atributo da civilização.
O
senhor... reticenciou o outro, o velho logo a pensar no costumeiro mote caboclo
“tem fogo” ou tem um cigarro ou coisa detestável assim. Não. Queria saber se
indo à Vila (qual seria? pensou) se era verdade não haver mais trem, se
conhecia fulano e beltrano, no que trabalhava, filho pai de quem, formulou tudo
quase duma vez e num só fôlego. Fez mil indagações enfim, mas contentou-se o
selvagem a saber cada resposta de cada vez.
O
interessante nessa relação, imaginou o velho, o interessante era ser ele tão
sensível a cheiros, descontado sua coriza, e não haver percebido negativamente
pra lamentar o suor que escorria na face do homem e decerto a empapar aquele
tecido barato e grosseiro que o cobria...
Com
respeito à íntegra da conversa ou à qualidade da mesma, ou seja as referências
às pessoas possivelmente de conhecimento comum a ambos, é que o negócio
enroscou. O velho se disse descendente de Xará. O que despertou alguma ira, próximo
do incontrolável, no vizinho de banco; quase saltou dele, urrou inclusive, numa
altura quem sabe a despertar e indignar o restante da população do veículo...
Pronto, o velho examinou o perto, viu o longe estando no assento número um no
dois o brabo vizinho, percebeu lá no fundo a porta do sanitário a bater,
relanceou os gatos-pingados ocupando seus lugares, pertíssimo um senhor roncava
engraçado (ele demais constrangido ao notar isso) uma senhora remexia sem parar
sua bolsa e no meio do carro uma criancinha agitava a mãe e o pai a encontrar
não sei quê ou era quisesse apenas dormir em seu colchão cheirando a xixizinho
porque menino desconhece distâncias e situações adversas. A acalmar o
companheiro de viagem perguntou, como quem interessado entretanto interessado
mais a desviar atenção ou a ofensa, indagou-lhe:
Sua
graça, senhor...
O
homem suspendeu a fala, pensou em sua eternidade e respondeu não saber qual
graça... Assim repetiu o velho a dúvida, como o senhor se chama? será um
conhecido por acaso!
Mateiro,
disse menos bravo, João Mateiro, o pessoal, a peonada me conhece só por
“Matêro”, uns bandidos; “ói nóis tem lá” assassinos ladrões bandoleiros e
criaturas imprevisíveis... Acredite que um deles sendo o mais manso e quase sem
fala, o sujeito sem coragem até pra se dirigir aqui ao chefe... acredite, moço,
afirmou ao velho, esse quis me matar! Por pouco. Aí Mateiro desandou a narrar o
episódio na picada da mata (Vide Capítulo Décimo) o como chegou no meio da bandidagem, o como exigiu todos a dormir e...
“num ti conto”, completou: o fiadap. do Xará, João como eu, aliás noto que o
senhor se parece muito com ele... e esse cabra me deu dormindo (pronunciou mesmo “drumínu”) sete peixeiradas com o facão dele! Num morri por Deus!
Vi o bruto ainda tentando arrancar da minha carne a lâmina; vi o monstro correr
feito covarde que era... Certa ocasião achei ele! Jurei vingança, fui atrás do
bicho dias anos até, matei ele com facão – o miserável num morria de
jeito nenhum; um dia morreu com velório e enterro. Quer prova? tá no túmulo 35
na quadra A; fizeram uma carneira pra ele. Fiquei ali vigiando vigiando; antes
disso fui filho do Xará, pra melhor odiar o covarde e quem sabe poder matar
ele, aí adoeci e morri com uma sufocação danada. Ah, não morri não: fiquei de vigília
dia e noite pra impedir o malandro fugir e...
O velho como que em autodefesa se afastou, atormentado, não estaria
vizinhando com um louco varrido! pelo sim pelo não, fechou sua boca horas, e
conseguiu inclusive que o outro matracando adoidadamente não fosse por suas
orelhas captado.
Todavia
isso não resolveu sua situação. Logo apareceram as imagens da Caneta não
bastarda mas até com pedigrí e também a Maitê com sua boquinha linda. Ambas
entretanto não falando, falando sim porém não com decibéis de se ouvir. Aí se
assustou. Teria, poderia haver fantasma de caneta! Olhou olhou-se reolhou a
examinar toda a condução, havendo poucos passageiros e nenhum espantado qual se
assustava. Nisso chegaram.
Havia
fingido dormir, forma educada para escapar do desconforto no confronto com o
aborígene troglodita. Abriu as pálpebras: o homem não mais estava!
Correu
afoitamente ao condutor do ônibus, quase nem esperou o descer dos outros, ficou
a examinar cada um até suas bagagens (ora, o absurdo admitiria que um bronco
trabalhador machadeiro pudesse haver se enfiado em pacotes e maletas de mão!
tem coisas que a mente rejeita; por isso indagou ao motorista:)
O
senhor viu descer um... descreveu o selvagem de maneira civilizada, sem sucesso
e sem resposta suficiente. O chofer diz: ninguém desceu antes dos passageiros
que o distinto viu e contou. O cavalheiro terá sonhado?
É,
deve ter sonhado. Apesar da evidência, teimoso ou ‘tomesista’, foi ao fundo do
veículo, abriu o banheiro fedorento, olhou examinou sorriu, sorriu amarelo
depois ao motorista o qual se ria dele. Engoliu seco, daí engoliu ar contaminado
detrito barulho e se perdeu na multidão paulistana, menos louca.
Marília novembro 2008.
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
Nenhum comentário :
Postar um comentário