quinta-feira, 26 de março de 2020

Na Esteira do Tempo


0123(postar no Blog Livros Inéditos)












Na Esteira do Tempo
                  (romance)
                                                  Moacir Capelini
















moacircapelini@gmail.com


capa:


gráfica:


tiragem:




















“Como poeta, quero que ouçam também o meu silêncio,
 e não apenas as minhas palavras.” 
                                             Lêdo Ivo
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“Sempre resolvemos melhor o problema de outra pessoa
 que os nossos próprios.”  
                              Hervé Bazin
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Leia estas minhas páginas, diz o autor. Se não concluir que sou louco, está louco. 
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Capítulo Primeiro
No início era o caos;  depois continuou o caos;  agora melhorou um pouco: é o caos.

 

Primeiras Palavras 

          Na esteira do tempo tudo vai desaparecendo vai passando em velocidade estonteante cósmica incalculável impassível impossível no ver medir em sumir no começo onde uma interrogação ou apenas reticência, sumindo sumindo sumindo até nebulizar em tremedeira de vista de vulto, um vulto somente mas existente em 'suminte' 'desaparecente', imperceptível então por não visível; não podemos sequer medir calcular passos pés pesos pisos pós na sabedoria de nossa ignorância na ignorância de nossa sabedoria... E isso seria o início? O fim, não tem fim só começo: onde vemos acabar acabasse no horizonte doutra extremidade, sendo a extremidade da anterior interrogação. Com uma interrogação. Posta como limite, tão só como limite convencional e discutível contudo não se pode nem se deve discutir e todavia se discute, embora apenas interrogação, que é sinal gráfico também discutível e impreciso, vez que se possa com exclamar mais dizer mais representar que à própria interrogação. Ela fica ficará no local em que a pusermos e ainda não está, nunca estará, estando nos conformes de nossas respectivas ignorâncias e sabedorias. Não obstante um ponto final, final! um a servir de extremidade. A qual pode bem ser agora...

          Isto é isso que veremos em se tratando do andar do passar do perceber o tempo em passando.

Segundas Palavras, ou apenas meias palavras, e não será exageradamente muito? A Caneta com 'Pedigrí'.
          Apresentemos a Caneta, não uma caneta ou certa caneta errada, a Caneta com história; ela encarregada desta estória ou das estorietas sem Carochinha que serguir-se-ão. Ela a se responsabilizar pelas besteiras, se besteiras, as dos capítulos seguintes.
          Como registrávamos, tem ela história. Em descrição sucinta não passa duma caneta como quaisquer compradas na papelaria do bairro – cilíndrica transparente, em transparência apenas a se ver se não acabou a tinta no tubinho dentro da barriga dela, em não ser que esperemos acabar negando fogo a carga e sujar os dedos com a borragem que marca sobretudo o indicador, esquerdo a quem canhoto e o fura-bolos direito se o escrevente destro; aí a gente reclama da sujeira e por fim da reserva de tinta da caneta, joga fora a mesma, compra outra na vendinha e continua a escrever. Sim, não passa duma caneta comum, mas tem história.
          No começo o homem-macaco escrevia ou desenhava ou garatujava na areia; depois toma o tição apagado frio preto carvão e rabisca nas paredes da caverna. Posteriormente o carvão virou grafite no lápis. Deste foi um pulo (digamos um de alguns séculos) até chegar na caneta. Porém a caneta antes deu lugar à pena – de pavão de cisne ou da galinha comida no almoço – com a pena da ave se escreveu belíssimos compêndios. Antes é claro haverem inventado o papel a escrita o livro e antes do livro ainda a lousa a parede o chão. Na época precisando molhar a ponta da pena na tinta, ah antes aconteceu a invenção da tinta, decerto obra dos nativos de algum lugar. Antes. Depois usaram penas de metal, as quais faziam belos sinais ideográficos e assim criaram a cartografia e a caligrafia a dar emprego para artistas antigos. Então a caneta já com história, portanto Caneta.
          A Caneta que ora engana os trouxas é semelhante às outras baratinhas, baratas em vista à tecnologia atual e o uso do plástico, surgindo assim a caneta esferográfica, anteriormente houve sua finada mãe, dona Caneta-Tinteiro; a filha é esferoide e de plástico, já afirmado. Tudo hoje se faz de plástico, enquanto houver petróleo no mundo. A Caneta é desse jeito, esférica sextavada e com tampa. Quando cansada do trabalho, cobre-se na ponta com uma tampa do mesmo material da mesma cor a fim de não secar o líquido de sujar o dedo, aguardando assim novo e infindável capítulo ou novo curto grosso feio ou engolível capítulo, infindável apenas o não terminar a série; isto por ordem da chateação leitora, pretendendo a mesma acabar amassar jogar a bola de papel esta pobre folha no lixo por um lado, doutro exigindo qual a Caneta a continuação (se tal afirmativa não for mesmo produto de sonho ou de loucura...)             
          Esta a história, história da Caneta, em rápidas palavras.
          Todavia tem ela sentimentos... É chata cobradora enxerida sim, e podendo chegar a chorona ou só lamentadora.
          Não obstante lágrimas e lamentos, os capítulos da obra seguir-se-ão um após outro.

Terceiras Palavras – a proposta
          As estórias ou vivências deste livro ocorrem no século vinte e neste início de século aqui na região de Marília e se sujeitam ao tempo e à geografia no costume na crença no entendimento na maneira de ser, enfim estão dentro do quadro. Não inventamos as estórias, tão só os nomes nelas e a linguagem; reafirmando: não as inventamos... a Caneta não permitiu? É, não deixou; ela quase uma camisa de força à nossa liberdade, que fazer? Não as inventamos contudo criâmo-las, iludindo essa Caneta, convencida em sua vitória fácil ou por andar fragilmente vaidosa. Não porém apresentaremos a coisa, se Ela nos permitir é muito claro, apresentaremos os fatos. São acontecimentos vistos vividos narrados por outrem e deformados pela gente, enfim vivências das quais tomamos conhecimento. Com um porenzinho a ser ressaltado aqui: inventaremos os nomes, repitamos, os nomes de família por exemplo, as indicações topográficas, e naturalmente como dito a linguagem em vestimenta bruta, não podendo apresentar filigranas acadêmicas nem beleza literária; ludibriamos a língua padrão bonitinha certinha, usando criações bárbaras num coloquialismo mais próximo do povo.  Isto claríssimo a fugir da responsabilidade, a responsabilidade que amedronta qualquer homem comum. Ou não, sim para sobrecarregar a Caneta de costas largas; tal qual fazemos com o governo e com nossos adversários que pululam em nossa volta. Tais vivências são de começos dos meados do século passado, em preparo ou apenas conotados aos fatos do início do século vinte e um, o qual não sabemos se chegará aos meados e que possui já um começo. Versa sobre o homem em sua existência caipira e se urbanizando desde 1930, até chegar ao urbanoide (portanto não inteirinho urbano, ou urbano sim porém de integridade discutível);  enfim até esse urbanoide nos seus anseios de cidadania; e mesmo nos desejos globalistas terceiro-mundistas semelhante ao homem doutras regiões do orbe. Um tipo que se avantajou tecnologicamente falando sem ter avantajado demais em sua moral, embora pregação cristã e não cristã visando moralizar a gente. Aqui lembrando a violência nossa de todos dias nos dias que correm.
          Essa a proposta. Não é a da solução; e acaso terá a violência nos moldes que sabemos solução!? Tão só desejamos apresentar os fatos. Se a Caneta não obstaculizar...



Capítulo Segundo
Nestes últimos milhares de anos, com suas horas seus minutos e segundos – não existe começo, apenas recomeço.
         
          Não havia caneta. Ou por outra, havia. Havia sim mas quê isso interessa a um analfabeto! Nem lousa, no antigo tempo se rabiscava na lousa nesse tempo; depois do tempo noutro tempo ou no mesmo tempo ao mesmo tempo se ferindo folhas de brochura, um caderno simples rasgando o papel de tanto apagar borrar sujar os meninos passavam a mão fechada o fundo dela no fundo da folha, já de mãos sujas, depois com a borracha; no entanto a borracha enganava a escrita desescritava o que a ponta grossa do lápis havendo garatujado; mas eis que surge o professor bravo impertinente exigente, na roça um roceiro quiçá letrado no mais ou menos e não muito embora sábio das sabências das ignorâncias que invadiam o todo e todos quase e isso ocorrera na zona velha, de Descalvado ou Porto Ferreira ou mais pra lá pra cá donde veio, veio o homem; sem que aprendesse e aí culpando a cachola e não o desinteresse. Não havia nem precisava haver caneta, por João analfabetinho de pai e mãe e de irmãos que eram punhado, todos quase sem sobrenome todavia sem letras também no cem por cento nesse zero. Era no entanto forte nos músculos nos machados nos tamanhos. Agora cheirava a terra o mato o ar ouvia mil pios o cricrilar alizinho e escutava temeroso a violência do bicho de mato na selva intrincada tudo cheirando a fragrâncias e ele mesmo cheirava a suor azedo curtido dormido muitas vezes. A gente se acostuma com o fedor próprio e dizem que as mulheres gostam e se não gostam não importa, era valente daí tendo as mulheres de vida fácil não tendo lá vida fácil na vida da vila porém agora longe bem longe elas e a vila; então viravam não mais que uma fugaz lembrança, gritando na solidão do homem.
          Era um homem forte grande avantajado e sem medo. Quer dizer, quem não temendo a onça!
          João Mateiro, matreiro intrépido contando com sua fortaleza andante, corajoso na cabeça em cima da montanha de carnes rijas, Mateiro olha o trilho, eles lá e aqui a pronunciar “tríu”, olha vê que não pode ver além. Além é a mataria, a selva silenciosa a gritar a voz de fora das folhas dos pássaros dos insetos e o sol não deixando escutar direito a onça, quem sabe ele a temer também penetrando devagarinho em descuidos das sombras dos galhos; e a voz de dentro, terrível no escutar as trombetas do pecado e as lembranças dos vivos longe perto os mortos. Chocalha desarvorado aqueles incômodos e se pilha só. Só como veio ao mundo? o tio falava assim mas João vestido com tecido e aqueles fedores curtidos que os dias curtem e protegem o corpo cansado; a barbona cerrada. Cansava já de tanto medir e cumprir ordens das desordens da gente rica lá na capital. Ele e os outros.
          O coronel encomendara àquela raposa, um rábula, contratar peões, os peões dele, para o Mateiro cuidar mandar, mandar em segunda categoria porque como mandar em aventureiros bandidos! uma gente sem lei sem moral em não sendo aquela de temer quando matando um bicho ou bicho-homem a fazer após o sinal da cruz, uma gente desse tipo. Sim uns bandidos ele pensava, descartando um rapazote ainda menino e pobre de espírito cheio de ingenuidades e sem maldade alguma e com muito medo; apenas esse sabia obedecer e trabalhar; tinha por nome o seu nome João, João Xará; enquanto os outros não aceitando resmunguentos e inclusive a brigar em domingo de bebedeira; a exigir uns berros e mostra de arma de fumegar e inclusive o facão de abrir trilhos cortar galhos e cipós e barriga se necessário... Aí paravam. Na segunda-feira na semana o retomar da derrubada. Agora olha o trilho não vê o fim, não vê o começo também daquele improviso de estrada em zigues escondentes e zagues perdentes, ali lá sumindo. Para, para um pouco, ouve a mata. Escuta longe um toc-toc infindável dos homens a abrir caminho pra civilização viver matar a mata, matar quem sabe os mais lerdos preguiçosos briguentos nas suas brigas...
          Ouve longe o matracar dos machados um que outro grito humano, se humano; ouve perto ali perto o grito do vento a fustigar. A região é sujeita em julho e agosto, agosto sobretudo, aos vendavais. Ele desconhece por novo ali naqueles sopros de séculos e não sabe que o Vale do Rio do Peixe se entrega à sanha e façanha da erosão decomposição transformação do arenito, a cavar molhando de chuva na época de chuva buracos, mais tarde apelidariam Buracões no envolta; enquanto ano todo todo o sempre o vento se encarregando deitar árvores e derrubá-las mesmo pelas mãos da natureza e depois com os machados humanos a apressar a erosão por desmatamentos desarvorados; ano todo, especialmente de julho a agosto em tufões ou soprar contínuo a friagem. Sentia frio. Aí lembrou esquecer seus comandados, pôs a foice no ombro, tornou cadente lento aos seus lá longe.
          Perto agora via os estragos deles na mata. Quase ex-mata na selva cheirando exalando perfumes chãos penetrantes; em meio à conversa arrevesada dos homens, chamou atenção em nunseiquezinho pra chamar atenção sobre si em ordens das ordens em desordens do coronel ao grupo de engenheiros mambembes em trabalho de melhor destruição e em primeira viagem. Cutucou blasfemando até de varas curtas aquelas onças bravias selvagens violentas revoltadas. E quando vem o dinheiro? Ninguém sabia.
          Não sabia melhor e mais ainda o menos o João, capataz capitaneando aquelas ferozes feras, fora uns poucos fracos no abrir a boca. Fortes todos no desentender.
          A mata encurtava encurtou encolheu diminuiu; os espaços vazios se encheram de nadas e de árvores mortas assassinadas espalhadas e de montes delas e de fogo e de fumaça muita fumaça e de cinza. E sobretudo de conversa.
          Tinha o João que não falava, tinha o João que gritava mais que os gritos dos outros gritos. A branquinha a custo chegada desde o alambique distante àquele próximo aos próximos e a embebedar todos com fala e sem fala, desarvorados aloucados mesmo na falta e na sobra, sobrando assim desentender por meses e mais naquele próximo do perto. Daí alguém feriu alguém, alguém morreu, alguém fugiu, sobrou alguém. Alguém curte o ódio por alguém, o chefe é sempre alguém em quem se não confia nos abusos. Assim João Mateiro não voltou às suas negas de vida fácil na vila, traído no escuro da noite dormindo. E o grupo acéfalo se desfez a bem do coronel lá longe, que não queria pagar vagabundos não pretendia de fato pagar e não mais precisando pagar, porque a defuntos e ausentes não se paga. Mas acordou entretanto na hora do facão, dormiu para sempre crê-se; deixou Mateiro o corpo espichado esguichando vida vermelha. Ele que falava também e muito, não mais falava. Na agonia ainda percebeu reviu, já inerte, o assassino manso abusado meses e xará. Viriam novas e novas outras turmas a trabalhar a viver a desviver a brigar a se matar à mata morta virar fazendas lavouras de tamanho de latifúndio e brotar aglomerado urbano com trem e o mundo de todo mundo.



Capítulo Terceiro
Quem engana, engana; um dia acorda, se enganou...

          Gritava dentro de si um malfeito, fosse ainda assim bem feito o malfeito, assim ainda não tendo sossego. Mudou de João para José para Antônio, continuou Xará porque apelido pega gruda mais que carrapicho na vida do homem comum perdido por aí. Andou ao léu de foice enxada machado, a fugir mais longe dos pertos. Sempre medroso e mais mudo que sempre; teve a sorte de constituir família e de casar mal com certa mulher das raridades femininas no sertão bruto onde só mata e machos, quase nem povoado, povoado sim de homens, alguns poucos não confiáveis e encrenqueiros. Fez, imaginava como todo machão da época, fez muitos filhos na barriga da companheira, ela sempre resmungona e briguenta, mandona até, ele achando a consorte mandona, mandara inclusive no ato de casar quando foram léguas onde um padre sem igreja disposto a uni-los. E a filharada foi vivendo crescendo morrendo a acertar a estatística pobre rica em rebentos. O primogênito, ela chorou tanto pelo amor e cuidados maternos, esse morreu cedo; Xará não disse não pôde dizer porém sentiu alívio naquela morte do filho, antes pranteado por febres e gritos; é que o menino tinha a expressão o olhar de Mateiro, ele achava assim, uma vista de cobrança de ódio de vingança porém é claro tudo isso bobagem pois se morreu, morreu e pronto... quer dizer, temia horrores sem poder confessar segredos a outros e mais à esposa, temia almas doutro mundo, sobretudo as penadas. De maneira que foi um alívio, desses alívios que a gente conscientiza agradáveis no sentido de tirar pesos, nesse falecimento. Fez mais: temeroso prometeu, nunca cumprindo, um dia trazer um padre a benzer o tumulinho do filho, quem sabe a aproveitar abençoar também os outros meninos que a morte ceifara. O tempo passou. Xará criou os seus, envelhotou suas tosses, ainda um homem sem bens e a família pobre sem misérias, pois era um chefe trabalhador mas havendo muitíssimas bocas. A companheira também velha, parecendo ainda mais idosa que ele enrugada, em geral as parideiras com desgaste bem maior que seus homens, embora ficando elas quase sempre viúvas; não se sabe como sofrem os pesos do mundo e ainda fortes, mais fortes que os machos da espécie, um Xará por exemplo; assim perdendo ganhando idade na aparência a pobre. Até que João morreu, morreu como? no dizer do povo de morte morrida, a dele do coração e não do escarro sem parar. Parou. Então havia o compadre, tinha os outros compadres entretanto Cumpádi um só, gente de confiança, desses que apreguntam se o compadre tá menos ruim do pulmão do coração e das pacueras e se melhorou da piora ou se ela, a viúva, é agora viúva, todavia sem segundas intenções. O Cumpádi era um horror de sabência de causos. Contou mil e um ao Xará, contou de suas andanças nos sertões por aí afora nesse mundão. Uma vez, disse Cumpádi ao compadre, abrindo eito e preparando terra ao café do coronel, uma vez acharam bem uns dez esqueletos. Tinha um sentado numa pedra, decerto morreu de fome ou doença nem a onça comeu, inteirinho, só sem sangue, quem sabe as formigas... certeza que não foi bicho grande! e outros muitos outros esqueletos de cadáveres perdidos na mata. Xará logo a pensar, não diria a se comprometer – e não tinha um pranchado debaixo duma tapera tosca de galhos com um facão enterrado nas carnes, ora que bobagem se apenas os ossos! Não disse, coçou coçou o queixo da barba branca suja, tanto que a velha pegava sempre em seu pé a falar que o marido um porcalhão, aliviado no dizer dela: “ômi? tudo porcu!” Cafezinho ao Cumpádi às despedidas; noutro dia se despediu da vida na casa de pau a pique pro cemitério da vila, o qual era bem menos cemitério e bem mais ajuntação de covas cruzes flores murchas e entre sepulturas a do primogenitinho. Se foi em velório simples choroso num enterro caboclo, findou-se de morte morrida foi dito, e o morto contudo se enganava no engano também e no correr dos tempos do tempo.



Capítulo Quarto

As certezas para o homem são sempre relativas e condicionais.

Dona Gena
          A gente nunca tem muita certeza nas coisas. Dona Gena não tinha. Não obstante em tudo punha sua perfeição por hábito a julgar o imperfeito alheio, o do companheiro por exemplo, o João Xará, o qual ela desconhecia donde viera, viera do norte o que muito vago e falava meio cantado igualzinho os nordestinos que chegavam em bandos naquelas bandas do sertão. Embora suas dúvidas e alguma coisa lá dentro que adverte a fêmea humana no sexto sentido, aceitou-o para marido... a rigor marido, pois pôs na cabeça do namorado desejoso de amigar apenas e sendo mal visto pelos seus, que o melhor mesmo a fazer era fazer aliança sem amasiamentos. Fê-lo seguir seus passos até um padre longe – perto só casas pingadas num ajuntamento urbano sem capela e cercado de árvores por todo lado. Casaram, casaram com toda parafernália exigida descartada um pouco na documentação, dado não haver um registro do futuro chefe da casa, aquele que a emprenharia vezes sem conta, nem que fosse isso apenas a ter argumentos eles para a briga conjugal e assim serem como os outros casais conhecidos. Santificaram o enlace, sem festas em dinheiro curto e antipatia dos parentes. Embora o afirmado tinha Gena lá suas próprias dúvidas. Uma era terrível: Gena desconhecia o porquê de Gena.

Uma Caneta Intempestiva
          Lá pelas tantas nos defrontamos com alguém rabugento perquiridor, desses de pegar no pé dos outros e virar fiscal sem para o mister ser convidado. Diz-nos a Caneta, uma comum dessas de cinquenta centavos no boteco, das sextavadas cilíndricas de plástico brilhante lustroso na superfície e transparente para vermos o canudinho de tinta azul, essa azul poderia ser verde preta roxa e será existir mais outras cores! ah sim, a vermelha para rubrar nossas perfeições tornando perfeição em imperfeição com rabiscos e riscos a marcar o errado, o errado no seu certo, veja-se bem. Ah, tagarela a Caneta, que diabo de capítulos tem essa obra iniciante. Abrimos destamanho a boca de admirar muda. Prossegue. Sim, o primeiro deles vai lá, foi posta a proposta e é introdução, sendo passável; no segundo aparece um aventureiro sem pedigree algum, um sujeito perdido na mata, mata pra lá mata pra cá e mata bichos e ainda por cima por baixo é morto. Um personaginho como tem mil, mil e um, nos romances e na vida nem se fale: pululam. Gritamos diante da ofensa com raiva (ninguém aprecia ser criticado; sempre o fazem injustamente e aí a nossa raiva:) pera lá Caneta assassina! interferimos. Você com sua ponta azul enganosa visto a cor da esperança ser o verde e credo em cruz fosse vermelha... com sua ponta grossa de borrar a brochura em seu papel que suga chupa o excesso de tinta a impedir manchar-nos, com ela descreveu uma facãozada, seria faconada? então, narrou o crime na boca da noite e... Daí a Caneta com certeza na dúvida se pega tendo morto um vivo de nome sonante Mateiro, mais precisamente João Mateiro, embora apenas um homem de aventuras um sem eira nem beira, os aventureiros não valem tostão furado ninguém fica sabendo o desaparecimento deles e portanto o crime não compromete; depois encontram o cadáver, não o cadáver: o esqueleto. Se pilha ela, caneta, a ter cometido um crime! olha, desesperada amedrontada atarantada, olha as mãos quem sabe ocêis tão supondo que eu seja o quê. Tenho honra, pedigrí...
Retorno de Gena
          A velha, foi moça bela uma gostosura na opinião certamente de Xará, a velha está velha, encarquilhada. E ainda não sabe por que Gena! Mesmo porque a melhorar a confusão apelidaram Gena e Geninha a duas filhas deles; e ainda desconhecendo. Não tinha a certidão de nascimento? só a de batismo; a Caneta diria neste ponto: que lessem o documento. Todos defensores do analfabetismo. Entretanto diziam ser por Eugênia, lembram a tia Eugênia filha do Vô Clodomiro; outros a afirmar Efigênia e houve quem a garantir Generosa, pois não havia na família uma comadre Generosa que morreu de tifo! Nunca soube e que importância nisto se faleceu também? claro, ficaria Gena pra semente. Enquanto viva matou o marido, um só marido visto várias mulheres na região do Rio do Peixe haverem se casado ou ajuntado com outros homens, viúvas. Ela não. Também a afirmativa é por força de expressão e linguagem figurada porque cuidou de Xará até arcado velho imprestável e medroso no costume de esconder segredos de origem. Criou a prole que dona morte não engoliu miúda em caixõezinhos, fê-la gente de bem. Aqui entra o trabalho e formação de família; todos enfim constituíram seus respectivos lares na terra nascente, na urbe nova que se erguia; até Geninha e as outras nove mulheres que Xará fez na esposa; essas filhas ajudaram no crescimento do lugar, visto em frentes de colonização quase não ter fêmeas e elas demais requisitadas, casaram todas, inclusive uma feiinha. Dos filhos, diziam “menino homem”, todos também casaram e recasaram, com suas devidas brigas conjugais e havendo a língua parente a dar palpite. Todos com exceção do Zezinho que nasceu retardado e cresceu abobalhado; esse assentou praça em casa dos pais e foi o cuidado máximo de Gena, bastando dizer que nunca apanhou da mãe, a qual desovava suas forças na traseira dos outros, encapetados segundo Gena; assim os cuidados maternos ao deficiente até morrerem ambos, um antes outro após semana, e acabar com o tronco de João Xará, aquele do qual não se tem muita certeza em não ser que era manso, não muito de língua em família, e que parecendo horroroso na apresentação.



Capítulo Quinto
Não há ilegalidade para quem desconheça a lei.  
         
          Ficava para trás a mata; não, sim ficava tão só na fraçãozinha que representa o momento na esteira do tempo, lerda paciente no seu passar dentro do eterno. Ficava de fato ao lado, por todos lados se vendo a mata, ainda densa cheirosa em suas fragrâncias da vegetação natural e barulhenta nos seus silêncios com a algazarra das aves dependuradas em cantigas de amor naquele inverno quase primavera nos ventos de agosto. Também quase, quase ilha o ajuntado urbano principiante se pensando quem sabe cidade entretanto povoado nascente em que morria Xará, a deixar sua beldade aos outros homens mais que ele corajosos mais falantes mais do mais do facão e do tiro a bravatar machuras; oh qual nada: Gena era então igualmente um destroço no despojo do casal humano, com sua ranhetice de velha por cima nesse por baixo sobre a prole, esta prole tão difícil aos dois fazerem, não isso: dificil apenas o criá-la; tal prole a casar por sua vez arranjar família e problemas para ela, agora viúva; se bem a esclarecer que havia feito a nova geração também umas gracinhas de netos para vovó e tinha os que, grandes, adultos mesmo, davam muitíssimo trabalho (ah não tem o ditado em que filho criado é trabalho dobrado!) O casal matriz se desfazia, a família se bipartia não sendo que se devesse falar polipartia por muito fatiar-se; se partilhava com novas casas e novas amizades, ou tão somente a somar acumular os ‘dizem que me contaram’ a fim de apimentar o viver. Contudo a ‘cidade’ nascente crescia entumescia com o advento de novas levas aventureiras.
          Assim chegam (ou se formam em conluio com os elementos da terra ou já viventes no lugar, os quais haviam vindo de fora também) assim chegam mais famílias, vindo mais muito mais homens solteiros sem compromisso, mas o que seria compromisso! enfim chegam mais e mais famílias; aquela questão do homem vir primeiro espreitar, lançar bases fazer negócios e, finalmente, trazer a mulher e as crianças e aí fazerem em novo domicílio mais crianças ainda ao parque infantil do mundo. Veio seu Zé. De quê. Às vezes o sobrenome sobrepuja o nome e os europeus têm no sobrenome o nome da gente, ora o nome é o prenome apenas para não confundir as pessoas (ou é que mais confunda...) Do contrário como seria certa mãe a gritar na rua a dezena de partos já grandes e brincando por aí, perdidos por aí, e ela a gritar o nome: quem acorreria ao chamado, todos tendo o mesmo nome sendo o nome o sobrenome do freguês! O caboclo, e não apenas os das frentes de colonização desordenada como é posto aqui e como é melhor e bom ao brasileiro fazer; não apenas aí, em todo território chamamos gritamos quando preciso nossos filhos pelo prenome José Francisco Antônio ou Zé Chico Tonho, melhormente por diminutivo ou apelido. A caipirada adora apelido: Xará por exemplo. E assim chegou seu Zé.
          E montou casa, antes lançou suas bases com ajuda de peões, seja no amansamento da terra no amanhar a terra, seja no levantar a casa tosca, nisto aparecendo decerto muito senão e se não o mutirão o auxílio eventual doutros aventureiros nessa frente nova fresca ofertante de vida.
          Sim, a zona velha donde vem para a zona em desbravamento, ela nem sempre tão velha, entretanto já acabada. O roceiro nacional por costume derruba a mata queima a mata destrói a mata destrói o solo com fogo e mau uso dele e – não produzindo a contento às vezes mais nada, quer dizer esgotado o antes rico pobre solo – então deixa a zona improdutiva tida por zona velha: foge como pode à zona nova, muita vez chamada curiosamente “zona da mata”, onde fará tudo de novo; a trocá-la por outra mais nova menos cansada. Aqui na região era a era das vacas gordas, expressão mui em voga, terra virgem, houvesse virgindade em se tratando de terra na Terra, essa terra era demais fértil e produtiva à lavoura. Outro componente, quiçá mais importante mesmo que o tratado neste espaço é outra questão, seu Zé dizia “qüestã”  isto um senãozinho e não vem ao caso; outro componente a questão econômica, a crise mundial que desembocaria em 29 e 30, desvalorizando a exportação e atingindo a lavoura num país essencialmente agrícola; na medida em que os preços caíam e a procura diminuía, os produtores mais fracos a fugir para outras áreas, de preferência as mais novas frentes, como esta região; aí a razão de seu Zé vir para cá. Ele veio lavrador, enricou depois lavrador; e foi morar com Xará no mesmo ajuntamento desordenado na cidade dos mortos da cidade dos vivos que se formava então. Mais tarde. Antes chega só, arregimenta contrata homens trabalhadores, aqueles bons no machado, já quase não havendo mateiros por definição como fora Mateiro. Assenta as coisas, fazem um improviso de casa, alevantam depois a residência de madeira, uma característica da região aliás são as casas de madeira, a madeira em grande oferta na área; posteriormente Zé traz os seus e aqui fabrica com ajudazinha da senhora Zefa mais alguns filhos em família numerosa. Dizem as más línguas, sem querer meter a Caneta no meio, dizem que o macho da casa teve outras mulheres entre as comadres antes da comadre Zefa chegar e concomitantemente com Zefa. Todavia é claro este escuro ser linguarismo, pois seu Zé foi um dos principais e o primeiro a gritar pela necessidade a trazer padre além de grande colaborador na feitura da primeira igreja, em ressalva capelinha de madeira.
          Não obstante não tratou ele seus desideratos com ordem e dentro da lei; não havia lei. Ou por outra, havia. Quem não a conhece, seja ela escrita ou só norma morna de aplicação curta esquecível no tempo, quem não a conhece se isenta em cumpri-la aplicá-la. Bem o caso de zeu Zé. De todos então, agindo ao sabor das necessidades dessa área geográfica.
          Assim os de Xará terão vizinhos, têm vizinhos novos.
          Apesar do dito vizinhança no lugar e na época (estamos nos avizinhando também de 1929 terrível à economia nacional e mundial); apesar disso, tais vizinhos moravam distante, sem que a ‘cidade’ fosse grande, a população mais voltada à lavoura fora que dentro, embora também a chamada zona urbana fosse ela agrícola. Assim Gena conheceu Zefa, a poder depois viúva contar como deu-se o falecimento de João Xará, sem precisar ir longe demais tudo perto. O que compreensível em vista de não haver distante em lugarejo.
          Digamos por fim que o homem da cidade no final da década de vinte nessa nossa região era portanto não mais que roceiro.

Capítulo Sexto

A amizade é a pior das prisões, ela é inexpugnável. Você não pode se livrar de um amigo, de suas imperfeições caso  elas  possam atingi-lo –  é um amigo,  não  pode  mandar  embora, despedir,  nunca há justa causa nem lei que lhe permita livrar-se de um deles. Com inimigo é mais fácil, é inimigo.
         
          Quando José aportou na frente colonizadora sem porto com muita árvore e quase ninguém vivo a viver como cidadão, em a nova e definitiva morada, a morada sofria o vento cortante; ele vindo ver as terras, dessas que a gente compra no escuro e sendo que suas poucas letras enxergavam com dificuldade os pontos dúbios e as medidas mostradas, a gente tem sempre desconfiança diante de advogados espertos – nesse quando José espirrou. Quer dizer mil e uma vezes espirrara espirraria uma e outras mil ainda, sobretudo ao impacto da ventosidade, a gente se acoberta sua demais se levanta e põe a cara pra fora já recebendo a agressão da ventania e, não estando acostumado com esse tipo de tempo, ele vindo possivelmente das cercanias de Brotas ou mesmo de lá, aqui sofre a mudança na mudança que iniciava, então só; só é a maneira curiosa que temos de falar mas sendo de fato a gente e os companheiros da gente, assalariados ou não podendo ser agregados porém igualmente no lombo das montarias. Depois a família toda se deslocaria, agora em carroções e mais cavalos e mais burros de carga e mais ainda mulas que aguentam melhor o tranco que os burros éguas cavalos, não obstante serem mais teimosas que eles. Daí a chegar na comunidade nova cheia com sua meia dúzia de casas levantadas às pressas entre a mataria, aportando com os seus, em definitivo dito; sendo bem mais tarde a morar junto de compadre Xará nos pés-juntos. Ainda a chegar na terra, daí espirrou espirrou em defesa seu organismo de homenzarrão forte alto arcado branquelo queimado de sol como qualquer caboclo e não miúdo fino magro baixo na estatura como qualquer caboclo. Espirrou e outra vez e outra vez mais a avermelhar narigão, enxugá-lo engraçadamente com sopros chupares melares e demais salamalequezinhos, além de esfregar-se num pano improvisando lenço, que o povo curioso de chegantes viu e não se sabe o quê pensou e riu. Chega trata contrata no costume do fio de barba seus homens, uns colhidos ali mesmo na zona nova ainda a cheirar os cueiros da fragrância da mata, contrata os serviços de medição derrubada queima limpeza a sujar o meio ambiente e a respirar como cidade nascente. Começam executam trabalham acabam enfim a obra que nunca se acaba, se mudam pra cá depoizinho. E aí começa a prisão das amizades.
          Um dos primeiros a servir como amigo, do tipo que a gente descobre em todo coração em todo lugar foi o Xará. E outros de suas proximidades sentimentais, bastante à pouca exigência, maior exigência a do trabalho pesado ao sol à sombra; outros amigos se foram acrescendo em soma da necessidade e da boa vontade e da temeridade também, quase sempre puxados atraídos pelas crianças entrelaçadas com crianças; as mães a contar suas coisas a trocar coisas como receitas ou doces, os chefes a tratar na oportunidade negócios. E o tempo a exigir concessões, aquelas concessões que se não admitem aos inimigos ou adversários ou desconhecidos; mas que viram obrigação, mesmo a de ouvir desaforos nos momentos inoportunos, quase sempre com o auxílio eficaz do disseram que me falaram.
          Aí os compadrios casamentos apegos e também desavenças rompimentos, estes não perduram aos choros e sorrisos que o tempo nos oferece.
          João Xará, no falar quase em segredo ao novato, Xará que mostrava o quanto sofrera nas origens na própria chegada, sem lembrar nas conversas suas relações com Mateiro nem o descontrole com demais colegas pioneiros, talvez apenas a ressaltar sua característica no mutismo logo descoberto por José, Xará procurou o novo morador pelos seus méritos no magistério; embora soubesse o povo que o homenzarrão fazia caixões aos defuntos, mesmo porque alguém precisaria dar alojamento definitivo e cômodo aos primeiros cadáveres da vila. Foi mais pelo magistério. Ou não era bem isso, quase isso. Corria a fama de que fosse sábio, sabia um pouco soletrar sinais no contrato de compra & venda de terra, o seu mesmo e os contratos dos vizinhos, um negócio a tentar certamente virar fazendeiro rico em a nova frente; apenas isso. Todavia tido por mestre, num quem sabe servir a lecionar em suas poucas horas sobrantes aos sobrantes de Xará, sobrantes sim no trabalho matreiro e imprevisível da senhora morte; os filhos precisavam aprender. Bem dito: os filhos machos daquela espécie na época, pois às fêmeas não se dando oportunidade por questão cultural decerto. Assim tratando também como negócio o negócio das letras.

O Professor
          Assim como a formiga saúva viaja quilômetros nos seus metros a picar transportar o fragmento de folha do pé longínquo de milho para seu buraco-palácio à rainha se engrandecer, embora nem esta nem a operária transportadora sabendo que ao lado do palácio existe um pé de milho vendendo saúde e grãos mais próximo que o quilometricamente distante – assim o homem de então. Então? de sempre, enquanto houver sempre. Os homens da época desconheciam a proximidade da crise mundial, a refletir na exportação e na exportação de café, em consequência dessa linha não se vendendo café não se colhendo, colhendo sim mas para quê! pra queimá-lo? Então a arraia-miúda de plantadores se pôs no deslocamento abobalhado inclusive, não sabendo ela causas a fugir de causas e consequências no deslocamento à zona da mata, em busca de abrigo, quiçá de riqueza: miríade quimera sonho ideal. Não obstante e apesar da crise a persegui-los inúmeros pioneiros foram bem sucedidos.
          José, o Professor José Zé aos amigos e à mulher tratada lá embaixo na escala social do tempo, José desconhecia o pé de milho e buscara como outrem a frente de colonização e do viver satisfatório, assim fazendo semelhante a todos com ‘visão’. Desconhecia também fosse um mestre, virou à força das circunstâncias um letrado em Alto Cafezal, esse o nome do aglomerado formante. Onde brotava sim o café na febre do café que se queimaria em 1930 a segurar preços aos cafeicultores latifundiários; onde vicejavam muitíssimos cereais. Estes de fato ajudaram naquele fim o começo da região; e quase todas casas se mantiveram, perduraram plantando colhendo comendo vendendo o produto não cafeeiro.
          Ao lado da atividade mantenedora e seu trabalho e seu movimento e seu arremedo social – estava a atividade intelectual. O professor mandava os seus acenderem a lamparina, que era a eletricidade da época e da região, colocando o lume em ponto visível a ser visível o ambiente, esparramava a meia dúzia de alunos temerosos e curiosos em volta da mesona tosca de madeira pesada na sua sala; e o material didático, talvez a brochura quem sabe se não a lousinha de escrever para que rabiscassem os sinais parecidos com letras. Aí começa a sessão de tortura: o mestre roceiro brabo exigente imperante, o aluno frágil medroso e vítima. A lição noturna do ABC ensinado com auxílio generoso da palmatória por mãos calosas no diário do machado do traçador do martelo da enxada do facão da foice, no tentar exigir do ‘educando’ a reprodução a decoração a compreensão, a compreensão? de tais letras ou rabiscos garatujados delas. O grito a cobrança? Quem sabe, quem sabe.
          O Professor conseguiu, não obstante, transmitir, semelhante o semelhante noutros lugares doutros tempos nas mesmas condições – algo que se parecia com escrita e leitura, as que seu limite permitindo. Enroscava o mestre na tabuada do nove e na do quatro; embora, fez seus pupilos decorarem; aprenderam!? é possível. Conseguiu decerto que virassem também eles letrados na incipiência.
          A escolinha não perdurou, apenas viveu até à formalização da escola; a de seu Zé um exemplo somente. Entretanto na lavoura seu sítio quase virou fazenda; e a família dele foi crescendo e se cruzando com as ofertas humanas da ocasião. Até chegar ao ponto em que o chefe da casa não morresse de morte morrida porém de outras misérias ricas no diagnóstico da causa mortis na época. Bem, foi residir encostado de Xará, igualmente sem número na tumba. Ora, o fim não é o fim!


Capítulo Sétimo
Quando um amigo fala a gente crê em sua mentira como verdade; quando  um  desconhecido,  a  gente descrê  na verdade  crê na mentira. Ambos casos virando certezas.

Preambulinho para conseguir não entender o capítulo
          Seu Zé, pioneiro; João Xará mais pioneiro que o pioneiro tendo aparecido por aqui ainda no tempo de João Mateiro, claríssimo que não para eliminar o chefe e em seguida fugir de consciência pesada ou só com temor, vai que alguém houvesse assistido e testemunhasse. Ambos chegantes aos matos do Rio do Peixe viraram amigos. Amigos com um bem entendido talvez incompreensível: não dispunham de intimidades, sem chegar também ao cerimonial da gente educada vista em algum lugar não aquele, este; porém amigos no sentido de estar sempre juntos, ou por força das circunstâncias ou por afinidade. Até ao ponto dos respectivos nomes. Tanto assim que José e a patroa a discutir o apelido de Xará; ela, a Zefa, parecença um pouco teimosa embora em presença do chefe da casa (uns anos antes a esposa respeitava o companheiro com a menção “senhor” e não ‘você’) a Zefa a bater o pé: Zé, dizia, o compadre Xará é José, não vê que é seu xará; o Zé nem um pouco teimoso quando a roça dando lucro ou nos momentos em que o povo fala “viu passarinho verde”, nesses momentos não teimando e só acrescendo: Zefa, Seu Zé jamais teve ele dessas intimidades de meu bem meu amor queridinha e outros nhe-nhe-nhens, Zefa: me disseram que é João outros acham Antônio. Para de teimar, mulher, vai pôr água na talha e tratar as galinhas; um dia pergunto ao compadre o nome dele e falo procê; a propósito o compadre é bem munheca, pois batizou a Clarinha e num deu nada a ela, nenhum presente só a mão pra beijar na bença (o homem do povo nunca pronuncia bênção). Apesar dessas dúvidas, amigos; como veremos a seguir.

Continuação do Prosseguimento
          Quando naquele dia o compadre convidou o compadre a visitar o sítio o compadre disse à comadre, comadre do outro, aquele dia ser o mais feliz dos últimos tempos (mesmo porque Xará andava encrencado com tantas encrencas dentro da família dele e dela, ou seria por causa dela?) feliz sim, o que verdade na sem-gracice de Xará nas lides da cidade ainda não bem cidade mas vila próspera, morando ele e ela na Vila Barbosa enquanto o compadre noutra vila, o Alto Cafezal, longe à beça. Gena de imediato não aceitando concordou depois embora mandona, e então instigou mesmo o companheiro à viagem de bem uns dez quilômetros não fosse mais ao dito sítio ansioso em ser fazenda; inclusive ela encomendou trazer-lhe de lá uns ovinhos e um galo, o dela, não Xará é visto, o dela velho e as galinhas a fugir ao canto doutros quintais, arranjando sempre briga das vizinhas com a gente. Fez mais o compadre Zé: mandou um servidor com um cavalo e, puxando por uma corda, a mula velha manca um pouco e mansa como veículo usado cansado ao velho. Xará um pouco velhote, ou é que o compadre Zé fosse menos acabado que ele, aquelas safadas dores aquelas tosses teimosas aquelas escarrações nojentas, para os outros nojentas. Se bem nesse mal sabermos haver perecido de morte morrida nada tendo com os pulmões; ele não sabia então disso, não poderia saber. Por essa razão (o passeio é claro) ficou alegre. E se foi manhãzinho, matuto habitualmente acorda cedo seja ao seu trabalho, seja ao trabalho em ajuda lá no roçado de outro.
          Bom-dia, compadre. Se deram as mãos, aperto é certo entre encontros no povo comum. E aí reataram a conversa. Amigos estão sempre em prosseguimento de assunto, vez que outra a mulher interfere interrompe ou é uma visita incômoda ou é um menino que brigou com outro menino, a outra criança costumeiramente maldosa. Então, novo encontro reencontro reencetamento das linhas da conversa. E a comadre? Quase sempre trazemos onde vamos ‘lembranças’ recomendações dalguém, às vezes a pessoa chega na visita pesando demais lembranças. E fulaninho e a cunhada já foram embora? Depois se mostra o eito. Tem milho que a seca seca, tem o feijão saindo tenro aprumando que é uma beleza; tem o baixadão onde o arrozal, na ocasião só mato seco e água em lagoinhas pouca do rio a alagar na cheia e agora quase sumindo em lama dum dia para outro, uma tristeza. E as criações. Um porco cevado já a rachar as banhas, o corre-corre dos leitõezinhos, as galinhas ciscando na roça estragando as plantas (aí se lembrou pra não esquecer Xará os ovos da mulher, do galo não lembrou prontamente; tem hora que não é hora pra falar o lembrar e a gente tem de deixar ao esquecimento do depois...) viu os passarinhos, um em cima dum burro a coçar-lhe carrapatos.
          Entraram nas caças, Zé não apreciando vara de pescar, só Xará; todavia ambos loucos por uma espingarda, daquela de encher de pólvora e socar e de espalhar chumbo parecença com tiro de canhão, ou que supunham fosse. Capivara veado etc. e tal.
          Tal a conversa sem parar, sem parar contando o dono a trabalhar a gritar um moleque dum empregado; a empilhar ele mesmo um vegetal fora do padrão, ou remexendo com a enxada a dar bom exemplo aos subalternos. E a falar, falavam sem parar, riam de suas bobagens.
          José achava ingenoide o compadre, meio murcho na língua e ao mesmo tempo solto nela, sem profundidade. A dele não, era séria e proveitosa. Contudo ambos a exagerar o contar, quem sabe não havendo sonho e invento no cerne da verdade. Um sorria ao outro, outro sorria a um; ora, sorriso não é mais que aquiescência velada educada; nunca uma concordância, por mais pés juntos se jure, ou por Deus em bom momento para ser vão. Entretanto não punham assim o problema.
          Falaram também da escola, em casa de José. Lá na cidade. Na roça o compadre via o acúmulo do quefazer, não era? não daria pra lecionar no sítio quisesse. Espicharam para novos assuntos, intermináveis assuntos, horas de assuntos, antes e depois do almoço, este um pouco magro para a fome de Xará, embora a afiançar que a tosse lhe cortara o apetite. Quanto ao dono da casa, a da cidade e a da roça, ele comeu por três pelo tamanhão e com o desgaste no trabalho. Gente da roça come bem; a brasileiro é ingerir quilos apenas. Arrotaram.
          No quilo, quase chegando à tonelada pelas coisas esquecidas do se lembrar, no quilo desandaram a se contar o que chamamos patacoadas e causos; e não era de noite, a qual aprecia muito assombração. Nisto saiu-se bem José a apontar valentões mortes perseguições e um esbanjamento de casos sabidos, ou de sua terra trazidos ou da região, daí de conhecimento também de Xará. Um sujeito pagara a fim de um jagunço amarelar os pés dum adversário. Xará ficou pensativo, ou lembrativo? Enxotou como pôde Mateiro, contou ele mesmo outros causos a fugir do incômodo e até se destramelou, indignando o compadre.
          No fim, claro, café abraços recomendações à comadre Gena e a um vizinho perto daquele longe. Xará esqueceu de pedir os ovos lembrou do galo carijó a alijar teimosos conquistadores lá da Vila Barbosa. José comentou com um empregado, naturalmente já longinho a mula do compadre: compadre Xará é um bom sujeito, quietarrão e manso porém... quando abre a boca conta muita mentira. Decerto quisera dizer engano, os inimigos sim, apenas os inimigos mentem... Nesse ponto olhou pros lados do Peri.
          Peri era o vira-lata sarnento mui chegado ao amo, nesse instante o cão ocupado engraçadamente em rodar em torno de si mesmo atrás do próprio rabo e morder a pulga na cauda. Não é mesmo, Peri? O cachorro sorriu sem graça, os homens gargalharam ninguém sabendo por quê.



Capítulo Oitavo
O homem não tem medo da mulher, tem de si mesmo por causa da mulher, que a mulher venha a saber do temor. 
         
          Gena, disse Xará no retorno, mas o compadre me saiu um grande queimador de campo...
          A Caneta nos atirou igualmente a pecha de queimadores de campo, maldosa em vista desejarmos incluir no diálogo do casal aí em cima um beijinho dele nela, por sua ausência  um dia inteirinho longe de casa no sítio vaidoso em ser fazenda quiçá latifúndio. Deletamos a beijoca do homem, confessando realmente indevida, pois Gena no caso do beijo não pensaria o macho sem espécie a esconder algum malfeitinho, por causa não do desacostume porém do fato de nunca na existência havê-la tratado com tal frescurinha. Aceitamos portanto a prudência da imprudente escrevinhadora azul de bico fino. Prossigamos.
          Nesse dito momento, momento em que na chegança enxugamos do rosto o suor, aquele ardidinho a escorrer na epiderme e tudo o mais; nesse momento em que costumamos encaixar as curiosidades vistas a descartar constrangimentos, tidos havidos não vencidos por Xará na sua vida morena de trabalhador e lutador entretanto sempre a ter uma vergonha sem tamanho pelo tamanho moral da consorte, ele sem sorte trocadilhamos agora; naquele momento de lembrar a bicheira dos bichos lá na fazenda do compadre, a cabrita “prenha” ele denunciava assim a gravidez habitualmente; nesse momento também a encaixar narrar dos homens do sítio suas desavenças com o patrão e mais miudamente com suas companheiras, todos de enxada em punho; nesse momento o telefone tocou.
          Entenda-se, isto um abuso equivalente à Caneta rabiscando azul e de repente no meio da frase a tinta virar tinta vermelha! Não havia ainda na vila quase nem no estado e no país telefone em não ser o de manivela nem manivela tendo o lar e cruz-credo houvesse de orelhão com chamada a cobrar e a engolir primeiro fichas e depois cartões custados ao olho da cara, e o dizemos a ser originais; não havia e aqui apenas forma de dizer. Pra dizer que chegou gritando a assustar se não a Vila Barbosa inteira o lar honesto de Xará versus Gena, chegou naquele momento Geninha a chorar seus desesperos por briga conjugal, desentendendo-se com o cônjuge, um que fora abençoado por um padre itinerante em domingo de visita à missa, talvez vindo de Campos Novos Paulista ou de não sei onde; então casando-os (o marmanjo e Geninha) legalmente e arranjando preocupação para a sogra dele, não a da esposa a dela já nos pés juntos junto com o primogênito dos sogros dele, um garoto que quando vivo tinha olhar feroz pros lados paternos. Verdade que Geninha com um pouco de razão; quando menos por ter marcas no corpo, isso para não fugir ao costume da época, a qual mandava o macho corrigir sua fêmea educando-a com singelas pancadas; sobrandinho aos filhotes estando mais exarcebados os ânimos e o homem macho pra valer bebum. Contudo a perder o resto da razão que tivera a jovem senhora, dodói de Gena, por conta da loucura deixar os filhos em casa à mercê da aguardente do pai deles, ele afirmando a ter motivos que não eram; eram dele sim, mesmo sem exames do DNA só conhecidos em nossos dias, nossos e da Caneta interventora.
          Enfim uma choradeira no estilo.
          Com alarme falso, digamos nós de fora, os olhos de fora não costumam arder como os dos íntimos. Isso porque – acalmada a pobre desventurada por mamãe, em tácito consentimento de papai ao vê-las atarantado sem saber o quê fazer e como interferir, justamente quando ia sorrir e passar as bicheiras do sítio para Gena; a filha acalmada um pouco volveu aos braços de orfeu, ou morfeu! e o encontrou a roncar nos braços da branquinha; enquanto as crianças num tavam nem aí lá, a correr na rua que não era bem rua ou rua sim mas não demarcada, andavam elas numa gritaria sem tamanho nos risos com os coleguinhas.
          Ah, o ébrio consorte da filha de Xará carregava o pesado nome de Chico da Zica.



Capítulo Nono
Você está numa democracia e tem o direito de escolher seu representante para legislar contra você.  

          Não chegava a tanto, a tanta democraciice a reunião de famílias, aliás sem quaisquer conotações políticas, sem consciência, o que não havendo mesmo entre os homens, machos pra valer e tudo o mais, mulheres. Elas que haviam acorrido e inclusive sem nenhuma formalidade, uma em casa da outra. Só para falar? fala a Intempestiva e respondemos que isso denotando um quê-zinho machista nela, a Caneta se ofende a dizer que... deixemos pra lá – elas. Comadre Zefa veio a um dedinho de prosa, isto duraria a tarde inteira ou seja um dedo esticado avolumado em conversa; veio à Gena. É claro que se perguntaram das dores, das dores da outra, das dos parentes, das dos vizinhos – para tão somente falar das suas respectivas dores. Bem. Todavia não fora para isso a visita. É que havia uma possibilidade a enviar um representante local (elas sequer seriam consultadas à escolha escolha houvesse...) um ou dois a fim de ir para não sabemos onde convencer o bispo, convencê-lo sim a mandar para a Vila, Zefa teimava devesse ser Alto Cafezal, Gena teimava por Barbosa; em suma enviar a Igreja pura e simplesmente um pároco definitivo a estes lados. Ora, nem havendo paróquia ainda só um projeto de capela. Enfim certa conversa havida em família que elas acharam por bem ir uma contar a novidade à outra, do assunto que ventilaram no lar seus homens e que outros machos e fêmeas válidos em língua passaram ao planeta não podendo ao universo. Bem, mais uma vez, mal chegada a visita de Gena, as crianças já espalhadas a brigar brincar brigar, gritar sempre, “comadre, vê o gritêro deles!” isso enquanto os grandes e os menos pequenos em volta das mães a saberem novidades quiçá a poder meter o bico indevido, por talvez direitos democráticos. Ah sim, entre a pequenada havia os sãos desentendimentos e entendimentos na brincadeira, tendo em vista haver sem existirem ainda os clubes de hoje, os clubes do Bolinha e da Luluzinha; aí se desentendendo no diz que disseram os grupelhos antagônicos; sobrando às mães, juízas in-fato.
          Resumindo, reunião de famílias agora com cabeças feminis, os machos longe graças a Deus, lembrariam de entremeio. Então conversaram naquele domingo ensolarado suas coisas coisa e tal.
          Na seção dores pôs – ainda a outra falando e a gente democraticamente corta e quando muito diz “não cortando sua palavra...” e corta – pôs logo Gena a questão dos pesadelos frequentes de Xará, agitações constantes e aí, comadre, aí é que a gente não pode mesmo dormir! então é preciso chacoalhar o homem pra despertar, e daí comadre é que se não dorme mais; é vida! não é, comadre.
          Contaram, massacraram adversárias e vizinhas enxeridas de ambas vilas; puseram os podres dos parentes, e quase se esqueceram de lembrar o motivo principal – o representante. O que desnecessário pois logo se engajariam, já engajados, os moradores mais importantes ou mais carolas lembrariam os irreverentes houvessem eles sido inventados na ocasião; esses tais encontrar-se-iam loguinho recolhendo donativos a construir capela pró igreja, custosa ainda que de madeira. E nisso se prendia bem seu Zé, com altura na estatura e na liderança para discutir as questões religiosas; que fossem apenas para afugentar a fama dele como mulherengo; ou fosse a coisa somente falatório a terem argumentos os cônjuges no desentendimento do casal, Zé & Zefa, esta se calando no entrevero num machista “cala a boca!” o que mui democrático dizem tempos e tempos amém.
          De maneira que ambas matronas parideiras contaram ou recontaram aquilo do conhecimento e da amizade mútuos, coisas de um tempo valendo mais de ano; amizade e inclusive compadrio, ou comadrio não sabemos sabe quem sabe melhor a Caneta.
          Entretanto esta deplorando isso tudo, chão, gente, cheiro de povo (um general de sangue azul e mandão no fim do século diria jocosamente preferir o cheiro de cavalo...) deplorando a conversa-fiada. Saibam, tenho pedigrí. Desandou ela a contar de si mesma; aí a gente, nós do povão, a gente foge pras coisas da gente, deixa outrem a falar às moscas. Contudo lembrou-nos ter uma tia, Dona Caneta Tinteiro, uma nobre com bojo de borracha; não borracha sintética sem elasticidade mas da natural; onde ficava a tinta, “tinta azul!” grita a sobrinha cheiinha de pedigrí. A gente espremia o depósito de borracha e o soltava para automáticamente sugar a tinta do tinteiro; e depois disso no reservatório da Tia ficava o líquido; o líquido saindo límpido puro belo à ponta da Tia-Caneta e ao papel, perfazendo uma escrita padrão sim porém de grande beleza e talento; de arte, a arte caligráfica e...
          Ah chega! dizemos enfarados, mais presos às conquistas democráticas e popularescas; deixamo-la só, voltamos nossas vistas às comadres; e nos espantamos pegos no diálogo delas:
          O Santo era o capeta!
          Pera lá, nós pensamos, que absurdo isso. Aí apuramos nosso abano de orelha em concha bem escutante. Daí Zefa prossegue a sua continuação.
          O homem era terrível, era, é outra coisa agora. Do vinho para água. Sim comadre, é aquele italianão que toda hora tava batendo papo com o Zé, sabe que o Zé dá muito lado e então aparece sempre gente de todo jeito lá em casa. A Zefa pronunciava e toda caboclada também “intalianu”. Pois é, era terrível, ele veio com nossa família da zona velha. É lá que parecia o diabo feito gente. Bebia batia, dizem que matou a mulher de pancada e nem foi preso nem nada. Depois o Santo casou com a Rita, a dona Rita da rua São Luís sabe? a mulherinha destamanhinho pôs o bichão no caminho, virou carneirinho. Falam, isso nunca vi, falam que bate nele. A verdade é que encheu também essa de filhos e...
          Nesse ponto Gena se intrometeu e cobrou explicações mais detalhadas, importantes os pormenores para convencimento e pra ninguém se convencer, oportunidade em que pôs sua colher na verdade da comadre. “Isso me lembra meu genro, o Chico da Geninha”. Esse não entra na reta. Quando sem cachaça no bucho trabalha vai ao terço e leva a mulher com as crianças; bebe vira o capeta igualzinho: bate, espanta os meninos, fala besteira, xinga a família da gente. Outro dia não acredita, comadre, a pobre teve de correr aqui em casa, Xará tava chegando das terras do compadre. Foi difícil convencer a Geninha voltar pra casa. Aquilo não tem conserto. Nem o casamento deles acho que se aguenta... Também garanto uma coisa: é coisa de sangue.
          De sangue como, comadre Gena?
          Não sabe que veio da família da Zica... é preciso dizer mais alguma coisa!
          Iam continuar talvez em salvação do planeta através de possantes lamentações, no entanto a hora adiantada em atraso do tempo; além de haver ali nos pés da saia da visita um garoto de mal com os desafetinhos, em choramingas no costumeiro vamimbora mãe.
          Foram. Antes se beijaram.

 

 


Capítulo Décimo

Nenhum argumento é convincente para uma consciência desperta e culpada.

          Naquela terça ou quarta ou quinta ou sexta, sábado com certeza não era era o sábado dia dos homens se reunirem para talvez não folgar domingo se viessem ordens do coronel na capital nos seus aconchegos – o interessante nisso é que ninguém houvera visto nunca o coronel apenas seu dinheiro e o dinheiro tardava agora – quem sabe as ordens que vinham, naquela terça ou outra feira, naquele dia fungava na mata João Mateiro, a cortar um galho aqui separar um cipó acolá; envolto no silêncio da manhã, cheiinho da algazarra das aves e dos piados estranhos; ele aspirando o cheiro das árvores no vento antes morno lento fraco lerdo preguiçoso depois num furacão de arrancar as coisas chocalhar as coisas a ponto de se precisar segurar grudar em alguma coisa em não ser também sugado soprado empurrado pelas ondas nervosas do vento de agosto na terra do vento; ele poderia inclusive esperar uns anos e saber daí que o vento nessa área geográfica então inóspita seria conhecida pela ventania ano todo todo agosto com certeza e que se situava num espigão entre furnas imensas às quais os moradores dariam o nome de Buracões, sendo que não concordariam nunca com os plurais virando os itambés Buracão somente. No entanto sequer esperou... Mateiro fungava suava marchava em direção do acampamento ou qualquer semelhante onde sua gente, um punhado bravio de gente bem suspeita, pior que a onça que devera rondar por ali, aí olhou de lado do lado de todos lados em volta temeroso, sem razão de ser porque onça aprecia felinamente a noite no silêncio só havendo silêncio agora com raios a custo filtrados desde copas das árvores gigantes; silêncio e o som de seus pisados com os botinões pesados sulcando e manchando o humo no solo, pisoteando ervas a lhe devolver o hálito delas em característica do vegetal machucado. Até que chegou. Chegou, ainda brabava esbravejando a gente, a gente que se não entendia, ajudada um pouco pela aguardente e em meio à fumarada do fogão improvisado e a fumaceira dos cigarros, Xará o mais manso entre aqueles celerados mas também com o hábito horrível de pitar sua palha fedorenta, o chefe não fumando: tinha todos os vícios que lhe imputassem menos o do tabaco; de resto Xará um bom sujeito, nunca respondia, quer dizer – não questionava. Como todos trabalhadores, esse moreno miúdo derrubando serrando amontoando troncos ao coronel se satisfazer. E não pagar!? Andava atrasando o dinheiro e nisso se cobrava de Mateiro. Mateiro chegou à sorrelfa, quieto e em espreita àquelas feras bêbadas e gritonas. Entrou na conversa, gritou ele mais que os outros a dar bom mal exemplo e se impor. Impôs-se, aquietaram, dormiram seu sono sua cachaça, embarcaram decerto no sonho, alguns roncaram feio outros se apagaram qual mortos. Ele, Xará, quieto, manso, a pensar: não poriam a culpa em Pexêra... Pexêra um nortistinha falador e briguento, a viver sempre xingando por trás Mateiro, representante da ordem e da desordem naquele paraíso cheio de infernos que se apagavam ou amansavam com pinga; sempre o homem com uma peixeira na cintura, sempre disposto a furar alguém a faca... Não imaginariam, não lhe poriam a culpa? Entrou na área de João Mateiro seu xará, segurou bem o facão a brilhar levemente no escuro da lua nova, fez o serviço, enfiou várias vezes a lâmina dura naquelas molezas de carnes; e correu, correu adoidado pra longe dali, lembrou esquecer a arma enterrada na chefia; nesse descuido tropeçou caiu, ainda pôde em relance olhar olhares porventura desventurados a testemunhar aquilo, em ato de coragem e aquilo de correr em ato de medo! Olhou muito em volta a voz do silêncio da noite fria. Por fim fez esforço a se levantar... nisso dona Gena lhe grita: “João, ômi de Deus, tá ti danu pesadelo de novo!” Chocalhou o companheiro para acordar de vez. Ela dizia e os outros caipiras também “pisadêro”; contudo os sons das palavras ainda não conseguiram mudar a opinião das dores.



Capítulo Décimo Primeiro
Todos temos o direito em ser feios. 

          Tem coisas impagáveis, outras que se pode pagar mesmo não sendo em igual moeda; outras ainda que se paga mas impagáveis ou por esdrúxulo ou no ridículo e as pessoas poderiam rir-se disso não veem assim. Assim elas se reencontraram, de fato inúmeras vezes o fizeram não entretanto indo uma em casa da outra como agora Gena a devolver visita como fora o pão “desculpe, comadre, deve ter ficado um pouquinho cru...” ou um doce “num sei se ficou bom, as crianças comeram adoidadas” o caboclo nunca fala o ‘não’ sim ‘num’ nesses casos e ninguém arrepara. Se abraçaram se beijaram se sorriram se trocaram assuntos, não a verrumar e ferir tão somente porém puseram as coisas chãs às vezes mordiscadas e de gosto amargo como sói aos pessimistas, no entanto o fizeram sorrindo também. Antes, não na hora, na agá, antes e depois da hora ‘h’ uma, a da casa ainda na porta (alegre ou constrangida, vai saber quais os dramas dum ser abordado em seu refúgio doméstico) a outra a examinar minuciosamente aquelas ostentações de residência rica... ah mas por que rica. Rica ao pobre, ao miserável então nem se fala pois tudo milionário em sua volta, ao pobre o que não pobre ou de sua pequenura é grande, ou então vira gigantescamente enorme no faustoso. Quase sendo o caso de Gena, acostumada com o pouco, o simples do pouco, embora sem a porcaria a sujeira que investe em casa de muitos por esses muitos nada terem, se bem a sujeira visite in-concreto muitos ricos na sua moral no caráter e mesmo no relaxo com seus etc. e tal. Tal não sendo, sendo isso sim uma cordial visita costumeira (sem ser habitual) visita da sem-dinheiro a uma casa com sobras... Gena vistoriou tim-tim por tim-tim os bens, vistosos afrontosos manhosos em mostra; as peças domésticas os móveis os tapetes a decoração do lar, até a limpeza sobretudo a limpeza e o cheiro da limpeza – que ora tem muito cheiro de arder inclusive ora não tem nenhum a ser realmente limpeza. Ou esbanjo! quê seria um esbanjar?
          Nisso Zefa deu mais uma oportunidadezinha e tempo hábil à comadre examinar sem pejo seu luxo, a bem da verdade limitado luxo, ao menos não desses luxos abusivos. Ou por outra, outra visita havendo, menos visita e mais passagem rápida e sem quaisquer formalismos, essa visita em casa antes a tomar informes com a dona – um sujeito mediano nunca nesses casos se guardando bem o nome por desconhecidos e fugazes. Não houve apresentações e Zefa o despediu para voltar atender sua comadre, ainda o homem a sair passando na cerca balaustrada gritou ou disse altão como aprecia e não sabe doutra maneira a gente da terra “ele foi de a pé? dona Zefa”. O povo comum fala assim. Ela: “o Zé foi de a cavalo” a dizer assim como o povo. Emendando já à visitante, em justificativa, o fulano queria o Zé, o Zé saiu cedinho, e completou “aí eu peguei e fui fazê minhas coisas”. Coisas da forma popular de dizer, as quais resistem às investidas da linguagem culta. Ninguém percebeu, mesmo porque ninguém ouve quando fala e ninguém escuta o que falam; ou é que não temos condição para avaliar o crime se crime.
          Ainda Gena em espera a comer de olhos o interior do palácio da outra quando a outra piormente à sua disposição. A seguir as expressões costumeiras: os bons olhos ‘te’ vejam, oh quanta alegria ou puxa! achava que nunca viria ver minha casa; e nesse momento embocaram no veja isto, este é o quarto de... a sala para... etc. etc. sobejo saber. Muitas horas de conversa? não o suficiente o suficiente sendo além do nunca, como é bom às amizades que perduram com afinidades ou por proximidade nos sofrimentos os quais alegram as pessoas comuns, elas comuns.
          Em meio à conversa, na qual não se bastam a vida dos filhos as dores febres vitorinhas deles, vêm as coisas outras e em que tais coisas viram seres importantes quiçá animados: um objeto de madeira ganha extraordinariamente vida, a ponto de tal objeto se mostrar vaidoso à visita, a própria dona conta toda história da história dele e depois a história; saem do compartimento e são arremeçadas vertiginosamente interessadas nas outras peças ou bibelozinhos; só daí se dirigem a novos cômodos da mansão; ou é que surge a gentinha a barulhar ao redor – enfim tudo ganha importância alimentando realimentando a conversa. Em meio à conversa aparece o Santo. Não, o mano dele de nome Berto.
          Lembra, comadre Gena, do Santo? num é o Santo, o Berto, o caçula deles, o irmão mais novo dos intalianos. Falei que são xingadores e gritões, gritadores sim e “múntio inguinorante eles tudo”, então: esses. Ele veio hoje aqui saiu indagorinha. Pois não é que o bruto anda interessado na sua afilhada Clarinha... vê se pode. Nunca viu ele? é medonho! descerto as sirigaitas gostam do intalianu... Aí desandaram a desancar as feiuras alheias e oh como tem feio no planeta... Pintaram realçaram o realce e extrapolaram e sorriram antes depois gargalharam, porque a gente não vê a gente e não se vê gente. Ah apreciamos mais mesmo é ver a belas feiuras morais; o Berto um prato cheio, desse de extravasar e não satisfazer ainda assim os esganados. Não é comadre, disse a comadre à comadre chegante, não é que me saiu o irmão pior que o irmão! Verdade entretanto se diga: o novo não bebe não bate não dá espetáculo a todo mundo igual o Santo, num falei um capeta? O Berto faz das suas escondido. Quer dizer, o Zé me fala as coisas dele, deles os homens, a homarada perdida com as perdidas. (Falaram condenaram as misérias dele, interrompidas volta e meia por menino, como ocorrera na visita anterior, ou seja Zefa indo à Gena, agora Gena à Zefa; falaram doutros assuntos e até de risíveis amenidades, dessas de encher a barriga pouco exigente do tempo:) eles, voltaram elas, eles todos eles da família do Berto falam ‘báro’ e não barro ‘corente’ e não corrente como nós, uma graça, engolem erres; diria a senhora rica, conscientizada, isto que o caipira faz por hábito comer a três por dois letra esse na concordância. Enfim falou Zefa à comadre o rabo do macaco dependurado no galho vizinho do vizinho. Então gargalharam, mais Gena pois Zefa tendo um jeito todo especial para dizer e pronunciar palavras em talento e graça. A comadre segurando a barriga nas contrações das pacueras do tanto rir.
          Comadre, observa Gena, Xará me contou outro dia que viu esse Berto em frente da sede do PRP, num sei como esses homens gostam tanto dessa porcaria de política; e de bola também; é só briga e morte, se tiver eleição mesmo a gente tem de esconder dos tiros as crianças! É certeza que o Xará viu, pois tava sentado numa cadeira pra fora da venda pertinho da entrada do partido; mas não era assim como a senhora contou não: magrinho altão meio arcado e segurando engraçado aquele  chapéu.
          Desfizeram as dúvidas ambas senhoras. Quanto à violência lembrada era assim nos primeiros tempos na região. Se prepararam às despedidas, o tempo urgia os compromissos assolavam e era preciso voltar. Antes disso Gena deu mais uma examinada fazendo-se expert no assunto, como fosse fiscal a assinar um laudo conclusivo. Viu mil e uma coisas antes no mal visto do bem visto e se disse baixinho lá dentro: as outras exageraram no luxo aqui à minha frente; um simples lar sim com certa riqueza, a envergonhar as nossas faltas em casa, porém longe (diria dos palácios dos contos de fadas que nunca lera analfabeta!) bem longe mesmo dos ricaços que contam por aí lá da capital; todavia uma coisa é certa: comadre Zefa tem a feiosa empregada pra não trabalhar muito e não envelhecer e virar bonita e ficando cada vez mais feia, mais feia que a criada; e essa criadinha parece um bugio; quando a pensar assim Gena, a pobre aparece sorrindo à visita e mais à patroa... Aí a visitante retoma no miolo sua observação:) vai ver até passam fome! Não se convenceu nisso, nisto riu e foi flagrada pela comadre; no entanto saiu-se bem:
          Nada não comadre Zefa, é que me lembrei duma coisa: vem agora pra vila, não a Vila Barbosa não, pra nova onde dizem que chegará o trem; pois vem um gringo morar lá. Tão fazendo inclusive um casarão de tijolos, capricho de rico mesmo... Conseguiu ainda encaixar falarem num tal de Pita ou Pito o gringo; no que corrigiu doutoralmente a outra ser Píte, disse-lhe o marido assim.
          Não obstante arregalou espanto. Quem sabe a sonhar. Então se despediram, chãmente.



Capítulo Décimo Segundo
Amigo é um inimigo que a gente ainda não lhe disse não concordar consigo.

          Sabe duma coisa Zefa... o Zé não tendo dessas frescurinhas de meu amor meu bem flor de meu jardim, e que seria tal flor toda enrugada a desgastar, só poetas não enxergando; e velho o velho, já velho sim, o velho José nunca ouvira estrelas nem vira poeta, não obstante professor nos primeiros tempos do Cafezal; aliás uma das razões de rixa com o compadre João, já sabendo o nome do hominho. Sabe? Zefa, pois o fia-da-p. (aí xingou a falecida mãe do compadre) não é que num me pagou as aulas dos meninos! e olhe: burros igual o pai; um dia dei uma reguada no mais novo e assim mesmo não aprendeu a tabuada do sete, burrinho. Uh não importa, importa sim Zefa, importa que o caloteiro não pagou as aulas; e ainda me trouxe da fazenda o galo, de graça! nem galo a comadre Gena tem... Assim seu Zé desbancou a moral do compadre, tido por amigo de anos, desde que chegaram na frente de colonização.
          José não tinha meias palavras para avaliar os outros. Zefa tendo já as orelhas ardidas pelas reclamações do esposo. Quando os negócios indo mal, virava no lar um supertirano, tirano que já era antes. Despencava a xingar e o fazia pesadamente: os nomes feios ficavam horrendos, grandes como sua estatura e talvez mais corpulentos que sua magrura. Ou a colheita ou os preços ou os pagadores mal-pagadores; ou era então os rabos de saia... falavam por aí horrores por seus fatos e gastos ou cachorros e gatos e aqui não se melhora a poesia e só afunda a moral do homenzarrão. Quais fatos quais gastos, ora os com mulheres e nisto chegando boatos em casa, mas sem que Zefa pudesse se defender; igualmente sem coragem a chamar atenção do consorte; mesmo no caso da boca suja dele perto das crianças, digamos a esclarecer que uma delas era casada e ainda ‘menina’ aos pais.
          Tem mais, Zefa, berra o marido. Não é só o cafajeste do seu compadre (quando a feri-la melhor, julgando no absurdo em ser a sem-sorte, aqui trocadilhada a consorte, ela a culpada dos males na falta de melhor bode expiatório em razão da falta de numerários ou por negócios errados; quando a feri-la usava o artifício de pôr palavras ácidas sobre afetos da mulher: a falecida mãe, a irmã dela, um sobrinho comilão, um mano gastador, coisas assim; tais feridos da ferida nunca sendo seu sangue e sim ligados à pobre, como o compadre Xará). Não é apenas seu compadre o desatolador; o genro dele também, o Chico da Geninha filha do Xará, um bebum sem-vergonha: trata com a gente um serviço, quer ganhar mundos e fundos e já receber antecipado pra gastar em cachaça; na hora de trabalhar mesmo, capaz: não aparece; e olhe, a mulherinha dele é malfalada todos sabem.
          Ia por aí afora a amargura do compadre Zé do compadre Xará.




Capítulo Décimo Terceiro
Em geral toda mãe tem sempre uns paninhos mornos disponíveis a aquecer o gelado das falcatruas da cria.

          Se a Caneta tivesse filho achamos entenderia o entender melhor. As mães têm sempre muito cuidado com seus meninos, são elas fãs de carteirinha deles; se preciso xingar a mãe do juiz, caso este não contente o contento desses anjos a emporcalhar o gramado com pedras a atirar sapatos e garrafas desde a torcida uniformizada organizada, se possível fazer tal qual os holligans de educação britânica... no caso tratado um trato na rua com traves de cacos de tijolos e bola de meia. Mamãe não entende de bola, mas já é contra e a favor em favor de seu pimpolho. Contudo os tempos são outros aqui, são os primeiros tempos, seja dito a época dos começos da urbe até umas poucas décadas a seguir, neles as crianças a correr descalças nas vias públicas também descalças empoeiradas e com muito terreno baldio em volta, muitos capões de mato e mata à vista ou terrenos vagos mas plantados com milho ou feijão quiçá havendo pomares em arranjo caipira bom para roubar frutas, mesmo as que tenhamos em nossos quintais dificilmente cercados por todos lados como ilha. Se esbaldam soltos na rua a correr em brincadeira desde o secular pique e esconde-esconde e ainda inventando mil outras atrapalhações e gritarias. Mamãe se empolga vez que outra todavia quase sempre esgoela: o almoço na hora da janta, ou é que chama o garoto para levar recado ou marmita na roça, pois quase todos adultos da cidade labutando no roçado. A urbe nascente e crescente é talvez um prolongamento do campo, ou este daquela. Não dá pra fugir desta ideia na colonização iniciante. É a coisa assim.
          E como vivem os pequenos. Uns grandalhões outros pequenos em pequenos ou mesmo raquíticos ou apenas miúdos. Todos, todos indistintamente sujos, a desesperar as pobres genitoras.
          As mulheres trocam ideia sobre as crianças, defendem-nas como podem; podem pouco naqueles filhotes indefensáveis e incorrigíveis ou só angelicamente arteiros, apreciadores de lambadas: o velho menos velho José Professor tinha a mão pesada macha de machucar; a Zefa leve porém persistente no bater em traseirinhas e a senhora munida de forte língua, nisto não destoando doutras mães, em maioria flagrante. A Gena não, sim batia; e se inculpava no após e se desculpava no martirológio das justificativas, porque adulto aprecia levar vantagem em tudo inclusive na desvantagem e isso é próprio do homem comum; depois a pobre ficava a sofrer na consciência pesada; o Xará, novo, foi cobrador batedor exagerador, segundo a oposição gênica; velho, ‘molóida’, segundo ainda a oposição, temendo a violência contra a prole. Assim mesmo ambas genitoras a lembrar os mais saídos ou abusados filhos que elas contariam ao pai deles quando voltassem da lavoura, às vezes com os mais grandinhos e de enxada no ombro suados. O caso do João, velho o velho, não mais indo com frequência trabalhar por aí, Xará nunca teve ganho fixo e suficiente; no fim sobrava apenas à mulher corrigir os filhos. Já da parte do seu Zé, ele era machão de dar de cinta, deixar de molho o moleque. Um dia bateu num casado, um filho que virou inimigo do genitor, só visitando a mãe o pai a tratar de negócios fora de casa na propriedadezinha sonhando ser um latifúndio.
          Em pequeno e os outros pequenos na rua em algazarra costumeira. Calças curtas, pouca roupa e pouca muda de roupa; o pobre enfim. Válido para os meninos-homens, enquanto as meninas-mulheres a trabalhar na cozinha ou até rachando lenha pras mães ou lavando roupa. Os garotos na rua. Brincavam brigavam; os pais (as mães) se bicando, a tomar partido, brigando elas mesmas às vezes pelas brigas delinhos; para quase imediatamente as crianças fazerem as pazes a se desentender depois com mais experiência. Enquanto isso acontecia os adultos embirrados emburrados pros lados doutros pais. Gena tinha o péssimo costume de mostrar a língua ao desafeto. Ah a língua humana.
          E os adultos como se vestiam. Trajavam a caráter como seus filhotes? Apenas a vestimenta comum, ele de chapéu sempre, calças botinas cigarro; ela com vestido e por baixo a combinação, o vestido de trabalho enfim, sandálias, uma que outra a fumar nesse vício masculino; a maioria a usar sombrinha na moda da época portanto sem moda, moda que hoje deveriam seguir, pois as sombrinhas e os chapéus descartados.
          A residência rica de Zefa ou a casa pobre de Gena, onde os maridos iam cantar de galo ou a beber ou a dormir seu cansaço, as moradias eram simples, sem o luxo e sem o supérfluo que é já supérfluo no consumismo atual. Nem por isso se deixava de viver. Ou mais: mais viviam, por simples.
          Nada disso afetando as crianças. Para elas sempre e sempre é o brincar, ou no caso das famílias pobres o trabalho antecipado e só brincando em horinhas roubadas às tarefas obrigatórias.
          E se sujando para horror materno. Ah menino ingrato e porco: mamãe deu-lhe a roupa de marinheiro, ótima para tirar fotografia quando aparecer por aqui um profissional – me emporcalha o pano...
          Assim. Quase assim. Ou não assim. Questão de escolha.


Capítulo Décimo Quarto
 Bastam três periquitos para acordar um mundo.

          Agosto vento solão brabo o pé de milho a entortar inclinando ao impacto da natureza assoprada, o vento a fustigar a areia a estrada a perna do homem em desandada pra casa segurando o chapéu de palha, o botinão sulcando o solo de arenito decomposto a marcar a passagem humana. Havia antes que o vento as desmanchasse mil e uma marcas, as pegadas várias doutras pessoas até se poderia vê-las de volta, ele indo pra cidade que aprumava a ser Marília, elas de retorno, uns passantes uma passante pobre um pobrinho e uma pobrinha irmã a tentar acompanhar passos adultos com perninhas curtas cansadas nos pulos e  ¡o que seriam passinhos comparados frente os passos do homem alto a cruzar com eles em pernas e pés enormes, se os pequetitos a acompanhá-lo também!  mas elas, as marcas, em sinal de volta e o homenzarrão a varetar lá nas alturas sequer notando a gente nem respondendo o batarde a passar de meio-dia; e também mais outros passantes igualmente indo da Serra da Formosa (esta não chegando a ser serra nos moldes da linguagem científica, a qual não interessa nem um pouquinho ao caboclo) indo sim no ‘pé dois’, diziam desta maneira ou então ‘de a pé’ rumo à urbezinha já graciosa. Ia Seu Zé. Compadre do compadre Xará, um que morreria brigado em morte morrida rápida instantânea a qual não espera o discurso na visita a pedir quem sabe perdão: “Compadre me adiscurpa aquele engano dos porcos, ocê não me deve nada, vá com Deus!” a gente num chega a tempo... Porque seu Zé tornava do sítio e do roçado se falando fazenda e pensando já latifúndio, a remoer o gasto com aquelas sem-vergonha, isto no dizer de Zefa, os gastos enormes, os que não permitem investir mais... Contudo voltando de a pé, sequer arreara a égua nova boa no trotar, indo no solão medonho mesmo porque é pertinho sempre ao matuto o longe com pé na estrada. Ia abismado tomado engrenado nas suas coisas: sequer vendo, vendo!? sequer escutando a algazarra das maritacas afoitas nas árvores da mata e no voar bicar estragar gritar nos pés de café a crescer e a florir depois produzir depois ainda a colheita o secar no terreiro a pretejar melhor e melhor no melhor vender aproveitar o preço. Elas não punham tais questões, ele. Zé não ouvia o casal verde barulhento e ocorre que apenas dois papagaios inspirados capaz de barulhar uma cidade inteira, a pequena Marília por exemplo, o mundo inteiro. Não ouvia, ouvia o seu pensar.
          Pensava, se via na lembrança no cineminha que temos no cérebro, só pensando então naqueles carros...
          Parara em frente da Agência Chevrolet, não mais que uma casa de madeira no centro urbano, como de madeira todo esse arremedo de civilização que agora abrangia Vila Barbosa o Alto Cafezal e se autoengolira plantando residência de pau pra todo lado ao redor dos trilhos de ferro e da Estação de Trem. Até fora ver a chegada do comboio parecença com gomos de linguiça, lembrava bem o dístico de pano balançando ao vento e estendido em cima dos trilhos: “Salve Paulista”; e a gentarada a grã-finagem do lugar e autoridades mais na plataforma improvisada. Inclusive em meio à gente esperando a locomotiva um automóvel formoso...
          Ah o automóvel. Se via em frente da Agência; ali três lindos carros em exposição na rua, a se oferecer aos curiosos... Ele, seu Zé, por exemplo. Não parara mais de sonhar.
          Num instante estão os seus, mesmo a Zefa com o mais novo de colo, no carrão cheirando cheiro de agência e vindo... oh não sabia bem sabendo vir de navio. Viu-se ao volante, imponente, a tornar como agora do latifúndio com feijão arroz milho e fileiras de cafeeiros plantados e prometendo, prometendo com um senão: temia apenas a friagem, o frio noutros tempos de frio e a geada. Frenou buzinou acelerou tocou pra diante acelerou mais ainda a roncar motor potente.
          Desde então passou a observar melhor nas vias públicas veículos como automóveis e caminhõezões que eram caminhõezinhos, os fordecos e as ramonas em plena rua a exalar cheiro de combustível e fumaça, uns carregados e roncando a chorar o peso. Notou inclusive no leito postes e fios elétricos, a cidade se modernizava; e lâmpadas. Logo iria guardar a sete chaves essas benesses civilizatórias em seu lar. Chegara mesmo a rosnar para os seus familiares as dificuldades financeiras a tanto porém incluindo no gasto futuro dinheiro a acolher os benefícios da eletricidade, chutando a lamparina e o lampião. Logo rápido instante já se imaginava um ricaço com água quente encanada servida em seu quarto de dormir e de fumar e de dormir outra vez o seu cansaço.
          Quando acordou, acordou. Suava em bicas e se  encontrava em frente à Casa Rosa que era uma venda, lia a placa na parede de tábuas. Sorriu. Não vira a estrada não vira a gente a passar no caminho não vira as vias da urbe não vira estar quase na sua própria casa; apurou as orelhas: a Zefa gritava um menino candidato a moleque arteiro.
          E puxa! tinha era muito o quê fazer, encontrar amigos, resolver negócios... com as meninas, disseram que ia chegar leva nova naquela semana.



Capítulo Décimo Quinto
 Psicologia. Todo bebum é bom,  dá a camisa do corpo e até metade do copo; não dá tudo, prefere beber sua parte olhando o companheiro beber igualmente, em boa vontade.
         
          As canetas de hoje em dia têm dificuldade em aceitar que haja gente que fale sozinha. Pois bem, há gente que fala sozinha no período em questão e aqui chamado primeiros tempos; existe certa pessoa bem prática nesse deslize, deslize na opinião comum quiçá normal. Trata-se dum irmão do irmão do Chico da Zica genro de Xará, tido por todos perdido, menos mais pela sogra Gena e mais mais por Zefa a qual não perdoava fraquezas ou apenas falhas humanas. Com certa razão em virtude do rapaz dar azo a tal veredicto. Ah, um esclarecimentinho: a expressão ‘irmão do irmão’ em vista no escondido haver a verdade seguinte e que é a de os filhotes de Zica, um bugiu diziam elogios, esses taizinhos serem cada um de um pai e às vezes desconhecendo o pai; não seria melhor dizer que o irmão de Chico fosse meio-irmão! fica dito.
          Travava-se a batalha do tempo no vicejamento das ditaduras no planeta e em exemplo que seja mal exemplo também no país; aí por volta de 1937-38 o nosso governante queria dar umas lições ditando democracia e impondo prefeitos nas cidades e por extensão em Matília. Reuniões livremente andavam proibidas, mesmo assim impossível impedir uma rodada de cachaça no boteco e um dedo de esticada prosa, a prosa solta com língua destravada pela aguardente, sabendo-se o vinho muito caro. É nisto que entra o Zezico, zico por pequeno não podendo ser zezão por mediano e José sendo no seu caso demais por respeitável. Era mano do mano genro de Gena, esse genro que batia bêbado na Geninha empurrando a senhora com os filhos pequenos em fuga à casa da mãe dela, alguma vez à casa da sogra a qual melhor compreendia de entrevero cheirando a álcool. O filho Zezico – todos problemáticos filhos da Zica malfalada e criadeira de casos, todos sabiam disso – o filho tinha dois defeitos, além do terceiro que era ser solteirão isto grave com tantas tias a sobrar, dois um o de ser o mais preto na família morena, supondo-se a tinta por parte da mãe o pai falecido decerto menos escurinho que Zica pintada no retinto; o outro defeito o de falar sozinho.
          Entrava na vendinha, mais casa de secos & molhados, característica da época, entrava e daí todos olhando aguardando qualquer. O estabelecimento comercial de ‘secos & molhados’ a vender no balcão de madeira já lustroso já empoeirado já limpo com pano úmido usado pelo vendeiro atrás de frente ao freguês, esse negócio vendia linguiça salame mortadela pão bolacha ferramentas doces a dar água na boca da petizada e é claro bebidas além dos panos e outras bugigangas pequenas e grandes tudo vistoso; enfim lugar do abastecimento público, com direito a muito fiado e listas das dívidas quitadas ou nunca pagas. No item ‘líquidos’, atração ao Zezico, neles a branquinha cheirosa e os tonéis de vinho cheirosos; e os restantes ‘secos’ ou sólidos; no conjunto o cheiro próprio dum armazém do tipo ia além com as portas fechadas, não se podendo esconder a natureza desse tipo de comércio de então.
          Então chegava o rapaz, todos preparados. Porque aproveitador talvez, embora dissesse não beber, o mano sim enxugava bem um copo depois as garrafas pra ter forças a bater na cunhada dele; ele não, mesmo porque sem numerário, tomando algo apenas se lhe oferecessem e isso raro ocorrer por contumaz pichado. Quando bebum falava e falava pela rua sozinho; sóbrio ou no início das doses contava estórias; algumas engraçadas inventadas, outras só no acaso criadas. Todas repetidas e mais repetidas se a libação e em falta de equilíbrio propenso em ver cobras e lagartos. Uma começava sempre assim: em 1932, na revolução, os ricaços querendo impor poder no mundo em troca de constituição, que num sei o quê seja, tinha um certo caipira e ele foi pego na estrada pelas tropas de São Paulo: você é o quê? respondeu mineiro; apanhou. Mais pra diante preso por outras tropas: você é o quê? respondeu, experiente, paulista ora! apanhou dos mineiros até dizer chega. Mais adiante aparecem homens fardados, ele sobe na árvore, medroso. Indagam lá embaixo: você é o quê? ele: “fruita”. Mais o narrador que a plateia a rir, às vezes a gargalhar gosmento. Ninguém a lhe dar crédito mais nem a lhe pagar trago; em não ser os desavisados forasteiros – nesse tempo apareciam muitos para tentar a vida na frente colonizadora atrativa. Zezico um pouco irreverente ou desbocado apenas, às vezes servia de jornal noticioso: “o velho Xará, tibuf! caiu agorinha morto e...” seus comunicados eram bem onomatopaicos e ainda teatralizava o contar. Isto nem sempre lhe valendo prêmio em oferta de bebida. Saía do armazém ganhava a rua e ainda teimando em ver um público de boas orelhas; quase sempre o tinha nos moleques.
          Apesar da ausência do público escutante sobrava o imaginário, este respeitoso paciente com os de língua solta. E o público menino sempre ou para gozar o pobre ou em aposta quem herdaria seu chapéu, ótimo objeto para brincadeiras.
          Assim prosseguia sua jornada o homenzinho quase folclórico pelos bairros da urbe nascente.
          A falar sozinho, não às canetas de hoje sim a tentar fazer crer certa Caneta com pedigrí etc. e tal. Se é que ela, nobre de sangue azul, possa se meter com o zé povinho.

 

Capítulo Décimo Sexto

 Toda mulher é bela, até prova em contrário.

          Porém dona Zica não era. Era sem sombra de dúvida a opinião da nora Geninha e das outras também, quase sempre elas não casadas no padre só juntadas com os filhos da bugia. Geninha a dizer assim à mãe para rirem, porque a maldade é engraçada. As comadres em volta da casa dela igualmente não a tendo em bom apreço; apressadas talvez no julgamento. A residência das outras vizinhas semelhando a dela em restolhos de tábuas ou sobras das serrarias que desde o princípio foram montadas, sobretudo no Alto Cafezal; e portanto com muita fresta nas paredes das mesmas, e muitas baratas e nojeiras outras? Respondemos à Caneta que sim sendo fácil supor na pobreza que imperava. Na miséria Zica, ela a viver de expedientes como lavar roupa de patroas pobres; tudo isso para tratar dos pequenos, o Chico o primeiro a casar e a lhe trazer para sustento os netos ou só para a sogra brigar com a nora pelo filho e os filhos deles – coisas das relações humanas, sempre críticas no sadio lema: na casa em que falta pão todos gritam ninguém tem razão, que é um ditado popular. Assim.
          Verdade que a senhora colaborava um pouco a formar opinião dos conhecidos por ser bastante ranheta briguenta metediça e cobradora; a afugentar os seus do seu tugúrio.
          Se fosse residência, não era, moradia tão pequena a de Zica, ao menos exígua para tantas bocas parentes, tal moradia sendo entretanto enorme na área. Digamos que seu quintal a tomar todo um lote, sem qualquer registro formal embora; o espaço rico em moita e mato com muito cacareco atirado ao léu. Sujeira, dizia a oposição vizinha, sujeira realmente mas nada a vizinhança em ter com isso, isto válido na época e após a época, sobrando então para nós e à Caneta. Enquanto os quintais desse tempo sempre grandes e quase sempre também plantados ocupados utilmente. Nesse ontem. Hoje cada metro quadrado tendo construção de tamanho quilométrico na ocupação total de espaço e se não couber toda ambição assentam-se blocos pra cima e mais àcima ainda, visto o metro caríssimo; nos primeiros tempos marilienses não: a chegar até ao desperdício. De fato o milho o feijão, enfim pequena agricultura nos quintais e os pés de frutas eram o que mais se via. Entretanto no pedaço dela não, o desleixo. Ou a faltar coragem, para não dizer por causa dum fator cultural negativo atingindo os pobres, os de extrema pobreza. E por ser velha a velha? também por isso, contudo não se sabendo direito sequer a idade dela: Zica não tinha seu registro de nascimento (de casamento seria exigir demais) não tendo igualmente nenhum papel oficial e sequer a ideia onde os inícios de seu analfabetismo, julgando aqui desde já que os bebês não saibam as letras. Aí morreu – não de morte morrida sim de morte sofrida, esta lenta e sádica ao masoquismo dos negativistas; com muitas tosses escarros e ais, uns a temer a tuberculose, moléstia que vingava bem desde fins do século anterior no mundo, a tuberculose amiga da fome e da miséria; e doença característica dessa época na colonização paulista. Cercada dos seus familiares por todos lados a dar adeus à matriarca? nisto um quem sabe, e uma certeza sem hospital, que aliás eram poucos e só aos muito ricos. Não entremos nessa dor; a sobrar a farmácia ainda com ‘ph’ a que chamavam decerto botica. Zica e sua gente e os seus arredores se valendo mesmo das panaceias habituais caboclas como uso de ervas e chás caseiros. Isto outra questão na qual não entraremos e nem a Caneta com seu pedigrí e erudição, por não conseguir sair mais...
          Certo desafeto de Chico e do restante da penca e de toda prole sofrida, aqui incluindo o bebum Zezico que não bebia – todavia maior desafeto da matrona esquelética em que se transformara a senhora – a dizer à guisa de espírito satírico, por sinal bem desenvolvido no povão, que não findara ela de tuberculose mas de feiura... Ai que língua.
          Falou nesses termos, quase a assustar os tocos das ex-árvores da ex-floresta que existira naquilo que davam nome de rua. O que nada diminuindo aquela periferia urbana, pois na rua São Luís, então centro de Alto Cafezal ou noutra via também central e que seria veia básica de Marília, a avenida Sampaio Vidal, nelas e noutras ainda se arrancavam tocos e raízes para o futuro calçamento em paralelepípedos.


Capítulo Décimo Sétimo
 Não será impossível esconder-se numa cidade pequena?

          É verdade sim haver carros em profusão, mentira tantos assim; havendo no entanto inclusive agência, a Agência Chevrolet, portanto máquinas com motor a explosão nas ruas ainda acanhadas, viaturas grandes e formosas para a época. Contudo o veículo por excelência mesmo o cavalo. No começo dos começos muitos animais, embora menos mas existindo ainda muitos exemplares no fim dos primeiros tempos; aqui o fim a esbarrar com o início da Guerra, a Segunda Mundial. Cavalos de todas cores e idades, de todas procedências, chegando em tropa; cavalos mesmo e cavalos que não eram cavalos, como as éguas coiceiras e os muares: o burro trabalhador a mula teimosa. Atrelados nas carroças com roda de arco de ferro e montarias a plantar estrume no leito da via pública ou somente presos no cabresto e em corda numa árvore ou num pau fincado para o mister em frente da venda enquanto a compra a dose a prosa. Muita vez na companhia dos cães à espera também do amo. De um modo geral todos eram cavaleiros nesse tempo, o Zezico mesmo caíra um dia do lombo ou da sela pelos zigue-zagues da aguardente; todos a dirigir cavalo como hoje todos a tirar carta, esta expressão a dizer que legalmente podem dirigir bem ou mal o carrão.
          Por ser o veículo por excelência a cavalgadura, virou importante também o fornecedor do animal e igualmente o surrupiador dele – o ladrão. De galinha e de roupa no varal quem sabe a fim de que o objeto não tomasse sereno; isso existia bastante e sendo muito comum nas áreas pobres. O ladrão de cavalo ficou demais valorizado, visto se falar muitíssimo nele e dele. Importante na cidade em crescimento por ser ela voltada à lavoura que vicejava em volta e ser também abrigo de famílias roceiras, mui comprometidas com esse animal, o equino tão harmônico. De maneira que refletia em Alto Cafezal na Vila e depois na urbe mariliense os feitos desses ladrões. Um tio do Chico da Zica ficara famoso pelas tropas que ‘comprava’ e vendia na região; e famoso por constantemente preso e constantemente fugindo de policiais, vivia fugindo; mui raro ser visto na casa da irmã, sogra de Geninha; ou só fazendo sua visita na calada da noite. Em suma os ladrões de cavalos viraram heróis negativos de muita presença na localidade e em todo interior paulista.
          Isto posto entende-se o grande trabalho dos policiais da época a procurá-los e prendê-los, os polícias quase sempre gente vinda do Nordeste e sem família nas proximidades; posteriormente os servidores da segurança constituindo aqui família com lar e filhos. Nesta altura já debandavam os famosos afanadores de cavalo alheio; tendo que se engajar em tarefas mais de acordo com o tempo que viria, como por exemplo aplicar outros golpes ou tratar do roubo de automóveis. Foi sumindo, até chegar esse profissional a ser do folclore na região da alta paulista ou artigo de museu lembrança e estória.
          Contudo o que afirmamos, ainda antes milênio e depois milênio: a condução realmente por excelência foram as pernas os pés os passos as marcas no solo em verdadeiro carnaval ou algarravia para registro da gente em todos caminhos, os sinais da humanidade. Sinais de pés grandes como o do grandalhão Zé compadre de Xará, ou pequenos como o da miudeza dos filhotes de Geninha. Na área que estamos seguindo, o vento, sempre o vento e não só em agosto e na estação seca, o vento recolheu os sinais tampou os sinais conduziu em fragmentos os sinais e atirou a poeira no Buracão; mas o homem não percebeu...



Capítulo Décimo Oitavo
                        Para o comum da gente
          A gente vira defunto
                  Para virar santo
         Entretanto é defunto
              Por não ser santo.         

          Nós, nós dissemos ou apenas nos dissemos – aquele negócio da gente estar a falar pensar dispensar descobrir a parede e todos sabendo não terem ouvidos as paredes e aí nos pilhamos talvez a conversar com o sustancioso nada, tadinho de nós – nós dissemos à Caneta: querida Caneta, nobre assim cheia de pedigrí, querida, nos fins dos primeiros tempos Xará tava em maus lençóis. Diga-se em passagem que a mulher punha lençóis limpos trocava sempre tratava bem seu homem agora já não mais e a prole se acabava continuava só a prole que havia ele feito naquela barriga parideira e ela falava a gozar que Xará num dava mais no couro, isto uma verdade dolorida, e portanto dali em diante não teriam mais filhos – nem ela querendo quisesse pular a cerca, completamente estourada ela e a cerca e isto um absurdo por velha Gena e feia, a feiura (aqui protestamos também por desejarem tirar o acento agudo de ‘feíúra’ deixando a pobre palavra ainda mais feia!) sim a feiura defendendo sua honra – não teriam novos filhotes em suma. Tava em má situação não por haver brigado com seu Zé, compadre Zé pai da Clarinha, aquelinha que o embirrado Berto Intalianu tentava conquistar, Clara afilhada do velho acabado enfim, em fim de carreira o Sr.João Xará; nesse tempo brigado com o amigo pela porcaria daqueles porcos, o compadre comprara ao compadre, levara a prenda vendera a partida comera parte dela com sua penca de filhos e a Gena comadre faladeira em pondo fogo nas relações dos homens – então um a dizer pagou outro a desdizer não pagou e isso, quer dizer o bate-boca, isso sim até à inimizade às portas da morte, a morte boa de conversa a convencer compadre Zé em ver o outro fechar os olhos fechar cruzando as mãos fechar o caixão, aqui nem ele fabricando a urna como o fazia nos velhos tempos e outrem terá feito decerto; e quem sabe José a chorar crocodilamente no quarto infecto com cheiro de morbidez e elegia de poeta capiau. Em ver o outro sim, não chegando a tempo, o Xará se foi com mais esta mágoa (tendo outras mais, mais miúdas e mais graúdas, na sua coleção de dívidas na vida humana endividada). Tava em maus lençóis morrendo. A Gena: João, a tosse João, tem um doutor médico agora em Alto Cafezal, num precisa nem passar perto da casa do Compadre, e aí... Aí não ia. Sem importância, reconhecemos, pois que se foi de morte morrida num tibuf! o qual deu gosto em ver e a assustar os próximos.
          Quase bem antes ou apenas antes, quando a gente sequer pensa nos negativinhos dos positivinhos-negativos em que a gente mente descaradamente e veementemente se precisar: menino (aqui não era aquele primogênito que morreu olhando com ódio o pai o pai a lembrar João Mateiro, impressionante como parecia o Mateiro! poderia inclusive jurar que a Gena pulara a cerca com o chefe mandão na picada do mato na mata desmatada ou a desmatar mas isso chegando ao absurdo tendo em vista que o matara a facão anos antes de conhecer a esposa a qual o obrigara passar vergonha na igreja para casar consigo no padre e o padre tinha também uma cara de sem-vergonha e nisto o moço Xará se benzendo a temer igualmente a vingança possível do padre depois morto; não, não era aquele menino era outro filho:) menino, vai no portão dizer praquele sujeito que eu num tô: saí. Iria dizer que o serviço tava fraco, não arranjava sequer um quintal pra carpinar e daí sem dinheiro; não iria pagar o credor mesmo. Vai logo, trem! O trenzinho correu transmitir a verdade da mentira do pai. Em família então, surgiam sempre exemplos de mentirinhas santas; das que caso seja a amigos viram logo engano somente. Agora no estertor, sem que soubesse, visto a morte morrida caipira não avisar que vem vindo – a morte chega e pronto. Entretanto lá por dentro de sua velhice as peças usadas as pacueras parece que iam ser postas pra fora pela boca de falar mentirinhas inocentes que não prejudicam quem ouve só pouquinho e faz estragos no fim da vida do ser, pensa o ser. Nesse ponto chega Cumpádi.
          Compadre Cumpádi fora amigo de todas as horas e andava longe fazia tempo em suas andanças. Agora se contam as novidades. Quais? O Cumpádi sim tramelava, vez que outra também à orelha da comadre Gena; ele quase só ouvindo, fraco. Pensava dizer coisas, o som ingrato não fluindo. Xará pretendia transmitir as desgraças tão agradáveis ao homem comum contar; diria do quanto compadre Zé lhe devendo em favores e dinheiro e não pagava e por último nem se viam mais, brigados por uma porcaria qualquer das que a gente nem se lembra mais direito quando lembra as coisas e tudo o mais; queria transmitir ao Cumpádi viajador as outras coisas da Vila Barbosa da Vila Alto Cafezal da vila nova que depois chamariam Marília, ah Cumpádi, tem uma novidadinha e tanto: veio pra cá um gringo, um tal de Píter, rico pra danar, tem casa grande como palácio de rei, tem fazenda que vai até na barranca do Buracão e em baixo rumando para o Rio do Peixe até chegar ao Rio Tibiriçá; esse gringo é pequenininho como eu porém ricaço e a gente num entende o que fala, mas paga direitinho a gente, não é como o compadre Zé um caloteiro e... (parou Xará o sopro por cansado no esforço); queria dizer ainda do seu desentendimento com a patroa a patroa toda hora ali não podendo ele falar não fosse baixo altos podres para a esposa não ouvir – não podia, por saindo apenas soprinhos de voz. Contudo Cumpádi entendendo as coisas contava e mais contava ele mesmo suas coisas às orelhas doentes do amigo. O amigo desejante mais e mais ainda desabafar suas próprias coisas; enquanto Xará não conseguia desabafar e devendo fazê-lo mais que o amigo por direito a enfermo as coisas, as que o não deixavam dormir em paz, não o deixava dormir sequer, a se revirar toda hora. Até que se destampou de vez e disse e falou e gritou e... Cumpádi, eu matei Mateiro com o facão! dei nele vinte ou trinta faconadas, fiz dele picadinho, pus a culpa em Pexêra e não sei se creram: dei eu no pé neste mundo de Deus, o Diabo, o Diabo quer me pegar, Cumpádi!!! Berrou berrou berrou a assustar um mundo, se limpou na consciência, pensou. Tomou consciência ninguém haver escutado, sequer alizinho Cumpádi.
          O Cumpádi: compadre Xará, tenha calma, assim você morre. Aí chegou Gena e chorou seu choro de viúva e não queria parar no desespero ou não conseguia aceitar aquela perda. E os filhos, os que não haviam se dispersado pela vida, e os vizinhos e todos ouviam as loas da mulher sobre a bondade que fora o homem, o homem quando o povo imagina ter virado santo.





Capítulo Décimo Nono           
A História: com quantas mentiras se faz uma verdade!

As Mil e Uma Noites: Primeira Parte

A inserção presente refere-se às Mil e Uma Noites, ah que saudade da bela Cherezade! Aqui apenas como artifício para ligarmos os tempos primeiros, após os tempos primitivos de Mateiro, ligar enfim os primeiros tempos à Segunda Guerra Mundial. Coisas de literatos que, não obstante protestos veementes da Caneta, fazem a elisão simbolizando as Noites como anos e séculos que se passaram. Pode! Pode.
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          O tempo não para, para no tempo querendo se antecipar no tempo o erudito a fim de nos azucrinar no tempo que chamamos hoje tirar o acento no ‘pára’ para confundir melhor e continuar em sua igrejinha de clube fechado, enquanto o povão faz a língua escrita analfabetizando errado o certo da língua falada, dizendo as coisas sem concordar na concordância nem a concordar com o grupo hermético de iniciados na língua padrão que detêm a cultura; ah querem tirar o hífen também, numa penada só de assinatura e com auxílio da bravata política. O que mui pouco ou nada atinge o povo, o qual não ‘sona’ o traço em sinal de separação. Este comentário vem a propósito do tempo sólido concreto invisível que não para: lenta matemática logicamente vai à frente sem cessar; sem correr igualmente; quem disse em contrário que ele corre, que voa (isto já poesia gasta) que se desloca loucamente apressado. Não. Porém anda, se constatando o passar na esteira os ‘aconteceres’ que acontecem, desde antes de João Mateiro, nos dramas de Xará a assustar Gena, quando não com isso com os roncos em barulho igual serrote, ah pobre viúva; claro ela, ele já morreu. Para frente nesse detrás aparecem outros acontecimentos ligados a eles, sim ligados a eles e a seu Zé e à dona Zefa e aos convivas da época – em seus descendentes. Estes agora a viverem na Guerra.
          Os herdeiros (de quê!) dos velhos pares em ótimos desentendimentos conjugais, eles sabem e se não sabem a Guerra vivem-na assim mesmo no seu impacto e depois em suas consequências, estas a ecoar até hoje. Isto porque não se atinge de imediato 66 milhões de vítimas a troco de nada: o tempo cobra; se não lerdamente como nos séculos anteriores, com a fogacidade de agora, cobra sim mudanças. Ora, o ser humano pensa apenas em mudança tecnológica e o tempo exige a transformação moral, para o bem é visto, ou iríamos retrogradar afundar perder sumir...
          Tomamos neste espaço, apesar espernearmos contra a vontade da Caneta, tomamos uma vertente de comparação chã; mas será possivelmente longa.
          Nela fiquemos no momento com esta Primeira Parte; a seguir um seu desdobrar.

Desdobrar da Primeira Parte
          A esteira não se detém, o tempo rola, vagaroso que seja, rola. Para num corte a nos deparar com um dinossauro. Um dinossauro! Não, não é engano, às vezes vemos uma lagartixa a perseguir um insetinho na parede, e como é que ela não cai do teto perto da lâmpada acesa onde vicejam os alimentos... Não sabemos, sabemos não ser lagartixa: dinossauro mesmo em carne e osso. O velhote Pedro.
          Uns a dizer que se deve pronunciar píter e o sobrenome então, ah Deus nos livre. O sobrenome do cidadão, impronunciável; os gringos deveriam criar nomes de mais simples sonância, ao menos com vogais bastante e menos consoantes, faláveis; não, num tão nem aí eles lá.
          Peter anda acabadinho ou é mal-acabadinho, veio de longe ver um terreno com sabor de latifúndio em herança, só ver. Viu examinou cheirou o ambiente e o ar, aquelas matas exuberantes; nem pensou que houvessem Mateiros lá dentro e cachaças e encrencas, só árvores lindas. Se apaixonou pelo lugar. O que não é possível imaginar do comportamento estrangeiro: curioso como esses tipos esquisitos não se casam, menos ainda com mulherinhas da terra, mais pra macacas gritadeiras que para europeias belíssimas de grande cultura. Solteirão. Montou casa e: ah cruz-credo, uma de alvenaria! isto outro dinossauro a sobrar no ambiente caboclo. Viveu até morrer morreu logo, encontrado num quarto do palácio de tijolos em meio a casebres de tábua. Os lacaios uniformizados? claro, alguns servidores apenas, proibidos a participarem dos ‘dizem que me falaram’ e do contato com comadres curiosas. Isso. Não somente isso. Ouvia-se do palacete certos sons, belos sim porém desconhecidos, vindo da vitrola ou toca-discos do homenzinho, homenzinho realmente não sendo maior que Xará;  ¡ora, por quê essas esdruxulices têm que ser uns grandalhões gigantões de olhos azuis e cabeça dolicocéfala com ponta na nuca!  Pequeno, quieto, escondido? sabe-se lá; e apreciador de música sublime. A elite hoje zomba dela na escolha do nome, zomba através de também sublimes discussões: clássica, de concerto, erudita, elaborada, sinfônica, de câmara e coisas desse jaez; aí não se entende, aprecia tais sons assim como o Míster qualquer-coisa. Contudo morreu, sequer aguardando o fim da II Guerra e menos ainda esperou suas fatais consequências.
          Antes pouquinho de falecer, na hora do desenlace mesmo, ouvia e o vento atrevido levando a pérola aos porcos habitantes do em redor, ouvia a Cherezade, escrito na capa do álbum “Scheherazade” de Rimsky-Korsakov, uma suíte da saga de As Mil e Uma Noites. Decerto os avós dele mais longe ou os pais próximos a ouvir nas vitrolas RCA de manivela estes sons maravilhosos do fim do século dezenove; ele já em 78 ou mesmo em 33 rotações por minuto no prato o disco. Inclusive o LP trazia uma capa belíssima na sua arte então mui cultivada: uns riscos coloridos mostrando um árabe voar em seu tapete mágico. Isto os porcos não podiam ver, só escutando a pérola...  Uma gravação da Royal Philarmonic Orchestra, conductor Sargent. Antes do antes pusera como seu costume um disco de música lírica, certa ópera que os mequetrefes do palácio sabiam ter de não barulhar nessa hora suas coisas; tanto assim que sequer ouviram os acordes finais, não de Cherezade mas da existência do amo.



Capítulo Vigésimo

Moleque é uma máquina incontrolável de berrar.

Segunda Parte das Mil e Uma Noites
          Continuemos nosso belíssimo esforço em nos livrar da Segunda Guerra e ir na direção do após Guerra...
              Faz uma força danada, imensa, a Aparecida na casinha em plena Ventania, a ventania ciscando os olhos da gente, dela não, protegida na casinha; não inteiramente protegida, protegida só pelas tábuas da latrina. Aqui a personagem clarissimamente defecando numa privada da época tanto no meio rural, é o caso, quanto no meio urbano. São construções de madeira com um assoalho e um buraco nesse chão também de pau, donde sobem gases e o fedor das fezes lá embaixo; também brotam nunca se sabendo como desse horrendo vão baratas para horror das fêmeas da espécie gritarem. Muito mais tarde na cidade de Marília a lei exigiu que embora as casas fossem de madeira as privadas seriam obrigatoriamente de alvenaria. A roça onde está Aparecida não era atingida pelo rigor da lei; quando muito tendo uma latrina mais ou menos decente; isto porque o caboclo usa o mato mais com frequência, sobretudo o macho que é um animal menos preocupado com as coisas morais... Enfim tudo era de madeira na região; e no Bairro Ventania onde Aparecida; lá fora moleques gritam e apupam e assobiam e gozam a menina de uns dez ou doze anos e por sinal neta herdeira de Xará. Seria por certo Aparecida da Silva, sabe-se lá, lá é apenas Cida e fede muito, muito mais a casinha de tábuas encimando a latrina comum, menos malcheirosa embora que a mente emporcalhada de muitos seres terráqueos extra-terrenos; contudo sem culpa: um destemperinho por ingestão gulosa de carne de porco, em casa, em casa dela na roça se procedeu à matança da porca gorda estufada rachada nas suas banhas e aí os matutos parentes a preparar chouriço com o sangue torresmo com a pele etc. e é claro a carne; a esganadinha paga um aprendizado no mictório público escolar fedorento, a mestra já cobrando a volta no recreio dos alunos à sala em pregação dos grandes valores nacionais ofendidos pela Guerra, mas qual: a garota geme, geme também na gritaria a torcida organizada a custo sugada pelas ordens da professora solteirona dona Santa, nada em ver com o Santo Intalianu semelhantemente de família peninsular e que durante a conflagração ficou em situação difícil por ser torcedora do Eixo, enquanto seus familiares perseguidos em Marília; ela, tadinha, cheia de ‘estufares’ nos peitos no mostrar patriotismo brasílico à sala de garotos e garotas barulhentos; pudera! com um prato cheio: o prato cheio, apesar de instâncias de Santa, não sai, sai depois envergonhada e entra na sala e a meninada – quá quá quá. Abaixa a cabeça, olha a brochura, trêmula, rabisca qualquer a dizer “estão falando comigo?” responderia a torcida “tamus falando docê”.
          Tem o bairro uma história. Conta-se que a Ventania, à semelhança do Barbosa e do Alto Cafezal engolidos por Marília, ela pretendia virar cidade. Os mais afoitos ou sonhadores ou só apressados entre os moradores capiaus do lugar ‘grandiosavam’ um quem sabe a urbe portentosa; nunca passou em ter apenas a escolinha onde a molecada não aprende demais porém se diverte à beça, ah tem um macaquinho do João Leiteiro, o dono do único boteco na localidade, preso em corrente, o macaco seja aqui esclarecido, ótimo para meninada no recreio da escola azucrinar atirar pedra e casca de laranja ou qualquer outro resto do lanche e assim infernizar o paraíso do mono; um dia arrebentou a corda quis esganar os alunos de Santa. Tem portanto a escola a venda e um campo improvisado para aperfeiçoamento da pelada (a Caneta desconhecendo se à época o futebol com esse nome, isto senão, prossigamos:) e tem certa máquina de beneficiar arroz, não a fim dos meninos escorregar no monte de cheiro ácido da palha de arroz, não: para limpar arroz e café; muitos outros armazéns parecidos possui a região, a Ventania tem essa máquina. Que mais? mais nada, ah sim uma dúzia de residentes e a rua principal e única da futura cidade, a qual nem chegou à condição de patrimônio nem de vila. Um belo dia, nisto já na terceira parte das Mil e Uma Noites, nesse belo dia foi engolida por Marília em seus tentáculos rumo à Serra da Formosa na zona sul e às nascentes do Rio do Peixe, a crescer quase em explosão. Para permanecer ela também uma cidade pequena do interior, ou seria uma urbe de médio porte?

Desdobrar da Segunda Parte das Mil e Uma Noites
          Nesta segunda parte das Mil, artificiozinho para mostrar anos no tempo na Esteira simbólica em passar desde a época da Guerra até à década de setenta – nesta nos deparamos com milzinhos acontecimentos e um pior acaso: a Caneta dorme! Ora praquê exclamação se todos dormimos acordamos fazemos besteiras e dormimos outra vez, por que não Ela! Dorme após decerto elucubrações surrealistas conforme traço de sua personalidade, nada demais enfim dormira? Sim um dormir com pedigrí, mais proximamente sonolência estando em nós atenta; visto apenas as cabeças ocas não se cansarem e dormirem de verdade, na mentira de verdade não pode haver sangue azul a dormir de fato.
          Esta digressão tão só para entender o viver dos descendentes de Xará com seu facão ou os de seu Zé Professor, pioneiros de uma região geográfica.
          Então Ela indaga assim de chofre nós pegos desprevenidos. Diz, não lhes parece um tanto chocha e sem sustância diriam seus caboclos invasores da mata sagrada e fundadores da urbe... ‘portentosa’ falaram! Não importa, importa que não narraram na primeira parte deste texto maluco a história dos heróis...
          Reconheçamos, muito se poderia inserir no dia a dia da noite da gente, os sofrimentos as conquistas os fracassos as esperanças e mil lances em que se engajaria a mesma a fim de arremedar os disparates do planeta (quase a chegar à globalização antecipando termos em voga hoje; e aí poríamos a defesa do meio ambiente e antes o estrago do meio ambiente, por ser bonito e de acordo com o modismo atual; então preocupação absurda – a ignorância é um absurdo que não se vê) sim, a região estaria macaqueando o mundo para se pensar civilizada.
          Não obstante... Nada disso achamos correto: não estamos a rabiscar um tratado de História porém tentando esboço numa obra literária; apegando-nos à gente tão somente abrangente e insuficiente quiçá. Quisemos – não atingimos as exigências canetais! paciência – quisemos tomar apenas o sintomático da vida na vida inicial de Marília; a luta (inglória?) do ser da época dos primeiros tempos; o que não difere da luta doutros seres humanos noutras partes do orbe. Somos, queiramos ou não queiramos, somos todos pernas curtas e a ter muita imaginação e desejo e esperança e queda. E o retomar.



Capítulo Vigésimo Primeiro

Chove a cântaros. O homem é um deusinho que já conseguiu com tiros de chumbo fazer chover em algum lugar, mas não consegue fazer parar a chuva nem a enchente. Descobriu ter havido remotamente água em Marte; e irá pra lá um dia reclamar da falta de chuva.
         
          Chove, chove sem parar, para um pouco voltam as lágrimas do céu, o povo se encoruja se desencoraja encolhe recolhe o ser nos seus cantos. O povo do galinheiro desenxavido, que se há de fazer diz com maestria o galo, o qual João Xará antes de morrer (é claro, ora bolas) havia trazido meio emprestado meio comprado e o compadre Zé Professor a gritar precavido nos miolos “esse não me pagará, ponho nos lucros & perdas da fazenda”, esta não mais que um sítio e sonhava um dia chegar a latifúndio; comadre Zefa a rabujar – o Zé só fala em dinheiro no entanto gasta a rodos com aquelas perdidas! o compadre Zé falando grosso e mais grosso ainda com o cigarro na boca assoprado de lado, falando não ‘perda’ mas “perca”. No que acertara nessa dúvida da certeza que as mentiras insuflam nas verdades – acabou por não pagar Xará, viraram o bico por causa do galo carijó até à hora da hora da morte morrida. O galo diz ao harém que se há de fazer! Com razão, suas companheiras – nenhuma com aliança no padre quase se podendo falar sobre elas serem namoradas como é o falar de agora sobre as amantes de antanho, elas. Elas estão encolhidas ninguém conversa e deveria andar um barulhão, só a choca grita os meninos eles todos a aprender a ciscar e ela berra a possibilidade do gavião apreciador de pintinhos. Todas a escorrer água da chuva, antes haviam passado um óleo defensor extraído da traseira nas penas e olham desconsoladas o terreiro de terra molhada, nem o Peri a lhes dar carreirão, a menina Cida trouxe agorinha uns restos de arroz que azedara e gente não come come a ave, fizeram um estardalhaço a disputar a comida depois cessou tudo, tudo molhado agora. O galo se espreguiça, que lhe importa que a vó da garota tenha dado à nora ele, o galo, e mais meia dúzia de galinhas: Vicência, disse Gena, fica com essas penosas pois na cidade tem uns vizinhos sem-vergonha que já comeram metade delas e ainda roubam também roupa no varal da gente. Se olham se entrolham em ver o que ver, depois da chuva, se é que a chuva pare, depois tem mil vermes a brotar do solo e insetos voejantes, bons pratos, não agora, agora é o molentamento a umidade os pingos as gotas e até um desânimo. Tem aí o carijó pai de todos esposo de todas, todas galinhas a carijó a preta a branca a vermelha a marrom a verde... a verde!? ué uai diriam se mineiros paulistas nesse terreiro perto da cidade ou só do bairro Ventania que dista bem uns nove quilômetros, tem verde? Tem, haviam os ‘galinhas verdes’ da direita cheia de anauês dos bons. Ainda sobraram na cidade algumas, agora um pouco embaraçadas pela Guerra: o Eixo perdeu, festeja a urbe seus mortos e vivos mutilados ou apenas mutilados na cabeça. Tinha um cidadão, o Luís, que fora ver os estouros na Europa como pracinha e voltou inteiro. De repente, em meio à conversa amena, largava a presença na conversa e corria de olhos arregalados falando desconexos; medalha em prêmio das bombas. Os filhos de Xará os de seu Zé os netos dos avós foram inclusive assistir ao desfile de chegada a marcha dos heróis vivos a subir em cadência a rua Nove de Julho e a entrar pela Avenida Sampaio Vidal e... ah a chuvarada, o desânimo, o não ter o que fazer, ninguém, nenhuma galinha avermelhada ou marrom ou a preta a sentir coragem sequer aplacando a fome braba; porém o chuveiro quase se acalma para quase parar e elas esquecem, porque galinha não pensa, pensa quem pensa, e assim veem longe logo perto as aleluias a anunciar o fim da água e voam e tremelicam qual outros insetos e assim as aves se arriscam a predar as presas esvoejantes e se divertem e fisgam e derrubam e comem apressadas e contentes, até o galo que foi de Gena e pertence agora à Cidinha sua neta.




Capítulo Vigésimo Segundo

No mundo em que vivemos, é quase impossível safar-se à violência: ou somos vítimas da violência, ou presenciamos a violência sobre outrem, ou sabemo-la existente, ou só a deploramos para ficar na moda, ou piormente somos nós a violência em nossa ignorância.
         
          Tinha a Cida, herdeira da nobreza do sangue de Xará, bem quentinho já esfriado pelos vermes no cemitério de Marília, o cemitério a enganar os outros fica na avenida da Saudade igual outras necrópoles das outras não-metrópoles os quais sitos em suas Saudades também; a jovem vinda através da filha dele Geninha da comadre Gena comadre da comadre Zefa – ambas viúvas agora por volta de 1950; uma sendo mais viúva: Gena herdou tão somente filhos filhas netos dívidas conhecidas impagáveis e as desconhecidas não apresentadas perdoáveis, isto porque a gente entende a gente com medo a ofender a gente morta; a outra viúva menos viúva tendo em vista ter por herança além da residência umas terras doidinhas pra virar latifúndio mas havendo “aquelas porcas”, isto em palavras textuais de Zefa, elas comido o dinheiro do Zé; portanto a Zefa pouco mais que viúva pobre apenas menos viúva sem eira nem beira mesmo porque, fala a comadre Zefa: o compadre Xará, que Deus o tenha, nunca deu conforto aos seus e deixou a comadre na miséria e aí... ah, deixa pra lá: em suma ficaram ambas viúvas. Cida por essa época, época em que teve de faltar às aulas de mestra Santa pra não encarar os moleques debochados; ela então sequer pensando em contrair mais tarde núpcias com o Berto Intalianu, viúvo cheio de casas e outros bens, sabido a sobejo que as bonitas não escapam de casar e nunca viram tias, mesmo a família protestando pelo absurdo duma certa mulatinha graciosa ir parir filhos dum porco italiano velho; não: não pensando ela. A Cida pensa nos porcos nas galinhas e até na tarefa de rachar lenha ao fogão lavar roupa fazer o almoço enquanto a mãe e os manos na enxada. Além do mais diminuindo a falta das faltas à escola por não ir com a cara da professora Santa, a falar e falar puxando a brasa para a sardinha dos italianos. Claro não ter maturidade visão cultura e idade para enxergar tudo isso, vivendo na zona rural, apenas se irritando com o discurso da mulher, sem perceber elinha quaisquer conotações de sentimentos patrióticos; a professora sim, talvez parcial e medrosa pelos resquícios da Guerra. Então se ofendendo facilmente na região os italianos e os japoneses; infinitamente menos os germânicos por ser a colônia alemã insignificante, e ajudado pela incultura da população no ofender ou deixar de ofender. Mais se trabalhava cuidando da premência próxima que das coisas bélicas distantes. Contudo os cidadãos cujas pátrias estavam congregadas no Eixo, esses sofreram muito gozações e fustigações. Na classe da Escola da Ventania não havendo nipônicos ou seja os descendentezinhos. Na urbe em crescimento e até calçada em paralelepípedos brilhantes ao sol e escorregantes à chuva, na urbe entretanto os japoneses passaram por dias negros. Um que outro caso mais flagrante e havendo comentários da população, como o do Myaghi que seria da Shindo-Remei e se matara, perdida a Guerra pelo Japão. Os demais habitantes de olhos puxados sem maior envolvimento, vivendo a trabalhar ou no comércio local ou mais bem ainda na lavoura – foram eles os introdutores do algodão e promotores da riqueza que viveu Marília. O vale do Rio do Peixe era um branco só, visto de cima da Serra da Formosa. O algodoal japonês, como mais tarde o cultivo da amora e assim o trato no bicho-da-seda, tudo a se projetar na economia até do País. Surgiam também várias fábricas de óleo pela oferta do caroço de algodão. Não obstante o grande labor, semelhando os italianos os nipônicos foram atingidos na crise bélica mundial. Agora passava a coisa, a Cidinha crescera virava dona Aparecida do seu Berto, mudava-se a parir seus filhos, bisnetos do falecido João Xará, mudava-se então à cidade, embora na periferia que era a Vila São Miguel, enfim na cidade; o que uma conquista para uma roceira.
          A urbe, então chamada no modismo da moda dos slogans ‘Cidade Menina’ pra que depois virasse “Capital da Alta Paulista” e depois ainda no tempo de hoje ser “a Capital Nacional do Alimento”. Transformava-se. A urbe também se mudava: deixando ser apenas roceira.

 

 


Capítulo Vigésimo Terceiro

Sou o destroço de um casamento. 
         
          A esteira, longe a esteira muito menos a esteira do tempo a entender o passar: passa, somente passa com o tempo às suas costas como a esteira na fábrica de venenos em garrafa a distrair os tolos e depois estufar os tolos tal qual um filho briguento desentendido ou só ignorante de seu Zé, seu Zé aquele que brigara com Xará, ambos não mais em entreveros e nos entreveros com ajudazinha de Zefa dum lado doutro Gena exímias na língua não a apagar bombeiras o fogo antes sim a alimentá-lo no desentendimento dos machos da espécie aqui sem espécie; agora ambos em paz em paz!? em ‘paz’ no cemitério da Saudade, ali indo na época em direção da Vila Miranda a qual perdeu até o nome após a Guerra ou só depois da virada do milênio. A esteira passa, num a cavalo o tempo que não para. Paremos apenas num corte (proposital, longe a Caneta e nós em querer parar em stop o tempo).
          Arlindo, feio na opinião de comadre Gena, comadre de sua mãe, isto em estando ambas de cara virada por causa do desentender dos esposos; Zefa inclusive a imaginar que Xará houvesse induzido seu machão altão arcadão magrão sem espécie na conquista das mulheres perdidas – o que não tendo qualquer fundamento pela timidez e bobalhice de João Xará, bobalhice na opinião do desafeto e compadre e amigo, desde já sabendo-se de antemão que um amigo, desses amigos pro que der e vier; um deles nunca leva o galo carijó e muito menos os porcos que levou, levou e não pagou! nunca um amigo faria tal. Longe disso, Xará vivo (claro, quem a pensar defuntos presando a presa?) ele nunca mesmo andou com prostitutas; não por integridade moral, por timidez que carregava nos ombros desde a ocasião do estripamento do seu chefe na mataria e no desbravamento da mata; timidez doentia e temor flagrante (o desafeto à esposa: Zefa, o hominho tem é medorreia; vai ver apanha até da comadre, ‘sua’ linguaruda comadre). Portanto o chefe da casa e dono do latifúndio da família caíra nas graças delas por graça, de graça, e não induzido por más companhias. Numa dessas discussões sobrou ao filho Arlindo.
          Arlindo, feioso não na forma no ver do seu espelho (ele pronunciava como todo roceiro se pensando cidadão “ispêio”) feioso segundo a oposição, Arlindo não crescera tanto quanto o pai, Zé era vareta ele mediano a puxar os lados maternos e a ser gozado em família quando ainda de bem como baixinho e então esganava o genitor no faz de conta. Era inteligente. Brigado com o pai que apenas lhe dera um bofetão, já casado com aquela porcaria (entenda-se: seu Zé não pisoteava apenas os alunos na tabuada, filho dos outros, porém fazia justiça justiçando os próprios filhos, exagerando em não respeitar um casado, este virou inimigo só visitando a mãe na ausência do ‘Véio’, apelido a denegrir o pai). A porcaria logo deixou Arlindo; o feioso se engraçou duma japonesa, uma jovem de família nipônica tradicional e conservadora, comerciante na rua São Luís; foi aceito pela moça repudiado pelos da moça; bebeu um pouco em exagero de sentimentos, fez outras atrapalhadas e por fim melhorou nas finanças comprando e vendendo, num tino e dom pra negócio, nunca a fazer acordos com o Veio, a si um trapaceiro e caloteiro (“num viu o que fez o Véio com Xará! mãe”). Melhorou e contraiu núpcias com belíssima desafeto, ou que ele horroroso e ela apenas bonita; aí no cartório que ficava na zona central da urbe, numa casa de madeira, casou e até santificou também o matrimônio na igreja de São Miguel. Não obstante seu Zé fora de cara amarrada, a conceder apenas os sorrisos de praxe que a sociedade exige a um proprietário abastado respeitável, fora por obrigação na exigência da assinatura paterna. Não se falaram. Mais pra diante o filho retribuiu a mesura, antes disso negou-se a pedir perdão ao moribundo; sim retribuiu o ato ‘cordial’ indo ao enterro de Zé com roupa escura e continuou a usar camisa preta em luto como mandava a hipocrisia, para deixá-la por uma fita negra no bolso da camisa verde que era sua preferencial nos passeios. Nem por isso tendo sentimento e sofrimento. Sofrimento! sentiu quase alegria, alívio ao menos, tal qual Xará enterrando o primogênito que parecia o Mateiro a lhe cobrar e odiar. Arlindo foi quieto solene até, embora não aceitasse tomar a alça do caixão naquela troca e disputa dos vivos mostrando serviço a carregar os mortos. Alívio. E o fez a consolar a mãe viúva, o povo a dizer, linguarudo, do interesse do filho nos bens do pai; uma inverdade, pois Arlindo deixou que os manos e a genitora brigassem e disputassem o espólio que as sem-vergonha houvessem deixado como herança aos herdeiros do amante. Aqui ainda intriga da oposição.
          Agora, aí uns aninhos após a Guerra, o jovem Arlindo é um Arlindo precocemente envelhecido a chorar, literalmente chorar, em frente de Zefa seu drama, a se lavar no regaço materno por seus infortúnios. Perdera a esposa. Pior, perdera os filhos menores à ex-esposa, a qual não lhe aguentou desaforos e maus tratos, tido o homem por violento; acusado mesmo de abusos físicos, o que corriqueiro já nos primeiros tempos e com certeza ainda no Pós-Guerra.
          Não tem divórcio, não tem ele meios a pleitear desquite e contratar advogado. Arruinado nas finanças num pulo errado ao ganho com perdas significativas. E também a dividir os lucros com filiais femininas tal qual o Veio. Claro, dá sua versão à mãe, molha seu vestido caseiro com o sofrimento, pedindo anuência à fã de carteirinha na torcida uniformizada. Ela o aceita, aceita inclusive o pródigo como seu pensionista comensal e lhe dá ganho de causa; então se livrara da nora todavia tendo que buscar de longe em longe os beijos dos netos. Dá-lhe apoio o coração materno.
          Arlindo não desfrutou muito sua mordomia na volta à família paterna-materna. Logo brigaria num bar, viraria peça num auto do crime. E iria dormir em ‘paz’ com seu Zé e o compadre Xará.




Capítulo Vigésimo Quarto
A questão conjugal se resume na garganta. Porque a vida a dois só se torna possível engolindo sapos mutuamente. Isso explica a razão da pouca durabilidade do casamento entre  jovens – que têm a goela ainda estreita. E dos velhos que a tem machucada ou defeituosa.
         
          Arlindo, “Arfeio” dizia de voz rouca Gena em confabulação e risotas quando com a filha Geninha a falar bem mal dos conhecidos nunca realmente conhecidos porém desconhecidos com nome e endereço; o Arlindo já tivera suas encrencas com o Chico da Zica, o qual era mesmo Chico da Geninha aos seus familiares e especialmente aos sogros. Tal qual com outro cunhado dela, a Geninha. Um Antônio. Esse cidadão, que por sinal não sendo cidadão porque lavrador, meeiro a formar terras plantando café – plantação das mudas em jacazinhos no solo, cuidados com elas, plantio enquanto não crescem a contento cereais nas ruas de café e finalmente a primeira colheita anos depois; deixando a seguir a lavoura formada ao proprietário; e depois procurando novos lugares de trabalho a receber enquanto metade do fruto – esse cidadão era um homem forte e corajoso, não só a emprenhar a companheira mas na sua labuta com ferramentas roceiras como a enxada. Chamado Antônio como seu tio que fora em vivo vivo nos negócios e trapaças com cavalo sempre sem poder provar procedência, Antônio um homem comum: trabalhador cumpridor das obrigações e mais ainda bravateiro. Falavam dele ser “papudo”. Teve existência comum também e acabou acabando de morte morrida certamente, com certeza semelhando a esposa ela partindo de repente num tibuf indo ao cemitério e deixando os filhos aos compadres e familiares para criar. Não obstante teve o casal seu idílio. Nisto mostramos sempre desconhecimento ao ver imaginar possa um casal comum e desgastado no tempo e nas agruras da vida haver passado por um idílio, o idílio que pensamos apenas bobaginha de poetas; não, os casais têm seu momento de lirismo no começo. Teve seu idílio, com ciúmes apegos e finalmente brigas conjugais – para ser o comum apenas. Interessante, nos diz a Caneta observadora: a gente olhando a família pobre velha nos desgastes da vivência, sequer supõe amor conquista e menos tiradas poéticas a embelezar se não o todo os primeiros anos de união. (Então nos olhamos, piscamos olhos entendidos nos fazendo desentendidos, pois havíamos exatamente posto a questão nesses termos, sem que Ela de fato percebesse...)
          No entanto vemos Toninho, nomeava o filho assim dona Zica depois entuberculou a velha, findou e não mais chamou por esse nome é lógico; o apelido entretanto ficou. Realmente Antônio viveu sua fase de namoro sério, quase abusando do sentimentalismo; em equivalência com a parte feminina do consórcio. Não importa os ‘dizem que me contaram’ dos parentes as ruminaçõezinhas nem os disparates corriqueiros que envolvem os de fora opinando sobre os de dentro ao pleitear casamento os jovens. Não. Interessa aqui só os primeiros anos, ou meses de casados! Então ela, a bela ainda a esperar o primeiro parto, então vivia numa ciumeira. A Maria engolindo com os olhos, vez por outra comendo com a língua, a mulherada assim assim no pé do seu consorte, unido a ela pelo pároco da igreja São Miguel, na Vila São Miguel é claro. Um dia exagerou na dose de ciúme.
          Antônio torna ao lar noitinha, esfalfado, cheirando a suor azedo da labuta, quem sabe sonhando e pretendendo comunicar o sonho à realidade, por sinal linda realidade pois Maria dando razão às vizinhas em achá-la macaca horrorosa somente já meio velha, nova era bela e atraente; mesmo com aquele barrigão na espera do nenê. Nisto todos apostando ser hominho sobretudo Antônio na torcida ou menininha pra pôr vestidinho e arrumar para graça da vida conforme Maria; e podendo que fossem gêmeos, não sendo o caso. Ele retornava num burro de montaria, já velhote todavia andador, retornando de suas lides numa lavoura dos lados da Serra de Dirceu, mas eis o inusitado...
          Maria cultivara as ciciações vizinhas, crera no boato das comadres no falar gratuito e o recebe sem recebê-lo. Ora, como possível. Fecha-lhe a porta, dá dois giros na chave de impedir ladrões a penetrar nos lares honrados e temerosos. Ele bate ele chama ele clama por fim. Lá dentro uma vozinha enxuga com o avental as lágrimas e lhe despeja impropérios (sem usar calão, moça distinta). Lembra fulana e siclana; lembra ao esposo coisinhas mil que as mulheres costumam guardar a sete chaves e ofertam aos seus homens em momento oportuno; ela agindo assim num diálogo com a porta no meio... E agora? se pergunta o homem, dormir no sofá: não tinham sofá apenas móveis toscos e pobres; fugir à casa de mamãe, mamãe então já falecida!
          Enfim precisou prometer convencer sua bem-amada. Usou artifícios que usara quando simples enamorado de Maria. Usou palavras melífluas necessárias a convencer quem realmente desejando ser convencida. E entrou no lar, triunfalmente entrou; recebeu beijos e juras eternas; as quais apenas se permitem que não durem muitos anos, isso após a série comum de partos.
          Posteriormente o casal, cansado dos preâmbulos amorosos, vencido como todo par comuníssimo na rotina dos dias, dos problemas e das poucas esperanças que têm os homens da rua, findou como todo casal.



Capítulo Vigésimo Quinto
Têm certas jovens que desposam velhotes mais ricos que elas; e dizem nada desejarem do que é do futuro marido,  somente o marido. Infelizmente para elas o resto do consorte  vem com ele ao altar; é onde elas se mostram sem sorte.
         
          Tinha na igreja de São Bento, padroeiro da cidade, um sacerdote gordo simpático e baixinho, que falava alto o ítalo-brasileiro, um idioma mais próximo do italiano e do latim talvez que do brasileiro falado nas ruas. Ele quem fez na cidade a união do Berto Intalianu com a Cidinha, neta de Gena. Claro a cerimônia na urbe, mas o festejo do casório também ocorreu na zona urbana; e isto foi tomado como pouco conservador e fora do costume, o costume exigindo a festança em casa da noiva, a noiva no caso a residir no Bairro Ventania, área roceira. Porém houve certo acordo entre as famílias, os matutos herdeiros de Xará cedendo ao dinheiro dos peninsulares. Isto parecendo abuso de linguagem pois o noivo também brasileiro e nas conversas a falar direito o errado do povo, viciando como qualquer caboclo da época; mais, porque dizia “caroça” em vez de carroça arredondando o erre. Pouco importando: com o cerimonial do pároco a jovem Aparecida virou mulher casada e até proprietária dos bens – casas sítios terrenos dinheirinho no banco – do marido; com a pequena agravante de precisar paciência na posse total visto quase ele se tornar viúvo também dela, era viúvo da anterior esposa; por ser fortalhão embora idoso à juventude da moça.
          Inventaram a festa. Improvisaram como é ótimo ao povão; e aos ricaços também. Teve sanfona, a sanfona que tradicionalmente atraiu descendentes de italianos, um povo sentimental e musical. Teve violão etc., vinho gritaria gozações – o comum. Não obstante os de Xará vieram poucos, muito constrangidos em mostrar sua caipirice. Coisa de traje de modo de linguagem de abuso quem sabe. Um deles bebeu um pouco a mais que o hábito e deu algum vexame. Do lado estrangeiro, se é que se possa assim afirmar, um ou outro mais extrovertido que os extrovertidos da ‘raça’ tomando vinho no penico (não usado, que se entenda) certo urinol que fora um dos presentes bizarros que o casal recebeu. Sobrou na gritaria da festa o gritar dos meninos também, em inteira confraternização e apanágio das crianças.
          Contudo a festa é um dado se não figurativo e certamente desnecessário aos espíritos práticos, ao menos passageiro; dado que o povo reluta em deixar de lado e acontece apesar de crises financeiras, bem maior ela ainda no após-Guerra. Não propomos assim o conserto ao concerto do mundo.
          A festividade passou, passou também a fase dos comentários, o que se guardou como guardados foram as fotos onde se sorri ao passarinho na hora de explodir o ploc – se guardou tudo, tudo recolhido na memória de família a virar caso, ou causo para o matuto.
          Começa o período de casados, os ajeitamentos e cessões, as trocas constrangidas de carícias aos sem-jeito e daí a rotina posterior. São dramas comuns, são filhos que vêm em série; e os problemas ligados aos filhos, além das febrinhas. Aqui também entram desavenças e os acordos na amizade com a prole anterior de Berto. Mais tarde a disputa da herança, a herança que as mais das vezes é retalhada dividida subdividida e virada nada. Isso é tudo, diriam os do norte no globo para a tela de cinema aqui de baixo do equador.
          A disputa corriqueira, ou quem leva pra casa o butim da guerra pequena das famílias pequenas, não cabem nestas linhas. Vamos tão só a lances mais marcantes ou que possam ser marcantes aos acontecimentos nas várias partes destas Mil Noites-anos.
          Como acontecia frequente nos bares nas ruas nos lares da cidade, onde ajuntamento enfim, as pessoas ainda comentavam não os horrores da Guerra não vista in loco mas a sentir suas consequências após e concomitantemente à matança na Europa e na Ásia. Uma questão o racionamento. Daí participantes das festividades nupciais de Berto-e-Cida (no início assim, posteriormente quando a fêmea do casal pondo os pés no chão da realidade, inverte-se a expressão: Cida-e-Berto) daí eles a discutir, discutir aqui no sentido de se lembrar com muita memória e mais bravata ainda, a tratar em suma dos problemas vividos pelas famílias do povo mariliense. Racionavam as autoridades tudo em favor do financiamento bélico; em nosso caso em favor das Forças Aliadas. No consumo de tudo: gasolina sal açúcar farinha etc.. Estavam assim os moradores financiando a Guerra contra o Eixo; para tanto o abusarem os teóricos de chavões e palavras de ordem. O homem do povo a gritar as faltas a pagar a conta a corrupção solta ou a viver comportadinha nas filas em padarias, como a Expressa na rua Coronel Galdino; ou nas escadarias da Prefeitura a esperar requisição para compra controlada do alimento e outros bens, sobretudo o combustível aos veículos. É disso que falavam os convidados na festa de casamento que os de Berto Intalianu promoveram, com muitos abusos nos comes e bebes, a festa numa das várias residências do homem, mais precisamente numa encostada ao que chamavam Largo do Sapo nas proximidades da igreja e do padre italiano. Alguém a reclamar o quanto madrugara nessa época para conseguir meia dúzia de pãezinhos às suas crianças; ainda mais que eram pães de fubá e não farinha de trigo racionada, duros e amarelos. Outro ainda a lembrar veículos a gasogênio na impossibilidade em conseguir gasolina aos motores. Tudo de tudo se falando, até do cheiro da fumaça desses carros. Contaram casos, uns virando causos e até os narradores se entusiasmando e bravatando as verdades como convém desse sofrimento nessa hora de alegria nas bodas. Alguém lembrou-se do açúcar, então substituído por caldo de cana; falaram do sabor, da aparência, do enjeitamento dos meninos; enfim os dramas em maioria pequenos enormes em reflexo nos habitantes na fase de luta mundial.
          Curioso nisso e também noutras ocasiões haver a seguinte situação: num momento se esgotam assuntos, todos se olham todos experimentam uma sensação de vazio ou de cansaço (seria a língua esfalfada?)  É quando aparece o elemento quase surpresa, o qual dá seu toque – ou diz uma bobaginha ou lembra algo ou chama pelo nome algum distraído. Assim desmancha o silêncio, fosse encanto, e a expectativa. Gente é desse jeito.
          Lembramos à Caneta tal situação. Ela: não me venham com coisiquitas do homenzinho da rua, o qual só fala besteira, por ser um ser oco.
          ‘Contra-argumentar’ com quê?



Capítulo Vigésimo Sexto
Gente é um produto da Natureza com prazo de validade. Muitos de nós circulam com validade vencida.
         
          Os italianos andavam exaltados a esbravejar, parecendo briga e não era era seu manifestar rotineiro – a assustar Cidinha Intaliana do Berto? essa, mas então não demais assustada, acostumada com o volume da parola – esbravejavam agora os familiares nos seus encontros amistosos nada amistosos; alguns, o Santo nos costumeiros impropérios por exemplo e outros mais, mais gritando com o mano Berto em casa de quem a Mamma vivia.
          Agora a Nonna, chamavam-na assim os pequenos de Aparecida, agora o marido berrava a mãe dele no banheiro: caíra despida no banho a senhora, em desequilíbrio por sua validade ultrapassada nos noventa; não funcionando nem a cabeça nem o físico dela. A nora a torcer pelo ‘menos pior’ fora, dentro o filho a xingar a genitora cansado, a lhe dar instruções para se erguer ou a ajudá-lo ajudá-la levantar o corpo gordo estufado prostrado.
          Num guento mais essa ‘véia’! esbraveja o sujeito também passado nos anos. O homem vive da rotina vive na rotina, não se acostuma com a rotina; sendo a rotina tão desgastante e, supõe o homem comum, além do seu patamar de forças e paciências.
          Isso no dia a dia no lar da neta do velho Xará. À mãe por essas desgraças lamentava a filha; a filha de Gena engolindo o drama sofria porém e o costume e a compreensão de não se poder mudar as coisas! Ai ai ai a rotina.
          Todavia aumentavam os dramas quando os parentes em visita aos parentes, era o contar dos sofrimentos; sobretudo aqueles que giravam em torno da Nonna. A Nonna perdera de vez o juízo, diziam, fazia suas atrapalhadas, atrapalhadas constantes; agora mais amiudadamente num crescendo...
          Diziam também entre si, a disputar não quem fica com o tesouro, qual o de sangue ficará com a herança desgastante... Ninguém. Sobrou ao casal Cida e Berto cuidar da senhora inteiramente caduca. Na verdade à nora, o filho saindo sempre a seus negócios. De maneira que Cida além dos filhos os cuidados com a filha-sogra, ainda mais criancinha no esgotamento de sua mente. Isto inteligível por causa dos momentos íntimos, a Nonna continua a ser mulher apesar de não mais sê-lo, e aí precisando da nora nas relações feminis e nos cuidados em excesso.
          No entanto a situação ainda mais apertava nos trabalhos de Aparecida: a velha pusera na cabeça não estar em sua própria casa. Ora, Berto fizera um cômodo com banheiro à mãe, apenso ao seu lar. De repente pusera na mente precisar tornar à casa em Marília. Mamma, gritava ‘delicadamente’ o filho, a senhora está na sua casa em Marília... Aceitava, daí cinco minutos já alardeava esbravejava cantarolava a mulher desejar o retorno à Marília. Levem-na ao médico, diziam os de fora, fora é fácil realizar façanhas, e o hospital, chamem a ambulância, dá chá disto ou daquilo – enfim os palpites comuns. Contudo a situação se agravando. Um dia piorou na piora.
          Dona Assunta resolveu de vez e não apenas nos ameaços resmungados voltar pra casa. Num descuido dos adultos, menino nisso não conta e sequer é ouvido quando avisa, num descuido fugiu a velha senhora nos seus passinhos miúdos e arrastados. Fez mais, levou os trecos de sua mudança. Tomou uma vassoura, uma caixa de papelão pra si seus documentos, uma fronha onde pôs miudezas à guisa de saco de viagem, um pufe presente de alguém ao seu natalício, enfim seus supostos pertences; ah sim e certa mesa pequena, a qual entendeu na calada da noite passar pela janela estreita do quartinho, não conseguindo e por sinal quebrando duas pernas da mesma; por fim deixou-a largada num canto. Prosseguiu, iniciou no seu andarzinho e prosseguiu definitivo na fuga, ganhou a rua a arrastar seus badulaques, num esdruxulismo e ridículo flagrantes.  A gente que passava se surpreendendo ou quem sabe lamentando passava atrás de seus desideratos; alguns dos passantes riam da cena. Até que uma vizinha notou se condoeu da velhinha e foi convencê-la a tornar à casa do filho, “sua casa, dona Assunta, volte!” Lembrou-lhe os perigos que corria nas conduções loucas a passar, o problema dos bandidos nas imediações, argumentou como pôde.
          Chegam as duas, a nova auxiliando a velha com os apetrechos. Então o Berto, por sinal ainda a fazer sua higienização matinal e não tomara sequer o café, este que desperta todos brasileiros dos estratos mais baixos até os mais altos da população; então ele e a esposa e os filhos a receber a viajante de seu mundo caduco à comum atividade dos seres normais, ah que seria normal?
          E que atividade! Necessário fora um congresso daquela gente a discutir a questão naqueles recentes exageros. Foi um esbravejar um vozeirar nos comentários por todo aquele dia; uns a repreender a senhora, outros parentes a imaginar os possíveis desenlaces das coisas que poderiam ter ocorrido; aqui neste ponto entrando o hospital a polícia, quiçá a imprensa que existia então e que já possuindo grande fome de notícias picantes. E choros, isso: a gente comum aprecia dores gritos gargalhar e choro. Sabido ainda mais que os descendentes peninsulares têm melhor o choro fácil.
Capítulo Vigésimo Sétimo
Existe algo mais grandioso que o riso de uma criancinha? 
         
          Chegou aquele homem e ficou parado estátua no limiar da porta na residência desconhecida tudo sendo a ele desconhecido, tomado preso por aquela presença com dois olhinhos perscrutadores também presos àquela imensidão de gente. Ao fundo, bem ao fundo, a dona Assunta falava no seu idioma italiano pra ninguém fora os de dentro entender, ele não sabendo a língua embora marcado justamente nos campos de luta na Itália; ela enrolava, curiosamente não pedindo a volta ao seu país mas sim pedindo repetindo implorando o retorno a Marília, não adiantando que os familiares, a Cida Intaliana do Berto por exemplo, dissessem alto e em bom som estarem nas proximidades da igreja São Bento e portanto no coração de Marília. Isto não ouvindo o sujeito frente à criancinha. Ele com uma retaguarda terrivelmente dolorida na Guerra, elinha no ver a medalha na corrente ao pescoço e a brilhar gozado naquela porção de homem moreno sem que soubesse moreno. Moreno é um semantismo a tapear o medo em se expor e dizer direto preto negro africano, uma forma que as pessoas da época inventaram pra se inventar. Hoje aceitamos a situação sem resolver a problemática dela; sem aqui afirmarmos também não haver preconceito, o qual a poeira da civilização sequer consegue esconder debaixo do tapete de entrada ao palácio da sociedade; o próprio negro mais e mais se afirma agora em maioria talvez o negro sem pejo sem conotações que os subentendidos brancos desejam esconder; então admite-se e pronto. Na época tratada havendo forte empecilho e a barragem aos ‘de cor’ sempre que possível, não obstante já serem numerosos na população e congregar com outras ‘raças’ os provindos da sofrida África. Na pobreza tudo bem a aceitação ou tolerância velada, entre os que se diziam ou supunham com posses a situação diversa; aos de Berto por exemplo. Ora, a fim de molentar o ferimento o cidadão claro alcunha ‘moreno’ ao preto para lhe diminuir a ofensa; os de cor têm sempre, supomos, tal sensação... Agora, o adjetivo foi empregado aqui sem escamoteações: Luís de fato moreno por queimado pelo sol, porém de ascendência portuguesa branca, embora cabelos cacheados, longe do pixaim dos afro-brasileiros. Perdido no achado.
          Vivia sem norte sem horizonte, um problema aos familiares, nunca chegando à caduquice da Nonna, ainda a enrolar naquela hora do limiar do portal de entrada da residência Intaliana. Era tão só um despojo de guerra da Guerra que ainda ecoava em estrondo na pobre cabeça. Muita vez Luís deixara um diálogo a sair correndo espavorido e loucamente pela via pública. Nesse momento encontrara acaso a saída da entrada e via a criança.
               O garoto caçula, bisneto de Xará sem o saber sabendo apenas Geninha por avó, andava parado a olhar aquela imensidão de homem, que não passava de pessoa mediana magra assustada, então embevecida diante da maravilha do milagre da natureza, que é uma gentinha a tentar ficar e permanecer sem cair de pé. Olhavam-se e se não mediam, a sentir só o momento; nem elinha conscientizando os barulhos rotineiros do lar por costume; nem elão embasbacado em ver a figurinha de guri – tão longe ah tão astronomicamente distante dos horrores da Guerra e só a observar desconhecidos pra conhecer. Olhando via lá em cimão uma cara gozada na cabeça de cabelos enrolados olhos curiosos quem sabe mais curiosos que os seuzinhos e se prendia mais que o mais num incisivo encapado em ouro e na corrente com a medalha que brilhava ofuscando quase os raios matinais. Havia nesse tempo o hábito ou vaidade no uso de ouro na dentadura, mesmo na postiça a imitar dente natural; o personagem em questão carrega um filete a alumiar. Claríssimo que os ladrões de tumba desfizeram o costume com a eficiência do seu trabalho... Enquanto Luís examinando bestificado aparvalhado a promessa de existência de ser de esperança de alegria e de vida, morta a guerra e a violência e o sofrimento que vem do ‘megassofrimento’ e apenas se apaga, momentaneamente quiçá fosse eterno – apenas se apaga no lapso do sentir a felicidade na felicidade feita criança. Nisso...
          As mamães aparecem para estragar desmanchar um profundo que desejara ser alegria e é com certeza amor dos melhores que o mercado não vende.
          A Cidinha, então já se ‘matronando’, surge apavorada diante o perigo da cria ingênua; num relance lê o todo e relaxa; diz antes alto “graças a Deus”, não fala haver recuperado o filhote são e salvo das garras do mundo, da violência, do medo, da perversão, do incognoscível – apenas sorri alívio.
          A outra mãe é esposa tão somente. Sofrida, Esperança, dona Esperança era uma senhora passada, nervosa não apenas pelo neurotismo do consorte aqui a trocadilhar sem-sorte. Senhora alta magérrima acabada na visão dos de fora, a manter o lar com trabalho no magistério e tida por indesejável aos alunos, até sua voz fina num gutural de arder orelhas a inclusive desprestigiá-la. No entanto uma angélica criatura a levar seu homem nas costas desde que a Guerra o vomitara sãozinho por fora. A correr atrás duma criança com medalha de honra no pescoço e a fugir do norte que lhe fugira. Uf! disse a mulher, perdão senhora, este é meu esposo, não se amofine: é um ser pacífico, louco sim por criança; nunca tivemos a nossa, dizem que não posso engravidar... E travaram um rápido diálogo, dum lado a mãe no colo o menino; doutro a mulher estéril, uma dos números da ignorância machista na ocasião; hoje sabemos nós homens comuns que a infertilidade pesando não só na fêmea da espécie, talvez mais ainda no garanhão descaracterizado que nela.
          Não sabia. Não sabiam.



Capítulo Vigésimo Oitavo
Quando nós, os velhos, não pudermos aguentar mais dar bons conselhos e maus exemplos aos jovens, estaremos, é certo, no final da jornada.
         
          Gente de vida fácil não entende dessas coisas, diz a Zefa viúva do seu Zé, velhinha velhinha sem idade com tanta idade, diz a contar à boca pequena – quer dizer para alguns poucos filhos não brigados e alongados pela questão da herança e da atrapalhação da herança – o fia da ‘p’ (aqui xinga a mãe do advogado) esse comeu tudinho e... ah depois retoma a argumentação ou só lembrança a recordar agora tão só aos netos. Tem um grandão menino desengonçado o Alberto, Betinho embora agigantado puxando o avô; uns poucos netos sobrantes da guerra na disputa dos bens; o Beto filho do falecido Arlindo, Arfeio na linguagem doméstica desabrida da comadre Gena, aquela linguaruda, ele o que menos dá palpite na reunião familial e sequer indaga as coisas: só ri envergonhado. As meninas, uma delas é filha da filha mais nova da velha a qual teve seu alemão em fuga deixando os cabelos loiros no ventre, as meninas todas de todos outros filhos nesse aniversário da senhora falam apreguntam e mordiscam o dizer e todas riem e chegam inclusive a gozar pelos disparates avoengos; Zefa falha nas falhas e afirmativas sabidamente antes verdades. Aquelas de vida fácil – diz em chavão de repetições vãs – essas vagabundas roubaram tudo que o José (comumente a ela Zé mas a dar importância e vitimismo fala agora José) tudinho mesmo que o José ganhou trabalhando suando na lavoura e ganhou até dando escola, sabiam que foi o primeiro professor no Alto Cafezal!? Elas corrigem pra Marília, a velha concorda discorda somente das safadas.
          Realmente se refere às profissionais do sexo como o povão diz “putas” e mil e um outros nomes depreciativos às pobres. Em casa a repetir repetir repetir fala falando em termo das perdidas das sem-vergonha a envergonhar a gente. Nunca admitiria fora de casa (não sendo por andar quase entrevada e nem mais pôr a cara fora da porta no máximo indo ao quintal. Não:) nunca mesmo aceitaria contar delas como o faz no tim-tim por tim-tim no ato de xingá-las, mais às suas almas pois as meretrizes têm sempre existência curta; nunca diria assim aos de fora dentro do lar em visita ou àqueles de fora fora mesmo.
          Contudo isso é um desentorpecimento, uma fuga, quem sabe desabafo e justificativa ao seu estado de pouco mais que em penúria. Isto grave a quem fora anos abastada ou apenas rica em meio à pobreza dos próximos seus distantes.
          Lamenta, atormenta as orelhas íntimas acostumadas a dizer sempre a mesma coisa do mesmo.
          Parece-nos que as viúvas dessa época, época do pós-Guerra, eram senhoras desempregadas; empregadas antes no servir válidas seus homens. Os quais a julgar pelos chavões religiosos (a Zefa mui carola inclusive) a julgar por isso, estando nos céus.
          Contaria esses dramas, o da perda das terras quase todas penhoradas, contaria à comadre Gena, tendo o cuidado em não referir-se às partes melindrosas ligadas ao finado da comadre, sobretudo na questão da opinião que tinha seu Zé a respeito... Contudo Gena também fora há poucos meses à cidade dos pés juntos. Juntos todos indo ao paraíso.



Capítulo Vigésimo Nono
Morrer é desintegrar o todo que resta, após a parte desaparecendo à prestação.
         
          Os mortos estão vivos. Zefa foi – antes que ela mesma morresse na lerdeza própria do seu ser e no entrevamento com a idade, e a Guerra acabava, cansada, exausta, ela não sabendo a miséria mundial a pensar apenas na sua miséria como é bom ao egocentrismo o qual dá preferência ao próprio sofrer – foi acompanhada do seu buquê em visita ao esposo. Reviu sim os túmulos dos conhecidos e quase se esquecendo tumbinhas do seu sangue; reviu o Xará, logo a comadre estaria a aguardar uma flor também, depositou a do compadre, aproveitando a criticar o desleixo da família dele: os vasos secos, quase nenhuma vela derretida, que é do gosto dos cadáveres (aí se assustou um pouco: o compadre deveria ser não mais que ossos). Fez esforço máximo em não recordar as desavenças dos chefes de família, ex-chefes; não suportou porém o assédio na dúvida anos posta: não teria o ‘hominho’ induzido seu ‘homão’ a se perder com as perdidas daí perder ela às outras as propriedades! Pôs rápido uma flor do buquê, nem se entregou à vingancinha em destacar a mais feia das mais belas, pôs aleatoriamente uma qualquer e saiu a pisar firme à casa do de sua casa. Andava lá imponente a tumba do seu homem! ‘Genuflexou’ orou chorou acendeu um maço todo a iluminar seu Zé. Seu Zé não respondeu, caso tenha correspondido. Decerto abrindo orelhas, não podendo mais se fazer ouvir nos berros que dava à consorte trocadilhada sem-sorte. Abriu ouviu reviu forçosamente não conseguindo fechar a boca escancarada de Zefa nas questões do seu matracar. Sabe Zé (Zefa em revide talvez da antiga maneira de tratar ele ela, não o chamava num habitual nhe-nhe-nhem querido e meu amor: Zé pura e simplesmente e nisto não importando, importando estar só no cemitério onde apenas quem ouve não escuta; ainda mais com o vento a levar embora os sons) sabe Zé, que não tenho mais com que viver; as vagabundas e os vagabundos, os ladrões ficaram com tudo. O povo fala, gente é mesmo faladeira, fala que nossos filhos jogaram tudinho fora com brigas e intrigas; penso em contrário: foram eles e elas, eles a mando delas – num confio nos advogados, já desconfiava quando você morando em casa – querem agora tirar a casa da gente; quem sabe entregar a... (chorou desesperada Zefa). Quero dizer uma coisa chata procê, Zé. O Pedro já brigara com o Arlindo, você também havia encrencado com eles e já batera muito nos meninos; agora tem o pior: o Arlindo se envolveu num bar com a gente desclassificada da Zica, num saiu nenhum deles decente tudo porcaria. Uns falam que ele matou o outro, outros dizem que o outro matou nosso filho – os meninos não querem me contar direito. Vai ver você saiba melhor que eu nisso; me mostre o túmulo dele! É isso, Zé. Num dá pra ficar louca?
          Zefa sai em passinhos, não vê, vê que já estando no portão e vem vindo um cortejo com urna desconhecida e acompanhantes desconhecidos na situação estranha. Anteriormente presenciara um mortinho um caixãozinho um cortejinho no finzinho do cemiterião. Agora vê a entrada na saída, aguarda, curiosa, passam, escapa ao portão ganha a rua perde-se no todo rumo ao lar. Certamente demorando Zefa a retomar o conforto que a rotina e o hábito dão às pessoas ainda vivas.
          Não soletrou ao sair o dístico na parede “retorna ao pó” ou “descanse em paz” porventura existente. Uma analfabeta de pai e mãe, goza ainda e sempre o povo irreverente.



Capítulo Trigésimo
A sombra. Ela vinha de longe ali perto, seguia os três sem que se visse; contudo seguia seguia os que seguiam: a menina entremeio o casal a matracar as coisas. De relance elinha a viu, entreviu a se esconder do sol matinal ou da própria sombra a sombra. A sombra não era a sombra mas três sombras, a pequenina também de entremeio e a se chocar com as sombras grandes, uma delas teimosa em ser grande só maior que a pequena. Aí viraram os seis a esquina: de repente ela ao triplo se unificou e sumindo a brincar correndinho atrás da gente à frente da gente. Então desapareceu com a gente, desaparecendo os vultos as sombras o fim da rua a rua a vida o nada, tudo, o silêncio, não estivessem já em silêncio. 
         
          Naquela segunda-feira, era uma segunda-feira, eles pisavam o solo sagrado da urbe; pois o trabalhador da lavoura aprecia bem da roça descansar cansar as pernas nas compras das lojas abertas na cidade a esse fim, a fim de é lógico vender comprar pagar ou desatrasar a dívida em momentos de crise, era ainda o tempo do prolongamento da matança europeia que já passara também e deixara também outra maior crise que as de rotina; isto o pensamento do lojista vendedor, o patrão, não o do comprador eles apenas compradores. Estes, roceiros, imaginam adquirir maravilhas, levar pra casa no caso em Avencas, menos que núcleo do distrito de Avencas em direção do Paraná, vivendo mais na lavoura mesmo, porque os três trabalhando numa fazenda, pretendiam maravilhas – mas a fêmea da espécie e de nome Maria, talvez do Rosário talvez da Conceição, ela desejando alguma quinquilharia à sua vaidade que a possibilitasse ficar mais bonita – maravilhas como pão de padeiro, agora já de farinha de trigo, que fosse com alguma corrupçãozinha e se pusesse na massa algum fubá ou farinha de mandioca mais branca enganando melhor trouxas que amarelo do milho, tão branca a mandioca quanto o trigo. O lavrador sempre valorizou demais o da urbe sendo embora o pão de casa mais sustancioso. Tanto assim ser uma alegria à criançada roceira o ver desembrulhar embrulhos, claro a expectativa do doce e demais confeitos, sobretudo o pão a fazer terréque terréque nos dentes. Impossível voltarem ao campo na cacunda do caminhão do seu Tonho sem pão.
          Querendo o trio, querer aqui abusivo pois a menina sem pensamento no pensamento adulto e sem querer: gentinha vai volta faz (chora à vezes; às vezes apanha) e segue os pais. Pensamento dos pais; queriam visitar dona Zica agonizante na tuberculose, rever alguns outros familiares, rever sim mais a velha pra consolo de Maria filha dela; não obstante precisou, precisaram aguentar as lamúrias do Chico da Geninha nas faltas e falhas de Geninha e nas sobras da filharada, pois imaginem que a mulher tá de bucho grande outra vez! (sempre o macho culpa a fêmea...) Sim, precisaram suportar desafetos do sangue, não do sangue do João da Maria, da Maria do João. No entanto, visto os parentes, o melhor era a compra do além que necessário, o necessário adquirindo-se na venda em Avencas mesmo, não precisando viajar a Marília. Em geral o lavrador se dá a esse luxo, o das compras, se dá ao capricho nos sábados e nas segundas, era segunda-feira de preguiça na cidade.
          Iam após andarem conversar bastante e cansar muito mais em direção da rua Coronel Galdino. Esta uma de concentração roceira: caminhões, tratores pouquíssimos o trabalho sendo mais na enxada portanto manual, carroças, cavalos mulas burros amarrados em postes não havendo mais como nos primeiros tempos aqueles fincados para prender animais, gente muita gente famílias crianças a dar preocupação ou só a fazer algazarra – todos a deglutir alguma guloseima, enfim um movimento geral. Isto ocorrendo também noutra vertente, a rua São Luís. Iam para lá.
          Foram chegaram; chegaram à cidade cedinho antes do sol, tornavam quase no lusco-fusco do poente. Uma caneta, a Caneta, notou o trio nada apressado.
          Ele parolava grosso miúdo de corpo; ela ‘belava’ seu cheiro, houvera comprado umas águas e esdruxulava os sentidos do macho sem espécie quase, sobretudo a ferir seu olfato; ele: Maria, qual meu bem coisa alguma, não são poetas os poetas sim lavradores com pés no chão; Maria, que catinga! e se ria matreiro. Ela: hum... e dava tapinha de amor ou de temor ele embora sendo pacífico no costume de então da surra macha pra valer nas fêmeas da espécie. Manso. Isso, manso e trabalhador o João da Maria. Falavam sem parar, destravada a língua sem o pejo da enxada. Só a garotinha não dando palpite. Quer dizer, criança dá sim palpite, apregunta todo minuto, os adultos é que não percebem só pensando nas coisas sérias e irrealizáveis ou somente realizáveis parcialmente com muita interferência da realidade. Falava mostrava gritava mostrava indagava mostrava gritava pegava um que outro nunseiquezinho, porque menino encontra tesouros escondidos aberrantemente expostos no chão, apenas vez que outra a mãe a arreliar “larga isso, porcaria!” a porcariazinha deixando por outro tesouro logo mais o tesouro. E todos, todos mesmo, a aguardar logo chegarem no cansaço no calor na modorra à sorveteria, deixar no piso as matulas compradas, a esperar condução.
          Muitos... não alguns somente alguns roceiros, vindo indo de bicicleta, aquelas pesadonas inglesas da época em que tudo se importava nas terras do Brasil. A maior parte das pessoas no lombo da montaria ou nas carroças ou a esperar chegar o caminhão ou a jardineira; então os ônibus fechados e grandes apareciam mais e mais. No caso a familiazinha em aguardo de sr. Tonho. Nesta figuramos uma de apenas três pessoas, um filho, coisa de rico, pobres; incomum, pois geralmente a casa  da gente do povo tendo quatro ou cinco filhos; anteriormente eram numerosas as famílias pobres: dez ou mais na prole.
          Se foram. As sombras também, também a poesia com os últimos raios de um sol preguiçoso. Ora, por quê não existirá igualmente ao sol a segunda?



Capítulo Trigésimo Primeiro
 Quando alguém ri para nosso lado não sabemos, a rigor, se está  rindo pra gente da gente não viu a gente.  Que faz a gente? a gente sorri com educação.  

          Sacolejava aquela bonita caçamba que é a carroceria do caminhão, de todos caminhões não apenas o do Tonho; com as cargas dos matutos aboletados como podendo no sacolejo: sacos e mais sacos sacolas e embrulhos pacotes mais a trililicar em razão dos buracos lá embaixo por cima embaixo os pneus saltitando a rolar a rodar sem parar – nem um que outro candidato à carona na beira do estradão o chofer aceitando e inclusive gostando na pressa quem sabe em chegar e daí o pé: pé no acelerador, firmeza no volante do carro parecência com trator de feio e belo no choro do motor, o motorista impávido qual imperador general chefe sério sem falar falando mais a seu lado as duas mulheres na cabina (ele irritado com?) E o trio na ‘poli gente’ agrupada em família e os sem família: tem sempre aqueles peões diarista que têm o chapéu por moradia, a flertar com as moças do lugar (qual lugar inquire a Caneta Intempestiva da Silva, quaisquer arrespondemos irritados por nossa vez com a intervenção indevida estragando o ímpeto as linhas o estilo da gente, pô nós falamos “nóis fala” fala o caboclo; eles ali em cima da carga também eles carga; qualquer lugar); não somente isso, isto: o peão a comer onde pode, onde possa a educação doutrem oferecer, ou como diziam o Santo e sua santa italianada  “é uns fila bóia”. Pode uma coisa dessa! O trio não pensa nesses termos, vive nestes termos e quem vive não pensa que vive, tão só o crítico a rabujar compreender gozar ridicularizar sorrir importância e não viver, pode? Vivem, ele a contar algo a um conhecido apelidado amigo ou colega; ela não fala no momento, apenas olha o perigo daqueles ventos na carga a soprar-lhe as vestes um vestido rodado e mostrar as ‘intimias’ e aí se peja; elinha resmunga cansaço sono necessidade em fazer xixi e quem sabe lá a cama, que é dura fofa quanto possa porém da gente com o afundado da gente o quentinho da gente e o cheiro bom da gente, não é doutora a doutorinha mas já sabe disso e resmunga. Os outros esparramados por cima da carga, tem um que ri. Ri por rir ri do ver ri para contatar ou constatar se encontrar vivo, nunca a gente sabe; sabe depois: é bobalhão e pronto; ora, por que todo mundo tem que frequentar a elite na academia? João arrisca um acho que vai chover ou tá quente ou como os outros em volta a desandar em conversar de lavoura colheita preços e acima de tudo nas dores; não cola não pega: sorri o que ri, ainda sorri não conseguiria gargalhar decerto. Todavia João matraca com outros homens, vez por outra com as mulheres também aboletadas segurando as criinhas ou os pacotes ou só mastigando de boca aberta balas-doces, não dá pra encher mais vazios em não ser com os machos e se contam as coisas, a coisa em Avencas tá difícil pelos preços a carestia e coisas assim.
          Avencas vem vindo correndo encontrá-los, deve distar uns dez ou doze quilômetros, dos bem cheios, do Cemitério da Saudade, o que não nos autoriza dizer que está além ou aquém da morte, inclusive se podendo garantir ser após muita vida, isso é que é isto. O caminho que fazem os passageiros – passageiros que não pagam ao Tonho passagem como o fazem na jardineira e o diabo é ela ter horário enquanto as necessidades não têm e exigir e assim vão vem voltam em cima do caminhão igualzinho carrapatos grudados no couro do burro no pasto; sim os ‘passageiros’ o carro e o condutor que é magricela e feio igual o pecado, dizem os da oposição não sendo opiniãozinha da garota caçula do Tonho tão apegada ao pai – esse caminho que perfazem desde o cemitério de Marília é qual seta voltada ao vizinho estado do Paraná, este um lugar que os que viram viram foi terra roxa escura avermelhada quase negra em tinta e Deus me livre na chuva no barro e a sujar eternamente a roupa da gente, falam as herdeiras de Eva, ah a nossa é rosada, um arenito que também se avermelha com mais vento e mais poeira, isto sendo ruim (o povo pronuncia “rúim” não ruím) sendo sim ruim aos olhos da gente, a pequeninha chora grita a poeira ruim e é bom sendo boa para a agricultura a gente pensa pensa decerto o cafeeiro e o milho e o feijão ali em torno de Avencas plantados. Tem outras pessoas ainda mais a falar.
          Tem um preto magro ressequido até e velho por teimosia da natureza decerto indo visitar não sabemos quem, é quem diz às orelhas: pessoal, pensa logo na aposentadoria! fala de fato “pisentaduria”. Trabalhou anos sem fim na Prefeitura. Antes matava saúva por aí; explica como ia com uma carriola levando o fole e o veneno fedido, a assoprar aquilo com fogo nos buracos da cidade, os buracos da formiga não o Buracão em torno da urbe; lá diante cuspia subia a fumaça noutras e noutras saídas de entradas das pragas. Oh fez isso anos com um colega ajudante, o colega morreu, que Deus o tenha; ele? ali indo com a gente. Depois? depois trabalhou (disse “trabaiêi”) como lixeiro: tinha uma carroça azul da Prefeitura e o burro velho manso ensinado, imaginem que eu subia a rua Nove de Julho varrendo catando lixo com a pá, bastava bater na caçamba com o cabo da vassoura pra ele já ir andando potrofe potrofe mais quatro metros e parando o burro com sabedoria; era assim. Assim narrou no mais ou menos das coisas para o auditório movente.
          O pessoal ouvindo aquele contar vendo a estrada a passar suas margens apressadas na paisagem lenta ansiosos de chegar os chegantes e de os encontrar ela, a estrada. Ao longe ali perto o escurinho quase da noite o sol se pondo de vez pra lá pra cá do patrimônio. E além do patrimônio havia muito ainda para eles, o João da Maria pronunciava gozado não ‘muito’ porém “múntiu” por ser baiano; havendo sim muito aos três a caminhar ‘deapé’ ainda.



Capítulo Trigésimo Segundo
Observo haver mui comumente a defesa, amiúde feroz com unhas e dentes (na língua) da mulher com respeito ao seu homem. Fico, em maldade, ruminando que ela quer a  exclusividade no macho a fim de poder brigar sozinha sem concorrência com ele.
         
          Trinara o telefone do ponto de automóveis de corrida dependurado num poste na Avenidona. A partida o funcionar o chispar o veículo; o chofer vai buscá-lo na estação ferroviária e depois levá-lo à casa da velha dona Zefa. Essa ali, diz o advogado engravatado perfumado ao condutor do táxi. Desce, tenta a campainha desligada, tenta após umas palmas; abrem a ringir o portão, despede o carro com um aceno desgostoso de mão; mais desgostoso o profissional a esperar que o doutor voltasse e aí ganhar mais uma viagem. Funciona e assim parte o Nego.
          Tinha um da Zica que dera certo, pichada como foi toda sua prole. E deu errado. O Nego – fosse lá apelido ou abreviatura, mas sem inutilizar suas qualidades visto todos terem algumas mesmo sendo poucas, ou a reduzir seus defeitos, houvessem – o Nego aprumou na vida, embora não havendo o passamento materno deixado qualquer herança pecuniária dada a pobreza da família, levantou-se por conta própria; aprendeu a dirigir, obteve carteira, em Marília falamos carta de motorista ou só carta, pôs-se como chofer. Primeiro como empregado depois como endividado proprietário; pagou, antes disso se casou nos conformes em festa acanhada e familiar apenas, o que compreensível indo a morrer a moribunda velha Zica naqueles dias, como de fato faleceu – não se festeja a morte em nosso Ocidente, acanhando mais ainda a reunião de núpcias, tornando a mesma mais formalidade que outra coisa. O que importa é ter desposado uma pobretona de Lácio (não obstante o nome a dar ideia de magnificência, um distrito da urbe, apesar de possuir uma estação de trem; posteriormente desativada). Em todo caso uniu-se à Margarida, fez nela três filhos, até a matriz virar matrona, enfear; enfeiar diria a Caneta para não ficar feio; e enfeiaram a seguir na discussão conjugal, daquelas discussões desmanchadoras de lares, numa só coisa concordando o casal ou seja em pronunciar ambos desafetos “discutição”. Ela vive com a gente numa discutição danada; ele sempre numa discutição sem tamanho, chorava a fêmea da espécie, espécie de vítima. Ora se entendiam pelo trio, mais pela ‘rapa do tacho’, petitica uma belezinha; ora cansados de brigar paravam uns dias. No fim o fim. Ele, ela falando com razão decerto, ele se desencaminhava no ponto. Não aqui a dizer estar no ponto, no de táxi.
          Nego havia conseguido lugar no ponto central de Marília, sito na Avenida Sampaio Vidal, esta espinha mestra da cidade, onde o movimento era grande e fora enorme mesmo na crise de Guerra e por isso se ganhava bem com o Ford 41, ano 1941, preto como quase todos táxis (os quais não recebiam tal nome apenas automóveis de corrida, quer dizer de aluguel); o carro do Nego não parava. Parava sim, entretanto mais na casa da Odete. A quem não a conhecesse e todos na praça e com mais certeza os colegas pracistas a conheciam; e piormente a esposa do Nego, a Odete era sua freguesa preferencial na rua Bonfim... As reticências incomodam a dizer que na ocasião ali morando em geral a vida fácil das mulheres, a Odete uma delas (quem sabe se não a mais bonita ou cativante!) Aí a piora piorou pros lados da família do rapaz, por sinal não tão novo como rapaz, a pintar um pouco a neve do tempo seus cabelos. Logo somente fazia visita aos filhos, deixava algum dinheiro à esposa, vivendo mais fazendo corrida à noite, o que todo conhecido interpretava como sendo a residência da outra; a filial?
          Por fim mudou-se de mala e cuia, isto expressão válida na época e da lavra dos poetas populares, mudou-se à casa da ‘amiga’, nesse tempo com significado de amásia e amante – hoje podendo ser apenas namorada – deixou os seus; e depois ainda se foram para a capital; levando também o quarto filho dele e primeiro de Odete, um bastardinho segundo a oposição oficial; a matriz?
          Nunca mais tornou. Deixando que o fisco tomasse na dívida ativa a propriedade onde morara na Vila Palmital; deixou que os filhos, inclusive a caçulinha “dodói do papai” mordia em dizer a esposa numa ciumeira até pelos filhos, deixou enfim que eles ficassem ao deus-dará. Ou isso apenas opinião da desafeto consorte.
          A Caneta: “já vi esse filme antes...”
          O que é de uma originalidade espetacular e daí concordamos em gênero e número, pra também sermos originais. Todavia há certa agravante.
          Seguinte. A esposa foi a maior defensora do esposo, em todos os tempos da vida conjugal e mesmo desde o namoro. Aqui se separa a linha de fuga, quando oficialmente passa a ter a senhora enfeiotada e gasta sido provocada por uma Odete bonitinha e mais nova. Foi defensora a pés juntos, de jurar às vizinhas, de viver referindo-se ao seu homem como homem santo. Até prova em contrário.
          Não que não existam santos e a viver nos conformes; inclusive auxiliando a companheira a envelhecer envelhecendo juntos. Garantido não ser o caso do Nego da mãe Zica.



Capítulo Trigésimo Terceiro
Numa sociedade como a brasileira que discrimina negros mulheres e idosos, como  revelou  o  IBGE,  o Serviço Público  pratica  Justiça  em  relação ao Serviço Privado, pois não pergunta cor sexo idade – faz injustiça a todos pagando por lei o mesmo baixo salário com garantia legal. 
         
          A gente ia de vez em quando ou no melhor da rotina todos dias à Prefeitura. Seja feito o esclarecimento seguinte: Ela, não a prefeitura a Caneta, Ela indo só pra olhar fiscalizar (mesmo porque nesse tempo as esferográficas azuis de plástico ainda não inventadas, existindo porém a mãe ou avó dela tinteiro; oh quem pode com quem não respeita o tempo nem vê a esteira do tempo!) ia tão só a xeretar abelhar pilhar de fato a gente em flagrante desvio ou erro; e nós íamos trabalhar como office boy na entrega das coisas como guias e outros documentos nas repartições – a Coletoria, o Banco, a Delegacia de Polícia e viíge como a gente menina moleque com medo das fardas! e também a dita Prefeitura – após a tornar ao chefe na rua São Luís, mais especificamente o Escritório Cruzeiro; quer a Caneta que nos lembremos do número do telefone a comprovar? pronto: 6186. Daqui levávamos pilhas de livros nas costas rumo aos clientes mas a gente falando mesmo fregueses. Bem. Numa dessas nos deparamos nesta ‘Capital da Alta Paulista’, este o slogan em voga, nos deparamos, dissemos, com uma série de trabalhadores a descansar.
          Expliquemos isto, ou confundiremos isso.
          Havia então a fama do chamado barnabé, o sujeito que quando muito carimbava papéis ou no desfastio tomava cafezinho obrigatório à classe e... recebia altos salários se aposentando com proventos nababescos. Claro ser uma pincelada da oposição, ou seja o trabalhador comum – aquele do pesado do suor bastante e recebimento pouco – esse achando que os de terno e gravata nada produzindo, igual o Preta.
          O Preta provindo da ala branca, quase caucásica se não dolicocéfala de olhos azuis, nada tendo com os seus, quer dizer: os familiares morenos, pois o genitor de Preta, filho da Zica pretíssima, era um pai sumido, esse pai austríaco ou alemão, desses tipos que vêm a passeio e desaparecem como vieram. Porém deixam a semente. A semente virou vindo à luz Preta, cresceu e desvirou gente da humanidade comum pra virar barnabé da Prefeitura local. Esse neto da Zica passou a usar a farda de funcionário público: o terno e a gravata. Fez mais: esmaltou as unhas tratou as unhas como donzela – a produzir nisso horror e asco na gente de bem, dessas que na época, além da Guerra já, dessas que viam com maus olhos mulheres que fumassem ou dirigissem automóveis. Imediatamente pichadas. Pichado.
          Contudo o Preta, supomos o nome haver vindo do costume da avó dizer aos netos “vem cá minha pretinha” seria por isso? contudo ele era do tipo que amanhecem na repartição e voltam pra casa noite e ainda a se recriminar não haver feito tudo... portanto demais trabalhador honesto e amigo. Amigo aqui tem uma extensão enorme, pois comum o comum ser tratado de má vontade, ele tratando tratavelmente e inclusive a ofertar sorrisos na entrega e devolução dos documentos de nosso métier; mais que isso: sabendo, e, brincando amistosamente por isso, o nome de muitos boys; era ele (atentemos ao tempo do verbo) desse tipo de perguntar da família da gente e contar a última febre do seu mais novo garoto. Ou a lastimar ter que cobrar tão alto imposto e ainda com uma agravante de não xingar a Prefeitura, sua patroa, pelos baixos salários. Além do mais fazia amigos por seu gosto ao brincar, respeitosamente, com o pessoal na fila; imitava na voz rouca os dizeres de italianos e mais de japoneses, conhecendo inúmeras expressões; todo mundo quase acabava rindo embora na espera.
          Com isso ficou popular; ao menos entre os meninos que tinham por hábito dar irritantes pancadinhas no balcão com as fichas metálicas de ordem de chamada para entrega no guichê. Recebia o documento, sorria ou dizia qualquer bobaginha e imediato se punha a carimbar e escrever por cima de selos doutros documentos doutra gente. Gente. De fato mui gente.
          Gente morre. Engordara nos últimos anos, estufara a barriga, a ponto de à toda hora ter de desapertar a cinta na frente do freguês, nós. Nesta região invertemos o significado às vezes: o cinto é objeto de uso feminino; a ‘cinta’ como posto aqui, para segurar as calças masculinas. Faleceu não de morte morrida (não sendo um matuto). A nos fazer verter lágrimas.



Capítulo Trigésimo Quarto
É de muito bom falar o se calar. É muito dizer não falar.
         
          Um dos de José – seu Zé Professor, que a terra lhe seja leve embora briguentão com o compadre Xará briguentinho, ambos a dormir em paz na Saudade – um deles não virou engraxate, engraxado. Não também que postulasse ser daqueles meninos de rua nesse tempo com sua caixa às costas nela estando as escovas as latinhas de graxa para sapato, não; positivo negativo ao pai: seu Zé (antes de morrer é claro) não permitiria que um dos filhos saísse por aí, antes deixando-o no cabresto do serviço na enxada, “pra ser um homem sério” dizia. Não. Virou homem casou comprou sem ajuda da família do pai, então arruinada, um caminhão velho, ao menos bem usado, ótimo à oficina e mais ao japonês proprietário dela. Usado, mesmo porque no pós-Guerra não sendo fácil tirar um carro zero na agência. Tinha a International na rua Nove, perto da linha do trem, a trazer sob encomenda caminhões a quem se pusesse, com dinheiro volumoso, a esperar na fila. Havia a agência Ford na Avenida e a Chevrolet que era duns turcos; optou pela marca International, ainda assim um veículo gasto, não a esperar novo na fila. Não foi portanto o caso do Mário. Dizem que o cartório registrara assim ao garoto por influência da mãe: Zefa apreciava nomes italianos, seria italiano? Daí seu Zé obedeceu a esposa, exatamente por apreciá-lo igualmente; mas isto senão. Um senão que iria a engraxate... não, engraxado.
          No exato momento em que alguma coisa ocorre no planeta, nesse, Mário tentava remover a graxa preta pegajosa teimosa difícil de arrancar dos poros da pele queimada de suas mãos, haja estopa, haja gasolina cheirosa amarelenta a embeber o molho de estopa que o Shighero lhe passara rindo do desajeitamento do freguês de sua oficina... Ele coça passa esfrega e se diz “agora saiu” não saiu tudo das mãos, não desapareceu a meleca; com agravante. Tenta outra, outras vezes, e ainda a mancha mancha e aparece; e piormente o cheiro; a gente se acostuma, o Shighero num tava nem aí lá com o cheiro, nem distinguindo mais a coisa, coisa normal no seu comum; o freguês se metendo a seu auxiliar entretanto assopra a ardidura que fica do combustível penetrado na epiderme. Com agravante. Além de o caminhão de fazer carretos em fretes mal pagos quando pagos haver quebrado, apesar disso ficou novo, velho. Usado e ótimo à oficina, voltando ao japonês com frequência de toda semana a consertar e a conservar o ganha-pão do outro. Tem, pensa agora o Mário, uma agravante. É que a Maria, debalde ele falando e demonstrando o carro na rua no meio fio da via pública ali exposto então de volta pra casa, bonito e prontinho para sair buscar tijolos numa olaria a fim de render alguns trocados pagar a prestação e as despesas do lar inclusive a satisfazer os pedidos e os caprichos dela, a esposa; embora isso a Maria indo pegar-lhe no pé pela sujeira (e falaria e falaria e falaria sem parar!) pelas das mãos e os braços um risco negro na face clara queimada requeimada no sol, não: pela da roupa. Sujara, desajeitado, sujara as vestes; e a quem sobraria? indaga a mulher, cheia de problemas domésticos sobretudo com os filhos; tinha um que saiu marrudinho igual o avô seu Zé, outrinho briguento e arteiro e havia mais um punhado de meninas, nem sempre comportadas; ainda a casa a comida, o bruto sequer viera almoçar e come de boca aberta mastigando feio a janta – ela resmunga. Ainda não, sim depois quando encostasse o caminhão, buzinasse a chamar a atenção dos moleques trepar no paralama do veículo feito macacos na árvore.
          Agora não, sim: pensa. Existe na imaginação, sorri das reações da Maria, vê a mulher “fula da vida” falava repetia assim o marido, quando longe da cara-metade (ora, por que não satisfazermos a reforma ortográfica que irão nos impor por estes dias, a cortar o hífen e portanto grafar carametade!) apenas sorria, o sorrir que é um gargalhar nos imaginosos. O nipônico olha a cena, ri ele do outro, quase dizendo “do quê ochê tá rindo?” não diz, nem conta a conta: lança a conta na conta a pagar, um autêntico pindura fosse no boteco. E balança a cabeça de cabelos espetados, não sabemos se concordando discordando ou muito pelo contrário das coisas.



Capítulo Trigésimo Quinto
A soma de duas solidões (aqui aproveitando a oportunidade em pôr 3, 4, 20 solidões) dá como resultado sempre menos de meio homem.  
         
          Acaso todos não precisarão transpor esta abertura ao fim! lamenta muito rumina ou só pensa indagando em frente ao campo-santo Xis. O xis da questão? Não saberia.
          Põe isto quem sabe um camarada magro moreno, não preto mas branco queimado requeimado herdado decerto dum consórcio nada regular de duas famílias pioneiras – a de Xará chamado João matador de Mateiros literalmente encerrados enterrados sem apelação ali lá no fundo na ala dos pobres; e a de seu Zé que se meteu a professor e morreu quase falido, a falência em herança à Zefa chorar e por isso, fosse latifundiário estaria na ala milionária, também morador semelhante ao compadre na ala pobretona – consórcio dito realmente nada regular. Isto em virtude duma desvirtude: a liberdade não vigiada nos agrupamentos desendinheirados. Quer dizer, em explicação nadinha fastidiosa entretanto longa, necessariamente longa e dentro do seguinte.

Seguinte      
          Os zebedeus, posto fossem num talvez com certeza de origem na terra, na região, e portanto dos índios Kaigangues ou Coroados, estes que parece apenas emprestando o nome a uma rua na zona oeste (justamente ao lado da antiga zona do meretrício, sem querer, e deixar-nos-ia a Caneta este trocadilhar e a tegiversação!) fossem enfim uns autênticos kaigangues soltos na praça, ficaria entendido não terem nomes civilizados; aliás esses zebedeus não têm nomes. Não!! todos temos, tem ele: José João Antônio Francisco ou qualquer e por que não tomá-lo à novela das sete à das oito à das nove, esta um pouco indecente, da televisão de nossos dias. Daí Xis, não nos forcem ditar sobrenome. Xis vem da união dum óvulo solitário escondido medroso em ser ovo e vai que porventura não seja o que determinou a personalidade quieta e a mudez dele... possível; com um espermatozoide fogoso andejo e provavelmente por isso não parando dentro da urbe mariliense (em parecer ter bicho carpinteiro? não exageremos) a urbe já grande nos fins de setenta. Pode ser por essas razões andarem unidos a solidão e o andarilhismo no pobre! pode que possa. Ser ou não ser indaga o poeta-filósofo. Tal óvulo provindo do descuido duma filha da filha de seu Zé Professor e o espertalhão espermatozoide, originário do filho do filho de Xará, espermatozoide sabido sapientíssimo (ou burríssimo) a nadar no nada da gosma, expulso e se unindo com o óvulo... pô, lamenta ou se indigna Caneta: ele com ele! pô de novo. Ele óvulo com ele espermatozoide, otiminhos pra virar ovo. E vingar se tornando Xis; um Xizinho que era uma gracinha. Seu Zé estrilando a barriga da filha, a Zefa pondo panos quentes na defesa (ou deixá-lo-ia expulsar a pobre grávida! não, é claro). Ou da neta, não da filha, a neta que ele sequer conheceu, morto enterrado calado na ala pobre perto do compadre Xará, no descanse em paz. Doutro lado o neto safado do desafeto João Xará na sua, no não tenho nada com isso e partindo por aí em novas aventuras a semear mais filhos como a chuva e a terra e o tudo e o mundo. Não importa, importa aqui que veio ao planeta, então já sofrido nas amarguras das guerras e da Guerra, a qual se tentava esquecer se lembrando. Veio assim o começo de Xis e o fim deste seguinte.

Segundo Seguinte
          Encontra-se Xis frente ao portão da Necrópole Municipal, sem nenhuma vontade a entrar... entrar? um medinho danado até no olhar; entrar morar esquecer lembrar, mesmo sendo para ver mausoléus dos ricos: aquelas estátuas e capelas o fausto o luxo o tudo o nada; menos ainda para observar a ala pobre na ‘sem-nadice’ da cova a terra por cima por baixo um esqueleto antes do jogar no poço, a miséria o nada. Não. E se encontra de passagem. Não diz isso, isso e nada, não fala olha andeja andrajos... Não andrajos, que gritaria faria armaria maria, a maria vai com outras de nome Caneta com pedigrí – pelo fato de pormos andrajos no pobre homem pobre comum, Xis é comum. Vestido, despido cadeia nele hospício: nossa sociedade é despida porém séria e moralista. No II Milênio e na mesma cidade e inclusive antes dessa data comeria seu almoço na sopa dos pobres da Igreja ou a dos Espíritas. Ele se contenta em ganhar um prato aqui outro ali, pobretão. E dormir? Realmente pobretões também dormem, encostam-se em qualquer lugar ou tomam lugar no albergue noturno na rua Sargento Ananias ou sabemos lá, lá vamos nós também saber!  Ponto. Aí segue.
          Deixamos no sol ardido, quente, mortal, o mortal com aquelas minhocas na cabeça a cerca das coisas que sentiu no cemitério. Indo agora em direção à outra extremidade de nossa urbe. Nunca pensaríamos tivesse uma direção, não tem norte. Aliás encontra-se Xis em frente da Fafi, a Faculdade de Filosofia erguida pelo Governo numa grande e antiga fábrica desativada de seda, na zona leste, mais precisamente na Avenida Vicente Ferreira.
          Não vai entrar perquirir estudar ‘matar aula’ fazer greve estudantil cheia de ‘abaixo a ditadura’ (de 64, não confundamos a coleção na História da Pátria) nem pensar pensando um dia ser doutor ou quaisquer outras alturas. Não. Olha vê assunta, curioso. Ora, precisamos encher o tempo do sem-tempo com portentoso nome Xis, sem questão, daí olha os moços a entrar sair tagarelar; a ele dado quando muito sonhar, não sonha, proibido à realidade sonhar, a realidade não ‘poetastreia’. Só imagina, não mais que isso. A cidade tem cultura, faz até simpósios à nata da elite cultural; tem já faculdades como por exemplo aquela de Ciências Econômicas.
          O comércio então, ele se esparrama não apenas nos empórios e casas de secos & molhados ou armazenzinhos por aí; não: tem lojas vistosas e sua força no centro, em volta mesmo da concentração bancária, a cidade se gaba em possuir um dos maiores centros do dinheiro; no Edifício Marília inclusive, sendo ele o segundo ou terceiro entre os arranha-céus erguidos na história urbana, o primeiro foi o Ouro Verde o qual forçava Xis a olhar o alto dos seus sete andares a dar enjoos; no Marília estando no térreo o Banco Bandeirantes. Xis olha o movimento o vaivém da gente, mais ou menos apressada se pensando talvez paulistana sendo apenas paulista. Olha, examina (fá-lo todos dias, diz a rotina) o comércio no varejo se despejar na rua São Luís na confluência dela com a Nove ou a Prudente de Morais – pacotes, gente, crianças, conhecidos (amigos! que é amigo?) estranhos, curiosos ah como gente é curiosa... Se cansa de tanto cansar em ver e andar, anda mais e mais.
          Na Avenida nota o cartaz do Cine Marília. Não vai à sessão, só havendo projeção à noite com casa cheia por ser popular; tem o Cine São Luís na rua Nove de Julho mais antigo, entretanto não dispõe do dinheiro ao ingresso, nunca assistiu a um filme, não veria a Chita não se prenderia à Dalila (xô Sansão) não torceria pelo Tarzã – sem moeda sem nota nem cipó nem selva nem ficando por isso a receber muito menos a violência da civilização de Primeiro Mundo. Para na Brasserie. Claro não vai tomar aquele chope, não deixá-lo-iam sequer entrar; olha, sorri (de quê? bobo) e prossegue.
          Foge ao Aeroporto, volta assim à zona leste. Aí ela iniciou seu fim... A zona? Não, a Caneta. Começa a falhar um pouco, burra borra a mão da gente, a gente daí xinga, sim é feio xingar xingamos assim mesmo. Pior nisso é borrar sujando vermelho! Não era azul? Azul, azul nem vermelho se explicam. A Xis, Xis não indaga, mudo, surdo-mudo também não, apenas um ser solitário. Os solitários igualmente podem ter amigos falar com amigos ou só conhecidos periféricos: no fundo não têm ninguém. Em virtude disso caminha pra lá pra cá onde pode, pode pouco, pra onde enfim o vento o empurra, ao léu, e se encontra a observar os teco-tecos a rugir andar correr vencer subir contra o vento, ou a descer. Sorri vendo um deles. Tem os aviões de carreira, da Vasp? Vê os homenzinhos nas janelinhas saírem homens da portinhola a descer na escada a ganhar a grama a sair a tomar seu táxi ou seu carrão particular. Embebido em pleno movimento quase esbarra de fasto numa bicicleta encostada na cerca em muro, a magrela dum outro pobretão com dinheiro ele sem. Passa hora, horas engole o tempo, o tempo que nos engole. Ruma ao centro, o centro da fome, a fome o xis da questão...
          Se arrasta (ah imagem forte: anda ao menos sem pressa) chega à frente da Igreja São Bento a escarrapachar-se talvez no jardim ao lado; tem a Santo Antônio no outro extremo, longe e a fome perto. Fareja seu ganha-pão que é somente o enche-barriga sempre mais ou menos vazia. Um sanduíche ou uma fruta ofertados; depois sim o descanso merecido no jardim público.
          Mas apenas isso?
          Com o que se ocupam os que se não ocupam, mordisca a Caneta falhante moribunda. Andarilhos não se ocupam, em não ser eventualmente, respondemos a fim de nos livrarmos da intrusa. Quase, com isso, quase perdemos Xis.
          Achamo-lo na Ailiram, Marília soletrada em contrário, a favor do emprego a empresa, pois que essa fábrica ocupa muitos operários e é um dos dados em referência na indústria da região. Futuramente seria engolida por multinacional. Ele não aguarda que lhe sobre uma oferta de confeitos; ou pensaria nesses termos, o que se pode saber disso? Olha os trabalhadores, vê a gente a entrar no labor, o seu ele mesmo desconhece. Cansa-se. Anda mais.
          Volta. Torna à Av.Sampaio Vidal, será dia quem sabe de algum desfile cívico. Mas não, é dia sim de trabalho. Em Sete de Setembro se extasia no ver ouvir a marcha em cadência os estudantes meninos e os soldados adultos no compasso e no estrondo dos tênis jovens e dos coturnos militares na pedra brilhante ao sol ou no asfalto negro; as bandeiras o rufar, a alegria mesmo, mesmo ele contente; que fosse no consolo em ter ocupação, aquela em ver... Não tem nada, tudo movimento normal ou comum do povo e dos veículos no seu quefazer. Faz algo: caminha em meio ao desvio dos passantes temendo o inesperado da violência miúda ou pelas suas vestes ou a fugir do seu odor quase nauseabundo porque a miséria também cheira mal à civilização, caminha a admirar mais adiante o Paço Municipal cartão de visita da urbe pela sua arquitetura moderna e quiçá atrevida. Antes a Prefeitura na São Luís na esquina em frente do Líder Hotel, este um ícone da cidade, quase peça rara de museu respeitável e de valor à História. O prédio do Líder, o qual pertenceu à pianista clássica Guiomar Novais, o edifício em pé ainda em 2011... Esta crítica em virtude de no mesmo ano haverem os sem-história, quem sabe com muito pedigrí igual à Caneta, eles derrubaram o Hotel São Bento, o primeiro de alvenaria no perímetro urbano, pondo no lugar um caixote sem arquitetura: sujando a História e a Memória marilienses. Achamos, podemos dar palpite? achamos isso imperdoável! Enfim em frente à Prefeitura velha onde os ancestrais se postavam em fila na escadaria para obter requisição dentro do racionamento pela Guerra Mundial.
          Contudo não vive a viver se extasiando nas belezas do lugar, a rigor quase não percebe coisa alguma; porém em contrário acumula alguns maus momentos. Um dia no desfastio ou por comida de mais na rotina de menos, o frio de julho com água muita; por fim no aperto do desaperto resolveu urinar; não o comum o incomum. Não achando local adequado, como homem sem presas morais e guardando aparências, optou tijolo. Bem, havia certa pilha em pilhas enfileiradas qual muro e aí desafogou a bexiga afogada; no final vindo o alívio de hábito no mictório improvisado. Com certa agravante: a mureta sendo o muro entre a Delegacia de Polícia e o prédio robusto do Forum. Imediato notado apanhado preso encarcerado batido... Levou somente algumas lambadas pela afronta e não passou mais que poucas horas na madrugada fria na cela fria ao lado de colegas frios, ou apenas gozadores e indiferentes, visto ser Xis um mequetrefe entre mequetrefes e portanto inofensivo; longe estando em pleitear melhor situação no meio de presos comuns, ladrões e outros perigos à ordem. Dormiu, se não ao relento como habitualmente ao menos com teto; e grade. Saiu à rua rindo sem-graça aos de farda. Sequer encontraram para devolver-lhe documentos e bens; sequer tendo a soltá-lo das chaves um causídico sem causa. Direto ao ar puro, havendo recebido talvez um cafezinho magro quem sabe, um pão magro sem manteiga.
          Agora – decerto avisado ou avisando nas imediações cães também vadios em ladração infernal; por que será atraírem tanto tantos cachorros os andarilhos os bêbados os estranhos sempre estranhos aos animais mais irracionais!? – agora anda nas proximidades do Estádio Municipal. A assistir o São Bento apanhar empatar ganhar! Nem jogo havendo, apenas a sapear por ali no quefazer. Depois do ‘compromisso’ passa em frente dos escombros que outros indigentes apontam como tendo sido dum gringo louco, um tal de Preta ou Píte ou coisa assim; e vão além os informantes aos passantes: ninguém aceita dormir nas cercanias, geralmente se abancam em quaisquer vãos ao descanso os sem-teto como Xis; entretanto ali não: fala-se em almas penadas; seriam os fantasmas da ópera! Pelo sim pelo não...
          Todavia não importa, importa andar, que seja ao desfastio; ou a suar melhor, dormir o suor dormido sem espantar os colegas de ‘trabalho’, pois são tanto quanto. Não importa a Xis, um indivíduo que não entra em atrito com a gente desse mundo do submundo; antes foge sorrateiro à ocorrência. Vai vivendo, diz.
          Diz assim a um viandante estranho na cidade. Estão observando o trem passar na passagem de nível da rua Nove de Julho, a porteira fechada minutos eternos, os carros apressados nervosos buzinam a tardança, animais nas carroças remanescentes doutra época a matracar cascos no paralelepípedo ou a afundar na superfície asfáltica eles também nervosos e se coçam e a gente conversa ‘desprofundidades’ um motorista ao outro doutra janelinha dos veículos. Decerto a profundidade do homem comum como vai chover ou tá quente e demais filosofias bárbaras. Xis não, não conversa, em não ser esporadicamente, olha tão só as composições a se chocarem se engatarem nos seus barulhos. Anteriormente ficava apreciando o comboio de passageiros. Se tivesse relógio, nunca possuiu um, acertá-lo-ia com o trem, absolutamente às 17:20h.. Entretanto o de passageiros anda parando sumindo na crise e no jogo político a favorecer empresas rodoviárias. Tanto assim que é possível dizer que nos países europeus pode o trem matar o homem descuidado; aqui o descuido deixando que o homem mate o trem... Não pensa nestes termos Xis, simplesmente não pensa.
          Observa aqui ali Marília, Marília tem movimento enorme, sobretudo nos dias de pagamento (de salários e contas...) tem indústrias de óleo volumosas como a Sanbra a Clayton a Matarazzo, as quais seguindo os passos do trem... Tem inclusive ônibus da Circular para encurtar sua ‘grandura’ ao povo acomodado. Tem Rodoviária tida por moderna já acanhada que se ergueu onde havia um bosque donde partia o Rio do Pombo e que Xis desconheceu. Ele entretanto, no seu parco entendimento e desnecessária curiosidade, mui diverso de seus ancestrais também por ele desconhecidos ou não lembrados apenas, ele não pensa nisso não sabe isso – é o homem da rua, cuja façanha maior é a de conseguir mais de uma refeição no dia e ter onde pôr a cabeça, que seja no travesseiro exalando o cheiro de outros pobretões anteriormente de passagem no sem lugar. Xis somente vive seu dia para o seguinte. 

SeguinteTerceiro
          Um funcionário coça a cabeça, puxa vida, diz, puxa mais um! e conta enquanto umas questões de família para o outro nem perceber o lamento e lamenta agora o segundo o salário insuficiente; vão por aí os comentários enquanto. Enquanto Xis aguarda sua vez sua cova sua finalização, enquanto. Enquanto pensa pensou não pensaria não: talvez com várias e muitas concessões na concessão da vida que é tão só a existência curta na vida longa e ele desconhece; ah sim, que a terra seja a si leve mas ninguém diz ninguém sabe ninguém se encontra presente no cortejo nem no cortejo fúnebre. Que aqui, ali aí em frente escancarado à população do Planeta, inclusive a todo mundo rico ou pobre; aqui entrada ao fim, o fim é o fim do começo: como se fala por aí, como morre gente (não põe sinal de exclamação nunca pôs pois desconhece tudo e isto porém se admira) como! Em contrapartida como nascem criancinhas, pô! Tinha a parteira dona Maria, agora é a Gota de Leite e outras maternidades a servir o servir; a parir uma população inteira. Todo dia morre gente, todo dia nasce gente; são cordões e cordões em desfile que se esparramam no Globo com necessidades com consumo com fome com fome de tudo, de todos básicos e desnecessários no supérfluo e nos abusos – o homem desvairado. Até chegar aqui lá ao pó, ao nada. Tudo todos. Então eles o chocalham por imprudência ou necessidade da incapacidade no serviço enquanto matracam distantes do perto suas coisas, quase mesmo furam quebrando as tábuas daquele invólucro que Xis tanto viu ouviu ouvindo vivo não-vivo no desentendimento: “fulano foi à caixa a pregos” dizem-lhe doutro, outro agora que fala sobre ele; se quebra parte-se quase a madeira com terra a pesar quase também a ciscar-lhe olhos, e praquê olhos de não enxergar... Põem um número, não poriam ‘aqui jaz um indigente, a família os amigos etc. e tal’, só o número, o chefe deles fiscaliza o errado do certo e a gente não mais gente, a gente é um número a mentir na estatística da Estatística, que é uma ciência se não mentirosa com algarismos sem credibilidade total. Para encerrar. O Capítulo e a Segunda Parte destas mil e uma noites sem Cherezade e quem sabe a sobrar Xis ou tão somente uma solidão.



Capítulo Trigésimo Sexto
A primeira reação do ser humano diante da Verdade é a descrença; daí  a  função  vital da Literatura: ela mente e despeja a Verdade.  Então o homem crê. 

          Acabamos de sepultar um indigente sem pedigrí e cujo sem-nome levou a letra Xis, decerto de quadra (ora, o quê sabemos disso!) e a seguir o ‘x’ uns algarismos talvez a agradar na papelama do escritório no Cemitério a burocracia.
          Façamos outro sepultamento (Ela diria, intempestiva como era: não é para acostumar e seriar...) Façamos o dela. Depois.
          Antes um senão, quem sabe nada senão:
          Maria não aceitando Maria.
          Não nos importemos agora com estas ideias expostas e com aparência de retalhos numa colcha pobretona de cobrir uma cama de quem tenha gosto artisticamente discutível; ou somente por mero reaproveitamento de trapos. Não. Não nos importemos porque isto é parte duma literatura; admitamos seja péssima literatura, ainda assim literatura. Ela não trata da verdade escancarada, usa seus próprios retalhos a fim de que quem tenha olhos para ver chegue à verdade. Todavia, calma.
          Quando éramos moleque – mamãe, indignada, a bronquear ter dado finíssima educação ao pimpolho e portanto menino não menino de rua, arteiro e sem eira nem beira; o que mentira, não sendo mentira em vista de mãe não mentir apenas se enganar, pois que a opinião vizinha esbarrando contrária nisso pelas artes do capeta ou só nossas inocências abusivas; dito o dito prossigamos moleque – quando, fizéramos o enterro do pinto. O pinto morreu ou foi não ter aguentado a brincadeira de receber pedradas; o pintinho menininho mortinho uma gracinha. Bem, bom enterrar para não carniçar e aí convidamos os colegas da vizinhança ao sepultamento do pinto mole, mole por não suportar pedras e sangrar. No estilo no cerimonial, mesmo porque criança imita adultos no que vê quê façam. Caixão de caixa de sapato, vela ou imitação, flor, reza, choro até! O enterramento no fundo do quintal, o monte de terra fresca a cobrir o cadáver contendo uma cruz improvisada julgando o pinto cristão. Claro o terreiro todo assustado ou curiosando, o galo carijó o mais corajoso por chefe do harém a chegar perto do cortejo. Não escrevemos ‘aqui jaz um indigente sem pedigrí’ por analfabetismo porém tivemos intenção e a intenção vale mais que a ação.
          Agora Ela sangrara, azul manchara de tinta vermelha os dedos. Gritamos e nada; surda muda inativa morta! Enfeitamos o enterramento com linda solenidade – inclusive fazendo discurso inflamado, desses chatos de horas de bocejos de raivas, desses quilométricos salpicados de boa entonação sim mas cheio de erros (não de ortografia por serem sons e não escrito o discurso e mais para pornografia) erros como os de concordância, quando não sabemos mais pela distância de metragem qual o sujeito; daí berramos “gente” porque gente concorda com tudo e até com que não seja gente. Entusiasmados e sentimentais, choramos, crocodilamos; a tanto ser preciso consolo. Ficamos órfãos, nós e quem se disponha a ler-nos.
          Todavia isso tudo não ocorrendo aleatoriamente e sim dentro do tempo. O Milênio impávido à frente ruge a marcha marcha o pé a pé na esteira do tempo puxando ele mesmo a esteira do tempo, segue o caminho machão e lógico; olha a esposa, dona Hora abaixa a cabeça e ouve o rugir macho puxando o comboio quase sequer olhando atrás não lhe importando o passado, o futuro. Ela escuta o cala a boca se é que falou, ele segue, segue ela atrás, olha atrás os filhos a filharada Minutos e os mais tenros Segundos, passa-lhes raspança como recebera do macho seu amo e amor e adverte a prole não desgrudar de sua saia, saia! diz da brincadeira ah quem pode com um menino...  saia e me acompanhe acompanhe o Milênio em mil e uma noites e dias que são anos. Alguns se não todos Minutos e Segundos não estão a brincar mas absortos a sonhar poesia a seriar filosofia, que se não vê, vê-se eles pulandinho agora em fora atrás de mamãe, mamãe atrás de papai, papai não para no tempo: é o tempo é o dia é o homem é o pensamento do homem, é o sempre...

          Enfim desaparecida a Caneta, ex-Caneta sem lhe adiantar coisa alguma o pedigrí. Jogamo-la em consenso, ou seja as duas mãos e os dez dedos a concordar, atiramo-la no saco plástico, o de recolher outros objetos plásticos pois somos pela separação do lixo para não sujar o meio ambiente reaproveitando matéria, alô povo do pevê. Não poderíamos então adquirir outra caneta mesmo sem linhagem de rico ao preço de pobre! Sequer o fizemos, pesarosos constrangidos decerto; lembrando também como somos cidadãos corretos, primeiro sujando depois limpando o globo no pedacinho que nos toca; outro alôzinho ao green peace.

          Estávamos exatamente nessa atividade benigna à limpeza pública, órfãos dito, borocoxôs, quer dizer: não sabendo nem mais o que fazer, quando nos aparece Maria.
          Maria não aceitando Maria!
          Pareceu-nos uma adolescente espigadinha ativa magra. Apareceu-nos na porta vista do leito hospitalar (haviam passado por cima quase nos deixando como Xis ou como a Caneta mortos, estragadinhos; então, isto fazendo tempo, descansávamos nossos cacos e trapos nas faixas e nos gessos em excelentes ais quando chegou:) olhou a todos e se engraçou ou de nossa cama na enfermaria ou de nossos remendos. Sorriu. Imediato achegou-se. Assustando-nos, ofertou um beijo e mais sorrisos consoladores. Ganhou uma bolacha, nós aqui em Marília dizemos assim e não biscoito. Aliás tomou o pacote na cabeceira da mesinha, retirou uma e indagou: posso! Ah que voz de anjo, o anjo que despedaçara a dor que nos despedaçava... Anuímos, saramos, saímos; a selar amizade que prossegue até hoje. A propósito, que dia é hoje?
          Nesta segunda-feira temo-la a nos ajudar lembrar marcar e demarcar todas as coisas, nas recordações que grafamos nestas linhas aqui.
          Aqui comecemos pela filiação da filha, queremos Maria como filha. Segundo sua informação vem elinha de João Xará e de seu Zé Professor, melhormente herdeira do nada que deixaram aos filhos netos e bisnetos (caso de Maria); herdeira mais ainda de Gena e Zefa, comadres desde os primeiros tempos, desde mesmo a fase do pioneirismo mariliense; agora, como nasceu e de quem nasceu não sabe não sabemos nós. Ou menos pior: descobrimos a linhagem através do Diário. Às vezes a menina entitula Anuário e até Milenário por registrando só um que outro fato dum que outro ano. Porém isto senãozinho porque o que nos interessa são as páginas do caderno, um caderno cheio de florinhas grudadas e tem colado um passarinho na capa recortado e retirado dum livro da Biblioteca Pública, esta hoje ocupando área onde fora o Ginásio e posteriormente a Escola Normal na Avenidona. Tais informes cremos auxiliar-nos-ão daqui em diante por descanetizados.
          Ah sim, esquecíamos dum dadinho sobre elinha. Seguinte. Ela é aberta, quiçá prafrentex como toda jovem, porém não aceita o próprio nome! não é absurdo? Antigamente só dava nome no cartório Maria e José. Agora querem os das novelas; fosse mineira a família criaria um nome curioso ou engraçado como hábito centenário nas Gerais; não: mariliense e aqui seguimos a norma global afogando os consagrados. Por isso não se registrando mais as marias, Maria a se envergonhar pelo seu. Concordamos discordando.


Capítulo Trigésimo Sétimo

Quanto vale uma comadre? o íntimo é o consultório sentimental do pobre; e do rico carentes. Às vezes derrapa-se no contumaz falatório e na enfermidade do dizem que falaram  mas  ressalta  na comadre  o  remédio  equilibrando um pouco o ser.

         

          Geninha está velha. Enrugou porque o tempo medido em dezena pesa e faz uma diferença enorme. Viúva resmungona, embora o Chico ainda vivo na morte por sua bebida, desandado sumido; enviuvou sim doutro ajuntamento; a filharada de ambos lados não se entenderam entenderam uns de casar mudar desaparecer ou só ficando poucos em volta da velha; não para ouvir resmungos, mais coisas do coração. A compensar o quase viver sozinha, embora mal acompanhada com os parcos recursos que certos filhos lhe fornecem; então recebe mil outras senhoras, umas são da paróquia de Santo Antônio outras só têm a religião como disfarce para estar bem socialmente. Contudo conversam muito e amiudadas vezes. Sensata, ou com tal fama, a Velha dá conselhos orienta as pessoas que a procuram. Um dia foi mais longe: aprendeu as cartas. Não para roubar no arruaceiro truco ou na comportada escopa de quinze a se distrair com algum neto de plantão; a fim de pura e simplesmente ler o futuro dos outros, o dela desconhecendo. Alguns trocados, poucos e inseguros. Isso requerendo certas disposições de espírito, ela sem o talento, logo ou desmascarada ou a atender de graça as línguas amigas. Assim sua casa pobre se enriqueceu nestes últimos tempos e virou verdadeiro consultório. Claro entre presentes falar nos heróis e heroínas das novelas, ela sem televisão entretanto vendo em casa vizinha; uma das consulentes, uma tal de Maria, velha como as marias antigas e mais ainda que a Velha e sem a força moral o ímã de Geninha, Maria vindo do tempo daquele radialista Júlio Louzada, o do programa ‘Pausa para Meditação’ com grande audiência, através dos sons nos receptores de rádio, o rádio hoje sem prestígio ou desbancado pela tevê e os meios informáticos de nossos dias. Ela lembrava ou relembrava os casos narrados na programação da radiofonia carioca ou então a recontar lances da novela ‘O Direito de Nascer’, também do rádio. Depois discutiam. Os anos acresceram ou enriqueceram as estórias que trouxeram por anos, quase virando novas e originais estórias, visto o brasileiro ser mui criativo inventivo e acrescentativo... Um pouco aquela questão de quem conta um conto aumentar um ponto. Ocorreu entretanto de um dia d.Maria Velha bater à porta da Velha, incomum por andar sempre escancarada, dentro do princípio em que do lar pobre o ladrão não leva nada em não ser susto; falam assim. Ali como hábito no entanto sequer as crianças gritavam, gritavam sim mais distante; enfim era o inusitado à senhora amiga, amigas embora se cortassem longe estando; perto aproximou-se deu mais três pancadinhas em croque usando a quina da mão porém a Velha nem tossiu sua tosse, menos lhe abriu a casa para convidá-la no costumeiro “vai entranu, muié” como falava Geninha. Falava. Geninha andava parada fria retesa dura morta.

 

 

 

Capítulo Trigésimo Oitavo

A ignorância é apanágio de todos nós mas a burrice ostensiva é privilégio apenas de alguns.
         
          A Velha Geninha teimava em não se acabar acabada tristonha e já no fim indiferente, não entendendo a gente e sua gente, esta como água a escapar-lhe pelas mãos, as suas trêmulas como tremiam os anos os séculos o milênio; acabava o milênio pra si, aos outros a demorar mais anos nas mil e nos dias. Teimava e não foi de repente como ameaçara pensar d.Maria, a Velha a nova novinha em folha a nos dar palpites nas horas roubadas – advertimos aqui o fato de nos apropriar de seus bens; ou únicos bens: os das folhas do seu diário, mormente as páginas pares, visto não usar o verso; seja por ajudar o lixão da prefeitura, os funcionários não sabendo mais onde pôr entulho, pois o partido verde e a oposição chia estufa grita; e assim Maria tomando 100% de um espaço e tão só usando 50, os lados pares dissemos repetimos no desencargo de consciência cidadã.
          Outro senãozinho posto nestas linhas em esclarecimento é que não aceitando Maria o nome Maria, aceita inventar um outro que nos disse ter; quanto a isto reviramos toda papelama oficial não descobrimos nada e então supondo invento – não dissemos tal à jovem: não se deve brigar com amigos, para ter mais chumbo grosso aos inimigos. Disse-nos, ainda cativantemente sorrindo, ser Maria Tereza, pusemos zê da zabumba corrigiu-nos a ignorância com esse do sapo. Fez mais, uniu as inverdades produzindo uma desmentira quentinha, a queimar-nos a língua que mostrávamos aos desafetos em moleque, mamãe corrigindo também pra menino. Assim virou Maitê; exigindo inclusive o chapeuzinho que a cúpula da cultura em simbiose com a corrupção política desejosa em eliminar o agudo nos forçará democraticamente a tirarmos o circunflexo; e a gente diria a ‘biduzar’ e a ser originais “quem viver verá!” Bem, a dúvida presente nesse passado próximo não se concretizou nas oxítonas, salvando Maitê. Deixemos por agora o desacordo ortográfico em curso e voltemos à velharia.
          Geninha teimou morreu, assustou Maria Velha. Isto já neste milênio, milênio conturbado. Tornemos ao Segundo Milênio, ao final dele, a partir de 1970 e anos 80 em que a Velha velha sim e mais moça. O mais é menos absoluto pra ser expressão; que o digam os ais e uis das comadres a se reunir na residência de Geninha filha de Gena e avó de Maria, Maitê corrigimos amigavelmente.
          Enfim todos dias nos encontros, elas no leva e traz; sem maldade diríamos a desafogar abusos, diríamos sim que traziam doces bolos guloseimas (Geninha gulosa pra açúcar, sem ter balofado demais nem sofrer diabetes, ou sofrendo só depois, isto afirmamos no milênio atual) e levavam a mesma coisa ao contrário ou não ao contrário, o mesmo preparado por outras mãos. E aí se justificavam erros ou enganos nas receitas e se auto-elogiavam. Ah, não sabemos nisto como ficaria o hífen que a reforma quer tirar, de que jeito escreveríamos a palavra: ‘autoelogiavam’? Quem viver verá no que dará. Então trocavam receitas de bolos e bolos também e sobretudo conversa-fiada fofoca invencionice e quejandos. Aproveitavam as frequentadoras, enquanto a roupa de molho no tanque a amolecer a sujeira, pra tirar umas dúvidas no ‘disseram que me falaram’ ou coisa assim; assim, vendo o vizinho da frente, um tal seu João, ele a andar qual macaco como haviam assistido num circo que ora não mais aparecia sem público gastante gasto; andava o pobre arcado e quase a arrastar as pontas das mãos no solo, apoiando-se a uma bengala já lustrada no uso e no sol quente; ele a passar cumprimentar na calçadinha oposta do buraco onde deveria ter guia no entanto a prefeitura “aquela ladrona...” na voz de Geninha; em suma o macacoide passou sumiu na esquina a se arrastar e a Maria Velha à Velha: “comadre, dizem que o sujeito é incriado...” Pôs reticências a dar margem a um suposto comentário da Velha. Esta não coçou a calva, cabeluda embora branquinha, coçou a cabeça a pensar, um coçar ajuda o pensamento supomos.
          Não respondeu naquela hora, naquele dia, no outro, após consulta ao esfarrapado às suas poucas letras. De fato gasto e faltando folha o dicionário do menino, o neto mais visitante mais morante na casa avoenga. Ainda pôs a questão ao moço, este sorriu. Noutro dia respondeu à Maria não saber, não se incriado o vizinho, não saber com certeza o vocábulo incriado.
          Acabaram-se as certezas nas dúvidas das certezas. Quando Maria Velha tornou a fim de repor com mais profundidade o problema, quem sabe desfazendo-se definitivamente as dúvidas para haver a certeza final, bateu a terceira a quarta a quinta vez. A Velha não necessitando mais nem as dúvidas nem as certezas...



Capítulo Trigésimo Nono
Gente é animal que perde a hora e julga perder a hora; o animal tido por animal não  perde não julga  perder e faz a  hora na hora que desejar.
         
          Passava passando a passos curtos lerdos cansados uma senhora bela, ao menos em perfil, com um viés formando certa linha negra na pele branca queimada, ou era que fossem os olhos piscantes da noite a ganhar o dia em cima do dia a morrer na terça-feira comum, ela incomum decerto. Não obstante outrem já passara apressado um homem por ela, ela a bela; passara não se cruzaram cruzando tão somente os caminhos, quem sabe em descaminho a caminho do lar.
          Assim se arrastava um ser prenhe de prenhez nas oito vezes que dera à luz, fora as perdas ganho aos que não podem auxiliar demais a população mundial crescer abortando vezes inúmeras dum só homem, macho pra valer garanhão constatado no tanto produzir e mais em produzir vexames à família se embebedando. Até que esse rebotalho, provindo do filho de seu Zé, então mortinho em paz no lugar adequado a se prantear ou esquecer; e seria o Arlindo que a comadre dizia viva a sorrir “Arfeio”. Podendo que fosse. Esse filho do filho do seu Zé, por nome Geraldo os íntimos a dizê-lo Gerardão, pequeno e se insignificando com mais e mais cachaça até, em suma, morrer? (não de fato o fato em mostrar anjos a descansar no cemitério da Av.Saudade, não  – sim a fugir à responsabilidade, deixar o trabalho à bela Edna cansada e os oito famintos). Contudo a mulher não se entregou.
          Agora, ontem, quando a passar lerda com apenas os três últimos menores e resmungões a acompanhá-la, um delinhos mais resmungão e sendo do tipo de gente, no caso gentinha, de gente a quem nada tudo serve não servindo, a mãe somente cansada no ganha-pão. Mais nesse menos: ansiando por novas encrencas... Nada em ver com o passante apressado desconhecido de todos no pedaço pelo menos dela. Este mero figurante, certamente com sua história seus dramas quiçá alegrias, porém desconhecidos no desconhecimento. Nem ela interessada no estranho; terá notado!
          Pensava unicamente nele. Fechara as orelhas de escutar o que o triozinho a dizer reclamando a só ouvir no pensamento a maviosa voz do pretendente pretendido. Aí aparecem as comadres, existem as comadres às soltas soltas no mundo a falar o que devem e o que não.
          Por exemplo. Dona Neusa, diríamos a acertar melhor Neusona em vista do volume da gente evangélica que nos saiu a vizinha. Talvez sim. Não que desejássemos ter a verdade. A verdade dela, a segredar um pouco alto, mostra que a Edna, herdeira emérita (não da riqueza, a Zefa mesmo gritara viva que os advogados e as prostitutas comeram uma fazenda, o latifúndio, e até a casa: não e sim do sangue generoso do prolífico Professor seu avô no sangue de seus oito filhotes) herdeira enfim do seu Zé por parte do esposo pinguço; essa Edna tão cara à irmã Neusa, irmã evangélica entenda-se, ela desaprendeu o perigo macho do seu bebum sem-sorte, a cair nos braços doutro macho da espécie.
          E aí nos apreguntamos enxeridos: desejosa a bela a enfrentar mais oito partos e não sabemos quantos tantos abortos!
          Aliás sequer precisávamos bedelhar a vida alheia, aberta ao público por vozeirões em segredos nada de Estado da irmã evangélica da beldade em questão. Todos comentam gratuitamente, o povo não perdoa essas coisas na moralidade e as fraquezas, sobretudo aquelas das fêmeas da espécie.
          A irmã: como, dona Cida, como que uma mulher casada, sim ele fugiu, o sem-vergonha (acresceria se fosse nós ela que o macho da espécie é em geral sem espécie, um irresponsável do tipo ‘num tô nem aí’ oh pobrezinhas das mulheres. Não disse apenas terá pensado nestes termos a comadre faladeira:) ca-sa-da, veja a senhora e ainda por cima nesse por baixo nossa irmã. Acredite d.Cida, a Edna tá louquinha por novo homem... Vê se pode.
          Pode, respondemos. A senhora ouvinte decerto a condenar, visto ser fácil moldar a figura dos outros e difícil viver os problemas e as ânsias incontroláveis das outras.
          Nisso saímos a correr, nada civilizado, para ver se víamos ainda a bela e sua tropa. Os quatro se embaralhavam lá longe ao fim que deve ser o começo de nossa rua; se embaralhando no escuro e na vista a fugirem de nossa vista.



Capítulo Quadragésimo
O horário de verão  vem  aí.  A gente adianta  o  relógio  e  vê que não adianta. Daí atrasa. Ainda assim não adianta.
         
          Naquele tempo as coisas falavam, falavam os bichos e os passarinhos nem se fale, os pássaros aos pássaros à gente às coisas, coisa pouca ou bastante, o papagaio ah como falando o papagaio, o papagaio quem ensinou decerto gente a falar, ao menos a xingar direito. O estranho nisso é que pedras casas árvores falassem e ninguém a entender; embora gritassem em uníssono os barulhos do mundo; ih os barulhos do mundo!
          Isso contava o Velho, um remanescente quem sabe dos primeiros tempos, dos tempos de Mateiro isso não, não conheceu Mateiro apenas seu executor sem saber e ver sequer o facão assassino de João, o Xará do morto vivo enquanto também durou sendo enterrado em morte morrida no Cemitério do Alto Cafezal por Gena sua viúva. Contava não se entendia entendendo assim que falasse em tão adiantado da hora atrasado ao apagar a velinha do II para nosso Milênio. A gozarem o fato de que mais saísse vento que fala da fala do homem ou ‘passa de homem’ enrugada estragada. Mais nessa tarefa os netos velhos e os bisnetos novos já porém igualmente passados; sobretudo o gozo mais gozo dos moleques em por hábito viverem com seus eletrônicos e a matar velhinhas nos videogaimes deles pra ver quem mais ganha nessa perda.
          Contava que em pleno Jardim Maria Isabel e mesmo ao lado do santo – sendo devoto apressado morno lerdo do santo São Bento – mais especificamente da igreja dele hoje catedral monumental e bela; que enfim ouvira um diálogo, realmente um poliálogo porque todo mundo a falar quase não deixando ouvir, só pra falar gritar impor; e esse diálogo a propósito do despropósito (vejamos bem: o ‘Véio’ sendo contra o a favor, fervorosamente contra...) o do Horário de Verão.
          Chegou o barbudo-presidente enrolador bravateiro com seu séquito, de fato apenas um anunciador medieval vestido a caráter como se fazia então: desenrolou o papiro e nele escrito goticamente a lei exigindo adiantar uma hora a hora.
          Doutro lado o lado de cá. O pardal parou curioso de gritar todos parando de gritar, só ele em chefe a conduzir as dúvidas às certezas com certeza. E disse: Maria (naquele tempo, tempo em que as coisas e os irracionais falavam e até o homem mui pouco racional falava por bom aluno do papagaio, o qual envergonhara um casal de namorados a dizer-lhes que aprendessem blasfemar direito; naquele tempo se aceitando – e por que não Maria a pardála! – se aceitando Maria, a desgostar nossa Maitê com chapeuzinho) Maria, disse, vão mudar, antecipando, a hora numa hora. Maria respondeu com uma baita interrogação. O macho da espécie Passer domesticus insiste. Vão adiantar esse atraso em exatamente uma hora. Isto posto saiba e a quantos não tomar conhecimento, que é o resto do mundo, que você tem de recolher as crianças a piar mais cedo de tarde no ninho; levantar-se noutro dia mais cedo que o costume, para todos acordarmos o preguiçoso sol... E fazermos todos o que todos fazem uma hora antes: gritar comer gritar e defecar antes de dormir e aí gritar. Dá, Maria, dá uma prova de sua capacidade em fazer as coisas hora certa antes, antes que seja tarde e se vá embora essa autoridade – cuspa na cabeça dele e se precisar suje a barba dele aí embaixão!
          Daí o vovô guardou a viola no saco. De saco cheio, pois os moleques, corrijamos pra meninos que é mais fino dizer, pois que eles não davam bola não acreditando no matusalém, este a viver dois milênios, se é que, a driblar o horário de verão, não ultrapassou os ponteiros indo ao quarto, quarto de dormir tossir antes inanimar morrer? não, o IV Milênio.



Capítulo Quadragésimo Primeiro
Frase é um conjunto de vocábulos com a medida suficiente para não se falar o que se quer dizer.
         
          Está mui claro que tenhamos escondidamente surrupiado a informação da Maitê, ciosa em esconder por sua vez sua Maria do nome porque Maria em inglês. Sim, a parenta da senhora Bete, bisneta do seu Zé morto vinda dum consórcio da mãe dela com o filho vivo do morto Xará, desconhecendo a língua hoje franca e inserida nas atividades comerciais e informáticas e mesmo nas da rua, ela da rua. Isto porque Mary é Maria com certeza. A parenta da parenta agora da parenta dela por parte do falecido ela sendo viúva, essa talzinha mudou pra Meire nacionalizando sons. Então Bete vem com um papel amarelecido a tremular nas mãos trêmulas cansadas a confirmar com o filho – velho fraco gasto esquecido lembrado – o endereço da prima, prima aqui do homem filho único. Eis, então, caso não houvéssemos nós igual Xará dado uma faconada na Caneta, Ela, espevitada irascível, iria indignar-se: como, diria azul antes no fim rubrando o papel, como pode isso se as famílias têm filhos adoidadamente e desconhecem preservativos na tarefa de estourar a população do globo! Nós: não senhora, a senhora dita com ajudazinha do falecido, que Deus o tenha, produziu apenas o malucoide em questão, não mais. Acresceríamos mais um dado, que é o fato de estarmos em pleno século vinte e um, um século por excelência e demais esclarecido; porém a coisa mesmo se dando por causa das pacueras e entrâncias femininas de Bete; ela parou a fábrica na primeira unidade, por sinal do sexo masculino, após a medicina arrancado útero ovários trompas “comadre, fiquei oca! só tenho casca...” disse à vizinha, esta apoveitando a narrar de suas dores numas duas horinhas de conversa.
          Isso tudo cai por terra tendo em vista a Caneta desaparecido. Fica o lembrete. Ela, a Bete:
          Fío, ocê não sabia o coronel. Pois não é que achei entre cartas velhas perdidas achadas restos decerto da lambição das baratas, aquelas nojentas etc. e tal – enfim achei o endereço certo aqui nesta no remetente: Meire da Silva, rua Coronel João José, Vila Clementino, n° 49, esqueceu o cep ah não tinha ainda cep naquele tempo. Então fío, é Coronel João José.
          Esqueceu a mãe indagar ao envelope a cidade, ao menos o estado sabia ser Mato Grosso.
          Não sabendo esse herdeiro, não do Mateiro mas do executor dele, das ordens e do facão, não sabendo que ele mesmo não soubesse qual o coronel da prima, nem se tivera algum dia dúvida na certeza, a primeira costuma engolir a última. Não soube responder o quê. Ruminou à ‘Véia’, “tá bom”, que na linguagem familiar querendo dizer ‘basta!’ e virou ele as costas à genitora, ainda nervoso a assoprar o cisco possível no jecrê do carburador do fusca ‘novo’ dele velho. Repetiu desgostoso: tá bom.



Capítulo Quadragésimo Segundo
A palavra é o maior adversário do significado da palavra, por quase nunca satisfazê-lo em suas exigências filosóficas. Não obstante ela varia de boca em boca pretendendo o absoluto do significado. Isso força mais e mais a existência dos bilhões de mundos a se chocar na Terra. Em outras palavras: a palavra, ao contrário do objetivo da palavra, dificulta o entendimento do homem.
         
          A palavra naquele tempo diversa daquele tempo a palavra. Falavam os que falavam, mais importante falar sem precisar ouvir. Tudo falava. Às vezes a fugir do falar, ou a se distanciar da voz monótona da mulherona...
          Ela falava.

O Velho
          Ela falava (e não dizia nada! talvez sim, não talvez) falava falando sempre no mesmo tom; o Velho ajuizado ou por não sê-lo fugiu, fugia sempre da ocorrência da responsabilidade da existência, sem poder fugir. Então, alfinetado irritado fugido de fato, fugia deixando o corpo presente como presente ao falatório sem parar, de um som retilíneo sem cruzamento sem elevação e sem abismo do fundo no inaudível entretanto ainda ela a falar; naquele ponto em que a sonolência da gente faz a gente sumindo sumindo sumir e ao longe cada vez mais longe embora vendo sem querer ver a boca abrinte fechante os dentes a aparecer amarelentos com saudade certamente dos outros dentes que se foram caindo arrancados para falar o sopro da fala que daí não passando de vento, ainda aqui morno lento lerdo bronco errado... Fugiu, não obstante também suas orelhas bem velhas, do tipo matusalém, a merecer a monotonia. Será, nisto indagamos, será não pudesse alegar o senhor gasto gastinho sem gosto alegar sim surdez, a surdez que beneficia nas drogas que se não quer ouvir a beneficiar realmente os idosos! Porém aqui intromissão. Voltemos ao Velho desaprovando a fala reta sem contraponto semelhando certos cantos e cantores populares, válido para a ‘música’ dessa mulherona monótona.
          Isto lembrança no esquecimento do Velho. Velho tanto que inclusive poderíamos, pudéssemos, casá-lo (a gente do povo adora casar os outros) consorciá-lo com a Caneta, morta extinta; ou com Maitê, jovenzinha cheia de esperança (e desesperança constatamos nas suas folhas) cheia de vida, bela, apetitosa... pera lá: tratamos as coisas dum velhote e praquê apetites desnecessários – tudo desnecessidade. Não indagamos a nenhuma delas por razões óbvias, ou seja a morta morta não casa e a viva nos xingaria pelo despropósito.
          Isto é lembrança dele. Ele achega-se em suas andanças nas proximidades do Buracão, sabido a urbe cercada desde antes ser urbe por itambés profundos e por lajes cavadas no tempo, o tempo a rolar na esteira nos milhões de anos, estes anos aqueles de pobres doze meses e um punhado bastante de horas minutos segundos. Lajes brilhantes a este sol da manhã. Nessas condições – e quase no limiar duma parede natural e desgastada, olha o outro lado do Buracão que enfeita Marília – nessas sente qual vertigem atração imantação à beleza tosca absoluta grandiosa. Diz  ¡oh, lamenta o infeliz mortal, por que não sou um poeta, sendo apenas um filósofo quiçá um louco!  Então recorda nessa absorção, nesse quase sonho, o sonho da realidade, a realidade escandalosa que viveu. A que damos amiúde o nome de recordação:
          Encontra-se num botequim, uma venda do tipo de ponto de abastecimento na beira da estrada quando estrada agora rua urbanizada esburacada na periferia oeste indo à Vila Miranda, pertinho do cemitério, ah como velho adora cemitério! Porém não está aí para o santo ofício mas a observar estrangeiros. A gente sempre a se sentir estrangeira estando fora do seu ambiente. Nesse antro ouve conversas moleirosas arrevesadas, tilintar de copos e garrafas a se equilibrar nas mesas bambas; as mesas balançam atrapalhando a visão sã... os tamboretes ou cadeiras cambaias de boteco pobre com fregueses pobres ou pendurados na pindura rica onde o vendeiro registra a seu bel prazer (ou necessidade) todavia sob olhares da patroa mandona acabrunhada ou em reserva com os tipos de homens a beber (felizmente as mulheres passando e mais passando os lances da esteira sem penetrar o estabelecimento, elas não se expõem, em não ser as da zona do meretrício, ali próximo do cemitério e do bar a zona mui visitada; parolam somente os machos sem espécie). Ali, bem ali, estão uns seus conhecidos: o Chico da Zica, que virou da Geninha, esta em quem treinava seus músculos seus muques seus murros; o Gerardão que judiou bem da Edna bonitona, além de fazer uma fieira de filhos no bucho dela; o Tonho a beber por causa dos ciúmes da Maria ou fora ela na ciumeira dele! sabe-se lá, agora nem o homem sabendo mais, pois após várias garrafas não se costuma lembrar sobretudo o porquê de embriagar-se... O Nego da Odete, ou da mulher dele com o padre e o cartório e depois postulação ao mesmo cartório para decerto o divórcio se é que não apenas houvesse desquite; enfim estando no local a fim de engolir as tristezas através do copo, copázio melhor dizer. E pra completar o quadro, Xis, Xis estando em todos lugares – por que não no bar! – em todos, inclusive onde não existir espaço. A oferecer um trago? certamente a receber um ou mais de presente, pois bebum tem o coração mole; tão distante do coração da vendeira, de olho assim no seu homem. Esse, aí aponta o chefe da casa dono da casa de secos & molhados, esse dá de graça pinga aos vagabundos. Ele? sorri. Amarelo. O Velho também sorri mas sorri sem cor, esta que é a ‘pigmência’ dos ausentes presentes no ver tão só.
          Contudo constatamos que no barulho geral e nos sons emitidos pode-se distinguir a música. Todo som é música, às vezes discutível a discutir, às vezes não. Aqui o instrumental são vidros. Alguns se espatifam no chão pobre pisado por pés pobres com chinelos botinas ou descalços. Quanto aos cantores... desafinados enfraquecidos mais e mais tanto quanto a oposição do pindura fortalecido e exposto meio escondido num prego enferrujado atrás da porta guardado a sete chaves pela guarda, a vendeira desconfiada. Os cantores nenhum lírico porém com muita dor de cotovelos.
          Os cotovelos falam, o Velho escuta e guarda pra si. Não guarda pra nós.
          Ou fala ou escreve. Ela escreve, Maitê; e o Velho relembra sua lembrança no Diário da jovem. As linhas anteriores e outras, estas... bem, há uma folha surrupiada do Anuário e exageradamente apelidado Milenário em que decerto há coisas constrangedoras porventura condenatórias ou pelo menos não santas nem angelicais do anjo irriquieto que detesta ser Maria. Seriam trechos comprometedores  ¿seriam intimidades que mesmo a intimidade se sente envergonhada nas suas vergonhas?  Pelo sim ou pelo não, realmente fechamos educados nossos olhos, os olhos de quem tenha orelhas de escutar... Fez mais o Velho mais ainda nós, bisbilhoteiros à beça: escarafunchamos, remexemos o cesto; farejamos papéis queimados destruídos e sem mais valor que o de poluir o planeta na parte que toca para cada poluidor... Nada. Nada? é nada.



Capítulo Quadragésimo Terceiro
O amor como um todo não é indivisível mas é inexplicável.

          Notamos nas páginas do absurdo o absurdo da irritação dela, de Maitê dita Maria anulada Maria a pedidos; dela com respeito a ele. Diz isso textualmente entre as folhas contendo as páginas de 31 a 43, ela numera ciosamente meticulosamente doentiamente organizadamente organizada a ponto desorganizar a harmonia das pessoas atabalhoadas e, por isso, indignadas, a Maitê numera enfim as páginas; vai daí termos percebido haver a moça arrancado a de número 24, atrás a 25 em branco escrevendo somente nas pares, interessando aqui a 24, sem quaisquer conotações de ordem moral esse 24, posto ser mulher, bela dizemos a propósito, e não macho da espécie bebum, de maliciosa lembrança, pois que ‘24’ é o veado de má fama; aqui citando o jogo do bicho mui difundida contravenção cujo maior expoente aqui sendo exatamente o pai dela, um grande apostador-perdedor também viciado na loteria, nas loterias todas da época. Irrita-se a bela com o horroroso velhote. Maitê ‘elogia’-o por ser gagá e carcomido pelo tempo; daí a dizer asneiras que, garantindo o criminoso, leu nas ditas páginas. Diz a garota mais ainda o menos que havia na folha arrancada: nadinha havendo comprometedor. Tanto assim que a jovem fala haver engolido o papel em descuido. Ora, não fazemos nós seres humanos tanta bobagem absortos! quando viu, viu a maçã, não a maçã da serpente aquela safada, viu a fruta que devera comer e não a tataraeva dela. Convenceu? Não sabemos; sabemos tão só haver xingado baixinho, educadamente, o Velho também baixinho em estatura e de olhos altos e orelhas ainda mais altas.
          Nelas, nas páginas das folhas ainda não desprendidas do Diário maiteano; nelas têm umas referências às lembranças sobre ele.
          Por exemplo, encontra-se registrado, recorda o Velho, que uma tal de Rita... apreguntamos nós agora intempestivamente qual fôssemos a defunta Caneta, se essa a filha do comerciante da rua São Luís, ela, ele, anuem que sim, e que isso nos importa. A Rita teve um caso de amor, duradouro e eterno enquanto durou; com uma talzinha, talzinha por petitiquinha a Clarinha. Investimos contra isso em dentes arreganhados qual o Peri diante doutra gente estranha no pedaço, pera lá: cachorro é cachorro, gente é gente. Sim mas ambos grupos falam e é isto que vale falar; de fato parecendo o Peri a querer morder de forma ‘viralata’ (aproveitamos a insanidade desta referência a reclamar da insanidade dos que desejam acabar com o hífen; e por raiva eliminemos o troço do traço nesse vocábulo) ou seja o ‘viralata’ a rasgar pernas das calças da gente. Ora, tendo pernas, o pé e o resto portanto boca e portanto falante, rouco a falar ladrando. Ou o Peri investindo noutro cão, um cão com pedigrí, desses de nomes estrangeiros a seguir as normas mornas da moda da gente, assim um Zé vira Iusef ou Joseph, um João Xará vira Johannes etc. e tal, tal a macaquice; daí estendamos essa conquista à cachorrada: um Peri sem Cecy, nacional, morde valentemente um Dick um Bob – e estamos conversados e vingados!
          Bem, com tudo isso a Rita, sapatona pra valer, amou com gosto e raça, macha pra valer também, conquistou um sapatinho, uma sandalhinha delicada por nome Clarinha, ‘bença’ padrinho diria a cumprimentar Xará chegando com sua madrinha Gena, ambos em paz no túmulo. O caso lesbicou anos, até não a sociedade desaprovar se indignar expulsar o demônio e coisas assim; assim doutra maneira: elinha se engraçou dum filho bastardo do Santo Intaliano, o qual lhe encheria mais adequadamente a barriga de intalianinhos umas gracinhas; dessa forma deixando seu ‘homem’ a falar sozinha ou a tomar iniciativa de igualmente arranjar outra mulher amante  ¿¡E por que não um homem, para por sua vez encher-se elona machona sapatona de sandalhinhas o bucho que seriam umas gracinhas?!
          De uma, três: ou Maitê ou o Velho ou ambos doidos.



Capítulo Quadragésimo Quarto
O homem não se explica; somente se explica a explicação do homem. Porque somos levados a procurar esclarecer todo enigma e precisamos, ao menos, não chegando a saber, saber ao menos o como não sabemos.

          Falou e disse ele, ela a Maria a resmungar a caduquice dele, falou estar se lembrando duma passagem por si só inexplicável. Ou louca e pronto. Haver visto presenciado in loco dois personagens, ao menos curiosos pra se ver num recinto absurdo; e absurdo pelo absurdo da fiscalização da vendeira. Enfim no bar, aquele um.
          Chegou arfando seu cheiro ardido, tem gente que assusta pela fragrância flagrante. Sentou-se na cambaia cadeira, se acotovelou na mesinha igualmente cambaia, vira-se ao vendeiro, pede mais uma não havendo pedido primeiro a primeira mas isto senão; se não vejamos: desandou a conversar. Com a garrafa? não nem com o copo, ambas peças a tagarelar seus desajeitos tilintando. Não. Doutro lado, um pouco envergonhada ou somente contrafeita pelo desuso no uso a Mamma. Não é Nonna? apreguntam as folhas de Maria. Não e sim. Ao Santo ao Berto aos outros da série gringa Intalianos não; e sim Mamma. Aos filhotes dos filhos e também filhos da Aparecida que não apreciava o patriotismo de mestra Santa e aliás não apreciava igualmente pela mesma razão o macho Santo seu cunhado – a tais filhotes, a eles ela vó, ou Nonna. Todavia isto é uma pequena embromação que nós perpetramos em momento de falta de ideias, as ideias que sobram nas partes anteriores a esta página.
          Não será desconcertantemente absurdo a Velha, que devera ela casar-se com o Velho e não a Caneta e ou a Maitê! absurdidade andar num recanto do bar a beber, ou só ele ela bebericando vinho falsificado e resmungando em italiano que o bom o puro o santo, o santo rubro de sua Itália! Ora, não discutamos com a poesia e piormente com loucos.
          Ele falava falava e falava, num dado instante exagerou: chorou a cântaros, inundou o bar – a vendeira toma dum puxador de banheiro, daqueles com borracha nas extremas, a puxar secar e secar mais bem com um pano, a torcer o pano fedido úmido a escorrer as lágrimas do moloide, pra depois reenxugar enxugando o chão outra vez. Nisso, quer dizer no choro extremo a compungir a velhinha que era uma velhotona dessas de grande massa e volume por muitas pizzas e macarronadas e polentas portanto sangrentas, melentas; a deixá-la enfim constrangida e decerto imaginando: que direi ao pobre a fim de consolá-lo! Nada, certos casos não têm solução, praquê daí gastar nossas energias. Chorava chorando Arfeio, nunca seria certinho Arlindo nessas condições. Chorava, ela também, por final, contagiada: o riso o choro o sentimento pegam sugerem... de repente inclusive à dureza do coração da Vendeira, ela a enxugar com avental de discutível limpeza e pureza seus olhos também. Ele para. (Com licença, senhores da Reforma, dar-nos-ão uminha a fim de pormos acento ainda em nosso ‘pára’?) ‘pára’ para tomar seu instrumento. Não é um depravado não, dona Mamma, abra seus olhões de olhar o bebum;  trata-se de uma clarineta ou um clarinete se melhor ficar dizer e não importa: o homem não sabe a ária nem soprar naquilo. Sopra assim mesmo, grita o ambiente com a fala da música; e não deveria ser um contrabaixo a remoer a marcha fúnebre! não, sim o clarinete. Sopra, sona, atinge, desafoga, para. Suspende a audição – o Velho não tem mais toda sua desenvoltura como em menino porém ouve – suspende, enxuga restos a rolar na face sofrida sofrível e ela, a Nonna, suspira alívios. Assim acaba o diálogo, a conversa.
          O Velho toma outra vez sua viola, uma caipira, não é a da gamba nem a viola comportada de nossas orquestras sinfônicas atuais não. Toma a viola, bota no saco e parte a outro confronto. Porque isso que tava no Diário não é conversa, amena, e confronto mesmo. A Nonna se arrasta fora dentro do seu eu, foge sem se perceber. Arfeio torna a ser Arlindo, bem posto, cidadão decente; embora por dentrão ainda a arder a bofetada que seu defunto pai Zé Professor vivo lhe dera, ou terá sido pelo tiro que lhe acertaram na cara noutro dia noutro tempo noutro bar noutro capítulo não este.



Capítulo Quadragésimo Quinto
                              Em silêncio
                              o silêncio que ficou
                              ficou o silêncio
                              da saudade que chorou
                              a gota
                              a lágrima
                              o dilúvio
                              que murchou...   
         
          Num belo dia ele voltou. Mas que expressão mais idiota! Chovia no rever a terra, a terra que deixara por dezenas de anos; todos de cara fechada e/ou indiferentes, não as crianças, estas a correr romper o cerco adulto gritar cair chorar gritar; mas também os idosos a somente ver o mundo molhado corrido lerdo agora na lama. Lama, isso, lama a estilhaçar a coragem ou a expectativa na fuga ao barro ao escorrego a fugir a chegar no aconchego do lar ou a ir aos negócios. Então pôs os pés ainda não molhados a ser encharcados no plof-plof oco dos passos. E gritavam grilos nos seus grilos de trânsito e os carros apressados também como possível ao engarrafamento e contra o talonário de multa; e a gente nas ruas apinhadas a se cruzar: pacotes e guarda-chuvas; notou como sinal dos tempos os tempos de hoje a mais passar rápido pensando iludir intocáveis minutos e segundos na esteira; notou sim qualquer mudança comportamental. Dessas que vemos sem ver e em que o retardo do raciocínio colhe filtra soma subtrai e rearmoniza num resultado. Assim notou homens, decerto machos pra valer igual a ele, homens de guarda-chuvas mas vários de sombrinhas coloridas; isto absurdo e inadmissível dezenas anos atrás. No entanto a sobrar muitos seres de capas ou improvisos de plástico em cobertura e mais ainda os sem nada, tudo o que Deus nos premiou a sermos apenas nós mesmos com ajuntamento tão só de tecidos grudados nos corpos e a água a escorrer pingar gotejando desde as cabeças no chão já saturado de umidade, ou a escorrer na enxurrada. Nisto percebeu um transgressorzinho com o secular barco de papel a se soltar na água a se sujar dela e nela e a se enroscar mais alenzinho. Sorriu; pela primeira vez sorriu sem precisar mostrar os dentes ao planeta, sorriu do pequeno num rir desse tipo de alegrar e se satisfazer. O barco se encheu e afundou; enquanto o proprietariozinho ou armador ou somente uma criança resmunguenta resmungou chorosa e desalentada. Sorriu o quase forasteiro, sorriu na dor então; pra sorrir do mundo e da gente do mundo. Contudo chegara.
          Não seria re-chegara, por haver mil e uma vezes feito o trajeto com a mesma conclusão na rodoviária de Marília. Não, era já nova, a despertar o gozo e o orgulho dos mais patriotas desse nacionalismo que se confunde com bairrismo. O pior nesse melhor era o se sentir também patriota... Contudo chegara, a rever os seus ou sua urbe. Aí a consciência despertando o coração, quase fê-lo chorar de alegria.
          Terá visto o Velho! Ele era o Velho a recordar, era ao mesmo tempo o velho que via o velho e o velho que era visto. Assim virou o novo velho. E pensando e recordando e narrando para todos os fins dos tempos.
          Maitê ao percebê-lo abriu aquela boquinha de beijar os jovens e vez que outra ou por desencargo de consciência ou por hábito que o costume impõe às jovens também; preferindo é visto os machos da espécie, que fossem os ‘sem’, para não despertar invejas. Daí registrar tudo em seu Diário; o qual folheamos em busca das reminiscências do Velho e encontramos... ah...

 O Dinossauro
          Claríssimo não fosse vir para rever a tumba de Xará, menos pretensão para com a cova do compadre Zé. A rigor sequer os netos cultivam a velharia de costume, não cultuam quase os pais que dirá os avós. O que exigir então dum bisneto atarantado ao chegar na Rodoviária parecendo ela um chapéu na sua arquitetura, a arquitetura milenarmente discutível e discutida. A rever as gerações que se foram? não estando mais elas porque se foram; a deixar em seu lugar o desconhecido... No entanto é verdade sim haver passado frente ao passado nos escombros que na cidade observou; inclusive notando o de quem sabe um que tenha sido certo palácio, área de presença e fuga e depósito de escombros humanos ainda em movimento no escombro de alvenaria, recanto de almas cansadas mortas e cansadas criaturas sem-teto sem norte vivas sem vida a recobrar subvida no espírito do morto ali proprietário e que se dizia antigamente ser Peter ou Píta ou coisa que o valha. Detalhemos que não prestou atenção se nesse universo estreito e tão pequeno, entre entulhos e matos e humanos um humano Xis, estando seu parente de sangue próximo como próximo distante. Não a fartar-se porém viu e reviu outros escombros na cidade sem memória.  ¡Mas que lhe adiantaria nesse atraso que gritasse qual o menino do brinquedo o brinquedo atolado na lama, gritasse por sua vez por causa da derrubada de prédios históricos feitos igualmente dinossauros no pensar banqueiro e demais emburguesamentos!  A se lembrar por exemplo – servindo-se comparativamente de imagem televisiva sobre a conservação de fachada medieval que mesmo as bombas da Guerra temeram destruir em quarteirões inteiros na Alemanha – a se lembrar enfim dos pouquíssimos dinossauros de tijolos sobrantes dos primeiros tempos marilienses, a sanha financeira a deixá-los sem pedras nas pedras sobre pedras...
          Assim prossegue o pobre retornante a rever sua terra natal, rememorizando cenas, com ajudazinha não intencional da jovem bela (por que será a Carocha tenha que tê-la sempre bela quando não belíssima! Freud explica) essa milenarista do diário, no registro em letra vazada rasgada contida arrancada na página comprometedora.
          Em ver por aí como por exemplo a esposa do Nego, a talzinha senhora que deveria ter e não sabemos o nome; ela e sua concorrente-desafeto-ladrona (a prefeitura? quê prefeitura coisa alguma, que despropósito praticaria a Caneta não fosse Inês-morta a dizer tal; acaso prefeitura tem dor de cotovelo ou marido roubado? prossigamos:)  a esposa enfim num bate-papo informal quiçá amigo (que vem a ser amigo e isso tudo não sendo novo despropósito? prossigamos-II) em resumo, numa conversa própria de comadres sem ter o que fazer, com a Odete.  Decerto a indagar, não sabemos bem, a pergutar do bastardinho já grandão adolescente aborrecente, se o filho que o Nego lhe fez na barriga se parece com o genitor, se... ah, não é uma loucura. O velho abalança os poucos fios brancos na calva a condenar, a se condenar, inclusive, pela sua própria memória.
          Todavia o curioso nisso é estarem conversando se servindo ainda da cerca com balaústre de madeira tão comum nas construções marilienses nos primeiros tempos e mesmo na fase em que a Guerra era guerra. A esposa na posição de bule, os braços fazendo ângulo reto e as mãos aos quadris. A outra... a outra noutra postura. O pior na coisa é andarem olhando pra ver se enxergavam um funcionário as mulheres: o Preta carimba seus papéis, alevanta vez que outra os olhões dos oculinhos e percebe a dupla de comadres. Aí some; some a lembrança também, agora revendo Luís com medo e apavorado pela Guerra, a narrar o temor a Xis, Xis sequer entendendo, entendendo apenas que a dona na cerca possa dar-lhe um prato, a fome anda braba cobrante na insistência à existência...
          Ora, pensa o velho, o novo velho – será que a Caneta não teria razão. Talvez sim, pois lhe parecendo o caos. Não, sim: é o caos. Isto grave em se levando em conta que a cidade haja ganho vários hospitais e perdido seus cinemas ao sonho, substituídos pelos cineminhas das tevês e dos DVDs, a sobrar apenas um hospício. O caos, alijemos dúvidas, permanece a certeza. Com este belo caos e a certeza, não duvidamos haver concluído esta que foi a Terceira Parte da obra.



Capítulo Quadragésimo Sexto
A um velho sempre se pode perguntar se está melhor, e
já dentro do assunto...
         
          O velho novo ou novo velho, o que sabemos nós em matéria de loucura. O velho poderia, ainda pode certamente, poderia sim dizer estar bem, bem aos olhos dos outros sem contudo poder afirmar de consciência tranquila – e que atrapalhada e abuso de poder poder manter em rédeas a consciência! sim porque existe situações tais da nossa vida ou apenas nesta existência em que temos absoluta certeza, sem uminha dúvida a tisnar esse céu, temos de que não nos encontramos realmente bem: harmonizados satisfeitos, a paz. Ah a paz, que seria paz. Suspendamos por ora ou ad aeternum o desastre nessa análise deste vocábulo abusivo compreendido na incompreensão. Pois bem. Praquê? a suspensão para retomar o íntimo do velho.
          O velho encontra-se por dentro com milzinhas interrogações, eliminara o ponto final – mesmo porque continuasse a abordagem chegaria à conclusão pouco satisfatória não existir final no ponto: ele vira tão somente linha a concavar o círculo da atmosfera terrestre e portanto deixando ser ponto para deixar também ser final. Não esse. Porém um sentimento de vazio ou de nada. Bem, sabemos o nada ser nada, aí o nada não existindo. Contudo realmente existia, o velho existindo.
          Poderia responder a outrem estar bem; não poderia se responder de sã consciência estar. Mas, indagamos enxeridos, dói alguma coisa? digamos aqueles esfolões não sararam ainda; isto é, caira linda e ridiculamente escarrapachado no chão na Avenidona movimentada, o que de mau gosto visto o perigo: um menino cai grita berra estertora atrai uma população; daí se levanta, passa a mão para tirar grânulos de terra sopra (alguém sopra e diz, tadinho, tem sempre um salva-vidas de plantão geralmente uma senhora porque as mulheres sabem mais e melhor se condoer enquanto as machuras ficam assustadas e sem coragem para erguer a criaturinha, enfim tem sempre um hospitalzinho em guarda ao anjo:) ao idoso não se presta presto atendimento. Ou por outra – há sempre também gente querendo juntar os cacos do caco; e a se condoer; isto porque estamos no Brasil, terra da solidariedade. O velhote diz envergonhado esquecendo mesmo a dor e bravata andar inteiro para andar, anda maquitola faz mais: sorri em diálogo a dissipar dúvidas; se esconde na esquina e chora com peninha de si mesmo. Foi assim, assim indagamos, responde que em três meses de esparadrapos (aí desencanta desentorta a língua gasta a boca e recita, a nós bem feito quem mandou apreguntar! recita a receita e todos remédios tomados aplicados assentados no assento sem acento pois o ânus intacto porém as nádegas... as de velho murchas magras com ossatura exposta a aparecer furar doer portanto; recita o como na farmácia no médico no hospital aí degringolando com a arma da língua a saúde pública doente, o como foi na vizinhança etc. e tal, enfim o universo inteirinho preocupado com sua dor pelo esfolão e... e nós nos reportamos à indagação inicial para reformular a sentença: bem feito!) em suma narra tudo do esparadrapo até à última casquinha já alegremente em prurido de coçar portanto mostrando andar sarando. Nós? pensamos uf! É, e o dever de ofício...

          Seus pulmões! Não diz coisa alguma, prova tosse retosse retorce o corpo magro assim. Assim despenca a narração: poderia ser um bilhete ou croniqueta mansa, não se contenta conta o conto, enovela uma novela bastarda igual a das nove; vai mais além, romanceia e declina do primeiro, faz antes introdução, ao último dos capítulos no contar, nosso sofrer, sofreríamos mais e mais se de grandura, em tamanho, do “Guerra & Paz”, ou de “Os Miseráveis”, não: um romancinho, uma obrinha dessas encalhadas nas poeiras na estante da livraria (ex-livraria porque os livreiros hoje vendem de tudo, como por exemplo comprimidos pra dor de cabeça, a dos outros não as deles, e até livros, claríssimo que não os encalhados). E, milagre! sim milagres acontecem: o velho pensa ser o romance de maior tiragem a vender como água ou como produto de informática importado clandestinamente da China com dístico indicatório made in USA. Ufamos de vez o fim, pensamos fim.

          Contudo, e o dever do ofício?
          O coração... arriscamos ariscos. Desatrela outra vez ou em continuação a boca murcha. Conta a parada. Fugimos. Não, não é covardia é defesa autodefesa. Vistoriamos o meio ambiente. Coisa alguma a pensar separar lixo ver abusos acusar dedar prender tolher quem sabe abusos; aliás quem sabe a resposta não formula a pergunta: apenas pra ver se vemos, a Caneta xô! a Maitê mui cheia de nhe-nhe-nhem? não – pra ver se vemos alguma boa a passar. Passam mil e uminhas, e que pedaços! Cansamos, até amar cansa; então passamos em revista a violência do trânsito, tamos na Av. João Ramalho, ela como flecha ao sul disparada da urbe, estamos exatamente na desembocadura e cruzamento com a rodovia que vem da Capital, logradouros loucos nos movimentos incessantes de carros caros pobres calhambeques a correr passar, infelizes motoristas sem culpa metidos nos veículos, estes malucos! O curioso nisso é não presenciarmos sequer uma ocorrência com polícia sirene ambulância e povo mais curioso que nós. Acordamos, horas depois acordamos, ainda conta. Já narrou todo complexo das consequências das coronárias mambembes; não satisfeito explica a de todos amigos de bom coração. Pior: muitíssimos deles ganhos na espera nos ambulatórios e corredores hospitalares nada hospitaleiros – se esquecendo das enfermeiras e tem sempre aquelas boazinhas. Cansado, agora o doente ‘sarado’ cansado. Fazemos deseducadamente sinal de uf! um sinal que o Santo Intaliano quando vivo fazia xingando blasfemando “porca madonna”. Nós não, uf! Queremos dar por terminada a entrevista, anotamos descuidados no caderninho numa letra horripilante na opinião da Maria a Maria tendo uma letrinha feminina arredondada caprichada delicada no impingi-la gostosamente no Diário. Queremos ir embora.

          Não permite nosso locutor interlocutor ou só louco (é visto isto pensamento disto...) Prossegue.

          Na semana passada, diz-nos o velho a provar bem nos deixando mal ouvi-lo sem parar, quer dizer falando sem parar paramos no descanso em ouvir ver as meninas e como têm... Na semana que passou fui acometido... aí despeja neste nosso lixo o seu das dores: a perna esquerda, o baço as pacueras o braço direito, logo o direito fosse ao menos canhoto no ferir o papel e garranchar. Muito mais a sofrer ou ponto de sofrer.
Aguentamos estoicos firmes, antes desejando que Ela, a Caneta com pedigrí e mesmo a Maitê de ouvidos novos pudessem nos render rendidos já; aguentamos firmes no propósito não em escutá-lo mas no de acabar nosso sofrimento e fugir. Tudo para quê? para que nos dissesse simplesmente que sua maior dor, a dor por não encontrar os que procurava em Marília, sua terra de nascimento, não sabíamos? Dissemos que não para agradá-lo e a cumprir a sina, a nossa. Bem feitinho, pois nos contou como veio ao mundo num buracão. No Buracão! Não, ah que burrice: como nascer no Buracão, sim se um indivíduo nasce no Vale do Rio do Peixe já no Buracão, não, meu jovem (nos robustecemos em nossa vaidade) não, nasci na baixada que escorre ao Buracão no seu flanco leste e... e aí ai que horror! narrou no tim-tim por tim-tim tudinho, claro nas dores do parto haver inventado, porque como saber isso um nascituro e um velhote decrépito se lembrar porventura sabendo. Nós engolimos.
          Fizemos menção em deixá-lo. Segurou-nos no aperto de mão. Como nossa gente adora dar os dedos aos dedos dos outros, mesmo em dedos de prosa. Ao menos deixou-nos ir almoçar, com promessa de retorno.



Capítulo Quadragésimo Sétimo

Quando alguém procura alguém amigo onde igualmente residiu, procura alguém difícil de achar – a  si  mesmo;  e,  às vezes,  não acha ninguém mais.

         

          Inquestionavelmente precisamos pôr um drama humano que precisávamos e o fizemos quando do reencontro ou encontro novo com nosso velho. Valha-nos Deus! Retardamos quanto possível o vexame ou só constrangimento ao inevitável, isto é o encontro do desencontro.

          Inquestionável aqui posta a coisa em termos filosóficos, não sendo poetas ou sendo apenas celerados. Isto em virtude, que seria uma virtude? ao fato de tudo ser questionado. Um filósofo depois de uns chopinhos na Brasserie ou cachaça no boteco na Vila Miranda perto da necrópole municipal, após isso questiona tudo, literalmente tudo. Porque tudo é questionável, mesmo o vocábulo questão; seu Zé quando inspirado num discurso ou se pensando Cícero diante de assombrada gente do povo nos primeiros tempos dizia realmente “qüestã” o que dava um charme intelectual no Professor; embora tudo isso, morreu e foi à paz do túmulo deixando órfãos os sem bens e os bens às sem-vergonha.

          Em virtude desta desvirtude pusemos a questão da dor que sentiu, disse haver sentido, o velho em visita, ou revisita, à terra natal, havendo olhado tudo vistoriado tudo, tudo observado e também a todos, todos revisitados, não encontrando, reencontrando, ninguém!

          Na verdade, e isto propusemos e falamos ao ar, isso por culpa da poluição quem sabe, não chegou às suas orelhas: não creu. Na verdade quando vamos ver algo ou rever seria melhormente posto, quando, desejamos de fato revermos talqualzinho éramos; não somos mais. Não chegando a ser tragédia, pois da condição humana. Não temos possibilidade a voltar na forma absoluta, em não ser virtualmente criando ou criando na imaginação a imagem do que era quando éramos juntos com a paisagem as coisas as gentes as situações. Aqui entra o bendito coração a derramar sentimentos; e que culpa temos em ser latinos! os gringos veem friamente a coisa como coisa, número algarismo sinal gráfico ou piormente dígito informático a se juntar somar e virar o ser ou a imagem; não sendo embora a situação em si; esta só é plasmada por nós pelos outros pelas coisas em que vivemos e com que vivemos. É uma tese e portanto igualmente questionável tanto quanto questão.
          Ora, defendemos e vendemos nosso sabonete, o comprador não redarguiu – chorou.
          Consolamo-nos em nosso pecado haver feito a criatura chorar: a lágrima lava o coração. Além do fato de reconhecermos que velho é um animal que verte fácil no estado normal e choraminga toda hora.
          Contudo voltou à carga, repôs o questionamento.
          Andou por mil vias públicas, examinou ambientes, parou frente residências, perpassou um e mil caminhos: trilhos, seus ancestrais ligados ao Xará diziam graciosamente “tríus” e também embelezavam o milharal com “míos” e outras coisas que a rabugenta Caneta se negou rabiscar, teimamos alinhavou vermelho e apelou rubrar as letras, enfim devem ter falado e pronunciado gozado se não gracioso também outras palavras, ou quiçá deformado tudo, no estilo caboclo, e aqui nos questionamos: não teriam os matutos a língua presa e a orelha mais dura que nós civilizados deste III Milênio. Passemos. Em suma o revisitante na saudade rasgada se pôs no ver inteira a cidade do seus sonhos e não encontrou a cidade: a mesma urbe andava remodelada enriquecida nos seus prédios e logradouros, ganhara mil flechas pavimentadas, com sinalização de solo e semáforos – sendo a mesma não sendo mais ela; e piormente a população não existindo a mesmíssima! Não é uma tragédia!!
          Isso nos custou o olho da cara. A quem apelar: à defunta antes azul e depois vermelha e após isso a morte! à Maria apesar de tratando-a por Maitê pra fazer média com a cartola alheia! Não. Gastando com táxi e ônibus circular por aí no provar uma tese, a nossa tese de que as gerações se substituem, pra melhor? (isto nova tese) e portanto a antiga não mais existindo nas condições que o velhote menino moço deixaram. Ficam sempre para muitos a recordação ou a saudade. Mas que é saudade. De quem a temos. Quisemos provar, inexperientes, termos saudade de nós mesmos. Quando recordamos bem algo será sempre a descobrir-nos no meio desse algo. Que não mais existe. Aí, neste ponto, aí achamos a solução (e pagamos o preço alto da solução pagando carros de aluguel e/ou coletivos apinhados).
          Olhou, vistoriou, inclusive fotografou naquelas kodakinhas japonesas fabricadas na China introduzidas em contrabando e adquiridas nos camelódromos ou lojas de ‘um real e noventa e nove’.
          Sim, encontrou e fotografou as placas das ruas com registro aos seus de seu tempo, vizinhos parentes e desconhecidos – tudo nas placas da vias públicas. Fizemos mais.
          Fizemos uma visita ao cemitério, agora a cidade possui dois, um popular abrigando pobres e ricos antigos e do seu tempo; chegou a ler os nomes enobrecidos pela antiguidade (que é moderna no dizer da História); e o rico moderninho para ricaços contemporâneos. Tudo a terra engole, faminta.
          Pior. Sim, pior, molhamos nossos lenços e até improvisamos um lençol, isto porque a poesia costuma improvisar bem a realçar a pobreza da realidade sabemos; o dito lençol apenas a estancar não porém a recolher os rios de lágrimas. Ah a tragicomédia humana.      
          Contudo o teimoso não se convenceu, mesmo vendo esqueletos debaixo de capelas, de carneiras e de montículos miseráveis de terra em cova e cruz.
          Permaneceu pesaroso; monoideísta encasquetado. Donde deduzimos mais fácil fazer a Guerra e a guerra à Guerra de milhões que alijar resquícios sentimentais no coração dum único homem.
 


Capítulo Quadragésimo Oitavo
A terra  de  um  insatisfeito  é  deixada  quando  ele  pensa  na terra de canaã  e  fala  nela,  maldizendo  a  sua;  emigra,  sofre,  e,  aí, sonha  com  a  terra de canaã, um  local  idílico,  donde  veio  ao  mundo,  agora  impedido  de voltar pela geografia da idade.

         

          Fosse por causa do vinho... O vinho estardalhaçoso ou a molentar metade da família paroleira, à família não brigar com a outra metade abusando também esta metade dos álcoois? Aquele vinho como se diz in vino veritas mas a fazer de fato brotar mentiras e intrigas? Não. Aquele que aprecia macarronada a qual era para fumegar no prato do almoço, sim, o almoço quase virando janta de tão tardio e aí se embaralha a vista, o nonno dorme, o netinho dorme com ele, os outros proseiam meio caboclês meio piemontês se pensando italianos? Ainda não. Sim, um copo apenas, apenas um desses de tomar água no filtro no qual a gente põe um quarto de vinho no vidro e desaba desanda ébrio sorriso moleza sono. Desse. Aí... deve ser nestas condições as condições com as quais recebemos o velho, o novo velho cheio de camaradagem com a gente visto nos dispormos não só a acompanhá-lo na visita à sua cidade, qual cicerones indecisos no mostrar o que a visita sabendo de sobra e a nos esclarecer: não se ensina o padre-nosso ao vigário se diz. De maneira que não por isso a camaradagem dele, e em paga porque fomos ao seu bota-fora.


O Bota-fora
          Na verdade, na verdade das verdadeiras, acampanhamo-lo à Rodoviária tipo chapéu como a se fazer cerimônia com o chapéu alheio, alheio aqui à ideia de pretensão em ciceronear também a ‘expulsão’ do velho e mui menos ‘aparecer’ vaidosamente no embarque. Isso em vista sermos apenas mais um entre marilienses a dar-lhe o apoio e o calor humanos próprio dos que se dirigem à estação ficam sentados na espera e aproveitam a conversar encher o tempo e olhar as malas e pacotes, pois em todos terminais do país existem ladrões; ficando a observar o vaivém da gente passageira e/ou visitante sendo despachada; vez que outra um dedinho de prosa com o fuginte a falar coisas banais como da última vez que aqui viemos vimos foi muita gente, hoje o ônibus não enche, enche esperar se não atrasará novamente; ou tão só tá quente deve chover e outras sustâncias.
          Na verdade fomos acompanhantes na delegação enorme que o rodeava, quiçá o paparicava o envaidecia (ou o chateava, o ‘Véio’ é pra lá de tímido, desse tipo que não se abre e então a gente, aflita, tem de inventar coisa pra encher o tempo o assunto e a hora, põe hora e eternidade nisso tudo).
          Na verdade seria um despropósito lembrar na comitiva a comitiva oficial, o senhor prefeito o sub que é vice e suas respectivas esposas, oficiais também, os cupinchas políticos puxas e repuxas mais e mais seguranças num gasto fenomenal ao contribuinte o chefe não estando nem aí haja visto o exemplo da cúpula sindical a ‘presidenciar’ esta nação. Não. Aqui o sim seria abuso, ninguém do governo apareceu;   ¿por não haver o velho comunicado sequer sua presença nesse retorno a matar a saudade que o matou não havendo achado os seus do seu tempo em não ser nas placas indicativas e no cemitério?  Por isso e porque certamente só nós achamos o velho importante. Não exageremos aqui: mui outros seres se interessaram e o acompanharam em comitiva a pô-lo fora de nosso perímetro.
          Na verdade havia nesse ajuntamento mil e um seres (aqui de maneira alguma desejamos significar hora tempo ano século milênio porém a dizer muitíssimo; aproveitando a concluir por estas linhas que a linguagem humana não é absoluta e não tem enorme capacidade em descer ao mínimo detalhe e subir aos píncaros numa abordagem; por isso fica a expressão ‘muitíssimo’ grafada antes). Não aceitamos, em comum acordo com o forista velho e demais fiquistas da comitiva, não aceitamos carrapato e bêbado a nos dar vexame mas em contrapartida havendo mil desconhecidos mais de mil indiferentes pra lá de mil estranhos talvez conhecidos; não vieram na despedida amigos, quem sabe a aguardarem uma análise mais profunda do vocábulo ou quem sabe ainda mais a reforma ortográfica, vai que a palavra... Doutro lado pululou pululando mil e um, ou admitamos, mil e dois insetos voadores e microrganismos como os vírus e demais de menos insignificâncias filtráveis. Infiltrados todos, absolutamente todos, na comitiva.
          Na verdade a tanto tantos acompanhantes pequenos ao velho, ele tímido por definição, tanto e tão tímido que o diminuiríamos então numa ‘super’-timidez, aqui a usar o jargão abusivamente abusado na linguagem da rua em nossos dias, nossos pobres dias atuais.
          Na verdade isso dando um quê a mais para que igual num empurrão no limiar do abismo o prisioneiro da educação e escravo da formalidade caras à civilização e à cidadania – se dispusesse finalmente a embarcar (não numa barca, não sendo a comitiva real no porto nem a chegar nem à despedida porém na rodoviária que é chã solo material dura de roer e existente na coexistência pacífica das relações humanas).
          Na verdade na verdade mesmo, aí sim acenou, sorriu delicadezas e, isto só nós percebemos, talvez vendo também o fantasma da Caneta e as linhas do Diário de Maitê: tomou dum lenço branquíssimo, desses lavados com o detergente em pó da propaganda televisiva, chegou-o ao rosto. Pensamos lágrimas. A oposição decerto vendo o escorrimento alérgico do narigão, o veio é narigudo, era ao menos.

 


Capítulo Quadragésimo Nono

O humano é quase sempre uma besta comilona.
         
          A propósito do bota-fora do homem...

          Botar fora para alguém soa mal, parecença com pontapés suma-se nunca mais e coisas desse jaez. Mas não: agora no ontem que fora hoje fora ameaços de harmonização da linguagem desabrida que temos, nós temos, seja pra falar bem, mal falar desabridamente, nisto é apenas despedida amigável. No entanto vamos ver certa notinha e um recado para eles – os defensores da linguagem culta correta a pernosticar sabência ou só erudição nestes dias com nova reforma ortográfica. Ora, bem perto temos um ‘fôra’ dos antigos com chapéu de hábito e costume na ocasião, em simbiose com um ‘fora’ de chutes e pontapés ditos. Passemos, vamos em frente que atrás vem gente, isto um dizer dos primeiros tempos até chegar nos anos setenta, após caindo em desuso ressucitamos a forma pra embelezar as feiuras das letras. Bem. Nisso, quer dizer no bota-fora, o velho expulso do paraíso pela responsabilidade os vencimentos inadiáveis e o trabalho lá na Capital aqui em Marília. Fomos enfim levá-lo nesse embarque na Rodoviária Nova, mostramos o chapéu, ele, ingênuo, imediato: rodoviária não tem chapéu, tem acento agudo. Daí disparou sabedoria ou esbanjadoria a explicar que “toda palavra proparoxítona tem de levar acento agudo ou circunflexo” (gozou-nos a incipiência e a brutalidade: o seu chapeuzinho...) no caso em questão acento agudo já crônico. Não, sim chapéu, falamos, a torre a vestimenta arquitetônica da bruta, aqui ele estrilou de novo, decerto ainda sensibilizado pelo bota-fora ou antes o depois de ter visitado anteriormente a sua urbe para matar saudade, matou sim, porém levando então nova saudade da saudade que tivera dela e mais do seu povo, o qual insistimos é outro, o ilustre procurou sua geração, solapada ou arredada pela nova geração. A gente procura e não acha, achamos ser isso.

 
Após o Bota-fora
          Então ainda pensava naquele ônibus prateado ao sol da manhã riscando a estrada qual seta rumo a São Paulo e se pôs a relembrar, inclusive o que não viu.
          Viu a Marguinha uma garota magrelinha a saltitar qual cabrito indo dar algum recadinho. O trabalho da criança é pouco mas quem perde uma oportunidade dessa é louco, diz o dito; dito e feito, a chispar, como toda e qualquer menina, a menina a andar-correr ora escorando num pé dando saltinhos no mesmo pé ora se sustendo noutro, quase esvoaçante de leveza e de pureza. Aí a dar o recado: dona Vita, a mãe falô isso ou aquilo e pediu bicaborado e... Não menina, é bicarbonato... e se pôs já de volta correndinho, fala à mãe aquilo ou isso de novo pensando na coleguinha e na brincadeira nem ouve a ralhação da senhora Maria; esta é outra não aquela Maria; mamãe fica a balançar balangando a cabeça grisalha pela doidura, a doidivana ‘fôra’ (este ‘fôra’ dos antigões portanto com chapéu) fora sua parenta, parenta dele, morreu, tadinha. Ora bem, dizem os lusos, morreu sim o tempo de menina na esteira a passar. Depois?
          Depois cresceu, não engordou engordou só após o casório mais tarde, deixando ver tendência a tanto, tanto assim que moçoila já mostra a intenção de comer o mundo! traça tudinho que vê. D.Maria: ela come como lima nova. Era assim, comia de tudo sobretudo doces gorduras massas e mais doces o qual por sua vez viram gorduras e daí a jovem incha cresce estufa balofa até chegar ao spá de nossos dias e às reduções de estômago de nossos dias e aos bombeiros de nossos dias em ter que desmachar paredes pôr guindastes pra retirar as centenas da gorda com a gorda junto ao hospital, onde morre em paz; aí vai sim em paz descansar com seu Zé dona Zefa a comadre Gena e o safado João Xará, quem sabe perto de João Mateiro de péssima lembrança.
          Pois bem, tudo isso pra falar uma coisiquinha de nada que é o fato da garota parenta do velho revisitante após dezenas de anos ausente da cidade e que não a encontrou e nem reviu sua gente, não mais ser essa garota: encontrou uma velha balofando suas banhas.
          Antes mostrava uma ânsia uma tendência uma vertigem em ímã numa atração infugível ao de ingerir mastigar engolir, uma curiosa necessidade que é a de comer. Por que curiosa? sendo que todo mortal come e por isso morre, exagerando claro. Claro sim pelo exagero apenas. Em adolescente já deixara o apelido incômodo de magrela. Os desafetinhos sempre em prontidão: essa magrela! elinha: esse gorducho! e vai por aí, ia por aí; aí encorpando ficou uma gostosura. Tanto assim que imantou o Chico filho do seu Zé Professor, ele só marceneiro, bom profissional, este esposo a torneá-la além das suas madeiras; oficial marceneiro, inclusive montou oficina de móveis própria na rua Coronel Galdino, esta via já nessa altura sem os seus roceiros a movimentá-la, visto Marília haver deixado ser uma agrovila agrocidade e virar a Capital da Alta Paulista, inchavam os marilienses por isso, e posteriormente ficou Capital Nacional do Alimento, que é o slogan de agora. Dito isto, isto o Chico não conseguiu fazer: fazia pilões, fazia torneados outros, não conseguiu ganhar a torneada-violonada que se chamava Margarida. Margarida casou-se, ingrata, com outro. O outro não conseguiu de sua parte fazer-lhe filhos (as intrigas afirmavam ser estéril a fêmea do casal) conseguiu porém em escultura arredondá-la embelezá-la. Não obstante enfeara, apreciamos mais a forma enfeiara mais bonito; bem, prossigamos. Como a Marga não conseguia “ganhar nenê” diz assim o povo e é uma burrice tamanha pois o casal tem de rebolar muito e esperar meses à fêmea dele dar à luz e isto não é de jeito nenhum ganhar, supomos; entretanto deixa pra lá. Lá pelas tantas ela se conscientiza no fato de que todas ganham nenê não eu! (pensa) tadinha. E desanda a desandar desandando a comer para compensar; daí ganha sim, sim peso, engorda estufa balofa feia e horrorosamente. O marido, dizem as línguas, tem por aí um bastardo igual teve um o Nego, ela não sabe o Nego não sabe o apócrifo do esposo, a última a saber! não sabe, sabe sim e por isso come mais, mais ainda engorda.
O velho nem quis sequer um colóquio com a parenta no estado em que se encontrava a parenta. Ela que vimos quando a acompanhá-lo, ela a andar com dificuldade pachorrentamente paquidermicamente, a pensar que todo peso do mundo anda em cima dela, a pressioná-la e mais impressioná-la. Não se dispôs nosso velho bater aquele papinho e rever outros parentes que porventura a mesma indicasse nem nada; cremos inclusive sentindo asco. Poderiam então recordar os tesouros da memória da parentela. Não, não quis, quis apenas vê-la de longe. Fez mal. Na semana seguinte faleceu Margarida. Não esperou mesmo um pouco mais a somar mais uns quilinhos.
          Nessa altura já devera o visitante haver retomado lá na Capital suas responsabilidades.

Capítulo Quinquagésimo
O casamento é um contrato; como o contrato comercial os sócios se desentendem frequente e têm semelhantemente a separação, que no primeiro caso se chama divórcio; em ambos casos vem a disputa pelo fundo de negócio (na família são filho e propriedade) e os ex-sócios terão de responder, em consequência, pelos desmandos dos tempos de funcionamento da firma.
         
          Olhamos curiosos, a curiosidade sendo da definição humana, apenas curiosos em ver vimos na passagem de nosso circular a Helena... Seria aquela europeia dos gregos candidata a deusa ou só mulher bela? não. A Helena bisneta da Zefa vinda ao planeta pela forma de Clarinha mas desconhecendo inclusive a existência da avó e mais a da bisavó; além disso nada branca europeizante porém morena e mais puxando traços africanos paternos. Por um certo incerto tempo vivera aqui perto, portanto nossa agradável vizinha, num período de mil noites ou apenas horas, a curtir os dramas intrínsecos íntimos e inabordáveis de sua família; aquela questãozinha de não se pôr a mão onde fogo... e daí só num esforço o esforço no pinçarmos com anzol experiente as coisas a vir à tona aos mais próximos dela, aos seus estranhos não; a nós outros, fora os íntimos, sobrando a sobra ouvida, como por exemplo um desentendimento explícito dela com o esposo, ou dele maismente correto com ela; mais ainda com a amante do consorte; e sabido também encrenquinhas bem decibeladas pra ser suficientemente ouvidas nas vozes dos filhos a coroar com o choro dela, Helena sofrida, essa do sangue do seu Zé falecido, um que Deus o tenha.
          Pois bem, hoje é dia demarcatório nessas entranhas por nossa benfazeja curiosidade, em exercício funcional desde a janela fechada do coletivo, e andava um calor terrível a gente nunca sabendo o que na cabeça dos outros que não arreganham o vidro para o ar a paisagem o mundo entrar pela janela. Olhamos assim mesmo, ela se oferecia.
          Talvez esta uma imagem forte, porém não se encontra distorcida, pois que se oferecendo ao público, entretanto apenas nós nos aproveitamos certamente da mesma.
          Vimo-la a regar o pó da rua acumulado, a sua rua lá embaixo no bairro próximo, esguichando com sua borracha, ou apenas a se vingar da prefeitura, aquela ladrona, haja visto o preço que se cobra por um mijinho na mangueira plástica e nas torneiras a gotejar. Mais que isso e isto é o que interessa a ser registrado para alegria do velho no Diário de Maitê: trazia no braço, o direito, esticado e a segurá-la a mão belíssima delicadíssima da senhora, enfim a prender bem uma criança. Sim um bebê, imitação de boneca de brincar de casinha quando então dizia às coleguinhas submissas e as do segundo escalão na brincadeira e também às priminhas “eu era a mãe” a pronunciar com aquela vozinha enjoadinha naquelinha epoquinha, hojinho vovozinha ainda de vozinha enjoada sem enfeiar sua beleza nata. O nenê marrom não tendo, deitado espichado, mais que palmo e meio pranchado no braço avoengo, com certeza em nossa dúvida não sabermos se falando ainda ou não os bababás que falamos em projeto de gente, gentinha, e se berrando mil decibéis a alertar de sua presença o bairro; indo portanto da mão segura ao final do antebraço da mulher, esta em mostrar suas precauções e mais preocupações, sobejo para nossas descaradas orelhas e olhos desde a janelinha sim mas também com olhares pregressos de anos a vasculhar aquela intimidade fechada hermética em função como dum cofre bancário em dia de domingo sem guarda. Vimos, contamos naquele rosto belo circunspecto frestas e sulcos, os vincos entre as duas sobrancelhas, apertados qual apertados na profundidade e na quantidade dos problemas da dama viúva de marido vivo; e como vivo! em suma dos problemas outros sendo os mesmos de existência anterior e desembocados nos filhos; tudo concentrado nas ranhuras de preocupação entre as ditas sobrancelhas aparadas tão feminina e belamente; ranhuras tais tantas que se não dando a contar, somar, somando as que só advinhamos por saber pra ninguém saber. Na direita, noutra mão, noutro braço, e no braço esquerdo com mão esquerda, a dama grega falsificada a apertar a ponta da mangueira para que a borracha de plástico, espremida assim, feche a boca mais de abrir a boca da taxação por aquela ladrona de prefeitura (e a gente jura sempre nunca mais votar na reeleição: “é tudo ladrón” falava um vizinho de nós ambos e de origem gringa). A seguir então ela olhou.
          Olhou? olhamos haver olhado ela, pra lá pra cá, quem sabe pra ver se via o pai filho dela do netinho, ou a mãe, as noras seja por intriga da oposição ou a oposição milenar do gosto em desgosto das duas partes, a nora a sogra ah a sogra... Ou para ver se via nosso ônibus, não a nossa janela de ver voltada ao mundo, esse mundo rico sim em hilaridade e na contrariedade e nas variedades mais.


 

Capítulo Quinquagésimo Primeiro

A economia mundial está doente. Sofre, antes doutros males, de um câncer chamado inflação. Os médicos especialistas diagnosticam receitam remédios desde que eles mesmos não passavam de pajés da tribo ou conselheiros do rei, ‘infalíveis’ aos povos. Mas o câncer continua aí forte quiçá invencível. Na Argentina houve faz pouco dose cavallar, no Brasil atual temos manteiga. Os ministros ministram sentados no consultório medicamentos que mais não passam de placebos. Os curandeiros de hoje receitam a receita dos juros altos a conter o estado febril. Contudo nada basta à voraz inflação. A inflação perdura. As gerações de esculápios se sucederão. Mas o câncer é incurável; matará a economia, não morre. E isto infelizmente não é um primeiro de abril.
         
 Terá sido por uma imprevisão quem sabe; não isto, levando em conta que o acaso não existe, não existindo o acaso o inusitado cai por terra também, havendo só a possibilidade em não se haver notado e previsto com certo grau de acerto o erro. Contudo eles se acharam, a se considerar mais ainda que a ocorrência deu-se antes do depois, depois claramente de o velho haver partido à casa dele em São Paulo, num embarque se não tumultuado um pouco desorganizado, desorganizado talvez não tanto: tanto sim desabituado, em vista de apenas de milênio em milênio os pobres se aventurarem à ventura da aventura duma viagem em ônibus prateado a se deslocar na velocidade das estrelas, as quais o homem comum vê no firmamento paradas estáticas a piscar seu sono. Terá sido imprevisão. O fato é haverem se encontrado ambos velhos – seria o velho novo com o novo velho! Bem pensado isso e nós ficamos então (estávamos a acompanhá-lo nas suas andanças a reconhecer, conhecida, a urbe de nascimento; e nisto o ‘lo’ se referindo ao velho novo, após embarcante à Capital) ficamos no meio da gangorra...
          Expliquemos a gangorra, a qual pronunciava em pequeno, nunca alcançando ele grandes estratosferas em altura mas a falar aqui menino, menininho e em menininho pronunciando “gôgô” e não gangorra. Aquela haste de madeira com um tronco de atravessado no meio, de maneira que as extremidades uma tá lá encimão o garotinho com medinho e gritinho ou alegrinho extasiadinho enquanto a outra extrema do brinquedo tá lá embaixo com a bunda no chão, aqui num problema danado por poder sem poder evitar-se o soco o choque o baque o estrago e conseguintemente o de cima não podendo ouvir o choro das nádegas do outro coleguinha de baixo na brincadeira. Todos sabem todos veem nos parques infantis da prefeitura, aquela ladrona no dizer da Helena com sua boneca esticada no braço direito. Então, estão ambos moleques nas extremidades a repartir as dores e alegrias e quiçá a se xingarem, isto uma verdade a mentira que os pais longe para não ouvir. E nós, enquanto, estamos nos equilibrando com os pés cada um numa parte da tábua, lógico uma inclinada pra baixo outra inclinada pra cima, ou atentos em não cair ou que seja atentos a ouvir os meninos se culparem. Trava-se opulenta conversa e a gente no meio da saraivada dos tiros sem poder participar, semelhante bobo falam, sem poder dar palpite na prosa e não raro sem poder entender a gringuesa do que dizem os falantes, falantinhos nisto. Os velhos...
          Os encontrantes ou reencontrantes firmes na sua conversa, cansados decerto ambos e impetuosos a ganhar a parada na gincana do bate-papo – se falam se lembram se indicam. E nós! nós ora olhamos pro lado de cá ora pro de lá, concordamos em boa educação... quem somos a inteligenciar discordar!? concordamos em grau em gênero e o mais houver, porém comportadinhos: só de cabeça pra não atrapalhar no ringue essa disputa.
          O primeiro velho, diríamos o velho novo, aquele em meio à comitiva no bota-fora na berlinda da comitiva expulsante do visitante, corrijamos revisitante. O segundo o novo velho, não sabemos como se farejam se acham se entendem desentendendo-se as pessoas no meio das pessoas em multidão, ainda mais que passávamos por entre embrulhos pacotes compras de fim de ano no rebuliço da gente a falar passar enroscar rosnar suas crias com choros gritos pedidos manhas implorações exigências dos fedelhinhos aos bolsos apressados dos pais – enfim o caos. Em meio aos caos... “você não é fulano!?” ou então “olhe quem encontrei” e vai por aí, aí se abraçam se perguntam e daí se reperguntam, visto um não escutar o outro já formulando nova indagação. O fato é o haverem se encontrado se reencontrado no palheiro; no final não se conheciam; nada grave: ninguém conhece ninguém sequer a mãe ao filho o filho à mãe, ninguém e a rigor não nos conhecemos a nós próprios! Esta é a nosso ver a maior tragédia humana. Porque sem se conhecer não se pode conhecer outrem. Daí um passo ao desamar o outro como a si mesmo. Isto a cheirar abuso e loucura, a proposta é a contrária ou o sentido oposto. Todavia se acharam no encontro e trombadas de suor que as gentes dão nas gentes famintas de gastar o décimo terceiro ou o aumento imaginário salarial no mundo de faz de conta da realidade plausível do caos. Era o caos.
          E o caos provocou a parada de nossas andanças então, exatamente na rua Prudente de Morais na esquina desta com a São Luís e respectivos pacotaria e sacolagem. Você... Se perguntaram se não ouviram convenientemente e após se feriram a conversar. Lembra disto daquilo daquiloutro? de fulano de beltrano de siclano, pela ordem: o caos aprecia a ordem dos costumes.
          Tudo ocorrendo em mote pela referência ao táxi, o velho novo resmunguento pela taxa cobrada, o chofer decerto se enganando, ou de propósito ninguém a crer em ninguém negativando as relações, se enganando na bandeira dois quando mil e uma vez se cobra pela bandeira um, um para conferir... O que sem razão, todavia exigir razão em idosos é sem razão. Além do mais o numerário ao carro saindo de nossos bolsos; e também a passagem de ônibus urbano, embora mostrasse o velhotão sua carteira de velho nós pagando a nossa passagem na catraca; portanto sem razão o reclamar, isto nossa reclamação. A dele pela carestia em tudo, a inflação desenfreada o aniquilamento do dinheiro. O outro ficou eufórico diante do questionamento da carestia levantado, a carestia e a inflação, doenças do sempre em todas economias, particularmente em a nossa terceiro-mundista. Contaram e se lamentaram por ela minutos eternos. Entretanto nos enroscamos mais no táxi, o qual gerou enorme e infindável blá-blá-blá. Os de antigamente não eram tão exploradores. Se lembra quantos mil-réis uma corrida do centro até à Fazenda Cascata? Lembra o ponto na Avenida (Sampaio Vidal, esclarecemos, a espinha dorsal da urbe) era esse ponto o único existente. Não. Sim. Talvez. Ah a força das palavras e os deslizes das palavras... Seja como for concluíram pela existência dele por dezenas de anos. Tinha aqui, mostrou um o outro concordando (aqui é a Prudente) um ponto de biribas, a gente chamava aos carros miúdos Anglia e Austin ingleses de biribas, aí ao lado das Pernambucanas. Lembra do Henrique Espanhol, do... citaram os motoristas suas amantes suas graças suas desgraças suas intrigas e mais mais no menos. Se fortaleceram afinando a língua, cansaram.
          Nós? ai que dor no pescoço.
          Se despediram, nos despedimos da via pública apinhada agitada cheiinha de estranhos aos conhecidos. O pior neste melhor foi o velho novo, quem sabe na ânsia de não perder a passagem o ônibus de volta à capital, o pior foi que ele não sabia talvez nunca houvesse sabido o nome do novo velho...

Capítulo Quinquagésimo Segundo

Deus decretou-nos a pena de vida; o homem, querendo superá-Lo, a pena de morte.

         

          Chegou à espantosa conclusão após indormir encasquetar teimar pensar repensar imaginar e, aí sim concluir: andava mais velho; mais velho! isso não deveria assustar um sujeito acostumado com os anos e o sofrer anos e o se alegrar anos e o engolir por anos sapos, os sapos que a vida o fazendo engolir; a vida não: a existência da qual não tendo bem a extensão e amplitude; a existência a si sofrida, lamentam dessa forma os fracos porque a lamentação é o forte do fraco. Contudo se virou revirou no lençol gasto e na coberta, a coberta daquele tipo ‘tomara que amanheça’, os seus conterrâneos a usar a expressão engraçada ‘enxuga poço’ ele a preferir ‘peleja’, mesmo porque ora tava ela cobrindo a cabeça de não ver fantasmas no escuro, corajoso, ora nos pés descobrindo a cabeça horrorosa que o espelho teimava mostrar e assim a peleja, a contenda, entre pés com frio medonho em noites frias e a brasa à sardinha da cabeça... Essa cabeça que agora tendo umas ideias malucas, não fossem malucas as outras partes de si. Assim se foi espantando pelas minhocas seu Zé, as que teve naquela noite quase dia já, o gritão penudo do vizinho a estertorar o bico para suas galinhas pularem do poleiro e cantar e botar ou a fugir do gato, este dele mesmo e não do vizinho. Minhocas do Zé Viúvo por vezes perigosas.

          Entremeio a elas punha a questão seguinte: se Deus nos decretou a pena de vida, por que razão o homem com sua razão tem que decretar a pena de morte!
          Isto em virtude da desvirtude em ter tido inclusive sombrias ideias de suicídio nessa noite, havendo também por anos a fio condenado o assassínio; ideias que agora afugentava no limiar dos seus setenta e dois aniversários completados no dia quinze próximo passado daquele presente em se remexendo na cama num terrível desacordo e a lutar com a peleja então de furos respeitáveis: a velhice não deve ser considerada apenas com respeito à gente, às coisas; as coisas que a gente usa.
          Se velho igualmente como o velho novo e o novo velho de tão absurdas lembranças, lembramos nós ao velho, o Zé Viúvo seria então na definição mais completa houvesse mais no completo, seria um velho permanente ou eterno no enquanto duração, pois já acostumado e até calejado a ser velho. Ser velho sim, não viúvo. Tanto que se remexia sentindo necessidade da campanheira, se remexia a mexer a cansada peleja cheirando o cheiro dele, que ela apreciara um dia, morta não por cheirá-lo mas de morte morrida de repente, um falecimento que o Zé não deseja mais lembrar lembrando assim mesmo a se torcer na cama; e aquele gritão vagabundo e impiedoso a anunciar o dia a coberta a teimar a noite.
          Entretanto seu Zé – filho do filho de seu Zé, este na paz do campo santo com dona Zefa e os compadres – ele minhocava lúgubres ideias até aí, como o negativo do suicídio, em mistura com ideias outras positivas; tanto assim que fora semana antes ver umas terras para comprar empregar um fundo morto, este morto sem se matar porém parado a engordar as burras do banqueiro, uma classe que não precisamos ajudar nem um pouquinho. E tal ideia mostra o quanto de esperança e crença ainda naquela mente doida. Tinha mais outras a esdruxular o absurdo...
          Quem sabe não por isto o se remexer e não mais dormir (o galo, sempre o galo não o gato o gato ainda a dormir no sofá deixando aqueles pelos grudados no pano, o galo a gritar os acordes do raio do sol). A gente quando não tem o que pensar pensa bobagem. O Zezinho, assim em referência-comparação ao avô seu Zé Professor, ele viera ao mundo num descuido dos pais, vindo na brecha da vertente intelectual da família. É sabido que seu Zé fora até mestre em letras nos primeiros tempos da cidade, engasgava entretanto na tabuada a qual fazia por ordem da palmatória os alunos burrinhos decorar, enfim um homem de cultura. Pois bem, os filhos dele não foram mais que puxadores de enxada, nenhum com tendência às letras. Um só optando por essa vertente, inclusive gozado nisso por seu desafeto familial, o Arlindo ou Arfeio segundo a crítica comadre da mãe. Não foi para diante; todavia quis os seus formados. Teve inclusive um açougueiro. Outros filhos um tornou-se farmacêutico (o pai dizendo “farmacista”) outro dentista, as meninas viraram professorinhas de abc, o magistério então o teto feminino. Dos machos o genitor conseguiu mesmo um médico, o qual estudou às expensas paternas em Curitiba (em Marília hoje temos duas escolas médicas, na época nenhuma). Montou consultório na sua urbe, foi cirurgião nos hospitais porém os colegas e piormente muitos pacientes o chamavam “açougueiro”. O mano mais novo não deu nada; deu, deu trabalho ao pai deles. Não obstante esse caçula, José, aqui Zé Viúvo ou Zé Neto por causa do avô ou Velho eterno; tal caçulinha engrenou no comércio, quase enricando.

          É em cima do pecúlio ajuntado a duras penas que o Zé Viúvo trabalha sua esperança, a combater a terrível ideia negativista originada pela solidão, e pela sovinice também (pois onde se viu cheirar o cheiro da peleja velha usadíssima, dizemos e completamos enxeridos: por que razão não gasta uns reais numa coberta nova!)

          No entanto palpites alienígenas não abalam um convicto pessimista como seu Zé. Por fim levanta-se, faz o que faz, xinga o galo alisa o gato; embica na rotina, nada intelectual.



Capítulo Quinquagésimo Terceiro

A janela  é  o  olho  duma  casa  pra  ver o que não se deve; a casa devidamente punida com a mudez da porta. 
         
          Nós temos o velho nós temos o velho novo nós temos o novo velho nós temos agora e quem sabe se não sempre o velho eterno enquanto durar; a fim de bagunçar estas linhas malucas.
          Que haja lembrança desaforada nesse eterno não espanta. Certamente a espantar os intelectuais em plantão na família, sabido que Zé Viúvo aparecendo e se eternizando desde a vertente intelectual. Isto uma boa ligação com o mano desossador de vaca no açougue e mui bem visto pelos roceiros a procurar seu consultório. Um dia, realmente certa noite, a novela das nove já pornografava um filme de bangue-bangue quase às vinte e três horas, o açougueiro surge aos gritos em frente à casa, ou mansão à pobreza da periferia, na zona central, aí nas imediações da rua D.Pedro e... ah tem um senão, se não dois senões. Seguinte, em Marília ninguém nunca soube nunca qual Pedro, seria o da independência, a decretar a morte ao domínio luso; seria o filho II, primeiro na hierarquia dos ‘dons’? O povo a conhece até hoje por D.Pedro e isso basta. O segundo entre senões é uma questãozinha de engenharia e urbanismo, conquanto graciosa a cidade na distribuição de suas vias: nós nunca sabemos aqui o que seja rua, a rua magra quase carreador estreito do pobre capiau; nem avenida, fosse que fosse um boulevard pois seria da largura da visão do rico aos seus carrões quiçá ‘limosines’ passarem. Não sabemos, porque em exemplo as avenidas Pedro de Toledo e Nelson Spielman são estreitas e magrinhas parecendo a Margarida antes do spá e falecimento, magrelinha e acanhada. No entanto já dito, senões.
          Maior senão, avolumado até, o do Açougueiro a deixar seus periscópios de olhar os navios das enfermidades nos pacientes ou sua machadinha de ferir a mesa tosca do açougue e abrir barrigas – para simplesmente insultar o desafeto.
          Pior no pior um desafeto parente, não se sabendo se o mano dentista (claríssimo não ser o Zé Viúvo, manso; outro:) seria então um cunhado casado no padre da igreja Santo Antônio, o casamenteiro, com uma das manas professoras! Realmente não sabemos, não sabemos tudo.
          Chegou no centro, ele também morando com a açougueira dele e os açougueirinhos umas gracinhas quase na Avenidona, chegou já gritando, muito pouco médico mui pouco intelectual e pensador. Feriu o quanto necessário conforme um lado o outro. A família insultada assistindo a santa novela das nove ou mais, respondeu à altura. Isto é: baixo para não se comprometer com a vizinhança civilizada, pois estavam a findar o II Milênio e aí a gente deixara a barbárie séculos. Não passou disso: se encaramujou lá dentro da mansão a escutar impropérios dignos da periferia após o boteco e as faltas sem sobras. Gritou ofendeu e o ‘insultado’ (segundo a oposição o parente havia dado uma cantada inocente na Açougueira do Açougueiro...) se dizendo vítima – ah como apreciamos ser vítimas! – então essa vítima resolveu tomar satisfação e apelar qual fosse o zebebum na venda antes do porre, após sai arrastado sabemos. Apelou, berrou mais alto a chamar nas janelas os vizinhos curiosos em ver a paisagem noturna clareada por postes e talvez as mariposas a rodopiar alucinadas bobeadas em volta das lâmpadas públicas; berrou a chamar parar passantes em ida ao baile da madrugada no sábado e atrair também a canzarra a xeretar por ali; então desaforou não só vociferando: destruiu o automóvel no passeio ao passeio dos familiares e ainda não limpado alisado perfumado guardado na garagem entre as flores do jardim particular a embelezar os olhos do passeio público. Sim destruiu, literalmente destruindo, e o fez em menos de meia hora, das pequenas e pouco duradouras – deu pontapés e murros (notemos aqui o Açougueiro desarmado, um profissional amadorando e portanto pacífico...) Foi além, tomou da pilha do vizinho do desafeto um tijolo à construção do tal vizinho e atirou a bala no parabrisa do veículo parente! Estardalhaçou o vidro e o ambiente nobre. Por fim ufou seus suores e indignações e se foi, vitorioso. Ah Pirro...

          Conta-se, a propósito desse episódio e isto atiraríamos nós à Caneta se viva ou nas vivas linhas do Diário não o fazendo por coragem a enfrentar o resto das linhas; conta-se que o carrão de luxo quase virou sucata, arranjado, garibado se diz, passado à frente porque gente não aprecia prejuízo: passa à frente esse atrás e guarda o lucro e compra outro carro, no caso novo em folha, um Studebaker da época em moda; em moda importado já havendo ‘nacionais’ de propriedade alemã  DKW e Volkswagen. Nisso tudo ganhando ainda demais a família.

          A família discutiu muito, muito aprendeu na contenda dos familiares e na bravata açougueira. Um ganho. O financeiro, ainda na família. Falavam que uma bastardinha, portanto do sangue de seu Zé, os dois Zés o morto e o vivo viúvo; essa bastarda uniu-se a um japonês, fato comum na terra nipônica mariliense; e tal japonês foi quem na sua oficina desestragou o estrago açougueiro. O defunto carro teria ficado novinho em folha, isto dizer de fins do milênio também. Após, passado a casca do auto de luxo pra frente nesse pra trás do ver comum.
          Contudo não foi, foi apenas mais um pensar, não fora isso a única minhocagem na mente viúva do Zé Viúvo naquela triste noite de insônia e galo a se lembrar suicida em potencial... Não. Desandou na crise do limiar da velhice indormida insone insana a pensar como envelhotara.
          Puxa, gritou, sem temer acordar do ronco a sua bela esposa de olhões assim e que lhe apreciara o cheiro macho não pra valer; sem temeridade por haver a ‘jovem’ falecido, ele velho até prova em contrário.
          Então berrou espanto: puxa vida tô com setenta e dois! De fato, estava.
          Nos subsequentes dias, pois depois após insônia o galo acordante cucurucou a espantar o gato e o Zé se levantou e inclusive fez planos para ganhos nas perdas financeiras, já dito e provado antes; nos dias seguintes minhocou outros absurdos. Absurdo é tudo que fira a realidade do homem comum; e em que, desperto, envergonhado, o homem comum tema publicar de língua – mesmo o homem simples teme a vergonha. Quando muito, depoisão, sorri de si. E tamos conversado.
          Chegou enfim a uma conclusão fantástica a estourar a maquininha japonesa de pilhas com dígitos gastos e bateriazinhas tipo lapiseiras também gastas. Digitou 72 anos, multiplicou por 12 (meses do ano) tornou a multiplicar e mais multiplicar, primeiro por 24 (horas) por 60 (minutos) e finalmente o resultado por 60 (segundos) a chegar à curiosa cifra de 7464900 e não sabemos quanto mais, mais não sabia se embaralhou se perdeu nesse achado e não sorriu a conhecer quantos os segundos de idade, gargalhou! com acresciminho “pô, como sou burro...” Era.
          Era também uma eternidade insondável naquelas Mil e Uma Noites em dias contados por segundo, segundo sua crença.



Capítulo Quinquagésimo Quarto

No lar humano quase sempre o macho é tão só o visitante, às vezes fugaz e querendo também, estando ainda na sala de visita a entrar no quarto, mandar no pedaço cantar de galo; a mulher é a verdadeira dona da casa: recebe engorda carrega e dá cria à cria do casal; aí virando ela a mãe e o homem da casa.

         

          Apressados, teríamos outra visão da visão, talvez também da parolagem em ótimo barulho nos vozeirões machos pra valer e nas vozeirinhas umas gracinhas, de gritinhos em meio ao falar fino e tilintar pratos talheres incomodados quem sabe com o cheiro da comida, ainda a ser comida se comendo uma que outra das misturas deixadas pra lá em farta ou frugal refeição. Eles tratam brasileiramente almoço e caipiramente “armoço”, nisto arredondando umas voltinhas engraçadas no erre; a chocar erres errados fortes bravos machucantes na garganta, supomos, do paulistano, eles tão só paulistas. Uma algaravia no estilo. Qual?

          O galo era a galinha gorducha em ciranda pra lá pra cá nas saias; será isso as tais ‘plissadas’! não sabemos; ou rodadas, espalhafatosas nas cores com uminha só berrante: certa peça de cima vermelha de doer ferir machucar vistas fracas, a roupa forte da senhora os olhos fracos nossos; disso não apreguntamos entretanto à Caneta: os mortos não falam, falam que falam sim não sabemos igualmente; ou à Maitê, que decerto se bandearia aos lados femininos e podia que pudesse até gostar da tal vestimenta e das cores inclusive a berrantinha da vestimentona. Dito o dito, não apelamos à oposição, ficamos com nossa abalizada opinião, bom. Bom!? Bem; então prossigamos.
          Com toda razão, pois quem mandando ela cantar de galo nesse terreiro com aspectos italianos, haja vista a barulheira (não apenas das crianças não...) porém um lar mastigante matuto em meados desse fim de milênio, deste quase, quase chegando a mil e novecentos e oitenta e qualquer mais. É o almoço; não o simples medido regado frugal da semana, entretanto o domingueiro, daí barulhento e tardio; embora, fumegava um que outro prato cansado na espera e frio ou esfriando já.
          A mulher dava as cartas. A rigor determinando inclusive as posições na mesa pobre, dessas toscas maciças pesadonas de madeira não trabalhada – ora, não se come arte, porém comida. Que é comida! Quanta ignorância, comida é comida, enfim o que se come por costume da fome ou para não pensar e ver o costume.
          O costume nesta região, sabendo-se que o caboclo é apreciador da quantidade e não observa qualidade, o costume é o hábito do arroz com feijão e a mistura durante a semana de trabalho ou de procurar trabalho... ah o trabalho e/ou serviço ou ocupação para não minhocar indevidos. Contudo nesse fim de milênio segundo avança pari passu com a crise mundial o desemprego, diverso do III em que há desemprego e o desespero do desemprego.
          Não há desespero nem desemprego propriamente nesses descendentes, decerto até prova em contrário, descendentes dos pioneiros Xará e Professor, descansandinhos na paz e sequer a pensar nas encrencas e encrenqueiros que seriam gerados e teriam por herdeiros... de quê? Quando é que vamos parar de culpar outrem pelos nossos desmandos! Em geral, a nível planetário e humano, sequer imaginamos as sementes que plantamos e menos pensando nas consequências, visto o aqui-agora das coisas. Não obstante por quase duas gerações houve interações e desinteligências entre eles, desde João que sacrificou um João Mateiro e de seu Zé assinzinho pelas damas de vida fácil a irritar a viúva dele; atos deles a refletir em filhos e netos e bisnetos agora. Piormente havendo confrontos, felizmente também acordos, entre herdeiros ou só ‘herdeiros’ dos dois compadres. Às vezes só pruridos ou desconversas nas conversas como as nesse domingueiro encontro...
          Isto porque o homem comum desconhece outras interpretações da diversão. Um que outro no anzol ou na caça mansa ou na conversa-fiada; uns desandando por aí, um que outrinho na sessão de cinema ou no parque ou no circo, nas matinês, de tarde e não na manhã francesa no Brasil. O comum do homem comum entretanto a se achegar, quase sem outra escolha, a se achegar aos seus no fim de semana. O almoço, agora com a tevê em branco e preto e logo a colorida a ditar ordens. Todavia o costumeiro é mesmo a conversa a mastigar. Não falhando nisso nesse domingo a turba dessa turma.
          A velha Domingas dá as cartas fala fino e mais fino ainda nervosa com as pestinhas a se desentender, no entanto fala grosso nas ordens. Então o para é mesmo para, para após continuarem a se beliscar se caretar e finalmente para retomarem a briga doutro capítulo anterior, a dedação a delação nada virtual. Desafetos a postos. Dominguinha neta mais velha da velha Zefa se dava inclusive com a mais nova quando velha da velha Gena, amizades duradouras; uma com o Zé se casando ou só amigando pra horror dos mais religiosos dos troncos em questão, galhos podres (no III Milênio a podridão é sã, de tanto existir; isto outra conversa, voltemos à conversa). Dona Domingas não pensa nesses termos talvez por domingo, pensa agora domingo e armoço do domingo; não aquele que é semanal e dessa chatice da gente tar fazendo o café, o coador furou vazou passou pó o cheiro cheira a casa as casas vizinhas, ainda tem de acordar fulaninho beltranão não: acordados só alfinetar sua gente a pular da cama, tem o frio o calor ou nada somente sono; faz coa remexe o açúcar levanta mais fragrância boa de café – já a pensar não no arroz e no feijão indefectíveis rotineiros, na mistura ah a mistura... Faz café já pensando no que fazer pro almoço; no almoço o que fazer com a sobra do almoço ao jantar, eles pronunciam “janta” a economizar erre gozado desarestado e ninguém vê esse ouvir todos na região assim dizendo.
          Entretanto, não. Sim, é domingo.
          Tem o Zé. Paga as contas, briga com os outros de fora – por que será que os outros são tão errados e só fazem as coisas (por exemplo roubar no peso no preço não pagar pagar a menos e outras mais!) só fazendo pra irritar ou puxar briga? aí esbraveja em casa; o Zé vem de João, João Xará e é xará do compadre do avô, sequer sabendo em não ser nos Finados que o finado existiu. Vem dele mas não sabe, não se interessa em saber. Ela sabe mais do pedigrí envergonhado do companheiro e pouco do dela, ela o corrige, pega no pé do macho dono da casa cheiinha de meninos. Então se cala o dono, ficando no esbanjar e somente esbravejar por dentro se alembrando dos “embrulhões’ (ele não concorda com a concordância e fala “us imbrulhão”) pensa nos brutos porém não diz, promete cinta que é o cinto nesta cidade, não pra não deixar o barrigão cheio de macarrão (ah sim hoje é domingo olha pra Domingas de cara contrariada) não por isso: pra dar umas lambadas nos moleques da casa; aliás tem uma cinta velha e gasta num prego no quartinho de despejos, atrás da porta – inclusive pra bunda criança; aperta a menos velha na barriga... não: desaperta, mastiga mais come mais mais vem a sonolência ainda, aí dorme como um paxá, da Índia da Turquia? sabe-se lá. Enquanto a mulher lava os trens, de cozinha bem entendido, o trem de passageiro só tem o de carga, o de carga logo acabaria a deixar os matos cobrir do sol os trilhos. Lava resmunga enxuga barulha guarda ou só põe a escorrer utensílios e vai tirar uma prosinha com a comadre na cerca, cercada pela ninhada, a parte que não anda a gritar e brigar e brincar e gritar melhor na rua, “cuidado menina” grita no dedo de prosa. Por ser domingo.

          No domingo se come macarrão, um frango ao molho. Aí fica chamando a atenção: um por exigir arroz e feijão, não vê que é domingo! não vê, criança não vê só pensa brincadeira, na hora de ir dar um recado não quer ir tem de mandar gritar apelar à cinta... Outro acha pouco o molho, outrinho quer mais ainda molho e se queixa quer mais tomate no molho elinho diz grude, pode! alguém goza em “meleca”. Ou o bife, sempre tem bife, tá duro dizem, engraçadinhos; ou salgado falta sal pimenta tá ardendo, é impossível uma vida dessa! É. Tem que ter bife sempre, o Zé não dispensa na mistura, eles falam mistura ao acompanhamento do arroz e do feijão todos dias; ele quer inclusive com o macarrão no domingo, lamenta à comadre. E ouve um lamento ainda maior da comadre pelos da comadre e se entendem.

          As crianças não. Não, sim são várias e até se dão. Todavia é difícil coordenar bem mais de meia dúzia de meninos no lar, mais no domingo em almoço ou a comer os restos na janta – ter que fazer janta, ela iria ser a escrava deles, mui menos dele! Não e não. Elas, comadres, tagarelam, ah tem uns grandões, já já se enturmando e não querendo palpites maternos; elas, as crianças, conversam brigam fazem as pazes, enfim vivem como irmãos.
          O comum entre irmãos os choques. Alguns de fora criticam a dizer em gozação “brigam igual irmãos”. Brigam sim e se querem como se fossem de sangue. Nesta família a fábrica fechou após o primogênito, coisas das entranhas estragadas de Domingas, nada a se fazer. Tudo: pegaram para criar a meninada órfã de compadres e conhecidos. Parece o lar inclusive tinturaria: tem gente como roupa de toda procedência e aparência; e gosto ou desgosto. Embora isso, se dão. Mastigam no estilo, sem quaisquer estilos, como um pobre faz. Com a mão com a boca com gosto; ou naquele gosto do estrilar.


Capítulo Quinquagésimo Quinto

Criança e cachorro agem da mesma forma quando a acompanhar a gente grande em bate-papo distraída das pequenuras à volta: ora estão na frente correndo, ora ficam para trás.  Aí ou apertam o pé ou choram e ladram desconsolados.
           
          Maneco. Andava andando lento mole arrastado quase, por mui cansado o homem. Bufava ao peso de uns anzóis, outros tantos perdera perdendo no barranco na curva do riacho além um pouco do quilômetro treze que dizem dá azar, pesando ainda as linhas leves um embornal de pano barato e uma vara de pescar o outro bambu quebrou a ponta jogara no mato – e tudo isso não sendo grande fardo, maior fardo o cansaço mesmo; mesmo assim teimava teimando a se arrastar na estrada indo a Marília, subira os zigue-zagues da Serra de Dirceu e isso já suficientemente pesando no peso de suas costas e nos pés inchados, eles a fazer marcas na areia do arenito decomposto rosado solto, tais marcas em sinal de sola grossa mas não exageradamente só um pouco grande nos pés-44, o 44 por não encontrar seu número ideal e daí tendo de encomendar no Bernardo da oficina de sapataria a fazer-lhe um par de sapatos sob medida. Contudo não sendo sapatos porém botinas velhas, dessas gostosonas com que nos acostumamos a ponto em desprezar os calçados novos ainda na caixa de papelão. Marcava o solo a marcar presença na volta pela estrada arenosa poeirenta quente na tarde mais quente para ele a pé, falava “de a pé” como os conterrâneos outros. Outros passando por aí a cruzar vindo da urbe carregando seus embrulhos sacolas pacotes, uns em mulas andadeiras ou burros pisados, outros mais até de bicicleta, daquelas bicicletas que fazem zigue pra cá você em esperteza vai pra lá a desviar fazem então zague pro seu lado e aí a gente se encosta no cordão de terra que a enxurrada depositou na margem, bem mais seguro; outros teimosos como o teimoso deapé entretanto a voltar da cidade enquanto ele a tornar à cidade com matula magra de embornal murcho a chocalhar ao vento morno, um embornal vazio e o Neco bem ‘sapateiro’, a ser gozado depois. Na região nós falamos que um pescador – desses que contam suas bravatas e têm de comprar na volta em peixaria algo para mostrar serviço – dizemos enfim que não fisgar nenhum é voltar sapateiro. Todavia deixemos isto ao folclore explicar, expliquemos apenas essa viagem de retorno.
          Parou. Parou após tantos “bundias”, era já hora de “batarde” com o solão a pino, o ar a tremer gases subindo na quentura desde a menos quentura do chão; a sombra... cortaram as árvores como mataram o trem; debalde se arriscava em tirar o chapelão de palha, exato para tais pescarias de amador cansado da rotina urbana e dispensado pelo patrão numa compensação de horinhas extras na loja da rua São Luís onde trabalhava. Se fosse, não era dia de segunda, Dominga a gozar esfolá-lo na covardia dele de corajoso pescador; não era, era meio de semana e de serviço no trabalho. Fosse domingo ou segunda, quem sabe a mãe no tirar melhor o pelo, quer dizer gozar no pobre grandão solteirão na mão. Ou seja, Manoel não sabendo que chegaria a esse ponto, a esse vexame... jovem ainda, embora corpulento se pensando inteligente e exímio no anzol. E trabalhador, dizia vaidoso o pai, o pai-segundo porque o filho adotado mas admitindo os de Xará como seus parentes e tudo o mais. Todavia não quer pensar nisso agora, agora pé na estrada.
          Isto é, pretende andar ir quem sabe mais depressa a engolir tantos quilômetros, que são quatro ou cinco pela frente apenas e que a moleza de corpo não quer deixar por menos de oito... Pretende. Aí lhe dá uma dor esquisita neste lado e do lado de lá, lá vai ele se espremer defecar. No entanto aqui um drama: onde! olha pra todas direções; enfim desce as calças no cafezal que margeia a margem, não tem árvores só arbustos de café. Assim mesmo a decência manda ter certos cuidados; abusa deles e chega a olhar pra cima, vai que haja alguma aeronave, estamos encostados ao campo de aviação, teco-teco a subir descer antes aquele zunido no esquente do motor, dava até para ouvir, olhou o absurdo do absurdo flagrarem-lhe o desaperto. Faz o que faz, limpa-se com folhas de cafeeiro e isto ainda mais absurdo o outro seria ter à disposição banheiro público e rolo com florinhas; não esperando tanto, no pagar tanto esforço. Por fim se veste com alívio, longe esperar por água sabonete desinfecção e toalha ao gosto da cidade. No entanto...
          Olhara olhara, e fora visto! pensava ser o único adão naquele paraíso de mictório cheio de erva e vento e nada, porém ele olhava sentado curioso aquela esquisitura de homem...
          Nesse ponto que surgiu o cachorro.
          Tem cão perdido em mudança; têm os que nos dão de presente ou um presente roubado dum lar desconhecido. Não, pobre não tem hábito nem cultura a comprar animais em lojas ou de particulares a oferecer no natalício de alguém. Contudo é comum haver cães e gatos na casa, quase sempre para agradar o filhinho. Os bichos crescem e se sentem da família. Não era bem o caso.
          Olhou aquela montanha humana e se engraçou dela; fosse pelo cheiro, embora o Neco fedesse bem os suores e humores,  além do mais havendo também suas fezes ali; o fato é que o cão gostou. Desde esse ponto não mais deixando aquele dono de empréstimo ou apócrifo.
          Seria um descendente de Peri ou de um outro qualquer vira-lata dos compadres. Nunca saberemos, nunca souberam sequer seu nome. O Maneco arriscou os conhecidos: Rex, Lulu; apelou depois à moda de então e o chamou Bob e Dick porém não respondeu ou não sabendo inglês, permanecendo sentado sobre o rabo a olhar qual menino inocente lá encimão a cara gozada o bigode espetado o chapelão os olhos arregalados do amo, seu novo amo. Não respondeu. Sequer dizendo donde viera, se longe se perto, quem o dono, pra onde indo. Entretanto abanou alegrias e fez mais que isso – seguiu o homem até à cidade e foi apresentado aos seus, quer dizer os parentes do amo. Aí aproveitou a se dentar com os da casa e da vizinhança, num forrobodó ladrado e gritado; depois a sair da batalha ganindo e com o rabo entre as pernas, as patas. Era um cachorro lambido desses sem graça sem cor sem raça e com muito bicho a lhe sugar o sangue; porém espertinho e de boa vontade.
          Seguiu o dono por onde o dono indo por meses; quis inclusive entrar na loja, impedido; daí ficou deitado nas imediações a aguardar seu chefe ou para receber algum alimento e afagos do rapaz ou para ser seu guardião e defendê-lo contra os perigos. Não mordia ninguém mas ladrava com coragem de assustar passantes.
          Foi tratado e tratado como amigo, devolvendo ao Neco a amizade que os cachorros sabem oferecer. Depois caiu nos gostos da carrocinha da prefeitura; paga a fiança, vacinado, lavado, penteado, logo foi atropelado e morto. Para que Manoel chorasse e se sentisse mais só que antes daquela pescaria sem peixe.


Capítulo Quinquagésimo Sexto
              Favas Contadas
                Véio em porre
                               morre
                       Véio corre
                               morre
                  Véio que  erre
                               morre
             Véio que emperre
                               morre
                  Véio Novo ou
                        NovoVéio
                   Acerte ou erre
                               morre     

 Pré Acabamento ou Apagamento
          Passava passando na esteira o tempo no tempo a se ver ou desver por necessidade em acertar a psicologia própria – em geral tapamos os olhos para ver e para ouvir o que perceber sequer com o tato a cheirar o que não fragranciamos, flagrante. Passava. Mas não viam, e não via também vendo, só vivendo ou a se pensar vivo. Pesca-se limpa-se frita-se come-se e quem sabe um cão sentado sobre o rabo possa ver melhor isso... O homem pode ser a mulher o menino ou o ramerrão de todos; aqui abusando no absurdo de todos; não pensava assim.
          Ou por outra, assim pensando Neco, um apócrifo em família talvez apócrifa aos pioneiros. Olha por dentro a casa estranha – a rigor somos todos estranhos aos estranhos – olha, aguarda atendimento das ordens ou do esperamento de outrem. Era um lar comum. O proprietário, um tal de seu João ou seu Antônio ou seu Benedito, respondia pelo apelido Batatinha, isto ninguém entre estranhos sabendo bem, menos intimizar indagar saber, o chefe da casa enfiado nos fundos tardava em remexendo badulaques e a burburinhar bastante entre os seus, uma velha já carcomida em tosse braba e certo menino sem dúvida um neto ou igualmente apócrifo como Neco; o chefe remexia remexendo e decerto não achando o que achar, não sendo isto de nossa conta. Aproveitava o visitante a analisar, tão só a passar o tempo e no dizer que tempo é dinheiro então se enriquecia a examinar aquele todo naquela acanhada residência.
          Agora punha pingos nos ii comparava em não concluir coisa alguma, coisa alguma é passível de conclusão definitiva, apenas satisfatória a fim de enganar minutos que se eternizam nas horas no tempo. Agora só agora via os pontos aparentes naquele velhotão engraçado (posteriormente, longe, poria o porquê dele ser engraçado) semelhando demais ao bisavô ou trisavô a tataravozar nos traços fisionômicos de João Xará o qual tinha em sua casa no meio a velharias dignas de insetos e poeiras junto doutros documentos descartáveis quiçá com cheiro ardido por acúmulo de séculos e milênios não entendidos por crianças quando criança. Havia lá não aqui outras mais, mais ainda amarelecidas fotos.
          Pois não é igualzinho! se falou, até afastando a cadeira tosca de pau que lhe ofereceram sentar esperar aquela eternidade alizinha; empurrou o móvel pra ver melhor que o reflexo do vidro na foto não permitindo bem. Encontrava-se presa na parede de tábua, certamente a construção um dinossauro das casas de madeira teimoso em meio à modernidade do casario, estava ali perto o retrato emoldurado preso numa tira no prego. Apresentava à visita um moço a mostrar machuras à jovem quase menina a seu lado meio assustada pelo casório deles ou pelo espocar fotográfico, ambos em pose à posteridade no oval da moldura grossa lustrosa e quase a cheirar verniz de séculos... Era decerto um Xará ou sósia, visto que as fôrmas das fórmas não têm em exagero no exagero da população do mundo. Era decerto. E se parecia ao Xará deles em casa de Dominga e de seu pai Zé. Daí foi só um pulinho de imaginação nesse puro comparar.
          O dono da casa com tais traços fisionômicos, embora tendo-se que esticar pés-de-galinha e rugas mais a perceber adequadamente o rosto novo que tivera o homem velho. Sorriu à lembrança. Nos fundos ainda teimavam falar baixinho as coisas, as coisas teimavam por seu tempo se esconder nas tranqueiras de casa velha porém necessárias a provar por a+b aos estranhos os estranhos terem razão porque os estranhos não a tendo com frequência.
          Olhou outra vez e outra vez olhou. Curioso nisso é que Gena parecia agora sorrir; sorrir de quê? pra quê? Firmou melhor examinar o casal. Será, se disse, será que o matuto antigo usava gravata! e terno na roça... não, que bobagem: com certeza só no matrimônio e a trajar ao pároco ou seria interferência e interpolação artística no estúdio fotográfico sempre disposto a bonitar as feiuras... Estava assim quando escutou o alarme falso do retorno da gente da casa à sala pobre: entretanto as vozinhas se entrelaçavam grosso e fino lá longe e assim tornou ver a foto. Demais parecido o parecido com o desaparecido lá no quarto de despejos na sua procura e na sua paciência.
          Sim. Sem dúvida alguma o parentesco no parente novo apócrifo do velho, aquele a burburinhar escarafunchar badulaques mais em menos, talvez irmão do velho, do velho novo e do novo velho, mesmo do velho eterno permanente. Contudo este abuso em abuso de cena desaparece, tem em sua frente não mais que foto antiga escura grande ovaloide lustrosa e pesada, ah, pensou imediato, e não cairia da parede a despregar de pregos enferrujados e quem sabe no trepidar e barulhar de baratas (aí sentiu inclusive a sugestão do cheiro das cascudas voejantes e por que será que apreciam tanto o papelão no fundo de quadros e aquele de amplificadores de rádios antigões e... ah chega, se falou, chega de imaginar tolices). Assim abandonando aquela vistoria fiscalizante nos retratos dos outros, para se fixar noutros pormenores em ótimo passatempo. Percebeu embaixo uma estante feita a martelo e sem qualquer gosto que não a utilidade; a dita com objetos e coisinhas, uma estapafurdice pensou. Tinha flor e estatuetas, nenhuma de santo, em não ser dependurado próximo à foto do casal um Santo Antônio, em figura que lembrava mais uma vez o casamento do retrato ou apenas devoção da gente do lar. Havia no móvel grosseiro mil bugiganguinhas desinteressantes em não sendo aos cultivadores de tais quinquilharias. Notou haver a poeira acumulada que a sujeira do tempo deposita teimosa nos cantos às escondidas do vento incidente e frequente em Marília.
          Encontrava-se de pé parado em frente daquele conjunto a representar os séculos que se foram – embora ali no vizinho a contemporaneidade avisando pela boca do som do rock metálico e o bum-bum cadenciado a machucar em decibéis alucinados os bibelôs e a tremer mesmo o retrato na parede de mata-juntas; isto enquanto cães, toda a população canina do globo talvez, se solidarizando a ladrar e a se destroçar. Andava assim quase a olhar absorto as coisas na sala, quando voltou o casal, não bem casal pois a velha matusalêmica e o velho com certeza (essa a dúvida) o velho apenas velho portanto novo. Sorriu à dupla, ou por educação ou por findar o que supunha a longa espera. Momento em que teve que ouvir as justificativas do homem-passa junto com o ruminar da mãe ou avó, tudo para concluir pelo negativo de achados & perdidos... Foi nesse ínterim se inteirar do curioso hábito do museu andante, o velho eterno, ele num vaivém no movimentar sua dentadura-postiça, a desenroscá-la para encaixá-la outra vez, e o fez incessante e irritantemente, na boca murcha, num hábito horroroso quiçá nojento. Contudo o jovem se comportou como esperado duma visita rápida a quem se pretende deixar imagem e impressão boas; o que mais uma das besteirinhas humanas.
          Respondeu o costumeiro “não tem importância”  “não tem de quê” e daí partiu numa espécie de viagem.
          Oh será que tudo a valer uma viagem! ou deletar-se-á a ilusão infrutífera...



Capítulo Quinquagésimo Sétimo
Ninguém recebe menos do que deve; nem mais do que pode. Esse é o quadro da Justiça Divina. O resto é por conta da ignorância humana.
         
          Grafamos neste pedaço um personagem forte, se não valente ao menos bravateiro conforme diz a oposição sempre próxima a desver o visto. Que seja um impressionante ao seu companheiro de banco.  ¿Aquele dos proprietários do luxo do esbanjo e mesmo nesse negativo positivando receber ajudazinha oficial nas crises mundiais, levando seus dólares às ilhas fiscais com espumas com praias com garotas com uísques importados?  não,  ¿nem banco de jardim onde desocupados do tipo Xis em logradouro qual o da Praça Maria Isabel por exemplo? não ainda, o do ônibus intermunicipal rumo a São Paulo; os interioranos a se coçar a olhar pela janelinha, que é grandona assim, para ver a correria da paisagem, morto o trem. Sim porque na terra onde tudo em que se plantando dá, no dizer caminiano, plantaram o trem depois assassinaram o trem, pondo em seu lugar veículos sobre roda de borracha e no lugar do assento duro de pau a fofura do banco reclinável do ônibus; e este é confortável pra valer e os passageiros desconfortáveis inconfiáveis ou apenas chatos, igual este aqui a meu lado, pensa Mateiro.
          O companheiro do assento número um viajara até aí longe do companheiro, um de aspecto nordestino em traje a mostrar o costume do norte; felizmente ou infelizmente, pensa o velho a retornar do retorno, houvera ido (seria reído?) a Marília sua pátria, estando agora ao retorno do retorno de volta à Capital, onde não poderia orgulhar-se em ser um número nos milhões nem por ser nada naquele tudo no todo caótico mas seu lar. Residindo na periferia violenta sul, sendo mais a de leste dito pela intriga paulistana.
          Viajava longe por estar ainda perto no coração emotivo sua gente e sua terra. Debalde a lembrar-se do bota-fora que se fizera na portentosa Rodoviária, não se esquecia claro porém não se lembrando muito disso: rememorava mais as andanças na querida urbe.
          Foi portanto quase de chofre ou num susto que seu espanto se apoderou de si ao perceber aquele ‘baiano’ a seu lado, curioso agora em vê-lo medi-lo comê-lo até, com os olhos, entre arregalados e espremidos no esforço de melhor vistoriar; a espantar qualquer um, um pego desprevenido por exemplo. Ele, o Velho.
          Mediu por sua vez o homem, robusto porém mediano na altura, ficava, comparou-se também, ficando um pouco abaixo sua cabeça da cabeçorra. O passageiro com a tal cabeça meio quadrada achatada gozada, mas nada nadinha falou sobre, sequer assoprou sons. O velho não era de grandes arroubos e arrojos com estranhos. Poderia mesmo afirmar que horas viajavam juntos sem perceber o trabalhador grosseiro quiçá selvagem (e nesse pensamento e pressentimento temeu tremeu). Não se trata aqui de discriminação, o velho também dessa origem, embora hoje senhor bem posto no emprego, inclusive o paletó a gravata a fineza ao seu interior de grosseria. Em contrapartida as vestes do sujeito ao lado iam ao relaxo, parecendo haver recente desmatado meio mundo derrubado toda uma floresta a machado, o machado apenas suposto quem entraria de ferramenta num coletivo doido a chegar no seu destino! De maneira que pegou mal o bem visto; ou mal visto pois que não passando de mero relance e uma vistoria com o fim de estabelecer contato humano tão somente. Todavia não pretendendo de fonte limpa e consciência desperta tal contato; era um tímido, ou apenas com experiência de fracassos no mundo das relações. Uma coisa aprendera com os seus: a mãe “menino, nunca se deve confiar em estranhos”. Sorriu. Agora sorriu de si pra si, que terá pensado dele o baiano a fungar acintosamente no banco fofo próximo! Mais uma vez sorriu no lembrar a genitora e as coisas que lhes contaram em pequeno, permaneceu pequeno era adulto porém velho agora e se lembrando. Recordava a narração sobre um seu avô, bisavô, o João Xará, o qual se parecia ou pouquinho com o bisneto, não: este com aquele. Coisas da história da família, onde o bicho-papão disputa com um casamento ou batizado doutro familiar e tudo se mistura. O Xará, conforme parentes, fora trabalhador e morrera pobre, embora honesto e bom; ainda segundo as mesmas fontes, tão benignas para com os de sangue. O resto? a oposição o enredo a intriga barata e até a desfaçatez da mentira induzindo às brigas dentro e mais fora da casa. Nada que nenhum dos outros passageiros do ônibus não pudesse repetir com outra linguagem. E isto é gente.
           Por fim voltou-se ao companheiro da poltrona número dois, o tal companheiro o fitava analisava quase media de fita métrica ou com metro ou trena que usara em pôr distância na distância a fincar marcos das siglas mal feitas com o nome das terras do coronel. Media o velho abusivamente? maliciosamente? grosseiramente? Assustou-se este com a sem-cerimônia do pitecantropo bronco, entretanto acalmou-se conhecendo sábio a ignorância do homem do povo; não viu nisso maldade nem recebeu violência, exatamente por observar anos a maneira do pobretão. Resolveu de sua parte também examinar a peça humana ali tão próxima. Tinha olhos penetrantes, viu qualquer de ira e de insatisfação no interior dos globos estranhos; percorreu a vista naquela musculatura atrevida, a sua era a do enfermo do fraco do mole do tímido nunca a poder enfrentar de igual para igual um herói na luta livre que via no televisor gritão; a do homem bem constituída. O que impressionava mais talvez não o conjunto de atlas mas seu fungar notoriamente estranho e machucante. Quase guardou na mente anos o som sincopado, quase mesmo o som do sopro, não o hálito do sujeito não sua fragrância isso não sentindo, o que impróprio dos que tenham alergia e a viver limpar enxugar o nariz; se limpou. Por que, se disse, por que não trocar ideias com o selvagem que tenho aqui? Não teve porém a iniciativa, a iniciativa é o terror da timidez. Embora, o vizinho desandou a perguntar coisas; pertinentes e comuns e as impertinentes, neste caso é necessário munir-se de paciência, a paciência que é um atributo da civilização.
          O senhor... reticenciou o outro, o velho logo a pensar no costumeiro mote caboclo “tem fogo” ou tem um cigarro ou coisa detestável assim. Não. Queria saber se indo à Vila (qual seria? pensou) se era verdade não haver mais trem, se conhecia fulano e beltrano, no que trabalhava, filho pai de quem, formulou tudo quase duma vez e num só fôlego. Fez mil indagações enfim, mas contentou-se o selvagem a saber cada resposta de cada vez.

          O interessante nessa relação, imaginou o velho, o interessante era ser ele tão sensível a cheiros, descontado sua coriza, e não haver percebido negativamente pra lamentar o suor que escorria na face do homem e decerto a empapar aquele tecido barato e grosseiro que o cobria...

          Com respeito à íntegra da conversa ou à qualidade da mesma, ou seja as referências às pessoas possivelmente de conhecimento comum a ambos, é que o negócio enroscou. O velho se disse descendente de Xará. O que despertou alguma ira, próximo do incontrolável, no vizinho de banco; quase saltou dele, urrou inclusive, numa altura quem sabe a despertar e indignar o restante da população do veículo... Pronto, o velho examinou o perto, viu o longe estando no assento número um no dois o brabo vizinho, percebeu lá no fundo a porta do sanitário a bater, relanceou os gatos-pingados ocupando seus lugares, pertíssimo um senhor roncava engraçado (ele demais constrangido ao notar isso) uma senhora remexia sem parar sua bolsa e no meio do carro uma criancinha agitava a mãe e o pai a encontrar não sei quê ou era quisesse apenas dormir em seu colchão cheirando a xixizinho porque menino desconhece distâncias e situações adversas. A acalmar o companheiro de viagem perguntou, como quem interessado entretanto interessado mais a desviar atenção ou a ofensa, indagou-lhe:
          Sua graça, senhor...
          O homem suspendeu a fala, pensou em sua eternidade e respondeu não saber qual graça... Assim repetiu o velho a dúvida, como o senhor se chama? será um conhecido por acaso!
          Mateiro, disse menos bravo, João Mateiro, o pessoal, a peonada me conhece só por “Matêro”, uns bandidos; “ói nóis tem lá” assassinos ladrões bandoleiros e criaturas imprevisíveis... Acredite que um deles sendo o mais manso e quase sem fala, o sujeito sem coragem até pra se dirigir aqui ao chefe... acredite, moço, afirmou ao velho, esse quis me matar! Por pouco. Aí Mateiro desandou a narrar o episódio na picada da mata (Vide Capítulo Décimo) o como chegou no meio da bandidagem, o como exigiu todos a dormir e... “num ti conto”, completou: o fiadap. do Xará, João como eu, aliás noto que o senhor se parece muito com ele... e esse cabra me deu dormindo (pronunciou mesmo “drumínu”) sete peixeiradas com o facão dele! Num morri por Deus! Vi o bruto ainda tentando arrancar da minha carne a lâmina; vi o monstro correr feito covarde que era... Certa ocasião achei ele! Jurei vingança, fui atrás do bicho dias anos até, matei ele com facão – o miserável num morria de jeito nenhum; um dia morreu com velório e enterro. Quer prova? tá no túmulo 35 na quadra A; fizeram uma carneira pra ele. Fiquei ali vigiando vigiando; antes disso fui filho do Xará, pra melhor odiar o covarde e quem sabe poder matar ele, aí adoeci e morri com uma sufocação danada. Ah, não morri não: fiquei de vigília dia e noite pra impedir o malandro fugir e...
          O velho como que em autodefesa se afastou, atormentado, não estaria vizinhando com um louco varrido! pelo sim pelo não, fechou sua boca horas, e conseguiu inclusive que o outro matracando adoidadamente não fosse por suas orelhas captado.
          Todavia isso não resolveu sua situação. Logo apareceram as imagens da Caneta não bastarda mas até com pedigrí e também a Maitê com sua boquinha linda. Ambas entretanto não falando, falando sim porém não com decibéis de se ouvir. Aí se assustou. Teria, poderia haver fantasma de caneta! Olhou olhou-se reolhou a examinar toda a condução, havendo poucos passageiros e nenhum espantado qual se assustava. Nisso chegaram.
          Havia fingido dormir, forma educada para escapar do desconforto no confronto com o aborígene troglodita. Abriu as pálpebras: o homem não mais estava!
          Correu afoitamente ao condutor do ônibus, quase nem esperou o descer dos outros, ficou a examinar cada um até suas bagagens (ora, o absurdo admitiria que um bronco trabalhador machadeiro pudesse haver se enfiado em pacotes e maletas de mão! tem coisas que a mente rejeita; por isso indagou ao motorista:)
          O senhor viu descer um... descreveu o selvagem de maneira civilizada, sem sucesso e sem resposta suficiente. O chofer diz: ninguém desceu antes dos passageiros que o distinto viu e contou. O cavalheiro terá sonhado?
          É, deve ter sonhado. Apesar da evidência, teimoso ou ‘tomesista’, foi ao fundo do veículo, abriu o banheiro fedorento, olhou examinou sorriu, sorriu amarelo depois ao motorista o qual se ria dele. Engoliu seco, daí engoliu ar contaminado detrito barulho e se perdeu na multidão paulistana, menos louca.

Marília  novembro 2008.




























Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:


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