085(postado
no Blog Livros Inéditos)
Olhos para Ver
romance
Moacir
Capelini
moacircapelini@gmail.com
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“(...) para que não
vejam com os olhos,
e ouçam com os ouvidos,
e compreendam com o coração(...)”
Jesus
in Mateus, 13:15.
Esclarecimento ao
Leitor
Aqui estão uns apontamentos sobre o
roteiro de um ser humano; por humano, esperemos desde já no personagem principal,
nos outros também, algumas possíveis qualidades e os muitos defeitos. Ou não
seria ele gente, no estágio que todos nós desfrutamos na Terra.
Pretende o autor destas linhas
abordar a problemática da reencarnação, mas sob o ponto de vista do personagem,
um homem encarnado e de poucas posses culturais; apenas usando o mesmo seu
direito de pensar. Isso porque todos temos esse direito, embora nem sempre
possamos expô-lo, ou por deficiência na fala ou por deficiência mental. Aqui
entrando a timidez a simplicidade e outras distorções de fundo psicológico ou
patológico. Tem o escriba consigo que o simplorião muitas vezes fecha a boca,
temeroso; todavia pode dar-se o contrário. Faz pouco observava um deste último
tipo, bastante falador: em cinco minutos deu o serviço bravateando suas
pequenices, enormes pra si; parecia um aparelho mecânico de comunicação;
entretanto expôs melindres sociais de sua família, em que normalmente o homem
se reverva e é inclusive prudente. O exemplar em exemplo narrou todos os podres
íntimos dos íntimos. Neste ponto lembrando o personagem principal desta obra, a
falar pelos cotovelos...
Caso o Leitor desejar nas próximas
páginas lirismo e erotismo – pode atirar estas folhas no lixo. Porque o
escrevinhador expõe realidade. E a realidade frequentemente dói.
Em última análise, pretende pôr a
verdade, a verdade com suas tristezas e alegrias, mas, claro, literaturando.
Sinóptico:
Primeira
Parte, pág. 7
O Sonho em Vigília
O
Sono Desperto
Segunda
Parte, pág. 27
Recordações do Sonho
Terceira
Parte, pág. 43
Despertar, em tempo?
Quarta
Parte, pág. 97
A Dor, Mestra nos
Ensinamentos
Presente
Mais que Imperfeito do Passado
Quinta
Parte, pág. 129
Conclusão – o Declive
o
Declive Abrupto
Primeira
Parte:
O Sonho em Vigília
O Sono Desperto
“Cada um de nós – com
exceção do santo – é muito indulgente consigo próprio.
Tentamos
não recordar as vilanias, as fraquezas, as infâmias cometidas; esconder
e negar o nosso mau caráter e, à força de querer esquecer e ocultar, terminamos
por acreditar que nossa alma é pura, e belo o
nosso passado.”
Giovanni Papini
1. Agora não
fala, pensa. Somos cada unidade em bilhões um mundo a se pensar mundo; às vezes
comunicamos o pensar, apesar das limitações. Toninho não pensa nas limitações;
ou por outra, é nisso que pensa, pensa só nisso. Em quantas oportunidades o
homem exagera nesse pensar; aí perde o foco da vida, não vive a vida, vive a
vida mal vivida – perde a perspectiva, não vê o mar: vê a canoa, exagera a
canoa, a canoa se perdendo a virar, depois, os restos duma transformação
química. Não será a água ou a embarcação a se perder, sim o barqueiro. E isto é
grave. Não pensa nestes termos.
Vê somente o drama em que vive, em que
sobrevive.
Vê bem ouve bem sente bem. Vê
inclusive mais do que deve, a libido cobradora, as mulheres mais belas do que
deveriam ser as mulheres; sente as suas limitações. E chora e esperneia e
rumina e se revolta. Depois, mais depois, aceita, ou despencaria ou se
entregaria ou se negativaria; e isto devendo ser assunto para médicos e
analistas, no entanto realmente problema de administração da necrópole do coveiro...
Enquanto, pensa.
Cultiva a lembrança.
Nascera como promessa na família rural
pobre. Somos sempre promessa ao mundo. A família numerosa era saneada pela
estatística e pela natureza, ajudadas pela ignorância e pela incapacidade
econômica; ou seja, a equação a ser resolvida no surgir mais e mais bocas e se
ganhar menos e menos na lavoura; ou melhor da pior, o mesmo, entra ano sai ano.
A isto o vulgo dá o nome de empobrecimento. Os filhos vieram em magotes, Dona
Morte não os poupou, mesmo ao primogênito. Abortos naturais, Dona Maria era
fraca e não ‘segurava’ a cria; ou forte: todo fraco que envelhece, embora se
possa admitir não existência da impunidade após os cinquenta janeiros, virados
dezembros na velhice; todo fraco que envelhece é um forte, a perdurar, teimoso,
nas lides. Bem o caso da mãe de Toninho. E o fato de ela oferecer à roça grande
número de braços puxadores de enxada provindos do bendito ventre (admitindo-se
uma posição mais cômoda a Seu Chico, o macho ‘faz’, no pensar caboclo, faz e
some pescar; a fêmea a ‘curtir’ sua gravidez) sim os filhos dela no eito, fora
os que saíram de anjinhos ou enterrados pela parteira improvisada no fazer
abortos; esse fato não pôde mantê-los no campo (até à época pensava o povo que
quanto mais braços a capinar, mais ‘rica’ a família). Ao nascer mais uma
promessa ao mundo carente, que chamar-se-ia Antônio, a mãe devota de Santo Antônio,
casamenteiro pra valer; ao vir Toninho já andavam de mudança à cidade, na busca
do paraíso e do milagre ao bem-estar, como imagina o matuto; este depois a
virar urbano ou ‘urbanoide’.
Chega a promessa. Ah a promessa...
Trata-se dum menino chorão a espernear
e a custo aprendendo com o instinto a mamar, D.Maria lá em cima a sorrir ao
bobãozinho sugando embaixo. Porém, pobre dela, com umas rugas de apreensão na
testa entre as sobrancelhas não tratadas de roceira; a cria era negra como a
genitora, retinta igual, mais escura que o pai, embora a vermelhidão comum nas
crianças nos primeiros dias como sói ocorrer nos negros. Mas não sendo bem esse
o problema maior: o menino era todo torto. Torto, retorcido! feio, horroroso
mesmo, muito embora a senhora não exagerando a feiura, antes crendo haver
alguma beleza naquilo a se contorcer pelas comuns dores de barriga da barriga
recém-nascida, a tentar encontrar o leite. As mães têm esse particular: pôr
mais tarde paninhos quentes, a desprestigiar a crítica severa da sociedade. Coisas
do amor.
Não obstante, o garoto um verdadeiro
monstro; se bem que mesmo a monstruosidade das formas possa se apresentar numa
gracinha, como é encontradiço nos pequenos. Tanto assim que depois – já a
brincar a pular a correr, não se exagerando só exagerando o pular como sapo ou
saci e a correr nunca, nunca chegou a correr o infeliz, a brincar sim com as
outras crianças e os manos sobrantes do serviço eficiente da senhora Morte –
depois engraçadinho contudo Antônio a receber apelidos demeritórios, como Sapo
Caranguejo e Aranho; Aranho
assim como diziam cobro.
Mamãe, a lamentar primeiro depois a defender o mais fraco da prole, espantando
e ralhando os ofensores; até surra ocorrendo nos abusos dos de casa contra o
Antônio; nada adiantando. Porque a sociedade é impiedosa na adjetivação e se
supõe perfeita, sem precisar ter direito de atirar a primeira pedra. Quando
criança, na escola, a escola que o rapazinho nunca cursou, nela mais se picam a
fustigar apelidos; fora dela, seja no meio do brinquedo e posteriormente nas
atividades adultas, ainda aqui os apelidos pegam; mais ainda quando a vítima
reclama e se defende; é engolir a afronta e o Toninho então respondendo por
Sapo por Caranguejo por Aranho.
Infelizmente quase sempre a comunidade
por volta tendo lógica na assemelhação: o caso do Antônio, a andar de lado nos
seus retorcimentos, a se aproximar do caranguejo; a pular em tremuras no
semipasso a imitar o sapo. Quase ‘cobro’, a se arrastar pelo chão! Andava, se
deslocava gozado; gozado aqui na alegria triste do ‘mundo cão’; andava andandinho,
a remexer e a encolher as mãos e os braços para dentro, pressionando o corpo
disforme; a funcionar as pernas curtas uma outra comprida igual molas. O corpo
todo parecença uma letra zê maiúscula, indo a ziguezaguear igual molejo de
carro. O movimento da criatura num parecer, e era, esdrúxulo e extravagante;
muitas vezes a extravagância a chamar atenção dos circunstantes. Não usava,
nunca usou, muletas e nenhum apoio, a atrair cuidado como vítima; era pelo
vencer, se não a vencer, a vencer a si mesmo.
Assim cresceu, assim o temos aos
trinta e oito anos de vida. Vida aqui precisando discussão formal e aprofundada,
se vida for uma existência. Nessa vida sofreu as humilhações as limitações;
sofreu as necessidades; pois as necessidades mentais ou fisiológicas não
indagam sobre as deficiências congênitas. Dessa forma possível avaliar o dia a
dia, desde a consciência até à inconsciência na revolta, revolta existindo. Aos
38 o Caranguejo acumulando experiência do Sapo e do Aranho, os quais se formalizaram
no Antônio com direitos constituídos de cidadão, mesmo considerado um
urbanoide.
Todavia, não bastando as deformações
ostensivas ou aberrantes, sempre visíveis no meio das deformações mentais invisíveis
de muitos que o cercavam; havia uma questão mais flagrante no bater do entender
social, ou dos costumes sociais, mesmo numa terra dita não discriminatória: o
menino, agora adulto, mais que adulto um adulto velho ou precocemente envelhecendo,
ele um negro retinto.
2. No limiar da
transferência familial à cidade o grupo andava reduzido. Dona Morte fizera o
trabalho a contento; os escapáveis da foice já crescidos, casando-se cedo no
costume roceiro e se tornando independentes; se bem que um mal às vezes, pois
alguns filhos não deixam a barra da saia materna, antes acrescem mais
trabalhadores na figura da esposa ou amigada e os filhos, quando não são todos
a mais, em pesar no orçamento do velho. Seu Chico não era de carinho nem de
boas palavras, além da prova real do ganho exíguo; não sendo possível tratar
tanta gente; assim, nesse limiar a família constava ser pequena, os trecos no
caminhão de mudança também pobres e poucos. A gente se reduzia à Mãe o Pai o
Aleijadinho e a mana Branca, esta entre os mais velhos da prole.
Branquinha, dessa forma chamada por
ser uma negra tendente à mulata e não retinta como a genitora nem reluzente
igual o defeituoso (hoje se usando eufemicamente a expressão ‘deficiente
físico’, sem resolver o drama humano, porque as palavras não resolvem problemas
às vezes criam problemas) portanto uma adolescente ‘branca’, carinhosamente tratada
Branquinha. Branquinha fora do tipo comum entre pobres com filhos numerosos:
espécie de mãe dos irmãozinhos, dos que iludiram a doença a fraqueza e a morte,
e mesmo dos que se apartaram da família constituindo novo lar; ela era mais mãe
do pobre menino entortado que Dona Maria. Consta fosse também Maria, Maria
Aparecida, tomando o nome duma irmã anteriormente ceifada por Dona Morte. Perdurou
o apelido em vista sua ‘brancura’ nos traços africanos.
Foi quem mais protegeu Antônio na
fúria dos colegas de brinquedo e dos desafetos familiais do infeliz garoto.
Porém eis que se vão à cidade.
Entremeio à fuga, fuga é o termo a
contento numa transferência do campo ao meio urbano; entremeio sempre passa o
homem do campo pela vila, ajuntamento urbano acanhado, morando nela mas
trabalhando na roça nas imediações como antes; posteriormente muda-se à cidade
mesmo. Ora, a cidade é pequena, parecendo ao matuto um ajuntamento enorme. Mais
para diante visa a capital, de um tamanho que não tinha antes condição para
avaliar. Neste ponto é a falta de emprego para sustento a forçá-lo à nova
mudança. Algumas famílias roceiras permanecem mesmo na cidade grande pequena,
se ajeitam; este o caso da família de Branquinha.
Branquinha é um nome mais próprio às
cadelas às gatas ou às galinhas nas estórias de era uma vez... Na casa do menino
Antônio veio por gesto carinhoso da mãe, o pai não tendo desses desperdícios
por durão. Ela garantiu a disciplina no lar, educou o jovem mano, passou ela
para ele as primeiras e únicas letras que aprendeu na escola da fazenda, enquanto
o pobre não podia frequentá-la por deformidades. Ao chegar na urbe continuou a
exigir os costumes, tendo inclusive autoridade por sua moral ante os pais já
cansados e a família minada por dificuldades financeiras enormes, chegando às
raias da fome. Foi ao trabalho, empregou-se como doméstica. Aí sucumbiu: o
marido da patroa abusando da jovem empregada. Engravidou, perdeu o filho e o
emprego. O de sempre; a acrescer nas agruras da pobreza.
Enquanto isso os seus tentavam
sobreviver. A velha Maria a lavar roupa, a fim ter meios ao menos à compra de
medicamentos (a miséria aos pobres vem comumente acompanhada pela doença, a
corrida às filas da saúde pública, esta quase sempre doente e insatisfatória).
O velho nada arranjava, ou por idoso ou por incapaz, não sendo pequenos expedientes.
Não se podia contar com o Antônio, Toninho para ela, Caranguejo Sapo Aranho aos
de fora; pois se aos admitidos por normais, que são comuns, a eles não sobram
colocações... Bem mais tarde, isso beirando à velhice do pobre rapaz, arranjaram
os caridosos uma ajuda, talvez da prefeitura. Até nesse tempo um peso mais ou menos
morto o deficiente. Ela tornou a se empregar fazendo bicos e arranjou faxina,
para auxiliar um pouco nas despesas da compra na venda. O homem da periferia se
enterra muito nos botecos, a cachaça costumeira sim, também comprando alimentos
com preços exorbitantes. Eles, gente de periferia. Branca trazia quando
possível os bens da cidade, do centro onde faxinava; entretanto os seus não se
livrando do habitual ‘pindura’, que é a venda a prazo embutidos lucros e juros,
então anotando-se cada compra numa folha ou caderno, precariamente.
Assim envelheceu a moça que, sem ser
medonha como o mano aleijado, era feia e passada. Desse tipo de ‘tia’ como se
diz, dessa que depois vai refugiar-se na igreja e vira carola.
Resumindo uma história curta da vida
longa de Branca, que era preta trabalhadeira e amorosa.
3. À mulher
cabem as dores do parto. Ao homem a bravata ou a procura da manutenção da casa,
isso não funcionando no campo nos velhos tempos, onde as mulheres trabalhando
mais que os machos em casa nem se fale mas na roça; ou pelo menos não fugindo
ela igual a ele à pesca à caça ou mesmo fazendo corpo mole. E se tocasse ao
macho Homo sapiens parir, o planeta
não teria dez por cento da população, porque o homem foge da dor e
provavelmente morre mais pela dor que a companheira experimentada e forte. Ela
enfrenta os enigmas biológicos; Dona Maria dava excelentes exemplos dessa
capacidade, fornecendo muitos braços à lavoura; lamentavelmente a Morte é que
trabalhava de bandida na estatística familial. Além do mais era muito
suscetível a viver as dores morais, por sensitiva e sentimental. Assim D.Maria.
Verdade que exteriormente analisado se possa admitir grosserias de fato nas
mulheres da roça, sabido isso válido grandemente aos companheiros delas.
Contudo o coração materno dando mostras flagrantes de apego de amor e de
carinho aos seus. Aqui apenas uma pincelada sobre Dona Maria.
Visto e conhecido o escorrer lágrimas
na pobre mulher; provavelmente uma linda fêmea da espécie na fase da conquista
amorosa pelo jovem Francisco; agora, no tempo a se mudarem, uma senhora
precocemente envelhecida, cheia de rugas, a se perdoar nisso ranzinzices;
cansada, vencida, vencida antes pela Morte ingrata com sua prole. Parecendo
mais, submissa, então ser filha da filha restante, mandona, que mãe de
Branquinha; esta tomando sempre a frente na casa, a enfrentar inclusive as
machezas paternas, já num declínio acentuado. Ao chegar à cidade, ainda D.Maria
permaneceu submissa. Antes aos caprichos do esposo, mormente estando bêbado; às
necessidades dos filhos, mais ainda aos doentinhos e futuros anjos no caixão
branco ou rosa; depois à autoridade da filha enérgica e controlada.
Para Dona Maria aos quarenta dava-se
cinquenta anos; aos cinquenta já se lembrando a teimosia dos idosos e a caduquice.
Isso tudo não assustando um povo que descende de indígenas, os quais, sobretudo
em suas fêmeas, estão acabados fisicamente, não indo além dos quarenta dezembros.
Maria encarquilhava sem espantar as imediações acostumadas na periferia em que
residiam. Aliás periferia da periferia, porque numa cidade grande mas pequena
os urbanoides fogem, impedidos pelos bolsos, fogem até da periferia com posses,
esta sim onde se pode tranquilamente dever aluguel ou construir terminando a
residência numa curta eternidade... Maria sendo velha, a morar na periferia
nova, a qual dista sempre perto da periferia ‘rica’ e longe do centro mais
velho, ponto nobre ou comercial duma urbe.
Não tinha criança pequena em casa; ou
neto, o mais comum a existir na sua idade; não tinha para lhe reclamar afagos.
Os filhos, criados ou mortos, os netos longe, o mais próximo falecera nos
primeiros dias após o parto da filha Branquinha. De maneira que a senhora
estragada pelo tempo e o viver passava suas horas nas lamentações com as lamentações
vizinhas ou a lavar com dificuldade peças de roupa; a cozinhar o almoço, a
tentar satisfazer o enjoadinho aleijado, o qual parecia achar a coisa mais
importante no mundo o prato. Demais, a ouvir os resmungos do velho. Não
obstante pouco se falavam, ao gosto dos casais idosos, como se nota frequentemente,
parecendo que os assuntos estejam esgotados por causa de tantos anos em
convívio; não esgotados às brigas conjugais... Sabendo-se entretanto que nessa
altura já não corria ao terreiro fugindo da embriaguez e brutalidade do
consorte, ela sem sorte a espirrar-se com os meninos, até o macho amansar na
cama de atravessado a feder as águas do mijo. Não. Nem o seu velho tendo tanta
categoria e macheza, mais recolhido à ranhetice das maneiras ou na mudez. Ora,
fosse o contrário, a filha defenderia a mãe, enfrentaria a oposição. Nisto
sequer precisando demais coragem. Enfim levava Dona Maria uma vida marasmática,
ora quebrada a rotina pela rotina da troca de visitas vizinhas.
Quando Toninho a festejar sem festa
seu 38° aniversário, já ele órfão; o pai viúvo, Dona Maria a saudade.
Seu Chico na verdade não era mais o
cabeça de casa, envelhecido e mesmo desmoralizado; a mulher era forte, como
afiançado anteriormente, porém fraca; o meninote aleijado, um dependente para
tudo. De maneira que o título de chefe cabendo mais à Branquinha, ela cheia de
iniciativa e com muita força física e moral. Nisso correndo à boca pequena que
Branca seria a machona da casa... mas quem tapar língua vizinha! Ainda assim
poder-se-ia dizer uma família pequena, nos moldes burgueses.
Instalaram-se precariamente, tudo é
precário aos sobreviventes da guerra na roça, na qual o fazendeiro sempre leva
a melhor e os trabalhadores a perder. Chegam com seus cacarecos, moram
improvisadamente aqui e ali, recebem a solidariedade dos outros pobretões, é a
única riqueza que um pobre pode oferecer a outro desvalido e necessitado.
Acabam num tugúrio, uma tapera, a ofender a arquitetura e enfeando a urbanística,
ajudando enfim a acrescer mais um feio à feiura geral do quadro na periferia
miserável; a outra periferia tem feição de cidade mesmo, com ipeteú e às vezes
também com água encanada e esgoto; a periferia miserável sobrevive mais
afastada e é um arremedo das favelas que prejudicam os cartões postais das
grandes cidades turísticas. Os de Chico aboletam como podem, igual outros
migrados fizeram, e se desgastam a procurar emprego, deixando a exigência dos
registros legais a virar trabalho apenas ou a pegar serviços extras, bicos, sem
quaisquer garantias.
O chefe, destronado, era um preto
enrugadinho, baixo fino magro arcado, isto decerto defeito pelo puxar enxada no
campo. Dona Maria, então uma senhora acabada e de aparência envelhecida, com
seu eterno lenço amarrado na cabeça a encobrir cabelos brancos e um que outro
fio negro, ela ainda mais baixa que o esposo. Branquinha seria a com maior estatura
na família, ao menos mais alta que os genitores, corpulenta ao chegarem na
cidade, e mais volumosa ainda após o fracassado parto; talvez um pouquinho
gorda e um bocado disforme; ou só desleixada, o que muitos culpam à condição de
pobreza, outros à ignorância, alguns às tendências da natureza; ainda assim
tendo um quê de beleza e de simpatia. O menino era inclusive menor que a irmã e
os pais ao chegarem; depois adulto poderia ser apontado como o mais alto da
casa, a ultrapassar a altura mediana dos seus; no entanto seu aleijume
encolhendo bem o pobre e deixando-o pequeno e baixo; se se pudesse endireitar
seu corpo torto e corcunda, esticá-lo, esticar sobretudo as pernas, tomando a
mais comprida como referência, Toninho seria um homem alto. Aí sim deixaria o
pai lá embaixo, quem sabe envergonhado perante o filho ou a sorrir pela
desvantagem. A realidade mostra um povo roceiro migrado dependente e
fisicamente no ferir a normalidade da compleição. Contudo, isto sendo um julgamento
apressado, pois a gente da periferia é quase sempre feia nos seus andrajos,
sequer notando-se as desvantagens do povo de Francisco, um homem meio quietarrão.
Seu perfil é curioso.
Tem ele um jeito do matuto desconfiado
ou temeroso, não é um capiau falante, não era demais mesmo quando se embriagava,
agora a filha cobra e exige posturas, controla o pai nos abusos no boteco,
ajudada pelos melindres da saúde do velho. Este conversa também, embora
baixinho com medo em ser ouvido, conversa com os amigos, menos amigos de fato
do que colegas de infortúnio; falam suas coisas, contam recontam suas estórias,
nunca havendo real história; e riem ou se espantam com os enredos; mas Seu
Chico mais ouve e fala, sim, porém pouco. Na sua casa só resmunga, o que se
interpreta por ranzinzices contra a mulher; coisas do casal. Com o filho é
quase mudo; mudo ou interrompido pela filha, a última a falar e pôr pingos nos
ii, pôr ponto final nas desavenças. De resto apenas canta de galo o Velho no
dia do pagamento; traz um salário mínimo magro como ganho talvez de aposentadoria
e quer já determinar atitudes no lar; só parando quando a filha fecha a cara ou
dá umas boas em voz imperante; aí se cala, entrega os pontos, dá-lhe quase toda
a riqueza nas mãos, ela contadora e auditora na economia familial. Com certa razão:
agora têm os seus sobretudo a aposentadoria do Francisco, conseguida após luta
burocrática de anos: antes quem mantinha a casa era a filha, a qual continua a
conseguir alguma faxina como ingresso nas finanças deles. Somente muitos anos depois
entraria um ganho permanente do rapaz, aquela questão de ajuda da prefeitura.
Assim os problemas deles.
Foram anos numa tentativa de viver;
mais a sobreviver. Comida moradia remédio. A familinha também sonhava, o pobre
migrado à cidade quer viver numa semelhança aos outros habitantes, tem seus
desejos e sonhos. A vida já não deixa ser um sonho; por vezes se acorda na
realidade, e a realidade frequentemente dói fere desavisados.
Enfim, lembrando outra vez o dono da
casa, não é proprietário do imóvel e muito menos chefe da família.
Não obstante o velho Francisco já não
tendo mais tantos desejos, poucos eram os sonhos; a idade exigia que não
tivesse mais esperança. Ou ilusão. Ora, sem ilusão não há realmente vida ao ser
humano, apenas arremedo de vida.
5. Foram anos a
morar na periferia miserável da grande pequena cidade. A população regurgitando
seus habitantes, ora expulsando os mesmos à capital ora a outra pequena grande
urbe, com seus problemas e necessidades semelhantes. Contudo os de Chico
perduraram na habitação precária, precária como as casas da vizinhança. Uma
família outra também perdurou; aliás já se encontrava ali na periferia pobre
quando a gente do Toninho trouxe seus cacarecos simples amassados quebrados
entortados igual o garoto. Dona Mercedes se encontrava com a filharada e seu
companheiro nas proximidades; e continuou ali morar. Era quase única a residir
num imóvel próprio, algo espantoso naquela pobreza com aluguéis atrasados,
embora construção de pouca monta; Seu Chico mesmo pagava insignificâncias, o
que já era um despropósito ao rendimento exíguo dos seus. Outras casas
mantinham até boas relações com a gente do aleijadinho, todavia a Mercedes
desde o primeiro dia foi xeretar as coisas dos novatos, se tornando amiga,
apesar da desconfiança nunca desmentida da senhora Maria por aquela branca meio
atrevida.
De cor branca mesmo não era, talvez
para efeito de estatística, o pessoal do censo não se aventurando muito naqueles
perigos; seria um voto meio forçado a favor da população caucásica do país.
Apresentava-se meio baia, esta uma cor um pouco inventada a desescurecer gente
preconceituosa; enfim amorenada com mesclas claras, sobretudo nos braços e no
peito, onde pujavam seios respeitáveis. O marido de Mercedes sim poder-se-ia
dizer branco, mas moreno e mais moreno em virtude do sol no serviço do posto de
gasolina lá no centro. As crianças igual filhos de tintureiro, aqui no pichamento
da língua ferina; de várias cores; um dos garotos sendo louro dolicocéfalo e de
olhos azuis, num parecer mais certo gringo que rodeara a vila uns tempos atrás.
Por causa disso a vizinha da senhora Maria andava falada, mal falada, na
miséria geral; a miséria nos ganhos é igual às perdas na miséria moral; ou se
acompanham.
Apesar do falatório a vizinha foi
sempre presente e amiga para a família de Maria. Sobretudo nos momentos difíceis
dos primeiros meses de estada. A amizade se solidificou.
Toninho andava muito com os filhos
maiores da Mercedes. Crescendo suas torturas ósseas, ia muito à vizinha. A mãe
sempre a reclamar do “rabicho” como falava D.Maria, enquanto Branquinha não
votava contra a atitude do irmão, era inclusive muito condescendente com ele desde
os tempos de roça; além do mais se dava bem com a vizinha, estimando aquela mulher
bonitona, e mesmo tomava frequente um cafezinho na casa da outra; por vezes
servindo a senhora todo sorrisos como confidente de Branca. Tem gente que atrai
por penetrar mais fundo no coração de outrem; tinha Mercedes esse talento, daí
achegar-se Branca. Já o Velho Chico não se sabendo o que pensava da situação,
porque sequer comentando com os amigos, só ouvia que o vizinho frentista no
posto possuía lá alguns chifres; sorria; e no lar não dizendo coisa alguma;
aliás pouco permanecia com os seus, mais nesse menos quando as mulheres se
encontravam a falar suas coisas: fugia. Mas realmente não conversava com os
seus, levantava-se cedo, já confiante ter aposentadoria e não precisar mendigar
biscates para fazer; levantava-se e ia papear com os pares, a fumar a jogar
cartas, a rir-se ao seu feitio. Enquanto isso, era como se diz o circo a pegar
fogo, entre as mulheres do lugar.
O comum nas áreas pobres nos cortiços
e nas periferias de todas urbes o falatório os problemas; também o equivalente
trabalho da polícia e, para não fugir à regra, o que acontecendo lá. Lá dessa
maneira, um pouco diferente só em duas pobres residências...
E talvez não fosse o caso dessas casas
o diferente numa periferia mais parecida com favela; devendo haver mais gente
avessa às brigas e presença policial.
Assim as relações, embora possíveis
discussões miúdas e desentendimentos passageiros, as relações foram se fortalecendo
entre ambas casas vizinhas, mormente entre Toninho e Dona Mercedes. Nisso
depois o povo falaria, sem provas suficientes e nem exigências maiores do
principal interessado: o esposo de Mercedes – falaria de abusos do rapaz nas
intimidades em casa dela; com exagero, pois os abusos teriam iniciativa feminina...
6. Agora começa
a esboçar um Toninho se pensando gente; no que não se enganava, por de fato
gente. Gente é um animal a se imaginar o centro do mundo, quiçá o ponto em torno
do qual gira todo o universo. ‘Petitico’ assim, ainda os seus presos aos
problemas da lavoura, já descobrindo ser um ser; com suas necessidades e suas
possibilidades. Criança é se não egoísta egocêntrica. Aos poucos se equilibra e
chegaria no futuro a hipervalorizar as necessidades dos outros, bom a um bom
‘pessimismar’. Antes de se mudarem à cidade, esta que se pensava grande quem
sabe enorme mas pequena como ocorre no interior, antes mesmo iniciava ter
consciência do seus impedimentos e das manifestações curiosas em si, dentro de
si; evidente, não equalizando por ser um processo de toda uma existência,
evidente que sentisse na pele suas limitações. Natural se descobrir negro,
embora não soubesse que na sua terra não é uma grande vantagem ser de cor
escura; porém as limitações mais flagrantes eram aquelas do deslocamento e dos
movimentos. Conscientizou as barragens na sua frente; não podia correr de
ninguém, ninguém ficava atrás, por suas pernas tortas... e as mãos não lhe
obedeciam as ordens a contento. Os coleguinhas, os manos piormente! nenhum
tolerando as insuficiências; antes ressaltando sua fraqueza e seus defeitos
físicos. Pobre dele. Nesse ponto chorava. Mais tarde, adulto, velho, chorará de
coração com um sorriso de constrangimento nos lábios. Chorava; às vezes
apanhava ou apanhava mais por chorar; chorava e tinha o socorro e a compreensão
da mãe e da mãe de fato, a Branquinha, meninota empinada, atração dos rapazes
roceiros.
Contudo o que mais chamava atenção,
lógico descobrir cedo que o fenômeno não devesse ser alardeado (os seus inclusive
chamando-lhe o cuidado para não falar sobre o assunto com os de fora); o que
mais chamando atenção nesse frágil e grotescamente deformado corpo era o seu sonho.
Não o sonho que é sonho que temos todos humanos, desses de contar a outrem para
todos rirem do absurdo. Não. Um sonho, certa manifestação igualmente absurda,
ou ainda mais absurda. Porque era um sonho acordado.
Dona Maria notara a manifestação no
menino Toninho a se apegar aos cerimoniais religiosos católicos; nos primeiros
brinquedos vivia a dizer missa; mais interessante ainda o fato de cantar
durante a mesma na forma gregoriana. Ora, pensava a mãe, tão ignorante nessas e
em todas as coisas fora as do coração, o qual percebe as profundidades; ora,
nunca levara o filho à igreja; ela mesma, difícil fora convencer Francisco a
contrair consigo as núpcias na igreja da cidade, onde foram a cavalo e também
os convidados, todos voltando antes de começar o almoço roceiro com festa e o
baile. Os filhos nem os que Dona Morte levou passaram pelo templo, não sendo ao
batismo comum. Não se ia à igreja. A religiosidade familial só se exercia nas
novenas e rezas dos terços; e nunca Toninho a acompanhara, pela dificuldade na
locomoção. Daí o espanto da senhora diante do fenômeno. O espanto dos outros também,
parentes e vizinhos.
No entanto as manifestações estranhas
eram mais abarcantes que isso, quase palpáveis e exteriores. O garoto ‘sonhava’
acordado.
No começo narrava aos seus, ouvindo
por isso a gozação; para depois apenas confiar o segredo às duas pessoas mais
tolerantes, ou seja a mana e a genitora. Mais para diante calou-se, guardou pra
si aquela loucura, diziam os conhecidos ser presença do início da loucura; ou,
aqui pior ainda: a constatação do sopro de satanás! A tanto que D.Maria
proibiu, não o sonhar, impossível, a divulgação daquelas maluqueiras. Passou o
menino a só narrar as coisas ao outro eu que temos dentro de nós; somos na
intimidade duas forças quase contrárias a nos desafiar. Às vezes era flagrado a
conversar sozinho; isto em nada depondo contra ele e em nada surpreendendo aos
circunstantes, observado muito nas crianças.
O que sonhava. Via e ouvia dentro de
si, em vigília. Ele
sentia-se um homem branco, nada deformado como deformado era no físico; esse
homem a pronunciar discursos intermináveis, para ferir, e a se prevalecer de
sua posição num congresso. Chegava a escutar a grita alheia contra si. Mas,
conscientizando seu despique sobre aquela submissa plateia. Daí, intimamente se
sentia bem, ao vencer oposições. Chegava a sorrir de suas vitórias por cima dos
adversários fracos e vencidos no debate em altos brados. Ouvia-se e ouvia os outros.
Porém a imagem sumindo, olhava o sol os animais a gente ir e vir; olhava,
desgostoso, aquele seu esqueleto destrambelhado, a andar qual aranha ou a se
arrastar de lado como caranguejo... pior nessa volta ao hoje de então: ele se percebendo
um menino não apenas deformado mas agravado com a pele reluzente de um negro!
Por vezes chorara o amargor da realidade que já lhe pesava e deduzia demais no
soma franzino.
Agora, na periferia pobre, um jovem de
seus vinte anos narrava tais ocorrências à Mercedes, ela a balançar a cabeça e
mesmo a rir-se, incrédula.
Quase perdeu o ímpeto de voltar àquela
moradia vizinha, em razão do descaso. Engoliu o café. Voltou. Tornou mil vezes
à Mercedes, já por outras razões...
Segunda
Parte:
Recordações do Sonho
“Só gemendo é que se
chega à grandeza da condição humana.”
Antonio Callado
7. Era um dois
de novembro, Finados, o sol escaldante nem este mesmo se aguentou, sumiu, a
escurecer o claro do dia em chumbo de preocupar as mulheres lavando roupas
(será que vai secar, comadre!) as roupas a balançar nos fios de varal, o chep-chep
do esfregar e mais muito mais, o tagarelar, rir falar emudecer nos melindres e
se rir de novo, olhar-se se entender e rir mais. As crianças não, não precisam
do feriado a brincar, brigar também, brincar nas suas coisas, pés descalços no
chão, barulho e gritaria menina, dos meninos, elinhas a ajudar as mães
exigentes na cozinha enquanto elas mesmas a conversar abobrinhas na rotina nos
tanques de roupa improvisados quase sempre, gastos sempre. Não festejavam as
tristezas a lembrar seus mortos? Viviam o seu dia a dia; ao povo de periferia
não cabem feriados, às vezes respeitam os dias santos; e aí devendo estar compungidas
e solenes, não estavam, estavam a trabalhar e a boquejar o que se deve e encaixando
bastantinho o que se não deve, falando borrachas abobrinhas, a conversa que enche
a vida do ser.
A Branquinha não, faxinava na cidade,
embora Finados. Dona Maria participando daquela assembleia e dos risos da assembleia,
apesar de comedida pelo tempo que obriga o velho mais a chorar e antes lastimar
desditas.
Os meninos, um que outro xeretando com
os grandes e por volta deles; os maiores, espalhados por aí.
Agora concentrava uma porção
respeitável no desrespeito de brincar mexendo com outros grupos de moleques ou
a rodear a casa do seu Zé. O Zé acelerava a moto, fumaçava tudo ao redor;
parava funcionava mexia rolava trocava olhava ralhava com eles e novamente
experimentando se o veículo a se normalizar; e de novo acelerava fumaçava e,
ah, xingava, sem que isso seja lá grande ofensa ao ambiente. É assim um feriado
para o trabalhador que vai longe ao ganha pão. Durante a semana sai a barulhar
escapamentos, primeiro a vizinhança depois as ruas, por não ter tempo hábil a
consertar sua condução; segue falhando volta falhando. Domingos e feriados,
além de aguentar a chateação da mulher e dos pequenos, arruma a motocicleta;
têm os que vão a pé (ainda como bons urbanoides dizem ao gosto da roça “di a
pé”) e uns poucos tomando ônibus; agora o circular passa perto – demora atrasa
encarece mas passa – não tanto próximo, pois precisam caminhar até à rua de
cima na periferia rica, a enfrentar o trajeto de meia hora andando até ao ponto
do coletivo; e aproveitam a ouvir também a sinfonia dos cachorros nos contrapontos
e talvez as ofensas ladradas ao ver gente a passar. Hoje não, é feriado.
Ninguém pensa no morto. Ah sim, têm
várias mulheres a falar nisso. A população pobre ao redor não; sim, mais pensa
nos seus vivos dramas próximos. Então discute-se dentro de casa, na semana o
homem saindo cedo, sem tempo para brigas. O feriado é positivo nesse negativo.
Às vezes não, são os costumeiros e diários entreveros com os filhos, da mãe com
eles; quando também ela não longe do lar, no lar burguês a trabalhar ao
sustento ajudando seu homem, sempre ou quando esteja desempregado, hoje
acontecendo muito. Quantas vezes, por culpa do dia do Senhor ou do feriado do homem,
aguardente a reforçar, não descamba o casal nas baixarias e violências! Aí a
polícia. Porém tudo serve de consolo ao magote de crianças ver e assistir o
espetáculo, antes a luta labial e a de fim de contas; depois a viatura dos
homens fardados. Ainda a sobrar posteriormente muito bate-boca. A periferia é
um cortiço de conversas-fiadas e paralelas, cercada por nada em todos lados. Na
periferia rica também é assim, menos assim. Mais na miserável onde não há peias
às línguas. Prato cheio ao público infantil, talvez ótima escola.
Os de Chico não fugindo à regra; o
entortado entre os menores, o Toninho cada vez procura mais o grupo adolescente,
a já falar menos fino e mais grosso num falsete.
A família se adequando ao meio, pelos
anos então residindo no meio. Parecia sonho mas viviam agora na cidade. Embora
apenas por uma força de expressão o dizer-se urbana a periferia. Já os mais velhos,
não contando Branca, sempre voltada às coisas de sua nova condição e integrada;
o velho e a velha sim tendo essa perspectiva e vendo baldo o sonho. Antes era a
meta viver na cidade; hoje, dezena de anos após, não um sonho, um sonho a virar
realidade; e mais um pouco à frente antigo sonho a tornar-se saudade. É o
caminho do roceiro ao urbanoide; urbanoide configurado e sofrido, desalentado e
cansado; prossegue e encontra a via da saudade do campo; aí constata o retorno
impossível... Tanto assim que Francisco conversa com seus pares, atrás das
cartas, conversa com eles todavia o assunto gira sempre em torno da roça, as
estórias são ‘causos’, o causo que é fato do lavrador.
O curioso nisto é não fumar o homem
igual aos outros; apenas aspira a fumaça dos companheiros. Verdade haver
fumado, “pitado” dizia, muito e bebido mais ainda, parando ao limiar da morte.
Agora engole o azul odorificado dos colegas, alguns a gritar o truco. A velha
também não fumando; vez que outra, por charme ou imitação, a filha; o menino,
agora um moço feito, esse nunca fumou nem bebeu. Dizem os amigos do pai que
toma algo na Mercedes... Francisco olha o falar, ouve, se mexe constrangido,
não envergonhado porque a verdade não deve envergonhar.
Toninho bebe sim. Não tem dinheiro
para tanto, porém engole e lacrimeja após uma oferta de cachaça. Nos meios
pobres tem sempre alguém a ofertar bebida, um gole que seja, a outrem, aos
vizinhos por exemplo. E o garotão ingere o líquido, mas fraco à bebida,
loguinho destrava a língua fala o que deve e o que não precisa. Todos riem. Os
iguais se entendem.
Aliás o Caranguejo tem por
característica ser falante, a falar pelos cotovelos, com ou sem ajuda
alcoólica. Fala, embora homem praticamente feito nos seus quase vinte anos
falando fino. Não muito diverso de muitos negros, sobretudo quando eleva a voz.
Um vizinho, esse longe da família do rapaz, um negro quase mulato – isto não
vindo muito ao caso porque a maioria de nossa população é preta ou tem preto no
sangue mesmo sendo clara – tal homem grita seu cachorro, louquinho a fugir à
rua ou uma quase rua do lugar, grita grosso no início e, no auge do grito, o
grito sendo fininho fininho. Muito encontradiço essa forma no homem escuro. O
Toninho é assim; sempre assim, não obstante na fase do falar grosso macho;
chega a ser um acaso elevar a grossura do gogó, nele. Os circunstantes riem;
não se sabendo se dele se a ele. Faz mais o rapazinho: arregala o olho
desmesuradamente ao elevar o som; e pisca a seguir; faz um esgar desgracioso
com a face; e se remexe todo. Não se ofende por isso com seu público nas
imediações, vizinhos e amigos.
Havia muito disso a alegrar aquela
tristeza ou para quebrar a monotonia e a rotina. Eram quase rotina os desentendimentos
ali, como demais em todos lugares onde as casas se esfregam e se juntam.
Qualquer coisa servindo a romper aquele paradeiro. Outro dia fora o ver seu Zé
na sua moto cuspideira e barulhenta. Juntou menino desocupado, houvesse algum
com ocupação; todos querendo olhar o negócio e ver como atrapalhar e irritar
melhor o homem; ele ralhou primeiro com os filhos, olhou torto aos outros. Parece
que centrou a atenção no aleijado, o que constrangeu um pouco Antônio; se bem
que nesse mal já se acostumara estar na berlinda, pois onde ia todos se voltando
pra si, ou por curiosidade ou para ter o que contar na falta de assunto nos
causos a conhecidos.
Na verdade foi muito mais que isso,
Toninho começou a examinar o homem, este o media também, olhava feio os seus
aleijumes, franziu a cara como em nojo ou apenas aversão. O rapaz, já grande
perto dos moleques, ele também sentiu como que uma fisgada de contradição. Foi
o primeiro a deixar aquela festa improvisada de motoca rateando e poluindo
fedores na rua (rua aqui um artifício, porque a favela só tendo trilhos e
meandros, rios de fedentina pela água escura servida a escorrer...)
Em casa não disse nada a ninguém,
sequer ouvindo que a mãe se dirigia a si. Amuou-se na cama num pensar. Onde
terei visto esse homem! Parecia-lhe conhecido; já o vira tantas vezes e não o
enxergara, notava só o barulho da motocicleta a sair a chegar – nunca havia
parado para examiná-lo detidamente, nem tivera esse interesse. Interesse sexual
próprio da idade se manifestava; por isso talvez visse ou sentisse atração pela
esposa do Zé, uns diziam ser amásia, este estado é o mais comum e não chegando
mudar a coisa; entretanto era uma senhora gasta e feiosa, longe ser um objeto
de cobiça ou a servir ao sonho adolescente. Então pensou mais no macho daquela
casa, esse que “invocou comigo”, resmunga; o homem invocara consigo. Contudo
por que e por que parecia havê-lo visto um dia. Qual a razão de não perceber o
vizinho antes do conserto do veículo! Não sabia. Sabia conhecer aquela pessoa,
a qual mostrara tanta contrariedade ao perceber Toninho entremeio à molecada.
Não tirou mais da cabeça a imagem. Até
à noite, já a tentar conciliar o sono. Aí sim lembrou bem daquela fisionomia
estranha e conhecida ao mesmo tempo: era com certeza um dos assistentes no congresso
seu mui vivenciado, onde ele dirigia insultos a tantos na sua peroração, a usar
os recursos oratórios para ferir a plateia, o Seu Zé no público, a replicar, a
se indignar com o orador, ele.
Esse episódio, o do encontro, ou
reencontro (ou desencontro) o encontro dum inimigo ou apenas adversário da época
(mas, perguntou-se, qual época! e onde?) e o outro fato: a reação adversa do
motoqueiro – isso tudo disparou no Aranho dias e dias ao pensar repensar
relembrar aquele sonho acordado que o acompanhava desde os primeiros dias nas
noites do tempo. Curiosamente andara esquecido meses desse fenômeno, imaginava
haver vencido o peso em cima de si...
Após semana do acontecimento,
regurgitava a memória e o sentimento. Não podia, entretanto, explicar os porquês.
9. Agora pula
igual sapo o Sapo em meio ao folguedo, não é o primeiro, vai à rabeira daquele
cortejo criança. Criança se desloca no improviso, ao sabor dum centro de
atenção que ninguém sabe direito qual seja, nem os próprios líderes, nem eles
mesmos também sabendo serem chefes. Toninho se arrasta como pode, pode pouco;
anda, se isso andar, se desloca como possível atrás; ora a figurinha ora o
papagaio naquelas alturas ora o jogo de bolinha ou bolona, aqui ficando de goleiro,
“frangueiro” é gritado como apelido por cima dos apelidos de Caranguejo Aranho
e Sapo. Se arrasta como lhe permitem os destroços do físico entortado. Anda
pula corre (tudo aspado) se esfola até. Pequeno na idade apenas se deslocava descalço
e aí esfregava esfolava sangrava; criança não liga, liga à brincadeira, na
brincadeira engole o sofrer e o tempo. As mães gritam, é claro sem sucesso;
depois o sermão a lambada o castigo. D. Maria não tendo coragem em bater nele,
menos a mana, na casa era considerado o “dodói da Branquinha”; então ele, malicioso,
a se fazer de vítima ou santo. Com os outros, entremeio aos demais meninos, já
meninão espichado não fosse encolhido, entremeio é um igual, diferente. Chega,
no fim do bando, no fim a que se destinam. Brincadeiras e outras artes, tudo à
base da improvisação, que sempre dá certo nesse errado. Enfim caminha.
Agora entretanto é um jovem quase
adulto. Neste agora sendo mais compenetrado. Mais compenetrado e mais sofredor.
Sente na cara, isto expressão corrente, sente no seu todo a agressão social.
Antes não saía quase da segurança da periferia pobre, por volta do lar ou das
casas, sem qualquer padrão essas casas dos colegas. Contudo cresce como os outros,
ficando no físico enrolado e encolhido, abaixo da altura dos conviventes; porém
a sentir, vê necessita anseia igual aos normais, que não passam de criaturas
comuns longe da normalidade teórica. Aprende fazer bem feito o ‘mal’ feito; são
vícios e um somatório de más ações; todavia desenvolve as boas, ajudado nos
bons exemplos dos vizinhos e das duas mulheres de casa, sempre elas a lhe pegar
no pé. Ele estrila porém recebe ensinamentos.
Agora se vê às voltas com contratempos
e contrariedades mil. Tem o seu Zé que mais parece um inimigo do que vizinho.
Chega a evitar permanecer nas imediações da casa dele na volta da barulheira da
motoca; de manhã só vai por aqueles lados sabedor no relógio do sol que o homem
estando longe no serviço. Procura o filho mais velho do Zé, um rapazote
simpático, amigo, sem ser entortado como o Toninho. Este evita sempre a área
proibida; aos domingos quando o pai do amigo está em casa, não para por perto.
Durante a semana se obriga a passar nas proximidades para visitar a Mercedes,
não os filhos da Mercedes.
Agora ela parece figurar nos seus
sonhos, muito próximo o seu ser do ser da jovem, que ele deseja mas condena em público. Faz sua
exortação quase diabólica, aponta, julga, leva à condenação a pobre! Pouco sabe
dela, conscientiza somente que é bela nova e ré. Ela retirada a chorar do
recinto, o próprio juiz se constrange; o coração ferido... Hoje sorri, ele a
procura, engole o café, come uns bolinhos ofertados, conversa amistosamente com
a dama (isto um abuso burguês, concessão à mulher favelada) falam suas coisas.
Não está na busca das crianças à brincadeira, nem dos jovens de sua idade, o
garoto da Mercedes por exemplo, não tendo interesse na menina que é a filha
mais velha. É a mãe. Mercedes sabe disso. E num descuido dos cuidados que os
filhos guardam da moral simples, ela o atrai ao quarto do casal... Mostra
ensina ajuda, se satisfazem. O Toninho vira freguês. Volta e volta e volta, num
ferir vizinhos. O falatório chega à Dona Maria, a qual condena; à mana, que
tolera e sorri. Ele prosseguirá a passar muitas vezes pela casa do Zé, a chegar
à casa do marido da Mercedes; então a ganhar o sustento dos filhos num posto de
gasolina no centro. Sempre que houver necessidade; a necessidade vem todos os
dias na sua juventude...
Agora o Toninho, ainda a andar de sapo
caranguejo e aranha, ele tem novas posturas, não sangra mais os pés e os joelhos
na terra atrás da molecada – calça uns sapatos, os que a Branca se esforçou a
presenteá-lo; veste-se com alguma decência; se pensa gente. E é mesmo gente,
embora faltando pedaços de gente na harmonia.
10. Se pensa
gente, vaidosamente gente, mas as limitações físicas e locomotoras atiram
diário água fria na fervura. Ele quer contar vantagem, quem sabe bravatear a
‘garanhonice’, para, impedido na realidade chocante. Deseja mostrar-se conquistador,
falaria a seu jeito de falar, destramelado, o como o quando o por que a
Mercedes; todavia se cala na roda moça a conversar suas coisas; o instinto
talvez ou o anjo bom alerta tolhendo sua língua. Diria estar praticando
adultério em comum acordo com a jovem condenada por sua oratória e sua posição
de mando no mundo! por sua instigação? Mais para diante dirá, diria, mais: que
o pretinho mais novo de Mercedes seu sangue, “vejam as fuças do nenê!” O certo
estava errado – o esposo da mulher registrou no cartório mais um diferente nos
seus iguais, não loiro e de olhos azuis naquela tinturaria. Felizmente não
sendo um bebê enrolado e defeituoso como o pai, pensou o pai. Sua mãe, avó de
sangue do bebê, Dona Maria, foi quem batizou o filhote da vizinha, às
instâncias de Antônio; a velha sempre desconfiada com Mercedes. O compadre
naturalmente não compareceu ao templo, tiveram de arranjar um desconhecido por
exigência do padre. Quase a primeira vez por anos que o rapaz foi então arrastando-se
ao centro da urbe.
Desde esse momento não pararia
visitá-lo. Faria mais, menos interessado então na Mercedes, decerto enciumada
por isso; faria mais: iria chocar as jovens a passar... e também circulando
ele; viraria um exemplar desses tipos mui encontradiços em todas as cidades
pequenas, um tipo folclórico; a dar um toque diferente nas semelhanças dos
habitantes. Tornar-se-ia um homem popular, se movimentando nos jardins, de
olhos compridos e gulosos nas mulheres; ou trafegando nos coletivos, graciosamente.
Na periferia e no seu mundo prosseguia
também a rotina, Toninho se empurrava no meio aos seus pares, embora tão
diverso e grotesco. Passava a vida a conversar com os companheiros de idade,
não parando em casa; ora com eles, ora numa visitinha à Mercedes, para ver as
graças do menino mais recente dela. A comadre? ah vai bem, quer dizer, anda com
uma tosse danada, a Branca vai levar ela no posto. Posto! admirou-se Mercedes,
num pensar no marido... e sorriu da bobagem, certamente o posto de saúde, vai
hoje? O rapaz era todo sorrisos ao ver o negrinho sugar os seios da mãe. Contudo
não levava jeito, como homem não sabia carinhar aqueles melindres em promessa
ao futuro; apenas sorria cheio de amor no olhar. Mas seu mundo prosseguia,
prosseguia também o seu estado de ‘sem compromisso’.
Não obstante, a crise econômica e os
azares da vida engoliam seu pessoal.
A mãe mais e mais adoentada. Logo
deixá-lo-ia órfão. A mana arranjara um namorado, distante do namorado do tempo
distante; um verdadeiro aproveitador das ingenuidades, um explorador; a moça
quase não mais parava na sua casa, para defender o irmão aleijado. Aliás ele
também quase não precisando defensores, se considerava um adulto, ou, pior, um
macho pra valer... Quanto a seu Chico, não se detinha sequer a falar com o
filho; sem assunto com ele nem afinidade, talvez mesmo o contrário disso. Enviuvou
e escondeu ainda mais a língua, inclusive na companhia dos outros idosos. Enquanto
seu filho Toninho andava só, acompanhado do Caranguejo do Sapo do Aranho; por
sinal muito mal acompanhado o pobre.
11. Nessa fase
nova do seu ser passou a vivenciar outros ambientes que não aquele da periferia
pobre; vez que outra se aventurando na periferia menos-pobre-rica. Deslocava-se
mais frequente ao centro comercial. Então para a descansar – mas descansar de
quê? – o rapaz senta-se num banco gasto e frio, para ver, para pensar, a de vez
em quando papear com o desconhecido passante. Todavia quem é o desconhecido. Todos
somos desconhecidos; debalde nos pensamos íntimos dos íntimos, porque o homem é
indecifrável e, ou abre a sua boca demais ou fecha a sua boca demais. A rigor
não temos nunca certeza das certezas alheias, quiçá de nossas certezas. Mas Toninho,
ali naquele meio ainda um estranho e portanto apenas por semelhança Aranho Sapo
e Caranguejo, o Toninho não pensa nestes termos; é mais fugaz seu espírito, não
se daria a filosofar. Todavia pensa e continua não entender seu sonho na
vigília plena, o qual surge quando menos espera, aguarda a assembleia aquietar,
na boa psicologia do orador, a fim de prosseguir no seu discurso: invectiva humilha destrói
vence! E se encontra um derrotado, já quase a completar as três décadas a
viver, e ainda é um humílimo negro refletindo o brilho do sol na pele,
engastalhado nos seus ossos em destrambelhos, nos membros encolhidos, no
arrastar-se qual anfíbio monstruoso. Ele olha. Vê as ruas a regurgitar as
conduções e a gente apressada, um jogo de cores e movimento.
Não vê o mundo, ninguém vê. No entanto
pensa o mundo, a partir do movimento e das cores à sua frente, os sons
violentos provindos dos veículos, a grita do povo: mixórdia algaravia bagunça
ininteligível de pronto. Ah a grita do povo. O povo um desconexo pra si,
estando naquele meio urbano enorme, embora cidade pequena lhe parecendo uma
desproporção perto da periferia; mais ainda, vira na televisão da Mercedes o
fervilhar no centro, outro centro, o centro da megalópole – o povo pra si uma
visão a se assustar! São milhares, não consegue imaginar bilhões, são milhares
e milhares de pessoas... Existiriam no povo muitos Caranguejos? Num átimo
sentiu pena dos outros semelhantes desiguais a viver de sapo. Será, se
perguntou, será que todos têm sonhos durante a vigília! dormindo decerto que
sim, mas acordados. Como resolveriam esse problema.
Mais para diante, bem mais para diante
naquele futuro incerto (todo futuro é incerto) depois enfim, estaria traquejado
no meio do povaréu. O centro viraria seu mundo, onde um forte, apesar da
fragilidade em razão do próprio equilíbrio e a dificuldade locomotora, teria os
pés no chão, qual alicerces fincados no solo a dar sustentação. Nos primeiros
dias, meses até, Toninho andava inseguro, como fosse um estranho emigrado a um
território estrangeiro e não um cidadão da terra com direitos. Entretanto
aventurou-se mais vezes no ambiente, chegou a ser um ser popular.
Agora se encontrava meio deslocado
inclusive no seu antro. Passando tempo sem ao menos visitar Mercedes. Além do
mais o esposo dela, ainda em férias, ficava ou a discutir com a mulher ou a
brincar com o filho negrinho, sendo louco por crianças. Toninho se constrangia,
evitava o convívio. Foi aos poucos ‘desmamando’ daquela fêmea atrativa e parideira.
Namorava então o centro movimentado da cidade.
12. Aranho, como
diziam os moleques quando era ainda moleque, o Aranho está sendo despejado da
Vila Nova. Aquilo nem era vila, sem rua, sem qualquer infraestrutura; casebres
a imitar moradias; tudo precário; a gente do melhorzinho situado entre as
‘casas’ ameaça deixar o lugar sofrível; o marido da Mercedes mesmo pôs placa na
frente, ou que se supõe a frente da residência, a vendê-la: “vendo a casa”. O
tempo, implacável, comeria algumas das letras tremidas e desiguais, escritas
num papelão de caixa de sapatos. A família decerto a preferir pagar ipeteú água
e luz na periferia rica, mais próxima do posto de gasolina. Sequer nova é a
periferia, mais velha que a rica; mas nome não se discute quando ‘pega’, pois é
o povo quem faz a língua e cita a geografia. Ele já não se sentia bem naquelas
distâncias miseráveis. Parecendo estar com bicho-carpinteiro: não parava, vivia
a fugir ao centro, mormente quando obteve alguns benefícios que lhe haviam
arranjado. Um deles era a carteirinha de invalidez, a qual dando oportunidade a
viajar de graça na Circular. A gente da Vila lhe parecendo agora estranha; ao
menos menos atrativa. A Mercedes não agradava mais a ele como antes; ela também
não se interessava pelo Caranguejo, embora não apreciasse igualmente o esposo;
o menininho a crescer sem que o pai biológico pudesse acompanhá-lo, se bem não
levasse jeito o Antônio com criança. Os colegas iam crescendo e desaparecendo
dali, uns se empregavam outros debandando ao mundo do crime. Aliás a polícia
gostando bem de visitar a periferia... A família andava praticamente
destroçada: as guarda-costas, a mãe morrera, Branquinha saíra de casa atrás do
seu homem; o pai nunca fora amigo. Nem a comida certa nas suas horas incertas
tinha mais; o velho a comer qualquer porcaria, nunca junto do filho, ou se
alimentava por aí nas casas dos companheiros, com quem gastava, livre da filha,
seus proventos; quanto a Toninho, não se
ajeitando no fogão. Aí arranjou um dinheiro vindo de auxílio da prefeitura,
após empenho de pessoas que se condoeram dele. Então não parando mais no lar,
nem para almoçar, alimentava-se no centro urbano; vinha a dormir somente;
desengachava a cordinha a imitar cadeado para prender a porta, entrava, lavando
o rosto na bacia como banho e se despencava na cama malcheirosa. Assim a
moradia se encontrava como que abandonada, como abandonada a vida daquele Sapo.
Terceira Parte:
Despertar, em tempo?
“Cada um vence à sua
maneira a solidão, a infelicidade, a dor.”
Autran
Dourado
13. O Caranguejo
o Aranho o Sapo o Toninho, este último tratamento como tratamento familiar no
carinho amigo e nisto nada tendo em condescendência pelos aleijumes enfeando
mas apenas carinho a que tem direito mesmo um ser comum normal ou nos
conformes, usando-se então diminutivos que engrandecem – o Antônio vira
cidadão. Nisso se ‘enormiza’, estufa inclusive na vaidade e pequenez, a se
parecer, a si mesmo, se não igual semelhante aos demais, a cruzar as vias
públicas, a se desviar da condução louca, tendo ela um condutor harmonizado,
segundo o pensamento do motorista; ao conversar com o vendedor de pipoca,
aquele cheiro atraente a exalar do carrinho na esquina; ao encontrar o estranho
que estranhamente lhe pede informações da urbe pequena se pensando megalópole e
é difícil saber de seus meandros e os nomes históricos de suas ruas; aí dá o
esclarecimento, recebe de volta o “obrigado, senhor” como um prêmio, feliz por
ser alguém, a poder contribuir com suas faculdades e conhecimentos ao mundo. É
uma consagração! Muita gente pula do estágio menino ao do senhor responsável
sem saber, sem saber também que quem não sabe a sombra não sabe a luz. Mas a
ele, o seu escuro, martelado na bigorna da periferia, lá entre os iguais sendo
diferente, o seu escuro deu ao Antônio essa base a sentir a grandeza que o
simples tratamento de igualdade dá a quem é respeitado por “senhor”. Olha,
orgulhoso, o andante indo à direção certa a se perder no longe da distância;
quase corre ao seu encalço a lhe implorar que ouça sua voz, sem pensá-la esganiçada, a dizer ao forasteiro
“não tem de quê” e tinha sim, pois nunca gozara da condição cidadã. Um dia
feliz tem início para Antônio. Agora pensa grande ter direito igualmente a um
sobrenome digno; então engasga. Seria Silva, Gonçalves, Souza, aqui podendo o
esse o zê, nunca vira o registro; daí uma razão a vasculhar em casa, quando em
casa, a caixa onde as coisas eram guardadas pela mãe (sentiu saudades da
genitora; reviu no cineminha particular a Branca, resmungou os resmungos do velho,
lembrou-se dos outros há tanto tempo sumidos sem notícias e dos caixões que
vira, não vendo Dona Morte mas sentindo o trabalho eficiente dela); enxuga umas
gotas a escorrer dos olhos, relembra a caixa o documento o lugar e o lugar
possível a espalhar papéis e recordações que toda família retém a sete chaves
das vistas dos estranhos. Planeja então buscar-se na busca à caixa e, gelando-se:
o pai não teria jogado tudo fora, no seu costume sem costume!
Assim Antônio volta de seus
compromissos, mas quais responsabilidades! volta mais cedo para o lar, se acaso
a casa fosse lar, torna ainda com luz do sol a desaparecer no oeste da periferia
pobre miserável abandonada, não cidadã na urbe portentosa.
14. Mas não tem o
reverso da medalha? O rapaz, já trintão, pleno de cidadania, se pega na praça
ampla no ver ouvir apreciar a algazarra, de um lado os passarinhos a discutir
suas coisas, a forrar e tingir o chão com fezes lisas e malcheirosas, eles na
sua grita geral; doutro lado os meninos na molecagem explícita e natural, na
mixórdia que são os meninos de rua, eles também a gritar a vencer no grito; são
engraxates com suas caixas de trabalho miúdo, são moleques desocupados como são
os moleques, nas brincadeiras infindáveis, igualmente em brigas intermináveis,
a se desentender nas suas coisas. E aí sobra ao cidadão pacato, cumpridor de
seus deveres legais (ao Antônio isto não seria exagero?) ao cidadão nas imediações,
no passar no apreciar o jardim as flores os pássaros as crianças e demais inocências...
sim sobra ao cidadão investido de suas responsabilidades e contribuições ao
todo da coletividade; ao cidadão a andar gozado igual mola ou sapo, a falar
fino quem sabe a chamar atenção de um deles, na turba moleca, a chamar atenção
pelo malfeito benfeito que seja, desandando a meninada a investir: olhem o
sapo! Se esfria o homem, o cidadão, esfria-se por aquele balde d’água do tempo
na sua fogueira cidadã, a remexer até com seus brios com sua dignidade com seus
alicerces fincados na zona central da cidade. Ah o estigma!
Como é duro o aprendizado na escola da
vida!
Pensa dessa maneira o Sapo, a andar
fazendo desfazendo seu corpo em locomoção a duras penas. Vai – primeiro foge
dali, vai no possível longe dali – vai pra cá vai pra lá, vê isto ou aquilo,
tira um dedo de prosa com o transeunte também desocupado; senta-se num dos
bancos com propaganda no granito gelado, descansa o descansaço, levanta-se,
caminha numa direção sem direção, qualquer direção servindo a esconder se não o
desapontamento a vergonha a sem-gracice a incipidez do seu eu, o constrangimento
que a gente disfarça como pode, pondendo pouco o Antônio Cidadão.
Um homem que fora feliz e andava
extasiado minutos atrás porém...
É o ser mais infeliz do planeta. Sem
ter tido que fazer qualquer esforço para tanto.
A escola do viver.
15. Perdeu-se um personagem! diria o autor. Isto
pode parecer incrível, e é mesmo incrível. Debalde vasculhei o Terminal
Rodoviário Urbano, siglado, que estamos mesmo no modismo da sigla ou na doença
dela, siglado nestas páginas como TRU a facilitar referências futuras e a
economizar caneta esferográfica, a qual a gente compra na vendinha do bairro já
vencida, seca, fazendo ‘ui’ no escrever; e o preço! meu Deus; a fim de
economizar tinta, portanto; se bem que vale a pena um gasto extra quando se
trata descobrir o personagem central duma obra. Neste ponto comentar-se-ia em
lamento “um erro justifica outro!” Não, evidente que não. Além do mais o Toninho
sumiu, poderá ser encontrado, a dar continuidade ao livro. De fato.
Não obstante me perdi eu ao achar a
perda e não o encontrei! Sim, é grave. Olhava por toda parte o personagem, fiscalizava
os fiscais, eles a fiscalizar a chegada e a partida dos ônibus circulares; e
nada. Parece simples? a cidade grande pequena se imaginando megalópole possui
bem umas 99 linhas de coletivos. Isto quer dizer haver o autor olhado e esquadrinhado,
examinado, as 99 partidas e as 99 voltas, dá quanto? quase duzentos não é? e
ainda multiplicado por cada (perdão pelo cacófato, às vezes não dá para fugir
somente a agradar os puristas, eles que nunca lerão o escrito sobre nosso
Caranguejo) repito, por cada 10 minutos em 10 minutos; 15 por 15; 30 por 30 e
tem linha de hora em hora; ah tem outro problema: na hora do costumeiro rush (que horror essa língua gringa!) no
horário de pico a Empresa concessionária bota mais carros, aí de 5 em 5
minutos, além das linhas de hora, as quais não se alteram (os usuários que se
empilhem...) por servir a periferia longínqua pobre abandonada et coetera; estas das lonjuras sendo
provável até perder alguns carros, deslocados para outros percursos que deem
mais passageiros.
Todavia para que tanta enrolação, que
foi o parágrafo anterior. Ora bolas, a fazer sentir o sentir de quem ficou a
acompanhar o vaivém da gente afoita e apressada, louca para subir nos ônibus a
fim de chegar na sua casa ou a voltar dela indo ao serviço. Gente trombando
gente; gente se desviando de gente; e gente que não tá nem aí, no dizer
popular. Realmente têm os que vão ao Terminal a passeio! um empeço aos demais:
bloqueiam filas, ocupam bancos a obrigar os de pé a ficarem mais de pé ainda,
às vezes com sacolas e pacotes de compras; tem um que outro a ler enquanto
espera ou lendo mesmo espremido na condução, pois brasileiro, e brasileiro
consegue examinar um livro, não dos maçudos, um livro inteirinho durante a vida
inteirinha; e nestas condições foram notadas bem umas três pessoas no TRU; as tais
pessoas passeantes, valha-nos Deus! elas atrapalham os que esperam. Ah sim,
havia na mixórdia humana mulheres à espera, tinha de sete e até de nove meses,
pobres delas e ainda a esperar também condução.
Porém nesse ‘irebire’ da gente, a
gente na busca apenas do Aranho, ele essencial para estas linhas, foram observadas
cenas as mais curiosas, que demais são sempre curiosas porque o ser humano é
interessante, às vezes esdrúxulo.
Num dado banco havia uma senhora
morena. Aqui não se usa a hipocrisia social da não discriminação de raça; moreno
é alguém branco tostado pelo sol ou levemente escurecido na epiderme, mas de
características caucásicas; nunca se pretende esconder a cor; o Sapo é negro, e
negro retinto; não deixará ter valor sentimento inteligência, nem deixará, num
pôr debaixo do tapete, alguma patifaria a defendê-lo por ser negro retinto; em
razão disso não referido por ‘moreno’. Prossigamos. Do outro lado da lembrada
morena sentaram-se as gêmeas, duas belezas louras de uns dois ou três aninhos;
a da direita esgoelava: ‘enchia’ resmungava falava e por fim chorava a cântaros
gritando pedindo ou exigindo não sei o quê. Mamãe sentou a chatinha criatura a
seu lado direito, empurrou a mesma, enfezada, prometeu não sei o quê; isto não
devendo ser muito bom... Tanto que a menina não parou mas passou a chorar
baixo, educadamente; a maninha, à esquerda da mulher, comportada de olhos
vermelhos e de semblante contrariado, olhava de perto aquele perigo de mãe braba.
Aí o autor à procura de personagem retomou a pesquisa que fazia. Quando
voltou-se para o lugar do trio briguento: a mãe, só; as pequenas lá na cerca
que cerca o TRU, o qual é fechado de todos lados fora o portão de entrada dos
veículos e ainda assim com funcionário a fiscalizar intromissores – elinhas a
comprar não sei quê doce no carrinho encostado à dita cerca. Isto prova quem
sabe o ‘água mole em pedra dura’ todavia sem sombra de dúvidas que ainda os
adultos não conhecem a linguagem da criança nem a força menina...
Embora o tró-ló-ló aqui acima, não
sendo o falatório de mãe nem a manha das meninas que se buscava: simplesmente o
Toninho.
Em vez dele via gente a passar e mais
passar. Ah como tem mulher bonita e velhotas e velhos na cidade! sim a conclusão
é válida porque o TRU é o termômetro urbano, todos passam por ele. Não, e os
que vão de bicicleta, e os que voltam a pé? substituamos a expressão por ‘quase
todos’. Têm os que não saem de casa, gente no hospital e na cadeia.
Tudo isso para qual finalidade? para
ver gente bela, gente feia, cenas curiosas ou hilariantes?
Procurava-se um personagem, investido
do prestígio de ser o principal, sumido como que por encanto. E ele não se
encontrava no Terminal.
Aqui vem outra questão, desnecessária
como são as questões; pois tudo não deveria ser resolvido “numa boa”, esta expressão
que se ouve frequente; enfim tudinho deveria estar harmonizado, as questões
seriam riscadas dos dicionários. Desnecessária porque Toninho pode andar por
aí, na casa dele certamente não – já vimos como não para mais por lá; portanto noutros
lugares.
Agora entra nova questão na questão.
Seguinte. E o seguinte explica o
interesse, ou burrice, do autor a procurar o personagem no Terminal. O rapaz só
vive a se deslocar nos circulares, nas quase 100 linhas. Sim, aprecia o jardim
público e tudo o mais. Mas acha que deve se beneficiar da recente autorização
da gratuidade nos carros, em vista ser inválido; põe inválido nisso – um
sujeito que se arrasta, literalmente se arrasta, a andar pulando com
dificuldade, embora moço de seus trinta e cinco anos ou mais, forte se se
quiser; de fato com invalidez comprovada, a se valer das vantagens da lei. Ele
mais vive dentro dos coletivos que noutro lugar; e no Terminal, onde tem mil e
um amigos; mesmo nos descontos que se faça à palavra ‘amigo’, têm muitas pessoas
a lhe dar atenção. Daria a lógica se se visse – sempre se vê – o sujeito a
embarcar ou a descer no TRU.
Neste ponto entra outra questão –
seria a questão da questão etc. e tal. Ocorre que o relacionamento humano é bem
complexo, não dá para analisá-lo numa ou duas palavras. Os tais amigos do Sapo
são os mesmos que o cobrem de apelidos; nos depreciativos o Caranguejo o
Aranho: querem até diminuí-lo, querem explorá-lo, querem gozá-lo. Tanto assim
que tudo vem acompanhado das risotas e mexem com o pobre bolindo seus
aleijumes. Tendo uma agravante bem séria: desejam fazer-se e se porem amigos,
ao detratá-lo; pretendem se mostrar íntimos ao humilhá-lo. As dores morais do
Toninho, largado neste mundo de Deus à sua própria sorte, essas dores são flagrantes;
no entanto não dá mais demonstrações do sofrimento e da vergonha que o devoram;
nem quer dar ideia de sua insignificância por insignificante; pior: por insignificância
deformada! Apesar disso sofre na carne, na alma. No entanto já não mais chora.
É entremeio aos chacais da sociedade
que deve ser encontrado o personagem mais importante deste escrito. Os chacais
estão soltos na prisão do seu trabalho: motoristas cobradores funcionários da
empresa de ônibus; e os outros ‘amigos’ achados por aí nas vias públicas nos
jardins e nas praças, todos a participar da chacota dos contumazes; mais amiúdo
se reunem ou se encontram com o Toninho na área do TRU.
Aí está o porquê da procura no
Terminal.
Não obstante, sequer foi descoberto!
E agora? pergunta o escriba a... ora,
a quem sobraria indagar?
16. Ouvia a ‘fogo
pagou’, imperturbável, imperturbável a pomba e imperturbável igualmente o
pardal na tarde que morria, a tarde sendo sempre também a morte do dia, embora
anúncio da noite, a noite é o escuro a sombra e a interrogação aos que
insoniam, a interrogar a exclamação a reticenciar as afirmativas na vida. Um
dia difícil ao moço passado Antônio, cujo apelido carinhoso respondia por
Toninho mas os carinhos haviam desaparecido, a mãe morta a irmã debandada atrás
do seu homem que ele nunca vira – restavam as paredes do quarto, o cheiro que
era seu cheiro e o cheiro dos seus; aí chorou mais dentro do seu ser. Um dia
difícil, a tarde se engolia ela mesma, a noite prometendo a sombra, a sombra
nada a prometer; adivinhava o rolar na cama a desmunhecar-se, a ringir. E o
mundo lá fora na periferia miserável empobrecia os sons da gente em volta da
tapera a arremedar casa; todavia era sim sua casa, ao menos seu refúgio...
Enquanto o escrevinhador praticava sua
insanidade a procurá-lo no Terminal, aproveitando-se para ver as beldades a
circular no início do Circular; o Toninho aranhava seu ser em molejo a
ziguezaguear por entre as ruas do centro comercial, a matar o tempo, o tempo
que mata a gente; passara pelo jardim, sem que trocasse com ninguém o dedinho
de prosa de costume, pois tem dia que amanhecemos de pá-virada, isto um dito do
populacho a reconhecer o pessimismo que nos engole não se estando alerta.
Assim. Assim andava. Chegara no costumeiro horário de ônibus, o qual o
despejara semelhante aos semelhantes que lhes eram diferentes por serem iguais;
a rigor se podendo usar uma imagem nojenta e machucadora, a do vômito: os
passageiros, engolidos um a um nos pontos distantes, são no centro urbano
vomitados para as ruas lojas e quefazeres (aqui a gente força a concordância a
embelezar a feiura da linguagem) e o garoto todo torto, igual fazia diário,
sendo portanto despejado também na via pública; antes dentro depois fora da
condução atrapalhando um bocado os outros; no coletivo querendo sair, como
difícil tinha sido entrar aquele destrambelhado a andar de mola, a ocupar mais
espaço que devera pelos aleijumes; havendo nisto um senãozinho melindroso por
tomar um banco duplo pra si e, não tendo um vago, na hora de pico de manhã e de
tarde na volta nunca sobrando mesmo, e daí a caridade e a solidariedade
ofertando o espaço ao infeliz. Regurgitado vomitado libertado encontrado entre
a gente a andar aos compromissos, o Aranho tratou também de seus compromissos,
que eram o de andar se arrastando sem compromisso ao deus-dará. Mas nem bem
iniciara seu compromisso já sentira o cansaço pelo desânimo, o desânimo que
atinge um pessimista em dia de grande esplendor; sentiu-se cansado após meia
dúzia de passos, os quais nunca eram por inteiro porém pulados e pela metade. Parou.
Sentou-se num banco. Imediato se levantou, isso a custar bons minutos e muita
força; insatisfeito. Se arrastou um pouco mais e aí parou de vez. Fez mais, se
ajeitou na calçadinha ainda não varrida pelos garis, se amontoou no chão, numa
sonolência esquisita; aliás sentia-se mesmo ‘esquisitoide’ desde que deixara a
casa, tivera certa dificuldade a chegar ao ponto lá longe, na rua de cima da
periferia rica; contudo chegara, aguardara, tomara a condução e fora por ela despejado
no centro. Agora descansava, ou dormitava, naquele estado em que nos
encontramos absortos, vivos-mortos para a atividade dos mortos que se pensam
vivos pelos exercícios e responsabilidades importantes à rotina. Bem. Isso,
mais que isso por um traço desimportante importante apenas ao entender os
desastres seguintes: o chapéu. Deixara o chapéu cair no solo, ou por dormir
semiacordado ou por se esquecer dessa lembrança; e ela ficou aberta,
escancarada de boca pra cima. O chapéu. Alguém lhe presenteara, quem sabe a
brincar ou a debochar mesmo do Caranguejo ou talvez de boa vontade. A peça
tratava-se dum chapéu de feltro, gasto, usado, usadíssimo; daqueles que os
saqueiros usam. É o seguinte – esses trabalhadores tomam um chapéu velho, às
vezes cortam suas abas, a coisa fica parecendo cuia, apenas com objetivo de proteger
a cabeça do esfregar e do peso da sacaria; e aí vão se equilibrando eles a
equilibrar o pesado fardo na cuca, até chegar onde chegar, seja a carroceria do
caminhão onde outro trabalhador toma o volume ou então chega a uma pilha de
sacos em não sabemos aonde. Tal objeto fica como que encerado do uso e do suor
do usuário. Uma dessa ‘cuia’ lhe fora ofertada, o Sapo imediato a experimentar
o presente, a sorrir se achando belo ou diferente cansado ser igual a si mesmo,
diferente já sendo por demais diferente dos outros sem se pensar diferente; e
se foi a pular nas imediações. Depois, poucos dias depois, se despojou daquilo,
experimentou no pixaim um quepe também ofertado, desses bonés cheios de propaganda
com nomes em inglês, o que valoriza a burrice geral e quase irrestrita no
povaréu. Mas não ficou com a coisa, logo a perdeu por aí, ou alguém a escondeu
para irritar o pobre. Não foi bem o caso do chapéu.
Esparramou-se como possível no passeio
público, dormitou segundos minutos ou séculos, isto sendo a mesma coisa aos que
dormem. Daí ocorreu o desastre. Sim fora um desastre pra si. Acordou e tinha
certa moeda no bojo do tal chapéu.
Primeiramente coçou olhos pra ver por
não ver bem, aí se assustou. Era para ficar feliz da vida, aos deserdados os metais
engrandecem e alegram. Não ele. Aqui tem início um drama a acumular seu drama
no viver. Olhou. Pensou. Espichou o olhar em ambos lados, sem encontrar o
ofensor que atirara a moeda de vinte e cinco centavos, dessas pratinhas de
ferro que têm valor dos níqueis antigos e valem ouro e o dono passa nos cobres,
isto uma forma popular de análise da questão a usar sua linguagem genuína e mal
parida. Aliás o dinheiro é o cobre, mesmo de papel, onde se verceja pornografia
anota-se telefone ou se faz contas à falta de papel em branco; no caso, de
metal. Ficou então a examiná-lo entristecido e mesmo indignado. Como alguém
fazia aquilo consigo, para decerto diminuí-lo (não atentou – o pessimismo não atenta: tem certeza da maldade
alheia – não atentou na boa vontade do ofertante, talvez de coração mole e levado
por sentimentalismo religioso). Sim, queriam indignificá-lo queriam humilhá-lo,
a ele que possuía renda, a ajuda da prefeitura ou coisa assim; era um homem, se
disse, um homem com meios para se dirigir a um restaurante por quilo, devendo
ser por grama pois quem comerá um quilão ou dois! para ir a um restaurante
desse tipo e encher o prato, pesar, pagar, quem sabe se não numa arrogância da
insignificância e longe da humildade da gente ignorante, sim, pagar no caixa,
receber troco, sair de cabeça erguida e... ah, esse mundo não tinha solução! Botou
aquele metal redondinho e lustroso no bolso, saiu do lugar batendo os pés,
envergonhado do que se pudesse pensar do seu estado... a rigor não bateu pé,
deslocou-se pulandinho, a seu estilo. Estava estragado o dia, e era ainda
manhã, umas nove horas se tanto.
Tornou à periferia, magoado, a
assustar seu motorista preferido, ferido nem olhou para ele, a lhe atirar as culpas
do mundo; sequer ouviu seu gozar, isto sendo diário também sem se importar mais
até; nessa hora daria uma resposta à altura ao homem, chamá-lo-ia “barrigudo”
ou qualquer coisa, cabia um nome feio o mais bonito possível. Felizmente aos
passageiros, no momento gatos pingados, felizmente tinha ouvidos tapados pelos
gritos internos da humilhação a que fora atirado, como fosse um mendigo! Não
escutou o gozador: “já de volta, Aranho!?” Responderia prontamente “vai à...”
não respondeu não ouviu não viu sequer os outros; desceu, quase se jogou do coletivo
no ponto da rua de cima na periferia, a resmungar e se arrastar pulando depois
até à periferia pobre, à pobre maloca.
Fez o que fez automaticamente, como
sempre fazemos mil coisas sem perceber – introvertido na situação ofensiva da
esmola que recebera. Já se encontrava na cama velha a ruminar indignação, nem
se vira a desenroscar a corda feito cadeado de prender a porta de pau gasto e
podre; já chorava com pena de si mesmo, sem que a infelicidade se fosse embora
molhada.
Um dia para não se esquecer.
Passara, esbarrara quase nos
moradores; nem a Mercedes arranjando os trecos para mudar-se notou; sequer se
lembrou poder encontrar o Zé, seu inimigo de meses de anos de outras existências
quem sabe; não chegou pensar poder a motoca estar acelerada ali perto, a
‘desfalhar’ sua fumaça; não veria coisa alguma, não perceberia – voltado que
estava para dentro de si! Entrou sem conscientizar, não viu poder ter deixado a
porta arreganhada aos cães da vizinhança xeretarem ali na casa; já pulando à
cama, a rolar sua infelicidade, a qual não quer maior alegria que se tornar a
única rainha para mandar. Horas, passou horas a sofrer gostoso sua dor; na tardinha
já beirando noite ainda doía.
Tardezinha, a ansiar a noite a sombra
o escuro, a antecipar a insônia e o rolar, tardezinha ainda não se conformara
com a sorte, a sorte do azar.
Sequer lembrou-se que viria depois o
outro dia, o dia que pode ser uma promessa. Isto se o pessimismo deixasse um
minuto de folga.
17. Os anos
imperturbáveis se acumulam sobre os anos no espichar do tempo, o homem se apega
ao curto do tempo não vê o tempo. Toninho se aranha a pular em torno de si mesmo,
engarranchado no seu drama perto, esquece o longe, mas o longe vem buscá-lo,
também ele imperturbável como o tempo, a vomitar no infeliz suas coisas. Antes
de quase se esconder na maloca com alguma parede firme para sustentar o todo,
antes de destravar a cordinha de amarrar a porta de cercar o vento ou de
impedir um cão vizinho a xeretar farejando as coisas de dentro na cozinha; e aí
sim se esborrachar o rapaz desinfeliz (desinfeliz seria o feliz por ser o
infeliz dos avessos, mas o povo fala dessa maneira, que fazer!) antes mesmo de
se esborrachar na cama arcada fedorenta anos sem os cuidados feminis, mesmo
antes disso já deu de cara com um inimigo – nem pensava no Zé da motoca e não
era mesmo o Zé – um inimigo que fosse tão só adversário ou aquele com quem não
contamos, contamos apenas em não confiar demais... pois deu de cara com o pai.
Ele entrava e o velho saía, inclusive amarrara o ‘cadeado’ de corda enrolado
desde o buraco da porta até chegar enrolá-lo prendendo o mesmo no gancho do
batente, o qual não passava de prego desenferrujado do tanto lustrar a corda no
amarro; já fizera isso ao filho desfazer e entrar na casa; já andava na direção
dos amigos – dando tempo o encontro daquele desencontro apenas para se
insultarem de olhar. Toninho chegava um tanto emburrado magoado desenxavido
enquadrado na sua infelicidade, com a mola propulsora na esmola de vinte e
cinco centavos; o velho Chico de mal com a vida, se vida que um idoso acabado
ou acabando leva, se tal seja vida. Foi um encontro do desencontro do mal humor
de ambos.
Não se falaram. Um pingo não é letra
aos que entendem se desentender! Se olharam, perto o mais longe possível.
Ninguém indagou a ninguém. O pai meneando a cabeça como desagrado, num mostrar
sem querer a aversão a malquerência pelo outro; isto vindo certamente desde o
nascimento do aleijadinho ou desde os tempos dos tempos, o homem sem condições
filosóficas para chegar a tanto saber. O desafeto, todo enrolado a andar aos
pulos, e agora retornando numa pilha de nervos, isto expressão usual a dizer
onde desemboca o pessimismo, o pessimismo louquinho a despejar-se no primeiro
que porventura cruzar-lhe os passos; o primeiro foi exatamente o pai ao filho,
o filho ao pai numa contrapartida... Daí chocaram-se, sem se falar. Nem ao
menos a se cumprimentar. À velha dizia respeitoso Antônio, “bença mãe” não o
fazendo nunca ao Chico, desde pequenino aprendera com a natureza em não confiar
nele, bêbado ou sóbrio, nervoso ou ‘normal’ que é o nervosismo contido. Então,
nessa volta à casa, na saída do pai, teve num relance uma visão estranha do seu
dentro, ele que passara pela Mercedes, decerto pelo negrinho que fizeram em
comum acordo no sem pensar acordo mas no entendimento da atração apenas; que
passara talvez pelo vizinho Zé e pela motocicleta do Zé e nem vira coisa
alguma; que cruzara com outros vizinhos, sem ver. Via agora o pai e sentia tê-lo
observado a olhar para seu lado maliciosamente, pior ainda: o olhar
flagrantemente dum inimigo, desses que se vestem de carneiro a melhor trair
traindo a confiança que porventura se lhe houvesse depositado; o homem olha o
orador, grita de olhar sua repugnância ao mandão, ele, imperturbável na
exposição de motivos, a invectivar contra o bando de Chico, quem sabe com outro
e anterior nome... Mas, diz-se num relance de instantes de segundos naquele
reencontro entre pai saindo filho entrando na casa: este é aquele! aquele de
ontem. O ontem ainda era o dia anterior. Olha de frente, frente para cima ao
velho, odeia o genitor, estando realmente nas condições para isso pois chegara
hiperexcitado, nervoso, infeliz, indignado desde a rua; odeia ao outro; o
outro, agora um pai que nunca apreciara o filhote todo enrolado em seus aleijumes,
um pai que o fuzila com nojo, desde lá de cima, porque embora diminuindo sua
estatura no encolhimento da velhice, ainda assim o velho maior que o Caranguejo.
O velho gasto fez um muxoxo em
desagrado pelo filho, se foi, sumiu no esquecimento daquelas horas. Enquanto
que o Sapo, já infeliz, mais infeliz ficando, houvesse mais ao pessimismo – o
Sapo adentrou o tugúrio, quase a atenuar o incidente, o qual, não sabia,
soubesse saberia ser de anos e de séculos... Então se esparramou a sofrer na
cama, com mais motivos agora a desaguar o coração.
Ficaria, ficou por horas sem fim
naquele estado; nessas condições as horas não têm de fato fim.
18. Vejamos se
serve a imagem seguinte, a imagem se casando bem ao Toninho: a vida pode se
comparar a um estômago; enorme ao de grande existência, esse tipo de matusalém
que vez que outra a televisão mostra; um estômago mediano, aqui abarcando a
grande maioria na Humanidade, vida nos conformes e com as mentiras
estatísticas, as quais destinam a cada região o limite de anos a viver, os
teimosos e gozadores desmentindo a sobejo; e o órgão pequeno, às vezes titico
assim como fala um sujeito versado em gíria, equivalendo a essas existências
curtas e curtíssimas mesmo (sem entrarmos aqui na vexatória situação abortiva,
a gente ficando sempre a se esconder, em moral, da moral consagrada...) Dum
lado a vida, a existência; doutro o estômago a simbolizá-la.
Bem. Apliquemos o caso no caso do
Antônio, o qual as parentas próximas cariciavam por Toninho; e os amigos, ou
‘amigos da onça!’ estes a tratá-lo debochadamente Aranho ou Caranguejo ou Sapo;
e eis que num dia certo moleque, moleque sendo um menino instruído nos afazeres
e folganças da rua, num dia um examinando o ‘Gibi’ e acompanhando uma estorieta
australiana, nisso vendo e comparando o desenho com o agente vivo gritou-lhe –
“ói o Canguru!” o Antônio a pular de raiva. Mas que desaforado; que é que o
mundo pensava dele, um verdadeiro zoológico ambulante a viver levar o peso de
tantos apelidos!
Todavia Ganguru não pegou, felizmente.
Antônio curte seu estômago mediano; se
pensasse bem, bem poderia ansiar por que a vida não se prolongasse demais, a
expô-lo a tanto vexame, a tanta vergonha, a tanto sofrer. Se o sofrer depura,
ainda uma vantagem na desvantagem. Não tendo ele essa opinião formada, antes
vivendo em luta a escapar dos aguilhões...
Num estômago daqueles grandões como
saco sem fundo cabem mil e um alimentos. Às vezes metemos no bucho, mal
avisados, nacos e mais nacos indigeríveis, nem o fígado conseguindo auxiliar o
pobre; então regurgita ou vomita; trazendo o triste consolo da enfermidade e o
inevitável consolo da senhora Morte, mui conhecida por Dona Maria e por sua
prole saída como anjinho. A ignorância, ou a estupidez? a ignorância acumula o
estômago, mata o dono do estômago. Ora, o alimento da vida é o fato. O Antônio
era medianamente suprido de alimento na sua existência, se bem (mal?) que os fatos
entraram no seu ser à sua revelia quase sempre, a ignorância apenas responsável
por muitos dos fatos, não por todos. Não desejando passar por alimentos miúdos,
muitas vezes insignificantes mas poderosos na ação deletéria (quando não
mortíferos, a envenenar seu estado psicológico) o aleijado curtia nacos pequenos
insalubres e indigestos, próprios a auxiliar Dona Morte, citada por sua
eficiência, lógica, paciência e inevitabilidade; sem que o personagem destas
linhas vivesse (aí já não é mais viver...) sem que vivesse ele a ruminar a alternativa.
Ao ver os seus dias se diluindo, a
pensar no alimento estragado ou estragante, quem sabe a engolir sua saúde. Sintomático
desse estado a questão do xixi.
O homem urina, Antônio é homem,
Antônio urina.
Quem pode fugir às necessidades
fisiológicas?
Agora se encontra no Terminal; quase
sempre está no TRU, seja a tomar condução, seja por haver descido dela, seja a
passar tempo vendo as coisas e existe ali é muita mulher bonita, a fome é
grande nessa idade. Beira os 38 janeiros, podendo pensar nos termos de
dezembros, ele que D.Maria parira em setembro a natureza ofertando à roceira
uma promessa, o futuro molhou com rios de lágrimas a promessa. Tem 38, maduros
38 anos, graças às dores; pois que muitas pessoas jamais amadurecem, ele mesmo
não passando dum simplorião falador. Já pensa, se não nos dezembros, pensa; vez
que outra aparenta estar macambúzio. Mata o tempo, o tempo que o mata. Não pode
contudo fugir das necessidades; alguém, outro e mais outro, os circunstantes
enchem-no com líquidos; ele mesmo adquire refrigerantes a acalmar o suor, o TRU
queima desde lá de cima na sua cobertura metálica o aqui embaixo, a gente
reclama, o homem comum generaliza a temperatura; porém anda de fato quentíssimo.
E mais líquidos. Sua, remexe-se, senta-se se levanta, anda vai vem senta-se novamente,
indócil. Todavia a bexiga não tem costume de esperar. Em pequeno era o ‘mijão’
da família, seu Chico não agradava o filho mas a compensar descia-lhe a lenha,
com a cinta, por causa da incontinência; até que a esposa vinha ao socorro da
cria. Aprendeu.
É um ser maduro (o homem comum não tem
preocupação científica com respeito ao ponto de equilíbrio; por isso à gente
conhecida o Toninho é maduro). Se cheira a amoníaco é mais pela roupa e ela
vive com o suor muitas e muitas vezes dormido – sem querer não mais urina.
Urina como todo mundo. Quando líquido preso, o jato não a jato e solto mas
dificultoso a sair, a Branca fazia para ele chá de quebra-pedra, a periferia
tem muita vegetação teimosa; agora nem mãe nem mana muito menos pai, faz ele
mesmo o remédio, conserta ao concerto e pronto. No entanto pode ser considerado
nesse particular normal, ele assim pensa. Pensa agora que terá de correr ao
banheiro para verter água, o caboclo diz verter. Aqui uns pingos nos ii desta
vida.
Em primeiro lugar impossível a ele
correr. Isto força de expressão, abuso de linguagem talvez. Em segundo, ‘banheiro’
não deveria ser o local para se tomar banho? Na maloca usa bacia, havendo necessidade,
os roceiros não têm muita, eles lavam-se aos sábados antes do baile ou após o
jogo de futebol, autêntica pelada. Antônio traz esses costumes de higiene.
Alguns populares indicam como ‘mictório’ o lugar, ou mais debochadamente
‘privada’; a prefeitura pôs dístico indicativo como ‘sanitário’, o masculino o
feminino, este não se devendo misturar bonito com as coisas feias.
A questão essencial aqui é a
necessidade do Antônio, ter de ir rolando se arrastando molando igual sapo, a
chamar atenção ou atrair piedade, a provocar curiosidade sobre si. Fá-lo a
contento, ou a tempo. Penetra naquele santuário malcheiroso. A julgar pelo que
se diz, o feminino não ganha muito na limpeza do banheiro macho.
Antônio entra naquilo, que é nome mais apropriado a sanitário público, recebe a
catinga, têm lá alguns machos da espécie, uns constrangidamente como fora
pecado a natureza dada a eles pelo Criador; outros desavergonhados e até exibicionistas
nas machezas, a chocalhar as coisas; alguns comentam, outros contam, outros
mais aproveitam a negociar comprar vender sugerir imóveis ou a encetar ou que
seja reencetar conversas, fiadas ou não. Talvez esteja errado que nada se
perca: porém tudo isso pode ser jogado fora quase sempre ou esquecido pela
memória... Contudo ainda existem os que, às escondidas ou abertamente para
mostrar a tara, os que escrevem nas paredes, quebram o bem público ou ofendem a
moral; pessoas depravadas!
Entra no recinto e prontamente recebe
gozações. Presentes picham-no, brincam na camaradagem discutível ou apenas
olham o pobre em vê-lo passar necessidade nas necessidades. É o vexame que
entra como um alimento envenenado naquele estômago que não tem mais que 38
anos, entra a espalhar, ou ao contrário introduzir o tóxico na mente do idoso.
Idoso! sim, os jovens já fazem referência a ele como sendo um velho aos 38!
felizmente pra si não se vê um acabado; longe disso – tem, apesar dos
infortúnios, um certo apego à vida, às coisas mundanas inclusive, como escolher
um bom prato. Agora urina.
E isto é terrível. Antônio não alcança
bem a louça fedida própria a tal uso! pobre dele; alguns dos ‘amigos’ ali querem
assistir ao espetáculo nojento. Ele, qual aranha, espicha um membro inferior
pra lá, escorrega no chão, encolhe outro pra cá, se ajeita como pode; não
pode... O membro, estivesse viril não sairia o líquido amarelo; flácido, não alcança
o limiar da louça, esguicha bem mal, conseguindo atingir um pouco o sanitário
melado, mija enfim, parte na parede, o resto a se derramar em rio no chão, o
chão que é um grude na sujeira. E o tempo gasto! leva tempão na tarefa.
Satisfaz-se. O pouco é o muito dos limitados. E dos sofredores... Se limpa,
mais chocalha, agora as mãos a fazer virar chuvinha de mijo no solo. Nada a
acrescentar no piso sujo feio molhado malcheiroso. Se arrasta um pouco mais. É
o ponto de se lavar, a pia quebrada, o pingar eterno das coisas públicas; sabão?
estariam brincando com a realidade e a verdade do ser! Lava-se, passa as mãos
na face suada; apenas por causa do suor, não havendo o hábito da limpeza e
menos o da desinfecção; o homem comum não é preocupado com isso: os mesmos
dedos que abrem a braguilha, que furam o papel higiênico (isto não havendo na
privada do TRU) – são os mesmos dedos que tocam os alimentos e as pessoas
amadas, sem necessidade a se limpar.
O Antônio todo torto não pensa sequer
nestes termos; pensa antes no seu constrager diário, muitas vezes repetido no
dia, a enfrentar o público, masculino, como macho se vê; ou não será isto o
pior!
Sabe, por intuição ou por experiência,
sabe que o macho não tem contemplação com seu aleijume, mesmo durante suas necessidades
fisiológicas; para os outros seres humanos é o palhaço desse circo.
Assim engole, já não mais arrota nem
pensa que possa lhe fazer mal ou ser indigesto; engole o alimento. Em doses
diárias, nada homeopáticas; letais? inevitáveis com certeza.
19. Talvez não
exista maior miséria que a miséria moral, a miséria, a outra miséria,
considerando os aspectos da fome, mesmo a fome de ‘barriga cheia’, a ignorância
imaginando bastar o estômago estufado; a moradia, que sendo própria é a própria
imagem da pobreza; e o morar precariamente com aluguéis escorchantes, embora
irrisórios por causa da relatividade no entendimento; a daqueles que nem moram
a morar nos abrigos esporádicos ou em pontes e vias outras; a miséria da saúde
a depender da saúde pública, mais doente que o doente, quando uma urbe possa
oferecer tal serviço; a do emprego que falta a do subemprego que sobra nas
garantias inexistentes; o drama do ensino mais e mais precário, nas ofertas
estatísticas, mas com entranhas mentirosas iguais a elas; a miséria da
violência de rua e a doméstica; a miséria do transporte, existindo ele a uns
poucos privilegiados. Ora, isto não anda a beirar palanque de políticos, antes
com o tão conhecido e praticado showmício?
Parece. Convenhamos a semelhança. O
Antônio tem tudo isso, e nada tem. Ou tem demais? Tem sua maloca, que divide
com o pai sempre ausente; possui, pagando a habitação num aluguel a outro
vizinho também favelado. Tem condução de graça, só pagando a irritação pelo
gozar alheio. Tem saúde em 5%, os 95% ficando por conta dos aleijumes. Tem
letras, a Branquinha foi-lhe suave mestra; já lê o dístico do ônibus, se
distrai a ler as propagandas dentro e fora do veículo; leu até um livreto
evangélico que lhe chegou às mãos pra examinar e não entender, mesmo porque o
padre fala mais bonito que as letras na paróquia do centro.
Poderia negar a miserabilidade;
sobretudo no item ‘ingressos’, recebendo ajuda do município; aí lembra existir
muita gente boa no mundo, um dos benfeitores faleceu outro dia, ficou o rapaz pesaroso.
Poderia.
Mas se tivesse condições em ver por
fora o seu por dentro... Vive numa completa miséria moral. A tendência da gente
é associar de imediato miséria com depravação, Toninho não é um depravado, nem
quando jovem e impetuoso fora; natural ter tido os interesses comuns, tolhidos
pelas leis da timidez. Dir-se-ia neste ponto da análise: o fato de ‘aceitar’ a
vida que leva é positivo e elimina o negativo. No entanto brincar falando fino,
gritar como resposta à gozação abusiva dos amigos, não leva isso a entender
como vida tranquila e feliz! Nesse particular não. Vive, se viver for dormir
comer andar conversar, vive as aparências. Na verdade curte, o verbo aqui
aplicado com ironia, curte o braseiro no seu interior; quase se podendo afirmar
o seu comum diário ser o desequilíbrio emocional. É aceito, é integrado, sonha,
tem futuro? Extremamente incômodo responder; não responderia Toninho ou
fá-lo-ia em lágrima ou em forma tristonha. Felizmente, ah quanto absurdo revela
a linguagem, felizmente não pensa; no sentido de filosofar.
Todavia basta algum insignificante
fato, despercebido pelos outros, talvez pela totalidade dos outros
circunstantes, bastando algum para degringolar, a se entregar ao pessimismo;
este, que se não for violento é ao menos destruidor, igual, não semelhante,
igual ao veneno que broqueia o estômago de sua vida. Indigestão facilmente percebida.
Algumas pessoas, a imaginá-lo bem na
posição de tipo popular e folclórico, toda cidade tem o seu, tais pessoas poderão
pensá-lo nos termos de equilíbrio na aparente aceitação de ofensores e
ofendido, a manter o status. Irão
elas mais longe no concluir – Antônio, um homem feliz. Feliz é o apelido da
alegria. Contudo ninguém podendo vê-lo no leito em mágoa; quiçá em desespero.
Antigamente, este que é um dizer tão
sem consistência, antigamente era tido por moço alegre, no correr, embora em
seu modo pulando, no correr com os meninos da periferia. A avaliação indo mais
longe: um rapaz feliz no amor. Verdade que foram bons meses de amparo e
compreensão no adultério com Mercedes. O tempo que se seguiu foi se não impeditivo,
dificultoso e quase impossível, a um ser com tantos aleijumes e feiuras.
Conseguir algum encontro fortuito com profissionais ou mulheres de baixa
condição moral? Mesmo nesse meio foi repudiado e gozado. Outro aspecto curioso:
nunca mais se embebedou como ocorria na juventude; descreria também da solução
alcoólica? isso porque tendo seu parco ganho, para fazer valer seu direito
cidadão... ou teria medo ser apequenado em público pela bebida como fora por
outras inferioridades. Até poderia ter libações e sexo satisfeitos, o fator
sendo o dinheiro. Ou terá chegado à conclusão de sexo não ser amor porém laivos
mais ou menos apressados de amor?
De qualquer forma nunca se elevou ao
amor, desse com ‘a’ maiúsculo. Podendo haver sonhado, o homem facilmente cede à
fantasia, pode sim haver, mas nunca encontrou o que o povo denomina alma gêmea.
Inclusive na união com Mercedes, temerária união, mesmo nessa, ela havendo sido
algo assim sem profundidade, mais a prática do coito que amor, junção de corpos
não de almas. Tanto assim que raramente pensa agora na mulher. Pareceu-lhe
apenas uma intromissão, de meses é verdade, insuficiente e quase fugaz, uma
intromissão da jovem que ele condenara noutras épocas, embora tendo por ela uma
atração incômoda nesse tempo; foi atração retomada quando a reencontra vizinha,
cheia de filhos, a exercer sobre ele a posição de professora e comparsa, a
iniciá-lo.
Neste ponto cabe lembrar a influência
materna, dona Maria, afeita à moral antiga e da roça, a mãe não podendo aceitar
e acatar o proceder do filho. Decerto aceitando e acatando depois e amando com
certeza a existência do neto provindo dele. Talvez na sua relação com a vizinha
tenha a velha evitado tais melindres.
Nada obstante – tendo quase esquecido
não a Mercedes, ré no seu sonho em vigília, mas a Mercedes com quem praticara
adultério – nada obstante se pega, no seu estilo, a falar fácil de ‘suas
conquistas’ às orelhas curiosas, mais interessadas mesmo a espicaçar-lhe as
podridões, para no futuro explorar a miséria e se fartar num rir; sim, mais a
espicaçar que acreditando. Ele: “eu fiz amor com a...”
20. Sim, pode ser
a um estômago comparável, ou a um caminho, a vida. Se enchemos lotamos
estufamos esse órgão, já estando ele cheiinho de ácido clorídrico, se o
enchemos até à saturação, no estilo estufa à estafa mesmo... todos sabem o que
irá suceder. O tal caminho poderia inclusive ser melhor compreendido
vestindo-se a imagem da serra. A linha no início vem da planície, sobe até às
alturas; após desce. Na vida muitos abruptamente, noutros em educadas lentas e
pacientes passadas até chegar ao fim; o fim? o oceano, outra planície, pântanos
ou fogos com águas ferventes segundo o pensar ignorante. O pico do caminho de
Antônio já estava alcançado; conforme os jovens, embora apenas os 38 anos do
aleijado e encolhido; restava agora a descida. Não vira a rampa, quase ninguém
vê, perdido nas distrações e nas ignorâncias, repetindo aqui por serem elas
amigas inseparáveis dos novos. Não vira. Levemente percebia, se não estar velho
e absurdo admitisse tal, ao menos andar pelo caminho do declínio; flagrante o
declínio das forças. A dor, a física, ela costuma provar-nos por a+b essas
sabências, sabência como fala o homem da rua. Sem estar usando igual velhinho a
muleta (e isto seria, além do ultraje, a maldade da natureza, a qual o havia
premiado com bastantinho aleijume e desengonço consequente no andar e na
postura; além de lembrar aqui o deboche alheio na escolha dos apelidos) não
usava muletas mas ultimamente era do grupo ai ui. Em sua mocidade uma vizinha
idosa falava a brincar que velho senta com ‘ai’ e se levanta com ‘ui’. Pelo sim
pelo não, ficava agora até mais tarde na cama, tomando por isso o segundo
ônibus ou o terceiro circular na rotina do atrasar na rua de cima, no coração
da periferia rica. Não devia ser pela fragrância dos lençóis a retenção, o
fedor decerto espantando inclusive suas acostumadas glândulas... A preguiça e
as dores nos aleijumes; e pior ainda, isto um aspecto moral: temia enfrentar o
mundo, o mundo ardiloso e armado de língua até aos dentes! Por outro lado a
ambiência do bairro que o cercava nessa altura não sendo mais seu ambiente;
sentia-se tal qual estrangeiro no desnorteio. Não viviam ali mais seus amigos –
outra vez é preciso pôr a questão amiga: quem é realmente o amigo? – deixemos
mais barato, usemos vocábulos como colegas e conhecidos, todos vizinhos no
amontoo de taperas feitas com restos de construção dos outros menos pobres,
formando sua periferia, a pobre e abandonada, nunca vista pelas autoridades;
mesmo porque o homem da periferia é menos que cidadão, menos inclusive que
urbanoide; portanto os políticos não conseguem enxergar nesse depósito de seres
humanos possíveis votos; daí o abandono; constatável à geração do Antônio por
quase duas dezenas de anos vivendo ou ‘vivendo’ aí, e nem sequer uma rua fora
legalizada. Os mapas municipais tão só indicavam a Vila Nova, nessa época bem
velha, como apenso urbano. A rigor a periferia era doente, não estava; estava o
morador enrolado nos seus aleijumes, doente. Era uma tal prorrogação na
prorrogação no ato de se levantar... Enfim, pés no chão, chão de terra batida
igual tivera na casa da roça donde foram os seus expulsos, D.Maria seu Chico a
Branca, que era ‘morena’ aos que a observavam, tendo lábios grossos e sendo um
pouco bicuda e na cabeça o pixaim africano igual a mãe; e ele. Ele, Antônio,
nesta fase da vida bem pouco interessado na cidadania da Vila e mais no almoço
em restaurante.
Assim partiu tarde à cidade, ao centro
dela, centro da vida comercial com seus vendedores ambulantes e sem vínculos
legais, bem ao gosto do desemprego que já iniciava o galopar para o Século XXI;
centro da gente a passar e mais passar; ele quem sabe interessado encontrar um
derivativo ou algo a que se apegar. Ora, assim a vida para muitos já seria a morte...
Após tanto se ocupar voltou ao refúgio
do arrabalde.
21. Certo dia
começou por não começar o dia, tendo aquilo atravessado na garganta. Amanheceu
amanhecendo com seus planos, planos curtos é verdade: tomo o primeiro horário
de ônibus – se aquele sem-vergonha do João mexer comigo desço do circular, subo
no segundo horário – depois paro no jardim, se não tiver por lá muito moleque,
sobretudo os mais engraçadinhos, depois... Depois fez mais planos, fazer planos
é uma atividade grata ao ser humano e não custa nada, custam muito as realizações.
Toninho não precisa, a rigor, nem de muitos planos nem de consequentes realizações,
bastando-lhe viver. Porém é viver começar, a começar o dia, com um trambolho
daquele! Se arrasta a pular gozado nesse triste dia, ainda no trilho a imitar
rua, com matos e buracos, rumo à periferia rica, a sair daquela com mais
miséria, a fim de tomar condução, sabido ser na rua de cima o ponto, quando...
O Zé Motoqueiro tirou-lhe uma ‘fininha’ no carreador, primeiro fez zigue-zague
numa palhaçada ou provocação; deixando a buzina já quase em cima do infeliz. Ouviu
do rapaz prontamente, fino gritado, um fiadaputinha não dos pequenos contra
todas motos do planeta! Parou a moto o homem, sem parar o tectecar no
escapamento, isto também forma agressiva a endoidar a parte da humanidade ainda
não completamente lunática, mas não disse nada o Zé Inimigo, apenas olhou pros
lados dos aleijumes com risinho e ironia. A seguir partiu na disparada, a
soltar ‘puns’ com cheiro de combustível, deixou fumaça e fedor ao moço. O
moço... ora, como começar começando bem o dia se começava mal!
Estava estragado, não já estivesse
pela noite indormida.
Se arrastou, pulou um pouco mais.
Mudou o itinerário por novo caminho; as pessoas vivem a fazer modificações no
caminho mas não mudam essencialmente o percurso; ele também, na ânsia de mudar
confrontando ou ofendendo a rotina: fez
uma curva aberta por outra rua paralela ao sentido da direção do ponto,
aproveitando para ver (a gente diz sempre “conhecer”, ninguém conhece coisa alguma)
o que não sabia existir no bairro rico, ‘rico’ por possuir vias esquadrejadas
impensáveis no bairro miserável; por exemplo as casas os quintais os portões e
fechaduras a tornar mais portões os portões; e gente nova, nova pra quem nunca
vira antes, podendo caber aqui até a velhinha coroca a sonhar seu mundo que não
era mais mundo. Viu; e o que não desejava, desejava sim, ver: deparou-se com a
Mercedes a lavar suas roupas lá no fundo duma residência (ah, então mudou-se
não muito longe, pensou). A mulher olhou-o sem vê-lo ou sem querer demonstrar
haver percebido. As crianças brincavam perto, um menino negro já grandãozinho
também, seria? Abanou a cabeça em desconsolo, e prosseguiu. Fechou a volta que
dera, a lhe sobrecarregar os músculos inferiores doloridos; e chegou bufando no
ponto. Claro, seu ônibus já se fora, aguardou uma eternidade de tempo o próximo
a si distante; aproveitou para ruminar as suas coisas, escarrapachado no chão a
mercê da inclemência solar. Embora tivesse novas experiências mudando o
trajeto, formigava lá dentro da mente a lembrança terrível do terrível
encontro, sempre reencontro, do Zé vizinho e inimigo, agora tendo certeza da
inimizade e do desagrado mútuos; lembrava-se como naquele instante do quase
crime poucas horas atrás, revira no relance o Zé a futricar outrem contra si,
na visão que aparecia volta e meia em vigília. Não havia mais dúvida com respeito à
identidade de ambos nos dois extremos de existências, eram o mesmo Zé o mesmo
Antônio, no outro a mesma ironia, a mesma intriga.
Seu pessimismo aproveitou-se do
momento para deitar e rolar por cima do infeliz. O dia, com tal manhã, encontrava-se
definitivamente estragado. Daí tudo não dando mais certo, até os errados
habituais a tornar-se mais errados.
Despicou sua raiva no motorista
apressado quando ao subir no carro, a se enroscar na porta de entrada.
Gritaram-se: um, “sobe Sapo!” “vai pro inferno” a resposta.
Rodeou como possível o centro,
examinou seus bancos de jardim preferidos, um estando ocupado por estranhos; evitou
a gangue dos moleques; foi barrado na porta dum restaurante grã-fino; por fim
evitou passar também na frente das lojas mais conhecidas e portanto com possibilidade
ser ferido. Nada adiantando a desfazer seu negativismo. O dia foi-lhe funesto.
Funesta a volta.
Olhou irado o genitor, meio ébrio,
decerto tornara ao vício (ah os amigos a roda de colegas...) Olhou-o como fosse
o culpado pelo peso do mundo em suas costas. Nem se falaram, um a entrar o
outro a sair.
22. Noutro dia já
era outro dia, não desejando lembrar-se sequer do passado próximo de mau
presente. Não conseguiu. Mesmo porque a madrugada quente, uma criança nas imediações
a chorar, cachorros, gatos, tudo contribuindo à insônia. Pior. Tinha o pior –
as baratas; as suas costumeiras baratas, aquelas da habitação, e as que vieram
do vizinho, o vizinho pôs pós inseticidas na maloca dele contra elas, elas
voaram pro lado do Toninho. Noite inteira a afugentá-las. E o Chico a roncar!
Aí se levantou, acendeu a vela, chegou perto do genitor, ia gritar com o velho
o barulho roncador, notou uma na cara dele; olhou em volta, em volta voavam
incontáveis desesperadamente. Apagou o lume, suportou aquele cheiro ruim
característico do sebo queimado, tornou ao seu leito a indormir melhor,
aguardar o fim da madrugada o começo do novo dia. O dia pode ser sempre uma
esperança.
Não tinha grande expectativa por esse
dia, os raios solares pálidos, um vento com força de brisa morna soprando, sem
a claridade vivificante – enquanto se arrastava rumo ao ponto do circular.
Lembrou-se da luta na madrugada longa como são os olhos da madrugada, concluiu
não haver pregado os seus olhos também; o que sempre quase é uma inverdade ou
só engano de nossa mentira, muitas vezes dormimos segundos pensando acordados.
Lembrou-se dum sonho, o sonho que só existe na noite da consciência, mesmo
insistindo ter passado em
claro. Contudo o sonho era o mesmo da vigília, que se
manifestava vez por outra, quando menos a esperar e não sabendo em que condições
a surgir. O mesmo. Os mesmos personagens e o mesmo ele, cobrador exigente discursivo
invectivo convencido mandão. Não ter-se-ia disparado o sonho da madrugada por
obra da realidade vivida no dia anterior! mas, pensou, onde no sonho a motoca
fumacenta e assassina do Zé Inimigo?
Pensava nesses termos a adentrar no
veículo, aboletar-se feito aranha aleijada no primeiro banco, onde o hábito o
pusera, como antes o fazia, embora a sobrar muitas hastes do Caranguejo na
bancada simples, um local de preferência para conversa, sempre fiada e sem
conteúdo que não a periferia de ideias, ao papo com o motorista, aí a se
insultarem ‘de brincadeira’ a se rirem. Introspectivo e discutindo consigo mesmo
nem percebeu o chofer, claro que havia ou o carro não andava; sequer percebeu
as investidas do homem, com ou sem maldade.
Quando deu por si circulava no centro,
a andar a pular, chamando a curiosidade do transeunte. Quando deu por si,
conscientizou uma vontade que os anos esconderam ou diminuíram pondo outras
vontades no lugar – estava alguém a comer pamonha. Olhou. Olhou qual criança
gulosa sendo roubada por um adulto aproveitador.
Começou na mente uma viagem ao
passado, cada vez mais distante, a mãe os irmãos a temência a Chico. As mulheres,
juntas as mulheres vizinhas, algazarravam a alegria em fazer pamonha. As bacias
a palha o milho o caldo a fumaça subindo desde o tacho, as crianças por volta a
ser ralhadas... ah saudade!
Não tirou mais da cabeça a pamonha. Tinha
a doce a salgada, apreciava ambas; não experimentava anos nenhuma.
Agora volta com um apetite, nem o
apetite rotineiro como desfastio no restaurante por quilo diminuíra a necessidade
do milho verde enrolado na palha. Torna assim ao tugúrio na sua periferia.
No caminho, mediante planos nada
honestos nem cidadãos, passa nos fundos dum quintal entremeio às duas periferias,
afana sem consciência pesada algumas espigas, apanha uma olha, arranca outra
olha a fim de não ver possível dono, leva o butim dessa guerra escondida pra
casa.
Faz o que faz, descasca, rala, enche
as cascas e amarra, põe na panela grande a ferver. Exato como via a Branca e a
Mãe fazendo, faz ele no mais ou menos das coisas, que é o ótimo do homem comum.
Aguarda impaciente a finalização, sequer percebe um pano encardido
aparentemente aos pratos a arder; daí assusta-se com o fogo, a língua
alaranjada a subir a pegar na parede daquilo chamado pela família cozinha;
apaga, afoito, como bombeiro sem experiência, se queima um pouco. E descansa.
Vai provar a guloseima, queima a língua, assopra, experimenta outra vez. E se
pergunta indignado com o fracasso: mas o quê que terá faltado!
Chega o Pai, não está bêbado, só com
raiva, sempre enraivecido diante de Toninho, que ele tratava sempre Tonho. Olha
o desastre, vai xingá-lo, o menino oferecia boa oportunidade aos nomes feios
tão bem guardados na lembrança; no entanto, vendo a pamonha ou qualquer coisa
semelhante, avança põe na boca, joga mais de metade em cima do caixote a imitar
mesa; despenca a rir, o que ferindo melhormente ao rapaz que um tapa. Se
aboleta na cama ainda sem baratas. Já o filho fica a rosnar no fogão. Abre a
porta, atira fora a panela, o conteúdo do utensílio, aos cães. Fecha a porta,
deita-se, insonia.
No dia imediato se levanta mais cedo,
sai com destino à cidade. Procura desesperado onde a pamonha; tem sempre um
vendedor, seja no tempo do milho verde ou não, a oferecer ao público. Até
‘enche o saco’ (isto versão popular) com seu alto-falante. Porém não acha
nenhum. Anda, faz mais algumas coisas de sua rotina e rotina a voltar.
Na descida de sua condução na rua de
cima da periferia rica escuta o oferecimento. Se arrasta mais depressa, chega à
kombi do pamonheiro. Adquire três
pamonhas pra matar a vontade ou a esquecer seu fracasso como amador na cozinha.
Chega. Come gulosamente aquilo, pois
tem sabor mesmo daquilo, com muita maisena e industrialização; e quem sabe higiene
discutível. Aí para a contabilizar a besteira feita. Geralmente o pensar na
besteira vem sempre depois e não antes do erro que praticamos...
Ele se indaga: que gosto! era pamonha
o que comprei? não terei exagerado na comilança. Neste ponto cabe ainda pôr em
questão o efeito da gulodice.
Aqui tem início mais um drama do
Antônio, o qual Dona Maria chamava a diminuir seus entortados como Toninho; e a
corja dos camaradas a insistirem no Aranho no Caranguejo no Sapo, alguns
inventam ainda outros espécimes do zoológico para gozar melhor o homem, um
cidadão simplório e sofredor, revoltado por vezes, mas pacato.
23. Agora tem
prosseguimento o início; não, deixemos a continuação para o capítulo 24,
numerozinho dos mais safados, perpetremos outra safadeza. De fato, quero autor apresentar meu
depoimento, ou contar de fonte limpa, fonte de primeira mão, fonte honesta (os
vizinhos ingênuos me consideram honesto bom caridoso compreensivo etc. e tal,
acreditei ingenuamente); enfim narrarei o contato que tive com o moço Antônio,
o diálogo que mantivemos ambos.
Estava, estava o escriba, na Avenida
do Coronel, claríssimo na cidade grande pequena. O que fazia na ocasião e foi
outro dia nem sei, isto não importando; aguardava decerto condução. Eis que, em
frente ao ponto, eu como bom brasileiro descansava meu cansaço encostado ao pau
do dito ponto, quando vi sair do Restaurante Boa Boia, grã-fino como tudo na
Coronel, o Toninho. Nada demais, tudo a propósito, o homem retinto e enrolado
pode ser visto na urbe inteira, mais comumente no Terminal. Saía com expressão
vitoriosa, um semblante de satisfação, a despertar curiosidade. Ora, um escriba
solto na praça não pode ver gente que a gente vira personagem. O personagem se
arrastou na minha direção, parecia aqueles bonecos com molas nos pés, a pular pra
cima impulsionados debaixo num tong-tong-tong, a pular gozado, então senti
tristeza. Bem. Chegou no ponto a olhar lá diante distante o atraso do circular
(a gente sempre acredita na gente e conclui: está atrasado). “O senhor tá esperando
o ônibus?” Respondi que sim à pergunta tola, para não encompridar a conversa,
supondo grandes banalidades. O que não adiantou nadinha; falou aguardar também
o carro, mostrou o Boa Boia, desandou a matracar sobre o mesmo: o recinto, a
educação, a finura, o produto; aqui enumerou os pratos e eu com maldade
imaginei como não estourara a barriga por causa de tanta comida. Analisou cada
oferta e os preços condizentes, descreveu a gôndola onde os alimentos expostos;
foi mais alto no baixo: o banheiro limpíssimo, aí fazendo referência ao perfumoso
do TRU. Sim, cortei: lá vem nosso táxi, disse brincando.
Parou o circular. Ele deixou o
aturdimento alheio interessado em penetrar no veículo, se adiantou aos
passageiros, bloqueou com seu sem jeito e aleijumes a demorar muito até conseguir
entrar e sentar-se (aí nós outros, uma meia dúzia, entramos). Escolheu o primeiro
banco, mais perto do motorista, ambos a aguentar aquelas quenturas do motor.
Imediato se puseram a conversar, o condutor do carro falou não sei o quê, o que
disparou aquele fala fácil.
Contou, a mim recontar, todo o Boa
Boia, pratos e tratamento digno, elevando o cliente ao grau de não ser um mero
freguês, ele; o serviço de mesa e cozinha, chegou ao banheiro; então o
motorista: “limpo semelhante o do Terminal”; e o homenzinho encolhido detalhou
a privada rica, a pia, a marca do sabonete, a toalha descartável de papel. Uf,
pensaram minhas orelhas.
Chegamos no TRU, desci às carreiras, a
procurar meu ônibus, ainda não no local de partida; então virolei um pouco a
passar o tempo, pelo menos a encontrar quem sabe outro personagem, de
preferência bonita com todas aquelas gostosuras. Quando dou comigo, a acordar o
relógio, passava ao lado duns funcionários da Empresa de ônibus, fiscais motoristas
cobradores, e no meio, doutoral, o pobre. Falava gesticulava explicava tornava com paciência àquelas
grandiosidades – a narrar a boia do Boa Boia.
Ouvi, calado, aquele destempero (ou
necessidade psicológica de acerto nos desacertos) aquele despropósito do personagem,
ouvindo pela terceira vez os mesmos pratos o mesmo tratamento a mesma
conclusão: “Vocês pensam que comi de graça! paguei com meu dinheiro.”
Mostrou uma nota de média importância,
não engolida pelo Boia ou recebida dele como troco. Um engraçadinho lhe
arrancou das mãos o dinheiro e saiu a andar, o que é correr na limitação do
Sapo, enquanto este se pôs a pular no encalço do ‘ladrão’ amigo.
Olhei aquilo, sorri à cena. Nunca vira
um de meus personagens a gritar fino na multidão “me dá meu dinheiro aí!”
Entrei no ônibus pra meu bairro,
observei o motorista: ria-se a valer do Caranguejo correndo no seu jeito pulandinho.
24. Estas linhas
retornam a conversar na altura do cap.22 e a conversa se liga à comilança
exagerada do Antônio. Agora olha pela terceira vez os olhos do relógio de
pulso, o qual, abusivamente, dir-se-ia um admirador ter ofertado a ele; quebrado,
e quem sabe por estar avariado virando presente ao simplório, quebrado levou-o
a outro conhecido (não sabendo se outro admirador); aí sentou-se no banco de
espera desse conhecido, um relojoeiro, um banco como existe na farmácia e no
sapateiro; então se espalha na cadeira sem costas (a cadeira que não tem
costas, entendamo-nos) uma cadeira lustrada no uso, o verniz quase na madeira
branca; conta a bravatear a seu modo o que viu, um pouco do que pensou haver visto,
porque todos temos igualmente o direito a mentir, ao menos de retardar a
verdade; ouve o outro, todos temos também o direito em mostrar as conquistas
nossas ao público. Entra o visitante no assunto principal: o conserto, tem
conserto? Examinou o profissional, mexeu em não sei o que, mudou um nunseiquezinho,
pôs pilha nova no relógio velho, velho por demais usado, devolveu o objeto, nem
cobrou, sem ferir com isso os brios do aleijado, porque seu contentamento sendo
maior que os brios. Agradeceu, sorriram; e o de sempre: se der algum atrapalho,
traz aqui de novo. É esse tal relógio.
Olha, mas está indignado ou temeroso;
vê que são nove horas, 9:15 h., nove da noite, a coisa ainda dói.
Deita-se preocupado. Está só, estaria
só e mal acompanhado se o pai a roncar ali perto, não veio o ‘véio’, ele refere-se ao pai como
o “Véio” aos de fora e encarando o negro enrugado arcado e carcomido de frente
não diz “papai”, o qual lhe pareceria tratamento hipócrita a um inimigo e então
prefere mesmo chamá-lo “pai”, simples e seco; ou melhor, prefere nem chamá-lo...
Não veio, certamente estando com seus pares. Porém questão de dor é algo mui
íntimo pra se sentir juntos e não ficar a distribuir carga para outrem. Contudo
o homem comum tem por seu forte o lamento. Realmente quer lamentar-se, olha a
cama vazia, rola na sua num quase desespero. Doze ou treze horas depois, solão
fora nesse mundo de Deus e ainda a dor persistente, ele em desespero mais bem
formalizado ou conscientizado!
Trata-se de uma dor contínua, fixa
numa parte do estômago; mas por que, se não jantara, já em razão do aviso da
Senhora Intuição, amiga anja santa. A dor perdura, come, enlouquece; ah como
somos esbanjadores de palavras! Ele achando que mais um pouco, e seria a
loucura. Pensou, a tergiversar, as moléstias mais macabras que nos ajudam ou ajudam
mais a dar emprego na funerária. Pensou infecções, micróbios que não se vê;
exagerou no medo ou no fatalismo, este também uma doença ótima contra o doente;
exagerou no câncer.
Aí distribuiu parcimoniosamente os
doentes terminais conhecidos, fulano? foi no fígado, siclano e beltrano nos pulmões;
ninguém no estômago, o estômago danado pra doer naquele lugar (cutucou com o
dedo numa pontada leiga e ficou sabendo tanto quando antes). A dor prossegue.
Puxa, consultando como o fizera antes,
agora sem alegria e entusiasmo, a alegria que os presentes e as coisas novas
nos trazem, consultando novamente o relógio – puxa, se falou, são dez da manhã,
a dor sem parar, estou perdido. Aproveitou a relacionar, a deixar aos herdeiros
suas propriedades, decerto seria no estômago... a rigor deixaria pouquíssima roupa
velha, mala usadíssima daquelas antigonas, o relógio ganho e funcionando que
era uma beleza; e os proventos em ajuda dos poderes públicos, que davam direito
a enfrentar todas as Boas Boias do planeta. E o Velho, não iria ele
aproveitar-se da situação! reviu o Chico na turma do contra, contra suas invectivas
(então, por um ponto a vir ser analisado posteriormente, então um inimigo pelo
fato de não apreciá-lo nesta existência mesmo, talvez por seus aleijumes de se envergonhar;
os pais machos aguardam machos perfeitos trabalhadores e inteligentes na prole
nascente, sobretudo um machão; e estaria decepcionado com seu Tonho; não se
lembrava das surras recebidas!) Deu nele uma vontadinha de não morrer, somente
para não deixar bens ao inimigo. Isso uns instantes, voltou à dor.
A questão mais urgente é que não
passa, nem cede um pouco a dor. Só aí lembrou-se dos remédios. Os da mãe estariam
vencidos com certeza, jogá-los-ia no buraco comunitário ao fundo da periferia,
onde eram atirados todos destroços do destroço social. Mas, pessimista, isso se
estiver vivo até lá; e se assustou na lembrança...
Por fim lembrou-se dos chás, tão
confiáveis, das plantas nas latinhas em volta do barraco e dos barracos
vizinhos. Ferveu erva-cidreira, assim chamada, realmente capim-limão; adicionou
folhas de boldo, a amargar melhor sua amargura.
Por incrível possa parecer amainou a
dor que o consumia. Decerto desalojado um naco encravado de pamonha no bucho.
Meu Deus, deve ter sido a pamonha!
Comera demais, bedelhou Dona Intuição. Concordou. E mesmo antes de se dar a
cura definitiva, houvesse, prometeu à santa nunca mais exagerar na boca.
O tempo passou.
A lembrança quase passou...
‘Vencida’ a crise, continuou uns dias
na medicação caseira; fez jejum por uns dois dias, mas prosseguiu o fígado a
amargar os beiços por semana.
Mais uma semana quase sem amargar.
Depois se esqueceu. Esqueceu-se mesmo
estar canceroso e à beira da cova, imaginara o povão da periferia, quem sabe se
não inclusive os motoristas e aquele chatérrimo cobrador, a chorarem todos na
despedida, seu corpo magro preto branco da cor de cera do cadáver.
Ah que bobagem. Nunca mais pensou. Só
quando noutra ocasião exagerou no peso da balança no restaurante (e quem pode
ver e não comer maionese!) e ainda achou ter sido explorado pelo dono, aquele
ladrão. Além da indisposição no fato de um garçom novato haver tentado
impedi-lo entrar no recinto.
25. Outro
exagerinho ocorreu, catastrófico pra si. Praticamos besteiras, quantas!
perdemos a conta; algumas mais marcantes e mais implicantes mais
sensibilizantes; o rapaz aleijado, nos conformes da aceitação social segundo os
de fora, perpetrou a sua principal ou mais extravagante...
Se se arrependeu da ingestão de
pamonha e de novo recaiu no excesso da mesa, para se arrepender; pior foi o arrependimento
de uma bobaginha de nada, nada que ver com alimento gostoso e próprio para
abusos mais. Nós pobres seres humanos nos cobramos palavras mal ditas por bem
ditas, indevidas e infortunadamente colocadas; ou são conversas não
suficientemente policiadas; ou deslizes involuntários, ou, ainda semelhante, o
aceitar uma afirmativa infeliz doutrem. Conclusão, pagamos o pato, maneira que
o povo inventou para justificar a cobrança com juros e correções monetárias em
cima de uma besteira, que fosse ela pura ou não intencional. A sociedade não
julga intenções, mas o corolário do fato. Pobre dele.
O Toninho se levantara, houvera no dia
anterior sonhado acordado, já quase não se repetia o fenômeno. A besteira
praticada não foi propriamente o sonho ter-se repetido mas foi sim o comentar
isso cedinho com um seu inimigo, o genitor, seu Francisco; até se esquecera da
voz dele o moço, idoso também conforme intriga da oposição, esquecera de tanto
não se falarem. Aí, nessa manhãzinha pega o Velho no fogão a bebericar sua xícara,
faz a infeliz referência. O Pai então sai com ele nas costas, expressão esta
inteligível por qualquer popular. Xinga-o, o mais belo do mais feio sendo
“burro”, o que não deveria ofender: a vaca é mais burra que o burro. Lamentou a
mania do filho a viver sonhando; por que não... aí despencou ótimas oportunidades
como a de ganhar rios de dinheiro, ao invés de sonhar de dia; e sumiu a falar
sozinho. Isto de não espantar, porque velho fala sozinho muito por não falar
nada.
A Mãe, a Branca, em sua defesa,
falaram insistiram, inclusive proibiram o menino a tratar do assunto com os de
fora. Porém esquecera-se, como se esquecera da surra que levara da pamonha,
voltando depois ter novas crises no físico já combalido; e os anos não costumam
perdoar deslizes e esquecimentos. O Pai apenas relembra Toninho nessa manhã. Tonho,
disse, além de louco você é burro.
Foi à cidade a remoer seu desconsolo.
Mas, por incrível, parecendo incrível para ele mesmo, depois do consumatum est... Por incrível,
esqueceu-se da ralhação paterna, que o levou de volta ao tempo do tempo
materno, ouvira outra vez rememorando a voz de Maria. Contudo não adiantou.
Se pega no coração do TRU a conversar
a brincar a gozar também ele com os outros, a falar das coisas da vida dos amigos
ali por volta. Num dado momento, cochilo do pensamento? num momento inicia a
relatar seu sonho, ah o bendito sonho! na verdade expõe o sonho que se repetia
repetia repetia, estando desperto. Fá-lo como a contar vantagem para vencer na
língua as vantagens dos outros em
torno. Ora , à gente do povo é desvantagem flagrante. Narra
tim-tim por tim-tim, narra aos apupos da torcida, ela a querer cavar-lhe a
queda e a desmoralização, para ter mais razão no gozo superficial e quem sabe a
usar de maldade mesmo. Claro, uns poucos se impressionaram. A maior parte do
publiquinho caiu em cima do infeliz. Alguns gritaram a loucura; um evagélico atirou
no rosto do rapaz a repetida versão de Satanás! um católico meio carola se
benzeu, fez o sinal da cruz, salamaleque mui praticado por ele mesmo inclusive,
quando passava na frente da igreja no centro, ele o Toninho ou Sapo ou Caranguejo
ou Aranho; enfim conforme a necessidade do gozador com a palavra, ali na roda
da gozação.
Nunca mais teve sossego, num pagar
dividendos à fraqueza da boca, ao palavrório. Já se desviava do Zé com sua
motoca, evitava o Pai incompreensivo; nem a Mercedes que o quisera, embora
noutra existência possa tê-la mandado ao calabouço, nem a ela tendo mais para
sua confissão e seu consolo. Agora, vetado pela desmoralização pública, temia o
saguão do TRU.
Coisas piores adviriam, nem por sonho
seria capaz de adivinhar.
Voltou apenas mês depois ao Terminal.
Já um outro homem; que demais, a cada dia que passa sempre somos outro; todavia
era pelo menos menos Toninho menos Sapo, menos aquilo por que o quisessem
denominá-lo, ofendê-lo.
26. Não aguentou.
Exato. A curiosidade a necessidade a ansiedade, quem sabe tudo isso de uma vez,
fê-lo largar as altas funções na lavagem da roupa pela roupa, a roupa nova. Lembra
o rei, a roupa nova do rei? era entretanto tal qual um rei, um príncipe
encantado a passear garboso em cima do corcel; contudo sendo apenas uma roupa
comum, incomum por ser nova. Decidiu-se, largou espumas bacias perfumantes amaciantes
e saiu a correr (aqui sempre limitado a pular a se arrastar de lado, mas mais rápido
ou menos lento). Chegou ao guarda roupa, ainda quase novo por ser velho do
tempo da Velha, comprado de segunda mão quando chegaram da roça à cidade, a
cair na periferia nova e miserável já nessa época. Daqueles monstrengos que não
fecham direito a porta, a gente tendo que pôr calços de papelão e a chave vindo
só o buraco dela, não mais existindo perdida na casa do anterior dono. Desses
monstrengos fechados, as frestas atrás do móvel tapadas com não sei o quê,
assim mesmo elas entrando lá dentro, pior: ficando impregnado o fedor de baratas,
a irritar o Toninho, então garoto, por dar aquela coceira no nariz da gente; deixando
a Branca, a Branca tão corajosa! deixando a moça apavorada a gritar no abrir a
porta do tal guarda-roupa. Toninho sorri na lembrança, a porta ainda não
despencou, e a arreganha, toma o cabide de pau rústico com a roupa balançando.
Trata-se dumas calças, umas a ficarem bem com certa camisa usada e ganha mas
vistosa, casando-se bem calça e camisa no moço, passadinho aqui se lembra.
Uma história longa, quase estória
dessas com menininha bruxa e lobo, de tão longa. Não obstante é preciso para
saber, sintetizá-la.
Namorou namorou no espiar dias uns
tecidos na loja; a cor, a textura, o padrão, o preço, ah o preço! chegou ao
ponto de manuseá-los como profundo conhecedor, a tomar mil horas do vendedor,
aliás uma vendedora tentadora, haja vista a necessidade tanta com tanta falta
de Mercedes nessa ocasião... certa moça passada, talvez casada, porém não era a
vendedora a tentar: o pano. Visitou um profissional, pediu lugar na fila de
espera, pediu medidas, voltou endinheirado num dia de pagamento à loja, pediu
regateou chateou inclusive; e pagou no caixa, feliz com o embrulho (embrulho
aqui o pacote, não muito volumoso, diga-se). Tornou ao alfaiate. Conversou
conversou, nessa altura com pouca altura na voz, fina mas engrossando e doendo,
lá uns problemas na garganta. Falou mais uma hora, tomando o tempo do homem;
este mediu, remediu, anotou e deve ter tido um trabalhão a harmonizar os
números a um corpo mui disforme, uma perna maior que a outra; o problema do cós
etc.. O Toninho, “Senhor Antônio” ao artesão, o que estufou a vaidade e a cidadania
no pobre aleijado, o Toninho ficou um bocado no constrangimento tendo o senhor
grisalho e paciente a meticulosidade no medir e empurrar suas coisas com as
coisas mal colocadas pela natureza. Superou o constranger a ânsia para ter uma
roupa nova decente e apresentável, a fim de não passar mais vexames nos
restaurantes chiques (o gerente do Boa Boia o impedira entrar no horário dos
clientes mais valorizados comerem conversarem beberem arrotarem peidarem
educadamente como é sabido nas altas rodas; só poderia comer antes da hora, ou
bem depois da hora dos privilegiados da fortuna, entre os quais não despontava
nenhum enrolado das pernas nem encolhido dos braços; e muito menos negro. Fora
assim vexatório aos seus brios e direitos, conforme seu pensar). Além do mais
só contava com um par de calças, dir-se-ia coloquialmente uma calça; ainda por
cima nesse por baixo usadíssima, surrada, e suja. Agora mesmo ao lavá-la,
havendo largado a peça na bacia e sair ‘correndo’ ver a nova, estava de calção,
também usadíssimo sujíssimo cheirandíssimo furadíssimo, um short desbotado; somente após lavada a calça, secada, passada,
passada! que é isso? aí vestiria a roupa e se encontraria em condições de ir à
cidade, ouvir gozações por seus aleijumes, desde a do motorista da linha do ponto
de cima na periferia rica. Enfim tratou com o alfaiate a feitura e a data de
entrega da calça nova. Afoito, ansioso, quis pagar antecipado, para mostrar
poder aquisitivo; tanto assim que se esqueceu de pedir desconto, nem ‘chorou’ a
negaciar e negociar o preço. Contou dias à prova da confecção, provou a roupa
usando e abusando do respeitoso profissional e lá no céu por chamá-lo “senhor”,
abusando da paciência e perícia do homem, pra não deixar defeitos. Aí sim a
data de entrega. Voltou no dia, noites a perder o sono na ansiedade a completar
tão alta conquista, ou seja ter uma calça bela nova e apresentável. Recebeu o
tesouro, antes provou definitivamente a sorrir aquela relíquia (qual peça de
alta monta e valor, não em não ficar velha, mas a fim de não perecer nunca,
como fosse destinada a museu). Provou gostou pagou levou. Uma consagração!
É tal peça de roupa que toma com o
cabide, retira do fedorento guarda-roupa a exalar baratas, cheira, sim chega o
nariz afilado ao cabide, cheirando o tecido ainda novo sem uso, duro de goma –
o qual entraria, coitado, na rotina como a outra calça, a do tipo ‘bate e
enxuga’; quando mui suja, seria lavada. Agora nova, novíssima, a se abrir a
boca em exaltação.
É para pensar: pôr na lambança uma relíquia
assim! Um drama incomum, ou seria demais comum, banal? Um drama usar a calça.
Depois (depois aqui o após o serviço de lavanderia; aliás na época muito
procurados os profissinais lavandeiros, os tintureiros; ao rapaz não sobram
tais frescurinhas burguesas, lavará ele mesmo sua roupa nova, então menos nova,
usada, usada à beça, com aqueles dedos compridos e nodosos, negros, retintos)
sim depois que lavar toda a roupa da casa. Daí veste a calça, vê-se aflito para
não esbarrar, não sujar, não amarrotar, não rasgar – credo! – não estragar a preciosidade.
Somente não terá se livrado da gozação dos conhecidos, já quase não indo ao TRU
a sofrer a desmoralização infligida, e, se fosse lá, lá a maior possível
afronta pela roupa nova! ou não: não seria que fosse mais valorizado, um príncipe
um rei um conquistador na sociedade!? E aí se apresentando na empáfia na
vaidade, quase novamente um orador fardado destruindo a banda podre, esta que é
eternamente o lado de lá, corrupta nojenta criminosa – a ser eliminada, seja ao
menos com discurso formidável, inapelável... mas não: optou no gastar aquela
aparência, a cobrir ou diminuir suas fraquezas nas ruas do centro. Um ser
humano, apenas ser humano.
27. Deixa a roupa
nova de novo no cabide, repõe a calça à convivência com as baratas e com um
paletó velhíssimo do Velho, ainda do casamento do pai, destroço ou relíquia guardado
e de quando o Velho novo jovem e impetuoso, a ser tomado por Maria que o guiou
ao padre. Ela, a calça nova, ela ficou quietinha quietinha e bem comportada
perto do paletó, afogados abafados nas baratas estando a porta fechada, aquela
do móvel, o todo a despencar. Aí, somente aí, voltou às lides de lavagem.
Resolveria de vez o problema. De fato
é um problema ver ou apenas sentir o acúmulo de roupa suja... a do Chico que
ficasse a embolorar, jamais lavaria a roupa a agradar um inimigo que lhe
voltara ao convívio, assim intuía da relação familial. Que o velho a lavasse ou
levasse, antes que apodrecessem os panos dele, desse à vizinha limpar; afinal
de contas podia pagar lavagem fora, pois endinheirado; ia ver, ganhava uma
exorbitância como aposentadoria, falavam na vizinhança ser um salário mínimo,
por isso endinheirado; pronto, decidira não lavar a do homem, era responsável
unicamente pelas suas; e pensando assim recolheu a sujeira fedorenta dos panos
espalhados ao deus-dará, como demais os outros pertences da casa em plena
bagunça. Aliás, para que discutir a roupa do pai, ruminou já no mexer a sua, para
que se fazendo uns dez dias não aparecendo a dar as caras! o que na sua opinião
era positivo. Fez um monte de peças, íntimas e externas, lençóis, toalhas,
meias – todas com as mesmas parecenças na sujeira no fedor na velhice na
pobreza ou só na baixa qualidade. Ora, baixa é já não ter qualidade. Enfim a montanha
dos trapos perto da tábua para bater e esfregar roupa. Trouxe sabão, agora em
pó da melhor marca possível, falava a propaganda, comprado no Supermercado
Preço Ótimo, decerto ótimo aos proprietários, lá na zona central. Adorava
entrar no supermercado, chato mesmo só enroscar às vezes na passagem no caixa,
se livrando com ajuda da moça; mostrava ter dinheiro, recebia o troco o
papelzinho feito nota (nunca conseguia lê-lo a conferir o preço, sempre
desbotado na impressão; às vezes criando caso com a funcionária, não fosse
muito bonita); mas antes de passar no caixa examinara ainda no carrinho de
compras data de vencimento do produto – um cidadão; orgulhoso por ser cidadão.
Sabão em pó, amaciante... ah não perdia uma promoção; comprava frutas iugurtes chocolates
guloseimas a valer (o pai gozava o filho a dizer disso tudo “porcariada”,
formas do choque nos desafetos que só os familiares podem perceber); Toninho
mostrava pujança monetária nas proximidades do pagamento da ajuda oficial,
muitas vezes no supermercado e lojas do centro. Era um consumidor! quer dizer,
vez por outra escorregava virando consumido; comprava de tudo, parecendo uma
boa dona de casa em grande esplendor.
Agora toma os apetrechos de limpeza,
atira, aqui bem brasileiro e comum, atira uma ‘tantada’ na bacia, se espuma
pouco, outra. E se põe a molhar ensaboar enxaguar escorrer torcer, depois
secar. Vez que outra vai ver a roupa nova de novo, volta, iria assistir a um show televisivo e tem de vê-lo num bar
na periferia rica, na pobre não tem eletricidade, não sendo a clandestina, seu
caso na casa é vela; porém se distrai da mesma forma, se é para esquecer o
trabalho duro das peças de molho; torna, estão duras marcadas manchadas mas não
perdidas. Xinga um pouco o esquecimento, retoma: molha ensaboa, agora tem
demais sabão, espreme, chocalha o pano (aquela chuvinha na cara da gente
desprevenida) bota a secar no fio improvisado, pobretão adora improvisar em
tudo o que faz, nisso por exemplo: é um fio enferrujado a marcar direito a
roupa, necessário pô-la no avesso, isso ele aprendeu. Aí nota um pequeno
desastre, e não é cocô de passarinho, são manchas disformes e não poderiam ser
nódoas de fruta ou gordura, ah que diacho, não entende donde vieram! Bem,
remedeia-se; pensa mãe pensa menino pensa curiosidade. Maria punha ao sol corar
as encardidas e com sinais no pano, esfregava esfregava, mais ou menos assim
pensa que fazia ela; o sol dissolve limpa branqueia elimina o cheiro ruim da
peça boa, ainda. Recorda-se vagamente, imita a genitora, imita a Branquinha que
por sua vez imitava a mãe deles; só não percebendo o tempo a deixar em
exposição a roupa. A intuição humana nos mostra que conforme a dose o remédio é
veneno. E agora, deixo mais tempo, ponho mais sabão, ponho mais água? Não sabe
responder, puxa, diz, se a defunta... Aí aprende consigo mesmo a forma correta
a usar, nós mais aprendemos conosco que com outrem. Paga caro o aprendizado:
aquela camiseta branca ‘gostosa’ está perdida. Ora, ao fim dá tudo certo, falou
baixinho. Entra dentro de casa, esquece o varal penso a balançar ao vento;
felizmente não chovendo. Manhãzinho soma o prejuízo computa o ganho, o ganho é
sempre ganho quando não tem grande mas pouca perda; isso pra gente ficar ora pessimista
ora otimista. A verdade é ter pensado antes de desenroscar a porta da maloca e
se lembrar esquecer haver, aflito, pensado no ladrão! ladrão de pobre, ah que
miserável. Todavia teve sorte, só uma parte dum lençol desprendendo, a sujar no
chão, sendo então relavado.
Enquanto executava o trabalho como lavandeiro,
cansado já antes do início por ter transportado água de longe, a “ladrona” da
prefeitura, diziam os vizinhos, só ligou uma torneira entre as duas periferias
e nem luz e nem quaisquer benefícios mais; enquanto... Bem, cansou-se. Se
cansou a lavar roupa. É uma atividade chata, pois melhor é passear de ônibus e
ver as beldades no jardim; por ser chata a gente foge, deixa o trouxa do corpo
a trabalhar e viaja nas lembranças nunca esquecidas. Fez isso o Antônio – sem
os carinhos do diminutivo mas também livre da pecha dos apelidos que envergonham
– Antônio correu ao campo de futebol.
Espetáculo bonito de se ver. Sentado
lá em cimão feito um rei, embora a luta para chegar de degrau em degrau na
arquibancada, sempre preferia assistir do alto, visão comovedora; dá também
oportunidade a ouvir desaforos, que são os seus desaforos também, estando na
mesma torcida, alguns no mais baixo do baixo calão; a ouvir o gritar constante,
apupos (ah pobrezinha da mãe do árbitro) “ladrão” falam, ele igualmente, pior que
isso: a crer nas suas palavras no pensá-las suas; a aspirar fumaça e cheiro de
cerveja, o que lembrava em dose dupla o pai na roça, e não é que anda no vício
outra vez! e se enganava, na última peleja, o São Bento perdera, roubado, não
poderia esquecer a data, e se enganava porque o Chico não tinha mais condição
física a beber e fumar... e assim volta da lembrança na lembrança: supondo no
cúmulo da sorte ter o azar a receber uma pedra ou garrafa de alumínio vazia
(piormente, às vezes cheia de xixi!) dos mais extremados contra o ladrão porém
nas suas costas. Como o azar já ocorrera, agora senta-se longe no último dos
degraus. Assim, Toninho corria pouco risco a receber pedrada com endereço certo
ao árbitro ou à sua mãe. Lá olhava.
Lá embaixo o verde a harmonia o belo;
depois os 22 “pernetas”, brincavam se gozando os torcedores, os 22 e embaixo os
reservas e ainda mais o juiz os bandeirinhas e o dobro disso tudo na forma de
aproveitadores querendo aparecer no programa esportivo da tevê ou na rádio, a
cidade pequena grande cujo santo padroeiro é São Bento, bom nos milagres sem
fazer contudo o do time da casa ganhar; a cidade tendo duas emissoras
radiofônicas, só uma com exclusividade a transmitir a partida de futebol. O que
mais havendo: penetras e aproveitadores; na arquibancada mesmo, eram os gatos
pingados (ah não fossem as propagandas a sustentar o clube, nem se pagava a luz
dos refletores aos jogos noturnos!)
Não obstante a pouca renda, o rapaz
colaborava pagando ingresso, enfrentava fila, aproveitando a dar palpites e
prognósticos às orelhas próximas, sobre o placar ou a ofender a burrice do
treinador deixando na reserva o atleta de maior potencial; no que quase sempre
havia acordo na fila. A torcida costuma aplaudir e vaiar com a mesma língua,
isso dependendo do escore no final do jogo. Portanto o Toninho com muita razão,
o bilheteiro a sorrir e a lhe dar o troco. Mostra o troco, mostra o ingresso a
todos verem, passa na catraca, enrosca um pouco nas hastes da borboleta pelas
aranhas espalhadas das pernas e braços mas passa, entra, sobe em meio a
assobios e gozações, agora não sendo a ele dirigidas porém aos ‘atletas’ da
partida preliminar: solteiros contra casados ou outros grandes desconhecedores
da arte futebolística. Logo entra o esquadrão da casa, foguetório. Por fim
torce no último patamar aguardando o começo, que é sempre um fim de mundo a
errar o gol e não fazer gol, o goleiro do São Bento elevado à categoria de
‘frangueiro’ solidário ao ‘ladrão’ juiz. Torce, berra, grita fino, o som começa
grosso afina.
Agora, na última partida não, não
podendo, podendo, parecia, podendo a garganta doer muito e, pior: a ponto de estourar!
Não podendo extravasar, gritar... Isso se agravou, o Antônio Torcedor bem
gravou na memória, lava esfrega bate torce mancha a roupa; e se lembra mais que
doutros desse jogo último que viu.
Viu e pagou. Antes entrava de graça,
tentando ficar perto dos responsáveis à cata dum empurrãozinho, uma entrada de
favor ou gentileza; não nas últimas pelejas: o clube a ganhar ou, ruim, a perder,
ele pagando como bom cidadão, igual no Boa Boia, então cheio de ‘frescurinhas’
de rico. Nem tivera noutros encontros de futebol que poupar a garganta:
relembrou sua força no ‘gogó’ suas alegrias e até fatos conexos, incidentes de
pouca monta. Não, lembrava-se (lavando aquele lençol enorme sem ter como
abri-lo todo para melhor limpar) lembrava-se dum dia no qual alguém atirara em
alguém no meio da torcida: a gritaria a correria a gente a arrebentar os
alambrados a gente a pular o muro alto para a fuga à rua. Até ele correu,
doendo mas correu pra se salvar daquela loucura...
Loucura comete nesta hora
ressuscitando na beira da bacia a remexer aquela porcaria de panos sujos e
fedorentos.
Oh, se indagou, por que perder tanto
tempo com este serviço medonho, se me lembro, insistiu, se estou a lembrar se
não esqueci de mandar o alfaiate pôr botão nos bolsos de trás para não perder o
lenço!?
‘Correu’ pulando a examinar na casa
das baratas; e foi com sorte a lembrança, pois além de tudo pusera desajeitado
a peça no cabide, ela havia escorregado no chão dentro da velharia com muita
velharia por fora.
Inclusive esqueceu a dor, que era
terrível, latejante, e a preocupá-lo, a dor na garganta; agora uma azucrinação
diária...
Quarta
Parte:
A Dor, Mestra nos Ensinamentos
Presente Mais que Imperfeito do Passado
“Temos, todos que
vivemos,
uma vida que é vivida
E outra que é pensada
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada...”
Fernando Pessoa
28. Muitos seres
humanos exageram as décadas no viver, vivem, se vivem, a ‘subvida’ na
sobrevida, a enfeitar o planeta como matusaléns. Toninho não teve paciência
suficiente a tanto: envelheceu jovem, os jovens referindo-se a ele como um
velhote nos seus ainda 38 anos... A rigor – pois precisamos nos ater à verdade
ou nos sujam o renome como enganadores – a rigor não foi bem assim, quase
assim. O Sapo pulava de lado a caranguejar e após aboletou-se num banco frio
velho gasto melado de sujeira no TRU, a semelhar aranha com suas garras e
antenas espalhadas, quase só ele a tomar o banco de cimento e granito, deixando
sem graça alguém cansado pretendendo sentar-se na beirada quase não sobrada, aí
a gente fica envergonhada: iria pedir, exigir nem se fale, pedir uma beiradinha
ao aleijado a olhar de antena nas orelhas abertas à conversa da moçada estudante
próxima ao encosto do banco!? não iria. Portanto o Aranho ficou a reinar como soberano
nesse espaço onde os meninos não tiram farinha (“tirar farinha” é um dizer do povão
a constatar não conseguir o que almeja, antevendo o fracasso). Seguinte, o
estudante gasta a caneta nos assentos e paredes do circular: escreve mensagens,
lembra seu amor, ou apenas registra seu próprio e lindo nome, rabisca talvez a
se exercitar para num futuro nada remoto fazer poesia pornográfica no banheiro
público ou nas notas de um, daquelas com fedentina por muito uso, meio rasgadas
e remendadas, daquelas que a inflação come todos os dias um pedaço para o povo
repor o dinheiro com seus impostos e taxações oficiais. Exato, mas por que não
‘tiram’ os estudantes ‘farinha’ no banco gelado em que Toninho se esparrama?
ora, porque simplesmente o bico da caneta desliza escorrega teima e não escreve
na superfície cimentada. Aí o mundo perde a oportunidade em ver gravado lindas
poesias mensagens excelentes e sugestivos nomes próprios, agora no modismo na
língua inglesa. O Antônio continua de antenas ligadas, a gente moça quase
criança a matracar ali encostada onde descansa aquele conjunto de ossos mal
postos pela natureza e que fez Dona Maria sofrer vendo o filho mamar guloso nos
seus peitos, a antever uma vida de sofrimentos e vexames ao enroladinho
arregalado a olhar mamãe, sem pensar ela que aos 38 anos chegasse a ser velho!
O ‘velho’ percebe aquele ajuntamento de garotos e garotas a falar igual
maritacas, desencontradas e ao mesmo tempo a vencer no grito, sorri, a chorar
quase imediato de pensamento por causa do pensamento e o susto – porque ali
picham-no como idoso! Vamos ao rigor prometido. Na verdade um deles faz referência
no seu berrar educado sobre uma professora deles, referia-se a ela como “coroa”
(na gíria atual gente velha em oposição à juventude falante). Quantos anos tem
Dona Loló, indaga um terceiro; e a resposta pronta: 35 anos! todos no grupo de
meninões e meninonas se espantam com o fato da mestra com tanta idade! O
Toninho? se assusta com o susto e se volta pra si – próximo dele adultos e
crianças se falam e nem percebem um enrolado de ossos e músculos tortos sentado
num banco e ele nesse ponto se indaga: então, a julgar o fato da ‘velhota’ de
35 estar no fim da vida, então ele com seus 38 anos já indo à casa
matusalêmica! Puxa, pensou alto quase como a barulheira ao seu redor – sou um velho!
Repete e repete, repete-se “sou um
velho”.
Curiosamente a gente costuma acreditar
em si mesmo.
Foram dias ruminando essa pequena
desgraça.
Não obstante, agora pensa, visto por
temperamento ser um gaiato: era um homem alegre, a responder com brincadeira a
brincadeira dos gozadores nos ônibus e nas vias públicas onde conhecido, sendo
conhecido por todas elas, no jardim no restaurante em todo centro urbano.
Alegre, mexilão, andejo, se arrastando de cá pra lá de lá pra cá. “Você tem
demais bicho-carpinteiro, Aranho!” Sorria, devolvendo gozativo o dizer, a se dizer
bem com a vida.
Todavia agora não está.
Encontra-se preso às peias do seu ser,
aos seus impedimentos de saúde... ou, por velho, indo ao fim?
Não quer pensar. No entanto é só o que
faz; é só o que pode fazer.
29. É só o que
pode fazer: pensar pensar. Rola em noite comprida, a noite que tem a extensão
da insônia, uma extensão que o calendário dos homens teima que sejam os vinte e
quatro meses, dois anos dos bem espichados, mas a dor e a dor do viver insistem
ser a eternidade.
Lá fora, se for dia e as frestas a
facilitarem os raios solares confirmam com o barulho dos que ainda vivem e são
gritos de moleques na rua que não é rua porque a periferia pobre é mais pobre
de alinhamento; os gritos das mães que não foram levar a roupa lavada às
patroas a chamar os filhos a cobrar deles ordem na vida que elas mesmas não
podem cumprir; os gritos dos cães contra outros cães ou gatos ou homens na
forma de criança a lhes tirar o sossego atirando pedras e sempre a atiçá-los
mas os cães desconhecem que mesmo os capetas temem os moleques; os gritos ah os
gritos, e ele se livrando apenas dos gritos de vendedores, em vista da pobreza
velha da Vila Nova e aí ninguém vende ninguém aparece; não se livrando do
barulho da motoca do Zé Inimigo, já sabendo a que horas sai a fumaça que não
pode ver, sabendo o local e quando volta a poluir melhor ainda com o cheiro e
com o som; o Toninho nas suas certezas por cronometrar no relógio ganho e
funcionando que é uma beleza; e então já sabendo qual hora a hora de sofrer
aquela lembrança que é também lembrança doutra vida quem sabe, sabe certinho,
liga barulha e parte o adversário e quando chega de volta barulha e desliga, às
vezes liga outra vez somente a atingi-lo porque sabe que o Zé descobriu que ele
estremunha no seu findar rolando na cama no quarto solitário ali perto, e nesse
ponto o inimigo acelera acelera decerto fumaçando toda a Vila, num mostrar
serviço de destruição, serviço que chega aos ouvidos cansados do Aranho! Daí
confirma ser dia, dia claro, menos claro indo talvez à chuva, ela que aprecia
gotejar por cima dele. Enfim é dia. Ou lá fora é noite.
Sua noite é bem servida nessa
eternidade. Dá-lhe direito a rolar, até a blasfemar seu desespero; dá-lhe o
direito (mas então já sendo um despropósito!) o direito de pensar na vida. A
vida que leva agora indo aos 40, vida mais virtual, pois que não passa de
lembranças. São lembranças, umas alegres até felizes e aí chora a perda e pode
sem se envergonhar chorar no conforto da solidão, a solidão que não se vê e que
se sente, quem a sente no abandono. Ou são lembranças tristes, machucadoras,
que o feriram que o marcaram a fim de marcar o seu declínio quiçá seu final...
Aqui de fato há razão para chorar. Os condutos lacrimais são pródigos: molham o
travesseiro de penas, molham primeiro aquele rosto negro ao fazer brilhar na
face a luz solar invadindo o muquifo, ou o refletir da luz frágil de lamparina
ou da vela que Dona Tiana lhe trouxe dia desses.
Agora tem a Tiana por mãe com mão
caridosa, não pode mais pular de sapo, ficando afundado no catre duro e
malcheiroso. Faz mais a pobre mulata vizinha: joga-lhe as fezes e a urina no
entulho comunitário, alegria de meninos caçadores de tesouros e dos urubus
famintos de detritos e restos em decomposição. Exagera
a mulher na bondade a servir – é sua procuradora a receber os proventos na prefeitura.
Recebe, conta, explica, ele reconta, faz de cabeça estar certo, às vezes
duvida, os seres humanos não se cansam a discordar e a temer a honestidade de
seus irmãos; mas fá-lo às escondidas após o sair da senhora, chega o lume da
lamparina perto a conferir o dinheiro; e quando encomenda uma compra qualquer
quer ver certo o troco. Ela? balança a cabeça com pena ou contrariada porém
sorri depois: conhece o Caranguejo, que ela trata Toninho como o faziam a Branca
e D.Maria, conhece-o desde a chegada do seu Chico com as tralhas vindo da roça
para a Vila. É mais velha que o aleijado, bem mais velha e velha nos cabelos,
não obstante o doente conseguir ultrapassá-la na marca matusalêmica com seus
quarenta anos. Olha-o como fora filho, neto mais bem dito embora mais idoso que
a ‘avó’ resmungona.
Naquele dia ele é quem rosnava,
chorara antes e deveria andar com olhos avermelhados, apenas rosnava na manhã
prometedora, prometedora aos que possam ter o direito a promessas pois ele
vegetava e iria, sabendo disso, vegetar o dia inteiro; nessa manhã daquele dia
ela chegou diferente. Toninho, falou a Tiana, antes mesmo de lhe trazer o café
ralo com pão, falou de chofre e sem qualquer diplomacia (que ademais não é
própria à gente grosseira da periferia) Toninho, seu Chico morreu...
Ela chega, afoita, a falar alto no seu
jeitão de cabocla – seu Chico morreu...
Ele? Não indagou o como e os porquês.
Todavia sentiu essa necessidade, crivaria a mulher de perguntas como toda
gente, fosse por curioso apenas; porque o “Véio”, como o chamava quando ainda podia
mencioná-lo a alguém, o Velho era para si estranho e obstáculo, porque sentia
de fato um alívio, se encontrando à distância dele. Ultimamente fazendo meses
que não sabia do pai, não voltava pra casa, sumira; só uma vez perguntou na
vizinhança sobre o paradeiro do genitor e já não sabiam nada, nem os
companheiros do velho, eles cujo grupo minguava, parecendo o caso dos dez
negrinhos da escritora inglesa, havendo o sumiço de um por um como é habitual
nos idosos; nem eles podiam informar sobre Chico. Assim Toninho, que mais se
achava estar só quando mal acompanhado pelo pai, sequer sentiu a falta.
Entretanto agora Tiana dava oficialmente o que soubera na Vila já toda informada.
Seu pai andou internado com aquela rouquidão dele; um dia fugiu do hospital;
depois tendo sido encontrado a agonizar na rua foi levado pelos polícias ao
pronto-socorro; depois, ainda, enterrado como indigente. Outro dia descobriram
que era seu Chico, mas falaram terem cortado ele em pedacinhos, os estudantes
da Escola de Medicina. Foi isso que aconteceu, tá entendendo Toninho?
Toninho fez com a cabeça que sim e não
chorou; seria hipócrita se chorasse, pior se endeusasse o homem, dentro da
praxe de o morto virar santo. Não só não acreditava nisso como ainda guardava
certo rancor, talvez apenas aversão, ao inimigo de uma existência e mesmo das
fases anteriores na vida. Somente sentiu, não disse sentir, sentiu como se
sente quando alguém sobrecarrega as estatísticas no cemitério. Andava muito
longe esse sentimento daquelas dores pela perda de Maria, para a qual verteu
dias suas lágrimas. Tiana ficou a olhar sua expressão e não se surpreendeu, por
conhecê-lo como a um filho.
Além do mais, mais contundentes são
nossas dores quando as estamos curtindo, curtir aqui no sentido triste, as dele
dilacerantes inclusive; mais contundentes que as nos outros, que seja em razão
de morte. Toninho sofria bastante, fosse pelas dores físicas – a questão da
garganta complicara-se de vez e havia outras dores nas entranhas, ah o homem é
um poço com líquidos doentes – fossem essas, fossem as morais, que a memória
virtualizara agora com facilidade; e a dor constatável vista e abrangente da
imobilização na cama miserável; havendo ainda a dor pior, pior a um falante e
bravateiro tal o rapaz: tornara-se difinitivamente mudo!
Nessas condições não poderia fazer
qualquer comentário, dizer a perda nessa perda paterna; mesmo pudesse é discutível
uma perda dum inimigo, de fora ou de dentro no lar. Tiana não se impressionou,
antes entendeu bem a mímica do enfermo. Qualquer coisa parecida com “que se pode
fazer? vivamos agora nossas respectivas vidas”. Lembrou de falar à boa mulher
que desse os objetos do pai, queimasse, jogasse os mesmos fora no entulho da
comunidade a espantar os urubus.
Não disse – sequer conseguiu fazer-se
entender totalmente sobre o que desejava – não falou nada. Fechou por fim a
boca, a boca não de falar: nele a boca de calar.
31. Uma noite,
seja a distrair sua insônia seja por estar minado na sua base sensível, nessa
noite convocou qual se faz a um congresso os mortos. Não todos os mortos, os
seus mortos, os mortos próximos já distantes, o homem comum pensa distantes.
Antes, muito antes, tivera um choque ao voltar do Terminal, do jardim, do
centro da cidade pequena grande, do ponto lá de cima donde voltara, num correr
nos seus destrambelhamentos de ossos e músculos, talvez apressado a chegar
naquele tugúrio, pra gente podendo não ser o dos sonhos entretanto sendo um palácio;
aí a sentar no banco da cozinha ou se esparramar na cama o seu cansaço naquilo
que os de Chico apelidaram quarto; quem sabe a rever a roupa nova, ainda nova
tendo o Antônio certa reserva em pô-la no uso usavam-na as baratas, aquelas
xeretas nojentas. Enfim volta a ‘correr’ no seu pular de molas e, ao atravessar
por entre as outras casas da Vila onde o silêncio se proibira entrar, notou
algo inusitado: conversavam gesticulavam falavam respondiam. Ficou de
prontidão, pois vez por outra a sensibilidade nos ajuda a saber antes de saber
o que não devemos saber para se assustar. Uma das vizinhas inclusive chorava, parecendo
esta a esposa (diziam ser amásia, ah a boca do povo...) a mulher do Motoqueiro
Inimigo. Parou. O Aranho abriu melhor os ouvidos, escutou a lamentação ser por
causa dum dos filhos de Mercedes... morreu ontem, tadinho. Antônio não se
controlou, entrou na zona proibida do Motoqueiro, perguntou gritado a
escandalizar aquele escândalo existente, não seria que fosse o negrinho e...
Não, disseram, o segundo, loiro, a mãe desesperada, tadinha! Inteirou-se, mais
calmo. O caminhão de entregar gás (aí detalharam sangue e miolo ao gosto
popular ou apenas sadomasoquismo a que tem direito, e prazer, também a classe
miserável) o caminhão, o menino tão bonitinho e já indo bem na escola do
bairro; foi na rua perto do ponto donde viera ele. Isso ocorrendo quando o
aleijado ainda falava ainda gozava os que lhe gozavam na cidade tirando partido
de sua ingenuidade, quando ainda visitava com distinção o Boa Boia no fazer
ótima figura como tagarela e comilão. Ainda falava, embora a garganta estivesse
reclamando alguns cuidados.
Agora não mais fala. E falaria para
quem na sua solidão, caso falasse!
Então convoca as lembranças dos
esquecidos pelo homem da rua, voltado aos seus interesses próximos. Os mortos
vêm. O primeiro foi o dolicocefalinho de olhos azuis da Mercedes, simpático
para si, pois tratava bem seu filhote de pele escura e meio-irmão dele, do
morto então vivo. Lembrou-se do fatídico dia em que a vizinhança chorava a
ex-vizinha lá morando na periferia rica. Recordou a voz do garoto, o chamado da
mãe, a qual na época sorria matreira ao comensal e parceiro avulso. Isso lhe
trouxe um choque, porque Tiana, como fizera no seu jeitão a comunicar o
falecimento do pai, fê-lo noutra vez, com respeito, num desrespeito mesmo, à
Mercedes. Aí ele chorou de verdade. Sentiu, soluçou, abriu os ouvidos, não
podendo abrir os sons, ao contar da vizinha: a Mercedes morreu de repente, foi
assim de ‘morte morrida’ não de doença lenta e demorada, lembra como era forte!
Chorou mais, mais queria pormenores, pormenores que a linguagem mímica se negava
a transmitir para Sebastiana a perdir-lhe minúcias, dessas que ajudam a
estancar (ou aumentar?) o sangramento do coração. A Tiana lamentou a atitude do
esposo da falecida, desejando distribuir os filhos pequenos a outras famílias
criarem... Antônio desejava saber com quem iria ficar seu negrinho, não pôde
dizer e chorou de novo. A amiga veio-lhe ao encontro: uma tia do garoto, certa
irmã do esposo da morta. O Toninho: ah se eu pudesse ter comigo o menino... continuou
o pensamento, mas como se estou também perdendo as forças e preso no leito!
Tiana tirou-lhe da má ideia: Toninho, falou, o menino é a sua cara... e deu uma
gargalhada. Aí também sorriu. Enfim ela morrera, e agora estava em visita ao
seu quarto infecto.
Veio o ‘Véio’, o pai lhe fez uma
careta como desagrado. Apareceu Dona Maria, ela o quis beijar e imediato se percebeu
solitário, acompanhado de mil dores e muitos impedimentos. Ela chegava e com
ela uma porção de pretinhos seus irmãos, menos os que ele não conhecera por
saírem seus caixões de anjos antes dele vir ao mundo. Todos lhe parecendo
aliados e amigos, nenhum com as reservas do pai contra si. Nisso surgiu uma
recordação duma tia parecida com a mana Branca e – ficou gélido de terror:
Branquinha apareceu triste. Assim concluiu, a irmã morrera! chorou desesperado
com o alarme falso, sequer ligou mais aos outros visitantes da noite a
conversar consigo naquele estranho encontro; eram amigos parentes e conhecidos,
alguns desconhecidos do tempo roceiro. Chorou pela mana sem que pudesse ser
visto ou escutado, a Vila dormia no seu descanso por merecimento, nunca entendido
pelos cães; um uivava aviso fúnebre. Que não veio.
Chegou três dias após a Branca, trazia
dois sobrinhos a conhecer o tio, o tio a chorar ninguém entendendo, nem Tiana
que estava a recolher o urinol daquele “porco”, ela o chamava porco; aliás pra
si todos os machos do planeta eram porcos, coisa que a vida lhe ensinara de
graça.
Chorou. Choraram e depois riram, ele
só podia rir, não podendo falar sobre a razão do choro desesperado, o qual se ligava
à noite com os mortos.
32. Branquinha
não se demorou; e abusivo dizer que conversaram bastante, embora o costume
determine que os parentes no reencontro coloquem os desencontros até brigando
por isso, contudo se aproveitando a matar a decantada saudade, sentimento
engraçado na sua tristeza amorosa dos viventes de sangue latino ou africano;
eles conversam, se põem de acordo nas coisas narradas, os grandes a falar alto,
a dar exemplo educativo, e os pequenos em roda a querer participar do exemplo e
não sendo ouvidos, ouvidos quando, muito frequente, apenas na fase do riso ou
nos minutos que os adultos se olham e se calam não tendo mais que dizer; aliás
os olhares falam mais que a fala. Todavia não foi bem assim porque um dos lados
da porfia não dizendo coisa alguma, em não ser pelas mãos, uma delas bem atrofiada,
e pela entonação da face num ríctus simiesco, quais fazemos sem pressentir
sermos provindos dos macacões primevos e dos trogloditas na forma de monos
melhorados. Da parte feminina, faladeira a mana pelos cotovelos lembrava
Toninho Dona Maria a pichá-la dessa forma; da parte da irmã, a qual vista de
perfil lembrava a mãe e aí ele ficou com saudade de sua velha, da parte dela
saiu muito contar. Não continuou falando em razão do constrangimento dela vendo
o estado deplorável do irmão; estava a moça, não mais moça ainda moça, estava
mais prestes a chorar, fazendo como diz o caboclo das tripas o coração, para
não ofender o sofrimento do rapaz, um velhote a beirar seus 40 janeiros, não:
dezembros realmente. Assim mesmo contou e mais contou. Deu demonstração ser ela
tolhida pelo seu companheiro cobrador e exigente; fez-lhe supor apanhar de vez
em quando do “marido emprestado” (na Vila já se falava abertamente da presença
de Branca e seu amigamento com um homem casado, desses que abandonam a esposa e
a filharada e vão morar com outra, em quem impingem outra série de filhos; e,
para acertar a personalidade ou amansar a bebida, batem nessa nova como o fazia
na antiga ‘sem sorte’). Ele – diz ela ao mano enrolado nos seus aleijumes e a
feder na cama pobre, não obstante os cuidados de Tiana; a Tiana agora manda a
Maria, com apelido Nina, netinha de olhos verdes e pele escura, fazer as coisas
ao rapaz – ele, o meu companheiro, não quer demora. O Toninho chorando sem
precisar esconder o conhecimento do sofrer por que passa Branca. Ela
desconversa, e tinha impedimentos a falar com um mudo, está prestes a chorar ao
ver o calvário do mano; diz mais umas amenidades, toma as crianças, uma já soluçando
e fica a pedir para irem dali, uma ‘sarna’ conta a mãe ao irmão; exige delas
que peçam a bênção ao tio, que beijem sua mão direita menos torta; e sai, antes
olha para sorrir de mentirinha, vira o rosto para fora já com lágrimas a
escorrer...
Sai com Tiana. Perto da casa do rapaz
dizem amenidades e desconversinhas, longe choram ambas na troca de opiniões.
Parece um caso sem solução, como o do pai, diz Branca. A outra concorda,
discorda a diminuir o impacto, recorda o sofrer anterior dele a desembocar no
leito e na solidão.
O Toninho “minha Fia” (assim se
expressa o seu costume) ele se arrastou bem uns três meses até chegar nesse estado.
Cansou de médico, de pronto-socorro, o povo aqui levava ele sempre. Cansou de
hospital. Foi piorando piorando da goela, tomou remédio pra valer, soro e
injeção; não valeu: operaram ele até que falaram estar apodrecendo lá dentro.
Vixe, menina, fedia de longe, dava dó; aí cortaram pedaço da língua e não falou
mais! Agora até que anda bom. Mostra as coisas, escreve no caderno os pedidos,
só que a gente não consegue ler tudo. O difícil mesmo foi levar o Toninho no
cartório, o caso da procuração para receber os dinheiros dele e ter com que
comprar remédio; foi de ambulância mas a ambulância não conseguia chegar perto
da casa, nós precisamos levar numa padiola até lá longe, pra lá do Zé
Motoqueiro, essa prefeitura, minha Fia, ela não arranja nunca a rua: só mato e
buraco. Toda vez de internar foi assim com seu irmão.
Elas
falavam e falavam, os meninos indóceis exigindo a partida, Branca morando
longe, noutra cidade pequena, dessas sem pretensão a ficarem grandes. Aí não
deu para continuar a conversa de ex-vizinhas, pôr as coisas em dia, Tiana com
mil obrigações. Despediram-se.
Enquanto isso o Caranguejo prosseguiu
inerte na cama a curtir suas dores e a solidão.
33. Agora é
meio-dia, não, corrige, minucioso: meio-dia e cinco, e seis. O sol brabo
investe pela fresta de cima no teto, rasga sem dó picomãs e fios de aranha
entrecruzados, azula em fumacinha num facho, não consegue entretanto, atingindo
a parte inferior da cama, embranquecer ou alaranjar aquelas pernas de negro,
menos preto em virtude dos meses na sombra da solidão no descanso forçado.
Sorri, ele sorri ao notar os cambitos, dois ossões tortos, nem no estado
descansar se prestam semelhar pernas de gente, aí entristece ensombrece seu
ser, já não chora ou despencaria a chorar, já não chora por isso: tem mil
razões a verter suas lágrimas por outras causas... suspira desconsolado. A dor
na garganta grita atenção, fisga, cutuca, bole, investe, exige! Lá dentro, no
seu interior, o revolutear dos destroços numa desarmonia. Parece-lhe que os remédios
não têm efeito; talvez um pouco momentaneamente apenas, depois a dor volta
fustiga corta grita! e grita mais alto, cada vez mais alto. Não sabe o que fazer
mais; gritaria ele com sua antiga voz possante, de mexer com o motorista para
que este berrasse “Aranho” a gozar-lhe, para que tivesse oportunidade e razão a
revidar-lhe o insulto barato, ambos após a rir, quem sabe os passageiros
circunstantes e mais próximos a se rirem também. Depois, ah depois: o trajeto,
a paisagem, o casario a passar devagarinho (daí novamente a espicaçar o chofer:
“pé na tábua, Zé!”) os solavancos, as conduções – buzinas gritos apitos roncos
– as conduções a cruzarem a avenidona, o jardim... se transportou aos moleques,
apreciava mexer com a meninada mas já esperando as respostas... um dia um me
chamou Canguru! olhava as lojas, o dedinho de prosa aqui acolá, o Terminal, ah
meu Deus quanto vivi... Sentiu saudades na lembrança dessas passagens, até da
rotina. Porém ocorre que no sentir saudade temos sim de nós mesmos e não do
ambiente onde estivemos inseridos. Toninho não pensa com tanta penetração
filosófica porém sente. O sentir vale por uma vida na universidade; infelizmente,
quem poderia saber, o diploma não deve ter qualquer validade.
Estava justamente visitando o TRU, já
se preparando a receber insultos e a devolvê-los aos funcionários desocupados,
aos motoristas de folga ou a aguardar seu horário, então os carros funcionando
engolindo óleo diesel como um burro à espera do cavaleiro tomando um trago com
amigos – estava nisso quando chegou de chofre a menina de olhos verdes. A Nina
não veio de chofre, sua atenção é que se encontrava longe ocupada no TRU; tanto
assim assustar-se.
Ela sorriu. Não disse nada, não era
língua solta como sua avó. E que diálogo poderia ter com um aleijado mudo preso
num colchão cheirando a xixi e tempo? Nada teria que falar, falamos para ouvir
resposta, ou, nos convençamos: somos loucos a conversar sozinhos. A garota toma
um objeto, muda o mesmo de lugar, empurra outro; pega da vassoura varre aqui
limpa ali, a poeira se alevanta, Toninho espirra, dispara a tossir, a dor
volta, cobradora, ele geme, o sol continua mas muda o holofote e agora o facho
é ainda azulado tem mil e um vagalumes refletindo passeando e brincando no desenho
do facho iluminado; e isto a virar distração para o dono do quarto pobre;
distrai-se até que elinha derruba com estrondo não sei o quê. Olha na direção,
ela a ponto de chorar, arranja o desarranjo como possível, continua a varrer; logo
esquece o incidente e canta, primeiro baixinho, depois se esquece de vez da
lembrança a cantar alto, música do seu tempo, do tempo de show na televisão; tem uma vizinha nova, é uma velhota que seria
feia na opinião do Aranho se o Caranguejo andasse ainda a pular de Sapo na
periferia pobre e pudesse vê-la, feia sobretudo no pensamento da mulherada; não
obstante tendo muitos fregueses à tevê (ligada com fios clandestinos) na sala pobre
limpa, aí a meninada se senta no chão mesmo para ver para aplaudir para aprender
aquela alta cultura na baixaria da civilização. É uma dessas músicas que Nina
canta, sem pensar enlevar ao Toninho. Porém isto não chega a amenizar a dor
terrível que o consome. Depois a garota, após também espirrar e tossir aquele
pó, vem à cabeceira do homem, enrolado torto magro ainda homem, mede um tanto
de água no copo, despeja um líquido no mais ou menos das coisas, que é medida
certa faz séculos ao homem comum, chocalha, pega uma colher e remexe melhor a
substância e aí entrega na mão do enfermo. Toninho faz a careta de desagrado,
emborca aquilo com outra careta, derruba metade, desajeitado, no travesseiro a
molhar e feder as penas que foram das galinhas ainda do tempo da velha Maria,
daí a menina ajuda no equilíbrio da cabeça daquele macho em descanso ou desconsolo,
fá-lo a sorrir numas malandragens infantis e quase gargalha; a vítima completa
seus esgares noutra careta mais feia ainda, fosse possível sê-lo. A jovenzinha
passa, no costume do “malemá” como diz Tiana, passa água no copo sujo, o qual
fica menos sujo, depositando o dito copo no banquinho de cabeceira a improvisar
criado-mudo ao mudo. Retoma a representante das fêmeas da espécie seu cabo de
vassoura seu cantar seu esquecer no se lembrar; e termina o serviço. Recolhe algumas
peças de pano sujas, todas são menos sujas ou mais sujas e satisfatoriamente a
cheirar mal: leva as mesmas ao tanque de roupas da avó, tanque que não passa de
tina tosca de barril serrado ao meio, antes abana a mão ao morto descansando a
vida no catre, encosta a porta amarrando como o fazia Francisco, quando não
ébrio, no prego – e some, decerto a conversar suas coisas com outras meninas.
34. Quando
D.Maria já era velha – a moça se casa na roça, se casava na época, se casa
verdinha nos 15 ou 16 anos, e o padre fica a dar palpites pela juventude menina
dela; enquanto o pretendente ameaça o pai o padre e, se precisar, também o
delegado lá na cidade; bate o pé e diz que vai fugir com aquela gostosura na
mula andadeira, se não puder roubar igualmente o cavalo branco do futuro sogro;
este aceitará decerto o menino na barriga da filha de volta; e aí não tem
delegado padre e pai da moça, ex-moça, que aguente – a Maria preta já sendo
portanto velha aos costumes roceiros porém nova de vinte e pouco, quando pariu
o Antônio, Tonho aos outros manos, fora é lógico os que Dona Morte levara em
caixões minúsculos, Toninho para ela em agrado e à Branca ainda menina (a
menina na família de roça pobre rica de filhos, embora com pouca força faz tudo
em casa, Branca chegava a derrubar o mano ao carregá-lo; não sendo por isso que
ficou aleijado, os aleijumes vieram de nascença. Branca virou mãe dele e dos
outros que não se esconderam no cemitério) ainda menina mas adulta de coração,
punha o coração a carinhar o infeliz, ele não se sabendo infeliz e isto
conclusão dos seus 40 dezembros, então imobilizados na cama, emudecido no seu habitual
matracar. Carinhava e o tratava igual a mãe por Toninho. Já Francisco, sentindo
asco por aquele amontoadinho de ossos e carnes retorcidos, gritava o moleque
por Tonho ou lhe negava sequer o nome, preferindo ser perfeito a surrar a
imperfeição do filho, para fazer sofrer as mães, isto é a mãe e a filha dele,
horrorizadas. Velha a Velha, pois a viver anos na cidade envelheceu com rigor e
adoeceu, a Velha morreu. Branca se foi atrás do seu macho, o qual diziam não
ser flor que se cheirasse. O Chico, sumiu e apareceu na indigência, eliminado
depois do necrotério. Ficou assim o Toninho aos cuidados dos de fora; ora, o
costume a experiência os olhos que a terra haverá de comer veem frequente que
muita vez o de fora é o mais de dentro que os de dentro. Dentro do pardieiro
gemia aquele rapaz.
Mas a Tiana, a neta Nina, mesmo as
vizinhas outras, faziam o quefazer ao pobre acamado, dizendo as más línguas que
um dia inclusive o Zé Inimigo deu lá sua mãozinha a carregar a padiola até a ambulância,
isto porque os “homens”, um dizer sobre os perdidos na corrupção de governo e
outras safadezas políticas, os ‘homens’ nunca mandam ajeitar a rua deles,
falaram assim, aí ninguém comprovando, enredaram que naquele dia no qual a
padiola ia rolando desequilibrada no chão, no buraco do chão, teria sido um
empurrãozinho de nada do Motoqueiro e ele a se desculpar no enrosco do mato e
no buraco menor dentro do buraco maior; estando ainda por cima embaixo liso
pela chuva da noite; sem adiantar o esforço porque o Antônio, Sapo como falava
o da motoca, o Antônio era duro na queda e se grudou na cama improvisada nesse
movimento. Não se provou coisíssima nenhuma, além do falatório. Foi, ficou três
dias internado; voltou, pior; outra vez as ‘formigas humanas’ da Vila a ajudar
carregando nas costas a padiola, a repô-lo na casa, ele indo lá em cima como um
rei. Aí entregaram os de fora para a Tiana de fora cuidar e cuidar por dentro
dos dois cômodos alugados pela família do Caranguejo; a tratar do Aranho como
fosse seu filho ou filho do seu filho (isto embora admitisse a mulher ser o
doente gerado por Chico, um bêbado contumaz e sem responsabilidade, e nunca
desejaria admitir o rapaz como seu rebento). Ah, ainda um agravante de
maldizer, lembrando o aluguel atrasado do ‘lar’ desse jovem-velho: o proprietário,
falavam, falava na desocupação do imóvel pelo locatário – o que não se confirmou
além de apenas também falatório, se confirmando por outras razões que o futuro
provaria... De maneira que não obstante faz de tudo a senhora. Inclusive refaz
o que a garota fizera imperfeitamente.
Limpa, põe as coisas no lugar, troca a
roupa de cama; dá banho no homem, cosquento como ele só! e vergonhoso mas não
obstante também tira dele, despindo o molambo, a roupa suja catingando, põe
camisa e cueca limpas no Toninho. Ele não sabe onde pôr a cara... Pior.
Mas tem pior!? tem o dia a dia, uma
noite ensombrada em não se acabar mais. Tem o drama da alimentação. Antes se
tratava ele mesmo, ela deixando tudo pronto; depois a piora piorou, o rapaz não
dando para engolir, então ou ficava internado no hospital (aí as alegações
habituais: falta de leito, igual no presídio; o risco de contaminação
hospitalar; as desavenças nos acordos burocráticos; além da demora da ambulância
ou má vontade dos funcionários – eliminando assim a alternativa de
internação...) ou era tratado como possível na precariedade pelas piedosas
vizinhas nessa periferia miserável. No pior o interessado não tem escolha; ou
melhor desse pior: não pode comunicar seu desideratum – engole, é levado
na vida como a vida o leva.
Contudo a hora de alimentação é algo a
impressionar qualquer harmonia que se preze. Tiana se vê na contingência de
cozinhar, deixando a desmanchar quase, o alimento para ele; a seguir amassa coa
acrescenta líquidos, às vezes põe leite de cabra, tem uma vizinha com ‘bita’ de
cria nova e isso ajuda; ou coloca água. Poderia levar aquela ‘lavagem’ (seria
assim chamada pelo Toninho tivesse como antes língua afiada de mexer com os
amigos no TRU e de fato andava longe da boia do Boia restaurante) poderia levá-la
para Dona Maria, esta uma vizinha com casa vizinha da periferia rica, donde puxaram
um fio em ótima gambiarra, aí ligando e triturando no liquidificador; as outras
vizinhas com luz elétrica não têm, têm só tevê que tritura melhor que
liquidificador. Opção difícil. Tiana faz como faz e isto não é o pior – o pior
é a dificuldade de passar na goela, meia goela de língua quase morta, na garganta
dele. Enfim põe a massa amolecida na boca do rapaz (a menina não consegue essa
proeza, faz derrubar metade e ainda suja o colchão e o travesseiro de penas).
Depois inventou um cone de papelão, a despejar igual funil. Assim ele careteia
e engole.
Que pode mais fazer!? Antes usava
colher, devolvia o paciente, decerto fazendo igual costumava no colo da mãe
Dona Maria, a derrubar o então nenê nas roupas da mãe; ainda por cima provocava
o costumeiro bluf bluf que as criancinhas fazem a brincar ou só para não
engolir a meleca. Nessa altura Dona Sebastiana inventou, criativa, o funil.
Não mais, por menos que faça, é muito.
O moço, velho de 40 anos e em acentuada decomposição no seu ser, reconhece a
caridade dela. Nada pode dizer, um obrigado de boca, di-lo com os olhos; ela o
entende por entender de lágrimas; é mãe, mais que mãe.
Embora os cuidados, ele anda, corre
realmente, para trás, em rápida marcha a ré de anos, de tempo, de saúde, de
vida...
35. Agora,
estirado na cama limpa pela vizinha condoída, estirado porém não espichado,
isto seria abusivo, agora o Antônio tem olhos para ver. Mas vê? tem boca de
falar, a língua a garganta a dor a ânsia a febre intermitente, mas não fala;
nariz de cheirar, sente o olor o odor o bolor à sua volta e mais ainda o cheiro
enjoativo dos medicamentos (estaria a colecionar vidros pós pílulas? lembrou
neste ponto os joguinhos com os outros meninos, a figurinha de esportistas e
outras coleções; de pedras de borboletas ah... aí sente o remédio, evola o
penico embaixo limpo embora, a fedentina da rotina); ouve, as orelhonas... não,
as dele de abano sim porém delicadas caprichadas pela natureza, não puxou nem
um pouquinho ao Velho, aquelas horrorosas do pai; tem tato, verdade que parece
mentira no entanto está perdendo a sensibilidade no pescoço e nas espáduas, a
pele não reage... a mão sente bem as notas de dinheiro, conta reconta, por que
recontar? não sabe. Fecha abre torna a fechar as pálpebras, vê o voo,
incomodado com um simples mosquito, desses atrevidos a zunir, escuta bem quando
o velhaco vem cantar nos ouvidos, na porta deles, e se senta na cartilagem da
orelha, aí se dá um tapa, nervoso, o sacana voa outra vez e torna a xeretar o nariz;
não tem arrumação. Mais ruim que isso os pernilongos, tinha uma nortista,
nordestina, na Vila, foi embora, e dizia “muriçoca”. Dá outro mais outro tapa,
dá se dá, toma o chinelo que alcança no chão, deixa marca de sangue, seu
sangue, na parede já marcada e nunca pintada. Serve de distração. Isso quando para
a dor, a dor não para: silencia em paz momentânea e volta mais braba; pudesse,
poderia gritar! Todavia ver ele vê. Que é ver?
Vê o mundo. O mundo que não mais vê.
Vê pela lembrança, vê pela experiência vivida, às vezes ofendida, assim mesmo
ganho nessa perda, lenta, impassível, teimosa como uma gota atrás doutra gota,
a gota do tempo. Volta-se para trás, a aproveitar um descuido na dor, volta-se.
Une um pedaço a outro pedaço; uma pessoa a outra pessoa; uma paisagem a outra
paisagem; costura se costurando as partes, forma o todo; soma, divide, chega a
conclusões surpreendentes, mesmo a um ser comum. No conjunto não negativa o
resultado, apesar de haver muito pulado como sapo, assemelhando a aranha,
pichado na parecença do caranguejo; a aguentar a gozação diária de toda
gente... não, não é assim, estaria exagerando, e os bons! toma os seus, os seus
vizinhos, os seus conhecidos no centro urbano, os desconhecidos comprovadamente
de boa vontade. E agora! agora é cumulado nas atitudes cuidadosas das mulheres
a esbanjar caridade (que adjetivo dar à Tiana à Nina?) Se imagina um dia – e
seria horas e horas no desespero – um só que seja, sem essas mãos pacientes,
embora a velha sendo um pouco rabugenta! Não sobreviveria.
Aqui a indagação mais importante: que
papel ocupariam os seres que o cercam... Acorda, um pouco, anuviado, examina
cada ente com quem conviveu ou convive. Mera coexistência ‘pacífica’? Ora,
sente em cada parte de si uma parte dos outros; critica inclusive seus atos, a
se envergonhar quem sabe. Compara com sua experiência esquisita, ou louca no
pensar de muitos – o caso do seu constante sonho estando na vigília. Nos
últimos anos pouco sonhou, trocando a manifestação pelo sonho dormindo, mais
comportado e mais inexplicável, cheio de ares absurdos e, por que não dizer, artísticos.
Toninho pensa nestes termos, não com esses termos e na expressão da língua
padronizada. Acontece que as formulações de pensamento dispensam o léxico.
Nestes últimos dias, críticos e de sofrimentos, neles tem sonhado desperto mais
vezes, até mais que antes na juventude em que os seus tolhiam a divulgação.
Quase não precisa agora provocar a manifestção fenomênica; não a provoca, de
fato, ela brota no seu ser; por vezes a Nina a cantar a poeirar a casa; e ele a
sonhar embora olhos abertos e orelhas ligadas. Curioso, pensa, diria? curioso
haver visto no quadro a menina bonita ali perto, então longe, como um homem
feio a gritar contra ele, ele sorri irônico para o sujeito, o barbudo se cala
amedrontado... olha a garota varrendo, se confrontam, ela pergunta surpresa “que
foi seu Toninho, viu fantasma?” Vira. O Motoqueiro e o Chico são freguesões, um
vivo e distante para azucrinar o Sapo, é Sapo a ele; outro morto, vivo no
sonho-lembrança-vivência. Imediato pensa ou sente inimizade. Vem D.Maria, vem
Branca, vem mesmo Tiana, que vem vindo a chamar a neta e está no sonho como os
demais conviventes do orador, ele despica nos adversários, reduz todos a pó e
defende, veladamente mas aceita este último grupo. Uma noite – e não havia
conciliado o sono, antes escutava o ladrar dos ladrões do silêncio a latir e
ainda ouvia longe outros latidos e portanto acordado, bem acordado – nessa
noite desfilaram inúmeros gozadores, aqueles do Terminal, os vivos e os dois
que haviam falecido recente (de um acompanhara o enterro); pois eram seus
inimigos confessos; ninguém lembrava seus apelidos pejorativos, ninguém falava
a sua língua e menos na gíria de todos usada porém noutra fala; e curiosamente
o Toninho entendendo a algaravia. Estava exatamente a acusá-los veementemente e
mesmo a encurralá-los com sua peroração de tribuno, quando uma vizinha gritou
nas imediações.
Não acordou, já desperto e penetrante
no seu próprio eu, porém ligou melhor a audição. “Dona Zefa, gritou a Chiquinha,
tem ladrão no pedaço!” Não se assustou. Por que, se nada mais possuía; ah,
pensou rápido como é adequado ao pensamento: o resto da pensão, o relógio, a
roupa nova quase sem uso. Todavia como defender o patrimônio; gritaria ele à
Tiana: mas nenhum som que não os costumeiros gemidos ultrapassou o casebre...
Aí preocupou-se.
Noutra noite, os seus dias
principiavam a se ensombrar... podendo haver lá fora o sol, noutra noite
retomou sua análise do conjunto de sonhos, mui pouco sonhos, por causa da
vigília. Estariam amigos e adversários reencarnados agora? ou até pouco tempo
de volta (uns haviam partido, o povo a dizer os bons para o céu os ruins ao
inferno). E ele, Antônio, passara os 40 anos em nova existência na vida?
estaria pagando seus abusos oratórios e de poder! Nesse caso o desconhecido que
defendera na sua presença o reencarne tendo razão. Não sabia, nada de fato
sabendo.
Punha exatamente a problemática,
quando chegaram a Sebastiana e um rapaz estranho. Vinha o mesmo furá-lo, a dar
injeção naquelas pelancas. Foi difícil achar-lhe as veias. Olhou entristecido o
instrumental de tortura do moço da farmácia; sequer percebeu o que conversava
ele com Tiana. Ela sorria de vez em quando pro seu lado, constrangida.
36. Noite, noite
em a noite, na sua noite. A noite ao Toninho não tem fim. Então, a ludibriar a
noite, não o seu escuro e o possível silêncio na Vila, então faz planos curtos,
num arremedo de esperança, isso enquanto a dor dorme ela mesma a sua força;
então vive o já vivido (ou também sofrido! por outro lado as alegrias baratas,
o homem comum pode se satisfazer com pouco, portanto igualmente sente os
momentos alegres e inclusive os de seriedade, ou sejam de circunspecção).
Desce ao centro, senta-se na Praça da
Matriz, pombas pipocas pessoas, pessoas pequenas a correr a gritar. Sorri. O
dedinho de prosa, alguma vantagem por desfastio ou só a esconder a pequenez. Ia
prorrogando assim a entrada no templo. Um dia fico pra missa das oito; e claro,
voltando mais tarde que o tarde costumeiro à noite, a tropeçar no carreador
feito rua na periferia pobre. Andar no escuro não aprendera na roça, onde o
lavrador tem por farol a lua e a coragem; porque era ainda garoto, um pixote,
quando Chico trouxe os seus à cidade grande pequena. Mas arranjar-se-ia na
volta escura ao lar, a se arrastar como possível. Um dia decidindo a ficar até
mais tarde no centro urbano, entrou na missa. Lembrou-se da mana que vez por
outra vinha a contar da igreja perto do serviço dela; a mãe não, não despregava
de casa e depois sequer experimentando missa de corpo presente; o pai? vixe,
esse era esquisitão. Além disso lembrava várias vizinhas indo exercer sua fé,
havia uma evangélica, eles diziam “crente”. Agora Antônio quis participar por
sua vontade.
Via o padre com enlevo, suspirou em
respeito no sermão; encantou-se com os paramentos; aspirou o incenso; seguiu
com a vista os auxiliares do reverendo e o povo a assistir. Por fim se deslumbrou;
quase a se fascinar.
Voltou algumas vezes às solenidades
religiosas. Um dia, numa noite, decidiu pela confissão e pela hóstia. Antes escolhera
a igreja não como refúgio porém como local bom a passar algumas horas do dia no
silêncio, a concorrer com o barulhento TRU e seus brincalhões demais
conhecidos; conversou com o Padre José, o qual lhe sugeriu o confessionário.
No confessionário, sendo pela época em
que havia contado seus sonhos (proibidos) da vigília, havendo recebido no
Terminal insultos e tudo o mais; resolveu pedir explicações ao confessor. Este
pede detalhes do fenômeno, balança a cabeça lamentando, declara ser artimanha
de Lucifer, dá-lhe algumas penitências, impõe uma série de rezas.
Toninho deixa o templo cheio de
dúvidas e temores. Não chega a orar todas as ave-marias e salve-rainhas
exigidas a se limpar; vai à metade e desiste. Desiste também de frequentar os
cultos; chega mesmo a desviar-se da Praça, para não ver a Matriz, desconfiado e
arisco.
Não obstante relembra seus problemas
na ocasião; relembra agora a impressão causada em si diante do cerimonial, a
ouvir o canto religioso. Então se põe a perguntar, casando-se com seu sonho, o
qual o perseguia por anos: teria sido padre noutra existência? A sua oratória,
sente bem isso, ocorre numa reunião religiosa e ele é o tribuno investido da
acusação, a destruir seus adversários, o Zé Motoqueiro, o Chico seu pai por
exemplo. Compara a vestimenta no sonho e a da realidade, observando desde os
últimos bancos donde assiste à missa. Seria? O Padre José não responde, antes o
acusa.
Nos últimos tempos, prostrado numa
cama pobre, retoma a dúvida. Só que não pode mais indagar pela boca; e decerto
não terá resposta convincente.
Haveria à humanidade alguma
convincente?
E haveria porventura alguma pergunta
sensata...
Ah
ainda é noite na sua noite interminável, a noite de seu dia, cheio de sonho
ansiedade e dor, ah a dor! poderia, poderia sim ter invertido a fase deste
triângulo doloroso por que passa o ser, neste caso o Toninho, Sapo se ficar melhor
ou melhor ainda Caranguejo e Aranho. Porém foi começado o dito triângulo pela
Religião, ele devendo ser antecedido sempre pelo sofrer e pela dor. Porque o
triângulo da dor humana compreende fatalmente as fases: dor hospitalização religiosidade
cemitério. Não são quatro, mas abordagem triangular do mesmo sofrer; a dor
(aqui posta como primeira fase não é fase é causa das fases seguintes; deu para
entender?) a dor sugere a luta pelo tratamento e quem sabe a eliminação do
sofrimento; a fim de o paciente cliente e quase sempre freguês virar freguês
mesmo, como afirmado agorinha. Sem livre escolha! e nisto a gravidade.
Vimos como o Antônio recorreu à religião
a fugir dos dramas, inclusive reforçando tais dramas. No entanto a dor levou-o
à fase hospitalar. Bem, mal pensou ouvindo comadres na periferia onde
residindo; praticou as ‘simpatias’ e a panaceia popular: engoliu os chás da
farmacopeia de arrebalde, coisas assim. Todavia dor, dessas conscientes do seu
poderio, a dor não cede fácil, muito menos quando na garganta mui usada a
brincar gritando com o pessoal do TRU, a garganta agora mais ou menos
carcomida. Então foi ao médico. Parada antes no Pronto-Socorro por conta
própria. Quer dizer, fora pulando com as suas potentes pernas tortas até ao
vestíbulo do hospital conveniado com a prefeitura, “aquela ladrona” como diziam
os da periferia. Esperou aguardou saiu retornou no seu andar feito caranguejo
até à casa – sem solução aparente; isto porque o sofredor imagina a cura, qual
milagre, ao entrar e ficar batendo papo com outras criaturas doentes a trocar
sintomas e quiçá remédios, os quais igualmente não venceram suas dores; o homem
do povo é um médico em potencial enquanto espera atendimento e se aproveita das
orelhas a narrar as ‘sofrências’ parentes e vizinhas além das suas, a enriquecer
as horas e horas na espera de atendimento numa instituição tão ou mais enferma
que o doente. Fora sim por conta própria. Agora quando tem de ir, é mais grave
na gravidade, por causa da caminhada de sua língua cada vez menos língua e
menos faladeira numa garganta que dói horrores; agora vai contra a vontade, o
povo o leva carregado na padiola à ambulância e esta o transporta ao P.S. ou já
diretamente ao Hospital. Aqui ouve (só escuta, não pode mais acrescer sua
ignorância à ignorância alheia nas conversas para o aumento da cultura
universal) ouve os ais os gritos os lamentos dos pacientes impacientes, ele
também mais e mais impaciente em razão direta do aumento da corrosão de sua
saúde (ela não sendo mais sequer saúde...) Vê, e vê bem, bem observador, o
tratamento aos colegas de infortúnio, num pôr as barbas de molho, no dizer do
povo, para ter forças quando sua vez no corredor de tortura. Sente; e sente na
pele também a pele dos outros. Contudo...
Bem, ultimamente passa mal. Caminha na
sua noite a passos largos à entrega total daqueles ossos e músculos entortados
e então por demais doloridos; a entrega à nova fase. Nesta sem precisar tubos,
soros, remédios outros, gesso, maca, ambulância – porque os defuntos não têm
exigências, os vivos têm por eles, a satisfazer a vaidade social. Ou a doença
social!?
Em a noite de seus dias, ensombrados,
tristes, piormente por ser rotina de tristezas, toma o caminho à fase da necrópole.
No entanto não estão estas pobres
linhas empenhadas a sepultá-lo. Ou podendo fazê-lo só de brincadeirinha. O Aranho
se lembra, num descuido na dor, na dor em perder um ente querido. Quem sabe
‘querido’ seja abusivo. De fato nem sequer fora ao enterro de seus genitores,
ela, D.Maria, saindo sorrateiramente e deixando prostrado o moço, já velho na
opinião da meninada do colégio; prostrado e talvez poupado pelos próximos,
parentes e conhecidos dele, julgando os mesmos o Toninho sem condição
psicológica e emocional a caminhar atrás do corso de sepultamento pobre da
pobre mulher; quanto ao do pai, soube que o inimigo sucumbira na indigência
virando número estatístico; e sendo inimigo ou ao menos adversário desde sua
pomposidade nos tempos como grande orador (hoje um despojo humano negro e
destrambelhado) sendo um do contra o velho, não se disporia a comparecer ao
velório, aliás inexistente; com outra e pior agravante – o Tonho, como o
chamava Chico, o Tonho vegeta mudo na cama miserável, sujeito à caridade da
Tiana e doutras vizinhas, amigas ou adversárias nesta e noutras existências na
vida, diz-lhe o sonho desperto que teima a lhe distrair os minutos e horas sofridos.
Não foi.
No entanto acompanhou sim um enterro
nos conformes dos costumes católicos, de outro entre os gozadores no Terminal,
um que batia o pé em apelidá-lo ‘Sapo-Jururu’; no do outro, do segundo amigo
não compareceu realmente. No enterramento do primeiro dos gozadores mortos (os
brincalhões também entram no céu ou no inferno) nesse ele compareceu. Foi
arrastando-se gozado no triste andar de aranha ou deslizamento de cobra, enfim foi.
Decerto chamando atenção dos piedosos acompanhantes no terreno da necrópole. O
fato marcou.
Permaneceu na sua memória assinalado
um momento hilariante nesse dito cerimonial, cerimonial desagradável e
inevitável: os demais gozadores – figuras que brincam inclusive em velório, a
contar causos e anedotas, a fumar e a bebericar o que se oferece – os demais
brincalhões se puseram a empurrá-lo numa cova escancarada a aguardar cadáver
(quem sabe se não um vivo ainda...) “É sua vez agora, Caranguejo!” disseram e
riram. Ele? responde: “sartei”, falando quando tinha ainda gogó de falar, de
gozar igualmente os amigos motoristas e funcionários da Empresa Circular, falou
engolindo trocando eles por erres arredondados, ao estilo caboclo, pois o Toninho
um lavrador emigrado tentando se tornar urbanoide, ainda caipira na pronúncia
das palavras. Disso não se esqueceu jamais; e, curiosamente, agora na cama
sorri do seu temor na ocasião. Ou do medo a ser logo enterrado mesmo...
Quinta Parte:
Conclusão – o Declive
o
Declive Abrupto
“E é a morte que dá
sentido à vida.”
Esdras do Nascimento
Mais Tiana menos Nina, esta faz o que
faz mas vive atraída à brincadeira própria da meninice, arregala vez que outra
os olhos verdes embelezados pelo queimado solar da pele, arregala pega de
surpresa por ter-se esquecido dum compromisso que a avó tomou em cuidados ao
doente vizinho. Agora ambas ficam de plantão a quase nada poder fazer ao pobre
Toninho, à sua gemeção e febre alta noite adentro, noites e dias seguidos;
estão, sobretudo Tiana, magras, arrasadas mesmo, pela oferta integral de suas
horas ao moribundo.
Moribundo sim. Nina sai às carreiras,
entabulava conversa com o namoradinho ali entre as duas casas, ou imitação de
residências por precárias na relegada Vila Nova, entabulava, quando a avó
gritou-lhe o nome; ela se demorando ainda uma curta eternidade porque sempre
sobra algumas coisas nos ditos não ditos, nas faltas que sentem os que se
querem, mormente no início dum namoro de horas roubadas; e foi quando correu à
porta de Seu Toninho, a Tiana aflita. Vai correndo, disse, vai num carreirão um
pé aqui outro lá, vai telefonar pra ambulância,
o pobre está mal, “depressa, menina!” Saiu.
Voou rasante disparando, a pular como
fazem as garotas em brincadeira a correr se apoiando ora num pé ora noutro e às
vezes a bater palmas entremeio por alegria, tristeza sentindo, apenas dispara
na direção do telefone quase comunitário na divisa entre as periferias; passa
pelo garotão enamorado feito louca, volta feito louca tendo esquecido números e
essas coisas complicadas e inclusive o nome certo do Toninho, para ver com a
velha; toma a raspança devida pelo esquecimento, se esclarece e dispara outra
vez, outra vez o rapazote fica de boca aberta ao vê-la correr...
Corre corre, vence o mato no trilho
imitando rua, dispara também a canzoada assustada insultada com o inusitado do
barulho que a jovem faz, ladra a valer, a vizinhança, a Vila toda surpresa a
farejar novidades, tristes no caso, alguns se aventuram a indagar, todos saem à
porta e se falam assustados igualmente – Nina sumindo no carreador cheio de
buracos das últimas chuvas do verão. O coraçãozinho dela quer sair do peito,
respira com dificuldade, mas chega. E tenta. Novamente insiste e não consegue a
ligação, ou não sabe fazê-la. Vem o socorro duma certa Maria das imediações,
auxilia a menina, discam discam discam, atendem doutro lado do fio; anotam a
urgência do gaguejar da informante.
Três horas depois chega a viatura do
hospital; após vencer a burocracia municipal do chamado, a estadual, a federal
não se julgando necessária.
Olha o povaréu em reunião, o mais à
cata de notícias que ainda não existiam; estuda o terreno: não podem os funcionários
entrar lá dentrão na Vila à casa do agonizante. Combinam o transporte a viatura
e os moradores, estes já treinados a carregar doentes até o lugar onde a
ambulância consegue estacionar com infeliz frequência. Começa o aguardo do
cortejo do Toninho.
-
- -
Agora o calvário no calvário do moço tem
início; o moço que a doença carcome, um que a periferia toda conhece por Sapo
por Aranho por Caranguejo mas que a Tiana cobre num carinho de mãe de avó de
gente de coração como Toninho. A via crucis acontecerá. Os vizinhos –
homens desocupados ocupados no desemprego estão sem jeito a ajeitar e retirar
aquele amontoado de ossos tortos com pele colada no esqueleto, pele negra como
a deles, apenas mais retinta, eles não sabem sequer como fazer a recolher os
despojos dos anos em tanto sofrimento sem machucá-lo ainda mais: e se calam no
não fazer, apenas a olhar as mulheres – os vizinhos, muito mais a iniciativa
das vizinhas, velhas e mesmo crianças, as vizinhas tomam o enfermo com cuidado
para pô-lo do catre fedorento na maca usadíssima da Saúde Pública doente. Antes
com auxílio da Nina a velha Sebastiana já preparara o doente para sua viagem precária.
Deu-lhe banho, meio-banho com paninhos úmidos e até álcool a desinfetar, removeu
secreções malcheirosa de pus sangue urina, um que outro respingo de fezes;
trocou a roupa de cama com dificuldade imensa, o pobre não consegue sequer
ajudá-la na hora de virar pra lá pra cá, vestiu roupa limpa no Toninho, ele a
dar um sorriso de tristeza ao notar as calças novas que supunha anteriormente
dignificá-lo perante a sociedade atribulada do centro ou do jardim, não chegara
mostrar essa roupa nova aos gozadores no Terminal; sorri infeliz na felicidade
possível às conjunturas; olha no pulso esquerdo rente à mão teimosa em não se
desdobrar o seu relógio a funcionar bem igual um novo, vê serem 10:05h, um
pouco embaralhado mas distingue os ponteiros, chega ao ouvido direito escutar o
tec-tec quase inaudível; confirma, agora 10:06h. Está pronto à visita ao Doutor.
Antes de partir à viagem a Tiana inspeciona a beleza daquela feiura
esquelética, olha a feiura os olhos da mulher a indagar se falta alguma coisa
mais; ela sorri. Bem antes disso tudo a senhora tremia por ter de tirar a roupa
nova do guarda-roupa velho a cheirar e voar baratas, tremia pela coragem muita
que esbanja nas coisas inclusive nas coisas de tratar o filho-neto-emprestado, mostrando
pouca coragem a convencer as baratas pra não voarem naquele calor medonho logo
cedo; a menina ficando nisso ainda mais distante para ver o trabalho da avó,
abrindo aquelas velharias fedorentas a despencar, a velha derrubando mesmo o
cabide da roupa. Enfim está a calça nova quase sem uso posta a embelezar o
dono, o dono sorri mais uma vez, decerto por satisfeito, diria neste ponto qualquer
coisinha, já não matraca com a língua a desmanchar... Ela faz mais nesse cada
vez menos: perfuma o enrolado com água de cheiro que outra vizinha lhe traz,
provocando novo triste sorriso no homem cansado de viver. Pronto. Mas os homens
da padiola não chegam.
-
- -
São três horas das grandes na espera
pelos recursos. Mesmo assim tem início o transporte.
Ele vai feito Faraó, embaixo da maca
os vizinhos se fazem escravos nessa visita oficial de Sua Majestade Sofrente
(I? II?
III?) A periferia fizera tantas baldeações através dos buracos das ruas
que não são mais que trilhos de passar; tantas que não dá para numerar também
as viagens.
Sua Majestade Sofrente vez que outra
vê embaciado o caminho e as coisas do caminho, a gente no caminho mil vezes
conhecido por seu pular de sapo. Pode agora fazê-lo, quer dizer: observar desde
a maca deitado ajeitado nos seus destrambelhos em virtude da dor. A dor física,
sua amiga inseparável destes últimos meses, ela serenara. O rapaz da farmácia
veio aplicar-lhe um sedativo da pesada, a amortecer-lhe a garganta cobradora,
estando já quase toda a área do tórax adormecida por artimanhas que a
ignorância desconhece, a deixar insensível essa região, ou tão somente a elevar
melhor a dor na garganta, a qual engolira em secreções a língua de gritar os
gozadores do TRU, estes sim agora mais e mais longe e virtuais que o real de
sua triste vida... Em virtude do amansamento fugidio da cobrante dor, pode o
Toninho lá de cima feito rei e na berlinda notar o mundo tão seu conhecido fora
ou que seja ali nas imediações. Inclusive lhe dá oportunidade a lembrar-se nas
suas recordações de quando era gente, gente que nunca fora com toda força da expressão.
Vê o Zé Motoqueiro, seu velho inimigo
de outras existências, teimando em sê-lo nesta que termina com passos largos na
paciência do tempo. Porém não vê o Zé, vê a companheira dele, curiosa, os
meninos, certamente o homem no trabalho, pois tem o mérito ser trabalhador. Vê
com os ouvidos aquele vira-latinha deles, um escândalo no ladrar. Vê mais e
mais objetos de suas lembranças.
Vê Mercedes, porém a Mercedes está
morta. Vê sua casa com novos moradores, tem agora uma branquela invocada que
sabe não apreciá-lo; briguenta e faladeira ele sabe, todavia agora está
compungida a olhar o cortejo fúnebre, fúnebre! cruz-credo. Os vizinhos levam o
vizinho doente para a ambulância, ela conta isso, comenta com a prole. No
entanto a casa da Mercedes dispara nele recordações felizes, vê, revê seu
negrinho, o dolicocefalinho, até o esposo dela a sair ao trabalho no posto de
gasolina; alisa o cãozinho que já o considerava da casa. Oh, nada existe,
existe novo habitante e novo ladrar. Quer ‘olhar’ outras paisagens mas a
Mercedes se intromete na viagem, sorri mesmo a implorar-lhe quando ele discursa
a convencer a assembleia para mandá-la à prisão; e ela se vinga bem dando-lhe
um filho... onde estaria o seu negrinho, que a Tiana garantiu ter suas fuças!?
A dor quer voltar; ameaça, ele foge para ver as cercanias, a vizinhança curiosa
de olho comprido naquela triste novidade; os moradores conversam e falam
sozinhos sem conversar também, contam e explicam, o homem comum sabe de tudo a
nada saber.
Vê um barraco, o barraco lembrando um
acompanhamento que fizera, após velório pobre, em que esteve a pular como
visita solidária à família do morto. Ah Dona Morte, também aqui eficiente e
lógica, cobradora, semelhante cobrara seus irmãos saídos de anjinhos na roça.
Agora é ele que passa, não passa a dor, a dor volta, lenta e intermitente,
depois apressada a matar a dor possível da morte. Aí quase não deplora Dona Morte...
Vê um vizinho, vizinho novo na
verdade, nunca o vira. Vira sim um seu gêmeo; ah como não deve existir tantas
formas assim na fábrica da natureza. Por isso ele se parecendo com aquele cobradorzinho
chatérrimo “Sapo-Jururu!” gritava. Então despencou a turma do TRU, os
motoristas lhe gozando as torturas de ossos dentro do circular; ele? a resposta
pronta como defesa. Hilariante, eu era feliz sem saber disso, falaria falando
se pudesse agora falar, a repetir o chavão. Pelo menos não sentia dores na
época, não estava a se desmanchar, metia a língua nos amigos, os quais apenas
conhecidos desconhecidos nessa convivência pacífica; pacífica!
Vê a curva no caminho, a curva
lembrando o pai. O Chico um dia passou por ele nessa curva. O Chico não se cansava
a ser seu adversário ferrenho: batia nele criança, batia nele depois em
cobrança dos desconfortos na vida; e foi assim até à indigência eliminá-lo. Um
inimigo presente todos os anos da existência, desde que adversário a se
defender dele, togado e poderoso, a chegar nos últimos dias em que falava ainda;
e já não se falavam, berrando sim seus rancores. Nessa curva falsearam os pés
da amizade vizinha, inclina-se a padiola, ele sente um friozinho lá dentro
temendo despencar, porém se equilibram os carregadores. Agora estaria, pensou,
mais perto do longe da ambulância.
Vê galinhas, vê a cabrita sua mãe de
leite. Sorri, a bita forneceu dia destes o alimento ao funil de Tiana para ele
engolir e o corpo cansado vomitar. Ah, gostaria tanto agradecer a vizinha
fornecedora do leite, mas como, com que voz com que língua! Observa a Tiana
acompanhando aquele cortejo, pede-lhe com o olhar agradecer em seu nome a
mulher, ela não entende. E tinha mais, muito mais a externar gratidão,
agradecer a ela mesma e à Nina – entretanto não podendo mais, nem suplicar.
Vê um vizinho desempregado a pulular
entre dezenas desempregados outros; o homem faz um sinal de cabeça na sua
direção, chega a tirar respeitoso o chapéu, o chapéu igualzinho no episódio da
moeda... Relembrou o chapéu o chão o jardim a moeda, o sofrimento pela
indignação sofrida. Recordar é sofrer o sofrer. Respondeu ao vizinho
agradecendo com um olhar. Apenas isso poderia fazer...
Vê Branca, a Branca que não mais vê.
Por que teria pensado na mana; pensa e pensa nos sobrinhos assustados, pensa no
homem da irmã que bate nela e a cicatriza, o homem que nunca viu. E a Branquinha
sumira de vez! Sentiu no coração a moça, passou-lhe no cineminha que temos aqui
dentro as coisas que com ela vivera, seus carinhos sua luta a edificá-lo e para
defendê-lo. Junto dela vem Dona Maria de carona nas lágrimas das lembranças. Eu
era feliz e não sabia?
Vê o mais próximo, os próximos igual
Tiana, ela estando ali perto a enviar-lhe sorrisos animadores de coragem a
enfrentar o que enfrentar. A Sebastiana resumindo com sua presença nas
imediações a presença de todos minutos a ajudá-lo naqueles tais dias-noites na
noite do seu dia, a ajudá-lo sofrer menos; ou a sofrer apenas o suportável ou necessário;
ela a se desdobrar a se prejudicar decerto, a dar o mínimo de condições para
ele viver seu drama. Antes encorajava o enfermo, contava coisas do bairro,
contava dos conhecidos e parentes que ela sabia; chegou a ler com dificuldade
páginas religiosas que nem ela mesma entendia por iletrada quem sabe; dava-lhe
as doses amargas de medicamento; atendia como fora dona da casa visitas ao
rapaz e o rapaz da farmácia; ia receber os proventos dele e pagar suas contas,
aí prestando contas (o moço depois a conferir os números na saída da senhora,
desconfiado). Enfim fora Tiana as mãos os pés e a língua do vizinho, a
estimá-lo como a um filho doente. E ele, Toninho, como retribuíra!? Olhou de
novo à Sebastiana e chorou o choro dela.
Vê na Tiana a guarda boa de sua vida,
não só ali ao lado dos outros vizinhos a se substituir no transporte daquele
sujeito que tanto pulara conversador naquela periferia miserável como pulara
depois ao centro e ao centro de ônibus, a viver sua vida, ou a arrastá-la ameaçando viver. A
guarda é composta por dezenas, centenas talvez, de pessoas de boa vontade, não
só a carinhá-lo com a tolerância, mas muito mais amiúde não colaborando com os
gozadores contumazes, antes o tratando com respeito e cidadania. No entanto, passa-lhe
no cineminha mental apenas alguns nomes, não os que não tiveram nomes, estes a
somar muito na dedução do globo.
Vê o nada na lembrança. Que é o tudo!
ainda o nada. Nas fugas do seu ser, durante o efeito da dopagem na última dose
recebida em injeção, vê de relance o que desaparece como um relance na crise
por que passa. Fumega o prato no Boa Boia, ele come com volúpia, fala a
matracar em volúpia, volúpia de viver, volúpia cidadã a querer ser um igual nas
diferenças. Paga recebe o troco, entra noutro restaurante ainda mais grã-fino,
senta-se de bolsos cheios a encher de iguarias sem nome o estômago; espera
espera, o garçom passa volta passa e não para; estrila a cidadania, vem o maitre e sub-repticiamente informa “a
casa não serve negros...” Sai escandalizado, parecia-lhe a situação igual a da
moeda atirada num chapéu de pedinte. Três dias a sofrer a desfeita. No entanto
a desfeita – e todas as desfeitas – desaparece como relance, o relance é o
tudo, o tudo é nada aos que partem...
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Contudo
a dor volta. Cobrante num ferir e machucar sua paz de alguns segundos sem força
para minuto. Volta-se para ela, sem esperar encontrar-se em viagem, a viatura
da saúde ali pertinho certamente; a viatura levá-lo-ia à cura e ao retorno de
sua vida pregressa recente, como andarilho e brincalhão na cidade pequena
grande... Estarei acabando esta reencarnação sofrida! Não sabe. Sorri para
dentro, fora seu exterior já perdendo a percepção das coisas, quase não vê, vê
difuso e mais e mais escuro, estaria a ficar cego também! Num esforço vê, vê
pelo pensamento; e é uma visão cidadã, com valores da urbe, o pai sim autêntico
urbanoide, a viver na cidade com valores roceiros; ele no entanto se criara e
vivera na periferia pobre, se locupletara da cultura do centro, do jardim, do
TRU, um cidadão. Mas, sentia, estava a deixar ser cidadão, a deixar inclusive
de ser. Contudo a dor volta.
Ela pega carona no comboio de viagem,
os vizinhos vão silenciosos como levando a múmia do rei com respeito. A dor
grita, faz estardalhaço, escandaliza; entretanto a vítima só pode sentir, muda,
surda ao exterior; e até parece perdendo sensibilidade aquele corpo disforme e
não mais a pular de sapo, não mais se arrastando igual cobro, não mais a andar
torto de lado semelhando caranguejo, não mais se fazendo sentar como fosse aranho.
A dor esbraveja. Dá seu ultimatum. E
não precisa mais cobrar.
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- -
Esse? indaga o paramédico ao
motorista. Puxa pra lá, empurra mais um pouco, engancha. Isso. Vamos
examiná-lo. Olha outra vez o colega motorista, este não consegue ler seus
olhos. Então acresce: liga à central; anota aí o número do paciente. Não não,
não é para o hospital, caso de necrotério... os dados estão na ficha, isso aí,
vai lá: Antônio da Silva, 40 anos, solteiro, de cor, aposentado, Vila Nova casa
30; C.A., hoje às 10:51h.. Eles entenderão. (Fala baixinho “já freguês”).
Fecharam a tampa traseira do veículo,
o povo curioso, a Tiana a chorar; a estatística somando mais um em suas mentiras.
Marília outubro 2005 a novembro 2006
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília, 2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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