terça-feira, 24 de março de 2020

Olhos para Ver


085(postado no Blog Livros Inéditos)










                                Olhos para Ver
                                          romance
                                        Moacir Capelini
                                            
















moacircapelini@gmail.com


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                                                 “(...) para que não vejam com os olhos,
                                                                              e ouçam com os ouvidos,
                                                                              e compreendam com o coração(...)”
                                                                                              Jesus in Mateus, 13:15.

Esclarecimento ao Leitor


            Aqui estão uns apontamentos sobre o roteiro de um ser humano; por humano, esperemos desde já no personagem principal, nos outros também, algumas possíveis qualidades e os muitos defeitos. Ou não seria ele gente, no estágio que todos nós desfrutamos na Terra.
            Pretende o autor destas linhas abordar a problemática da reencarnação, mas sob o ponto de vista do personagem, um homem encarnado e de poucas posses culturais; apenas usando o mesmo seu direito de pensar. Isso porque todos temos esse direito, embora nem sempre possamos expô-lo, ou por deficiência na fala ou por deficiência mental. Aqui entrando a timidez a simplicidade e outras distorções de fundo psicológico ou patológico. Tem o escriba consigo que o simplorião muitas vezes fecha a boca, temeroso; todavia pode dar-se o contrário. Faz pouco observava um deste último tipo, bastante falador: em cinco minutos deu o serviço bravateando suas pequenices, enormes pra si; parecia um aparelho mecânico de comunicação; entretanto expôs melindres sociais de sua família, em que normalmente o homem se reverva e é inclusive prudente. O exemplar em exemplo narrou todos os podres íntimos dos íntimos. Neste ponto lembrando o personagem principal desta obra, a falar pelos cotovelos...
            Caso o Leitor desejar nas próximas páginas lirismo e erotismo – pode atirar estas folhas no lixo. Porque o escrevinhador expõe realidade. E a realidade frequentemente dói.
            Em última análise, pretende pôr a verdade, a verdade com suas tristezas e alegrias, mas, claro, literaturando.



































Sinóptico:

         
          Primeira Parte, pág. 7
                    O Sonho em Vigília
                        O Sono Desperto

          Segunda Parte, pág. 27
                    Recordações do Sonho

          Terceira Parte, pág. 43
                    Despertar, em tempo?

          Quarta Parte, pág. 97
                    A Dor, Mestra nos Ensinamentos
                        Presente Mais que Imperfeito do Passado

          Quinta Parte, pág. 129
                    Conclusão – o Declive
                        o Declive Abrupto























                             



















                        Primeira Parte:

                                                  O Sonho em Vigília

                                                           O Sono Desperto
                                                     

          “Cada um de nós – com exceção do santo – é muito indulgente consigo próprio.
               Tentamos não recordar as vilanias, as fraquezas, as infâmias cometidas; esconder
                e negar o nosso mau caráter e, à força de  querer esquecer e ocultar, terminamos
                por acreditar que nossa alma é pura, e belo o nosso passado.”
                                                                                                        Giovanni Papini  


1. Agora não fala, pensa. Somos cada unidade em bilhões um mundo a se pensar mundo; às vezes comunicamos o pensar, apesar das limitações. Toninho não pensa nas limitações; ou por outra, é nisso que pensa, pensa só nisso. Em quantas oportunidades o homem exagera nesse pensar; aí perde o foco da vida, não vive a vida, vive a vida mal vivida – perde a perspectiva, não vê o mar: vê a canoa, exagera a canoa, a canoa se perdendo a virar, depois, os restos duma transformação química. Não será a água ou a embarcação a se perder, sim o barqueiro. E isto é grave. Não pensa nestes termos.
          Vê somente o drama em que vive, em que sobrevive.
          Vê bem ouve bem sente bem. Vê inclusive mais do que deve, a libido cobradora, as mulheres mais belas do que deveriam ser as mulheres; sente as suas limitações. E chora e esperneia e rumina e se revolta. Depois, mais depois, aceita, ou despencaria ou se entregaria ou se negativaria; e isto devendo ser assunto para médicos e analistas, no entanto realmente problema de administração da necrópole do coveiro...
          Enquanto, pensa.
          Cultiva a lembrança.
          Nascera como promessa na família rural pobre. Somos sempre promessa ao mundo. A família numerosa era saneada pela estatística e pela natureza, ajudadas pela ignorância e pela incapacidade econômica; ou seja, a equação a ser resolvida no surgir mais e mais bocas e se ganhar menos e menos na lavoura; ou melhor da pior, o mesmo, entra ano sai ano. A isto o vulgo dá o nome de empobrecimento. Os filhos vieram em magotes, Dona Morte não os poupou, mesmo ao primogênito. Abortos naturais, Dona Maria era fraca e não ‘segurava’ a cria; ou forte: todo fraco que envelhece, embora se possa admitir não existência da impunidade após os cinquenta janeiros, virados dezembros na velhice; todo fraco que envelhece é um forte, a perdurar, teimoso, nas lides. Bem o caso da mãe de Toninho. E o fato de ela oferecer à roça grande número de braços puxadores de enxada provindos do bendito ventre (admitindo-se uma posição mais cômoda a Seu Chico, o macho ‘faz’, no pensar caboclo, faz e some pescar; a fêmea a ‘curtir’ sua gravidez) sim os filhos dela no eito, fora os que saíram de anjinhos ou enterrados pela parteira improvisada no fazer abortos; esse fato não pôde mantê-los no campo (até à época pensava o povo que quanto mais braços a capinar, mais ‘rica’ a família). Ao nascer mais uma promessa ao mundo carente, que chamar-se-ia Antônio, a mãe devota de Santo Antônio, casamenteiro pra valer; ao vir Toninho já andavam de mudança à cidade, na busca do paraíso e do milagre ao bem-estar, como imagina o matuto; este depois a virar urbano ou ‘urbanoide’.
          Chega a promessa. Ah a promessa...
          Trata-se dum menino chorão a espernear e a custo aprendendo com o instinto a mamar, D.Maria lá em cima a sorrir ao bobãozinho sugando embaixo. Porém, pobre dela, com umas rugas de apreensão na testa entre as sobrancelhas não tratadas de roceira; a cria era negra como a genitora, retinta igual, mais escura que o pai, embora a vermelhidão comum nas crianças nos primeiros dias como sói ocorrer nos negros. Mas não sendo bem esse o problema maior: o menino era todo torto. Torto, retorcido! feio, horroroso mesmo, muito embora a senhora não exagerando a feiura, antes crendo haver alguma beleza naquilo a se contorcer pelas comuns dores de barriga da barriga recém-nascida, a tentar encontrar o leite. As mães têm esse particular: pôr mais tarde paninhos quentes, a desprestigiar a crítica severa da sociedade. Coisas do amor.
          Não obstante, o garoto um verdadeiro monstro; se bem que mesmo a monstruosidade das formas possa se apresentar numa gracinha, como é encontradiço nos pequenos. Tanto assim que depois – já a brincar a pular a correr, não se exagerando só exagerando o pular como sapo ou saci e a correr nunca, nunca chegou a correr o infeliz, a brincar sim com as outras crianças e os manos sobrantes do serviço eficiente da senhora Morte – depois engraçadinho contudo Antônio a receber apelidos demeritórios, como Sapo Caranguejo e Aranho; Aranho assim como diziam cobro. Mamãe, a lamentar primeiro depois a defender o mais fraco da prole, espantando e ralhando os ofensores; até surra ocorrendo nos abusos dos de casa contra o Antônio; nada adiantando. Porque a sociedade é impiedosa na adjetivação e se supõe perfeita, sem precisar ter direito de atirar a primeira pedra. Quando criança, na escola, a escola que o rapazinho nunca cursou, nela mais se picam a fustigar apelidos; fora dela, seja no meio do brinquedo e posteriormente nas atividades adultas, ainda aqui os apelidos pegam; mais ainda quando a vítima reclama e se defende; é engolir a afronta e o Toninho então respondendo por Sapo por Caranguejo por Aranho.
          Infelizmente quase sempre a comunidade por volta tendo lógica na assemelhação: o caso do Antônio, a andar de lado nos seus retorcimentos, a se aproximar do caranguejo; a pular em tremuras no semipasso a imitar o sapo. Quase ‘cobro’, a se arrastar pelo chão! Andava, se deslocava gozado; gozado aqui na alegria triste do ‘mundo cão’; andava andandinho, a remexer e a encolher as mãos e os braços para dentro, pressionando o corpo disforme; a funcionar as pernas curtas uma outra comprida igual molas. O corpo todo parecença uma letra zê maiúscula, indo a ziguezaguear igual molejo de carro. O movimento da criatura num parecer, e era, esdrúxulo e extravagante; muitas vezes a extravagância a chamar atenção dos circunstantes. Não usava, nunca usou, muletas e nenhum apoio, a atrair cuidado como vítima; era pelo vencer, se não a vencer, a vencer a si mesmo.
          Assim cresceu, assim o temos aos trinta e oito anos de vida. Vida aqui precisando discussão formal e aprofundada, se vida for uma existência. Nessa vida sofreu as humilhações as limitações; sofreu as necessidades; pois as necessidades mentais ou fisiológicas não indagam sobre as deficiências congênitas. Dessa forma possível avaliar o dia a dia, desde a consciência até à inconsciência na revolta, revolta existindo. Aos 38 o Caranguejo acumulando experiência do Sapo e do Aranho, os quais se formalizaram no Antônio com direitos constituídos de cidadão, mesmo considerado um urbanoide.
          Todavia, não bastando as deformações ostensivas ou aberrantes, sempre visíveis no meio das deformações mentais invisíveis de muitos que o cercavam; havia uma questão mais flagrante no bater do entender social, ou dos costumes sociais, mesmo numa terra dita não discriminatória: o menino, agora adulto, mais que adulto um adulto velho ou precocemente envelhecendo, ele um negro retinto.



2. No limiar da transferência familial à cidade o grupo andava reduzido. Dona Morte fizera o trabalho a contento; os escapáveis da foice já crescidos, casando-se cedo no costume roceiro e se tornando independentes; se bem que um mal às vezes, pois alguns filhos não deixam a barra da saia materna, antes acrescem mais trabalhadores na figura da esposa ou amigada e os filhos, quando não são todos a mais, em pesar no orçamento do velho. Seu Chico não era de carinho nem de boas palavras, além da prova real do ganho exíguo; não sendo possível tratar tanta gente; assim, nesse limiar a família constava ser pequena, os trecos no caminhão de mudança também pobres e poucos. A gente se reduzia à Mãe o Pai o Aleijadinho e a mana Branca, esta entre os mais velhos da prole.
          Branquinha, dessa forma chamada por ser uma negra tendente à mulata e não retinta como a genitora nem reluzente igual o defeituoso (hoje se usando eufemicamente a expressão ‘deficiente físico’, sem resolver o drama humano, porque as palavras não resolvem problemas às vezes criam problemas) portanto uma adolescente ‘branca’, carinhosamente tratada Branquinha. Branquinha fora do tipo comum entre pobres com filhos numerosos: espécie de mãe dos irmãozinhos, dos que iludiram a doença a fraqueza e a morte, e mesmo dos que se apartaram da família constituindo novo lar; ela era mais mãe do pobre menino entortado que Dona Maria. Consta fosse também Maria, Maria Aparecida, tomando o nome duma irmã anteriormente ceifada por Dona Morte. Perdurou o apelido em vista sua ‘brancura’ nos traços africanos.
          Foi quem mais protegeu Antônio na fúria dos colegas de brinquedo e dos desafetos familiais do infeliz garoto.
          Porém eis que se vão à cidade.
          Entremeio à fuga, fuga é o termo a contento numa transferência do campo ao meio urbano; entremeio sempre passa o homem do campo pela vila, ajuntamento urbano acanhado, morando nela mas trabalhando na roça nas imediações como antes; posteriormente muda-se à cidade mesmo. Ora, a cidade é pequena, parecendo ao matuto um ajuntamento enorme. Mais para diante visa a capital, de um tamanho que não tinha antes condição para avaliar. Neste ponto é a falta de emprego para sustento a forçá-lo à nova mudança. Algumas famílias roceiras permanecem mesmo na cidade grande pequena, se ajeitam; este o caso da família de Branquinha.
          Branquinha é um nome mais próprio às cadelas às gatas ou às galinhas nas estórias de era uma vez... Na casa do menino Antônio veio por gesto carinhoso da mãe, o pai não tendo desses desperdícios por durão. Ela garantiu a disciplina no lar, educou o jovem mano, passou ela para ele as primeiras e únicas letras que aprendeu na escola da fazenda, enquanto o pobre não podia frequentá-la por deformidades. Ao chegar na urbe continuou a exigir os costumes, tendo inclusive autoridade por sua moral ante os pais já cansados e a família minada por dificuldades financeiras enormes, chegando às raias da fome. Foi ao trabalho, empregou-se como doméstica. Aí sucumbiu: o marido da patroa abusando da jovem empregada. Engravidou, perdeu o filho e o emprego. O de sempre; a acrescer nas agruras da pobreza.
          Enquanto isso os seus tentavam sobreviver. A velha Maria a lavar roupa, a fim ter meios ao menos à compra de medicamentos (a miséria aos pobres vem comumente acompanhada pela doença, a corrida às filas da saúde pública, esta quase sempre doente e insatisfatória). O velho nada arranjava, ou por idoso ou por incapaz, não sendo pequenos expedientes. Não se podia contar com o Antônio, Toninho para ela, Caranguejo Sapo Aranho aos de fora; pois se aos admitidos por normais, que são comuns, a eles não sobram colocações... Bem mais tarde, isso beirando à velhice do pobre rapaz, arranjaram os caridosos uma ajuda, talvez da prefeitura. Até nesse tempo um peso mais ou menos morto o deficiente. Ela tornou a se empregar fazendo bicos e arranjou faxina, para auxiliar um pouco nas despesas da compra na venda. O homem da periferia se enterra muito nos botecos, a cachaça costumeira sim, também comprando alimentos com preços exorbitantes. Eles, gente de periferia. Branca trazia quando possível os bens da cidade, do centro onde faxinava; entretanto os seus não se livrando do habitual ‘pindura’, que é a venda a prazo embutidos lucros e juros, então anotando-se cada compra numa folha ou caderno, precariamente.
          Assim envelheceu a moça que, sem ser medonha como o mano aleijado, era feia e passada. Desse tipo de ‘tia’ como se diz, dessa que depois vai refugiar-se na igreja e vira carola.
          Resumindo uma história curta da vida longa de Branca, que era preta trabalhadeira e amorosa.



3. À mulher cabem as dores do parto. Ao homem a bravata ou a procura da manutenção da casa, isso não funcionando no campo nos velhos tempos, onde as mulheres trabalhando mais que os machos em casa nem se fale mas na roça; ou pelo menos não fugindo ela igual a ele à pesca à caça ou mesmo fazendo corpo mole. E se tocasse ao macho Homo sapiens parir, o planeta não teria dez por cento da população, porque o homem foge da dor e provavelmente morre mais pela dor que a companheira experimentada e forte. Ela enfrenta os enigmas biológicos; Dona Maria dava excelentes exemplos dessa capacidade, fornecendo muitos braços à lavoura; lamentavelmente a Morte é que trabalhava de bandida na estatística familial. Além do mais era muito suscetível a viver as dores morais, por sensitiva e sentimental. Assim D.Maria. Verdade que exteriormente analisado se possa admitir grosserias de fato nas mulheres da roça, sabido isso válido grandemente aos companheiros delas. Contudo o coração materno dando mostras flagrantes de apego de amor e de carinho aos seus. Aqui apenas uma pincelada sobre Dona Maria.
          Visto e conhecido o escorrer lágrimas na pobre mulher; provavelmente uma linda fêmea da espécie na fase da conquista amorosa pelo jovem Francisco; agora, no tempo a se mudarem, uma senhora precocemente envelhecida, cheia de rugas, a se perdoar nisso ranzinzices; cansada, vencida, vencida antes pela Morte ingrata com sua prole. Parecendo mais, submissa, então ser filha da filha restante, mandona, que mãe de Branquinha; esta tomando sempre a frente na casa, a enfrentar inclusive as machezas paternas, já num declínio acentuado. Ao chegar à cidade, ainda D.Maria permaneceu submissa. Antes aos caprichos do esposo, mormente estando bêbado; às necessidades dos filhos, mais ainda aos doentinhos e futuros anjos no caixão branco ou rosa; depois à autoridade da filha enérgica e controlada.
          Para Dona Maria aos quarenta dava-se cinquenta anos; aos cinquenta já se lembrando a teimosia dos idosos e a caduquice. Isso tudo não assustando um povo que descende de indígenas, os quais, sobretudo em suas fêmeas, estão acabados fisicamente, não indo além dos quarenta dezembros. Maria encarquilhava sem espantar as imediações acostumadas na periferia em que residiam. Aliás periferia da periferia, porque numa cidade grande mas pequena os urbanoides fogem, impedidos pelos bolsos, fogem até da periferia com posses, esta sim onde se pode tranquilamente dever aluguel ou construir terminando a residência numa curta eternidade... Maria sendo velha, a morar na periferia nova, a qual dista sempre perto da periferia ‘rica’ e longe do centro mais velho, ponto nobre ou comercial duma urbe.
          Não tinha criança pequena em casa; ou neto, o mais comum a existir na sua idade; não tinha para lhe reclamar afagos. Os filhos, criados ou mortos, os netos longe, o mais próximo falecera nos primeiros dias após o parto da filha Branquinha. De maneira que a senhora estragada pelo tempo e o viver passava suas horas nas lamentações com as lamentações vizinhas ou a lavar com dificuldade peças de roupa; a cozinhar o almoço, a tentar satisfazer o enjoadinho aleijado, o qual parecia achar a coisa mais importante no mundo o prato. Demais, a ouvir os resmungos do velho. Não obstante pouco se falavam, ao gosto dos casais idosos, como se nota frequentemente, parecendo que os assuntos estejam esgotados por causa de tantos anos em convívio; não esgotados às brigas conjugais... Sabendo-se entretanto que nessa altura já não corria ao terreiro fugindo da embriaguez e brutalidade do consorte, ela sem sorte a espirrar-se com os meninos, até o macho amansar na cama de atravessado a feder as águas do mijo. Não. Nem o seu velho tendo tanta categoria e macheza, mais recolhido à ranhetice das maneiras ou na mudez. Ora, fosse o contrário, a filha defenderia a mãe, enfrentaria a oposição. Nisto sequer precisando demais coragem. Enfim levava Dona Maria uma vida marasmática, ora quebrada a rotina pela rotina da troca de visitas vizinhas.
          Quando Toninho a festejar sem festa seu 38° aniversário, já ele órfão; o pai viúvo, Dona Maria a saudade.



4. A definição burguesa de família apresentava até pouco tempo – pois agora o casal tem um filho ou não tem nenhum – o pai a mãe e dois filhotes, quase sempre casalzinho. A família de Seu Chico até parecendo burguesa sob esse prisma, porque composta por ele a esposa e o casalzinho de filhos, a Branca e o Antônio; claro, não se mencionando os casados e os engolidos por Dona Morte. O Velho, velho; a Velha, nova no atestado de batismo, o casal não dispondo do registro civil sequer no matrimônio, feito na igreja apenas, seguido que fora do baile matuto com sanfona no sábado; e já na segunda-feira o cabeça de casal e a bela esposinha a puxar o cabo da enxada na plantação; enfim o costume em curso. Os últimos filhos possuíam registro de cartório, os primeiros somente o de batizado; assim Branquinha era apenas batizada, o Toninho devidamente documentado na lei.
          Seu Chico na verdade não era mais o cabeça de casa, envelhecido e mesmo desmoralizado; a mulher era forte, como afiançado anteriormente, porém fraca; o meninote aleijado, um dependente para tudo. De maneira que o título de chefe cabendo mais à Branquinha, ela cheia de iniciativa e com muita força física e moral. Nisso correndo à boca pequena que Branca seria a machona da casa... mas quem tapar língua vizinha! Ainda assim poder-se-ia dizer uma família pequena, nos moldes burgueses.
          Instalaram-se precariamente, tudo é precário aos sobreviventes da guerra na roça, na qual o fazendeiro sempre leva a melhor e os trabalhadores a perder. Chegam com seus cacarecos, moram improvisadamente aqui e ali, recebem a solidariedade dos outros pobretões, é a única riqueza que um pobre pode oferecer a outro desvalido e necessitado. Acabam num tugúrio, uma tapera, a ofender a arquitetura e enfeando a urbanística, ajudando enfim a acrescer mais um feio à feiura geral do quadro na periferia miserável; a outra periferia tem feição de cidade mesmo, com ipeteú e às vezes também com água encanada e esgoto; a periferia miserável sobrevive mais afastada e é um arremedo das favelas que prejudicam os cartões postais das grandes cidades turísticas. Os de Chico aboletam como podem, igual outros migrados fizeram, e se desgastam a procurar emprego, deixando a exigência dos registros legais a virar trabalho apenas ou a pegar serviços extras, bicos, sem quaisquer garantias.
          O chefe, destronado, era um preto enrugadinho, baixo fino magro arcado, isto decerto defeito pelo puxar enxada no campo. Dona Maria, então uma senhora acabada e de aparência envelhecida, com seu eterno lenço amarrado na cabeça a encobrir cabelos brancos e um que outro fio negro, ela ainda mais baixa que o esposo. Branquinha seria a com maior estatura na família, ao menos mais alta que os genitores, corpulenta ao chegarem na cidade, e mais volumosa ainda após o fracassado parto; talvez um pouquinho gorda e um bocado disforme; ou só desleixada, o que muitos culpam à condição de pobreza, outros à ignorância, alguns às tendências da natureza; ainda assim tendo um quê de beleza e de simpatia. O menino era inclusive menor que a irmã e os pais ao chegarem; depois adulto poderia ser apontado como o mais alto da casa, a ultrapassar a altura mediana dos seus; no entanto seu aleijume encolhendo bem o pobre e deixando-o pequeno e baixo; se se pudesse endireitar seu corpo torto e corcunda, esticá-lo, esticar sobretudo as pernas, tomando a mais comprida como referência, Toninho seria um homem alto. Aí sim deixaria o pai lá embaixo, quem sabe envergonhado perante o filho ou a sorrir pela desvantagem. A realidade mostra um povo roceiro migrado dependente e fisicamente no ferir a normalidade da compleição. Contudo, isto sendo um julgamento apressado, pois a gente da periferia é quase sempre feia nos seus andrajos, sequer notando-se as desvantagens do povo de Francisco, um homem meio quietarrão.
          Seu perfil é curioso.
          Tem ele um jeito do matuto desconfiado ou temeroso, não é um capiau falante, não era demais mesmo quando se embriagava, agora a filha cobra e exige posturas, controla o pai nos abusos no boteco, ajudada pelos melindres da saúde do velho. Este conversa também, embora baixinho com medo em ser ouvido, conversa com os amigos, menos amigos de fato do que colegas de infortúnio; falam suas coisas, contam recontam suas estórias, nunca havendo real história; e riem ou se espantam com os enredos; mas Seu Chico mais ouve e fala, sim, porém pouco. Na sua casa só resmunga, o que se interpreta por ranzinzices contra a mulher; coisas do casal. Com o filho é quase mudo; mudo ou interrompido pela filha, a última a falar e pôr pingos nos ii, pôr ponto final nas desavenças. De resto apenas canta de galo o Velho no dia do pagamento; traz um salário mínimo magro como ganho talvez de aposentadoria e quer já determinar atitudes no lar; só parando quando a filha fecha a cara ou dá umas boas em voz imperante; aí se cala, entrega os pontos, dá-lhe quase toda a riqueza nas mãos, ela contadora e auditora na economia familial. Com certa razão: agora têm os seus sobretudo a aposentadoria do Francisco, conseguida após luta burocrática de anos: antes quem mantinha a casa era a filha, a qual continua a conseguir alguma faxina como ingresso nas finanças deles. Somente muitos anos depois entraria um ganho permanente do rapaz, aquela questão de ajuda da prefeitura.
          Assim os problemas deles.
          Foram anos numa tentativa de viver; mais a sobreviver. Comida moradia remédio. A familinha também sonhava, o pobre migrado à cidade quer viver numa semelhança aos outros habitantes, tem seus desejos e sonhos. A vida já não deixa ser um sonho; por vezes se acorda na realidade, e a realidade frequentemente dói fere desavisados.
          Enfim, lembrando outra vez o dono da casa, não é proprietário do imóvel e muito menos chefe da família.
          Não obstante o velho Francisco já não tendo mais tantos desejos, poucos eram os sonhos; a idade exigia que não tivesse mais esperança. Ou ilusão. Ora, sem ilusão não há realmente vida ao ser humano, apenas arremedo de vida.


5. Foram anos a morar na periferia miserável da grande pequena cidade. A população regurgitando seus habitantes, ora expulsando os mesmos à capital ora a outra pequena grande urbe, com seus problemas e necessidades semelhantes. Contudo os de Chico perduraram na habitação precária, precária como as casas da vizinhança. Uma família outra também perdurou; aliás já se encontrava ali na periferia pobre quando a gente do Toninho trouxe seus cacarecos simples amassados quebrados entortados igual o garoto. Dona Mercedes se encontrava com a filharada e seu companheiro nas proximidades; e continuou ali morar. Era quase única a residir num imóvel próprio, algo espantoso naquela pobreza com aluguéis atrasados, embora construção de pouca monta; Seu Chico mesmo pagava insignificâncias, o que já era um despropósito ao rendimento exíguo dos seus. Outras casas mantinham até boas relações com a gente do aleijadinho, todavia a Mercedes desde o primeiro dia foi xeretar as coisas dos novatos, se tornando amiga, apesar da desconfiança nunca desmentida da senhora Maria por aquela branca meio atrevida.
          De cor branca mesmo não era, talvez para efeito de estatística, o pessoal do censo não se aventurando muito naqueles perigos; seria um voto meio forçado a favor da população caucásica do país. Apresentava-se meio baia, esta uma cor um pouco inventada a desescurecer gente preconceituosa; enfim amorenada com mesclas claras, sobretudo nos braços e no peito, onde pujavam seios respeitáveis. O marido de Mercedes sim poder-se-ia dizer branco, mas moreno e mais moreno em virtude do sol no serviço do posto de gasolina lá no centro. As crianças igual filhos de tintureiro, aqui no pichamento da língua ferina; de várias cores; um dos garotos sendo louro dolicocéfalo e de olhos azuis, num parecer mais certo gringo que rodeara a vila uns tempos atrás. Por causa disso a vizinha da senhora Maria andava falada, mal falada, na miséria geral; a miséria nos ganhos é igual às perdas na miséria moral; ou se acompanham.
          Apesar do falatório a vizinha foi sempre presente e amiga para a família de Maria. Sobretudo nos momentos difíceis dos primeiros meses de estada. A amizade se solidificou.
          Toninho andava muito com os filhos maiores da Mercedes. Crescendo suas torturas ósseas, ia muito à vizinha. A mãe sempre a reclamar do “rabicho” como falava D.Maria, enquanto Branquinha não votava contra a atitude do irmão, era inclusive muito condescendente com ele desde os tempos de roça; além do mais se dava bem com a vizinha, estimando aquela mulher bonitona, e mesmo tomava frequente um cafezinho na casa da outra; por vezes servindo a senhora todo sorrisos como confidente de Branca. Tem gente que atrai por penetrar mais fundo no coração de outrem; tinha Mercedes esse talento, daí achegar-se Branca. Já o Velho Chico não se sabendo o que pensava da situação, porque sequer comentando com os amigos, só ouvia que o vizinho frentista no posto possuía lá alguns chifres; sorria; e no lar não dizendo coisa alguma; aliás pouco permanecia com os seus, mais nesse menos quando as mulheres se encontravam a falar suas coisas: fugia. Mas realmente não conversava com os seus, levantava-se cedo, já confiante ter aposentadoria e não precisar mendigar biscates para fazer; levantava-se e ia papear com os pares, a fumar a jogar cartas, a rir-se ao seu feitio. Enquanto isso, era como se diz o circo a pegar fogo, entre as mulheres do lugar.
          O comum nas áreas pobres nos cortiços e nas periferias de todas urbes o falatório os problemas; também o equivalente trabalho da polícia e, para não fugir à regra, o que acontecendo lá. Lá dessa maneira, um pouco diferente só em duas pobres residências...
          E talvez não fosse o caso dessas casas o diferente numa periferia mais parecida com favela; devendo haver mais gente avessa às brigas e presença policial.
          Assim as relações, embora possíveis discussões miúdas e desentendimentos passageiros, as relações foram se fortalecendo entre ambas casas vizinhas, mormente entre Toninho e Dona Mercedes. Nisso depois o povo falaria, sem provas suficientes e nem exigências maiores do principal interessado: o esposo de Mercedes – falaria de abusos do rapaz nas intimidades em casa dela; com exagero, pois os abusos teriam iniciativa feminina...



6. Agora começa a esboçar um Toninho se pensando gente; no que não se enganava, por de fato gente. Gente é um animal a se imaginar o centro do mundo, quiçá o ponto em torno do qual gira todo o universo. ‘Petitico’ assim, ainda os seus presos aos problemas da lavoura, já descobrindo ser um ser; com suas necessidades e suas possibilidades. Criança é se não egoísta egocêntrica. Aos poucos se equilibra e chegaria no futuro a hipervalorizar as necessidades dos outros, bom a um bom ‘pessimismar’. Antes de se mudarem à cidade, esta que se pensava grande quem sabe enorme mas pequena como ocorre no interior, antes mesmo iniciava ter consciência do seus impedimentos e das manifestações curiosas em si, dentro de si; evidente, não equalizando por ser um processo de toda uma existência, evidente que sentisse na pele suas limitações. Natural se descobrir negro, embora não soubesse que na sua terra não é uma grande vantagem ser de cor escura; porém as limitações mais flagrantes eram aquelas do deslocamento e dos movimentos. Conscientizou as barragens na sua frente; não podia correr de ninguém, ninguém ficava atrás, por suas pernas tortas... e as mãos não lhe obedeciam as ordens a contento. Os coleguinhas, os manos piormente! nenhum tolerando as insuficiências; antes ressaltando sua fraqueza e seus defeitos físicos. Pobre dele. Nesse ponto chorava. Mais tarde, adulto, velho, chorará de coração com um sorriso de constrangimento nos lábios. Chorava; às vezes apanhava ou apanhava mais por chorar; chorava e tinha o socorro e a compreensão da mãe e da mãe de fato, a Branquinha, meninota empinada, atração dos rapazes roceiros.
          Contudo o que mais chamava atenção, lógico descobrir cedo que o fenômeno não devesse ser alardeado (os seus inclusive chamando-lhe o cuidado para não falar sobre o assunto com os de fora); o que mais chamando atenção nesse frágil e grotescamente deformado corpo era o seu sonho. Não o sonho que é sonho que temos todos humanos, desses de contar a outrem para todos rirem do absurdo. Não. Um sonho, certa manifestação igualmente absurda, ou ainda mais absurda. Porque era um sonho acordado.
          Dona Maria notara a manifestação no menino Toninho a se apegar aos cerimoniais religiosos católicos; nos primeiros brinquedos vivia a dizer missa; mais interessante ainda o fato de cantar durante a mesma na forma gregoriana. Ora, pensava a mãe, tão ignorante nessas e em todas as coisas fora as do coração, o qual percebe as profundidades; ora, nunca levara o filho à igreja; ela mesma, difícil fora convencer Francisco a contrair consigo as núpcias na igreja da cidade, onde foram a cavalo e também os convidados, todos voltando antes de começar o almoço roceiro com festa e o baile. Os filhos nem os que Dona Morte levou passaram pelo templo, não sendo ao batismo comum. Não se ia à igreja. A religiosidade familial só se exercia nas novenas e rezas dos terços; e nunca Toninho a acompanhara, pela dificuldade na locomoção. Daí o espanto da senhora diante do fenômeno. O espanto dos outros também, parentes e vizinhos.
          No entanto as manifestações estranhas eram mais abarcantes que isso, quase palpáveis e exteriores. O garoto ‘sonhava’ acordado.
          No começo narrava aos seus, ouvindo por isso a gozação; para depois apenas confiar o segredo às duas pessoas mais tolerantes, ou seja a mana e a genitora. Mais para diante calou-se, guardou pra si aquela loucura, diziam os conhecidos ser presença do início da loucura; ou, aqui pior ainda: a constatação do sopro de satanás! A tanto que D.Maria proibiu, não o sonhar, impossível, a divulgação daquelas maluqueiras. Passou o menino a só narrar as coisas ao outro eu que temos dentro de nós; somos na intimidade duas forças quase contrárias a nos desafiar. Às vezes era flagrado a conversar sozinho; isto em nada depondo contra ele e em nada surpreendendo aos circunstantes, observado muito nas crianças.
          O que sonhava. Via e ouvia dentro de si, em vigília. Ele sentia-se um homem branco, nada deformado como deformado era no físico; esse homem a pronunciar discursos intermináveis, para ferir, e a se prevalecer de sua posição num congresso. Chegava a escutar a grita alheia contra si. Mas, conscientizando seu despique sobre aquela submissa plateia. Daí, intimamente se sentia bem, ao vencer oposições. Chegava a sorrir de suas vitórias por cima dos adversários fracos e vencidos no debate em altos brados. Ouvia-se e ouvia os outros. Porém a imagem sumindo, olhava o sol os animais a gente ir e vir; olhava, desgostoso, aquele seu esqueleto destrambelhado, a andar qual aranha ou a se arrastar de lado como caranguejo... pior nessa volta ao hoje de então: ele se percebendo um menino não apenas deformado mas agravado com a pele reluzente de um negro! Por vezes chorara o amargor da realidade que já lhe pesava e deduzia demais no soma franzino.
          Agora, na periferia pobre, um jovem de seus vinte anos narrava tais ocorrências à Mercedes, ela a balançar a cabeça e mesmo a rir-se, incrédula.
          Quase perdeu o ímpeto de voltar àquela moradia vizinha, em razão do descaso. Engoliu o café. Voltou. Tornou mil vezes à Mercedes, já por outras razões...
















































                               Segunda Parte:

                                                  Recordações do Sonho


                              “Só gemendo é que se chega à grandeza da condição humana.”
                                                                                                        Antonio Callado



7. Era um dois de novembro, Finados, o sol escaldante nem este mesmo se aguentou, sumiu, a escurecer o claro do dia em chumbo de preocupar as mulheres lavando roupas (será que vai secar, comadre!) as roupas a balançar nos fios de varal, o chep-chep do esfregar e mais muito mais, o tagarelar, rir falar emudecer nos melindres e se rir de novo, olhar-se se entender e rir mais. As crianças não, não precisam do feriado a brincar, brigar também, brincar nas suas coisas, pés descalços no chão, barulho e gritaria menina, dos meninos, elinhas a ajudar as mães exigentes na cozinha enquanto elas mesmas a conversar abobrinhas na rotina nos tanques de roupa improvisados quase sempre, gastos sempre. Não festejavam as tristezas a lembrar seus mortos? Viviam o seu dia a dia; ao povo de periferia não cabem feriados, às vezes respeitam os dias santos; e aí devendo estar compungidas e solenes, não estavam, estavam a trabalhar e a boquejar o que se deve e encaixando bastantinho o que se não deve, falando borrachas abobrinhas, a conversa que enche a vida do ser.
          A Branquinha não, faxinava na cidade, embora Finados. Dona Maria participando daquela assembleia e dos risos da assembleia, apesar de comedida pelo tempo que obriga o velho mais a chorar e antes lastimar desditas.
          Os meninos, um que outro xeretando com os grandes e por volta deles; os maiores, espalhados por aí.
          Agora concentrava uma porção respeitável no desrespeito de brincar mexendo com outros grupos de moleques ou a rodear a casa do seu Zé. O Zé acelerava a moto, fumaçava tudo ao redor; parava funcionava mexia rolava trocava olhava ralhava com eles e novamente experimentando se o veículo a se normalizar; e de novo acelerava fumaçava e, ah, xingava, sem que isso seja lá grande ofensa ao ambiente. É assim um feriado para o trabalhador que vai longe ao ganha pão. Durante a semana sai a barulhar escapamentos, primeiro a vizinhança depois as ruas, por não ter tempo hábil a consertar sua condução; segue falhando volta falhando. Domingos e feriados, além de aguentar a chateação da mulher e dos pequenos, arruma a motocicleta; têm os que vão a pé (ainda como bons urbanoides dizem ao gosto da roça “di a pé”) e uns poucos tomando ônibus; agora o circular passa perto – demora atrasa encarece mas passa – não tanto próximo, pois precisam caminhar até à rua de cima na periferia rica, a enfrentar o trajeto de meia hora andando até ao ponto do coletivo; e aproveitam a ouvir também a sinfonia dos cachorros nos contrapontos e talvez as ofensas ladradas ao ver gente a passar. Hoje não, é feriado.
          Ninguém pensa no morto. Ah sim, têm várias mulheres a falar nisso. A população pobre ao redor não; sim, mais pensa nos seus vivos dramas próximos. Então discute-se dentro de casa, na semana o homem saindo cedo, sem tempo para brigas. O feriado é positivo nesse negativo. Às vezes não, são os costumeiros e diários entreveros com os filhos, da mãe com eles; quando também ela não longe do lar, no lar burguês a trabalhar ao sustento ajudando seu homem, sempre ou quando esteja desempregado, hoje acontecendo muito. Quantas vezes, por culpa do dia do Senhor ou do feriado do homem, aguardente a reforçar, não descamba o casal nas baixarias e violências! Aí a polícia. Porém tudo serve de consolo ao magote de crianças ver e assistir o espetáculo, antes a luta labial e a de fim de contas; depois a viatura dos homens fardados. Ainda a sobrar posteriormente muito bate-boca. A periferia é um cortiço de conversas-fiadas e paralelas, cercada por nada em todos lados. Na periferia rica também é assim, menos assim. Mais na miserável onde não há peias às línguas. Prato cheio ao público infantil, talvez ótima escola.
          Os de Chico não fugindo à regra; o entortado entre os menores, o Toninho cada vez procura mais o grupo adolescente, a já falar menos fino e mais grosso num falsete.
          A família se adequando ao meio, pelos anos então residindo no meio. Parecia sonho mas viviam agora na cidade. Embora apenas por uma força de expressão o dizer-se urbana a periferia. Já os mais velhos, não contando Branca, sempre voltada às coisas de sua nova condição e integrada; o velho e a velha sim tendo essa perspectiva e vendo baldo o sonho. Antes era a meta viver na cidade; hoje, dezena de anos após, não um sonho, um sonho a virar realidade; e mais um pouco à frente antigo sonho a tornar-se saudade. É o caminho do roceiro ao urbanoide; urbanoide configurado e sofrido, desalentado e cansado; prossegue e encontra a via da saudade do campo; aí constata o retorno impossível... Tanto assim que Francisco conversa com seus pares, atrás das cartas, conversa com eles todavia o assunto gira sempre em torno da roça, as estórias são ‘causos’, o causo que é fato do lavrador.
          O curioso nisto é não fumar o homem igual aos outros; apenas aspira a fumaça dos companheiros. Verdade haver fumado, “pitado” dizia, muito e bebido mais ainda, parando ao limiar da morte. Agora engole o azul odorificado dos colegas, alguns a gritar o truco. A velha também não fumando; vez que outra, por charme ou imitação, a filha; o menino, agora um moço feito, esse nunca fumou nem bebeu. Dizem os amigos do pai que toma algo na Mercedes... Francisco olha o falar, ouve, se mexe constrangido, não envergonhado porque a verdade não deve envergonhar.
          Toninho bebe sim. Não tem dinheiro para tanto, porém engole e lacrimeja após uma oferta de cachaça. Nos meios pobres tem sempre alguém a ofertar bebida, um gole que seja, a outrem, aos vizinhos por exemplo. E o garotão ingere o líquido, mas fraco à bebida, loguinho destrava a língua fala o que deve e o que não precisa. Todos riem. Os iguais se entendem.
          Aliás o Caranguejo tem por característica ser falante, a falar pelos cotovelos, com ou sem ajuda alcoólica. Fala, embora homem praticamente feito nos seus quase vinte anos falando fino. Não muito diverso de muitos negros, sobretudo quando eleva a voz. Um vizinho, esse longe da família do rapaz, um negro quase mulato – isto não vindo muito ao caso porque a maioria de nossa população é preta ou tem preto no sangue mesmo sendo clara – tal homem grita seu cachorro, louquinho a fugir à rua ou uma quase rua do lugar, grita grosso no início e, no auge do grito, o grito sendo fininho fininho. Muito encontradiço essa forma no homem escuro. O Toninho é assim; sempre assim, não obstante na fase do falar grosso macho; chega a ser um acaso elevar a grossura do gogó, nele. Os circunstantes riem; não se sabendo se dele se a ele. Faz mais o rapazinho: arregala o olho desmesuradamente ao elevar o som; e pisca a seguir; faz um esgar desgracioso com a face; e se remexe todo. Não se ofende por isso com seu público nas imediações, vizinhos e amigos.



8. A turma andava alvoroçada. Coisas da gente, gente volta e meia se vê interessada em algo, seja ou não positivo, sempre nesse negativo as xeretices e as curiosidades. Mas a vila estava um pouco quente. Agora era a briga de duas mulheres, uma novata. Conversaram – quem diz que a conversa harmoniza os seres! – depois esquentaram, bateram boca se insultaram, uma em cada casa, se fosse casa o pardieiro como toda indecência na periferia; depois saíram pra fora... Coisas com coisas de criança metidas no meio, aquilo de sempre, o ‘disse que me disseram’, o filho é meu, ninguém põe a mão – mais ou menos assim. Uma, a novata D.Amélia, não parava de falar, de repetir feito disco; a outra não deixando por menos. Gritos ofensas; se pegaram, rolaram, arrancaram cabelos, se arranharam. A torcida em volta, a turma toda alvoroçada. Uma das oposições a dizer “aí eu peguei e falei...” Os meninos sem condição de julgar os vícios de linguagem e gírias mais, menos eles e nem as mães estavam a registrar depoimentos para apurar a língua; interessando a todos uma sujeira à baila; ou a torcer por uma das contendoras. Chegou um dos maridos entre os vários desempregados e deu um basta, segurou sua companheira, levou-a para dentro à força; assim mesmo foi esperneando e mostrando a língua, a xingar o desafeto. A assistência sorria, alguns nela gargalhavam, apupavam. O negro Toninho entremeio não dando palpite, ria-se e decerto agradecia pela diversão de graça.
          Havia muito disso a alegrar aquela tristeza ou para quebrar a monotonia e a rotina. Eram quase rotina os desentendimentos ali, como demais em todos lugares onde as casas se esfregam e se juntam. Qualquer coisa servindo a romper aquele paradeiro. Outro dia fora o ver seu Zé na sua moto cuspideira e barulhenta. Juntou menino desocupado, houvesse algum com ocupação; todos querendo olhar o negócio e ver como atrapalhar e irritar melhor o homem; ele ralhou primeiro com os filhos, olhou torto aos outros. Parece que centrou a atenção no aleijado, o que constrangeu um pouco Antônio; se bem que nesse mal já se acostumara estar na berlinda, pois onde ia todos se voltando pra si, ou por curiosidade ou para ter o que contar na falta de assunto nos causos a conhecidos.
          Na verdade foi muito mais que isso, Toninho começou a examinar o homem, este o media também, olhava feio os seus aleijumes, franziu a cara como em nojo ou apenas aversão. O rapaz, já grande perto dos moleques, ele também sentiu como que uma fisgada de contradição. Foi o primeiro a deixar aquela festa improvisada de motoca rateando e poluindo fedores na rua (rua aqui um artifício, porque a favela só tendo trilhos e meandros, rios de fedentina pela água escura servida a escorrer...)
          Em casa não disse nada a ninguém, sequer ouvindo que a mãe se dirigia a si. Amuou-se na cama num pensar. Onde terei visto esse homem! Parecia-lhe conhecido; já o vira tantas vezes e não o enxergara, notava só o barulho da motocicleta a sair a chegar – nunca havia parado para examiná-lo detidamente, nem tivera esse interesse. Interesse sexual próprio da idade se manifestava; por isso talvez visse ou sentisse atração pela esposa do Zé, uns diziam ser amásia, este estado é o mais comum e não chegando mudar a coisa; entretanto era uma senhora gasta e feiosa, longe ser um objeto de cobiça ou a servir ao sonho adolescente. Então pensou mais no macho daquela casa, esse que “invocou comigo”, resmunga; o homem invocara consigo. Contudo por que e por que parecia havê-lo visto um dia. Qual a razão de não perceber o vizinho antes do conserto do veículo! Não sabia. Sabia conhecer aquela pessoa, a qual mostrara tanta contrariedade ao perceber Toninho entremeio à molecada.
          Não tirou mais da cabeça a imagem. Até à noite, já a tentar conciliar o sono. Aí sim lembrou bem daquela fisionomia estranha e conhecida ao mesmo tempo: era com certeza um dos assistentes no congresso seu mui vivenciado, onde ele dirigia insultos a tantos na sua peroração, a usar os recursos oratórios para ferir a plateia, o Seu Zé no público, a replicar, a se indignar com o orador, ele.
          Esse episódio, o do encontro, ou reencontro (ou desencontro) o encontro dum inimigo ou apenas adversário da época (mas, perguntou-se, qual época! e onde?) e o outro fato: a reação adversa do motoqueiro – isso tudo disparou no Aranho dias e dias ao pensar repensar relembrar aquele sonho acordado que o acompanhava desde os primeiros dias nas noites do tempo. Curiosamente andara esquecido meses desse fenômeno, imaginava haver vencido o peso em cima de si...
          Após semana do acontecimento, regurgitava a memória e o sentimento. Não podia, entretanto, explicar os porquês.



9. Agora pula igual sapo o Sapo em meio ao folguedo, não é o primeiro, vai à rabeira daquele cortejo criança. Criança se desloca no improviso, ao sabor dum centro de atenção que ninguém sabe direito qual seja, nem os próprios líderes, nem eles mesmos também sabendo serem chefes. Toninho se arrasta como pode, pode pouco; anda, se isso andar, se desloca como possível atrás; ora a figurinha ora o papagaio naquelas alturas ora o jogo de bolinha ou bolona, aqui ficando de goleiro, “frangueiro” é gritado como apelido por cima dos apelidos de Caranguejo Aranho e Sapo. Se arrasta como lhe permitem os destroços do físico entortado. Anda pula corre (tudo aspado) se esfola até. Pequeno na idade apenas se deslocava descalço e aí esfregava esfolava sangrava; criança não liga, liga à brincadeira, na brincadeira engole o sofrer e o tempo. As mães gritam, é claro sem sucesso; depois o sermão a lambada o castigo. D. Maria não tendo coragem em bater nele, menos a mana, na casa era considerado o “dodói da Branquinha”; então ele, malicioso, a se fazer de vítima ou santo. Com os outros, entremeio aos demais meninos, já meninão espichado não fosse encolhido, entremeio é um igual, diferente. Chega, no fim do bando, no fim a que se destinam. Brincadeiras e outras artes, tudo à base da improvisação, que sempre dá certo nesse errado. Enfim caminha.
          Agora entretanto é um jovem quase adulto. Neste agora sendo mais compenetrado. Mais compenetrado e mais sofredor. Sente na cara, isto expressão corrente, sente no seu todo a agressão social. Antes não saía quase da segurança da periferia pobre, por volta do lar ou das casas, sem qualquer padrão essas casas dos colegas. Contudo cresce como os outros, ficando no físico enrolado e encolhido, abaixo da altura dos conviventes; porém a sentir, vê necessita anseia igual aos normais, que não passam de criaturas comuns longe da normalidade teórica. Aprende fazer bem feito o ‘mal’ feito; são vícios e um somatório de más ações; todavia desenvolve as boas, ajudado nos bons exemplos dos vizinhos e das duas mulheres de casa, sempre elas a lhe pegar no pé. Ele estrila porém recebe ensinamentos.
          Agora se vê às voltas com contratempos e contrariedades mil. Tem o seu Zé que mais parece um inimigo do que vizinho. Chega a evitar permanecer nas imediações da casa dele na volta da barulheira da motoca; de manhã só vai por aqueles lados sabedor no relógio do sol que o homem estando longe no serviço. Procura o filho mais velho do Zé, um rapazote simpático, amigo, sem ser entortado como o Toninho. Este evita sempre a área proibida; aos domingos quando o pai do amigo está em casa, não para por perto. Durante a semana se obriga a passar nas proximidades para visitar a Mercedes, não os filhos da Mercedes.
          Agora ela parece figurar nos seus sonhos, muito próximo o seu ser do ser da jovem, que ele deseja mas condena em público. Faz sua exortação quase diabólica, aponta, julga, leva à condenação a pobre! Pouco sabe dela, conscientiza somente que é bela nova e ré. Ela retirada a chorar do recinto, o próprio juiz se constrange; o coração ferido... Hoje sorri, ele a procura, engole o café, come uns bolinhos ofertados, conversa amistosamente com a dama (isto um abuso burguês, concessão à mulher favelada) falam suas coisas. Não está na busca das crianças à brincadeira, nem dos jovens de sua idade, o garoto da Mercedes por exemplo, não tendo interesse na menina que é a filha mais velha. É a mãe. Mercedes sabe disso. E num descuido dos cuidados que os filhos guardam da moral simples, ela o atrai ao quarto do casal... Mostra ensina ajuda, se satisfazem. O Toninho vira freguês. Volta e volta e volta, num ferir vizinhos. O falatório chega à Dona Maria, a qual condena; à mana, que tolera e sorri. Ele prosseguirá a passar muitas vezes pela casa do Zé, a chegar à casa do marido da Mercedes; então a ganhar o sustento dos filhos num posto de gasolina no centro. Sempre que houver necessidade; a necessidade vem todos os dias na sua juventude...
          Agora o Toninho, ainda a andar de sapo caranguejo e aranha, ele tem novas posturas, não sangra mais os pés e os joelhos na terra atrás da molecada – calça uns sapatos, os que a Branca se esforçou a presenteá-lo; veste-se com alguma decência; se pensa gente. E é mesmo gente, embora faltando pedaços de gente na harmonia.



10. Se pensa gente, vaidosamente gente, mas as limitações físicas e locomotoras atiram diário água fria na fervura. Ele quer contar vantagem, quem sabe bravatear a ‘garanhonice’, para, impedido na realidade chocante. Deseja mostrar-se conquistador, falaria a seu jeito de falar, destramelado, o como o quando o por que a Mercedes; todavia se cala na roda moça a conversar suas coisas; o instinto talvez ou o anjo bom alerta tolhendo sua língua. Diria estar praticando adultério em comum acordo com a jovem condenada por sua oratória e sua posição de mando no mundo! por sua instigação? Mais para diante dirá, diria, mais: que o pretinho mais novo de Mercedes seu sangue, “vejam as fuças do nenê!” O certo estava errado – o esposo da mulher registrou no cartório mais um diferente nos seus iguais, não loiro e de olhos azuis naquela tinturaria. Felizmente não sendo um bebê enrolado e defeituoso como o pai, pensou o pai. Sua mãe, avó de sangue do bebê, Dona Maria, foi quem batizou o filhote da vizinha, às instâncias de Antônio; a velha sempre desconfiada com Mercedes. O compadre naturalmente não compareceu ao templo, tiveram de arranjar um desconhecido por exigência do padre. Quase a primeira vez por anos que o rapaz foi então arrastando-se ao centro da urbe.
          Desde esse momento não pararia visitá-lo. Faria mais, menos interessado então na Mercedes, decerto enciumada por isso; faria mais: iria chocar as jovens a passar... e também circulando ele; viraria um exemplar desses tipos mui encontradiços em todas as cidades pequenas, um tipo folclórico; a dar um toque diferente nas semelhanças dos habitantes. Tornar-se-ia um homem popular, se movimentando nos jardins, de olhos compridos e gulosos nas mulheres; ou trafegando nos coletivos, graciosamente.
          Na periferia e no seu mundo prosseguia também a rotina, Toninho se empurrava no meio aos seus pares, embora tão diverso e grotesco. Passava a vida a conversar com os companheiros de idade, não parando em casa; ora com eles, ora numa visitinha à Mercedes, para ver as graças do menino mais recente dela. A comadre? ah vai bem, quer dizer, anda com uma tosse danada, a Branca vai levar ela no posto. Posto! admirou-se Mercedes, num pensar no marido... e sorriu da bobagem, certamente o posto de saúde, vai hoje? O rapaz era todo sorrisos ao ver o negrinho sugar os seios da mãe. Contudo não levava jeito, como homem não sabia carinhar aqueles melindres em promessa ao futuro; apenas sorria cheio de amor no olhar. Mas seu mundo prosseguia, prosseguia também o seu estado de ‘sem compromisso’.
          Não obstante, a crise econômica e os azares da vida engoliam seu pessoal.
          A mãe mais e mais adoentada. Logo deixá-lo-ia órfão. A mana arranjara um namorado, distante do namorado do tempo distante; um verdadeiro aproveitador das ingenuidades, um explorador; a moça quase não mais parava na sua casa, para defender o irmão aleijado. Aliás ele também quase não precisando defensores, se considerava um adulto, ou, pior, um macho pra valer... Quanto a seu Chico, não se detinha sequer a falar com o filho; sem assunto com ele nem afinidade, talvez mesmo o contrário disso. Enviuvou e escondeu ainda mais a língua, inclusive na companhia dos outros idosos. Enquanto seu filho Toninho andava só, acompanhado do Caranguejo do Sapo do Aranho; por sinal muito mal acompanhado o pobre.



11. Nessa fase nova do seu ser passou a vivenciar outros ambientes que não aquele da periferia pobre; vez que outra se aventurando na periferia menos-pobre-rica. Deslocava-se mais frequente ao centro comercial. Então para a descansar – mas descansar de quê? – o rapaz senta-se num banco gasto e frio, para ver, para pensar, a de vez em quando papear com o desconhecido passante. Todavia quem é o desconhecido. Todos somos desconhecidos; debalde nos pensamos íntimos dos íntimos, porque o homem é indecifrável e, ou abre a sua boca demais ou fecha a sua boca demais. A rigor não temos nunca certeza das certezas alheias, quiçá de nossas certezas. Mas Toninho, ali naquele meio ainda um estranho e portanto apenas por semelhança Aranho Sapo e Caranguejo, o Toninho não pensa nestes termos; é mais fugaz seu espírito, não se daria a filosofar. Todavia pensa e continua não entender seu sonho na vigília plena, o qual surge quando menos espera, aguarda a assembleia aquietar, na boa psicologia do orador, a fim de prosseguir  no seu discurso: invectiva humilha destrói vence! E se encontra um derrotado, já quase a completar as três décadas a viver, e ainda é um humílimo negro refletindo o brilho do sol na pele, engastalhado nos seus ossos em destrambelhos, nos membros encolhidos, no arrastar-se qual anfíbio monstruoso. Ele olha. Vê as ruas a regurgitar as conduções e a gente apressada, um jogo de cores e movimento.
          Não vê o mundo, ninguém vê. No entanto pensa o mundo, a partir do movimento e das cores à sua frente, os sons violentos provindos dos veículos, a grita do povo: mixórdia algaravia bagunça ininteligível de pronto. Ah a grita do povo. O povo um desconexo pra si, estando naquele meio urbano enorme, embora cidade pequena lhe parecendo uma desproporção perto da periferia; mais ainda, vira na televisão da Mercedes o fervilhar no centro, outro centro, o centro da megalópole – o povo pra si uma visão a se assustar! São milhares, não consegue imaginar bilhões, são milhares e milhares de pessoas... Existiriam no povo muitos Caranguejos? Num átimo sentiu pena dos outros semelhantes desiguais a viver de sapo. Será, se perguntou, será que todos têm sonhos durante a vigília! dormindo decerto que sim, mas acordados. Como resolveriam esse problema.
          Mais para diante, bem mais para diante naquele futuro incerto (todo futuro é incerto) depois enfim, estaria traquejado no meio do povaréu. O centro viraria seu mundo, onde um forte, apesar da fragilidade em razão do próprio equilíbrio e a dificuldade locomotora, teria os pés no chão, qual alicerces fincados no solo a dar sustentação. Nos primeiros dias, meses até, Toninho andava inseguro, como fosse um estranho emigrado a um território estrangeiro e não um cidadão da terra com direitos. Entretanto aventurou-se mais vezes no ambiente, chegou a ser um ser popular.
          Agora se encontrava meio deslocado inclusive no seu antro. Passando tempo sem ao menos visitar Mercedes. Além do mais o esposo dela, ainda em férias, ficava ou a discutir com a mulher ou a brincar com o filho negrinho, sendo louco por crianças. Toninho se constrangia, evitava o convívio. Foi aos poucos ‘desmamando’ daquela fêmea atrativa e parideira. Namorava então o centro movimentado da cidade.



12. Aranho, como diziam os moleques quando era ainda moleque, o Aranho está sendo despejado da Vila Nova. Aquilo nem era vila, sem rua, sem qualquer infraestrutura; casebres a imitar moradias; tudo precário; a gente do melhorzinho situado entre as ‘casas’ ameaça deixar o lugar sofrível; o marido da Mercedes mesmo pôs placa na frente, ou que se supõe a frente da residência, a vendê-la: “vendo a casa”. O tempo, implacável, comeria algumas das letras tremidas e desiguais, escritas num papelão de caixa de sapatos. A família decerto a preferir pagar ipeteú água e luz na periferia rica, mais próxima do posto de gasolina. Sequer nova é a periferia, mais velha que a rica; mas nome não se discute quando ‘pega’, pois é o povo quem faz a língua e cita a geografia. Ele já não se sentia bem naquelas distâncias miseráveis. Parecendo estar com bicho-carpinteiro: não parava, vivia a fugir ao centro, mormente quando obteve alguns benefícios que lhe haviam arranjado. Um deles era a carteirinha de invalidez, a qual dando oportunidade a viajar de graça na Circular. A gente da Vila lhe parecendo agora estranha; ao menos menos atrativa. A Mercedes não agradava mais a ele como antes; ela também não se interessava pelo Caranguejo, embora não apreciasse igualmente o esposo; o menininho a crescer sem que o pai biológico pudesse acompanhá-lo, se bem não levasse jeito o Antônio com criança. Os colegas iam crescendo e desaparecendo dali, uns se empregavam outros debandando ao mundo do crime. Aliás a polícia gostando bem de visitar a periferia... A família andava praticamente destroçada: as guarda-costas, a mãe morrera, Branquinha saíra de casa atrás do seu homem; o pai nunca fora amigo. Nem a comida certa nas suas horas incertas tinha mais; o velho a comer qualquer porcaria, nunca junto do filho, ou se alimentava por aí nas casas dos companheiros, com quem gastava, livre da filha, seus  proventos; quanto a Toninho, não se ajeitando no fogão. Aí arranjou um dinheiro vindo de auxílio da prefeitura, após empenho de pessoas que se condoeram dele. Então não parando mais no lar, nem para almoçar, alimentava-se no centro urbano; vinha a dormir somente; desengachava a cordinha a imitar cadeado para prender a porta, entrava, lavando o rosto na bacia como banho e se despencava na cama malcheirosa. Assim a moradia se encontrava como que abandonada, como abandonada a vida daquele Sapo.
         

































                              Terceira Parte:
                                                      Despertar, em tempo?
 
                              “Cada um vence à sua maneira a solidão, a infelicidade, a dor.”
                                                                                                         Autran Dourado



13. O Caranguejo o Aranho o Sapo o Toninho, este último tratamento como tratamento familiar no carinho amigo e nisto nada tendo em condescendência pelos aleijumes enfeando mas apenas carinho a que tem direito mesmo um ser comum normal ou nos conformes, usando-se então diminutivos que engrandecem – o Antônio vira cidadão. Nisso se ‘enormiza’, estufa inclusive na vaidade e pequenez, a se parecer, a si mesmo, se não igual semelhante aos demais, a cruzar as vias públicas, a se desviar da condução louca, tendo ela um condutor harmonizado, segundo o pensamento do motorista; ao conversar com o vendedor de pipoca, aquele cheiro atraente a exalar do carrinho na esquina; ao encontrar o estranho que estranhamente lhe pede informações da urbe pequena se pensando megalópole e é difícil saber de seus meandros e os nomes históricos de suas ruas; aí dá o esclarecimento, recebe de volta o “obrigado, senhor” como um prêmio, feliz por ser alguém, a poder contribuir com suas faculdades e conhecimentos ao mundo. É uma consagração! Muita gente pula do estágio menino ao do senhor responsável sem saber, sem saber também que quem não sabe a sombra não sabe a luz. Mas a ele, o seu escuro, martelado na bigorna da periferia, lá entre os iguais sendo diferente, o seu escuro deu ao Antônio essa base a sentir a grandeza que o simples tratamento de igualdade dá a quem é respeitado por “senhor”. Olha, orgulhoso, o andante indo à direção certa a se perder no longe da distância; quase corre ao seu encalço a lhe implorar que ouça sua voz, sem  pensá-la esganiçada, a dizer ao forasteiro “não tem de quê” e tinha sim, pois nunca gozara da condição cidadã. Um dia feliz tem início para Antônio. Agora pensa grande ter direito igualmente a um sobrenome digno; então engasga. Seria Silva, Gonçalves, Souza, aqui podendo o esse o zê, nunca vira o registro; daí uma razão a vasculhar em casa, quando em casa, a caixa onde as coisas eram guardadas pela mãe (sentiu saudades da genitora; reviu no cineminha particular a Branca, resmungou os resmungos do velho, lembrou-se dos outros há tanto tempo sumidos sem notícias e dos caixões que vira, não vendo Dona Morte mas sentindo o trabalho eficiente dela); enxuga umas gotas a escorrer dos olhos, relembra a caixa o documento o lugar e o lugar possível a espalhar papéis e recordações que toda família retém a sete chaves das vistas dos estranhos. Planeja então buscar-se na busca à caixa e, gelando-se: o pai não teria jogado tudo fora, no seu costume sem costume!
          Assim Antônio volta de seus compromissos, mas quais responsabilidades! volta mais cedo para o lar, se acaso a casa fosse lar, torna ainda com luz do sol a desaparecer no oeste da periferia pobre miserável abandonada, não cidadã na urbe portentosa.


14. Mas não tem o reverso da medalha? O rapaz, já trintão, pleno de cidadania, se pega na praça ampla no ver ouvir apreciar a algazarra, de um lado os passarinhos a discutir suas coisas, a forrar e tingir o chão com fezes lisas e malcheirosas, eles na sua grita geral; doutro lado os meninos na molecagem explícita e natural, na mixórdia que são os meninos de rua, eles também a gritar a vencer no grito; são engraxates com suas caixas de trabalho miúdo, são moleques desocupados como são os moleques, nas brincadeiras infindáveis, igualmente em brigas intermináveis, a se desentender nas suas coisas. E aí sobra ao cidadão pacato, cumpridor de seus deveres legais (ao Antônio isto não seria exagero?) ao cidadão nas imediações, no passar no apreciar o jardim as flores os pássaros as crianças e demais inocências... sim sobra ao cidadão investido de suas responsabilidades e contribuições ao todo da coletividade; ao cidadão a andar gozado igual mola ou sapo, a falar fino quem sabe a chamar atenção de um deles, na turba moleca, a chamar atenção pelo malfeito benfeito que seja, desandando a meninada a investir: olhem o sapo! Se esfria o homem, o cidadão, esfria-se por aquele balde d’água do tempo na sua fogueira cidadã, a remexer até com seus brios com sua dignidade com seus alicerces fincados na zona central da cidade. Ah o estigma!
          Como é duro o aprendizado na escola da vida!
          Pensa dessa maneira o Sapo, a andar fazendo desfazendo seu corpo em locomoção a duras penas. Vai – primeiro foge dali, vai no possível longe dali – vai pra cá vai pra lá, vê isto ou aquilo, tira um dedo de prosa com o transeunte também desocupado; senta-se num dos bancos com propaganda no granito gelado, descansa o descansaço, levanta-se, caminha numa direção sem direção, qualquer direção servindo a esconder se não o desapontamento a vergonha a sem-gracice a incipidez do seu eu, o constrangimento que a gente disfarça como pode, pondendo pouco o Antônio Cidadão.
          Um homem que fora feliz e andava extasiado minutos atrás porém...
          É o ser mais infeliz do planeta. Sem ter tido que fazer qualquer esforço para tanto.
            A escola do viver.



15. Perdeu-se um personagem! diria o autor. Isto pode parecer incrível, e é mesmo incrível. Debalde vasculhei o Terminal Rodoviário Urbano, siglado, que estamos mesmo no modismo da sigla ou na doença dela, siglado nestas páginas como TRU a facilitar referências futuras e a economizar caneta esferográfica, a qual a gente compra na vendinha do bairro já vencida, seca, fazendo ‘ui’ no escrever; e o preço! meu Deus; a fim de economizar tinta, portanto; se bem que vale a pena um gasto extra quando se trata descobrir o personagem central duma obra. Neste ponto comentar-se-ia em lamento “um erro justifica outro!” Não, evidente que não. Além do mais o Toninho sumiu, poderá ser encontrado, a dar continuidade ao livro. De fato.
          Não obstante me perdi eu ao achar a perda e não o encontrei! Sim, é grave. Olhava por toda parte o personagem, fiscalizava os fiscais, eles a fiscalizar a chegada e a partida dos ônibus circulares; e nada. Parece simples? a cidade grande pequena se imaginando megalópole possui bem umas 99 linhas de coletivos. Isto quer dizer haver o autor olhado e esquadrinhado, examinado, as 99 partidas e as 99 voltas, dá quanto? quase duzentos não é? e ainda multiplicado por cada (perdão pelo cacófato, às vezes não dá para fugir somente a agradar os puristas, eles que nunca lerão o escrito sobre nosso Caranguejo) repito, por cada 10 minutos em 10 minutos; 15 por 15; 30 por 30 e tem linha de hora em hora; ah tem outro problema: na hora do costumeiro rush (que horror essa língua gringa!) no horário de pico a Empresa concessionária bota mais carros, aí de 5 em 5 minutos, além das linhas de hora, as quais não se alteram (os usuários que se empilhem...) por servir a periferia longínqua pobre abandonada et coetera; estas das lonjuras sendo provável até perder alguns carros, deslocados para outros percursos que deem mais passageiros.
          Todavia para que tanta enrolação, que foi o parágrafo anterior. Ora bolas, a fazer sentir o sentir de quem ficou a acompanhar o vaivém da gente afoita e apressada, louca para subir nos ônibus a fim de chegar na sua casa ou a voltar dela indo ao serviço. Gente trombando gente; gente se desviando de gente; e gente que não tá nem aí, no dizer popular. Realmente têm os que vão ao Terminal a passeio! um empeço aos demais: bloqueiam filas, ocupam bancos a obrigar os de pé a ficarem mais de pé ainda, às vezes com sacolas e pacotes de compras; tem um que outro a ler enquanto espera ou lendo mesmo espremido na condução, pois brasileiro, e brasileiro consegue examinar um livro, não dos maçudos, um livro inteirinho durante a vida inteirinha; e nestas condições foram notadas bem umas três pessoas no TRU; as tais pessoas passeantes, valha-nos Deus! elas atrapalham os que esperam. Ah sim, havia na mixórdia humana mulheres à espera, tinha de sete e até de nove meses, pobres delas e ainda a esperar também condução.
          Porém nesse ‘irebire’ da gente, a gente na busca apenas do Aranho, ele essencial para estas linhas, foram observadas cenas as mais curiosas, que demais são sempre curiosas porque o ser humano é interessante, às vezes esdrúxulo.
          Num dado banco havia uma senhora morena. Aqui não se usa a hipocrisia social da não discriminação de raça; moreno é alguém branco tostado pelo sol ou levemente escurecido na epiderme, mas de características caucásicas; nunca se pretende esconder a cor; o Sapo é negro, e negro retinto; não deixará ter valor sentimento inteligência, nem deixará, num pôr debaixo do tapete, alguma patifaria a defendê-lo por ser negro retinto; em razão disso não referido por ‘moreno’. Prossigamos. Do outro lado da lembrada morena sentaram-se as gêmeas, duas belezas louras de uns dois ou três aninhos; a da direita esgoelava: ‘enchia’ resmungava falava e por fim chorava a cântaros gritando pedindo ou exigindo não sei o quê. Mamãe sentou a chatinha criatura a seu lado direito, empurrou a mesma, enfezada, prometeu não sei o quê; isto não devendo ser muito bom... Tanto que a menina não parou mas passou a chorar baixo, educadamente; a maninha, à esquerda da mulher, comportada de olhos vermelhos e de semblante contrariado, olhava de perto aquele perigo de mãe braba. Aí o autor à procura de personagem retomou a pesquisa que fazia. Quando voltou-se para o lugar do trio briguento: a mãe, só; as pequenas lá na cerca que cerca o TRU, o qual é fechado de todos lados fora o portão de entrada dos veículos e ainda assim com funcionário a fiscalizar intromissores – elinhas a comprar não sei quê doce no carrinho encostado à dita cerca. Isto prova quem sabe o ‘água mole em pedra dura’ todavia sem sombra de dúvidas que ainda os adultos não conhecem a linguagem da criança nem a força menina...
          Embora o tró-ló-ló aqui acima, não sendo o falatório de mãe nem a manha das meninas que se buscava: simplesmente o Toninho.
          Em vez dele via gente a passar e mais passar. Ah como tem mulher bonita e velhotas e velhos na cidade! sim a conclusão é válida porque o TRU é o termômetro urbano, todos passam por ele. Não, e os que vão de bicicleta, e os que voltam a pé? substituamos a expressão por ‘quase todos’. Têm os que não saem de casa, gente no hospital e na cadeia.
          Tudo isso para qual finalidade? para ver gente bela, gente feia, cenas curiosas ou hilariantes?
          Procurava-se um personagem, investido do prestígio de ser o principal, sumido como que por encanto. E ele não se encontrava no Terminal.
          Aqui vem outra questão, desnecessária como são as questões; pois tudo não deveria ser resolvido “numa boa”, esta expressão que se ouve frequente; enfim tudinho deveria estar harmonizado, as questões seriam riscadas dos dicionários. Desnecessária porque Toninho pode andar por aí, na casa dele certamente não – já vimos como não para mais por lá; portanto noutros lugares.
          Agora entra nova questão na questão.
          Seguinte. E o seguinte explica o interesse, ou burrice, do autor a procurar o personagem no Terminal. O rapaz só vive a se deslocar nos circulares, nas quase 100 linhas. Sim, aprecia o jardim público e tudo o mais. Mas acha que deve se beneficiar da recente autorização da gratuidade nos carros, em vista ser inválido; põe inválido nisso – um sujeito que se arrasta, literalmente se arrasta, a andar pulando com dificuldade, embora moço de seus trinta e cinco anos ou mais, forte se se quiser; de fato com invalidez comprovada, a se valer das vantagens da lei. Ele mais vive dentro dos coletivos que noutro lugar; e no Terminal, onde tem mil e um amigos; mesmo nos descontos que se faça à palavra ‘amigo’, têm muitas pessoas a lhe dar atenção. Daria a lógica se se visse – sempre se vê – o sujeito a embarcar ou a descer no TRU.
          Neste ponto entra outra questão – seria a questão da questão etc. e tal. Ocorre que o relacionamento humano é bem complexo, não dá para analisá-lo numa ou duas palavras. Os tais amigos do Sapo são os mesmos que o cobrem de apelidos; nos depreciativos o Caranguejo o Aranho: querem até diminuí-lo, querem explorá-lo, querem gozá-lo. Tanto assim que tudo vem acompanhado das risotas e mexem com o pobre bolindo seus aleijumes. Tendo uma agravante bem séria: desejam fazer-se e se porem amigos, ao detratá-lo; pretendem se mostrar íntimos ao humilhá-lo. As dores morais do Toninho, largado neste mundo de Deus à sua própria sorte, essas dores são flagrantes; no entanto não dá mais demonstrações do sofrimento e da vergonha que o devoram; nem quer dar ideia de sua insignificância por insignificante; pior: por insignificância deformada! Apesar disso sofre na carne, na alma. No entanto já não mais chora.
          É entremeio aos chacais da sociedade que deve ser encontrado o personagem mais importante deste escrito. Os chacais estão soltos na prisão do seu trabalho: motoristas cobradores funcionários da empresa de ônibus; e os outros ‘amigos’ achados por aí nas vias públicas nos jardins e nas praças, todos a participar da chacota dos contumazes; mais amiúdo se reunem ou se encontram com o Toninho na área do TRU.
          Aí está o porquê da procura no Terminal.
          Não obstante, sequer foi descoberto!
          E agora? pergunta o escriba a... ora, a quem sobraria indagar?



16. Ouvia a ‘fogo pagou’, imperturbável, imperturbável a pomba e imperturbável igualmente o pardal na tarde que morria, a tarde sendo sempre também a morte do dia, embora anúncio da noite, a noite é o escuro a sombra e a interrogação aos que insoniam, a interrogar a exclamação a reticenciar as afirmativas na vida. Um dia difícil ao moço passado Antônio, cujo apelido carinhoso respondia por Toninho mas os carinhos haviam desaparecido, a mãe morta a irmã debandada atrás do seu homem que ele nunca vira – restavam as paredes do quarto, o cheiro que era seu cheiro e o cheiro dos seus; aí chorou mais dentro do seu ser. Um dia difícil, a tarde se engolia ela mesma, a noite prometendo a sombra, a sombra nada a prometer; adivinhava o rolar na cama a desmunhecar-se, a ringir. E o mundo lá fora na periferia miserável empobrecia os sons da gente em volta da tapera a arremedar casa; todavia era sim sua casa, ao menos seu refúgio...
          Enquanto o escrevinhador praticava sua insanidade a procurá-lo no Terminal, aproveitando-se para ver as beldades a circular no início do Circular; o Toninho aranhava seu ser em molejo a ziguezaguear por entre as ruas do centro comercial, a matar o tempo, o tempo que mata a gente; passara pelo jardim, sem que trocasse com ninguém o dedinho de prosa de costume, pois tem dia que amanhecemos de pá-virada, isto um dito do populacho a reconhecer o pessimismo que nos engole não se estando alerta. Assim. Assim andava. Chegara no costumeiro horário de ônibus, o qual o despejara semelhante aos semelhantes que lhes eram diferentes por serem iguais; a rigor se podendo usar uma imagem nojenta e machucadora, a do vômito: os passageiros, engolidos um a um nos pontos distantes, são no centro urbano vomitados para as ruas lojas e quefazeres (aqui a gente força a concordância a embelezar a feiura da linguagem) e o garoto todo torto, igual fazia diário, sendo portanto despejado também na via pública; antes dentro depois fora da condução atrapalhando um bocado os outros; no coletivo querendo sair, como difícil tinha sido entrar aquele destrambelhado a andar de mola, a ocupar mais espaço que devera pelos aleijumes; havendo nisto um senãozinho melindroso por tomar um banco duplo pra si e, não tendo um vago, na hora de pico de manhã e de tarde na volta nunca sobrando mesmo, e daí a caridade e a solidariedade ofertando o espaço ao infeliz. Regurgitado vomitado libertado encontrado entre a gente a andar aos compromissos, o Aranho tratou também de seus compromissos, que eram o de andar se arrastando sem compromisso ao deus-dará. Mas nem bem iniciara seu compromisso já sentira o cansaço pelo desânimo, o desânimo que atinge um pessimista em dia de grande esplendor; sentiu-se cansado após meia dúzia de passos, os quais nunca eram por inteiro porém pulados e pela metade. Parou. Sentou-se num banco. Imediato se levantou, isso a custar bons minutos e muita força; insatisfeito. Se arrastou um pouco mais e aí parou de vez. Fez mais, se ajeitou na calçadinha ainda não varrida pelos garis, se amontoou no chão, numa sonolência esquisita; aliás sentia-se mesmo ‘esquisitoide’ desde que deixara a casa, tivera certa dificuldade a chegar ao ponto lá longe, na rua de cima da periferia rica; contudo chegara, aguardara, tomara a condução e fora por ela despejado no centro. Agora descansava, ou dormitava, naquele estado em que nos encontramos absortos, vivos-mortos para a atividade dos mortos que se pensam vivos pelos exercícios e responsabilidades importantes à rotina. Bem. Isso, mais que isso por um traço desimportante importante apenas ao entender os desastres seguintes: o chapéu. Deixara o chapéu cair no solo, ou por dormir semiacordado ou por se esquecer dessa lembrança; e ela ficou aberta, escancarada de boca pra cima. O chapéu. Alguém lhe presenteara, quem sabe a brincar ou a debochar mesmo do Caranguejo ou talvez de boa vontade. A peça tratava-se dum chapéu de feltro, gasto, usado, usadíssimo; daqueles que os saqueiros usam. É o seguinte – esses trabalhadores tomam um chapéu velho, às vezes cortam suas abas, a coisa fica parecendo cuia, apenas com objetivo de proteger a cabeça do esfregar e do peso da sacaria; e aí vão se equilibrando eles a equilibrar o pesado fardo na cuca, até chegar onde chegar, seja a carroceria do caminhão onde outro trabalhador toma o volume ou então chega a uma pilha de sacos em não sabemos aonde. Tal objeto fica como que encerado do uso e do suor do usuário. Uma dessa ‘cuia’ lhe fora ofertada, o Sapo imediato a experimentar o presente, a sorrir se achando belo ou diferente cansado ser igual a si mesmo, diferente já sendo por demais diferente dos outros sem se pensar diferente; e se foi a pular nas imediações. Depois, poucos dias depois, se despojou daquilo, experimentou no pixaim um quepe também ofertado, desses bonés cheios de propaganda com nomes em inglês, o que valoriza a burrice geral e quase irrestrita no povaréu. Mas não ficou com a coisa, logo a perdeu por aí, ou alguém a escondeu para irritar o pobre. Não foi bem o caso do chapéu.
          Esparramou-se como possível no passeio público, dormitou segundos minutos ou séculos, isto sendo a mesma coisa aos que dormem. Daí ocorreu o desastre. Sim fora um desastre pra si. Acordou e tinha certa moeda no bojo do tal chapéu.
          Primeiramente coçou olhos pra ver por não ver bem, aí se assustou. Era para ficar feliz da vida, aos deserdados os metais engrandecem e alegram. Não ele. Aqui tem início um drama a acumular seu drama no viver. Olhou. Pensou. Espichou o olhar em ambos lados, sem encontrar o ofensor que atirara a moeda de vinte e cinco centavos, dessas pratinhas de ferro que têm valor dos níqueis antigos e valem ouro e o dono passa nos cobres, isto uma forma popular de análise da questão a usar sua linguagem genuína e mal parida. Aliás o dinheiro é o cobre, mesmo de papel, onde se verceja pornografia anota-se telefone ou se faz contas à falta de papel em branco; no caso, de metal. Ficou então a examiná-lo entristecido e mesmo indignado. Como alguém fazia aquilo consigo, para decerto diminuí-lo (não atentou – o  pessimismo não atenta: tem certeza da maldade alheia – não atentou na boa vontade do ofertante, talvez de coração mole e levado por sentimentalismo religioso). Sim, queriam indignificá-lo queriam humilhá-lo, a ele que possuía renda, a ajuda da prefeitura ou coisa assim; era um homem, se disse, um homem com meios para se dirigir a um restaurante por quilo, devendo ser por grama pois quem comerá um quilão ou dois! para ir a um restaurante desse tipo e encher o prato, pesar, pagar, quem sabe se não numa arrogância da insignificância e longe da humildade da gente ignorante, sim, pagar no caixa, receber troco, sair de cabeça erguida e... ah, esse mundo não tinha solução! Botou aquele metal redondinho e lustroso no bolso, saiu do lugar batendo os pés, envergonhado do que se pudesse pensar do seu estado... a rigor não bateu pé, deslocou-se pulandinho, a seu estilo. Estava estragado o dia, e era ainda manhã, umas nove horas se tanto.
          Tornou à periferia, magoado, a assustar seu motorista preferido, ferido nem olhou para ele, a lhe atirar as culpas do mundo; sequer ouviu seu gozar, isto sendo diário também sem se importar mais até; nessa hora daria uma resposta à altura ao homem, chamá-lo-ia “barrigudo” ou qualquer coisa, cabia um nome feio o mais bonito possível. Felizmente aos passageiros, no momento gatos pingados, felizmente tinha ouvidos tapados pelos gritos internos da humilhação a que fora atirado, como fosse um mendigo! Não escutou o gozador: “já de volta, Aranho!?” Responderia prontamente “vai à...” não respondeu não ouviu não viu sequer os outros; desceu, quase se jogou do coletivo no ponto da rua de cima na periferia, a resmungar e se arrastar pulando depois até à periferia pobre, à pobre maloca.
          Fez o que fez automaticamente, como sempre fazemos mil coisas sem perceber – introvertido na situação ofensiva da esmola que recebera. Já se encontrava na cama velha a ruminar indignação, nem se vira a desenroscar a corda feito cadeado de prender a porta de pau gasto e podre; já chorava com pena de si mesmo, sem que a infelicidade se fosse embora molhada.
          Um dia para não se esquecer.
          Passara, esbarrara quase nos moradores; nem a Mercedes arranjando os trecos para mudar-se notou; sequer se lembrou poder encontrar o Zé, seu inimigo de meses de anos de outras existências quem sabe; não chegou pensar poder a motoca estar acelerada ali perto, a ‘desfalhar’ sua fumaça; não veria coisa alguma, não perceberia – voltado que estava para dentro de si! Entrou sem conscientizar, não viu poder ter deixado a porta arreganhada aos cães da vizinhança xeretarem ali na casa; já pulando à cama, a rolar sua infelicidade, a qual não quer maior alegria que se tornar a única rainha para mandar. Horas, passou horas a sofrer gostoso sua dor; na tardinha já beirando noite ainda doía.
          Tardezinha, a ansiar a noite a sombra o escuro, a antecipar a insônia e o rolar, tardezinha ainda não se conformara com a sorte, a sorte do azar.
          Sequer lembrou-se que viria depois o outro dia, o dia que pode ser uma promessa. Isto se o pessimismo deixasse um minuto de folga.



17. Os anos imperturbáveis se acumulam sobre os anos no espichar do tempo, o homem se apega ao curto do tempo não vê o tempo. Toninho se aranha a pular em torno de si mesmo, engarranchado no seu drama perto, esquece o longe, mas o longe vem buscá-lo, também ele imperturbável como o tempo, a vomitar no infeliz suas coisas. Antes de quase se esconder na maloca com alguma parede firme para sustentar o todo, antes de destravar a cordinha de amarrar a porta de cercar o vento ou de impedir um cão vizinho a xeretar farejando as coisas de dentro na cozinha; e aí sim se esborrachar o rapaz desinfeliz (desinfeliz seria o feliz por ser o infeliz dos avessos, mas o povo fala dessa maneira, que fazer!) antes mesmo de se esborrachar na cama arcada fedorenta anos sem os cuidados feminis, mesmo antes disso já deu de cara com um inimigo – nem pensava no Zé da motoca e não era mesmo o Zé – um inimigo que fosse tão só adversário ou aquele com quem não contamos, contamos apenas em não confiar demais... pois deu de cara com o pai. Ele entrava e o velho saía, inclusive amarrara o ‘cadeado’ de corda enrolado desde o buraco da porta até chegar enrolá-lo prendendo o mesmo no gancho do batente, o qual não passava de prego desenferrujado do tanto lustrar a corda no amarro; já fizera isso ao filho desfazer e entrar na casa; já andava na direção dos amigos – dando tempo o encontro daquele desencontro apenas para se insultarem de olhar. Toninho chegava um tanto emburrado magoado desenxavido enquadrado na sua infelicidade, com a mola propulsora na esmola de vinte e cinco centavos; o velho Chico de mal com a vida, se vida que um idoso acabado ou acabando leva, se tal seja vida. Foi um encontro do desencontro do mal humor de ambos.
          Não se falaram. Um pingo não é letra aos que entendem se desentender! Se olharam, perto o mais longe possível. Ninguém indagou a ninguém. O pai meneando a cabeça como desagrado, num mostrar sem querer a aversão a malquerência pelo outro; isto vindo certamente desde o nascimento do aleijadinho ou desde os tempos dos tempos, o homem sem condições filosóficas para chegar a tanto saber. O desafeto, todo enrolado a andar aos pulos, e agora retornando numa pilha de nervos, isto expressão usual a dizer onde desemboca o pessimismo, o pessimismo louquinho a despejar-se no primeiro que porventura cruzar-lhe os passos; o primeiro foi exatamente o pai ao filho, o filho ao pai numa contrapartida... Daí chocaram-se, sem se falar. Nem ao menos a se cumprimentar. À velha dizia respeitoso Antônio, “bença mãe” não o fazendo nunca ao Chico, desde pequenino aprendera com a natureza em não confiar nele, bêbado ou sóbrio, nervoso ou ‘normal’ que é o nervosismo contido. Então, nessa volta à casa, na saída do pai, teve num relance uma visão estranha do seu dentro, ele que passara pela Mercedes, decerto pelo negrinho que fizeram em comum acordo no sem pensar acordo mas no entendimento da atração apenas; que passara talvez pelo vizinho Zé e pela motocicleta do Zé e nem vira coisa alguma; que cruzara com outros vizinhos, sem ver. Via agora o pai e sentia tê-lo observado a olhar para seu lado maliciosamente, pior ainda: o olhar flagrantemente dum inimigo, desses que se vestem de carneiro a melhor trair traindo a confiança que porventura se lhe houvesse depositado; o homem olha o orador, grita de olhar sua repugnância ao mandão, ele, imperturbável na exposição de motivos, a invectivar contra o bando de Chico, quem sabe com outro e anterior nome... Mas, diz-se num relance de instantes de segundos naquele reencontro entre pai saindo filho entrando na casa: este é aquele! aquele de ontem. O ontem ainda era o dia anterior. Olha de frente, frente para cima ao velho, odeia o genitor, estando realmente nas condições para isso pois chegara hiperexcitado, nervoso, infeliz, indignado desde a rua; odeia ao outro; o outro, agora um pai que nunca apreciara o filhote todo enrolado em seus aleijumes, um pai que o fuzila com nojo, desde lá de cima, porque embora diminuindo sua estatura no encolhimento da velhice, ainda assim o velho maior que o Caranguejo.
          O velho gasto fez um muxoxo em desagrado pelo filho, se foi, sumiu no esquecimento daquelas horas. Enquanto que o Sapo, já infeliz, mais infeliz ficando, houvesse mais ao pessimismo – o Sapo adentrou o tugúrio, quase a atenuar o incidente, o qual, não sabia, soubesse saberia ser de anos e de séculos... Então se esparramou a sofrer na cama, com mais motivos agora a desaguar o coração.
          Ficaria, ficou por horas sem fim naquele estado; nessas condições as horas não têm de fato fim.



18. Vejamos se serve a imagem seguinte, a imagem se casando bem ao Toninho: a vida pode se comparar a um estômago; enorme ao de grande existência, esse tipo de matusalém que vez que outra a televisão mostra; um estômago mediano, aqui abarcando a grande maioria na Humanidade, vida nos conformes e com as mentiras estatísticas, as quais destinam a cada região o limite de anos a viver, os teimosos e gozadores desmentindo a sobejo; e o órgão pequeno, às vezes titico assim como fala um sujeito versado em gíria, equivalendo a essas existências curtas e curtíssimas mesmo (sem entrarmos aqui na vexatória situação abortiva, a gente ficando sempre a se esconder, em moral, da moral consagrada...) Dum lado a vida, a existência; doutro o estômago a simbolizá-la.
          Bem. Apliquemos o caso no caso do Antônio, o qual as parentas próximas cariciavam por Toninho; e os amigos, ou ‘amigos da onça!’ estes a tratá-lo debochadamente Aranho ou Caranguejo ou Sapo; e eis que num dia certo moleque, moleque sendo um menino instruído nos afazeres e folganças da rua, num dia um examinando o ‘Gibi’ e acompanhando uma estorieta australiana, nisso vendo e comparando o desenho com o agente vivo gritou-lhe – “ói o Canguru!” o Antônio a pular de raiva. Mas que desaforado; que é que o mundo pensava dele, um verdadeiro zoológico ambulante a viver levar o peso de tantos apelidos!
          Todavia Ganguru não pegou, felizmente.
          Antônio curte seu estômago mediano; se pensasse bem, bem poderia ansiar por que a vida não se prolongasse demais, a expô-lo a tanto vexame, a tanta vergonha, a tanto sofrer. Se o sofrer depura, ainda uma vantagem na desvantagem. Não tendo ele essa opinião formada, antes vivendo em luta a escapar dos aguilhões...
          Num estômago daqueles grandões como saco sem fundo cabem mil e um alimentos. Às vezes metemos no bucho, mal avisados, nacos e mais nacos indigeríveis, nem o fígado conseguindo auxiliar o pobre; então regurgita ou vomita; trazendo o triste consolo da enfermidade e o inevitável consolo da senhora Morte, mui conhecida por Dona Maria e por sua prole saída como anjinho. A ignorância, ou a estupidez? a ignorância acumula o estômago, mata o dono do estômago. Ora, o alimento da vida é o fato. O Antônio era medianamente suprido de alimento na sua existência, se bem (mal?) que os fatos entraram no seu ser à sua revelia quase sempre, a ignorância apenas responsável por muitos dos fatos, não por todos. Não desejando passar por alimentos miúdos, muitas vezes insignificantes mas poderosos na ação deletéria (quando não mortíferos, a envenenar seu estado psicológico) o aleijado curtia nacos pequenos insalubres e indigestos, próprios a auxiliar Dona Morte, citada por sua eficiência, lógica, paciência e inevitabilidade; sem que o personagem destas linhas vivesse (aí já não é mais viver...) sem que vivesse ele a ruminar a alternativa.
          Ao ver os seus dias se diluindo, a pensar no alimento estragado ou estragante, quem sabe a engolir sua saúde. Sintomático desse estado a questão do xixi.
          O homem urina, Antônio é homem, Antônio urina.
          Quem pode fugir às necessidades fisiológicas?
          Agora se encontra no Terminal; quase sempre está no TRU, seja a tomar condução, seja por haver descido dela, seja a passar tempo vendo as coisas e existe ali é muita mulher bonita, a fome é grande nessa idade. Beira os 38 janeiros, podendo pensar nos termos de dezembros, ele que D.Maria parira em setembro a natureza ofertando à roceira uma promessa, o futuro molhou com rios de lágrimas a promessa. Tem 38, maduros 38 anos, graças às dores; pois que muitas pessoas jamais amadurecem, ele mesmo não passando dum simplorião falador. Já pensa, se não nos dezembros, pensa; vez que outra aparenta estar macambúzio. Mata o tempo, o tempo que o mata. Não pode contudo fugir das necessidades; alguém, outro e mais outro, os circunstantes enchem-no com líquidos; ele mesmo adquire refrigerantes a acalmar o suor, o TRU queima desde lá de cima na sua cobertura metálica o aqui embaixo, a gente reclama, o homem comum generaliza a temperatura; porém anda de fato quentíssimo. E mais líquidos. Sua, remexe-se, senta-se se levanta, anda vai vem senta-se novamente, indócil. Todavia a bexiga não tem costume de esperar. Em pequeno era o ‘mijão’ da família, seu Chico não agradava o filho mas a compensar descia-lhe a lenha, com a cinta, por causa da incontinência; até que a esposa vinha ao socorro da cria. Aprendeu.
          É um ser maduro (o homem comum não tem preocupação científica com respeito ao ponto de equilíbrio; por isso à gente conhecida o Toninho é maduro). Se cheira a amoníaco é mais pela roupa e ela vive com o suor muitas e muitas vezes dormido – sem querer não mais urina. Urina como todo mundo. Quando líquido preso, o jato não a jato e solto mas dificultoso a sair, a Branca fazia para ele chá de quebra-pedra, a periferia tem muita vegetação teimosa; agora nem mãe nem mana muito menos pai, faz ele mesmo o remédio, conserta ao concerto e pronto. No entanto pode ser considerado nesse particular normal, ele assim pensa. Pensa agora que terá de correr ao banheiro para verter água, o caboclo diz verter. Aqui uns pingos nos ii desta vida.
          Em primeiro lugar impossível a ele correr. Isto força de expressão, abuso de linguagem talvez. Em segundo, ‘banheiro’ não deveria ser o local para se tomar banho? Na maloca usa bacia, havendo necessidade, os roceiros não têm muita, eles lavam-se aos sábados antes do baile ou após o jogo de futebol, autêntica pelada. Antônio traz esses costumes de higiene. Alguns populares indicam como ‘mictório’ o lugar, ou mais debochadamente ‘privada’; a prefeitura pôs dístico indicativo como ‘sanitário’, o masculino o feminino, este não se devendo misturar bonito com as coisas feias.
          A questão essencial aqui é a necessidade do Antônio, ter de ir rolando se arrastando molando igual sapo, a chamar atenção ou atrair piedade, a provocar curiosidade sobre si. Fá-lo a contento, ou a tempo. Penetra naquele santuário malcheiroso. A julgar pelo que se diz, o feminino não ganha muito na limpeza do banheiro macho.
          Antônio entra naquilo, que é nome mais apropriado a sanitário público, recebe a catinga, têm lá alguns machos da espécie, uns constrangidamente como fora pecado a natureza dada a eles pelo Criador; outros desavergonhados e até exibicionistas nas machezas, a chocalhar as coisas; alguns comentam, outros contam, outros mais aproveitam a negociar comprar vender sugerir imóveis ou a encetar ou que seja reencetar conversas, fiadas ou não. Talvez esteja errado que nada se perca: porém tudo isso pode ser jogado fora quase sempre ou esquecido pela memória... Contudo ainda existem os que, às escondidas ou abertamente para mostrar a tara, os que escrevem nas paredes, quebram o bem público ou ofendem a moral; pessoas depravadas!
          Entra no recinto e prontamente recebe gozações. Presentes picham-no, brincam na camaradagem discutível ou apenas olham o pobre em vê-lo passar necessidade nas necessidades. É o vexame que entra como um alimento envenenado naquele estômago que não tem mais que 38 anos, entra a espalhar, ou ao contrário introduzir o tóxico na mente do idoso. Idoso! sim, os jovens já fazem referência a ele como sendo um velho aos 38! felizmente pra si não se vê um acabado; longe disso – tem, apesar dos infortúnios, um certo apego à vida, às coisas mundanas inclusive, como escolher um bom prato. Agora urina.
          E isto é terrível. Antônio não alcança bem a louça fedida própria a tal uso! pobre dele; alguns dos ‘amigos’ ali querem assistir ao espetáculo nojento. Ele, qual aranha, espicha um membro inferior pra lá, escorrega no chão, encolhe outro pra cá, se ajeita como pode; não pode... O membro, estivesse viril não sairia o líquido amarelo; flácido, não alcança o limiar da louça, esguicha bem mal, conseguindo atingir um pouco o sanitário melado, mija enfim, parte na parede, o resto a se derramar em rio no chão, o chão que é um grude na sujeira. E o tempo gasto! leva tempão na tarefa. Satisfaz-se. O pouco é o muito dos limitados. E dos sofredores... Se limpa, mais chocalha, agora as mãos a fazer virar chuvinha de mijo no solo. Nada a acrescentar no piso sujo feio molhado malcheiroso. Se arrasta um pouco mais. É o ponto de se lavar, a pia quebrada, o pingar eterno das coisas públicas; sabão? estariam brincando com a realidade e a verdade do ser! Lava-se, passa as mãos na face suada; apenas por causa do suor, não havendo o hábito da limpeza e menos o da desinfecção; o homem comum não é preocupado com isso: os mesmos dedos que abrem a braguilha, que furam o papel higiênico (isto não havendo na privada do TRU) – são os mesmos dedos que tocam os alimentos e as pessoas amadas, sem necessidade a se limpar.
          O Antônio todo torto não pensa sequer nestes termos; pensa antes no seu constrager diário, muitas vezes repetido no dia, a enfrentar o público, masculino, como macho se vê; ou não será isto o pior!
          Sabe, por intuição ou por experiência, sabe que o macho não tem contemplação com seu aleijume, mesmo durante suas necessidades fisiológicas; para os outros seres humanos é o palhaço desse circo.
          Assim engole, já não mais arrota nem pensa que possa lhe fazer mal ou ser indigesto; engole o alimento. Em doses diárias, nada homeopáticas; letais? inevitáveis com certeza.



19. Talvez não exista maior miséria que a miséria moral, a miséria, a outra miséria, considerando os aspectos da fome, mesmo a fome de ‘barriga cheia’, a ignorância imaginando bastar o estômago estufado; a moradia, que sendo própria é a própria imagem da pobreza; e o morar precariamente com aluguéis escorchantes, embora irrisórios por causa da relatividade no entendimento; a daqueles que nem moram a morar nos abrigos esporádicos ou em pontes e vias outras; a miséria da saúde a depender da saúde pública, mais doente que o doente, quando uma urbe possa oferecer tal serviço; a do emprego que falta a do subemprego que sobra nas garantias inexistentes; o drama do ensino mais e mais precário, nas ofertas estatísticas, mas com entranhas mentirosas iguais a elas; a miséria da violência de rua e a doméstica; a miséria do transporte, existindo ele a uns poucos privilegiados. Ora, isto não anda a beirar palanque de políticos, antes com o tão conhecido e praticado showmício?
          Parece. Convenhamos a semelhança. O Antônio tem tudo isso, e nada tem. Ou tem demais? Tem sua maloca, que divide com o pai sempre ausente; possui, pagando a habitação num aluguel a outro vizinho também favelado. Tem condução de graça, só pagando a irritação pelo gozar alheio. Tem saúde em 5%, os 95% ficando por conta dos aleijumes. Tem letras, a Branquinha foi-lhe suave mestra; já lê o dístico do ônibus, se distrai a ler as propagandas dentro e fora do veículo; leu até um livreto evangélico que lhe chegou às mãos pra examinar e não entender, mesmo porque o padre fala mais bonito que as letras na paróquia do centro.
          Poderia negar a miserabilidade; sobretudo no item ‘ingressos’, recebendo ajuda do município; aí lembra existir muita gente boa no mundo, um dos benfeitores faleceu outro dia, ficou o rapaz pesaroso. Poderia.
          Mas se tivesse condições em ver por fora o seu por dentro... Vive numa completa miséria moral. A tendência da gente é associar de imediato miséria com depravação, Toninho não é um depravado, nem quando jovem e impetuoso fora; natural ter tido os interesses comuns, tolhidos pelas leis da timidez. Dir-se-ia neste ponto da análise: o fato de ‘aceitar’ a vida que leva é positivo e elimina o negativo. No entanto brincar falando fino, gritar como resposta à gozação abusiva dos amigos, não leva isso a entender como vida tranquila e feliz! Nesse particular não. Vive, se viver for dormir comer andar conversar, vive as aparências. Na verdade curte, o verbo aqui aplicado com ironia, curte o braseiro no seu interior; quase se podendo afirmar o seu comum diário ser o desequilíbrio emocional. É aceito, é integrado, sonha, tem futuro? Extremamente incômodo responder; não responderia Toninho ou fá-lo-ia em lágrima ou em forma tristonha. Felizmente, ah quanto absurdo revela a linguagem, felizmente não pensa; no sentido de filosofar.
          Todavia basta algum insignificante fato, despercebido pelos outros, talvez pela totalidade dos outros circunstantes, bastando algum para degringolar, a se entregar ao pessimismo; este, que se não for violento é ao menos destruidor, igual, não semelhante, igual ao veneno que broqueia o estômago de sua vida. Indigestão facilmente percebida.
          Algumas pessoas, a imaginá-lo bem na posição de tipo popular e folclórico, toda cidade tem o seu, tais pessoas poderão pensá-lo nos termos de equilíbrio na aparente aceitação de ofensores e ofendido, a manter o status. Irão elas mais longe no concluir – Antônio, um homem feliz. Feliz é o apelido da alegria. Contudo ninguém podendo vê-lo no leito em mágoa; quiçá em desespero.
          Antigamente, este que é um dizer tão sem consistência, antigamente era tido por moço alegre, no correr, embora em seu modo pulando, no correr com os meninos da periferia. A avaliação indo mais longe: um rapaz feliz no amor. Verdade que foram bons meses de amparo e compreensão no adultério com Mercedes. O tempo que se seguiu foi se não impeditivo, dificultoso e quase impossível, a um ser com tantos aleijumes e feiuras. Conseguir algum encontro fortuito com profissionais ou mulheres de baixa condição moral? Mesmo nesse meio foi repudiado e gozado. Outro aspecto curioso: nunca mais se embebedou como ocorria na juventude; descreria também da solução alcoólica? isso porque tendo seu parco ganho, para fazer valer seu direito cidadão... ou teria medo ser apequenado em público pela bebida como fora por outras inferioridades. Até poderia ter libações e sexo satisfeitos, o fator sendo o dinheiro. Ou terá chegado à conclusão de sexo não ser amor porém laivos mais ou menos apressados de amor?
          De qualquer forma nunca se elevou ao amor, desse com ‘a’ maiúsculo. Podendo haver sonhado, o homem facilmente cede à fantasia, pode sim haver, mas nunca encontrou o que o povo denomina alma gêmea. Inclusive na união com Mercedes, temerária união, mesmo nessa, ela havendo sido algo assim sem profundidade, mais a prática do coito que amor, junção de corpos não de almas. Tanto assim que raramente pensa agora na mulher. Pareceu-lhe apenas uma intromissão, de meses é verdade, insuficiente e quase fugaz, uma intromissão da jovem que ele condenara noutras épocas, embora tendo por ela uma atração incômoda nesse tempo; foi atração retomada quando a reencontra vizinha, cheia de filhos, a exercer sobre ele a posição de professora e comparsa, a iniciá-lo.
          Neste ponto cabe lembrar a influência materna, dona Maria, afeita à moral antiga e da roça, a mãe não podendo aceitar e acatar o proceder do filho. Decerto aceitando e acatando depois e amando com certeza a existência do neto provindo dele. Talvez na sua relação com a vizinha tenha a velha evitado tais melindres.
          Nada obstante – tendo quase esquecido não a Mercedes, ré no seu sonho em vigília, mas a Mercedes com quem praticara adultério – nada obstante se pega, no seu estilo, a falar fácil de ‘suas conquistas’ às orelhas curiosas, mais interessadas mesmo a espicaçar-lhe as podridões, para no futuro explorar a miséria e se fartar num rir; sim, mais a espicaçar que acreditando. Ele: “eu fiz amor com a...”



20. Sim, pode ser a um estômago comparável, ou a um caminho, a vida. Se enchemos lotamos estufamos esse órgão, já estando ele cheiinho de ácido clorídrico, se o enchemos até à saturação, no estilo estufa à estafa mesmo... todos sabem o que irá suceder. O tal caminho poderia inclusive ser melhor compreendido vestindo-se a imagem da serra. A linha no início vem da planície, sobe até às alturas; após desce. Na vida muitos abruptamente, noutros em educadas lentas e pacientes passadas até chegar ao fim; o fim? o oceano, outra planície, pântanos ou fogos com águas ferventes segundo o pensar ignorante. O pico do caminho de Antônio já estava alcançado; conforme os jovens, embora apenas os 38 anos do aleijado e encolhido; restava agora a descida. Não vira a rampa, quase ninguém vê, perdido nas distrações e nas ignorâncias, repetindo aqui por serem elas amigas inseparáveis dos novos. Não vira. Levemente percebia, se não estar velho e absurdo admitisse tal, ao menos andar pelo caminho do declínio; flagrante o declínio das forças. A dor, a física, ela costuma provar-nos por a+b essas sabências, sabência como fala o homem da rua. Sem estar usando igual velhinho a muleta (e isto seria, além do ultraje, a maldade da natureza, a qual o havia premiado com bastantinho aleijume e desengonço consequente no andar e na postura; além de lembrar aqui o deboche alheio na escolha dos apelidos) não usava muletas mas ultimamente era do grupo ai ui. Em sua mocidade uma vizinha idosa falava a brincar que velho senta com ‘ai’ e se levanta com ‘ui’. Pelo sim pelo não, ficava agora até mais tarde na cama, tomando por isso o segundo ônibus ou o terceiro circular na rotina do atrasar na rua de cima, no coração da periferia rica. Não devia ser pela fragrância dos lençóis a retenção, o fedor decerto espantando inclusive suas acostumadas glândulas... A preguiça e as dores nos aleijumes; e pior ainda, isto um aspecto moral: temia enfrentar o mundo, o mundo ardiloso e armado de língua até aos dentes! Por outro lado a ambiência do bairro que o cercava nessa altura não sendo mais seu ambiente; sentia-se tal qual estrangeiro no desnorteio. Não viviam ali mais seus amigos – outra vez é preciso pôr a questão amiga: quem é realmente o amigo? – deixemos mais barato, usemos vocábulos como colegas e conhecidos, todos vizinhos no amontoo de taperas feitas com restos de construção dos outros menos pobres, formando sua periferia, a pobre e abandonada, nunca vista pelas autoridades; mesmo porque o homem da periferia é menos que cidadão, menos inclusive que urbanoide; portanto os políticos não conseguem enxergar nesse depósito de seres humanos possíveis votos; daí o abandono; constatável à geração do Antônio por quase duas dezenas de anos vivendo ou ‘vivendo’ aí, e nem sequer uma rua fora legalizada. Os mapas municipais tão só indicavam a Vila Nova, nessa época bem velha, como apenso urbano. A rigor a periferia era doente, não estava; estava o morador enrolado nos seus aleijumes, doente. Era uma tal prorrogação na prorrogação no ato de se levantar... Enfim, pés no chão, chão de terra batida igual tivera na casa da roça donde foram os seus expulsos, D.Maria seu Chico a Branca, que era ‘morena’ aos que a observavam, tendo lábios grossos e sendo um pouco bicuda e na cabeça o pixaim africano igual a mãe; e ele. Ele, Antônio, nesta fase da vida bem pouco interessado na cidadania da Vila e mais no almoço em restaurante.
          Assim partiu tarde à cidade, ao centro dela, centro da vida comercial com seus vendedores ambulantes e sem vínculos legais, bem ao gosto do desemprego que já iniciava o galopar para o Século XXI; centro da gente a passar e mais passar; ele quem sabe interessado encontrar um derivativo ou algo a que se apegar. Ora, assim a vida para muitos já seria a morte...
          Após tanto se ocupar voltou ao refúgio do arrabalde.



21. Certo dia começou por não começar o dia, tendo aquilo atravessado na garganta. Amanheceu amanhecendo com seus planos, planos curtos é verdade: tomo o primeiro horário de ônibus – se aquele sem-vergonha do João mexer comigo desço do circular, subo no segundo horário – depois paro no jardim, se não tiver por lá muito moleque, sobretudo os mais engraçadinhos, depois... Depois fez mais planos, fazer planos é uma atividade grata ao ser humano e não custa nada, custam muito as realizações. Toninho não precisa, a rigor, nem de muitos planos nem de consequentes realizações, bastando-lhe viver. Porém é viver começar, a começar o dia, com um trambolho daquele! Se arrasta a pular gozado nesse triste dia, ainda no trilho a imitar rua, com matos e buracos, rumo à periferia rica, a sair daquela com mais miséria, a fim de tomar condução, sabido ser na rua de cima o ponto, quando... O Zé Motoqueiro tirou-lhe uma ‘fininha’ no carreador, primeiro fez zigue-zague numa palhaçada ou provocação; deixando a buzina já quase em cima do infeliz. Ouviu do rapaz prontamente, fino gritado, um fiadaputinha não dos pequenos contra todas motos do planeta! Parou a moto o homem, sem parar o tectecar no escapamento, isto também forma agressiva a endoidar a parte da humanidade ainda não completamente lunática, mas não disse nada o Zé Inimigo, apenas olhou pros lados dos aleijumes com risinho e ironia. A seguir partiu na disparada, a soltar ‘puns’ com cheiro de combustível, deixou fumaça e fedor ao moço. O moço... ora, como começar começando bem o dia se começava mal!
          Estava estragado, não já estivesse pela noite indormida.
          Se arrastou, pulou um pouco mais. Mudou o itinerário por novo caminho; as pessoas vivem a fazer modificações no caminho mas não mudam essencialmente o percurso; ele também, na ânsia de mudar confrontando ou ofendendo a rotina:  fez uma curva aberta por outra rua paralela ao sentido da direção do ponto, aproveitando para ver (a gente diz sempre “conhecer”, ninguém conhece coisa alguma) o que não sabia existir no bairro rico, ‘rico’ por possuir vias esquadrejadas impensáveis no bairro miserável; por exemplo as casas os quintais os portões e fechaduras a tornar mais portões os portões; e gente nova, nova pra quem nunca vira antes, podendo caber aqui até a velhinha coroca a sonhar seu mundo que não era mais mundo. Viu; e o que não desejava, desejava sim, ver: deparou-se com a Mercedes a lavar suas roupas lá no fundo duma residência (ah, então mudou-se não muito longe, pensou). A mulher olhou-o sem vê-lo ou sem querer demonstrar haver percebido. As crianças brincavam perto, um menino negro já grandãozinho também, seria? Abanou a cabeça em desconsolo, e prosseguiu. Fechou a volta que dera, a lhe sobrecarregar os músculos inferiores doloridos; e chegou bufando no ponto. Claro, seu ônibus já se fora, aguardou uma eternidade de tempo o próximo a si distante; aproveitou para ruminar as suas coisas, escarrapachado no chão a mercê da inclemência solar. Embora tivesse novas experiências mudando o trajeto, formigava lá dentro da mente a lembrança terrível do terrível encontro, sempre reencontro, do Zé vizinho e inimigo, agora tendo certeza da inimizade e do desagrado mútuos; lembrava-se como naquele instante do quase crime poucas horas atrás, revira no relance o Zé a futricar outrem contra si, na visão que aparecia volta e meia em vigília. Não havia mais dúvida com respeito à identidade de ambos nos dois extremos de existências, eram o mesmo Zé o mesmo Antônio, no outro a mesma ironia, a mesma intriga.
          Seu pessimismo aproveitou-se do momento para deitar e rolar por cima do infeliz. O dia, com tal manhã, encontrava-se definitivamente estragado. Daí tudo não dando mais certo, até os errados habituais a tornar-se mais errados.
          Despicou sua raiva no motorista apressado quando ao subir no carro, a se enroscar na porta de entrada. Gritaram-se: um, “sobe Sapo!” “vai pro inferno” a resposta.
          Rodeou como possível o centro, examinou seus bancos de jardim preferidos, um estando ocupado por estranhos; evitou a gangue dos moleques; foi barrado na porta dum restaurante grã-fino; por fim evitou passar também na frente das lojas mais conhecidas e portanto com possibilidade ser ferido. Nada adiantando a desfazer seu negativismo. O dia foi-lhe funesto. Funesta a volta.
          Olhou irado o genitor, meio ébrio, decerto tornara ao vício (ah os amigos a roda de colegas...) Olhou-o como fosse o culpado pelo peso do mundo em suas costas. Nem se falaram, um a entrar o outro a sair.



22. Noutro dia já era outro dia, não desejando lembrar-se sequer do passado próximo de mau presente. Não conseguiu. Mesmo porque a madrugada quente, uma criança nas imediações a chorar, cachorros, gatos, tudo contribuindo à insônia. Pior. Tinha o pior – as baratas; as suas costumeiras baratas, aquelas da habitação, e as que vieram do vizinho, o vizinho pôs pós inseticidas na maloca dele contra elas, elas voaram pro lado do Toninho. Noite inteira a afugentá-las. E o Chico a roncar! Aí se levantou, acendeu a vela, chegou perto do genitor, ia gritar com o velho o barulho roncador, notou uma na cara dele; olhou em volta, em volta voavam incontáveis desesperadamente. Apagou o lume, suportou aquele cheiro ruim característico do sebo queimado, tornou ao seu leito a indormir melhor, aguardar o fim da madrugada o começo do novo dia. O dia pode ser sempre uma esperança.
          Não tinha grande expectativa por esse dia, os raios solares pálidos, um vento com força de brisa morna soprando, sem a claridade vivificante – enquanto se arrastava rumo ao ponto do circular. Lembrou-se da luta na madrugada longa como são os olhos da madrugada, concluiu não haver pregado os seus olhos também; o que sempre quase é uma inverdade ou só engano de nossa mentira, muitas vezes dormimos segundos pensando acordados. Lembrou-se dum sonho, o sonho que só existe na noite da consciência, mesmo insistindo ter passado em claro. Contudo o sonho era o mesmo da vigília, que se manifestava vez por outra, quando menos a esperar e não sabendo em que condições a surgir. O mesmo. Os mesmos personagens e o mesmo ele, cobrador exigente discursivo invectivo convencido mandão. Não ter-se-ia disparado o sonho da madrugada por obra da realidade vivida no dia anterior! mas, pensou, onde no sonho a motoca fumacenta e assassina do Zé Inimigo?
          Pensava nesses termos a adentrar no veículo, aboletar-se feito aranha aleijada no primeiro banco, onde o hábito o pusera, como antes o fazia, embora a sobrar muitas hastes do Caranguejo na bancada simples, um local de preferência para conversa, sempre fiada e sem conteúdo que não a periferia de ideias, ao papo com o motorista, aí a se insultarem ‘de brincadeira’ a se rirem. Introspectivo e discutindo consigo mesmo nem percebeu o chofer, claro que havia ou o carro não andava; sequer percebeu as investidas do homem, com ou sem maldade.
          Quando deu por si circulava no centro, a andar a pular, chamando a curiosidade do transeunte. Quando deu por si, conscientizou uma vontade que os anos esconderam ou diminuíram pondo outras vontades no lugar – estava alguém a comer pamonha. Olhou. Olhou qual criança gulosa sendo roubada por um adulto aproveitador.
          Começou na mente uma viagem ao passado, cada vez mais distante, a mãe os irmãos a temência a Chico. As mulheres, juntas as mulheres vizinhas, algazarravam a alegria em fazer pamonha. As bacias a palha o milho o caldo a fumaça subindo desde o tacho, as crianças por volta a ser ralhadas... ah saudade!
          Não tirou mais da cabeça a pamonha. Tinha a doce a salgada, apreciava ambas; não experimentava anos nenhuma.
          Agora volta com um apetite, nem o apetite rotineiro como desfastio no restaurante por quilo diminuíra a necessidade do milho verde enrolado na palha. Torna assim ao tugúrio na sua periferia.
          No caminho, mediante planos nada honestos nem cidadãos, passa nos fundos dum quintal entremeio às duas periferias, afana sem consciência pesada algumas espigas, apanha uma olha, arranca outra olha a fim de não ver possível dono, leva o butim dessa guerra escondida pra casa.
          Faz o que faz, descasca, rala, enche as cascas e amarra, põe na panela grande a ferver. Exato como via a Branca e a Mãe fazendo, faz ele no mais ou menos das coisas, que é o ótimo do homem comum. Aguarda impaciente a finalização, sequer percebe um pano encardido aparentemente aos pratos a arder; daí assusta-se com o fogo, a língua alaranjada a subir a pegar na parede daquilo chamado pela família cozinha; apaga, afoito, como bombeiro sem experiência, se queima um pouco. E descansa. Vai provar a guloseima, queima a língua, assopra, experimenta outra vez. E se pergunta indignado com o fracasso: mas o quê que terá faltado!
          Chega o Pai, não está bêbado, só com raiva, sempre enraivecido diante de Toninho, que ele tratava sempre Tonho. Olha o desastre, vai xingá-lo, o menino oferecia boa oportunidade aos nomes feios tão bem guardados na lembrança; no entanto, vendo a pamonha ou qualquer coisa semelhante, avança põe na boca, joga mais de metade em cima do caixote a imitar mesa; despenca a rir, o que ferindo melhormente ao rapaz que um tapa. Se aboleta na cama ainda sem baratas. Já o filho fica a rosnar no fogão. Abre a porta, atira fora a panela, o conteúdo do utensílio, aos cães. Fecha a porta, deita-se, insonia.
          No dia imediato se levanta mais cedo, sai com destino à cidade. Procura desesperado onde a pamonha; tem sempre um vendedor, seja no tempo do milho verde ou não, a oferecer ao público. Até ‘enche o saco’ (isto versão popular) com seu alto-falante. Porém não acha nenhum. Anda, faz mais algumas coisas de sua rotina e rotina a voltar.
          Na descida de sua condução na rua de cima da periferia rica escuta o oferecimento. Se arrasta mais depressa, chega à kombi do pamonheiro. Adquire três pamonhas pra matar a vontade ou a esquecer seu fracasso como amador na cozinha.
          Chega. Come gulosamente aquilo, pois tem sabor mesmo daquilo, com muita maisena e industrialização; e quem sabe higiene discutível. Aí para a contabilizar a besteira feita. Geralmente o pensar na besteira vem sempre depois e não antes do erro que praticamos...
          Ele se indaga: que gosto! era pamonha o que comprei? não terei exagerado na comilança. Neste ponto cabe ainda pôr em questão o efeito da gulodice.
          Aqui tem início mais um drama do Antônio, o qual Dona Maria chamava a diminuir seus entortados como Toninho; e a corja dos camaradas a insistirem no Aranho no Caranguejo no Sapo, alguns inventam ainda outros espécimes do zoológico para gozar melhor o homem, um cidadão simplório e sofredor, revoltado por vezes, mas pacato.

23. Agora tem prosseguimento o início; não, deixemos a continuação para o capítulo 24, numerozinho dos mais safados, perpetremos outra safadeza. De fato, quero autor apresentar meu depoimento, ou contar de fonte limpa, fonte de primeira mão, fonte honesta (os vizinhos ingênuos me consideram honesto bom caridoso compreensivo etc. e tal, acreditei ingenuamente); enfim narrarei o contato que tive com o moço Antônio, o diálogo que mantivemos ambos.
          Estava, estava o escriba, na Avenida do Coronel, claríssimo na cidade grande pequena. O que fazia na ocasião e foi outro dia nem sei, isto não importando; aguardava decerto condução. Eis que, em frente ao ponto, eu como bom brasileiro descansava meu cansaço encostado ao pau do dito ponto, quando vi sair do Restaurante Boa Boia, grã-fino como tudo na Coronel, o Toninho. Nada demais, tudo a propósito, o homem retinto e enrolado pode ser visto na urbe inteira, mais comumente no Terminal. Saía com expressão vitoriosa, um semblante de satisfação, a despertar curiosidade. Ora, um escriba solto na praça não pode ver gente que a gente vira personagem. O personagem se arrastou na minha direção, parecia aqueles bonecos com molas nos pés, a pular pra cima impulsionados debaixo num tong-tong-tong, a pular gozado, então senti tristeza. Bem. Chegou no ponto a olhar lá diante distante o atraso do circular (a gente sempre acredita na gente e conclui: está atrasado). “O senhor tá esperando o ônibus?” Respondi que sim à pergunta tola, para não encompridar a conversa, supondo grandes banalidades. O que não adiantou nadinha; falou aguardar também o carro, mostrou o Boa Boia, desandou a matracar sobre o mesmo: o recinto, a educação, a finura, o produto; aqui enumerou os pratos e eu com maldade imaginei como não estourara a barriga por causa de tanta comida. Analisou cada oferta e os preços condizentes, descreveu a gôndola onde os alimentos expostos; foi mais alto no baixo: o banheiro limpíssimo, aí fazendo referência ao perfumoso do TRU. Sim, cortei: lá vem nosso táxi, disse brincando.
          Parou o circular. Ele deixou o aturdimento alheio interessado em penetrar no veículo, se adiantou aos passageiros, bloqueou com seu sem jeito e aleijumes a demorar muito até conseguir entrar e sentar-se (aí nós outros, uma meia dúzia, entramos). Escolheu o primeiro banco, mais perto do motorista, ambos a aguentar aquelas quenturas do motor. Imediato se puseram a conversar, o condutor do carro falou não sei o quê, o que disparou aquele fala fácil.
          Contou, a mim recontar, todo o Boa Boia, pratos e tratamento digno, elevando o cliente ao grau de não ser um mero freguês, ele; o serviço de mesa e cozinha, chegou ao banheiro; então o motorista: “limpo semelhante o do Terminal”; e o homenzinho encolhido detalhou a privada rica, a pia, a marca do sabonete, a toalha descartável de papel. Uf, pensaram minhas orelhas.
          Chegamos no TRU, desci às carreiras, a procurar meu ônibus, ainda não no local de partida; então virolei um pouco a passar o tempo, pelo menos a encontrar quem sabe outro personagem, de preferência bonita com todas aquelas gostosuras. Quando dou comigo, a acordar o relógio, passava ao lado duns funcionários da Empresa de ônibus, fiscais motoristas cobradores, e no meio, doutoral, o pobre. Falava gesticulava  explicava tornava com paciência àquelas grandiosidades – a narrar a boia do Boa Boia.
          Ouvi, calado, aquele destempero (ou necessidade psicológica de acerto nos desacertos) aquele despropósito do personagem, ouvindo pela terceira vez os mesmos pratos o mesmo tratamento a mesma conclusão: “Vocês pensam que comi de graça! paguei com meu dinheiro.”
          Mostrou uma nota de média importância, não engolida pelo Boia ou recebida dele como troco. Um engraçadinho lhe arrancou das mãos o dinheiro e saiu a andar, o que é correr na limitação do Sapo, enquanto este se pôs a pular no encalço do ‘ladrão’ amigo.
          Olhei aquilo, sorri à cena. Nunca vira um de meus personagens a gritar fino na multidão “me dá meu dinheiro aí!”
          Entrei no ônibus pra meu bairro, observei o motorista: ria-se a valer do Caranguejo correndo no seu jeito pulandinho.



24. Estas linhas retornam a conversar na altura do cap.22 e a conversa se liga à comilança exagerada do Antônio. Agora olha pela terceira vez os olhos do relógio de pulso, o qual, abusivamente, dir-se-ia um admirador ter ofertado a ele; quebrado, e quem sabe por estar avariado virando presente ao simplório, quebrado levou-o a outro conhecido (não sabendo se outro admirador); aí sentou-se no banco de espera desse conhecido, um relojoeiro, um banco como existe na farmácia e no sapateiro; então se espalha na cadeira sem costas (a cadeira que não tem costas, entendamo-nos) uma cadeira lustrada no uso, o verniz quase na madeira branca; conta a bravatear a seu modo o que viu, um pouco do que pensou haver visto, porque todos temos igualmente o direito a mentir, ao menos de retardar a verdade; ouve o outro, todos temos também o direito em mostrar as conquistas nossas ao público. Entra o visitante no assunto principal: o conserto, tem conserto? Examinou o profissional, mexeu em não sei o que, mudou um nunseiquezinho, pôs pilha nova no relógio velho, velho por demais usado, devolveu o objeto, nem cobrou, sem ferir com isso os brios do aleijado, porque seu contentamento sendo maior que os brios. Agradeceu, sorriram; e o de sempre: se der algum atrapalho, traz aqui de novo. É esse tal relógio.
          Olha, mas está indignado ou temeroso; vê que são nove horas, 9:15 h., nove da noite, a coisa ainda dói.
          Deita-se preocupado. Está só, estaria só e mal acompanhado se o pai a roncar ali perto, não veio o ‘véio’, ele refere-se ao pai como o “Véio” aos de fora e encarando o negro enrugado arcado e carcomido de frente não diz “papai”, o qual lhe pareceria tratamento hipócrita a um inimigo e então prefere mesmo chamá-lo “pai”, simples e seco; ou melhor, prefere nem chamá-lo... Não veio, certamente estando com seus pares. Porém questão de dor é algo mui íntimo pra se sentir juntos e não ficar a distribuir carga para outrem. Contudo o homem comum tem por seu forte o lamento. Realmente quer lamentar-se, olha a cama vazia, rola na sua num quase desespero. Doze ou treze horas depois, solão fora nesse mundo de Deus e ainda a dor persistente, ele em desespero mais bem formalizado ou conscientizado!
          Trata-se de uma dor contínua, fixa numa parte do estômago; mas por que, se não jantara, já em razão do aviso da Senhora Intuição, amiga anja santa. A dor perdura, come, enlouquece; ah como somos esbanjadores de palavras! Ele achando que mais um pouco, e seria a loucura. Pensou, a tergiversar, as moléstias mais macabras que nos ajudam ou ajudam mais a dar emprego na funerária. Pensou infecções, micróbios que não se vê; exagerou no medo ou no fatalismo, este também uma doença ótima contra o doente; exagerou no câncer.
          Aí distribuiu parcimoniosamente os doentes terminais conhecidos, fulano? foi no fígado, siclano e beltrano nos pulmões; ninguém no estômago, o estômago danado pra doer naquele lugar (cutucou com o dedo numa pontada leiga e ficou sabendo tanto quando antes). A dor prossegue.
          Puxa, consultando como o fizera antes, agora sem alegria e entusiasmo, a alegria que os presentes e as coisas novas nos trazem, consultando novamente o relógio – puxa, se falou, são dez da manhã, a dor sem parar, estou perdido. Aproveitou a relacionar, a deixar aos herdeiros suas propriedades, decerto seria no estômago... a rigor deixaria pouquíssima roupa velha, mala usadíssima daquelas antigonas, o relógio ganho e funcionando que era uma beleza; e os proventos em ajuda dos poderes públicos, que davam direito a enfrentar todas as Boas Boias do planeta. E o Velho, não iria ele aproveitar-se da situação! reviu o Chico na turma do contra, contra suas invectivas (então, por um ponto a vir ser analisado posteriormente, então um inimigo pelo fato de não apreciá-lo nesta existência mesmo, talvez por seus aleijumes de se envergonhar; os pais machos aguardam machos perfeitos trabalhadores e inteligentes na prole nascente, sobretudo um machão; e estaria decepcionado com seu Tonho; não se lembrava das surras recebidas!) Deu nele uma vontadinha de não morrer, somente para não deixar bens ao inimigo. Isso uns instantes, voltou à dor.
          A questão mais urgente é que não passa, nem cede um pouco a dor. Só aí lembrou-se dos remédios. Os da mãe estariam vencidos com certeza, jogá-los-ia no buraco comunitário ao fundo da periferia, onde eram atirados todos destroços do destroço social. Mas, pessimista, isso se estiver vivo até lá; e se assustou na lembrança...
          Por fim lembrou-se dos chás, tão confiáveis, das plantas nas latinhas em volta do barraco e dos barracos vizinhos. Ferveu erva-cidreira, assim chamada, realmente capim-limão; adicionou folhas de boldo, a amargar melhor sua amargura.
          Por incrível possa parecer amainou a dor que o consumia. Decerto desalojado um naco encravado de pamonha no bucho.
          Meu Deus, deve ter sido a pamonha! Comera demais, bedelhou Dona Intuição. Concordou. E mesmo antes de se dar a cura definitiva, houvesse, prometeu à santa nunca mais exagerar na boca.
          O tempo passou.
          A lembrança quase passou...
          ‘Vencida’ a crise, continuou uns dias na medicação caseira; fez jejum por uns dois dias, mas prosseguiu o fígado a amargar os beiços por semana.
          Mais uma semana quase sem amargar.
          Depois se esqueceu. Esqueceu-se mesmo estar canceroso e à beira da cova, imaginara o povão da periferia, quem sabe se não inclusive os motoristas e aquele chatérrimo cobrador, a chorarem todos na despedida, seu corpo magro preto branco da cor de cera do cadáver.
          Ah que bobagem. Nunca mais pensou. Só quando noutra ocasião exagerou no peso da balança no restaurante (e quem pode ver e não comer maionese!) e ainda achou ter sido explorado pelo dono, aquele ladrão. Além da indisposição no fato de um garçom novato haver tentado impedi-lo entrar no recinto.
25. Outro exagerinho ocorreu, catastrófico pra si. Praticamos besteiras, quantas! perdemos a conta; algumas mais marcantes e mais implicantes mais sensibilizantes; o rapaz aleijado, nos conformes da aceitação social segundo os de fora, perpetrou a sua principal ou mais extravagante...
          Se se arrependeu da ingestão de pamonha e de novo recaiu no excesso da mesa, para se arrepender; pior foi o arrependimento de uma bobaginha de nada, nada que ver com alimento gostoso e próprio para abusos mais. Nós pobres seres humanos nos cobramos palavras mal ditas por bem ditas, indevidas e infortunadamente colocadas; ou são conversas não suficientemente policiadas; ou deslizes involuntários, ou, ainda semelhante, o aceitar uma afirmativa infeliz doutrem. Conclusão, pagamos o pato, maneira que o povo inventou para justificar a cobrança com juros e correções monetárias em cima de uma besteira, que fosse ela pura ou não intencional. A sociedade não julga intenções, mas o corolário do fato. Pobre dele.
          O Toninho se levantara, houvera no dia anterior sonhado acordado, já quase não se repetia o fenômeno. A besteira praticada não foi propriamente o sonho ter-se repetido mas foi sim o comentar isso cedinho com um seu inimigo, o genitor, seu Francisco; até se esquecera da voz dele o moço, idoso também conforme intriga da oposição, esquecera de tanto não se falarem. Aí, nessa manhãzinha pega o Velho no fogão a bebericar sua xícara, faz a infeliz referência. O Pai então sai com ele nas costas, expressão esta inteligível por qualquer popular. Xinga-o, o mais belo do mais feio sendo “burro”, o que não deveria ofender: a vaca é mais burra que o burro. Lamentou a mania do filho a viver sonhando; por que não... aí despencou ótimas oportunidades como a de ganhar rios de dinheiro, ao invés de sonhar de dia; e sumiu a falar sozinho. Isto de não espantar, porque velho fala sozinho muito por não falar nada.
          A Mãe, a Branca, em sua defesa, falaram insistiram, inclusive proibiram o menino a tratar do assunto com os de fora. Porém esquecera-se, como se esquecera da surra que levara da pamonha, voltando depois ter novas crises no físico já combalido; e os anos não costumam perdoar deslizes e esquecimentos. O Pai apenas relembra Toninho nessa manhã. Tonho, disse, além de louco você é burro.
          Foi à cidade a remoer seu desconsolo. Mas, por incrível, parecendo incrível para ele mesmo, depois do consumatum est... Por incrível, esqueceu-se da ralhação paterna, que o levou de volta ao tempo do tempo materno, ouvira outra vez rememorando a voz de Maria. Contudo não adiantou.
          Se pega no coração do TRU a conversar a brincar a gozar também ele com os outros, a falar das coisas da vida dos amigos ali por volta. Num dado momento, cochilo do pensamento? num momento inicia a relatar seu sonho, ah o bendito sonho! na verdade expõe o sonho que se repetia repetia repetia, estando desperto. Fá-lo como a contar vantagem para vencer na língua as vantagens dos outros em torno. Ora, à gente do povo é desvantagem flagrante. Narra tim-tim por tim-tim, narra aos apupos da torcida, ela a querer cavar-lhe a queda e a desmoralização, para ter mais razão no gozo superficial e quem sabe a usar de maldade mesmo. Claro, uns poucos se impressionaram. A maior parte do publiquinho caiu em cima do infeliz. Alguns gritaram a loucura; um evagélico atirou no rosto do rapaz a repetida versão de Satanás! um católico meio carola se benzeu, fez o sinal da cruz, salamaleque mui praticado por ele mesmo inclusive, quando passava na frente da igreja no centro, ele o Toninho ou Sapo ou Caranguejo ou Aranho; enfim conforme a necessidade do gozador com a palavra, ali na roda da gozação.
          Nunca mais teve sossego, num pagar dividendos à fraqueza da boca, ao palavrório. Já se desviava do Zé com sua motoca, evitava o Pai incompreensivo; nem a Mercedes que o quisera, embora noutra existência possa tê-la mandado ao calabouço, nem a ela tendo mais para sua confissão e seu consolo. Agora, vetado pela desmoralização pública, temia o saguão do TRU.
          Coisas piores adviriam, nem por sonho seria capaz de adivinhar.
          Voltou apenas mês depois ao Terminal. Já um outro homem; que demais, a cada dia que passa sempre somos outro; todavia era pelo menos menos Toninho menos Sapo, menos aquilo por que o quisessem denominá-lo, ofendê-lo.



26. Não aguentou. Exato. A curiosidade a necessidade a ansiedade, quem sabe tudo isso de uma vez, fê-lo largar as altas funções na lavagem da roupa pela roupa, a roupa nova. Lembra o rei, a roupa nova do rei? era entretanto tal qual um rei, um príncipe encantado a passear garboso em cima do corcel; contudo sendo apenas uma roupa comum, incomum por ser nova. Decidiu-se, largou espumas bacias perfumantes amaciantes e saiu a correr (aqui sempre limitado a pular a se arrastar de lado, mas mais rápido ou menos lento). Chegou ao guarda roupa, ainda quase novo por ser velho do tempo da Velha, comprado de segunda mão quando chegaram da roça à cidade, a cair na periferia nova e miserável já nessa época. Daqueles monstrengos que não fecham direito a porta, a gente tendo que pôr calços de papelão e a chave vindo só o buraco dela, não mais existindo perdida na casa do anterior dono. Desses monstrengos fechados, as frestas atrás do móvel tapadas com não sei o quê, assim mesmo elas entrando lá dentro, pior: ficando impregnado o fedor de baratas, a irritar o Toninho, então garoto, por dar aquela coceira no nariz da gente; deixando a Branca, a Branca tão corajosa! deixando a moça apavorada a gritar no abrir a porta do tal guarda-roupa. Toninho sorri na lembrança, a porta ainda não despencou, e a arreganha, toma o cabide de pau rústico com a roupa balançando. Trata-se dumas calças, umas a ficarem bem com certa camisa usada e ganha mas vistosa, casando-se bem calça e camisa no moço, passadinho aqui se lembra.
          Uma história longa, quase estória dessas com menininha bruxa e lobo, de tão longa. Não obstante é preciso para saber, sintetizá-la.
          Namorou namorou no espiar dias uns tecidos na loja; a cor, a textura, o padrão, o preço, ah o preço! chegou ao ponto de manuseá-los como profundo conhecedor, a tomar mil horas do vendedor, aliás uma vendedora tentadora, haja vista a necessidade tanta com tanta falta de Mercedes nessa ocasião... certa moça passada, talvez casada, porém não era a vendedora a tentar: o pano. Visitou um profissional, pediu lugar na fila de espera, pediu medidas, voltou endinheirado num dia de pagamento à loja, pediu regateou chateou inclusive; e pagou no caixa, feliz com o embrulho (embrulho aqui o pacote, não muito volumoso, diga-se). Tornou ao alfaiate. Conversou conversou, nessa altura com pouca altura na voz, fina mas engrossando e doendo, lá uns problemas na garganta. Falou mais uma hora, tomando o tempo do homem; este mediu, remediu, anotou e deve ter tido um trabalhão a harmonizar os números a um corpo mui disforme, uma perna maior que a outra; o problema do cós etc.. O Toninho, “Senhor Antônio” ao artesão, o que estufou a vaidade e a cidadania no pobre aleijado, o Toninho ficou um bocado no constrangimento tendo o senhor grisalho e paciente a meticulosidade no medir e empurrar suas coisas com as coisas mal colocadas pela natureza. Superou o constranger a ânsia para ter uma roupa nova decente e apresentável, a fim de não passar mais vexames nos restaurantes chiques (o gerente do Boa Boia o impedira entrar no horário dos clientes mais valorizados comerem conversarem beberem arrotarem peidarem educadamente como é sabido nas altas rodas; só poderia comer antes da hora, ou bem depois da hora dos privilegiados da fortuna, entre os quais não despontava nenhum enrolado das pernas nem encolhido dos braços; e muito menos negro. Fora assim vexatório aos seus brios e direitos, conforme seu pensar). Além do mais só contava com um par de calças, dir-se-ia coloquialmente uma calça; ainda por cima nesse por baixo usadíssima, surrada, e suja. Agora mesmo ao lavá-la, havendo largado a peça na bacia e sair ‘correndo’ ver a nova, estava de calção, também usadíssimo sujíssimo cheirandíssimo furadíssimo, um short desbotado; somente após lavada a calça, secada, passada, passada! que é isso? aí vestiria a roupa e se encontraria em condições de ir à cidade, ouvir gozações por seus aleijumes, desde a do motorista da linha do ponto de cima na periferia rica. Enfim tratou com o alfaiate a feitura e a data de entrega da calça nova. Afoito, ansioso, quis pagar antecipado, para mostrar poder aquisitivo; tanto assim que se esqueceu de pedir desconto, nem ‘chorou’ a negaciar e negociar o preço. Contou dias à prova da confecção, provou a roupa usando e abusando do respeitoso profissional e lá no céu por chamá-lo “senhor”, abusando da paciência e perícia do homem, pra não deixar defeitos. Aí sim a data de entrega. Voltou no dia, noites a perder o sono na ansiedade a completar tão alta conquista, ou seja ter uma calça bela nova e apresentável. Recebeu o tesouro, antes provou definitivamente a sorrir aquela relíquia (qual peça de alta monta e valor, não em não ficar velha, mas a fim de não perecer nunca, como fosse destinada a museu). Provou gostou pagou levou. Uma consagração!
          É tal peça de roupa que toma com o cabide, retira do fedorento guarda-roupa a exalar baratas, cheira, sim chega o nariz afilado ao cabide, cheirando o tecido ainda novo sem uso, duro de goma – o qual entraria, coitado, na rotina como a outra calça, a do tipo ‘bate e enxuga’; quando mui suja, seria lavada. Agora nova, novíssima, a se abrir a boca em exaltação.
          É para pensar: pôr na lambança uma relíquia assim! Um drama incomum, ou seria demais comum, banal? Um drama usar a calça. Depois (depois aqui o após o serviço de lavanderia; aliás na época muito procurados os profissinais lavandeiros, os tintureiros; ao rapaz não sobram tais frescurinhas burguesas, lavará ele mesmo sua roupa nova, então menos nova, usada, usada à beça, com aqueles dedos compridos e nodosos, negros, retintos) sim depois que lavar toda a roupa da casa. Daí veste a calça, vê-se aflito para não esbarrar, não sujar, não amarrotar, não rasgar – credo! – não estragar a preciosidade. Somente não terá se livrado da gozação dos conhecidos, já quase não indo ao TRU a sofrer a desmoralização infligida, e, se fosse lá, lá a maior possível afronta pela roupa nova! ou não: não seria que fosse mais valorizado, um príncipe um rei um conquistador na sociedade!? E aí se apresentando na empáfia na vaidade, quase novamente um orador fardado destruindo a banda podre, esta que é eternamente o lado de lá, corrupta nojenta criminosa – a ser eliminada, seja ao menos com discurso formidável, inapelável... mas não: optou no gastar aquela aparência, a cobrir ou diminuir suas fraquezas nas ruas do centro. Um ser humano, apenas ser humano.



27. Deixa a roupa nova de novo no cabide, repõe a calça à convivência com as baratas e com um paletó velhíssimo do Velho, ainda do casamento do pai, destroço ou relíquia guardado e de quando o Velho novo jovem e impetuoso, a ser tomado por Maria que o guiou ao padre. Ela, a calça nova, ela ficou quietinha quietinha e bem comportada perto do paletó, afogados abafados nas baratas estando a porta fechada, aquela do móvel, o todo a despencar. Aí, somente aí, voltou às lides de lavagem.
          Resolveria de vez o problema. De fato é um problema ver ou apenas sentir o acúmulo de roupa suja... a do Chico que ficasse a embolorar, jamais lavaria a roupa a agradar um inimigo que lhe voltara ao convívio, assim intuía da relação familial. Que o velho a lavasse ou levasse, antes que apodrecessem os panos dele, desse à vizinha limpar; afinal de contas podia pagar lavagem fora, pois endinheirado; ia ver, ganhava uma exorbitância como aposentadoria, falavam na vizinhança ser um salário mínimo, por isso endinheirado; pronto, decidira não lavar a do homem, era responsável unicamente pelas suas; e pensando assim recolheu a sujeira fedorenta dos panos espalhados ao deus-dará, como demais os outros pertences da casa em plena bagunça. Aliás, para que discutir a roupa do pai, ruminou já no mexer a sua, para que se fazendo uns dez dias não aparecendo a dar as caras! o que na sua opinião era positivo. Fez um monte de peças, íntimas e externas, lençóis, toalhas, meias – todas com as mesmas parecenças na sujeira no fedor na velhice na pobreza ou só na baixa qualidade. Ora, baixa é já não ter qualidade. Enfim a montanha dos trapos perto da tábua para bater e esfregar roupa. Trouxe sabão, agora em pó da melhor marca possível, falava a propaganda, comprado no Supermercado Preço Ótimo, decerto ótimo aos proprietários, lá na zona central. Adorava entrar no supermercado, chato mesmo só enroscar às vezes na passagem no caixa, se livrando com ajuda da moça; mostrava ter dinheiro, recebia o troco o papelzinho feito nota (nunca conseguia lê-lo a conferir o preço, sempre desbotado na impressão; às vezes criando caso com a funcionária, não fosse muito bonita); mas antes de passar no caixa examinara ainda no carrinho de compras data de vencimento do produto – um cidadão; orgulhoso por ser cidadão. Sabão em pó, amaciante... ah não perdia uma promoção; comprava frutas iugurtes chocolates guloseimas a valer (o pai gozava o filho a dizer disso tudo “porcariada”, formas do choque nos desafetos que só os familiares podem perceber); Toninho mostrava pujança monetária nas proximidades do pagamento da ajuda oficial, muitas vezes no supermercado e lojas do centro. Era um consumidor! quer dizer, vez por outra escorregava virando consumido; comprava de tudo, parecendo uma boa dona de casa em grande esplendor.
          Agora toma os apetrechos de limpeza, atira, aqui bem brasileiro e comum, atira uma ‘tantada’ na bacia, se espuma pouco, outra. E se põe a molhar ensaboar enxaguar escorrer torcer, depois secar. Vez que outra vai ver a roupa nova de novo, volta, iria assistir a um show televisivo e tem de vê-lo num bar na periferia rica, na pobre não tem eletricidade, não sendo a clandestina, seu caso na casa é vela; porém se distrai da mesma forma, se é para esquecer o trabalho duro das peças de molho; torna, estão duras marcadas manchadas mas não perdidas. Xinga um pouco o esquecimento, retoma: molha ensaboa, agora tem demais sabão, espreme, chocalha o pano (aquela chuvinha na cara da gente desprevenida) bota a secar no fio improvisado, pobretão adora improvisar em tudo o que faz, nisso por exemplo: é um fio enferrujado a marcar direito a roupa, necessário pô-la no avesso, isso ele aprendeu. Aí nota um pequeno desastre, e não é cocô de passarinho, são manchas disformes e não poderiam ser nódoas de fruta ou gordura, ah que diacho, não entende donde vieram! Bem, remedeia-se; pensa mãe pensa menino pensa curiosidade. Maria punha ao sol corar as encardidas e com sinais no pano, esfregava esfregava, mais ou menos assim pensa que fazia ela; o sol dissolve limpa branqueia elimina o cheiro ruim da peça boa, ainda. Recorda-se vagamente, imita a genitora, imita a Branquinha que por sua vez imitava a mãe deles; só não percebendo o tempo a deixar em exposição a roupa. A intuição humana nos mostra que conforme a dose o remédio é veneno. E agora, deixo mais tempo, ponho mais sabão, ponho mais água? Não sabe responder, puxa, diz, se a defunta... Aí aprende consigo mesmo a forma correta a usar, nós mais aprendemos conosco que com outrem. Paga caro o aprendizado: aquela camiseta branca ‘gostosa’ está perdida. Ora, ao fim dá tudo certo, falou baixinho. Entra dentro de casa, esquece o varal penso a balançar ao vento; felizmente não chovendo. Manhãzinho soma o prejuízo computa o ganho, o ganho é sempre ganho quando não tem grande mas pouca perda; isso pra gente ficar ora pessimista ora otimista. A verdade é ter pensado antes de desenroscar a porta da maloca e se lembrar esquecer haver, aflito, pensado no ladrão! ladrão de pobre, ah que miserável. Todavia teve sorte, só uma parte dum lençol desprendendo, a sujar no chão, sendo então relavado.
          Enquanto executava o trabalho como lavandeiro, cansado já antes do início por ter transportado água de longe, a “ladrona” da prefeitura, diziam os vizinhos, só ligou uma torneira entre as duas periferias e nem luz e nem quaisquer benefícios mais; enquanto... Bem, cansou-se. Se cansou a lavar roupa. É uma atividade chata, pois melhor é passear de ônibus e ver as beldades no jardim; por ser chata a gente foge, deixa o trouxa do corpo a trabalhar e viaja nas lembranças nunca esquecidas. Fez isso o Antônio – sem os carinhos do diminutivo mas também livre da pecha dos apelidos que envergonham –  Antônio correu ao campo de futebol.
          Espetáculo bonito de se ver. Sentado lá em cimão feito um rei, embora a luta para chegar de degrau em degrau na arquibancada, sempre preferia assistir do alto, visão comovedora; dá também oportunidade a ouvir desaforos, que são os seus desaforos também, estando na mesma torcida, alguns no mais baixo do baixo calão; a ouvir o gritar constante, apupos (ah pobrezinha da mãe do árbitro) “ladrão” falam, ele igualmente, pior que isso: a crer nas suas palavras no pensá-las suas; a aspirar fumaça e cheiro de cerveja, o que lembrava em dose dupla o pai na roça, e não é que anda no vício outra vez! e se enganava, na última peleja, o São Bento perdera, roubado, não poderia esquecer a data, e se enganava porque o Chico não tinha mais condição física a beber e fumar... e assim volta da lembrança na lembrança: supondo no cúmulo da sorte ter o azar a receber uma pedra ou garrafa de alumínio vazia (piormente, às vezes cheia de xixi!) dos mais extremados contra o ladrão porém nas suas costas. Como o azar já ocorrera, agora senta-se longe no último dos degraus. Assim, Toninho corria pouco risco a receber pedrada com endereço certo ao árbitro ou à sua mãe. Lá olhava.
          Lá embaixo o verde a harmonia o belo; depois os 22 “pernetas”, brincavam se gozando os torcedores, os 22 e embaixo os reservas e ainda mais o juiz os bandeirinhas e o dobro disso tudo na forma de aproveitadores querendo aparecer no programa esportivo da tevê ou na rádio, a cidade pequena grande cujo santo padroeiro é São Bento, bom nos milagres sem fazer contudo o do time da casa ganhar; a cidade tendo duas emissoras radiofônicas, só uma com exclusividade a transmitir a partida de futebol. O que mais havendo: penetras e aproveitadores; na arquibancada mesmo, eram os gatos pingados (ah não fossem as propagandas a sustentar o clube, nem se pagava a luz dos refletores aos jogos noturnos!)
          Não obstante a pouca renda, o rapaz colaborava pagando ingresso, enfrentava fila, aproveitando a dar palpites e prognósticos às orelhas próximas, sobre o placar ou a ofender a burrice do treinador deixando na reserva o atleta de maior potencial; no que quase sempre havia acordo na fila. A torcida costuma aplaudir e vaiar com a mesma língua, isso dependendo do escore no final do jogo. Portanto o Toninho com muita razão, o bilheteiro a sorrir e a lhe dar o troco. Mostra o troco, mostra o ingresso a todos verem, passa na catraca, enrosca um pouco nas hastes da borboleta pelas aranhas espalhadas das pernas e braços mas passa, entra, sobe em meio a assobios e gozações, agora não sendo a ele dirigidas porém aos ‘atletas’ da partida preliminar: solteiros contra casados ou outros grandes desconhecedores da arte futebolística. Logo entra o esquadrão da casa, foguetório. Por fim torce no último patamar aguardando o começo, que é sempre um fim de mundo a errar o gol e não fazer gol, o goleiro do São Bento elevado à categoria de ‘frangueiro’ solidário ao ‘ladrão’ juiz. Torce, berra, grita fino, o som começa grosso afina.
          Agora, na última partida não, não podendo, podendo, parecia, podendo a garganta doer muito e, pior: a ponto de estourar! Não podendo extravasar, gritar... Isso se agravou, o Antônio Torcedor bem gravou na memória, lava esfrega bate torce mancha a roupa; e se lembra mais que doutros desse jogo último que viu.
          Viu e pagou. Antes entrava de graça, tentando ficar perto dos responsáveis à cata dum empurrãozinho, uma entrada de favor ou gentileza; não nas últimas pelejas: o clube a ganhar ou, ruim, a perder, ele pagando como bom cidadão, igual no Boa Boia, então cheio de ‘frescurinhas’ de rico. Nem tivera noutros encontros de futebol que poupar a garganta: relembrou sua força no ‘gogó’ suas alegrias e até fatos conexos, incidentes de pouca monta. Não, lembrava-se (lavando aquele lençol enorme sem ter como abri-lo todo para melhor limpar) lembrava-se dum dia no qual alguém atirara em alguém no meio da torcida: a gritaria a correria a gente a arrebentar os alambrados a gente a pular o muro alto para a fuga à rua. Até ele correu, doendo mas correu pra se salvar daquela loucura...
          Loucura comete nesta hora ressuscitando na beira da bacia a remexer aquela porcaria de panos sujos e fedorentos.
          Oh, se indagou, por que perder tanto tempo com este serviço medonho, se me lembro, insistiu, se estou a lembrar se não esqueci de mandar o alfaiate pôr botão nos bolsos de trás para não perder o lenço!?
          ‘Correu’ pulando a examinar na casa das baratas; e foi com sorte a lembrança, pois além de tudo pusera desajeitado a peça no cabide, ela havia escorregado no chão dentro da velharia com muita velharia por fora.
          Inclusive esqueceu a dor, que era terrível, latejante, e a preocupá-lo, a dor na garganta; agora uma azucrinação diária...























                   































          Quarta Parte:
                                      A Dor, Mestra nos Ensinamentos
                                             Presente Mais que Imperfeito do Passado

                                                                                                      
                                                                                         “Temos, todos que vivemos,
                                                                                           uma vida que é vivida
                                                                                           E outra que é pensada
                                                                                           E a única vida que temos
                                                                                           É essa que é dividida
                                                                                           Entre a verdadeira e a errada...”     
                                                                                                            Fernando Pessoa
         
         
28. Muitos seres humanos exageram as décadas no viver, vivem, se vivem, a ‘subvida’ na sobrevida, a enfeitar o planeta como matusaléns. Toninho não teve paciência suficiente a tanto: envelheceu jovem, os jovens referindo-se a ele como um velhote nos seus ainda 38 anos... A rigor – pois precisamos nos ater à verdade ou nos sujam o renome como enganadores – a rigor não foi bem assim, quase assim. O Sapo pulava de lado a caranguejar e após aboletou-se num banco frio velho gasto melado de sujeira no TRU, a semelhar aranha com suas garras e antenas espalhadas, quase só ele a tomar o banco de cimento e granito, deixando sem graça alguém cansado pretendendo sentar-se na beirada quase não sobrada, aí a gente fica envergonhada: iria pedir, exigir nem se fale, pedir uma beiradinha ao aleijado a olhar de antena nas orelhas abertas à conversa da moçada estudante próxima ao encosto do banco!? não iria. Portanto o Aranho ficou a reinar como soberano nesse espaço onde os meninos não tiram farinha (“tirar farinha” é um dizer do povão a constatar não conseguir o que almeja, antevendo o fracasso). Seguinte, o estudante gasta a caneta nos assentos e paredes do circular: escreve mensagens, lembra seu amor, ou apenas registra seu próprio e lindo nome, rabisca talvez a se exercitar para num futuro nada remoto fazer poesia pornográfica no banheiro público ou nas notas de um, daquelas com fedentina por muito uso, meio rasgadas e remendadas, daquelas que a inflação come todos os dias um pedaço para o povo repor o dinheiro com seus impostos e taxações oficiais. Exato, mas por que não ‘tiram’ os estudantes ‘farinha’ no banco gelado em que Toninho se esparrama? ora, porque simplesmente o bico da caneta desliza escorrega teima e não escreve na superfície cimentada. Aí o mundo perde a oportunidade em ver gravado lindas poesias mensagens excelentes e sugestivos nomes próprios, agora no modismo na língua inglesa. O Antônio continua de antenas ligadas, a gente moça quase criança a matracar ali encostada onde descansa aquele conjunto de ossos mal postos pela natureza e que fez Dona Maria sofrer vendo o filho mamar guloso nos seus peitos, a antever uma vida de sofrimentos e vexames ao enroladinho arregalado a olhar mamãe, sem pensar ela que aos 38 anos chegasse a ser velho! O ‘velho’ percebe aquele ajuntamento de garotos e garotas a falar igual maritacas, desencontradas e ao mesmo tempo a vencer no grito, sorri, a chorar quase imediato de pensamento por causa do pensamento e o susto – porque ali picham-no como idoso! Vamos ao rigor prometido. Na verdade um deles faz referência no seu berrar educado sobre uma professora deles, referia-se a ela como “coroa” (na gíria atual gente velha em oposição à juventude falante). Quantos anos tem Dona Loló, indaga um terceiro; e a resposta pronta: 35 anos! todos no grupo de meninões e meninonas se espantam com o fato da mestra com tanta idade! O Toninho? se assusta com o susto e se volta pra si – próximo dele adultos e crianças se falam e nem percebem um enrolado de ossos e músculos tortos sentado num banco e ele nesse ponto se indaga: então, a julgar o fato da ‘velhota’ de 35 estar no fim da vida, então ele com seus 38 anos já indo à casa matusalêmica! Puxa, pensou alto quase como a barulheira ao seu redor – sou um velho!
          Repete e repete, repete-se “sou um velho”.
          Curiosamente a gente costuma acreditar em si mesmo.
          Foram dias ruminando essa pequena desgraça.
          Não obstante, agora pensa, visto por temperamento ser um gaiato: era um homem alegre, a responder com brincadeira a brincadeira dos gozadores nos ônibus e nas vias públicas onde conhecido, sendo conhecido por todas elas, no jardim no restaurante em todo centro urbano. Alegre, mexilão, andejo, se arrastando de cá pra lá de lá pra cá. “Você tem demais bicho-carpinteiro, Aranho!” Sorria, devolvendo gozativo o dizer, a se dizer bem com a vida.
          Todavia agora não está.
          Encontra-se preso às peias do seu ser, aos seus impedimentos de saúde... ou, por velho, indo ao fim?
          Não quer pensar. No entanto é só o que faz; é só o que pode fazer.



29. É só o que pode fazer: pensar pensar. Rola em noite comprida, a noite que tem a extensão da insônia, uma extensão que o calendário dos homens teima que sejam os vinte e quatro meses, dois anos dos bem espichados, mas a dor e a dor do viver insistem ser a eternidade.
          Lá fora, se for dia e as frestas a facilitarem os raios solares confirmam com o barulho dos que ainda vivem e são gritos de moleques na rua que não é rua porque a periferia pobre é mais pobre de alinhamento; os gritos das mães que não foram levar a roupa lavada às patroas a chamar os filhos a cobrar deles ordem na vida que elas mesmas não podem cumprir; os gritos dos cães contra outros cães ou gatos ou homens na forma de criança a lhes tirar o sossego atirando pedras e sempre a atiçá-los mas os cães desconhecem que mesmo os capetas temem os moleques; os gritos ah os gritos, e ele se livrando apenas dos gritos de vendedores, em vista da pobreza velha da Vila Nova e aí ninguém vende ninguém aparece; não se livrando do barulho da motoca do Zé Inimigo, já sabendo a que horas sai a fumaça que não pode ver, sabendo o local e quando volta a poluir melhor ainda com o cheiro e com o som; o Toninho nas suas certezas por cronometrar no relógio ganho e funcionando que é uma beleza; e então já sabendo qual hora a hora de sofrer aquela lembrança que é também lembrança doutra vida quem sabe, sabe certinho, liga barulha e parte o adversário e quando chega de volta barulha e desliga, às vezes liga outra vez somente a atingi-lo porque sabe que o Zé descobriu que ele estremunha no seu findar rolando na cama no quarto solitário ali perto, e nesse ponto o inimigo acelera acelera decerto fumaçando toda a Vila, num mostrar serviço de destruição, serviço que chega aos ouvidos cansados do Aranho! Daí confirma ser dia, dia claro, menos claro indo talvez à chuva, ela que aprecia gotejar por cima dele. Enfim é dia. Ou lá fora é noite.
          Sua noite é bem servida nessa eternidade. Dá-lhe direito a rolar, até a blasfemar seu desespero; dá-lhe o direito (mas então já sendo um despropósito!) o direito de pensar na vida. A vida que leva agora indo aos 40, vida mais virtual, pois que não passa de lembranças. São lembranças, umas alegres até felizes e aí chora a perda e pode sem se envergonhar chorar no conforto da solidão, a solidão que não se vê e que se sente, quem a sente no abandono. Ou são lembranças tristes, machucadoras, que o feriram que o marcaram a fim de marcar o seu declínio quiçá seu final... Aqui de fato há razão para chorar. Os condutos lacrimais são pródigos: molham o travesseiro de penas, molham primeiro aquele rosto negro ao fazer brilhar na face a luz solar invadindo o muquifo, ou o refletir da luz frágil de lamparina ou da vela que Dona Tiana lhe trouxe dia desses.
          Agora tem a Tiana por mãe com mão caridosa, não pode mais pular de sapo, ficando afundado no catre duro e malcheiroso. Faz mais a pobre mulata vizinha: joga-lhe as fezes e a urina no entulho comunitário, alegria de meninos caçadores de tesouros e dos urubus famintos de detritos e restos em decomposição. Exagera a mulher na bondade a servir – é sua procuradora a receber os proventos na prefeitura. Recebe, conta, explica, ele reconta, faz de cabeça estar certo, às vezes duvida, os seres humanos não se cansam a discordar e a temer a honestidade de seus irmãos; mas fá-lo às escondidas após o sair da senhora, chega o lume da lamparina perto a conferir o dinheiro; e quando encomenda uma compra qualquer quer ver certo o troco. Ela? balança a cabeça com pena ou contrariada porém sorri depois: conhece o Caranguejo, que ela trata Toninho como o faziam a Branca e D.Maria, conhece-o desde a chegada do seu Chico com as tralhas vindo da roça para a Vila. É mais velha que o aleijado, bem mais velha e velha nos cabelos, não obstante o doente conseguir ultrapassá-la na marca matusalêmica com seus quarenta anos. Olha-o como fora filho, neto mais bem dito embora mais idoso que a ‘avó’ resmungona.
          Naquele dia ele é quem rosnava, chorara antes e deveria andar com olhos avermelhados, apenas rosnava na manhã prometedora, prometedora aos que possam ter o direito a promessas pois ele vegetava e iria, sabendo disso, vegetar o dia inteiro; nessa manhã daquele dia ela chegou diferente. Toninho, falou a Tiana, antes mesmo de lhe trazer o café ralo com pão, falou de chofre e sem qualquer diplomacia (que ademais não é própria à gente grosseira da periferia) Toninho, seu Chico morreu...



30. A morte morreu. As pessoas que filosofarem a respeito poderão concluir que o conhecimento deu um tiro de misericórdia em Dona Morte; ela que por anos ceifou vários irmãozinhos do Caranguejo; depois engoliu D.Maria num pleno sofrer; quem sabe não houvesse eliminado a mana, Branquinha fazia anos não tornava aos seus; levara um dos benfeitores que trabalharam a favor da ajuda oficial ao pobre; levara também inúmeros seus conhecidos, inclusive um funcionário entre os gozadores no Terminal. E agora a Tiana a dizer que o pai falecera. Mas têm os que descobrem a morte ser tão só o desmanche do corpo enquanto a vida continua; mais ainda: um religioso afirmara na rua a ele, quando se encontrava a circular pelo centro urbano, afirmara a doutrina segundo a qual voltamos após a ‘morte’ em novo corpo (e o Toninho apressado ou também gozador ao conhecido: poderei portanto voltar com pernas de gente braços de gente corpo de gente branca!?) Caminhou pra casa de volta rindo do amigo e talvez nem amigo fosse, desceu do Circular, prosseguiu à sua tapera, à noite já se esquecera. Agora entretanto, preso na cama, aquela moleza e falta de equilíbrio, perdendo coragem a ficar de pé, pior que isso: sem poder comunicar suas dúvidas; agora pensa pesa relembra repensa e teme concluir; compara com seu sonho em vigília, este raramente ocorrendo nessa difícil fase; ainda assim temendo conclusão.
          Ela chega, afoita, a falar alto no seu jeitão de cabocla – seu Chico morreu...
          Ele? Não indagou o como e os porquês. Todavia sentiu essa necessidade, crivaria a mulher de perguntas como toda gente, fosse por curioso apenas; porque o “Véio”, como o chamava quando ainda podia mencioná-lo a alguém, o Velho era para si estranho e obstáculo, porque sentia de fato um alívio, se encontrando à distância dele. Ultimamente fazendo meses que não sabia do pai, não voltava pra casa, sumira; só uma vez perguntou na vizinhança sobre o paradeiro do genitor e já não sabiam nada, nem os companheiros do velho, eles cujo grupo minguava, parecendo o caso dos dez negrinhos da escritora inglesa, havendo o sumiço de um por um como é habitual nos idosos; nem eles podiam informar sobre Chico. Assim Toninho, que mais se achava estar só quando mal acompanhado pelo pai, sequer sentiu a falta. Entretanto agora Tiana dava oficialmente o que soubera na Vila já toda informada. Seu pai andou internado com aquela rouquidão dele; um dia fugiu do hospital; depois tendo sido encontrado a agonizar na rua foi levado pelos polícias ao pronto-socorro; depois, ainda, enterrado como indigente. Outro dia descobriram que era seu Chico, mas falaram terem cortado ele em pedacinhos, os estudantes da Escola de Medicina. Foi isso que aconteceu, tá entendendo Toninho?
          Toninho fez com a cabeça que sim e não chorou; seria hipócrita se chorasse, pior se endeusasse o homem, dentro da praxe de o morto virar santo. Não só não acreditava nisso como ainda guardava certo rancor, talvez apenas aversão, ao inimigo de uma existência e mesmo das fases anteriores na vida. Somente sentiu, não disse sentir, sentiu como se sente quando alguém sobrecarrega as estatísticas no cemitério. Andava muito longe esse sentimento daquelas dores pela perda de Maria, para a qual verteu dias suas lágrimas. Tiana ficou a olhar sua expressão e não se surpreendeu, por conhecê-lo como a um filho.
          Além do mais, mais contundentes são nossas dores quando as estamos curtindo, curtir aqui no sentido triste, as dele dilacerantes inclusive; mais contundentes que as nos outros, que seja em razão de morte. Toninho sofria bastante, fosse pelas dores físicas – a questão da garganta complicara-se de vez e havia outras dores nas entranhas, ah o homem é um poço com líquidos doentes – fossem essas, fossem as morais, que a memória virtualizara agora com facilidade; e a dor constatável vista e abrangente da imobilização na cama miserável; havendo ainda a dor pior, pior a um falante e bravateiro tal o rapaz: tornara-se difinitivamente mudo!
          Nessas condições não poderia fazer qualquer comentário, dizer a perda nessa perda paterna; mesmo pudesse é discutível uma perda dum inimigo, de fora ou de dentro no lar. Tiana não se impressionou, antes entendeu bem a mímica do enfermo. Qualquer coisa parecida com “que se pode fazer? vivamos agora nossas respectivas vidas”. Lembrou de falar à boa mulher que desse os objetos do pai, queimasse, jogasse os mesmos fora no entulho da comunidade a espantar os urubus.
          Não disse – sequer conseguiu fazer-se entender totalmente sobre o que desejava – não falou nada. Fechou por fim a boca, a boca não de falar: nele a boca de calar.



31. Uma noite, seja a distrair sua insônia seja por estar minado na sua base sensível, nessa noite convocou qual se faz a um congresso os mortos. Não todos os mortos, os seus mortos, os mortos próximos já distantes, o homem comum pensa distantes. Antes, muito antes, tivera um choque ao voltar do Terminal, do jardim, do centro da cidade pequena grande, do ponto lá de cima donde voltara, num correr nos seus destrambelhamentos de ossos e músculos, talvez apressado a chegar naquele tugúrio, pra gente podendo não ser o dos sonhos entretanto sendo um palácio; aí a sentar no banco da cozinha ou se esparramar na cama o seu cansaço naquilo que os de Chico apelidaram quarto; quem sabe a rever a roupa nova, ainda nova tendo o Antônio certa reserva em pô-la no uso usavam-na as baratas, aquelas xeretas nojentas. Enfim volta a ‘correr’ no seu pular de molas e, ao atravessar por entre as outras casas da Vila onde o silêncio se proibira entrar, notou algo inusitado: conversavam gesticulavam falavam respondiam. Ficou de prontidão, pois vez por outra a sensibilidade nos ajuda a saber antes de saber o que não devemos saber para se assustar. Uma das vizinhas inclusive chorava, parecendo esta a esposa (diziam ser amásia, ah a boca do povo...) a mulher do Motoqueiro Inimigo. Parou. O Aranho abriu melhor os ouvidos, escutou a lamentação ser por causa dum dos filhos de Mercedes... morreu ontem, tadinho. Antônio não se controlou, entrou na zona proibida do Motoqueiro, perguntou gritado a escandalizar aquele escândalo existente, não seria que fosse o negrinho e... Não, disseram, o segundo, loiro, a mãe desesperada, tadinha! Inteirou-se, mais calmo. O caminhão de entregar gás (aí detalharam sangue e miolo ao gosto popular ou apenas sadomasoquismo a que tem direito, e prazer, também a classe miserável) o caminhão, o menino tão bonitinho e já indo bem na escola do bairro; foi na rua perto do ponto donde viera ele. Isso ocorrendo quando o aleijado ainda falava ainda gozava os que lhe gozavam na cidade tirando partido de sua ingenuidade, quando ainda visitava com distinção o Boa Boia no fazer ótima figura como tagarela e comilão. Ainda falava, embora a garganta estivesse reclamando alguns cuidados.
          Agora não mais fala. E falaria para quem na sua solidão, caso falasse!
          Então convoca as lembranças dos esquecidos pelo homem da rua, voltado aos seus interesses próximos. Os mortos vêm. O primeiro foi o dolicocefalinho de olhos azuis da Mercedes, simpático para si, pois tratava bem seu filhote de pele escura e meio-irmão dele, do morto então vivo. Lembrou-se do fatídico dia em que a vizinhança chorava a ex-vizinha lá morando na periferia rica. Recordou a voz do garoto, o chamado da mãe, a qual na época sorria matreira ao comensal e parceiro avulso. Isso lhe trouxe um choque, porque Tiana, como fizera no seu jeitão a comunicar o falecimento do pai, fê-lo noutra vez, com respeito, num desrespeito mesmo, à Mercedes. Aí ele chorou de verdade. Sentiu, soluçou, abriu os ouvidos, não podendo abrir os sons, ao contar da vizinha: a Mercedes morreu de repente, foi assim de ‘morte morrida’ não de doença lenta e demorada, lembra como era forte! Chorou mais, mais queria pormenores, pormenores que a linguagem mímica se negava a transmitir para Sebastiana a perdir-lhe minúcias, dessas que ajudam a estancar (ou aumentar?) o sangramento do coração. A Tiana lamentou a atitude do esposo da falecida, desejando distribuir os filhos pequenos a outras famílias criarem... Antônio desejava saber com quem iria ficar seu negrinho, não pôde dizer e chorou de novo. A amiga veio-lhe ao encontro: uma tia do garoto, certa irmã do esposo da morta. O Toninho: ah se eu pudesse ter comigo o menino... continuou o pensamento, mas como se estou também perdendo as forças e preso no leito! Tiana tirou-lhe da má ideia: Toninho, falou, o menino é a sua cara... e deu uma gargalhada. Aí também sorriu. Enfim ela morrera, e agora estava em visita ao seu quarto infecto.
          Veio o ‘Véio’, o pai lhe fez uma careta como desagrado. Apareceu Dona Maria, ela o quis beijar e imediato se percebeu solitário, acompanhado de mil dores e muitos impedimentos. Ela chegava e com ela uma porção de pretinhos seus irmãos, menos os que ele não conhecera por saírem seus caixões de anjos antes dele vir ao mundo. Todos lhe parecendo aliados e amigos, nenhum com as reservas do pai contra si. Nisso surgiu uma recordação duma tia parecida com a mana Branca e – ficou gélido de terror: Branquinha apareceu triste. Assim concluiu, a irmã morrera! chorou desesperado com o alarme falso, sequer ligou mais aos outros visitantes da noite a conversar consigo naquele estranho encontro; eram amigos parentes e conhecidos, alguns desconhecidos do tempo roceiro. Chorou pela mana sem que pudesse ser visto ou escutado, a Vila dormia no seu descanso por merecimento, nunca entendido pelos cães; um uivava aviso fúnebre. Que não veio.
          Chegou três dias após a Branca, trazia dois sobrinhos a conhecer o tio, o tio a chorar ninguém entendendo, nem Tiana que estava a recolher o urinol daquele “porco”, ela o chamava porco; aliás pra si todos os machos do planeta eram porcos, coisa que a vida lhe ensinara de graça.
          Chorou. Choraram e depois riram, ele só podia rir, não podendo falar sobre a razão do choro desesperado, o qual se ligava à noite com os mortos.



32. Branquinha não se demorou; e abusivo dizer que conversaram bastante, embora o costume determine que os parentes no reencontro coloquem os desencontros até brigando por isso, contudo se aproveitando a matar a decantada saudade, sentimento engraçado na sua tristeza amorosa dos viventes de sangue latino ou africano; eles conversam, se põem de acordo nas coisas narradas, os grandes a falar alto, a dar exemplo educativo, e os pequenos em roda a querer participar do exemplo e não sendo ouvidos, ouvidos quando, muito frequente, apenas na fase do riso ou nos minutos que os adultos se olham e se calam não tendo mais que dizer; aliás os olhares falam mais que a fala. Todavia não foi bem assim porque um dos lados da porfia não dizendo coisa alguma, em não ser pelas mãos, uma delas bem atrofiada, e pela entonação da face num ríctus simiesco, quais fazemos sem pressentir sermos provindos dos macacões primevos e dos trogloditas na forma de monos melhorados. Da parte feminina, faladeira a mana pelos cotovelos lembrava Toninho Dona Maria a pichá-la dessa forma; da parte da irmã, a qual vista de perfil lembrava a mãe e aí ele ficou com saudade de sua velha, da parte dela saiu muito contar. Não continuou falando em razão do constrangimento dela vendo o estado deplorável do irmão; estava a moça, não mais moça ainda moça, estava mais prestes a chorar, fazendo como diz o caboclo das tripas o coração, para não ofender o sofrimento do rapaz, um velhote a beirar seus 40 janeiros, não: dezembros realmente. Assim mesmo contou e mais contou. Deu demonstração ser ela tolhida pelo seu companheiro cobrador e exigente; fez-lhe supor apanhar de vez em quando do “marido emprestado” (na Vila já se falava abertamente da presença de Branca e seu amigamento com um homem casado, desses que abandonam a esposa e a filharada e vão morar com outra, em quem impingem outra série de filhos; e, para acertar a personalidade ou amansar a bebida, batem nessa nova como o fazia na antiga ‘sem sorte’). Ele – diz ela ao mano enrolado nos seus aleijumes e a feder na cama pobre, não obstante os cuidados de Tiana; a Tiana agora manda a Maria, com apelido Nina, netinha de olhos verdes e pele escura, fazer as coisas ao rapaz – ele, o meu companheiro, não quer demora. O Toninho chorando sem precisar esconder o conhecimento do sofrer por que passa Branca. Ela desconversa, e tinha impedimentos a falar com um mudo, está prestes a chorar ao ver o calvário do mano; diz mais umas amenidades, toma as crianças, uma já soluçando e fica a pedir para irem dali, uma ‘sarna’ conta a mãe ao irmão; exige delas que peçam a bênção ao tio, que beijem sua mão direita menos torta; e sai, antes olha para sorrir de mentirinha, vira o rosto para fora já com lágrimas a escorrer...
          Sai com Tiana. Perto da casa do rapaz dizem amenidades e desconversinhas, longe choram ambas na troca de opiniões. Parece um caso sem solução, como o do pai, diz Branca. A outra concorda, discorda a diminuir o impacto, recorda o sofrer anterior dele a desembocar no leito e na solidão.
          O Toninho “minha Fia” (assim se expressa o seu costume) ele se arrastou bem uns três meses até chegar nesse estado. Cansou de médico, de pronto-socorro, o povo aqui levava ele sempre. Cansou de hospital. Foi piorando piorando da goela, tomou remédio pra valer, soro e injeção; não valeu: operaram ele até que falaram estar apodrecendo lá dentro. Vixe, menina, fedia de longe, dava dó; aí cortaram pedaço da língua e não falou mais! Agora até que anda bom. Mostra as coisas, escreve no caderno os pedidos, só que a gente não consegue ler tudo. O difícil mesmo foi levar o Toninho no cartório, o caso da procuração para receber os dinheiros dele e ter com que comprar remédio; foi de ambulância mas a ambulância não conseguia chegar perto da casa, nós precisamos levar numa padiola até lá longe, pra lá do Zé Motoqueiro, essa prefeitura, minha Fia, ela não arranja nunca a rua: só mato e buraco. Toda vez de internar foi assim com seu irmão.
          Elas falavam e falavam, os meninos indóceis exigindo a partida, Branca morando longe, noutra cidade pequena, dessas sem pretensão a ficarem grandes. Aí não deu para continuar a conversa de ex-vizinhas, pôr as coisas em dia, Tiana com mil obrigações. Despediram-se.
          Enquanto isso o Caranguejo prosseguiu inerte na cama a curtir suas dores e a solidão.


33. Agora é meio-dia, não, corrige, minucioso: meio-dia e cinco, e seis. O sol brabo investe pela fresta de cima no teto, rasga sem dó picomãs e fios de aranha entrecruzados, azula em fumacinha num facho, não consegue entretanto, atingindo a parte inferior da cama, embranquecer ou alaranjar aquelas pernas de negro, menos preto em virtude dos meses na sombra da solidão no descanso forçado. Sorri, ele sorri ao notar os cambitos, dois ossões tortos, nem no estado descansar se prestam semelhar pernas de gente, aí entristece ensombrece seu ser, já não chora ou despencaria a chorar, já não chora por isso: tem mil razões a verter suas lágrimas por outras causas... suspira desconsolado. A dor na garganta grita atenção, fisga, cutuca, bole, investe, exige! Lá dentro, no seu interior, o revolutear dos destroços numa desarmonia. Parece-lhe que os remédios não têm efeito; talvez um pouco momentaneamente apenas, depois a dor volta fustiga corta grita! e grita mais alto, cada vez mais alto. Não sabe o que fazer mais; gritaria ele com sua antiga voz possante, de mexer com o motorista para que este berrasse “Aranho” a gozar-lhe, para que tivesse oportunidade e razão a revidar-lhe o insulto barato, ambos após a rir, quem sabe os passageiros circunstantes e mais próximos a se rirem também. Depois, ah depois: o trajeto, a paisagem, o casario a passar devagarinho (daí novamente a espicaçar o chofer: “pé na tábua, Zé!”) os solavancos, as conduções – buzinas gritos apitos roncos – as conduções a cruzarem a avenidona, o jardim... se transportou aos moleques, apreciava mexer com a meninada mas já esperando as respostas... um dia um me chamou Canguru! olhava as lojas, o dedinho de prosa aqui acolá, o Terminal, ah meu Deus quanto vivi... Sentiu saudades na lembrança dessas passagens, até da rotina. Porém ocorre que no sentir saudade temos sim de nós mesmos e não do ambiente onde estivemos inseridos. Toninho não pensa com tanta penetração filosófica porém sente. O sentir vale por uma vida na universidade; infelizmente, quem poderia saber, o diploma não deve ter qualquer validade.
          Estava justamente visitando o TRU, já se preparando a receber insultos e a devolvê-los aos funcionários desocupados, aos motoristas de folga ou a aguardar seu horário, então os carros funcionando engolindo óleo diesel como um burro à espera do cavaleiro tomando um trago com amigos – estava nisso quando chegou de chofre a menina de olhos verdes. A Nina não veio de chofre, sua atenção é que se encontrava longe ocupada no TRU; tanto assim assustar-se.
          Ela sorriu. Não disse nada, não era língua solta como sua avó. E que diálogo poderia ter com um aleijado mudo preso num colchão cheirando a xixi e tempo? Nada teria que falar, falamos para ouvir resposta, ou, nos convençamos: somos loucos a conversar sozinhos. A garota toma um objeto, muda o mesmo de lugar, empurra outro; pega da vassoura varre aqui limpa ali, a poeira se alevanta, Toninho espirra, dispara a tossir, a dor volta, cobradora, ele geme, o sol continua mas muda o holofote e agora o facho é ainda azulado tem mil e um vagalumes refletindo passeando e brincando no desenho do facho iluminado; e isto a virar distração para o dono do quarto pobre; distrai-se até que elinha derruba com estrondo não sei o quê. Olha na direção, ela a ponto de chorar, arranja o desarranjo como possível, continua a varrer; logo esquece o incidente e canta, primeiro baixinho, depois se esquece de vez da lembrança a cantar alto, música do seu tempo, do tempo de show na televisão; tem uma vizinha nova, é uma velhota que seria feia na opinião do Aranho se o Caranguejo andasse ainda a pular de Sapo na periferia pobre e pudesse vê-la, feia sobretudo no pensamento da mulherada; não obstante tendo muitos fregueses à tevê (ligada com fios clandestinos) na sala pobre limpa, aí a meninada se senta no chão mesmo para ver para aplaudir para aprender aquela alta cultura na baixaria da civilização. É uma dessas músicas que Nina canta, sem pensar enlevar ao Toninho. Porém isto não chega a amenizar a dor terrível que o consome. Depois a garota, após também espirrar e tossir aquele pó, vem à cabeceira do homem, enrolado torto magro ainda homem, mede um tanto de água no copo, despeja um líquido no mais ou menos das coisas, que é medida certa faz séculos ao homem comum, chocalha, pega uma colher e remexe melhor a substância e aí entrega na mão do enfermo. Toninho faz a careta de desagrado, emborca aquilo com outra careta, derruba metade, desajeitado, no travesseiro a molhar e feder as penas que foram das galinhas ainda do tempo da velha Maria, daí a menina ajuda no equilíbrio da cabeça daquele macho em descanso ou desconsolo, fá-lo a sorrir numas malandragens infantis e quase gargalha; a vítima completa seus esgares noutra careta mais feia ainda, fosse possível sê-lo. A jovenzinha passa, no costume do “malemá” como diz Tiana, passa água no copo sujo, o qual fica menos sujo, depositando o dito copo no banquinho de cabeceira a improvisar criado-mudo ao mudo. Retoma a representante das fêmeas da espécie seu cabo de vassoura seu cantar seu esquecer no se lembrar; e termina o serviço. Recolhe algumas peças de pano sujas, todas são menos sujas ou mais sujas e satisfatoriamente a cheirar mal: leva as mesmas ao tanque de roupas da avó, tanque que não passa de tina tosca de barril serrado ao meio, antes abana a mão ao morto descansando a vida no catre, encosta a porta amarrando como o fazia Francisco, quando não ébrio, no prego – e some, decerto a conversar suas coisas com outras meninas.



34. Quando D.Maria já era velha – a moça se casa na roça, se casava na época, se casa verdinha nos 15 ou 16 anos, e o padre fica a dar palpites pela juventude menina dela; enquanto o pretendente ameaça o pai o padre e, se precisar, também o delegado lá na cidade; bate o pé e diz que vai fugir com aquela gostosura na mula andadeira, se não puder roubar igualmente o cavalo branco do futuro sogro; este aceitará decerto o menino na barriga da filha de volta; e aí não tem delegado padre e pai da moça, ex-moça, que aguente – a Maria preta já sendo portanto velha aos costumes roceiros porém nova de vinte e pouco, quando pariu o Antônio, Tonho aos outros manos, fora é lógico os que Dona Morte levara em caixões minúsculos, Toninho para ela em agrado e à Branca ainda menina (a menina na família de roça pobre rica de filhos, embora com pouca força faz tudo em casa, Branca chegava a derrubar o mano ao carregá-lo; não sendo por isso que ficou aleijado, os aleijumes vieram de nascença. Branca virou mãe dele e dos outros que não se esconderam no cemitério) ainda menina mas adulta de coração, punha o coração a carinhar o infeliz, ele não se sabendo infeliz e isto conclusão dos seus 40 dezembros, então imobilizados na cama, emudecido no seu habitual matracar. Carinhava e o tratava igual a mãe por Toninho. Já Francisco, sentindo asco por aquele amontoadinho de ossos e carnes retorcidos, gritava o moleque por Tonho ou lhe negava sequer o nome, preferindo ser perfeito a surrar a imperfeição do filho, para fazer sofrer as mães, isto é a mãe e a filha dele, horrorizadas. Velha a Velha, pois a viver anos na cidade envelheceu com rigor e adoeceu, a Velha morreu. Branca se foi atrás do seu macho, o qual diziam não ser flor que se cheirasse. O Chico, sumiu e apareceu na indigência, eliminado depois do necrotério. Ficou assim o Toninho aos cuidados dos de fora; ora, o costume a experiência os olhos que a terra haverá de comer veem frequente que muita vez o de fora é o mais de dentro que os de dentro. Dentro do pardieiro gemia aquele rapaz.
          Mas a Tiana, a neta Nina, mesmo as vizinhas outras, faziam o quefazer ao pobre acamado, dizendo as más línguas que um dia inclusive o Zé Inimigo deu lá sua mãozinha a carregar a padiola até a ambulância, isto porque os “homens”, um dizer sobre os perdidos na corrupção de governo e outras safadezas políticas, os ‘homens’ nunca mandam ajeitar a rua deles, falaram assim, aí ninguém comprovando, enredaram que naquele dia no qual a padiola ia rolando desequilibrada no chão, no buraco do chão, teria sido um empurrãozinho de nada do Motoqueiro e ele a se desculpar no enrosco do mato e no buraco menor dentro do buraco maior; estando ainda por cima embaixo liso pela chuva da noite; sem adiantar o esforço porque o Antônio, Sapo como falava o da motoca, o Antônio era duro na queda e se grudou na cama improvisada nesse movimento. Não se provou coisíssima nenhuma, além do falatório. Foi, ficou três dias internado; voltou, pior; outra vez as ‘formigas humanas’ da Vila a ajudar carregando nas costas a padiola, a repô-lo na casa, ele indo lá em cima como um rei. Aí entregaram os de fora para a Tiana de fora cuidar e cuidar por dentro dos dois cômodos alugados pela família do Caranguejo; a tratar do Aranho como fosse seu filho ou filho do seu filho (isto embora admitisse a mulher ser o doente gerado por Chico, um bêbado contumaz e sem responsabilidade, e nunca desejaria admitir o rapaz como seu rebento). Ah, ainda um agravante de maldizer, lembrando o aluguel atrasado do ‘lar’ desse jovem-velho: o proprietário, falavam, falava na desocupação do imóvel pelo locatário – o que não se confirmou além de apenas também falatório, se confirmando por outras razões que o futuro provaria... De maneira que não obstante faz de tudo a senhora. Inclusive refaz o que a garota fizera imperfeitamente.
          Limpa, põe as coisas no lugar, troca a roupa de cama; dá banho no homem, cosquento como ele só! e vergonhoso mas não obstante também tira dele, despindo o molambo, a roupa suja catingando, põe camisa e cueca limpas no Toninho. Ele não sabe onde pôr a cara... Pior.
          Mas tem pior!? tem o dia a dia, uma noite ensombrada em não se acabar mais. Tem o drama da alimentação. Antes se tratava ele mesmo, ela deixando tudo pronto; depois a piora piorou, o rapaz não dando para engolir, então ou ficava internado no hospital (aí as alegações habituais: falta de leito, igual no presídio; o risco de contaminação hospitalar; as desavenças nos acordos burocráticos; além da demora da ambulância ou má vontade dos funcionários – eliminando assim a alternativa de internação...) ou era tratado como possível na precariedade pelas piedosas vizinhas nessa periferia miserável. No pior o interessado não tem escolha; ou melhor desse pior: não pode comunicar seu desideratum – engole, é levado na vida como a vida o leva.
          Contudo a hora de alimentação é algo a impressionar qualquer harmonia que se preze. Tiana se vê na contingência de cozinhar, deixando a desmanchar quase, o alimento para ele; a seguir amassa coa acrescenta líquidos, às vezes põe leite de cabra, tem uma vizinha com ‘bita’ de cria nova e isso ajuda; ou coloca água. Poderia levar aquela ‘lavagem’ (seria assim chamada pelo Toninho tivesse como antes língua afiada de mexer com os amigos no TRU e de fato andava longe da boia do Boia restaurante) poderia levá-la para Dona Maria, esta uma vizinha com casa vizinha da periferia rica, donde puxaram um fio em ótima gambiarra, aí ligando e triturando no liquidificador; as outras vizinhas com luz elétrica não têm, têm só tevê que tritura melhor que liquidificador. Opção difícil. Tiana faz como faz e isto não é o pior – o pior é a dificuldade de passar na goela, meia goela de língua quase morta, na garganta dele. Enfim põe a massa amolecida na boca do rapaz (a menina não consegue essa proeza, faz derrubar metade e ainda suja o colchão e o travesseiro de penas). Depois inventou um cone de papelão, a despejar igual funil. Assim ele careteia e engole.
          Que pode mais fazer!? Antes usava colher, devolvia o paciente, decerto fazendo igual costumava no colo da mãe Dona Maria, a derrubar o então nenê nas roupas da mãe; ainda por cima provocava o costumeiro bluf bluf que as criancinhas fazem a brincar ou só para não engolir a meleca. Nessa altura Dona Sebastiana inventou, criativa, o funil.
          Não mais, por menos que faça, é muito. O moço, velho de 40 anos e em acentuada decomposição no seu ser, reconhece a caridade dela. Nada pode dizer, um obrigado de boca, di-lo com os olhos; ela o entende por entender de lágrimas; é mãe, mais que mãe.
          Embora os cuidados, ele anda, corre realmente, para trás, em rápida marcha a ré de anos, de tempo, de saúde, de vida...
35. Agora, estirado na cama limpa pela vizinha condoída, estirado porém não espichado, isto seria abusivo, agora o Antônio tem olhos para ver. Mas vê? tem boca de falar, a língua a garganta a dor a ânsia a febre intermitente, mas não fala; nariz de cheirar, sente o olor o odor o bolor à sua volta e mais ainda o cheiro enjoativo dos medicamentos (estaria a colecionar vidros pós pílulas? lembrou neste ponto os joguinhos com os outros meninos, a figurinha de esportistas e outras coleções; de pedras de borboletas ah... aí sente o remédio, evola o penico embaixo limpo embora, a fedentina da rotina); ouve, as orelhonas... não, as dele de abano sim porém delicadas caprichadas pela natureza, não puxou nem um pouquinho ao Velho, aquelas horrorosas do pai; tem tato, verdade que parece mentira no entanto está perdendo a sensibilidade no pescoço e nas espáduas, a pele não reage... a mão sente bem as notas de dinheiro, conta reconta, por que recontar? não sabe. Fecha abre torna a fechar as pálpebras, vê o voo, incomodado com um simples mosquito, desses atrevidos a zunir, escuta bem quando o velhaco vem cantar nos ouvidos, na porta deles, e se senta na cartilagem da orelha, aí se dá um tapa, nervoso, o sacana voa outra vez e torna a xeretar o nariz; não tem arrumação. Mais ruim que isso os pernilongos, tinha uma nortista, nordestina, na Vila, foi embora, e dizia “muriçoca”. Dá outro mais outro tapa, dá se dá, toma o chinelo que alcança no chão, deixa marca de sangue, seu sangue, na parede já marcada e nunca pintada. Serve de distração. Isso quando para a dor, a dor não para: silencia em paz momentânea e volta mais braba; pudesse, poderia gritar! Todavia ver ele vê. Que é ver?
          Vê o mundo. O mundo que não mais vê. Vê pela lembrança, vê pela experiência vivida, às vezes ofendida, assim mesmo ganho nessa perda, lenta, impassível, teimosa como uma gota atrás doutra gota, a gota do tempo. Volta-se para trás, a aproveitar um descuido na dor, volta-se. Une um pedaço a outro pedaço; uma pessoa a outra pessoa; uma paisagem a outra paisagem; costura se costurando as partes, forma o todo; soma, divide, chega a conclusões surpreendentes, mesmo a um ser comum. No conjunto não negativa o resultado, apesar de haver muito pulado como sapo, assemelhando a aranha, pichado na parecença do caranguejo; a aguentar a gozação diária de toda gente... não, não é assim, estaria exagerando, e os bons! toma os seus, os seus vizinhos, os seus conhecidos no centro urbano, os desconhecidos comprovadamente de boa vontade. E agora! agora é cumulado nas atitudes cuidadosas das mulheres a esbanjar caridade (que adjetivo dar à Tiana à Nina?) Se imagina um dia – e seria horas e horas no desespero – um só que seja, sem essas mãos pacientes, embora a velha sendo um pouco rabugenta! Não sobreviveria.
          Aqui a indagação mais importante: que papel ocupariam os seres que o cercam... Acorda, um pouco, anuviado, examina cada ente com quem conviveu ou convive. Mera coexistência ‘pacífica’? Ora, sente em cada parte de si uma parte dos outros; critica inclusive seus atos, a se envergonhar quem sabe. Compara com sua experiência esquisita, ou louca no pensar de muitos – o caso do seu constante sonho estando na vigília. Nos últimos anos pouco sonhou, trocando a manifestação pelo sonho dormindo, mais comportado e mais inexplicável, cheio de ares absurdos e, por que não dizer, artísticos. Toninho pensa nestes termos, não com esses termos e na expressão da língua padronizada. Acontece que as formulações de pensamento dispensam o léxico. Nestes últimos dias, críticos e de sofrimentos, neles tem sonhado desperto mais vezes, até mais que antes na juventude em que os seus tolhiam a divulgação. Quase não precisa agora provocar a manifestção fenomênica; não a provoca, de fato, ela brota no seu ser; por vezes a Nina a cantar a poeirar a casa; e ele a sonhar embora olhos abertos e orelhas ligadas. Curioso, pensa, diria? curioso haver visto no quadro a menina bonita ali perto, então longe, como um homem feio a gritar contra ele, ele sorri irônico para o sujeito, o barbudo se cala amedrontado... olha a garota varrendo, se confrontam, ela pergunta surpresa “que foi seu Toninho, viu fantasma?” Vira. O Motoqueiro e o Chico são freguesões, um vivo e distante para azucrinar o Sapo, é Sapo a ele; outro morto, vivo no sonho-lembrança-vivência. Imediato pensa ou sente inimizade. Vem D.Maria, vem Branca, vem mesmo Tiana, que vem vindo a chamar a neta e está no sonho como os demais conviventes do orador, ele despica nos adversários, reduz todos a pó e defende, veladamente mas aceita este último grupo. Uma noite – e não havia conciliado o sono, antes escutava o ladrar dos ladrões do silêncio a latir e ainda ouvia longe outros latidos e portanto acordado, bem acordado – nessa noite desfilaram inúmeros gozadores, aqueles do Terminal, os vivos e os dois que haviam falecido recente (de um acompanhara o enterro); pois eram seus inimigos confessos; ninguém lembrava seus apelidos pejorativos, ninguém falava a sua língua e menos na gíria de todos usada porém noutra fala; e curiosamente o Toninho entendendo a algaravia. Estava exatamente a acusá-los veementemente e mesmo a encurralá-los com sua peroração de tribuno, quando uma vizinha gritou nas imediações.
          Não acordou, já desperto e penetrante no seu próprio eu, porém ligou melhor a audição. “Dona Zefa, gritou a Chiquinha, tem ladrão no pedaço!” Não se assustou. Por que, se nada mais possuía; ah, pensou rápido como é adequado ao pensamento: o resto da pensão, o relógio, a roupa nova quase sem uso. Todavia como defender o patrimônio; gritaria ele à Tiana: mas nenhum som que não os costumeiros gemidos ultrapassou o casebre... Aí preocupou-se.
          Noutra noite, os seus dias principiavam a se ensombrar... podendo haver lá fora o sol, noutra noite retomou sua análise do conjunto de sonhos, mui pouco sonhos, por causa da vigília. Estariam amigos e adversários reencarnados agora? ou até pouco tempo de volta (uns haviam partido, o povo a dizer os bons para o céu os ruins ao inferno). E ele, Antônio, passara os 40 anos em nova existência na vida? estaria pagando seus abusos oratórios e de poder! Nesse caso o desconhecido que defendera na sua presença o reencarne tendo razão. Não sabia, nada de fato sabendo.
          Punha exatamente a problemática, quando chegaram a Sebastiana e um rapaz estranho. Vinha o mesmo furá-lo, a dar injeção naquelas pelancas. Foi difícil achar-lhe as veias. Olhou entristecido o instrumental de tortura do moço da farmácia; sequer percebeu o que conversava ele com Tiana. Ela sorria de vez em quando pro seu lado, constrangida.



36. Noite, noite em a noite, na sua noite. A noite ao Toninho não tem fim. Então, a ludibriar a noite, não o seu escuro e o possível silêncio na Vila, então faz planos curtos, num arremedo de esperança, isso enquanto a dor dorme ela mesma a sua força; então vive o já vivido (ou também sofrido! por outro lado as alegrias baratas, o homem comum pode se satisfazer com pouco, portanto igualmente sente os momentos alegres e inclusive os de seriedade, ou sejam de circunspecção).
          Desce ao centro, senta-se na Praça da Matriz, pombas pipocas pessoas, pessoas pequenas a correr a gritar. Sorri. O dedinho de prosa, alguma vantagem por desfastio ou só a esconder a pequenez. Ia prorrogando assim a entrada no templo. Um dia fico pra missa das oito; e claro, voltando mais tarde que o tarde costumeiro à noite, a tropeçar no carreador feito rua na periferia pobre. Andar no escuro não aprendera na roça, onde o lavrador tem por farol a lua e a coragem; porque era ainda garoto, um pixote, quando Chico trouxe os seus à cidade grande pequena. Mas arranjar-se-ia na volta escura ao lar, a se arrastar como possível. Um dia decidindo a ficar até mais tarde no centro urbano, entrou na missa. Lembrou-se da mana que vez por outra vinha a contar da igreja perto do serviço dela; a mãe não, não despregava de casa e depois sequer experimentando missa de corpo presente; o pai? vixe, esse era esquisitão. Além disso lembrava várias vizinhas indo exercer sua fé, havia uma evangélica, eles diziam “crente”. Agora Antônio quis participar por sua vontade.
          Via o padre com enlevo, suspirou em respeito no sermão; encantou-se com os paramentos; aspirou o incenso; seguiu com a vista os auxiliares do reverendo e o povo a assistir. Por fim se deslumbrou; quase a se fascinar.
          Voltou algumas vezes às solenidades religiosas. Um dia, numa noite, decidiu pela confissão e pela hóstia. Antes escolhera a igreja não como refúgio porém como local bom a passar algumas horas do dia no silêncio, a concorrer com o barulhento TRU e seus brincalhões demais conhecidos; conversou com o Padre José, o qual lhe sugeriu o confessionário.
          No confessionário, sendo pela época em que havia contado seus sonhos (proibidos) da vigília, havendo recebido no Terminal insultos e tudo o mais; resolveu pedir explicações ao confessor. Este pede detalhes do fenômeno, balança a cabeça lamentando, declara ser artimanha de Lucifer, dá-lhe algumas penitências, impõe uma série de rezas.
          Toninho deixa o templo cheio de dúvidas e temores. Não chega a orar todas as ave-marias e salve-rainhas exigidas a se limpar; vai à metade e desiste. Desiste também de frequentar os cultos; chega mesmo a desviar-se da Praça, para não ver a Matriz, desconfiado e arisco.
          Não obstante relembra seus problemas na ocasião; relembra agora a impressão causada em si diante do cerimonial, a ouvir o canto religioso. Então se põe a perguntar, casando-se com seu sonho, o qual o perseguia por anos: teria sido padre noutra existência? A sua oratória, sente bem isso, ocorre numa reunião religiosa e ele é o tribuno investido da acusação, a destruir seus adversários, o Zé Motoqueiro, o Chico seu pai por exemplo. Compara a vestimenta no sonho e a da realidade, observando desde os últimos bancos donde assiste à missa. Seria? O Padre José não responde, antes o acusa.
          Nos últimos tempos, prostrado numa cama pobre, retoma a dúvida. Só que não pode mais indagar pela boca; e decerto não terá resposta convincente.
          Haveria à humanidade alguma convincente?
          E haveria porventura alguma pergunta sensata...
          Ah ainda é noite na sua noite interminável, a noite de seu dia, cheio de sonho ansiedade e dor, ah a dor! poderia, poderia sim ter invertido a fase deste triângulo doloroso por que passa o ser, neste caso o Toninho, Sapo se ficar melhor ou melhor ainda Caranguejo e Aranho. Porém foi começado o dito triângulo pela Religião, ele devendo ser antecedido sempre pelo sofrer e pela dor. Porque o triângulo da dor humana compreende fatalmente as fases: dor hospitalização religiosidade cemitério. Não são quatro, mas abordagem triangular do mesmo sofrer; a dor (aqui posta como primeira fase não é fase é causa das fases seguintes; deu para entender?) a dor sugere a luta pelo tratamento e quem sabe a eliminação do sofrimento; a fim de o paciente cliente e quase sempre freguês virar freguês mesmo, como afirmado agorinha. Sem livre escolha! e nisto a gravidade.
          Vimos como o Antônio recorreu à religião a fugir dos dramas, inclusive reforçando tais dramas. No entanto a dor levou-o à fase hospitalar. Bem, mal pensou ouvindo comadres na periferia onde residindo; praticou as ‘simpatias’ e a panaceia popular: engoliu os chás da farmacopeia de arrebalde, coisas assim. Todavia dor, dessas conscientes do seu poderio, a dor não cede fácil, muito menos quando na garganta mui usada a brincar gritando com o pessoal do TRU, a garganta agora mais ou menos carcomida. Então foi ao médico. Parada antes no Pronto-Socorro por conta própria. Quer dizer, fora pulando com as suas potentes pernas tortas até ao vestíbulo do hospital conveniado com a prefeitura, “aquela ladrona” como diziam os da periferia. Esperou aguardou saiu retornou no seu andar feito caranguejo até à casa – sem solução aparente; isto porque o sofredor imagina a cura, qual milagre, ao entrar e ficar batendo papo com outras criaturas doentes a trocar sintomas e quiçá remédios, os quais igualmente não venceram suas dores; o homem do povo é um médico em potencial enquanto espera atendimento e se aproveita das orelhas a narrar as ‘sofrências’ parentes e vizinhas além das suas, a enriquecer as horas e horas na espera de atendimento numa instituição tão ou mais enferma que o doente. Fora sim por conta própria. Agora quando tem de ir, é mais grave na gravidade, por causa da caminhada de sua língua cada vez menos língua e menos faladeira numa garganta que dói horrores; agora vai contra a vontade, o povo o leva carregado na padiola à ambulância e esta o transporta ao P.S. ou já diretamente ao Hospital. Aqui ouve (só escuta, não pode mais acrescer sua ignorância à ignorância alheia nas conversas para o aumento da cultura universal) ouve os ais os gritos os lamentos dos pacientes impacientes, ele também mais e mais impaciente em razão direta do aumento da corrosão de sua saúde (ela não sendo mais sequer saúde...) Vê, e vê bem, bem observador, o tratamento aos colegas de infortúnio, num pôr as barbas de molho, no dizer do povo, para ter forças quando sua vez no corredor de tortura. Sente; e sente na pele também a pele dos outros. Contudo...
          Bem, ultimamente passa mal. Caminha na sua noite a passos largos à entrega total daqueles ossos e músculos entortados e então por demais doloridos; a entrega à nova fase. Nesta sem precisar tubos, soros, remédios outros, gesso, maca, ambulância – porque os defuntos não têm exigências, os vivos têm por eles, a satisfazer a vaidade social. Ou a doença social!?
          Em a noite de seus dias, ensombrados, tristes, piormente por ser rotina de tristezas, toma o caminho à fase da necrópole.
          No entanto não estão estas pobres linhas empenhadas a sepultá-lo. Ou podendo fazê-lo só de brincadeirinha. O Aranho se lembra, num descuido na dor, na dor em perder um ente querido. Quem sabe ‘querido’ seja abusivo. De fato nem sequer fora ao enterro de seus genitores, ela, D.Maria, saindo sorrateiramente e deixando prostrado o moço, já velho na opinião da meninada do colégio; prostrado e talvez poupado pelos próximos, parentes e conhecidos dele, julgando os mesmos o Toninho sem condição psicológica e emocional a caminhar atrás do corso de sepultamento pobre da pobre mulher; quanto ao do pai, soube que o inimigo sucumbira na indigência virando número estatístico; e sendo inimigo ou ao menos adversário desde sua pomposidade nos tempos como grande orador (hoje um despojo humano negro e destrambelhado) sendo um do contra o velho, não se disporia a comparecer ao velório, aliás inexistente; com outra e pior agravante – o Tonho, como o chamava Chico, o Tonho vegeta mudo na cama miserável, sujeito à caridade da Tiana e doutras vizinhas, amigas ou adversárias nesta e noutras existências na vida, diz-lhe o sonho desperto que teima a lhe distrair os minutos e horas sofridos. Não foi.
          No entanto acompanhou sim um enterro nos conformes dos costumes católicos, de outro entre os gozadores no Terminal, um que batia o pé em apelidá-lo ‘Sapo-Jururu’; no do outro, do segundo amigo não compareceu realmente. No enterramento do primeiro dos gozadores mortos (os brincalhões também entram no céu ou no inferno) nesse ele compareceu. Foi arrastando-se gozado no triste andar de aranha ou deslizamento de cobra, enfim foi. Decerto chamando atenção dos piedosos acompanhantes no terreno da necrópole. O fato marcou.
          Permaneceu na sua memória assinalado um momento hilariante nesse dito cerimonial, cerimonial desagradável e inevitável: os demais gozadores – figuras que brincam inclusive em velório, a contar causos e anedotas, a fumar e a bebericar o que se oferece – os demais brincalhões se puseram a empurrá-lo numa cova escancarada a aguardar cadáver (quem sabe se não um vivo ainda...) “É sua vez agora, Caranguejo!” disseram e riram. Ele? responde: “sartei”, falando quando tinha ainda gogó de falar, de gozar igualmente os amigos motoristas e funcionários da Empresa Circular, falou engolindo trocando eles por erres arredondados, ao estilo caboclo, pois o Toninho um lavrador emigrado tentando se tornar urbanoide, ainda caipira na pronúncia das palavras. Disso não se esqueceu jamais; e, curiosamente, agora na cama sorri do seu temor na ocasião. Ou do medo a ser logo enterrado mesmo...











                                      





         


































                      Quinta Parte:
                                       Conclusão – o Declive
                                               o Declive Abrupto

                                                 “E é a morte que dá sentido à vida.”
                                                                                          Esdras do Nascimento


37. A piora – se se quiser a embelezar o feio falando o declínio – o declínio na agora sub-vida de Toninho se acentua. Acentua-se não obstante cuidados de Tiana, a garota Nina ajuda em que sabe e pode, pode pouco, as vizinhas mais chegadas na periferia pobre fazem sua parte; curioso também que algumas delas não tendo sequer amizade à família de Francisco e Maria e menos ao aleijado – contudo entram a se solidarizar, se oferem, oferecem seus préstimos a minorar o sofrimento do rapaz, homem, velho aos 40 anos incompletos completos nos seus defeitos físicos e então sequer a poder falar e possivelmente ofendê-las. A solidariedade, o acordo que o sofrimento humano desperta sempre na gente simples, sem quaisquer conotações de hipocrisia, o homem do povo põe com facilidade o coração, este aflora a trabalhar por outrem. No entanto sobrando à avó e à neta o fazer diário, igualmente o sofrer diário, como fossem de sangue do enfermo Antônio, com seus enrolados e retorcidos membros e a boca de falar muda, muda para esta sofrida existência.
          Mais Tiana menos Nina, esta faz o que faz mas vive atraída à brincadeira própria da meninice, arregala vez que outra os olhos verdes embelezados pelo queimado solar da pele, arregala pega de surpresa por ter-se esquecido dum compromisso que a avó tomou em cuidados ao doente vizinho. Agora ambas ficam de plantão a quase nada poder fazer ao pobre Toninho, à sua gemeção e febre alta noite adentro, noites e dias seguidos; estão, sobretudo Tiana, magras, arrasadas mesmo, pela oferta integral de suas horas ao moribundo.
          Moribundo sim. Nina sai às carreiras, entabulava conversa com o namoradinho ali entre as duas casas, ou imitação de residências por precárias na relegada Vila Nova, entabulava, quando a avó gritou-lhe o nome; ela se demorando ainda uma curta eternidade porque sempre sobra algumas coisas nos ditos não ditos, nas faltas que sentem os que se querem, mormente no início dum namoro de horas roubadas; e foi quando correu à porta de Seu Toninho, a Tiana aflita. Vai correndo, disse, vai num carreirão um pé aqui outro lá, vai telefonar pra ambulância,  o pobre está mal, “depressa, menina!” Saiu.
          Voou rasante disparando, a pular como fazem as garotas em brincadeira a correr se apoiando ora num pé ora noutro e às vezes a bater palmas entremeio por alegria, tristeza sentindo, apenas dispara na direção do telefone quase comunitário na divisa entre as periferias; passa pelo garotão enamorado feito louca, volta feito louca tendo esquecido números e essas coisas complicadas e inclusive o nome certo do Toninho, para ver com a velha; toma a raspança devida pelo esquecimento, se esclarece e dispara outra vez, outra vez o rapazote fica de boca aberta ao vê-la correr...
          Corre corre, vence o mato no trilho imitando rua, dispara também a canzoada assustada insultada com o inusitado do barulho que a jovem faz, ladra a valer, a vizinhança, a Vila toda surpresa a farejar novidades, tristes no caso, alguns se aventuram a indagar, todos saem à porta e se falam assustados igualmente – Nina sumindo no carreador cheio de buracos das últimas chuvas do verão. O coraçãozinho dela quer sair do peito, respira com dificuldade, mas chega. E tenta. Novamente insiste e não consegue a ligação, ou não sabe fazê-la. Vem o socorro duma certa Maria das imediações, auxilia a menina, discam discam discam, atendem doutro lado do fio; anotam a urgência do gaguejar da informante.
          Três horas depois chega a viatura do hospital; após vencer a burocracia municipal do chamado, a estadual, a federal não se julgando necessária.
          Olha o povaréu em reunião, o mais à cata de notícias que ainda não existiam; estuda o terreno: não podem os funcionários entrar lá dentrão na Vila à casa do agonizante. Combinam o transporte a viatura e os moradores, estes já treinados a carregar doentes até o lugar onde a ambulância consegue estacionar com infeliz frequência. Começa o aguardo do cortejo do Toninho.
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           Agora o calvário no calvário do moço tem início; o moço que a doença carcome, um que a periferia toda conhece por Sapo por Aranho por Caranguejo mas que a Tiana cobre num carinho de mãe de avó de gente de coração como Toninho. A via crucis acontecerá. Os vizinhos – homens desocupados ocupados no desemprego estão sem jeito a ajeitar e retirar aquele amontoado de ossos tortos com pele colada no esqueleto, pele negra como a deles, apenas mais retinta, eles não sabem sequer como fazer a recolher os despojos dos anos em tanto sofrimento sem machucá-lo ainda mais: e se calam no não fazer, apenas a olhar as mulheres – os vizinhos, muito mais a iniciativa das vizinhas, velhas e mesmo crianças, as vizinhas tomam o enfermo com cuidado para pô-lo do catre fedorento na maca usadíssima da Saúde Pública doente. Antes com auxílio da Nina a velha Sebastiana já preparara o doente para sua viagem precária. Deu-lhe banho, meio-banho com paninhos úmidos e até álcool a desinfetar, removeu secreções malcheirosa de pus sangue urina, um que outro respingo de fezes; trocou a roupa de cama com dificuldade imensa, o pobre não consegue sequer ajudá-la na hora de virar pra lá pra cá, vestiu roupa limpa no Toninho, ele a dar um sorriso de tristeza ao notar as calças novas que supunha anteriormente dignificá-lo perante a sociedade atribulada do centro ou do jardim, não chegara mostrar essa roupa nova aos gozadores no Terminal; sorri infeliz na felicidade possível às conjunturas; olha no pulso esquerdo rente à mão teimosa em não se desdobrar o seu relógio a funcionar bem igual um novo, vê serem 10:05h, um pouco embaralhado mas distingue os ponteiros, chega ao ouvido direito escutar o tec-tec quase inaudível; confirma, agora 10:06h. Está pronto à visita ao Doutor. Antes de partir à viagem a Tiana inspeciona a beleza daquela feiura esquelética, olha a feiura os olhos da mulher a indagar se falta alguma coisa mais; ela sorri. Bem antes disso tudo a senhora tremia por ter de tirar a roupa nova do guarda-roupa velho a cheirar e voar baratas, tremia pela coragem muita que esbanja nas coisas inclusive nas coisas de tratar o filho-neto-emprestado, mostrando pouca coragem a convencer as baratas pra não voarem naquele calor medonho logo cedo; a menina ficando nisso ainda mais distante para ver o trabalho da avó, abrindo aquelas velharias fedorentas a despencar, a velha derrubando mesmo o cabide da roupa. Enfim está a calça nova quase sem uso posta a embelezar o dono, o dono sorri mais uma vez, decerto por satisfeito, diria neste ponto qualquer coisinha, já não matraca com a língua a desmanchar... Ela faz mais nesse cada vez menos: perfuma o enrolado com água de cheiro que outra vizinha lhe traz, provocando novo triste sorriso no homem cansado de viver. Pronto. Mas os homens da padiola não chegam.
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          São três horas das grandes na espera pelos recursos. Mesmo assim tem início o transporte.
          Ele vai feito Faraó, embaixo da maca os vizinhos se fazem escravos nessa visita oficial de Sua Majestade Sofrente (I?  II?  III?) A periferia fizera tantas baldeações através dos buracos das ruas que não são mais que trilhos de passar; tantas que não dá para numerar também as viagens.
          Sua Majestade Sofrente vez que outra vê embaciado o caminho e as coisas do caminho, a gente no caminho mil vezes conhecido por seu pular de sapo. Pode agora fazê-lo, quer dizer: observar desde a maca deitado ajeitado nos seus destrambelhos em virtude da dor. A dor física, sua amiga inseparável destes últimos meses, ela serenara. O rapaz da farmácia veio aplicar-lhe um sedativo da pesada, a amortecer-lhe a garganta cobradora, estando já quase toda a área do tórax adormecida por artimanhas que a ignorância desconhece, a deixar insensível essa região, ou tão somente a elevar melhor a dor na garganta, a qual engolira em secreções a língua de gritar os gozadores do TRU, estes sim agora mais e mais longe e virtuais que o real de sua triste vida... Em virtude do amansamento fugidio da cobrante dor, pode o Toninho lá de cima feito rei e na berlinda notar o mundo tão seu conhecido fora ou que seja ali nas imediações. Inclusive lhe dá oportunidade a lembrar-se nas suas recordações de quando era gente, gente que nunca fora com toda força da expressão.
          Vê o Zé Motoqueiro, seu velho inimigo de outras existências, teimando em sê-lo nesta que termina com passos largos na paciência do tempo. Porém não vê o Zé, vê a companheira dele, curiosa, os meninos, certamente o homem no trabalho, pois tem o mérito ser trabalhador. Vê com os ouvidos aquele vira-latinha deles, um escândalo no ladrar. Vê mais e mais objetos de suas lembranças.
          Vê Mercedes, porém a Mercedes está morta. Vê sua casa com novos moradores, tem agora uma branquela invocada que sabe não apreciá-lo; briguenta e faladeira ele sabe, todavia agora está compungida a olhar o cortejo fúnebre, fúnebre! cruz-credo. Os vizinhos levam o vizinho doente para a ambulância, ela conta isso, comenta com a prole. No entanto a casa da Mercedes dispara nele recordações felizes, vê, revê seu negrinho, o dolicocefalinho, até o esposo dela a sair ao trabalho no posto de gasolina; alisa o cãozinho que já o considerava da casa. Oh, nada existe, existe novo habitante e novo ladrar. Quer ‘olhar’ outras paisagens mas a Mercedes se intromete na viagem, sorri mesmo a implorar-lhe quando ele discursa a convencer a assembleia para mandá-la à prisão; e ela se vinga bem dando-lhe um filho... onde estaria o seu negrinho, que a Tiana garantiu ter suas fuças!? A dor quer voltar; ameaça, ele foge para ver as cercanias, a vizinhança curiosa de olho comprido naquela triste novidade; os moradores conversam e falam sozinhos sem conversar também, contam e explicam, o homem comum sabe de tudo a nada saber.
          Vê um barraco, o barraco lembrando um acompanhamento que fizera, após velório pobre, em que esteve a pular como visita solidária à família do morto. Ah Dona Morte, também aqui eficiente e lógica, cobradora, semelhante cobrara seus irmãos saídos de anjinhos na roça. Agora é ele que passa, não passa a dor, a dor volta, lenta e intermitente, depois apressada a matar a dor possível da morte. Aí quase não deplora Dona Morte...
          Vê um vizinho, vizinho novo na verdade, nunca o vira. Vira sim um seu gêmeo; ah como não deve existir tantas formas assim na fábrica da natureza. Por isso ele se parecendo com aquele cobradorzinho chatérrimo “Sapo-Jururu!” gritava. Então despencou a turma do TRU, os motoristas lhe gozando as torturas de ossos dentro do circular; ele? a resposta pronta como defesa. Hilariante, eu era feliz sem saber disso, falaria falando se pudesse agora falar, a repetir o chavão. Pelo menos não sentia dores na época, não estava a se desmanchar, metia a língua nos amigos, os quais apenas conhecidos desconhecidos nessa convivência pacífica; pacífica!
          Vê a curva no caminho, a curva lembrando o pai. O Chico um dia passou por ele nessa curva. O Chico não se cansava a ser seu adversário ferrenho: batia nele criança, batia nele depois em cobrança dos desconfortos na vida; e foi assim até à indigência eliminá-lo. Um inimigo presente todos os anos da existência, desde que adversário a se defender dele, togado e poderoso, a chegar nos últimos dias em que falava ainda; e já não se falavam, berrando sim seus rancores. Nessa curva falsearam os pés da amizade vizinha, inclina-se a padiola, ele sente um friozinho lá dentro temendo despencar, porém se equilibram os carregadores. Agora estaria, pensou, mais perto do longe da ambulância.
          Vê galinhas, vê a cabrita sua mãe de leite. Sorri, a bita forneceu dia destes o alimento ao funil de Tiana para ele engolir e o corpo cansado vomitar. Ah, gostaria tanto agradecer a vizinha fornecedora do leite, mas como, com que voz com que língua! Observa a Tiana acompanhando aquele cortejo, pede-lhe com o olhar agradecer em seu nome a mulher, ela não entende. E tinha mais, muito mais a externar gratidão, agradecer a ela mesma e à Nina – entretanto não podendo mais, nem suplicar.
          Vê um vizinho desempregado a pulular entre dezenas desempregados outros; o homem faz um sinal de cabeça na sua direção, chega a tirar respeitoso o chapéu, o chapéu igualzinho no episódio da moeda... Relembrou o chapéu o chão o jardim a moeda, o sofrimento pela indignação sofrida. Recordar é sofrer o sofrer. Respondeu ao vizinho agradecendo com um olhar. Apenas isso poderia fazer...
          Vê Branca, a Branca que não mais vê. Por que teria pensado na mana; pensa e pensa nos sobrinhos assustados, pensa no homem da irmã que bate nela e a cicatriza, o homem que nunca viu. E a Branquinha sumira de vez! Sentiu no coração a moça, passou-lhe no cineminha que temos aqui dentro as coisas que com ela vivera, seus carinhos sua luta a edificá-lo e para defendê-lo. Junto dela vem Dona Maria de carona nas lágrimas das lembranças. Eu era feliz e não sabia?
          Vê o mais próximo, os próximos igual Tiana, ela estando ali perto a enviar-lhe sorrisos animadores de coragem a enfrentar o que enfrentar. A Sebastiana resumindo com sua presença nas imediações a presença de todos minutos a ajudá-lo naqueles tais dias-noites na noite do seu dia, a ajudá-lo sofrer menos; ou a sofrer apenas o suportável ou necessário; ela a se desdobrar a se prejudicar decerto, a dar o mínimo de condições para ele viver seu drama. Antes encorajava o enfermo, contava coisas do bairro, contava dos conhecidos e parentes que ela sabia; chegou a ler com dificuldade páginas religiosas que nem ela mesma entendia por iletrada quem sabe; dava-lhe as doses amargas de medicamento; atendia como fora dona da casa visitas ao rapaz e o rapaz da farmácia; ia receber os proventos dele e pagar suas contas, aí prestando contas (o moço depois a conferir os números na saída da senhora, desconfiado). Enfim fora Tiana as mãos os pés e a língua do vizinho, a estimá-lo como a um filho doente. E ele, Toninho, como retribuíra!? Olhou de novo à Sebastiana e chorou o choro dela.
          Vê na Tiana a guarda boa de sua vida, não só ali ao lado dos outros vizinhos a se substituir no transporte daquele sujeito que tanto pulara conversador naquela periferia miserável como pulara depois ao centro e ao centro de ônibus, a viver sua  vida, ou a arrastá-la ameaçando viver. A guarda é composta por dezenas, centenas talvez, de pessoas de boa vontade, não só a carinhá-lo com a tolerância, mas muito mais amiúde não colaborando com os gozadores contumazes, antes o tratando com respeito e cidadania. No entanto, passa-lhe no cineminha mental apenas alguns nomes, não os que não tiveram nomes, estes a somar muito na dedução do globo.
          Vê o nada na lembrança. Que é o tudo! ainda o nada. Nas fugas do seu ser, durante o efeito da dopagem na última dose recebida em injeção, vê de relance o que desaparece como um relance na crise por que passa. Fumega o prato no Boa Boia, ele come com volúpia, fala a matracar em volúpia, volúpia de viver, volúpia cidadã a querer ser um igual nas diferenças. Paga recebe o troco, entra noutro restaurante ainda mais grã-fino, senta-se de bolsos cheios a encher de iguarias sem nome o estômago; espera espera, o garçom passa volta passa e não para; estrila a cidadania, vem o maitre e sub-repticiamente informa “a casa não serve negros...” Sai escandalizado, parecia-lhe a situação igual a da moeda atirada num chapéu de pedinte. Três dias a sofrer a desfeita. No entanto a desfeita – e todas as desfeitas – desaparece como relance, o relance é o tudo, o tudo é nada aos que partem...
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          Contudo a dor volta. Cobrante num ferir e machucar sua paz de alguns segundos sem força para minuto. Volta-se para ela, sem esperar encontrar-se em viagem, a viatura da saúde ali pertinho certamente; a viatura levá-lo-ia à cura e ao retorno de sua vida pregressa recente, como andarilho e brincalhão na cidade pequena grande... Estarei acabando esta reencarnação sofrida! Não sabe. Sorri para dentro, fora seu exterior já perdendo a percepção das coisas, quase não vê, vê difuso e mais e mais escuro, estaria a ficar cego também! Num esforço vê, vê pelo pensamento; e é uma visão cidadã, com valores da urbe, o pai sim autêntico urbanoide, a viver na cidade com valores roceiros; ele no entanto se criara e vivera na periferia pobre, se locupletara da cultura do centro, do jardim, do TRU, um cidadão. Mas, sentia, estava a deixar ser cidadão, a deixar inclusive de ser.  Contudo a dor volta.
          Ela pega carona no comboio de viagem, os vizinhos vão silenciosos como levando a múmia do rei com respeito. A dor grita, faz estardalhaço, escandaliza; entretanto a vítima só pode sentir, muda, surda ao exterior; e até parece perdendo sensibilidade aquele corpo disforme e não mais a pular de sapo, não mais se arrastando igual cobro, não mais a andar torto de lado semelhando caranguejo, não mais se fazendo sentar como fosse aranho. A dor esbraveja. Dá seu ultimatum. E não precisa mais cobrar.
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          Esse? indaga o paramédico ao motorista. Puxa pra lá, empurra mais um pouco, engancha. Isso. Vamos examiná-lo. Olha outra vez o colega motorista, este não consegue ler seus olhos. Então acresce: liga à central; anota aí o número do paciente. Não não, não é para o hospital, caso de necrotério... os dados estão na ficha, isso aí, vai lá: Antônio da Silva, 40 anos, solteiro, de cor, aposentado, Vila Nova casa 30; C.A., hoje às 10:51h.. Eles entenderão. (Fala baixinho “já freguês”).
          Fecharam a tampa traseira do veículo, o povo curioso, a Tiana a chorar; a estatística somando mais um em suas mentiras.

Marília  outubro 2005 a novembro 2006





















Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



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