069(postagem no Blog Livros Inéditos)
Três Novelas
Moacir Capelini
moacircapelini@gmail.com
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data de publicação:
gráfica:
tiragem:
“(...) o mundo e os homens na verdade não existem,
são o sonho
de alguém que de repente pode acordar.”
Autran
Dourado
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“A esperança
é a saudade do futuro.”
Issami Tiba
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Índice das Novelas:
As
Férias do João.........pág. 5
Dona
Elinha da Silva......... 41
Os
Roceiros.........................63
Nota
do Autor: - As Três
Novelas em linguagem coloquial.
Primeira Novela
As
Férias do João
1° - Desapresentação
Por que não seria a informalidade
e a linguagem coloquialista uma boa forma de apresentação, visto que as
apresentações entre pessoas possam ocorrer sem os quesitos do cerimonial! Isso mesmo. Uma desapresentação serve para
gente e para livro que a gente não leia. Contudo o João e o João devem receber
daqui em diante as pauladas que todo traumastismo exija do freguês; neste ponto
não se falando ‘cliente’, que parece não cabe no coloquialismo. Quem foram
eles? (mas não pode que ainda vivos, atrapalhando o atrapalhamento da
sociedade! pode Quem foram? ora bolas, a
saber-se, necessário ler o texto a seguir.
2° - Um Encontro Casual
Casual!
como pode casual se não existe acaso. Acaso a palavra ‘acaso’, talvez em ocaso
por excesso no uso do abuso. Por outro lado é preciso não se descuidar em cair
no extremo: o determinismo, o destino, feroz cobrante absoluto. Que este também
não exista, existe a ideia para explicar inexplicáveis. Por que motivo jogar na
cacunda divina, não tendo coragem o homem em assumir os seus atos? Um ato, o
encontro de dois personagens. Que não tivesse outra razão de ser, a configurar
o início deste segundo capítulo, já tendo razão de sobra.
Mas
enfim se encontraram os Joões (nunca se
sabe o certo por que errado pluralizar nomes de gente; certo errado ou apenas
curioso quiçá extravagante, fica assim. Prossigamos). Era uma obra sem tamanho.
Desses edifícios, o capiau tem certa dificuldade a colocar sua tapera de pau a
pique como ‘edifício’; a ele só aquele naquelas alturonas que deixe quando despenca
e achata e mata tantos eliminando o excesso de nomes na declaração do Imposto
de Renda, somente esse é ao matuto urbanoide autêntico edifício, e era o caso.
Um desses edifícios, você olha lá encimão e já dando enjoo cair, não havendo
perigo, tanto experimenta o chão e olha outra vez lá pra cima, o enjoo continua.
Porém não haviam acabado o inferno da torre, ou por outra: a torre não andava
terminada apenas tinha o inferno da trabalheira na construção.
O
Doutor João estava bem humorado, coisa de rico não tendo decerto se
comprometido demais em nenhum grande negócio, aquele já um grande negócio envolvendo
bens imóveis e financeiros; quem sabe se não houvesse sequer discutido com
sócios nem com o gerente xereta, enfim não vai ao caso, o caso era estar bem humorado
e pronto. Os homens se juntaram naquela alturona dos enjoos a conversar
discutir o final das finalizações, detalhes pormenorizados das minúcias, e
sempre em tais situações se desentendem e se entendiam bem naquele dito, dito ainda
não e o será, naquele dito momento e por isso bem humorado só no começo e
foi... foi quando se deu a apresentação tratada na desapresentação precedente.
Oh
mequetrefe...
Correu
o João a atender, apreguntou-se se era, era com ele, primeiro olhando de
soslaio para ver gente, gente só ele, ele gente sabidamente com famiagem e
marmita, mastigava sua marmita – e não viu ninguém, ninguém em não ser ele João
da Silva, Silva por parte de pai que não conhecera mas isto importando pouco. Eu?
indagou cretinamente, por que será que a gente faz pergunta idiota.
Você.
Vai chamar o Pedro lá embaixo, fala que a reunião já começou.
Saiu
correndo, tropeçando nas coisas não sabe quantas coisas são postas no caminho
da gente pedra caco de tijolo ferramenta largada e a gente tropeça e não cai,
corre no lentamente gingado suando por cima do suor fedendo grudado já ao corpo
e pano barato usado ambos, o João se foi à procura do Chefe com um medinho que
dá na gente ao se dirigir pra falar com autoridades, o Chefe ranzinza mas
também (disse-se ‘tamém’) era ordem do Doutor João, ia a dizer, retransmitir e
assim mesmo dava lá uma tremedeira danada.
Achou,
‘recadou’ , voltou. Gaguejou no falar e então o Doutor:
Ele
vem vindo? Como é seu nome.
Disse
baixinho, um engasgo que dá no gogó, quase assoprou tão só, teve de repetir
‘João’ em voz macha, que era macho pra valer, pergunte à patroa.
Puxa,
disse, agora se desenrugando o Patrão, é meu xará; e o dispensou de mais
dispensas pra sua marmita já à metade e se tinha esquecido, esquecido aberta em
divisão com moscas liberais e democráticas que ainda mastigavam com boca aberta
arroz feijão abobrinha e uns nacos de carne-seca gordura e sebo cheirando bem,
bem aos mosquitos – xô fiadaputa lembrou a esquecida mãe-mosca o João, não o
Doutor, o operário. E ficou quietinho no seu canto; antes de mais nada, se foi
para um mais escondido que é chato comer na frente dos ‘homi’ falando lá as
coisas deles pra gente só adivinhar...
Assim
foi a apresentação de ambos xarás. Sem formalidade como se atentou dizer, não
se sabendo se se compreendeu.
3° - João em Férias - I
João,
o Doutor João se esquentou no acalorado da discussão, sempre os outros não
compreendem as coisas, as coisas dos outros, aí perdeu as estribeiras, e estava
a sorrir sorriu por todo o começo da exposição das questões concernentes à
obra, à finalização da obra; já então um pouco fora da planta original e
oficial demandando mais dinheiro, toda vez que entra dinheiro não há muito
acordo, sobretudo se prejuízo à vista apenas se acorda acordando um lucro, o
que não era o caso – nesse ponto se enrugou se ‘enseriou’, chegando mesmo a um
mutismo proposital ou explodia gritava perdia a calma perdida e mais perdia a autoridade.
Foi que se emburrou em boca fechada, ouvindo tão só de longe o blá-blá-blá dos
grandes que eram pequenos por serem seus comandados, deixou que falassem, estando
de corpo presente mas sorrindo em suas lembranças próximas e distantes. Revia
aquela imagem: um penico amarelo gingando pra lá e pra cá por cima de um
esqueleto bem magrela coberto de pano ordinário desbotado e malcheiroso
tentando falar-lhe ter dado o recado ao Pedro encarregado do pessoal, a temer a
gaguejar ser um ‘João’. E se ouviu falando “é meu xará”, a apreciar a própria
voz os outros também elogiavam aquele timbre, timbrava alto a impor suas ordens
e todo mundo murchava acatava observava o mando; o pé-rapado tremeu gozado e se
fora, o penico abaixou tomando a marmita amassada, parece ter resmungado qualquer
e se escondeu atrás da pilastra da outra parede será que foi engolir
aquilo! pensava o Doutor que pensava
desconhecer aquelas insignificâncias e desconhecia mesmo. João ? meu xará, essa
gente não tem onde cair morta não é como a gente, esta obra está me custando a
vida, me acabo por estes burros arrogantes a viver falar.
Um
momento, diz o Doutor, um de cada vez; agora o senhor fala sobre o gasto com o
pessoal. (E se desligou outra vez da discussão, ficou a ouvir pro forma; dentro de si, numa conversa franca:)
Decerto
engole arroz e feijão, que será que ele come. Não tem o meu drama com a esposa.
Ela é um saco sem fundo, os filhos também me comem pelos bolsos. Preciso pôr cobro
a isso. Não tem uma mulher safada como a minha. Agora com aquele canalha. Dizem
que se considera ‘namorado’ dela, é outro explorador. Ela só arranja desses
crápulas. Preciso pôr cobro a isso! Eu
também não aguento o desgaste por tantos anos, é a terceira obra que me dá
prejuízo, como convencer os
investidores! vou terminar esta porcaria de prédio, com um imponente nome. Terminar
como puder, ajeitar as coisas, fugir em férias. Férias
merecidas. Oxalá possa me fazer acompanhar das crianças; são mais altas que eu
até! a menina já olho pra cima e ainda chamamos os filhos ‘as crianças’; levo a
Gina nem que seja a força e a afasto do amante, o chupim sem-vergonha.
Acordou
então aos circunstantes e pôs os pingos nos ii, fez propôs fazer as
modificações mas tudo recaía no aumento do gasto, no mais do menos – provocou
um zum-zum, franziu a testa, esfriou os ânimos com promessas e um ‘vamos ver’
qualquer, fechou a reunião quase informal com a forma de sempre: “vou estudar o
assunto, chamar os incorporadores, pensam acaso que sou o Dono?” A conversa
amainou em conversa mais informal ainda e a dispersão começou. O Doutor chamou
à parte seu encarregado de pessoal.
Seguinte.
Me mostra a relação de cortes. Não senhor, vamos cortar todos que falei,
reduziremos a 30% os trabalhadores mas desejava ver um caso. Puxa quanto
João! aquele que foi chamar Você,
Pedro... Silva? esse. Esse não, cortamos depois, noutro edifício, vamos fazer
um pra lá da Avenida, naquele não, não quero nenhum dos vagabundos que trabalham
agora com a gente. Gente nova. Mas por enquanto, conserva meu xará (riu e o
submisso sorriu quase gargalhou confianças). É isso. Não se esqueça de tudo que
tratamos hoje.
Falou
em despedida o Doutor, mas nem ouvia sequer mais suas próprias palavras, pois
se ouvia em conversa animada nos comos das férias que programava, já temendo o
futuro próximo do chegar em casa e discutir a viagem com os seus.
4° - Discussão em Família
O
Doutor chegou furioso no lar, sempre chegava desse jeito; bufava nas ventas, ainda
bigornava os prós cheios de contras do nunca acabar no serviço, parece mais fácil
iniciar que terminar uma construção, mais fácil ainda quando no estádio de estudo
no estúdio esticado na prancha; mais difícil ainda e sempre fora convencer o
capital arriscar no trabalho; aí aumentava seu peso sua responsabilidade;
assunto que nem de longe nem mesmo em sonho atingiria um João da Silva. Ele a
explodir. Desligou o carro, não podendo desligar-se... retirou a chave de ignição,
a garagem, a porta dela a enroscar; as preocupações com segurança, não tinha
mais segurança: a família é prisioneira no estado de liberdade. E era isso a
vida. Bateu a porta, volumes debaixo do braço, a valise plena nas porcarias
documentadas, entrou na sala, não encontrou os sorrisos dos familiares somente
os falsos da criadagem, resmungou, entrou finalmente no escritório, despejou
aquele peso das toneladas do mundo em cima da escrivaninha, sentou-se como
pôde, pôde respirar ao menos, pois estava a um passo do escuro do abismo do não
ser...
Noite,
sexta-feira, não conseguiu discutir suas sonhadas férias por falta de quorum. Hoje mamãe só voltaria amanhã; os filhos... cada qual
fugindo ao seu mundo, um que outro a abordar não abordou por saindo a correr
eles aos seus negócios, muito além dos negócios; assim João ficou sozinho nos
seus terríveis negócios, apenas discutiu com dona insônia, cidadã muda e
teimosa. Quando se descobriu descobriu estar só... e mal acompanhado!? sorriu seu choro. Era dia, dia de sábado.
Correu
ainda arrotando em soquinhos um café e torradas, fiel ao regime imposto,
imposto sempre é um regime. Chegou esbaforido à obra. Discutiu os quês,
quês-zinhos sem importância, mais a estar presente: não são os olhos do patrão
que engordam a criação! sorriu à sua originalidade. Melhor se fosse escritor ao
invés de diretor, a fugir ao mundo distante do mundo. Fugiu do mundo a correr
ao seu mundo, a almoçar as suas coisas.
A
mesa é ótimo aglutinador, ótima às discussões ínti-mas, sob o sorriso malicioso
das orelhas criadas, não se pode realmente confiar nos subalternos mas como
exercer o poder sem a criadagem. Assim mesmo abriu a sessão, guardanapos talheres a tilintar em pratos, gargantas
a raspar resmungos ou mesmo altas vozes em defesa contra ataques, pôs enfim as
cartas na mesa. Propôs umas férias, viagem, descanso, distração, ganhos
culturais e tudo o mais que possa ofender ao analista e desenricá-lo nas suas
charlatanices. As férias são antídoto ao cansaço ao excesso de trabalho e ao
dito analista. Mas... ah havia o mas.
Os
membros daquela sociedade secreta, quase secreta se se não levasse em conta
ouvidos subalternos e a língua estranha que nunca consegue calar os segredos...
seus membros não chegavam a acordo. Mamãe não podia na época deixar as amigas
(parece que se chamavam todas Argemiro). Papai: Gina, precisamos de você
conosco, não tem graça irmos sozinhos. A filha mais velha era mais nova que o
primogênito, mas cantava de galo – não vou, disse, sem o Guilherme. Assim foi
incorporado um genro às férias, aos planos; depois surgiu nova encrenca, o
‘namorado’ não queria deixar a esposa nem o filhinho que não era seu deeneamente
falando. Joana, a mais nova, já velha e se fosse antanho não seria mais filha
mas ‘titia’, essa já tratara com um dos seus namorados fugir ao rebuliço da capital
com outra gente nada respeitável... Os meninos, meninos tão só em nome, eles
aceitaram prontamente e já faziam planos às suas farrinhas de jovens, jovens um
pouco, o primogênito Carlos bem passado; mas o menor, o qual era uns centímetros
mais alto que o genitor incluiu uma ‘amiguinha’ totalmente comprometida com o
descompromisso e amante de drogas. Não (vociferou Papai) não Edu, aquela mulherinha
mundana não pode ir. E aí pegou fogo a discussão, ofensas pequenas e grandes e
se incluiu finalmente a Még. Brigaram um pouco mais, pouco antes de tirar-se os
restos do almoço e botar a refeição do jantar; contudo o não-acordo prosseguiu
noite em fora. E
o domingo que é o dia de descanso ainda não terminando o mister. Inclusive se
prolongou pelos fortuitos encontros durante a semana. No domingo posterior,
terminada a dis-cussão no acabamento do edifício, continuou nos aparos a discussão
familial da casa de João, onde ele não era Doutor nem conseguia dar a palavra
final. Nada obstante acordou-se em ir e para onde ir em férias.
Optou-se
apenas a umas férias rápidas de mês e pouco no litoral próximo, na sua área
nobre. Futuramente (se não se comessem uns aos outros, falou-se pensando o
Chefe da família) futuramente que tal
Cancum ou Europa?
5° - Mês e Pouco no Paraíso
Contudo
chegaram, pois havia sobrado problemas pelos veículos com o excesso amarrado
nas costas, gente sobrando a olhar pelos olhos dos automóveis com suas janelas
de vidro ‘fumê’. Trânsito excesso de trânsito e demais sortilégios e sacrificinhos
do trajeto, quase um romance na crônica de viagem. Até que enfim chegaram ao
palácio. Era um palácio imponente embora alugado à temporada, belo na sua
construção, a esbanjar verde flor jardim e barulho das águas, elas a ofertar
sem descanso sal e espuma. E o dia seguinte o sol a bruma o sol outra vez e o
horizonte e a vista; a vista que o rico desfruta e o pobre vê no cartão postal;
a vista eternamente pousada à objetiva da câmara da retina. Ninguém precisaria
confrontar o inferno da capital com seus mil e um oferecimentos de rotina
trabalho e problema. E lá, neste aqui, no fim que não tinha fim, singrava um
transatlântico que era não mais que um ponto a se mexer na linha que divisa o
nada e o tudo e se entrega à sombra, ao sonho. As aves a barulhar a quietude do
todo, voando, a mexer com a paisagem, a virar paisagem; e a existir. O homem
era o senhor que desaparecia diante do poder do colosso do inexplicável da
beleza natural, o quanto a natureza não possa ter sido realmente maculada...
Mas
aquela turba, pequena, da cidade grande, diante a grande piscina da natureza,
não pensava ela nestes termos, talvez um que outro dela em veia incerta mas com
certa liberdade poética. Pensava apenas no descarrego de seus apetrechos
pensava nos aposentos pensava nos jogos nas águas nas bebidas nas diversões.
Por conta do João.
O
Doutor, desdoutorado, tentou pôr ordem nas coisas e na casa. Todavia Mamãe é
quem disciplinava, tanto fez até conseguir que noutro dia se arranjasse acomodação
a um tal Argemiro, primo duma certa amiga, dessas que se jura por elas. E a
João foi descartada a honra de ficar bronzeando a barriga avantajada com a
esposa. Mas ganhou em contrapartida a companhia de Még, criaturinha que nunca
atinava com que se dizia e exagerava na bebida. As ‘crianças’ se divertiram com
muita valentia e criatividade. Moços e moças se desmandaram pelas praias e
clubes, retornando quase sempre na segunda ou terceira hora da insônia paterna.
No
correr da estada paradisíaca houve mil contratem-pos, contravenções,
contradições. Sobrou acaloramento na língua, desavenças miúdas e graúdas, até
ocorrência policial, para desgostos joaninos. Contudo e não obstante o transporte
do desentendimento da capital para o ambiente de férias; e os gastos enormes pesando
nos bolsos do Doutor-mero-João naquelas paragens, pesando também e mais ainda
nos prováveis lucros da Obra inacabada – embora tudo isso, foi positivo. Somente
o próprio João necessitou socorro médico. Somente ele.
Mamãe
estava feliz, quando estava, estando com Argemiro; as filhas, somente Patrícia,
a voluntariosa mais velha, se desentendeu com o ‘namorado’ teimoso em telefonar
a saber da esposa e dos filhos. Os outros se deram bem, se drogaram bem, se
enfastiaram bem, bem gastaram por mais de mês. João pagou a conta. Com cartão,
com cheque, com dinheiro vivo, mais morto por tantas férias. Apenas no fim do
período foi ameaçado por inimigos gratuitos por indiretas e diretos processos,
quiçá com escândalos, por deslizes que toda gente bem bem se dá nas relações
com gente de fora. Mas foram senões, pois as férias redundaram num sucesso, na
opinião dos otimistas desse grupo.
Assim
foi que o mar rosnou regurgitou vomitou aquela família extemporânea de volta
para a capital.
João
voltou a ser Doutor, a Obra não terminava ter-minou, os financiadores
reclamaram o retorno minguado, o pessoal, salvo a gente mais chegada da
administração, o pessoal foi despedido; havendo algum trabalho com o Ministério
do Trabalho. A folha de pagamentos enxugada. Mesmo o João da Silva ¿teria ele que aposentar o capacete
amarelo, penico gazara o chefe, e ajudar enxugar a folha?
6° - João em Férias – II
As
férias de João tiveram antes o desligamento das férias. João desceu pelo
elevador, no caso ‘descedor’, improvisado, quase tão precário como a Obra, se
bem esta já no último pavimento; antes do antes olhou aquelas gordurinhas
impregnadas na lata do alumínio, ficam uns grãozinhos de arroz, a Gina havia
exagerado no cozimento virara uma papa e o marido não apreciava reclamava
nundiantava mas agora arroz amanhecido se desgrudando a ficar duro e a sobra, vixe! a sobra parecença com pedrinhas brancas
engorduradas. Ele raspou a colher, comia que nem criança de colher e a Gina lhe
pegava no pé por isso, também por isso, raspou a vasilha e emborcou a cair o
farelinho no chão de cimento pedra cacos de blocos. Aí embrulhou, havia
desembrulhado anteriormente e antes da mosca lamber e ajudá-lo a comer arroz
feijão abobrinha e sebo de jabá, antes desembrulhara do pano de prato em
limpeza discutível a marmita, agora embrulha, enrola embrulhado não dava para
essas coisas, coisas de mulher a Gina passava aquelas mãos de fada a bruxa
ajeitando bonitinho, ele não: enrola no mais ou menos das coisas. Enfim se
apronta desce pelo elevador rangendo securas e poeiras, embaixo se lava na
torneira vazando vazava noite e dia ficando aquelas poças que só o mosquito da
dengue aprecia mas deve ser invenção da tevê. Aí bochechou a bochecha cuspiu
uns resíduos de arroz fécula de feijão um nervo de carne teimoso, tomou água tomou
a sobremesa, sem chantilí é claro: um cafezinho aguado doce frio da esquentada
Gina, que ela fizera madrugando antes de acordar a mais velha... que diacho haveria
da garota andar de rabo com o vizinho Argemiro! e, pior, se esse maldito
(lembrou a mãe do vizinho) estiver enrabichado é com a Gina... ainda pior, ah aquela
cadela. Aí engoliu outro gole, ia partir
ao descanso merecido: conversar com os colegas, que a gente costuma chamar ‘amigos’;
coisas do serviço, ouvir uma patacoada do Baiano, ele sempre mentia muito bem,
todos rindo; e os outros, uma que outra rusga, das rusgas costumeiras, porque
gente é assim e não acostuma a gente e sempre tem um sustinho novo a contar. Os
operários falavam entre si em corte.
Falavam
em cortes. Ele
pensava férias.
Ficou
assim a aguardar um denominador comum ao incomum na sua vida.
7° - Via-Sacra às Férias
Fazia
ano, coisa rara na construção civil, onde a reposição ao sabor das necessidades
do empresário se faz tranquilamente pela rotina, em que meses são eternidades a
direito frágil e precário portanto não direito – o trabalhador, o Pedro Encarregado
apreciava chamá-lo “baiano” já sem ser preciso estigmatizar porque o corrente
uso santifica, o trabalhador se achando velho no serviço, o trabalhador volta à
obra chegando indormido a fungar o cansaço da espera antes e depois o sacolejo
na condução, por vezes não, não sendo o caso do João, xará do patrão, aquele
besta (quem falou isso o Chefe ou o colega submisso de trabalho! fica tudo no
mesmo). Não em seu caso, tinha vez por outra o drama da insônia, mas muitos
dormindo como pedra após o trabalho estafante, a estafa que costuma ser o stress dos civilizados ricos com muita análise psicanálise e
outros trecos complicados, se não estafante ao menos pesado com direito a muito
suor e desgaste físico; e assim a dormir, e a roncar a mulher, Gina ou não
Gina, a cutucar o sem-vergonha porque o sem-vergonha não deixa a gente dormir
roncando e as crianças exigem demais e tem a roupa e a roupa de fora e muito
trabalho amanhã e esse porco... e aí o João acorda e dorme outra vez, empacota
critica a Gina dizendo sempre assim, acorda se levanta, faz aquele barulhão sem
tamanho, engole o café e sai correndo ao ponto do ônibus para a obra. Dessa
forma o trabalhador volta a carregar massa bloco pedra cimento aquela farinha
em voar no ambiente e a trincar mais a pele das mãos, a respirar bonito com
dificuldade a ingerir melhor a poluição, a ganhar uns trocados e ele? ah meses, velho de serviço, com direito a
férias. Férias integrais de vinte dias, seriam quinze se faltasse, o João é
caxias no emprego, cansado do desemprego fazer ficha fazer fila fazer promessa
pro santo ajudar e aí, colocado não pode perder dia, dia mais dia trabalhando
em soma que agora soma mais de ano, com direito às férias. Se a Obra deixar.
Silva
direito a exclamação de susto! não era costume ter nome de família, até se
esquecendo dele, era João da Obra a todos e ‘Porco’ só à Gina, que se dirigia à
vizinha às vezes se referindo ao marido por João. Num de repente que não se espera
espera patética a ouvir o Encarregado a gritá-lo ‘Silva’. A gente não se
acostumando nunca nas intimidades com chefe, chefe costuma isto sim é chamar
para avisar passar na moça lá na frente acertar as contas, receber direitinho,
contar as notas lambendo as pontas dos dedos tem uns grudinhos quando dinheiro
velho e cheiro ruim bom de se receber pagar comprar doce aos meninos mas que diacho
vai tudo nas compras e a mulher chia fica ainda resmungando bem por causa das
biritas e quem aguentaria sem um trago!
Silva, silva o nome nas orelhas duras desacostumadas, temerosas dos
cortes e a procura de novo um novo emprego e aí... como dói!
mas não podia que podia ser por outra coisa...
Eram
as férias.
Todavia
férias ao trabalhador simples em terra de acentuado desemprego não cheira bem.
Porque geralmente na volta tem a volta do desemprego, a firma não quer o
trabalhador prefere outro mais barato ou mais eficiente e isso é o inferno, se
o Inferno não existe, existe, então agora ele existe.
Aí
João conta vantagens. Conta a todos, depois, antes do depois entremeio à
carriola cheia a levar ao mestre pedreiro o que o mestre quer como deseja e
onde se pôr o que pôr, antes baixinho aos outros para não levantar suspeita dos
superiores pois trabalha certo e correto; depois no almoço arrotando marmita
engolindo café fraco frio da garrafa de guaraná com tampa de rolha de vinho e
azeda um pouco o doce do líquido, ele engole o líquido preto em goles e sopra
para fora o hálito da barriga satisfeita e narra com desenvoltura em criação
como foi que impôs à firma seu direito às férias. Ah sim vai tirar loguinho, não
é seu direito! Decerto não mentiu
pretender levar a família a Cancum nem à Europa, não mentia. Só mentindo nas
mentirinhas gratas de pernas curtas do dia a dia confrontando o dia a dia dos outros
capacetes amarelos. Bateu seu penico que o deixava com a cabeça grandona no
joelho magro, olhou o Baiano:
Vou
de Férias, meu nego! Sorriram gostoso, o
Baiano contou das suas fazendo tempão, agora quem consegue sem ser cortado
somar meses pra tirar descanso! Fala inventa exagera, o João ouve e dá longo
curso ao seu sonhar, direito humano inalienável. Agora fala inventa exagera
também ao colega, chegam mais outros. Vêm de todos buracos da Obra parecendo
cupins formigas minhocas, vez que outra ainda a mastigar falando mastigando,
mastigando o falar entremeio restos de comida e até oferecem um gole de suas
garrafas àquele felizardo. O João conta ainda mais, reconta qual gravador só
não sendo fita porque tem entusiasmo, mesmo ao narrar a verdade; verdade que
deixará o trabalho a descansar do trabalho – com merecimento e direito, insiste
– deixará o serviço sim e com a forte honra de não ter sido despedido. Balançam
as cabeças assentindo àquele herói todo sujo na roupa na cara na boca
engordurada que se vai despedir, mas não sabendo quando, depois a moça do
escritório dirá; vai-se despedindo às suas férias, ah graças a Deus (e se benze
e sorri contrito, feliz) Aí tocam a sineta.
Voltam
ao carrinho aos tijolos e à cal.
E
na saída que fica na entrada, assina, antes assinava com o polegar, agora treme
demora passa da de cima volta pra linha de baixo, sente ímpetos apagar o esse
que nunca sai bem ainda assim continua Silva e rabisca Silva em final e nota
que a cobrinha do João quase subiu no primeiro ‘o’ mas dando para ler, conta a
conta, conta o dinheiro, observa a torcida organizada dos colegas torcendo e
quem sabe invejando o amigo que partirá em férias... Dá com a
mão, aperta a mão do Baiano, que é dos mais chegados, promete-lhe imprometidos
presentes das ausentes férias ainda, ainda futuro. E o futuro pertence a Deus.
Assim,
após insistir e implorar dias quase mês, ganhou férias o João. E foi pra casa a
confrontar seu cheiro de corpo com os corpos cheirosos na condução; para
anunciar aos seus na Vila.
8° - O Primeiro Dia
Se
lembrava o João, um brasileiro que não estava nem aí com pronome e talvez nunca
havendo ouvido pronome nome a se confundir decerto com nome, se lembrava o
homem quando arremedava escolar e era já barbudo a se alfabetizar do Dom Pedro,
vai que o Encarregado tinha esse apelido por causa do Rei ou do avô dele, este
sim em homenagem ao homem do livro de leitura – lembrava-se vagamente do
‘Independência ou Morte’ sabia sim, tinha certeza, agora tinha certeza estar de
férias. Amanhã não tendo amanhã, não iria à Obra, os outros que a finalizassem
por ele, ele não estava nem aí, lá. Independência!
Todavia
não se encontrando tão liberto, pois a condução não chegava; chegava, chegou
depois não chegou a outra, a fila era cobra a ‘minhocar’ em zigue-zague, ele
foi ao rabo dela, a andar devagarinho e sempre a gente tem sorte de ao menos
entrar no ônibus, ou ir dependurado no primeiro que sair mas não num dia a
entrar em férias, sentiu-se estufado premiado invejado talvez pelos sofredores
ali desconhecendo tanta felicidade; e finalmente entrou no veículo, sem lugar a
se sentar mas de pé espremido; ocorrendo ser não ser tão ruim quando entraremos
no paraíso das férias, suportando quaisquer infernos então. O carro andou. E
não andou mais, ‘lentizava’ tentava romper e engolir os quilômetros ao bairro.
Somente o dobro depois do tempo chegou ao arrabalde, com seus casebres e casas
que se faz em cima das casas a se construir quando puder mais outro cômodo sem
respaldo sem pintura, construções medonhas de feias, a enfeitar a periferia.
Desceu andou tropeçou se embarreou, já não pensava nos atropelos e embaraços do
trânsito – era um liberto pelas Férias!
Raspou
o barro grudado à sola no raspador que pusera à porta, tão só uma lâmina de
ferro com duas hastes presas no solo. Veio o Campeão lamber-lhe e agitar a
cauda amiga, os meninos por aí, Gina por aí, decerto na Comadre; acendeu a luz,
ajuntou os restos quentes já esfriados no fogão, tinha panela sem tampa com
tampa rolada no chão, mas em dia de tanta felicidade infelicidade pequena não
tem vez, espantou insetos, encheu o seu prato, montanha digna da fome,
sentou-se para ver tevê mastigando, dormiu o seu cansaço, deixou ao sono passar
ao sonho o pesadelo que deixou atrás na Obra do centro da cidade naquelas alturonas,
aproveitou sonhar com o Encarregado até lhe mostrando a língua, aí acordou, a esposa
o acordou gritando que estava gritando e se era "pisadêro" ela assim
falava; e dormiu outra vez. Dessa forma aquele primeiro dia de férias, que era
só meio dia da noite para a madrugada ficou sem ser anunciado à Família.
9° - Discussão em Família – II
De
repente, parecia de repente, ele estava em férias. Não havia
ainda conversado com a Família, a traçar o gozo na alternativa da rotina. Era a
rotina, acordou, tão só falando meio sincopado, ao seu feitio, sobre o período
em descanso para a mulher, mas não à Família; era preciso reuni-la a dar trato
às coisas. No entanto isso lhe custou a espera. Passou o dia todo sem saber que
fazer no não fazer, desacostumado nisso. Cada qual saiu ao seu mister, mesmo
Gina foi entregar cedo a roupa lavada e passada; os grandes, que eram pequenos
porque papai e mamãe eram de baixa estatura e os parentes de todos lados
também; assim os grandes por idade foram para as suas nascentes responsabilidades,
lhe tocando a ficar observando os pequenos, suas crianças, elas a brigar e até
a brincar por desfastio do desentender. João permaneceu vegetando, indo prum
lado para outro sem saber que fazer, onde se pôr, abobalhado, em virtude sempre
no entra dia sai dia se ocupar no trabalho, do qual recente se livrara...
Mas
eis que chega a noite para tão sonhada hora de colocar os pratos a limpo. Falar
sobre as Férias, fazer planos, executar o discutido, o decidido. Entretanto é
tarefa difícil, quase impossível num grupo no qual cada um tem seu interesse
nem sempre de interesse familial, isso sendo válido aos adultos. João pensou
falar numa possível praia, o que seria novidade a quase todos, só a menina do
meio, a Joana, somente ela fora uma vez ao mar; contudo era uma lembrança
triste e trouxera muita desavença à família, discussão no sentido negativo, com
direito a tabefes e xingamentos. Joana fora como empregada duns ricaços, a
servir-lhes em temporada no litoral. De lá voltou com o problema comum que se observa
por aí: o patrão fez-lhe mal, ela em razão do mal bem engordou, abortou quase
morreu; e ficou por isso mesmo, a velha tecla da corda mais fraca... Ainda por
cima (ou por baixo) perdeu as ilusões, próprias dos jovens; uma vergonha aos
íntimos. Não obstante, aberta a sessão para discussão familial com respeito às
Férias de João, foi Joana a que mais deu palpite, mestra e experiente nos
misteres das águas do mar. Os desafetos da casa se aproveitaram a remexer no
entulho o lixo até aí guardado pelo pó do silêncio; João, mais a Gina que ele,
teve de interferir. O Chefe da Casa propôs seus sonhos no sonho das férias, os
outros presentes (alguns não haviam ligado muito saindo a tratar de suas
distrações fora) eles riram falaram desdisseram imprecaram se defenderam, a
sala de reuniões virou balbúrdia. E tudo se enroscava no dinheiro, o Pai
recebera um salário como bônus de férias e, que era uma importância daquela
para tantos passearem! Não chegaram a consenso, embora mirabulassem muito, pois
o sonho é como se disse um direito inalienável do homem. Gina gozou o marido: “homem,
só se eu for lavar e passar biquini pras madamas na praia!” Ninguém mais propunha
trabalhar ganhar acrescer aos parcos rendimentos paternos a todos se
beneficiarem da viagem proposta. Não, Cancum não propuseram e nunca haviam
visto-ouvido sequer na televisão; mas um passeio viável no Litoral não demais
distante. Era o que se propunha realmente, assim mesmo superlativando o sonho
dum quase pesadelo. Sobravam os pés no chão, o solo da periferia da Grande
Capital. Nem assim cessara o desentender na conversa, a mais informal possível,
que é sempre possível aos pobretões. A filha mais velha, que seria mais velha
somente em razão da morte dos primeiros filhos do casal, a Patrícia, logo se
negou a pés juntos ir, em não ser que pudesse acompanhá-los o Guilherme, seu
‘namorado’, o qual certamente teria o drama a deixar sua esposa e os filhos,
uma situação constrangedora. E se uma ‘fieira de filhos’, esta uma expressão do
dialeto familial, se a fieira não morresse antes, alguns nascendo mortos já,
não fosse isso e eles também estariam ajudando a reforçar o elo familial
brigando com os vivos. Mas os garotos também davam palpite; tinha o Carlos já
calvo e que nada fazia na vida somente pesando à casa, esse era o mais violento
querendo impor moral às irmãs. Já o mais novo, o Edu, era meio aluado e vivia
trazendo para o lar dos pais tranqueiras sociais, agora andava com certa Még,
garota esquisita pra quem havia ensinado como fumar maconha, ambos se embebedando
frequente, dando vexame, envergonhando a casa perante os vizinhos; esse rapaz
também queria ter direito a voto na sessão e impor os direitos da amásia. Os
pais sorriam, não mais podendo chorar ou só lamentar.
Com
tais idas e vindas, altos e baixos, voltou o marasmo na Família, o João quase a
desistir da viagem logo no primeiro dia, dia de propostas naquela noite daquele
dia; coisa a lhe doer, porque embora não confessasse e isso não se confessa
mesmo – desejava com as férias roubar a esposa à influência dum tal Argemiro,
espécie de Casanova nas imediações e cada vez mais perto da Gina. Donde se deduz
que feiura não é antídoto contra conquistas amorosas; a Gina parecendo um
‘canhão’ mas seu companheiro lembrando-se como fora bela antigamente; no
entanto, quem pode com tanto menino querendo a luz! era agora uma velha prematura, mulher parideira,
barriguda, esquelética, conquanto bem trabalhadeira a ajudar no sustento da
penca, a qual se iniciara com os falecidos saindo de casa como anjinhos pro
cemitério, passando ainda pelos que sobraram até ao menino caçula temporão, o
qual as comadres juravam ter os olhos dum vizinho e o andar desse mesmo vizinho
mas ninguém provando que não se prova realmente só se fala... Assim o João
resolveu encerrar aquele cerimonial a discutir suas férias, porém não precisou
encerrar: os que não haviam fugido antes às gandaias já haviam se recolhido ao
colchão e os que permaneceram, permaneceram dormindo antes já cochilavam – os
pais encontravam-se a sós para brigar mais adultamente. Bebeu mais um café; e
não convidou Gina a ir pra cama, ela já ressonava quando ele se deitou. Tudo
sem acordo. Mas os acordos costumam entre pobres discordar bastante.
10° - O Dia Seguinte
Interessante
que o dia seguinte nunca tenha culpa pelos acontecimentos, pois ele depende
tanto do anterior, este sim o divisor o básico o decisivo para qualquer interpretação
que se possa dar. A divisória para ele era a discussão familial, onde não se
chegou a nenhuma decisão, mas sobraram incompreensões; sendo que esse ponto divisor,
este sim dependendo do início das Férias, ele o merecedor do apelido honroso
‘seguinte’. João permaneceu até mais tarde na cama, um inusitado pra si, nunca
fora o domingo podia ver os desenhinhos a brincar na parede com o sol que via somente
nas frestas das paredes da Obra; agora olha gozado gozando feito menino os
desenhos os quais andam pela parede do quarto e se encontra sozinho. Não bem a
sós, o Campeão vem lamber o dono faz-lhe festa amigo e puro. Sua gente ou já
grita lá fora, a brigar com os gritos da vizinhança ou já se fôra fóra a tratar suas coisas. Ela nem
se fale, no batente; já preparou o café e efetuou mil lides das lides de casa e
se encontra numa patroa menos pobre que a lavadeira chep-chep na roupa e
tagarelando e aí conta que o marido foi premiado na loteria da sorte das férias
e ainda ‘linguára’ os planos e todos absurdos, infelizmente ela crendo em
absurdos e sonha que irão loguinho ver o mar, o qual tem vontade conhecer e
dizem que é salgado, desde pequenininha bem antes de namorar e fugir com o
João, mas acha não ter sido lá grande negócio fugir da família dela que vivia
brigando, não foi pois o 'fia-da-pê' (homenageia a sogra lembra a velha na
sepultura e se benze e ameniza a ofensa pensando que a mulher a queria como
filha) mas, diz aos ouvidos da outra, o homem só quer fazer filho e acabar com
a gente... nesse ponto despenca a contar cada luz de sua sombra, assunto ao
qual a patroa-vizinha dá corda conta seus ais também; e a roupa ‘montanha’ em
pilha na bacia; aí param acudir a criança que tombou e chorou e esgoelou
sujeiras e elas param então de falar para falar noutras coisas, enquanto o João
dorme, aquele porco. Porém não dorme, levanta-se cansado do cansaço acumulado
semanas no tranco aguentando a condução a obra o patrão os bolsos fracos magros
e a dívida como ‘pindura’ na venda; se espreguiça gostoso e se encaminha ao
desjejum e ao sanitário (o qual cheira bastantinho Ela limpa limpa, ah os
porcos...) aí brinca com o cachorro, depois vem o caçula, brinca com ele, ri-se
dos enrolados do aprendiz na escola da vida ainda no jardim da infância, mas o
pobre não teve vaga na escola da prefeitura e aprende no quintal escancarado
sem cerca mesmo; e depois de fazer minutos na horinha vai o homem ver se vê
algo para fazer, impensável se ponha nos serviços domésticos, talvez um ajeito
no seu diminuto pedaço a arrancar algum mato alguma praga vegetal; nada o
atrai; ah se houvesse um macho ali para conversar, mas todos foram levar suas
marmitas a comer no almoço do trabalho e falar com mulher não dá pé, fica meio
sem jeito não sabe o que dizer, é um bicho que só fala de criança e remédio ou,
pior, da vida dos outros e isso é chato pra valer; se vale da descida em trilho
cavado por tempo e pés e vai à rua, a qual só tem esse nome e ninguém sabe bem
o nome, mas é a que leva a gente pra ir ao ponto final pegar o ônibus sofrer no
ônibus depois sofrer no serviço, aquele Pedro é um desgraçado e sem-vergonha,
se deixasse por sua conta ainda hoje a carregar massa e tijolo, aquele enjoado
e pior ainda, isso pior: falaria ao Doutor pôr ele na rua, pois o Pedro por si
mesmo não deixaria nem completar ano e ganhar férias, um direito uma conquista
da qual se orgulha... Todavia quando dá conta estão as portas do Bar escancaradas.
Entra.
11° - O Bar o Mar o Mal
‘Bundia’
Dona Zefa, Zefa quem sabe Josefa, não punha a mão no fogo por essa dona, dona
do dono, correndo à boca pequena a mulher sendo o homem naquela fortaleza, umas
estantes sujas empenadas na madeira velha onde se apresentava ao público, agora
tão só o João o das Férias, garrafas convidativas plenas de pó com rótulos
vistosos mas gostava mesmo do da onça e tinha um com moça e outro com o número
51 escancarado e este sabia ler; tinha umas latas pingadas pra cá pra lá
desordenadamente e muita coisinha em plástico, visto estarmos na era do
plástico até dizem haver já coração para transplantar de plástico mas nunca
iria deixar pôr um treco daquele no dentrão dele; tinha na estante vistosa ao
mau gosto miudezas mais como doce para menino, vidros em chamarisco; embaixo as
geladeiras com, é claro, garrafas garrafas garrafas em vidro e garrafas de
plástico ou garrafas de lata que eram de alumínio. E o chão. O chão era limpo,
Dona Zefa varria e mais varria, os porcos sujavam de novo, a Gina me chama de
Porco; e ela prof-prof alimpava outra vez. Os usuários do Bar, que ironicamente
se chamava Esperança e o dono, de propriedade da dona, ele ‘pessimismava’ à
beça num: pudera! tendo freguês como o João a botar e mais pôr na lista que
eram as tiras de papel de embrulho rabiscadas de compras não pagas às quais se
convencionou chamar ‘pindura’; e ainda sobravam outros caloteiros a enriquecer
as vendas da Venda, sobretudo bebendo os lucros do Mané, Dona Zefa falando
‘Manezinho’ e os de fora sempre dentro a falar mole Seu Mané.
Porém
não gostava o João de encontrar a fêmea da espécie Dono Sapiens no balcão, ou com a invariável vassoura gasta velha de
usada, ela fazendo, ela se bem não se confunda a dona, ela fazendo careta às
cusparadas dos ‘suínos’, ela falava baixinho nos ouvidos do marido, ou seja lá
o que fosse – "suínos" ou os tratava a rebaixá-lo ‘os seus amigos’ e
‘filhos’ porque viviam à custa das costas do vendeiro, segundo sua abalizada
opinião; ao que Mané respondia veementemente hummmm que nada dizia por tudo
abranger. Contudo não apreciava nem um pouco o João à Vendeira. Dona Zefa
falava meio gritado com uma vozinha tão fininha fininha fininha de arder as
orelhas, incomodando as pacueras de ouvir o barulho do barulho da Obra e trepidações
mais, incomodando essas pacueras de dentro da cabeça (o João imaginava que
dentro da cachola apenas na existência duns melados gelatinosos esbranquiçados, credo!
parecença com a meleca que vira perto da Obra quando um dia saindo da
Obra viu um desastre cheio de curiosos e havia cérebros espatifados e ficou
enjoado não quisera comer a comida da Gina naquele dia que era já o outro dia
madrugada, evitando inventar atraso da condução atraindo a mulher ao prato
cheio da violência no trânsito urbano em que a gente conta mais os estragos das
latas e pneus fugindo aos estragos de carnes e pior de miolos no asfalto negro
branqueado de pensamento.. mas será mesmo que era o lugar do pensamento! E assim não comeu, deitou-se rolou a noite
inteira impressionado porque era impressionável e aí a Gina ficou com pena e
não boquejou, antes lhe cobriu as partes que tinha parte fora e andava frio que
só a Capital paulista genuinamente oferece à população da periferia; então o
João trabalhão então, então dormiu. E sonhou pesadelo igual criança). Seria
estar o pensamento naquelas porções inconsistentes da cabeça! Enquanto a voz estridente de Zefa entrava
bagunçando lá os miolos dele, do João. O João em férias.
Assim
se escoaram horas, horas não se contando no estado de graça de férias sem
desacostume trabalhar, ouvia lá dentro em longe-perto escutava ainda o ranger
dos cabos a puxar o elevador o som de cacos a cair, credo, não usasse capacete
o Pedro aquele desgraçado falava “penico de baiano” – agora queria esquecer o
Pedro o penico o ranger a poeira o grito e o grito mais profundo do corte na
Obra, estava são e salvo ali no Bar a Dona Zefa... não não, que fosse lá o que
fosse, era boa tratava bem só olhava feio ele nunca cuspiu no chão só no chão
da rua assim mesmo pisando por cima a desmanchar aquelas melecas feias e era
feio é ainda feio olhou bonito pra Dona e foi assim perguntar sobre o Mané.
“Num
tá, foi pagá os imposto daquele ladrão de governo”. No que tinha sua razão
mas... não Senhora, eu queria falar com ele; ele saíra não entrava homem algum
no boteco pra contar a novidade das Férias, só meninos em três e quatro duma só
vez pedir apressados e sair mais ainda apressados a correr brincar e mulher,
parece que abriram as comportas femininas e elas vinham pediam isto levavam
aquilo, Dona Zefa marcava e tinha uma letra bonita e dava pra ler mais que a do
Manoel, mas pegava no pé de vez em quando na cobrança e as mulheres saíam sem
graça, não tem graça conversar com elas, aí Dona Zefa resmungava, pior: falando
fininho a irritar preferia a Gina, a Gina falava quase como homem meio grosso e
quando a roubou daquela família atrapalhada falava menos grosso mas grosso e
não era tão braba como agora; o jeito é ir embora porque o marido vai demorar,
encrenca com governo dá sempre tardanças e além do mais, se fosse fim de semana
não é fim de semana só gozo para quem em férias como ele, e aí os outros viriam
falar beber contar beber mais um pouco, era mais seu ambiente; então se foi
arrastando os chinelos nem pusera as botinas de trabalho a arrastar para a rua
de chão e poeira na seca e lama na chuvarada. Entretanto voltou correndo ao Bar
por causa da chuva, uma chuva que parecia ir acabar o mundo e assim ficou
retido bem meia hora parecendo hora e meia, sem assunto e então só então saiu
de fato pra casa, se foi a acumular a barreira na sola do chinelo depois tirou
aquele arremedo de calçado e andou descalço mesmo, afundando no barro, emburrado
chateado. E se aprisionou no lar à espera de Gina, conversando vez que outra
com o caçula Zezinho.
12° - O Bar o Mar o Mal – II
Levou
um susto o João ao chegar outra vez à Venda, Dona Zefa... mas puxa vida! precisaria outro dia sem ter o
que falar o que fazer porém a Dona estava lá a acabar sua limpeza mas o Mané
num sorriso viera encontrá-lo pra cá do balcão; quis de início explicação sobre
as Férias, um negócio que vazara assim como a imprensa extrai os segredos
governamentais para vender ao público noutro dia quiçá no mesmo e depois fica a
instigar os políticos para dar declarações, o que exige muita diplomacia e jogo
de cintura a fim de não complicar o complicado, foi assim o Vendeiro se dirigir
ao freguês, importante pela importância do pendura, que todo popular pronuncia
"pindura", porque aquela turma do Silva é gastona e ele demora no
pagar as tiras já ensebadas a Zefa resmungando dureza à moleza do esposo mas
tem gente que fala que não é não é mesmo da conta da gente e ele sorri.
Contou
o João os primeiros dos muitos capítulos do romance, dramático na ameaça de
corte na Obra e nas intrigas dos encarregados, tem um bestinha lá chamado Pedro
que pega no pé; e a comédia da ordem de férias no fim daquele começo, porém ele
lutou exigiu seus direitos, impôs ao Doutor... sabe é meu xará! o homem se
curvou, teve que ceder, chegou até a participar da reunião de cúpula com o
Doutor, o Doutor João gritou o Pedro: “xará
meu, minha mão direita!” e se tem férias vencidas, a moça... bonitona (olhou
ver se Dona Zefa já se fora, continuou ao Vendeiro:) aí a menina paga tudo, pagou.
Então aquele sustentáculo da Obra já engoliu um copo da branquinha e o Mané
olha abismado o seu porte, ainda faz com a cabeça aprovando e nessa altura já
tem testemunha chegando a participar do banquete...
João,
o das Férias, agora esquentado um pouco na goela, se encontra numa banqueta de
quatro pés com três um brinca no ar quebrado e se equilibra bem pois é equilibrado
e não tomba com pouca bebida. Conta, eleva a voz, trata das coisas com
desembaraço. Já um pouco mais desembaraçado entretanto mole na fala molhada, o
copo é o mesmo copo porém não a mesma pinga, pinga a marca no pindura o Mané
soma acrescenta esquece remarca aumenta por conta da diminuição do prêmio das
férias e aí piora. É que chega mais alguns desocupados, os outros trabalham
foram manhãzinho à fila do coletivo, os desocupados que sempre existem e ouvem;
o João tagarela agora com a língua mais solta na sucessão das doses, os amigos
– porque bêbado é amigo de toda Humanidade e o João está mais pra lá que pra cá
e abre a bolsa – esses amigos entram na farra e não há grande necessidade a
insistir ofertas, beberica-se bebe-se se bebem e atraem: o ímã anda ligado,
fala demonstra defende ataca conta vantagem e os outros vêm vindo para o Bar ah
soltaram todos desocupados da Vila que apreciam aguardente!? O barulho é grande, Dona Zefa vem ver donde e
pronde vem vai aquele inferno, olha feio o marido que não é feio é medonho na
opinião macha e ali tem é macho bastante então ele olha meio constrangido a
companheira, ela se espirra para dentro quem sabe para ver as crianças e as roupas
das crianças porque criança é muito briguenta e os homens em freguesia também a
balburdiar, o Mané tão só dá sua bicadinha na conversa, pois não iria estragar
a chuva que cai graças a Deus na sua horta e marca mais um pouco no pindura do
João. O João já não sabe mais que é João, fora ajeitado numa cadeira, a qual é
mais baixa menos perigosa que a banqueta manquitola mas continua fazendo baboso
seu discurso e a tarde vem caindo vem correndo até a sombra da noite já querendo
espantar os raios de sol e alguns dos fregueses eventuais se foram, quase sempre
enxotados pelo vendeiro; Dona Zefa vem dar palpite que são ordens ao marido ou
seja lá que for e o João é aconselhado a ir-se para a sua Gina. Mas não pode,
não que não queira, não fica de pé sozinho e os amigos o levam pra casa que não
sabem bem onde possa ser naquele cortiço em não acabar com casas por cima de
casa e cachorros a latir bastante mas os moleques, parcela social sempre bem
informada, eles indicam a residência do João em Férias, aí vêm correndo a Gina
e uns poucos filhos já de volta de sua ida, para ajudar a trempe. Então
depositam na cama aquele borracho de chinelo e tudo mas um se perdeu no
caminho, tem as vestes molhadas de xixi atrevido e abusivo e ainda fala, mole
mas fala, ninguém sabendo o que fala.
Gina,
indignada, ouve por cima a fala dele num ótimo mais ou menos e grita à junta
que depositou aquele fardo mole cheirando a bebida: quem é esse tal de Pedro, seria
algum cachaceiro que lhe socou o marido!
mas ninguém sabe responder, talvez o Campeão porém somente abana o rabo
feliz com seu deus esborrachado no colchão gasto e velho.
13° - O Mal Sem Mar, o Escambau
Foi
assim o bom mau emprego daquela fortuna conquistada com os direitos das Férias.
O João voltou algumas vezes ao Bar, não à procura da esperança no Bar Esperança
nem a saber uma saída para o emprego do capital. Molhara o capital na caninha e
secava o excesso no pindura, este a engordar estufar extravasar, mesmo porque
entrava mês saía mês não era quitada a conta; e agora, supondo aquela
inesperada fortuna se gastava também mais. A Gina exigiu dele que desse uma
parte do tesouro para acalmar a Zefa, devendo falar o Mané mas tendo razão. O
João cedeu algumas notas e como gorjeta bebeu mais naquele dia. Bebeu a passagem
à praia a estada os dias em descanso, bebeu todas as Férias. E ainda ficou
devendo na Venda devidamente. Tão só mais uma vez teve que ser levado pra casa
num porre, dando vexame à família aguçando a curiosidade vizinha, dilapidando a
riqueza dos seus. Depois não: ficou liso raso sem nada, quase não teria
dinheiro para pagar a passagem na condução quando voltasse ao serviço.
Portanto
boa parte do seu calendário de férias ele a gastou gastando e se desgastando no
lar mesmo. A ouvir esbravamento de Gina, admoestações dos filhos mais velhos e –
isso impossível não ocorrer – endo televisão, que aliás pegava muito mal na
Vila, era preciso toda hora virar a posição a mexer na antena; e brigar com os
pequenos uns querendo ver desenho e seriado de violência, o que é hoje indício
de bom gosto; com a mulher e as meninas a verem novelas; os garotos maiores a
querer programa esportivo. Ele no ver tudo por não ver nada, passando o tempo
engolindo tempo matando tempo. O que
andava mui longe da proposta inicial de Viagem... Também se enriqueceu em
desentendimento.
Contudo
o que mais pontificava era mesmo o ringue conjugal. Gina, que parece se chamava
realmente Angelina, ela explorava bem sua superioridade sobre o esposo. Este
sentia-se endividado moralmente por tanta atrapalhação e andanças nos serviços,
que eram mais subemprego que emprego. Verdade que a chuvarada no período ajudou
o chefe teórico da casa a passar suas férias não podendo pôr o nariz pra fora
muito menos ir ao Bar onde já era persona
non grata; mas por outro
lado acorrentou-o a chuva a ficar mais tempo frente sua Companheira. Esta
desfiava seu rosário apontava com facilidade a flagrante fragilidade daquele
macho. Assim o que mais houve nas Férias
do João foram as brigas do casal.
Os
filhos, ninguém colaborando com o rendimento familial a poder exigir, exigiam
que o pai lhes desse uma parte também da soma recebida para férias. Brigavam,
discutiam. Um dia Patrícia ameaçou fugir de casa com o ‘namorado’ Guilherme, o
qual fugiria da esposa. O mais novo trouxe outra vez sua Még, beberam se
desentenderam deu-lhe umas pancadas e o João não sabia a quem acudir. Gritos berros,
prato cheio aos vizinhos, eles igualmente com belos espetáculos por sua vez...
As discussões eram intermináveis, não só mas bastantinho por perda naquele
ganho de Férias. Ninguém se entendia; dentro do sadio princípio da casa em que
falta pão todos gritam ninguém tem razão. O Chefe? esse desanimava, deixando à esposa o acalmar
os ânimos e fugia para cama. Aí o Campeão lhe ficava a sorrir de cauda.
Entretanto
houve um ganho. Nesses vinte dias em Fé-rias não apareceu o Argemiro a cheirar
sua casa. Não obstante vieram parentes. Estes queriam detalhes das Férias
programadas do João, deram palpite para onde se ir, que era já não-ir. Alguém
chegou mesmo a prometer certa máquina fotográfica a flagrar as lembranças da
Praia. Mas agora o Mar ficara longe, não tinha sequer mais o sabor de novidade
nem despertava o imaginário. Porque a folhinha mostrava em números grandes por
baixo daquela paisagem cheia de gelo europeu o final no descanso do João.
Terminando essa fase a qual poderia ser chamada ‘Pouco Menos de Mês Sem
Paraíso’. Era preciso aquecer as caldeiras à viagem de regresso à Obra da
rotina: condução madrugar e trabalhar, conseguir recurso a ganhar do pindura na
Venda, tapar aquelas bocas, mais ainda a da Gina...
14° - Um Encontro Casual – II (Inconclusão)
Agora
era um verdadeiro prêmio, mais ainda que o prêmio das Férias e a Viagem de
Férias – João estava antes do sol a esperar a condução para tornar ao trabalho,
a Obra distante. Estaria já acabada, o pessoal sentira sua falta? Aí lembrou o
Encarregado, e se houvessem dispensado o Pedro... talvez fosse ocasião, isso
mesmo, falaria ao Doutor João sobre provável aumento no salário, por que não!? seu
xará e tudo o mais. Contaria aos colegas sobre suas Férias; se falasse em Praia
o Baiano creria com certeza. Ocorria pudessem enviá-lo a outra construção, se
falava muito noutra noutro edifício maior ainda; e se fosse menos longe, ah
poderia economizar um ônibus; com tal dinheiro ajuntaria uma importância
suficiente a irem nas outras Férias ver o Mar; havia sido semelhante: economizara
um dinheirinho bom ao deixar o cigarro, somente a pinga não conseguira largar;
uma condução a menos mais dinheiro ao Mar. Sonhou um pouco ainda. Até o
trânsito acordá-lo; e atrasá-lo no reencontro com a Obra. Olhou a hora no relógio
de propaganda num edifício lá em cima: viu-se bem atrasado, mas falaria com o
Doutor, inclusive relembraria ser seu xará...
Chegou.
Coçava nervoso a marmita que a Gina enchera com arroz e feijão; coçava o
capacete amarelo; coçava o gogó, a garganta apertando; olhou o prédio quase pronto,
meia dúzia de trabalhadores mexendo suas coisas; mesmo a garota do escritório
era outra. Gaguejou a ela. Consultou suas fichas, balançou a cabeça chocalhando
fios louros.
Nisso
apareceu o Doutor. Nervoso, nem quis falar-lhe, passou pelo João, indicou a
jovem na portaria. Voltou a tratar com ela.
Era
mais bonitinha que a anterior, mais atenciosa. Revirou os papéis. Consultou a
dispensa de pessoal.
O
Senhor foi cortado. Precisa assinar aqui...
Marília
fevereiro 2004
Segunda Novela
Dona Elinha da Silva
I – Introdução
Por
desconhecimento do conhecimento da gente a gente às vezes esbraveja chuta fere,
depois, só depois... por que tem que ser depois? depois reconhece não ir a tanto mas já
passou. A impressão não passou.
Elas,
mais sobre ela, elas não se esqueciam do casal novo já então velho no pedaço.
Agora,
ela... ah ela. Imagine-se o pavor do cartel da língua não poder meter a língua
melhor mais nela. Não, assim não, sim poderiam e o faziam com plena capacidade
e aí falavam e mais falavam falavam nela e melhormente dela, Dona Elinha. A
Maria: “Elinha Desconhecida”. Riram. Riram muito pela graça mariana no dizer e
no dizer compreendendo não saberem sequer o nome da nova vizinha e do vizinho
novo que descobriram por tagarelismo postal ser João.
Tinha
mais.
II – A Mudança
Vieram
trazendo aqueles cacarecos pobres de gente pobre remediada com direito a fusca
usado e isso é lá pobre! pois é, vieram
trazendo a mudança, a porca, elogiou a Maria, a porcalhona nem pra antes vir de
vassoura balde trapos passar sabão para limpar a casa para virar ninho do
casal; tinha criança? as crianças curiosas igual as comadres em ver torcer que
houvessem os moleques por moleques as garotas por meninas e promessas de muito
brincar e apenas sobraram os trecos de cozinha o sofá esfolado a enfeitar a
sala e constataram não haver gentinha nova na vila somente o casal esdrúxulo a
Maria falou as outras concordando e nenhuma sabendo o que ‘esdrúxulo’ mas não
sendo sem dúvida coisa boa e não tinha mesmo criançada o que era uma boa, menos
por briga visto os nossos capetinhas já aperrearem bem, e aí transportaram as
coisas para dentro; o guarda-roupa não entrava entrou desmontado e é aquela
droga de não se conseguir remontar quebra desmancha e pior não se acha certo o
lugar certo e as cadeiras nenhuma desmunhecando e a mesa de cozinha que deixaram
no quintal tomando sol (será que não estraga?) ficou sim no quintal, onde mesmo
poriam a mudança se não antes fora pra depois levar para dentro! E latinhas de
flores e folhagens um despropósito assim mesmo já prometendo elas uma certa muda
de planta das velhas de casa pra ofertar em boa vizinhança à vizinha nova,
velha essa ideia mas se vendo como campeia a solidariedade e boa vizinhança ainda;
mas foram mil delas, as latinhas, o que deu nervuras no macho da casa nova e
preocupação à fêmea nova da casa 33. Enfim o até que enfim e botaram tudinho
para dentro, como se pudesse cômodos pequenos – uma cozinha apertada os outros
tudo exíguo – engolir tanta tranqueira e uma desproporção de móveis (teriam
baratas!) e os trens de cozinha e ainda a televisão a antena somente ajeitaram
noutro dia, o grandalhão (qual seria seu nome...) subiu ele no telhado e
gritava para a coitada, um espetáculo lindo de se ver mas qual seria o nome
dela, era cordata alegre conversadeira, enriqueceria o pedaço!?
III – Primeiros Dias
Até
que enfim o silêncio se fez no silêncio do silêncio que era a rua antes da
agitação costumeira, o silêncio no 33; o homem, aquela despropositura de homem
a funcionar o fusca e a sair deixando o portão arreganhado Elinha correndo a fechar
o bruto nem tchau, beijinho muito menos, ela desconsolada, elas pensando
desconsolada, a sorrir um sorrir amarelo e veja lá se possa dar cor à boca fora
batom que ela não usava. E cachorro não tinham cachorro, será não entrava cachorro
pelo portão arreganhado! Fechou. Olhou. Olhou como em não ver vendo estudando e
se escondendo, decerto lá dentrão muito trabalho nos primeiros dias mudança é
um inferno todas sabem tem muito quefazer sempre e depois mais nos primeiros
dias a gente prometendo toda vez também ser a ultiminha mudança e nesse ponto
tiveram foi pena porém ela sumiu se engolindo na casa que a engolia e por isso
olharam conjuntamente para Elinha. Foi duro no começo saber ao menos seu santo
nome e depois, depois... o depois.
As
outras, mais que a Maria, a Tereza, a Teresa, a Débora, a Suely,
sim com ipsilone, a Neusa, a Neusa mais fora trabalhando dentro primeiro e após
ia fora trabalhar na faxina quase sobrando um dedinho de prosa... ué não é que não
tenha dedo mas não mão a conversa!
sobrando sim no fim de semana em que se trabalha dobrado a vida de
mulher pobre rica em exigência e a Neusa quase não participando da dissecação
do cadáver, cruz-credo, cadaverinho delinha de sorriso amarelo mas bem, bem
mais a Tereza, não a Teresa
que só sabia rir da galhofa da Maria, a Tereza de cá e com zê, do lado do 33,
ela com uma língua deste tamanho ouvidos orelhas ó de grande e sabida mas
nada... Nada sabiam em concreto sobre a vizinha nova.
Umas
que ‘Maria’ como Maria; outras que ela não pudesse ter outro nome que não
‘Joana’ e etc. e tal, tal a configuração a saber certinho o nominho delinha e
aí...
Bem
aí não souberam seu nome, mas o sobrenome. O vizinho metido do 44 afirmando que
nome não é nome, pre-nome, o nome o sobrenome. Não souberam o nome descobriram
o sobrenome que o carteiro teimoso teimou ser Silva.
IV – Conjunturas nas Descobertas
O
Carteiro, não aquele brincalhão com elas, outro, os Correios fazem questão em
não deixar seus funcionários criar vínculo e amizade e aí trocam a três por
dois os pobres na entrega de cartas mas puxa como o selo anda caro, o Carteiro
deu o serviço a elas, para a Tereza, à outra Teresa confirmar. O homem? Sr.
João G. da Silva, elas brincaram um pouquinho com o estafeta, o qual não era de
coisas por meio sério e se foi embora, elas se aglutinando a dizer umas às
outras as outras a quem chegando que o nome era Sr.João G. da Silva, a que a
Débora completou ‘Gomes’ a Suely desse jeitinho com ipsilone ‘Gonçalves’ a
Teresa até a Teresa quietinha sorrisos mansos a dizer ‘G’ de Gusmão tinha na
outra casa quando morava noutra vila tinha um ‘Gusmão’; mas não sabiam até
comprovação em contrário, quando a Tereza esperta pra valer foi entregar a
correspondência certa no errado endereço dela porque certamente o novo carteiro
sendo novo se enganara e acertou: João G. da Silva. Ela aguardou paciente
chegar o homenzarrão... iria entregar o documento àquela bestinha muda e a muda
sequer tendo coragem falar o nome certo da carta certa também na casa dela,
errada, dela Tereza! então aguardou; chegou de fusca e a Tereza – Seu João, não
é João? todavia não teve coragem para afrontar aquelas machuras sérias indagar
certinho o nome dele o ‘G’ por exemplo e por que não o dela, a magrinha petitiquinha
enfiadinha sempre lá nos fundaréus do quintal; assim apenas completou
constrangida “a carta foi entregue por engano na minha casa” e o brutalhão se
enrugando ‘seriúras’ mais preocupado com o dentro da casa que no fora dela e
nem agradeceu, entrou. E aí o de sempre.
V – O de Sempre
O
João. O João não era um belo homem na opinião da oposição em prontidão mas
também homem não precisa é a mulher que tem essa obrigação, mas fortalhaço
irritadiço grosseiro um acúmulo de músculos e cara feia, feia leia-se fechada e
a dela, a dela fechada apenas de medo até que bonitinha. Não sendo belo mas com
direito a chegar. Chegou. Daí ficou a funcionar aquela lata velha esperando que
abrisse o portão, se demorasse buzinava anunciando ou exigindo ou ralhando a
sua indignação, aí veio correndinho. Abriu. Rangeu antes, antes do depois, depois
rangeu de novo nos gonzos secos o portão fechando, enquanto... Aí desceu cheio
de pacotes de compras, carregado até aqui, ela ajudando em sua ‘fracura’ a
levar para dentro e era quem devera por acostume voltar, fechar a porta do
veículo e depois voltar doutra volta para dentro fora do carro limpar lavar
esfregar esbanjar água lustrar secando o fusca e varrer as sujeiras daquela sujeira
e aí, só aí indo definitivo cuidar do seu homem. Mas como? Elas não se metiam
nas intimidades dos outros.
Apenas
escarafunchavam como se faz com o nariz quando ninguém perto e se limpa o
salão, assopra enxuga com papel higiênico se tiver às mãos, mas escarafunchar
não é saber e saber mesmo somente o exterior que é de domínio público.
Que
havia um homão daqueles de fazer medo quando entrava no boteco aos miúdos. E
uma mulherinha fininha sonsinha timidazinha olhinhos verdinhos a trabalhar com
responsabilidade nos seus afazeres domésticos enquanto elão fora elinha só.
Não
mais.
O
mais era o de sempre. Lavar roupa chep-chep; varrer, esguichar, pôr lixo...
seria hoje quarta? a panela de pressão a chiar, a fritura a subir descendo às
narinas, o blã-blã dos trecos a se chocar, tilintar pratos, um que outro objeto
a cair teimoso sem que Elinha xingasse, por fora, alto. Contudo, falar, era
muda, inabordável, não inabordada que isso não existente à Maria à Suely esta
fazendo questão no y. Tão só não dava o serviço, dizendo mais de cabeça que
cabeça a se abrir em sons desejáveis, mas respondendo sim educada bom-dia e
sorrindo uma espécie de choro, se guardando outra vez. Mas não era o de sempre
na coisa do seu nome.
Diziam
que assim que assado sobre ela, mas em que nome? Então sugeriram (a Maria) que
ficasse e ficou Elinha da Silva, da Silva pelo marido, o qual garantiam não ser
marido. Podia ser que fosse pela igreja verde, podia doutra religião, quem sabe
cartório mas ninguém nunca vira a certidão, isso posto ponto pacífico. Elinha da
Silva seria, e não podia mesmo ser! seria amásia do brutamontes (este agora já
conquistara o título de inimigo público número um por sua sem-gracice). Diziam.
Diziam
e mais que diziam elas os desajeitos deles.
VI – Desajeitos Melindres
Intimidades Indecências
Lá
pelas tantas insurgiram-se por aquelas melecas. As melecas de amor. Os negócios
de como bem dizia Suely “frescurinhas” visto elas com seus companheiros não tinham
muito companheirismo e menos maneirismo em não ser na lua de mel fel a algumas,
esses negócios do bem de cá benzinho de lá. Não ele, fechadão. Ela. Ela ia
recebê-lo, sorria ao seu amorzinho, que era destamanhão, abraçava, carinhava,
cheirava seu homem. Ele? ele quando muito aceitando aquele esfrega-esfrega,
como fora o passivo na união, isto sendo um ganho da civilização pois em geral
era estátua extático parado inerte inerme mesmo, igual o tempo num livro em
prateleira empoeirada de biblioteca pública de vila inculta. Ele não reagia,
não atacava, não iria prodigalizar carinhos muito menos. Ela, Elinha da Silva,
era ao contrário sempre amor; e poesia; e afagos. Claro, quando era naquele
dia...
Naquele
dia foi um desajeito dos sem jeito a marcar fundo o pedaço, calando, até calando
as bocas da Maria da Suely da Teresa já sempre calada, da Tereza, da Débora da
Zina que viera meio afoita ver observar quem sabe se não invejar e se
enriquecer com notícias frescas ou tão só e só curiosidade pelo barulho, que o
escândalo adora barulho. Elão chegou.
Decerto
que andava com desentendimento no serviço mas onde será que esse homem trabalha
e se não trabalha demais nunca vai trocar de carro e isso é grave na pequena
burguesia. Chegou nervoso. Mais. Daí ficou a funcionar, buzinou, gritou (se elas
não tivessem cera no ouvido poderiam agora saber o nome da pobre mas tinham).
Desceu enfim e se pôs a abrir aquilo desengraxado rangedor e arreganhando a
entrada; Então acelerou roncando a fortaleza do motor e adentrou com raiva,
via-se com raiva, raspou a lataria naquelas beiradas de ferrugem do portão
fazendo riscos novos na lata velha do fusca cansado, furando um pouco a lata...
Aí roncou xingos, chutou a porta do carro, fechou brutal e violentamente o
portão, olhou, olhou os que olhavam e não mais olhavam conversavam como não
fosse com elas, nem a Tereza corajosa disse qualquer a qualquer outra nem ninguém,
antes desolharam e se emudaram emudecendo e ele fechou mais a cara. Foi
examinar os estragos no para-lama vermelho então em lindos riscos artísticos
amassados sem que certamente gostasse e se foi para dentro de casa a bater com
muita raiva os pés no piso de cimento rústico. Tudo sem que Dona Elinha aparecesse.
Só
naquele dia.
Naquele
dia ocorreu... lá dentro deve ter mesmo
sido um fuá medonho não se sabe sabe-se apenas os gritinhos dela o vozeirão
dele e supuseram, a Tereza já apanhara do esposo um dia e tinha experiência no
assunto, a Tereza e as outras supondo que apanhasse a pobre em pancadaria vulgar
daquele brutalhão e ficaram contra... "mulheres de todo mundo,
uni-vos" não foi assim o Marx!
houve as que lembraram a polícia para acudi-la houve as que disseram
"¿pra quê se na hierarquia
dos respeitos nos desrespeitos estão grandes criminosos soltos e beberrõezinhos
e os brutamontezinhos que massacram seus amores femininos estão é entre os
menos expressivos, pra quê então chamar a polícia?" Naquele bendito dia maldito
seja o casal se deitou cedo, dessas pressas em que se esquecem mesmo dos filhos
e um olha pra cara do outro cônjuge e não tem nada a dizer antes quer o calar,
o silêncio, o silêncio desce na alcova até o outro levantar-se que vem o novo
dia e a vida recomeça; não neste caso os meninos não ficaram sem comer nem
precisaram correr à vizinhança com medo de papai: Sr. João G. da Silva não era
pai, pelo menos em acordo com Dona Elinha da Silva, era só o casal, mas esse
casal ficou quietinho, não adiantando nem uma nem outra, todas, a ouvir não
ouviam. Só nesse dia, que se perdeu na noite.
Não.
Agora eram afagos e beijos. Diga-se em passagem só Elinha beijava e farejava e
abraçava gulosa de amor, enquanto aquelas machuras apenas aceitando (o que a
sociedade acha positivo, um pouco muito sendo a costumeira grosseria, o que se
dava com o Sr.João sempre). E era tal a “frescura” ah essa Maria, era tal que
elas... elas todas falavam abertamente e não à boca pequena na sem-vergonhice
do casal, assim em pleno público, em frente da gente, mais, frente dos meninos.
Ora, dá para aceitar uma coisa dessas! Não dá.
É
preciso lembrar a moral os bons costumes a exemplificação, a exemplificação que
a tevê não sabe dar nem na das oito nem na das nove, que é uma prostituição a
todo gosto.
Ora
ora, não se podendo contar com a polícia... bem, foram dormir. Elas. A Maria a
Tereza a Teresa a Débora e uma outra ali por volta, porque não iriam elas ficar
vendo aqueles escândalos, escândalo é como fezes: se se mexer mais mais fede.
Não
tinham nada a ganhar.
Não
tinham nada a perder. Também.
VII – O Dia Seguinte ou II Capítulo
do Capítulo VI; e outras imprevidências
No
seguinte, uma quinta-feira, não foi seguinte ficaram bicudos, supõe-se, mais de
três dias e aí seguinte. Elão chegou.
Chegou.
Deixou aquela obra de arte riscada talentosamente pelos portões, funcionando (o
carro a funcionar, o portão não funcionava bem) correu ele mesmo abrir a
geringonça de fechar o quintal fechar o carro fechar a casa a possível ladrão e
aí pondo sempre o cadeado acorrentado na corrente ambos enferrujados a sujar a
mãozinha Delinha da Silva e agora as Delão, entrou, entrou com cuidado mesmo
porque a experiência costuma ensinar as pessoas, desligou a chave de partida
que era então de chegada, correu ele mesmo a fechar o portão – e fê-lo
educadamente – e se virou a ir para os braços de sua esposa, que as meninas
chefiadas por Maria ou por Tereza as mais espertas delas com olhinhos perscrutadores
assim elas diziam não ser esposa coisa nenhuma no padre; mas Elinha já vindo a
correr para Elão, se abraçaram se beijaram e curioso! por iniciativa do próprio
homem, macho naquele consórcio em exposição. Sim se abraçaram, quase se
enrolaram... em público, vejam só, olhem meninas, que sem-vergonhice danada o
mundo está mesmo perdido não tem mais jeito na loucura do mundo, nem religião
pode e serão Elinha e seu brutamontes religiosos, igreja verde, Maria, igreja
verde. Contudo foi por pura iniciativa do homenzarrão desajeitado todos aqueles
lances, sim pelo desajeitado.
Para
aquilo, isto é, aquilo a que não tem jeito se ajeitou bem, bem se lembrando ser
sua iniciativa pra não se esquecer. Bem. Assim.
E
se foram para dentro, dentro ninguém tem nada com intimidades alheias, mas
precisavam dar audição pública! Ficaram num abraça abraça e se falando coisas,
parece que Ela disse “não”, se falou falou baixinho baixinho e assim não tem
orelha que aguente; mas não adiantou: pegou-lhe à força (ele tinha a esbanjar)
foi arrastando sua presa e ela, Elinha da Silva, pobrinha, teve de ceder que a
fome Delão era tremenda e dessa forma sumiram naquelas ‘entruras’ do lar, longe
d’olhos, igualzinho quando a gente quer saber na plateia do palco e o palco
está às cortinas e os espectadores, Maria e as outras, portanto espectadoras as
crianças não contam embora havendo dois ou três ou mais moleques, enfim os
espectadores ficam só a imaginar. Assim.
A
luz dos fundos apagou cedo, quase nem fora acesa. A de fora na varanda esqueceram
ligada e decerto só de madrugada quando se levanta a gente com esse frio dá
mais vontade de ir ao banheiro e aí se flagra a bicha acesa arreganhada
acrescendo na conta de luz. Ou que não, manhãzinha quando o povo vai comprar
pão na venda vendo já ela apagada mas que se tem que ver com?
Aí
nesse dia...
VIII – Deu Pronto-Socorro
Não
depois, depois ainda, foi semana depois Elinha da Silva apareceu para varrer a
frente na sua parte da calçada pública sem contato, sem desejar contato, e não
falou (pra quê!) não conversou com ninguém, todos, todas viram que se machucara...
ou fora machucada ematomas riscos arranhões sabe-se lá, um lado do rostinho até
belo ou gracioso só a voz sendo horrorosa em falsete mas bonita, esse lado
volumoso inchado mesmo. Varreu usou pazinha pôs num saco de lixo improvisado
porque era desses de supermercado guardou podendo até já pôr na trempe sendo
dia de lixeiro, mas que temos com a vida dos vizinhos? nada, responderam. Nem
com o flagrante de flagrante espancamento (aí se condoeram em espírito de grupo,
de sexo; e massacraram mentalmente lingualmente aquele sádico). Loguinho a
curiosidade não apenas da Tereza não, delas, loguinho foi satisfeita.
Chegou
o garanhão daquelas paradas, parou o carro, nem entrou com ele na garagem um
pouco estreita a raspar no portão, não. Ficou o veículo estacionado em frente
do 33. Desceu o Sr.João G. da Silva, correu para dentro, trouxe amparando sua
esposa que elas afirmavam não ser até ao carro lá fora; Elão trazia na mão
livre pequena valise ou bolsona portátil dessas umas de viagens rápidas; então
– ao espanto geral! – ajudou sua fêmea a entrar no automóvel. Aí ligou
funcionou movimentou e saiu... outro espanto mais geral ainda! saiu bem devagarinho,
quando amiúde saía a correr quase cantando pneus... Aí.
Aí
tem dente de coelho. Todas concordaram que sim. E foi uma agonia fiscalizar
cada veículo a passar na rua tarde toda, apenas alta noite voltaram.
A
Tereza: Maria, essa menininha está esperando menininho... Maria: pode ser
Tereza, porque andava meio barriguda e toda hora pondo a mão na pança. Outra: e
por que esse 'filho da pê' (carinhou a sogra de Elinha) por que bateu na pobre estando
nesse estado! Contaram casos de abortos ‘in-surras’, logo lembraram a polícia
logo se esqueceram da polícia polícia iria se meter em encrencas conjugais, não
iria. Aí o silêncio.
Elas
não. Falaram só baixinho, enquanto chamavam a atenção de Fulaninho ou apartavam
Outrinho, baixo pra não dar escândalo. Mesmo porque quem prova alguma
coisa? Perdurou o silêncio naquele
paraíso do 33 da rua.
Contudo
tudo passou...
Nada
como o tempo a sepultar reticências.
IX – Dia Novo Novo Alegrar
Esperaram
toda espera dela, a Elinha. Nisso se conformaram, quantas já não perderam
crias! semanas meses. Cansaram. Cansaram em ver também aquela lata velha, cada
vez mais riscada, sem contudo haver arrancado o portão. Elinha também
continuava na espera, não do primogênito sabendo-se lá se primeiro filho, que
fosse o segundo o terceiro a perder e aí se condoeram outra vez. Esperando sim
o seu homem.
Então
ele veio, era sol, antes do horário que era seu horário, dia claro, veio não
com o fusca estragadinho velho, veio mas de carro novo! Todo mundo a olhar, se
bem que a fingir examinar suas coisas, aí entrando algum macho desocupado
ocupado na ‘desempregança’ a campear; até eles olharam a ‘curiosar’ aquela
conquista. Ao pobre menos pobre é rico ter menos velho. O novo do Sr. João era
um velho carro bem arrumado. Trocou de automóvel Seu João? não indagaram,
difícil quebrar barreiras dos fechadões. Mas sorridente.
Veio Elinha. Abraçou o marido, quase abraçou
o novo carro velho ajeitado; passou a
mãozinha alisando aquela lataria quase toda de plástico lustrosa. Nos dias subsequentes
passou paninho lavou chupou a poeira com aspirador, aquele barulhinho zunidor
que entra querendo endoidar os miolos dos outros; limpou esfregou perfumou o
estofamento; tirou tapetes limpou limpou, pôs secar no portão de arranhar
fuscas velhos; uma faxina geral, um embelezamento geral. Quase ralhou com o
pardal fazendo cocô lá de cima a sujar as partes já limpas do carro, só quase.
O conjunto andava uma perfeição em limpeza. E nisto, valha-nos Deus, com ajuda de
seu macho, se bem mal fazia no alimpar somente palpitando a mulher alegre e
feliz na sua trabalheira.
Veio
também a torcida organizada. Não elas, Maria Tereza Teresa Débora Suely a Zina
e outras mais ocupadas na desocupação e fiscalização, elas não. Não os de fora,
os parentes de fora; parentes!? os amigos, os conhecidos. Vieram ver torcer vibrar
pela medalha de ouro conquistada: o novo carro velho em condição de uso.
Olharam passaram a mão entraram a balançar gostoso no estofamento e até se arriscaram
a dar umas voltinhas, bem entendido: com o Seu João ao volante e tendo saído e
reentrado depois em acurada atenção e sequer riscou os para-lamas. Uma
conquista. Viram. Deram palpite. A cerveja correu solta por conta da casa.
Mas como o ambiente dentro da casa! ninguém
sabia. Nem Tereza, vizinha ao lado.
Veio
a mãe. Mãe de quem, Dela, Dele? Essa se interessou pouco pelo veículo em não
ser dizendo que o velho velho mais barulhento;
mas conversaram isso sim lá dentro, ofendendo as orelhas de fora. Depois
elas viram o bota-fora da velha pelo novo carro.
E
todos ganharam outra vez a rotina.
E
toda rotina, parece, dá segurança. Até a segurança da insegurança.
X – Insegurança da Rotina
Tem
rotina que rotina, de tanto rotinar. Os berros dos molecões por exemplo. Tem
mais. ¿O som a todo
som vi-brando vidraças da casa 33 onde um casal eternamente enamorado se
encontra se beija se alisa alisando o novo carro velho; a da conversa vizinha
onde se conta a das oito ou se fofoca, havendo comida e bairro dá muito
alimento às orelhas? Não. Tem uma
rotina que perdura por todos os tempos e tempos com e sem amém.
Os
meninos, inclusive os terríveis da Maria; os da Zina era só a garota e menina é
mais fácil de criar assim mesmo a Zina se queixando com o pai da criança já
adolescendo; os pirralhos da Tereza, não da Teresa que já não emprenhava mais
na menopausa; os da Tereza mais esperta e eles enchiam bem o saco (Elinha teria
saco?) havendo mais outrinhos a jogar bola. Certo, mas precisa ser em frente da
casa de Elinha! vai, seja, mas em frente da casa do Sr.João G. da Silva...
ainda por cima de carro novo, já pensaram uma bolada e as pedras quando
inventavam de inventar guerra, que mesmo de faz de conta risca autos encerados
fedendo perfumes de shampoo e ainda quebrando vidraças da
residência isso não ocorrendo vez nenhuma, embora alerta se deva estar alerta. Mas
na frente do número 33! Elinha da Silva
poderia impedir a si mesma em gritar aos capetas: não tenho filho, que Deus não
me deu e aí podendo chorar pobrezinha dela, não tenho e tenho então que aguentar esse banzé feito
campo de futebol! e aí a macacada saindo
de fininho sem jeito indo para suas frentes infernar demais vizinhos já velhos
de vila. Poderia. No entanto apenas ia até à frente no portãozinho de não
passar carro novo mas sim gente em visita ou somente Elinha e Elão; aí olhava
feio, só podendo olhar bonito com aquele rostinho só não abrindo a boca porque
a voz em falsete espantaria (não era para espantar mesmo!) espantaria espantando
a freguesia, aquela de sempre: “pega a bola aí Dona”, imploravam; “posso entrar
buscar a minha”, coisa assim. Ela...
Dona
Elinha um dia 'encheu o saco’, é visto ser uma expressão desabrida da Maria,
mas Elinha afirmou nem a vizinha ouviu, além do mais isto sendo uma repetição a
vibrar ouvidos moucos, mulher tem? não tem, é figura de linguagem. Ela encheu-se,
berrou, estertorou enroucando estourando o falsete, e parecia nem ter força,
disse: ninguém entra, venham depois pegar a bola e conversar com meu esposo.
Assim na bucha. Espantando deveras mais a freguesia, os pequenos temiam o João
G. da Silva, aquela cara fechada e maus humores. Resultado; um mês sem jogo.
Depois voltaram a jogar e mais jogar bola nova no jardim velho de Elinha.
Rotina.
XI – Despropósitos do Tempo
Já
fazendo muitos dias o casal Sr.João G. da Silva e Senhora, a Senhora Silva,
sendo conhecida por aquela patrulha cultural e dos bons costumes como Elinha da
Silva; muitos dias, meses mesmo quase ano, se pondo o caso de se renovariam ou
não o contrato de aluguel, a Teresa mais mansa a dizer que puderiam mesmo haver
comprado o imóvel e aí não sairiam. Por briga e desentendimento não mudariam da
vila: o que dá desocupação imobiliária são as encrenquinhas que chegam aos adultos
pelos filhotes, ou encrenconas entre tais adultos; aí se muda. Não tem o
problema de atraso nos aluguéis ou nas prestações? tem. Mas por menino não
iriam embora, o casal não tinha filhos umas lembrando possível doença de Elinha
ou infertilidade; por desentendimento entre os grandes (Elinha petitica) não
tinha também sentido, todos, todas acordaram acordo sorrindo aos novatos agora
já com raiz de quase ano; mas o Sr.João era fechado carrancudo inacessível, de
se sentir antipatia; enquanto sua patroa era inacessível também por mudez. Aí
não dava luta por faltar contendores. No entanto o tempo caminhava e reforçava
aquela permanência esdrúxula, a Maria falava nestes termos e todas já sabiam um
pouco o que esdrúxulo e concordavam com a Maria. E se houvesse no horizonte um
fato novo...
Chegou
o novo carteiro, sempre mudando, aquela estória dos Correios que nem vale
lembrar. Decerto seus óculos não viram bem o 33, aliás semiapagado (tem gente
que nunca vê essas coisas de não se ver, como placa de automóvel ilegível
sujeita a multa e outras ilegibilidades de casa). Se não viu fez bem de
entregar na residência da Tereza a correspondência. Aí ela soletrou certo o
nome e o número a rua o bairro tudo nos trinques. Era 33 mas não endereçada ao
Sr.João G. (não poderia ser Gimenes!) da Silva. E sim a um tal de “Ilmo.Sr. Antonio...”
o resto não dava pra ler, tudo gringado com muita consoante e sem vogal, uma
somente; demais de menos o chapeuzinho porque parecendo haver chapéu em
‘Antonio’. Que fez a vizinha. Ora, bateu palmas no 33 porque a molecada tendo
campainha não dá sossego e se concorda não ter botão bateu palmas; tornou a
bater e bater mais – em não se pensar fosse outro vendedor de qualquer coisa do
qual é lícito não estar em casa e só olhar pelo buraco – depois ainda chamou a
vizinha, não lhe sabendo o nome apelou para o grito “oh vizinha”, usando
daquela voz estridente que a Tereza tem. Veio. Mostrou-lhe a missiva e apenas
começou a falar que era provável fosse ao Sr. João G. da Silva por coincidência
de rua e número... ao que a mal-educada se apropriou do documento virou as
costas e se afundou na casa. A Tereza, desarmada com os inusitados da vida, se
armou para as outras; o que deu a manter em ativi-dade a conversa formal informal,
com muita risota e indignação. A Maria propôs inclusive a expulsão sumária da
malcriada e seu homem-montanha. O que dificilmente poderia ocorrer. Enfim,
alimentou a animadversão dos membros efetivos do egrégio tribunal de fofocas em
sessão extraordinária. No final ficou ao menos a indignação.
Noutro
dia a rotina corrigiu o tempo para continuar rotina. Ele saiu cedo deixando no
velho costume o portão arreganhado a entrar intrusos cachorros e a
"Besta" (assim Elinha da Silva foi reapelidada tanto trato sem diplomacia)
a "Tonta" como chamava à vizinha a vizinha Tereza, ela foi
‘capachildamente’ fechá-lo. Depois varreu depois lavou depois guardou o lixo no
lixo e depois pôs o lixo que era dia de lixo; aí voltou pra sua cela de
estimação. E elas? ficaram olhando a trocar olhares de entendidas. Mas enfim fazer o quê!
Nada
a fazer.
XII – Um Final Feliz
Infelizmente
muita gente não se sabe feliz e fica procurando razões para não sê-lo. Pois o
grupo delas ou seja a Maria mais a Tereza mais a Teresa mais a Débora mais a
Suely mais a Zina e mais uma que outra não estando fora mas ali xeretando
novidades, esse agrupamento foi de repente desfalcado de grande porção
alimentar aos seus contares e devaneios (já que algumas eram tendentes ao poético).
Deu-se mais ou menos assim a irreparável perda.
Aquele
depósito de músculos e cara fechada encostou o carro, o carro novo velho
arrumadinho é claro, encostou-o quase em frente da residência da Zina, voltou
um pouco a correr em casa dele, a de número 33; decerto comunicou para Elinha
da Silva, a Boba a Tonta, suas coisas e voltou imediato ao portão, arreganhou o
portão e ficou a aguardar não sei o que ou não sei quem, meio inquieto, elas
dizendo entre si esse cara tem ‘focus’ (não tem uma doença que fica do parto
assim?) não para quieto e a Maria: “tem bicho-carpinteiro” mas desbocada completou
deixa pra lá. “E a Boba (elogiou Elinha) certamente continua no esconderijo a fazer
as coisas.” As outras olham indagativas à Maria. Esperam ansiosas.
Aí
chegou não sei que, que era um caminhãozão de mudança, desses tipo baú.
Encostou na guia da sarjeta, desceram os carregadores, invertendo-se a cena da
chegada: carregar móveis latinhas de flor, enfim aquelas coisas horrorosas que
se faz nos transplantes de gente de casa.
Era
o fim no fim e nada de Elinha, o Sr.
João G. da Silva ia e vinha levando as levezas e os homens levando
os pesados. O caminhão pronto satisfeito no seu engolir trecos de cozinha sofás
caixotes com badulaquinhas talvez com baratas também de mudança e aí elas se
olharam, elas a Maria etc. etc.; e o bendito guarda-roupa que em última hora o
Chefe do Casal resolveu não levar na mudança, como montar aquele lixo outra vez
na nova casa e elas aflitas em saber onde essa nova, sem solução. Fechavam as
portinholas do veículo carregador... e Elinha nada!
Foi quando seu homem resolveu dar-lhe um
‘cata’ (a Maria apreciava falar nessa chulice, às vezes dizendo ‘pito’ e esse
comentário apenas ficou entre elas). Deu um cata pela demora feminina. Por fim,
nervoso, gritou-lhe.
Elas,
porque elas estavam em plantão velado e havia muitíssima criança, a rua
coalhada com moleque curioso vendo aquele desastre que é uma mudança, na melhor
das hipóteses é um desastre social – elas, a Maria as duas Terezas e as outras
engoliram a língua em bocas abertas bestificadas! Ou é que teriam ouvido mal mas João gritou
Antônio por duas vezes e na terceira Elinha veio chorando.
Marília fevereiro
2004
Terceira Novela
Os Roceiros
1° - Tonho toma tudo tanto quase
nada precisa não mais que o canivete, daqueles que vieram com as coisas do pai
quando o pai morreu, que Deus tenha no céu o pai, de folha e ferro já
aparecendo ferrugem aqui ali, dos que se importava antigamente e dizem que vêm
das estranjas, olha. É um objeto frio do ferro quente esquentado das mãos
calosas os dedos de apertar o guatambu do cabo lustroso no uso e do tempo e
aperta mais o canivete, abre o canivete nas folhas do canivete, senta-se a
cismar na vida num tolete de árvore feito cadeira improvisada em conforto e
utilidade, começa a examinar os dedões sujos encardidos rachados do abuso no
contato com a terra a trabalhar a terra sulcando à sementeira agora expostos,
enormes, esparramados, o dedão dos dedões do pé acostumado à botina ou com o
solo quando descalço como agora, o dedão amarelado mostra uma unhona grossa
torta dura e dura demais a ser aparada. Ajeita o canivete, vê a folha maior
para não vê-la desafiada e rombuda até; se alevanta e vai procurar a lima já um
pouco enferrujada também no abuso do uso e amola a folha da lâmina, deixa após
minutos de trabalho e paciência cortando mesmo seja fio de cabelo, uma navalha,
que ele diz “naváia”. E se satisfaz. Volta, senta-se outra vez no cepo
improvisando cadeira, olha o terreiro, que é imenso. Vê as galinhas cacarejando
felicidades ciscando correndo do galo insaciável e a pintaiada ao redor a piar;
lá longe um pouco os porcos chorosos a pedir comida insaciáveis também e o
milho a mandioca a lavagem com restos a abóbora e tudo o mais em mesa posta mas
chorões assim mesmo a pedir a pedir lá no seu cercado de engorda; vê a vassoura
da Maria espantar as galinhas que é um bicho enxerido e suja até dentro de casa
e se deixar fazem cocô na mesa sem cerimônia ou se indignar sem pensar será que
galinha pensa! pensa Tonho. Volta a vista à vassoura de também a Maria varrer
por cima empurrando ciscos folhas trecos (e os meninos a reclamar a mãe
varrendo seus tesourinhos e ela ralha e eles choram manham emburram e apanham
criança parece apreciar levar uns croques a Maria às vezes exagera um pouco)
empurra varrendo outras coisas mais às vezes tem de molhar regando a terra pra
não levantar poeira e daí o cheiro de terra molhada que fica no ambiente e é
característico da atividade mas a Maria não varre agora agora lava roupa no
córrego junto da bica que esguicha paciente dia e noite água gelada em que se
banha o pessoal ele tira a sujeira esparge mais líquido remove o suor aquele
azedinho a escorrer quando puxa o guatambu raspando o solo arrancando o mato
que mata a planta a planta que vira alimento e as gotículas se acumulam e escorrem
feito enxurradinhas da testa franzida pelo rosto antes molha fere arde olhos
alimpa-se na roupa na manga da camisa que cheira cheiro de gente e de tecido
ordinário cheirando sabão tosco apodrecido em decomposição pelo suor e os raios
solares olha o brilho lá longe e vê a hora vendo que ainda não é hora da hora
da volta pra casa mas agora encontra-se apenas sentado no toco imitando banco olhando
seu quintal que também é quintal dos vizinhos a se relaxar e a se preparar para
de vez cortar as suas unhas não sendo propriamente cortar não se arranca se se
arrancasse que dor! apenas apará-las modelando aquela feiura a se embonitar e
aproveitando para descansar da labuta que o dia foi puxado, funga um pouco. Se
ajeita no banco que anda um pouco solto na base, remexe sua cadeira, calça a
cadeira com um naco de pau a dar-lhe equilíbrio, experimenta e vê que está bom.
Agora se ajeita melhor, ergue a perna direita e põe-na a cavalo na esquerda,
alcança o pé o dedo um dedão esparramado com os outros quatro e ele é amarelado
a misturar sujeira chulé e eventual sangramento já maduro e não mais sangrante,
a unha é dura dura tem uns riscos em sobrerrelevo e as pontas são duras duras
tenta desendurá-las mete-lhes o fio da folha do canivete empurra puxa cutuca
ginga ginga esfrega esfrega empurra outra vez e vence a resistência fere a unha
lanha a unha fórça como o
escultor com arte cuidado e fôrça e vai dando forma oval na extremidade e pensa no perigo
que corre se a cartilagem ossosa da unha ceder sem que se espere por ser tão
dura e forte e a lâmina afiada a entrar na brecha e aprofundar a brecha e
sangrar a brecha de carne como naquele dia e teve de esconder que chorou e não
chorou que homem não chora e assim acaba o corte em apara naquele dedão; experimenta
e vê que não ficou bom nas apalpadelas, ao menos ótimo: tem ferpas pontas a
enganchar de noite no lençol de saco de farinha costurado pela Maria e tem
também enroscar nas pernas macias da Maria e a Maria pra reclamar as lanhaduras
daquele grosseiro mas que fazer se homem é todo tosco duro desengonçado! ela
reclama sim e ele tira depressa o dedão com unha enroscante e acorda que não
queria acordar e tem de dormir porque noutro dia é outro dia e que horas
seriam?! Agora experimenta apalpa e se consola com um talvez passar a lima de
limar o fio do canivete e mais o da enxada a deixar as pontas das unhas mansas
de lisas; ou que se gasta ela no atritar a botina de ringir quando nova ou no
esfrego na terra porque gosta muito de andar descalço mas agora está parado
sentado no toco de pau feito banquinho embalançando e é necessário pôr uns calços
de graveto a equilibrar e ainda tem outros nove dedos a trabalhar naquela
distração e descansaço... Toma agora a perna esquerda, sua vez de andar de
cavalinho na direita, deveria, pensa, ter cortado os dedos irmãos menores do
dedão direito antes de começar agora o pé esquerdo lá encimão do joelho direito
arreganhado à mostra; deveria mas quis passar primeiro o mais difícil os dedões
são mais duros mais difícil aparar; porque com os manos dos dedões é tudo café
pequeno, donde será que vem isso, pois toma é café grande na caneca esmaltada
depois a esmaltada quebrou-se e restou a caneca de lata e às vezes o café da
Maria é tão quente queimando o beiço, agora é o dedão esquerdo, unha dura e tem
um pedaço faltando quebrado que foi do corte na enxada na roça da fazenda
quando moleque a família vivia na terra do Coronel e ele errou acertou o pé
sangrou gritou chorou dia inteiro vai poder com moleque! e aí ficou
manquitolando igual saci e o pano sujava e a mãe ralhava tirava doía de novo de
novo punha pano limpo e passava antes água de garrafada benzida pra limpar e só
aí o pano novo que era trapo velho e voltava a pular até sarar fazendo um
tempão tamanho e agora só tendo aleijumezinho em marca na ponta da unha deformada
do dedão esquerdo, decerto duro na queda como a unha do dedão direito; pensa
mudar a sistemática ao costume do pai, que Deus conserve o pai no céu (e se
benze ao gosto católico como lhe ensinaram) o costume que consta em ficar amolentando
as unhas com os pés na água da bacia das mulheres porem roupa com sabão ou amassar
pão a Maria faz é um pão gostoso, só não aprecia o Tonho que a Maria mande
tanto à vizinhança que é o costume e aí recebendo noutro dia um dia de volta o
presente num presente de pão azedo ou duro e azedo ou queimado e azedo a Dona
Zefa gosta azedar, a Maria que brinca, longe da Dona Zefa, que Dona Zefa põe é
limão na farinha e ele não gosta. Acabam jogando pras galinhas e as galinhas
fazem uma festa que bicho bobo e até brigam pelo pão da Dona Zefa e os porcos!
ah os porcos, que bicho porco da peste e agora apalpa o dedão que é velho
porque o Tonho tem uns quarenta, ele não sabe direito a Maria não sabe mas
garante e afirma e a mãe falava que a Maria tinha razão quando era trinta e
então o esquerdo tem uns quarenta que nem o dono, ele; e o direito e todos os
manos dos dois dedões e agora tenta, conseguindo, aparar sua unha do esquerdo e
quando força um pouco a perna pra baixo a perna esquerda cavalgando a direita
encolhida ela dá um pulandinho que até parece brincadeira ele não é de
brincadeira quarentão mas sorri como um menino, os meninos... ah agora vem o
mais novo o Zezinho, o mais novo ainda é nenê e dorme, o Zé vem ver papai naquela
dura e trabalhosa tarefa de tratar as unhas, xereta xereta grudado àquela
sabedoria que é seu herói e olha sorrindo ao Tonho e já grita “o que o senhor
tá fazendo” como se não estivesse mostrando o serviço do cuidado com os pés, um
pé encavalado noutro pé encolhido firmando a lancha (a Maria fala que é a
lanchona de atravessar o riozinho) no solo que ainda está úmido da última chuva
que foi anteontem e tem aquelas minhoquinhas a sair de dentro da terra e
insetos mil se remexendo decerto incomodados pelo umidecer e assim fazendo a
festança da galinhada, que sai espavorida com a chegada estabanadamente daquele
filhote do bicho homem que agora se senta no chão a se sujar melhor e melhor
ser advertido pela Maria elinho ao ver aquele papaizão que ele admira tanto.
Olha vê, vê um caboclo trabalhando no descanso seu canivete plasmando as
extremas da unha e vez que outra o pai toca aqueles mosquitinhos a infernizar a
zunir perto da orelha perto da boca longe do tapa que o homem não consegue
acertar e xinga e olha lá longe se a Maria não perto e aí xinga com mais
vontade e com mais raiva aquelinhos irritantes e o garoto se ri e ri do pai, o
qual continua sua batalha nos dedos a gastar o canivete que é bom pra descascar
cana de burro daquelas fininhas e duras e então o caldo melante escorre e
escorre até ao cotovelo ficando tudo a grudar e isso não válido apenas às crianças
e todos se lavam depois na bica que escorre no corguinho onde as mulheres lavam
suas roupas e por que esconder? brigam também dão suas dentadas com a língua um
dia até não se falaram mais aí Dona Zefa trouxe pão azedo e adoçou um pouco o
ambiente de amizade destravando as línguas mas agora o Zezinho vê o Tonho o
Tonho está aflito ou com o saco cheio por não aguentar tanto dedo por que será
que tem tanto?! e precisa acabar as unhas e tem ainda muito a fazer que o sol
ainda alto.
2° - Elinho não compreende a pressa
daquela lerdeza paterna, olha aquele mundo a se tratar a canivete, estala os
dedinhos ao Peri não contente grita o Peri assustando o pai, o qual não tem
tempo a repreender e já vem sorrindo largamente o vira-lata, que ao passar,
estando deitado em frente à porta e leva vez que outra um chute dos adultos e
não aprende estar fechando o caminho dos outros na saída de casa deitado a
sonhar cadelas ou ossos espanta as galinhas mais preocupadas antes com o galo
afoito que com cães mas fogem assim mesmo em correria espavorida e temência, o
Peri abre uma brecha em estrada entre penas mas sem grande interesse a se
divertir nelas porém em mira aquele doninho ao mesmo tempo irmão em brincadeiras
e deus que impera grita açula instiga manda e chama, chega ainda a sorrir a
cauda que é um penacho de pelos inimiga de moscas atrevidas, chega cheira olha
sorri e se senta nas patas traseiras a curtir melhor a paisagem vê-não-vê o
homem em posição esdrúxula e gozada com uma perna sobre outra perna e um
canivete mas apenas percebe o menino que já matraca as coisinhas de sua tribo e
os dois se entendem. O Tonho olha de soslaio a dupla, abana a cabeça a condenar
talvez mas se não pode prender, preso à tarefa findando e leva novo susto a espantar
concentrações com o gritar do pequeno “pega Peri!” já atirara longe não sei quê
de propósito em meio das galinhas então esquecidas daquela fera selvagem que
brinca de arrancar penas pensando elas nos seus afazeres de bicar bicar correr
correr daquele faminto cantador e quando veem veem o Peri em cima delas antes
de se espantarem com a pedra que nunca se sabe donde vem e vem atrás da pedra
vem o comensal com quem dividem a latinha de marmelada com arroz velho e outros
restos a chegar ladrando invisíveis a espantar melhor seu sossego e então o
Peri faz estardalhaço dá espetáculo provoca vexame e elas correm e ele toma a
pedra nos dentes de mostrar poucos amigos e mostra a presa e leva afoito e correndo
gozado pulando ao dono a gargalhar e o dono repete a dose a atirar pedras paus
pra longe perto das penosas de olhos arregalados já esperando donde é que sairá
a cobra medrosas e o galo também aí não canta de galo foge; corre o cão
novamente volta repete o buscar-trazer e sorriem cachorro e menino até que o
Tonho grita o parar e o inferno volta ao paraíso do silêncio que dura muito
pouco, a recomeçar e Tonho berra ameaça pensa para decide: “Zezinho vai buscar
água pro pai” eles vão, o cachorrinho abanando atrás, passam pelas galinhas esquecidas
outra vez outra vez a ciscar seus invisíveis almoços e se espantam abrindo passagem
ao moleque se dirigindo à porta da cozinha. Onde a Maria enxota algumas
enxeridas uma galinha estando na portinha da portona que é meia-porta feita de
ripas malacafentamente dispostas um que outro prego a se soltar tem uma tramela
pequena não sendo mais que um pedaço de pau com um furo no meio e um prego
atravessando o furo, a fim de segurar
fechada a meia-porta deixando aberta a porta alta para tão pouco moleque e não:
não adianta nada porque a galinha voa pula a cerca se segura nas pontas das
ripas em equilíbrio circense e a Maria ameaça rumina ameaçar cortar as pontas
das asas das agressoras que fazem cocô no chão esburacado da cozinha e a gente
pisa, onde está um barril cortado ao meio a outra metade servindo como tina
para a mulher depositar as roupas a roupa do Zezinho está suja não tem dedo que
se não esfole a esfregar a limpar e menino nunca entende disso, “o que você
quer seu fia-da-pê...” e se xinga elevando mas só da boca pra fora fora o que
se não pensa não se pensa o que se fala mas o Zezinho entende se defende não se
ofende foge em recuo defensivo longe das mãos pesadas tabefosas de mamãe perto
já do barril de madeira arcada segura por um arco de ferro e dentro está a água
fresca; ele toma, sempre observando a ira da Maria se a Maria ainda com raiva
dele sem que saibam ambos por que, menos o garoto sabe; e aí toma a caneca do
pai que fora um dia recepiente de qualquer coisa, aberta, arrebitada com alça
de lata em cabo, cabo que ele segura um pouco estabanadamente como feitio de criança
que é, mergulha (fala “tafúia”) a vasilhinha na vasilhona em reservatório,
extraindo o líquido, derramando metade dentro outra vez devolvendo parte e
parte no chão na roupa molhando-se também e a Maria não tem coragem ou não se
lembra frente ao inusitado xingar daquele nome outra vez e além do mais corre
mais que ela e vai fazendo caminhinho de espirros de água no chão desde a
cozinha, deixando ainda por cima a meia-porta escancarada e a Maria não chora
não grita não lamenta, sequer chama à atenção o filho, embasbaca com tanta imperfeição
num só momento e desconta noutra penosa a entrar ‘curiosando’ o comer e grita,
agora grita: xô sua fia... e lembra a mãe da galinha que se não lembra mais da
mãe antes teme o galo que também é seu pai e quer ser seu marido e então foge
da vassoura da mulher. A mulher volta para dentro de casa, ajeita isto empurra
aquilo, chama a Zinha, a filha larga o nenê que não se sabe nenê nem quem a mãe
se a mãe se a mãe pequena, a Zinha é minguada de se esquecer crescer mas
esperta corre ver a Maria, a Maria mostra isto reclama a sujeira, reclama o sal
reclama a falta de sal e por fim fá-la escolher o arroz com mais cuidado, atiça
o fogo vê o feijão borbulhar, espreme com a concha a querer se soltar do cabo e
pensa Tonho, homem é tudo preguiçoso o dela deixa as coisas pra depois o
arrebite da concha... ah um dia fica no fundo do caldeirão e de propósito porá
feijão alho cebola e concha quebrada no prato dele! soca mais no fundo a engrossar
o caldo, sobe um cheiro de fome no ar, os porcos gritam lá longe no mangueirão
e no cercado para ceva e mais longe ainda aquele trio conversa suas coisas, o
homem trata seu pé esparramado em cima de um banco balançando (ele diz “balangando”)
enquanto o menino já inventou outra brincadeira, o cão fareja novidades que
possam sair daquele poço de sabedorias que é o Zezinho e a Maria até acha graça
na cena que vê, entrevê pois não tem tempo vai escurecendo na briga eterna do
sol contra a lua e talvez já o sereno atinja a roupa esticada no arame farpado
em varal, prefere ela mesma tirá-la as meninas não alcançam bem o fio puxam e
rasgam vez que outra uma peça e lhe toca remendar e têm os botões arrancados
pelas mãozinhas inadvertidas, está cansada em repregar, o pequeno maior que o
Zezinho agora com aquele vício de arrancar botão nos dentes, já apanhou na boca
sangrando chupa o sangue chupa a saliva em gosma chupa de novo o botão arranca
e perde, ela perde a paciência... pior mesmo o costume de chupar a fralda da
camisa, “que gosto cê acha, menino” o menino sorri envergonhado sai de manso
foge pros coleguinhas. Tem a trempe reunida a falar a gritar a brincar a brigar
a se desentender direito no entendimento não entendendo que é preciso trabalhar
e criança inclusive trabalha mas pensa estar brincando, ralham os adultos. Todos
manhazinho vão pra roça, o Tonho na frente mas atrás no levantar-se a Maria
cutuca chama berra depois já na cozinha e trás para ele o gole de café, aí, só
aí, se levanta e vai urinar lá fora, ela cansa em falar o fedor de amoníaco na
parede do paiol o mijo a escorrer no chão, as meninas se agacham atrás perto da
cerca antes olham para ver se não veem enquanto as pequenas em qualquer lugar e
os meninos, valha-me Deus! eles molham se preciso dentro de casa e ficam
ouvindo o sermão materno, daí se se não cuidar a Maria vê-los-á urinando nas
calças! e isso será demais, os mais grandinhos da prole defecam em volta da
casa, já tendo a concorrência das galinhas acordadas curiosas olhando aquela
comida, ela terá de lhes vassourar varrer terra por cima, enrolar aquela
nojeira e depois com a pá gasta juntar atirar pra lá da cerca de arame que
impede as vacas da fazenda entrar na casa da gente e às vezes varam a cerca,
que bichos de couro grosso se sangram e continuam a arrebentar o arame-farpado
e as crianças gritam com medo! ele não, faz xixi no mourão da parede do paiol e
volta para dentro nem lavando as mãos, toma, agora por conta própria, outro
café, aí, só aí, vai se lavar lavando a cara fazendo estardalhaço bru-ru-ruf
assoprando as nojeiras da garganta e do nariz que a Maria acha o marido bem
porquinho e se lava na cara na bica lá embaixo onde ela lava e põe corar a roupa
que os sujos sujam. Volta pra casa, toma outro café, se ela não chamar sua
atenção, braba, é capaz de tomar direto no bico do bule... engole o café e pode
fazê-lo à vontade sem perturbar a saúde pois o café é ‘água de batata’ transparente
melado e morno o tempo já esfriou nessa época do ano o líquido se esfria mais
rápido é preciso repor na chapa de ferro quente ou mergulhar o bule numa
vasilha com água quente, “banho da Maria” ele diz ela não gosta da brincadeira,
a chapa é quentíssima as labaredas a subir a lenha a arder e a arder os olhos a
fumaça sobe gruda o picomã nas teias que as pacientes aranhas entrelaçam dando
impressão de coisas velhas velha sim a casa mais ainda a cozinha em pretume e
cheiro de fumaça de lenha verde a lacrimejar a família, ele bebe mastiga uma
fatia (fala “fêta”) do gostoso pão da mulher, a mulher já arrumou as coisas,
tem garrafa de pinga sem pinga com café algum pão e se não tem pão às vezes não
tem pão sempre tem café mas não é café mas água escura caldo doce a grudar o
gogó e aí tem arroz e feijão e abobrinha ou pedaço de carne defumada conservada
dependurada onde têm os ratos a xeretar e linguiça comprada na venda tudo preso
no altão longe dos bichos e até o Peri olha languidamente cobiçoso lá em cima e
sonha e suspira e aspira e corre da vassoura, a Maria toma a matula das coisas,
enrola gozado em zigue-zague com um pano parecendo quando a gente tem dor de
dente e amarra uns panos também mas molhados com água benzida no benzedor da
fazenda que ela diz “benzedô”; e aí ajunta tudo todos indo à roça, o Tonho já
pegou distribuiu enxadas, tem a dele que é preferida e amola com gosto, tem
unzinho que de vez em quando faz uns dentes no fio da enxada do pai e ele grita
e uma vez até bateu e quase sobrou à Maria, assustada, pelo indevido do devido
corte estragado e aí ele pega a sua, examina como fora um tesouro, carinha como
não carinha a cara bonita já desgastada mas era bela da Maria, esfrega o cabo, ele
que fala “guatambu”, lustrado no uso e em seu extremo de baixo a lâmina que
deixa cortante a navalhar a terra, e puxa a terra, corta a erva da terra,
exalando a erva enraivecida o cheiro no ar o corte ferido; aí já está com a
enxada no solo, porque antes trouxe a sua ferramenta encavalada nos ombros
estabelecendo o equilíbrio horizontal com o antebraço solto preso somente o cigarro
entre dois dedos na mão caindo relaxada um pouco, balançando com o andar todo o
conjunto, a enxada está no solo sobre os tufos de mato e corta e puxa e empilha
formando com as pilhas de vegetal uma leira e entre as leiras (que fala em voz
meio grossa ao menos mais que a da Maria “ilêra”) um campo de metro limpo como
um campo de avião que é aquilo lumiento ao sol lá enribão, quase tão lustroso
mas em que aeroplanam insetos que voam irritados com o sofrer a ferramenta e
esvoaçam e picam às vezes e também as formigas quando a lâmina da enxada não
respeitando seus afazeres e brigam primeiro com o fio depois com a chapa de
ferro inclinada com o cabo desde o olho do cabo que prende a lâmina e com o
cabo de extremo a extremo e com as mãos do Tonho a esquerda antes, que é canhoto
no carpinar que fala “carpir”, mas não chora; depois também na direita quase na
ponta do cabo; e com os braços desenrolando no enrolado dos pelos encaracolados
dos brações queimados; a Maria as meninas alguns dos homens da casa ou ‘projeto
de homens’ usam mangas compridas elas a proteger a beleza ou a delicadeza e
elinhos se protegendo do coçar dos bandidos insetos que mordem picam sugam e
sujam sangrento a epiderme mas o sol é o que mais vence e queima e engrossa e
enrigece a pele o pai falando sempre “côro” com razão – mas são queimados os
braços musculosos do Tonho e as formigas sobem com mais fome ou raiva mais,
mordem antes de subir até ao pescoço do homem; é quando ele se bate para bater
nas formigas e aí pula às vezes, que elas já subindo pelas botinas às pernas e
algumas entram no calçado de couro duro e desensecados com sebo de vaca, elas
não se importando decerto com o xulé e quase sempre pagam aquele sangue com
sangue da morte, mas a comida perdura corajosa capinando e arranca e puxa compassadamente
a praga em mato teimoso e amontoa a praga em moitas feito roletes retangulares
deixando o terreno limpo, o Tonho é um leão no trabalho, todos reconhecem já
tem fama na fazenda fazendo o trabalho, produzindo, que é o que mais alegra o
patrão, distante presente o administrador que vê o leão. Mas vê ainda mais a
leoa... Esconde concupiscências resmunga poderes chama o homem para ver a
mulher, a mulher é mais leão que o leão, trabalha adoidada olha os pequenos
puxa as orelhas com a língua e se preciso usa a arma contra seu homem e
trabalha sem cessar e faz mais, está sempre à frente dele, alimpam suor olham o
sol olham para trás vendo o terreno vencido limpo e os pés de café a agradecer a
limpura respirando mais livres, o Tonho examina sua turma, a mulher está lá na
frente já, elinhos mas mais elinhas que elinhos quase sempre puxam desengonçadamente
as ferramentas um que outro erra acerta o pé chora grita reclama, reclama a
Maria vindo socorrer quase sempre também tendo mais experiência nos primeiros socorros
maceta folhas empapa folhas e a gosma é enrolada com trapos e às vezes ela
mesma tira de seus próprios lenços e panos, aí retira da cabeça o chapelão de
abas largas enxuga o suor olha seu homem atrás às vezes falam-se qualquer,
volta ao seu eito embica no afazer, carpina chep-chep-chep sem parar param na
hora do almoço, “já é oito e meia!?” apregunta o marido a meninada sorri alegrias,
ela espalha no chão gostosuras que são sempre as mesmas gostosuras porque a
gostosura existe em razão da fome a fome tamanha o sol a arder já e todos numa
sombra no banquete que um pé de café mais frondoso oferece; aí mastigam
mastigam mastigam de boca aberta e abertas estão a bocas a falar e a comer ao mesmo
tempo e discutem suas coisas coisas que os pequenos não entendem pressentem no
entanto e às vezes dando desentender entre os dois no casal, o Tonho se levanta
urina de pé molhando a árvore as folhas e galhos do cafeeiro ali encostado e a
mulher chama-lhe a atenção pela desatenção, ele rumina qualquer, balança guarda
e se vira aos seus, os moleques imitam imponentes papai as meninas olham mamãe
a fazer comentário ela inventando qualquer coisa a dispersar a atenção chamando
atenção a um desvio das atrapalhadas delinhos ou que se estão pegando em
briguinhas sem sentido que ao adulto assim parece e tem um que outro arroto
papai quer tirar soneca a fazer o quilo, se levanta envergonhado por estar
perdendo a batalha à leoa já puxando o guatambu e os pequenos na imitação dos
feitos maternos. E assim corre o dia ao meio dia tem o café, não só café com
pão ou resto de comida que é sempre arroz e feijão e mistura, não só esse
costume como propriedade da família do Tonho, as outras dos outros também vão parando
as enxadas a se alimentar, até então se trabalhava e um que outro gritava um
canto caboclo desafinado a se chocar com o choque oco do vaivém da enxada;
agora todos parando de vez as ferramentas a se alimentar, o que é pretexto para
parar descansar conversar e aguentar o restante da tarefa diária. E retomam.
Mas aí chegam as dezesseis ou dezessete horas, segundo as necessidades de serviço,
o trabalho se finda. Para começar: a mulher tem a roupa tem a casa tem a comida
tem o educar, criança dá trabalho ensinar é preciso falar falar falar e
repetir; os machos quase sempre mais esquecidos passam por cima das coisas
fogem ao rio à caça ao brinquedo; as fêmeas uma que outra escapole mas estão
ali a ouvir a Maria reclamando corrigindo mandando e ajudam na cozinha ou recolhem
a lenha ou até se furam na agulha de costura e as bonecas esperam um pouquinho
mais porque boneca tem mais paciência. O Tonho já pegou a tralha tosca de pesca
ou na pior da melhor está cuidando da ferramenta, é um cabo machuquento é um
corte que não corta, ou a fazer pequenas coisas que preenchem seu tempo até
chegar a hora da janta da Maria; ou está já papeando com os homens, aí tem
muito moleque espreitando e quiçá dando palpite ou lembrando a memória adulta,
em volta ainda os cachorros, seja cheirando aquele cheiro bom de gente ou se
mordendo e o Peri vira herói atiçado pelo Zé, o Tonho grita o Peri grita o
filhote a gritar melhor o Peri; e retoma a conversa, tem um causo novo velho
como o mundo do mundo que não tem tamanho nem idade mas que existe. Quase
sempre a roça entra enxerida no meio da estória, mas tem fantasma tem patrão
tem crime tem ladrão, roubando o sossego dos moradores, se infiltram no espaço
imaginoso dos garotos e dos grandes quase todos pequenos e miúdos também
garotos no interesse na crença e no contar. E assim a barra da claridade se foi
indo sumindo vindo em seu lugar as lamparinas que as mulheres acendem a tremelicar
um lume que se firmará em a noite daquele dia.
3° - Em a noite daquele dia, que era
quinze ele teimando dezesseis ela teimando quinze mesmo, os dois tendo razão
porque o dia acaba na noite do outro dia e a folhinha gostava de enganar
enganava triplamente, os dois por não saber bem quando meia-noite não se
podendo confiar no maluco despertador estragado; e enganando pela terceira vez
porque a mostrar montanhas geladas na gravura e isso era claro invenção nunca
vista; naquela noite não daria para pegar enxada noutro dia quando o dia viesse
porque ficaram conversando até tarde, o Tonho entregava os pontos antes das nove
e ela ficava normalmente refazendo o serviço que as meninas – porque criança
não faz nada completo além de trincar prato quebrar copo e deixar a lata de
açúcar aberta para as terríveis baratas lamberem de anteninha e até entrarem
caírem nadarem nos terrõezinhos de cristal e aí quem pode confiar! – as meninas
faziam que nem as fuças delas e o pequenininho chorava sem parar e ainda tendo
um moleque perdido perdida estava resmunga a Maria e só depoizão apareceu o
gato alongado e ouviu isso sim a mãe puxando o cabresto ameaçando isto aquilo e
os outros já roncando ressonando tinha o Zezinho que ainda por cima mijava na
cama o safado quase com barba onde iria parar!? Igualmente o marido não
conciliava o sono, umas dores do lado de lá; o nenê esgoelava, passava paninho
esquentado dava o peito murcho não pegava dava mamadeira não engolia e só
abrindo a boca para chorar endoidando a mãe assustando a vizinhança todo mundo
a precisar descanso que a enxada cobra cobra mais o feitor feito dono o dono lá
pelas estranjas e a conta enorme, para o roceiro entenda-se. Gente do campo
sempre deve, nunca entram em acordo o deve e o haver na contabilidade da
fazenda. Mas como dormir e depois se levantar e depois mais trabalhar no eito!
Vira o garoto pra cá enrola pra lá nina nina no colo cansado as pernas bambas
ele não entende, chora; lá fora já a coruja prenuncia as coisas ruins e mais
que ela o anúncio do galo, o galo do Tonho insulta de dia os galos vizinhos
agora é hora de um acordo geral e canta e os outros respondem amigos, a Maria
vigia aquelas dores, o filho berra a dor o pai do filho lamenta a dor chama a
companheira a companheira faz chá, empanturra o esposo com água fervida com
erva de tudo, faz de tudo, tudo até chorar e a madrugada enxuga suas lágrimas –
o dia da noite está perdido, as enxadas ficam em domingo ou dia santo na tulha
e só mesmo quem se alegrará é a meninada, nem agradando ao patrão que anda
longe nem ao administrador que está perto e que agora certamente ainda ronca ao
lado da Dona Francisca que é uma santa a suportar um homem daquele dizem. Assim
mesmo, mesmo não dormindo, se levantam manhãzinho para saber ao menos ser outro
dia, papai chora sem parecer chorar lastimando agulhadas ali acolá e o
caçulinha ri porque criança se recupera logo ou nada sabe das coisas. Os
meninos estão felizes já planejam brinquedos, os maiorzinhos dos pequenos estão
um pouco constrangidos e sabem que não sabem ficar em silêncio hospitalar e se
pegam um pouco mas entendem os melindres, sobretudo vendo a feição materna
encovada parecendo haver apanhado mas apenas apanhara da noite. Aos poucos as
meninas vão fazendo o que sabem, sabem pouco mas sabem demais as sabedorias
simples de uma casa pobre roceira a descansar suas dores. Tem a mais velha, que
sobrou da guilhotina da senhora Morte a ceifar sistematicamente os primeiros irmãos,
alguns sequer conheceram a luz do sol outros se despediram em cai-xõezinhos
singelos já tendo andado em gatinhas deixando a Maria ainda em maior desespero
na perda e ela se chama também Maria, mas não é do Rosário como a mãe e ela faz
as coisas direitinho errando também direitinho com alguma pedra que passa na
escolha do feijão e depois papai vai chiar, cozinhando o arroz demais ou de
menos e não acerta mesmo nas frituras os bracinhos finos têm várias chagas já
sarando dos espirros e não precisa mais apanhar por mocinha, de namorado nem
mamãe nem papai querem saber mas decerto já tendo olhos compridos quando os
moços aparecem e aparecem tão pouco naquelas bandas. Tem a menos velha que é
mais velha ano que o mais velho dos meninos, ela é Zefa mas não tem registro
com esse nome só o de batismo e dizem que ela chorou na cerimônia religiosa mas
devendo ser pela aguinha salgada e não de emoção. Ainda menina, só pensa em
brincadeira pensa que pensa o pensar materno, faz como sabe o que sabe e de
todo jeito a Maria sua mãe vai reclamar; uma coisa faz bem que é cuidar do
chorão: troca fraldas de trapos quase telas, empurra nele a mamadeira, faz
gracinhas e a gracinha de menino ri da mana; e assim vai. Tem o Zezinho, o
capeta dos capetinhas, encrenca bem com todos manos, só não compra briga dos
que faleceram mas nem Tonho aguenta o Zezinho. Tem o Antônio filho mais velho,
devendo ser responsável; e para não confundir ao pai é para todos o Niquinho,
porque não ficaria bem a Maria bater no Tonho e bate ela muito no filho
respondão e vez que outra se enturmando fugindo com os amigos pelas bibocas
deixando a mãe rouca no gritar. Tem ainda outro moleque, brincalhão e
irresponsável, mas este não é respondão como os outros, nasceu mudo ou nunca
conseguiu falar nada em não ser enrolado. Essa a família. Mas é o cabeça da casa quem fala mais alto e mais
alto que ele só a mulher, a qual às vezes diz coisas irrespondíveis ao macho;
que é que faz... foge ao papo com os outros homens, onde tem público e um pouco
de voz. Agora a voz não tem dificuldade sair, o Tonho só geme um pouco, sobretudo
estando a Maria ou supondo que esteja nas imediações; mas não se aventura a
sair na friagem, enxada? está fora de propósito e até a esposa concorda,
arrasada também ela pela batalha da noite. É uma senhora forte disciplinada
corajosa, mas cede; contudo não para, à dona de casa sobram mil e um dos
quefazeres e ela não foge, apenas ranzinza mais as meninas, daria uns croques
nos rapazes mas homem é como água passa pelos vãos dos dedos some na capoeira;
então pega de cabo curto as fêmeas da prole fala impõe cobra e o Tonho
espreita, vez que outra tosse presença, o dia escorre, vem nova noite.
4° - Ela, o Tonho está lá na quina
da casa perto da tulha onde o vento não pode muito com o vento pouco importando
se cubra da onda que vem apaga outra vez o cigarro e ele teima culpa o vento
depois descobre que o palito que não presta ele fala “fórfi” ela “fósso”
ninguém errando direito o erro e o erro é que anda úmido até a caixa se molhou,
serviço de menino que não tem o que fazer e põe fogo nas suas coisas no
terreiro e ela fala sempre um dia o Zé bota fogo no mundo e assim molhado não
pega não trisca fogo de faísca e não faz fogo e o cigarro na ponta não acende
podendo que fosse a ponta da palha que o Tonho morde espreme e dobra um
pouquinho a dar formato pra não escapar o fumo que a navalha do canivete cortou
fininho e ainda ele espalhou atritando na palma da mão antes de enfileirar em canudinho;
e como não pega fogo ele xinga daquele nome os meninos todos subentendendo seja
o Zé nem o diabo pode com o praga e a Maria não gosta de xingação diz que atrai
o Capeta e ralha sempre com o Tonho-pai – ela era uma gracinha pulando em volta
da mãe, a mãe que era feia e os filhos achando bonita, desgastada envelhecida
enrugada parida muitas vezes em parir incontáveis irmãozinhos, mas a filha a
queria bem, a mãe por sua vez a queria em preferência aos outros porque os pais
não sabem evitar a escolha e não sabem a escolha e por isso fazia chegança mais
à Maria do Rosário que o pai apelidara Rosarinho, bem mais que pelos outrinhos
e havia sim ciumeira em casa, ela pulava segurando a mão da mãe que ela achava
enorme e ia olhando pra cima e vai ver que aquela giganta não iria dar sua mão
ao Tonho quando o Tonho foi falar ao velho a mãe já falecera e decerto não deixaria
viva Rosário de coleira com aquele grosseirão que entendia muito pouco de roça
menos que os dela; contudo se casou e era então a mãezinha de seus irmãos
fazendo tudo em casa, um “pé de boi” falou o pai, na enxada então... Corria
junto da mãe a trança loira a balançar, o vestidinho de chita vermelha novo
costurado com zelo pela senhora, uns olhinhos perscrutadores no mundo e por
certo não via azul com seu olho da cor do céu numa carinha com um pouco de
sardas, Maria voltou correndo. Correu ao hoje agora sendo a companheira do Tonho,
o Tonho entra enraivecido na cozinha, tem de acender o pito na brasa do fogão,
fumaceia chupa chupa antes e esbafora aquele fedor e então a Zefa fica a olhar
o genitor, ele sai pra fora e deixa na cozinha a fumaça e o hálito da palha e
do fumo e ela arruma a lenha semiapagada controla a chapa examina a panela conforme
ordens da Maria, esta é agora uma senhora cansada, cansada em doutrinar o teimoso
anos, cansada em ralhar as crianças criança é preciso falar todo dia cada
minuto no outro segundo errando, cansada em curtir sua saúde frágil ela
fortalhona não obstante, cansada do falatório vizinho as mulheres não têm o que
fazer? cansada a dar murro em ponta de faca esbraveja resmunga rumina seu ser,
trabalha acorda já trabalha madruga pôr as coisas em dia preparar as coisas
trabalha no trabalho trabalha na frente do eito sempre e sempre o Tonho carpina
atrás dela, trabalha olhando os meninos na enxada naturalmente preocupada com a
inabilidade dos filhotes e é preciso repreender alfinetar corrigir insistir
gritar inclusive para que entrem na linha, o moleirão só olha e fuma seu tabaco
ou foge do eito sob pretexto de pedir instrução ao feitor e quer mesmo
descansar do pesado sobra à Maria falar falar falar, corrigir a filharada e ser
tomada como a inimiga número um por implicância com os de casa, é vida!
responde que não mas não formula a resposta como não fizera a pergunta mas
assim mesmo olha indignada. E aí voltam, então o Tonho vem na frente... eles
atrás, ela cansada pensando nas mil tarefas de depois e as crianças
conversando, e brigando é claro, brincando as suas coisas atiram pedras chocalham
árvores contam suas coisinhas, o mais velho já quer imitar o Tonho contando
vantagem e, pior, aprendendo a pitar e ela não pode com a prole; e daí chegam.
O Tonho já sentado no banco que é uma tábua tosca por cima de dois paus baixos
fincados na frente da casa e sorri grandezas aos seus, os meninos volteiam o
pai perguntam extraem sabedoria daquele poço de conhecimento, a Maria abana a
cabeça temendo desconfiar e já ralha com as garotas a apertar o passo o serviço
espera; a menos velha carrega o chorãozinho meio desengonçadamente nos quadris
e ele escorrega sempre, dá então soquinhos pra cima a jogar seu fardo manhoso e
este lhe urina nas vestes em pagamento e elinhona já corre antes de se limpar a
fazer outra mamadeira o nenê chora grita berra a cama e a Maria sorri fazendo
uma caretinha pra ele e o larga: o serviço mais pesado a chama; tem um montão
de roupas, ah as meninas, deixam mal limpas; às vezes precisa ferver e teme os
desastres que é um desastre criança pegar tanto peso e água fervente sobra tudo
para ela descansar da canseira da enxada; e tem a casa numa arrumação
desarrumada, ajeita varre, molha quase sempre o piso o chão é de terra batida e
ainda o mudinho inventou agora em fazer poço para brincar com água dentro de
casa... ralhar! pois se também parece surdo mas mostra a cinta do Tonho a qual
fica em sobreaviso no prego atrás da porta mas ele não entende a ameaça e até
sorri a mostrar seu talento e aí o coração materno se desarma e ela chora
sorrindo ao garoto. É necessário esborrifar água no solo sempre para varrer e
ainda assim alevanta uma poeirazinha o nenê então tosse espirra sem parar e ela
já pensando haver relação. O pior mesmo é o destempero, “chorão e cagão” o
Tonho tem cada uma. Ajeita o lar olha o fogão, implica intima incrimina as fêmeas
da casa, com essa idade ela, a Maria, Rosarinho ao pai, já fazia comida a todos
em casa até aos peões da família e elinhas numa malandragem sem tamanho; um dia
perdeu a paciência: bateu nelas, aproveitou a corrigir o capetinha do Zé, o Zé
fugiu que nem gato escaldado e foi devidamente xingado. Aí fica um ambiente
constrangedor depois, cada um olha o outro tentando encontrar as causas,
chora-se alto no começo na hora da violência mais contundente daí vem o choro
baixinho manso e se vai sumindo com as lágrimas que se evaporam e ficam no lugar
os soluços; a Maria olha sua obra e obra o sofrer, compungida, como fora ela
quem tenha levado a surra; enfim a violência miúda. Enquanto isso ele se
diverte com suas coisas e ela no cepo a controlar a casa... Mas se cansa se
acaba, é certa moça de uns quarenta tem cinquenta mais de cinquenta na
aparência, ainda as comadres falam em suas costas nos sessenta mas ninguém pode
com a língua alheia, ela suspira. A Maria, a mulher é o homem da casa, seu homem
é um menino, ela assim acha. Agora ele caça passarinho, pode?
5° - Pode. Pode sim, agora por
exemplo ele está numa distração séria, pois não é homem de brincadeira. Olha o
Maquininha a correr a chutar a driblar a marcar gol quanto quiser em meio aos
pernetas, atira feito metralha mas nunca o Tonho viu uma arma tão pesada,
atinge a trave vai fora o frangueiro pega alguma bola mas poucas entram entram
outras mais e a Fazenda Ipê ganha quase todas partidas, tem o juiz que não
deixa ganhar todas, ele xinga o juiz antes a mãe do atrevido, é o Dito do Seu
Zé, aquele colono de cabeça branca o Seu Zé,
o Dito já vive roubando na conta da fazenda, o feitor que diz mas
ninguém crendo nele, o Tonho também já pagou menos no mais que ele tinha a
receber, desconta isto desconta aquilo, não perdoou nem a gente aquele dia na
noite da doença com pontadas e o pequenininho também esgoelando por dor ninguém
leva em conta a conta a conta fica alta o feitor é um ladrão e o Dito também e
xinga de novo porque agora deu falta e todos viram na beira do campo que foram
os vermelhos a embolar por cima machucando o Maquininha que é liso como o
diabo, puxaram sua camiseta azul e todo uniforme da Fazenda é bonito de se ver
um azul de céu muito escuro e os calções são brancos, ainda tem os barbantes de
prender o calção na cintura igualmente brancos mas um pouco encardidos, Dona
Zefa faz azedo e azeda decerto a roupa no lavar na bica do córgo a roupa quando
é sua vez de lavar a roupa do time porque o Tonho, não ele o outro Tonho, o Tonho
da Dona Zefa é crescidinho e já tem lugar garantido como perneta da Fazenda e
aí corre atrás da bola no campo e como não casou ainda com a Francisca sobra
para Dona Zefa lavar e azeda como azeda o pão e deixa os calções de todos
encardidos mas as camisas azuis não apenas manchadas porque a boba a Maria que
fala abobalhada a Zefa põe roupas de cor juntas e às vezes até descolorindo e
mancha as brancas da casa dela; e depois põe tudo a secar usando um pouco nesse
dia o varal da Maria não cabendo tudo no seu arame e as camisetas ficam
embalançando bonito e gozado no altão soprado pelo vento e então o Peri ladra
aquilo de assustar ou é só por brincadeira ou porque o Zezinho atiça ele,
aquilo não é gente, e o Tonho pensa agora quando vê os jogadores pensa também
um dia dar uma coça no rapazinho, se a Maria deixar. Mas neste instante foi
impedimento! mesmo assim o puto validou o ponto aos adversários, tem uns
visitantes atrás do nosso goleiro gritando e pulando dá vontade ir lá bater
neles e nós estamos em maioria e perdendo a partida e isso é coisa séria. Tão
séria que a Maria e as outras marias dos outros tonhos aceitam seus homens ali
na beirada do campinho vendo aqueles bestas com calças de menino e de chuteira
– têm uns descalços mesmo e quem esteja calçado com travas faz um estrago
medonho nos com pés no chão sangrando discutem brigam depois e depois mais se a
Fazenda Ipê perder o jogo; elas que falam assim mas assim não é porque mulher
não entende de futebol e agora mesmo temos na assistência de pé e uns escorrachados
no chão na beirada do campo tem mulher apesar de tudo e ficam todos ao ar livre
expostos como os jogadores, dizem que na vila até cobertura no campo “pra mode”
não pegar sol e chuva no pessoal porque com os jogadores não tem jeito se
enlameiam no barro se molham jogando e aí com chão liso ficando mais difícil ao
goleiro a bola espirrando das mãos, os adversários falam frangueiro e insultam
também os outros da linha e mais a mãe do juiz e aqui é o Dito, aquele bestinha
filho do Seu Zé que é benzedor, o que nada adianta, nem reza brava adianta
porque decerto o ‘fia-da-pê’ torce pros vermelhos e a Fazenda já perde de três;
grita novamente, e isso é sério, o Tonho está nervoso indignado até que acalma
um pouco: leva uma bolada dum pé-torto do campo e deve ser o Tita que não joga
nada só acerta a canela dos outros deveriam tirar ele da equipe chutou-lhe a
bola e barro chutou baba no Tonho fora de campo pacificamente xingando a mãe do
juiz na beirada a torcer já um pouco em sangue quente e esfria a examinar a
mancha na roupa e imediato pensa na reclamação da Maria depois de chegar sujo
que nem o Zezinho e pensa um dia dar uma tunda nele mas agora todos gritam e
ele feito besta olhando a roupa de carimbado pelo pé-torto e não vê o gol de empate!
Empate? qual, perdem por três a um, pior, aquele ladrão pôs o Maquininha fora,
expulso por por... ah deve ser por jogar melhor que todo mundo e ele sai suado
sujo o azul parece preto de escuro suor sujeira e raiva, a cabeça baixa e que
dirá ao patrão dele! não tem patrão, a família é sitiante nas imediações e não
trabalha como o Tonho de escravo ao feitor que não presta, coitada da Dona
Chica deve ser Chica, que dizem é uma santa, e aí termina. Mas no segundo
tempo, embora sem a maior arma da Fazenda e ainda com dez, não se poderá reverter
a contagem! Decerto trocam o João por outro goleiro ou não poderá o goleiro
deles se machucar? E conversam, o sol pálido vence o chuvisco e os torcedores
se falam, tem uns namorando porque mulher só vem ao campo pra fugir da família
e arranjar família, os moços estão animados e elas gostam em ver os jogadores,
tem mesmo uma torcendo por um vermelho e o povo não gosta, mas eles não,
adultos, pois os pequenos correm e brigam entre si, os adultos se falam falam
da roça, que é um campo maior e perdurável para o seu ganha-pão da semana.
Contam da colheita do preço e mais das dívidas, quase todos devem à fazenda
quase todos trabalhando por dia seja no café ou noutra plantação e têm os que
cuidam do gado e tem pouca vaca, todo mundo recebe minguado pelo trabalho muito
na sua pobreza mas têm grandeza a contar e se falam brincam até se mexem se
cutucam em boa amizade despregam as línguas, todos têm o feitor a quem bater
por perto longe o patrão que quase ninguém já viu e o feitor é o mandão desmandão
a azucrinar-lhes o ser, a pilhar faltas e possui a caderneta de notas com os deficits que se supõe inventados, porque o homem é ruim como o Diabo
e dizem que a esposa é uma Santa. Falam do eito falam dos trabalhadores que são
eles mesmos. Falam um pouco da saúde, assunto este que mais agrada suas mulheres
mas elas estão em casa ou na vizinhança tramelando porque hoje é domingo dia
santo da diversão e todos entendem disso até a Maria, a qual não reclama mais
do menos só não suportará a sujeira com marca esverdeada na camisa nova dele e
não adiantará culpar o pé-torto e ainda por cima por baixo no placar o jogo
recomeça com números negativos, agora é o sol que ofende a torcida, o goleiro
da outra fazenda põe as mãos em aparo feito aba de chapéu na testa a enxergar
entre os reflexos a Fazenda Ipê cobrar a falta e assim melhora essa piora a
bola entra no canto, o ladrãozinho é obrigado a validar o gol, os moleques
correm felizes em gritaria procurar a bola na capoeira lá diante, dizem que na
vila tem rede nas traves e aí a pelota fica retida nela, no campo esburacado
com meia dúzia de tufos de mato em grama alta que dificulta correr e correr a
bola não é assim: a bola passou passou pelo frangueiro sumiu no mundo e as
crianças não a encontram e só depois acham o jogo para recomeça com três a
dois, dois a três porque em nosso campo e até o árbitro é nossa gente roubando
de nossa turma, o Ipê vai até ao fim no fim perde e ganha o Tonho uma chateação
sem tamanho. Os homens saem reclamando, a torcida xinga ainda, o nosso ‘deles’
juiz sai mais ou menos correndo pra sua casa e não terá decerto uma semana
tranquila; os torcedores se dispersam enfim, enfim o Tonho vai enfrentar a
Maria, chega pra Maria a Maria ainda fora na vizinha e dá graças a Deus, tira aquela
sujeira, joga no canto de roupa suja, sai, volta, remexe a roupa usada retira
sua camisa do meio, põe-na por baixo da roupa suja dos garotos e... e não
adiantará nadinha: a Maria vai descobrir a falta e a falta se sobrecarrega com
a umidade porque por baixo e mancha a suja roupa dos pequenos e cria até mofo e
assim o estrilo da mulher será maior, semana inteira maior a pegar no pé do marido.
A troco de quê, indaga à Dona Zefa que lhe traz um azedo e que não cresceu
pesando um chumbo e se adesculpa; uns bestas de calção de moleque correndo
atrás de bola; e se não se cuidarem, a canela esfolada! Mas a troco disso?
pergunta a Maria, Zefa responde com a cabeça (tem uma experiência em “sim,
senhora” que faz gosto na vizinhança) e se compreendem as mulheres, não se
entendendo mesmo é na estória do pão azedo.
6° - Azedou, azedou o caldo, como se
diz, azedou para o Tonho. É terça-feira, primeiro dia da semana... não, sim,
não é o primeiro o primeiro preguiça a segunda o caboclo na roça não quer roça
por costume, então surrupia-se no sábado foge à venda foge à vila foge à cidade,
o cavalo que pode ser uma égua cansada ou pisada como se fala do animal que
anda nos estertores, ele ela já sabe de cor o caminho e quem sabe o dia; e na
segunda em não ter feira feriando que o costume reza, reze não reze no domingo,
a segunda é sagrada, arranja um pretexto um jeito qualquer a se escapulir – o
proprietário da fazenda reclama o feitor estrila todos chiam mas escapole, o
Tonho é roceiro. Na terça ela “tá uma arara” de braba, vai na frente resmunga
grita os meninos por qualquer coisinha e continua na capinação adoidada, puxa a
enxada puxa o mato limpa mas não se desenraivece; o Peri, até o Peri,
compreende que algo anda no ar, se amoita parecendo um biscoito enrolado as
patas dianteiras meio soltas pra frente um olho dormindo cochilando que a
natureza cobra outro bem arregalado olhando a patroa que não sabe bem se não
mãe ou só mãe do irmãozinho divertido Zé ou dele também em todo caso pode que
seja apenas madrasta mas fica em alerta, vê os outros a trabalhar na enxada
sente o cheiro do mato cortado o cheiro da terra ora empoeirando a expulsar
grilos ora ela mansa úmida pisada pelos botinões do Tonho ou as alpargatas das
crianças e da Maria e ela fala “as precatinhas dos minino” ela quem mais o Peri
teme, devendo ser o Tonho o temeroso, o Tonho está sim igualmente apreensivo em
alerta máximo, não sabe bem donde sairá a cobra, olha de viés a esposa braba,
deixa a enxada... pior deixando a ferramenta com a ponta pra cima e ela corre a
desfazer o malfeito do homem vai que uma das crianças caia em cima o que é
ótimo pensar pessimista e não encontra amparo benéfico na estatística que nunca
ouviu falar que exista e não deve mesmo existir por ser mentira ao menos
mentira em seus dados aleatórios e é claro não pensando nisto pensa Tonho. Num
átimo grita “cachorro, ca-chor-ro!” o Peri não se sabe cachorro apenas se
espanta com o grito o Zezinho é quem pergunta à mamãe o que fez o Peri e ela:
seu pai, seu burro... e destramela o destramelar por cima do homem nesse
momento ausente dentro do enriquecer sua coleção de fuguinhas e é quem devera
ouvir. Seu pai, o sem-vergonha foi jogar bola outra vez e tinha prometido nunca
mais... e pior disso é que sobrou pra mim, tudo sobra nas minhas costas. Aí a
meninada descansa descansando a enxada todos olhando a Maria, somente o nenê
num berço improvisado nuns panos ao chão onde tem os trecos de ‘mãe de primeira
viagem’ (ela já muito viajada pra danar) como mamadeira fraldas colherinhas
etc. e tal elinho não olha como os outros, dorme; os meninos ‘curioseiam’ e se
abrem a ouvi-la e ela ‘berlindeia’ a debutar suas razões. O pior, berra a Maria
pensando falar baixo querendo falar mais alto a alcançar a oposição a oposição
quem precisava ser audi-tório, o pior, olha a meninada, repete – o pior é que
seu pai me sujou a camisa nova de domingo jogando bola e escondeu, escondeu
viram!? escondeu a roupa por baixo da roupa suja e ainda molhada! Fui pegar
ontem para lavar e ela manchou as coisas de vocês, começou a embolorar a calça
do Dinho (Dinho pra não falar ‘mudinho’ ela sempre temerosa da boca a impedir
os irmãos porem apelido no pobre; não suportando a raiva a Maria apela ao
apelido naquele ingrato desabafo) – a calça nova dele, aí chora, ela chora,
olha pros lados onde deveria estar o desafeto, o Tonho vem vindo todo sorridente,
olha ele sua turma, fecha a boca, toma sua enxada e trabalha como não supondo
que fosse bronca para seu lado. A Maria? não perdoa, se aproveita da coragem e
do pretexto da parada, toda família olhando ao pai até o pequeno acordado olha
sem saber pois dormia enquanto a acusação apresentava as testemunhas do crime e
se acordadinho não entenderia mesmo os disparates dos pais, até ele. Ela:
Tonho, por que você fez isso! O inocente larga sem muita pena a enxada e olha
abismado a perguntar com a expressão que é que fiz essas coisas assim assado e
a mulher despeja: não prometeu nunca mais jogar bola só assistir?! Aí começou
continuando um bate-boca muito animado assustando as crianças, a sorte ajudando
um pouco com a bebê chorando e o Peri corajosamente latindo e xingado. Jogou-não-joguei...
O Tonho mancava um pouco, em reflexo dum jogo em que lhe quebraram a perna
esquerda nos princípios após a lua de mel que não tiveram, ficou de cama sarou,
prometeu nunca mais e cumpriu a jura; mas e a roupa com marca de bola, escondida
por debaixo da roupa suja dos meninos, não seria uma prova cabal do crime!
Explicou reexplicou convenceu quase virou mártir santo e teria graça ‘São
Tonho’ se já tem Santantônio na Igreja? Ela, a Maria, ela aceita não aceitando
como quem guarda um recursinho para alimentar seu lado numa briga posterior,
toma sua ferramenta e se vai – já estava mesmo longe na rua de café considerando
o trabalho interrompido do Tonho – vai capinando com raiva a descontar na praga
de mato as mazelas conjugais, resmungando. Resmunga resto do dia, o Tonho ganhando
a parada perdendo-a pelo silêncio da mulher, o silêncio que é o que fala mais
alto contra nós pobres seres humanos quando em falta e não sabemos pedir desculpa.
E isso poderia até o administrador entender e aplaudir, pois nessa terça o
Tonho produz por terça e pela segunda-feira em que não aparecera no cafezal;
sua enxada parecendo um trator de esteira que ele nunca teria oportunidade ver.
7° - Ele, a Maria é quem pensa que o
Tonho deseja fugir da roça a deixar a sua turma sozinha trabalhando a mãe na
frente dos filhos ralhando os filhos exigindo pegando no pé dos meninos a
produzir produzir para o marido levar a fama junto ao feitor, que não é flor
que se cheire e olha sempre com o gatilho da sem-vergonhice disparado pros lado
dela e homem é mesmo uma raça não confiável embora seu homem também trabalhe um
pouco no eito e na hora de levantar um saco de café ou de feijão parecendo um
touro de forte ela quem pensa, ele não pensa: aje assim por costume. E os
outros machos macheiam dessa forma e existe mesmo os que castigam seus
fracassos nas suas mulheres, tinha certa Dona Tiana até meio descadeirada por
apanhar, mas ele nunca bateu na Maria. Homem (diz o Tonho ao Zé do Eitão)
homem, é até capaz da Maria me bater, e riem gostoso o Tonho num rir mais escachado
que o amigo, porque o Zé não tem mulher e não sabe com quantos paus se faz a
canoa. Ela diz à Zefa, antes de dizer “num precisava...” agradecendo o pão
azedo que lhe traz a colona vizinha: ele nunca me bateu; a Zefa também garante
ser uma premiada pela sorte mas só falando da boca pra fora pois fora a época
de ganhar nenê ou ‘aumentando família’ como dizem na roça, quando o Chico não
está bêbado porque estando na convalescência no parto não importa, apanha toda
semana e a Zefa mente como mente no azedamento do pão. A Maria não: fala o que
vem na boca e aí não mente, o Tonho é sujeito pacífico. Assim mesmo lhe pega no
pé, ele vive a fazer suas atrapalhadas; pega também no pezinho dos pequenos. Zezinho,
vem cá. Eu soube que você anda olhando a filha da Comadre Assunta fazendo
xixi... Ele nega, nega a pés juntos sem grande convicção. O Tonho rabeia de
olhos o capeta, lembra ter feito o mesmo em criança se acusa haver espiado
outro dia a gente chegando em mudança na colônia pra ver se a mulher era bonita
mas não diria tal asneira à Maria, vê o filho, faz cara de quem condena ato tão
baixo como olhar por baixo as meninas; em verdade gargalha a ladinagem do
Zezinho, abana negativamente a cabeça para dar força à repreensão da esposa e
sai ao terreiro ver suas coisas ou pra não se complicar. A Maria reza um sermão
ao garoto, promete, e não é boa a promessa, e por fim solta o condenado às brincadeiras.
É seu décimo? um dos muitos dos poucos sobreviventes na luta entre a pobreza a
ignorância a possibilidade a sorte, não tem sorte diz e já chora a sorte,
chorou muito antes nos obitozinhos; relembra os trabalhos de parto as mulheres
em solidariedade a vizinhança a socorrer, lembra a figura do marido sempre
medroso nessas ocasiões; se a vida desse oportunidade gerar filhos aos machos
era pouca a vida... a julgar pelo exemplar em casa, cobrante nas horas
indevidas, ausente nas horas devidas, a julgar por isso o mundo estava perdido,
não fossem as mulheres. Enfileira os momentos iniciais de vida, quase sempre
tutelados de morte na espreita. Não obstante ali estão as suas vitórias os seus
prêmios, com ajudazinha esporádica do Tonho sim mas suas seus e aí sorri sim para
os lados dalguns desses exemplares, estes não entendendo bem o interior daquela
fervência mas sorrindo em resposta porque o sorrir é alegria da paz e paz é o
que mais almejando sem pensar elinhos também nestes termos. Vê a Maria, não
fala mas vê a Maria da Conceição em homenagem à Santa, sua menina mais velha
embora chore em pensamento os mais velhos perdidos e já deveriam estar moços e
fortes que é esse o desejo materno que a natureza e as oportunidades desfazem
na verdade; a garota mirrada mas ativa e trabalhadeira fala qualquer coisinha para
despistar a atenção da mãe, constrangendo-se; a Maria não diz, deseja em sua
ternura apenas que o futuro sorria à menina. Vê mais pra lá a mãezinha do seu
caçula a cuidar a trocar panos alimentá-lo com responsabilidade e amor, vê a
Zefa, fala um qualquer a se dizer presente, lembra uma gracinha do filho de
ambas, mais da filha que dela mesma, reconhece tanta dedicação, chora por
dentro o sacrifício e o desvelo da garota mas não sabe trocar isso tudo em
termos de linguagem, porque a linguagem humana é pobre e mais pobre no pobre e
o sentimento, rico, na elevação moral, não pode não deve não é passível de
demonstração ao esquema seco do costume na classe roceira... Vê o mudo. Este
sorri sorri sempre quando não aos outros a si, sorri olhando mamãe, mostra um
qualquer da sabedoria de sua curta experiência e limitada capacidade expressiva,
ela lhe retribui passando-lhe as abençoadas mãos num carinho também mudo grosseiro
e de enorme profundidade trazida do seu íntimo pobre em recursos vocálicos e
ricos em amor. Vê
– mas vê de longe mais no seu pensar porque impossível retê-los um pouco dentro
de casa, vê os moleques. O Zé já se mandou, fugindo após a admoestação materna,
ou fugindo dela mesmo, perdido quem sabe com os outros meninos, fazendo artes
decerto; vê o Tonho que eles chamam Niquinho e era Antoniquinho quando pequeno
pequeno agora grande, é o mais velho dos homens, dos três que sobraram em
descuido da morte e aí chora outra vez por dentro tanta perda e a lembrança dum
que outro marcante parto: dor morte caixãozinho de anjo a sair pelas mãos doutras
crianças da fazenda; aí volta para a realidade vivente a esconder a realidade
morta, tenta sorrir e as lágrimas escorrem o que lhe obriga enxugar na barra do
vestido a lhe roçar os joelhos, sorri mas somente o mudo atento àquele despertar
de mamãe e igualmente sorri sem entender. O Niquinho estará pescando? trabalhou
tanto o moleque hoje, dando exemplo ao pai; não, o Tonho foi leão na enxada,
que será que deu nele! mas o Tonho-pai também não se encontra naquela conversa
íntima e interior da Maria, ali apenas o cheiro do feijão temperado a
carne-seca que o mudinho come com prazer e se lambuza um pouco, apenas o cansaço
dela a roupa pra lavar (e aí relembra a roupa a bola o mofo a briga com o
esposo abana cabeça a afugentar aqueles negativos) ali presentes as galinhas já
tentando entrar famintas e quem teria se esquecido de fechar a porta! pobre
delas; então cobra a Conceição se jogou milho às criações, vai ela antes de
ouvir a resposta pegar uma bacia pequena em pôr milho do saco lá no paiol.
8° - Vez que outra nos encontramos
desde o milho no saco e mil e uma questiúnculas outras que são as questões da
vida, não pensamos nisso, nisso não pensava o casal Maria a tratar da galinha e
o Tonho ao deus-dará, antes depois pondo correto no ao invés para ser padrão:
Tonho primeiro e Maria segundo que não é a cabeça do casal só manda no cabeça
tanto falar pôr minhoca na cabeça do homenzarrão, pequeno miúdo embora ela o
admirasse em seus músculos a levantar os baitas sacos de qualquer com os quais
ela gemeria, não obstante decidida, gemendo desajeitos movê-los e aí, quem não
aproveita o trabalho da molecada é louco, aí chamando um ou mais dos filhos a
ajudar, até o mudinho a gemer suficientemente auxiliando mamãe e imediato sorrindo
felicidades nas utilidades da vida, essa a vida. Porque, convenhamos, isso
acontece a todo mundo no mundo e se não ocorrer sendo pela não observância do
momento. O ser humano tem lá um dia que para pra não parar. Para olha vê mede
rumina examina revê e vê que vê porque não vê, não observara antes. É o ponto
em que soma suas subtrações multiplica suas somas, deduzindo bastante e se inconformando
sendo pessimista, deduzindo possível bem mais menos se otimista e descobre
estar no limiar do nada que é tudo – o passado e o futuro, gangorrando naquilo
se convencionou chamar presente. O milho da ave o choro do menino o barulho lá
distante pertinho na vizinhança, o zurro do animal no pasto onde agora na seca
Deus me livre ir porque é só encostar em certas folhas já nos sobe nos viaja
nos azucrina depois o agora dos carrapatos e os meninos voltam com seus estilingues
trazendo um que outro passarinho mas perdidos de tanto carrapato e ainda tem daqueles
micuinzinhos deste tamanhinho assim a subir vorazes nas pernas nas vestes as
vestes que aparecem sempre inteiras faltando pedaços, rasgadas, com moleque não
tem jeito ninguém segura a Maria segurando a cabeça a estourar o Zezinho é o
pior onde já se viu arranjar tanta arte! Para olha sente vê que já viu bastante
vê até que pudesse haver feito melhor as coisas da vida, reputa em faltas se
condena, às vezes chora por dentro grita por fora a fugir de si ou porque não
se pode fugir às responsabilidades e tem ainda muito a fazer, iria deixar por
conta dos meninos, se criança só faz coisas erradas... e tem os erros da oposição.
O Tonho vem, vem caindo a noite, nem parece cansado e não é que hoje trabalhou
como leão... pera lá, leão trabalha? Não importa, importa sim que traz não se
sabe donde umas espigas verdes de milho, pra curau? pode-se fazer cozidas e até
assadas na brasa do fogão, vai-se formando um borralho no fundo embaixo cinza
lenha encarvoada e mesmo que seja na labareda assa o grão o grão estoura queima
cheira, ah cheira até bem. Bem, e com ele não se apregunta, os meninos crivam o
pai por causa daquela caçada no milharal dos outros, o butim dessa guerra surda
são as espigas granadas, que ele sabe muito bem escolher e recolher, os meninos
já discutem na disputa o que fazer do tesouro e às vezes brigam mesmo se
desentendem apenas se muda o pretexto e garoto não precisa nem pretexto, um
quer na chapa outro fala em panela ou se assa mesmo misturando com cinza o
sabor, sobra às meninas olhar quando no ponto, eles vão ver a arapuca ou... ou
deixam de fato a elas o controle das espigas que lugar de mulher é na cozinha
mas sobra em última análise à Maria. O Tonho chega deposita aquele peso amarrado
umas às outras pelas palhas e já se encontra na bica se lavando, que é muito
limpo, a oposição não concorda, ‘blufa’ espalhafatoso como sempre a cara morena
na água fria, espirra pra todo canto, suspira no parar e para a pensar. Tem
aves noturnas a iniciar seu trabalho de predação perto dali naquela boca de
noite. Que dia! pesa pensa revê o fazer feito que é sempre refazer, o mundo não
será um refazer constante!? Pesa pesa pesa, a mente lhe atira nos confins da
vida que é o começo da vida, vê-se jovem volta rápido a se comparar e compara
estar mais velho mais fraco e não tem sequer quarenta, ela que fala ser mais de
quarenta para parecer mais jovem que ele, tadinha pariu muito muito trabalho,
sim me pega no pé e eu nem joguei bola coisa nenhuma e outras coisas mas é uma
companheira boa e os filhos saíram lindos, palavra de pai, só o mudinho que
engrola um pouco mas os outros, ah as meninas o homem da farmácia falou que tem
de dar isto dar aquilo, quer é vender suas drogas, trabalham quase como a
Maria, mas não tive culpa, não joguei bola a bola me jogou, fala fala ninguém
consegue fazer a Maria parar, ninguém para o Maquininha o Dito parou ele pôs
ele pra fora do campo e a gente perdeu de três. E quando está a malhar o
juiz-ladrão e fazendo seus planos à próxima partida ouve a Maria a gritar-lhe,
imediato aparece o Zezinho “paiê, a mãe falou se o senhor vai dormir na bica
hoje que a janta...” e se vão para casa o Tonho ainda rumina umas coisinhas da
vida, parado no tempo, que não tem parada: ziguezagueia pelos campos em fora.
9° - Gozado nessa tristeza que
promete ao Zezinho uma surra das boas, quem sabe a descontar as mil artes as
brigas com os manos dele, não obstante é seu companheiro agora na pescaria.
Obra e maquinação da Maria, que se não lhe pode quase nada negar, ela lhe
recomendou o Zé indo com o pai a apartar um pouco dos outros, que a cabeça dela
estava deste tamanho e afinal de contas iria matar o capeta de pau! uma solução
razoável e assim o Tonho tem agora o menino como companheiro, ele se diz um
pescador de mão cheia, autêntico pirangueiro mas caboclo gosta de exagerar,
muito ou pouco mas exagerar. Além do mais o Zezinho é a fuça do pai, segundo a
oposição quando a descontar na oposição. A mesma pele escura ele se afirmando
claro e branco não branquelo como a Maria que tem ainda umas sardas, não, as
sardas são muitas mas as rugas as esconde; o Zé também puxou um pouco os
cabelos do genitor, mas nem pai nem filho aceitam ser pixaim, a Maria sorri.
Preferem ser queimados do sol, o sol que também desembranqueja a brancura da
Maria. A Maria fica nesta tarde livre dos homens, que o mais velho some no
mundo o mudinho não conta, livre deles, o pai e o filho pescando, nem parecem
cansados da labuta no dia e de ontem e certamente o cansaço a vir amanhã,
iludidos na varinha na água no anzol; ela nos afazeres, passa afazeres às
meninas, o pequeno hoje não chora e ela precisa fazer pão pra abastecer a casa.
A farinha o Tonho trouxe da venda que é mais careira que a vila; e tem mais um
menos: tá criando bicho, vai ver que o desleixado trouxe os bichos já grandes
lá na venda, não dá pra saber – é aproveitar o resto da farinha que os bichos
não comeram; põe na peneira de malhas finas mexe remexe, coa ainda num pano
fino mas sobra bicho, vai jogando no terreiro bolotinhas de farinha e bichos
que não passaram e levanta um cheiro horrível, joga às galinhas, elas parece já
avisadas do menu do dia em guarda correm disputar aquela sujeira sendo uma
limpeza. Coa várias vezes sempre sobra algo a jogar. Mede agora na medida de
costume a farinha de trigo. O fermento, ela diz “formento”, é de garrafa, é
preciso renovar sempre ou estraga envelhecido o fermento na garrafa, a ‘muda’
ofertada por Dona Zefa, o dela não sai azedo como o da outra a Zefa deve pôr
mais fermento que se deve. Mistura no leite morno tirado da cabrita põe açúcar
e mexe com a colher de sopa em medida o tal fermento. Espera crescer, subir um
pouco. Depois junta ovos, outro dia um era choco perdeu toda massa bateu na
Zefa a menina trouxe o ovo indez do ninho e estourou na bacia de pão, credo!
põe gordura, às vezes passam uns torresmos que estavam na lata de gordura. Mexe
tudo, vai engrossando com mais farinha de trigo, quando pequena a mãe lhe dizia
que a farinha andava misturada com fubá por causa da falta, era época da II
Guerra tudo se falsificava, a Maria, que era a Rosarinho do pai, não se
lembrava criança só pensando em brincadeira agora não, vem branca a farinha, só
não muito branca por causa dos bichos que o Tonho trouxe e se fosse eu iria
dizer umas boas para o Seu João da Venda, aí remexe interminavelmente a massa que
engrossa gruda meleca os dedos, a Maria soca literalmente o grude e desengruda
pondo mais, espargindo farinha, a farinha sobra na mesona espalha embranqueja
tudo em volta, ela insiste a socar, enrola pra cá desenrola soca de novo, Dona
Zefa tem um cilindro de pão de pau ela passa pra lá repassa pra cá afinando a
massa e ainda sai azedo, mas tem graça a gente ficar tomando emprestado o
cilindro dos outros! não, sim soca mais e mais a massa e a massa toma uma
consistência adequada medida pelo olhômetro da sensibilidade da Maria, ela
para. Senta-se um pouco, não é de ferro, aguarda a massa chegar no ponto pôs
uma bolotinha numa caneca com água, espera subir a pelota a supor estar no
ponto a massa toda; enquanto espera olha o serviço das meninas, grita com elas,
a fumaça sobe na cozinha arde os olhos da casa, cheira lenha queimada. A massa no
ponto. Reamassa soca, soca como lhe soca a vida e vence a vida de fazer pão;
corta com a facona em nacos, toma cada um, dá forma enrola na maneira que lhe
convém que é sua forma de fazer pão, os meninos já por ali a pedir cada qual
sua ‘pombinha’ minipães pra de brincadeira comerem depois de verdade, pois a verdade
também é de brincadeira no mundo do faz de conta. Conta as peças põe-nas em
bacia grande, cobre a bacia com o cobertor do casal a manter a temperatura, às
vezes precisando até do cobertorzinho mijado que o nenê molhou, comum em dias
frios. Os pães crescem estufam embelezam, as crianças querem ver como estão
xeretam levantando o cobertor e levam tapas nas mãos e xingos da mãe que não
lhes admite xingar. Enquanto isso já pôs o forno aquecer, lenha diretamente no
corpo do forno, o forno ao gosto caipira tem uns tijolos se soltando não
segurando a quentura mas a Maria nem fala mais ao Tonho para arranjar; aí
retira a lenha que virou carvão, varre o chão de dentro do forno com vassoura improvisada
de guanxuma, traz os pães, coloca os pães enrolados em folhas de bananeira para
não ficarem direto em contato com o chão do forno, enforna usando uns paus empurrando
pra não se queimar, tampa a tampa com um calço de madeira como um cabo de
enxada, força a lata da tampa a ficar bem presa, olha se não saindo calor e
mormaço nas frestas possíveis, examina outros vazamentos e sempre tem aqueles
tijolos soltos o Tonho um relaxo só e ainda precisa tocar as galinhas curiosas
para ver a Maria, sim pois hoje não tem o
Peri atrapalhando no meio do caminho, o forno trabalha em silêncio assa os pães
e se o Peri estivesse ela mesma atiçaria o vira-lata nas galinhas, as quais
pensam que tudo vira milho neste mundo, até o galo espicha o pescoço interessado
mas não está o cachorro, deve estar pescando com os homens. O Zé diz sentir a
falta do cachorro, o Tonho se dá um tapa e sangra o braço com pernilongo amassado,
a vara arcou, ele puxa e o filho aguarda o tamanho do peixe, imaginando que ali
esteja um mestre, o Tonho desenrosca um lambarizinho do anzol, põe outra isca e
fica na espera também dum pacu ou dourado que se fala nas estórias de
pescadores, sempre ricas em verdades, o corregozinho ali não é mais que filete
d’água e só produz ladrõezinhos de minhoca; agora o moleque tem mais sorte,
fisga um tubarão uma baleia, que é um tambiú pouco maior que o peixe do Tonho,
se alegram se alegra o garoto mas diz sentir falta do cão, amigos inseparáveis.
“Cadê o Peri?” o moleque responde estar alongado por aí, tentando (mas apenas
tentando) perpetuar a espécie atraído por esses cios que as lonjuras exalam.
Perde para os mais capazes, um dia ou outro volta sujo dentado sangrando manco
da luta, que guerra é guerra. Como agora a guerra do homem contra o peixe, os
dois pescadores levam gatos pingados prateando no embornal onde concorrem algumas
formigas, chegam a receberem a gozação em casa, a Maria já a mostrar seus pães
rechonchudos, nada azedos como os da Zefa, bonitões, a fazer fusquinha aos lambaris
poucos e magros da sacola de pano. No entanto o Zezinho anda feliz, não só
porque se riscou pouco nos ‘arranha gatos’ nos trilhos do córgo como por receber
da mãe a pombinha que é maior que as dos manos.
10° - A pombinha voou. O nhambu, a codorna.
A caça é a pesca do Tonho, porque a Fazenda Ipê não joga hoje, não arrumaram um
adversário a altura da equipe ou é que a mulher da vez não teve tempo pra lavar
as camisas, decerto a outros peris rirem ladrando tanta bandeira azul e a Maria
ainda se lembra da bolada e mais da roupa estragada daquele dia e aí tendo lá
sua razão e assim não iria ver ele no campo o Dito passar a mão roubando
escandalosamente, o Tonho nem fala mais com ele e é um negócio chato quando capinando
sua turma perto da do Dito mas não é por causa disso: não tem jogo neste domingo,
enfrentaria a mulher, pois é homem pra valer se diz, iria, está a caçar
pombinha pombas-rolas juritis, a porcaria do Peri ladra por qualquer susto
espanta os pássaros e isso é lá caçada que se apresente! O Zé é seu rabicho
como sempre, na pesca e pesca mais que o pai, mostra conta vantagem à mãe ela
olha gozado querendo rir-se do Tonho, intriga da oposição por tabela, aponta,
treme um pouco, e não é de medo, olha ajeita torna a apontar a espingarda,
andou um dia todo com a cartucheira emprestada doutro colono da fazenda e não
teve grande resultado, agora aponta a espingarda, deu um trabalhão municiar de
chumbinho e pólvora socar com a vareta, aponta aponta, ela voa e era das
grandes; grita o Peri, o Peri late antes do tiro depois sai correndo pegar a
presa que se retorce pula e vem com sangue e penas trazendo o prêmio ao Tonho
mas agora voou, decepciona o cachorro; grita o Zé, armado até os dentes com seu
estilingue, o estilingue estica sua borracha de câmara de ar velha e envia
nervoso a pedra aos confins para ‘brabar’ o Peri e o Peri corre volta com a pomba
nos dentes e olha a tirar uma casquinha no pai com a vitória do filho, que é
seu irmãozinho de sangue ele pensa que é de sangue e só tem medo dos chinelos
da Maria como o Zé, o Tonho olha desconsolado a presa do filhote, dá umas
baforadas de raiva e tira da boca daquele teimoso as penas revestindo umas
carnes grudadas num esqueleto que antes voava agora morto, o Peri entrega o
ouro ao bandido e leva quase um chute do bandido que está exasperado e culpa a
espingarda culpa a sorte culpa o dia que se vai indo embora, o sol faz tchau de
mansinho e aponta aponta aponta, só uma vez acerta e põe a culpa na noite que
rouba a tarde, é tarde filho, fala mesmo “fío”, amanhã cedinho tem a enxada a
esperar e sua mãe vai fazer você tomar banho de canequinha na baciona; assim
alicia o capeta para sua causa: abandonar os pássaros ao piolhinho-de-galinha
que eles já têm de sobra em casa, ao piolho e à escuridão, seguem tateando,
porque caipira vê tão bem tanto de noite quanto de dia deste dia, aquele que
pretende logo ser amanhã.
11° - Amanhã dia da compra na venda,
a venda da compra, a Maria prepara e até discute com seu homem não no jeito a
discutir de discutir todos dias discute amigavelmente agora mansa e mesmo experimenta
‘ternurar’ alguma coisinha a ser difícil concordar com o Tonho – ela prepara a
lista para as compras, melhor se fosse com uma carroça a fazenda não dá carroça
vai a cavalo na mula emprestada fazer as compras mas não é nesse dia, no dia do
terço. A Maria está sentada na cadeira no quarto, teve capricho de não escolher
aquela desmunhecando o Tonho não arruma e arruma discussão, escolhe outra, põe
o espelho que ela sempre pronuncia “espêio” de pé na janela ringideira nos
ventos da tarde, fica ele comportado nos seus centímetros com o vidro embaciado
mas com apenas um trincado pequeno onde se vê bonita e pensa feia gorda no seu
esqueletismo de trabalhar desesperadamente. Olha, muda de posição não podendo
mudar de rosto, examina aquela cara tão atraente ao Tonho quando namorado vergonhoso
na sala do pai o pai que a chamava Rosarinho, toma seus apetrechos, o pó de
arroz um tubinho de batom, se perfuma antes disso com água de cheiro mas não
pretende se fazer fotografar quer ir mesmo ao terço rezar e foi difícil
convencer o marido a acompanhá-la pelas estradas escuras apesar da cheia; ele em
volta enxeridando olha sua fêmea na tarefa da vaidade, a Maria toma uma latinha
assim destamanho, esfrega nela um algodão ou pano avermelha a mecha e esfrega
nas bochechas olha se vê esfrega outra vez outra vez ele olha, ela vira o rosto
contra o espelhinho com bordas de pau pros lados do Tonho, ele sorri, um
risinho que pode ser dos mais velhacos do repertório do mundo que o mundo possa
ter, cheio de subentendidos que se subentendem nos sorrisos, os olhos são mordazes
mais cheios de dentes que a boca a boca entretanto se conserva muda de tão
faladeira, a Maria pretende escorraçá-lo esbarra no pote do rouge avermelha o
braço, o rouge com que o mudinho outro dia foi pego pintando o espelho e a roupa,
ela para, antes disso, quer dizer xingar até à quarta geração do esposo, antes
olha-se ao espelho de novo e aí decide: bobo. Não encontra maior ofensa vez que
outra a despensa está meio vazia querendo como deseja atirar todos impropérios,
balança a cabeça apenas, retoma os enfeites, repuxa aqui risca ali, se
embonitando e aí já é demais, o auditório aumentou tem mudo tem capeta a
pequena das grandes com o nenê encavalado nas ancas e assim já é mesmo demais
com tanto Tonho já houvesse e ela grita. A Maria não xinga, não diz “rua” na
roça só existe a rua de café a capinar, grita ameaça atirar coisas sólidas nos
moles e curiosos que saem a correr, o Tonho puxa a fila a Maria acaba seu
acabamento e ainda lhe sobra um quefazerzinho antes de saírem, mas não é nesse
dia, no dia da compra. A mula vem gemendo devagar ao peso das coisas, até o
cavaleiro e devera ser ‘muleiro’ vem a pé desapeado puxando pelas rédeas sua
montaria, em cima dela sacos de badulaques pesados, mais pesados os sacos com
açúcar feijão arroz mui mais pesados nos bolsos do Tonho, quase vazios de
cruzeiros em notas miúdas que são as mais fedidas, maior ainda o peso da dívida
que deixou a alegrar de um lado o João e a preocupar de outro lado a mulher do
vendeiro a sibilar ao homem “será que o homenzinho pagará!” o areião se afunda
na quentura do sol o casco da mula, que vem paciente e obediente e mula é bicho
teimoso, num sacrifício que os muares fazem milênios a agradar ou não
desagradar a espécie humana; funga, sai-lhe de dentrão um chiado cantante do espremor
dos músculos apertados das compras e do arreamento, sangra no focinho mas o
animal não sabe, sente, olha na direção frontal onde o outro animal e nem de
leve supõe chamar-se Tonho onde ele está. E ela, a mula emprestada, ficou isso
sim horas a esperar o homem, homem de folga na enxada, folga por sua conta e
dissera ao fiscal na sexta-feira que na segunda não trabalharia, indo às
compras. Espera amarrada numa árvore em frente da venda, a venda de fazer
compra, aguarda conversando pouco com outras alimárias, quem sabe mais
irritados com os mosquitos que infernizam infernizam; e o homem nunca vem. Está
de cotovelos no balcão gasto do vendeiro, toma umas e outras paga para ouvirem
suas bravatas a enganar outrem com suas propriedades gados coisas assim. O João
Leiteiro e a gente não sabe por que leiteiro se vendeiro já separou as ordens
da Maria, o Tonho da Maria ainda conversa cada vez mais molemente; até que
dorme tomba se encosta, com ajuda do auditório, acorda, despede-se do vendeiro
com a mulher preocupada pelo freguês, se firma e vai à mula. Ajeita arruma
prende aperta olha, vê que só vê uma fêmea estéril de muar e vê estar bem,
inicia a caminhada de volta aos seios de Maria, o sol lhes dando um banho, a
mula sua muito mais que o Tonho. E aí chegam. A Maria vai olhar o que falta
para reclamar com base, os filhos pra ver que tem de bom, bom mesmo são os
doces paçoquinha doce doce de bala. Ela esparrama aqueles curiosos (o pai está
no momento tentando tirar as botinas dos pés inchados, uma já exala mais livre
o chulé) esparrama põe-nos a transportar as coisas para o quartinho de despensa
a pendurar os trecos que o Peri apenas costuma cheirar de longe lá encimão e
agora focinha de perto deixando babas da fuça nos sacos e a Maria não gosta
nada nada, o mais velho, o Tonho que é o Niquinho, já limpa a mula a devolver
para o dono.
12° - Agora a Maria não está de muita
conversa, compugida, preocupada com certeza, o Tonho anda ao lado e é duro acompanhar
o homem que anda tão depressa quando vê vê o sujeito na sua frente; e também
não se encontra pintada nem maquiada a caráter ao menos cheirando água de cheiro,
sequer se falam quando falam não falam da venda, o Tonho pensando na dívida na
venda achando abusos mais, menos recebe o feitor afanando as coisas e menos
recebe de compras também mais ainda no pindura o João é qual o Dito da sua
fazenda, ele acha rumina não fala, falaria ser fácil enganar bêbado me embriagaram
para cobrar mais, pensa, macambúzio; ela anda, circunspecta, pensando nas coisas
dela, pensa criança recomendada à mais velha-criança, a noite é escura e eles
andam, os pés marcam invisíveis no solo em som oco, vez que outra ouvem pios ou
o vento que assopra as folhas, apenas uma que outra pessoa se encontra a cruzar-lhes
no estradão, enveredam por uns trilhos a chegar logo naquela demora rumo ao Zé
Benzedor. A Maria vive apreensiva, tem sempre uma “coisêra” diz o Tonho, dói
aqui dói lá, toma mil remédios e chás, todo mundo vira médico a todo mundo, ela
ingere mil; enfim se decidiu pelo Benzedô, caminham compassado, caboclo não
teme estrada engole quilômetros usando a légua pra facilitar a distância na
medida. Param, o homem quer fazer xixi, verter água no seu linguajar, talvez
mais para descanso; ela também de bexiga cheia, embora pouco ande ingerindo em
sólidos e líquidos nestes dias, agacha como pode temerosa que apareçam olhares
estranhos. A Maria teme ficar doente, mais doente que de costume, é o esteio da
família, é o gerador da atividade dos seus, o homem do homem, o homem é pouco
prático só sabendo trabalhar, mas ela critica ralha exige põe todos nos eixos,
a casa anda; agora ela não anda, anda desanimada com suas dores pontadas
cólicas, até a menstruação fora de regra e a Dona Zefa lhe diz a construir
pessimismo na cara dela pra consolar suas tristezas: “num vai mais tê famía”
mas tem, tem dores crônicas dias e dias e agudas dias, assim mesmo no cepo, à
frente do seu homem metros à frente em sua enxada incansável; agora andam, ela
em má expectativa. Até que chegam na outra fazenda onde igualmente são cafezais
a perder de vista, estão numa colônia de casas relaxada, pois tem patrão que só
sabe explorar o roceiro. Batem, batem palmas outra vez e a mulher do Benzedô
atende, chama o marido aquecendo sua carapinha embranquiçada no travesseiro de
penas; vem manco lerdo olha aqueles dois. Entram. Conversam, a Maria, o Tonho
meio envergonhado não tem assunto desse assunto, assunta mais, sai pra fora, a
Maria fica a receber as rezas bravas do velho. Saem de lá, andam quietos em retorno,
marcam o areião com passos em compasso ao contrário de antes, já é tarde, cedo
à coruja que já pesquisa na caça, eles andam em silêncio, o Tonho agora indaga
que achou o médico qual feitiço recomendou tem simpatia decerto a fazer, ela
mostra uma garrafa cheia de suas infusões e não fala, não quer falar, andam
mais uma hora na noite sem luar. Então a Maria chora, chora ela desesperada
até, o Tonho não sabe o que dizer não sabendo carinhar não tem consolo também pra
dizer. Ela: “tô esperando ôtro”, chora mais, a abarcar molhando todo o gênero
do seu sexo.
13° - Aborta a Maria, aborta mais um
e se estraga. Convalesce sob cuidados de mil comadres, a solidariedade é
pródiga nessas ocasiões, até as línguas que mordem as línguas cerram dentes e depois
voltam ao que era que sempre tem sido porque o ser humano não sabe mudar tão
depressa... Agora o Tonho toca sozinho sem a mulher o seu pessoal, não fala
muito, não repreende quase e a indisciplina campeia no campo. No então a fazenda
mandou plantar, semeiam algum milho nas ruas de café, plantam feijão e mandioca,
o que for de tempo, por ordem do tempo da chuva, os trabalhadores executam seu
afazer, capinam limpam olham; depois na época apropriada colhem, quase sempre
só tendo serviço aos adultos, os quais recebem pelo labor de seus meninos; o
Tonho geme na sacaria, os filhos fazem algum miúdo; mais tarde a doente vem
exigir o trabalho deles, ainda se move com cuidado, mas também toma a enxada.
Em casa se desdobra como pode, os meninos tiveram de cortar um pouco a
brincadeira para fazer as vezes da mãe, só o Niquinho nas fugas costumeiras e o
pai ninguém tira do hábito de sentar-se na frente da casa na tábua de banco a
fumar sua palha. O Peri está bem obrigado; só que contraiu qualquer doença por
aí e anda magrela quase esquelético, fica obrigado a engolir uns chás de não
sei o quê ele engole engasga tosse solta sai em disparada volta medroso olhando
o Zezinho. As galinhas, fora as que o bicho anda pegando e supõem algum vizinho
mais guloso, fora também as sacrificadas a reforçar a patroa doente, elas estão
bem, bem curiosas espertas a correr de mestre cucurucu; as vacas quebram ainda
arrebentando o arame da cerca mas esse problema acabará: o dono da fazenda
vendeu o pequeno rebanho, é questão de dias. Tem o pão nosso de cada dia, as
meninas fazem o que podem ouvem os estrilos espinafrados da Maria, a mãe anda
chata e exigente na doença, o pão sai assim assim, elas se queimam um pouco, o
Tonho reclama pelo gosto. Outro dia pegou uma fieira de peixes, a mistura
melhorou a comida destemperada, o Zezinho trouxe algum pássaro graças ao estilingue,
um pássaro ainda vivo cuidado igual ao nenê da casa e acabou por morrer não
virando mistura e a engolir frito com arroz e feijão, mas vão indo vão indo, a
casa não caiu, a vida retoma o ramerrão, a Maria volta a ser o homem forte que
sempre fora do seu homem, as crianças chiam um pouco depois se acostumam, o
cafezal tem seus trabalhadores de volta à rotina, só quebra a rotina o nenê, já
andando como pode pode mais cair e se arrastar em gatinhas, os cuidados
redobram e a mãe dele que é sua irmã fica pouco no trabalho da enxada pois o
molequinho dá trabalho. Mas será um leãozinho como o leão genitor? se perguntam
familiares vendo o guri pelo futuro do guri, o guri se parecendo a metade do
pai escuro outra metade da Maria, clara e sardenta; agora até aquele
desajeitado se engraça com o filhote e tenta falar bobaginhas que o menino não
entende mas ri do mesmo jeito, todos olhando a dupla, olhando mais o moleque
que põe na boca tudo que ache na terra. Nada que o sol não tenha visto ainda.
14° - Amigos, amigos desses que se
tem por irmãos, nem irmão tem o caboclo Tonho, pois a vida virou revirou
desvirou engoliu os parentes ele migrou se perdeu se achou na região criado ao
deus-dará, amigos não tem só restando esses que ficam distantes do coração próximos
no espaço, mais desconhecidos que são os conhecidos os quais se perdem em cada
mudança, mudança caipira é um levar badulaques e esquecer muitas badulaquinhas,
quando não é que se mude na calada da noite e aos fugintes não é dado o costume
exigir levar toda mudança e podendo deixar toda a sujeira espalhada ao próximo
morador limpar a casa ou tapera! Se já aconteceu? já, agora o Tonho e a Maria
um casal estável com muita criança e muita história. Na história entram as viagens
as roças onde moraram e os amigos (que é uma palavra fácil de difícil
compreensão). No Ipê trabalham faz muitos meses, e isso é inusitado na vida
roceira em não ser que o roceiro tenha seu próprio sítio e não é o caso deles,
somente neste caso o trabalhador para. Assim cultiva amizades fáceis facilmente
desvinculadas após a mudança. Ele tem seus amigos que são os colegas mais
chegados, um que outro tem o título de compadre, no batismo das crianças; a
maioria é o colega de trabalho ou o vizinho com quem não se conta, não sendo
nas emergências como o último aborto da Maria. Ela se apega à Dona Zefa, amiga
de conversar de se contar as dores, nadinha por causa de apreciar pão azedo...
Uma que outra vizinha a trocarem suas misérias a dizer suas coisas simples no
domingo enquanto aqueles bobos rolam suas bolas no campo da fazenda lá em cima;
e a amizade não vai muito além. Perdeu a mulher quase o contato com a parentela
perdida no tempo e na falta de realimentação, pois para haver amizade mesmo com
os de sangue é necessário regar como se rega a flor, que a Maria quase não tem,
falam não ter mão boa para planta: murcha seca morre. Amiga amiga dessas carne
e unha, a se contar e a saber as intimidades, só mesmo na juventude, a mocidade
cada vez mais distante. E o Tonho? o Tonho, diz a oposição enredando na oferta
do pão ou de um doce que se fez e aí a Zefa agradecendo e eleva a Maria à
santidade pede por todos santos e se benze deixando a Maria um pouco constrangida,
o Tonho Dona Zefa, é um sujeito gozado e esquisito: não pega amizade com ninguém.
Ninguém vírgula, esta expressão ouviu não se sabe onde e não sabe também que é
‘vírgula’ iletrada e dá um trabalho imenso ler os rabiscos da Maria na lista de
compra, como ‘ninguém’ faz uma barulheira na beira do campo com os outros
homens e os outros também acham o Dito um ladrão! Exagero, mulher (ele
pronuncia “muié”) mulher exagera as coisas, pro lado dela pro lado dela. E conversam
as coisas deles coisas de safra ou de trabalho, o eito encolhe muita gente sai
da fazenda, cada vez mais tem menos enxadeiro; agora piorou, o administrador só
quer gente por dia, ninguém os donos querem a porcentagem! O amigo, o João que
também é Silva como o Tonho, reclama, falam por aí que o dono que mora lonjão
manda o feitor que mora perto e só quer explorar a gente, falam que ele (o
doutor) vai derrubar o café plantar capim pôr gado mandar desmanchar as
casas... O Tonho não acredita, mais fácil deixar a colônia cair de podre sem
gente, o mato a entrar nas casas; se fosse de madeira já tinham posto fogo em
toda colônia. Conversam mais, falam das suas coisas de roceiro; tem sempre um
que inventa, ou só conta, causos. Entram as assombrações os crimes os roubos as
doenças os malfeitos. Ah mas mais do time de futebol, todos eles elogiam o
Maquininha acham que um dia vem gente da cidade levá-lo pra jogar, o homem é demais.
Falam do jogo que vai ser do jogo que foi do jogo que se disputa ali no campo,
onde a gritaria da molecada é ensurdecedora. Mas falam-se também no eito; o
Tonho adora deixar a enxada para um dedinho de prosa com os outros homens e lá
tem mulher igualmente, elas com pano na cabeça ou chapelão de palha, a Maria
não se importa não e nunca foi de ciumeiras confia na vergonha do seu homem; entretanto
na medida em que descobre as malditas rugas, ela assim tão nova ele é que tem
mais de quarenta, então se aporrinha um pouco, olha a fiscalizar a conversa do
esposo casado no padre e nunca no cartório; o que mais a aborrece no entanto é
a fuga do leão de sua enxada. Mas agora quase que se não põem eles suas
minhocas na cabeça, pois maior drama é o drama de serem mandados embora da
fazenda, onde o deve é muito maior que o haver, sempre desconfiados que a
gerência lhes rouba os cruzeiros, que o Tonho ainda chama pelo costume
mil-réis, fato que não modifica em nada visto quem confere as coisas é a Maria,
o Tonho não tem muita certeza nos números do dinheiro. O drama à vista... é
nisto que creem.
15° - E nisto é que destoa o pessoal
do Tonho com os vizi-nhos e conhecidos. Ele é gozado e esquisito insiste sempre
a Maria. Contudo mesmo ela é um pouco seca, ou limitada? e também não é de ficar
como a outras correndo atrás da saia do padre, o padre vem de vez em quando na
fazenda, conversa lá na sede atrai gente na capela mas agora quase não vem.
Além do mais a Maria não dá oportunidade ao esposo pichá-la de carolice; não
obstante casaram-se na igreja da cidade e batizaram a meninada, até os que
saíram de anjinhos e caixões, pois iriam deixar virarem pagãos e se perderem no
limo! Agora, o Tonho tem seus medinhos particulares; nunca deixa um menino seu
passar por cima do cabo da enxada e pior se for em cima da vara porque daí não
pega mais peixe. Tem coisas mais na família. A Maria se pela de medo do escuro
não sai sozinha no terreiro à noite, chega a mandar um garoto ir pegar lenha
para o fogão e a roupa se ficou no varal, ficou... E ainda teme assombração!
porém nunca viu uma. No entanto é o que mais sobra nas estórias que se ouve
quando se reunem em casa ou em casa de alguém a comer bolo de fubá a tomar café
fraco quente. Às vezes, sempre, tem cachaça e é preciso olhar que os meninos
não entrem no gosto. Conversam conversam, se alegram, se é alguém animado se
animam e quase vira festa, o que é uma boa oportunidade não havendo comumente
encontros festivos. Assim mesmo têm os casamentos ou um que outro motivo de
festa, aí vem os bailes, com gente de toda região, cavalos amarrados em volta,
ocorrendo isso na sede da fazenda, os colonos nunca têm condições duma festança
de vulto, somente encontros leves e sem qualquer cerimonial. Então se conversa,
alguém toca viola ou violão ou sanfona, que o Tonho nunca conseguiu aprender;
aos meninos é sempre festa, os folguedos para eles são diários na noite após o
serviço da roça, parece que os pequenos não sentem cansaço. Entre elinhos tem
muita vez os esfolados os briguentos choros gritos, os adultos precisam
intervir, no caso da Maria e do Tonho não é o Tonho, a Maria. Mas é comum
também brincarem os meninos de ficar ouvindo os grandes a contar suas bravatas
e causos na mesa da sala ao lume da lamparina, sobretudo nos fins de semana sem
o perigo de precisar pensar dormir mais cedo e pensar na labuta do dia seguinte.
Daí se conversa animado, o Tonho mesmo nesse momento é um pouco preso na
língua, a Maria é mais solta. Lembra, Tonho, o eclipse? (ela fala “a icrípe” e
todos entendem). O marido se solta todo mundo quer melhor falar do que sabe, o
que não é muito, se contraditam mas se completam, a assistência se rejubila
naqueles causos tão maravilhosos. Foi em 1946, não, intervém o Tonho, ‘47’, me
lembro como fosse hoje, a gente morava no Pedrinho. A Maria explica: um ‘turco’
dono da fazenda de café com broca de café e eles pegaram roça lá “di a meia”, a
Maria Conceição já grandinha, não foi Tonho? era responde e conta o friozão,
onze horas de sol quente, tudo ficou escuro e frio como noite de lua nova; a
Maria faz que sim de cabeça, entra a bicar: até as galinhas foram abobadas pro
poleiro... não foi, homem? Foi, mulher, cê lembra dos Sansão! E conta a
gritaria da família do Zé Sansão pega de enxada no cafezal a gritar de medo; a
Maria: tinha as moças (conta delas, picha um pouco seus defeitos na época e
conclui:) elas gritavam assim – “ai meu Deus, vai acabar o mundo!” e, diziam,
eles nem acreditavam em Deus eram comunistas, não eram, Tonho? O Tonho
concorda, falavam que eram todos ateus. Riram falaram ouviram. Agora relembram
nas suas noites em família, o Tonho ameaça contar de pescaria, a mulher mostra
o despertador, embora atrasado estragado e barulhento ele aponta para a hora de
dormir, um dos pequenos não precisou olhar os ponteiros do relógio, olhasse não
compreenderia, ressona.
16° - O roceiro Tonho olha o pequeno
a ressonar, se vê pe-queno, que a memória não é muito amiga não obstante se
o-lhando menino varinha entortada linha de barbante anzolinho mergulhado a
banhar minhoca na expectativa do peixe enorme que nunca fisgaria, fisgou
agorinha um lambari sem-vergonha e se o Zezinho não estivesse em outras artes
com os meninos, como ele estaria agora lhe dizendo que o peixe ainda não é uma
baleia, o córrego se ri dele decerto, raso águas límpidas se vendo lá no fundo
meia dúzia irmã do que prateia e luta em não ir para o embornal. E aí pensa que
a vida é curta rápida passageira a Maria a lhe dizer insiste ser mais de
quarenta anos e olha que deve é ter razão e se os fios que ele corta por poucos
mil-réis no barbeiro da colônia que é um roceiro igualzinho e se os fios não
estiverem branqueando como o do ‘Véio’ Benzedô! mas a mulher não estaria já
explorando mais esse menos. Guarda o peixe nem arrepara seu debater no embornal
de pano a estertorar se acabando antes que o acabar do seu predador humano, aí
senta-se num tolete de pau já comida farta para cupins e esconderijo das formigas,
demais circunspeto nem parecendo na diversão de fim de tarde para notar algumas
delas a subir e subir naquele objeto não identificado com carnes moles sangue
por baixo por cima dos ossos e vestido com roupas simples suadas da labuta dia
inteirinho na enxada agora ouvindo o piar de aves cricrilar dos grilos e
aspirando cheiro de mato, o mato que cerca o riacho, ele cerca também ao gado
que vem ali beber e berra engraçado. Dá corda ao seu pensar viaja na sua viagem
do passado rumo ao futuro desconhecido passando pelo presente fugaz também desconhecido
porque a gente é ignorante e sequer se conhece mais. Menos ainda o Tonho que
faz mil indagaçõezinhas muito longe do filosofar, ou um filosofar a mil-réis, a
dez tostões, destão. Recorda sua mocidade sem grandes exigências, que não o
sonhar, a se igualar ou assemelhar-se aos outros colonos em todas colônias por
que passou, a gastar o fio da enxada na roça. São vozes que gritam baixinho as
modas que mais gostava “eu tenho um cavalo zâino que na raia é corredô...”
nunca possuiu um cavalo até nas compras se valendo do empréstimo da mula, ah
que bicho forte a mula, a mula? “eu tenho uma mula preta com 7 palmos de
altura” ele também gostava cantava mesmo sem viola e pera lá, 7 não é conta de
mentiroso, ri-se olha em volta pra ver se não lhe tomam por louco ou bobo se o
Zezinho ali estivesse contaria estar o pai à mãe falando sozinho, sozinho e aí
sorri vitorioso. Decide, não vai pescar mais não, sentado é que percebe estar
cansado de verdade, vem aquela moleza, sem vontade para levantar-se ir pra
Maria, levando três peixinhos. De pé se lembra dos artistas do seu tempo, do tempo
dele também, o sogro igualmente apreciava o trio Torres, Florêncio & Rieli,
cantando modas, o velho cantava rouco e ria gozado pra sua Rosarinho, ah a
Maria era bem bonita e agora... de repente primeiro se pega falando só e depois
vê o Peri, grita Peri! ele ladra importância e aí vê ele mesmo seu capetinha,
não se aguenta, gargalha também, vai mostrando ao Zé os tubarões e baleias
pescados no córgo, indo poetar pra Maria em casa, se ela estiver de boa veneta,
e este dizer o fez lembrar-se do velho italiano (falavam “intaliano”) que vivia
numa das colônias em que residiram, a esposa e ele, Tonho.
17° - Tonho toma tudo tanto quase
nada precisa, além do pedaço de rolo de fumo de corda de fumar para fumar, a
palha, fala mesmo “páia”; e o canivete é claro, o capeta sorri ao seu lado no
banco o cachorro sorri carrapatos e pelos a abanar ao filho ao pai e aguarda ordens
de serviço o Tonho abalança a cabeça, não aguenta e ri da dupla, o Zé atira a
alegrar a galinhada no terreiro um pau e já se sabe, abalança de novo a cabeça,
tirou o chapéu que tem furo de gasto pro lado, toma o canivete vai picando em
pedacinhos a corda espalha o fumo na palma da mão calosa enrola na palha,
amassa a ponta, encavala na orelha esquerda a abanar horrivelmente e a direita
também em abano a oposição falando que aguenta um voo como gaviãozinho que pega
pinto assustando a choca e o galo; ele tem vontade, só tem vontade, a dizer em
boa devolução para a oposição que o filho dela Zezinho, o capeta aí fazendo
estripulias, que esse filho dela também possui as orelhas em abano e que...
não, é arrumar briga, ela é que é briguenta. Ela olha lá diante desde a porta
da cozinha, uma porta que ameaça se fechar com a da sala e as portas das
janelas todas com defeito rachadas entrando a friagem do vento no inverno o
inverno que também se aproxima na vida da família – ameaça se fechar a todos no
êxodo que serão decerto obrigados a empreender como ocorre em massa com outros
roceiros perdendo para as vacas, a Maria olha pro seu lado engraçadamente com
muita interrogação exclamação reticência e não se sabe se está aceitando ou não
aquele descanso do Tonho enquanto ela trabalha adoidada e agora atira milho e
resto de comida azedada, não pelo pão da vizinha Zefa não, estragada somente pelo
calor o tempo e a lambida das baratas, credo! ele sorri inocente iria chorar?
sorri, encavala o primeiro cigarro de reserva na orelhona, inicia a fazer o
segundo e o terceiro irá fumá-lo ardendo os olhos dos outros imediatamente, acendê-lo
se o capetinha não tiver perdido por aí a caixa de fósforos mesmo porque o
isqueiro que chama de “binga” não tem mais pedra e não funciona. O sol que se
foi à noite a noite que xereta nas imediações, a Maria já acendendo as lamparinas,
cantando em rotina desafinadamente suas ladainhas aprendidas no terço “bendito
bendito seja...” – tudo lhe avisa que é hora de se levantar jantar dormir
preparar o corpo à enxada amanhã, o amanhã do roceiro Tonho.
Marília
abril 2004
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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