segunda-feira, 23 de março de 2020

Três Novelas


069(postagem no Blog Livros Inéditos)








                              Três Novelas
                                   Moacir Capelini


                                      
















                   

moacircapelini@gmail.com

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“(...) o mundo e os homens na verdade não existem,
  são o sonho de alguém que de repente pode acordar.”
  Autran Dourado
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  “A esperança é a saudade do futuro.”
   Issami Tiba
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Índice das Novelas:

                    As Férias do João.........pág. 5

                    Dona Elinha da Silva......... 41

                    Os Roceiros.........................63


Nota do Autor: - As Três Novelas em linguagem coloquial.



















































Primeira Novela
                              As Férias do João

















































- Desapresentação
Por que não seria a informalidade e a linguagem coloquialista uma boa forma de apresentação, visto que as apresentações entre pessoas possam ocorrer sem os quesitos do cerimonial!  Isso mesmo. Uma desapresentação serve para gente e para livro que a gente não leia. Contudo o João e o João devem receber daqui em diante as pauladas que todo traumastismo exija do freguês; neste ponto não se falando ‘cliente’, que parece não cabe no coloquialismo. Quem foram eles? (mas não pode que ainda vivos, atrapalhando o atrapalhamento da sociedade! pode Quem foram?  ora bolas, a saber-se, necessário ler o texto a seguir.



- Um Encontro Casual

          Casual! como pode casual se não existe acaso. Acaso a palavra ‘acaso’, talvez em ocaso por excesso no uso do abuso. Por outro lado é preciso não se descuidar em cair no extremo: o determinismo, o destino, feroz cobrante absoluto. Que este também não exista, existe a ideia para explicar inexplicáveis. Por que motivo jogar na cacunda divina, não tendo coragem o homem em assumir os seus atos? Um ato, o encontro de dois personagens. Que não tivesse outra razão de ser, a configurar o início deste segundo capítulo, já tendo razão de sobra.
          Mas enfim se encontraram os Joões  (nunca se sabe o certo por que errado pluralizar nomes de gente; certo errado ou apenas curioso quiçá extravagante, fica assim. Prossigamos). Era uma obra sem tamanho. Desses edifícios, o capiau tem certa dificuldade a colocar sua tapera de pau a pique como ‘edifício’; a ele só aquele naquelas alturonas que deixe quando despenca e achata e mata tantos eliminando o excesso de nomes na declaração do Imposto de Renda, somente esse é ao matuto urbanoide autêntico edifício, e era o caso. Um desses edifícios, você olha lá encimão e já dando enjoo cair, não havendo perigo, tanto experimenta o chão e olha outra vez lá pra cima, o enjoo continua. Porém não haviam acabado o inferno da torre, ou por outra: a torre não andava terminada apenas tinha o inferno da trabalheira na construção.
          O Doutor João estava bem humorado, coisa de rico não tendo decerto se comprometido demais em nenhum grande negócio, aquele já um grande negócio envolvendo bens imóveis e financeiros; quem sabe se não houvesse sequer discutido com sócios nem com o gerente xereta, enfim não vai ao caso, o caso era estar bem humorado e pronto. Os homens se juntaram naquela alturona dos enjoos a conversar discutir o final das finalizações, detalhes pormenorizados das minúcias, e sempre em tais situações se desentendem e se entendiam bem naquele dito, dito ainda não e o será, naquele dito momento e por isso bem humorado só no começo e foi... foi quando se deu a apresentação tratada na desapresentação precedente.
          Oh mequetrefe...
          Correu o João a atender, apreguntou-se se era, era com ele, primeiro olhando de soslaio para ver gente, gente só ele, ele gente sabidamente com famiagem e marmita, mastigava sua marmita – e não viu ninguém, ninguém em não ser ele João da Silva, Silva por parte de pai que não conhecera mas isto importando pouco. Eu? indagou cretinamente, por que será que a gente faz pergunta idiota.
          Você. Vai chamar o Pedro lá embaixo, fala que a reunião já começou.
          Saiu correndo, tropeçando nas coisas não sabe quantas coisas são postas no caminho da gente pedra caco de tijolo ferramenta largada e a gente tropeça e não cai, corre no lentamente gingado suando por cima do suor fedendo grudado já ao corpo e pano barato usado ambos, o João se foi à procura do Chefe com um medinho que dá na gente ao se dirigir pra falar com autoridades, o Chefe ranzinza mas também (disse-se ‘tamém’) era ordem do Doutor João, ia a dizer, retransmitir e assim mesmo dava lá uma tremedeira danada.
          Achou, ‘recadou’ , voltou. Gaguejou no falar e então o Doutor:
          Ele vem vindo?  Como é seu nome.
          Disse baixinho, um engasgo que dá no gogó, quase assoprou tão só, teve de repetir ‘João’ em voz macha, que era macho pra valer, pergunte à patroa.
          Puxa, disse, agora se desenrugando o Patrão, é meu xará; e o dispensou de mais dispensas pra sua marmita já à metade e se tinha esquecido, esquecido aberta em divisão com moscas liberais e democráticas que ainda mastigavam com boca aberta arroz feijão abobrinha e uns nacos de carne-seca gordura e sebo cheirando bem, bem aos mosquitos – xô fiadaputa lembrou a esquecida mãe-mosca o João, não o Doutor, o operário. E ficou quietinho no seu canto; antes de mais nada, se foi para um mais escondido que é chato comer na frente dos ‘homi’ falando lá as coisas deles pra gente só adivinhar...
          Assim foi a apresentação de ambos xarás. Sem formalidade como se atentou dizer, não se sabendo se se compreendeu.



- João em Férias - I

          João, o Doutor João se esquentou no acalorado da discussão, sempre os outros não compreendem as coisas, as coisas dos outros, aí perdeu as estribeiras, e estava a sorrir sorriu por todo o começo da exposição das questões concernentes à obra, à finalização da obra; já então um pouco fora da planta original e oficial demandando mais dinheiro, toda vez que entra dinheiro não há muito acordo, sobretudo se prejuízo à vista apenas se acorda acordando um lucro, o que não era o caso – nesse ponto se enrugou se ‘enseriou’, chegando mesmo a um mutismo proposital ou explodia gritava perdia a calma perdida e mais perdia a autoridade. Foi que se emburrou em boca fechada, ouvindo tão só de longe o blá-blá-blá dos grandes que eram pequenos por serem seus comandados, deixou que falassem, estando de corpo presente mas sorrindo em suas lembranças próximas e distantes. Revia aquela imagem: um penico amarelo gingando pra lá e pra cá por cima de um esqueleto bem magrela coberto de pano ordinário desbotado e malcheiroso tentando falar-lhe ter dado o recado ao Pedro encarregado do pessoal, a temer a gaguejar ser um ‘João’. E se ouviu falando “é meu xará”, a apreciar a própria voz os outros também elogiavam aquele timbre, timbrava alto a impor suas ordens e todo mundo murchava acatava observava o mando; o pé-rapado tremeu gozado e se fora, o penico abaixou tomando a marmita amassada, parece ter resmungado qualquer e se escondeu atrás da pilastra da outra parede será que foi engolir aquilo!  pensava o Doutor que pensava desconhecer aquelas insignificâncias e desconhecia mesmo. João ? meu xará, essa gente não tem onde cair morta não é como a gente, esta obra está me custando a vida, me acabo por estes burros arrogantes a viver falar.
          Um momento, diz o Doutor, um de cada vez; agora o senhor fala sobre o gasto com o pessoal. (E se desligou outra vez da discussão, ficou a ouvir pro forma; dentro de si, numa conversa franca:)
          Decerto engole arroz e feijão, que será que ele come. Não tem o meu drama com a esposa. Ela é um saco sem fundo, os filhos também me comem pelos bolsos. Preciso pôr cobro a isso. Não tem uma mulher safada como a minha. Agora com aquele canalha. Dizem que se considera ‘namorado’ dela, é outro explorador. Ela só arranja desses crápulas. Preciso pôr cobro a isso!  Eu também não aguento o desgaste por tantos anos, é a terceira obra que me dá prejuízo,  como convencer os investidores! vou terminar esta porcaria de prédio, com um imponente nome. Terminar como puder, ajeitar as coisas, fugir em férias. Férias merecidas. Oxalá possa me fazer acompanhar das crianças; são mais altas que eu até! a menina já olho pra cima e ainda chamamos os filhos ‘as crianças’; levo a Gina nem que seja a força e a afasto do amante, o chupim sem-vergonha.
          Acordou então aos circunstantes e pôs os pingos nos ii, fez propôs fazer as modificações mas tudo recaía no aumento do gasto, no mais do menos – provocou um zum-zum, franziu a testa, esfriou os ânimos com promessas e um ‘vamos ver’ qualquer, fechou a reunião quase informal com a forma de sempre: “vou estudar o assunto, chamar os incorporadores, pensam acaso que sou o Dono?” A conversa amainou em conversa mais informal ainda e a dispersão começou. O Doutor chamou à parte seu encarregado de pessoal.
          Seguinte. Me mostra a relação de cortes. Não senhor, vamos cortar todos que falei, reduziremos a 30% os trabalhadores mas desejava ver um caso. Puxa quanto João!  aquele que foi chamar Você, Pedro... Silva? esse. Esse não, cortamos depois, noutro edifício, vamos fazer um pra lá da Avenida, naquele não, não quero nenhum dos vagabundos que trabalham agora com a gente. Gente nova. Mas por enquanto, conserva meu xará (riu e o submisso sorriu quase gargalhou confianças). É isso. Não se esqueça de tudo que tratamos hoje.
          Falou em despedida o Doutor, mas nem ouvia sequer mais suas próprias palavras, pois se ouvia em conversa animada nos comos das férias que programava, já temendo o futuro próximo do chegar em casa e discutir a viagem com os seus.



- Discussão em Família

          O Doutor chegou furioso no lar, sempre chegava desse jeito; bufava nas ventas, ainda bigornava os prós cheios de contras do nunca acabar no serviço, parece mais fácil iniciar que terminar uma construção, mais fácil ainda quando no estádio de estudo no estúdio esticado na prancha; mais difícil ainda e sempre fora convencer o capital arriscar no trabalho; aí aumentava seu peso sua responsabilidade; assunto que nem de longe nem mesmo em sonho atingiria um João da Silva. Ele a explodir. Desligou o carro, não podendo desligar-se... retirou a chave de ignição, a garagem, a porta dela a enroscar; as preocupações com segurança, não tinha mais segurança: a família é prisioneira no estado de liberdade. E era isso a vida. Bateu a porta, volumes debaixo do braço, a valise plena nas porcarias documentadas, entrou na sala, não encontrou os sorrisos dos familiares somente os falsos da criadagem, resmungou, entrou finalmente no escritório, despejou aquele peso das toneladas do mundo em cima da escrivaninha, sentou-se como pôde, pôde respirar ao menos, pois estava a um passo do escuro do abismo do não ser...
          Noite, sexta-feira, não conseguiu discutir suas sonhadas férias por falta de quorum. Hoje mamãe só voltaria amanhã; os filhos... cada qual fugindo ao seu mundo, um que outro a abordar não abordou por saindo a correr eles aos seus negócios, muito além dos negócios; assim João ficou sozinho nos seus terríveis negócios, apenas discutiu com dona insônia, cidadã muda e teimosa. Quando se descobriu descobriu estar só...  e mal acompanhado!?  sorriu seu choro. Era dia, dia de sábado.
          Correu ainda arrotando em soquinhos um café e torradas, fiel ao regime imposto, imposto sempre é um regime. Chegou esbaforido à obra. Discutiu os quês, quês-zinhos sem importância, mais a estar presente: não são os olhos do patrão que engordam a criação! sorriu à sua originalidade. Melhor se fosse escritor ao invés de diretor, a fugir ao mundo distante do mundo. Fugiu do mundo a correr ao seu mundo, a almoçar as suas coisas.
          A mesa é ótimo aglutinador, ótima às discussões ínti-mas, sob o sorriso malicioso das orelhas criadas, não se pode realmente confiar nos subalternos mas como exercer o poder sem a criadagem. Assim mesmo abriu a sessão,  guardanapos talheres a tilintar em pratos, gargantas a raspar resmungos ou mesmo altas vozes em defesa contra ataques, pôs enfim as cartas na mesa. Propôs umas férias, viagem, descanso, distração, ganhos culturais e tudo o mais que possa ofender ao analista e desenricá-lo nas suas charlatanices. As férias são antídoto ao cansaço ao excesso de trabalho e ao dito analista. Mas... ah havia o mas.
          Os membros daquela sociedade secreta, quase secreta se se não levasse em conta ouvidos subalternos e a língua estranha que nunca consegue calar os segredos... seus membros não chegavam a acordo. Mamãe não podia na época deixar as amigas (parece que se chamavam todas Argemiro). Papai: Gina, precisamos de você conosco, não tem graça irmos sozinhos. A filha mais velha era mais nova que o primogênito, mas cantava de galo – não vou, disse, sem o Guilherme. Assim foi incorporado um genro às férias, aos planos; depois surgiu nova encrenca, o ‘namorado’ não queria deixar a esposa nem o filhinho que não era seu deeneamente falando. Joana, a mais nova, já velha e se fosse antanho não seria mais filha mas ‘titia’, essa já tratara com um dos seus namorados fugir ao rebuliço da capital com outra gente nada respeitável... Os meninos, meninos tão só em nome, eles aceitaram prontamente e já faziam planos às suas farrinhas de jovens, jovens um pouco, o primogênito Carlos bem passado; mas o menor, o qual era uns centímetros mais alto que o genitor incluiu uma ‘amiguinha’ totalmente comprometida com o descompromisso e amante de drogas. Não (vociferou Papai) não Edu, aquela mulherinha mundana não pode ir. E aí pegou fogo a discussão, ofensas pequenas e grandes e se incluiu finalmente a Még. Brigaram um pouco mais, pouco antes de tirar-se os restos do almoço e botar a refeição do jantar; contudo o não-acordo prosseguiu noite em fora. E o domingo que é o dia de descanso ainda não terminando o mister. Inclusive se prolongou pelos fortuitos encontros durante a semana. No domingo posterior, terminada a dis-cussão no acabamento do edifício, continuou nos aparos a discussão familial da casa de João, onde ele não era Doutor nem conseguia dar a palavra final. Nada obstante acordou-se em ir e para onde ir em férias.
          Optou-se apenas a umas férias rápidas de mês e pouco no litoral próximo, na sua área nobre. Futuramente (se não se comessem uns aos outros, falou-se pensando o Chefe da família) futuramente  que tal Cancum ou Europa?



- Mês e Pouco no Paraíso

          Contudo chegaram, pois havia sobrado problemas pelos veículos com o excesso amarrado nas costas, gente sobrando a olhar pelos olhos dos automóveis com suas janelas de vidro ‘fumê’. Trânsito excesso de trânsito e demais sortilégios e sacrificinhos do trajeto, quase um romance na crônica de viagem. Até que enfim chegaram ao palácio. Era um palácio imponente embora alugado à temporada, belo na sua construção, a esbanjar verde flor jardim e barulho das águas, elas a ofertar sem descanso sal e espuma. E o dia seguinte o sol a bruma o sol outra vez e o horizonte e a vista; a vista que o rico desfruta e o pobre vê no cartão postal; a vista eternamente pousada à objetiva da câmara da retina. Ninguém precisaria confrontar o inferno da capital com seus mil e um oferecimentos de rotina trabalho e problema. E lá, neste aqui, no fim que não tinha fim, singrava um transatlântico que era não mais que um ponto a se mexer na linha que divisa o nada e o tudo e se entrega à sombra, ao sonho. As aves a barulhar a quietude do todo, voando, a mexer com a paisagem, a virar paisagem; e a existir. O homem era o senhor que desaparecia diante do poder do colosso do inexplicável da beleza natural, o quanto a natureza não possa ter sido realmente maculada...
          Mas aquela turba, pequena, da cidade grande, diante a grande piscina da natureza, não pensava ela nestes termos, talvez um que outro dela em veia incerta mas com certa liberdade poética. Pensava apenas no descarrego de seus apetrechos pensava nos aposentos pensava nos jogos nas águas nas bebidas nas diversões. Por conta do João.
          O Doutor, desdoutorado, tentou pôr ordem nas coisas e na casa. Todavia Mamãe é quem disciplinava, tanto fez até conseguir que noutro dia se arranjasse acomodação a um tal Argemiro, primo duma certa amiga, dessas que se jura por elas. E a João foi descartada a honra de ficar bronzeando a barriga avantajada com a esposa. Mas ganhou em contrapartida a companhia de Még, criaturinha que nunca atinava com que se dizia e exagerava na bebida. As ‘crianças’ se divertiram com muita valentia e criatividade. Moços e moças se desmandaram pelas praias e clubes, retornando quase sempre na segunda ou terceira hora da insônia paterna.
          No correr da estada paradisíaca houve mil contratem-pos, contravenções, contradições. Sobrou acaloramento na língua, desavenças miúdas e graúdas, até ocorrência policial, para desgostos joaninos. Contudo e não obstante o transporte do desentendimento da capital para o ambiente de férias; e os gastos enormes pesando nos bolsos do Doutor-mero-João naquelas paragens, pesando também e mais ainda nos prováveis lucros da Obra inacabada – embora tudo isso, foi positivo. Somente o próprio João necessitou socorro médico. Somente ele.
          Mamãe estava feliz, quando estava, estando com Argemiro; as filhas, somente Patrícia, a voluntariosa mais velha, se desentendeu com o ‘namorado’ teimoso em telefonar a saber da esposa e dos filhos. Os outros se deram bem, se drogaram bem, se enfastiaram bem, bem gastaram por mais de mês. João pagou a conta. Com cartão, com cheque, com dinheiro vivo, mais morto por tantas férias. Apenas no fim do período foi ameaçado por inimigos gratuitos por indiretas e diretos processos, quiçá com escândalos, por deslizes que toda gente bem bem se dá nas relações com gente de fora. Mas foram senões, pois as férias redundaram num sucesso, na opinião dos otimistas desse grupo.
          Assim foi que o mar rosnou regurgitou vomitou aquela família extemporânea de volta para a capital.
          João voltou a ser Doutor, a Obra não terminava ter-minou, os financiadores reclamaram o retorno minguado, o pessoal, salvo a gente mais chegada da administração, o pessoal foi despedido; havendo algum trabalho com o Ministério do Trabalho. A folha de pagamentos enxugada. Mesmo o João da Silva  ¿teria ele que aposentar o capacete amarelo, penico gazara o chefe, e ajudar enxugar a folha?

- João em Férias – II

          As férias de João tiveram antes o desligamento das férias. João desceu pelo elevador, no caso ‘descedor’, improvisado, quase tão precário como a Obra, se bem esta já no último pavimento; antes do antes olhou aquelas gordurinhas impregnadas na lata do alumínio, ficam uns grãozinhos de arroz, a Gina havia exagerado no cozimento virara uma papa e o marido não apreciava reclamava nundiantava mas agora arroz amanhecido se desgrudando a ficar duro e a sobra, vixe!  a sobra parecença com pedrinhas brancas engorduradas. Ele raspou a colher, comia que nem criança de colher e a Gina lhe pegava no pé por isso, também por isso, raspou a vasilha e emborcou a cair o farelinho no chão de cimento pedra cacos de blocos. Aí embrulhou, havia desembrulhado anteriormente e antes da mosca lamber e ajudá-lo a comer arroz feijão abobrinha e sebo de jabá, antes desembrulhara do pano de prato em limpeza discutível a marmita, agora embrulha, enrola embrulhado não dava para essas coisas, coisas de mulher a Gina passava aquelas mãos de fada a bruxa ajeitando bonitinho, ele não: enrola no mais ou menos das coisas. Enfim se apronta desce pelo elevador rangendo securas e poeiras, embaixo se lava na torneira vazando vazava noite e dia ficando aquelas poças que só o mosquito da dengue aprecia mas deve ser invenção da tevê. Aí bochechou a bochecha cuspiu uns resíduos de arroz fécula de feijão um nervo de carne teimoso, tomou água tomou a sobremesa, sem chantilí é claro: um cafezinho aguado doce frio da esquentada Gina, que ela fizera madrugando antes de acordar a mais velha... que diacho haveria da garota andar de rabo com o vizinho Argemiro! e, pior, se esse maldito (lembrou a mãe do vizinho) estiver enrabichado é com a Gina... ainda pior, ah aquela cadela. Aí  engoliu outro gole, ia partir ao descanso merecido: conversar com os colegas, que a gente costuma chamar ‘amigos’; coisas do serviço, ouvir uma patacoada do Baiano, ele sempre mentia muito bem, todos rindo; e os outros, uma que outra rusga, das rusgas costumeiras, porque gente é assim e não acostuma a gente e sempre tem um sustinho novo a contar. Os operários falavam entre si em corte.
          Falavam em cortes. Ele pensava férias.
          Ficou assim a aguardar um denominador comum ao incomum na sua vida.



-   Via-Sacra às Férias

          Fazia ano, coisa rara na construção civil, onde a reposição ao sabor das necessidades do empresário se faz tranquilamente pela rotina, em que meses são eternidades a direito frágil e precário portanto não direito – o trabalhador, o Pedro Encarregado apreciava chamá-lo “baiano” já sem ser preciso estigmatizar porque o corrente uso santifica, o trabalhador se achando velho no serviço, o trabalhador volta à obra chegando indormido a fungar o cansaço da espera antes e depois o sacolejo na condução, por vezes não, não sendo o caso do João, xará do patrão, aquele besta (quem falou isso o Chefe ou o colega submisso de trabalho! fica tudo no mesmo). Não em seu caso, tinha vez por outra o drama da insônia, mas muitos dormindo como pedra após o trabalho estafante, a estafa que costuma ser o stress dos civilizados ricos com muita análise psicanálise e outros trecos complicados, se não estafante ao menos pesado com direito a muito suor e desgaste físico; e assim a dormir, e a roncar a mulher, Gina ou não Gina, a cutucar o sem-vergonha porque o sem-vergonha não deixa a gente dormir roncando e as crianças exigem demais e tem a roupa e a roupa de fora e muito trabalho amanhã e esse porco... e aí o João acorda e dorme outra vez, empacota critica a Gina dizendo sempre assim, acorda se levanta, faz aquele barulhão sem tamanho, engole o café e sai correndo ao ponto do ônibus para a obra. Dessa forma o trabalhador volta a carregar massa bloco pedra cimento aquela farinha em voar no ambiente e a trincar mais a pele das mãos, a respirar bonito com dificuldade a ingerir melhor a poluição, a ganhar uns trocados e ele?  ah meses, velho de serviço, com direito a férias. Férias integrais de vinte dias, seriam quinze se faltasse, o João é caxias no emprego, cansado do desemprego fazer ficha fazer fila fazer promessa pro santo ajudar e aí, colocado não pode perder dia, dia mais dia trabalhando em soma que agora soma mais de ano, com direito às férias. Se a Obra deixar.
          Silva direito a exclamação de susto! não era costume ter nome de família, até se esquecendo dele, era João da Obra a todos e ‘Porco’ só à Gina, que se dirigia à vizinha às vezes se referindo ao marido por João. Num de repente que não se espera espera patética a ouvir o Encarregado a gritá-lo ‘Silva’. A gente não se acostumando nunca nas intimidades com chefe, chefe costuma isto sim é chamar para avisar passar na moça lá na frente acertar as contas, receber direitinho, contar as notas lambendo as pontas dos dedos tem uns grudinhos quando dinheiro velho e cheiro ruim bom de se receber pagar comprar doce aos meninos mas que diacho vai tudo nas compras e a mulher chia fica ainda resmungando bem por causa das biritas e quem aguentaria sem um trago!  Silva, silva o nome nas orelhas duras desacostumadas, temerosas dos cortes e a procura de novo um novo emprego e aí...  como dói!  mas não podia que podia ser por outra coisa...
          Eram as férias.
          Todavia férias ao trabalhador simples em terra de acentuado desemprego não cheira bem. Porque geralmente na volta tem a volta do desemprego, a firma não quer o trabalhador prefere outro mais barato ou mais eficiente e isso é o inferno, se o Inferno não existe, existe, então agora ele existe.
          Aí João conta vantagens. Conta a todos, depois, antes do depois entremeio à carriola cheia a levar ao mestre pedreiro o que o mestre quer como deseja e onde se pôr o que pôr, antes baixinho aos outros para não levantar suspeita dos superiores pois trabalha certo e correto; depois no almoço arrotando marmita engolindo café fraco frio da garrafa de guaraná com tampa de rolha de vinho e azeda um pouco o doce do líquido, ele engole o líquido preto em goles e sopra para fora o hálito da barriga satisfeita e narra com desenvoltura em criação como foi que impôs à firma seu direito às férias. Ah sim vai tirar loguinho, não é seu direito!   Decerto não mentiu pretender levar a família a Cancum nem à Europa, não mentia. Só mentindo nas mentirinhas gratas de pernas curtas do dia a dia confrontando o dia a dia dos outros capacetes amarelos. Bateu seu penico que o deixava com a cabeça grandona no joelho magro, olhou o Baiano:
          Vou de Férias, meu nego!  Sorriram gostoso, o Baiano contou das suas fazendo tempão, agora quem consegue sem ser cortado somar meses pra tirar descanso! Fala inventa exagera, o João ouve e dá longo curso ao seu sonhar, direito humano inalienável. Agora fala inventa exagera também ao colega, chegam mais outros. Vêm de todos buracos da Obra parecendo cupins formigas minhocas, vez que outra ainda a mastigar falando mastigando, mastigando o falar entremeio restos de comida e até oferecem um gole de suas garrafas àquele felizardo. O João conta ainda mais, reconta qual gravador só não sendo fita porque tem entusiasmo, mesmo ao narrar a verdade; verdade que deixará o trabalho a descansar do trabalho – com merecimento e direito, insiste – deixará o serviço sim e com a forte honra de não ter sido despedido. Balançam as cabeças assentindo àquele herói todo sujo na roupa na cara na boca engordurada que se vai despedir, mas não sabendo quando, depois a moça do escritório dirá; vai-se despedindo às suas férias, ah graças a Deus (e se benze e sorri contrito, feliz) Aí tocam a sineta.
          Voltam ao carrinho aos tijolos e à cal.
          E na saída que fica na entrada, assina, antes assinava com o polegar, agora treme demora passa da de cima volta pra linha de baixo, sente ímpetos apagar o esse que nunca sai bem ainda assim continua Silva e rabisca Silva em final e nota que a cobrinha do João quase subiu no primeiro ‘o’ mas dando para ler, conta a conta, conta o dinheiro, observa a torcida organizada dos colegas torcendo e quem sabe invejando o amigo que partirá em férias... Dá com a mão, aperta a mão do Baiano, que é dos mais chegados, promete-lhe imprometidos presentes das ausentes férias ainda, ainda futuro. E o futuro pertence a Deus.
          Assim, após insistir e implorar dias quase mês, ganhou férias o João. E foi pra casa a confrontar seu cheiro de corpo com os corpos cheirosos na condução; para anunciar aos seus na Vila.



- O Primeiro Dia

          Se lembrava o João, um brasileiro que não estava nem aí com pronome e talvez nunca havendo ouvido pronome nome a se confundir decerto com nome, se lembrava o homem quando arremedava escolar e era já barbudo a se alfabetizar do Dom Pedro, vai que o Encarregado tinha esse apelido por causa do Rei ou do avô dele, este sim em homenagem ao homem do livro de leitura – lembrava-se vagamente do ‘Independência ou Morte’ sabia sim, tinha certeza, agora tinha certeza estar de férias. Amanhã não tendo amanhã, não iria à Obra, os outros que a finalizassem por ele, ele não estava nem aí, lá.  Independência!
          Todavia não se encontrando tão liberto, pois a condução não chegava; chegava, chegou depois não chegou a outra, a fila era cobra a ‘minhocar’ em zigue-zague, ele foi ao rabo dela, a andar devagarinho e sempre a gente tem sorte de ao menos entrar no ônibus, ou ir dependurado no primeiro que sair mas não num dia a entrar em férias, sentiu-se estufado premiado invejado talvez pelos sofredores ali desconhecendo tanta felicidade; e finalmente entrou no veículo, sem lugar a se sentar mas de pé espremido; ocorrendo ser não ser tão ruim quando entraremos no paraíso das férias, suportando quaisquer infernos então. O carro andou. E não andou mais, ‘lentizava’ tentava romper e engolir os quilômetros ao bairro. Somente o dobro depois do tempo chegou ao arrabalde, com seus casebres e casas que se faz em cima das casas a se construir quando puder mais outro cômodo sem respaldo sem pintura, construções medonhas de feias, a enfeitar a periferia. Desceu andou tropeçou se embarreou, já não pensava nos atropelos e embaraços do trânsito – era um liberto pelas Férias!
          Raspou o barro grudado à sola no raspador que pusera à porta, tão só uma lâmina de ferro com duas hastes presas no solo. Veio o Campeão lamber-lhe e agitar a cauda amiga, os meninos por aí, Gina por aí, decerto na Comadre; acendeu a luz, ajuntou os restos quentes já esfriados no fogão, tinha panela sem tampa com tampa rolada no chão, mas em dia de tanta felicidade infelicidade pequena não tem vez, espantou insetos, encheu o seu prato, montanha digna da fome, sentou-se para ver tevê mastigando, dormiu o seu cansaço, deixou ao sono passar ao sonho o pesadelo que deixou atrás na Obra do centro da cidade naquelas alturonas, aproveitou sonhar com o Encarregado até lhe mostrando a língua, aí acordou, a esposa o acordou gritando que estava gritando e se era "pisadêro" ela assim falava; e dormiu outra vez. Dessa forma aquele primeiro dia de férias, que era só meio dia da noite para a madrugada ficou sem ser anunciado à Família.



- Discussão em Família – II

          De repente, parecia de repente, ele estava em férias. Não havia ainda conversado com a Família, a traçar o gozo na alternativa da rotina. Era a rotina, acordou, tão só falando meio sincopado, ao seu feitio, sobre o período em descanso para a mulher, mas não à Família; era preciso reuni-la a dar trato às coisas. No entanto isso lhe custou a espera. Passou o dia todo sem saber que fazer no não fazer, desacostumado nisso. Cada qual saiu ao seu mister, mesmo Gina foi entregar cedo a roupa lavada e passada; os grandes, que eram pequenos porque papai e mamãe eram de baixa estatura e os parentes de todos lados também; assim os grandes por idade foram para as suas nascentes responsabilidades, lhe tocando a ficar observando os pequenos, suas crianças, elas a brigar e até a brincar por desfastio do desentender. João permaneceu vegetando, indo prum lado para outro sem saber que fazer, onde se pôr, abobalhado, em virtude sempre no entra dia sai dia se ocupar no trabalho, do qual recente se livrara...
          Mas eis que chega a noite para tão sonhada hora de colocar os pratos a limpo. Falar sobre as Férias, fazer planos, executar o discutido, o decidido. Entretanto é tarefa difícil, quase impossível num grupo no qual cada um tem seu interesse nem sempre de interesse familial, isso sendo válido aos adultos. João pensou falar numa possível praia, o que seria novidade a quase todos, só a menina do meio, a Joana, somente ela fora uma vez ao mar; contudo era uma lembrança triste e trouxera muita desavença à família, discussão no sentido negativo, com direito a tabefes e xingamentos. Joana fora como empregada duns ricaços, a servir-lhes em temporada no litoral. De lá voltou com o problema comum que se observa por aí: o patrão fez-lhe mal, ela em razão do mal bem engordou, abortou quase morreu; e ficou por isso mesmo, a velha tecla da corda mais fraca... Ainda por cima (ou por baixo) perdeu as ilusões, próprias dos jovens; uma vergonha aos íntimos. Não obstante, aberta a sessão para discussão familial com respeito às Férias de João, foi Joana a que mais deu palpite, mestra e experiente nos misteres das águas do mar. Os desafetos da casa se aproveitaram a remexer no entulho o lixo até aí guardado pelo pó do silêncio; João, mais a Gina que ele, teve de interferir. O Chefe da Casa propôs seus sonhos no sonho das férias, os outros presentes (alguns não haviam ligado muito saindo a tratar de suas distrações fora) eles riram falaram desdisseram imprecaram se defenderam, a sala de reuniões virou balbúrdia. E tudo se enroscava no dinheiro, o Pai recebera um salário como bônus de férias e, que era uma importância daquela para tantos passearem! Não chegaram a consenso, embora mirabulassem muito, pois o sonho é como se disse um direito inalienável do homem. Gina gozou o marido: “homem, só se eu for lavar e passar biquini pras madamas na praia!” Ninguém mais propunha trabalhar ganhar acrescer aos parcos rendimentos paternos a todos se beneficiarem da viagem proposta. Não, Cancum não propuseram e nunca haviam visto-ouvido sequer na televisão; mas um passeio viável no Litoral não demais distante. Era o que se propunha realmente, assim mesmo superlativando o sonho dum quase pesadelo. Sobravam os pés no chão, o solo da periferia da Grande Capital. Nem assim cessara o desentender na conversa, a mais informal possível, que é sempre possível aos pobretões. A filha mais velha, que seria mais velha somente em razão da morte dos primeiros filhos do casal, a Patrícia, logo se negou a pés juntos ir, em não ser que pudesse acompanhá-los o Guilherme, seu ‘namorado’, o qual certamente teria o drama a deixar sua esposa e os filhos, uma situação constrangedora. E se uma ‘fieira de filhos’, esta uma expressão do dialeto familial, se a fieira não morresse antes, alguns nascendo mortos já, não fosse isso e eles também estariam ajudando a reforçar o elo familial brigando com os vivos. Mas os garotos também davam palpite; tinha o Carlos já calvo e que nada fazia na vida somente pesando à casa, esse era o mais violento querendo impor moral às irmãs. Já o mais novo, o Edu, era meio aluado e vivia trazendo para o lar dos pais tranqueiras sociais, agora andava com certa Még, garota esquisita pra quem havia ensinado como fumar maconha, ambos se embebedando frequente, dando vexame, envergonhando a casa perante os vizinhos; esse rapaz também queria ter direito a voto na sessão e impor os direitos da amásia. Os pais sorriam, não mais podendo chorar ou só lamentar.
          Com tais idas e vindas, altos e baixos, voltou o marasmo na Família, o João quase a desistir da viagem logo no primeiro dia, dia de propostas naquela noite daquele dia; coisa a lhe doer, porque embora não confessasse e isso não se confessa mesmo – desejava com as férias roubar a esposa à influência dum tal Argemiro, espécie de Casanova nas imediações e cada vez mais perto da Gina. Donde se deduz que feiura não é antídoto contra conquistas amorosas; a Gina parecendo um ‘canhão’ mas seu companheiro lembrando-se como fora bela antigamente; no entanto, quem pode com tanto menino querendo a luz!  era agora uma velha prematura, mulher parideira, barriguda, esquelética, conquanto bem trabalhadeira a ajudar no sustento da penca, a qual se iniciara com os falecidos saindo de casa como anjinhos pro cemitério, passando ainda pelos que sobraram até ao menino caçula temporão, o qual as comadres juravam ter os olhos dum vizinho e o andar desse mesmo vizinho mas ninguém provando que não se prova realmente só se fala... Assim o João resolveu encerrar aquele cerimonial a discutir suas férias, porém não precisou encerrar: os que não haviam fugido antes às gandaias já haviam se recolhido ao colchão e os que permaneceram, permaneceram dormindo antes já cochilavam – os pais encontravam-se a sós para brigar mais adultamente. Bebeu mais um café; e não convidou Gina a ir pra cama, ela já ressonava quando ele se deitou. Tudo sem acordo. Mas os acordos costumam entre pobres discordar bastante.



10° - O Dia Seguinte

          Interessante que o dia seguinte nunca tenha culpa pelos acontecimentos, pois ele depende tanto do anterior, este sim o divisor o básico o decisivo para qualquer interpretação que se possa dar. A divisória para ele era a discussão familial, onde não se chegou a nenhuma decisão, mas sobraram incompreensões; sendo que esse ponto divisor, este sim dependendo do início das Férias, ele o merecedor do apelido honroso ‘seguinte’. João permaneceu até mais tarde na cama, um inusitado pra si, nunca fora o domingo podia ver os desenhinhos a brincar na parede com o sol que via somente nas frestas das paredes da Obra; agora olha gozado gozando feito menino os desenhos os quais andam pela parede do quarto e se encontra sozinho. Não bem a sós, o Campeão vem lamber o dono faz-lhe festa amigo e puro. Sua gente ou já grita lá fora, a brigar com os gritos da vizinhança ou já se fôra fóra a tratar suas coisas. Ela nem se fale, no batente; já preparou o café e efetuou mil lides das lides de casa e se encontra numa patroa menos pobre que a lavadeira chep-chep na roupa e tagarelando e aí conta que o marido foi premiado na loteria da sorte das férias e ainda ‘linguára’ os planos e todos absurdos, infelizmente ela crendo em absurdos e sonha que irão loguinho ver o mar, o qual tem vontade conhecer e dizem que é salgado, desde pequenininha bem antes de namorar e fugir com o João, mas acha não ter sido lá grande negócio fugir da família dela que vivia brigando, não foi pois o 'fia-da-pê' (homenageia a sogra lembra a velha na sepultura e se benze e ameniza a ofensa pensando que a mulher a queria como filha) mas, diz aos ouvidos da outra, o homem só quer fazer filho e acabar com a gente... nesse ponto despenca a contar cada luz de sua sombra, assunto ao qual a patroa-vizinha dá corda conta seus ais também; e a roupa ‘montanha’ em pilha na bacia; aí param acudir a criança que tombou e chorou e esgoelou sujeiras e elas param então de falar para falar noutras coisas, enquanto o João dorme, aquele porco. Porém não dorme, levanta-se cansado do cansaço acumulado semanas no tranco aguentando a condução a obra o patrão os bolsos fracos magros e a dívida como ‘pindura’ na venda; se espreguiça gostoso e se encaminha ao desjejum e ao sanitário (o qual cheira bastantinho Ela limpa limpa, ah os porcos...) aí brinca com o cachorro, depois vem o caçula, brinca com ele, ri-se dos enrolados do aprendiz na escola da vida ainda no jardim da infância, mas o pobre não teve vaga na escola da prefeitura e aprende no quintal escancarado sem cerca mesmo; e depois de fazer minutos na horinha vai o homem ver se vê algo para fazer, impensável se ponha nos serviços domésticos, talvez um ajeito no seu diminuto pedaço a arrancar algum mato alguma praga vegetal; nada o atrai; ah se houvesse um macho ali para conversar, mas todos foram levar suas marmitas a comer no almoço do trabalho e falar com mulher não dá pé, fica meio sem jeito não sabe o que dizer, é um bicho que só fala de criança e remédio ou, pior, da vida dos outros e isso é chato pra valer; se vale da descida em trilho cavado por tempo e pés e vai à rua, a qual só tem esse nome e ninguém sabe bem o nome, mas é a que leva a gente pra ir ao ponto final pegar o ônibus sofrer no ônibus depois sofrer no serviço, aquele Pedro é um desgraçado e sem-vergonha, se deixasse por sua conta ainda hoje a carregar massa e tijolo, aquele enjoado e pior ainda, isso pior: falaria ao Doutor pôr ele na rua, pois o Pedro por si mesmo não deixaria nem completar ano e ganhar férias, um direito uma conquista da qual se orgulha... Todavia quando dá conta estão as portas do Bar escancaradas. Entra.



11° - O Bar o Mar o Mal

          ‘Bundia’ Dona Zefa, Zefa quem sabe Josefa, não punha a mão no fogo por essa dona, dona do dono, correndo à boca pequena a mulher sendo o homem naquela fortaleza, umas estantes sujas empenadas na madeira velha onde se apresentava ao público, agora tão só o João o das Férias, garrafas convidativas plenas de pó com rótulos vistosos mas gostava mesmo do da onça e tinha um com moça e outro com o número 51 escancarado e este sabia ler; tinha umas latas pingadas pra cá pra lá desordenadamente e muita coisinha em plástico, visto estarmos na era do plástico até dizem haver já coração para transplantar de plástico mas nunca iria deixar pôr um treco daquele no dentrão dele; tinha na estante vistosa ao mau gosto miudezas mais como doce para menino, vidros em chamarisco; embaixo as geladeiras com, é claro, garrafas garrafas garrafas em vidro e garrafas de plástico ou garrafas de lata que eram de alumínio. E o chão. O chão era limpo, Dona Zefa varria e mais varria, os porcos sujavam de novo, a Gina me chama de Porco; e ela prof-prof alimpava outra vez. Os usuários do Bar, que ironicamente se chamava Esperança e o dono, de propriedade da dona, ele ‘pessimismava’ à beça num: pudera! tendo freguês como o João a botar e mais pôr na lista que eram as tiras de papel de embrulho rabiscadas de compras não pagas às quais se convencionou chamar ‘pindura’; e ainda sobravam outros caloteiros a enriquecer as vendas da Venda, sobretudo bebendo os lucros do Mané, Dona Zefa falando ‘Manezinho’ e os de fora sempre dentro a falar mole Seu Mané.
          Porém não gostava o João de encontrar a fêmea da espécie Dono Sapiens no balcão, ou com a invariável vassoura gasta velha de usada, ela fazendo, ela se bem não se confunda a dona, ela fazendo careta às cusparadas dos ‘suínos’, ela falava baixinho nos ouvidos do marido, ou seja lá o que fosse – "suínos" ou os tratava a rebaixá-lo ‘os seus amigos’ e ‘filhos’ porque viviam à custa das costas do vendeiro, segundo sua abalizada opinião; ao que Mané respondia veementemente hummmm que nada dizia por tudo abranger. Contudo não apreciava nem um pouco o João à Vendeira. Dona Zefa falava meio gritado com uma vozinha tão fininha fininha fininha de arder as orelhas, incomodando as pacueras de ouvir o barulho do barulho da Obra e trepidações mais, incomodando essas pacueras de dentro da cabeça (o João imaginava que dentro da cachola apenas na existência duns melados gelatinosos esbranquiçados,  credo!  parecença com a meleca que vira perto da Obra quando um dia saindo da Obra viu um desastre cheio de curiosos e havia cérebros espatifados e ficou enjoado não quisera comer a comida da Gina naquele dia que era já o outro dia madrugada, evitando inventar atraso da condução atraindo a mulher ao prato cheio da violência no trânsito urbano em que a gente conta mais os estragos das latas e pneus fugindo aos estragos de carnes e pior de miolos no asfalto negro branqueado de pensamento.. mas será mesmo que era o lugar do pensamento!  E assim não comeu, deitou-se rolou a noite inteira impressionado porque era impressionável e aí a Gina ficou com pena e não boquejou, antes lhe cobriu as partes que tinha parte fora e andava frio que só a Capital paulista genuinamente oferece à população da periferia; então o João trabalhão então, então dormiu. E sonhou pesadelo igual criança). Seria estar o pensamento naquelas porções inconsistentes da cabeça!  Enquanto a voz estridente de Zefa entrava bagunçando lá os miolos dele, do João. O João em férias.
          Assim se escoaram horas, horas não se contando no estado de graça de férias sem desacostume trabalhar, ouvia lá dentro em longe-perto escutava ainda o ranger dos cabos a puxar o elevador o som de cacos a cair, credo, não usasse capacete o Pedro aquele desgraçado falava “penico de baiano” – agora queria esquecer o Pedro o penico o ranger a poeira o grito e o grito mais profundo do corte na Obra, estava são e salvo ali no Bar a Dona Zefa... não não, que fosse lá o que fosse, era boa tratava bem só olhava feio ele nunca cuspiu no chão só no chão da rua assim mesmo pisando por cima a desmanchar aquelas melecas feias e era feio é ainda feio olhou bonito pra Dona e foi assim perguntar sobre o Mané.
          “Num tá, foi pagá os imposto daquele ladrão de governo”. No que tinha sua razão mas... não Senhora, eu queria falar com ele; ele saíra não entrava homem algum no boteco pra contar a novidade das Férias, só meninos em três e quatro duma só vez pedir apressados e sair mais ainda apressados a correr brincar e mulher, parece que abriram as comportas femininas e elas vinham pediam isto levavam aquilo, Dona Zefa marcava e tinha uma letra bonita e dava pra ler mais que a do Manoel, mas pegava no pé de vez em quando na cobrança e as mulheres saíam sem graça, não tem graça conversar com elas, aí Dona Zefa resmungava, pior: falando fininho a irritar preferia a Gina, a Gina falava quase como homem meio grosso e quando a roubou daquela família atrapalhada falava menos grosso mas grosso e não era tão braba como agora; o jeito é ir embora porque o marido vai demorar, encrenca com governo dá sempre tardanças e além do mais, se fosse fim de semana não é fim de semana só gozo para quem em férias como ele, e aí os outros viriam falar beber contar beber mais um pouco, era mais seu ambiente; então se foi arrastando os chinelos nem pusera as botinas de trabalho a arrastar para a rua de chão e poeira na seca e lama na chuvarada. Entretanto voltou correndo ao Bar por causa da chuva, uma chuva que parecia ir acabar o mundo e assim ficou retido bem meia hora parecendo hora e meia, sem assunto e então só então saiu de fato pra casa, se foi a acumular a barreira na sola do chinelo depois tirou aquele arremedo de calçado e andou descalço mesmo, afundando no barro, emburrado chateado. E se aprisionou no lar à espera de Gina, conversando vez que outra com o caçula Zezinho.




12° - O Bar o Mar o Mal – II

          Levou um susto o João ao chegar outra vez à Venda, Dona Zefa...  mas puxa vida! precisaria outro dia sem ter o que falar o que fazer porém a Dona estava lá a acabar sua limpeza mas o Mané num sorriso viera encontrá-lo pra cá do balcão; quis de início explicação sobre as Férias, um negócio que vazara assim como a imprensa extrai os segredos governamentais para vender ao público noutro dia quiçá no mesmo e depois fica a instigar os políticos para dar declarações, o que exige muita diplomacia e jogo de cintura a fim de não complicar o complicado, foi assim o Vendeiro se dirigir ao freguês, importante pela importância do pendura, que todo popular pronuncia "pindura", porque aquela turma do Silva é gastona e ele demora no pagar as tiras já ensebadas a Zefa resmungando dureza à moleza do esposo mas tem gente que fala que não é não é mesmo da conta da gente e ele sorri.
          Contou o João os primeiros dos muitos capítulos do romance, dramático na ameaça de corte na Obra e nas intrigas dos encarregados, tem um bestinha lá chamado Pedro que pega no pé; e a comédia da ordem de férias no fim daquele começo, porém ele lutou exigiu seus direitos, impôs ao Doutor... sabe é meu xará! o homem se curvou, teve que ceder, chegou até a participar da reunião de cúpula com o Doutor, o Doutor João gritou o Pedro:  “xará meu, minha mão direita!” e se tem férias vencidas, a moça... bonitona (olhou ver se Dona Zefa já se fora, continuou ao Vendeiro:) aí a menina paga tudo, pagou. Então aquele sustentáculo da Obra já engoliu um copo da branquinha e o Mané olha abismado o seu porte, ainda faz com a cabeça aprovando e nessa altura já tem testemunha chegando a participar do banquete...
          João, o das Férias, agora esquentado um pouco na goela, se encontra numa banqueta de quatro pés com três um brinca no ar quebrado e se equilibra bem pois é equilibrado e não tomba com pouca bebida. Conta, eleva a voz, trata das coisas com desembaraço. Já um pouco mais desembaraçado entretanto mole na fala molhada, o copo é o mesmo copo porém não a mesma pinga, pinga a marca no pindura o Mané soma acrescenta esquece remarca aumenta por conta da diminuição do prêmio das férias e aí piora. É que chega mais alguns desocupados, os outros trabalham foram manhãzinho à fila do coletivo, os desocupados que sempre existem e ouvem; o João tagarela agora com a língua mais solta na sucessão das doses, os amigos – porque bêbado é amigo de toda Humanidade e o João está mais pra lá que pra cá e abre a bolsa – esses amigos entram na farra e não há grande necessidade a insistir ofertas, beberica-se bebe-se se bebem e atraem: o ímã anda ligado, fala demonstra defende ataca conta vantagem e os outros vêm vindo para o Bar ah soltaram todos desocupados da Vila que apreciam aguardente!?  O barulho é grande, Dona Zefa vem ver donde e pronde vem vai aquele inferno, olha feio o marido que não é feio é medonho na opinião macha e ali tem é macho bastante então ele olha meio constrangido a companheira, ela se espirra para dentro quem sabe para ver as crianças e as roupas das crianças porque criança é muito briguenta e os homens em freguesia também a balburdiar, o Mané tão só dá sua bicadinha na conversa, pois não iria estragar a chuva que cai graças a Deus na sua horta e marca mais um pouco no pindura do João. O João já não sabe mais que é João, fora ajeitado numa cadeira, a qual é mais baixa menos perigosa que a banqueta manquitola mas continua fazendo baboso seu discurso e a tarde vem caindo vem correndo até a sombra da noite já querendo espantar os raios de sol e alguns dos fregueses eventuais se foram, quase sempre enxotados pelo vendeiro; Dona Zefa vem dar palpite que são ordens ao marido ou seja lá que for e o João é aconselhado a ir-se para a sua Gina. Mas não pode, não que não queira, não fica de pé sozinho e os amigos o levam pra casa que não sabem bem onde possa ser naquele cortiço em não acabar com casas por cima de casa e cachorros a latir bastante mas os moleques, parcela social sempre bem informada, eles indicam a residência do João em Férias, aí vêm correndo a Gina e uns poucos filhos já de volta de sua ida, para ajudar a trempe. Então depositam na cama aquele borracho de chinelo e tudo mas um se perdeu no caminho, tem as vestes molhadas de xixi atrevido e abusivo e ainda fala, mole mas fala, ninguém sabendo o que fala.
          Gina, indignada, ouve por cima a fala dele num ótimo mais ou menos e grita à junta que depositou aquele fardo mole cheirando a bebida: quem é esse tal de Pedro, seria algum cachaceiro que lhe socou o marido!  mas ninguém sabe responder, talvez o Campeão porém somente abana o rabo feliz com seu deus esborrachado no colchão gasto e velho.



13° - O Mal Sem Mar, o Escambau

          Foi assim o bom mau emprego daquela fortuna conquistada com os direitos das Férias. O João voltou algumas vezes ao Bar, não à procura da esperança no Bar Esperança nem a saber uma saída para o emprego do capital. Molhara o capital na caninha e secava o excesso no pindura, este a engordar estufar extravasar, mesmo porque entrava mês saía mês não era quitada a conta; e agora, supondo aquela inesperada fortuna se gastava também mais. A Gina exigiu dele que desse uma parte do tesouro para acalmar a Zefa, devendo falar o Mané mas tendo razão. O João cedeu algumas notas e como gorjeta bebeu mais naquele dia. Bebeu a passagem à praia a estada os dias em descanso, bebeu todas as Férias. E ainda ficou devendo na Venda devidamente. Tão só mais uma vez teve que ser levado pra casa num porre, dando vexame à família aguçando a curiosidade vizinha, dilapidando a riqueza dos seus. Depois não: ficou liso raso sem nada, quase não teria dinheiro para pagar a passagem na condução quando voltasse ao serviço.
          Portanto boa parte do seu calendário de férias ele a gastou gastando e se desgastando no lar mesmo. A ouvir esbravamento de Gina, admoestações dos filhos mais velhos e – isso impossível não ocorrer – endo televisão, que aliás pegava muito mal na Vila, era preciso toda hora virar a posição a mexer na antena; e brigar com os pequenos uns querendo ver desenho e seriado de violência, o que é hoje indício de bom gosto; com a mulher e as meninas a verem novelas; os garotos maiores a querer programa esportivo. Ele no ver tudo por não ver nada, passando o tempo engolindo tempo matando tempo.  O que andava mui longe da proposta inicial de Viagem... Também se enriqueceu em desentendimento.
          Contudo o que mais pontificava era mesmo o ringue conjugal. Gina, que parece se chamava realmente Angelina, ela explorava bem sua superioridade sobre o esposo. Este sentia-se endividado moralmente por tanta atrapalhação e andanças nos serviços, que eram mais subemprego que emprego. Verdade que a chuvarada no período ajudou o chefe teórico da casa a passar suas férias não podendo pôr o nariz pra fora muito menos ir ao Bar onde já era persona non grata; mas por outro lado acorrentou-o a chuva a ficar mais tempo frente sua Companheira. Esta desfiava seu rosário apontava com facilidade a flagrante fragilidade daquele macho.  Assim o que mais houve nas Férias do João foram as brigas do casal.
          Os filhos, ninguém colaborando com o rendimento familial a poder exigir, exigiam que o pai lhes desse uma parte também da soma recebida para férias. Brigavam, discutiam. Um dia Patrícia ameaçou fugir de casa com o ‘namorado’ Guilherme, o qual fugiria da esposa. O mais novo trouxe outra vez sua Még, beberam se desentenderam deu-lhe umas pancadas e o João não sabia a quem acudir. Gritos berros, prato cheio aos vizinhos, eles igualmente com belos espetáculos por sua vez... As discussões eram intermináveis, não só mas bastantinho por perda naquele ganho de Férias. Ninguém se entendia; dentro do sadio princípio da casa em que falta pão todos gritam ninguém tem razão. O Chefe?  esse desanimava, deixando à esposa o acalmar os ânimos e fugia para cama. Aí o Campeão lhe ficava a sorrir de cauda.
          Entretanto houve um ganho. Nesses vinte dias em Fé-rias não apareceu o Argemiro a cheirar sua casa. Não obstante vieram parentes. Estes queriam detalhes das Férias programadas do João, deram palpite para onde se ir, que era já não-ir. Alguém chegou mesmo a prometer certa máquina fotográfica a flagrar as lembranças da Praia. Mas agora o Mar ficara longe, não tinha sequer mais o sabor de novidade nem despertava o imaginário. Porque a folhinha mostrava em números grandes por baixo daquela paisagem cheia de gelo europeu o final no descanso do João. Terminando essa fase a qual poderia ser chamada ‘Pouco Menos de Mês Sem Paraíso’. Era preciso aquecer as caldeiras à viagem de regresso à Obra da rotina: condução madrugar e trabalhar, conseguir recurso a ganhar do pindura na Venda, tapar aquelas bocas, mais ainda a da Gina...



14° - Um Encontro Casual – II (Inconclusão)

          Agora era um verdadeiro prêmio, mais ainda que o prêmio das Férias e a Viagem de Férias – João estava antes do sol a esperar a condução para tornar ao trabalho, a Obra distante. Estaria já acabada, o pessoal sentira sua falta? Aí lembrou o Encarregado, e se houvessem dispensado o Pedro... talvez fosse ocasião, isso mesmo, falaria ao Doutor João sobre provável aumento no salário, por que não!? seu xará e tudo o mais. Contaria aos colegas sobre suas Férias; se falasse em Praia o Baiano creria com certeza. Ocorria pudessem enviá-lo a outra construção, se falava muito noutra noutro edifício maior ainda; e se fosse menos longe, ah poderia economizar um ônibus; com tal dinheiro ajuntaria uma importância suficiente a irem nas outras Férias ver o Mar; havia sido semelhante: economizara um dinheirinho bom ao deixar o cigarro, somente a pinga não conseguira largar; uma condução a menos mais dinheiro ao Mar. Sonhou um pouco ainda. Até o trânsito acordá-lo; e atrasá-lo no reencontro com a Obra. Olhou a hora no relógio de propaganda num edifício lá em cima: viu-se bem atrasado, mas falaria com o Doutor, inclusive relembraria ser seu xará...
          Chegou. Coçava nervoso a marmita que a Gina enchera com arroz e feijão; coçava o capacete amarelo; coçava o gogó, a garganta apertando; olhou o prédio quase pronto, meia dúzia de trabalhadores mexendo suas coisas; mesmo a garota do escritório era outra. Gaguejou a ela. Consultou suas fichas, balançou a cabeça chocalhando fios louros.
          Nisso apareceu o Doutor. Nervoso, nem quis falar-lhe, passou pelo João, indicou a jovem na portaria. Voltou a tratar com ela.
          Era mais bonitinha que a anterior, mais atenciosa. Revirou os papéis. Consultou a dispensa de pessoal.
          O Senhor foi cortado. Precisa assinar aqui...

Marília  fevereiro 2004




















Segunda Novela


                   Dona Elinha da Silva
















































I – Introdução

          Por desconhecimento do conhecimento da gente a gente às vezes esbraveja chuta fere, depois, só depois... por que tem que ser depois?  depois reconhece não ir a tanto mas já passou. A impressão não passou.
          Elas, mais sobre ela, elas não se esqueciam do casal novo já então velho no pedaço.
          Agora, ela... ah ela. Imagine-se o pavor do cartel da língua não poder meter a língua melhor mais nela. Não, assim não, sim poderiam e o faziam com plena capacidade e aí falavam e mais falavam falavam nela e melhormente dela, Dona Elinha. A Maria: “Elinha Desconhecida”. Riram. Riram muito pela graça mariana no dizer e no dizer compreendendo não saberem sequer o nome da nova vizinha e do vizinho novo que descobriram por tagarelismo postal ser João.
          Tinha mais.
         


II – A Mudança

          Vieram trazendo aqueles cacarecos pobres de gente pobre remediada com direito a fusca usado e isso é lá pobre!  pois é, vieram trazendo a mudança, a porca, elogiou a Maria, a porcalhona nem pra antes vir de vassoura balde trapos passar sabão para limpar a casa para virar ninho do casal; tinha criança? as crianças curiosas igual as comadres em ver torcer que houvessem os moleques por moleques as garotas por meninas e promessas de muito brincar e apenas sobraram os trecos de cozinha o sofá esfolado a enfeitar a sala e constataram não haver gentinha nova na vila somente o casal esdrúxulo a Maria falou as outras concordando e nenhuma sabendo o que ‘esdrúxulo’ mas não sendo sem dúvida coisa boa e não tinha mesmo criançada o que era uma boa, menos por briga visto os nossos capetinhas já aperrearem bem, e aí transportaram as coisas para dentro; o guarda-roupa não entrava entrou desmontado e é aquela droga de não se conseguir remontar quebra desmancha e pior não se acha certo o lugar certo e as cadeiras nenhuma desmunhecando e a mesa de cozinha que deixaram no quintal tomando sol (será que não estraga?) ficou sim no quintal, onde mesmo poriam a mudança se não antes fora pra depois levar para dentro! E latinhas de flores e folhagens um despropósito assim mesmo já prometendo elas uma certa muda de planta das velhas de casa pra ofertar em boa vizinhança à vizinha nova, velha essa ideia mas se vendo como campeia a solidariedade e boa vizinhança ainda; mas foram mil delas, as latinhas, o que deu nervuras no macho da casa nova e preocupação à fêmea nova da casa 33. Enfim o até que enfim e botaram tudinho para dentro, como se pudesse cômodos pequenos – uma cozinha apertada os outros tudo exíguo – engolir tanta tranqueira e uma desproporção de móveis (teriam baratas!) e os trens de cozinha e ainda a televisão a antena somente ajeitaram noutro dia, o grandalhão (qual seria seu nome...) subiu ele no telhado e gritava para a coitada, um espetáculo lindo de se ver mas qual seria o nome dela, era cordata alegre conversadeira, enriqueceria o pedaço!?



III – Primeiros Dias

          Até que enfim o silêncio se fez no silêncio do silêncio que era a rua antes da agitação costumeira, o silêncio no 33; o homem, aquela despropositura de homem a funcionar o fusca e a sair deixando o portão arreganhado Elinha correndo a fechar o bruto nem tchau, beijinho muito menos, ela desconsolada, elas pensando desconsolada, a sorrir um sorrir amarelo e veja lá se possa dar cor à boca fora batom que ela não usava. E cachorro não tinham cachorro, será não entrava cachorro pelo portão arreganhado! Fechou. Olhou. Olhou como em não ver vendo estudando e se escondendo, decerto lá dentrão muito trabalho nos primeiros dias mudança é um inferno todas sabem tem muito quefazer sempre e depois mais nos primeiros dias a gente prometendo toda vez também ser a ultiminha mudança e nesse ponto tiveram foi pena porém ela sumiu se engolindo na casa que a engolia e por isso olharam conjuntamente para Elinha. Foi duro no começo saber ao menos seu santo nome e depois, depois... o depois.
          As outras, mais que a Maria, a Tereza, a Teresa, a Débora, a Suely, sim com ipsilone, a Neusa, a Neusa mais fora trabalhando dentro primeiro e após ia fora trabalhar na faxina quase sobrando um dedinho de prosa... ué não é que não tenha dedo mas não mão a conversa!  sobrando sim no fim de semana em que se trabalha dobrado a vida de mulher pobre rica em exigência e a Neusa quase não participando da dissecação do cadáver, cruz-credo, cadaverinho delinha de sorriso amarelo mas bem, bem mais a Tereza, não a Teresa que só sabia rir da galhofa da Maria, a Tereza de cá e com zê, do lado do 33, ela com uma língua deste tamanho ouvidos orelhas ó de grande e sabida mas nada... Nada sabiam em concreto sobre a vizinha nova.
          Umas que ‘Maria’ como Maria; outras que ela não pudesse ter outro nome que não ‘Joana’ e etc. e tal, tal a configuração a saber certinho o nominho delinha e aí...
          Bem aí não souberam seu nome, mas o sobrenome. O vizinho metido do 44 afirmando que nome não é nome, pre-nome, o nome o sobrenome. Não souberam o nome descobriram o sobrenome que o carteiro teimoso teimou ser Silva.



IV – Conjunturas nas Descobertas

          O Carteiro, não aquele brincalhão com elas, outro, os Correios fazem questão em não deixar seus funcionários criar vínculo e amizade e aí trocam a três por dois os pobres na entrega de cartas mas puxa como o selo anda caro, o Carteiro deu o serviço a elas, para a Tereza, à outra Teresa confirmar. O homem? Sr. João G. da Silva, elas brincaram um pouquinho com o estafeta, o qual não era de coisas por meio sério e se foi embora, elas se aglutinando a dizer umas às outras as outras a quem chegando que o nome era Sr.João G. da Silva, a que a Débora completou ‘Gomes’ a Suely desse jeitinho com ipsilone ‘Gonçalves’ a Teresa até a Teresa quietinha sorrisos mansos a dizer ‘G’ de Gusmão tinha na outra casa quando morava noutra vila tinha um ‘Gusmão’; mas não sabiam até comprovação em contrário, quando a Tereza esperta pra valer foi entregar a correspondência certa no errado endereço dela porque certamente o novo carteiro sendo novo se enganara e acertou: João G. da Silva. Ela aguardou paciente chegar o homenzarrão... iria entregar o documento àquela bestinha muda e a muda sequer tendo coragem falar o nome certo da carta certa também na casa dela, errada, dela Tereza! então aguardou; chegou de fusca e a Tereza – Seu João, não é João? todavia não teve coragem para afrontar aquelas machuras sérias indagar certinho o nome dele o ‘G’ por exemplo e por que não o dela, a magrinha petitiquinha enfiadinha sempre lá nos fundaréus do quintal; assim apenas completou constrangida “a carta foi entregue por engano na minha casa” e o brutalhão se enrugando ‘seriúras’ mais preocupado com o dentro da casa que no fora dela e nem agradeceu, entrou. E aí o de sempre.



V – O de Sempre

          O João. O João não era um belo homem na opinião da oposição em prontidão mas também homem não precisa é a mulher que tem essa obrigação, mas fortalhaço irritadiço grosseiro um acúmulo de músculos e cara feia, feia leia-se fechada e a dela, a dela fechada apenas de medo até que bonitinha. Não sendo belo mas com direito a chegar. Chegou. Daí ficou a funcionar aquela lata velha esperando que abrisse o portão, se demorasse buzinava anunciando ou exigindo ou ralhando a sua indignação, aí veio correndinho. Abriu. Rangeu antes, antes do depois, depois rangeu de novo nos gonzos secos o portão fechando, enquanto... Aí desceu cheio de pacotes de compras, carregado até aqui, ela ajudando em sua ‘fracura’ a levar para dentro e era quem devera por acostume voltar, fechar a porta do veículo e depois voltar doutra volta para dentro fora do carro limpar lavar esfregar esbanjar água lustrar secando o fusca e varrer as sujeiras daquela sujeira e aí, só aí indo definitivo cuidar do seu homem. Mas como? Elas não se metiam nas intimidades dos outros.
          Apenas escarafunchavam como se faz com o nariz quando ninguém perto e se limpa o salão, assopra enxuga com papel higiênico se tiver às mãos, mas escarafunchar não é saber e saber mesmo somente o exterior que é de domínio público.
          Que havia um homão daqueles de fazer medo quando entrava no boteco aos miúdos. E uma mulherinha fininha sonsinha timidazinha olhinhos verdinhos a trabalhar com responsabilidade nos seus afazeres domésticos enquanto elão fora elinha só.
          Não mais.
          O mais era o de sempre. Lavar roupa chep-chep; varrer, esguichar, pôr lixo... seria hoje quarta? a panela de pressão a chiar, a fritura a subir descendo às narinas, o blã-blã dos trecos a se chocar, tilintar pratos, um que outro objeto a cair teimoso sem que Elinha xingasse, por fora, alto. Contudo, falar, era muda, inabordável, não inabordada que isso não existente à Maria à Suely esta fazendo questão no y. Tão só não dava o serviço, dizendo mais de cabeça que cabeça a se abrir em sons desejáveis, mas respondendo sim educada bom-dia e sorrindo uma espécie de choro, se guardando outra vez. Mas não era o de sempre na coisa do seu nome.
          Diziam que assim que assado sobre ela, mas em que nome? Então sugeriram (a Maria) que ficasse e ficou Elinha da Silva, da Silva pelo marido, o qual garantiam não ser marido. Podia ser que fosse pela igreja verde, podia doutra religião, quem sabe cartório mas ninguém nunca vira a certidão, isso posto ponto pacífico. Elinha da Silva seria, e não podia mesmo ser! seria amásia do brutamontes (este agora já conquistara o título de inimigo público número um por sua sem-gracice). Diziam.
          Diziam e mais que diziam elas os desajeitos deles.



VI – Desajeitos Melindres Intimidades Indecências

          Lá pelas tantas insurgiram-se por aquelas melecas. As melecas de amor. Os negócios de como bem dizia Suely “frescurinhas” visto elas com seus companheiros não tinham muito companheirismo e menos maneirismo em não ser na lua de mel fel a algumas, esses negócios do bem de cá benzinho de lá. Não ele, fechadão. Ela. Ela ia recebê-lo, sorria ao seu amorzinho, que era destamanhão, abraçava, carinhava, cheirava seu homem. Ele? ele quando muito aceitando aquele esfrega-esfrega, como fora o passivo na união, isto sendo um ganho da civilização pois em geral era estátua extático parado inerte inerme mesmo, igual o tempo num livro em prateleira empoeirada de biblioteca pública de vila inculta. Ele não reagia, não atacava, não iria prodigalizar carinhos muito menos. Ela, Elinha da Silva, era ao contrário sempre amor; e poesia; e afagos. Claro, quando era naquele dia...
          Naquele dia foi um desajeito dos sem jeito a marcar fundo o pedaço, calando, até calando as bocas da Maria da Suely da Teresa já sempre calada, da Tereza, da Débora da Zina que viera meio afoita ver observar quem sabe se não invejar e se enriquecer com notícias frescas ou tão só e só curiosidade pelo barulho, que o escândalo adora barulho. Elão chegou.
          Decerto que andava com desentendimento no serviço mas onde será que esse homem trabalha e se não trabalha demais nunca vai trocar de carro e isso é grave na pequena burguesia. Chegou nervoso. Mais. Daí ficou a funcionar, buzinou, gritou (se elas não tivessem cera no ouvido poderiam agora saber o nome da pobre mas tinham). Desceu enfim e se pôs a abrir aquilo desengraxado rangedor e arreganhando a entrada; Então acelerou roncando a fortaleza do motor e adentrou com raiva, via-se com raiva, raspou a lataria naquelas beiradas de ferrugem do portão fazendo riscos novos na lata velha do fusca cansado, furando um pouco a lata... Aí roncou xingos, chutou a porta do carro, fechou brutal e violentamente o portão, olhou, olhou os que olhavam e não mais olhavam conversavam como não fosse com elas, nem a Tereza corajosa disse qualquer a qualquer outra nem ninguém, antes desolharam e se emudaram emudecendo e ele fechou mais a cara. Foi examinar os estragos no para-lama vermelho então em lindos riscos artísticos amassados sem que certamente gostasse e se foi para dentro de casa a bater com muita raiva os pés no piso de cimento rústico. Tudo sem que Dona Elinha aparecesse.
          Só naquele dia.
          Naquele dia ocorreu...  lá dentro deve ter mesmo sido um fuá medonho não se sabe sabe-se apenas os gritinhos dela o vozeirão dele e supuseram, a Tereza já apanhara do esposo um dia e tinha experiência no assunto, a Tereza e as outras supondo que apanhasse a pobre em pancadaria vulgar daquele brutalhão e ficaram contra... "mulheres de todo mundo, uni-vos" não foi assim o Marx!  houve as que lembraram a polícia para acudi-la houve as que disseram "¿pra quê se na hierarquia dos respeitos nos desrespeitos estão grandes criminosos soltos e beberrõezinhos e os brutamontezinhos que massacram seus amores femininos estão é entre os menos expressivos, pra quê então chamar a polícia?" Naquele bendito dia maldito seja o casal se deitou cedo, dessas pressas em que se esquecem mesmo dos filhos e um olha pra cara do outro cônjuge e não tem nada a dizer antes quer o calar, o silêncio, o silêncio desce na alcova até o outro levantar-se que vem o novo dia e a vida recomeça; não neste caso os meninos não ficaram sem comer nem precisaram correr à vizinhança com medo de papai: Sr. João G. da Silva não era pai, pelo menos em acordo com Dona Elinha da Silva, era só o casal, mas esse casal ficou quietinho, não adiantando nem uma nem outra, todas, a ouvir não ouviam. Só nesse dia, que se perdeu na noite.
          Não. Agora eram afagos e beijos. Diga-se em passagem só Elinha beijava e farejava e abraçava gulosa de amor, enquanto aquelas machuras apenas aceitando (o que a sociedade acha positivo, um pouco muito sendo a costumeira grosseria, o que se dava com o Sr.João sempre). E era tal a “frescura” ah essa Maria, era tal que elas... elas todas falavam abertamente e não à boca pequena na sem-vergonhice do casal, assim em pleno público, em frente da gente, mais, frente dos meninos. Ora, dá para aceitar uma coisa dessas! Não dá.
          É preciso lembrar a moral os bons costumes a exemplificação, a exemplificação que a tevê não sabe dar nem na das oito nem na das nove, que é uma prostituição a todo gosto.
          Ora ora, não se podendo contar com a polícia... bem, foram dormir. Elas. A Maria a Tereza a Teresa a Débora e uma outra ali por volta, porque não iriam elas ficar vendo aqueles escândalos, escândalo é como fezes: se se mexer mais mais fede.
          Não tinham nada a ganhar.
          Não tinham nada a perder. Também.



VII – O Dia Seguinte ou II Capítulo do Capítulo VI; e    outras imprevidências

          No seguinte, uma quinta-feira, não foi seguinte ficaram bicudos, supõe-se, mais de três dias e aí seguinte. Elão chegou.
          Chegou. Deixou aquela obra de arte riscada talentosamente pelos portões, funcionando (o carro a funcionar, o portão não funcionava bem) correu ele mesmo abrir a geringonça de fechar o quintal fechar o carro fechar a casa a possível ladrão e aí pondo sempre o cadeado acorrentado na corrente ambos enferrujados a sujar a mãozinha Delinha da Silva e agora as Delão, entrou, entrou com cuidado mesmo porque a experiência costuma ensinar as pessoas, desligou a chave de partida que era então de chegada, correu ele mesmo a fechar o portão – e fê-lo educadamente – e se virou a ir para os braços de sua esposa, que as meninas chefiadas por Maria ou por Tereza as mais espertas delas com olhinhos perscrutadores assim elas diziam não ser esposa coisa nenhuma no padre; mas Elinha já vindo a correr para Elão, se abraçaram se beijaram e curioso! por iniciativa do próprio homem, macho naquele consórcio em exposição. Sim se abraçaram, quase se enrolaram... em público, vejam só, olhem meninas, que sem-vergonhice danada o mundo está mesmo perdido não tem mais jeito na loucura do mundo, nem religião pode e serão Elinha e seu brutamontes religiosos, igreja verde, Maria, igreja verde. Contudo foi por pura iniciativa do homenzarrão desajeitado todos aqueles lances, sim pelo desajeitado.
          Para aquilo, isto é, aquilo a que não tem jeito se ajeitou bem, bem se lembrando ser sua iniciativa pra não se esquecer. Bem. Assim.
          E se foram para dentro, dentro ninguém tem nada com intimidades alheias, mas precisavam dar audição pública! Ficaram num abraça abraça e se falando coisas, parece que Ela disse “não”, se falou falou baixinho baixinho e assim não tem orelha que aguente; mas não adiantou: pegou-lhe à força (ele tinha a esbanjar) foi arrastando sua presa e ela, Elinha da Silva, pobrinha, teve de ceder que a fome Delão era tremenda e dessa forma sumiram naquelas ‘entruras’ do lar, longe d’olhos, igualzinho quando a gente quer saber na plateia do palco e o palco está às cortinas e os espectadores, Maria e as outras, portanto espectadoras as crianças não contam embora havendo dois ou três ou mais moleques, enfim os espectadores ficam só a imaginar. Assim.
          A luz dos fundos apagou cedo, quase nem fora acesa. A de fora na varanda esqueceram ligada e decerto só de madrugada quando se levanta a gente com esse frio dá mais vontade de ir ao banheiro e aí se flagra a bicha acesa arreganhada acrescendo na conta de luz. Ou que não, manhãzinha quando o povo vai comprar pão na venda vendo já ela apagada mas que se tem que ver com?
          Aí nesse dia...

VIII – Deu Pronto-Socorro

          Não depois, depois ainda, foi semana depois Elinha da Silva apareceu para varrer a frente na sua parte da calçada pública sem contato, sem desejar contato, e não falou (pra quê!) não conversou com ninguém, todos, todas viram que se machucara... ou fora machucada ematomas riscos arranhões sabe-se lá, um lado do rostinho até belo ou gracioso só a voz sendo horrorosa em falsete mas bonita, esse lado volumoso inchado mesmo. Varreu usou pazinha pôs num saco de lixo improvisado porque era desses de supermercado guardou podendo até já pôr na trempe sendo dia de lixeiro, mas que temos com a vida dos vizinhos? nada, responderam. Nem com o flagrante de flagrante espancamento (aí se condoeram em espírito de grupo, de sexo; e massacraram mentalmente lingualmente aquele sádico). Loguinho a curiosidade não apenas da Tereza não, delas, loguinho foi satisfeita.
          Chegou o garanhão daquelas paradas, parou o carro, nem entrou com ele na garagem um pouco estreita a raspar no portão, não. Ficou o veículo estacionado em frente do 33. Desceu o Sr.João G. da Silva, correu para dentro, trouxe amparando sua esposa que elas afirmavam não ser até ao carro lá fora; Elão trazia na mão livre pequena valise ou bolsona portátil dessas umas de viagens rápidas; então – ao espanto geral! – ajudou sua fêmea a entrar no automóvel. Aí ligou funcionou movimentou e saiu... outro espanto mais geral ainda! saiu bem devagarinho, quando amiúde saía a correr quase cantando pneus... Aí.
          Aí tem dente de coelho. Todas concordaram que sim. E foi uma agonia fiscalizar cada veículo a passar na rua tarde toda, apenas alta noite voltaram.
          A Tereza: Maria, essa menininha está esperando menininho... Maria: pode ser Tereza, porque andava meio barriguda e toda hora pondo a mão na pança. Outra: e por que esse 'filho da pê' (carinhou a sogra de Elinha) por que bateu na pobre estando nesse estado! Contaram casos de abortos ‘in-surras’, logo lembraram a polícia logo se esqueceram da polícia polícia iria se meter em encrencas conjugais, não iria. Aí o silêncio.
          Elas não. Falaram só baixinho, enquanto chamavam a atenção de Fulaninho ou apartavam Outrinho, baixo pra não dar escândalo. Mesmo porque quem prova alguma coisa?  Perdurou o silêncio naquele paraíso do 33 da rua.
          Contudo tudo passou...
          Nada como o tempo a sepultar reticências.



IX – Dia Novo Novo Alegrar

          Esperaram toda espera dela, a Elinha. Nisso se conformaram, quantas já não perderam crias! semanas meses. Cansaram. Cansaram em ver também aquela lata velha, cada vez mais riscada, sem contudo haver arrancado o portão. Elinha também continuava na espera, não do primogênito sabendo-se lá se primeiro filho, que fosse o segundo o terceiro a perder e aí se condoeram outra vez. Esperando sim o seu homem.
          Então ele veio, era sol, antes do horário que era seu horário, dia claro, veio não com o fusca estragadinho velho, veio mas de carro novo! Todo mundo a olhar, se bem que a fingir examinar suas coisas, aí entrando algum macho desocupado ocupado na ‘desempregança’ a campear; até eles olharam a ‘curiosar’ aquela conquista. Ao pobre menos pobre é rico ter menos velho. O novo do Sr. João era um velho carro bem arrumado. Trocou de automóvel Seu João? não indagaram, difícil quebrar barreiras dos fechadões. Mas sorridente.
          Veio  Elinha. Abraçou o marido, quase abraçou o  novo carro velho ajeitado; passou a mãozinha alisando aquela lataria quase toda de plástico lustrosa. Nos dias subsequentes passou paninho lavou chupou a poeira com aspirador, aquele barulhinho zunidor que entra querendo endoidar os miolos dos outros; limpou esfregou perfumou o estofamento; tirou tapetes limpou limpou, pôs secar no portão de arranhar fuscas velhos; uma faxina geral, um embelezamento geral. Quase ralhou com o pardal fazendo cocô lá de cima a sujar as partes já limpas do carro, só quase. O conjunto andava uma perfeição em limpeza. E nisto, valha-nos Deus, com ajuda de seu macho, se bem mal fazia no alimpar somente palpitando a mulher alegre e feliz na sua trabalheira.
          Veio também a torcida organizada. Não elas, Maria Tereza Teresa Débora Suely a Zina e outras mais ocupadas na desocupação e fiscalização, elas não. Não os de fora, os parentes de fora; parentes!? os amigos, os conhecidos. Vieram ver torcer vibrar pela medalha de ouro conquistada: o novo carro velho em condição de uso. Olharam passaram a mão entraram a balançar gostoso no estofamento e até se arriscaram a dar umas voltinhas, bem entendido: com o Seu João ao volante e tendo saído e reentrado depois em acurada atenção e sequer riscou os para-lamas. Uma conquista. Viram. Deram palpite. A cerveja correu solta por conta da casa. Mas  como o ambiente dentro da casa! ninguém sabia. Nem Tereza, vizinha ao lado.
          Veio a mãe. Mãe de quem, Dela, Dele? Essa se interessou pouco pelo veículo em não ser dizendo que o velho velho mais barulhento;  mas conversaram isso sim lá dentro, ofendendo as orelhas de fora. Depois elas viram o bota-fora da velha pelo novo carro.
          E todos ganharam outra vez a rotina.
          E toda rotina, parece, dá segurança. Até a segurança da insegurança.



X – Insegurança da Rotina

          Tem rotina que rotina, de tanto rotinar. Os berros dos molecões por exemplo. Tem mais. ¿O som a todo som vi-brando vidraças da casa 33 onde um casal eternamente enamorado se encontra se beija se alisa alisando o novo carro velho; a da conversa vizinha onde se conta a das oito ou se fofoca, havendo comida e bairro dá muito alimento às orelhas? Não. Tem uma rotina que perdura por todos os tempos e tempos com e sem amém.
          Os meninos, inclusive os terríveis da Maria; os da Zina era só a garota e menina é mais fácil de criar assim mesmo a Zina se queixando com o pai da criança já adolescendo; os pirralhos da Tereza, não da Teresa que já não emprenhava mais na menopausa; os da Tereza mais esperta e eles enchiam bem o saco (Elinha teria saco?) havendo mais outrinhos a jogar bola. Certo, mas precisa ser em frente da casa de Elinha! vai, seja, mas em frente da casa do Sr.João G. da Silva... ainda por cima de carro novo, já pensaram uma bolada e as pedras quando inventavam de inventar guerra, que mesmo de faz de conta risca autos encerados fedendo perfumes de shampoo e ainda quebrando vidraças da residência isso não ocorrendo vez nenhuma, embora alerta se deva estar alerta. Mas na frente do número 33!  Elinha da Silva poderia impedir a si mesma em gritar aos capetas: não tenho filho, que Deus não me deu e aí podendo chorar pobrezinha dela, não tenho  e tenho então que aguentar esse banzé feito campo de futebol!  e aí a macacada saindo de fininho sem jeito indo para suas frentes infernar demais vizinhos já velhos de vila. Poderia. No entanto apenas ia até à frente no portãozinho de não passar carro novo mas sim gente em visita ou somente Elinha e Elão; aí olhava feio, só podendo olhar bonito com aquele rostinho só não abrindo a boca porque a voz em falsete espantaria (não era para espantar mesmo!) espantaria espantando a freguesia, aquela de sempre: “pega a bola aí Dona”, imploravam; “posso entrar buscar a minha”, coisa assim. Ela...
          Dona Elinha um dia 'encheu o saco’, é visto ser uma expressão desabrida da Maria, mas Elinha afirmou nem a vizinha ouviu, além do mais isto sendo uma repetição a vibrar ouvidos moucos, mulher tem? não tem, é figura de linguagem. Ela encheu-se, berrou, estertorou enroucando estourando o falsete, e parecia nem ter força, disse: ninguém entra, venham depois pegar a bola e conversar com meu esposo. Assim na bucha. Espantando deveras mais a freguesia, os pequenos temiam o João G. da Silva, aquela cara fechada e maus humores. Resultado; um mês sem jogo. Depois voltaram a jogar e mais jogar bola nova no jardim velho de Elinha.
          Rotina.
XI – Despropósitos do Tempo

          Já fazendo muitos dias o casal Sr.João G. da Silva e Senhora, a Senhora Silva, sendo conhecida por aquela patrulha cultural e dos bons costumes como Elinha da Silva; muitos dias, meses mesmo quase ano, se pondo o caso de se renovariam ou não o contrato de aluguel, a Teresa mais mansa a dizer que puderiam mesmo haver comprado o imóvel e aí não sairiam. Por briga e desentendimento não mudariam da vila: o que dá desocupação imobiliária são as encrenquinhas que chegam aos adultos pelos filhotes, ou encrenconas entre tais adultos; aí se muda. Não tem o problema de atraso nos aluguéis ou nas prestações? tem. Mas por menino não iriam embora, o casal não tinha filhos umas lembrando possível doença de Elinha ou infertilidade; por desentendimento entre os grandes (Elinha petitica) não tinha também sentido, todos, todas acordaram acordo sorrindo aos novatos agora já com raiz de quase ano; mas o Sr.João era fechado carrancudo inacessível, de se sentir antipatia; enquanto sua patroa era inacessível também por mudez. Aí não dava luta por faltar contendores. No entanto o tempo caminhava e reforçava aquela permanência esdrúxula, a Maria falava nestes termos e todas já sabiam um pouco o que esdrúxulo e concordavam com a Maria. E se houvesse no horizonte um fato novo...
          Chegou o novo carteiro, sempre mudando, aquela estória dos Correios que nem vale lembrar. Decerto seus óculos não viram bem o 33, aliás semiapagado (tem gente que nunca vê essas coisas de não se ver, como placa de automóvel ilegível sujeita a multa e outras ilegibilidades de casa). Se não viu fez bem de entregar na residência da Tereza a correspondência. Aí ela soletrou certo o nome e o número a rua o bairro tudo nos trinques. Era 33 mas não endereçada ao Sr.João G. (não poderia ser Gimenes!) da Silva. E sim a um tal de “Ilmo.Sr. Antonio...” o resto não dava pra ler, tudo gringado com muita consoante e sem vogal, uma somente; demais de menos o chapeuzinho porque parecendo haver chapéu em ‘Antonio’. Que fez a vizinha. Ora, bateu palmas no 33 porque a molecada tendo campainha não dá sossego e se concorda não ter botão bateu palmas; tornou a bater e bater mais – em não se pensar fosse outro vendedor de qualquer coisa do qual é lícito não estar em casa e só olhar pelo buraco – depois ainda chamou a vizinha, não lhe sabendo o nome apelou para o grito “oh vizinha”, usando daquela voz estridente que a Tereza tem. Veio. Mostrou-lhe a missiva e apenas começou a falar que era provável fosse ao Sr. João G. da Silva por coincidência de rua e número... ao que a mal-educada se apropriou do documento virou as costas e se afundou na casa. A Tereza, desarmada com os inusitados da vida, se armou para as outras; o que deu a manter em ativi-dade a conversa formal informal, com muita risota e indignação. A Maria propôs inclusive a expulsão sumária da malcriada e seu homem-montanha. O que dificilmente poderia ocorrer. Enfim, alimentou a animadversão dos membros efetivos do egrégio tribunal de fofocas em sessão extraordinária. No final ficou ao menos a indignação.
          Noutro dia a rotina corrigiu o tempo para continuar rotina. Ele saiu cedo deixando no velho costume o portão arreganhado a entrar intrusos cachorros e a "Besta" (assim Elinha da Silva foi reapelidada tanto trato sem diplomacia) a "Tonta" como chamava à vizinha a vizinha Tereza, ela foi ‘capachildamente’ fechá-lo. Depois varreu depois lavou depois guardou o lixo no lixo e depois pôs o lixo que era dia de lixo; aí voltou pra sua cela de estimação. E elas? ficaram olhando a trocar olhares de entendidas.  Mas enfim fazer o quê!
          Nada a fazer.



XII – Um Final Feliz

          Infelizmente muita gente não se sabe feliz e fica procurando razões para não sê-lo. Pois o grupo delas ou seja a Maria mais a Tereza mais a Teresa mais a Débora mais a Suely mais a Zina e mais uma que outra não estando fora mas ali xeretando novidades, esse agrupamento foi de repente desfalcado de grande porção alimentar aos seus contares e devaneios (já que algumas eram tendentes ao poético). Deu-se mais ou menos assim a irreparável perda.
          Aquele depósito de músculos e cara fechada encostou o carro, o carro novo velho arrumadinho é claro, encostou-o quase em frente da residência da Zina, voltou um pouco a correr em casa dele, a de número 33; decerto comunicou para Elinha da Silva, a Boba a Tonta, suas coisas e voltou imediato ao portão, arreganhou o portão e ficou a aguardar não sei o que ou não sei quem, meio inquieto, elas dizendo entre si esse cara tem ‘focus’ (não tem uma doença que fica do parto assim?) não para quieto e a Maria: “tem bicho-carpinteiro” mas desbocada completou deixa pra lá. “E a Boba (elogiou Elinha) certamente continua no esconderijo a fazer as coisas.” As outras olham indagativas à Maria. Esperam ansiosas.
          Aí chegou não sei que, que era um caminhãozão de mudança, desses tipo baú. Encostou na guia da sarjeta, desceram os carregadores, invertendo-se a cena da chegada: carregar móveis latinhas de flor, enfim aquelas coisas horrorosas que se faz nos transplantes de gente de casa.
          Era o fim no fim e nada de Elinha,  o Sr. João G. da Silva ia  e  vinha levando as levezas e os homens levando os pesados. O caminhão pronto satisfeito no seu engolir trecos de cozinha sofás caixotes com badulaquinhas talvez com baratas também de mudança e aí elas se olharam, elas a Maria etc. etc.; e o bendito guarda-roupa que em última hora o Chefe do Casal resolveu não levar na mudança, como montar aquele lixo outra vez na nova casa e elas aflitas em saber onde essa nova, sem solução. Fechavam as portinholas do veículo carregador... e Elinha nada!         
           Foi quando seu homem resolveu dar-lhe um ‘cata’ (a Maria apreciava falar nessa chulice, às vezes dizendo ‘pito’ e esse comentário apenas ficou entre elas). Deu um cata pela demora feminina. Por fim, nervoso, gritou-lhe.
          Elas, porque elas estavam em plantão velado e havia muitíssima criança, a rua coalhada com moleque curioso vendo aquele desastre que é uma mudança, na melhor das hipóteses é um desastre social – elas, a Maria as duas Terezas e as outras engoliram a língua em bocas abertas bestificadas!  Ou é que teriam ouvido mal mas João gritou Antônio por duas vezes e na terceira Elinha veio chorando.

 Marília   fevereiro  2004















Terceira Novela

                                Os Roceiros












































- Tonho toma tudo tanto quase nada precisa não mais que o canivete, daqueles que vieram com as coisas do pai quando o pai morreu, que Deus tenha no céu o pai, de folha e ferro já aparecendo ferrugem aqui ali, dos que se importava antigamente e dizem que vêm das estranjas, olha. É um objeto frio do ferro quente esquentado das mãos calosas os dedos de apertar o guatambu do cabo lustroso no uso e do tempo e aperta mais o canivete, abre o canivete nas folhas do canivete, senta-se a cismar na vida num tolete de árvore feito cadeira improvisada em conforto e utilidade, começa a examinar os dedões sujos encardidos rachados do abuso no contato com a terra a trabalhar a terra sulcando à sementeira agora expostos, enormes, esparramados, o dedão dos dedões do pé acostumado à botina ou com o solo quando descalço como agora, o dedão amarelado mostra uma unhona grossa torta dura e dura demais a ser aparada. Ajeita o canivete, vê a folha maior para não vê-la desafiada e rombuda até; se alevanta e vai procurar a lima já um pouco enferrujada também no abuso do uso e amola a folha da lâmina, deixa após minutos de trabalho e paciência cortando mesmo seja fio de cabelo, uma navalha, que ele diz “naváia”. E se satisfaz. Volta, senta-se outra vez no cepo improvisando cadeira, olha o terreiro, que é imenso. Vê as galinhas cacarejando felicidades ciscando correndo do galo insaciável e a pintaiada ao redor a piar; lá longe um pouco os porcos chorosos a pedir comida insaciáveis também e o milho a mandioca a lavagem com restos a abóbora e tudo o mais em mesa posta mas chorões assim mesmo a pedir a pedir lá no seu cercado de engorda; vê a vassoura da Maria espantar as galinhas que é um bicho enxerido e suja até dentro de casa e se deixar fazem cocô na mesa sem cerimônia ou se indignar sem pensar será que galinha pensa! pensa Tonho. Volta a vista à vassoura de também a Maria varrer por cima empurrando ciscos folhas trecos (e os meninos a reclamar a mãe varrendo seus tesourinhos e ela ralha e eles choram manham emburram e apanham criança parece apreciar levar uns croques a Maria às vezes exagera um pouco) empurra varrendo outras coisas mais às vezes tem de molhar regando a terra pra não levantar poeira e daí o cheiro de terra molhada que fica no ambiente e é característico da atividade mas a Maria não varre agora agora lava roupa no córrego junto da bica que esguicha paciente dia e noite água gelada em que se banha o pessoal ele tira a sujeira esparge mais líquido remove o suor aquele azedinho a escorrer quando puxa o guatambu raspando o solo arrancando o mato que mata a planta a planta que vira alimento e as gotículas se acumulam e escorrem feito enxurradinhas da testa franzida pelo rosto antes molha fere arde olhos alimpa-se na roupa na manga da camisa que cheira cheiro de gente e de tecido ordinário cheirando sabão tosco apodrecido em decomposição pelo suor e os raios solares olha o brilho lá longe e vê a hora vendo que ainda não é hora da hora da volta pra casa mas agora encontra-se apenas sentado no toco imitando banco olhando seu quintal que também é quintal dos vizinhos a se relaxar e a se preparar para de vez cortar as suas unhas não sendo propriamente cortar não se arranca se se arrancasse que dor! apenas apará-las modelando aquela feiura a se embonitar e aproveitando para descansar da labuta que o dia foi puxado, funga um pouco. Se ajeita no banco que anda um pouco solto na base, remexe sua cadeira, calça a cadeira com um naco de pau a dar-lhe equilíbrio, experimenta e vê que está bom. Agora se ajeita melhor, ergue a perna direita e põe-na a cavalo na esquerda, alcança o pé o dedo um dedão esparramado com os outros quatro e ele é amarelado a misturar sujeira chulé e eventual sangramento já maduro e não mais sangrante, a unha é dura dura tem uns riscos em sobrerrelevo e as pontas são duras duras tenta desendurá-las mete-lhes o fio da folha do canivete empurra puxa cutuca ginga ginga esfrega esfrega empurra outra vez e vence a resistência fere a unha lanha a unha fórça como o escultor com arte cuidado e fôrça e vai dando forma oval na extremidade e pensa no perigo que corre se a cartilagem ossosa da unha ceder sem que se espere por ser tão dura e forte e a lâmina afiada a entrar na brecha e aprofundar a brecha e sangrar a brecha de carne como naquele dia e teve de esconder que chorou e não chorou que homem não chora e assim acaba o corte em apara naquele dedão; experimenta e vê que não ficou bom nas apalpadelas, ao menos ótimo: tem ferpas pontas a enganchar de noite no lençol de saco de farinha costurado pela Maria e tem também enroscar nas pernas macias da Maria e a Maria pra reclamar as lanhaduras daquele grosseiro mas que fazer se homem é todo tosco duro desengonçado! ela reclama sim e ele tira depressa o dedão com unha enroscante e acorda que não queria acordar e tem de dormir porque noutro dia é outro dia e que horas seriam?! Agora experimenta apalpa e se consola com um talvez passar a lima de limar o fio do canivete e mais o da enxada a deixar as pontas das unhas mansas de lisas; ou que se gasta ela no atritar a botina de ringir quando nova ou no esfrego na terra porque gosta muito de andar descalço mas agora está parado sentado no toco de pau feito banquinho embalançando e é necessário pôr uns calços de graveto a equilibrar e ainda tem outros nove dedos a trabalhar naquela distração e descansaço... Toma agora a perna esquerda, sua vez de andar de cavalinho na direita, deveria, pensa, ter cortado os dedos irmãos menores do dedão direito antes de começar agora o pé esquerdo lá encimão do joelho direito arreganhado à mostra; deveria mas quis passar primeiro o mais difícil os dedões são mais duros mais difícil aparar; porque com os manos dos dedões é tudo café pequeno, donde será que vem isso, pois toma é café grande na caneca esmaltada depois a esmaltada quebrou-se e restou a caneca de lata e às vezes o café da Maria é tão quente queimando o beiço, agora é o dedão esquerdo, unha dura e tem um pedaço faltando quebrado que foi do corte na enxada na roça da fazenda quando moleque a família vivia na terra do Coronel e ele errou acertou o pé sangrou gritou chorou dia inteiro vai poder com moleque! e aí ficou manquitolando igual saci e o pano sujava e a mãe ralhava tirava doía de novo de novo punha pano limpo e passava antes água de garrafada benzida pra limpar e só aí o pano novo que era trapo velho e voltava a pular até sarar fazendo um tempão tamanho e agora só tendo aleijumezinho em marca na ponta da unha deformada do dedão esquerdo, decerto duro na queda como a unha do dedão direito; pensa mudar a sistemática ao costume do pai, que Deus conserve o pai no céu (e se benze ao gosto católico como lhe ensinaram) o costume que consta em ficar amolentando as unhas com os pés na água da bacia das mulheres porem roupa com sabão ou amassar pão a Maria faz é um pão gostoso, só não aprecia o Tonho que a Maria mande tanto à vizinhança que é o costume e aí recebendo noutro dia um dia de volta o presente num presente de pão azedo ou duro e azedo ou queimado e azedo a Dona Zefa gosta azedar, a Maria que brinca, longe da Dona Zefa, que Dona Zefa põe é limão na farinha e ele não gosta. Acabam jogando pras galinhas e as galinhas fazem uma festa que bicho bobo e até brigam pelo pão da Dona Zefa e os porcos! ah os porcos, que bicho porco da peste e agora apalpa o dedão que é velho porque o Tonho tem uns quarenta, ele não sabe direito a Maria não sabe mas garante e afirma e a mãe falava que a Maria tinha razão quando era trinta e então o esquerdo tem uns quarenta que nem o dono, ele; e o direito e todos os manos dos dois dedões e agora tenta, conseguindo, aparar sua unha do esquerdo e quando força um pouco a perna pra baixo a perna esquerda cavalgando a direita encolhida ela dá um pulandinho que até parece brincadeira ele não é de brincadeira quarentão mas sorri como um menino, os meninos... ah agora vem o mais novo o Zezinho, o mais novo ainda é nenê e dorme, o Zé vem ver papai naquela dura e trabalhosa tarefa de tratar as unhas, xereta xereta grudado àquela sabedoria que é seu herói e olha sorrindo ao Tonho e já grita “o que o senhor tá fazendo” como se não estivesse mostrando o serviço do cuidado com os pés, um pé encavalado noutro pé encolhido firmando a lancha (a Maria fala que é a lanchona de atravessar o riozinho) no solo que ainda está úmido da última chuva que foi anteontem e tem aquelas minhoquinhas a sair de dentro da terra e insetos mil se remexendo decerto incomodados pelo umidecer e assim fazendo a festança da galinhada, que sai espavorida com a chegada estabanadamente daquele filhote do bicho homem que agora se senta no chão a se sujar melhor e melhor ser advertido pela Maria elinho ao ver aquele papaizão que ele admira tanto. Olha vê, vê um caboclo trabalhando no descanso seu canivete plasmando as extremas da unha e vez que outra o pai toca aqueles mosquitinhos a infernizar a zunir perto da orelha perto da boca longe do tapa que o homem não consegue acertar e xinga e olha lá longe se a Maria não perto e aí xinga com mais vontade e com mais raiva aquelinhos irritantes e o garoto se ri e ri do pai, o qual continua sua batalha nos dedos a gastar o canivete que é bom pra descascar cana de burro daquelas fininhas e duras e então o caldo melante escorre e escorre até ao cotovelo ficando tudo a grudar e isso não válido apenas às crianças e todos se lavam depois na bica que escorre no corguinho onde as mulheres lavam suas roupas e por que esconder? brigam também dão suas dentadas com a língua um dia até não se falaram mais aí Dona Zefa trouxe pão azedo e adoçou um pouco o ambiente de amizade destravando as línguas mas agora o Zezinho vê o Tonho o Tonho está aflito ou com o saco cheio por não aguentar tanto dedo por que será que tem tanto?! e precisa acabar as unhas e tem ainda muito a fazer que o sol ainda alto.



- Elinho não compreende a pressa daquela lerdeza paterna, olha aquele mundo a se tratar a canivete, estala os dedinhos ao Peri não contente grita o Peri assustando o pai, o qual não tem tempo a repreender e já vem sorrindo largamente o vira-lata, que ao passar, estando deitado em frente à porta e leva vez que outra um chute dos adultos e não aprende estar fechando o caminho dos outros na saída de casa deitado a sonhar cadelas ou ossos espanta as galinhas mais preocupadas antes com o galo afoito que com cães mas fogem assim mesmo em correria espavorida e temência, o Peri abre uma brecha em estrada entre penas mas sem grande interesse a se divertir nelas porém em mira aquele doninho ao mesmo tempo irmão em brincadeiras e deus que impera grita açula instiga manda e chama, chega ainda a sorrir a cauda que é um penacho de pelos inimiga de moscas atrevidas, chega cheira olha sorri e se senta nas patas traseiras a curtir melhor a paisagem vê-não-vê o homem em posição esdrúxula e gozada com uma perna sobre outra perna e um canivete mas apenas percebe o menino que já matraca as coisinhas de sua tribo e os dois se entendem. O Tonho olha de soslaio a dupla, abana a cabeça a condenar talvez mas se não pode prender, preso à tarefa findando e leva novo susto a espantar concentrações com o gritar do pequeno “pega Peri!” já atirara longe não sei quê de propósito em meio das galinhas então esquecidas daquela fera selvagem que brinca de arrancar penas pensando elas nos seus afazeres de bicar bicar correr correr daquele faminto cantador e quando veem veem o Peri em cima delas antes de se espantarem com a pedra que nunca se sabe donde vem e vem atrás da pedra vem o comensal com quem dividem a latinha de marmelada com arroz velho e outros restos a chegar ladrando invisíveis a espantar melhor seu sossego e então o Peri faz estardalhaço dá espetáculo provoca vexame e elas correm e ele toma a pedra nos dentes de mostrar poucos amigos e mostra a presa e leva afoito e correndo gozado pulando ao dono a gargalhar e o dono repete a dose a atirar pedras paus pra longe perto das penosas de olhos arregalados já esperando donde é que sairá a cobra medrosas e o galo também aí não canta de galo foge; corre o cão novamente volta repete o buscar-trazer e sorriem cachorro e menino até que o Tonho grita o parar e o inferno volta ao paraíso do silêncio que dura muito pouco, a recomeçar e Tonho berra ameaça pensa para decide: “Zezinho vai buscar água pro pai” eles vão, o cachorrinho abanando atrás, passam pelas galinhas esquecidas outra vez outra vez a ciscar seus invisíveis almoços e se espantam abrindo passagem ao moleque se dirigindo à porta da cozinha. Onde a Maria enxota algumas enxeridas uma galinha estando na portinha da portona que é meia-porta feita de ripas malacafentamente dispostas um que outro prego a se soltar tem uma tramela pequena não sendo mais que um pedaço de pau com um furo no meio e um prego atravessando o furo,  a fim de segurar fechada a meia-porta deixando aberta a porta alta para tão pouco moleque e não: não adianta nada porque a galinha voa pula a cerca se segura nas pontas das ripas em equilíbrio circense e a Maria ameaça rumina ameaçar cortar as pontas das asas das agressoras que fazem cocô no chão esburacado da cozinha e a gente pisa, onde está um barril cortado ao meio a outra metade servindo como tina para a mulher depositar as roupas a roupa do Zezinho está suja não tem dedo que se não esfole a esfregar a limpar e menino nunca entende disso, “o que você quer seu fia-da-pê...” e se xinga elevando mas só da boca pra fora fora o que se não pensa não se pensa o que se fala mas o Zezinho entende se defende não se ofende foge em recuo defensivo longe das mãos pesadas tabefosas de mamãe perto já do barril de madeira arcada segura por um arco de ferro e dentro está a água fresca; ele toma, sempre observando a ira da Maria se a Maria ainda com raiva dele sem que saibam ambos por que, menos o garoto sabe; e aí toma a caneca do pai que fora um dia recepiente de qualquer coisa, aberta, arrebitada com alça de lata em cabo, cabo que ele segura um pouco estabanadamente como feitio de criança que é, mergulha (fala “tafúia”) a vasilhinha na vasilhona em reservatório, extraindo o líquido, derramando metade dentro outra vez devolvendo parte e parte no chão na roupa molhando-se também e a Maria não tem coragem ou não se lembra frente ao inusitado xingar daquele nome outra vez e além do mais corre mais que ela e vai fazendo caminhinho de espirros de água no chão desde a cozinha, deixando ainda por cima a meia-porta escancarada e a Maria não chora não grita não lamenta, sequer chama à atenção o filho, embasbaca com tanta imperfeição num só momento e desconta noutra penosa a entrar ‘curiosando’ o comer e grita, agora grita: xô sua fia... e lembra a mãe da galinha que se não lembra mais da mãe antes teme o galo que também é seu pai e quer ser seu marido e então foge da vassoura da mulher. A mulher volta para dentro de casa, ajeita isto empurra aquilo, chama a Zinha, a filha larga o nenê que não se sabe nenê nem quem a mãe se a mãe se a mãe pequena, a Zinha é minguada de se esquecer crescer mas esperta corre ver a Maria, a Maria mostra isto reclama a sujeira, reclama o sal reclama a falta de sal e por fim fá-la escolher o arroz com mais cuidado, atiça o fogo vê o feijão borbulhar, espreme com a concha a querer se soltar do cabo e pensa Tonho, homem é tudo preguiçoso o dela deixa as coisas pra depois o arrebite da concha... ah um dia fica no fundo do caldeirão e de propósito porá feijão alho cebola e concha quebrada no prato dele! soca mais no fundo a engrossar o caldo, sobe um cheiro de fome no ar, os porcos gritam lá longe no mangueirão e no cercado para ceva e mais longe ainda aquele trio conversa suas coisas, o homem trata seu pé esparramado em cima de um banco balançando (ele diz “balangando”) enquanto o menino já inventou outra brincadeira, o cão fareja novidades que possam sair daquele poço de sabedorias que é o Zezinho e a Maria até acha graça na cena que vê, entrevê pois não tem tempo vai escurecendo na briga eterna do sol contra a lua e talvez já o sereno atinja a roupa esticada no arame farpado em varal, prefere ela mesma tirá-la as meninas não alcançam bem o fio puxam e rasgam vez que outra uma peça e lhe toca remendar e têm os botões arrancados pelas mãozinhas inadvertidas, está cansada em repregar, o pequeno maior que o Zezinho agora com aquele vício de arrancar botão nos dentes, já apanhou na boca sangrando chupa o sangue chupa a saliva em gosma chupa de novo o botão arranca e perde, ela perde a paciência... pior mesmo o costume de chupar a fralda da camisa, “que gosto cê acha, menino” o menino sorri envergonhado sai de manso foge pros coleguinhas. Tem a trempe reunida a falar a gritar a brincar a brigar a se desentender direito no entendimento não entendendo que é preciso trabalhar e criança inclusive trabalha mas pensa estar brincando, ralham os adultos. Todos manhazinho vão pra roça, o Tonho na frente mas atrás no levantar-se a Maria cutuca chama berra depois já na cozinha e trás para ele o gole de café, aí, só aí, se levanta e vai urinar lá fora, ela cansa em falar o fedor de amoníaco na parede do paiol o mijo a escorrer no chão, as meninas se agacham atrás perto da cerca antes olham para ver se não veem enquanto as pequenas em qualquer lugar e os meninos, valha-me Deus! eles molham se preciso dentro de casa e ficam ouvindo o sermão materno, daí se se não cuidar a Maria vê-los-á urinando nas calças! e isso será demais, os mais grandinhos da prole defecam em volta da casa, já tendo a concorrência das galinhas acordadas curiosas olhando aquela comida, ela terá de lhes vassourar varrer terra por cima, enrolar aquela nojeira e depois com a pá gasta juntar atirar pra lá da cerca de arame que impede as vacas da fazenda entrar na casa da gente e às vezes varam a cerca, que bichos de couro grosso se sangram e continuam a arrebentar o arame-farpado e as crianças gritam com medo! ele não, faz xixi no mourão da parede do paiol e volta para dentro nem lavando as mãos, toma, agora por conta própria, outro café, aí, só aí, vai se lavar lavando a cara fazendo estardalhaço bru-ru-ruf assoprando as nojeiras da garganta e do nariz que a Maria acha o marido bem porquinho e se lava na cara na bica lá embaixo onde ela lava e põe corar a roupa que os sujos sujam. Volta pra casa, toma outro café, se ela não chamar sua atenção, braba, é capaz de tomar direto no bico do bule... engole o café e pode fazê-lo à vontade sem perturbar a saúde pois o café é ‘água de batata’ transparente melado e morno o tempo já esfriou nessa época do ano o líquido se esfria mais rápido é preciso repor na chapa de ferro quente ou mergulhar o bule numa vasilha com água quente, “banho da Maria” ele diz ela não gosta da brincadeira, a chapa é quentíssima as labaredas a subir a lenha a arder e a arder os olhos a fumaça sobe gruda o picomã nas teias que as pacientes aranhas entrelaçam dando impressão de coisas velhas velha sim a casa mais ainda a cozinha em pretume e cheiro de fumaça de lenha verde a lacrimejar a família, ele bebe mastiga uma fatia (fala “fêta”) do gostoso pão da mulher, a mulher já arrumou as coisas, tem garrafa de pinga sem pinga com café algum pão e se não tem pão às vezes não tem pão sempre tem café mas não é café mas água escura caldo doce a grudar o gogó e aí tem arroz e feijão e abobrinha ou pedaço de carne defumada conservada dependurada onde têm os ratos a xeretar e linguiça comprada na venda tudo preso no altão longe dos bichos e até o Peri olha languidamente cobiçoso lá em cima e sonha e suspira e aspira e corre da vassoura, a Maria toma a matula das coisas, enrola gozado em zigue-zague com um pano parecendo quando a gente tem dor de dente e amarra uns panos também mas molhados com água benzida no benzedor da fazenda que ela diz “benzedô”; e aí ajunta tudo todos indo à roça, o Tonho já pegou distribuiu enxadas, tem a dele que é preferida e amola com gosto, tem unzinho que de vez em quando faz uns dentes no fio da enxada do pai e ele grita e uma vez até bateu e quase sobrou à Maria, assustada, pelo indevido do devido corte estragado e aí ele pega a sua, examina como fora um tesouro, carinha como não carinha a cara bonita já desgastada mas era bela da Maria, esfrega o cabo, ele que fala “guatambu”, lustrado no uso e em seu extremo de baixo a lâmina que deixa cortante a navalhar a terra, e puxa a terra, corta a erva da terra, exalando a erva enraivecida o cheiro no ar o corte ferido; aí já está com a enxada no solo, porque antes trouxe a sua ferramenta encavalada nos ombros estabelecendo o equilíbrio horizontal com o antebraço solto preso somente o cigarro entre dois dedos na mão caindo relaxada um pouco, balançando com o andar todo o conjunto, a enxada está no solo sobre os tufos de mato e corta e puxa e empilha formando com as pilhas de vegetal uma leira e entre as leiras (que fala em voz meio grossa ao menos mais que a da Maria “ilêra”) um campo de metro limpo como um campo de avião que é aquilo lumiento ao sol lá enribão, quase tão lustroso mas em que aeroplanam insetos que voam irritados com o sofrer a ferramenta e esvoaçam e picam às vezes e também as formigas quando a lâmina da enxada não respeitando seus afazeres e brigam primeiro com o fio depois com a chapa de ferro inclinada com o cabo desde o olho do cabo que prende a lâmina e com o cabo de extremo a extremo e com as mãos do Tonho a esquerda antes, que é canhoto no carpinar que fala “carpir”, mas não chora; depois também na direita quase na ponta do cabo; e com os braços desenrolando no enrolado dos pelos encaracolados dos brações queimados; a Maria as meninas alguns dos homens da casa ou ‘projeto de homens’ usam mangas compridas elas a proteger a beleza ou a delicadeza e elinhos se protegendo do coçar dos bandidos insetos que mordem picam sugam e sujam sangrento a epiderme mas o sol é o que mais vence e queima e engrossa e enrigece a pele o pai falando sempre “côro” com razão – mas são queimados os braços musculosos do Tonho e as formigas sobem com mais fome ou raiva mais, mordem antes de subir até ao pescoço do homem; é quando ele se bate para bater nas formigas e aí pula às vezes, que elas já subindo pelas botinas às pernas e algumas entram no calçado de couro duro e desensecados com sebo de vaca, elas não se importando decerto com o xulé e quase sempre pagam aquele sangue com sangue da morte, mas a comida perdura corajosa capinando e arranca e puxa compassadamente a praga em mato teimoso e amontoa a praga em moitas feito roletes retangulares deixando o terreno limpo, o Tonho é um leão no trabalho, todos reconhecem já tem fama na fazenda fazendo o trabalho, produzindo, que é o que mais alegra o patrão, distante presente o administrador que vê o leão. Mas vê ainda mais a leoa... Esconde concupiscências resmunga poderes chama o homem para ver a mulher, a mulher é mais leão que o leão, trabalha adoidada olha os pequenos puxa as orelhas com a língua e se preciso usa a arma contra seu homem e trabalha sem cessar e faz mais, está sempre à frente dele, alimpam suor olham o sol olham para trás vendo o terreno vencido limpo e os pés de café a agradecer a limpura respirando mais livres, o Tonho examina sua turma, a mulher está lá na frente já, elinhos mas mais elinhas que elinhos quase sempre puxam desengonçadamente as ferramentas um que outro erra acerta o pé chora grita reclama, reclama a Maria vindo socorrer quase sempre também tendo mais experiência nos primeiros socorros maceta folhas empapa folhas e a gosma é enrolada com trapos e às vezes ela mesma tira de seus próprios lenços e panos, aí retira da cabeça o chapelão de abas largas enxuga o suor olha seu homem atrás às vezes falam-se qualquer, volta ao seu eito embica no afazer, carpina chep-chep-chep sem parar param na hora do almoço, “já é oito e meia!?” apregunta o marido a meninada sorri alegrias, ela espalha no chão gostosuras que são sempre as mesmas gostosuras porque a gostosura existe em razão da fome a fome tamanha o sol a arder já e todos numa sombra no banquete que um pé de café mais frondoso oferece; aí mastigam mastigam mastigam de boca aberta e abertas estão a bocas a falar e a comer ao mesmo tempo e discutem suas coisas coisas que os pequenos não entendem pressentem no entanto e às vezes dando desentender entre os dois no casal, o Tonho se levanta urina de pé molhando a árvore as folhas e galhos do cafeeiro ali encostado e a mulher chama-lhe a atenção pela desatenção, ele rumina qualquer, balança guarda e se vira aos seus, os moleques imitam imponentes papai as meninas olham mamãe a fazer comentário ela inventando qualquer coisa a dispersar a atenção chamando atenção a um desvio das atrapalhadas delinhos ou que se estão pegando em briguinhas sem sentido que ao adulto assim parece e tem um que outro arroto papai quer tirar soneca a fazer o quilo, se levanta envergonhado por estar perdendo a batalha à leoa já puxando o guatambu e os pequenos na imitação dos feitos maternos. E assim corre o dia ao meio dia tem o café, não só café com pão ou resto de comida que é sempre arroz e feijão e mistura, não só esse costume como propriedade da família do Tonho, as outras dos outros também vão parando as enxadas a se alimentar, até então se trabalhava e um que outro gritava um canto caboclo desafinado a se chocar com o choque oco do vaivém da enxada; agora todos parando de vez as ferramentas a se alimentar, o que é pretexto para parar descansar conversar e aguentar o restante da tarefa diária. E retomam. Mas aí chegam as dezesseis ou dezessete horas, segundo as necessidades de serviço, o trabalho se finda. Para começar: a mulher tem a roupa tem a casa tem a comida tem o educar, criança dá trabalho ensinar é preciso falar falar falar e repetir; os machos quase sempre mais esquecidos passam por cima das coisas fogem ao rio à caça ao brinquedo; as fêmeas uma que outra escapole mas estão ali a ouvir a Maria reclamando corrigindo mandando e ajudam na cozinha ou recolhem a lenha ou até se furam na agulha de costura e as bonecas esperam um pouquinho mais porque boneca tem mais paciência. O Tonho já pegou a tralha tosca de pesca ou na pior da melhor está cuidando da ferramenta, é um cabo machuquento é um corte que não corta, ou a fazer pequenas coisas que preenchem seu tempo até chegar a hora da janta da Maria; ou está já papeando com os homens, aí tem muito moleque espreitando e quiçá dando palpite ou lembrando a memória adulta, em volta ainda os cachorros, seja cheirando aquele cheiro bom de gente ou se mordendo e o Peri vira herói atiçado pelo Zé, o Tonho grita o Peri grita o filhote a gritar melhor o Peri; e retoma a conversa, tem um causo novo velho como o mundo do mundo que não tem tamanho nem idade mas que existe. Quase sempre a roça entra enxerida no meio da estória, mas tem fantasma tem patrão tem crime tem ladrão, roubando o sossego dos moradores, se infiltram no espaço imaginoso dos garotos e dos grandes quase todos pequenos e miúdos também garotos no interesse na crença e no contar. E assim a barra da claridade se foi indo sumindo vindo em seu lugar as lamparinas que as mulheres acendem a tremelicar um lume que se firmará em a noite daquele dia.



- Em a noite daquele dia, que era quinze ele teimando dezesseis ela teimando quinze mesmo, os dois tendo razão porque o dia acaba na noite do outro dia e a folhinha gostava de enganar enganava triplamente, os dois por não saber bem quando meia-noite não se podendo confiar no maluco despertador estragado; e enganando pela terceira vez porque a mostrar montanhas geladas na gravura e isso era claro invenção nunca vista; naquela noite não daria para pegar enxada noutro dia quando o dia viesse porque ficaram conversando até tarde, o Tonho entregava os pontos antes das nove e ela ficava normalmente refazendo o serviço que as meninas – porque criança não faz nada completo além de trincar prato quebrar copo e deixar a lata de açúcar aberta para as terríveis baratas lamberem de anteninha e até entrarem caírem nadarem nos terrõezinhos de cristal e aí quem pode confiar! – as meninas faziam que nem as fuças delas e o pequenininho chorava sem parar e ainda tendo um moleque perdido perdida estava resmunga a Maria e só depoizão apareceu o gato alongado e ouviu isso sim a mãe puxando o cabresto ameaçando isto aquilo e os outros já roncando ressonando tinha o Zezinho que ainda por cima mijava na cama o safado quase com barba onde iria parar!? Igualmente o marido não conciliava o sono, umas dores do lado de lá; o nenê esgoelava, passava paninho esquentado dava o peito murcho não pegava dava mamadeira não engolia e só abrindo a boca para chorar endoidando a mãe assustando a vizinhança todo mundo a precisar descanso que a enxada cobra cobra mais o feitor feito dono o dono lá pelas estranjas e a conta enorme, para o roceiro entenda-se. Gente do campo sempre deve, nunca entram em acordo o deve e o haver na contabilidade da fazenda. Mas como dormir e depois se levantar e depois mais trabalhar no eito! Vira o garoto pra cá enrola pra lá nina nina no colo cansado as pernas bambas ele não entende, chora; lá fora já a coruja prenuncia as coisas ruins e mais que ela o anúncio do galo, o galo do Tonho insulta de dia os galos vizinhos agora é hora de um acordo geral e canta e os outros respondem amigos, a Maria vigia aquelas dores, o filho berra a dor o pai do filho lamenta a dor chama a companheira a companheira faz chá, empanturra o esposo com água fervida com erva de tudo, faz de tudo, tudo até chorar e a madrugada enxuga suas lágrimas – o dia da noite está perdido, as enxadas ficam em domingo ou dia santo na tulha e só mesmo quem se alegrará é a meninada, nem agradando ao patrão que anda longe nem ao administrador que está perto e que agora certamente ainda ronca ao lado da Dona Francisca que é uma santa a suportar um homem daquele dizem. Assim mesmo, mesmo não dormindo, se levantam manhãzinho para saber ao menos ser outro dia, papai chora sem parecer chorar lastimando agulhadas ali acolá e o caçulinha ri porque criança se recupera logo ou nada sabe das coisas. Os meninos estão felizes já planejam brinquedos, os maiorzinhos dos pequenos estão um pouco constrangidos e sabem que não sabem ficar em silêncio hospitalar e se pegam um pouco mas entendem os melindres, sobretudo vendo a feição materna encovada parecendo haver apanhado mas apenas apanhara da noite. Aos poucos as meninas vão fazendo o que sabem, sabem pouco mas sabem demais as sabedorias simples de uma casa pobre roceira a descansar suas dores. Tem a mais velha, que sobrou da guilhotina da senhora Morte a ceifar sistematicamente os primeiros irmãos, alguns sequer conheceram a luz do sol outros se despediram em cai-xõezinhos singelos já tendo andado em gatinhas deixando a Maria ainda em maior desespero na perda e ela se chama também Maria, mas não é do Rosário como a mãe e ela faz as coisas direitinho errando também direitinho com alguma pedra que passa na escolha do feijão e depois papai vai chiar, cozinhando o arroz demais ou de menos e não acerta mesmo nas frituras os bracinhos finos têm várias chagas já sarando dos espirros e não precisa mais apanhar por mocinha, de namorado nem mamãe nem papai querem saber mas decerto já tendo olhos compridos quando os moços aparecem e aparecem tão pouco naquelas bandas. Tem a menos velha que é mais velha ano que o mais velho dos meninos, ela é Zefa mas não tem registro com esse nome só o de batismo e dizem que ela chorou na cerimônia religiosa mas devendo ser pela aguinha salgada e não de emoção. Ainda menina, só pensa em brincadeira pensa que pensa o pensar materno, faz como sabe o que sabe e de todo jeito a Maria sua mãe vai reclamar; uma coisa faz bem que é cuidar do chorão: troca fraldas de trapos quase telas, empurra nele a mamadeira, faz gracinhas e a gracinha de menino ri da mana; e assim vai. Tem o Zezinho, o capeta dos capetinhas, encrenca bem com todos manos, só não compra briga dos que faleceram mas nem Tonho aguenta o Zezinho. Tem o Antônio filho mais velho, devendo ser responsável; e para não confundir ao pai é para todos o Niquinho, porque não ficaria bem a Maria bater no Tonho e bate ela muito no filho respondão e vez que outra se enturmando fugindo com os amigos pelas bibocas deixando a mãe rouca no gritar. Tem ainda outro moleque, brincalhão e irresponsável, mas este não é respondão como os outros, nasceu mudo ou nunca conseguiu falar nada em não ser enrolado. Essa a família. Mas  é o cabeça da casa quem fala mais alto e mais alto que ele só a mulher, a qual às vezes diz coisas irrespondíveis ao macho; que é que faz... foge ao papo com os outros homens, onde tem público e um pouco de voz. Agora a voz não tem dificuldade sair, o Tonho só geme um pouco, sobretudo estando a Maria ou supondo que esteja nas imediações; mas não se aventura a sair na friagem, enxada? está fora de propósito e até a esposa concorda, arrasada também ela pela batalha da noite. É uma senhora forte disciplinada corajosa, mas cede; contudo não para, à dona de casa sobram mil e um dos quefazeres e ela não foge, apenas ranzinza mais as meninas, daria uns croques nos rapazes mas homem é como água passa pelos vãos dos dedos some na capoeira; então pega de cabo curto as fêmeas da prole fala impõe cobra e o Tonho espreita, vez que outra tosse presença, o dia escorre, vem nova noite.



  - Ela, o Tonho está lá na quina da casa perto da tulha onde o vento não pode muito com o vento pouco importando se cubra da onda que vem apaga outra vez o cigarro e ele teima culpa o vento depois descobre que o palito que não presta ele fala “fórfi” ela “fósso” ninguém errando direito o erro e o erro é que anda úmido até a caixa se molhou, serviço de menino que não tem o que fazer e põe fogo nas suas coisas no terreiro e ela fala sempre um dia o Zé bota fogo no mundo e assim molhado não pega não trisca fogo de faísca e não faz fogo e o cigarro na ponta não acende podendo que fosse a ponta da palha que o Tonho morde espreme e dobra um pouquinho a dar formato pra não escapar o fumo que a navalha do canivete cortou fininho e ainda ele espalhou atritando na palma da mão antes de enfileirar em canudinho; e como não pega fogo ele xinga daquele nome os meninos todos subentendendo seja o Zé nem o diabo pode com o praga e a Maria não gosta de xingação diz que atrai o Capeta e ralha sempre com o Tonho-pai – ela era uma gracinha pulando em volta da mãe, a mãe que era feia e os filhos achando bonita, desgastada envelhecida enrugada parida muitas vezes em parir incontáveis irmãozinhos, mas a filha a queria bem, a mãe por sua vez a queria em preferência aos outros porque os pais não sabem evitar a escolha e não sabem a escolha e por isso fazia chegança mais à Maria do Rosário que o pai apelidara Rosarinho, bem mais que pelos outrinhos e havia sim ciumeira em casa, ela pulava segurando a mão da mãe que ela achava enorme e ia olhando pra cima e vai ver que aquela giganta não iria dar sua mão ao Tonho quando o Tonho foi falar ao velho a mãe já falecera e decerto não deixaria viva Rosário de coleira com aquele grosseirão que entendia muito pouco de roça menos que os dela; contudo se casou e era então a mãezinha de seus irmãos fazendo tudo em casa, um “pé de boi” falou o pai, na enxada então... Corria junto da mãe a trança loira a balançar, o vestidinho de chita vermelha novo costurado com zelo pela senhora, uns olhinhos perscrutadores no mundo e por certo não via azul com seu olho da cor do céu numa carinha com um pouco de sardas, Maria voltou correndo. Correu ao hoje agora sendo a companheira do Tonho, o Tonho entra enraivecido na cozinha, tem de acender o pito na brasa do fogão, fumaceia chupa chupa antes e esbafora aquele fedor e então a Zefa fica a olhar o genitor, ele sai pra fora e deixa na cozinha a fumaça e o hálito da palha e do fumo e ela arruma a lenha semiapagada controla a chapa examina a panela conforme ordens da Maria, esta é agora uma senhora cansada, cansada em doutrinar o teimoso anos, cansada em ralhar as crianças criança é preciso falar todo dia cada minuto no outro segundo errando, cansada em curtir sua saúde frágil ela fortalhona não obstante, cansada do falatório vizinho as mulheres não têm o que fazer? cansada a dar murro em ponta de faca esbraveja resmunga rumina seu ser, trabalha acorda já trabalha madruga pôr as coisas em dia preparar as coisas trabalha no trabalho trabalha na frente do eito sempre e sempre o Tonho carpina atrás dela, trabalha olhando os meninos na enxada naturalmente preocupada com a inabilidade dos filhotes e é preciso repreender alfinetar corrigir insistir gritar inclusive para que entrem na linha, o moleirão só olha e fuma seu tabaco ou foge do eito sob pretexto de pedir instrução ao feitor e quer mesmo descansar do pesado sobra à Maria falar falar falar, corrigir a filharada e ser tomada como a inimiga número um por implicância com os de casa, é vida! responde que não mas não formula a resposta como não fizera a pergunta mas assim mesmo olha indignada. E aí voltam, então o Tonho vem na frente... eles atrás, ela cansada pensando nas mil tarefas de depois e as crianças conversando, e brigando é claro, brincando as suas coisas atiram pedras chocalham árvores contam suas coisinhas, o mais velho já quer imitar o Tonho contando vantagem e, pior, aprendendo a pitar e ela não pode com a prole; e daí chegam. O Tonho já sentado no banco que é uma tábua tosca por cima de dois paus baixos fincados na frente da casa e sorri grandezas aos seus, os meninos volteiam o pai perguntam extraem sabedoria daquele poço de conhecimento, a Maria abana a cabeça temendo desconfiar e já ralha com as garotas a apertar o passo o serviço espera; a menos velha carrega o chorãozinho meio desengonçadamente nos quadris e ele escorrega sempre, dá então soquinhos pra cima a jogar seu fardo manhoso e este lhe urina nas vestes em pagamento e elinhona já corre antes de se limpar a fazer outra mamadeira o nenê chora grita berra a cama e a Maria sorri fazendo uma caretinha pra ele e o larga: o serviço mais pesado a chama; tem um montão de roupas, ah as meninas, deixam mal limpas; às vezes precisa ferver e teme os desastres que é um desastre criança pegar tanto peso e água fervente sobra tudo para ela descansar da canseira da enxada; e tem a casa numa arrumação desarrumada, ajeita varre, molha quase sempre o piso o chão é de terra batida e ainda o mudinho inventou agora em fazer poço para brincar com água dentro de casa... ralhar! pois se também parece surdo mas mostra a cinta do Tonho a qual fica em sobreaviso no prego atrás da porta mas ele não entende a ameaça e até sorri a mostrar seu talento e aí o coração materno se desarma e ela chora sorrindo ao garoto. É necessário esborrifar água no solo sempre para varrer e ainda assim alevanta uma poeirazinha o nenê então tosse espirra sem parar e ela já pensando haver relação. O pior mesmo é o destempero, “chorão e cagão” o Tonho tem cada uma. Ajeita o lar olha o fogão, implica intima incrimina as fêmeas da casa, com essa idade ela, a Maria, Rosarinho ao pai, já fazia comida a todos em casa até aos peões da família e elinhas numa malandragem sem tamanho; um dia perdeu a paciência: bateu nelas, aproveitou a corrigir o capetinha do Zé, o Zé fugiu que nem gato escaldado e foi devidamente xingado. Aí fica um ambiente constrangedor depois, cada um olha o outro tentando encontrar as causas, chora-se alto no começo na hora da violência mais contundente daí vem o choro baixinho manso e se vai sumindo com as lágrimas que se evaporam e ficam no lugar os soluços; a Maria olha sua obra e obra o sofrer, compungida, como fora ela quem tenha levado a surra; enfim a violência miúda. Enquanto isso ele se diverte com suas coisas e ela no cepo a controlar a casa... Mas se cansa se acaba, é certa moça de uns quarenta tem cinquenta mais de cinquenta na aparência, ainda as comadres falam em suas costas nos sessenta mas ninguém pode com a língua alheia, ela suspira. A Maria, a mulher é o homem da casa, seu homem é um menino, ela assim acha. Agora ele caça passarinho, pode?



- Pode. Pode sim, agora por exemplo ele está numa distração séria, pois não é homem de brincadeira. Olha o Maquininha a correr a chutar a driblar a marcar gol quanto quiser em meio aos pernetas, atira feito metralha mas nunca o Tonho viu uma arma tão pesada, atinge a trave vai fora o frangueiro pega alguma bola mas poucas entram entram outras mais e a Fazenda Ipê ganha quase todas partidas, tem o juiz que não deixa ganhar todas, ele xinga o juiz antes a mãe do atrevido, é o Dito do Seu Zé, aquele colono de cabeça branca o Seu Zé,  o Dito já vive roubando na conta da fazenda, o feitor que diz mas ninguém crendo nele, o Tonho também já pagou menos no mais que ele tinha a receber, desconta isto desconta aquilo, não perdoou nem a gente aquele dia na noite da doença com pontadas e o pequenininho também esgoelando por dor ninguém leva em conta a conta a conta fica alta o feitor é um ladrão e o Dito também e xinga de novo porque agora deu falta e todos viram na beira do campo que foram os vermelhos a embolar por cima machucando o Maquininha que é liso como o diabo, puxaram sua camiseta azul e todo uniforme da Fazenda é bonito de se ver um azul de céu muito escuro e os calções são brancos, ainda tem os barbantes de prender o calção na cintura igualmente brancos mas um pouco encardidos, Dona Zefa faz azedo e azeda decerto a roupa no lavar na bica do córgo a roupa quando é sua vez de lavar a roupa do time porque o Tonho, não ele o outro Tonho, o Tonho da Dona Zefa é crescidinho e já tem lugar garantido como perneta da Fazenda e aí corre atrás da bola no campo e como não casou ainda com a Francisca sobra para Dona Zefa lavar e azeda como azeda o pão e deixa os calções de todos encardidos mas as camisas azuis não apenas manchadas porque a boba a Maria que fala abobalhada a Zefa põe roupas de cor juntas e às vezes até descolorindo e mancha as brancas da casa dela; e depois põe tudo a secar usando um pouco nesse dia o varal da Maria não cabendo tudo no seu arame e as camisetas ficam embalançando bonito e gozado no altão soprado pelo vento e então o Peri ladra aquilo de assustar ou é só por brincadeira ou porque o Zezinho atiça ele, aquilo não é gente, e o Tonho pensa agora quando vê os jogadores pensa também um dia dar uma coça no rapazinho, se a Maria deixar. Mas neste instante foi impedimento! mesmo assim o puto validou o ponto aos adversários, tem uns visitantes atrás do nosso goleiro gritando e pulando dá vontade ir lá bater neles e nós estamos em maioria e perdendo a partida e isso é coisa séria. Tão séria que a Maria e as outras marias dos outros tonhos aceitam seus homens ali na beirada do campinho vendo aqueles bestas com calças de menino e de chuteira – têm uns descalços mesmo e quem esteja calçado com travas faz um estrago medonho nos com pés no chão sangrando discutem brigam depois e depois mais se a Fazenda Ipê perder o jogo; elas que falam assim mas assim não é porque mulher não entende de futebol e agora mesmo temos na assistência de pé e uns escorrachados no chão na beirada do campo tem mulher apesar de tudo e ficam todos ao ar livre expostos como os jogadores, dizem que na vila até cobertura no campo “pra mode” não pegar sol e chuva no pessoal porque com os jogadores não tem jeito se enlameiam no barro se molham jogando e aí com chão liso ficando mais difícil ao goleiro a bola espirrando das mãos, os adversários falam frangueiro e insultam também os outros da linha e mais a mãe do juiz e aqui é o Dito, aquele bestinha filho do Seu Zé que é benzedor, o que nada adianta, nem reza brava adianta porque decerto o ‘fia-da-pê’ torce pros vermelhos e a Fazenda já perde de três; grita novamente, e isso é sério, o Tonho está nervoso indignado até que acalma um pouco: leva uma bolada dum pé-torto do campo e deve ser o Tita que não joga nada só acerta a canela dos outros deveriam tirar ele da equipe chutou-lhe a bola e barro chutou baba no Tonho fora de campo pacificamente xingando a mãe do juiz na beirada a torcer já um pouco em sangue quente e esfria a examinar a mancha na roupa e imediato pensa na reclamação da Maria depois de chegar sujo que nem o Zezinho e pensa um dia dar uma tunda nele mas agora todos gritam e ele feito besta olhando a roupa de carimbado pelo pé-torto e não vê o gol de empate! Empate? qual, perdem por três a um, pior, aquele ladrão pôs o Maquininha fora, expulso por por... ah deve ser por jogar melhor que todo mundo e ele sai suado sujo o azul parece preto de escuro suor sujeira e raiva, a cabeça baixa e que dirá ao patrão dele! não tem patrão, a família é sitiante nas imediações e não trabalha como o Tonho de escravo ao feitor que não presta, coitada da Dona Chica deve ser Chica, que dizem é uma santa, e aí termina. Mas no segundo tempo, embora sem a maior arma da Fazenda e ainda com dez, não se poderá reverter a contagem! Decerto trocam o João por outro goleiro ou não poderá o goleiro deles se machucar? E conversam, o sol pálido vence o chuvisco e os torcedores se falam, tem uns namorando porque mulher só vem ao campo pra fugir da família e arranjar família, os moços estão animados e elas gostam em ver os jogadores, tem mesmo uma torcendo por um vermelho e o povo não gosta, mas eles não, adultos, pois os pequenos correm e brigam entre si, os adultos se falam falam da roça, que é um campo maior e perdurável para o seu ganha-pão da semana. Contam da colheita do preço e mais das dívidas, quase todos devem à fazenda quase todos trabalhando por dia seja no café ou noutra plantação e têm os que cuidam do gado e tem pouca vaca, todo mundo recebe minguado pelo trabalho muito na sua pobreza mas têm grandeza a contar e se falam brincam até se mexem se cutucam em boa amizade despregam as línguas, todos têm o feitor a quem bater por perto longe o patrão que quase ninguém já viu e o feitor é o mandão desmandão a azucrinar-lhes o ser, a pilhar faltas e possui a caderneta de notas com os deficits que se supõe inventados, porque o homem é ruim como o Diabo e dizem que a esposa é uma Santa. Falam do eito falam dos trabalhadores que são eles mesmos. Falam um pouco da saúde, assunto este que mais agrada suas mulheres mas elas estão em casa ou na vizinhança tramelando porque hoje é domingo dia santo da diversão e todos entendem disso até a Maria, a qual não reclama mais do menos só não suportará a sujeira com marca esverdeada na camisa nova dele e não adiantará culpar o pé-torto e ainda por cima por baixo no placar o jogo recomeça com números negativos, agora é o sol que ofende a torcida, o goleiro da outra fazenda põe as mãos em aparo feito aba de chapéu na testa a enxergar entre os reflexos a Fazenda Ipê cobrar a falta e assim melhora essa piora a bola entra no canto, o ladrãozinho é obrigado a validar o gol, os moleques correm felizes em gritaria procurar a bola na capoeira lá diante, dizem que na vila tem rede nas traves e aí a pelota fica retida nela, no campo esburacado com meia dúzia de tufos de mato em grama alta que dificulta correr e correr a bola não é assim: a bola passou passou pelo frangueiro sumiu no mundo e as crianças não a encontram e só depois acham o jogo para recomeça com três a dois, dois a três porque em nosso campo e até o árbitro é nossa gente roubando de nossa turma, o Ipê vai até ao fim no fim perde e ganha o Tonho uma chateação sem tamanho. Os homens saem reclamando, a torcida xinga ainda, o nosso ‘deles’ juiz sai mais ou menos correndo pra sua casa e não terá decerto uma semana tranquila; os torcedores se dispersam enfim, enfim o Tonho vai enfrentar a Maria, chega pra Maria a Maria ainda fora na vizinha e dá graças a Deus, tira aquela sujeira, joga no canto de roupa suja, sai, volta, remexe a roupa usada retira sua camisa do meio, põe-na por baixo da roupa suja dos garotos e... e não adiantará nadinha: a Maria vai descobrir a falta e a falta se sobrecarrega com a umidade porque por baixo e mancha a suja roupa dos pequenos e cria até mofo e assim o estrilo da mulher será maior, semana inteira maior a pegar no pé do marido. A troco de quê, indaga à Dona Zefa que lhe traz um azedo e que não cresceu pesando um chumbo e se adesculpa; uns bestas de calção de moleque correndo atrás de bola; e se não se cuidarem, a canela esfolada! Mas a troco disso? pergunta a Maria, Zefa responde com a cabeça (tem uma experiência em “sim, senhora” que faz gosto na vizinhança) e se compreendem as mulheres, não se entendendo mesmo é na estória do pão azedo.



- Azedou, azedou o caldo, como se diz, azedou para o Tonho. É terça-feira, primeiro dia da semana... não, sim, não é o primeiro o primeiro preguiça a segunda o caboclo na roça não quer roça por costume, então surrupia-se no sábado foge à venda foge à vila foge à cidade, o cavalo que pode ser uma égua cansada ou pisada como se fala do animal que anda nos estertores, ele ela já sabe de cor o caminho e quem sabe o dia; e na segunda em não ter feira feriando que o costume reza, reze não reze no domingo, a segunda é sagrada, arranja um pretexto um jeito qualquer a se escapulir – o proprietário da fazenda reclama o feitor estrila todos chiam mas escapole, o Tonho é roceiro. Na terça ela “tá uma arara” de braba, vai na frente resmunga grita os meninos por qualquer coisinha e continua na capinação adoidada, puxa a enxada puxa o mato limpa mas não se desenraivece; o Peri, até o Peri, compreende que algo anda no ar, se amoita parecendo um biscoito enrolado as patas dianteiras meio soltas pra frente um olho dormindo cochilando que a natureza cobra outro bem arregalado olhando a patroa que não sabe bem se não mãe ou só mãe do irmãozinho divertido Zé ou dele também em todo caso pode que seja apenas madrasta mas fica em alerta, vê os outros a trabalhar na enxada sente o cheiro do mato cortado o cheiro da terra ora empoeirando a expulsar grilos ora ela mansa úmida pisada pelos botinões do Tonho ou as alpargatas das crianças e da Maria e ela fala “as precatinhas dos minino” ela quem mais o Peri teme, devendo ser o Tonho o temeroso, o Tonho está sim igualmente apreensivo em alerta máximo, não sabe bem donde sairá a cobra, olha de viés a esposa braba, deixa a enxada... pior deixando a ferramenta com a ponta pra cima e ela corre a desfazer o malfeito do homem vai que uma das crianças caia em cima o que é ótimo pensar pessimista e não encontra amparo benéfico na estatística que nunca ouviu falar que exista e não deve mesmo existir por ser mentira ao menos mentira em seus dados aleatórios e é claro não pensando nisto pensa Tonho. Num átimo grita “cachorro, ca-chor-ro!” o Peri não se sabe cachorro apenas se espanta com o grito o Zezinho é quem pergunta à mamãe o que fez o Peri e ela: seu pai, seu burro... e destramela o destramelar por cima do homem nesse momento ausente dentro do enriquecer sua coleção de fuguinhas e é quem devera ouvir. Seu pai, o sem-vergonha foi jogar bola outra vez e tinha prometido nunca mais... e pior disso é que sobrou pra mim, tudo sobra nas minhas costas. Aí a meninada descansa descansando a enxada todos olhando a Maria, somente o nenê num berço improvisado nuns panos ao chão onde tem os trecos de ‘mãe de primeira viagem’ (ela já muito viajada pra danar) como mamadeira fraldas colherinhas etc. e tal elinho não olha como os outros, dorme; os meninos ‘curioseiam’ e se abrem a ouvi-la e ela ‘berlindeia’ a debutar suas razões. O pior, berra a Maria pensando falar baixo querendo falar mais alto a alcançar a oposição a oposição quem precisava ser audi-tório, o pior, olha a meninada, repete – o pior é que seu pai me sujou a camisa nova de domingo jogando bola e escondeu, escondeu viram!? escondeu a roupa por baixo da roupa suja e ainda molhada! Fui pegar ontem para lavar e ela manchou as coisas de vocês, começou a embolorar a calça do Dinho (Dinho pra não falar ‘mudinho’ ela sempre temerosa da boca a impedir os irmãos porem apelido no pobre; não suportando a raiva a Maria apela ao apelido naquele ingrato desabafo) – a calça nova dele, aí chora, ela chora, olha pros lados onde deveria estar o desafeto, o Tonho vem vindo todo sorridente, olha ele sua turma, fecha a boca, toma sua enxada e trabalha como não supondo que fosse bronca para seu lado. A Maria? não perdoa, se aproveita da coragem e do pretexto da parada, toda família olhando ao pai até o pequeno acordado olha sem saber pois dormia enquanto a acusação apresentava as testemunhas do crime e se acordadinho não entenderia mesmo os disparates dos pais, até ele. Ela: Tonho, por que você fez isso! O inocente larga sem muita pena a enxada e olha abismado a perguntar com a expressão que é que fiz essas coisas assim assado e a mulher despeja: não prometeu nunca mais jogar bola só assistir?! Aí começou continuando um bate-boca muito animado assustando as crianças, a sorte ajudando um pouco com a bebê chorando e o Peri corajosamente latindo e xingado. Jogou-não-joguei... O Tonho mancava um pouco, em reflexo dum jogo em que lhe quebraram a perna esquerda nos princípios após a lua de mel que não tiveram, ficou de cama sarou, prometeu nunca mais e cumpriu a jura; mas e a roupa com marca de bola, escondida por debaixo da roupa suja dos meninos, não seria uma prova cabal do crime! Explicou reexplicou convenceu quase virou mártir santo e teria graça ‘São Tonho’ se já tem Santantônio na Igreja? Ela, a Maria, ela aceita não aceitando como quem guarda um recursinho para alimentar seu lado numa briga posterior, toma sua ferramenta e se vai – já estava mesmo longe na rua de café considerando o trabalho interrompido do Tonho – vai capinando com raiva a descontar na praga de mato as mazelas conjugais, resmungando. Resmunga resto do dia, o Tonho ganhando a parada perdendo-a pelo silêncio da mulher, o silêncio que é o que fala mais alto contra nós pobres seres humanos quando em falta e não sabemos pedir desculpa. E isso poderia até o administrador entender e aplaudir, pois nessa terça o Tonho produz por terça e pela segunda-feira em que não aparecera no cafezal; sua enxada parecendo um trator de esteira que ele nunca teria oportunidade ver.



- Ele, a Maria é quem pensa que o Tonho deseja fugir da roça a deixar a sua turma sozinha trabalhando a mãe na frente dos filhos ralhando os filhos exigindo pegando no pé dos meninos a produzir produzir para o marido levar a fama junto ao feitor, que não é flor que se cheire e olha sempre com o gatilho da sem-vergonhice disparado pros lado dela e homem é mesmo uma raça não confiável embora seu homem também trabalhe um pouco no eito e na hora de levantar um saco de café ou de feijão parecendo um touro de forte ela quem pensa, ele não pensa: aje assim por costume. E os outros machos macheiam dessa forma e existe mesmo os que castigam seus fracassos nas suas mulheres, tinha certa Dona Tiana até meio descadeirada por apanhar, mas ele nunca bateu na Maria. Homem (diz o Tonho ao Zé do Eitão) homem, é até capaz da Maria me bater, e riem gostoso o Tonho num rir mais escachado que o amigo, porque o Zé não tem mulher e não sabe com quantos paus se faz a canoa. Ela diz à Zefa, antes de dizer “num precisava...” agradecendo o pão azedo que lhe traz a colona vizinha: ele nunca me bateu; a Zefa também garante ser uma premiada pela sorte mas só falando da boca pra fora pois fora a época de ganhar nenê ou ‘aumentando família’ como dizem na roça, quando o Chico não está bêbado porque estando na convalescência no parto não importa, apanha toda semana e a Zefa mente como mente no azedamento do pão. A Maria não: fala o que vem na boca e aí não mente, o Tonho é sujeito pacífico. Assim mesmo lhe pega no pé, ele vive a fazer suas atrapalhadas; pega também no pezinho dos pequenos. Zezinho, vem cá. Eu soube que você anda olhando a filha da Comadre Assunta fazendo xixi... Ele nega, nega a pés juntos sem grande convicção. O Tonho rabeia de olhos o capeta, lembra ter feito o mesmo em criança se acusa haver espiado outro dia a gente chegando em mudança na colônia pra ver se a mulher era bonita mas não diria tal asneira à Maria, vê o filho, faz cara de quem condena ato tão baixo como olhar por baixo as meninas; em verdade gargalha a ladinagem do Zezinho, abana negativamente a cabeça para dar força à repreensão da esposa e sai ao terreiro ver suas coisas ou pra não se complicar. A Maria reza um sermão ao garoto, promete, e não é boa a promessa, e por fim solta o condenado às brincadeiras. É seu décimo? um dos muitos dos poucos sobreviventes na luta entre a pobreza a ignorância a possibilidade a sorte, não tem sorte diz e já chora a sorte, chorou muito antes nos obitozinhos; relembra os trabalhos de parto as mulheres em solidariedade a vizinhança a socorrer, lembra a figura do marido sempre medroso nessas ocasiões; se a vida desse oportunidade gerar filhos aos machos era pouca a vida... a julgar pelo exemplar em casa, cobrante nas horas indevidas, ausente nas horas devidas, a julgar por isso o mundo estava perdido, não fossem as mulheres. Enfileira os momentos iniciais de vida, quase sempre tutelados de morte na espreita. Não obstante ali estão as suas vitórias os seus prêmios, com ajudazinha esporádica do Tonho sim mas suas seus e aí sorri sim para os lados dalguns desses exemplares, estes não entendendo bem o interior daquela fervência mas sorrindo em resposta porque o sorrir é alegria da paz e paz é o que mais almejando sem pensar elinhos também nestes termos. Vê a Maria, não fala mas vê a Maria da Conceição em homenagem à Santa, sua menina mais velha embora chore em pensamento os mais velhos perdidos e já deveriam estar moços e fortes que é esse o desejo materno que a natureza e as oportunidades desfazem na verdade; a garota mirrada mas ativa e trabalhadeira fala qualquer coisinha para despistar a atenção da mãe, constrangendo-se; a Maria não diz, deseja em sua ternura apenas que o futuro sorria à menina. Vê mais pra lá a mãezinha do seu caçula a cuidar a trocar panos alimentá-lo com responsabilidade e amor, vê a Zefa, fala um qualquer a se dizer presente, lembra uma gracinha do filho de ambas, mais da filha que dela mesma, reconhece tanta dedicação, chora por dentro o sacrifício e o desvelo da garota mas não sabe trocar isso tudo em termos de linguagem, porque a linguagem humana é pobre e mais pobre no pobre e o sentimento, rico, na elevação moral, não pode não deve não é passível de demonstração ao esquema seco do costume na classe roceira... Vê o mudo. Este sorri sorri sempre quando não aos outros a si, sorri olhando mamãe, mostra um qualquer da sabedoria de sua curta experiência e limitada capacidade expressiva, ela lhe retribui passando-lhe as abençoadas mãos num carinho também mudo grosseiro e de enorme profundidade trazida do seu íntimo pobre em recursos vocálicos e ricos em amor. Vê – mas vê de longe mais no seu pensar porque impossível retê-los um pouco dentro de casa, vê os moleques. O Zé já se mandou, fugindo após a admoestação materna, ou fugindo dela mesmo, perdido quem sabe com os outros meninos, fazendo artes decerto; vê o Tonho que eles chamam Niquinho e era Antoniquinho quando pequeno pequeno agora grande, é o mais velho dos homens, dos três que sobraram em descuido da morte e aí chora outra vez por dentro tanta perda e a lembrança dum que outro marcante parto: dor morte caixãozinho de anjo a sair pelas mãos doutras crianças da fazenda; aí volta para a realidade vivente a esconder a realidade morta, tenta sorrir e as lágrimas escorrem o que lhe obriga enxugar na barra do vestido a lhe roçar os joelhos, sorri mas somente o mudo atento àquele despertar de mamãe e igualmente sorri sem entender. O Niquinho estará pescando? trabalhou tanto o moleque hoje, dando exemplo ao pai; não, o Tonho foi leão na enxada, que será que deu nele! mas o Tonho-pai também não se encontra naquela conversa íntima e interior da Maria, ali apenas o cheiro do feijão temperado a carne-seca que o mudinho come com prazer e se lambuza um pouco, apenas o cansaço dela a roupa pra lavar (e aí relembra a roupa a bola o mofo a briga com o esposo abana cabeça a afugentar aqueles negativos) ali presentes as galinhas já tentando entrar famintas e quem teria se esquecido de fechar a porta! pobre delas; então cobra a Conceição se jogou milho às criações, vai ela antes de ouvir a resposta pegar uma bacia pequena em pôr milho do saco lá no paiol.



- Vez que outra nos encontramos desde o milho no saco e mil e uma questiúnculas outras que são as questões da vida, não pensamos nisso, nisso não pensava o casal Maria a tratar da galinha e o Tonho ao deus-dará, antes depois pondo correto no ao invés para ser padrão: Tonho primeiro e Maria segundo que não é a cabeça do casal só manda no cabeça tanto falar pôr minhoca na cabeça do homenzarrão, pequeno miúdo embora ela o admirasse em seus músculos a levantar os baitas sacos de qualquer com os quais ela gemeria, não obstante decidida, gemendo desajeitos movê-los e aí, quem não aproveita o trabalho da molecada é louco, aí chamando um ou mais dos filhos a ajudar, até o mudinho a gemer suficientemente auxiliando mamãe e imediato sorrindo felicidades nas utilidades da vida, essa a vida. Porque, convenhamos, isso acontece a todo mundo no mundo e se não ocorrer sendo pela não observância do momento. O ser humano tem lá um dia que para pra não parar. Para olha vê mede rumina examina revê e vê que vê porque não vê, não observara antes. É o ponto em que soma suas subtrações multiplica suas somas, deduzindo bastante e se inconformando sendo pessimista, deduzindo possível bem mais menos se otimista e descobre estar no limiar do nada que é tudo – o passado e o futuro, gangorrando naquilo se convencionou chamar presente. O milho da ave o choro do menino o barulho lá distante pertinho na vizinhança, o zurro do animal no pasto onde agora na seca Deus me livre ir porque é só encostar em certas folhas já nos sobe nos viaja nos azucrina depois o agora dos carrapatos e os meninos voltam com seus estilingues trazendo um que outro passarinho mas perdidos de tanto carrapato e ainda tem daqueles micuinzinhos deste tamanhinho assim a subir vorazes nas pernas nas vestes as vestes que aparecem sempre inteiras faltando pedaços, rasgadas, com moleque não tem jeito ninguém segura a Maria segurando a cabeça a estourar o Zezinho é o pior onde já se viu arranjar tanta arte! Para olha sente vê que já viu bastante vê até que pudesse haver feito melhor as coisas da vida, reputa em faltas se condena, às vezes chora por dentro grita por fora a fugir de si ou porque não se pode fugir às responsabilidades e tem ainda muito a fazer, iria deixar por conta dos meninos, se criança só faz coisas erradas... e tem os erros da oposição. O Tonho vem, vem caindo a noite, nem parece cansado e não é que hoje trabalhou como leão... pera lá, leão trabalha? Não importa, importa sim que traz não se sabe donde umas espigas verdes de milho, pra curau? pode-se fazer cozidas e até assadas na brasa do fogão, vai-se formando um borralho no fundo embaixo cinza lenha encarvoada e mesmo que seja na labareda assa o grão o grão estoura queima cheira, ah cheira até bem. Bem, e com ele não se apregunta, os meninos crivam o pai por causa daquela caçada no milharal dos outros, o butim dessa guerra surda são as espigas granadas, que ele sabe muito bem escolher e recolher, os meninos já discutem na disputa o que fazer do tesouro e às vezes brigam mesmo se desentendem apenas se muda o pretexto e garoto não precisa nem pretexto, um quer na chapa outro fala em panela ou se assa mesmo misturando com cinza o sabor, sobra às meninas olhar quando no ponto, eles vão ver a arapuca ou... ou deixam de fato a elas o controle das espigas que lugar de mulher é na cozinha mas sobra em última análise à Maria. O Tonho chega deposita aquele peso amarrado umas às outras pelas palhas e já se encontra na bica se lavando, que é muito limpo, a oposição não concorda, ‘blufa’ espalhafatoso como sempre a cara morena na água fria, espirra pra todo canto, suspira no parar e para a pensar. Tem aves noturnas a iniciar seu trabalho de predação perto dali naquela boca de noite. Que dia! pesa pensa revê o fazer feito que é sempre refazer, o mundo não será um refazer constante!? Pesa pesa pesa, a mente lhe atira nos confins da vida que é o começo da vida, vê-se jovem volta rápido a se comparar e compara estar mais velho mais fraco e não tem sequer quarenta, ela que fala ser mais de quarenta para parecer mais jovem que ele, tadinha pariu muito muito trabalho, sim me pega no pé e eu nem joguei bola coisa nenhuma e outras coisas mas é uma companheira boa e os filhos saíram lindos, palavra de pai, só o mudinho que engrola um pouco mas os outros, ah as meninas o homem da farmácia falou que tem de dar isto dar aquilo, quer é vender suas drogas, trabalham quase como a Maria, mas não tive culpa, não joguei bola a bola me jogou, fala fala ninguém consegue fazer a Maria parar, ninguém para o Maquininha o Dito parou ele pôs ele pra fora do campo e a gente perdeu de três. E quando está a malhar o juiz-ladrão e fazendo seus planos à próxima partida ouve a Maria a gritar-lhe, imediato aparece o Zezinho “paiê, a mãe falou se o senhor vai dormir na bica hoje que a janta...” e se vão para casa o Tonho ainda rumina umas coisinhas da vida, parado no tempo, que não tem parada: ziguezagueia pelos campos em fora.



- Gozado nessa tristeza que promete ao Zezinho uma surra das boas, quem sabe a descontar as mil artes as brigas com os manos dele, não obstante é seu companheiro agora na pescaria. Obra e maquinação da Maria, que se não lhe pode quase nada negar, ela lhe recomendou o Zé indo com o pai a apartar um pouco dos outros, que a cabeça dela estava deste tamanho e afinal de contas iria matar o capeta de pau! uma solução razoável e assim o Tonho tem agora o menino como companheiro, ele se diz um pescador de mão cheia, autêntico pirangueiro mas caboclo gosta de exagerar, muito ou pouco mas exagerar. Além do mais o Zezinho é a fuça do pai, segundo a oposição quando a descontar na oposição. A mesma pele escura ele se afirmando claro e branco não branquelo como a Maria que tem ainda umas sardas, não, as sardas são muitas mas as rugas as esconde; o Zé também puxou um pouco os cabelos do genitor, mas nem pai nem filho aceitam ser pixaim, a Maria sorri. Preferem ser queimados do sol, o sol que também desembranqueja a brancura da Maria. A Maria fica nesta tarde livre dos homens, que o mais velho some no mundo o mudinho não conta, livre deles, o pai e o filho pescando, nem parecem cansados da labuta no dia e de ontem e certamente o cansaço a vir amanhã, iludidos na varinha na água no anzol; ela nos afazeres, passa afazeres às meninas, o pequeno hoje não chora e ela precisa fazer pão pra abastecer a casa. A farinha o Tonho trouxe da venda que é mais careira que a vila; e tem mais um menos: tá criando bicho, vai ver que o desleixado trouxe os bichos já grandes lá na venda, não dá pra saber – é aproveitar o resto da farinha que os bichos não comeram; põe na peneira de malhas finas mexe remexe, coa ainda num pano fino mas sobra bicho, vai jogando no terreiro bolotinhas de farinha e bichos que não passaram e levanta um cheiro horrível, joga às galinhas, elas parece já avisadas do menu do dia em guarda correm disputar aquela sujeira sendo uma limpeza. Coa várias vezes sempre sobra algo a jogar. Mede agora na medida de costume a farinha de trigo. O fermento, ela diz “formento”, é de garrafa, é preciso renovar sempre ou estraga envelhecido o fermento na garrafa, a ‘muda’ ofertada por Dona Zefa, o dela não sai azedo como o da outra a Zefa deve pôr mais fermento que se deve. Mistura no leite morno tirado da cabrita põe açúcar e mexe com a colher de sopa em medida o tal fermento. Espera crescer, subir um pouco. Depois junta ovos, outro dia um era choco perdeu toda massa bateu na Zefa a menina trouxe o ovo indez do ninho e estourou na bacia de pão, credo! põe gordura, às vezes passam uns torresmos que estavam na lata de gordura. Mexe tudo, vai engrossando com mais farinha de trigo, quando pequena a mãe lhe dizia que a farinha andava misturada com fubá por causa da falta, era época da II Guerra tudo se falsificava, a Maria, que era a Rosarinho do pai, não se lembrava criança só pensando em brincadeira agora não, vem branca a farinha, só não muito branca por causa dos bichos que o Tonho trouxe e se fosse eu iria dizer umas boas para o Seu João da Venda, aí remexe interminavelmente a massa que engrossa gruda meleca os dedos, a Maria soca literalmente o grude e desengruda pondo mais, espargindo farinha, a farinha sobra na mesona espalha embranqueja tudo em volta, ela insiste a socar, enrola pra cá desenrola soca de novo, Dona Zefa tem um cilindro de pão de pau ela passa pra lá repassa pra cá afinando a massa e ainda sai azedo, mas tem graça a gente ficar tomando emprestado o cilindro dos outros! não, sim soca mais e mais a massa e a massa toma uma consistência adequada medida pelo olhômetro da sensibilidade da Maria, ela para. Senta-se um pouco, não é de ferro, aguarda a massa chegar no ponto pôs uma bolotinha numa caneca com água, espera subir a pelota a supor estar no ponto a massa toda; enquanto espera olha o serviço das meninas, grita com elas, a fumaça sobe na cozinha arde os olhos da casa, cheira lenha queimada. A massa no ponto. Reamassa soca, soca como lhe soca a vida e vence a vida de fazer pão; corta com a facona em nacos, toma cada um, dá forma enrola na maneira que lhe convém que é sua forma de fazer pão, os meninos já por ali a pedir cada qual sua ‘pombinha’ minipães pra de brincadeira comerem depois de verdade, pois a verdade também é de brincadeira no mundo do faz de conta. Conta as peças põe-nas em bacia grande, cobre a bacia com o cobertor do casal a manter a temperatura, às vezes precisando até do cobertorzinho mijado que o nenê molhou, comum em dias frios. Os pães crescem estufam embelezam, as crianças querem ver como estão xeretam levantando o cobertor e levam tapas nas mãos e xingos da mãe que não lhes admite xingar. Enquanto isso já pôs o forno aquecer, lenha diretamente no corpo do forno, o forno ao gosto caipira tem uns tijolos se soltando não segurando a quentura mas a Maria nem fala mais ao Tonho para arranjar; aí retira a lenha que virou carvão, varre o chão de dentro do forno com vassoura improvisada de guanxuma, traz os pães, coloca os pães enrolados em folhas de bananeira para não ficarem direto em contato com o chão do forno, enforna usando uns paus empurrando pra não se queimar, tampa a tampa com um calço de madeira como um cabo de enxada, força a lata da tampa a ficar bem presa, olha se não saindo calor e mormaço nas frestas possíveis, examina outros vazamentos e sempre tem aqueles tijolos soltos o Tonho um relaxo só e ainda precisa tocar as galinhas curiosas para ver a Maria, sim pois hoje  não tem o Peri atrapalhando no meio do caminho, o forno trabalha em silêncio assa os pães e se o Peri estivesse ela mesma atiçaria o vira-lata nas galinhas, as quais pensam que tudo vira milho neste mundo, até o galo espicha o pescoço interessado mas não está o cachorro, deve estar pescando com os homens. O Zé diz sentir a falta do cachorro, o Tonho se dá um tapa e sangra o braço com pernilongo amassado, a vara arcou, ele puxa e o filho aguarda o tamanho do peixe, imaginando que ali esteja um mestre, o Tonho desenrosca um lambarizinho do anzol, põe outra isca e fica na espera também dum pacu ou dourado que se fala nas estórias de pescadores, sempre ricas em verdades, o corregozinho ali não é mais que filete d’água e só produz ladrõezinhos de minhoca; agora o moleque tem mais sorte, fisga um tubarão uma baleia, que é um tambiú pouco maior que o peixe do Tonho, se alegram se alegra o garoto mas diz sentir falta do cão, amigos inseparáveis. “Cadê o Peri?” o moleque responde estar alongado por aí, tentando (mas apenas tentando) perpetuar a espécie atraído por esses cios que as lonjuras exalam. Perde para os mais capazes, um dia ou outro volta sujo dentado sangrando manco da luta, que guerra é guerra. Como agora a guerra do homem contra o peixe, os dois pescadores levam gatos pingados prateando no embornal onde concorrem algumas formigas, chegam a receberem a gozação em casa, a Maria já a mostrar seus pães rechonchudos, nada azedos como os da Zefa, bonitões, a fazer fusquinha aos lambaris poucos e magros da sacola de pano. No entanto o Zezinho anda feliz, não só porque se riscou pouco nos ‘arranha gatos’ nos trilhos do córgo como por receber da mãe a pombinha que é maior que as dos manos.


                   
10° - A pombinha voou. O nhambu, a codorna. A caça é a pesca do Tonho, porque a Fazenda Ipê não joga hoje, não arrumaram um adversário a altura da equipe ou é que a mulher da vez não teve tempo pra lavar as camisas, decerto a outros peris rirem ladrando tanta bandeira azul e a Maria ainda se lembra da bolada e mais da roupa estragada daquele dia e aí tendo lá sua razão e assim não iria ver ele no campo o Dito passar a mão roubando escandalosamente, o Tonho nem fala mais com ele e é um negócio chato quando capinando sua turma perto da do Dito mas não é por causa disso: não tem jogo neste domingo, enfrentaria a mulher, pois é homem pra valer se diz, iria, está a caçar pombinha pombas-rolas juritis, a porcaria do Peri ladra por qualquer susto espanta os pássaros e isso é lá caçada que se apresente! O Zé é seu rabicho como sempre, na pesca e pesca mais que o pai, mostra conta vantagem à mãe ela olha gozado querendo rir-se do Tonho, intriga da oposição por tabela, aponta, treme um pouco, e não é de medo, olha ajeita torna a apontar a espingarda, andou um dia todo com a cartucheira emprestada doutro colono da fazenda e não teve grande resultado, agora aponta a espingarda, deu um trabalhão municiar de chumbinho e pólvora socar com a vareta, aponta aponta, ela voa e era das grandes; grita o Peri, o Peri late antes do tiro depois sai correndo pegar a presa que se retorce pula e vem com sangue e penas trazendo o prêmio ao Tonho mas agora voou, decepciona o cachorro; grita o Zé, armado até os dentes com seu estilingue, o estilingue estica sua borracha de câmara de ar velha e envia nervoso a pedra aos confins para ‘brabar’ o Peri e o Peri corre volta com a pomba nos dentes e olha a tirar uma casquinha no pai com a vitória do filho, que é seu irmãozinho de sangue ele pensa que é de sangue e só tem medo dos chinelos da Maria como o Zé, o Tonho olha desconsolado a presa do filhote, dá umas baforadas de raiva e tira da boca daquele teimoso as penas revestindo umas carnes grudadas num esqueleto que antes voava agora morto, o Peri entrega o ouro ao bandido e leva quase um chute do bandido que está exasperado e culpa a espingarda culpa a sorte culpa o dia que se vai indo embora, o sol faz tchau de mansinho e aponta aponta aponta, só uma vez acerta e põe a culpa na noite que rouba a tarde, é tarde filho, fala mesmo “fío”, amanhã cedinho tem a enxada a esperar e sua mãe vai fazer você tomar banho de canequinha na baciona; assim alicia o capeta para sua causa: abandonar os pássaros ao piolhinho-de-galinha que eles já têm de sobra em casa, ao piolho e à escuridão, seguem tateando, porque caipira vê tão bem tanto de noite quanto de dia deste dia, aquele que pretende logo ser amanhã.


11° - Amanhã dia da compra na venda, a venda da compra, a Maria prepara e até discute com seu homem não no jeito a discutir de discutir todos dias discute amigavelmente agora mansa e mesmo experimenta ‘ternurar’ alguma coisinha a ser difícil concordar com o Tonho – ela prepara a lista para as compras, melhor se fosse com uma carroça a fazenda não dá carroça vai a cavalo na mula emprestada fazer as compras mas não é nesse dia, no dia do terço. A Maria está sentada na cadeira no quarto, teve capricho de não escolher aquela desmunhecando o Tonho não arruma e arruma discussão, escolhe outra, põe o espelho que ela sempre pronuncia “espêio” de pé na janela ringideira nos ventos da tarde, fica ele comportado nos seus centímetros com o vidro embaciado mas com apenas um trincado pequeno onde se vê bonita e pensa feia gorda no seu esqueletismo de trabalhar desesperadamente. Olha, muda de posição não podendo mudar de rosto, examina aquela cara tão atraente ao Tonho quando namorado vergonhoso na sala do pai o pai que a chamava Rosarinho, toma seus apetrechos, o pó de arroz um tubinho de batom, se perfuma antes disso com água de cheiro mas não pretende se fazer fotografar quer ir mesmo ao terço rezar e foi difícil convencer o marido a acompanhá-la pelas estradas escuras apesar da cheia; ele em volta enxeridando olha sua fêmea na tarefa da vaidade, a Maria toma uma latinha assim destamanho, esfrega nela um algodão ou pano avermelha a mecha e esfrega nas bochechas olha se vê esfrega outra vez outra vez ele olha, ela vira o rosto contra o espelhinho com bordas de pau pros lados do Tonho, ele sorri, um risinho que pode ser dos mais velhacos do repertório do mundo que o mundo possa ter, cheio de subentendidos que se subentendem nos sorrisos, os olhos são mordazes mais cheios de dentes que a boca a boca entretanto se conserva muda de tão faladeira, a Maria pretende escorraçá-lo esbarra no pote do rouge avermelha o braço, o rouge com que o mudinho outro dia foi pego pintando o espelho e a roupa, ela para, antes disso, quer dizer xingar até à quarta geração do esposo, antes olha-se ao espelho de novo e aí decide: bobo. Não encontra maior ofensa vez que outra a despensa está meio vazia querendo como deseja atirar todos impropérios, balança a cabeça apenas, retoma os enfeites, repuxa aqui risca ali, se embonitando e aí já é demais, o auditório aumentou tem mudo tem capeta a pequena das grandes com o nenê encavalado nas ancas e assim já é mesmo demais com tanto Tonho já houvesse e ela grita. A Maria não xinga, não diz “rua” na roça só existe a rua de café a capinar, grita ameaça atirar coisas sólidas nos moles e curiosos que saem a correr, o Tonho puxa a fila a Maria acaba seu acabamento e ainda lhe sobra um quefazerzinho antes de saírem, mas não é nesse dia, no dia da compra. A mula vem gemendo devagar ao peso das coisas, até o cavaleiro e devera ser ‘muleiro’ vem a pé desapeado puxando pelas rédeas sua montaria, em cima dela sacos de badulaques pesados, mais pesados os sacos com açúcar feijão arroz mui mais pesados nos bolsos do Tonho, quase vazios de cruzeiros em notas miúdas que são as mais fedidas, maior ainda o peso da dívida que deixou a alegrar de um lado o João e a preocupar de outro lado a mulher do vendeiro a sibilar ao homem “será que o homenzinho pagará!” o areião se afunda na quentura do sol o casco da mula, que vem paciente e obediente e mula é bicho teimoso, num sacrifício que os muares fazem milênios a agradar ou não desagradar a espécie humana; funga, sai-lhe de dentrão um chiado cantante do espremor dos músculos apertados das compras e do arreamento, sangra no focinho mas o animal não sabe, sente, olha na direção frontal onde o outro animal e nem de leve supõe chamar-se Tonho onde ele está. E ela, a mula emprestada, ficou isso sim horas a esperar o homem, homem de folga na enxada, folga por sua conta e dissera ao fiscal na sexta-feira que na segunda não trabalharia, indo às compras. Espera amarrada numa árvore em frente da venda, a venda de fazer compra, aguarda conversando pouco com outras alimárias, quem sabe mais irritados com os mosquitos que infernizam infernizam; e o homem nunca vem. Está de cotovelos no balcão gasto do vendeiro, toma umas e outras paga para ouvirem suas bravatas a enganar outrem com suas propriedades gados coisas assim. O João Leiteiro e a gente não sabe por que leiteiro se vendeiro já separou as ordens da Maria, o Tonho da Maria ainda conversa cada vez mais molemente; até que dorme tomba se encosta, com ajuda do auditório, acorda, despede-se do vendeiro com a mulher preocupada pelo freguês, se firma e vai à mula. Ajeita arruma prende aperta olha, vê que só vê uma fêmea estéril de muar e vê estar bem, inicia a caminhada de volta aos seios de Maria, o sol lhes dando um banho, a mula sua muito mais que o Tonho. E aí chegam. A Maria vai olhar o que falta para reclamar com base, os filhos pra ver que tem de bom, bom mesmo são os doces paçoquinha doce doce de bala. Ela esparrama aqueles curiosos (o pai está no momento tentando tirar as botinas dos pés inchados, uma já exala mais livre o chulé) esparrama põe-nos a transportar as coisas para o quartinho de despensa a pendurar os trecos que o Peri apenas costuma cheirar de longe lá encimão e agora focinha de perto deixando babas da fuça nos sacos e a Maria não gosta nada nada, o mais velho, o Tonho que é o Niquinho, já limpa a mula a devolver para o dono.



12° - Agora a Maria não está de muita conversa, compugida, preocupada com certeza, o Tonho anda ao lado e é duro acompanhar o homem que anda tão depressa quando vê vê o sujeito na sua frente; e também não se encontra pintada nem maquiada a caráter ao menos cheirando água de cheiro, sequer se falam quando falam não falam da venda, o Tonho pensando na dívida na venda achando abusos mais, menos recebe o feitor afanando as coisas e menos recebe de compras também mais ainda no pindura o João é qual o Dito da sua fazenda, ele acha rumina não fala, falaria ser fácil enganar bêbado me embriagaram para cobrar mais, pensa, macambúzio; ela anda, circunspecta, pensando nas coisas dela, pensa criança recomendada à mais velha-criança, a noite é escura e eles andam, os pés marcam invisíveis no solo em som oco, vez que outra ouvem pios ou o vento que assopra as folhas, apenas uma que outra pessoa se encontra a cruzar-lhes no estradão, enveredam por uns trilhos a chegar logo naquela demora rumo ao Zé Benzedor. A Maria vive apreensiva, tem sempre uma “coisêra” diz o Tonho, dói aqui dói lá, toma mil remédios e chás, todo mundo vira médico a todo mundo, ela ingere mil; enfim se decidiu pelo Benzedô, caminham compassado, caboclo não teme estrada engole quilômetros usando a légua pra facilitar a distância na medida. Param, o homem quer fazer xixi, verter água no seu linguajar, talvez mais para descanso; ela também de bexiga cheia, embora pouco ande ingerindo em sólidos e líquidos nestes dias, agacha como pode temerosa que apareçam olhares estranhos. A Maria teme ficar doente, mais doente que de costume, é o esteio da família, é o gerador da atividade dos seus, o homem do homem, o homem é pouco prático só sabendo trabalhar, mas ela critica ralha exige põe todos nos eixos, a casa anda; agora ela não anda, anda desanimada com suas dores pontadas cólicas, até a menstruação fora de regra e a Dona Zefa lhe diz a construir pessimismo na cara dela pra consolar suas tristezas: “num vai mais tê famía” mas tem, tem dores crônicas dias e dias e agudas dias, assim mesmo no cepo, à frente do seu homem metros à frente em sua enxada incansável; agora andam, ela em má expectativa. Até que chegam na outra fazenda onde igualmente são cafezais a perder de vista, estão numa colônia de casas relaxada, pois tem patrão que só sabe explorar o roceiro. Batem, batem palmas outra vez e a mulher do Benzedô atende, chama o marido aquecendo sua carapinha embranquiçada no travesseiro de penas; vem manco lerdo olha aqueles dois. Entram. Conversam, a Maria, o Tonho meio envergonhado não tem assunto desse assunto, assunta mais, sai pra fora, a Maria fica a receber as rezas bravas do velho. Saem de lá, andam quietos em retorno, marcam o areião com passos em compasso ao contrário de antes, já é tarde, cedo à coruja que já pesquisa na caça, eles andam em silêncio, o Tonho agora indaga que achou o médico qual feitiço recomendou tem simpatia decerto a fazer, ela mostra uma garrafa cheia de suas infusões e não fala, não quer falar, andam mais uma hora na noite sem luar. Então a Maria chora, chora ela desesperada até, o Tonho não sabe o que dizer não sabendo carinhar não tem consolo também pra dizer. Ela: “tô esperando ôtro”, chora mais, a abarcar molhando todo o gênero do seu sexo.



13° - Aborta a Maria, aborta mais um e se estraga. Convalesce sob cuidados de mil comadres, a solidariedade é pródiga nessas ocasiões, até as línguas que mordem as línguas cerram dentes e depois voltam ao que era que sempre tem sido porque o ser humano não sabe mudar tão depressa... Agora o Tonho toca sozinho sem a mulher o seu pessoal, não fala muito, não repreende quase e a indisciplina campeia no campo. No então a fazenda mandou plantar, semeiam algum milho nas ruas de café, plantam feijão e mandioca, o que for de tempo, por ordem do tempo da chuva, os trabalhadores executam seu afazer, capinam limpam olham; depois na época apropriada colhem, quase sempre só tendo serviço aos adultos, os quais recebem pelo labor de seus meninos; o Tonho geme na sacaria, os filhos fazem algum miúdo; mais tarde a doente vem exigir o trabalho deles, ainda se move com cuidado, mas também toma a enxada. Em casa se desdobra como pode, os meninos tiveram de cortar um pouco a brincadeira para fazer as vezes da mãe, só o Niquinho nas fugas costumeiras e o pai ninguém tira do hábito de sentar-se na frente da casa na tábua de banco a fumar sua palha. O Peri está bem obrigado; só que contraiu qualquer doença por aí e anda magrela quase esquelético, fica obrigado a engolir uns chás de não sei o quê ele engole engasga tosse solta sai em disparada volta medroso olhando o Zezinho. As galinhas, fora as que o bicho anda pegando e supõem algum vizinho mais guloso, fora também as sacrificadas a reforçar a patroa doente, elas estão bem, bem curiosas espertas a correr de mestre cucurucu; as vacas quebram ainda arrebentando o arame da cerca mas esse problema acabará: o dono da fazenda vendeu o pequeno rebanho, é questão de dias. Tem o pão nosso de cada dia, as meninas fazem o que podem ouvem os estrilos espinafrados da Maria, a mãe anda chata e exigente na doença, o pão sai assim assim, elas se queimam um pouco, o Tonho reclama pelo gosto. Outro dia pegou uma fieira de peixes, a mistura melhorou a comida destemperada, o Zezinho trouxe algum pássaro graças ao estilingue, um pássaro ainda vivo cuidado igual ao nenê da casa e acabou por morrer não virando mistura e a engolir frito com arroz e feijão, mas vão indo vão indo, a casa não caiu, a vida retoma o ramerrão, a Maria volta a ser o homem forte que sempre fora do seu homem, as crianças chiam um pouco depois se acostumam, o cafezal tem seus trabalhadores de volta à rotina, só quebra a rotina o nenê, já andando como pode pode mais cair e se arrastar em gatinhas, os cuidados redobram e a mãe dele que é sua irmã fica pouco no trabalho da enxada pois o molequinho dá trabalho. Mas será um leãozinho como o leão genitor? se perguntam familiares vendo o guri pelo futuro do guri, o guri se parecendo a metade do pai escuro outra metade da Maria, clara e sardenta; agora até aquele desajeitado se engraça com o filhote e tenta falar bobaginhas que o menino não entende mas ri do mesmo jeito, todos olhando a dupla, olhando mais o moleque que põe na boca tudo que ache na terra. Nada que o sol não tenha visto ainda.



14° - Amigos, amigos desses que se tem por irmãos, nem irmão tem o caboclo Tonho, pois a vida virou revirou desvirou engoliu os parentes ele migrou se perdeu se achou na região criado ao deus-dará, amigos não tem só restando esses que ficam distantes do coração próximos no espaço, mais desconhecidos que são os conhecidos os quais se perdem em cada mudança, mudança caipira é um levar badulaques e esquecer muitas badulaquinhas, quando não é que se mude na calada da noite e aos fugintes não é dado o costume exigir levar toda mudança e podendo deixar toda a sujeira espalhada ao próximo morador limpar a casa ou tapera! Se já aconteceu? já, agora o Tonho e a Maria um casal estável com muita criança e muita história. Na história entram as viagens as roças onde moraram e os amigos (que é uma palavra fácil de difícil compreensão). No Ipê trabalham faz muitos meses, e isso é inusitado na vida roceira em não ser que o roceiro tenha seu próprio sítio e não é o caso deles, somente neste caso o trabalhador para. Assim cultiva amizades fáceis facilmente desvinculadas após a mudança. Ele tem seus amigos que são os colegas mais chegados, um que outro tem o título de compadre, no batismo das crianças; a maioria é o colega de trabalho ou o vizinho com quem não se conta, não sendo nas emergências como o último aborto da Maria. Ela se apega à Dona Zefa, amiga de conversar de se contar as dores, nadinha por causa de apreciar pão azedo... Uma que outra vizinha a trocarem suas misérias a dizer suas coisas simples no domingo enquanto aqueles bobos rolam suas bolas no campo da fazenda lá em cima; e a amizade não vai muito além. Perdeu a mulher quase o contato com a parentela perdida no tempo e na falta de realimentação, pois para haver amizade mesmo com os de sangue é necessário regar como se rega a flor, que a Maria quase não tem, falam não ter mão boa para planta: murcha seca morre. Amiga amiga dessas carne e unha, a se contar e a saber as intimidades, só mesmo na juventude, a mocidade cada vez mais distante. E o Tonho? o Tonho, diz a oposição enredando na oferta do pão ou de um doce que se fez e aí a Zefa agradecendo e eleva a Maria à santidade pede por todos santos e se benze deixando a Maria um pouco constrangida, o Tonho Dona Zefa, é um sujeito gozado e esquisito: não pega amizade com ninguém. Ninguém vírgula, esta expressão ouviu não se sabe onde e não sabe também que é ‘vírgula’ iletrada e dá um trabalho imenso ler os rabiscos da Maria na lista de compra, como ‘ninguém’ faz uma barulheira na beira do campo com os outros homens e os outros também acham o Dito um ladrão! Exagero, mulher (ele pronuncia “muié”) mulher exagera as coisas, pro lado dela pro lado dela. E conversam as coisas deles coisas de safra ou de trabalho, o eito encolhe muita gente sai da fazenda, cada vez mais tem menos enxadeiro; agora piorou, o administrador só quer gente por dia, ninguém os donos querem a porcentagem! O amigo, o João que também é Silva como o Tonho, reclama, falam por aí que o dono que mora lonjão manda o feitor que mora perto e só quer explorar a gente, falam que ele (o doutor) vai derrubar o café plantar capim pôr gado mandar desmanchar as casas... O Tonho não acredita, mais fácil deixar a colônia cair de podre sem gente, o mato a entrar nas casas; se fosse de madeira já tinham posto fogo em toda colônia. Conversam mais, falam das suas coisas de roceiro; tem sempre um que inventa, ou só conta, causos. Entram as assombrações os crimes os roubos as doenças os malfeitos. Ah mas mais do time de futebol, todos eles elogiam o Maquininha acham que um dia vem gente da cidade levá-lo pra jogar, o homem é demais. Falam do jogo que vai ser do jogo que foi do jogo que se disputa ali no campo, onde a gritaria da molecada é ensurdecedora. Mas falam-se também no eito; o Tonho adora deixar a enxada para um dedinho de prosa com os outros homens e lá tem mulher igualmente, elas com pano na cabeça ou chapelão de palha, a Maria não se importa não e nunca foi de ciumeiras confia na vergonha do seu homem; entretanto na medida em que descobre as malditas rugas, ela assim tão nova ele é que tem mais de quarenta, então se aporrinha um pouco, olha a fiscalizar a conversa do esposo casado no padre e nunca no cartório; o que mais a aborrece no entanto é a fuga do leão de sua enxada. Mas agora quase que se não põem eles suas minhocas na cabeça, pois maior drama é o drama de serem mandados embora da fazenda, onde o deve é muito maior que o haver, sempre desconfiados que a gerência lhes rouba os cruzeiros, que o Tonho ainda chama pelo costume mil-réis, fato que não modifica em nada visto quem confere as coisas é a Maria, o Tonho não tem muita certeza nos números do dinheiro. O drama à vista... é nisto que creem.



15° - E nisto é que destoa o pessoal do Tonho com os vizi-nhos e conhecidos. Ele é gozado e esquisito insiste sempre a Maria. Contudo mesmo ela é um pouco seca, ou limitada? e também não é de ficar como a outras correndo atrás da saia do padre, o padre vem de vez em quando na fazenda, conversa lá na sede atrai gente na capela mas agora quase não vem. Além do mais a Maria não dá oportunidade ao esposo pichá-la de carolice; não obstante casaram-se na igreja da cidade e batizaram a meninada, até os que saíram de anjinhos e caixões, pois iriam deixar virarem pagãos e se perderem no limo! Agora, o Tonho tem seus medinhos particulares; nunca deixa um menino seu passar por cima do cabo da enxada e pior se for em cima da vara porque daí não pega mais peixe. Tem coisas mais na família. A Maria se pela de medo do escuro não sai sozinha no terreiro à noite, chega a mandar um garoto ir pegar lenha para o fogão e a roupa se ficou no varal, ficou... E ainda teme assombração! porém nunca viu uma. No entanto é o que mais sobra nas estórias que se ouve quando se reunem em casa ou em casa de alguém a comer bolo de fubá a tomar café fraco quente. Às vezes, sempre, tem cachaça e é preciso olhar que os meninos não entrem no gosto. Conversam conversam, se alegram, se é alguém animado se animam e quase vira festa, o que é uma boa oportunidade não havendo comumente encontros festivos. Assim mesmo têm os casamentos ou um que outro motivo de festa, aí vem os bailes, com gente de toda região, cavalos amarrados em volta, ocorrendo isso na sede da fazenda, os colonos nunca têm condições duma festança de vulto, somente encontros leves e sem qualquer cerimonial. Então se conversa, alguém toca viola ou violão ou sanfona, que o Tonho nunca conseguiu aprender; aos meninos é sempre festa, os folguedos para eles são diários na noite após o serviço da roça, parece que os pequenos não sentem cansaço. Entre elinhos tem muita vez os esfolados os briguentos choros gritos, os adultos precisam intervir, no caso da Maria e do Tonho não é o Tonho, a Maria. Mas é comum também brincarem os meninos de ficar ouvindo os grandes a contar suas bravatas e causos na mesa da sala ao lume da lamparina, sobretudo nos fins de semana sem o perigo de precisar pensar dormir mais cedo e pensar na labuta do dia seguinte. Daí se conversa animado, o Tonho mesmo nesse momento é um pouco preso na língua, a Maria é mais solta. Lembra, Tonho, o eclipse? (ela fala “a icrípe” e todos entendem). O marido se solta todo mundo quer melhor falar do que sabe, o que não é muito, se contraditam mas se completam, a assistência se rejubila naqueles causos tão maravilhosos. Foi em 1946, não, intervém o Tonho, ‘47’, me lembro como fosse hoje, a gente morava no Pedrinho. A Maria explica: um ‘turco’ dono da fazenda de café com broca de café e eles pegaram roça lá “di a meia”, a Maria Conceição já grandinha, não foi Tonho? era responde e conta o friozão, onze horas de sol quente, tudo ficou escuro e frio como noite de lua nova; a Maria faz que sim de cabeça, entra a bicar: até as galinhas foram abobadas pro poleiro... não foi, homem? Foi, mulher, cê lembra dos Sansão! E conta a gritaria da família do Zé Sansão pega de enxada no cafezal a gritar de medo; a Maria: tinha as moças (conta delas, picha um pouco seus defeitos na época e conclui:) elas gritavam assim – “ai meu Deus, vai acabar o mundo!” e, diziam, eles nem acreditavam em Deus eram comunistas, não eram, Tonho? O Tonho concorda, falavam que eram todos ateus. Riram falaram ouviram. Agora relembram nas suas noites em família, o Tonho ameaça contar de pescaria, a mulher mostra o despertador, embora atrasado estragado e barulhento ele aponta para a hora de dormir, um dos pequenos não precisou olhar os ponteiros do relógio, olhasse não compreenderia, ressona.



16° - O roceiro Tonho olha o pequeno a ressonar, se vê pe-queno, que a memória não é muito amiga não obstante se o-lhando menino varinha entortada linha de barbante anzolinho mergulhado a banhar minhoca na expectativa do peixe enorme que nunca fisgaria, fisgou agorinha um lambari sem-vergonha e se o Zezinho não estivesse em outras artes com os meninos, como ele estaria agora lhe dizendo que o peixe ainda não é uma baleia, o córrego se ri dele decerto, raso águas límpidas se vendo lá no fundo meia dúzia irmã do que prateia e luta em não ir para o embornal. E aí pensa que a vida é curta rápida passageira a Maria a lhe dizer insiste ser mais de quarenta anos e olha que deve é ter razão e se os fios que ele corta por poucos mil-réis no barbeiro da colônia que é um roceiro igualzinho e se os fios não estiverem branqueando como o do ‘Véio’ Benzedô! mas a mulher não estaria já explorando mais esse menos. Guarda o peixe nem arrepara seu debater no embornal de pano a estertorar se acabando antes que o acabar do seu predador humano, aí senta-se num tolete de pau já comida farta para cupins e esconderijo das formigas, demais circunspeto nem parecendo na diversão de fim de tarde para notar algumas delas a subir e subir naquele objeto não identificado com carnes moles sangue por baixo por cima dos ossos e vestido com roupas simples suadas da labuta dia inteirinho na enxada agora ouvindo o piar de aves cricrilar dos grilos e aspirando cheiro de mato, o mato que cerca o riacho, ele cerca também ao gado que vem ali beber e berra engraçado. Dá corda ao seu pensar viaja na sua viagem do passado rumo ao futuro desconhecido passando pelo presente fugaz também desconhecido porque a gente é ignorante e sequer se conhece mais. Menos ainda o Tonho que faz mil indagaçõezinhas muito longe do filosofar, ou um filosofar a mil-réis, a dez tostões, destão. Recorda sua mocidade sem grandes exigências, que não o sonhar, a se igualar ou assemelhar-se aos outros colonos em todas colônias por que passou, a gastar o fio da enxada na roça. São vozes que gritam baixinho as modas que mais gostava “eu tenho um cavalo zâino que na raia é corredô...” nunca possuiu um cavalo até nas compras se valendo do empréstimo da mula, ah que bicho forte a mula, a mula? “eu tenho uma mula preta com 7 palmos de altura” ele também gostava cantava mesmo sem viola e pera lá, 7 não é conta de mentiroso, ri-se olha em volta pra ver se não lhe tomam por louco ou bobo se o Zezinho ali estivesse contaria estar o pai à mãe falando sozinho, sozinho e aí sorri vitorioso. Decide, não vai pescar mais não, sentado é que percebe estar cansado de verdade, vem aquela moleza, sem vontade para levantar-se ir pra Maria, levando três peixinhos. De pé se lembra dos artistas do seu tempo, do tempo dele também, o sogro igualmente apreciava o trio Torres, Florêncio & Rieli, cantando modas, o velho cantava rouco e ria gozado pra sua Rosarinho, ah a Maria era bem bonita e agora... de repente primeiro se pega falando só e depois vê o Peri, grita Peri! ele ladra importância e aí vê ele mesmo seu capetinha, não se aguenta, gargalha também, vai mostrando ao Zé os tubarões e baleias pescados no córgo, indo poetar pra Maria em casa, se ela estiver de boa veneta, e este dizer o fez lembrar-se do velho italiano (falavam “intaliano”) que vivia numa das colônias em que residiram, a esposa e ele, Tonho.



17° - Tonho toma tudo tanto quase nada precisa, além do pedaço de rolo de fumo de corda de fumar para fumar, a palha, fala mesmo “páia”; e o canivete é claro, o capeta sorri ao seu lado no banco o cachorro sorri carrapatos e pelos a abanar ao filho ao pai e aguarda ordens de serviço o Tonho abalança a cabeça, não aguenta e ri da dupla, o Zé atira a alegrar a galinhada no terreiro um pau e já se sabe, abalança de novo a cabeça, tirou o chapéu que tem furo de gasto pro lado, toma o canivete vai picando em pedacinhos a corda espalha o fumo na palma da mão calosa enrola na palha, amassa a ponta, encavala na orelha esquerda a abanar horrivelmente e a direita também em abano a oposição falando que aguenta um voo como gaviãozinho que pega pinto assustando a choca e o galo; ele tem vontade, só tem vontade, a dizer em boa devolução para a oposição que o filho dela Zezinho, o capeta aí fazendo estripulias, que esse filho dela também possui as orelhas em abano e que... não, é arrumar briga, ela é que é briguenta. Ela olha lá diante desde a porta da cozinha, uma porta que ameaça se fechar com a da sala e as portas das janelas todas com defeito rachadas entrando a friagem do vento no inverno o inverno que também se aproxima na vida da família – ameaça se fechar a todos no êxodo que serão decerto obrigados a empreender como ocorre em massa com outros roceiros perdendo para as vacas, a Maria olha pro seu lado engraçadamente com muita interrogação exclamação reticência e não se sabe se está aceitando ou não aquele descanso do Tonho enquanto ela trabalha adoidada e agora atira milho e resto de comida azedada, não pelo pão da vizinha Zefa não, estragada somente pelo calor o tempo e a lambida das baratas, credo! ele sorri inocente iria chorar? sorri, encavala o primeiro cigarro de reserva na orelhona, inicia a fazer o segundo e o terceiro irá fumá-lo ardendo os olhos dos outros imediatamente, acendê-lo se o capetinha não tiver perdido por aí a caixa de fósforos mesmo porque o isqueiro que chama de “binga” não tem mais pedra e não funciona. O sol que se foi à noite a noite que xereta nas imediações, a Maria já acendendo as lamparinas, cantando em rotina desafinadamente suas ladainhas aprendidas no terço “bendito bendito seja...” – tudo lhe avisa que é hora de se levantar jantar dormir preparar o corpo à enxada amanhã, o amanhã do roceiro Tonho.

Marília  abril  2004






















































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:



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