terça-feira, 24 de março de 2020

Juju


078(postar no Blog Livros Inéditos)










                                 J    U    J   U

                                       (romance)

                                   Moacir Capelini


















moacircapelini@gmail.com


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    “A vida assemelha-se um pouco à enfermidade, à medida que proceda
      por crises e deslizes e tem seus altos e baixos cotidianos. À diferença
      das outras moléstias, a vida é sempre mortal.”
                                                            Italo Svevo

                                                           ---  

     “Cada  um  de  vós  vive  e  é olhado por alguém, e em quase  todos  os
      momentos é ator para alguém: é entrevisto, visto, observado, espiado.”
                                                           Giovanni Papini





Plano desta Obra:

I    parte – As Raízes da Família

II   parte – As Raízes dos Dramas, a Cidade Grande

III parte – Operação Ciganagem: o Retorno Sem Volta

IV parte – A Família: Problemática e Atualidade

V parte –  Conclusão








































 I  parte – As Raízes da Família




1° Capítulo, capítulo do caos, um mundaréu desarvorando a ordem a mansidão a paciência a educação a harmonia, a santidade inclusive;  do autor destas ‘maltraçadas’, por causa Dele...

          Ele, “minho Deus!” dizia um colega de brinquedo quando eu era menino na olaria; e isto faz uns sessenta anos, mas Ele aqui é outro caos! Um pedaço de pau com pernas balangando os braços, a bradar sua cabeça negando os meus acertos num acerto de contas, pois pelo visto ando sobrecarregado de erros e a ‘coisa’ aparece a corrigir-me, punir-me, me expiar os pecados; em suma um entrave não pedido, mesmo porque nunca pedimos punição, decerto para não nos tomarem pidões. Enfim eis que, ainda a fazer os comentários deste período numa linguagem chã, Ele me aparece.
          Tô te falando com você, oh boneco mal acabado de madeira de baixa qualidade comida perfurada esburacada pelos cupins desta vida, tô te falando procê e... (me corta:) Não pretende entrar para a Academia decerto, a misturar a segunda com a primeira pessoas, escriturário de quinta categoria. (Corrijo o corrigir igualmente mal-educado:) Falo a um boneco, e que boneco! falo a uma desengonçada criatura de madeira cheia de nhe-nhe-nhem e falo sim usando a linguagem do povo, até no linguajar dos escritores encontramos isso, escritores de quinta como tachou-me? escritores que na melhor das boas vontades granjeiam a quarta e a terceira ou pensam na primeira das categorias a ‘bestsellar’ (aqui inventando palavras a irritar o boneco) enfim a estar muito nas livrarias e paradas das publicações jornalísticas e revistas de divulgação. Não boqueje diante de mim, eu um escritor de valia, você mero personagem que só tem de concreto o concreto de pau, este que já foi árvore, portanto você um desmatador a me matar com a língua!
          Ele. Ah que lindo tró-ló-ló. Vou ‘te’ chamar ‘você’ por E, um ‘e’ dos titicos assim. E, de escritor, de escrivinhador, de escrevinhador, de escriba, de enganador, de vaidoso, de...
          Pera lá, desgraceira de boneco, vaidoso é com vê, não entro na sua não.
          Vaidoso é com ‘e’ de escritor; sim senhor; provo por a+b a coisa, a coisa vem do grego e do latim a chegar ao português, melhormente ao brasileiro ou até ao ‘giriês’. No latim não se conecta ‘et’? então, o qual deu nosso ‘e’. Peraí um pouquinho, não me interrompa. A gente, tá bom, sou boneco de pau, mas se me interromper a graça de meu labor literofilosófico do lá dentrão, aí não termino o pensamento, emudeço e você ficará, que vexame! ficará ao meio deste capítulo; farei mais: você não acabará sequer o começo do fim nem o fim do começo e por extensão esta obra que se pretende romance: vira novela vira conto vira dito, não vira vira nada. Tudo por sua intromissão indevida...
          Perdão, mea culpa, vênia essas coisas; prossiga.
          Perdão e humildade aceitos. Eu dizia, continuo a dizer que vaidoso é com ‘e’ de escritor porque ia completar, e o faço neste complemento, ia falar que todo escrevinhador ao publicar sua obra, digamos uma Juju desta vida, todo escritor é vaidoso; ora bem, como já fazia eu uma relação ligando a sigla E a escritor escriba etc., etc. quer dizer et coetera, se eu completar o pensamento com a palavra ‘vaidoso’ como fi-lo, não fiz isso porque você não me deixou, malcriado, atrevido, ditador, isso! di-ta-dor, então direi et vaidoso e portanto vaidoso começa pela letra ‘e’; assim ganhei mais esta parada em cima do E, um ventrículo, ventriculinho de meia-tigela.
          Uf! acabou de besteirar? Olhe aqui, gentinha-de-pau, dizemos, nós na linguagem formal e culta, dizemos ventríloquo. Você nunca acerta o seu erro... Bem, mas não interessa agora, agora vou descrevê-lo (cala a boca, sou educado: não lhe darei a palavra a mixordiar meu texto puro; continuo iniciando a descrição:) é um pedaço de madeira por tronco, questão de palmo e meio, pelado ainda por cima, por baixo, que vergonha! e ter de mostrá-lo ao público... pior – exibir seu chiar de taquara rachada num desafino. Continuo. Dois bracinhos mexedores, numa das mãos faltando um dedo (o gato comeu?) e dois cambitinhos soltos à guisa de  pernas... ah, exato, ia-me esquecendo: a cabeça, cabeçorra desproporcional com cara de pau, no sentido figurado. Olha, ri, chora, mostra a língua ferina, faz careta, sem grande esforço, pois já se parecendo com o pecado; não só isso não: mostra-se a fingir santidade e sofrimento, o sofrimento que vive a impor ao escriba que tanto sofre, tadinho de mim.
          Esse o boneco, esse é você, você não é eu, vixe credo em cruz e sartei diria um caboclo da gema.
          Hum...
          Não, não lhe passo a palavra, preciso descrever como está, está escarrapachado... Esta noite, madrugada, a minha madrugada começa aí pelas quatro, hora do Paquito, este um cachorro bom de palavra e de unha, ladra sem parar e arranha não sei quê de lata, folha de flandres decerto – então quem pode dormir! vai desse provocar de cão até aos pardais, que me gritam seus piados às seis. Nesse ínterim do viver você me aparece, eu que justamente ando a compor na cachola a Juju; vocezinho se meteu aqui conforme passo a fazer a descrição.
           Como falei, escarrapachado, irreverentemente, sobre minhas pernas magras e cansadas a carregar-me o peso do corpo; seu corpinho se impondo chocalhando remexendo escorregando ora para trás ora para frente entre as duas coxas aqui. Pior mesmo: vez que outra muita vez a mostrar-me seu amoníaco e a me envergonhar diante do público, este quase sempre crianças tolerantes e brincalhonas. Escorrega pra cá desliza pra lá, tem bicho-carpinteiro? apregunto, me olha o ranheta, sorri sem-vergonhice, vira-se ao publiquinho pra alegar santidade ou que seja ingenuidade e inocência, discutíveis. Nesse ponto pisca às crianças a dizer “num tô nem aí”. Pode-se com um barulho desse!
          Hummm...
          Não tem ‘um’ nem dois seu... seu... ora veja, nem sei seu nome. Batizo-o em nome de todos os capetas, Cao. Cao, se puser til vira seu padrinho de batismo, o capeta. Cao é o caos; pode ser Cau, com ‘u’ de ui! pode ser Kao , já foi Chao – tudo com quê. Não muda a situação. Pra facilitar, a rebater sigla sobre Escriba indicado por E, rebatizo meu boneco ‘ventriloquado’, com permissão do Mestre Capeta, com a sigla ‘C’. Estou vingado por todo o sempre.
          Hum, não gostei. Acho que não gostarei com mais categoria do seu Juju. A propósito, quando vai iniciar a narrativa!?




2° Capítulo, onde se descreve o ambiente inicial, inicial após milênios veja bem; o ambiente em que surgiu o personagem principal: Juju. Configuração das demais figuras

          Ora ora, que coisa curiosa, meus personagens têm o costume, ou defeito sei lá, de conviver comigo. Comem comigo andam comigo dormem comigo sorriem comigo, nenhum se meteu a mijar-me semelhante Cao. A Juju mesmo... ontem, não, anteontem ou trasanteontem; o povo tem dessas: não, diz, foi quinta-feira, não não, na quarta ou foi sexta! é indeciso até a votar o dia e nunca acerta hora em erro de ‘britaniquice’. Aproveito-me esclarecer que sempre não havendo a palavra no dicionário, criarei o vocábulo; apenas indicando isso com sinais do apóstrofo, além das palavras existentes a serem também indicadas para chamar atenção, como todo mundo faz. Onde eu, diria o boneco nas minhas pernas, desejo chegar. Bem. A Juju veio ontem aqui cortar-me os cabelos – antes que alguenzinho me interrompa a perguntar quais, remendo: aparar os fios sobrantes, lustrar o crânio, ilustrado já o cérebro.
          Pode entrar, seu Escriba? Eu, pode Juju, venha aparar minha jujuba, trocadilhei a brincar. Além disso se eu, autor e tudo o mais, se eu não tenho a intimidade e a liberdade para gozar, respeitosamente, meus personagens... que se espera, que o façam os inimigos dos pobres! Brinquei sim. Usei inclusive de muito respeito por ser ela uma senhora e senhora respeitável, quase certa matrona como veremos nos últimos capítulos. Estou a antecipar as coisas mostrando não o serviço mas a linha de tempo ascendentemente (ou descendentemente!) Devo iniciar do começo. Mas eis que surge para ajeitar-me os pelos sobrantes na guerra da vida ela, a Juju; a vida não, mas a Juju é cabeleireira. Aliás devo esclarecer, pois meu boneco de pau vive a me tachar machista, sempre fui ao barbeiro, coisa de homem; aí pelas tantas descobri um drama profundo na família de Juju, desempregos à beça; pensei com meu dinheirinho aliviar um pouco, assim em vez de ir ao barbeiro chamar a cabeleireira. Ela exerce suas funções num salão da cidade, veio no domingo fazer um serãozinho aliviando um pouco as faltas em casa, vindo em casa, a minha. Portanto realmente ontem, hoje segunda-feira e aí não tenho mais dúvida na dúvida anterior.
          Pode entrar, falei. Chegou, esparramou seus apetrechos, engatou o plugue dela na minha eletricidade, cobriu-me com uma camisola, não devia ser camisola mas uma usada veste feminina, eu via um bolsinho rompido e outro rasgão no pano; ainda pôs no avesso e o cheiro... bem, prefiro o cheiro meu de meu horrendo suor dormido, inclusive senti uns arrepios e o boneco já me gritando se estava com nhe-nhe-nhem como havia dito sobre ele. Loguinho ela fungava, ela funga um pouco, assoprava no meu cangote o hálito dela. Por fim, após cuidado feminil e profissional,  deixou-me lindo, eu me vi no espelho e me achei ao menos bonito; tinha uns cotos de cabelo grudados aqui e ali, lavei-me, passei álcool e virei gente. Bem, dispensei Juju, paguei quanto cobrou, não queria aceitar, suponho não ser por minha lindura; enfim é uma cabeleireira profissional e trabalha para o sustento da quadrilha. Quis dizer família, por fim ver-se-á não me enganei tanto...
          Desconectou o plugue, ajuntou a máquina com pente número um e outros trecos, agradeceu e se foi, fiquei a observar seu semblante demais sofrido.
          Minha (do esposo dela, o João, o João tem o costumi-nho a tudo finalizar por “pô!” em zanga) minha Juju fechou educada meu portão e sumiu atrás de cada pisar nuns passos curtos e elegantes.
          Isso hoje, quer dizer agora. Antes.
          Antes de nós nos perdermos no tempo, entidade elástica cuja extremidade some além do milênio e pode pluralizar o milênio; antes disso percamo-nos no espaço. Tudo eles, eles são os familiares e amigos mais ou menos chegados à família, tudo arremessam ao ponto geográfico ‘Paraná’. A gente quando a gente quer mesmo saber nunca sabe, talvez a pensar seja ao norte do estado, estado vizinho da província dos paulistas, nós. Eles se referem assim, assim vendo o boi como me venderam por vaca e eu, aí o boneco nem estava aqui, eu ingênuo e puro cri. Feio cri, troco por acreditei.
          De qualquer forma era lá.
          A menina-moça a brotar aquelas protuberâncias que embelezam o sexo se lava no rio, olha o rio, o rio vem foge some a levar sua imagem bela de mulher. Lava o rosto, refresca o rosto, lava a roupa da casa: funga, bate na tábua, esparrama, cora ao sol, toca aqueles infernais mosquitinhos que zumbem sugam marcam a epiderme clara e delicada; ela se estremece talvez com nojo ou medo dos insetos; toma as que já clarearam, espreme, torce, cheira, enxágua na bacia, escorre a bacia, põe novo líquido, cheira, ainda cheira não mais suor e sujeira mas cheira a sabão de cinza que os caboclos fazem artesanalmente em casa, cortam e põem a secar como tabletes ferindo a harmonia das linhas cultas: uns quadrados outros retangulares e mais mais informes e isto não importa. Importa que a menina está cansada. Volta a espremer a enxaguar a peça e atira com certo cuidado a roupa noutra bacia. Novidade? as outras fazem igualzinho Juju e são várias colegas, as mais das vezes as mães de família, Juju é garota virgem e crente na Virgem. Não dire-mos não se interessar por homem, sobretudo alguns num baile onde não a deixaram dançar e outras sem-vergonhices mais, seu Mateus é rigoroso com ela e com as outras filhas, só a Chiquinha fugiu com um peão da fazenda e ele nunca mais quis aceitar a infeliz por filha, embora sua velha chorando por isso dia e noite. Com um rigor maior sobre Juju, Juventina é bela e atraente e no mundo o que mais tem é gavião...
          Alevanta a bacia cheia de peças retorcidas, algumas ainda a gotejar por cima dos seus cabelos castanhos. Anda, anda a equilibrar a carga na cabeça, o que força o corpo a mostrar suas curvas e beleza de jovem; ainda carrega numa das mãos a bacia reserva que usou a enxaguar o tecido; noutra segura a pedra de sabão, ficando prestes a segurar a aba da baciona se ela se desequilibra ou o chapéu de palha forçado um pouco pelo vento. E assim penetra o terreiro de casa, a sua casa. Vai rumando na direção da porta da cozinha, quase sempre usam a da cozinha, a da sala é mais pra visita ou os moleques que entram com suas coisas por vezes a sujar o chão de terra batida com barro nos pés e gritos da mãe, até ouve-se impropérios; ela não, vai pela porta da cozinha pobre, pobre todo o lar. Passa entremeio às galinhas. Umas não a percebem, outras fogem espavoridas, espavoridas menos que quando o vira-lata Peri a correr com elas; agora abrem um sulco como fosse n’água e é terra a ciscar a procurar minhoca ou um grão de milho retardatário disputado a bicadas e encontrões e desencontrões. Juju não vê isso. A rotina não se vê; mas sente-se. Emboca de vez com sua bacia, a qual é quase mais larga que o batente: é preciso ajuda dos seus, um pega o sabão outra a bacia pequena lanhada furada gastada amassada como ocorre com todos utensílios velhos e trens de cozinha; a grande serve também a amassar pão, Juju já sabe como fazer; depois a massa dorme pra crescer, depois ainda amassa melhor faz os pães, põe a crescer novamente, aquece o forno enquanto isso, tira as brasas varre o chão lá dentro do forno com vassoura improvisada de guanxumba, deposita os pães por sobre folhas de bananeira, espera no mais ou menos do tempo, abre a tampa de lata-de-banha vazia, desenforna, põe na mesa os pãezinhos a esfriar, cobre com uma toalha limpa, põe de novo os pães mornos na baciona, a baciona agora está além da borda com roupa. Tira as peças, Juju é cuidadosa: abre as peças, estica as peças, estende as peças sobre o fio de arame farpado já um pouco com ferrugem a marcar as vestes; enrola as peças de um jeito gozado a prendê-las bem pra não deixar o vento arrancá-las com sua força, o que poderia levar o pano a ser mastigado e a se rasgar pelos dentes metálicos do varal; assim elas não caem; ou caem e aquele sem-vergonha do Peri imediato a cheirar, até a arrastar pelo chão (vixe, diz Juju no pensamento, e no pensamento já outra vez no Rio Cinza a refazer o serviço e passar cada fase na lavagem, relavagem de roupa!) e prende e examina bem a fim de não cair.
          Cai a noite. A noite vem chegando. Vem chegando sua gente lá dos cafundós do judas, fala a gente do campo. Um por um ou em grupelhos, vindos da labuta, homens e mulheres, toda a família, enorme, a chegar. A mãe e Juju são os grandes que não foram de enxada, ela a lavar no rio como dito.
          Tô cum dó da Juju...
          Ué, ocê Cao tava me olhando a falar sozinho da Juju! oh porcaria. Deixa pra lá, vamos ao Terceiro Capítulo.


3° Capítulo, tratando aqui dum zigue-zague só possível à imaginação fértil, discutiremos agora o tempo do antes, quiçá regando o jardim da saudade, a saudade acostumada a ser futuro com velório e defunto, cruz-credo

          O Mateus não dorme no ponto. Quis expressar-me a dizer atento. De noite é seu dia, olha as loucuras lá de fora dentro da guarita, a cuidar dos interesses da empresa; e se forçarem um pouco decerto deixará os interesses da firma e gritará e correrá a se defender, tem doisinhos para criar e a Débora tão boazuda trabalha para ajudar o dar de comer aos dois briguentos deles, porque se desentendem corretamente como bons irmãos, sendo duplamente irmãos por serem evangeliquinhos pois toda a família é protestante, os protestantes não apreciam o dizer; então, na guarita ele olha as coisas para as coisas não ocorrerem contra o emprego, é seu emprego. Mas atento às questões de família, ói eu quase a botar quadrilha de novo e quadrilha não são quatro facínoras? Confusãozinha se vê. Atento, se lembra do ontem hoje a matracar com os seus. A Juju concorda, concorda em termos com o mano caçula. O Mateus é o Mateusinho que o velho Mateus quis perpetuar além da prole e as besteiras que praticou, perpetuar o seu santo nome. Amém.
          Assim o Mateus, hoje de folga na empresa e tem lá um diz me diz que o azucrina, mas que fazer nos tempos de ótimo desempreguismo! ficar suportar aguentar a bucha, agora no dia de hoje a descansar, só cansa a língua no ontem.
          Lá no Paraná, você (você aqui é Juju, em torno da qual gira toda a família, quiçá o mundo o universo; ela é forte de personalidade) você se lembra as atrapalhadas do pai... pronuncia de fato “trapaiáda” no costume caboclo, o roceiro nunca deixa ser roceiro, mesmo se ‘se milionarize’ ou apenas se enrique; não sendo o caso do caçulinha Mateus, simples guarda em a noite fria na solidão da bruma, ouvindo um que outro cão vadio a ladrar, ladrões à espera de seu descuido e fala não no descuido porém nas trapaiádas do velho. Lembra-se nós tínhamos – o Mateusinho nem ninguém da família os vizinhos e os expulsos do meio rural a se desempregar na urbe exigente nenhum deles tem o cuidado acadêmico com a formalidade da linguagem culta, na concordância nem se fale falam “um real” “trinta real” não diria “nós tínhamos”: nóis tinha, e já tá muito bom pra um boneco de pau ouvir e me criticar; voltemos à conversa familial: – se lembra nós tínhamos uma riqueza incalculável; para um caipira a eguinha é uma fortuna e só tem isso; o Mateus afirma: uma riqueza tamanha. Enumera a casa, na roça não se possui nem se paga aluguel, as montarias, quem sabe dois ou três cavalos entremeio ao cavalo a mula teimosa o burro de puxar arado, nós tínhamos porcos no chiqueiro, você se lembra do porco que rachou o lombo de tanta gordura! E aqui entram no tratamento da barrigada as carnes tachos e mais tachos a derreter a gordura, a fritura a espirrar com arreliação adulta tocando os moleques em volta do fogão caipira até o fogão era caboclo, os torresmos, ah os torresmos; e tínhamos até peru entremeio às galinhas, o Peri ‘senvergonhando’ a dentar as penosas, passa fia-da-pê e ele ria de rabo, a gente manda pegar não pega, manda parar o vira-lata, o vira-lata agarra a galinha errada, machuca a pobre, passa seu cachorro! ué, é cachorro mesmo e a gente se ria; nós tínhamos até um caminhãozinho! Este é um bem da cidade, a cidade que engole o matuto, suga o matuto, mastiga o matuto nas suas engrenagens de cultura e exigências estrangeiras e no desemprego, deixa o matuto velho pobre mais pobre rico de necessidades, louco a voltar para a roça que o milionário do latifúndio transformou num pasto e entregou à máquina para a máquina de exportação, graças ao dólar caro à população pobre mas rica em miséria. O Mateus não vê, sente estas ‘esdruxulices’, conta tão só a relembrar aos seus as riquezas da família, a riqueza da família, o pai, diz Mateus de Mateus, o pai pôs tudo a perder... Reveem o poderio nos bens de consumo que iniciavam a ter, no caminhão que não era mais que pé de bode enorme para eles; tudo perdido nos maus negócios e enroladas que enredilharam o chefe da família, a mulher sofrida, ou seja dona Maria, e a filharada, ocê lembra, Juju!?
          Lembra; contam recontam trazem à baila a vida da vida que levavam lá nos perdidos do sertão, engolidos pela saudade pelo tempo pelo remexer da memória, remexer que alevanta poeira, a poeira que bloqueia e separa o sofrer de antes com o sofrer de  hoje. Hoje que é terça-feira.
          Não Escriba, é quarta de sol, grita madeiras do Caos.
          Pô, pô agora digo eu ao rever o boneco.



4° Capítulo, um assunto de ontem dentro dum de hoje que se preze e ói que ainda agora tememos pra valer assombração!

          Juju de Juventina, tem Zizi que chegou indagorinha e é gordona balofando o ambiente familial a esbanjar ela saúde a se queixar da falta, Zizi que acho provir de Zica, acho não, tenho um pouco de certeza, isto que é afirmativa popular baseando toda afirmação, seja em segredo ou abertamente em tom gritado que é o ser dos seres da família de Juju, a Zica que chega não sabendo agora e nunca saberei, não me indague portanto, se veio de que veio Zica que deu Zizi, a Zizi conta um segredinho baixo e melosamente, fala quando fala fala sempre altão, menos que Juju, esta rainha nas ‘berragens’ mais e se escuta bem; dona Maria petitica assim ela fala também a bicar na conversa até calando o filho caçula no seu ‘trobonear’, a velha miúda mineira migrada ao Paraná quando lá no Paraná, diz quando diz as coisas baixinho, inaudível às xeretas orelhas curiosas a saber do saber. Enrolam, tem mais familiares agora, agora não da família tem só dona Candinha, que se fosse católica apostólica romana ao batizar seja o Mateusinho ou outro seria Comadre Candinha e é crente, Candinha fala apregunta concorda, concorda sempre concordina com os outros na algazarra de ajuntamento, numa educação e finura bem brasileiras pois ocorre o mesmo em quase todos lares; algazarreiam bem, todos falam falam todos, todos ao mesmo tempo, tanto assim se fossem aparelhos telefônicos, são aparelhos humanos cheiinhos de alma por dentro, fossem as linhas cruzar-se-iam a embaralhar entendimentos de orelhas tantos as xeretas quanto as curiosas, não digo as bonecas sempre presentes nos ausentes aqui ao lado encavaladas nos meus joelhos e se me urinar te bato nocê, diria a zombar da linguagem culta. Mas onde estamos mesmo?
          Chegou Zizi tem Juju tem Candinha tem Mateusinho tem mais orelhas escutantes sorrintes medantes dos assombros da assombração que entra sem pedir licença no meio dos impostos e prestações lamentavelmente minando a família; e tem dona Maria, que fala, se fala, fala baixinho atropelada pelo trovejar dos filhos e a xereta da Candinha que também já ouviu muito isso nunca viu nunca morou no Paraná mas tanto ouvir sabe que virou verdade a verdade que contam e ela é irmã deles, irmã apenas no “paz do Senhor” no cumprimento; contudo é uma voz de orelha respeitada quando se trata de pedir voto de concordância; a dona Maria faz quase como meu boneco mijão de pau se remexendo no meu colo que não é bem colo, dona Maria faz pra cima e pra baixo a menear para concordar com a filha forte da família, a Juju de língua e moral dominando a todos; o João deve ele estar no boteco, quem segura aquele homem! e aí não palpita só faz “pô!” a se indignar mas não se encontra no cruzamento de linhas, então dona Maria se cala outra vez a olhar primeiro Juju e depois outros circunstantes. Não é, mãe? É, é claro.
          A Zizi lembra a história da estória, podendo que seja a estória da história, o causo verdadeiro, que viu e todos viram ou com os olhos ou com as orelhas que a terra há de comer, vai ter gosto mais besta essa terra me bicaria o boneco Cao; e foi você até à casa da Chica, depois que fugiu com o homem e o pai não quis mais saber dela, não é? você, Juju, foi lá consolar ela e de noite as pedras... Mateusinho se mete na conversa das manas, diz que todo mundo só falava nisso e que ninguém queria mais ir ao baile sozinho só em grupo, de medo e... Zizi corta o corte, você estava olhando ela e os pequenos no quarto aí... Corta o corte do corte Juju: eu ficava com a Chica protegendo ela e as crianças a gritar e as pedras a baterem por todo canto! nós vimos até o vidro do guarda-comida quebrado. Não foi, mãe! então, e nós achamos pedra mesmo uma pequena dentro... foi uma saraivada na casa da infeliz! Depois parou. Tiveram de se mudar. Na casa das vizinhas nem se fale. Nesse tempo apareceu o “Ciriáco”, diz Juju, todos pronunciam assim ou amantes da paroxítona ou porque caboclo brigado com o grego, todos falam desse jeito, o Ciriáco a três por dois aparece no parolar da família, é quase um ente desse tipo como governo gente eles, sem forma sem existência mas sacana pra valer. E o Ciriáco veio acudir a gente, não foi? fulano, não foi beltrano, gente nunca se satisfaz com a própria consciência nem a dizer o sim, sim; não, não do Messias – precisa urgentemente do testemunho alheio a se firmar no que afirmar. Juju. Então nós ficávamos debaixo da mesa de casa, a grandona, você lembra Mateus? não alembra era de colo naquele ontem. Aí o Ciriáco punha a mão na beira da mesa e o bule se mexia, indo até à borda (“tisconjuro” gritou Zizi como fosse hoje e agora o ontem) e daí o bule despejou café no chão sobre nós! Não foi, mãe? foi, disse foi de cabeça grisalha envolta sempre num lenço enrolado, a ponta, uma das pontas, subia e descia na afirmativa confirmativa materna e todos olharam a senhora gasta assinzinho, poço de dores e ais. Daí por diante balançava, fala Juju, balançava tudo, mexendo as coisas de casa, tremia a espumadeira (eles pronunciam “escumadêra”) a concha as tampas na parede dependuradas. Todos ficamos com terror. O Ciriáco gritou se era alma penada, então pra mexer o pires: mexeu; pra bater o garfo na faca: bateu. Aí nós saímos correndo pra fora, a Zizi gritava “valei-me Santa Luzia!” nós éramos católicos nesse tempo e a Zizi pediu errado a santa que era das vistas e decerto não cuidava de almas devedoras; uma correria sem tamanho. Aí passamos a noite até o sol chegar no terreiro, rezando sem parar Ave Maria e Salve Rainha! E o pai? O pai nas gandaias dele, não foi?
           Concordaram. Discordaram da bebedeira do Velho, ao pôr a perder as coisas e batendo na Mãe, com choradeira dos meninos.
          Não foi assim?
          Decerto, Escriba. Se você quer mentir eu acredito.
          Boneco desaforado. Um dia mijo eu em você e me vingo pelo atrevimento de sua língua.



5° Capítulo, para se firmar melhor o afirmar das violências caboclas

          No ontem de hoje era hoje de ontem, a Juju lembra, antes disso esquece de propósito que o João não aparece e aí, não voltando do bar, não tem como brigar direito com ele. Lembra de se esquecer que o Pai não era brincadeira. Seu Mateus só não batia e nem gritava com o Mateusinho, assim mesmo deixava a criança assustada, encontrava-se ela mamando gulosa nas tetas, o velho bafora seus etílicos perto delinha, empurra a mãe delinha, xinga dona Maria daquele nome, chuta a cadeira já a lutar com o equilíbrio porque o quarto pé quebrado, o bebum também luta com o seu e despenca na cama, de atravessado; aí nessa noite mamãe tem de levar o mijãozinho a molhar uma das camas das crianças mas elinho fá-la engolir a língua, pois não urina no colchão de palha cheirando já a urina de anos por revesamento menino, só faz cocô fora dos paninhos quase telas a enganar de fralda comprada pronta de papel dessas que falam na televisão e não existiam ainda, ainda menos no sítio, vocábulo este que se enrosca bem na roça do meio rural. No meio rural então e não apenas no Paraná, o campo se cobria de vegetais – arroz na várzea, milho entremeio o café, o cafezal se esparrama qual manto verde como ondas que se sobrepõem às ondas; tem o feijão em trechos; tem hortaliças nas baixadas perto do córrego, tem algum pasto onde ‘magrelam’ burros e cavalos e mais o gado, gado ao roceiro é tão somente o vacum; e tem por isto leite, que as mais das vezes o fazendeiro não cede ou cede de má vontade à criança do trabalhador, mais afeita à comida adulta sem qualquer preocupação proteica e vitamínica.
          Nalgumas fazendas têm as colônias com gente mais submissa e mais ainda pobre, quase indigente. Alguns poucos, e quase sempre imigrantes europeus, alguns tomam um pedaço de chão em porcentagem, “di a meia” eles falam. Seu Mateus pegou pouco mais de um alqueire a cuidar, planta cereais, colhe, vende, come com a família; ao fim deve deixar o café que lhe foi fornecido nos balainhos plantado na cova já aparecendo curioso em ver o sol o frio a neblina a geada a queimar: a perda do trabalho. Enquanto a família cuida do café do patrão, usa a terra do patrão ao patrão receber limpinho após meação e rosnar pelos descuidos e mal preparo nas lides da lavoura. Aí o Sr.Mateus migra a outra plantação sem plantação, às vezes lhe tocando a derrubada da mata, o fogo pra limpar o terreno e a matar mais cedo o nutriente do solo: planta colhe come vende emprega o que pode a comprar bens, como o caminhãozinho a perder nas farras e abusos. Planta um alqueire, é obrigado a aumentar a área de trabalho na medida em que a família aumenta, diminui ao contrário a ração de cada membro, sobe a dívida, o ‘pindura’, quer dizer a dívida lançada no armazém de secos&molhados lançados os números à revelia no analfabetismo corrente que também aumenta. Mais bebe mais trabalha mais surra mais xinga mais perde a autoridade, esta que é uma instituição discutível. Juju não discute. Discutem entre si todos, todos a terem culpa, a psicologia humana é curiosa: a vítima vira seu próprio algoz! Não discute com o pai, só vez que outra, bocuda; e apanha; apanha quando apanha a mãe e aí toma lambada, Mateus aprecia o cinto de espremer o barrigão, falam “a cinta do pai” dá-lhe umas cintadas, mas é a filha mais corajosa e não para de falar, como agora que o João vai ao boteco beber o lucro da dívida familial e resmunga o tanto matracar da esposa com um “pô!” Agora só fala sem parar com o marido e os filhos e os parentes quando os parentes vêm desatolar na casa da gente e a conversa desanda vez que outra numa desavença. Ontem Juju enfrenta o Velho em defesa da Velha, a Velha chora, resmunga por sua vez baixinho, tão baixinho como sua estatura e magreza. Mas agora do ontem não é tanto assim.
          O Sr. Mateus desentende-se com o vai-um na conta do vendeiro, desentende-se com o proprietário da fazenda no menos-dois; desentende-se com o compadre na questão da égua doente que lhe vendeu, vendeu-lhe e não recebeu o feijão e o milho do pagamento; desentende-se com os ladrões, que lhe querem tirar o Chevrolezinho de pneus gastos; se desentende com outros ‘desentenderes’ – e afoga no boteco seu negativo; aí volta para casa a trançar as pernas e para ouvir a canzarra a ladrar sem piedade, chuta a porta chuta sua fêmea chuta o Peri primeiro que ia fazer festas e depois a ‘canhainhanhinhar’ suas dores, assusta os meninos numa choradeira e quase finalmente o chefe se esborracha na cama do casal; vomitará e urinará e praguejará mole a língua dura e grossa. É o fim do mundo.
          É o fim duma era, o nascimento da chefia sem autoridade, pois que a miséria dará autoridade a destruir a autoridade; nominalizando realmente um poder.
          Puxa!
          Puxa o que, pensei que dormisse.
          Bonecos de pau não dormem, Escriba, é tonto?
          Não arrespondo, vou ao Sexto Capítulo.

6° Capítulo, donde se poderá extrair o amor em botão a engatinhar insustentações

          O tempo e a miséria e a ignorância e a distância e as dores da existência nivelam as pessoas. Hoje e o ontem se igualam nas suas diferenças. Juju coça a pele teimosa em aformosear esticada a mulher forte que veste, a Zizi ‘velhotando’ ruminações era então menina enquanto em Juju já floria dois botões onde depois mamariam os seus (aqui nem penso nem lembro o João, o qual a lembrar diria “até você Escriba, até você, pô!”) As outras então eram outrinhas, só um dos homens, o Luís, sendo grande pequeno perto dela, mesmo levava uns croques dela, não só bocuda porém mandona ao ter macheza que faltava à genitora deles, pois dona Maria não sabendo tomar decisões, sobrava à Juju a correção ao peralta; inclusive no dia em que alevantou a crista para dizer ao público “mulheres, cheguei; aqui mando eu Luís I, o primeiro e único” então o Velho já desmoralizado, nesse dito dia apanhou mais de Juju; e chorou sendo que homem não chora, todos sabem disso. Nem o Luís nem os outros e as outras manas podiam com Juju, já varetada no tamanho por ser a primeira e mais velha da prole. Entretanto agora no hoje é tempo de miséria de ignorância e de dores, é a distância do hoje e não tem distância – todos são iguais. Ou semelhantes, tendo a primogênita uns centrímetros dos pequenos mais a menos que as outras e mais mais o menos que o Luís altão e até menos que o caçulinha Mateus. Adultos nivelados.
          Nivelados no boquejar, todos falam quase ninguém ouve mas todos escutam; misturam na conversa o ontem impreciso com o hoje de susto impreciso mas mui contundente de crise econômica a despencar mais visivelmente na falta de emprego. Os meninos? diz Juju, não aparece nada pra eles deles só o Tonho trabalhando muito e ganhando pouco. Eu, reforça a bela Juju, não fosse a tesoura...
          O Tonho não é o Tonho. O Antônio é o filho mais velho, às vezes chamado Mário, devendo ser Mário Antônio quem sabe. O Tonho que viu isso tudo porque se casou com a Zizi, esse Tonho é outro.
          O Tonho vive na fazenda próxima no ontem longínquo. Vem só para conversar com os meninos: combinam a bola, as mulheres têm horror a futebol e as manas como Juju não apreciam isso demais; combinam talvez um trabalho extra na colheita (Tonho e os outros dizem “coiêta”) combinam encontro no baile de sábado pra domingo, o início da sanfona em a noite de sábado, as facadas e possíveis tiros e gritaria das damas e também o corre-corre no escuro ocorre já no domingo de madrugada. Mateus não quer Juju nessas violências e más promessas; menos a Zizi pequena ainda e as outras têm de ir pra cama cedo, todos se deitam cedo com as galinhas mas menina-mulher mais cedo a dormir ou a ficar à luz da lamparina conversando quiçá num brigar ou indo mesmo para a cama; ajudam a mãe nas coisas de casa e não saem. Juju ameaça o passeio, tardaria muito a ir ver os outros a dançar. O Tonho se aproxima dos irmãos de Juju, ver ansiar amar Juju. De repente se casa com Zizi, numa festança linda de se ver no seu cerimonial simples e caipira, um quase baile ou arremedo de baile sem gente de fora a bagunçar o pedaço.
          Esse de repente demorou anos. O herói conquistador emigrou da roça para as estranjas da cidadezinha e desta para São Paulo. Cresceu, ganhou dinheiro, fotografou as ‘granduras’, dois edifícios públicos, mostrou as fotos à amada indo à roça, agora Juju namorando firme em casa nos conformes, o Tonho então mostrou à Zizi, apontando gostosuras feminis na época, mostrou ‘suas’ propriedades, até um grande viaduto que se supõe ser o do Chá. Os futuros cunhados ‘capiauzaram’ curiosidades por volta, mas casou-se apenas com Zizi. Fê-la migrar à urbe colossal e monstruosa, a viver na periferia violenta e horrenda.
          Fizeram uma certa porção respeitável de meninas-mulheres, ainda adotaram a filha dum conhecido, os facínoras assassinaram o casal na frente da garotinha e esta virou adotiva do Tonho. Migraram de volta ao interior, agora no meio urbano, pois a roça tornara-se pastagens sem trabalho lavrador. No hoje o Tonho consente com a esposa, Zizi consente com Juju, Juju não consente que João volte bêbado, ele resmunga e finaliza “pô, pare de falar” ela continua o discurso, todos ouvem constrangidos, os vizinhos também escutam os segredos, todos, ninguém aceita.
          Juju: ninguém compreende!
          Talvez não haja posto um ponto de exclamação mas exclamou.
          Ninguém a compreender ontem na quiçaça em que se tornara a gleba que cuidavam. Então ela é moça. Moça mesmo; antigamente moça era moça, agora é apenas moça. Vai ao eito com os seus.
          No dia de lavar roupa, na época de chuvas de verão a safra diminui, o arroz é preciso colher com água no umbigo e se perde muito; ou ficar em casa a conversar a brigar também com os seus, o resto do ano tem o dia de lavar roupa, o rio, Rio Cinza? o rio a bacia os mosquitos, volta carregada pra casa na busca de outra rotina a rotinar. Mas o comum é ir ao eito, a enxada, as lides no solo, ajudar na limpa ajudar na colheita. Raro ver a cidade, esta com prefeito e câmara mas vila e não cidade; andar pelas ruas, fazer compras miúdas, cultivar a vaidade, mostrar quem sabe a beleza empinando, um pulo à igreja na festa de Nossa Senhora. Mas a rotina atira-a no lar e no trabalho. Quase não tem tempo a se examinar para apreciar a juventude; também não fica doente, um dia feriu-se precisou cirurgia no pescoço tão atraente aos rapazes, ganhou cicatriz para se envergonhar até hoje. Ontem sofreu o vexame da menstruação, sofreu a cólica, sofreu o tabu do temor a indagar as coisas do sexo à mãe; não sabia mesmo como usar uns paninhos e trapos para estancar a sangreira. Sofreu. Aprendeu. Cresceu. Namorou. Primeiro se engraçando pelos ricos fazendeiros, os futuros doutorzinhos, e quase sendo objeto de suas brincadeiras. A timidez e mais ainda o sexto sentido é que orientaram-na para os matutos, tão belos quanto, tão mal trajados igual a própria Juju. E aprendeu na vida. Namorou às escondidas, suportou os abusos masculinos; depois namorou firme o Zé. O Zé foi trabalhador sonhador e perdedor.
          Casaram nos conformes da Igreja, sem Cartório. Se foram para a cidade grande, primeiro o macho da espécie a arranjar casa e emprego; depois elas duas, a saber Juju e a filhinha no bucho. Juju estufava a olhos vistos. Deixou os seus; só mais tarde anos levaria ela com seu poder moral e sua faculdade de persuasão todos da família, então acéfala pobre quase miserável e expulsa pelo fazendeiro, este mais pró pecuária que a favor da lavoura e dos trabalhadores, a si uns vagabundos exigentes.
          Todos na onda do êxodo rural, engolidos pela desumana e tentadora megalópole cheia de tentáculos e ofertas e promessas nem sempre cumpridas.
          Estão na cidade grande, Juju vive com Zé sem Zé, perde a barriga perde a cria quase perde a vida no hospital público; depois, bem mais tarde, produz três machinhos, candidatos a capetas na periferia... A crise.
          Tem crise?
          Ora, bobalhão de pau, onde não tem crise!







II parte – As Raízes dos Dramas, a Cidade Grande




7° Capítulo, em que estabeleço uma conversa com meu Boneco sobre as coisas da Juju

          O Boneco anda um pouquinho amuado...
          É, Escriba, ando. Ando com pena da Juju. Menina esforçada e linda, casadoira quem sabe, aliás houve casamento com o Zé; tinha um futuro na roça atrasada e explorada pelos fazendeiros ricaços e me parece...
          Te parece o quê?
          Olha a colocação do pronome. Também sua concor-dância verbal quase sempre em discordância, oh Escrevinhador, seu ‘E’ com tendência a ‘e’ dos pequenos.
          Ih, que desgraceira. Um cepo de pau metido às gramatiquices. Vai ver irá molhar-me  e-du-ca-da-men-te...
          Seu burraldo, como poderia eu, um ser de madeira, madeira de lei, convenhamos, ipê peroba cedro essas coisas, como urinar em você se não tomo água nem disponho bexiga nem... ó, olhe aqui, nem pipizinho. Outrem deve estar a ‘amoniacar’ seus cambitos...
          Não quero responder à besteira, vamos à Juju, coitadinha, também lamento a jovem, justamente no seu desabrochar feminil, uma gostosura. Então, ela partirá com os seus transferindo-se à cidade grande, que é um bicho feroz e selvagem, a mastigar capiaus. Será que eles melhorarão de vida, empreenderão novos rumos ao destino.
          O destino é fixo, é o determinismo; não se muda.
          Xô Boneco filosófico e estragador das mais verdadeiras mentiras literárias! Parei com você. Pare também de dormir tanto: o sono engorda! já pensou um boneco-de-pau estufado, barrigudo tanto em não ver as pontas dos pés. Você... já dormiu outra vez; e eu ‘ventriloquando’ ao nada; me empresta, João, um João que logo criarei nos capítulos seguintes melhor que o dos capítulos anteriores – me empresta João um “pô!”



8° Capítulo, neste a crise, a crise em toda extensão. Não isto, é abuso do vocábulo. A crise em toda sua percepção

          A percepção é que pode ser eliminada. Nem todos que veem percebem; nem todos que percebem penetram no âmago e na ilimitação do sentir... Juju passa uma tarde horrível. Vê o que não quer, ouve o que não suporta, fora o exterior barulhento das ruas, veículos, o bonde com placa de Santo Amaro no fim dos poucos trilhos que ainda existem barulha a raspar seus ferros a estourar miolos, ela está a estourar por dentro, não sabe se implode se explode e sente inclusive que não sente. Mas agora volta pra casa na periferia feia suja com rios de fedentina e a fedentina da conversa vizinha... não adiantando chorar no regaço materno, dona Maria não tem tempo hábil a ouvir chorar a filha, gastando ela mesma suas lágrimas com seu drama: o esposo mandão entrevado a remexer as rodas da cadeira de rodas fornecida pelo serviço público aos miseráveis; tem suas íntimas dores a velha não tão velha pois seria depois ainda mais; as dores da filharada, o povo é quem diz “filho criado? trabalho dobrado!” ela pronunciando “drobádo” igual os roceiros; uns dos filhos se casam e trazem os problemas para casa da mãe; e vêm os netos e as doenças deles; o corre-corre na cidade gigante, o emprego pouco o dinheiro pouco, muita tristeza a uma só velha. Agora Juju...
          Juju não sabe mais que fazer. Voltar pra casa paterna onde todos desmandam! Sente-se pesarosa por haver arrastado os seus da miséria na roça para a miséria urbana. A urbe vende a facilidade cria necessidades, invade a privacidade, depois melhormente com a tevê, cria a necessidade consumista, todos abraçam essa causa perdida no planeta, se endividam, compram amenidades e futilidades à prestação, enriquecem banqueiros anteriormente os comerciantes com lucros e juros, vingam-se os explorados não pagando ou a brigar na justiça. A periferia oferta ainda o desentender, cabendo aqui outro ditado popular: na casa em que falta pão, todos gritam, ninguém tem razão; mais ou menos isto; desentender e a polícia. O desassossego enfim.
          A vida passa, as necessidades correm, os prazos encurtam, o homem foge à televisão. Começa o ‘refemato’ a uma telinha cheia de fios e à dívida. O homem é refém do homem? ou de si mesmo.
          Isso tudo válido com respeito à família. Aos outros pobres por extensão. Para Juju existe ainda outro peso na balança do desequilíbrio a desarmonizar seu ser.
          O Zé fez uma garota morta e mais dois garotos vivos, vivos demais. Choram, exigem, ela se desespera; primeiro foi faxinar aos ricos e para famílias remediadas, ouvir o ranger dos bondes longe de casa; agora ouve o buzinar dos ônibus, vive a se espremer nas conduções, aspira poluição, luta bravamente a alimentar a dupla de machos sobrantes, o macho maior foi engolido antes pela bebida depois pelo mundo. Entremeio quis exigir da consorte a situação ‘sem’ sorte de sustentar seu algoz, e de surrá-la; aí fugiu de vez de casa, sumiu. Então ficou a velha estória do pior sem ele.
          Chora as mágoas com dona Maria, choram ambas as suas, choram também as de outros membros da família. Parece que o mundo vai acabar, antes de acabar quer engolir sua miserável descendência e a miserável ascendência; a jovem, ainda jovem bela, parece que vai enlouquecer.
          Nessa altura procuram a igreja, não encontram a igreja nem o consolo da tradição. Aí a família de Juju se envolve no evangelismo, se apega em seu sofrer no conforto da Congregação; viram membros crentes, se dizem crentes. A crise lhes dá um sossego intercalar, entre o sofrer antigo e o sofrer posterior. Oram, cantam hinos, Juju aprende a assoviar seus hinos e o faz guturalmente, terá gutural no vento que passa fino no beiço? Sempre de agora por diante assobiará religiosamente, antes no Paraná assoviava a Mula Preta e o Menino da Porteira ao gosto da roça. Continua leoa, a trabalhar para defender os seus cachorrinhos e até os filhos dos outros, os sobrinhos, netos de dona Maria. Mas sucumbe...
          Agora olha pela janela do casebre onde se amontoam os familiares e ouve os resmungos e a malcriadez do pai, escuta lá dentro de si as ladainhas dela mesma e das outras lavadeiras no saudoso interior, quase sente o cheiro do Rio Cinza, tenta se lembrar de algum cântico romano; sorri e meneia a cabeça por fim. Assobia também, baixo primeiro alto depois o último hino aprendido; soletra a Bíblia como pode, com as poucas letras que a roça lhe pôde fornecer.
          Mas não pode consigo mesma.
          Encontra-se não só, mas solitária; abandonada.
          Posteriormente, a uma admoestação feita por dona Maria pela escolha do novo companheiro, responde: quem iria me querer entre os ‘irmãos’ com dois filhos para criar! O João, pelo menos...
          Deixemos isto para depois. Agora encontra-se desesperada. Resolve andar ao deus-dará, deixa com a genitora seus pequenos, encontra na praça suja com arremedo de jardim um homem. O João é desses solteirões que não se conhecem. A mulher é bela, continua bela, não tem crise não tem intempérie que a enfeie. Sorri. Ela. Ele. Sorriem, se aproximam...
          Uai, Escribinha, você anda meio romântico.
          Ué, Cao, cê tava aí na espreita?



9° Capítulo, a tentar pôr a situação daquele de fora que entrou para o dentro

          O povo quem fala, quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha um filho. O filho da dona Zefa andava perdido, dona Zefa ou Josefina ou como mais comum ser chamada no apelido Pina; perdidinho no mundo, parecendo ele o meu boneco de pau, que ‘num tá nem aí’ ao seu dizer, perdido sim para as responsabilidades sociais, sobretudo as do santo matrimônio. E daí sequer uma Juju bonita pode com um tipo assim. Assim mesmo se encontraram, o garotão era um italiano do Brás, filial da Península na Terra Bandeirante, fizera lá suas estripulias por aí, sendo desse gênero de gente que tem ogeriza a padre a cartório e a responsabilidade. Nem o estudo o convenceu a ser gente, bastava-lhe ser troncudo e forçudo; não obstante não saiu ao modelo valentão, inclusive vivia bem com as outras pessoas; embora não aceitasse matrimônio e piormente com papel passado. Aí a Juju foi esbanjar beleza na praça, sem muita condição, tadinha, na pior, num afundamento com sabor à mãe solteira, abandonada; e a viver a crise do fazer certo, de acordo com o pensamento religioso; nessa altura se apegava mais e mais aos evangélicos, quase uma carola, segundo os críticos anticlericais que nada veem a favor da religão. Isto com uma agravante séria: havia no meio os filhos do Zé que deu no pé e agora não havia mais perigo de surrar a esposa. Mas filho atrapalha bem as pretensões duma jovem, a Juju ainda nova, cansada e quase em depressão nervosa, a viver como possível entre a parentela. É neste ponto que entra o João.
          Começa uma luta, quase se podendo afirmar o início de um drama que não tem fim, não só por não haver terminado quando estamos num pôr registros, estes, mas também porque na visão do homem comum o drama, que não tem começo e tem um meio meio duro de roer não tem fim, nunca acaba e talvez com razão, se tomarmos apenas uma existência, a qual na melhor (pior) das hipóteses chega aos setenta ou oitenta anos, naqueles idos que não precisamos quais sejam, o humano vivia na média uns cinquenta ou sessenta. Conclui que não tem fim o sofrimento, isto já um sofrimento em ótima teoria da prática. Bem, o homem da rua pensa interminável seu drama! A Juju pensava; e o João? ‘num tava nem aí’, lá.
          A tônica desse ajuntamento de dois seres para o amor e até para o que der e vier pode ser resumido assim: não sou contra você, sou contra o seu a favor que me é contra. Por isso os casais, como vemos amiúde, não se entendem. Dá separação dá desquite dá divórcio, à época não havia divórcio, os amantes, aqui usado sem qualquer desmerecimento ou conotação amoral, os amantes se desentendiam e se separavam; neste ponto nada valem o papel passado e o ministro religioso, mesmo nadinha conseguem os costumes consagrados. E aí sim podemos dizer que o amor é mais forte; é mais cego a se unir e é mais forte ao se desunir. O resto, as sequelas, nem sempre sublimes...
          Porque esse foi o liame a unir e a violência das palavras e atitudes a desunir o casal. Mais uma vez insistindo que ainda não se separaram os personagens aqui tratados desde a cena na pracinha até neste preciso momento; quanto ao futuro... o boneco foi brincar com minha bola de cristal, não marcou gol por perneta mas trincou o vidro: fiquei cego. Portanto não sei do futuro. Voltemos à verdade verdadeira, passada, o porvir sendo pertencente à bola de cristal.
          A Juju falava assim: “dois real, trinta real” naturalmente ajeitava ao gosto monetário da época, o cruzeiro certamente, quem sabe o mil-réis, só não concordava na concordância. Ele não, falando certinho com os pingos nos is, tinha mesmo o curso colegial, tendo completado o científico ou coisa assim, passara num concurso no funcionalismo público, se bem que com indicação política pra fortalecer a nomeação, bem ao sabor da politicalha da época (que infelizmente se repete hoje, hoje e sempre é ocasião); ganhava o que precisando a gastar e gastava bastante por ser sem compromisso. Os encontros com a bela fez o madurão esquecer não ter compromissos e assumiu compromisso com a namorada. Chamei atenção à palavra porque ela hoje em dia, no dia em que escrevo, nesta hora, embora escreva olhando toda hora pra baixo a evitar que alguenzinho me molhe as pernas, hoje tem a palavra namorado outro sentido: o namorado anda com a namorada, dorme com ela, tem às vezes filhos com ela e ainda continuam ‘namorados’, sou eu quem não entende e não sei se entendia assim meu desentender o casal em questão. Mas quando o João percebeu, após tantas praças e tantos encontros noutros lugares – estava ele compromissado com a Juju! Mormente quando ela abriu seu coração verteu suas lágrimas (será que falei o João ser autêntico Giovanni, portanto de coraçãozinho mole!) mais ainda quando ela, após contar seu calvário desde meninota no Paraná até o desfecho trágico com a fuga do Zé ficando dois meninos para criar, estando sem emprego garantido e sem recurso qualquer; quando por fim resolveu apresentá-lo à família na periferia, ele do Brás agora vivendo com a mãe em Pinheiros, bairro este bem remediado e inclusive rico à miséria da vila pobre e podre da Juju; nesse momento foi um choque ao rapaz madurão e solitário, ou insatisfeito com as bagunças da liberdade solteira. João se condoeu. Mais que isso: agradou-se da cria que o outro fu-gitivo fizera na ‘namorada’.
          Ficou o João como que abobalhado tomado imantado aos futuros parentes, apaixonado por aquela sofrente belíssima, por aquela mártir da vida.
          Daí à consumação dos tempos durou só meses no tempo do calendário. Antigamente eram anos a se aproximar, namorar nos conformes, noivar nos cânones; e casar nos cerimoniais. Somente depois as brigas dos casais ficavam no tête-a-tête na praticidade dos atos. A isso chamo com meu boneco-de-pau a Guerra em Paz. Pois quando da separação já é briga consumada, a violência, a injúria, o ódio, a injustiça da justiça acionada, às vezes até a participação da polícia. Ah quanta violência. Somos pela paz, mesmo na guerra conjugal.
          O moço Sr.João, com um sobrenome que sempre atrapalha o caboclo e que ele deturpa, talvez o matuto tenha a orelha grossa; o moço foi, bonitinho, pedir a mão da viúva (tomara, pensaram, tomara que o Zé tenha morrido e se morto que nunca venha nos puxar o pé, credo em cruz!) foi, bonitinho, nos conformes dos costumes, pedi-la ao Sr. Mateus. O Velho ruminou, rosnou, rugiu, rezou o padre-nosso ao pretendente, terá dito para não abusar, namoro só na varanda, no casebre nem varanda tendo; terá ao menos dito: passe cada um atrás do outro na pinguela do rio fedorento aí fora, ou cairão os dois e esta vida já é uma merda. Esta expressão não deverá assustar o leitor: Mateus perdera o cetro imperial mas não a língua: xingava até a alma, já não podendo bater na esposa, dona Maria não ficava mais perto dele e os filhos não deixavam chegar à consumação. Mas língua... usava xingos mais perfeitos e ditos com altas vozes; ‘merda’ é um usadíssimo xingo socialmente admitido e por isso tomei o vocábulo, aproveitando-me do fato de que meu boneco dorme e não ouve a deseducação.
          Casaram. Nada de ‘igreja verde’ como é conhecida a união sem papel. Aceitou o italiano entrar na Congregação, sem se converter, pois meio agnóstico ou liberal, entrar com a noiva e seu vestido branco emprestado por amiga. Ele de terno preto e gravata; dizem inclusive que chorou na hora, lembrar aqui seu coração do sul da Itália. Ela chorou de fato, mulher aprende mais cedo as lágrimas e não tem vergonhas machas em soltá-las da represa do sofrimento.
          Daí em diante a casinha dos pombos. Os quais tinham já no ninho dois filhotes, não precisando preocupar-se em fabricar a prole para ter herdeiros. Assim mesmo fizeram um moleque. Este, mais tarde veremos, completaria o trio dos capetas. Todavia não antecipemos o sofrer, a inteligência grita que só devemos sofrer o presente. O próprio Messias lembrara bastar para cada dia o seu mal.
          Assim nasceu uma nova família: ele ela os filhos a casa,  enfim um lar.
          Acabou? não vi nem passar e tá no fim!
          Calma boneco. Você dormia. Que tal nanar outra vez (penso: para não perturbar a narrativa).



10° Capítulo, para mostrar o paraíso que os poetas não sonharam. Ainda

          No mundo do faz de conta que faz de conta que é mundo, vamos empurrando com a barriga, às vezes até a enganar nossos próprios olhos dos olhos dos outros que nos veem. Se veem; porque me parece que tudo gira em torno do umbigo de cada um; posto assim, olha-se não se vê. Mas vê, ou como brigariam entre si os seres humanos, tadinhos. Agora, a fome o desemprego os erros e as imperfeições dos outros notamos com certa perfeição. Onde é que desejo chegar? na Juju é claro, mas no meio em que vive a Juju naquele meio-ontem... (o ontem-ontem sendo o passado no Paraná, vivem os protagonistas, estes que desejam provar que o feio também protagoniza, vivem eles em São Paulo seu início do meio do fim). Juju volta pra casa, agora de fato tem casa tem marido tem filho tem lar, dá uma passadinha ver a mãe e insiste com o pai ter mais paciência com a velha e não exigir demais, porém logo corre à sua casinha e do João. Volta irritada, não encontra serviço, um quefazer no qual possa alternar o trabalho fora de casa e o trabalho doméstico: a ‘bóia’, já integrada na linguagem paulistana, fazer a boia ao esposo, as coisas dos dois capetas que brigam entre si quando não tem moleque de fora a insultar, inclusive precisa arranjar vaga na escola aos filhos, ainda não pensa no terceiro que vem a galope, louquinho pra arranjar encrenca com os irmãos, meio-irmãos (mas tudo vem a seu tempo, tenhamos calma); e o limpar lavar recolocar os móveis que o João comprou à prestação, mas não foi para o escriba rimar barato, aliás comprou caro porque o comerciante adora acrescer os juros nas prestações. Recolocar sim, pois mulher gosta mudar de posição as coisas – põe a mesinha pra lá, devolve o sofá mais para a esquerda, as cadeiras... empurra uma de lado, volta à posição anterior, experimenta olha o efeito, ajeita a tevê, agora tem uma que preste, encosta ela com certo cuidado: morre de medo de morrer com os fios e choques e ainda com possível barata entremeio à geringonça, tanto assim que cheira pra ver se cheira, olha (de longe) escuta e não ouve nenhuma sendo aparelho novo e não deu tempo para ninho e ninhadas, essas sem-vergonha que voam no calor. Faz e mostra o pau (nisto sinto o boneco se estremecer e indormir e me preocupo um pouco... continuemos a Juju:) faz sim, arrasta empurra vira acerta o erro anterior, repõe um que outro móvel e mostra o pau, como eu dizia: fala. Ah como fala. A Juju é como certas pessoas, bem entendido: quase todas, as que a tudo que fazem falam o que estão fazendo mesmo que depois olhem para trás e nada foi feito; ela muxoxa então um desagrado. Mas fala diz conta, e conta alto ao mundo surdo ouvir o que ela está a fazer; o ser humano não sabe fazer (bem) mas sempre diz ao fazer para lamentar não ter ou ter feito (mal). Que fazer! aceitar o veredicto da verdade. A mulher fala, fala altão a assustar assombrações ou a temê-las, fala até sem perceber estar a falar. Mais pra diante, a pedidos (ou sem que se peça) destrincharei este defeito, que tantos tomam por qualidade, ou seja o falar enquanto se faz ou se engana. A Juju fala grita explode, explode fácil, como matraca fácil também. Vai mudando as peças empurrando isto puxando aquilo, varre espirra assopra funga escorrendo as gotas de suor; e continua, cronista, a narrar o que está operando (me deu agorinha uma ideia a propósito mas talvez um despropósito: se o personagem resolver narrar o autor! Eu teria de criar um personagem mais manso a descrever minhas verdades de minhas mentiras! aí estaria o autor ‘E’ como me apelidou o boneco-de-pau pelo qual tagarelo meu ventriloquismo, estaria perdidinho; eu! Tornemos às lides da Juju:) Não obstante nem sempre está só, aí falaria sozinha, outra vez como o boneco. Isto admite-se porque casadinha de novo, o povo usa tal expressão; e casadinho de novo não tem muito o que fazer; engano besta pois Juju é ocupadíssima operária, fora cabocla de enxada, sim lavava no rio também; não é o caso da burguesinha que vai pra lá volta pra cá sem saber perdida no fazer as coisas ou telefona pra mamãe: manhê, como é que faz arroz à grega. Não, Juju sabe muito bem as toneladas das coisas domésticas a cumprir; e cumpre; só que fala, conta a um ouvinte ou sem ouvinte aquilo que anda a fazer, porque mais desfaz, arranja desarranja volta ao ponto inicial; derruba a vassoura, reune o lixo, põe-no num saco ou amontoa lá fora no quintalinho, São Paulo não tem mesmo em periferia o costume de possuir casa e quintal tipo interior, valoriza demais os metros quadrados; portanto quase não-quintal. Ela conta, quase canta quando calma ou grita quando nervosa; conta ao invisível que é ela mesma. Por que não vai fazendo as coisas e não chamamos os capetas pra ouvir, aplaudir quem sabe sendo vaidosa e ela não é, não até hoje, garanto. Sim tem os meninos pra falar, mas moleque! quem segura, aí pelas imediações ou longe e então resta falar a si mesma. O quadro tende a mudar, depois, vamos ao agora desse meio-ontem. Prepara comida, arruma a cozinha, o cheiro sobe às alturas da fome, a vizinhança também tem esse hábito por hábito, os cheiros se cruzam – o alho a cebola a gordura de óleo barato muito caro a cheirar no aquecimento também. Tendo ainda o quarto de dormir; e de amar. O homem comum pensa e confunde amor e coito. É assim que estou pondo os pingos nos ii que não existem. Ai... pronto, aí espera o marido chegar do trabalho.
          Chega o João. Antes chegam todos sujos os meninos, reviram isto procuram aquilo desarrumam o arrumado, o qual será modificado noutra semana a cumprir hábito do ser feminino, ou antes mesmo da tarefa do fim de semana. Mas agora reviram, continuam a briga lá de fora, dentro. Mamãe põe a mão na cabeça, faz de conta que é bule ou chaleira com os braços e sentencia uma promessa de castigo; tem medo que as vítimas se esqueçam da promessa e esquenta a bunda de um, o mais novo, o mais velho pira pra rua que não é rua, num bairro pobre nada é definitivo, enfim foge fora. E ela grita o monstrinho; quase chora. Chega o João.
          Ela se limpa se ‘embonita’ se recompõe a viver o co-mum nhe-nhe-nhem de casadinhos de novo, de novo está no paraíso o inferno fora a arrumação e os serviços chatos de casa, um nunca acabar: a gente está arrumando a cozinha do café pensando que fazer no almoço e no almoço tira os pratos já pensando a aproveitar as sobras à janta. E tem o dormir, felizmente, o menino vem vindo embalado na carreira para ver com quantos paus se faz uma canoa e como são as coisas aqui no exterior (quem sabe já a pensar como desmanchar quebrar brinquedos e insultar os manos mais velhos). O João dorme como pedra, ainda não bebe. Bebe, bebe socialmente, que é a enganação que as pessoas usam a dizer que não se embriagam; bebe mas ainda não reclama das reclamações a dizer “pô!” São beijinhos e abraços.
          Isso tudo não conto, deixo aos poetas imaginar e per-verter os trouxas; se contasse diria o repetir, porque desde que o mundo é mundo, tirando aquela fase inicial em que nós, macacos, arrastávamos nossas bugias pelos cabelos, com muito ímpeto e muita fome, sim desde que o mundo é mundo o macho carinha sua fêmea e vira namorado. Claro, desde que o mundo é...
          Qual mundo?
          Pô, digo eu, também tenho o costume de falar enquanto faço as coisas; sem pensar que um tronco de madeira uns bracinhos de madeira uns cambitos de madeira e uma cara de pau estejam a ouvir. Ah não me corrijo!



11° Capítulo, para ver as reticências da integração ‘gênrica’ na desintegração familial

          Naquele tempo o mundo andava perdidinho de homem. Até as mulheres eram machistas, quiçá as do movimento feminista que se desenvolvia em partes do planeta. O João pensava macho. A Juju...
          A televisão aparecia mais e mais e nos lares era mais ou menos assim: a mulher queria ver novela, o homem queria ver futebol, as crianças queriam ver desenho e todos viam propaganda. Apesar da propaganda a mudar cabeças e criar o consumismo e do machismo no costume, nem João nem Juju, os familiares, os vizinhos por volta, ninguém pensava no pensar, antes pretendiam viver o dia a dia, que como todos sabem é curtinho e mais inteligível. Ele, o homem da casa, sem ser um patriarca como ameaçara ser o Sr. Mateus na fazenda e agora se decompondo na esclerose; o João se achegava mais e mais à família da esposa, uma senhora forte de espírito, a qual não apenas atraía seu homem mas, veremos depois, andando isso sim a lançar as bases do seu domínio sobre o representante do machismo e sobre o restante dos seus. A propósito o João cada vez mais deixava ser ‘Giovanni da mamma’ para ser um apenso da família cabocla, perdida nas estranjas da cidade. É preciso esclarecer antes de prosseguir esta narrativa que o matuto, qual os que venho apresentando, o matuto migra à cidade pequena e não se adapta; foge à urbe assombrosa e aí foge mais ainda para seu eu caipira, ao qual chama saudade; mas não perde nunca as suas características ligadas ao campo, estão elas nele, dentro dele; se se adapta, o faz na aparência – vai ter o mesmo linguajar, nunca concorda com a linguagem pretensamente culta, pouco culta muito machucada por neologismos e necessidades diante o moderno que importa termos antes da ideia e até do objeto representado. O capiau bate o pé, fala pelo cotovelo, cotovelo não tem educação; aliás recebe péssima educação; na escola mais ele dá que recebe na pronúncia; parece-me assim. A Juju por exemplo irá concordar, como já lembrei antes, concordará sempre na discordância: um cruzeiro, duzentos cruzeiro. E isto não é um fato isolado ou artifício literário; convido quem discordar a abrir as orelhas no meio do povo numa cidade pequena, qualquer uma do país; ou pode ver-ouvir entrevista na tevê hoje. As velhas gerações, as novas gerações aprendem em casa com as antigas e levam à sala de aula e ao restante da sociedade. E o falar ‘pega’ mais que gripe, gripe sara ou mata, esse dado cultural popular pode não matar mas não sara. Discutível?
          Discutível também até que ponto um jovem sofre influência, o João por exemplo, o João sendo um renitente solteirão sem ser solitário por mui dado e falante (lembro sua italianidade) o homem casou-se com Juju e foi sendo engolido, tragado pela família dela. Mas aqui tem início um drama, igualmente comuníssimo.
          Inicia-se e se prolongam os choques familiais. Ele vai frequente ver a mãe e se desentender com os manos. Aquela questão de um falar de outro, de preferência quando o outro longe; perto dá bate-boca conversa-fiada e até briga, a qual nem sempre é violenta mas violência, sempre violência. Um belo dia, não, não descobriu isso, isso já sabendo por anos, porém um dia disse o João: quer saber de uma coisa? família é a gente a mulher da gente e os filhos da gente, “pô!” Pegavam no seu pé por, embora ter colegial em estudo, ser ainda um funcionariozinho. Este é um mal que ataca boa parcela da população – o fulano vegeta até à aposentadoria e se mingua com um minguado provento; em troca da segurança do serviço público ou de sua falta de horizonte. Criticavam como expus, não quando o rapaz mais adiante chuta as garantias do funcionalismo e emboca no trabalho duro num volante de caminhão. Perguntam irmãos apenas para feri-lo: que adiantou estudar tanto! Ele responde à altura, o desentendimento já existia, a briga ficando configurada. Parente? língua e dente diz o povo. O musculoso italiano da Juju rompe com os seus, vai jogar no time adversário, a perder o campeonato com a degringolada na família da esposa.
          Mas isto não se dá num dia. Como é mesmo? Roma não se fez num só dia; vem desde a estória da loba boazinha a dar sua teta para aqueles meninos-gente a sonegar os seus meninos-lobo. Paro nisto, não gosto da mentira, talvez mais do gosto de meu bonequinho.
          Outra coisa aí ligada, ou seja o caso do dito rompimento. Nunca é perfeito o romper entre os de sangue: os parentes sempre qual moleques encontram uma passagem por baixo do pano para ver melhor o circo pegar fogo ou a graça do picadeiro. Válido sobretudo às mulheres, pois coração de mãe... Vamos encontrar inúmeras reviravoltas, os parentes italianos inclusive entremeio aos caboclos da Juju. Por sinal esta foi bem apreciada pelos irmãos e primos do lado do seu esposo.
          No entanto o que conta mesmo é a família do patriarca Senhor Mateus, destronado sim mas presente. E aos poucos iremos descobrir mais e mais o poder moral da esposa do João sobre os seus e até sobre o marido.
          Porém aqui entra uma questão séria: a Juju mandava no João!?
          Os machistas juram a pés juntos que não; a oposição da oposição jura a pés juntos que sim. E tem, tinha, tem sempre os que são muito pelo contrário das coisas, aqui decerto a pés juntos.
          Uma verdade se destaca entretanto – o João não é o mesmo antes e depois da Juju.
          Contudo deixemos por ora a integração de fato do homem ao outro.
          Qual outro, Escriba?
          Ih, cê tava escutando... o outro capítulo, ora bolas.



12° Capítulo, ondinho se propõe que o viver tem em si o conviver; no qual a interrogação e a exclamação bedelham: integração ou entregação

          Giovanni João também retorna à casa, tem mulher e filhos (emprestados) e portanto um lar, um solteirão nunca tem bem a certeza ao dar o endereço para aquela cobrança safada engolidora de bolsos, nunca sabe onde mora, com a mamãe ou em qualquer lugar que se possa pejar avermelhar ou simplesmente desconhecer. Sai do trabalho Giovanni e chega pra Juju um completo João. Senta-se na sala, nota, nota coisa alguma os homens não percebem mudanças, a mulher se vira pra lá mostra de cá, faz trejeitos, ansiosa a se decepcionar pra melhor decepcionar-se porque o besta nem vê o vestido novo de bolinhas nem a cor do próprio vestido; se mostra ao seu homem. O homem! tá se esticando no sofá, sequer dando conta que o buraco afundado do lado quadrado arredondado mudou pra onde não tinha afundado nem buraco; que o sofá tá noutra posição, limpo, sequer tem aquele grudinho indecente e fedido pelo uso anos e que no dia chuvoso pega igual cola na pele da gente e irrita e ofende o olfato. Limpinho. Ele? o João nem vê. Acende chupa traga sopra perfuma num fedor a sala com o seu cigarro, primeiro as imediações do sofá; bate o toco do cigarro a derrubar cinza no tapete que não puderam ainda adquirir – lembrar as prestações safadas a comer o fígado da família iniciante-continuante pois é uma continuidade do costume familial da família Silva, seu Mateus parece-me genealogicamente ‘Silva’, decerto vindo da Escandinávia ou da Ásia, a origem do nome não importa importando que a família da Juju é cópia dos hábitos da família paterna inclusive nas dívidas. A cinza cai a cumprir a gravidade, ela, a Juju, não a lei, percebe olha enviesado contrariada e diria “Você tá fazendo errado, tá!” não  diz quando diz finaliza sempre por “tá!” que é o inverso sexualmente admitido entre os íntimos ao “pô!” do consorte no seu acabamento e indignação. Não diz, torce o nariz apenas e... pera lá, que expressão mais burra usei, nunca vi ninguém torcer o nariz, o povo é quem fala quando fala na literatura dos outros, eu um imitante barato de quinta categoria posso dizer a contentar o boneco-de-pau nos meus joelhos, meu orgulho agradece por estar dormindo, a ressonar. O João não.
          O João não dorme, dormita a viver dentro do fora do seu cigarro, a fumaça azulada sobe em desenhos ovais gozados até ao picomã a se formar no teto da sala perto da boca de luz (esta outra expressão tola, lâmpada com boca! não quero mais ser povo, protesto!) Ah a lâmpada, ora acesa ora a piscar, a porcaria da prefeitura não mantém a voltagem na periferia, às vezes a gente faz umas gambiarrazinhas a trançar fios por sobre fios numas ligações clandestinas mas é mentira que pega fogo, o João a Juju nunca viram pegar, ela se lembrando da lamparina lá no Paraná, mas seria, será que é a prefeitura? não importa também, continua a descontinuidade elétrica, em volta ‘mileuminhos’ pontos de sujeira de mosca, igual ao João, o funcionário público onde assenta assina o ponto, o rapaz até já decorou o ‘RG’ todos dias tem na papelama que repeti-lo, a mosca senta e marca, o homem senta e marca; a luz, mesmo no vidro da lâmpada (que gracinhas aquelas coisinhas dentro da barriga da luz que dá a luz!) o vidro fica marcado, percamos o nhe-nhe-nhem: cagado, pronto. E aí, bem, deve diminuir a luminosidade. O João galopa não galopa, mas está na sela do cavalo da imaginação vendo quase sem ver o ambiente e – isto é grave! – até  sem ver a beleza da mulher indignada a olhá-lo, ele que não olha a jovem, olha sim mas não a vê. Cavalga as coisas da vida, vez que outra as prestações ou uma encrenca lá na repartição onde ciumeiras e insignificâncias burocráticas lhe ofertam puxões de orelha; enquanto a fumaça, come o fumo, come o papel do cigarro, no entanto deixa um pouquinho aos pulmões dele a preparar o ‘efisema’ do futuro. Presente ela, a Juju, cobra-lhe não sei quê, decerto nada tendo que ver com o ambiente ali – tipo assim (a expressão ‘tipo’ qualquer-coisa está mandando na linguagem popular hoje, por ordem da tevê, julgo, e julgo também estúpido o dizer; mas tomo emprestado uma estupidezinha só a acertar o estilo, continuemos:) tipo como: ocê trouxe carne? ocê passou no homem? ocê comprou ‘x’; xis é muito caro, anda tudo pela hora da morte, a Juju faz as contas, o esposo ganha pouco, ela precisa ajudar trabalhando a faxinar por aí. Agora adianto esse atraso: no futuro ela dará as cartas, ganhará mais que o João, e lhe cobrará posturas e completará ainda como sempre “tá!” indignada e ele responderá à altura dessa ofensa, não dizendo “não me enche o saco, mulher”; mas apenas “pô!” Voltemos ao presente do passado na cidade grande, ah põe grande nisso, a maior do Brasil.
          Ela. Me dá uma de dez, vou pagar a luz do pai.
          Ajuda os seus, o João por tabela compra de um tudo aos parentes na crise. A família do Império de Mateus-I é um barco à deriva, ou canoa já furada! em crise: desemprego subemprego doenças; a familinha mesmo do João consome o salário dele, ora Juju ora elinhos, terríveis sim mas doentes e necessitados. Ele se vai encaminhando a viver os dramas da família dela, se entrega aos acontecimentos do dia a dia na casa do sogro e nas lamentações da sogra Maria; sim parou de apanhar do esposo dela, apanha da vida apenas. Todos sofrem. E exportam isso à casa da Juju e por extensão na do esposo. Ele se integra bem.
          Agora fuma seu cansaço (ué, funcionário público sua! não sei, sabe talvez o Cao a dormir). Fuma pensa nem ouve a tagarelice da esposa. Então ela grita, Juju sabe com perfeição gritar e conclui: “tá!” Ele faz que sim de cabeça, nem percebe ‘sim’ a que, enrodilha engatilha as pontas dos dedos escuros de nicotina, dá última tragada, solta pelas narinas; e atira pela janela o toco, uma bituquinha que já ameaçava queimar-lhe os beiços. Os dedos, sobretudo o indicador e seu vizinho, estão tingidos com a cor do tabaco, que lhe curte anos o ser; e cheiram o cheiro característico.
          Ela, não gosta.
          Quem?
          A Juju, boneco, a Juju.



13° Capítulo, no qual ver-se-á a crise, segundo Mateus, neste novo capítulo, nos mesmos   versículos

          O casal João-Juju, pra ficar bonitinho como naqueles tempos mas na verdade Juju-João, o casal fica por enquanto a fazer e se exercitar naquilo que mais aprecia: brigando, discutindo suas coisas. Mesmo porque nos primeiros tempos a gente tem medo ofender o cônjuge, beija o cônjuge, faz coisas ao cônjuge nas coisas que pediu o cônjuge, mas que diabo! irá ficar nessas delicadezas vida inteira, pô, diria um dos personagens; o outro com dedo em riste (esqueci-me ao criticar antes, foi no outro capítulo? esqueci-me ter birra por esta outra expressão, nunca vi, só uma vez vi, alguém esticar o dedo de escarafunchar as narinas e de furar bolos de pé nas fuças doutrem; não gosto do ‘riste’) o outro aponta o dedo, por sinal com esmalte, ela ora passa esmalte ora retira esmalte e passa outra vez com esse dedo, que nela era, é, delicado e belo como o conjunto e aí finaliza “tá!”   Que briguem na santa paz o quanto necessário, se é para o bem geral da nação.
          Enquanto, pulemos, o correto é ‘dar um pulo’ outra das aberrantes besteiras da linguagem popular; pulemos a distração na casa da Juju, pra ver a casa da senhora Maria, onde reina o encardido imperador Mateu-I. O rei está agora sentado. O cetro? a coroa? a roupagem? O matuto agora encontra-se velho, caminhando célere à esclerose; resmunga grita xinga daquele nome, quer bater no seu desafeto familial preferencial. Dona Maria é inocentinha fraquinha pequenininha baixinha magrinha, usa lenço na cabecinha no estilo velha, mui usado antigamente – é tudo isso mas não bestinha, passa de largo pela cadeira do rei, com roda daquelas de rodar empurrando movimentando seu veículo; e o rei agora não manda ir alguém à venda buscar cachaça, “da boa!” insiste. Implora.
          Os familiares grandes, isto é, adultos (tirando a esposa, ela nunca foi comprar nada, ou por falta de iniciativa ou por analfabeta e aí o botequineiro passa a perna na gente a gente do povo fala; ela não, os outros:) eles não querem ir adquirir o veneno ao pai, não pelo veneno, pelo pindura crescendo e já grande grande. O vendeiro lança quanto quer pelo preço que quer e apresenta a conta quando quer e apregunta ainda quando quiserem poderão liquidá-la, já sabendo a resposta. Ora, quem sabe a resposta deve fazer a pergunta! o comerciante decerto pensará: perguntar ofende? Ninguém quer passar pelo vexame. O Velho Mateus chama então o Mateusinho, já rapazote a trabalhar nuns biscates por aí; o caçula não tem coragem a contrariá-lo; inclusive ‘empresta’, que é uma forma de doar, uns trocados ao pai; ou indo, meio escondido dos familiares outros, olha pra lá pra cá se dona Maria não perto, e depois traz a garrafa. Aí ela desconfia, os outros filhos supõem ou têm mesmo certeza: o cheiro do velhote e a boca mole e aberta fácil a xingá-los demonstra a bebida... Mas o ex-Rei conta mesmo com os meninos, os netos. Estes compram também com os níqueis dos cobres do pai deles umas balinhas uns doces e, é claro, aguardente. Mais tarde, não muito mais tarde mas apenas no aguardo do apressamento da crise familial, quando fugirão da megalópole cercada em todos os lados por violências e com violência mais por suas entranhas, fugindo, Seu Mateus contará com os netos no Interior, sobretudo os três da Juju, ainda encapetados mas moleques úteis, contará com os meninos pra pegar no boteco fumo pro cachimbo e caninha a esquentar o peito no frio ou a esfriar o peito no tempo quente de verão. Agora não. Ele olha ralha briga insulta desfeiteia rebaixa os seus, gosta mais de xingar a Velha, pois não mais fica ao alcance de suas garras. E a doença come solta, mina o interior do homem, apodrece as pacueras do pobre. Ele é uma ruína, como ruína é seu império no império da crise na cidade grande e desumana em que vivem ou vegetam. Dona Maria se queixa por si mesma, é um ai contínuo, seja no reflexo de tantos partos, seja pelos abusos em suas costas desde que era roceira, é uma pobre mulher velha, já não mulher mas instituição respeitável. A mulher é uma santa quando gera e carinha o filhote, é um ser explorado seja pelo filhote que gerar seja pelo marido mandão e abusado, é um destroço no fim de vida, este fim teimoso a encompridar mais nas fêmeas humanas que nos seus machos, então arremedos de macho; eles são mais voz mais teimosia mais lembranças de seus esquecimentos que homens. Assim Mateus; assim encontrava a vida a esposa Maria. Havendo entretanto a juventude.
          Os meninos já não puxavam o guatambu, como o dizer na roça ao cabo e à enxada; agora tentavam absorver a cidade e eram absorvidos pelo monstro urbano. Alguns pensavam até enriquecer. O homem vive a correr atrás da irrealidade com o instrumental da imaginação; o real mostra a verdade nas coisas: o migrante não passa, salvo exceção, não vai além do homem comum perseguindo a melhora com empregos limitados. Em nossos tempos este aspecto complicou: exige-se estudo e especialização. A sociedade que cercava a Família não tinha tanta exigência na época, ofertava mais colocações, mas não deixava o freguês pôr a cabeça fora da água; ele não passando do trabalhador comum no comum do sofrer. Felizmente para os do Mateus, inclusive Juju e seu apenso João, eles não tendo grandes horizontes, além do imaginário que povoa a mente do mais simples mortal. O que de concreto poderiam alcançar, se meramente alfabetizados!?
          É este tipo de família que João encontrou ao quase procurar e achar anteriormente a Juju numa pracinha desconsolada feia abandonada e sem vegetação mas com muita sujeira, o que é próprio da cultura das grandes metrópoles, a se afundar a administração na burocracia cega. Contudo encontrou um enfeite belíssimo de mulher nessa praça, certa mulher bonita e com expressão de sofrimento! Aliás esta expressão sofrida entremeio à beleza, quase já existente quando Juju batia sua roupa no corgo que imitava barrentamente um rio, o Rio Cinza; esta expressão será seu estigma gravado no rosto, igual à cicatriz no pescoço bonito: coisas para toda vida. É essa a mulher e essa a família que ele encontrou.
          Poderia fazer um esboço de seus membros?
          Acho que fá-lo-ei noutros capítulos vindouros.
          Vou-me entretanto aproveitar da memória que me foge fácil, a dar umas linhas sobre a outra família do João, quando Giovanni.
          É uma oportunidade e tanto, pois o boneco dorme.



14° Capítulo, objetivando estudar não uma família apensa, mas fazer um esboço da família de um apenso doutra família
         
          Melhor eu faria neste ponto se fosse um escritor...
          De quinta categoria, de fundo de quintal, é isso?
          Não boneco desaforado, mas você não dormia, Cao, pensei... estava a dizer que... não, não digo: primeiramente você outra vez, vamos lá: nana boneco, ou o cupim vem lhe pegá, sua mãe é a motosserra, seu pai ao deus-dará. Ué, dormiu mesmo, uf!
          O que dizia mesmo? não sei mais, não sei nem cuidar de um pequeno boneco-de-pau que fala falo por ele, que dirá... ah, ia falar sobre a família do João quando ainda Giovanni.
          Dona Pina, apelido italiano lá dela, ela a proteger, como de resto do resto que exista de mãe ainda, a proteger seus filhos, Pina ninava decerto o Giovanninho, ela a mimar o caçulinha dela, esse que ela emprestou à Juju, nunca a genitora dá de papel passado um filho, vai ficar sempre com uma ciumeira, por ter perdido aquela joia para outra mulher. Aí tem o negócio – aquela víbora vai explorar o fulaninho, não saberá fazer macarronada como a mamma, essas coisas. Depois o queridinho da mamãe traz para a sogra da esposa ver a produção em primeira audição: o nenê a chorar com muita inteligência e força, com toda perfeição; ela beijará aquilo enrolado nas fraldas e até perdoará uns mijados, coisa pouca, perdoará, coisa que não devo eu perdoar nunca pela mesma razão a um boneco feito de pau que fala qual tramela, com exceção de quando a dormir. Que lindinho, diz: não o boneco, ele é feio, mais que o Pinóquio e fala muito mais que o filhos do João num consórcio com a Juju, ela no seu terceiro vivo ele no seu primeiro, e olhe como parece o pai! A Nonna vê os dedinhos as orelhinhas a testinha o cabelinho, isto sim parecendo o João, o João é bem calvo e o bebê não tem cabelo só penugem, o cabelinho, a carinha – tudinho do João. O João fica todo inchado, vaidoso, quase chora de emoção a pensar (puxa vida, uma coisinha insignificante que pus lá dentro da Juju e agora... quase chora, sentimental, pois essa gente da Península chora por qualquer; e grita e briga por qualquer).
          Conversam horas o casal e a madrasta; não era avó, indagaria o boneco; tenho de explicar tudinho! Toda avó para a nora é chata como a madrasta; a madrasta quer mandar em todos e aí os filhos emprestados, bocudos, soltam os cachorros nela, vira um pandemônio. Lá pelas tantas dona Pina quer ensinar a nora como cuidar de menino, conta a centena que dezenou com o marido, felizmente morto, porque era uma ‘brigaiada’ sem tamanho e morreu e virou santo, ah meu esposo; e que ela gerou os filhos, ficando uns seis ou sete vivos apenas, os outros morreram quase todos na Itália ainda. E nesse ponto Juju não suporta, lembra o João sobre uns compromissos que têm e se vão, se beijam primeiro, ele num toque rápido, as mulheres se abraçam se beijam se prometem se riem e todos se vão aos seus afazeres, a velha Pina com sua voz insuportável, segundo opinião da nora, tem o que fazer; os dois têm muito, seria dizer os três mas a criancinha só sabe chorar defecar espernear e por fim dormir. Criança chora porque quer dormir, chora porque não quer dormir, o filhote do João chora pra dormir e já saem embora ele dormindo. E os outros familiares?
          Os cunhados da Juju andavam ausentes. Uma irmã se casou com um gringo e se foi do país; outros no trabalho, um, o Zé, no bar, Giuseppe aos de casa, só vivia bêbado e caindo por aí – conforme a Juju no contar aos seus. As irmãs dele são umas... aí pichou as cunhadas; e um outro irmão, esse ótima criatura, pois nunca conseguiu vê-lo (ainda opinião da Juju a dramatizar para seus próprios familiares os esparolados familiares do João; a italianada).
          Voltaram a se encontrar o jovem casal e sua parentela do lado da Velha Pina. Todavia nunca foram amigos, não tinham afinidade alguma. A Juju e um que outro de sua família também não foram muito apreciados pelos do sangue do João. Mesmo a criançada, pois menino é sempre mais tolerado que o adulto. Na grande Capital quase não se viam. Inclusive eles não agradavam demais ao próprio João, visto por todos os parentes como um garoto mimado da mamãe. Portanto na sogra não havia grande ambiente.
          De maneira que o João foi deixando suas raízes e fincando raiz na sua nova família. Quase adotou o Silva do Sr.Mateus e da Juju.
          Uma perdeu um filho. Outra ganhou.
          Enfim o que mais nos interessa é a família chutada do campo para a cidade, seus dramas, suas conquistas e os desdobramentos dessa trama e dessa vivência, as quais permitiram fazer nascer a família da Juju e seu marido, segundo marido, que o primeiro a bebida bebeu; num trago? em muitos.
          Em razão de tanta importância que estamos dando ao movimento caboclo atrás do seu destino, e mais a evidência que emprestamos à Juju nesse meio – prossigamos daqui por diante a Juju. Agora sim voltaremos ver de perto os matutos conviventes com Ela.



15° Capítulo, aqui a tentativa de destrinchamento do imbróglio enovelado
                                   da família de Juju

          Olhando por cima, quer dizer por fora, o novelo em que as linhas matutas se enliaram na cidade de São Paulo, sem se deter numa delas, não percebemos bem a coisa. Não vemos nada, nada mais que dezenas centenas ou milhões de seres como um todo. Momento no qual precisamos nos esquecer ser cada linha um ser com história com sofrimento e com alegria, quiçá a pensar no seu destino; isto porque muita vez nos pegamos a fazer plano a formular uma diretriz ou a tentar buscar um ponto, a meta; e descobrimos surpresos não estar vendo o todo e portanto sem possibilidade analisar a parte, esta a própria vida de cada um. Nossa tendência a perceber a cauda dos outros e não notar o próprio rabo também enubla ou dificulta a compreensão. Agora, se tomarmos somente uma família, a da Juju por exemplo, quer dizer um pequeno grupo humano a viver nos milhões, então podemos, embora sem chegar à verdade, aproximarmo-nos dela. Notaremos cada membro no seu desiderato, nas coisas que faz a acertar ou a melhorar-se para acertar, sendo que podemos acertar igualmente compreendendo nossos erros. Aí compreenderemos melhor, ou teremos melhor visão.
          Sem contudo pretender tomar todos seus membros mas os que pontificam, ou por seus bons resultados ou por seus enganos; vejamos, a usar a imagem da árvore (cujo tronco é o Sr.Mateus, mesmo depojado do cetro real) vejamos os galhos que perfazem a família.
          Desde este momento posso afiançar que a Juju, por sua personalidade forte e se fortalecendo ainda mais na fraqueza dos outros – ela vai se tornando o tronco de sua gente. Não irá esperar que seu pai desça à sepultura. A Juju é gritantemente a que dá as cartas, desde o mato paranaense onde esquentava a traseira do mano mais peralta entre a arraia miúda. Nunca pôs a mão no caçulinha, ou por temência aos olhos paternos, ou por causa de seus próprios olhos internos, os do coração. Mas se mostrava já mulher forte. Então pegava no pé dos outros; não tinha a ouvir o “pô!” do João, este será encontrado mais tarde para que a encontre numa pracinha, pracinha mais como expressão sem expressão no mapa da prefeitura paulistana, praça longe ser jardim a apanhar uma flor, a despetalá-la no bem ou mal me quer. Juju é uma forte, é um tronco.
          Os galhos estavam mais para o quebra galho da vida, aqui fazendo trocadilho para enfeite. Eram frágeis. Ao chegar à inóspita selva de concreto se arrastaram e se extasiaram, tudo era novidade; até o casebre de periferia seu rio como esgoto exposto fedorento eram novidade e mesmo alegria aos caboclos chegantes. Aí vêm os problemas, as faltas não de problemas mas de comida, de dinheiro, de emprego, de paz. Todo dia é um voltar sem grandes esperanças para casa, fora a esperança que é a característica do brasileiro. Os grandes, que são pequenos mas jovens, voltam com pouco ânimo; mais tarde se ajeitam, um se emprega outro arranja um ‘bico’ provisório, as coisas melhoram, ou despioram, aqui usando linguagem do bom negativismo. Às crianças nada mudou se mudando da roça pra cidade, criança é criança em todos lugares. Cada menino leva consigo o mundo do faz de conta para disparar a qualquer momento e em quaisquer geografias. Não entremos na questão da sujeição aos azares dos micróbios, excelentes nas periferias. No meio rural a liberdade ou a ignorância do homem são compensadas com o ar limpo o sol claro a ausência da poluição em todos os níveis; diminuindo as moléstias mais comuns existentes na cidade; verdade que tem o anjinho que deixa fácil os seus e provoca lágrimas, na roça ou na cidade, a cidade não elimina a mortalidade infantil é certo e até fornece meios higiênicos e vacinas. Mas falar nas mazelas nos bairros pobres sobre as famílias pobres e mais sobre os pequenos – é chover no molhado, dizemos. Nem é solução, mas remexer a sangreira. Nosso objetivo é mostrar que não obstante as crianças brincam, brigam sim, e não chegam bem a sentir o drama adulto.
          Os nomes aos bois. O Mateusinho é criança quando resolvem os seus fazer a viagem inversamente a lugar nenhum, que é o ponto de interrogação; mais tarde, rapazote, já vê a Débora na igreja, no templo da Congregação, acha a jovem linda eu dando-lhe razão. Os outros acompanhavam o crescimento, físico psíquico e moral, do mano caçula, este com o nome do pai embutido. A mana Érica era uma formosura, na opinião dos rapazes na imediação, ela trabalhando nas tarefas de pouco ganho mas trazendo a contribuição à casa; aliás todos traziam seu pouco a ajudar no custeio; naturalmente gastava em seus cosméticos a atrair seu gavião. Com ele se casou nos conformes da religião, fazendo crescer a população com sua modesta ajuda; os partos não conseguiram enfeá-la (prefiro ‘enfeiar’ e meu boneco também, nessa beleza sonante nos encontramos ambos). A tanto que as irmãs sentiam ciúmes da menina de olhos verdes. Forneceu vários netos à dona Maria sorrir um pouco, pouco sorria desde o Paraná, agora a velha mais chora e lamenta demais, a falar baixinho, a resmungar olhando a filharada e o marido chato. Tem a Zizi, esta já saíra meio gordinha do meio rural; o sofrimento de um lado, os partos doutro, espremeram-na um bocado; posteriormente engordará, ou inchará dizem, quando voltarem ao interior. O Tonho conseguira a Zizi para esposa, se dando bem com os cunhados; e embora as cabeçadas, próprias dos que tentam acertar e são trabalhadores e retos, embora isso não conseguiu ficar mais magro do que sempre fora. Uma tônica apareceu ao longo dos anos até quase ao fim da vida conjugal: os cônjuges se davam às mil maravilhas, apesar das azucrinações de Zizi por cima do Antônio. Fizeram em comum acordo uma porção respeitável de filhas; ainda acresceram outrinha: certa garota que teve os pais assassinados por dívida de tráfico de drogas, coisas de cidade grande e dos tempos modernos. Aí o casal praticou uma caridade enorme aceitando a menina e a criou  com amor. Um outro irmão, também irmão religioso, sofreu um acidente e faleceu na rua. Os choros, a falação, os comentários pertinentes, velório pobre enterro barato. A Zô, esta nunca fiquei sabendo direito o nome e não me adiantou indagar ao boneco, a Zô tornou-se uma senhora decente com casamento e filhos, tendo sido abandonada por um ‘irmão’ indecente, nunca mais se casou; criando a prole a seu jeito; estufou apesar do muito trabalho; aí ‘se virou’ se arranjou com os seus apensos e os da família paterna, o que deu mil e tantas brigas, aquela questão de parente lingua e dente; até arranjarem novo teto, mas sempre próximos do tronco. No futuro brigarão a contento com o novo tronco, a Juju; depois eu conto. Outra mana da Juju, vou chamá-la ‘Incógnita’, belo nome a uma desconhecida, essa casou-se com um amor, sei lá se paixão, é temerário falar dos sentimentos alheios; e voltou com o marido, que fora seu namorado ainda no Paraná, para o Paraná; antes dos parentes resolverem retornar. Lá se distanciou do tronco Mateus mas não pelo coração: volta e meia se comunicando, aquelas comunicações – o nascer de novos netos para dona Maria, as fotos familiais; aí dona Maria a mostrar fotografia ao Mateus para ele rosnar talvez um riso de satisfação. E por último entre os membros mais conhecidos o Luís. Claro, muitos deixaram o lar, secando o galho, a árvore, mas isto ocorreu ainda nas suas raízes paranaenses. O Luís não, era o mais velho dos homens. Falador, trabalhador, só respeitava a Juju, pela força moral da mana. Mais para diante empreenderão a volta, como falei, a volta ao Interior, e nesse momento ele era um dos poucos a ter dinheiro de seu. Voltaremos a este personagem no tempo adequado. Na capital paulistana andava o moço meio apagado. Mais acesos os dramas da família.
          Vez por outra... não, esta forma não me serve; direi que sempre se encontravam os galhos e inclusive trazendo seus ramos e folhas, uma que outra flor, a beleza não é apanágio dos ricos; então conversavam, ocorrendo isso geralmente nos fins de semana, em não ser que as crises dos pais obrigassem a correria, daí havendo reunião extraordinária, o que é próprio das famílias sentimentais; enfim quase sempre nos domingos e feriados os encontros, a discutir a brincar a lavar toda roupa suja...
           Uma característica da família da Juju (o velho Mateus se apagando mais e mais) uma era, é, o discutir, pôr em questão as questões tabus, falar falar falar...
          Esta característica e a personalidade forte e aglutinante de Juju irão manter a linha familial unida (é típico este caso de desunião que se une!) – desde a origem nossa conhecida, até o final dos tempos (este, finco o pé e não digo; mas depois prometo dizer, se o boneco não acordar exageradamente).



16° Capítulo, tratando duma conversa ‘amistosa’ com meu Boneco, a resumir o que foi visto até aqui; e para vislumbrar o futuro prometido, que nos promete

          Meu Bonequinho querido, dois pontos, espero que haja entendido com clareza a confusão de meu relato até esta parte, aqui ‘tês’ para o que der e vier. Outrossim, espero igualmente esteja em condições a compreender uma desconfusãozinha da confusãozona que temos pela frente, desejando eu que sua madeira de lei não se esboroe com tal peso, que é o peso do entendimento da...
          Pare aí, senhor Escriba com ‘e’-zinho dos pequenos. Pisou no meu pé, não pergunte o óbvio, é claro estar eu acordado vendo o autor ‘mentirar’; ou não falaria, antes mijaria na sua perna como costuma mentir, aqui rementir. Então pare aí.
          Por quê?
          Ora por que; porque em primeiro lugar andava o escrevinhador a me endereçar uma carta.
          Sim. Justifico, tudo no meu orgulho justifica para me defender do pensamento alheio. Justifico. Você, Cao, apenas dorme, ausente portanto, sou obrigado a falar sozinho; imagine o drama de um...
          Ventrículo.
          Errou outra vez Boneco, ven-trí-lo-quo. Já pensou meu problema a falar falar falar e a porcaria de pau, de madeira de lei, canela cheirando... suponho, a porcaria a dormir como que dopada! Não existe ventríloquo sem boneco de ventríloquo e aí a meninada nosso público vai rir-se de quê? de que chorar! Sim meu caro, escrevia uma carta a um ser distante aquizinho a molhar-me a perna esquerda...
          Direita, a ordem atual é direita, volver.
          Chega boneco, boneco integralista fascista nazista e saudosista; boneco de pau, de madeira de lei: peroba etc., talvez canela como disse; quando eu era oleiro...
          Deveria ter continuado no barro, não dá para ser Escrevinhador.
          Discutível a opinião. Mas chega de interromper um Escritor em suas altas funções. Quando era oleiro queimávamos os tijolos...
          Tem graça “queimar tijolo” faziam de papel os seus queridos tijolos?
          Não, burrinho. Queimar é expressão nossa, se lhe convier escute ‘cozinhar’ ‘assar’, para nós é queimar e pronto. Aí, o forno cheio, púnhamos na fornalha lenha, qualquer madeira, inclusive madeira de lei, oleiro não se preocupa com desmatamento nem com o meio ambiente do orbe; inclusive fazíamos buracos e mais buracos a encontrar argila, que é nossa matéria-prima: onde tem um buraco tem oleiro.
          Vou dedar vocês ao Ibama!
          Boneco dedo-duro. Não importa agora. Eu dizia que socávamos na fornalha tanto a lenha podre e fraca cheia de formigas, como aroeira ou peroba, de lei. No tempo chuvoso me lembro vez por outra vinha ao pátio do forno a canela, a gente empurrava nas brasas a canela, umas achas cheiravam a cocô de gente...
          Que horror, Escriba, horror e indecência!
          Escrúpulos apenas, meu Boneco. Nós oleiros dávamos o nome ao pau “canela bosta”.
          Grosseiros! Pera lá, onde quer chegar nessa lenga-lenga nessa enrolação barata...
          Simples: Você deve ser feito de canela, quá-quá-quá.
          Não se envergonha por ser tão desbocado perante nosso público inocente, veja a carinha das crianças!
          Nada vejo, estamos sós.
          Já sei escritorzinho, acaso é o caso de acusar-me tam-bém por fazer cocô, além de...
          Mais ou menos isso. Em qualquer hipótese sou a vítima, tadinho de mim.
          Tá bom, como o escritor de meia-tigela diz, está bem. Mas e a tal carta, não se esqueça do selo, do cep, e sobretudo pô-la na caixa de correio. Melhor ainda: entregue ao funcionário em mãos, vai que... bem, a carta não, o assunto da famigerada missiva que me desbancou a rebaixar-me à canela... é de mais esse menos, demais.
          Certo, Bonequinho. Queria dizer, digo então. Seguinte. O que vimos até aqui neste relato da Juju? Uma Família que surgiu nos cafundós do Paraná, emigrou por livre e espontânea vontade dos fazendeiros latifundiários às estranjas da cidade grande enorme de São Paulo, nem quis estagiar nas vilas do seu Estado no estado em que se encontravam; na capital paulista tentou ‘engrandar’, chutar ao menos as pequenuras da miséria e se envolveu na miséria da violência da adaptação pela desadaptação, aquele negócio de caboclo nunca deixar totalmente suas raízes, passando tal sentimento aos filhos e netos. Ultimamente, quer dizer, as próximas e passadas páginas, nelas mostramos uma insatisfação e a constatação por não haverem caminhado demais, sobretudo se pensando economicamente; ou em outras palavras: a terra grande não era o que supunham; com a agravante de ajuntar à Família dramas sociais urbanos aos dramas sociais roceiros. Então, indagam-se os membros do Conselho Permanente da Família do Sr. Mateus, então, o que estamos a fazer aqui! lá. Quem responde? o vento o futuro a própria interrogação. Contudo não é o Sr.Mateus quem dá a palavra final, a coordenar os seus. É a Juju.
          É isso que vimos, meu Boneco.
          E depois, oh escrevinhador com gosto a canela, afinal e depois?
          Não escutei coisa alguma, devo estar resfriado.
          Tuberculoso.
          Não senhor, resfriado a ventania espirros os ouvidos tapados, por isso não escutei.
          É ignorância da sabedoria ouvir apenas o que nós desejamos...
          Não, boneco, é sabedoria da sabedoria. Continuemos.
          Bem. Agora vamos à III parte, em nova fase da Estória de nossa Juju.
          Mas irá continuar usando algarismos romanos?
          Sim, boneco, sim.
          Não, não use. Me atrapalho um pouco. Até com três pausinhos tudo bem; depois me embaralho; e quando chegar naquelas drogas de ‘L menos X’, aí! por isso que o Império Romano acabou: não se entendiam nos números. Use arábicos e não brigaremos mais.
          Só mesmo rindo dum pedaço de pau, tá bom, de peroba, pronto. Os romanos usarei apenas a indicar as Partes, que vão até IV ou V, sei lá; os Capítulos continuarão em arábico, a pedidos.
          Até cinco, ‘V’ né? até cinco sei contar. Vai lá.
          Quanto à sua teoria do fim do Império, devo levá-la à Corte e aos Congressos Internacionais de História. Voltemos ao romance, pois o relato já se torna um romance.
          Romancinho.
          Sim, concordo, romancinho com erre dos pequenos. Vamos prosseguir.
          Eu dizia haver resumido a tendência da Família desde as origens até, a usar sua expressão chula, até à cabeçada na tentativa paulistana. Se bem que é necessário acrescer os ganhos nas perdas que tiveram os membros, e as perdas nos ganhos acrescidos – tudo positivo na vida do homem, ser imortal.
          Mentira deslavada.
          Por que mentira, ô da canela.
          Vai recomeçar!? Mentira porque seu Zé morreu, fui com você ao velório, você tem medo de cadáver, fui a fim de ampará-lo...
          Ai que língua. Não Boneco, o corpo perece, vira vitamina no liquidificador da terra para os vermes beberem tudo de canudinho...
          Ah mundo cão,  humor negro,  Você  é  um especialista  a  ‘burrar’ humor vermelho!
          Exagerei, confesso, Menino, dou minhas mãos à palmatória.
          Que é palmatória?
          Não explico, Você é muito burro. Voltemos ao defunto seu Zé. Morreu o corpo. Seu Zé vai ficar assoprando por aí, até aprender um pouquinho, reencarnar para aprender mais e depois...
          Chega, mentiroso. Por via das dúvidas esta noite irei cobrir-me melhor e vou dormir na sua cama, não mijo em você, prometo, vai que a alma do Zé...
          Mas a propósito de que esta discussão boba terá vindo? Ah sim, eu falava na imortalidade humana e que aprendemos com nossos erros e acertos, a Família mesmo a viver a crise no mundo paulistano com muita violência e pouco recurso, ela ganhou: ganhou experiência, cresceu. Então decide, a Juju decide que decidam, retornar às Origens.
          Pois bem. Aqui o início de uma fase difícil e muito mais difícil para relatar: precisaria ainda mais capacidade, mais recursos de língua, mais de psicologia e necessitaria mais talento a apreender o novo drama, ao qual chamarei ‘Ciganagem’ – tudo para chegarmos à verdade das coisas. Tentarei isso com sua ajuda, Boneco.
          Advirto entretanto que essa próxima parte, a III, é mais importante que as outras anteriores. Mais importante ainda que esta importante a ser vista, será a IV. Em suma vejo como base ao relato inteiro o que exposto da parte I até à parte III.
          Por último, Boneco, quero pôr desde já no relato um personagem, o qual será um testemunho à referida IV parte, lembrando-me dele agora por haver passado aí na frente atrás de sua bengala. Trata-se do Sr. Véio da Silva. Cego surdo tateante, encompridou a bengala somente a poder dar na cachorrada que desespera no latir por cima dele e...
          Ih, falo sozinho outra vez, dormiu o de canela! Vamos ao 17° Capítulo.



 



III parte – Operação Ciganagem: o Retorno Sem Volta



17° Capítulo, neste resumo a mixórdia da indecisão na decisão, os prós e contras à mudança para mudança de vida

          A muié, diz a Juju a arder ouvidos não fossem as orelhas calejadas com tantos segredos de família, a mulherzinha fala “caroça” e não carroça, eu me rio na cara dela, minha sogra enche o saco da gente; o João: você não tem! ela: ah... Minha sogra, dona Pina, agora inventou de mudar pro Interior. O velho morreu, ela fala gozado “moreu”, sumiu, o João aqui não sabe do pai dele, decerto não aguentou a Pina... O filho do pai quer reclamar, com a Juju não tem jeito – quando disparada nem o exército de Hitler faz parar, e fala e fala e fala, os outros embrulham o seu dizer e ela quase não ouve, ouve se lhe convém, continua a defender sua tese. Vai, conta, vai morar noutra cidade, vendeu a casa de Pinheiros, vendeu não: deu, a burra, e a italianada cada um quer uma parte, eu não deixei o João cair nessa baixaria dos polenteiros...
          Todos circunstantes querem saber para onde e por quê? querem saber mais minúcias dos detalhes de todas particularidades que impulsionaram a parte peninsular deles a tomar tal decisão – ela até já comprou uma residência no Interior, no que fez bem, pois dinheiro na mão vai pros bolsos dos filhos sem-vergonha, aquele seu irmão pinguço, João... (ele olha desconsolado abana um sim desejando a mentira da esposa).
          Mas o que está em baila mesmo não são os problemas da Família do João, se interessam menos pelos dramas da italiana, a qual veio outro dia numa amistosidade visitá-los, mas que falando muito fino e agudinho e demais, desagradou os de Mateus, agora em nova fase o Velho. Sim, pode, dizem os da Juju, pode que sirva também como solução aos nossos problemas.
          Iniciam o falar (continuam) lavam suas roupas sujas, e se desentendem; traçam o mapa familiar, cheiinho de pontos negativos: a besta da Zizi e o chocho do Tonho erraram nisto e naquilo; chega a Zizi, encosta a criançada pra lá pra cá a pequena mais pequena dorme no seu colo, aí, presente, perde o adjetivo e vira apenas Zizi, participa, defende, investe, alfineta, o Tonho diz que sim em boa política conjugal, aos poucos espirra ao Clube do Bolinha a conversar suas coisas com o João o Luís o Mateusinho, já grande pra ficar xeretando barra de saia e bate-boca feminino; dona Maria até chora, o Velho resmunga na cadeira de rodas e fuma desesperado, ninguém lhe dá atenção ninguém quer trazer-lhe algo a molhar o gogó; elas apresentam seus argumentos, Juju defende no seu discurso: é preciso sair daquilo. Cita um caso, outro de domínio de todas, as crianças brigam também, por outras razõezinhas por volta das mães e tias; o domingo promete almoço no jantar. Conflitam esperneiam boquejam, todas esbarram na verdade que é essa mentira de dinheiro; falam mais alto as dívidas, o emprego precário, o assassinato do casal vizinho por bandidos, Zizi não sabe se leva pra cama a pequena a dormir nos seus braços, diz que o esposo quer a adoção da órfã; vêm outros dramas que todos vivem todos conhecem todos sofrem; os machos da espécie se aproximam, concordam na discordância, agora o fala-fino fala-grosso também; e tem é muito choro entre os pequenos, criança nunca se entende, não entende o adulto que elas não possam se entender, sobra alguma palmada e castigo, então vó Maria quer interferir ajudar os netos e não pode nem consigo mesma: a situação avó é o perene não ter direito nem ser ouvida – não ‘manda’ no filho e menos no filho do filho; e fica sem graça dona Maria, corre ver o que o esposo ranheta deseja nos seus resmungos, fala lá com ele as suas coisas, volta interessada à roda, ou rinha ou ringue de línguas. Todavia as línguas não chegam a conclusão plausível.
          Não obstante ninguém que possa fugir das causas e das consequências. Assim os problemas familiais prosseguem a dilapidar não a riqueza da Família que a Família não tem, mas o sossego dela.
          Por fim o fim. Sempre há um fim, mesmo periférico e enganadiço. Falam mais algumas horas alguns dias alguns meses, nem um ano mais; e decidem.
          Dessa forma começa o fim no desmanche.
          Uns optam em viver, continuar a penar na Capital. Outros, a maioria, pela mudança. E esta se faz com dores de parto, até fórceps se usa; não há cesariana ao drama do homem pobre e desprotegido. Vêm a seguir as dicussões do como e do onde, sabedores do porquê.
          Semanas a se escolher a volta ao Paraná.
          Porém como viver no Paraná que se conhecia e onde cresceram, como, nas condições em que o século XX ia deixando o Estado e os outros estados do País! Pensaram de início na labuta da lavoura outra vez, quem sabe com mais sorte que antes! mas esbarraram noutro saber dos desconhecimentos: não existia mais a lavoura tal qual a deixaram, já em decomposição antanho. Mesmo seus parentes longe e os amigos que são apenas conhecidos perto, mesmo eles haviam fugido da roça às vilas e cidadezinhas, alguns até se removeram a Curitiba e até São Paulo como a Família de Mateus.
          Restou a opção por cidades nas imediações de suas origens, não distante do romantismo que temos dentro de nós quando alimentamos lendas e terras e gentes, isto que é de toda gente. Somos incorrigíveis?
          Somos.






18° Capítulo, para o arrumar a mala, arranjar a matula, despiorar a mudança

          É quase um desastre qual guerra a guerra da mudança aos adultos pobres, pobres das crianças ao ver aquela revolução em alegrias festivas, embora ralhações incompreensões discussões que imperam no ambiente. A uma família do estrato de baixo, comum, a mudança engloba atitudes sérias, romper de rotina, a violência das atitudes – dor de cabeça, falatório, movimentação. Juju anda perturbada, cabeça quente, tudo nos seus ombros ninguém com iniciativa, os homens então, pra que aqueles penduricalhos e as calças compridas! Ela bate o pé no conservadorismo e segue os ditos religiosos, saia, na pior das hipóteses um pouco só mais curta; e é conservadora nas atitudes, cerne, base, dura no convir, ferrenha como a maioria evangélica de primeira viagem (isto sendo válido a todo principiante de qualquer seita); parece-se quase mais católica que o próprio papa, ou qualquer coisa nesse sentido, como se diz. Exigente com os outros, cobra dos manos cobra da mãe cobra do esposo mesmo, mais dele que dos outros; condena as permissividades, lembra o cigarro lamenta a cerveja; pega no pé também dos filhos, um pouco apenas menos exigente com o pequeno chorão que lhe saiu do ventre outro dia. Agora no vaivém da mudança neurotiza seu dizer.
          A família pobre é rica no desentender. Ajeita uma coisa e outra; discute as tão decantadas latinhas de flores quase sempre sem muita flor, onde pôr onde levar como acondicionar; os vidros, o espelho sempre também se parte (e se conta a mudança de fulano e beltrano, a deles como a chegar na Capital anteriormente) e tem um dizer popular segundo o qual trincar espelho na mudança dá sorte! tem o drama do riscar móveis, montá-los desmontá-los montá-los novamente, agora no hoje em dia não suportam a segunda montagem e se esfarelam as placas de serragem prensadas; como carregar como descarregar. E o inevitável ‘gasto’; isto é mui grave. A vir conseguiram um caminhão amigo e não obstante... Agora é o ir, voltar se se quiser, dramas profundos.
          Mas os pobres têm mais uma agravante ou um conjunto de práticas agravantes – nunca se ganha num deslocamento a nível de regiões distantes, fora a experiência que se ganha e se perde por não contabilizar o ganho. Nunca, é preciso se desfazer das peças além do peso e do volume; vende-se, que é um dar disfarçado a outrem mais necessitado e menos aquinhoado. Assim toda vez que chegamos em novo ambiente é necessário comprar o que já possuíamos antes, mais caramente, para sorrir o juro e o lucro e crescer a dívida por conta do que se não ganhou: uma areia movediça na inconsistência da interrogação e das reticências.
          Contudo houve a mudança, puxaram como possível pra cá, ao Interior, a paz fugidia na Cidade Grande. Foi um somar a vida numa das cidades mais perto do seu ambiente de raiz; a Família pensava haver descoberto a solução à infelicidade humana. Aquela questão do poeta, nunca pomos a felicidade onde nós estamos.
          Quanto ao parto da mudança em si houve muito contratempo e desencontrar. Uns trecos se foram como despacho no que sobrava da composição ferroviária em decomposição; parte por estrada de rodagem; havendo muitos badulaques nas casas apertadas dos amigos, sobretudo dos amigos-irmãos, ainda na Capital. E durante meses, numas viagens rápidas, transportaram sobras das faltas nos lombos individuais através de viajantes esporádicos visitando a nova cidade, que era velha para a Família. Coisa pouca em volume: matulas pacotes embrulhos improvisados, a atulhar bagageiros de ônibus interestaduais.
          E a gente? Claro a gente, a Juju interferindo no deslo-camento das famílias ligadas à Família, o desconforto no transporte do Rei-descoroado mui resmungão, o ajeitamento das crianças. Daria outro romance o assunto, o qual seria dramático e com muita graça, pois os seres humanos não se cansam ser ridículos na sua ‘sofrência’. No final as famílias da Família, inclusive a de Juju-João, se avieram a contento, no possível do contento; havendo até muito brincar nas alegrias de viagem.
          Ao chegar no Interior paranaense, surgem as questões não só da estada mas a colocação dos membros na economia precária da cidade pequena.
          Antecipando um pouco, coloquemos o drama do boia-fria. Isto virá no próximo Capítulo.



19° Capítulo, aqui se concentra o que os dias dos primeiros dias dos meses na nova
                                   velha terra de Juju

          Juju, que meu boneco vive quando acordado a tomar por coitadinha, ela está feliz. Exagéro no exagêro? talvez, vejo a Juju a assobiar seus hinos, vez que outra cantarola, medrosa num deslize a cantar certa ‘mundanice’ qualquer, cantarola baixo o que aprendeu na Congregação; mas o comum é assoviar fininho e bem sem quaisquer desafinos pois o caboclo esse parece tem orelha de pau na maioria e distorce cantos e nomes, o que é uma graça; não desafina (quem sabe se assobiando não consigamos nós os homens comuns por mais força façamos desafinar, quem sabe) assobia passando roupa com o ferro, se acostumou com o elétrico, na roça usava o de brasas, vez que outra uma faísca a subir descer depositar queimar marcar a peça de roupa e aqui vale sim a gente xingar daquele nome em nome do prejuízo e da raiva, dá raiva também de xingar e agora é uma evangélica, ferrenha, a discutir e a querer impor o seu querer, voltou pras origens renovada sem ser carismática mas evangélica, crente, o povo fala crente, pronto; e é feio xingar, de vez em quando perde a paciência mesmo com um pobrinho cisco de carvão a fugir do ferro de passar roupa, felizmente inventaram o de eletricidade e ela tem um medo tamanho do possível choque, até manda o João desligar pra ela o fio o plugue do fio, para tirar daquilo parecendo um focinho de porco quando eles criavam porco no chiqueiro, ele tira o plugue do fio. Um fio liga a Juju nos tempos da Juju.
          Aprendeu cantos, e muito mais no mais de versículos e capítulos, tem fé em Mateus, no pai não tem muito, em João, o seu tá por aí a procurar trabalho porque e isto um mérito do João: é trabalhador, não foge do pesado mas tá duro para arranjar serviço numa cidade pequena como Santo Antônio, vixe! em Marcos em... já decorou uma referência, Mar., 10, 3; tem fé na sua fé, é séria é honesta é crente como crente e falta convencer o João, o João é muito mundano pra seu gosto e se diz católico igual a Pina, não quer se lembrar da sogra, que fala “caroça” e desconhece a pureza do ‘caboclês’. Mas tem fé, fé também no trabalho, empilha as peças na cadeira passadas, vai assoviando assoviando assoviando só se interrompe porque a mãe está se desentendendo com o pai, Mateus anda cada vez mais decrépito mais exigente mais pegador no pé de Maria, ela resmunga rumina atende briga e foge de perto, a cheirar também ela o cheiro do tabaco que azula ao sol da manhã toda a casa pobre na qual se alojaram a tentar fixar-se longe da loucura da Cidade Grande na cidade pequena do Santo e ela passa dobra coloca na cadeira a roupa, arranjou mesmo um fut-fut, ela que chama assim um espirrador de água vaporizando o tecido para amolecer a fim de passar melhor, sendo este objeto um ganho na perda que trouxe da Capital de São Paulo; e aí para: tem o almoço a preparar, a Velha já não tempera bem as coisas, ora deixando queimar (e o perigo!) ora a ficar meio cru e todos reclamam, todo mundo só sabe é reclamar. Não, agora os meninos andam a procurar o quefazer, pegam qualquer coisa para trabalhar, até se dispõem a ser boias-frias, indo em cima de caminhão, um perigo danado, a capinar colher por aí para ganhar miseravelmente, o João não. Não que seja orgulhoso, se diz caminhoneiro, seu negócio é o volante. Enfim todos vão se virando. Ela também, já se pôs inclusive a faxinar nas casas ricas, limpa lava volta esgotada mas nem isso está aparecendo, ela entristece se preocupa, porém a fugir dos pensamentos sombrios assobia a se harmonizar.
          Não se harmoniza, desconcerta-se.



20° Capítulo, a tratar das lembranças em relembranças juntinhas com os apertos

          Num ponto é ponto comum do ser de Juju, seja no passar lavar faxinar fora (e estes aspectos não mudaram ela se mudando) seja no fazer as coisas de casa, mesmo porque em nada fazendo tudo enlouquece, enlouquecemos os que nos acostumamos a trabalhar por toda uma vida. É no ponto do assobio que se encontra a moça teimosa envelhecer a mando do tempo e mais ‘teimosando’ a ser bela sem precisar qualquer macho fazer força pra ter querência por criatura feminina tão atraente e aí concordando todo o Clube do Bolinha com o João que teve tão bom gosto na pracinha sem beleza, descorada de vegetação, a qual foi iluminada num tempo no tempo em que se cruzaram a mais tarde virar casal, os machos a dizer que João e Juju, elas que Juju e João e me parece tendo razão as mulheres nisto e tudo o mais. Mais não digo, ou invento, e recebo reprimenda do santo de pau oco, meu boneco dormente.
          Ela assoviava...
          Pera lá Escriba, é assoviava ou assobiava?
          Ué, acordou? meu Boneco, tanto com ‘bê’ de bobo como com ‘vê’ de... deixa pra lá, vou discutir com um pedaço de pau, que fala é verdade, mentira, no entanto graças à minha faculdade (e talento diz-me a vaidade que não tenho) graças ao meu talento de ventríloquo. Dorme, boneco, pelo amor de Deus: preciso continuar o relato, a Juju, sem a Juju não há romance da Juju. Ah, dormiu.
          Assoviava sem parar, se acordado me cobraria que eu sei: dizendo a dizer apenas – não comia não fazia não dormia, a assobiar sem parar! Vai poder com gente burra; é malhar no ferro frio. Assoviava, assoviava sim já na Capital da Loucura, quando migrantes lavradores; e lia também: ela e todos os membros da Família a falar religião, tocou inclusive ao Velho ouvir a Bíblia monossilabada ou lida aos soquinhos pelos intelectuais do clã, a Juju na frente; sim todos os membros viraram crentes a lerem o Livro Sagrado a arremedar interpretações, sendo isto sempre válido, desconto na nota fiscal pelos enganos pois os filósofos e os filólogos igualmente se chocam na interpretação do escrito ou no como no onde no por que das bases do escrito; então por que não perdoar os que arremedam o abecedário nuns soquinhos e solavancos; a Juju lê primeiro baixinho pra si depois altão aos outros de menos letras e aí tenta a interpretação, que falei válida. Todos os membros participam, já parando eles de fumar e de beber, Seu Mateus ainda quer e consegue por baixo do pano alguns goles, os netos condoídos trazem o álcool; e corrigiram seu liberal (ou libertino?) comportamento por outro mais regrado ou apenas fiscalizado. Isso mesmo, a Juju é boa fiscal. Cobra, pega no pé, aí se dentam ambos no casal, o João brinca com ela “meu amor” e sai pela tangente, ela fica a arrulhar um pouco mansa mas logo explode a resmungar porém que fazer: este mundo está perdi-do! Sim, já assoviava antes.
          Daí se mudaram para mudar – mudaram? Neste ponto da narrativa nem sabemos ao certo, eu por prudência o boneco por imprudência. É claro, sempre se muda, mesmo não haja mudança flagrante. Mudaram ao Interior, para o seu Paraná querido, o lugar onde nasceram e se criaram todos da família, à cidadezinha, a roça já ocupada na desocupação da lavoura substituída pelo capim a grama o pasto o boi. Mudaram, ela continuou a assobiar fino seus cantos religiosos. E portanto continuou a continuação.
          Exato. Continuou. Veremos que na IV parte ainda estará assoviando, ou mais ainda? ainda assoviava hinos a arrumar os trecos na pia da cozinha pobre mas não tão pobre, inclusive com direito à propriedade e tudo; assobiava absorta quem sabe, sabemos entretanto nessa altura espionada pelo ‘Véio’, Sr.Véio da Silva, aqui não se culpando a nenhum boneco, porém um velhote que não fazia xixi na minha perna (decerto fazia se fizesse, na perna dele mesmo por idoso, o que não é de minha conta).
21° Capítulo, onde tratar-se-á do caboclo com o pé na estrada; o orçamento no aperto e os indevidos palpites

          A Família já chegou, chegou para ficar, ninguém mais pensa em termos da Capital, aceitam, assustados, as lembranças, as referências são o fatal no dia a dia, mas têm consciência os parentes não pretenderem a volta. A volta à terra natal é que anda difícil, ao menos é preciso jogo de cintura, expressão cheia de malícia, para suportar a nova situação. Os apertos financeiros, o pouco dinheiro sendo o quase nada a custo trazido, o retardamento no encontro de novos meios a uma família tão grande, enfim tudo faz nascer se não o desalento ao menos a apreensão. Todos querem ajudar. A parentela em volta dos migrantes paulistanos, os jovens a contar vantagens e exibir finuras que aprenderam no estágio paulistano; os jovens chegantes a se entrelaçarem com os do Interior; enquanto os adultos a pretender colocação, os de cá a tentar encaixe dos de lá nas lojas e nos escassos meios empregatícios; tudo concorre a passar mais ameno embora tenso o tempo. Todavia tem seu preço. O parente – e aqui entram tios sobrinhos de todos graus e conhecidos que são como parentes às vezes mais que parentes – o parente cobra o interesse e a ação que tem aos ‘novatos’ com opiniões explicações intercessões, palpites. E neste ponto vêm os atritos. Inevitáveis. Inevitáveis? Cobra-se um malfalado, um bem-interpretado, uma palavra vã, um descuido, uma ignoranciazinha. Mas todos querem colaborar com os chegados; alguns desejam forçar uma colaboração e dá encrenca. O aluguel atrasado, salário sem registro e atrasado, a conversa arrevesada adiantando a atrasar mais as relações.
          A Família, isto valendo às centenas de ajuntamentos parentes em todos os lugares onde houver pobres, a Família mostra melhor uma de suas características marcantes: como a conversa-fiada afiada; falar por falar, sem intenção, menos o intento a ofender. Os ofendidos se defendem, aumentam, encompridam, distorcem, inventam, maquinam, fogem do ponto. Pregam a cultura que receberam aos outros núcleos, também familiares também interessados também inocentes, até prova em contrário. Está formado o rebu.
          A comadre Tita, aquela mentirosa (aí se prova por a+b por que como até onde) a mentirosa disse isto e aquilo. A Juju sobe o morro, a ferver-lhe o radiador: assopra vapora grita defende acusa chama testemunha, ninguém prova nem por bê nem por a; ah que sem-vergonha. Dona Maria só olha, mas fala também, tem ela o mesmo costume da filha e não deve ter herdado o talento de Juju: a Velha fala fala fala, conforme o caso baixinho, conforme a assistência menos baixo; é solitária fala assim mesmo, parece disparada a corda. Mas nunca estando só, pois a casa é um entra e sai, sai um vêm dois, às vezes os de fora, comadres de quando era católica nada fervorosa e aí trazem também os filhos que sabem com sabedoria se desentender porque menino aprecia dedo-durar gritar brigar na brincadeira ou por ela e aí mamãe interfere – fica uma ótima bagunça boa na sala na cozinha na área de lavar e estender roupa e dona Maria não pode direito brigar sozinha com seu Mateus, cada vez mais rabugento e até insuportável, quando alguém desavisado lhe presenteia com caninha daquela boa. Mas não é só dona Tita, tem de sobra os que trazem e levam os disseram que me disseram, a coisa vai num crescendo até estourar num pandemônio.
          Os homens não conversam fiado no serviço, só fiado com os colegas na carroceria do caminhão indo pra roça sem qualquer garantia; só conversam fiado, mais o Luís que é bocudo à beça, somente batem-boca quando em casa no domingo; de noite ao voltar não esperam o fim da novela das nove, só as mulheres que vivem vendo essas porcarias na televisão, aqui pegando pior que em São Paulo devendo ser a questão da antena que não para quieta; elas ficam a assistir, os sobrinhos dormindo no colo e é preciso levar com cuidado pra cama, onde se amontoam qual porcos misturados entre si esparramados nos colchões baratos pelo assoalho frio. Eles não, não há tempo para conversa-fiada e dormem logo só podendo ver inteira a das oito. Porém as mulheres! é um leva e traz, um sai e entra, a Zizi matraca só um pouquinho, agora tem sua casa que o Tonho alugou, ele mais preparado e econômico, tem inclusive um calhambeque e pensa quem sabe ir vender qualquer coisa aos capiaus nas imediações onde o carro possa não encalhar. Cavalo não encalha, mas ninguém nunca foi de grandes lados com animal, eles dizem ‘animal’, em não ser o pai, Seu Mateus, estando com a língua solta de cachaça, ainda lembra e conta causos dos que participou na sela, os filhos meneiam a cabeça desamparados nesse momento, ouviram o milésimo contar, os vizinhos e os parentes mais longe chegam mais perto, ouvem, contam eles os seus nuns rebates a bravatar e isso é o caboclo, não mais. As outras mulheres têm a que ficou em São Paulo ou por apreciar sofrer ou porque o marido sem meios de fugir como os outros com sua família; uma que mora ali mesmo e que não migrara com Mateus, esta com uma porção de netos a visitar a vó; as outras mocinhas ainda sem encrenca de família, apenas entrando na encrenca do falatório comum. Os homens são cunhados e tem o Luís e o Mateusinho, cada vez este mais espichado, apenas assuntam e dormem na frente da tela; quase não participam do ágape das línguas. Nelas a Juju domina.
          Dá a última palavra. Se não, não para, provando que ainda não é a última palavra. O João interfere, ela responde ríspido, continuam a conversar, o companheiro comprou a briga e tem de ouvir depois no quarto deles, misturados com os meninos, eles ainda a aprender direito a discutir para mais tarde se diplomarem. Aí alugam uma casa pequena e acanhada para poder se desentender sob o mesmo teto, inviolável como diz a Constituição. Aliás tem um ditado: quem casa quer casa. Alugam certa residência, deixam a dos Velhos, para que estes briguem mais sossegados ao som do discutir dos manos manas e sobrinhos.



22° Capítulo, aqui lamentações por folganças, a dificuldade em manter a Família

          Pronto, agora é domingo, domingo a gente não trabalha o povo a pensar no trabalho só no trabalho com patrão o delatar dos colegas e outras picuinhas; e quando a ‘descansar’ na casa não trabalha; mas nos fins de semana desforramos a matracar parolar a conversar nossos fiados (aproveitando a desentender, o que é mui útil; aos escritores cheios de prosa e aos filósofos, os poetas nem percebem esta faceta humana). Pronto, é domingo agora, agora à Família da Juju ainda de propriedade do Sr.Mateus, agora é sempre domingo: não se tem bem quem me dera ah quem me dera não fosse assim! não se tem quefazer fixo, desse tipo de trabalhar assinar ponto aguentar condução, vixe como os meninos sofriam comadre, sofriam mais de duas horas só pra chegar no cafundó de judas do serviço; depois voltavam arriados, não dava nem pra ver os crimes direito que a tevê mostrava mostra mostrará ad aeternum! pra gente ver, viam só as das oito dormiam no sofá cansados no começo da das nove, tadinhos; e a mãe... dona Maria concorda. Não têm o que fazer, pega-se biquinhos que não dão pra manter a casa, ah a molecada despencou a comer como lima nova em enxada velha enferrujada e agora deram de pedir as coisas; igual meus sobrinhos, diz Juju indignada. É todo dia dia de domingo aqui nesta casa. O João...
          Seu João não arruma nada? Nada. Tem um fazendeiro safado, promete promete promete caminhão a ele; tem o homem, é Seu Zé? então Seu Zé deixou ele guiar o caminhão dois dias, no segundo quebrou não sei quê e ainda pôs a culpa no João e pior... pior? pior sim, não pagou os dias. Ah e tem o problema da carta... Não senhora não escreveu carta, escreveu pra mãe dele e dona Pina nem respondeu, a carta de motorista, aqui é outro estado não tá no estado de poder dirigir, essas drogas de burocracia, faz bem o João ele fala “burrocracia” uma burrice sem tamanho. Nada!
          Aí, bem, pinta um trabalhinho. Pouco, coisa pouca, uma roupinha que se lava, passar é uma tristeza, outro dia o ferro queimou, queimou foi a resistência, a mãe com uns trocados comprou outra mas nós temos medo de choque, foi um choque pra todos. Às vezes uma limpeza, as outras manas também se viram como podem...
          Ah a coisa apertou demais, pois é preciso comer todos os dias e tem a doença, o Velho então, a gente tem sempre de vir aqui na casa da Mãe e vê ele sofrendo, remédio! nas alturas, o olho da cara. Mas vamos levando. Aí apertou o negócio, tem o aluguel pro João pagar, os filhos do Mateus se unem juntam pagam o deles, o João tem de sozinho quitar o do mês e tem dois atrasados, não arranja nada, arranja precariamente serviço logo outra vez a procurar, cidade de interior, pequena e sem indústria, sem recursos e o imposto, ela fala “peteú”, não dá, tem o aluguel mais próximo a enervar, ela é quem realmente paga nos trabalhos picados no salário pingado e ainda assim assobia seus hinos, fá-lo mais em casa. Em casa não dá para ficar e ainda gasta sola, sola o suor a gotejar, aquele solão e opta como os outros: vai como os homens e outra mana em cima do caminhão como ótima boia-fria.
          Capina, falam “carpir”, capina, pega o touro à unha, limpa a rua no meio do café dos cafeeiros que sobraram na fome latifundiária, ajunta vegetais colhidos, faz outros serviços e demais tarefas pertinentes ao roceiro, a Juju que fora roceira um dia e dia e dias a trabalhar trabalhando muito também na beira do rio, a bacia, a roupa, o mosquito, a volta à casa, o falatório doméstico, uns tapas na bunda dos pequenos irmãos arteiros e chorões e aí choravam mais, ela olha os seus agora grandes de pequena estatura, só o Luís é alto e já não chora, não choram mais, trabalham, ela capina tchá tchá tchá com a enxada nos golpes com a lâmina semideitada, inclinada, raspa o chão, corta a erva, cheira o mato exalando, alevantam insetos e pulam e voam e reclamam, decerto reclamam e volta ela, voltam pra cidade, tornam à casa, ela à sua, a discutir melhor e mais escondido com o João, os outros para a casa do pai a gritarem já se a mãe aprontou a janta, lavam a marmita a gordura da marmita impregnada; a Juju também passa na mãe ralha o pai rabugento, a pegar seus três capetinhas, o menor já mostra os dentes e quase não os tem, tem ele uns poucos e é uma verdadeira gracinha.
          Palavra de Mãe. E do João, que sorri.
          Por que Escriba?
          Por que o que, Boneco. Ah sim, o João sorri porque a cria é sangue dele.
          Mentiroso, os dois primeiros são do Zé, que abandonou a Juju.



23° Capítulo,  fala-se aqui: Mateus em cartas, a carta de Pina

          Truco! bate na mesa. Seu Mateus agora sem ânimo quase grita a ganhar se não ganhar ganhar no grito, bate, batia a carta – batia a enxada batia no cavalo batia na mulher, a vida batia nele, bate ainda. Está jogando desconsoladamente, não se tem o mesmo ímpeto da juventude, na juventude não sabemos não ser eterna a juventude e desregrava e trabalhava muito também a mais exigir dos seus; bebia, abusava, depois abusava da fragilidade dos familiares, pegava democraticamente a todos, só respeitando a Juju, desde petitica assim arreliando a enfrentar braba o pai; acabava a vontade e a obra surrando dona Maria magrinha fininha encolhidinha, até os cachorros não ficavam pra ver a festa, ladravam quando muito lá fora, quando Mateus não os pegando a pau, então murchavam ímpetos, os donos os seus a dormir no colchão fedorento a feder mais seu suor e às vezes xixi represado e solto na soltura da bebida. E de noite em noite de domingo enquanto a gritaria dos meninos no terreiro ele gritava mais alto a carta na mão, a malícia o trunfo escondido, zápe!? ladrão! papudo! riam, riam-se. Agora o parceiro é um conhecido, um só, do tipo que apelidamos amigo, manso, joga como já sabendo que deve perder a ganhar outrem sem precisar muito mostrar comiseração por ser desentendido nos entendimentos de jogo e riem. Dona Maria traz café sorri, chega Juju sorri também, elogia por fora Mateus ri por fora chora por dentro aquela decomposição humana estática na cadeira de rodas, a fumaça subindo dos homens, certamente o cheiro da branquinha, mas que adiantam pregações religiosas para quem já com pé no túmulo! e olham os jogadores sem verem as mulheres, elas se conversam, as causas são eternas, o matracar contínuo e o João não sabe ali perto o quanto têm a conversar, se achega ao sogro a palpitar quem sabe numa piscadela, elas não: se recolhem no quarto e vêm mais parentes, as crianças primeiro a rodear depois a se espalhar nas brincadeiras; elas não, a Juju conta o quanto possível contar baixo os segredos que vieram na carta da sogra. A tonta fala “pom”, riem-se, uma tem segurando um bocado de pão e fica como em estado absorto de não vê-lo e não sabe se o segura na mão se põe o naco na boca, tão ocupada no tramelar; Juju prosse-gue. Ela se mudou de vez para o Interior, sim é longe daqui, é no estado de São Paulo mas lonjão da Capital. Vendeu a casa de Pinheiros e antes que a italianada enfiasse tudo no rabo (ela usa essa expressão, a qual não mata matuto no mato e fora na cidade num susto) antes comprou casa em Serra Grande, diz que é pequena mas muito maior que esta porcaria de vila. O João...
          O João acha que pode achar serviço lá.
          Debatem a encrenca que é morar perto de sogra, pior mesmo dentro da casa da sogra e a Juju nunca aceitaria, não fosse por umas semanas. Quer um dia sua propriedade, fugir do aluguel, o de agora não consegue pagar um mês atrasado. Quem sabe se ela mesma não vai melhorar trabalhando nalguma coisa fixa, nunca foi vagabunda, nunca temeu o batente, lembram-se da roça?! aí recontam a roça, a do tempo das Raízes, contam recontam a recontar, a vida é um recontar. Também um esperar.
          Logo, logo aqui costuma demorar meses, não tem paciência com os dias, logo põem todos na cabeça fugir de Santo Antônio, um santo fútil que só pensa em casório, hoje ninguém mais quer se casar nos conformes se ajunta, para brigar não precisa papéis e menos padre. Aí falam do novo pastor, um velhote que veio de Curitiba. Picham os irmãos, pilham os fora da linha, contam comparam, alguém quer ler um trecho da Bíblia do culto da quinta-feira, os manos machos também se esparramam pela cama, parente se senta no chão e até na cadeira, alguma de depositar roupa a passar ou empilhar travesseiros, o guarda-roupa estroncado e pequeno demais e que se pode fazer com esses móveis de segunda mão!
          Já pensam, se se concretizar e antes de se concretizar, já pensam nos sofrimentos de mudança: é um vender barato e dar as coisas, para depois adquirir o mesmo a preços nas alturas, onde a gente se fixar. A rotina da vida, apertos-desapertos-apertos. E sonhos.
          A noite, a lua da noite expulsa os de fora que são de dentro, por parentes, para suas respectivas casas, os velhos e os solteiros remexem suas coisas a dormir a descansar, para cansar-se noutro dia.



24° Capítulo, para se constatar o sono o sonho a realidade do sonho

          Juju não vive a sonhar como o comum do ser, ser forte e marcante; não, sim vive; o homem vive a sonhar, sonha dormindo acorda sonhando vive o sonho da realidade, às vezes exagera um pouco, bastante mesmo. Ela sonha faz planos, discute os planos com o marido, leva o sonho à parentela pra sonhar a realidade. E sonha também. Nesta noite o pequeno está indócil e febril, remexe sua quentura, ela se levanta quase não deita o corpo cansado pelo trabalho incerto, todos a querer explorar os que imploram até oportunidades; deita-se em cuidados, dorme em sobressaltos, o João foi ele sozinho a tentar na cidade da mãe a sorte, a minorar depois a sorte da família e quem sabe, a Juju já fala nestes termos: quem sabe se não possa levar a mãe, dona Maria vai e leva toda a trempe, e se desloca com sua família e as famílias dos outros filhos na Família do Mateus, parecendo ciganos a montar desmontar montar suas barracas pra vender tachos nas suas carroças, o povo que fala, o povo que teme esses andarilhos e dizem por aí até que antes roubavam criancinhas e a Juju se levanta para ver outra vez seu capeta menor futuro chefe dos capetas, os subalternos, mesmo sendo estes grandalhões, eles dormem e irão obedecer o embirradinho, agora? agora dorme também indormindo, choraminga, chama a mãe, a mãe corre e lamenta estar só, o marido viajando, ah meu Deus será que dará certo! E voltando dormindo a dormir, mais ‘dormindo’ que a dormir de sono solto como se diz, aí sonha, o sonho que é rápido igual pensamento e se for pensamento represado, ah deve ser mas se encontra abafado como abafada vivia na Capital monstruosa de grande. Está a se deslocar não sabe se indo se vindo, já dentro daqueles ônibus após a fila interminável a dever para ter direito entrar ao menos no veículo; sentar-se! mas não pretende prêmio nem privilégio, precisa apenas chegar, onde? e se espreme e espremem-na, massageiam seu ser, têm os engraçadinhos e sem-vergonha a passar a mão aproveitando oportunidade, um dia dou num beliscão, pensava noutro dia furá-los com agulha, mulher tem sempre de reserva na bolsa alfinete e agulha e mais mais, será que não iam à igreja! não, claro, essa gente na baixaria e nos pornografismos mais não creem sequer no Senhor, Senhor daí-me forças; e prosseguem, não na ânsia de chegar, chegar tomar outro ônibus outra fila outro amassar outro sem-vergonha e outra vergonha... Assim fica ali perdida no mundão de gente, número, nada, negação de gente, gente por quilo à estatística, para a estatística mentir para valorizar políticos, políticos se beneficiam de toda sorte de nada, de azar dos pobres, e espera. É esse! aquele! vem outro, passa o 150, vê o 755, seria o 1004 ou a linha número 34, quase não vê, quando vê está sendo empurrada como os outros sofrentes para dentro do coletivo e é mascada mastigada maltratada pelo todo que se espreme aperta empurra puxa e expulsa. Expulsa pra fora, ainda bem não precisou ficar dependurada no trajeto, metade para dentro metade para fora e tem é muitos a se arriscar assim e aí é um ganho naquela perda. Anda agora lentamente na rua, parece que morreu porém sente que nasceu, renasceu na luta dentro dos ônibus com cheiro ruim de gente, com cheiro de perfumes baratos, com cheiro de marmita comida e marmita quente com cheiro de sanduíches apressados de mortadela e se irrita com o hálito da gente, será que escovei meus dentes, pensa a Juju, agora a andar por entre pessoas apressadíssimas a esbarrar caipira lerdo e que não guarda a direita, a rua é torta mas é a Direita e vai desembocar na Igreja, a Sé é como é, linda, feio o que se prega, ela que pensa, agora pensa evangélica fala crente e é protestante mas anda nos conformes da religião. Alevanta-se afinal, iria ficar a enganar a cama! e se lava na pia que fica só pingando e se lembra que viveu o sonho qual o sonho dispôs, na realidade; e que fugira ela eles todos na Família do Sr.Mateus da Capital a tentar o Interior e agora estavam à beira se mudar de novo por não dar certo mais aquele errado. Se enxuga e volta antes de fazer café próprio a despertar matuto pra ver o pequeno, ainda febril mas mais calmo e a noite já se fora, a noite é a maior inimiga a espreitar os doentes e as mães vivendo essa tragicidade de morrer.
          Bom-dia dona Maria, Maria igual a mãe, e conta à vizinha como contará depois aos seus seus planos e também da noite em claro.
          Esqueceu Juju a luz acesa!
          Ora bolas, como é? Boneco, quem falou em luz. Decerto apagou a luz para acender somente no ver a criança; isso não sei. Você tem cada tirada.



25° Capítulo, pra ver a assembleia familial, o parto em partes

          Ele não tá nem aí, é o chefe do clã, destronado pela vida, pelo andar da carruagem, os cães a ladrar o povo a viver seu próprio drama, vez que outra apenas a tomar consciência da inconsciência, o povo a assistir; tem aplausos tem vaias tem indiferença, a indiferença que experimentamos frente ao drama do irmão. Não obstante fervilha o chefe a curtir sua limitação e os filhos ao lado; eles espalhados e atentos na conversa parente, na gravidade das decisões, toda decisão precisaria ter este tratamento e não o impensar. Eles vão além e se chocam se desentendem no entender. Ele espreita os outros, é como o sol apagado a lua sem vida a refletir as raivas do sol, indiferente na aparência. Só na aparência. O radinho grita grita seu estrilo fanhoso na moda sertaneja nem sempre sertaneja e quase nunca de raiz agora que o homem vira caboclo urbanoide e pensa carro e pensa telefone ainda não pensando microcomputador por não haver o instrumental chegado nessa terra de ninguém. Grita, o locutor fala alto sua fanha, decerto entendendo que o velho chefe anda surdo, fala alto não por não haver deglutido lauta refeição no seu lar, mas pela refeição do aparelho, que as pilhinhas, as quais Mateus lê com dificuldade “indústria brasileira” ah que raiva também a vista se vai ou se foi! as pilhas fracas quase a vazar (antigamente nos bons tempos na roça tinha rádio grande e pilhas de mil horas a durar oitocentas ou setecentas apenas e que falava bonito à caipirada por volta, compadres e amigos os parentes o Sr.Mateus era o centro do Universo, agora...) elas fraquinhas fraquinhas, quem sabe melando lá dentro e o radinho é japonês – único tesouro trazido da Capital. Ele chocalha chocalha, o que faz empurrar mesmo a fumaça do cigarro, o cachimbo entupido, tanto chacoalhar o rádio, parece até melhora e grita mais menos rouco, somente os seus fazem um berreiro no falar desencontrado e, pensa o Rei-destronado: por que gritar e gozar os italianos (ele fala “us intalianu” sem concordância) por que, se tramelam altão se enovelando às vezes, a ponto tal que atrapalham o locutor a brilhar nos anúncios da Casa São Jorge de Santo Antônio! Mas não adianta reclamar com eles, não ouvem não se ouvem e não ouvirão o pai. Abalança a máquina de mentir propaganda e sertanejos, chupa acende reacende chupa chupa traga assopra, a palha estará molhada? Eles não sabem decerto, agora com essa porcaria de ser crente não querem fumar nem trazer fumo do bom e palha escolhida a enrolar o tabaco; olha o canivetão quase imprestável de picar, antes levava dependurado com chaves na cintura, teve aquele dia em que usou o canivete para... para que lembrar se anda atirado às traças! Aumenta, quase sem adiantar, o volume dos gritos do ‘espíquer’ e a sanfona invade apenas seu redor num mundo. O mundo lá fora, dentro de casa quer é pegar fogo.
          O Mateus, o Mateusinho que agora é maior que o pai especialmente o pai na cadeira de rodas e encolhido no seu fim, seria o fim ou o começo do fim... o Mateus inclusive ele agora perde a serenidade, pois fala mais manso ou baixo que os manos, elas falam fino e alto eles falam grosso e alto e ninguém chega a vencer, ele perde a paciência: e se não der certo! A prudência nunca matou ninguém. Teriam condições para ir ao desconhecido interior paulista. Até a cidade é desconhecida, ninguém nunca foi a Serra Grande, não se sabe onde fica, ninguém sabe. Alguém lembra o João, o João conhece, a mãe dele comprou casa lá, falou a Juju, falam. O que a Juju sabe disso? E todos se assustam, ela costuma dar a última palavra nas coisas, inteligente experiente sofrida, ela sabe das coisas. Mas isso não sabe: não foi lá. Onde tá a Juju. Lembram o sobrinho doente, ela a lavar roupa de fora em casa, antes ia nas freguesas lavar passar fazer as coisas. Destrambelham a lamentar a sorte das crianças, havendo o mote do doentinho do João. Mas crianças, dizem, se adaptam em qualquer lugar, os grandes é que precisam de emprego, ou como pagar contas! Todos têm seus atrasados, não adianta parar de lutar ou é a vergonha. Uma coisa é certa: todos têm vergonha na cara entre nós. Arriscar! Uns optam por mudança, outros a ficar, tentar mais um pouco; ouve-se prós e contras, dona Maria é muito pelo contrário das coisas, teme até abrir a boca, interessada nas coisas que os filhos dizem; corre um pouco sondar o que o Velho anda fazendo, não anda, ouve o rádio fuma faz uma careta a ela só ela entende, volta ao barulhar no dizer do que se diz: o povo fala na casa em que falta pão, todos gritam, ninguém tem razão. Não tira a razão de ninguém, ama os filhos e netos, não diz isto nem aquilo, se tranca, ri a um olha para o lado de outro; não se entendem. Aí chega, para mostrar seu cansaço, a Juju.
          Guarda o filhote enrolado na cama da mãe e volta pra sala onde se discute, agora numa pausa a querer saber do moleque, os outros meninos estão na correria com os primos e já brigam entre si, coisa sem importância pensam os adultos – mais qualidade tem o desentender dos grandes, manas e manos se cruzam no debate. Por fim resumem suas respectivas razões para a irmã mais velha saber opinar; tinha a mais velha ainda, casou-se e cuida de suas trabalheiras e além do mais dominada pela sabedoria da Juju; e havia outra mais velha ainda que a mais velha, a qual saiu de anjinho pequena na roça e agora não tem mais roça, esta saída de anjinho nos dinheiros dos latifundiários. Olham em expectativa Juju.
          Acho que... opina, exige, goza até os deslizes parentes; pesa, argumenta, confronta argumentos, lamenta a sorte em que se encontram, vê as possibilidades, afinal só perderam até aqui. São Paulo é São Paulo, não se fala mais nisso; Santo Antônio foi e está sendo um andar para trás. Vamos esperar o quê! Eu já decidi, vocês são os donos de suas vidas. Ela diz assim não pensa assim, ao menos assim não age – quase sempre toma decisões, impõe a fortaleza na fraqueza, é mesmo quem vê pela Família. Sabe que sub-repticiamente leva todos, desconfiados confiantes e indecisos, todos ao seu caminho, o caminho que trilhar; anos agindo dessa maneira. Não, nunca perdera batalha, na iminência negativa fala fala fala, solta os cachorros como se diz, vence no grito, suplanta o terreiro. Agora a decisão é pesada a seu ser. O marido enviou carta, até bem escrita às suas poucas letras, ela lê, trouxe consigo o papel, arranca a folha dobradinha da bolsa e comunica, rateando nas palavras mais compridas dos belos garranchos do João. Acha o homem haver possibilidades, pois está em experiência como chofer de caminhão numa empresa de Serra. Conta outras coisas, sugere que os outros possam empregar-se.
          Instaura-se o zum-zum na assembleia familial.





IV parte – A Família: Problemática e Atualidade



26° Capítulo, aqui uma conversa com o Boneco – antevisão de como será a IV parte

          Bonequinho de meu coração...  
          Meloso!
          Tá bom, Boneco. Mas encontro-me num impasse ao concluir a III parte, no limiar da IV.
          Ah já sei, os algarismos romanos que não sei ler; acertei na mosca? Não lhe disse, Escriba, não sugeri a você o uso da numeração arábica, assim 1-2-3-4-etc..
          Ih, menino, antes fosse isso.
          ?!
          Seguinte. Pensei até em matar a Juju, de resfriado, tá bom, tuberculose como você me desejou; não sei o que faço.
          Seu boboca, se assassinar a coitada, minha protegida sabe? bela, falante, mandante, aí acaba o romance de uma vez; ela é o sustentáculo é a coluna mestra: mata a personagem, derruba todo o edifício. E sem a mesma os outros personagens não valem tostão furado. Você é bo-bo-ca.
          Deve ter razão.
          Claro escribinha de meia-tigela. Pior ainda: compra briga comigo. Saiba duma verdade, sou jujuzista e não abro. Ao contrário, fecharei, viro um túmulo; fecharei a boca para todo o sempre!
          Amém. Esqueceu-se do amém, meu patético ‘pedaços de pau encaixados’. Todavia dou-lhe ainda razão. Chega. Já não mato.
          Ganhei.
          Ganhou. Aos vencedores as batatas. A minha me assa a mão... Vamos lá.
          Onde?
          Ora, modo de falar. Vamos para a frente.
          Enfim, como estamos – a Juju e sua trempe se desloca do mato para a Capital paulista; desta à cidadezinha, mais vila com prefeito e este sendo político deve ser uma porcaria; agora reune sua manada e quer vaquejá-la ao Estado de São Paulo, vizinho do Paraná onde estão. O esposo dela, que não é tão banana como o Boneco pensava mas...
          Não pensava coisa alguma. Você, seu incoerente, vocêzão não vive a lamentar meu sono! ora, não se pensa dormindo.
          Não se pensa dormindo? a pensar. Seja. Mas não lamento isso, é que acordado não me deixa falar as coisas.
          As mentiras, quer dizer; e mente deslavadamente seguidamente mente que mijo nas suas pernas.
          É mentira!?
          Sim, mentira, visto  eu estar sempre sentadinho numa só de suas pernas.
          Chega de ‘minhocar’ besteiras, oh Boneco. Vamos enfim ao que interessa.
          Agora a Juju e a Família da Juju, inclusive o ‘Chefe’ presumível ou nominal da Família, se deslocam para outra cidade, paulista, maiorzinha que Santo Antônio. Começar vida nova.
          Não obstante só o João tem emprego. Recebe o salário, economizou refeição, ou paga pela firma ou desapertando na Mamma, engole o macarrão dela com molho, decerto sugando a comida a fazer um barulhão e se lamecando a boca e não limpando os beiços mais na toalha da mesa como o fazia em criança com ralhação da mãe; enquanto isso a nora da Pina assopra aos seus lá no Paraná: “ela diz macaronada engolindo antes do macarrão um erre e volteando a letra”. Intriga da oposição? Em Serra o marido da nora de Pina também terá economizado dormindo na casa materna; nessa altura certamente tendo alugado uma casa a receber sua família. Com esse numerário recebido, descontada a economia feita, o João manda com um conhecido parte a entregar no Paraná à mulher. Ela paga umas continhas safadas, a da farmácia que não passa de botica pobre e pequena é grande; dá emprestado um pouco aos manos a fim de pagar a mudança. Eles se reunem, unem forças, ajuntam o ganho na perda como boia-fria: as meninas, eles as chamam ‘meninas’ como antigamente na roça – elas trazem seus trocados a ajuntar pra somar a quitar o carreto no transporte dos badulaques; até dona Maria quer dar moedas e notinhas a custo guardadas para emergências, não conhece demais o dinheiro mas sabe a que serve, os filhos não querem, acabam por aceitar (o curioso é que no meio da dinheiraminha têm umas notas antigas já sem qualquer valor e a pobre desconhece). Pagam ajuntam os trecos, encaixotam, abarrotam o caminhão do homem, também conhecido dum compadre, do tempo de católicos ficaram tratamentos e resquícios da antiga religião. E nisto de levar mudança, é claro, vendem baratinho os móveis mais desajeitados. Despedidas.
          Não apenas Juju tem os olhos vermelhos. Os machos apertam nos abraços os conhecidos. A caravana em ciganagem parte. Parte ao desconhecido!
          Acabou, Escrevinhador, uf!
          Começou.
          Vixe!
          Vixe sim, agora que se inicia a continuação. Você, Zé Burrinho, meu ‘ventriloquado’ boneco de pau, entendia não entender que até à página anterior a esta conversa nossa não havia eu dito o que se devendo falar; portanto deverei dizê-lo desde esta linha! Então, Boneco, volte à caminha, à perna esquerda, bom sono. Vá antes desapertar no mictório pra não mijar em mim, seu bruto!
          Foi.



27° Capítulo, onde a Juju me apresenta Véio da Silva, “seu criado” diz o vizinho

          Tamos cá neste ano de 2005, curiosamente vivos, aguentamos as regurgitações do planeta, engolimos o mal feito bem feito dos políticos, pagamos nossos impostos direitinho desde os tempos imemoriais – no caso da Família chefiada pelo Sr. Mateus e a de João de fato pela Juju, ela pagando tudinho desde as Origens no meio rural paranaense, passando pela Capital Paulista e de novo no Paraná agora no meio urbano e daí vindo para Serra Grande que é pequena em vista o tamanhão de São Paulo, Ela, a Família, a quitar a gritar a espernear mas pagando impostos também – enfim quites todos com os deveres dos direitos, a sermos povo; pagamos desde o desde até hoje e hoje é diferente à Família. Ela se encontra estabilizada (um vocábulo bem sem-vergonha e incapaz). Tem casa tem carros tem subfamílias qual braços duma árvore com mil folhinhas, que são umas gracinhas a barulhar a vizinhança e a brigar na vizinhança e que nesta hora do relógio já foi à escola na vizinhança; têm o tronco o galho a folha o fruto, bendito é o fruto do hoje, numas belíssimas consequências, fundamentando um estudo psicológico em bom exemplo à sociedade pacata comum e ao homem pacato comum, a entender o ser. E já é bastante: nos preocupamos demais a entender o homem; ficando mais fácil quando nos dispusermos a ajudar o homem.
          Encontra-se Ela (Ela maiúsculo sempre será daqui por diante a Família) guiada por Ela, Ela aqui a Juju. Ainda. E ainda não despencou, embora as  I, II e III partes mostrem balanços gingados precariedades e precipícios mil em volta da Família – não obstante não despencou, se fortaleceu, tomou mesmo feições novas ou diversas, a se confundir a Família com outras famílias pequeno-burguesas. As mesmas ansiedades, as mesmas contrariedades, os mesmos problemas, quase com as mesmas configurações consumistas a caracterizar nossa rica excêntrica ou tão somente pobre época.
          Bem. É isso. E os meandros? e os personagens como se encontrarão agora? o que teria Ela que as outras famílias não têm? A tentativa minha, a tentativa em mostrar as diferenças, quiçá a descobrir se descobrir algo único na Humanidade! essa tentativa far-me-á o literato mais feliz da Terra, a poder então dizer: valeu a pena.
          Mas aqui esbarro num pequeno desastre, tão pequeno que desaparece como desastre: meu Boneco não fala mais pra me deixar falar, contar a Juju! Fiz uma cirurgia no outro companheiro a emudecê-lo, pois falava demais, exaurindo-me as forças e meus talentos ventríloquos. Optei a fechar sua boca tirando dele os cotovelos, porque falava pelos cotovelos, estouvadamente. Parece até mentira! me falei falando agora eu a mim mesmo: estou livre para dizer as verdades (mentiras falava o monstrengo de pau sujeito até me ‘xixar’ as pernas; já se pensou na vergonha que sentia, eu sentia!) sim a dizer verdades que devam ser ditas. Uf!
          Sim, uf, mas e agora...
          Estava justamente a me sentir leve, como alguém que entrega a declaração do Imposto de Renda ou sai do Cadeião superlotado com aqueles infelizes a nos gritar gracinhas e os funcionários a rir pelas costas do ex-presidiário. Quando me aparece a Juju. Bom-dia Seu Escriba, quero apresentar meu vizinho Sr. Véio da Silva. O Velho: prazer, seu criado. Tô ‘ferrado’ pensei me assustando no íntimo, por fora sorrindo ao Caco na minha frente, apertando aquelas mãos asquerosas, sabia lá se ao menos havia ele lavado as ditas mãos! porque o homem comum é contra todas higienes. Então quase corri ao meu Boneco ‘descoisando’ seu cotovelo pra que me ajudasse; aliás, fi-lo rápido, em pensamento, voltei ao Velho e respondi hipocritamente: encantado, se precisar da gente a gente tá aqui pro que der e vier. Sorriu ele, ela na frente ele seguiu sua bengala, indo ambos com desenvoltura, estufados de satisfação (‘ambos’ aqui porque suponho que a bengala seja lúcida sentimental e vaidosa como o Dono). Fiquei a olhar o sujeito sumindo na rua, esta rua Paraíso; eu a sorrir à Juju, partindo também a moça, claro que não é mais moça; ou a sorrir dessa moça por entulhar-me as bem-aventuranças do seu Vizinho, eu no ato a pecar por não crer.
          Mas e o Velho. Véio da Silva, como se diz chamar na pia batismal e diz o mesmo a Juju, é um senhor de idade, bem avançada, quer dizer ‘cacavelmente’ correto, zarolho, manco, surdo, desses que você diz bá e ele ouve má, você diz urubu e ele tapa a boca (devendo fazê-lo à orelha de abano) tapa envergonhado das vergonhas que tem lá dentro. Ah, um dos olhos dizem não ter mais de 10% de visão, o outro com 70 mas vê vesgo e portanto a estatística e a matemática devem consignar 40% de visão. Tem um chapéu, uma veste completa, a qual nunca tirou, suponho, maldoso, por nunca ter visto a troca de muda e quem sabe por não apreciar eu cheiro de gente; é claro deva pôr as ‘limpuras’ no banho sabadal. Os sapatos gastos mas bons. Que mais notei no Vizinho de Juju? não me lembra mais nada minha cachola.
          Ela me disse que ele é enxerido (não fugi da Juju, ela a precisar ir lá em cima às compras me acompanhou e daí se aproveitando a pichá-lo, no que gostei: aprecio os podres sociais para contar – é do meu métier). Disse: enxerido, mentiroso, olha sempre pelos buracos do muro que divide as casas vizinhas; um dia pôs uns bancos e caixotes a subir pra ver o meu (dela) quintal! escorregou, caiu, pronto-socorro, gritaria, uma vergonha! Porém um bom vizinho o Seu Véio.
          Aí me livrei da Juju e do Véio por extensão.
          Dei graças a Deus. E por outro lado dei graças pelo a-chado; pois como saberia o que vim a saber do agora da Família, não fosse o Véio!
          Procurei-o, ilustrei-me, passo à frente como me contaram, só inventei os inventos de linguagem, mesmo porque se fosse reproduzir a de Juju morreria de vergonha (me envergonho no lugar dos outros que se não envergonham em falar errado concordar errado pontuar errado o seu certo); e se fosse dizer ipsis litteris o falar do Véio como o Véio me narrou – não entenderia sequer o conteúdo a poder mentir minha verdade quem desejar ler-me. Isso.



28° Capítulo, neste capítulo a apresentação, de fato, do Véio

          Bastou um, unzinho só disparador, ou apenas mote ou queijo-seco-duro entalado no bico da ratoeira, então o rato vem chega olha sente fareja pressente aquela gostosura branca cheirosa e daí abocanha e prende (o que lhe prende) e dispara o disparador, o qual dispara a arapuca a qual se fecha aprisionando o rato! – neste caso o Véio da Silva, tadinho do burro a perdoar-me antecipadamente e todos muares a ofensa, o burro qual rato o Véio igual o rato pra ver o queijo da Juju e a Família da Juju e eu, eu ex-Escriba do Boneco, apareço e seguro o olheiro que me dá o serviço...
          O Véio veio e me conta (no habitual: não vi não ouvi não sou testemunha de coisa alguma, não me comprometo, num tô nem aí) me conta que, dois pontos.
          A Família reunida, a bem da verdade o Mateus, o Mateusinho pois o Velho Patriarca enterrado, ele a viúva Mãe, dona Maria, as crianças em volta ouvindo o que não sendo de sua continha e ficam a brincar-brigar todavia entram nessa parcela familiar, o Mateus lembra uns esquecidos duma encrenca entre eles e o Ciriáco, no Paraná, o difuso Paraná das referências constantes; lembra outros senões das famílias conhecidas e seus conflitos dívidas e safadezas, então completa: a comparar com as outras a nossa é uma Família Santa!
          Isto é tão grave importante e estapafúrdio que o Véio quase engole quem sabe a língua e antes a dentadura postiça que ele fica manuseando com dita língua pra baixo e pra cima vez que outra pra fora, ai que nojo! e me lembra: o senhor não me prometeu um gole? Vem o vendeiro, o Jorge, consulta antes dona Matilde se pode e ela faz de cabeça que sim, vem ele e enche o copinho de vidro grosso cônico com a boca voltada pra cima mais perto da boca de meu convidado; consulto eu os bolsos e concordo com dona Matilde para que ela concorde com o esposo, o esposo derrama o líquido branco ou transparente a cheirar cana no copinho. Véio emborca duma vez a coisa, tanta era a sede. Dá um estalo, limpa os beiços com as costas da mão direita, lambe em cima o bigodinho e recomeça:
          A Santa está reunida, parte da Santa. A Mãe dá corda, o filho relembra mais do mais ainda, se entusiasma o homem novo. O Mateus é o caçula da Santa, já constituiu família, se casou nos conformes com a Débora, tem um casal briguento de filhotes, a menina fala lá na frente de casa os mais bonitos nomes feios, ou porque elinho não quer entrar no portão deles para continuar a molequear no Paraíso, sabe que nossa rua é Paraíso! (aí despeja contar das origens do nome, nomes anteriores, cita o mapa da prefeitura, que ele lembra como ladrona, enfim um horror nas minúcias e voltinhas; tenho de lhe relembrar a narrativa anterior:) então, ou porque elinho não quer sair pra rua molequear e aí ela não pode ficar em paz com as colegas dela pra pôr dançar gritar seus rocks e por isso brigam mas brigam melhor por ciúmes quando um ou os dois genitores presentes. Ele, o Mateus, conta mais coisas à Mãe dele, coisa que ela sabia antes de pari-lo e dizem que deu um trabalhão danado, ou porque o menino não querendo vir à luz ou porque grandalhão e não passava, na roça Você, o Senhor digo, sabe que viviam na zona rural no Paraná, não sabe? bem; ou porque dona Maria já era velha e estragada para gerar menino e o Sr.Mateus não tava nem aí e fazia e mais fazia filhos na matriz, dizem haver outras filiais e mais menino de contrabando mas isso coisa do tempo e das ‘machuras’ que imperavam, e fala que Seu Mateus chupava bem uma caninha, ah como esta está estava boa! (reticências). Então, o Mateus relembra, ela relembra, se contam se recontam e aí dona Maria cai na vida e... Não meu nego, desculpe-me, Sr.Escriba, é Escriba não é? não é que ela foi pra zona, credo em cruz, mulher decente, família decente, não falei que falou ‘Santa’! não, ela caiu foi na real e apreguntou coisas de agora. Agora? vixe, meu caro, a coisa tá feia. O Mateus comenta lamenta enfrenta dificuldades e diz textualmente: “Mãe, um carro popular custa 23 mil real!” assim concorda a concordância dele e não concorda com a dos gramáticos; nenhum da Família concorda. A Chefona mesmo concorda assim: um, dois, cinquenta real, tudo no singular; é assim. A Mãe? concorda com a discordância e com o Mateus. Aliás a Velha não conhece dinheiro mas pressente que é dinheiro grande a quantia dita e se abisma pasma se assusta. Aí voltam às conversas mais amenas: picham os seus; só vez que outra os de fora. Têm vários desafetos que se engalfinham bem até agora, desde as Raízes passando pela Ciganagem por São Paulo, aquela loucura doida, e depois por Santo Antônio, em que o Mateusinho desconhecia a santidade dos seus; sempre se chocaram e se chocam até hoje, hoje.. ah hoje é segunda-feira, não gosto de beber na segunda, tomo só mais um copo da de primeira, se o meu amigo...
          Jorge, digo eu, Jorge põe mais um pro Sr.Véio. Ele olha Matilde, Matilde me olha maliciosa, faço sim de cabeça e o líquido jorra fazendo aquele barulhinho característico de escorrer. Não, isto é exagero, nem eu que não sou surdo como o Caco escuto. Enfim sobe o cheiro a canaviar o ambiente; como fosse um engenho a cheirar baforando todo planeta.



29° Capítulo, para ouvir o som, será o benedito!

          O Sr. Véio está? diz-me estar, está indignado com a Santa. Um de seus membros, o Prudente, jovem belo forte possante etc. e tal, arresolveu ouvir música, ouve sempre e toda hora, agora a se forrar no desemprego que assola o país e o escolheu como ótimo exemplar, Prudente abusa do abuso e solta as frangas: põe no último o volume. Pudera, ficou três meses a construir uma caixa de som, daqueles amplificadores destamanhão, eles que falam em geral “som” apenas, abre berra inglês na tonalidade suficiente a estourar todos decibéis proibidos, a tilintar a casa do Véio da Silva, os vidros tremem, os bibelôs titilam entre a base e a poeira de nunca se assoprar (e se o Véio assoprasse decerto escaparia a dentadura, a qual o homenzinho fica à toda hora movendo com a língua a língua de lamber os fiapos do bigode quando respingado com pura caninha no bar mas agora na casa dele) e tudo estrila dentro desse fora, o dono, por força de expressão porque o dono é a dona do Véio mas ela agorinha assuntando os assuntos outrem pra ter assunto com o esposo que a Juju diz não ser e parece que nisto tem razão – o dono se arrepia se arrelia de raiva: não se pode ler não se pode ouvir seus riscados discos de vinil com aquela chiadeira pela rombuda agulha, ele se achega ao gramofone não tão velho assim é até vitrolinha simpática e fanha um sonzinho desconsolado e não obstante quando o Prudente se abre não pode ouvir os seus, tem de escutar inglês. Assim mesmo após anos não conseguiu aprender gringar correto, ainda fala ‘caipirês’ a contar o que vê e ouve da casa da Juju. Está sim, está com raiva pelo barulhão, inclusive esticando o gogó na pele enrugada e os pés-de-galinha, leia-se rugas, perto dos olhos que arregalam indignações! Que fazer? Eu bedelho: nada para fazer; ele concorda repete, nada para fazer, pois se chamar a polícia a policia não pega nem bêbado vai prender jovenzinho estabanado!? ora bolas. Além do mais entrar em atrito com a ‘boazuda’, expressão dele quando a Véia batendo perna nas imediações à cata de base para suas explicações das estórias na vizinhança e o marido sempre a desconfiar da verdade porque as mulheres são é muito faladeiras. Então iria entrar num conflito com a boa-mãe-boa por causa de sonzãozinho de nada! e a política de boa vizinhança que tanto se decanta onde ficaria?
          Que faz Véio.  Não faz nada.  Faz,  faz assim:  vai ao bar me ver, parece que simpatizou-se com meus haveres. A gente repete a dose, ele conta, reconta, relembro que já disse ontem, ontem? pera lá, que dia é hoje. Ah sim.
          Tem o caçula da Santa... (eu cortando: Mateusinho e ele:) que Mateusinho, agora é só Mateus, o velho morreu, falo do Benedito. (Olho interessado ou não entendendo). O Dito, a Juju chama o safado por ‘Ditinho’ e ele é maior que a mãe, o Dito é o Pedro...( aí não aguento, faço sinal à dona Matilde que sinalize ao Jorge parar de drogar a droga de minha boca, o Véio é a boca que conta os podres; pisco a ela para que ele não despeje mais caninha no copo dele, o Véio; argumento puxando aos avessos os bolsos, mostro as tripas dos meus bolsos a impressionar a senhora e ela suspende a entrega da mercadoria; porque afinal me parece bebinho da silva o sr.Silva, arrisco um “como pode Benedito ser Pedro!” ele:) o Dito é o Pedro Malasartes, não tem aquela estória em que um sujeito diz “mas será o Benedito?” pois é, é sim complicado, não senhor não estou embriagado, não tem a estória do Pedro Malasartes também? ora, pombas, o Dito faz coisas do arco da velha, estrepolias a extrapolar o bom senso humano. Qualquer dia lhe conto. Pois é o caçula. Este um caso de rara perfeição na malandragem.
          O sujeito... Jorge o amigo aqui... (o Jorge põe aguardente) o sujeito quando mudei pra cá, coisa de dez anos, veja bem, uma década inteira a aturar a Santa; quando vim pra cá comprei a casa e aí percebi a fria em que me colocava. Os três meninos já se engalfinhavam, assustei-me, mas ingênuo não dei muita importância. Era a chave do problema. O Ditinho, petitico assim e criava caso: inventava, distorcia, contava pra um, contava o contrário ao outro mano, chorava numa ‘vitimice’, jogava um contra outro grande, ainda meninos, daí era só faísca a subir. Os pais longe a trabalhar, eles a brincar e brigar unidos, pois dizem que família que briga unida permanece unida, sei lá, a Santa vem desde a Origem brigando e deve ser por essa razão a unidade. O pequeno, o grande criador de casos nestes dez anos, não falei que moro faz dez anos aqui e aí...
          (Recontou tudinho que eu já sabia, abalancei a cabeça, ajudei o Jorge e mais um amigo presente a levar o dono para a dona lá na casa do Véio. A minha sabedoria sabe de tanto descobrir que um bêbado quando conta o recontar não fica apenas chato: fica insuportável. Por isso deixo para outro dia o prosseguimento da continuação).



30° Capítulo, neste o pensar da senhora Maria em vômito familial

          Agora dona Maria fala mais baixo. É madrugada, especificamente dez horas da manhã e todos dormem a sono solto, o vento embora fustigue as frestas e havendo um que outro cachorro a gritar, carros a rolar e os pardais berrem seus impropérios, ela, que fala tão baixo quase inaudível, ainda fala mais baixo consigo mesma no pensamento, este que ora nos dá sensação de liberdade absoluta ora de absoluta prisão nas ideias que formulamos. Ela formula as suas perguntas e, paciente, se responde, apesar de não chegar a quaisquer conclusões válidas. Fala baixo, mais baixo por falar baixo comparando o alto dos familiares, sobretudo no alto de Juju, a qual dá a palavra final em todos os finais em que, reunidos, opinam; ninguém ouve, resguardando a pobre criatura na sua timidez que a experiência traumática no viver com os seus lhe deu. Aproveita-se que os meninos dormem, pois acordam às doze ou treze da tarde e não passa das dez agora, a Juju saiu cedo ao trabalho, a casa descansa ela cansa o pensar. Cansa o físico miúdo cansado desgastado ao bater umas pecinhas da roupa íntima, dessas que dão vergonha mostrar onde existam tantos machos debochados como são eles, bate mas bate leve, leve como seu pisar no piso frio do chão assentado a duras penas, como é duro todo empregar dinheiro na casa, sujeito a mil discussões entre os seus, o que se segue novas discussões pelas dúvidas e as dívidas contraídas e o dinheiro é sempre curto vindo quase que só da filha forte dura direta machucante mesmo, pois a Juju não mede as palavras no feitio cristão, investe duro no feitio evangélico cobrante e termina, vitoriosa, por “tá!” conclusivo. Contudo a Juju longe, o lar descansa, os homens ressonam, o vento bate, pardais cães carros impiedosos acompanham esta madrugada já quase ao meio dia; e ainda, lembra-se, tem o almoço a preparar, o dela, faz suas coisinhas separadas das coisas da casa, o café anda na garrafa térmica como hábito, só faltando ir ao Jorge comprar pão, pôr no ‘pindura’ ou pagar com pratinhas de ferro brilhante ao vendeiro guardar os níqueis ou entregar os cobres à dona Matilde, a qual na opinião de Maria é uma boa senhora.
          Molha ensaboa bate escorre pinga torce enxágua chocalha estende e olha efeito e já não vê vendo enublado o efeito.
          A Juju, diz-se Maria, era uma gracinha. Vê Juju. Juju tem cabelos anelados soltos aos vento, olhinhos arregalados, fala atrapalhado, inventa termos, as bobaginhas de crianças. Conta a si mesma uma estória à boneca que Maria fez vestindo um sabugo de milho, se arresponde e ninguém entende; todos pensam que conversa com os anjinhos, a Família é católica nada praticante e compensa como todos que ignoram: vai às rezas e aos terços, batiza os seus, faz o padre casar os jovens e tem altar e estatuetas, dona Maria é devota, sem nenhuma devoção que não autorize a ignorância, de Santa Luzia, e cuida em nome da Santa os olhos dos meninos remelentos e aí deu não sei quê neles. Elinha anda pra lá pra cá, se ajoelha com a boneca e a boneca não aprende de jeito nenhum, mesmo Juju batendo nela a se ajoelhar também igual mamãe e igual vovó que é dona Maria; dona Maria encontra-se sensibilizada com o faz de conta da menina, ainda machucada moralmente e ferida nas costas pelas lambadas de Mateus, o marido agora descansa sua bebida na cama e ela já parou de chorar, chora no momento ao ver a filha ensinando a boneca e ainda pensa será que este barrigão será outra menina-mulher como Juju ou hominho como aquele que morreu, aí chora o mortinho e chora a possibilidade a perder o do ventre por causa da grosseria do esposo, olha a imagem de Santa Luzia porém sente que ela só entende da vista e não sabe cuidar e amenizar os ímpetos dos Chefe beberrão, aí chora de novo mas a criança não percebe, percebe e não entende, apenas diz à filhinha de sabugo: “por que você tá chorando nenê, mamãe não bate mais, mas aprenda a ajoelhar!” Dona Maria não suporta também a inocência, desaba nas lágrimas, vai curar a enxurrada dos olhos lavando a roupa da casa, as calças do marido já ficam de pé: duras na sujeira; tem uns rasgos que deve remendar, ao menos para não ouvir os desaforos do homem e suas reclamações. Esfrega torce enxuga, devolve à bacia; terá que deixar de molho e corar dia todo no sol, levar pro rio. Ainda tem outros deveres domésticos a executar, deixa a filha a cuidar na reza da filhinha dela, deixa a todas a todos e some no tempo: está a cuidar ela de suas peças enquanto não acaba a madrugada da casa.
          Molha ensaboa bate escorre pinga torce enxágua choca-lha estende olha não vê o efeito, rumina suas coisas.
          O João dá uma de suas gargalhadas gozadas, ela acha gozadas; a Juju está quieta; quieta o quanto possível, a filha não deve parar até no dormir, diz quando diz que o esposo roncou noite toda o porco: teve de cutucá-lo virá-lo desvirá-lo e... O Mateus fala altão as suas coisas, parece que não elogia a Zizi ou o Tonho, distantes. Alguém mais, mais não se lembra; todos juntos. Ah, sim, não falta criança, pirralhos netos a se entenderem no desentendimento, os adultos criticam falam conversam e lá pelas tantas (dona Maria também não aprendeu hora embora olhe sempre o despertador, vê com mais segurança mesmo o sol quando tem sol a hora da sombra do sol e quase sempre acerta, sabe apenas ser manhã, de conversa, ela não: assunta e se fala fala baixo não ouvem e se ouvem ouvem mais a si, até gritam:) lá pelas tantas o Mateus, seu Mateusinho que era o dodói de Mateus, solta um impropério. Bem, mal dito, mesmo um inocente fiadaputinha ofende dona Maria, que meneia pra lá pra cá lamentando. Os seus? se riem dela, alguém eleva um pouco a pouca vergonha mais alto, o assunto que era assunto de dinheiro dúvidas incertas e dívidas concretas recheadas de bolsas vazias virou uma discussão gozativa por cima da Velha, a olhar lá em cima os filhos altos, ela nos seus cambitos no segurar seu corpo magro e fino coberto por um vestido tradicional caseiro gasto e solto, olha pra cima e reclama tanta boca suja, o que segue o sorrir e o gargalhar. Ela, a dona Maria, canta de galo um instante, fala com convicção audível para o grupo ali perto do tanque de lavar roupa que isso, aquilo, não está certo. A religião condena nomes-feios, coisas de Satanás, que eles (agora ela pisa brabo e pesado:) eles são crentes, e não pode crente de boca suja. Vai mais longe – como entrarão no Céu! Recebe mil e uma bicadas, João gargalha mas não fala, Mateus se defende a temer opinião materna ou quem sabe se não o deslize à entrada no Céu, mesmo porque anda a estudar clarineta para entoar hinos dentro de casa para quem sabe ajudar um dia no culto da Congregação e aí acorda numa autodefesa – “Mãe, que é isso, todo mundo xinga e...” nesse ponto é ajudado pelos outros inclusive Juju, ela deixa suas roupas a pingar no tanque se vira pros lados de Maria, fala, agora fala e encerra o assunto, defende lá uns insultos que ela mesma faz vez que outra e todos fazem, que importância terá um ‘merdinha’ de nada, qual o quê. Uns que não se deve, deve-se cuidar da boca orar mais cantar mais ir ao culto mais e... outros que sim mas que um xingo não atira às profundas do Inferno. E se isto houvesse, ninguém sobraria a ingressar no Céu. Mas não convenceram a Mãe, a Mãe volta à madrugada que não era dela mas da casa.
          Molha ensaboa bate escorre pinga torce enxágua choca-lha estende, a roupa verte ainda suas lágrimas.
          Uma lágrima escorre por entre a pele murcha queimada enrugada cansada sofrida de Maria.
          Porém parece que estão acordando lá nos quartos, ouve o barulho; aqui fora os pardais já há tempo acordaram e agora brigam perfeitamente.



31° Capítulo, neste o ruminar de Juju

          A Juju não, sim, pensa baixo vez por outra, não fala baixinho como dona Maria, fala às vezes baixinho, quando vê: ouve-se que fala alto até a gritar! aí amansa acalma não acalma e fica a ruminar suas coisas que são também as coisas da família. Ela, diz ela, não aguenta tudo por cima dela! e aos primeiros gritos já o Véio está ali de plantão, olhou pelo buraquinho do muro só viu a cadeira um brinquedo de menino faltando uma roda e uma parte de roupa dependurada da vasca, ele fala ‘vasca’ os outros tanque de roupa, a Santa tem é um tanquinho de motor barulhento pra burro, tanto assim nem deixa ver a conversa que sempre é sustanciosa briga na Família da Juju – aí perde tempo por nada quase ver desejando ver o espalhafato de Juju, que é bonita pra valer e a mulher dele não acha porque mulher tem mesmo um gosto extravasado ou esquisito; não vê, ouve a voz da vizinha.
          Fala alto, direciona as setas da língua para dentro de casa, talvez ao Prudente que ainda dorme seu consaço tanto trabalho que o Véio imagina como sendo o de garoto de programa e ainda ronca; talvez ao João e ao João perde tempo, faz tempo espirrou ao Jorge contar suas patacoadas e talvez aguarde que um amigo lhe ofereça um trago sabe-se lá e lá no quarto não se encontra a fugir da mulher a brabar seu azedume. Ela ‘impertinencia’ a voz e grita por todo aquele mundo por cima dela, mas não acorda o Beneditinho, será o Benedito! porque o meninão dorme às soltas após cansar tanto a língua a falar sem parar igual a mãe falando, ele com os outros adolescentes até às duas da madrugada do Véio da Silva insoniando e, pobre do Dito, não é de ferro: dorme agora, agora que a Juju solta os cachorros nos homens, que são animais a usar calças compridas e fazem xixi com a tampa do sanitário alevantada e se não estiver pra cima os porcos mijam respingam no plástico mesmo e não tão nem aí, ela é quem... é ela a quem toca limpar; e grita outra vez, só dona Maria que fala baixo e escuta alto ouve, não ouve o ouvido macho a dormir a sumir por este mundão de Deus. Fala fala mais um pouco, aí resmunga.
          Tudo em cima dela, dá um duro no salão, ônibus atrasado passagem cara desconforto trabalho estafante preocupação e eles!? eles estão na deles. Só ela agora trabalhando. No tempo do Mário (Mário é o mais velho, invectivo gritão cobrante igual a mãe, mas trabalhador: aí declina as qualidades dele, onde figura a pertinência a responsabilidade – trabalha desde anos na mesma empresa; ajudava a Juju nas despesas, casou-se, formou a sua familinha, já não se conta:) ele sim ajudava, agora tudo nas suas cacundas (bate a roupa, quereria bater o mundo, especialmente na parte do mundo em que se encontra o João o Prudente o Benedito e a tagarelagem familial de fora a dar palpites dentro) tudo, tudinho. Lembra, num desafogo e desaforo da memória, as contas pra pagar, amanhã retomará o trabalho no descanso de segunda-feira dela do serviço, descanso em serviço caseiro acumulado, os ‘fiadapês’ nem sequer limpam o quintal, custava uma enxada; não limpam o corredor não lavam não gastam no corredor o abuso de gasto d’água da prefeitura aquela ladrona que gastam no banho, Mãe! grita pensando falar normal a Juju, Mãe, não aguento pagar a luz, eles sonham e cantam no banheiro! pode? Dona Maria arresponde não, sim ficando do lado da Filhona no entanto ninguém ouve nem a Juju, que devera escutar, e aí a Juju, meneando negativo a cabeça pra lá pra cá, insiste não suportar. Ainda por cima tem por baixo na baixa a saúde; e fala e conta o sofrer, assunto em que dona Maria é mestra desde as Origens, passando pela Capital voltando ao Paraná e até aqui na Serra Grande, onde permanecem os seus mais de dezena de anos, ela entende disso, concorda. Discorda Juju: esses chupins acabam comigo; não arranjam de jeito nenhum emprego!
          Aliás é uma das tônicas desde que a Família virou Família até guindar-se à Santa – a luta por empregar-se ganhar pagar, a poder fazer novas dívidas: pois os brasileiros têm fascínio a comprar, ir para frente e para o alto, à custa nem sabem de quê. Isto a segunda das tônicas da Santa, segundo Mateus, em arroubo de patriotismo familial. E por causa desta última característica eles se endividam, têm as prestações como sine qua non nas condições do viver. Em torno disto giram as discussões os planos as memórias dos imemoriais desde as Origens a Ciganagem e a Atualidade onde nos encontramos.
          Todos, você quem lê, o Véio quem vê quer ver e só ouve e é meio surdo. Também eu que escuto o Sr.Véio da Silva, seu criado, diz ele, seu criado e ainda tira o chapéu arrasta a bengala e me deixa só sem sequer despedir-se. Não me ofendo, prossigo.



32° Capítulo, aqui falaremos no mundo de João

          Na ânsia consumista nas necessidades e prestações do supérfluo a se confundir com o necessário Ela se perde; prestações prestações prestações facilidades nas prestações, comprar, dúvidas nas dívidas, as dívidas curtas médias demoradas, eternas!? A Santa se perde na ânsia na execução e na dedução das somas para ficar no negativo psicológico. Daí atritos conversas bate-bocas intermináveis, Juju se faz ouvir e ninguém escuta, estrila. O João se considera também vítima, se não do sistema, ao menos da falta de sorte. Ao Mateus sentencia: pago com juros e correção monetária, pra pôr em balança o todo onde mais pesam os três capetinhas que os céus me enviaram, com ajuda da Juju é claro. Agora ouve bronca da mulher.
          E sai de fininho, não irá enfrentá-la quando atacada e quase histérica a remexer feridas, limpa aqui limpa ali, bate um qualquer, derruba outro, escolhe põe no tanquinho e liga a máquina e aí ambas a barulhar: ela e a máquina, esta conversa suas roupas alto e assim Juju ainda mais grita ou não se escuta, ele ouve mais e mais longe e é engolido pela Paraíso e escorre correndo ao bar, então não ouve mesmo. Porém ouve.
          Pensa o quanto tem passado na labuta diária, procura não brigar com ninguém fora ou dentro do lar, ela que estrila nervosa, ele vez que outra apenas e apenas dizendo “pô!” a fim de não dizer nada pra dizer tudo. Tudo, acha, explode nele, como bode expiatório dos desastres familiais. Conheceu a jovem na pracinha descolorida, ele na sua solteirice desempregada ou na crise; o homem tem de vez em quando tais descuidos e até chega numa fase a pensar no desastre ecumênico se se não reproduzir, o que é uma baixa importante na população. Ora, está sempre mas sempre mesmo com vontade de mulher. Mulher por aí! tem demais nesse menos, não valem a casca, numa fase nos pegamos a encontrar a casca tão somente e a Juju lhe parecera de cerne. Agora sabe que de lei, madeira dura de roer... Moral ilibada, beleza aparente, não, ainda a acha bela, mesmo após os três partos. Experiente, sofrida, trabalhadeira, abandonada por um Zé Bebum qualquer ou qualquer porcaria que o valha. Até desesperada lhe pareceu a jovem. Assim conquistou ela seu coração e assim também desmanchou-lhe o estado de empedernido solteirão. A ela? ele um italiano alegre trabalhador e sujeito a perdoar-lhe as experiências amargas; mais, muito mais, diz numa roda dos familiares a criticar a bebida do João e seu cigarro interminável ou aceso um noutro, por que, dizem e dizer é fácil, por que não optou por um evangélico? a Juju: qual crente a aceitar-me com dois meninos para criar e numa pobreza como a que vivíamos na Capital! E isto encerrou o papo dissolveu argumentos. Não obstante o João sempre fora querido na Santa, desde a Família em São Paulo e depois em Santo Antônio. Apoiaram sua iniciativa a procurar emprego em Serra perto da mãe dele; e depois aceitaram de braços abertos o apoio que o italiano lhes deu a se colocarem na cidade nova do Interior Paulista. Só alguns a lembrar o quanto eram pobres, miseráveis quase, a confrontar os bens que os galhos da Santa dispõem hoje, como casa veículo emprego, embora este sempre a título precário, que é agora a situação do restante dos brasileiros. Contudo reconhecem seu valor sua luta sua amizade, querem bem ao João, o querido Giovanni da Pina.
          O João é pilhado agora pela sorte. Falta dela.
          Ouve o reclamar de Juju, acorda cedo, levanta-se tarde, espera a esposa reclamar pela sorte e se ir ao salão lá no centro. Depois sai como ao deus-dará, sapeando por aí, um dedinho de prosa com um e com outro, bom-dia Seu Véio, cumprimenta as pessoas, sorri às crianças, adora os pequenos e a Laica. Esta cadela se engraçou com o dono, ladra as melhores alegrias ao vê-lo, a sentir-lhe o cheiro gostoso, decerto assim na opinião canina. E se arrasta o homem, num andar curioso gingado e característico, igual ao Benedito, não: o filho que herdou do pai o andar e a expressão. Agora já quer responder e gozar o genitor num conluio com os outros membros da Santa; todos querem tirar uma casquinha e mesmo quando o João trabalhava como caminhoneiro e trazia o caminhão-baú da empresa em casa, ainda aí não procurava ser o rei da cocada. Um adolescente não entende assim – se pensa o dono do mundo esbanja sabedoria na sua ignorância e se imagina perfeito. Mais ainda se um do tipo Dito dito, que parece ao Véio e o Véio me dá seu recado, parecendo-lhe ter ímã: onde está, está a trempe moleca; se se vai, vai-se a trempe atrás, qual o chefe a levar seu bando, uma horda! Agora quer criticar nas imperfeições do mundo em prática da perfeição na crítica ao pai. E ocorreu o pior, pior se se pensar a opinião do Véio.
          Então o caminhoneiro vizinho se perdeu...
          Saíra ao trabalho, pastinha de documentos, mochila com roupa e apetrechos de viagem e não chegou ao escritório da Transportadora. Alerta, busca, polícia, ninguém sabia do João. Aventou-se até um sequestro, mas isso enfeite dos ricos, roubar pobre é como roubar casa de pobre: só leva susto o ladrão. Que fazer? tudo se imaginou ao destino do homem.
          A Juju se desespera, sofre uns dez dias, lamenta e chora, se explica o inexplicável aos vizinhos e parentes de fora, o telefone trinando toda hora a saber; e aos que a procuram para saber novidades em expectativas tristes. Ela demonstra o quanto ama seu homem. Teme haver ficado viúva, ou será que o João ficara desnorteado ou cansado dos abusos dos seus! fugira? e dizendo a falar agora baixo compungida, mas e se os bandidos estiverem torturando o João! Buscam o Instituto Médico Legal, a Polícia novamente, os hospitais, conversam com todos conhecidos e colegas dele – ninguém sabendo do João da Juju!
          Nesse triste episódio, com tão negras possibilidades, o adolescente Benedito gargalhava e se ria, fazia gracinhas a imperar sobre seu bando, como se o pai estivesse no Paraíso e se encontrava longe da Rua Paraíso! A Juju cobrou-lhe posturas “você não tem amor?!” O Dito estando mais para Pedro Malasartes; ficar chocando triste a chorar a ausência? ora, iriam jogar futebol lá em cima no campinho. Foi. O Véio quase caiu de costas, assustado, felizmente é mais emborcado para frente e se amparou à bengala, não caiu. A Juju? lamentou a insensibilidade do filho, encerrou-se nos fundos da casa, no fundo do seu inteiro sofrer.
          Mas eis que um dia o João apareceu. Estava no Paraná, deu-lhe um ‘branco’ lá dentro, disse assim, quando percebeu percebeu-se andarilho sujo pelas estradas. Andou por dias e reconheceu a residência da cunhada nas imediações de Santo Antônio. Lá os seus o pegaram.
          E aqui tem início este fim, que é o desemprego do João, agora tentar a sorte nos biscates que porventura venham a aparecer. Entretanto mais fica a ouvir queixa da esposa; além ter de aceitar seus trocados para alimentar os vícios, e vício é coisa dura a remover... Ouve, escapa, quando a enfrenta ajunta um “pô!” de plantão e ela: é isto e mais aquilo, fala fala fala e conclui categórica “tá!”
          A casa anda mais no paradeiro, a Santa prossegue com seus se regurgitando, seja Juju, os outros, até o João, a se engalfinharem.



33° Capítulo, um exemplinho da arte de pegar no pé       
         
          Hoje é segunda, à Santa o dia santo da preguiça, a gente com um sabor daqueles naquela sonolência, ah que chato! Ela a Juju, não pensa assim se levanta trabalha trabalha anda por toda casa arrasta coisas resmunga resmunga bastante fala, crítica, critica o mundo e se não fosse ela... ela faria um mundo o mundo mais justo do mundo enquanto aquele vagabundo...
          Rosna e resmunga o João lá no quarto, acende bafora perfuma ‘fetidões’, arrasta chinelos, se arrasta ao banheiro e não toma banho isso é de sábado, volta ao quarto, ainda ouve a mulher, calça os botinões, arrota o almoço de antes do almoço, ao menos de antes dormitar a se fortalecer e ela não entende resmunga.
          Não resmunga apenas, apenas fala baixo, depois mais alto o suficiente para que a oposição ouça, mamãe é quem serve de sparring, não é sparring aquele servindo para treinamento do boxeador? pois é, recebe as críticas ao genro lá dentrão no tempo em que andava ele empregado de caminhoneiro, então se esforçando a enfiar as fraldas para dentro das calças, calça o cinto ou apenas geme a afivelá-lo, se ajeita se arruma a sair e ela ainda a matracar: eu falo para ele ninguém me escuta (ninguém responde um resmungo ainda a olhar os documentos do seu veículo no criado-mudo, ela não-muda e não muda o teor:) lá é lugar daquilo! A sogra do ofendido concorda com a filha num ruminar baixinho amante de paz. Ela: achei sete! por que não põe pra fora. Insiste repete diz que tem sete daquilo, ele chega perto e grita carinhoso o nome dela, ela arresponde ríspido e o esposo esclarece chamá-la a saber se viva, a viva morta de raiva solta os cachorros: achei sete lá no quarto, não tem vergonha! Tenho, e sete é o número da mentira... Ela, seis e meia então pois o fulaninho seu queridinho caçulinha quebrou uma. Um dia, mãe, levo ao vendeiro as sete e falo pra... Ele corta: chega, mulher! Ela dispara, já disparada, condena o vício condena o beber condena o fumar condena o marido ao fogo eterno dos infernos; ele berra, balança as chaves coloca as chaves no lugar de chave tira novamente as chaves do chaveiro chocalhante e põe enfim a chave de ignição a funcionar o caminhão-baú atrasado ou apressado. E ela? ela bufa critica ‘recondena’ braveja e assobia, assobia muito bem um hino velho dos novos que aprendeu na congregação religiosa e a sogra escuta ou não, a sogra dele anda, pobrinha, meio surda.
          Isso não passando duma lembrança da velha no falatório da Juju e o João a sair meio na fuga... Agora o pobre desempregado humilhado ofendido, decerto nunca terá lido Dostoievski que ninguém na Família leu nem sequer soletrou, os membros soletram dúvidas e dívidas.
          Realmente a casa anda mais no paradeiro, a Santa prossegue com os seus se insultando, seja a Chefa, os outros, até o João, a se pegarem. Todavia não só de desentendimentos vivem os que vivem; vivem também em reuniões camaradas. Aí os gritos adultos são de alegria brincadeira risos e gargalhadas mesmo, quase superam o gritar dos meninos por volta.



34° Capítulo, aqui? alegria, alegria

          O Rico é pobre, pobre como os outros parentes, mesmo porque tem de tudo na Santa, inclusive rico pobre, arrisco se chame Ricardo e o Véio não sabe, como poderia exigir que soubesse tudo! e quando o rapaz está presente há sempre a possibilidade de haver alegria no pedaço, pois estão a parentela presente e mais dois ou três conhecidos, os quais por casar-se com parentes entraram na Santa e se riem com as risadas do Rico. Tem gente contra a onda e a característica própria de quem tenha talento a contar anedotas e mostrar simplicidade no contar, não ri; alguns deste tipo são até sérios a provocar riso; o Rico contraria expectativas e já faz cara de riso ao dizer o dizer. Aqui deste lado do muro no qual me posto ao lado do vizinho deles (a convite do Véio, claro, não iria entrar, embora curioso, confesso, entrar de bobeira – ouvimos:) o cara, diz o vareta Rico ao seu público, o sujeito não prestava, porque fez isto ou aquilo; quase antes de acabar já solta a língua a perguntar e a rir do jeito dele, é o jeito o que conta nessa conta e o rapagão continua a encantar a plateia, a saber: mil parentes, mil e um pois estão todos os chegados pela chegada dum deles da Capital, aí se conta se lembra se relembra as coisas comuns, os primos cresceram juntos lá antes de se mudarem para Serra e têm muito para lembrar; as tias, os grandes, homens e mulheres embora a Juju apareça em melhores gritados, os grandes falam quase sem parar as suas coisas, vez que outra a rir quem sabe a sorrir também e se adivinha alguma expressão de tristeza, porque parente reunido logo vem a lembrança defunta e as indefectíveis doenças, visto serem brasileiros e moléstia é prato cheio a alegrar suas tristezas e então devem nas pausas alegres entristar convenientemente; não ouvimos bem bem ouvimos os meninos, o Rico dá as cartas falando rindo no contrassenso de contar e agrada sobretudo às meninas, a Simone de óculos grossos, a Elaine que é a prima mais engraçada e mais briguenta a compensar, a Luciana – todos da safra intermédia da Santa; as crianças que os rodeiam se escondem se acham e se desentendem, vez que outra a gritar um grande por injustiças, elinhas todas tem nomes evangélicos ou bíblicos, pois os crentes novos apreciam bem o Velho Testamento com seus nomes arrevezados e aí a homenagem dos pais da safra velha, eles católicos com nomes de José e Maria e o dos santos mais votados, eles puseram, se convertendo, apelidos nos rebentos todinhos bíblicos e não os consagrados, embora também bíblicos como os ditos José e Maria. Assim a Judite a Sara a Rute a Raquel o Eliel o Josiel o Jacó o Israel etc. e tal, tais os pequenos brincalhões e briguentos, fazendo um pandemônio em volta da casa; e o curioso nisto é no caso de Raquel, por terem conservado também a grafia antiga ‘Rachel’; têm os que correm ao Paraíso, que nossa rua é a Rua Paraíso me diz o Véio, como se eu não soubesse a agradar sua repetição na repetição. Elinhos se machucam e choram e correm e se escondem e gritam e interferem na conversa adulta, não tão adulta por adultos jovens, jovem ri à toa (e briga à toa igualmente) a conversar sem parar; os homens assim que se desvencilham das primas desandam a falar em automóveis motores potência ano de fabricação preço e planos a adquirir veículos, o que também atrai os adultos velhos não demais velhos, a Santa eliminou os seus idosos, com exceção da mãe Maria. Dessa forma o grupo cresce, mesmo algumas mulheres participam da refeição regada a absurdos e ilusões, porque a Santa o que tem é dívida e seus membros compram só na conversa os carrões último tipo que só faltam o computador dirigi-los, os que basta apertar um botão e... e assim perfazem uma característica marcante da Santa como definição: a querência por carros. Entra ano sai ano ainda falam sobre autos e aperfeiçoamentos técnicos. Na falta disso tudo ao alcance, ainda lhes sobram os cacarecos e fordecos pouco mais que pés de bodes, ótimos pra consertar pintar alisar lustrar limpar lavar e falar sobre as atividades, essas tão fascinantes aos elementos da Santa, ah santa mãe! diz o Véio.
          Todavia se dispersam, uns vão pra casa outros ao templo outros ainda vindos da igreja (interessante: pouco se fala das atividades na igreja, mais falam dos irmãos da igreja...) aos poucos o grupo vai diminuindo, os novos já se indo à diversão, um que outro a serviço – se acaba a reunião nada planejada arquitetada mas desejada. Sobram a Juju o João dona Maria, a qual nem se ouviu a resmungar baixo seus resmungos contra a bagunça das crianças; e um que outro sobrante todos já acostumados com o desentender particular na familinha da Juju, encrenca respeitável.
          Nos olhamos, nós olheiros ao ver com os ouvidos; pretexto um qualquer e me vou, deixo o Véio pra sua Velha.



35° Capítulo, um capítulo ao Prudente imprudente

          Prudente, a Juju já se foi, tomou o das nove ou nove e cinco que parte ali no ponto de cima, mas ele dorme; não o ônibus, o Prudente, cansado ainda, estafado ou quem sabe com esta ventania a arder as pernas da gente a gente dá razão a ele lá dentro pelo vento aqui fora. Não dou razão ao Véio. Este me carregou ao boteco; têm os religiosos católicos papa-hóstias, no espiritismo têm os papa-passes, figuras simples a achar que bastam atos externos a entrar no céu, sem precisar se transformar mudar atitudes para atitudes mais dignas, ele me saiu um papa-pinga, vixe tem é muito pê e pouco dinheiro no meu bolso; tudo em virtude desejar ser eu prudente a saber melhor do Prudente, membro da Santa, fui imprudente ao perguntar-lhe: me arrastou ao Jorge, leia-se Matilde que é quem manda no homem que manda nela e nas crianças que fizeram em comum acordo, ela olhando torto o Véio, e a mim por apenso ao velho, a troco dum Prudentinho de nada, veja bem. Tão só uma curiosidade paga em caninha; ela diz sim ao marido o marido sim a nós, tamos na conversa sentados na mesinha bamba do boteco deles.
          O Prudente, aquele moço bonito vistoso que funciona toda hora seu Monza a carregar a bateria descarregada de tanto escutar seus rocks, esse um que descarrega ouve música altona e pronto, diz o vizinho sobre seu vizinho; ouço. Esse é imprudente e pior. Tem pior! me indago não pergunto a ele ou entraria na filosofia e pior no pior: nos meus bolsos com seus lábios de esponja. Sim, pior – é violento, extremamente violento. É violento (juro eu, eu não pedi filosofia, ele me empurra seu pensar sem pensar, eu num pesar:) e digo que o violento é um sujeito que sempre precisa eleger um desafeto da hora a se manifestar. No geral tem muitos, o Prudente tem toda a família, a Santa, segundo Mateus, capítulo 35° (interrompo, pois acho demais estes voos do maluco, interrompo como estando diante dum protestante desses chatos que ficam no portão da gente a ler interminável a Bíblia; e não era o caso – citava o Mateusinho o qual falara inadvertidamente que a Família comparada às outras possuía Santidade; aí peço desculpa ao Véio, ele se vinga pedindo no meu lugar outro copo, olho Matilde, ela balança os cabelos loiros decerto oxigenados a se dizer contrariada, o Jorge nem percebe, enche o copo de meu conviva; eu? eu pra não ficar chato peço guaraná, a Matilde faz sim de cabeça, o Jorge sim de fato e tamos conversado:) não, fala o Véio, sim capítulo 35° deste seu romance. A propósito, pra que se escrever um romance num país analfabeto prenhe de desemprego e com falta de numerário, esta é da boa (corrijo: “esta não, este, numerário é macho pra valer” e ele me corrige a corrigenda:) ‘boa’ aqui é a cachaça! (calo-me, ouço:) Então...
          Então dizia ser violentíssimo meu (da Juju) Prudente. Sabe que a Santa anda em crise, não sabe? Em crise nestes últimos dias, ou seja nos dias todos dos dez anos nos quais somos vizinhos; as más línguas – quer dizer o falatório interno da própria Santa – me contaram a crise os atritos as brigas os desentendimentos; tudo dentro do sadio princípio ‘na casa em que falta pão todos gritam ninguém tem razão’ isto é dito popular (me intrometo, “será o Benedito!”) não o Dito, dito, o Prudente desama essa Santa em crise, a crise que vem dos tempos dos tempos, desde as Origens. Desama; quando nervoso, mais nervoso, pega o desafeto do dia e dá-lhe pancadas, ou noutras palavras: a destratar o adversário ótimo inimigo ou chega a dar porrada, sai de perto! A mulher lá em casa que fala assim: “sai de perto” eu assunto na espreita apenas, pacífico. Porém ouço. Ouça.
          Um dia, faz anos, andavam a fazer o cômodo da avó Maria, ela morava com a Zizi e gostava do Tonho seu genro, eles residem na rua de cima, aí brigou com a filha, a filha Juju se apertou um pouco e fez um apenso para abrigar a mãe, é disto que falo. Bem, muito boa, a água que passarinho não bebe, o quarto da velha não sei, andava já com laje, faltando telha, os meninos, meninões o Mário ou Mariano se quiser, o Prudente e o capetinha-mor, este instigara a atritar os manos num preâmbulo pra ver a conclusão da obra; os doizões subiram, não me pergunte se pela escada do pedreiro que assentava os blocos pois não sei e não minto nem invento porque não sou escriba, é Escriba não é? adesculpe meu deslize, voltemos à verdade. Aí subiram para soltar papagaio, a televisão manda conversar a conversa na sua terminologia televisiva, manda os moleques falarem ‘pipa’ e não papagaio mas isso outra coisa, nessa época aqui ventava, sempre ventou, como agora, não importa é só para explicar por que soltar papagaio por cima da Velha, da casa dela. Então lá em cimão se desentenderam, graças às insuflações do pequeno lá embaixo, eles em cima da vó como falei. Boquejaram se exaltaram e o Prudente: “ti jogo lá embaixo!” eu ouvi com estes olhos que a terra há de comer! e o faria mesmo com competência, é competente no mal nosso Prudente. Não, não conseguiu jogar o mano mais velho lá de cima – os familiares no chão, até dona Maria que fala baixinho chorava altão, a Juju imperou a ordem de descida. Desceram e só se atacaram improperiando aqui no solo, na cozinha de tomar café e fazer macarronada; a Juju dizem que aprendeu bem com a Pina a preparar essas italianices, apenas não diz “macaronada” como a sogra. Não é então violento!
          Concordei. Bem a propósito, concordava mais com minha carteira pobre e desgastada pelo amigo bebum a pedir mais uma, uminha mais somente.
          Serviram. Tomou, agora a beber devagarinho. Antes porém que o convidasse a irmos ao Paraíso, a rua, lembrou-se doutras passagens a fortalecer sua tese da violência, da violência prudente.
          Certa vez, depois desse antes, aí não falo do que vi, do que não vi – ouvi o tiroteio...
          (Interessei-me deveras, pirotécnico; se há coisa que me atrai são uns estampidos ocos do 38, do 44 sei lá, não conheço armas mas ouvi dizer a existência de AR-15, a qual desconheço também. Ele sorriu pela fisgada:)
          Ouvi um bate-boca a ricochetear na cozinha, essa mesma cozinha onde se ‘macarrona’ ao som de zombaria e xingação de longo percurso, visto chegar até minha casa, me assustando a esposa, a qual tem ótimos ouvidos a ouvir o que a vizinhança diz mas nada fala, não é faladeira; eu também não, somente escuto e ouvi o tró-ló-ló costumeiro. O João sentado vendo tevê, era domingo e o Corínthians perdia não sei de quanto, a Juju não gosta dessas violências futebolísticas, de cada dez mulheres uma apenas tolera ela não tolerando, por isso e pelo pacifismo apenas brigava com os filhos na cozinha; ou melhor, ouvia o desentender deles; num dado momento, claro: o Dito se espirrou a buscar proteção paterna ou é que torcia para que ao menos o Coringão marcasse um; deixou os manos se violentarem e cansar a língua. Nisto o Prudente (ouvi nitidamente o tilintar do talher retirado do escorredor, já falei que não minto:) nisto ele tomou a facona e quis espetar estripar o Mário. Gritaria, a Juju teve de interferir, berrar, implorar, apelar mesmo e (aí suponho) separar os filhos briguentos, quase lhe sobrando o fio da arma num desajeito qualquer. Enfim, conseguiu a paz ah a paz! Patético, não é?
          (Concordei. Temi. Inclusive pensei nunca mais ter curiosidade com respeito ao Prudente, seria uma curiosidade imprudente creio; seria desrespeito com certeza, porém meu boca meu língua Véio tinha mais; ainda mais eu fora inadvertido a lhe perguntar do João:)
          O João? ora o João não gritava porque devia estar apreciando o inimigo perder, sabe que italiano gosta mesmo do Palmeiras, o Palmeiras era Palestra Itália e aí... ah sim, da briga dos filhos não é, é, ficou impassível, o circo pegando fogo na cozinha ele na sala enfiado no sofá, decerto já enfarado pelo constante matracar da sua prole, aliás só o capeta-menor-mor da trempe é seu sangue, os dois briguentos apenas enteados, não falei do Zé Bebum a você, perdão, Senhor, a caninha está realmente boa, quer pedir outra, por favor (o Véio é mui educado). Então a Juju berrou, quando tudo pacificado, como a miséria que campeia nos casebres nacionais, berrou para ele “seus filhos se matando na cozinha e você vendo essa porcaria de futebol... não acredito no que tô vendo!” Eu e a minha velha acreditamos.
          Todavia tem mais violência do Prudente.
          Uma vez, isto vi eu e toda a rua, um espetáculo lindo de se ver, um dia o Prudente queria matar era um primo, um dos que vinham badernar o pedaço, ou melhor, vinham ajudar o Prudente e os seus a infernizar a rua Paraíso, farreando ouvindo o som nas alturas, gozando gritando, mas numa boa, como devem ser os parentes reunidos. Eles fazem isso desde meninos, a jogar bola, o primo Joãozinho, nada que ver com o tio, o João da Juju, ele do sangue da Santa mas sobrinho do tio por ser marido da tia. Bem. Aí, naquela vez, não sabendo eu as causas e para a violência não é necessário causa, ela se basta a si mesma, aí brigaram pra valer. Discussão de primeiro mundo, tudo com altas proporções, gritos. O Prudente saiu à rua a insultar mais de perto ao Joãozinho, este ligou o carrão dele, daquele tipo banheira americana importado que os ricos jogam no desmanche e os pobres adaptam na coisa um som-zão na traseira e pintam de vermelho a chamar melhor a atenção do público, o Joãozinho disparou o veículo, parou ali adiante, desfeiteou seu desfeiteador, agora novíssimo desafeto, se xingaram em regra e alto estilo, voltou de ré para que Prudente o ouvisse mais bem... O Prudente correu para dentro pra buscar a arma! daí aparecendo o tio Mateus a trancar porta e trancar o Prudente para evitar tragédia, enquanto instava ao outro sobrinho a fuga. Se foi, ficou o Prudente a chorar num ódio ou por perder a oportunidade de experimentar o revólver usado e raspado número e isto não sei, iria mentir?
          Noutro dia houve o pior, a meu ver o pior.
          O que aconteceu, perguntei ao Véio, mas vamos voltando pra casa, disse com pena de minha pobre carteira desavisada. E o Véio:
          No outro dia, seu moço (me assustei: sou quase tão velho quanto o Véio; ah entendi, apenas força de expressão:) noutro dia o valente Prudente imprudente contava com altos brados aquele seu heroísmo...
          E pior do pior do pior: os seus se riam em roda do vencedor das batatas.
          Tem razão, concordei eu a empurrá-lo amigavelmente rumo à sua mulher, nessa hora certamente a fazer almoço. Então me despedi dessa forma do Véio.



36° Capítulo, a tratar do enterro de Mateus

          De repente Mateusinho virou Mateus. E tal mudança custou lágrimas e ranger de dentes.
          Fazia muito o Sr.Mateus andava parado na pior dentro do pior estado de ânimo, entregue. A Juju se preocupava, o Mateusinho no fazer mais que de costume as visitas ao pai, este e dona Maria a viver na casa da Zizi, a Zizi preocupada a falar baixinho com o esposo Tonho, os netos os filhos os outros parentes viviam em confabulações trágicas inclusive a esperar o pior; os negativistas sempre aguardam com ansiedade o pior e curiosamente choram na conclusão do pior, pior na opinião humana. Agora até as brincadeiras entre os parentes eram veladas. Dona Maria nessa época chorava mais e não mais apanhava de Mateus, fazia tempo que não sofria as ofensas, fora as vindas pela boca, o velho despejando quase até outro dia impropérios na velha esposa, se esquecendo o quanto de dedicação a pobre lhe ofertara, os filhos que lhe dera; e sobretudo a fase dura por que passara ao seu lado – desde as Raízes rurais, passando pela fase da Ciganagem migrando a São Paulo voltando ao Paraná e depois vindo aqui para Serra Grande, não tão grande, pequena-grande cidade em se comparando com Santo Antônio onde haviam tanto sofrido. Fazia muito entrevado na cadeira de rodas. Agora a vida ou subvida de Mateus era quase insuportável, mesmo que os netos lhe trouxessem às escondidas uma cachacinha de vez em quando, pela qual já não sentia o mesmo sabor da aguardente antiga; e o cigarro, veneno a amenizar a coisa ou somente a apressar o fim ou mesmo quem sabe apenas para irritar a esposa velha e carcomida também pelo tempo. Horrível a vida dele. Mas nos abstenhamos de narrar o sofrimento no vaivém ao hospital público as internações as ambulâncias os médicos as enfermeiras os remédios, muitos remédios. Vamos melhormente ao fim daquele fim. Faleceu. Choro, os mais emotivos e os mais endividados perante o pai chorando mais, alguns copiosamente; outros pela contaminação: as lágrimas contaminam as lágrimas. Como a tosse e o se mexer nos regimes fechados, sempre alguém que não, passando a se remexer e a tossir. Aqui o choro e o choro no velório.
          Fomos ao velório de Mateus. O Véio foi meu anfitrião, para mostrar todo o trajeto qual cicerone entusiasmado, ele é serrense e serrista inveterado, doença que ainda não me atacou mortalmente. Mostrava isto ou aquilo. Aí penetramos o Campo Santo, o Velório Municipal em ajuntamento com o Cemitério; ambos anexados decerto para não dar trabalho a levar o morto e nem atrapalhar o trânsito da cidade. Só houve um senão – o carro do Véio é também caco, tive de empurrá-lo na rua e ouvir gracinhas dos veículos passantes, aí pegando no tranco; limpei as graxas das mãos e subi no meio à fumaceira do auto, prosseguimos. Ah, após o sepultamento não pegava outra vez e em vez do dono aproveitar-se e enterrá-lo ali mesmo ou entregar a chave a um desmanche honesto e sem complicação policial, em vez disso largamos o automóvel no pátio e não sei o que o Véio fez do seu carro de estimação; nisso tomamos carona com um parente de Mateus. Voltamos ao Paraíso a ouvir loas ao morto, quase um anjo na opinião dos olhos vermelhos dos do sangue.
          Bem. Meu cicerone fez questão de mostrar as outras salas chiques dos demais in velório, notando eu, não sei a o-pinião cicerônica sobre, notando que mesmo mortos os ricos permanecem ricos e até no fausto. O que também percebi no enterramento posterior pois veria ao passar por dentro para levar o Sr.Mateus à área pobre destinada a ele na necrópole o luxo das capelas; diria não errando ser a parte pobre do cemitério a periferia morta aos vivos sem dinheiro lamentarem seus defuntos modestos. Ah, sim, desconheço igualmente a opinião dos vermes cadavéricos sobre a diversidade no sabor em carne-e-osso pobre ou rico. Voltando ao velório, a sala na qual o caixão barato da Juju, não dela, do pai, ela quem chefiou a ‘vaquinha’ assim se fala à cotização aos gastos, no caso gastos fúnebres, ela quem tomou peito de tudo; tal sala era pobre, sem quaisquer ornamentos e adereços e poucos os comes e bebes, próprios duma festa tão sem graça.
          De fato, no centro do compartimento acanhado com bancos frios de cimento estava o caixão. Seu Mateus olhava pra cima descorado, não vendo é claro. A expressão era de sofrimento recente, as flores sequer amainavam esse sofrer. Em volta os parentes, quase só os daqui de Serra, os de fora não chegaram a tempo ou não tiveram ‘tempo’ monetário a despender; despenderam suas lágrimas por cartas, as que posteriormente cultivaram o choro miúdo da lembrança dos parentes na casa, agora sem seu Patriarca. Ao lado à cabeceira de Mateus, um Pastor a fazer sua peroração funérea (desconheço se o protestantismo tem o culto de corpo presente qual o católico, contudo me pareceu exatamente isso). Achei-o fraco como orador; se não fosse evangélico e não sou mesmo mas um pouco agnóstico, não me converteria a crente diante da pregação do homenzinho. Os presentes entretanto se enlevaram, alguns choraram mais ainda. Enfim terminou aquele começo do fim.
          Saiu o cortejo na direção ao Cemitério propriamente, e neste à banda pobre da ‘cidade dos pés juntos’, esta expressão popular bem justa. Um veículo movido a bateria e silencioso abriu o caminho àquele silêncio andante, atravessamos a rua penetramos a necrópole e o minicarro ia à frente, decerto pago a duras penas pela Família pobre, a Santa. Ainda em início da procissão notei um senão engraçado (costumo sorrir com frequência das fraquezas humanas e até das minhas, humano) senão esse ligado à criança, a qual é um instante de angelitude que perdemos ou por perder ou por à época não saber; devo gostar tanto de criança quanto o João, ele se derrete por gente em flor. Vi uma garotinha loira no colo do Carlos, o Carlos é esposo duma neta do defunto, altão, robusto, o que constrastava interessante com aquela pequenura de olhos brilhantes e muita curiosidade às curiosidades do mundo. Perguntou gritado ao jeito menino para o homenzarrão: “pai, é nesse carrinho que o Vô vai pro Céu?” A montanha fez que sim e que não ao anjo ali nos seus braços; não aguentei, ri-me! e como deve ter parecido esdrúxulo e um contrassenso esse meu ato...
          Prosseguimos. Chegamos ao arrabalde do arrabalde, os cemitérios costumam ficar na periferia urbana, quase sempre ao fim da Avenida Saudade (era, é o caso) ela que leva o sem-volta e que nos leva a dispersar a saudade e a lembrança até ao febricitar do Centro, onde ninguém a perguntar quem se foi, mas quem será e o quanto se ganha nisso, entremeio às conduções apressadas e à gente a se cruzar – uma loucura.
          Tornemos ao enterro, o Véio me puxa o cotovelo (aqui me recordando meu Boneco mortinho, matei-o retirando seus cotovelos e nisso chorei, pensando os circunstantes as minhas lágrimas sendo ao Mateus) me puxa, acordo, olho, estão a deitar o deitado morto espichado na sua cama de pinho, a deitá-lo ao buraco. Empedram-no. Ou melhor: assentam tijolos por volta da vala antecipadamente aberta, passam com a colher de pedreiro a massa com cimento a cobrir frestas, não para que não respire o nosso ar empestado o cadáver mas para que não exale para aqui fora seus cheiros deletérios. E isto é gente!
          Tem a alma, dizem entendidos. A Santa crê. Está reunida a cumprir ordens do seu coração, cultuando como depois a memória cultuará uns dias (logo não mais falariam ou o fariam em um que outro momento fugaz) cultuando Mateus. Choram, muito as mulheres, não se descabelam, não são carpideiras estamos nos fins do II Milênio no enterro do Patriarca, já por muito tempo destronado e substituído por Juju-I, a forte. Mas choram sim. Os homens também enxugam-se nos lenços, conversam, um deles se destaca: o caçula deles, o mesmo que descobriu ser a Família uma Santa. O Mateusinho chora desesperadamente, a nos cortar o coração, olho o Véio da Silva, ele olha o Mateusinho, também da Silva sem ser-lhe parente, olha e me dá razão; estamos ambos constragidos; mesmo porque as lágrimas constrangem porém nunca conseguem elas enveredar ao charlatanismo e à hipocrisia as pessoas de bem; descobrimos prontamente pela psicologia que todos carregamos em nós que esse choro é puro, desses que lavam o coração! Me condoo dele, aproximo-me do Luís, não aos costumeiros pêsames, os quais encobrem mais a falsidade ou um hábito mundano sem valor que não o de cena, exterior; digo ao filho de Mateus: o Mateusinho é o que mais sente a dor da perda. Isto é um deslize monstruoso meu, por sorte o Véio não percebendo ou me arrasaria tempão. O Luís se ofendeu: voltou-se pra mim indignado a me dizer que ele era mais amoroso ainda que o caçula. Aquiesci, a julgar não ter capacidade para julgar quem deva ganhar o prêmio da vaidade. Aí me lembrei ser o Luís e a Zizi aqueles em quem a parentela mais desce a lenha, esta expressão cabocla; sim, de quem mais se fala, falando mal, nos disseram que me disseram no interior da Santa. Ah sim, assim o ‘Mateusinho’ perdeu a alcunha com o desaparecimento do Velho, virou Mateus.



37° Capítulo, neste o pensar de Maria vendo o sepultamento de Mateus; e conexos

          O João não estava a dizer “pô!” longe disso, até alegrão na cerveja no bar agorinha, falei assim para o Véio, o qual ia mancando atrás de sua bengala e ele: isso não importa; eu: importa sim, o senhor não me disse, sr.Véio da Silva, que o homem havia vencido o vício da bebida! Nada disso, disse o Véio, falei falando do cigarro, fuma menos agora, entendeu? entendi. Não entendi, já que estamos a tratar do genro e do recente falecimento do Sr.Mateus, não entendi foi o olhar distante da chorosa viúva enquanto o cortejo se deslocando por entre as avenidas de sepulturas milionárias na direção do arrabalde no cemitério. Ela vagava o seu pensar, quase nem percebia os braços de Juju a ampará-la no caminho; ia além... via Juju assim de pequena saltar pulandinho os riscados no chão a marcar os pontos no jogo infantil, mas também os outros filhos que se foram saindo de anjos, tendo os meninos das imediações a carregar os caixões brancos da pureza como era costume, o choro da gente, o desespero dela, Maria chegou mesmo a desmaiar, o que um recurso da natureza a se defender no excesso de sofrimento! Vê um por um dos seus, se esquecendo momentaneamente os poucos vivos que sobraram, do Luís então briguentinho e das meninas mais velhas até chegar ao caçula ali perto, o Mateusinho, não chorando, só o faria e aí em desespero na despedida do morto no abrir-fechar caixão por ordem do sentimentalismo. Vê, vê por dentro, chora mais por dentro que por fora, no ver exterior acham-se extenuadas, esgotadas, as lágrimas. Revê seu sofrer, o martírio com o esposo, ela antes a mártir depois o martírio sim a acompanhar-lhe o acabar, um nunca acabar. Não fala, soluça às vezes, olha e se olha para dentro e vê longe. Vê a morte mais ou menos recente do seu mano. Corre ao sofrimento parente, os parentes a transportaram com dificuldade ao Paraná para o velório, mas não pôde ver o cadáver querido, suas forças faltaram, ficou dias em recuperação por sua fragilidade, até voltar a Serra. Depois outro, uma das manas novas, velha em decomposição e sofrimento, aí não se deslocou ao Paraná, vieram os seus a narrar o caso em ocaso; foram dias a alimentar a sofrência do coração combalido de Maria, os parentes bem ao sabor brasileiro a relembrar o sofrer num melhor sadomasoquismo conjugado ao seu primo, o pessimismo. A Juju explode.
          A Juju solta os cachorros entre os seus. Reclama dos de fora, que volta e meia vêm a lhe encher o lar, aboletam suas férias às custas do trabalho duro aqui na região. Ela trabalha, põe as coisas em casa, os seus se desentendem, entendem de chupar gastar abusar nas suas costas. Bem, esse mal é do costume; agora vêm os de fora bagunçar em casa; aí o falatório. Não chega a dizer nestes termos à parentela chegante; diz sim aos seus conviventes, acostumados com suas cobranças, ela cobra investe indaga braveja explode na conclusão “tá!” Aliás com alguma razão. Parente chega sem avisar não quer saber se podemos ou estamos nas condições pra recebê-los; quando muito avisam estar de viagem vindo; chegam, pavoneiam-se, interferem, comem, bebem, justificam-se, brincam e às vezes brigam (a brincadeira é muita vez um preâmbulo ao desentender, ela nunca anda muito longe da briga; isto não apenas entre os pequenos, os grandes não se despojam do menino que têm dentro si). Daí dão no pé, deixam a sujeira o desarranjo, às vezes a saudade às vezes a insatisfação. Mas a Juju sabe na pele disso, parente em casa, a casa desvira: o de casa se sente como de fora; o de fora continua de fora... Agora era um caso especial de visita, uma visita mais a consolar dona Maria pela perda da velha mais moça de suas irmãs. Talvez um momento de parar e pensar; pois quando morre um íntimo de sangue, é parte do seu eu a fugir, pensa a gente comum, como dona Maria.
          Nessas ocasiões aguarda-se o remédio do tempo. As coisas não mudam, só o tempo se altera, corrige uma que outra vez; em síntese não mudam as coisas.
          Nem a rotina da Santa.



38° Capítulo, vamos construir? – avaliação material da Santa

          Vamos construir? É assim que Juju indagou, e isto questão fechada ao esposo, nesse dia discutiram sim, ele não chegou a enfezar-se, sequer contrapondo seu costumeiro “pô!” ao “tá!” dela, mansos no seu brigar, pois é preciso ter paz nas desavenças, amenizá-las ao menos, usando o interesse comum, o que coincidia com os interesses de toda Santa. Ora, a Pina, a qual mais tarde se afasta deles após um período grande de chegança folgança bastança de falar, sogra e nora nora e sogra com filho esposo e a netaiada entremeio se entendendo se pichando e por fim o fim que é o fim das relações precárias, a Pina já possuía casa. Desfez-se a tonta, isto elogio ‘nórico’ é visto, desfez-se da residência de São Paulo, comprou uma aqui, lá no outro extremo de Serra, vive sua vida, a cuidar daquele filho bebum (ainda opinião da nora) e aí estrila o João, bebe sim mas socialmente, não cai na rua e tem ainda minha irmã que vale por dois homens; nisto entram na Gabriela, uma capeta diz Juju, a sobrinha mais ativa responde a rebater João. Pois bem, ela tem casa; foi inclusive em razão disto termos vindo do Paraná, ela tem nós não temos, temos aquele terreno na rua... como é mesmo João (nunca o chamou “meu bem” e ele se vingou decentemente, nunca a gritar baixo ela apenas sabendo gritar alto o comum “querida”; no máximo desse mínimo usou a expressão “meu amor” e o fez com ironia a criticá-la não se lembrando agora sobre o quê). O João concorda nessa discórdia, é urgente sim parar de pagar aluguel. De fato, aluguel é dinheiro atirado num balde sem fundo, nunca escorre nunca aparece, desaparece como pelo vão dos dedos.
          Foi por essa ocasião, isto fazendo uns doze ou treze anos, começarem casa, construindo à prestação como fizeram de prestação em prestação no pagar o lote na rua Paraíso; isso mesmo diz a concordar Juju, Paraíso e não me lembrava mais o nome, aí lembra que os outros da Santa estão de olho noutros terrenos nas imediações; nós temos o terreno, vamos construir? Compraram material, compravam depositavam blocos de dia, de noite os espertalhões levavam deles o material; num bairro pobre, pobre tem de olhar dormindo na obra por causa dos pobres ladrões! Mas venceram, fizeram, custando isso discussões intermináveis no casal, os pequenos pequenos e não entendiam ou não se interessavam interessados mais nas brincadeiras, a bola a pelada a grita os gritos. No fim, realmente ou semelhante igreja católica anos a construir e nunca a acabar o fazer, no fim acabaram paredes teto com laje portas e janelas ligações hidráulica e elétrica – se mudaram precariamente, ao pobre tudo é precário, quase a vida, não: especialmente a vida. Mudaram, mudando o viver, chutaram o aluguel, o atrito com senhorio rapaz, rapacidade e ladroeira desconsumadas. Os trecos esparramados no quintal aberto, ajeita aqui ajeita ali; e briga por isso. Porque em gente, quando não falta motivo sobra motivo; até nisso rotina para a família da Juju.
          Aí enricaram. Quando um pobre sem eira nem beira consegue morar no que é seu, um barraco por exemplo não sendo o caso da Juju-João, casal jota-jota, se tem onde morar, trabalho embora precário e até algum veículo de se empurrar na rua – o pobre é rico; aos outros pobres, entenda-se. Ele mesmo nunca assim se considera, contabiliza mais a perda que o ganho. O curioso é nunca o pobretão desconfiar que deve ser rico em saúde e mais em paz de espírito. Se apega no apego do corriqueiro, o feijão com arroz das coisinhas e não se alegra com a felicidade da felicidade. Assim até a alegria soa falsa, é um tisnado superficial. O deserdado de sua herança não pesa, não pensa assim.
          Agora têm moradia para melhorar. Ao longo do tempo rebocam cobrem põem piso, seguem o padrão, modismo até nisso, pois o homem comum não pensa artisticamente, quer ser igual para ficar diferente e aí se assemelha ao restante da humanidade de pernas curtas (bolsos ainda mais curtos). Não obstante, e aqui lá vai mais um toque de Juju que bateu o pé nos intermináveis entreveros e venceu, não obstante puseram inclusive azulejo! seria aqui melhor falar em ‘pretejo’ porque tiveram, leia-se Juju teve, tiveram o bom mau gosto assentar azulejos pretos até o teto do banheiro! o banheiro de se esbanjar água menos cara e eletricidade o olho da cara, o banheiro do Dito cantar suas lindas árias pops de longo percurso (para desespero da mãe que paga a conta!) de Prudente sonhar suas coisas, as quais jura o Véio ser “feias e nojentas”; do ‘Zóio’ imitar a guitarra estrondosa na chuva quente que o chuveiro vaporiza e berra; aliás ‘Zóio’ é apelido aos olhos saltadões do Mário, dado pelos desafetos; ele casou-se, primeiro amigou num picar a moral materna mas depois se redimiu casando “bonitinho” no pastor, isso o falar do moço não do pastor, o qual é o mesmo feioso e incapaz no enterro do avô Mateus, o rapaz fala bonitinho a dizer nos conformes legais e morais; aí, casando-se, desapertou a mãe, não toma mais banho no lindo banheiro preto, pior fosse roxo, pergunto ao Véio e acho que meu Boneco saberia melhor se existe azulejo roxo que é cor para defunto e ele, o Véio, não sabe; ando inclusive temeroso da sabência dele e mesmo das informações que me fornece a espiar a Santa, sua vizinha.
          Assim a casa se acaba, sem acabar o nunca acabar, pois não tem pintura externa, tivesse, já hora de mudar a cor, gente nunca se satisfaz e troca e muda e revisa e sofre pela sofrência – não tem jeito gente. O casal jota não tem jeito. Ainda se discute pelo rabo da dívida e das dúvidas suscitadas que um empreendimento desses traz na vida ordinária. Enfim acabada a fase, vem, vieram concomitantemente outras fases: o carro, a moto, os móveis (e aqui o comum é trocar uma porcaria vistosa por outra mais vistosa e menos feia) e têm as quinquilharias a facilitar as dificuldades na vida moderna – como geladeira, tanquinho de roupa, eletrônicos que a tevê mostra para a gente querer; tudo entremeado e atrapalhado pelo atrapalhamento da intromissão das moléstias no lar, a doença é a doença da humanidade. Todos temos que ter este modismo, que por sinal vem desde os tempos dos tempos, cheios de améns. O casal João-Juju, os filhos do casal, os parentes de cima de baixo de lado, escondidos ou aparecendo – todos fregueses da farmácia, desde que ela se escrevia com ph ou com bê de botica no tempo das Raízes, tudo dando lugar aos postos de saúde aos hospitais e prontos-socorros. E aí, aqui, não tem jeito mesmo, tendo ou não recursos os membros da Santa vão pagar tributo ao deus Saúde, o qual deveria ser Santa Doença. Felizmente, dizem o povo e os parentes da Família, felizmente há o atendimento público. Aproveitam como qualquer outro entre os duzentos milhões a pichar o atendimento.
          Não obstante a Santa caminha, vive, se esperneia mas vive. Até constrói moradias, como a de Juju-João, investe nos veículos. Em virtude disto durante a parola costumeira familial, lembram vez por outra o quanto possuem hoje, comparado à luta de sempre desde suas Raízes na miséria.
          Vamos construir?





39° Capítulo, aqui a tônica do dinheiro

          De repente, como sempre demorando muito a esvaziar o de repente, caíram na real do real. Não exagéro neste exagêro – sempre tiveram e têm os membros da Santa por alta conta a conta, tudo gira em torno do dinheiro! E isto, se for uma confissão ou uma descoberta, é de efeito retardado: pois o homem comum não foge à tônica do numerário, eles pessoas comuns. Diz uma pesquisa na França que o quê mais fala o homem da rua é sobre o tempo; nós também somos assim, mas emparelhamos o tempo a chuva o frio a catástrofe da natureza com a catástrofe do dinheir, a falta dele; neste ponto a Santa se iguala ou se aproxima às congêneres gálicas; ou às supera à força do numerário? Não sei não sabe o Véio da Silva meu informante, não sabe certamente meu pobre Boneco desmantelado, já sinto saudade de suas bobagens, quiçá de suas molhadas. Sei que Ela sabe, seus membros sabem de sobra do vil metal. Tudo gira em torno do dinheiro. Como a Juju, mais a Juju que os outros parentes, falam no singular o plural das notas – um real, mil real. Assim. E as discussões as brabezas até os acordos estão voltados para o ‘real’, decerto quando era cruzeiro ou cruzado eram estes os vilões, cruz-credo. Comprar, pagar, retardar, como saldar, como fazer novas compras e se atolar em novas dívidas, ah a dúvida!
          E os recursos. Aqui pisamos pesado no desemprego. O desemprego que assola o país (e o mundo) neste princípio do III Milênio. A falta de segurança pela falta de colocação perene ou apenas colocação meio demorada, a inconstância do empregador fugidio e a inconstância do empregado, leva este ao subemprego ao desemprego e ao desespero. Sinto vendo as imediações do sofrer o sofrer até ao desalento! por causa da falta de trabalho garantido. Esse câncer que rói come e suga a população atinge em cheio o pessoal que estudo aqui. O Véio se assusta, embora ele igualmente sem o quefazer, com o não ter quefazer seus vizinhos. Lembro a ele o estado cancerígeno na sociedade como um todo; abalança a cabeça a discordar concordando. O Prudente é o mal em sua situação mais grave, dado seu instinto sua tendência e sua exaltação de quase adolescente, com base no seu paradeiro; o pai, adotivo mas pai, o João, teve lá aqueles rompantes de sumir (o que ainda não foi explicado, só a constatação no ter sido despedido pela Transportadora) sumir sim, tendo ocorrido um ‘siricutico’ brabo nele, que traria pesar nacional fosse rico, a aparecer até no jornal, é pobre lutou perdeu dos advogados da Previdência, perdeu os direitos e precisará lutar muito ainda a ganhar os anos que lhe concediam a aposentadoria – está parado! mais que isso: humilhado a ouvir Juju cobrar-lhe posturas, deixar o vício; a ouvir os filhos, mais ao Prudente que o fere constante, inclusive na sua grosseria e violência a atirar-lhe impropérios, o baixo calão, desses que nos enrubescemos a ouvir dos moleques sem berço na rua; o Benedito é do seu sangue, mas não lhe demonstra amor, deda os pequenos descuidos do pai à mãe, quando a Juju volta do serviço dá ele o serviço contando à genitora, o que gera novas brigas, brigas tamanhas e falatório, este ultrapassando vezes incontáveis a meia-noite! O Véio lamenta: “essa baixaria é um absurdo!” concordo, é absurdo, e o absurdo acontece diário (ou seria ‘noitiário’ vou pensar e talvez crie na minha literatura o vocábulo). O Zóio anda empregado, é criterioso, trabalhador, investe na propriedade de sua familinha, aliás a esposa é bela e ótima criatura. Porém não ajuda a mãe como antes. Não é só isso, os outros membros – irmãos da Juju, sobrinhos dela, cunhados, todos ora empregados ora parados. E isto é grave, mais grave que se pense, visto nas dificuldades recorrerem à Matriarca, Ela é a nova chefa de seu clã; parece que faz dezenas de anos a chefiar, a indicar a criticar a defender a contemporizar a aconselhar; e finalmente a quitar contas, pois não suporta ver os seus passando necessidades.
          Para tanto necessita demais o trabalho. Antes trabalhadora liberal, cortando cabelo a um a outro por aí; agora empregada formalmente num salão como cabeleireira. A propósito todos dias dá conta de seus talentos na arte e nessa profissão. Embora a falar encaipirado, como a maioria na Santa, foi até convidada a ser professora nesse métier. Trabalha, trabalha até com ferocidade, com constância, certamente com amor. Desse meio traz os recursos a amparar todos, sobretudo os que vivem sob o seu teto; e por que não dizer às suas expensas! Uma leoa, uma giganta, é o homem da casa.
          Mas Ela cobra por isso: pisa duro, fala alto, corrige, pega no pé, enfrenta, conclui categórica “tá!” eu nunca vendo, o Véio fala ver na expressão dela alguma expressão de ódio.
          Com tudo exposto, méritos à Juju. Não pelo trabalho, mas também por causa dele, mais pela força moral e o amor que dedica aos seus. Isso ocorre desde as Raízes, quando jovem a enfrentar desmandos paternos; passando pela Luta Cigana nas mudanças familiais, até chegar em Serra Grande.
          Então, e a isto me chamou a atenção o Véio, seu vizi-nho, então mesmo assoviando os seus hinos (sinal de calma ou não-briga) ainda assim alfineta um corrige outro, pensa em todos, defende tigresa seus gatinhos com unhas e dentes. Inclusive não tem contemplação, suspendendo o sobio fino para repreender a mãe, dona Maria, quando esta lamentando ou a teimar nos desleixos com a própria saúde; vive a lembrá-la: “tomou o remédio, Mãe” e aí destramela por cima da velha; suspende, interrompe de vez o assovio e o entoar hinos.
          A Juju é um forte ser, embora frequente se abale na falta de meios a cumprir as obrigações.



40° Capítulo, neste veremos a Juju se pegar com o Dito por questões de ganho

          O Véio não. Não o Véio a quem abano, abano abano por passar mal, me perco no trabalho, quando vejo ando a abanar a Véia da Silva sua esposa e ela fica sem graça eu ainda mais, ele deveria estar assistindo a mais uma luta no ringue vizinho e aí passa mal, abano e enquanto, ouço os despropósitos que falam aí detrás do muro, o conselho está formado e em ação, a Juju se confunde: ora é o juiz ora lutadora, soqueia dá linguada com a língua adredemente armada, termina a interrupção com “tá!” e recomeça; lá pelas tantas, o esposo no pensar que ainda o está criticando pelo simples ato de beber um pouco e fumar bastante grita lá de dentro, creio que da sala onde mais canta de galo a televisão: “para de falar, Juju, pô!” e não é com ele, é com o herdeiro dos bens que não poderão deixar ou que deixarão pai e mãe para que os três filhos se rasguem se peguem a deixar as coisas mais com o advogado que certamente contratarão a lhes roubar. O capeta-mor, será o Benedito! é o Benedito, este arranjou ou foi a mãe a ir falar insistir conseguir vaga ao adolescente bagunceiro aí da Rua Paraíso lá na Guardinha; uns falam Legião e é um serviço e tanto prestado pelo Lions à sociedade sem emprego; emprega temporariamente os jovens e assim eles têm algo de seu, o salário pequeno e a experiência grande, pra não ficarem na rua à mercê de traficantes de drogas, este mal que infesta a comunidade e do qual a Santa tem terror e não só aversão. Inclusive uma das razões a afugentá-la da Capital Paulista foi justamente a violência e a droga que gera violência; mas eis que o mal se infiltra no Interior, a Juju teme e treme que os seus caiam... Assim agora pega no pé do menor, bem mais alto que ela e fala fala, berra qualquer resposta ao João lá grudado na tevê e volta a falar de homem para homem com o filho descabeçado, a bem da verdade mui respondão. A Juju, diz a má língua do Véio, deu um dia na cara do Prudente, este tendo já passado de vinte anos! isso por não sei o quê; neste momento não chega a tanto: bate no pequeno lá em cimão dela mas de língua. E mais fala, irrita, irrito-me, olho o casal da Silva, o Véio com falta de ar, devo abanar mais, nem vê com as orelhas o bafafá na vizinhança, a discussão – e nessa casa qualquer discussão vira briga luta revolução guerra! Abro meus ouvidos, o esquerdo o direito foi ‘pra cucuia’ (esta uma expressão muito usada por meu informante, agora doentinho aqui próximo). Abro e escuto. Ela quer que o primeiro salário ainda não recebido seja empregado nisto ou naquilo e com razão pois mãe, mãe tem sempre razão, e o filhote já gastou quase tudo a ganhar na porcariada, quem sabe pensando em moto (daria a comprar o espelho retrovisor da motocicleta, creio) ou até um carrão último tipo, pensará o menino, como requer o hábito e a característica impregnados nos membros da Santa; isso a brotar sempre que haja uma santa reunião, muita vez surgida espontaneamente. O povo, os parentes em volta, apupa o ringue; Juju fala fala fala, elinhão responde esbraveja grita agride a mãe com calão aprendido na École d’Haute Étude dos Adolescentes aí na calçada, onde as aulas, ele é o professor com Phd essas coisas, tais aulas se prolongando até às duas da madrugada, a machucar a velharia vizinha ingenuamente a tentar conciliar o sono; inclusive o Paquito que é mestre dos cachorros também direcionados a manter o Véio acordado, mesmo o Paquito não ladra, ronca; sobrando barulhar aos pobres adolescentes. Agora discutem mãe-e-filho e discutem além disso por que razão o moleque não anda indo às aulas direito, vai vai sim, o Véio disse que o jovem vai à aula umas duas vezes por semana, o resto é intriga da oposição, a Juju. Deda ainda o Véio da Silva, melhorandinho com minhas abanações, deda no sentido de que assim desde o Ginásio agora ele no Colegial, o Dito enforca aula, expressão esta do povo da Rua Paraíso; enforca e passa de ano; o Ensino Público teme a Estatística, ciência mentirosa, então aprova todos alunos, os que frequentam e os que matam aula, caso do Ditinho, mamãe ainda o chama ‘Ditinho’ e deve ter lá sua razão. No momento não tem: o rapaz ganhou trabalhando (ainda não recebeu e faz já três dias que entrou a serviço da Legião) portanto é dele, tem direito a perder tudo, até ao que ainda não faz jus. Juju se esquenta, por fim manda calar a boca, pois bem democrática e liberal, “cala, tá!” e ele não é besta em não atendê-la, sai resmungando. E incrível, já está imediatamente gargalhando com os seus na rua. Tinha à espera bem um exército de uns dez moleques, alguns falando fino outros no falsete e um trombonando machuras das grandes (este conhecido por ‘Bocão’); mas todos, todos mesmo sujeitos ao Dito, inclusive quando se transveste em Pedro, Pedro Malasartes, e aí vira o capeta, todos atraídos por ele, o ímã. Se o ímã resolver ir bagunçar no fim da rua, ou no começo dela: todos irão atrás; se voltar ao seu portão ou ao portão do Véio seu vizinho, pressentindo que o homem esteja a ler ou a dormir – todos virão à frente do Véio beijar o Dito ou receber ordens do Chefe. Impressionante. Rabuja, resmunga lá sua contrariedade o Ditinho, deixa a Juju a falar falar falar sozinha e já se encontra macaqueando suas coisas aos subalternos, os quais riem gargalham como o Chefão. Impressionante, sim. Mas a Juju já esqueceu ou relevou os choques com o filho, assovia não um hino novo aprendido mas os de sempre, inclusive já decorei a música, embora não saiba a letra. O Véio não sei se sabe, abano ele, quem devera abanar seria a esposa e ela se foi, pra onde não é de minha conta.



41° Capítulo, agora veremos mais um pega dos costumeiros e as
                                   amenindades

          Se o homem produzisse a produzir planos... ah os so-nhos curtos e de longo alcance no homem comum! O João, vamos indo ao Bar Esperança, o do Jorge que é da Matilde, me desvencilhei do Véio, enchi sua cabeça não dever pôr bebida no bucho diante do seu estado de saúde, ontem fiquei com um vergão de tanto abaná-lo, ganhei não gastando no Bar, onde pego meu leite e chispo pra casa – o João vai comigo, leva a cadelinha Laica, loucos um pelo outro, ao João cachorro e criança é a felicidade, melhor a felicidade com cerveja e depoizinho já na mesa, o porta-garrafas, aqueles troços de isopor a manter a cerveja gelada, ele beberica assopra a espuma do bigode enquanto coça a cadela, ela me ladra me tomando por ladrão ou qualquer coisa de cheiro desagradável; agora vamos indo, ele me segreda seu sonho, o sonho que ao pobre se mistura à utopia, o sonho de um dia se aposentar e mudar-se com a Juju ao litoral nordestino, fala em vender churrasquinho na praia, não diz mas pensa, que eu sei, porque o sonho não se mede por metro quadrado, pensa a descartar-se dos filhos loucos, ou quase, os dois enteados e o Dito, seu sangue, estariam os meninos bem colocados na vida e tendo seus próprios caminhos e então o casal a viver no Paraíso Perdido, que todos sabem fica em Alagoas ou Pernambuco ou mesmo no Ceará, na praia com certeza, muito sol calor água de coco mulher bonita quase pelada (decerto olhando que não olhe a Juju pro seu lado na hora...) Digo a ele que tem razão, afinal posso não ter, e nada ganharia caso tivesse razão eu apagando o sonho com um sopro, o sopro da conta no Jorge, a Vendeira com um bico deste tamanho pro meu canto e desbica ao ver que meu companheiro não é o Véio.
          Em casa ele deixou a casa calma, a Juju assobia fino baixo, o que desproposita o comum é gritar seu assovio. O ambiente na casa, segundo me informou posteriormente meu informante, piorou ou mais-piorou pela encrenca da dupla desafeta: Dito x Prudente. Se pegaram bem, discutiram, deram show, quase o pai ouvindo lá diante no Bar. Começara num desentendimento corriqueiro e normal, o normal sendo o comum; aí desandaram e foram às vias de fato, socos pernadas chutes, derruba isto e mais aquilo, a Juju num tentar separá-los, conseguiu a custo de implorações, chamou a si a atenção chantageando os filhos; daí um foi ao quarto quem sabe fazer planos de vingança mais cabíveis; o outro chorando, a reclamar pateticamente estar à beira do desastre psíquico. Aliás isso ocasionou a orientação e mesmo a condução do doente ao psiquiatra num dos postos de saúde, a Juju sempre a pegar no pé por causa da dosagem os horários de se tomar o medicamento, a par das consultas ao médico (pobre não dispõe de sessões de análise e outras frescurinhas; é a consulta simples e o remédio sempre caro e raramente fornecido pelos poderes públicos). Mas o Prudente é imprudente como todo brasileiro comum: parou com a medicação logo que se sentiu melhor. Isso até que nova e melhor crise apareça, pois os pretextos não precisam pretextos: vêm à toda hora. A Santa tem muito disso, a casa de Juju é o melhor do mau exemplo dentro da Santa.
          Não obstante passou a crise no tal dia, segundo o Véio, ali doutro lado a perceber com seu bigodinho indecente as coisas que xeretam passar ao seu lado, que são os sons. Disse que passou. A conversa não.
          Conversam muito, chegaram outros parentes a aproveitar o feriado e no feriado e no dia santo não se trabalha, muito menos os desempregados que são muitos entre eles e infelizmente no resto da sociedade. Conversam sobre o de sempre: dinheiro, falta de dinheiro, sobra de problemas, um que está arranjando colocação, outro que está sendo mandado embora; fala-se de trabalho e picuinhas no serviço, picham colegas, contam estórias. Aí o grupo já enorme, as vozes em altos segredos pra quem vir possa e queira ouvir. A Juju se pegou em trocas amenas de informações do Salão com outras parentas cabeleireiras como a Débora. Picharam as patroas. Contaram as tristezas que abalam a Santa. Certa sobrinha tem o esposo desempregado, aboletou-se na casa dum desconhecido com os sete filhinhos a todos passar fome unidos. Outros narraram doenças, assunto mui bem visto e usado nos abusos do homem comum brasileiro. Contudo a Santa se entusiasma a fugir dos ais da vida, se pega a contar aqueles casos que se entrelaçam aos outros casos dos conhecidos – viram casos da própria Santa! todos participam das vitórias dos outros de fora – ou é alguém a adquirir aquele carrão, ou é a riqueza colossal de um patrão de não se sabe quem. E as malandragens e peças que outrem prega em outrem para que outrem se locuplete; e se riem e gargalham. Entre os mais gozadores está o Rico, já dito rico na memória e na forma de narrar as coisas. Aí todos gozam, sobretudo os jovens, ao jovem tudo é ganho. Todos falam, falam por cima do falar, a se enovelar as vozes, as vozes a se cruzarem, todos falam todos querem ter razão, mas não brigam: isso é a paz.
          Assim o homem enche o tempo. Nós enchemos nossa redação, este pobre romance; no qual me parece à indigência literária ‘tudo’ indo bem. Não bem o estado da velha Maria, que ouço agora, tadinha, tomada por tosse.



42° Capítulo, aqui interregnos de silêncio após discussões; e a
                                   religiosidade

          Têm uns inexplicáveis nessa tentativa de explicar a San-ta. Aí apregunto ao meu informante, o Véio tosse sua rouquidão, coça o bigodinho, sorri amarelo como fosse o culpado e não somos, eu também não sabendo (tanto que estou a indagar). Mas existem uns negócios curiosos, engraçados ao menos, nessa casa da Juju, onde ela cucuruca de galo fala exige e briga se precisa precisa sempre, onde vivem dona Maria nas suas reclamações humildes, não: ‘humildes’ é dose porque o humilde não reclama, reclamações inocentes, pronto; os filhos da Juju a badernarem e a brigar constante; o João a falar manso, só vez que outra a gritar como a panela de pressão quando estourou a borracha e fez um berreiro na cozinha com sua fumaça e vapor atraindo a grita da gente e era só uma panela ao melar a parede; e onde vem é claro o pessoal de apoio, que são os familiares que não aparecem a arrumar encrenca na casa da Juju e arranjam assim mesmo, porque não conseguem impedir falar os que devem deixar de falar. A propósito tem inclusive uma passagem em Tiago, cap. 4, vers. onze, a tratar desses desvios, eles crentes ou evangélicos leem por alto e não entendem sequer por baixo, aí falam e picham discutem por bem e brigam por mal, a chocalhar um lar honrado que é o da mana Juju e de seu consorte João, aliás demonstram todos indistintamente apreciar este cunhado. Mas têm sim uns inexplicáveis. Ora bem, diria um luso, são o barulho o vozeirar o rebuliço até, com frequência. Aqui o inexplicável principal – vêm os momentos a durar inclusive mais de hora no absoluto silêncio! É um silêncio sepulcral, é a paz, a paz sendo ausência das ofensas e os segredos gritados a todos ventos, por sinal estamos num bairro de Serra Grande conhecido por Ventania. Como, olho ao Véio o Véio me olha, sem resposta ambos, como pode uma coisa dessa! um troar, muitos trovões avassaladores, de repente a ausência de brigas e desentendimentos, mesmo o som no tum-tum-tum da traseira do carrão de Prudente, o qual me parece ter bicho-carpinteiro a mexer remexer no seu veículo, a funcionar toda hora a gastar o acelerador para o carburador chupar seu álcool, que ele compra após brigar com a mãe com o dinheiro da mãe. Pergunto como pode, e como podem sumir com nosso barulhão de todos os dias, ao menos os dias em que passo a estudar a Santa e os dias dos dez anos que o Véio me diz ter a arrebentar seus tímpanos!
          Não posso explicar. E se a gente não pode explicar as coisas, não quer dizer que não existam as coisas; antes nos consideramos incapazes não só a explicar: a saber ao menos. Seria, ‘minhoco’ aqui neste ponto, seria uma pausa religiosa?
          A propósito disso já afirmei, reafirmei até, serem evangélicos. Bem, não filosofemos a respeito, reconheçamos tal verdade; entre eles mais a Juju, o Mateus (o Velho não era nada, se nada existir; aqui é o caçula da Santa) a Zizi, as filhas desta e mais uma que outra pessoa entre eles sendo praticantes da mesma religião; com a falhas normais de tão comuns nos seres humanos comuns e válidas a todos os credos. A maioria na Santa é quando muito religiosa de superfície. Assim as dicussões, sem ser as discussões violentas tratadas até aqui, essas discussões se verificam apenas com esses elementos mais próximos de sua doutrina e frequentadores do templo; os outros: ou se calam, ou consentem mesmo, ou desconhecem, ou mais verdadeiro – são eles indiferentes. O valente Prudente, seja nos seus rompantes como exagero seja na mansidão das conversas fala muito em Deus, “graças a Deus”; num paroxismo foi ouvido a garantir “que Deus coisa nenhuma, Deus não existe!” já os membros mais religiosos, inclusive dona Maria que mais teme que crê, todos acabam uma conversa dizendo “Deus te acompanhe” quase sempre sem o pronome; e tem o cumprimento “na paz do Senhor” que pouco se ouve desde a casa vizinha de grandes orelhas. Volto ao Prudente por sintomático desta questão agora tratada. É o seguinte, num recente entrevero que assisti, estando do ladinho a conversar com o Véio, tão próximos estávamos que não tenho dúvida a respeito: gritou a ela várias vezes “Deus não existe!” insistindo num ferir melhor; o que feriu quase de morte a mãe, ela a implorar contenção do moço, a salvar sua alma. Terá pensado nisso? não sei. Olhei ao Véio, estava meio surdo naquele dia para confirmar os berros, naquele dia que foi um dia destes. Dentro dessa problemática, não me iludo quando se fala muito em Deus. O homem que fala demais em Deus, que existe, mais teme ao Diabo, que não existe, existe em sua mente apenas.
          Nesse item, a religião, temos visto frequentes visitas dos ‘irmãos’ à dona Maria. São irmãos na crença, vêm conversar com a velha, trocam seus pontos de vista, a senhora é pobre também nos conhecimentos gerais, embora boa criatura moralmente falando; e a coisa desanda mais a falar sobre os irmãos ou um culto na casa de alguém. Aqui ao lado da casa do Véio da Silva nunca se fez nenhum. Os crentes daqui vão nas vestes domingueiras aos ofícios religiosos, se congregam e voltam pra casa a retomar a rotina. Às vezes no mesmo domingo ou após o culto da terça-feira à noite se desentendem, entendendo decerto não misturar as coisas, como se fala: amizade, amizade, negócios à parte, como dita o povão. Seria que religião apenas se vive nas quatro paredes do santuário! a casa é lugar mais próprio para lavar roupa suja; e explodir. Que se passa na mente alheia?!
          Creio descrer vendo a amostragem...
          E acabo por não explicar, sabendo o barulho, o silêncio que de vez em quando se faz. O que suponho não mudar o eixo da Terra.



43° Capítulo, neste Capítulo a se abordar a festa da tristeza

          Era uma festa. Festa linda de se ver, o Véio disse que viu não viu, aquela questão de tentar ver doutro lado, pôs uma lata de lixo a subir em cima para ver direto mais por cima do muro, sabido ser baixinho bengalinha bigodinho não podendo observar todo esplendor em não ser pouco pelas frestas e trincos do muro a separar a da Juju de sua casa – mas isto ocorreria posteriormente, por essa época da festa não tinha encontrado a forma perfeita de espreitar a vizinhança e aí, se disse ter visto não viu, ouviu; ouviu apenas o que é o bastante, cri no Véio, ou por ingênuo, eu ingênuo, ou porque sua linguagem era convincente ou pelo menos muito satisfatória, temos o hábito, nós seres humanos temos o hábito de mentir vez que outra a acertar a beleza da linguagem ou somente a assegurar a verdade da verdade e, assim, me contou estar naquele agora (agora não minto, ‘verdadeio’ que não estava eu presente, inclusive o clamor da festa poderia chegar-me à vila onde vivia então e não escutei nadinha) me disse estarem chegando os convidados e ele aflito não podendo ver, optou ouvir. Ouviu primeiro o desentender de mãe e filho, o Prudente, o qual disse umas boas e verdadeiras, entre estas a de estar ano desempregado mas usou calão de envergonhar a gente e a mãe não, a Juju anda acostumada com o tratamento; e rebateu ele em alto e bom som, mesmo que o Véio fosse surdo, mais surdo ainda... Neste ponto da ‘pre-festa’ o Mário, já devidamente morando fora e vindo passar a noite festiva na casa paterna (melhor dizer materna) acordou brabo – “vocês não podem brigar mais baixo! não se pode dormir nesta casa”, tomou rápido um cafezinho e se mandou ao trabalho, quem sabe se não passou pra ver a mulherzinha dele na casa da mãe dela? o Mário deixou os parentes a discutir numa escala de Primeiro Mundo, sequer ficou para ouvir os desaforos parentes; o Mário (que a Juju chama às vezes Mariano) o Mário saiu furioso a esbravejar, bateu nervoso a porta. Porém a dupla briguenta sequer escutou o rapaz que se levantou dormindo reclamando, nem o barulhão de sua barulhenta motoca; continuou a dupla a se desfeitear até ao fim, não dos tempos mas ao tempo da Juju sair ofendida esbaforida a tomar a condução, mais especificamente o ônibus das nove que sai às nove e cinco e nesse dia saiu um pouco mais atrasado, às nove e sete. Aí não dava ao Prudente, homem imprudente mas tendo ligado o desconfiômetro, assim deixou de falar sozinho a apenas ficar amuado no seu quarto, pelo qual a Juju faz um espalhafato a julgar a ordem na sua desordem com as coisas esparramadas, um dia chutou os sapatos do Prudente imprudentemente ela, devendo os calçados estar debaixo da cama e não estavam; enfim o rapaz ficou quieto, que é a paz dos insatisfeitos. Terminou? que festa sem graça. O Véio: nem começou. Os parentes já chegavam, vinham os parentinhos, os capetinhas priminhos do Prudente em segundo grau, porque são filhos da Luciana filha da Zizi e portanto prima do Prudente do Dito e do Mário, e agora a Juju não se encontrava ali a impedir as coisas. Chegou então balofando a tia Zizi atrás dos netos, um remexer e brigar de menino sem controle que fazia gosto. A Zizi ora está em casa ora em casa, na sua ou na de Juju, para ver e conversar com dona Maria, apegada à mãe. E fala e mais fala e aí... aí o Dito acordou, derrubou café na toalha da mesa derrubou uma xícara, mas recolheu os cacos só não percebeu o mano. Bate-boca, esquentamento dos motores da boca, boca de falar ofensas, e loguinho se pegaram. O menino levou a pior contra o homem feito feito moleque ou pugilista; o mais fraco forte de pernas: “pernas, para que te quero?” ganhou a rua, o vencedor das batatas correu atrás gritou deu show desses de todos vizinhos (vizinho deve ser o ser mais curioso no planeta) de todos saírem para ver e apreciar a demolição. Voltou o vencedor enraivecido, e se recolheu à sua cela particular. Mas eis que os convidados estão eufóricos, ele berra contra os pequenos a brincar de pique-salva dentro da casa dos outros, que por sinal é a casa do Prudente; a tia Zizi grita ou com elinhos ou a lamentar por elão, numa conversa inocente com dona Maria – aquele negócio de ela falou ele disse fulana foi quem fez ou ele é um sem-vergonha e demais ‘evangelitudes’, dos costumes populares. Nesse ponto o Prudente cometeu a imprudência de berrar mais berrado: ofendeu a tia, gritou-lhe que naquele santo santuário sagrado e doméstico não era local a se falar bem mal dos outros, que fosse ela prestar essa caridade ou na sua casa ou na igreja ou no inferno; fez mais: expulsou aos gritos a tia; proibiu a mesma a pisar o solo sacratíssimo do seu lar, dele Prudente! Ela, a Zizi, respondeu à altura, em voz baixa à mãe, embora não tão baixo assim que não desse às orelhas do Véio escutar – respondeu que iria embora sim, chamou os amados capetinhas para tanto e completou: “nunca mais pisarei nesta casa!” Ela é uma senhora meio melosa melodramática e se faz sempre de vítima anjo ou santa martirizada e isto é qualidade ou defeito dos hipócritas; fez-se de infeliz, pôs-se a chorar alto a todos ouvirem e mais ao sobrinho saber e virar monstro para o mundo entender; o Véio por extensão ali pegado ao muro também fez sua apreciação; chorou a mulher à dona Maria, que fala baixo e agora a chorar em dueto alto. Se foram. Silêncio.
          A Família da Juju teria perdido a amizade da Família da Zizi! elas elementos importantes da Santa. Seria isso? a Zizi prometera ‘nunca mais’. Nunca mais durando quase semana, pois antes eram visitas diárias. Voltaram os da Zizi, conversaram, se picharam, picharam os outros, tudo nos conformes, tal qual é comum entre parentes, tudo na santa paz da Santa. Inclusive a santa paz com sorrisos por parte do Prudente para com os da tia, o Prudente, um que a Juju e menos o João nunca chamaram de Prudentinho.
          Acabou a Festa, não é? pergunto. Não, seu moço; sou quase mais velho que o Véio, me trata ‘senhor’ e ‘moço’...
          No final o Prudente ficou emburrado; no provar que festa nem sempre tem consequência alegre como falam. Ruminando sozinho; veio tomar café requentado, desses que suponho mais frios e azedos dos que existem por aí, como o que a Velha do Véio faz e deixa na sua garrafa térmica pra ter mais tempo de conversar com a vizinhança, sem ter de fazer um fresquinho e cheiroso e então, pobre de mim, oferece-me e eu, como visita educada, engulo aquilo sem fazer careta mas xingando por dentro a mulher do homem. Nesse dia de festa o Prudente ingeriu sua infusão e ouviu qualquer da avó, a qual permaneceu resmungando baixinho sem parar pelas misérias da filha Zizi; por isso gritou apenas um impropério inocente pra não ofendê-la muito e o faria num baixo calão arrasante ao Dito se o Dito houvesse voltado a bagunçar aqui em casa deles mas o garoto andava era amedrontado com o mano, longe a ensinar sua gangue a bagunçar; daí sobrou à velha senhora ouvi-lo e lhe responder agora alto: “eu que criei vocês com amor para a Juju e o João trabalharem sossegados, agora você me xingando!” Recebeu mais afronta ainda. E foi exatinho quando chegou outro convidado de cadeira cativa a esse belo estádio doméstico, o Luís. O Luís faz par com a mana Zizi, ambos anos a falar mal dos outros parentes, a intrigar; é figura manjada, como diriam os italianos imigrados ao país, o João por exemplo; ninguém confia no que fala o tio Luís. Aí berra lá fora aqui dentro ao Prudente: você tá xingando minha mãe! O ofendido rebate gritado ao planeta escutar: “num bati no cocho de fora ainda...”
          Brigaram gritaram em espetáculo circense ou de parque de diversão, a indignar a pureza da Rua Paraíso, assinzinho de muitos olhos. Ouvidos velhos.
          Acabou? Ele: quer mais! Tomei outro gole, me despedi.



44° Capítulo, asseio na garganta e dores de Maria das Dores

          Coitadinha a dona Maria. Não por ela ter um talento especial, pois não dizem ser impossível cantar e chupar cana? ou se canta ou se chupa, ela com boquinha chupadinha de velhinha enrugadinha, vive numa tosseira toda hora e já tosse para provar ao ouvinte, seja a Zizi ou alguma neta ou alguma irmã da igreja, tosse a dizer que a tosse não para, para a ouvir o ouvinte quase sempre a ouvinte porque as mulheres preferem as mulheres a se queixar e ela já não é propriamente mulher em vista perder o sexo roubado pelo tempo cobrador, perde o sexo: a língua não, ah como fala lamenta resmunga dia inteiro, mesmo não tendo quem a ouça, o Véio escuta, o safadão de orelhas assim de grande. Pobrezinha da velha Maria, a Juju nessa altura se foi ao salão de cabeleireiro na cidade e seria o mesmo que estivesse aqui, apenas diverso porque lhe passa sempre umas raspanças das brabas e se cala, cala a velha. Tem sim um talento sui generis: fala e chora ao mesmo tempo, conta as coisas chorandinho, à forma dos sofredores vítimas e mártires, enfim dentro do padrão estabelecido a esse tipo de personalidade prenhe de ‘coitadismo’ masoquismo e pessimismo, no que é ótima, tadinha. Tosse, tosse seco, reclama chorando num tom de ‘não tem jeito’. E escarra. Dona Maria, não importando quem esteja em casa, mesmo a filha mandona e cobrante, a qual vez que outra se vira à mãe: “tá!” ela concordinha, concordina, tadinha, mesmo sendo que não saiba a concordar com o que concordar, mas justo se partindo da Juju. Escarra e a Juju também ou ainda com mais talento, com categoria, com maestria e quem sabe com PhD mesmo. A mãe entretanto escarra mais humildemente, escarra várias vezes, cremos o Véio e eu, ser no tanque de lavar roupa e as moscas devem ter o mérito a saber mais que nós dois; ele, o Véio, olha pelo buraco e não vê, eu menos ainda, ceguinho e de óculos. Ela escarra com classe, moduladamente, educadamente, baixinho, mais baixinho que a tossir, nisto exagerando na altura. A filha não, filhona a bem dizer embora pouco mais encorpada que dona Maria, a Juju é bela e tem um corpo belo (minha opinião de especialista). Mas ao escarrar cedinho a Juju suja o mundo! estardalhaça o rugir, cospe no banheiro, isto ouvimos mais o Véio seu vizinho, sempre no banheiro, recatada (não iria viver a escarrar na rua fazendo feio!) Fá-lo nas horas impróprias. Basta dizer que sua Velha, segundo o marido que é meu informante Véio da Silva, a Véia outro dia, manhãzinho, jogou o café com leite e o pão com manteiga (acho que é margarina, haja vista a desgraceira de o esposo ser sovina, não iria pagar desperdiçando a adquirir manteiga de verdade, a qual já vem com sebo a grudar na garganta da gente; margarina portanto). Sim atirou tudo no lixo com nojo por causa da escarração da bela Juju, a qual ela acha feiota e antipática e mesmo assim sorri à mulher e dá bom-dia nos encontros na rua Paraíso. Sim, com nojo. Já o Véio é menos nojento, apenas faz cara de asco e engole a massa mastigada com a dentadura postiça dele, cheiinha a dita massa de ptialina a facilitar a digestão, embora por via das dúvidas o velhote ainda ingira lá seus pó-zinhos efervescentes. Todavia não joga fora a comida, jogaria não fosse munheca; tanto assim que vive na pinga no Jorge às minhas custas, isto tudo apesar de a Matilde enfunada com o marido dela e a gente não tem nada com isso, ela a olhá-lo (o Véio) de má vontade. Dona Matilde não, não percebi se escarra, e escarrar no boteco na frente de toda gente, bêbada é verdade mas... acho não escarra. Já a Juju escolhe a hora matinal de refeição do vizinho, do vizinho veja-se bem, pois creio que na hora da refeição dela mesma não terá a capacidade material de fazer duas coisas ao mesmo tempo, cantar e chupar cana: não deve conseguir escarrar enquanto engole o leite, café não toma, diz que faz mal; com inteira razão, pois Juju; tá!



45° Capítulo, aqui  parentes  sem  grau; Simone, monotonia em lago pútrido embora belo

          Que grau tem um parente? Não sei, sabe menos o Véio e não perguntei à Juju, a formosa vizinha do vizinho não é minha íntima, apenas me apresentou ao seu vizinho para que ele me apresentasse as dores da vizinha dele. É provável entretanto que dê primeiro grau aos mais próximos. Os distantes morando distante, têm os próximos que moram em Serra Grande, os que lhe vieram atrás, ela também fugida do Paraná atrás do esposo João, ele atrás da italiana, a Mamma a qual fazia uma macarronada de lamber os beiços e possuía então residência aqui na cidade. Os outros parentes foram se casando se separando da Família central, pra se juntar mais ainda à Santa, Santa no dizer do Mateusinho virado tão só Mateus depois que o pai sepultado e aí quase nem se fala mais no falecido, a deixar, inversamente, os mortos aos mortos, vivem muitos filhos com casa mulher e filhos nesta urbe. O Mateus mesmo fez de tudo a comprar terreno perto da Juju, ergueu paredes a viver com sua bonitona e os filhinhos aí na frente da irmã; já na ocasião elona tomada por líder do Clã Silva; e é preciso lembrar que um líder não diz que é líder, não seria autêntico, não fala, se impõe e é respeitado como tal, tal o caso da Juju. Quanto ao nome familial Silva, o Véio a me lembrar por sua vez que o ‘Silva’ da Juju é de origem cabocla e o ‘da Silva’ dele é do norte da Itália; daí eu me engano no seu acerto por amizade, amizade esta que a Velha esposa dele deplora ou não preza exageradamente, ocorrendo de maneira semelhante lá no Bar em que a Matilde, a defender o Jorge dela, vê nossa amizade também com azedume, isto ligado ao pindura que fazemos. Voltemos aos parentes. O Mateus lamenta que sua residência em meio lote mais se assemelhe a prédio de igreja católica, o qual por dezena de anos se não centena a ser acabado não terminando nunca. Juju, diz ele, já gastei o olho da cara e não acabo essa merda, antes olha pros lados para ver se dona Maria não ouve, porque ela é feroz nessa questão pornográfica e segue a Bíblia em cima da letra mesmo sem saber ler aquelas letrinhas miúdas que dançam sobem descem a linha e nem tem linha pra gente ler ela sequer batizada no alfabeto. A Juju balança a cabeça de belos fios, pois de dúvidas e dívidas entende como ninguém. Outros mais aqui residem perto, a Zizi e o Tonho aparecem de dia e de noite e a Simone também; as outras, a Luciana é bonita e inteligente e só burrou ao se casar com o Carlão que lhe deu um punhado de filhos, meninos arteiros à beça, ou foi ela que deu a ele! bem, elinhos residem durante o dia; vem igualmente na Juju a Karina morante (será que tem morante? o Véio diz que sim, prossigo:) morante noutro bairro; enfim parentes mais chegados. Vem o Luís um pouco intrigueiro, vem à Santa mas felizmente mora noutro extremo de Serra. Outro a aparecer é a Cleusa, irmã deles a morar com filhos e netos num arrabalde do arrabalde, isto porque a Paraíso já é periferia também. Têm outros manos da Juju, estes quase não aparecem; quando vêm, vão logo e deixam o falar-mal dos daqui sobre os de lá. Portanto os maiores frequentadores da Juju são realmente os mais próximos. Parece que existe qualquer coisa nesse sentido: de que se deve atritar mais o próximo e que o próximo é o que vive mais próximo. Em virtude dessa desvirtude as brigas e discussões de graus próximos e de segundo e de terceiro graus sei lá, tudo vem a atrapalhar as brigas e discussões íntimas, ou seja as propriamente da casa da Juju; nas que além dos filhos e dona Maria e, em lambuja, além tem o seu bem: o João. Contudo é preciso reconhecer que todos na Santa são trabalhadores e lutadores pela vida. Bem. Desejo afirmar essencialmente que os parentes que vivem perto brigam perto, e longe estão a falar mal, ‘bem’ intencionados eles são, suponho, supõe talvez o Véio. Desses parentes, destaco a neta Simone. Neta da Juju que não tem sequer neto? não, da avó. Vem ver ouvir conversar, às vezes ler algum trecho dos Evangelhos à Velha, ou trazer fitas cassetes gastas à vitrolinha de Maria, isto felizmente raro, critica meu informante, ele também agora numa tossidela danada parecendo a velha vizinha, mas não escarra, só tosse. Ela, a moça, faz também esporadicamente uma faxina aí além do muro, arrasta isto lava aquilo; e conversa, decerto a velha responde e pergunta, baixinho o Véio não escuta; aí ela fala fala, menos que a tia Juju. Isso a conversa. Parece que conversa para o ser humano é assim: alguém fala, outrem ouve, todos concordam. Deve ser o caso. Caso não erre nos irritamos, o Véio sua Velha e eu, nos irritamos com a cantoria da jovem Simone, a qual já virou de longe titia, no formato do pensar capiau, aquelas zinhas que por feias ou vergonha ou só timidez demais ou ainda por oportunidade de menos, não arranjam marido para brigar, o que não foi a história de Juju, mas da sobrinha da Juju. A Simone vem e lasca um hino, emenda noutro hino e noutros mais dos que aprendeu na Congregação; ela sendo da safra nova quando a Família virava Santa e se transformava em crente, ela nasceu protestante, ou era grandinha quando se deu a conversão; e continua evangélica a cantar seus hinos. Não obstante fá-lo monotonamente, parece que apara as arestas das notas musicais mais brabas e selvagens; e ressalta as tranquilas nada agudas, aguadas quem sabe, a expressar-me por figuras. É como uma linha baixa e sem ondas num lago, contínua. Me desespero, olho pros lados do Véio, ele sorri malícias, olha pros lados da mulher dele, ela gargalha sobre nós, deixa a garrafa com aquele veneno preto e azedo a bebericarmos e foge à vizinhança comadrar a língua. Nós, tadinhos de nós, ficamos a ouvir a Simone. E canta e canta e canta, horas intermináveis. Marasmática, monótona, tétrica! Contudo aprecio, não sabendo a opinião ‘véica’ sobre, aprecio hinos religiosos, não gosto dos católicos, nada criativos em se falando na arte musical; atrai-me os evangélicos pela beleza e a construção artística, a dosagem nas notas agudas e os contrapontos de sons. A velha moça destrói essas belas composições. Tortura-me, torturo-me.



46° Capítulo, estudo aqui da macarronada domingueira; e da festança
                                     na rua

          O Véio quem diz, diz que dá para quebrar um galho o seu tapa-orelhas, orelhas enormes em abano tem esse vizinho da Juju, na casa à direita dela de quem vem e à esquerda de quem vai, vai por aí a loucura de meu informante, sei lá se por ingerência do café frio fraco feio e fedido de azedo que a esposa deixou-lhe, a ir matracar honestamente nas vizinhas; e diz ainda que esse tapa-orelhas só fecha mais ou menos os condutos auditivos, às vezes mais às vezes menos o som do gritar do Benedito (neste ponto eu gracejo a fim de zangar-lhe: será o Benedito! e depois sorrio amarelo sabedor de minha sem-gracice a contar piadas). O dito Dito esbraveja lá fora suas bravatas, está num torneio de berros com o Bocão, sujeito de boca grande e pulmão enorme a assoprar vozeirão de homem numa cabeça de moleque; ele é páreo brabo ao Dito, não em sua chefia ao bando falador, onde todos falam mas falam baixo seu gritar com respeito aos dois mais desrespeitadores nos decibéis legais; fala o bando olha o líder da cambada a discutir por qualquer com o Bocão – a temporada de algazarra está iniciada! e ainda prolongar-se-á por este domingo de sol ardente, se iniciando ontem entre os ventos gélidos e xingantes, as árvores a se inclinar a falar elas o som da natureza. Mas hoje é domingo de macarronada e os garotos querem decerto vencer o desentender da casa de Juju, assim eles falam altão, ‘berreiam’ ‘estrondeiam’ – porém não chegam à conclusão, nunca chegaram creio nunca chegarão. Sim, é domingo. Domingo é o dia do Senhor, dia em que a família da Juju aceitou num consenso ser o do macarrão. Levanta-se tarde, quer dizer mais tarde que o tarde do mais cedo, pois os desempregados não têm hora e podem iniciar seu nada em nada fazer irritante mais tarde e o fazem bem feito; tarde para Juju que tem de, às pressas, tomar o das nove que parte às nove e cinco quando sem atraso, durante a semana; isso fora a segunda-feira que se dispensou dos cabelos ou a cortar os cabelos em casa à parentela e brigar com ela, ou a descansar mesmo, que ela merece. O domingo é diverso da semana, aí se preparam na casa ao dia. Ela agora já foi ler a Bíblia com parentes e conhecidos e demais irmãos na igreja, volta santificada a ralhar os seus. Se ajeita no seu jeito, varre limpa coloca os trens de cozinha como deve; aí chega a oposição. João, diz Juju que não aprendeu benzinho querido meu amor, essas frescurinhas do lirismo, João, você trouxe esta porcaria de carne! depois disso critica o tomate, o esposo pelo tomate, pelo tempero pelo queijo pelos mais e mais à comida; então inaugura o horário nobre de discussão nesse dia, que é deste, pois todos domingos são invariavelmente assim, minto: às vezes aceita a carne não aceita o molho; não dá pra fazer o molho; às vezes somente varia a entonação da implicância. Ora, o João colabora bem nesse contexto, porque atrasa o adianto ou vem cheirando a cerveja a jurar que nem parou no bar, e devendo ser verdadeiro porque o Jorge fica pra cá e ele vem de lá de cima a trazer o que trazer, se bem mal tenha uns três outros botecos no percurso feito; além disso ele aprendeu a jogar as bitucas do cigarro na rua e nunca entra a fumar dentro de casa; assim mesmo a oposição mostrando a fumaça exagerará contra o pobre. Todavia se nada disso fez a benefício do desentendimento conjugal, terá feito outros desagrados ao desagrado domingueiro, acrescidos dos acréscimos do que faz não fazendo as coisas durante a semana, quando a patroa vai no das nove trabalhar. Ele se defende: foge, escarrapacha no sofá, gargalha as baboseiras televisivas, enquanto a mulher labuta na cozinha. Corta, retalha, separa, tempera, ferve, mergulha, escorrem no fogão os meladinhos e ela xinga, baixo decentemente mas xinga, nervosa treme no pescoço onde tem uma cicatriz antiga para enfeá-la sem conseguir por bela a dona da cicatriz. Xinga a acalmar os ímpetos. Aí vem a mãe, interrompem os filhos da mãe (não da mãe-avó, da mãe) eles a se queixar disto azucrinar por aquilo. Se dá arranca-rabo? dá. E a Juju continua após suas altas funções domésticas, o cheiro sobe pula o muro nos agride, o Véio me olha olho se a Velha não voltando, atiro na pia os restos novos do café velho quiçá matusalêmico, aspiramos a fragrância de pimenta extrato de tomate etc., enquanto ouvimos os resmungos baixos da velha Maria e os resmungos altos da Juju. O João vem à cozinha beliscar qualquer, ou seja bebericar um cafezinho que deste lado do muro torço seja de hoje cedo, vem a esse mister ou só para ver o que tem na geladeira, pega mastigando, retorna, antes ouve a bronca da cara-metade enfezada. Continua o aguardo das horas, horas domingueiras, lentas barulhentas arrufentas, macarrão e polenta? não dá certo o errado da rima. Certo que tem que ter alface. Aí o João conta ao Mateus chegante que seu pai era italianão pobre, ia às feiras lá do Bom Retiro ou do Brás ou do Bixiga comprar alface e frutas ao domingo, falam mais nesse menos e logo descambam ao as-sunto santificado não apenas no domingo que é o dia do Se-nhor à Santa: falam de carros. Marca ano tipo apetrechos dos veículos, mais dos que não podem possuir; aí já tem ouvintes e ‘discutintes’ interessados por volta, são filhos são outros parentes e conhecidos, os quais aparecem como que a brotar do nada; às vezes dá discussão, a qual se inicia quase sempre amigavelmente; discute-se horas até, até em torno dum simples parafuso! As mulheres deploram isto, tanto quanto quando os machos decidem discutir futebol. Agora não, não são nem duas da tarde, o Dito larga os seus na rua, vem discutir com os seus de dentro, mais com a Juju, se destratam em altas vozes e ele vence: volta pra rua, faz um sinal aos seus e vão molequear longe do barulho doméstico mas ainda infernando a Paraíso. Mais horinha apenas e o macarrão, a imitar a sogra, e graças a Deus que ela não veio palpitar xeretando a macarronada domingueira hoje, daí o macarrão está pronto, toca-se o sininho (sem existir nestas nobrezas sinos nem cerimoniais) começa a deglutição, a gente esparramada, tem mais gente na sala de televisão vendo show e nenhuma na sala de refeição, que é a copa e a copa é a cozinha a pobres. Porém apenas se discute agora, somente se briga falando com boca cheia, ah que indecência; entretanto só é possível e educado brigar após engolir o que se mastigou; e o safadinho do Dito não dá nem sinal de vida!



47° Capítulo, para tocarmos na tônica do desemprego e nas conversas atreladas

          Oh o desemprego não dá para suportar! Não se arranja lugar aos meninos, meu Deus... fala a lamentar a Juju que fala ao mesmo tempo dos seus e dos seus dentro da Santa. E isto é a ferida nacional, inclusive em outros lares, seja  nos em que se carrega a cruz como o Cristo sugeriu ou nos lares a se desmanchar, por toda parte o desemprego canceriza os homens e as famílias – ou o chefe presumido chefe da casa ou os seus ou seus parentes e chegados pela amizade – sempre alguém ou muitos sem colocação, a Santa não fugindo à regra. Lamenta a mulher decidida e trabalhadeira. O vizinho reconhece nela o valor a persistência a coragem. Mas a bela senhora (minha opinião, opinião contrária da Velha do Véio) a senhora suspira reclama fala lamenta a sorte da casa, muita vez a falar à dona Maria que não fala: ouve, sofre, resmunga lá por dentro, tosse a tossinha mais a se dizer presente ou a concordar ou mesmo a fugir da raia; exato, quando ardem as coisas pro seu lado, tosse; é quase um tique nervoso ou uma expressão de falta de coragem. Porém isso não afeta a filha, continua a reclamar pela sorte, a falta de sorte. Introduz no lamento suas coisas e picuinhas no trabalho como profissional – é uma colega, é a dona voraz e aproveitadora, é o horizonte sem muito horizonte. Comenta-se, ela tem sempre orelhas ávidas por perto, comenta-se as coisas familiares e as dos conhecidos, entram à baila atitudes dos irmãos lá da igreja fora da igreja. O Mateus lembra os descalábrios morais dum deles, a comentar com Juju, um a se passar por anjo benquisto e valorizado. As mulheres se calam, envergonhadas, a vergonha pela falta de vergonha dos outros nos faz vergonha; a língua macha não pensa assim e despeja corajosamente os podres. Aí alguém tenta fazer funcionar um dos veículos da casa ou chega um visitante motorizado, o qual pode monopolizar a atenção: autos têm poder de ímã na Santa, supera quaisquer assuntos, mesmo aquele da vergonha e da imoralidade.
          Chega a visita, quase não visita por intimidade e constância, a Laica despenca a anunciar, não se sabe se ofendida ou por alegrar-se. Ela também tem lá sua preferência e aí entra a questão do cheiro, a cadela com direito a achar bom ou mau. Trata-se de uma vira-lata miúda trazida da rua pelas mãos do caçula, o Ditinho tem a mania de recolher bichos pra casa; o comum: traz e deixa o cuidado aos adultos, ou morreriam de sede e fome. Anteriormente trouxe o Skope ou qualquer coisa parecida, um cão podre de vermes; e aqui não houve veterinário mas o costumeiro tratamento de arroz e feijão na latinha cheia de formigas; o infeliz não tinha sequer coragem de correr atrás de gatos, empacotava parando no meio da rua Paraíso, aí um infernal carro passou por cima do infeliz. Outros cachorros fizeram plantão na casa da Juju, sem qualquer possibilidade de vida nababesca. Parece que o que conta realmente nos cuidados da casa é a falta de cuidado, a se cuidar mais dos seres humanos e de sua visão material do mundo, ou de suas necessidades, bastantes. Como o desemprego a enfermidade as atrapalhadas no viver. Vive-se. E a suportar o viver ou a alimentar o viver, desentendem-se.
          Agora, aproveitando o momento negativo ou a fugir dele se conversa à solta, tem gente na sala a conversar com a tevê ou comentando em opiniões abalizadas a opinião televisiva ou à parte boquejando nas rodinhas; enquanto isso no quintal e à beira do tanque de roupas gente esparramada a trocar ideias, não apenas sobre o problema do desemprego que assola quem sabe o Universo; mas fala-se do tempo o tempo todo, isto interesse do humano comum; e se fala mil banalidades: dores e dores dos outros, preços com carestias atreladas, fala-se muito de crimes – ah como brasileiro adora falar nisso e noutras violências. O aparelho de televisão a piscar e mudar cores ajuda um pouquinho na coisa e mostra nos canais programa específico do assunto; é só ligar os importantes, onde se pode ver uma amostra perfeita hoje em dia. Isto é um bom exemplo aos exemplos que os membros da Santa agora reunidos têm a apresentar e discutir: todos se interessam. Se o Rico estiver presente, então arranjará maneira de matar estuprar roubar destruir na forma cômica; aí em vez de chorar como propõe a dor de outrem se riem, às vezes gargalham; aproveitando a emendar com o assunto de sua preferência, que são fatos ligados a veículos automotivos; inclusive as mulheres se sentem atraídas então; mas é claro preferirem propor ou aprender uma nova receita de um doce ou salgado. Comer é outra paixão nacional. E da Santa.



48° Capítulo, neste a analisar a ‘remudança’ de Zizi

          Não se sabe com certeza se Juju era contra Zizi, se esta contra aquela; e no passar do tempo ainda muitas dúvidas ficam. O certo entretanto nesse errado é não se aceitarem no estado em que a natureza as legou ao tempo. Resta ainda ressaltar que, apesar disso, se querem ou até se amam, considerando aqui o amor ao inimigo proposto pelo Cristo, o qual não fala nos beijos e abraços (as pessoas se abraçam e beijam por futilidades sociais da educação, mesmo não se prezando e até se odiando) mas propõe o Mestre a tolerância. Toleram-se até hoje, não se dão e isto tem raiz nas Raízes. Agora, diz o Véio escutandinho as coisas além do muro, agora, num certo dia, dias após a morte do chefe destronado da Família, a Zizi decidiu que seu Tonho e todos os seus se transferissem em retorno ao Paraná, esse lugar vago que os membros da Santa se referem a citar o hoje e o ontem, que era naquele tempo, expressão também vaga, citam a fundamentar suas afirmativas. Decidiu irem-se de mudança à procura do ponto de interrogação e das reticências da vida, alegando que em Serra não havia emprego à Simone, uma filha que é ao mesmo tempo filha e tia, o pai da Simone ficando com sua magra aposentadoria, cada vez mais esquelética todos sabem disso, havendo muita boca a sustentar. Aí entrando o Paraná, ah o Paraná mirífico! muito discutir na Santa, uns que sim outros que não deveriam procurar encrencas, pois se aqui a coisa é brava, que dizer numa cidade menor ainda e no meio rural o próprio meio rural os banira um dia. Não teve jeito na decisão da Zizi, o Tonho largou suas propriedades de Serra nas mãos de outros parentes empregados ou subempregados e se mudou com sua Zizi robusta de ancas e línguas. Foram-se por meses e voltaram em nova mudança, agora de retorno aos problemas daqui, a trazer de novo a Simone para cantar seus hinos monótonos à dona Maria e ao Véio, à mulher dele não: fugia aos vizinhos mais longe sem alcance de orelha. E novamente os membros da Santa a se reunir aleatoriamente nas oportunidades que apareceram a discutir debater os prós e contras dessa mudança parente com sabor cigano, desta vez como retornando a Serra Grande, a fim ter os mesmos dramas dos dramas anteriores. E aqui retomando igualmente as frequentes visitas da Zizi à sua estimada desafeto Juju, a poder levar trazer os mexericos familiais, tendo possibilidade desde então a enriquecer os desentendimentos com os desentendimentos desenterrados no Paraná, onde novamente em Santo Antônio residiu meses com os seus. A coisa ferveu, ferve até hoje, hoje é segunda-feira, dia para descanso de Juju como cabeleireira lá na zona central da cidade e muito trabalho doméstico acumulado aí além do muro, lavar assoviar hinos, varrer assoviar hinos, esquichar o corredor e a calçadinha lá fora e enquanto dentro a assoviar hinos e se calar na rua ao ver o vento trazendo folhas e a rolar outros lixos; ah têm os catadores de papel plástico e latas a remexer o lixo da gente, antes que o lixeiro passe com seu caminhão que parece besouro a rodar e zumbir a carroceria fedorenta e a pingar líquidos marcando a rua, esta Rua Paraíso, porque hoje é mesmo dia de lixeiro, e têm também os cachorros, parece que infernam de propósito nossa rua com a latição; e aí a Juju aproveita para tirar um dedinho de prosa com as vizinhas pois têm elas as mesmas queixas e se falam bastantinho do tempo e da ventania na Ventania. Nesse dito momento vem vindo a Zizi, aquela... E depois tem os rebuliços das conversas na área da lavanderia, as coisas de família com criança a correr e a fazer outras artes, até o estouro de Juju, estando a preparar a comida, Deus não lhe deu filha, seria diferente menina-mulher a auxiliá-la, fica tudo nas suas costas, mesmo os trabalhos masculinos, não falei Sueli? a vizinha concorda e a Juju continua: até capinar (ela fala carpir) até isso tenho de fazer no quintal quando não estou no trabalho, o João com a bunda no sofá, o Prudente a dormir seu cansaço noturno (a mãe numa boa política materna esconde ou retarda a verdade do que julga o Véio faça o Prudente... como Juju também defende os outros perante os de fora, o Mário? é um anjo trabalhador, o moleque Dito é bagunceiro mas de bom coração) o Dito foi para a escola, ah vai bem, obrigada, e a Mãe, pobre dela, tão doentinha, mas tenho, Su, de trabalhar dobrado, até carpir, viu Su como o mato anda alto? Então se volta à Zizi, não se morrem de amores, conversam às vezes, inclusive se riem das bobagens dos outros, os outros que têm o péssimo costume no ser imperfeitos, mesmo os irmãos da igreja; nesse ponto têm elas muito a dizer porque apreciando religião como entendem elas a religião. Não se entendem. Bicam-se frequente. Também bicaram-se em Santo Antônio durante a crise econômica na qual deveriam unir forças, saíam eram dentadas. Antes mesmo, na fase que a Família lançava suas raízes e o Mateus apreciando beber um pouco e bater muito, a sobrar o eito a enxada o suor aos filhos, ainda o Mateusinho não era nascido, dona Maria a trabalhar ora na casa ora no cafezal com aquela barriga enorme linda de se ver – ainda nesse tempo as meninas se pegavam, precisando separá-las. Uma acusava a outra por linguaruda e ‘inventadeira’. A solução muita vez fora enviar uma à roça para levar comida aos grandes; a outra ao rio a bater roupa, a carregá-la na bacia, a bacia na cabeça bela de Juju, o Peri a pular-lhe alegre, ora na frente ora atrás da menina ou a cheirar os matos. E na refeição! se destratavam, nenhuma a querer arrumar a cozinha para dona Maria. Havia também o Luís, aquele intriguento! enredava os manos, brigava se desentendia com todos, democraticamente, menos com Zizi. Agora cresceram envelheceram, sem ficar de bengala como o vizinho da Juju, o Véio. Parece que a Juju tem eletricidade contrária ao Luís, mais nesse menos com respeito à Zizi. É isso.
          Isso me conta o meu informante preferido, estou uns dias a pajeá-lo, a mulher dele ocupada na vizinhança. Ocorreu de o pobre – no intuito de colher dados a basear este romancinho – o infeliz teve a feliz ideia de subir para não somente ouvir como sempre mas também ver as brigas da Juju com os demais elementos da Santa, visto o Véio ser baixinho, só podendo ver pelas frestas do muro, esse muro que a vizinha quer aumentar elevando umas três fiadas de blocos (suponho não seja a evitar as orelhas do Véio, mas a poder se desentender melhor com os seus com mais intimidade sem se exporem aos curiosos, em geral e não especificamente aquelas orelhas). Então, o pobre não alcançando a olhar mais explicitamente, inventou o Véio pôr a lata de lixo; a dele é daquelas de vinte litros que comportavam só dezoito de óleo antigamente, a pô-la de bruços, ela ficando normalmente de boca pra cima como depósito de lixo e depois posto este em sacolinha de plástico com propaganda do supermercado lá de cima; enfim a fim de guardar o resto para o dia do lixeiro passar, hoje por exemplo que é uma segunda-feira. Como dizia, o homem pôs a lata de boca pra baixo, subiu nela com ajuda de sua potente bengala ao fundo da mesma e aí, ah aí deu-se um milagre! ficou grandão o Véio, altão assim, apto a flagrar vendo a Juju ainda a desfeitear a Zizi que a desfeiteara... justamente no ponto em que Juju fazia na cara do desafeto de estimação seu característico “tá!” o seu vizinho curioso caiu. Despencou num trebófe tibum ou barulhos equivalentes, a se desconjuntar. Moral da estória – está entrevado de perna quebrada, tornozelo trincado melhor dizer. Foi então que tocou-me pajeá-lo por um tempo; nessa tarefa própria a enfermeiros onde me saio bem no meu sem-jeito, é aí que me despeja as mudanças e remudanças da Zizi, me enrolando tudo aqui na cabeça, sobre essa dita Zizi. A qual, penso, mudou sim mas não muda.



49° Capítulo, aqui o telefone e o telefone celular

          Toca a tocar o fone, toca desesperado em casa do João, por conta da conta paga pela Juju. A Juju reclama sempre a conta, paga, paga o ipeteú a água a luz, a prestação nem se fale, fala sem parar enraivecida, ainda por cima o Ditinho pensa que ela é o Tesouro Nacional, um saco sem fundo o garoto, o livro de inglês o de ciências, não dá ciência de tanto que tem a comprar ao filho, mas quer que seja um homem de bem um dia, é preciso se formar. Pensa grande ao pequeno, mais tarde enorme ela a olhá-lo lá em cima ele a ela lá em baixo, não tem medida nem miolo: arruaça suas arruaças na rua com os outros, some por aí, às vezes tarde da noite a chamá-lo, a berrá-lo. Vai pôr o menino na informática, vai... falta muito na casa, os gastos demais e a gente se esquenta na reunião da escola dele, notas vermelhas... será que não vai mesmo às aulas como falam os professores! Mas as despesas crescem, crescem as do lar, agora o telefone arrasa os bolsos da família, quase tudo saindo da Juju; trabalha semana toda feito burra, diz que feito burra, o João ganha pouco na firma, só vive a viajar nas entregas do caminhão-baú e aí sobram as roupas sujas dele para ela (depois pioraria com o esposo parado); o Mário se casou, não entra mais nada dele aqui; o Prudente fica mês num emprego dois parados também e quando recebe não quer ajudar a casa; o Dito só sabe é pedir pedir pedir dinheiro. E a geladeira! limpam a geladeira, deixam a geladeira limpa sem nada; e não limpam, sobrando para ela na faxina da segunda-feira de descanso; e tem a roupa e tem a comida e tem que olhar dona Maria adoentada, mais adoentada, devendo ser a reação da vacina contra gripe. Tudo sobre sua cabeça. E o telefone não para de tocar! Agora resolveu um pouco cortando o gasto – pôs um cadeado; quem fará ligação para ela pagar; mas que fazer nos casos de telefonema a cobrar? ah, insistir com os seus pra não aceitarem o pedido. E o constrangimento, quando os parentes de fora querem falar com dona Maria nas costas dela... não quer pensar nisso, nisso é que pensa e se enerva, aí briga após um desencontro qualquer nada tendo com a conta abusiva. Não fica por aí.
          Então a Santa, e particularmente a casa de Juju, optou pelo celular. Modismo febre ou só consumismo. Ou necessidade talvez – todo mundo brincando com o visor do telefoninho celular; tem uns que são umas gracinhas. Ah quanta discussão deu essa adoção. Os outros membros vêm para a festa da fraternidade, ou são os jovens ou são os adultos, vêm já com celular dependurado ou guardado na bolsa ou preso na cintura feito molho de chaves. É a onda, uma onda caríssima a qual fere engole e afoga mais os desavisados; os parentes entraram nessa; inclusive seus filhos, ela não. Todavia lhe sobra o pagar de vez em quando, se não a prestação atrasada, a conta. Tudo por cima da gente, estrila Juju.
          Meu informante me olha com malícia. Aí chegam umas parentas a esfriar um pouco aquela quentura ou fervura mesmo, se infiltram de forma sorrateira na casa; a gente nunca percebe bem, entra um chega outro outro ainda não se sabe como foi que penetrou e ali está a perguntar as coisas, os mais íntimos desses íntimos já estão pingando café da garrafa ou mexendo com a cadelinha. Agora são elas, as parentas.
          As mulheres conversam suas coisas que não entende-mos nem eu muito menos eu não versado nisso, e nem o Véio; este apenas me dá uma piscadela cúmplice e abrimos os olhos dos ouvidos, finjo não estar interessado e, íntimo também na casa do Véio, tomo outro café, aquele azedo que a Velha fez trasanteontem; daí  ouço.
          Falam agora de sonhos, mulher parece tem mais facilidade para sonhar, ou é que a sua memória desperta acorda melhor a memória onírica que nós machos; não sendo que temos nem eu nem o anfitrião de precisar mais ter preocupações dessa ordem, embora só o Véio use bengala. Falam as damas, contam, contam-se, riem gargalham das besteiras vividas dormindo; e param pra tentar analisar as estórias; concluem de fato por estórias; assim mesmo param a verificar os porquês. Algumas acham haver influência de almas penadas, outras temem coisas do Demônio. Logo preferem trocar isso tudo por algum fato real desse sonho triste que lhes parece o dia a dia, cheio de gastos com poucos ou mal administrados ganhos. Vem o contar dos dramas das outras pessoas a elas ligadas, sobretudo parentes ainda mais pobres e conhecidos, dos quais se condoem. Mas tem sempre uma arte qualquer de menino a despertar o próximo e urgente e aí se para, sem parar. A vida não para. Elas creem só parar no cemitério, umas imaginando um romântico e idílico céu pós morte, no feitio evangélico.
          Aqui, lá pra lá do muro do lado de cá, o Véio sorri matreiro pro meu lado. Ele acha que morreu, morreu e pronto, isto lembrando o episódio triste do sumiço do padrasto João do Prudente. Este, estando a mãe desesperada pela iminente perda e quem sabe sofrimento possível do esposo, gritou o Prudente à Juju – chega de chorar, se morreu, morreu; e pronto, não se fala mais nisso. O que não resolveu a questão. Mais pra diante retorna o João, o qual é-lhe um inimigo a combater a desfeitear a destruir sempre que possa. Mostra em todas oportunidades uma raiva incontida contra um ser que o amparou e à mãe dele quando o pai biológico largou a família na miséria. O João não pôs empecilho e sustentou a todos. Agora recebe esse tratamento, porém não reage com os mesmos insultos recebidos. Sem ser um ser angelical, um homem de bom coração apenas.
          Não pensa nos termos do filho a Juju. Briga é verdade, diz umas boas ao João, contudo reconhece seu valor e o ama. Não obstante vi com meus olhos, não com os do Véio, muito menos com os de meu Boneco (ah tenho saudade do Boneco falador) vi a seguinte cena: o João, sorridente a cruzar comigo, a Juju atrás dele, o pequeno, ainda pequeno atrás dela, em fila indiana a irem tomar o coletivo para ver a Pina, a italiana. Aí me pareceu uma situação reproduzida que os anos me mostraram na família matuta de modo geral: não há achegos, aconchegos, abraços; meu bem meu amor? nem se fale, vixe.
          É isso que vi deles. Curiosamente sequer falei do assunto ao curioso Véio. Esquecimento decerto.



50° Capítulo, neste canto o portão rangedor

          Coisas lá de meu informante, engulo o quanto posso essas rabugices de um convalescente de pé quebrado; mas penso na sua ranhetice como possível razão a afugentar sua esposa de casa. Não iria dizer a ele uma coisa idiota dessa, ou teria de ouvi-lo em suas justificativas: tudo tem de justificar o homem; e nisto vejo a tibieza do seu espírito e talvez orgulho e vaidade. Mais uma vez não comunico minhas conclusões. Embora tais cuidados, me saí mal; vamos a outro mal, sua rabugice como falei. Falou o Véio que já conhece todos os sons da madrugada na Paraíso, quiçá de todo o Bairro Ventania (aceitando que falasse de toda Serra Grande; apenas não creria). E sobretudo, disse, os sons na vizinha Juju, a qual acha bela fêmea, enquanto sua fêmea o contradiz falando ser horrorosa, eu fico nisso do lado masculino. O funcionamento do carro, da motocicleta, o escarro escandaloso dela, o ai de Maria, o João a explodir seu “pô!” são sons conhecidos dele, mas os sons materiais arranham mais a sensibilidade do Véio, meu anfitrião, ou arranham seu enfermeiro a trazer-lhe o remédio e o café azedo!? sei lá. O portão da Juju ah menino (que tratamento interessante por parte de um idoso...) o portão a ranger. Aí me explica as diferenças essenciais entre portões portas janelas na vizinhança toda, uma chatice sem tamanho, que não dá a narrar aqui; resumo tudo no contraste seguinte: o portão de ferro da dona Teresa bate em cima do mourão, o do seu Chico arrasta-se no chão fazendo (então imita um som próximo de ‘ihin’ numa onomatopeia engraçada); um outro portão fazendo um grasnado etc. e tal. Mas o da Juju, meu Deus do Céu! (imediato gritei-lhe, pera lá, Véio, você não acredita em Deus... fez de conta não ser com ele; até repetiu:) ah meu Deus do Céu, se arrasta no solo naqueles ferros em decomposição e, não satisfeito, o sádico a fechar ou abri-lo ainda bate a folha de ferro no batente, entrando aqui ó (mostrou a orelhona de abano) quase enlouqueço! A minha Velha, ela, dura na queda, sono de pedra, até ela acorda; pior, reclama pra mim como fora eu o bandido e não a vítima. Aproveita-se a esposa para me reclamar também pelo ronco, nunca ronquei na vida. Concordo, toda visita deve concordar com o anfitrião, mormente estando doentinho e por ser meu fornecedor principal de dados para a feitura disto. Prossegue a lamentação.
          Saiba que morro de medo nestes dias por causa do portão. (Apresento ao homenzinho meu melhor ponto de interrogação disponível. Ele:) pois creia, antes a bagunça dos moleques era algo terrificante e enlouquecedor; depois o Lions empregou a maioria nas empresas de Serra, pela Guardinha. Peraí, vou acabar meu pensamento. É o seguinte: o Dito, sim será o Benedito? é o Dito, ele conseguiu um lugar, a Juju infernizou tanto os organizadores que eles colocaram o rapazinho não sei aonde. E aí? bem, ele vem da cidade, desce do ônibus ali perto no Jorge, aliás quando eu estiver de pé você me prometeu... (já me trata por você, íntimo) então, desce e vem correndo pra casa. Nesse ponto abre range bate me esculhamba os miolos aqui! tremo, isso mesmo que ouviu, tremo de medo: comerá pela boca e pelo nariz a sair e sai correndo, aproveita e abre range bate outra vez o portão a intimar sua gangue, Ali Babá chamando os quarenta ladrões a infernar o paraíso da Paraíso! Não contei a você que o Dito... (daí me conta outra vez das ene-vezes que narrou o mesmo Dito, o dito do ímã, as arruaças na rua e a boca suja do Chefãozinho, me conta ao estilo idoso: repetir repetir repetir a repetição; que horror, não desejo ficar assim quando velho, ai, já estou velho...)
          Saio à rua Paraíso para ver lá fora, ruminar isto e a planejar como distribuir a matéria neste romancinho. E que vejo então? o Dito indo em direção ao bar. Quem sabe, penso, atrás de guloseima ou ... ah, me lembrei para que se deslocando: pra ver se o pai dele encontra-se lá, para depois dedar à Juju; ou até poderia ser para alguma comprinha, a qual terá custado muita discussão falatório insistência da mãe a convencer o filho (isto sendo uma dedução lógica, em vista o fato de saber que o Dito não quer roubar um minuto sequer da brincadeira pra fazer um serviço a benefício do lar). Não sei, sei que percebo por trás o molecão e noto que se parece demais ao João no andar jogado, nem precisa do exame do DNA para saber filiação. Sorrio nesse pensamento.



51° Capítulo,  dedicado às confissões e a adoção de Rico

          Abri o Capítulo 50° a falar do Véio, repito a dose falando do Véio, porém a falar na Velha, da Velha. Seguinte. Eu me encontrava por uns dias a cuidar do esposo, a ouvir-lhe os segredos atinentes à Juju e sua gente da Santa, aproveitando in loco ouvir com mais propriedade por minhas próprias orelhas, bem menores que as dele, vaidosamente reconheço; assim quando caí, não nas graças mas nas desgraças da esposa do homem. Isto arruinando-me as pretensões e a tarefa, ou seja a atividade a recolher dados ao romance; pois que fui expulso da residência deles como persona non grata! Ocorre ter sido infeliz nas minhas observações sobre a culinária da anfitriã, o Véio já capengando razoavelmente na cozinha, eu e a Velha do Véio na sala, eu acostumadinho então num afundado no sofá fumava meu cigarro, embora de ouvidos atentos às coisas na Juju, quando não sei por que cargas d’água reclamei a dizer que o cafezinho dela era tão azedo que nem dava azo a fazer a chamada boca de pito! inadvertência, deslize imperdoável creio. Não conseguiu minha alta educação o conserto do erro a voltar ao concerto. Sapecou-me a anfitriã (ou é anfitrioa, sei lá, e não importa, Ela:) o senhor se coloque no seu lugar, suma de minha casa! Abaixei a cabeça, envergonhado, nada mais disse por haver engolido a língua; ela disparou, tripudiou em cima do vencido, eu, disparou pornografia num calão da mais alta baixaria, talvez a envergonhar ali Ali-Babá em frente na rua, a bagunçar as suas coisas com sua trempe de quarenta anjos. Saí.
          Depois raciocinei. Primeiro que me expulsou de sua metade da casa ela sendo cara-metade, visto o lar pertencer aos dois, quem sabe pudesse voltar para ouvir a Juju na metade pertencente ao Véio. A ideia esdrúxula não se sustentou, antes teve desdobramento terrível aos meus pobres bolsos e a ganhar antipatia também de Matilde. De fato, a buscar as encrencas da Santa através do Véio, fiquei na obrigação de o convidar a me segredar no boteco do Jorge (prejuízo à minha carteira, o homenzinho toma pinga como água!) Também me pilhei noutra falta, além da ofensa à mulher do Véio. Explico-me. Enquanto ouvia as discussões na Juju e opinava aqui dentro contra o neurotismo da bela cabeleireira, me adesculpe o João por este abuso meu; enquanto isso eu ofendia e brigava com a Matilde, outra anfitriã (pergunto: não será anfitrioa?)
          São lembranças de minhas vergonhas. Confesso.
          Enquanto a casa ardia no vizinho, a sua casa ardia também porque a Juju, ao invés de ficar em vingança a me ouvir os disparates e os disparates da esposa do Véio contra mim, não: brigava ela, com mais competência e experiência, com certo familiar; concomitantemente, o João e o Prudente, como fossem excelentes amigos e não desafetos, assistiam a Sessão da Tarde na televisão, inclusive gargalhavam ambos. Mas Juju amansou, sobretudo ao ver necessidade de cuidados com dona Maria, afônica então e numa tosse danada. Amansou e aí despejou para uma irmã de sua igreja que visitava a velha mãe, como foi a adoção do sobrinho Rico.
          O Rico viveu aqui nesta casa como filho. Não pagou nada, comia e bebia do bom e do melhor, casa cama roupa lavada – não é mãe? – então,  bem, a irmã sabe como são as coisas; ele é bom menino e trabalhador, mas o que ganhava, uma miséria porque o patrão era aquele homem, não é mãe? aquele um... o que ganhava enfiava por aí, aqui? não dava nem um tostão. Verdade que pagava o terreno do pai dele, minha irmã mora em São Paulo e anda num descontrole, toda família dela passando falta, uma coisa de fazer dó. O Rico? esse comprou até carro, como é a marca mãe? (dona Maria a desconhecer essas coisas, fala e o sopro não diz coisa alguma, a Juju prossegue à outra:) Pois é, gastava a rodo, nem um centavo aqui pra casa. Nós (quer dizer, ela só) chamamos ele nos tentos: que tal dar uns “trinta real” por mês. Deu num mês, outro só “dez real” e no outro mês seguinte nada. Um dia se mandou daqui. E a bobona aí (aí dona Maria sorriu amarelo) a tonta ainda abriu a boca a chorar, choramingou a falta do Rico. Não não, irmã, saiu numa boa, vem sempre aqui filar a macarronada (Juju conta como tempera o macarrão à moda da Pina; aproveita-se a dar graças a Deus, e Deus deve estar mesmo ouvindo sua serva porque a sogra não apareceu mais – se aproveita a dar graças por não vir faz ano a mãe do marido). A Juju conclui seu pensamento: e o Rico é um sujeito agradável; e engraçado, já viu ele?
          É, de fato, engraçado.



52° Capítulo, capítulo curto ao comprido campo esportivo na Rua Paraíso

          51 eu sei é uma boa ideia; e não foi demais, este agora o 52°. Mas não foi boa naquele dia. Precisava atravessar a Paraíso, ainda tendo de amparar meu informante (preciso esclarecer que um bebum pesa por uns três Véios sóbrios) vindo a gente do Bar; o Jorge se condoera de mim e lançara a conta à conta de pindura, apesar da negação da esposa dele, nessa altura o homenzinho bêbado da silva, deixara inclusive lá o chapéu e a bengala, não o bigodinho, sorria sorria babava a escorrer sorria não dizendo coisa alguma; no final das contas era arrastado por mim e deveria ser entregue à Velha no portão deles, ela já não me queria lá dentro de casa nem falava mais comigo. O drama maior sendo como tourear a moçada a jogar volei em frente da residência do Véio e a da Juju, e claro: na frente das outras casas também. Mil, mil e um jovens a pularem atrás da bola nem vendo os outros passar; não apenas os jovens: também o Mateus e a Débora, a belíssima esposa dele, a jogar com os garotos. Em volta os filhotes do casal a gritar na torcida, a torcida tinha tudo quanto curioso, os jogadores só paravam – de jogar, não de gritar – quando ao passar qualquer veículo, aí alevantando a rede esticada do poste de lá até uma quina do muro do Véio e da enfunada mulher dele; após retomavam o berreiro e o jogo. Um escarcéu. E isto ocorre sempre, diz embolado meu ébrio companheiro a tropeçar nas pedras inexistentes. Um fuá. E isto ocorre sempre, repete o bebum ao meu lado. Agora, antes vi foi várias vezes o futebol na mesma rua. O xingo o grito o chute o campo, a rua. Uma bagunça. Isto é o repetir o repetir de cenas, as cenas corriqueiras na Paraíso, um inferno, repetição igual repetição de filmes na televisão. Uma balbúrdia. A balbúrdia sim eu mesmo vi, não precisei ver pelas orelhas alheias.
          O Véio não podia ver direito. Arrastamo-nos como possível entre os meninos, eles sequer nos percebendo, igual menininhos em brincadeira no faz de conta: a gente cruza esbarra barulha ali no barulho delinhos e eles não nos veem. Contudo chegamos. Entreguei a encomenda para a mulher da encomenda; e a infeliz consorte ainda me ofendeu o favor prestado: o senhor vive dando bebida a este pinguço, “eu devo depois ficar a aguentá-lo!” e ainda me fez uma careta a desaforada. É isso, foi isso.





53° Capítulo,  neste o falecimento do Sr.Véio. Juju não aparece no velório nem
                                      acompanha o enterro

          Acho uma posição mui incorreta a Juju não pagar na mesma moeda havermos nós, o Véio e o Escriba, levado o corpo do Sr.Mateus seu pai à última morada, isto de última morada no entender do homem comum; e em contrapartida a bela senhora não haver-nos levado ela a nós para nossa morada definitiva (isto ainda pensamento do homem da rua). De minha parte, cruz-credo! Porém o Sr.Véio da Silva, meu seguro e bondoso (o ser humano crê na santidade do morto, ou lhe teme o puxar dos pés ou da coberta nos pés e aí o adula, num puxa-saquismo discutível a bendizer o cadáver e o santificando) sim bondoso informante destas linhas, ou para que as mesmas se tornem linhas maltraçadas, capítulos de romance, versículos não propriamente, nem segundo Mateus ou Lucas, Lucas é um menino buliçoso que vive em algazarra na Rua Paraíso, sobrinho segundo da Juju, por parte da mãe delinho, que é uma das filhas da Zizi e do comportado Tonho, frente à Zizi. Morreu.
          Não o Tonho nem a Zizi, morreu o Sr. Véio.
          Não obstante, claríssimo ser antes do seu falecimento, a Juju me apresentou à sua bengala ao seu chapéu e de amostra grátis também ao bigodinho do Véio; não estendeu a apresentação à apresentação da esposa dele, esta sua inimiga ou só adversária, uma a dizer cobras da opositora vizinha outra dizendo lagartos da vizinha em oposição; sintetizo a falar que se falam ‘feias’ e quem sabe se não acreditam mesmo no que dizem! Apresentou-me essa figura a mim, sem imaginar decerto que o senhor baixinho fininho magrinho feiinho e talvez safadinho fosse virar a partir de então meu olheiro ou espia, se bem que nesse mal já fosse antes enxerido olhador e escutador por longos dez anos. Apresentou-nos um ao outro e sumiu, sumiu de nosso convívio, convívio apenas de rua. A gente simples crê que por trocar meia dúzia de palavras já tem um novo amigo e se engana: só tem um conhecido desconhecido a mais para dizer “olá” “vai chover” “bom-dia”, quiçá a se queixar ambos desconhecidos-conhecidos da ladrona da prefeitura, dos preços altos, da falta de emprego, ou só do tempo. O tempo gera o tempo que gera a perda de tempo.
          Com essa apresentação passamos a viver o dia a dia da Juju, da Santa e das pessoas atraídas pela Santa. Propus-me a descobrir os meandros da Juju por intermédio das manifestações dos parentes dela e dela, em particular, suas atitudes, seus rompantes; a deduzir méritos e deméritos, a lhe descobrir a linha de sua vida neste planeta sofrido. Estão aí atrás cinquenta e dois capítulos, os quais nos forneceram uma chuva de informes; agradecendo eu, Escriba, ao fornecedor da maior parte do conteúdo; assim, fornecedor sendo tomado aqui como curioso, sim, mas tão somente curioso no mal sentido a saber as coisas de sua vizinha; enquanto sua cara-metade com metade mais uma noutras vizinhas, sei lá se não comprometida com outros escribas a ‘dar o serviço’ para outros equivalentes romances; mas com certeza ela contra a Juju, a feiosa, segundo sua opinião, opinião contrária, que é a meu favor, bem entendido: contra o marido, o qual a Juju garante em segredo à Sueli ser apenas “amante da sem-vergonha” (a digna esposa do Véio); porque nós ambos a achamos bela, um que bonita e o outro que mais bonita. Bem, sintetizando é isso.
          Não é mais, o Véio morreu.
          Diria que o Velório foi simples, nada de frescurinhas e embelezamentos, sequer serviram cachaça tão do gosto do morto vivo quanto do desgosto da viva morta, morta de raiva, referindo-me à dona Matilde, o Jorge é indiferente a isso até agora, indiferente não: cumpre ordens, despeja o líquido no copo do Véio ou lança a conta no meu pindura (não desejo nem pensar nisso, ou pensarei como não pagar; dever-se-iam perdoar as dívidas aos mortos! ou advindas dos falecidos). Simples, se velando na casa vizinha da Juju, a qual certamente não discutiu nesse dia com os seus em respeito ao Véio, um santo terá pensado; ou fê-lo baixinho discutindo dentro da casa com sua gente em respeito ao mesmo respeito ao corpo do vizinho. Não foi o pobre, por pobre quem sabe, não foi para o Velório Municipal; aquele mesmo que visitamos a enterrar o Sr.Mateus, este fora carregado no caminhãozinho elétrico sem barulho, a bisnetinha a indagar ao pai, “pai, é esse o carro que levará o Vô para o Céu?” E o Véio, terá ido ele ao Céu receber agrado dos querubins? Não sei, sei que era quando era era ateu, embora frequente o pegasse a falar “graças a Deus” e isto não capacita a entrar no Paraíso; foi na Rua Paraíso o seu velório não no Municipal e de casa o séquito saindo para o Cemitério Municipal, esqueci-me do número da sepultura para alguma vela, quem sabe chorar, rezar não, não sei, chorar aprendi, chorar o amigo. No entanto não fui a nenhum, a saber: Velório e Enterramento. Não aprecio ver defunto, me dá uma coisa lá dentrão, o que teimo em aceitar seja por medo, corajoso como sou. Acontece que a viúva barrou-me a entrada; aquele negócio do café azedo com direito à expulsão. Além do mais o ter-me pichado pelo assassinato (não comprovado, veja-se bem; além do fato de saber da surra que a Velha aplicou no Véio; será que ainda pensa ser eu o assassino!) A mulher contou a coisa à boca pequena, chegando o segredo até meus ouvidos através dos enredeiros de plantão... o Escriba teria envenenado o seu homem (dela, bem entendido) no Bar do Jorge com ajuda daquela nojenta Matilde; que o trio maldoso, nós, havia comprometido a saúde do pobre com pinga, a fim de extorquir-lhe sábias informações, porque o ingênuo falava pelos cotovelos, equivalente ao meu Boneco, o qual matei arrancando seus cotovelos; e agora me recrimino pelo crime; todavia sobre o Véio é mentira a afirmativa: financiei os informes aceitando a dívida no Bar, ele é quem pedia um trago e bebia mil. Mentira ou verdade, o povo acredita em ambas quando precisa acertar a personalidade, frágil ou doentia. Assim devo andar pichado e malvisto na Rua Paraíso, não passarei mais por lá até se esquecerem, o que não levará muito tempo: os mortos que enterrem seus mortos, os mortos se esquecem rapidinho de seus mortos. Conto com essa fraqueza humana. Ou nunca acabarei este romance, pois sem Boneco que me valha e sem Véio que me falha, devo valer-me das próprias pobres observações.
          Contudo, ponho adiante umas lembranças das memórias do Véio, sobre as lembranças da Juju e seu bando. Não, bando é mui forte e pesado: digo então de seus familiares, dentro da Santa, aqui em Serra acolá na Capital ou no Paraná, conforme entre um copo e outro me transmitiu o morto, claríssimo após o primeiro copo, confiável; após o penúltimo, dubitável; após o último, carregável.
          Fixar-me-ei agora no pensamento religioso ou moral, dado perigoso: não se deve discutir mulher, futebol, religião – porque não acaba, ou se acaba sem razão; e se ganha sim, inimizade. Apesar, afirmo que vou em frente.
           Havia dito que elona, a ter sempre a primeira e a última palavras, quando em geral completa “tá!” e repete se as orelhas escutantes estiverem meio tapadas; garanti enfim que a Juju não fora ao Velório do vizinho. Seria porque antipatizava com a consorte do sem sorte? Ou vice-versa. Mas sou tendente ao outro lado da moeda. Seguinte. A Juju tinha, agora não tem mais? sei lá, tinha o homem por ateu, não um pornográfico ‘calãozista’ e baixo, não: não cria em Deus. E aí não tem papo, em não ser olá bom-dia essas coisas, vai chover, faz frio. Enquanto que ela, a Juju, pichando igualmente a Velha do Véio dizia cobras & lagartos (ela prefere como boa matuta pronunciar “largato”) enfim bichos da vizinha, uma sem-religião, grave à religião. Bem. Ela, eles de um modo geral na Santa, com a costumeira intolerância evangélica, apegados à ‘Palavra’, sem entender palavra creio da ‘Palavra’, o Véio concordando comigo nesse pensar, embora nunca tenha sabido meu pensar: as pessoas falam falam falam e só querem ter ouvidos pacientes pra si, nunca desejam realmente saber o que outrem pensa, não sendo que saibam ter a mesma linha de ideias; aí nadam de braçadas na vitória, a colher seus próprios e supostos frutos. Então o homem mostrava achar intolerantes os crentes. Ia mais longe: o católico, pra si, era mais relapso, portanto mais objeto a aceitar sua pregação (dele, Véio) optava pelo católico, mais próximo do livre-pensador e não pelo ‘crente’ na camisa de força da palavra da ‘Palavra’, a letra que mata e não vivifica (Paulo? talvez Paulo). Ora, a pensar assim, nos poucos momentos em que deixou extravasar seu pensamento a chegar às orelhas da Santa – lógico que ela o tomasse por ateu. Nisso me encontro, eu Escriba, com o informante, ex-informante, ex-vivo.
          Não vi nem ouvi nem estava por estas bandas, mas segundo ainda o Véio, essas ideias do outro parágrafo ele as colheu na convivência (mordisco: na ‘escutância’) com a bela o João e os outros membros da Santa, muitas vezes esparramados aí na frente, frente da casa do informante e das vítimas de sua língua. A Juju sentada na guia da calçada da Rua Paraíso, os seus parentes de todos os graus, inclusive dona Maria a sorrir tristezas e os da família como o Dito. Sentada a debater, não é debater pois sem ordem e sem coordenação, os assuntos ‘enxeridando’ ao sabor do momento, livres, a chegar. Tratando muito dos dramas próximos e dos remotos no Paraná. Histórias estórias contares inventariando a vida ou só desopilando a memória represada. O fulano, lembra-se do siclano? daí ele morreu daí ela casou daí ela brigou daí fugiu daí perdeu daí nasceu... e daí? daí que nas entrelinhas e mesmo diretamente se põe em família, sempre segredo mas sem brigar (isto é o novo desse velho) em segredo para que todos surdos da Paraíso consigam ouvir. E rir e lamentar e comentar e concordar e – cruzes! – ser aceito pela Juju; ela evidentemente a dar as cartas. É nesse momento folgazão que apareceram ideias crentes e as tais críticas veladas. E o Véio, onde?
          O Véio a ouvi-los. Depois a contar-me no Bar, o Bar que envenenou o freguês, que envenenou os bolsos pobres meus, que envenenou a Velha, a que me envenenou pichando um mero convite cheirante à caninha e que envenenou em estórias a história de Juju.
          Mas não estarei a exagerar o pensamento vivo do morto! Morto, ora se não o vi morto, aquela questão aventada nas outras páginas: fui na época barrado no portão pela viúva.
          Não obstante se não vi ouvi. Indaguei dos garotões a badernar a Paraíso, chutando pedras brincando-brigando de mão e sobretudo gritando; indaguei cadê, falei cadê o senhor... O Véio!? respondeu a pergunta o Bocão, quase não me ouvindo pela algazarra feroz de sua gente que é a gente do Dito; o Bocão olhou ao Chefe, repetiu minha pergunta ao ‘mano’ e o Chefãozinho gargalhou – “mano, o Véio morreu, sumiu”. Insisti no como quando onde por quê? continuavam a rir; eu: e a Senhora do Sr.Véio, que fim levou! Já falava sozinho fazia tempo, os meninões ocupados na desocupação e brincadeira.
          Então fiz o que fiz – não fiz coisa alguma, fui-me.
          A imaginar o que fazer para fazer a finalização desta obra, sem a restante informação, cara à estória da Juju. Observar de longe, pois que meu perto morto e enterrado ou sumido, a julgar pela expressão jovem, seja do Bocão seja do Dito? Ir perguntar direto as coisas? Arranjar outro (confiável!) informante? Ou parar exatamente por aqui?
          Aqui pensei pudesse rever ou recordar algumas das passagens que me informaram entre copos de aguardente ou as percebidas pela minha ingenuidade.
          Restando agora tais recordações primeiro; e posteriormente a opção do que minha ingenuidade descobrir.



54° Capítulo, lugar da recordação dos momentos, momentos estes vívidos ou vividos             
                                   (ouvidos pelo Véio)

          Juju despeja do esguicho desde a ‘borracha’ de plástico uma chuva sobre o passeio público, enquanto, rebelde, a ventania da Ventania fustiga célere o chão assopra folhas papéis lixos mais ressujando o limpo; enquanto os cães ladram o ladrar; enquanto os meninos vêm em arrastão a chutar ‘latas’ de plástico e pedras desde a escola lá na ponta da Paraíso e a se xingar e gozar noutros escolares; enquanto automóveis e motocas se escabelam a correr mais depressa que possa rumo ao nada ou ao caixão; enquanto os ‘sons’ em sons ensurdecedores disputam com o vento o barulho mais conveniente; enquanto passantes folgantes ou sofrentes passam e repassam de volta e talvez não seja pois que todos vão a algum lugar – mas ela não vê. Vê o seu dentro que tá dentro do seu fora ensombrado e contraído, contrariados ambos fora e dentro... vê os seus em descalábrio, ou porque não veem ou porque veem demais. Nos fundos de casa as visitas à dona Maria não param de chegar sair tornar a chegar, a conversa é claro girando em torno da sem-saúde da velha, a ouvir suas lamúrias e lamentações, suas tosses e seus ais; chegam falam ouvem saem: “a paz do Senhor, irmã” a velha irmã responde equivalentemente numa vozinha cansada e sorri triste por tanta alegria, tosse tosse tosse como despedida e escarra no mais educado escarrar que conhece. Os outros estão no seu afazer, quer dizer no não-fazer, até o João agora desempregado no aguardo à aposentadoria enrolada depois do triste episódio do ‘branco’ que lhe deu à cabeça, largando o caminhão da empresa carregado e andarilhando por esse mundo de Deus; o João, sem ser por isso, já dissera antesinho da mulher esguichar o mundo d’água na rua sua expressão costumeira de tanto lhe pegarem no pé: “pô! Juju”, agora vê um qualquer na televisão, esperando que a esposa saia a algum lugar para então e só então ir ao dedinho de prosa no Bar do Jorge, que é da Matilde, na esperança de que alguém lhe ofereça uma cerveja ou um copo de cerveja, sendo contra a pinga, que é bebida alcoólica e deve fazer mal. Os outros parentes de perto vêm antes, trocam umas palavras mansas com a Juju, a qual responde um pouco com azedume à outrem, desconhecendo os desconhecidos de lá dentrão. A água escorre, a vassoura chep-chepa, os detritos rolam, cumprimenta a Sueli, mas não está de prosa hoje, que era naquele dia de segunda-feira própria ao descanso do salão de cabeleireiro para cansar só em casa; quem sabe apenas a sair rápido visitar alguém, certa irmã por exemplo. Encontra-se longe ali perto, rumina.
          Os parentes de São Paulo vêm, depois vêm os do Paraná, já sabe o bravatar, cada um a contar suas pseudos-conquistas e também eles, os parentes todos daqui, a se juntar; e onde pôr tanta gente! e onde arranjar dinheiro a bancar tudo, a acrescer à dívida velha uma nova! a Santa só vive, não ajuda, todos querem falar e se beneficiar. Ela? pra ela a sobrecarga e a irritação; e o desentendimento no lar, ah o lar! O João naquilo de sempre, a se constranger no ato de pedir-lhe uns trocados ao vício, ela dá, dá antes uma bronca tamanha, não tem diplomacia nem psicologia no trato. Os meninos, o Mariano se individa na compra do terreno a viver com a esposa, boa sim mas desajuizada como qualquer jovem. O garoto na Guardinha, criando caso na rua e na escola, dizem que... ah não tem jeito; agora se põe a gastar o que ainda não recebeu, que faço? ninguém responde, responde ela ao cumprimento de alguém a passar. O Prudente com sua violência nata, nestes dias pior sem serviço; o que faz a sair noite após noite e voltar no seu carro a ranger o portão já o sol e os pardais a anunciar novo dia! ainda por cima chega com o som à toda, a avisar a vizinhança haver chegado da boêmia! os parentes xeretas a lhe assoprar que o filho se prostitui e ela não pode sequer indagar: receberia xingamentos ou até apanharia do violento; mais ainda, vive a pedir à mãe sempre dinheiro para o álcool do automóvel. Que fazer, além de viver nervosa e envergonhada... Explode por fora o vulcão de dentro e berra desconsolada: os meninos não arranjam emprego! como a justificar o erro dos parentes. O que não resolve. Reconhece a impotência do esposo diante da burocracia; os desmandos do caçula nas balbúrdias diárias e que agora inclusive a ofende com baixaria, incontrolável; as impossibilidades do mais velho a tentar casa própria; vê num relance as desavenças dos filhos entre si e o reflexo nela e na harmonia da casa; o problema maior o Prudente. Que fazer? se ele mostra profundo orgulho e nada tem de seu; já ofende direto o pai, adotivo mas falando “pai” seja a dizer por tratamento seja ironicamente; sua violência explícita, quantas vezes não sugeriu ou até partiu à agressão física com ódio flagrante! isso dói em mãe. Arranjou-lhe ocupação como aprendiz de cabeleireiro, foi uns dias depois vociferou “ir ganhar 15 real por dia? não vou” Fica a ajudar na azucrinação geral que assola o lar, ela distante no trabalho; não tem sossego em casa e no salão, não tem dentro do ônibus; não tem sequer dentro do seu templo.
          Não obstante nos minutos de fuga ao sofrimento assovia seus hinos, até olha de boa vontade a matracação da parentela a trazer novidades à dona Maria.
          Ela se indaga: e a casa não cai! não sabe, não pode saber, inclusive teme a resposta...
          Enquanto põe elucubrações sombrias, já varre o corredorzinho e observa o Mateus com seu pequeno nas suas pernas e dona Maria sentada na cadeira, o Mateus a relembrar com ela a Família naqueles tempos, ‘naqueles tempos’, nunca pensamos na expressão vaga mas que se sabe distante próximo na memória: “o pai, diz ele, tinha três prestações somente para pagar e aí atrapalhou, nunca mais pusemos a vida em dia e...” o João se achega à roda, conversam mais e sentencia: “não Mateus, não é que a vida esteja dura, é o seu dinheiro que nada vale”, o outro concorda de cabeça; e descamba a pichar a Zizi, a sovinice do Tonho; e fala de outras riquezas na miséria antiga da Santa. A Juju lá meio distante sorri.
          Ela sorri suas tristezas a vê-los, arrasta, amontoa o lixo, prossegue a limpeza, prossegue o pensar, prossegue...
          A vida prossegue.





V parte - Conclusão




55° Capítulo, em conclusão da obra

          Oh, com que alegria encerro esta tristeza! garoto, você voltou ao papai, ressuscitou do nada desde seus paus, meu Boneco!?
          Voltei, patrão, literato de quinta potência negativa, sim eu voltei.
          Mas como?
          Voltando, uai.
          Seus cotovelos...
          Regenerei meus cotovelos; a barata se você comer um pedaço dela não se regenera? Elementar caro Watson.
          Pera aí... não, deixa pra lá. Todavia saiba, Boneco, ainda andava a lamentar muito sua perda quanto a perda que tive do Véio, a mulher dele... deixa isso também. O fato é você ter chegado tarde... Mas convenhamos: apreciei seu retorno.
          A consciência criminosa pesada não é?
          Infelizmente tem razão. Senti sua falta Bonequinho, não tendo eu mais ninguém para conversar...
          O Véio...
          O Véio só ele falava; eu queria ‘ventriloquar’ e somente conseguira com você. Senti. A falta; saudade não, pois não sinto saudade mais, traumatizado por dentro, lesionado em meus sentimentos. Porém falta, ah que falta me fez caro Boneco.
          Deixe de melosidades. Não falei certa vez que você é um escriba meloso!
          Falou. Vamos ao que interessa. Estou contente nas tristezas que tracei nesta obra, que é mais uma novela espichada que romance.
          E mal escrita.
          Certo seu errado. Estou alegre por terminá-la, agora com sua ajuda. Dou-lhe um prêmio de consolação pela volta amiga: pode mijar-me à vontade. Se exigir compro a você um penico esmaltado daqueles de antigamente que a mãe da gente batia na gente porque a gente derrubava um pouco no chão do quarto antes de levar o conteúdo fedido a atirar no fundo do quintal, lá no pé de...
          Chega pô!
          Você também. Meu personagem João tem essa expressão registrada, não pode nenhum boneco de pau usá-la.
          O assunto, vamos ao assunto, à conclusão.
          Certo. A Juju, que é a vizinha boazuda... deixa isso i-gualmente pra lá. Ela é o elemento fundamental neste livro em acabamento (não quero comentário desairoso, certo?)
          Tá!
          Tá! é outra expressão registrada, é dos diálogos democráticos e liberais da Juju quando nervosa.
          Tá bem. Isto também?
          Não. Sim, é o elemento básico. Encontramo-lo desde as Raízes, ela a lavar roupa no riacho, desde lá até agora, ao fim da IV parte, a sonhar seu sofrimento. A propósito, Ela é cristã; ora, propôs o Messias carregarmos nossas respectivas cruzes: o sofrimento. Sem lamentar, somos fracos, abrimos o bico. Bem. Ela sozinha leva sua cruz desde o começo, e suponho e desejo que leve até ao fim dos tempos. Ainda hoje Ela carrega. Bem ou mal? problema discutível de avaliação. Somos propensos a avaliar segundo nossa ótica tudo, coisas e pessoas; vamos além: entidades e divindades. Não julgo isto, mostro o andor, mais a base móvel do andor – a Juju.
          Se me propuser pesar os méritos, descontar os deméritos, para ver o que sobra; temo. Temo no sentido evangélico inclusive: não julgar para não ser julgado; atirar a primeira pedra. Não. Ameaço apenas uma síntese do valor dessa vida extraordinária.
          Vejo meu personagem (os outros só existiram para que Juju vivesse ou mostrasse sua capacidade a superar desafios) vejo a Juju como uma pessoa forte. Ela é certa linha a coser um tecido periclitante pobre frágil, belo! (outro julgamento). O tecido é a Família, chamada Santa. Um ajuntar enliar no bom sentido os seus, os membros; os próximos (tão distantes de sua capacidade de luta!) os próximos no seu lar propriamente; os próximos morando em Serra; os de longe, assim mesmo próximos por achegados ao coração. Todos unidos.
          Mas, indaga-se, e a mixórdia dos desentendimentos desavenças e brigas, consumadas violências menores e maiores sugeridas e algumas materializadas ou concretizadas!
          Isto uma constante a reforçar o poder de luta de minha Juju; o João me perdoando creio novamente por ser ‘minha’; ele também secundou a contento sua mulher, deu exemplo de tolerância; seus “pô!” não passam de estouro da válvula na pressão, não ferem, é bom italiano, o italiano que é o povo mais maleável do Planeta. Se o Mundo fosse italiano, com ajuda brasileira, as guerras sumiriam, tudinho viraria pizza e samba no carnaval da existência. Os outros viventes, mesmo a queixosa dona Maria ou o violento Prudente, foram sugestões pra exercitar a coragem de Juju.
          Não prolongo, ou sofremos mais o sofrimento destas linhas. Antes abrevio tudo no exemplo do lar de amor da Juju. São cinco desafetos num afeto, Ela. O acordo, ou a perseverança na vivência familial, que Ela usou a unir para unir a Santa inteira, mostra um aspecto notável da Moral e da Filosofia: Deus escreve direito por linhas tortas, mesmo um caboclo descobre esta verdade.
          Quanto a mim, o Escriba apenas tomou as pontas em pontas sem conta. Se quiser, avalie isto agora...
          Ué, mas cadê meu Boneco, dormindo na minha perna esquerda; por sorte estou seco.

Marília   maio  2005










Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020

Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:





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