0145(a ser posto no Blog Livros Inéditos)
Um Servidor
em poucas linhas
(romance)
Moacir
Capelini
Capa:
Data de publicação:
Gráfica:
Tiragem:
“Há certas verdades que
eu não digo nem a mim mesmo.”
Fernando Sabino
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3296.A gente não é a gente, a gente é muita gente
manifestando pela gente.
“Desaforismos & Intimias”, julho 2013
Nota Introdutória
O autor costuma iniciar suas obras por
citações que tenham ligação com as ideias centrais, é o caso desta. No livro as
criações quase sempre são de linguagem, não dos fatos; fatos que também ele
viveu... Contudo não é uma autobiografia. Além do mais procurou respeitar o
padrão oficial de nossa língua; mas aqui surgiram problemas, contornados assim:
quando a voz de um personagem, usando aspas; quando a chamar apenas atenção
para um dado ou vocábulo pondo os sinais do apóstrofo, semelhante outros
autores; e quando necessário pelo som que deseja transmitir ou palavras não encontradas
no dicionário, igualmente os sinais do apóstrofo.
O autor deseja ao possível leitor muita
coragem na leitura...
1.Velório.
Dezesseis horas, encontra-se a sala quatro festivamente decorada, festivamente
decorada demais ao gosto dos que são comedidos, os quais devem criticar a
ostensividade dos aparatos, num local se não sagrado tido assim e que na
verdade anda a primar pela limpeza, esta que preza o simples. Têm quadros
adredemente colocados nas paredes e mais na parede frontal, sobretudo nela que
se mais vê; de maneira que à chegada dos convidados (ou seriam apenas avisados
pois nesse negócio não há propaganda nem propriamente críticos de arte, ou há
sim visto poder haverem avisado possíveis intelectuais e estes muita vez se
metem na coisa além de nas suas coisas) na chegada do povo já tudo preparado e
em ordem a mesa, certa mesona ou talvez só a parte de baixo duma volumosa onde
ficaria a tampa e agora fica, provisório embora, o Gumercindo; essa mesa
portanto, também cadeiras sem luxo exagerado mas na quantidade do provável
número de parentes e amigos, íntimos, e os somente conhecidos e quiçá ainda os
desconhecidos curiosos a entrar; enfim tudo no previsto. Além disso havendo uns
bancos, verdade seja dita nada de banquetas pobres dos pobres e as mais das
vezes cambaias sempre faltando peças nas peças, as peças porque o pobretão
raramente prevê matematicamente o que precisa e aqui grave em razão ser um
velório, ninguém pretenderia pregar peças e mal entendimento aos convivas que
porventura surjam. Tais bancos estão incrustados na parede: seriam assim um apenso
fixo na parede ou nas duas paredes laterais, sendo que no lugar de sentar
puseram os funcionários certa manta de borracha coberta com panocouro parece ou
percalina quase nada decorada por não ser bem uma festa ou é sim uma festa porém
fúnebre; em suma revestimento sóbrio e respeitosamente na cor marrom. Não, lugar
para quem vier ou já ali à espera não faltando. Apesar da afirmativa, na medida
em que se aproximam as 16h e o enterro do Gumercindo portanto, a sala se enche
explode gente, a gente muita tem que ficar de pé, o que nada há de estranho por
ser sempre assim num velório de figura importante, importante que seja tão só
aos muitos parentes amigos conhecidos e desconhecidos, estes últimos as mais
das vezes curiosos para ver quem morreu como morreu por que morreu; ou não
morreu; e outros quejandos populares. O popular é sempre bem informado bem
ilustrado nessas coisas mundanas entretanto ainda com isso a desejar mais o
curioso e quase exigir mil outras explicações, ‘os comos’ da existência; seja
para saber mesmo e ampliar sua cultura (aqui bem discutível sobretudo por ter
esse gosto...) a tanto ou apenas para ter elementos informativos a fim de
transmitir no lar às visitas famintas de notícias e aos vizinhos; e no trabalho
quando falha o relógio de ponto ou o chefe não estando, estando então os colegas
em volta a conversar; aqui entra a morte do ‘amigo’ Gumercindo e os comos do
seu desaparecimento precoce; costuma-se a miúdo achar que a morte é um pouco
apressada, quando não ingrata e chega sem avisar...
Resumindo,
a sala mormente às dezesseis horas no quase momento de se apagar velas recolher
flores desmontar a trempe onde o caixão e os choros habituais, a sala anda
cheia e havendo muitos indivíduos em pé se espremendo, isto pelo achegar das
pessoas mais ao centro onde o Gumercindo, ex-Gumercindo? talvez aqui abuso pois
não é a opinião dos próximos mais próximo. Nos bancos laterais e numa que outra
cadeira estão os mais cansados (lembrar toda uma noite passada velando: os
olhos avermelhados, a atenção que se obriga a dar aos que porventura aparecem e
a chata e ingrata situação de ficar a repetir repetir repetir). Sentados essa
gente válida mas cansada e o pessoal mais idoso e portanto a colher ali decerto
a experiência que vive Gumercindo na sua morte; e especialmente os próximos
arriados entregues ao recebimento da gente e sua tristeza como é próprio dum
velório demorado; nisso claro existir os velhinhos realmente incapazes de
ficarem erguidos a disputar lugar com os novos e ativos ou mais dispostos, os
quais farão questão em ajudar carregar o féretro no enterro; então esse féretro
em que os funcionários terceirizados da funerária municipal já andam prontos
por ordem do cronômetro e na hora final já mui espaçada alongada e esperada
renovada na remarcação pelos atrasos – aquele negócio do aguardo duns parentes
de fora que nunca chegam e não sabem os de longe da aflição dos parentes que os
aguardam e ainda precisam frequente justificar ausências e os porquês dos outros.
Bem, é assim no velório municipal nesta sala número quatro e decerto noutras
salas, algumas com superlotação no completar e superar lotação completa, bom ao
costume da gente; embora haja uma, a sala dois, com apenas meia dúzia de
visitantes, todos, se percebe, pobretões e de pouca conversa ou muita timidez
ou seria ao muito desgaste e muito sono a quase nem comentar mais o passamento
da velha ali esticada em pele e ossos, não sendo sensato aumentar nisto
explicação. O Gumercindo não: parece quase um rei na sala confortável por conta
da conta antiga na firma e o patrão, ex-patrão, ou a família do chefe que seja,
pronta a arcar com o gasto no funeral de um funcionário correto... ou só
servidor educado.
Antes
da hora fatal, fatal já sendo um velório nos conformes e o sepultamento no
gosto da sociedade, antes das dezesseis, antes mil chegaram à sala quatro, mil
e uma pessoas a ficar bem com os costumes, no entrar sair tornar e ficar
aguardar, umas exageram o exagero permanecendo integralmente todas horas na
hora dessa morte; isto dito porque parece haver nos dias destas noites na
civilização de os próximos (distantes e próximos mesmo) do morto em evidência
não consagrarem evidência se não na hora suprema da evidência e com muita
mostra de sua dor à sociedade e no especial momento de levantar carregar num
corso o ataúde, para depositá-lo na cova e uma que outra vez ao brio da oratória
a marcar mais ainda um passamento notável – não sendo o caso do caso do
Gumercindo – sendo assim no entanto existe um novo modismo que se coagula no
horizonte, que leva a poder até nem mostrar o corpo na sala do velório, as
portas fechadas ao público, levando quem sabe os curiosos a tentar olhar do
lado de fora lá dentro saber quem o defunto; enquanto seus parentes de sangue e
os amigos nas atividades longe que lhes dizem respeito (ora, o mundo pararia
por causa da morte sem causa! não, decerto pensam os que pensam) nisso ou a
dormir após semana braba e braba promessa da porvindoura estafa. Assim o dito
velório não é bem propriamente velório nem havendo visita, embora não se tapem
as bocas profanas do povo que ou fala o que vê o que ouve e mesmo o que se
inventa sobre o tal tratamento ao cadáver de sangue.
Não
o caso do caso do Gumercindo, quieto sim e levando sempre a visita dizer
“parece que está dormindo” mas de fato quietinho no centro naquele encontro
fúnebre e no choque dos olhos chegados pelo aparato no passamento de um quase
joão-ninguém. Isto porque mil e tantos foram os visitantes e/ou participantes
no assinar a lista de presença à entrada desse velório e tudo o mais.
Entre
eles tem um Mário com sua Maria, não a Maria do amigo Gumercindo nem outra
Maria que é a comadre Maria da esposa viva viúva do morto em evidência na dita sala
quatro; a Maria de Mário é Maria Tereza.
O
caso do Gumercindo e sua Maria, a dona Maria aos vizinhos, merece certa nota de
esclarecimento. Até meados do século vinte os nomes comuns e tradicionais se
impunham nas famílias em vista do costume arraigado na coletividade, esta que
são os pobres os ricos e os remediados, estes últimos como se dizia dos que não
exageravam nas posses. Tais eram Maria José João Antônia, enfim os dos santos e
inclusive um que outro bebê nascido levando o nome de Jesus; parece que nisto o
povo não abusando havendo caso mesmo desastroso, no qual um Jesus nada messiânico
sendo alvo policial por ladrão ou fora da lei. De maneira que parecendo ter
havido um temor por causa de nossas fraquezas como seres humanos, falíveis, o
recebermos no batismo nome tão respeitável e tudo o mais. Agora, Maria e José e
nomes dos apóstolos havia aos magotes e se repetindo muito em quase todas famílias.
Na lembrança dos apóstolos, na homenagem a eles ficava sempre de fora Judas,
por razões óbvias. Era enfim o hábito por séculos no planeta. Então eis que
surge a televisão, antes já o rádio com suas novelas e também para aqui lembrar
artistas e no país do carnaval os heróis da bola – todos colaborando a termos
desde então uma variedade de novos nomes às criancinhas nascidas, sugeridos
pela mídia nestes tempos e ocorrendo muito sobretudo em algumas regiões o
invento do apelido oficial nos filhos. Tanto assim que hoje se enterra um Gumercindo
da Silva ao choro dos seus e às lástimas da esposa Maria, dois nomes corriqueiros
noutro século, e que deveria agora até chocar os presentes desavisados por não
ser o comum visto nas novelas ao jantar. Por isso poderiam até indignar-se como
fosse um estrangeiro nesse esdrúxulo.
O
Mário chega com sua Maria e um dos filhos este não se juntando lá dentro aos
adultos tidos velhos melosos, quem sabe não pense o garotão dessa forma e
portanto fica para trás fora da sala e sequer pondo assinatura na lista de
presença na entrada, ou achando cafona (ou por timidez) escrever seu nome na
coisa e podendo inclusive nem ter enxergado lista alguma, iria no caso pôr
Toninho como lhe chamam em casa, se misturando com seu gêmeo morto; ora, nem
poria seu próprio, assinando; porém os pais entram choram – o Mário é muito
homem para isso e deixa apenas umas lágrimas atrevidas subir a mureta dos olhos
ultrapassá-la rolar fora a tornar vermelhos os globos enxugando logo essa
fraqueza com um lenço de brancura impecável, obra da esposa que de início ralha
depois lava esfrega cora enxágua escorre seca no fio de varal e finalmente
passa dobra repassa em dois em quatro partes a ferro quente às vezes quente
demais amarelando o pano e se ralha a si mesma pela peça; finalmente não: antes
resmunga bem o porcalhão em que se saiu o marido, a si todos machos na espécie
são porcos haja vista o exemplar como exemplo que é o esposo ali agora a chorar
se escondendo no meio do povo que está mais preocupado que com o vivo com o morto,
o morto não dá sua versão nisso disso por inerte, em vivo apanharia o partido
do amigo, até faria para saírem da situação confusa umas graçolas. Gumercindo
vivo era louco a fazer rir outrem contando piadas indecentes, isto opinião de
Maria a Maria dele não a do Mário, a Maria do Mário no entanto concordava em
grau gênero e número com a amiga Maria do Gumercindo – afinal também outro
prejuízo nesta questão: o não ter graça a graça de Gumercindo, tem gente que
não tem talento para narração e aí os próximos riem, uns bestalhões gargalham
exagerados forçados ‘educados’, riem-se pra não desalentar o narrador. Quanto à
Maria de Mário ela chora, chora alto fazendo muitos presentes se voltarem ao
grupo chegado, chora mais ainda ao abraçar a viúva, as duas costumam andar
perfumadas e agora seria a vez de suas respectivas oposições estrilarem no
velho e insuperado e insuperável choque entre os sexos; contudo ambas e quase
nenhuma mulher ali exalando em não ser o estritamente não abusivo a um ambiente
respeitável; a pobre amiga sentimental solta a represa das lágrimas abraçada à
viúva, se contam as coisas, aqui é mais a questão da repetição necessária dos
últimos lances daquele último lance duma vida, ou só duma existência sofrida,
visto o Gumercindo haver definhado mui sofrendo e ali no centro se encontrando
a prova: o corpo em pele e ossos. Aqui nenhuma delas quis abrir a boca mas
pensando, uma a se dizer: “meu pobre companheiro tão forte cheio de vida morto
osso e pele pelo sofrer!” a outra: “não dá pra ver magreza só se vê flores
cobrindo o esposo dela porém disseram ter sofrido horrores virando pele e
osso!” O sofrimento no final prolongado e triste e difícil até diminuiu o
homem, já não tão grande porque Gumercindo vivo era mediano entretanto forte
cheio de carnes e cheio de vida, meio chato por lamentar demais e com muito
vigor isso sim. Agora? meses a definhar, tornando-se um boneco de ossos cobertos
de pele ressequida trincada com seus hematomas no couro a se partir fácil não
obstante massagens e cremes corretivos e os cuidados de Maria e doutra senhora
cuidadora juntas a velar um moribundo.
Mui
outras visitas a esse finado a terminar seu velório apareceram e isto poderá
ser adiante lembrado; não caberia no momento, que fosse em respeito a Gumercindo,
descrever minuciosamente todos da leva de parentes amigos e outros próximos
como o caso dos colegas de escritório.
O
fato mais marcante não sendo tão marcante porque o comum nas despedidas, são as
despedidas sim e o cortejo e o sepultamento e a volta pra casa dos ainda
viventes, então mais preocupados com o retorno ao lar e também pelo retorno aos
seus dramas próprios meio envergonhados ou apenas compreensivos e portanto
quietos nos cérebros no decorrer do velório a viverem vivendo o morto. Claro,
mui claro os do convívio diário a reativarem as lembranças a custo guardadas
retidas contidas num encontro fúnebre e agora a voltar à baila.
2.Parece à
primeira vista, e os fatos comprovam o olhar mais superficial e apressado ter
quase razão, que esse final, ou seja a doença o declínio a morte o velório,
velório e sepultamento e cruz indicativa com o nome vivo do morto a se esquecer
– parece representar esse fim um extremo, mas ocorreu o outro extremo: haver
havido durante a união dos cônjuges uma troca substancial de posição entre o
macho e a fêmea nesse casal humano, diante do saber ou apenas abordar da
sociedade. Gumercindo fora vida inteira, ao menos desde que se conheceram
namoraram casaram constituiram um lar – lar como estas linhas apreciam dizer é
a casa o casal e os filhos vivendo a harmonia; pois se apenas a casa, mesmo
tendo um morador, não chega a ser um lar autêntico; o deles era um lar então –
desde isso por muitas décadas o homem era homem pra valer: mandava, exigia
cumprimento dos seus desideratos, enfim impunha seus direitos ou ‘direitos’
segundo a oposição. Enquanto a mulher, Maria Gonçalves acrescendo o Silva de
Gumercindo a formar uma família, ela somente obedecia. No fim a ordem se
inverteu. A rigor sempre vemos desse jeito acontecer em maioria das constituições
domésticas ou seja: a mulher com o passar dos anos adquire, enquanto perde beleza,
adquire força e decisão sobre o mandante na quase prisão em que se transforma
muita vez a casa virada lar. Assim ela, já velha, ao menos madura e experiente
e é preciso lembrar que as mulheres amadurecem, sem demonstrar isso, chegam ao
melhor ponto moral antes que os homens, estes as mais das vezes imaturos
instáveis preconceituosos e exigentes na mesma faixa de idade cronológica que
elas, as quais seja pelo sexto sentido seja pela tendência de sua feminilidade
não propagam o que sentem sabem pensam – tudo imposto pelo costume milenar do
viver em sociedade na sociedade que estabeleceu dever ser o segundo sexo
submisso ao primeiro (para alegria orgulho e vaidade masculinas). Ela já
passada, descobriram um dia e Gumercindo diria na sua voz rouquenha “tarde
demais”, que estava Maria mandando no seu homem. No entanto ela mesma a responder
ao cobrador no portão um pouco escangalhado no relaxo do esposo “o dono da casa
não está”. Sempre foi à pobreza um drama o drama do dinheiro, da falta, daí o
receio enfrentar o cobrador, no caso da casa. Em geral ele a sair diário
correndo, atrasado ao serviço, a deixar afobado uma de dez, às vezes ridico
contido munheca ou somente com pouco numerário, às vezes a deixar nas mãos da
cara-metade metade da cota habitual e então apenas cinco cruzeiros; não importa
aqui a inflação, é só multiplicar por mil e mil vezes e ainda levar em
consideração os malucos planos econômicos, bem econômicos na opinião do governo
e na opinião da gente miúda esse mesmo governo a esbanjar nas costas do povo:
os dez continuarão dez e os cinco meio de dez. E o que posso fazer com cinco
cruzeiros apenas! lamenta Maria à vizinha com drama semelhante e sem a mesma
solução. Havia até o dizer “mão de vaca” aos que iludiam os outros para não
demonstrar a riqueza de sua miséria. Isso, Gumercindo um mão fechada, um mão de
vaca, pensa ela e assim diziam dele todos os íntimos.
Entregava-lhe
a nota e resmungava qualquer coisa, pior: o costume do chefe da família de
começar falar rente à mulher, virando as costas para ela e prosseguia na arenga
culpando decerto o patrão e o governo por sua falta de recursos, como é bom e
correto e corrente a um cidadão brasileiro. Quando acabava caso acabasse de
falar, já longe da esposa, ela nem mais a ouvir-lhe os sons. Isso a irritava.
Naturalmente na última fase do casal quando a mulher a dar as cartas e o marido
podado nos seus ímpetos mandões mas não nos seus brios, aí ele falava sim porém
falava baixo miúdo quieto não mais no seu estrugimento e rompança, falando
manso e aguardando sua vez a dizer o que dizer, pois o hábito o ensinara não
cutucar onça com vara curta... Então já era apenas sombra do grande emprenhador
que fora. Todavia ficara certa marca de antanho: Gumercindo vivia a lamentar de
tudo e até de suas próprias falhas a duras penas descobertas; ruminava grunhia
sempre de tudo de todos, dela longe dela, a insistir tudo não prestar tudo
andar errado nos errados de outrem. Enfim poluindo com reclamação a poluição do
mundo já poluído a contento por outros venenos como a violência miúda.
Não
obstante o casal era tido religioso, assíduo na missa domingueira na igreja São
Bento. Ele ia uma vez que outra ela sempre e até levando as crianças; depois na
velhice ele se tornou um verdadeiro carola, completando o casal, enquanto os
filhos debandaram dos ofícios religiosos...
Ao
sair apressado para o escritório onde trabalhou toda existência ativa, local em
que criou raízes visto o comum na época ser o trocar constante de emprego por
um serviço melhor ou mais rendoso ou ainda permanecer no mesmo noutra empresa;
ao sair apressado Gumercindo não se despedia a tratando meu bem meu amor, essas
coisas que sempre achou melosas e formas efeminadas para seu machismo
arraigado, em não ser no período de namoro para agradar a bela Maria – agora
dizia simplesmente “tchau Ta”.
Parece
que os seres humanos têm preguiça recitar os nomes, alguns são longos outros
dificultosos mormente os de origem estrangeira e mesmo os nacionais entretanto
estes com mais de um apelido, Maria inclusive sendo Maria do Rosário para ser
diferente de Maria das Mercês sua genitora. Então se abrevia comumente. Maria a
Gumercindo fora Mariinha e Marieta e agora às sombras das sombras do final diminuído
para “Ta”, ainda assim comendo o acento da oxítona ou o marido a pensar lembrar
Marieta cujo acento indo para a sílaba tônica ‘e’; além do mais a fala não usa
acento gráfico, o que próprio da escrita, e não se vê acento. Contudo ela a entender
perfeitamente e por isso respondia.
O
chefe da casa – aos amigos ou só conhecidos mais próximos dizia à boca pequena
ser ele sim o chefe da família, mas a dona de fato a Maria. Isto mesmo no tempo
em que imaginava mandar na esposa; no entanto o chefe da casa no trabalho era
um submisso e somente a quase se aposentar virou chefe no escritório, porém com
um título apenas formal perante colegas e iguais todos semelhantes, nada que
rendesse aumento salarial. Um pretexto a mais para criticar o patrão em casa,
no escritório não critica: trabalha; e, num mérito a ser reconhecido, com
honestidade e critério; além de não faltar, nem a esposa o convencia não ir à
firma adoentado. Uma espécie de caxias como o gozavam colegas contrariados no
seu cumprimento do dever.
Outro
dado se não básico ao menos curioso no decorrer da existência era Gumercindo
ser o exemplo do comilão...
Natural
que na adolescência ingerisse exagerado e depois melhorou se controlando... não
demais. Isto custou-lhe compor uma figura humana não propriamente do balofo mas
dum pesado. Como não sendo um homem alto e sim mediano, cresceu no volume de
lado ao horror da balança. Além do mais o hábito de após o serviço parar diário
num boteco, o bar do João conhecido anos, tomar cerveja em companhias tão ou
mais bravateiras que ele falador, assim criou certa barriga e um andar mais
lento que o da juventude. Enquanto isso a mulher menos bela que antes porém com
o mesmo porte embora os quatro partos positivos (perdera nos abortos alguns
filhos). Ela não exagerava na boca. Ele sim. Gumercindo pesara cem quilos, mais
até, sem que o médico o convecesse a se cuidar: chegou no fim dos dias aos cinquenta
já doente, um soma em soma de dores, chegando depois ainda a pele e ossos,
encolhido murchado secado na velhice precoce e engolido no sofrimento; a dar
muito trabalho e gasto aos seus. Assim até à morte após crises desde um AVC,
modismo de nossa época e na sua tido por derrame cerebral mesmo. Não importa,
importa sim que foi parar no velório na avenida saudade na sala quatro, toda
enfeitada mas longe de escamotear inteiramente o desastre que foi o desenlace
daqueles seus destroços nas águas barrentas da vida.
Lá
nessa festa fúnebre se encontraram... o morto e o vivo Mário, amigo de tantos
anos. O que poderia parecer ser o último encontro desses seres íntimos; mil
vezes se reuniram, até em uma ou duas oportunidades ocorrendo no bar do João
com palavrório bebidas e tudo o mais, a trocarem ideias, na cabeça de
Gumercindo quando chegou o outro já não eram as mesmas mui lúcidas ou pareciam
mais confusas que na do amigo, este quem sabe mais forte à ação do álcool.
Noutras muitas ocasiões conversam, inclusive nas casas respectivas de ambos, as
esposas os meninos se dando bem como é corrente; onde se formularam tantos
planos e se discutiram problemas atinentes às famílias comuns; também
aparecendo as intriguinhas dos conhecidos, por isso chegando a se desentender
os dois homens, sem ir aos tapas, isto sendo próprio da ignorância da gente. E
se fossem às vias de fatos haveria o ridículo e o desequilíbrio flagrantes pois
enquanto Gumercindo já de ventre pronunciado mas do mesmo tamanho que tivera
sempre, Mário grandalhão, embora também algo barrigudo porém avantajado no
porte, quase atlético não fosse o abuso na cerveja; enfim forte grande,
deixaria o outrinho massacrado numa briga pra valer. A amizade cimentada por
anos interveio selando a paz. Ora, o que seria paz?
Paz é o que não tendo Mário no seu lar. Talvez
sim no trabalho na rua como corretor de imóveis. O homem era de verbo fácil
como convém a vendedores de alguma coisa e em razão disso granjeara se não
fortuna algum ganho e certa posição social; sabido que a coletividade valoriza
os bens materiais, seriam os seus ricos se... a condicional debitada por sua
oposição pelos desperdícios, e além de os ciúmes da mesma oposição ainda
debitar parece com razão o descontrole a gastos para satisfazer rabos de saia;
era assim que se expressava Maria Tereza. Tereza, Te ao esposo e aí não importa
se no registro dela num cartório civil puseram zê e não esse, Te costumava
pegar muito no pé do marido. Maria, Maria de Gumercindo a trocarem opinião no
lar os consortes, dizendo que Tereza era mui cricri, a dizê-la chata com o
Mário; inclusive a desfeiteá-lo publicamente quando enraivecida; “coisas do casal”
não sendo da conta nem dos amigos e nem dos parentes faladores, dessa maneira
tentava Gumercindo diminuir a culpa em cartório do amigo. Não, redarguindo peremptório
Maria – ela trata o Mário como fosse um moleque! Ela, insistindo a amiga da
amiga, ela é uma “titica de galinha”, quer dizer nesse tempo um ser pequeno e
insignificante; enquanto o Mário um gigante musculoso, fosse bater nela... “gigante
e barrigudo” ajuntava o amigo do amigo. Ta num sorrir a olhar então nesse
momento da crítica, autorizada por anos de amizade e convívio, a olhar para o
ventre do próprio marido, a sorrir matreira.
Agora
em pleno velório do amigo, irreconhecível como fora um dia por muitos anos,
Mário relanceia o cadáver florido no meio do zum-zum da gente ali aguardando a
hora final desse final – olha e se lembra das mil vezes dos encontros mil e
mais de mil afetos e palavras bem ditas se esquecendo os vocábulos que
redundaram deslizes nos encontros, mais reencontros, anos a fio. E vê e ouve e
sente o amigo Gumercindo, sofre o amigo ali exposto ‘vendo’-o conversador
brincalhão até, o quanto fizeram ambos a cimentar uma ligação pura. Lembrando
sim os ditos comuns, embora não apreciando nele a queda para narrar piadas, então
apenas a sorrir para não pegar mal na amizade sólida. Por dentro nesses
momentos pedia que Gumercindo não se aventurasse a abrir a boca, era quase um
sofrimento essa alegria do contar, do escutar melhor dizer. Uma vez corrigiu,
tentou corrigir Gumercindo, a convencê-lo desistir narrar ou que já sabendo a
anedota e mesmo pretendeu lhe falar que o amigo não levava jeito nisso. O
homenzinho encrespou, foi até ríspido e acabaram se despedindo sem graça. Não
empoeirou a amizade, noutro dia eram outros para serem os mesmos amigos. Mário
revê outras muitas lembranças, sobretudo as boas recordações. Daí encara a
exposição mortuária e agora percebe estar chorando de verdade! sem se envergonhar
por isso.
Outro
corretivo que o amigo puderia encaixar nos seus encontros, a criticá-lo caso
não incidisse igualmente no mesmo pecado talvez capital, outro seria chamar a
atenção de Gumercindo por ele lamentar frequente e ver as negruras do mundo com
facilidade.
Mas
uma vez Gumercindo exagerou, no muito se lamentar e mais por ter em seus hábitos
além disso outras picuinhas; contudo nunca havia exagerado nas ações ou inações
como naquela vez. Chegou trançando pernas no lar, saíra do escritório sábado ao
meio-dia passara no João e abusou primeiro na bebida depois abusou da paciência
de Ta: voltou domingo literalmente embriagado, sequer se entendendo ele mesmo a
confusão que saía da boca, trazido por uns amigos, amigos detestáveis na opinião
da cara-metade. O sol chegara bem antes de Gumercindo chegar, chegando bebum.
Ta o arrastou com auxílio dos tais amigos, dele não dela, botaram o homem mesmo
de atravessado no leito do casal. Aí despediu os guarda-costas do esposo, fazendo
uma cara feia enojada nem agradeceu enraivecida. O Gumercindo, não se sabe como,
levantou-se e foi fazer necessidades, urinou fora do vaso sanitário no banheiro
como sempre fizera, o que a mulher aceitando já por normal esse ‘normal’;
tornou ao quarto e dormiu domingo todo. À noite ela foi examiná-lo, se esquecendo
decerto da raiva que sentira: estava em meio a vômitos urinado e cheirando a
cocô; dormindo... Foi uma semana Ta emburrada; não ele como é praxe nos casais
mas ela então a dormir no sofá, ele na cama suja do casal. Não se falaram durante
a semana, quer dizer falaram-se por via dos filhos através de recadinhos que se
mandavam. “Diga para aquele cachorro...”
“Sua mãe é quem me mandou esse grude!” Coisas assim.
Depois
regularizou-se a situação familiar. Parece que Gumercindo aprendera a lição.
Não deixou entretanto o boteco porém nunca mais chegou em casa tão bêbado...
Poderá
parecer após essa descrição que Gumercindo fosse um ser depravado, errado ao
menos, contestador desrespeitador dos cânones sociais, quem sabe um perverso...
Não. Embora dona Maria contestasse a afirmativa de que fosse um anjo, não sendo
é óbvio e quem realmente com santidade! não era bem um desregrado e bebum
contumaz. O episódio não passou do número um e quase chegou um dia ao dois. Não
se repetiu e apesar ser frequentador do João onde se batia um papinho descontraído
entre amigos, jamais fora desrespeitador das regras fundamentais; além de bom
pai bom vizinho bom filho e talvez bom esposo, apesar dos tropeços na vida.
Tanto assim que ao chorá-lo no velório e no campo-santo, a senhora vertia
lágrimas honestas e sinceras pela supremacia numérica de atos dignos durante
mais de cinquenta anos de matrimônio.
3.No Escritório
Ideal a coisa muda, sem mudar a personalidade dessa personalidade mais ou menos
controvertida, a que Ta menciona à vizinha, aquela que faz ano ouve suas
queixas contra o marido: o Gumercindo pensa e age aqui no lar como sendo o dono
do mundo, piormente me considerando um ser de segunda categoria... Encomprida a
acusação tomando a vizinha por amiga íntima; ora, um cuidado que todos precisam
ter, exato todos, é não abusar de amigo vezes muitas apenas conhecido; e
íntimo, pois quase sempre o íntimo não pode nem deve se prestar a cofre fechado
para guardar segredo atirando a chave longe... Os jovens não sabem disso abusam;
os maduros pensam que sim não sabem; e os idosos precisariam ser demais
ingênuos a crer e cair nessa. Não tem importância; aqui, aqui fica somente
registrado que Marieta acreditava tal qual moça, até descobrir intrigas da
vizinha dona Clotilde a qual não apreciando guardar podres dos outros. Mas
desejando na confissão apressada desabafar com a moradora de tantos meses na
vizinhança. Desejava também afirmar que o esposo extrapolava frequente direitos
e ‘direitos’ da companheira. Entretanto no trabalho se não chegava a ser
mansinho, e não era mesmo, sendo ao menos um funcionário educado e por que não
dizer: estimado pelos colegas e mais estimado pelo dono do estabelecimento –
fato este que lhe rendeu alguma contrariedade e nisto aquela questãozinha chata
quem sabe eterna de os colegas ouvirem elogios nem sempre baratos do chefe ao
‘chefe’, ao servidor mais antigo da casa; e doutro lado escutarem qualquer
coisa supondo como trama nos bastidores para subir de posto e isso mais parecendo
um estado de puxa-saquismo velado... Intriga da oposição?
Contudo
levava mansamente sua vida a escriturar livros, por exemplo o de Vendas e
Consignações, trabalho que se dava num cursivo quase milimétrico de ‘a’ a ‘zê’,
em letra deitada e não desperdiçando tinta (cara é claro) a ensinar sua caneta Parker 51 a ser clara visível econômica sóbria e sem necessitar
se escandalizar como as canetas populares dos moleques a serviço e a
‘garranchar’ sujar manchar borrar; aí o mata-borrão marcado por baixo no sugar
a tinta fresca exagerada dos meninos. Aliás os jovens aprendizes não estando nem
aí, aqui um dizer dos dias de hoje. Preferindo brincar – imagine, ralhava
Gumercindo à juventude ali presente três ou quatro servidores provisórios a
espalhafatar o ambiente sagrado (para si sagrado); a brincarem a brigarem; isso
além de proferirem no expediente toda sorte de azar em matéria de nomes feios
os mais ‘bonitos’ trazidos de suas respectivas periferias. Sobremaneira
precisava puxar-lhes as orelhas (nisto linguagem figurada, porque existindo ao
redor tantos e tantos ouvidos opositores, pensava, melhor figurar o dizer).
De
maneira que o presuntivo chefe, chefete se ficar melhor, sabendo-se que nunca
em não ser teoricamente Gumercindo fora guindado à mais alta posição com
salário de primeiro mundo, embora manso, manso sim lá mas isto um despropósito
imaginaria a esposa dele por conhecê-lo bem no lar... No entanto, precisando
advertir os garotos que barulhavam no horário – como, lamentava, como a gente
ter harmonia e o silêncio indispensável para fazer o que necessário que exige a
escrita fiscal. Paravam provisoriamente e, sorrindo, quase envergonhados,
retomavam algo que deveriam estar fazendo ou mesmo a bagunça. Havendo um problema,
se não maior da mesma altura nesse errado: as atrapalhadas nas máquinas de
escrever, quando não abusavam ainda mais mexendo na Olivetti, dodói do patrão, nem Gumercindo se aventurava a tanto! Em
geral os aprendizes catavam grãos de milho na tecla, dizer do funcionário mais
antigo estando ou não nervoso e a explodir; e após aquele terrível fim de
semana no qual bebeu além no João e apareceu apenas no outro dia, os dias
subsequentes de ‘castigo’ imposto pela mulher dele; enfim após as encrencas no
lar, trabalhando muito no escritório sendo fim de mês e fechamento de contas;
então quaisquer abusinhos dos jovens tagarelas, pra si uma guerra ensurdecedora!
Foi um período mui difícil, não apreciava nem lembrar a coisa, mesmo a Mário
amigo de tantos anos.
Não
Mário sim o Toninho. O ‘chefe’ andava nervoso, a representação disso era torcer
retorcer o bigodinho e acender mil vezes o mesmo cigarro (usava o de palha qual
roceiro); o Gumercindo esquadrejava sua letra num capricho admirável, quando
aparece no balcão do escritório o filho do amigo, o mais velho da prole, um
molecão alto como o pai e magro e desengonçado igual qualquer macho empenando,
ora falando fino desejando falar grosso ora grosso mesmo e desejando afinar
afirmar a voz; assim. E não sabia direito o que dizer e o porquê de estar,
vermelho trêmulo desencontrado, diante de Gumercindo que ele via frequente na
sua casa mas inclusive no lar e com o pai e a Maria sua mãe presentes não se
animava a conversar com o quase desconhecido. Tem aqui um senão, aliás mui
visto por todos cantos e em todas relações humanas que é a de um adulto velho e
Gumercindo ainda relativamente jovem mas já na madureza então; o senão é certas
pessoas serem mui fechadas não dando azo e abertura a uma conversa franca e que
dirá transmitir segredos! Então mesmo sendo uma visita paterna amiga e com
algum tagarelar, mesmo assim Antônio não conseguia enfrentar Gumercindo, não se
falavam entre si em não ser “oi”, “bom-dia”, geralmente mais “boa-noite” porque
só após o horário no trabalho os adultos se encontravam; umas poucas vezes as
famílias se visitavam, nem aí Toninho a perder a timidez diante daquela presuntiva
fera...
De
maneira que agora estão frente a frente na rua São Luís onde o escritório. Bem,
os amigos já haviam falado sobre o assunto, o pai dissera temer o filhotão
livre nas vias públicas aprendendo o indesejável e pretender fazê-lo estudar no
período noturno e trabalhar de dia, valorizando a existência. Que tal,
encaixou, se você falar com seu Ademar e me pôr o rapaz aprendiz no escritório!
Concordaram, Gumercindo interferiu em favor do amigo, do filho do amigo; depois
mandou recado positivando a possibilidade e assim o garoto surge no balcão,
fazendo inclusive os futuros e indóceis coleguinhas, então num falatório a
troco de nada e já no ponto da explosão de Gumercindo, se calarem, curiosos
decerto, nada temerosos nem sendo para acalmar o escriturário-mor.
O
novo postulante a uma vaga ficou horas no banco sentado à entrada do
escritório, aguardando voltar o proprietário, o qual deveria fazer uma breve
entrevista com o novato. Fato que não ocorreu de tão rápido; porque o sr.Ademar
apenas mencionou já saber da coisa e indicou Gumercindo a tratar de homem para
homem (leia-se menino, meninão) com o rapaz, passar-lhe os deveres e o como
exercer o novo compromisso. Sequer citou o salário do pobre, certamente achando
melhor combinar isso com o pai do menor. Não obstante bem maior na altura que o
amigo do pai e também que seu novo e primeiro patrão; olhavam aqueles olhos
medrosos do rapaz os adultos lá embaixo.
Logo
se enturmaria com os meninos, apesar de só se pôr na bagunça declarada na hora
do almoço, quando o chefe teórico ia pra casa se alimentar ou a matar saudades
de Ta.
Resumindo,
o velho servidor não mandava em trabalho no escritório como pensava mandar na
sua residência – versão esta muitas vezes desmentida por Maria – enfim embora
submetendo os pequenos auxiliares quase sempre fazendo as coisas sérias do
serviço misturadas com desentendimentos entre eles mesmos e até abusando na
algazarra; quer dizer que o presuntivo chefe não tinha voz, isto é: sem força
moral. Com isso vivia nervoso e um dia partiu à corrigenda, mais que corrigenda
pois apelou para certa grosseria (mui pouco vista durante a labuta diária):
atirou de lá de cima embaixo o feixe de livros a acertar exatamente o
Manguarão... ah isto é necessário esclarecer e o esclarecimento não pode com
meia dúzia de palavras dar todo o recado.
No
escritório e para separar os setores de expediente (despachos policiais,
requerimentos, recibos e atendimento aos clientes, que os moleques diziam
“fregueses” ao horror de Ademar) e o de escrita fiscal, em que necessário mais
atenção silêncio ordem – aí o patrão mandou colocar dentro do estabelecimento
encaixado nos fundo do salão um tablado grande de madeira, lá no alto, onde se
chegava subindo por escada fixa e barulhenta; assim a meninada, bem entendido
não estando o patrão, subia descia a falar gracinhas próprias de moleques e
numa irreverência e num barulho tremendo, além do ranger de cada degrau, a
deixar Gumercindo com as mãos na cabeça e a lamentar; lamentar? mais que isso:
atirava o que por perto dele neles, geralmente lápis borracha de apagar e caneta
e maço de cigarros, embora penalizado perder o seu tabaco; tudo jogado como
balas numa guerra nos garotos, os quais deslavadamente sorriam se olhando.
Quando o dono ali, quase sempre ou sentado na sua giratória nos fundos ou encostado
se apoiando no balcão, todos eram a mansidão o silêncio o sepúlcro...
Posto
isso, necessário ainda lembrar que muito comum entre os colegas no escritório
se aplicarem apelidos; amiúde ferinos e gozadores. Nisso Gumercindo nunca soube
mas aos pequenos aprendizes ele o “Corote”, seria assim espécie de pequeno
tambor roliço seguro apertado não por cinta, na região ‘cinta’ é o cinto
masculino e ‘cinto’ o cinto feminino; a cinta no lugar dos arcos de metal que
seguram as partes de madeira que por sua vez formam o barril, antigamente para
vinho óleo etc.; felizmente não soube porém ele mesmo pondo alcunha nos
outros... Como por exemplo chamando Toninho, já de si um apelido, por
“Manguarão”, outras vezes o chamava “Vara de bater pecados” visto querer gozar sua
altura meio arcada.
Pois
bem, discutiam lá embaixo os garotos, nessa altura, meses já firme no emprego o
filho do amigo Mário e portanto com liberdade sobretudo na ligeireza de língua
o rapagão, quando para desfazer o bate-boca ou por extrema irritação do velho
funcionário, já cansado de enrolar nervoso o bigodinho, eis que Gumercindo
atira lá do tablado o monte de livros; havia o de “Selos” o de “Empregados” no
meio a serem entregues para vários clientes, o dono não se encontrava e por
isso insistiam ser fregueses. Ora, o escriturário não medira a extensão do
provável prejuízo nem zelou pelo conceito do escritório... Cada menino deveria
levar nas costas ou com suas bicicletas sua pilha de livros fiscais, estavam
eles também obrigados a cobrar as guias de impostos, aplicar os selos nos
livros em lugar adequado e ainda tomar assinaturas dos clientes etc.. No
entanto não avaliou nervoso nada disso: atirou para acertar o grupelho – os
documentos fizeram grande barulho no impacto se esparramando no chão! alguns livros
foram ‘machucados’ na queda, apesar estarem amarrados e afivelados, mesmo
porque usavam para prendê-los uma cinta masculina, das fortes grossas e
compridas, como a conter o excesso de músculos e pressão do ventre na cintura;
tais cintas segurariam até a barriga estufada de Gumercindo...
Bem,
o incidente serviu para acalmar os ânimos exaltados porém trouxe aflorando o
estado de espírito do velho escriturário, quem sabe envolvido em mais uma das
batalhas no lar com Ta na guerra conjugal.
Quanto
ao Toninho, esse já familiarizado no métier,
e pomo da discórdia ou nervosismo do amigo do seu pai, sorriu gracejou sobre a
coisa com os colegas mais próximos.
O
episódio mostra um lado curioso da questão funcional de Gumercindo. Era nesse
tempo formalmente chefe ali, sobretudo não estando o dono do estabelecimento;
para assim na posição representá-lo. O patrão saía muito, ou a tratar direto problemas
atinentes junto à circunscrição de trânsito para liberar documentos dos clientes;
ou saía para ver outros negócios seus. O escritório não deveria ser certa nau à
deriva. Entretanto Gumercindo, tão sério e competente na escrita, se chocava
frequente com os colegas nessas horas.
Apesar
disso era e sempre fora benquisto, não só no emprego mas também fora. Sem ser e
nunca foi o tipo tido por popular; aliás sendo mais caseiro que outra coisa;
não dado à expansividade, exceto é lógico após passar no bar do João ou mais
propriamente após ingerir umas e outras; até à primeira garrafa ainda aceito
como um tímido ser, para depois disso...
Ora,
quem não terá o seu fraco?
Com
o passar dos anos houve uma alteração considerável no ambiente de trabalho.
O
proprietário resolveu expandir seu negócio e instalou lá no tablado também a
parte de escrita contábil. Assim contratou um contador formado, um tal de
Daniel, indivíduo de poucos sorrisos e muita competência e dessa forma aumentou
não só a clientela como o prestígio do Escritório Ideal. O antigo permaneceu
trabalhando mas ao lado do novo funcionário, novo porém velho na idade e já
calvo inclusive, enquanto Gumercindo também madurão e demais cabeludo, com seus
fios pretos, brancos no final da existência e já aposentando. O recente
empregado ganhou na empresa uma auxiliar de contador; certa jovem bela e filha
de um dos clientes de Ademar.
O
que transformou todinha a ambiência ali, pois os meninos, uns haviam pedido a
conta outros receberam a conta... (não por causa das alterações com o setor de
contabilidade, não:) outros novos apareceram – enfim os garotos ficaram um
pouco intimidados, não só pela bonita escriturária porém por terem sido
alijados da parte de cima, agora ocupada ainda pelo velho escrivão e os outros
da contabilidade, as estantes abarrotadas, as cadeiras e objetos necessários.
Além do mais exigia-se nas novas condições bem mais cuidados, sobretudo o das
línguas, como exemplo mais silêncio mais limpeza mais deferência também a uma
jovem educada. Não tinha mais graça fazer graça, gracinhas de meninos.
De
todos auxiliares e aprendizes antigos ali, a permanecer apenas um menino mui
caipira e que levaria vários apelidos em virtude dessa desvirtude (o ser
envergonhado). Perdurou o “Cara de Lua”, que se chamava de fato José Alcebíades,
José igual seu genitor e também o avô, coisas do costume popular de antigamente.
Ah o que será mesmo antigamente? Esse acabou virando adulto e ainda a
permanecer no emprego, não obstante sua letra feia e desigual, grave à
escrituração.
Toninho,
filho do amigo do seu amigo, ano depois pediu a conta e infelizmente sofreria
pouco tempo após desligar-se um acidente fatal no trânsito; terrível e
massacrante a Mário e a Tereza.
4.Gumercindo –
sem se parecer com o cadáver ali na mesa em exposição plena e agitada da sala
no Velório Municipal – longe disso, sendo inclusive apresentável porém ele não
foi belo vivo. Mas o que vem a ser beleza: uns olhos amendoados, uns cabelos
claros, uns seios imperantes, uns andares displicentes ou com segundas
intenções, uns músculos fortes a sobressair, uns brados superficiais; ou mais!?
nada mais que enganos de olhos a desejarem ver e não perceberem além, o bem
além... Contudo não era um ser bonito, embora dona Maria na juventude pudesse
ter visto assim. No entanto a sobrar nele outros quesitos até engraçados na já
avançada existência desse escriturário, como por exemplo os cabelos. Ta via
diário o esposo frente ao espelho no banheiro de casa, onde se penteava se
arrumava se ‘embonitava’ não só para fazer a barba quase a gastar o pente.
Vaidoso. Vaidoso sim ao sorriso gozador da consorte e mesmo no trabalho, virando
por isso objeto de graçolas dos meninos aprendizes em vista o costume; um dia
eles a pegá-lo penteando o bigodinho e a deixar cair resíduos do mesmo bigode
na folha limpa branca tingida de preto com a letra caligraficamente dosada por
mãos hábeis e caprichosas. E seus cabelos com rigor penteados ajeitados amaciados
separados por um risco entre fios no meio do crânio redondo... ah, tiraram a
pele dele! (este um dizer da época: criticar gozando com maldade).
A
situação do homem no escritório não mudara consideravelmente nem piorara,
exceto nele mesmo porque no passar dos anos as dores amigas da idade lhe
surgiam... surgiam bem atrevidas.
Exteriormente
entretanto mudava sim alguma coisa no serviço.
Gumercindo
ganhava mais voz ativa se já não fosse respeitado por seus anos no trabalho
honesto sério no estabelecimento. A folha de cheque do patrão no dia dez não provava
haver subido de cargo como chefe, no entanto suas funções além de escriturar
livros agora era definida como a maior autoridade perante os colegas, acalmando
um pouco os ímpetos dos meninos e dando ares de força moral sobretudo diante
doutro companheiro na escrita fiscal recentemente admitido, o Luís, que exigia
seu nome escrito com zê como no registro de cartório e no costume; o povo não
aprecia as reformas ortográficas que os intelectuais apresentam, a gente comum
não obedece ou não sabe usar. Com esse
e acento ou sem com zê, o importante
é verificar que então o Ideal ganhou um auxiliar ao ‘chefe’ Gumercindo.
Enquanto que o setor da contabilidade produzindo a contento e sem interferências
desnecessárias. É de se imaginar que o escrivão principal tivesse agora vida
mais fácil no exercício de suas funções; o que de certa forma ocorreu, surgindo
no entanto como é comum e quase normal na vida das instituições e das pessoas,
novas questões a resolver. Além de, claro, Gumercindo haver ficado mais velho e
por isso particularmente menos destro menos ágil.
No
lar não mudara demais a rotina, as crianças crescidas Ta a chorar ao pé do
rádio as novelas, parece que “Direito de Nascer” a se discutir e dividir com as
vizinhas. Enquanto o marido, mesmo havendo passado no bar, em casa não era
muito de conversa – e um dado quase escalafobético de tão absurdo: não discutia
nem apreciava falar de futebol e política como demais homens; mulher, o outro
assunto masculino preferido em rodinhas, mulher: a mulher errada ou a bonita só
punham o bedelho na sua vida com outrem no João, nunca no sagrado retiro do
lar, mesmo estando ali como visita Mário (este sim com certa culpa no cartório
diante da esposa dele porém na casa do amigo não tocando também nesse assunto
melindroso). De maneira que o chefe da família passando os dias quieto,
quietarrão por natureza ou por interesse... e certamente cansado dormia cedo,
mais cedo se as mesas no João tivessem tido mais garrafas que os bolsos vazios
pouco antes do dia dez. Um mérito do freguês, no bar era um freguês, um mérito
dele o não aceitar pendura, pronunciando “pindura” o e quase sempre se confunde com o i nas conversas mundanas; enfim abominava dívidas miúdas. O mutismo
do esposo irritava Ta, quando na residência; ela sem ter com quem conversar.
Não seria esta a razão principal de tantas mulheres falarem demais? demais à
oposição. A esposa com ele ou sem ele gastava suas horas ora nas prendas e o
cuidado com os filhos ora a cavaquear na vizinhança.
Por
baixo do bigodinho de filtrar a fumaça do tabaco entretanto saía em casa e no
escritório um risinho safado, malicioso ou gozador; praticando assim sua
crítica do ambiente; mesmo porque o ser humano se imagina sempre com o direito
a criticar os errados nos outros; quem sabe a fim de não se ver... A molecada no trabalho aprendera a ler
bem o riso de Corote.
Tagarelavam
como costumeiro os aprendizes, sempre havendo um novo entre os antigos ainda
jovens. Por vezes andavam em serviço miúdo dentro do escritório como o de
preencher guias (e errar apagar rasgar as folhas; ou de que outra forma
aprenderiam a acertar!) Por vezes ou mais frequente a ‘brincar’ na máquina de
escrever. Havia uma Remington 12 velhinha
e parecendo estar ali para exercitarem seus dedos. Nem com a presença do patrão
deixavam de manuseá-la; e Ademar fazia vistas grossas a tal abusinho. Na sua Olivetti não, não permitindo que os garotos
fizessem dela seu parque infantil. O chefe usando-a ele mesmo a datilografar
numa agilidade impressionante documentos, às vezes em frente do cliente e a
conversar com o mesmo sobre o teor da folha na máquina e sobre política que
tanto apreciava a descadeirar o governante da época. A propósito das mulheres
falava sim, ao gosto do freguês que andava atendendo, mas baixinho e ainda
assim a olhar se não olhando as orelhas dos aprendizinhos afoitos... Com Gumercindo
o chefe não tratava dessas coisas fora do afazer da escrituração. Não devia
decerto achar correto entabular intimidades com subalternos, por mais antigo e
de confiança fosse o velho servidor. Além do mais quase não parando agora no
final dos tempos no estabelecimento, no início sim e inclusive orientava e
exigia cumprimento do então novato auxiliar de escriturário; já houvera este
servido noutro escritório e ainda inseguro ou inexperiente; com o passar do
tempo ganhou confiança e moralmente se tornando esse empregado o segundo chefe.
Outra
questão, da mesma questão embora, o fato de Ademar escrever na sua máquina
favorita de pé. Havia posto o instrumento no balcão do escritório com teclas
voltadas pra si, o balcão de atender a gente na altura dos seus braços quando
na tarefa e portanto não demais alto, pois o homem de volume tal qual
Gumercindo porém a ficar de pé e assim o balcão no alto. Entre a entrada na rua
São Luís e o balcão botou bancos fixos de madeira para a clientela sentar-se, a
maior parte dos que chegavam se encostando também em pé noutro lado do balcão.
Assim
ficavam o dono e o cliente no papo, que se estendia muito, a falarem o sério
nas coisas sérias como as envolvendo dinheiro, sempre em falta nos bolsos
brasileiros e assunto em todos vãos no país. Ou se minuciava questões embaralhadas
na documentação e trâmites legais na polícia. Ademar mantinha fazia anos
intriga com certo (errado na opinião do chefe) escrivão do setor de trânsito na
cidade, um tal de Batista, o Batista que por sinal era mais alto que Ademar e
poderoso por seu cargo e pela função na burocracia policial; ambos curtiam e
cultivavam rancores sedimentados por século, fosse possível numas décadas.
Inarredáveis os contendores, de língua... Bem, aqui entra o Lua, não é a lua
nem o sol; visto ser em geral quem levava a documentação do escritório à
repartição policial.
Oh
“Cara de Lua”... no dizer agora não de Gumercindo mas dos moleques, o
funcionário tomara emprestado o apelido atribuído pelos colegas; porém chamando
o menino gritava baixo, isto a diferenciar o berrar dos garotos auxiliares
dele; gritava o menino tímido demais, especialmente quando no exercício numa Royal estragada geralmente suja e com a
fita gasta; em treinamento exercitando-se para ser um dia datilógrafo, indispensável
o saber manusear, como empregado num escritório. O garoto estava cursando uns
meses a Escola Remington de datilografia ali próximo para afirmar-se e
aprender; chegou a se diplomar e nesse tempo os papéis já nada valiam diante da
capacidade de operar. Os outros meninos mesmo não haviam frequentado curso e
eram mais rápidos no teclado da máquina que o Lua. Outro aspecto da mesma problemática
era o pormenor curioso de Gumercindo, sendo veterano e capacitado na
escrituração em que se esmerava e possuindo talento invulgar, no entanto não
escrever à máquina. Mesmo quando a precisar se comunicar com alguém ausente ou
para não se esquecer esquecido desde aprendiz e mais agora ficando idoso, o
fazia por bilhetes numa letra miúda e boa a mão. Manuscritava tudo. Não quer
dizer que desconhecesse datilografia; na pior das hipóteses saberia “catar grão
de milho” como sua gozação por cima da meninada fazendo do escritório local de
folguedo. Em compensação o dono a quase tudo que se referia ou determinava se expressando
direto pela máquina preferencial. Estando ele sentado como que acolhido num
verdadeiro nicho no canto do escritório, entretanto só rabiscava em linhas
legíveis porém feias ordens a mão; comumente escrevia num papel e espetava o
papelinho anotado numa haste presa num peso embaixo, ou cairia sujaria sua
própria mesona atulhada de livros cadernos documentos prontos ou a preparar
concluir. Em geral “nhec-nhecava” (expressão brincalhona de Gumercindo em falando
com o outro auxiliar adulto) enfim produzia um som choco ringidor intercalado
com sua giratória, e a falar, aqui alto sem gritos, a chamar ou determinar a
este a outro a quem necessário transmitir. Chamava os aprendizes, iniciando
sempre por “oh... hum...” depois lembrava ou frequente não se lembrando e daí
completava se esquecendo o nome para lembrar o menino e daí repetia: “oh...
menino”. Então o nome nunca o apelido como pejorativo, sempre o nome respeitoso
ou o esquecimento respeitável e no lugar pronunciando “menino”. É nesse ponto passar a ordem, seguida como se
fosse o anjo protetor ou mestre ensinando caminho, cada esquina cada ponto
básico em não se perder o submisso aprendiz; como estivesse quando estivesse o
servidorzinho no ponto que pronunciava, como estivesse exatamente junto e ao
lado do moleque, quase sempre carregado com a pilha de livros e/ou punhado das
ordens-documentos nas mãos: a entregar a receber a assinar a cobrar a guardar a
cuidar absoluta e ordenadamente o que fora ordenado antes pelo chefe.
Assim
anos a disciplinar, em vivendo o patrão como preceptor pedagogo didata amigo e
pai do futuro homem ainda criança. Com respeito. Com amor!
Era
desse jeito que recebia o Cara de Lua as noções básicas ao métier e também as noções devidas à existência. Então o chefe o
chamava “oh Menino...”, após duros anos a tentar guardar devolver do aprendiz o
nome correto, estrambólico para esse tempo e região em que todos eram João
Antônio ou Pedro ele um Alcebíades. Da Silva? sabe-se lá.
É
verdade que não exageravam nessa alcunha os meninos colegas de Alcebíades,
visto sua face sardenta meio inchada estufada como a lua cheia; o que lhe
rendia embora na sua timidez uns rompantes molhados pois que ao se ver no
espelho chorava a semelhança de lua na cara; embirrava fechava a feição se
punha de forte lá no escritório. Interessante também que não rebatia o bom mau
gosto dos moleques em apelidá-lo assim. Porque todos reagiam com outro apelido
nova alcunha por cima dos criadores da gozação. Seriam assim ofensores
ofendidos. Lua não reagia mesmo: se comprimia se mordia não mostrando revolta;
todavia revoltava-se por dentro...
Com respeito a esse auxiliar-servidor
há lembrança incomum, os outros sequer se interessando mas ele um quase viciado
em leitura: lia relia pesquisava os livros guardados numa enorme estante à
parede dos fundos do tablado. Isso ocorrendo no almoço. Onze horas onze e pouco
Gumercindo ia ver Ta e comer seu almoço ou cuidar dos negócios pequenos,
grandes a bolsos frágeis como pagar contas. O patrão geralmente fora nesse
ínterim, e a tarde teria mil problemas a resolver no escritório; às vezes nem
retornava mas aí estando já o segundo chefe. Então o Lua permanecia hora e meia
a sós, acompanhado do passar das meninas estudantes a mexer com seu coração
‘imberbe’ ou o mais frequente na estante atulhada de documentos. Nela livros e
alguns escritos que eram espécie de diários, íntimos e proibidos pelo patrão,
de quando novo e teria agora quase cinquenta anos; o chefe desconhecendo o
interesse por conhecimento do aprendiz na hora de almoço... Sim, vasculhou a
vida pregressa do chefe supremo quando ainda jovem e até a poetar apaixonado
por dona Edna, a qual Lua vira uma que outra vez em visita ao escritório do
esposo à procura dele; achando bela a senhora e nada mais sabia da mulher.
Outra questão foi tomar contato com umas coleções ali, “O Mundo Pitoresco” e
sobretudo “O Tesouro da Juventude”, esta numa edição da Jackson, ambas com
vários volumes bem conservados. Leu pelos anos a seguir dezenas de outras obras
esparsas, uma em francês não conseguira sim as demais e sobremaneira se beneficiando
com a leitura, quase estudo diria, de o Tesouro. Ficava extasiado. Um belo dia
– e é pôr-se muitos dias, até à descoberta – num dia descobre esse garoto já
adulto ter um vasto conhecimento, a que se apelida cultura.
Assim,
enquanto os moleques ali a conversarem o trivial o banal ou então ocupados com
o periférico e nisto botando mil defeitos e gozações no pobre, o pobre se enriquecia.
A par do aprendizado das coisas da vida num escritório, sua relação com o povo,
as desditas os ganhos.
Agora o patrão anda contente, atende
sempre bem educado afável a clientela; porém igualmente tem boa vontade com os
meninos. Por quê? Nessa alegria alguém lembrando o dizer “viu passarinho
verde”. Não importa e quem sabe se não houve um negócio favorável, realizável
bem realizado ou outra incógnita, o certo é estar feliz, até brinca com um
deles, um que já fala em falsete e não o chama Manguarão como Gumercindo. Passa
as tarefas e aproveita também puxar orelhas a Lua num desvio ou numa qualquer
ignorância atingindo o trabalho. O menino ou no orgulho ou na timidez fica vermelho
gagueja afirma responde, não sabe pedir desculpa pelo erro, não por arrogância
nem vaidade ferida não, não sabe tão somente o fazer do fazer no fazer; abaixa
a cabeça. O professor o corrige brandamente, sorri agora e passa outras tarefas
e para não pejar aquele bobinho já chama outro moleque, este chega sorrateiro
manhoso pensando parecer o melhor do bom, um ótimo servidor. Não obstante ser
este o Dico, assim apelidado e fazendo sempre alcunhar outrem, uma espécie de
líder do grupo da bagunça... Conseguira que inclusive Lua, medroso vergonhoso,
fosse atraído imantado a essa igrejinha.
O patrão desconhece não só os meandros
do grupo mas sobretudo as distorções no agrupamento; havendo nisso um procedimento
que os meninos mais antigos no emprego chamavam “soco”, nunca ouvira ele isso
que a turma inventou, a turma da qual já fazer parte também Alcebíades.
Durante anos a meninada do Escritório
Ideal tendo por ideal ficar impune, como requer a psicologia do homem comum,
esse que aprecia levar vantagem em tudo. Atrás disso têm as famílias, pobres e
comuns. As famílias comuns dos seres não agem como algumas outras do estrato
mais alto, alto para o imediato àcima de suas posses. Esclarecimento aqui: em
certas famílias a economia é claro gira em torno do dinheiro porém disciplinam
o ganho o gasto a sobra caso sobre e dirigem estipulam às vezes o quinhão dos
seus entes; assim um filho recebe o que chamaria sua verba, uma parte a fim de
gastar como precisar ou puder. Todavia a chamada pobreza não guarda tal
disposição e a falta de numerário é falta mesmo, quase sem solução; ora,
afirmar aqui este ser o princípio ou o estímulo inicial para o afano o roubo o
crime, isto talvez um abuso imperdoável de linguagem. Contudo parece verdadeiro
que a garotada livre na rua ou onde estiver possa aproveitar o momento de
descuido dos outros ou da ignorância dessa possibilidade e assim o menino,
quase sempre meninão crescido espichado esperto – pode ceder...
Tudo até aqui a tentar explicar o
porquê de possivelmente os aprendizes do Escritório, que logicamente inventaram
o expediente e não patenteariam o invento... enfim eles haverem optado extrair
alguns trocados, muitos trocados, na hora da cobrança de imposto a ser pago
para quem de direito (isto discutível) ou seja os governos, municipal estadual
federal; e nisso tomado sua partezinha; decerto sem pensar que antes o cliente
do patrão deles houvesse se apropriado da mais-valia... Ora, ao crime ou só
‘crime’ foi um pulo; não terão pensado os meninos haverem furtado algo, dada a
incipiência e o desconhecimento, numa arte que hoje sabemos sobra nos melhores
políticos e empresários. Em resumo os garotos – cada qual tendo a cuidar de sua
área, sua freguesia falavam – eles cobravam recolhiam levavam ao escritório o dinheiro
do imposto, incluído na cobrança os honorários do patrão e aproveitando a
cobrar a mais da importância estabelecida honestamente no escritório e a ser
entregue para Ademar ou para Gumercindo na ausência do patrão; e se apropriavam
de ‘sua’ parcela, nada combinado com grupo de trabalhadorzinhos, segundo sua
ganância oportunidade e mesmo esperteza...
Apesar do recebimento de trocadinhos,
de miúdos, de migalhas no todo da cobrança – um erro e um pecado aos que pensem
em termos religiosos ou filosóficos, um crime, crimezinho ah que gracinha...
Apesar também do que foi dito, sem o
usadíssimo ‘dito por não dito’, parece que nenhum nessa ‘quadrilha’, ao virar
adulto, despencou no ferir a lei e as normas sociais. O Cara de Lua foi sugado
por esse perigoso e mau chamarisco. E igual seus colegas não feriu
ostensivamente a lei. Ora a lei!
5.Naquele dia que não ventava na cidade
tendo por característica exatamente a ventania, mas estando frio, o que parece
não afetar meninos, o menino Cara de Lua apareceu no escritório com lua na cara
ou apenas fugido do mundo desperto – entra no serviço estabanadamente sem ver e
longe estando... Aí Gumercindo lá em cima no tablado, ainda pitando o último
cigarro na palha fedida e com a caneta na mão como estivesse a escrever no ar,
gritou-lhe: “Lua, o Ademar mandou ocê i no Batista”, engoliu primeiro um vê depois o erre no costume da fala na região e prossegue na arenga, a qual o
garoto sequer ouviu ouvindo-se melhor, pior aí acordando se espantando
deparando então haver chegado... Aos doze treze anos pode a gente ter desses sustos;
podendo na idade adulta e na velhice continuar a perceber tudo inesperado não
vivendo, apenas no viver o sonho.
Lua um aprendiz mui pronto a fazer o
afazer na sua boa vontade e seriedade, um pouco até com servilismo porém desligado
quase sempre da realidade; não da verdade porém a fomentar sua imaginação e sua
ilusão. Gente assim sofre, sofria a fustigação da cambada aprendiz embora mais
calejado no ambiente de trabalho, sobremaneira sofria assédio constante do
rapazote Dico, um como que chefe da quadrilha (isto mui forte, estas linhas
mudam no caso para:) mentor da bagunça. Os do grupo lhe tiraram nessa chegada o
pelo, os companheiros ali aguardando ordens do chefe segundo, visto o primeiro
ser o ausente patrão. Foi válida a gozação pois o menino acordou de vez.
Aos quatro ou cinco outros
servidorezinhos o comum a ser ordenado às oito e pouco, quando ainda eles a
esfregar os olhos a espantar os sonhos matinais e a arrotar ‘elegantemente’ o
café o pão a manteiga de suas respectivas casas – o comum sendo despachá-los
aos seus fregueses; com as pilhas de livros fiscais ordens taxativas e
recomendações que se faz a moleques: “não faça tal” “cuidado com...” todavia os
adultos mandões, fosse estar ali o dono ou fosse Corote o patrão, os adultos
compreendendo a possibilidade não serem atendidos no 100% pelos demais, não sendo
no caso de Lua.
Para Alcebíades, longe ser e mesmo
conhecer a importância do personagem da Grécia Clássica, general de iniciativa...
aqui não representando a correspondência histórica visto o menino estar mais
para um medroso que para um denodado líder; nisto se encaixando tal qual
anterior comparação Jesus e o garoto que virou ladrão também longe nas origens
do nome... – para o moleque Alcebíades avisos escritos estavam diário amontoados
na mesa de Ademar, presente ou ausente o dono e neste caso quase sempre fora do
escritório aos negócios dele ou ainda indo com os clientes ali na esquina conversar
o que lhes convindo e, necessariamente, a bebericar aperitivos. Neste pormenor
uma crítica velada do segundão, às vezes descuidoso perto dos meninos e isto
quem sabe por falha do seu caráter. Portanto o comum ao chegar Lua era passar,
repassar, a ordem do patrão ao empregadinho a viver frequentemente no mundo da
lua (um dizer comum sobre desligados da realidade, o apelido não provindo disso
mas da cara redonda sardenta). Essa ordem era o trabalho do expediente externo
na polícia. No Escritório Ideal, entre suas tarefas junto ao público estavam os
despachos na polícia, mormente o serviço de trânsito; Ademar um despachante
policial oficializado. Isto anos causando mil encrencas ao escritório ao chefe
e talvez mais ainda para Lua...
Como já exposto as ordens andavam
dentro da disciplina do patrão nuns montes, ou espetadas ou presas sob um objeto
pesado; entre objetos para esse fim havia pequenas peças de artesanato como
esculturas rústicas, pedras lustradas envernizadas, pedaços de madeira pintados
e cristais, destes um colorido e ao mesmo tempo transparente a gozar engraçado
os reflexos da claridade da porta de aço, a qual se enrolava para abrir
desenrolava para fechar, do tipo comercial encontradiço; a claridade lógico
tendo origem no sol no dia e inclusive na ilusão de beleza, isto podendo
decerto só ocorrer a Lua não aos outros e não também a Ademar que fora quem
tivera a iniciativa pôr pesos em cima dos papelinhos com as suas ordens.
Gumercindo descia então lentamente do
tablado num ploct-plect rangindo ringindo a madeira dos degraus da escada do
tablado, e embaixo já no solo frio do piso frio ele a arrastar ainda lento os
sapatos até a mesa da chefia; desprendendo tais ordens (geralmente guias,
folhas, pedaços de folhas de sulfite onde anotado o que fazer, o que exigido
que Lua fizesse executando o serviço). Desprendia entregava tudo ao garoto e
lhe dirigia também de sua parte um gracejo, sempre fora gozador entre colegas e
meninos; agora, frente Ta no lar e com os filhos e perto dos vizinhos tolhia um
pouco seus ímpetos; mais se fechando ainda diante do patrão. Então pega o
menino, já meninão a receber sua penugem no rosto imberbe, projeto duma barba
que iria quem sabe esconder-lhe as sardas; agora o pega de calças curtas, ou
com a boca na botija igualmente se diz na época – goza o rapaz ainda recebendo
a tarefa passada pelo dono, tendo entrado afoito, subido correndo feito louco a
escadinha a abrir a estante consultar um quê que lhe ficara à noite nos seus
sonhos dormindo aos sonhos acordado... um quê a esclarecer. De forma que sequer
percebera o chefe lá em cima a falar, sequer percebera os coleguinhas então
mudos ou não a arreliar e na expectativa do que fazer durante o dia (embora a
rotina os houvesse alertado sobre os compromissos de sempre). Passou subiu
consultou o Tesouro rapidamente, nem mesmo cumprimentando, se notando colegas
ali postados, e isto não ofenderia ninguém pois a gente comum dificilmente tem
boas maneiras ele não tendo; desceu quase a despencar nos seus desengonços na
escadinha escandalosa em seus sons de madeira nervosa ou irada com pesos
malucos de menino.
Ocê... o Ademar... Aqui é preciso
fazer um parêntese sobre a questão da intimidade. Gumercindo cuidava de sua superioridade
perante os meninos, claríssimo ou não seria um chefe; mas talvez exagerando a
posição a se referir ao patrão de todos (ausente, presente a lógica diz que o
empregado é o submisso e portanto não pode cantar de galo no terreiro alheio);
“o Ademar” afirmava, como fosse seu irmão um vizinho um amigo igual o Mário por
exemplo, enfim como lhe fosse o íntimo mais íntimo e da mesma estatura moral.
Os garotos aceitam pelo costume o tratamento, um que outro alfineta o abuso
decerto por rivalidade; em geral os aprendizes percebem já a entonação de
Gumercindo. Assim completa o homem ao moleque: o Ademar mandou você ir fazer
isto ou aquilo no Batista.
Na execução entra um horrorzinho que
não chega a ser uma gracinha... O menino sente um tremor além do temor a virar
terror, ter que enfrentar o alto funcionário (houvesse havido algum dia altura
colossal num mero funcionário público temente as mais das vezes receber o
holerite no fim do mês; enfim para os debaixo o de cima nos píncaros do poder –
ou a rotina da sistemática apresenta isso:) como enfrentá-lo!
A enfrentar, Lua se desligava então de
sua lua, pisava o chão em destino ao destino: o setor de trânsito da delegacia
de polícia; carregado o aprendiz com calhamaços de papéis, todos guardando suas
necessidades e ansiedades de carimbos vistos assinaturas, em resumo burocracia.
E pior: ouvir, enfrentar Batista, decerto João Batista e tratado joãozinho
pelos íntimos. A voz rouquenha, seu cigarro eternamente aceso e o descaso mais
aceso ainda, faziam o Cara de Lua tremer; só a lembrança tendo já o poder de
despertar o demônio do medo! que dirá no tête-à-tête?
chegava na repartição – esta quase de propósito estando albergada junto à
cadeia propriamente, inclusive Lua observava nas longas horas da espera de
atendimento os presos no banho de sol: havia um japonês careca e gordo e outros
prisioneiros morenos a andar em círculo numa área ou pátio cercado lógico por
gradis – e isso lhe dava arrepios, arrepios daria também num adulto; numa
espécie de enjoo dolorido e ao mesmo tempo asqueroso... sentia um como
pânico... ah o menino não sabia explicar com palavras humanas o que realmente
sentia. Piormente nunca podendo achar quem o ouvisse nesse drama nem quem
pudesse compreender, fugindo a coisa da lógica. Então lamentando a si mesmo, ao
seu mundo de faz de conta, num poetar amargo.
No entanto passava a coisa. No dia,
após aquela intervenção desagradável em vendo criminosos; e não estariam acaso
ali tais homens ‘sem culpa’! como saber como provar e daí se punha no lugar dos
infelizes, caso houvesse alguém inocente e caso sendo realmente infelizes, pois
quem poderá penetrar o interior da mente humana? Sim passava, não de fato
passando mas vencendo o ‘contágio’ diante do crime. Para ser então atirado o
auxiliar de escritório noutro mundo burocraticamente pior, mais hediondo,
pudesse haver e havia sim por azar na sorte do rapazinho. O do setor de
trânsito.
Chegava o menino e imediato se
postando já na fila de atendimento, fila mais longa e ainda mais demorada; isto
dentro da problemática do tempo que nos indaga: um minuto no inferno não será a
eternidade!? Vencia a eternidade até se cansar se enfastiar e ouvia ofensas e
mesmo impropérios grosseiros, por geralmente o Batista ver em Lua Ademar , seu ‘querido’
desafeto e objeto inclusive de ódio; e após o ridículo do escrivão socar o
Livro de Protocolo do seu escritório como estivesse socando a acertar primeiro
sua personalidade e depois a cara de Ademar; daí berrava qualquer coisa ao moleque,
ruminando quase por dentro uns sons que Lua interpretava “espera no banco, seu
vagabundo!” mais ou menos isso, e assim a dor diária naquele serviço
desagradável ao pobre. Daí sentava-se.
Via com tristeza e mais com raiva o
descaso o desconcerto no tratamento: primeiro os outros escritórios todos eram
recebidos; quantas vezes ouviu: “este é do Ideal, deixa pra lá: entregue o seu”
e aí outro colega a serviço doutro despachante policial entregava e/ou recebia
sua documentação antes; só depois, mui depois, a sua vez. Horas de espera.
Ah, enquanto o aguardo ia ao
sanitário, este como os banheiros das rodoviárias interioranas, malcheiroso;
fedendo tanto quanto o guichê do Batista.
Levantava-se a fim de ir ao guichê do
funcionário receber seus documentos para por final regressar ao escritório e aí
escutando sempre o esbravejar do patrão vendo em Lua o Batista, o qual segundo
Ademar carimbava errado de propósito ou não dava o visto necessário. Ora, o
menino virando nisso a mortadela magra entre duas fatias de pão, azedas...
Enfim se levantava ao chamado. Agora novo sofrer e até poderia sofrer antecipadamente,
o que talvez sendo mais ‘gostoso’ que o sofrer propriamente dito.
Dessa maneira se expunha à nova raiva,
a raiva quase sempre em acúmulo doutros mais momentos raivosos.
Um desses marcou fundo seu ser.
Havia o ordenança Hélio, guardara bem
o nome dele visto ser tratado quase como o único caso a se lembrar, pois em
público e não no seu meio o sujeito a chamá-lo não Alcebíades mas a dar
relevância ao apelido Cara de Lua, que ouvia sempre com desagrado. Era o Hélio
um soldado ruivo e de pele avermelhada tendo a função de ficar na porta do
delegado para atender pessoas de fora e – isto sim o grande problema do menino
– atender pessoas de dentro como os garotos a virem todos dias com seus livros
de protocolo e também os funcionários dali mesmo: o ordenança mexia gozava
brincava com seus colegas e com a meninada e no meio ou numa preferência
doentia tomando Lua para seu sparring.
Começava, e prosseguia, assim a
brincadeira de mau gosto do Hélio: sentava-se por cima do chapéu do garoto deixado
no banco, um chapéu que se usava nesse tempo, de chantung, parece que dum tecido com tal nome; sentava-se como não o
percebesse debaixo de si; ao retorno de Lua vindo do guichê-de-sofrimento, eis
outro sofrimento com o soldado a se levantar e a descarada e maliciosamente
dizer “oh, tinha um chapéu aqui no banco! puxa nem vi” e sorria, sorria também
a plateia daquele arremedo de cena de circo em má teatralização. Desamassava o
menino sua cobertura, punha de novo o chapéu, por sinal gasto feio e sujo quem
sabe a exalar mal por ensebado; e não mais comentando, nos inícios quando
começara o homem a fazer a safadeza chiava bastante o rapazinho e agora já
calejado sequer falando coisa alguma, nada comentando saía da repartição, sofrer
agora a rua sofrer a chegada e reclamação numa espera fatal do seu chefe no trabalho.
Chorar a quem? decerto à mãe em casa
no almoço quiçá frente um amigo, houvesse algum.
Na rua, fosse chegando fosse a sair da
repartição, certamente a fim de afugentar os dramas que lhe esperavam diário,
então se desligava não obstante a dor moral, a que esperasse ou a da qual saíra
ferido; na rua se desligava pela imaginação. Sonhava vivia seu sonho, ou não
viveria; porque o ser humano precisa dum derivativo para não soçobrar na dura
realidade que o cerca. Por isso se punha a conversar com seus personagens, em
muitas ocasiões vindos da leitura do Tesouro ou da lembrança das belas jovens
que ocupavam sua mente por todos momentos e mais nos de crise; elas que
apreciam ser não apenas bonitas e desejáveis a um adolescente mas belíssimas e
encantadoras...
6.Agora Corote não está a gozar
aprendizes nem sendo o Corote porém Gumercindo, um vizinho respeitável e respeitado
tido como zelador dos bons princípios, de nome e honra a zelar. É um fim de
semana na sua casa em que se força as coisas para não fazer as coisas;
inclusive, a imitar semana inglesa na qual os caboclos ficam no sábado à
disposição do serviço até às doze, onze horas já dispensado o guarda-livros
para tornar ao lar; a residência fica nos arrabaldes ou arrabalde menos
comprometido com o descaso das autoridades municipais, ainda na periferia, a
periferia menos pobre... tem a mais, menos de recursos e geralmente longe do
calçamento da água encanada do esgoto, tudo isso um prêmio para os que vivem no
centro urbano, todo ele com paralelepípedos e com os melhores e apresentáveis
prédios a ser mostrado a possíveis forasteiros de passagem. Tem algo ainda: têm
à beça moleques gritões e mais gritadores os cachorros, no centro funciona a
chamada carrocinha, na época realmente carroça a pegar vadios (não os meninos
ora...) e na periferia não passa carrocinha e sobra dentadas; o da família de
Gumercindo é o Peri, um cão dócil educado mas late de madrugada só parando com
resmungos do amo. Ta ao esposo, “vai lá fora ver se tem ladrão!” Não ia.
Quando se mudou, mudou-se recente à
nova casa velha mas de alvenaria, fato este importante quando a maior parte das
casas sendo de madeira, o que próprio das áreas avançadas as frentes na
colonização e na luta entre a mata e a cidade nascente. Essa residência da Rua
das Orações possuindo inclusive privada patente (falam assim) uma distante do
penoso sanitário da outra donde viera a família, de buraco malcheiro a exalar e
onde Ta sofria horrores pelas baratas e temendo ceder o chão de madeira a
ringir talvez por apodrecimento... não desejava nem pensar cair, pensava e
sofria. No entanto Gumercindo nunca se mexendo não trocava o piso, sob alegação
de que na casa dos outros não se põe ou perde-se dinheiro; o aluguel mesmo, não
é um roubo! porque a gente paga todo mês os cruzeiros o dinheiro vai não volta
e você fica sem o metal e sem a casa, ele aos bolsos do proprietário ela não é
da gente. Dona Maria a responder sem responder num muxoxo, visto das coisas
vistas no lar ele deixando para depois arrumar contratar profissionais para os
mesmos executarem o conserto... ah só a prometer, nunca se mexera o Gum
(apelido dela dele) o Gum não mudara e não mudará na preguiça ou má vontade;
por isso lhe pegava no pé: somente prometia fazer as coisas e nada mais.
Contudo um dia se mudaram – num terror
e cansaço e chateação, que é mudança de pobre num caminhão cedido num carreto
por amigo também pobre, uf! passou nem queria ela pensar mais – se mudaram da
periferia mais periclitante à periferia decente em casa sita à Rua das Orações
e inclusive com algum conforto, como o sanitário apelidado de banheiro, e pertinho
da importante rua Dom Pedro com bem metade calçada; depois o proprietário fez a
calçadinha para melhor apresentação e limpeza, onde Ta podia depositar a lata
de lixo. Todavia longe tudo do ideal porque o entrave de a moradia não ser
deles e ainda pagar aluguel bem mais puxado que na outra. Por sorte nesse azar
o Escritório Ideal aumentara levemente o salário. Enfim estavam a viver então no
paraíso possível nas suas condições financeiras.
Agora dão os entes um passo um pulo
para o alto nas convenções sociais com uma festa.
Em razão disso Gumercindo saíra hora
mais cedo numa concessão de Ademar, o qual preferiu comprar um presentinho
decerto malvisto por Ta e suas irmãs faladeiras, do que ir em pessoa com dona
Edna ver o natalício da filha mais velha do empregado. Coisas de
constrangimentos de ricos, ou serão os anfitriões os envergonhados com a presença
rica não sabendo tratar à altura a visita! Não importa, importa que torna mais
cedo e já se põe obedecer a mulher, pois o sexo feminino tendo ou mais queda
para as atividades festivas ou que os machos da espécie sem a qualidade
necessária a tal ou mesmo sendo tão só o caso específico de Gum, um pouco desajeitado,
bem desajeitado nisso. Ficou-lhe como tarefa mudar peças desatulhando espaço e
ir buscar bebidas; com a recomendação de Maria pras alcoólicas apenas a
bebericar e não fazer feio, e também na festa não engolir uma caixa sozinho no
meio da gente e daí sim fazer feio melhor nesse pior. Pôs-se a remover estorvos
à livre passagem dos visitantes, mormente as amigas de Cecília, a
aniversariante e sua mais velha. Isto parecendo o óbvio porém nem tanto porque
a área residencial diminuta a casa grande dentro do terreno pequeno e daí como
ficarem livres e à vontade. Além de a família não ter lastro anterior na coisa:
nunca dera uma festa, não sendo a miúda; Ta sempre fizera o bolo sem vela ao
aniversariante, cuidando mais do que mais apreciasse o filho fazendo anos, como
um manjar um prato de preferência; não promovido pelo esposo, ele meio
desgracioso envergonhado tímido diante atos cerimoniosos (curiosamente numa
reunião para se soltar, com álcool ou sem, com refrigerantes e doces). De maneira
que as reuniões eram na casa mais congraçamentos que festividade mundana ou
social, a fim de manter os seus na convenção.
Cecília era parecida ao pai, pra ser
feia sem os desengonços dele; mas tendo um quê da mãe, para ser bela como
outras mulheres. Sem grande cultura, o contrário pareceria absurdo numa família
pobre da época; enfim sem grande instrução que não os anos fundamentais de
ensino; o que válido aos outros três filhos de Gumercindo; ele parara (melhor dizer
Ta encerrou a produção...) ficara nos quatro. Aliás fixara-se no número quatro,
sem adivinhar que ficaria na sala quatro do Velório naturalmente, pois até
nessa fixação não tendo lá muita sorte; fincava pé no quatro e mil vezes jogou
no bicho, contravençãozinha suportada pelas autoridades, e na loteria nos finais
quatro é lógico. Nunca acertara ou não precisaria agora promover sua festa por
insistência da esposa a agradar a primogênita numa residência pobre mas boa
(que é o razoável aos que têm posses na opinião dos que nada possuem) boa sim e
acanhada a tanta gente...
As colegas, que Cecília apelidava
amigas, elas vieram, fizeram algazarra aceita, que é como chamam todos a
alegria quiçá a felicidade; aparecendo um que outro casal da vizinhança
trazendo seus meninos mais as meninas. Como sempre ocorre os moleques fizeram
ajuntados sua própria festa, nenhum puxando asas às garotas, decerto deixando
essa tarefa benigna e gostosa para a fase posterior... As meninotas apenas amigas-conhecidas
ou só vistas de vista ali se encontraram e foram aceitas, contribuindo não
somente com raros presentes de aniversário mas por estar presentes a vivenciar
aquele lazer com o mínimo de cerimonial (ou o máximo no pensamento dos tímidos,
entre eles o próprio dono da casa, dono embora quem de mais força mesmo, especialmente
na língua, sendo Maria e não o marido).
O que pensaram disso os participantes!
Se disseram, não o fazendo em público sobre o festejo ou só trataram
abertamente nos recintos fechados de seus lares. Não se pretende fechar a boca
da gente.
Quanto aos amigos a aparecer,
Gumercindo curiosamente fizera convite a Lua e não aos outros colegas porém na
forma costumeira, apenas formal e já desejando não aceitação; ou convidou exato
por saber antecipado a recusa em resposta do tímido rapaz. Quanto aos outros e
poucos amigos (ou conhecidos?) não vindo o Mário e os seus; claro que o Manguarão
não viria vindo os genitores entretanto demais filhos sim e naturalmente a
esposa. Parece a causa da ausência deles ela mesma; ou o casal; andavam os
esposos em rusgas meses – inclusive arruinaria a coisa até à separação; depois
reajuntariam e havendo novos desentendimentos, o comum do ver e nestes tempos
será ainda mais comum esse comum... Aquela velha questão dos ciúmes dela e dos
abusos e até flagrantemente a infidelidade do homem, tudo com os trágicos reflexos
nos filhos. Não veio Mário nem sequer sozinho. Não sendo por isso que mais
tarde ambos amigos esfriaram a 'sólida' relação...
Alguns vizinhos entre machos
apareceram, mais ao cumprimento à aniversariante, alegando não permanecerem
pelos compromissos ou forjando a saída da reunião festiva. Porém ocorreu de um
do João vir sem ser convidado, o que trouxe zum-zum e mal-estar entre
participantes, além serem estes jovens e não haver lugar para adulto
desconhecido...
Gumercindo não se lembrando tê-lo
chamado mas quem poderá alegar não haver convite por boca pastosa e alcoolizada
no boteco. De qualquer forma apareceu, inclusive não cheirando porém cheirando
demais... Quer dizer não exalando o suor dormido e o hálito da cana curtida
apenas, normal este comum; no entanto tendo em si um cheiro forte de perfume
barato que o amigo do amigo desconhecia e nunca houvera sentido juntos quando
no João ou quando num fortuito encontro na rua. Para o dono da casa foi um
drama enorme essa presença quase apócrifa, não somente pelo drama do
constrangimento, a gente nisso não acha o que dizer onde pôr as coisas onde se
pôr. Vergonha. E, particularmente para Gum: o perfume, o fedor segundo o olfato
do chefe da família, o tal perfume exageradamente carregado de enxofre, o que
gravíssimo e insuportável ao esposo de Ta... Assim se já não se encontrasse bem
diante dos de fora por ser um ser sem graça nos ajuntamentos, embora em seu
próprio lar; para complicar ainda veio-lhe o Sebastião, a si no bar Bastiãozinho,
o qual além de precisar tratá-lo dentro da decência e pajeá-lo com educação
nomeando-o “Sr. Sebastião um amigo de anos” que dizia nas apresentações aos
convidados e inclusive à esposa a lhe torcer o nariz (aqui linguagem figurada,
não se sabe se a quase matrona sentia a mesma repugnância e resistência ao
cheiro do bebum) a torcer em direção do marido. Seus olhos indagavam a
Gumercindo “quem essa peça que você nos trouxe a sujar manchar a festa de minha filha!”
Interessante a linguagem cifrada dos
membros duma família. Aqueles olhos linguarudos e os olhares que terminavam na
expressão “minha filha!” só ele como chefe da casa decerto lendo entendendo
sentindo se constrangendo e pior se inculpando sem culpa de fato, os olhos
gritavam muito. A esposa carregava sempre nas discussões conjugais – e qual
casal não se bate de vez em quando! – ela trazia a si a filha deles, como a lhe
acertar um murro na cara para jogar-lhe na lona o corpo frágil apesar estufado
qual corote cheio de vinho, trazia a expressão uns brados a ofendê-lo. Pois o
normal (piormente não comum) na relação dos cônjuges era a dosagem adequada e
sem ferir nenhum, ela a falar ele a ouvir ou vice-versa. Contudo na briga ou
mui enfezada Maria, então não Marieta e menos ‘Ta’, despejava por cima dele desaforos
e quase sempre a tecla: “você feriu minha
filha” porque na conversa mansa diária não era dela nem dele, de ambos. Os
desentendimentos não frequentes e até viviam bem; no entanto havia também
guardado um ‘segredo’ não havendo segredo eternamente durável numa casa; algo
ligado aos primeiros encontros íntimos dos namorados-depois-cônjuges, que a vítima,
ela se achando vítima, que ela atirava no rosto do seu velho – agora no correr,
lento, dos anos era seu velho o Gum na conversa amena dentro de casa diante
visita amiga, visita de compadrio por exemplo. Todavia virava fera contra Gumercindo,
ferida; e um dos toques da guerra era exatamente a expressão minha filha; aqui se tornando a garota
uma coitadinha ou coisa desse jaez.
De maneira que agora diante do abuso
pela vinda dum mequetrefe desconhecido dela, quem sabe a cheirar álcool e
talvez um perfume banal e horroroso, isto na opinião de Gum que nem por sombra
tocou nesse ponto ou seria cutucar de novo a onça... De maneira que a
surpreendente chegada, a que tornou-se quase ida imediata mas com mais de meia
hora intercalando chegada-partida, trouxe agitação nos participantes e imenso
aborrecimento ao chefe da casa (verdade que mais Ta mandava). Foi dificílimo
para ele pajear o Bastião.
O sr.Sebastião está se despedindo...
fala Gumercindo com satisfação contida mostrando pesar... havia nele certa
dificuldade no uso de recursos pobres da linguagem vulgar ao dizer aquela
‘perda’ no rol das visitas. Uma que por discrição nada encontradiça sequer
provou um copo de cerveja, aceitou apenas como ser envergonhado um de
refrigerante comendo um ou dois salgadinhos e ainda, descaradamente a afirmar
peremptório “lamento, obrigado, não bebo” sem se avermelhar diante da senhora,
claro sem olhar pros lados do marido da senhora.
Quando, após a batalha embora a
alegria de Cecília, o principal naquela festa, dela e doutros filhos, quando
ajudava na limpeza da imundície ou só desordem nas coisas espalhadas,
recolhendo restos aproveitáveis – então ainda Gumercindo comentou próximo de
Ta: não acha haver ficado na casa até agora um cheiro forte e esquisito daquele
perfume?
7.O amor. Exposto como exposto nas linhas
anteriores poderá levar alguém a conclusões apressadas e portanto correndo
sério risco do desacerto visto haver novas formas para ver o relacionamento do
casal. Ela, nos caminhos tortos de um pensamento podendo parecer uma fera
enjaulada e no pior solta a ferir. Ele um esposo incompreensivo e, por que não
dizer: medroso e a esconder defeitos a atingirem a vida conjugal. Não. Pode a
coisa ser posta noutra vertente, quiçá numa próxima da verdade que possa gozar
um ser terreno. Assim entra a problemática humana do amor.
Esse delicado e talvez frágil
sentimento pode – aplicável ao par – levar a conclusões insatisfatórias. Tem o
pensamento religioso mais dominante quem sabe; segundo pensadores crentes
podendo o amor ultrapassar a concepção de amizade. O que seria um amigo. Mário
usava demais a palavra e muitas vezes estando quando mais a precisar sozinho,
um dia não achou a confortá-lo sequer Gumercindo, mas isso bem mais tarde. Outros
usam “colega” em vez de amigo a dizer um próximo talvez confiável no entanto
quem seria hoje confiável? Possível ser maneira mais adequada que abusar da palavra
amigo. O que um amigo. Aqui entraria a questão do próximo, mesmo o próximo
distante fisicamente; um ser pra quem se pudesse transmitir um segredo e que ao
mesmo tempo pudesse guardá-lo; e mais: que auxiliasse o outro para, se não com
possibilidade a resolver, compreender e suportar o peso de algo insuperável,
houvesse insuperáveis. Enfim a confiabilidade, essa a ótica. Com a
interferência do tempo, a cimentar amizade ou até a destruí-la; isto ocorreria
entre Gumercindo e Mário, mais tarde... Amigo nesta dualidade no pensar se assentaria
na crença da confiança mútua. Noutra extremidade estaria o amor, também
assentado em boa parte na confiabilidade e nas concessões pequenas ou grandes a
outrem mas visando mais o interesse, este quase sempre sexual ou tendo
conotação com tal interesse. Como fugir dessa abordagem, tendo por escopo não a
ignorância porém a verdade, ainda sujeita à ignorância e ao desacostume em pensar,
o que deve atingir decerto a maioria humana...
No caso em questão como andariam Maria
e Gumercindo na relação conjugal?
Não sendo de maneira alguma a mulher
uma fera, longe disso, agora estimava seu homem mas numa espécie de prolongamento
do amor – contestável! – do amor que dirigira desde que apenas menina morena
magra jeitosa até na meia-idade chegar ser a quase matrona no lar, então um
pouco mais a preocupar a balança e mais preocupada com regimes. Sentimento que
dirigiu a quem? a Gum. Não o escolheu por ser um apolo, tão só homem comum, já
um pouco guloso e prometendo trocar um furo por outro na cinta porém andava
longe precisar como agora no escritório ser gozado pelos colegas aprendizes
como o Corote. Sem ser belo – e que vem a ser belo? – aceitável em solteiro,
mormente com ideia suposta suposto bom partido por ter profissão de
guarda-livros; além ter certamente na opinião contestável da bela sobre o homem
já um pouco maduro, ter alguns machos encantos (aqui novamente contestável).
Estas linhas gastariam mil folhas de sulfite a alimentar o fim do mundo a ser
acabado em chamas, ficasse a distender isto; isto posto prosseguem elas noutros
aspectos.
Bem, embora a mulher usando raivosa a
expressão “minha filha ferida!” não chegando anular o amor – ou amizade ou
apego ou apego temeroso ou a necessária defesa do lar ou para segurar o
matrimônio e o mesmo lar – não anulando portanto a profunda amizade de anos em
convívio, reforçado com a filharada no meio. Nisso podendo hoje parecer
esquisito aos membros duma família, cada um ao seu trabalho fora e aos seus
interesses; por meados do século vinte ainda a mulher em geral sempre dependente
do marido e daí as concessões à ideia de amor que pudesse sentir ela por
Gumercindo, que além de feio ao gosto masculino, um sujeito com falhas outras
como visitar o boteco mas tendo outras falhas e ainda assim a merecer o apego
de Ta, uma que fora Maria e Marieta para na juventude ser mesmo Tainha; nada
que ver com peixes porém um agrado no tratamento conjugal dos primeiros dias,
uma forma carinhosa de falar no lugar do “eu te amo”, o vulgo prefere na expressão a segunda pessoa a concordar
na discordância do que diz em terceira, e assim tratava Gumercindo a ela; não
sabia ou temia expressar amor: tinha amor usando o tratamento de carinho; ah
essa coisa triste – virou depois simplesmente “Ta”, sem acento ainda por cima,
por baixo... Nas rusgas chegou a ofendê-la “dona Maria da Silva” como se
dirigindo a outrem longe, cerimoniosamente uma estranha.
Queria esse macho da espécie Homo sapiens demonstrar amor e carinho
porém quando zangado virar o barco, ferir!
Ela... ih ou respondendo irada, nos
mesmos termos; e, controlada, silenciando em mero muxoxo inocente, um esgarzinho
assim manso contorcendo apenas um lado da boca e rangendo leve os dentes;
piormente, ele alfabetizado nessa línga e por isso entendendo não ser persona grata no momento. Felizmente tudo
passava passando.
Ela? nos momentos graves e até nos
bate-bocas conjugais usava o expediente de algo mais do reservatório de ofensas
que os anos guardaram – sem lhe desmanchar a querência por homem cada vez mais
feio e mais falho... – um era especificamente a atingi-lo no Prudentinho. “Seu filho, carregava a fera ao belo, seu filho” me fez discutir com a vizinha
do trinta e dois por mais uma arte! e você? você folgado lá no escritório com
aquele panaca do seu patrão e pior nesse fora: dentro decerto do João e seus
amigos pinguços... Nenhuma esposa da época a engolir que o marido bebesse no
João ou noutro lugar e até condenando inocentes aperitivos; não os habituais
aperitivos de Ademar na crítica de Gumercindo.
Sem com isso deixar de amá-lo. Ou por
outra: sem perder o liame ou sentimento de respeito pelo chefe da casa, da qual
ela ditava os rumos.
Há mais um senão dentro da amizade
e/ou amor na casa. Diante dos filhos sempre a mulher tratando a indicar o marido
com certo respeito; talvez exagerando o respeito; por dentro não estaria a
desdizer isso, com certa mágoa escondida! Quem sabe a resguardar autoridade para
manter a honra no interior do lar.
Neste contexto segue uma análise no
trocadilho Prudente imprudente.
Nem sempre defensável o gosto da época
em pôr num filho nome de personagem histórico, no caso o Presidente Prudente.
Terá sido por instância do homem a mulher aceitando que o bebê recebesse no
cartório Prudente; dele não dela a pendência, porque haviam combinado ambos de
que, nascendo meninas, Tá desse os apelidos e daí Cecília, Maria do Rosário e Joana.
Aliás ao aparecimento da terceira e última garota, após aguardar por anos ansioso
um homenzinho, chegou o pai a chorar desapontado. Se fosse homem, o homem
indicaria o nome da criança, conforme combinação. Por isso quando do caçula e
único macho na linhagem, que iria demonstrar bastante ‘capacidade’ na
imprudência, Gumercindo ficou feliz e à vontade para registrá-lo no de sua
simpatia sem magoar a esposa; embora ainda aqui ela torcesse como numa partida
de futebol, o futebol que deplorava como então a maior parte do grupo feminino;
o marido também não muito chegado na bola; enfim ela torcia por Pedro, que
costuma ser mui arruaceiro e o moleque então nenê seria sim bagunceirinho; mas
torcendo por outro pedro, o pai dela e sogro de Gum; torcida que não chegou aos
ouvidos do esposo, registrando mesmo Prudente, ainda o funcionário a gozar o
pai aflito “de Morais?”
Afinal embora o dodói do papai, o
menino não foi melhor que os moleques lá do escritório...
Em garoto, menino inocente ou só
desavisado mas desabrido, em pequeno tinha liderança sobre companheiros da rua
(da nova casa das Orações onde nasceu, não da rua descalça da periferia pobre e
anterior, dessa:) liderava os outros e alguns jovens até mais velhos e mais
altos que ele. Todavia somente para arruaças nas brincadeiras e para algumas complicações
na vizinhança, como pular cercas roubar frutas e mais na gritaria de bola na
via pública; e nisto o terrível costume “dona pega minha bola...!” aliás Prudentinho não usava ‘nossa’ nunca porém
sempre ‘minha’ por egoísta, sempre possessivo, ou só egocêntrico.
De volta pra casa, letras e números e
contas a quitar, a cabeça a estourar, lá vem Ta dizer-lhe “seu filho...” fez isto fez aquilo, quebrou jogou xingou bateu fugiu
etc. e tal – aí concluía o gasto “não aguento mais!” a senhora vivia sempre no
mostrar as artes do arteiro ao pai dele.
Enquanto isso doutro lado ela realçava
as atitudes e conquistas intelecto-morais de suas meninas; Cecília fizera dezessete anos casadoiros recentemente
com a festa e o caso bebum amigo do
genitor. Em toda oportunidade extremando sempre as péssimas notas do caçula,
contra as menções excelentes (com algum abuso na linguagem no caso da penúltima
delas...) enfim exaltava as excelências das garotas dela.
Não obstante atropelos o casal se
amava. Descontos à parte em vista de raramente a totalidade moral dos seres humanos
ser alcançada. Apesar, ainda um amor que os tempos comprovariam nos cinquenta
anos de matrimônio.
8.O mar não andava para peixes a
Gumercindo, umas ideias penetravam sorrateiras em seu ser, algo como o
indescritível indesmanchável inexplicável, só podendo garantir que existia sem
saber o quê, sem poder esclarecer na linguagem da gente desperta e atenta. Algo
no ar. E às vezes a gente a ruminar e apenas de leve a conscientizar mas não se
exigindo ter tudo claro. É o ponto no qual se indagarem o que um indivíduo tem
(não podendo nem sabendo o que de errado está dentro de si) o sujeito responde
daí “tudo bem”, o que demais relativo enganoso e inconsistente. Contudo se
sabia mal.
Entre o que estava ferindo no seu
interior, enfim o que de adverso – uma coisa podia quase garantir: nesse estranho
estado a andar às voltas com ‘trapaças’, palavra mui pesada a um amigo de anos
e poderia no lugar pôr o quê! Algo assim que apreendera nas atitudes de Mário
que o ofendiam, sem precisar direito o que e em que e até onde ofendia;
sentia-se chocado, porque aprendera a confiar nas poucas e escolhidas amizades.
Isso andaria pesando nesse estado de
espírito? Não poderia responder.
Outra do mesmo nível na coisa estranha
que percebia no ar era o declínio na saúde de Otávio. Agravava o caso e logo depois
esse colega guarda-livros do Escritório Modelo fora internado; quase não se
viam raro se encontravam, havia porém estima e coleguismo forte entre ambos.
Agora lhe informaram do agravamento e resolvera visitá-lo no hospital; isto
embora achasse não ter jeito a conformar ninguém, sentia necessitar dar o apoio
ao doente. Todavia foi deixando para outra oportunidade, para outro dia ou para
após desvencilhar-se dos seus próprios problemas no lar ou fosse por fechar as
contas no Ideal num fim de mês próximo de vencimentos; e quando percebeu
chegara antes de sua visita ao companheiro a informação de câncer e o
desenlace. Agora não tinha pretexto e menos causa a evitar, precisava ir ao
menos ver o cadáver consolar familiares, a si estes meio desconhecidos.
Uma sexta-feira, nem de agosto nem dia
treze, Gumercindo tendo alguma superstição nisso evitava sair, evitar agora
enfrentar um velório e a última oportunidade a despedir-se do colega... Foi.
Precisou avisar o patrão, chegaria
tarde por força maior, o enterro sairia às nove horas.
Chegou no Velório Municipal, sentiu
atração inexplicável pela sala quatro ao passar por várias outras, espécie de intuição
nada mais, entrou na do colega falecido e flagrou aquela sempre tristeza do
ambiente; achegou-se um pouco do esquife, olhou o seu morto desfigurado no sofrimento
decerto, já bem distante da aparência e do viço do amigo anos mas isto comum a
todos defuntos pensou; olhou os seus desconhecidos, meneou a cabeça aos que o
notaram e quase imediatamente se sentou. Que mais poderia fazer a desanuviar um
ambiente constrangedor como um salão com morto flores o silêncio possível e
gente constrangida. Alguns mostravam o serviço da noite em vigília, outros
tristonhos, pouquíssimos apresentavam desespero e inconformação.
Do banco observava isso e matava o
tempo do morto velado ocupando a atenção nas minúcias e nos atos dos visitantes.
Uma senhora ainda jovem chorava desesperada junto do cadáver ao ponto de
provocar dor nos outros; nele, Gumercindo não pôde conter lágrimas embora
esforço pra ser durão porque as lágrimas instam e sugerem lágrimas. Devia ser a
filha de Otávio, Otávio um renitente solteirão mas constava algum fruto de suas
andanças autorizadas pela sociedade benevolente com os machos na época,
constava haver uma filha que diziam todo mundo saber, mesmo o esposo da mãe da
filha. Essa jovem mulher decerto vertia seu choro sentido ali e isso doía.
Demais parentes e desconhecidos, dele, não de Otávio é claro, esses rodeavam de
pé a mesa do caixão e falavam ciciando quase emudecidos a se entender mais pela
expressão e a dor, a qual não precisa se manifestar para existir. Mais se
assoprava que se conversava na sala festivamente fúnebre e adornada com
respeito. Talvez nem todos sentissem porém Gumercindo a receber o cheiro de
vela, as velas perto piscando claridade desnecessária visto a claridade da
manhã. Volta e meia chegando um íntimo no velório a se acabar e então
reencontrando os seus que não viam há tempo; mesmo porque velório também tem o
mérito de retomar estreitas relações separadas pelos dramas da existência. Ao
seu lado, no mesmo banco sentada, uma senhora magra e junto dela doutro lado
outra mais magra e de cor (isto esdrúxulo pois toda pessoa tem cor, não importa
se preta amarela branca, mas esse é o dizer comum); ambas trocando algumas
palavras, baixinho. A primeira, quando calada ou nos seus solilóquios mudos,
tendo uns tiques de um movimento com o polegar e o indicador como circulasse
algo para depois desenovelar fazendo movimento contrário. Uns falam isso ser
indicação nervosa, outros mera distração, como a de outrem que percebia bater o
solado no chão de leve compassadamente e sem ferir o silêncio básico que os mortos
exigem ou cobram os vivos que os mortos assim pensem. No entanto ele mesmo a
passar o tempo aguardando o fim da vigília observando tiques na gente, tendo o
seu costumeiro remexer nervoso o bigodinho, uma delícia à gozação lá no escritório.
Acontece que não via, não se via.
Até que o relógio soou o nove nas
pulseiras dos convivas daquela morte. Chegaram quatro funcionários cerimoniosos
para concluir o quase ritual e selar o caixão de Otávio e também fechar sua
estada no mundo dos vivos ou dispô-lo a ser levado ao cemitério, essa sim a
última etapa daquela tristonha tristeza. Quatro não, foram cinco, uniformizados
engravatados fechados e solenes como num congresso oficial; esse quinto
empunhou um violino para no final da vigília tocar “Ave Maria” de Schubert e
não arranhando demais as cordas do instrumento; ou que fosse ao contrário, não
importando aos ouvidos desafinados do público, este mais tomado pela tristeza,
e havendo mais tristeza ainda nos mais próximos e desesperados do sangue vivo
do morto – e assim escutariam apenas o que preciso para melhor sentir as perdas
na despedida do corpo; o corpo de Otávio ali agora sendo no caixão fechado
carregado, conduzido à frente do cortejo da gente atrás; e Gumercindo mais
atrás entre os últimos, no vagar do compasso em cadência quase todos, respeitosos,
respeitoso.
Então repensava a vida do morto e a
morte da vida nas condições admitidas pelo popular. Já na sala, ainda o cadáver
exposto, pensava Gumercindo nesses termos; agora na procissão levando o amigo
punha a amizade em discussão.
Realmente faltando alguns sais para
serem ambos amigos, poderia a vivência mais frequente selar uma amizade profunda;
contudo eram sim colegas que se respeitavam, tanto o morto quanto o vivo a
carregar o peso dos dramas em seus respectivos escritórios e a vivenciar as batalhas
diante do fisco da lei e do patrão, o patrão do colega supunha que sim não
sabendo ao certo e no seu caso garantia que sim – sempre os problemas no trabalho
e também com o público, clientes ou fregueses. Decerto, pensou, decerto o
colega com problemas no lar, embora constasse fosse um empedernido solteirão
mas claro ter despesas e choques miúdos em sua casa.
Outra questão que se imiscuia no
pensar daqueles tempos e que voltava à mente na condução do morto, era a possível
falta de amparo religioso; que saberia sobre? oh como a gente não conhece as
pessoas. E do seu lado? Vivia a acompanhar Ta e as meninas, depois vindo Prudente
mas arredio ao templo, elas sim todos indo à igreja nas missas dominicais; uma
vez, se lembrava bem, a consorte gritando baixo nas suas orelhas por estar
segundo ela cheirando bebida ao seu lado em pleno sermão do pároco no púlpito;
a mulher não arreliava sobre seu cheiro impregnado de fumo de corda, claro não
estar fumando no local; isto tudo depois rendeu em casa discussão ostensiva.
Apesar ele se achava se não um exemplar cristão, um convicto católico a fazer a
participar do que exigem os ofícios e os cerimoniais; depois reviu revendo-se e
se achou de fato católico pelo menos. Agora nesse repensar, pensar no colega e
se ver, conclui ele mesmo um descrente. Aí se assustou: não poderia ser um
ateu! Ora que é isso rapaz, se ‘contrargumentou’, não se encontrava ali
inclusive cumprindo uma norma religiosa respeitando um amigo morto!? Por fim se
acalmou de vez, não apenas deixando já o cemitério no momento em que cada
acompanhante foge às suas lides, acalmando-se ao sentir haver cumprido um dever
de cidadão.
Estava no entanto constrangido, não
contrito nem se sentindo piedoso; constrangido ou apenas tristonho e insatisfeito
consigo mesmo; sem poder representar essa sensação com palavras formais e
inteligíveis. Que aliás não se profere exteriorizando aos outros seres, por
estes não entenderem e sequer darem importância; as pessoas não compreendem suficientemente
as pessoas...
Ia sair fora dos muros da necrópole
nesse pensar à procura dum ponto de ônibus e daí ir para o serviço, quando cruzou
com alguém. O conhecido indaga se não soubera o passamento de Otávio, o do
Modelo...
Então surpreendeu-se haver velado o
amigo errado, pois Otávio, disse o informante, saindo da sala oito e fora enterrado
às oito e trinta, visto a decomposição rápida pela doença que o vitimara exigir
sepultamento mais cedo possível.
9.Neste momento Gumercindo a lutar com um
dos seus graves empecilhos e mais que isso um drama sério, seu ou do seu nariz
– externamente na sua vestimenta de carne de gente branca queimada amorenada uma
protuberânciazinha dessas que a gente vê não quer ver ao fazer a barba no espelho
– um problema nasal e atrevido: o cheiro... não, um cheiro. Neste momento enrola
desenrola torna enrolar abrindo raspando limpando o fumo picadinho a palha,
sobe então o hálito dela (da palha e dos grânulos de tabaco) mas não é esse
aquele bendito cheiro. O cheiro que lhe atormenta o viver é outro, depois;
antes terá tido paciência, não lerdeza paciência, a de Jó dizem que Jó ganhou
concurso na paciência. Está no escritório a serviço e o serviço, paciente,
esperando o livro de escrita fiscal aberto marcado por uma régua amarela mas
isto não vem ao caso o caso sendo a ventania na rua a entrar o vento em cima no
tablado no livro na folha e aí vai que... então a régua paciente também a
esperar o cigarro dele ainda em formação; lá embaixo os meninos, tem sempre um
que outro num correr para cima rangendo degraus da escada a tornar pra baixo
sempre correndo brincando porque a moleque trabalhar é uma forma esquisita de
brincadeira e falam e gritam e o chefe segundo, segundo a trempe sobre ele, ele
o chefe anda com paciência não ralhando e decerto a imitar Jó sobre quem o
padre falou no último sermão; e só não pode criticar o barulho, porque a
barulheira é dos meninões enquanto o simples barulho seria de Lua, sua cara
metida afundada no Tesouro e então não barulha e assim não pode criticar o
bobo. Retoma o fazer mexer a conseguir seu cigarro ardido fedido ferido ferindo
o olfato dos de casa, agora não faz o costumeiro no lar porém no horário de
serviço no Ideal, não seria o ideal trocadilha pra si mesmo contudo acabara o
estoque de “arrebenta peito” palavras de Ta, Tá longe lá em casa. Estica a palha
de milho, raspa com o canivete (tem um canivete de cinco cruzeiros era de cinco
mil-réis quando o pai lhe deu, deu ao moleque Gumercindo e é cioso em guardá-lo
resguardá-lo usá-lo agora ao cigarro:) raspa limpa apara pontas olha quase olha
ao sol que ilumina a rua São Luís onde o Ideal e vê a palha em forma; pica, diz
“picar”, picoteando esfarelando o fumo de corda que vem qual cobra preta
enrolada fedida lembra a esposa, melosa, picoteia uns granulinhos, espalha na
palha. Fará assim a uns cinco ou seis cigarros um já deixa de plantão preso na
orelha, os outros acondiciona numa caixinha de lata que fora de bolachas, mimo
de família e por isso não deixa suas meninas botarem a mão embora verdade
esconder melhor do Prudente por imprudente; agora põe a sobra dessa falta num
envelope de papel cujo dístico em cima está escrito impresso na gráfica do compadre
do patrão: “Escritório Ideal” e o restante timbrado na fonte minúscula serviços
etc. e mais et ceterazinhos lembrando os despachos policiais a escrita fiscal e
acrescido apocrifamente contabilidade visto ela ter entrado como oferta no
escritório mais tarde; e ainda números de registro e outros cansativinhos que
não se lê se vê. Bota quatro cigarros, ah o seu quatro, compraria um número,
que fosse apenas um pedaço, na loteria para sábado... põe quatro um na orelha e
acaba acabando o último deixado por último a uso trago fumaça cheiro imediato.
Enrola o fumo, aperta o canudo de palha numa extremidade do cigarro, uma outra
morde... isso: mordisca umidece prende nos lábios como quisera comer engolir o
cigarro mas não irado raivoso contrariado (e os meninos barulham não seria o
caso dar um basta!) Não. Só a compor melhor o acabamento artístico de um
cigarro de caboclo, Gumercindo ou Corote como as oposiçõezinhas o alcunham não
foge às origens matutas suas. Agora, agora a hora, ora...
Vem o cheiro, vêm os cheiros que
obstam a plena felicidade em troca do prazer de fumar e tirar o cigarro da boca
e daí acendê-lo, não: reacendê-lo; fá-lo mil vezes, mil e uma. Mas aqui entra o
desagrado; tanto que entrega à rotina o costume e o fazer para diminuir o
impacto que traz o cheiro. Assim mesmo sente como fosse a primeira e virginal
vez quando acendera menino o primeiro cigarro escondido do pai que lhe dava o
exemplo... não o de não e sim o de fumar; em público! e aí, lá longe no tempo
na meninice dava-lhe uns petelecos; como também a correção a porventura a
desventura de proferir um xingo qualquer. Ah crianças, falava às meninas o Prudentinho
longe nas artes: seu avô era brabo, não toleraria as artes que vocês fazem enlouquecendo
sua mãe não: com ele um pingo era letra e um raspar de garganta fazia meus irmãos
chorarem de medo. Contudo Gumercindo fumava escondido. Na primeira vez vomitou
as pacueras e, desajeitado trêmulo incapaz quase nem acertava com o palito a
chama na ponta do cigarro.
É aqui o cheiro.
O escriturário quase mor do Ideal tem
ainda horror, ogeriza seria pouco, horror ao enxofre que exala com a pólvora
(ah não é um especialista químico, um matuto:) a pólvora o cheiro, seria um
fujão de guerra, portanto candidato a herói, seria por causa não das balas, do
cheiro! Sente pavor e não pode ficar sem acender o cigarro... Que adquirisse um
isqueiro, comprou três os três enguiçaram desistiu.
No ato, trava não a boca as narinas
por instantes e aí risca rápido na caixa de fósforos o palito com a cabecinha
inocente a cheirar enxofre; o triz a violência o impacto levam, às vezes
engripam e não levam, levam a acender fraca medrosa a chama pequena; toca na
extrema do canudo de palha o fogo: acende! (ou não e daí o terror aumenta acresce
e fere mais:) Chupa chupa chupa e então é obrigado abrir a boca das narinas a
entrar (ou morrer!) o ar nos seus pulmões. A fumaça não pede licença nem nada,
contraventora ou criminosa – entra sem cerimônia. Como um bem.
Haverá bem no mal?
Fumaceia todo ambiente, até o Dico
grita lá embaixo aos colegas “o Corote tá pitando!” está fumando e a fumaça não
interdita nem interrompe o cheiro: camufla enfeita obscurece um pouco o cheiro
do enxofre da pólvora da palha do cigarro do mundo. Aquele seu mundo.
O vento uiva lá fora a malta de aprendizes
grita na porta do escritório fala mexe com as pessoas a passar numa arruaça de
moleque de rua; lá dentro ele fuma e sonha quieto manso, lá dentro.
10.Pode parecer diante das linhas que se
foram e não se acabam Gumercindo andar no sonho na felicidade poética entremeio
fumaças e ao ver longe. Via perto.
Muito próximo de si um drama, longe
embora perto o gritar dos colegas e dos afazeres na escrita a si pertinentes e
o compromisso do ganha-pão, ocorrendo também as contas a ser quitadas ou
acalmadas com algumas notas de cruzeiro vindas do patrão fora, dentro ele ali
agora com o peso de toda a responsabilidade.
Contudo, isso agora ficava além, perto
do drama urgente de talvez perder um amigo. Não Otávio, Otávio que fora vivo
seu colega, Mário sim seu íntimo, um a se queixar ao outro baixinho ou em voz
alta moderada toureada no bar do João; ou em casa sim igualmente mas aí olhando
melhor por volta e então se queixando cada qual de sua consorte e nisso
trocadilhariam respectivamente Mário e Gumercindo as pobres sem sorte suas
companheiras... visto admitirem ambos – porém tão só ao amigo ali – sem nada
machos ideais, lamentando os dois a lamentação sobre os varões, a lamentação
das varoas (ai que horror de vocábulo) com algum fundamento...
Todavia a lembrança agora mais
marcante no pensar, fumando o Gumercindo, é a possível perda da amizade ou
intimidade e portanto outra vez quiçá definitivo a amizade. Por causa... – sim
sempre existem várias causas: a causa que se soma à causa e assim
sucessivamente sempre há causas ou somente pretextos para reforçar a causa
fundamental não bem interpretada – a causa sendo um negócio envolvendo, lógico,
dinheiro a receber ou já seguro num banco seguro para adquirir um imóvel.
A um pequeno-burguês o carro o
dinheiro a propriedade têm ingresso imediato para manter-se ou para ascensão. O
sine qua non ao existir.
Ora, a família de Gum, Gum lamentava
Ta lamentava e ambos discutiam a insegurança e o futuro da prole atingida pela
insegurança. Sintetizando, moravam anos em casa alugada, gastavam e mais
gastavam sobre o gasto por conta da inflação e o salário dele mais ou menos
congelado; as despesas aumentando não geométrica entretanto aritmeticamente
quase imperceptível e nunca... puxa vida, dizia o casal nos colóquios dentro do
lar, puxa nunca teremos um carro, ele; uma casa nossa mesmo nem que seja
pequena a gente se ajeita e não quero na periferia miserável, ela; nunca
sairemos da... ele irreverenciando num xingo inocente ela a corrigir “oh seu
boca suja e se as crianças ouvirem!” As crianças mesmo após casadas, Prudente
amasiaria e o netinho deles a esconder as convenções, aliás era uma gracinha;
enfim mesmo após terem suas respectivas vidas e cortados os cordões umbilicais
do tempo e da idade, mesmo após referiam-se às “crianças”, falava assim de boca
murcha a velha Ta; e também assim se expressando o velho... ah seu velho na
lembrança dela está como cera inerte florido e de ventre para cima a se chorar
na sala número quatro...
Será, Ta, será que nunca teremos carro
e casa! casa e carro, Ta corrigindo o incorrigível embora perdurando um pouco
as diferençazinhas por causa de minha
filha ou do seu filho, tudo ficado já
para trás, nada resiste ao tempo; o sol viu a coisa mil vezes. Será?
Até que Mário ofereceu um imóvel dos
que corretava. A “preço de banana” e mais, acresceu o amigo ao amigo: pagamento
num “prazo de égua”. É pegar ou largar!
Não. Aqui tem início uma discussão
conjugal de longo prazo também, não obstante os poucos meses para decisão. Prudente,
prudente ou imprudente quem sabe ou só pronto à brincadeira pois crescera sim e
não crescera na cabeça – não opinou. As meninas, fora Cecília mais com a mente
num namorado e o corolário disso, pouco deu palpite; talvez mais sensata. As
outras duas participaram, deram suas versões puseram suas exigências, quase
sempre à genitora a qual as repassavam ao pai e diante dele igualmente tentaram
pôr seus obstáculos. Porque parecia a elas não ser um negócio que os levaria à
tranquilidade eterna do paraíso. Enfim não se concluía meses por nada. O
ministro das finanças da família não melhorara nos seus proventos, a coisa
tardava e aí Ta propondo a busca dum empréstimo e nisto mais tagarelices mais
inconclusões. Porém veio logo o ultimato do amigo.
O homem tem um comprador interessado à
vista, dinheiro vivo... reticenciou Mário, inclusive havia chamado Gumercindo
ao balcão do escritório para tanto e ainda por cima, por baixo, o patrão
‘nhec-nhecava’ na giratória mexendo seus documentos e isto afligia o empregado.
Recomendara antes que nunca tratariam dessas coisas de negócios particulares no
escritório. Entretanto Mário, no dizer popular andando com a corda no pescoço e
mui atrapalhado pelas ciumeiras no seu lar e ainda acusado por desperdício de
dinheiro com “as vagabundas”; em vista dessas desvirtudes foi ao serviço de
Gum, encostou seu ventre no balcão do outro e intimou: ou você faz o negócio
hoje ou perde de vez a oportunidade... Não diria para o amigo estar com a corda
no pescoço a repetir palavras da rua: atirou as possibilidades na impossibilidade
do outro.
Com permissão de Ademar o escriturário
acompanhou Mário, não a fim de entabular propriamente o negócio e sim fechar o
negócio.
E aqui o desastre.
Eles perderiam a amizade, não só a
intimidade, pois Mário não honrou o compromisso, desviou parte do dinheiro recebido
do amigo a custo ajuntado após meses de conversas intermináveis no lar; para
adquirir uma residência razoável perto do centro a facilitar locomoção de
Gumercindo ao trabalho; residência que não existia, existia sim porém não ao
preço proposto porém noutra exorbitância, segundo bolsos frágeis. Fez pior o
amigo: Mário não entregou tostão sequer ao proprietário-vendedor do imóvel e
nem após anos enrolando o amigo devolveria a importância para o ‘íntimo’ (já
não podendo entrar na categoria dos íntimos portanto); que fosse a devolução
sem juros nem a correção monetária que logo os economistas do país iriam adotar.
A família de Gumercindo ficaria no ver
navios, ou por outra: no pagamento mensal de aluguel.
Nunca mais se viram os amigos, se
viram sim na rua como meros ‘amigos’. Nessa altura o escriturário envelhecido a
família criada, diminuída com os filhos cada qual na sua lide e nos seus
dramas; também o comum do ver: as reuniões domingueiras após a missa,
macarronada, netos a brincar, os parentes adultos a conversar. Inclusive sobre
a possibilidades em adquirir quem sabe à prestação uma casinha aos velhos pais.
11.Anos se passaram sobre fatos e sob
dramas de pequena monta ofertados pela rotina aos passos de Gumercindo; sem que
esquecesse tal amizade e a perda de amizade; a viver entre parcas relações.
Aliás teria mesmo que ser desse jeito visto sua incapacidade a atrair pessoas,
Mário fora exceção, e assim no lar se havendo muita gente vez por outra era em
função das filhas; e lógico a trempe de Prudente em menino a meninada por volta
e em maduro os inúmeros colegas dele; posteriormente virou adulto mais ou menos
sério, nunca foi sério; e isto a corroborar com a opinião da nora ao sogro,
porém longe da sogra – aquela rivalidade secular aflorada entre a nova intrusa
e a velha possessiva.
No serviço muito serviço; como sempre.
De maneira que se relacionava a contento com o pessoal variável variado dos
colegas, sobretudo os aprendizes sempre os novos e sempre alguns dos novos
velhos entre novatos; e lógico se relacionando com a clientela do Ideal. Quanto
aos escriturários também eles com seus auxiliares a se revezarem não parando os
servidores demais no emprego mas aqui se referindo aos efetivos, o da escrita
fiscal e o contador permaneceram e foram dele bons colegas de trabalho; o
Daniel se aposentaria ali, sem mais acrescer na amizade só no respeito pois
sério todavia secarrão e introvertido.
Lua não mais falava... Quer dizer,
falava prudente e aprendia bem o ofício se desvencilhando dos percalços no métier e já era um moleque crescidão,
sardento apesar da barba e não falava como antes menino a carregar o livro de
protocolo destinado a Batista, novo bói sofria no seu lugar. Na lembrança,
triste, consta que num certo dia o garoto imaginoso sonhador e desligado,
tornando da secção de trânsito e vindo Hélio ao serviço na delegacia se
cruzaram: o pequeno embaixo do chapéu longe para perceber o algoz; e o soldado
a sorrir até segurá-lo nos ombros “ora, você Lua fala sozinho ou com o diabo!?”
A vergonha imensa a desmontá-lo; precisou o auxiliarzinho de escritório
suportar a descoberta do ordenança por mais um mês. Até à salvação, quando
Ademar o mandou como professor ou preceptor ensinar nova criatura a aguentar o
Batista e o Hélio. Foi mais longe o patrão – aumentou os proventos a um salário
mínimo e mais ainda, isto espantando o servidor: promovido a permanecer não só
no horário de almoço cuidando da firma e até ficar no escritório fechado
vestido engravatado sentado à mesa, apesar da pouquíssima melhora na sua caligrafia.
Esse episódio traz certo
esclarecimento não apenas ao lema de profissional e empresário do senhor Ademar
(assim se dirigia a ele o Cara de Lua) mas revelando um pouco sua moral e sua
psicologia; ou seria estratégia de patrão...
O patrão tratava com respeito e ordem
os outros, seus submissos naturalmente, mesmo aos baderneiros, então anjos na
sua frente, todos aprendizes enfim; e claro escriturários adultos e mais a
clientela donde vindo seu ganho e o ganho do seu negócio. Porém um tratamento
cordato e educado, por ter lastro de família respeitosa, nada por mero
interesse pecuniário. Contudo, igualzinho muitíssimos clientes que ele orientava
e defendia diante dos abusos do fisco, compondo e colocando tudo dentro da lei;
não obstante fora o Gumercindo e o contador ninguém era registrado, tendo ou
não carteira profissional, bem como no caso do segundo e recente escriturário
então homem casado a sustentar os seus. Claro, registro a nenhum aprendiz, nem
o Lua já grandinho ou pequeno na média estatura e experiente no serviço; mais
ainda que isso, honesto e confiável, daí a promoção.
Daí causara espanto no rapazote o
chefe a lhe reter um dia, já passada a hora da dispensa e quase a perder a primeira
aula no curso noturno da escola; para discutir consigo as exigências da nova
função e, aí pasmando, o registro formal e legal de um salário oficialmente
admitido.
Acontece que um grupo de fiscalização
da Receita e do Ministério do Trabalho passara na rua São Luís a vistoriar documentação
e exigir dos patrões o registro e a documentação exigível exigida. Uns
precisaram esconder seus trabalhadores diminuindo assim a multa à infração;
outros... um cerrou as portas; outros ainda seguiram orientações dos fiscais e
legalizaram os estabelecimentos. No caso do Escritório Ideal Lua foi beneficiado
e acabou escapando da vergonha... isto requer umas poucas linhas acrescidas às
linhas.
Na semana da promoção fizera dezoito
anos e, alistado, comparecera com demais jovens no setor de recrutamento, a
junta com um médico e dois militares. Um destes, um segundo sargento gozador,
além dos vexames a que os vergonhosos como Lua ou só tímidos passaram nus na
sala fechada ao público com o público postulante a ser soldado do exército, pegou
o rapaz rubro perante os outros para Cristo; este um ditado da época e queria
dizer mais ou menos torturar fazer sofrer alguém vítima, neste caso o Cara de
Lua, mais alto que em menino mas um homem ainda imberbe e de cara redonda com
seus buracos ou furos no rosto igual a lua cheia. De maneira que o rapaz já não
sabendo onde se pôr se esconder e lá vem o militar graduado, a si equivalente a
capitão ou até marechal! lá vem esse tirar-lhe o sarro (outra expressão da época).
Indaga rabiscando a ficha: o senhor Alcebíades, que nome pô! trabalha em que
onde e quanto ganha, aqui enrosca o aprendiz que logo seria promovido a
escriturário, “meio salário mínimo...” e se engoliu a esperar risos. De fato o
homem tirou-lhe o pelo (mais um dito popular de então) e fez a coisa da forma
melhor nesse pior: dispôs a plateia de jovens a gargalhar. Apesar, muitos dos
participantes naquele espetáculo mambembe percebendo menos que o Lua, sem
revelar o segredo. No entanto o quase recruta respondeu à gozação corajosamente
quando, ainda na gozação o ‘oficial’ berrando garantiu sem cumprir que o
mandaria para a caserna noutro estado e para longe dos seus. Disse meio
orgulhoso e na vaidade ferida “então o senhor me mande, pronto!” Não mandou.
Assim quase desfaleceu de emoção
chamado por Ademar no episódio da promoção, por haver antes enfrentado todo um
exército, o exército de todo um mundo.
Outro a se espantar, embora já
conhecesse em linhas gerais a mudança de função de Lua, outro foi o Gumercindo,
que deveria daí em diante proceder ao treinamento do aspirante. Ambos se saíram
a contento e inclusive com prazer.
12.Um dia e por semana inteira tornou-se o
segundo o primeiro chefe no escritório, o que um alento e tanto à vaidade do
homem comum que Gumercindo representava na sociedade. Ademar ausentou-se por
viagem e lhe deixou além de numerário a fazer frente às despesas possíveis
todos os documentos, traçou até como num mapa os dias os pontos os clientes,
indicando os submissos funcionários a cuidar cada qual do seu peso e obrigação
– o empregado mais velho na empresa (além do mais idoso também) esse tomou as
rédeas. E, diga-se a satisfazer a verdade, saiu-se bem. No retorno o primeiro
encontrou o segundo no batente como mestre de competência a toda prova,
mostrando haver aprendido no quesito ordem e com disposição impecável;
Gumercindo a cumprir as tarefas no rigor como foram indicadas pelo dono,
entregou ao patrão igualmente laudas e mais laudas minuciando tudo o que fizera
ou determinara fazer; inclusive a sobrar um pouco ordenando ao contador Daniel,
normalmente fora de sua esfera; aqui lembrando cumprimento das determinações
por escrito deixadas pelo proprietário. Com a meninada não houve solução de
continuidade na ausência do chefe primeiro porque com o segundo se entendiam os
garotos (ou exato não se entendiam com ele antes e sempre...) Assim o
escritório prosseguiu. Só havendo algum questionamento lá com o Batista, pois
nalguns papéis era fundamental a assinatura do despachante Ademar; Gumercindo
não tinha procuração nem a repartição aceitaria tivesse; mais vendo ela uma
nova oportunidade para continuar a guerra de palavras no ataque do exército de
um só homem.
Durante o período nada essencial
mudou, sequer a rotina se alterando. Com um senão: o escritório era quase sempre
rigorosamente aberto às oito horas da manhã – o ‘quase’ entra nisso por um
entrevero no lar do escriturário-mor, coisa de clarear a madrugada depois
asserenando a coisa, um dos beligerantes no casal dorme por fim e perde a hora:
abriram às nove e meia, os moleques cansados de se desentenderem lá fora
aguardando o Corote trazer as chaves para abrir e sentir loguinho o cheiro
ardido de cômodo fechado aberto; e assim poderem os meninos se desentenderem
então dentro. Rangeram os engonços da porta, subiu enrolou bateu lá em cima; e
o Dico que havia suspendido a porta de aço e depois em vez de tomar o gancho
meio alavanca de empurrar lento pra cima ou de tardezinha puxar pra baixo, esse
menino empurrou com toda força e a geringonça enrolou duma vez pelo molejo
livre: um estrondo medonho, comerciantes vizinhos acorreram para auxílio do que
pensaram ser um desastre! Oh, conversa braba dia todo, dia todo Corote a
lembrá-lo a desatenção a grosseria; quando passou a febre a raiva ou o temor
haver até quebrado a porta de aço, daí o chefe, desanuviado, declarou aberta a
temporada de gozações, pois Gumercindo adorava atirar palavras picantes e
venenosas nos aprendizes; parece que apenas não levava vantagem demais nisso
com a esposa no lar. E se Ta aceitasse as brincadeiras sem graça do homem,
desgraciosas segundo sua opinião, claro que nesse dia do atraso ele não iria
cutucá-la com vara curta como diz o caipira.
O dia encerrou-se não propriamente normal
porém normalizado e assim noutros subsequentes até o dono retornar e voltar a
rotina completa que todos viviam no Ideal.
Não apenas na fase de chefia máxima
mas inclusive como rotina habitual, Gumercindo não só não perdia hora como
exigia hora, visto quase contar os passos de casa ao serviço do serviço à casa;
assim também se apresentou na semana por cima (opinião da bruxa Vaidade)
vestido impecável, porque ele já acostumado trajava-se impecavelmente durante
todos dias todos anos empregado ali.
Em geral punha um paletó escuro (o
mesmo de sempre ano após ano, então já surrado) um cortado no mesmo alfaiate no
mesmo estilo na mesma aparência; as calças a mesma no mesmo. Pronto, ali o
terno como se dizia na época e ainda se fala na região; faltaria a completar o
trio o colete por baixo por cima da camisa, nunca vestiu colete. Gravata não,
experimentou por sugestão da bruxa dois ou três dias para mostrar poder
importância cargo e chefia entretanto não suportou usá-la, aliás era do tempo
de casamento e a usou também quando padrinho ao matrimônio dum parente; era
desses tipos de chegar bufando na sua casa tirá-la atirá-la e escondê-la quase.
Não usava.
Normalmente nesse comum, chegando ao
trabalho sacava o paletó, enganchava-o nas costas da cadeira, a sua lustrosa no
assento. Somente retirava o mesmo do espaldar da cadeira à saída. Os meninos sabiam
disso e comentavam: se o homem desengancha o paletó é porque já podiam eles se
preparar para ir bagunçar nas suas respectivas ruas e não no escritório. Daí
seguia-se mais, como fosse um ritual – punha a roupa, no frio usava um pulôver
não mui grosso decerto quente marrom, cor do paletó e das calças, este conjunto
menos marrom em virtude do tempo e do sol no tempo a descolorir um pouco as
vestes externas. A seguir prendia a caneta Parker
no bolsinho de cima do paletó, onde deveria sorrir uma flor vermelha se fosse
namorado de alguém, uma Ta por exemplo, vazia agora porém com a caneta; nunca a
deixou na gavetona da mesa, mesmo trancada, enfim nunca deixou nem esqueceu sua
caneta no serviço, que é onde a usava (e como usava!) Guardava nos outros
bolsos apetrechinhos, ora separava em cima de sua mesa uma compra qualquer, encomenda
de Ta ou de alguma das filhas pra levar na saída ao lar. Tomava o cinzeiro
nesse fim de expediente, cheiíssimo o cinzeiro tanto a derramar nas bordas;
porém não limpava a tábua encerada do horizonte da mesa nas sujeiras derrubadas
quase pó de fumo queimado; durante o trabalho jogava ou mandava um menino
despejar os entulhinhos várias vezes no dia e é claro no fim do dia – todos moleques
acompanhando com gulodice quase o rito. Batia no caixote feito lixeira o lixo impregnado
grudado no fundo do cinzeiro. Aí, só aí resmungava algo, olhava os pequenos uns
sendo enormes e espichados e bem mais altos que o velho funcionário; então
dirigia olhares pros lados deles e soltava a tão sonhada expressão: “gambada de
bagunceiros, pode ir embora”, dizendo a coisa sem se preocupar com possíveis
concordâncias; no ‘emb’ final e inacabado já havendo os jovens descido o tablado
às carreiras a se atropelar na saída. Durante a semana de chefia máxima segurou
a “tropa” como chamava no gozar os aprendizes e então fez com que em cada dia
subsequente ao primeiro um do grupo puxasse com a haste de ferro a porta a
desenrolar, exigindo que o fizesse “como gente, entendeu?” Entendeu quem ouviu
e depois saindo em disparada a encontrar a rabeira da canalhinha recém-saída do
escritório. Semelhante o que ocorre na saída do grupo escolar, todos num correr
desesperados para fugir da escola.
Curiosamente, entretanto, o
proprietário do Ideal tendo sem contradita o maior posto de comando sempre, não
se trajava cerimoniosamente como o empregado e só vestindo terno nas viagens.
De resto uma camisa limpíssima e as calças, e também como Gumercindo a cinta
para segurar o ventre enorme. Ambos assim. Já a quase farda do segundão (como pichavam os aprendizes ao
Gumercindo) tendo por baixo uma camisa também limpa, impregnada do cheiro de
fumo no fim do expediente e no começo a exalar as substâncias perfumosas que Ta
aplicava no tecido; a camisa de manga comprida sempre. O escriturário parece
que temia mostrar seus pelos como estivesse nu; somente os de casa o flagravam
sem camisa, no tempo do calor não no tempo de inverno.
Mas como em tudo, havendo algum senão.
O Gumercindo fardado como visto diário, parecendo como fosse o terno sua pele;
no lar se soltava. No trabalho nas repartições na rua assim exibido e trajado
ao público sempre e sempre também a lhe cobrir a cabeça o chapéu de feltro, um
que parecia nunca gastar nunca trocá-lo, igual os sapatos pretos lustrosos;
tudo que usava, fora, rigorosamente limpo e apresentável; chegando em não
admitir sequer um amassado uma partezinha sem passar a ferro e a camisa
exigindo engomada. No lar não: soltava-se. Quase tendo outra personalidade sendo
quase outro Gumercindo, aliás lá era Gum, ou “pai” aos filhos “seu Gum” aos
vizinhos. Na intimidade dos seus já mudava bem a apresentação sem apresentação,
indo ao extremo e talvez relaxo nas vestes. O homem mantinha igualmente as
mesmas roupas de ficar em casa, sem nenhuma preocupação ferir olhos doutrem ou
obedecer convenções. A esposa lamentava com uma vizinha; tem muito isso, tem sempre
uma em que temos confiança, essa. Dona Zefa, meu marido põe todos dias, todas
noites, uma camiseta e um calção largo pra dormir, dormir ou roncar nos meus
ouvidos... não aceita pijama; a gente compra insiste e o pijama apodrece sem
uso. A camisa de dormir tem mil anos e mil furos; ponho nova limpa linda
cheirosa outra: deixa de lado e veste aquela velhinha rasgando de fraca e
velha! Que posso fazer!? A confissão dando azo ou deixa para a vizinha lamentar
em contrapartida sobre o homem dela. É, o sol já presenciou isso mil e tantas
vezes.
Em linhas gerais Gumercindo sendo o
alvo e o que a mulher descrevendo nos seus passos no lar; enquanto na rua se
pondo como um verdadeiro gentleman
caboclo, sem ser um dândi, apenas homem apurado na vestimenta. No entanto sem
deixar ser um matuto da roça donde veio e não passando de um postulante a
pequeno-burguês, eivado dos problemas que sujeitam essa posição.
13.Um dia Lua aliviou-se um pouco nos seus
tormentos dentro das atividades do escritório, com a chegada de novo colega a
aprender ali. Em geral o dono aceitava ter meninos no trabalho do expediente –
para entrega de documentos, para recebimento de impostos e pagamento onde as
filas das repartições, não destacaria para isso adultos ocupadíssimos. Assim
muitos clientes e seus conhecidos, conhecidos de Ademar, deixavam os filhos
para em vez de ficar aprendendo o que não devessem na rua, ali no escritório, que
na pior das hipóteses recebendo disciplina e um rumo digno ao futuro. Eram
aprendizes. Ao dono um bom negócio pois serviços miúdos eles resolviam e não
oneravam a folha de pagamento do Ideal, visto alguns a trabalhar de graça
(pagando o ingresso profissional! o chefe não dizia assim); aos poucos pouco
recebiam e com vários meses já levando uns trocados pra casa. O caso do Lua,
mais tarde seria até promovido e ganhando dinheiro; notar que à pobreza o
salário embora mínimo era na crise uma riqueza...
Um dia chegou trazido por amigo do
chefe (a todo mundo que frequentasse o balcão ali, amigo no seu linguajar:)
chegou o Balofo pelas mãos dum tio dele. Claro haver chegado José e depois a
turma registrou o apelido.
Bem, Lua, azucrinado pelo Batista e
sentindo cada vez mais terror ir vê-lo diário, recebeu o prêmio de não ter que
ir mais ao trânsito, prêmio porque só no domingo não tendo que entrar na
delegacia e de resto ia sempre; assim Lua se livra pois iria apenas os três
primeiros dias para ensinar Balofo, ainda José por estar nos começos. Depois
Lua viraria escriturário trajado bonitinho qual Gumercindo, não precisando mais
tornar correndo à rua São Luís suado e quase falando sozinho, não por sonhador
que era mas por andar sentindo náuseas raivas nojos daquele alto funcionário da
repartição policial, que ajudado nesse antro pelo ordenança com certeza levaria
o rapazinho a enlouquecer... e daí sim assopraria desconexos nas vias públicas.
Aqui entra Balofo.
Também os meninos ensinaram o novato
entre outras atividades oficiais as oficiosas ou só impublicáveis válidas
apenas no grupo aprendiz; ensinaram-no a “catar grão de milho”, palavreado
ferino do escriturário-mor. Batiam guias (assim pronunciavam: bater mas
datilografar). Claro que o novato errasse e errasse muito por recente no
serviço. Estragava-se mil folhas, mil outras virando bolotas imprestáveis. Balofo, gordinho por tendência de sua
natureza, os quilogramas dele iam muito àcima do peso normal; e naturalmente,
pelos abusos no comer, mais ficava estufado e logo não podendo reclamar das
críticas e no apelido. Trabalhava a contento, nos altos e baixos do seu limite
físico e mental. Semelhante os outros cursava o ginásio, como se nomeavam os
quatro anos seguintes ao primário, hoje ambos cursos formam o fundamental. Ele ainda
na primeira série devendo estar pela idade na terceira do curso ginasial e um
pouco lerdo nas coisas que fazia, inclusive para aprender tarefas do trabalho.
De tardezinha, o expediente externo executado, sobravam horas as quais os
meninos gastavam nos exercícios como preencher guias de clientes aos quais chamavam
fregueses fantasmas; ou mesmo para brincarem batendo a esmo à máquina suas
coisas e invenções; e quantas vezes o ‘datilógrafo’ acompanhado dos palpites e
dos que davam palpites no que escrevia. Gumercindo, atento na sua escrita que
muitas vezes exigia cuidado atenção silêncio dava lá seus estrilos e berros
atirava objetinhos neles ou às mais das vezes batia com a quina do punho
(devendo doer horrores) na sua mesa, provocando um estrondo e silenciando os
bagunceiros se gozando na máquina de escrever; paravam alguns minutos se
dirigiam olhares ou pancadinhas marotos... para então recomeçarem.
Balofo a ‘tec-tecar’ a Royal preta usadíssima e estragada a
cheirar graxa e diluente, ainda por baixo suja nas mãos sujas dos endiabrados;
ele a tentar compor um lindo texto num sulfite branco porém assinalado por
digitais dos dedinhos. É preciso esclarecer que nos momentos de entreveros e
gozações dos aprendizes entre si o Ademar ausente, presente todos anjos e
Gumercindo: “santinhos do pau oco”; Balofo datilografa com o indicador apenas,
os outros usam mais uns dois dedos no correto usar os dez agilmente, ele
datilografa sua ‘perfeição’ na folha, quando ocorre o de toda hora: erra.
Refaz; primeiro passa a borracha, a de apagar lápis não corrige a letra da máquina;
passa passa passa assopra os granulinhos em sobra, enchem embaixo donde os
marteletes a impulsionar acionar as letras tecladas; bufa sua fala; aí lambe a
borracha e ela umedecida realmente raspa a letrinha no papel ainda no rolo
preto de borracha na máquina e aí sim consegue apagar parcialmente, parcialmente
porque fica ainda assinalado a letra quase dando apagada para ler (ora, os
cegos não leem pelo tato saliências e reentrâncias?) Às vezes rasga fura o papel
de tanto uso abuso raspar apagar marcar, joga o papel, põe um novo e embica no
texto. O Balofo erra umas seis num grupo de dez toques... bate por cima,
remonta, quase fura e às vezes furando sim o tecido fino da fita preta a
prensar tingir no papel a marca. Não desanima insiste bate rebate apaga assopra
bufa rumina e amiúde não só rumina: fala alto na direção do seu chefe, Gumercindo
é chefe deles todos – “é hoje que gasto a língua!” O chefe faz assim pra lá pra
cá a cabeça e a explodir comenta para si mesmo; imediato os outros moleques
infernam o Balofo com suas gozações. Pior o Dico, esse é um meninão abrutalhado
e parte para ignorância (isto um dito do povo) dá-lhe um murro, não sabe dar
tapas de amor, que afirma quem nunca recebeu um não doer.
Não perdurou o aprendiz, deixou de
frequentar o Ideal. No seu lugar foi admitido meses o Hiroshi, um japonesinho
magro e ossudo, firme sério no trabalho. Contudo a cambada, como o chefe
alcunhava o bando, ela não o deixou em paz; diário era atormentado fustigado,
inclusive toda semana inventava novo apelido ao João, João Hiroshi; as famílias
nipônicas tinham na ocasião o costume de anteceder o nome corrente e consagrado
brasileiro ao nome de batismo da língua de origem, sem que o país se pense
criador dos nomes consagrados. Outros postulantes vieram e se foram, a ganhar
decerto pelo menos a experiência de vida.
14.Noutro dia Gumercindo chega no bar
estafado quase, morto quase, quase nem chega graças ao superlativo que povoa o
imaginário – mas é verdade já era verdade então andar arriado pela tensão de
anos no serviço naquela rotina sem altos e baixos, melhor no pior com muitos
baixos... Por quê? os problemas inerentes à escrita pois tem dia que até
dois-mais-dois não dando quatro e a gente revê tudo e tudo meio embaralhado;
inclusive fora ao serviço mais cedo chegara cinco para as oito deixando lá em casa Ta emburrada e uma
pequena com febre alta e o Prudente... ai, aí chega abre a porta e se depara
com mil coisinhas (ah sim, não apareceu o chefe-primeiro tocou ao segundo enfrentar)
foram mil draminhas somados a ser dramas enormes. E um pior no escândalo que
virara aquele dia de trabalho: os meninos infernados! se fosse ele não o
segundo mas o dono poria a cambada na rua, “não para trabalhar, Amigo, não:
todos moleques demitidos sumariamente” ah... Parecia no Ideal o ideal da
loucura. Tinha moleque mexendo na máquina tinha moleque gritando tinha moleque
cantando um deles catarolava tinha moleque nos murros, o Dico a chutar não sei
o quê e daí houve reação... para encurtar este alongamento, porque eu falaria
por mais de uma cerveja uma caixa de cerveja como medida de tempo sobre os
‘coleguinhas’, um deles me deu apelido jocoso... não não, não falo ou me
gozaria o Amigo; para encurtar o caso um tal de Lua, um deles, disparou a chorar,
inconsolável, feito mocinha mulherinha nem no meu lar a caçula chora tanto
quanto o bobo. Enfim, Amigo, a coisa anda braba, não fosse a necessidade... ainda
mais tenho tinha um amigo desses tipos de se confiar como na mãe e me deu um
calote fiquei endividado ia comprar uma casa – não lhe contei!?
Os amigos são para tais ocasiões;
funcionam como o padre no confessionário; ele diria lembrando Ta, Ta todo sábado
vai ao padre conta decerto que vive azucrinando este filho de Deus, o sacerdote
perdoa a prepará-la à hóstia na missa de domingo e aí fica comigo mansinha, na
segunda retoma as investidas e daí fujo para o escritório ou venho aqui...
No bar do João tem é claro muitas
coisas boas como cerveja vinho uísque, a crise empurra Gumercindo à cachaça
mais barata menos cara; tem, e tem os amigos. No boteco todo mundo é amigo
pagando e bebendo não pagando e bebendo, a troco duma confissãozinha a se
relaxar um pouco e acertar a personalidade. Todos quase sem exceção afirmam não
beber, não sendo lá vez que outra socialmente; já Gumercindo só uma que outra
vez tornando ao lar com escolta também alcoolizada; no geral volta pra casa
sóbrio, sobriedade sem exagero porque não aprecia exagerar no que exagera. E
tem mais um fato comprovado nesse meio – é que os amigos geralmente não têm
nome.
Quando, válido para essa época, estas
linhas garantiram os nomes comuns Pedro José Maria etc., os consagrados, o fez
para dizer que não se imitava como hoje nomes esdrúxulos ou estrangeiros, os do
cinema e da televisão, esta ainda engatinhando ou não inventada. Demais, os
corriqueiros. Contudo nos bares de periferia, mormente no do João, os fregueses
não possuem nomes...
Absurdo? Têm apelidos que escondem os
nomes, os quais em final das contas serão decerto Maria José Pedro etc., quase
sempre os masculinos, raro se ver uma freguesa entrando no boteco, visto a
sociedade desse tempo não ter compaixão com suas fêmeas e retirando delas a
beber até o gênero feminino; enquanto o macho ela aceitava que inclusive no
vício mais se fortalecesse, num abusinho de linguagem figurada assim: “ele é
macho pra valer!” e às vezes somente um bravateiro.
Gumercindo vem do trabalho mais ou
menos cambaleando, não ébrio pois nunca bebera no serviço sequer a se
aproveitar duma oferta do patrão nos seus aperitivos com os clientes e ainda
nem viera nesse dia o dono ao escritório, soube depois adoentado. Ébrio não:
apenas grilado, assim se dizia de alguém transtornado pela carga no dia, os problemas
que enfrentara, deixando o estabelecimento às dezoito horas, fora direto ao João;
um trajeto que faria de olhos vendados tanto fazer. A pé, como bom matuto que
fora diria não mais dizendo “di a-pé”. Não possuía carteira de motorista, se
tivesse ainda assim não adiantando por não poder comprar um veículo; a esposa
conseguira demovê-lo da expressão carro-e-casa por casa-e-carro, ambos bens sua
família não pudera obter e daí indo os quinze quarteirões a pé.
Todos dias faz o trajeto de quilômetro
e meio nuns vinte minutos, mais um pouco porque um homem anda cinco quilômetros
numa hora na estrada; na cidade tem o trânsito doido têm os conhecidos a
cumprimentar dar um dedo de prosa, frequente alguém quer tirar alguma verdade
daquela cabeça de mentira, ou só um pouco abalada porque quem aguenta os pestinhas!
e tem o patrão que pega cada vez mais clientes novos ao velho salário suportar
e ninguém aguenta; de uns tempos a esta parte somaram nessa subtração mais umas
carguinhas (ai que gracinhas...) uns papos que a gente tem que aturar da freguesia
vindo ver se o licenciamento do carro pronto, sugerem contar a estória da
carochinha: os guardas de trânsito, eles falam “grilos”, ameaçam multar; e vêm
os fregueses, fregueses mesmo como a cambadinha diz; os clientes de anos e
estes a gente conhece de mil e novecentos e bolinhas e assim preciso indagar da
família... e também sabem das coisas lá de casa pois tem inclusive os que me viram
com a Ta na missa e daí perguntam e mais perguntam; acredita o amigo no que vou
afirmar? então, um chegou me pedir para experimentar do fumo goiano que fumo,
pitou por mineiro. Enquanto isso – o patrão nas suas farras sei lá iria dizer
isto ao cliente!? capaz; invento um pretexto para justificar sua ausência; ele
quem deveria perder horas com o povo que aparece – enquanto isso o livro aberto
arreganhado e a caneta descansando quem sabe ela também num tirar sarro no
besta aqui... e há mais chateação: temo que enquanto converso ou toureio o
freguês no balcão embaixo e ouço seus dramas, meu drama podendo ser muito maior
porque os moleques não poderão lá em cima ir mexer na minha mesa!!
Olhe amigo, outro dia saí noite, saí
mais tarde para acabar um servicinho de nada, por causa de ficar atendendo gente
fora de minha função. O dono? quer ver o preto no branco, tudo nos trinques,
anulando encrencas com a fiscalização. Aliás tem é demais encrenca já, na
polícia... (aí o amigo se estremece arregala aqueles olhinhos que escutavam mal
o que Gumercindo a discursar; retoma:) na delegacia sim, na parte de trânsito,
se bica bem com eles lá, tem choques diários faz anos com um tal de Batista;
mas olhe, não sendo o chupim flor que se cheire...
(O homem comum vê no funcionário
público um aproveitador e o apelido chupim atirado dessa forma mostra seu horror
nos que não trabalham – e que seria trabalhar? – os que não fazem nada,
estendendo o que vê num para toda uma categoria; sem entrar no mérito ou
demérito da pecha, fica aqui justificada a lembrança maldosa de Gumercindo a
conversar com o amigo, cada um do lado da mesinha do botequim. Prossigamos:)
Pode-se desconfiar ser apenas
Gumercindo a ter nome respeitoso no ambiente; é quase o único pagando o que
bebe na mesma hora e os outros a dever; o que seria a si um prêmio visto já ter
várias alcunhas no serviço, no lar, na vizinhança e não se tapando a boca do
povo na rua porque decerto terá também por onde habitualmente passe. Os outros
com os quais convive no bar de tardezinha na boca da noite, convive ou só
conversa, esses são apelidados. A propósito é curioso observar que mesmo o dono
do negócio carrega nome errado no nome certo, descobriram um dia que nunca fora
João, João o pai não ele, ele Francisco. Até os meninos vindo ao balcão nem
sempre limpo a comprar doce gritam “seu João!” e o velhote atende. Não é
propriamente apelido? não importa porque a freguesia fora Gumercindo é tratada
cada qual nessa venda por apelidos. Esquecem até seus nomes; a preocupação do
botequineiro não é se esquecerem do nome, é sobre o esquecimento em pagar a
conta.
Tem o Tubarão, claro aqui vindo das
pescarias, como bom pirangueiro deve ter fisgado algum lambari virando tubarão.
Tem o Zezico tem o Calhau tem o... ah há mil outros apelidos; além certamente
dessas pessoas que não possuem mesmo nome, ou terão no registro se registradas,
contudo ninguém sabe e se ninguém sabe: não existe; existe um que outro vindo
comprar isto ou aquilo, toma um trago, quieto, se vai nunca volta.
Daria com certeza trabalho enorme a um
sujeito que se pusesse a levantar dados históricos do bairro. Porém isto não importa
porque, houvesse um assim, seria louco.
Gumercindo por final, com muito
cuidado visto o solo andar andando sem parar em não se ter equilíbrio, por fim
chega pra sua Ta, os meninos já dormindo ou por aí na vizinhança; e ela nem
reclama. Reclama sim, ele não fica sabendo, não escuta.
15.Quando o patrão em casa – o escritório
é onde se encontram coincidindo interesses as pessoas a viver por todo um dia
que pode espichar por toda noite quase e assim vira o lar ou o fugir do lar;
algumas vezes Ademar recebendo tais críticas desnecessárias dos volúveis;
inclusive Gumercindo experimentara para saber o gosto dessa pimenta, isto
embora não se considerando mui cultivador da conversa-fiada e maldosa – quando
o patrão no seu segundo lar e isto expressão que costumava incluir no florir da
prosa no balcão, ele de cá os clientes do lado de lá, quando assim encostava o
barrigão quase na sua Olivetti e
escrevia e falava e respondia e não perdendo a pose se pose o jeito de ficar
trabalhando de pé, olhos no texto olhos nos olhos do freguês (e a meninada se
interrogava: como é que ele pode acertar as letras se não olha o teclado!) nos
olhos do freguês, isto é cliente habitual, quando a gente tem aí muita liberdade...
às vezes diminuindo o tom da voz em não ferir ouvidinhos curiosos; aqui os
meninos também suspendiam a matraca baixa (alta era perante Gumercindo sozinho
chefiando o Ideal); tão só para escutá-lo visto estar com os amigos, aí
despencava nas suas críticas ao governo, enumerava políticos da época então já
bem comprometidos com a corrupção; além de amiúde relembrar fatos de sua
mocidade amazônica, uma chocaria sobretudo Lua: os gringos levavam em seus navios,
a título de lastro... areias monazíticas com as quais se fazia bombas; ou
criticava sobre outras coisas chãs (nisto a curiosidade dos aprendizes aguçava
extrapolando a curiosidade normal) ou então falando sobre mulher e sexo. Não,
não desembestava feito matraca a falar com qualquer um: somente com achegados e
frequentes. Claro tratassem das coisas sérias e mais e em mais horas. Ademar,
amazonense, migrara jovem para o sul, mais especificamente o sudeste, com a
família. Fizera um estudo datilográfico por conta própria: tomara um papelão,
dispusera as letras desenhadas na ordem do teclado brasileiro; daí diário
enquanto o vapor singrava o mar nesse começo do século se exercitava nos dedos
nas letras certas memorizando, como tivesse consigo de fato máquina de
escrever. Quando desembarcou em Santos já escrevia correto desembaraçado e
agilíssimo até sem olhar o teclado no papelão, igual agora a conversar com a
clientela bate os requerimentos; a tanto chegar impressionar os de fora e os de
dentro que são os meninos catadores de grão de milho ali a lamber de olhos o
patrão. Escreve escreve, em ótima redação pois é lido inteligente ordeiro sério
prático. Para, às vezes para e relê ao interessado o conteúdo; o outro
concorda, geralmente ele parece que adivinha o pensamento do cliente; o cliente
faz de cabeça achar ótimo. Então acaba o texto e põe em cima do balcão para o
interessado examinar, quem sabe corrigir para retificar e ratifica quase
sempre. Assina, paga, o patrão de Gumercindo e da molecada exige remuneração
antecipada nesse tipo de serviço, alegando taxas os selos aplicáveis e até
poderia incluir propina aos funcionários corruptos das repartições para onde os
aprendizes levarão o documento; mas não faz isso, apenas sugere. Dá o troco do
que recebe, então já computados honorários, dá o troco se troco, põe o dinheiro
nos bolsos das calças de pernas largas a cobrir suas largas pernas. Dali tira
uma parte e chama um garoto, indica com a folha na mão o caminho burocrático
por onde começar, enfim como entregar como fazer ou não fazer prejudicando o
andamento do expediente. O menino sai às carreiras, se Balofo devagar; sai às
vezes até mexe com outro colega aprendiz, antes examina se o patrão não
observando; não: retomou a parola com alguém ou interessado no dito documento
ou mero passante. Nisto vira homem comum porque é comum o comum adorar jogar
fora conversa a encher tempo... Gumercindo afirma aos meninos, não estando o
dono ali, que esses fugazes passantes são “os sapos do Ademar”; eles riem e
fica por isso mesmo.
De pé, trabalhando, raramente sorri e
o escritório sequer um dia o viu gargalhar, o que bom à ordem e ao respeito que
nunca se pediu e sempre se exigiu no interior; trabalhando mostrando criticando
mesmo, vez que outra lhe escapa “com o Batista não preciso procurar
encrenca...” ou ele mesmo indica por cima do balcão a folha datilografada sem
erro sem rasura sem necessidade refazer, nunca se pegou o chefe tendo um
deslize no serviço, o que faz supor a perfeição e parece que nesse afazer
beirando sim a perfeição – o que lhe dá ainda mais prestígio, além da força
moral que brota dele e prova apenas com sua presença.
De pé, incomodado, não se afirma
cansado o patrão tem demais energia, é um homem de meia-idade com força dum
jovem; porém incomodado como que marca de sua personalidade parece; e se mexe,
mostra irritação, irritação dessa que se não diz mas supondo. Ademar é um homem
firme no que faz, sem ser voluntarioso no sentido mal e sem ser duro, alguma
vez chama um aprendiz e fala direto e com autoridade o que viu errado nele,
admoesta corrige e não fere, fere apenas como um pai, com amor, a contundir e
não confundir; assim o menino, temeroso embora, tem vontade até de agradescer o
homem.
De pé mostra algo que os em volta
poderão afiançar fraqueza, errando pois teimoso consciente e outra vez: firme,
inquebrantável melhor seria dizer. Contudo mostra sim haver algo insatisfatório
em si, a se confessar decerto somente a si mesmo; é quase uma dor ou é de fato
uma dor, uma da ordem das incomunicáveis; do contrário seria um ser fraco não
é: não se põe nunca a reclamar a exportar a expor e menos extrapolar sua dor.
Um espírito realmente inquebrantável, nas condições que se vê e se convive com
esse homem, esse homem de ventas grandes avermelhado cheio de bexigas variólicas
na face, decerto vitimado em sua terra natal. Portanto não servindo como um
modelo artístico e menos para artista de cinema. Todos pequenos o sentem como
que um super-homem.
De pé, diante suas comichões e os
incômodos por vezes, mil vezes mil e uma se coça se ajeita se cutuca e por fim
no sem fim espreme endireita altera move uma de suas partes na virilha, onde a
hérnia certamente inguinal, move o incômodo. Ah tem dia que ela anda indócil e
submete aquele gigante rápido e eficaz na máquina de escrever. Porque a dor é
impaciente em qualquer ser, em quem se manifeste. Bate dez linhas, umas quinze,
já é preciso ajeitá-la, fazer-lhe carinho. Provavelmente não faz isso por
exibicionismo nem ‘taradismo’, está no seu lar, seu segundo lar onde imprime e
impinge seu feitio sua ordem e sua honra. Não é um ser depravado, é um ser
humano doente.
De pé... às vezes precisa pedir
licença ao público doutro lado do balcão (para algumas pessoas confessa baixinho;
a outras finge necessidade tomar em comparação um novo documento ou um livro de
consulta de leis a fim de certificar-se. Então ‘nhec-nheca’ a giratória mas a
expressão facial não é de alegria porém de circunspecção e sofrimento...
Numa ocasião Gumercindo discordou do
seu chefe; não disse nada em sua presença; discordando apenas com um menear de
cabeça pra cá pra lá, lá em cima do tablado, o Ademar embaixo a dizer seu
‘segredo’, pois com o vozeirão grosso não exagerando, agora alto e daí todos
escondidos aparecem... Meu caso não tem cura. Cita doutor fulano doutor
siclano, o hospital xis etc.. Não tem
dizem eles. Aí me voltei para uma sensitiva, não sei bem o que seja. (Neste
ponto a discordância do segundo sobre o primeiro chefe e dono ali; católico e
mais católica a esposa, como aceitar uma besteira dessa!? O patrão prossegue ao
cliente seu amigo:) Pois ela me orientou a ficar em repouso absoluto na
sexta-feira passada, que me deitasse cedo e aguardasse suas orações: os
espíritos me visitaram, me operaram; de manhã havia uma leve prova no local da
hérnia: um salzinho branco nada mais. Faz cinco dias que não tenho nada e não
experimento dor nem incômodo, como fosse um jovem saudável!
O chefe fez mais confissões ao
conhecido, decerto a irritar Gumercindo. Deixou dependurada na parede aos fundos
a funda, onde começando o tablado do outro tratar sua escrituração; deixou-a
presa num prego que mandara pôr exatamente para exibi-la aos amigos e como
prova não mais precisar ajuda de artifícios incômodos. Além de não necessitar a
todo instante no serviço se acomodar e pressionando o escroto e seus
testículos, o que antes causava constrangimento.
16.Lá pelas tantas no cronômetro lerdo aos
apressados do tempo, Ademar provocou uma alteração de monta no seu Escritório
Ideal.
Aqui é necessário convir na abordagem
da ordem temporal nesta obra. A linha que a gente normal e seus condizentes
documentos assinalando hora dia mês ano na ordem crescente somada, não funciona
bem nestas linhas breves a narrar Gumercindo e seus coadjuvantes, como esse
Ademar firme enérgico e cheio de iniciativa nos negócios. A abordagem vai e vem
expondo fatos, não satisfeita se revisita se revisa se volta se encaixa o que
encaixar, pouco lhe importando a soma ou dedução de algo e assim segue em
frente que é sua frente no provar o que provar e até a expor o improvável
válido apenas à poesia. Nesses termos que o patrão altera fundamentalmente o
dia a dia no escritório.
Se afeta o viver dos outros? O que
poderia não interferir na vida dos seres...
Num belo dia comunica ao seu povo, a
insignificante parcela dos então quase três bilhões a povoar a Terra, afirma
ele que adquiriu em o número 522 da mesma rua um pedaço para alargar os
negócios. Não diria o contador e sua bela auxiliar haverem com frequência
reclamado não suportar mais o barulho dos aprendizes e o entra-e-sai das
pessoas no balcão do expediente; e nisto Gumercindo comentaria à boca pequena
“o mercado de peixes do Ademar”. Esclarece que tal alargamento consistindo em
instalar no 522 a
contabilidade pura (e livre!?) Porque, lembrou o patrão, não poderia pagar aluguel
também lá e então comprei de vez o imóvel e... ora, quando precisarem algo, subirão
os trinta metros ali em cima ver com o Daniel. Quanto a nós, enfatiza a rotina
benfazeja de todos, quanto a nós permaneceremos como estamos aqui a atender os
clientes; o Gumercindo continua na sua ‘santa paz’ (sorri um pouco
enigmático...) aí em cima no tablado. Estantes mesas cadeiras e demais apensos
à contabilidade irão para o escritório da contabilidade é lógico. Ah... me
lembrei, disse voltando-se agora à cambada azucrinadora do escriturário-mor:
vocês no sábado camelarão (do verbo camelar, um inventado nesse tempo a dizer
carregar à estafa pesos) camelarão um pouquinho... e se não derem conta do
recado ficarão também no domingo nesse trabalho extra e sem estarem livres para
jogar bola na rua nos seus respectivos bairros (aqui sorriu matreiro e piscou a
Gumercindo e a Luiz, atarantados na revelação). Retomou a invectiva imperando;
de maneira que deverão comer muito nas suas casas antes de chegar no sábado,
porque precisarão transportar objetos pesados de lá de cima do tablado – sem
quebrar nada e sem brincadeiras, ouviram? Fizeram sim de cabeça os garotos –
carregando tudinho para o novo salão. Nesse ponto lembrou-se da hora, consultou
a hora no seu pulso e já despachou Balofo ao Batista; tomou outro e mais outro
entre papéis entregando ordens aos mequetrefinhos. E fez uf! o que deu para os
funcionários adultos se descontraírem rir num desfastio; fez uf e se pôs a
nhec-nhecar no cadeirão artisticamente trabalhado nos seus detalhes de madeira
lustrosa. Então atendeu o trinado, sempre na mesma voz no mesmo timbre no mesmo
tom e no mesmo raspar a garganta, seu modo a falar no telefone. O telefone era
além de ponto às brincadeiras dos atrevidinhos da cambada também e
principalmente a conversar com clientes ou familiares e amigos do patrão e dos
funcionários. Por isso a conta telefônica sempre alta na alta conta dos gastos
obrigatórios no Ideal; o que raramente lamentado por Ademar.
17.Gumercindo manteve por toda a vida,
vida que não é a vida in totum mas
parcela às vezes insignificante da vida: a existência, a mais das vezes sofrida
ou de aprendizagem neste planeta, ele manteve suas características e nas características
uma virtude quiçá sem par nas experiências terrenas – que é o trabalho. Ou por
outra, foi desde criança até quase às portas da sala quatro um trabalhador.
Dizer “incansável” seria chover no molhado e não conhecer o ser humano,
‘incansável’ e incansavelmente a sonhar não com o trabalho porém com o
descanso... Sonha com férias sonha com a felicidade; o homem comum se vê nas
águas claras calmas mansas a se esborrachar deitado a curtir na sua canoa a
planar na tona do líquido límpido lindo e transparente na sua transparência
duvidosa que é sua felicidade, felicidade em não ter mais que fazer nada! só
planar no manso descanso de que imagina ser o prêmio a um ser perfeito... Sonha
enfim não ter que fazer coisa alguma e não ser mais responsável por nenhuma
coisa. Isso lembra uma criança na sua puerilidade e próprio da irresponsabilidade
dos inocentes ou ignorantes. O mundo a existência a vida é trabalho; mesmo que
seja a merecer o descanso. Necessário definir melhor trabalho e descanso, aqui
não sendo o lugar. Lugar tão só de focar um dos então quase três bilhões de
habitantes do globo e de nome Gumercindo da Silva, Corote aos meninos brincalhões
seus colegas, Gum para Ta, e sabe-se lá que apelidos recebendo no seu passar
compassado como os cansados soldados numa guerra após batalha perdida talvez;
enfim no seu passar diário pelas ruas da cidade indo ao escritório vindo dele
rumo ao lar, com paradinha obrigatória a conversar com amigos no bar do João,
aproveitando a pausa no caminho a bebericar algo em costume ‘sem’ vício no seu
vício. Ora, o homem da rua que apelidaria aquele senhor de andar gozado a
carregar um ventre meio estufado dentro de um fato marrom desbotado; esse homem
da rua não existe porque ninguém sabe quem seja sendo e portanto não é; mas
isto não anula o fato de haver por inexistência um apelido ou várias alcunhas.
Contudo Gumercindo cansado ou andando porém cansado lerdo monótono e disciplinado
a ponto poder contar computar passos, apesar de tudo tem o mérito ser trabalhador
desde que a levar recadinhos de mamãe, até deixar a esposa dona Maria viúva no
hospital donde transportado ao velório sala quatro. Uma virtude incontestável.
Outras virtudes perseguiu ou conquistou ou sofreu o desastre da mágoa por não
haver obtido na existência de uns oitenta anos. Seriam setenta não houvesse
enganado a estatística na sua contagem, a qual determinara uma pessoa se findar
com tantos janeiros (no fim e com o sofrimento bastante já virando dezembros).
Entre tais traços característicos,
figura o fumar. Na vertente da virtude seria parar de poluir o ambiente com sua
fumaça; particularmente seria não sobrecarregar os próprios pulmões e com as
consequências devidas indevidas. Todavia fumou desde que era matuto, matutinho,
baforando tossindo arfando pra ser como outrem e a gente quer dar uma de adulto;
fumou em adulto, fumou em velho.
Fumava no quase ritual do fazer montar
completar a palha o canivete o grânulo o lamber o mordiscar a extremidade da
palha e daí vem a cabecinha do palito inflamada o fogo a ânsia do soprar chupar
soprar e o cheiro e a fumaça em fumaceira e o êxito e o êxtase a lhe completar
a felicidade de uso próprio e restrito – um ritual. Com etapas e com lugar no
espaço que ocupando ocupara ocupou. Em casa no ralhar de Ta; na rua em trajeto
ao caminho do serviço não fumando, não pitava. No escritório sim e como! não
acompanhado da ralhação de Ta mas da gozação não apenas dos meninotes: dos colegas
adultos à boca pequena, sem desejarem abrir a sessão de debates com argumentos
nem sempre defensáveis e suas correlatas justificativas – uma coisa chata no
homem comum é ele ter de a cada passo que dê ofertar à azucrinação geral e
irrestrita uma justificação; a levar vantagem em tudo! a se apresentar perfeito
sem defeito! sabe-se lá. No escritório durante o serviço fumava fumou sempre;
lógico também escriturava e diga-se em passagem com cuidado com aplicação com
amor (amor sim) com entusiasmo e paixão mesmo. Um sujeito meio perfeccionista
na profissão de guarda-livros. Sua letra uma pintura, as formas esquadrinhadas,
o manuscrito cuidado leve limpo lindo. Não obstante se pegava com cinzas e
grãos e fuligens caídos a descansar nas páginas... e uma ou duas vezes marcou com
cisco com fagulha acesos apagando numa folha dum livro fiscal. E daí? para quem
justificar o erro a virar acerto! Rememorou isso mil vezes a se maltratar, inclusive
no dia do mal feito, feito então como sonâmbulo não dormiu incomodando decerto
a esposa e pior: pior que a insônia? piormente fumou noite inteira. Aliás era
frequente no lar levantar-se para pitar, como dizia. Já deixava de propósito
mil cigarros prontos, no escritório um na orelha encavalado e no lar não:
deixava a reserva de prontidão no criado-mudo ali pertinho da cabeceira da cama
pra se poluir sentado no colchão, mesmo porque como encetar reencetar o sono e
consequente sonho com o pesadelo desperto de Ta roncando! sim negava ela a pés
juntos depois mas roncava e punha ainda a culpa dela não dormir pelo ronco do
consorte. Então que fazer, leria não tendo queda à coisa nem o hábito da
leitura e muito menos o de consultar os livros religiosos da cara-metade?
Fumava.
O interessante nesse costume ou vício
é que diverso dos amigos a beber e fumar, fumar e beber – bebia ou só bebericava
no bar entretanto não fumando. Ah porém neste caso depois do boteco apressava
os passos, mesmo com as terríveis dores nas juntas, aquele negócio do
reumatismo que atinge a velhice, apressando passos pra chegar logo em casa e fazer
rápido sem rito nem nada o cigarrão de palha. Que lhe importava então que a
mulher narrando as pixotadas do Prudente ou a falta de algo na despensa. Punha
no momento um como escudo de silêncio ou da voz dela lá lá bem longe e acabava
o cigarro e acendia nem sentindo o pavoroso cheiro da pólvora; e chupava
chupava chupava e soprava, gostoso. Daí sim a perguntar para Ta o que dissera,
culpando a cera nos ouvidos pelo não ouvi-la bem antes. Ta? essa abanava a cabeça,
indo esquentar a janta, ele falava sempre: “a boia tá pronta? Ta”.
O fumar em casa lhe valendo algum
desgosto ou choque com a mulher, por causa do caçula, o seu temporão ou como
falavam “a rapa do tacho”, ainda tem esse dizer. Então, o garoto de pés no chão
e sujidades próprias da brincadeira – e agora o pai quase a ser cliente freguês
paciente no hospital em vias de se acabar, olha atônito Prudentinho Prudentão
em meia-idade com o filhote seu neto no colo a se dirigir a si... ah... Aqui
estas linhas relembram a indagar o que é o tempo? o tempo nesta obra não tem o
sentido comum corriqueiro linear explicável explicado por anos a seguir mansos
educados; daí Gumercindo ora a se preocupar com a febre alta de sua pequena, a
vê depois agora neste instante a senhora sofredora nas mãos irresponsáveis do
genro... vê sujo e descalço Prudente não com o neto a lhe fazer gracinhas de
encher o coração e ocasionar comentários vaidosos em Ta e sim, num repente, de
repente que os anos sequer percebem, olha o genitor pacientemente no seu ritual
a tratar palha e fumo no preparo do cigarro. Quantas e quantas vezes não
rememorou o episódio com o riso da experiência mas inclusive a gargalhar do
sofrimento passado e aqui não-sofrimento sim alegria por lembrar o garoto
aprendendo nas suas aulas de como preparar um cigarro dentro de todos trâmites
oficiosos dum mestre no assunto, estando o escrivão agora nessa lembrança a
descansar, ainda o livro aberto paciente a esperá-lo descansando do peso do
trabalho árduo minucioso atento sério na escrituração no tablado do Ideal;
enquanto a molecada se desentende o Dico grita o Lua chora o patrão longe, ele
mais longe no pensamento, e no sonho; porque a vida pode não passar dum sonho
também, em momentos de sonho acordado; visto o sonho ser a vida dormindo e a
imaginação é o dormir desperto; ou mais (e pior?) é um se esconder da verdade
na mentira, na mentira talvez dos outros.
Outro dado característico de
Gumercindo, a imaginação. Porque ele sempre fora imaginativo – não parecendo assim
às pessoas que o veem na rua no andar lerdo antes e mais lerdo após o João rumo
ao lar; pois um senhor gasto de terno dum marrom gasto, rotineiro no passar e
terá algum nome... não será com certeza um doutor um político ou... oh nem o
enxergam com tantos dramas seus ali perto a feri-las. Todavia imaginoso. Nas
frestas do descanso que escolhe por si mesmo pra si, embora possíveis matracas
a barulhar ou até um freguês do Ademar a atender – nos seus instantes cobertos
dourados acalentados pensa sente vê vive ou revive e isto também viver, ou não
se vive morre-se antes de morrer! E desdobra fatos dos quais participou e
inclusive tendo saudades; o que em última análise é relembrar-se com sentimento
e carinho o que o sujeito mesmo viveu: os demais seres não passam de apensos;
portanto ter saudade é ter saudade de si mesmo num tempo que já não mais
existe. Gumercindo tem frequente lances desse tipo ou seja se revê vendo
outrem. Ou é Ta quando Mariinha ou Marieta bela jovem atraente ou são as
crianças não mais crianças ou são colegas, ou são amigos que se descobre serem
conhecidos apenas e compadres e vizinhos e desconhecidos que fogem pela porta
do esquecimento ou são situações friamente ocorridas num lugar do espaço gelado
do congelamento na mente pelo tempo mentiroso no seu contar, no gelo seco do
computar somar subtrair multiplicar mas sendo tudo dividido em partes mortas a
se pensar vivas... E dessa forma ajuntando esse escriturário que dizem ser o
principal ou poderá até se pensar ele próprio chefe de escritório no
escritório. Um profissional, um marido, um pai, um vizinho, um amigo dos
amigos, desconhecido no mundo desconhecido.
Contudo, abusivo caracterizá-lo
religioso.
A rigor, embora sempre e nisto
ocasionando decerto inveja nos cônjuges briguentos e em crise conjugal ali a
passar perto na via pública indo à missa, ele eles dois sempre juntinhos, o
jovem casal o velho casal ou de mãos dadas simplesmente ou então ele firme
compassado compenetrado com um braço pra baixo outro dobrado em ângulo reto, a
Ta, com um seu, o direito, enfiado enfiando a mão no por baixo do cotovelo do
esposo; portanto ela sempre à esquerda do seu homem e nesse mostrar se
mostrando como a dizer aos circunstantes quem sabe igualmente indo aos ofícios
religiosos “olhem aqui um par dentro dos conformes, normal e amoroso”.
Possível? possível até que dona Maria sorrindo, feliz. No entanto seu par deixa
muito a desejar nesse item. No acompanhar Ta indo à missa, as filhas de vez em
quando e o filho não: se negando fugindo. Não. Nos fundamentos da crença não; ou
que se sujeite à doutrina entretanto não crê, crê como a maioria porém não
tendo fé... Enfim um curioso ser que trabalha e exerce de fato a religião no
labor sério, trata os seus e é talvez benquisto no bairro no trabalho na rua,
mas por dentro fica só no fora, na exteriorização formal. Nunca pensou a contento
na fé, que a ser profunda necessita vir também do profundo, sem meias e falsas
e vãs palavras. Nunca pensou. Ou terá pensado quando lhe fugindo do ser o ser
pensante que é a consciência, na hora mesma em que perdeu a consciência e foi
declarado morto!?
18.Mas com essas e mais aquelas estas
linhas se põem a uma avaliação da personagem principal, principal sim mas
teimosa a beça; ou por ser exatamente a principal. E toda avaliação requer
alguns cuidados, ou mata antes de matar findando o Gumercindo nos seus
tropeços; visto tropeçar bem na medida em que avançava rumo ao seu rumo; que
uns afiançam ser o destino. Pois bem, ele a beirar já seu cinquentenário de matrimônio
com Maria, ainda se pensando ser ele ele mesmo.
Calma, vamos em partes. Primeiro
que todos seres, não alienados, se imaginam ser. O que distingue as criaturas é
a consciência, que se não mistura à consciência de outrem. Do contrário seriam
os quase três bilhões hoje sete uns montes apodrecendo no caos do planeta, não
se distinguindo ninguém; ou confundindo todos.
As bodas de ouro foram memoráveis à
família, quase superando as festividades de cinquenta anos atrás, quando para
ambos matutos migrados da roça à cidade não passando de um encontro simples com
padre cartório e poucos convidados. Agora não tendo cartório mas bastante
igreja e bem mais ajuntamento de curiosos vendo dois velhos se unirem outra
vez, ela o seu coração chorando e ele comovido também e se permitindo as
lágrimas, já aceito que o idoso volte à infância e por isso chorando sem peias;
o macho por menos macho da espécie, a fêmea acostumada na tradição de se olhar
mulher molhar mais o meio ambiente. A sociedade aceita seja assim e assim seja
então igualmente o homem verter inclusive publicamente sem precisar chorar
escondido, antes por durão depois por moleirão quem sabe. Ela se vestiu de
noiva, de branco cor da virginal pureza; ele emprestaram-lhe outro terno à
cerimônia religiosa, um escuro pois não iria ver o sacerdote com o marrom
descolorido puído gasto e pôs aquela gravata de padrinho de casamento. Curiosamente,
tímido, se sentiu bem na solenidade ao sorriso dos filhos e netos. Verdade que
ao sair para o templo exigiu um café – tomaria comprimidos que o médico passava
a equilibrar emoções! não, não tomou – exigiu o cafezinho como fez vida inteira
como bom fumante em boca de pito preste a fumar, fumou sua palha e aí virou
gente, jovem corajoso e casadoiro... Só então se dispôs. Enquanto ela nesse dia
no preparo ao matrimônio não pegou no pé do ‘noivo’ futuro marido como pegara
até aí azucrinando o esposo da fase anterior por causa da fumaceira em casa e a
dar mau exemplo às crianças; simplesmente ficou distante ela nos cuidados das
filhas e parentas a prepará-la nas maquiagens ao enlace e assim ficar mais apresentável
e mais bonita em público; pudesse, porque já uma senhora desgraciosa e na fase
de virar matrona.
Bem, casaram festejaram – tudo dentro
da limitação dos recursos da casa; Gumercindo sempre não aceitando se
endividarem; aquele negócio de dignidade honra essas coisas. Isto uma outra sua
característica. Anteriormente haviam posto a questão sem solução do endividar
mais a família a fim de comprar casa, ele optando antes por carro; Ta lutando
por moradia primeiro só depois o automóvel para melhor virar pequeno-burgueses;
caso sem solução por causa do Mário, aquelas coisas chatas de se lembrar, tanto
assim que não convidaram a família dele; ultimamente se cruzavam os ex-amigos
nas vias públicas quando muito com um abanar mãos e um formal “olá”.
Tudo o que foi afirmado até aqui sendo
em provar o óbvio que é o antigo escriturário-mor do Escritório Ideal haver
envelhecido; aliás ninguém pode não ser idoso tendo na bagagem a solenidade das
bodas de ouro com suas fotos duradouras para mostrar à posteridade. Também para
demonstrar esclarecer cientificar o fim de sua consciência, algo que realmente
não tem fim; e para também preparar a narração, historiar quem sabe, dos lances
de sua teimosia; teimosia, mais uma de suas características, característica
tomada ora negativamente ora no sentido positivo.
Após curto, curtíssimo, período de
clareza e sanidade admitidas pelos conviventes do homem agora casado (recasado?)
– desandou num final que se pode lamentar como destrambelhamento.
Gumercindo desandou – por poucos
instantes a durarem uns dias ou só poucas horas de parcos dias e aqui íntegro
consciente esperto desperto ligado e útil – desandou no restante do tempo de
vida, que se pode afiançar outra vez apenas da existência; desandou a fazer
coisas dessas de envergonhar a família.
Posto isso e a ser retomado, é
necessário registrar que um pouquinho antes das bodas se aposentara. Não se
aposentara bem, bem seria por causa de ótimos proventos, mas em contrário a
ganhar menos que na ativa, percebendo o mesmo salário sem reajuste e emagrecido
comido na fome da inflação que campeava e prosseguiu faminta no país... A fim
de completar e fazer frente ao orçamento deficitário da família, o restante da
casa ganhando pouco ou pouco auxiliando dona Maria; ela agora a controlar as
finanças, tendo o drama dos desregramentos do companheiro; então iria confiar
naquele “Gum cabeça oca!” O orçamento familial desastroso, pois além da pobre
aposentadoria dele havendo os gastos de todos e ainda mais com a “fortuna”
lamentava ela, a fortuna despendida em remédios, os psicotrópicos da época ao
marido e os remédios dela mesma e dos outros membros e mais gastos obrigatórios
como as taxas e impostos, não querendo nisso nem lembrar os benditos aluguéis.
Agora o guarda-livros sem categoria,
visto a categoria ou em extinção ou extinta antes por falta da consciência de
classe, os contadores e outros profissionais da área como os técnicos em
contabilidade entravam no mercado e a criação do Escritório de Contabilidade do
Ideal já mostrando o limiar dessa transformação, de maneira que não mais
havendo lugar (emprego? colocação? cargo? função?) aos guarda-livros,
Gumercindo fora um dos últimos. Ele se aposentou quando a trabalhar no
escritório, sem substituto; assim é que ganhou a liberdade...
Que é liberdade? liberdade para um
assalariado desses tempos quase imemoriais. O homem comum punha como felicidade
a felicidade por ficar sem ter obrigação, sabendo previamente não ter recursos
para permanecer de costas deitado de barriga pra cima, aí desapertando a cinta
um cinturão pra segurar o ventre pronunciado, o que de uma feiura imensa dado
ser um sujeito se não de baixa estatura um de médio porte e ainda flácido, um
horror para se ver... De barriga ao céu, numa canoa em águas mansas etc. e tal,
tal ocorreria a um pobre imaginar. Tendo consciência acordada às impossibilidades
sim mas sem precisar ao menos sair cedo de casa em passos medidos rumo ao
Ademar, com rápida ‘carreira’ ao almoço de Ta, o retorno ao Ideal e depois
voltar de vez pra casa aí tendo a gostosura de encontrar os amigos no João e...
ah do compromisso estaria livre e com tempo inclusive espichar a estada no
boteco e... ih a mulher não lhe deixaria flanar nessas águas cristalinas ou
impuras cheias de álcool; era melhor descartar essa nesga de felicidade. Mas
sim, livre, ‘livre’... Livre para fumar livremente, na hora que apetecesse e
cada vez mais sentia precisar o tabaco. Experimentava uma espécie de gulodice
na glutonaria da fumaça. Ora, deixemos as poesias sofríveis dos absurdos dos
vícios e embiquemos na verdade da mentira, que é viver na liberdade um cérebro
já cansado com tanta realidade adversa.
Os primeiros dias ainda, teve a
sensação de aguardar hora às obrigações (chegou a esconder o despertador temeroso
que o relógio não soubesse estar aposentado, livre...) enfim os primeiros dias
ainda foram suportáveis, o vocábulo posto aqui tão só a contrabalançar
equilibrar o fazer e não-fazer, o ser obrigado e ser dispensado (ah o medo à
liberdade!) Ficou meio perdido na falta ou no vácuo daquilo que fora o costume
de uns trinta e tantos anos de horário e uns poucos dias no domingo e no
feriado sem qualquer hora e hora para nada. Nisto poder-se-ia arriscar: por que
não arranjou o pobre outro afazer a ocupar-se? Gumercindo não tendo grandes
iniciativas nem força nem disposição nem coragem, limitado e contaminado por
décadas dessa moléstia que é a rotina; daí estar andando perdido. Iria ficar
batendo papo com os vizinhos e os conhecidos – proibido os amigos no bar do
João onde fora igual fugitivo algumas vezes – e pior: no bate-papo com oportunidade
ao bate-boca no lar! Logo Ta começaria a falar lembrar cobrar, a fugir ele
dela. Que fosse, ora, que fosse então babá dos netos... contudo o velho não
levava jeito, a apreciar deveras aqueles serezinhos do sangue porém não
suportando muito tempo e fugia. Fuga.
A fuga caracterizou Gumercindo, quem
sabe já saudoso em ser
Corote e dificilmente reencontrando o pessoal do escritório;
a fuga marcou os primeiros dias os meses os dois ou três anos após a
‘libertação’. Logo veio o seu degringolar.
Quantas e quantas vezes Ta não
obrigada a deixar os problemas domésticos de sua rotina a ir atrás doutro problema
mais sério: Gum saía a esmo e quase sem destino por aí. Primeiro voltava, depois
até vindo esfolado e pior nisso foi a fase de não regressar, perdendo o rumo:
sua mente se descontrolava; ou se desfazia!? Muita vez ela andando atrás do companheiro,
o qual a percebendo perto exigia que ficasse distante dele; para que um
conquistador jovem belo sedutor etc. e tal pudesse, livre (dela) andar ao
encalço duma presa bela e jovem... Ora ora, o marido nunca fora de conquistas,
nunca traíra a consorte ou traíra... Não. Gumercindo lúcido trabalhador pai
amigo companheiro da companheira nunca traíra a esposa, garantindo isso aos
pouquíssimos íntimos. Uma característica dele somada a outras positivas ou
negativas era exato ser respeitador do matrimônio. E se se pudesse discordar de
sua falta de religiosidade ostensiva, não podendo concordar com o que o povo
dizia sobre: “o pulador de cerca”. Não. No entanto o velhote já destrambelhado
a andar atrás duma imaginária princesa para ser a ele seu príncipe encantado.
Maria meneava a cabeça, quem sabe até envergonhada. Sim, envergonhada. Por isso
se ‘desrecalcava’ (a palavra talvez forte demais ou inadequada no caso) enfim a
se confessar a se lamentar a chorar diante das filhas; Cecília, fora
namoradeira a mais velha e “ficou pra titia”, mordiscavam assim a vizinhança e
os parentes, mas ela quem mais ouvia e consolava a mãe, por sentimental ou por
morar com os pais, as outras e até Prudente um pouco amadurecido os três dando
algum conselho à genitora, nesse caso sem solução do velho Gum a virolar fora
de controle pelas ruas.
Depois piorou, pudesse.
Agora era necessário tê-lo a
correntes... Bem, aqui modo de falar pois ninguém iria amarrá-lo por não saber
mais nem onde se encontrava nem como voltar para onde não sabendo,
dessintonizado. E um pior ainda pior: não reconhecia sequer os do lar, Ta por
extensão; e menos os conhecidos e parentes, todos quase sempre realmente
desconhecidos, realmente ou absolutamente.
Até que houve um basta geral.
Preso no lar, fechado cadeado obstado
diante da incapacidade flagrante de se autogovernar, preso dentro de casa. A residência
da rua das Orações, pequena, grande no aluguel; ainda assim com espaço enorme a
um velho talvez se supondo ativo. Não parava, ora no quintalinho acanhado a
revirar salsa e cebola e a regar o já molhado, a mulher ajeitava canteiros ele
revirando tudo, ora ali no quintal a dividir o não-fazer com o cachorro; ora
dentro do imóvel móvel demais, embora andando meio travado duro, aquela questão
das juntas. Do quarto à sala, da sala ao quarto das ‘crianças’ onde apenas estrilava
Cecília os outros casados e em suas residências trabalhos compromissos; do
quarto à cozinha-copa, tudo miúdo exíguo a uma família agora de três seres e
portanto pequena também. Dali resolvia ir a outras dependências já visitadas
minutos antes. Por fim, encontrando a moradia quase lacrada, fechado nas suas
pretensões, dormia no sofá com o cachorro companheiro a olhá-lo ou igualmente a
dormir. Isso é tudo, ou quase tudo.
De repente estourou. Urrou gritou
chorou implorou as chaves; contudo a sargenta a generala não cedeu. Daí estourando
doutra forma após meses comendo destravado dormindo pesado e engolindo
dopado... Gumercindo um dia tomara todo o vidro de remédios fortes duma vez;
ninguém viu ninguém pôde fazer nada num descuido de Ta, então a cuidar dos
canteiros de cebolinha, só ouvindo o barulho da queda!
Bem, meio desfalecido e logo a gritar
pela dor foi levado às pressas ao pronto-socorro, daqui ao hospital; tornou na
ambulância ao lar, fraturado na bacia e numa perna. Posteriormente – aqui se
põe meses em idas e voltas reclamações toneladas de remédios, sem remédio... Um
belo dia, isto mera expressão porque terrível não fosse pela falta de sol e o
excesso de frio e vento, uma ocasião descobriram familiares que haviam
engessado a perna erradamente e sem conserto, visto osso quase fossilizado pela
idade. Ademais, mesmo não houvesse o descaso e ocorrido o que criticaram, terá
havido uma barbeiragem no hospital; mesmo assim já não conseguiria o velho mais
andar; longe a possibilidade andar normal e ainda se discutir o que venha a ser
normal.
Aqui tem início o fim do homem, fim
este que por azar da família se prolongou além de meses a chegar ultrapassar
seis longos anos de sofrimento para todos, não somente do enfermo. Os de fora
sofrendo o ver sofrer, atiram seus carinhos e somem atrás de sua obrigação,
quiçá esquecendo o doente por mais o estimem. E os de casa!
Na verdade sobrando sempre ao
companheiro de jornada, no caso a companheira – elemento que discutira com o
doente quando na rotina; que se riu com os lances prosaicos dele; que o pôs na
parede cobrando posturas próprias dum homem casado (bem casado?) Comeram ambos
cônjuges como diz o popular “o pão que o diabo amassou” e curtiram igualmente
os dois as glórias da luta numa casa decente. Enfim sobrou agora o posto de
enfermeira a Ta, a se desdobrar como fosse duas, vinte, mil a satisfazer o
marido ranzinza e nunca mais a ser plenamente satisfeito. Além do drama de o
escriturário aposentado doente ficar de vez prostrado na cama, apenas saindo de
maca ou sendo levado para se findar numa agonia no hospital público... Além,
ainda, de virar uma ‘coisa’ (talvez isto mui pesado para um ser trabalhador e
digno, embora seus defeitos) um amontoado de carnes por anos, mais de dois, sem
cérebro. Aqui para dizer que sua mente já não funcionava. Andando pelas ruas
nos poucos anos atrás, destrambelhado, agora enfermo a desmanchar-se e não reconhecendo
ninguém. Quando ainda falando falando desconexos, depois assoprando sons e
finalmente mudo a olhar o nada nebuloso e não mais tendo sequer condições em
fumar sua palha. Então era mesmo ‘coisa’ como dito, salvando-se apenas o
respeito dos visitantes e mais dos de sangue; a mulher sempre nesse transe
perto com os filhos, ela mais uma vez a esposa sofredora e um baluarte do lar.
No entanto Gumercindo meses sem distinguir e menos conhecer alguém.
Não é nem sombra mais do que estas
linhas defenderam sobre um ser digno.
Agora a ambulância leva o moribundo,
não à suposta e esperada salvação: os médicos haviam alertado Dona Maria da
Silva sobre a impossibilidade do paciente então pele e ossos meses encolhido e
virado pequeno até em seu volume. O ventre murcho... pele colada aos ossos...
as terríveis escaras, amigas da pele a se desfazer quebradiça, e claro o escuro
das dores. Já não reclamava, pudesse; apenas mostrando sem poder mostrar o sofrimento
profundo. Então agora é a ambulância; depois, pouco depois, o carro fúnebre a
sala quatro a dor dos que ainda não sucumbiram nem morreram, morrendo tão só
nas suas forças; as forças que pareciam as da Fênix.
Mas estava tudo consumado.
19.Sala quatro. Velório, dezesseis horas,
as horas do planeta a se despedir de Gumercindo; a sala decorada além decerto
do que almeja um irreverente ser. Ervas aromáticas, quem sabe a irritar o morto;
quem sabe por bem consultar todos velórios e o velório, a sentir velas flores e
cheiros de gente num desagrado; por isso talvez a pensar renascer imediato o
morto para tão só de fato morrer (seria remorrer?) morrer de raiva, em
novíssima e absurda causa mortis... O
povo não sabe o povo olha a irreverência agora ali deitada pranchada comportada
inerte no centro num caixão de primeira, ofertado assim como ofertada toda
festividade do ato fúnebre pela família bondosa de Ademar, o despachante vivo
entre mortos e nesse ato representado por sua viúva dona Edna, ainda com restos
do que fora sua beleza e a confortar a de Maria, esta que o morto na berlinda
agora chamava Ta. Em roda e nos bancos da sala adornada estão os parentes, uns
chorosos outros apenas compungidos; os parentes os amigos os conhecidos os curiosos
desconhecidos conversam baixinho ou audível mas à boca pequena e falam no morto
exposto e do morto vivo, nisto a usar insignificantes maldades que lhes restam
após mil vezes tendo vivido semelhante e aprendendo pouco, segundo os pensadores
do absurdo; em baixas vozes relembram as insignificantes e mais alto as grandes
ignorâncias, assuntos que se disputam no falar e não dizer, para não ferir
ouvidos e não chocar orelhas. Os próximos quase sempre distantes no conhecimento
e muito mais no sofrimento dos seis últimos anos das criaturas envolvidas,
estes próximos deixam de lado o morto e narram ao grupo seus próprios feitos
suas bravatas suas andanças suas lembranças e seus esquecimentos respectivos, a
fortalecer ou não deixar desaparecer as relações mundanas – isto provável seja
para o homem comum o maior valor dum velório. Numa pausa todos param de falar,
a silenciar no aguardo das dezesseis horas e no limite a findar mais um
compromisso social. Depois de cumprimentos necessários, haverá a fuga da mente
de todos às suas obrigações; coisas inacabáveis sim e santificadas pelo
esquecimento, este que fosse eterno mas não havendo eterno no esquecer por
causa das lembranças marcantes.
Na
quase hora, a gente se concentra, mesmo os antes escondidos a fumar e conversar
livremente e até surgindo anedotas inocentes enquanto bolachas e cafezinho lá
na copa nos fundos do salão; também nela um que outro a entabular negócios
visto o mundo não parar causa dum velório... Enfim dão por encerrada a fase de
velar respeitosamente no possível, guardadas as falhas que todos seres têm.
Todavia quem encerra de fato a solenidade na sala quatro são os quatro funcionários,
frios tal qual máquinas nas suas invisíveis engrenagens e com a ordem da
experiência a lhes impor na fisionomia uma presença confrangida ou de
exportação no parecer bem e harmonizada com o ambiente, um ambiente de tristeza
choro desesperação até. Por isso aguardam em cada passo do seu trabalho o
assentamento dos semblantes, o consolo nos corações menos fortes, ou só desprevenidos
diante da esmagadora maioria da gente decente ‘compungente’ temente decerto e
respeitadora. E assim eles logo tomam a frente (contentes?) daquele solene encerramento,
a si rotineiro, o qual inclusive poderia ser enfrentado diário, fossem frios
não são máquinas, podendo até conviver com dramas a chocar um público e mesmo
entre si surgirem risotas, quase sempre emudecidas pela presença eventual da
lembrança de ferozes entreveros conjugais e enfermidades nos filhos e ainda por
dívidas nas suas desregradas finanças – a nesga de povo presente não sabe disso
nem vê isso tal qual não veria posteriormente no suor dos coveiros seus
problemas apenas o suor fétido. Por isso os quatro intervêm, um retira coroas
outro flores outro ajeita, o quarto toma um molho de chaves a chamar atenção
sobre si ou sobre o objeto de fechar o salão; e no chocalhar o molho promovendo
um som a diminuir um pouco uma despedida no frio da sala a fechar, também ela
morta.
É
a despedida. Espichada como determina o figurino nas solenidades fúnebres.
Agora
é a disputa educada para levar no caixão de primeira um Gumercindo de segunda –
todos fortes postos perto e até os fracos se disputam pegar as alças. Um pouco,
poucos passos mais e já vem em socorro o carro fúnebre onde pôr o defunto e a
descansar os vivos nas suas mãos de boa vontade mas frágeis ao peso, peso do
ataúde e não pelo tamanho do morto, leve seco apurado pelo sofrimento. Não mais
que um carro ou carroção ‘empurrável’ e sem motor o motor sendo a força humana;
longe no futuro hoje presente se usa automóvel adaptado com motor elétrico,
silencioso; silencioso também agora quando todos empurram e um funcionário indo
à frente puxando guiando orientando aquele corso pelas ruas do cemitério quase
junto ao velório que ficou para trás; rumo ao túmulo aberto para receber
Gumercindo. Passam pelas ruas daquela urbe do silêncio, observam os curiosos as
curiosidades tristes como fora novidades, velhas igual o mundo. São capelas
belíssimas luxuosas artísticas na sua arquitetura suntuosa, úteis se não fosse
melhor à pobreza da maioria o material quiçá desperdiçado pelo esquecimento das
famílias ricas indo nos tijolos e acabamento para casas dos que não têm casa,
como semelha o caso do morto vivo. Morto, é levado pelas ruas; mas não tem o
corpo-morto condição ver nem desperdícios nem belezas. Andam andam passam o
bairro rico talvez milionário para ir em passagem pelo remediado para chegar
então no bairro pobre; seria a periferia pobre ou miserável de Gumercindo a
pensar sua mudança até chegar na Rua das Orações!? Contudo a família do patrão
interferindo junto aos administradores da necrópole: dona Edna a conformar Ta,
exigiu o depósito daquelas peles velhas quebradiças a cobrir ossos grudados com
a cola do sofrimento prolongado no bairro dos remediados, bem à pequena
burguesia. Registraram, encurtaram portanto o trajeto e Gumercindo ali agora no
seu esquife de madeira com superfície lustrosa no sepultamento. Rodeiam o
buraco, curiosos muitos entre os poucos acompanhantes, outros demais tristes e
chorosos e mais Maria Mariinha Marieta Ta, e quem sabe se não ainda mais puro
no sofrer o sofrer Cecília; os outros filhos também de olhos vermelhos lenços a
postos e costas das mãos a secar lágrimas – todos olham o depósito final do homem.
Pede alguém em nome dos familiares o levantamento da tampa para verem ainda
pela última vez o morto. Contemplam aquele rosto esquelético sofrido, decorado
embora pela alquimia da maquiagem da funerária; e quem sabe até pensem, não
vendo de fato, no corpo magro sem ventre com ventre abaulado não pra cima pra
baixo e de ossos expostos na pele com hematomas a emocionar ao exagero aquele
exagero das horas dos meses dos anos, seis se não falhar a memória de quem
tenha memória. Fecham: agora é definitivo no seu final. Fecham a tampa, lacram
a tampa; ajeitam a seu jeito aqueles não mais que dois funcionários, um é o
coveiro experimentado, assim mesmo a deixar que no momento solene lhe cheguem
bafos da lembrança dos seus próprios dramas; lembra o caçula doente, a conta na
farmácia e inclusive um enterro longínquo pensando esquecido lembrado da mãezinha
também por sete longos anos sofrendo virando mais pequena encolhida na pele e ossos,
tal qual acabara comparar do cadáver de Gumercindo. Faz gesto ligeiro cabalístico
com sinais da cruz como exige a crença católica; se fortalece assim
momentaneamente; determina o companheiro ajudá-lo, deposita de vez o caixão no
fundo dos sete palmos. Três montinhos de terra são atirados pela gente no
costume do povo; daí os servidores nos montões com pás. A superfície completa e
a sobra, sempre sobra terra da terra que se tirou a cavar o túmulo e então
sobrou. Contudo o coveiro-mor no caso do escriturário-mor tem ordem estrita escrita
para deixar nesse ponto, pois que os pedreiros amanhã farão o carneiro, numa
cobertura de tijolo e massa; depois virão pintura e nome: “Aqui Jaz Gumercindo
da Silva”, nascido, morto, saudades da Família, quiçá anexando um retrato;
escolheriam os parentes a melhor significá-lo um que Mário também no enterro
ali presente ao ausente tirou anos atrás com sua Kodak, sendo um dos poucos a ter máquina fotográfica, um na pose de
alegria que Gumercindo não costumava mostrar amiúde; uma pose dum encontro dos
amigos íntimos em a nova casa transferida a família para a Rua das Orações.
Havia o fotógrafo amador tomado outros flagrantes, inclusive um em que Cecília andava
encostada ao namorado futuro esposo passado a virar tia a pobre. E outra foto e
mais outra uma delas com as duas Marias esposas dos então amigos...
Gumercindo
na pose mostrava (claro isso não aparecendo na fotografia ora posta no seu
túmulo acima das inscrições indicativas) mostrava um filete de ouro num dente à
frente aparente contente; mas da sua dentadura postiça, porque se valorizava
ainda em meados do século a ostentação aurífera, mesmo fosse na dentadura e não
nos dentes naturais; obra artística odontológica apenas. Depois, não tão
depois, veio uma onda de ladrões a atacar catacumbas para furtarem objetos dos
mortos, mais os de ouro. Assim anos após a família se preocupou deveras nessa
possibilidade, no entanto isto não vem ao caso.
O
que é importante é que os mortos enterrem seus mortos...
20.Estranho
complemento. Estas linhas críticas diriam melhor dizendo conclusão, não
complemento, mas ocorre não existir conclusão aos seres humanos ainda tão
imperfeitos na marcha sideral. O fato é que Gumercindo, Gumercindo de Ta do
Mário dos seus colegas do tempo de escriturário-mor? esse; ele acordou
esquisito... Esfregou olhos imaginando haver dormindo além da conta. Sentia
imensa necessidade de fumar sua palha, isto ocorrera na sua existência
‘ene-vezes’ e quantas vezes precisou caçar no escuro da noite um sobressalente
cigarro em reserva apalpando no criado-mudo, sem fazer barulho, consciente naquilo
que se acostumava dizer “vai que Ta acorde... e aí...” Bem, quantas e quantas
estivera sonolento no limiar entre acordar estar dormindo dormindo estar
acordado a apalpar onde a caixa de fósforos para fazer fogo – tudo quietinho
para não cutucar a oposição de vara curta, e aí a derrubar inadvertidamente a
caixinha, um barulhão! Quantas vezes assim em a noite comprida; interessante
notara: quanto mais envelhecia, as noites mais encompridavam e daí aumentando
na mesma proporção mais a necessidade do pitar.
Então
experimentou respirar profundamente, o tabaco bloqueara as vias respiratórias e
mais ultimamente impedia entrada livre de ar, era um sacrifício doloroso
aspirar e expirar esse alimento básico a viver. Espantou-se sorriu gratificado
o ar correndo franco. “Graças a Deus” fala aliviado sem se autocriticar pois
raramente assim se expressara vida inteira; mas tem gente que ao contrário
abusa e fala coisas santas sem sentir. No entanto achava agora andar estranho
deitado naquela cama de tecidos tão brancos tão claros tão limpos tão puros.
Dali fez uma viagem na dependência com olhos bem abertos, examinou tudo e
concluiu estar num compartimento hospitalar; curiosamente não ouvia sequer um
som um gemido um ai e se imaginou privilegiado no isolamento e no silêncio.
Nisso
acordou de vez a consciência e se perguntou “e os meus!” Lembrou Ta Cecília os
outros e ainda um pouco preocupado com o caçula. Onde estão onde estarei,
imediato lembrou o infecto hospital público os gritos as lamentações as necessidades
os cheiros próprios; aí relembra o cigarro que nunca enfermeiros e até
familiares permitindo... Onde!
A
custo, enuviado, percebeu uma pessoa sem que pudesse identificar.
O
que estou fazendo aqui?
O
outro sorriu sua mansidão. Ia dizer qualquer, esclarecer... já Gumercindo
tentou conseguiu se mover, até ligeiro, daí dobrou-se, pôs após as pernas pra
fora sentando no leito alto a balançar os pés como a senti-los; imediato fixou
o ser ali próximo e renovou a indagação, juntando apressado mil novas perguntas
nem esperando a resposta da primeira, bem a seu jeito espevitado da juventude,
ah a juventude tão longe... porém estava agora ótimo, excelente no ânimo; o que
os últimos anos desmentiam, as dores incriminavam, a memória intimava matreira.
Havia qualquer coisa errada ou certa ali, mas impreciso, estranho. Contudo se
sentia bem.
A
custo se conteve aguardou a expressão do companheiro, quem seria? entretanto
não abusou na curiosidade e esperou; agora já de pé no solo, erecto, se
apalpando se experimentando, enquanto a olhar o desconhecido – ah, pensou não
disse: que sujeito diferente pois não sei quem é e sinto como seja de meu
sangue...
O
outro se aproxima de Gumercindo. Conforta o paciente com meigas palavras. O
entendimento é imediato e absoluto, sem meios termos sem quase subentender nada
além do que foi dito. Porém o paciente impaciente e logo demonstra próximo do
gritar o desejo de rever, de estar, de encontrar-se no mesmo instante com sua
gente. Ainda aqui o novo amigo pede que aguarde um tempo. E se põe a esclarecer
a situação, inclusive no que ainda sequer o enfermo melhorado houvesse perguntado.
Aos
poucos vai informando porém o estagiário percebe algo inexplicável ao seu
entendimento: é que o mentor diz o que dizer no entanto sequer abre a boca;
mais nisso: Gumercindo compreende tudo que transmite e isto lhe causa estranheza.
Por isso se pergunta – seria um anjo!? mas onde as asas, cadê a auréola que
tanto vi na igreja. O outro como que a lhe ouvir o pensar responde com mais
informes. E ele:
Então
morri!!!
A
morte não existe. É forma humana apenas a explicar o perecimento o
apodrecimento a transformação da matéria. Você é um espírito, foi alma enquanto
encarnado no corpo, o espírito nunca morre. Em razão disso estar bem vivo.
Enquanto
o esclarecer experimentou espanto num susto quase e percebe choro a sentir suas
lágrimas a rolar; ainda ligeiramente contrafeito fez mil outras perguntas. Como
sua limitação inteligente sendo mui grande, assim o ente ali próximo deu meias
respostas, prometendo um dia alargá-las para satisfazê-lo plenamente.
Gumercindo
no velório nada enxergou a dormir o sono da morte. Nem se sentiu irritado com
ervas aromáticas e cheiro de vela ou da gente; sequer ouviu pessoas, podendo
haver ocorrido o contrário a outros ‘mortos’ no velório respectivo, ele não.
Acordou só pouco antes de abordar aquela entidade tutelar de boa vontade. Ela
explicou-lhe de acordo com sua compreensão como aconteceu o que chamou “mero
desencarne”. Prometeu mais no futuro, tivesse agora um pouco de paciência...
Paciência
não teve o neófito e quando viu viu-se na Rua das Orações, Ta ali a rememorar
as tristezas, inconformada... Gritou-lhe o nome, não escutou; pôs mil
indagações à velha companheira cobrou posturas sem resultado, contudo Maria
apenas pressentiu longe leve prurido na presença dele e despencou num choro
convulso, sem que então o companheiro pudesse minimizar o sofrer aliviar-lhe as
dores morais com um abraço amigo; nos últimos anos da vida conjugal sequer a beijava,
antes que isso desejando mais mordê-la que mostrar simpatia. Chorou com ela,
ela não o enxergando, sozinha. Gumercindo examinou-a enternecido sim mas
entristecido perante aquele estrago que o tempo ocasionara com a arma do sofrimento,
a atingir em cheio sua consorte!
Ali
a seu lado já a entidade amiga a consolá-lo com sua presença. Perguntou ao
ex-escriturário do Ideal se endendera agora por que havia rogado paciência e
que não escapasse espevitadamente ao antigo lar!? Não seria de bom alvitre também
assim prematuramente ir ter com os outros seus queridos familiares, decerto
iria constatar o sofrer alheio.
Quando
Gumercindo caiu em si já ambos de volta ao recinto em que acordara harmônico a
respirar bem não mais ofegantemente; e sentira aquela necessidade do cigarro.
Decepcionado
constrangido contrariado embaraçado chateado e também surpreso, lembrou-se de
sua palha. O outro: meu amigo faleceu exatamente porque abusou do tabaco e
deseja mais cigarro! disse a sorrir sem sequer mover os lábios. Gumercindo
abaixou a cabeça vencido e envergonhado. A entidade afirma sua melhora
considerável e o alerta para um futuro melhor porém objeta: para tanto,
informa, para esse bem necessário tornar a viver com os seus e no seu planeta,
vencer suas fraquezas, fortalecer-se na luta contra seus próprios enganos.
Saiba que há gente que reencarna para vencer tão só o vício de fumar; mais
tarde eliminando outros defeitos. Ninguém é condenado, apenas constrangido a
eliminar falhas e partir para a harmonia e a perfeição.
Gumercindo
quase não ouve e se ouviu não entendeu bem a proposta da entidade tutelar;
interrompe o colóquio a indagar animado “oh, então paro com meu fumo de corda e
minha palha – fumarei somente cigarro de papel!”
A
entidade apenas sorri compreensão.
Marília julho 2013
Obras
publicadas do autor:
Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko,
Marília, 2009
O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso
Gráfica, Marília, 2010
Os Níveis da Memória, romance, 131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011
Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica,
Marília, 2012
Viagem à Interrogação e
outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp., Griso
Gráfica, Marília, 2013 Griso Gráfica, Marília,
2013
A Copa e outras Novelas,
165pp., Gráfica Fernandez, Marília, 2014
Estória Bizarra, romance,
162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015
Contos Revisitados,
108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015
Gramático da Silva,
romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016
Temas Recorrentes,
romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018
Ao
sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São
Paulo, 2019
O
Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020
Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora
Soma, São Paulo, 1980
A obra do autor pode ser vista também nos endereços:
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