quinta-feira, 2 de abril de 2020

Júlia e a Crise no Incesto


0146(exposto no Blog Livros Inéditos)










                       Júlia e a Crise no Incesto
                                                                (novela)

                                              Moacir Capelini

                                                                             


















moacircapelini@gmail.com

       

capa:


gráfica:



tiragem:



















“As duas coisas mais admiráveis na criatura  humana são
 a inocência e a santidade.  A primeira, situada  na  raiz
da  vida, está abaixo do homem, e a segunda é o cume que
só raros alcançam.”      
            Lêdo Ivo

-  -  -

“Acontece uma só vez que a gente se perca e não se encontre mais.”
           Miguel Angel Astúrias







Esclarecimento
Esta pequena obra tem por escopo não ferir a língua; quando necessário magoá-la, usa os sinais do apóstrofo em vocábulos criados ao som do som ou apenas por eles não terem sido encontrados no dicionário. Também usa aspas quando palavras ou expressões ditas por um personagem e não pelo autor deste livreto.







































- Início do Fim

Júlia adentra este recinto... sei pela intuição ser ela. Chega, manso, leve, num pisar de fada; pisará o tapete de entrada na entrada exterior no alpendre, pisará como fosse uma garça em graça e, num instante que pra mim já uma eternidade, se enrosca; sei disso sinto isso sem ver vendo seu enrosco por assim diário no capacho que pusemos a fim de nós mesmos e as possíveis visitas limparem os pés protegendo nossa casa a sala os tacos encerados e aí estaria a poeira depositada; ela mesma deu a ideia do capacho, culpando meus descuidos sinceros – a culpa e os descuidos nas horas inocentes em que se diz no dizer que brota sem segundas intenções – ela mesmo quis esse enfeite grosseiro e que desdiz um lar civilizado, sim afirmo um lar mas de uns tempos a esta parte mera casa quase vazia com um sofredor a morar e sem respaldo nos sentimentos de um casal que se preza e se ama...
          Sei, antevejo sinto como estivesse ali ao lado dela na sua constante manifestação de bipolaridade doentia e podendo que esteja mansa ou feroz, este que pode ser seu estado agora e me aflijo. Então acompanho seus passos a mexer na maçaneta da porta, num mostrar aquele tique nervoso de repuxar um pouco os lábios à esquerda remexer a bochecha virar revirar retornar no virar os dedos da mão desocupada, esquerda, a direita segura com força com aspecto selvagem abrutalhadamente a empurrar pra baixo torcer abrir se encostada a porta apenas na lingueta da fechadura; ou trancada então a torcer nervosa bufando e chocalhar as chaves; nunca, nunca mesmo encontra a certa e que caiba e deslize no buraco: pega o molho chocalha o molho e daí experimenta todas, todas uma por uma as chaves erradas e acerta a certa e daí empurra e torce e abre e dá um gritinho vitorioso e novamente chocalha as ditas benditas chaves, como num show de música aquele instrumento com som de pandeiro e algum tchá-e-tã de percussão e assim me admiro consiga sempre e sempre mesmo o mesmo som para demonstrar sua decisão já dentro da sala; já terá batido empurrando com as nádegas a porta, antes disso a se esfregar enroscando no batente da porta aberta a indefectível bolsa; escuto inclusive esse raspar desajeitado antes de enroscá-la a desenroscar a bolsa, um quase que como medido na centimetragem em cada fase do enrosco-desenrosco; sim já terá batido a folha da porta, aqui mansamente não estando nervosa a neurótica nem desesperada; ou então fechado a porta estrondosamente quase a avisar um quarteirão, estando no outro extremo. Nisto me horrorizo me esfrio me contorço me... ah estando como agora tenho medo! Meu baqueado coração dispara, me deslizo quase ao enfarto, aguardo a morte, a morte então pode ser-me até benfazeja a fugir desse estado psicológico negativo terrificante nestes últimos dias em que me encontro não me encontrando.
          Ela entra de vez na residência já se movendo da sala onde provocara escarcéu não obstante sozinha na entrada e na porta – o barulho a me enlouquecer; saindo dela, dessa sala desolada ou apenas prostrada com tanto silêncio, o silêncio anterior, o silêncio da casa inteira que ela compara a um cemitério quando quer me ferir; saindo da sala em direção ao cômodo do escritório onde estou, vem na minha direção... Sei que estou gelado, hipotérmico, inanimado quase, morto quase, quase morto antes de morrer ou é que registro apenas para justificar um assassinato...


- Antes do Início

Júlia, penso nela com a destreza do pensamento como a embriagante destreza dum relâmpago, englobando seu percurso desde a entrada da sala até aqui no escritório e quase me surpreendo poder em tão curto tempo abarcar sua vida pregressa, o correr desde que tomei conhecimento de sua existência até agora em que está no limiar de um... oh, será mesmo verdadeiro que rememorar é sofrer quantas vezes se recordar! Sua e nossa vida pregressa.
          Se a conheci antes de nascer... acho que não me lembro disso agora, agora que a aflição me invade o ser. Mas sim, acompanho sua estrada difícil desde pequena, pequena porém adulta embora ainda pequena na mente, longe duma pessoa normal, talvez comum pelos inúmeros casos semelhantes que se vê no mundo; normal Ju não era não é nunca será creio. Ju é o abreviamento de Júlia, apelido de uso frequente no casal; e parece-me que também alguns entre os pouquíssimos íntimos a chamá-la Ju e aqui a demonstrar nossa preguiça de seres humanos a encurtar o som pela abreviatura, economizando tempo som e tinta quando escrito. Demonstra ela igualmente aceitação por responder ao chamamento e assim fica neste ponto registrado.
          Contaram-me haver nascido no sul do país, numa família destroçada na força da miséria financeira e moral. Uma questão encontradiça sim e sempre chocante analisar. A mãe os pais... a mãe qual uma fábrica de nenês, dessas que parem por atacado e dão individualmente o produto, ou por não amarem ou por não terem condições de criar ou por ocupadas a achar logo outro companheiro para novas crias ou ainda por não poderem antes se descartar de intrusozinhos nos abortos com ajuda de bruxas que lhes forneçam garrafadas anticoncepcionais; ou sobrando esta ressalva ainda na aventura louca a se livrar dum filho: por serem ignorantes e quase amorais. Imorais nem se diga, lembra-nos a sociedade. A sociedade bem, civilizada, ocidental, cristã. Seja lá como for Ju aportou gaúcha e logo foi meio desovada em descarte numa entidade religiosa; parece-me que luterana. Foi a partir desta que a conheci.
          Conheci? que vem a ser conhecer alguém, quando nem a si mesmo o humano se sabe profundamente mas só perifericamente. De fato soube das origens de sua existência pelas segundas vias. Isto é: me contaram ambos pais da apocrifinha; eles me passaram informes após suas incursões na justiça... Logo tornaremos à adoção dela por eles, antes vejamos o pensamento dito justiça. A humana é injusta, flagrantemente injusta às vezes desleal e até corrupta visto haver juízes corruptos (conhecidos gritados pela imprensa nem sempre apavorada com sábado sem notícia; e também havendo juízes desconhecidos e parciais, aqui um existir através do olho comum do homem comum; postas as ressalvas prossigamos:) Pela morosidade por ação burocrática a empilhar casos à gulodice das traças e pelo decurso de prazo e a prescrição da possível pena invalidando solução – tudo prova ser a justiça deformada quando não incompleta. Daí os trâmites os anos os inconformáveis julgamentos do povo miúdo sobre ela. E dizem que a voz do povo é a voz de Deus. Noutra extremidade escreveria Justiça com jota maiúsculo assim como se maiusculiza jota de Ju. A Justiça divina é infinitamente mais equilibrada que a justiça humana, não se corrompe, não brinca em serviço, como é o falar da gente. A gente miúda crê no graúdo até as últimas consequências e por assim pensar crê seja absoluta. Esta Justiça sim poderá atingir o enublado proceder da ‘família’ não bem família de Ju ao nascer; bem como o da instituição que a abrigou e depois a dos seus pais apócrifos que me passaram informes. Mais, vou mais longe: ela atinge e julga condenando-absolvendo todos sem exceção sem privilégios, inclusive o que faço neste registro e os que lerem este registro...
          Voltemos aos pais adotivos da filha adotiva, eles aqui no sudeste, fazendo verdadeira varredura – esta expressão insuficiente porém na falta da titular substituindo a dizer haverem eles com seus computadores examinado todo estoque do país nas ofertas de crianças para adoção – feita essa varredura ou rastreio descobriram dois aspectos interessantes: primeiro que os adotantes dos adotáveis procuram insistem conseguem e por vezes desistem devolvem (ah isto gravíssimo na educação dum ser! e foi exato o que aconteceu a Ju, anteriormente devolvida aos evangélicos... e só depois adotada novamente e aqui entram os pais lembrados neste parágrafo) – querem enfim uma criança à sua feição. De que espécie? em geral recém-nascidos, brancos, meninas, e sem defeitos ostensivos, nunca poderão no processo adotivo saberem por fora a perfeição de dentro... Por outro lado ficam presos na instituição oferecedora aqueles pequenos sem mercado consumidor! Isto fere muito? a realidade fere mais. É mercadoria para muita gente. Sem sequer pretender resvalar no crime: ‘adoções’ para traficantes, roubos e sequestros de crianças. Nem se fale no que desde que o mundo é mundo existe, no desvio que é a adoção por amizade ou forçada entre famílias humildes (aqui palavra a entender como se entendem: os simples os fracos os miseráveis e isto não sendo humildade, humildade vai além por mais profunda). Sempre existiu; hoje a lei procura formalizar, quiçá defender menores e filhos sem pais com ‘pais’.
          Voltemos aos pais dela. Os pais dela antes durante o processo adotivo e ainda após conseguirem encontrar e adotar Ju – viviam brigando.
          O comum nesse quase normal. Brigas em continuação das discussões conjugais. Digamos que João e Maria, aqui figurado não lhes dando nomes verdadeiros; vai que antes que eu seja morto morra nas masmorras da justiça de jota insignificante num processo judicial estardalhaçante deles contra o escriba a alimentar sábados sem notícias dos jornalistas! Então opto por João e Maria, sem carochinha e diria relembrando meus tempos de moço invertendo termos: primeiro Maria depois João. Porque Maria de uma beleza fenomenal... ah que saudade tenho da aurora de minha juventude. Fica primeiro João, o qual na oposição afirmava antes de receber Ju e durante meses na educação de Ju, ser a esposa mui exigente, longe de Amélia que dizem ter sido mulher de verdade; enquanto que Maria a bela, ofendida com seu consorte, em vista suas andanças e estripolias machas numa traição quase ostensiva, quase porque traição que se digne não se mostra e se esconde. Resumindo, João um sujeito mui mulherengo. Havendo mais intrigas da oposição à oposição. Pequenas grandes coisas, após se avolumar. Os choques em atritos grandes e pequenos e até nas desavenças sem importância por anos, pior: diários. Ora, pergunto, como educar assim uma criaturinha ou os filhos de nossas entranhas! Aliás Ju adotiva, chegou-lhes menina aí por uns dez anos; diria dez anos de sofrimento? digo. Agora apanha um pouco, violência que ao sofredor não é uma correção benfazeja e vira o pouco muito muitíssimo. Dessa forma a pobre a fugir para o seu quarto, abrigo inviolável, trancado. Tranca por dentro só abrindo a dependência quando os pais – já então propagando a paz, apresentada muitas vezes como brincadeira a desanuviar o ambiente deletério – quando os pais de bem, quer dizer amansados e os casais assim dispostos às vezes resolveram antes a coisa com perdões provisórios que nem sempre a cama santifica a equilibrar. Então batem, agora na porta. João num hábito de tocar com a quina da mão fechada na madeira da porta do quarto da filha e aí deve machucar a quina o ossinho e doer, fazendo aquele som oco grosso alto do toque, a fim de escutar lá dentro como está a filha, antes parar de chorar seu sofrimento no interior do aposento e quem sabe abafando no travesseiro lágrimas a molhar sua boneca presente do último aniversário – ah a festinha! – com lágrimas, porque apanhar não é carinho, dói e a violência é umidecida assim; ou não apanhando de fato, de fato o enfurecimento paterno contundindo a contundida com a pressão moral de ofensas no uso de palavras torpes e xingos próprios mesmo da ralé em cima da menina! Ele, ele batendo chamando quase implorando para Ju abrir a porta (a receber beijocas e pedidos de desculpa!?) Enquanto ela, a Maria, puxa como é bonita essa fêmea da espécie Homo sapiens; ela implora também a abertura, contudo Ju a conhece, as mulheres se conhecem bem e por isso se temem bem mais que a temer como agora papai... Implora e aqui pomos sinais prometidos do apóstrofo só para chamar atenção visto existir o verbo implorar, pouco usado entre os puros e justos e muito por seres humanos pusilâmines falhos ou distorcidos no seu ver. ‘Implora’ sim, primeiro, e depois grita exige promete (ai que medo das promessas, meu Deus!) geralmente se promete doces brinquedos presentes a fim de fazer ceder quem não queira ceder; ou no caso de Maria então direto: olhe aqui, diz em último recurso, olhe aqui sua fia da... aí suja a moral da mãe legítima que atirara Ju no asilo; não a si mesma é claro, ela uma acrescentada mãe à mãe da criança Ju. Apela! João contemporiza ameniza o dizer e quase exige que a esposa (nisto escreveria o escriba ‘exposa’ visto logo depois se separarem e Maria virando mesmo ex-esposa do esposo; o fato complicando mais o menos dessa estada de Ju nesse lar, ah doce lar) pede o homem e quase exige que a companheira abaixe a voz, gritava antes, que enfim não imponha tanto, ou a garota nunca mais abrindo o seu quarto e daí... ora, deixemos de absurdos: elinha no episódio acabou por abrir, então; e fora os três, ela chorando ofendida pela ofensa anterior quando correra a se fechar, não pela última ofensa do palavrório apenas de tinta e não de verdade, na verdade dos seus responsáveis na condução de sua sofrida existência.
          Embora desavenças no lar, apresentadas até agora, os pais adotivos não podem ser tachados de largarem a apócrifa tão dependente quanto parece, e parece pior...  enfim de a terem relegado às intempéries do mundo. Não se davam, davam lá uns tabefes nela e mais tabefes orais que mais doem ofendem desagregam afundam e destroem; sim corrigiam apesar de corrigenda impensada e desvirtuada; quase como os letrados falam de a correção ser pior que a rasura; em síntese a educação que Ju recebia e recebera nesse lar também desestruturado (não ao ponto baixo do ‘lar’ original dela) não construía, ademais ela precisando cuidados especiais escolas especiais e até médicos especiais, sabido que nem todo clínico entende de tudo na medicina; necessitando acompanhamento de psicólogos. Uma fortuna despendida pelos pais em favor dela. O casal, mais João que Maria, esta um tanto desinteressada na filha e no seu progresso, o casal passou com a menina por toda espécie de consultório. Quase sem resultado que não o conhecimento de se não poder fazer nada ou só pouco. Ju aos dez anos com idade mental de uns quatro ou cinco anos... Portanto não reagindo como um ser normal e dessa maneira os pais já decepcionados pela escolha que fizeram e o gasto medonho a trazê-la para o sudeste onde a residência; além do gasto fantástico também na manutenção da garota. Passaram a se questionar por que não pegamos a menina X ou a Z e em vez disso trouxemos “essa pamonha” palavras da mãe, “essa infeliz” palavras do pai. Até que resolveram mesmo ficar com ela em definitivo, o que existir de definitivo num ser humano; mantê-la no lar tendo suas deficiências. Permaneceu cinco anos na casa, a casa se desfez, o lar o matrimônio, e aí complicou mais para a jovenzinha.
          Aqui neste ponto lembramos um acontecimento para afiançar talvez descontrole ou anormalidade da jovem, ou só um momento esdrúxulo da existência de Ju; que serviu para compreender seu estado; sendo também quando mergulhamos na sua vida no seu sofrer. Entrada tal qual o lobo mau vestido de vovó para engolir chapeuzinho!? Quem sabe...
          A propósito da questão do baixo QI, como lhes diziam os especialistas a ensinar aos dois como tratá-la na sua incapacidade mental; a propósito lembro algo pungente sobre o tamanho do cérebro dela – porém este exemplo vindo já de quando nós ambos unidos pelo matrimônio, portanto um pouco mais tarde – cito um caso a meu ver grave, o qual pode aferir o grau sobretudo na área dos sentimentos de Ju. Então morrera o Orozimbo. Orozimbo era aquele fortalhão, embora idoso sorridente gozador como um jovem. De cabelos fartos brancos e pele enrugada, dava imenso valor à vida; ele tomava uma pela outra, vida e existência, o que é diverso mas isto não importando: faleceu. Sofreu horrores, de cento e dez quilos ficou a cinquenta de peso, o câncer fez estragos no seu intestino e só não o matou por questão hábil de tempo: teve um enfarto que o matou antes que o outro mal. Bem, isto não interessa, o que interessa mesmo nessa lembrança é que aproveito isso como exemplo sobre o comportamento de minha jovem esposa Ju no enterro do homem. Primeiro, no velório, inventou de arrancar uma das flores do defunto exposto e beijá-la cheirá-la guardá-la, ficou com a flor seca muito tempo entre suas bugigangas de mulher e menina ao mesmo tempo. Tornemos ao sepultamento de Orozimbo. No acompanhamento ela se extasiou perante capelas e estátuas das quadras milionárias, o Orozimbo ia ser sepultado na ala remediada, pois há também e muito mais a parte pobretona; a dele a da pequena-burguesia, com direito a túmulo de alvenaria pintura foto e dizeres, tudo isto vedado aos montículos sobre um defunto pobre. Durante o trajeto lento lerdo quase macabro no seu convencional de cerimônia, participando aquelas pessoas amigas, no rol das quais me incluía tendo Ju como meu anexo, apensa ao marido; e os conhecidos e os curiosos; em resumo era cortejo enorme para bem dos vivos chorosos de Orozimbo. O que válido realmente ao esclarecimento é que Ju me envergonhou, a fazer micagens às estátuas, a imitar duas delas na sugestão de algumas que pareciam voar (todas naquela expressão de dor e sofrimento que o artista imprime e exprime na escultura). Então Ju se fazia de estátua no meio do povo, dançava como estando num balé – por esse tempo recebera aulas de balé clássico, ela mais propensa à arte popular festiva, tudo pago pelos meus sogros, adianto neste atraso porque João e Maria praticamento me deram em casamento as mãos de Ju, se livrando dela. Tornemos ao passamento. Fiquei nas cores vermelho-roxo-branco de raiva e vergonha, mui constrangido visto como iria explicar à gente olhando aquele espetáculo que ela oferecia... não tem como explicar para um curioso e mais: como o faria a mil pessoas acompanhando o corso fúnebre! Enfim costurei uma justificativa banal e boba aos mais próximos presentes, estes decerto ausentes; e depois, em casa, aí peguei no pé dela, como se fala. O que sequer adiantou porque não entendia o que podendo estar errado ou em que ferira a educação e os modos nos moldes da sociedade séria e sofredora; apesar de no meio haver uns seres sofredores sim, porém havendo inclusive uns que pilheriavam, baixo educadamente, e um que outro a entabular negócios acompanhando um caixão... Teve mais problemas. Na hora do sepultamento quando alguém a discursar lembrando o morto vivo. No entanto Ju parecia não ouvi-lo e até gargalhou, aqui baixo dando vexame e dando para olhos de fora verem criticarem me envergonhando, como se fosse eu a ridicularizar um amigo que partia... porque os da gente, se errados, implicam a gente, a gente sofre a vergonha no lugar do íntimo que porventura desconheça o respeito. No caso de Ju, sabendo eu que ela não se desfazia do morto, não pretendia ofender toda uma civilização, tão só não possuindo maturidade a compreender; ou não entendia de convenções sociais.
          Entretanto voltemos à casa de João e Maria, onde a viver Ju como filha adotiva. O inferno flagrante em que viviam dispensando logo o possível paraíso que possa parecer o exterior duma família burguesa vista por um incauto que analise o exterior o periférico. Observe-se a expressão ‘a casa’, aí embutido a falsa paz e a intolerância verdadeira. O lar é o local do conviver e não apenas do viver papai mamãe os filhinhos, o lar engloba até a construção; a casa propriamente se impregna na família. Porque onde não se enliam os seres no sentimento, é um prédio seco, vira mesmo só a casa.
          Assim, preparado por anos observando de fora, assim entrei naquele santuário sagrado que é a família, patrimônio que o homem precisa ainda hoje e quiçá precisará no futuro preservar respeitar dignificar, em favor da paz de todos, a paz ideia tão abusada pelas canetas a serviço da humanidade. E, assim também, supondo eu o paraíso vendido na sociedade como se oferece algo na feira, encontrando o inferno nesse grupelho social numa ‘paz’ de fim de feira, quando se computa lucros & perdas e se destrói e se descarta da mercadoria na oferta de três por um ou se atira logo ao entulho à chateação dos lixeiros da prefeitura.
          Nem tanto. Sim nem tanto no caso pois não encontrei o desespero nem a falência; falência apenas no casamento que ia por água abaixo... Porém ainda mostrando o vigor da alegria falsa das roupas vistosas. Em outras palavras o casal tentando apresentar a um amigo ‘amigo’, quase conhecido e bem desconhecido, uma aparência dessas que indignariam vizinhos, não fossem os mesmos a tocar na mesma orquestra desafinada...
          Fazia anos tinha relações amistosas ou formais com a dupla, seja nos encontros fortuitos seja aceitando chamariscos sem consistência que as famílias oferecem aos amigos conhecidos e desconhecidos, comensais quase; a troco de reforçar laços, mostrar poderio ótimo à vaidade, ou somente para não se afundar na lama do desconhecimento. Enfim tentativa de valorizar conquistas ou posições.
          O citado paraíso.
          Encontrei o inferno.
          As relações difíceis que por alguns poucos anos constatei, observando computando interpretando estudando in loco e até à distância (então já a tentar colher os podres ali). Daí tirei minhas conclusões. Não, não foram apressadas, mesmo porque botava o olho do interesse – alimento básico da gente no planeta – interessado abordar recolher lucros (mas sem perdas dizia-me a bondade quase inimiga da inteligência).
          Cheguei nesse ninho, um apócrifo ao ninho, apareci sorridente, talvez matreiro não sei bem. Assim diante da dupla João e Maria (nisto me ocorre pudesse pôr João & Maria e depois dum tempo na crise corrigir para João versus Maria... prossigamos:) já nessa altura cobiçoso na prata da casa... haviam recebido em adoção a gauchinha de uns dez anos. Aliás fora atraído pelo casal amigo a fim de reforçar a aceitação social do novo membro, ao qual visionavam não apenas sustenção e sim promoção entre os da classe rica...
          Interrompamos um pouco este pensamento ao pensamento dominante então na moral burguesa que ambos possuíam; desejosos ampliar vínculos e reforçar posição na sociedade tacanha donde surgiram, dentro do costume duma urbe de médio porte; quem sabe se não pensando mais alto... Interrompamos porque nisso entro. Antes fôramos amigos e mesmo descontando os exageros de linguagem éramos se não amigos de fato bons conhecidos, eu mais de João. Este sendo desse tipo retraído introvertido medroso de se expor ou sabedor de suas próprias limitações, achou-me bom papo quiçá boa companhia por tempos. Exato por isso estreitamos relações, era eu um pobretão ou pobre com ameaça terrível (a riqueza é ameaça a um indivíduo fraco e falho!) – aguardava herança. Ora, quando Maria, sua recente companheira, soube dessa esperança, exultou instigou exigiu do esposo minha presença amiúde no lar; e desandou a me granjear boa vontade ofertas convites a festas, festas que eu detestava sem que a educação os bons modos a formalidade permitissem demonstrar. Porém chegara como um amigo gasto talvez, idoso com certeza, todavia pobre, para encontrar um casal dentro dos conformes, os conformes supõem apressados o amor a atração a harmonia, atirados ao chão nocauteados pela realidade, antes e imediato pelos pruridos da verdade e esta sim agora determinando o solo realmente. Mais para diante, e não demorou tanto, fui guindado ao altar dos milionários por um desaparecimento, o de um tio; a questão da herança aludida.
          A interrupção, aqui agora por sua vez interrompida, ela entrou neste texto a encaixar o gosto burguês de Maria e João, eles a defenderem os anseios de melhorar (leia-se enriquecer com cifrões) a posição social da casa, que eu supunha, desavisado, um lar. Portanto entrei como interessado, pelos interesses de ambos. Claro, não sabia o amigo dos amigos que estes soubessem da possibilidade de minha futura herança.
          Cheguei nesse ninho. Antes fizera socialmente algumas visitinhas rápidas, achara bonita a casa, acessível o dono da casa e belíssima a dona da casa (mais tarde conferiria ser também dona do ‘dono’ da casa...) Somente não me agradara a lambição a ladração a promiscuidade num lar decente pela canzarra. Fora algo esquisito pra mim a bela beijar a boca dum cachorro, sentá-lo à mesa como fosse gente; entretanto empolgado com a figura dela não dei importância demais. Eram bichos pra todos cantos, uns a xeretar nas barras das calças da gente – a rigor sentira um cheiro de cães até na gente da casa, quer dizer em Maria e João. Criavam, ao meu horror de pobre se supondo digno e sempre dando ou recebendo animaizinhos quando menino, criavam cachorros para vender, desses cheios de pedigree muita intimidade nada bravia porém selvagemente educada ao meu gosto; vendiam com lucro e para tanto a usar inclusive a internet que se iniciava a todo um planeta; através dela a contatar interessados; eram cachorros acessíveis educados amigos (apostrofemos as três palavras últimas...) Claro ter tido que ouvir todo histórico dos animais pelos animais racionais meus amigos; mais nesse menos: precisei guardar nomes de batismo ou só do cadastro dos irracionais, inteligentíssimos segundo os vendedores. Isto entre odores de xixi e cocô e de um que outro desinfetante a exalar no ambiente. E os visitei esporadicamente na residência mais vezes. Sobretudo na medida em que se aproximava a entrega legal da herança; então mais ainda reforçavam convites exigiam minha presença nos encontros festivos, festas a troco de qualquer lembrança importante ou pretexto que a memória encontra ao acaso – como o aniversário dum cachorro de raça; ou fosse algum aumento a se comemorar pela promoção no trabalho do chefe da família em certa incerta empresa; Maria continuava professora municipal como quando a vi extasiado na beleza dela pela primeira vez. De maneira que o negócio de transações canis sendo algo valioso porém acrescido à bolsa familiar; quanto à residência, esta propriedade do casal, ela adquirida numa pechincha imobiliária, ficando incrustada no bairro rico da urbe.
          Eram visitas, espaçadas embora, eram as de um senhor pobre, supostamente amigo dos dois amigos. Creio, tivesse companheira e fosse ela da faixa etária de ambos, suponho ficassem nos encontros a tagarelar as mulheres; enquanto os representantes machos presuntivamente cheios de poder e iniciativa a conversar sobre negócios e, longe do alcance auditivo delas, eles a tratar de política num marretar como bons brasileiros o governo, de futebol curiosamente nós ambos torcendo pelo mesmo esquadrão em crise... e a falar sobre mulher, com sexo de sobra, nisto a olhar de viés que elas ainda lá nos fundos em língua afiada (segundo a oposição). Não: os machos a conversar comportados de coisas vazias desnecessárias e quem sabe inexistentes como as guerras e a fome bastarda no mundo. Ah sim, também sobre a problemática do drama no trânsito e os veículos a conduzir os três (ou os quatro incluindo aqui a impossível esposa dum solteirão) eles a conduzi-los para onde preciso. João usava certa motocicleta de pequena potência, bem mais econômica que o automóvel gasto gastador de Maria; enquanto o solteirão a reclamar dos abusos e da falta no transporte público usaria ônibus do tipo circular a circular na urbe, até enriquecer – a tal herança – e daí a esquecer-se como era antigamente andar... Disso falavam. Quando os três juntos na sala no sofá na frente da mentirosa televisão, enquanto esta descansava na propaganda, tratavam da habitual conversa-fiada a encher o tempo e, natural e fatalmente, sobre cachorros. Havia sim gato, a gata da gata que me saíra Maria, a ronronar no colo da ama. Empregada doméstica a dona da casa não tinha. A vida ‘burguesamemente’ falando era então mui dura a comportar o enorme gasto.
          Foi nesse ponto adotarem Júlia.
          E aqui muda consideravelmente o enfoque e a situação na casa de João onde mandava Maria. Maria não conseguira engravidar, antes com anuência ou só ajudazinha doutros parceiros, depois com interferência do atual parceiro; João torcia por um filho, um homenzinho a levar-lhe no futuro o sobrenome, enquanto a ‘reprodutora’ estéril e sem que a medicina tivesse êxito durante anos a reverter convertê-la a se tornar mãe. Diante do drama é que optam por Ju; aquela questão já dita como varredura via internet, então cansados nas infrutíferas tentativas de encontrar nos abrigos da cidade e da região uma criança; até desembocar na entidade evangélica.
          Chega Ju.
          Agora estou dentro da casa. A título de um comensal? como um íntimo? como um membro do grupelho? Vamos devagarinho, a pisar nos ovos nesses tratamentos, mesmo porque Maria sempre guardou alguma reserva em se tratando de gente de fora dentro... Digamos me olhasse com desconfiança. Fora trabalhada pelo tempo pela vida difícil de pobre e já nos entreveros na casa dos pais dela; muito perdera (aprendera!?) nos relacionamentos amorosos desfeitos e nos casamentos com separações desastrosas – para ter agora uma entrega total perante um amigo apresentado convencionalmente. Lia em meus olhos concupiscência e má-fé; talvez lesse na presença um admirador de sua inegável beleza, feliz nisto; entretanto percebendo pelo sexto sentido um perigo por macho insatisfeito cobiçoso e faminto; apesar ter o visitante mais de sessenta anos. Enfim, achando positivo manter amizade e cultivar essa amizade por conta da herança porvindoura então ainda enublada, pelas promessas da morte dum tio distante na geografia e mais no sentimento. Ora, isto não mais que negócio, semelhando a da venda de cachorro ou da compra doutra residência, trocando a pobre dela bem arranjada por uma mansão talvez. Mero negócio... Enquanto, mantinha comigo a diplomacia amistosa, não diria propriamente amizade. Amizade sim eu tendo com o varão. Apreciava o amigo, talvez mais por seu aspecto acanhado tímido estreito; enquanto que ele demonstrava admirar minha prudência; o que não seria válido mais tarde quando virara eu um milionário... Neste ponto balançaria um pouco nossa relação de homens cônscios e probos. O curioso nessa convivência amiga era o fato da diferença de idade, pois ele um rapaz de seus quarenta anos, Maria também; enquanto o amigo dele passando dos sessenta; tão pobre quanto ele mesmo e a depender de ganhos fortuitos no trabalho inseguro. A insegurança e o interesse no teor dos assuntos nos unia. Inclusive estando presente conosco a desconfiada esposa dele. Ao ficar quase da noite para o dia milionário, isso me afastou um pouco da intimidade com ele, ela nessa altura já divorciada do amigo e por causa disso emporcalhando seu ‘ex’ atirando contra ele de todas direções; também passou a me emporcalhar e a me depreciar através de horríveis palavras, a fim de me ferir toda uma geração.
          Mas eis que nos aparece Ju.
          Agora não são duas pessoas que visito e inclusive sou requestado frequente pelos membros. Aquela questão antiga como o mundo: um visitante rico enriquece enobrecendo os pobres. Tanto João quanto Maria de origem quase humilde, os pais lutadores; assim o casal reside quase por acaso no bairro milionário, embora assalariados e como todo assalariado a reclamar do ganho pouco e da fome muita da inflação e dos desmandos do governo a fatiar engolir fatia do salário. Assim. Nada obstante querem e conseguem parcialmente mostrar não o luxo e sim poder aparente no mercado. Gente é dado comercial e assim tratada pelo banco, todos dependemos das redes financeiras. Eles dois cada um assim e em conjunto assim. Agora temos mais um conviva, o qual irá consumir em gastos diários nas consultas médicas na escola etc., uma importância do nem sempre equilibrado orçamento da casa, aliás não feito em conjunto mas pelo João, o qual frequentemente recorre às casas bancárias. Agora muda, muda a pior no item gasto, a demanda aumenta na conta familial com Ju. Maria estrila, não quer mais contribuir com sua parcela na despesa, na despesa culpa o marido esbanjador (a canoa fazia de há muito água... apenas piorando a situação agora). João busca empréstimos, primeiro ‘canta’, isto dizer popular, canta o amigo ainda pobre, este se não necessitado tanto, igualmente freguês dos banqueiros. As festas e confraternizações diminuem enquanto ocorre aumento na falta de meios e crescem os pedidos nos estabelecimentos de crédito (deveria ser débito e não crédito, haja visto o juro escorchante). A água entra em maior quantidade, sobretudo agora, agora temos Ju. 
          Daí julgar que a menina de olhos cintilantes, que a menina fosse em si mesma uma grande consumidora... (talvez só numa lembrança de Maria, a culpar pelo arraso doméstico a rival-adversária-inimiga, loguinho mostraria a mãe as garras à filha) parece o julgamento um abuso; porque não veio comilona, embora um pouco tendente às massas e quem sabe a herdar da mãe fabricante de bebês para o mercado exportador ou a herdar do pai que nunca vira, inconstante e sumido, até provável disso vindo a propensão, pois adorava macarronada pizza e muito doce. Todavia chegara já cheiinha de corpo, vazia na mente!? sabe-se lá. Agora, naquele agora do enriquecimento numérico da família de João, agora aproveita como se antes no abrigo evangélico passasse fome tão robusta como chegara... Agora desanda a ingerir de tudo na facilidade que o novo lar lhe oferece; isso porque ninguém iria se opor, mesmo a ranzinzice de Maria, ninguém negando coisa alguma à filha. Sobremaneira este o pensar do pai, excessivamente sentimental e realizado nos primeiros meses com a nova conviva. Entretanto posteriormente acordou pensou repensou pesou, acabou levando Ju ao médico. Sim havia algo errado...
          Nesse ponto, apartado pela novidade dessa chegada tão ansiada pelos pais, fiquei de fora um tempo. No entanto logo reatamos a frequência. Então comecei a observar a menina e a estudá-la, chegando pensar se não poderia inclusive ajudar a casa resolver ao menos o problema financeiro (vinha a galope a herança meio em segredo e me animava quase a prometer, difundindo um ganho que me perderia). Ao menos nisso, já vendo por alto grandes dramas nessa chegada, nada intempestiva visto ter sido lenta a procura de uma adotiva por anos. Não podia de fato antever, via como fosse um quadro diante de mim e quase a posteriori embora antecipadamente os problemas em que eles se envolviam por causa dela; por descobrir, mesmo não sendo um profissional da saúde mas homem comum, coisas gravíssimas na condução da garota.
          Foram anos, creio uns três, a registrar falhas em Ju; primeiro nela mesma pois de olhos a brilhar como incêndio vulcão de um lado e doutro um conjunto dum ser apagado... observava os pais adotivos no trato com essa menina, o que requerendo atenção mais meticulosa mais decidida, para ser decisiva. Aqui, agora, necessário enfim, é que entra um ditado matuto caindo qual luva “agora é que a porca torce o rabo”, assim falam os da roça pra dizer o momento da decisão. Contudo fora onde falharam ambos educadores: o casal desandou a aumentar seus atritos, já velhos amigos-inimigos da família. Sobrando então à criança, Ju uma criança. Interessante unir o brilho nos olhos incendidos dela aos de outra menina quando menino. Então brincávamos de tudo e apreciava aquilo que chamávamos “adivinhação”, que incluía sim adivinhações e mais; lembro um dia uma noite a lua em nossa roça eu garoto roceiro assim como outros; ela, a garota de olhos cintilantes comandava o dizer, a dizer “você será...” isto ou aquilo quando crescer; a mim me coube algo que me arrasaria na minha ignorância ou minha inocência, então Laura me indaga de chofre “você gostaria de morrer com um punhal de ouro no coração!?”
          Oh essa lembrança sem qualquer sentido... Fiquei a sofrer as palavras da garota semanas fora os sonhos os pesadelos sempre ligados ao final da pergunta dela, eu salvo, ‘salvo’, pelos gritos da família, a mãe: “Laura! vem pra casa já”.
          Enfim Ju uma criança.
          As consultas a especialistas aumentaram (juntamente com os gastos...) a troca de uma por outra escola mais adequada à menina sem sucesso – o restante seriam os subterfúgios a enganar na aparência a sociedade; porque nós, os íntimos, víamos a bancarrota e a canoa indo soçobrar entre ‘tapas e beijos!’ usando aqui uma expressão hoje mui em voga. Agora eram três a afundar... entre gritos brigas e violências mais bem configuradas. Um dia cheguei aos meus amigos, recebido com festa por ambos e festas dos cães já a se alegrarem com meu cheiro de gente próxima; entretanto percebi hematomas em Ju, que me veio também a sorrir; sem me beijar na formalidade social de Maria e sem os apertos de mãos e abraços do pai dela: ela fria nisso, nos afagos exteriores, porém mostrou certa simpatia pelo tio... ah sim, a menina me chamava na época Tio. Mais tarde muita vez me tratou assim e não “meu querido” “meu amor” como falam as companheiras ao chegar o marido, eu  seu esposo, casado não no padre, adiantemos a verdade. Era seu Tio nesse tempo.
          Todavia não adiantemos demais este atraso.



- Adoção

Júlia veio viu e venceu? Aqui ficaríamos devendo o que seja vencer. Chegou a adotiva ao solar de João e Maria? Já vimos haver vindo a aportar numa família em crise meses e portanto indo a soçobrar sobrando quase apenas uma residência e não um bem constituído lar. Tomamo-la vítima quem sabe mui sofrida desde sua geração, a mãe com gravidez num estado precário; fora mantida por uma instituição religiosa de caridade – nessas condições não poderia por mais forçássemos ser uma vencedora; se retomássemos ainda a configuração mais precisa de vencer, então sendo ‘vencer’ provisoriamente e atirando conclusões a futuros capítulos. Contudo chegou à casa de João onde determinava os paralelos Maria, a bela.
          A adoção custara ao casal muitos aborrecimentos, enormes gastos (daí mais aborrecimentos) e movimentação intensa, sobrando nisto até aos conviventes que sequer tiveram conhecimento do dia a dia dos consortes. Sem falar nas faltas ao emprego, abonadas ou não e aqui entrando o sabido sistema da corrupçãozinha, uma gracinha decerto, a corrupção quase despercebida no fornecimento por amizade ou compra (ah o negócio!) de atestado médico falso para limpar uma ficha de trabalho público, no caso da escola municipal dela; e o equivalente no serviço na empresa dele, o que deu muita chateação e um desgaste a ponto de João andar lá um pouco mal visto. Todo este parágrafo para mostrar o labor que tiveram ambos ‘para-pais’ (criação a fim dizer: pais ainda não pais) enfim os problemas deles para conseguir uma filha, prontinha no negócio escuso de não poderem gerar um ente de suas entranhas; reportando aqui ao drama da fêmea do casal por ser estéril; João também estéril, o futuro revelaria ao meu amigo ele não poder ter a alegria em levar seu nome à posteridade com um filho de sua lavra e do seu sangue, mesmo esquecendo Maria; nunca iria realmente depois esquecê-la (ela não deixaria esquecer...) apesar do divórcio.
          Aqui retomamos o tão recorrente assunto e por isso gasto, o dinheiro desembolsado, grave ao estrato não propriamente desfavorecido mas frágil da pobreza a que estavam sujeitos. Por fim e não obstante acabaram trazendo Ju de avião, preço nas nuvens! curiosamente de avião sem poderem no momento sequer ir e vir de ônibus de carreira na ligação sul-sudeste, pior fosse o norte mais longe mais caro. Conseguiram cotizar parentes e amigos, embora os grupos alegando insuficiência de fundos e bolsos vazios a fugir de compromissos; arranjaram auxílio de conhecidos, sem nisto tocarem desconhecidos e o contrário seria ilógico – assim me ‘mordendo’ um pouco, abaixei a crista, e dessa forma passei umas notas da minha pobreza de solteiro a eles, não suportando pedidos daqueles olhos verdes implorantes belíssimos da bela Maria. Óbulo da viúva? Ora, indaguei aos meus botões, pra quê. No lugar deles iria inclusive de carona, pagaria passagem terrestre. Não. Quiseram ir rápido e sobretudo mostrar ao bairro milionário serem ao menos ricos, visto andar sua mansão mambembe incrustada no local dos que esbanjam posses. Assim foram os dois com serviço de bordo nas nuvens e tornaram a três com a menina apensa à familinha deles, desembarcando no aeroporto local, aeroporto inexpressivo mas um representante das conquistas espaciais de nossa época, naquela época.
          Chegou Ju.
          Os primeiros dias do primeiro ano no lar foram instigadores e movimentados, quiçá pela alegria quiçá pela novidade, sem a chateação da desmancha-prazeres que é a rotina. Então todo mundo – da família dos parentes das amizades dos conhecidos desconhecidos – todo mundo chamado a participar.
          Maria dava as cartas. E como... João se entusiasmara se entusiasmava, só depois a rotina deu-lhe ultimato mandou calar a boca e o amigo se calou ou se conteve. Ela não. Chegou à petulância, petulância não serviria aqui substituamos por capricho apenas, mais tarde agirá petulantemente ao exigir, no ridículo que é alguém exigir e impor; sim teve o capricho e o cuidado meticuloso nessa adoção em pôr todos a ficar à sua volta no trabalho... Como, me parecia, pensasse que todo mundo houvese trazido uma Júlia para adotar como filha, não só o casal. Fulano? perguntou e imediato respondeu Maria: mando ficar com a segunda-feira, visto eu ter que dar aula, aula tenho de ginástica (ai os pneuzinhos) ter ainda que visitar a amiga xis. Terça-feira deixo para a tia . A quarta, aquele bobalhão do seu amigo (eu, ela olha pra ele ele num fazer de cabeça “sim querida”) o sujeito não faz nada na vida mesmo; a Maria um ser comum quase comuníssima, salvo sua beleza sem par a dar água na boca da gente; e por ser comum mistura ambas ideias vida-e-existência, reafirmo não ser o mesmo. Prossigamos nesta arenga. Ele, ela disse, que cuide da Ju na quarta-feira, eu tenho nesse dia aula tenho encontro com a... e tenho consulta com o Doutor Y. Na quinta... não, na quinta-feira ela fica mesmo aqui em casa, você olha ela... ora ora, engabele o sem-vergonha do seu chefe, nem toca ele em aumento!? Na sexta não posso, vamos ver quem ficaria, onde a levarmos se distrair, e além de tudo meu carro anda não andando, aquela falha que eu disse; um despropósito pago e o mecânico não encontra o defeito; uh, achei a solução: você leva a menina na moto, “motoca” pronuncia a bela dona e... ah no fim de semana a gente inventa como e onde – mesmo porque precisamos socializar Ju, pô-la ao nível da alta sociedade ou você vai querer intronizar nossa filha num antro de debiloides e de pobreza se não miséria!! que é o dos seus parentes.
          Nesta coisa não entrando eles em acordo, João epitetava nos mesmos termos a parentela da esposa, longe da esposa perto de minhas orelhas amigas... Oh sim, no problema o lembrete das águas a invadir a incauta canoa.
          Nesta coisa também cabem umas ideias bem consentâneas à crise de antes de Ju, com Ju, e talvez depois de Ju; enfim a problemática de sua adoção e integração na família. Os esposos se desentendiam; sim esposos confirmam documentos do cartório e os presentes na cerimônia e as fotos à posteridade, numa destas o recém-casado segura brincalhão Maria após assinaturas e no gargalhar da torcida quase uniformizada, segura a esposinha ao colo como fora seu bebê, o pai um gigante grandalhão a nenê a jovem miúda pequena magra, daí hoje ralhar a balança e os pneuzinhos, oh que horror. Então já se desentendiam. Ela ficava emburrada, negava as coisas e isto gravíssimo a um descendente de adão; uma vez, emburrada magoada chateada brigada com ele, não é que o deixou pra fora de casa! noutra casa onde moraram; entrou com seu carro, ele chegou de moto e ficou a implorar não amor mas que seu amor o deixasse pelo menos entrar em casa, dormiu no sereno até tardão. Enquanto nas brigas, o filho de adão andava dias carrancudo e tristonho, brabo com ela por isso ou por novas velhas coisas a... ih, geralmente nunca o casal lembrando o porquê do desentendimento; e nestas linhas não importa. Bem, prossigamos no mal. Uma vez, uma noite após dia festivo, ora era seu aniversário! e Maria convidara sua gente bem; assim ele tratava raivoso o pessoal relacionado e feliz por rico, ou não!? enfim a gente que trazia para mostrar sua decorada residência, antes da chegada de Ju. Lá pelas tantas, o churrasco a se apagar, as garrafas vazias cheias e bêbadas as pessoas convidadas; eis que João se descobre sozinho num canto da casa, apartado do rebuliço, quase a escanteio na sua festa natalícia. Toma uma decisão inusitada e sai, passa por convivas sem sequer ser percebido, ganha a rua, foge na rua, anda na rua ao deus-dará; e se pega na escuridão da escuridão da solidão, um solitário nas suas entranhas mais profundas, tal qual seu amigo, eu, o amigo pobre e por pobreza não convidado à festa da gente chique convidada de Maria sob pretexto festejar o aniversário de João. João se pega solitário, sem ser na multidão e estando no extremo da periferia miserável, dessas que se não escuta gente, apenas a leveza morna dum ladrado longe, de um cão desconhecido... Só nesse ponto, triste ainda, já curtido seu sofrimento do que lhe representou o abandono no próprio lar, no lar tornado um desconhecido; apenas nesse ponto se pôs ao retorno. Madrugada fria, abre o portãozinho, adentra, entra seu fora, ainda machucado. Maria a chorar desesperada sob consolo dumas parentas pelo sumiço daquele esposo filho pródigo. Os dias subsequentes ainda foram de constrangimento. Somente mais adiante retomariam a rotina do desentender ‘normal’... Logo também seria o casal revolvido pela ideia da adoção. 
          Os primeiros tempos com a adotada, os começos foram interessantes e de estudo; o casal, feliz, feliz pela novidade e precisando melhor conhecer a filha; e Ju precisando experimentar mais o novo ambiente; e assim estavam felizes e disso não sabiam, como o dito redito gasto afirma; porém já nos primeiros desses dias flagraram os adultos algumas limitações na neófita da nova seita, o lar estranho a se conhecer é tal qual numa religião, havendo já velhos membros aos novos. Havia então uma necessidade aos três no conhecimento e na experimentação, trazendo os entraves nas descobertas, nem sempre bons. Todavia os pais acharam por bem insistir num quesito e aqui até João concordando em número grau intensidade com a mulher, ele que era meio contido enquanto ela expansiva, a meu ver com expansividade descontrolada, desse tipo que aprecia mostrar-se. Até ele aceitando a questão de relacionar a filha à nova sociedade, supondo esta a se beneficiar ao receber tal bênção; porque Ju na primeira semana era-lhes a quintessência do bem, daí imaginarem uma oferta da bondade familial à sociedade como um todo, não apenas ao grupo bem de vida com o qual mais se relacionavam ambos então.
          Passaram, mesmo o contido chefe da casa a participar não só a mando da mulher, passaram eles a convidar todos para conhecer (voltamos a indagar que é conhecer!) a presenciar in loco essa conquista do casal, a filha Júlia. Coalharam festas... isto quem sabe imprecisão e abuso de linguagem mas realmente se somaram as muitas oportunidades de visitas: estas entravam e saiam como convidados – Ju na berlinda.
          Também não foi apenas recebimento pois foram, agora os três, em visita. Tanques de combustível gastos nessas visitas. João sempre com falta de dinheiro, agora inclusive pagando os frentistas no posto de serviço ao carro da companheira, a adoçar a relação familial. E assim herdei minha fatia. Já vira Ju, inclusive participara financeiramente, a viagem como disse antes; entretanto sabendo pouco dessa bela presença – para mim Ju era na ocasião um presente – e agora recebo a família no meu lar, e que lar! uma casa pobre e decerto sujeita a mil críticas dos olhos feminis; porque não primava eu pelo cuidado, isto não sendo um defeito meu apenas, creio seja o comum aos machos solteiros, talvez grave a receber visita.
          Em torno desse acontecimento vou agora nesta lembrança tentar relatar e retratar o meu lado o meu sentimento, o que constatei vendo a chegada do carro velho de Maria com eles. Eles? ela ele elinha de uns dez anos e eles. Eles! ora, a Maria seduzida creio pelos sentimentos de Ju, a Maria me trouxe mil cachorros, a gata não, mil e um de todos tamanhos raças e idade. Pior: soltou-os, aqui é mesmo soltar os cachorros, tomei assim. Soltou liberando os animais no meu quintal, a passar por cima de minhas plantas, hortaliças a crescer em canteiros sem técnicas porém estimados; a defecar cheirar remexer sujar minha terra – a bem da verdade alugada pois pagava aluguel, pagava em dia, me glorifico. A entrar a revirar por dentro a casa, num espetáculo lindo de se ver e indigno a meu ver. Enquanto nós quatro sentados na varanda em cadeirões de plástico branco, sujos ou só encardidos, numa tagarelice admitida aos que se conhecem (não mais aprofundemos o conhecer do conhecer...) Não obstante eu nisso um pouco travado, quem sabe me gritando por dentro a invasão bárbara daqueles irracionais mui ativos ao meu gosto e daqueles imprevistos ou incivilizados racionais, abusivos todos visitantes ao abrigo inviolável dum solitário.
          Tardaram à eternidade e se foram, eu a ficar na limpeza a enterrar sujidades e a recolher lixos. Indignado.
          Por que indignado se recebera um presente!
          Natural haver apreciado olhar mais de perto Ju, estudar mesmo que apressadamente seus quês; entretanto me ficara algo como um nó na garganta; coisa assim de se não dizer, não poder falar, sem concordar embora. Maria chegou viu venceu na sua opinião, e o meu amigo fez sim de cabeça tendo quase nem aberto a boca na presença de suas mulheres e minhas orelhas arreganhadas; com minha língua um bocado travada ou lerda. Comunicou a bela imperando as decisões de sua casa contra a minha, afirmou ser minha a quarta-feira!
          Se foram. Fiquei. Fiquei aturdido, indignado e mais indignado condenando-me em não responder-lhe na hora e à altura sobre minha escala como cuidador de criança. Como se eu devesse acatar aceitar jogar na ponta direita ou no gol por ordem do técnico do time, sem reclamação como fora um menininho e não um velhote apesar de amigo. Fiquei remoendo. Duas horas depois acionei o telefone. Aí soltei os cachorros nela pela imposição e por querer tornar-me babá da filha dela. Aqui a ser duro e ofensivo pra desbancar a Maria. Ela ouviu-me quase sem falar, quase sem revide.
          Então candidatei-me a adversário se não seu inimigo... Maria ficou mais de mês sem contatar-me; nem João passando muito do “olá” amigo na rua.
          Depois, não tanto depois, por um descuido da boca talvez, numa referência indevida à minha alegria pela morte do tio meio desconhecido e assim vazando o informe, conhecida a possibilidade da herança, ah essa herança que reviraria meu ser, nossos seres; depois sabendo o amigo disso e sabendo bem mais a esposa dele – então Maria ‘esquecendo’ ofensas voltou a me convidar às recepções na residência deles, um imóvel candidato a ser mansão sabe-se lá, a fim de melhorar a posição familial no seio dos mais poderosos...
          Ah isto já é outra conversa.




- Punhal

Júlia, a jovenzinha, não obstante esses atritos da mãe com o ‘tio’ os quais podiam até desembocar em inimizade dentro de um bom ou razoável relacionamento amigo para toda vida; filosoficamente isto impossível graças ao trabalho da experiência nas existências a se suceder mas durando ao menos pelo resto de uma existência; e não seria nesta última hipótese o “eterno enquanto dure” do poeta? Enfim, apesar do falatório que decerto as pobres orelhas do João ouviram sobre o grosseiro o estúpido e outras benesses agora na baixaria dos xingamentos das classes baixas desbocadas – todos vocábulos sobre mim, para que não ficasse pedra sobre pedra no meu edifício. Enfim ouvindo lá na casa deles Ju, após Maria desligar o fone bater o fone na minha cara, diria a força de expressão; essa mesma Ju entretanto desconhecendo a força das palavras a dinamitar minha fortaleza; estava a jovenzinha defendida dessa verborreia e até de possível ataque com luvas de box, por sua ingenuidade.
          Começava para todos nós nesse círculo quase fechado, no mínimo estreito, a consciência da limitação da garota. Foi inclusive dito que aos dez não tendo mais que quatro ou cinco anos a pobre.
          Começava nossa... note-se: ‘nossa’, estava o amigo pobre sendo engolido pelos dramas desse lar, já anteriormente em crise – tinha início e se prolongaria por anos não só a constatação porém a luta contra as inferioridades delinha. Ora, aqui é necessário também aguardar uma definição e melhormente um conceito de inferioridade. Hoje, embora cônscio dos dramas observados nela e sobre ela e ainda pesando nos que a educavam sem saber como formar (ah, educar é outro vocábulo devedor e precisamos sobre ele um conceito mais eficaz). Em resumo, não está fora de propósito admitir que Ju era, é, um ser limitadíssimo. Sem na contrapartida atirar pela janela a ideia de a jovem ser perigosa...
          Isto quase vem a calhar em vista da lembrança daquela visita intempestiva da nova família à casa velha do velho, eu. Onde após nos atritamos desaforadamente com auxílio do telefone. O telefone é o anjo bom dos que não têm coragem, quiçá oportunidade e não foi meu caso em casa. Porque naquele dia observei a menina a fundo, naquele dia a mim tão marcante (nunca, suponho, se-lo-ia à Ju, meio desligada da realidade, não da verdade: da realidade mesmo). Em minha casa enquanto conversávamos abobrinhas borrachas ótimas numa conversa-fiada adulta; claro havermos trocado ideias sobre a educanda, assunto principal da visita deles, numa deferência então ao então pobretão por um casal da classe alta... enquanto isso Ju, cansada ouvir aquelas banalidades e baboseiras e futilidades da gente grande, o pai gigante a mãe mediana para a estatura feminina e a filha, ela, sendo quase de sua medida e ainda o terceiro adulto naquela conversa pouco maior que Maria, pois a garota só olhava e ouvia daí cansar; cansada disso se levantou, quase num fazer despencar a leveza da cadeira plástica no solo e já no ato recebendo admoestação de Maria, nós outros ficando por isso constrangidos – não se arranca a orelha dum filho na vista da visita de cortezia, aí a cortezia... Bem, enquanto a nossa fala séria ela foi verificar e nós curiosos então observando a curiosidade talvez proveitosa de Ju, daí fora brincar com os cães deles a me badernar a horta; e a examinar cada coisa do quintal estranho. Nesse ponto meus olhos me devolveram algo pra mim aterrador. Aqui insisto aterrador por ter sido a primeira constatação da anormalidade dela; posteriormente somaria outras dezenas semelhantes; em todas, a presença do dado violento. Ora, a gente pode praticar a violência até escrevendo divulgando falando e, claro, fazendo algo que possa ferir alguém; e a sociedade como um todo. Aliás um mal que afeta o bem que é a televisão e outras mídias é se gastar tanto tempo tanto espaço tanta inteligência com acontecimento cuja temática é a violência. Todos conhecem horários próprios e especializados nisso na tevê. Essa primeira constatação de algo errado em Ju foi a minha casa de abelhas na minha casa. Mais precisamente as miúdas jataís, inofensivas. Pois que Ju encontrou no muro um dos tubos de cera de saída-entrada dos insetinhos. Havia numa reforma... antes lembro que fazer reforma na casa alugada é perder dinheiro, o dinheiro que eu não possuía aliás; fiz acordo com o senhorio para reformar o muro caindo e ir pagando amortizando ao pagar o aluguel do mês da casa, foi isso a reforma. Bem, havia nessa reforma exigido que meu pedreiro ao aplicar o reboco o fizesse com atenção onde a ‘caixa’ delas, o profissional compusera até leve acabamento artístico, embelezando mais aquela beleza natural. Não é que Ju, eu imaginando lá de longe em conversa com seus pais, imaginando meras brincadeiras e curiosidades infantis, não é que a menina amassou furou arrancou a matéria da casinha, aí sim não deixando pedra sobre pedra na construção de cera que custara meses de trabalho miúdo às artífices! Ora bolas, diante do crime, tomei por crime, ofendido, diante do mau ato, nem uma palavra dos pais dela; inclusive logo eles a tentar interferir sim porém sobre o dono da casa, a desviar-lhe atenção a fim de introduzir no lugar outro convite para uma nova festividade além das costumeiras, as quais nunca seriam normais sob minha ótica.
          Aqui poderia encerrar-se um exemplo do mal feito, bem feito, digo pondo um trocadilho igualmente mal posto. Não. Aqui não se encerra, tem início uma série de observações dessa natureza ou pior, pior sim que eliminar tranquilas silenciosas pacíficas jataís. Lamentavelmente início, desejava fosse fim, o fim costuma fechar uma vida de preocupações.
          Em suma, retomamos nossas visitas, a rigor as minhas visitas rogadas insistidas por eles; depois quase exigidas, exigida a minha presença em casa deles; nisso entra a questão da herança que iria disparar sobre mim o interesse; comercial? de negócio? o interesse do casal...
          Na casa nessas visitas todos dias sendo de novas descobertas nas descobertas de Ju. Claro me agradar a aprendizagem, lenta embora, nas coisas do mundo dos seres normais, tidos normais e bastante convencionalistas. No entanto era preocupante o que víamos logo como anormalidades ou deformações do direito na linha comum do cidadão enquanto cidadão. Continuava – continuei por anos – no estudo dessa gaúcha. E a par das observações no que sintomático (e quase sempre negativo ao olhar normal) todos nós aproveitávamos em forma de brincadeira, sã veja-se bem, aproveitávamos a comentar o que se podia falar até na sua frente. Por exemplo, eu perguntava se não tinha saudade dos colegas no orfanato; quem mais lembrava de lá; que mais fazia quando no abrigo. Negativo. Não tendo qualquer ligação nem da memória nem afetiva do pessoal de quem tanto dependera nos desarranjos da família original; vimos que sequer tivera um lar com as características de lar mesmo. Nada. Parecia ter feito tábula rasa. Num momento, e terá sido marcante e ferido a menina, nesse momento fora adotada por família bem constituída lá no seu rincão; posteriormente, decerto constatando aqueles pais a incapacidade até humana (isto não será demais forte!) então os mesmos devolveram Ju aos evangélicos, os quais a repassariam para João e Maria, à condução educativa que ora destrinchamos. Nem isso parecendo haver tocado os sentimentos da menina! Nisto penso que não pensava então andar metido a estudo psicológico dum ser; e se imaginasse andar estudando, estaria no meu direito numa terra em que todo mundo é técnico da seleção ou crítico nos desandos políticos; ninguém neste país deixa de ofertar sua opinião sobre coisas e atos de outrem.
          Contudo, o que acrescemos daqui por diante é relacionado à vivência dela em o novo lar. Ah lar, doce lar...
          Ju foi muito observada, quando observava e anotava visto ter eu memória nada de elefante, elefante dizem ter memória fantástica; então Ju fazia atrapalhadas lá na sua casa – parecia estar completamente integrada e se sentir à vontade no lar – eram atrapalhadas em meio ao ramerrão... ah sim, lembro-me as infrutíferas tentativas sobremaneira de Maria a dar-lhe ambiente de menina de sua própria idade, o que ótimo no serviço de educação, atraindo convidando crianças e mesmo levando a filha às outrass meninas de famílias conhecidas; e assim trouxe companheiras aos brinquedos de Ju na casa. Tudo negativo. Ela não se entrosando; ou a tentar sim apreciar amar simpatizar-se com outros mas no fim acabava só, semelhando o exército de um só homem nessa batalha se não ingrata difícil de promoção e integração afetiva. Parece que primava pela solidão, solidão acompanhada nunca de gente e sim de coisas. Eram assim as brincadeiras de Ju: sozinha. Às mais das vezes com presença externa em ajuda dos cães e dos pássaros e da gata da gata Maria... Aqui uma primeira abordagem, incompleta quiçá, porém próximo do essencial para registrar os desvios dela; nisso rememorando antes o que antes fizera em minha residência, a questão das abelhinhas. Pois não é que Ju resolve num furor de menina inocente – a inocência não existe, até prova em contrário; que os filósofos nos deem uma definição diversa do que temos hoje que é furor – em suma, num furorzinho nada uma gracinha deixa suas bonecas, uma delas havia furado olho doutra arrancara um braço e piormente apunhalara (uh, aqui me dói...) estripara a mais querida por ela entre os brinquedos, deixando cravada a faca da cozinha de Maria no corpo inerte. Lógico e lógica a reação materna e o falatório brabo de João nessa tragédia de brincadeira. Contudo desejo mesmo nesse tratar tratar de algo mais sério, se é que se possa considerar seriedade na diversão de menino: Ju resolveu ou resolveu por ela seu furor, advindo segundo a mãe “dumas palmadas por causa de minha (dela) irritação”; nunca Maria admitindo raiva com todos seus componentes e assim sua raiva virando mera irritação, o que uma forma mais bonita das bonitas e educadas criaturas manifestarem sua violência numa explosão e agora, ai! sai de perto... Resumindo, Ju tomou decisão no estrago geral acabar também com a gata da mãe, esta que meus olhos viam uma gatona. Torceu-lhe o pescoço, levou umas arranhadas e sangrou e daí mais fustigou a bichana. Após a estremeção do animal dando adeus à vida e ao sono, entrou a felina no sono eterno da morte; se bem este eterno precisando revisão. Enfim matou e ainda pisoteou o cadáver da gata. Após, quem sabe ao gosto infantil a imitar adultos, imitando um enterro um sepultamento, igual veria posteriormente o de Orozimbo; aí pondo cruzinha improvisada e tudo. Nada. Nada convenceu Maria ao chegar da aula, vendo aquele flagrante criminoso! Nunca Ju anteriormente, quem sabe isso ocorrera no sul agora ela no seu doce lar no sudeste, nunca havia apanhado tanto!! Apanhou, ficou esfolada, além do castigo e assim a casa nesse e noutro dia imediato virou dilúvio de lágrimas. Mais verteu Maria por sua gata de estimação que Ju, a que torturara e dera fim ao bicho.
          Agora, neste momento, me indago se minha amiga Maria houvesse ralhado, um pouco menos violentamente que no caso da gata dela, ralhado a filha no episódio de minhas estimadas abelhas – não seria eu o chorão!  
          Choraram no dia, Ju só na horinha mesma da correção se correção depois e quase imediato secaram-se seus olhos oblíquos; seriam oblíquos? sei lá; enfim me pareciam então asiáticos escondendo os globos e se fechando em canoa. Mui chorou sim Maria, indignada até no outro dia e noutro.
          Diante da coisa nos assustamos, nos assombramos. João narrou para o velho seu amigo, eu, contou tim-tim por tim-tim o que não viu, viu Maria ainda chorando a narrar ao marido o estrago. De maneira que me assustei, particularmente me assustei porque isso corroborou com as minhas conclusões então apressadas, pois a ninguém é lícito dar a última palavra sobre uma criança, criança essa até bela fisicamente mas horrorosa à primeira vista, analisados seus atos: os que havia eu percebido antes e agora os atos que o amigo me repassava do contar da esposa, a indignada Maria.
          É neste ponto entrar o punhal. A faca virada punhal que Ju pegara – apreciava tomar na gaveta de talheres ou no escorredor dos trens secando do arrumar cozinha, como falamos aqui na região; ela gostava pegar talheres, facas em específico, as inocentes não afiadas que se usa pra comer bonitinho auxiliando o garfo no prato a amontoar arroz e feijão e carne, verdura Maria não conseguindo fazer Ju gostar entretanto a carne! – pegara então uma faca realmente, esta agora de ponta, extraída da gaveta, para furar a boneca de estimação. Esclareçamos um ponto dúbio, aquela faca assassina é outra: agora fala-se do punhal mesmo.
          Desde aqui já podemos inferir o absurdo de alguns pais darem armas, mormente as de fogo, em mãos dos filhos. Condenamos. Porém eu não era o pai dela. Apesar disso não poderia deixar de me condenar: ofertara-lhe um punhal...
          Vamos expor melhor o assunto para esclarecer. Quando a gente vai visitar um aniversariante na sua festa, digamos uma Ju a completar dia dezenove seus onze anos e não sabe o que dar; dar boneca a “uma cavalona” no epitetar Maria gozando o tamanho da filha, quase maior que ela e ainda assim pequena, pequenas ambas, como trazer à festa boneca, por mais cara fosse, era sim aos meus bolsos de pobretão. Ainda realçando outro mal que é um rapaz solteiro não imaginar o que possa agradar um ser doutro sexo, uma jovem. Em resumo um drama, creio atingir isso milhões de maus observadores machos no planeta, os quais precisam de suas fêmeas, sempre ativas e de olhinhos práticos assim para as coisas da vitrine e de melhor gosto, a encontrar o que aniversariantes de ambos sexos apreciem. Eu não sabia o que dar como presente a satisfazer Ju e em primeiro lugar, este primeiro antes que o possível primeiro delinha: como agradar então Maria, cérebro em torno do qual girava a casa. Daí errei! errei feio. Comprei numa loja central da cidade um objeto valiosíssimo ao nada, embora chamativo mas podendo até ser perigoso – adquiri um punhal. Pensava na terrível questão da boneca morta a facadas por Ju? Não, nem sabia do ocorrido; posteriormente João me daria informes, sempre o amigo a me transmitir os problemas do seu lar não a mulher. Comprei imaginando o prazer do recebimento pela aniversariante; mesmo porque noutras festividades eu ou nada levando para ela ou para mãe; o pai igual a mim não se sentiria à vontade ganhasse um presente, visava ambas sempre e pra mim um enorme problema o que oferecer, o como presentear; Maria bem mais exigente nisso que a filha. Então eis surjo entre convidados de arma na mão! Bem embrulhada sim e com etiqueta, tinha um laço vermelho, a cor berrante mais apreciada por Ju... enfim vistosa e acondicionada adequadamente – não deixando ser arma.
          Não uma arma comum, embrulhada em papel luminescente e etiquetado com florinhas de parabéns, que a vendedora me embrulhou (por causa disto paguei a mais uma fortuna!) e arranjara como presente à festa de aniversário de Ju. Não. Um punhal de verdade com ouro decerto de mentira, o ouro que é metal nobre; não quisera na escolha no balcão outra ofertada, também friamente verdadeira e de metal sujeito a ferrugem próprio do povão; eu ainda parcela desse povo, só no futuro seria guindado à nobreza bancária... De ouro, ou seria tão só folheada me enganando a loja, nunca soube. Igual a verdade, a qual vindo a público pode ferir matar e que escondida, mormente a sete chaves, pode ajudar e iludir na manutenção da vida. Nem tudo podemos ou devemos saber, sem ir ao chão nocauteados...
          Júlia recebeu o presente numa curiosidade pouco vista no seu dia a dia, era de reação ou lerda ou inesperada ou incerta ou nem sendo reação – tudo se podia esperar dela, inclusive nesse tudo nada. Nada obstante fez festa na festa que era sua festa natalícia, dito os onze anos, ao receber de minhas trêmulas mãos a oferta; não me acostumei jamais harmonizar-me estando na berlinda no meio dos outros e tremia desconcertado. Ela quase me beijou no ato, ao sorriso dos circunstantes, e como o fazia em semelhantes ocasiões: largando todos a fugir ao quarto desembrulhar mais bem e examinar o objeto ganho. Terá guardado.
          Terá guardado!?
          O fato é que por meias palavras a gente da casa, meus íntimos, me admoestando o mau passo do meu passo a dar tal passo: ofertando arma, de uso imprevisível... Maria imediato foi ao encalço da filha, ou preocupada no possível uso ou no como guardar o presente, enfim nos cuidados; quiçá não podendo até sugerir-intimar Ju a esconder ou mesmo tirar-lhe o mal do bem! se apossar dele ela na condição de mãe da inocente criaturinha... Nunca soube; tive mil imaginações, tergiversei mil desabrochamentos por interferência do absurdo, amante da gente instável. De concreto nada mais soube, fora as admoestações nada veladas que Maria me ofertou, como num puxar orelhas de menino de juízo tão obtuso. Nunca... ai, não quero pensar no que penso neste momento...
          Na continuação destas observações da existência de Ju, no seu desenvolvimento, lerdo demais aos nossos intentos e desejos; nisso computo – sempre pelos olhos atentos dos pais, ora Maria raro me passando informes, ora João mais amiúde falando, pois eu não vivia as vinte quatro horas com os três na casa – nisso computo o que especialistas disseram haver nela, ou seja distúrbios mentais ou emocionais, influindo no trato com as coisas e pessoas da casa. Por exemplo, parece que Júlia tendo um prazer nada contido a destruir, vivia pisoteando vegetais, plantinhas. João sempre regando o quintal, nas horas roubadas ao serviço na empresa. Fim de semana então a cuidar melhor o solo, revolvendo estercando mudinhas, todas cercadas ou seus cachorros impediriam o vicejo; o que (o cercado) não impedia Ju porque, já falava o poeta “com gente é diferente”, sem decerto imaginar que tipo de gente seria Ju. Ela entrando pelo cercado pisava remexia arrancava caules desfolhava expunha raízes – e o pai dela, ai ai ai... Nas poucas árvores João mais que Maria tendo o gosto, a mim discutível, o de colocar dependuradas gaiolas – a meu ver nem pássaros nem bichos nem plantas devem ser presos. A planta pode ser aprisionada numa latinha num vaso e a isto digo em lugar da prisioneira: não. E os pássaros acaso não nasceram como nós os humanos a ser livres!? sim. Sim, não advogo um leão faminto fora das grades; assim mesmo se ele provar ser de boa vontade, abro-lhe as portas. Ju não pensando nestes termos ou até que pensava: um dia abriu todas gaiolas de João. Apanhou. O pai contido cuidadoso amoroso mas nem tudo se pode suportar na hora do nervosismo: deu-lhe três ou quatro tabefes escolhendo cuidadoso mais uma vez as nádegas; Maria não medindo nem escolhendo hora e lugar para bater. Agora o pai de Ju se descontrola um pouco. Noutro dia faltou no serviço, comunicou ao chefe no celular seus achaques, sem mencionar a surra na filha. É que um pai mais apanha ele que bate que o filho a levar palmadas; gente tem disso de se inculpar e sofrer consequência de ato impensado.
          Neste episódio sofrido houve mais alguns quês desagradáveis, o que de certa forma mostra o íntimo da garota. Uns passarinhos que ou não souberam sair voar ganhar a liberdade ou não quiseram desfrutar: foram feridos machucados arrebentados estripados e largados nos seus destroços sangrentos ao chão às moscas. A gata não iria tirar proveito das carnezinhas a sangrar pois antes disso trucidada por Ju.
          Ao saber do ocorrido, ocorrido dias antes, depois no visitar a casa; esclarecido nesses desandos, ao saber fiquei mudo, como alguém com um punhal na garganta...
- Matrimônio

Júlia andava cultivando sua rotina; sem vê-la. Sem ver é lógico pois quase ninguém por mais normal seja vê e além disso acumula anos experimentos sentimentos tormentos intentos, inventos a sair-se e a encontrar a tão decantada felicidade. E assim faz e assim luta e assim desfruta o pouco da muita ilusão; e assim pensa. Ju não pensa, ou pensando porém através duns pensamentos curtos creio em vista suas limitações.
       Agora eu era um comensal – aqui no sentido de participação e preocupação nos dramas da casa dos três; e não comensal do tipo devorador, o João tendo nisto uma forma engraçada a dizer “fila boia”, um aproveitador se beneficiando das benesses no lar dos outros... – era comensal vindo sem me cansar quase diário vê-los. Ora, ainda permanecia algo lá no fundo do profundo do sentimento, um ressentimento dela para comigo; a recíproca verdadeira também pois não confiava eu na Maria, mesmo devendo esquecer e nós pobres seres humanos temos espécie de horror tentar o esquecimento, mormente daquilo que fica marcante lá dentro do coração; lembrando aqui a visita catastrófica em meu lar, amargo lar de solidão... ah a minha solidão. Ora, o solitário por temperamento não se satisfaz com a solidão em seu próprio domicílio, tendo um, pois vejo muito o que leva sua solidão a passear por novos ares; não obstante cultivando-a noutras plagas. Todavia os solitários de natureza solitária não se comprazem, se constrangem com a solidão; e não podem livrar-se desse estado. Exatamente meu caso. O solitário vive solitário na multidão visto não se acomodar na coletividade ou sim, perifericamente, momentaneamente; para após se ativar no seu eu, seu mundo; contra si contra o mundo. Era mais ou menos dessa forma que via e me via na casa deles e na minha casa quando foram visitar-me, o episódio do assassinato de minhas abelhas; nisso com um mais nesse menos: a chefia dos visitantes deliberou entrar na casa na condição de mandona enquanto que o proprietário, eu, nada proprietário por inquilino pobretão; este ele aquele abaixando subservientemente a cabeça diante da ricaça... ih cada bobagem que a gente pensa do pensar dos outros; ficando por isso o pobretão se apoquentando se azucrinando se criminalizando semana ante a ofensa da ofensora, se autopunindo por sua fraqueza moral. Semana, mais de semana. Não obstante a coisa vindo de muito tempo antes, antes até da chegada de Ju como filha adotiva do casal.
       Aí, ai! de comensal me pus ao matrimônio... Contudo, tudo logo será melhor especificado.
       Vamos ao antes. Antes conhecera... novamente a gente pondo a insignificância de se conhecer de fato alguém. Antes de Maria conhecer João, mantendo eu com o sujeito algum tênue vínculo de amizade, do tipo conhecido, meses e até por anos. Ele tendo uma esposa, esposa coisa alguma porque a sociedade entrava na temporada do gosto aos “namorados” assim se falava na época – aquele negócio de encontrar o namorado dormir com o namorado fazer filho com o namorado se cansar do namorado e trocá-lo por outro namorado, ao horror do pensamento dominante dos casados bonitinho com cartório e padre e só daí fazer filho em comum acordo e fundar o que se denomina família. Então o amigo ou só meu conhecido deixara a namorada, traindo a namorada por outra mais bonita namorada – exato a Maria. Bem, este mal em minha opinião nesse tempo (sim nesse tempo porque as opiniões nos seres humanos costumam mudar com o tempo...) era o fato de a namorada traída pelo traidor com ajuda instigada e fustigante da Maria, esta, aquela sendo minha amiga, talvez somente conhecida de confiança... ora, existe sempre existiu pessoas em quem temos alguma confiança, era o caso da Tereza, ela exigindo escrito com zê como pus agora, conhecida estimada e através dela estimei João. Daí vindo Maria por João ao amigo pobre, um que receberia o novo casal e a adotiva Ju em sua casa cheia de jataís. Portanto é aqui entrar as desconfianças anteriores, os nós que eu tendo na garganta cada vez que encontrando Maria, a bela.
       Até chegar no meu ponto de comensal do lar, concluir pelas anormalidades e limitações de Ju. E mais muito mais então tentando ajudar essa família a nivelar a jovem filha, já quase nos seu quatorze anos; enfim a pô-la normal no concerto da sociedade dos homens. Nisto esbarrando com uma dificuldade fatal quase: eu um pobretão, e sem dinheiro ninguém consegue coisa alguma para os outros – não sendo portanto uma ajuda... – e havendo outra questão que engloba meus dramas de não saber auxiliar por incapacidade inexperiência e até destrambelhamento sentimental. Neste caso como ser realmente útil! Então me coloquei indo por comensal lá na residência dos três e seus cachorros lambedores e ladradores a xeretar; sim xeretar na casa visto me pôr com direito em dar palpite; o que absurdo do absurdo e não sendo absurdo sendo pelo menos um ser ridículo, isto só admitido aos pobres de espírito, me reconheço um sujeito normal, embora à época pobretão... depois tendo mais valia por ficar milionário graças ao tio desconhecido mas amigo por morrer deixando-me bem, bem segundo a vigência social. Comensal, vendo sem apreciar embora os desmandos do casal e os problemas agora inquestionáveis de Ju, o comensal tentou auxiliar a casa sim e quem sabe não tenha saído o tiro pela culatra... e por isso não terei desajudado? Quero dizer haver feito todos dias lá na residência provavelmente uma nova besteira... Desejo esclarecer lembrando opinião antiga na coletividade: “quem não ajuda, não atrapalhe” dizem filósofos populares portanto apenas meio pensadores. Talvez tenha mais atrapalhado supondo saber a profundidade da mente de Ju, que de fato somando. Seja como for notava certo desânimo nos pais após a volta deles com a menina dos consultórios dos psiquiatras e psicólogos, orientadores enquanto os pais desorientados. Então punha-me a palpitar – sentia já palpitar o coração, isto outro palpitar... – punha-me a dar meus palpites no como fazer a sairmos (eu me incluía na família) a nos livrarmos do embaraço aparentemente sem solução, pois Ju continuava limitada e fora dos limites nos dando a preocupação de perigo iminente, talvez por causa de sua imprevisibilidade. Um dia exagerei no meu exagero a tentar solução – propus buscarem a religião... A mulher ficou pasma e a pensar nisso, talvez sem compreender as premissas; o marido não: privava com seu amigo anos e me sabia adverso ao pensamento deísta e tudo que diz respeito. Como, me indagou rindo, sem sarcasmo, no riso manso e bom dos que se gostam, “como um ateu propor ajuda religiosa!” Até me chocou porque a verdade fere, para, mata, para que se viva a realidade. Ficamos nessa hora os três apalermados, que é quando se tem um disparate ali tão presente; os três, a quartinha permaneceu a olhar os que a olhavam, sem entender patavina.
       Era então comensal, vibrava com as conquistas, sentia sofrendo o sofrer do sofrimento e os fracassos aparentes; não existe de fato um fracasso porque o tempo avalia com segurança todos atos e os transforma em bem e reforça o ideal de futuro.
       Muitas e muitas vezes observava o andamento da casa, das pessoas e sobretudo de Ju. Notava aspectos ou curiosos ou interessantes por vezes alegres por vezes tristes por vezes sérios e graves... Percebia, gozando por dentro sem expor em não ofender, percebia o sotaque dela diante dos nossos modos; isto periférico e também via os fundos num estudo delinha como pessoa. Ela pronunciava engraçado “mãs” por mas, nós outros chegamos nesta região à forma “mais” e nem vemos assim como a usar o ‘e’ no som de ‘i’ ela mantinha ‘e’ na expressão gaúcha; e repetia mais repetia “né” embutido na conversa. Daí que observei não nela ela só a nos imitar, daí somei a cansar nosso também repetir na frase “aí” como seu “né” – ah a gente comum é engraçadíssima no seu falar; pobres dos estudiosos do folclore a se enriquecer com tanta bobagem nossa enquanto povo... Prossigamos nas observações. No meu estudo dela cheguei a outras conclusões interessantes, sem me vangloriar ser criador porém descobridor dos escondidos ou desconhecidos. Percebi examinando na casa o falar dos outros, Maria na conversa a querer impor até seu som e massificar o todo granjear o direito de só ela falar e falar primeiro e por último, portanto ali a verdade que deveria o planeta seguir, o esposo se calando eu calado a menina ora ali ora longe perdida em si mesma; percebia haver um espaço entre vocábulos ditos, bem como os supostos quase nem pronunciados; e esse espaço poderia, teoricamente, ser medido – uns envergonhados nos milímetros outros abusivamente metrados ou até quilometrados e daí iríamos nos perder sideralmente. Tais espaços de palavras distantes, unindo as palavras, as quais vestem um ideia. Descobri também que não só as palavras se ‘disparizam’ entre si ficando ou perto ou longe; mas também semelhando assim os espaços entre elas; estes recebem devolvem no eco os sons ou se calam se emudecem igual ou semelhantemente perfazendo uma distância ora diminuta e até insignificante ora extraordinariamente longas... que a impaciência humana poderá transformar em eternas, não como diz o poeta: discordando dele. Ora, a poesia é só o primeiro passo à loucura, encerro esta operação maluca, vendo olhando em direção de Ju, os outros já afundados nas suas abobrinhas nas suas borrachas. Olho, componho, flagro a menina me olhando sem me ver e me indago apressado à lerdeza humana: terá compreendido!
       Ora bolas, como um ser assim poderia entender a distância voz a voz ou os extremos com seu trajeto do silêncio ao silêncio. Não andaria eu a exigir demais duma limitação ilimitada? Então me calei, houvesse falado entremeio à conversa de família. Acordei.
       Acordei a considerar o quanto havia no falar familiar na tagarelice até dentro duma casa, as línguas soltas; visto já não medirem afirmativas perante a menina, nos primeiros anos se continham se autocriticavam, o que bom serviço à educação formal. Aclarava-me Maria ter masculinamente a voz, mandar operar impor ou supor apenas, sub-repticiamente impondo; enquanto João submisso, femininamente, estando bem, mal sempre no mau gosto de alterar mais a voz – e aqui já a discussão amiga e íntima da briga no ringue do circo e da destruição. Usamos até a imagem da lama a entrar na canoa. E Ju? como agia, agia! como ficava.
       Júlia parecendo a bola da vez, ela sempre a vez da bola sem vez dum lado para outro. Olhando ora amedrontada ora sem entender quem sabe mesmo subentender ofensas. Ela olhava para Maria, imediato voltava a João... Ah o circo o picadeiro do mundo!
       E agora não passo dum comensal quase sem voz, felizmente de pouco apetite à mesa mas bestamente a dar vez por outra palpite “a colher torta” grita irritada ao marido, ainda esposo legal, porém longe no quarto, o dormitório que é o reduto das confluências nas confidências. Tanto que quando elas amiúdam ou mesmo desaparecem, hora do árbitro, o juiz de pequenas causas aparece interfere e piormente interferindo o cartório oficializando o divórcio. Nisto surge um drama bem maior, ou será mesmo pior tendo em vista que no ninho desavenças destruam ainda mais as expectativas dos filhos... A realidade adverte “cada caso é um caso” e parece ter razão.
       Ju foi por isso atirada ao incesto e a um matrimônio bem pouco explicável entretanto exequível.
       Observava Ju anos, sobremaneira nos últimos tempos em que os pais indo engolidos na crise que redundaria na separação. A par disso eu tivera a sorte de me livrar da pobreza e das dívidas com o presente do falecimento do falecido tio que só vira uma vez quando bebê a mamar em minha genitora e portanto nem vale, nem podendo afirmar havê-lo conhecido. Isto, quer dizer a herança, retardou um pouco a interesseira Maria a dizer “sim” que é o não do divórcio deles; então já caíra apesar de milionário na desgraça e era tido um amigo o pobretão-milionário, como persona non grata na residência se despedindo da velha falácia de lar com papai mamãe filhinha. Recebi enfim a herança a quase perder Maria e logo a perdi de vez; antes João a perdera melhor que eu. Contudo será perder, perder uma ‘amiga’! Não importa, importa Ju.
       Ju então andava como dizemos “engrenada” ajustada à família, inclusive nos desvios e dramas da família. Até no falar ao modo dos pais. Observava o quanto ela bebera na fonte da casa. Perdia muito do sotaque sulista e inclusive moderava erres. O erre paulistano é forte, machucador poderia minha orelha afirmar, como desgosta o chiado dos esses cariocas. No interior do sudeste se arredonda tirando as quinas do erre. Ju ‘sonava’ o erre tal qual ‘sonamos’, e o pai e a mãe (ora a fugirem de casa; ou não!) todos falamos assim ela assim então, integrada. E integrada nas coisas do lar e da sociedade com as outras casas em volta. Tudo dentro de sua limitação, vimos o quanto não se podia exigir dessa criatura. Por outro lado mostrava mesmo boa vontade; coadjuvado pelos desejos e até exigências de suas necessidades num corpo de adolescente e com mente de menina. Não a dita normalidade que apresenta a menina crescendo no soma e na mente, se pegando moça a virar logo mulher porém a se sentir ainda criança. Diverso: Ju não se sabendo bela fêmea da espécie nem ser menina, pela capacidade cerebral limitada. Como por fora nada fora do comum, desconheceria a sociedade dos homens o tamanhinho mental... Bem, lembro o mal – ah que horror termos sempre que lembrá-lo... porque continuaria a gaúcha a nos recordar o perigo que se punha e que ela representava na sua imprevisibilidade. Por esta razão que olho me encolho neste escolho, ao ouvir o trinco a chave a porta o som de seus passos na direção desta dependência da mansão que meu dinheiro reservou para escritório...
       Sim Ju mostrava apesar da crise familial certa boa vontade conosco; bem pouco com os de fora, eu me considerava e era considerado de dentro, quase íntimo ali; verdade que mentira na visão de Maria...
       Antes de nosso casamento, estou antecipando haver-me consorciado com a jovem Júlia; antes já havendo uma situação absurda de tão chocante, àquela adotiva do casal, exatamente por causa do desentendimento de ambos pais, coisas versadas nas coisas íntimas às quais não temos de fora acesso se não na etapa do já consumado. Elinha ficando como disse igual bola, ora atirada às necessidades ou só aparências dramáticas na comédia duma casa em crise, do lado de um dos cônjuges; e perguntavam “você está do lado dele! dela!” Que poderia um ser sem recurso inteligente responder? Aí aparece a parentela. Quanto e quanto não fora deixada com um com outro a fim de o casal poder brigar mais à vontade... A mãe de João, avó de Ju, a recebia e se cansava recebê-la, dirigia indiretas ao filho... o que fica flagrante existir um amor diminuto, se amor. A mãe de Maria, inclusive residindo com os seus noutra localidade na região, também tratando do seu quinhão, recebendo frequente até se cansar da neta. Quem sabe se não pondo a chata questão “Nereu trate do seu” parece que existe uma frase assim; outra “quem gerou que cuide” mais ou menos nestes termos. Também não seria outra da mesma abordagem na falta de amor? O fato é que Ju vivendo dum lado para o outro nessa crise; já Maria aprendera não poder atirá-la aos amigos aos ‘amigos’ e aos conhecidos a se ocuparem da criação e educação da filha e daí ela mesma precisando – sem mostrar ao público qualquer apego – necessitando cuidar da menina-moça. A escola? as festas? estas desapareceriam engolidas nas dores da casa, além da exigência do tempo no ganha-pão. Os esposos, então ‘separandos’ perduravam na vida dura de sempre, nos seus respectivos empregos; o enriquecer e mais: entronizar-se nas camadas altas da classe milionária fora por água abaixo como a união conjugal. Ia mais longe esse perto com o esposo a se engraçar por outra, ah como são belas essas namoradas por aí... Não se trata aqui antigas namoradas andando bonitinho a temer papai namorar escondido enrubescendo no primeiro beijo roubado e depois noivado casamento nos conformes. Não: namorada ao gosto de hoje. Conforme gosto de João e doutros joões. Enquanto Maria deixava seus olhos cúpidos na herança que o amigo andava a receber, desgastada ela diante do João e até o meu tesouro quem sabe fácil não tendo a mesma atração. Isto porque surgia no horizonte então um namorado rico, certo empresário que a levaria aos píncaros duma notoriedade-barata (visão minha) inclusive a levá-la em viagem ao exterior, sonho antigo que João, um joão caseiro e de poucas posses ou sem nenhuma, não pudera ofertar; e agora com uma filha como ir em três ao estrangeiro! claro nunca iriam. Ela parte ele fica.
          É nesta crise que entra o matrimônio...
          Pra ser suficientemente inexato diria um casório nos conformes, a Maria então como apenas mãe formal a cuidar da cerimônia no matrimônio da filha; o choro sem consolo na hora fatal da perda daquela que era a luz dos seus olhos e aí pesando dores e sofrimentos, incluindo nisto inclusive o esposo quase ex-marido e quem sabe se queixando se lembrando junto dos parentes mais próximos a luta para tornar a princesa uma rainha, pronta a cuidar quiçá mandar no rei, não falando, óbvio, só pensando “esse velhote imprestável se metendo na vida da gente, pobretão agora rico à beça!” Pra ser sim inexato; e se se entregasse o texto-criação aos desmandos de poetas, seria mais completa a loucura.
          Em verdade uni-me à Júlia sem nenhuma festa, não fosse tão só a festa dos nubentes e isto algo particularista; os de fora não devem, mas apreciam o contrário, não podem se meter. Digamos, é do foro íntimo do novo casal. Minha sogra iria triscar fogo pois já nos víamos desejando não nos encontrar; somando agora eu virar seu genro – a antiga e insuperável rixa genro-sogra e mais ainda sogra-nora; eu poria como a ajeitar a verdade na realidade sogra-contra-genro. Diminuindo o problema, Maria já saíra da casa ficando com a casa. É sim complicado. Resumo desta maneira: divorciaram-se, ela se apossou da maior parte dos bens, da residência inclusive, ele se foi de volta ao lar de mamãe, então viúva, parece que apreciava o rapaz a comidinha dela, o feijão com arroz materno, e por anos achando que Maria preparava (de propósito, coisas lá dos contendores) preparava o arroz a deixá-lo uma papa; o feijão, queimava grudava cheirava queimado e ainda a gente casadinho de novo a dizer “puxa, querida, que delícia!” porque nunca foi proibida a mentira num casamento de verdade.
          Ora, tornei Ju minha esposa – desprezei a cerimônia religiosa (já disse ser ateu?) e a festa também, não pelo gasto: agora tendo dinheiro a rodo – saímos da residência de Maria, que mais me parecendo cemitério e pior um cemitério em desmonte. Fomos para meu palácio.



- Posse

Júlia ia para sua escola. Olhava eu a Ju se preparando para ir pra aula, Maria boa como boa mãe a lhe pegar no pé: falta isso falta aquilo não brigar com fulana presta atenção na professora, coisas assim.
          Eu observava risonho a graça da rotina não cansada na repetição por séculos. O pai a esperando no tec-tec-tec da moto lá na rua, a garupa cansada também de aguardar a lerdeza de Ju, ela demorando lastimava a mãe um milênio a se vestir, ainda com ajuda, outro milênio de impaciência para juntar apetrechos – esquecer sempre algo exigido na escola, já sendo outra escola e mais outro e outro mais estabelecimento de ensino. E o último milênio a se decidir correr no bi-bi da buzina mais fraca que a própria motocicleta, o João zangado no atraso da filha e a perder ele mesmo o horário na empresa, Maria criando caso sequer mais levava a garota... coisas de casal e depois até prova em contrário deu-se o contrário da união se descasando; aquela troquinha de uma esposa chata por duas namoradas promissoras. Observava a pequena juntando material escolar; antes, se passara ao rugir da mãe cosméticos da mãe sobretudo um perfume, exagerara exagerada na quantidade, de maneira que ficara cheirando como essas matutas que entram no coletivo e os passageiros descem irritados antes do ponto. Eu, nada afeito a perfumes, arranhei meu nariz e sorri à cena. Então andava interessado na rapariga, palavra que não usamos no país por diminuir a moral feminina na época mas fica o vocábulo. Interessado não na sua arrumação e menos no perfume abusado. Via sua mochila, espécie de bolsa colorida, suja dizia a mãe; com penduricalhos espetados por todo espaço na superfície, sujíssima corrigindo Maria, açulando aquela geleia aquela pamonha aquela sonsa aquela molenga que nunca acaba o preparo a ir para a escola, a fim de não aprender coisa alguma – aqui palavras não textuais de minha futura ex-sogra... Tinha chaveiros tinha brinquedos tinha bichinhos de plástico grudados qual concha no mar na água na pedra a balançar, ela pronunciava gozado balangar e ainda não via erre e a acentuar o ‘a’ ficando “balangá”, que todos não percebiam pois falamos assim nesta área do globo. Por fim beijando já formalmente sem quaisquer laivos de querência e amor a mãe; esta a responder correspondendo com a formalidade a mim vazia e demais encontrada nos meios sociais da média burguesia e até da pequena; o povão é mais brabo e selvagem e assim mesmo os que se amam se abraçam se beijam, parece com mais realismo do coração sentimental. Enfim isto é quase teoria e está aí pra ver todos dias em todos municípios do país.
          Uma vez, na saída, semelhando a situação vista agora, Ju se demorou e se demorou até antes a ir tomar banho, asseada que sempre fora; e a demorar se vestindo se aprontando ao que der e vier na escola (nunca ia com entusiasmo para a aula). Fomos procurá-la. Chegamos, a Maria e eu, eu ficando então embevecido com a cena lá no quintal deles, era já hora da hora do atraso habitual de sair e ela: estátua! Tem uma brincadeira de criança em que a um toque de voz todos ficam como estátuas parados na posição que se encontravam ao dito toque-aviso, todos estátuas humanas. Encontramo-la assim. Via de boca aberta “como tonta” comenta Maria, olhando fixo o cata-vento. João havia meses atrás posto um, solto, a ficar ao sabor do vento com sua hélice barulhentinha e Ju adorou. Nesse momento via, disse quando disse, o fabuloso brinquedo na cumeeira do quarto de despejos no fundo do terreno deles. Então foi a correria o apressamento pra fazer todas coisas do preparo diário à aula. Sempre um problema porque Ju não tendo noção real de hora nem sabia vendo ver no relógio. Ora, agora, antes já bem antes, eu olhava concupiscentemente aquela flor... Nas conversas nos encontros do comensal com a família, meus amigos me mostravam a menina, seja a criticá-la seja a elevá-la na sua inocência, eu então já vendo a jovem no desenvolvimento. Debalde me debati a me combater o abuso no sagrado altar duma família que eu tendo por de respeito. Via nos anos a se passar lentos ou céleres a mulher, seus dotes físicos... A coisa, defeito qualidade ou mesmo aberração do ser, a coisa se foi avolumando, como o grama do grânulo que se acumula sobrepesando no prato da balança da harmonia, desarmonizando para desgraça de minha vida pacata.
          Porém eu tendo, sei disso, certa inclinação malfazeja bem antes, antes até de saber da existência dessa gaúcha sofrida e que viria a se melhorar no convívio da família de João e Maria no sudeste; depois na frequência em casa deles, mormente no após anos dourados da ilusão de Ju ser o ser que faltava a unir o casal, quando vicejou a crise (vicejar aqui de propósito...) que corroeu brilhantemente uma dupla que já se raspava se desgastava – a isso lembro um amigo, outro amigo, em crise no casamento e já sofrendo por não poder tratar duas filhas, o amigo combinou com sua oposição terem novo herdeiro quem sabe agora um hominho! a fim de tentar juntar ambos se desunindo; apareceu a terceira menina e um ano depois se desquitaram não havendo então divórcio. João e Maria tentaram uma filha adotiva a superar discrepâncias internas, não para o gosto dos de fora. E deu no que deu, o dito redito. Com um óbice terrível que foi redundar num desnorteamento mais acentuado do casal por cima da menina. Aí aparece no cenário do lar um amigo. Sim, parece que não precisavam mais inimigo tendo um amigo desse cepo...
          Esse amigo, eu, eu encaixei na ideia a ideia de solucionar o problema afetivo de Ju, naquelas condições. Salvar chapeuzinho descolorida pelo casal de lobos a se morder. E não seria ‘salvar’!
          No entanto me autocriticava pela tal inclinação má e pelos possíveis abusos, pois era um abuso bem definido aos olhos sociais, eu me pondo com esse olhar à distância e sentindo de perto o fogo daquela atração talvez equivocada e piormente degenerada. Embora não podendo conter-me como o faria um cidadão. Como! agora me criticando os que pensavam e diziam, como pode uma jovenzinha prometida ao altar do futuro em ser uma boa dona de casa, dona mesmo, não sujeita aos caprichos domésticos, a casa seria vista por um palácio! Como... a ser mãe de família, exemplar à prole, dessas que incentivam os filhos, pegam no pé deles, insistem mas dão orientação dão um norte; e amam e perdoam desvios porque amam; e amam o companheiro e lhe dão guarida quando à falta de rumo e forças. Enfim companheiras exemplares. Mais que isso diz a sociedade dos homens bons e íntegros: um exemplo marcando o tempo na história do mundo. Dessas mulheres de se chorar com o coração num velório e a verter lágrimas de sangue no sepultamento, dessas para se guardar na lembrança por toda uma geração de parentesco e de amizade. Uma senhora com tais características, provinda do sofrimento num lar também puro também equilibrado também amor também exemplo. Essa pobre jovem cai nas mãos do lobo mau, um velhaco aproveitador, abusado abusivo pois sequer tendo o valor que dá a ilusão, fosse um jovem macho desta espécie que se tem por rainha do mundo quiçá do universo. Não, é um velhote desgastado perdido na sua torre de marfim de faz de conta. Esquece as contas e desposa uma virgem. Virgem! comentaria uma vizinha comadre qualquer. Oh o mundo está perdido, não é uma loucura?
          Era. Foi uma loucura. Contudo havia no meio outra loucura, uma nova-velha loucura...
          Que droga, minha sogra me odiava, era me ver via o diabo entretanto continuando bela, belíssima; eu então desejando ardentemente que a esposa do meu amigo no extremo dessa crise terrível que levá-los-ia ao divórcio fosse feia horrorosa um canhão abandonado na guerra – mas não, me confessava o juízo instigado pelo coração: era de uma formosura sem par! Aqui, eu, ligadas todas forças contidas antes e comprimidas no imo de meu ser, dava ganho de causa ao empresário escolhendo em detrimento de João uma forma escultural como a esposa, ex-esposa de meu amigo. Ora, experimentei me combater, liguei o diabinho atrevido que nos fica lembrando as safadezas que lutamos machos em não praticar; em contrapartida do anjo bom que... ah deixa o santo pra lá. Liguei o diabo, falei o diabo na sua fuça, xinguei-lhe (e sorriu!) sem conseguir melhor resultado: a Maria era um amor na forma de mulher. Daí eis me aparecer uma ideia brilhante: Ju superava, menti, superava a beleza da mãe, a mãe bela porém falsa, inclusive traíra meu amigo portanto me enganei trouxa ou inocente... não levando a sério que antes dela ele a traíra, aquela questão de trocar uma esposa gasta por duas virgens ou não o fossem fossem namoradas e o rapaz acabou por ficar com uma só, se bem que tendo a filha de contrapeso.
          Assim punha essa loucura destrinchava a loucura e pior alimentava a loucura procurando Júlia... quem sabe (ah o que sabemos de nós mesmos em profundidade!) quem sabe a esquecer a mãe que fugia roubada sequestrada por um empresarinho cheio de notas ao estrangeiro; ora, isto naquele momento já sem importância pois me contrapunha ao ladrão de belas com minha herança, a qual vinha a galope para meus braços. Em outras palavras teria a meu ver dinheiro a comprar todos empresários todas marias e todos estrangeiros houvessem. Na verdade sequer tendo ideia do volume de minha herança, a rigor nunca saberia o montante. Sabia com segurança haver conscientizado amar a mulher de meu amigo e decerto, pensei, decerto não a conquistara antes em virtude duma virtude que me colocava ateu agnóstico etc. na posição do cristão e a defender um valor bíblico – que é não cobiçar a mulher do próximo. Sentia aquilo que o povo chama “dor de cotovelo”.
          Não importa, já perdera tanto, pobretão, agora tendo pela frente só ganho, ganhando uma fortuna incalculável, Ju.
          Ju andava por esse tempo, diria melhor final dos tempos ao menos ao casamento à casa à prole. Então como disse vivia ora numa extrema ora noutra, igual bola na brincadeira de menino. Realmente mais ficava na sua casa que era a residência da mãe, a contragosto da mãe; era cada vez mais patente Maria não gostar da filha adotiva; parecia até não apreciar criança alguma e eu me perguntava mas nunca fizera a indagação ao amigo sobre sua então esposa: como tratar nessa tendência os seus alunos, lecionando numa escola, se parecendo detestar gentinha! (ou seria pôr gentalhinha?) No caso de Ju um flagrante pois vivia a desfeiteá-la e até surrando sem razão aparente a pobre, mostrava cada vez mais ódio a ela, na proporção em que mais amava o dinheiro daquele seu novíssimo empresário-amante. Até se separar o casal formal principal essencial à formação de Ju. Ai! sem deixar Maria ser bela aos meus olhos compridos e concupiscentes.
           No ambiente da casa, não se podendo afirmar que agora Ju perdera, visto nunca haver ganho virando filha dos pais adotivos, talvez melhorando só um pouco o tratamento na comparação com sua ‘família’ original, porque deixou de passar fome e ainda “recebendo do bom e do melhor” palavras textuais de Maria a se autopromover na presença dos convivas nas festas do lar. Entretanto só não sofrendo mais agora no fim da crise sem fim por defesa de sua limitação mental: ela não percebia sequer andar posta num segundo plano e pior nisso: sem plano, sem lugar definido. Ora a bola com a mãe ora a bola com o pai.
          Assim por acordo dos dois em desacordo sobre o destino da filha. Maria, pudesse, a lei permitindo, mandá-la-ia de volta ao sul; e doutro lado noutra extremidade, a outra oposição, João não mostrando qualquer apego a Ju; apego! qual apego se com o rolar dos anos a menina também lhe mostrava os dentes... Sim, havia lances sugerindo atitudes perigosas, de descontrole emocional, levando à imprevisibilidade no desfecho de seus atos. Por esse tempo, João havendo montado sua casa num apartamento; e tinha a presença da filha nos fins de semana e daí, nesse perigo que representava Ju, chegando ele, para haver sossego e dormir no seu quarto, ter que fechar trancar dar duas voltas à chave, temendo uma crise dela contra si... Além do episódio de minhas abelhas, os passarinhos dele, a gata de Maria, esta uma gata no sentido de gostosura aos olhos masculinos; lembrava-se João disso e doutros pormenores, pouco pormenores considerando os grandes estragos que a filha havia feito na casa, agora só de Maria. Realmente não tinha o pai sossego a deixar sua filha sozinha, quando no sábado ia ao serviço na empresa; de noite se trancava a se livrar do que os médicos lhe diziam sobre as reações de um ser esquizofrênico bem caracterizado. Todavia não foi tal solução ou meia-solução um acordo estabelecido por esses ex-companheiros mas imposição do juiz. Por ordem judicial a garota passaria a semana com a mãe, ou apenas na casa da mãe! e o fim de semana com o pai. Ou dissera a autoridade que negociassem as partes conflitantes ou os ‘inimigos’, isto melhor afirmar à dupla de fato separada.
          Ora, a bola, eu entendia, a bola era desamada. Sempre que possível, diante de argumentação sem grande consistência, se tapeavam os pais – contra a filha, a bola da vez sem vez de opinar – tapeavam-se fugindo de precisar tomar conta da mocinha, já fisicamente deixando ser menina, embora permanecesse de baixa estatura. A mãe, ex-mãe? a mãe deixava por licença a escola, ia com seu par conhecer o mundo lá fora, e dentro de casa aos cuidados de qualquer servidora contratada, ficava a filha; ou era mandada a se trancar no presídio dum apartamento, o apartamento paterno. Por que, eu indagava a João, por que sua atual namorada não olha a menina? Como os ingênuos se intrometem na vida alheia hein!
          Não podia sequer imaginar esta e outras lacunas que a vida oferece aos seres. Me condoendo por Ju; talvez nem ela visse como era sofredora e descartada, agora descartada descaradamente e sem os subterfúgios bonitos da linguagem da falsidade da educação...
          Fora exato numa das intrigas dos meus prós-e-contras, fora num pensar firmemente os destinos futuros desse sofredor presente, que cheguei entrei vi venci.
          O lobo mau sacrificou chapeuzinho.



- Herança

Júlia, ah a Júlia... Eu por vezes muitas ficara a pensar no que, pobretão, pudesse como ser ver viver um milionário. O pobre exagera imagina um mundo que não existe, não pesa sacrifícios e o como nas conquistas para existir um milionário, desses que se projetam mundo afora provocando quem sabe cobiça nos ignorantes, sem pensar de que maneira se acumulou tanto tesouro e poder, o poder a partir do mesmo tesouro. Naturalmente não sendo o caso do ricaço que recebera de mãos beijadas a riqueza e portanto o poder. Um caso deste presenciara na minha juventude, agora sendo um velhote pretendente a esquecer Maria lembrando Ju; nessa ocasião do exemplo a seguir, sequer a mãe biológica dela havia nascido que dirá Ju. Então o Tiquinho, um ‘ingenoide’, recebera herança paterna, fazendas e muito dinheiro e, para encurtar, fizera tantos desaforos à inteligência que poucos meses depois vi o Tiquinho a empurrar uma bicicleta, último bem dos seus desandos, a perder totalmente a fortuna da família. E isto agora me alertava em não perder igualmente a minha nova grande herança.
          A herança estava a caminho, antes desobstruíra o caminho o tio desconhecido mas único parente formal legal axial ao meu enriquecimento, falecendo o velho parente sequer sem minhas lágrimas, lágrimas que fossem de crocodilo como goza o povo brincalhão. A rigor nem me dispus a saber quem onde como deixara o planeta o homem rico. Em verdade achava mentira esse ganho, espécie de estória da carochinha pra mim e então me alicerçava no como investir esquecendo na pobreza dívidas impagáveis – aqui nada da graça do humorista impagável visto dívidas causar e causar-me sofrimento e vergonha; era um pobretão sim mas decente não um cachorro e que me perdõem pela referência nossos maiores amigos. Não levando jeito a prejudicar credores porém não poderia jamais quitá-las; quis dizer não desejar mais pensar naquilo que pelo resto da existência não pagaria... Então morreu o desconhecido tio do tio de Ju. Ela me tratava tio e o João, em brincando veja lá só na brincadeira, ‘exigiu’ sugerindo um dia que a filha me tomasse a bênção. Velho costume dos velhos tempos, a criança chega à casa e antes de brincar com os outros meninos precisava dizer-pedir “bença, tio” ou tia ou mãe ou avó. Beijava a mão estendida pelo adulto e após ia brincar. Ora, no episódio insisto fosse apenas a gozar a pobre menina; nesse momento meio desconcertada a Ju, tomou a mão oferecida pelo tio e encostou seu beiço grosso (Ju tem os lábios pronunciados e bem carnudos, lembrando um pouco indígena) encostou-o nas costas de minha mão direita, sou destro. Fiz mais: respondi ao toque dela falando “Deus te abençoe”... ora era sou ateu, o povo miúdo não é e responde assim com sentimento puro. Nessa encenação eu colaborava tal qual asseclas dum crime com seus iguais; ou colaborava como sendo ator com outros atores contracenando – para pôr a pequena Ju na berlinda pra fazer o papel do inocente, que parecia de fato sê-lo, objeto de chacota. Fiz inclusive cara séria como a elevar o momento na cena quase religiosa e boa aos costumes do povo simples. Pois ela sequer notou haver feito o bobo da corte e ficou a olhar-nos sem entender! Ah pobrezinha da Ju.
          Então sou pobre, melhor afirmar estar pobre visto andar em vista o tesouro. Estou no estado de pobreza, não de premência exagerada nas necessidades básicas porque já caminhavam os trâmites da aposentadoria (que depois abandonaria em troca da desnecessidade pela herança) e além do mais trabalhava aqui ali ganhando para comer vestir-me comprar um que outro remédio e claro pagar o aluguel da casa, onde meus amigos me visitaram e aí o negócio das abelhas, nem desejo tal coisa alembrar mais. Um belo dia... esta expressão demais abusada pode ser e é mesmo empregada até numa questão fúnebre “um belo dia fulano morreu” por exemplo; entretanto foi realmente um belo dia, apesar do frio e do chuvisqueiro a gente fumando a passar o tempo, eu nem isso pois nunca fumei nem lá na casa de João onde Maria cantava da galo e Ju cuidava de bonecas ou estripava bonecas, lá também não se acendia por interferência da anfitriã cigarros somente alguns convidados, eu comensal sendo contra o tabaco, aliás não podia com a fumaça e o cheiro, assim como nos perfumes. Nesse belo dia triste de chumbo e chuva, me alegrei sobremaneira antes de me assustar, me assustei com um carro umas palmas um sujeito de fino trato a descer do automóvel e se identificar como advogado (seria daí em diante o Doutor) se afirmando procurador do tio. Contou rápido o sofrer a dor a morte e nisto – iria eu fazer papel feio e até mostrar-me ingrato! e daí foi que usei o lenço a me enxugar lágrimas, lembrei o crocodilo do povo – nisto... encurtemos o sofrer, o sofrimento quanto mais destrinchado alargado abarcado mais se torna de fato sofrimento além de contribuir negativamente a poluir o mundo poluído, portanto além das desnecessidades, contrário à objetividade do que se deva realmente dizer.
          O positivo e de alegrar até múmia milenar é que me trazia o doutor a constatação de minha riqueza! me tornara herdeiro universal do tio antes desconhecido conhecido agora pelo tesouro extraordinário que me deixara. Não houvesse legalmente um herdeiro, a lei reverteria ao Estado tudo desse tio José deste sobrinho descoberto pelo agora meu procurador. Ofertei-lhe um cafezinho como qualquer matuto morando no arrabalde urbano; que o doutor aceitou para não desfeitear o seu novo patrão...
          Conversamos longamente, conferiu meu procurador a documentação, nisto sempre fui rigoroso e sempre observei cumprimento; e assim dispusemos (aqui eu já dando não somente palpite, ordens em sugestão às futuras ações do advogado:) dispusemos o andamento e o como gerenciar a fortuna; trâmites que durariam meses e mais de ano, o que pouco para quem sempre pobretão, embora não miserável.
          Assim no final não da chuva mas da tarde partiu no seu veículo alumioso o doutor, o qual retornou mil vezes a tratarmos negócios.
          Não obstante o dito, não mexi palha, apenas assinei e assinaria; além de frequentar muito minhas contas no banco; duas ou três vezes o fiz em razão de apertos financeiros de minha família, isto é a família de João e Maria, agora de olho em Ju... Com exatidão acho que não poderia sem corar afirmar o quanto era minha herança, na qual entravam os entraves de fazendas e prédios fora desta localidade onde residia e resido, agora com minha esposa. E entrava computando incalculável (pra mim, não ao doutor...) incalculável soma em dinheiro, mais bem dito nas contas bancárias. Então iria continuar a temer ladrões pequenos e por isso nunca tive e continuaria não tendo dinheiro dentro de casa, sem ser tão ingênuo a ponto de guardá-lo no colchão, sou doutro tempo, um tempo mais ladino. Parece que meu tio fora sovina e voltado quase que só ao vil metal, vivendo sobrevivendo apenas, com restos de juros; da riqueza real que possuíra e da qual desconhecendo in totum por curto nas letras, dela quase não sabia ou sabia por alto. Já o sobrinho-tio do tio escrevendo bem ou razoavelmente, a ponto de receber elogios de Maria, ela com gabarito a julgar por formosa professora na escolinha.
          Oh as voltas que o mundo dá... Se, isto mera hipótese viável, já não mais viável o tempo a andar, se houvesse me tornado de pobretão a ricaço quase da noite para o dia, como constatei após a curta estada de meu então procurador, me deixando um milionário; eu me dizendo a pensar; se houvesse isso ocorrido antes, antes de perdê-la a um empresário, não teria ganhado Maria! Sim, ela soubera quase primeiro que o próprio interessado, eu, a possibilidade do tio a morrer morrendo e herdando o tio de sua filha... Se, eu me insistia, se ela, eu tendo já a herança em mãos, não dar-se-ia de ela ser minha! Porque o que lhe interessando mesmo no empresário era sua riqueza, a qual no visionário permite gastar e correr mundo (era o caso dessa bela:) e assim eu vindo a si antes que o outro, ela viraria minha legítima esposa! a mulher de todos meus sonhos...
          A herança provocaria uma reviravolta enorme, quase o dia pela noite, a noite pelo dia, tudo virado de cabeça pra baixo por uma herança. E não estaria eu, nós dois, agora a correr conhecer os encantos do planeta! A primeira hipótese não se confirmaria; outra sim.
          Eu era um pobretão já quase acomodado; vidinha regrada, a cuidar da casa das plantas dos passarinhos, bem entendido: vê-los nas árvores nas suas estripulias; vivia a tentar quitar dívidas impagáveis lembro, a trabalhar sem constância ao gosto da oferta de emprego pelo subemprego no geral desemprego que campeava no país. Era acomodado quiçá entregue à sujeição de não ter um amor (gritou-me atrevido o pensamento “a Maria é mui bela!”) Porém ela, não a Maria a Herança, ela me revirou a cabeça: de acomodado e sem perspectiva ela me atirou ao encontro da felicidade, ah que será uma definição completa de felicidade! sim ela me deu Ju.
          Anteriormente como ‘desendinheirado’ fui conviva do casal e torci pela família e ajudei até na conformação da menina frequentando o lar. Vi Ju desabrochar vendo antes (e me condeno nisto) antes sim olhando a beleza da mãe; perdi a mãe não crendo decerto na minha, optando pela riqueza do outro. E, completo aqui a ideia hipotética malversada e fracassada, agora perco de vez a bela e tomo a belinha sem me preocupar então com que anteriormente coraria só pensar se pensasse: a ideia de apanhar pra mim, agora um milionário, a sobrinha se transformando de menina em moça, para torná-la mulher!
          Assim foi que resolvi tomar posse... não, da herança nessa altura sabia não ser mentira da carochinha e mesmo já desfrutava do dinheiro herdado; e inclusive quitara as dívidas pobretonas tidas antes impagáveis; comprara até a residência onde morara, mais em despique àquilo que avaliava exploração do ex-senhorio e para mostrar grandeza (ah como o ser humano é apenas um miserável quando não se imagina mais um insignificante!) adquirira o imóvel para minha vanglória; e para maior glória ainda comprara certa mansão, dessas a despertar inveja e cobiça na população que passa na alameda. Resolvi tomar posse foi da filha, a mãe me fugindo desandando quase não parando mais no lar; lar desfeito a bem da verdade, a diminuir possivelmente a falta que eu iria cometer...
          Tal qual um gatuno que estuda planeja age toma rouba alguém! Não, tal qual o cafajeste que rouba a inocência de alguém... Aliás não planejei e quase nem pensei, agi, agi ao sabor das ordens inferiores, decerto sugerido ou até ao mando do anjo mau; como um lobo aguardei o descuido da noite, Maria havendo ido com seu namorado à noite, não ainda indo ao estrangeiro, isto demandando bem mais tempo e ‘descompromisso’. Esperei atento os outros saírem, a patroa a empregada, João já embriagado nos amores de suas namoradas e ficaria apenas com uma delas e portanto não contava no meu crime... Aí assustei-me ao pensamento: iria perpetrar o maior crime e me supondo um puro no fato de não ter ao chegar sessenta e quatro anos ainda nunca haver cedido a nenhuma baixeza moral; fora aguentar cobranças das impagáveis dívidas, aqui relembrando a argumentação diante dos credores, imaginativa e mentirosa. Agora era diferente porque me dispusera, se preciso fosse, sujar de vez a cara... E logo com um ser inocente! Isto admitindo, embora as rompanças e explosões perigosas, perigosas segundo os que tenham medo, essas explosões de impossível previsão, que poderiam não ser tão graves assim por costumeiras e infantis, num ser retardado ou só imaturo, que era e ainda é Ju.
          Entrei no seu quarto semiaberto na confiança que sempre existira até aí... ela ficou a me olhar feito estátua e sem preocupação, iludi-a, disputei com bonecas e outros brinquedos num brinquedo de verdade, doída e doida verdade incestuosa. E saí, deixei a sobrinha Ju só por pior acompanhada, ganhei a rua perdi a paz! Andei manso medido como quem rouba e teme; temia a mim mesmo e estiquei os passos e corri, corri sem me livrar do meu maior adversário, o inimigo, minha outra da mesma face. Anteriormente ia vê-los de carona ou de ônibus, pobre; agora poderia, sem ter coragem, fretar um táxi nunca teria, podendo então ter meu automóvel particular; não tomei condução, corri realmente como quando moleque; cheguei espavorido na madrugada ao ladrar de cães, harmonizados com a natureza, eu envergonhado da natureza. Deitei-me pra não dormir, a consciência me cutucando a cada segundo.
          Noutro dia e noutros dias quase não pus a fuça fora.
          Tive vergonha, mês e tanto sequer a manter conversa considerada normal com raros vizinhos.
          Mas a par disso repensei mil vezes a falta noites e dias...
          Trabalhei a consciência no sentido de oferecer compensação à minha vítima. Compraria, comprei logo a mansão, uma vistosa rica a esbanjar presença, onde facilmente botei para morar Júlia. O que trouxe enorme bem e alívio ao lar em frangalhos dos pais ausentes de minha esposa – de fato nunca nos casaríamos, propus aos dois ‘responsáveis’, aceito, que ela em vez de lhes dar os problemas com os quais lutavam para se desvencilhar; enfim que passasse a jovem quase criança a viver maritalmente comigo. Fiz mais, perdera de vez a vergonha a decência a compostura: quitei umas dívidas que o casal fizera para fazer frente aos gastos de anos com especialistas (a meu ver apenas charlatães nos consultórios ricamente adornados e de posição) nesses cuidados com essa filha indesejável, vítima deles, sempre vítima da sorte no azar, agora minha vítima. Em última análise comprara Ju por trinta dinheiros... a viver comigo na mansão.



- Mansão

Júlia não sabia o que seu ‘esposo’ pensava das coisas do mundo; que houvera por exemplo comprado a própria companheira; talvez nem se soubesse companheira amásia ou qualquer coisa assim fácil de achar definição, dentro do costume e da liberalidade de nossos dias. Pra si não foi mais que um se mudar de casa; no caso para melhor pelo fausto a grandeza e o fato de o companheiro nada negar-lhe, exceto é claro a felicidade ideal, ideal dos poetas eu afirmaria a me defender ou me justificar... Desconhecia que o tio – continuava ela a me titular tio e ainda a João que víamos vez por outra chamava pai; a mãe debandara vendera o imóvel se desfizera doutros bens e pedira licença sem remuneração a se desligar do colégio onde trabalhava e daí sumira com o terceiro marido, afirmando ela haver-se casado legalmente com este, então indo morar no exterior, sequer se despedindo aqui do casal seu parente, embora nós milionários e por isso importantes na sua visão; sem que Ju lamentasse a fuga da mãe e talvez não tendo avaliado a extensão da perda se perda. Contudo realmente minha esposa a desconhecer minhas andanças nos negócios, sempre intermediados pelo doutor. Através dele comprei até consciências. Para muitos a consciência tem valor baixo no mercado... Para outros é diverso. Comprei juízes políticos empresários ao custo de umas poucas glebas de terra e muitas cabeças de gado. Comprei sem gastar demais nossa situação legal; o que não fora difícil dado eu ser solteiro e Ju claro menina sem embaraço com a lei. De maneira que formalizamos nossa união; dentro da curiosa condição de todos de fora saberem que éramos marido e mulher, esta sequer entendendo ter-se tornado esposa dum milionário exótico ou talvez ridículo, quem sabe exposto ao falatório público, longe daqui da mansão; eu não permitindo sequer confiança aos nossos poucos lacaios a nos servir. Chego quase me esquecer haver sido um pobretão...
          A residência suntuosa tendo o que necessário aos abusos da luxuosidade, dispondo de tudo que me sugeriu o doutor, criatura de fino trato segundo ele mesmo eu sem condições nem vontade conferir; tudo que outrem tenha proposto e válido ao bom gosto da gente bem. No entanto curiosamente sem interferência da ‘matrona’, aqui a exagerar uma senhora formalmente respeitável respeitada mas uma criança, na idade na mente e até na compleição.
          Contudo, algo majestoso porém oco silencioso quieto quase mudo, não sendo o ladrar da cadela que a ‘dona’ de casa mima como Mimosa, não sei donde lhe veio o nome; e o barulho fraco dos utensílios caríssimos de cozinha e as conversas veladas e quase em surdina de nossos serviçais.
          Diante do exposto, quem passa a passar vendo o imóvel, imóvel claro, quieto, poderá enveredar pela interpretação de mal assombrado, corriqueiro em cidade de médio porte sem história hávida de estórias.
          Aí vivem, a oposição tivesse voz e crítica diria “vegetam”, vivem dois velhos, um é uma criança não amadurecida (sem o ‘ainda’, pois seria no contrário desconhecer as possibilidades de Ju). O outro idoso a já quase virar também criança por excesso de idade cronológica.
          O ambiente é de calma. Aparente... Ju não sai de casa, quando sai investe na beleza discutível dos salões; e iria talvez visitar também o pároco não o fazendo, só vemos religiosos quando vêm buscar doações supostamente aos seus pobres; deixo à cara-metade a tarefa de recebê-los, sou figadalmente contra o que defendem enquanto ela ouve ri quando os mesmos se dispõem a rir; e quase chora por ser descontrolada emocionalmente e chorando fácil em certas ocasiões, quando tais religiosos sugerem a tristeza. Além disso apenas conversa com uma senhora que mora longe e que eu não saberia classificar, talvez como orientadora ou mesmo preceptora de jovens ela ainda jovem também.
          Ultimamente – não a tranco e menos a sete chaves, inclusive sou liberal nisso – mas ultimamente tem saído para a rua, e isso tem ocorrido com certa frequência, a me escandalizar, após meu acidente; mais que acidente o desastre. Isso, suas visitas para não sei quem nem onde, visto já não falar comigo, que é o problema que me preocupa mais agora.
          Quanto ao desastre, ocorreu ano passado, escorreguei após um desequilíbrio, não bebera não bebo mesmo não bebendo quando visitava João para ver a beleza de Maria e entre convidados deles, eu não bebia; sendo desses que após um copo ingerido precisam ser levados moles pra casa; portanto não bebera, apenas me desequilibrei caí lá de cima doutro pavimento rolei na escada ao solo aqui embaixo desacordei, acordei no hospital. Esta a origem e razão da cadeira de rodas.
          Júlia torna à nossa mansão, entra estabanadamente, sobe a escada pequena na escadaria refletindo no mármore o sol fraco da tardinha; depois enrosca a chave nunca encontra a chave e barulha esquisitamente a encontrá-la na bolsa; abre, raspa, espalhafata o fazer, provocando nervosismo aqui pra quem ouve e amiúde fecha com a traseira a porta central, empurrando num bater esperado. Por vezes ainda derruba compras no chão estrondando o mundo... Pior quando mui nervosa, imprevisivelmente nervosa, sem que eu seu esposo saiba a causa. E finalmente entra. Algumas vezes nesse estado entrando pela sala e corredores até passando pelas outras dependências a fim de chegar aqui no escritório onde estou agora; chega bufando suada falando desconexos numa algaravia de assustar... assustar-me.
          Faz assim por anos seguidos, nervosa neurótica abrutalhada; fala nesse estado a ponto me assustar.
          Como agora que vem vindo...



- Crise

Júlia, arregalou olhos quando comuniquei a ela haver resolvido trazer à mansão cachorros. Decerto lembrou e pensou imaginando fôssemos agora ter um verdadeiro canil em casa, um exército de cães a ladrar horrores; imaginou – fosse capaz de criar quadros mentais e cenas críticas, creio sinceramente que não – imaginou daí melhor se distrair... quem sabe estripando cachorrinhos engraçadinhos a latir fininho, assim como andava ainda por essas alturas a estraçalhar bonecas no seu quarto. Adotáramos, digo dessa forma mas eu mesmo quem adotara, impusera viver cada um no casal em seu próprio aposento; no seu fazia a festa do desmanche de brinquedos. Entrara eu uma vez nos começos de nossa união, por mera curiosidade, entrara no seu reduto para ver como vivia... Havendo ela transposto na mudança da casa dos pais para a nossa vivenda (aqui forço um pouco o ‘nossa’) trouxe enfim pra cá seus pertences seus badulaques, coisa assim de espantar os carregadores da empresa que contratei para fazer a transferência de objetos e utensílios do seu quarto na antiga casa para esta; havendo tantos objetos, sobretudo brinquedos e mais ainda nisso bonecas, inclusive com suas respectivas caminhas e respectivos guarda-roupinhas, infinidade de bonecas em coleção de todo tipo, que Maria lhe dera a compensar o tratamento rude e eventualmente João pelo mesmo motivo; eu também, já completo o quarto de Ju aqui, comprei meia dúzia delas. Entre as coisas esparramadas no quarto me deparei nessa visita sem aviso algo que brilhou cintilando num canto escuro: o punhal de ouro! Curioso nesse encontro do punhal o fato de ainda pensar até aí que a loja houvera me enganado me obrigando pagar por ouro e me entregando embrulhado lâmina folheada; aliás o cabo seria ouro puro a lâmina afiada ou a afiar sendo de aço, garantiram-me Solingen e se insistissem fosse aço sueco famoso ainda assim não estrilaria, por desconhecer a matéria e ainda por haver andado um dia atrás do presente à aniversariante no seu décimo primeiro natalício, se não me falha a memória, e ao adquirir o punhal já estava vencido pelo cansaço: compraria fosse alemão ou sueco isso não importando, a ser usado como pensava eu como brinquedo... Isto uma lembrança porém agora ao vê-lo brilhar tudo me volta à cabeça e de que jeito fora recebido o presente, a crítica da bela Maria, a corrida da presenteada ao seu quarto para examinar ansiosa, esperando decerto um brinquedo e encontra a arma. Entretanto havendo hoje no quarto dela na mansão além disso uma infinidade de coisas, diria na linguagem popular trecos. Fiquei alarmado de fato com o punhal e com brinquedos estraçalhados espalhados empalhados ou não mas deformados e estragados, um pedaço aqui outro lá – a me acalmar supus um ser nervoso nos seus momentos de raiva e talvez de sofrimento (por isso tive pena de Ju). O que mais me sensibilizou foi nos brinquedos um urso, desses de pelúcia que havia dado à esposa como fosse presente nupcial; parece na coisa haver também errado ou haver acertado levando em conta o meu mau gosto; eu tinha me indagado na época se não seria melhor consultar uma senhora de bom gosto na sociedade pois não sabia escolher o que ofertar; porém casado por fora, por dentro ainda um solteirão e um homem solteiro entre os mais desajeitados e tímidos; com certeza um sujeito sem graça, não deveria ter melhor escolha. Enfim trouxe o urso para ela, que aceitou a oferta num sorriso, desses que não dizem coisa alguma, Ju sempre indefinível; o mesmo urso que via agora em pedaços em tripas em partes esquartejado no seu enchimento de algodão o tal bicho de brinquedo; olhando aquele estrago e a bagunça ainda pus na cabeça – não teria usado no trucidamento a arma de ouro...
          Voltemos aos cachorros. João, falei com o poder da voz que dá o poder em quem tenha o poder, “João, vem cá!” Não o amigo, sumido no cenário daqueles dias para nós, mas um serviçal que estava com a gente e tido por um homem de confiança. Esclareci o que deveria fazer: ir ao ponto xis buscar uns de raça que comprara para me vigiar a mansão, a ser mansão mesmo; porque mansão que se preze necessita ter cães bravios, guardas fechados de cara, muralhas com cerca elétrica e fios e campainhas pra se não usar e preciso sendo acionadas – em suma um belo presídio... Tínhamos no casarão tudo isso porém faltava o cão brabo feroz e de focinho estufado nas bochechas e não amigo de ninguém, do tipo mastim. Desse tipo João nos trouxe pra casa. Ju nunca iria se pôr diante desses animais como os que tivera na casa dos pais dela, aqueles mansos crianças e brincalhões; e caros... Semelhantemente, os três mastins saíram-me o olho da cara, se bem não um mal porque o dinheiro nada quase me representava como me pesara nas dificuldades na época de pobretão.
          Por esse tempo andava toda casa virando lar.
          No início anos atrás a mansão tentava tornar-se um decente lar, nos portes que se sabe papai mamãe filhinhos, embora com ausência do amor que refunde e liga uma família entretanto com o futuro próximo da presença de animais a aumentar a querência, mesmo sendo uns ferozes mastins... Para um começo é imaginar o nervosismo e a insegurança aos neófitos duma casa fundamentada e feliz (por que não?) Seria então se ver nisso isso fosse palpável e verdadeiro, tocos de cigarros por toda parte mostrando o nervosismo dos moradores... o que absurdo visto não fumar o dono, não contando a proprietariazinha, e impedidos servidores a trazer fumo ao trabalho nem serem vistos fumando durante o expediente. Com respeito aos serviçais; o dono não conversando muito com eles, fora o essencial, mantinha distância o patrão e não pensando como fosse um cristão que não era; também não se chegando aos dramas e aos sentimentos dessa gente em serviço; além de, lógico nessas condições, não comunicar seu íntimo aos empregados. Mas e Ju? – ela um pouco ligada sim com a cozinheira e a auxiliar copeira, enfim a ‘patroa’ a falar um pouco com as empregadas todavia mais elas a ouvi-la que a citar dramas de suas respectivas casas; por respeito ou havendo temor... Com os homens só eu mesmo a abordar as coisas, sério e numa linguagem justa ou de palavras medidas, a fim de continuar a ser respeitado. A esposa perante trabalhadores apenas sorria enigmática, forma de quem não saiba se expressar a contento. No entanto, depois já com os mastins em casa, Ju desconheceu os homens a serviço e procurou contato com os bichos e daí o balançar dos rabos mostrando ser aceita. Contudo temia os cães de poucos amigos, pois não é como brincar carinhar roçar cachorrinhos alegres ou manhosos e agora teme decerto essas criaturas raivosas, que além do mais não suportam ser manuseados e lidados com objetos cortantes agudos e se dar a despedaçamentos...
          Os cães profissionais, assim se poderia dizer, os cães agora acrescem um barulho necessário a espantar aquele paradeiro, aquele cemitério comportado que havia sido até aí o palacete; um casarão povoado com um homem e meio. Eu me achando inteiro, dando ordens tendo presença, exigindo silêncio sepulcral, mormente quando o advogado-procurador ali e nós ambos a tratar de negócios, com o esbanjo necessário do outro enquanto não existe esbanjar do patrão ao patrão. Eu o homem inteiro, ela metade, uma insuficiência de meia mulher por limitada mentalmente; embora então legalmente já a senhora dona da mansão. Os empregados nesses momentos disciplinando até o pensamento, que dirá a boca que sabiam cerrar. Silêncio. Os cães entretanto ignoram vetam o silêncio: ladram dia ladram noite ladram pessoas que passam ladram cães outros de sub-raça vadios vira-latas por ali a cheirar xeretar. O toque de silêncio não respeitam suas vozes a três, grossas graves altas brabas, não respeitam sequer o patrão sequer o doutor no escritório, neste escritório onde sempre tratamos como diminuir a minha tão vultosa herança.
          Ainda no item silêncio, lembra-me algo de meu espírito então inseguro ou inconstante sei lá; o fato de quantas vezes não ter tido que me levantar a gritar os seguranças antes dos cães e depois com os mastins pelo barulho da noite em tempo de ventania... Por um simples bater de algo solto a rolar nas imediações, ou era um objeto fora de lugar com o vento a cobrar cobrar bater bater infernar-me a noite; numa cheguei a ir no escuro procurar um mero balde mal posto solto oco no se chocar contra parede. Nervoso! Enquanto Ju decerto roncava e pior nisto: os guardas deveriam andar dormindo também. Os novos mastins só acrescem no barulho geral da noite...
          Agora, anos após e independente do silêncio ou do barulho, nossos respectivos dormitórios são comportados se adequando ao espírito de cada ocupante. O dela já afirmei revirado. Notara não ter ordem como no de sua casa na casa dos pais, além da existência de estripados brinquedos (Ju seria por todo o sempre, amém, uma criança) brinquedos espalhados desarranjados despedaçados; contudo no da mansão não tem utensílios escolares, se não um caderno que vi, velho ensebado na antiguidade quase histórica desse ser sem história e perdido na inocência... que seria de fato inocência! Objetos de escola não foram renovados visto havermos, ela dando favoravelmente anuência, desistido da formalidade no ensino, o ensino tal qual se admite e se vê na sociedade. Deixou de vez a escola; sem ao menos se dispor a uma especial às suas condições ou sub-condição. No primeiro ano na vida conjugal ainda intentei contratar profissionais especialistas a ministrar algo aqui dentro da mansão. Concluí pela inoperância da tentativa, dada a manifestação e a insatisfação da educanda. Parece que Ju não acrescia nada, nada mesmo, do que se pretendia para si, que era somar ao que retivera em solteira. Bem, cheguei afinal a concluir que minha legítima esposa, coproprietária da mansão, que ela não acrescera coisa alguma e continuava a mesma garota de onze anos com idade mental de quatro ou cinco aninhos! Ainda assim ao atingir a idade adulta nestes dias. Quem sabe me enganando...
          Já meu aposento, contrário no aspecto ao de Ju. Sempre fui ordeiro disciplinado até no que não possuía quando pobretão; e agora pouco mudando, mudando a condição para milionário. Não obstante tudo conservava, quase podendo alcançar objetos no escuro ou com olhos fechados sem luz no quarto. Continuei desse jeito. Na verdade nem tudo sendo novo nele, nada mais de novidade existindo no meu dormitório, um sem o fausto o luxo, que é sobejo pra mim nesta autoanálise. Uma exceção: a minha cama de solteiro, troquei colchão gasto roupas de cama cansadas puídas e decerto malcheirosas –  a cama eu não quis outra. O que mostra como sou conservador. Meia dúzia de livros básicos à cabeceira no criado-mudo (este um novo). Até quase a poeira do meu tempo de pobretão é a mesma. Ora, pensei e terei falado entre dentes: ninguém aqui a me criticar. Nem a servidora que entra nele pode sequer falar, que dirá manifestar crítica. Claro, sou o patrão, sempre carrancudo diante submissos certamente.
          No conjunto tratando da mansão em si, ela sem visitas, como é bom a uma casa fechada. Não cultivamos a vida social, não temos amigos ou afins; inclusive os de antes desapareceram atrás dos seus interesses. Ju é o que é, eu sou o que sempre fui, me despojando da fina delicada tênue podre apodrecida camada no cultivo da ligação em sociedade, como a do tempo de meus sogros; no meu caso perdi o sogro antes de perdê-lo, perdendo o amigo – a amizade não alimentada se acaba e vira quando muito lembrança talvez a se esquecer... – enquanto este amigo, o João da Maria, ficara já sem sua Maria, a minha belíssima Maria. Nesta memorização reconheço um dado interessante; a gente fica velhote todavia não perde no fundo o interesse por uma fêmea tão bonita...
          E a vizinhança. Rico não tem vizinhos... Os seus andam longe com eles nos clubes fechados ao povão. Estava ou era rico e se não cultivando os laços quando apenas um velho e lunático solteirão pobre; não iria agora tê-los, atraí-los, e mesmo segurá-los havendo, dentro de meus princípios, se princípios e não timidez. Além do mais um homem caboclo é um matuto sempre, por mais prêmios lotéricos receba. Eu optara pelo dinheiro, ou ficando com o poder do dinheiro.
          E Ju, meio isolada da sociedade, como se sentia como se encontrando, me perguntava, pois a me pesar anos aquela entrada traiçoeira no antigo quarto dela, invasão que roubara quem sabe a confiança depositada no tio, um tio que a submetera, abusivo, a um incesto... Ora que droga! eu então a me condenar onde quer fosse e não apenas na conversa com meu travesseiro. Tentava anular a crítica para acertar a personalidade. Dizia-me: não vê os pássaros os cães e inúmeros outros seres sem tais preocupações. Eles se cruzam, nenhum se pergunta dos impeços morais, a mãe recebe o filho a que deu a luz, a ser pai do filho dela e dele; o filho deles, que por sua vez se cruza com a mana. De maneira que um bicho não sabe se é o pai se é o filho e de quem, podendo ser ele o pai ou o filho dele mesmo nesse absurdo! Não é bem menos errado um tio tornar uma sobrinha menina virgem em mulher!? Não me convencia nesse convencimento e por isso sofrendo. Pior: eu não tendo para desabafo sequer a esposa, a esposa da gente é a consciência desperta da gente; Ju não poderia, pensava eu, entender; e também havendo mais uma questão chata: como consigo discutir, caso entendesse, se ela a vítima, num se remexer nervoso e ofendida provavelmente no seu cerebrinho...
          Contudo, mesmo considerando o que a se observar por fora, enfim o externo na vida da mansão, vivíamos todos agora uma crise. Uma crise decerto atingindo não apenas o dono, a dona sempre num estado crítico de imprevisibilidade, mas abrangendo também o pessoal da casa e até os cachorros da casa... Certa manhã, sem sombra de dúvida os seguranças dormindo, os mastins se pegaram, ou por passagem duma cadela cheirosa lá fora na rua e seu séquito de cães vadios; ou porque havendo disputa de nacos de carne entre si – determinara como antigo roceiro, que meus bichos comessem carne, e osso é claro, carne de primeira mesmo e nunca ração balanceada, enfim me condoía deles, atentos quando porventura no casarão carnes tostadas fumaça cheirosa como churrasco ou coisa assim; nisto exigia dos tratadores que atirassem pedaços fumegantes aos meus defensores caninos; proibira então alimento comprado pronto – sim deveriam ter-se mordido por qualquer razão e disputando e um, mais fraco entre dois outros mais fortes, esse menos forte sucumbiu! Descobri manhãzinha a morte, tristíssimo, já o amava. No entanto não quis adquirir um novo como substituto, deixando só a dupla guardiã a tomar conta do imóvel. Aliás bravíssimos os três agora dois, a ponto de estranhar meu pessoal e até o dono temendo, mormente na madrugada quando se diz todos gatos são pardos... Ju não se aventurava pôr a cara pra fora do seu refúgio na escuridão; apenas saindo durante o dia. Agora batia perna muitíssimas horas e se enrabichava com a tal amiga, não sabendo eu até que ponto amiga ou exploradora da inocência de minha esposa; aquela conhecida que apelidei preceptora, uma tal Rose, nova ainda, se bem que a um velhote como eu todo mundo novo ou jovem ou criança, ia a beirar os oitenta janeiros com sabor de dezembros e sentindo fraqueza dum matusalém. Minha saúde claudicava, até a visão embaciada.
          Não posso de maneira alguma incluir na crise os gastos, que seriam astronômicos no ver da maioria pobre na sociedade, as finanças iam de vento em popa como se diz. Além do falar no povo de que Deus ajuda os ricos a serem mais ricos. Perdia sim parcelas da herança. O doutor me entregava cada semestre quando a vir acertar contas comigo, sempre nova despesa inesperada como perda. Deduzira assim já três ou quatro fazendas e o gado ou não tinha preço ou adoecia morria ou roubado. Enfim não indo às mil maravilhas nem a receita nem os lucros nem as propriedades. Apenas eu é que não sentia as perdas, se perdas. Curioso, eu sequer me preocupando com motivos e a procurar razão ou razões da água a vazar pelo ralo... Mais preocupado com minha saúde também a vazar no ralo da existência. As inúmeras casas alugadas e os imóveis comerciais também como aluguéis deixavam a desejar afirmava meu procurador – meu advogado abrira inúmeros processos e a justiça morosa não nos dava garantias nem ganho de causa com frequência. O doutor despejara judicialmente e em choques diretos com interessados (a me defender) os mais encrencados, o que lhe valera temor por ameaças de vingança e até promessas de morte; isto nas frentes mais longínquas. Aqui na região havia pouco conflito dessa ordem. O homem sugeria inclusive que o patrão fosse averiguar em pessoa, dando assim mais força a ele nas ações. Nunca fui conferir. Agora menos: sentia-me destroçar por dentro, o médico fizera uma série de exames, o checape como afirmou, constatando a miséria que me atingia o corpo – coisa fastidiosa a relacionar qual romance de baixa qualidade. Em suma, não teria coragem para deslocar-me, mesmo nas imediações que dirá ver terras longe. Enquanto isso, a saúde da esposa não sofrera danos. Ela até melhorara a presença, engordara um pouco e inclusive embelezara, fosse um dia feia. Seu drama mental é que persistia... Sua instabilidade emocional, uma vez extremamente alegre outra vez extremamente triste e aqui perigosa. Incrível, o marido, quase se podendo colocar na posição de pai adotivo dela, o marido sentindo temor, medo bem configurado mesmo, da esposa e isto aumentava a minha fraqueza que os anos me somavam...
          Nosso relacionamento como casal nunca fora perfeito nem ameno: eram dois conviventes, quase desconhecidos, e que se viam diário mas tão diversos que, não fosse o compromisso assumido e registrado na forma legal – poderia dar-se a separação; e nisto novo aspecto para mim dramático, porque me perguntava sem cessar como ficaria Ju sem minha parca orientação, bobinha ingênua limitada como sempre fora e continuava a ser; não cairia facilmente em mãos inescrupulosas exploradoras! aqui olhava de viés o próprio doutor com seu lar segundo ele falho repudiando a esposa e mantendo suas amantes, as quais sustentava com meu dinheiro; ele um candidato sério à infeliz Ju. Nesses momentos não punha outra questão básica ao futuro dela: o esposo já do tipo que o povo goza a dizer “pé na cova”. Não obstante, quanto a mim, a minha própria situação, sequer temia a sorte já vivendo de certa maneira um final e nunca me faltando meios a me sustentar e nem temendo voltar um dia a ser pobretão. Porém minha saúde bem comprometida, a ponto de nos últimos tempos me refugiar assim como Ju no seu quarto eu no meu escritório. Este escritório onde me encontro agora. À noite me levam na cadeira de rodas ao dormitório e para tanto mandei instalar pequeno elevador, não iria mesmo com ajuda enfrentar a escadaria, donde despenquei deixando então a vida ativa e me tornando o dependente que sou hoje. Inclusive dependo dos submissos criados até para o banho troca de roupa e receber medicamentos, toneladas de medicamentos. Vai para além de ano esta situação na qual me encontro e isto não é propriamente viver, é apenas sobreviver e mais nesse menos um subviver.
          Na crise temos que levar em conta a criadagem. Conforme a crise, mais o relacionamento é atingido. Assim o pessoal não resiste: trocamos nos poucos meses todos servidores, fora o João em quem temos confiança, temos digo pois Ju o aprecia também. É um senhor gasto simples quase simplório, sê-lo-ia não fosse a patroa do empregado estar abaixo desse limite. Só ele perdurou e com o salário que pago e prêmios que lhe dou sustenta como viúvo os filhos e os sobrinhos. Os demais a serviço todos foram substituídos, restando sofrer de minha parte o drama que um patrão tem com os novatos, como ensinar o serviço e não ter confiança nem garantia por desconhecidos. Os seguranças já são mesmo terceirizados entretanto os outros funcionários são contratados legalmente; deles apenas um me deu problema no ministério do trabalho, aliás trabalho realmente ao doutor, eu não podendo andar sair de casa. As servidoras diretas de Ju não param, sempre ao menos uma delas é nova empregada. Não é que a patroinha seja cobradora e dessas de humilhar os submissos não: ela é atrapalhada e por isto intratável e assim as criadas se cansam somem. Uma chegou a levar objetos caros a Ju. Nunca criamos caso disso, preferimos perder comprar outros no lugar. Além de que acham que a patroa seja meio maluca e temem uma explosão emocional nela dela. O resto do pessoal são os servidores comuns com relacionamentos comuns e soluções comuns, semelhando outras residências. Como a nossa não recebe visitas, o trabalho diminui consideravelmente; os salários conforme a lei e em dia dificultam surgimento de problemas; talvez só fique o cansaço deles e a necessidade humana de diversificar procurando novas chances noutros lugares. Enfim e apesar do que foi dito, estamos sempre a receber novos funcionários. Podemos afirmar até que a casa funciona; ou exatamente não funciona...
          Um dado amenizante à crise que vivemos aqui dentro seria a opinião da gente de fora. O que pensariam vizinhos e passantes nas imediações! Não sei com segurança o que sabem daqui nem o que imaginam de nossa vida, quase tão simples como numa casa pobre, sem as faltas duma família pobre. É provavel que os nossos trabalhadores passem algo aos seus familiares e a outros de suas relações, não sabemos eu não sei. Uma vez, faz anos, João me dissera avaliarem lá na rua a mansão ser espécie de convento, o que não anda muito fora de propósito. Não quis eu comentar seu comentário, aquela questão de manter a presença patronal lá nas alturas... Isto um pouco melindroso, em última análise não aceitei intimidades e me calei ao comentário. O fisco do país e mais o governo municipal não têm reclamação, pagamos tudo em dia. Assim também no trato com fornecedores e comerciantes. A saúde pública nos visita como faz noutros imóveis e encontra a coisa na ordem. De maneira que parece regularizado e tudo normal na mansão, houvesse um dia conformidade na ideia de normal. A essência do drama, que pode despencar a imagem comum, seria e deve ser o interior deste casarão, em crise foi dito.
          Talvez caiba um lembrete azedo amargo errado pelo menos desagradável, de algo que ocorreu no início do lar; e que portanto não sendo bem desta crise que parece agora afundar a casa, foi um aspecto que me pareceu enublado, nunca podendo o esposo discutir séria e profundamente isso com sua mulher. Logo após tirar Ju da casa dos pais, ainda vivo na minha cabeça o quase estupro que o tio levou a efeito na infeliz sobrinha-vítima; e montar meio às pressas graças a uma herança caída do céu um lar substituto e que perdurou nesta mansão, Ju iniciou a engordar e nessa medida também a andar irritadiça. O clínico não me esclareceu nada que eu não soubesse sobre ela e a coisa ficou por isso mesmo, entrando na ‘normalidade’ da rotina... Contudo fora levada, melhor dizer acompanhada duma senhora à casa da mesma. Não era ainda Rose, bem mais nova e que submeteria a meu ver Ju mais para diante até hoje. Não muito, o pouco foi o que pesquei por alto pela boca da esposa, aqui no sentido que usa o povo a dizer tomar conhecimento por cima sem entrar na profundidade e no mérito do assunto qual especialista ou entendido. Ela conseguiu me passar que ficara grávida mas a dita mulher dera-lhe umas beberagens uns caldos que fizeram o feto morrer. Fiquei indignado, escandalizado, como houvesse sido roubado no assassinato do meu presuntivo herdeiro. Ela ouviu meu discurso nesse teor e chorou. Proibi então a esposa sair de casa uma semana, depois entramos na rotina de nos comunicarmos superficial e eventualmente. Nunca houve maiores intimidades entre nós dois. Permaneci entretanto desde aí só na minha autocondenação, enquanto ela a viver no marasmo dela; vivendo ambos apenas na superfície. Avalio, repensando o episódio, eu não tendo por velho condição e ela a viver a esdrúxula situação de em sendo mulher não ser integralmente mulher; nunca seria mãe de fato, o marido nunca um homem, caso houvesse antes sido. Assim caímos na formalidade até os dias de hoje; quando ela não para mais fazendo anos no lar, enquanto eu como que prisioneiro neste escritório. A desembocar nesta crise que ora se avoluma...



10° - Fim do Início

Júlia adentra este recinto... sei pela intuição ser ela. Chega, manso, leve, num pisar de fada; entrará pisará na entrada no alpendre a adentrar o casarão e esse instante pra mim já sendo uma eternidade; enroscar-se-á sabendo eu por assim diário no capacho; enfim penetrará, já penetrando, nesta casa vazia com um sofredor a morar e sem respaldo nos sentimentos de um casal que se preza e se ama... Vou além, antevejo sinto como estivesse ali ao lado dela na sua constante manifestação de bipolaridade doentia e me aflijo. Acompanho seus passos a mexer na maçaneta da porta, segura com força num aspecto selvagem a empurrar pra baixo torcer a fechadura; ou a torcer a chocalhar as chaves: pega o molho chocalha o molho e daí experimenta todas, empurra e torce e abre e assim me admiro consiga sempre demonstrar sua decisão já dentro da sala; terá batido empurrando com as nádegas a porta, a se esfregar no batente da porta aberta sua bolsa; sim já terá batido a folha da porta, aqui mansamente não estando nervosa. Dessa forma todos dias. Um dia extrapolou ao passar por todas dependências da mansão rumo a este escritório – fez grrr como felina rugiu bravia, bateu-me a bolsa, a bolsinha que habitualmente se encontra dentro da bolsona dela, bateu-me a pequena na guarda da cadeira onde me enfurno medroso dos medos do mundo! Foi apavorante pra mim. Agora vem, entra estabanadamente e aí pressinto explosão pela voz dos choques dos atritos nos móveis impedindo sua passagem; sim sei andar desequilibrada neste momento... Nesse ponto noutra crise dela gritei João, ainda podia expressar meu pavor com voz rouca e alta. Havia mandado pôr um sininho, eu comentara a brincar “o sininho do João”; acionado poucas vezes nestes meses, felizmente a um dependente patrão... Chega a ser esdrúxulo um patrão dependente dum criado, mas é assim. Quando o servidor chegou ainda Ju ria desbragadamente a brincadeira; agora não é nada brincadeira...
          Encontro-me na pior das dependências possíveis. Meu mando no meu mundo é moral, fisicamente incapaz e preso nesta cadeira que é meu lar dentro do meu lar, nele me escondendo da violência que campeia – infelizmente pra mim! – nesta casa. A patroa vindo sempre da rua onde é palpavelmente explorada sugada por Rose, chega a bufar e quem sabe a me ver um inimigo, eu que praticamente a criei (ou criei alimentando uma víbora...) a coloquei nos píncaros do poder que poderia exalçar a vaidade burguesa de mando, embora sua limitação mental. Meu estado, pudesse ver-me de fora para dentro e não de dentro para fora, é desesperador. Experimento faz meses certa surdez, vez que outra ouço nítido no entanto nunca bem claro as coisas, quase nem a voz de meu paciente servidor; não iria esperá-la que fosse minha condutora ou pelo menos a companheira compassiva e amiga, apesar ser minha esposa faz anos. A vista deixa demais a desejar, inclusive iniciei escrever nas folhas esparsas que o amigo, João é agora meu único confiável próximo, que ele me traz a gastar a ponta desta esferográfica azul; volta e meia não escreve ela direito no papel na tabuinha à minha frente, grito exijo outra caneta outra cor, irascível como qualquer velhinho manhoso. Anoto sem parar, paro olhar se minha adversária quiçá inimiga amiga de Rose não vindo e prossigo; única forma de expor o que sinto agora que não posso falar. Me ventilaram poder adquirir um celular não podendo ir de cadeira até o telefone, e como usá-lo sem voz! propuseram também um computadorzinho manual desses que se vende hoje, não quis não me ajeitaria, anoto mesmo no papel e com a caneta; mas escondo, me esconde o servidor, temendo que a analfabeta possa ler e complicar-me visto poder dispor-se a ficar mais feroz ainda contra mim. Isso é lá viver! Até as folhas escritas vejo anuviado, mais percebo vultos, o de João por exemplo. O dela vejo e aqui mais perto quase nítido, indo além sinto seu bafejo nervoso a me achegar... Consigo perceber até o brilho do seu olhar, qual num longíquo dia duma noite doutra lua a nos iluminar quando Laura me propunha morrer na punhalada de ouro, ainda ouço o grito da mãe dela “Laura, vem pra casa!” e isto naquela hora me salvando menino, velho demais agora como poder-me-ia escapar de Ju... Ela adentra a sala.
          Sou capaz imaginando ver sua passagem grosseiramente se enroscando nos óbices do caminho, os móveis e objetos de nossa mansão. Ela passa derruba barulha grita os gritos das coisas e continua a romper rumo este escritório meu refúgio... passa da sala aos vários quartos lá em cima vendo os outros cômodos aqui em baixo, chocalha seus chocalhos a provocar os sons costumeiros e amedrontadores; vem ansiosa ansiada a curtir não sei o que existente lá naquela cabeça curta fraca cheia das misérias e invencionices que a outra lhe incutiu na mente; crendo eu sejam contra o esposo que lhe guindou a proprietária poderosa. Sei antemão estar próxima daqui. Por último esbarra em algo, empurra nervosa algo, empurra a porta do escritório onde não tenho agora meu guarda-costas indo antes a me trazer o remédio das onze.
          Chega enfim, grita na minha frente impropérios desconhecidos, me olha olho Ju aterrado, a mão alevantada, o punhal o ouro o golpe a dor, ainda ouço longe o perto da voz de João o bater nervoso dele a chamar alto a patroa “dona Ju!” o sininho mudo ali e o homem repete e repete sumindo até o repetir, não some a dor, a dor o escuro...

Marília   agosto  2013





















































Obras publicadas do autor:

Coletânea: Melhores Contos, 215pp., Gráfica Franko, Marília, 2009

O Dinossauro e Outras Novelinhas, 153pp., Griso Gráfica, Marília, 2010

Os Níveis da Memória, romance,  131pp., Griso Gráfica, Marília, 2011

Colcha de Retalhos, romance, 147pp., Griso Gráfica, Marília, 2012

Viagem à Interrogação e outros experimentos no contolouquismo, contos, 145pp.,  Griso  Gráfica, Marília, 2013                                                                                                                                                                                Griso Gráfica, Marília, 2013

A Copa e outras Novelas, 165pp.,  Gráfica Fernandez, Marília, 2014

Estória Bizarra, romance, 162pp., Gráfica Modelo, Marília, janeiro 2015

Contos Revisitados, 108pp., Gráfica Modelo, Marília, outubro 2015

Gramático da Silva, romance, 139pp., Grisográfica, Marília, 2016

Temas Recorrentes, romance, 316pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2018

Ao sabor dos sonhos no sono dos loucos, romance, 131pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2019

O Mundinho da Servidora, romance, 170pp., Agiliga Gráfica, São Paulo, 2020


Participação na Antologia "Paixões & Vícios", Editora Soma, São Paulo, 1980

A obra do autor pode ser vista também nos endereços:


Nenhum comentário :

Postar um comentário